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EDUCAÇÃO ESPECIAL Professora Vera Ponciano 52 5 PÚBLICO-ALVO DA EDUCAÇÃO ESPECIAL As ações inclusivas envolvem a possibilidade de atuar para desenvolver uma educação de qualidade que dê conta ao atendimento à diversidade. Nesse bloco abordaremos os alunos com deficiência intelectual, com altas habilidades\superdotação e alunos com transtorno global do desenvolvimento, além de trazer programas e softwares que auxiliam a construção de estratégias e atividades para desenvolvimento do currículo. 5.1 Alunos com deficiência intelectual e altas habilidades\superdotação Vamos iniciar com o objetivo de reconhecer o conceito e como são caracterizados os alunos com deficiência intelectual e altas habilidades/superdotação. Iniciamos pela caracterização de deficiência intelectual, que como podemos verificar na imagem, sofre alterações ao longo do tempo. A deficiência intelectual, de acordo com a Associação Americana de Retardo Mental (AAMR, 2002) e o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM – IV/2002), é reconhecida pela redução notável do funcionamento intelectual significativamente abaixo da média e limitações em, pelo menos, dois aspectos do funcionamento adaptativo nas áreas: comunicação, cuidados pessoais, competência doméstica, habilidades sociais, utilização dos recursos comunitários, autonomia, saúde e segurança, aptidões escolares, lazer e trabalho. A deficiência não é mais entendida como um conceito isolado, mas é vista sobre um prisma ecológico, em que se considera não só as capacidades (funcionamento da inteligência mais as capacidades adaptativas), mas também como a pessoa funciona nos diferentes ambientes em 53 que vive (casa, escola, trabalho, comunidade) e, ainda, a necessidade de apoio que ela necessita nas diversas áreas, em termos de quantidade e qualidade. O conceito de superdotados\altas habilidades significa um notável desempenho e/ou elevada potencialidade em qualquer dos seguintes aspectos, isolados ou combinados: capacidade intelectual, aptidão acadêmica ou específica (por exemplo, aptidão matemática), pensamento criativo e produtivo, capacidade de liderança, talento para artes visuais, artes dramáticas e música e capacidade psicomotora. (Brasil, 1995) Atualmente, a Resolução CNE/CEB Nº 2\2001 concebe os educandos com altas habilidades/superdotação como tendo grande facilidade de aprendizagem, levando-os a dominar rapidamente conceitos, procedimentos e atitudes. Assim, apresentam condições de aprofundar e enriquecer conteúdos escolares. A inteligência foi tida por muito tempo como conceito único e unidimensional (QI), medida por Testes de Inteligência e representada por tabelas numéricas e que diziam respeito, em sua maior parte, à inteligência lógico-matemática. Ao longo do tempo ela vai sofrendo revisões, passando a ser considerada, dentro da perspectiva de Gardner, como “um potencial biopsicológico para processar informações que pode ser ativado num cenário cultural para solucionar problemas ou criar produtos que sejam valorizados numa cultura” (Gardner, 1995). 54 Gardner (1983) postula a variedade da inteligência e propõe sete inteligências: lógico- matemática, linguística, musical, corporal cinestésica, espacial, intrapessoal e interpessoal- existencial, que não são hierarquizadas. Por meio da caracterização da inteligência assumia-se que uma pessoa tivesse altas habilidades\superdotação, ora por um conceito mais restrito, ora mais amplo. Atualmente, um dos conceitos mais aceitos sobre altas habilidades\superdotação é o conceito dos três anéis, ou modelo triádico de Renzulli. Pelo modelo é preciso considerar que as altas habilidades\superdotação caracterizam-se pela capacidade acima da média, tanto em relação às competências gerais quanto em relação às específicas. Assim, um aluno com altas habilidades\superdotação vai apresentar características marcadas pelo modelo, no entanto não de forma elevada em todos, pois pode haver variações na apresentação de cada um. Não se pode dizer que isso também não se modifique ao longo da trajetória escolar. Ações assertivas para o trabalho com o aluno com altas habilidades\superdotação requerem que se trabalhe com ele no espaço da escola de uma forma integrada. 5.2 Ações para alunos com altas habilidades Para o atendimento do aluno com altas habilidades\superdotação é necessário que se conheça as possibilidades que se apresentam, buscando referência na legislação e na literatura sobre o assunto, o que permitirá lançar luzes sobre os programas e técnicas que podem auxiliar a desenvolver talentos. A escola precisa organizar-se para identificar os alunos com altas habilidades\superdotação, compreendendo o modelo triádico que trará elementos que permitem um olhar mais atento para alunos que demonstram capacidade acima da média em uma ou mais áreas do conhecimento, envolvimento com a tarefa e criatividade. Uma escola inclusiva acredita na possibilidade de ter alunos com altas habilidades\superdotação e investe para que seja dado atendimento assertivo no intuito de desenvolver suas capacidades. Uma escola que tem essa perspectiva inclui em seu projeto pedagógico e regimento escolar ações que possibilitem esse atendimento, prevendo inclusive a possibilidade de matrícula do aluno em série compatível com seu desempenho escolar, compreende que deve cumprir a legislação no que se refere: ao atendimento suplementar para aprofundar e/ou enriquecer o currículo; à aceleração/avanço, regulamentados pelos respectivos sistemas de ensino, permitindo, inclusive, a conclusão da Educação Básica em menor tempo; incorpora o registro do procedimento adotado em ata da escola e no dossiê do aluno, para que sirva de suporte às ações com essa população. 55 Renzulli e Weat (2000) propõem quatro princípios básicos para o atendimento do aluno com altas habilidades\superdotação: cada aprendiz é único; a aprendizagem é mais efetiva se os alunos gostam do que estão fazendo; a aprendizagem é mais significativa dentro de um contexto de problemas reais e atuais; a aquisição do conhecimento e o desenvolvimento das habilidades de pensamento ocorrem por meio da instrução formal. Deste modo vê-se que o direcionamento do processo de ensino e aprendizagem é fundamental, o que implica o compromisso e postura do professor, as estratégias de ensino; as atividades e o currículo que é desenvolvido. Muito pode ser realizado para que o atendimento se dê o mais próximo possível do ideal, mas é preciso orientar-se para que isso ocorra, e atualmente alguns programas podem contribuir para que os professores, mesmo da classe comum, possam aperfeiçoar para identificar e atender esses alunos. Alguns programas são particularmente favorecedores dessa perspectiva inclusiva desse público: • Programa de resolução criativa de problemas; • Novas direções em criatividade; • Future Problem Solving Program; • Programas: MAIS, Odisseia e PEDAIS; • Programa de Treinamento de Criatividade para professores. É também um bom instrumental o livro: Toc toc... plim plim! Além dos programas, é relevante que se disponha de técnicas que auxiliam neste empreendimento para incluir todos os alunos. Vejamos alguns exemplos: • Tempestade de ideias; • Combinações forçadas; • Listagem de atributos; • Desenvolver senso de humor. Todas estas técnicas, isoladas ou em conjunto, permitem aflorar a criatividade, induz a uma variedade de resposta,permite que essa variabilidade seja profícua, pois tende-se a aceitar com maior flexibilidade respostas inusitadas e o pensamento divergente. 56 5.3 Alunos com transtorno global do desenvolvimento Para garantir que todos os alunos possam desenvolver-se de acordo com suas potencialidades, é preciso que nenhum público fique de fora, o que torna relevante reconhecer quem são os alunos com transtornos globais do desenvolvimento, quais são seus direitos e a lei que os protege. Os alunos com transtorno global do desenvolvimento TGD têm os mesmos direitos e benefícios do ponto de vista legal que os alunos com deficiência. Em 2012 foi promulgada a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, por meio da Lei 12.764/2012, que será um marco muito significativo para satisfazer as necessidades básicas de todos que são considerados inseridos no espectro autista. O transtorno global do desenvolvimento é um grupo de transtornos caracterizados por alterações qualitativas das interações sociais recíprocas e modalidades de comunicação e por um repertório de interesses e atividades restritos, estereotipado e repetitivo, caracterizados por alterações qualitativas que se constituem como indicador global do funcionamento do sujeito, em todas as ocasiões, o que acarreta dificuldade de comunicação por deficiência no domínio da linguagem e no uso da imaginação para lidar com jogos simbólicos; dificuldade de socialização e uso de padrão de comportamento restritivo e repetitivo. O CID-10 e mais recentemente a DSM-5 têm sido os instrumentos mais utilizados para caracterizar essas pessoas, porém na educação deve-se olhar isso tudo com cautela, visto que o uso destas classificações tem propósitos distintos do propósito educacional, que deve apoiar-se em avaliação pedagógica. Isso faz com que se reflita sobre como eliminar efeitos secundários de dano biológico primário e provoca necessidade de entendimento: da tríade de prejuízos; de diferentes perfis e graus de severidade; dos diferentes cursos de desenvolvimento. SAIBA MAIS O site “Entendendo o autismo” traz informações pertinentes para compreender o autismo, as definições, as características e ações para intervenção. Disponível em: <http://entendendoautismo.Com.Br/artigo/avaliacao-transtorno-espectro- autista-tea/>. Acesso em 04 jul. 2018. 5.4 Programas e ações para alunos com transtorno global do desenvolvimento O diagnóstico dos alunos com transtorno global de desenvolvimento (autismo) é clínico, isto é, baseia-se na observação e na história da pessoa, mas para ampliar a possibilidade de atendimento foram criados instrumentos que procuram sistematizar a maneira de diagnosticá- 57 lo. Essas tentativas de padronizar o diagnóstico utilizam duas fontes principais de informação: a) descrições dos pais sobre o curso do desenvolvimento e padrões de comportamentos atuais do indivíduo; b) informações a partir da observação direta do comportamento do indivíduo. Os professores também podem se beneficiar da observação e descrição do comportamento e do desenvolvimento e dos padrões comportamentais apresentados por esses alunos. Há também muitos programas que podem contribuir com o atendimento do aluno com TGD\TEA, que em geral são utilizados nos serviços de atendimento especializados, mas que podem contribuir com o professor em sala de aula comum, não para sua aplicação na íntegra, mas para compreender os seus princípios, visto que terá de estruturar o ambiente e atividades compatíveis para o atendimento desses alunos. A imagem abaixo exemplifica alguns desses programas e faremos uma abordagem sucinta em alguns deles, que são os mais usuais aqui no Brasil. Entre os métodos mais usuais podemos citar o ABA (Applied Behavior Analysis) - Análise do Comportamento Aplicada, que é uma abordagem baseada na análise do comportamento. As técnicas de modificação comportamental são eficazes, principalmente em casos mais graves de autismo. Na abordagem atua-se como educador, uma vez que o tratamento envolve um processo abrangente e estruturado de ensino-aprendizagem ou reaprendizagem, com vistas a integrar o autista à comunidade. As atividades envolvem as situações de vivência nos diferentes ambientes. Outro método é o TEACCH, que foi desenvolvido na década de sessenta nos Estados Unidos e utiliza-se de uma avaliação denominada PEP-R (Perfil Psicoeducacional Revisado), que determina os pontos fortes, de maior interesse e as dificuldades, para, a partir desses pontos, montar um programa individualizado. O TEACCH se baseia na adaptação do ambiente para facilitar a compreensão da criança em relação ao seu local de trabalho e ao que se espera dela, para torná-la o mais independente possível, por meio da organização do ambiente e das tarefas de cada aluno. 58 5.5 Plataformas e softwares educativos para inclusão de alunos com deficiência intelectual Para atender o aluno com deficiência intelectual é preciso compreender que o contato com o objeto, com o professor ou com os colegas mais experientes não é suficiente para desenvolver as funções psicológicas superiores. A aprendizagem dos alunos com deficiência, por vezes, necessita de adequações metodológicas. E isso deve levar em conta a ruptura com os padrões existentes de ensino, permitindo a ampliação de estratégias diversificadas que acabam por beneficiar a aprendizagem de todos os alunos. Nesse processo o professor será o mediador, aquele que organiza o processo de ensino, propondo objetivos e estratégias, metodologias alternativas, técnicas, materiais específicos, redimensionamento do tempo e do espaço escolar, formas intencionais e não espontâneas de interação aluno-aluno. Embora muitos sejam as possibilidades de provocar a aprendizagem dos alunos, visto que não se deve empobrecer a possibilidade de o aluno com deficiência desenvolver as funções psicológicas superiores, conforme proposto por Vygosky (1994), vamos apresentar alguns programas que podem servir como ferramentas para o desenvolvimento desse aluno. Alguns programas foram especificamente programados para esse processo, mas nem sempre sob uma mesma abordagem, outros embora não tenham sido desenvolvidos para este fim específico, podem apoiar a aprendizagem. São eles o software Mestre e Mestre Libras, desenvolvidos na UFSCar, que têm por base a equivalência de estímulos; aplicativos disponibilizados na internet que permitem trabalhos direcionados para esse público; aplicativo específico para atuar com crianças com síndrome de Down; software Participar, que auxilia na alfabetização de crianças, jovens e adultos com deficiência intelectual. Há também os aplicativos que não são específicos para o trabalho com a população que tem deficiência, mas que podem também ser utilizados por eles: Zebran (auxilia na alfabetização e matemática), Compris (jogos educativos), JClick (plataforma que permite programação autoral de atividades nas diferentes áreas do currículo). Como se vê, há uma gama relevante de possibilidades para atuar com o deficiente intelectual e com os demais alunos, o que pode contribuir para um atendimento mais assertivo e dinâmico, capaz de desenvolver potencialidades. Conclusão Vimos que uma escola inclusiva deve ser competente em buscar respostas para atendimento de todos os seus alunos, e que a compreensão de cada um dos públicos é fundamental, não para classificá-los, mas para entender a natureza de suas necessidades, e que há disponível uma série de recursos, inclusive tecnológicos, que propiciam desenvolver programações para necessidades mais abrangentes ou mais específicas. Assim, cabe à escola e aos seus profissionais buscar meios para cumprir com o propósito de construira educação para todos.