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O que define uma doença autoimune? 1.1 INTRODUÇÃO Àqueles afeitos ao estudo científico o sistema imune talvez seja uma das coisas mais fascinantes. A vida humana seria impossível sem mecanismos que garantissem a sua integridade, dada a quantidade de ameaças presentes no ambiente. Seguramente, um dos elementos que permitiu a ascensão do ser humano como espécie suprema foi o sistema imune, que, evolutivamente, foi se tornando cada vez mais específico e capaz de diferenciar entre os mais diversos patógenos com um nível de precisão chocante. Contudo, em alguns indivíduos, as falhas do sistema de defesa são tão notáveis quanto a sua eficiência. Seja agindo silenciosamente em conjunto com fatores metabólicos para gerar a ateromatose, seja trazendo ao colapso absoluto toda uma circuitaria biológica nos estados sépticos; as imprecisões da imunidade são um dos principais temas de estudo nas ciências biológicas. Mas quais são os mecanismos que permitem ao sistema imune tratar com tanta voracidade aquilo tudo que é externo e tolerar, ou mesmo proteger, aquilo que é do hospedeiro? Como diferenciá-los? Nas próximas páginas tentaremos, à luz do conhecimento científico atual, compreender, ainda que superficialmente, os mecanismos do sistema imune em seu funcionamento saudável e patológico. 1.2 O SISTEMA IMUNE NA SAÚDE Classicamente se divide o sistema imune em 2 vertentes: uma mais imediata e inespecífica, o sistema imune inato; e uma posterior e extremamente refinada, o sistema imune adaptativo. 1.2.1 Sistema imune inato O termo inato se refere a ideia de que esta vertente do sistema imune é presente desde o nascimento, sem passar pelas fases adaptativas que a outra vertente passa. O sistema imune inato é de extrema importância ao indivíduo, de tal forma que representa a primeira barreira que os patógenos irão enfrentar. Seria impossível combater infecções de rápida instalação se só houvesse sistema imune adaptativo, pois sua resposta pode durar semanas para se orquestrar. Ilustra-se esse fenômeno, por exemplo, nos pacientes com disfunções neutrofílicas, que sofrem com infecções de repetição por germes altamente virulentos. Existem diversos componentes do sistema imune inato. Os mais intuitivamente importantes para a Reumatologia e a Imunologia são os componentes celulares, contudo, temos diversos outros mecanismos inatos de defesa. Os principais componentes do sistema imune inato e suas funções são: a) Barreiras físicas, como a pele, membranas mucosas e endotélios; b) Enzimas secretadas pelos epitélios ou em células fagocitárias; c) Proteínas séricas como o complemento, as proteínas de fase aguda e as lectinas; d) Peptídios antimicrobianos, que são proteínas solúveis secretadas pelo epitélio ou pelos fagócitos e que neutralizam germes; e) Células que amplificam, auxiliam e modulam a resposta imune, como mastócitos, macrófagos e células NK; f) Células fagocitárias, como os neutrófilos, macrófagos (monócitos) e células dendríticas; g) Microbioma, ou seja, bactérias que povoam o corpo humano e vivem em relativa cooperação com os órgãos e sistemas, servindo como competidores de organismos patogênicos. Grande interesse se volta atualmente ao perfil do microbioma em pacientes com autoimunidades. É possível que alterações nas populações microbianas sejam responsáveis por promover formação de autorreatividade e autoanticorpos (Schroeder; Bäckhed, 2016). Além de oferecer os instrumentos para a defesa imediata do hospedeiro, o sistema imune inato é diretamente responsável por iniciar a resposta imune adaptativa. 1.2.1.1 Reconhecimento dos patógenos Voltando-se aos componentes celulares do sistema imune inato, é importante que se compreenda como se processa o reconhecimento dos patógenos. De maneira ampla, pode-se dizer que os fagócitos são capazes de reconhecer os elementos estranhos ao hospedeiro através do reconhecimento de padrões. Ou seja, tudo aquilo é grosseiramente diferente provavelmente é patogênico. Essa diferenciação só é possível porque alguns patógenos possuem na sua constituição elementos que são absolutamente bizarros ao corpo humano. Essas estruturas associadas tipicamente aos germes são chamadas amplamente de padrões moleculares associados aos patógenos (PAMPs). Um exemplo clássico é o lipopolissacarídeo de membrana bacteriana (LPS), uma estrutura que não encontra precedente no corpo humano, sendo, portanto, facilmente reconhecida como invasora. Genericamente, esse reconhecimento do atípico é feito pelos receptores reconhecedores de padrão (PRR). Pelo escopo desta obra, focaremos nos receptores celulares – ou seja, ligados aos fagócitos –, mas existem também PRR secretados que agem sem a necessidade de células efetoras. A seguir, são apresentados alguns PAMPs classicamente reconhecidos pela ciência moderna. São exemplos de padrões moleculares: 1. PAMPs: a) Componentes de membrana comuns às bactérias, como peptidoglicano, ácidos lipoteicoicos e mananas; b) DNA não metilado; c) RNA dupla fita. 2. Padrões moleculares associados a dano (DAMPs): a) Proteína heat-shock; b) Hialuronatos; c) Nucleotídeos fosfatados (ATP, ADP, AMP). Os receptores toll-like (TLR) são os principais receptores transmembrana estudados nas doenças reumatológicas. Trata-se de uma grande família de receptores que é capaz de reconhecer uma infinidade de substâncias altamente relacionadas com patógenos, como o LPS. Outros PRR também reconhecidos atualmente são aqueles de ação intracelular, como os receptores NOD-like ou RIG-1-like. Finalmente, DAMPs também são capazes de estimular o sistema imune inato. São quase que opostos aos PAMPs e representam constitutivos intracelulares típicos do hospedeiro que são liberados em situação de estresse ou quando ocorre morte celular. É intuitivo que esse fenômeno ocorra, pois os DAMPs simbolizam que está ocorrendo ataque aos componentes do corpo. 1.2.1.2 Sinalização intracelular O reconhecimento dos patógenos é apenas o primeiro passo para se iniciar a resposta imune inata celular. Como o mecanismo de diferenciação é rudimentar, os seres evoluíram no sentido de desenvolver uma série de etapas bioquímicas que precisam ser cumpridas para que a resposta final efetivamente ocorra. Ademais, a resposta imune inata precisa ser constantemente renovada, uma vez que, tão logo cessem os estímulos patogênicos, o sistema para imediatamente de responder. Esses preciosismos foram extremamente importantes do ponto de vista evolutivo para que o sistema imune não destruísse o seu hospedeiro. Uma das principais vias de sinalização intracelular que ocorre após o encontro de patógenos é a via dos inflamossomas. Tratam-se de aglomerados moleculares com substâncias que se ativam progressivamente a depender da manutenção do estímulo patogênico e que culminam com a ativação e secreção das interleucinas da família 1 (IL-1). Uma vez liberada, a IL-1 age como potente ativadora do sistema imune, causando aumento da expressão de adesinas (moléculas que sinalizam para que leucócitos migrem dos vasos para o local de inflamação), vasodilatação, sensibilização das vias fagocitárias, estimulação termorregulatória talâmica e redução do limiar álgico. 1.2.1.3 Amplificação da resposta imune Quando um território fica repleto de IL-1, ocorre uma grande facilitação da resposta imune mediada por fagócitos, uma vez que ela contribui para a ativação direta de novas levas celulares que chegam ao local da inflamação e também contribui para a produção de proteínas de fase aguda pelos fagócitos e pelo fígado, especialmente. As proteínas de fase aguda são moléculas responsáveis por amplificar a resposta imune e algumas delas possuem ação antibacteriana por si só. Entre as proteínas de fase aguda se encontram, por exemplo, a proteína C reativa e o amiloide sérico A. A presença de PAMPs, DAMPs, proteínas de fase aguda e estresse oxidativo promove a fosforilação da membrana celular dos fagócitos pela fosfolipase, gerando ácido aracdônico. O ácido aracdônico é capaz de percorrer 2 vias de sinalização, a via dascicloxigenases e a via das lipoxigenases. Em última análise, essas vias culminarão na produção de prostaglandinas, tromboxanos e leucotrienos, que são capazes de fazer vasodilatação, aumento da permeabilidade vascular, broncoconstrição e aumento das secreções dos revestimentos epiteliais. Essa via celular, chamada de via dos eicosanoides, é o alvo dos principais anti-inflamatórios hormonais e não hormonais usados na Medicina. A Figura 1.1 ilustra a via dos eicosanoides. Figura 1.1 - Via dos eicosanoides Legenda: Anti-Inflamatório Não Esteroide (AINE). Fonte: elaborado pelo autor. Como demonstrado anteriormente, o sistema do complemento é parte importante da resposta imune inata, mas, pela sua condição de ativação por múltiplas vias, dialoga intimamente também com o sistema imune adaptativo. Por esta razão, nesta obra, o sistema do complemento será explorado adiante (no item 1.2.2), após compreensão das vias relacionadas ao sistema imune adaptativo. 1.2.2 Sistema imune adaptativo O sistema imune adaptativo depende do seu correspondente inato para se iniciar. Além dos neutrófilos, que possuem a função de destruição dos patógenos, macrófagos e células dendríticas também são capazes de reconhecer estruturas atípicas para o self através dos PRRs. Ao contrário daqueles, porém, os macrófagos e células dendríticas possuem uma função adicional que envolve o processamento de patógenos fagocitados para exposição em suas membranas. Através de enzimas líticas, determinados peptídios antigênicos são separados dos patógenos e expostos na membrana das células fagocíticas sobre uma superfície de apresentação composta pelas cadeias alfa e beta da molécula do HLA (human leukocyte antigen). O objetivo da apresentação antigênica é demonstrar aos linfócitos T circulantes quais peptídios estão recorrendo no hospedeiro. A célula dendrítica possui fundamentalmente o papel de informante do sistema imune, mas, em menor escala, o macrófago e o linfócito B também desempenham essa função. Células que são capazes de apresentar antígenos aos linfócitos T são chamadas de APC (sigla em inglês para células apresentadoras de antígeno). A especificidade e beleza do sistema imune adaptativo decorre da habilidade do linfócito T de reconhecer uma infinidade de estruturas antigênicas patogênicas através de um processo de aprendizado. A quanto mais estruturas invasoras o sistema imune adaptativo é exposto, mais refinado ele fica. Esta elegante adaptação que o sistema imune sofre decorre da maneira como o linfócito T reconhece os antígenos. 1.2.2.1 Reconhecimento dos antígenos Cada linfócito T carrega em sua membrana um TCR (T cell receptor). Na gênese de cada linfócito, regiões variáveis do seu código genético se combinam para formar uma superfície absolutamente singular, capaz de reconhecer a estrutura formada pela soma do HLA com peptídios antigênicos do patógeno. O grau de especificidade é tamanho que cada linfócito reconhece pouquíssimos antígenos, sempre ligados ao HLA respectivo. O reconhecimento de uma ampla gama de antígenos é dado, por sua vez, pela gigantesca quantidade diariamente produzida de linfócitos, cada qual com sua especificidade antigênica. No final, cada linfócito só reconhecerá o seu antígeno-alvo; e virtualmente todos os antígenos-alvos possíveis no universo serão passíveis de reconhecimento, tão logo amadureça um linfócito que os reconheça. Evidentemente, através desse mecanismo de repetição que desafia a probabilidade – gerar-se-ão quantos linfócitos quanto forem necessários até que se reconheça o antígeno do invasor – inevitavelmente ocorre reconhecimento de peptídios do próprio hospedeiro. Diariamente, uma infinidade de linfócitos T autorreativos são produzidos. Contudo, o próprio linfócito T possui mecanismos que o induzem à apoptose se houver reconhecimento de peptídios sem sinalização de invasão pela célula que os apresenta. De fato, constantemente, APCs apresentam peptídios do self para linfócitos circulantes, mesmo na ausência de infecção. Neste modo de funcionamento, as APCs não estão ativadas e não expressam em suas membranas moléculas que sinalizam invasão ou conflito. Todos os linfócitos que eventualmente reconheçam partículas expostas no HLA, mas que não encontrem a coestimulação que simboliza invasão, automaticamente “se entendem” como autorreativos – ou seja, reconheceram inadvertidamente peptídios do próprio hospedeiro – e entram em apoptose (Sharpe, 2009). Nota-se, portanto, que só restarão em circulação aqueles linfócitos que não são autorreativos. No polo oposto, é possível que uma combinação molecular de um determinado linfócito seja tão bizarra que nem mesmo as estruturas patogênicas sejam reconhecidas. Neste sentido, tratar-se-ia de um linfócito inútil. Para que uma calibração fina ocorra, portanto, linfócitos são expostos constantemente a patógenos nos tecidos linfoides. Estes tecidos são dispostos em regiões em franco contato com o meio externo, recebendo constantemente uma grande leva de patógenos potenciais. Desta maneira, são selecionados os linfócitos mais aptos ao reconhecimento de eventuais invasores. Fica bastante claro com o mecanismo de funcionamento do sistema imune adaptativo que se trata de um sistema em constante aprimoramento e refinamento. Existe, de fato, uma memória imune que se transforma o tempo todo e aprende com o ambiente ao qual o hospedeiro é exposto. É justamente por essa característica mutável do sistema imune adaptativo que as doenças autoimunes tendem a se apresentar na sua totalidade nos primeiros anos e a melhorar com o passar do tempo, como se o sistema imune “se esquecesse” de se autodestruir. 1.2.2.2 A coestimulação Uma vez que uma APC reconheça através dos seus PRR um patógeno, ela o fagocitará, processará e lhe apresentará em seu HLA passando, então, a expressar na sua membrana um coestimulador: o CD40. Esta proteína de membrana marca invasão e será necessária para a ativação linfocitária. Tão logo os peptídios patogênicos ligados ao HLA sejam reconhecidos pelo linfócito T, este expressará em sua membrana um CD40L, que buscará o seu sítio de ligação, o CD40. Se não houver contato entre estes ligantes, o linfócito se torna anérgico e entra em apoptose. Se houver contato entre estes ligantes, o linfócito passará a expressar em sua membrana o CD28 e a APC passará a expressar o CD80/CD86. Um novo contato entre estas 2 moléculas finaliza o processo de ativação e torna o linfócito T outrora naïve (Th0, inativo, ou seja, em busca do seu antígeno-alvo) um linfócito ativo (Jenkins et al., 2001). A Figura 1.2 resume a coestimulação. Figura 1.2 - Esquema mostrando os sinais trocados entre um linfócito T e uma célula apresentadora de antígeno Nota: após fagocitose e processamento do patógeno, peptídios são expostos no HLA (MHC). Se houver correspondência entre o HLA com peptídios e o TCR linfocitário, ocorrem novos sinais que podem estimular ou inibir a ativação linfocitária. Linfócitos que não recebem sinais coestimulatórios entram em anergia ou apoptose. Fonte: elaborado pelo autor. 1.2.2.3 O HLA O HLA humano é uma estrutura composta por cadeias alfa e beta oriundas do complexo maior de histocompatibilidade (MHC), uma região genética do braço curto do cromossomo 6. Regiões chamadas de DP, DR e DQ codificam as cadeias alfa e beta do HLA de classe II (Figura 1.3); as regiões A, B e C, por sua vez, codificam as cadeias alpha do HLA de classe I (Figura 1.4). HLAs de classe II exibem antígenos fagocitados pelas APCs para linfócitos T do tipo CD4+; estes linfócitos são aqueles que reproduzem os mecanismos anteriormente descritos. HLAs de classe I, por outro lado, exibem antígenos capturados do intracelular (ou seja, que estavam infectando a célula) para linfócitos TCD8+, que são linfócitos citotóxicos. Linfócitos citotóxicos são capazes de induzir a morte celular das células infectadas, mas, na maior parte das vezes, precisam ser previamente ativados por linfócitos T CD4+. Figura 1.3 - HLA do tipo II Nota: HLA do tipo II, com 2 cadeiasalfa e 2 cadeias beta. O sítio de ligação e exposição do peptídio se encontra entre as cadeias alfa e beta superiores (alfa 1 e beta 1). Fonte: elaborado pelo autor. Figura 1.4 - HLA do tipo I Nota: HLA do tipo I, com 3 cadeias alfa e um resíduo de beta-2 microglobulina. O sítio de ligação e exposição do peptídio se encontra entre as cadeias alfa superiores e beta superiores (alfa 1 e alfa 2). Fonte: elaborado pelo autor. 1.2.2.4 Resposta linfocitária Como descrito anteriormente, após a fagocitose de um patógeno e sua consequente exposição no HLA, uma vez que ocorra correspondência entre o HLA ligado ao peptídio e o TCR, ambas as células trocam sinais confirmatórios autorizando o linfócito T a iniciar a resposta imune adaptativa. Células invadidas e infectadas por micro-organismos intracelulares também são capazes de continuamente expor epítopos dos seus hóspedes aos linfócitos T, gerando uma resposta citotóxica. O ambiente no qual ocorre a coestimulação e as características do patógeno exposto determinam a polarização assumida pelo linfócito T. Se o patógeno exposto for, por exemplo, um vírus, que caracteristicamente é intracelular, a APC tenderá a inundar as imediações do contato com IL-12, sinalizando a preferência do linfócito T virgem (naïve) pela via Th1. Nesta via, linfócitos T auxiliares (T helper, Th), agora ativados, irão liberar citocinas como o TNF (tumoral necrosis factor) alfa e o interferon (IFN) gama (Schmitt; Ueno, 2015); estas citocinas, por sua vez, são potentes ativadoras de fagócitos e linfócitos NK (Natural Killer). Uma vez ativados, fagócitos são autorizados a aniquilar eventuais hóspedes internos, através da ativação de proteases e espécies reativas de oxigênio, que são tóxicas aos patógenos. Ademais, esta resposta também estimula macrófagos e neutrófilos a liberarem enzimas proteolíticas nas imediações, causando destruição tecidual, no intuito de isolar as células acometidas. Por fim, células NK, agora ativadas, irão causar morte celular a diversas células infectadas. Este mecanismo evoluiu no sentido da sua alta especificidade para neutralizar germes ocultos no ambiente intracelular. Se, por outro lado, o patógeno for extracelular, a APC sinaliza ao linfócito através de IL-6, IL-21 e IL-23. Estas citocinas desviam a resposta do linfócito naïve para um perfil Th17 ou Tfh (célula T auxiliadora do folículo), a depender da influência de fatores de transcrição (Schmitt; Ueno, 2015). Na prática, estas respostas culminam com a ativação de linfócitos B pela via Tfh, dependente de IL-6 e IL-21, levando-lhes à diferenciação como células produtoras de grandes quantidades de anticorpos. Outrossim, o linfócito Th17 também produz IL-17, uma potente sensibilizadora de fagócitos e ativadora de componentes da matriz extracelular, que prepara o sistema de defesa para a fagocitose de partículas opsonizadas (ou seja, cobertas de anticorpos). Na prática, de maneira admiravelmente eficaz, esta polarização do sistema imune se presta a marcar e destruir os patógenos extracelulares. Por fim, uma infecção por germes relativamente grandes, como parasitas ou helmintos, gerará uma polarização Th2. Um linfócito de perfil Th2 geralmente se desenvolve em um ambiente rico em IL-4 e secreta IL-5 e IL-13. Este perfil de citocinas estimula a migração eosinofílica e estimula linfócitos B a secretarem IgE. Na prática, a resposta Th2 promove ataque eosinofílico e mastocitário, que, através de enzimas altamente proteolíticas, causa lesão na extensa macroestrutura dos patógenos (Schmitt; Ueno, 2015). Respostas Th1 em geral cursam com mecanismos celulares, destruição tecidual crônica e eventual formação de granuloma; respostas Th2 são muito intensas, porém fugazes, e causam processos alérgicos; por fim, respostas Th17 cursam com lesão tecidual menos destrutiva e, eventualmente, alta produção de anticorpos (mecanismo humoral). 1.2.2.5 O sistema do complemento Os efetores mais diretamente importantes para a resposta imune são celulares, mas, mesmo na ausência de células participando diretamente da resposta imune, ela ainda pode ocorrer. Além da participação passiva de barreiras de proteção, fluidos secretados e enzimas antimicrobianas, o sistema do complemento participa ativamente da destruição patogênica. Ademais, esta circuitaria química representa mais um elo entre o sistema imune inato e o adaptativo, sendo ativada pelas 2 vertentes. Tratam-se de componentes proteicos circulantes capazes de agir isoladamente – recrutando células de defesa, de forma quimiotáxica – ou após agrupamento e ativação em cascata, levando à formação de opsoninas – que marcam para fagocitose e inativam patógenos – ou do complexo de ataque à membrana (MAC), uma estrutura que forma poros nos invasores e os elimina. O complemento é entendido como parte do sistema imune inato, pois não se adapta conforme a resposta ocorre. Contudo, a sua ativação pode decorrer tanto do contato direto com o patógeno (e, portanto, seguindo o arquétipo de resposta do sistema imune inato) quanto do contato com imunoglobulinas (e, portanto, após a ocorrência da resposta imune adaptativa). Por essa razão, o sistema do complemento é extremamente importante no sentido de que une os 2 sistemas em uma resposta conjunta. A via que dialoga com o sistema imune adaptativo é chamada de via clássica do complemento. As vias não clássicas são aquelas que se relacionam com o contanto direto com o patógeno e se dividem na via alternativa e na via da lectina. De início, para se compreender as vias do complemento, deve-se ter em mente que todas as frações inativas são precursores produzidos pelo fígado, estão circulando livremente e dependem de contato com um estimulante para que desempenhem a sua função. Os componentes são identificados com um “C” e um número após, simbolizando a sua ordenação na cascata. A maior parte dos precursores, após ativados, geram novas moléculas, designadas pelas letras minúsculas “a” ou “b”. O agrupamento de diversos precursores ativados permite a formação de convertases, que ativam novas frações do complemento sucessivamente, e o “resto” das reações geralmente forma fragmentos de complemento, que agem como opsoninas. Uma vez que se forme a convertase de C5, C5 será clivado progressivamente até a formação de C9, que, na prática, é o MAC. Portanto, a união de todas as vias do complemento se dá em C5. Na via clássica do complemento, o contato da fração C1 do complemento com as frações Fc das imunoglobulinas (especialmente IgG e IgM) causa clivagem de algumas porções de C1, tornando-o capaz de ativar C4 e C2. A combinação de frações ativadas de C4 e C2 (formando C4b2a) cria uma convertase de C5 (West, 2015). Desta observação se conclui que, portanto, fenômenos que ativem predominantemente a via clássica do complemento, ou seja, que envolvam grande produção de anticorpos, cursam com redução mais acentuada de C1, C2 e C4. C4 é uma fração dosada com facilidade na prática clínica e pode ser usada como marcadora de ativação pela via clássica, ajudando na busca pela etiologia das inflamações. Na via alternativa, o contato da superfície patogênica (rica em sacarídeos típicos de patógeno) com C3 causa ativação de C3 (em conjunto com cofatores), que, após algumas clivagens e associações com fatores, torna-se uma convertase de C5 (West, 2015). Portanto, pode-se inferir que processos patogênicos sem a participação majoritária de anticorpos provavelmente irão produzir queda mais acentuada de C3. C3 é uma fração dosada com facilidade na prática clínica também. A queda de C3 não acompanhada de C4 sugere mais infecção do que autoimunidade. A via da lectina depende da interação da superfície bacteriana com uma colectina (um PRR secretado) chamada MBL (lectina ligadora de manose). Após esta interação, serinoproteases contribuem para tornar a MBL uma enzima capaz de clivar C2 e C4. Como visto anteriormente, a combinação de frações ativadas de C2 e C4 pode se comportar como convertase de C5, ativando a cascata final (West, 2015). Comodemonstrado, o complemento é uma via potente e relativamente fácil de ser ativada, devendo sempre ser finamente regulada. Células do hospedeiro possuem mecanismos ativos para inativar as frações do complemento e não permitir a sua adesão. Contudo, quando quantidades enormes de imunocomplexos circulam e depositam em diversos vasos terminais e tecidos, os mecanismos reguladores podem ser suplantados e autoimunidade pode se desenvolver (ver item 1.3). 1.2.3 Reparação tecidual Toda a resposta imune, como percebido anteriormente, gera destruição e dano, tanto em nível celular quanto tecidual. É fato que, analogamente a uma guerra, o cenário de devastação após uma defesa bem-sucedida torna absolutamente impossível o retorno imediato à homeostase. Assim, o sistema imune evoluiu no sentido de, assim que as respostas inflamatórias são ativadas, ativar igualmente vias de imunossupressão e reparo tecidual. O sucesso tão frequente do sistema imune em combater infecções sem causar o colapso do hospedeiro reside justamente no equilíbrio entre uma defesa eficaz e uma imunomodulação apropriada. Esta função de atenuar o sistema imune e recrutar os componentes da matriz extracelular na função de reparo é atribuída, entre outras, à via T auxiliar reguladora (Treg). A ativação do linfócito T, independentemente de sua polarização, também ativa fatores intracelulares de transcrição, notadamente o forkhead box P3 (Foxp3), que sinaliza para uma mudança nas suas proteínas de membrana, levando o linfócito a: expressar o inibidor de coestimulação CTLA-4 (cytotoxic lymphocyte antigen 4), que bloqueia a confirmação de sinal entre a célula apresentadora e o linfócito (Figura 1.2); e secretar citocinas anti-inflamatórias, como a IL-10 e o TGF (transforming growth factor) beta, que sinalizam para a inativação do fagócitos, polarização para Treg e ativação dos fibroblastos para produção de matriz extracelular. Na prática, portanto, a via Treg cessa a resposta imune de ataque e inicia a resposta imune reparadora (Belizário et al., 2016). Os mecanismos supracitados resumem algumas das vias auxiliadoras fisiológicas do sistema imune. É, de fato, fascinante como, na imensa maioria das vezes, os mecanismos de defesa funcionam de maneira eficaz não somente neutralizando infinitas ameaças aos quais o hospedeiro se expõe rotineiramente, mas, também, sabendo se autorregular para não exterminar o self. Contudo, na ocorrência de falhas no sistema imune, eventualmente, patologias se desenvolvem. Algumas com repercussão apenas local, como a aterosclerose, e outras com repercussão sistêmica com graves consequências ao hospedeiro, como a sepse, os processos alérgicos ou anafiláticos, as autoimunidades e a autoinflamação. 1.3 O SISTEMA IMUNE NA DOENÇA A seguir, esta obra se dedicará a explorar brevemente os principais mecanismos envolvidos nas doenças reumáticas. O sistema imune está envolvido em muitas patologias descritas pela Medicina moderna e seria necessária irreal presunção e uma quantidade inimaginável de páginas para descrevê-las em sua plenitude. O objetivo desta seção é apenas permitir ao estudante que se aventura pelo conhecimento reumatológico ter uma noção das vias fisiopatológicas nas nossas doenças, especialmente no que se refere à associação clínico-fisiopatológica. De maneira bastante ampla, as doenças que o reumatologista aborda possuem disfunção em uma das grandes vias da imunidade: a imunidade inata ou a imunidade adaptativa. Muito frequentemente possuem disfunções em ambas as vias, mas, em geral, identifica-se uma via predominante pelas características clínicas, laboratoriais e anatomopatológicas. As doenças com disfunções na imunidade inata são denominadas doenças autoinflamatórias; por sua vez, aquelas que são principalmente decorrentes de disfunção na imunidade adaptativa são chamadas de autoimunes. Muitas doenças não primariamente imunes possuem facetas autoinflamatórias (como as artrites microcristalinas), mas as doenças primariamente autoinflamatórias são muito raras e não serão abordadas nesta obra, por fugirem ao seu escopo. As doenças autoimunes, porém, são as principais doenças manejadas pelo reumatologista e foram extensamente estudadas nas últimas décadas. A explicação da sua fisiopatologia pode partir, epistemologicamente, de diversos prismas, que, em conjunto, expressam o todo da manifestação patológica (que provavelmente nunca será atingido pela humanidade, assim como em qualquer ciência, que nunca está completamente explorada). Podemos, por exemplo, partir das quimiocinas envolvidas nos processos patológicos para aventar teorias sobre a origem da disfunção, como também podemos partir dos fatores de transcrição mais ativados para conjecturar sobre as maquinarias celulares e teciduais envolvidas. O mundo científico atualmente permite infinitas possibilidades no que se refere ao ponto de partida. A seguir, abordaremos a disfunção do sistema imune adaptativo pelo prisma que consideramos mais unicista e universal, dentro do que se conhece até o momento sobre fisiopatologia. Ao longo desta obra, conceitos aqui definidos serão retomados com frequência, uma vez que são a base para a compreensão das manifestações fenotípicas das doenças. Lembramos, contudo, que as vias e explicações aqui expostas não esgotam de maneira alguma todo o conhecimento sobre a imunologia relacionada às doenças reumáticas, servindo apenas como norte ao estudante, sempre priorizando a prática clínica. 1.3.1 Autoimunidade Tomadas como, por definição, disfunções do sistema imune adaptativo (West, 2015; Davidson; Diamond, 2001), as autoimunidades inferem ativação patológica e mantida do sistema imune adaptativo, ou seja, dos linfócitos T e B, sem um estímulo infeccioso, tóxico ou neoplásico que a justifique. Uma das maneiras mais didáticas de se compreender as doenças autoimunes será, portanto, focar-se no perfil da polarização do principal orquestrador da resposta imune: o linfócito T. De fato, o perfil T helper envolvido nas doenças foi o principal mecanismo usado pela indústria farmacêutica a partir do início do século 21 para desenvolver as terapias-alvo que a Reumatologia possui hoje ao seu dispor. Ainda hoje se usam esses conceitos para o estudo das doenças e para o desenvolvimento de novas terapias, cada vez mais aliados aos conhecimentos sobre regulação de transcrição gênica. Quatro vias primordiais foram mais bem descritas nas doenças reumáticas: Th1, Th2, Th17 e Treg. 1.3.1.1 Th1 A via Th1 é a via primariamente responsável pelo combate aos germes fastidiosos e intracelulares, gerando uma potente ativação macrofágica e neutrofílica. A disfunção linfocitária com polarização para o perfil Th1 gera inflamação tecidual diretamente, com infiltração dos tecidos com fagócitos e linfócitos citotóxicos e pode levar à formação de granulomas em ambiente rico em IFN gama (Asano et al., 1993). Clinicamente, processos autoimunes Th1- mediados costumam produzir quadros francamente inflamatórios, com muitos sinais flogísticos e eventual destruição tecidual, com grande potencial de gerar sequelas. Essas facetas podem ser mais bem observadas nas artropatias autoimunes – que possuem forte componente Th1 e cursam com destruição articular e erosão óssea –, ou nas vasculites de grandes vasos ou associadas ao anticorpo anticitoplasma de neutrófilo (Hochberg, 2019), que causam lesão e distorção arquitetural da parede vascular (no caso daquelas) ou das vias aéreas (no caso destas). De maneira geral, formação de granulomas, cavitações pulmonares e erosões ósseas sugerem mecanismo relacionado à resposta Th1. 1.3.1.2 Th2 A via Th2 é pouco estudada na Reumatologia. Na fisiologia normal, relaciona-se com germes extracelulares de grandes dimensões. Processos patológicos relacionados à via Th2 geralmente cursam com manifestações atópicas, como asma, rinite, polipose nasal e dermatite atópica (Brandt; Sivaprasad, 2011). Uma doença relacionada à via Th2 na Reumatologia é a granulomatose eosinofílica com poliangiite, que cursa com manifestaçõesTh1 (granulomas), Th2 (facetas alérgicas) e Th17 (ver adiante). 1.3.1.3 Th17 A via Th17 se relaciona com 2 mecanismos efetores distintos. O primeiro deles, dependente de IL-6, IL-17 e IL-23, é responsável pela ativação e recrutamento de fagócitos, sensibilizados para realizar eliminação de patógenos marcados pelas opsoninas. O segundo, dependente de IL-6 e IL-21, potencializa a ação de outro linfócito T auxiliar, o linfócito Tfh, e ativa os linfócitos B para produção de imunoglobulinas. Voltado ao combate de germes extracelulares, esta via garante que sejam produzidas globulinas para marcar os patógenos e que sejam ativados fagócitos para neutralizá-las (Crome et al., 2010). Na doença, a hiperativação de um perfil Th17 promove inflamação tecidual direta, como aquela vista nas vasculites relacionadas ao anticorpo anticitoplasma de neutrófilo, nas manifestações periarticulares das espondiloartrites ou nas inflamações teciduais e orgânicas vistas nas doenças sistêmicas do tecido conectivo; acompanhada eventualmente de alta produção de anticorpos, como se vê nas conectivopatias autoimunes. Quando os autoanticorpos encontram os seus antígenos na circulação, ocorre formação de imunocomplexos, que podem se depositar na circulação terminal ou mesmo nos tecidos. Quando nos tecidos, contribuirão mais para a inflamação tecidual; quando nos vasos, porém, produzem as singulares vasculites mediadas por imunocomplexos. A deposição do imunocomplexo no vaso provoca intensa resposta inflamatória local, com migração de células efetoras e clivagem sequencial do complemento, culminando em oclusão e destruição do vaso, com sofrimento das estruturas à jusante e extravasamento de conteúdo sanguíneo local. Todas as condições autoimunes que cursam com alta produção de anticorpos que têm como alvo antígenos circulantes acessíveis podem cursar, portanto, com manifestações vasculíticas. Doenças do polo Th17 cursam com inflamação tecidual (sinovite, serosite, dermatite, miosite etc.) e, quando houver alta produção de anticorpos, com fenômenos vasculíticos. 1.3.1.4 Treg Como exposto anteriormente, a via T helper reguladora é essencial ao desligamento do sistema imune de ataque e ativação do sistema imune reparador. Na saúde, esta via inibe a coestimulação linfocitária e estimula fibroblastos e outras células de função trófica a secretar colágeno e outros componentes da matriz extracelular, que se organiza e reconstrói o tecido lesado. Nas condições com disfunção da via Treg, notoriamente nas doenças sistêmicas do tecido conectivo, as células mesenquimais se comportam de maneira quase neoplásica e depositam quantidades desproporcionais de colágeno e outros componentes da matriz, que, em excesso, passam a causar disfunção orgânica e tecidual. Com a perpetuação do ciclo, o colágeno se organiza, formando extensas zonas de fibrose. Em geral, após o processo de fibrose se estabelecer, há irreversibilidade do dano tecidual e incapacidade de retorno à homeostasia. #IMPORTANTE As principais representantes das doenças com disfunção Treg são as doenças sistêmicas do tecido conectivo. 1.3.2 Autoinflamação As doenças autoinflamatórias geralmente se referem a disfunções na ativação dos inflamossomas e das vias a eles relacionadas. Ao contrário das doenças autoimunes, que geralmente possuem causa poligênica e multifatorial, as doenças autoinflamatórias possuem quadro genético mais bem definido (inclusive frequentemente monogênico, com herança bem definida). Mutações em proteínas envolvidas no funcionamento do inflamossoma o tornam hiperativado, cursando com aumento da produção e da ação de citocinas diversas, mas, especialmente, da IL-1. A IL-1 é uma citocina muito relacionada à resposta dos fagócitos ao reconhecimento de padrões patológicos e de dano, aos sinais cardinais de inflamação e à febre. Situações dependentes de IL-1 geralmente cursam com muita flogose local e, quase invariavelmente, febre. Pela característica da ativação do inflamossoma, uma estrutura que se esgota de tempos em tempos, a febre nas doenças autoinflamatórias é, tipicamente, periódica. #IMPORTANTE Ao longo de meses, febres de caráter periódico sugerem autoinflamação, ao passo que febres mantidas sugerem autoimunidade. O que define uma doença autoimune? Doenças autoimunes são condições clínicas decorrentes da ativação patológica e mantida do sistema imune adaptativo, ou seja, dos linfócitos T e B, sem um estímulo infeccioso, tóxico ou neoplásico que a justifique. Dentro de uma unidade motora articular, quais são as estruturas de maior interesse nas doenças reumáticas? 2.1 INTRODUÇÃO A Reumatologia é uma ciência com um ramo de estudo amplo e de difícil determinação. O nome da especialidade deriva do termo grego rheuma, que simboliza algo como “líquido fluindo”. Tal nomenclatura remete à medicina hipocrática, que imaginava que os diversos distúrbios corporais se deviam à desorganização dos fluidos (humores) intrínsecos. De fato, a dor articular, um dos sintomas mais comuns da humanidade, era relacionada ao desbalanço em diversos fluidos, eminentemente o próprio líquido articular. De maneira ampla, toda dor articular era chamada de reumatismo, simbolizando uma alteração no fluxo fisiológico. Anos depois, durante a Idade Média, cunhou-se também o termo “gota” para se referir à pequena quantidade de líquido que pingava nas articulações de reis e nobres que se ilibavam com álcool e comilanças (Nuki; Simkin, 2006). Pode-se notar, portanto, que, historicamente, o termo reumatismo sempre esteve associado à ideia de dor, especialmente dor no aparelho locomotor, estando entre as doenças mais comuns da humanidade. Durante muito tempo, portanto, muitos médicos trataram enfermidades locomotoras sem perceber que se referiam a distúrbios do sistema imune. De fato, a compreensão de que a Reumatologia tratava, na verdade, de disfunções do sistema imunológico, só veio muito mais tarde, no século 20. As articulações e os músculos são órgãos muito sensíveis à inflamação e à dor. Citocinas inflamatórias, mesmo de processos à distância, são capazes de adentrar o espaço articular e sinalizar para a redução do limiar álgico e, inclusive, para recrutamento celular para o espaço articular. As fáscias musculares parecem igualmente sensíveis aos distúrbios inflamatórios e estímulos álgicos, causando dor difusa em uma infinidade de patologias absolutamente não diretamente ligadas aos músculos (como quadros infecciosos, reações vacinais, dor crônica e mesmo à privação de sono). Por essa razão, dor articular sem grandes sinais flogísticos ou dor muscular sem sinais de lesão muscular objetiva são sintomas promíscuos de doença e não ajudam a topografar patologias. Resumindo, atualmente a Reumatologia é uma ciência clínica que trata das síndromes álgicas do aparelho locomotor, estando elas relacionadas ou não ao sistema imune. Assim sendo, qualquer estudante que planeja entender as nossas patologias precisa conhecer o capítulo Noções gerais de imunologia, deste livro, e o presente capítulo, que se propõe a explicar as noções básicas sobre a anatomia e fisiologia da locomoção. 2.2 ARTICULAÇÕES A compreensão das doenças reumáticas passa invariavelmente pelo entendimento, ainda que superficial, do funcionamento das estruturas relacionadas ao aparelho locomotor. É verdade que as afecções reumáticas acometem muito mais do que os aparelhos relacionados à movimentação, mas, tratando-se de desordens que possuem disfunção intimamente relacionada ao tecido conectivo, quase invariavelmente as patologias dessa especialidade se apresentarão com algum sintoma relacionado a ossos, sinóvia, cartilagens ou músculo. De maneira bastante simplista, as articulações são as estruturas responsáveis por unir 2 ou mais ossos, conferindo movimentação ao esqueleto. Existem diversas articulações diferentes no corpo, algumas delas com maior movimentação e outras com menor, a depender da estrutura articular em si e dos músculos e ligamentos que a circundam. Genericamente, uma articulaçãoé formada de maneira elementar pelos ossos e cartilagens associadas. Alguns grupos de articulações possuem mais de uma cartilagem e, portanto, um espaço articular, que pode ser circundado pela estrutura sinovial e por uma cápsula fibrosa. A Figura 2.1 representa o esquema básico de uma articulação. As articulações podem ser divididas, inicialmente, conforme a densidade da cartilagem que possuem: 1. Sinartroses: junções de tecido conectivo extremamente fibroso que unem 2 extremidades ósseas, com mínima ou nenhuma possibilidade de movimentação – o exemplo principal são as suturas cranianas; 2. Anfiartroses: fibrocartilagens adjacentes às extremidades ósseas, permitindo um grau pequeno de movimentação – os exemplos principais são os discos vertebrais, a sínfise púbica e a parte superior da articulação sacroilíaca; 3. Diartroses: conhecidas também como articulações sinoviais, possuem uma membrana sinovial e realmente um espaço articular, permitindo ampla movimentação. Figura 2.1 - Componentes elementares de uma articulação sinovial Fonte: adaptado de Madhero88, 2010. As articulações sinoviais são o principal alvo das doenças reumáticas, devido à ampla gama de movimentos (tornando-as mais suscetíveis a lesões) e ao potencial inflamatório da membrana sinovial. As articulações sinoviais são subdivididas, de maneira resumida, conforme o seu grau de mobilidade, em: a) Esferoides, como as articulações do quadril e ombro; b) Dobradiças, como as articulações dos dedos e dos joelhos; c) Selares, como a carpometacarpal do polegar; d) Planas, como a patelofemoral. 2.2.1 Complexo sinovial O estudo do tecido sinovial é de grande importância no entendimento da patogênese da artrite inflamatória. Apesar disso, nosso conhecimento da arquitetura imuno-histoquímica da membrana sinovial, particularmente em indivíduos normais, é surpreendentemente limitado, principalmente devido à falta de bons marcadores específicos de tecidos e células e à dificuldade em se obter tecido sinovial precocemente. A sinóvia normal possui uma fina membrana sinovial que margeia todas as estruturas intracapsulares, exceto pela superfície de contato da cartilagem articular. As células da membrana sinovial ficam inundadas por matriz extracelular rica em colágeno tipo I e proteoglicanos e são compostas majoritariamente por 2 tipos: sinoviócito tipo A, que são células com ação fagocítica, e sinoviócito tipo B, que são derivadas fibroblásticas e sintetizam a matriz extracelular e o líquido sinovial. A membrana sinovial possui capilares sanguíneos e linfáticos, nervos e ainda pode ser habitada por células dendríticas e mastócitos. O líquido sinovial produzido pelos sinoviócitos é rico em ácido hialurônico, seu principal componente, que garante a viscosidade característica que vemos na artrocentese. A perda da viscosidade pode simbolizar o aumento de proteínas no espaço articular, simbolizando um líquido eventualmente inflamatório. 2.2.2 Cartilagem articular A cartilagem articular é o principal alvo patológico da osteoartrite. Trata-se de uma estrutura avascular e não inervada que é composta de uma rede esparsa de células secretoras de matriz extracelular denominadas condrócitos. Os condrócitos são os principais responsáveis pela manutenção da homeostase cartilaginosa. A cartilagem é composta primariamente de colágeno tipo II que circunda uma rede complexa de glicosaminoglicanos (que em conjunto são chamados de agrecanos) ancorados em hialuronato (Figura 2.2). Essa composição proteica específica permite à cartilagem se comportar como uma estrutura absorvente de impacto, possuindo rigidez e resiliência concomitantes. Figura 2.2 - Esquema da distribuição da rede colagênica combinada com os glicosaminoglicanos na cartilagem articular Fonte: adaptado de Mfigueiredo, 2009. A glicosamina e a condroitina, suplementos comercializados supostamente para o tratamento de osteoartrite, contém moléculas relacionadas aos agrecanos. Como a cartilagem não é vascularizada, a sua nutrição depende dos fluidos articulares e da nutrição por difusão do osso adjacente. Parte da nutrição da cartilagem depende da mobilização articular, pois o processo físico funciona como uma bomba compressora sobre a estrutura, alterando as pressões de entrada e saída do líquido da cartilagem para a cavidade sinovial e vice e versa. A sinalização álgica dos processos destrutivos para a cartilagem depende, principalmente, da estimulação do osso subcondral e da membrana sinovial, uma vez que a cartilagem não possui inervação. É muito provável, portanto, que a dor da osteoartrite, por exemplo, dependa muito mais de fatores relacionados ao osso subcondral, à inflamação, às estruturas periarticulares e à neuromodulação do que à destruição da cartilagem em si (Eitner et al. 2017). Isso explica em partes porque muitas das terapias voltadas à recuperação da cartilagem em si não apresentam bons resultados. A cartilagem articular é firmemente ancorada ao osso subcondral, com quem guarda íntima relação. De fato, o que ocorre não é sequer uma adesão da cartilagem ao osso, mas, sim, uma transição paulatina, em camadas, de tecido cartilaginoso em tecido ósseo (Figura 2.3). Figura 2.3 - Transição da cartilagem ao osso subcondral (extremidade óssea adjacente à cartilagem) Fonte: adaptado de VectorMine. 2.2.3 Estruturas periarticulares Além das articulações em si, diversas estruturas auxiliares do movimento podem estar acometidas nas doenças reumáticas, tanto as de cunho inflamatório quanto mecânico. A diferenciação da topografia do processo patológico, definida idealmente por exame físico, mas eventualmente corroborada por exames de imagem, ajuda enormemente na formação das hipóteses diagnósticas e na estratégia de tratamento. No que se refere às desordens mecânicas, frequentemente mais de uma estrutura está acometida, uma vez que o processo decorre de desbalanço de forças e cadeias do movimento. É importante que, no programa de reabilitação, o fisioterapeuta ou o terapeuta ocupacional sejam orientados sobre as fontes suspeitas da dor. 2.2.3.1 Tendões Os tendões são constituídos por um arranjo hierárquico de feixes de fibras de colágeno, predominantemente do tipo I, orientados ao longo do eixo do tecido (Hochberg, 2019). Outros constituintes principais são a água e a matriz extracelular não colagênica. De maneira simplista, tendões são cabos extremamente resistentes que unem os músculos aos ossos. Eles são responsáveis por transmitir a força muscular e garantir estabilidade ao movimento. Os tendões são suscetíveis a danos e efeitos do envelhecimento. As doenças que afetam essas estruturas podem surgir na forma de trauma agudo resultante de um impacto (como uma rotura tendínea parcial após um levantamento de peso) ou, muito mais comumente, como resultado de microtrauma repetitivo que ocorre por longos períodos (como na tendinopatia de calcâneo). Em geral, o segundo cenário vem acompanhado de fraqueza ou descondicionamento do músculo associado ao tendão – ou dos músculos acessórios deste – ou de desalinhamentos no movimento que atrapalham a sua ergonomia. As apresentações clínicas da patologia intrínseca dos tendões podem ser variáveis. Os pacientes podem sentir dor e perda de função com um tendão estruturalmente intacto ou apresentar uma ruptura “espontânea” do tendão sem dor pré-existente ou perda percebida de função. Há também uma variação individual considerável entre o grau de dor experimentada por um paciente e a extensão da doença estrutural do tendão presente. 2.2.3.2 Bainhas sinoviais Algumas áreas dos tendões – como as que cobrem ossos salientes ou as que se encontram em espaços muito confinados – são protegidas por bainhas de tecido conjuntivo. As bainhas dos tendões são compostas por membrana sinovial, que, por sua vez, secreta líquido sinovial lubrificante, para que os tendões possam deslizar facilmente através delas. Uma vez que as bainhas tendíneas são compostas de estrutura sinovial, são alvo potencial de muitas doenças reumáticas autoimunesque cursam com sinovite. Como os locais onde existem bainhas tendíneas são naturalmente confinados e adversos, inflamações nessas estruturas produzem grande sintomatologia, com edema e dor local. O mais simbólico exemplo de tenossinovite nas doenças reumáticas autoimunes é a dactilite. Na dactilite, a bainha sinovial dos tendões dos flexores dos dedos fica inflamada, produzindo eritema e edema exuberantes em um ou mais dígitos (Figura 2.4). O resultado final lembra uma salsicha, dando o curioso nome do achado propedêutico de dedo “em salsicha”. Figura 2.4 - Dedo “em salsicha” ou dactilite no segundo pododáctilo direito Fonte: ABC of Rheumatology, 2009. Tenossinovites também ocorrem por processos mecânicos, geralmente por movimentos repetitivos com angulação inadequada – por posturas viciadas ou fraqueza e descondicionamento muscular. O mais trivial exemplo de tenossinovite mecânica é a tenossinovite de De Quervain. Trata-se de tenossinovite do primeiro compartimento dorsal dos quirodáctilos, acometendo o abdutor longo e o extensor curto do polegar (Figura 2.5). É comum em mulheres de 30 aos 50 anos, associada a gestação, puerpério ou movimentos repetitivos. Eventualmente, pode-se identificar, na história, movimentos com o polegar repetitivos como punho em desvio radial ou ulnar. A dor geralmente é referida na base do polegar e se confunde com a dor por rizartrose. Figura 2.5 - Localização dos tendões do extensor curto do polegar e do abdutor longo do polegar, bem como as suas bainhas sinoviais Nota: é na região das bainhas que ocorre a tenossinovite de De Quervain. Fonte: adaptado de ellepigrafica. 2.2.3.3 Ênteses A entese é a inserção de um tendão, ligamento, cápsula ou fáscia no osso. Essa ligação é estabelecida através de um gradiente estruturalmente contínuo, do tendão não calcificado ao osso calcificado. As ênteses podem ser ainda descritas de acordo com o tipo de tecido presente no local de ligação esquelética, especificamente, tecido conjuntivo fibroso denso ou fibrocartilagem. As ênteses fibrosas se ligam diretamente ao osso ou periósteo, principalmente por meio de tecido fibroso, cuja estrutura é semelhante à do tendão. As ênteses fibrocartilaginosas se ligam ao osso através de uma camada de fibrocartilagem que atua como uma transição do tecido fibroso do tendão; essas ênteses, as mais prevalentes no aparelho locomotor, também se encontram em íntima relação com as sinóvias e bursas, de tal forma que, nos últimos anos, emergiu uma nova visão dessa estrutura insercional morfofuncional, denominada complexo sinovioentesial (Hochberg, 2019). Essa estrutura é particularmente vulnerável à autoimunidade, especialmente quando há disfunção Th17 e grande participação das IL-17, IL-22 e IL-23 – como no caso das espondiloartrites. #IMPORTANTE Presença de entesite inflamatória no contexto de autoimunidade sugere fortemente pertencimento ao grupo das espondiloartrites. As condições mecânicas são de grande importância igualmente, uma vez que as ênteses têm um papel fundamental na transição de forças do músculo ao osso e estão sujeitas a uma carga bastante grande de energia, estando, portanto, sob risco de adoecimento. As entesopatias envolvem distúrbios mecânicos que ocorrem por estresse repetitivo na região da inserção. Histologicamente, caracterizam-se por proliferação celular e desorganização da matriz extracelular, com grau geralmente pequeno de inflamação. A sintomatologia do paciente provavelmente se deve à sinalização por alarminas e neuromediadores dolorosos (Hochberg, 2019). Uma entesopatia mecânica bastante frequente é aquela relacionada ao compartimento flexor dos pés, envolvendo a fáscia plantar e a sua entese, denominada fasciite plantar. Trata-se de uma condição universal, altamente prevalente – cerca de 10% em algum momento da vida (Hochberg, 2019) –, que acomete indivíduos sedentários e ativos, e que se manifesta com dor na face plantar do calcanhar, descrita como pior na primeira pisada do dia. Pode ser tratada com reabilitação após identificação do fator desencadeante, geralmente relacionado ao ângulo da pisada do paciente ou à flexibilidade do compartimento posterior da perna. 2.2.3.4 Bursas As bursas são sacos fechados ou parcialmente fechados – pois podem drenar para dentro da cavidade articular – que ocupam o espaço entre alguns tecidos e permitem o deslizamento adequado entre as estruturas ao longo do movimento (West, 2015). São compostas de membrana sinovial e, portanto, são preenchidas com pequenas quantidades de líquido sinovial secretado pelos sinoviócitos. As bursas em sua condição fisiológica são raramente palpáveis, mesmo quando em topografia superficial, pois possuem paredes finas e pouca quantidade de líquido interno. Quando há inflamação, contudo, é comum que apresentem graus variáveis de distensão, com grande acúmulo de líquido interno e espessamento da membrana. As bursites de origem mecânica são desordens muito prevalentes na prática clínica, acometendo especialmente atletas, obesos, idosos e indivíduos altamente sedentários. Decorrem de movimento traumático repetitivo e perda da ergonomia cinética por desbalanço, fraqueza ou descondicionamento muscular. Os sítios mais comumente acometidos incluem as bursas do ombro (Figura 2.6), a bursa trocantérica do quadril (Figura 2.7), a bursa do olécrano e a bursa anserina (Figura 2.8). Figura 2.6 - Bursas do ombro (subacromial e subdeltóidea) e sua relação com as demais estruturas Fonte: adaptado de Alila Medical Media. Figura 2.7 - Bursas do quadril e suas relações anatômicas Fonte: adaptado de medicalstocks. Figura 2.8 - Relação da bursa anserina com os tendões musculares da perna Fonte: adaptado de Aksanaku. As bursites inflamatórias ocorrem em uma infinidade de síndromes clínicas, que incluem artropatias autoimunes, doenças sistêmicas do tecido conectivo (especificamente a polimialgia reumática), infecções (piogênicas e micobacterianas) e doenças por deposição de cristais. Bursites primárias (isto é, de origem mecânica) superficiais, como a bursite olecraniana e a bursite calcânea, podem cursar com intensa flogose cutânea, e, apesar de serem benignas e geralmente autolimitadas, fazem diferencial com infecção piogênica. Na última, geralmente há outros sinais indiretos de infecção sistêmica; ao passo que o estado geral do paciente com bursite primária é quase sempre normal. 2.2.3.5 Demais estruturas mecânicas Outras estruturas menos relacionadas com as doenças reumáticas, mas igualmente importantes ao movimento, compõem o aparelho locomotor e incluem ligamentos, meniscos, a porção fibrosa da cápsula articular, retináculos, aponeuroses e bandas fasciais. Os ligamentos são uma forma especializada de tecido conectivo, com fibras colagênicas predominantemente do tipo I altamente organizadas e alinhadas ao eixo do tecido, de forma a garantir grande resistência à tração. Unem ossos regionalmente relacionados e possuem função primordialmente de sustentação e estabilidade (West, 2015). As suas patologias geralmente envolvem mecanismo traumático. Os meniscos são estruturas circulares ou semilunares compostas de fibrocartilagem que ocupam algumas articulações sujeitas a forças oblíquas e rotacionais, como os joelhos, a articulação temporomandibular e a articulação acromioclavicular. A maior parte das doenças meniscais são traumáticas ou degenerativas. A porção fibrosa da cápsula articular é uma rede de colágeno denso e irregular que cobre externamente a membrana sinovial e a adere aos ossos. Possui função de sustentação e proteção articular. Os retináculos, as bandas fasciais e as aponeuroses são porções de tecido conectivo que surgem por prolongamento ou continuidade de outras estruturas como fáscias musculares ou ligamentos. Geralmente apresentam uma área de reorganização e eventual espessamento das fibras colagênicas, atribuindo à região uma função específica de sustentação ou compartimentalização. Algumas aponeuroses podem servir também como inserção para os músculos (como é o casodo latíssimo do dorso). Os retináculos mais significativos do ponto de vista clínico são aqueles que podem originar síndromes de aprisionamento, como o retináculo dos flexores no carpo – que pode comprimir o nervo mediano e originar a síndrome do túnel do carpo –, e o retináculo dos flexores do tarso – que pode comprimir o nervo tibial e causar a síndrome do túnel do tarso. A banda fascial mais importante para a prática clínica, por sua vez, é a banda iliotibial como prolongamento e reorganização das fibras da fascia lata. A sua disfunção, comum em corredores, pode ocasionar a síndrome do trato iliotibial, uma causa de dor em joelho lateroposterior. 2.3 SISTEMA ÓSSEO Os ossos são um tecido singular composto por estrutura colagênica mineralizada. Essa característica dá aos ossos a capacidade extremamente funcional de suportar gigantescas forças compressivas, tracionais, rotacionais e cisalhantes sem se romper, uma vez que possui a dureza da matriz inorgânica e uma relativa maleabilidade da matriz colagênica. A depender do grau de compactação do osso, ele pode ser dividido em osso cortical (altamente compacto, encontrado nos ossos longos do corpo) e trabecular (relativamente poroso e em contato com a medula óssea, encontrado especialmente nas vértebras e ossos planos). Existem doenças que aumentam proporcionalmente a matriz colagênica do osso, como a osteomalácia, e a matriz inorgânica do osso, como as hiperostoses. Curiosamente, ambas as situações cursam com fraturas de repetição. A porção orgânica do osso é composta pelas células residentes do osso e pela matriz colagênica, composta basicamente de colágeno tipo I; a matriz inorgânica, por sua vez, é composta especialmente de hidroxiapatita, um sal de fósforo e cálcio. As células residentes incluem os osteócitos, os osteoblastos e os osteoclastos. Os osteócitos são antigos osteoblastos que ficaram aprisionados no osso mineralizado e são os coordenadores do metabolismo ósseo (West, 2015). Se comunicam por canais com as demais células e são o grande orquestrador da resposta remodeladora; são capazes de detectar estresse mecânico através do efeito piezoelétrico e de detectar rupturas na integridade óssea. Na vigência de qualquer um desses processos, os osteócitos estimulam os osteoclastos a se ativarem e remodelarem o tecido ósseo mineralizado adjacente ao local de estresse ou ruptura. Esse processo garante que o osso velho e fissurado seja devidamente removido e abre espaço ao trabalho do osteoblasto. É pelo efeito piezoelétrico que se explica o aumento de massa óssea em indivíduos que praticam esportes de impacto. O efeito piezoelétrico ocorre devido às cargas iônicas carregadas pela estrutura inorgânica óssea, composta de íons de cálcio e fósforo. Uma vez que ocorre compressão óssea, cargas do interior do osso migram para a superfície, criando um potencial elétrico ao longo do osso e, por sua vez, um campo eletromagnético. Os osteócitos são células sensíveis às alterações de eletromagnetismo e migram no sentido da corrente, posicionando-se onde é necessária a reparação (Pawlikowski, 2017). Os osteoclastos são células derivadas de precursores hematopoéticos monocíticos e possuem a importante função de digerir o osso. Através de enzimas secretadas localmente, essa célula é capaz de gerar uma verdadeira lacuna de reabsorção, remodelando o osso e o deixando preparado para a ação formadora óssea dos osteoblastos. A ativação dos osteoclastos depende da sinalização por osteócitos (ou outras células inflamatórias, como linfócitos ativados, e também osteoblastos) através do RANKL (receptor activator of NF-kB ligand). Esta proteína de membrana dos osteócitos é capaz de se ligar ao RANK (receptor activator of NF-kB) na superfície dos osteoclastos inativados e imaturos. Uma vez que ocorre a ligação, diversos sinais intracelulares promovem a ativação e migração do osteoclasto, que pode iniciar o seu processo de remodelamento. #IMPORTANTE A via RANK é alvo, atualmente, de imunomodulação através de medicamentos imunobiológicos. A inibição da via RANK leva à inibição da ação dos osteoclastos e, portanto, inibição da reabsorção óssea. Os osteoblastos, por sua vez, são células derivadas do mesênquima, com função de produção óssea. São células pouco diferenciadas e com alto potencial de ação e de divisão. Como tal, são reguladas negativamente pelos osteócitos, que liberam substâncias como a esclerostina (scler). Quando ocorre uma lacuna de reabsorção, os osteócitos reduzem a sua produção de esclerostina e liberam os osteoblastos para produzirem matriz colagênica. A matriz colagênica que o osteoblasto produz precisará, ainda, ser mineralizada para se tornar osso maduro. A mineralização completa do tecido, orquestrada especialmente pelo osteócito, pode durar de 3 a 8 semanas (Melsen; Mosekilde, 1980). 2.4 SISTEMA MUSCULAR O corpo possui mais de 600 músculos que, juntos, constituem 40% da massa corpórea, em média (West, 2015). Devido ao escopo da obra, focaremos no músculo esquelético, que se relaciona ao aparelho locomotor. Mas existem, ainda, o músculo liso e o músculo cardíaco, que possuem algumas diferenças com relação ao metabolismo e à anatomia. As células musculares esqueléticas são enormes fibras alongadas, preenchidas com microfilamentos contráteis. Diversas células musculares unidas foram um fascículo muscular (Figura 2.9). Cada célula muscular recebe uma aferência de um neurônio motor e cada neurônio motor inerva diversas células musculares. Dentro de um mesmo fascículo, diversos neurônios motores participam da inervação das fibras. Figura 2.9 - Organização estrutural das fibras e fascículos no tecido muscular Fonte: adaptado de sciencepics. As fibras musculares são divididas conforme a sua função e, frequentemente, dentro de um mesmo fascículo, há várias fibras diferentes. As fibras podem ser amplamente classificadas em fibras tipo 1, relacionadas ao metabolismo mais oxidativo, ou fibras tipo 2, mais relacionadas ao metabolismo glicolítico. As fibras tipo 1 possuem muitas mitocôndrias em seu sarcoplasma (citoplasma da célula muscular) e se relacionam com as contrações prolongadas e os exercícios aeróbicos, utilizando como substrato energético, especialmente, os lipídios, através das reações da cadeia respiratória. Assim sendo, são fibras que necessitam de oxigênio amplamente disponível, dependendo da condição cardiorrespiratória do indivíduo para seu funcionamento adequado. As fibras tipo 2 são fibras com menor quantidade de mitocôndrias e maior disponibilidade de glicogênio. São fibras relacionadas especialmente com o metabolismo anaeróbio e produzem energia às custas de carboidratos, através de reações relacionadas à glicólise. Dependem pouco de suprimento de oxigênio e são ativadas nos exercícios de curta duração e alta intensidade (por exemplo, levantamento de peso). O treinamento físico é capaz de alterar a proporção e o tamanho das fibras (Coffey; Hawley, 2007), bem como características relacionadas ao metabolismo (como a eficiência mitocondrial) e à inflamação (Munters et al., 2016). A contração muscular, por sua vez, depende da interação entre os miofilamentos, que possuem capacidade de retração. Uma vez que ocorre um estímulo elétrico conduzido pela placa motora, ocorre aumento do influxo de cálcio para dentro do sarcoplasma, causando uma interação entre os filamentos de actina e miosina, o que provoca, por conseguinte, o encurtamento da fibra muscular. A hidrólise do ATP (adenosina trifosfatada), então, torna possível o desacoplamento entre os miofilamentos, permitindo que uma nova contração ocorra de maneira subsequente. A principal fonte primária de ATP para o músculo é a fosfocreatina que, através da ação da creatinofosfoquinase (CPK), doa um fósforo para o ADP (adenosina difosfato). A quantidade de creatina disponível no músculo é suficiente apenas para alguns ciclos de hidrólise de ATP, o que dura, geralmente, segundos a minutos. Após o “esvaziamento” da creatina, novas fontes de fornecimento de ATP passama ser necessárias, como a glicólise e a betaoxidação, geralmente nessa ordem. Para que esses processos metabólicos ocorram, porém, há o custo do consumo do glicogênio e dos lipídios musculares, a necessidade de aporte circulante de glicose e a disponibilidade de oxigênio. O músculo é capaz de se adaptar razoavelmente bem a essas variáveis, mudando o seu metabolismo preferencial a depender da oferta de cada elemento. Na vigência de fraqueza muscular, entender o momento da fraqueza (constante, no início do treino ou após alguns minutos de exercício) ajuda bastante a entender o mecanismo da doença e, portanto, o diagnóstico final dos pacientes com miopatias. As doenças musculares ocorrem por uma gama enorme de condições, como distúrbios genéticos, endócrinos, metabólicos, infecciosos, iônicos, autoimunes e degenerativos. Na Reumatologia, há grande importância em diferenciar se a queixa muscular apresentada pelo paciente representa mesmo lesão muscular. Como dito anteriormente, a presença de dor muscular é um achado promíscuo e não ajuda a, isoladamente, topografar patologia. Para que se faça diagnóstico de condição patológica propriamente muscular, é necessário que haja dor muscular localizada, com alterações álgicas ao exame físico compatíveis com as estruturas envolvidas, ou outros sinais de doença muscular difusa, como fraqueza, especialmente. A elevação de enzimas musculares também é um marcador ruim de doença quando vista isoladamente, sendo muito difícil a sua interpretação na vigência de dor muscular difusa e inespecífica. Dentro de uma unidade motora articular, quais são as estruturas de maior interesse nas doenças reumáticas? Intrinsecamente à articulação, as principais estruturas de interesse são: a cápsula articular, com a sua porção fibrosa externa e a sua porção sinovial interna, o espaço sinovial, a cartilagem articular e o osso subcondral. Externamente à articulação, são muito relevantes: os músculos e seus tendões, as bursas, as bainhas sinoviais dos tendões e as ênteses. Quais são as principais vias fisiopatológicas pelas quais se explicam as manifestações clínicas das doenças sistêmicas do tecido conectivo? 3.1 INTRODUÇÃO É provável que as Doenças Sistêmicas do Tecido Conectivo (DSTCs) sejam aquelas que mais se relacionam diretamente ao reumatologista. Dentre um vasto universo de condições que podem ser tratadas por diferentes especialistas, as DSTC geralmente são encaminhadas aos reumatologistas por seus colegas, dada a inexorável identificação que se faz entre essa entidade clínica e a especialidade. Essas condições ganham nomes diversos como doenças do colágeno, conectivopatias, colagenoses, doenças reumáticas sistêmicas, entre outros, e são prontamente identificadas pelo acometimento precoce e marcante de múltiplos órgãos e sistemas. Além do caráter inflamatório difuso que parece acompanhar os pacientes com DSTCs, nota-se um comportamento patológico da matriz extracelular dos diversos órgãos e tecidos acometidos, que apresenta resposta insuficiente, ineficaz e frequentemente inadequada ao ataque sofrido, culminando, em última análise, em uma reparação tecidual inapropriada que gera distúrbios clínicos tão comuns aos pacientes com essas moléstias, como o fenômeno de Raynaud (caracterizado por uma resposta vasomotora anormal, capaz de gerar distúrbios de perfusão cutânea), a calcinose (deposição de cálcio nos tecidos) e a fibrose visceral. Seria presunçoso que nesta obra se tentasse esmiuçar em detalhes os mecanismos envolvidos na origem destes distúrbios inflamatórios e reparadores, até mesmo porque a ciência ainda os desconhece em sua maioria. Contudo, a compreensão de uma maquinaria imune básica, especialmente no que se refere ao sistema imune adaptativo, já é capaz de esclarecer em muitos aspectos a correlação clínico- fisiopatológica que os pacientes apresentam, permitindo que o estudo das DSTCs não se torne mera memorização de autoanticorpos, permeada por um mundo de aleatoriedades em que tudo pode ser tudo. 3.2 AS GRANDES VIAS FISIOPATOLÓGICAS Na essência da compreensão da fisiopatologia das DSTCs se encontra o sistema imune em seu funcionamento fisiológico. Uma elegante e complexa circuitaria garante que fragmentos de patógenos sejam apresentados aos linfócitos T e que uma resposta altamente específica e eficaz seja disparada, dirigida contra o invasor em questão. Na saúde, a resposta imune é impressionantemente competente, no sentido de se iniciar somente quando ocorre infecção, atacar primordialmente o patógeno – minimizando os danos colaterais – e findar tão logo ocorra neutralização do hóspede, com cicatrização adequada e retorno à homeostase. Pormenores destas vias podem ser vistos no capítulo Noções gerais de imunologia. Na doença, contudo, entende-se que uma ou mais vias da resposta linfocitária estão permanentemente excitadas, gerando uma resposta contra o self que os mecanismos de controle não conseguem suplantar. Mesmo na ausência de patógenos que justifiquem uma resposta inflamatória, o sistema imune mantém um ambiente hostil, gerando dano e reparação inadequada. As seções seguintes abordarão as principais vias doentes nas DSTCs. As doenças autoimunes em geral são assim chamadas por apresentarem disfunção primariamente na imunidade adaptativa. Doenças relacionadas à imunidade inata são chamadas autoinflamatórias. 3.2.1 Formação de imunocomplexos A via mais relacionada com manifestações mais rapidamente letais nas DSTCs é a via imune que envolve produção exagerada de anticorpos e formação de imunocomplexos. Como visto no capítulo Noções gerais de imunologia, as vias relacionadas à IL-6 e à IL-21, ou seja, as vias Th17 e Tfh, são capazes de induzir os linfócitos T helperl a ativar os linfócitos B. Em uma situação fisiológica, o linfócito T teria reconhecido, por uma APC (antigen presenting cell), um patógeno e estaria sinalizando ao linfócito B circulante e folicular a produzir anticorpos contra este patógeno, visando a sua opsonização e neutralização, seja por fagócitos ou pelo sistema do complemento. Na autoimunidade, porém, não há patógeno circulando – ao menos não continuamente –, mas a via Th17 se mantém perenemente estimulada. Diversos mecanismos são propostos para explicar essa autoestimulação inapropriada, envolvendo mecanismos genéticos – como polimorfismos no HLA que o tornam mais autorreagente (Barcellos et al., 2009) – e também ambientais – como infecções virais (James; Robertson, 2012) –, mas, na prática, o que se nota é uma produção inconveniente de anticorpos, sendo muitos deles frequentemente autorreativos – ou seja, que reconhecem partículas do próprio hospedeiro. Tão logo um anticorpo encontre o seu alvo, ocorre ligação entre as moléculas e, posteriormente, ataque do sistema imune direcionado ao material opsonizado. Se a partícula alvo do anticorpo se encontrar nos tecidos, o resultado será recrutamento de células inflamatórias em sua direção com consequente ataque tecidual. Este mecanismo leva a um perfil de lesão semelhante ao que veremos na próxima seção. Se a partícula alvo for circulante, todavia, os anticorpos formarão com os antígenos apropriados um complexo antígeno-anticorpo conhecido como imunocomplexo. Os imunocomplexos são elementos relativamente pequenos do ponto de vista molecular, de tal modo que possuem uma tendência a impactar na circulação terminal. Uma vez depositados, os imunocomplexos rapidamente atraem a resposta imune através das frações Fc das imunoglobulinas, que não só são alvos diretos para fagócitos, mas também são capazes de iniciar a cascata do complemento pela via clássica. A ativação e posterior clivagem sequencial das frações do complemento atuam como elementos quimiotáxicos para novos fagócitos e linfócitos, amplificando a resposta imune; ademais, a propagação da cascata do complemento se amplifica até a formação do complexo de ataque à membrana, causando destruição celular direta. Considerando que este efeito ocorre na circulação terminal, o efeito prático será a destruição dovaso sanguíneo no local onde ocorre a deposição do complexo, com extravasamento de hemácias nas adjacências e cessação da nutrição à jusante. O sofrimento tecidual decorrente da falta de suprimento sanguíneo irá causar as manifestações clínicas esperadas, especialmente a disfunção orgânica (como, por exemplo, a neuropatia secundária às vasculites), e a saída de hemácias do vaso preencherá os espaços em volta dos vasos, causando micro- hemorragias (por exemplo, na púrpura palpável cutânea). Quando os vasos se comunicam com espaços virtualmente em contato com o ambiente externo, como ocorre no pulmão ou nas vias urinárias, o resultado clínico será perda sanguínea para o meio ambiente, ou seja, hemorragia propriamente dita (como no caso da hemorragia alveolar). O mecanismo mediado por deposição de imunocomplexos gera principalmente sintomas de vasculite. Outra faceta fisiopatológica importante nas condições com grande circulação de autoanticorpos é a tendência a trombose. Este mecanismo pode ser explicado por diversas vias: a) A ativação das vias do complemento contribui para a ativação, por múltiplas vias, das cascatas de coagulação; b) Fagócitos ativados são capazes de expressar fator tecidual; c) Endotélio lesado (pelos imunocomplexos) é capaz de ativar a coagulação; d) Determinados autoanticorpos inibem substâncias fisiologicamente anticoagulantes, como a beta-2-glicoproteína I (Giannakopoulos; Krilis, 2013). A tendência trombótica destas condições é levada ao extremo na síndrome antifosfolípide, como será abordado posteriormente. Resumindo, no polo da deposição dos imunocomplexos, a principal manifestação clínica observada será vasculite de pequenos vasos, com todas as suas repercussões que discutiremos adiante. 3.2.2 Ativação linfocitária Na presença de germes invasores, o mecanismo efetor final mais eficaz para a destruição e limpeza dos patógenos é justamente aquele composto pelos fagócitos e linfócitos citotóxicos. No caso dos germes extracelulares, o efetivo controle da infecção depende muito de uma presença eficaz destas linhagens do sistema imune e a IL-6 e a IL-17 – e, em menor grau nas DSTCs, o interferon e o TNF (tumoral necrosis factor) – são essenciais para coordenar esta reposta. A via auxiliar linfocitária Th17 é a responsável por polarizar o linfócito para esta finalidade. Contudo, na doença autoimune, a persistência da via Th17 – e em menor proporção da via Th1 – faz com que fagócitos fiquem permanentemente em estado de ativação, buscando partículas opsonizadas, fagocitando células nas imediações e secretando enzimas proteolíticas. O resultado será a efetiva invasão tecidual pelas células inflamatórias, com lesão tissular e destruição celular associada. Como este mecanismo fisiopatológico cursa com ataque direto aos tecidos – em contraposição ao ataque a distância, quase secundário, que acontece no polo dos imunocomplexos –, pode-se imaginar que, neste espectro, os pacientes apresentarão inflamação estrutural, geralmente denominada pelo sufixo “ite”, como é o caso das sinovites, miosites, dermatites, entre outras. De maneira geral, os pacientes com DSTC possuem ao menos um órgão ou sistema acometido por este polo, sendo o mecanismo fisiopatológico mais comum e, felizmente, menos grave do que os demais mecanismos – ao menos na maior parte das vezes, visto que alguns pacientes podem cursar com inflamação muito refratária. 3.2.3 Regeneração inadequada Dentro de um cenário fisiológico, a ativação das células produtoras de matriz extracelular, como o fibroblasto, é desejável e necessária para o reparo celular. Contudo, uma singularidade das DSTCs é justamente o comportamento aberrante destas vias frente à inflamação. Seja porque células da matriz estão constantemente sendo reativadas pelas vias inflamatórias, seja porque respondem de maneira exagerada ao estímulo inicial, uma via comum das DSTCs é a deposição inadequada e, por vezes, quase de característica tumoral do colágeno e de outras substâncias a ele relacionadas nos órgãos e tecidos. O efeito final do ponto de vista clínico é a fibrose e o espessamento tecidual vistos em pulmão, pele, subcutâneo, vasos e submucosa dos pacientes com conectivopatias. Esses elementos são comuns a todas as DSTCs, mas se expressam em maior ou menor grau dependendo da doença em questão e de elementos multifatoriais do paciente. A principal via fisiopatológica que distingue as doenças sistêmicas do tecido conectivo das demais doenças autoimunes reumáticas é a via da regeneração inadequada. Nas seções a seguir, os fenótipos clínicos das DSTCs estão divididos didaticamente de acordo com as suas manifestações clínicas mais singulares, levando em conta os espectros fisiopatológicos descritos anteriormente. 3.3 DOENÇAS DO ESPECTRO DOS IMUNOCOMPLEXOS 3.3.1 Lúpus eritematoso sistêmico Uma das doenças mais importantes dentro do grupo das DSTCs é o Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES). Trata-se de uma doença de manifestação altamente polimórfica e sistêmica, com acometimento de virtualmente qualquer órgão do corpo. 3.3.1.1 Etiologia Do ponto de vista etiológico, diversos estudos tentaram definir o panorama genético que permeia os pacientes com essas facetas clínicas. Sabe-se que o LES é uma doença de perfil genético polimórfico e poligênico, ou seja, diversos genes, não necessariamente mutantes ou patológicos por si só, contribuem para um resultado final que passa, obrigatoriamente, por desencadeantes epigenéticos – aqueles processos que se relacionam com a expressão gênica em última análise, mas que não são determinados pela sequência do DNA – e ambientais. Os fatores genéticos mais bem estudados compreendem mutações e polimorfismos no HLA, em frações do complemento – ou em proteínas que promovem seu clearance – e em fatores de transcrição (Rullo; Tsao, 2013). Como em todas as doenças autoimunes reumatológicas, geralmente é necessário um gatilho ambiental que inicie a aberrância imunológica que se perpetua. No caso do LES, infecções pelo vírus Epstein-Barr (James; Robertson, 2012) têm sido frequentemente atribuídas ao desenvolvimento da autoimunidade, bem com a exposição à luz ultravioleta (UV), que é capaz de estimular a produção de interleucinas inflamatórias e estimular a expressão de ribonucleoproteínas na membrana dos queratinócitos – aumentando, assim, a eventual exposição antigênica de alvos potenciais para os autoanticorpos do LES. Ademais, a prevalência absolutamente preponderante do sexo feminino levanta suspeita sobre o papel do estrogênio na fisiopatogênese. É fato que a exposição estrogênica aumenta a possibilidade de exposição de antígenos aos linfócitos e reduz a imunotolerância relacionada aos linfócitos B (Cohen-Sohal et al., 2006), um mecanismo que certamente contribuiria para a produção de anticorpos tão importante na patogênese da doença. Interessantemente, homens com síndrome de Klinefelter (genótipo XXY) possuem risco relativo muito aumentado para desenvolvimento de LES quando comparados aos demais indivíduos saudáveis, sugerindo um papel inclusive de genes localizados no cromossomo X na etiologia da conectivopatia. Por fim, a ocorrência de manifestações fenotipicamente semelhantes ao LES em pacientes em uso de determinadas drogas, como a hidralazina, a procainamida, a isoniazida, a metildopa ou os anti-TNF, também sugere uma eventual participação de substâncias químicas na patogênese. Nesta situação, habitualmente se usa a denominação lúpus induzido por drogas ao invés de lúpus eritematoso sistêmico (ver adiante). Fatores relacionados ao desenvolvimento de lúpus eritematoso sistêmico incluem infecções por vírus, radiação UV, exposição estrogênica e uso de medicamentos. 3.3.1.2 Epidemiologia O LES possui prevalência estimada de 0,1% e é predominantemente uma doença de mulheres jovens, na menacma. Mais de 80% dos pacientes terão entre 14 e 50 anos. Homens costumam apresentar doença um pouco mais tardiamente, mas na maioria das faixas etárias a relação entre sexos é de, pelo menos, 8 mulheres para cada homem,chegando a 15:1 em adultos jovens. Na faixa juvenil (ou seja, menos de 16 anos), a doença tende a ser mais agressiva, com maiores taxas de nefrite e manifestações hematológicas. A doença também é mais frequente e mais agressiva em afrodescendentes, com maior chance de evolução para doença renal grave e quadros neurológicos. 3.3.1.3 Manifestações clínicas O LES apresenta manifestações clínicas universais e comuns a todas as desordens inflamatórias ou autoimunes, que representam a ativação imune de maneira lato sensu. Essas manifestações não diferenciam as grandes síndromes reumatológicas e por vezes se confundem, inclusive, com desordens infecciosas, hormonais ou neoplásicas. São exemplos desses sintomas inespecíficos: fadiga, febre, perda ponderal, hiporexia, mialgia e mal-estar em geral. Como todas as DSTCs, o LES apresenta manifestações em todos os polos fisiopatológicos discutidos anteriormente, mas é na deposição de imunocomplexos que se encontram as manifestações que melhor simbolizam o LES, como a nefrite, sendo as demais manifestações simplesmente comuns às demais conectivopatias autoimunes. Para a compreensão do mecanismo patológico das manifestações do polo da deposição de imunocomplexos, é preciso sempre se ter em mente que, nesta situação, o LES se comporta exatamente igual a uma vasculite primária de pequenos vasos. Ou seja, as manifestações clínicas serão decorrentes de sofrimento tecidual e orgânico por oclusão microvascular ou por extravasamento de hemácias após a lesão dos pequenos vasos e capilares. A seguir se encontram as principais manifestações decorrentes principalmente deste mecanismo fisiopatológico. a) Nefrite lúpica A nefrite lúpica decorre da deposição de imunocomplexos no aparelho glomerular e da adaptação renal que ocorre secundária a este processo. Em geral, a presença de imunocomplexos gera inflamação e destruição das estruturas glomerulares e subsequente expansão de matriz extracelular colagênica – com finalidade de reparação –, com alteração da arquitetura local e da sua função. O local do aparelho glomerular no qual ocorre a deposição é o principal fator que determinará o impacto final na função renal. Nas situações mais brandas, ocorre deposição de imunocomplexos na célula mesangial e adjacências, sem grande acometimento da região entre os capilares e a membrana basal, influenciando pouco na função renal e no sedimento. Tratam-se das classes I (lesões mesangiais mínimas, só vistas em microscopia eletrônica ou imunofluorescência) e II (mesangial proliferativa) de nefrite. Nas situações nas quais ocorre deposição, inflamação e proliferação celular na região subendotelial dos capilares, há destruição da interface de filtração glomerular, causando grande impacto na função e no sedimento. Tratam-se das classes III (proliferativa focal, quando menos de 50% dos glomérulos são acometidos) e IV (proliferativa difusa, quando mais de 50% dos glomérulos são acometidos), as formas mais comuns de nefrite por LES. Na classe V (membranosa), a deposição de imunocomplexos na membrana basal a estimula a proliferar, tornando-a espessada e disfuncional, sem haver, no entanto, grande inflamação local. Perdem-se as propriedades físicas e eletromagnéticas típicas da membrana e escapam grandes quantidades de proteínas, sem, contudo, haver outras alterações de sedimento. Por fim, na classe VI (esclerosante), há apenas arquitetura esclerótica (Weening et al., 2004). É o estado terminal, no qual predomina o estágio de regeneração fibrótica em detrimento de inflamação propriamente dita. Sedimento urinário rico com proteinúria elevada é o achado mais frequente e em geral simboliza uma classe proliferativa (III ou IV); proteinúria elevada com sedimento pobre geralmente simboliza classe V. Aproximadamente metade dos pacientes com LES terão lesão renal em algum momento da doença, sendo uma das principais causas de morbidade e mortalidade. O quadro clínico é de hipertensão e perda de função renal de evolução subaguda a crônica (semanas a meses), com suas repercussões características (distúrbios acidobásicos e eletrolíticos, uremia e edema). O sedimento urinário é de grande importância no diagnóstico, mostrando hematúria com cilindros (particularmente eritrocitários) e proteinúria (geralmente > 0,5 g em 24h). Nos exames laboratoriais, deve-se atentar para níveis baixos de C3 e C4 – expressando a via de deposição de imunocomplexos e ativação do complemento – e para eventuais emergências renais. Um anticorpo que pode marcar atividade renal atual é o anti-DNA. O diagnóstico confirmatório de nefrite por LES é anatomopatológico. A biópsia renal tem sido cada vez mais indicada, pois auxilia em eventuais diferenciais (como, por exemplo, concomitância de doença trombótica renal), classifica e estadia a doença renal, sendo segura e com baixa taxa de complicações. O American College of Rheumatology indica biópsia se houver qualquer um dos seguintes (Hahn et al. 2012): a) Aumento de creatinina sérica sem outras causas; b) Proteinúria > 1 g/24h; c) Combinações dos seguintes, dado que foram confirmados em ao menos 2 amostras separadas e sem outras causas aparentes: Proteinúria > 0,5 g/24h mais hematúria; Proteinúria > 0,5 g/24h mais cilindros celulares. Os principais diagnósticos diferenciais a serem considerados nos pacientes com LES e disfunção renal incluem causas mais comuns de lesão renal, como comorbidades (exemplos: hipertensão arterial ou diabetes), uso de medicações exemplo: anti-inflamatórios), infecções (no contexto de sepse) e nefropatia trombótica. Contudo, não se espera glomerulonefrite nesses contextos. A suspeita clínica de glomerulonefrite sugere fortemente um quadro vasculítico; diferenciais neste caso incluem basicamente infecções (HIV, hepatite B, hepatite C e endocardite infecciosa) e concomitância com glomerulonefrite primária. Os seguintes exames laboratoriais são relevantes na suspeita de nefrite lúpica, de acordo com cada grupo laboratorial: 1. Renal: a) Relação proteína/creatinina (urina isolada); b) Proteinúria 24h; c) Sedimento urinário; d) Potássio; e) Sódio f) Creatinina; g) Ureia. 2. Autoimune: a) C3; b) C4; c) FAN; d) Anti-Sm; e) Anti-DNA; f) Anticardiolipinas; h) Anticoagulante lúpico; i) Antibeta-2-glicoproteína I; j) Anti-Ro; k) Anti-La. 3. Infeccioso: a) Sorologias (mono-like, arbovírus, sífilis, HVC, HIV, HVB, leptospirose); b) Hemoculturas. 4. Neoplásico: eletroforese de proteínas. b) Lúpus neuropsiquiátrico Existem 2 padrões de lesão que acometem o sistema nervoso dos pacientes com LES. Pode ocorrer vasculite de vasos que nutrem determinadas estruturas neurais, ocasionando síndromes isquêmicas e neuropáticas; e podem ocorrer ataques diretamente direcionados aos neurônios e células gliais, simbolizando mais o polo do ataque tecidual e celular da ativação linfofagocitária e causando, por sua vez, quadros neurológicos difusos, como alterações de comportamento ou síndromes epileptiformes. A primeira via costuma ser associada a quadros mais graves, com chance maior de sequela prolongada. O LES neuropsiquiátrico ocorre por vasculite, com sintomas focais, ou neuronite, com sintomas difusos. Aproximadamente 40% dos pacientes com LES irão desenvolver algum quadro neurológico em sua história. De maneira geral, pacientes com anticorpos antifosfolípides positivos possuem risco aumentado de evoluir com manifestações neurológicas, presumivelmente pela tendência à oclusão vascular inerente. As manifestações mais comuns são aquelas relacionadas a neuronite, especialmente síndromes epileptiformes e psicose. Pacientes com quadros vasculíticos apresentarão mais frequentemente síndromes isquêmicas – como se fosse um acidente vascular encefálico –, com a ressalva de que serão tipicamente multifocais. O acometimento de medula é possível, apresenta-se como uma paraparesia com nível medular, e simboliza uma importante urgência reumatológica. Ademais, muitos pacientes em atividade evoluem com quadros de sistema nervoso periférico, como mononeurite múltipla (acometimentoisquêmico por vasculite do vasa nervorum, com falha de diversos nervos em territórios diferentes e distantes) e polineuropatia (por ataque axonal direto). Pacientes com mononeurite múltipla frequentemente possuem um quadro sensitivo-motor assimétrico em 1 ou mais membros; pacientes com polineuropatia, por sua vez, geralmente possuem um quadro exclusivamente sensitivo ou sensitivo-motor de característica simétrica (de membros superiores ou membros inferiores), sem respeitar territórios neurais (acometendo, por exemplo, em bota ou luva). Além do exame físico, a eletroneuromiografia é o exame de escolha para diferenciar esses quadros quando a propedêutica por si só não é suficiente. A ocorrência de cefaleia no lúpus é um evento frequente e alguns autores defendem que pode simbolizar manifestação autoimune. Contudo, de maneira geral, pacientes com LES que evoluem com cefaleia devem ser avaliados exatamente como os demais pacientes com esta entidade, sendo que, na imensa maioria dos casos, tratar- se-á de doença primária (tensional ou migrânea). Cefaleia de origem inflamatória pode ocorrer, mas diversos estudos observacionais demonstraram que, neste caso, virá quase sempre acompanhada de outros sinais nítidos de atividade, como serosite, artrite e dermatite. Lúpus isoladamente de sistema nervoso é pouco provável. Se não vier acompanhado de sintomas de outros sistemas, outros diagnósticos devem ser pesquisados (como infecção, quadro psiquiátrico ou funcional). O diagnóstico do acometimento neurológico pelo LES se baseia em uma história bem obtida, um exame físico com definição topográfica e frequentemente alguns exames – que se prestam mais a confirmar a topografia e afastar diferenciais – que incluem: a) Ressonância magnética de neuroeixo (capaz de afastar entidade infecciosa, como encefalites virais ou abscessos); b) Eletroencefalograma (nos casos de síndromes epilépticas); c) Eletroneuromiografia (quando houver dúvida sobre o padrão da neuropatia); d) Análise de liquor – que frequentemente é obtida e demonstra normalidade ou proteinorraquia desproporcional ao frustro aumento celular, glicose normal e culturas, imunoensaios e microscopia direta negativas para vírus, bactérias e fungos. Do ponto de vista sorológico, o anticorpo anti-P ribossomal é associado a lúpus em atividade, especialmente do ponto de vista neurológico, e pode vir positivo em uma porcentagem pequena dos pacientes e oscilar conforme atividade. Alguns autores sugerem que possa ser uma ferramenta viável de monitorização, mas este conceito é questionável. Os seguintes exames laboratoriais são relevantes na suspeita de LES neuropsiquiátrico, de acordo com cada grupo laboratorial: 1. Iônico: a) Sódio; b) Cálcio; c) Magnésio. 2. Autoimune: a) C3; b) C4; c) FAN; d) Anti-Sm; e) Anti-DNA; f) Anticardiolipinas; g) Anticoagulante lúpico; h) Antibeta-2-glicoproteína I; i) Anti-Ro; j) Anti-La; k) Anti-P ribossomal. 3. Infeccioso: a) Sorologias (sífilis, HIV, herpes-simples); b) Hemoculturas. 4. Hormonal: TSH; 5. Liquor: a) Celularidade; b) Glicose; c) Proteína; d) Bacterioscópico; e) Cultura; f) Imunoensaios. 6. Renal: ureia; 7. Hepático: a) Coagulograma; b) Albumina; c) Bilirrubinas. Os diagnósticos diferenciais do LES neuropsiquiátrico envolvem especialmente infecções com comprometimento de sistema nervoso central (seja primário ou secundário, na forma de delirium), quadros metabólicos (disfunções orgânicas e disfunções endócrinas) e iônicos (especialmente distúrbios do sódio, cálcio e magnésio), distúrbios hemostáticos com sangramento e disfunções perfusionais (como hipertensão ou hipotensão). Uma entidade que vem ganhando importância nos últimos anos e que pode fazer diagnóstico diferencial com LES neurológico é a síndrome da leucoencefalopatia posterior reversível. Mais comumente chamada de PRES, decorre de extravasamento capilar funcional mais comumente nas regiões posteriores dos hemisférios cerebrais, pode vir ou não acompanhado de hipertensão, e decorre, principalmente, mas não exclusivamente, de elevação abrupta pressórica, eclâmpsia ou uso de imunossupressores. O quadro clínico envolve cefaleia, distúrbios visuais e convulsões, sendo totalmente – ou quase totalmente – reversível após a retirada do fator desencadeante – desde que o paciente não apresente complicações dos eventos neurológicos (como sangramentos ou iatrogenias). c) Citopenias A ocorrência de anticorpos e imunocomplexos circulantes pode ocasionar a opsonização de células hematopoéticas da corrente sanguínea, culminando com a sua destruição ou remoção pelo sistema reticuloendotelial. Mais comumente, os alvos deste processo no LES são os linfócitos, de tal modo que a maioria dos pacientes com LES se apresentam com algum grau de linfopenia. Em geral, a linfopenia é de pequena monta e não requer tratamento específico. Por vezes, as hemácias ou mesmo os neutrófilos são alvos deste processo, mas, da mesma maneira, raramente há destruição maciça que requeira abordagem mais agressiva. Quando o alvo passa a ser a plaqueta, contudo, por mecanismos pouco compreendidos, pode haver rápido declínio plaquetário, colocando o paciente em risco de sangramento. O quadro clínico de plaquetopenia pode ser ou não sintomático, sendo que sintomas geralmente aparecem com plaquetas < 30.000/ L. Quando presentes, geralmente são expressos por sangramentos de mucosa, alterações de ritmo menstrual, petéquias e, menos frequentemente, equimoses extensas e hemorragias de fato. Alguns pacientes terão esplenomegalia discreta, simbolizando o sequestro das plaquetas opsonizadas. O diagnóstico de trombocitopenia é laboratorial, sendo sempre conveniente a dosagem em anticoagulantes diferentes (EDTA e citrato) e com contagem manual, para evitar erros de análise. Em geral, é considerada relevante para tratamento a plaquetopenia < 50.000/ L e relevante para complicações hemorrágicas aquela < 30.000/ L, sugerindo terapia mais agressiva. No diagnóstico da anemia, torna-se importante a diferenciação entre anemia de doença crônica, a mais comum no LES, e a anemia hemolítica, a mais preocupante. Isso pode ser feito com os exames para anemias hemolíticas: hemograma com leitura de esfregaço – que pode revelar esferócitos –, reticulócitos – normais ou elevados –, desidrogenase láctica (DHL) – elevada –, bilirrubinas – elevadas às custas de indireta –, haptoglobina (consumida) e teste da antiglobulina direto (Coombs) positivo. Na anemia de doença crônica, tornam-se importantes os reticulócitos reduzidos, a transferrina e a capacidade total de ligação de ferro reduzidas, a saturação de transferrina normal e a ferritina elevada. Mesmo com algum grau de hemólise – muito frequente na fase ativa do LES –, geralmente os níveis de hemoglobina não são preocupantes e o tratamento pode ser guiado pelas outras manifestações, sendo que a anemia vai melhorar com a melhora global. Hemólise extensa requer imunossupressão agressiva focada (ver adiante em tratamento). Síndrome de Evans: epônimo usado para se referir à ocorrência simultânea de anemia hemolítica e plaquetopenia por destruição imune. É rara no LES. Diagnósticos diferenciais relevantes se referem especialmente aos quadros infecciosos que possam cursar com plaquetopenia e anemia – como arboviroses e parvovirose – uso de medicamentos – como antibióticos, anti-inflamatórios não esteroidais e heparina –, deficiência de ferro, ácido fólico ou vitamina B12, microangiopatias trombóticas e neoplasias hematológicas. Como sempre, deve-se ter em mente que os pacientes com DSTC, em geral, apresentam constelações de sintomas em diferentes sistemas e apenas raramente sintomas isolados. Os seguintes exames laboratoriais são relevantes na suspeita das citopenias por LES, de acordo com cada grupo laboratorial: 1. Sangue: a) Hemograma; b) Coagulograma; c) Reticulócitos; d) Coombs; e) DHL; f) Haptoglobina; g) Bilirrubinas; h) Perfil de ferro; i) Plaquetas (EDTA e citrato); j) Ácido fólico; k) Vitamina B12. 2. Autoimune: a) C3; b) C4; c) FAN; d) Anti-Sm; e)Anti-DNA; f) Anticardiolipinas; g) Anticoagulante lúpico; h) Antibeta-2-glicoproteína I; i) Anti-Ro; j) Anti-La. 3. Infeccioso: sorologias (arbovírus, HIV, HVC, HVB, parvovírus). d) Hemorragia alveolar Quando imunocomplexos impactam nos capilares pulmonares pode haver capilarite com destruição dos vasos alveolares e extravasamento de sangue intra-alveolar. O resultado é um distúrbio de ventilação-perfusão, com comprometimento de trocas gasosas, agravado por eventual choque hipovolêmico. Exatamente como a descrição faz parecer, o quadro de hemorragia alveolar é dramático. Trata-se de uma complicação infrequente no LES, ocorrendo em aproximadamente 1,5% dos casos (Andrade et al., 2016). Os pacientes geralmente se apresentam com um quadro relativamente agudo de dispneia, tosse e hemoptise. Alguns pacientes terão concomitância do quadro pulmonar com o quadro renal (glomerulonefrite), sendo estabelecido, nestes casos, o diagnóstico de síndrome pulmão-rim. A ocorrência de síndrome pulmão-rim sugere fortemente vasculite de pequenos vasos. O diagnóstico de hemorragia alveolar requer dispneia com hipoxemia, acompanhada de infiltrado nos exames de imagem (radiografia ou tomografia) e, frequentemente, queda dos níveis de hemoglobina. Nem sempre a hemoptise ocorre, portanto, o diagnóstico deve ser ativamente pesquisado. Exames gerais para diagnóstico e diagnóstico diferencial de hemorragia alveolar serão descritos adiante. O diagnóstico definitivo de hemorragia alveolar é feito por lavagem broncoalveolar seriada, caracteristicamente mostrando um aumento sequencial na proporção hemorrágica do lavado. Reações para hemossiderina (como o azul da Prússia) também ajudam a demonstrar presença de sangue, mas não são exclusivas para hemorragia alveolar. As culturas e o bacterioscópico podem ser úteis para descartar infecções em um cenário no qual provavelmente ocorrerá imunossupressão intensiva. Os seguintes exames laboratoriais são relevantes na suspeita de hemorragia alveolar, de acordo com cada grupo laboratorial: 1. Sangue: a) Hemograma; b) Coagulograma; 2. Autoimune: a) C3; b) C4; c) FAN; d) Anti-Sm; e) Anti-DNA; f) Anticardiolipinas; g) Anticoagulante lúpico; h) Antibeta-2-glicoproteína I; i) Anti-Ro; j) Anti-La; k) ANCA; l) Crioglobulinas; m) Anticorpo antimembrana basal glomerular. 3. Infeccioso: a) Sorologias (influenza, citomegalovírus, leptospirose); b) Hemoculturas; c) Cultura (lavado); d) Bacterioscópico (lavado); e) Pesquisa de vírus (lavado); f) Pesquisa de P. jirovecii (lavado). 4. Cardíaco: BNP; 5. Pulmonar: gasometria; 6. Renal: a) Ureia; b) Creatinina; c) Sedimento urinário; d) Proteinúria 24h. O leque de diagnósticos diferenciais quando ocorre síndrome pulmão-rim é pequeno, ficando basicamente entre as vasculites sistêmicas de pequenos vasos. Quando ocorre apenas hemorragia alveolar, porém, o leque é amplo, até mesmo porque, nem sempre, sangramento pulmonar decorre de capilarite; outras causas de sangramento incluem extravasamento de sangue sem destruição capilar na hemorragia pulmonar branda, como é o caso de pacientes com insuficiência cardíaca ou distúrbios de hemostasia, ou o sangramento decorrente de destruição alveolar propriamente dita, como o representado pelo dano alveolar difuso que ocorre na síndrome do desconforto respiratório agudo. A diferenciação padrão-ouro, nestes casos, dar-se-á apenas pela biópsia pulmonar. Assim, múltiplas causas precisam ser consideradas, especialmente infecções (como pneumococo, pneumocistose, leptospirose, citomegalovirose e influenza), uso de drogas (especialmente alguns quimioterápicos, imunossupressores e cocaína inalada), distúrbios hemostáticos e insuficiência cardíaca. e) Vasculite cutânea As manifestações de LES decorrentes de deposição de imunocomplexos produzem sintomas que aproximam a conectivopatia das vasculites sistêmicas primárias de pequenos vasos. Assim, até 20% dos pacientes podem cursar com vasculite cutânea. A manifestação mais comum será a púrpura cutânea, uma lesão eritematosa, elevada, que não some à digitopressão. Os locais mais comumente afetados são as mãos (Figura 3.1) e a parte distal das pernas. Ulcerações podem ocorrer e demandam terapia mais agressiva. Na ocorrência de vasculite cutânea, diagnósticos infecciosos precisam ser afastados, eminentemente a endocardite infecciosa. Figura 3.1 - Vasculite palmar Nas subseções a seguir, passaremos às manifestações de LES mais relacionadas à ativação linfofagocitária com dano celular e tecidual direto. Em alguma medida, ao menos uma das manifestações deste grupo estará presente em virtualmente todos os pacientes com LES. Contudo, como se poderá observar, muitas destas manifestações são inespecíficas e comuns às demais DSTCs. f) Dermatite A infiltração da derme e epiderme por linfócitos e fagócitos produz os achados clínicos das diversas formas cutâneas de lúpus. Tanto o lúpus eritematoso sistêmico quanto o lúpus eritematoso cutâneo (restrito à pele) apresentam as mesmas lesões. O que diferencia as 2 entidades não é a presença ou ausência de autoanticorpos, mas, sim, a ocorrência de manifestações externas à pele. As lesões são classificadas em 3 grandes grupos de acordo com a cronicidade das lesões. À medida que ocorrem alterações irreversíveis, com regeneração patológica na histologia, como hiperqueratose e espessamento da membrana basal cutânea, progride a nomenclatura em direção à cronicidade. Embora no contexto de lúpus sistêmico o diagnóstico seja geralmente clínico, nas formas restritas à pele frequentemente é necessária a biópsia para estabelecimento da lesão e exclusão dos diferenciais. As principais formas de lúpus agudo são o rash malar (Figura 3.2), o eritema fotossensível e as formas bolhosas, que lembram formas atenuadas de necrólise epidérmica tóxica. O lúpus agudo ocorre em quase todos os pacientes (cerca de 90%), especialmente em áreas expostas à luz solar e costuma não deixar cicatrizes ao remitir. Os diferenciais importantes se referem às lesões faciais em área malar e perinasal, como a rosácea e a dermatite seborreica. O diagnóstico diferencial com rosácea pode ser desafiador, haja vista que a luz solar desencadeia ambos. Características mais relacionadas à rosácea são o acometimento do sulco nasolabial – quase sempre poupado no lúpus –, a exacerbação com cafeína, álcool ou trocas bruscas de temperatura, a ocorrência esporádica de pústulas e alterações fimatosas – lobulação e espessamento crônico da pele, mais frequentemente visto no nariz (Figura 3.3). Figura 3.2 - Eritema fotossensível na face de paciente lúpica, que compromete as regiões malares e o dorso do nariz (lesão “em asa de borboleta”) Fonte: Lúpus eritematoso cutâneo - Aspectos clínicos e laboratoriais, 2005. Figura 3.3 - Paciente com rosácea; há vesículas e formação fimatosa, ajudando a diferenciar do lúpus eritematoso Fonte: Cutaneous lesions of the nose, 2010. As principais formas de lúpus subagudo são o anular e o psoriasiforme (ou papuloescamoso). São lesões eritematosas e frequentemente descamativas, por vezes coalescentes, que se manifestam nas áreas fotoexpostas, especialmente ombros, pescoço, tórax superior e raízes dos membros superiores. O que diferencia as subformas é o perfil descamativo, sendo o psoriasiforme com descamação mais grosseira e homogênea, lembrando, de fato, a descamação da psoríase. Entre os diagnósticos diferenciais, os principais são a própria psoríase, dermatófitos, farmacodermia e linfoma cutâneo. Diferenciar as lesões do LES ativo com a dermatomiosite ativa pode ser desafiador. Uma dica é a cor da lesão: no LES, as lesões tendem a ser mais eritematosas; na dermatomiosite, adquirem uma tonalidade arroxeada. A intensidade da cor em ambas as condições é o principal parâmetro clínico de atividade de doença. Existem múltiplas lesões possíveis no lúpus eritematoso crônico. A mais comum é a forma discoide. Tratam-se de lesões arredondadas ou ovais, com borda eritematosa e descamativa, de evolução centrífuga, com o centro pálido e atrófico.A evolução do quadro quase invariavelmente deixa sequelas, com estabelecimento definitivo da atrofia, despigmentação e eventuais telangiectasias. As regiões mais acometidas são face, pescoço, pavilhão auricular, couro cabeludo e tórax superior (Figura 3.4). Figura 3.4 - Paciente com lúpus eritematoso sistêmico, lesões discoides e alopecia g) Mucosite e alopecia Assim como a pele, as mucosas podem ser alvo de inflamação no LES. A mucosite ocorre em aproximadamente metade dos pacientes e se manifesta na forma de úlceras orais indolores. Esta característica ajuda a diferenciar as lesões da maior parte dos demais diagnósticos que cursam com aftas orais, pois, em geral, estas lesões são extremamente dolorosas. A alopecia primária que ocorre no LES pode ser na forma de eflúvio telógeno, uma queda de cabelo difusa que acompanha a inflamação, ou na forma de alopecia frontal (lupus hair), ocorrendo especialmente na região da linha capilar. Na forma secundária, a alopecia é decorrente das lesões no couro cabeludo. Geralmente, nestes casos, será cicatricial. h) Artrite A artrite do lúpus decorre de invasão linfomonocítica da sinóvia ou de proliferação sinovial secundária às substâncias inflamatória circulantes. Alguns estudos anatomopatológicos demonstraram que frequentemente não há infiltrado inflamatório sinovial, demonstrando que a artrite é mais um processo secundário à inflamação no LES, diferente do que ocorre nas artropatias autoimunes (Grossman, 2009). Quase todos os pacientes com LES terão artralgia de algum grau em algum momento. Justamente pela característica secundária do acometimento, a artrite no LES raramente é exuberante. De fato, o mais comum é que os pacientes tenham apenas dor à palpação, sem o edema e calor vistos na artrite reumatoide, por exemplo. Os sítios mais comuns são os punhos, as articulações dos dedos e os joelhos, embora qualquer articulação sinovial possa estar dolorida. A rigidez matinal é menor do que nas artropatias autoimunes, mas a marcha inflamatória da dor – melhorar com a movimentação – costuma se manter. O acometimento periarticular do LES demonstra uma faceta curiosa das conectivopatias que é a desorganização regenerativa do tecido conectivo. Assim, tendões e ligamentos se apresentam distendidos ou retraídos, causando uma deformidade redutível conhecida como artropatia de Jaccoud (Figura 3.5). Figura 3.5 - Deformidade fixa no quinto quirodáctilo “em pescoço de cisne”, semelhante à da artrite reumatoide (o dedo permanece deformado), e não fixa (artropatia de Jaccoud) das metacarpofalangianas Legenda: (A) luxadas, com desvio palmar; (B) de volta à posição normal. O diagnóstico da artrite lúpica é totalmente clínico. As imagens tendem a ser normais, não havendo erosões, e os exames laboratoriais não necessariamente mostram elevação das provas de atividade inflamatória. Diferenciais incluem, na fase inicial, as artrites virais (especialmente por arbovírus, parvovírus ou vírus das hepatites com forma aguda), a endocardite infecciosa e proliferações neoplásicas hematológicas (linfomas e leucemias). Nas apresentações mais crônicas os diferenciais incluem infecções virais crônicas (hepatite C e HIV) e fibromialgia. Um resumo dos exames diferenciais se encontra adiante. Por fim, é preciso ter em mente, como dito anteriormente neste capítulo, que a presença de artrite é um achado promíscuo entre as doenças autoimunes. Sendo não erosiva, todas as DSTCs, vasculites e doenças inflamatórias da Reumatologia entram como possível diagnóstico diferencial, tornando impossível, apenas com esse achado, um diagnóstico único. Os seguintes exames laboratoriais são relevantes na suspeita de artrite lúpica, de acordo com cada grupo laboratorial: 1. Sangue: a) Hemograma; b) Coagulograma. 2. Autoimune: a) C3; b) C4; c) FAN; d) Anti-Sm; e) Anti-DNA; f) Anticardiolipinas; g) Anticoagulante lúpico; h) Antibeta-2-glicoproteína I; i) Anti-Ro; j) Anti-La. 3. Infeccioso: a) Sorologias (arbovírus, parvovírus, hepatites A, B e C, HIV); b) Hemoculturas. 4. Renal: a) Ureia; b) Creatinina; c) Sedimento urinário; d) Proteinúria 24h. i) Serosite Qualquer membrana serosa pode sofrer ataque linfofagocitário no LES, mas o pericárdio e a pleura são muito mais acometidos do que o peritônio. Acometimento pleural ocorre em 40% dos pacientes e pericárdico em 25% (Miner; Kim, 2014). Os sintomas são dor torácica ventilatoriodependente, tosse e dor ao decúbito dorsal. No exame físico, pode haver atritos à ausculta ou sinais de derrame cavitário. Quase sempre um paciente com derrame cavitário será puncionado, pois, no Brasil, há grande ocorrência de serosite por germes infecciosos (tuberculose e vírus). Derrames persistentes, por sua vez, a despeito do tratamento, devem ser avaliados para neoplasia. O líquido do derrame no LES é geralmente inflamatório, linfocítico, com proteínas aumentadas e glicose normal (ou muito pouco reduzida). O fator antinúcleo do líquido pode ser positivo. Os seguintes exames laboratoriais são relevantes na suspeita de serosites em geral, de acordo com cada grupo laboratorial: 1. Hepático: a) Albumina; b) Bilirrubinas; c) Coagulograma. 2. Autoimune: a) C3; b) C4; c) FAN; d) Anti-Sm; e) Anti-DNA; f) Anticardiolipinas; g) Anticoagulante lúpico; h) Anti-beta-2-glicoproteína I; i) Anti-Ro; j) Anti-La; k) Fator reumatoide. 3. Infeccioso: sorologias (enterovírus, HIV, herpes-simples/zóster); 4. Cardíaco: BNP; 5. Líquido cavitário: a) Bacterioscópico; b) Cultura; c) pBAAR; d) PCR/imunoensaios; e) DHL; f) Proteínas; g) Triglicérides; h) Colesterol; i) Albumina; j) Pesquisa de células neoplásicas; k) ADA. 6. Renal: a) Ureia; b) Creatinina; c) Sedimento urinário; d) Proteinúria 24h. O espectro da regeneração inadequada se expressa de maneira habitualmente branda no lúpus. É possível a ocorrência de pneumopatia intersticial, hipertensão pulmonar, valvopatia, esofagopatia e alterações de extremidades levando ao fenômeno de Raynaud ou mesmo espessamento discreto de pele nas falanges distais, por exemplo. A própria tendência à fibrose renal e atrofia cutânea, como no caso do lúpus discoide, representam, em alguma medida, os mecanismos patológicos de recuperação das lesões. Contudo, posto em perspectiva quando comparado ao protótipo da regeneração inadequada, que é esclerose sistêmica, provavelmente é o polo fisiopatológico menos importante no LES. 3.3.1.4 Diagnóstico O diagnóstico de lúpus deve ser pensado sempre que houver sintomas multissistêmicos, especialmente em mulheres na menacma. Os anticorpos são condição importante para o diagnóstico e, quando analisados pela ótica dos critérios diagnósticos, são essenciais. O fator antinúcleo (FAN) é o exame primordial e mais importante. A técnica do FAN envolve uma imunofluorescência indireta, que usa como substrato as células HEp-2 (uma linhagem de carcinoma humano, que garante alta taxa de replicação e, portanto, todas as fases do ciclo celular). A imunofluorescência marca os locais da célula que são alvo dos anticorpos. O padrão de positividade do FAN ajuda a sugerir qual anticorpo é o verdadeiramente responsável pela autoimunidade. O FAN é um exame de triagem e, após a visualização do seu padrão, solicitam-se os anticorpos compatíveis. Nas DSTC, será positivo na maioria dos casos e, no LES, é positivo em virtualmente todos os pacientes. Um FAN negativo praticamente exclui LES em atividade. Os padrões de FAN sugestivos de LES são, especialmente, os padrões nucleares (ou mistos com núcleo e outro compartimento). São especialmente específicos os padrões: a) Nuclear homogêneo, geralmente representando um anti-DNAds (double stranded) – dirigidos contra os ácidos desoxirribonucleicos em dupla fita e altamente específicos para LES – ou anti-histona (presente no lúpus induzido por droga); b) Nuclear pontilhado grosso, geralmente representando um anti-Sm (altamente específico para LES); c) Nuclear pontilhado fino, geralmente representando o anti-Ro ou o anti-La, que não são específicos para LES, mas ocorrem com frequência.Outros anticorpos importantes para o LES e que não são representados pelo FAN são os anticorpos antifosfolípides: anticardiolipina, antibeta-2-glicoproteína I e anticoagulante lúpico. Por fim, como dito anteriormente, o antiproteína P-ribossomal é também específico para LES e pode servir como marcador de atividade atual. Este anticorpo marca proteínas ribossomais e, portanto, cora o citoplasma e o nucléolo no FAN. O título do FAN precisa ser visto com cuidado e depende da probabilidade pré-teste do exame. Em indivíduos com baixa probabilidade de doença pela apresentação clínica, títulos abaixo de 1:160 provavelmente não simbolizam qualquer patologia. Mesmo títulos muito altos em pacientes com baixa probabilidade pré-teste precisam ser julgados com parcimônia, pois o FAN pode representar anticorpos dirigidos contra a tireoide no hipotireoidismo ou mesmo contra alvos cuja significância clínica patológica ainda não se estabeleceu – como é o caso do anti-LEDGF/p75. Todavia, são descritos pacientes com títulos muito baixos de FAN, como 1:40, com doença franca do ponto de vista clínico. Assim, a apresentação clínica será soberana na avaliação de qualquer título ou padrão de FAN, de tal modo que indivíduos assintomáticos – ou com sintomas não sugestivos de conectivopatias, artrite idiopática juvenil ou hepatopatias autoimunes – não devem realizá-lo. Peça o FAN para confirmar a sua hipótese diagnóstica e não para excluir eventual doença autoimune. Os critérios classificatórios de LES foram atualizados em 2012 (Petri et al., 2012) e, novamente, em 2019 (Aringer et al., 2019) e incluem diversas manifestações clínicas e sorológicas. A memorização dos critérios é provavelmente infrutífera ao clínico e se presta mais à homogeneização necessária aos estudos científicos. De todo modo, o Quadro 3.1 e o Quadro 3.2 mostram estes critérios atualizados, uma vez que o conhecimento grosseiro acerca destes pode ainda ser cobrado em concursos. Quadro 3.1 - Critérios do Systemic Lupus International Collaborating Clinics (2012) Quadro 3.2 - Critérios classificatórios de 2019 do American College of Rheumatology/European League Against Fonte: adaptado de 2019 European League Against Rheumatism/American College of Rheumatology Classification Criteria for Systemic Lupus Erythematosus, 2019. 3.3.1.5 Tratamento Parte importante do tratamento do LES passa por medidas não farmacológicas. A exposição à radiação ultravioleta é diretamente responsável pela gênese da doença e deve ser evitada sempre que possível. Assim, os pacientes devem ser orientados a usar protetor solar em todas as áreas expostas, diversas vezes ao dia, pois mesmo a luz não natural pode contribuir para os efeitos imunes. Exercícios físicos são fortemente recomendados, pela redução na chance de osteoporose, sarcopenia, distúrbios lipídicos e também pelo efeito imunomodulador (Benatti; Pedersen, 2015). Em pacientes com alto risco de fratura, exercícios com alto impacto e flexão exagerada de tronco devem ser evitados. Do ponto de vista nutricional, os pacientes devem ser orientados a manter uma ingesta rica em cálcio e pobre em alimentos ultraprocessados ou com alto índice glicêmico. Essas orientações procuram atenuar a síndrome metabólica – frequentemente desenvolvida secundária à inflamação, à corticoterapia e à imobilidade – e reduzir a chance de osteoporose. Por fim, a anticoncepção deve sempre ser ofertada às pacientes em menacma, uma vez que a exposição hormonal pode piorar um lúpus já ativo e muitas drogas são possivelmente inadequadas na gestação. Do ponto de vista farmacológico, de maneira geral, todos os pacientes usarão antimalárico (Fanouriakis et al., 2019). A droga mais prescrita desta classe é a hidroxicloroquina, na dose aproximada de 5 mg/kg/d. Existem diversos benefícios dos antimaláricos vastamente documentados no LES, sendo vistos hoje como droga modificadora de doença nesta condição, de tal forma que não há protocolo atual que não recomende o seu uso, e muito debate ainda existe sobre a real possibilidade de suspensão da droga, mesmo em pacientes com remissão sustentada. Em pacientes com quadros brandos, como mucocutâneo leve e articular, a hidroxicloroquina em monoterapia é capaz de controlar a doença na maioria dos casos. Glicocorticoide tem sido cada vez menos usado, mas torna-se uma droga necessária nos quadros agudos graves, com nefrite, manifestações neurológicas, trombocitopenia e hemorragia alveolar. Em quadros brandos, pode ser usado em dose de até 0,25 mg/kg/d (de prednisona ou equivalente) como sintomático por algumas semanas. Nos casos ameaçadores, a maioria dos reumatologistas prefere a pulsoterapia com metilprednisolona (1 g/d por 3 dias), não só pelo efeito mais rápido, mas também pela possibilidade de desmame mais precoce das doses orais. Após a pulsoterapia, geralmente é deixada uma dose de 0,5 a 1 mg/kg/d de prednisona (ou equivalente) que deve ser reduzida em até 6 meses para menos do que 7,5 mg/d. Os imunossupressores têm se tornado a base do tratamento do LES moderado e grave, e devem ser iniciados precocemente. São usados conforme a manifestação clínica, mas, de maneira bastante ampla, metotrexato (10 a 25 mg/sem, oral ou subcutâneo) está indicado para quadros articulares, cutâneos e de serosa; azatioprina (2 a 3 mg/kg/d, oral) e micofenolato de mofetila (2 a 3 g/d, oral) para quadros hematológicos, neurológicos, renais e pulmonares; e ciclofosfamida (0,5 a 1 g/m2, intravenoso, na forma de pulsos mensais) fica reservada aos quadros ameaçadores, geralmente acompanhada de pulsoterapia com corticoide. O Quadro 3.3 resume os imunossupressores mais usados no LES e as suas particularidades. Quadro 3.3 - Terapias comumente usadas no tratamento 3.3.1.6 Lúpus induzido por drogas É uma doença diferente do LES verdadeiro, mas com sintomas similares, induzida pela exposição a determinadas drogas. A associação temporal à exposição a drogas potencialmente causadoras (semanas a meses) e a resolução das manifestações com a interrupção da droga em algumas semanas sugerem o diagnóstico. Entretanto, os autoanticorpos podem persistir por 6 a 12 meses. Os pacientes apresentam-se com queixas constitucionais como fadiga, febre baixa e mialgia, além de artralgia, artrite e serosite (pleural e pericárdica). As manifestações cutâneas incluem pápulas e placas eritematosas, mas raramente ocorre lúpus discoide ou mesmo o clássico rash malar do LES. Nefrite e acometimento de sistema nervoso também são extremamente raros. Os exames laboratoriais podem apresentar FAN com padrão homogêneo e anticorpos anti-histona característicos. O anti-DNAds e o anti-Sm estão ausentes. Algumas drogas muito associadas a essa condição são: procainamida, hidralazina, penicilamina, IFN-alfa, isoniazida, diltiazem, metildopa, clorpromazina e agentes anti-TNF. Outras drogas menos importantes incluem: propafenona, inibidores da enzima conversora de angiotensina, betabloqueadores, hidroclorotiazida, propiltiouracila, lítio, nitrofurantoína, sulfassalazina, estatinas, carbamazepina e fenitoína. O tratamento é fundamentado na remoção da droga causadora. Eventualmente, anti-inflamatórios ou doses baixas de corticoide podem ser usados até a melhora do quadro. 3.3.1.7 LES na gestação As condições férteis de homens e mulheres com LES são iguais às da população em geral. No entanto, o índice de perda fetal é maior em mulheres lúpicas. O óbito fetal é maior entre mães com atividade agressiva da doença, anticorpos antifosfolípides e/ou nefrite. Devem-se considerar atividade, gravidade da doença e toxicidade das drogas, sendo a gravidez desaconselhada quando há atividade de doença, especialmente na vigência de nefropatia. Existe maior incidência de retardo de crescimento intrauterino, prematuridade, hipertensão induzida pela gravidez e diabetes. A supressão da atividade da doença pode ser alcançada pela administração de corticoide sistêmico e antimaláricos que podem ser mantidos durante a gestação. Os efeitos adversos pré-natais da exposiçãoao corticoide são o baixo peso ao nascer e anormalidades na formação do sistema nervoso central. Pacientes com LES e síndrome antifosfolípide podem ter perdas gestacionais de repetição, prematuridade e restrição de crescimento intrauterino. Como manifestações da própria gravidez, pode haver eritemas palmar e facial, artralgias e elevação da velocidade de hemossedimentação, dificultando a caracterização da atividade da doença. A presença do anti-DNAds e/ou a elevação dos seus títulos e do consumo do complemento podem auxiliar na diferenciação entre atividade da doença e pré-eclâmpsia. Um problema potencial adicional para o feto é a presença de anticorpos anti-Ro, às vezes associada ao LES neonatal, com lesões cutâneas e bloqueio atrioventricular (BAV) congênito. O LES neonatal é uma doença imunológica rara, resultante da passagem para o feto de autoanticorpos maternos anti-Ro. A manifestação clínica mais frequente e mais grave é o BAV completo congênito, que, geralmente, é considerado permanente. Associa-se a significativa morbimortalidade, particularmente durante os primeiros 3 meses de vida. Os anticorpos anti-Ro e anti-La estão presentes em mais de 85% das mães cujos filhos têm BAV congênito com coração estruturalmente normal. Os BAVs congênitos são habitualmente detectados entre a décima oitava e a vigésima oitava semana de idade gestacional e podem causar insuficiência cardíaca intrauterina, com perda fetal ou neonatal. Por conta disso, alguns autores recomendam ecocardiogramas seriados entre a décima sexta e a vigésima nona semana de gestação a todas as grávidas com autoanticorpos, porque essa é a fase em que existe maior probabilidade de detecção de bradiarritmia fetal. O lúpus neonatal é especialmente relacionado ao anti-Ro. Contudo, anti-La e anti-U1 RNP também já foram associados à condição. As manifestações não cardíacas são transitórias e desaparecem até 6 a 8 meses de vida, quando se dá o desaparecimento dos anticorpos maternos da circulação. As alterações cutâneas podem estar presentes desde o nascimento ou surgir pouco tempo depois, frequentemente associadas à exposição solar (lesões fotossensíveis). O exantema é, em geral, eritematoso, anular, descamativo, fotossensível e atinge a face e o couro cabeludo (Figura 3.6). Também pode cursar com alterações da função hepática (colestase) e hematológicas (anemia, trombocitopenia e neutropenia). Figura 3.6 - Lúpus neonatal Fonte: Lúpus neonatal: relato de caso com achados exuberantes, 2019. A presença de anti-Ro requer monitorização da frequência cardíaca fetal, com intervenção precoce caso haja sofrimento. A gestação acontece geralmente sem surtos da doença, porém uma proporção pequena desenvolve crises severas que requerem terapia imunossupressora agressiva ou interrupção precoce da gestação. Os piores resultados apresentam-se entre mulheres com nefrite ativa. Anticoncepcionais orais de baixa dosagem de estrogênios, quando indicados, não têm mostrado indução de atividade significativa da doença, porém são contraindicados na presença de anticorpos antifosfolípides, em virtude do risco aumentado de tromboses. A prednisona, a hidroxicloroquina e o ácido acetilsalicílico em baixas doses podem ser utilizados na gravidez. Se é extremamente necessário o uso de imunossupressores, a melhor opção é a azatioprina, pois ciclofosfamida, micofenolato de mofetila, metotrexato e leflunomida são totalmente contraindicados. Às gestantes com anticorpos antifosfolípides positivos, porém sem a síndrome antifosfolípide, pode-se indicar ácido acetilsalicílico 100 mg/d. Na amamentação, doses superiores a 20 mg/d de prednisona podem determinar riscos para a criança, sendo recomendado intervalo de 4 horas entre a tomada da medicação e a amamentação. A monitorização de tais pacientes deve ser individualizada, e a gestação, considerada de alto risco, necessita de acompanhamento multidisciplinar até o puerpério, em virtude da possibilidade de exacerbação da doença. 3.3.2 Síndrome antifosfolípide A síndrome antifosfolípide (SAF) é uma DSTC que se manifesta, sobretudo, com tromboses de repetição de origem autoimune. Assim como as demais conectivopatias, apresenta-se clinicamente nos diversos espectros fisiopatológicos, mas suas manifestações mais singulares decorrem da circulação de anticorpos que promovem trombose micro e macrovascular. 3.3.2.1 Etiologia O conceito mais aceito atualmente para explicar a fisiopatologia da SAF se baseia na ideia de que é uma doença com alta carga de anticorpos circulantes voltados, especialmente, contra elementos não prontamente disponíveis na circulação. Isso explica porque, na imensa maioria dos pacientes com SAF, tromboses ocorrem intermitentemente com períodos de calmaria clínica. Do ponto de vista imunológico, as vias mais ativadas na SAF são aquelas voltadas à produção de anticorpos via linfócito B – ou seja, as vias Th17 e Tfh –, que, neste caso, reconhecem fosfolipídios de membranas ou a beta-2-glicoproteína I, uma proteína que parece participar da produção de óxido nítrico endotelial, contribuindo, portanto, para um efeito antitrombótico. Contudo, nos estados homeostáticos, tanto os fosfolipídios de membrana quanto a beta-2-glicoproteína I estão ocultos dos anticorpos circulantes. É necessário que um evento ocorra para primeiro expor estes sítios de ligação, para, só então, os anticorpos patológicos exercerem o seu papel. Desta constatação nasceu o conceito mais contemporâneo de “duplo gatilho” na SAF: um primeiro insulto, geralmente capaz de gerar lesão endotelial ou estresse oxidativo, deve ocorrer para que o segundo insulto, na forma dos anticorpos circulantes e posteriores imunocomplexos, possa ser possível (Giannakopoulos; Krilis, 2013). Ter em mente esta noção fisiopatológica torna mais fácil compreender os fatores de risco para trombose nos pacientes com anticorpos antifosfolípides. Qualquer evento que produza estresse oxidativo ou lesão endotelial pode iniciar uma trombose. Assim, tabagismo e exposição a outras toxinas, infecções, gestação, síndrome metabólica e outras condições hormonais e inflamatórias podem ser potenciais fatores etiológicos. A presença de anticorpos antifosfolípides pode ocorrer de maneira isolada, quando esta for a disfunção imune primordial do paciente. Neste caso, a doença se intitula SAF primária. Contudo, alguns pacientes terão outras doenças que cursam com a produção de anticorpos, sendo alguns deles, possivelmente, autoanticorpos antifosfolípides. Nesta situação, a doença primordial do indivíduo não é a SAF, sendo intitulada, por sua vez, SAF secundária. A doença que mais cursa com SAF secundária é o LES, justamente pelas suas fisiopatologias convergentes. 3.3.2.2 Epidemiologia Os estudos epidemiológicos em SAF ainda são bastante heterogêneos, possibilitando poucas informações universais. Cerca de metade dos pacientes com manifestações clínicas compatíveis com SAF possuem doença primária e, dos que possuem doença secundária, quase 90% são pacientes com LES (Cervera et al., 2015). A SAF primária parece ocorrer em prevalência semelhante ao LES – em torno de 0,05% da população (Duarte-García et al., 2019) –, ainda com predominância feminina – cerca de 4 mulheres para cada homem –, porém menor do que no LES (Cervera et al., 2015). O quadro em geral se inicia nos pacientes ainda jovens, comumente em mulheres na menacma – na terceira e quarta década de vida. Os estudos até o momento geralmente apontam para uma importante maioria caucasiana, mas também possuem o viés populacional das regiões estudadas. A SAF é uma trombofilia de altíssimo risco. Pacientes não tratados têm risco relativo anual de nova trombose 34 vezes maior que a população em geral e, mesmo tratados, 11% recorrem ao menos 1 vez na vida (Rosove; Brewer, 1992). 3.3.2.3 Manifestações clínicas Assim como nas demais DSTCs, as manifestações da SAF se espraiam por todas as fisiopatologias descritas anteriormente. No polo principal da SAF, aquele que envolve alta produção de autoanticorpos e formaçãode imunocomplexos, encontram-se as suas manifestações clínicas que melhor a identificam entre as conectivopatias. a) Trombose de vasos nomináveis Por tratar-se de uma síndrome relacionada a um estado de hipercoagulabilidade, a SAF pode produzir eventos tromboembólicos em, virtualmente, qualquer tecido ou órgão. Como exemplos mais comuns e importantes, podem-se citar tromboses venosas profundas (em 32% dos casos), oclusões arteriais agudas de membros, acidentes vasculares encefálicos (em 13% dos casos), ataques isquêmicos transitórios do sistema nervoso central (em 7% dos casos), tromboembolismo pulmonar (em 9% dos casos), infarto agudo do miocárdio, infartos hepáticos, esplênicos ou renais, síndrome de Budd-Chiari, insuficiência adrenal isquêmica e neuropatia óptica. b) Trombose de vasos macroscópicos As manifestações mais comuns de SAF se referem aos vasos macroscópicos nomináveis. Contudo, vasos macroscópicos que não são tipicamente nomeados pela sua relevância em conjunto e não individual – ou seja, vasos que nutrem segmentos de um órgão e são mais bem entendidos coletivamente –, como os “vasos intrarrenais”, “vasos intramiocárdicos” ou “vasos esplâncnicos”, também podem ocluir na SAF. O caso mais comumente observado se refere à trombose de vasos renais, produzindo uma nefropatia trombótica. O quadro clínico é de uma perda de função renal paulatina, com frequente ascenso pressórico, algum grau de proteinúria (geralmente não nefrótica) e sedimento urinário brando. Ocasionalmente, pode ocorrer visualização de esquizócitos na urina e no sangue, simbolizando algum grau de microangiopatia trombótica. Tromboses em território cutâneo podem levar a algumas manifestações na SAF: livedo (Figura 3.7) – representando um distúrbio perfusional intermitente, sem grande repercussão isquêmica para o tecido –, ulcerações – quando o distúrbio perfusional é grande o suficiente para lesar o tecido tegumentar - ou gangrena – quando o distúrbio é vasto e compromete a extremidade como um todo. Figura 3.7 - Paciente com livedo em membros inferiores Fonte: arquivo pessoal do dr. Jean Souza. Outra manifestação singular que envolve trombose multiterritorial na SAF é a SAF catastrófica (cata strophic antiphospholipid syndrome). Esta entidade é definida como uma síndrome aguda, em portadores de anticorpos antifosfolípides, com duração de até 7 dias, na qual 3 ou mais sítios sofrem insulto trombótico simultâneo ou sequencial (Asherson et al., 2003). A maior parte dos pacientes terão insuficiência respiratória, confusão mental, déficit focais e nefropatia trombótica, além de tromboses cutâneas e viscerais (representando a trombose de vasos maiores). Do ponto de vista neurológico, apesar dos quadros ictais isquêmicos agudos chamarem prontamente a atenção dos clínicos, muitos pacientes com manifestação neurológica na SAF a farão na microcirculação. É bem documentado nos pacientes a ocorrência de síndromes cognitivas de evolução muito lenta, muito provavelmente relacionadas à doença microvascular (Tektonidou et al., 2006). Do ponto de vista obstétrico, além das manifestações citadas nos critérios de classificação da SAF (ver adiante), são possíveis outras condições mórbidas durante a gravidez relacionadas à perfusão placentária, como pré-eclâmpsia, eclâmpsia, síndrome HELLP e retardo de crescimento intrauterino. Admite-se que as manifestações de SAF gestacionais decorrem de trombose e inflamação placentária, aumentando consideravelmente a morbidade gestacional do feto e, inclusive, da mãe. No diferencial da SAF catastrófica, entram especialmente as síndromes trombo- hemorrágicas: púrpura trombocitopênica trombótica, síndrome hemolítico-urêmica, coagulação intravascular disseminada e síndrome HELLP. c) Citopenias Como a SAF cursa com anticorpos circulantes, pode ocorrer lise de células opsonizadas. O alvo principal da SAF é a plaqueta, causando trombocitopenia imune. Outro mecanismo que pode levar à plaquetopenia neste caso é o consumo por microtrombos, embora muito provavelmente seja o mecanismo menos importante no indivíduo fora de estado grave (exemplo: SAF catastrófica). A trombocitopenia na SAF é geralmente menos intensa do que no LES, mas o seu manejo segue as mesmas diretrizes. No polo da regeneração inadequada, a SAF pode evoluir com manifestações valvares, assim como o LES. A forma mais comum de doença valvar nestas doenças inclui espessamento valvar e eventual formação de trombos nos folhetos – depósitos endocárdicos trombóticos não bacterianos (NBTE), endocardite marântica ou endocardite de Libman-Sacks. O espessamento valvar pode evoluir para insuficiência, geralmente na valva mitral, e os trombos podem, por sua vez, embolizar. Por fim, como outras manifestações do polo regenerativo, a imunossupressão parece não reverter a valvopatia. Na NBTE relacionada às conectivopatias, existe evidência para uso de antiagregantes na ausência de eventos embólicos prévios (se presentes, o paciente teria já indicação de anticoagulação), como forma de prevenção (Lockshin et al., 2003). 3.3.2.4 Diagnóstico O diagnóstico de SAF deve ser suspeitado em qualquer paciente com trombose fora de contexto (exemplo: jovem, sem comorbidades, não provocada), morbidade gestacional recorrente ou em paciente com LES e manifestações trombóticas. Outros sinais menos evidentes incluem manifestações cutâneas sugestivas, plaquetopenia ou doença renal. Como a fisiopatologia é intrinsecamente relacionada aos anticorpos, em geral, entende-se que são condição sine qua non para o estabelecimento da relação causal e devem sempre estar presentes no soro do paciente. 3.3.2.5 Anticorpos antifosfolípides Os 3 principais tipos de anticorpos antifosfolípides relacionados à SAF estão relacionados a seguir. a) Anticoagulante lúpico Apesar do nome, sua atividade associa-se a um estado pró- coagulante in vivo, tendo sido assim denominado por ser capaz de prolongar, in vitro, o tempo de tromboplastina parcial ativada, não corrigível pela adição de plasma normal ao ensaio. A pesquisa do anticoagulante lúpico é um teste funcional de coagulação para a detecção de anticorpos antifosfolípides, sendo que mais de 1 anticorpo antifosfolípide pode estar associado à atividade do anticoagulante lúpico. É o anticorpo mais associado a morbidade na SAF. b) Anticorpos anticardiolipina São, geralmente, detectados por ELISA e podem ser da classe IgM, IgG ou IgA. Vale ressaltar que aproximadamente 50% dos pacientes com SAF portadores de anticorpos anticardiolipina podem apresentar testes falsos positivos para VDRL (Venereal Disease Research Laboratory), uma vez que, nesse exame, o substrato é formado por partículas contendo cardiolipina. No entanto, o VDRL falso positivo apresenta baixa sensibilidade e fraca correlação com a ocorrência de tromboses, não devendo ser usado como teste de screening para SAF. c) Anticorpo antibeta-2-glicoproteína I A beta-2-glicoproteína I é o antígeno-alvo mais comum dos anticorpos antifosfolípides. Geralmente, os anticorpos anticardiolipina de pacientes com SAF são dependentes de beta-2- glicoproteína I; no entanto, nem sempre pacientes positivos para anticardiolipina são também positivos para antibeta-2- glicoproteína I. Há outros anticorpos antifosfolípides, como antifosfatidilserina e antianexina-V, porém seu papel na SAF ainda é incerto, e sua pesquisa não faz parte da avaliação-padrão da síndrome. Os critérios atuais (critérios de Sidney) para a classificação da SAF (Miyakis et al., 2006) são: 1. Clínicos: a) Trombose vascular: Um ou mais episódios de trombose arterial, venosa ou de pequenos vasos, em qualquer tecido ou órgão. É importante salientar que a trombose superficial não consta nos critérios, e o exame histopatológico não deve apresentar inflamação significativa. b) Morbidades gestacionais: 1 ou mais óbitos de fetos morfologicamente normais após a décima semana de gestação; 1 ou mais partos prematuros de neonatos morfologicamente normais até a trigésima quarta semana de gestação, devido a pré-eclâmpsiagrave ou insuficiência placentária; 3 ou mais abortamentos espontâneos até a décima semana de gestação, excluídas alterações hormonais e anatômicas maternas e cromossômicas dos pais. 2. Laboratoriais: é necessária a presença de anticorpos antifosfolípides em 2 ou mais ocasiões com intervalo de, pelo menos, 12 semanas: a) Detecção no sangue de anticorpos anticardiolipina IgG ou IgM em títulos moderados a elevados; b) Detecção no sangue de anticoagulante lúpico; c) Detecção no sangue de anticorpo antibeta-2-glicoproteína I IgM e/ou IgG em altos títulos. O diagnóstico da SAF definida requer a presença de, no mínimo, 1 critério clínico e de, pelo menos, 1 critério laboratorial, sem limite de tempo decorrido entre os eventos clínicos e os achados laboratoriais. No momento da coleta, pacientes em vigência de anticoagulação terão níveis de anticoagulante lúpico alterados, porém os níveis de anticardiolipina e antibeta-2-glicoproteína I IgM e/ou IgG poderão ser avaliados. Para o diagnóstico de SAF, recorre-se a 1 critério de cada categoria: clínicos (≥ 1 episódio de trombose vascular), morbidades gestacionais (1 ou mais óbitos de fetos normais após a décima semana; ou 1 ou mais partos prematuros de neonatos morfologicamente normais até a trigésima quarta semana de gestação; ou 3 ou mais abortamentos espontâneos até a décima semana de gestação) e laboratoriais (anticorpos em 2 ou mais ocasiões, com intervalo mínimo de 12 semanas). O diagnóstico diferencial inclui, necessariamente, outras causas de trombofilias. Dentre as congênitas, podem ser citados fator V de Leiden, mutação de protrombina, deficiências de proteínas C e S, deficiência de antitrombina III e hiper-homocisteinemia. As causas adquiridas mais importantes de trombofilia são o uso de anticoncepcionais orais, terapia de reposição hormonal, gravidez, neoplasias, traumas, cirurgias e imobilidade. 3.3.2.6 Tratamento O tratamento inicial dos eventos trombóticos agudos relacionados à SAF é o mesmo de qualquer outra trombose, requerendo anticoagulação com heparina. Podem ser usadas tanto a heparina subcutânea de baixo peso molecular em dose plena quanto a não fracionada em infusão intravenosa contínua. Em todos os pacientes com SAF confirmada, está indicada a anticoagulação oral com varfarina em longo prazo, muitas vezes por tempo indeterminado, dado o elevado risco de recorrência dos quadros trombóticos (Andrade et al., 2017). A intensidade de anticoagulação atualmente recomendada tem, como meta, a manutenção do valor do INR (razão normatizada internacional) entre 2 e 3. Estudos recentes demonstraram que, em pacientes com SAF, a manutenção do INR nestes níveis é tão eficaz quanto em níveis mais agressivos (3 a 4) para a prevenção de tromboses, salvo em casos excepcionais, como em tromboses arteriais de alto fluxo, nos quais essa modalidade pode ser considerada (Tektonidou et al., 2019). Vale ressaltar que os novos anticoagulantes orais (como dabigatrana e rivaroxabana) já foram estudados no tratamento da SAF, e, até o momento, estão contraindicados por aumento do risco de sangramento e trombose (Pengo et al., 2018; Tektonidou et al., 2019). Quando houver plaquetopenia (níveis > 50.000/mm3), a anticoagulação oral apresentará tem as mesmas metas. Na gestação, a heparina e o ácido acetilsalicílico passam a ter papel central no tratamento da SAF, dados os riscos do uso de varfarina durante a gravidez. A gestantes com SAF clínica definida, recomenda-se trocar a anticoagulação oral com varfarina pela anticoagulação plena com heparina de baixo peso molecular associada a baixas doses de ácido acetilsalicílico até o parto, voltando à varfarina após. Nos casos de gestantes com SAF apenas gestacional (exemplo: sem antecedentes de tromboses clínicas), recomenda-se ácido acetilsalicílico a partir do desejo gestacional e durante a gravidez, associado a doses profiláticas de heparina de baixo peso molecular. Estas drogas são mantidas até a sexta semana pós-parto. Em gestantes com anticorpos presentes e história de partos prematuros (antes da trigésima quarta semana) somente, ou em gestantes portadoras de anticorpos antifosfolípides, mas sem manifestações gestacionais de SAF, pode-se usar somente ácido acetilsalicílico durante a gravidez (ACOG, Practice Bulletin 132, 2012; Tektonidou et al., 2019). Existem muitos pormenores na SAF obstétrica durante a gestação, mas, de maneira geral, ácido acetilsalicílico e heparina de baixo peso profilática costumam ser um esquema razoavelmente adequado em todas as ocasiões. Em condições específicas, pode-se lançar mão de outras linhas terapêuticas. Pacientes com tromboses de repetição, a despeito de anticoagulação, geralmente são tratados com estatinas e hidroxicloroquina (na mesma dose do LES). O racional para tal medida se sustenta no fato de que as estatinas possuem relação com a lesão endotelial – agindo sobre a sintase de óxido nítrico e, portanto, reduzindo a chance de trombose pelo primeiro gatilho (ver item 3.3.2.1) –, e a hidroxicloroquina tem efeito imunomodulador – inibindo os toll-like receptors (TLR), e, portanto, reduzindo a ativação linfocitária, assim como no LES (Giannakopoulos; Krilis, 2013). Nos casos de SAF catastrófica, há necessidade de terapêutica agressiva, incluindo, além da anticoagulação com heparina, pulsoterapia com corticoide e plasmaférese (Tektonidou et al., 2019). Em outubro de 2017, a Pediatric Rheumatology European Society publicou o primeiro consenso exclusivo de SAF em crianças (SHARE). Porém, as evidências ainda são pequenas. O estudo objetivou o diagnóstico e tratamento de SAF em crianças reunindo estudos previamente publicados. A conclusão do consenso é a de que os critérios diagnósticos de SAF do adulto são pouco sensíveis para a faixa pediátrica, e novos critérios são necessários para tal faixa etária. Além disso, as recomendações sobre o tratamento são semelhantes às dos adultos, apresentando contradições sobre a manutenção do INR entre 3 e 4 em pacientes com eventos trombóticos arteriais, visto que não existem estudos com evidência significativa na literatura. Com relação a outras medidas, convém lembrar da teoria do duplo gatilho na SAF: todas as medidas visando reduzir estresse oxidativo e lesão endotelial precisam ser consideradas. Portanto, cessar o tabagismo, controlar a síndrome metabólica e praticar atividade física são medidas provavelmente benéficas. 3.4 DOENÇAS DO ESPECTRO DA ATIVAÇÃO LINFOCITÁRIA 3.4.1 Miopatias autoimunes sistêmicas As Miopatias Autoimunes Sistêmicas (MASs) não são uma única doença, mas, sim, um grupo heterogêneo de conectivopatias com uma forte representação no polo da ativação linfocitária, cursando de maneira cardinal com invasão muscular por células inflamatórias que geram disfunção muscular. 3.4.1.1 Etiologia Embora ainda se conheça pouco sobre a etiologia das MASs, entende-se que se originam de uma predisposição genética à autoimunidade, através de polimorfismos de genes do human leucocyte antigen (Chen et al., 2017), associada a exposições ambientais diversas, como infecções – por vírus HTLV e Coxsackievirus (Morgan et al., 1989) –, neoplasias (Hill et al., 2001) e drogas, especialmente as estatinas (Mammen et al., 2014) e antineoplásicos (Portow et al., 2018). Esta combinação levaria a uma quebra da imunotolerância com desenvolvimento de autoimunidade. 3.4.1.2 Epidemiologia Apresentam baixa incidência na população geral, em torno de 0,5 a 8,4 casos/1.000.000 de pessoas. A incidência parece estar aumentando devido ao diagnóstico mais acurado. De forma geral, são encontradas em todos os grupos etários, mas há distribuição bimodal, com picos nas faixas entre 10 e 15 anos e 45 e 60 anos. Entretanto, de acordo com o tipo de miopatia encontrada, a incidência nos grupos etários pode ser bem diferente. Em quase todas as formas de MASs, o acometimento é uniforme em relação ao sexo e à etnia. Quanto mais idoso é o paciente, maior é a chance de que uma neoplasia acompanhe a miopatia. 3.4.1.3 Manifestações clínicas As MASsapresentam manifestações clínicas universais e comuns a todas as desordens inflamatórias ou autoimunes, que representam a ativação imune de maneira sensu lato. Essas manifestações não diferenciam as grandes síndromes reumatológicas e por vezes se confundem, inclusive, com desordens infecciosas, hormonais ou neoplásicas. São exemplos desses sintomas inespecíficos: fadiga, febre, perda ponderal, hiporexia, mialgia e mal-estar em geral. Grande parte das manifestações clínicas das MASs se encontram no polo da ativação linfofagocitária com lesão tecidual e celular direta. Como as MASs representam um grupo de doenças – mais do que uma única doença –, algumas facetas específicas foram agrupadas em subdenominações, que na prática clínica dão nome à doença em questão. Para o clínico não especialista, as formas mais relevantes de MASs são a dermatomiosite (DM) e a polimiosite (PM), principalmente. A síndrome antissintetase (SAS) e a Miosite por Corpos de Inclusão (MCI) ganharam notoriedade recentemente nos congressos e reuniões de Medicina Interna pela sua ascendente prevalência e singularidade. Assim, serão abordados de maneira sucinta. Ao longo das apresentações clínicas, serão pontuadas as manifestações mais típicas de uma ou outra condição. Muitos profissionais não especialistas e, infelizmente, muitos concursos médicos, incorrem em um reducionismo que é impreciso, mas que deve ser conhecido: para efeito de prova, dermatomiosite é uma polimiosite com acometimento cutâneo. a) Miosite Sem dúvida a manifestação cardinal nas MASs. A ativação linfofagocitária voltada ao músculo promove lesão muscular direta, com extensos infiltrados inflamatórios musculares e perimusculares, compostos especialmente por linfócitos e macrófagos (Figura 3.8). Na prática, este insulto inflamatório gerará destruição de fibras musculares, com consequente fraqueza e elevação de enzimas musculares. Nas formas com alta produção de anticorpos, o componente de deposição de imunocomplexos também se faz presente, com inflamação nos vasos sanguíneos que nutrem o músculo. Este evento piora a disfunção muscular já estabelecida, pois as fibras entram em hipóxia, perpetuado o ciclo de inflamação e destruição (Shreeniwas et al., 1992). Frente a biópsia muscular, em geral pacientes com dermatomiosite terão mais vasculite do que pacientes com polimiosite. Pacientes com dermatomiosite geralmente possuem autoanticorpos circulantes e, de polimiosite, quase sempre não. Figura 3.8 - Corte histológico corado em hematoxilina-eosina mostrando infiltrado inflamatório predominantemente linfocítico e especialmente perifascicular Nota: os achados são muito sugestivos de dermatomiosite. Fonte: arquivo pessoal do dr. Jean Souza. Clinicamente, a fraqueza muscular geralmente é progressiva, de início insidioso, levando de 1 a 6 meses para se instalar. O acometimento é simétrico e proximal, com comprometimento dos músculos das cinturas escapular e pélvica. O indivíduo queixa-se de dificuldade para tarefas específicas que envolvam essa musculatura proximal, como levantar-se da cadeira, subir escadas (cintura pélvica), pentear e lavar o cabelo e elevar os braços (cintura escapular). A musculatura do pescoço, principalmente a flexora, também pode estar acometida, e o paciente tem dificuldade de elevar a cabeça quando deitado de costas. É necessário, ao exame, fazer a graduação da força muscular tanto para o diagnóstico quanto para o acompanhamento do tratamento. Os pacientes também podem apresentar comprometimento da parede posterior da faringe e do terço proximal do esôfago (músculo estriado esquelético), o que resulta em disfagia de transferência, isto é, dificuldade em deglutir com sincronismo o alimento, resultando, em casos avançados, em broncoaspiração. Pode ocorrer disfonia em alguns casos e alguns pacientes com inflamação maciça também podem ter comprometimento de musculatura respiratória. Na fase aguda, a maior mortalidade dos pacientes com miopatias autoimunes sistêmicas se dá por pneumonia secundária a broncoaspiração (Oliveira; Souza; Shinjo, 2019). Dor muscular é um evento menos comum do que fraqueza, contudo, como pode ocorrer inflamação do tecido perimuscular (fascículos e fáscia muscular), alguns pacientes podem eventualmente apresentar mialgia. Na MCI, uma forma de miopatia inflamatória adquirida de idosos, com inflamação branda e alterações distróficas e degenerativas musculares, a fraqueza se instala de maneira muito insidiosa, geralmente em vários anos. O músculo mais acometido é o quadríceps femoral, que quase sempre cursa não só com fraqueza, mas também atrofia (perda de volume muscular) importante. O diagnóstico de acometimento muscular por MAS se dá principalmente pela clínica e pela dosagem de enzimas musculares – creatinofosfoquinase (CPK) e suas frações, aldolase, desidrogenase láctica (DHL) e transaminases –, que geralmente virão aumentadas no plasma, refletindo a lise muscular. Academicamente, a eletroneuromiografia (um exame extremamente doloroso) deve ser solicitada somente nos casos de dúvida diagnóstica, pois entre as miopatias em geral, mesmo as não inflamatórias, o aspecto será sempre miopático e não ajudará na distinção. Deve-se ficar atento, pois, como nos primeiros critérios diagnósticos entrava a eletroneuromiografia, é muito comum que questões de exames pressuponham que este exame deva ser solicitado, apesar da pouca aplicabilidade clínica. A ressonância magnética muscular ganhou muita importância nos últimos anos se consolidando como um exame que é capaz de ver a quantidade e a localização tanto da inflamação quanto de eventuais sequelas (Pinal-Fernandes et al., 2017). Assim, torna possível sugerir atividade e apontar eventuais diferenciais, pelo padrão de acometimento. Por fim, a biópsia muscular frequentemente será necessária nos quadros de acometimento muscular isolado, pois o leque de diferenciais é amplo. Quando houver outros acometimentos (pulmonar, cutâneo, articular), é possível que o diagnóstico prescinda do anatomopatológico pela especificidade dos achados, particularmente as formas de dermatite. No que se refere aos diferenciais do acometimento muscular, especialmente quando ocorre isoladamente, faz-se necessária a busca por miopatias metabólicas (glicogenoses e lipidoses), mitocondriais, congênitas, tóxicas, infecciosas, paraneoplásicas, distrofias musculares, neuropatias, miastenia e outras formas incomuns de miopatia autoimune. Em muitas ocasiões, a biópsia muscular com técnicas moleculares estreitará este diagnóstico, mas não é infrequente que o paciente necessite de testes genéticos. Sinais que sugerem outro diagnóstico incluem: assimetria, acometimento preferencialmente distal, atrofia muscular e acometimento de face. b) Dermatite As manifestações cutâneas nas MASs decorrem de 2 mecanismos: infiltração tegumentar direta por células inflamatórias (maior parte dos casos) ou vasculite. A segunda situação será abordada adiante (no subitem sobre vasculite mais adiante nesse item). Na dermatite das MASs encontramos as lesões mais características das doenças, que por vezes permitem o diagnóstico quase imediato da condição dada a sua particularidade. As lesões mais específicas e altamente sugestivas de MAS são: 1. Sinal de Gottron: máculas eritematovioláceas presentes na superfície extensora das articulações, especialmente dos dedos das mãos, dispostas simetricamente (Figura 3.9); 2. Pápulas de Gottron: pápulas eritematovioláceas, por vezes descamativas, simétricas, localizadas sobre as superfícies extensoras dos dedos, cotovelos, joelhos e maléolos (Figura 3.10); 3. Lesão “em heliotropo”: erupção violácea na pálpebra superior, geralmente acompanhada de edema periorbital (Figura 3.11). Na prática clínica, pápulas e sinal de Gottron são quase sempre simultâneos e representam o mesmo mecanismo fisiopatológico, sendo usados como sinônimos pela maior parte dos especialistas. De forma menos específica, ainda se podem identificar outros comprometimentos cutâneos em pacientes com MAS, comoo eritema macular fotossensível na face (Figura 3.12) – diferente do rash em “asa de borboleta” do LES, pois não poupa a região nasolabial – e placas eritematosas nos ombros (sinal do xale), no peitoral (sinal do “V do decote”) e nas coxas (sinal do coldre). Figura 3.9 - Sinal de Gottron nos joelhos Fonte: Dermatomiosite, 2008. Figura 3.10 - Pápulas de Gottron Fonte: Dermatomiosite, 2008. Figura 3.11 - Rash “em heliotropo”: pigmentação rosa ou violácea nas pálpebras de pacientes com dermatomiosite Fonte: Photoessay of the cutaneous manifestations of the idiopathic inflammatory myopathies, 2009. Figura 3.12 - Eritema ou rash facial Legenda: (A) nas regiões malares e mentoniana; (B) na fronte, na mesma paciente. As manifestações cutâneas das MASs ocorrem preferencialmente no subgrupo DM, embora possam acompanhar também a SAS. A PM e a MCI classicamente não têm lesões de pele. Nem sempre um paciente com manifestações cutâneas terá manifestações clínicas musculares. Contudo, nas MASs, o músculo é o órgão-alvo e, histologicamente, haverá lesão muscular virtualmente em todos os pacientes. Nos pacientes com dermatite que não possuem acometimento clínico muscular (exemplo: não têm fraqueza), diz-se que possuem dermatomiosite clinicamente amiopática. O diagnóstico diferencial da dermatite na DM é estreito, dada a sua especificidade. Nos quadros menos típicos, deve-se considerar a possibilidade de rash infeccioso – especialmente na abertura do quadro –, síndrome paraneoplásica, linfomas cutâneos e farmacodermias. c) Artrite A sinovite decorre de 2 mecanismos: invasão linfomonocítica da sinóvia ou de proliferação sinovial secundária às substâncias inflamatória circulantes. Na maior parte dos casos, a artrite decorrerá do segundo mecanismo, sendo geralmente branda e lembrando muito a artrite do LES. O mais comum é que os pacientes tenham apenas dor à palpação, sem o edema e calor vistos na artrite reumatoide, por exemplo. Os sítios mais comuns são os punhos, as articulações dos dedos e os joelhos, embora qualquer articulação sinovial possa estar dolorida. A rigidez matinal é menor do que nas artropatias autoimunes, mas a marcha inflamatória da dor – melhorar com a movimentação – costuma se manter. Quando ocorre invasão maciça da sinóvia por células inflamatórias, pode ocorrer artrite mais exuberante, inclusive com o achado de pannus sinovial (proliferação da membrana sinovial, tornando-a palpável com uma consistência borrachuda). Nesta situação, o achado clínico lembra muito uma artropatia autoimune. Na ocorrência de sinovite importante, deve-se considerar a possibilidade de SAS. O diagnóstico da artrite nas MASs é clínico e geralmente não será a principal queixa do paciente na abertura do quadro, que costuma ser grave. Com o tratamento da miopatia, a artrite geralmente cederá. No caso dos pacientes em seguimento por MASs de longa data, a ocorrência de monoartrite ou oligoartrite com inflamação evidente, especialmente na vigência de corticoterapia em dose alta, representa sinal de alarme para artrite infecciosa, especialmente por germes de crescimento lento, como micobacterioses. #IMPORTANTE A despeito da característica agressiva da artrite vista clinicamente, não é esperada erosão nas artrites das DSTCs (com exceção da artrite reumatoide, que se comporta clinicamente como uma artropatia autoimune). A seguir, essa obra discorrerá brevemente sobre as manifestações das MASs que se encontram no polo da deposição de imunocomplexos (vasculite) e no polo da regeneração inadequada (pneumopatia, calcinose, hiperqueratose e vasculopatia). d) Vasculite A vasculite das MASs decorre de inflamação vascular secundária à deposição de imunocomplexos na pequena circulação e cursa com púrpura, ulceração cutânea e, raramente, vasculite visceral (intestinal ou cardíaca, por exemplo). São quadros frequentemente graves, com grande mortalidade associada. A suspeita de vasculite é clínica e pode ser aventada especialmente na observação das mãos dos pacientes, sítio principal de púrpura e ulceração. O diagnóstico é facilitado pela presença das outras manifestações descritas anteriormente de maneira concomitante. O diferencial inclui as outras vasculites sistêmicas e vasculites infecciosas (por exemplo, endocardite infecciosa). e) Pneumopatia O acometimento pulmonar nas MASs passa por 2 fases: uma fase mais inflamatória, com alveolite mediada por ataque direto do sistema imune linfofagocitário; e uma fase crônica de reparação inadequada, com expansão colagênica e fibrose. Nas 2 situações, a queixa será de dispneia e tosse seca. No exame físico, os pacientes podem apresentar dessaturação e estertoração fina à ausculta pulmonar. Nos casos de fibrose, a hipoxemia e a própria alteração arquitetural do pulmão podem levar à hipertensão pulmonar. Nesta hipótese, o paciente poderá ter achados de cor pulmonale. Outro achado relacionado a fibrose pulmonar é a ocorrência, eventual, de pneumomediastino e pneumotórax. O diagnóstico de acometimento pulmonar nas MASs é feito pela suspeita clínica, corroborada pela tomografia de tórax e pela prova de função pulmonar. Na tomografia, provavelmente haverá infiltrado em vidro fosco e eventualmente alterações já fibrogênicas, como traves, cistos, faveolamento e bronquiectasias de tração. Na prova de função, é esperada redução da capacidade vital forçada e da difusão de monóxido de carbono. O diferencial do acometimento pulmonar nas MASs passa por causas infecciosas (infecções por vírus, fungos e micobactérias), medicamentosas (pneumonite medicamentosa, como por metotrexato, por exemplo) e outras formas de acometimento imune, como a pneumonite por hipersensibilidade e a sarcoidose. Nos casos extremamente duvidosos, a biópsia pulmonar pode fornecer dados adicionais. O diagnóstico de pneumonite em contexto de MAS sugere mais SAS. O acometimento pulmonar é extremamente frequente na síndrome antissintetase, sendo importante a pesquisa de autoanticorpos neste cenário f) Calcinose, hiperqueratose e vasculopatia No extremo da regeneração inadequada está a deposição de cálcio heterotópico. Pelo perfil das citocinas isoladas na calcinose (Mukamel et al., 2001), entende-se que decorram de uma ativação aberrante dos macrófagos no polo M2 (polo regenerativo). O quadro clínico é bastante característico, com deposição de cálcio no subcutâneo, fáscia ou músculo, sendo prontamente identificado ao exame físico e eventualmente confirmado por radiografia simples. Esta manifestação clínica é muito frequente na DM juvenil.. A calcinose é uma entidade desafiadora para o reumatologista, pois não parece se relacionar com a atividade inflamatória e não costuma responder à imunossupressão convencional. Ademais, deve-se ficar atento à possibilidade de infecção secundária, especialmente quando ocorre ulceração da calcinose. A hiperqueratose também representa um polo mais regenerativo e hiperproliferativo (Mii et al., 2009), embora ocorra com frequência nos momentos de exacerbação inflamatória da doença em outros sítios (por exemplo, a hiperqueratose piora quando o paciente está pior do pulmão). O sítio mais comum de hiperqueratose é nas mãos e pés. Quando ocorre na face lateral dos dedos, ganha o nome de “mãos de mecânico” – análoga à hiperqueratose traumática adaptativa que ocorre em trabalhadores manuais de ferramentas de torção, como mecânicos e encanadores –, e acompanha muito frequentemente a SAS. A hiperqueratose pode ser intensa e inclusive causar fissuras nas mãos (Figura 3.13). Um diagnóstico diferencial importante de queratose palmoplantar associada à SAS é a dermite de contato; nesta entidade, geralmente o espessamento é mais difuso e acompanhado de liquenificação da pele. Por fim, vale apontar que a incompetência vasomotora também pode acometer pacientes com MASs, culminando com alterações perfusionais vasculares como o fenômeno de Raynaud. Geralmente esses pacientes apresentarão alterações na capilaroscopia periungueal (ver adiante em esclerose sistêmica), que decorremtanto de vasculite quanto de vasculopatia colagênica. Figura 3.13 - Foto de mão de paciente com síndrome antissintetase Nota: na face lateral do segundo dedo e medial do primeiro dedo há hiperqueratose (espessamento cutâneo) com fissuras. Fonte: arquivo pessoal do dr. Jean Souza. 3.4.1.4 Diagnóstico O diagnóstico de MAS é fundamentalmente clínico, com a exceção das formas exclusivamente musculares (ver miosite no item 3.4.1.3). Alguns exames relevantes que podem ser úteis incluem: a) Dosagem sérica de enzimas musculares; b) Eletroneuromiografia; c) Ressonância magnética muscular; d) Biópsia muscular; e) Tomografia de tórax; f) Prova de função pulmonar. Do ponto de vista sorológico, há poucos anticorpos relevantes para o clínico generalista, embora, para o especialista, haja uma lista enorme de autoanticorpos e eventuais associações clínicas, especialmente para a DM. Uma boa parte das MASs terão FAN positivo, com padrões variáveis. Padrões relevantes são especialmente os padrões citoplasmáticos, pois podem representar anticorpos antissintetase. Entre os anticorpos antissintetase, o mais frequente é o anti-Jo-1. De maneira reducionista, para efeito de prova, a SAS é uma doença que cursa com miosite, artrite, pneumopatia, febre, mãos “de mecânico”, fenômeno de Raynaud e anticorpos antissintetase (especialmente anti-Jo-1 positivos). Além dos anticorpos antissintetases, o anti-Mi-2 (forma DM) e o anti-SRP (forma necrosante) são classicamente considerados anticorpos miosite-específicos (Satoh et al., 2017). Contudo, esse conceito é provavelmente obsoleto, dado que dezenas de novos autoanticorpos relacionados à miosite já foram descritos. MAS é muito relacionada a neoplasia. Exceto pelas formas juvenis, de maneira geral, rastreamento neoplásico para a idade e expansão para câncer de mama, linfoma e ovários pode ser considerado proporcional. 3.4.1.5 Tratamento O tratamento das MASs é baseado especialmente nos imunossupressores sistêmicos. O glicocorticoide ainda é uma ferramenta importante no tratamento inicial, sendo indicado em pulsoterapia para os casos graves, seguido de dose de 0,5 a 1 mg/kg/d de prednisona (ou equivalente) com desmame até dose mínima (5 mg/d ou menos) preferencialmente rápido (em até 6 meses). Nos casos de acometimento muscular grave ou vasculite extensa, a imunoglobulina em pulsos também pode ser recomendada (Souza et al., 2019). Entre especialistas, entende-se que o imunossupressor de manutenção deve ser iniciado precocemente, considerando que mais de 50% dos pacientes não toleram redução de corticoterapia ou não entram em remissão completa em monoterapia (Mathur et al., 2015). Contudo, a evidência científica em MASs é sempre pouco robusta pela raridade da doença. De todo modo, os imunossupressores mais utilizados são o metotrexato (10 a 25 mg/sem) e a azatioprina (2 a 3 mg/kg/d). Quadros pulmonares tendem a responder bem ao micofenolato de mofetila (2 a 3 g/d). Os antimaláricos (hidroxicloroquina) e corticoides tópicos podem ser usados no tratamento de lesões cutâneas da dermatomiosite, sem ação sistêmica. Quanto às medidas não farmacológicas, o exercício físico emerge como importante ferramenta, indicado precocemente em todos os grupos de pacientes (Oliveira et al., 2018). Finalmente, a exposição solar deve ser evitada em pacientes com lesões cutâneas e comorbidades como osteoporose induzida por corticoide e síndrome metabólica devem ser tratadas adequadamente. 3.4.2 Síndrome de Sjögren A Síndrome de Sjögren (SS) é uma doença autoimune sistêmica crônica caracterizada especialmente, mas não exclusivamente, pelo ataque linfocitário às glândulas exócrinas, e tem como principais alvos as glândulas salivares e lacrimais. O processo inflamatório da doença gera o funcionamento inadequado das glândulas comprometidas, levando a redução na produção salivar e lacrimal. A forma primária da doença tem maior probabilidade de acometimento extraglandular e acomete indivíduos sem outras doenças autoimunes. A forma secundária, por sua vez, associa-se a outras DSTCs. 3.4.2.1 Etiologia A etiologia da SS é entendida, assim como nas demais DSTCs, como uma disfunção do sistema imune – especialmente na sua vertente adaptativa – com predisposição genética polimórfica, iniciada por gatilhos ambientais. Vírus Epstein-Barr, HTLV-1 e hepatite C já foram associados à condição (Nakamura; Kawakami, 2016). Após a perpetuação da ativação dos linfócitos T helperl, especialmente no polo Th17 e Tfh, ocorre estimulação para invasão direta das glândulas por linfócitos T e macrófagos e coestimulação de linfócitos B para produção maciça de anticorpos, frequentemente autorreativos. As manifestações clínicas da síndrome ocorrerão, portanto, nos modelos da lesão tecidual direta e da vasculite por imunocomplexos. 3.4.2.2 Epidemiologia A incidência da doença é de cerca de 7 casos por 100 mil pessoas, sendo maior na Europa e na Ásia. A prevalência da doença é de 43 casos em 100 mil habitantes. Contudo, existe grande variabilidade nos estudos epidemiológicos, pois os critérios classificatórios da doença passaram por diversas revisões. Compromete geralmente indivíduos com mais de 40 anos e a relação entre mulheres e homens é de, pelo menos, 9:1. Devido à sua apresentação insidiosa, o diagnóstico pode ser retardado por vários anos. 3.4.2.3 Manifestações clínicas A seguir, serão apresentadas as manifestações mais singulares da SS, aquelas que se encontram no polo da ativação linfofagocitária. Além das manifestações com alvo definido, a SS pode ser acompanhada por febre, fadiga (muito prevalente nesta DSTC), mialgias, perda ponderal e mal-estar, assim como todas as DSTCs. a) Adenite Os principais achados na SS são os sintomas de secura oral (xerostomia) e ocular (xeroftalmia). A infiltração linfocitária da glândula lacrimal pode resultar na redução da produção de lágrimas e na alteração na composição delas, o que acarreta dano ao epitélio corneal e conjuntival, gerando ceratoconjuntivite seca. O quadro ocular pode evoluir com complicações como úlcera de córnea e infecções como a conjuntivite bacteriana, que requerem contínua avaliação oftalmológica. O paciente queixa-se de secura nos olhos, “sensação de areia” ou “corpo estranho”, queimação, visão borrada e fotossensibilidade. Os sintomas orais mais comuns na SS incluem sensação de diminuição na produção de saliva, secura oral, necessidade de ingerir líquidos para mastigar alimentos secos, alteração do paladar, intolerância a alimentos apimentados e cáries frequentes. Ao exame físico, os pacientes podem apresentar cáries, úlceras orais, mucosa eritematosa, atrofia de papilas gustativas e candidíase oral de repetição (Figura 3.14). O comprometimento inflamatório agudo das glândulas parótidas pode ser visualizado pelo aumento dessas glândulas (Figura 3.15), geralmente bilateral e em surtos de inflamação. Pele seca, pela deficiência na produção do componente aquoso do suor, pode ocorrer em metade dos pacientes, com prurido cutâneo devido ao ressecamento, capaz de levar a liquenização e pigmentação da pele. O comprometimento da mucosa nasal pode provocar secura e dor, prurido e sangramentos de repetição, além de diminuição do olfato. Secura nos seios da face predispõe a sinusites agudas e crônicas. A secura e o infiltrado inflamatório traqueobrônquicos podem provocar tosse crônica e não produtiva. Figura 3.14 - Mucosa oral com ressecamento Figura 3.15 - Hipertrofia da parótida esquerda Por fim, as glândulas do epitélio genital também podem estar acometidas. Nas mulheres os sintomas são mais evidentes, com dispareunia e eventualmente sintomas urinários, mimetizando infecções. O diagnóstico de adenite por SS é a peça fundamental para a sua caracterização. No momento, a demonstração de adenite objetiva é condição sine qua non para a classificação acadêmica de SS por critérios classificatórios. Não obstante os sintomas do paciente, descritos anteriormente, é necessário um teste funcional que comprove déficit glandular, ou mesmo umteste de imagem ou anatomopatológico que evidencie adenite inflamatória. O teste usado para a comprovação de disfunção glandular salivar é a sialometria, que nada mais é do que a quantificação da quantidade de saliva produzida por tempo. O paciente expectora e cospe qualquer conteúdo eventual bucal e o teste se inicia. É fornecido um recipiente milimetrado para que o paciente despreze toda a saliva que se acumular em sua cavidade oral dentro de 5 minutos. Ao final do tempo, o volume é medido. É considerado normal um volume maior ou igual a 0,1 mL/min. Os testes usados para comprovação de adenite são: 1. Ultrassonografia ou ressonância de parótida: os métodos de imagem ainda não fazem parte dos critérios classificatórios de SS, mas tem ganhado muito espaço como ferramentas não invasivas de diagnóstico. Os achados (que refletem, de maneira bastante básica, heterogeneidade glandular) não são patognomônicos de SS, mas ajudam a corroborar o diagnóstico; 2. Biópsia de glândula salivar menor: talvez a ferramenta mais importante e acurada no diagnóstico, pode ser facilmente realizada, inclusive, em ambiente ambulatorial. No anatomopatológico, faz-se necessária a presença de, ao menos, 4 lóbulos de tecido exócrino. O achado típico é a sialadenite linfocítica focal, que nada mais é do que agregados de linfócitos, geralmente periductais. A quantidade é importante, de tal forma que, para o critério classificatório, são necessários 1 ou mais focos de linfócitos para cada 4 mm2. Cada foco, por sua vez, é definido como, ao menos, 50 linfócitos agrupados (Shiboski et al., 2017). Os testes usados para comprovação de disfunção de glândula lacrimal são: 1. Teste de Schirmer (Figura 3.16): consiste na aferição direta do fluxo lacrimal em 5 minutos através de um papel filtro milimetrado. Os valores são considerados indicativos de disfunção relevante quando menores do que 1 mm/min; 2. Testes de superfície ocular (ocular staining score): consistem na instilação de tinturas oculares que coram áreas de desepitelização. As colorações mais usadas atualmente são a fluoresceína e a verde lisamina – a coloração de rosa-bengala tem sido abandonada pelo potencial irritativo e doloroso. É necessária uma lâmpada de fenda para a análise, sendo necessário o encaminhamento ao oftalmologista. De acordo com a padronização internacional (Whitcher et al., 2010), um escore maior ou igual a 5 é sugestivo de ceratoconjuntivite sicca. Ao instilar a fluoresceína, o oftalmologista também é capaz de medir o tempo de quebra do filme lacrimal; este exame não faz parte dos critérios classificatórios, mas quando menor ou igual a 10 segundos, também sugere deficiência lacrimal. Figura 3.16 - Teste de Schirmer Infelizmente, comprovar a disfunção glandular não é o suficiente para o diagnóstico. É necessário estabelecer o diagnóstico diferencial com desordens não autoimunes ou síndromes de sobreposição, doenças infecciosas ou processos neoplásicos. É fundamental a exclusão de efeitos colaterais de tricíclicos, antidepressivos e anti- histamínicos, bem como neurolépticos, anticolinérgicos e diuréticos. Entre os principais diagnósticos diferenciais para SS, incluem-se sarcoidose, amiloidose, linfoma, doença relacionada a IgG4, doença do enxerto contra hospedeiro, infecção por vírus da hepatite C, HIV e diabetes. b) Artrite A sinovite na SS é um sintoma bastante frequente, sendo o principal extraglandular. A artrite desta condição segue a mesma característica das demais DSTCs, com poliartralgia de ritmo inflamatório, simétrica, predominantemente de mãos, punhos e joelhos, não deformante. O exame físico é geralmente frustro e o quadro não causa erosão. O diagnóstico é predominantemente clínico e os diferenciais incluem, na fase inicial, as artrites virais (especialmente por arbovírus, parvovírus ou vírus das hepatites com forma aguda), a endocardite infecciosa e proliferações neoplásicas hematológicas (linfomas e leucemias). Nas apresentações mais crônicas os diferenciais incluem infecções virais crônicas (hepatite C e HIV) e fibromialgia. c) Nefrite No polo da ativação linfofagocitária, há invasão do interstício renal por linfócitos com destruição tubular. O resultado será doença predominantemente de túbulos, com alterações de sedimento urinário, geralmente brandas, com algum grau de leucocitúria, cilindros leucocitários e pouca hematúria, sem cilindros hemáticos ou proteinúrias importantes. Raramente há perda grave de função ou hipertensão. Pelo acometimento tubular, também são marcantes os distúrbios eletrolíticos, lembrando uma síndrome de Fanconi (com perda urinária de glicose, aminoácidos e redução sérica de íons com acidose metabólica) ou uma acidose tubular renal distal. Por vezes, não há infiltração intersticial evidente, mas o paciente se apresenta com acidose metabólica isoladamente, acompanhada ou não de hipocalemia. Acredita-se que esse fenômeno derive de uma autoimunidade diretamente contra a bomba de próton (Cohen et al., 1992). Pode ser interessante, de tempos em tempos, solicitar, aos pacientes com SS, gasometria venosa e dosagem sérica de potássio. No polo da deposição de imunocomplexos, em situação de alta produção de anticorpos, a SS pode cursar com glomerulonefrite, tal qual a do LES (ver nefrite do LES no item 3.3.1.3). O diagnóstico de acometimento renal pela SS se baseia no achado de acidose metabólica, distúrbios iônicos (geralmente redução dos íons plasmáticos, especialmente potássio) e alteração de sedimento e função renal. É comum que o diagnóstico não seja suspeitado até que complicações ocorram (como sintomas musculares pela hipocalemia ou disfunção renal). O diagnóstico diferencial envolve outras formas de tubulopatia com ou sem glomerulonefrite, como nefrite intersticial medicamentosa, doenças clonais, hiperuricemia, infecções virais crônicas e vasculites sistêmicas. Na ausência de outros indícios de SS, suspeitar de nefropatia secundária a esta conectivopatia é improvável. d) Pneumonite Além dos pulmões em si, a via aérea como um todo pode ser acometida, como dito anteriormente. Nas vias aéreas intrapulmonares, pode ocorrer infiltração dos brônquios e bronquíolos, levando a um quadro de obstrução de grandes e pequenas vias. O quadro clínico é de tosse, sibilância e dispneia. O parênquima pulmonar também pode ser invadido por células inflamatórias, culminando em doença intersticial pulmonar. Diversos padrões são descritos, mas a pneumonite intersticial linfocítica – que se apresenta como uma doença cística pulmonar – é altamente associada a SS (Parambil et al., 2006). A queixa é heterogênea; muitos pacientes são assintomáticos e outros evoluem com graus variáveis de tosse e dispneia. O diagnóstico de pneumopatia associada à SS é baseado na clínica, na prova de função pulmonar, na tomografia de tórax e, ocasionalmente, na biópsia pulmonar quando restarem dúvidas. O diagnóstico diferencial passa por causas infecciosas (infecções por vírus, fungos e micobactérias), medicamentosas e outras formas de acometimento imune, como a pneumonite por hipersensibilidade, eosinofílica e a sarcoidose. e) Neuronite O acometimento neural na SS passa pelas formas diretamente inflamatórias aos tecidos neurais (no conjunto as mais frequentes) e as formas isquêmicas induzidas por vasculite (ver no item seguinte). Nas formas diretas, que representam melhor o principal polo da SS, encontram-se a neuropatia de fibras finas, que cursa com alodinia, prurido e dor bem delimitados, geralmente com alteração de sensibilidade apenas superficial do território acometido ao exame físico; as polineuropatias axonais, que se apresentam como quadros sensitivos (superficiais e profundos) ou sensitivo-motores segmentares, distais (“em bota”), e, por vezes, simétricos (Mori et al., 2005); a ganglionite sensorial – uma forma de acometimento dos gânglios dorsais da medula e seus funículos posteriores –, que cursa com dor neuropática, alteração da sensibilidade profunda, ataxia sensorial, incoordenação e raramente disautonomia; as meningites;e as raríssimas formas de polirradiculoneurites e neuropatias desmielinizantes. Alguns sintomas neuropsiquiátricos, extremamente comuns em SS, como declínio cognitivo, sintomas depressivos e queixas de memória não encontram substrato diretamente inflamatório, mas provavelmente se relacionam com alterações microangiopáticas, psicológicas e neurodegenerativas (Segal et al., 2012). Dos quadros neurológicos, mais da metade são neuropatia de fibras finas ou polineuropatia axonal, de tal forma que os sintomas mais relatados serão dor, parestesia e alterações sensitivas. O diagnóstico de acometimento neurológico na SS envolve, especialmente, uma história e um exame físico que defina topografia. Uma vez definida a topografia suspeita, exames (ressonância magnética, eletroneuromiografia, coleta de liquor e biópsia de nervo ou pele – para contagem de fibras) são voltados a confirmar a hipótese. Um estudo eletrofisiológico normal não exclui neuropatia de fibras finas. Na suspeita desta entidade, deve-se biopsiar a pele para contagem de fibras. O diagnóstico diferencial foca majoritariamente nas causas de neuropatias e se encontra resumido a seguir. Inclui quadros metabólicos, iônicos, infecciosos, neoplásicos e tóxicos. São causas de neuropatias: 1. Disfunções orgânicas: renal, hepática; 2. Disfunções endócrinas: diabetes, acromegalia, tireoidopatias; 3. Infecções: HIV, doença de Lyme, herpes-zóster, hanseníase; 4. Síndromes carenciais: vitaminas (especialmente B12); 5. Doenças clonais: amiloidose, mieloma, Waldenström; 6. Drogas: isoniazida, talidomida, quimioterápicos; 7. Disfunções iônicas: sódio, cálcio, magnésio. A seguir, esta obra passará às síndromes clínicas relacionadas mais à deposição de imunocomplexos. Como imaginado, as manifestações serão primordialmente relacionadas à vasculite de pequenos vasos. f) Vasculite Os quadros vasculíticos na SS acometem especialmente a pele e o sistema nervoso. Do ponto de vista cutâneo, o sintoma clássico é a púrpura palpável. O diagnóstico é prontamente clínico pela visualização e palpação das lesões. No polo vasculítico neurológico se encontram as formas menos comuns e mais graves destas síndromes: a mononeurite múltipla, que cursa com quadros sensitivo-motores em nervos distantes entre si; e as formas de vasculite de sistema nervoso central, que, como no LES, consistem em síndromes de acidente vascular encefálico ou medular em múltiplos territórios. Na SS em seus polos vasculíticos há grande produção de anticorpos. Alguns destes anticorpos podem ser crioglobulinas. Por isso, SS é causa de crioglobulinemia secundária. Como dito anteriormente, pode haver deposição de imunocomplexos renais também, na forma de glomerulonefrite que deve ser encarada à semelhança da nefrite por LES. (ver nefrite do LES no item 3.3.1.3). O diagnóstico dos quadros vasculíticos se baseia nos achados cutâneos – altamente sugestivos por si só – e, na vigência de quadro neurológico, pode requerer imagens de sistema nervoso central e eletroneuromiografia. Pela proliferação linfocítica que acompanha a SS, o desenvolvimento de neoplasia hematológica pode ocorrer e o clínico deve ficar atento aos sinais de alarme, como alargamento crônico de parótidas (e, não, intermitente), hepato e esplenomegalia, linfonodomegalias, alterações hematológicas importantes (como linfopenia, linfocitose e, especialmente, neutropenia abruptas) e elementos vasculíticos, como consumo de complemento, púrpura cutânea e evidência de crioglobulinemia – que pode representar uma deposição de imunocomplexos advinda de clone maligno. 3.4.2.4 Diagnóstico O diagnóstico de SS se baseia na ocorrência de síndrome sicca comprovada por métodos funcionais ou anatomopatológicos, preferencialmente com documentação de autoimunidade. Na ausência de acometimento glandular, os marcadores sorológicos tornam-se imperativos. Os anticorpos relevantes à SS são o FAN, geralmente de padrão nuclear pontilhado fino, representando um anti-Ro/SSA ou um anti- La/SSB. Como a síndrome pode cursar com grande produção de anticorpos, não é infrequente que o fator reumatoide seja também positivo. O anti-Ro/SSA é o anticorpo mais importante para a SS, uma vez que os demais anticorpos são mais promíscuos e aparecem em outras entidades clínicas. Ainda assim, a presença de anti-Ro não é específica para SS, uma vez que pode aparecer no LES, na esclerose sistêmica e em algumas formas de MASs. A positividade do anti-Ro é importante para o diagnóstico. Mas não é essencial e, por outro lado, a sua presença não indica, isoladamente, SS. Os critérios de SS mudaram diversas vezes nos últimos anos e esta obra desaconselha o uso de critérios classificatórios com finalidade diagnóstica na prática clínica. Contudo, do ponto de vista de pesquisa, os critérios são essenciais. O Quadro 3.4 os resume. Quadro 3.4 - Critérios classificatórios do American College of Rheumatology/European League Against Nota: a classificação de SS se dá quando o indivíduo pontua 4 ou mais, obrigatoriamente excluídas as seguintes condições: história de irradiação de cabeça e pescoço; infecção ativa por vírus da hepatite C; HIV; sarcoidose; amiloidose; doença do enxerto versus hospedeiro; doença relacionada à IgG4. Fonte: adaptado de ACR/EULAR classification criteria for primary Sjögren’s Syndrome. A consensus and data-driven methodology involving three international patient cohorts. Com a melhoria dos métodos de análise isso se tornou muito infrequente, mas é possível que um paciente com anti-Ro positivo tenha um FAN negativo. Assim, na suspeita de SS, é possível solicitar anti-Ro diretamente. 3.4.2.5 Tratamento Deve-se deixar o paciente a par da doença e do tratamento de possíveis complicações, além de evitar o uso de medicamentos que possam exacerbar os sintomas de secura (agentes tricíclicos, diuréticos), bebidas cafeinadas, álcool e abandonar o tabagismo. Boa parte do tratamento da SS será sintomático e se voltará ao manejo da síndrome sicca. Para os olhos, o paciente pode lançar mão de colírios lubrificantes e óculos de proteção. Algumas fontes recomendam óleo de linhaça para melhorar a qualidade do filme lacrimal (Pinheiro et al., 2007). Na refratariedade, uma opção é a ciclosporina ocular. Por fim, quadros muito graves podem ser tratados cirurgicamente, com oclusão de ponto lacrimal (Del Pappa; Vitali, 2018). Do ponto de vista bucal, pode-se lançar mão de saliva artificial, flúor tópico para prevenção de cáries, goma de mascar e secretagogos (como a pilocarpina). A acetilcisteína também pode ser tentada para os sintomas de vias aéreas altas, como tosse. No que se refere à terapia sistêmica, não há evidência de imunossupressão para controle da síndrome sicca. Para os quadros de fadiga e dor crônica, incluindo a dor neuropática, deve-se orientar medidas comportamentais, como exercícios físicos, terapia contemplativas e terapias físicas. Medicações para dor crônica, como a pregabalina, a gabapentina e a duloxetina podem ser úteis, com ressalvas sobre o eventual efeito da síndrome sicca. Para os quadros articulares, a hidroxicloroquina geralmente apresenta excelente resposta e pode ser associada aos analgésicos e eventuais anti-inflamatórios usados com parcimônia no resgate. Finalmente, os quadros graves (vasculite ou neuropatias com potencial de sequela importante) são geralmente manejados com corticoterapia em dose alta e imunossupressão sistêmica (com azatioprina, por exemplo). 3.4.3 Polimialgia reumática A polimialgia reumática (PMR) é uma doença inflamatória autoimune do aparelho locomotor que ocorre em idosos. Nem todos os autores entendem a PMR como parte das DSTCs, de tal forma que alguns estudiosos a entendem como um espectro de vasculite sistêmica ou uma entidade separada das demais autoimunidades. A presença de artrite não erosiva, o forte componente Th17 – sem tanto componente Th1 –, a ausência de fenômenos vasculíticos na maior parte dos pacientes e a observação pessoal de fenômenos relacionados às DSTCs – como fenômeno de Raynaude leves graus de esclerodactilia – ocorrendo em concomitância com a PMR são alguns dos argumentos que sustentam esta obra a classificar a PMR como uma DSTC, assim como West e seus colaboradores (West, 2015). 3.4.3.1 Etiologia A fisiopatologia da PMR é muito pouco conhecida. São descritos fatores genéticos relacionados ao HLA (Weyand et al., 1994) e possíveis gatilhos infecciosos sazonais, sem grande elucidação do verdadeiro mecanismo imune envolvido. Na mecânica da autoimunidade, observa-se ativação dos linfócitos T auxiliares para um polo Th17, com grande participação da IL-6 e da IL-1, sugerindo ativação fagocítica. Os pacientes com PMR virtualmente não terão erosões articulares e não há formação granulomatosa – exceto com evolução para arterite de células gigantes –, falando, ao menos até o momento, contra mecanismos Th1 preponderantes (Weyand et al., 1994 [2]). Na prática, esta maquinaria causa ataque tecidual no polo da ativação linfofagocitária, sem grandes componentes das outras vias fisiopatológicas das DSTCs. Aproximadamente em 10% dos pacientes diagnosticados com PMR o quadro clínico pode preceder um quadro de arterite de células gigantes. Há dúvida entre os pesquisadores se representam espectros de uma mesma doença ou se é apenas uma coincidência que pacientes com arterite de células gigantes apresentem um quadro clínico do aparelho locomotor que lembra uma PMR. Independentemente de polêmicas fisiopatológicas, polimialgia reumática e arterite de células gigantes são altamente relacionadas. 3.4.3.2 Epidemiologia A PMR é uma doença comum – se consideradas as doenças autoimunes reumáticas – com prevalência entre a artrite reumatoide e o LES, acometendo até 0,7% da população (Crowson et al., 2017). A idade de início é sempre após os 50 anos, geralmente acometendo pacientes na oitava década de vida. Mulheres podem ser mais acometidas, em uma proporção de até 3 para cada homem. Não há estudos étnicos, mas a maior parte dos levantamentos foram feitos em países de população francamente caucasiana. 3.4.3.3 Manifestações clínicas As manifestações clínicas relevantes para a prática médica se encontram no polo da ativação linfofagocitária com ataque tecidual direto. Como todas as DSTCs, a PMR pode cursar – e frequentemente o faz – com febre, fadiga, astenia, perda ponderal, perda de performance física e cognitiva, hiporexia e mal-estar. a) Sinovite A sinovite é um dos sintomas mais importantes e ocorre nas articulações dos ombros e quadris, especialmente. É geralmente simétrica, e de início razoavelmente agudo. Alguns pacientes se recordam do dia em que começaram a sentir os sintomas. Existe uma importante rigidez articular associada à PMR – às vezes francamente predominante ao fenômeno álgico –, que pode durar muitas horas (algo como 5 a 6 horas), e que não pode ser explicada apenas pelo componente sinovial, que geralmente é brando. A rigidez decorre mais especialmente do componente periarticular da condição (ver adiante). Uma porção dos pacientes terá também artrite periférica, geralmente em dedos das mãos e punhos, lembrando a artrite das DSTCs em geral. Quase sempre não será uma artrite muito flogística. O exame físico mostrará sinais frustros de inflamação e, comumente, restrição à movimentação ativa e mesmo passiva. Grande foco deve ser dado às articulações dos ombros e quadris. O diagnóstico da artrite é clínico. O diferencial inclui quadros infecciosos, especialmente aqueles que cursam com poliartrite. Neste sentido, provavelmente devem ser considerados, dentro do contexto adequado, poliartrites virais (por parvovírus e arbovírus, por exemplo) ou endocardite infecciosa. Um outro diferencial por vezes desafiador é a artrite reumatoide. Geralmente as imagens – que mostram erosão articular – e a sorologia (fator reumatoide e antipeptídio C citrulinado) ajudam a diferenciar as entidades. b) Bursite e tenossinovite Uma marca registrada da PMR é o acometimento do aparelho periarticular. As articulações do quadril e dos ombros são formadas por diversas bursas e algumas bainhas sinoviais, de tal forma que a inflamação destes componentes gera não só dor, mas, especialmente, rigidez articular. Mesmo no exame físico, é possível que o clínico encontre dificuldade em realizar as manobras passivas, por dor ou propriamente restrição à movimentação. Apesar da eventual rigidez, contudo, não é esperada fraqueza quando as manobras são feitas considerando a restrição mecânica ao movimento. O acesso às bursas inclui palpá-las ou criar manobras compressivas para testar sintomas álgicos. No ombro, a maioria das bursas são palpáveis, assim como no trocânter maior e na região isquiática. A bursa do iliopsoas deve ser estressada por manobras que estendem a coxa passivamente ou com a flexão resistida das coxas. A polimialgia reumática não é uma desordem muscular, a despeito do nome. A força muscular deve ser preservada nestes pacientes. O diagnóstico de bursite e tenossinovite é clínico. A ultrassonografia e a ressonância são usadas quando o exame físico deixa dúvidas apenas para documentar os achados. Os diferenciais principais incluem desordens mecânicas do manguito, a síndrome do trocânter maior (bursite trocantérica com tendinopatia dos glúteos médios), a capsulite adesiva (uma desordem transitória da articulação glenoumeral que cursa com perda da amplitude de movimento), quadros musculares (como síndrome miofascial e mialgia), desordens hormonais (como o hipotireoidismo) ou álgicas (como a fibromialgia). 3.4.3.4 Diagnóstico O diagnóstico de PMR é feito majoritariamente com os achados clínicos – eventualmente corroborados pelas imagens na dúvida frente ao exame físico – associados à elevação de proteína C reativa (PCR) e da velocidade de hemossedimentação (VHS). A elevação pode ser muito marcante, com valores sugerindo inclusive sepse quando não interpretados no contexto adequado. Outros sinais vagos incluem aumento de fosfatase alcalina, leucocitose, queda de albumina, anemia de doença crônica e outros sinais inespecíficos de inflamação. Não há sorologia para a PMR e o FAN e o fator reumatoide são geralmente negativos. Muitos clínicos, na suspeita de PMR, optam por uma prova terapêutica (ver adiante). A resposta geralmente é gritante, corroborando fortemente o diagnóstico. 3.4.3.5 Tratamento O tratamento da PMR geralmente é muito bem-sucedido com corticoide oral em dose baixa. Um esquema clássico é prednisona 15 mg/d. Em pouco tempo, o paciente costuma apresentar melhora marcante dos sintomas e normalização dos exames laboratoriais. Contudo, o desmame de corticoide na PMR é muito difícil, com recidiva quase universal. Assim, após estabilização, o desmame deve ser feito de maneira muito lenta, geralmente ao longo de, pelo menos, 6 meses a 1 ano. O momento mais difícil geralmente é após os 7,5 mg. Terapias imunossupressoras são usadas por especialistas como poupadoras de corticoide, mas apresentam evidência limitada e fogem do escopo deste livro. Recomenda-se que pacientes com dificuldade de desmame sejam encaminhados ao reumatologista. A não resposta plena a doses baixas de corticoide sugere que a doença possa ser, na verdade, uma arterite de células gigantes. 3.4.4 Artrite reumatoide (como conectivopatia) A Artrite Reumatoide (AR) é uma entidade muito singular na Reumatologia. A maioria dos autores a considera uma DSTC, justificando que se trata de uma doença com grande produção de autoanticorpos, que frequentemente serve como doença primária para uma conectivopatia secundária (como SS e SAF) e que cursa com acometimento multissistêmico, ao mesmo tempo com facetas de patologia relacionada ao colágeno (como presença de pneumopatia fibrosante) e de vasculite. Ademais, quando analisadas as vias fisiopatológicas por trás das manifestações clínicas, a AR apresenta as mesmas disfunções imunes e, inclusive, muitos fatores genéticos e ambientais semelhantes às DSTCs. Por estes prismas, não haveria como negar que a AR pertence à grande família das colagenoses. Contudo, a maiorparte dos pacientes com AR não se apresentarão fenotipicamente como em uma DSTC; ao menos não mais. Talvez pela inovação na terapia, culminando com uma modificação na resposta imune inicial, freando a história natural da doença, raramente os pacientes terão doença multissistêmica. Clinicamente, a AR deve ser encarada muito mais como uma artropatia autoimune, pois a maioria dos pacientes terão exclusivamente as manifestações articulares. Ainda mais enigmático é o fato de que a marcha de progressão articular na AR não acompanha a marcha vista nas DSTCs. Um novo braço de disfunção imune emerge na AR, o eixo Th1, com grande importância fisiopatológica. Este modelo de defeito na resposta linfocitária auxiliar se caracteriza pela produção de citocinas como o TNF-alfa e o IFN-gama e culmina, em última análise, em uma potente ativação fagocitária com inflamação sinovial exuberante e destruição irreversível da arquitetura tecidual osteocartilaginosa. Pela característica deste capítulo, a AR será aqui analisada pelo seu prisma de DSTC. Contudo, para a prática clínica, a AR vista pela sua apresentação fenotípica mais comum – como artropatia autoimune – é mais relevante. 3.4.4.1 Etiologia A AR ocorre como resultado da perda do mecanismo de tolerância imune. Esse mecanismo é dependente de fatores ambientais e genéticos. Acomete 4 vezes mais os parentes de primeiro grau de outros pacientes com AR do que a população geral. Aproximadamente 10% dos pacientes com AR terão 1 parente de primeiro grau acometido. Entretanto, há concordância de apenas 12 a 15% em gêmeos monozigóticos, demonstrando claramente a participação de outros fatores. A maioria dos pacientes não tem história familiar significativa. Os fatores genéticos envolvidos mais importantes estão relacionados aos alelos do complexo principal de histocompatibilidade (MHC ou HLA) classe II, principalmente alelos do HLA-DRB1 e HLA-DR4, fortemente associados ao desenvolvimento de AR. É possível que a AR esteja relacionada à resposta imune a agente infeccioso em indivíduo geneticamente suscetível. Vários possíveis agentes são sugeridos, inclusive micoplasma, vírus Epstein-Barr, citomegalovírus, parvovírus e vírus da rubéola. Existe o papel definido de citrulinização de proteínas e consequente formação de anticorpos anticitrulina ou antipeptídio C citrulinado, que contribuem para o desenvolvimento de AR e para o surgimento de doença mais agressiva. A citrulinização ocorre na mucosa oral na presença de Porphyromonas gingivalis, encontradas em periodontites. Possivelmente, a mucosa do intestino também está envolvida, na presença de espécies de Prevotella. Dentre os gatilhos ambientais, o tabagismo é capaz de provocar citrulinização de proteínas pulmonares. Boa parte das respostas sistêmicas na AR decorrem da ativação aberrante das vias Th17/Tfh. A IL-6 e a IL-21 têm papel central nesta via, contribuindo para a ativação, por um lado, dos macrófagos e neutrófilos que farão a lesão tecidual direta, e, por outro, dos linfócitos B que produzirão anticorpos – muitos deles, autorreativos. 3.4.4.2 Epidemiologia A AR é uma doença mundial que afeta todas as etnias, com prevalência de cerca de 0,5 a 1% da população, com predomínio de acometimento em mulheres (2,5 a 3 vezes maior do que em homens), e aumenta com a idade. A diferença entre sexos diminui na faixa etária mais elevada. Em mulheres, o início acontece durante a quarta e a sexta década de vida, com 80% de todos os pacientes acometidos com idade entre 35 e 50 anos. Em homens, ocorre mais tardiamente, durante a sexta e a oitava década de vida. A AR causa aumento da mortalidade e é responsável por grande morbidade. Pelo fato de acometer indivíduos em idade produtiva e potencialmente causar danos articulares irreversíveis, essa patologia gera altos custos para esses pacientes e a sociedade. 3.4.4.3 Manifestações clínicas Serão abordadas as síndromes relacionadas ao mecanismo de ativação linfofagocitária. a) Serosite O acometimento de serosas é frequente na AR, especialmente nas pleuras. Contudo, a maior parte dos pacientes é assintomática (Balbir-Gurman et al., 2006). As apresentações possíveis incluem dispneia, tosse e dor torácica. O derrame pleural é tipicamente um exsudato com predomínio linfocítico, glicose baixa e DHL alto. Assim, a diferenciação com pleurites infecciosas crônicas (e.g.: tuberculose) ou neoplásicas deve sempre ser considerada. A pericardite pode acometer mais de 50% dos pacientes, geralmente sem sintomas relatados. No derrame pericárdico, o líquido apresenta baixa concentração de glicose e baixo pH, sendo habitualmente associado a derrame pleural. Muito raramente, ocorrem tamponamento cardíaco e pericardite constritiva. O subitem i) Serosite do item 3.3.1.3 apresenta exames laboratoriais que podem ser relevantes no diferencial das serosites em geral. Os derrames cavitários na artrite reumatoide precisam ser diferenciados, especialmente, das infecções por micobactéria. b) Ceratite e esclerite Embora a AR possa cursar com inflamação direta da esclera e da córnea, o acometimento ocular mais comum é a ceratoconjuntivite seca por SS secundária. Nos casos de ceratite e esclerite/episclerite, o quadro clínico geralmente é de olho vermelho doloroso, com evolução subaguda (Figura 3.17). O exame físico pode mostrar alterações na superfície da córnea ou áreas circunscritas de eritema com aumento da vascularização local. Casos mais graves de esclerite podem apresentar nodulações na esclera e afilamento desta, com visualização, ao exame físico, do humor vítreo. Figura 3.17 - Olho com esclerite nodular Nota: há grande hipervascularização focal na esclera, com formação nodular abaixo. Fonte: Kribz, 2011. O diagnóstico de acometimento ocular pela AR é clínico, feito pelo oftalmologista com equipamento propedêutico adequado. O controle pode ser feito com medicamentos tópicos (incluindo corticoides e imunossupressores). Na vigência de quadros graves (esclerite nodular, necrosante ou ceratite), é comum a necessidade de imunossupressão sistêmica. A seguir, serão abordadas as manifestações mais relacionadas à hiperprodução de anticorpos e à subsequente deposição de imunocomplexos. c) Vasculite reumatoide A grande produção de anticorpos pode levar à formação de imunocomplexos que se depositam na circulação terminal. Com a deposição, ocorre destruição do vaso, extravasamento de elementos sanguíneos e sofrimento à jusante. A vasculite reumatoide pode afetar qualquer órgão, sendo comumente vista em pacientes com AR grave e títulos elevados de fator reumatoide. As formas mais agressivas se manifestam como polineuropatia, mononeurite múltipla, úlceras cutâneas, necrose dérmica, gangrena digital (Figura 3.18) e infarto visceral (isquemias miocárdica, pulmonar, intestinal, hepática, esplênica, pancreática e testicular, que são raras). As formas mais frequentes de apresentação são pequenas manchas acastanhadas ungueais e periungueais e nas polpas digitais das mãos (Figura 3.19), além de grandes úlceras isquêmicas, principalmente nos membros inferiores (Figura 3.20). O diagnóstico de vasculite é suspeitado pelo quadro clínico, mas é frequente a necessidade de biópsia para confirmação. A obtenção do material é frequentemente fácil visto que a maioria dos pacientes apresentam manifestações cutâneas. Diagnósticos diferenciais incluem aqueles que cursam com úlceras de membros inferiores, como insuficiência arterial ou venosa, síndromes infecciosas ulcerativas (como infecções por fungos, leishmaniose e micobactérias) e outras formas de autoimunidade, como a poliarterite nodosa e a SAF. A poliarterite nodosa pode ser praticamente idêntica à AR na forma vasculite reumatoide. Nestes casos, a positividade dos marcadores sorológicos é essencial. Figura 3.18 - Vasculite de polpa digital evoluindo para gangrena Figura 3.19 - Vasculite digital com úlceras cutâneas Figura 3.20 - Vasculite evoluindo com úlcera no membro inferior (pré-debridamento e pós- debridamento) d) Citopenias A produção deanticorpos exacerbada nas DSTC pode opsonizar elementos do sangue e marcá-los para remoção pelo sistema reticuloendotelial. Na AR, existe uma forma de citopenia bastante particular que cursa com febre, neutropenia e organomegalia (especialmente esplenomegalia, secundária). Esta entidade se chama síndrome de Felty e ocorre geralmente em pacientes com AR soropositiva de difícil controle e de longa data. É uma complicação grave da AR que predispõe a infecções, mas que, com a terapia avançada que se dispõe atualmente, tornou-se absolutamente infrequente. Outras aberrações hematológicas que podem ocorrer incluem trombocitopenia, geralmente de pequena monta, e anemia. É importante diferenciar a anemia hemolítica e a anemia de sequestro esplênico da anemia de doença crônica; esta é infinitamente mais comum na AR. Na anemia de doença crônica, há reticulócitos, transferrina e a capacidade total de ligação de ferro reduzidas, sendo a saturação de transferrina normal e a ferritina elevada. O diagnóstico da síndrome de Felty é clínico e laboratorial, baseado na ocorrência de neutropenia. O leque diferencial inclui especialmente uma forma de leucemia, que é a leucemia de linfócitos grandes granulares (LGL). Neste caso, haverá citopenias, mas elas decorrerão mais da invasão da medula pelas células neoplásicas do que da lise por anticorpos. A suspeita de LGL geralmente se dá pela presença de linfocitose – com ou sem atipia – no esfregaço e refratariedade ao tratamento inicial. A confirmação de LGL pode ser feita com esfregaço periférico ou medular e, caso necessária, imunofenotipagem sérica ou medular. Outros diferenciais incluem quadros infecciosos, como a malária, leishmaniose visceral e síndromes virais causadas por HIV e vírus Epstein-Barr, por exemplo. Síndrome de Felty é uma manifestação rara da AR que cursa com neutropenia, febre e esplenomegalia em um indivíduo com AR grave. Por fim, a pneumopatia é a principal representante das manifestações da AR relacionadas à regeneração inadequada com expansão do colágeno e fibrose. e) Pneumopatia As manifestações pulmonares da AR se encontram divididas pelos mecanismos de ataque linfofagocitário direto e regeneração inadequada. No polo mais inflamatório (o menos frequente), a AR pode cursar com quadros mais agudos ou subagudos de dispneia e tosse. A análise tomográfica e patológica geralmente mostrará, nestes casos, pneumonia intersticial não específica. Contudo, a doença intersticial mais frequente é a forma de pneumonia intersticial usual, que se assemelha muito a fibrose pulmonar idiopática e possui pouca inflamação ativa e forte componente de regeneração fibrótica. Apesar do prognóstico ruim, a progressão da doença pulmonar na AR é muito lenta e a maioria dos pacientes não apresenta grandes queixas ao longo da vida. Adicionalmente, a AR pode cursar com nódulos pulmonares, que podem aparecer isoladamente ou em grupos e evoluir com cavitação, que pode infectar, calcificar ou produzir pneumotórax ou fístula broncopleural. O encontro isolado de nódulo pulmonar requer investigação adicional para neoplasia de pulmão. Também pode ocorrer a obstrução de via aérea superior, cricoaritenoide ou da laringe pelo surgimento de nódulos reumatoides, ou pela própria artrite dessa articulação, podendo manifestar-se como dor para deglutir, disfonia e, raramente, obstrução. A síndrome de Caplan ocorre em pacientes com AR e pneumoconiose relacionada à exposição a poeiras minerais (carvão, asbestos e sílica) e caracteriza-se pelo rápido desenvolvimento de múltiplos nódulos basais periféricos em associação a leve obstrução do fluxo aéreo. Essa síndrome pode complicar-se com o desenvolvimento de fibrose progressiva. 3.4.4.4 Diagnóstico Assim como o diagnóstico da AR sem manifestações extra- articulares, as formas viscerais desta conectivopatia são diagnosticadas baseadas na apresentação clínica, comprovação laboratorial e radiológica dos achados suspeitos (exemplos: neutropenia e infiltrado intersticial) e, quase sempre, documentação de fator reumatoide e/ou antipeptídio C citrulinado (anti-CCP) aumentados. Quase sempre as formas graves de AR serão acompanhadas de positividade sorológica. A ocorrência de vasculite também sugere possível componente crioglobulinêmico, sendo importante a sua pesquisa do ponto de vista prognóstico. 3.4.4.5 Tratamento O tratamento da complicação visceral depende do sítio de acometimento. Quadros de serosa geralmente são benignos na AR e costumam responder ao tratamento da doença como um todo. Anti- inflamatórios não esteroidais ou corticoides sistêmicos em dose baixa podem ser usados como terapia adjuvante temporária. Os quadros oculares relacionados à SS secundária devem ser manejados com medidas locais (ver item 3.4.2.5) e os quadros de ceratite e esclerite devem ser vistos em conjunto com oftalmologista. Em geral, as medicações modificadoras do curso da doença, especialmente o metotrexato, possuem ação sobre as queixas oculares inflamatórias – e, não, sobre a síndrome sicca – também. Quadros que ameaçam a integridade ocular geralmente são pulsados com glicocorticoide e, eventualmente, ciclofosfamida. A vasculite reumatoide geralmente é um intercorrência grave e costuma ser manejada com imunossupressão intensiva: glicocorticoide dose alta associado a ciclofosfamida ou rituximabe. A síndrome de Felty geralmente é bem manejada com metotrexato, a despeito da neutropenia, que costuma melhorar. Por fim, a pneumonite na AR geralmente apresenta padrão sequelar e não se beneficia muito de imunossupressão. Na ocorrência de imagens sugestivas de inflamação e eventual piora abrupta, os pacientes podem se beneficiar de corticoterapia sistêmica e imunossupressão (com micofenolato de mofetila, por exemplo). 3.5 DOENÇAS DO ESPECTRO DA REGENERAÇÃO INADEQUADA 3.5.1 Esclerose sistêmica No polo da regeneração inadequada, a grande protagonista é a Esclerose Sistêmica (ES). Trata-se de uma doença autoimune multissistêmica, que, além das manifestações inflamatórias, cursa especialmente com deposição colagênica e fibrose de pele, vasos e vísceras. O resultado é uma disfunção orgânica pela interpolação da fibrose no tecido saudável. Quando este evento ocorre na vasculatura, o suprimento sanguíneo fica comprometido e ocorrem mecanismos que perpetuam a inflamação e a fibrose. De maneira geral, a ES deve ser interpretada como uma doença autoimune com forte componente cicatricial. A imunossupressão, portanto, nem sempre é indicada nestas condições. 3.5.1.1 Etiologia A ES se caracteriza singularmente pelo comportamento quase tumoral do fibroblasto, que deposita matriz colagênica de maneira aberrante e cria um ambiente disfuncional para os órgãos e tecidos. Especula-se que os próprios fibroblastos dos pacientes com ES possam ser doentes, com resposta desproporcional ao estímulo inflamatório promovido pela autoimunidade (Trojanowska et al., 1988). A maioria dos casos ocorre de maneira esporádica, mas, raramente, pode haver agrupamento familiar. A contribuição genética polimórfica tem sido estudada, havendo associação a HLA-A1, B8 e DR3. Na fisiopatologia da ES, alguns solventes, materiais sintéticos e adjuvantes têm sido estudados como gatilhos para desencadear a doença. Há, no momento, atenção especial à sílica, solventes e hidrocarbonetos de petróleo (Wei et al., 2016). Vírus também são estudados, especialmente o citomegalovírus, com modelos in vitro e murino gerando lesão e hiperproliferação endotelial com hiperativação de TBGβ e PDGF, motivados talvez por mimetismo molecular (Lunardi et al., 2000). No desenvolvimento da fibrose, ocorre ativação anormal do sistema imune, com autorreatividade de linfócitos T e B, liberação de citocinas e quimiotaxia de células inflamatórias, como os macrófagos. Essas células inflamatórias, em conjunto com as plaquetas ativadas e o endotélio, liberam fatores de crescimento, capazes de atrair e ativar os fibroblastos, levando à deposição excessiva de colágeno (principalmente, tipos I, III e VI). As alteraçõesvasculares podem ser explicadas pelo componente fibrótico e colagênico, pela produção de maior quantidade de fatores vasoconstritores (endotelina-1 e tromboxano A2), menor quantidade de substâncias vasodilatadoras (óxido nítrico e prostaciclina) e ativação plaquetária – com formação de microagregadores de plaquetas nos capilares e nas vênulas. Esse desequilíbrio a favor de uma vasoconstrição persistente provoca episódios repetidos de isquemia e hipoperfusão tecidual, acarretando injúria celular, sendo mais um estímulo para o acúmulo dos fibroblastos ativados e a formação de fibrose. 3.5.1.2 Epidemiologia Trata-se de uma doença rara, de etiologia desconhecida. Todas as faixas etárias podem ser acometidas, mas a maior incidência se dá entre 30 e 50 anos. A relação entre mulheres e homens é de 4 a 5:1. É incomum em crianças menores de 13 anos (0,1/1.000.000), mas que, quando acometidas, apresentam menor incidência de crise renal, porém maior propensão a atingir o sistema cardiopulmonar. A ES tem distribuição mundial e acomete todas as raças, mas com graus variáveis. Negros tendem a ter maior incidência da forma difusa, com comprometimento pulmonar e pior prognóstico e idade de início mais baixa, enquanto quadros cutâneos limitados são comuns em mulheres brancas. Na idade pós-menopausa, há pequena redução na prevalência em relação aos homens (2 a 4:1). 3.5.1.3 Manifestações clínicas A maioria das manifestações relacionadas à ES se encontram no polo da regeneração inadequada. a) Espessamento cutâneo Os achados mais característicos da ES estão na pele. A infiltração do tecido subcutâneo com colágeno e fibrose leva a espessamento e endurecimento cutâneos. A distribuição da esclerose é responsável pela divisão da ES nas formas difusa e limitada. Na forma difusa, o espessamento cutâneo está presente no tronco e nas extremidades proximais (acima dos joelhos e cotovelos), além da face e da porção distal dos membros, e, na forma limitada, o espessamento cutâneo fica limitado aos membros, distalmente aos cotovelos ou joelhos, podendo acometer face e pescoço. O processo de esclerose de pele passa por 3 fases: edematosa, fibrótica e atrófica. Na fase precoce, ou edematosa (Figura 3.21), há edema difuso da pele e, em alguns casos, eritema. Este se deve ao infiltrado inflamatório e pode estar inicialmente restrito às mãos, aos dedos ou aos pés. Pode haver sensação de prurido e sensibilidade cutânea nessa fase pré-fibrose. Figura 3.21 - Fase edematosa Na fase fibrótica (Figura 3.22), a pele se torna espessada e aderida. O processo inicia-se distalmente e progride proximalmente, acometendo mais os membros superiores do que os inferiores. Pode haver limitação de movimentos pela perda de elasticidade da pele sobre várias articulações e, dependendo da gravidade do processo, contraturas em flexão. Sobre as superfícies extensoras dessas articulações, são comuns, pela tração da pele pouco elástica, isquemia e traumas, além do aparecimento de úlceras de tração (que não têm relação com o fenômeno de Raynaud, diferentemente das pitting scars, que ocorrem nas polpas digitais). O espessamento e endurecimento da pele dos dedos na ES é conhecido como esclerodactilia (Figura 3.23). Na fase atrófica, a pele fica mais afinada e desprende-se dos planos profundos, com aparente “melhora” do quadro. Figura 3.22 - Fase fibrótica Figura 3.23 - Espessamento cutâneo e retração da pele dorsal dos dedos (esclerodactilia), com contratura em flexão de interfalangianas proximais e distais Fonte: adaptado de Thermography Improves Clinical Assessment in Patients with Systemic Sclerosis Treated with Ozone Therapy, 2017. Na face, o acometimento da pele leva a perda de rugas, estiramento da pele, afinamento dos lábios e do nariz. A rima oral se reduz, provocando microstomia (Figura 3.24), o que pode dificultar abordagens na cavidade oral, como avaliações e tratamentos odontológicos, ou mesmo a intubação. Embora o espessamento distal dos quirodáctilos, a partir da interfalangiana proximal, possa ocorrer na ES, é um achado frequente nas DSTCs como um todo e não ajuda, isoladamente, a diferenciá-las. Figura 3.24 - Afinamento dos lábios e redução da rima oral Fonte: Improvement of Mouth Functional Disability in Systemic Sclerosis Patients over One Year in a Trial of Fat Transplantation versus Adipose-Derived Stromal Cells, 2016. Na fase tardia do espessamento, aparecem lesões chamadas, no seu conjunto, de leucomelanodermia (ou lesões em “sal e pimenta”), que são lesões hipocrômicas ou acrômicas entremeadas com pele normocrômica, em um padrão marmoreado (Figura 3.25). Figura 3.25 - Lesões “em sal e pimenta” Fonte: Adult-onset dyschromatoses, 2011. O diagnóstico do espessamento é clínico e possui alguns diferenciais, tal como: 1. Escleredema: espessamento cutâneo proximal, geralmente na parte dorsal alta e raiz dos ombros, que poupa os membros distalmente. É associada a diabetes mellitus insulinodependente (escleredema de Buschke) e neoplasias hematológicas; 2. Escleromixedema: lesões eritematoamareladas e elevadas que ocorrem sobre superfície cutânea espessada, especialmente na face, pavilhão auricular e dorso, relacionadas a doenças hematológicas clonais; 3. Mixedema: edema endurado e não compressível associado ao hipotireoidismo, visto mais frequentemente nas pernas; 4. Fasciite eosinofílica: espessamento e aderência cutânea às fáscias musculares adjacentes, dando um aspecto de casca de laranja; 5. Doença do enxerto versus hospedeiro: na fase tardia da doença, a pele pode começar a espessar e aderir à fáscia. Pode ser clinicamente muito semelhante à esclerose sistêmica; 6. Fibrose nefrogênica: espessamento cutâneo difuso que ocorre após infusão de gadolínio, especialmente em pacientes com disfunção renal. Tem um aspecto brilhante, pode ser levemente eritematosa e lembra as lesões em casca de laranja da fasciite eosinofílica. Raramente será necessária, mas a biópsia cutânea pode ajudar nos casos que deixam dúvida. b) Calcinose Outro achado característico são as calcinoses, que correspondem a depósitos de cálcio no subcutâneo, geralmente sobre áreas expostas a microtraumas, como antebraços, mãos, cotovelos, joelhos, coxas e nádegas. Esse material pode provocar dor, desconforto e ulcerações, facilitando infecções. Acredita-se que as calcinoses correspondam a um recrutamento inadequado de cálcio por macrófagos do perfil M2, ou seja, macrófagos regenerativos. O diagnóstico é prontamente feito pela palpação e a monitorização da quantidade e tamanho das calcinoses pode ser feita com radiografias em 2 incidências. c) Vasculopatia A infiltração colagênica intimal e perivascular, a proliferação das camas musculares vasculares, a desregulação do balanço vasodilatador-vasoconstritor e a trombogênese microvascular levam à incompetência vasomotora arterial nos pacientes com ES. Estes fenômenos se expressam em múltiplos sítios e são responsáveis por muitos dos sintomas desses indivíduos. Ocorrendo nas extremidades, um dos sítios principais de acometimento da ES, nota-se a tradução clínica do evento fisiopatológico na forma do fenômeno de Raynaud (ver adiante), das úlceras isquêmicas, das telangiectasias (que surgem como estímulo neoangiogênico induzido por hipóxia), das depressões cutâneas na extremidade digital (pitting scars – Figura 3.26) e na reabsorção das polpas digitais (Figura 3.27). Figura 3.26 - Fenômeno de Raynaud com pitting scars ou úlcera digital por isquemia Fonte: Esclerose sistémica juvenil: uma doença incomum na infância, 2012. Figura 3.27 - Reabsorção de falanges distais em paciente com esclerose sistêmica difusa, fenômeno de Raynaud e pitting scars Legenda: (A) infarto digital; (B) reabsorção de falanges distais. A manifestação de vasculopatia periférica pode ser comprovada através da capilaroscopia periungueal, que nada mais é do que observar o leito vascular ungueal com uma lente de aumento. Achados como ectasias, hemorragias e deleções sugerem doença vascular (Figura 3.28). Figura 3.28- Capilaroscopia periungueal: observar a dilatação dos capilares e áreas sem capilares (deletados) – padrão SD O fenômeno de Raynaud (FRy) é um vasoespasmo reversível de artérias digitais de mãos e pés que pode ser primário ou secundário (ou seja, ocorre em associação a outras doenças). Classicamente, o fenômeno vascular é trifásico, porém pode haver formas menos características, sendo, em geral, desencadeado pela exposição ao frio. Incide de preferência em mulheres jovens e costuma ser simétrico, acometendo as mãos, mas é possível também acometer os pés. Classicamente, trata-se de forma benigna que não cursa com manifestações isquêmicas. Seu diagnóstico depende da exclusão de outros fatores que podem desencadeá-lo, como uso de drogas vasoconstritoras, tabagismo, distúrbios vasculares e as DSTCs. Para o diagnóstico do FRy primário, além de excluir causas externas e doença sistêmica pela anamnese e pelo exame físico, o paciente deve ter capilaroscopia periungueal normal ou com leves alterações inespecíficas. A forma secundária, por sua vez, simboliza doença vasomotora ou vasculítica associada e é encontrada na ES (pode ser, inclusive, a sua primeira manifestação), nas doenças mistas do tecido conectivo e nas MASs, predominantemente. Na circulação pulmonar, a vasculopatia culmina no aumento das pressões em leito arterial que se transmitem ao ventrículo direito. O resultado é a temida Hipertensão Arterial Pulmonar (HAP). Se nenhuma medida é tomada, a sobrecarga pressórica induz insuficiência de ventrículo direito, com as suas nefastas consequências. Junto com a doença intersticial pulmonar, representam a principal causa de morte na ES. Os pacientes com HAP geralmente se queixam de dispneia e, eventualmente, sintomas de baixo débito. Em pacientes com insuficiência grave de ventrículo direito, pode haver morte súbita. A hipertensão pulmonar da ES é considerada arterial, uma vez que a gênese da doença é, primariamente, arterial. Existem formas não arteriais de aumento pressórico pulmonar, sendo chamadas, apenas, de hipertensão pulmonar. O diagnóstico de HAP é sugerido pelo ecocardiograma, mas deve sempre ser quantificada pela aferição invasiva de pressão de artéria pulmonar pelo cateterismo, pois o ecocardiograma é pouco acurado na quantificação precisa. Os diagnósticos diferenciais incluem outras causas de hipertensão pulmonar, como tromboembolismo, doença cardíaca e doença pulmonar hipoxêmica. Na circulação renal, a deposição de colágeno oblitera o lúmen vascular, causando hipofluxo renal e isquemia. O quadro clínico geralmente conta com hipertensão, perda de função renal, proteinúria não nefrótica e sedimento urinário brando ou normal. O estreitamento vascular pode gerar lise de células sanguíneas e agregação plaquetária, causando citopenias; eventualmente podem surgir esquizócitos – hemácias deformadas – no esfregaço sanguíneo. Por fim, elevações rápidas de pressão arterial podem causar encefalopatia. O quadro de disfunção renal associado à ES geralmente se dá rapidamente, motivo pelo qual ficou conhecido como crise renal esclerodérmica. A crise renal esclerodérmica ocorre com mais frequência em pacientes que foram diagnosticados recentemente, possuem grande extensão de acometimento cutâneo, geralmente com formas difusas de doença, e que apresentam anticorpos malignos, como o anti- RNA-polimerase III. O uso de glicocorticoide pode ser o gatilho para iniciar o quadro. O diagnóstico de crise renal esclerodérmica deve ser suspeitado em paciente com perda de função renal relativamente rápida na vigência de ES. Exames úteis são a análise do sedimento urinário e a proteinúria de 24 horas. Biópsia renal raramente é necessária. Diagnósticos diferenciais importantes incluem a hipertensão maligna e as síndromes trombo-hemorrágicas, especialmente a síndrome hemolítico-urêmica. O Quadro 3.5 resume as manifestações e os exames a serem solicitados na ES em suas formas vasculares. Existe uma minoria dos pacientes que apresenta crise renal sem aumento pressórico. Como será visto futuramente, o prognóstico deste grupo é bastante reservado. Quadro 3.5 - Exames relevantes nas formas vasculares de esclerose sistêmica d) Manifestações gastrintestinais O aparelho digestivo é o segundo mais atingido, depois da pele. O acometimento neurológico do plexo mioentérico, com atrofia e fibrose da musculatura lisa, leva a dismotilidade gastrintestinal. O esôfago acometido, principalmente nos 2 terços distais, pode chegar a ficar aperistáltico e provocar disfagia, em especial, para sólidos. O esfíncter esofágico inferior acometido causa doença do refluxo gastroesofágico (DRGE), com pirose, podendo evoluir com disfagia, erosões de mucosa, constrição esofágica, esôfago de Barrett e até pneumopatia secundária a aspiração. O acometimento gástrico pode levar a gastroparesia, saciedade precoce, náuseas e vômitos. É comum que uma parte importante da doença pulmonar na ES seja causada pela aspiração do conteúdo regurgitante do trato gastrintestinal. Controlar o refluxo pode melhor o pulmão, portanto. Pode haver, ainda, dismotilidade intestinal: no intestino delgado, pode provocar borborigmos, pseudo-obstrução, distensão abdominal, diarreia, hipercrescimento bacteriano e síndrome de má absorção, necessitando de cursos intermitentes de antibióticos; no intestino grosso, a dismotilidade causa constipação e pode provocar incontinência fecal, caso atinja o esfíncter. Casos graves de pseudo- obstrução intestinal também são possíveis. Além da dismotilidade, a ES pode provocar telangiectasias com sangramento e perda sanguínea crônica. A atrofia da mucosa gástrica pode provocar ectasia vascular gástrica antral (GAVE), também conhecida como estômago “em melancia”, que pode ser observada à endoscopia. Exames como radiografias contrastadas de Esôfago-Estômago- Duodeno (EED) mostram a dismotilidade do tubo digestivo (Figura 3.29), DRGE e lesões constritivas. Pode ser necessária pHmetria para definir a DRGE e endoscopias periódicas para avaliar complicações. Figura 3.29 - Síndrome CREST Fonte: Qual o seu diagnóstico?, 2002. e) Pneumopatia O acometimento pulmonar é a principal causa de mortalidade e pode dever-se à fibrose intersticial e/ou doença vascular pulmonar (discutida anteriormente). Pacientes com a forma difusa da ES têm maior risco de Doença Pulmonar Intersticial (DPI), enquanto aqueles com a forma limitada têm maior risco de hipertensão pulmonar. Apesar disso, a correlação não é perfeita, e todos os pacientes devem ser monitorizados, pois, em ambos os casos, existe um período subclínico ideal para a intervenção. A DPI, ou alveolite fibrosante, é inicialmente assintomática, apresentando, progressivamente, dispneia e tosse seca. Comparada à evolução das demais DPIs nas DSTCs, a condição na ES geralmente evolui de maneira mais rápida, mais grave e mais refratária, de tal forma que, na evolução da doença, 20% dos casos precisam de oxigênio suplementar. Tem forte associação à presença de antitopoisomerase I (anti-Scl-70), mas não está restrita a esse grupo de pacientes. Provas de Função Pulmonar (PFPs) com difusão devem ser realizadas precoce e periodicamente, mesmo na ausência de sintomas, e representam a forma mais sensível para indicar DPI. Mostram alterações restritivas, com redução da capacidade vital forçada, dos volumes pulmonares e da capacidade de difusão do monóxido de carbono. A Tomografia Computadorizada de Alta Resolução de tórax (TCAR – Figura 3.30) também é usada, uma vez que radiografias simples não são suficientemente acuradas para monitorizar alterações intersticiais finas. Pode ocorrer inicialmente alveolite, com achado de “vidro fosco”, que pode responder ao tratamento, mas evolui com fibrose, apresentando infiltrado reticulonodular e faveolamento. Nesta situação plena do polo da regeneração inadequada, a resposta clínica é muito modesta (Tashkin et al., 2006). Figura 3.30 - Padrões de anormalidades encontrados na tomografia de alta resolução de tórax de paciente com esclerose sistêmicaLegenda: (A) faveolamento; (B) opacidades “em vidro fosco” associadas a opacidades reticulares; (C) opacidades reticulares; (D) opacidades “em vidro fosco”. Fonte: adaptado de Comprometimento pulmonar na esclerose sistêmica: revisão de casos, 2006. O diagnóstico diferencial do acometimento intersticial pela ES pode ser desafiador. O clínico deve sempre ter em mente diagnósticos infecciosos (como micobacterioses, vírus e fungos), tóxicos (pneumonite induzida por drogas) e de mecanismo imune (como sarcoidose e pneumonite por hipersensibilidade). Por vezes, faz-se necessário lavado broncoalveolar para exclusão de infecções e, eventualmente, biópsia pulmonar para documentação anatomopatológica. f) Cardiopatia As manifestações da doença, do ponto de vista cardíaco, são variáveis. Na maior parte das vezes serão oligossintomáticas e muitos dos achados coletados até o momento documentando doença cardíaca se referiram a estudos anatomopatológicos post mortem ou levantamentos populacionais (Meune et al., 2008). Ademais, muito do que se encontra em ES no miocárdio se refere também a outros mecanismos patogênicos, como aterosclerose, que se relacionam com as doenças inflamatórias em geral, mas não representam um alvo das doenças em si. Sintomas, quando presentes, incluem dispneia, desconforto torácico e palpitações. Pode acometer o miocárdio, com distúrbios de condução, arritmias e insuficiência cardíaca (inclusive com fração de ejeção preservada). Efusão pericárdica discreta pode ser observada em 30 a 40% dos assintomáticos. Pericardite sintomática é incomum. Dentro do polo da ativação linfofagocitária, a ES pode cursar com miopatia inflamatória, lembrando o padrão da PM. Contudo, o quadro raramente causa fraqueza grave ou aumentos marcantes de enzimas musculares. Sinovites e queixas articulares são frequentes, quase sempre sem grande flogose ao exame físico e virtualmente sem erosões nas imagens, exatamente como nas demais DSTCs (ver anteriormente nas subseções sobre LES ou SS). As manifestações vasculíticas na ES são bem mais raras, com relatos de mononeurite múltipla, por exemplo. Todavia, como todas as DSTCs compartilham fisiopatologia semelhante, todas as manifestações que ocupem os polos discutidos neste capítulo são possíveis em qualquer uma das conectivopatias. 3.5.1.4 Diagnóstico O diagnóstico de ES é baseado nos achados clínicos, nos exames suplementares (exemplos: TCAR, PFP e EED) que documentam e monitorizam as suspeitas e na sorologia. O FAN é o exame inicial e mais importante para a triagem dos pacientes. Em geral, pacientes com ES terão FAN padrão nuclear ou nucleolar, com padrões específicos e eventualmente mistos. Dentro do padrão nuclear, grande atenção deve ser dada ao padrão nuclear centromérico, pois é diagnóstico de anticorpos anticentrômero – nenhum exame adicional é necessário. Do ponto de vista nucleolar, o anticorpo mais importante é o anti-Scl-70 (antitopoisomerase I), que deve ser solicitado separadamente; este anticorpo também pode ter um padrão nucleolar e nuclear misto. A positividade de anticentrômero se refere à doença limitada, com evolução mais prolongada e menos fibrose visceral. A presença de anti-Scl-70 se refere mais à doença difusa, com curso mais rápido, mais refratário e com maior fibrose visceral (especialmente pulmonar). O Quadro 3.6 resume alguns dos anticorpos relevantes em ES. Quadro 3.6 - Autoanticorpos encontrados na esclerose sistêmica Há a possibilidade de ES sem espessamento cutâneo. Este difícil diagnóstico é obtido nos pacientes com fortes indícios de acometimento visceral por ES (como DPI e esofagopatia, por exemplo), sinais de vasculopatia (como uma capilaroscopia positiva, por exemplo) e sorologia compatível (anticorpos relacionados à ES). Nesta situação, chama-se esclerose sistema sine scleroderma. 3.5.1.5 Tratamento O tratamento de pacientes com ES deve ser individualizado de acordo com as manifestações predominantes, levando em consideração o subtipo da doença e os órgãos comprometidos. O tratamento deve ser iniciado precocemente, com o objetivo de minimizar danos ao paciente, uma vez que a fibrose estabelecida raramente reverte. De forma geral, no momento do diagnóstico e, rotineiramente, os pacientes são avaliados para possíveis complicações cardíacas, pulmonares e renais. Para tratamento com base no comprometimento de órgãos, as últimas diretrizes publicadas são da European League Against Rheumatism de 2017 e serão resumidas a seguir. Para pacientes com comprometimento cutâneo e visceral, o tratamento com imunossupressores é usualmente indicado, porém com benefício limitado. Nas formas de comprometimento cutâneo extenso sem comprometimento visceral, são medicações de escolha metotrexato e micofenolato de mofetila. Em casos refratários, pode- se usar ciclofosfamida, principalmente na presença de comprometimento visceral associado. Em casos com espessamento cutâneo refratário e falha de outros tratamentos, no contexto de comprometimentos viscerais, há possibilidade do uso de imunoglobulina humana ou rituximabe. Pacientes com prurido podem se beneficiar do uso de anti- histamínicos. Na presença de calcinose importante, gerando alteração funcional ou ulcerações, são opções terapêuticas minociclina e metotrexato. Existem relatos de melhora das calcinoses com bisfosfonatos, rituximabe e imunoglobulina, contudo, não há evidência suficiente para se afirmar que, de fato, agem sobre a condição. O objetivo do tratamento do FRy é prevenir eventos isquêmicos e melhorar a qualidade de vida dos pacientes. A exposição ao frio e o estresse emocional são fatores que podem influenciar no sucesso terapêutico. São medidas iniciais no tratamento de pacientes com FRy: educação do paciente, manutenção de membros aquecidos, mudanças comportamentais e tratamento farmacológico. Os pacientes devem ser estimulados a realizar mudanças de estilo de vida e interromper o uso de drogas que possam desencadear o vasoespasmo. Evitar exposição ao frio ou a grandes variações de temperatura, manter extremidades aquecidas (usar luvas e meias) e, ao presenciar manifestações relacionadas ao vasoespasmo, manter o membro aquecido em água quente. Além disso, é importante incentivar a cessação do tabagismo e o uso de medicações simpaticomiméticas (descongestionantes nasais e anfetaminas, por exemplo), bem como medicações para enxaqueca (sumatriptana). Quando apenas orientações e mudanças no estilo de vida são insuficientes, há necessidade do tratamento farmacológico. Nesse contexto, bloqueadores dos canais de cálcio como nifedipino podem ser úteis. Porém, há um subgrupo de pacientes com ES que não tolera altas doses de tais medicações e geralmente necessita de alternativa. De forma geral, os bloqueadores de canais de cálcio são contraindicados ou pouco tolerados em pacientes com dismotilidade gastrintestinal grave, HAP grave, doença cardíaca com edema significativo ou hipotensão sintomática. Para esses pacientes, são possíveis opções: sildenafila, nitratos tópicos, losartana, fluoxetina ou ainda injeção local de toxina botulínica. O comprometimento renal mais temido na ES é a crise renal esclerodérmica que, quando tratada precocemente, responde consideravelmente bem. É fundamental que a terapêutica com anti- hipertensivos seja iniciada antes do dano renal irreversível. O tratamento de primeira linha é feito com inibidores de enzima conversora de angiotensina (IECA), especialmente captopril. Para pacientes nos quais que os níveis pressóricos não são atingidos com o uso do IECA, é possível a associação de anlodipino. Mesmo para os pacientes não hipertensos, o IECA continua sendo a droga de escolha, dentro do tolerável. Contudo, paciente hipotensos geralmente já apresentam outras disfunções orgânicas, como cardiopatia, e possuem prognóstico muito ruim. Nos casos refratários, está indicada diálise. A biópsia de pacientes com crise renal esclerodérmica não é necessária para estabelecer diagnóstico, porém pode ser útil para indicar a reversibilidade do quadro.A presença de múltiplos vasos trombosados, grave colapso isquêmico glomerular e depósito de C4 peritubular correlacionam- se com pior prognóstico. O tratamento do comprometimento esofágico é direcionado para os sintomas do paciente. Na presença de DRGE, mudanças no estilo de vida são indicadas, bem como substituição de medicações possivelmente associadas aos sintomas (bloqueadores dos canais de cálcio, por exemplo). Além disso, recomenda-se o tratamento com inibidores da bomba de prótons, em dose plena. Em casos refratários, há possibilidade de associação de ranitidina noturna. O uso de procinéticos não parece ser útil para o refluxo, mas como a gastroparesia e a disfagia ocorrem também com frequência, é incomum que clínicos não tentem estas medidas devido ao seu baixo custo e razoável segurança farmacológica. Em geral, usa-se domperidona, bromoprida ou metoclopramida. A gastroparesia depende de mudanças no estilo de vida e controle de outros fatores agravantes, como glicemia e hidratação. Em casos graves, associam- se procinéticos e antieméticos. No tratamento da hiperproliferação bacteriana pelo acometimento do intestino delgado, preconiza-se o uso de antibioticoterapia rotativa, com doxiciclina 100 mg, a cada 12 horas; ciprofloxacino 500 mg, a cada 12 horas; metronidazol 250 mg, a cada 8 horas. Em geral, cada antibiótico é utilizado por 10 dias, com intervalos de 15 dias, em esquema de rodízio, com o objetivo de evitar a resistência bacteriana. A pseudo-obstrução intestinal pode ser tratada com aspiração nasogástrica e nutrição parenteral. Na desnutrição, deve-se instituir nutrição parenteral prolongada. A abordagem terapêutica na doença pulmonar da ES visa ao controle da alveolite fibrosante e da vasculopatia pulmonar, que podem acarretar, respectivamente, DPI e HAP. A monitorização precoce e seriada da doença pulmonar com PFP com difusão, TCAR e ecocardiograma é fundamental para diagnosticar e dar seguimento evolutivo e terapêutico. Na DPI, a droga preferida atualmente é o micofenolato de mofetila, pois produz benefícios semelhantes à ciclofosfamida, com menores efeitos adversos (Tashkin et al., 2016). Quando usada a ciclofosfamida, a maioria dos reumatologistas prefere doses intravenosas (pulsoterapia 0,5 a 1 g/m2), mensalmente, pelo menor risco de cistite e garantia de aderência. A duração do tratamento dessa entidade clínica parece incerta, podendo durar até 2 anos (24 pulsos), já que muitos autores a consideram ineficaz após esse período. Existem estudos em andamento com antifibróticos, um deles publicado em 2019 e que demonstrou resultados promissores (Distler et al., 2019). É proporcional o rastreamento ativo e anual de HAP e DPI com prova de função pulmonar e ecocardiograma nos pacientes com ES. Nos pacientes com diagnóstico de HAP, o tratamento imunossupressor não produz resultados, sendo indicada terapia com vasodilatadores da circulação pulmonar. Por fim, mialgias, artralgias, artrites e serosites podem ser tratadas com anti-inflamatórios não hormonais ou metotrexato. Terapia física deve ser instituída precocemente para evitar contraturas. Pacientes com distúrbios de condução, arritmias e insuficiência cardíaca devem ser tratados de acordo com os protocolos da Cardiologia. 3.5.2 Doença mista do tecido conectivo A Doença Mista do Tecido Conectivo (DMTC) é uma entidade de caracterização recente que apresenta manifestações em todos os polos fisiopatológicos das DSTCs, mimetizando várias conectivopatias, com discreta predileção para a regeneração inadequada. Contudo, é uma doença muito mais inflamatória e muito menos cicatricial do que a ES, de tal forma que a imunossupressão, em geral, apresenta resultados melhores. 3.5.2.1 Epidemiologia Poucos estudos avaliaram a prevalência e a incidência da doença. Um estudo norueguês constatou a prevalência de 3,8/100.000 indivíduos, com incidência de 2,1/1.000.000 ao ano (Gunnarsson et al., 2011). É uma doença que acomete mais mulheres do que homens, com estimativas que variam de 3,3:1 até 16:1. 3.5.2.2 Manifestações clínicas A DMTC é uma doença que possui algumas características marcantes que a singularizam dentro das DSTCs (acropatia, marcadores sorológicos e pouca tendência a vasculite). Contudo, exceto por essas características, a DMTC costuma apresentar múltiplas manifestações de várias outras conectivopatias, geralmente compartilhando os espectros do LES – na sua vertente mais de ativação linfofagocitária –, PM e ES. Um traço da doença é, geralmente, apresentar manifestações mais brandas do que seus pares. Assim como todas as DSTCs, a DMTC pode cursar com febre, mialgia, anorexia, perda ponderal e fadiga. A DMTC não é uma síndrome de sobreposição. Trata-se de uma doença única que possui características muito semelhantes a outras conectivopatias, especialmente LES, PM e ES. a) Acropatia e vasculopatia Duas manifestações relacionadas à disposição da matriz colagênica e que são muito prevalentes na DMTC são o FRy e o edema de mãos e dedos, sendo que o último é uma apresentação que sugere bastante o diagnóstico. O FRy é um fenômeno decorrente de incompetência vasomotora (discutido anteriormente) e o edema periférico (pu�y hands e pu�y fingers) decorre de alteração do tecido conectivo da derme, com proliferação de colágeno entremeado com edema, sem grande fibrose (Sawai et al., 1997), ocasionando um aumento não compressível da superfície das mãos e dos dedos, sem, no entanto, cursar com inflamação ativa, espessamento cutâneo ou sintomas objetivos. De fato, em geral, é o médico que percebe o aumento do volume dos dedos e das mãos. Todas as implicações do FRy que ocorrem na ES, bem como suas manifestações cutâneas, podem ocorrer na DMTC, de tal forma que os pacientes podem também apresentar isquemia, ulcerações e graus variados – quase sempre discretos – de espessamento cutâneo. A acropatia na DMTC é prontamente reconhecida ao exame físico. Ainda do ponto de vista vascular, a DMTC pode acometer a circulação pulmonar por proliferação colagênica e produzir um quadro semelhante à HAP vista na ES (ver item 3.5.1.3). Contudo, o quadro costuma ser menos agressivo e pode responder à imunossupressão (Jaïs et al., 2008). b) Manifestações gastrintestinais O envolvimento do trato gastrintestinal é a característica de sobreposição mais comum com a ES, ocorrendo em cerca de 60 a 80% dos casos; o comprometimento esofágico é o mais frequente. A dismotilidade esofágica pode piorar com a evolução da doença e o refluxo gastroesofágico pode levar ao esôfago de Barrett, uma lesão com evolução potencialmente maligna. Infiltração do trato digestório mais baixo é possível, com gastroparesia e síndromes disabsortivas, contudo, é extremamente infrequente. Assim como na ES, pacientes com DMTC podem fazer telangiectasias sangrantes intestinais e evoluir com algum grau de anemia. c) Pneumopatia É representada pela DPI, ocorre em mais da metade dos pacientes (Bodolay et al., 2005) e, se não tratada, evolui com fibrose irreversível em uma parcela muito significativa. A DPI da DMTC deve ser encarada de maneira muito semelhante à da ES, com necessidade de rastreamento constante por PFP e de terapia precoce (ver item 3.5.1.3). d) Dermatite Além das manifestações periféricas, a DMTC pode cursar com lesões cutâneas que lembram o lúpus agudo – rash malar e eritema morbiliforme – ou mesmo as formas subagudas e crônicas – anular e discoide, por exemplo. A fotossensibilidade costuma ser igualmente marcante. Nas mucosas, úlceras orais e síndrome seca também podem fazer parte do quadro. O fluxo diagnóstico e terapêutico seguirá as mesmas orientações do LES (ver item 3.3.1.3). e) Artrite O envolvimento articular é comum e frequentemente mais refratário do que nas demais DSTCs. Contudo, a maioria dos pacientes não apresentarão um quadro tão grave e destrutivo quanto na AR. Em geral, não são esperadas erosões e a sequela, quando ocorre, refere- se mais à artropatia de Jaccoud (ver anteriormente, em LES, item 3.3.1). A ocorrência de quadro articularcom erosões coloca a síndrome em uma querela diagnóstica, sugerindo mais uma sobreposição de conectivopatias (DMTC ou LES com AR, por exemplo) do que uma doença única (ver adiante, em Síndromes de sobreposição, item 3.16). O fluxograma diagnóstico segue semelhante ao utilizado para o LES, por exemplo, e se encontra no item 3.3.1.3. f) Miosite A miopatia, representando a PM na mistura das doenças que formam a DMTC, é uma miopatia inflamatória clínica e histologicamente idêntica à PM. Mialgia é um sintoma comum e geralmente não representa miosite, contudo, a ocorrência de fraqueza e elevação das enzimas musculares sugere acometimento inflamatório muscular. O fluxograma diagnóstico e os diferenciais podem ser encontrados no item 3.4.1, sobre as MASs. g) Serosite A ocorrência de serosite é razoavelmente comum, ocorrendo em cerca de 40% dos pacientes (Ungprasert et al., 2014). Tanto pleura quanto pericárdio são acometidos, sendo o peritônio bem menos provável. Exames relevantes na investigação são citados no item 3.3.1.3. h) Citopenias e linfadenopatia As alterações hematológicas na DMTC lembram muito às do LES, exceto a trombocitopenia. O quadro mais comum é a linfopenia, que geralmente é branda e não causa sintomas específicos. A presença de linfonodomegalias, hepatomegalia e esplenomegalia é possível, e relaciona-se com doença ativa frequentemente. Em geral, o quadro hematológico responderá com o tratamento para as outras manifestações. A DMTC possui fraca associação com as manifestações do polo vasculítico. Assim, manifestações como vasculite cutânea extensa, glomerulonefrite e síndromes neurológicas isquêmicas são incomuns. 3.5.2.3 Diagnóstico O diagnóstico definitivo da DMTC é, muitas vezes, difícil, pelo fato de que as características das doenças tendem a ocorrer sequencialmente. Vários anos podem se passar até que apareça toda a constelação de achados. Diversos critérios diagnósticos já foram criados e todos são ainda utilizados na prática científica, o que dificulta muito os estudos. Devido a uma sensibilidade de 63% e especificidade de 86%, sendo uma das melhores combinações estudadas entre os critérios (Alarcón-Segovia; Cardiel, 1989), esta obra optou por utilizar os critérios de Alarcón-Segovia, que se encontram resumidos a seguir: 1. Critérios sorológicos: anticorpo anti-U1 RNP positivo com título na hemaglutinação ≥ 1:1.600; 2. Critérios clínicos: a) Edema de mãos; b) Sinovite; c) Miosite (mialgia é frequentemente substituída por miosite); d) Fenômeno de Raynaud; e) Acroesclerose. O diagnóstico será estabelecido se o critério sorológico estiver acompanhado de 3 ou mais critérios clínicos (um deles deve incluir sinovite ou miosite). A presença do anti-U1 RNP é indispensável para o diagnóstico. O paciente que apresente FAN positivo com padrão pontilhado em altos títulos (> 1:1.000 até > 1:10.000), especialmente se for anti-RNP positivo, associado a alterações como edema de mãos, deve ser atentamente acompanhado, pois apresenta risco de evolução para DMTC. A presença de anti-DNAds ou anti-Sm cria um impasse diagnóstico, pois são anticorpos extremamente específicos para LES. De maneira geral, os reumatologistas tendem a assumir estes pacientes como portadores de LES e, não, de DMTC. Os anticorpos antifosfolípides ocorrem com menor frequência do que no LES e, se presentes, tendem a se correlacionar com trombocitopenia e HAP, mas não com trombose e/ou abortos. 3.5.2.4 Tratamento A terapia utilizada para o tratamento da DMTC consiste nas já conhecidas drogas para as diversas conectivopatias, todas descritas anteriormente neste capítulo em sua seção específica. Uma vez que a hipertensão pulmonar é a principal causa de morte, recomenda-se o diagnóstico precoce com ecocardiograma de rotina a todos os pacientes. O manejo das complicações cardiopulmonares é semelhante ao da ES, com a exceção de que a HAP pode ser manejada não só com vasodilatação pulmonar, mas, também, com imunossupressão. Os estudos, em geral, usaram corticoide em dose alta associado a ciclofosfamida (Jais et al., 2008). Nos poucos estudos que existem sobre terapia em DMTC, o corticoide é a droga mais utilizada, geralmente com resposta muito eficaz para as manifestações inflamatórias. Medicamentos específicos para refluxo são indicados para as manifestações gastrintestinais e vasodilatadores para o FRy. Finalmente, as orientações sobre medidas não farmacológicas, como aquecimento das mãos, também podem ser transferidas à DMTC. 3.6 SÍNDROMES DE SOBREPOSIÇÃO As síndromes de sobreposição são condições nas quais 2 ou mais DSTCs ocorrem simultaneamente. Nem sempre é possível diferenciar as síndromes, até mesmo porque, como fica claro nas seções anteriores, as apresentações clínicas se confundem muito, ao ponto de que, por vezes, parece quase sem sentido dar um sobrenome à conectivopatia – ao menos do ponto de vista clínico. Uma vez que o manejo será órgão-específico, a “doença-mãe” nem sempre é tão relevante. Isso é absolutamente verdadeiro na rotina do reumatologista, que em muitas situações inicia o tratamento do seu paciente sem ter pleno conhecimento da doença envolvida, levando, frequentemente, meses, ou mesmo anos, até conseguir lhe dar um nome completo. Ainda assim, algumas síndromes de sobreposição (ou overlap) foram descritas com razoável frequência, permitem diferenciação e merecem destaque especial. É possível que, com o passar dos anos, as sobreposições ganhem marcadores e facetas singulares que lhes permitam a classificação em doença única, como ocorreu com a DMTC (Sharp et al., 1972). A diferenciação entre manifestação de uma doença primária e ocorrência de síndromes conjuntas nem sempre é fácil, mas existem algumas características clínicas que podem ajudar. Elas se encontram resumidas no Quadro 3.7. O momento de início de cada manifestação é importante: um paciente lúpico que evolui com uma miopatia após anos de doença exclusivamente lúpica tem chance maior de sobreposição do que um paciente que abriu o seu lúpus com miopatia simultânea; neste caso, é provável que a miopatia seja apenas manifestação lúpica. A gravidade de cada manifestação também é relevante, de tal modo que, pacientes com sobreposições apresentam cada doença muito marcada, com grande gravidade associada à sua manifestação específica. Um paciente com LES e AR, por exemplo, pode apresentar artrite erosiva e grave associada a quadro renal e neurológico vasculítico. Um paciente lúpico com artrite branda, ainda que seja de mãos e punhos e com características que a aproximam da AR, tem chance maior de ter apenas uma artrite lúpica. E, por fim, a concomitância das exacerbações talvez seja a principal característica que permite diferenciar as condições: síndromes de sobreposição possuem polos que respondem ao tratamento de formas diferentes e exacerbam em momentos diferentes. Na ocorrência de LES associado a PM, por exemplo, é possível que um paciente esteja plenamente controlado da parte muscular, mas evolua com lúpus discoide refratário. Alternativamente, um paciente com miopatia como manifestação lúpica provavelmente piorará também da sua miopatia quando a pele entrar em atividade. Quadro 3.7 - Resumo das características clínicas fundamentais para diferenciação entre manifestações de doença primária e síndrome de sobreposição A seguir, serão apresentadas as 2 síndromes de sobreposição mais comuns e suas características clínicas. 3.6.1 Escleromiosite Pacientes com manifestações de ES e PM são tão frequentes que existem anticorpos descritos em associação com essa combinação de doenças, como o anti-Pm/Scl e o anti-Ku. De maneira geral, esses pacientes evoluem com quadro miopático compatível com PM, ou seja, com fraqueza bastante importante e grandes elevações de enzimas musculares. Do ponto de vista da ES, as manifestações se referem mais aos fenômenos periféricos, como esclerodactilia e ulcerações digitais. O quadro pulmonar, quando presente, pode ser mais refratário do que se observa nas MASs, trazendo consigo o comportamentomais fibrótico da ES. Pacientes com escleromiosite apresentam um desafio ao reumatologista, pois a corticoterapia, a principal medida para o tratamento das MASs, pode desencadear piora da ES. Neste cenário, medidas possivelmente eficazes são a imunoglobulina ou a inibição do linfócito B por terapia biológica. 3.6.2 Rhupus A ocorrência de artrite erosiva na vigência de LES causa estranheza ao reumatologista, uma vez que, tipicamente, com a exceção da AR, as artrites nas DSTCs não são erosivas. Muitos pacientes, contudo, evoluem com destruição articular e, inclusive, positividade para fator reumatoide e anti-CCP. Esses pacientes foram relatados por múltiplas vezes e a condição tornou-se singular a ponto de receber um nome próprio: rhupus (rheumatoid lúpus – lúpus reumatoide). Pacientes com esta entidade costumam apresentar um quadro refratário do ponto de vista articular, necessitando de terapias múltiplas para controlar a sinovite. Considerando que os anti- TNF são potencialmente perigosos no LES (ver item 3.3.1.6 sobre lúpus induzido por droga), uma grande fatia das possibilidades terapêuticas para a AR tradicional se perde. Uma possibilidade frequentemente empregada, portanto, é o bloqueio do linfócito B ou o bloqueio da coestimulação entre linfócito e célula apresentadora de antígeno, com biológicos mais recentes. Quais são as principais vias fisiopatológicas pelas quais se explicam as manifestações clínicas das doenças sistêmicas do tecido conectivo? Com esse capítulo é possível concluir que as doenças sistêmicas do tecido conectivo se apresentam com manifestações que podem ser enquadradas como decorrentes de: a) Deposição de imunocomplexos na circulação com fenômenos vasculíticos; b) Invasão dos tecidos por células inflamatórias com ataque tecidual e celular direto; c) Regeneração inadequada com proliferação de colágeno e matriz extracelular de maneira patológica, causando disfunção orgânica. Clinicamente, como se apresenta um paciente com uma artropatia autoimune? 4.1 INTRODUÇÃO As Artropatias Autoimunes (AAs) são entidades singulares na Reumatologia e se referem a desordens principalmente do sistema imune adaptativo, com uma fisiopatologia razoavelmente bem definida que provoca manifestações clínicas particulares a esse grupo de doenças. A grande manifestação cardinal das AAs é justamente o comprometimento sinovial, quase sempre muito exuberante do ponto de vista inflamatório, com artrite muito agressiva e, quase sempre, destrutiva. Frente a um paciente com manifestações articulares predominando o quadro clínico, esse grupo de doenças deve sempre ser aventado, especialmente se, ao exame físico, houver nítida flogose. Ademais, componentes periarticulares, especialmente aqueles intimamente relacionado ao tecido sinovial, como as bainhas tendíneas, as ênteses e as bursas, estarão frequentemente acometidos em conjunto, ajudando a sugerir a etiologia. As AAs são simbolizadas especialmente pelas espondiloartrites (EpAs) e pela artrite idiopática juvenil (AIJ). Nesta obra, os autores optaram por descrever a AIJ em um capítulo à parte, apenas pelas suas características inerentes à infância (ver capítulo Doenças reumáticas de início na infância). A Artrite Reumatoide (AR) é geralmente classificada como uma Doença Sistêmica do Tecido Conectivo (DSTC) pela sua fisiopatologia, contudo, mais recentemente, com as terapias imunossupressoras mais modernas, as manifestações clínicas mais viscerais da AR – que carregam inerentemente consigo as facetas de conectivopatia – raramente ocorrem, ficando a doença em um espectro clínico que a aproxima muito mais das AAs. Pode-se dizer, portanto, que a AR carrega consigo uma espécie de paradoxo clínico-fisiopatológico. Neste capítulo, os autores abordarão a AR pelo seu prisma eminentemente articular, que é, de fato, o mais importante ao clínico (devido à maior prevalência). A AR como conectivopatia – portanto nas suas formas menos frequentes, porém bem mais graves – foi abordada no capítulo Doenças sistêmicas do tecido conectivo. Do ponto de vista fisiopatológico, a artrite reumatoide é mais entendida como doença sistêmica do tecido conectivo, mas a modificação da doença empreendida pelo tratamento atual a torna clinicamente mais semelhante às artropatias autoimunes. 4.2 FISIOPATOLOGIA As AAs, como todas as doenças autoimunes, ocorrem como resultado da perda do mecanismo de tolerância imune, gerando uma ativação aberrante de células linfocitárias. Esse mecanismo é dependente de fatores ambientais e genéticos. Os fatores genéticos envolvidos mais importantes estão relacionados aos alelos do HLA (human leukocyte antigen). No caso da AR, são HLAs mais frequentemente do tipo II – representados, principalmente, por polimorfismos nos alelos HLA- DR (Okada et al., 2014). No caso das EpAs, especialmente polimorfismos relacionados aos HLA do tipo I – principalmente os HLA B (Uchanska-Ziegler et al., 2013). Para a compreensão do papel dos HLAs na gênese da doença é importante compreender que esses indivíduos não apresentam doença primária relacionada ao genoma em si. Não é que esses indivíduos apresentem mutação que determina maior ou menor função da proteína produzida. Na verdade, existem diversas sequências de aminoácidos dispostas pelas populações do mundo que são capazes de produzir cadeias totalmente normais e funcionantes de HLA; ocorre apenas que algumas sequências em especial são mais suscetíveis ao reconhecimento aberrante de autoantígenos. Outras vias de processamento genético e proteico (conhecidos como fenômenos epigenéticos, como a metilação do DNA), além de vias relacionadas à sinalização inflamatória provavelmente participam também da gênese da doença (Liu et al., 2013). Sabe-se que esses mecanismos não são somente herdados, mas, também, modulados pelas diversas exposições ambientais. De maneira prática, pode-se citar, por exemplo, que a exposição a determinadas bactérias causa maior citrulinização (transformação de radicais proteicos de arginina em citrulina) de proteínas no corpo (Koziel et al., 2014). Proteínas citrulinadas, por sua vez, são fortes indutoras de resposta imune; em um paciente com um fundo genético propenso à autoimunidade, a ocorrência de maior quantidade de proteínas citrulinadas pode servir como gatilho para a quebra da imunotolerância. Outrossim, o consumo de cigarros também é consistentemente identificado como relacionado à citrulinização proteica (Makrygiannakis et al., 2008). Desta forma, fumar contribui não só com a gênese, mas também com a perpetuação de todas as formas de AAs. É provável que as AAs também estejam relacionadas a agentes infecciosos e a própria microbiota. Vários possíveis agentes são sugeridos, inclusive micoplasma, vírus Epstein-Barr (EBV), citomegalovírus, parvovírus e vírus da rubéola. Como comentado anteriormente, existe o papel definido de citrulinização de proteínas e consequente formação de anticorpos anticitrulina ou antipeptídio C citrulinado, que contribuem para o desenvolvimento de AR e para o surgimento de doença mais agressiva. A citrulinização ocorre na mucosa oral na presença de Porphyromonas gengivais, encontrada nas periodontites. Possivelmente, a mucosa do intestino também está envolvida. No caso das espondiloartrites, acredita-se que o desbalanço da microbiota intestinal possa causar a ruptura das barreiras epiteliais, levando as células linfoides locais a ficarem constantemente ativadas, culminando com autoimunidade em indivíduos susceptíveis (Jethwa; Abraham, 2017). Independentemente dos mecanismos relacionados ao gatilho das doenças, as AAs possuem disfunções semelhantes nas vias de resposta linfocitária. De maneira ampla, indivíduos com AA terão uma estimulação aberrante e consistente das vias Th1 e Th17. Como visto no capítulo Noções gerais de imunologia, a via Th1 culmina na liberação de citocinas como os TNF (tumoral necrosis factor) e o IFN (interferon)-gama. O efeito final de uma via Th1 hiperestimulada será a ativação aberrante e perene de fagócitos(especialmente macrófagos), com grande reação celular local e destruição dos tecidos adjacentes. Quando esse fenômeno ocorre na articulação, haverá exuberante inflamação sinovial (com flogose e hiperproliferação celular sinovial) e eventual formação de pannus articular (aumento da espessura da membrana sinovial, com aspecto borrachudo ao toque). Com a persistência do fenômeno autoimune, erosões ósseas periarticulares passarão a ocorrer, não só pela destruição óssea em si, mas também pela regulação negativa que as citocinas imprimem sobre o metabolismo ósseo, aumentando a ativação dos osteoclastos (Lam et al., 2000). Essa via explica a alta chance de sequela articular nos pacientes com AA, uma manifestação cardinal desse grupo de doenças. Pela ação negativa sobre o metabolismo ósseo, indivíduos com artropatias autoimunes têm chance muito aumentada de osteoporose. A resposta Th17, por sua vez, apresenta 2 possíveis caminhos, a depender das citocinas com as quais dialoga e com os fatores de transcrição envolvidos na resposta imune aberrante. Se, por um lado, a resposta Th17 cursar com estimulação de linfócitos B via IL- 6, o resultado esperado será grande produção de anticorpos, muitos deles autorreativos, com as consequências esperadas das condições reumáticas com alta carga de resposta humoral, como citotoxicidade por opsoninas (levando às citopenias) e manifestações vasculíticas. Essa vertente da resposta imune é familiar às DSTCs e incomum nas AAs, mas pode ocorrer na AR, devido à sua ligação com as conectivopatias (neste caso, essa fisiopatologia gerará sintomas que são abordados no capítulo Doenças sistêmicas do tecido conectivo). Muito mais relacionada às AAs está o braço da resposta Th17 que dialoga com as citocinas IL 17, IL-22 e IL-23. Nessa condição, a resposta imune é muito mais celular do que humoral e gera ativação de fagócitos com inflamação tecidual direta. O resultado é uma resposta semelhante à Th1, com infiltração do tecido sinovial por células inflamatórias. A resposta Th17 é muito importante nos tecidos periarticulares (especialmente nas ênteses), que parecem ser mais sensíveis à IL-23 e IL-17 do que aos TNF (Sherlock et al., 2012). Outro fator importante da resposta Th17 é a capacidade não só de, assim como o TNF, induzir perda óssea pelo aumento da osteoclastogênese, mas, também, promover proliferação óssea por sua ação no tecido mesenquimal periosteal (Gravallese; Schett, 2018). Deste modo, pacientes com uma ativação exacerbada da via Th17 podem cursar também com neoformação óssea. Clinicamente, este fenômeno pode ser observado na formação de sindesmófitos, tão frequentes nas EpAs axiais. Artropatias autoimunes são condições reumáticas em que há disfunção imune com participação do sistema imune adaptativo, cursando com comprometimento articular erosivo como principal achado clínico, associado ao acometimento periarticular. 4.3 ARTRITE REUMATOIDE (COMO ARTROPATIA AUTOIMUNE) A AR é uma condição singular na Reumatologia, espraiando-se por quase todas as vias fisiopatológicas linfocitárias. Enquanto conectivopatia, cursa com inflamação tecidual, deposição de imunocomplexos e reparação inadequada com deposição colagênica cicatricial. Nesta faceta, encontram-se as manifestações mais viscerais da AR, como a síndrome de Felty, a vasculite reumatoide e a pneumopatia intersticial. Como DSTC, a AR pode inclusive servir de doença-base para uma segunda colagenose, como no caso da síndrome de Sjögren secundária ou mesmo da síndrome antifosfolípide secundária; ademais, também podem ocorrer sobreposições com outras doenças, como com lúpus eritematoso sistêmico. Essa face da AR foi explorada no capítulo Doenças sistêmicas do tecido conectivo, dada a discussão que se fez naquele capítulo sobre os mecanismos fisiopatológicos das conectivopatias. Porém, do ponto de vista clínico, a AR se comporta muito mais como uma AA, especialmente na abertura da doença. É provável que esse fenômeno seja explicado pela disfunção imune com “assinatura” Th1 presente na AR e pouco comum nas DSTCs. Pode-se especular que a AR se inicia como uma disfunção primordialmente Th1 que progride com os anos até a sua maturidade patológica final, como DSTC. Como os regimes de terapia para AR avançaram muito nas últimas décadas, atualmente é infrequente que os pacientes cheguem a revelar doença mais visceral. Deste modo, a face da AR que a aproxima das AAs é a mais importante à maioria dos clínicos. Como a terapia-alvo é a regra na Reumatologia atualmente, para a doença exclusivamente articular e periarticular, a AR é mais bem manejada quando vista de maneira simplificada como uma artropatia autoimune. Para os quadros mais sistêmicos, a terapia deve se voltar às suas raízes nas doenças sistêmicas do tecido conectivo. A seguir, esta obra se dedicará aos aspectos mais importantes da AR quando vista por seu prisma de artropatia autoimune. 4.3.1 Epidemiologia A AR é uma doença mundial que afeta todas as etnias, com prevalência de cerca de 0,5 a 1% da população, com predomínio de acometimento em mulheres (2,5 a 3 vezes maior do que em homens), e aumento com a idade. A diferença entre sexos diminui na faixa etária mais elevada. Em mulheres, o início acontece durante a quarta e a sexta década de vida, com 80% de todos os pacientes acometidos com idade entre 35 e 50 anos. Em homens, tende a ocorrer um pouco mais tardiamente, durante a sexta e a oitava década de vida. Contudo, a doença é bem descrita em todas as faixas etárias. A AR causa aumento da mortalidade e é responsável por grande morbidade. Pelo fato de acometer indivíduos em idade produtiva e potencialmente causar danos articulares irreversíveis, essa patologia gera altos custos para esses pacientes e a sociedade. A artrite reumatoide é a doença imunomediada mais prevalente da Reumatologia. Como a AR possui contribuição genética para sua patogênese (ver anteriormente), ela acomete 4 vezes mais os parentes de primeiro grau de outros pacientes com AR do que a população geral. Aproximadamente 10% dos pacientes com AR terão um parente de primeiro grau acometido. Entretanto, há concordância de apenas 12 a 15% em gêmeos monozigóticos, demonstrando claramente a participação de outros fatores. A maioria dos pacientes, contudo, não consegue trazer à anamnese história familiar significativa. 4.3.2 Manifestações articulares Caracteristicamente, a AR é uma doença crônica e progressiva, com início insidioso, acompanhada de sintomas constitucionais inespecíficos, como fadiga, anorexia, fraqueza generalizada, perda de peso e febre baixa. No início, os sintomas musculoesqueléticos são vagos até o aparecimento da sinovite. Esse quadro prodrômico pode persistir durante semanas ou meses e dificultar o diagnóstico. Os sintomas específicos com frequência surgem de modo gradual em várias articulações, especialmente mãos, punhos, joelhos e pés, de forma simétrica: artralgia inflamatória, que é pior após longos períodos de repouso, com melhora ao movimento, edema e espessamento articular, além de rigidez matinal prolongada (mais de 1 hora de duração). A rigidez matinal por mais de 1 hora de duração é característica quase invariável de artrite inflamatória e pode ser útil na distinção de outras patologias não inflamatórias. Esse quadro típico ocorre em cerca de 2 terços dos pacientes. Em cerca de 10% dos casos, o quadro clínico inicial é mais agressivo, com o surgimento rápido de poliartrite, comumente acompanhada por sintomas constitucionais. Em cerca de 30% dos pacientes, os sintomas podem ser limitados no início a uma ou algumas articulações. O padrão simétrico é o mais frequente, embora o padrão de envolvimento articular possa permanecer assimétrico em alguns pacientes. O padrão clássico de acometimento articular na AR é o envolvimento de grandes e pequenas articulações de membros inferiores e superiores, de forma simétrica, atingindo caracteristicamente pequenas articulações das mãos (metacarpofalangianas e interfalangianas proximais), metatarsofalangianas (MTFs), punhos,joelhos, cotovelos, tornozelos, quadris e ombros, em geral nessa ordem de aparecimento (pequenas para grandes). O tratamento instituído precocemente pode limitar o número de articulações acometidas. O quadro clínico da AR envolve dor articular, com piora ao repouso e melhora ao movimento, rigidez matinal superior a 1 hora, edema e espessamento articular. As mãos são o principal local de acometimento na grande maioria dos pacientes. Esse acometimento é mais habitual nos punhos, nas articulações metacarpofalangianas (MCFs) e nas interfalangianas proximais (IFPs – Figura 4.1). As interfalangianas distais (IFDs) geralmente são poupadas, o que ajuda a distinguir a AR da osteoartrite e da artrite psoriásica, em que essas podem ser acometidas. A dor e o edema nessas articulações causam limitação funcional, com menor uso das mãos, levando à atrofia de músculos interósseos (Figura 4.2) e ao achado clássico de alargamento de punhos com atrofia muscular. O envolvimento das MCFs pode provocar dor e edema difuso nessas articulações, mas quadros iniciais podem ser percebidos apenas pela compressão laterolateral (teste de squeeze) da segunda à quinta MCF, desencadeando dor. Anéis que não passam pelas IFPs são uma queixa frequente, devido ao edema. À medida que a doença evolui, as articulações sofrem desvios característicos, como o desvio ulnar das MCFs, o desvio radial e, posteriormente, volar (anterior) do punho. Nos quirodáctilos, podem ocorrer ainda deformidades “em pescoço de cisne”, com hiperextensão da IFP e flexão da IFD (Figura 4.3), dedos “em botoeira” (boutonnière – Figura 4.4) por hiperextensão da MCF e flexão da IFP, e polegar “em Z”, pela subluxação da primeira MCF e da interfalangiana. Embora quadros muito iniciais possam reverter, a AR costuma provocar destruição articular, com limitações e desvios articulares fixos. Figura 4.1 - Sinovite (inflamação) das articulações interfalangianas proximais (dedo “em fuso”) Figura 4.2 - Mão reumatoide: exuberante atrofia da musculatura interóssea e cisto sinovial no dorso da mão direita Figura 4.3 - Deformidade em extensão das interfalangianas proximais e em flexão das interfalangianas distais, caracterizando dedos “em pescoço de cisne” em paciente com artrite reumatoide Nota: perceba o aumento de volume das metacarpofalangianas. Figura 4.4 - Deformidade “em botoeira”, por hiperextensão da metacarpofalangiana e flexão da interfalangiana proximal Fonte: Prashanthns, 2005. Com as novas terapias para AR, esse painel de deformidades descrito é cada vez mais incomum. Apesar disso, algumas provas ainda cobram as nomenclaturas dos achados no exame físico. O acometimento dos cotovelos, com sinovite dessa articulação, pode ser precoce e levar à contratura em flexão. Nos pés, as articulações mais acometidas são as MTFs. A avaliação de edema nesse local é difícil, mas o teste de squeeze (compressão laterolateral conjunta de todas as MTFs) ajuda muito ao desencadear dor. A progressão do acometimento dessas articulações pode provocar subluxação plantar das cabeças dos metatarsos, alargamento do antepé, hálux valgo, desvio lateral e subluxação dorsal dos dedos do pé. Isso é causa de grande incômodo por provocar úlceras plantares e nas regiões dorsais nos dedos encurvados. Artrite de tornozelos e de articulações do tarso também podem ocorrer e produzir dor intensa ao deambular. Outra causa de dor é a formação de ulcerações cutâneas, consequentes da subluxação das MTFs e da diminuição dos coxins gordurosos. A eversão de tornozelos por fraqueza de tibiais posteriores é comum, e as erosões radiográficas são vistas mais precocemente nos pés que nas mãos. Joelhos, quadris e ombros também podem ser acometidos. O comprometimento costuma ser simétrico e afetar cada articulação como um todo, em toda a superfície articular. Nos joelhos, isso ajuda a diferenciar a AR (em que os compartimentos medial e lateral são igual e gravemente acometidos) da osteoartrite (em que, geralmente, um dos compartimentos é mais atingido). O joelho desenvolve hipertrofia sinovial, derrame articular crônico e frouxidão ligamentar. Herniação posterior da membrana sinovial por meio da cápsula articular forma um cisto poplíteo (cisto de Baker), que pode levar à sensação de plenitude, dor e compressão de estruturas poplíteas. Seu rompimento provoca inflamação, com edema e muita dor na perna, podendo simular tromboflebite ou trombose venosa profunda. O diagnóstico diferencial é feito pela ultrassonografia com Doppler da região, que afasta trombose venosa e mostra o cisto roto com grande edema de partes moles. O comprometimento articular na AR costuma ser simétrico e afetar toda a superfície articular (diferentemente da osteoartrite). Virtualmente, qualquer articulação sinovial pode ser atingida, como as articulações temporomandibulares (ATMs), esternoclaviculares e cricoaritenoides, que podem ser acometidas com menos frequência, sobretudo em casos de doença grave e de longa duração. O envolvimento das cricoaritenoides pode provocar sensação de plenitude na garganta, disfagia, rouquidão, dor na região cervical anterior e estridor. Na coluna, o acometimento geralmente é cervical alto e, na maioria dos casos, assintomático, diferentemente das espondiloartrites, que podem acometer toda a coluna, com dor espinhal inflamatória (sobretudo lombar). O envolvimento da coluna torácica, sacroilíaca e lombar é improvável e deve sugerir outro diagnóstico. Em pacientes com doença de longa duração, pode ocorrer subluxação atlantoaxial (desvio entre a primeira e a segunda vértebra cervical). Esse comprometimento ocorre porque a articulação atlantoaxial é sinovial e, portanto, suscetível ao processo inflamatório da AR. A subluxação atlantoaxial pode levar à compressão medular, com dor, parestesias e perda de força nos membros, até tetraplegia. Trata-se de comprometimento grave e de urgência neurocirúrgica. Dor e disfunção também podem ser causadas por compressão de nervos periféricos em áreas de sinovite. O local mais comum é o punho, que desenvolve síndrome do túnel do carpo (compressão do nervo mediano), com parestesias na face palmar das mãos, poupando o lado medial do quarto e quinto quirodáctilos. Outras síndromes compressivas incluem a síndrome do canal de Guyon e a síndrome do túnel do tarso. Tenossinovites, com inflamação dos tendões e das suas bainhas sinoviais, são comuns também nas mãos e pés, principalmente no dorso, e são diferenciais do acometimento articular (Figuras 4.5 e 4.6). A persistência da inflamação pode levar a roturas de tendões com grande perda funcional. Figura 4.5 - Bainhas tendíneas da face lateral do tornozelo e pé Fonte: adaptado de Henry Gray, 1918. Figura 4.6 - Bainhas tendíneas (verdes) do dorso da mão Fonte: adaptado de Alila Medical Media. Cistos sinoviais podem ocorrer perto de qualquer articulação acometida, por herniação da membrana sinovial através da cápsula articular sob pressão de líquido sinovial e deformidades que alteram os vetores articulares, como acontece principalmente no dorso dos punhos e das mãos e no joelho, no caso do cisto de Baker. 4.3.3 Manifestações extra-articulares A maior parte das manifestações extra-articulares da AR se devem à sua fisiopatologia relacionada às DSTCs. Portanto, decorrem ou de produção de anticorpos com formação de imunocomplexos – levando à destruição celular ou aos fenômenos vasculíticos –, ou de ativação linfofagocitária com inflamação tecidual direta ou de expansão colagênica com formação cicatricial. Todas essas situações clínicas dependem de forte correlação com a IL-6, a IL-17 e a IL-21 e foram abordadas devidamente no capítulo Doenças sistêmicas do tecido conectivo. Resta a este capítulo as manifestações extra- articulares da AR mais relacionadas à via Th1, incomum às DSTCs. 4.3.3.1 Nódulos reumatoides Nódulos reumatoides ocorrem em 30% das pessoas com AR e são encontrados em estruturas periarticulares, superfícies extensoras ou outras áreas expostas à pressão mecânica. Locais comuns incluema bursa do olecrânio, a face extensora proximal do antebraço e dos dedos, o tendão de Aquiles e o occipício (Figura 4.7). Também podem ocorrer em outras regiões, como coração, pulmões, pleura, olhos e meninges. Variam em tamanho e consistência, são raramente sintomáticos, podendo infectar-se após trauma local, e ocorrem quase exclusivamente em pacientes com fator reumatoide positivo. A avaliação anatomopatológica revela uma área central de necrose rodeada por células linfomonocíticas que se organizam em meio a tecido fibrótico, dando o aspecto de um granuloma. A principal resposta envolvida neste padrão de inflamação é provavelmente a resposta Th1 (Hessian et al., 2003). Figura 4.7 - Artrite reumatoide Nota: podem-se notar múltiplos nódulos reumatoides nas faces extensoras dos dedos. Fonte: Sue McDonald. Raramente, o uso de metotrexato pode aumentar ou acelerar o desenvolvimento dos nódulos reumatoides, provocando a síndrome de hipernodulose, que pode ocorrer independentemente do bom controle articular. 4.3.4 Diagnóstico O diagnóstico de AR é baseado especialmente nas manifestações clínicas e no exame físico. Alguns achados laboratoriais podem auxiliar na confirmação da suspeita e os dados de imagem são razoavelmente típicos dentro de um contexto adequado. 4.3.4.1 Exames laboratoriais Não existe marcador diagnóstico isoladamente confirmatório para AR, mas o Fator Reumatoide (FR) é o marcador mais importante. Trata-se de uma imunoglobulina M contra a fração Fc da imunoglobulina G, sendo encontrado em 70 a 80% dos pacientes com a doença, na forma estabelecida (Hochberg, 2018). A presença de FR, contudo, não é específica para AR e é encontrada em 5% das pessoas saudáveis, aumentando a sua frequência com o avançar da idade (10 a 20% de indivíduos acima de 65 anos). Além disso, outras doenças crônicas com estimulação persistente do sistema imunológico são associadas à presença do FR: lúpus eritematoso sistêmico, síndrome de Sjögren (maiores títulos encontrados), hepatopatia crônica, sarcoidose, fibrose pulmonar intersticial, mononucleose infecciosa, hepatite B, tuberculose, hanseníase, sífilis, endocardite bacteriana subaguda, leishmaniose visceral, esquistossomose, malária e crioglobulinemia. É pertinente a pesquisa de FR nas seguintes suspeitas clínicas: artrite reumatoide, síndrome de Sjögren e vasculite crioglobulinêmica. O FR pode surgir transitoriamente em indivíduos normais depois de vacinação ou transfusão e ser encontrado em parentes de indivíduos com AR. Sua presença dissociada de achados clínicos compatíveis não estabelece o diagnóstico e tem baixo valor preditivo de desenvolvimento de doença. Menos de 1 terço de pacientes com FR positivo terá o diagnóstico de AR. A presença de FR nos pacientes com AR clinicamente observada pode ter significado prognóstico, pois pacientes com títulos elevados tendem a ter doença articular mais grave e progressiva, associada a manifestações extra- articulares, principalmente nódulos ou vasculite. Pela alta positividade em pessoas normais ou com condições clínicas não associadas, não se deve solicitar a pesquisa de fator reumatoide sem suspeita clínica que o justifique, por risco de investigações adicionais desnecessárias. Como discutido na fisiopatologia, anticorpos contra proteínas citrulinadas fazem parte do mecanismo de doença na AR. Os anticorpos contra os peptídeos cíclicos citrulinados (ACCP) podem ser pesquisados por ELISA (enzyme-linked immunosorbent assay) e também funcionam como biomarcadores. Os ACCP apresentam sensibilidade de 70 a 75%, especificidade de 95% e estima-se que cerca de 20 a 25% dos pacientes com FR negativo serão positivos para ACCP (Nishimura et al., 2007). Pela sua alta especificidade, pode ajudar nos casos clinicamente duvidosos, mas o seu custo é alto e, no Brasil, nem sempre é disponível pela rede de saúde suplementar. Assim como o FR, os títulos do ACCP parecem se relacionar com a gravidade de doença. Recentemente, anticorpos antivimentina citrulinada mutada (AMCV) foram descritos, aumentando ainda mais a porção de pacientes considerados soropositivos (Luime et al., 2010). Porém, deve-se considerar que cerca de 10% dos pacientes com AR serão, ainda, soronegativos para todos os anticorpos. Existem diversos exames adicionais inespecíficos. A anemia normocrômica normocítica é frequente na doença ativa, refletindo eritropoese inefetiva. Em geral, a anemia e a plaquetose correlacionam-se com atividade. A linhagem branca geralmente não se altera, mas pode ocorrer discreta leucocitose. Na presença de neutropenia, considerar o diagnóstico da síndrome de Felty (ver capítulo Doenças sistêmicas do tecido conectivo). A velocidade de hemossedimentação (VHS) é aumentada em quase todos os pacientes com AR ativa, bem como a proteína C reativa (PCR). Ambos os biomarcadores podem ser usados na monitorização ao longo do tratamento e fazem parte dos escores internacionais de atividade de doença. O complemento total e suas frações (CH100, C3 e C4) costumam estar normais (ou mesmo elevados). Contudo, na presença de vasculite, há consumo de complemento – explicado pela fisiopatologia envolvida, descrita no capítulo Doenças sistêmicas do tecido conectivo – e esse biomarcador torna-se uma ferramenta diagnóstica muito importante. A análise do líquido sinovial confirma a presença de artrite inflamatória inespecífica, não sendo fundamental para o diagnóstico da doença. O líquido é normalmente turvo e com viscosidade reduzida. A contagem de leucócitos varia entre 5 e 50.000 células/mL, com predomínio de polimorfonucleares. Uma contagem acima de 2.000 células/mL com mais de 75% de polimorfonucleares é altamente característica de artrite inflamatória, embora não seja diagnóstica de AR. Faz-se necessária a solicitação de outros exames, como sorologias virais (parvovírus B19, hepatite B e hepatite C) em pacientes com poliartrite inflamatória de início recente, especialmente com menos de 6 semanas, e com FR e anti-CCP negativos. Em casos duvidosos, a análise do líquido sinovial contribui para a exclusão do diagnóstico de artrite microcristalina ou artrite infecciosa. 4.3.4.2 Exames de imagem Nenhum exame radiográfico é patognomônico de AR. As radiografias convencionais são o método mais utilizado na avaliação por imagem do dano estrutural articular na AR. Os sinais radiográficos mais precoces são edema de partes moles e osteopenia justa-articular. A perda de cartilagem articular (redução do espaço articular) e as erosões ósseas (sinal muito específico de doença) desenvolvem-se depois de meses de atividade contínua. A avaliação radiológica permite determinar a extensão da destruição das cartilagens e da erosão óssea produzida pela doença (particularmente quando se tenta estimar a agressividade desta) e definir o momento de eventual intervenção cirúrgica. As erosões (Figura 4.8) são razoavelmente características na AR e são extremamente importantes para o diagnóstico. Elas acontecem como soluções de continuidade na superfície articular e devem ser pesquisadas nas articulações tradicionalmente acometidas, que são as mãos e os pés. As alterações radiológicas nos pés costumam ser mais precoces que as das mãos. Com a evolução da doença, ocorre osteoartrite secundária (Figura 4.9), com perda acentuada e simétrica do espaço articular, e intensa esclerose subcondral. Os desvios ósseos e as subluxações ficam aparentes, e pode haver grande destruição óssea. Figura 4.8 - Punho de paciente com artrite reumatoide Legenda: setas vermelhas mostram as erosões ósseas (discretas e de difícil visualização sem lente de aumento ou zoom em aparelho digital). Fonte: arquivo pessoal do dr. Jean Souza. Figura 4.9 - Joelho na artrite reumatoide Nota: redução acentuada do espaço articular, de forma simétrica (envolvendo os 2 compartimentos), com muita esclerose subcondral e irregularidades na superfície da articulação. A ultrassonografia (USG) e a Ressonância Magnética (RM) são capazes de detectar alterações mais precocemente por apresentaremmaior sensibilidade para detecção de dano estrutural articular que a radiografia. A RM ganha particular importância na diferenciação entre processos articulares e periarticulares (como comprometimento de bursas e bainhas tendíneas). A USG, por sua vez, ganhou muita força nos últimos anos, sendo utilizada com frequência pelos reumatologistas como ferramenta de diagnóstico e monitorização. É capaz de avaliar erosões com bastante sensibilidade e a possibilidade do uso do Power Doppler permite ao médico avaliar a vascularização da sinóvia, achado que se relaciona com o grau de inflamação e, portanto, de atividade de doença (Szkudlarek et al., 2003). 4.3.4.3 Diagnóstico diferencial O diagnóstico diferencial da AR inclui osteoartrite (sem componente inflamatório intenso, acomete IFDs e poupa MCF e punhos), artrite reativa (oligoartrite predominante de membros inferiores, com entesites, dactilites e envolvimento inflamatório axial), artrite psoriásica (pode assemelhar-se bastante à AR, principalmente se tiver o mesmo padrão de distribuição – pode acometer esqueleto axial e IFDs e, na maioria dos casos, tem FR negativo, na presença de lesão cutânea típica de psoríase), gota tofácea, lúpus eritematoso sistêmico, síndrome de Sjögren, pseudogota e polimialgia reumática. Ademais, síndromes virais podem causar artrite com 2 a 4 semanas de duração, como os vírus da hepatite com formas agudas, HIV, vírus Epstein-Barr, citomegalovírus, parvovírus e rubéola. Finalmente, o vírus da hepatite C pode cursar com formas crônicas de artropatia e entra como diferencial importante de AR. 4.3.4.4 Critérios diagnósticos Conforme reiterado anteriormente, não existe achado patognomônico de AR. O diagnóstico baseia-se nos achados clínicos, laboratoriais e radiográficos e na exclusão de outras doenças. Na maioria dos pacientes, a doença apresenta as características típicas em 1 a 2 anos após seu início. O quadro típico de poliartrite inflamatória simétrica que envolve pequenas e grandes articulações em extremidades superiores e inferiores é sugestivo do diagnóstico. Características constitucionais indicativas da natureza inflamatória da doença, como rigidez matinal, reafirmam a suspeita. Nódulos subcutâneos são achados diagnósticos importantes. Associados a esses fatores, a presença do FR e os achados radiológicos de desmineralização justa-articular e erosões ósseas sugerem fortemente o diagnóstico. Como de costume, os autores desta obra e a maioria dos reumatologistas desaconselha o uso de critérios classificatórios na prática clínica, mas estes são essenciais na prática científica e, infelizmente, ainda são alvo de questões em muitas provas de concursos médicos. Atualmente, utilizamos os critérios classificatórios de AR publicados em 2010 pelo ACR/EULAR (American College of Rheumatology/European League Against Rheumatism – Quadro 4.1). Quadro 4.1 - Critérios classificatórios do American College of Rheumatology/European League Against Rheumatism (2010) Nota: pontuação ≥ 6 necessária para classificação definitiva de paciente com AR. 1 Os diagnósticos diferenciais podem incluir condições como lúpus eritematoso sistêmico, artrite psoriásica e gota. Se houver dúvidas quanto aos diagnósticos diferenciais relevantes, um reumatologista deve ser consultado. Pacientes com doença erosiva típica de AR e aqueles com doença de longa data, mesmo se inativa no momento (com ou sem tratamento), e que anteriormente preencheram os critérios apresentados, são classificados como portadores de AR. Fonte: adaptado de 2010 Rheumatoid arthritis classification criteria: an American College of Rheumatology/European League Against Rheumatism collaborative initiative, 2010. 4.3.5 Seguimento O acompanhamento do paciente é feito em cada consulta por meio de índices compostos de atividade clínica, sendo o DAS ou DAS28 (Disease Activity Score) o mais utilizado. Esse escore conta articulações edemaciadas e dolorosas, além de ter uma pontuação global do paciente para a doença e valores de PCR ou VHS. Os exames radiográficos de mãos, punhos e pés devem ser repetidos anualmente a fim de avaliar a progressão ou não da doença. As metas do tratamento da AR são o alívio da dor, a redução da inflamação, a proteção das estruturas articulares, a preservação articular e o controle de envolvimento sistêmico. Nenhuma das intervenções terapêuticas é curativa, mas após alguns anos de doença a maior parte dos pacientes apresentará relativo controle, sendo frequentemente possível a suspensão ou, ao menos, redução dos imunossupressores. O diagnóstico e o início precoce do tratamento são fundamentais para o controle da atividade da doença, assim como também previnem a incapacidade funcional e lesões articulares irreversíveis, prejudicando a qualidade de vida. Os pacientes devem ser avaliados antes do início do tratamento, com hemograma, creatinina, AST/ALT, VHS e PCR. Antes do início dos imunossupressores, devem ser solicitadas as sorologias para hepatites virais, até mesmo pelo valor no diagnóstico diferencial. Indivíduos que farão uso dos imunossupressores biológicos devem ser investigados para tuberculose com a realização de radiografia de tórax e PPD (derivado de proteína purificada). Os IGRA (interferon gamma release assay) são métodos mais caros e menos disponíveis, porém mais específicos para diagnóstico de tuberculose latente e podem também ser utilizados. Se o paciente sem tuberculose ativa (se tiver tuberculose ativa deverá primeiramente tratar a doença) ou epidemiologia positiva (se tiver epidemiologia positiva deverá receber profilaxia independentemente de exames) apresentar sinais sugestivos à radiografia, PPD > 5 mm ou IGRA positivo, deverá receber quimioprofilaxia com isoniazida 300 mg/d por 6 meses. De maneira geral, os reumatologistas aguardam de 2 a 4 semanas para iniciar o biológico após o início da profilaxia, mas dados do Centers for Disease Control and Prevention (CDC) permitem que seja iniciado tão logo o paciente esteja em uso da isoniazida (Winthrop et al., 2005). 4.3.5.1 Anti-Inflamatórios Não Hormonais (AINHs) e corticoides Os AINHs têm ação analgésica e anti-inflamatória, mas não alteram o curso da doença nem previnem a destruição articular. Não devem ser usados isoladamente no tratamento da AR. O uso contínuo e em dose máxima é indicado quando a AR está em franca atividade, como artifício sintomático, sendo após retirado (ou deixado como resgate apenas). Não há diferença de eficácia entre os diversos AINHs. De maneira geral, os corticoides podem ser utilizados no controle da dor e do processo inflamatório, enquanto se aguarda a ação das medicações modificadoras do curso de doença. São também ferramentas úteis nas formas ameaçadoras como as esclerites graves e na vasculite reumatoide (o seu uso nessas condições foi abordado no capítulo Doenças sistêmicas do tecido conectivo). Nos quadros exclusivamente articulares são utilizados sempre em baixas doses (até 15 mg/d de prednisona, ou equivalente) e pelo menor tempo possível. Existem evidências de que os corticoides poderiam ser participantes na modificação do curso da doença, porém seu uso crônico pode causar diversos efeitos adversos, como osteoporose, sangramento no trato gastrintestinal, diabetes, infecções e catarata. Em pacientes que farão uso de corticoides por mais de 3 meses, indica-se a suplementação de cálcio e vitamina D e a avaliação de benefício de terapia para osteoporose induzida por glicocorticoide (ver capítulo Doenças dos ossos e cartilagens). Por fim, o uso de corticoide intra-articular pode promover alívio sintomático transitório em casos de mono ou oligoartrites persistentes. 4.3.5.2 Medicamentos Modificadores de Curso de Doença (MMCDs) Todas as recomendações sugeridas a seguir estão em consenso com as recomendações do ACR/EULAR de 2017 para manejo da AR (Smolen et al., 2017) e do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Ministério da Saúde de 2019 (http://conitec.gov.br). Neste capítulo, as indicações de tratamento são voltadas às manifestaçõesarticulares e periarticulares da AR. A terapia indicada para os casos sistêmicos e viscerais de AR está descrita no capítulo Doenças sistêmicas do tecido conectivo. Todos os pacientes com AR são candidatos ao uso de MMCDs (ou, do inglês, Disease-Modifying Anti-Rheumatic Drugs – DMARD), pois estas têm a capacidade de reduzir e prevenir o dano articular, preservando a integridade e a função articulares. Tratam-se de imunossupressores e imunomoduladores e podem ser sintéticos ou biológicos (globulinas ou receptores criados por engenharia genética). No grupo das drogas sintéticas, podem ser de amplo espectro (sintéticos convencionais) ou com alvo específico (no caso das pequenas moléculas, como os inibidores de janusquinase – JAK). O início das MMCDs deve ocorrer o mais cedo possível, tão logo haja segurança para tal. As mais comumente utilizadas no tratamento incluem o metotrexato, antimaláricos (difosfato de cloroquina, hidroxicloroquina), sulfassalazina, leflunomida e os agentes biológicos. O benefício do tratamento com MMDC ocorre de semanas a meses após o seu uso. Mais de 60% dos pacientes apresentam melhora significativa como resultado da terapia com qualquer um desses agentes. Há também melhora dos exames de atividade inflamatória. O metotrexato (MTX) é classicamente a MMDC de escolha como droga inicial e essa indicação sobrevive às mais diversas provas do tempo há décadas. Mesmo com centenas de estudos e dezenas de drogas disponíveis, todos os consensos e diretrizes continuam recomendando o MTX como droga inicial. A maioria dos pacientes controlará a sua doença apenas com essa medicação. O MTX possui início relativamente rápido de ação, grande eficácia e posologia conveniente pelo uso semanal. A dose é de 10 a 25 mg/sem, por via oral ou subcutânea. A biodisponibilidade é maior por via parenteral e a chance de efeitos colaterais (náusea, sonolência, dispepsia e tontura) é menor. O uso de ácido fólico (na dose de 5 mg/sem) pode também reduzir os efeitos colaterais. Apesar de incomum, o MTX está associado a pneumopatia, desse modo, seu uso deve ser feito com cautela em pacientes com AR e manifestações pulmonares. Disfunção renal grave (clearance de creatinina < 30 mL/min) ou disfunção hepática grave contraindicam o seu uso. A falta de resposta a um agente geralmente indica a associação de outro (desde que o medicamento inicial seja bem tolerado). São comuns as associações de antimaláricos, sulfassalazina e MTX (tripla terapia), antimaláricos, leflunomida e MTX ou, ainda, agentes biológicos com MTX . Segundo as diretrizes mais recentes de tratamento da AR, é possível a associação de qualquer medicação sintética (e qualquer biológico anti-TNF) ao MTX como segunda linha de tratamento (Smolen et al., 2017). #IMPORTANTE Na falta de resposta à dose máxima de metotrexato (25 mg/sem), esta obra recomenda a associação de leflunomida (20 mg/d) ao metotrexato ou terapia anti-TNF (qualquer um). De maneira geral, entende-se que o clínico internista saiba manejar uma AR inicial, sendo indicado encaminhamento ao reumatologista quando ocorre falha terapêutica. Deste modo, esta obra entende que não seja frutífero ao generalista aprofundamento na farmacologia e indicações precisas das diversas drogas disponíveis para o tratamento da AR. De todo modo, o Quadro 4.2 resume de maneira sucinta as principais drogas utilizadas atualmente no manejo da AR. Quadro 4.2 - Principais medicações utilizadas atualmente no manejo da artrite reumatoide Fonte: elaborado pelo autor. 4.3.5.3 Fisioterapia e exercícios físicos Essas formas de tratamento têm importante papel em todas as fases da doença. Exercícios passivos ajudam a prevenir ou minimizar a perda de função, e exercícios resistidos aumentam a força muscular, contribuindo para a manutenção da estabilidade articular. Atividades aeróbicas são importantes para melhor condicionamento cardiovascular e redução do risco de morbidades. 4.3.5.4 Tratamento cirúrgico Os procedimentos com melhor resultado são aqueles realizados nos quadris, joelhos e ombros. Os objetivos desses procedimentos são o alívio da dor e a redução da perda funcional. Reparação cirúrgica das mãos pode proporcionar melhora cosmética e funcional. Sinovectomia aberta ou por artroscopia pode ser útil a alguns pacientes com monoartrite persistente, especialmente dos joelhos ou dos cotovelos. 4.3.5.5 Vacinação Vacinas de organismos não vivos podem e devem ser administradas em qualquer momento do tratamento, sendo mais eficazes antes do início das MMCDs sintéticas ou biológicas. Durante o tratamento, há contraindicação relativa ao uso de vacinas de vírus atenuados nos usuários de biológicos e sintéticos com alvo, devendo-se pesar risco-benefício. De maneira geral, pacientes em uso de MTX na dose menor ou igual a 20 mg/sem podem receber qualquer vacina (Furer et al., 2019). 4.3.5.6 Prognóstico O curso da AR é variável e difícil de ser predito individualmente. A maior parte dos pacientes apresenta atividade flutuante, acompanhada por grau variável de anormalidades articulares e prejuízo funcional. Várias características são relacionadas a pior prognóstico, tais como sexo feminino, tabagismo, FR e/ou ACCP em títulos elevados, provas inflamatórias (VHS e/ou PCR) persistentemente elevadas, grande número de articulações edemaciadas, presença de manifestações extra-articulares, atividade da doença elevada aferida por índices objetivos de atividade da doença como DAS28 e presença de erosões precocemente na evolução da doença (Mota et al., 2012). Atualmente, a principal causa de óbito em pacientes com AR são as doenças cardiovasculares, principalmente a doença arterial coronariana e a insuficiência cardíaca. Existem dados na literatura que sugerem que o paciente com AR deva ter níveis de LDL inferiores a 100 mg/dL e que as principais drogas para controle de hipertensão sejam inibidores de enzima conversora de angiotensina ou bloqueadores de receptor de angiotensina II (Pereira et al., 2012). 4.4 ESPONDILOARTRITES As EpAs formam um grupo de doenças interrelacionadas com aspectos epidemiológicos, patogenéticos, clínicos e radiológicos comuns entre si. As entidades que compõem esse grupo cursam, como todas as AAs, com artrite muito flogística como principal manifestação clínica, além de comprometimento periarticular. Neste sentido, acompanhando a sinovite, frequentemente se observa tenossinovite, bursite e entesite. A entesite, quando presente e de etiologia inflamatória – importante diferenciação, pois existem entesites mecânicas –, sugere fortemente doença relacionada às EpAs, pois esse tecido parece ser bastante sensível à IL-17 e IL-23, ambas interleucinas muito associadas à fisiopatologia das EpAs. Outro elo que une as EpAs é uma forte correlação genética com um polimorfismo específico da região B do HLA tipo I, nomeado HLA- B27. Embora no Brasil a miscigenação tenha tornado esse polimorfismo menos frequente, em populações europeias o encontramos em até 90% dos pacientes com espondilite anquilosante (West, 2015), por exemplo. Ainda assim, as EpAs são definitivamente multifatoriais, com gatilhos ambientais participando do início da disfunção imune (ver anteriormente, no item 4.2). Embora de maneira acadêmica se divida classicamente as EpAs em suas doenças finais (como espondilite anquilosante), muitos pacientes apresentam quadro clínico inespecífico e indeterminado por anos até que manifestem as facetas que permitirão o seu diagnóstico final. Assim sendo, é bastante útil ao clínico a compreensão dessas entidades como um espectro contínuo, que permita o manejo mesmo antes da diferenciação final. De maneira bastante simplificada e em termos práticos, o que mais interessa ao médico em um primeiro contato com o seu paciente é a diferenciação entre EpA predominantemente axial ou periférica, pois, como veremos adiante, o seu manejo e prognóstico são radicalmente diferentes. 4.4.1 Axial Denomina-se EpA axial aquela que acomete a coluna e as articulações sacroilíacas. Evidentemente, o pacientecom EpA axial também pode ter manifestações periféricas, mas o quadro axial evidentemente lidera a apresentação clínica. O sintoma clínico característico é dor lombar inflamatória (Figura 4.10), iniciando-se nas articulações sacroilíacas e coluna lombossacra, podendo comprometer também a região cervical. Figura 4.10 - Patogenia da lombalgia inflamatória Fonte: ilustração Claudio Van Erven Ripinskas. A dor inflamatória caracteriza-se por melhora com movimentação (diferente da dor de origem mecânica, que piora com a movimentação e melhora com o repouso) e rigidez matinal maior do que 30 minutos. As dores têm início insidioso, com mais de 3 meses de evolução. Sua localização geralmente é lombar (mas pode acometer todos os níveis da coluna) e nas nádegas, uni ou bilateralmente, podendo ser alternante. O paciente pode apresentar despertares noturnos ocasionados pela dor lombar inflamatória. Ao exame físico, um dos achados iniciais é a perda da lordose lombar. Com o passar do tempo, há calcificação dos ligamentos e das ênteses da coluna em toda a sua extensão, gerando perda de mobilidade. Existem diversas manobras para avaliar o grau de comprometimento da mobilidade do paciente com EpA axial. Todos os movimentos da coluna podem ser avaliados em todos os níveis. Ao clínico generalista, a memorização de todos esses parâmetros é provavelmente infrutífera e não haverá retenção, uma vez que raramente as utilizará. Contudo, o teste de Schober vale menção, pela sua popularidade. A versão mais validada é a sua versão modificada (Jenkinson et al., 1994): deve-se fazer uma marca na linha média, com o paciente em posição neutra, ao nível da espinha ilíaca posterossuperior, outra 10 cm acima e outra 5 cm abaixo. Pede-se ao indivíduo que realize flexão máxima do tronco, sem dobrar os joelhos, tentando alcançar o chão com as mãos. Mede-se a distância máxima entre os 2 pontos, que deve aumentar pelo menos 5 cm e atingir 20 cm (Figura 4.11). Figura 4.11 - Teste de Schober Nota: na versão original, são marcados 2 pontos, um ao nível da junção lombossacra e outro 10 cm acima. Na versão modificada, são marcados 3 pontos, um na junção lombossacra, um 5 cm abaixo e um 5 cm acima. O objetivo em ambos os testes é aumentar a distância entre as extremidades mais do que 5 cm. Fonte: Nasch92, 2018. Como ferramenta válida para a avaliação da sacroileíte, podemos citar, por exemplo, o teste de Patrick (Figura 4.12). Figura 4.12 - Teste de Patrick (também conhecido como FAbER) Nota: realiza-se, passivamente, uma flexão com abdução e rotação externa da coxa. Na prática, o paciente assumirá uma posição lembrando o algarismo “4” deitado na maca. O teste é positivo se o paciente se queixar de dor contralateral, na região sacroilíaca. Fonte: acervo Medcel. Entesites são comuns a todas as formas de EpA. Podem ocorrer na fáscia plantar, na inserção do tendão de aquiles, ao redor da pelve (na tuberosidade isquiática, nas cristas ilíacas e no trocânter maior), na coluna (nas inserções ósseas de ligamentos e cápsulas de articulações discovertebrais e costovertebrais e nos ligamentos interespinal e paravertebrais), na região anterior do tórax (junções costocondrais) e na tuberosidade tibial, uni ou bilateralmente. A Figura 4.13 ilustra os principais pontos de entesites. O acesso no exame físico deve ser feito por meio da palpação da inserção dos ligamentos e tendões nos ossos, com importante dor local. Sobrecargas mecânicas também podem causar entesites, especialmente no tendão do calcâneo e na fáscia plantar. Neste caso, nada têm a ver com inflamação e são tratadas com reabilitação e medidas locais. Figura 4.13 - Pontos de possíveis entesites Legenda: (A) manúbrio do esterno; (B) processo xifoide; (C) e (D) crista e espinha ilíacas anterossuperiores; (E) espinha ilíaca posterossuperior; (F) coluna lombar; (G) calcâneo. Fonte: adaptado de Olga Bolbot. 4.4.2 Periférica São denominadas EpAs periféricas aquelas que possuem como manifestação mais importante o acometimento das articulações não axiais. Neste caso, qualquer padrão de acometimento pode ser considerado (oligoarticular, poliarticular, pequenas ou grandes articulações) e o acometimento das articulações da coluna e das sacroilíacas ou estão ausentes ou são menos significativas. Nas formas periféricas, também pode haver acometimento do aparelho periarticular, com entesite, tenossinovite e bursite inflamatórias. Nas formas periféricas, chama bastante a atenção a ocorrência de dactilite, que nada mais é do que a inflamação concomitante das articulares, ênteses e bainhas tendíneas de um ou mais dedos, causando uma inflamação difusa que os deixa edemaciados e eritematosos. Devido ao seu aspecto, cunhou-se o termo “dedo em salsicha” para descrê-lo (Figura 4.14). Figura 4.14 - Paciente com dactilites no quarto pododáctilo esquerdo e terceiro pododáctilo direito Fonte: Case Report: A Psoriatic Arthritis Patient with Dactylitis & Enthesitis, 2018. O exame físico do paciente com manifestação articular periférica passa pelo acesso a cada uma das articulações envolvidas, com especial atenção ao calor e ao edema articular ao toque. A ocorrência de derrame articular, por vezes acompanhado de redução da amplitude de movimento, ajuda a sugerir etiologia inflamatória nesse contexto. As dactilites são bastante evidentes à inspeção e muito dolorosas à mobilização, e as entesites e bursites podem ser acessadas por meio da palpação, que revela sensibilidade dolorosa local. 4.4.3 Manifestações extra-articulares As manifestações extra-articulares das EpAs são geralmente atribuídas ao polo Th1 da patologia e representam a invasão tecidual por fagócitos ativados e células citotóxicas. Ao contrário das doenças sistêmicas do tecido conectivo, nas quais o espectro de manifestações é vasto e ataca, virtualmente, qualquer órgão e sistema, nas EpAs o acometimento é muito mais previsível e contido. De fato, o que sempre chamará mais a atenção nas artropatias autoimunes é o quadro articular. Todavia, é possível, sim, que um paciente abra o seu quadro com uma manifestação fora da articulação; neste caso, provavelmente não será entendido como uma EpA até que ocorra o quadro locomotor. Não há importância, porém, na prática clínica, o nome e sobrenome da doença, mas a compreensão de como a patologia funciona e, portanto, de como deverá se dar o manejo do paciente. É muito comum que dermatologistas, por exemplo, acabem manejando inicialmente os pacientes com artrite psoriásica (uma forma de EpA, ver adiante no item 4.4.4) que abriram o quadro com sintomas exclusivamente cutâneos. Quando estes abrem a parte articular (e descobre-se, portanto, que se tratava de uma artrite psoriásica e, não, de uma psoríase) por vezes terminam globalmente manejados pelo dermatologista, uma vez que a terapia para a pele, por seguir a mesma fisiopatologia da lesão articular, acaba controlando, também, o quadro locomotor. Os sítios principais de acometimento extra-articular são: pele, olhos e trato gastrintestinal. As entesites, tenossinovites e bursites são, de maneira purista, manifestações também extra-articulares, mas, pela sua relação com o aparelho locomotor, foram descritas anteriormente (itens 4.4.1 e 4.4.2). 4.4.3.1 Manifestações cutâneas Uma das manifestações cutâneas mais importantes é a psoríase. Trata-se de placas eritematosas e descamativas, por vezes pruriginosas. A psoríase vulgar é a forma mais comum de apresentação, e manifesta-se pelo acometimento das superfícies extensoras, principalmente dos cotovelos e joelhos (Figura 4.15). Pode acometer também o couro cabeludo. Figura 4.15 - Joelho de paciente com psoríase Fonte: Werayuth Piriyapornprapa. Outra forma de doença cutânea que pode acompanhar os pacientes com EpA é o eritema nodoso (Figura 4.16). O eritema nodoso se manifesta como uma lesão eritematosa indurada, dolorosa e imóvel que geralmente acomete a região anterior das pernas (Cribier et al., 1998). Do ponto de vista patológico, o eritema nodoso é uma paniculite septal semvasculite. Figura 4.16 - Perna de paciente com diversas lesões compatíveis com eritema nodoso (circuladas) Fonte: adaptado de James Heilman, 2010. O eritema nodoso é mais frequentemente observado em associação com a artrite relacionada à doença inflamatória intestinal (enteroartrite). Também associada mais comumente à forma articular relacionada a doença inflamatória intestinal, outra manifestação cutânea das EpAs é o pioderma gangrenoso. Trata-se de uma dermatose neutrofílica que cursa com ulcerações dolorosas, geralmente em membros inferiores, com bordas elevadas violáceas e fundo eritematoso e marcadamente purulento (Figura 4.17). O pioderma gangrenoso cursa com hiperativação neutrofílica e ocorrência de lesões satélites (fenômeno de Koebner), motivadas por trauma. Assim, o manejo da lesão é bastante específico, com imunossupressão, sendo que medidas de debridamento geralmente pioram o quadro clínico. Figura 4.17 - Perna de paciente com úlcera extensa crônica com fundo marcadamente purulento Nota: o aspecto sugere pioderma gangrenoso. Fonte: arquivo pessoal do dr. Jean Souza. Algumas manifestações cutâneas nas EpAs são fortemente preditoras do subgrupo ao qual o paciente pertence. Como dito anteriormente, o eritema nodoso e o pioderma gangrenoso sugerem mais artrite relacionada a doença inflamatória intestinal e a psoríase sugere mais artrite psoriásica. O acometimento cutâneo por vezes é o que permite a diferenciação entre os pacientes e a sua efetiva classificação. Neste sentido, a ocorrência de queratoderma blenorrágico e balanite circinada sugerem o pertencimento ao subgrupo da artrite reativa. O queratoderma blenorrágico se inicia com vesículas claras em bases eritematosas, evoluindo para lesões pustulares e queratósicas que coalescem e formam placas. Geralmente ocorrem nas plantas dos pés e solas das mãos (Figura 4.18). Figura 4.18 - Ceratoderma blenorrágico Fonte: ABC of Rheumatology, 2009. A balanite circinada ocorre na margem coronal do prepúcio e próxima à glande. Trata-se de uma erupção eritematosa que evolui para lesões exulceradas ou pustulares. As bordas geralmente são marcadas, arredondadas e irregulares, dando o seu título de “circinada” (Figura 4.19). As lesões podem ocorrer também na vulva, recebendo o nome de vulvite ulcerativa, embora seja uma apresentação muito menos comum (Wu; Schwartz, 2008). Figura 4.19 - Balanite circinada: observar as lesões de aspecto serpiginoso Finalmente, do ponto de vista tegumentar, outras lesões menos específicas, mas que ocorrem com frequência, são as úlceras orais. Podem ser dolorosas ou não e a sua diferenciação com aftose vulgar pode ser impossível a depender da apresentação, devendo sempre se valorizar as demais manifestações clínicas. 4.4.3.2 Manifestações oculares A manifestação mais importante e frequente nas EpAs é a uveíte anterior. Trata-se de inflamação da úvea anterior (íris e corpo ciliar) e cursa com síndrome do olho vermelho dolorosa. Geralmente é unilateral e de apresentação aguda, com dor ocular, vermelhidão e fotofobia intensa (Figura 4.20). Medidas tópicas provavelmente resolverão o quadro agudo, mas os pacientes com EpA tendem a recorrer com frequência. Com surtos repetidos, pode ocorrer perda de acuidade visual. Figura 4.20 - Detalhe do exame de olho de paciente com uveíte anterior Nota: há intensa hiperemia perilímbica (em volta da íris e da córnea), o que a diferencia do eritema da conjuntivite (mais periférico), visto na Figura 4.21. Fonte: Arztsamui. O diagnóstico de uveíte é feito com exame oftalmológico com lâmpada de fenda, que mostra leucócitos suspensos na câmara anterior. A doença de Behçet também cursa com uveíte e eventualmente artrite. A principal diferença que ajuda a distinguir as condições é a ocorrência de panuveíte (uveíte anterior e posterior) bilateral na vasculite. Outra manifestação que ocorre nas EpAs do ponto de vista ocular é a conjuntivite. Trata-se de conjuntivite asséptica, uni ou bilateral, aguda ou subaguda, e se apresenta com sensação de corpo estranho ocular, ardência e descarga hialina (Figura 4.21). A conjuntivite nas EpAs costuma ser transitória e não costuma trazer complicações a longo prazo. É mais frequentemente observada em associação com a artrite reativa. Figura 4.21 - Detalhe do exame do olho de paciente com conjuntivite Nota: a hiperemia é periférica e nitidamente poupa a região perilímbica. Fonte: Arztsamui. 4.4.3.3 Manifestações gastrintestinais Inflamação de mucosa intestinal ocorre em uma boa porcentagem dos pacientes, com estudos mostrando até 60% de prevalência (De Keyser et al., 2002). Contudo, apenas alguns poucos pacientes terão manifestações clínicas propriamente ditas, como dor abdominal e diarreia. Pacientes com manifestações francas de doença inflamatória intestinal podem ainda cursar com estenoses, fístulas e doença orificial. É comum que os pacientes com manifestações intestinais apresentem um aspecto de doença um pouco mais sistêmico, com fadiga, anorexia, febre eventual e perda de peso. Nem sempre a manifestação intestinal acompanha a artrite. Podem aparecer dispersas no tempo em um mesmo paciente. Porém, em geral, iniciam-se próximas e tendem a exacerbar concomitantemente. Manifestações renais, como glomerulonefrite mesangial ou doença por amiloide, são descritas, bem como doença aórtica (insuficiência aórtica) e pneumopatia intersticial. Contudo, são manifestações absolutamente incomuns e fogem do padrão, devendo sempre levantar a suspeita de outras doenças associadas. 4.4.4 Subgrupos Como dito anteriormente, do ponto de vista clínico, a maior importância reside na diferenciação entre espondiloartrite predominantemente axial ou periférica, bem como na identificação de doença extra-articular de maneira precoce. Tal observação se pauta nas modalidades de tratamento, que são diferentes de acordo com a topografia da lesão articular e de eventuais manifestações extra-articulares. Como exemplo, pacientes com psoríase e artrite tendem a responder melhor ao metotrexato, ao passo que pacientes com artrite e doença inflamatória intestinal podem se beneficiar da ação dupla da sulfassalazina. Contudo, do ponto de vista acadêmico e para finalidade de pesquisa, a diferenciação final da doença do paciente tem grande importância, pois as diversas formas de espondiloartrites possuem prognóstico e evolução diferentes. Assim sendo, esta obra agora apresentará as doenças sob um prisma um pouco diferente, partindo da doença em sua classificação final. Epistemologicamente, o médico que conhece os 2 caminhos de raciocínio (partindo das apresentações sindrômicas ao diagnóstico final e retornando pelo mesmo caminho no sentido oposto) apresenta maior chance de sucesso na sua jornada diagnóstica e terapêutica. 4.4.4.1 Espondilite anquilosante A espondilite anquilosante (EA) é o protótipo das espondiloartrites axiais. O envolvimento axial é característico, com acometimento da coluna, levando à dor axial inflamatória (comumente lombar), e das sacroilíacas, causando dor inflamatória nas nádegas. Costuma ter início insidioso, no fim da adolescência ou no começo da vida adulta, e é infrequente apresentar-se após os 40 anos. Há grande associação a HLA-B27 (90%) e é mais frequente em homens (3:1 em relação às mulheres). Como em todas as doenças reumáticas, podem estar presentes sintomas constitucionais, como fadiga, perda de peso e febre. O acometimento de articulações periféricas na EA ocorre em cerca de 25% dos casos (West, 2015) e costuma ser mono ou oligoarticular (1 a 4 articulações acometidas), costumeiramente de forma assimétrica e preferencialmente nos membros inferiores. Quadris, joelhos, tornozelos e articulações metatarsofalangianas são frequentemente acometidos. Entesites são comuns na EA e podem ocorrer especialmente na fáscia plantar, na inserção do tendão do calcâneo, em volta da patela e em ênteses mais axiais, como aquelas relacionadas à musculatura peitoral e abdominal. A uveíte anterior recorrente é a manifestação extra-articularmais comum na EA e ocorre em até 30% dos pacientes (West, 2015), com associação à presença de HLA-B27. O surgimento da uveíte pode ser o primeiro sintoma no paciente. Acomete a câmara anterior do olho e costuma ser unilateral, com aparecimento de olho vermelho, dor, borramento visual, fotofobia e lacrimejamento. Não tem relação obrigatória com surtos de piora no acometimento articular e, se não tratada, pode gerar perda visual e irregularidade da pupila. 4.4.4.2 Artrite psoriásica A Artrite Psoriásica (AP) forma um grupo heterogêneo de manifestações articulares inflamatórias crônicas em associação à psoríase cutânea ou ungueal, ou em pacientes com quadro clínico sugestivo na vigência de história familiar de psoríase. A prevalência da AP nos estudos contemporâneos é de cerca de 0,1 a 0,5%, sendo que a artrite ocorre em até 25% dos pacientes com psoríase (West, 2015). O acometimento da pele costuma preceder a artrite em 75% dos casos, com início simultâneo em 10% dos pacientes. Na minoria restante (15%), a artrite pode anteceder o surgimento da psoríase em vários anos, dificultando muito o diagnóstico. Não há diferença entre os sexos e a idade de maior prevalência está entre os 30 e os 55 anos. Fatores genéticos, ambientais e imunológicos estão envolvidos na suscetibilidade e na expressão da doença. Dentre os fatores genéticos, o gene PSORS1 demonstrou maior suscetibilidade à psoríase. Existe grande associação entre artrite psoriásica e síndrome metabólica. O quadro locomotor na AP costuma ser oligoarticular no início da doença, mas, com o passar dos anos e um número maior de articulações acometidas, tende a tornar-se poliarticular. Algumas características ajudam a diferenciar a AP da artrite reumatoide: a AP é mais frequentemente assimétrica, pode acometer as interfalangianas distais (poupadas na artrite reumatoide), tem FR costumeiramente negativo, acomete homens e mulheres igualmente e tem características radiográficas peculiares com lesões mais destrutivas e erosivas. A agressividade pode ser tamanha que alguns pacientes podem apresentar osteólise de falanges e doença francamente mutilante. A AP também pode acometer as articulações sacroilíacas e coluna. Entretanto, o envolvimento axial costuma ser mais assimétrico do que na EA. Alguns achados radiológicos ajudam a diferenciar a AP da EA (ver adiante no item 4.4.5). O acometimento periarticular é extremamente comum na AP, sendo a espondiloartrite a que mais cursa com dactilite. Na maioria dos pacientes com AP ocorrem alterações ungueais (Figura 4.22), sendo, por vezes, a primeira manifestação do paciente e o achado que permitirá a sua classificação antes mesmo da apresentação cutânea. Assim, o exame físico do paciente com AP requer uma obstinada inspeção de todas as unhas. Figura 4.22 - Unha de paciente com psoríase Nota: há depressões puntiformes ungueais (pitting nails) e onicodistrofia. Fonte: Sweetheart studio. 4.4.4.3 Artrite reativa A Artrite Reativa (ARe) é uma espondiloartrite caracterizada por artrite periférica, habitualmente acompanhada por manifestações extra-articulares, que aparecem após certas infecções dos aparelhos geniturinário e gastrintestinal, acometendo principalmente adultos jovens. A relação entre homens e mulheres é de 1:1. Associam-se à doença diarreica por bactérias dos gêneros Shigella, Salmonella, Yersinia e Campylobacter, assim como infecções não gonocócicas do aparelho geniturinário por Chlamydia trachomatis ou Ureaplasma urealyticum. O termo síndrome de Reiter, dado em homenagem a Hans Reiter, descreve a tríade clínica de uretrite, conjuntivite e artrite no contexto da artrite reativa. É um termo em desuso atualmente. A ARe tipicamente tem início agudo, de 1 a 4 semanas, após infecção venérea não gonocócica ou gastroenterite. Sintomas constitucionais, como febre e perda de peso, são possíveis. O envolvimento articular periférico é o mais característico da ARe (90% dos casos) e geralmente é agudo, aditivo, assimétrico e oligoarticular, com predomínio em articulações dos membros inferiores, especialmente joelhos, tornozelos e pequenas articulações dos pés. O acometimento do quadril é incomum, mas articulações esternoclaviculares, ombros e temporomandibulares também podem ser afetados. Manifestações periarticulares com entesite e dactilite (Figura 4.23) podem ocorrer. A entesite (Figura 4.24) é mais frequente na inserção da fáscia plantar ou na inserção do tendão de aquiles no calcâneo, levando a uma das manifestações mais frequentes da doença: dor no calcanhar. Figura 4.23 - Fotos de pacientes com dactilites (“dedo em salsicha”) Fonte: ABC of Rheumatology, 2009. Figura 4.24 - Entesite no calcanhar esquerdo Lombalgia e dor nas nádegas são comuns na ARe e ocorrem em cerca de 50% dos casos. Já alterações radiográficas no esqueleto axial estão presentes em 20% dos pacientes, embora o envolvimento radiográfico axial chegue a 70% nas formas crônicas. Uretrite não gonocócica, quando presente, é a primeira manifestação e ocorre nas formas pós-venérea e pós-entérica. Disúria e descarga uretral purulenta são os sintomas mais típicos no homem, mas estão presentes, ocasionalmente, prostatite e/ou epididimite. Mulheres podem ter disúria, corrimento vaginal, cervicite e/ou vaginite. Pacientes assintomáticos para inflamação genital frequentemente têm piúria estéril, principalmente na primeira urina da manhã. Conjuntivite ocorre em 1 terço dos casos e, quando presente, geralmente acompanha a uretrite ou se desenvolve vários dias depois. Os pacientes podem apresentar leve hiperemia conjuntival bilateral, com sensação de queimação e exsudato. A conjuntivite não tem relação com HLA-B27. Uveíte anterior aguda (irite) tipicamente é unilateral, mas pode ser bilateral, acompanhada de conjuntivite. Ocorre com menor frequência do que na EA (15 a 20%). Como apresentado anteriormente, o queratoderma blenorrágico ocorre em cerca de 25% dos pacientes com ARe. Quando atinge o leito subungueal, as unhas das mãos e dos pés podem tornar-se quebradiças e opacas, assemelhando-se às alterações encontradas nas infecções micóticas e psoriásicas. A balanite circinada, por sua vez, envolve a glande peniana e aparece como ulceração serpiginosa ao redor da uretra. A ARe tem sido relatada com frequência em indivíduos HIV positivos, e sua prevalência e gravidade podem estar aumentadas quando estão associadas aos vírus. O HIV isolado não causa a doença, mas sua relação com outras doenças, como infecção por Chlamydia sp., pode ser responsável pelo desenvolvimento de ARe. 4.4.4.4 Artrite relacionada a doença inflamatória intestinal A artrite periférica ocorre em cerca de 20% dos pacientes com Doença de Crohn (DC) ou retocolite ulcerativa. A prevalência é ligeiramente maior na DC. Pode ocorrer acometimento periférico, com artralgias migratórias ou artrite aditiva, oligoarticular ou poliarticular, em geral assimétrica e predominantemente de membros inferiores, acometendo, com frequência, joelhos, tornozelos e pés. Grandes derrames articulares, em especial, nos joelhos, são comuns. O aparecimento da artrite pode anteceder os sintomas gastrintestinais, apresentando-se, no início, como uma forma indiferenciada da EA. Comumente, a artrite acompanha a atividade da doença inflamatória intestinal e melhora com o controle desta, mas, como dito anteriormente, não é uma regra absoluta. Na retocolite ulcerativa, a colectomia para controle da doença intestinal pode levar à remissão da artrite, mas isso não acontece na DC. Acometimento da coluna, incluindo sacroileíte, acontece em cerca de 10% de pacientes com doenças inflamatórias intestinais e frequentemente é assintomático. O envolvimento axial tem curso independente da atividade da doença intestinal, podendo antecedê- la, e a colectomia terapêutica não se reflete na atividade de doença axial. O HLA-B27 é encontrado com menor frequência nessa doença (aproximadamente 50% nos casos com envolvimento axial). Manifestações extra-articulares da doença inflamatória intestinal tambémpodem ocorrer em 24% dos casos: a complicação cutânea mais comum é o eritema nodoso, que costuma acompanhar a atividade inflamatória intestinal e articular periférica. O pioderma gangrenoso é menos frequente, mas é mais grave, com aparecimento de úlceras profundas e dolorosas na pele. É possível haver úlceras orais recorrentes, as quais refletem a atividade intestinal da DC. Uveíte anterior aguda, unilateral, alternante, similar àquelas encontradas nas outras EpAs, é vista em 11% dos casos de enteroartrites. Na DC, pode ocorrer uveíte granulomatosa, mais grave e persistente. Febre e perda de peso também são comuns. 4.4.4.5 Espondiloartrite indiferenciada São chamadas de EpAs indiferenciadas aquelas síndromes que não conseguem ser alocadas em nenhum dos grupos mencionados anteriormente, mas que possuem características que sugerem EpAs (como oligoartrite com entesite inflamatória, por exemplo). Possuem maior importância nos estudos clínicos, quando não perfazem nenhum dos critérios classificatórios. 4.4.5 Diagnóstico O diagnóstico de EpA se baseia especialmente nos achados de história e exame físico. Contudo, tratando-se de quadro axial, a documentação de acometimento radiológico se faz necessária, devendo se ter em mente que os achados mais precoces serão visíveis apenas por ressonância magnética e não por métodos radiográficos. Os exames laboratoriais podem ser usados para afastar outras entidades (como infecções virais e quadros metabólicos) e para corroborar a inflamação (com os marcadores de atividade inflamatória). Contudo, não há teste confirmatório de EpA. A pesquisa do HLA-B27 possui valor diagnóstico, mas não deve ser interpretado de maneira isolada, e tanto o FR quanto o fator antinuclear costumam ser negativos. 4.4.5.1 Exames laboratoriais Na investigação dos pacientes com EpA, geralmente são solicitados os exames relacionados às funções orgânicas – hemograma, função renal e transaminases – para se investigar possibilidades terapêuticas. Ademais, as provas de atividades inflamatória (PCR e VHS) são importantes para o diagnóstico e monitorização da doença, sendo essenciais. Contudo, muitos pacientes possuem marcadores inflamatórios normais, especialmente aqueles com quadro exclusivamente axial. Na suspeita de ARe, existe um grande interesse em identificar uma eventual infecção precedendo o quadro, assim, deve-se considerar coleta de fezes para cultura se houver diarreia ativa, sorologias para os germes envolvidos (Chlamydia trachomatis, Shigella spp., Campylobacter spp., Yersinia spp. e Salmonella spp.) e pesquisa de Chlamydia trachomatis por PCR em swab uretral e cervical. Enquanto a positividade da cultura e do swab ajudam bastante a estreitar o diagnóstico, as sorologias não confirmam o quadro, pois podem simbolizar infecção remota. Isso é particularmente infeliz na ARe, porque, na cronologia da entidade clínica, tratando-se de uma reação imune tardia, quase sempre não há mais germe detectável. Como alguns pacientes com ARe apresentam monoartrite febril, é muito frequente que necessitem de artrocentese com pesquisa para infecção. Neste caso, o bacterioscópico e a cultura do líquido sinovial são importantes (e devem resultar negativas), uma vez que a celularidade pode vir com valores muito altos e, por vezes, com predomínio neutrofílico. Na suspeita de enteroartrite, pode ser conveniente a pesquisa de anticorpo anticitoplasma de neutrófilo (ANCA) e anticorpos anti- Saccharomyces cerevisiae (ASCA) para auxílio no diagnóstico de doença inflamatória intestinal. É conveniente lembrar, porém, que a sensibilidade de ambos os anticorpos é pequena neste contexto (Peeters et al., 2001). 4.4.5.2 Exames de imagem a) Radiografias A sacroileíte das espondiloartrites envolve a porção sinovial, nos 2 terços inferiores da articulação sacroilíaca. Na EA, o acometimento é geralmente bilateral e simétrico (Figura 4.26). Já na ARe e na AP, o acometimento geralmente é unilateral e assimétrico. As formas enteropáticas são variáveis (Voulgari, 2011). Na EA e em enteroartrites, os sindesmófitos são geralmente simétricos e regulares, bem verticalizados e marginais (Figura 4.25), ao contrário do que ocorre na AP (sindesmófitos assimétricos, irregulares e mais grosseiros – Figura 4.27). Também se distinguem dos osteófitos da osteoartrite, que têm orientação bem lateralizada. Figura 4.25 - Coluna lombar de paciente com espondilite anquilosante Nota: a curvatura lombar se perdeu, as vértebras possuem acentuada quadratura e finos sindesmófitos unem os corpos vertebrais rente ao ligamento longitudinal anterior. Figura 4.26 - Sacroileíte bilateral Nota: observar a redução do espaço nas sacroilíacas e a esclerose óssea. Fonte: adaptado de Ankilozan spondilitli hastalardapreobezitenin yaşam kalitesine etkileri [Os efeitos da pré-obesidade na qualidade de vida em pacientes com espondilite anquilosante (tradução literal)], 2014. Figura 4.27 - Formação de sindesmófitos na coluna vertebral Nas radiografias das articulações periféricas, observam-se os achados típicos da destruição articular promovida pelas artropatias autoimunes. O acometimento quase sempre é assimétrico e, no caso da AP, pode acometer interfalangianas distais – esses achados ajudam a diferenciar da AR. Quase sempre haverá erosão óssea periarticular e, eventualmente, neoformação óssea, com grandes osteófitos. À medida que o quadro progride, ocorrem sinais de osteoartrite secundária, com redução do espaço articular e deformidades do osso subcondral. Na AP, especificamente, o acometimento ósseo pode ser muito intenso, inclusive com osteólise (destruição e afilamento das extremidades ósseas). Na sua forma mutilante, há total desarranjo articular, com excesso de partes moles em meio aos resquícios das falanges. Uma falange afilada distalmente na articulação com outra cuja base foi alargada em forma de taça leva à característica lesão tipo “pencil- in-cup” (Figura 4.28), sugestiva de artrite psoriásica. Uma falange afilada distalmente na articulação com outra cuja base foi alargada em forma de taça leva à característica lesão tipo “pencil-in- cup” (Figura 4.28), sugestiva de artrite psoriásica. Figura 4.28 - Acometimento assimétrico das articulações, mais evidente nas interfalangianas distais – aspecto “pencil-in-cup” na terceira interfalangiana distal b) Ressonância magnética Em pacientes com quadros precoces, é possível que as radiografias não mostrem alterações. Nesses casos, a RM é capaz de demonstrar alterações precoces, como sinovite, tenossinovite e edema ósseo (Figura 4.29). A RM também é capaz de ver achados crônicos, como erosões e fibrose. Os pacientes com acometimento axial que não é visto à radiografia, mas que aparece na RM, são denominados portadores de espondiloartrite axial não radiográfica. Em um paciente com ressonância normal (do sítio acometido) deve-se questionar o diagnóstico de espondiloartrite, uma vez que o processo é, quase invariavelmente, muito inflamatório do ponto de vista articular e periarticular. Figura 4.29 - Coluna de paciente com espondilite anquilosante vista pela ressonância magnética Legenda: da esquerda para a direita, os exames estão ponderados em T1, T1 com contraste e T2. Na imagem contrastada e, especialmente, ponderada em T2, zonas com hipersinal representam o edema ósseo. 4.4.5.3 Critérios classificatórios Os critérios classificatórios de EpA foram estabelecidos pelo Assessment of SpondyloArthritis International Society (ASAS) em 2011 e são encontrados a seguir: Quadro 4.3 - Critérios classificatórios para espondiloartrite axial Fonte: adaptado de The Assessment of SpondyloArthritis International Society classification criteria for peripheral spondyloarthritis and for spondyloarthritis in general, 2011. Quadro 4.4 - Critérios classificatórios para espondiloartrite periférica Fonte: adaptado de The Assessment of SpondyloArthritis International Society classification criteria for peripheral spondyloarthritis and for spondyloarthritis in general, 2011. 4.4.6Manejo Inicialmente, o paciente deverá receber orientações sobre o prognóstico da doença. A fisioterapia deve ser realizada de maneira sistemática em todos os estágios da doença, para educação postural, preservação de amplitude articular e conservação de energia. Assim que possível, o paciente deve ser orientado a buscar a prática de exercício aeróbico e resistido de maneira rotineira, pois são associados a melhor controle dos sintomas e menor dano cumulativo articular. Pela característica anquilosante, exercícios de flexibilidade são igualmente bem-vindos. Em relação aos hábitos, é essencial cessar o tabagismo e manter dieta com níveis adequados de cálcio. A chance de osteoporose deve ser frequentemente acessada conforme os protocolos específicos (ver capítulo Doenças dos ossos e cartilagens). No que se refere ao tratamento medicamentoso, para todas as formas de EpA o tratamento inicial será com AINHs. Nessa categoria de AA, o AINH é considerado droga modificadora de doença e deve ser usado de maneira contínua. Os efeitos colaterais (renais, gastrintestinais e hepáticos) devem ser monitorizados com acesso clínico e laboratorial periódico. Uma vez que não haja resposta, uma diferença essencial se refere ao perfil de acometimento do paciente. Nos quadros predominantemente axiais, a segunda droga de tratamento será diretamente um imunossupressor biológico (Ward et al., 2019), de preferência um anti-TNF. Nos casos de artrite periférica, os imunossupressores MTX, leflunomida e sulfassalazina podem ser considerados antes da passagem para o imunossupressor biológico. As particularidades dessas medicações são encontradas no Quadro 4.2. De maneira geral, os anti-TNF (descritos no Quadro 4.2) são equivalentes nas EpAs, porém, o etanercepte parece ser menos eficaz para os quadros de uveíte e doença inflamatória intestinal (Ward et al., 2019). O uso de corticoides sistêmicos deve ser evitado nos pacientes com EpA, pois apresenta poucos benefícios em relação ao AINH e pior perfil de efeitos colaterais a longo prazo. Uma possível exceção são os quadros de artrite relacionados às doenças inflamatórias intestinais, nos quais o corticoide estaria indicado pelas manifestações intestinais. Em pacientes com oligo ou monoartrite, o uso de corticoide intra-articular pode ser considerado como ponte até que o imunossupressor faça efeito. O uso de antibióticos está indicado na vigência de quadro vigente que os justifique, como cervicite ou uretrite por Chlamydia trachomatis – neste caso, azitromicina 1 g, dose única –, ou infecção entérica – podendo-se optar também pela azitromicina na dose de 500 mg a 1 g por dia por 1 a 3 dias. O tratamento empírico com antibióticos não parece mudar a chance de evolução para artrite crônica (Barber et al. 2013). Os pacientes com manifestações oculares são geralmente manejados com corticoide ocular. Os quadros mais graves ou recorrentes podem se beneficiar de imunossupressão (MTX, sulfassalazina ou anti- TNF). Em pacientes com quadro cutâneo, pode-se lançar mão de terapia tópica com corticoide, análogos de vitamina D e retinoicos. Doença mais sistêmica se beneficia de MTX, anti-TNF ou outros biológicos específicos para psoríase. Por fim, pacientes com doença inflamatória intestinal são geralmente seguidos em conjunto com a Gastroenterologia. É normal que usem imunossupressores sistêmicos como a azatioprina e os anti-TNF pela própria indicação intestinal. Pelo efeito sobre o intestino adjuvante, a sulfassalazina é geralmente uma droga tentada. Como dito anteriormente, foge ao escopo desta obra detalhar todas as linhas de terapia para os casos mais difíceis de EpA. Na prática, raramente um paciente com EpA será seguido pelo clínico generalista isoladamente, pois a sua monitorização requer conhecimentos bastante específicos. De todo modo, as linhas terapêuticas iniciais para os casos mais brandos foram devidamente descritas anteriormente. Clinicamente, como se apresenta um paciente com uma artropatia autoimune? Os pacientes com artropatias autoimunes se apresentarão especialmente com quadro de artrite crônica de características inflamatórias e o acometimento de estruturas periarticulares (ênteses, bainhas tendíneas e bursas) é bastante frequente. Quais são os principais grupos de síndromes clínicas que sugerem vasculite sistêmica? 5.1 INTRODUÇÃO As vasculites sistêmicas formam um grupo de doenças heterogêneas que apresentam, em comum, um processo inflamatório na parede vascular, podendo levar à diminuição de sua luz e trombose secundária ou à ruptura de sua parede e consequente sangramento. A maioria das vasculites sistêmicas inicia-se com sintomas constitucionais inespecíficos, que podem ser confundidos com uma série de outras doenças, dificultando muito o diagnóstico. Sem tratamento, muitos dos pacientes com vasculites sistêmicas evolui para óbito. O tratamento controla os sintomas e pode levar a remissões prolongadas. As vasculites primárias possuem baixa incidência na população. No que diz respeito à faixa etária de acometimento, esta varia conforme o tipo de vasculite. Por exemplo, a púrpura de Henoch-Schönlein predomina em crianças, a arterite de Takayasu em adultos com idade inferior a 40 anos, e a arterite de células gigantes é predominante em adultos acima de 60 anos. Ainda não foi identificado fator etiológico comum, porém se sabe que os vírus das hepatites B e C possuem correlação com vasculites, em especial, a poliarterite nodosa e a vasculite por crioglobulinas, respectivamente. Além disso, especula- se que diversos agentes microbianos ou ambientais, como o citomegalovírus ou o estreptococo, podem ocasionalmente desencadear vasculite. De maneira ampla, todos os sintomas que são causados pelas vasculites decorrem de oclusão de vasos com sofrimento a jusante. Com a destruição dos vasos, pode ocorrer também extravasamento de elementos do sangue para os tecidos adjacentes. Quando os vasos estão expostos ao ambiente (como nos vasos dos capilares pulmonares), ocorrem síndromes hemorrágicas. A caracterização das síndromes vasculíticas depende da compreensão desse mecanismo fisiopatológico elementar. Uma vez compreendido o mecanismo básico, toma-se como regra geral que as vasculites nada mais são do que síndromes isquêmicas. A manifestação clínica dependerá, então, do tamanho do vaso que está comprometido. É justamente por essa razão que as classificações de vasculites, sendo a última a do Consenso de Chapel Hill de 2012 (Jennette et al., 2013), tomam como base o tamanho do vaso acometido (Figura 5.1). Figura 5.1 - Classificação atual das vasculites primárias Fonte: adaptado de Pathogenesis of antineutrophil cytoplasmic autoantibody-mediated disease, 2014. Por um segundo prisma, pode-se observar as vasculites pelo mecanismo fisiopatológico de doença. Para tanto, lança-se mão da compreensão das vias da autoimunidade que possam estar doentes. Como toda autoimunidade, as vasculites sistêmicas possuem desregulação relevante nas vias de sinalização linfocitária, especialmente nas vias Th1 e Th17. Como discutido no capítulo Noções gerais de imunologia, uma disfunção destas vias pode gerar, no polo mais Th1, ativação e recrutamento de fagócitos aos tecidos, com inflamação e destruição tecidual, e formação de granulomas. Por outro lado, disfunções mais Th17 podem gerar sensibilização dos fagócitos às opsoninas, inflamação tecidual direta, produção de anticorpos com deposição de imunocomplexos em circulação terminal. Quando usadas nessa terminologia de maneira isolada (“vasculites sistêmicas”), entende-se que tratam-se de disfunções primordialmente imunes, sem outra causa atribuível envolvida. Diz-se, igualmente, tratarem-se de vasculites primárias. Quando se associa ao tamanho do vaso a fisiopatologia envolvida no processo, emergem padrões fenotípicos de doença. Se imaginarmos os vasos de grande calibre, por exemplo, concluiremos que o ataque imune raramente será capaz de ocluí-los de uma só vez, de tal forma que as síndromes relacionadas aos vasosgrandes serão compostas por isquemia progressiva de segmentos corporais inteiros ou de órgãos completos (pois um grande vaso origina dezenas de vasos menores que nutrem todo um segmento ou órgão). De fato, as vasculites de grandes vasos acometem preferencialmente aorta e seus ramos, com sintomas de cefaleia, claudicação de mandíbula e membro superior e insuficiência renal renovascular. Daí emerge o nosso primeiro padrão fenotípico: síndromes oclusivas de vasos grandes e nomináveis (ou seja, que são grandes o bastante para receberem um nome individual). Prosseguindo para vasos menores, entraremos em um universo misto de vasos ainda nomináveis, mas, preferencialmente, de vasos macroscópicos, porém não nominados. Estes vasos têm importância em conjunto, pois nutrem um segmento de um órgão, mas perdem importância individualmente – como ocorrem ramificações progressivas dos vasos para os segmentos orgânicos, raramente se nomina gerações acima da terceira ou quarta ramificação vascular. Os principais exemplos de vasos de médio calibre, ou seja, vasos que nutrem um segmento de um órgão, são as coronárias, os vasos das extremidades digitais, os vasa nervorum (vasos que nutrem os nervos) e os vasos esplâncnicos. Assim sendo, revela-se um segundo padrão fenotípico: síndromes oclusivas segmentares de órgãos e tecidos, incluindo as neurites isquêmicas. As vasculites de médios vasos geralmente acometem porções dos rins, porções do coração e porções das extremidades, com grande tendência à neuropatia. Por fim, resta o grande universo das vasculites de pequenos vasos. Esses vasos são microscópicos e nutrem a microestrutura dos órgãos. Como são vasos muito pequenos, a reação imune rapidamente os destrói e causa extravasamento de sangue. Na pele, o extravasamento se manifesta como púrpura palpável; no pulmão, como hemorragia alveolar; e, nos glomérulos, como glomerulonefrite. Fecham-se, assim, as principais manifestações clínicas dos pacientes com vasculites. De maneira bastante universalista, vasculites sistêmicas cursarão com 1 ou mais das seguintes manifestações: oclusão de vasos grandes, oclusão de vasos macroscópicos não nomináveis (causando, entre outros, neurite), púrpura palpável, glomerulonefrite e capilarite pulmonar (com provável hemorragia alveolar). De maneira universal, vasculites sistêmicas cursarão com 1 ou mais das manifestações a seguir: oclusão de vasos grandes, oclusão de vasos macroscópicos não nomináveis, púrpura palpável, glomerulonefrite e capilarite pulmonar. Tendo em vista a fisiopatologia envolvida, deve-se sempre considerar, também, que as vasculites não são processos necessariamente primários, no sentido de que outras doenças podem causar autoimunidade dirigida contra o vaso. Os principais exemplos são as infecções, as neoplasias, as reações às drogas e as doenças autoimunes (especialmente as conectivopatias). Em todas estas situações, uma grande carga de anticorpos associada à condição primária pode eventualmente depositar nos vasos e causar destruição vascular. Diz-se, nestes casos, que se trata de vasculite secundária. Não é uma definição universal, mas, de uma maneira geral, quadros com alterações hematológicas muito relevantes, especialmente citopenias, sugerem mais causa secundária de vasculite. Tomando como base especialmente a classificação internacional de Chapel Hill (Jennette et al., 2013), esta obra agora se deterá em explorar cada um dos grandes grupos de vasculites sistêmicas e as suas principais formas secundárias associadas. 5.2 VASCULITES DE GRANDES VASOS As vasculites de grandes vasos possuem forte componente Th1 e Th17 e, como dito anteriormente, tendem a ocluir lentamente os grandes vasos do corpo (especialmente aorta e seus ramos). Como o bloqueio de citocinas relacionadas à resposta Th17, como a IL-6, parece controlar a doença (Hellmich et al., 2019), é possível que seja o mecanismo predominante. A presença Th1 na fisiopatologia das vasculites de grandes vasos, porém, as torna doenças com presença de granulomas vasculares. Na análise patológica dos pacientes, o achado mais típico, será, portanto, o de invasão das camadas vasculares por infiltrados organizados de linfócitos e macrófagos. São 2 as vasculites de grande calibre de interesse: a artrite de células gigantes e a arterite de Takayasu. 5.2.1 Arterite de células gigantes A Arterite de Células Gigantes (ACG), outrora conhecida como arterite temporal, ocorre exclusivamente em indivíduos acima dos 50 anos, com aumento da incidência conforme a idade. É 2 vezes mais frequente em mulheres do que em homens. De causa desconhecida, afeta, primariamente, ramos extracranianos das carótidas. O arco aórtico também pode ser acometido, em especial, os ramos proximais dos membros superiores. Trata-se de uma panarterite, já que todas as camadas da parede arterial são acometidas por um infiltrado inflamatório constituído por células T e macrófagos. O infiltrado pode ser granulomatoso, com acúmulo de histiócitos e células gigantes multinucleadas. Diferentemente da arterite de Takayasu (< 40 anos), a arterite temporal tem início após 50 anos. As manifestações mais comuns são sintomas constitucionais (fadiga, perda de peso, febre e mialgia). Após os sintomas constitucionais, a cefaleia é o sintoma mais comum da ACG, classicamente descrita como dor moderada a intensa no território da artéria temporal, que pode estar espessada (Figura 5.2) ou dolorida. Os sintomas visuais são comuns (20% dos casos – Gonzales-Gay et al., 2005), com eventual evolução para perda visual ou diplopia. A perda visual é a complicação mais temida, geralmente precedida por episódios de borramento visual ou amaurose fugaz, estabelecendo- se alguns meses após o início dos sintomas sistêmicos. Reflete neuropatia óptica anterior isquêmica (NOIA) e pode ser prevenida pelo tratamento com doses altas de corticoide. A diplopia acontece por oftalmoplegia (paralisia dos nervos motores devido à isquemia). Pode ocorrer claudicação intermitente da mandíbula e da língua pela isquemia dos músculos da mastigação, sintoma mais específico de ACG. Também é possível claudicação dos membros superiores por arterite em artérias braquiais. Neurite óptica isquêmica anterior (NOIA) é a principal causa de perda visual na arterite de células gigantes. Como a avaliação do fundo de olho em geral é alterada nos casos de NOIA, um bom exame físico oftalmológico é um divisor de águas. Figura 5.2 - Espessamento da artéria temporal em paciente com arterite de células gigantes Frequentemente, a ACG se manifesta de maneira muito semelhante à polimialgia reumática (PMR – ver capítulo Doenças sistêmicas do tecido conectivo) com dor e rigidez nos músculos do pescoço, nas cinturas escapular e pélvica, associada a sinais de inflamação sistêmica, como fadiga, perda de peso, sudorese e febre baixa, além de anormalidades laboratoriais, como aumento da velocidade de hemossedimentação (VHS), da Proteína C Reativa (PCR) e anemia. Cerca de 30 a 50% dos pacientes com ACG possuem uma síndrome clínica inicial que lembra muito a PMR, sendo o diagnóstico verdadeiro só obtido com a evolução desfavorável (incomum na PMR), com a documentação de acometimento vascular ou com o aparecimento de outras formas clínicas de ACG (Dejaco et al., 2017). A elevação das proteínas de fase aguda é um achado típico e auxilia no diagnóstico e no seguimento dos pacientes após o tratamento: a VHS encontra-se elevada, acima de 50 mm na primeira hora. Outras provas de fase aguda podem estar alteradas. Fator antinúcleo (FAN) e Fator Reumatoide (FR), em geral, são negativos. O diagnóstico de ACG deve ser considerado a pacientes acima de 50 anos com história inexplicada de cefaleia, sinais de isquemia em território vascular extracranial, perda da visão ou síndrome clínica semelhante à PMR associada à evidência laboratorial de inflamação (aumento de proteínas de fase aguda). Como exame complementar disponível, há a ultrassonografia com Doppler de artéria temporal, que classicamente demonstrará o sinal“do halo” (edema no interior do vaso sanguíneo). Em pacientes com quadro clínico clássico e ultrassonografia positiva, o histopatológico não se faz necessário. A biópsia da artéria temporal, o padrão-ouro para o diagnóstico, pode ser realizada para confirmação diagnóstica em casos duvidosos. Recomenda-se biópsia unilateral de segmento com 2 cm de artéria temporal em até 2 semanas após o início do tratamento. Caso seja negativa, pode-se realizar a biópsia da artéria contralateral, porém os exames não devem retardar o tratamento. Os exames de imagem, muitas vezes, são necessários e constituem importante método diagnóstico. Entre os principais exames de imagem disponíveis para o diagnóstico do comprometimento extracraniano na ACG, podemos citar angiotomografia de aorta e/ou angiorressonância de aorta. É fundamental que o tratamento seja iniciado precocemente na suspeita do diagnóstico. Para tanto, recomenda-se prednisona em doses até 1 mg/kg com redução lenta e progressiva. Na vigência de quadro ocular, deve-se proceder rapidamente com pulsoterapia com metilprednisolona, 1 g/d, por 3 dias, para evitar amaurose definitiva; após a pulsoterapia, o tratamento com corticoide é semelhante. A maioria dos pacientes responde bem ao corticoide, mas pode haver recidiva ou corticodependência. Nesses casos, podem ser utilizadas drogas imunossupressoras, como metotrexato ou inibidor de IL-6 (Hellmich et al., 2019). Sintomas de inflamação sistêmica e provas de atividade inflamatória, como VHS ou PCR, são úteis na detecção de recidivas e má resposta. Baixas doses de ácido acetilsalicílico (AAS) eram indicadas para reduzir o risco vascular, mas as recomendações mais recentes do European League Against Rheumatism (EULAR) excluíram essa medida (Hellmich et al., 2019), sendo usada apenas para pacientes que já tinham outras indicações de ácido acetilsalicílico. 5.2.2 Arterite de Takayasu A arterite de Takayasu, também conhecida como doença sem pulsos (pulseless disease), tem predomínio entre mulheres (relação 10:1), e seu início ocorre entre 15 e 40 anos (doença de adolescentes e adultos jovens). É uma poliarterite granulomatosa, com formação de granulomas e células gigantes, que podem destruir a camada média e substituí-la por tecido fibrótico. O processo pode enfraquecer a parede do vaso, favorecendo a formação de aneurisma, ou proliferá-la, provocando o estreitamento da luz arterial. Pode acometer a aorta e quaisquer de seus ramos, bem como as artérias pulmonares. Até 10% dos pacientes são assintomáticos ao diagnóstico. Aproximadamente 40% dos pacientes apresentam sinais e sintomas inflamatórios (febre, sudorese noturna, fadiga, mialgia, anorexia e perda de peso). Os sintomas mais sugestivos, entretanto, são dor à palpação de trajetos vasculares (por exemplo, a carotidínea), claudicação de extremidades, diminuição de pulsos, diferença de pressão entre os membros e presença de sopros vasculares. Comprometimento de territórios nobres podem culminar com angina cardíaca ou mesentérica, acidente vascular encefálico ou acidente isquêmico transitório e hipertensão renovascular. Os exames de imagem, como arteriografia (Figura 5.3), angiotomografia e angiorressonância fornecem informações sobre o lúmen dos vasos, a distribuição e a gravidade da doença. Figura 5.3 - Arteriografia que mostra dilatação do arco aórtico e múltiplas estenoses em carótidas e, especialmente, em artérias subclávias Fonte: Justin Ly. As imagens vasculares são fundamentais para o diagnóstico, sendo a arteriografia reservada para procedimentos cirúrgicos. O diagnóstico diferencial é amplo e difícil, necessitando de minuciosa investigação laboratorial e de imagem. Devemos excluir arterite de células gigantes (compromete indivíduos com mais de 50 anos), doença de Kawasaki, doenças vasculares congênitas, aterosclerose, dentre outras. Corticosteroide é a terapia de escolha no tratamento da arterite de Takayasu, na dose de 1 mg/kg de prednisona ou equivalente para controle inflamatório da doença, com posterior desmame da medicação. A última diretriz do EULAR recomenda associação de imediato com imunossupressores, como o metotrexato (Hellmich et al., 2019). Em casos de estenose ou formações aneurismáticas, cirurgia e angioplastia são importantes no tratamento da arterite de Takayasu. 5.3 VASCULITES DE MÉDIOS VASOS As vasculites de médios vasos acometem artérias de calibre intermediário e cursam com sofrimento orgânico segmentar. Possuem como principal fisiopatologia o ataque direto aos vasos sanguíneos por células inflamatórias, especialmente por neutrófilos e macrófagos. O ataque à parede do vaso é intenso, com perda da estrutura muscular e substituição por tecido cicatricial fibrinoide. Nas regiões de cicatrização, ocorre abaulamento da parede vascular e formação de aneurismas e microaneurismas. A presença de microaneurismas renais e aneurismas coronarianos sugere vasculite de médios vasos. Os órgãos mais acometidos pelas vasculites de médio calibre são o coração, as extremidades, o rim e os nervos. As suas 2 principais representantes são a poliarterite nodosa e a doença de Kawasaki. 5.3.1 Poliarterite nodosa A poliarterite nodosa (PAN) é uma forma de vasculite que afeta artérias de médio e pequeno calibres. Pode surgir em qualquer idade, mas o pico ocorre entre 40 e 50 anos, sendo 3 vezes mais comum em homens do que em mulheres. Vacinas ou infecções podem estar relacionadas ao desencadeamento da doença. Em 30% dos casos, associa-se à infecção por hepatite B e C, apresentando melhora após o tratamento do quadro, quando possível. Acomete mais comumente rins, trato gastrintestinal e sistema nervoso central. Como dito anteriormente, o comprometimento inflamatório da parede arterial leva à formação de aneurismas. A imagem à arteriografia de segmentos de várias artérias com abaulamentos em suas paredes originou o nome da doença (Figura 5.4). Caracteristicamente, as lesões histológicas estão em diferentes estágios de evolução, acompanhadas de necrose fibrinoide, ausência de granulomas e presença de aneurismas da parede arterial. Figura 5.4 - Arteriografia renal em paciente com poliarterite nodosa Nota: observar aneurismas saculares intraparenquimatosos em artérias de médio calibre. A doença costuma começar com queixas vagas, febre baixa e emagrecimento. As lesões cutâneas incluem nódulos subcutâneos (Figura 5.5), livedo reticularis (Figura 5.6), úlceras vasculíticas (Figura 5.7) e gangrena digital. A PAN cutânea é uma variante da PAN clássica, em que só a pele é acometida, sem envolvimento visceral. Mais de 80% dos pacientes têm neuropatia periférica por vasculite, tipicamente uma mononeurite múltipla, que afeta nervos específicos, com frequência, os nervos fibular, tibial, ulnar, mediano e radial, levando a sintomas e sinais nas extremidades distais, como pé e mão caídos (Figura 5.8). O acometimento de vasos mesentéricos leva à manifestação clássica de angina intestinal: dor periumbilical pós-prandial. Pode haver perfuração ou isquemia do intestino, com sangramento intestinal maciço. Envolvimento renal, presente universalmente nas autópsias, pode provocar insuficiência renal e hipertensão. Orquiepididimite também é possível. Lesões cardíacas podem levar a infarto do miocárdico e falência cardíaca congestiva, mas, em geral, são subclínicas. A PAN costuma poupar o leito arterial pulmonar. Figura 5.5 - Nódulos subcutâneos em paciente com poliarterite nodosa Fonte: site Logical Images. Figura 5.6 - Livedo reticularis em paciente com poliarterite nodosa Fonte: ABC of Rheumatology, 2009. Figura 5.7 - Úlcera cutânea em paciente com poliarterite nodosa Fonte: Livedo reticularis ulcerado em paciente com anticorpo anticardiolipina tipo IgA, 2005. Figura 5.8 - Mão caída por acometimento do nervo radial em paciente com poliarterite nodosa Quanto às alterações laboratoriais, as mais encontradas são leucocitose, elevação da VHS e anemia discreta. FR e FAN podem estar presentes em títulos baixos. Para o diagnóstico,entretanto, é necessário excluir outras doenças sistêmicas infecciosas, neoplásicas ou inflamatórias. Para a confirmação por achados mais específicos de PAN, biópsias mostrando a vasculite necrosante em parede arterial podem ser realizadas em lesões cutâneas, músculos ou nervos. Os microaneurismas podem ser demonstrados em angiografias renais ou mesentéricas. São associações fortemente sugestivas de PAN: livedo, mononeurite múltipla, dor muscular e perda da função renal com hipertensão em paciente com provas de atividade inflamatória elevadas. No diagnóstico diferencial dessa patologia, entram as demais vasculites sistêmicas (granulomatose com poliangiite – Wegener, granulomatose com poliangiite e eosinofilia – Churg-Strauss), além das pseudovasculites, como ateroembolismo, linfoma, neurofibromatose, displasia fibromuscular, pseudoxantoma elástico, amiloidose, mixoma atrial, coarctação de aorta, síndrome de Sweet, sepse, endocardite, calcifilaxia, púrpura trombocitopênica trombótica, síndrome de Ehlers-Danlos, síndrome do desfiladeiro torácico etc. O tratamento da PAN idiopática (primária, não associada ao vírus da hepatite B) inclui corticoide em altas doses e terapia com imunossupressor – por exemplo, azatioprina ou ciclofosfamida (West, 2015). No caso de PAN associada ao vírus B, é requerido o tratamento antiviral. A plasmaférese também é uma opção nessas situações. 5.3.2 Doença de Kawasaki A doença de Kawasaki, também conhecida como síndrome linfonodo-mucocutânea, é uma doença aguda, febril, exantemática e de etiologia desconhecida. Trata-se de vasculite aguda e multissistêmica, que compromete vasos predominantemente de médio calibre. Predomina no sexo masculino, em crianças menores de 5 anos, sendo, na maioria das vezes, autolimitada. A doença de Kawasaki pode causar vasculite em vários órgãos e aparelhos, como pulmão, intestino, vesícula biliar, sistema nervoso central, entre outros, porém o comprometimento cardíaco é o mais significativo, com formação de aneurismas coronarianos. É de ocorrência universal e atinge todas as faixas etárias pediátricas, ainda que 85% dos casos acometam crianças com menos de 5 anos, sendo infrequente em pacientes com menos de 6 meses ou mais de 8 anos, nos quais, entretanto, há maior risco de formação de aneurismas coronarianos. Sua causa permanece desconhecida, apesar de as características clínicas (doença febril autolimitada) e epidemiológicas (sazonalidade e caráter epidêmico) favorecerem a hipótese de um agente infeccioso ser o determinante causal, hipótese que, entretanto, ainda não está comprovada. As alterações histológicas precoces mostram infiltrado inflamatório macrofágico síncrono e circunferencial nas paredes dos vasos. Após alguns dias, a inflamação reduz e o processo cicatricial gera a formação de aneurismas (Takahashi et al., 2013). A doença de Kawasaki é dividida em 3 fases clínicas distintas: aguda, subaguda e de convalescença. A fase aguda dura de 1 a 2 semanas e caracteriza-se por febre, conjuntivite, hiperemia de mucosas, linfadenopatia e rash cutâneo. Outros achados clínicos podem estar associados, como miocardite, derrame pericárdico, meningite asséptica (10 a 25%), diarreia (15%), disfunção hepática (5%), uveíte (17%) e artrite e/ou artralgia (30%). A fase subaguda inicia-se quando a febre, o rash e a linfadenopatia cessam, em média, de 1 a 2 semanas depois do início da doença. A duração dessa fase é de cerca de 4 semanas, na qual ocorrem descamação periungueal (Figura 5.9), trombocitose, formação de aneurismas coronarianos e risco maior de morte súbita. Complicações neurológicas também podem surgir em 1% dos casos e incluem paralisia do nervo facial, ataxia, encefalopatia, hemiplegia e infarto cerebral. Figura 5.9 - Descamação palmoplantar em paciente com doença de Kawasaki Fonte: Doença de Kawasaki, 2009. A fase de convalescença inicia-se quando os sinais clínicos desaparecem e dura até a normalização da VHS, em média de 6 a 8 semanas após início do quadro febril. Na doença de Kawasaki, a febre, sinal característico da fase aguda da doença, é, em geral, acima de 39 a 40 °C e remitente. O primeiro dia de febre é considerado o primeiro dia de doença, no entanto alguns pacientes ocasionalmente apresentam outras manifestações clínicas antecedendo o quadro febril. A febre dura, em média, de 1 a 2 semanas, podendo, na ausência de tratamento, estender-se até 3 ou 4 semanas, e tem resposta apenas parcial ao uso de antipiréticos. Ao se iniciar, porém, a terapêutica apropriada (imunoglobulina intravenosa e ácido acetilsalicílico), a febre cessa em 2 dias. A conjuntivite (Figura 5.10) bilateral não exsudativa envolve, principalmente, a conjuntiva bulbar em relação às conjuntivas palpebral e tarsal; é indolor e ocorre na fase aguda da doença. A iridociclite pode acompanhar o quadro clínico, com rápida resolução, e é raramente associada à fotofobia. Figura 5.10 - Conjuntivite em paciente com doença de Kawasaki As alterações vistas na mucosa labial são caracterizadas por eritema, edema com fissuras, descamação e exsudação (Figura 5.11); a mucosa orofaríngea apresenta-se com enantema, e a língua, com eritema intenso e papilas gustativas proeminentes, o chamado “aspecto framboesiforme” (Figura 5.11). Figura 5.11 - Língua com aspecto framboesiforme em menor com doença de Kawasaki Fonte: Natr, 2011. O rash cutâneo que surge no paciente é polimórfico, não pruriginoso e geralmente aparece até o quinto dia de febre. O exantema cutâneo pode compreender lesões maculopapulares eritematosas e difusas (Figura 5.12), a forma mais comum, além de rash tipo urticariforme, escarlatiniforme, eritrodérmico, purpúrico, eritema multiforme-like e, mais raramente, com micropústulas em superfície extensora dos membros. Figura 5.12 - Intenso eritema labial e rash maculopapular na face de criança com doença de Kawasaki Fonte: Cardiovascular Lesions of Kawasaki Disease: From Genetic Study to Clinical Management, 2012. As manifestações cardíacas podem ser exacerbadas na fase aguda da doença, conferindo aumento na mortalidade e na morbidade. Pode haver miocardite, pericardite, endocardite, além de comprometimentos valvular e coronariano com repercussão hemodinâmica. Ao exame, pode haver precórdio hiperdinâmico, taquicardia, sopro pansistólico em caso de regurgitação mitral significativa e ritmo “de galope”, devido à instalação de insuficiência cardíaca. O dano coronariano pode variar de dilatação a estenose, até a formação de aneurisma. A frequência do envolvimento coronariano é maior nos lactentes com menos de 6 meses em relação àqueles de 6 a 12 meses. Os aneurismas fusiformes e saculares aparecem de 18 a 25 dias depois de instalada a doença (Figura 5.13). Figura 5.13 - Arteriografia evidenciando aneurisma da artéria coronária esquerda Outras possíveis manifestações incluem poliartrites e rabdomiólise. Pelo comprometimento cardiovascular, é possível o achado de aneurismas coronarianos, miocardite, pericardite e regurgitação valvar. Pacientes com comprometimento gastrintestinal evoluem com dor abdominal e diarreia, colangite, pancreatite e ascite. O comprometimento pulmonar apresenta-se como quadros influenza-like ou derrames pleurais. O paciente pode evoluir ainda com cistite e prostatite. Na presença de sintomas neurológicos, podemos encontrar quadros de meningites assépticas e surdez neurossensorial. Na doença de Kawasaki, há conjuntivite bilateral não exsudativa, edema labial com fissuras, língua “em framboesa”, rash cutâneo polimórfico, maculopapular eritematoso e difuso e envolvimento cardíaco, com formação de aneurismas coronarianos. São fatores de risco para surgimento de aneurismas: sexo masculino, idade < 1 ano, febre recorrente apesar do tratamento, aumento de VHS, anemia e hipoalbuminemia, trombocitopenia e hiponatremia. Recentemente, a American Heart Association apresentou critérios para complementar os critérios originais propostos por Tomisaku Kawasaki (McCrindle et al., 2017), tornando possível, teoricamente, o diagnósticode formas incompletas da doença. Assim, pacientes com febre alta de início abrupto presente por 5 ou mais dias preenchem critério se apresentarem 4 ou mais dos seguintes achados: a) Conjuntivas oculares hiperemiadas; b) Alterações da cavidade oral, incluindo eritema, secura, mucosa e orofaringe hiperemiada; c) Alterações nas extremidades distais dos membros, incluindo rubor e edema endurado das mãos e dos pés e descamação periungueal; d) Exantema eritematoso polimorfo (morbiliforme, escarlatiniforme, maculopapular, eritema marginado), propagando-se das extremidades para o tronco e durando cerca de 1 semana; e) Aumento não supurado dos linfonodos cervicais. Pacientes que não preenchem critério e possuem alta suspeita, podem, então, ser avaliados para os critérios de Kawasaki incompletos: Quadro 5.1 - Critérios diagnósticos propostos pela American Heart Association para doença de Kawasaki incompleta Fonte: adaptado de Diagnosis, Treatment, and Long-Term Management of Kawasaki Disease: A Scientific Statement for Health Professionals From the American Heart Association, 2017. Laboratorialmente, observam-se aumento da VHS ou PCR, leucocitose e trombocitose caracteristicamente a partir da segunda semana de doença. Podemos ainda evidenciar hipoalbuminemia, aumento moderado de transaminases, piúria estéril, hiponatremia e líquido sinovial com leucocitose. O liquor demonstra pleocitose com predomínio de mononucleares. O diagnóstico diferencial inclui síndrome de Stevens-Johnson, farmacodermias, exantemas virais, artrite reumatoide juvenil, síndrome da pele escaldada, síndrome do choque tóxico e linfadenites cervicais bacterianas. A imunoglobulina intravenosa é o principal medicamento na doença de Kawasaki, sendo utilizada na fase aguda, preferencialmente nos primeiros 10 dias da doença. Deve-se utilizar a dose de 2 g/kg em infusão única, durante período de 10 a 12 horas, associada a ácido acetilsalicílico na dose de 30 a 100 mg/kg/d (McCrindle et al., 2017). Na fase aguda, o ácido acetilsalicílico é utilizado dividido em 4 tomadas diárias para potencializar o efeito anti-inflamatório da imunoglobulina intravenosa, porém não diminui a frequência de anormalidades coronarianas. O tempo de uso do ácido acetilsalicílico em altas doses varia, sendo, em geral, reduzido à dose de 3 a 5 mg/kg/d após um período de 48 a 72 horas afebril. Essa nova dose é mantida por 4 a 6 semanas (McCrindle et al., 2017). Para crianças com anormalidades cardíacas, o ácido acetilsalicílico é mantido até a melhora. 5.4 VASCULITE DE PEQUENOS VASOS As vasculites de pequenos vasos acometem vasos microscópicos e aparelhos relacionados à microestrutura dos órgãos, como o aparelho glomerular e a interface alveolocapilar. O mecanismo envolvido nas vasculites de pequenos vasos é amplo, mas, de maneira geral, é mais relacionado às vias Th17, com produção de anticorpos ou inflamação tecidual direta. Quando há grande produção de anticorpos voltados contra antígenos que são disponíveis em circulação, ocorre formação de imunocomplexos circulantes e deposição vascular com vasculite como consequência; neste caso, teremos vasculite por imunocomplexos, um dos subgrupos de vasculite de vasos de pequeno calibre. Quando não há grande produção de anticorpos, ou quando os anticorpos produzidos não encontram os seus antígenos prontamente disponíveis na circulação – como é o caso do citoplasma neutrofílico (Xiao et al., 2015) –, ocorre ataque direto ao vaso sanguíneo, com infiltração fagocitária e destruição vascular. Neste subgrupo, encontram-se as vasculites ditas pauci-imune, ou seja, com lesão não relacionada à deposição de imunocomplexos. Nas vasculites relacionadas ao anticorpo anticitoplasma de neutrófilo (ANCA), ainda há mais mecanismos, como hiperativação Th1 com formação de granulomas e hiperativação Th2 com recrutamento de eosinófilos. Assim sendo, as vasculites relacionadas ao ANCA possuem uma das fisiopatologias mais ricas e intrigantes da Reumatologia, com inúmeras perguntas ainda não respondidas. 5.4.1 Vasculites relacionadas aos ANCA Como dito, as vasculites pauci-imunes são assim cha madas porque o mecanismo de dano à parede vascular não se faz por meio de depósitos de imunocomplexos à histologia. Isso as difere das vasculites por imunocomplexos. São ditas relacionadas ao ANCA porque a maioria dos pacientes com vasculite de pequenos vasos pauci-imune apresenta anticorpos contra determinadas proteínas específicas encontradas dentro dos grânulos citoplasmáticos dos neutrófilos. Há 2 padrões clássicos de ANCA pela imunofluorescência: o citoplasmático (c-ANCA) e o perinuclear (p-ANCA). Um padrão atípico, quando não há c-ANCA nem p-ANCA, também foi descrito. Por método ELISA (enzyme-linked immunosorbent assay), podemos encontrar anticorpos antiproteinase-3 (anti-PR3) e antimieloperoxidase de neutrófilos (anti-MPO). O c-ANCA é relativamente específico para granulomatose com poliangiite (outrora chamada de granulomatose de Wegener) e pode correlacionar-se com a atividade da doença. O p-ANCA, por sua vez, é mais relacionado à poliangiite microscópica e à granulomatose eosinofílica com poliangiite (outrora chamada de síndrome de Churg-Strauss). 5.4.1.1 Poliangiite microscópica A poliangiite microscópica (PAM) é uma desordem que acomete vasos de pequeno calibre, incluindo capilares, vênulas e arteríolas. É uma vasculite necrosante pauci-imune com tropismo pelos rins (glomerulonefrite rapidamente progressiva) e pulmões (capilarite pulmonar). As manifestações mais comuns são glomerulonefrite com hematúria, perda de função renal, hipertensão, perda de peso, lesões cutâneas purpúricas (Figura 5.14) e febre. Capilarite pulmonar pode acarretar hemorragia alveolar (Figura 5.15) e hemoptise. A hemorragia pulmonar ocorre em até 30% dos casos e pode causar dispneia e hemoptise, com radiografia mostrando infiltrado alveolar focal (Figura 5.16). Figura 5.14 - Púrpura palpável nos membros inferiores Figura 5.15 - Radiografia de tórax de paciente com poliangiite microscópica e hemorragia pulmonar Figura 5.16 - Tomografia computadorizada evidenciando hemorragia alveolar no pulmão direito Embora a PAM possa cursar com manifestações neurológicas (eminentemente mononeurite múltipla) e inflamação de vias aéreas altas (Hochberg, 2019), não é infrequente que se apresente apenas com síndrome pulmão-rim pura, sem muitos outros achados (Gayraud et al., 2001). Quando ocorre acometimento do parênquima pulmonar, geralmente se dá mais na forma de intersticiopatia (West, 2015). Sessenta a oitenta por cento dos pacientes com PAM são positivos para o ANCA (Hochberg, 2019), sendo o padrão perinuclear (pANCA) o mais encontrado na imunofluorescência. Em geral, esse padrão simboliza o anticorpo anti-MPO. A titulação do p-ANCA pode eventualmente se associar à atividade de doença (Han et al., 2003), mas jamais deve ser avaliada de maneira isolada (Hochberg, 2019). Apresentam-se ainda achados incaracterísticos, como anemia normo/normo, trombocitose, hipoalbuminemia e elevação de provas inflamatórias (VHS e PCR). O p-ANCA é geralmente positivo (70%) em pacientes com PAM e seus títulos podem eventualmente se relacionar à atividade dentro de um contexto clínico pertinente. Para pacientes com PAM que apresentam glomerulonefrite, hemorragia alveolar, mononeurite múltipla ou outras manifestações graves, está indicado o tratamento com a combinação de corticoide em forma de pulsoterapia – acompanhada de corticoide oral dose alta – e ciclofosfamida. Rituximabe é uma outra opção possível (Yates et al., 2016). 5.4.1.2 Granulomatose com poliangiite A granulomatose com poliangiite (GPA), chamada anteriormente de granulomatose de Wegener, é uma doença sistêmica caracterizada pela vasculite necrosante granulomatosa do trato respiratório superior e inferior, com ou sem glomerulonefrite. É uma doença incomum, que afeta ambos os sexos igualmente e surge em todas as faixas etárias, sendo mais encontrada em caucasianos (97%). Sua causa é desconhecida. Comosintomas gerais iniciais, o paciente costuma apresentar febre, anorexia, emagrecimento, fadiga e fraqueza. As vias aéreas superiores (seios da face, ouvidos, nasofaringe, orofaringe e traqueia), o trato respiratório inferior (brônquios e pulmões) e os rins são caracteristicamente envolvidos. Nas vias aéreas superiores, podem ocorrer obstrução nasal crônica com rinorreia persistente (sanguinolenta e/ou purulenta), ulceração e edema da mucosa nasal. Perfuração do septo nasal e ulceração e erosão do vômer, levando à deformidade de nariz “em sela” (Figura 5.17), são achados clássicos. É comum o envolvimento granulomatoso dos seios da face, podendo haver invasão das estruturas contíguas, como a órbita (Figura 5.18). Tais lesões são com frequência infectadas, secundariamente, por Staphylococcus aureus. Podem ocorrer otite média secretora, otite média crônica, com perfuração da membrana timpânica, otalgia e otorreia, assim como disfonia, estridor laríngeo, sibilos, ulceração oral, edema oral e gengivite (Figura 5.19). As manifestações oculares incluem pseudotumor orbital (Figura 5.18), massa inflamatória retrobulbar (que pode levar à proptose); dor; diplopia e perda visual devido à isquemia do nervo óptico; esclerite, com dor e vermelhidão ocular, podendo complicar com escleromalácia perfurante e cegueira; ceratite ulcerativa periférica, que pode evoluir com perfuração da córnea e cegueira; além de outras manifestações inflamatórias e vasculíticas como uveíte, conjuntivite, episclerite e obstrução do ducto lacrimal. A granulomatose com poliangiite acomete principalmente as vias aéreas superiores (incluindo as órbitas e os olhos) e inferiores e os rins. Figura 5.17 - Nariz “em sela” e ulceração cutânea em paciente com granulomatose com poliangiite Figura 5.18 - Pseudotumor orbital na granulomatose com poliangiite Figura 5.19 - Paciente com granulomatose com poliangiite Legenda: (A) ulceração na língua; (B) “gengivas de morango”. O envolvimento pulmonar também é extremamente comum. Tosse produtiva, dispneia, hemoptise, dor e desconforto torácico são os principais sintomas. Anormalidades nas radiografias de tórax são vistas em mais de 90% dos casos e incluem lesões nodulares escavadas não calcificadas, largas, múltiplas e bilaterais (Figura 5.20). Figura 5.20 - Nódulo pulmonar em paciente com granulomatose com poliangiite As características nefrológicas da GPA são, predominantemente, representadas por glomerulonefrite focal necrosante, que leva a hematúria, leucocitúria e anormalidades nos níveis de ureia e creatinina, podendo provocar falência renal e morte. Esse acometimento está presente em 80% dos pacientes em algum momento da evolução, porém apenas 20% dos casos como manifestação inicial. A síndrome pulmão-rim pode aparecer na GPA, assim como na PAM. Manifestações no sistema nervoso, como mononeurite múltipla, neuropatia sensorial, anormalidades de nervos cranianos e perda auditiva neurossensorial, podem ocorrer, mas em frequência menor do que nas demais vasculites relacionadas ao ANCA (Hochberg, 2019). Os achados laboratoriais encontrados são anemia de doença crônica e aumento das provas de atividade de fase aguda, como a VHS e a PCR. O FAN costuma ser negativo, e o complemento, normal. A associação entre GPA e ANCA é bem estabelecida. O ANCA, mais frequentemente de padrão citoplasmático e representando geralmente o anticorpo anti-PR3, ocorre em mais de 90% dos pacientes com GPA (Hochberg, 2019) e é relativamente específico, podendo correlacionar-se com a atividade da doença (Han et al., 2003). O diagnóstico diferencial inclui outras vasculites, síndrome pulmão- rim, infecções fúngicas ou micobacterioses, neoplasias, sarcoidose e doenças autoimunes sistêmicas (lúpus eritematoso sistêmico e artrite reumatoide). A positividade do ANCA é encontrada em mais de 90% dos pacientes com granulomatose com poliangiite. O padrão mais comum é o citoplasmático (aproximadamente 70%). O tratamento atual é semelhante ao preconizado para a PAM e geralmente consistirá em pulsoterapia com metilprednisolona (1 g/d por 3 dias), acompanhada de ciclofosfamida (oral ou em pulsos mensais). Nessa fase de indução, o rituximabe também pode ser utilizado (Yates et al., 2016). A plasmaférese é indicada nos casos de síndrome urêmica associada à glomerulonefrite rapidamente progressiva, com indicação de terapia dialítica, ou na hemorragia alveolar grave. 5.4.1.3 Granulomatose eosinofílica com poliangiite A granulomatose eosinofílica com poliangiite, anteriormente chamada de síndrome de Churg-Strauss, é uma vasculite rara, que afeta vasos de médio e pequeno calibres, com predileção por pequenas artérias, arteríolas, capilares e vênulas. Caracteriza-se pela síndrome que apresenta asma, rinite alérgica, eosinofilia (> 10%) e febre, acompanhada por vasculite de vários sistemas orgânicos. Também se trata de vasculite associada ao ANCA. É descrita na literatura a ocorrência de 3 fases da doença: fase prodrômica, com sintomas atópicos; fase eosinofílica, com infiltração dos tecidos por eosinófilos, como na gastroenterite eosinofílica; e fase vasculítica, com acometimento sistêmico e fulminante. O espectro total da doença pode levar anos para se desenvolver, mas não é obrigatório que todas as fases estejam nessa ordem, nem que todas ocorram. Como manifestações pulmonares, há asma de início tardio, de maior frequência e intensidade até a terceira fase, quando tende a entrar em remissão. Alterações cutâneas podem estar presentes em 66% dos casos, e, dentre as manifestações mais comuns, estão a púrpura (Figura 5.21), urticária, eritema e nódulos. Nesse subtipo das vasculites associadas ao ANCA, sintomas neurológicos são bem mais comuns, na forma de mononeurite múltipla e, muito raramente, alterações do sistema nervoso central. Manifestações renais são ainda possíveis (glomerulonefrite focal e segmentar necrosante, com presença de crescentes), mas menos frequentes do que nas demais vasculites associadas ao ANCA (Hochberg, 2019). Figura 5.21 - Lesões purpúricas em paciente com granulomatose com poliangiite e eosinofilia Os achados laboratoriais incluem: anemia e provas de atividade inflamatória elevadas em 80% dos casos; eosinofilia constante, geralmente > 1.000/mm3 e logo reduzida após uso de corticosteroide, sendo o aumento na contagem precedente ao período de atividade da doença. Pode ocorrer elevação dos níveis séricos de IgE (75% dos casos). O p-ANCA (anti-MPO), por sua vez, está positivo em cerca de 40% dos casos. #IMPORTANTE Uma causa importante de morbidade na granulomatose eosinofílica com poliangiite é a infiltração cardíaca por eosinófilos, gerando insuficiência cardíaca e distúrbios de ritmo. O diagnóstico diferencial se faz com pneumonia eosinofílica crônica (comprometimento exclusivamente pulmonar) e síndromes hipereosinofílicas. Para o tratamento, são utilizadas altas doses de prednisona (1 mg/kg/d). Agentes citotóxicos, como a ciclofosfamida, devem ser reservados a casos individuais graves e progressivos, com envolvimentos renal, intestinal, cardíaco ou pulmonar. 5.4.2 Púrpura de Henoch-Schönlein A Púrpura de Henoch-Schönlein (PHS) pode desenvolver-se em qualquer idade, mas, em 90% dos casos, acontece em crianças. Nesse grupo, 2 terços dos pacientes relatam antecedente de infecção do trato respiratório superior, sugerindo que o processo infeccioso possa ser o desencadeador da doença. O paciente apresenta, tipicamente, quadro agudo de febre, púrpura palpável nos membros inferiores e nas nádegas (Figura 5.22), dor abdominal (tipo cólica pós-prandial), artrite (grandes articulações) e glomerulonefrite com hematúria. A púrpura pode ser extensa e confluente e envolver braços e tronco. Dor abdominal pode ser causada por edema intestinal e isquemia mesentérica. Doença articular pode manifestar-se como artralgia e artrite, em especial, de grandes articulações, como joelhos e tornozelos e, menos comumente, punhos e cotovelos. A principal manifestação da glomerulonefrite é hematúria microscópicaacompanhada por proteinúria. Em geral, é benigna, mas pode evoluir com insuficiência renal em 10% dos casos. Figura 5.22 - Púrpura nos membros inferiores em paciente com púrpura de Henoch- Schönlein Fonte: Púrpura de Henoch-Schönlein com anticorpo c-ANCA em um adulto, 2016. A púrpura palpável em menores de 20 anos, com angina abdominal, é altamente indicativa do diagnóstico. À histologia, tem-se o achado de granulócitos nas paredes dos vasos com depósito de IgA. Apesar de ser mediada por imunocomplexos, a PHS não necessariamente provoca hipocomplementenemia, pois a IgA é uma fraca indutora das vias do complemento. O tratamento inclui anti-inflamatórios não hormonais para artralgias e corticoides para os sintomas gastrintestinais, se necessário. A maioria dos pacientes evolui bem, sem maiores necessidades de imunossupressão. Casos de glomerulonefrite grave, com crescentes, podem ser tratados com pulsoterapia de corticoide e altas doses de corticoterapia oral, além de imunossupressores, como azatioprina e ciclofosfamida. 5.4.3 Vasculite por crioglobulinas As crioglobulinas são anticorpos que se precipitam em condições de baixa temperatura, dissolvem no calor e ocorrem em associação a inúmeras condições sistêmicas, podendo levar a complicações que incluem vasculites e hiperviscosidade. As crioglobulinemias são classificadas em tipos I, II ou III: 1. Crioglobulinemia tipo I: contém anticorpos monoclonais (IgG ou IgM), sem atividade de FR; estes estão associados a certas doenças hematológicas malignas, como mieloma múltiplo e macroglobulinemia de Waldenström; 2. Crioglobulinemia tipos II e III: são chamadas “mistas”, pois contêm anticorpos IgM e IgG. O componente IgG é sempre policlonal. Já o componente IgM diferencia a do tipo II, quando é monoclonal, da do tipo III, que é policlonal. Em ambos os casos, o FR é positivo. Crioglobulinemias II e III ocorrem em associação a algumas doenças, como hepatite C, síndrome de Sjögren e lúpus. Podem provocar vasculite predominantemente de pequenos vasos do tipo hipocomplementêmica. A glomerulonefrite membranoproliferativa é a forma mais comum de comprometimento renal. A manifestação mais comum na crioglobulinemia é a púrpura palpável nos membros inferiores (Figura 5.23). Outras manifestações são neuropatia, glomerulonefrite, artralgia, mialgia e fadiga. O diagnóstico é tipicamente feito com base na história, nas manifestações típicas da doença, como púrpura e hipocomplementenemia, e na presença de crioglobulinas. Os testes sorológicos positivos para o vírus da hepatite C reforçam o diagnóstico da crioglobulinemia relacionada a este vírus. Figura 5.23 - Púrpura palpável em paciente com crioglobulinemia Fonte: Crioglobulinemia: relação entre hepatite C e glomerulonefrite, 2018. O tratamento depende se há doença de base associada, mas quase sempre passará por imunossupressão. Caso seja crioglobulinemia por vírus C, o tratamento antiviral está sempre indicado, mas, se houver doença ameaçadora, a imunossupressão deve vir primeiro (Pietrogrande et al., 2011). Para pacientes com mononeurite múltipla ou outras manifestações graves, podem ser usados corticosteroides, ciclofosfamida e o rituximabe. A plasmaférese pode ser indicada em casos de glomerulonefrite grave. 5.5 VASCULITE DE VASOS VARIÁVEIS As vasculites de vasos variáveis incluem doenças de difícil classificação inicial, por acometerem vasos de vários tipos (artérias e veias) e calibres (todas as espessuras). Por essa característica, a fisiopatologia dessas entidades clínicas é pouco conhecida e o seu comportamento é mais incerto do que nas demais vasculites. A maioria dessas síndromes são extremamente infrequentes e fogem ao escopo desta obra, contudo, a doença de Behçet é aqui classificada e merece especial atenção pela sua singularidade. 5.5.1 Doença de Behçet A doença de Behçet é uma doença vascular inflamatória crônica de etiologia desconhecida que ocorre em todo o mundo, com prevalência mais elevada em países do Mediterrâneo, do Oriente Médio e da Ásia. Acomete, principalmente, adultos jovens, com idade entre 15 e 40 anos (pico aos 20 anos). As aftas orais são, usualmente, os primeiros sintomas. Em geral, são múltiplas e dolorosas e podem estar presentes na língua, na gengiva e no palato (Figura 5.24). Úlceras genitais podem aparecer na vulva, na vagina, no escroto e, muito raramente, no pênis (Figura 5.25). Sempre se deve pensar em doença de Behçet quando há úlceras orais, úlceras genitais e uveíte. Figura 5.24 - Aftas orais em paciente com doença de Behçet Figura 5.25 - Ulceração na bolsa escrotal de paciente com doença de Behçet Fonte: Doença de Behçet: revisão com ênfase em aspectos dermatológicos, 2017. Lesões cutâneas são comuns e incluem paniculite (que lembra muito um eritema nodoso na apresentação, mas a patologia revela ser, na verdade, paniculite com vasculite), pseudofoliculites, lesões papulopustulosas ou nódulos acneiformes. O teste da patergia positivo (uma resposta exacerbada da pele ao trauma, resultante da hiperatividade dos neutrófilos) pode auxiliar no diagnóstico, mas não é específico de doença de Behçet. Para reproduzir o teste, uma agulha estéril é inserida perpendicularmente na pele e no subcutâneo, na região anterior do antebraço. Após 48 horas, aparece eritema ou pústula (> 2 mm de diâmetro) nos locais onde ocorreu o trauma, considerando o teste positivo. O achado ocular clássico na doença de Behçet é a uveíte aguda bilateral, eventualmente com formação de hipópio (Figura 5.26). Além de uveíte anterior, a doença de Behçet pode fazer uma verdadeira panuveíte, acometendo todas as câmaras oculares. Ademais, vasculite de retina é outro achado possível. As manifestações oculares frequentemente cursam com perda de acuidade visual. Figura 5.26 - Hipópio: observar a formação do nível líquido O envolvimento de grandes vasos, tanto no território venoso quanto no arterial, é comum, sendo a maior causa de morbimortalidade. Trombose venosa profunda é a complicação vascular mais comum. Podem, ainda, ocorrer trombose de veia cava, síndrome de Budd- Chiari, trombose venosa cerebral e varizes de esôfago. Lesões arteriais podem ocorrer na circulação sistêmica e no leito arterial pulmonar, causando estenoses, oclusões e aneurismas. Do ponto de vista neurológico, além das síndromes trombóticas, pode cursar com vasculite de sistema nervoso central, com consequências graves ao paciente por acometer preferencialmente o rombencéfalo. O diagnóstico de doença de Behçet é difícil, sendo apenas facilitado pela presença de úlceras bipolares. Quando não estão presentes (ou estão presentes na forma unipolar), faz-se necessário grande esforço para confirmá-lo, baseando-se, quase que exclusivamente, em achados clínicos. Deste modo, é uma doença que desperta interesse entre os reumatologistas. Não existem testes específicos ou biomarcadores confirmatórios. Os reagentes de fase aguda geralmente estão aumentados, mas são inespecíficos, e as dosagens do complemento, fator reumatoide, crioglobulinas e fator antinúcleo são caracteristicamente normais ou negativas. A biópsia de eventuais lesões acessíveis pode contribuir se mostrar vasculite neutrofílica, dentro de um contexto adequado, mas é comum que retornem com achados inespecíficos. Assim, existe, acima de tudo, uma importância em excluir outros diagnósticos mais comuns antes de concluir se tratar de doença de Behçet, como infecções por herpes-simples, HIV ou citomegalovírus e doença inflamatória intestinal. As espondiloartrites e a doença inflamatória intestinal são 2 grandes mimetizadores de doença de Behçet. As lesões aftosas são tratadas agudamente com corticoide tópico. Colchicina, talidomida e metotrexato são utilizados como drogas profiláticas no tratamento de manifestações mucocutâneas. A azatioprina e a ciclosporina têm sido utilizadas no envolvimento ocular. A ciclofosfamida é usada em casos oculares incontroláveis, doença do sistema nervoso central e vasculites. Inibidores do TNF- alfa também podem ser utilizadosno tratamento das formas refratárias. Quais são os principais grupos de síndromes clínicas que sugerem vasculite sistêmica? As vasculites sistêmicas cursam com 1 ou mais dos seguintes grupos de síndromes clínicas: oclusão vascular de grandes vasos, oclusão vascular de vasos macroscópicos não nomináveis (incluindo neurites), púrpura palpável, glomerulonefrite e capilarite pulmonar (hemorragia alveolar). Do ponto de vista microbiológico, o que diferencia as síndromes reumatológicas relacionadas a agentes infecciosos das demais doenças reumáticas? 6.1 FEBRE REUMÁTICA A Febre Reumática (FR) é uma doença inflamatória multissistêmica, com sequela tardia não supurativa desencadeada pela infecção da orofaringe pelo Estreptococo Beta-Hemolítico do Grupo A (EBHGA) de Lancefield e caracterizada por acometer o coração, as articulações, o sistema nervoso central, o tecido celular subcutâneo e a pele. Ocorre infecção estreptocócica da orofaringe e a resposta imunológica provocada por ela é responsável por mediar lesões ao tecido conjuntivo através da reação cruzada de reconhecimento antigênico. O paciente precisa ter tido contato prévio com os antígenos bacterianos para que o organismo os reconheça e a doença possa se estabelecer. Por isso, a FR ocorre, em geral, após os 3 anos. O estreptococo beta-hemolítico do grupo A (S. pyogenes) é responsável por faringotonsilites e infecções de pele. Entre as suas sequelas imunes, encontram-se a febre reumática e a glomerulonefrite pós-estreptocócica. 6.1.1 Fisiopatologia Nem todas as infecções por EBHGAs causam FR, ou seja, nem todas as cepas desse grupo de bactérias são reumatogênicas, e nem todos os indivíduos são suscetíveis. As cepas que causam piodermites e infecções de tecidos moles não causam faringite nem FR, mas podem causar glomerulonefrite aguda. Das cepas que causam faringite, as ricas em proteína M, uma proteína externa da parede bacteriana, são as mais artritogênicas. A patogenia da doença ainda não é totalmente compreendida, mas parece ocorrer por meio de reação cruzada, ou seja, mimetismo molecular: a similaridade entre sequências antigênicas do ser humano e do EBHGA levaria à produção de anticorpos induzida pela infecção estreptocócica e seria direcionada contra antígenos bacterianos, mas que agiriam contra estruturas do hospedeiro, desencadeando a lesão tecidual (Galvin et al., 2000). Pacientes com FR apresentam altos níveis de anticorpos contra a proteína M, que pode atuar como um superantígeno, induzindo a uma resposta imune excessiva e autoimunidade. Ela impede a fagocitose e a ação do complemento e ajuda a fixar a bactéria na célula epitelial da faringe. De 2 a 3% das crianças com infecção estreptocócica desenvolverão FR, o que mostra predisposição genética de alguns indivíduos, que pode estar associada à presença de antígenos leucocitários humanos (HLAs) nas diversas populações, como DR4 em caucasianos, DR2 em negros e DR3 em indianos. Em nosso meio, foi observada maior frequência do HLA-DR7 (Visentainer et al., 2000) e, possivelmente, do HLA-DR53 (Guilherme et al. 1991). Foram descritos aloantígenos na superfície de células B, não associados ao sistema HLA, denominados 883 e D8/17, que teriam forte associação à FR. No entanto, outros estudos não confirmaram esses achados, e o marcador genético definitivo para a doença ainda não foi encontrado. 6.1.2 Epidemiologia A FR geralmente afeta indivíduos entre 5 e 15 anos, de qualquer raça e em qualquer parte do mundo. Em adultos, os ataques iniciais acontecem no final da segunda e no começo da terceira décadas de vida. Sua incidência varia de acordo com a região geográfica e as características socioeconômicas de cada população. Baixos níveis de higiene, alta densidade demográfica e difícil acesso ao sistema de saúde favorecem o seu aparecimento. Um grande estudo mundial estimou a prevalência de doença reumática valvar no Brasil em 0,2% (Seckeler; Hoke, 2011), muito próxima da prevalência de países de alta renda da América do Norte (Watkins et al., 2017). Contudo, muito provavelmente há uma importante subnotificação, considerando que os dados epidemiológicos são gerados principalmente por grandes cidades, nas quais, de fato, a prevalência deve ser menor do que nas áreas mais carentes do nosso país. Estima-se que ela seja responsável por cerca de 60% de todas as doenças cardiovasculares em crianças e adultos jovens. No Brasil, é responsável por 8.000 a 10.000 cirurgias cardíacas por ano na rede pública. Os EBHGAs são a causa mais comum da faringite bacteriana, atingindo principalmente crianças e jovens com idades entre 5 e 18 anos. Para se ter uma ideia do fardo social da FR, se considerada a incidência anual de 10 milhões de faringotonsilites estimada para o Brasil, teoricamente haveria 30.000 casos novos de surto reumático ao ano, sendo que, destes, metade poderia evoluir com sequela valvar (Barbosa et al., 2009). 6.1.3 Manifestações clínicas O quadro clínico geralmente se inicia após 2 a 4 semanas de um quadro de faringite estreptocócica, entretanto, um terço dos pacientes não se lembra da faringite. A média de idade de acometimento é de 7 anos, principalmente na faixa dos 5 aos 15 anos. Quase sempre o surto reumático será uma síndrome febril prolongada, fazendo diferencial com síndromes infecciosas. Não existe exame laboratorial, sinal ou sintoma característico da FR no surto agudo. O diagnóstico baseia-se no reconhecimento e na combinação de alguns achados clínicos e laboratoriais. A identificação de alguns sinais ecocardiográficos tardios extremamente típicos confirma o diagnóstico retrospectivamente. Embora critérios diagnósticos sejam especialmente voltados à pesquisa, os critérios de Jones modificados e revisados em 2015 (Quadro 6.1) são ferramenta de auxílio no diagnóstico da doença, pois são razoavelmente sucintos e caracterizam bem as manifestações clínicas mais importantes. Quadro 6.1 - Critérios de Jones (revisados em 2015) Nota: a) Para diagnóstico de primeiro surto de febre reumática: 2 critérios maiores ou 1 maior e 2 menores, com evidência de infecção estreptocócica anterior; b) Para o diagnóstico de FR recorrente: 2 critérios maiores ou 1 maior e 2 menores ou 3 menores, com evidência de infecção estreptocócica anterior; c) Populações de baixo risco – incidência de FR ≤ 2/100.000 crianças com idade entre 5 a 14 anos/ano ou prevalência de doença cardíaca reumática em todas as idades ≤ 1/1.000 habitantes por ano; d) Populações de risco moderado a alto – aquelas que não se enquadrarem nas características de população de baixo risco. Nenhum dos critérios de Jones é específico de FR. Entretanto, a presença de coreia e/ou cardite (valvulite mitral) permite, habitualmente, maior segurança diagnóstica. Por ocorrer mais tardiamente na evolução da doença, quando os outros achados já passaram, e por ser mais específica, a coreia é o único sinal maior que isoladamente permite o diagnóstico de FR. 6.1.3.1 Articulares O quadro articular ocorre em 75% dos casos de FR e é o sintoma mais comum. É mais frequente e mais grave entre adultos jovens (100%) e adolescentes portadores da doença (82%) do que em crianças (66%). O acometimento articular é precoce e costuma ser o primeiro achado, embora cardite assintomática possa precedê-lo. O quadro clássico é de poliartrite de grandes articulações, assimétrica, intensa, muito dolorosa, migratória e fugaz, com boa resposta aos anti-inflamatórios, não evoluindo com sequelas. A artrite manifesta-se em uma articulação e, quando está regredindo, outra articulação é acometida cerca de 2 a 3 dias depois. Pode haver alguma flogose, mas a dor é mais importante do que os sinais inflamatórios objetivos. O surto de artrite tem resolução espontânea e dura de 2 a 6 semanas. As articulações prediletas são os joelhos e tornozelos, seguidas pelos punhos e cotovelos. Excepcionalmente, pequenas articulações das mãos e dos pés também podem ser envolvidas. Radiografias serão sempre normais do ponto de vista articular, mesmo tardiamente.Por definição, não é esperada que seja uma doença erosiva, como as artropatias autoimunes. Entretanto, surtos repetidos sem diagnóstico (o que é cada vez mais raro hoje em dia) podem provocar frouxidão ligamentar e de cápsula articular, com subluxações e desvios articulares não fixos (artropatia de Jaccoud). Atualmente, a principal causa de artropatia de Jaccoud é lúpus eritematoso sistêmico. Na prática, muitos pacientes com artrite e/ou artralgia são tratados empiricamente com salicilatos ou outro Anti-Inflamatório Não Esteroidal (AINE). Por causa disso, a artrite pode melhorar rapidamente e não migrar para outras articulações, dificultando o diagnóstico. Na FR, a artrite é rapidamente responsiva aos salicilatos, de forma que a falta de resposta em 48 horas do uso desses agentes torna o diagnóstico improvável. 6.1.3.2 Cardíacas A incidência de doença cardíaca na FR ocorre em 50 a 60% dos pacientes, mas pode ser assintomática. Sua frequência, ao contrário do quadro articular, diminui com a idade (90% em crianças pequenas e 15% em adultos jovens). O acometimento caracteriza-se por pancardite, em que o endocárdio (mais comumente), miocárdio e pericárdio (menos comumente) estão envolvidos. A presença de cardite é importante no prognóstico em curto e longo prazo. Na fase aguda, o envolvimento miocárdico pode provocar cardiomegalia, taquicardia, distúrbios de condução e insuficiência cardíaca congestiva. Os nódulos de Ascho�, encontrados na anatomia patológica da miocardite, são patognomônicos da doença. A pericardite pode manifestar-se como desconforto ou dor torácica, derrame ou atrito pericárdico e não costuma evoluir com pericardite constritiva. O dano valvar agudo característico decorre do envolvimento do endocárdio, provocando valvulite principalmente mitral e aórtica, com sopros novos de regurgitação, que podem provocar insuficiência cardíaca aguda. Anormalidades eletrocardiográficas encontradas são bloqueios atrioventriculares de vários graus, sendo o de terceiro grau e o bloqueio de ramo esquerdo raros na fase aguda. A alteração radiográfica mais comum da cardite é a cardiomegalia (Figura 6.1). Estudos utilizando o ecocardiograma sugerem que esse exame seja mais sensível para detectar disfunções cardíacas. O ecocardiograma, atualmente, é sempre indicado, tanto para diagnóstico no momento do surto, quanto para monitorização de sequela tardia. Figura 6.1 - Cardiomegalia em paciente com febre reumática O envolvimento valvar persistente é a principal causa da grande morbimortalidade cardíaca associada à FR, uma vez que é a única forma sequelar de doença. Ocorre de 10 a 20 anos após o surto inicial, sendo a principal causa de doença valvular adquirida entre jovens no Brasil. A válvula mitral é a mais acometida, sendo, na fase aguda, a insuficiência mitral predominante e, posteriormente, nas formas crônicas, encontramos a estenose mitral (achado clássico). O segundo envolvimento mais comum é o mitro-aórtico e, com menor frequência, o aórtico isolado (em geral, insuficiência). Raramente, a tricúspide e a pulmonar são envolvidas (Figura 6.2). Esse acometimento valvar, por menor que seja, por si, leva a maior suscetibilidade à endocardite infecciosa. Três sopros são característicos do primeiro episódio da doença e podem não representar disfunção valvar definitiva: sopro sistólico de regurgitação mitral; sopro de Carey Coombs (um sopro diastólico em ruflar sem estalido de abertura) e sopro diastólico de regurgitação aórtica. Figura 6.2 - Ordem do acometimento valvar na cardite reumática Fonte: ilustração Claudio Van Erven Ripinskas. #IMPORTANTE Tardiamente, o achado de estenose mitral ao exame físico sugere muito febre reumática no passado, dado que a doença é responsável por mais de 70% das estenoses mitrais (Horstkotte et al., 1991). 6.1.3.3 Neurológicas A coreia de Sydenham, “coreia menor” ou “dança de San Vito”, é a desordem neurológica que se manifesta por movimentos abruptos, involuntários e desordenados nos membros, face e língua. Os movimentos geralmente são mais evidentes em um lado do corpo, podem ser completamente unilaterais (hemicoreia), desaparecem durante o sono e pioram com o estresse. A coreia ocorre em menos de 10% dos pacientes, tem predomínio em meninas e aparece mais tardiamente que as demais manifestações, cerca de 6 a 8 semanas após a infecção estreptocócica, por isso pode ocorrer isoladamente e dar o diagnóstico de FR sem a presença de outros critérios. Tem duração de 1 semana a 2 anos (média de 8 a 15 semanas). Transtornos emocionais, choro e alterações psiquiátricas podem ser observados nesses pacientes. Alguns indivíduos com coreia podem não ter sintoma, mas o exame cardiológico deve ser realizado com atenção, para tentar diagnosticar sopro persistente. #IMPORTANTE Uma maneira de exacerbar os sintomas da coreia no exame físico é solicitar que a criança faça múltiplas tarefas ao mesmo tempo. 6.1.3.4 Tegumentares Os nódulos subcutâneos da FR aparecem após as primeiras semanas da doença e associam-se à cardite. São pequenos (1 a 2 cm de diâmetro), firmes e indolores, localizados mais comumente sobre proeminências ósseas, próximas aos tendões, em superfícies extensoras, como cotovelos, joelhos, punhos, região occipital e dorso. Podem ser únicos ou múltiplos (Figura 6.3) e assemelham-se aos nódulos reumatoides, com os quais fazem o principal diagnóstico diferencial. Ao contrário dos nódulos reumatoides, geralmente perenes, os nódulos da febre reumática são autolimitados, como todas as manifestações do surto reumático. Não costumam inflamar ou ulcerar, sendo frequentemente descobertos pelo clínico apenas no exame físico. O eritema marginado, por sua vez, é uma erupção cutânea de caráter evanescente, não pruriginoso, de coloração rósea a avermelhada, que acomete o tronco e a porção proximal dos membros, poupando a face. Essas lesões estendem-se centrifugamente, enquanto a região central é de coloração normal, de limites bem delimitados (Figura 6.4). As lesões podem desaparecer em questão de horas, e banho quente pode torná-las mais evidentes. Usualmente, é precoce durante a doença e está associado à cardite. Figura 6.3 - Nódulo subcutâneo no cotovelo de paciente com febre reumática Figura 6.4 - Eritema marginado na região dorsal Fonte: Zorkun, 2008. 6.1.3.5 Critérios revisados de Jones Conforme exposto, o diagnóstico de FR é dado pelos critérios revisados de Jones de 2015, sendo os pacientes estratificados em grupos de acordo com considerações epidemiológicas de risco para adquirir a doença. Considera-se grupo de baixo risco aquele em que a incidência de FR é menor do que 2/100.000 escolares (entre 5 e 14 anos) por ano ou que tenha uma prevalência de cardite reumática crônica em qualquer grupo etário menor ou igual a 1/1.000 por ano. Crianças pertencentes a comunidades com níveis superiores a esses teriam risco moderado a alto para adquirir a doença. Além disso, de acordo com a revisão de 2015, consideram-se alterações nos critérios para recidiva de doença. Para os indivíduos com possível recidiva de doença, além do preenchimento de 2 critérios maiores ou de 1 maior e 2 menores (como no surto inicial), pode-se considerar a possibilidade do preenchimento de 3 critérios menores como diagnóstico de recidiva, independentemente do grupo de risco ao qual o paciente pertence. 6.1.3.6 Achados laboratoriais Nenhum exame laboratorial é específico de FR. Alguns podem estar alterados e ter implicação no diagnóstico, como as provas de atividade inflamatória ou as provas de fase aguda: a velocidade de hemossedimentação e a proteína C reativa costumam estar aumentadas, e sua alteração consiste em um critério menor para o diagnóstico. Outro grupo importante de achados laboratoriais é o que denuncia infecção recente por estreptococo. Culturas de orofaringe usualmente são negativas na época em que a FR aparece, mas podem ajudar a isolar o micro-organismo (Figura 6.5). O tratamento da faringoamigdalite e a erradicação do estreptococo da orofaringe devem