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Disciplina
Educação Infantil
Coordenador da Disciplina
Prof.ª Cristina Façanha Soares
3ª Edição
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transmitida e gravada por qualquer meio eletrônico, por fotocópia e outros, sem a prévia autorização, por escrito, dos autores.
Créditos desta disciplina
Realização
Autor(es)
Prof.ª Maria Cilvia Queiroz Farias
Prof.ª Fátima Sampaio Silva
Sumário
Aula 01: Infância E Educação Infantil: Concepções ............................................................................. 01
Tópico 01: Iniciando a discussão sobre as concepções de infância e de criança ................................... 01
Tópico 02: A ideia de infância: um breve histórico ............................................................................... 05
Aula 02: O Atendimento Da Criança Na Contemporaneidade:
Um Percurso Histórico E Cultural .......................................................................................................... 10
Tópico 01: A educação da criança no contexto europeu ........................................................................ 10
Tópico 02: A educação da criança no contexto brasileiro ..................................................................... 14
Tópico 03: Creches, escolas maternais e jardins de infância no Brasil .................................................. 16
Tópico 04: Educação da criança de zero a seis anos ao longo do século XX ........................................ 19
Aula 03: Educação Infantil No Contexto Contemporâneo ................................................................... 24
Tópico 01: A Educação Infantil no Brasil nas décadas finais do século XX, a busca da qualidade ... 24
Tópico 02: O percurso dos marcos legais voltados para o atendimento da criança da Educação Infantil ..... 28
Aula 04: As Diretrizes Curriculares Para A Educação Infantil (Dcneis) ............................................ 35
Tópico 01: A Educação Infantil de acordo com as DCNEIs .................................................................. 35
Tópico 02: A Proposta Pedagógica da Educação Infantil ...................................................................... 39
Tópico 03: Currículo na Educação Infantil ............................................................................................ 47
Tópico 04: Uma experiência de Educação Infantil ................................................................................ 50
Aula 05: A Inclusão De Crianças Com Necessidades Educativas
Especiais Na Educação Infantil ............................................................................................................... 66
Tópico 01: Aspectos históricos da educação especial ............................................................................ 66
Tópico 02: Aspectos legais da educação inclusiva ................................................................................ 70
Tópico 03: Dimensões do atendimento educacional especializado ....................................................... 73
Tópico 04: O atendimento da criança com Necessidade Educacionais Especializadas na perspectiva da
inclusão ................................................................................................................................................... 80
Educação Infantil
Aula 01: Infância E Educação Infantil: Concepções
Tópico 01: Iniciando a discussão sobre as concepções de infância e de criança
VERSÃO TEXTUAL
Caras (os) alunas (os),
É prazeroso compartilhar com vocês saberes e experiências acerca da Educação
Infantil, primeira etapa da Educação Básica. Iniciaremos nossos estudos, refletindo
sobre a construção social, histórica e cultural da categoria infância. Discutiremos a
respeito das concepções, políticas, práticas de Educação Infantil e analisaremos o
percurso do atendimento à infância e das legislações relacionadas com a Educação
Infantil no contexto contemporâneo. Trataremos ainda da inclusão de crianças com
necessidades educativas especiais na Educação Infantil.
Diante de perguntas como "o que é infância?" e "o que é ser criança?", de modo geral, as
respostas estão associadas à ideia de felicidade, alegria, inocência, despreocupação.
Pensando assim, a infância, então, seria o "melhor tempo da vida".
Porém, quando olhamos ao nosso redor, nas ruas das grandes cidades, em especial nos
sinais de trânsito, percebemos crianças negligenciadas, pedindo esmolas, sujas e expostas
a problemas de uso de drogas e prostituição. No campo, também encontramos crianças que
não frequentam a escola ou para acompanhar os pais no trabalho de produção agropecuária
ou para realizar tarefas próprias para adultos, como mostra a imagem a seguir:
Tabalho infantil [1]
1
REFLEXÃO
Por que tanta contradição no modo de vivenciar a infância? Será que todas as crianças
têm infância? Mas o que é mesmo a infância? O que é ser criança?
Infelizmente, muitas crianças da classe socioeconômica menos favorecida ainda
continuam sendo exploradas, quando deveriam receber os cuidados e a educação próprios
para essa etapa da vida. Também não podemos esquecer aquelas crianças de classe
socioeconômica privilegiada que, devido a equívocos de concepções de seus pais a respeito
da infância e do que é ser criança deixam de interagir com sua cultura de forma lúdica.
Crianças, seres humanos numa etapa inicial de desenvolvimento são inseridas num
contexto socioeconômico e cultural que sempre existiram; porém a infância é uma construção
histórica e cultural. Deve, pois, ser compreendida como um modo particular de se pensar a
criança, e não como um estado universal, igualmente vivido por todas. O que compreendemos
como infância na atualidade difere do sentido construído em outros contextos históricos,
culturais e geográficos.
Scliar (1995) discute a multiplicidade de infâncias na contemporaneidade. Para ele,
Nem todas as crianças, contudo, podem viver no país da infância.
Existem aquelas que, nascidas e criadas nos cinturões de miséria que
hoje rodeiam as grandes cidades, descobrem muito cedo que seu chão
é o asfalto hostil, onde são caçadas pelos automóveis e onde se iniciam
na rotina da criminalidade. Para estas crianças, a infância é um lugar
mítico, que podem apenas imaginar, quando olham as vitrinas das lojas
de brinquedos, quando veem TV ou quando olham passar, nos carros
dos pais, garotos da classe média. Quando pedem num tom súplice –
tem um trocadinho aí, tio? – não é só dinheiro que querem; é uma
oportunidade para visitar, por momentos que seja o país que sonham.
(1995, p. 4).
O que é infância?
Segundo Sarmento (2005, p.11), "infância é uma construção histórica, resultado de
um complexo de produção de representações sobre as crianças, de estruturação dos seus
cotidianos e modos de vida e, especialmente, de constituição de organizações sociais
para as crianças".
O que é criança?
A ideia do que é ser criança legalmente aceita na contemporaneidade passou por um longo
processo de construção no decorrer da história que será detalhado a seguir.
2
NO SÉCULO XIV
Devido ao grande movimento da religiosidade cristã, surge neste século a criança
mística ou criança anjo. A imagem da criança associada ao Menino Jesus ou à Virgem
Maria, causa consternação e ternura nas pessoas.
Virgem no trono com o Menino Jesus - Gentile da Fabriano (1408)
NO SÉCULO XVII
O filósofo Locke definiu a criança como uma folha em branco, na qual se poderia
inscrever o que se quisesse. Como base nessa concepção, questionou a ideia de criança
como fruto do pecado original, portadora de uma impureza cristã irremediável.
NO SÉCULO XVIII
O Filósofo Rousseau ressaltava a natureza boa, pura e ingênua da criança que
precisava ser livre para que a natureza pudesseagir no seu curso normal, favorecendo seu
pleno desenvolvimento saudável.
NO SÉCULO XXI
3
De acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil
publicadas em 2009, a criança é considerada.
Sujeito histórico e de direitos que, nas interações, relações e práticas cotidianas
que vivencia, constrói sua identidade pessoal e coletiva, brinca, imagina, fantasia,
deseja, aprende, observa, experimenta, narra, questiona e constrói sentidos sobre a
natureza e a sociedade, produzindo cultura.
(BRASIL/MEC, 2010, p.12).
O quadro abaixo, de Portinari, mostra crianças vivenciando o direito de brincar.
Futebol - Candido Portinari (1935)
A compreensão das diferentes concepções existentes sobre a criança é importante para
analisar o percurso do atendimento à infância em nosso país. Vale lembrar que a concepção que
se tem de infância e de criança repercute na forma de compreendê-la e de atendê-la.
4
Educação Infantil
Aula 01: Infância E Educação Infantil: Concepções
Tópico 02: A ideia de infância: um breve histórico
VERSÃO TEXTUAL
Ao longo do século XX, cresceu o interesse de várias ciências pelo conhecimento
da criança. Os estudos e pesquisas realizados por diferentes áreas de investigação
como a Sociologia, Antropologia, Psicologia, História e Filosofia nos permitem delinear
uma imagem de criança a partir das condições concretas de sua existência.
Segundo Kramer (1996, p.23), por exemplo,
Da sociologia de tradição francesa originou-se uma reflexão que, possibilitando a
crítica à ação reprodutora da escola, ampliou o questionamento quanto ao caráter
ideológico do conceito de infância presente na pedagogia, em especial na sociedade
capitalista.
Na década de 70 do século XX, as pesquisas de Charlot, um sociólogo francês e do
historiador Ariès foram fundamentais e contribuíram para a compreensão do significado
ideológico, histórico e cultural da infância.
Para Charlot (1976), a dominação do adulto sobre a criança, a relação de desigualdade,
ou seja, a ideia de querer "domar a natureza rebelde da criança", por exemplo, é fato social e
não natural. Para ele, a primeira posição marcada pela negatividade justifica a forma de
educar conhecida como pedagogia tradicional, na qual toda autoridade é conferida ao
adulto. Já de acordo com a chamada pedagogia nova, o educador deve cuidar para que a
criança possa desenvolver todo seu potencial, respeitando sua espontaneidade.
Essas pedagogias, apesar de apresentarem uma concepção de criança bastante
diferentes, ambas desconsideram a significação social da infância. Tem em comum a
ideia de natureza da criança desvinculada das condições reais de suas existências.
Ariès (1978) estudou sobre a história social da criança e da família, analisando pinturas,
antigos diários e testamentos, inscrições em igrejas e pedras tumulares. Desde então, sua
investigação vem contribuindo para a compreensão de que a ideia de infância é construída
social e historicamente. Segundo Ariès, a ideia de infância - sentimento de infância -, ou seja,
uma consciência da particularidade infantil é decorrente de um longo processo histórico,
5
não sendo uma herança natural. Seus estudos indicam que até o século XVII os adultos não
viam as crianças como qualitativamente diferentes de si próprias, nem tendo necessidades
especiais, ou fazendo quaisquer contribuições significantes para o seu desenvolvimento.
No quadro do pintor espanhol do século XVII, observamos que a criança está usando
um vestido de uma jovem adulta. Clique aqui
As meninas – Velásquez (1656)
As pesquisas desenvolvidas por este autor contribuíram para mudanças na maneira de
compreender a infância hoje, além de estimularem a realização de outros estudos, que
inclusive criticaram seus achados. Alguns desses estudos críticos propõem que já havia
antes da modernidade a compreensão das características específicas da criança.
Ainda de acordo com Ariès, a ideia de infância, como período distinto da vida humana
data do final do século XVIII. Até então, as crianças eram tratadas como adultos em
miniatura ou pequenos adultos. Apenas as crianças que tinham melhores condições sociais
e financeiras recebiam cuidados especiais nos primeiros anos de vida. A partir dos três ou
quatro anos, a maioria das crianças já participava das mesmas atividades dos adultos,
inclusive orgias, trabalhos forçados nos campos ou em locais insalubres, dentre outros.
Segundo esse pesquisador, na burguesia, a concepção de criança foi marcada por um duplo
e contraditório modo de vê-las:
CONCEPÇÃO 1: criança considerada ingênua, pura e inocente, concepção esta
que resultou nas atitudes por ele denominada “paparicação” (criança como
bichinho gracioso; para ser paparicado);
6
CONCEPÇÃO 2: criança considerada como ser imperfeito e incompleto que
precisava ser moralizada e educada pelos adultos isto é, treinada e controlada.
Kramer (1982, p 20) ressalta que,
Os dois aspectos do sentimento de infância – "paparicação" e "moralização" –
são aparentemente contraditórios, mas, na verdade se complementam na concepção
de essência infantil. A visão de infância baseada em uma concepção de natureza
infantil, e não na analise da condição infantil, mascara a significação social da
infância.
Ainda hoje, de modo geral, as crianças não são valorizadas de maneira uniforme; as
relações entre crianças e adultos são heterogêneas bem como é diverso o valor atribuído às
crianças em diferentes classes socioeconômicas. A inserção concreta das crianças e seus
papéis variam com as formas de organização das sociedades. Como diz Kramer (1982,
p.18),
A ideia de infância não existiu sempre da mesma maneira. Ao
contrário, ela aparece com a sociedade capitalista, urbano industrial,
na medida em que mudam a inserção e o papel da criança na
comunidade. Se na sociedade feudal, a criança exercia um papel
produtivo direto ("de adulto"), assim que passava o período de alta
mortalidade, na sociedade burguesa ela passa a ser alguém que
precisa ser cuidada, escolarizada e preparada para uma atuação
futura.
Vale ressaltar que, a ideia de infância não deve ser confundida com a afeição pelas
crianças: ela corresponde a uma atenção às peculiaridades da natureza da infância, que
distingue a criança de jovens, de adultos, de outros grupos geracionais. Geração entendida
como
[...] o modo como são continuamente reinvestidas de estatutos e papeis sociais e
desenvolvem práticas sociais diferenciadas, os atores de uma determinada classe
etária, em cada período histórico concreto.
(SARMENTO, 2005, p.367).
Então, devemos falar de infâncias, no plural?
Uma vez que o conceito de infância muda historicamente em função de determinantes
sociais, culturais, políticos e econômicos, não existe um conceito único de infância. Para
7
Kramer, "tratar da criança em abstrato, sem levar em consideração as diferentes condições
de vida, é dissimular a significação social da infância (1996, p.21)”.
Assim, infância, enquanto produção cultural não pode ser pensada como concluída,
finalizada ou cristalizada. Constitui-se num devir, que incorpora a noção de transformação e
dinamismo. Para Jardim (2003, p. 28), "a ideia do devir criança nos leva a pensar a
subjetividade em territórios para além da visibilidade superficial que nos leva ao tempo
cronológico, uniforme e linear".
Ter consciência a respeito das especificidades da criança ou ter
"sentimento de infância" significa compreender a criança como
qualitativamente diferente do adulto, ou seja, como alguém que percebe,
sente e compreende o mundo de um jeito próprio e que precisa, portanto, de
cuidado e de educação.
A concepção que se tem de infância e de criança tem implicações importantes no modo
de compreender e de atender a criança na família e nas instituições destinadas a essa etapa
do desenvolvimento humano. Mais uma vez, destaca-se que toda prática de atendimento dacriança, seja na família ou em outra instituição se fundamenta em determinada concepção
de infância e de criança. Também é importante ressaltar que a origem e expansão das
instituições destinadas às crianças estão associadas às mudanças na sociedade e na
família.
OLHANDO DE PERTO
Os dicionários da língua portuguesa registram a palavra infância como o período de
crescimento que vai do nascimento até o ingresso na puberdade, por volta dos doze
anos de idade. "Período que vai do seu nascimento ao início da adolescência; meninice,
puerícia" (Houaiss).
Segundo a Convenção sobre os Direitos da Criança, aprovada pela Assembleia
Geral das Nações Unidas, em novembro de 1989, "criança são todas as pessoas
menores de dezoito anos de idade".
Para o Estatuto da Criança e do Adolescente (1990), criança é considerada a
pessoa até os doze anos incompletos, enquanto entre os doze e dezoito anos, idade da
maioridade civil, encontra-se a adolescência.
Etimologicamente, a palavra infância vem do latim, infantia, e refere-se aquele que
ainda não fala. infantìa, ae 'dificuldade ou incapacidade de falar, mudez; infância,
meninice, primeira idade dos animais; o que é novo, novidade', do lat. infans, ántis 'que
não fala; criança'. (Houaiss).
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REFLEXÃO
A partir dos estudos apresentados, podemos concluir que não existe uma infância
única, igual para todas as crianças, nem para as que vivem no mesmo período histórico
e espaço geográfico. Com base nessa afirmação, reflita: Como foi a sua infância? Em
que aspectos sua infância se assemelha e/ou se diferencia da infância de seus avós, de
seus pais e das crianças com as quais convive hoje?
Referências bibliográficas
ARIÈS, P. A História social da criança e da família. Rio de Janeiro: Guanabara, 1978.
CHARLOT, B. La mistification pédagogique. Paris: Payot, 1976.
JARDIM, C. Brincar – um campo de subjetivação na infância. São Paulo, Annablume;
Fortaleza: Secult, 2003.
KRAMER, S. Pesquisando infância e educação: um encontro com Walter Benjamin.
P.13-38. In: infância: fios e desafios da pesquisa. Campinas, SP: Papirus, 1996.
SARMENTO. M. J. Gerações e alteridade: interrogações a partir da sociologia da
infância. In: Revista Educação e Sociedade, vol. 26. Nº 91. Campinas: Cedes, 2005.
SCLIAR, M. Um país chamado infância. São Paulo: Ática, 1995.
Fontes das Imagens
1 - http://www.regionalmt.com.br/imagens/noticias/trabalho%20infantil%202_1.jpg
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Educação Infantil
Aula 02: O atendimento da criança na comtemporaneidade: um percurso histórico e
cultural
Tópico 01: A educação da criança no contexto europeu
OLHANDO DE PERTO
O termo assistência muitas vezes é confundido ou compreendido como sinônimo
de assistencialismo. Segundo Cruz, no texto apresentado ao I Seminário de Educação
Infantil, realizado em Belém, em junho de 2008, todos nós precisamos de assistência,
isto é, de cuidados, especialmente em determinados períodos da vida, como infância e
velhice, ou quando estamos doentes, tristes etc. Quanto ao termo assistencialismo, diz
respeito à forma como ocorre o atendimento: preconceituosa e sem compromisso com
a qualidade.
VERSÃO TEXTUAL
Considerando o ponto de vista histórico, durante séculos a educação da criança
esteve sob a responsabilidade exclusiva da família. A criança se apropriava da cultura
na qual estava inserida por meio do convívio com os adultos e com outras crianças.
Na sociedade contemporânea, a criança passou a ser considerada cidadã de direitos:
direito de ser compreendida em suas características individuais, no seu jeito de pensar, de
agir e de estar no mundo, direito de se apropriar e de produzir cultura mediante interações
diversas, inclusive em instituições diferentes do convívio familiar.
É importante lembrar que a compreensão que se tem hoje sobre infância, criança
e seu direito à Educação Infantil de qualidade é fruto das transformações políticas e
socioeconômicas ocorridas nas sociedades contemporâneas, Entre estas mudanças,
vale destacar o ativismo dos movimentos sociais em defesa dos direitos de vários
segmentos da população, inclusive os direitos das crianças pequenas.
Para a compreensão da Educação Infantil no Brasil na contemporaneidade, precisamos
conhecer os marcos do processo de criação e expansão das práticas de atendimento à
infância em outros contextos, em especial, na Europa.
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Na Europa, com a transição do feudalismo para o capitalismo, houve a passagem do
modo de produção doméstico para o sistema fabril, e, consequentemente, a substituição da
força humana pela força motriz, provocando uma reorganização da sociedade. O impacto
causado pela revolução industrial fez com que os operários de ambos os sexos se
submetessem ao regime fabril e, portanto a revolução industrial envolveu a mulher no
mercado de trabalho e alterou de forma significativa os hábitos, os costumes e o modo da
família cuidar e educar seus filhos.
Com quem ficavam as crianças enquanto os pais trabalhavam?
As mães operárias que não tinham com quem deixar seus filhos utilizavam o trabalho
das mães mercenárias, ou seja, os deixavam com mulheres que optavam, mediante um
pagamento, por abrigar e cuidar dos filhos daquelas que trabalhavam nas fábricas.
Segundo Rizzo (2003), a partir da crescente participação dos pais no trabalho das
fábricas, das fundições e minas de carvão surgiram outras formas de arranjos mais
formais de atendimento. Por exemplo, algumas crianças eram acolhidas por mulheres
voluntárias da comunidade que, embora sem uma proposta instrucional formal,
desenvolviam atividades de canto e de memorização, rezas, formação de hábitos e
regras morais.
Portanto, desde que a preocupação dos pais operários era com a sobrevivência da
família, as crianças, quando não ficavam abandonadas nas ruas, eram atendidas por estas
mulheres que, por filantropia, tomavam para si a tarefa de acolher as crianças desvalidas. De
modo geral, os maus tratos e o desprezo pelas crianças tornaram-se aceitos como regra e
costume pela sociedade da época.
Segundo Rizzo (2003, p.31)
Criou-se uma nova oferta de emprego para as mulheres, mas
aumentaram os riscos de maus tratos às crianças, reunidas em
maior número, aos cuidados de uma única, pobre e despreparada
mulher. Tudo isso, aliado a pouca comida e higiene, gerou um
quadro caótico de confusão, que terminou no aumento de castigos
e muita pancadaria, a fim de tornar as crianças mais sossegadas e
passivas.
Nesse contexto, para proteger as crianças pobres enquanto as mães saíam para o
trabalho, na Europa e também nos Estados Unidos surgiram as primeiras instituições de
atendimento à infância - creches, escolas maternais e jardins de infância.
Qual a função das primeiras instituições de atendimento à infância?
11
Em seu início, as creches, escolas maternais e jardins de infância tiveram como função
a assistência à criança, enfocando a guarda, a higiene, a alimentação e outros cuidados
físicos.
No entanto, como ressalta Kuhlmann Júnior (2001), apesar de vinculadas à área da
Assistência, as instituições de atendimento à criança se preocuparam com questões não só
de cuidados, mas de educação moral e intelectual das crianças. A princípio, se propuseram a
retirar das ruas as crianças pobres em situação de risco e expostas a perigos, mas havia
também a intenção de proporcionar-lhes o desenvolvimento da inteligência e dos bons
costumes.
Em relação ao atendimento das crianças nas salas de asilos franceses, o referido autor
menciona que de acordo com os textos oficiais
"[...] o seu papel não foi somente o de guardar a pequena infância popular, mas, em
nome de um projeto educativo, de disputar esta clientela às guardiãs de
quarteirão" (KUHLMANN JÚNIOR, 2001, p. 8).
OBSERVAÇÃO
O primeiro jardim de infância, criado em meados de 1840 em Blankenburg, por
Froebel, teve como objetivo não só educar e cuidar das crianças, mas transformar a
estrutura familiar de modo queas famílias pudessem cuidar melhor de seus filhos.
Assim, a partir da segunda metade do século XIX o quadro das instituições destinadas à
primeira infância na Europa era formado basicamente da creche e do jardim de infância ao
lado de outras modalidades educacionais, que foram absorvidas como modelos em
diferentes países, inclusive no Brasil. Nesse mesmo período, a infância começou a ocupar
um lugar de fundamental importância para a família e para a sociedade. Desde então, a
criança passou a ser pensada como alguém que necessita de espaço, de cuidados
diferenciados e principalmente de programas educacionais. Froebel, Pestalozzi e
Montessori, e outros, foram os precursores do modelo educacional da época.
Apresentaremos a seguir algumas informações sobre esses educadores.
FRIEDRICH FROEBEL
Nasceu em 21 de abril de 1782, em Oberwibach, Prússia (atual Alemanha) e
faleceu em 1852. Em 1816 fundou sua primeira escola, em uma cidade alemã e após
dois anos, transferiu-a para Keilhau, onde pôs em prática suas teorias pedagógicas.
Mudou-se para a Suíça onde treinou professores e coordenou um orfanato. Após
adquirir experiências, fundou o primeiro jardim de infância, na cidade alemã de
Blankenburg. O nome (jardim de infância) reflete uma ideia de Froebel, que era
compartilhada com outros pensadores de seu tempo: o de que a criança é como uma
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planta em sua fase de formação, exigindo cuidados para que cresça de maneira
saudável. Foi defensor do desenvolvimento genético que ocorre por etapas sucessivas
que compreendem a infância, a meninice, a puberdade, a mocidade e a maioridade.
Partindo da afirmação que o homem é uma força autogeradora e não uma esponja que
absorve conhecimentos do exterior, suas propostas educacionais se caracterizavam
por um "currículo de atividades", no qual o caráter lúdico é o fator determinante da
aprendizagem das crianças.
HEINRICH PESTALOZZI
Nasceu em 1746, em Zurique, na Suíça e faleceu em 1827. Foi um dos pioneiros da
pedagogia moderna, influenciando profundamente todas as correntes educacionais. O
afeto teve papel central na obra de pensadores que lançaram os fundamentos da
pedagogia moderna. Nenhum deles, no entanto, deu mais importância ao amor, em
particular ao amor materno, do que Pestalozzi. Fundou escolas, incentivou a população
a lutar por uma educação capaz de atingir o povo, num tempo em que o ensino era
privilégio exclusivo das classes dominantes. Para ele, a vida educa mas a educação
não é uma questão de palavras e sim de ação.
MARIA MONTESSORI
Nasceu em 31 de agosto de 1879. Estudou medicina e tornou-se a primeira médica
italiana. Foi uma pedagoga que renovou o ensino, desenvolvendo um método peculiar
que ficou mundialmente conhecido como Método Montessori. Este método foi
aplicado, inicialmente, nas escolas primárias italianas e depois utilizado em vários
países. Dirigido especialmente às crianças do período pré-escolar, é baseado no
estímulo da iniciativa e capacidade de resposta da criança, por meio do uso do material
didático especialmente planejado. O método propõe uma enorme diversificação de
tarefas e a máxima liberdade possível, de tal maneira que a criança aprendia por si
mesmo e seguindo o ritmo de suas próprias descobertas.
Após a Segunda Guerra Mundial, juntamente com as mudanças ocorridas na sociedade,
o atendimento à infância enfrentou novas demandas: atender as crianças órfãs, filhas da
guerra; atender filhos de mulheres que começaram a trabalhar nas indústrias bélicas ou
daquelas que substituíram o trabalho masculino. Nessa mesma época, surgiu também um
maior interesse de estudiosos e pesquisadores pelo desenvolvimento da criança, incluindo a
evolução da linguagem e pela importância dos primeiros anos na vida do ser humano.
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Educação Infantil
Aula 02: O atendimento da criança na comtemporaneidade: um percurso histórico e
cultural
Tópico 02: A educação da criança no contexto brasileiro
VERSÃO TEXTUAL
No Brasil, a história da infância se confunde com a história do abandono, do
preconceito, da exploração, da diferenciação entre as crianças. Desde o início de sua
colonização, passando pelo Império e República, e ainda hoje, percebe-se a diferença e
a desigualdade entre crianças de diferentes classes socioeconômicas e de diferentes
regiões. Segundo Pinheiro (2001, p. 30), "a desigualdade social assume, entre nós,
múltiplas expressões, quer se refiram à distribuição de terra, de renda, do
conhecimento, do saber e, mesmo, ao exercício da própria cidadania".
O atendimento institucional às crianças de zero a seis anos se iniciou no Brasil no final
do século XIX, assim como na Europa, com a finalidade de atender crianças abandonadas e
negligenciadas.
Como era o atendimento dessas crianças?
Na zona rural, as famílias de fazendeiros assumiam o cuidado das crianças
abandonadas, geralmente fruto da exploração sexual da mulher negra e índia, pelo senhor
branco. Na área urbana, as crianças abandonadas, enjeitadas eram colocadas na Roda dos
Expostos. Segundo Aquino, (2001, p.31),
A roda dos expostos, como assistência caritativa, era, pois, missionária. A
primeira preocupação do sistema para com a criança nela deixada era de providenciar
o batismo, salvando a alma da criança, a menos que trouxesse consigo um bilhete – o
que era muito comum – que informava à rodeira de que o bebê já estava batizado.
A Roda dos Expostos era um tipo de caixa de forma cilíndrica, dividida ao meio por uma
divisória e fixada nas janelas de instituições, como as Casas de Misericórdia, na qual as
crianças eram colocadas pela mãe ou por qualquer outra pessoa da família. Ao girar a roda
para dentro da instituição, a rodeira retirava o bebê abandonado, preservando sua
identidade.
14
VERSÃO TEXTUAL
Conforme Marcílio (1997), por mais de um século a Roda dos Expostos foi a única
instituição de assistência à criança abandonada no Brasil. Apesar das críticas, por parte
de segmentos da sociedade, foi somente no século XX, já em meados de 1950, que o
Brasil efetivamente a extinguiu, sendo o último país a acabar com o sistema da roda
dos enjeitados.
No final do século XIX, no início da República, período da abolição da escravatura no
país e de acentuada migração de famílias pobres para as grandes cidades, registrou-se um
alto índice de mortalidade infantil. Para combater essa caótica situação, várias iniciativas
isoladas de proteção à infância foram surgindo. Além do trabalho desenvolvido nas Casas
de Misericórdia para atender as crianças abandonadas, um número significativo de
instituições de atendimento à infância foram criadas por organizações filantrópicas,
voltadas para o atendimento às crianças pobres.
Integrantes da sociedade, como médicos, religiosos, empresários e educadores,
preocupados com a mortalidade infantil, com a desnutrição generalizada e com o número
significativo de acidentes domésticos envolvendo crianças começaram a pensar em um
espaço de cuidados fora do âmbito familiar. Com o objetivo de auxiliar as mulheres, com
filhos pequenos, que trabalhavam fora de casa, ou as viúvas desamparadas, bem como para
atender crianças abandonadas, negligenciadas e diminuir a mortalidade infantil, as primeiras
tentativas de organização de creches, asilos e orfanatos no Brasil revestiram-se de um
caráter assistencialista.
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Educação Infantil
Aula 02: O atendimento da criança na comtemporaneidade: um percurso histórico e
cultural
Tópico 03: Creches, escolas maternais e jardins de infância no Brasil
No final do século XIX e durante as primeiras décadas do século XX, constata-se que a
implantação de creches no Brasil fundamentou-se especialmente em duas tendências:
a) jurídico-policial que visava à defesa da infância desvalida moral e
materialmente abandonada para evitar a criminalidade; e
b)Médico-higienista que tinha a intenção de combater o alto índice de
mortalidade infantil tanto no interiorda família como nas instituições de
atendimento à infância.
Conforme ressaltamos anteriormente, contribuíram para a criação de creches, escolas
maternais e jardins de infância, os movimentos operários, constituídos a partir da
implantação da industrialização no país, a inserção da mulher no mercado de trabalho e a
chegada dos imigrantes europeus no Brasil. Esses movimentos passaram a reivindicar a
criação de instituições não só de cuidados, mas de educação para seus filhos.
Com a entrada das mulheres da classe média no mercado de trabalho, devido ao
avanço da industrialização, surgiram os movimentos feministas e aumentou a demanda pelo
serviço de atendimento à infância em creches e pré-escolas. De acordo com Haddad (1993),
os movimentos feministas iniciados nos Estados Unidos tiveram papel crucial na revisão do
significado das instituições de atendimento à criança. As feministas defendiam a ideia de
que estas instituições (creches, escolas maternais, pré-escolas) deveriam atender os filhos
de todas as mulheres, independentemente da condição econômica e do fato de trabalharem
ou não.
Segundo Oliveira, para diminuir a força dos movimentos,
Os donos de fabricas foram concedendo certos benefícios
sociais e propondo novas formas de disciplinar seus trabalhadores.
Eles buscavam o controle do comportamento dos operários, dentro
e fora da fábrica. Para tanto, vão sendo criadas vilas operárias,
clubes esportivos e também creches e escolas maternais para os
filhos dos operários. O fato dos filhos das operárias estarem sendo
atendidos em creches, escolas maternais e jardins de infância,
montados pelas fábricas passou a ser reconhecido por alguns
16
empresários como vantajoso, pois mais satisfeitas, as mães
operárias produziam melhor (1992, p. 18).
Creches, escolas maternais e jardins de infância
Como descrito no inicio desta aula, no Brasil, as creches ou asilos da primeira infância
surgiram para solucionar o problema das mulheres, mães pobres, que necessitavam
trabalhar e não tinham a quem confiar seus filhos. Também evitavam que as mães
abandonassem seus filhos na Roda dos Expostos, por falta de opção.
As creches foram criadas seguindo os modelos das creches da Europa, que existiam já
há algum tempo e se localizavam nos órgãos de Assistência pública e da saúde. Atendiam,
pois, as crianças da classe popular que viviam em condições precárias em relação à higiene,
saúde e alimentação.
OLHANDO DE PERTO
O termo creche é tomado emprestado da língua francesa, na qual também designa
presépio. Além da palavra crèche, ou salle d'asile, a França forneceu ao Brasil toda ideia
de finalidade e funcionamento destas instituições.
Na França, assim se definia a creche:
A creche é um estabelecimento de beneficência que tem por fim receber todos os
dias úteis e durante as horas de trabalho, as crianças de dois anos de idade para baixo,
cujas mães são pobres, de boa conduta e trabalham fora de seu domicílio.
Já as crianças de classes economicamente mais favorecidas, quando não ficavam no
domicílio, cuidadas por pessoas remuneradas, frequentavam escolas maternais e jardins de
infância particulares, localizados em instituições educacionais. Constata-se, portanto, que
crianças de diferentes segmentos sociais e econômicos recebiam atendimento
diferenciado. Como afirma Didonet (2001, p.13),
Enquanto as famílias mais abastadas pagavam uma babá, as pobres se viam na
contingência de deixar os filhos sozinhos ou colocá-los numa instituição que deles
cuidasse. Para os filhos das mulheres trabalhadoras, a creche tinha que ser de tempo
integral; para os filhos de operárias de baixa renda, tinha que ser gratuita ou cobrar
muito pouco; ou para cuidar da criança enquanto a mãe estava trabalhando fora de
casa, tinha que zelar pela saúde, ensinar hábitos de higiene e alimentar a criança. A
educação permanecia assunto de família. Essa origem determinou a associação
creche, criança pobre e o caráter assistencial da creche.
17
Em 1875, no Brasil, para atender às crianças filhas da emergente classe média industrial
surgiram no Rio de Janeiro e São Paulo os primeiros jardins de infância, de caráter privado,
inspirados na proposta de Froebel. A infância começa a ganhar importância. Segundo
Kuhlmann Junior,
Tratava-se de europeizar o modo de vida, por meio de um programa que imitasse
os cantos e os jogos das salas de asilo francesas, elaboradas pela educadora Pape
Carpentier, e os jogos da Madame Portugal, inspetora dos jardins - de - infância de
Genebra (2003, p.476).
Os jardins de infância ou pré-escolas se diferenciavam da creche e das escolas
maternais, no tocante as suas funções. De acordo com Kuhlmann Júnior (1999, p. 73).
O jardim de infância, criado por Froebel, seria a instituição educativa por
excelência, enquanto a creche e as escolas maternais – ou qualquer outro nome dado
à instituição com características semelhantes às Salles d' Asile francesa – seriam
assistenciais e não educariam para a emancipação, mas para a subordinação.
Dentre as pré-escolas e jardins de infância do final do século XIX e inicio do século XX,
vale destacar as seguintes:
• 1875 - criada a primeira pré-escola no Rio de Janeiro (Colégio Menezes
Vieira). As pré-escolas que atendiam crianças da elite utilizavam o termo
“pedagógico” para diferenciar suas práticas daquelas realizadas nos asilos
para crianças pobres;
• 1896 - em São Paulo estabeleceu-se um Jardim de Infância voltado para
crianças da elite (Escola Caetano de Campos).
18
Educação Infantil
Aula 02: O atendimento da criança na comtemporaneidade: um percurso histórico e
cultural
Tópico 04: Educação da criança de zero a seis anos ao longo do século XX
VERSÃO TEXTUAL
No século XX, a educação brasileira passou por mudanças entre as quais se
destaca o debate em torno do cuidado, preservação e preparação da infância. O
movimento da Escola Nova trouxe uma proposta educacional renovadora, objetivando
atender às mudanças socioeconômicas e políticas do país. Como até então
predominavam em nosso país as práticas fundamentadas em experiências europeias,
começou a ser pensada uma nova forma de educar a criança pequena.
Em 1930, o atendimento pré-escolar passou a contar com a participação direta do setor
público, a partir de reformas jurídicas e educacionais. As reformas tinham como objetivo
atender à crescente pressão exercida por movimentos sociais que reivindicavam educação
pública e gratuita para todos. Em 1931, Lourenço Filho (1897-1970) então chefe do gabinete
do ministro da Educação Francisco Campos, inspirado no ideário da escolanovista, criou e
coordenou uma campanha nacional de educação para a infância, fundamentada na ideia de
"criança como futuro da nação".
OLHANDO DE PERTO
Francisco Luis da Silva Campos (1891 -1968) foi o primeiro ministro da Educação
do Brasil: "A estrutura de ensino, vigente até 1930, nunca estivera organizada e integrada
em um sistema nacional, isto é, inexistia uma política nacional de educação" (FAVERO e
BRITTO, 2002, p.382).
Em 1940, foi criado o Departamento Nacional da Criança, vinculado ao Ministério da
Saúde, cujo objetivo era a proteção à infância, à maternidade e à adolescência. No âmbito do
Ministério da Educação e Cultura, somente em 1975 foi instituída a Coordenação de
Educação Pré-escolar. A partir desta data, houve aumento do número de instituições
mantidas e geridas pelo poder público. Contudo, muitas das instituições dessa época se
fundamentaram na teoria da privação cultural. Segundo Kramer, nos meados de 1970,
19
Uma versão marginalizadora e preconceituosa das crianças de
classes populares agudizava-se e tornava-se hegemônica, não só no
cenário nacional mas em todos os países do então chamado
terceiro mundo, de tal modo que infância pobre e fracasso na escola
pública apareciam como elementos de um inseparável e quase
insuperável problema social. Falta de cultura, carênciasocial e
afetiva, déficit linguístico [...].
(KRAMER, 1996, p. 15).
Dessa forma, foi atribuída à família, ou às precárias condições de moradia a origem da
diversidade entre as crianças. Com base nessa compreensão, tanto nos Estados Unidos
como o Brasil, o poder público passou a considerar que o atendimento à criança pequena
fora da família possibilitaria a superação das precárias condições sociais a que ela estava
sujeita. Esta concepção deu origem a programas de educação compensatória que se
difundiram em muitos países do mundo.
Atendimento à infância – educação compensatória
Para Kramer (1995), a educação compensatória se fundamenta na ideia de que as
crianças oriundas das classes sociais menos favorecidas são carentes, deficientes e
inferiores na medida em que não correspondem ao padrão estabelecido pelas classes
dominantes. Faltariam a essas crianças privadas culturalmente, determinados atributos ou
conteúdos que deveriam ser nelas incutidos.
Então, para superar as deficiências de saúde e nutrição, bem como as deficiências
escolares, foram oferecidos programas de atendimento à criança com as funções de
promover a melhoria social e de transformar a sociedade no futuro. De acordo com Kramer
(1995), a primeira função mencionada desviou a atenção dos reais problemas da sociedade,
evitando assim, a discussão dos aspectos políticos e econômicos mais complexos. Já a
segunda atribuiu ao passado a culpa pela situação de hoje, focalizando no futuro quaisquer
possibilidades de mudança. Para ela, assim, fica-se
"isento de realizar no presente ações ou transformações significativas que visem a
atender às necessidades sociais atuais" (1995, p. 30).
Constata-se, portanto, mais uma vez, que neste período, apesar do avanço dos estudos
e pesquisas que destacam a importância dos primeiros anos de vida, ainda registramos dois
tipos de atendimento:
Classes Populares
As crianças de classes populares eram atendidas com propostas de trabalho que
partiam de uma ideia de deficiência, de carência cultural.
Classes Abastada
20
Enquanto as crianças das classes sociais mais abastadas recebiam uma educação
que privilegiava a criatividade e a sociabilidade infantil.
Nos anos de 1970 e 1980, fatores como: a crescente urbanização do país; o avanço dos
estudos sobre a criança; a participação cada vez mais significativa da mulher no mercado de
trabalho; a pressão dos movimentos sociais e dos sindicatos; e as lutas dos profissionais de
Educação levaram a uma expansão do atendimento educacional das crianças na faixa etária
de 4 a 6 anos. Na década de 1980, verificou-se também um aumento significativo nas taxas
de atendimento às crianças na faixa etária de 0-3 anos.
A Tabela 1 apresenta as diferenças quantitativas relacionadas ao atendimento das
crianças de 0-6 anos entre os anos de 1995 a 2001.
Ano
Taxa de
frequência (%) 0 a 3 anos 4 a 6 anos
1995 25,1 7,6 47,8
1996 25,1 7,4 48,2
1997 26,6 8,1 50,5
1998 27,0 8,7 50,7
1999 28,2 9,2 52,1
2001 31,2 10,6 57,1
Tabela 1: Taxa de atendimento de crianças de 0 a 6 anos de idade – Brasil 1995/2001
Fonte: IBGE, PNDA (1995-2001).
Conforme observamos na tabela, o atendimento das crianças de 0-3 anos passou de
7,6% para 10,6%; já entre as crianças na faixa etária de 4 a 6 anos, o aumento percentual é de
quase dez pontos.
Vale ressaltar que o esforço a ser mobilizado para uma educação de qualidade para a
criança exige a presença da União, assumindo a articulação das políticas regionais. Para
tanto, é necessário haver um permanente dialogo entre as instâncias que formulam as
políticas de Educação Infantil e aquelas que executam o atendimento em creches e pré-
21
escolas. E, nesse diálogo, é crucial considerar a sociedade civil organizada, que atualmente,
na Educação Infantil, vem sendo representada pelos Fóruns Regionais e o movimento
Interfóruns, como forma de assegurar o caráter democrático e contemplar a diversidade
cultural própria da sociedade brasileira (Movimento Interfóruns de Educação Infantil do
Brasil, 2002).
REFLEXÃO
Como ocorre, em sua cidade o atendimento à infância? Você percebe alguma
diferença no atendimento das crianças de diferentes segmentos sociais, na sua cidade?
Compartilhe essas experiências nos fóruns de discussão.
EXERCITANDO
Sistematizando conhecimentos, faça um resumo do percurso do atendimento à
infância no Brasil. Analise criticamente cada forma de atendimento.
Referências bibliográficas
AQUINO. L. As políticas sociais para a infância a partir de um olhar sobre a história da
criança no Brasil. In: ROMAM E. D. STEYER V. E. A criança de 0 a 6 anos e a educação
infantil: um retrato multifacetado. Ulbra, 2001
CRUZ, S. H. V. Infância e Educação Infantil: resgatando um pouco de historia.
Secretaria de educação do estado do ceará. Fortaleza: SEDUC, 2000.
DIDONET, V. Creche: a que veio, para onde vai. In: Educação Infantil: a creche, um bom
começo. Em Aberto/Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais. v 18, n.
73. Brasília, 2001. p.11-28.
FÁVERO, M. L.; BRITTO, J. M. Dicionário de Educação no Brasil: da Colônia aos dias
atuais. Rio de janeiro: editora UFRJ, 2002.
HADDAD, L. A creche em busca de identidade. São Paulo: Loyola, 1993.
KAPPEL, D.B; AQUINO, L. M. L e VASCONCELOS, V. M. R. Infância e políticas de
Educação Infantil: inicio do século XXI. In: Educação da Infância: historia e política/
vera Maria ramos de Vasconcellos (org.). Rio de Janeiro: DP&A, 2005.
KRAMER, S. Pesquisando infância e educação: um encontro com Walter Benjamin.
P.13-38. In: infância: fios e desafios da pesquisa. Campinas, SP: Papirus, 1996.
______. A política do pré-escolar no Brasil: a arte do disfarce. 5ª ed. São Paulo: Cortez,
1995.
22
KUHLMANN JÚNIOR, M. O jardim de infância e a educação das crianças pobres: final
do século XIX, início do século XX. In: MONARCHA, Carlos, (Org.). Educação da
infância brasileira: 1875-1983. Campinas, SP: Autores Associados, 2001. p. 3-30
(Coleção educação contemporânea).
_____. Educação Infantil e Currículo. In FARIA. A. L. G, PALHARES. M. S. Educação
infantil pós LDB: rumos e desafios. São Paulo: Autores Associados, 1999.
______. Infância e educação infantil: uma abordagem histórica. Porto Alegre: Mediação,
1998.
MARCÍLIO, M. L. A roda dos expostos e a criança abandonada na História do Brasil. In:
FREITAS, Marcos Cezar (Org.). História social da infância no Brasil. São Paulo: Cortez,
1997. p. 51-76.
MOVIMENTO DE INTERFÓRUM DE EDUCAÇÃO INFANTIL DO BRASIL. Educação
Infantil: construindo o presente. Campo Grande/MS: Ed. UFMS, 2002.
OLIVEIRA, Z. M. R. Creches: Crianças faz de conta & Cia. Petrópolis, RJ: Vozes, 1992.
PINHEIRO, Â. A criança e o adolescente no cenário da redemocratização:
representações sociais em disputa. 2001. p. 438. Tese (Doutorado em Educação) –
Programa de Pós-Graduação em Sociologia, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza.
RIZZO, G. Creche: organização, currículo, montagem e funcionamento. 3ª ed. Rio de
Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.
Fontes das Imagens
23
Educação Infantil
Aula 03: Educação infantil no contexto comtemporâneo
Tópico 01: A Educação Infantil no Brasil nas décadas finais do século XX, a busca da
qualidade
De acordo com Kuhlmann Júnior (1998) e Kramer (1995), até o final dos anos 70 do
século XX, pouco se fez em termos de legislação para garantir a educação das crianças na
faixa etária 0-6 anos. No entanto, na década de oitenta, desse mesmo século, diferentes
setores da sociedade civil, uniram forças com o objetivo de sensibilizar o poder público
sobre os direitos das crianças a uma educação de qualidade desde o nascimento. A sintonia
com os movimentos nacionais e internacionais contribuiu para um novo paradigma do
atendimento à infância. Assim, a preocupação com o atendimento de crianças pequenas:
Iniciado em 1959 com a Declaração Universal dos Direitos da
Criança e do Adolescente e instituídono país pelo artigo 227 da
Constituição Federal de 1988 e pelo Estatuto da Criança e do
Adolescente (Lei 8.069/90) – tornou-se referencia para os
movimentos sociais de "luta por creche" e orientou a transição do
entendimento da creche e pré-escola como um favor aos
socialmente menos favorecidos para a compreensão desses
espaços como um direito de todas as crianças à educação,
independentemente do seu grupo social.
(PARECER CNE/CEN Nº 29/2009).
A educação da criança como direito da criança de zero a seis anos fica assegurada na
Constituição de 1988. O Artigo 227 determina que:
É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à
criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à
saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à
cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar
e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de
negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e
opressão.
Desde sua promulgação, o campo da Educação Infantil vive um intenso processo
de revisão de concepções sobre a educação de crianças em espaços coletivos e de
análise, orientação e fortalecimento de práticas pedagógicas mediadoras de
aprendizagens e do desenvolvimento das crianças.
24
Em creches e pré-escolas, o atendimento como direito social das crianças se afirma
tanto na Constituição como nos demais documentos oficiais que tratam da criança e de seu
atendimento. O Estatuto da Criança e do Adolescente de 1990 assegura no seu Artigo 1º a
proteção integral à criança e ao adolescente. O Artigo 4º especifica que:
É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder
público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos
referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à
profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à
convivência familiar e comunitária.
Uma vez assegurado na Constituição e reafirmado no ECA, esse direito da criança de 0
a 6 anos à educação em creches e pré – escolas é traduzido em diretrizes e normas e, em
especial, na lei maior da educação - Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB Nº
9394/96 ). Fato que representa um marco histórico de grande importância para a Educação
Infantil em nosso país.
A LDB de 1996 substituiu o termo Educação Pré-Escolar por Educação Infantil e passou
a considerá-la a primeira etapa da Educação Básica, cuja função é cuidar e educar as
crianças de 0 a 6 anos de idade. Como descrito no artigo 29,
A educação infantil, primeira etapa da educação básica, tem
como finalidade o desenvolvimento integral da criança até seis anos
de idade, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social,
complementando a ação da família e da comunidade.
Art. 30º. A educação infantil será oferecida em:
I - creches, ou entidades equivalentes, para crianças de até três anos
de idade;
II - pré-escolas, para as crianças de quatro a seis anos de idade.
DICA
Você já teve acesso ao ECA e a LDB/96? Que tal conhecer esses documentos na
íntegra? Pesquise.
OLHANDO DE PERTO
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1961 (Lei 4024/61) para se
referir à educação de crianças utilizava os termos "educação pré-primária". (Art. 23 – A
25
educação pré-primária destina-se aos menores de até 7 anos, e será ministrada em
escolas maternais ou jardins-de-infância.); Já a Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional (Lei 5692/71 utilizava os termos "Pré-escola". A Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional (LDB 9394/96), substitui essas terminologias por EDUCAÇÃO
INFANTIL.
A partir dessa garantia legal, houve nas últimas décadas do século XX uma significativa
ampliação do número de crianças que frequentam as instituições de Educação Infantil.
De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) 2009 do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre 1999 e 2009, a taxa de frequência à creche
e pré-escola quase dobrou, conforme mostra o gráfico. Clique aqui
http://noticias.terra.com.br/educacao/noticias
(Acessado em 09/05/ 2012)
Considerando, pois, o aspecto quantitativo, é possível constatar avanços no
atendimento às crianças pequenas. No entanto, em relação à qualidade, estudos e
pesquisas de âmbito nacional vêm apontando que grande parte das instituições de
Educação Infantil não cumpre a função de promover o desenvolvimento e a aprendizagem
das crianças. Segundo Cruz, (2000, p. 22),
O simples fato de ter havido expansão do atendimento às
crianças pequenas não representa a democratização das
26
oportunidades educacionais para essa faixa etária. Quando
analisamos a forma como isso ocorreu e algumas características
atuais desse atendimento vemos que, ao contrário, as crianças que
prioritariamente mereciam um atendimento de qualidade (devido a
dívida social que temos com elas) são as que são alvo de
programas que enfrentam os maiores problemas.
Sem os investimentos pedagógicos, técnicos e financeiros necessários e adequados, é
impossível desenvolver uma Educação Infantil de qualidade. No entanto, vale ressaltar, que
ao longo das últimas décadas do século XX, para nortear a instalação e o funcionamento
das instituições de Educação Infantil, o governo federal em parceria com Estados e
municípios, vem desenvolvendo políticas públicas voltadas para o atendimento de
qualidade.
Dentre as políticas de formação e de valorização dos profissionais da Educação
Infantil, podemos destacar a transformação do FUNDEF (Fundo de Manutenção e
Desenvolvimento da Educação Fundamental e da Valorização dos Profissionais da
Educação) para o FUNDEB (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação
Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação). O FUNDEF esteve em vigor
até o ano de 2006 quando foi criado o FUNDEB em 2007 que corrigiu as falhas do
modelo anterior no tocante a Educação Infantil e passou a destinar recursos de acordo
com o total de matricula em todas as etapas da Educação Básica.
A Emenda Constitucional n.º 53/0, que criou o FUNDEB, aprovada em 06 de dezembro
de 2006 tem por objetivo proporcionar a elevação e uma nova distribuição dos
investimentos em educação.
27
Educação Infantil
Aula 03: Educação infantil no contexto comtemporâneo
Tópico 02: O percurso dos marcos legais voltados para o atendimento da criança da
Educação Infantil
Ao analisarmos a história de educação no Brasil e confrontarmos com a história
do atendimento à infância, podemos constatar que a Educação Infantil sempre ficou
em segundo plano, comprometendo, dessa forma, a real expansão e universalização
dessa etapa do Ensino Básico. Em muitos momentos da nossa história, diversos
segmentos da sociedade discutiram propostas de atendimento à infância e cada uma
delas refletia os valores e concepções sobre a criança e a educação presentes na
sociedade da época.
A seguir destacamos conquistas legais relevantes para a Educação Infantil ocorridas
desde a Constituição de 1988 até chegar à Resolução nº 5, de 17 e dezembro de 2009 que
fixa as Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Infantil.
1988 – Constituição - Carta Magna
- A Constituição de 1988 em seu inciso IV. Artigo 208 reza que: “O dever do Estado
com a educação infantil será efetivado [...] mediante garantia de atendimento em
creches e pré-escolas às crianças de zero a seis anos”.
1989 – Convenção Mundial dos Direitos da Criança
- Reconhecimento da importância das experiências na infância para o
desenvolvimento da criança;
- Conquistas sociais dos movimentos pelos diretos à educação nos primeiros anos de
vida.
1990 - Estatuto da Criança e do Adolescente
- Lei 8.069, 13 de julho de 1990, Artigo 53. "A criança e o adolescente têm direito à
educação, visando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da
cidadania e qualificação para o trabalho [...]".1993 – Política Nacional de Educação Infantil
- O MEC apresentou uma Política Nacional de Educação Infantil que objetivou
nortear as propostas pedagógicas das diversas instituições de Educação Infantil
voltadas especialmente ao desenvolvimento da criança. (BRASIL/MEC, 2009);
28
1995 – Critérios para um atendimento em creche que
respeite os direitos fundamentais da criança
- O MEC publicou o documento Critérios para um atendimento em creche que
respeite os direitos fundamentais da criança, no qual estabeleceu normas para a
organização e o funcionamento das creches de forma a assegurar a qualidade;
1996 – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional
- Foi sancionada a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, em 20 de
dezembro, Lei de Nº 9.394. Seu Artigo 29º estabelece a Educação Infantil como a
primeira etapa da educação básica, citado anteriormente. Essa Lei propõe a
reorganização da educação, flexibilizando o funcionamento de creches e pré-escolas,
permitindo a adoção de diferentes formas de organização e prática pedagógica.
Vale lembrar que, em 2006, a Lei 11.274, de 6 de fevereiro de 2006 alterou a redação
dos artigos. 29, 30, 32 e 87 da Lei Nº 9.394/96, que estabelece as diretrizes e bases da
educação nacional, dispondo sobre a duração de 9 (nove) anos para o Ensino
Fundamental, com matrícula obrigatória a partir dos 6 (seis) anos de idade. A faixa etária
da Educação Infantil passou a ser de 0 a 5 anos.
1998 - Referencial Curricular Nacional para a Educação
Infantil
- O MEC publicou o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil,
concebido para servir como um de guia de reflexão de cunho educacional sobre
objetivos, conteúdos e orientações didáticas para os profissionais que atuam
diretamente com crianças de 0 a 6 anos (BRASIL, 1998).
1999 - Diretrizes Curriculares Nacionais Para a
Educação Infantil
- Foram publicadas pelo Conselho Nacional de EducaçãoasDiretrizes Curriculares
Nacionais Para a Educação Infantil,objetivando a consolidação da discussão em torno
da importância da qualidade nessa etapa da educação como requisito para o
cumprimento do direito das crianças.
2006 - POLÍTICA NACIONAL DE EDUCAÇÃO INFANTIL
- O MEC publicou o documento: Política Nacional de Educação Infantil no qual
reafirma o direito das crianças de zero a seis anos à educação, objetivando orientar os
municípios a investirem na Educação Infantil como política pública.
29
2006 – PARÂMETROS NACIONAIS DE INFRAESTRUTURA PARA
INSTITUIÇÕES DE EDUCAÇÃO INFANTIL
- O MEC definiu e publicou os Parâmetros Nacionais de Infraestrutura para
Instituições de Educação Infantil no intuito de orientar reformas e construções de
espaços para as crianças.
2006 – PARÂMETROS NACIONAIS DE QUALIDADE PARA A EDUCAÇÃO
INFANTIL
- Foram definidos pelo MEC os Parâmetros Nacionais de Qualidade para a
Educação Infantil. Para esta definição o MEC fundamentou-se nos autores Dahlberg,
Moss e Pence (2003). Para eles qualidade é:
• É um conceito socialmente construído, sujeito a constantes negociações;
• Depende do contexto;
• Baseia-se em direitos, necessidades, demandas, conhecimentos e possibilidades;
• A definição de critérios de qualidade está constantemente tencionada por
diferentes perspectivas.
Nos Parâmetros Nacionais de Qualidade para a Educação Infantil são considerados
aspectos como:
• Propostas pedagógicas: devem contemplar princípios éticos, políticos e
estéticos;
• Gestão da instituição: o horário de funcionamento durante o dia pode ser em
período parcial ou integral;
• Formação dos professores: a habilitação exigida é o nível superior, pedagogia ou
modalidade normal, admitindo-se, como formação mínima, a modalidade
normal, em nível médio;
• Interação entre profissionais desta área: eles devem estabelecer entre si uma
relação de confiança e colaboração recíproca;
30
• Infraestrutura os espaços devem ser organizados para atender às necessidades
de saúde, alimentação, proteção, descanso, interação, conforto, higiene e
aconchego das crianças matriculadas.
2009 - INDICADORES DA QUALIDADE NA EDUCAÇÃO INFANTIL
- Publicação dos Indicadores da Qualidade na Educação Infantil -Trata-se de um
instrumento para a auto-avaliação da qualidade das instituições que atendem crianças
pequenas. O mesmo traduz e detalha os Parâmetros Nacionais de Qualidade visando à
operacionalização de práticas educativas que respeitem os direitos fundamentais da
criança, incluindo entre elas um atendimento de qualidade.
2009 – DIRETRIZES CURRICULARES NACIONAIS PARA A EDUCAÇÃO
INFANTIL
- O MEC revisou, atualizou e publicou as Diretrizes Curriculares Nacionais para a
Educação Infantil. De caráter mandatório, as mesmas têm por objetivo estabelecer
diretrizes a serem observas na organização de propostas pedagógicas na Educação
Infantil.
As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil
articulam-se às Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação
Básica e reúnem princípios, fundamentos e procedimentos definidos
pela Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de
Educação, para orientar as políticas públicas e a elaboração,
planejamento, execução e avaliação de propostas pedagógicas e
curriculares de Educação Infantil.
(BRASIL/MEC, 2009, p.11).
Segundo Oliveira (2010), as diretrizes destacam a necessidade de organizar e estruturar
com qualidade ações educativas que possibilitem dar voz a crianças de 0 a 5 anos no
cotidiano escolar. Elaboradas a partir da participação de professores universitários,
pesquisadores, movimentos sociais e da ampla escuta de educadores têm por objetivo
estabelecer diretrizes a serem observadas na organização de propostas pedagógicas para a
Educação Infantil nas redes públicas e privadas.
É importante saber:
31
Para avançar na política de Educação Infantil e garantir os direitos das crianças e de
suas famílias a uma educação de qualidade, o Estado do Ceará através do Programa de
Alfabetização na Idade Certa (PAIC) vem mobilizando todos os municípios. Para isto
estabeleceu as seguintes metas (CEARÁ, 2011):
• Universalizar o atendimento de crianças de 4 a 5 anos de idade (em 2009 a taxa
de atendimento líquido era de 56,13%).
• Expandir em, no mínimo, 100% o atendimento das crianças de 0 a 3 anos (em
2007 a taxa de atendimento líquido era de 11,20%).
• Elevar os níveis de qualificação dos profissionais da Educação Infantil.
DICA
Atenção!
Veja no Portal do MEC, os textos oficiais aqui citados.
REFLEXÃO
Sistematizando conhecimentos
Leia, análise, reflita e, depois, dialogue com os (as) colegas da disciplina e com os
Tutores o significado das afirmações a seguir:
Atualmente, o principal desafio da Educação Infantil, primeira etapa do Ensino
Básico se concentra na busca pela qualidade do atendimento, aspecto destacado nos
DCNEIs. Apesar do avanço significativo da legislação brasileira, no que diz respeito ao
direito da criança e à educação de qualidade desde o nascimento, a realidade do
atendimento dessa etapa do desenvolvimento humano ainda apresenta descompasso
entre os aspectos legais e a prática pedagógica de muitas instituições de Educação
Infantil.
Referências bibliográficas
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal,
1988.
______. Estatuto da Criança e do Adolescente. Lei nº 8.069, de 13 de junho de 1990.
32
_____. Plano Nacional de Educação. Lei nº 10.172/2001, de 09 de janeiro de 2001.
______. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental.
Política nacional de educação infantil. Brasília, DF: MEC/SEF/COEDI, 1993.
______. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental.
Por uma política de formação do profissional de educação infantil. Brasília, DF:
MEC/SEF/COEDI, 1994.
______. Ministério da Educação e do Desporto. Critérios para um atendimento
em creches que respeite os direitos fundamentais das crianças. Brasília,DF:
MEC/SEF/COEDI, 1995.
______. Ministério da Educação e Cultura. Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional. Lei nº 9394, de 20 de dezembro de 1996. Dispõe sobre as Diretrizes e Bases
da Educação Nacional. Brasília, DF: MEC, 1996.
______. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental.
Referencial curricular nacional para a educação infantil. Brasília, DF: MEC/SEF,
1998.
______. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Básica. Política
nacional de educação infantil. Brasília, DF: MEC/SEB, 2006.
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CARVALHO. E. M. G. Educação Infantil. Bahia: EDUESC, 2003.
CEARÁ. Secretaria de Educação. Orientações Curriculares para Educação Infantil.
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DAHLBERG, G.; MOSS, P.; PENCE, A. Qualidade na educação da primeira infância:
perspectivas pós-modernas. Tradução Magda França Lopes. Porta Alegre: Artmed,
2003.
KRAMER, S. A política do pré-escolar no Brasil: a arte do disfarce. 5. ed. São Paulo:
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KUHLMANN JÚNIOR, M. Infância e educação infantil: uma abordagem histórica. Porto
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33
OLIVEIRA. S. M. L. O. A legislação e as políticas para a educação infantil: avanços,
vazios e desvios. In: MACHADO. M. L. A. Encontros e desencontros em educação
infantil. São Paulo: Cortez, 2002.
Fontes das Imagens
34
Educação Infantil
Aula 04: As diretrizes curriculares nacionais para a educação infantil (DCNEIs)
Tópico 01: A Educação Infantil de acordo com as DCNEIs
Uma vez apresentada a estrutura legal das instituições de Educação Infantil,
discutiremos a respeito das Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Infantil
(DCNEIs). A revisão e atualização destas diretrizes foram essenciais para incorporar os
avanços presentes na política, na produção científica referente às especificidades da criança
na faixa etária de 0 a 5 anos e aos estudos nacionais e internacionais relacionados com as
práticas pedagógicas da Educação Infantil. Trata-se de um documento oficial de caráter
mandatório que se propõe a orientar:
• A formulação de políticas públicas, incluindo a formação de professores e
demais profissionais da Educação;
• A construção do projeto Político e Pedagógico considerando o planejamento,
execução e avaliação de propostas curriculares.
Reafirmando o que diz a LDB de 1996, as DCNEIs ressaltam que a Educação Infantil,
deve ser oferecida em creches e pré-escolas. De acordo com o referido documento, a
Educação Infantil é:
Primeira etapa da educação básica, oferecida em creches e pré-
escolas, as quais se caracterizam como espaços institucionais não
domésticos que constituem estabelecimentos educacionais
públicos ou privados que educam e cuidam de crianças de 0 a 5
anos de idade no período diurno, em jornada integral ou parcial,
regulados e supervisionados por órgão competente do sistema de
ensino e submetidos a controle social
(BRASIL/MEC, 2010, p. 12).
Conforme a LDB 9394/96, a Educação Infantil tem por função cuidar e educar crianças
de 0 a 5 anos de idade, em jornada em tempo parcial ou integral que será apresentada no
quadro a seguir.
35
JORNADA TEMPO
Em tempo parcial Atendimento de no mínimo 4 horas diárias
Em tempo integral
Atendimento com duração igual ou superior a 7
horas diárias de permanência da criança na
instituição
OLHANDO DE PERTO
1. Embora a Educação Infantil seja assegurada na Constituição como direito de todas
as crianças, a matrícula somente será obrigatória para aquelas que completam
quatro e cinco anos após 31 de março;
2. A frequência da criança em creches e pré-escolas não é pré-requisito para seu
ingresso no Ensino Fundamental;
A função sociopolítica da Educação Infantil
De acordo com o Artigo 3º, inciso I da Constituição Federal de 1988, todas as
instituições nacionais de educação coletiva devem, com responsabilidade no desempenho
de seu papel ativo, contribuir para a construção de uma sociedade livre, justa, solidária e
socialmente orientada. No Artigo 3º, Incisos II e IV da Constituição, a redução das
desigualdades sociais e regionais e a promoção do bem de todos são compromissos a
serem cumpridos pelos sistemas de ensino e pelos professores também da Educação
Infantil.
Contudo, apesar da regulamentação desse dever do Estado e do direito da criança,
conforme já discutimos em vários momentos dessa disciplina, no nosso país a desigualdade
no atendimento de crianças em creches e pré-escolas é notória. O relatório do Parecer
CNE/CEB Nº 20/2009 destaca que essa desigualdade é observada em vários segmentos da
sociedade e em diferentes circunstâncias:
Desigualdade de acesso a creches e pré-escolas entre crianças
brancas e negras, moradores do meio urbano e rural, das regiões
sul/sudeste e norte/nordeste e, principalmente, ricas e pobres. Além
das desigualdades de acesso, também as condições desiguais da
qualidade da educação oferecida às crianças configuram-se em
violações de direitos constitucionais das mesmas e caracterizam
esses espaços como instrumentos que, ao invés de promover a
equidade, alimentam e reforçam as desigualdades
36
socioeconômicas, étnico-raciais e regionais. Em decorrência disso,
os objetivos fundamentais da República serão efetivados no âmbito
da Educação Infantil se as creches e pré-escolas cumprirem
plenamente sua função sociopolítica e pedagógica (p.5).
De acordo com o Parecer do CNE/CEB Nº 20/2009, o cumprimento da função
sociopolítica e pedagógica significa:
ESTADO/ RESPONSABILIDADE
• Em primeiro lugar, que o Estado necessita assumir sua responsabilidade na
educação coletiva das crianças, complementando a ação das famílias;
CRECHE/ IGUALDADE
• Em segundo lugar, que creches e pré-escolas constituam estratégias de promoção
de igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, uma vez que permitem às
mulheres sua realização para além do contexto doméstico;
CRECHE/ CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE
• Em terceiro lugar, implica assumir a responsabilidade de tornar creches e pré-
escolas espaços privilegiados de convivência, de construção de identidades coletivas
e de ampliação de saberes e conhecimentos de diferentes naturezas, por meio de
práticas que atuam como recursos de promoção da equidade de oportunidades
educacionais entre crianças de diferentes classes sociais no que se refere ao acesso
a bens culturais e às possibilidades de vivencia da infância;
MELHORES CONDIÇÕES
• Em quarto lugar requer oferecer as melhores condições e recursos construídos
histórica e culturalmente para que as crianças usufruam de seus direitos civis,
humanos e sociais e possam se manifestar e ver essas manifestações acolhidas, na
condição de sujeito de direitos e de desejos.
37
As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil podem se constituir um
instrumento estratégico na consolidação dessa função. Tendo em vista a formação da
cidadania das crianças, os currículos de creches e pré-escolas devem priorizar valores
como: solidariedade, respeito ao bem comum, e respeito à diversidade e às singularidades
de cada criança.
38
Educação Infantil
Aula 04: As diretrizes curriculares nacionais para a educação infantil (DCNEIs)
Tópico 02: A Proposta Pedagógica da Educação Infantil
Desde a criação das primeiras instituições de Educação Infantil, o currículo que
orienta suas práticas tem sido campo de controvérsias com base nas diferentes
concepções de criança, de família e de funções de creches e pré-escolas.
Até a publicação das DCNEIs, muitos profissionais da educação, receosos de importar
para a Educação Infantil uma estrutura associada à escolarização do Ensino Fundamental e
Médio, optavam por não utilizar a expressão currículo. Além disto, não havia clareza em
relação ao significado de termos, como Proposta Pedagógica, PropostaCurricular, Projeto
Político-Pedagógico, pois ora eram utilizados com sinônimos, ora tinham conotações
diferentes de acordo com os estudiosos da área. Vale ressaltar, no entanto que nas DCNEIs,
esses termos foram precisamente definidos.
Proposta Pedagógica
A proposta pedagógica, ou projeto político pedagógico de
Educação Infantil é o plano orientador das ações da instituição e
define as metas que se pretende para a aprendizagem e o
desenvolvimento das crianças que nela são educados e cuidados. É
elaborado num processo coletivo, com a participação da direção,
dos professores e da comunidade escolar.
(BRASIL, MEC, 2010).
A elaboração das propostas pedagógicas deve respeitar os seguintes princípios:
1. Princípios Éticos
Tratam da valorização da autonomia, da responsabilidade, da solidariedade e do
respeito ao bem comum, ao meio ambiente e às diferentes culturas, identidades e
singularidades.
Para atender esses princípios as instituições de Educação Infantil precisam:
• Assegurar às crianças a manifestação de seus interesses, desejos e curiosidades ao
participar das práticas educativas;
• Valorizar suas produções individuais e coletivas;
39
• Possibilitar a conquista pelas crianças de sua autonomia na escolha de brincadeiras
e na realização de cuidados pessoais diários;
• Proporcionar às crianças oportunidades para ampliar as possibilidades de
aprendizado e de compreensão de si própria e do mundo, respeitando as diferentes
tradições culturais;
• Proporcionar às crianças oportunidades para construir atitudes de respeito e
solidariedade, fortalecendo a autoestima e os vínculos afetivos.
2. Princípios Políticos
Dizem respeito à garantia dos direitos de cidadania, do exercício da criticidade e do
respeito à ordem democrática.
Para atender esses princípios compete às instituições de Educação Infantil:
• Promover a formação participativa e crítica das crianças;
• Criar contextos que permitam às crianças a expressão de sentimentos, ideias,
questionamentos, comprometidos com a busca do bem estar coletivo e individual;
• Criar condições para que a criança aprenda a opinar e a considerar os sentimentos e
opinião do outro;
• Garantir uma experiência bem sucedida de aprendizagem a todas as crianças, sem
discriminação.
3. Princípios Estéticos
Referem-se à valorização da sensibilidade, da criatividade, da ludicidade e da
liberdade de expressão nas diferentes manifestações artísticas e culturais.
Para atender esses princípios as instituições de Educação Infantil devem:
• Valorizar o ato criador e a construção pelas crianças, de respostas singulares,
garantindo-lhes a participação em diversificadas experiências;
• Organizar um cotidiano de situações agradáveis, estimulantes, que desafiem o que
cada criança e seu grupo de crianças já sabem sem ameaçar sua autoestima nem
promover competitividade;
• Ampliar as possibilidades de cuidar e ser cuidada, de se expressar, comunicar e
criar, de organizar pensamentos e ideias, de conviver, brincar e trabalhar em grupo,
de ter iniciativa e buscar soluções para os problemas e conflitos que se apresentam
nas mais diferentes idades;
• Possibilitar às crianças apropriar-se de diferentes linguagens e saberes que circulam
em nossa sociedade, selecionados pelo valor formativo que possuem em relação aos
objetivos definidos em seu projeto político pedagógico.
De acordo com Farias e Salles, (2007), cada Conselho Estadual ou Municipal de
Educação, considerando as orientações das DCNEIs publicadas pelo MEC, define os
40
aspectos que devem ser incluídos na elaboração das propostas pedagógicas das
instituições de Educação Infantil de seus sistemas de ensino. As autoras sugerem que os
aspectos abaixo relacionados sejam contemplados.
• história da instituição e de sua Proposta Pedagógica vigente;
• contexto sociocultural no qual a instituição se insere;
• concepções norteadoras do trabalho (de infância, de criança, de aprendizagem e
desenvolvimento;
• finalidades e objetivos;
• organização e gestão do trabalho que abrange: Clique aqui.
• o currículo
• os tempos
• espaços, equipamentos e materiais
• as crianças
• as metodologias de trabalho
• o processo de avaliação
• os instrumentos de trabalho do professor
• os profissionais e suas condições de trabalho
• o trabalho com a comunidade e a família
• as formas de articulação da Educação Infantil com o Ensino
Fundamental
• as formas de gestão institucional
Alguns desses aspectos, tais como: objetivos de Educação Infantil, concepção de
criança, o processo de avaliação e o currículo serão detalhados a seguir.
Objetivos da Educação Infantil
De acordo com as DCNEIs, (2009, p.18) a proposta pedagógica das instituições de
Educação Infantil deve estabelecer como objetivo:
41
Garantir à criança acesso a processos de apropriação, renovação e articulação de
conhecimentos e aprendizagens de diferentes linguagens, assim como o direito à
proteção, à saúde, à liberdade, à confiança, ao respeito, à dignidade, à brincadeira, à
convivência e à interação com outras crianças.
Para garantir a efetivação desse objetivo geral, a organização curricular da instituição
de Educação Infantil, segundo o Relatório do Parecer do CNE/CEB Nº. 20/2009, precisa estar
atenta aos seguintes aspectos:
ASPECTO 01
1. Assegurar a educação em sua integralidade, entendendo o cuidado como
algo indissociável ao processo educativo.
Uma prática pedagógica que integra o cuidar e o educar, além de favorecer a
formação de competências para a criança aprender a cuidar de si, deve acolher a
criança, garantir a sua segurança, bem como promover situações nas quais a
curiosidade, a ludicidade e a expressividade sejam asseguradas.
ASPECTO 02
2. O combate ao racismo e às discriminações socioeconômicas, de gênero,
étnico-raciais e religiosas deve ser objeto de constante mediação e reflexão por
parte das crianças e professores (as).
O atendimento da criança em creche e pré-escola, comprometido com o respeito à
diversidade, ou seja, com uma visão plural de mundo deve criar condições para o
estabelecimento de relações amistosas entre as crianças e condições para a
apropriação das contribuições histórico-culturais dos povos indígenas,
afrodescendentes, asiáticos, europeus e de outros países. A interação das crianças
com a história e a cultura de outros povos contribui para que elas não somente
conheçam, mas compreendam, valorizem e respeitem a diversidade.
ASPECTO 03
3. As instituições precisam conhecer as culturas plurais que constituem o
espaço da creche e da pré-escola, a riqueza das contribuições familiares e da
comunidade, suas crenças e manifestações, e fortalecer formas de atendimento
42
articuladas aos saberes e especificidades étnicas, linguísticas, culturais e religiosas
de cada comunidade.
É importante que as instituições de Educação Infantil mantenham uma relação
positiva com a comunidade local, estabelecendo mecanismos que garantam a gestão
democrática e considerem os saberes da comunidade, seja esta constituída por
pessoas da área urbana ou do campo, dos rios, dos litorais ou das florestas, indígenas,
afro descente ou quilombolas.
ASPECTO 04
4. A execução da proposta curricular requer atenção cuidadosa e exigente às
possíveis formas de violação da dignidade da criança.
Para garantir a integridade da criança, se faz necessária a garantia de sua proteção
contra qualquer forma de violência – física ou simbólica – tanto no interior das creches
e pré-escolas como na experiência familiar da criança. Inclusive, se a instituição de
Educação Infantil tiver conhecimento de qualquer tipo de violação a esse direito deve
imediatamente comunicar o fato às instâncias competentes.
ASPECTO 05
5. O atendimento ao direito da criança na sua integralidade requer o
cumprimento do dever do Estado, com a garantia de uma experiência educativa com
qualidade a todas as crianças da Educação Infantil.
Paraatender esse direito a instituição precisa garantir à criança:
a. Espaço limpo, seguro e que preserve a sua saúde;
b. Ambiente acolhedor e inclusivo e que possibilite interações, explorações e
descobertas partilhadas entre as crianças e entre estas com o professor (a);
c. Contextos que articulem diferentes linguagens e que permitam a expressão,
participação, criação, manifestação e que considere os interesses das crianças.
d. A educação em sua integralidade, entendendo o cuidado com algo indissociável ao
processo educativo;
e. A indivisibilidade das dimensões expressivo-motora, afetiva, cognitiva, linguística,
ética, estética e sociocultural da criança;
f. A participação, o diálogo e a escuta cotidiana das famílias, o respeito, a valorização
de suas formas de organização;
43
g. O estabelecimento de uma relação afetiva com a comunidade local e os mecanismos
que garantam a gestão democrática e a consideração aos saberes da comunidade;
h. O reconhecimento das especificidades etárias, das singularidades individuais e
coletivas das crianças, promovendo interações entre crianças da mesma idade e
crianças de idades diferentes;
i. Os deslocamentos e os movimentos amplos das crianças nos espaços internos
externos às salas de referencia das turmas e à instituição;
j. A acessibilidade de espaços, materiais, objetos, brinquedos e instruções para as
crianças com deficiência, transtornos globais de desenvolvimento e altas
habilidades/superdotação;
Outros aspectos importantes para o cumprimento do objetivo geral da Educação Infantil
se referem à forma de agrupamento das crianças, à formação continuada dos profissionais,
à parceria que a instituição deve manter com a família das crianças e ao processo de
avaliação.
Agrupamentos das crianças
Levando em consideração as características do espaço físico e das crianças e a
possibilidade do professor (a) para atendê-las com atenção e responsabilidade e também
para que possa garantir interação com as crianças e seus familiares, os agrupamentos
devem ser organizados da seguinte forma:
- crianças de 0 a 1 ano: 6 a 8 crianças por professor
- crianças de 2 a 3 anos: 15 crianças por professor
- crianças de 4 a 5 anos: 20 crianças por professor
Formação continuada dos professores
Segundo as DCNEIs (2009) para manter um atendimento de qualidade, os profissionais
que atuam em creches e pré-escolas têm direito de participar de formações continuadas no
sentido de aprimorar sua prática e desenvolver a sua identidade profissional no exercício do
seu trabalho.
Parceria família e escola
A família se constitui o primeiro contexto de educação e cuidado das crianças. Na
família, recebem os primeiros cuidados maternais, afetivos e cognitivos necessários para
seu desenvolvimento, e constroem suas primeiras formas de significar o mundo. É
necessário, pois, que o professor reflita sobre as especificidades de cada contexto no
desenvolvimento da criança e procure formas de integrar as ações e projetos educacionais
44
das instituições às expectativas e valores das famílias Em um programa de Educação
Infantil de qualidade, a integração da família com a creche e a pré-escola é crucial.
REFLEXÃO
Quais estratégias o professor pode pensar para estabelecer interações positivas
com as famílias que contribuam para a qualidade do atendimento?
O processo de avaliação na Educação Infantil
Na Educação Infantil, a avaliação é instrumento de reflexão sobre a prática pedagógica
e sobre o desenvolvimento das crianças. Na busca de melhores caminhos para orientar as
ações dos professores, o processo avaliativo precisa contemplar todo o contexto das
creches e pré-escolas: as experiências propostas e o modo como foram realizadas; o modo
como o professor media os conflitos interpessoais e cognitivos; as interações entre crianças
e entre crianças e adultos; o modo como o professor escuta e responde às manifestações
das crianças; a organização do espaço e do tempo; os materiais didáticos oferecidos e a
interação com as famílias.
Conforme estabelecido na Lei Nº. 9.394/96, a avaliação deve ter a finalidade de
acompanhar e repensar o trabalho realizado em instituições de educação. Porém,
nunca é demais enfatizar que na Educação Infantil não devem existir práticas
inadequadas de verificação da aprendizagem, tais como provinhas, nem mecanismos
de retenção das crianças nessa etapa de Ensino Básico.
De acordo com as DCNEIs (2010, p.29 -30), as instituições de Educação Infantil devem
criar procedimentos para acompanhamento do trabalho pedagógico e para a avaliação do
desenvolvimento das crianças, sem objetivo de seleção, promoção ou classificação.
OLHANDO DE PERTO
Dessa forma, a avaliação tem por base a observação crítica das atividades, das
brincadeiras e interações das crianças no cotidiano. Os registros podem ser realizados
tanto por adultos como por crianças e podem ser divulgados por meio de relatórios,
fotografias, desenhos, portfólios, álbuns etc. Essa documentação específica permite às
famílias conhecer o trabalho da instituição e os processos de desenvolvimento e
aprendizagem das crianças.
Considerando a transição para o Ensino Fundamental, a proposta pedagógica deve
prever formas para garantir a continuidade no processo de aprendizagem e desenvolvimento
45
das crianças, respeitando as especificidades etárias, sem antecipação de conteúdos que
serão trabalhados no Ensino Fundamental.
DICA
Saiba mais sobre avaliação na Educação Infantil nas DCNEIs - tópico 12: Avaliação.
Concepção de criança nas DCNEIs
Nas DCNEIs a criança é o centro do planejamento curricular, é sujeito histórico do
processo de educação.
A criança é compreendida como sujeito histórico, de direitos que, nas interações,
relações e práticas cotidianas que vivencia, constrói sua identidade pessoal e coletiva,
brinca, imagina, fantasia, deseja, aprende, observa, experimenta, narra, questiona e
constrói sentidos sobre a natureza e a sociedade, produzindo cultura
(BRASIL/MEC/DCNEI, 2012, P.12).
O conhecimento científico que se tem hoje autoriza a concepção de que desde o
nascimento, de forma mediada pelo outro mais experiente, a criança atribui significados a
suas investigações e ações. Por meio de interações busca conhecer o mundo social e
material ao seu redor, ampliando cada vez mais suas curiosidades e inquietações.
A partir das interações que estabelece com diferentes parceiros desde o nascimento
desenvolve de forma integrada a motricidade, a linguagem, o pensamento, a afetividade.
Não podemos esquecer que cada criança tem seu jeito próprio de agir, de sentir, de interagir
no meio do qual faz parte; portanto, seu desenvolvimento depende do modo como os
diversos contextos sociais dos quais participa favorecem sua capacidade de construir
conhecimentos.
46
Educação Infantil
Aula 04: As diretrizes curriculares nacionais para a educação infantil (DCNEIs)
Tópico 03: Currículo na Educação Infantil
De acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais de Educação Infantil, currículo é um:
Conjunto de práticas que buscam articular as experiências e os saberes das
crianças com os conhecimentos que fazem parte do patrimônio cultural, artístico,
ambiental, científico e tecnológico, de modo a promover o desenvolvimento integral de
crianças de 0 a 5 anos de idade.
(DCNEI, 2010, p.13).
Ainda de acordo com as DCNEIs, as práticas pedagógicas que compõem a proposta
curricular da Educação Infantil devem ter como eixos norteadores as interações a as
brincadeiras e garantir experiências que:
CLIQUE AQUI PARA CONHECER AS EXPERIÊNCIAS
• Promovam o conhecimento de si e do mundo por meio da ampliação de
experiências sensoriais, expressivas, corporais que possibilitem a movimentação
ampla, expressão da individualidade e respeito pelos ritmos e desejos da criança;
• Favoreçam a imersão das crianças nas diferentes linguagens e o progressivo
domínio por elas de vários gêneros e formasde expressão: gestual, verbal, plástica,
dramática e musical;
• Possibilitem às crianças experiências de narrativas, de apreciação e interação com a
linguagem oral e escrita e convívio com diferentes suportes e gêneros textuais orais
e escritos;
• Recriem, em contextos significativos para as crianças, relações quantitativas,
medidas, formas e orientações espaço temporais;
• Possibilitem situações de aprendizagem mediadas para a elaboração da autonomia
das crianças nas ações de cuidado pessoal, auto-organização, saúde e bem-estar;
• Possibilitem vivências éticas e estéticas com outras crianças e grupos culturais, que
alarguem seus padrões de referência e de identidades no diálogo e conhecimento da
diversidade;
• Incentivem a curiosidade, a exploração, o encantamento, o questionamento, a
indagação e o conhecimento das crianças em relação ao mundo físico e social, ao
tempo e à natureza;
47
• Promovam o relacionamento e a interação das crianças co diversificadas
manifestações de música, artes plásticas e gráficas, cinema, fotografia, dança,
teatro, poesia e literatura;
• Promovam interação, o cuidado, a preservação e o conhecimento da biodiversidade
e da sustentabilidade da vida na Terra, assim como o não desperdício dos recursos
naturais;
• Propiciem a interação e o conhecimento pelas crianças das manifestações e
tradições culturais brasileiras;
• Possibilitem a utilização de gravadores, projetores, computadores, máquinas
fotográficas e outros recursos tecnológicos e midiáticos;
Para Kishimoto (2010), o brincar é muito importante:
Porque dá o poder à criança para tomar decisões, expressar
sentimentos e valores, conhecer a si, os outros e o mundo, repetir
ações prazerosas, partilhar brincadeiras com o outro, expressar sua
individualidade e identidade, explorar o mundo dos objetos, das
pessoas, da natureza e da cultura para compreendê-lo, usar o corpo,
os sentidos, os movimentos, as várias linguagens para experimentar
situações que lhe chamam a atenção, solucionar problemas e criar.
Mas é no plano da imaginação que o brincar se destaca pela
mobilização de significados. Enfim, sua importância se relaciona
com a cultura da infância que coloca a brincadeira como a
ferramenta para a criança se expressar, aprender e se desenvolver
(KISHIMOTO, 2010, p.1).
Como mencionado anteriormente, o Artigo 9º das DCNEIs define que os eixos
norteadores das práticas pedagógicas devem ser as interações e as brincadeiras, indicando
que não se pode pensar em aprendizagem e desenvolvimento da criança sem pensar no
brincar e nas interações: interações entre crianças, entre crianças e professores, com os
brinquedos e materiais, entre crianças e ambiente e entre a instituição e a família.
CLIQUE AQUI PARA CONHECER AS EXPERIÊNCIAS
• Interação entre as crianças: o brincar com outras crianças garante a produção,
conservação e recriação do repertorio lúdico infantil e a ampliação de experiências;
• Interação com os professores: o brincar interativo com os professores é essencial
para o conhecimento do mundo social e para dar maior riqueza, complexidade, e
qualidade às brincadeiras e experiências;
48
• Interação com os brinquedos: é importante para o conhecimento do mundo dos
objetos;
• Interação entre a criança e o ambiente: a organização do ambiente facilita ou
dificulta as interações e as brincadeiras entre crianças e adultos.
• Interação entre a instituição e a família: a relação entre a instituição e a família
possibilita o conhecimento e a inclusão da cultura da comunidade que a criança
conhece no projeto pedagógico.
A seguir apresentamos recortes de uma proposta pedagógica de Educação Infantil que
segue as orientações estabelecidas pelas DCNEIs de 2009.
49
Educação Infantil
Aula 04: As diretrizes curriculares nacionais para a educação infantil (DCNEIs)
Tópico 04: Uma experiência de Educação Infantil
Nesta aula serão apresentados alguns aspectos de uma experiência de Educação
Infantil desenvolvida no Núcleo de Desenvolvimento da Criança (NDC).
Especificamente trataremos da organização do tempo, do espaço e dos
procedimentos metodológicos da instituição.
O que é o NDC?
O NDC é uma unidade universitária federal de Educação Infantil, que integra a lista de
escolas de Educação Infantil cadastradas no Ministério de Educação desde 2000. Iniciou
suas atividades em 1991 no Departamento de Economia Doméstica, do Centro de Ciências
Agrárias da Universidade Federal do Ceará e desde então desenvolve atividades de ensino,
da pesquisa e da extensão. São os seguintes os objetivos do NDC: Clique aqui
• oferecer um programa educacional para crianças entre 3 anos (completos até 31 de
março) e 5 anos e onze meses de idade;
• propiciar campo de estágio e de formação profissional para alunos da UFC;
• oportunizar a realização de pesquisas, visando produzir conhecimentos sobre o
desenvolvimento e a educação de crianças na faixa etária da Educação Infantil;
• socializar conhecimentos sobre a Educação Infantil entre professores de creches e pré-
escolas das redes pública e privada;
• socializar conhecimentos sobre o cuidado e educação das crianças e outros aspectos do
cotidiano da família como alimentação, saúde e administração familiar entre os pais das
crianças.
Ao longo da sua trajetória, a clientela do NDC vem sendo constituída por filhos de
professores, técnicos, servidores técnicos administrativos e alunos de graduação e pós-
graduação da UFC. As turmas são organizadas em:
Infantil 3 – crianças de 3;
Infantil 4 – crianças de 4 anos;
Infantil 5 – crianças de 5 anos.
50
Proposta pedagógica do NDC
A Proposta Pedagógica do NDC se fundamenta na crença de que o conceito de infância
é determinado histórica e socialmente, sendo, pois, o desenvolvimento da criança
fortemente influenciado pelo seu ambiente socioeconômico e cultural. Considera a criança
um sujeito social, concreto, capaz, com características próprias da etapa da vida em que se
encontra.
As práticas pedagógicas que compõem a Proposta Pedagógica do NDC têm
como eixos norteadores as brincadeiras e interações e asseguram experiências de
aprendizagens, mencionadas na Resolução nº 5. Sem fragmentar as aprendizagens e
o desenvolvimento da criança, mas para facilitar a organização das experiências, estas
foram divididas em três blocos: desenvolvimento sócio afetivo; desenvolvimento físico
motor; e ampliação e construção de novos conhecimentos.
A prática pedagógica no NDC: a rotina
Segundo Barbosa (2006, p.39), as rotinas das pedagogias da educação infantil são
vistas
[...] como um dos elementos integrantes das práticas pedagógicas e didáticas que
são previamente pensadas, planejadas e reguladas, com o objetivo de ordenar e
operacionalizar o cotidiano da instituição e constituir a subjetividade de seus
integrantes.
No Núcleo de Desenvolvimento da Criança, embora as rotinas dos três grupos não
sejam idênticas, todas elas incluem os seguintes tempos:
TEMPO DE RODA DE CONVERSA
Neste tempo ocorrem conversas diversas no grupo, privilegiando-se a participação
e a fala e a escuta das crianças;
TEMPO DE ATIVIDADES COORDENADAS PELA PROFESSORA
Neste tempo é realizado o planejamento do dia; a elaboração e discussão das
regras de convivência (os combinados); relato de fatos e experiências pelas crianças;
escolha dos temas e estratégias para o desenvolvimento dos projetos. Também são
realizadas experiências diversas relacionadas com as múltiplas linguagens tais como
51
as artes visuais, a música, o teatro, a dança, a linguagem oral e escrita, a matemática,
as ciências naturais e sociais.
TEMPO DE HIGIENE PESSOAL E PREPARAÇÃO PARA O LANCHE
(CUIDADOS FÍSICOS)
Este tempo é reservado à higiene e à orientação para o lanche (as crianças lavam
as mãos e pegam as toalhinhas).
TEMPO DO LANCHE
O momento do lanche representa uma oportunidade para a construção da
autonomia das crianças, já que elassão incentivadas a se servirem sozinhas. Também
nesse momento, aproveita-se para conversar com as crianças sobre a importância de
uma alimentação saudável e para estimulá-las a provar novos alimentos.
TEMPO DO PARQUE
Neste tempo, que sempre ocorre na área externa, as atividades são quase sempre
livres, havendo em alguns dias atividades planejadas com o uso de velocípedes, cordas,
bolas etc.
TEMPO DE RODA DE HISTÓRIA
Esse é o momento de contação e leitura de histórias, utilizando técnicas e recursos
variados. As histórias podem ser lidas pela professora, pelas próprias crianças e podem
ser ouvidas (CDs e DVDs de historias).
ATIVIDADES DIVERSIFICADAS
52
Neste tempo as crianças se distribuem entre as diversas áreas da sala:
dramatização, blocos, jogos, arte, leitura, e desenvolvem atividades por elas escolhidas.
É importante ressaltar que embora as crianças demonstrem suas preferências, há uma
orientação das professoras no sentido de que elas diversifiquem suas experiências
passando por todas as áreas.
TEMPO DE AVALIAÇÃO E ENTREGA DA TAREFA DA CASA E
ORGANIZAÇÃO DA SAÍDA
Neste tempo se conversa sobre as atividades do dia e depois cada criança coloca
nas pastas individuais a agenda e/ou atividades gráficas que farão em casa.
Além dos tempos apresentados, conforme as experiências em andamento, faz parte do
currículo do NDC a realização de aulas-passeio (em teatros, zoológicos, bibliotecas, museus
etc.), banho de piscina e outros. A quantidade de tempo alocada para cada experiência varia
de acordo com a faixa etária das crianças e os objetivos das experiências.
A prática pedagógica no NDC: o espaço
As salas de atividades são organizadas visando favorecer as interações, as brincadeiras
e a ação da criança sobre os objetos e suas representações, estando, pois, de acordo com
os Parâmetros Nacionais de Infraestrutura publicados pelo MEC (2008). O espaço é dividido
em áreas de atividades distintas, onde as crianças têm oportunidade de experimentar,
descobrir e relacionar-se com outras crianças e com os adultos, conforme fotos e
descrições a seguir.
Área de blocos
Oferece às crianças
oportunidade de construir
estruturas, tais como
casas, torres, estradas,
pontes etc.; de lidar com
problemas de espaço e de
equilíbrio; de criar
modelos e de dramatizar
em situações diversas.
Encontram-se nessa área
materiais como: blocos de
madeira de tamanhos,
53
formas e cores variadas,
brinquedos de encaixar e
empilhar; acessórios, tais
como casinhas de
madeira, animais de
plástico, carros,
caminhões, caixas
grandes e pequenas etc.
Área de dramatização
Possibilita às crianças
assumir papéis de
membros da família e de
outros grupos da
sociedade, representando
tudo o que sabem acerca
das pessoas e dos
acontecimentos que
observam e
experimentaram. Dá
também às crianças
oportunidades de
trabalhar em conjunto, de
expressar sentimentos e
ideias e utilizar a
linguagem para responder
aos pedidos e
necessidades dos outros.
Há nesta área, mobiliário
e equipamentos básicos de
uma casa como armário,
cama, berço, mesa,
cadeira, fogão, geladeira,
televisão, telefone,
computador, espelho,
carrinho de compras, além
de acessórios como
roupas, sapatos, bolsas,
bijuterias etc.
Periodicamente são
colocados na mesma "kits"
de profissões diversas,
introduzindo-se nestas
ocasiões pequenas
alterações no cenário.
54
Área de jogos
Oferece às crianças
oportunidade de agir
sobre diversos
brinquedos, de tomar
iniciativa, de resolver
problemas, de
desenvolver persistência e
de internalizar conceitos.
Propicia também
oportunidades diversas de
interação, possibilitando
que as crianças aprendam
a aceitar as regras e a
esperar a vez de jogar.
Nesta área são
encontrados: quebra
cabeças, jogos de encaixe,
jogos de associação de
ideias, alinhavos, jogos de
loto, dominós, bingos,
baralhos, trilhas etc.
Área de artes visuais
Estimula a representação
pelas crianças de pessoas,
objetos e eventos vistos ou
imaginados por meio das
artes visuais como
desenho, pintura, colagem
e modelagem com
diversos tipos de
materiais. Dá também às
crianças oportunidade de
criar e observar
mudanças, de separar
coisas, combiná-las e
transformá-las. Além de
uma bancada de inox, pia
e cavalete de pinturas,
põe-se nesta área à
disposição das crianças:
papéis de diferentes
tamanhos, cores e
55
texturas, lápis de cor, giz,
canetas coloridas, pincéis,
tinta, revistas, argila,
massa de modelar, cola,
tesouras, acessórios como
esponjas, rolos para
pintar etc.
Área de música
A área dedicada à musica
possui grande variedade
de instrumentos musicais,
equipamentos de som (CD
player, gravador,
microfone, amplificador,
instrumentos musicais
construídos pelas crianças
etc.) e variados CDs de
músicas infantis, de
musica popular brasileira
e internacional e também
de música clássica, dentre
outros. Também nessa
área, as crianças podem
realizar atividades de
experimentação de sua
voz, de relaxamento, de
apreciação musical e
dança.
Área de Leitura
Nesta área a criança tem a
oportunidade de
desenvolver o prazer de
ler sozinha, ler em
pequenos grupos e com os
professores. Para isso a
área possui uma mesinha
com cadeiras, almofadas e
uma estante com grande
variedade de portadores e
de gêneros textuais:
clássicos da literatura
infantil nacional e
56
internacional, parlendas,
trava língua, poesias,
poesias, cordel, gibis,
revistas, dicionário,
enciclopédias e outros.
Área de ciências
Oferece às crianças
oportunidade não só de
observar apetrechos
relacionados como as
ciências naturais e sociais,
bem como de realizar
experiências agindo sobre
diversos tipos de
materiais. As atividades
planejadas visam
incentivar a criança a
desenvolver as
capacidades de observar
fenômenos, levantar
hipóteses e formular
conclusões. Há nesta área:
insetos, cobras, peixes,
búzios, pedras, balança,
globo terrestre, fósseis,
mapas, revistas com
assuntos de ciências e os
"produtos" relacionados
com os projetos
pedagógicos, tais como
maquetes, pistas de
trânsito etc.
Área central da sala de atividades
Esta área contém mesas e
cadeiras que podem ser
organizadas de diferentes
formas para atender
modos diversos de
agrupamentos das
crianças. Nas adjacências
dessa área, se encontram
afixados nas paredes ou
57
dispostos em armários
baixos todos os materiais
de suporte para as
experiências das crianças.
Como exemplos desses
materiais citamos: alfabeto
completo afixado na
parede, alfabetos móveis
de madeira e plástico,
textos de autores diversos
e textos produzidos pelas
crianças, bingos de
palavras, sílabas e letras,
tabelas com numerais,
numerais móveis,
calendário, blocos lógicos,
jogos matemáticos, como
trilhas, baralhos, bingos,
dominós, escala
cuisenaire; materiais
variados para classificar,
seriar, fazer
correspondências, entre
outros. Há também uma
área com escaninhos
identificados com os
nomes das crianças, nos
quais são guardados os
objetos de uso pessoal. O
banheiro das crianças
possui aparelhos
sanitários, chuveiros e pias
adequados ao tamanho
das crianças e se comunica
diretamente com as salas.
Área de varanda coberta
Oferece às crianças
oportunidade de
atividades que
possibilitam
movimentação ampla,
experiências sensoriais,
expressivas e corporais.
Nesta, as crianças se
58
envolvem em tipos de
atividades como construir
com sucata, pular corda,
brincar com bambolê,
jogar bola, jogar boliche,
brincar de amarelinha,
andar de motos, bicicletas
etc. No NDC, esta área tem
sido utilizada também
para a festa dos
aniversariantes do mês e
para a exposição das
sínteses dos projetos
desenvolvidos pelascrianças.
Área Externa
Oferece espaço e condições
para as brincadeiras de
correr, pular, saltar,
escorregar, subir, descer
em equipamentos e
árvores, pega-pega,
brincar de esconde-
esconde entre outros.
Favorece também o
desenvolvimento social,
pois oportuniza uma
interação intensa das
crianças umas com as
outras; o desenvolvimento
emocional pelo fato de
possibilitar liberdade de
ação e de movimento e o
desenvolvimento cognitivo
pelas oportunidades
oferecidas às crianças de
explorar, de experimentar,
de imaginar. No NDC, a
área externa, que é muito
ampla, subdivide-se em
várias sub-áreas: uma
cimentada para o uso dos
motos e bicicletas; uma
com equipamentos de
59
parque industrializados e
artesanais montados em
cima de areia; uma de
banho com chuveiro,
mangueira e piscina. Há
também nesta área,
árvores de grande porte,
canteiros de plantas, uma
casinha de madeira
construída em cima de
uma das árvores e uma
casinha de taipa
construída como síntese
de um projeto "Luís
Gonzaga e as coisas do
sertão".
A importância atribuída ao espaço pela equipe do NDC se expressa cotidianamente
através de ações relacionadas com sua organização. Há sempre reposição e rodízio dos
materiais das áreas e troca dos trabalhos das crianças expostos nas salas. A equipe está
também constantemente atenta aos aspectos relacionados às condições de higiene,
segurança e manutenção dos equipamentos.
A prática pedagógica no NDC: procedimentos metodológicos
Dentre os procedimentos metodológicos utilizados na prática pedagógica do
NDC, destaca-se o trabalho com projetos. Essa prática possibilita uma intervenção
pedagógica significativa, intencional e envolvente e contribui para que as crianças se
tornem corresponsáveis pelo trabalho e pelas escolhas ao longo de seu
desenvolvimento.
O trabalho com projetos possibilita uma nova perspectiva de compreensão do processo
de ensino e aprendizagem como, por exemplo: ensina-se e aprende-se significativamente
por meio de ações planejadas, de experiências e resolução de situações problemáticas. Ao
ser agente de sua própria atividade, a criança assume responsabilidades, planeja suas
ações, constrói sua autonomia. O projeto em sua perspectiva globalizante e integradora
possibilita ainda a mobilização e a interação entre diferentes experiências. Na perspectiva
de Hernandez (2002), o desenvolvimento de um projeto ocorre de acordo com as seguintes
etapas:
Problematização
60
Determinação conjunta da temática a ser estudada e dos princípios norteadores
(levantamento dos conhecimentos prévios e das questões sobre o tema);
Desenvolvimento
Planejamento e organização das ações: divisão dos grupos; definição dos assuntos
a serem pesquisados; seleção dos procedimentos e delimitação do tempo de duração;
socialização periódica dos resultados obtidos nas investigações (identificação de
conhecimentos construídos); estabelecimento com o grupo dos critérios de avaliação;
avaliação de cada etapa do trabalho, realizando os ajustes necessários.
Fechamento do projeto
Socialização dos conhecimentos adquiridos e das produções realizadas durante o
projeto, oportunizando a visibilidade de todo o processo e o surgimento de ideias para
um novo projeto. Muitos dos projetos desenvolvidos no NDC foram apresentados em
Congressos e Encontros Científicos. Destacamos entre outros os seguintes: Projeto
Alecrim, Projeto Cupim, Projeto Reciclar, Projeto Fundo do Mar, Projeto Manguezal,
Projeto Brinquedos e Brincadeiras Tradicionais, Projeto Peixes Ornamentais, Cultura
Cearense e o Projeto Luis Gonzaga Ama as Coisas do Sertão. Este último, desenvolvido
com crianças de 5 e 6 anos, será detalhado a seguir.
Projeto Luiz Gonzaga ama as coisas do sertão
Este projeto teve como objetivo geral o resgate dos valores socioculturais do
sertão nordestino. Objetivou o conhecimento e a reflexão sobre a vida de nordestinos
em relação seguintes aspectos: o contexto sócio geográfico do sertão (condições de
moradia do povo, o clima, a vegetação); o modo de vida do homem e da mulher
nordestinos, seus trabalhos, seus objetos de uso diário, suas comidas, suas
brincadeiras, os costumes e artesanato. A vida e a arte de Luiz Gonzaga contribuíram
para a concretização dos objetivos propostos.
Desenvolvimento do projeto
O Projeto Luiz Gonzaga Ama as Coisas do Sertão, intitulado pelas crianças, surgiu a
partir da discussão na "roda de conversa" sobre a reportagem que tratava dos 15 anos de
morte do referido compositor e cantor. Rememorando as músicas do artista, as crianças
lembraram, ouviram e cantaram a canção Riacho do Navio. Dessa forma, a temática Luiz
Gonzaga e o sertão se constituíram o detonador do projeto. O projeto teve uma duração de
quatro meses e, dentre outras, destacamos as seguintes atividades realizadas:
61
ATIVIDADES
• Pesquisas sobre as músicas e a vida de Luiz Gonzaga;
• Pesquisas sobre as comidas típicas, as roupas e os objetos usados pelo povo do
sertão e sobre os brinquedos utilizados pelas crianças no sertão;
• Aulas-passeio: ao Museu do Vaqueiro; a EMCETUR (Centro de Artesanato); a um
engenho de cana de açúcar (localizado no Município de Aquiraz) e Centro das
tapioqueiras.
• Entrevista com um sanfoneiro;
• Atividades de culinária com preparo de comidas típicas (baião de dois com paçoca
com a carne pilada pelas próprias crianças em um pilão e bolo de milho);
• Formação de um coral que cantou as seguintes músicas de Luiz Gonzaga: Vida de
Viajante, Xote das Meninas, Riacho do Navio, Respeita Januário, Asa Branca;
• Construção e ornamentação de uma típica casa sertaneja. Esse foi um dos pontos
mais significativos do projeto. As crianças participaram de todas as etapas de
construção da casa colocando, de fato, a mão na massa!
Estrutura da Casa de Taipa
Crianças colocando o barro
na casa
• Confecção de brinquedos;
• Desenhos e pinturas relacionadas com as coisas do sertão;
• Manuseio de uma sanfona durante a aula de música;
• Produção de uma feira para vender os produtos alimentícios do sertão adquiridos
nas aulas-passeio.
Apesar de o Projeto ter priorizado a área das Ciências Sociais, outras áreas foram
também contempladas.
EXEMPLOS
62
Escrita espontânea de nomes de brinquedos do sertão Escrita espontânea de
trecho da Música Xote das Meninas
Apresentação de uma peça de teatro sobre a vida no sertão pelas crianças
Desenho e escrita espontânea de comidas nordestinas e de instrumentos musicais
Produção de texto oral - entrevista
Perguntas da entrevista elaboradas pelas crianças:
Você gosta de ser sanfoneiro?
Você gosta de cantar?
Você conhece as músicas do Luiz Gonzaga?
Você conhece a música xote das meninas?
Você conhece a musica Asa Branca?
Onde você aprendeu essas músicas?
Você sabe cantar Riacho do Navio?
Você já fez show?
Como você arranja amigos?
Há quanto tempo você toca?
63
Na área das Artes foram realizadas as atividades:
a) desenhos, esculturas e pinturas dos objetos do sertão trazidos pelas crianças;
b) pintura de uma natureza-morta;
c) oficina de brinquedos do sertão e;
d) montagem e apresentação de uma peça teatral sobre a vida sertaneja.
Síntese do Projeto
A culminância do Projeto se deu com a participação entusiasmada das crianças na
apresentação da peça escrita e montada pelas crianças e na feira de produtos e comidas do
sertão. As experiências e aprendizagens foram socializadas com as demais crianças e
adultos que fazem parte do NDC, bem como para os familiares das crianças envolvidas no
projeto.
Destacamos durante todo o desenvolvimento do Projeto, o interesse e o compromisso
das crianças, bem como as interações e brincadeiras proporcionadas pelo mesmo.
Registramos nas falas das crianças o quanto este contribui para a ampliação e construção
de conhecimentos.
"Nos aprendemos um monte de coisa. Lá no sertão é muito triste porque não tem
água e nem comida". "A vegetaçãodo sertão é a caatinga – a caatinga é galho seco.
Na caatinga tem mandacaru. Dentro do mandacaru tem água aí ele não seca". "Eu
aprendi que na casa do vaqueiro tinha panela de barro, fogão de barro, rede, cama. A
roupa do vaqueiro era de couro. O vaqueiro trabalha cuidando do gado".
DICA
Conheça também a experiência de Educação Infantil de Reggio Emilia [1] (Visite a
aula online para realizar download deste arquivo.), na Itália.
REFLEXÃO
64
Sistematizando conhecimentos
Debata com os seus colegas acerca dos aspectos que devem ser incluídos na
elaboração das propostas pedagógicas das instituições de Educação Infantil.
Referências bibliográficas
BARBOSA, M.C.S. Por amor e por força: rotinas na Educação Infantil. Porto Alegre:
Artmed, 2006.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal,
1988.
______. Ministério da Educação e Cultura. Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional. Lei nº 9394, de 20 de dezembro de 1996. Dispõe sobre as Diretrizes e Bases
da Educação Nacional. Brasília, DF: MEC, 1996.
______. Ministério da Educação e Cultura. Conselho Nacional de Educação. Diretrizes
Curriculares para a Educação Infantil. Parecer 20/09 e Resolução 05/09. Brasília, DF:
MEC, 2009.
______. Ministério da Educação e Cultura. Secretaria de Educação Básica. Diretrizes
Curriculares para a Educação Infantil. Brasília, DF: MEC, 2010.
CEARÁ. Secretaria de Educação. Orientações Curriculares para a Educação Infantil.
Fortaleza: SEDUC, 2011.
KISHIMOTO, T. M. Jogo, brinquedo, brincadeira e educação. São Paulo: Cortez, 1996.
Fontes das Imagens
1 - http://documentosapei.no.sapo.pt/jornadas_remilia_elisaleandro.pdf
65
Educação Infantil
Aula 05: A inclusão de crianças com necessidades educativas especiais na
educação infantil
Tópico 01: Aspectos históricos da educação especial
O atendimento de qualidade na infância é amplamente reconhecido como fator
fundamental para o desenvolvimento global da criança e, portanto, os sistemas de
ensino enfrentam o grande desafio de oferecer programas educacionais que
promovam a inclusão de todas as crianças.
No entanto, apesar do direito legal ao acesso, a permanência e a qualidade da educação
oferecida a todas as crianças, os caminhos para implementar práticas educativas que
contemplem as necessidades educacionais especiais verdadeiramente inclusiva ainda estão
sendo construídas em muitas escolas.
OLHANDO DE PERTO
Assim, os sistemas de ensino, bem como a sociedade brasileira ainda se encontram
diante de dois grandes desafios: fazer que os direitos de todas as crianças ultrapassem
o plano instituído legalmente e implementar práticas inclusivas que atendam a todas
sem distinção.
Nessa aula trataremos da Educação Especial, contemplando aspectos históricos e
legais e práticas pedagógicas voltadas para o atendimento de crianças com necessidades
educacionais especializadas. Vale ressaltar que a educação especial é:
Uma modalidade de ensino que perpassa todos os níveis, etapas e modalidades,
realiza o atendimento educacional especializado, disponibiliza os recursos e serviços
e orienta quanto a sua utilização no processo de ensino e aprendizagem nas turmas
comuns do ensino regular.
(Brasil/MEC, 2008, p.16).
A deficiência como fenômeno humano individual e social é determinada em parte pelas
representações socioculturais de cada comunidade, em diferentes gerações, e pelo nível de
desenvolvimento científico, político, ético e econômico da sociedade. Segundo Bruno (2006,
p. 9),
66
As raízes históricas e culturais do fenômeno deficiência sempre
foram marcadas por forte rejeição, discriminação e preconceito. A
literatura da Roma Antiga relata que as crianças com deficiência,
nascidas até o princípio da era cristã, eram afogadas por serem
consideradas anormais e débeis. Na Grécia antiga, Platão relata no
seu livro A república que as crianças mal constituídas ou deficientes
eram sacrificadas ou escondidas pelo poder público. A Idade Média
conviveu com grandes contradições e ambivalência em relação às
atitudes e sentimentos frente à deficiência. Os deficientes mentais,
os loucos e criminosos eram considerados, muitas vezes, possuídos
pelo demônio, por isso eram excluídos da sociedade. Aos cegos e
surdos eram atribuídos dons e poderes sobrenaturais. No
pensamento dos filósofos cristãos, a crença também oscilava entre
culpa e expiação de pecados e, finalmente, com Santo Tomás de
Aquino, a deficiência passa a ser considerada como um fenômeno
natural da espécie humana. Essas contradições geravam
ambivalência de sentimentos e atitudes que iam da rejeição
extrema, passando por piedade e comiseração e até a
superproteção, fazendo com que surgissem assim as ações de
cunho social, religioso e caritativo de proteção e cuidados como:
hospitais, prisões e abrigos. No Renascimento, com o surgimento
das ciências, as concepções racionais começavam a buscar
explicações para as causas das deficiências, que foram
consideradas do ponto de vista médico como doenças de caráter
hereditário, males físicos ou mentais.
De acordo com Bruno (2006), historicamente, a educação de pessoas com deficiência
nasceu de forma solitária, segregada e excludente. Na Europa, por exemplo, surgiu com
caráter assistencialista e terapêutico, a partir da preocupação de religiosos e filantropos.
No quadro abaixo podemos observar o percurso histórico das primeiras iniciativas para
a educação de pessoas com deficiências na França.
Atendimento
de surdos
Atendimento
de cegos
Atendimento de
deficiente mental
Século XVII Século XVIII Século XX
- em 1620, com a
tentativa de Jean
Paul Bonet de
- em 1784 Valetin
Hauy criou o
Instituto Real dos
As primeiras iniciativas
foram do médico Francês
Jean Marc Itard;
67
Atendimento
de surdos
Atendimento
de cegos
Atendimento de
deficiente mental
ensinar mudos a
falar;
Jovens Cegos, em
Paris
- destinado a leitura
tátil pelo sistema de
letras em relevo;
- sistematizou um método
de ensino inspirado na
experiência do menino
selvagem de Ayeron (sul
da França), que consistia
na repetição de
experiências positivas;
- primeira instituição
pública foi residencial,
fundada pelo médico
francês Edward Seguin,
que criou um método
educacional originado da
neurofisiologia que
consistia na utilização de
recursos didáticos com
cores e música para
despertar a motivação e o
interesse dessas crianças.
Século XX Século XIX
- em 1920, o abade
Charles M. Eppé,
criou o “Método dos
Sinais” para a
comunicação com
surdos
- em 1834, Louis
Braille criou o
sistema de leitura e
escrita por caracteres
em relevo,
denominado sistema
braile.
Já nos Estados Unidos e no Canadá, os primeiros programas para atender pessoas com
deficiência surgiram para prover atenção e cuidados básicos de saúde, alimentação,
moradia e educação da parcela da população marginalizada e abandonada pela sociedade.
No Brasil, na época do Império, sob influência europeia, os primeiros atendimentos a
crianças com deficiência datam do século XIX, conforme mostra a tabela.
Brasil - século XIX
• em 1854 - foi criado o Imperial Instituto de Meninos Cegos, atual Instituto Benjamin
Constant –IBC, no Rio de Janeiro;
• em 1857 – foi criado o Instituto dos Surdos Mudos, atual Instituto Imperial da
Educação dos Surdos, também no Rio de Janeiro.
Brasil - século XX
• em 1926 é fundado o Instituto Pestalozzi, instituição especializada no atendimento
às pessoas com deficiência mental;
• em 1954 é fundada a primeira Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais - APAE
• em 1945, é criado o primeiro atendimento educacional especializado às pessoas com
superdotação na Sociedade Pestalozzi.
68
OBSERVAÇÃO
No início do século XX, a médica italiana Maria Montessori criou um método de
ensino para crianças com deficiência mental.
O método Montessori é inspiradona rotina diária e na ação funcional e fundamenta-
se na estimulação sensório-perceptiva e autoaprendizagem. Emprega rico e variado
material didático como: blocos, cubos e barras em madeira, objetos variados e
coloridos, material de encaixe e seriação, letras grandes em lixa etc. Esse método foi
mundialmente difundido e até hoje é utilizado, inclusive no Brasil, na educação pré-
escolar de crianças sem qualquer deficiência.
Como podemos perceber, de modo geral, a educação especial surgiu sob o enfoque
médico e clínico. Porém, apesar do longo percurso conceitual e legal trilhado, a prática
pedagógica em relação a essa modalidade de ensino tem padrões de qualidade muito
aquém dos recomendados pela legislação sobre o tema. Ainda hoje, com base no conceito
de limitação e incapacidade, percebemos barreiras atitudinais das pessoas que atuam não
apenas em instituições de Educação Infantil, mas em diversos segmentos do ensino, por
vezes, evidenciadas pelos mecanismos de negação das possibilidades das crianças com
necessidades educativas especiais. Nesses casos, está sendo esquecido um dos princípios
da inclusão escolar que é universalização do acesso, ou seja, a garantia da educação como
direito de todos, direito garantido nos dispositivos legais.
69
Educação Infantil
Aula 05: A inclusão de crianças com necessidades educativas especiais na
educação infantil
Tópico 02: Aspectos legais da educação inclusiva
Na década de 80 do século XX, a política educacional brasileira teve como meta a
democratização, mediante a expansão do ensino com oportunidade de acesso das minorias
à escola pública. Assim, a educação de crianças com deficiências na escola comum ganhou
força com o movimento nacional de defesa dos direitos das pessoas com deficiências. Por
meio desse mecanismo democrático, fundado na política de descentralização das ações,
são criados os conselhos estaduais, municipais e associações de defesa dos direitos,
integrando representantes dos diferentes setores: saúde, educação, justiça e ação social,
trabalho, transportes e comunidade. De acordo com Bruno (2006, p.10),
No âmbito da educação infantil e especial, a democratização do
ensino traz consigo o conceito de educação como direito social,
passando do modelo médico do cuidar, do clínico e terapêutico para
a abordagem social e cultural que valoriza a diversidade como
forma de aprendizagem, de fortalecimento e modificação do
ambiente escolar e da comunidade para a promoção da
aprendizagem. Nesse enfoque sociológico, o meio, o ambiente
inadequado e a falta de condições materiais são também fatores
produtores de limitação e determinantes do fracasso escolar.
DICA
Conheça o percurso legal da educação inclusiva no Portal do MEC.
Segundo Mantoan (2006, p. 99),
A Constituição de 1988 prescreve a inclusão total e
incondicional dos alunos, sendo verdadeiramente revolucionária,
vanguardista e muito clara ao se pronunciar sobre o direito de todos
à educação. Falta-nos zelar para que suas prescrições sejam
colocadas em prática, por meio de políticas educacionais que as
respeitem e as consolidem nas nossas escolas.
70
Em consonância com a Constituição (1988) e com o Estatuto da Criança e do
Adolescente (ECA/1990), a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB/96)
representa um grande avanço no atendimento à infância. Segundo essa Lei, a Educação
Infantil tem por finalidade o desenvolvimento integral de todas as crianças, do nascimento
aos seis anos, inclusive as com necessidades educacionais especiais, promovendo o
desenvolvimento das crianças em seus aspectos físico, psicológico, social, intelectual e
cultural. O Artigo 4º, dentre outras garantias, ressalta que o dever do Estado com a educação
escolar pública será efetivado mediante a garantia de:
Atendimento educacional especializado gratuito aos educandos com
necessidades especiais, preferencialmente na rede regular de ensino". (Inciso III) e;
"atendimento gratuito em creches e pré-escolas às crianças de zero a seis anos de
idade.
(Inciso IV)
Além dessa garantia, a LDB/96 introduziu um capítulo específico sobre o atendimento
às necessidades educacionais especiais dos alunos, que deve ter início na Educação Infantil,
ou seja, em creches e pré-escolas.
OBSERVAÇÃO
LDB 9394/96: CAPÍTULO V: DA EDUCAÇÃO ESPECIAL
Art. 58. Entende-se por educação especial, para os efeitos desta Lei, a modalidade
de educação escolar, oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, para
educandos portadores de necessidades especiais.
§ 1º Haverá, quando necessário, serviços de apoio especializado na escola regular, para
atender às peculiaridades da clientela de educação especial.
§ 2º O atendimento educacional será feito em classes, escolas ou serviços
especializados, sempre que, em função das condições específicas dos alunos, não for
possível a sua integração nas classes comuns de ensino regular.
§ 3º A oferta de educação especial, dever constitucional do Estado, tem início na faixa
etária de zero a seis anos, durante a educação infantil.
Ainda de acordo com o Artigo 59 da LDB/96, os sistemas de ensino deverão assegurar
aos educandos com necessidades especiais:- currículos, métodos, técnicas e recursos
educativos específicos para atender às suas necessidades.
Os estudos e pesquisas na área da inclusão, aliados aos movimentos de órgãos
públicos e da sociedade civil continuam contribuindo para a efetivação da educação
especial em instituições de educação como direito do público-alvo que necessita dessa
modalidade. Nessa perspectiva, o Decreto Nº 7.611, de 17 de novembro de 2011, Artigo 1º,
71
estabelece para a educação de pessoas público-alvo da educação especial as seguintes
diretrizes: Clique aqui
I. garantia de um sistema educacional inclusivo em todos os níveis, sem discriminação
e com base na igualdade de oportunidades;
II. aprendizado ao longo de toda a vida;
III. não exclusão do sistema educacional geral sob alegação de deficiência;
IV. garantia de ensino fundamental gratuito e compulsório, asseguradas adaptações
razoáveis de acordo com as necessidades individuais;
V. oferta de apoio necessário, no âmbito do sistema educacional geral, com vistas a
facilitar sua efetiva educação;
VI. adoção de medidas de apoio individualizadas e efetivas, em ambientes que
maximizem o desenvolvimento acadêmico e social, de acordo com a meta de
inclusão plena;
VII. oferta de educação especial preferencialmente na rede regular de ensino; e
VIII. apoio técnico e financeiro pelo Poder Público às instituições privadas sem fins
lucrativos, especializadas e com atuação exclusiva em educação especial.
Para fins deste Decreto, o parágrafo 1º "considera público-alvo da educação especial as
pessoas com deficiência, com transtornos globais do desenvolvimento e com altas
habilidades ou superdotação".
72
Educação Infantil
Aula 05: A inclusão de crianças com necessidades educativas especiais na
educação infantil
Tópico 03: Dimensões do atendimento educacional especializado
Segundo Mantoan (2006), quando tratamos de atendimento à população que
requer atendimento educacional especializado, não devemos deixar dúvida em relação
a três dimensões: o conceito, a população (público-alvo) e o lócus de atendimento.
Quanto aos conceitos
O desenvolvimento de estudos e pesquisas no campo da educação vem modificando os
conceitos, legislação e as práticas pedagógicas e de gestão, possibilitando a reestruturação
do ensino regular e especial. Em relação as expressões utilizadas na educação especial,
estas vem mudando ao longo dos anos. Essa mudança tem por base a reflexão sobre os
significados e sentidos que indicam diferentes concepções sobre as especificidades do ser
humano e certamente influenciam os modos de atendimento. Por exemplo, a expressão
"portadores de necessidades especiais," utilizada na Constituição de 1988, deu lugar ao
termo atual "pessoas com deficiência"observado nos documentos oficiais recentes.
REFLEXÃO
Analisando a expressão "necessidades especiais", compreende-se que ninguém é
"especial" por ter uma deficiência. Efetivamente,, trata-se de um atributo, como ser baixo
ou alto, ter olhos verdes ou castanhos. Além disso, como pode um ser humano "portar"
uma necessidade? Essa expressão também deixou de ser usada, vigorando, atualmente,
as expressões "pessoas com deficiência", "crianças com deficiência".
A expressão de referência "portadores de necessidades especiais" utilizada na
Constituição Federal de 1988 foi substituída pela expressão "necessidades educacionais
especializadas". Essa mudança tem por base estudos e reflexões não somente voltados
para a nomenclatura, mas principalmente no tocante às práticas de atendimento à
diversidade, conforme destacamos anteriormente. O Parecer Nº 17/2001, assim especifica:
Com a adoção do conceito de necessidades educacionais especiais, afirma-se o
compromisso com uma nova abordagem, que tem como horizonte a inclusão. Dentro
desta visão, a ação da educação especial amplia-se, passando a abranger não apenas
as dificuldades de aprendizagem relacionadas a condições, disfunções, limitações e
deficiências, mas também aquelas não vinculadas a uma causa orgânica específica
73
considerando que, por dificuldades cognitivas, psicomotoras e de comportamento,
alunos são frequentemente negligenciados ou mesmo excluídos dos apoios
escolares.
OBSERVAÇÃO
Os estudos mais recentes no campo da educação especial destacam que as
definições e uso de classificações devem ser contextualizados, não se esgotando na
mera especificação ou categorização atribuída a um quadro de deficiência, transtorno,
distúrbio, síndrome ou aptidão.
Mas o que significa ser uma pessoa com deficiência, com transtornos globais do
desenvolvimento, com altas habilidades ou superdotação e com transtornos funcionais
específicos?
CRIANÇAS COM DEFICIÊNCIA
Aquelas que têm impedimentos de longo prazo, de natureza física, mental ou
sensorial que, em interação com diversas barreiras, podem ter restringidas sua
participação plena e efetiva na escola e na sociedade;
CRIANÇAS COM TRANSTORNOS GLOBAIS DO DESENVOLVIMENTO
São aquelas que apresentam alterações qualitativas nas interações sociais
recíprocas e na comunicação, bem como um repertório de interesses e atividades
restrito, estereotipado e repetitivo;
CRIANÇAS COM ALTAS HABILIDADES/SUPERDOTAÇÃO
São aquelas que demonstram potencial elevado em qualquer uma das seguintes
áreas, isoladas ou combinadas: intelectual, acadêmica, liderança, psicomotricidade e
artes, além de apresentar grande criatividade, envolvimento na aprendizagem e
realização de tarefas em áreas de seu interesse.
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CRIANÇAS COM TRANSTORNOS FUNCIONAIS ESPECÍFICOS
São aquelas que apresentam transtornos do tipo: dislexia, disortografia, disgrafia,
discalculia, transtorno de atenção, hiperatividade e outros.
Resumindo!
1. Pessoas com deficiência
Tem impedimentos de longo prazo, de natureza física (cadeirantes e usuários de
muletas), mental (síndrome de Down, paralisia cerebral) ou sensorial (cegueira, surdez).
2. Pessoas com transtornos globais do
desenvolvimento
Apresentam alterações qualitativas das interações sociais recíprocas e na
comunicação, um repertório de interesses e atividades restrito, estereotipado e repetitivo
(autismo, síndrome do espectro do autismo, psicose infantil).
3. Pessoas com altas habilidades/superdotação
Demonstram potencial elevado em qualquer uma das seguintes áreas, isoladas ou
combinadas: intelectual, acadêmica, liderança, artes, psicomotrocidade.
4. Pessoas com transtornos funcionais específicos
Apresentam transtornos do tipo: dislexia, disortografia, disgrafia, discalculia,
transtorno de atenção, hiperatividade e outros.
O conceito de necessidades educacionais especiais, que passa ser amplamente
disseminado, a partir da Declaração de Salamanca (1994),
ressalta a interação das características individuais dos alunos
com o ambiente educacional e social, chamando atenção para o
ensino regular para o desafio de atender as diferenças.
(PNEE, 2008, p.15).
OLHANDO DE PERTO
Declaração de Salamanca (1994) – estabelece como princípio que as escolas de
ensino regular devem educar todos os alunos, enfrentando a situação de exclusão das
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crianças com deficiência, das que vivem nas ruas ou que trabalham, das superdotadas,
em desvantagem social e das que apresentam diferenças linguísticas, étnicas ou
culturais.
Embora toda a educação deva ser inclusiva, existem muitas divergências no tocante
a sua efetivação. Essa concepção educacional foi consolidada na Declaração de
Salamanca, em 1994. Porém, ainda hoje, nas primeiras décadas do século XXI, muita
gente continua acreditando que somente nas instituições exclusivas as crianças com
deficiência podem se desenvolver.
Quanto ao público – alvo
Quanto ao público-alvo, a educação especial na perspectiva da educação inclusiva,
atende crianças com deficiência, transtornos globais de desenvolvimento e altas
habilidades/superdotação.
Nesses casos e outros, que implicam em transtornos funcionais específicos, a
educação especial atua de forma articulada com o ensino comum, orientando para o
atendimento das necessidades educacionais desses alunos.
(PNEE, p.15). Art. 2o A educação especial deve garantir os serviços de apoio especializado
voltado a eliminar as barreiras que possam obstruir o processo de escolarização de estudantes
com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação.
OBSERVAÇÃO
Segundo a PNEE (2008), as definições do público- alvo devem ser contextualizadas,
pois este documento parte do princípio de que continuamente as pessoas se modificam e
transformam o contexto no qual se inserem. Esse dinamismo, portanto, exige uma atuação
da prática pedagógica que atenda à diversidade, ou seja, que atenda todas as crianças com
qualidade.
Quanto ao locus de atendimento
O atendimento de crianças com NEE, de acordo com Constituição Federal de 1988 e a
LDB/1996 admitem a mesma perspectiva. Estabelecem que o atendimento educacional
especializado e a educação especial, como são denominados nesses documentos, devem ser
oferecidos "preferencialmente na rede regular de ensino" (Art.208, Inc. III e Art. 58,
respectivamente).
De acordo com a Declaração de Salamanca (1994), as escolas deveriam acomodar
todas as crianças independentemente de suas condições físicas, intelectuais, sociais,
emocionais, linguísticas ou outras. Esta declaração ressalta também que as escolas
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regulares com orientação inclusiva constituem os meios mais eficazes de combater
atitudes discriminatórias e que alunos com necessidades educacionais especiais devem
ter acesso à escola regular.
Dessa forma, na perspectiva da educação inclusiva, a educação especial passa a integrar a
proposta pedagógica de creches e pré-escolas que precisam promover o atendimento às
necessidades educacionais especiais de crianças com deficiência, transtornos globais de
desenvolvimento e altas habilidades/superdotação. A educação especial, portanto, deve
direcionar suas ações para o atendimento às especificidades das crianças no processo
educacional. No âmbito de uma atuação mais ampla na escola, precisa orientar a organização
de redes de apoio, assegurando aos professores formação continuada relacionada ao tema,
identificando recursos e serviços na comunidade e desenvolvendo práticas colaborativas.
EXEMPLO
Se uma criança com paralisia cerebral é lenta na escrita, devido a sequelas nos
membros superiores, mas tem capacidade intelectual preservada, independentemente do
comprometimento, ela deve frequentar as salas de aula de ensino regular. Além disso,
precisa receber atendimento adicional por meio de fisioterapia, recursos tecnológicos ou
outro fator de estímulo que a ajude a se desenvolver na escrita. Procedimentosemelhante
deve ser feito de acordo com a especificidade da deficiência (surdez, cegueira etc.). O
atendimento especializado, quando necessário, deve ocorrer em salas devidamente
equipadas e no contraturno. Dessa forma, uma mesma instituição deveria oferecer a
educação inclusiva (compreendida no sentido mais amplo da diversidade humana e da
democracia) aliada à educação especial.
Para a implantação do atendimento educacional especializado, a LDB de 1996 prevê
serviços especializados e serviços de apoio especializados às instituições de ensino regular.
O que significam serviços de apoio especializado?
Significa que a instituição deve contar com o apoio de professores especializados em
educação especial, professores interpretes das linguagens e códigos, professores e outros
profissionais itinerantes, outros apoios à locomoção e à comunicação e salas de recursos.
(MANTOAN, 2006).
O que significam serviços especializados?
Significam atendimento especializado para a pessoa que demanda "ajudas e apoios
intensos e contínuos" ou "alunos impossibilitados de frequentar as aulas em razão de um
tratamento de saúde". (MANTOAN, 2006).
DICA
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SAIBA MAIS!
DECRETO Nº 7611/2011
Art. 2º A educação especial deve garantir os serviços de apoio especializado voltado a
eliminar as barreiras que possam obstruir o processo de escolarização de estudantes com
deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação.
§ 1º Para fins deste Decreto, os serviços de que trata o caput serão denominados
atendimento educacional especializado, compreendido como o conjunto de atividades,
recursos de acessibilidade e pedagógicos organizados institucional e continuamente,
prestado das seguintes formas:
I. complementar à formação dos estudantes com deficiência, transtornos globais do
desenvolvimento, como apoio permanente e limitado no tempo e na frequência dos
estudantes às salas de recursos multifuncionais; ou
II. suplementar à formação de estudantes com altas habilidades ou superdotação.
§ 2º O atendimento educacional especializado deve integrar a proposta pedagógica da
escola, envolver a participação da família para garantir pleno acesso e participação dos
estudantes, atender às necessidades específicas das pessoas público-alvo da educação
especial, e ser realizado em articulação com as demais políticas públicas.
§ 3º As salas de recursos multifuncionais são ambientes dotados de equipamentos,
mobiliários e materiais didáticos e pedagógicos para a oferta do atendimento educacional
especializado.
§ 4º A produção e a distribuição de recursos educacionais para a acessibilidade e
aprendizagem incluem materiais didáticos e paradidáticos em Braille, áudio e Língua
Brasileira de Sinais - LIBRAS, laptops com sintetizador de voz, softwares para comunicação
alternativa e outras ajudas técnicas que possibilitam o acesso ao currículo.
O atendimento educacional especializado é realizado mediante a atuação de profissionais
com conhecimentos específicos:
no ensino da Língua Brasileira de Sinais, da Língua Portuguesa na modalidade
escrita como segunda língua,
do sistema Braille,
do Soroban,
da orientação e mobilidade,
78
das atividades de vida autônoma,
da comunicação alternativa,
do desenvolvimento dos processos mentais superiores,
dos programas de enriquecimento curricular,
da adequação e produção de materiais didáticos e pedagógicos,
da utilização de recursos ópticos e não ópticos,
da tecnologia assistiva e outros.
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Educação Infantil
Aula 05: A inclusão de crianças com necessidades educativas especiais na
educação infantil
Tópico 04: O atendimento da criança com Necessidade Educacionais Especializadas
na perspectiva da inclusão
Por direito, o acesso à educação especial deve ocorrer na Educação Infantil, na qual se
desenvolvem as bases necessárias para a construção do conhecimento e desenvolvimento
global da criança. Nessa etapa, o lúdico, o acesso às formas diferenciadas de comunicação,
a riqueza de estímulos nos aspectos físicos, emocionais, cognitivos, psicomotores e sociais
e a convivência com as diferenças favorecem as relações interpessoais, o respeito e a
valorização da criança. (MEC/SEESP, 2007). Segundo Mantoan, a educação que respeita e
incorpora a diversidade humana enfrenta armadilhas. Para a autora (2006, p. 79-80),
Segundo Mantoan, a educação que respeita e incorpora a diversidade humana enfrenta
armadilhas. Para a autora (2006, p. 79-80),
Livrar-se da armadilha da diferença é saber quando mostrá-las
e quando escondê-las. A garantia do acesso è educação escolar
implica escondê-las, para que se legitime o direito à igualdade de
aprender em uma mesma turma, em escolas comuns de ensino
regular. Ocorre que a inclusão ultrapassa a legitimação desse
direito, ao exigir não apenas a matricula escolar, mas o
prosseguimento dos estudos até os níveis mais elevados da criação
artística, da produção cientifica, da tecnologia. Há, então, que se
reconhecer as peculiaridades dos alunos, isto é, as suas diferenças.
Nesse sentido, é preciso mostrá-las.
A compreensão da inclusão escolar não somente como acesso à escola, mas como
conquista de um direito de todos pressupõe assegurar investimentos financeiros, e
implantar uma política de formação continuada de professores. As instituições de Educação
Infantil devem pois, organizar as condições de acesso aos espaços, aos recursos
pedagógicos e à comunicação que favoreçam a promoção da aprendizagem e a valorização
das diferenças, de forma a atender às necessidades educacionais de todas as crianças.
Dentre as atividades de atendimento educacional especializado deverão ser disponibilizados
programas de enriquecimento curricular, o ensino de linguagens e códigos específicos de
comunicação e sinalização e tecnologia assistiva. Ao longo de todo o processo de
escolarização, esse atendimento deve estar articulado com a proposta pedagógica do
ensino comum.
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Em relação à avaliação, o atendimento educacional especializado deve ser
acompanhado por meio de instrumentos que possibilitem monitoramento e avaliação
das práticas realizadas nas escolas da rede pública e nos centros de atendimento
educacional especializados públicos ou conveniados.
A avaliação pedagógica deve considerar tanto o conhecimento prévio, o nível atual de
desenvolvimento do aluno bem como as possibilidades de aprendizagem futura,
configurando-se, assim, uma ação pedagógica processual e formativa que analisa o
desempenho do aluno em relação ao seu progresso individual, Devem prevalecer na
avaliação os aspectos qualitativos que indiquem as intervenções pedagógicas do professor.
OBSERVAÇÃO
Para avaliar a criança com NEE, o professor precisa criar estratégias considerando
que algumas crianças podem demandar ampliação do tempo para a realização das
atividades e para o uso da língua de sinais, de textos em Braille, de informática ou outros
recursos necessários na prática cotidiana.
Para atuar na educação especial, o professor deve ter como base da sua formação,
inicial e continuada, conhecimentos gerais para o exercício da docência e conhecimentos
específicos da área. Essa formação possibilita a atuação do professor no atendimento
educacional especializado, aprofunda o caráter interativo e interdisciplinar da atuação nas
salas comuns do ensino regular, nas salas de recursos, nos centros de atendimento
educacional especializado, nos núcleos de acessibilidade das instituições de educação
superior, nas classes hospitalares e nos ambientes domiciliares, para a oferta dos serviços e
recursos de educação especial. (MEC/SEESP, 2007).
Segundo MANTOAN (2006, p.84), em relação ao acesso de criança com NEE à
Educação Infantil, varias alternativa vêm sendo utilizadas,
Há projetos diferenciados sendo implantados pelos sistemas
de ensino, particularmente os municipais. Alguns adotam como
possibilidade a matrícula efetuadatanto via ensino regular como via
ensino especial. Outros têm assumido como diretriz o acesso de
todos à Educação Infantil, podendo diferenciar as trajetórias
escolares dos alunos com necessidades educacionais especiais a
partir desse nível de ensino, momento da escolaridade em que se
permitem seu encaminhamento para serviços especializados. Isso,
novamente, tem sido definido em nível de sistema de ensino pela
criação de dispositivos legais oficiais para orientar seus gestores e
demais profissionais sobre como proceder as matriculas.
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O Decreto Nº 7.611, de novembro de 2011 (veja, no Portal do MEC, documento na
íntegra), que dispõe sobre a educação especial, apresenta os seguintes objetivos para o
atendimento educacional especializado: Clique aqui e saiba mais sobre as interações.
Art. 3º São objetivos do atendimento educacional especializado:
I. prover condições de acesso, participação e aprendizagem no ensino regular e garantir
serviços de apoio especializados de acordo com as necessidades individuais dos
estudantes;
II. garantir a transversalidade das ações da educação especial no ensino regular;
III. fomentar o desenvolvimento de recursos didáticos e pedagógicos que eliminem as
barreiras no processo de ensino e aprendizagem; e
IV. assegurar condições para a continuidade de estudos nos demais níveis, etapas e
modalidades de ensino.
REFLEXÃO
Há quem defenda a ideia de que as crianças devem ser colocadas todas juntas na
mesma sala de aula de ensino regular. No entanto, algumas pessoas acreditam que as
crianças com deficiência precisam apenas ter disponíveis os acessórios específicos às suas
necessidades, como material em braille ou mobiliário acessível a cadeirantes, sem a
necessidade de nenhum outro atendimento didático extra; já outras pessoas consideram
necessário um suporte adicional, também específico a cada característica apresentada. E
você, o que aprendeu a respeito do atendimento educacional especializado na perspectiva
da inclusão? Com base nos estudos dessa aula, em leituras complementares e em
discussões com colegas, qual a sua opinião?
DICA
No site do MEC, é possível saber muito mais sobre o "Atendimento Educacional
Especializado". A lista de publicações para download inclui desde orientações específicas
para pessoas com surdez e deficiência física, entre outras, até as que estão no Portal de
Ajudas Técnicas. Para tanto, acesse o portal do MEC, procure pela página da Secretaria de
Educação Especial e, em seguida, clique em Publicações: BRASIL. Ministério da Educação.
Portal. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/ [1]
Referências bibliográficas
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BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal,
1988.
_______. Decreto Nº 7.611 de 17 de novembro de 2011.
______. Estatuto da Criança e do Adolescente. Lei nº 8.069, de 13 de junho de 1990.
______. Ministério da Educação e do Desporto. Política nacional de educação espacial.
Brasília: MEC/SEESP, 2008.
______. Declaração de Salamanca e linha de ação sobre necessidades educativas
especiais. Brasília: CORDE, 1994.
______. Ministério da Educação e Cultura. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.
Lei nº 9394, de 20 de dezembro de 1996. Dispõe sobre as Diretrizes e Bases da Educação
Nacional. Brasília, DF: MEC, 1996.
______. Ministério da Educação e Cultura. Secretaria de Educação Especial. Diretrizes
Nacionais para Educação Especial na Educação Básica, parecer nº 17 de julho de 2001.
Brasília, DF: MEC/Seesp, 2001.
BRUNO, M.M.G. Educação Infantil: saberes e práticas da inclusão: introdução. Brasília:
MEC/Seesp, 2006.
MANTOAN, M.T.E. Inclusão escolar: pontos e contrapontos. São Paulo: Summus, 2006.
Fontes das Imagens
1 - http://portal.mec.gov.br/
83
LPED_Capa_Creditos_Sumario..pdf
Combinarenumerar.pdf
EducacaoInfantil_aula_01.pdf
EducacaoInfantil_aula_02.pdf
EducacaoInfantil_aula_03.pdf
EducacaoInfantil_aula_04.pdf
EducacaoInfantil_aula_05.pdf
LPED_Contracapa.pdf