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RELATORIO-ESTAGIO-HUMANISTA

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“previsível” de responder como uma provável resistência, pois era uma forma de se manter em uma posição segura até adquirir confiança e estabelecimento de um vínculo. 
Sabe-se que a Gestalt-Terapia é considerada a terapia do contato e necessita de uma postura relacional entre terapeuta e cliente, como afirma Ribeiro (2007):
 “O ser humano é um ser-do-mundo e para-o-mundo e o outro integra, permanentemente, o sujeito com o qual está em contato. Estar em contato é, portanto, um processo resistencial, no sentido de que o outro sempre me faz face. Resistir é um processo existencial, natural e parte essencial do comportamento humano.”
	
Desse modo, tornar-se perceptível que “F.” ao resistir aos processos psicoterapêuticos e principalmente no estabelecimento do vínculo tenta estabelecer controle sobre a realidade em que está vivendo, imobilizando-se para não permitir que seja invadido. A dificuldade encontrada em estabelecer um vínculo com o cliente permitir que ele confie e deixe as resistências de lado, preocupa-me, pois é “a partir do desenvolvimento do vínculo terapêutico, que os conflitos intrapsíquicos do cliente emergem e podem ser trabalhados.” (HYCNER, 1995)
Diante de tal situação, resolvi solicitar ajuda da minha supervisora de estágio, a mesma orientou-me que tentasse algo “novo” com meu cliente, deveria procurar outras formas de me relacionar com “F.”, para que ele confiasse e se entregasse a psicoterapia. Contudo, percebi que quem deveria mudar naquela relação não era meu cliente, mas sim eu, pois se ele estava de alguma forma resistindo, esta resistência era fruto de nossa relação. Foi de extrema importância perceber isso para que eu pudesse fazer dessa resistência um ponto de contato entre mim e “F.”.
Deixei de assumir o papel de “pessoa chata”, interrogadora, que cobrava que “F.” fosse comunicativo, extrovertido, pois esse papel não era meu e sim de sua mãe que o cobrava em tudo: notas, amadurecimento, atenção e etc. O não expressar-se ou achar tudo “normal” era uma resposta a seu relacionamento com a mãe que estava sendo repetido na terapia. Ao invés de ser a “chata” passei para o lado da sua resistência a fim de compreende-lo e assim, podermos trabalhar.
	Na terceira sessão resolvi mudar minha postura na relação com o cliente. Já que para “F.” era difícil falar de si, então, comecei a falar sobre mim. Estas coisas que pareciam ser só minhas, na verdade, faziam parte do entre “F.” e mim. Já não havia mais resistência ou restrições de minha parte para “F.”, pude me encontrar nas palavras de Hycner (1995, p. 151) ao falar do impasse (da limitação) do terapeuta diante da resistência do cliente: 
“Os clientes podem ver as falhas humanas do terapeuta, assim como sua coragem, esforçando-se para lidar com estas limitações existenciais. Este é um modelo importante para o cliente. As limitações humanas do terapeuta não são um ponto de parada, mas antes um ponto de encontro no plano da humanidade em comum – um plano onde todos precisamos primeiro nos encontrar antes de estarmos dispostos a confiar e arriscar nos outros. Esta abertura sinaliza um terapeuta em crescimento.”
Este “me abrir”, me colocar presente na relação foi algo mágico, serviu para que “F.” visse o quanto ele era importante para mim e na terapia, que mesmo ele comunicando-se de forma escarça nas sessões eu queria estar compartilhando algo com ele. Desse modo, o cliente pôde compreender que eu precisava dele não para apenas saber ou “sugar-lhe” algo, mas, simplesmente, para me escutar, para mostrar-me enquanto presença, enquanto pessoa.
Na quarta sessão, percebi que nossa relação começava a mudar de forma significativa, “F.” chegou a essa sessão um pouco mais comunicativo, dando abertura para que eu pudesse interagir junto a ele, suas respostas prováveis passaram a dar lugar a frases feitas e mais completas. Durante essa sessão “F.” relatou-me como é seu relacionamento com seus pais e amigos. Percebo que “F.” passou então a participar ativamente de seu processo terapêutico, compartilhando comigo situações do seu cotidiano e seus gosto por escrever quando tinha vontade de falar algo e não tinha “coragem” de falar. Pedi que se ele durante a semana escrevesse algo, trouxesse para que pudéssemos ler juntos e trabalhar para que e ele não precisasse mais do papel quando quisesse expressar-se. Percebo então que aos poucos “F.” começa a participar do processo terapêutico junto a mim, pois como afirma Naranjo (1993, p. 112) “o processo terapêutico consiste na transmissão de uma experiência” o que se faz extremamente importante na “cura” do cliente.
Na quinta sessão, “F.” estava mais “solto”, chegou e logo me entregou uma folha de papel com textos escritos por ele durante a semana, pedi permissão ao cliente para poder lê-los junto a ele, “F.” aceitou e iniciamos. Durante a leitura fui pedindo que ele me dissesse o que aquilo queria dizer e como ele se sentia ao escrever aquilo. Os textos continham coisas soltas, mas algo estava presente em todos, “F.” relatava que tinha medo, muito medo, quando questionei sobre esse medo o mesmo relatou-me que era “medo de ser ele mesmo” (sic). Diante disso, guardei o papel e dei uma atenção especial a esta fala, pedi que ele me dissesse quem ele era e quem ele queria ser. 
“F.” relatou-me que não é como vem agindo, que na verdade ele é um “poético, musico e cantor” (sic) e não um “quieto, rústico e bruto” (sic), o que me fez perceber que o cliente está vivendo num modo de ser inautêntico, onde encontra-se extremamente mergulhado no mundo, preso às coisas e aos outros, não realiza plenamente suas possibilidades e não permite uma reflexão acerca de si mesmo, de como vive, ou seja, “F.” vem ausentando-se da própria existência, como cita Heidegger (1990 p. 53) “ no momento em que a presença se perde no impessoal, já se decidiu sobre o poder-ser mais imediato e factual da presença, ou seja, sobre as tarefas, regras, parâmetros, a premência e a envergadura do ser no-mundo da ocupação e preocupação.” 
Desse modo, quando “F.” deu-se conta de sua impropriedade, ele passou a viver uma angústia, que para Heidegger, representa o único estado de ânimo que leva o ser-aí a uma compreensão de si mesmo, o cliente passou então a buscar a sua autenticidade, ou seja um vida autentica, que segundo BICCA (1997) “a autenticidade é a singularização da existência, isto é, é a apropriação de si, é a tomada de consciência do Ser-aí, é a sua real abertura às mais diversas possibilidades”, ou seja, a medida que “F.” vai conquistando a autenticidade, vai também voltando sua atenção para si, escolhe a si, não mais os outros. 
Ao fim dessa sessão, passei uma tarefa de casa, segundo POLSTER (1973), “é uma tarefa para ser executada em casa que proporciona ao cliente uma oportunidade maior de explorar e testar na vida real o que aprendeu durante a hora da terapia”. Dessa maneira “F.”, tentaria fora do ambiente terapêutico ser o mais autêntico possível, expressando-se por meio da fala, dos gestos e sorrindo quando quisesse sem se prender a nada, para que pudesse sentir-se livre, e experimentar o “F. poético, musico e cantor” (sic). 
Nas sexta sessão, “F” adentrou a sala de atendimento eufórico, diferente do menino que eu estava acostumada a atender, relatou-me que essa semana foi diferente do costume, que ele entrou em um grupo de dança que segundo ele era um momento de “expressão” e estava participando de uma peça na escola. O cliente parecia bastante empolgado com as mudanças ocorridas na semana, ao perguntar como ocorreu o execução da tarefa de casa, acertada na sessão anterior, o mesmo me disse que “estava tudo bem” (sic), que aos poucos vem percebendo que ele pode comunicar-se com as pessoas da forma que sempre quis, e que durante as atividades escolares tem tirado dúvidas com os professores diante das dificuldades encontradas, o que não fazia antes e preferia não realizar as atividades. 
Nas sessões seguintes, percebo que nossa relação mudou de maneira significativa em relação as primeiras sessões, “F.” começou a participar ativamente

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