Prévia do material em texto
CELEBRAÇÃO DA PALAVRA PENHA CARPANEDO, PDDM 1. AS PALAVRAS TÊM PODER “Eu creio no poder das palavras, na força das palavras, creio que fazemos coisas com as palavras e, também, que as palavras fazem coisas conosco. As palavras determinam nosso pensamento porque não pensamos com pensamentos, mas com palavras, não pensamos a partir de uma suposta genialidade ou inteligência, mas a partir de nossas palavras”.1 2. DOS FATOS DA VIDA À ESCRITURA SAGRADA A bíblia é a memória escrita dos fatos que foram reconhecidos como ‘passos’ de Deus na história do povo (êxodo, exílio, acontecimentos do cotidiano). Antes de serem escritos estes fatos foram vividos e contados oralmente de geração em geração como palavra de Deus. Os evangelhos narram o evento Jesus de Nazaré, nascido de Maria, rabino itinerante da Palestina, morto, sepultado e ressuscitado. Os fatos ligados a Jesus e à primeira comunidade cristã foram vividos, depois transmitidos oralmente e só então escritos. 3. A LEITURA DAS ESCRITURAS NA ASSEMBLEIA REUNIDA A Escritura, quando proclamada em assembleia, tem a força de colocar o povo na presença de Deus, suscitando reverência e compromisso. Dois textos exemplares: a) Neemias 8,1-12 – o povo reunido, o livro das Escrituras, a voz que proclama O texto de Neemias 8 é um relato emblemático neste sentido. O contexto é a volta do exílio, a reconstrução da cidade de Jerusalém e o renascimento da identidade nacional do povo judeu. Escutemos o texto como narrativa de uma ação litúrgica: O texto Todo o povo se reuniu como um só homem na praça defronte da porta das Águas, e pediu ao escriba Esdras que trouxesse o livro da Lei de Moisés, que o Senhor havia prescrito a Israel. O sacerdote Esdras apresentou a Lei diante da assembleia de homens, de mulheres e de todos os que eram capazes de compreender. Era o primeiro dia do sétimo mês. Assim, na praça que fica de fronte da porta das Águas, Esdras fez a leitura do livro, desde o amanhecer até ao meio-dia, na presença dos homens, das mulheres e de todos os que eram capazes de compreender. E todo o povo escutava com atenção a leitura do livro da Lei. Esdras, o escriba, estava de pé sobre um estrado de madeira, erguido para esse fim. Ao seu lado direito se achavam Matatias, Sema, Anaías, Urias, Helcias e Maasias; à sua esquerda estava Fadaías, Misael, Melquias, Hasum, Hasbadana, Zacarias e Mosolam. Visível a todos por estar mais alto, Esdras abriu o livro. E, quando abriu o livro, todo o povo ficou de pé. Esdras bendisse o Senhor, o grande Deus, e todo o povo respondeu, levantando as mãos: “Amém! Amém!” Depois inclinaram-se e prostraram-se diante do Senhor com o rosto por terra. Entretanto os levitas Josué, Bani, Serebias, Jamim, Acub, Sabatai, Hodias, Maasias, Celita, Azarias, Jozabad, Hanã e Falaías explicavam a Lei ao povo, que dos seus lugares escutavam. Leram clara e distintamente o livro da Lei de Deus e explicaram seu sentido, de maneira que se pudesse compreender a leitura. O Governador Neemias, o sacerdote e escriba Esdras e os levitas que instruíam o povo disseram a todos: “Este é um dia consagrado ao Senhor, vosso Deus! Não lamenteis nem choreis” – pois todo o povo chorava ao ouvir as palavras da Lei. E disse- lhes: “Ide para vossas casas e comei carnes gordas, tomai bebidas doces e dai porções aqueles que nada prepararam, pois este dia é santo para o nosso Senhor. Não é dia de luto, pois a alegria do Senhor será a vossa força. E os levitas acalmavam todo o povo, dizendo: “Ficai tranquilos; hoje é um dia santo. Não fiqueis aflitos!” E todo o povo se retirou para comer e beber. Levaram porções também aos outros e expandiram-se em grande alegria, pois haviam entendido as palavras que lhes foram explicadas. Conversa sobre o texto: O que está descrito aqui é uma verdadeira liturgia da Palavra [Torá], em praça pública por iniciativa do povo. É a assembleia que pede o livro ao Escriba Esdras. O livro é colocado diante da assembleia e a assembleia está diante do livro. O sacerdote Esdras está rodeado de leigos notáveis que exercem um verdadeiro serviço à Palavra. A leitura é, talvez, do Pentateuco. O livro é elevado aos olhos do povo, que se levanta em sinal de reverência. Estar diante do livro da lei significa estar diante do Senhor que dirige a sua Palavra. O livro sozinho não faz sentido, mas o livro diante do olhar e nas mãos da assembleia em atitude de escuta, consciente que para ser povo de Deus precisa escutar sua Palavra. Palavras e gestos da assembleia expressam adesão de fé e adoração. b) Lucas 4,14-21 – Jesus, a Palavra que lê as Escrituras O texto que segue relatado por Lucas apresenta Jesus, na sinagoga de Nazaré, em dia de sábado, logo depois da provação no deserto. O Espírito que pousou sobre ele no Batismo e o conduziu ao deserto, está com ele quando faz a leitura do livro da profecia de Isaías. É a única vez que Jesus aparece nos evangelhos lendo as Escrituras. Ele dá inicio ao seu ministério, numa sinagoga, abrindo o livro das profecias de Isaías (Isaías 61,1-2): 1 Jorge Larrosa Bondía. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. O texto Jesus voltou para a Galileia, com a força do Espírito Santo, e sua fama se espalhou por toda a região. Ele ensinava nas sinagogas deles, e todos o elogiavam. Foi então a Nazaré, onde se tinha criado. Conforme seu costume, no dia de sábado, foi à sinagoga e levantou-se para fazer a leitura. Deram-lhe o livro do profeta Isaías. Abrindo o livro, encontrou o lugar onde está escrito: ‘O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me consagrou para a unção, para anunciar a Boa Nova aos pobres: enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para dar liberdade aos oprimidos e proclamar um ano de graça da parte do Senhor’. Depois fechou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-se. Os olhos de todos na sinagoga, estavam fixos nele. Então começou a dizer- lhe: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”. Conversa sobre o texto: Os elementos rituais da liturgia cristã correspondem aos elementos rituais da liturgia da Palavra narrada por Neemias e presentes nas diversas tradições da sinagoga. O rolo é dado ao leitor Jesus para que o leia diante da comunidade. Ele recebe o livro e ao terminar entrega ao servente, pois o livro pertente à comunidade. Ele lê o que está escrito. A Escritura precisa de uma voz. Ao leitor cabe fazer que a sua voz seja serva da “voz escrita”. Jesus, a Palavra eterna, não inventou o texto, submeteu-se ao “está escrito” do texto. Quando a voz submete ao que está escrito, faz reviver a Palavra escrita, faz ressuscitar a letra. Ler a escritura na assembleia litúrgica é muito mais que ler em voz alta, é dirigir a palavra viva a uma comunidade em nome do Senhor. Jesus fechou o livro, entregou-o ao servente e sentou-se. Os olhos de todos estavam fixos nele. Ao fechar o livro Jesus se apresenta a si mesmo como Palavra de Deus. O cumprimento da Escritura não acontece depois, mas no momento em que é proclamada. Enquanto anuncia a Palavra Jesus a acolhe como dirigida a si mesmo, endereça aos seus ouvidos, porque o que LÊ no livro é o que ele cumprirá em seu ministério. Não mais um livro, mas uma pessoa. A liturgia sinagogal de Nazaré é instituição da liturgia cristã da Palavra. O Verbo, leu as Escrituras e desde aquele “hoje” esta é a maneira como os cristãos leem as Escrituras. Quem realizou por primeiro a leitura cristológica das Escrituras foi o próprio Cristo. Do mesmo modo os cristãos em suas assembleias litúrgicas leram, compreenderam e interpretaram as Escrituras de Israel encontrando na lei de Moisés, nas profecias e nos salmos a voz do Cristo (cf. Lucas 24). Eis porque confessa a Igreja: quando alguém proclama a Escritura na assembleia litúrgica é Cristo que fala (SC 7). E não é só nos quatros evangelhos que o verbo se manifesta. Deus, por meio de todas as palavras daSagrada pronuncia uma só palavra, a saber, o seu Verbo único, Jesus Cristo. Em Jesus Cristo Deus se expressa por inteiro (cf. CIC, n. 102). Mesmo através do Antigo Testamento o Pai revela Jesus Cristo. Por isso na celebração o leitor, quando termina a proclamação da leitura, ele diz: “palavra” do Senhor. Não diz: “palavras” do Senhor. A resposta da assembleia “glória a vós Senhor” é a mais alta profissão de fé, no Senhor que fala. c) A propósito de Neemias 8 e Lucas 4: [Terrance W. Klein] 2 Durante inúmeras gerações de cristãos – judeus e muçulmanos também –, a Escritura era algo proclamado às pessoas, como se vê no Livro de Neemias e no Evangelho de Lucas. Alguém se levanta na assembleia dos fiéis, e professa a Palavra de Deus de um jeito que reordena o próprio mundo. A Palavra chama o mundo para o juízo. A Palavra o reforma e o recria. Som e sentido são uma única coisa e falam ao mundo. A Escritura se mostrou bastante mortal nas mãos do indivíduo religioso moderno, de qualquer religião. Por quê? Porque a cultura moderna leva a pessoa a pensar que o mundo gira ao seu redor. Então a Escritura preservada e citada, inevitavelmente se contrai até que não faça nada senão validar o seu próprio mundinho. A Palavra de Deus, devidamente editada, se transforma em seu próprio porta-voz. [...] Entretanto, os textos vêm das comunidades. E falam autenticamente aos que os recebem dentro de uma comunidade viva. Até mesmo o Senhor Jesus ouviu a Escritura como um filho fiel de Israel. [...] Os profetas se levantam e são reconhecidos como profetas porque fazem a Palavra viver de novo, porque reúnem som e sentido no meio do povo. 4. PALAVRA NA LITURGIA DA IGREJA a) A razão do encolhimento da Palavra no cenário eclesial se deve ao fato de que a leitura das Escrituras perdeu o seu lugar natural de escuta: a comunidade reunida em assembleia litúrgica. Como na Sinagoga de Nazaré, na comunidade cristã, o leitor recebe o livro da comunidade e ao terminar, o livro fica na comunidade. Ele também não escolhe a leitura, mas lê o que está estabelecido pela Igreja. Como bem lembrou a Verbum Domini a Igreja é a casa da Palavra e a liturgia o lugar privilegiado de sua proclamação e escuta. “A hermenêutica da fé relativa à Sagrada Escritura deve ter sempre como ponto de referência a liturgia, onde a Palavra de Deus é celebrada como palavra viva e atual” (VD 52). “A experiência da Palavra, realiza-se na assembleia litúrgica, mediada pela Escritura” [Andréa Grillo]. b) Contudo, durante séculos, este lugar se tornou inacessível. Realizava-se o Sacramento, sem a Palavra. Até mesmo as palavras que acompanham os sacramentos, ditas em latim mantinham o sentido do sacramento oculto e o povo assistia como mudo expectador (cf. SC 48). 2 Terrance W. Klein. In: America, revista dos jesuítas dos EUA, 22-01-2016. No Brasil, IHU, 25 de janeiro de 2016. Tradução de Isaque Gomes Correa. c) No século XX, a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, restituiu ao povo o direito de participar da liturgia ativamente e com conhecimento de causa. A primeira medida foi libertar a palavra limitada pelo latim e abrir largamente os tesouros da Bíblia, de modo que, dentro de certo tempo, fossem lidas ao povo de Deus as partes mais importantes da Sagrada Escritura (cf. SC 51). Além disso, restaurou, como parte integrante da liturgia da Palavra, “a homilia sobre o texto sagrado” (SC 52 cf. ainda SC 35,2). Também a oração dos fiéis foi reabilitada (SC 53). E, foi acentuado o nexo entre palavra e sacramento evidenciando que a liturgia da Palavra e a liturgia eucarística estão tão estreitamente unidas, que formam um só ato de culto [SC 56]. d) Com o Concílio Vaticano II, há uma verdadeira emancipação da Palavra. Como na Sinagoga de Nazaré, a Palavra é o próprio verbo de Deus se manifestando, ou como no caminho de Emaús, se fazendo peregrino com os discípulos. Eis porque confessa a Igreja: quando alguém proclama a Escritura na assembleia litúrgica é Cristo que fala (SC 7). Segundo a Dei Verbum 21, “a Igreja sempre venerou as Sagradas Escrituras, como também o próprio Corpo do Senhor; sobretudo na sagrada liturgia, nunca deixou de tomar e distribuir aos fiéis, da mesa da palavra de Deus como do Corpo de Cristo, o pão da vida”. Portanto, a Palavra não somente conduz ao sacramento mas ela própria é “sacramento”. Segundo os padres a Palavra tem eficácia própria do sacramento: João Crisóstomo (+407): ”O ministério sacerdotal não conhece outro remédio para curar que não seja o ensino da Palavra.... Se este meio não surtir efeito, tudo o mais será vão. Por isso é tão importante prestar atenção a que a palavra de Cristo habite em nós abundantemente.3 São Jerônimo (+419/420): “Quanto a mim, penso que o Evangelho é o corpo do Cristo e que a Sagrada Escritura é sua doutrina. Quando o Senhor fala em comer sua carne e beber seu sangue, é certo que fala do mistério (da Eucaristia). Entretanto, seu verdadeiro corpo e seu verdadeiro sangue são (também) a palavra da Escritura e sua doutrina”. Cesário de Arles (470-543] : “Eu lhes pergunto, irmãos e irmãs, digam o que, na opinião de vocês, tem mais valor: a Palavra de Deus ou o Corpo de Cristo? Se quiserem dar uma verdadeira resposta, certamente deverão dizer que a Palavra de Deus não vale menos que o Corpo de Cristo. E por isso, todo cuidado que tomamos quando nos é dado o Corpo de Cristo, para que nenhuma parte escape das nossas mãos e caia por terra, tomemos este cuidado, para que a Palavra de Deus que nos é entregue, não morra em nosso coração (...)”.4 e) Por seu caráter comunitário e por sua natureza teológica, simbólico-sacramental a liturgia da Palavra é ação “sacramental”, feita de sinais sensíveis, que significam e realizam o que significam [cf. SC 7]. A eficácia dos sinais sensíveis vem do fato de se tratar de ações do Cristo no Espírito, presente, não somente no pão e no vinho eucarístico, mas também na Palavra anunciada e na assembleia reunida que ora e salmodia (cf. SC 7). A Palavra se torna sacramento “pela ação íntima do Espírito Santo que a torna operante no coração dos fiéis” (VD 52. Cf. OLM 9). “Os critérios simbólicos e mistagógicos prevalecem sobre os aspectos catequéticos e doutrinários.5 Mais do que exortar ou dar lições catequéticas, a Palavra proclamada é evento de salvação, fonte para quem tem sede, pão para quem tem fome, cura para quem está, luz para quem anda na escuridão. Na Igreja, no início da celebração, o evangeliário colocado no centro do altar, livre de qualquer outro objeto e daí é tomado e levado à estante, de onde é proclamado. Com este gesto a Igreja reconhece no evangeliário a mesma dignidade dos dons eucarísticos. Como o pão e o vinho eucarísticos são tomados do altar, para que os fiéis se alimentem do corpo de Cristo, do mesmo modo também o livro é retirado do altar, afim de que os fiéis se alimentem da Palavra. Além disso, o altar é lugar do memorial da páscoa do Senhor. Colocado sobre ele evangelho significa que dele escutamos a Palavra da cruz. Eis o sentido da assinalação na fronte, nos lábios e no peito. Também o canto de comunhão fazendo uma síntese entre a Palavra e a eucaristia, lembra que não podemos participar da mesa do Senhor se não escutamos e aceitamos Palavra da sua paixão. 5. A LITURGIA DA PALAVRA - Elementos e estrutura [Instrução Geral do Missal Romano n. 55]: “A parte principal da Liturgia da Palavra é constituída pelas leituras da Sagrada Escritura e pelos cantos que ocorrem e entre elas, sendo desenvolvida e concluída pela homilia, a profissão de fé e a oração universal ou dos fiéis. Pois nas leituras explanadas pela homilia Deus fala ao seu povo, revela o mistério da redenção e da salvação e oferece alimento espiritual; e o próprio Cristo, por sua palavra, se acha presente no meio dos fiéis. Pelos cantos o povo se apropria dessa palavra de Deus e a ele adere pela profissão de fé. Alimentado por esta Palavra, rezaa oração universal pelas necessidades de toda a Igreja e pela salvação do mundo”. 3 (livro IV, sobre o sacerdócio). 4 Sermo 78,2, Sources Chrétiennes, 330, p. 241): 5 Cf. FERNANDEZ, P. 1987, p. 368. a) Deus fala mediante as leituras bíblicas e o salmo. A disposição das leituras bíblicas manifesta a unidade dos dois testamentos [cf. IGMR 57] tendo no evangelho o ponto alto da liturgia da Palavra [o rito o manifesta cercando-o, de honra especial]. b) O povo responde, pelas respostas, pelo salmo e aclamação. O salmo é ao mesmo tempo Palavra de Deus [executado da estante] e resposta orante da assembleia. Herança da sinagoga judaica, e presente nas origens da liturgia cristã, havia desaparecido. Foi retomado pela reforma do Concílio Vaticano II, como parte integrante da liturgia da Palavra (IGMR, n. 61). Pela natureza do texto e por sua estrutura poética e lírica, requer melodia em simbiose com a letra, e de quem canta uma atitude orante para que seja oração de toda a assembleia. A aclamação ao Evangelho composta de aleluia [exceto na quaresma] e versículo do evangelho, “constitui uma ação por si mesma, pela qual a assembleia dos fiéis acolhe o Senhor que lhe vai falar no Evangelho, saúda e professa sua fé pelo canto” (IGMR, n. 62). A resposta Glória a vós Senhor, é expressão de fé no Cristo que fala. c) Deus continua falando na homilia que expõe ao longo do ano os mistérios de Cristo, para alimenta a vida cristã [SC 52]. O povo responde pela adesão de fé professada no batismo e mediante as preces de intercessão pela Igreja e pela humanidade. d) “A Liturgia da Palavra deve ser celebrada de tal modo que favoreça a meditação; por isso deve ser de todo evitada qualquer pressa que impeça o recolhimento. Integram-na também breves momentos de silêncio, de acordo com a assembleia reunida, pelos quais, sob a ação do Espírito Santo, se acolhe no coração a Palavra de Deus e se prepara a resposta pela oração. Convém que tais momentos de silêncio sejam observados, por exemplo, antes de se iniciar a própria Liturgia da Palavra, após a primeira e a segunda leitura, como também após o término da Homilia” (IGMR, n. 56). e) A Lectio Divina O Concilio restaurou para o povo de Deus o método de leitura bíblica, a lectio divina, praticada na Igreja desde a origem. É leitura acompanhada da oração como recomendava Orígenes. O monge Cartuxo, no século XII, sistematizou o método em 4 passos: leitura, meditação, oração e contemplação. A Dei Verbum n. 25, lembra que se trata de uma leitura orante [acompanhada de oração], frequente e assídua, seja na própria liturgia, seja pessoalmente. O decisivo da lectio divina, é a leitura, feita com atenção amorosa e assiduidade. A liturgia da Palavra supõe e suscita a prática da leitura orante. Nota-se que a própria estrutura da Liturgia da Palavra tem como pano de fundo os passos do método: leituras [parte principal], homilia [meditação], oração [silêncio, salmo, preces], contemplação [o que fica no coração]. O caráter mistagógico da homilia, requer. 6. CELEBRAÇÃO DA PALAVRA A celebração da Palavra constitui uma modalidade própria da liturgia da Igreja. a) É parte integrante dos ritos cotidianos do catecumenato, tempo de catequese “integralmente transmitida, relacionada com o ano litúrgico e apoiada nas celebrações da Palavra, que leva os catecúmenos não só ao conhecimento dos dogmas e preceitos, como à intima percepção do mistério da salvação de que desejam participar” [RICA 19,1]. O número 105 do RICA, apresenta um rito essencial para tais celebrações: canto apropriado, leituras bíblicas e salmos [de acordo com a catequese], breve homilia, ritos conclusivos. b) Na Sexta-feira Santa, por tradição, não há Eucaristia. Faz-se a solene memória da Bem-aventurada Paixão do Senhor com uma celebração da Palavra, cujo ápice é a leitura da Paixão segundo João. Faz parte desta celebração os dons pré-santificados. c) A celebração da Palavra é recomendada ainda nas “vigílias das festas mais solenes, em alguns dias feriais do advento e da quaresma e nos domingos e dias de festa, especialmente onde não houver padre” [SC 35,4]. 7. A CELEBRAÇÃO DOMINICAL DA PALAVRA Uma constatação: no Brasil, 70% das comunidades passam, pelo menos um domingo por mês sem celebrar a Eucaristia. Outras passam meses e até ano sem celebrar a Ceia do Senhor por falta de um ministro ordenado [Cf. CNNB, doc. 43, n. 25]. a) Em 1989, a Santa Sé elaborou um diretório sobre as “Celebrações dominicais na ausências de presbíteros”6 b) A CNBB, no documento 43 [1989] pronuncia seu apoio e incentivo às comunidades que celebram o domingo em torno da Palavra: “A celebração eucarística é a celebração mais plena e mais apropriada do Dia do Senhor”. Mas, “o surgimento rápido de inúmeras comunidades eclesiais, ultrapassando a capacidade de atendimento dos presbíteros, leva o povo de Deus a reencontrar no tesouro da tradição litúrgica da Igreja a celebração da Palavra para alimento da sua fé, de sua comunhão e de seu compromisso” [nn. 94-95). 6 CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO. Documentos Pontifícios, n. 224, 1989. c) O Documento 52 oferece orientações concretas lembrando que “A finalidade destas celebrações é a de assegurar às nossas comunidades a possibilidade de se reunirem no domingo e nas festas, tendo a preocupação de inserir suas reuniões na celebração do ano litúrgico e de relacioná-las com as comunidades que celebram a eucaristia” [CNBB, doc 52, 1994, introdução, p. 6]. e) E os bispos da América Latina e Caribe, em Aparecida [2007]: “Com profundo afeto pastoral, queremos dizer às milhares de comunidades com seus milhões de membros, que não têm oportunidade de participar da Eucaristia dominical, que também elas podem e devem viver ‘segundo o domingo’(...) participando da celebração dominical da Palavra’, que faz presente o Mistério Pascal no amor que congrega (cf. Jo 3,14); na Palavra acolhida (cf. Jo 5,24-25) e na oração comunitária (cf. MT 18,20)”. [n. 253]. 8. O DOMINGO A razão fundamental da reunião, quando não há celebração eucarística, é o próprio Domingo. Na continuidade do sábado judaico, o primeiro dia da nova criação, o domingo, é celebração semanal do encontro com o Ressuscitado presente na comunidade, comunicando o seu Espírito [cf. Mt 28,1; Mc 16,2; Lc 24,13-35; João 20,19-29; Apocalipse 1,10]. a) Joao 20,19-29: 19Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, os discípulos estavam reunidos, com as portas fechadas por medo dos judeus. Jesus entrou e pôs-se no meio deles. Disse: “A paz esteja convosco”. 20Dito isso, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos, então, se alegraram por verem o Senhor. 21Jesus disse, de novo: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou também eu vos envio”.22 Então, soprou sobre eles e falou: “Recebei o Espírito Santo.23 A quem perdoardes os pecados, serão perdoados; a quem os retiverdes, lhes serão retidos”. 24 Tomé, chamado Gêmeo, que era um dos Doze, não estava com eles quando Jesus veio. 25 Os outros discípulos contaram- lhe: “Nós vimos o Senhor!” Mas Tomé disse: “Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos, se eu não puser a mão no seu lado, não acreditarei”. 26 Oito dias depois, os discípulos encontravam-se reunidos na casa, e Tomé estava com eles. Estando as portas fechadas, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: “A paz esteja convosco”. 27Depois disse a Tomé: “Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado e não sejas incrédulo, mas crê!”28 Tomé respondeu: “Meu Senhor e meu Deus!” 29 Jesus lhe disse: “Creste porque me viste? Bem-aventurados os que não viram, e creram!”. b) Sobre o oitavo dia, comenta São Basílio (séc. IV): “Neste dia [...] recitamos a oração de pé, não só porque nós ressuscitamos em Cristo e devemos almejar as coisasdo céu [...] mas porque este dia é a imagem da eternidade futura, o primeiro [...] e o oitavo, o dia sem fim no qual não haverá mais tarde, nem sucessão, nem cessação, nem velhice”. c) Perdas. O processo de sacramentalização e clericalização, além do latim, impõe como preceito dominical a celebração eucarística, desmerecendo outras formas de celebração [ofício divino e a celebração da Palavra]. O domingo enquanto tal fica em segundo plano, perdendo sua força sacramental de oitavo dia, páscoa semanal dos Cristãos, dia da reunião. d) Graças ao Concilio Vaticano II, o domingo reconquista seu lugar na espiritualidade da Igreja: Devido à tradição apostólica que tem sua origem do dia mesmo da ressurreição de Cristo, a Igreja celebra cada oitavo dia o Mistério Pascal. Esse dia chama-se justamente dia do Senhor ou domingo. Neste dia, os cristãos devem reunir-se para que, ouvindo a Palavra de Deus e participando da Eucaristia, lembrem-se da paixão, ressurreição e glória do Senhor Jesus e deem graças a Deus que os ‘regenerou para a viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo de entre os mortos’ (1Pd 1,3). Por isso, o domingo é um dia de festa primordial que deve ser lembrado e inculcado à piedade dos fiéis de modo que seja também um dia de alegria e de descanso do trabalho. As outras celebrações não lhe anteponham, a não ser que realmente sejam de máxima importância, pois que o domingo é o fundamento e o núcleo do ano litúrgico. (SC 106) e) A razão do domingo não se esgota na celebração litúrgica, o dia todo deve ser vivido no descanso do trabalho, na convivência e solidariedade, na meditação e alegria da ressurreição. Contudo a celebração é parte importante e, conforme a tradição, caracteriza-se pela reunião da comunidade, pela escuta da Palavra de Deus e pela Eucaristia, nossa ceia com o Senhor. f) Na impossibilidade de celebrar a Santa Ceia, graças ao Espírito que suscita carisma, as comunidades se reúnem participando da celebração dominical da Palavra, que faz presente o Mistério Pascal no amor que congrega, na Palavra acolhida e na oração comunitária [Cf. DA n. 253]. Dom Moacyr Grechi, bispo de Porto Velho, referindo-se às inúmeras comunidades que, em sua diocese, celebram o domingo ao redor da Palavra, considera tais celebrações “o oitavo sacramento da Igreja”.