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Monitoria MDD4 2021.1 | Beatriz Maia, Carlos Assunção e Glenda Ferreira 1 MONITORIA DE MECANISMOS DE DEFESA E DOENÇA IV 2021.1 Monitores: Beatriz Maia, Carlos Assunção e Glenda Ferreira Resumo 02 – Leucemias LEUCEMIA MIELOIDE AGUDA (LMA) • Leucemia mais comum no mundo devido a maior incidência no Oriente (no Ocidente a + comum é a LLC); • Possui 8 subtipos (M0 a M7), sendo o M2 presente em 30-40% dos casos; • Ocorre infiltração de blastos leucêmicos na MO -> ocupação do espaço utilizado na produção de outras células -> pancitopenia; • Blastos na MO -> corrente sanguínea -> órgãos (linfonodos, baço, fígado, gengiva, órbita...); • A morte ocorre pela falência orgânica ou consequências da pancitopenia grave. • Esfregaço de sangue periférico: bastonetes de Auer (patognomônicos!!); • Imunofenotipagem (marcadores coloridos que identificam os CDs); • Em 50% dos casos há alterações cromossômicas, ex: t(8;21) na M2; sendo que alguns são mais favoráveis que outros Quadro clínico • Adultos (>15 anos, aumenta com a idade); • Evolução em dias a semanas; • Tríade: astenia, hemorragia e febre; • Anemia moderada a grave de instalação rápida; • Hepatoesplenomegalia, pode ter linfadenopatia e dor óssea (+ comuns na LLA); • Hiperplasia gengival (M4 e M5), cloroma (M2); • Leucostase. Monitoria MDD4 2021.1 | Beatriz Maia, Carlos Assunção e Glenda Ferreira 2 Achados laboratoriais • Anemia + plaquetopenia + leucometria variável; • Hb 5-9g/dl, normo normo sem reticulocitose; • Predomínio superior a 70% de blastos!! Diagnóstico • Mielograma com + de 20% de blastos. Tratamento • Suporte: o Transfusão de plaquetas quando indicado (ver critérios); o Manter Hb acima de 8,0g/dl; o Tratar CIVD se presente (M3); o Medicamentos para leucostase se presente; • Específico da LMA: o Quimioterapia: remissão com arabinosídeo-C + daunorrubicina (esquema 7+3); o Consolidação com 4 ciclos de arabinosídeo-C em altas doses; o Transplante de células hematopoiéticas nos casos refratários; o Subtipo M3: ácido transretinoico (ATRA). Monitoria MDD4 2021.1 | Beatriz Maia, Carlos Assunção e Glenda Ferreira 3 LEUCEMIA MIELOIDE CRÔNICA (LMC) • É uma das síndromes mieloproliferativas (ex.: policitemia vera, mielofibrose idiopática, etc) = neoplasias hematológicas iniciadas em células-tronco ou progenitor próximo a esta em maturação; • Células atingem a maturidade e não há bloqueio de maturação, o que a diferencia da LMA; Epidemiologia • Mais comum em pacientes > 55 anos; • Discreto predomínio no sexo masculino; • Apresentação mais comum é com o acometimento de células-tronco Patogênese • Cromossomo Filadélfia → translocação entre os braços longos do cromossomo 9 (banda 34) e 22(banda 11): t(9;22) (q34;q11); → Está presente em mais de 95% dos pacientes com LMC • Oncogene híbrido bcr/abl → síntese da proteína P210 que aumenta divisão celular e inibe apoptose; • Diferenciação da célula neoplásica preferencialmente na série granulocítica (neutrófilos, eosinófilos e basófilos) + células precursoras (bastões, metamielócitos, mielócitos e mieloblastos); • Ocupação medular neoplásica pode implicar em anemias pela inibição da eritropoiese. Monitoria MDD4 2021.1 | Beatriz Maia, Carlos Assunção e Glenda Ferreira 4 Manifestações clínicas e laboratoriais • Leucocitose neutrofílica acentuada com desvio á esquerda (N>100000/mm³) + esplenomegalia de grande monta (>5cm do RCE) → Importante para investigação diagnóstica, sendo o quadro mais comum nesses pacientes; • Anemia normo-normo + trombocitose (plaquetometria > 400000/mm³); →Apesar do alto número de plaquetas, elas são disfuncionais, o que facilita sangramentos. • Febre, perda ponderal inexplicada, astenia, sudorese noturna, desconforto abdominal e outros sintomas inespecíficos → decorrentes do estado hipercatabólico; • Leucograma com desvio á esquerda importante!!! Suspeitar principalmente do excesso de basófilos, uma vez que LMC é uma das poucas causas de basofilia importante e persistente; Diagnósticos diferenciais • Reação leucemoide → quadro infeccioso grave e generalizado; • Síndromes mieloproliferativas; → diferenciar pela presença do cromossomo Filadélfia no mielograma. Diagnóstico • RT-PCR (Reação reversa da cadeia de transcrição da polimerase) do sangue periférico ou FISH test com presença da mutação bcr/abl; • Mielograma com detecção de cromossomo Filadélfia → Importante também para acompanhar resposta ao tratamento e prognóstico geral. Fases Fase crônica (3-5 anos) → maior parte dos diagnósticos é feita aqui → quadro mais indolente Fase acelerada → agravamento do quadro Crise blástica → Leucemia aguda rapidamente fatal! Sobrevida média de 3 meses Monitoria MDD4 2021.1 | Beatriz Maia, Carlos Assunção e Glenda Ferreira 5 Obs.: SOKAL é um método prognóstico muito utilizado na prática para estratificar o risco desses pacientes em baixo-médio-alto, analisando informações do leucograma, exame físico e idade; Monitoria MDD4 2021.1 | Beatriz Maia, Carlos Assunção e Glenda Ferreira 6 Tratamento • Mesilato de imatinibe (Gleevec) → Desaparecimento das células carreadoras do cromossomo Filadélfia! • Desatinibe ou nilotinibe • Transplante LEUCEMIA LINFOCÍTICA AGUDA (LLA) • Leucemia aguda: Patogênese → Célula progenitora (blastos) sofre mutação e se torna incapaz de amadurecer (diferenciação hematopoiética). Ocorre uma proliferação descontrolada, resultando na ocupação da medula óssea e impedimento do crescimento e diferenciação de células normais. Epidemiologia: • Mais comum na infância → 2-10 anos (maior aos 4 anos) o Melhor prognóstico (15-30% chance de recidiva) o 90% tem cura com a QT • Raça branca • Discreta predominância no sexo masculino (57%) • Adultos → Pior prognóstico o 25-40% de taxa de cura o Tem resposta a QT de indução, mas recidiva (60-70% de chance) • Fatores de pior prognóstico o Idade > 10 anos o Idade < 1 ano o Hiperleucocitose (>50000/mm³) o Presença do cromossomo Filadélfia o t(9;22) o t(4;11) o t(1;19) → Moderadamente ruim Classificação FAB • L1 o LLA infantil o Melhor prognóstico e resposta terapêutica o Linfoblasto → Núcleo arredondado + citoplasma escasso • L2 M uito ruim Monitoria MDD4 2021.1 | Beatriz Maia, Carlos Assunção e Glenda Ferreira 7 • LLA no adulto o Linfoblasto: Maior que em L1, nucléolos, ↑citoplasma, núcleos irregulares • L3 o Menos comum o Forma leucêmica do Linfoma de Burkitt → Responde mal ao esquema tradicional de QT para LLA, o tratamento tendo que ser o mesmo para o linfoma de Burkitt o Linfoblastos → Tamanho intermediário, com citoplasma proeminente, basofílico e cheio de vacúolos Manifestações clínicas e laboratoriais • Dor óssea é muito frequente • Adenomegalia cervical ou generalizada • Massas mediastinais no subtipo de células T do timo → Compressão e derrame pleural • Acometimento do SNC e testículos • Febre neoplásica → noturna + sudorese intensa • Hepatoesplenomegalia • Síndrome meníngea • Anamnese e exame físico o Anamnese detalhada o Edema testicular o Sinais meníngeos • Laboratório o Hemograma: Pancitopenia o Análise do sangue periférico: Anemia normo/normo o Coagulograma o Dosagem de fibrinogênio o Tipagem sanguínea ABO e fator Rh o Tipagem HLA (paciente e irmãos) o RX ou TC de tórax: Massas mediastinais e linfonodomegalias o Punção lombar: Deve ser evitada no caso de diagnóstico, pois há chance de transferência de blastos leucêmicos para SNC. a avaliação liquórica deve ser realizada apenas durante o tratamento (quando não há mais blastos circulantes) para administração de quimioterapia intratecal. o Função renal e hepática: Monitoramento durante a quimioterapia o Aspirado e biópsia de MO o Mielograma: medula óssea hipercelularcom intensa infiltração por linfoblastos (Linfoblastos ≥ 25%, com substituição dos espaços adiposos e elementos medulares normais por células leucêmicas; o Citoquímica: Coloração para PAS (Células B) ou fosfatase ácida (Células T) – Aspirado da medula óssea o Presença de TdT citoplasmático o Presença de antígenos CD10, CD5, CD19 e CD20 Indica linhagem linfoide imatura Monitoria MDD4 2021.1 | Beatriz Maia, Carlos Assunção e Glenda Ferreira 8 Tratamento • Tratamento de suporte o Transfusão de plaquetas: Indicada nos seguintes casos: ▪ Sangramento mucoso ou orgânico, com plaquetas inferiores a 50.000/mm3 → Transfusão terapêutica ▪ Paciente com plaquetas inferiores a 10.000/mm3 (ou 20.000/mm3 na presença de febre ou infecção) → Transfusão profilática ▪ Dose = 1UI/10kg, sendo a média no adulto em torno de 06 UI de concentrado de plaquetas ou 1UI extraída por aférese (único doador). Deve-se colher o sangue para contagem plaquetária 1h após a infusão dos concentrados, para avaliar a resposta. o Transfusão de concentrado de hemácias: A transfusão de concentrados de hemácia é indicada especialmente nos pacientes com anemia sintomática. Recomenda-se manter a Hb acima de 8,0 g/dl. o Prevencão a síndrome da lise tumoral: Todos os pacientes com leucemia aguda devem receber hidratação venosa e drogas hipouricemiantes antes do início da QT → alopurinol ou rasburicase. ▪ A QT poderá ser feita com segurança se a uricemia estiver abaixo de 8 mg/dl e a creatinina sérica abaixo de 1,6 mg/dl. ▪ Se ocorrer a síndrome de lise tumoral, a insuficiência renal oligúrica deve ser tratada com hidratação venosa e, nos casos mais graves, diálise. • Tratamento específico o Indução da remissão (4 semanas) ▪ Corticosteroide ▪ Vincristina ▪ L-asparaginase ▪ + Antraciclina, se adulto ou criança com prognóstico desfavorável ▪ + Ciclofosfamida, para adultos o Profilaxia do SNC ▪ Iniciada junto com o esquema de indução ▪ Metotrexate (MTX) intratecal (3 a 6 meses) ▪ Esquema intratecal triplo ▪ Radioterapia craniana no 8° mês → pacientes com alto ou intermediário risco de reincidiva → Iniciar após avaliação do liquor sobre presença de leucemia meníngea ▪ Consolidação da remissão (2 a 8 meses) LLA infantil com prognóstico favorável Monitoria MDD4 2021.1 | Beatriz Maia, Carlos Assunção e Glenda Ferreira 9 ▪ MTX em doses intermediárias ▪ Resgate com ácido folínico → ↓toxicidade medular e mucosa ▪ Para lactentes ou com translocação t(9;22) ou t(4;11) → transplante alogênico o Manutenção (2 a 3 anos) ▪ 6-mercaptopurina ▪ Metotrexate ▪ Pulsos semanais de vincristina + prednisona • Recidiva o 15 a 30% em crianças; o 60 a 70% em adultos → Cerca de 25% dos adultos não atingem a remissão completa; o Recidivas precoces ou não remissão → Transplante alogênico → células precursoras da medula provêm de outro indivíduo (doador) o Blinatumomab → anticorpo monoclonal; o Local de recidiva ▪ Medula óssea (Maior parte das recidivas) ▪ Testículo ▪ SNC ▪ Cefaleia, náusea, vômito e outros sinais de hipertensão intracraniana; ▪ Paralisia dos nervos cranianos; ▪ Diagnóstico → Exame de liquor → Blastos; ▪ Tratamento → radioterapia craniana + quimioterapia intratecal + quimioterapia sistêmica com drogas de maior penetrância no SNC. ▪ Obs.: As recidivas extramedulares geralmente vêm acompanhadas de recidiva medular. LEUCEMIA LINFOCÍTICA CRÔNICA (LLC) • Representa 30% das leucemias; • Pacientes idosos (>60 anos); • O clone neoplásico é um linfócito B maduro! Porém, não se diferencia em plasmócito, o que o torna ineficaz na produção de anticorpos; • Marcadores de linfócitos B (CD19, CD20...) presentes + CD5 (que geralmente é de linfócitos T); Monitoria MDD4 2021.1 | Beatriz Maia, Carlos Assunção e Glenda Ferreira 10 • Doença acumulativa: linfócitos B neoplásicos tem turnover lento, meia-vida longa -> acúmulo na MO -> sangue periférico -> infiltração de linfonodos, baço e fígado (a cada dia o paciente fica mais propenso a infecções oportunistas!!); Achados clínico-laboratoriais • Linfocitose >5000/mm³ + adenomegalia cervical; • Febre, sudorese noturna, astetnia, fagida, perda ponderal e queda do estado geral; • No esfregaço de sangue periférico são vistos linfócitos idênticos ao normais, atentar para smudge cells (linfócitos amassados); • Esplenomegalia (40% dos casos) e hepatomegalia (10%); • Hipogamaglobulinemia com o avanço da doença. Diagnóstico • Linfocitose persistente > 10.000/mm³ + aspirado de MO com >30% de linfócitos ou • Linfocitose persistente >5.000/mm³ + aspirado de MO com >30% de linfócitos + imunofenotipagem revelando marcadores de linfócito B maduro + marcador CD5. Estadiamento e prognóstico • Nessa leucemia se faz estadiamento!! A sobrevida depende totalmente do estágio do paciente; Monitoria MDD4 2021.1 | Beatriz Maia, Carlos Assunção e Glenda Ferreira 11 • A maioria morre pela debilitação gerada pela doença + infecções bacterianas. Tratamento • Estágios iniciais: “watch and wait”; • Se fadiga progressiva e/ou linfadenopatia sintomática e/ou anemia e/ou trombocitopenia = tratar!! • < 70 anos sem comorbidades significativas -> fludarabina + rituximab; • >70 anos ou comorbidades significativas -> clorambucil + obinutuzumab.