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SUPERDOTAÇÃO E ALTAS HABILIDADES Prezado(a) aluno(a), O Grupo Educacional FAVENI reafirma o compromisso de oferecer uma formação de excelência, reconhecendo que a modalidade de estudo confere ao aluno autonomia e flexibilidade para organizar seus estudos de acordo com suas necessidades e rotina. Nesse contexto, é fundamental que o estudante estabeleça uma rotina de estudos disciplinada e consistente, reservando horários para leitura, reflexão e realização das avaliações propostas. Reiteramos ainda que o ambiente virtual é equiparável ao presencial no que concerne à troca de conhecimentos e esclarecimento de dúvidas. Assim como em sala de aula, onde a interação acontece espontaneamente, no semipresencial o diálogo deve acontecer por meio dos canais disponíveis no Portal do Aluno e nos encontros ao polo. Incentivamos você a utilizar esses recursos para questionar, esclarecer dúvidas e aprofundar seu entendimento sobre os conteúdos abordados, pois suas perguntas serão respondidas de forma ágil e eficiente pelo nosso suporte. Lembre-se de que a autonomia no processo de aprendizagem implica também responsabilidade. A gestão do seu tempo, o cumprimento dos prazos e a organização das tarefas são essenciais para o seu crescimento acadêmico. Aproveite a flexibilidade que o curso oferece, estabelecendo uma rotina compatível com seus compromissos pessoais e profissionais. Desejamos sucesso em sua jornada de estudos e reforçamos nossa disposição em apoiá-lo(a) na construção de um aprendizado sólido e significativo. Bons estudos! 1 CONTEXTO HISTÓRICO DAS ALTAS HABILIDADES A AH/SD é caracterizada por alto potencial em termos de talentos, habilidades e aptidões, sendo sua característica mais importante o alto desempenho em várias áreas do conhecimento, incluindo matemática, artes e literatura. A capacidade psicomotora e intelectual dessas pessoas extremamente talentosas, as diferencia das demais. Falar sobre HA/SD ainda é novidade, esta área exige pesquisa, compreensão e diálogo nos mais diversos ambientes. Seja acadêmico ou cultural, precisamos avançar cada vez mais nessa conversa. E para orientar os profissionais que trabalham diretamente com esse público, o Ministério da Educação (MEC) publicou uma cartilha especial com orientações específicas. (BRASIL, 2008). O MEC tem implementado iniciativas com foco no Atendimento Educacional Especial (AEE), que contempla também as pessoas com HA/SD. Este grupo é o público-alvo da educação especial e necessita de reconhecimento, valorização e encorajamento das suas características especiais. São considerados superdotados todos os alunos que apresentam resultados significativos ou alto potencial em qualquer um dos seguintes aspectos. De acordo Fleith (2006), dessa maneira penso que acontece uma continuidade no texto (observar e avaliar) “[…] capacidade intelectual, aptidão acadêmica ou específica (por exemplo, aptidão matemática), pensamento criativo e produtivo, capacidade de liderança, talento para artes visuais, artes dramáticas e música e capacidade psicomotora” A Política Nacional de Educação Especial na perspectiva da educação inclusiva (BRASIL, 2008) reconhece que os alunos com HA/DS: “[...] também demonstra alta criatividade, grande comprometimento em aprender e concluir tarefas em áreas de seus interesses. A nomenclatura Altas habilidades/ superdotação aparece com essa definição em 1994 com a Política Nacional De Educação Especial. Porém, não é novidade encontrar na literatura diversos títulos como supernormais, bem-dotados, talentosos, dotados, até chegar à nomenclatura atual. Somente em 2001, com a resolução nº 2 do CNE/CEB e com as Diretrizes Nacionais Para A Educação Especial na Educação Básica, que a AH/SD foi considerada como características de pessoas com muita facilidade em aprender, o que as levam adquirir rapidamente conceitos, procedimentos e atitudes" (BRASIL, 2001). 1.1 Panorama Histórico no Brasil De acordo com Freitas (2017) no contexto brasileiro houve o desenvolvimento de ações importantes para o processo de reconhecimento da condição e da inclusão educacional das pessoas com Altas Habilidades. Porém, conforme Delou (2007) a educação de superdotados no Brasil se caracterizou pela inconstância de ações governamentais e não governamentais. Em 1924, testes de inteligência americanos foram validados nas cidades de Recife e do Rio de Janeiro. De acordo com Freitas (2017) entre 1929 e 1931, o Instituto de Psicologia de Recife realizou experiências pioneiras, aplicando diferentes testes para identificar alunos com AH/SD. No Brasil, o termo Altas Habilidades traduzido de “high ability” (em inglês; altas capacidades, em espanhol) é também muito utilizado nos países europeus. É utilizado na legislação educacional e na produção científica, como sinônimo de superdotação e em conjunto com este último substantivo. Porém, até o início deste século a utilização dos termos Altas Habilidades e Superdotação dividia os pesquisadores no Brasil. Os que defendiam o termo Altas Habilidades afirmavam que o prefixo “super” trazia a ideia de que a pessoa precisaria ser excelente ou melhor em tudo. Conforme Freitas (2017), isto interfere negativamente no contexto escolar, pois os professores do ensino regular passam a ser mais exigentes para perceber e reconhecer as características inerentes desta condição e desta forma encaminhá-los ATENÇÃO! AH/SD e síndrome de savant não são sinônimos. Na síndrome de savant, a principal característica é uma habilidade excepcional em determinada área com déficit intelectual em outras áreas. A síndrome de savant é um distúrbio psiquiátrico relacionado a um desiquilíbrio no intelecto do sujeito e pode ser encontrada em alguns casos clínicos de autismo. para posterior identificação. Sendo assim, prevaleceria o alto desempenho de modo geral como principal fator na identificação dos estudantes superdotados. Já os que são favoráveis ao termo Superdotação ficam receosos de que a terminologia Altas Habilidades pudesse levar a uma identificação equivocada da condição, pois poderia revelar somente a capacidade acima da média deixando em segundo plano os demais indicadores como criatividade e envolvimento com a tarefa. Entretanto, como política pública referente às AH/SD, Teixeira (2018), afirma que no ano de 2005 a Secretaria de Educação Especial do MEC, em parceria com a UNESCO, implantou os Núcleos de Atividades em Altas Habilidades/Superdotação (NAAH/S) nas capitais dos 27 estados brasileiros. Esses Núcleos regidos pelas Secretarias de Estado da Educação possuem uma unidade destinada para o atendimento a cada parte envolvida com as AH/SD (aluno, professor e família) e são a primeira ação real de implantação de uma Política Educacional para os alunos com AH/SD. Em 2008, um importante fato para consolidação da inclusão no sistema educacional foi a publicação da Política Nacional da Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (PNEEPEI), (BRASIL, 2008). Essa política está atualmente em vigor, após a revogação da PNEE (Brasil, 2020). Em 2011, houve a publicação do Decreto 7611/2011 o qual delibera sobre a Educação Especial e o atendimento educacional especializado, visando garantir um sistema educacional inclusivo em todos os níveis de ensino. Esse Decreto considera as AH/SD como público-alvo da Educação Especial determinando em seu Art. 2º § 1º, item II que o atendimento educacional especializado deve ser suplementar à formação de estudantes com AH/SD. Conforme o panorama dos aspectos históricos descritos é possível afirmar que as Altas Habilidades/Superdotação apresentaram a predominância do enfoque acadêmico e artístico na percepção, identificação e intervenção com as pessoas que apresentavam essa condiçãoFigura 5. Figura 5. Modelo de plano de atendimento educacional especializado. Fonte: Delou e Erick (2012). O planejamento como ponto de partida, vislumbrando a chegada “[…] é o processo contínuo e dinâmico de reflexão, de tomada de decisão, colocação em prática e de acompanhamento” (VASCONCELLOS, 2014, p. 56). Isso significa que ações bem-planejadas de enriquecimento curricular, aceleração de estudos ou adaptação curricular servirão como um mapa seguro para executar, elaborar e avaliar todo o processo de ensino do aluno com AH/SD, garantindo-lhes todos os direitos de uma trajetória escolar de êxitos. 6.1 Construção do senso ético envolvendo os alunos com altas habilidades/superdotação Alunos diagnosticados com AH/SD enfrentam condições e situações complexas, muitas vezes inesperadas, assim como sua família. A família, muitas vezes, não sabe como agir, estimula ou inibe determinados comportamentos e o próprio potencial de seu filho. Além disso, frequentemente enfrentam preconceito, estereotipia, hostilidade, apoio limitado, falta de informações sobre como lidar com a criança, realidade confusa, dentre outras. Essas situações podem levar ao isolamento da família, vergonha, desespero, desconhecimento e revolta. Cabe tanto à família quanto a escola e a sociedade de uma forma geral colaborar para a construção de uma rede de proteção que possa auxiliar este aluno em seu desenvolvimento, envolvendo, principalmente: ética, moral, acolhimento, inclusão, envolvimento, diálogo e respeito (MARQUES, 2017). Inicialmente, a família pode ter dificuldades em compreender o comportamento da criança. Por isso, faz-se necessário o debate contínuo e permanente com a equipe que prestará atendimento ao aluno com AH/SD, com a escola e com a sociedade de uma forma geral. Por menor que seja a estrutura familiar, o aluno estará sempre cercado por seus parentes, escola, comunidade, amigos, colegas, vizinhos e profissionais, incluindo os professores. Essa rede de apoio configura-se como elemento importante no desenvolvimento de qualquer discente e vai colaborar para a construção do senso ético na sua construção enquanto ser humano. Quanto maior o suporte recebido pela família, menores serão os prejuízos sofridos por ele. Quanto maior o esclarecimento, o conhecimento, o debate, mais críticos nós ficamos e, com isso, maior será o conhecimento acumulado. Conhecimento gera conhecimento. A família é fonte de socialização primária; a escola e a sociedade, de socialização secundária. A criança tem contato direto e contínuo com o núcleo familiar desde o nascimento, e os valores sociais são compreendidos essencialmente a partir dessa convivência. De acordo com Fleith (2007): O processo de educar um filho envolve, portanto, o sistema de valores e crenças dos genitores que, por sua vez, influenciam suas ações e práticas, facilitando ou dificultando o alcance de determinados objetivos (valores) que os genitores almejam para suas crianças. (FLEITH, 2007, p. 22). É muito importante que a família compreenda que o desenvolvimento da criança é essencial, não o esconder ou superestimá-lo, mas respeitar o ritmo do seu desenvolvimento e o sentido moral que todas as relações implicam. Os alunos do AH/SD tendem a recorrer a sentimentos de solidão e isolamento, muitas vezes devido aos preconceitos e rótulos que enfrentam, e por não serem compreendidos no próprio ambiente familiar e escolar (Marques, 2017). Como a família, o professor deve entender como trabalhar com esse discente nas aulas, valorizar seu potencial e promover seu desenvolvimento. Além disso, deve buscar mediações nas relações sociais que ocorrem no cotidiano da escola e buscar sempre o sentido ético e moral nesses diálogos. Um aspecto essencial dessa convivência é a autonomia das relações da classe. Eticamente, autonomia, normas morais precisam ser debatidas com todas as partes interessadas, inclusive com os alunos com AH/SD. Segundo o Ministério da Educação: A virtude da escola democrática está em focalizar a qualidade das relações entre os agentes da instituição escolar. De fato, as relações sociais efetivamente vividas, experienciadas, são os melhores e mais poderosos ‘mestres’ em questão de moralidade. Para que servem belos discursos sobre o Bem, se as relações internas à escola são desrespeitosas? De que adianta raciocinar sobre a paz, se as relações vividas são violentas? E assim por diante. Então, o cuidado com a qualidade das relações interpessoais na escola é fundamental. Pesquisas psicológicas levam a essa conclusão. E mais ainda: relações de cooperação, de diálogo, levam à autonomia, ou seja, à capacidade de pensar, sem a coerção de alguma ‘autoridade’ inquestionável. (BRASIL, 1997b, p. 62-63). Assim, é primordial a implementação das relações, regras, cooperação e diálogo na sala de aula envolvendo todas as pessoas envolvidas no processo. 6.2 Ética no trabalho com alunos com altas habilidades/superdotação Há uma maneira de aproveitar ao máximo o trabalho com alunos com HA/SD em sala de aula: aprendizagem acelerada. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Brasil, 1996) permite a “[…] aceleração para concluir em menor tempo o programa escolar para superdotados”, isso deve ser feito avaliando o conhecimento do aluno na própria escola e documentando nos arquivos administrativos. Algumas opções de aceleramento incluem a promoção antecipada para a próxima série, estudos paralelos, como frequentar ensino fundamental e médio ao mesmo tempo. Muitas vezes, as discussões sobre educação especial se concentram em suas muitas deficiências, e não em seus pontos fortes. Portanto, cabe ao professor acompanhar e avaliar adequadamente o aluno AH/SD para que ele possa explorar todo potencial desse aluno. Esta avaliação deve ser baseada em informações que vieram da família e da escola. Isso permite que os professores analisem os alunos de acordo com três características definidas pelo Ministério da Educação que é o comprometimento acima da média com o a tarefa, habilidade superior comparada a das demais crianças e criatividade. É interessante realizar encontros quinzenais com os alunos e seus familiares para que possam ser discutidos ações para: [...] desenvolver atividades de enriquecimento curricular na área de interesse dos alunos e tentando visualizar nos discentes os traços de altas habilidades/ superdotação, que muitas vezes estão escondidos. [Isso acontece porque] alguns alunos têm dificuldades de apresentar as características de altas habilidades\superdotação por falta de ambientes propícios para despertá-las (PAIVA, 2015, p. 15). Infelizmente, muitas vezes, o comportamento desses alunos é interpretado erroneamente como hiperativos ou outros transtornos quando não valorizadas suas habilidades (PAIVA, 2015, p. 15). 7 PLANEJAMENTO E PRÁTICAS PEDAGÓGICAS PARA ALUNOS COM ALTAS HABILIDADES/SUPERDOTAÇÃO O primeiro passo para o planejamento é o diagnóstico, pois a pessoa com AH/SD não apresenta um conjunto padrão de características e necessidades. Cada aluno é único e, por isso, é necessário conhecê-lo em todas as suas dimensões, considerando suas relações com a aprendizagem, seus vínculos familiares e sociais, aspectos cognitivos e linguagem. Na área das AH/SD o processo ideal é chamado de identificação multidimensional, que considera que o aluno apresenta diversas características. Pode, por exemplo, ter potencial elevado na área acadêmica ou na área criativa/ produtiva e pode ter alto desempenho nas diferentes inteligências de Gardner (1994). Além disso, algumas características são influenciadas pelo contexto em que o aluno está. Por isso, considera-se também a quantidade de estímulo, positivo ou negativo, que o aluno teve e os aspectos emocionais. Uma vez identificadas as características do aluno, inicia-se a fase de planejamento e elaboraçãodo plano de desenvolvimento individualizado (PDI). Neste instrumento de organização do trabalho pedagógico, estarão descritas as melhores formas de enriquecimento para cada aluno. Todo profissional do AEE deve elaborá- lo, conforme previsto na legislação brasileira (BRASIL, 2009). O currículo é o cerne da organização do trabalho pedagógico. No contexto da educação inclusiva, o currículo não pode ser visto como uma sequência de conteúdos rígida a ser cumprida em um período determinado. O aluno com AH/SD tem diversos amparos legais para que os professores e a equipe pedagógica flexibilizem o currículo e realizem adaptações, como priorizar determinado conteúdo e eliminar outro, modificar a sequência, agrupar e compactar conteúdo e modificar instrumentos e critérios de avaliação. Além disso, como mencionado anteriormente, o aluno e o professor têm subsídio da legislação para realizar aceleração ou fazer modificações em relação ao cronograma regular. Todas estas modificações curriculares devem estar descritas em detalhes no PPP. O enriquecimento intracurricular engloba ações que modificam, flexibilizam e diversificam o que, quando e como o aluno será ensinado ou avaliado. As modificações são realizadas pelo professor do AEE e pelo professor regente apoiados pela equipe pedagógica em todas as disciplinas (FREITAS; PÉREZ, 2012). Renzulli (2004) aponta três técnicas de modificações curriculares. Todas essas estratégias visam proporcionar ao aluno um papel ativo na aprendizagem, um ensino colaborativo pela via da problematização e da descoberta. A primeira se refere à compactação curricular. Freitas e Pérez (2012) salientam que a compactação pode se dar por diferentes formas de aceleração para concluir em menor tempo o programa de estudos, como pesquisas individuais ou em grupos de pesquisa, aprendizagem por pares e atividades extraclasse. A segunda técnica é a análise de livros didáticos e a eliminação de conteúdos repetitivos, que objetiva remover repetições e conteúdo que o aluno já domina. Dessa forma, sobra mais tempo para o enriquecimento curricular. Renzulli (2004, p. 114) afirma que “[…] este modelo de diferenciação do currículo focaliza o uso de conceitos representativos, temas, padrões, estruturas organizacionais e métodos de investigação, para captar a essência de um assunto, tanto nos campos tradicionais do conhecimento, quanto em estudos interdisciplinares”. A terceira técnica de enriquecimento intracurricular é a introdução de conteúdo mais aprofundado no currículo regular. Há diferentes estratégias para atingir a finalidade de aprofundamento, como a colaboração de pares ou outras pessoas da escola que tenham interesse similar ao do aluno, chamados de clusters ou agrupamentos de enriquecimento. Podem também ser realizadas atividades extraclasse, como visitas a centros de pesquisa, laboratórios, museus, ateliês e exposições, além de participação em aulas em universidades, pesquisas na internet, participação em projetos, tutorias e mentorias (FREITAS; PÉREZ, 2012). As adaptações curriculares também fazem parte do enriquecimento intracurricular. No caso do aluno com AH/SD, são as modificações na maneira de ensinar, avaliar e distribuir o conteúdo alterando objetivos, critérios e instrumentos de avaliação e introduzindo atividades complementares. De forma simplista, poderíamos entender que o enriquecimento extracurricular é realizado fora da sala de aula ou da SRM. No entanto, vai muito além disso. Ele suplementa o currículo com “[…] um conjunto sistemático de estratégias idealizadas para promover o engajamento ativo na aprendizagem”, na sala de aula e na sala de recursos multifuncional (RENZULLI, 2004, p. 114). No Brasil, as estratégias para enriquecimento curricular consistem: […] na organização de práticas pedagógicas exploratórias suplementares ao currículo comum, que objetivam o aprofundamento e expansão nas diversas áreas do conhecimento. Tais estratégias podem ser efetivadas por meio do desenvolvimento de habilidades, da articulação dos serviços realizados na escola, na comunidade, nas instituições de educação superior, da prática da pesquisa e desenvolvimento de produtos; da proposição e o desenvolvimento de projetos de trabalho no âmbito da escola, com temáticas diversificadas, como artes, esporte, ciências e outras (BRASIL, 2014, p. 4). Uma forma estruturada de promover o enriquecimento extracurricular é aquela que se baseia no modelo triádico de enriquecimento, desenvolvido por Renzulli e Reis (1997). Este modelo abrange quatro níveis de atividades, que vão do I ao III, sendo ofertado a todos os alunos da escola e não somente àqueles que possuem AH/SD, o que o torna mais inclusivo. As atividades do tipo I objetivam detectar os interesses dos alunos por meio de programações de experiências e atividades diferenciadas em temas diversos que não estão no currículo. As atividades do tipo II partem do que foi descoberto nas atividades do tipo I. Assim, conhecidos os interesses gerais, desenvolvem-se atividades específicas. Esse enriquecimento geral do tipo II inclui o desenvolvimento de (a) pensamento criativo e solução de problemas e processos afetivos; (b) uma ampla variedade de habilidades de aprendizagem específicas do tipo como aprender; (c) habilidades no uso apropriado de pesquisa de nível avançado e materiais de referência e (d) habilidades de comunicação escrita, oral e visual (RENZULLI, 2014, p. 546). As atividades do tipo III correspondem a uma parte mais prática de investigação de problemas, produção de artes, elaboração de produtos. Podem ser realizadas de modo individual ou coletivo. O aluno se torna um “pesquisador de primeira categoria”, nas palavras de Renzulli (2014). Atividades do tipo III seriam, por exemplo, elaboração de um blog jornalístico, publicação, criação de um espetáculo de dança, teatro ou música. Até aqui expomos o modelo triádico de desenvolvimento, composto por três elementos. Contudo, Freitas e Pérez (2012) acrescentaram atividades do tipo IV ao observar algumas salas de recursos em diferentes estados brasileiros. São atividades que derivam daquelas do tipo III, mas que continuam evoluindo. São aquelas “[…] atividades de produção criativa concreta em nível profissional especializado, que geram produtos” (FREITAS; PÉREZ, 2012, p. 77). Outra forma de enriquecimento extracurricular é o ensino colaborativo, que corresponde aos tipos II e III de Renzulli (2014) e orienta a Resolução n. 4 do Conselho Nacional de Educação (BRASIL, 2009). O ensino colaborativo prevê que o AEE pode ser realizado em “[…] interface com os núcleos de atividades para altas habilidades/superdotação e com as instituições de ensino superior e institutos voltados ao desenvolvimento e promoção de pesquisa, das artes e dos esportes” (BRASIL, 2009, p. 2). É a implantação de programas de parcerias com universidades, centros de pesquisa e desenvolvimento, instituições promotoras de esportes, cultura e artes. Dessa forma, o aluno enriquece o currículo em um ambiente externo que vai proporcionar a ele o desenvolvimento de habilidades específicas em suas áreas potenciais e de interesse. Outro aspecto que não pode ser negligenciado no AEE é uma orientação para as necessidades emocionais e afetivas do aluno. Alguns problemas estão associados a conflitos que se iniciam porque os professores não compreendem esse aspecto. As ações humanas planejadas têm chance muito maior de obter sucesso. Por exemplo, uma viagem bem-planejada tem menores chances de acabar em situações inesperadas. Do mesmo modo ocorre com as práticas na SRM. As atividades planejadas no AEE para o aluno com AH/SD podem ser comparadas com uma viagem. É uma viagem ao conhecimento aprofundado e lapidado, o que gera uma expectativa muito positiva para o aluno. Por isso é tão importante planejar, “[…] traçar, projetar, programar,elaborar um roteiro para empreender uma viagem de conhecimento, de interação, de experiências múltiplas e significativas para/com o grupo” (OSTETTO, 2000, p. 177). O planejamento deve ser elaborado considerando as opiniões, desejos, aspirações de todos os envolvidos no processo: professores, pais, pedagogos e, principalmente, o aluno. O planejamento do ensino precisa da “[…] atuação concreta dos educadores no cotidiano do seu trabalho pedagógico, envolvendo todas as suas ações e situações, o tempo todo, envolvendo a permanente interação entre os educadores e entre os próprios educandos” (FUSARI, 1989, p. 10). Sendo democrático, o planejamento tem mais chances de dar certo. Os envolvidos na sua elaboração estarão mais motivados a executá-lo, pois suas opiniões e anseios foram considerados. A ação educativa é baseada em atividades práticas, mas o professor deve ter capacidade reflexiva para preparar, aplicar e avaliar a sua intervenção. Uma intervenção estruturada com reflexão na ação traz estes elementos dispostos temporalmente: identificação e planejamento ocorrem antes, intervenção pedagógica ocorre durante, e avaliação ocorre depois. Planejamento, intervenção e avaliação são interdependentes. Toda essa linha de trabalho depende de uma reflexão constante para observar o que precisa ser aprimorado, o que não atingiu a motivação do aluno, o que precisa ser repetido. Dessa forma, observa-se se o planejamento necessita ser revisto ou se atingiu seus objetivos. Após aplicar os instrumentos de diagnóstico, compostos principalmente por entrevista com pais e aluno, realização de testes específicos, avaliação do portfólio do aluno e sua trajetória escolar, inicia-se o planejamento. Seguindo uma tendência orientada por instâncias que regulam a educação especial e inclusiva, a fase de planejamento compreende a elaboração do PDI, que contém as necessárias modificações ou adaptações curriculares para o desenvolvimento escolar do aluno, considerando as suas especificidades. 7.1 Práticas pedagógicas Para a aprendizagem ser significativa, o aluno deve conseguir estabelecer relação entre os conhecimentos escolares e os conhecimentos que ele já tem, principalmente, com o nível de profundidades desses conhecimentos. É muito importante que as práticas de ensino para o aluno com AH/SD: ➢ Estimulem e reconheçam as contribuições pessoais; ➢ Introduzam atividades em que o aluno possa usar o corpo todo, e não apenas o raciocínio; ➢ Ofereçam situações concretas que proponham desafios; ➢ Exercitem e estimulem o trabalho cooperativo; ➢ Proporcionem atividades em visão integrada com várias áreas do conhecimento humano. O professor assume, nesse contexto, o papel de mediador entre o sujeito e o objeto de conhecimento, criando todas as possibilidades para que o aluno chegue às fontes do conhecimento que estão à sua disposição na sociedade (NADAL, 2007). Segundo Gasparin (2002), ao atuar como mediador no processo de ensino- aprendizagem, o professor possibilita o contato dos alunos com a realidade científica em um contexto de significação. Isso acontece porque ele atua resumindo, valorizando e interpretando a informação a transmitir e, no caso do aluno com AH/SD, enriquecendo o conteúdo a ser trabalhado. Práticas pedagógicas que se adequam ao aluno com AH/SD são denominadas metodologias ativas. O aluno testa hipóteses e soluções, reelabora conceitos, faz generalizações, realiza experimentações, compreende o papel do erro como aprendizagem, constrói o saber a partir de conhecimentos prévios, trabalha em equipe e aprende descobrindo. Por meio da aprendizagem por descoberta, os alunos partem de questões a solucionar e, enquanto investigam as possíveis soluções, testam hipóteses sem que o professor dê a resposta, mas faz questionamentos para que o aluno tire suas conclusões. De acordo com Piaget, “As aquisições e descobertas daquele que o faz por si mesmo são muito mais produtivas” (PIAGET, 1976, p. 59-60). Desta forma, o aluno tem a oportunidade de perceber que há soluções melhores do que outras, e o professor assessora a atividade intervindo apenas quando necessário para evitar que as soluções sejam induzidas. Esse é um modo de incitar a curiosidade e fazê-lo se sentir desafiado. A educação problematizadora e a aprendizagem por descoberta são valiosas para o aluno com AH/SD, pois a aprendizagem hipotética vai além da simples memorização ou reprodução do conteúdo. Para contemplar essa proposta metodológica é importante organizar os conteúdos agrupando-os em unidades didáticas, centros de interesse, projetos, resoluções de problemas, estudos de caso e eixos temáticos. Projetos A metodologia de projetos nasceu questionando a compartimentalização do ensino e mostra um novo caminho de superação do paradigma disciplinar para um interdisciplinar ou transdisciplinar. Com esta metodologia há um tema gerador que perpassa todas as disciplinas. Nesta metodologia, o aluno com AH/SD será protagonista de seu saber pois aprenderá formulando problemas e investigando por meio de situações reais ou simuladas, atividades transversais, trabalho cooperativo, em envolvimento integrando conhecimento às práticas. Assim, o aluno faz a passagem dos conceitos cotidianos aos conceitos científicos. Uso da tecnologia Com a explosão de aplicativos dos mais variados temas e interesses, ferramentas de busca e programas, a tecnologia está alterando a maneira que consumimos, nos relacionamos, estudamos e ensinamos. Recursos mais aprofundados e dinâmicos estão disponíveis em qualquer tempo e espaço. Estamos na “era digital” ou “era da sociedade da informação/conhecimento”. As crianças e jovens, são nativos digitais. Certamente, a maioria dos alunos com AH/SD têm uma facilidade e um hiperfoco para interagir com todos os recursos tecnológicos disponíveis. Isso significa que as práticas pedagógicas precisam necessariamente ser mediadas pela tecnologia para atender a uma nova realidade: a da transformação da educação por meio da tecnologia. Confira a seguir algumas ferramentas que podem ser úteis. ➢ Mapas conceituais ou mentais: são ferramentas educacionais para estruturar conceitos ou ideias no formato de um diagrama. ➢ Blogs e sites: o aluno pode ser estimulado a criar blogs e sites, que podem também ser utilizados para mediar projetos didáticos. ➢ Áudios, trilhas e podcasts: há diversas ferramentas disponíveis na internet para que os alunos criem conteúdo em áudio. ➢ Criação e animação de vídeos e tutoriais: muitos aplicativos gratuitos permitem que o aluno crie seu material audiovisual. ➢ Ambientes virtuais: grandes sites produzidos para mediar a aprendizagem pela internet. ➢ Mobile learning: aprendizagem por dispositivos móveis, como celulares e tablets. ➢ Quizzes: aplicativos para celular que permitem a elaboração de exercícios para serem respondidos durante a aula. ➢ Youtube: permite acesso a materiais variados para enriquecer o conteúdo, além de possibilitar que o aluno publique suas produções e criações. A aprendizagem mediada pela tecnologia dialoga com o universo do aluno do século XXI, que não suporta mais atividades mecânicas, repetitivas e aulas expositivas. O professor, nesse novo universo, atua como mediador entre o aluno, o conhecimento e a tecnologia. Veja a seguir exemplos de plataformas que podem ajudar a enriquecer o conteúdo mediado pela tecnologia. ➢ Socrative: para elaborar questionários on-line e exercícios de qualquer tema, em qualquer nível e em diferentes formatos. O aluno com AH/ SD também pode criar seus próprios materiais. ➢ Powtoon: para criar animações (tanto o professor quanto o aluno). ➢ Mindmeister: para criar mapas mentais ou conceituais junto com o aluno. 7.2 Instrumentos avaliativos no processo de aprendizagem de alunos com altas habilidades/superdotaçãoSegundo Aporta e Lacerda (2018), em relação ao currículo para os alunos público-alvo do AEE nas salas comuns, o Conselho Nacional de Educação estabeleceu, na resolução CNE/CEB n º 2, de 11 de setembro de 2001, a proposta de flexibilizações e adaptações curriculares, instrumentalizando e deixando com sentido prático os conteúdos básicos, metodologias de ensino, recursos didáticos diferenciados e os processos de avaliação relacionados ao projeto pedagógico da escola (BRASIL, 2001). Como se pode perceber é um tanto generalista a referida resolução, mas, por outro lado, indica uma autonomia, já que prevê deixar com sentido prático a avaliação, desde que descritas no projeto pedagógico da escola. A LDB 9394/96, no art. 24, apresenta especificidades acerca da avaliação na educação básica: V – a verificação do rendimento escolar observará os seguintes critérios: a) avaliação contínua e cumulativa do desempenho do aluno, com prevalência dos aspectos qualitativos sobre os quantitativos e dos resultados ao longo do período sobre os de eventuais provas finais; b) possibilidade de aceleração de estudos para alunos com atraso escolar; c) possibilidade de avanço nos cursos e nas séries mediante verificação do aprendizado; d) aproveitamento de estudos concluídos com êxito; e) obrigatoriedade de estudos de recuperação, de preferência paralelos ao período letivo, para os casos de baixo rendimento escolar, a serem disciplinados pelas instituições de ensino em seus regimentos (BRASIL, 2005, p. 18). De modo geral, encontramos na Lei Magna da Educação elementos que poderão subsidiar o professor, o aluno e seus familiares para que a avaliação seja justa e democrática, e não um instrumento de marginalização. Conforme Delpretto e Zardo (2010), a avaliação na perspectiva da educação inclusiva: […] constitui-se basicamente de três momentos: o primeiro busca verificar os conhecimentos prévios dos alunos sobre os conteúdos a serem trabalhados pedagogicamente, suas hipóteses e referências de aprendizagem; o segundo se relaciona ao processo de aprendizagem, ao acompanhamento e aprofundamento dos temas estudados; e o terceiro momento diz respeito ao que os alunos aprenderam em relação à proposta inicial e as novas relações estabelecidas. (ZARDO, 2010, p. 22). Isso significa que a avaliação não ocorre apenas em momentos de verificação de aprendizagem. Ao iniciar um trabalho pedagógico com o aluno com AH/SD, deve- se observar e encontrar informações coletadas com o próprio aluno, conversando com ele, e também por meio de atividades pré-definidas. Desse modo, é possível descobrir quais são os seus domínios nas áreas do saber e quais são suas maneiras preferenciais de aprender, para que se possa planejar a ação educativa, evitando repetições ou desprezo de temas que fazem parte de seu repertório de interesses. A segunda fase é a própria aplicação das atividades para o aluno. É o momento de avaliar a ação educativa e o desempenho do aluno por meio de uma observação reflexiva. Anotam-se pontos essenciais sobre as atividades e conteúdos explorados. A linha de avaliação finaliza no terceiro momento, que é o de descoberta mais formal da aprendizagem. Ele deve estar relacionado com os objetivos estabelecidos no PDI. A formalização da avaliação pode se dar por diferentes instrumentos ou metodologias, que por sua vez têm relação com a concepção que se tem de avaliação. No contexto inclusivo, não cabe visar apenas à quantificação do aprendizado e determinar quem sabe e quem não sabe utilizando punição. Para Luckesi (2002): Avaliar é o ato de diagnosticar uma experiência, tendo em vista reorientá-la para produzir o melhor resultado possível; por isso, não é classificatória nem seletiva, ao contrário, é diagnóstica e inclusiva. […] O ato de avaliar tem seu foco na construção dos melhores resultados possíveis, enquanto o ato de examinar está centrado no julgamento de aprovação ou reprovação. (LUCKESI, 2002, p. 5). A avaliação na inclusão do aluno com AH/SD deve ser diagnóstica e inclusiva. Precisa considerar as especificidades de cada aluno e suas áreas potenciais: intelectual, acadêmica, psicomotora, liderança, artes. É um aluno que apresenta maior potencial acadêmico? Tem elevada criatividade? Ele apresenta dificuldades em alguma área do conhecimento escolar? Com essas perguntas, é preciso ajustar os instrumentos avaliativos, a fim de que se possa realmente obter informações acerca da aprendizagem do aluno. Isso vai além de descobrir o que ele sabe ou não sabe; engloba também como foi o seu processo de aprendizagem. A isso se dá o nome de avaliação qualitativa, em que o processo é mais importante que o resultado. Analisam- se o ponto de partida, a maneira como o aluno estava antes e como fica depois. Observam-se a evolução e os acréscimos nessa aprendizagem. Nesta concepção de avaliação, não há apenas um modelo-padrão a ser seguido para a avaliação, como as tradicionais provas, exames e trabalhos, tampouco em tempos pré-determinados. Podem ser inseridas autoavaliações, avaliações orais e gravadas, além de portfólios de atividades, que se constituem enquanto “[…] um procedimento de avaliação que permite aos alunos participar da formulação dos objetivos de sua aprendizagem e avaliar o seu progresso. Eles são, portanto, participantes ativos da avaliação, selecionando as melhores amostras de seu trabalho para incluí-las no portfólio” (VILLAS BOAS, 2004, p. 38). Outros instrumentos são os resultados de elaboração de produtos, produção de textos, de modo contínuo. Dessa forma, pode-se também avaliar a prática do professor. Um exemplo de avaliação é a produção de um livro de contos, um varal de poesias, a escrita de um artigo científico. Um exemplo de produto é a criação de um jogo, de um protótipo, de uma maquete. 8 RECURSOS TECNOLÓGICOS DESTINADOS AO ENSINO DE ALUNOS COM ALTAS HABILIDADES/SUPERDOTAÇÃO Pessoas com altas habilidades/superdotação (AH/SD) apresentam facilidade para manipular os softwares, como programas e aplicativos. De acordo com Pedro e Chacon (2017), esses alunos possuem habilidades para lidar com tecnologia dos seguintes modos: 1. Área da programação, desenvolvendo softwares e explorando a linguagem de programação; 2. Demostrando habilidades na utilização de hardwares e softwares, destacando-se por utilizar tais recursos de maneira eficaz e criativa O autor destaca também que: […] geralmente os estudantes superdotados adquirem de maneiras mais rápida as habilidades necessárias para utilizar as TDIC, e são capazes de transferir o que aprendem sobre um determinado software para outros recursos, sendo que parte dessa habilidade para transferência está relacionada a habilidade de resolução de problemas, que geralmente nestes estudantes é mais aguçada (PEDRO; CHACON, 2017, p. 67). Todavia, os discentes com AH/SD têm preferências e particularidades únicas. Não há recursos técnicos próprios para eles, pois cada um tem características, necessidades e interesses específicos. Portanto, é preciso entender o comportamento e as condições específicas de cada indivíduo. O processo educacional deles requerem ação educacional, planejamento e motivação de acordo com suas necessidades. Portanto, é preciso um olhar diferenciado do professor para entender o que cada aluno necessita e assim fazer uso de recursos tecnológicos apropriados. Pensando nisso, vamos explorar alguns recursos tecnológicos sugeridos que podem ser usados como ferramentas educacionais. Os recursos de tecnologia digital permitem que as pessoas com HA/SD aprendam, por exemplo, a desenvolverem sites, blogs e até objetos de aprendizagem a partir de recursos simples como Power Points. Entre as opções de recursos para o ensino desses alunos estão alguns aplicativos. É o que veremos a seguir. Por exemplo, o aplicativo Voki permite criar avatares.Ao fazer isso, os alunos são motivados a desenvolverem suas habilidades de leitura, escrita e comunicação. Graças a ele, será possível criar histórias com sua própria voz ou com voz computadorizada. É um aplicativo é gratuito, mas contém ferramentas pagas. Primeiro, deve ser escolhido o personagem do avatar, poder ser a imagem de uma pessoa ou de algum animal, por exemplo. Depois é só escolher a imagem de fundo, os acessórios e roupas, também é possível selecionar detalhes como formato do rosto, nariz cor dos olhos, pele etc. E finalmente, se cria as falas em vários idiomas, inclusive português, e gravar a voz. Veja a Figura 1 para um token de exemplo criado com Voki. Figura 1. Avatar criado com o aplicativo Voki. Fonte: New Voki in education app (2016) O Quiver (Fig. 2) também pode ser utilizado como recurso tecnológico para o ensino de pessoas com HA/SD, proporcionando uma experiência de realidade aumentada. Estas páginas ganham vida com seu formato dinâmico e colorido. Graças às imagens fotorrealistas, os alunos podem perceber detalhes e saber exatamente o que são e como são, as células, órgãos humanos, dinossauros, outros animais e lugares. O aplicativo é gratuito, fácil de instalar e está disponível em português. Para usá-lo, basta colocar a imagem colorida no visor da câmera do celular. Este recurso permite desenvolver diferentes habilidades e conhecimentos sobre diferentes temas. Pode ser utilizado em todas as áreas do conhecimento, desde a educação infantil até o ensino superior. Figura 2. Realidade aumentada com o aplicativo Quiver Fonte: Augmented reality Dot Day Project (2018). Segundo Pedro e Chacon (2017), as narrativas digitais são uma ótima estratégia pedagógica para o ensino no século XXI, porque colocam os alunos no contexto de protagonistas do próprio processo de aprendizagem. A realização desta atividade favorece o desenvolvimento da individualidade, cooperação e criatividade. Pedro e Chacon (2017), investigam e defendem o uso dessas narrativas entre alunos de todos os níveis educacionais e encontram maior benefício no desenvolvimento de atividades quando a estratégia é posta em prática. O Scratch (Figura 3) é um recurso tecnológico que permite às pessoas a criarem histórias interativas, animações, jogos, músicas e muito mais. Ele usa uma linguagem de programação acessível e permite que seus usuários desenvolvam uma variedade de habilidades, incluindo linguagem, criatividade e pensamento. Adequado para crianças a partir dos 5 anos. Para usá-lo, basta criar uma conta, escolher um personagem e definir o tamanho e os detalhes conforme com os objetivos dos alunos. Para criar, é preciso definir códigos de ações, sons, aparência, cenário para criar personagens, etc. Figura 3. Tela do aplicativo Scratch Jr. Fonte: Biddle (2015) 8.1 Estratégias pedagógicas com o uso das tecnologias digitais para alunos com altas habilidades/superdotação. As práticas de ensino das disciplinas para pessoas com AH/DS devem ser modificadas dependendo das circunstâncias individuais. É preciso diferenciar e estimular estratégias para explorar o potencial dessas disciplinas, levando em consideração não apenas suas áreas de interesse, mas também outras áreas do conhecimento. A expansão do conhecimento permite que eles entendam e apreciem suas próprias habilidades. As Estratégias educativas diferenciadas são definidas e garantidas pela legislação. De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, artigo 59, inciso primeiro, diz que o sistema educacional deve atender aos alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e pessoas com altas habilidades ou superdotação, com currículo, métodos, técnicas, recursos, e organizações específicas, para atender suas necessidades. Além disso, o artigo 208, inciso V, da Constituição Federal estabelece que deve ser alcançado o mais alto nível de ensino, pesquisa e criação artística, de acordo com as capacidades de cada um. Alencar e Fleith (2001, p. 145) explicam que, na criação dessas estratégias é preciso considerar os seguintes aspectos: Portanto, as estratégias de ensino devem ser centradas no aluno e devem ser consistentes com os estilos de aprendizagem individuais. Estas práticas devem ser estimulantes e desenhadas para responder às idiossincrasias e os problemas dos discentes e facilitar a expansão dos seus conhecimentos. Dada a especificidade das qualificações AH/SD, e a mudança na sociedade devido ao rápido desenvolvimento e uso da tecnologia, mais recursos digitais podem ser usados para permitir que esses alunos aprofundem suas habilidades e criem novas competências. Com isso, a prática docente foi redesenhada para poder efetivamente levar em conta as necessidades da diversidade no cotidiano escolar. Os recursos tecnológicos têm sido amplamente usados na educação como ferramentas de ensino. É evidente o quanto as tecnologias digitais estão cada vez mais presentes na vida de todos, e a utilização desses recursos tem se tornado uma forma econômica de avançar o conhecimento. Para os alunos AH/SD, não é diferente. Pode estimular seu potencial criativo e consciência crítica, evitando desperdícios no desenvolvimento. Quando não são oferecidos serviços diferenciados, um dos únicos recursos para os alunos superdotados e altamente capazes é tentar se encaixar na rotina da educação tradicional, o que pode resultar em desperdício de talento ou potencial ou desmotivação por falta de atendimento adequado (FLEITH, 2007). Quanto aos A aprendizagem deve ser centrada no aluno e não no professor; Deve-se encorajar a independência e não a dependência; Deve-se encorajar uma atmosfera ‘aberta’ em sala de aula; Deve-se enfatizar a aceitação e não o julgamento; Deve-se permitir e encorajar a alta mobilidade ao invés da baixa mobilidade. recursos a serem utilizados, a tecnologia é uma grande ajuda nesse processo. 8.2 Importância do uso das tecnologias digitais para a aprendizagem dos alunos com altas habilidades/superdotação A utilização de recursos tecnológicos digitais torna a educação mais criativa, dinâmica e de qualidade diferenciada. Desenvolvimento tecnológico significa que a educação oferece uma nova forma de ver o mundo por meio da tecnologia eletrônica. Silvera et al (2007) mostra que a educação hoje inclui novas tecnologias de informação e comunicação assim como, já foi o lápis, lousa, canetas, slides e outras ferramentas utilizadas para facilitar o ensino e a aprendizagem. Esta tecnologia digital está se tornando uma ferramenta cada vez mais importante para ensinar e aprender uma variedade de habilidades, incluindo a aprendizagem de pessoas com HA/SD. Segundo Galvão Filho (2012), a evolução tecnológica trouxe novas opções e novos conceitos que visem organizar e oferecer diferentes estratégias educativas e tecnologias educacionais, levando em consideração as especificidades de cada indivíduo. Dessa forma, satisfazem as necessidades cognitivas de todos os alunos, pois estimulam, motivam, participam e oferecem uma aprendizagem significativa. Por exemplo, os mesmos tópicos podem desenvolver muitos recursos, como objetos de aprendizagem criados em Power Point, blogs, sites, tutoriais, canais no YouTube, etc. O uso dessas ferramentas estimula potencialidades, ampliam habilidades, potencializam o desenvolvimento cognitivo e estimulam os sujeitos com HA/SD. Freitas (2012) destaca a importância da tecnologia como facilitadora da aprendizagem: […] as novas tecnologias são utilizadas como recurso facilitador no processo de construção de aprendizagens, uma vez que se considera imprescindível aos sujeitos com altas habilidades/superdotação o conhecimento desses novos recursos, que por vezes lhe são distantes como estratégiaseducacionais de desenvolvimento potencial, seja por falta de recursos financeiros ou outros fatores. (FREITAS, 2012, p. 207). No entanto, os autores enfatizam que, embora a tecnologia o ponto forte para o desenvolvimento dos alunos HA/SD, ela deve ser conectada e canalizada para o progresso pessoal e acadêmico nessas disciplinas. Eles devem ser usados corretamente e ter objetivos de aprendizagem bem estruturados. O objetivo das atividades de enriquecimento para sujeitos com HA/SD é substituir o aprendizado dependente e passivo por oportunidades que possam exercitar a independência e o aprendizado ativo (RENZULLI, 2004). Segundo Foscarini e Passerino (2014), essa abordagem está relacionada à pedagogia construtivista, na qual o professor/mediador sai do foco e permite que os alunos tenham crescimento pessoal e cognitivo, orientando dando apoio e suporte. Assim como outras estratégias metodológicas, as técnicas, quando utilizadas corretamente e por meio de programas educacionais, podem ser muito gratificantes porque facilitam o crescimento intelectual e proporcionam a aprendizagem. Através de programas, aplicativos, jogos eletrônicos, blogs, pesquisas em sites, etc., as pessoas com AH/SD desenvolvem o processo de ensino-aprendizagem. Isso porque eles têm necessidade de se envolverem em propostas que estimulam a produção criativa, como atividades científicas, tecnológicas, artísticas, de lazer e desporto, entre outras. Além das habilidades de leitura, escrita e matemática, as tecnologias oportunizam recursos fascinantes sobre as diferentes áreas do conhecimento. No ensino de língua estrangeira, por exemplo, os sujeitos com AH/SD podem desenvolver a pronúncia, treinar tradução e escrita e descobrir curiosidades com a ajuda de recursos tecnológicos. A área de geografia também é riquíssima em curiosidades e recursos que enriquecem os conhecimentos de alunos com AH/SD, como os aplicativos GeoAtlas e StudyGe. No mais, as habilidades e a facilidade com a aprendizagem, em conjunto com esses recursos, podem contribuir com a aprendizagem dos demais alunos. O aluno com AH/SD pode ser um monitor em sala de aula regular ou confeccionar recursos tecnológicos para auxiliar os seus colegas de classe do ensino regular. O uso das tecnologias digitais é de grande valia para a aprendizagem dos sujeitos com AH/SD, pois oferece interatividade, com uma participação ativa, além de integrar diversas linguagens e áreas do conhecimento. Os recursos tecnológicos devem ter “[…] uma proposta bem estruturada em que o objeto de aprendizagem é elemento mediador, que pode ser promovedora de desenvolvimento e aprendizagem” (HENRIQUE; SOUZA; SILVA, 2010, p. 66). Entretanto, é necessário selecionar o que é viável ou não para o ensino e a aprendizagem das habilidades desejadas. Há de se considerar que tais materiais não garantem, por si só, a qualidade e a efetividade do ensino e da aprendizagem. Em razão disso, é importante que estes recursos sejam incluídos em propostas pedagógicas, juntamente com outros recursos didáticos. Além disso, para que as tecnologias sejam utilizadas como recurso de ensino e aprendizagem, é necessário que os profissionais envolvidos na educação estejam capacitados, tanto para escolher quanto para saber manusear estes recursos de maneira positiva. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALENCAR, E. M. L. S. O papel da escola na estimulação do talento criativo. D. S. Fleith & E. M. L. S. 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Ainda hoje, há muitos mitos em nossa sociedade, a maioria dele, pela falta de conhecimento e estudo. Guenther (2006) afirma que a dificuldade não está na negação da existência dos sujeitos com AH/SD, mas sim em como perceber isso efetivamente nas pessoas. A seguir estão alguns desses mitos: Fonte: adaptada, GUENTHER (2006) Olhar apenas para os mitos gera uma expectativa muito alta em relação ao aluno nessa condição, o que pode gerar também grande estresse e, consequentemente, desmotivação para enfrentar as situações. Isso porque a exigência em relação a eles acaba sendo extraordinária e pode acarretar frustração e isolamento. O mito é considerado algo imaginário, sem nenhum embasamento teórico ou científico. Portanto, devemos recorrer à pesquisa científica para entender as pessoas com HA/SD. Alguns materiais baseados em pesquisas foram desenvolvidos para auxiliar os profissionais que trabalham com alunos com HA/SD, como Saberes e práticas da inclusão: Desenvolvendo Habilidades para atender às Necessidades Educacionais Especiais de Alunos AH/SD (BRASIL, 2006). Abaixo estão listadas alguns dos aspectos mais marcantes dos alunos com HA/SD de acordo com esse material do MEC (BRASIL, 2006). São perfeitos em tudo; Todos possuem uma habilidade precoce; Têm QI superior ao dos demais; Nunca precisam de ajuda, pois têm talento excepcional; Têm condição econômica privilegiada; São mimados, fazem tudo de forma habilidosa para chamar atenção; São alunos nota 10 em todas as áreas do currículo; São precoces em tudo desde a tenra idade (andar, falar, ler); Não precisam de AEE; Fonte: MEC (2006) Ao contrário do que possa parecer ao senso comum, pessoas com AH/ SD não pertencem a um grupo homogêneo formado por pessoas de capacidade sobrenatural: “Na verdade, trata-se de um grupo heterogêneo, com características diferentes e habilidades diversificadas; diferem uns dos outros também por seus interesses, estilos de aprendizagem, níveis de motivação e de autoconceito, características de personalidade e principalmente por suas necessidades educacionais” (VIRGOLIM, 2007, p. 11). Grande curiosidade a respeito de objetos, situações ou eventos, com envolvimento em muitos tipos de atividades exploratórias. Iniciativa, tendência a iniciar as atividades, buscando saciar seus interesses individuais. Originalidade de expressão oral e escrita, com produção constante de respostas diferentes e ideias não estereotipadas. Produção de ideias e respostas variadas, gosto pelo aperfeiçoamento das soluções encontradas Capacidade para usar o conhecimento e as informações na busca de novas associações, combinando elementos, ideias e experiências de forma peculiar. Capacidade de enriquecimento com situações-problema, de seleção de respostas, de busca de soluções para problemas difíceis ou complexos. Habilidade para apresentar alternativas de soluções com flexibilidade de pensamento. Talento incomum para expressão em artes, como música, dança, teatro, desenho e outras. Aprendizado rápido, fácil e eficiente, principalmente no campo de sua habilidade e interesse. Capacidade de julgamento e avaliação superiores, ponderação e busca de respostas lógicas, percepção de implicações e consequências, facilidade para tomar decisões. 2 SUPERDOTAÇÃO E ALTAS HABILIDADES – LEGISLAÇÃO A palavra inclusão vem do latim, do verbo includere e significa “colocar algo ou alguém dentro de outro espaço”, “entrar num lugar até então fechado”. É a junção do prefixo in (dentro) com o verbo cludo (cludere), que significa “encerrar, fechar, clausurar”. De acordo com o Dicionário Etimológico Online, o termo "inclusão" foi registrado pela primeira vez em 1570, no francês antigo como "inclusion", que significa "inserção, inclusão, incorporação". A partir daí, a palavra passou a ser usada em outras línguas, incluindo o português, com o mesmo significado. O termo inclusão, portanto, em sua origem, aponta para a ideia de estar em um grupo, ser parte dele, encaixar-se e participar ativamente de um grupo ou comunidade. No entanto, é importante ressaltar que a ideia de inclusão não se restringe apenas a participação em grupos ou comunidades, mas também abrange a garantia de direitos e oportunidades iguais para todos, independentemente de suas diferenças De acordo com Mantoan (2004), inclusão é a habilidade de entender e conhecer o outro, e assim, ter o privilégio de conviver e compartilhar experiências com pessoas diferentes. Para ser incluído, o indivíduo deve se sentir como parte do grupo e se envolver ativamente nas atividades. Quando se trata de inclusão, é importante partir do princípio de conhecer e compreender as garantias gerais da lei para os grupos sociais no âmbito da educação, como defendido por Figueiredo (2002): [...] transformar a escola, começando por desconstruir práticas segregacionistas. [...] a inclusão significa um avanço educacional com importantes repercussões políticas e sociais, visto que não se trata de adequar, mas de transformar a realidade das práticas educacionais. (FIGUEIREDO, 2002, p. 68) Portanto, a inclusão é um processo que envolve transformar práticas educacionais segregacionistas em práticas que valorizem a diversidade, sem a simples adequação de alunos com necessidades especiais Crianças com HA/SD pertencem ao público-alvo da educação especial, respectivamente tem seu direito garantido à inclusão. 2.1 Políticas públicas na educação especial Primeiramente, é importante inicialmente abordar a Declaração Universal de Direitos Humanos, de 10 de dezembro de 1948, que assegura o direito de todas as crianças à educação (NAÇÕES UNIDAS, 1948). No que se refere à educação especial, tempos depois, a Lei nº. 4.024, de 20 de dezembro de 1961, que estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), versa o direito dos “excepcionais” à educação, de preferência dentro do sistema geral de ensino (BRASIL, 1961). Com a Lei nº. 5.692, de 11 de agosto de 1971, que determina as Diretrizes e Bases para o ensino de 1° e 2º graus, e dá outras providências, também altera a LDBEN de 1961, quando estabelece “tratamento especial” aos alunos com “[…] deficiências físicas, mentais, os que estão em atraso significativo quanto à idade regular de matrícula e os superdotados” (BRASIL, 1971). Entretanto, devido ao sistema desorganizado e a falta de capacidade para atender todas as necessidades educacionais especiais, essas crianças acabaram sendo encaminhadas as escolas especiais. A Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1988), contempla entre seus objetivos: “[…] promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação” (Art. 3º inciso IV). Assegura inclusive, como um dos seus primórdios para o ensino, a “[…] igualdade de condições de acesso e permanência na escola” (BRASIL, 1988) e, como obrigação do Estado, a oferta do atendimento educacional especializado, de preferência na rede regular de ensino. A Lei nº. 8.069, de 13 de julho de 1990, que dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências, Ele também oferece proteção para essas pessoas. Atribui responsabilidades à família, à sociedade, e ao poder público em proteger o direito à vida, à liberdade, à dignidade, ao respeito, à alimentação, à saúde, ao esporte, à educação, à cultura,à qualificação profissional, ao lazer e à convivência familiar. Sendo esses direitos, prioridades das políticas públicas. Quanto a Declaração Mundial de Educação para Todos, de 1990, e a Declaração de Salamanca, de 1994, estimularam a criação das políticas públicas da educação inclusiva. Na Declaração de Salamanca (UNESCO, 1994), o item 7 aponta a necessidade de todas as crianças aprenderem juntas, seja qual for de dificuldades apresentada, isso não pode ser uma barreira. O documento assegura ainda que as escolas inclusivas tem a responsabilidade e o compromisso de atenderem às diferenças de seus alunos. A Declaração é reconhecida no mundo todo, por ser um documento que prioriza a inclusão social e serve de referência para a implementação das políticas públicas para a inclusão escolar, conforme segue: Qualquer pessoa portadora de deficiência tem o direito de expressar seus desejos com relação à sua educação, tanto quanto estes possam ser realizados. […]; 3. O princípio que orienta esta Estrutura é o de que escolas deveriam acomodar todas as crianças independentemente de suas condições físicas, intelectuais, sociais, emocionais, linguísticas ou outras. Aquelas deveriam incluir crianças deficientes e superdotadas, crianças de rua e que trabalham, crianças de origem remota ou de população nômade, crianças pertencentes a minorias linguísticas, étnicas ou culturais, e crianças de outros grupos desavantajados ou marginalizados (UNESCO, 1994, p. 4). O Art. 59 da LDBEN vigente, Lei nº. 9.394, de 20 de dezembro de 1996, define que os sistemas de ensino devem assegurar aos alunos (BRASIL, 1996): • currículo, métodos, recursos e organização específicos para atender às suas necessidades; • terminalidade específica àqueles que não atingiram o nível exigido para a conclusão do ensino fundamental em virtude de suas deficiências; • aceleração de estudos aos superdotados para conclusão do programa escolar Também define, dentre as normas para a organização da educação básica, a “[…] possibilidade de avanço nos cursos e nas séries mediante verificação do aprendizado” (Art. 24, inciso V) e “[…] oportunidades educacionais apropriadas, consideradas as características do alunado, seus interesses, condições de vida e de trabalho, mediante cursos e exames” (Art. 37) (BRASIL, 1996). Em 1999, com o Decreto nº. 3.298, que regulamentou a Lei nº. 7.853/89, determinou-se a educação especial como uma modalidade transversal a todos os níveis de modalidades de ensino, o que inclui (BRASIL, 1999) os seguintes fatores. • Atenção à diversidade, que pressupõe a valorização das diferenças na escola. • Conceito de acessibilidade, contemplando uma perspectiva ampla de inclusão das pessoas com necessidades educacionais. • Inclusão como princípio norteador das políticas educacionais no âmbito da educação especial. • Garantia do direito de todos à educação. As escolas devem matricular todos os alunos, cabendo a elas organizarem-se para o atendimento aos educandos com necessidades educacionais especiais (NEE), assegurando as condições necessárias para uma educação de qualidade para todos (BRASIL, 2001b). São considerados educandos com NEE todos aqueles que necessitam de uma atenção especializada e apresentam dificuldades de aprendizagem ou de uma resposta adaptada. O termo NEE surgiu com a Convenção de Salamanca (UNESCO, 1994, p. 1), quando foram reconhecidas “[…] a necessidade e a urgência do providenciamento de educação para as crianças, jovens e adultos com necessidades educacionais especiais dentro do sistema regular de ensino”. A Convenção da Guatemala em 1999, promulgada no Brasil pelo Decreto nº 3.956, de 8 de outubro de 2001, afirma que todas as pessoas com deficiência têm os mesmos direitos humanos e liberdades fundamentais que as demais pessoas (BRASIL, 2001a). Define como discriminação por deficiência toda diferenciação ou exclusão que possa impedir ou anular o exercício dos direitos humanos e de suas liberdades fundamentais (BRASIL, 2001). Esse Decreto tem implicações importantes para a educação e requer uma reinterpretação da educação especial, compreendida em um contexto diferente para apoiar a remoção de barreiras ao acesso à escolarização. Em 2015, a Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015, institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). A Lei garante o exercício dos direitos e das liberdades fundamentais das pessoas com deficiência, visando à sua inclusão social e cidadania (BRASIL, 2015). Apesar dos avanços significativos nos últimos anos, a preocupação com a pessoa com deficiência e altas habilidades/superdotação, ainda é recente e merece muita atenção, pois ainda há muito a ser feito e conquistado. 2.2 Direitos das pessoas com altas habilidades/ superdotação A Política Nacional de Educação Especial define como pessoa com AH/SD os alunos que: […] apresentarem notável desempenho e elevada potencialidade em qualquer dos seguintes aspectos, isolados ou combinados: capacidade intelectual geral; aptidão acadêmica específica, pensamento criativo ou produtivo; capacidade de liderança; talento especial para as artes e capacidade psicomotora (BRASIL, 2008, p. 12). O conceito de estudante com AH/SD é mais abrangente do que nosso senso comum faz parecer. Um aluno superdotado não é só aquele que se sai bem em todos os campos de estudo, mas também aquele que se sai muito bem em alguma área específica de seu interesse. Cabe à escola identificar essas habilidades e aplicar os processos pedagógicos para direcionar o estudante no caminho certo, realizando os encaminhamentos necessários, conforme as individualidades de cada um. Isso auxilia no processo de aprendizagem, diminuindo as chances de termos um aluno desmotivado. Veja a seguir como são essas habilidades. No Brasil, o atendimento à população com AH/SD é uma preocupação política. Frente a essa preocupação, houve o interesse em aperfeiçoar o corpo docente, proporcionando qualificações para garantir um ensino de melhor qualidade. Com a implantação dos Núcleos de Atividade das Altas Habilidades/Superdotação (NAAH/S) em 2005 em todos os estados e no Distrito Federal, foram formados centros de referência para o atendimento educacional especializado (AEE) aos alunos com AH/SD, com orientação às famílias e a formação continuada dos professores. Foi divulgado nacionalmente, oferecendo suporte adequado para garantir que toda rede de ensino público tivesse atendimento especializado nesta área. O acesso ao ambiente escolar deve proporcionar um desenvolvimento global do aluno, a troca de experiências e o convívio social. De acordo com Freitas e Pérez (2012), para isso, podem ser usados programas de enriquecimento, como, um trabalho diferenciado e com recursos e estratégias específicas para atender a suas peculiaridades. Estes programas podem ser complementados com o trabalho do professor em sala de aula, realizando atividades curriculares que considerem estas especificidades. No entanto, a convivência no ambiente escolar pode ser um desafio, tanto para os alunos com AH/SD quanto para seus professores. Isso porque as AH/ SD, muitas vezes, não são bem compreendidas. Por isso, a inclusão desses sujeitos passa também pelo reconhecimento e pela garantia de seus direitos. A inclusão das pessoas com AH/SD continua sendo um dos grandes desafios. A primeira menção a estas pessoas encontra-se na LDBEN de 1971 (Lei nº. 5.692/71). Em 2001, na aprovação do Plano Nacional de Educação está escrito detalhadamente que todas as pessoas têm o direito de serem atendidas pela educação especial, incluindo as com AH/SD: A educação especial se destina às pessoas com necessidades especiais no campo da aprendizagem, originadas quer de deficiência física, sensorial, mental ou múltipla, quer de características como altas habilidades/superdotação ou talentos (BRASIL, 2001, p. 55). As Diretrizes Gerais para o Atendimento Educacional aos alunos Portadores de Altas Habilidades/Superdotação e Talentos define que: […] altas habilidades referem-se aos comportamentos observados e/ou relatados que confirmam a expressão de 'traços consistentemente superiores' em relação a uma média (por exemplo: idade, produção ou série escolar) em qualquer campo do saber ou do fazer. Deve-se entender por 'traços' as formas consistentes, ou seja, aquelas que permanecem com frequência e duração no repertório dos comportamentos da pessoa, de forma a poderem ser registradas em épocas diferentes e situações semelhantes (UNESCO, 1995, p. 13). O modo como os estudantes com AH/SD aprendem demanda longo período de avaliação e capacitação de profissionais, que devem auxiliar no “[…] aprimoramento do sistema escolar no sentido de melhorar o acesso à educação […]” (BRASIL, 2005, p. 11). Atividades diversas em sala de aula permitem que o professor observe as habilidades específicas de cada um dos alunos, para que possam ser desenvolvidas. A Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015, no seu capítulo IV, Do direito à Educação, define como as instituições de ensino devem garantir o acesso, a permanência, a participação e a aprendizagem dos sujeitos público-alvo da educação especial, do qual fazem parte os alunos com AH/SD. Uma das questões alegadas pelas instituições de ensino é a falta de recursos para receber esses alunos. De acordo com Kruszielski (1999), a conscientização da comunidade escolar, pais, professores, sociedade em geral e poder público pode ser uma alternativa na captação de recursos, além de trabalho voluntário. Mesmo assim, é importante que haja o preparo da equipe para receber esses estudantes. Ao se sentirem acolhidos e motivados, a chance de evasão reduz, e suas habilidades podem ser melhor desenvolvidas no contexto escolar. Como afirma Beyer (2006), a educação inclusiva evoluiu como conceito e proposta institucional ao longo dos anos 90. O esforço global pela Educação Inclusiva é uma ação política, cultural, social e educacional que visa defender o direito de todos os alunos a conhecer, aprender e compartilhar sem qualquer forma de preconceito. A luta pela inclusão de pessoas com deficiência e AH/SD, tanto no ambiente educacional quanto na sociedade contemporânea, é incansável. Por isso, é de extrema importância que existam leis que regulamentem seus direitos. Isso promove o bem-estar em todos os âmbitos sociais, permitindo sua plena integração em todas as atividades. 3 INDICADORES DE ALTAS HABILIDADES/ SUPERDOTAÇÃO Antes de considerar os sinais ou indicativos de HA/SD, devemos ter em mente que nem todas as pessoas têm o mesmo padrão de características. Cada indivíduo com HA/SD apresenta características próprias, que dependem de vários fatores. Como veremos adiante, muitos estudos concordam que existem diversos tipos de inteligência e habilidades. Esses estudos têm contribuído significativamente para a compreensão das características dos indivíduos com HA/SD. Historicamente, a ciência qualificou somente os indivíduos com HA/SD, pessoas acima da média em linguagem e raciocínio lógico. No entanto, atualmente se usa uma abordagem multidimensional para inteligência e HA/SD. Isso significa que levam em consideração variáveis específicas do assunto para entendê-las. Howard Gardner (2001), refere-se ao conceito de inteligência, como [..] “um potencial biopsicológico para processar informações, que pode ser ativado em um cenário cultural para solucionar problemas ou criar produtos que sejam valorizados em uma cultura” (GARDNER, 2001, p. 47). De acordo com o referido autor, existem várias inteligências que se expressam de formas diferentes dependendo dos interesses, aspectos biológicos e influências culturais de cada indivíduo: inteligência corporal-cinestésica, inteligência interpessoal, inteligência musical, inteligência naturalista, inteligência lógica-matemática, inteligência verbal, inteligência intrapessoal e inteligência espacial etc. O autor desafiou os testes tradicionais de quociente de inteligência (QI) e estendeu a inteligência a outras áreas do conhecimento e habilidades humanas. Ele explicou que, além do raciocínio lógico e verbal tradicionalmente medido por testes de inteligência, algumas pessoas desenvolvem áreas de inteligência psicomotora, relacional ou artística com maior potencial. Assim, o que se evidencia na HA/SD é o desenvolvimento de uma ou mais inteligências indexadas acima da média para a idade ou nível de alfabetização do grupo em que a criança se encontra, podendo se destacar em uma ou mais áreas intelectuais. Estes são, por exemplo, dançarinos, atores, cantores, grandes músicos, escritores, naturalistas, líderes religiosos e oradores etc. Além de Gardner, outro teórico que teve influência significativa no conceito atual de HA/SD é Renzulli (2004). De um modo geral, os autores dividem a superdotação em duas grandes categorias: superdotação escolar e superdotação criativo-produtiva. A superdotação acadêmica está associada às pessoas que, segundo Alencar (2007): “[…] se saem bem na escola, aprendem rapidamente, apresentam um nível de compreensão mais elevado e têm sido os indivíduos tradicionalmente selecionados para participar de programas especiais para superdotados” (ALENCAR, 2007, p. 21-22). Já a superdotação criativo-produtiva “[…] diz respeito àqueles aspectos da atividade humana em que se valoriza o desenvolvimento de produtos originais” (ALENCAR, 2007, p. 21-22). De abordagem multidimensional, Renzulli (1978) afirma que a conduta do superdotado é o envolvimento entre esses três elementos: habilidade acima da média em alguma área do conhecimento, envolvimento com a tarefa e criatividade. O desenvolvimento do aluno AH/SD não acontece em ambientes isolados. A experiência individual e a socialização são cruciais para o desenvolvimento de suas características. Portanto, é importante entender como são as relações com a família, amigos e escola para identificar as características individuais de AH/SD, que podem afetar positiva e negativamente as três combinações de características. Também é importante entender como a família, os amigos e a escola entendem o comportamento dos superdotados para que os alunos possam atingir seu potencial. As características dos indicadores HA/SD no ordenamento jurídico brasileiro são consistentes com a abordagem multidimensional de inteligência e HA/SD. Veja abaixo uma explicação de cada aspecto destacado. Capacidade intelectual geral: refinada capacidade de observação, habilidade de realizar abstrações, alto poder de realizar questionamentos que outras pessoas não percebem e potencial em realizar associações e generalizações. Aptidão acadêmica específica: desempenho notável na escola, muita facilidade na realização de provas ou tarefas e, até mesmo, precocidade, pela facilidade em uma ou mais áreas do conhecimento humano. Pensamento criativo-produtivo: ideias originais e não convencionais para resolver um problema ou para desenvolver um produto ou ideia, percepção múltipla de um determinado tema, soluções surpreendentes, utilização de recursos inusitados, tendência a reinterpretar e criar alternativas diferentes do comum. Capacidade de liderança: facilidade e sucesso em se expressar e convencer seus pares, humor refinado, capacidade empática, comunicação social muito eficiente. Talento especial para artes: sensibilidade estética extremamente refinada, destaque na dança, no teatro, na escultura, na pintura, na música, na fotografia ou na filmagem, por exemplo. Capacidade psicomotora: capacidade muito superior em usar o corpo, por exemplo, em esportes, dança, teatro e atividades que exigem um senso motor apurado, como os cirurgiões. Levando em conta osdeterminantes multidimensionais e a heterogeneidade de manifestações, alguns aspectos gerais se aplicam na maioria dos casos. A primeira característica observada é a precocidade. Desde pequena a criança apresenta habilidades incríveis, quando comparadas as outras crianças da mesma faixa etária. Como por exemplo, crianças que são alfabetizadas muito antes da idade esperada, ou possui habilidades artísticas que sobressaem as demais. No entanto, para que uma pessoa seja considerada com HA/SD, esses comportamentos precoces devem ser somados a outros elementos. Além disso, essas particularidades, devem ter estado presentes durante todo o seu desenvolvimento, caso contrário, ele seria apenas uma criança prodígio. Nem todas as crianças prodígios serão altamente habilidosas. Além da precocidade, destacamos também sua habilidade na execução de tarefas em sua área de interesse. Isso se manifesta no desejo de conhecimento, dedicação e esforço para se aprofundar em áreas específicas do conhecimento humano, resultando em comportamento muito superior ao de seus pares. Há também um alto nível de desenvolvimento em algumas ou mais áreas do conhecimento ou habilidades humanas. Interesses muito diferentes dos de seus pares também são recorrentes. Conhecer, compreender e discutir preocupações relevantes, por exemplo, questões não tradicionais para crianças, como dilemas políticos, econômicos, ambientais, éticos e morais. Portanto, muitas vezes elas preferem discursões com um adulto ou um especialista. O interesse, a dedicação às tarefas e a independência levam a uma preferência por trabalhos individuais, não por traços comportamentais egoístas, mas porque são muito focados e concentrados em uma tarefa que deseja realizar. Elas também aprendem muito mais rápido, além do potencial em poder fazer conexões com diversas áreas do conhecimento, tem ideias e são criativas em diversas situações. Esses sujeitos costumam ter um alto nível de atenção, são capazes de perceber detalhes que outros não perceberiam, são capazes de reinterpretar fenômenos ou situações e sugerir alternativas criativas e diferenciadas para os problemas. Outro aspecto é o domínio da linguagem. Demonstram uma gama lógica verbal, com um vocabulário muito evoluído para sua idade. O discurso é rico, eloquente, claro e coerente, capaz de conectar ideias aparentemente díspares. Eles mostram uma riqueza de pensamento através da complexidade de sua linguagem. Algumas podem desenvolver um forte interesse pela leitura. Frequentemente, possuem uma memória diferenciada, é incrível a capacidade de assimilar, resumir e reter informações. Conforme explica Sakaguti e Bolsanello (2012, p. 224), “Para estas crianças, não basta apenas conhecer o assunto que foi capaz de aprender, mas sim, apreender a lógica na resolução dos problemas, os meios usados na sua resolução”. Assim, a diferença entre uma criança com AH/SD e uma criança sem AH/ SD é a precocidade, a profundidade e a intensidade com que as características são apresentadas 3.1 Identificação das altas habilidades/ superdotação Tradicionalmente, existem testes para medir a inteligência e ferramentas para aferir o QI (quociente de inteligência). Por mais que sejam ferramentas eficazes e necessárias, quando utilizadas separadamente ou de forma descontextualizadas com base em traços culturais, emocionais, sociais e de personalidade, não abrangem todos os alunos com HA/DS. De acordo com Delpretto e Zardo (2010), o desenvolvimento dessas ferramentas com base na desenvoltura acadêmica, verbal, lógico-matemático desconsidera diferentes habilidades no processo avaliativo, como aquelas relacionadas à resolução de problemas cotidianos. Os testes de capacidade cognitiva incluem especificamente as habilidades mais valiosas em situações de aprendizado escolar tradicional, que se concentram em habilidades analíticas e indutivas, em vez de habilidades criativas ou práticas. Segundo a Secretaria de Estado da Educação de Santa Catarina, os identificadores devem, portanto, considerar as múltiplas dimensões da inteligência e HA/SD. Segundo o documento: O desempenho de uma pessoa deve ser observado por meio do modo como vivencia esse potencial em seus contextos de vida e isso exige uma investigação mais ampla, e de preferência multidisciplinar. Os testes não devem ser o único método usado para identificar AH/SD, pois avaliam o potencial intelectual e operam com provas de desempenho funcional (SANTA CATARINA, 2016, p. 27). Conforme já mencionado, Renzulli (2014) classificou as habilidades superiores em duas categorias diferentes: superdotação escolar e superdotação criativo/produtiva. Obviamente, a superdotação pode ser facilmente identificada por meio de testes de QI pelas seguintes razões: As habilidades medidas nos testes de QI são as mesmas exigidas nas situações de aprendizagem escolar; desta forma, o aluno com alto QI também tende a obter boas notas na escola. A ênfase, neste tipo de habilidade escolar, recai sobre os processos de aprendizagem dedutiva, treinamento estruturado nos processos de pensamento, e aquisição, estoque e recuperação da informação. Já a habilidade criativa-produtiva implica no desenvolvimento de materiais e produtos originais; aqui, a ênfase é colocada no uso e aplicação da informação (conteúdo) e processos de pensamento de forma integrada, indutiva, e orientada para os problemas reais (VIRGOLIM, 2014, p. 583). Considerando isso, os instrumentos precisam contemplar igualmente a superdotação escolar e a superdotação criativo-produtiva, para não correr o risco de perder muitos estudantes que não se encaixam na superdotação escolar. Além disso, não se pode restringir os instrumentos de identificação a apenas um elemento da vida do estudante, mas considerar o seu contexto. A ênfase deve ser pedagógica, pois, […] por identificação entende-se o conjunto de instrumentos pedagógicos que podem ser utilizados para o reconhecimento de diferentes habilidades dos alunos em diversas áreas do conhecimento, considerando as especificidades das AH/SD (DELPRETTO; ZARDO, 2010, p. 20) O professor, por sua vez, precisa saber como reconhecer os pontos fortes dos seus alunos e ajudar a desenvolvê-los com excelência (FARIAS; WECHSLER, 2014). Em suma, os instrumentos precisam ser variados, agregando diversas fontes de informações, como as do próprio estudante, colegas, professores e familiares, além de instrumentos validados aplicados por profissionais graduados, como psicólogos. Os instrumentos devem ser utilizados em uma perspectiva qualitativa, pois, como visto, agrega-se hoje no processo de identificação das pessoas com múltiplas inteligências, habilidades criativo-produtivas ou acadêmicas. Apenas instrumentos quantitativos serão insuficientes para traçar uma identificação conclusiva e de qualidade. Na abordagem qualitativa, o professor pode utilizar diferentes instrumentos para realizar a identificação, como questionários, entrevistas, testes de características, observação, entre outros: ✓ resultados de atividades acadêmicas; ✓ autoindicação; ✓ instrumentos validados; ✓ observação no contexto escolar; ✓ indicação pelos pares; ✓ questionário familiar; ✓ questionário com professores. Alguns mecanismos de triagem tem a função de detectar indicadores. Em primeiro lugar vem o questionário de autonomeação. Nele, o aluno pode descrever seus pontos fortes. O segundo, é apresentado uma série de imagens que incluem inteligências múltiplas, os alunos são solicitados a classificarem as imagens que consideraram boas ou muito boas (FREITAS; PÉREZ, 2012). O aluno também pode indicar áreas que ele considera ser altamente qualificado ou talentoso, pode apontar projetos e/ou atividades que desenvolveu para demonstrar sua excelência nessa área, livros que leu relacionados à sua área, suas potencialidades,Interesse em frequentar um programa especializado, descrever hábitos de leitura, áreas de preferência, etc. Usando ferramentas de triagem específicas, os alunos podem salientar os pontos fortes de seus colegas. Podendo perguntar à classe de uma forma muito interessante e lúdica: Ainda no âmbito da triagem, há uma lista de indicadores a ser preenchida pelo professor regente e por outros professores que atuam com as diferentes disciplinas. Esses indicadores podem incluir, por exemplo, um questionário específico para a área de artes e para educação física. Já em relação aos instrumentos de identificação, há questionários mais específicos a serem preenchidos pelo aluno com AH/SD. Outros questionários devem ser preenchidos pelo professor e pelos pais do aluno. Como exemplo, se a criança ou adolescente apresenta potencial para artes e educação física, há questionários específicos para estas áreas. Nesses questionários, o objetivo é facilitar a detecção de características gerais, habilidade acima da média, indicadores de criatividade, inteligências múltiplas, áreas da arte e da área corporal cinestésica — uma abordagem multidimensional, portanto. O professor pode indicar alunos da turma que apresentam potencial elevado nas diversas áreas do conhecimento: os mais curiosos, interessados e questionadores, os de melhor memória, os mais críticos, mais originais e criativos, mais solitários, os mais seguros e confiantes, os mais entediados, desinteressados, mas não necessariamente mais atrasados. O professor pode ainda fornecer informações acerca dos interesses, hobbies, atividades extracurriculares, hábitos de leitura e características do aluno em avaliação, além de participação em projetos especiais (GUENTHER, 2000). Os testes psicológicos, compostos por inventários de inteligência, autoconceito, Quais colegas sempre têm muitas ideias boas? Quais colegas desenham muito bem? Quais são muito bons em matemática? Quais sempre têm ideias diferentes? Em sua sala de aula, a quem você pediria ajuda em seu dever de casa de ciências? Em sua sala, quem você considera o melhor esportista? Músico? Escritor? Quem tem mais senso de humor? Quem é o melhor aluno? liderança, habilidades são fundamentais, desde que o profissional considere em sua avaliação a abordagem multidimensional e interdisciplinar e que haja a articulação entre os instrumentos que são próprios do psicólogo com os dados obtidos pelo professor e a família. Algumas pessoas com AH/SD, principalmente as com habilidades criativo-produtiva possuem um pensamento altamente fecundo e apresentam características específicas. Veja a seguir as características observadas no Teste Torrance do Pensamento Criativo (GUIMARÃES; OUROFINO, 2007). Marques (2017), faz pontuações importantes quanto a importância de se identificar a AH/SD nos primeiros anos de vida da criança: […] a identificação nos primeiros anos de vida proporciona: situar o aluno em um ambiente educativo adequado, desenvolver práticas pedagógicas que estimulem suas potencialidades, proporcionar aos pais e professores melhor compreensão de como ajudar seus filhos e alunos, e, evitar problemas futuros como desajustamento social, frustração e, principalmente, desprezo do seu próprio potencial (MARQUES, 2017, p. 137). Isso significa que, quanto antes forem identificadas as AH/SD, mais cedo os pais e professores poderão desenvolver suas capacidades. Os alunos também sofrerão menos prejuízos pela falta de valorização de seus potenciais. A identificação é necessária para que possamos programar as atividades pedagógicas de acordo com as necessidades do estudante, jamais para rotular e caracterizar. O professor tem uma importância nesse processo, pois ele é quem está por mais tempo em contato com o aluno. Ele, portanto, vai ver a manifestação da criatividade, das Flexibilidade: capacidade de ver o problema sob diferentes ângulos e propor soluções de acordo com a situação. Fluência: capacidade de gerar um grande número de ideias e soluções para um problema. Elaboração: capacidade de produzir ideias raras ou incomuns, quebrando padrões habituais. Originalidade: capacidade de produzir ideias variadas e incomuns. inteligências e das questões socioemocionais. 4. CARACTERÍSTICAS INDIVIDUAIS DOS SUJEITOS COM AH/SD Todas as pessoas, assim como os sujeitos com AH/SD, constituem-se de aspectos cognitivos, afetivos, personalidade e neuropsicomotores em total relação com o contexto sociocultural e econômico. O grande desafio é como cada pessoa reage às demandas ambientais, ou seja, como são manifestadas suas características individuais na família, na sociedade e na escola. De acordo com Freitas e Pérez (2012) situações individuais e ambientais podem esconder os indicadores, causando subdesempenho e prejudicando o reconhecimento dos indicadores de AH/SD, pois alguns podem sofrer de baixa autoestima, autoimagem negativa, ansiedade e depressão. Segundo Hakim (2016), as habilidades das pessoas com AH/SD podem desencadear tédio, irritabilidade e rebeldia, o que pode levar ao baixo desempenho acadêmico, além da dificuldade de ambientação com pessoas que tem inteligência mediana. Isso significa que o ajustamento social, a maturidade emocional e o desenvolvimento de um autoconceito saudável são altamente dependentes das condições ambientais. Indivíduos com HA/SD tendem a ser muito detalhistas. Buscam realizar tarefas com perfeição e ser produtivos; entretanto, todas essas implicações podem prejudicar a qualidade de vida e as relações grupais de uma pessoa pelo nível de exigência. Muitas pessoas não compreendem o isolamento que muitas pessoas altamente habilidosas preferem. Com isso, podem acabar transmitindo uma imagem de arrogância devido ao comprometimento com tarefas e foco intenso. A autocrítica também é um problema, gera ansiedade e culpa, porque eles sabem que a família e a sociedade têm grandes expectativas sobre seu desempenho. As condições oferecidas pelo ambiente social, familiar e escolar influenciam fortemente o aluno TAH/DS, afetando principalmente seu amadurecimento emocional, o desenvolvimento de uma autoimagem positiva e a adaptação ao ambiente escolar. Os alunos de AH/SD são curiosos e questionadores. Isso não significa que ele não respeite regras e regulamentos, mas sim que ele questiona regras que não fazem sentido. Essa é uma característica frequente dos indivíduos com HA/DS, pois eles demonstram uma preocupação mais forte e ampla com a justiça e a igualdade. Mostra um maior grau de sensibilidade e insatisfação com as forças argumentativas que podem criar problemas nos relacionamentos ou se rebela porque não poder solucionar questões de injustiça social, degradação ambiental, corrupção, etc. As consequências emocionais positivas e desfavoráveis decorrentes das características dos pacientes com HA/SD são apresentadas no quadro 2. Quadro 2. Implicações positivas e negativas das altas habilidades/superdotação. Fonte: Adaptado de Santa Catarina (2016). Fonte: Adaptado de Santa Catarina (2016). Um alto nível de desenvolvimento intelectual não significa necessariamente um alto nível de desenvolvimento emocional. Essas pessoas podem estar acima da média em termos de acúmulo de conhecimento, mas podem ter dificuldades em certas situações da vida porque sua sensibilidade é muito maior. Isso é chamado de assincronia. A assincronia refere-se ao desequilíbrio entre os ritmos do desenvolvimento intelectual, emocional ou motor de cada indivíduo. Ela pode ser desafiadora devido ao desalinhamento entre o desenvolvimento cognitivo, emocional e psicomotor. Pode haver habilidades cognitivas e/ou psicomotoras superiores provenientes da facilidade que a pessoas tem em rete e acumular informações e emoções, mas devido à sua alta sensibilidade, essas habilidadessão muito mais do que elas podem absorver. Apesar de ser recorrente, a assincronia não pode ser apontada como uma particularidade de todas as pessoas, pois esse grupo é heterogêneo, apresentando uma gama de traços em termos de cognição, vida social e emoção. 4.1 Identificação e escolarização Há, portanto, no Brasil uma referência clara sobre as características das HA/SD e como o processo de formação deve ser implementado. No entanto, não há uma maneira única de conhecê-lo. Os alunos que consideram os serviços de aplicação da lei para AH/SD são identificados pelos professores na sala de recursos multifuncional AEE, mas esse público é muito limitado. Apesar das garantias legislativas de apoio, muitos alunos não foram identificados porque os serviços prestados eram insuficientes para atender a demanda. Gama (2013) explica: A educação no Brasil está longe de ser prioridade nacional e, nesse contexto, a educação de superdotados ocupa lugar quase inexistente. Em outros países, sobretudo naqueles que se destacam no panorama internacional por sua economia e desenvolvimento, não só a educação em geral tem lugar de destaque nos planos governamentais, como a educação dos mais capazes é considerada mola propulsora do desenvolvimento. (GAMA, 2013, p. 176). Muitos alunos estão ficando à margem do processo de identificação e atendimento especializado. Muitas vezes, ao não terem a sua “sede de conhecimento” ATENÇÃO! Nem todos os alunos com AH/SD apresentam alguma reação de desajuste emocional. No entanto, para aqueles que apresentam necessidades sociais e emocionais, é necessário incluir serviços na escola que lhes ofereçam oportunidades de crescimento emocional e social, para prevenir problemas emocionais ou de conduta. atendida, sentem enfado e podem calar-se e isolar-se, ou ao contrário, agitar-se e questionar o professor, devido ao seu alto grau de desenvolvimento de justiça e vontade de aprender. Quando os profissionais da educação não reconhecem essas características, o aluno fica invisível e seus potenciais não são desenvolvidos. Outro problema pode ser o diagnóstico incorreto. Para evitar erros de diagnóstico, é fundamental compreender as características da HA/SD e identificar qualitativamente os aspectos multidimensionais e as influências sociais e ambientais por meio de todas as ferramentas. Quando as escolas entendem que todos são diferentes e têm diferentes estilos de aprendizagem, há menos barreiras para os alunos. Em particular, tendo em conta os perfis socioemocionais e emocionais dos alunos AH/SD, é necessário enriquecer os currículos e assumir um papel protagonista no processo educativo. Venâncio, Camargo e Piske (2018), explica que a forma mecânica e tecnocrática de fazer a educação, que desconsidera as emoções e dicotomiza fazer e sentir, traz sérias consequências para o ensino. Defende-se a unicidade entre cognição e afeto, considerando que as emoções são eliciadoras da ação humana e sugere-se a necessidade de adequação pedagógica para redirecionar o ensino atual de forma a particulariza-lo e torná-lo, efetivamente, inclusivo A fim de promover o desenvolvimento intelectual, físico, psicológico e emocional geral dos alunos com AH/SD, as escolas devem levar em consideração os estilos, canais e ritmos de aprendizagem de cada um. Portanto, é necessário a adotar métodos e estratégias diferentes de acordo com as especificidades de cada discente, promover atividades de escuta, dedicando tempo para ouvir e assim, entender seu desenvolvimento social e emocional. esses momentos são extremamente importantes, pois são nessas oportunidades que os alunos expressam seus medos e preocupações. O aspecto emocional deve ser considerado, pois o aluno é corpo, mente e emoção. É, portanto, salutar a utilização de atividades que explorem a afetividade, concomitantes com o ensino das áreas do conhecimento. A expectativa é que ocorra o enriqueci mento do currículo e das metodologias, para que o aluno seja atendido em seus anseios por conhecimento e criação, não apenas em volume de conhecimento e atividades, mas em qualidade. Concluindo, ao pensarmos nos indicadores de AH/SD, devemos considerar as características cognitivas, sociais e morais. Existem ainda os domínios próprios de cada um, que foram construídos de modo muito particular nas suas interações com o meio. Além disso, precisamos levar em conta seus traços de personalidade, interesses e motivações. Conhecendo a teoria das múltiplas inteligências, os três anéis e a influência do meio social e histórico onde a criança vive, percebemos a complexidade em descrever os indicadores de AH/SD. O comportamento superdotado é constituído por elementos heterogêneos e com muitas variáveis e, por isso, a abordagem multidimensional é tão importante. 5. ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO E SUA IMPORTÂNCIA PARA ALUNOS COM ALTAS HABILIDADES/SUPERDOTAÇÃO Com a implantação da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008), o AEE deve oferecer atendimento às necessidades do aluno inserido no contexto escolar comum. A função do AEE é orientar os sistemas de ensino para responder às necessidades e peculiaridades educacionais do público-alvo da educação inclusiva. De acordo com as Diretrizes Operacionais da Educação Especial para o Atendimento Educacional Especializado, esse serviço: […] tem como função identificar, elaborar e organizar recursos pedagógicos e de acessibilidade que eliminem as barreiras para a plena participação dos estudantes, considerando suas necessidades específicas. As atividades desenvolvidas no atendimento educacional especializado diferenciam-se daquelas realizadas na sala de aula comum, não sendo substitutivas à escolarização. Esse atendimento complementa e/ou suplementa a formação dos estudantes com vistas à autonomia e independência na escola e fora dela (BRASIL, 2008, p. 1). O AEE oferta apoio e atendimento às necessidades específicas que o aluno público-alvo da educação especial apresenta, além de suporte ao professor, orientando-o a utilizar metodologias e materiais adequados. Esse atendimento não serve para substituir o ensino comum, como já ocorreu outrora, e sim para complementar, o que garante o acesso e a permanência do aluno na escola ao atender as particularidades deste para aprender. A Constituição Federal Brasileira, em seu art. 206, apregoa que o ensino será ministrado em “[…] igualdade de condições para o acesso e permanência na escola” (BRASIL, 1988). Isso significa que o AEE é a forma de garantir todas as condições para a aprendizagem no contexto escolar, conforme segue: É um conjunto de atividades, recursos pedagógicos e de acessibilidade, oferecidos de forma complementar ou suplementar à escolarização dos estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação matriculados nas classes comuns do ensino regular. Esse conjunto de atividades, registradas no Projeto Político Pedagógico de cada escola, é realizado, preferencialmente na Sala de Recurso Multifuncionais, individualmente ou em pequenos grupos, em turno contrário ao da escolarização (BRASIL, 2014, p. 1). O espaço é a sala de recurso multifuncional (SRM), ofertado em período contrário ao da matrícula do aluno. Não é um ambiente separado, distinto, excludente, e sim inclusivo e articulado entre a sala que o aluno frequenta e o complemento. Pode ainda ser disponibilizado em centros de AEE da rede pública ou de instituições comunitárias, confessionais ou filantrópicas sem fins lucrativos. Além disso: Está previsto que o atendimento educacional especializado pode ocorrer intra ou extramuros da escola, entre pares da mesma idade, entre os mais velhos da própria escola ou junto com alunos universitários com formação profissionalde mais alto nível, em grupos com áreas de interesse comuns ou diferenciados (DELOU, 2014, p. 414). Para o aluno com AH/SD, o AEE é um atendimento suplementar, por meio de programas de enriquecimento curricular e aprofundamento dos conhecimentos, como aceleração, aprofundamento e adaptação curricular. Conecta- -se com a proposta do ensino comum em sala de aula e na sala de recursos multifuncionais. O enriquecimento curricular se refere à: Organização de práticas pedagógicas exploratórias suplementares ao currículo, que objetivam o aprofundamento e a expansão nas diversas áreas do conhecimento, com o desenvolvimento de projetos de trabalho, com temáticas diversificadas, como artes, esporte, ciências e outras. Tais estratégias podem ser efetivadas pela articulação dos serviços realizados na escola, na comunidade, nas instituições de educação superior, na prática da pesquisa e no desenvolvimento de produtos (BRASIL, 2019, p. 9). O AEE deve estimular as habilidades latentes do aluno, além daquelas que seu ambiente cultural restringiu, observar suas áreas de interesse, oportunizando a manifestação de todo o seu potencial criativo e intelectual. Deve também analisar as dificuldades desse aluno, pois é um mito crer que a pessoa com AH/SD apresenta apenas resultados positivos na aprendizagem e no aspecto emocional/relacional. Delpretto e Zardo (2010, p. 23) elencam cinco objetivos do AEE para o aluno com AH/SD: Fonte: adaptada, Delpretto e Zardo (2010). Segundo os autores, uma possibilidade para o desenvolvimento desses objetivos seria a: [...] articulação da escola com instituições de educação superior, centros voltados para o desenvolvimento da pesquisa, das artes, dos esportes, entre outros, e promover a cooperação entre estes centros e a escola, oportunizando a execução de projetos colaborativos, que atendam às necessidades específicas dos alunos com altas habilidades/superdotação (DELPRETTO; ZARDO, 2010, p. 22). Por isso, é fundamental que se realize uma avaliação diagnóstica inicial e, principalmente, que se ouça os o aluno com AH/SD, pois assim suas expectativas estarão sendo atendidas, diminuindo as frustrações. Como mencionado anteriormente, primeiro deve-se avaliar o aluno para entender o que ele necessita do serviço. Isso significa conhecer suas necessidades, seus potenciais, questões emocionais e de relacionamento. A avaliação é conjunta entre o professor da sala e o professor da SRM e mediada pelo pedagogo, para definir o plano de atendimento individualizado, elencar quais serão os recursos e serviços selecionados para atender à necessidade individual do aluno, estabelecer as estratégias para avaliação e organização curricular, executar o planejamento das Maximizar a participação do aluno na classe comum do ensino regular, beneficiando-se da interação no contexto escolar; Potencializar a(s) habilidade(s) demonstrada(s) pelo aluno, por meio do enriquecimento curricular previsto no plano de atendimento individual; Expandir o acesso do aluno a recursos de tecnologia, materiais pedagógicos e bibliográficos de sua área de interesse; Promover a participação do aluno em atividades voltadas à prática de pesquisa e desenvolvimento de produtos; Estimular a proposição e o desenvolvimento de projetos de trabalho no âmbito da escola, com temáticas diversificadas, como artes, esportes, ciência e outras. ações e a avaliação contínua do processo. Em seguida, aplicam-se as ações elencadas no planejamento, para desenvolver uma área particular ou tópico de estudo com aprofundamento e enriquecimento escolar adequado ao aluno em sala de aula ou na SRM que ele frequenta no contraturno. 5.1 Alunos com altas habilidades/superdotação que necessitam do AEE Para identificar o aluno com AH/SD que necessita do AEE, deve-se, inicialmente, observar as particularidades ou traços do comportamento superdotado que estão postas na legislação e nas orientações das instituições reguladoras da educação brasileira, como já vimos anteriormente. Além disso, é preciso observar os estudos que embasam as orientações legais e que direcionam as práticas realizadas no AEE para o aluno com AH/SD. Alguns mitos construídos historicamente e de modo equivocado interferem na forma como muitas pessoas compreendem as AH/SD hoje. Vale recapitular um mito muito comum, que é acreditar que a pessoa com AH/SD é autodidata, gênio, geneticamente privilegiada, que sabe tudo e domina todas as áreas do conhecimento. Normalmente, não se imagina que esse aluno necessita de AEE ou apoio emocional, pois, na visão do senso comum, tudo é fácil para ele (PÉREZ, 2003). Até pouco tempo, vigorava uma concepção de que a pessoa com altas habilidades era aquela com uma grande habilidade em raciocínio lógico ou um cientista enfurnado em um laboratório de pesquisa ou de invenção. Essa ideia construiu outro mito, o de que quem possui altas habilidades é exímio em matemática e línguas. No entanto, esse equívoco se baseia em uma concepção ultrapassada sobre o que é inteligência. Felizmente, os documentos orientadores trazem correntes teóricas atuais e amplamente aceitas. No capítulo três vimos que as redefinições dos conceitos de inteligência e da compreensão das AH/SD aconteceram, principalmente, com os estudos de Joseph Renzulli (2004) e Howard Gardner (1994). Howard Gardner revisitou o conceito de inteligência questionando os testes de aferição tradicionais e ampliou a inteligência para outras áreas do conhecimento e das habilidades humanas. Para comprovar a validade de sua teoria, estudou pessoas com AH/SD, pessoas com e sem deficiência e danos cerebrais em diferentes culturas e os savants (pessoas que apresentam alta habilidade em uma área, mas têm um significativo déficit de inteligência). Ao desenvolver a teoria das inteligências múltiplas, o conceito de inteligência passa a ser revisto, incorporando novas inteligências à habilidade linguística e lógico- matemática. Assim, as oito inteligências são: inteligência corporal-cinestésica; inteligência interpessoal; inteligência musical; inteligência lógico-matemática; inteligência linguística; inteligência naturalista; inteligência intrapessoal e inteligência espacial. Renzulli (2004) traz uma perspectiva multidimensional da AH/SD, que denomina como comportamento de superdotação. Para ele, o comportamento superdotado é a interação entre três elementos: habilidade acima da média em alguma área do conhecimento; envolvimento com a tarefa e criatividade. Observe na Figura 1 que a intersecção entre esses três elementos caracteriza o comportamento de superdotação. Figura 1. Os três anéis de Renzulli. Fonte: Machado (2019) A habilidade acima da média divide-se em geral e específica. A geral é a utilização do raciocínio abstrato produzindo respostas adequadas e generalizáveis, e a específica é a aplicação de várias habilidades gerais a uma ou mais áreas do conhecimento, habilidades psicomotoras, relações interpessoais, arte. O envolvimento com a tarefa é a persistência, a perseverança em executar uma ação ou atividade. A pessoa aplica todo o seu potencial criativo revestido de uma autoconfiança e determinação. Já a criatividade é o uso de todos os recursos intelectuais, motivacionais, inovadores ou criativos que resultam em produtos ou soluções superiores e surpreendentes (FREITAS; PÉREZ, 2012). Renzulli (2014), após o trabalho intensivo com um grupo de alunos, conseguiu, de certa forma, categorizar o comportamento de superdotação em: superdotação escolar e superdotação criativo-produtiva. Essa proposta está sintonizada com a concepção de inteligência de Gardner: uma concepção múltipla da inteligência e das altas habilidades/superdotação. Portanto, a partir das mudanças do paradigma conceitual da inteligência propostas por Gardner e as redefinições das AH/SD expostaspor Renzulli, chegamos à definição atual de AH/SD que está na Política Inclusiva do AEE. Essa definição utiliza conceitos de inteligência e de AH/SD multidimensionais (FREITAS; PÉREZ, 2012). Esses estudos trouxeram um avanço, pois anteriormente apenas alunos com alto nível de habilidades acadêmicas eram considerados o público-alvo do AEE, principalmente habilidades relacionadas à área linguística e matemática. Alunos com potenciais elevados em outras áreas das habilidades e do conhecimento humano eram desconsiderados. Por fim, atualmente define-se como sendo o público-alvo do AEE na área das AH/SD aquele aluno que apresenta habilidade acadêmica acima da média de seus pares da mesma idade e mesmo contexto cultural ou que demonstra um alto envolvimento com a tarefa, além de ser criativo. As manifestações de sua inteligência poderão ser múltiplas, com alta performance em uma ou mais das inteligências de Gardner (corporal-cinestésica, interpessoal, musical, lógico-matemática, linguística, naturalista, intrapessoal e espacial). Os traços que apresentam são: capacidade intelectual geral, aptidão acadêmica específica, pensamento criativo-produtivo, capacidade de liderança, talento especial para artes e capacidade psicomotora. Esses traços podem ocorrer isolados ou combinados. Além disso, podem estar aparentes, por terem sido adequadamente estimulados, ou ocultos, por necessitarem de um ambiente instigante para desenvolver habilidades latentes. 6 PLANO DE DESENVOLVIMENTO INDIVIDUAL PARA O ALUNO COM ALTAS HABILIDADES/SUPERDOTAÇÃO O art. 59 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, afirma que: “[…] a escola deve prever currículo, métodos, recursos educativos e organizações específicos para atender às suas necessidades e […] aceleração para concluir em menor tempo o programa escolar para superdotados” (BRASIL, 2005b, p. 25). Isso significa que os sistemas de ensino devem garantir o atendimento a todas as necessidades educacionais que o aluno apresenta, oferecendo-lhes todos os recursos, adaptações, complementações e metodologias necessárias para garantir o acesso e a permanência no ensino em igualdade de condições com os demais alunos. No caso do aluno com AH/SD, é necessário suplementar e enriquecer os conteúdos, recursos e metodologias para atender às suas necessidades específicas e potencialidades, proporcionando-lhe uma educação de qualidade e que valorize suas características individuais. Para projetar esses recursos, conteúdos e métodos, deve-se ter em mente algo que parece óbvio, mas é extremamente importante: os alunos com AH/ SD que compõem o AEE não têm todos as mesmas características. Diversos elementos distinguem cada um, como traços de personalidade, aspectos culturais, relações familiares, forma como as suas habilidades foram ou não estimuladas. Somada a esses fatores há a distinção entre aqueles alunos que são superdotados escolares e/ou criativos-produtivos. Isso significa que deve ser feita uma identificação multidimensional (FREITAS; PÉREZ, 2012). Conhecendo todos os elementos que caracterizam individualmente o aluno, inicia-se a elaboração de um plano de trabalho que norteará toda a prática na SRM e na sala regular para atender às necessidades individuais. Com esse plano, devem ser ofertadas todas as possibilidades para o máximo desenvolvimento das potencialidades desse aluno, além de todo suporte ao professor que atua com ele, pois “[…] é necessário o desenvolvimento de um plano de ensino que contemple as especificidades dos alunos, respeite as diferenças acadêmicas e seus ritmos de aprendizagem” (LEITE; BORELLI; MARTINS, 2013) O professor da SRM e os professores da classe regular, juntamente com o coordenador pedagógico da unidade escolar, elaboram o PDI, que seria um planejamento individualizado, periodicamente avaliado e revisado, que considera o aluno em patamar atual de habilidades, conhecimentos e desenvolvimento, idade cronológica, nível de escolarização já alcançado e objetivos educacionais desejados em curto, médio e longo prazos. (GLAT; VIANNA; REDIG, 2012) O trabalho com o PDI requer avaliações sistematizadas que permitam elencar metas prioritárias para alcançar um objetivo específico para o aluno. Segundo Mascaro (2018), os objetivos a serem trabalhados podem ser os mesmos do seu grupo de referência/ano escolar. O que muda, a partir da aplicação do PDI, são as metas a serem atingidas pelo aluno. Para elaboração do PDI, portanto, devem ser observados os seguintes fatores: Delou (2014), sugere a utilização de um plano individual de ensino com vistas à aceleração de estudos adaptada de um modelo aplicado por Joseph Renzulli. Segundo a autora, o PDI visa à realização das modificações ou adaptações curriculares para o desenvolvimento escolar dos alunos, segundo a capacidade de cada um. A primeira página do formulário traz informações de identificação do aluno, da escola, dos professores e dos responsáveis pelo aluno. Para preencher essa primeira folha, é necessário realizar a avaliação inicial do aluno, para observar seus interesses Avaliação inicial das potencialidades e obstáculos a serem vencidos; Apresentação de dados relevantes do aspecto social, afetivo, cognitivo, motor, psicomotor e linguagem (diagnóstico inicial); Planejamento de acordo com o currículo e a proposta pedagógica da escola; Mediação do professor da SRM e da sala regular; Enriquecimento curricular de qualidade; Objetivos trazidos do currículo das áreas do conhecimento; Extensão e profundidade devem ser discutidas entre professor, professor do AEE e equipe pedagógica; Deve ser flexível e retroalimentável; Regular a aprendizagem do aluno e sua avaliação. e talentos. Ainda no primeiro formulário, será identificado o local do AEE, os serviços, os recursos e as acessibilidades disponíveis e necessárias, além de informações como o número de atendimentos e o período em que será realizado. Para realizar a identificação, sugere-se a lista-base de indicadores de superdotação. Veja o formulário na íntegra na Figura 2. Figura 2. Plano de atendimento educacional especializado: página 1. Fonte: Delou e Erick (2012). A segunda folha sugere um planejamento didático com proposta de diferenciação do conteúdo a ser ensinado, o processo pedagógico e os produtos finais alcançados. Conforme Delou (2014), na primeira coluna, deve ser feita uma breve descrição das áreas curriculares, dos interesses e talentos a serem trabalhados, trazendo os critérios de avaliação. Na segunda coluna, devem ser descritos os recursos utilizados para o desenvolvimento das experiências de aprendizagem e, na terceira, serão descritas as atividades pedagógicas. Observe a Figura 3. Figura 3. Plano de atendimento educacional especializado: página 2. Fonte: Delou e Erick (2012). Na terceira página, há campos para registro do acompanhamento da execução do plano, para emissão de parecer final e recomendações, conforme a Figura 4. Figura 4. Plano de atendimento educacional especializado: página 3. Fonte: Delou e Erick (2012). Ainda visando subsidiar a sua prática, sugere-se um modelo que pode ser útil não só na área das altas habilidades, mas também em outras modalidades do AEE, especialmente nas ações em sala de aula. Inicialmente, devem ser descritos os dados de identificação do aluno; em seguida, os obstáculos e as potencialidades que o aluno apresenta, além dos atendimentos ofertados externamente e internamente. Em forma de tabela, descrever a área do conhecimento humano a que se refere o plano, o conteúdo a ser enriquecido, os objetivos a serem atingidos, as adaptações curriculares, as estratégias educacionais, os recursos materiais e como será realizada a avaliação da aprendizagem. Veja o modelo na