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DA COLÔNIA AO IMPÉRIO - DENIS ALMEIDA

Ensaio acadêmico que analisa a transição do Brasil colonial ao império (séculos XVI–XIX), comparando a figura do bobo da corte aos povos colonizados e abordando geopolítica, o Tratado de Madrid (1750), escravidão, povoamento e revoltas como Inconfidência Mineira e Conjuração Baiana.

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DA COLÔNIA AO IMPÉRIO: A REVOLUÇÃO DOS BOBOS DA CORTE
Denis Bruno Nogueira de Almeida
Existe uma canção que diz “Onde não se sabe lidar com Reis e Princesas [só] damos valor aos bobos da corte” (ROSA DE SARON, 2014). A figura dos Bobo da Corte na realeza real, era sem sombra de dúvidas peculiar, não somente pelas as roupas, o chapéu e os guizos ou pelo cetro colorido empunhado em suas mãos com um boneco em miniatura representando a si mesmo, mas como personagem de um grande jogo de poder em que ele não fazia parte. Em muitos casos até poderia se sentar à mesa com os nobres, mas sua presença seria entretenimento para uma classe cevada de pedras e vinho.
Historicamente “O bobo teve origem no Império Bizantino, e no fim das Cruzadas tornou-se figura comum nas cortes europeias” (SIGNIFICADOS, 2021), “era um funcionário contratado pela corte e sua função era divertir o Rei” (SIGNIFICADOS, 2021), “era um indivíduo de grotesca figura - corcunda ou anão. ” (MAICÁ). A mercê da realeza os bobos da corte eram indivíduos deslocados dentro de um mundo de grandeza, uma marionete do sistema monárquico, vulnerável e ao mesmo tempo cercado de grandes guarnições. É nesse sentido em que comparo a figura exposta até então aos moradores do “Novo Mundo” português entre os séculos XVI e XIX.
No que há de diferenciar o entretenimento gerado quando com a chegada dos portugueses a costa brasileira avista povos nativos seminus e de outros costumes? Que relação os “grandes navegantes” poderiam ter, ao não ser, tratá-los como seus súditos bobos da corte? As respostas dessas indagações se dão por mais de trezentos anos de colônia/império.
Os autores do texto A crise do colonialismo Luso na América de Ciro Flamarion Santana Cardoso e A herança colonial e sua desagregação de Sérgio Buarque de Holanda, nos traz boa parte dessa história e é nela que iremos nos debruçar neste ensaio acadêmico.
A crise do colonialismo luso na América de Ciro Flamarion Santana Cardoso faz parte de uma coletânea chamada História Geral do Brasil com parcerias com diversos autores. Nela Santana retrata os anos de 1750 a 1822, relatando alguns eventos ocorridos nesse recorte temporal.  A geopolítica vivida no mundo naquele momento entre as Coroas Portuguesa e Espanhola demonstra a ganância que assentava nos dois países europeus. O Tratado de Madri de 1750 veio para definir limites entre terras antes espanholas, mas no momento habitado por gente portuguesa. Segundo a Professora de História Juliana Bezerra:
Para conquistar o direito a estas terras, o brasileiro Alexandre de Gusmão (1695-1753), embaixador e secretário de Dom João V, invocou o direito do “uti possidetis, ita possideatis”. Este princípio estabelece que aquele que ocupa um território é seu proprietário (TODAMATÉRIA).
 
Nesse sentido, observamos um crescimento exponencial dos habitantes que viviam nas terras portuguesas, e isso desde o início do século XVI. Esse crescimento se dava em grande escala devido aos navios negreiros que chegavam na região trazendo mão-de-obra escrava do continente africano, ao mesmo tempo que chegavam outras embarcações vinda de Portugal com pessoas que iniciaram o povoamento dessas terras.
Em 1516, Dom Manuel I, rei de Portugal, enviou navios ao novo território para efetivar o povoamento e a exploração, instalaram-se em Porto Seguro, mas rapidamente foram expulsos pelos indígenas. Até o ano de 1530, a ocupação portuguesa ainda era bastante tímida, somente no ano de 1531, o monarca português Dom João III enviou Martin Afonso de Souza ao Brasil nomeado capitão-mor da esquadra e das terras coloniais, visando efetivar a exploração mineral e vegetal da região e a distribuição das sesmarias (lotes de terras) (CARVALHO, 2021).
 
        	Ali se complementava com os nativos, os africanos escravizados e um punhado de gente europeia que vinha ser mais tarde defensores e revolucionários de um governo independente e livre das mãos de seus algozes. Os bobos da corte que entretia e arrancava risadas de seus senhores nos séculos passados se tornaram agora esses sujeitos que estavam na mão do sistema lusitano, que tinham que “[comer] das migalhas que caem da mesa dos seus donos". (Mateus 15:27b).
        	Mas não muito distante estava a visível crise na colônia portuguesa, uma série de fatores culminaram em eventos que mais tarde tornaram a colônia em império, as revoltas ocorridas de modo tímido em séculos passados, se tornara mais constante no fim do século de 1700, dentre elas as mais conhecidas, Inconfidência Mineira (1789) e Conjuração Baiana/Revolução dos Alfaiates (1798). Para Cardoso:
Em termos menos precisos no tocante a datas, foi por volta de meados do século XVIII que se tornou evidente ter-se transformado o Brasil em peça mestra dos domínios lusos, superando a própria metrópole em peso econômico e demográfico. A incapacidade dos portugueses de vislumbrar todas as consequências disso, a não ser em forma excessivamente tardia e sob pressão dos acontecimentos da política europeia – em 1808, com a instalação no Rio de Janeiro da corte lusa e em 1815, com a elevação do Brasil a reino unido a Portugal e Algarve –, a tendência constante a utilizar-se das possessões do Novo Mundo só como fonte inesgotável, segundo parecia, de recursos fiscais extorquidos das maneiras mais variadas e por vezes mediante escandaloso arbítrio, eis aí fatores que acabariam por levar à separação entre a América portuguesa e a metrópole (CARDOSO).
 
É claro que a presença de Marquês de Pombal no Brasil seria um evento importante, com a medida desesperada de tentar dá conta do território colonial, Cardoso fala que houve diversas “tentativas dos representantes da Coroa no sentido de limitar o domínio político exercido pelos colonos mais importantes” ainda mais “a intenção de afastar os nascidos no Brasil dos tribunais, câmaras municipais e outras instâncias do poder na Colônia.”. Iniciaram uma tentativa fracassada de calar os Bobos da Corte.
        	Partindo agora para fatos ocorridos no fim do século XVIII e início do século XIX, o autor Sérgio Buarque de Holanda em seu livro História Geral da Civilização Brasileira, o Processo de Emancipação no capítulo I, A Herança Colonial – Sua Desagregação traz assuntos pertinentes para continuarmos nosso ensaio acadêmico nesse momento, inicialmente trazer outro fato importante a chegada da família real ao Brasil, escoltado por navios ingleses e fugindo por medo dos ataques franceses, aporta na costa brasileira em 1808.
A vinda da Corte, se tem por onde afagar a vaidade brasileira, põe a descoberta, de outro lado, com imenso séquito de funcionários, fâmulos e parasitas que acompanham, a debilidade de um domínio que a simples distância aureolada, na colônia, de formidável prestígio (BUARQUE, P. 15).
	A presença da coroa na colônia traria diversas mudanças estruturais ao espaço, segundo a historiadora Juliana Bezerra:
A transferência da Família Real e sua comitiva contribuiu para significativas mudanças no Brasil e no Rio de Janeiro. Com a abertura dos portos, todas as nações amigas de Portugal puderam comercializar com o Brasil. Num primeiro momento, isto significava o comércio com a Inglaterra. Por sua vez, o Rio de Janeiro se tornou a capital do reino de Portugal e foram realizados melhoramentos e levantados novos edifícios públicos na cidade (TODAMATÉRIA).
	E é nesse momento que a comparação de Bobos da Corte faz mais sentido, isso porque tudo se encaminharia para uma independência, sendo que os eventos posteriores levariam a colônia a Reino Unido de Portugal e Algarves em 1815 e o retorno do Rei Dom João VI a Portugal devido a Revolução de Porto, fez com o que seu filho Dom Pedro I assumisse em seu lugar e pela aproximação do monarca a elite agrária, “A Independência do Brasil é declarada no dia 7 de setembro de 1822 por Dom Pedro I que se torna o primeiro imperador do Brasil.” (TODAMATÉRIA). É aí que entram os Bobos da Corte e a frase de Buarque faz sentido, a Herança Colonial ainda está enraizada nas pessoas da antiga colônia (BUARQUE, 1976).
	Os Bobosda Corte mesmo comendo com os nobres, mesmo fazendo parte da elite e participando de suas festas, nunca será considerado um nobre, nunca será considerado um rei, nunca fará parte da elite, sua peculiaridade é o que ainda faz com que sejam aceitos em tais momentos, da mesma os nativos, os escravos, os negros, os nascidos na colônia, os colonos só eram aceitos por conveniência de entretenimento e revoltas para corte. Dom Pedro I apesar que no dia 07 de setembro de 1822 tenha se declarado independência, essa liberdade só veio em discurso, porque Bezerra irá dizer que o “país promulga a primeira Constituição em 1824 que mantém o regime monárquico, a escravidão e reconhece a religião católica como oficial. ” (TODAMATÉRIA). A vida continuaria a mesma, o que mudaria apenas seria o título do regime, os bobos ainda continuariam bobos e sem se enxergar como bobos, acham que fazem parte, mas não fazem.
	Para finalizar tenho que ressaltar que não foi encontrado comprovações de Bobos da Corte na corte real da realeza de Dom João VI, e nem se houve tal personagem nas terras brasileiras, até porque segundo relatos essa função foi extinta um século antes, mas o sentido de trazer a Revolução dos Bobos da Corte para esse ensaio é de mostrar que mesmo com qualquer lutas e rebeliões ocorridas na região, tudo culminou em uma troca de faixa, mas não de mentalidade, em uma troca de títulos, mas não de história, o Brasil ainda precisou de mais de 50 anos para chegar uma república e ainda posso afirmar que ainda hoje temos nossos Bobos da Corte, que acham que bebem e comem na mesa real e faz parte de tudo aquilo, sendo que é motivo de chacota e entretenimento, seus movimentos são considerados peculiares, suas roupas e seu chapéu com guizos chamam atenção, mas seu cetro de rei não é real, seu falso poder traz uma sensação de superioridade, enquanto na verdade somente comem da migalha que caem da mesa de seus senhores.
REFERÊNCIAS
HOLANDA, Sérgio Buarque de (org.) O Brasil Monárquico: o processo de emancipação. Rio de Janeiro: Difel, 1976.
ROSA DE SARON. Cartas ao Remetente. Reis e Princesa. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=c4OnHNKY2WY>. Acesso em: 13 de abril de 2021.
Significado de Bobo da Corte. SIGNIFICADOS. 08 de fevereiro de 2021.  Disponível em: <https://www.significados.com.br/bobo-da-corte/#:~:text=O%20bobo%20da%20corte%20era,os%20reis%20e%20seu%20s%C3%A9quito.&text=O%20bobo%20teve%20origem%20no,que%20ocorreu%20no%20s%C3%A9culo%20XVII.> . Acesso em: 13 de abril de 2021.
MAICÁ, Daniel. A história de Bobo da Corte. DANIEL MAICÁ. Disponível em: <http://danielmaica.no.comunidades.net/a-historia-do-bobo-da-corte#:~:text=O%20pintor%20Ant%C3%B3nio%20Moro%20pintou,o%20%22O%20Buf%C3%A3o%20Calabacillas%22.> . Acesso em: 13 de abril de 2021.
BEZERRA, Juliana. Tratado de Madri. TODAMATÉRIA. Disponível em: <https://www.todamateria.com.br/tratado-de-madri/.> . Acesso em: 13 de abril de 2021.
CARVALHO, Leandro. "Colonização do Brasil "; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/historiab/colonizacao-brasil.htm. Acesso em 12 de abril de 2021.
EVANGELHO DE SÃO MATEUS. Bíblia Online. Mateus 15:21-39. Disponível em: <https://www.bibliaonline.com.br/nvi/mt/15/21-39>. Acesso em 12 de abril de 2021.
BEZERRA, Juliana. Tratado de Madri. TODAMATÉRIA. Disponível em: < https://www.todamateria.com.br/a-vinda-da-familia-real-para-o-brasil/.> . Acesso em: 13 de abril de 2021.

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