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Realização: Apoio:Execução: ` j v `j jv `v `jv h NMR|pçÅáåÉ=Å~êí~òKéÇÑ===N===NNLMVLOMNV===NQWPU Porto Alegre ANAIS DE TEXTOS COMPLETOS outubro 2019 8 a 11 UNISINOS – Universidade do Vale do Rio dos Sinos CAPA Gelson Pereira a partir de arte gráfica de Agexcom - Acrides Júnior PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO Gelson Pereira a partir do tema criado por Agexcom - Acrides Júnior SÃO PAULO 1 a edição digital março de 2020 ANAIS DE TEXTOS COMPLETOS DO XXIII ENCONTRO SOCINE Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual – SOCINE © Socine - Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual S678a Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual - SOCINE (13., 2019: Porto Alegre, RS) Anais de Textos Completos do XXIII Encontro SOCINE [recurso eletrônico] / Organização edito- rial Angela Freire Prysthon... [et al.]. São Paulo: SOCINE, 2020. 1.250 p. Formato: E-book Tema: Preservação e memória de hoje. Evento realizado no período de 8 a 11 de outubro de 2019 na Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS ISBN: 978-65-86495-00-3 1. Cinema. 2. Cinema brasileiro. 3. Cinema latino-americano. 4. Preservação da memória. I Título. CDD 791.43 Ficha Catalográfica elaborada por Morena Porto CRB 14/1516 Organização editorial Angela Freire Prysthon Ramayana Lira de Sousa Cristian da Silva Borges Fernando Morais da Costa Milton do Prado Franco Neto Diretoria Presidente • Angela Freire Prysthon (UFPE) Vice - presidente • Ramayana Lira de Sousa (UNISUL) Secretário acadêmico • Fernando Morais da Costa (UFF) Tesoureiro • Cristian da Silva Borges (USP) Secretário Executivo • Sancler Ebert Comitê Científico Alessandra Brandão (UFSC) Bernadette Lyra (UFES) Cezar Migliorin (UFF) Denize Araújo (UTP) Luciana Correa de Araujo (UFSCar) Maria Helena Costa (UFRN) Conselho Deliberativo Adriana Mabel Fresquet (UFRJ) Denise Tavares da Silva (UFF) Eduardo Tulio Baggio (Unespar) Erick Felinto (UERJ) Jamer Guterres de Mello (UAM) Karla Holanda (UFF) Lisandro Nogueira (UFG) Luíza Beatriz Amorim Melo Alvim (UFRJ) Marcel Vieira Barreto Silva (UFPB)Mariana Baltar (UFF) Milena Szafir (UFC) Osmar Gonçalves dos Reis Filho (UFC) Patrícia Moran Fernandes (USP) Pedro Maciel Guimarães Junior (Unicamp) Sheila Schvarzman (UAM) Representantes discentes Marcela D. de Oliveira Soalheiro Cruz (PUC-RJ) Wendell Marcel Alves da Costa (UFRN) Conselho fiscal Hadija Chalupe da Silva (UFF) Luiz Augusto Coimbra de Rezende Filho (UFRJ) Suzana Reck Miranda (UFSCar) ENCONTROS DA SOCINE XXIII 2019 Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Porto Alegre – UNISINOS) XXII 2018 Universidade Federal de Goiás (Goiânia – UFG) XXI 2017 Universidade Federal da Paraíba (João Pessoa – UFPB) XX 2016 Universidade Tuiuti do Paraná (Curitiba – PR) XIX 2015 Universidade Estadual de Campinas (Campinas – SP) XVIII 2014 Universidade de Fortaleza (Fortaleza – CE) XVII 2013 Universidade do Sul de Santa Catarina (Palhoça – SC) XVI 2012 Centro Universitário Senac (São Paulo - SP) XV 2011 Universidade Federal do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro - RJ) XIV 2010 Universidade Federal de Pernambuco (Recife - PE) XIII 2009 Universidade de São Paulo (São Paulo – SP) XII 2008 Universidade de Brasília (Brasília – DF) XI 2007 Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (RJ – RJ) X 2006 Estalagem de Minas Gerais (Ouro Preto – MG) IX 2005 Universidade do Vale do Rio Dos Sinos (São Leopoldo – RS) VIII 2004 Universidade Católica de Pernambuco (Recife – PE) VII 2003 Universidade Federal da Bahia (Salvador – BA) VI 2002 Universidade Federal Fluminense (Niterói – RJ) V 2001 Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Porto Alegre – RS) IV 2000 Universidade Federal de Santa Catarina (Florianópolis – SC) III 1999 Universidade de Brasília (Brasília – DF) II 1998 Universidade Federal do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro – RJ) I 1997 Universidade de São Paulo (São Paulo-SP) COMISSÃO ORGANIZADORA - UNISINOS Prof. Ms. Milton do Prado Franco Neto Prof. Dra. Flavia Seligman Prof. Ms. Vicente Nunes Moreno Prof. Dr. Gustavo Daudt Fischer CONSELHO LOCAL Prof. Dr. Josmar Reyes Prof. Dra. Fatimarlei Lunardelli Prof. Ms. Giba Assis Brasil REALIZAÇÃO Socine Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos EXECUÇÃO Curso de Realização Audiovisual da Unisinos PPG em Ciências da Comunicação da Unisinos Escola da Indústria Criativa - Unisinos APOIO Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do RS (Fapergs) APOIO CULTURAL Cinemateca Capitólio Livraria Baleia EQUIPE Coordenador de produção: Patrick Arozi Assistente de Produção: Gabriela Burck Comunicação: Prof. Dr. Daniel Pedroso Produção exibição: Prof. Andre Sittoni e Prof. Maurício Borges de Medeiros Identidade Visual: Agexcom - Acrides Júnior Layout do site: Agexcom - Matheus Antunes Programação do site: Arthur Freitas Social Media: Thais Leidens Fotógrafa: Ana Schuster Técnico audiovisual e iluminação: Claiton Duarte e Rodrigo Barp Eventos Unisinos Porto Alegre: Andressa Duarte, Ana Alice Mei- reles e Vinícius Vargas Apoio: Setor de Apoio Unisinos Porto Alegre O tema do XXIII Encontro SOCINE, sediado pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) de 08 a 11 de outubro de 2019 foi Preservação e memória hoje. O Brasil tem em sua história uma grande dificuldade de preservação da memória. O incêndio do Museu Nacional, mais antiga instituição científica do país, em setembro de 2018, aparece como um trágico símbolo de décadas de descaso institucional. O que falar então, da memória audiovisual, importantíssima como registro de imagens e sons há mais de um século? Algumas fontes indicam que cerca de 80% da produção do cinema não-sonoro foi totalmente perdida. Acervos pri- vados, arquivos de redes de televisão e até mesmo material sob guarda do Estado foram destruídos por incêndios, degradações derivadas do clima tropical, falta de percepção da importância de determinados ma- teriais e um longo etc. Os desafios da preservação passam por um grande esforço por parte de pesquisadores, técnicos e instituições, muitas vezes correndo para compensar o tempo perdido. No Brasil, a Cinemateca Brasileira, a Ci- nemateca do Museu de Arte Moderna e o Arquivo Nacional aparecem como as instituições principais de preservação e recuperação do acervo de cinema e televisão. Se o trabalho destas pessoas e instituições são pautados pela conservação do que foi criado no passado, urge, no en- tanto, o entendimento do que significa a Preservação e a Memória HOJE. Trata-se de uma discussão plural e transdisciplinar, que levanta ques- tões técnicas (como preservar a película e estar preparado para todas as demandas da preservação digital?), éticas (como definir prioridades de conservação em um imenso conjunto de obras deterioradas?), estéticas (como usar, recriar e ressignificar imagens de arquivo?), sociais (como promover e aumentar a difusão do acervo já preservado?), educacionais (como desenvolver e promover pesquisas que envolvam recuperação e preservação?) e políticas (como criar e fortalecer políticas públicas que implementem, permitam e mantenham o aperfeiçoamento nos mecanis- mos institucionais que trabalhem com preservação?). Em suma, as questões são muito diversas e o tempo não dá trégua. É certo que há iniciativas extremamente animadoras nos últimos anos, como do CineOP (Mostra de Cinema de Ouro Preto) que surgiu em 2006 com o propósito de tratar o cinema como patrimônio, da criação da Associação Brasileira de Preservação Audiovisual (ABPA), em 2008, e a inauguração da Cinemateca Capitólio, de Porto Alegre, em 2015. Porém, o certo é que preservar a memória audiovisual de um país é de suma im- portância para entendermos não somente como o Brasil se tornou o que é hoje, mas também para onde queremos ir. Hoje, mais do que nunca.18 Câmera e corpo no audiovisual político nos sites de redes sociais Adil Giovanni Lepri 26 A [Cinemateca], a escola e a universidade como espaços de preservação do cinema - diferentes experiências entre Brasil e México Adriana Fresquet 32 O espaço alegórico em filmes brasileiros do momento tropicalista Adriano Del Duca 38 A Fome, a guerra, a peste e a morte: cinema em Manaus durante a Grande Guerra Alan Gomes Freitas 45 Entre olhares: o fílmico, o teatral e o performático em Jean Genet Alex Beigui 52 Bomba de som e música: o discurso distópico de Branco sai, preto fica Alexandre Camargo Scarpelli 58 Preservação e memória na atuação do crítico-cineasta Fernando Spencer Alexandre Figueirôa 64 Cinema noir italiano: a (in) dependência de uma femme fatale clássica Alexandre Rossato Augusti 71 Cinema e direitos humanos como perspectiva educacional Alexandre Silva Guerreiro 77 Inferno de repetições: Glauber e Sganzerla em comparação Alexandre Wahrhaftig 83 Da pintura ao vídeo: a composição da imagem a partir de Kandinsky Aline de Caldas Costa dos Santos 92 Suzuki e a Trilogia Taisho - Fantasmas na pós-modernidade Aloísio Corrêa de Araújo sumário ANAIS DE TEXTOS COMPLETOS 98 Telenovela: do espelho ao retrato, do reflexo à memória Álvaro André Zeini Cruz 104 Subterrâneos do horror enquanto experiência em Amizade Desfeita 2 – Dark Web Ana Maria Acker Juliana Monteiro 111 Velo-Cine: uma fábrica de projetores no nordeste brasileiro André Huchi DIB 115 O afeto fantasma André Piazera Zacchi 120 O humano e o técnico em um só corpo: diálogos entre Simondon e Béla Tarr Andréa C. Scansani 126 Padrões de linguagem e identidade no filme Muleque té doido! (2014) Andréia de Lima Silva 132 “Let’s keep going”: O silêncio em Thelma & Louise (Ridley Scott, 1991) Andressa Gordya Lopes dos Santos 139 O registro e a invenção em A festa e os cães e Monstro Annádia Leite Brito 145 O espaço fora do lugar no filme Inferninho Arthur Lins 151 Sons do passado: relatos nostálgicos em paisagens sonoras fílmicas Breno Mota Alvarenga 157 30 anos de Línguas Desatadas: autobiografias de bixas pretas no cinema Bruno F. Duarte 164 O olhar fantasmagórico: aproximações entre a imagem do rosto em Robert Bresson e o pensamento da alteridade em Emmanuel Levinas Bruno Carboni Gödecke 171 O não lugar reconquistado nos espaços mínimos de Jia Zhangke Camilo Soares 176 Protagonismo Feminino No Cinema De Ficção Científica Carina Schröder 182 Nem fetiche, nem escatologia: crítica das imagens de squirting Carla Miguelote 188 THE CHALKROOM: sobre tecnologias imersivas de interação audiovisual Carlos Federico Buonfiglio Dowling 196 A narração em segunda pessoa e “Você” Carolina Amaral 202 O corpo como um lugar de memória em Teatro de Guerra, de Lola Arias Carolina Gonçalves Pinto 207 Luiza Maranhão: A mulher negra no prelúdio cinemanovista. Catarina de Almeida 213 Cinemas pós-coloniais e decoloniais em contextos de crise Catarina Andrade 219 Mulheres negras e imaginários sobre gênero e raça na recepção fílmica Ceiça Ferreira [Conceição de Maria Ferreira Silva] 225 Exibir cinema brasileiro na universidade: uma devolução? Cíntia Langie 231 Mulheres e found footage: aproximações Clara Bastos Marcondes Machado 237 À escuta de telefone sem fio, videoarte brasileira de 1976 Clotilde Borges Guimarães 244 Por um cinema líquido Cristiana Miranda 251 Circulação audiovisual e formação de público no interior da Bahia: a experiência do programa de extensão Imagina! Cristiane da Silveira Lima 257 A arte de narrar e o ato de fingir em Cópia Fiel Cristiane Moreira Ventura sumário ANAIS DE TEXTOS COMPLETOS 263 O impacto de procedimentos fotográficos na experiência cinematográfica Cyntia Gomes Calhado 268 Hiato fílmico e liberação narrativa em Lições de História Dalila Camargo Martins 273 Mitocrítica fílmica: uma proposta teórico-metodológica para a pesquisa em cinema Danilo Fantinel 280 Educação e Cinema: Tópicos sobre a produção presente no Catálogo da CAPES (1987-2016) Diogo José Bezerra dos Santos 287 Do ver juntos ao montar juntos Douglas Resende 293 Uma longa jornada: a caminhada, do literal ao expressivo Edson Pereira da Costa Júnior 299 Documentários de moradias estudantis: memória militante e retomada de imagens Eduardo de Souza de Oliveira 305 Tensões entre amadorismo e profissionalismo em instaséries Emilly Belarmino 312 O ressentimento da mulher caipira em Amélia (2000), de Ana Carolina Erika Amaral 319 Juliana Rojas e Marco Dutra: um lobisomem brasileiro no cinema Esmejoano Lincol França 327 Um gênero em (re)configuração: “melodrama de macho” em Praia do Futuro Everaldo Asevedo 333 O outro lado do vento: Orson Welles e a montagem da Nova Hollywood Fabiano Pereira 339 A chegada: tempo e história nas telas do contemporâneo Fabio Camarneiro 346 O espectador no cinema indígena: entre a mediação e o antagonismo Fábio Costa Menezes 352 Os race films e a resistência afro- americana no período silencioso Fabio Luciano Francener Pinheiro 358 A direita vai ao cinema: uma análise do filme 1964: entre armas e livros Fabio Silvestre Cardoso 365 Estratégias de Produção e Pós- produção de som em Baby Driver Fabrizio Di Sarno 371 O Pós-Dramático no Novíssimo Cinema Brasileiro Felipe Maciel Xavier Diniz 378 Três narrativas mínimas de Brígida Baltar Fernanda Bastos 384 Cinema, Educação e Psicologia: reflexões a partir de Jonas e o circo sem lona Fernanda Omelczuk 390 O Parque Exibidor no Interior da Bahia Contemporânea Filipe Brito Gama 396 O Fenômeno dos Filoni: Os Ciclos do Cinema de Gênero na Itália Gabriel Bueno Lisboa 402 Temporalidades narrativas: o presente autobiográfico Gabriel Kitofi Tonelo 408 A casa que Jack construiu em decomposição: entre agressão e crueldade Gabriel Perrone 414 O ônus da parcialidade em Santiago, Italia (Nanni Moretti, 2018) Gabriela Kvacek Betella 423 Trilhas “na nuvem”: música disponível para licenciamento audiovisual Geórgia Cynara Coelho de Souza 429 Edgard Navarro e o escracho da história Geraldo Blay Roizman 435 Bixa Travesty e o queerlombismo: a negritude trans no documentário Gilberto Alexandre Sobrinho 441 O Gestual do Malandro de Hugo Carvana na Pornochanchada Giovanna Durski Dal Pozzo 449 Cinema Experimental, Cinema Expandido, Documentário: entre o Arquivo e o Foundfootage Guiomar Ramos 455 A herança teatral na atuação no cinema: Toshiro Mifune em Rashomon Guryva Cordeiro Portela 461 Inovação na cadeia produtiva de filmes e séries ficcionais brasileiras contemporâneas Gustavo Padovani 467 Ex-pajé e as modulações no documentário Gustavo Soranz 471 Mulheres na direção: documentários de média- metragem no Brasil (1980-1989) Hanna Henck Dias Esperança 476 Coexistências plurais no cinema de Sissako Hannah Serrat de S. Santos 483 Em busca da amizade no cinema queer brasileiro contemporâneo: um encontro com Lembro Mais dos Corvos Haroldo Ferreira Lima 490 Cisgeneridade e Transgeneridade no Espaço físico do Cinemão Helder Thiago Maia 496 Enunciação personalizada e ramificações históricas Henri Pierre Arraes de Alencar Gervaiseau 502 Os limites documentais: ética e montagem em Santiago e Um Lugar ao Sol Houldine Nascimento e Silva 509 A Fotografia em Tempos de Alta Resolução - Os Contrausos da Nitidez Ian de Vasconcellos Schuler 515 Do grotesco ao antropofágico: corpos e rostos sganzerlianos Isabel Paz Sales Ximenes Carmo 521 Alain Resnais em defesa do realismo mental Isadora Meneses Rodrigues sumário ANAIS DE TEXTOS COMPLETOS 527 Os estratos do tempo em Sudoeste, de Eduardo Nunes (2011) Ismail Xavier 534 O movimento gráfico por camadas: animetismos de Hayao Miyazaki e Wesley Rodrigues James Zortéa Gomes 541 Horror cotidiano: O social e o político nos filmes brasileiros de horror Jéssica Patrícia Soares 547 Nuances poéticas na ficção televisiva infantojuvenil João PauloHergesel 554 Filiações monstruosas: corpo e comunidade em As Boas Maneiras João Victor Cavalcante 561 Temporalidade drag em Alegria de Viver (1958) de Watson Macedo Jocimar Dias Jr. 567 Doce Amianto e a não- normatividade sonora Joice Scavone Costa 574 Glauber // Welles Josafá Veloso 580 Remix 5.0: a interface em Echolocation José Wilker Carneiro Paiva 588 Acontecimento-fronteiriço: a linguagem no cinema de Trinh T. Minh-ha Julia Fernandes Marques 594 Hitler IIIº Mundo (1968) e pinturas de H. Bosch: o imaginário grotesco e da loucura. Juliana Froehlich 603 Denis, Conrad e Camus: o pessimismo do empreendimento colonial Juliana Soares lima 609 Como mensurar a ‘escrita de si’ no documentário? Laécio Ricardo de Aquino Rodrigues 615 Interseções entre Cinema e Pintura em Maria Antonieta de Sofia Coppola Laís Bravo Serra 632 Deslocamentos e errâncias: Chantal Akerman sob o olhar comparatista Larissa Veloso Assunção 639 O céu e a areia de Copacabana: onde residem a luz e a escuridão Leonardo Amaral 645 A atuação de Jean-Pierre Léaud em A morte de Luís XIV Leonardo Couto da Silva 651 Clémenti autor: sobreimpressão psicodélica, militância e… teoria? Leonardo Gomes Esteves 656 Cinema de som, faixas de frequência e arranjos audiovisuais nos filmes de sound system Leonardo Vidigal 663 Cinema de Heroínas: Olhares Críticos sobre Mulher Maravilha e Capitã Marvel Letícia Moreira Regina Gomes 669 Cinema e “Performance Art” Lisandro Nogueira Wertem Nunes Faleiro 672 O casal e as ruínas em Rossellini e Saraceni Livia Azevedo Lima 679 O circuito exibidor de Inconfidência Mineira (1948) no Rio de Janeiro Lívia Maria Gonçalves Cabrera 685 Imersão, games e experiência do espaço sonoro nos fones de Baby Driver Lucas Correia Meneguette 691 Vereda da salvação: estética e política no Brasil da década de 1960 Lucas dos Reis Tiago Pereira 697 Melodrama e sensibilidade gay em Praia do Futuro Lucas Hossoe 704 Jaulas pequenas, monstros gigantes: modos do horror cinematográfico Lucas Procópio Caetano 709 Charlie Chan e o whitewashing de detetives asiáticos em Hollywood Lucas Ravazzano 715 Trânsitos inquietos entre a dança e a tela: do cinema ao fenômeno Passinho Luciana Ponso 721 Cinema paranaense em revisão: relações históricas na Cinemateca do Museu Guido Viaro (Curitiba, 1975-1985) Luciane Carvalho 726 Como enganar um míssil teleguiado: Pedagogia farockiana Luís Flores 732 Localizando o western contemporâneo Luiz Felipe Baute 736 Os silêncios em Ossos (1997) Luiz Fernando Coutinho 742 Da alteridade à alterofobia: o outro no cinema latino-americano Luiz Todeschini 748 Relações entre o audível e o visível no cinema: o caso de Arábia Luíza Beatriz A. M. Alvim 754 Coutinho ator em “Últimas Conversas” Luíza Zaidan 760 A montagem para (re)construir, (re) encenar e (re)escrever a memória Luzileide Silva 767 Imagem, percepção e sensação: o cinema de Peter Mettler Lyana Guimarães Martins 772 Realidade Virtual e Audiovisual - Configurações da Imagem no Vídeo 360 Lyara Oliveira 778 Estratégias de desenvolvimento de roteiro, narrativa e personagens e o Realismo de Confronto em Boyhood e Entre os muros da escola Marcela Amaral 784 Entre versões de O Mysterio do Dominó Preto (1931) Marcella Grecco de Araujo 792 Filmar sem saber, filmar sem compreender, filmar para ver: a epifania dos arquivos abandonados e inacabados da Shoah Marcia Antabi 799 Visão em colapso: corpo e finitude entre Jarman e Saramago Marcia de N S Ferran sumário ANAIS DE TEXTOS COMPLETOS 804 O Encontro entre a Educação e o Cinema Novo na produção de O Parque Marcio Blanco Chavez 810 A contribuição dos elementos visuais no espaço fílmico de Seguindo em frente Mari Sugai 818 O narrador acousmêtre em Woody Allen Maria Castanho Caú 824 Historiografia da Dança no Cinema: análise fílmica no século XXI Maria de Lurdes Barros da Paixão 830 Superoutro ou memória de um cinema Maria do Socorro Carvalho 835 Cartografia cinematográfica e a identidade em Rio Doce/CDU Maria Helena Braga e Vaz da Costa 841 El documental autobiográfico y la preservación de la memoria histórica María Marcela Parada 848 Identidade de resistência no cinema de Nelson Pereira dos Santos: O caso de “Tenda dos Milagres” Maria Neli Costa Neves 853 O que pode o cinema? O que pode a educação? Rastros de um CineDebate Maria Paula P. S. Belcavello Wescley Dinali 860 Polarização e performance política no interior de Pernambuco Mariana Lucas Setúbal 865 Curadoria como exercício de cinema comparado Mariana Souto 871 A imagem como arma no trabalho de Rabih Mroué Mariana Teixeira Elias 877 Cruzamentos entre práticas sonoras em tempo real e em tempo diferido Marina Mapurunga de Miranda Ferreira 883 Mulheres em Narcos México e El Chapo (3ª temporada) Marina Soler Jorge 888 Super-8 e Cinemateca do MAM: a imagem como condensação de tempos Marta Cardoso Guedes 894 Manoel Clemente: memórias da direção de fotografia na Paraíba Matheus Andrade Fernando Trevas Falcone 900 Créditos falados: dos talkies ao cinema moderno Matheus Strelow 906 O Cine UFPel e a promoção da cinefilia a partir do cinema brasileiro Maurício Vassali 911 Memória e identidade na filmografia de Joaquim Pedro de Andrade Meire Oliveira Silva 917 Videodança: o sonho do cinema pulsante Michel Schettert 924 Os rostos, os olhos. O trecho Milena Travassos 930 Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, uma construção da memória Mili Bursztyn de Oliveira Santos Arthur Ribeiro Frazão 935 Cinema de baixo orçamento no Rio Grande do Sul e a economia da dádiva Miriam de Souza Rossini 941 Ladrões de cinema (1977) e a carnavalização do filme histórico. Míriam Silvestre Limeira 952 Expandindo as estratégias de convocação dos personagens no documentário argentino contemporâneo Natacha Muriel López Gallucci 958 A Margem: a poiésis da obra aberta de Candeias Natália Conte 966 A casa claustrofóbica de Chantal Akerman: Estilo e feminismo Natália Marchiori da Silva 972 Que “negro” é esse no Cinema Negro brasileiro? Natasha Roberta dos Santos Rodrigues 978 História e Nova História do Cinema Brasileiro: O Cinema Silencioso em Minas Gerais Nezi Heverton Campos de Oliveira 984 Corpos marginalizados em Branco sai, preto fica e Era uma vez Brasília Paloma Palacio 990 As potencialidades dos paratextos para a Teoria dos Cineastas Patricia de Oliveira Iuva 995 O trabalho coletivo e reconhecimento mútuo nos filmes de Helena Solberg Patricia Sequeira Brás 1001 Joan Jonas, do espelho ao vídeo Paula Nogueira Ramos 1007 Câmeras de vigilância e um novo regime de visualidades Paulo Souza 1014 “Bravo, Sr. Baez!”: O Brasil em The United Artists Around the World Pedro Butcher 1020 Sonhar não é reviver algo que é seu: traumatipo documentário Pedro Drumond 1026 Aparelho relacional Pedro Urano 1031 Leon Hirszman, 1969: popular e marginal Pedro Vaz Perez 1037 Vozes na cabeça: possibilidades da narração em voz-over no realismo imersivo Rafael Leal 1044 Sensório motor como coextensão do corpo personagem-espectador. Régis Orlando Rasia 1050 Fantasmas, rastros e memórias. 10 anos do filme de André Novais Richard dos Anjos Tavares 1054 Invenções e (re)existências em Cuauhtémoc e Mundo Incrível REMIX Roberto Ribeiro Miranda Cotta sumário ANAIS DE TEXTOS COMPLETOS 1060 CINE-PERFORMANCE: Montagens espaciais e temporais entre a PERFORMANCE CORPORAL & PERFORMANCE AUDIOVISUAL Roderick Steel 1073 O som em Game of Thones Rodrigo Carreiro 1079 H.O. o estado documental no cinema de invenção de Ivan Cardoso Rodrigo Corrêa Gontijo 1084 O Mal do Mal de Arquivo: entropia e neguentropia no found footage Rodrigo Faustini dos Santos 1090 La Parole Vivant – A declamação no cinema de Eugène Green Rogério Eduardo Moreira Pereira 1096 A direção de fotografia e a poética do espaço Rogério Luiz Silva de Oliveira 1103 Descolonizar do pensar e dasinfraestruturas Na Maré Profunda Ruy Cézar Campos Figueiredo 1109 Darwin na programação: Entre heroínas, cômicos, atualidades e seriados Sancler Ebert 1115 Timecodes e frame rates: uma trajetória do pulso cinematográfico Silvia Hayashi 1119 Construção audiovisual do espaço de criação de Deborah Colker em Starte Sofia Franco Guilherme 1126 “sentir, pensar e agir”: O fazer artístico-cinematográfico de mulheres indígenas no Brasil e na América Latina Sophia Ferreira Pinheiro 1131 O vestígio no cinema brasileiro contemporâneo: O caso Árido Movie (Lírio Ferreira, 2004) Tainá Xavier 1137 Pausa, espaço, encenação e performatividade na construção da imagem de dança Teresa Bastos 1146 O Mês do Filme Documentário: uma economia para documentários de acervos Teresa Noll Trindade 1152 Conversas ao pé do ouvido: vamos falar do museu de cinema? Thaís Lara 1158 Hiroshima Mon Amour: alegoria do esquecimento Thaís Itaboraí Vasconcelos - 1165 Mangue Bangue, filme-limite de Neville D’Almeida Theo Costa Duarte 1171 Exploração de exportação: o díptico de horror satânico de Fauzi Mansur Tiago José Lemos Monteiro 1177 2019 | 2049: a dialética cromática em Blade Runner Tiago Mendes Alvarez 1185 Expressão fílmica e estilo no cinema de Wigna Ribeiro Veruza de Morais Ferreira Sebastião Guilherme Albano da Costa 1192 Hiato 71: transições (in) visíveis na montagem elíptica de “Lawrence da Arábia” Vinicius Augusto Carvalho 1198 Relações dialéticas entre mães e filhas em Grey’s Anatomy Virgínia Jangrossi 1206 A produtora Sonofilms em comparação às suas contemporâneas argentinas Vitor Ferreira Pedrassi 1212 Audiovisualidades críticas: Discursos sobre o cinema no YouTube Brasil Wanderley de Mattos Teixeira Neto 1218 Descobrir a cena: a imagem subterrânea em Profondo Rosso Wellington Sari 1223 Narrativas audiovisuais e disputas culturais em busca do povo Wilq Vicente 1231 Atrações do cinema (de rua): multiusos, variedades e inovações Wilson Oliveira Filho Márcia Bessa [Márcia C. S. Sousa] 1236 Diversidade Videoclipe em Paraíso Perdido:anotações e memórias Wilton Garcia 1243 K. M. Eckstein: Uma biografia cinéfila entre a televisão alemã e o Cinema Novo Wolfgang Fuhrmann A di l G io va nn i L ep ri 18 Câmera e corpo no audiovisual político nos sites de redes sociais1 Camera and body in political videos on social networking sites Adil Giovanni Lepri2 (Doutorando – PPGCine/UFF) Resumo: O trabalho pretende realizar uma reflexão sobre o audiovisual de cunho político nos Sites de Redes Sociais. Os objetos giram em torno de vídeos realizados por movimentos políticos tanto à esquerda quanto à direita no espectro ideológico e são marcados por uma dimensão excessiva e sensacional, articulada a partir do próprio tecido fílmico. Através da noção de “câmera-corpo”, esses aspectos sensacionais do visível parecem se manifestar por meio da afetação de corpo e câmera de maneira conjunta. Palavras-chave: Excesso, Política, Sites de Redes Sociais, Sensacionalismo, Câmera-corpo. Abstract: This work intends to reflect on political videos on social netorking sites. The objects are videos made by political movements both on the left and on the right and are marked by a excessive and sensational dimension, articulated from the filmic tissue itself. Through the notion of “camera-body”, these sensational aspects of the visible seem to manifest by means of the body and camera afecting in a joint manner. Keywords: Excess, Politics, Social Networking Sites, Sensationalism, camera-body Introdução Este artigo parte da noção de que o discurso e o fazer político no contexto dos Sites de Redes Sociais (SRS) se colocam em um processo em que excesso, sensacionalismo e o espetáculo do visível são elementos centrais. A partir das reflexões de diversos autores pretende-se investigar a manifestação deste fenômeno mais especificamente no audiovisual que circula nestas plataformas. O registro em imagens de manifestações políticas não é exclusivo aos sites de com- partilhamento de vídeos. A tradição da filmagem e montagem de protestos e multidões já aparece de forma central no pensamento de Eisenstein (1983). A tensão máxima dos reflexos agressivos do protesto social em “Greve’ deriva do acú- mulo ininterrupto (sem satisfação) de reflexos, ou seja, da concentração dos reflexos da luta (elevação do tônus potencial de classe) (p. 200). 1 - Trabalho apresentado no XXIII Encontro SOCINE no ST Corpo, gesto e atuação. 2 - Doutorando e professor substituto da ECO/UFRJ. C âm er a e co rp o no a ud io vi su al p ol íti co n os s ite s de re de s so ci ai s 19 Essas imagens – em Eisenstein e nos SRS – trazem um aspecto que é essencialmente espetacular, e, neste trabalho, pretendemos dialogar de também com a questão de espetá- culo como inserida no pensamento de Debord (1967). Para o autor, o espetáculo é indivisível da sociedade a qual pertence e ao mesmo tempo engendra, está ligado ao modo de produ- ção de forma intrínseca e por isso é inescapável enquanto forma de reprodução sistêmica. O espetáculo então “(...) não é outra coisa senão o sentido da prática total de uma formação socioeconômica, o seu emprego do tempo. É o momento histórico que nos contém” (p. 27). Nesse sentido, no pensamento original de Debord está presente a noção de que “O espetáculo é o capital a um tal grau de acumulação que se toma imagem” (1967, p. 32). Essa articulação das imagens pode produzir autenticidade, que pode ser mais real que o próprio real, ou seja, “(...) podemos propor esta hipótese de que a imagem arde em seu contato com o real. Inflama-se, e nos consome por sua vez” (DIDI-HUBERMAN, 2012, p. 208), em um jogo de ausência e presença através do que Mondzain (2009) chama de “encarnação”. Para a autora: A imagem é fundamentalmente irreal; sua força reside na sua rebe- lião contra se transformar em substância com seu conteúdo. Encar- nar é dar carne e não dar corpo. É agir na ausência das coisas3 (p. 29). Essa necessidade de se mostrar, se ver e dar a ver algo está presente no contexto dos SRS de diversas maneiras, em geral a partir de uma certa retórica do cotidiano, do usuário comum que possui uma marca de autenticidade no seu modo de agir perante à câmera. Si- bilia (2015) vai chamar isso de performance, e, sem entrar em minúcias sobre a palavra e o conceito, pretendemos aqui dialogar com o que este modo expressivo tem em comum com o audiovisual enquanto ferramenta política na contemporaneidade. Para a autora: Algo é evidente, porém: se esses cobiçados olhos que (me) olham jamais comparecerem, não haveria performance alguma. Tudo isso leva a formular uma conclusão inquietante, embora óbvia: somente se performa para o olhar alheio (p. 359). O que parece relevante para a discussão em questão é este convite, este endereça- mento ao espectador, essa chamada ao vislumbre através de uma espetacularização da própria vida. O lugar do corpo na equação que produz as imagens em questão é fundamental en- quanto elemento de enunciação. Embora a noção de “câmera-corpo” já tenha sido trabalha- da por Vieira Jr. (2014) e Silva (2013) a partir de um certo tipo de cinema contemporâneo, aqui deseja-se pensar este fenômeno por outro viés. Os autores propõem a “câmera-corpo” como uma entidade em si, ligada à apreensão das sensações em quadro: “Daí pensarmos numa ‘câmera-corpo’, em estado de ‘semiembriaguez’, a apreender sensorialmente a inten- sidade da experiência que captura, possibilitando uma mediação pulsante junto ao especta- dor contemporâneo” (p. 1223). O olhar da objetiva para os corpos e objetos em tela está em 3 - The image is fundamentally unreal; its force resides in its rebellion against becoming substance with its con- tent. To incarnate is to give flesh and not to give body. It is to act in the absence of things.” A di l G io va nn i L ep ri 20 um lugar privilegiado na reflexão, buscandoa ativação das sensações e do sentir a partir dos “[...] transbordamentos de um mundo que é pura mobilidade e fluidez, um “aqui-e-agora” no qual cineasta, espectador, câmera e atores estão imersos e também em movimento” (Ibi- dem). Para Vieira Jr. a centralidade está na visualidade, na textura dos objetos e corpos em cena e na proximidade desta câmera a eles. Silva (2013), por sua vez, defende uma câmera que se coloca como uma entidade com agência, que transita pelo espaço fílmico de forma ativa. Embora estas importantes reflexões sejam fundamentais para uma compreensão da relação entre dispositivo cinemático e sensações, aqui deseja-se seguir por outro caminho e analisar objetos de outra natureza. A discussão de câmera-corpo neste trabalho está mais próxima da noção conforma apresentada por Lima (2017), em relação à tradição de Dziga Vertov (1985) e do cine-olho. A articulação da câmera-corpo em vídeos de manifestações das chamadas Jornadas de Junho de 2013 no Brasil se apresenta no trabalho do autor como um resgate da tradição de Vertov. Nessa reflexão a câmera e o corpo se confundiriam, se mesclariam e se afetariam em conjunto, no contexto das manifestações. Para o autor então a neutralidade do registro se torna impossível, já que o próprio ato de filmar é também um ato político, um ato de se afirmar enquanto sujeito e de produzir um discurso político, mesmo que apenas através de imagens. Resgatar a tradição do cine-olho de Vertov então parece importante e apropriado para construir essa noção de câmera-corpo. O cine-olho se apresenta, a partir do pensamento de Vertov, como um dispositivo que revela, descobre e mostra o mundo: “Eu sou o cine-olho, eu sou o olho mecânico. Eu, uma máquina, mostro a você o mundo como só em posso ver.”4 (VERTOV, 1985, p. 17), a visão da máquina cine-olho então desnudaria a fraqueza do olho humano frente ao dispositivo cinemático, “1. Cine-olho, desafiando a representação visual do olho humano do mundo e oferecendo a seu próprio ‘eu vejo’ (...)”5 (Idem, p. 5). Revelando então a potência deste dispositivo. A fraqueza do olho humano é manifesta. Nós afirmamos que o ci- ne-olho, descobrindo dentro do caos do movimento o resultado do seu próprio movimento; nós afirmamos o cine-olho com suas pró- prias dimensões de espaço e tempo, crescendo em força e potencial ao ponto de autoafirmação6 (Ibidem, p. 16). O propósito do cine-olho então é revelar o escondido, a verdadeira natureza das coi- sas, dar autenticidade ao dissimulado: “Cine-olho como a possibilidade de fazer o invisível visível, o não claro claro, o escondido manifesto, o disfarçado revelado, o atuado não-atua- do; transformando falsidade em verdade.”7 (Ibidem, p. 33). 4 - “I am kino-eye, I am a mechanical eye. I, a machine, show you the world as only I can see it.” 5 - “1. Kino-eye, challenging the human eye’s visual representation of the world and offering its own ‘i see’” 6 - “The weakness of the human eye is manifest. We affirm the kino-eye, discovering within the chaos of move- ment the result of the kino-eye’s own movement; we affirm the kino-eye with its own dimensions of time and space, growing in strength and potential to the point of self-affirmation. “ 7 - “Kino-eye as the possibility of making the invisible visible, the unclear clear, the hidden manifest, the disguised overt, the acted nonacted; making falsehood into truth.” C âm er a e co rp o no a ud io vi su al p ol íti co n os s ite s de re de s so ci ai s 21 O que se deseja construir aqui é que esta câmera seria então uma extensão do corpo de quem filma, não necessariamente se confundir com este corpo, mas sobretudo fazer parte dele, se afetando junto principalmente no interior das manifestações. A questão da técnica parece importante na equação, já que o avanço dos dispositivos de filmagem pos- sibilita, e talvez condiciona, a existência desta “câmera-corpo” nos objetos aqui analisados. Para além da articulação da câmera a partir de um corpo em protesto que a opera, parece central a capacidade de usar o dispositivo – exaltado enquanto atração cinemática – para filmar a si neste mundo das imagens e no contexto de manifestação. O uso do dispositivo como ferramenta de produção de testemunho nesse sentido então coloca em destaque não só a afetação da câmera junto com o corpo através do movimento e dos tremores que vem junto com esta operação voltada para si. Mas também através da captação de um som di- reto que vai conferir autenticidade às imagens na medida em que traz os ruídos típicos dos momentos de protesto e sobretudo a partir de uma afetação própria em conjunto com o corpo, quando, nos momentos de confusão e violência o dispositivo se arrasta e choca com os corpos em movimento, produzindo ruídos especificamente corpóreos e sensoriais. A noção de “câmera-corpo” que se propõe aqui carrega uma dimensão pervasiva, con- vidativa, de ligação direta entre espectador e obra/autor. Pretende-se analisar em seguida a partir de exemplos concretos essa particularidade, que, embora esteja inscrita em uma série de tradições e matrizes excessivas que privilegiam o mostrar e o sentir, emerge de forma diferente no contexto estudado. Análise fílmica O primeiro exemplo é do canal “Mamãe, Falei”, ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL e carrega o título de “Manifestação Depoimento Lula – Curitiba”.8 O vídeo traz Arthur Do Val, o youtuber, que vai até Curitiba acompanhar uma manifestação a favor do ex-presi- dente Lula ocorrida quando da realização de seu depoimento para o então juiz Sérgio Moro em 2017. O usual expediente de Do Val da busca da contradição é realizado aqui de forma reiterada, com ele buscando militantes que parecem menos esclarecidos a fim de revelar desconhecimento da causa e das bandeiras da manifestação. Em 4’36’’ o youtuber se encontra em uma situação de hostilidade por parte dos mani- festantes, que entoam o grito “fora MBL”, observados por Do Val em primeiro plano e pelo espectador em conjunto, encarado repetidamente pelo youtuber que olha várias vezes di- retamente para a câmera. Nesse momento a câmera é atingida, sem aviso, por um militante que está fora de quadro. 8 - <Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Sls_T-bb3Gc> Acesso em 20/07/2018. https://www.youtube.com/watch?v=Sls_T-bb3Gc A di l G io va nn i L ep ri 22 Figuras I e II: Frames do vídeo “Manifestação Depoimento Lula – Curitiba” (Arthur do Val) Num primeiro momento há um choque com o golpe na objetiva e em seguida, como já padronizado na maioria dos vídeos da série “Manifestações”, o acontecimento é mostrado por outro ângulo, onde se vê o manifestante que atinge a câmera. Do Val então começa a correr dos militantes que o hostilizam e sobretudo daquele que bateu em sua câmera. O iní- cio da corrida é repetido, pelo mesmo ângulo, mas da segunda vez em câmera lenta, o som é afetado junto com a imagem e para além da lentidão dos quadros há a diminuição na ve- locidade das ondas sonoras que deixa a pista de som mais grave, exacerbando aquela vista sensacional. Do Val continua a correr se afastando da câmera e perseguido pelo militante, este acontecimento é então mostrado novamente pelo ângulo da câmera vestimenta que o youtuber carrega, balançando conforme o ritmo da corrida e produzindo sons que destacam o arrastar da câmera nas roupas de Do Val e em seu corpo e o ruído do vento incidindo so- bre o microfone do dispositivo. C âm er a e co rp o no a ud io vi su al p ol íti co n os s ite s de re de s so ci ai s 23 Figura III: Frame do vídeo “Manifestação Depoimento Lula – Curitiba” (Arthur do Val) Parece então haver, no contexto dos exemplos analisados, a articulação do que se propõe aqui como câmera-corpo, que faz extrapolar o caráter espetacular e sensorial destes momentos. Estas vistas sensacionais inseridas no interior do tecido fílmico marcado por um caráter detestemunho e intervenção amplificam os acontecimentos registrados e fazem do corpo e da câmera instrumentos de identificação a partir de um constante endereçamento ao espectador. As transmissões ao vivo de manifestações são vídeos ocorrem de forma reiterada nas páginas dos movimentos políticos, em particular o movimento Mídia Ninja. Um exemplo que se destaca é uma transmissão feita em julho de 2018 retratando uma manifestação pela li- berdade do ex-presidente Lula na frente da carceragem onde ele se encontra preso em Curi- tiba.9 Esta transmissão é feita pela página do Facebook da Mídia Ninja e começa com uma pequena multidão entoando um canto de apoio ao ex-presidente, a câmera segue durante mais de 40 minutos a transitar por dentro e pelas imediações desta manifestação, criando uma série de momentos de vistas sensacionais e ligados esteticamente a manifestação do regime de atrações discutido aqui em outros exemplos. Estes corpos em cena se afetam e a câmera por vezes se afeta junto, em uma articulação particular da noção de câmera-corpo aqui trabalhada. 9 - <Disponível em: https://www.facebook.com/MidiaNINJA/videos/1201042456720564/> Acesso em 15/07/2018. https://www.facebook.com/MidiaNINJA/videos/1201042456720564/ A di l G io va nn i L ep ri 24 Figura IV: Frame do vídeo sobre a manifestação pela liberdade de Lula em julho de 2018. (Mídia Ninja) É como se a sensação contagiasse o dispositivo e este não fosse apenas um objeto técnico alheio. Embora pretenda-se afirmar a presença destas características neste audio- visual o que parece claro neste tipo de formato é que, a partir da longa duração do fluxo de imagens e de um caráter testemunhal importante, há a articulação de outras formas de narrar que não só essas relatadas há pouco. Por entre estes momentos de caminhada e de afetação da câmera há a contínua narração do “ninja” que a opera, dando informações im- portantes e reiterando fatos periodicamente a fim dar conta do fluxo de saída e entrada de espectadores da transmissão. É presente de forma periódica na maior parte destes audiovi- suais também alguns momentos de depoimentos de militantes presentes na manifestação, oferecendo eles o seu testemunho e destacando a sua presença corpórea naquele espaço. A partir dessa observação postula-se a hipótese da presença do que chamo de câme- ra-corpo, que se diferencia de outras proposições no mesmo sentido ao mesmo tempo que dialoga com uma série de apontamentos conceituais feitos por outros autores investigando outros tipos de objetos. Essa câmera-corpo então aparece na pesquisa como uma forma própria de realizar o registro audiovisual que entende a máquina “câmera” como uma exten- são do corpo de quem filma, se afetando em conjunto. Referências DA SILVA, C. V. “Como organizar bons encontros? Sobre os afetos e os corpos em Shara, de Naomi Kawase.” Passagens, v. 4, n. 1, 2013. DEBORD, G. A sociedade do espectáculo. 1967. DIDI-HUBERMAN, G. “Quando as imagens tocam o real.” PÓS: Revista do Programa de Pós- -graduação em Artes da EBA/UFMG, v. 2, n. 4, p. 206-219, 2012. EISENSTEIN, S. A Montagem de Atrações. In XAVIER, Ismail. A experiência do cinema. Rio de Janeiro: Graal, 1983. GAINES, J. “Political mimesis”. In Collecting visible evidence, 1999, 6: 84-102. C âm er a e co rp o no a ud io vi su al p ol íti co n os s ite s de re de s so ci ai s 25 LIMA, R. Robalinho.Cartografia das imagens ardentes: imagens, política eprodução subjetiva nos protestos de junho de 2013.Tese (Doutorado) - Universidade Federal Fluminense. Ni- terói, 2017. MONDZAIN, M. “Can images kill?”. Critical Inquiry, v. 36, n. 1, p. 20-51, 2009. SIBILIA, P. “Autenticidade e performance: a construção de si como personagem visível.” Fronteiras-estudos midiáticos, v. 17, n. 3, p. 353-364, 2015. VERTOV, D. Kino-eye: the writings of Dziga Vertov. Berkeley: University of California Press, 1984. VIEIRA JR, E. “Por uma exploração sensorial e afetiva do real: esboços sobre a dimensão háp- tica do cinema contemporâneo.” Revista FAMECOS: mídia, cultura e tecnologia, 2014, 21.3. A dr ia na F re sq ue t 26 A [Cinemateca], a escola e a universidade como espaços de preservação do cinema - diferentes experiências entre Brasil e México1 The Cinematheque, the school and the university as spaces for the preservation of cinema - different experiences between Brazil and Mexico. Adriana Fresquet2 Faculdade de Educação - Universidade Federal do Rio de Janeiro/ DIE-CINVESTAV (Mexico/DF) Resumo: Imagine uma cinemateca que atualiza a preservação do seu acervo fazendo 5 có- pias em 4k de cada fotograma dos seus filmes. Imagine agora um governo receber de mãos de cineastas e preservadores um Plano Nacional de Preservação Audiovisual e não dar ne- nhum tipo de retorno durante quatro anos. Que países são esses? Que políticas públicas fazem isso possível? Como fazer para que o património audiovisual nacional preservado circule pelas escolas públicas do pais? Palavras-chave: cinema, cinemateca, escola, preservação. Abstract: Imagine a cinematheque which updates its collection with five 4k copies of every movie photogram. Now, imagine a government that received a national audiovisual preser- vation plan, idealized and made by filmmakers and preservers. During four years the same government stayed silence and didn’t respond to the plan’s proposal. Which country is this? Which public policies made that possible? How to make national audiovisual patrimony cir- cle through public schools over the country? Keywords: cinema, cinematheque, school, preservation. A seguir, apresento parte do percurso da pesquisa de pós-doutorado cartografando políticas e pedagogias do cinema e da educação na escola, mas focando na relação referida no título. Em 1927, se estabelece o Instituto Internacional de Cinema em Educação de Roma (IICE) e México concebe o cinema como uma ferramenta educacional. O relacionamento do México e do Brasil com o Instituto de Roma, faz parte de um projeto de cooperação in- ternacional sem precedentes. O México colaboraria de maneira muito irregular com o IICE, 1 - Trabalho apresentado no XXIII Encontro SOCINE na primeira sessão do SEMINÁRIO CINEMA E EDUCAÇÃO. 2 - Professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Coordena o grupo CINEAD/ LECAV. É membro fundador da REDE KINO: Rede Latino-Americana de Educação, Cinema e Audiovisual. A [ C in em at ec a] , a e sc ol a e a un iv er si da de c om o es pa ço s de p re se rv aç ão d o ci ne m a - di fe re nt es e xp er iê nc ia s en tr e B ra si l e M éx ic o 27 apesar dos benefícios que o projeto de cinema italiano poderia oferecer. A construção de uma nova ordem internacional não descartou os problemas intelectuais presentes no final da Primeira Guerra Mundial. O processo evolutivo do sistema internacional imediato ao conflito também envolveu a criação de organizações com objetivos científicos e culturais ambiciosos de estatura internacional. A instituição romana, juntamente com o Instituto Internacional de Cooperação Intelectual de Paris, criado em 1924, constituiu o pilar da cooperação científica e intelectual da principal organização do período entre guerras: a Sociedade das Nações. Anos depois, a UNESCO se beneficiaria dessa primeira experiência de cooperação internacional e se baseariam nos fundamentos feitos por ambas as instituições. O IICE respondeu a uma preocupação internacional compartilhada pelos 32 países e pelas 12 associações internacionais que em 1926 compareceram ao Congresso Internacio- nal de Cinema de Paris, convocado pela comissão internacional de cooperação intelectual. As recomendações finais do Congresso, que interessam a este estudo, foram: melhorar a produção de filmes do ponto de vista intelectual, artístico e moral; fazer filmes de ensino e educação social; relacionar o cinema com outrasmanifestações artísticas; e, finalmente, estabelecer um escritório internacional de cinema. A Itália, como a França havia feito em 1924 diante da preocupação intelectual e científica internacional, ofereceu seu patrocínio para estabelecer uma instituição em Roma de acordo com as necessidades do Congresso Internacional de Cinema. Na empresa do Instituto de Paris, a nova instituição italiana forta- leceria a surpreendente rede de organizações multilaterais ligadas à Sociedade das Nações em quantidade e qualidade. Existe um documento intitulado “O cinema da educação e do ensino no Brasil” e pode ser lido na revista correspondente ao mês de junho de 1933. Um decreto de 21 de abril reagrupa em um único texto sob o nome do código edu- cacional, as disposições em vigor no estado de São Paulo em relação à educação, do qual reproduzimos dois artigos: 121. O Serviço de Rádio em Cinematografia Educacional visa a beneficiar a escola dos avanços na técnica de rádio e cinematografia. 122. Corresponde ao chefe deste serviço: organizar uma biblioteca de filmes e con- figure uma coleção de filmes e visualizações fixas; fornecer instalações de dispositivos de projeção de luz e dispositivos de rádio; formar os programas de projeção; dar uma orienta- ção educacional e instrucional para projeções fixas e animadas; dirigir e incentivar o ensino no rádio; monitorar e verificar os efeitos da censura, filmes espetaculares, discursos, confe- rências, palestras e transmissões de rádio (HERRERA LEÓN, 2008). Porém, a presença do cinema na escola começou a se sistematizar fundamentalmente em 1936, quando foi criado o Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE), por Roquete Pinto, que levou o cineasta mineiro Humberto Mauro a produzir filmes pedagógicos fortemente orientados pelo currícu- lo escolar e entrando com toda força nas políticas escolanovistas da época. Dando um salto no tempo, destaca-se a importância que teve nessa história de cinema e educação o Secretariado para América Latina da Organização Católica Internacional do Cinema (SAL-Ocic) que se fixou em Lima, Peru. Seu primeiro informativo noticia a existência A dr ia na F re sq ue t 28 das atividades do apostolado cinematográfico católico no Brasil, México, Argentina, Repú- blica Dominicana, Chile, Venezuela e Panamá, alguns países já com suas oficinas nacionais em funcionamento e outros em implantação. Entre suas atividades estão a classificação moral de filmes, a criação, organização e manutenção de cineclubes, cinefóruns, festivais, premiações, exposições, conferências em colégios católicos e estatais, a realização de filmes etc. O SAL-Ocic manteve importante relação com o apostolado oficial brasileiro, o que foi fundamental para a implantação no Brasil, em 1970, do Plano de Educação Cinematográfica de Crianças, o Plan Deni, que nasceu dentro da Central Católica de Cinema (SAEZ, 1986). A relevância desses dados se referem ao surgimento do CINEDUC, quem e 2020 completa 50 anos e ainda desenvolve projetos educativos com cinema. Dessa mesma época data também o nascimento das cinematecas no México e no Bra- sil. A Cineteca Nacional, é inaugurada em 1974 e suas missões foram preservar a memória cinematográfica nacional e mundial e promover a cultura cinematográfica. Em 2011, o Con- selho Nacional de Cultura e Artes (Conaculta) promoveu a modernização e expansão das instalações e espaços públicos da Cineteca Nacional. A partir de 2014, a Cineteca Nacional, com o objetivo de enriquecer a cultura cinematográfica e contribuir para a formação de pú- blicos e espectadores, foi criado o Departamento de Extensão Acadêmica, responsável pela organização de graduados, cursos, seminários, cadeiras e oficinas ministradas. por especia- listas na sétima arte. Voltando ao Brasil, poderíamos falar de várias cinematecas, mas vou me referir apenas à Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro foi fundada oficialmente em 1955, com o nome de Departamento do Filme do MAM e cumprindo a determinação original do museu de incorporar o cinema ao arco de exposição/exibição das expressões artísticas modernas. Ao longo de seis décadas de existência o setor estruturou-se em arquivo de fil- mes, centro de documentação correlata e sala de exibição audiovisual dos diferentes supor- tes, formatos, bitolas e padrões que o cinema e as demais formas de imagens em movimento assumiram ao longo do tempo, cobrindo película, magnético e digital. A história da Cinema- teca compreende um vasto número de iniciativas em termos de mostras, festivais, progra- mas itinerantes, programação de salas comerciais, apoio à produção e finalização de filmes, coleta, conservação, recuperação e restauração de títulos brasileiros e estrangeiros, cursos, atendimento a pesquisas, principalmente de graduação e pós-graduação, realização de ex- posições documentais, colóquios, encontros, seminários e debates, formação de plateias e desenvolvimento de projetos pedagógicos, sem falar em pré-estreias de filmes, lançamento de livros, exibição de filmes silenciosos acompanhados de música ao vivo e performances interativas (HEFFNER, 2012). Do ponto de vista dos vínculos pedagógicos, a Cinemateca do México cede seu es- paço para aulas do curso de cinema da Universidade de Guadalajara e uma programação conjunta com a Coordinación Nacional de Literatura sobre cinema e adaptação literária, mas carece de projetos institucionais de formação docente e de exibição de filmes para escolas, exceto por iniciativas particulares tais como a Linterna Mágica ou La Matatena. Nos finais A [ C in em at ec a] , a e sc ol a e a un iv er si da de c om o es pa ço s de p re se rv aç ão d o ci ne m a - di fe re nt es e xp er iê nc ia s en tr e B ra si l e M éx ic o 29 de semana oferece uma sessão matine para crianças. A dimensão radicalmente pedagógica está no objetivo institucional: “que a população en general conheça com oportunidade a ampla oferta de qualidade, tanto nacional como internacional que programa la Cineteca”. No Brasil, longe de investimentos significativos para preservar e divulgar seu cinema, existem programas e parecerias pedagógicas em diferentes cinematecas, São frequentes as aulas de universidades públicas nas suas salas. Porém, isso não torna acessíveis os recursos audiovisuais nacionais para qualquer pessoa. A maioria dos municípios brasileiros não tem sequer acesso a salas de cinema. Uma bela iniciativa para agilizar a circulação da produção audiovisual nacional foi a Programadora Brasil (PB). Programa estratégico da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, entre 2006 e 2013, juntamente com a Cinemateca Brasileira e o Centro Técnico Audiovisual (CTAv) construiu um catálogo com 970 filmes e vídeos de todas as regiões do país, organizados em 295 programas (DVDs), apresentando a diversidade e a possibilidade de conhecimento sobre o cinema brasileiro. À promessa do conjunto de filmes em formato DVD virar o início de uma plataforma on line se somava a esperança do Ministério de Comunicações garantir uma banda larga que abraçasse todo o pais. Promessas diluídas, kits esquecidos, apagados ou destruídos com o impeachment e a dissolução do Ministério de Cultura nos fazem sentir uma forte regressão. Ainda em 2015 a Associação Brasileira de Preservação Audiovisual entregou em mãos dos responsáveis pela Secretaria do Audiovisual um Plano Nacional de Preservação Audiovisual que completará 4 anos de estrondoso silêncio. No Rio, o MAM tem vários convênios com universidades, fun- damentalmente com o curso de cinema na UFF e de educação na UFRJ para a realização de atividades de pesquisa, ensino e extensão. Como política pública merece destaque o projeto de lei que obriga as escolas a exibir duas horas de cinema nacional por mês como carga curricular complementar e que veio ser sancionado como a lei 13006 em 2014. Em 2015,foi criado um Grupo de Trabalho “Cinema na escola” com o propósito de elaborar uma proposta para regulamentação e encaminhá-la para o Conselho Nacional de Educação. Este GT foi de caracter inter-ministerial, no âmbito do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação e cinco membros da sociedade civil com o objetivo de elencar os principais tópicos a serem estudados para que a Lei conseguisse chegar a todas as escolas do Brasil de maneira orgâ- nica e com sucesso. O GT ficou composto pelos subgrupos de “formação docente”, “acesso” e “fomento”. Desse processo surgiu um denso texto constituído por reflexões, princípios e propostas a curto, médio e longo prazo, que foi apresentado e entregue ao Conselho Nacio- nal de Educação em 04/05/16, mas até hoje não entrou em pauta. Já em relação ás escolas mexicanas, não existem políticas públicas relativas ao cine- ma e seu currículo não contempla atividades para nenhum dos seus níveis. Porém, existe um movimento importante que vem capilarizando e contaminando a vida escolar nas suas mais diversas manifestações. O cinema está efetivamente chegando às escolas graças aos movimentos de cinema comunitário, como por exemplo com o Coletivo Spora, que hoje já derivou em uma produtora, formada por estudantes de antropologia, sociologia, comunica- ção e arquitectura. O coletivo surge quando assume a presidência de México Enrique Peña Nieto, em dezembro de 2012 e anuncia as 5 grandes reformas estruturais. Num marco de A dr ia na F re sq ue t 30 descontentamento social causado pela corrupção do estado, o narcotráfico, a privatização e usurpação de recursos de recursos naturais e a criminalização da protesta social; profes- sores, estudantes, pais e mães de família e a sociedade em geral realizam ações em apoio ao movimento magisterial nacional se opondo à Reforma Educativa e demais reformas estrutu- rais, políticas neoliberais ditadas por organismos e empresas multinacionais aprovadas pelo governo mexicano durante a administração de Peña Nieto. As implicações dessa reforma para a vida universitária y para a educação em geral eram nefastas. Alguns dos estudan- tes do coletivo também faziam parte do Sindicato Nacional de Trabalhadores da Educação (SNTE) e a Coordenadora, - parte crítica de la SNTE-, começaram se reunir por razões de afi- nidade política. Assim, começaram trabalhar em um documentário. Da associação nacional de universidades se gestava certo alinhamento com as políticas de segurança que surgiam a partir desse contexto de violência generalizada, com o narcotráfico entrando mais nas cidades e nas universidades e então já se visualizava a possibilidade de ritualizar o pan-óp- tico nas instituições acadêmicas incorporando câmaras de controle, exigir dos estudantes o ingresso com credenciais, entre outras medidas para vigiar e punir educadores e estudantes. O cinema e o documental surgem para este coletivo como uma vertente de transformação social direta e como uma forma de pesquisa-ação. A produção do documentário traz no seu título uma primeira ironia contra a Reforma Educativa, pois se chamou A deforma educativa. Desde las perspectiva del movimento ministerial em Veracruz3. Desde las perspectiva del movimento ministerial em Veracruz. O filme coloca em evidência efeitos nefastos ocultos nas reformas estruturais de 2013, que prometem um “melhor desenvolvimento” para o Méxi- co. Essas reformas respondem aos interesses de organizações internacionais como a OCDE e o Banco Mundial, incorporados em empresas privadas e partidos políticos corruptos. A re- forma educacional gerou grande descontentamento no ensino em todo o país. Nas escolas, ruas e praças públicas, vários setores sociais mostraram sua indignação. O documentário foi o pavio que viralizou rapidamente através do sindicato conseguiu mobilizar pessoas de to- dos os estados da república. Assim, hoje o cinema entra nas escolas mexicanas através dos registros dos projetos de hortas escolares, movimentos de ocupação, redes de colaboração e produção de alimentos a partir da recoleção de restos que ainda podem ser consumidos pelos produtores freegan, entre outras iniciativas que não vêm do poder político institucio- nalizado, e sim das organizações sociais e políticas populares que emergem como agrupa- ções de pessoas que se reunem para resolver as necessidades básicas. Este fenômeno se multiplica e se torna mais complexo a cada dia. Para finalizar, enquanto lutamos por políticas públicas que reconheçam a importância da sobrevivência do cinema nacional e sua presença nos espaços educacionais como sonha- ra Humberto Mauro, cada vez que exibimos um filme e como Os óculos do vovô (Pelotas, Francisco Santos, 1913), Limite (Mario Peixoto, 1931) ou A velha a fiar (Humberto Mauro, 1964) em uma escola de educação infantil (sim, infantil!), fundamental, médio ou para estudantes universitários acredito que estamos, também de alguma maneira, fazendo uma experiencia de preservação de cinema em contextos educativos. 3 - Assista o filme La deforma educativa. Perspectivas del movimiento ministerial en Veracruz em https://vimeo. com/94207696 A [ C in em at ec a] , a e sc ol a e a un iv er si da de c om o es pa ço s de p re se rv aç ão d o ci ne m a - di fe re nt es e xp er iê nc ia s en tr e B ra si l e M éx ic o 31 Referências HEFFNER, H. A preservação audiovisual na atualidade. Filme Cultura, v. 24, p. 93-95, 2012. HERRERA LEÓN, Fabián. México y el Instituto Nacional de Cinematografía Educativa, 1927;1937; Estud. hist. mod. contemp. Mex no.36; México jul./dic. 2008. SCHMELZ, It. Cineteca Nacional 40 anos de história. 1974/2014. México: Conaculta - Cineteca Nacional, 2015. SAEZ, J. L. Cine sin secretos. Santiago de Chile, CENCOSEP, 1986. SOBERÓN TORCHIA, É. Los cines de América Latina y el Caribe. La Habana: Ediciones EICTV, volume I, 2012. A dr ia no D el D uc a 32 O espaço alegórico em filmes brasileiros do momento tropicalista1 The allegorical space in Brazilian films of the tropicalist moment. Adriano Del Duca2 (Mestrando – PPGCINE/UFF) Resumo: A partir da comparação dos “espaços alegóricos” em quatro filmes brasileiros rea- lizados no ‘momento tropicalista’ (1967-1972) - Terra em Transe (Glauber Rocha, 1967), Brasil Ano 2000 (Walter Lima Jr. 1969), Pindorama (Arnaldo Jabor, 1970) e Prata Palomares (An- dré Faria, 1971) – refletimos sobre a construção de “contra-narrativas” (STAN, 2006) que representam ‘Brasis’ alegóricos como elaboração de formas de ruptura com o regime de representação do cinema eurocêntrico. Palavras-chave: Tropicalismo, Cinema Brasileiro Moderno, Cinema Novo, Alegoria,Geopéti- ca. Abstract: This work aimed to discuss the construction of “counter-narratives” (STAN, 2006) that represent allegorical versions of Brazil as an elaboration of forms to break apart from the representation regimen of the Eurocentric cinema, by comparing “allegorical spaces” in four Brazilian movies made in the ‘tropicalist period’ (1967-1972): Terra em Transe (Glauber Rocha, 1967), Brasil Ano 2000 (Walter Lima Jr. 1969), Pindorama (Arnaldo Jabor, 1970) e Prata Palomares (André Faria, 1971). Keywords: Tropicalismo, Modern Brazilian Cinema, New Cinema, Allegory, Geopetics. No final dos anos 1960 e início dos 1970 diversos filmes brasileiros lançaram mão de recursos alegóricos para construção do seu campo narrativo. Personagens, locais, épocas construídos livremente na mas ancorados em representações da realidade social e política do páis. De forma exploratória e e algo provisória, nos interessa refletir sobre a construção das espacialidades destas alegorias, pensando a representação desses ‘Brasis’ alegóricos do cinema brasileiro impactado por ecos da experiência tropicalista. Há aqui um diálogo com o livro Alegoria dos subdesenvolvimento: cinema novo, tropicalismo e cinema marginal, de Is- mail Xavier, mais especificamenteaos capítulos “Terra em Transe: alegoria e agonia” e “Brasil Ano 2000: o mal congênito da província”, a fim de pensar os filmes Pindorama (Arnaldo Jabor, 1970) e Prata Palomares (André Faria, 1971) em balizas teóricas ‘tomadas de emprés- 1 - Trabalho apresentado no XXIII Encontro SOCINE na sessão: Cinema Comparado – Sessão 3 (Constelações II). 2 - Licenciado em Ciências Sociais - UNESP/FCLAr (2007). Bacharel em Cinema e Vídeo - UNESPAR/Campus II (2019). Mestrando em Cinema pelo PPGCINE/UFF. O e sp aç o al eg ór ic o em fi lm es b ra si le iro s do m om en to t ro pi ca lis ta 33 timo’ dos textos de Ismail. Assim, apontamos o ‘espaço alegórico’ como uma construção coincidente que nos permita traçar uma rota comparativa entre obras que lançam mão da alegoria no período compreendido como ‘momento tropicalista’3 (1967-1972). Assim como a Eldorado de Terra em Transe (Glauber Rocha, 1967), e a Me Esqueci de Brasil Ano 2000 (Walter Lima Jr, 1979), Pindorama e Porto Seguro sustentam as metáforas que deslocam ou suspendem o referente da nação para refletir o Brasil e a colonialidade la- tino americana. Estes procedimentos de sedimentação geográfica nas alegorias, nos parece uma chave interpretativa para os filmes do período, já que a construção destes territórios imaginários se alimentam de elementos contextuais. Ainda que composições imaginárias, o esforço da estética tropicalista em articular contra-narrativas, compreendeu uma rearticu- lação de signos da cultura colonial brasileira e afro-latina para confrontar o discurso hege- mônico através da inversão e reinvenção dos signos da opressão e da colonialidade. Nesse sentido, a “nação” e o “povo” são reconfigurados através da incorporação antropofágica de elementos de nacionalidades diversas e dos produtos da cultura pop midiatizada internacio- nalmente no contexto dos mercados globais transnacionalizados. Essas construções de lugares indefinidos na geopolítica dos Estados Nacionais, com referentes políticos e culturais incertos mas que articulam-se em torno de uma elabora- ção crítica e ideologicamente posicionada, e, a sintomática narrativa trágica ou catastrófica do lugar representado, parecem indicar que a reincidência dessa metáfora nacional é um procedimento do cinema produzido no período tropicalista, não apenas como intenção de ocultamento para burlar a censura, mas produção de sentidos estéticos que confrontam os padrões do uso da linguagem no cinema hegemônico. Terra em Transe Os personagens tem referentes concretos na realidade sócio-histórica: o intelectual de esquerda, o político conservador, o político populista, o povo amorfo, as lideranças popu- lares; a trama e as viradas narrativas são referentes a processos reais da disputa do poder no mundo colonial latino-americano: populismo, clientelismo, revoltas populares, golpes de estado. No entanto a representação destes elementos distancia-se do realismo e desenvol- ve-se em um lugar fictício, através da trama de personagens que estão histórica e territorial- mente descontextualizados. Vieira surge como o político burguês progressista disposto a representar os interesses nacionalistas, Sara e Paulo representam a intelectualidade de esquerda. As cenas da campa- nha política de Vieira junto à população pobre de Alecrim, e a representação jocosa do líder populista, cruzam-se a imagens de massas populares o apoiando, cenas típicas do populis- mo brasileiro, mas que não buscam repressentar nenhum fato histórico específico. 3 - Utilizamos o termo ‘momento tropicalista’, baseando-nos na visão de Charles A. Perrone (1999) para “se re- ferir a soma de fenômenos multidisciplinares em espaço de tempo mais amplo, já que a expressão Tropicália será empregada com respeito à ‘fase heróica’ (final de 1967 – início de 1969) da música popular. A dr ia no D el D uc a 34 Terra em Transe, primeiro filme urbano de Glauber Rocha, organiza inúmeros elemen- tos para conformar a realidade de uma república urbana moderna. A composição das clas- ses sociais, a complexidade das relações políticas e econômicas, a existência de imprensa, emissoras de televisão, intelectuais, localizam a fictícia Eldorado em um contexto muito pró- ximo ao latino-americano na segunda metade do século XX. O procedimento alegórico experimentado por Glauber Rocha é eficiente em relocali- zar o contexto político nacional num ambiente fictício, ampliando a margem da conotação de seu discurso político. O deslocamento que o discurso opera através da enunciação de um lugar outro, onde tudo se parece e se relaciona com o Brasil, mas que não o é, constrói uma camada literariamente rica que amplia o alcance da crítica a contradições fundantes da sociedade brasileira, fugindo da análise datada deste ou daquele período histórico. Brasil ano 2000 Me Esqueci surge como representação de um lugar no futuro, um Brasil em que os aspectos de uma nacionalidade sugerem o esquecimento como escamoteamento, ou falsi- ficação da memória. A cidade de Me esqueci, contempla uma lugar que sobreviveu a partir da destruição cataclísmica das nações numa apocalíptica terceira guerra mundial: um triunfo através da destruição. Os protagonistas, retirantes de um lugar avassalado pela crise, serão, em Me esqueci, a falsifcação das populações nativas destruídas pelo genocídio, mas que precisam ser atualizadas na costrução da enviesada memória oficial pautada pelo esqueci- mento. A biblioteca de Me esqueci onde estão arquivadas a história material e imaterial do lugar, é um subsolo onde isola-se um intelectual, especie de guardião do passado, ressentido e escondido, junto daquilo que a realidade busca ocultar. O grande projeto futurista dos go- vernantes dessa nação militarizada é um foguete que não decola, coroando a vocação para o fracasso, uma inépcia inata de uma nação forjada a fórceps. Entre um humor jocoso e um pessimismo sórdido quanto à representação da nação, a “alegoria do esquecimento” (XAVIER, 1992) de Brasil Ano 2000 sustenta-se na relação com o lugar Me Esqueci. O “País do Futuro”, lugar utópico e inalcançável reservado ao Brasil, é reelaborado como distopia diante da realidade lancinante de uma ditadura militar que expu- nha sua face violenta e autocrática no Brasil de 1969. Pindorama A trama se passa na fictícia Pindorama, colônia portuguesa fundada por D. Sebastião de Sousa, personagem também ficcional, mas claramente referido aos colonizadores portu- gueses do século XVI. D. Sebastião, é solicitado pelo Rei de Portugal para retornar ao local atualmente governado por D. Henrique, e que se encontra em desordem e desobediente à Coroa. No efervescente vilarejo, constrói-se uma revolta popular e o corrupto governador D. Henrique conspira pela manutenção de seus privilégios. Encurralado entre a violência po- O e sp aç o al eg ór ic o em fi lm es b ra si le iro s do m om en to t ro pi ca lis ta 35 pular contra a monarquia e pela virulência do poder entre os nobres, D. Sebastião massacra Pindorama, impedindo a revolta popular mas também a continuidade da exploração imoral dos poderosos locais. Sequências abstratas, monólogos, colagens que operam a “subjetiva indireta livre”, emprestando aqui a terminologia de Pasolini, recurso narratio em que o autor, identificado ideologicamente com o personagem, utiliza-o como mediação para realizar uma interven- ção na narração, como forma de expressar, na alegoria, o discurso crítico do autor sobre o momento político de seu país. Para que esse procedimento de colagens, paródias, encena- ções metafóricas, possa viabilizar um sentido político, a representação do local encenado busca um referencial real, que articule o sentido da abstração metafórica ao sentido crítico proposto. Pindorama é um lugar irreal habitado por personagens irreais, figura no campo do imaginário, do sonho ou utopia, mas representa um momento remoto de um Brasilreal, lugar concreto, com o qual a contra-narrativa do filme busca compor. A ‘alegoria de fundação’ de uma nação que talvez possa ser lida em Pindorama, não aponta a resolução dos conflitos a estruturação de um meio social coeso em torno da figura da lei e da autoridade, mas sim um universo catastrófico e impotente onde a autoridade não vigora senão pela força, e a formação social do território é resultado do conflito e da vio- lência como expressão legítima do Poder. A alegoria se molda entre a impotência do povo em assumir a construção político-cultural de seu território e a catástrofe do choque entre os interesses no mundo colonial. Prata Palomares Prata Palomares (André Faria, 1971) é um filme interditado pela censura brasileira. No filme, dois guerrilheiros em fuga de uma revolução derrotada escondem-se em uma igreja abandonada em um lugar chamado Porto Seguro. Um deles decide se passar pelo vigário que a comunidade esperava enquanto o outro prepara meios para prosseguirem a fuga. Envolvidos por uma figura mística, misto de santa e prostituta, acabam absorvidos pelas disputas políticas locais. Em meio ao conflito o falso padre enlouquece e assume uma perso- nalidade messiânica. Diante de torturas, assassinatos, e de seu conflito psicológico, o guer- rilheiro trai seus objetivos e instaura o “Paraíso Agora”, a alegoria de uma república caótica que remete ao subdesenvolvimento dos países periféricos. Porto Seguro é contraposto sempre a Maracangalha, um sujeito oculto na narrativa. Esse outro local, um duplo utópico onde há autonomia política, aponta para os processos de liberação anti-colonial mas como uma perspectiva utópica não alcançada. O território de Porto Seguro está desde o início dividido, mas as posições políticas serão delimitadas no corpo da representação metafórica. Neste sentido a alegoria expõe um ‘lugar’ – Porto Seguro – tomado por uma aristocracia imperialista, e uma outra ‘nação-distópica’ – o Paraíso Agora – vislumbrada messianicamente por um guerrilheiro que se converte em um padre alucinado. A dr ia no D el D uc a 36 Na tensão entre a fragmentação e a totalização do discurso em relação ao lugar, Pra- ta Palomares tende à fragmentação. Sua metáfora para a ‘nação’ é irônica e negativa. Os personagens que poderiam ser os portadores do futuro – a Santa que deseja um filho, os revolucionários que querem voltar a Maracangalha, e Tonho e sua revolta liberadora – são avassalados pelos acontecimentos. O sentido negativo da alegoria, relaciona-se claramente com o conceito de “alegorias catastróficas” forjado por Ismail Xavier quando analisa Eldora- do, e assume aqui um sentido estético ainda mais drástico, influenciado pela ‘estética do lixo’ e pelo tropicalismo, busca uma representação que choca pelo abjeto, pelo encadeamento de agressões ao bom gosto ou à uma recepção aplainada do filme. O recurso à alegoria de uma revolução derrotada, de guerrilheiros em fuga, de uma elite parasitária e entreguista, bem como à tresloucada atuação da esquerda, aliando-se à tradição messiânica e religiosa, só podem sustentar-se narrativamente na medida em que se relacionam com um espaço que embora fictício, oferece pontos de contato com a alguma realidade sócio-histórica, onde através do referencial linguístico, controem-se sentidos polí- ticos que evidenciam uma consciência da crise que se vivia naquele momento. A postura do cineasta na organização da narrativa, desarticulando as estruturas temporais, espaciais, e a clareza dos personagens, indica a tentativa de estilhaçar a legibilidade do filme e estabelecer um olhar sociológico crítico à construção do território, da formação do Estado e a forma da dominação política no Brasil. Conclusão A representação de um lugar, tanto para a construção de identidades tradicionais e oficiais, como para a formulação de representações alternativas ou críticas, requer referen- ciais comuns, ainda que fictícios, para validar a metáfora proposta e estabelecer um status consensual sobre o que seja o território em questão. O poder colonial forjou historicamen- te discursos legitimadores de sua prática expansionista e invasora, construiu ideológica e materialmente um ‘novo mundo’. Poderíamos dizer que o hemisfério sul do planeta é uma realidade geográfica, mas a América Latina, uma construção sócio-histórica, forjada por pro- cessos políticos e econômicos mas também por concepções que partem de premissas abs- tratas da representação deste lugar. Ao longo dos séculos de colonialismo a criação artística e literária tem sido uma ponte entre a percepção concreta do lugar (espaço) e as noções subjetivas do lugar (nação, país, pátria). Esta breve ‘cartografia’ dos lugares da ficção tropicalista que se propõe a realizar uma contra-narrativa do lugar latino-americano nos parece um veio para compreender a representação que une a metáfora alegórica ao seu objeto real, as percepções hegemônicas de nação e povo, e a sua crítica. Assim, refletir os sentidos das representações alegóricas do lugar Brasil enquanto pro- posição pertinente como critica a história oficial, é uma caminho possível para leituras das construções de discursos contra-hegemônicos realizados pelas vanguardas artísticas no O e sp aç o al eg ór ic o em fi lm es b ra si le iro s do m om en to t ro pi ca lis ta 37 contexto do final dos anos 1960. Apesar de não realista, a alegoria dialoga com o contexto histórico e enuncia aos sujeitos desta sociedade uma visão particular e articulada sobre de- terminados eventos de sua época histórica. Referências AINSA, Fernando. Del topos al logos. Propuestas de geopoética. Vervuet: Iberoamericana, 2006 BRASIL ANO 2000. 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A la n G om es F re ita s 38 A Fome, a guerra, a peste e a morte: cinema em Manaus durante a Grande Guerra1 Hunger, war, plague and death: cinema in Manaus during the Great War Alan Gomes Freitas2 (Mestrando – PPGCINE-UFF) Resumo: A cidade de Manaus, no início do séculoXX, vivia o fim da opulência proporcionada pelo ciclo econômico da borracha. Em um período de cerca de 40 anos, passou da acele- ração propiciada por símbolos da modernidade europeia indústria automobilística, abertura dos portos ao comércio estrangeiro, intensa urbanização para uma grave estagnação eco- nômica. O cinema se estabelece como principal entretenimento da metrópole e a eclosão da Primeira Guerra Mundial reflete-se no consumo de cinema da cidade Palavras-chave: Cinema, história, Manaus, Grande Guerra, consumo. Abstract: The city of Manaus, at the beginning of the twentieth century, lived the end of the opulence provided by the rubber economic cycle. In a period of about 40 years, it has gone from accelerating propitiated by symbols of the modern European auto industry, opening ports to foreign trade, intense urbanization to severe economic stagnation. Cinema estab- lishes itself as the main entertainment of the metropolis and the outbreak of World War I is reflected in the city’s cinema consumption. Keywords: Cinema, history, Manaus, World War, consumption Introdução Entre o fim do século XIX e início do século XX, diversas cidades brasileiras passaram por processos de modernização aos moldes do que ocorrera em cidades europeias. Ma- naus, capital da província do Amazonas, passa por radicais transformações também nesse período. Impulsionada pela circulação de capital proporcionada pela economia da borracha, a cidade inicia o século XX com luz elétrica instalada, intensa circulação de barcos a vapor e uma mudança radical em sua visualidade com melhoramentos urbanos e características cosmopolitas, tendo sua população ampliada e a introdução de elementos e costumes de origens diversificadas. 1 - Trabalho apresentado no XXIII Encontro SOCINE na sessão: “Painel de Mestrandos – Acervos, arquivos e preservação” 2 - Allan Gomes é mestrando em Cinema e audiovisual PPGCINE-UFF onde desenvolve pesquisa sobre o consu- mo de cinema como demarcação social em Manaus (orientação: Pedro Lapera). A F om e, a g ue rr a, a p es te e a m or te : c in em a em M an au s du ra nt e a G ra nd e G ue rr a 39 Em pouco mais de dez anos, essa pujança econômica dá lugar ao terror de uma crise com ares apocalípticos. Milhares de trabalhadores abandonam seus postos de trabalho nos rincões do estado, e avançam para a capital, com suas fomes, suas doenças e caindo mortos sucumbindo ao cenário de miséria. Na primeira década do século XX, o discurso dos administradores era de que se tivesse uma cidade limpa e ordenada, os investimentos estrangeiros viriam para a cidade e os que já estavam não sairiam (MASCARENHAS, 1988, p.131). É marcante no período a tentativa de aproximar Manaus de um ideal de cidade mo- derna. Porém, ao mesmo tempo em que se embelezava a cidade, em busca de investidores, segregava-se a população, que se encontrava em péssimas condições de vida, sem sanea- mento, higiene, habitação adequada e acompanhada por um quadro de doença de todos os níveis. Esta segregação não promoveu de maneira imediata a expulsão do trabalhador para as periferias mais distantes, mas caminhou no sentido de trazer para a dimensão pública segmentos sociais da elite mercantil e política, encantadas com as cidades europeias (COS- TA, 2014, p.110). O período foi representado por um diferente estado de espírito de clima intelectual e artístico e profundas transformações culturais traduzidas nas mudanças de pensamento e cotidiano, uma época caracterizado pela ostentação, luxo e extravagância da classe alta da sociedade. (DAOU,2000) É esse espaço que vamos observar nos anos 1910, já em plena crise da economia go- mífera, e em uma década marcada por convulsões sociais, com reflexos da I Guerra Mundial, miséria decorrente do fechamento de muitos seringais e o fluxo de migrações abarrotando a capital. A cidade que se preparou para ser uma vitrine (MESQUITA, 2016) para o imigrante estrangeiro é marcada nesse momento por uma desilusão quanto ao futuro. Os jornais da época são nossa fonte para acessar os signos de transformação desse período. Ainda que com discursos fragmentados, não-lineares e heterogêneos, recorremos à metodologia do Paradigma Indiciário, proposta por Carlo Ginzburg (2016), para identificar os pormenores aparentemente negligenciáveis que podem revelar fenômenos profundos de notável alcance. Entendendo ainda que não partimos de um ponto inédito, buscaremos dialogar com outras pesquisas que se lançaram na tentativa de acessar processos do passado. Esse diá- logo com pesquisas já consolidadas, fontes já utilizadas, e busca de novas fontes, é a cons- trução que pretendemos fazer no desenvolvimento deste artigo. Entendendo que apesar da heterogeneidade das fontes, é possível reuni-las caso sejam consideradas vestígios de processos de estruturação e de mudança social (GINZBURG, 2016). A la n G om es F re ita s 40 Os espaços da cidade Além das transformações urbanas, o crescimento demográfico acompanhou os bons números econômicos e recebeu pessoas de diversas nacionalidades, sobretudo portugue- ses, ingleses e espanhois, além da forte migração nordestina. A população da cidade, em 1907, era de cerca de 60.000 habitantes, sendo pelo menos 10.000 estrangeiros, dentre os quais a maiores colônias eram de portugueses, em primeiro lugar, e espanhois, em segundo (PINHEIRO, 2018). Há que se diferenciar o tipo de imigração recebida na cidade, visto que o discurso oficial era voltado para o recebimento de estrangeiros capitalizados para aproveitar ou rees- timular a economia gomífera, mas a propaganda governamental atraiu todo tipo de gente. No período de maior fluxo de capitais, o governo “mandou escritores e políticos como pro- pagandistas à Europa, fotografou a cidade em álbuns que percorreram capitais europeias, e metamorfoseou-a aos gostos estrangeiros” (COSTA, 1996, p.21). Manaus então preparara-se para tornar-se uma versão idealizada de metrópoles europeias, mas intensidade das trans- formações pretendidas não parecia considerar a população, tanto nativa como migrante. O espaço estava em disputa. Cabe aqui pensarmos o espaço da cidade como proposto pelo geógrafo David Harvey (2012), não em um sentido absoluto, mas como uma relação entre objetos. Não há como imaginarmos que o projeto modernizante de uma cidade como Manaus se daria da forma como planejada em planilhas e projetos, tampouco que a própria transformação da cidade não levaria a mudanças nos modos de se relacionar daquela sociedade. A concepção de espaço relativo propõe que ele seja compreendido como uma relação entre objetos que existe pelo próprio fato dos objetos existirem e se relacionarem. Existe outro sentido em que o espaço pode ser concebido como relativo e eu proponho chamá-lo espaço relacional – espaço considerado, à maneira de Leibniz, como estando contido em objetos, no sentido de que um objeto pode ser considerado como existindo somente na medida em que contém e representa em si mesmo as relações com outros objetos (HARVEY, 1973, p.13 apud HARVEY, 2012, p. 10). Há então indicações de um esforço da elite local em se definir através do seu consumo, dos espaços que frequenta, e, principalmente, o esforço para que a vida pública represente o que se espera de quem detém poder aquisitivo. Os cinemas A inauguração da primeira sala fixa de cinema, o Cine Theatro Julieta, acontece em maio de 1907, sendo sucedida por uma série de outras salas (COSTA, 1996). No ano de 1912 a cidade de Manaus chega a contar com sete salas de cinema, marcando esta diversão como central para a vida da cidade que sofre com a perda do poder econômico decorrente dos preços da borracha. A F om e, a g ue rr a, a p es te e a m or te : c in em a em M an au s du ra nt e a G ra nd e G ue rr a 41 A centralidade do cinema nas diversões locais já se tornara motivo de reclamaçãono ano anterior, quando, no jornal Correio do Norte, o redator lamentava os cinemas lotados e o comparava a uma epidemia: “Manaus presentemente atravessa uma crise assustadora em tudo. (..) Diversões aqui só se resumem nesse flagelo que é o epidêmico cinema. (...) Tudo fracassa. Agora, é triste dizer, vejamos os cinemas e os botequins, repletos!” (Correio do Norte, 7/11/1911, p.1) Há aqui uma clara hierarquização das diversões, donde se compara o cinema e o bote- quim repletos em contraponto aos concertos líricos e à música clássica com pouco público. Certamente a diferença de preços entre as diversões deveria contribuir para a diferença de lotação, mas nota-se pelo texto que a presença do cinema já era predominante entre as di- versões de Manaus. Momentos apocalípticos O ano de 1914 chega com forte estagnação econômica, provocando situações de de- sespero e fome, e em meados deste ano eclode a Grande Guerra. Os jornais da cidade dão bastante espaço para a cobertura da guerra, dedicando espaço diário à cobertura do con- flito. O Jornal do Commercio, em sua coluna de notícias internacionais, reportava os movi- mentos de cada nação envolvida. O Amazonas passava por como uma crise sem precedentes no setor econômico, si- tuação relatada pelo Governador Jonathas Pedrosa em 1915, na Mensagem lida perante a Assembleia Legislativa: Os effeitos d’essa depressão econômica ahi estão, aos olhos de to- dos, a manifestarse por toda parte, em todas as actividades, desde as grandes emprezas, [...] até ás grandes e pequenas casas commer- ciaes d’esta praça, todas ellas atravessando enormissimas difficul- dades financeiras, algumas já fallidas e outras na imminencia de não suportarem [...] (PEDROSA, 1915) É fato que alguns estrangeiros já não gozavam de boa acolhida pela elite da cidade, que se expressava em alguns jornais e na forma como estes reportavam situações do coti- diano e do noticiário policial. O cosinheiro Manoel Severo Bomfim, numa irrefreável expansão da cachaça, que havia ingerido, tentou hontem espancar a quantos transitavam pelo roadway da Manáos harbour. Em tempo, porém, foi esse ferrabraz socorrido pelo agente Medeiros, que por ali pas- sava, e que o levou para a primeira delegacia, onde o melro ficou detido. Outros dois de igual jaez do precedente também foram lhe fazer companhia no xadrez da primeira, são elles os italianos Ra- phael Montezan e Vicente Massaferro, desordeiros de marca (Jornal do Comércio do Amazonas, 27 de agosto de 1908) Não apenas italianos, mas indivíduos de outras nacionalidades são citados de de forma pouco lisonjeira – ou ainda xenofóbica - na imprensa local, que demonstrava sempre uma tentativa de disciplinar espaços que estes deveriam ocupar e como deveriam ocupar: “Um A la n G om es F re ita s 42 indivíduo de nacionalidade estrangeira foi espancado, ante-hontem, em frente ao café O Cometa, por pretender assistir ao espectaculo do theatrinho Gato Malhado, trajando muito modestamente” (Jornal do Comércio: 22 de outubro de 1910). Quando do início da Grande Guerra, com a crise econômica instalada, e a pressão demográfica crescente, a relação com o contingente de estrangeiros torna-se ainda mais ambígua. Em 1916, o Cinema Polytheama, ao exibir o drama de guerra O patriota francês ou O sacrifício pela pátria, advertia seus frequentadores: Este filme tem cenas horrorosas de crueldade do inimigo invasor, cenas irritantes e espantosas. Assim sendo, não desejando agitações em seus salões, a empresa pede encarecidamente que os partidá- rios das diversas nações em guerra não compareçam ao espetáculo, desde que não tenham a calma precisa para assistir ao desenrolar deste lindo trabalho (Jornal O tempo, 10.02.1916, p.2) Algumas escolhas na redação desse aviso despertam questões, a começar pela deno- minação inimigo invasor visto que até aquele momento o Brasil declarava-se neutro durante o período, só declarando guerra em 1917. Como o filme exibido tratava-se de uma produção francesa, é possível que o termo se referisse à Alemanha, que naquele momento impunha severas derrotas e adentrava o território francês. Ainda assim, o recado parece um exagero dado o contingente da população estrangeira na cidade e a predominância das colônias portuguesa e espanhola como a maioria dos cerca de 10 mil imigrantes. Quem realmente precisaria se comportar nos salões do Polytheama durante a exibição do filme? Não nos parece razoável achar que seria o público leitor destes jornais, visto que as próprias colônias mantinham periódicos como o El Hispano Amazonense, em espanhol, e o jornal Polyanthea, em italiano. Ao longo da década a cidade passou por diversos problemas e agitações pontuais, porém a fome causada pela depressão econômica foi contínua. A participação da borracha amazônica no mercado internacional caiu de 61%, em 1905, para 27% em 1915 (FEITOSA; SAES,2013). O impacto dessa queda foi sentido diretamente nos seringais, com os trabalha- dores abandonando a extração da goma. Sulcando os rios em bandos turbulentos, depredando e destruindo as propriedades que iam encontrando à sua passagem... Nordesti- nos que procuravam regressar a seus Estados de origem. Os anos de 1914 e 1915 assinalaram o ponto máximo desse êxodo, levando o Governo Federal a conceder-lhes transporte gratuito nos navios do Lloyd Brasileiro (SANTOS, 1985 apud COSTA, 1996, p.95) A pujança econômica não dura muito, e ao final dos anos de 1910 a economia da bor- racha dá sinais de esgotamento frente à concorrência com o produto plantado no Oriente, com números de produção estagnados e superados em muito pelos orientais. A crise leva à convulsão social, com “bandos turbulentos depredando e destruindo as propriedades que iam encontrando à sua passagem… nordestinos que procuravam regressar aos seus estados de origem” (SANTOS, 1985. p.26). A F om e, a g ue rr a, a p es te e a m or te : c in em a em M an au s du ra nt e a G ra nd e G ue rr a 43 A partir de meados de 1918, os jornais que só publicavam notícias do fronte de guerra deixariam de mencionar somente episódios de trincheiras e conquistas de território, mas notícias de uma epidemia que grassava no mundo e que teve diversos nomes. Contudo fi- cou conhecida mesmo como a Gripe Espanhola. A doença parecia comum a todas as outras gripes, sendo dois ou três dias de febre. Dentre os esforços para conter a força da epidemia, os médicos sanitaristas faziam circular nos jornais da cidade algumas indicações, dentre as quais evitar lugares de grande concentração de pessoas, como os cinemas: São o nariz a bocca e a garganta os fôcos principaes de contágio. Evitemos: 1º Beijos, abraços e apertos de mãos. 2º Aproximação das pessoas que espirram e tussan. 3º Tocar em objetos contaminados e beber água fora da casa, a não ser em copo próprio. 4º Reuniões de sociedades comprehendo theatros, cinemas, botequins e etc. 5º Levar as mãos a boca, nariz e ouvidos. (A Imprensa, 04 de novem- bro de 1918) A cidade que experimentara no início do século a efervescência de grandes capitais, terminava os anos 1910 em situação calamitosa. Ao longo do segundo semestre de 1918 a doença foi fazendo um número cada vez maior de vítimas, e os jornais reportavam de for- ma partidarizada, com aqueles alinhados ao governo procurando diminuir a percepção da abrangência da doença, e os de oposição ao governo, carregando nas palavras dramáticas. Fato é que em novembro de 1918 todos os cinemas baixaram as portas e deixam de realizar sessões. Não fica claro se atendendo à recomendações do poder público, ou pela falta de frequentadores, mas o registro é que somente em janeiro do ano seguinte é que se voltaria ligar os projetores nos cinemas manauaras novamente. Considerações finais O cinema, inicialmente um dos símbolos da modernidade trazidos à cidade de Manaus, se consolidou nos anos 1910 junto com a instalaçãodas salas fixas de exibição, e em meio à uma situação caótica que envolveu crise econômica, reflexos da I Guerra mundial e o enfren- tamento da epidemia conhecida como Gripe Espanhola. Fruto de um processo agressivo, essa modernização causou atritos entre as diversas formas de usufruir da cidade, e as salas de cinema refletiram isso. É possível evocar os ecos desse momento conturbado através dos indícios coletados nas fontes selecionadas, tendo a consciência de, como fontes textuais, perdermos o universo sensório daquele tempo. Referências CHARNEY, Leo & SCHWARTZ, Vanessa. O cinema e a invenção da vida moderna. São Paulo: Cosac Naify, 2a edição, p. 33-65, 2010. A la n G om es F re ita s 44 COSTA, Deusa. Quando viver ameaça a ordem urbana - trabalhadores de Manaus (1890/1915). Manaus: Editora Valer e Fapeam,2014. DAOU, Ana Maria. A bélle époque Amazônica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000 DIAS, Edinea Mascarenhas. A ilusão do fausto: Manaus, 1890-1920. Manaus: Editora Valer, 1999. GAMA, Rosineide de Melo. Dias mefistofélicos: a gripe elspanhola nos jornais de Manaus (1918 – 1919). Dissertação (Mestrado) - UFAM, Manaus, 2013. LAPERA, Pedro Vinicius Asterito. A encenação da discórdia. Tempo, [s.l.], v. 24, n. 1, p.21-40, jan. 2018. PINHEIRO, Maria Luiza Ugarte. Trajetórias, Dilemas e Tensões da Colônia Espanhola no Ama- zonas (1901-1921). Pontes Entre A Europa e América Latina (XIX-XXI), Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p.167-189, 17 dez. 2018. SANTOS JUNIOR, Paulo Marreiro dos. Manaus da Bélle Époque: tensões entre culturas, ideais e espaços sociais. SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA, 27., 2013, Natal. En tr e ol ha re s: o fí lm ic o, o te at ra l e o p er fo rm át ic o em J ea n G en et 45 Entre olhares: o fílmico, o teatral e o performático em Jean Genet1 Between eyes: the filmic, the theatrical and the performative in Jean Genet Alex Beigui2 (Universidade Federal de Ouro Preto) Resumo: A relação entre as linguagens literárias, teatrais e cinematográficas vem ganhando força em um contexto cada vez mais híbrido e que se efetiva no jogo de negociações es- téticas. Aqui, o conceito de estética deve ser considerado como algo diretamente ligado à experiência e ao vivido. O que une as linguagens em um campo cada vez mais minado, onde o estético é sempre problematizado dentro dos modos de esfacelamento de padrões e ta- xionomias, sendo alguns nomes expoentes na bravata de quebrar as fronteiras e dirimir os lugares fixos de representação A ideia de gênero no filme, apesar de mais evidente, muitas vezes esconde a maturidade com que a manipulação da câmera e dos recursos aponta para uma mistura entre o voyeurismo teatral e o voyeurismo cinematográfico, cujo ponto de con- tato é a relação que o espectador assume na trama fílmica. O olhar insurge como parte inte- grante de um jogo entre desejo e alteridade. Este trabalho visa investigar as relações entre o corpo e as linguagens artísticas presentes no filme Um chant d’amour (1950) de Jean Genet. Palavras-chave: Jean Genet, Cinema experimental, Um Chant d’amour (1950). Abstract: The relationship between literary, theatrical and cinematic languages has been gaining strength in an increasingly hybrid context that is effective in the game of aesthet- ic negotiations. Here, the concept of aesthetics must be considered as something directly linked to experience and lived experience. What unites languages in an increasingly under- mined field, where aesthetics are always problematized within the modes of crumbling pat- terns and taxonomies, with some leading names in the tournament of breaking boundaries and resolving fixed places of representation. In the film, though more evident, it often hides the maturity with which camera and resource manipulation points to a mixture of theatrical voyeurism and cinematic voyeurism, whose point of contact is the viewer’s relationship to the film plot. The gaze emerges as an integral part of a game between desire and otherness. This paper investigates the relationship of the body and the artistic languages present in the movie. Keywords: Jean Genet, Experimental cinema, Un Chant d’amour (1950). Dentro dos múltiplos sentidos em que se articula a obra de Jean Genet, Um chant d´amour (1950) se insere no que podemos intitular “dispositivo político”. Engendrado por uma estética que antecipa a noção de panoptismo foucaultiano, o filme tenciona o espaço do olhar entre quem observa e quem age, diminuindo a distância entre o desejo de quem 1 - Trabalho apresentado no XXIII Encontro SOCINE na sessão: Artes: pintura, teatro, cinema. 2 - Artista-Pesquisador. Mestre em Artes Cênicas (UFBA); doutorado em Literatura Brasileira (USP) e Pós-dou- torado em dramaturgia pela Université de Lausanne. Atualmente é professor da Universidade Federal de Ouro Preto - UFOP. beiguialex@gmail.com mailto:beiguialex@gmail.com A le x B ei gu i 46 observa e pune e o desejo de quem realiza e é punido. A problemática do olhar, no contexto fílmico acumula referências, engrenagem facilitada pelo viés do vídeo-experimental com que a película é pensada e criada. Desse modo, o roteiro aponta para o desejo de filmar o desejo voyeurístico, sobretudo, como gatilho de uma subjetividade desejante, através do corpo em estado privado de liberdade. Trata-se de buscar apreender a percepção de uma realidade material do corpo e seus níveis de intensidade frente ao outro. O outro do corpo, o outro do desejo são reconfigura- dos como parte de uma mesma ação, onde, parafraseando Didi-Huberman (20015), o que vemos nos vê, nos toca e nos modifica. Logo, não se trata mais de um corpo metafísico, con- figurado a partir de um desejo de compreensão do outro, mas um campo de vivência, cujo sentido só ocorre em conexão direta com a ação que realiza e performatiza a linguagem. Um corpo rizomático, diretamente conectado com a ação repetida e desejante do olhar que pune, atrai, rejeita e deseja simultaneamente. A repetição em obra não significa mais exatamente o controle serial, mas a inquietude heurística – ou o heurístico inquieto – em torno de uma perda. O inexpressivo cubo, com sua rejeição consequente de todo ‘expressionismo’ estético, chumbar-se-á finalmente com algo que chama uma jazida de sentido, jogos de linguagem, fogos de imagens, afetos, intensida- des, quase corpos, quase rostos. Em suma, um antropomorfismo em obra (DIDI-HUBERMAN, 2005, p. 119) O Objeto e o abjeto se intercalam como modos de assegurar a existência e a (re)exis- tência em circunstâncias politicamente desfavoráveis. Em verdade, o espectador é colocado, durante os quase 26 minutos de duração do filme, no fluxo desse movimento contraditó- rio. Para Michel Foucault, uma estrutura panóptica requer uma forma geométrica de olhar/ vigiar/punir a partir da qual parece também se alicerçar a estrutura da obra de Genet em termos de emissor/obra/espectador. Imagem 1: cena do filme em que o policial olha pelo buraco da fechadura a intimidade do prisioneiro.3 3 - https://i.pinimg.com/originals/78/80/a4/7880a4f72ac5a7458b28fca7eebddd42.jpg. Acessado em 06/12/2019. https://i.pinimg.com/originals/78/80/a4/7880a4f72ac5a7458b28fca7eebddd42.jpg En tr e ol ha re s: o fí lm ic o, o te at ra l e o p er fo rm át ic o em J ea n G en et 47 É nesse entrecruzamento que o movimento da arte como duplicação da realidade en- tra em crise, uma vez que a relação espelhamento se mantém como indicio não de uma mi- mese, mas de uma identificação incompleta e rasurada, pelo viés crítico-social que atravessa toda a película e, arriscaríamos dizer, toda a obra do autor. A prisão, nesse sentido, parece suplementar a proposição foucaultiana, abrindo um campo em que a privação da liberdade do corpo, contrariamente, permite lança-lo no horizonte do devir-corpo-desejante. A inspeção funciona constantemente. O olhar está alerta em toda parte: “Um corpo de milíciaconsiderável, comandado por bons ofi- ciais e gente de bem”, corpos de guarda nas portas, na prefeitura e em todos os bairros para tornar mais pronta a obediência do povo, e mais absoluta a autoridade dos magistrados, “assim como para vigiar todas as desordens, roubos e pilhagens”. Às portas, postos de vigilância; no fim de cada rua, sentinelas. Todos os dias, o intendente visita o quarteirão de que está encarregado, verifica se os síndicos cumprem suas tarefas, se os habitantes têm queixas; eles ‘fiscalizam seus atos’ (FOUCAULT, 1978, p. 220). Ela, a prisão, possibilita também o imperativo da solidão descomprometida com a mo- ral; há uma ética do corpo em regime de cárcere que condiciona o corpo ao abandono de si. Esse abandono de si vislumbra anular o efeito do tempo. O tempo-destino abre-se para o tempo-transparência e para o tempo-construção do que ainda não existe ou é incapaz de existir quando em condições de normatividade legal. A utopia em Jean Genet aparece como forma de uma ética instituída, segundo a qual, objetiva-se uma total transparência do real. Se na prisão o futuro é apenas desejo e expecta- tiva, o passado (causa) e o presente (circunstância), o corpo-tempo se revela como Kairós, ou seja, encontro das circunstâncias e da vontade. Se o amor é uma via de acesso para pu- rificação na moral cristã, para Jean Genet o corpo contém em si um apelo ético-político de uma incondicionalidade do corpo. A atualidade do tema proposto por Um chant d’amour (1950) diante dos estudos de gênero, assim como no interior da discussão acerca de micropolíticas que envolvem os es- tudos do corpo, faz do filme um dispositivo teórico-prático, cujo paradoxo culmina em uma verdadeiro axioma: pensar a linguagem como performativa e relacional e não meramente descritiva e/ou classificatória. Para Patrice Pavis: Prolongando a intuição de Foucault, Agamben converte o dispo- sitivo em um mecanismo de controle a respeito do qual lhe é fácil mostrar o quanto ele aprisiona os indivíduos, não só em prisões, mas em todas as espécies de instituições e de objetos, desde a escola, a lei, a filosofia, até o cigarro, os computadores, os telefones portáteis: ‘Eu chamo de dispositivo tudo que tem de uma maneira ou de outra a capacidade de capturar, orientar, determinar, interceptar, mode- lar, controlar e assegurar os gestos, as condutas, as opiniões e os discursos dos seres vivos’. Trata-se, então, para se defender desse domínio total do dispositivo sobre os indivíduos, de dessacralizar, de profanar os dispositivos e, portanto, de proceder à ‘restituição ao uso comum daquilo que foi apreendido e separado neles’. (PAVIS, 2017, p. 83.). A le x B ei gu i 48 No centro dessa questão, o filme experimental de Jean Genet coloca o labirinto como perspectiva dialética entre a prisão e a liberdade do corpo, a partir da qual a arquitetura, também, labiríntica do desejo aponta para o barroquismo, cuja sombra, forma e volume perturba os dispositivos de poder, fortemente questionados no filme.4 A ascese erótica, também de ordem dramática e neo-barroca permite-nos pensar a dobra como labirinto da condição humana. Desde Condanné à mort, obra baseada na morte de Maurice Pilorge em 1939, Genet inquieta-se com os dispositivos de poder que operam sua força sobre a vida e o amor entre iguais. O universo masculino em Genet surge sempre como contra-dispositivo que transforma o maldito em sagrado. O excesso e o perverso aproxima o filme de Jean Genet de sua própria vida-labirítica, aproximando-o ora do Minotauro ora de Dedalus. O confinamento, aqui, aponta para a ideia de monstro e de abjeto, que deve viver isolado; o confinamento do maldito, ou daquele que se atreve dizer o contraponto sobre o que se legitimou como o bem. É daí que surge o corpo vigiado e o corpo transgressor. É no “sem saída...” que ele aparece com toda a sua potência, fazendo da cela um espaço de dobra. “Dobra” que pode ser pensada como gozo e dor, vida e obra, prisão e liberdade, aprisionamento e movimento, linguagem escrita e pictórica. Em outras palavras, em Jean gente, e especificamente no filme experimental Um chant d’amour (1950), ela deixa de ser constativa e se assume performativa no sentido de Jean Austin, em todas as suas configurações e contextos enunciativos. Mais preocupado com o ato perlocacionário (o ato de fala em seu momento de realização), Genet está atento à situação de fala perlocucionária e quais as consequências alcançadas daquilo que se diz, se faz e se projeta.5 Sendo um filme mudo e preto e branco, a ênfase recai ainda mais sobre a imagem e sua disposição cartográfica do desejo. 4 - Acerca da relação entre o labirinto e o barroco na obra de Jean Genet, ver o excelente estudo de Daniel Cor- reia Felix de Souza, intitulado: “A paixão segundo Jean Genet: labirintos e barroquismos”, cuja referência comple- ta encontra-se na bibliografia desse artigo. 5 - Para um maior aprofundamento da teoria dos atos de fala de John Austin, ver Quando dizer é fazer: palavras e ação, 1990. En tr e ol ha re s: o fí lm ic o, o te at ra l e o p er fo rm át ic o em J ea n G en et 49 Imagem 2: Cena do banho na cela em que o corpo é visto em diversos ângulos, ressaltando, a Caravaggio, a dramaticidade barroca da luz e da sombra.6 Dentro dessa perspectiva, é interessante o que aponta Eduardo Passos sobre o que envolve o espaço cartográfico, a partir da noção deleuziana. Não se trata, pois, de um filme proposto por um escritor que pretende se aventurar em outra linguagem por vaidade ou oportunismo, mas de um autor que viveu intensamente o seu tempo; um artista lido por Sar- tre, Barthes, Derrida, Deleuze entre outros. Contemporâneo de Antonin Artaud, Jean Genet comunga de algumas ideias acerca não só do corpo sem órgãos, como também da morte do autor e da desconstrução7. Trata-se de uma cartografia conceitual. Para Passos: É pela desestabilização das formas, pela sua abertura (análise) que um plano de composição da realidade pode ser acessado e acompa- nhado. Trata-se de um plano genético que a cartografia desenha ao mesmo tempo em que gera, conferindo ao trabalho da pesquisa seu caráter de intervenção (PASSOS; EIRADO, 2010, p.109). Herdeiro do Teatro do Absurdo, portanto, de uma noção de teatro como modo de articulação e reflexão sobre o seu tempo, ele enve- rada pela experiência marginal e experimental do “conceito” como possibilidade de criação. Sua obra articula pensamento-ação-obra- -vida como esferas da criação indissociáveis, levando-nos a uma lin- guagem performativa, por meio da qual o sentido nunca antecede a vivência e/ou experiência, mas se realiza e se constrói através do corpo que se move, mesmo que em espaços de contínua castração, privação e silenciamentos. Penso que é essa estrutura performati- va que permite identificar um corpo-circuito, um corpo-experiência, um corpo em devir-apropriativo, permitindo-nos visualiza-lo dentro de outras possibilidades identitárias e em outras linguagens, exer- cendo sua irascível crueldade, brutalidade e violência. 6 - https://ludditerobot.com/wp-content/uploads/2016/08/chant-damour3-585x366.png. Acessado em 06/12/2019. 7 - Em outro momento mais oportuno para o meio a que se destina trataremos mais especificamente da relação estabelecida entre Jean Genet e seus contemporâneos. https://ludditerobot.com/wp-content/uploads/2016/08/chant-damour3-585x366.png A le x B ei gu i 50 Imagem 3: Cena homoafetiva entre os prisioneiros na cela.8 Esse recurso utilizado pelo autor recebe toda a sua atenção dramatúrgica também em As Criadas (1947).9 Na peça, a semelhança é invadida todo tempo pela inadequação da pró- pria tentativa de parecer o outro. A ênfase está menos no esforço de se tornar semelhante que no risco de acreditar na ilusão da equidade identitária. O escatológico, o sensível e o suprassensível apontam em Genet como formas deaceitação do corpo enquanto uma centralidade fundante face à moral e às leis vigentes. Para ele, o corpo e a linguagem são produtores de sentido e não meios. Se é verdade que há uma mimese em Jean Genet, é fato também que ela é da ordem do sensível, espécie de uma afecção que tanto pode tornar-se desejo como máquina de punição, através de uma lei que se quer universal em seu cumprimento e equidade. Contudo, através de sua lente, mostra-se irregular, desigual e imperfeita. O corpo resiste a essa espécie de “tara” abstrata da lei pela punição, sua materialidade se dá em forma de resistência. A dança no meio do filme, realiza- da pelo intérprete, performatiza um ritual de êxtase e de resistência. O movimento imanente do erotismo e da transgressão a Georges Bataille cede, paulatinamente, à alegoria fragmen- tada, caleidoscópica entre o dobrar e o desdobrar. O movimento helicoidal do corpo entre a vida e a morte, entre a prisão e a liberdade. 8 - http://www.beyond-the-pale.uk/ChdA4.jpg. Acessado em 06/12/2019. 9 - Peça montada pela primeira vez por Louis Jouvet em 1947, cuja trama parte de um caso verídico, baseado nas irmãs Papin que mataram a patroa e a sua filha, ocorrido na França em 1933. Atualmente na qualidade de Coordenador do Grupo TUI – Teatro Universitário de Informação da Universidade Federal de Ouro Preto, desen- volvo pesquisa sobre o texto e dirijo montagem a ser estreada em 2020, cujo foco é a investigação entre a obra e os dispositivos conceituais de poder em Jean Genet. http://www.beyond-the-pale.uk/ChdA4.jpg. En tr e ol ha re s: o fí lm ic o, o te at ra l e o p er fo rm át ic o em J ea n G en et 51 Imagem 4: Dança ritualística que lembra o transe dos devirxes da Turquia.10 Em Un chant d’amour (1950), presenciamos uma experiência do olhar, através de um estilo híbrido entre o filme, o teatral e o performático da imagem. O corpo é atravessado pelo olhar, fazendo da câmera uma experiência cinestésica, responsável por captar tanto a exterioridade como a interioridade da imagem-corpo-devir. Assim, o corpo se revela como roteiro, escrita de uma cartografia deferida da seguinte questão: o que o corpo permite pensar? E mais ainda em Jean Genet, como o corpo se dá enquanto projeto de pesquisa e investigação, como responde e formula questões em diálogo com outro corpo que lhe é di- ferente, mas não totalmente diferente. No filme, ele espacializa o tempo, temporaliza a ação, criando uma dialética entre exterioridade e interioridades. Referências AGAMBEN, Giorgio. Qu’est ce qu’um dispositive?. Paris: Payot, 2007. AUSTIN, John. Quando dizer é fazer: palavras e ação. Trad. Danilo Marcondes de Souza Filho. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990. DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha. Trad. Paulo Novaes. São Paulo: Ed. 34, 1984. FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Trad. Raquel Ramalhete. Petropólis: Vozes, 1987. GENET, Jean. Oeuvres Complètes. Tome I, II, III, IV. Gallimard. Mayenne, 1985. PASSOS, Eduardo; KASTRUP, Virgínia; ESCÓSSIA, Liliana. Pistas do método cartográfico: pesquisa-intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre: Sulina, 2010. PAVIS, Patrice. Dicionário da performance e do teatro contemporâneo. Trad. Jacó Guins- burg, Marcelo Honório de Godoy e Adriano C. A. Sousa. São Paulo: Perspectiva, 2017. SARTRE, Jean-Paul. Saint Genet, comédien et martyr. Gallimard. Paris, 1952. SOUZA, Daniel. A paixão segundo Jean Genet: labirintos e barroquismos. Dissertação – Uni- versidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2002. 10 - http://www.mediacritica.it/wpcontent/uploads/2018/01/mediacritica_un_chant_damour_290.jpg . Acessa- do em 06/12/2019. http://www.mediacritica.it/wpcontent/uploads/2018/01/mediacritica_un_chant_damour_290.jpg A le xa nd re C am ar go S ca rp el li 52 Bomba de som e música: o discurso distópico de Branco sai, preto fica1 Sound bomb: the dystopian discourse of White out, black in Alexandre Camargo Scarpelli2 (Mestrando – Universidade Federal de São Carlos) Resumo: Este trabalho pretende observar o papel do som e da música na construção do dis- curso fílmico de Branco sai, preto fica (2014, Adirley Queirós) especificamente naquilo que o configura como narrativa distópica de ficção científica – em termos gerais, quanto à essência discursiva do gênero – avaliando, ao mesmo tempo, de que forma som e música cristalizam elementos particulares da mitologia brasileira de ficção científica. Palavras-chave: ficção científica, som, música, cinema brasileiro, Brasília. Abstract: This work investigates the role of sound design and music in building the filmic discourse of White out, black in (2014, Adirley Queirós), specifically regarding the narrative aspects of dystopian science fiction contained in the movie. The analysis searches for the genre’s discursive principles in a broad sense, but also seeking elements particularly related to the Brazilian science fiction mythology. Keywords: science fiction, sound design, film music, Brazilian cinema, lo-fi. O filme Branco sai, preto fica (2014), de Adirley Queirós, constrói o cenário da cidade de Brasília em um futuro próximo, indefinido, distópico e violento. Apesar do hibridismo com a linguagem documental, pode ser entendido como uma obra de ficção científica brasileira. Esta pesquisa parte da hipótese de que há uma relação histórica entre o desenvolvi- mento da ficção científica no cinema e o pensamento de som no audiovisual. Essa evolução mútua, facilmente identificável no cinema industrial, não aparenta receber a mesma atenção em outras cinematografias, como a brasileira. Pretende-se investigar, portanto, o papel do som e da música na construção narrativa do filme Branco sai, preto fica procurando rela- cionar o discurso próprio do gênero da ficção científica (FC) com o Sound Design e com as músicas do filme. Trata-se de uma análise de som, porém, norteada pela compreensão de princípios discursivos da FC, tanto de maneira universal, quanto considerando aspectos próprios do contexto brasileiro. 1 - Trabalho apresentado no XXIII Encontro SOCINE na sessão: Estilo e som no audiovisual. 2 - Bacharel em Audiovisual (ECA-USP) e mestrando do PPGIS - UFSCar. Sob orientação da Prof.ª Dr.ª Suzana Reck Miranda, desenvolve pesquisa sobre som e música em filmes brasileiros de ficção científica. B om ba d e so m e m ús ic a: o d is cu rs o di st óp ic o de B ra nc o sa i, pr et o fic a 53 O presente trabalho se apoia inicialmente em uma análise do filme de Adirley Queirós realizada por Alfredo Suppia, na qual o autor observa a obra sob três conceitos principais: o Lo-fi sci-fi, o Circuit bending e a Borderlands science fiction, ou ficção científica de fronteiras – conceitos que permitem decifrar a construção do discurso de FC presente na narrativa, além de contextualizar o filme em meio à ficção científica do Terceiro Mundo, de maneira geral, e à FC brasileira, mais especificamente (SUPPIA, 2017). O termo Lo-fi sci-fi eventualmente é utilizado para qualificar obras do cinema indus- trial de altos orçamentos, desde que prescindam de estruturas espetaculares de produção. Entretanto, Suppia propõe o conceito Lo-fi sci-fi especificamente apontando obras cuja lin- guagem promove a subversão de convenções do cinema industrial e/ou o afastamento em relação a supostos modelos de ficção científica. O termo refere-se aqui, portanto, a filmes de baixo orçamento nos quais se verifica ausência de explicações científicas para justificar suas narrativas. Privilegiam a criação de atmosferas e subjetividade, geralmente possuindo certa orientação realista. Branco sai, preto fica pode ser entendido como representante des- sa vertente lo-fi de ficção científica brasileira, composta por narrativas ligadas à reciclagem tecnológica, à sucata e à precariedade assumida (tanto na realidade diegética quanto na linguagem adotada pelo filme). O Circuitbending, por sua vez, é um termo empregado metaforicamente na análise de Suppia, mas que se mostra particularmente interessante a este trabalho, por ter sido em- prestado de uma prática ligada às artes sonoras – consiste na reconfiguração de aparelhos elétricos e eletrônicos, principalmente brinquedos e aparelhos domésticos, para utilização em experimentações musicais. Nesse sentido, nota-se um importante papel do som e da música no desenvolvimento do caráter extrapolativo de Branco sai, preto fica: uma das motivações principais dos perso- nagens é explodir o Palácio do Planalto com uma bomba caseira carregada de som e música, construída com sucata tecnológica e composta a partir da mescla de ruídos e paisagens sonoras da Ceilândia captados pelos próprios personagens, além de músicas genuinamente populares e marginalizadas de artistas dessas mesmas regiões periféricas de Brasília. Mar- quim do Tropa é um dos personagens principais do enredo e responsável por coordenar a manufatura do explosivo musical, com auxílio de seu parceiro DJ Jamaika. O Circuit bending se manifesta em seu princípio de ressignificação, uma vez que a gravação das músicas e paisagens sonoras é remodelada para se adequar ao propósito da bomba. O filme coloca em evidência todo o processo criativo e as ferramentas utilizadas nesse artesanato sonoro, apresentando os microfones, gravadores, computadores, caixas de som e demais equipamentos utilizados pelos personagens. Acompanhamos a evolução desse processo em várias cenas, por exemplo, quando Marquim e Jamaika negociam a qualidade do trabalho sonoro e o pagamento pelo serviço, trocando sugestões sobre o que falta em termos de material sonoro, ou quando saem com um gravador portátil captando sons de um mercado da cidade. O objetivo das gravações – a bomba – está presente em todos os mo- mentos e justifica as distorções e modulações aplicadas aos sons. Além disso, ouvimos esse A le xa nd re C am ar go S ca rp el li 54 material como som diegético, nos momentos em que os próprios personagens se colocam a escutar. A precariedade tecnológica dos equipamentos que reproduzem esses sons é per- ceptível no material sonoro que escutamos, em coerência com a estética Lo-fi sci-fi. Em termos mais específicos, o filme é identificável no subgênero do tupinipunk – ter- mo cunhado em 1996 pelo escritor e crítico literário Roberto de Souza Causo – versão joco- sa, iconoclasta e antropofágica de cyberpunk (CAUSO, 2015). Observando a junção entre os termos cybernetics (campo que estuda redes de computadores, informações e inteligência artificial) e punk (natural/artificial, primitivo/urbano, conflitos destrutivos entre o genético e o industrial, etc.) pode-se perceber que tanto o Cyberpunk norte-americano quanto o brasileiro partilham dessa contracultura urbana, porém de modos distintos: ambos possuem estética pós-modernista, mistura de cultura popular com cultura elevada e a proliferação de signos que geram sobrecarga sensorial de informação. No entanto, apesar da notável produ- ção econômica, científica e tecnológica do Brasil pós-ditadura, o gênero do cyberpunk ainda entra em conflito com a história, a cultura e o próprio status de Terceiro Mundo do país. O tupinipunk, portanto, traz uma imagem exótica, levando ao extremo um tipo de tecnologia que permite contestar a hegemonia literária do cyberpunk americano e [...] parodiar de modo auto- consciente noções elitistas de alta cultura no Brasil. Nesse sentido, o tupinipunk se relaciona tanto com a tradição modernista brasileira de canibalismo cultural, quanto a uma sensibili- dade pós-moderna. (GINWAY, 2005, p.156) A bomba de som e música, assim como outras tecnologias precárias presentes no filme, fazem jus aos preceitos do tupinipunk: mais uma vez, é através do som, carregado de índices de materialização, que podemos perceber essas características. O terceiro conceito trazido por Suppia é o da Borderlands science-fiction, temática também ligada ao cenário do cyberpunk e à ficção científica Lo-fi. Branco sai, preto fica entra em consonância com outras obras latino-americanas que também problematizam so- cialmente as diversas fronteiras – físicas e/ou políticas – que levantam discussões sobre os “colapsos identitários e dos direitos humanos na esteira de um capitalismo cognitivo globa- lizado, acentuadamente financeiro e informatizado” (SUPPIA, 2017). Nesse sentido, é exemplar o ícone da Polícia do bem-estar social, autoridade que se manifesta em chamadas nas rádios da cidade, alto-falantes espalhados pelas ruas e viaturas que transitam anunciando toques de recolher e fiscalizações de documentos. Mas a Polícia do bem-estar social nunca aparece na tela; sua existência no filme é exclusivamente sonora – um importante elemento de construção do cenário distópico confeccionado a partir do som. B om ba d e so m e m ús ic a: o d is cu rs o di st óp ic o de B ra nc o sa i, pr et o fic a 55 Neste ponto é interessante observar a teoria do paradigma ausente, postulada por Marc Angenot. Segundo o autor, o leitor moderno pode identificar facilmente um texto como sendo ficção científica, portanto, existem regras ou critérios simples, porém essenciais, que permitem essa identificação. A semiótica pode ser entendida como a formalização dessas regras3 (ANGENOT, 1979). Narrativas de ficção científica sustentam credibilidade não tanto por seus elementos descritos (personagens, máquinas, criaturas etc.), mas, por aquilo que fica omitido ou pres- suposto: normas, instituições, tipos que são sumarizados ou aludidos pelos personagens e eventos – ou seja, os ícones fazem parte de uma estrutura maior. De certa forma, é um ca- minho oposto ao realismo literário, que parte de um mundo geral, conhecido, e adentra no particular. A ficção científica parte de seus personagens para cristalizar regras imaginárias, materializar o universo ficcional através da conjectura. Personagens de ficção científica não são apenas indivíduos, mas representantes de um grupo, espécie ou classe: um recurso re- tórico peculiar ao tipo de realismo próprio do gênero, onde o estranho é naturalizado pelo texto. Na opinião de Angenot, se paradigmas conhecidos fossem utilizados para descrever detalhadamente o mundo ficcional, o resultado seria uma narrativa superficial. Mas, se é mantida uma distância entre o empírico e o exotópico, aumenta o potencial de especulação – potência maior da narrativa de ficção científica. O gênero desenvolve-se em sua própria estrutura, seu próprio projeto cognitivo. Seu realismo reside na ilusão paradigmática: códi- gos, séries, coordenadas, sistemas, são simultaneamente ausentes e indispensáveis para a coerência textual (ANGENOT,1979). A fim de observar esse mecanismo nos elementos sonoros do filme (enquanto cons- tituintes do discurso), podemos lançar mão do conceito de valor adicionado do som na imagem, postulado por Michel Chion. O autor usa como exemplo a famosa cena da praia do filme As férias do senhor Hulot (Jacques Tati, 1954), na qual a imagem mostra a família do protagonista em uma praia relativamente vazia, ao passo em que a banda sonora carrega o vozerio de diversas crianças rindo e se divertindo (CHION, 1994, p.4). Uma das cenas de toque de recolher em Branco sai, preto fica é curiosamente semelhante, no sentido da dis- sonância entre a imagem e a banda sonora – a primeira é ausente de algo que é trazido pela segunda: a imagem mostra Marquim olhando a tela de uma câmera de segurança onde ele vê crianças brincando na rua de sua casa. Na banda sonora, porém, ouvimos a chamada da Polícia do bem-estar social. Esse exemplo, além de demonstrar um importante papel do som no desenvolvimento da narrativa, expõe de maneira didática a metodologia deste trabalho: buscar teorias que investiguem princípios discursivos da ficção científica e introduzi-las na análise de som, afimde configurar uma perspectiva analítica específica, que busca elementos sonoros específicos e/ou funções particulares para tais sons, ou seja, participando da construção do discurso narrativo naquilo que o configura como ficção científica. 3 - Angenot utiliza o conceito de paradigma (juntamente ao conceito de sintagma) como entendidos na semió- tica funcional europeia da linguística Saussuriana da escola estruturalista. A le xa nd re C am ar go S ca rp el li 56 Diversos outros momentos do filme podem ser analisados sob essa chave, como as cenas em que Dimas Cravalanças (o viajante do futuro) corre em direção à sua máquina do tempo para fugir e se esconder: a imagem mostra Dimas correndo sozinho, muitas vezes em lugares amplos e vazios, mas o som traz sirenes, alarmes, sons de tiroteio, sugerindo um grande grupo de pessoas, talvez um exército, correndo atrás de Dimas. Os filmes de ficção científica de fronteira, portanto, utilizam-se dessas construções para problematizar “o recrudescimento dos nacionalismos, a xenofobia, o acirramento do estado policial, os rearranjos em termos de fluxos migratórios internacionais e a convivência multiétnica ou multicultural” (SUPPIA, 2017). No filme de Adirley Queirós, é principalmente através de ruídos e sons ambientes que a narrativa sugere algo maior – bombas, metralha- doras e helicópteros que apontam um cenário de conflito, por exemplo. À guisa de conclusão, cabe apontar que Branco sai, preto fica, por ser uma narrativa distópica, traz esses tensionamentos sociais para dentro de uma narrativa especulativa, mas de uma forma que acaba tensionando o próprio fator de estranhamento do discurso de fic- ção científica – que pode ser considerado o esqueleto formal, a base poética de qualquer narrativa do gênero (SUVIN, 1979). Ao se utilizar de sons que não são estranhos ao nosso mundo empírico, mas que po- dem ser incomuns à realidade de parte do público, o filme não deixa claro se o estranha- mento provocado é decorrente de seu desenvolvimento discursivo de ficção científica ou se depende de uma subjetividade na recepção ligada à questões de classe. Os sons de heli- cópteros, por exemplo, não apontam para uma máquina futurista ou alguma tecnologia ima- ginada, mas sugerem que ali no filme há uma força policial, uma autoridade governamental, talvez alguém que, por sua posição social privilegiada, seja mantenedora daquela situação de devastação urbana. O discurso de ficção científica, portanto, ressignifica esse elemento sonoro, ao mesmo tempo que o incorpora como essencial em sua construção. Mais do que isso: o fator de estranhamento da narrativa muda de teor de acordo com quem é o espec- tador: o que significam sons de helicóptero para moradores de bairros de classe média? evocam medo na população assim como no filme? Em outras palavras, Branco sai, preto fica é uma ficção científica mais ou menos estranha dependendo de quem é o espectador que vê e ouve o filme. O objetivo deste trabalho, por fim, foi compreender Branco sai, preto fica, sob a ótica das teorias de ficção científica e entender o papel do som nos processos de construção narrativa e seus efeitos. Procurei demonstrar em alguns poucos exemplos que o desenho de som e as estratégias musicais deste filme brasileiro de ficção científica – mesmo subvertendo ou afastando-se das convenções sonoras de sua contraparte anglo-americana – continuam em harmonia com aspectos essenciais do discurso narrativo que caracteriza o gênero, ao mesmo tempo em que cristalizam elementos particulares da mitologia brasileira de ficção científica. B om ba d e so m e m ús ic a: o d is cu rs o di st óp ic o de B ra nc o sa i, pr et o fic a 57 Este trabalho é uma primeira tentativa de análise sonora que escape da busca pela ico- nografia e estratégias formais da tradição anglo-americana de filmes do gênero, procurando observações mais adequadas a cinematografias de ficção científica externas à Hollywood, como a europeia, a latino-americana de maneira geral e, especificamente no recorte deste trabalho, uma obra do cinema brasileiro de ficção científica. Referências ANGENOT, M. The absent paradigm: an introduction to the semiotics of science fiction. Science Fiction Studies, v. 6, n. 1, p. 9-19, 1979. CAUSO, R. S. O estado da arte: ficção científica tupinipunk. Papêra Uirandê Especial, n. 9, out. 2015. CHION, M. Audio-vision: sound on screen. New York: Columbia University Press, 1994. GINWAY, M. E. Ficção científica brasileira: mitos culturais e nacionalidade no país do futuro. São Paulo: Devir, 2005. SUPPIA, A. Acesso negado: circuit bending, borderlands science fiction e lo-fi sci-fi em Bran- co sai, preto fica. Famecos, Porto Alegre, v. 4, n. 1, jan/abr 2017. SUVIN, D. Metamorphosis of science fiction: on the poetics and history of a literary genre. London/New Haven: Yale University Press, 1979. A le xa nd re F ig ue irô a 58 Preservação e memória na atuação do crítico-cineasta Fernando Spencer1 Preservation and memory in the acting of the critic and filmmaker Fernando Spencer Alexandre Figueirôa2 (Doutor – UNICAP) Resumo: A manutenção de acervos cinematográficos é fundamental para a preservação da memória do cinema brasileiro. Em Pernambuco, o cineasta e crítico Fernando Spencer é um nome incontornável, sobretudo pelo papel que desempenhou na preservação do Ciclo do Recife, tanto nas páginas do jornal Diario de Pernambuco, quanto no período em que foi diretor da Cinemateca da Fundação Joaquim Nabuco, no Recife. Palavras-chave: Fernando Spencer, Ciclo do Recife, preservação, memória, crítica. Abstract: The maintenance of film collections is fundamental for the preservation of the memory of Brazilian cinema. In Pernambuco, filmmaker and critic Fernando Spencer is an unavoidable name, especially for the role he played in preserving the Ciclo do Recife, both in the pages of the newspaper Diario de Pernambuco, and during his time as director of the Joaquim Nabuco Foundation Cinematheque, in Recife. Keywords: Fernando Spencer, Ciclo do Recife, preservation, memory, criticismo. A conservação e a guarda de filmes é uma ação fundamental para a preservação da memória do cinema. No Brasil, é sabida as dificuldades para manutenção dos acervos cine- matográficos do país, a exemplo da Cinemateca Brasileira, em São Paulo. Em 1981, Carlos Augusto Calil já observava: “Todos conhecemos a impossibilidade de se reconstituir, no Brasil, o copioso acervo de filmes, aqui produzidos desde 1898. O descaso e a diversidade climática e a própria friabilidade da película cinema- tográfica são responsáveis pelo desaparecimento de quase toda a produção até nossos dias. O que sobreviveu foi obra do mero aca- so.” (CALIL, 1981, p.12) Passados 38 anos, a situação dos acervos melhorou um pouco, mas, como assinalou Calil, naquele momento, a coleção de filmes existentes não era representativa da evolução do cinema brasileiro, pois apenas momentos dessa evolução é que se encontravam preser- vados. 1 - Trabalho apresentado no XXIII Encontro SOCINE na sessão: Subjetividades e individualidades. Autoria, críti- ca, história social 2 - Doutor em Estudos Cinematográficos, crítico e pesquisador, professor adjunto do curso de Jornalismo e do Mestrado Profissional em Industrias Criativas da Universidade Católica de Pernambuco. Pr es er va çã o e m em ór ia n a at ua çã o do c rít ic o- ci ne as ta F er na nd o Sp en ce r 59 Em Pernambuco, a situação dos acervos também sempre foi marcada pela penúria. O Museu da Imagem e do Som de Pernambuco (MISPE) possui uma coleção de filmes, mas que está longe de ser representativa de tudo que foi realizado no estado. Outro acervo local é o da Cinemateca da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), inicialmente uma filmoteca, trans- formada em cinemateca em 1982. Nesse contexto, um nome, porém, chama atenção. Entre as obrasdo “mero acaso”, como citou Calil, um momento do cinema brasileiro, ou parte dele, sobreviveu a tragédia do desaparecimento completo: o Ciclo do Recife. E foi graças, em parte, a Fernando Spencer, que temos hoje um acervo de filmes (ou trechos deles), textos e fotos de um dos ciclos mais importantes do cinema brasileiro. Fernando Spencer, além de cineasta e crítico do jornal Diário de Pernambuco de 1958 a 1998, exerceu uma militância constante a favor de tudo que dizia respeito à arte cinemato- gráfica. Foi defensor da profissionalização da produção de filmes, do cineclubismo, criou o Cinema de Arte do Recife e, como diretor da Cinemateca da Fundaj, a partir de 1980 – cargo que ocupou por 20 anos –, articulou várias ações ligadas a preservação de filmes. Preservar é preciso A consciência da importância de se manter uma memória do cinema pernambucano já era um fato quando Spencer ainda estava dando os seus primeiros passos como crítico de cinema. Em 1962, ele abriu a página de cinema por ele editada, para que Jota Soares, um dos pioneiros do cinema pernambucano, diretor e ator de filmes do Ciclo do Recife, entre os quais A Filha do Advogado (1926), publicasse uma série de 59 crônicas na coluna denomina- da Relembrando o cinema pernambucano. O primeiro texto foi publicado em 2 de dezembro de 1962 e o último em 23 de fevereiro de 1964. Após o fim do Ciclo do Recife, em 1931, Jota Soares continuou exercendo trabalhos paralelos como empregado do comércio e músico, tocando cavaquinho em blocos carna- valescos e piano em cabarés. Depois de trabalhar no departamento comercial do Jornal Pequeno, em 1950, começou a praticar o jornalismo, sendo colaborador do Diário da Tarde e da Folha do Recife. Na Rádio Tamandaré produziu o programa Epopeia do Cinema com críticas, comentários e entrevistas e foi ainda comentarista esportivo das rádios Clube, Ca- pibaribe e Olinda. Jota Soares, mesmo passados 30 anos do último filme do Ciclo do Recife, No Cenário da Vida, dirigido por ele próprio, continuava dando valor ao que acontecera nos anos 20. Soares foi um colecionador obsessivo. Ele reunia diversos tipos de documentos cinemato- gráficos independente da qualidade e do gênero dos filmes. Sua coleção continha filmes, revistas, livros, fotos, álbuns, cartazes, material promocional dos filmes, discos, etc., tudo datado e organizado. Em meio a esse material, Soares tinha consigo também um valioso arquivo sobre o Ciclo e solicitou a Spencer, no início dos anos 1960, a publicação desse ma- terial na seção de cinema do Diario de Pernambuco. A le xa nd re F ig ue irô a 60 A autorização inicial demorou um pouco. Inicialmente as notas eram pequenas, sem títulos, mas, com o relativo sucesso alcançado, as crônicas passaram a ocupar um quarto de página. Segundo o pesquisador Paulo Cunha a direção do jornal implicava com o estilo do texto por ele ser excessivamente adjetivado, usar expressões anacrônicas e também pela forma de diagramação. Jota Soares ficava junto aos gráficos da oficina exigindo a colocação de negritos, itálicos e vinhetas, elementos já em desuso pelos jornais da época. Mas, confor- me Cunha, a percepção de Spencer do valor das histórias narradas por Jota Soares, permi- tiu que a publicação continuasse (CUNHA, 2006, p.12). O reconhecimento da importância desse acervo e sua compra pela Fundação Joaquim Nabuco, em 1984, deve-se, portanto, ao empenho pessoal de Fernando Spencer, que em seguida cuidou de sua catalogação e conservação. É importante observar que até a publicação dessas crônicas não havia nada de consis- tente publicado sobre o Ciclo do Recife. Foi a partir daí que se despertou para a necessidade de se preservar essa memória e quando surgiram trabalhos de pesquisa, implementados anos mais tarde com a ida do acervo de Jota Soares para a Fundação Joaquim Nabuco a exemplo da primeira tese de mestrado sobre o Ciclo realizada, em 1970, por Lucila Ribeiro Bernardet para a Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Nos anos 1980, Fernando Spencer retomou essa preocupação com a preservação do Ciclo do Recife. A atuação Spencer como guardião herdeiro do Ciclo e suas outras iniciativas em prol da preservação de obras cinematográficas é um dos aspectos abordados na pes- quisa “A produção jornalística e cinematográfica de Fernando Spencer e sua contribuição à cultura pernambucana”, que está sendo realizada juntamente com o professor e pesquisador Cláudio Bezerra. O convite para Fernando Spencer trabalhar na Filmoteca da Fundação Joaquim Nabu- co, que, na época, tinha um acervo com filmes do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa (Inep) foi uma iniciativa do então presidente do órgão, Fernando Freyre, em 1980. Não havia ninguém na instituição responsável pelo setor de audiovisual e o acervo existente, além de pequeno, era composto principalmente por filmes didáticos que, mais tarde, Spencer ajudou a catalogar. Quando contratado, a primeira medida de Spencer foi transformar a filmoteca em cinemateca. Na época, em entrevista, Spencer declarou: “Filmoteca não exige pesquisa, restauração. [...] Cinemateca é mais abrangente! É o cinema de modo geral: a história, a res- tauração, a conservação, aquisição de novas obras” (BLOG DA FUNDAÇÃO, 2014). Para ele a importância da cinemateca residia na necessidade de ela atender a toda a região. O início da coordenação da Cinemateca, no entanto, não foi fácil. A garantia da preser- vação do acervo e da aquisição de coleções como a de Jota Soares demandavam recursos e eles eram poucos. As verbas necessárias precisavam ser duramente conquistadas e, além disso, os funcionários não tinham formação na área de preservação audiovisual. A pesqui- sadora Jéssika Evelyn, ao realizar um trabalho sobre representações de gênero no cinema pernambucano da década de 20, conta que Spencer trabalhava buscando soluções simples Pr es er va çã o e m em ór ia n a at ua çã o do c rít ic o- ci ne as ta F er na nd o Sp en ce r 61 e possíveis diante das condições existentes. O acondicionamento dos filmes não era ideal, mas ele usava uma tabela para acompanhamento da temperatura da sala de nitratos, o ma- terial mais sensível lá existente (ALVES, 2017). Apesar dos percalços, durante o período em que comandou a Cinemateca da Fundaj, situada ainda no bairro de Casa Forte, Spencer, além de catalogar os filmes, promoveu ou- tras iniciativas ligadas a difusão da arte cinematográfica. Fez entrevistas com realizadores, estimulou a aquisição de obras e organizou eventos com a participação da Fundaj. Na Sala Jota Soares, localizada na Casa da Cultura do Recife, Spencer promoveu diversas mostras, expandindo para a Fundaj um pouco do trabalho que realizava no Cinema de Arte. Em con- vênio com os consulados da França, Alemanha e Japão organizou semanas de cinema de arte, retrospectivas de cineastas como Alberto Cavalcanti, Charles Chaplin e de documentá- rios do acervo da Cinemateca. Foi também por iniciativa dele que foi comprado todo o acervo de filmes de Jota Soa- res. Em seguida adquiriu filmes de Fernando Monteiro, de Paulo Gil Soares, o filme de Ben- jamim Abrahão sobre Lampião, trouxe de volta para a Fundaj filmes pernambucanos como O Carnaval do Recife, de Edson Chagas, entre outros, e o acervo em 16 mm de reportagens da Globo Nordeste feitas de 1975 a 1983. Hoje, a Cinemateca da Fundaj tem um acervo bem mais amplo, inclusive conta com um conjunto de 38 obras realizadas por Spencer, entre fil- mes e vídeos. Um dos eventos marcantes promovido por Spencer no período em que esteve à frente da Cinemateca da Fundaj foi o relançamento nacional, em 1981, de A Filha do Advogado, de Jota Soares, na Sala Roquete Pinto, uma iniciativa conjunta da Fundaj e da Embrafilme. Em 1980, a Embrafilme adquiriu os direitos de contratipagem e restaurou, nos laboratórios da Ci- nemateca Brasileira, a obra mais importante doCiclo do Recife. Na noite da estreia estiveram presentes o produtor da Aurora Filmes João Pedrosa da Fonseca, Jota Soares, o diretor da Embrafilme Celso Amorim e mais Carlos Augusto Calil e Cosme Alves Neto. A exibição teve acompanhamento musical da pianista Josefina Aguiar. Um cineasta da memória Como realizador, Spencer admirava o cinema clássico hollywoodiano e europeu e, ao mesmo tempo, era aberto para o cinema experimental. Em boa parte dos seus trabalhos, ele usava recursos de metalinguagem e intertextualidade. A partir dos anos 1970, ele se tornou uma figura de destaque na produção pernambucana ao realizar curtas-metragens, nas bito- las Super 8, 16mm e 35mm, e em vídeo. Dois temas são recorrentes na obra fílmica de Fer- nando Spencer: o cinema e a cultura popular do Nordeste. Essas temáticas têm uma relação direta com a infância do realizador e são fortemente atravessadas pela memória e o afeto. Encantados com os folguedos de rua como os pastoris, os maracatus, os caboclinhos, ele se tornou um respeitado documentarista dos costumes e personagens da cultura popular. En- A le xa nd re F ig ue irô a 62 tre as principais obras com essa temática estão Santa do Maracatu (1980), sobre as origens do maracatu, e Evocações Nelson Ferreira (1987), sobre um dos maiores compositores do frevo pernambucano. A outra temática recorrente na obra de Spencer, o cinema, marcou sua trajetória de vida. Uma paixão incondicional que o levou a realizar nove títulos tendo o cinema como ob- jeto, entre os quais Cinema Glória (1979), realizado com Félix Filho, sobre a mais antiga sala de cinema em atividade no centro do Recife até então. O documentário traz depoimentos de antigos frequentadores sobre o passado do cinema e estabelece uma comparação quase melancólica com imagens da monotonia e do esvaziamento da sala. Sombras Adeus (1982) aborda o desaparecimento das tradicionais salas de cinema do Recife transformadas em estabelecimentos comerciais ou igrejas neopentecostais. “Fernando Spencer é um cineasta preocupado não em fazer cinema pelo cinema, simplesmente; em fazer apenas cinema sobre o cinema do Recife, mas, em documentar e, sobretudo, recriar artisticamente, as coisas da nossa cultura, da cultura do Nordeste e, especialmente, do Recife, da cerâmica artesanal de Caruaru à música de Nelson Fer- reira”. (VILA NOVA in SPENCER, 1989, p.22) A relação de Spencer com o mais longo ciclo de produção regional brasileiro, que durou de 1923 a 1931 e realizou 13 longas metragens de ficção, fez convergir para ele, ainda com mais força, a militância cinematográfica conjugada com os papéis de preservador e his- toriador. A proximidade com o tema o levou a produzir seis filmes sobre o Ciclo do Recife: os documentários Almeri e Ari, Ciclo do Recife e da Vida (1981), Jota Soares, um Pioneiro do Cinema (1981), Memorando o Ciclo do Recife (1982), História de Amor em 16 Quadros por Segundo (1988), Almery, a Estrela (2006) e o docudrama Estrelas de Celulóide (1986). Os filmes de Fernando Spencer sobre o Ciclo do Recife são obras simples e honestas, marcadas pelo seu compromisso com a preservação da memória e por um lirismo poético onde o domínio da técnica cinematográfica aprofunda o conhecimento que ele detém sobre o tema enfocado. A ficção Estrelas de Celulóide (1986) é emblemática para perceber a for- ma como ele criou laços com o Ciclo do Recife. O ponto de partida da trama é o sonho e a fantasia de ser uma estrela de cinema, lançando um olhar poético e feminino sobre o Ciclo. A partir da curiosidade de quatro jovens somos levados a um chá imaginário entre os anos 1920 e 1930, reunindo cinco estrelas do Ciclo – as atrizes Almery Steves, Mariinha Marrocos, Guiomar Teixeira, Rilda Fernandes e Mazyl Jurema. Segundo Cláudio Bezerra, Estrelas de Celulóide: “... revela muito da visão de Spencer sobre o cinema. Para ele, o cine- ma é fantasia, tem a dimensão de um sonho e em seus filmes sobre o Ciclo, ele retoma certo olhar para o cinema próprio dos protago- nistas daquela época, ou seja, o cinema como lugar de uma utopia moderna e amadora”. (BEZERRA, 2018). Pr es er va çã o e m em ór ia n a at ua çã o do c rít ic o- ci ne as ta F er na nd o Sp en ce r 63 A realização de Ciclo – História de Amor em 16 Quadros por Segundo carrega também essa marca dos pioneiros, pois foi feito com o mesmo espírito desbravador dos cineastas da década de 20. O vídeo, com 26 minutos de duração, foi elaborado por Spencer e o jornalista Amin Stepple e implicou numa longa pesquisa nos acervos do Ciclo e cerca de 70 horas na ilha de edição para montar o material composto por depoimentos, entrevistas, trechos de filmes, fotos. Uma reordenação da memória, quase uma ressurreição do Ciclo como tão bem descreveu Geneton Moraes Neto: “... setenta horas foi o tempo que Fernando Spencer e Amin Ste- pple, cirurgiões da imagem, passaram numa ilha de edição... Ao final da cirurgia, restaurou-se a vida ao Ciclo do Recife através da única arma capaz de enfrentar as garras do tempo: a imagem. Somente a imagem é eterna. ... Há anos e anos Spencer vem reconstruindo, em filmes de curta-metragem, a memória dessa aventura nordesti- na. Amin Stepple já flagrou, com as câmeras da TV Globo, a imagem dos sobreviventes do Ciclo do Recife. Agora, os dois se unem para promover, num vídeo, feito às próprias custas, com o apoio funda- mental da Center, uma nova ressurreição do Ciclo do Recife. Uma outra epopeia nordestina.” (MORAES NETO in SPENCER, 1989, p.25) Referências ALVES, Jéssika Evelyn Leitão. Gênero em cena: representações no cinema pernambucano da década de 20. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2017. BEHAR, Regina. “Labirintos da memória no cinema pernambucano: o “ciclo” da década de 20”. In: ANPUH – XXII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA, João Pessoa, 2003. Anais ele- trônicos ANPUH, 2003. Disponível em: https://anpuh.org.br/uploads/anais-simposios/pd- f/2019-01/1548177542_8606a1971c16416ea843fba1c0e88b7e.pdf. Acesso em: 02 dez. 2019. BEZERRA, Cláudio R. A.; FIGUEIRÔA, Alexandre. O documentário em Pernambuco no século XX. Recife: FASA/MXM Gráfica e Editora, 2016. CUNHA, Paulo. Relembrando o cinema pernambucano. Recife: Editora Massangana, 2006. FIGUEIRÔA, Alexandre. Cinema pernambucano: uma história em ciclos. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2000. O LEGADO de Spencer e a Cinemateca da Fundaj. Blog da Fundação, 2014. Disponível em https://www.fundaj.gov.br/index.php/pesquisas-em-andamento-nees/131-blog-da-funda- cao/noticias/746-o-legado-de-spencer-e-a-cinemateca-da-fundaj. Acesso em: 04 dez. 2019. SPENCER, Fernando. 20 Anos de Cinema 1969/1989. Recife: Edições Bagaço, 1989. A le xa nd re R os sa to A ug us ti 64 Cinema noir italiano: a (in)dependência de uma femme fatale clássica1 Italian film noir: the (in)dependency of a classic femme fatale Alexandre Rossato Augusti2 (Pós-doutor – Unipampa) Resumo: Analisa-se o cinema noir clássico italiano, a partir da perspectiva do hedonismo, alicerçado na figura da femme fatale. Ilustra-se a proposta com o filme O Bandido (Il Bandito - Alberto Lattuada, 1946), apontando-se a singularidade da personagem Lidia (Anna Magna- ni) como chefe de uma gangue composta por homens. A metodologia tem base na proposta analítica de Diane Rose (Análise de imagens em movimento, 2002) e de Francis Vanoye e Anne Goliot-Lété (Ensaio sobre análise fílmica, 1994). Palavras-chave: Cinema noir, hedonismo, femme fatale, O bandido. Abstract: The classic italian film noir is analyzed from the hedonism perspective, grounded on the femme fatale figure. The proposal is illustrated with the movie The Bandit (Il Bandito - Alberto Lattuada, 1946), pointing out the uniqueness of the character Lidia (Anna Mag- nani) as the chief of a gang made up of men. The methodology has basis on the analytical proposal of Diane Rose (Analysisof moving images, 2002) and of Francis Vanoye and Anne Goliot-Lété (Précis d’analyse filmique, 1994). Keywords: Film noir, hedonism, femme fatale, The Bandit. Introdução Este texto parte de algumas das conclusões decorrentes de trabalhos produzidos du- rante o pós-doutorado do autor desta proposta, e faz parte do projeto de pesquisa A pers- pectiva hedonista no cinema noir e neonoir italianos, desenvolvido pelo autor na Universida- de Federal do Pampa (Unipampa)3. Para a presente comunicação, ressalta-se a perspectiva hedonista dos filmes noir ita- lianos, sustentada mais particularmente pela atuação da femme fatale, que pode apresentar algumas características específicas no contexto italiano. Remete-se às alusões à beleza e ao sexo, como elementos que reportam ao hedonismo. No caso do filme analisado nesta 1 - Trabalho apresentado no XXIII Encontro SOCINE na sessão: REPRESENTAÇÕES DO FEMININO 3. 2 - Professor de Jornalismo (UNIPAMPA). Bacharel em Jornalismo (UFSM). Mestre em Comunicação e Infor- mação (UFRGS). Doutor em Comunicação Social (PUCRS). Pós-doutor em Comunicação e Informação (UFRGS). 3 - A graduanda Vitória Farinha de Oliveira divide a autoria deste texto com o autor já referenciado. C in em a no ir ita lia no : a ( in )d ep en dê nc ia d e um a fe m m e fa ta le c lá ss ic a 65 proposta – O Bandido (Il Bandito - Alberto Lattuada, 1946) – tem-se a femme fatale Lidia (interpretada por Anna Magnani) como a chefe de uma gangue, desafiando em diversos momentos a supremacia masculina. Como orientação metodológica, traz-se a proposta analítica de Diane Rose, através do texto Análise de imagens em movimento (2002)4; e a Análise Fílmica, utilizando-se os autores Francis Vanoye e Anne Goliot-Lété, com a obra Ensaio sobre a análise fílmica (1994). Ressalta-se, com base na Análise Fílmica e Vanoye e Goliot-Lété, a ideia de extrair do filme certos materiais para que sejam avaliados esses recortes, permitindo-se sua análise em se- parado e não mais em conjunto com os demais materiais da obra, sendo isto que permite descobrir o que não seria possível quando tomado o filme como um todo. Os materiais são selecionados conforme as pertinências da análise, que destaca o hedonismo amparado pela figura da femme fatale. Após a seleção, esses elementos vão sendo descritos e interpreta- dos, tendo-se em vista os referenciais teóricos e metodológicos considerados. A análise do filme O Bandido transita pela preocupação em compreender a incomum personagem Lidia. Ao contrário do que se esperava do film noir em seu período clássico, que traria uma personagem em geral limitada materialmente e que busca ascensão, ele apresen- ta uma femme fatale mais distante de seus padrões, pois se descobre Lidia como líder, já rica e chefe de uma gangue desde o início da narrativa. E ainda uma femme fatale distanciada dos padrões de beleza valorizados pelo gênero. Também diferente do esperado, ela encanta a personagem Ernesto (interpretada por Amedeo Nazzari) e por ele se encanta, ajudando-o, enquanto normalmente é o protagonista masculino quem ofereceria ascensão social à fem- me fatale, que o seduziria com esse intento. Pretende-se, também, entender e acompanhar o comportamento masculino a partir de seu potencial hedonista. O cinema noir e a femme fatale O noir tem inspiração na literatura, na psicanálise e no expressionismo alemão. Com histórias adaptadas de livros sobre crimes, traz do expressionismo características quanto ao espaço cênico, além de outros elementos, e apresenta a complexidade psicológica das personagens, com ganhos da perspectiva psicanalítica. “Enquanto no filme de gangsters a criminalidade é mostrada como um problema social, no film noir exploram-se as razões psi- cológicas do criminoso.” (CARVALHO, 2011, p 16). A femme fatale é considerada uma das figuras mais importantes para o desenvolvi- mento da narrativa noir, e recebe destaque nesta análise. “O filme noir traz a mulher como elemento fundamental. Ainda que não lhe seja oferecido o mesmo espaço que é dado ao protagonista, as ações da primeira alteram e direcionam a trama.” (AUGUSTI, 2013, p. 53). 4 - No presente texto, suprimem-se as tabelas com descrições das dimensões verbal e sonora do texto, e que foram adaptadas da proposta metodológica de Rose, em virtude das limitações de caracteres. A le xa nd re R os sa to A ug us ti 66 Entretanto, o cinema noir apresenta caráter misógino. “O filme noir, usualmente, exclui as mulheres das posições de poder nos contextos econômico, social e legal.” (CARVALHO, 2011, p 43). A femme fatale ganha o estigma de manipuladora e é responsabilizada pelas ações negativas do protagonista. “No melhor dos casos, é uma cantora que faz aparições gloriosas em vestidos de lantejoulas. No pior, não é flor que se cheire, revelando-se na sua beleza fria, uma reles assassina.” (NAZÁRIO, 1986, p. 61). É importante salientar que o cinema noir é, predominantemente, uma construção do universo masculino. Principalmente produ- zido por homens, é comum visualizar-se no gênero a personagem principal como do sexo masculino, com a trama muitas vezes sendo narrada pela sua perspectiva. A femme fatale de o bandido: uma mandante no universo masculino Tendo sua estreia um ano após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1946, o filme O Bandido exibe as dificuldades encontradas na época, como o desemprego e a miséria. Inicia-se com a chegada de Ernesto a Turim, na Itália, onde se depara com uma realidade deplorável, um clima depressivo, uma economia decadente, a morte de sua mãe e o desapa- recimento de sua irmã. Desiludido, ele tenta buscar emprego e formas de renda legais, até o momento em que encontra Lidia. Ela é chefe de uma gangue formada por homens e acaba ajudando Ernesto, quando ele é culpado pela morte de sua irmã e do assassino da última. Sem outro caminho aparen- te, ele acaba se envolvendo nos roubos que Lidia comanda e também amorosamente com ela. A femme fatale contradiz as características comuns do noir clássico (ressalta-se que a presente obra em análise participa desta delimitação) quando lidera o universo masculino da narrativa, é bem melhor sucedida que o protagonista, que, de certo modo, acaba depen- dente dela. Fugindo do final esperado, Lidia acaba viva e sem nenhuma outra perda além de seu amante. O primeiro encontro do futuro casal A cena inicia com Ernesto caminhando pela rua, cabisbaixo, após uma série de in- sistências à procura de um trabalho. Na cena anterior, ele comenta com um homem que “prefere um trabalho legal”, em que se entende que o protagonista é um homem com certa preocupação moral. Enquanto a câmera acompanha o andar do protagonista, uma mulher sai de um estabelecimento, esbarrando em Ernesto. Ela anda apressadamente, segurando flores, com roupas de gala e fazendo comentários sobre perda de milhões de dólares com o homem que a acompanha. Ernesto continua a encarar Lidia, que entra em um carro em que mais dois homens a esperam. A partir disso, percebe-se que a femme fatale tem um certo poder em relação aos homens, pois, na sua primeira aparição, observamos ela reclamando das atitudes de seu companheiro, que fica quieto e apenas a escuta falar. C in em a no ir ita lia no : a ( in )d ep en dê nc ia d e um a fe m m e fa ta le c lá ss ic a 67 Assim que o carro acelera, Ernesto percebe que a bolsa da mulher ficou no local. Quando a especula, ele encontra notas de dinheiro e uma foto. Apesar de ocorrer um pen- samento de roubar a quantia ali deixada, ele devolve o dinheiro à bolsa, novamente exibindo outro sinal de conduta moral. A posição de poder já é explícita na primeira cena em que a femme fatale aparece. Além disso, há uma certa violência empregada no tom irônico de sua fala. Apesar do humor negro presente na cena, comum das narrativas noir, um big close up dá uma dimensão de perigo para os homensao seu redor, já que a mulher os ameaça com atitudes ríspidas. O maior motivador das ações futuras da mulher e do seu desenvolvimento na narrativa já é evidenciado: o dinheiro. Ernesto, desde o princípio apresentando bons valores, depara-se com a dúvida sobre furtar, pela primeira vez na narrativa. A ambígua personagem Lidia Em uma próxima cena, Mirko (que depois se revela como seu parceiro de negócios – personagem interpretada por Mino Doro) discute com Lidia e logo a mulher se impõe, xin- gando-o e exigindo ordem. A campainha toca, interrompendo a discussão, quando se pres- supõe a chegada de Ernesto. Lidia se mostra impessoal e desconfiada ao não reconhecer o homem à sua porta (figura 1), porém, assim que ele declara ter encontrado sua bolsa, essa imagem dá lugar a uma gentil e atenciosa mulher. A femme fatale interessa-se pelo prota- gonista quando percebe que o dinheiro continua em sua bolsa, notando a honestidade dele. Quando a mulher percebe que ele não a furtou, conclui que terá de pagar a ele de alguma forma. Com isso, ela se encaminha até o quarto onde o seu parceiro está e logo a postura de uma gentil e doce mulher dá lugar a alguém frio e calculista ao comentar “comigo sairá mais barato” (comentário que sinaliza também um futuro envolvimento do casal), além de sugerir que talvez já houvesse certa atração dela para com Ernesto também. Figura 1: A sombra no rosto da mulher sugere a sua ambiguidade. | Fonte: Lattuada (1946) Lidia encaminha-se até a sala, põe uma música para tocar e acende um cigarro, exibin- do o seu interesse sexual (tendo-se em vista o caráter fálico do cigarro) e a posição de poder sobre Ernesto, o que se concretiza quando ela o interroga sobre a sua vida e não revela nada sobre a dela. Segundos depois da conversa, ele realiza os desejos da mulher quando a beija (figura 2). Assim que Ernesto sai da casa, Lidia muda novamente de posição, agradecendo A le xa nd re R os sa to A ug us ti 68 ao seu parceiro por interromper o beijo (que ela mesmo deu). A ambígua personalidade da femme fatale inspira desconfianças em suas atitudes, pois muda a sua postura conforme suas ambições. Figura 2: O primeiro beijo do futuro casal. | Fonte: Lattuada (1946) Em um ambiente particular, que se subentende ser a casa da mulher (por causa das roupas de dormir), solidifica-se a imagem de liderança da personagem Lidia. Aliás, o interes- se dela em Ernesto é mais claro quando percebe a honestidade dele, pois evidencia a futura fidelidade que ele possa ter em relação aos propósitos dela. A femme fatale é facilmente persuadida a beijá-lo ou lhe pagar de uma forma sexual (figura 3), o que mostra o despren- dimento dela quanto a isso e a valorização de seu dinheiro acima dos homens e de sua moral. Nesse ponto, formula-se uma imagem de Lidia como uma mulher experiente nos negócios que faz (apesar de não ter aparecido nenhuma prova de sua criminalidade ainda), pois é aparente o empoderamento dela perante as atitudes de Ernesto. Figura 3: Pressupõem-se a união do casal através do sexo. | Fonte: Lattuada (1946) A disparidade de valores Ao decorrer da narrativa, a união do casal concretiza-se a partir de uma situação cri- minosa envolvendo Ernesto, que procura Lidia e entra para sua gangue. A femme fatale permanece no controle e liderança, não admitindo violação e desrespeitos. C in em a no ir ita lia no : a ( in )d ep en dê nc ia d e um a fe m m e fa ta le c lá ss ic a 69 Em uma noite, os criminosos estão à procura de alguém que os tinha denunciado para a polícia, porém, é pego um homem errado e Ernesto se desentende com seus parceiros. Nesta situação, percebe-se novamente a conduta moral do homem se sobressair ao crime, quando não quis que matassem uma vítima. Os seus companheiros, então, anunciam que estão cansados de suas atitudes, e a partir de então se visualiza a incompatibilidade do casal quando discordam de preceitos morais. Uma cena mostra Ernesto jogando bebida no rosto de Lidia e ela com raiva do amante, quando se supõe que não o deixará impune de seu ato. Adiante, percebe-se a polícia à procura da gangue de Ernesto. Posteriormente, em um flashback, Lidia está ao telefone fazendo uma denúncia, em que informa o lugar onde o amante dela estará, concretizando a sua vingança (figura 4). Figura 4: Lidia denuncia Ernesto e a sua gangue. | Fonte: Lattuada (1946) Logo após a denúncia da femme fatale, Ernesto e a gangue são perseguidos pela po- lícia de Turin. Por fim, o protagonista acaba morto por proteger uma criança, filha de seu melhor amigo. O abalo mais evidente entre Ernesto e Lidia se deu a partir do momento em que suas orientações morais entraram em conflito. Enquanto ele não aceitava a morte de um inocente em suas mãos, ela dizia que a vítima “sabia demais”, não demonstrando nenhum incomodo em matá-la. O fim da femme fatale não ocorre como esperado para o noir clássico, pois ela sai viva e, aparentemente, sem nenhuma perda além de Ernesto e a sua gangue. Zizek (2009), afir- ma que, no caso do cinema noir clássico, embora a femme fatale seja destruída fisicamente, continua a dominar o protagonista como uma “presença espectral fugidia” (2009, p 170). Há aqui, entretanto, a sobrevivência material da femme fatale. Na última cena de Lidia, visualiza-se um homem entrando com ela em um trem, quando presumimos ser outro amante, evidenciando novamente como não apegada exclusivamente a Ernesto. Ao contrário do comum nos filmes noir, a personagem mantém o seu status do início ao fim, pois inicia-se poderosa e superior aos homens que a cercam, e termina do mes- mo jeito, já que nem o rosto do homem visto ao seu lado antes de entrar no trem é mostrado. A le xa nd re R os sa to A ug us ti 70 Considerações finais Ressalta-se que a conduta moral de Ernesto é uma característica que determinou o seu futuro, pois, enquanto ele furtava junto à gangue, só foi visto matar um único homem: um traficante de mulheres. Durante toda a narrativa, a sua bondade é enaltecida e, por fim, responsável por sua morte, como que redimindo-o pelos seus crimes. Tendo em vista a orientação do estudo para o destaque da femme fatale, a indepen- dência de Lidia foi o fator determinante para o desenvolvimento da análise. Percebe-se a sua superioridade durante toda a narrativa, em que a maioria das suas falas, quando direciona- das a homens, são de ordens e até xingamentos, contrariando o esperado das personagens femininas nas décadas de 40 e 50. A escolha do filme foi realizada também devido a obser- vação dessa atitude da femme fatale, propagando uma independência do feminino em um período em que o masculino se destaca como superior. Referências AUGUSTI, A. R. Cinema noir: as marcas da morte e do hedonismo na atualização do gênero. Tese (Doutorado em Comunicação Social) – Pontifícia Universidade Católica do Rio Gran- de do Sul - PUCRS, Porto Alegre, 2013. Disponível em: <http://repositorio.pucrs.br/dspace/ bitstream/10923/2230/4/446023%20Substitui%C3%A7%C3%A3o.pdf>. Acesso em: 19 nov. 2019. CARVALHO, D. S. L. P. Fatal, cativa e independente: a mulher no film noir. 2011. Dissertação (Mestrado em Estudos Artísticos) – Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra, Coimbra, 2011. 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A partir do conceito de curadoria edu- cativa (VERGARA, 1996; MARTINS, 2006), este trabalho busca investigar de que maneira fil- mes como Café com Canela e Infiltrado na Klan promovem uma experiência cinematográfica dentro da perspectiva de uma educação em direitos humanos (CANDAU; SACAVINO, 2013) como norteadora de nossas práticas pedagógicas. Palavras-chave: Cinema, Educação, Direitos Humanos, Curadoria Educativa. Abstract: The various forms of experimentation of cinema at school invite us to reflect on the effects of the choices made by teachers. Based on the concept of educational curating (VERGARA, 1996; MARTINS, 2006), this work seeks to investigate how films such as Café com Canela and BlacKkKlansman promote a cinematic experience within the perspective of human rights education (CANDAU; SACAVINO, 2013) as a guide for our pedagogical prac- tices. Keywords: Cinema, Education, Human Rights, Educational Curating. O modo como o cinema entra no espaço escolar na contemporaneidade merece uma atenção que abarque as diversas nuances da exibição audiovisual, seja vinculada a uma de- terminada disciplina, seja em espaços criados especialmente para isso, como os cineclubes. Além disso, a escola de hoje é enriquecida pelas inúmeras possibilidades colocadas pela pro- dução de vídeos pelos alunos, dada a disseminação dos dispositivos móveis. Entre exibição e realização audiovisual, inúmeras questões que surgem a partir dos novos tempos colocam a relação cinema e educação em posição privilegiada dentro de uma reflexão sobre o papel da escola na sociedade atual. A formação docente para trabalhar com o cinema na escola adquire, nesse cenário, uma importância indiscutível. Quando a relação entre cinema e educação é acrescida das questões inerentes aos direitos humanos, essa formação ganha novos contornos e espe- cificidades. Partindo do conceito de curadoria educativa (VERGARA, 1996), este trabalho busca investigar de que maneira filmes como Café com Canela, de Ary Rosa e Glenda Nicá- 1 - Trabalho apresentado no XXIII Encontro SOCINE no Seminário Temático CINEMA E EDUCAÇÃO. 2 - Doutor em Comunicação pelo PPGCOM/UFF. Professor da Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro. A le xa nd re S ilv a G ue rr ei ro 72 cio (Brasil, 2017) e Infiltrado na Klan, de Spike Lee (EUA, 2018) promovem uma experiência cinematográfica dentro da perspectiva de uma educação em direitos humanos (CANDAU; SACAVINO, 2013), como norteadora de nossas práticas pedagógicas e colocando em pauta uma dimensão crítica da formação docente. Sendo assim, nossa intenção é analisar as pos- sibilidades da exibição audiovisual no espaço escolar, que se constitui como a vertente mais antiga na relação cinema e educação. Nem sempre presente como se gostaria, o cinema na escola é constantemente instru- mentalizado, reduzido a apoio às diversas disciplinas, sem que as promessas de um cinema como alteridade na escola se concretizem. Viabilizar a presença do cinema e do audiovisual na escola de maneira que a relação cinema e educação se dê satisfatoriamente pressupõe que o docente esteja preparado para tal, fazendo com que essa relação se dê de maneira plena. Quando pensamos na educação em direitos humanos como central na realidade atual, indagações sobre o papel do cinema na escola ajudam a vislumbrar os desafios que se co- locam. Uma das questões mais relevantes quando se discute a formação docente em relação ao uso do audiovisual na escola é o conceito de curadoria educativa. Segundo Luiz Vergara (2013), é através das escolhas feitas pelo professor que se pode promover, no âmbito esco- lar, uma experiência com a arte que seja enriquecedora. Para Vergara, a arte é um ponto de encontro que acontece em três tempos. Em primeiro lugar, é através da experiência percep- tiva individual que o encontro com a arte se dá, e esse tempo 1 é marcado pelo estranhamen- to e/ou admiração em relação à obra de arte. O segundo momento, o encontro com a arte é marcado pelo ato crítico/perceptivo, que ocorre através da descrição/reconhecimento. Esse tempo 2 é marcado tanto por um movimento individual quanto coletivo. Finalmente, o tempo 3 assinala a emergência de um ser poético através da imaginação ativa. Assim, as associações e interpretações sublinham a interação em grupo. O que está em jogo na elaboração do conceito de curadoria educativa a partir de Ver- gara é a ideia de arte como ação cultural, como construção da consciência do olhar. Inicial- mente considerando a arte contemporânea e o cotidiano, a curadoria educativa abre a pos- sibilidade de pensarmos a relação cinema e direitos humanos numa perspectiva educacional. A curadoria educativa é prática fundamental do trabalho docente no sentido de pen- sar e fazer escolhas que promovam experiências significativas com o cinema na escola. Mi- riam Martins (2006) também coloca a importância da escolha feita pelo docente, que deve ser pautada por uma consciência do olhar. Portanto, a curadoria educativa ganha um lugar central na formação docente. Quando pensamos a exibição audiovisual no espaço escolar, as questões iniciais que se colocam são quais filmes escolher? e de que maneira abordá-los? Essas indagações tornam indispensável pensar na formação docente. De que outra manei- ra o profissional da educação poderá extrair do encontro do cinema com a educação uma experiência que seja transformadora tanto para ele quanto para seus alunos? Os direitos C in em a e di re ito s hu m an os c om o pe rs pe ct iv a ed uc ac io na l 73 humanos que, pelo marco regulatório do PNEDH – Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (2007), devem atravessar a educação, surgem como elemento indispensável para estabelecer uma relação simbiótica entre cinema e educação. Vera Candau e Susana Sacavino (2013) refletem sobre a importância de uma formação de professores atravessada pelos direitos humanos. As autoras analisam o lugar da educa- ção em direitos humanos no caso específico da América Latina, e também buscam enumerar os desafios dessa formação docente. Esses desafios são colocados em sete pontos princi- pais. Inicialmente, é preciso desconstruir a visão do senso comum, na qual encontramos uma verdadeira distorção do que se consolidou como a luta histórica dos direitos humanos. Tal distorção chega ao ponto de enunciar os direitos humanos pelo seu avesso, como ferramen- ta para defesa de bandidos, colocando parte da opinião pública contra essa luta. Porém, as próprias autoras indicam, também, a relevância de assumir uma concepção de direitos hu- manos, dada a polissemia3 do termo, deixando claro o que se quer atingir. Além desses pontos, Candau e Sacavino mencionam a importância de articular ações de sensibilização e formação, bem como de construir ambientes educativos que respeitem e promovam os direitos humanos. Por fim, ressaltam a necessidade de incorporar a educaçãoem direitos humanos no currículo escolar, e de introduzi-la na formação inicial e continuada, bem como estimular a produção de materiais de apoio. Nesse sentido, a principal chave para a formação docente deveria ser a educação em direitos humanos, fornecendo elementos aos professores para que sua atuação no espaço escolar esteja sempre em sintonia com esse preceito. Tal formação tem repercussão direta no modo como o cinema entra na escola, uma vez que a curadoria educativa, tendo como premissa a ideia da arte como ação cultural, traz complexidade para a escolha e abordagem dos filmes, seja em cineclubes, seja dentro de determinada disciplina. Assim, quando alinhamos cinema, educação e direitos humanos, as questões centrais que anunciamos anteriormente, como quais filmes escolher? e de que maneira abordá-los? ganham profundidade. É dentro deste horizonte que este estudo toma os filmes Café com Canela e Infiltrado na Klan como exemplos para refletir sobre cinema e direitos humanos sob a perspectiva de uma curadoria educativa. Esses filmes evocam questões éticas e estéticas que oferecem aos docentes uma possiblidade de caminharem dentro de uma educação voltada para os direitos humanos, na medida em que suscitam discussões sobre a represen- tação e a representatividade do negro no cinema. As encenações, personagens e narrativas desses filmes, bem como o engajamento de seus diretores, colocam em pauta a pertinência de refletirmos sobre nossas escolhas, seja quando exibimos um filme aos alunos, seja quando produzimos uma obra audiovisual. Am- 3 - Nesse ínterim, vale salientar que não são poucos os detratores dos direitos humanos, dentre os quais o mais notório talvez seja Slavoj Zizek, que considera os direitos humanos como um braço do imperialismo (ZIZEK, 2010). Também Boaventura de Souza Santos indica a importância de negar os direitos humanos como projeto modernista para conceber uma nova abordagem dos direitos humanos espelhada no conceito de diversidade (SANTOS, 2014), o que vai ao encontro do que Vera Candau e Susana Sacavino indicam ao apontarem a polis- semia do termo. A le xa nd re S ilv a G ue rr ei ro 74 bos os filmes são realizações contemporâneas de grande destaque no que diz respeito ao ativismo negro, às políticas afirmativas e à legitimidade do discurso fílmico, trazendo para o primeiro plano uma série de tópicos que abarcam tanto a experiência estética do filme quanto a sua dimensão ética, abrindo espaço para que o cinema e a educação estejam co- nectados com os direitos humanos de maneira orgânica, promovendo um ensino voltado para a arte e a cidadania no espaço escolar. Ao nos aproximarmos desses exemplos, encontramos elementos para pensarmos na relevância da curadoria educativa e da educação em direitos humanos. Quando um profes- sor escolhe determinado filme e decide exibi-lo aos seus alunos, ele tem uma intenção que pode se restringir ao conteúdo ministrado em suas aulas, ou pode assumir o cinema como arte, trazendo para a discussão uma abordagem ética e estética da obra audiovisual em questão. Assim, a curadoria educativa, conforme anunciada por Vergara, atrela a exibição audiovisual a essa segunda possibilidade, colocando a ação cultural como elemento central. Consciente da relevância de se entender a arte como ação cultural, o professor pro- move o encontro entre cinema e educação, sustentando as diretrizes do PNEDH e oferendo aos alunos uma experiência que permita a construção de um novo olhar a partir da arte. Desde a relação individual que cada aluno estabelece com o filme exibido, até a etapa da interação em grupo na qual a obra audiovisual será debatida e ressignificada pela turma, o que se vislumbra, aqui, é uma maneira de unir cinema, educação e direitos humanos a partir da experiência ética e estética proporcionada pela curadoria educativa. Levar o cinema para a escola e silenciar discussões que permitam uma abordagem ética e estética da obra audiovisual é abandonar as premissas da educação em direitos hu- manos na medida em que, assim, não se promove um ambiente educacional que permita o florescimento da diversidade, do ato crítico/perceptivo, do estranhamento e/ou admiração diante da obra de arte. Fechar o alcance de um filme dentro dos limites de um conteúdo programático é, de certa forma, romper com uma educação em direitos humanos e seu en- contro com o cinema. Nos filmes em questão, Café com Canela e Infiltrado na Klan, encontramos a potência do encontro do cinema com os direitos humanos numa perspectiva educacional de maneira clara. No entanto, é preciso que o professor esteja consciente dessa potência, que ele crie o ambiente necessário para que a arte como ação cultural aconteça, para que o cinema não se restrinja a mero apoio às aulas, e é a formação docente que garantirá profissionais sensíveis a essas questões. Ao escolher esses filmes, o professor precisa responder a nossa segunda pergunta: de que maneira abordá-los? Café com Canela apresenta três personagens que lidam com grandes perdas. O en- contro entre essas personagens é marcado pelo afeto, pela superação das indiferenças e das distâncias. O fato dos personagens serem negros e a forma como a negritude é abordada no filme merece especial atenção quando o mesmo é exibido na escola. Trazer para a discussão C in em a e di re ito s hu m an os c om o pe rs pe ct iv a ed uc ac io na l 75 após a exibição o modo como o filme resolve ética e esteticamente o ser negro é uma forma de possibilitar o encontro de alunas e alunos com uma lógica discursiva que vai ao encontro da diversidade e da afirmação das diferenças. Dirigido por Ary Rosa e Glenda Nicácio, o filme desenha a negritude de uma forma positiva, na maneira como as personagens se relacionam, trabalham, vivem, amam. A perda de um ente querido é sentida pelos três personagens principais sem que, em nenhum dos casos, a negritude seja um problema. É uma abordagem afirmativa que pauta a construção das personagens, o que percebemos no monólogo inicial de Ivan (Badu Santana), no qual ele descreve como conheceu Adolfo. Homossexual, negro, Ivan sente a perda de Adolfo, mas o modo como o filme agencia essa e as demais perdas universalizam o drama vivido pelos personagens, instaurando uma perspectiva afirmativa. Infiltrado no Klan traz a marca do ativismo de seu diretor, Spike Lee, através da história de policial negro, Ron, que consegue estabelecer contato com membros da Ku Klux Klan, e com a ajuda de um policial judeu, Flip, se infiltra na organização. As cenas que decorrem dessa premissa desnudam o absurdo do preconceito e do racismo que marca a organização estadunidense que já reuniu mais de 4 milhões de associados há pouco mais de um século. A partir do embate travado com a organização pelos dois policiais, um negro e um judeu, vemos as lutas das minorias representadas. O tom cômico marca a narrativa e o des- fecho da trama pune o preconceito e faz triunfar a diversidade. Em ambos os filmes, os per- sonagens negros têm atitudes afirmativas, são personagens corajosos, afetuosos, sensíveis. O protagonismo dos personagens negros é um ponto importante, uma vez que as questões da representatividade e da representação são fundamentais. A escolha desses filmes a partir de uma curadoria educativa coloca cinema e educação em sintonia com os direitos humanos na medida em que temas relevantes são levados para a escola através de abordagens afirmativas. A formação docente é essencial para que o pro- fessor esteja preparado para as discussões que surgirão a partir do visionamento de filmes que carregam consigo questões centrais na luta dos direitos humanos e que não podem ser invisibilizadas na escola. Enriquecer o debate sobre a diversidade a partir desses filmes pressupõe valorizar a arte como ação cultural, como construção de um novo olhar, bem como compreender o al- cance da educaçãoem direitos humanos oportunizadas a cada sessão de cinema dentro da escola. Assim, é a partir da formação docente que a curadoria educativa suscita possibilida- des de conexão entre cinema, educação e direitos humanos de maneira orgânica. Referências BRASIL. Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos. 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Elaboradas em diversos níveis (montagem, mise en scène, performances), as repetições, quando colocadas em comparação, ajudam a iluminar a complexidade das obras de Rogério Sganzerla e Glauber Rocha, principalmente nos âmbitos de uma reflexividade meta-cinema- tográfica e de uma figuração do transe religioso e social. Palavras-chave: Glauber Rocha, Rogério Sganzerla, repetição, transe, reflexividade. Abstract: Copacabana mon amour (1970) and A idade da terra (1980), wIth a decade in be- tween them, are both films in which repetition play a central role. The repetitions are elabo- rated in them through different levels (montage, mise en scène, performance) and, when in comparison, help one sees the complexity of Glauber Rocha’s and Rogério Sganzerla’s films. The main issues touched by their repetitions are a meta-cinematographic reflexivity and the figuration of social and religious trance. Keywords: Glauber Rocha, Rogério Sganzerla, repetition, trance, reflexivity. Introdução Essa apresentação faz parte de minha pesquisa de doutorado sobre o estudo da repe- tição no cinema brasileiro moderno, das décadas de 60 e 70. É surpreendente a recorrência de repetições nos filmes do período, sendo tanto Copacabana mon amour (1970) quanto A idade da terra (1980) casos em que as repetições beiram o paroxismo. Copacabana mon amour, dirigido por Rogério Sganzerla, foi feito pouco mais de um ano após o AI-5, ou seja, colado ao período de maior embrutecimento da ditadura. Foi reali- zado pela Belair, produtora fundada por Sganzerla junto com Helena Ignez e Julio Bressane, marcada por uma produção de urgência, barata, rápida e clandestina. Em poucos dias, o filme foi rodado no Rio de Janeiro. Ele conta, de uma forma bastante livre, o cotidiano de Sônia Silk (Helena Ignez) e de seu irmão Vidimar (Otoniel Serra), dividido entre o morro onde 1 - Trabalho apresentado no XXIII Encontro SOCINE na sessão: ST Cinema comparado – Encerramento (Con- frontos III: diálogos de Glauber Rocha). 2 - Alexandre Wahrhaftig é mestre (2015) e doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Meios e Proces- sos Audiovisuais da ECA-USP. No mestrado desenvolveu pesquisa sobre Abbas Kiarostami e, atualmente, estuda o motivo da repetição no cinema brasileiro moderno. É também montador, diretor e fotógrafo. A le xa nd re W ah rh af tig 78 moram e as ruas de classe-média e alta da zona sul onde trabalham – ela, como prostituta, e ele, como empregado doméstico do “Dr. Grilo” (Paulo Villaça). As análises elaboradas na dissertação de mestrado de Anna Karinne Balallai (2014) e na tese de doutrado de Estevão Garcia (2018) foram extremamente importantes para nossa leitura do filme. Já A idade da terra, monumental filme testamento de Glauber Rocha, é do final da década de 1970, em um contexto em que a redemocratização, com a famigerada abertura “lenta, gradual e segura” de Geisel, era uma realidade. O filme foi gestado ao longe de anos e realizado enfim com produção da Embrafilme. Suas filmagens se espalharam por três re- giões do Brasil e, uma vez finalizado, diferente do filme de Sganzerla, foi logo exibido em festivais internacionais e em circuito comercial. Dificilmente o filme pode ser resumido por uma sinopse, pois trata-se de um painel alegórico pelo qual acompanhamos diferentes es- quetes e performances com os personagens dos quatro Cristos do terceiro-mundo (Antônio Pitanga, Geraldo del Rey, Jece Valadão e Tarcísio Meira) e de Joe Brahms, imperialista que deseja destruir o mundo (Maurício do Vale). As análises de Ismail Xavier (1998, 1981) sobre o filme foram fundamentais para nosso estudo. Curiosamente, a partir de distintos e aparentemente opostos esquemas de produção, nasceram dois filmes extremamente próximos em suas composições visuais, sonoras, per- formativas e reflexivas. E, mais do que tudo, os dois filmes abusam do recurso à repetição, tanto na fisicalidade dos corpos, através das repetições constantes de gestos e falas, tanto pela montagem, que elabora seus loops temporais. Corpos em repetição: transe A maior parte das repetições em Copacabana mon amour envolve o comportamento cotidiano dos personagens. Mais de uma vez vemos Sônia cuspindo cerveja, mais de uma vez, vemos Vidimar pulando, caindo e gritando que está apaixonado pelo seu patrão. Mais de uma vez vemos o cafetão interpretado por Guará Rodrigues brincando com seu canivete, absorto. Tudo isso, parece, a princípio, compor um procedimento de caracterização de per- sonagem por reiteração, algo comum na caracterização de personagens-tipo, caricaturais ou planos. Conforme Forster (1985, p. 67), o personagem plano é aquele marcado por uma única ideia, reiterada constantemente. No filme, isso contribui para a alegorização da obra, esvaziando a psicologia das personagens e marcando, cada uma delas, com uma função na economia global da alegoria: o funcionário apaixonado pelo patrão, no caso de Vidimar; a mulher que nega sua pobreza, reafirmando repetidas vezes que tem nojo de pobre, caso de Sônia Silk; o patrão que se coloca acima de todos, repetindo “quem manda aqui sou eu” etc. Mas a repetição, pelo excesso, marca também que os personagens estão presos, con- denados, como sob castigos infernais. Eles estão presos no cotidiano e em suas ideias fixas, repetindo-se constantemente, o que indica a invariabilidade do cotidiano e a invariabilidade de seus pensamentos, talvez bloqueados pelo sol de Copacabana, que, conforme dizem no filme, não os deixa pensar: repetição como signo da estagnação de um pensamento oprimi- do pelo sol, o sol do subdesenvolvimento e da miséria. In fe rn o de re pe tiç õe s: G la ub er e S ga nz er la e m c om pa ra çã o 79 Em um outro nível, a repetição também incide sobre a temporalidade das sequências do filme: ao jogar os corpos em comportamentos cíclicos, que atravancam o desenvolvi- mento causal e linear das ações,o próprio filme é colocado sob esse movimento cíclico. A sequência mais marcante em que isso ocorre é a do encontro de Sônia Silk, na rua, com uma possível cliente sua, interpretada por Lillian Lemertz. Esta convida Sônia para um programa e Sônia responde, repetidas vezes, que o pior é que tem pavor da velhice. Depois ela convi- da Sônia para irem a Argentina, com tudo pago, e novamente recebe a mesma resposta. O diálogo desencontrado se repete mais uma vez e, após uma elipse que nos leva a um aparta- mento onde as duas estão, outras repetições se seguem, dentre as quais surge o incômodo bordão de Sônia: “tenho nojo de pobre”. Esse emperrar constante do diálogo aponta para uma estranha força que atravessa as personagens e que parece baixar neles como uma possessão. Copacabana mon amour é, afinal, profundamente marcado por religiões de matriz afro-brasileira. Elementos da umban- da e do candomblé são constantes, tanto na iconografia quanto na trilha musical do filme. E, além de cenas explicitamente ritualísticas, mais de uma vez, ouviremos personagens a falar de possessão. Não à toa, no início do filme, Sônia aparece em um terreiro, com o babalaorixá João- zinho da Gomeia, e faz gestos de incorporação. Pouco depois, sua mãe grita que seus filhos estão possuídos pelo demônio (e o grita duas vezes, em repetição). Sônia aparece, em se- guida, convulsionando e gritando para a mãe, repetidas vezes sem parar, que vai morrer naquele dia. De saída, o filme elabora uma espécie de chave de leitura em que “possessão” e repe- tição estão ligadas. E mesmo quando não há rituais e não há possessão literal, a repetição guarda a energia do transe. Na medida em que ela afeta a temporalidade dos corpos, colo- cando-os num eterno retornar sobre si, e na medida em que o filme não resume, acelera ou subtrai esse processo, ele se entrega também a tal temporalidade e todo ele é afetado pela energia transbordante do transe. Corpos em repetição: desconstrução Em A idade da terra, curiosamente, veremos coisas muito semelhantes. Personagens aparecerão se repetindo diversas vezes, também em gestuais expansivos, gritos, rodopios, convulsões. Também algumas falas, ao retornar, marcam uma redução de psicologia e re- forçam a alegoria política do filme. Mas se a ideia do transe possivelmente influencia a com- posição, ela não está presente enquanto ideia matriz do filme. E, diferente de Copacabana mon amour, a repetição em A idade da terra baixa principalmente sobre um personagem específico: o Cristo-Militar de Tarcísio Meira. Suas cenas de repetição são excessivas e agonizantes na clausura que constroem (como a cena do “pavor da velhice” elevada à enésima potência). A sensação de condena- ção infernal é maior e, não à toa, em uma delas, o personagem justamente aparece gritando A le xa nd re W ah rh af tig 80 que estão condenados. Nós compartilhamos o sentimento de condenação pelo eterno retor- nar da cena sobre si, em que Tarcísio Meira repete o mesmo texto diversas vezes, à beira do mar da Guanabara ao lado de Aurora Madalena (Ana Maria Magalhães). Uma grande diferença com relação ao filme de Sganzerla é a explicitação da cons- trução da cena, seja pela voz da direção gritando “corta” entre as repetições, seja pela ima- gem do ator descansando, fumando (supostamente “fora” do personagem). Nesse jogo, a repetição surge como signo do processo de construção, como índice de um ensaio, que em francês se diz justamente repetition. Na cena de Tarcísio à beira da Guanabara, a câmera se move de maneira alucinante, enquadrando e desenquadrando as personagens. Sua total desvinculação com o que está a sua frente reforça o olhar enquanto uma instância acima da representação e reforça a aten- ção ao processo construtivo da obra. Se a repetição revela um pouco do trabalho do filme, ela também, no nível da ficção, acaba por revelar fissuras na construção das identidades das personagens. Em uma outra sequência do Cristo-Militar, agora com o enquadramento fixo, ele declama praticamente seis vezes um mesmo discurso, com algumas pequenas variações, associando as “conquistas” da nação (independência, proclamação da república, abolição da escravatura) ao povo, mas, ao mesmo tempo, defendendo o uso da violência para proteger o mesmo povo. Aqui, a repetição exerce um efeito direto de caracterização sobre a personagem de Tarcísio. Ismail Xavier, que tem várias reservas contra o filme, elogia tais repetições pela força irônica que possuem em sua “paródia do pomposo” (1981, p. 72). É como se víssemos um personagem querendo que acreditem (ou querendo ele mesmo acreditar) naquilo que diz apesar da evidente contradição do discurso e que, por isso mesmo, o repete insistente- mente (não mais o sol que não deixa pensar, mas a contradição que não se deixa resolver, contradição que explicita a associação de uma narrativa da nação à violência contra o povo). Se a construção de A idade da terra tende a opor o sublime das manifestações popula- res ao grotesco do imperialismo de Brahms, podemos considerar a repetição como sinal de corrosão e vacilação não só do discurso das personagens, mas do próprio filme, aprofundan- do ironias e saindo da divisão mais esquemática entre bem e mal que esses pólos suporiam. Ambos filmes, portanto, no registro dos corpos, entregam sua temporalidade ao tem- po da performance e, assim, a repetição dos corpos torna-se repetição do filme, carregando sua dimensão de transe ou de desconstrução irônica para as obras. Mas, além dos corpos, os dois filmes estruturam repetições também através da montagem, ou seja, diretamente na manipulação do material fílmico. In fe rn o de re pe tiç õe s: G la ub er e S ga nz er la e m c om pa ra çã o 81 Montagem e repetição Em Copacabana mon amour, em seu bloco final, Vidimar faz um despacho na praia contra seu patrão, que está na cama com Sônia Silk, o que faz com que ele e ela sejam pos- suídos e convulsionem. Por uma montagem paralela, vemos o despacho sendo feito, em um plano, e Sônia e Dr. Grilo entrando em transe, em outro. Um novo plano do trabalho de despacho parece indicar uma continuidade temporal entre o que se representa, porém o re- torno ao quarto do Dr. Grilo nos mostra novamente o transe se iniciando, como se o tempo houvesse rebobinado entre os planos. Aqui, a repetição dos corpos é performada através da montagem. O despacho de Vi- dimar atinge o próprio fluxo do filme. Sendo uma sequência de repetição e, ao mesmo tem- po, uma sequência literal de possessão, acreditamos que a hipótese da associação mútua entre esses elementos se fortalece, colando o filme ao transe e minando o que poderia soar como um discurso racional e objetivo sobre a importância (positivada ou negativada) desse fenômeno religioso num contexto de subdesenvolvido e fome. O filme se funde à particular vibração repetitiva do transe. O caso da montagem glauberiana é distinto, pois dissociado da ideia de transe. Assim como a câmera à beira da Guanabara se autonomiza em relação ao pró-fílmico, sua monta- gem muitas vezes entra num livre jogo com o material filmado, retrabalhando-o quase como se trechos dele fossem notas musicais. É inclusive por uma metáfora musical que um dos montadores do filme, Ricardo Miranda, explica o particular estilo de montagem de repetição no filme, chamando-o de “toque do tamborim” (GARDNIER et al., 2005). Em uma sequência, Brahms discursa, em tom épico, proferindo seu medo das revolu- ções no terceiro-mundo. A montagem estilhaçada seu discurso em diversos planos curtos que se combinam em múltiplas repetições alterando a ordem das falas e criando incômodas pausas até que a cena se resolve num plano único com a fala na íntegra do personagem. Para além da ironia e do reforço alegórico, a repetição estilhaça a representação de uma forma que chega a lembrar o rigor musical de um filme estrutural. Assim como a repetiçãoconstante de uma palavra força a atenção sobre o significan- te, nessas sequências o plano adquire força musical e rítmica para além do que semantica- mente significa. O acento formal é indício de um processo reflexivo do filme, uma espécie de gagueira da obra, um meio de refletir não apenas sobre o trabalho de fazer o filme, mas sobre o próprio trabalho do pensamento do filme, seu processo de articular as imagens, sons e ideias. José Carlos Avellar vê o filme como expressão de ideias ainda em busca de uma for- ma (AVELLAR, 1981, p. 64). A repetição indica o revirar constante do discurso do filme sobre si, na busca de sua formalização, transformando o filme numa espécie de solilóquio (não só pela própria voz de Glauber, que surge em monólogo over a certa altura, mas também um solilóquio da montagem). O crítico literário James Wood (2017, p. 132) associa o solilóquio na literatura ao que ele chama justamente de gagueira mental, algo marcado, entre outras coisas, pela repetição. A le xa nd re W ah rh af tig 82 Conclusões No caso de Copacabana mon amour, a repetição torna-se a manifestação estética, nos corpos e na temporalidade do filme, do fenômeno do transe. Sganzerla abraça a ideia de transe e a faz atravessar seu filme, contaminando-se profundamente por ela. Às vezes o transe parece ser um sintoma da opressão da fome e da miséria sob o sol de Copacabana; às vezes, parece abrir caminho para uma via revolucionária, como quando se volta contra o patrão de Vidimar. De toda forma, o filme vibra na sintonia de suas ambivalências e de sua força. Em A idade da terra, o transe literal é reduzido; a religião está presente por manifes- tações outras, com destaque positivante em contraposição à presença de Brahms. Esse discurso supostamente seguro de si na sua valoração do mundo mostra-se, contudo, esgar- çado pela repetição, assim como ocorre com o discurso de Tarcísio. O filme vacila, mostra suas incertezas, abre-se à ironia e ao humor da repetição, revela seu processo, seu material bruto em excesso, estilhaçado, enquanto tenta, ao mesmo tempo, recompô-lo. Nos dois, a repetição rompe a fluidez de uma suposta linearidade e causalidade, bem como a objetividade de um pensamento racional sobre o mundo, aproximando a estética dos dois cineastas a uma vibração comum, apesar dos diferentes sentidos políticos que in- vestem através dela. Referências AVELLAR, José Carlos. “O sentimento do nada”. Filme Cultura, n. 38/39, p. 63–64, 1981. BALLALAI, Anna Karinne Ballalai. O ator em ato: a dialética ator/personagem em Copacaba- na mon amour. Dissertação (mestrado) —UERJ, Rio de Janeiro, 2014. FORSTER, E. M. Aspects of the novel. New York; San Diego; London: Harcourt, 1985. GARCIA, Estevão de Pinho. Belair e Cine Subterráneo: o cinema moderno pós-1968 no Brasil e na Argentina. Tese (doutorado) – USP, São Paulo, 2018. GARDNIER, Ruy. et al. “Debate sobre A Idade da Terra”. Contracampo - Revista de Cinema, v. 74, 2005. XAVIER, Ismail. “A idade da terra e sua visão mítica da decadência”. 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Abstract: The work presents a reading of images from the video Cena Aberta (2003), ep- isode The Star Hour, from the theories of form and color of Wassily Kandinsky. The study identifies visual elements about creation in painting associated with photography and art direction, revealing personality traits of the protagonist, Macabéa. Keywords: painting; audio-visual; composition; cinematography; art direction. Considerações iniciais O estudo realiza uma aproximação entre pintura e fotografia em movimento, buscan- do estender a Teoria da Forma e a Teoria da Cor construídas por Wassily Kandinsky para a criação da pintura ao estudo da composição da imagem audiovisual, relacionando-a tam- bém com a direção de fotografia e a direção de arte. Nesse estudo, busca-se realizar uma leitura da imagem audiovisual congregando re- cursos da “gramática da criação” de Kandinsky (2018) – ponto, linha, movimento3, cor e contraste; recursos atribuídos à direção de fotografia como luz, planos, ângulos, cores, mo- vimentos (BROWN, 2012; MASCELLI, 2010) e recursos da direção de arte, a exemplo de cenografia, figurino, atmosfera e ambientação, que caracterizam uma concepção artística do projeto. A imagem audiovisual é objeto de uma aproximação com a pintura pelo viés da composição, sem, contudo, subordinar uma à outra, tampouco, compará-las. 1 - Trabalho apresentado no XXIII Encontro SOCINE na sessão: Artes: pintura, teatro, cinema 2 - Professora da Universidade Federal do Oeste da Bahia. Graduada em Rádio e TV e mestre em Cultura e Turismo pela Universidade Estadual de Santa Cruz e doutora em Memória: Linguagem e Sociedade pela Univer- sidade Estadual do Sudoeste da Bahia. 3 - Em Ponto e linha sobre plano (1970), Kandinsky se refere à esquerda e direita tomando como referência um sujeito de costas para o plano, ou seja, essas referências surgem em espelhamento ao observador. Todas as menções a estas posições no texto obedecem ao critério adotado pelo autor. A lin e de C al da s C os ta d os S an to s 84 O corpus de análise provém da obra audiovisual Cena Aberta, realizado pela Rede Globo como parte da programação especial de fim de ano, veiculado em quatro episódios semanais exibidos ao longo do mês de dezembro de 2003. Neste estudo, a análise recai ape- nas sobre a adaptação de “A hora da estrela”, de Clarice Lispector, que tem como cenário a cidade do Rio de Janeiro. O programa foi conduzido pela atriz Regina Casé, que incluiu no produto final vários momentos de sua elaboração, por exemplo, os bastidores, o processo de seleção de não atores para o papel de protagonista, a apresentação de traços comuns ao trabalho com a televisão e a leitura de trechos do livro, seja com o grupo de candidatos a ator principal, seja nas tomadas de testes com os mesmos. Também comparece como objetivo específico deste trabalho a autocrítica/reconstru- ção do estudo realizado quando da conclusão do curso de Rádio e TV na Universidade Esta- dual do Sudoeste da Bahia (2005). Na ocasião, os traços da personalidade da protagonista foram levantados na obra literária por meio de análise do discurso e, na sequência, na obra audiovisual, utilizando-se do estudo dos signos de Charles Peirce. Com o subsídio do estudo anterior, parte-se dos cinco traços de personalidade levantados a respeito da protagonista: solidão, baixa autoestima, conformismo, timidez, sensibilidade. Aqui, se propõe a análise das mesmas cinco cenas, porém, substituindo o estrato teó- rico da semiótica pelos estudos de criação discutidos por Kandinsky a respeito da cor, do movimento e da forma. Revisitando a obra audiovisual pelos olhos do pintor Wassily Kandinsky nasceu em Moscou no ano de 1866 e, desde cedo, se deixou em- beber pelo universo das fábulas russas e alemãs, textos que pincelaram imagens pictóricas em sua imaginação. Antes de completar 27 anos, formou-se em Direito e Economia, mas declinou deatuar nessas áreas, tendo se dedicado então ao estudo da pintura. A sua expe- riência com a arte era de natureza sinestésica: mobilizava diferentes sentidos, entre os quais Kandinsky tinha especial interesse pela relação entre som e visão, cor e forma. Em 1922, ele foi convidado a lecionar na Bauhaus, conhecida como a maior escola de design do mundo. Em parceria com outros artistas de vanguarda, como Paul Klee e Lyonel Feininger, Kandinsky se tornou uma grande referência da arte abstrata do mundo ocidental. Publicou o livro “Do espiritual na arte” (1912), no qual apresenta uma Teoria da Cor e também aquele que ficaria conhecido como o mais importante livro da Bauhaus, “Ponto e linha sobre plano” (1926), no qual apresenta uma Teoria da Forma. O primeiro trecho do vídeo destacado para o estudo é uma sequência de imagens da chegada de Macabéa à cidade grande. Diferentes não atrizes aparecem, a sua vez, estáticas, segurando uma mala à frente do corpo, em meio à uma multidão agitada. A princípio, apenas a silhueta é identificada, mas, na sequência, vê-se a personagem sempre de corpo inteiro. D a pi nt ur a ao v íd eo : a c om po si çã o da im ag em a p ar tir d e K an di ns ky 85 Figura 1: Sequência de imagens da chegada de Macabéa ao Rio de Janeiro. | Fonte: Cena Aberta (2003) A sequência opta pelo uso do plano médio (MASCELLI, 2010, p. 35), pois apresenta o personagem de corpo inteiro, inserido em um contexto. Quanto à iluminação, a primeira cena trabalha apenas com a silhueta, deixando a protagonista ainda sob a escuridão, quase que encurralada por um ambiente interno, mas, nas cenas seguintes, a protagonista aparece sob o sol do meio-dia frente à paisagem da Central do Brasil. A transição da contraluz para a luz de alta temperatura de cor (BROWN, 2012, p. 235) torna presente na imagem o contraste entre o preto e o branco. Para Kandinsky, o preto se refere à ausência de resistência, à morte ou ao final de um ciclo, ao movimento concêntrico, para o interior; o branco produz resistência, mas também, nascimento ou início de um ciclo, movimento excêntrico, rumo ao exterior. Figura 2: Contraste entre preto e branco estudado por Kandinsky. | Fonte: Ilustração de Barros (2011) para estudo do livro “Do espiritual na arte” A lin e de C al da s C os ta d os S an to s 86 Para Barros, “na resistência do branco, está implícita a possibilidade de que algo acon- teça, o nascimento” (2011, p. 189) e, de fato, Macabéa está encerrando o ciclo de vida no Nor- deste e iniciando a fase autônoma na metrópole. Porém, para Kandinsky, “estas duas cores [...] são silenciosas” (1970, p. 66), e Macabéa ainda é um ponto de silêncio naquela imagem. A personagem aparece em composição central, desafiando o peso visual com o qual o olhar ocidental está acostumado (ARNHEIM, 2005) e, por isso, concentra a atenção, e as tensões visuais, sobre si. Ela aparece sem iniciativa, mas, a cada corte, se posiciona mais distante do local de chegada. Macabéa surge como um ponto na superfície do plano, e, para Kandinsky, “O ponto é um pequeno mundo à parte – isolado mais ou menos por todos os lados, quase arrancado do seu meio” (1970, p. 41). Como ponto, Macabéa no centro do plano sugere solidão, mas em tensão com uma necessidade de expansão. O segundo trecho do vídeo analisado apresenta Macabéa sendo admoestada pelo balconista em um estabelecimento comercial. Figura 3: Sequência de imagens de Macabéa sendo admoestada pelo balconista. | Fonte: Cena Aberta (2003) A imagem apresenta Macabéa em um plano americano (BROWN, 2012, p. 17), aquele que recorta o personagem na altura da cintura ou quadril, colocando-o em relação com al- gum objeto de cena ou coadjuvante. A câmera se movimenta em travelling rumo à esquerda do plano e o balconista se movimenta da parte inferior para a superior do quadro, retornan- do até Macabéa. Entre eles, o balcão metálico divide o plano ao meio, mas formando linhas diagonais conforme a câmera se desloca. Kandinsky atribui à diagonal esquerda um tom de “errado”, “deprimente”, e à diagonal direita, uma leitura do “certo”, “normal” (2003, p. 75). Ele observa que, se a linha não tocar o limite do plano, sua tensão aumentará. Na cena, quando a câmera chega ao extremo lado direito, o balcão forma uma diagonal rumo ao topo direito do plano, no exato momento em D a pi nt ur a ao v íd eo : a c om po si çã o da im ag em a p ar tir d e K an di ns ky 87 que o balconista reprime Macabéa, transmitindo a leitura do que ela está errada em usar o açúcar e de que ele está “certo” ou de que é “normal” restringir os desejos de Macabéa, que, inclusive, abaixa a cabeça. Na cena, presenciamos o conformismo como traço da persona- gem. Kandinsky atribui à parte alta do plano “maior flexibilidade”, relacionando-a com a “liberdade” e a “leveza”; à parte inferior, ocorre o contrário: “espessamento, peso, correção” (2003, p. 67). Assim, o balconista, único personagem que se movimenta entre as metades horizontais do plano, comparece “livre” e detentor do poder de “correção” sobre Macabéa. A câmera realiza uma linha para a esquerda, descortinando os elementos que estão à direita do quadro – há linhas horizontais contraditórias. Ao mesmo tempo, o balconista segue até o lado superior do plano e, deste, retorna até Macabéa, o que compõe linhas verti- cais contraditórias. O efeito simultâneo de duas forças conjugadas produz linhas puramente dramáticas. “O drama traz [...] a sonoridade do choque, o que pressupõe, pelo menos, duas forças em presença” (1970, p. 70). Além da força dramática da linha diagonal, há forças cen- tradas (linhas vertical e horizontal no plano), que trazem lirismo. Se, na cena, o balconista em movimento é opressor, Macabéa, estática no centro do plano, é sentimental. A terceira cena analisada mostra o encontro entre Macabéa e Olímpico. Chove e Ma- cabéa se abriga na porta de um bar. De repente, uma voz masculina a interpela e, ao sinal de timidez, ale a toca com leveza no queixo, ergue-o e a faz esboçar um sorriso. Figura 4: Sequência de imagens do primeiro contato de Macabéa com Olímpico. | Fonte: Cena Aberta (2003) Observa-se Olímpico coberto por luz amarela, incandescente, e Macabéa envolvida pela luz azul do tempo chuvoso. Kandinsky vê neste contraste a oposição entre feminino e masculino, expansão e contração, respectivamente, o que atribui timidez sobre ela. A lin e de C al da s C os ta d os S an to s 88 Figura 5: Contraste entre amarelo e azul estudado por Kandinsky. | Fonte: Ilustração de Barros (2011) para estudo do livro “Do espiritual na arte” A câmera se movimenta em travelling para a direita, levando o observador a conhecer a esquerda do ambiente: Olímpico. “O lado ‘esquerdo’ do P.O4. evoca [...] liberdade. [...] Pelo contrário, à ‘esquerda’, encontramos densidade mais pronunciada. [...] A ‘liberdade’ é menor à esquerda” (KANDINSKY, 1970, p. 117, grifos do autor). Vê-se, no plano, a disposição dos personagens evocando as qualidades elencadas por Kandinsky: Macabéa, tímida, à direita; Olímpico, aventureiro e livre, à esquerda do plano. Há também o movimento conduzido por Olímpico para que Macabéa erga a cabeça, olhando-o nos olhos. Para Kandinsky, a liberdade que se concentra à esquerda do plano - região onde ainda se encontra olímpico – “aumenta de baixo para cima” (1970, p. 117), o que se traduz em um impulso inicial em Macabéa para um estado de flexibilidade. O quarto trecho analisado do vídeo mostra a visita de Macabéa à cartomante indicada por Glória, a colega de trabalho que rouba seu namorado. Figura 6: Macabéa visita a cartomante. | Fonte: Cena Aberta (2003) 4 - Sigla para “Plano Original” no livro “Ponto e linha sobre plano” (1970) D a pi nt ur a ao v íd eo : a c om po si çã o da im ag em a p ar tir d e K an di ns ky 89 Macabéa estápresente, mas sua imagem não. Ela é representada apenas pela câmera subjetiva, que nos coloca na cena através dos olhos da personagem. A princípio, estática, Macabéa só adentra à casa após ser puxada pela cartomante, que segue por um corredor fa- zendo alguns zigue-zagues pela casa. Macabéa ainda se comportava como ponto, mas, após o impulso externo, torna-se linha: “A linha geométrica é um ser invisível. É o rastro do ponto em movimento, e isto pelo aniquilamento da imobilidade suprema do ponto. Aqui dá-se um salto do estático para o dinâmico” (1970, p. 61). Mas não se trata de linha reta, e sim de uma linha “quebrada não-esquemática”, muito mais tensa devido à pressão de duas forças após um impulso único. Para Kandinsky, “a tensão é a força viva do movimento” (1970, p. 61). Tal linha demonstra atração para a esquerda do plano, formando ângulos agudos – “O ângulo agudo é o mais tenso” (1970, p. 73). A cartomante é, efetivamente, a única relação social com a qual Macabéa reconhece sua baixa-estima, o que se mostra como um momento de extrema tensão da narrativa. To- davia, a cartomante não deixa Macabéa impactada neste lugar emocional: ela imprime na protagonista uma esperança de que tudo mudará para a melhor. Destaca-se, sobre esse aspecto, a presença de fortes tons de vermelho na cartomante, cor que, para Kandinsky, possui agitação interior, “movimento em si” e conserva uma força potencial. O simbolismo do vermelho: é autoconfiante, transbordante de vida. O último destaque do vídeo neste estudo trata da cena em que Macabéa, ao passear com Olímpico, relata sua experiência com uma música clássica. Figura 7: Macabéa passeia com Olímpico, emocionada. | Fonte: Cena Aberta (2003) Os namorados caminham para a direta do plano, portanto, para o lado de maior li- berdade, porém, é também o lado do retorno para o conhecido, para o interior: “A direção para a ‘direita’ – entrar – é um movimento para casa” (KANDINSKY, 1970, p. 119, grifos do autor). Olímpico é ríspido com Macabéa, mas a protagonista responde apresentando-lhe sua profunda sensibilidade. Em contato com a ópera, ela se permitiu viver a emoção e a relata erguendo espontaneamente a cabeça, movimentando-se de baixo para cima, ganhando li- berdade. Na cena, Macabéa se veste de violeta, cor que, de acordo com Kandinsky, surge da jun- ção do vibrante vermelho com o introspectivo azul, resultando em movimento concêntrico. A lin e de C al da s C os ta d os S an to s 90 Figura 8: Cor violeta estudada por Kandinsky. | Fonte: Ilustração de Barros (2011) para estudo do livro “Do espiritual na arte” O violeta traduz a suavidade em Macabéa, a sua facilidade em concentrar-se em estí- mulos à reflexão existencial. Considerações finais O experimento metodológico de congregar os estudos da cor e da forma de Kan- dinsky ao estudo dos recursos de direção de fotografia e de arte através de Mascelli e Brown levou a resultados que reforçam os traços de personalidade de Macabéa identificados no estudo monográfico ao qual se quis refazer aqui. O ponto centralizado surgiu como ressonância de silêncio e solidão somado ao con- traste preto e branco inserido pela contraluz e pela luz em alta temperatura de cor. A linha diagonal direita desenhada pelo travelling da câmera traduziu o conformismo da protago- nista. O contraste entre amarelo e azul e o movimento de câmera rumo à direita pelo coad- juvante sintetizou a timidez de Macabéa. A linha quebrada vista pela câmera subjetiva e a influência da cor vermelha promoveram tesão no momento de tratar da sua baixa estima. E o movimento rumo à liberdade de expressão da emotividade e sensibilidade de Macabéa esteve associado à cor violeta. As conclusões apontam que o estudo alcançou aos objetivos elencados, de modo que o ponto demonstrou a solidão e a baixa autoestima; a linha quebrada e o vermelho, a timi- dez; o movimento conflitante, o conformismo; o contraste entre as luzes amarela e azul, a timidez e cor violeta, a sensibilidade. Referências A HORA da estrela: a magia de contar uma história Direção: Guel Arraes, Regina Casé, Jorge Furtado. Produção: Casa de cinema de Porto Alegre. Rio de Janeiro: TV Globo Ltda., 2003. 1(45min.) DVD. ARNHEIM, Rudolf. Arte e percepção visual: uma psicologia da visão criadora. São Paulo: Pio- neira Thomsom Learning, 2005 D a pi nt ur a ao v íd eo : a c om po si çã o da im ag em a p ar tir d e K an di ns ky 91 BARROS, Lilian Ried Miller. A cor no processo criativo: um estudo sobre a Bauhaus e a teoria de Goethe. São Paulo: Senac, 2011 BROWN, Blain. Cinematografia – teoria e prática: produção de imagens para cineastas e di- retores. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012 COSTA, Aline de Caldas dos Santos. DA LITERATURA À TELEVISÃO: aspectos da persona- gem Macabéa na adaptação de “A hora da estrela”. Monografia. 2005. Trabalho de conclu- são de curso (graduação) – Universidade Estadual de Santa Cruz. Ilhéus, 2005 KANDINSKY, Wassily. Ponto e linha sobre plano. Lisboa: Edições 70, 1970 _____. Curso da Bauhaus. São Paulo: Martins Fontes, 2003 _____. Gramática da Criação. Lisboa: Edições 70, 2018 MASCELLI, J. V. Os cinco Cs da cinematografia: técnicas de filmagem. São Paulo: Summus 2010 A lo ís io C or rê a de A ra új o 92 Suzuki e a Trilogia Taisho - Fantasmas na pós-modernidade1 Suzuki and the Taisho Trilogy - Ghosts in post-modernity Aloísio Corrêa de Araújo2 (Mestrando - Programa de Pós-Graduação da Universidade Anhembi Morumbi) Resumo: Neste artigo, por meio de estudos, críticas, artigos e análise fílmica da Trilogia Taisho de Seijun Suzuki (Tsigoineruwaizen, Kagerô-za e Yumeji), será observada a possibili- dade de associar estas três obras ao conceito de metaficções historiográficas, assim como paródias, termo definido por Linda Hutcheon, além de refletir sobre as ideias principais que o diretor propõe em seus filmes. Palavras-chave: Cinema, Linda Hutcheon, Pós-Modernismo, Seijun Suzuki, Taisho. Abstract: In this article, through studies, criticism, articles and film analysis of Seijun Suzu- ki’s Taisho Trilogy (Tsigoineruwaizen, Kagerô-za and Yumeji), it will be possible to associate these three works with the concept of historiographic metafictions, as well as parodies, a term defined by Linda Hutcheon and reflect on the main ideas that the director proposes in his films. Keywords: Cinema, Linda Hutcheon, Post-modernity, Seijun Suzuki, Taisho. Ao assistir um filme de Seijun Suzuki é comum sair repleto de questionamentos. O uso ostensivo de elipses na decupagem das cenas traz aos filmes de Suzuki a constante sensa- ção de não se conseguir compreender totalmente o que ocorre. A presença de momentos espetaculares ou truques visuais com cores, fumaça, neve ou pétalas de flores, levantam insights inconclusivos durante a experiência. É possível pensar em temas filosóficos ou políticos nos filmes da trilogia Taisho, mas pouco se conclui ao se pensar em metanarrativas (LYOTARD, 1979, p. 19). Sempre que há alguma espécie de citação a algum grande tema, esta proposta se inverte ou é esquecida por conta de outro assunto apresentado ou de uma cena de ação. Este primeiro momento mais profundo se torna irrelevante, como se fosse apenas um vulto, fantasma ou aparição, algo que se enxerga, mas sem clareza completa. Tom Vick define a sensação de se assistir um filme de Suzuki: 1 - Trabalho apresentado no XXIII Encontro SOCINE na sessão: Painel 6. Cinema e compreensão sócio-histórica da realidade – Coordenação: Márcio Zanetti Negrini 2 - Mestrando pelo Programa de Pós-Graduação e Comunicação da Universidade Anhembi Morumbi (PPGCOM- -UAM), graduado em Cinema e Audiovisual pela Universidade Anhembi Morumbi, diretor, montador, roteirista e técnico de som. Su zu ki e a T ril og ia T ai sh o - Fa nt as m as n a pó s- m od er ni da de 93 Ao chamar repetidamente a atenção para a artificialidade do meioe a construção do mundo narrativo, a forma de Suzuki começou a espelhar sua concepção governamental de sociedade como um conjunto de códigos sem sentido cujo senso de ordem frágil poderia facilmente ser lançado no caos. (VICK, 2015, p. 58). Este artigo tratará brevemente de alguns elementos dos três filmes da trilogia Taisho, focando principalmente no que há em comum entre eles. Estes filmes foram realizados na sua fase independente, nos anos de 1980, 1981 e 1991, e são enigmáticos, repletos de duali- dades. Podemos pensar superficialmente no roteiro destas obras como histórias de fantas- mas. Entretanto, a proposta foi ressignificada, pois não é possível afirmar isto nos três filmes. O editor do site Not Coming, define a questão dos fantasmas: Mas o ponto mais importante é que esses três filmes operam além do gênero. Simplesmente porque os fantasmas aparecem em todos os três, não faz sentido se referir - como fazem alguns escritores - a esses filmes como filmes de “terror” ou “fantasmas”. Essencialmente, nenhuma distinção é feita entre os elementos sobrenaturais e os ba- seados na “realidade”, e isso é particularmente verdadeiro no segun- do e terceiro filmes da trilogia. Tudo faz parte de um único onírico desdobramento narrativo. (JOHNSTON, 2006) A proposta do presente artigo é expandir o termo “fantasma”, aproveitando seu sig- nificado mais quimérico para tudo que é inconclusivo nestes filmes. Há nestas obras signos diversos, referências a acontecimentos históricos (como a modernidade no Japão), críticas ao contemporâneo e à forma dos filmes de ficção, mas não há como detectar exatamente quais seriam as questões que se encaixam verdadeiramente à lógica do filme. Estes pode- riam ser considerados os vultos fantasmagóricos. O artigo parte principalmente da ótica da metanarrativa historiográfica, proposta por Linda Hutcheon em seu livro Poética do Pós-Modernismo, em contraposição às ideias que evocam o conceito de nostalgia de Fredric Jameson (JAMESON, 1991, p. 47). O objetivo principal deste estudo é dissertar acerca da pluralidade de temas dos três filmes, que são obras aparentemente pós-modernas, e autocríticas, capazes de voltar ao passado ao mesmo tempo que avançam na contemporaneidade. Tsigoineruwaizen O primeiro filme de 1980, Tsigoineruwaizen (ou Zigeunerweisen, título internacional) se passa em 1920 e conta a história de um professor, Aochi, casado com Shuko, uma moga3. Aochi viaja de férias e encontra seu amigo, Nakasago, um intelectual, ainda que bruto, de vestes tradicionais, ao contrário de Aochi que sempre está vestido como um homem mo- derno. O encontro dos dois ocorre enquanto Nakasago é acusado de ter assassinado uma 3 - Modern girl, termo que definia o estilo de vida das mulheres modernas no Japão, que já não vestiam os trajes típicos e trabalhavam fora de casa. A lo ís io C or rê a de A ra új o 94 mulher na praia. Aochi o defende. Os dois vão a uma pousada, e lá encontram uma geisha4, chamada O-ine. Um segundo reencontro revela que Nakasago está casado com Sono, uma mulher exatamente igual a geisha. Com o desenvolvimento da trama, estes personagens se relacionam entre si, sugerindo traições entre os dois casais. Nakasago e Sono tem uma filha, Sono morre e Nakasago chama O-ine para cuidar da criança. Aochi recebe visitas de O-ine, que diz que a filha de Nakasago recebe mensagens do fantasma de seu pai, pedindo a ela que vá até Aochi para buscar alguns objetos emprestados. O filme acaba com a criança pes- soalmente conversando com Aochi, que diz ser Nakasago. Ela pede a Aochi que entregue seus ossos, em referência a um pacto que fizeram. Rachel Dinitto (DINITTO, 2004, p. 7) discorre sobre Tsigoineruwaizen e levanta muitos pontos que podem ser expandidos para a trilogia, especialmente quando fala do termo “nos- talgia”: “No entanto, é importante notar que este não é o Taisho dos livros de história, mas o Taisho de Suzuki - um mundo decadente, niilista e ilusório.” (DINITTO, 2004, p. 7). E acrescenta: Da mesma forma, a nostalgia em Zigeunerweisen não é uma sensação de “coração bondoso” para um passado perdido, mas tampouco é uma imagem lustrosa, pós-moderna e vazia. A nostalgia é uma ruptura do presente, um duplo indescri- tível, uma forma de memória tão pouco confiável quanto a história que procura representar. O passado não está neces- sariamente ausente para Suzuki, e se pode ser apreendido apenas através desta escorregadia estrutura dupla. É nesse cenário que Suzuki constrói sua recriação surrealista do pré- -guerra. (DINITTO, 2004, p. 8) Esta definição se aproxima mais do que Linda Hutcheon define como paródia. Segun- do seu livro Uma teoria da paródia, a autora define como “uma inversão irônica, nem sempre às custas do texto parodiado” (HUTCHEON: 1985, p. 17). Pensando que se Suzuki remodela a história e reconstrói o período Taisho em seus filmes a partir da sua perspectiva como diretor, há então um contato crítico com o passado, estando acima de questões modernas que poderiam encaixar o filme dentro de uma meta- narrativa (por exemplo, a questão da modernização do Japão pelas vestimentas e outros costumes). Segundo Hutcheon: “Na metaficção historiográfica, no cinema, na pintura, na música e na arquitetura, essa paródia realiza paradoxalmente tanto a mudança como a con- tinuidade cultural: o prefixo grego para- pode tanto significar ‘contra’ como ‘perto’ ou ‘ao lado’.” (HUTCHEON, 1988, p. 47). A paródia aceita as duas visões, não só o pano histórico dos documentos que defi- nem o período Taisho, assim como a definição “decadente e niilista” segundo Dinitto. Suzuki reinterpreta documentos historiográficos e arte da época assim como se conecta com o seu próprio presente. Os signos contêm a informação de temas modernos, mas ao mesmo tem- 4 - Geisha (芸者) literalmente significa pessoas da arte. Designa uma profissão de mulheres japonesas que fariam uma série de artes para entreter homens. O termo se modifica ao longo do tempo, e dependendo da época pode ter relação com prostituição. Su zu ki e a T ril og ia T ai sh o - Fa nt as m as n a pó s- m od er ni da de 95 po são esvaziados de conteúdo pela forma do filme definida por Suzuki. Portanto, é impor- tante diferenciar a realização cinematográfica de um documento histórico, embora nenhum dos dois se anulem. A historicidade existe e não é anulada com o filme pois: [...] não podemos conhecer o passado, a não ser por meio de seus textos: seus documentos, suas evidências, até seus relatos de tes- temunhas oculares são textos. Até mesmo as instituições do passa- do, suas estruturas e práticas sociais, podem ser consideradas, em certo sentido, como textos sociais” (HUTCHEON, 1988, p. 34); “[...] todas as práticas culturais têm um subtexto ideológico que determi- na as condições da própria possibilidade de sua produção ou de seu sentido. E, na arte, ele o faz deixando visíveis as contradições entre sua auto-reflexividade e sua fundamentação histórica. (HUTCHEON, 1988, p. 15). Esta visão se encaixa com os elementos fílmicos levantados por Dinitto, como por exemplo a dualidade dos personagens. Aochi é homem de trajes modernos, comedido, um acadêmico de escola militar e Nakasago veste trajes tradicionais, agindo de modo inverso, caótico, misógino. O ator que representa Nakasago, Yoshio Harada, já havia feito trabalhos anteriores com Suzuki repre- sentando homens rebeldes de atitudes machistas. Em Kagerô-za, o filme seguinte da trilogia, Yoshio interpretaria um anarquista, mas que não age de forma muito diferente de Nakasa- go, assumindo a mesma postura rebelde. Apesar de se denominar um anarquista, não há na história discursos políticos ou cenas relacionadas ao movimento anarquista do período. O personagem anarquista seria apenas um rastro. Em Yumeji (1991), Yoshio representaria Wakiya, o suposto fantasma do filme, um homem violento, rico,vingativo e agressivo com as mulheres. Apesar de termos três personagens diferentes, um intelectual, um anarquista e um homem rico, estes elementos parecem convidar o espectador a refletir sobre subtextos, mas sem alcançar nenhuma conclusão direta. A questão arquetípica (JUNG, Carl, 1976, p-16) seria tão presente quanto a representação histórica ou seu possível subtexto que ligaria o perso- nagem à metanarrativas, como o anarquista em Kagerô-za, por exemplo. A autora também menciona a duplicidade de diferentes culturas em uma época de transição no Japão: O filósofo Watsuji Tetsuro abordou essa noção de cultura como “du- plicata”; os japoneses modernos estavam levando uma vida dupla (nijo seikatsu) como um meio de explicar a mudança e a sucessão dentro de um quadro de fixidez. Essa ideia de viver em múltiplas temporalidades/culturas é representada em Zigeunerweisen por Aochi, que em muitos aspectos leva uma vida dupla. Ele muda entre sonho e realidade, presente e passado, enquanto revive e fala ações e conversas. (DINITTO, Rachel, 2004, p. 15) Ao mesmo tempo em que Aochi tem uma esposa moga, é apaixonado por O-Ine, uma geisha, trazendo à tona, como um vulto, o conflito entre o moderno e o tradicional. “A história está sempre presente, seja pessoal, nacional, fantástica ou real. Mas o seu espectro assombrado está além do nosso alcance, assim como a realidade está além do alcance de Aochi.” (DINITTO, 2004, p. 30). A lo ís io C or rê a de A ra új o 96 A conclusão de Dinitto se aproxima da de Hutcheon ao constatar a duplicidade (ou múltiplas interpretações) que estão em Tsigoineruwaizen. Esta interpretação é expandida para os outros dois filmes, que falarão dos mesmos temas utilizando recursos semelhantes. Yumeji (1991), filme realizado dez anos após Kagerô-za utiliza seus recursos surrealis- tas de forma diferente dos anteriores. O nome do filme faz referência direta ao artista Yumeji Takehisa, pintor, músico e poeta. Além do poeta, também adota um jogo de palavras bastan- te interessante com o título. Yumeji escrito em ideogramas é composto por dois kanji: 夢 e 二. O primeiro, que é lido pelos fonemas yume significa sonho. O segundo, ni, ideograma para o numeral dois. A leitura literal seria algo como o sonho número dois. O próprio personagem do filme, próximo ao fim do filme, prestes a nomear um novo quadro que pintou se questiona se deveria chamá-lo de Yumezô (夢三), ou sonho número três. A diferença principal do filme Yumeji para os outros dois é a implementação de sequências de sonhos, seguida da mistura destas com a realidade fílmica. Pode-se detectar três formas de interpretação dos recursos (anti)narrativos no filme: o puro efeito do espetáculo da linguagem cinematográfica, criando cenas absurdas pelo deleite estético; um sonho do personagem, que logo na primeira sequência ocorre, portanto sendo descrito e justificado pelo protagonista; ou uma possível relação da narrativa com o processo criativo do protagonista artista, que a todo momento estaria convivendo com ou- tros personagens e com a própria consciência criativa, sendo os recursos visuais que reme- tem ao sonho seriam a imaginação do personagem. A semelhança principal com os outros dois filmes seria que apesar de acabar soando como um filme mais narrativo ou compreen- sível que os outros dois filmes, ainda não é possível destacar completamente a quantidade de significados possíveis com relação ao protagonista e a linguagem do filme. Elementos da primeira sequência do filme, que pode ser compreendida como um sonho se encontram com o protagonista em sua realidade. Cenas em que o protagonista imagina, ou se lembra de imagens de outros artistas são vistas por outros personagens em objetos que imprimem essas artes em fade in como o surgir de imagens em telas de tv, tornando a experiência fíl- mica um sonho lúcido, onde não se compreende claramente o que é sonho, o que é delírio, ou até mesmo se este onirismo todo não é um código do universo narrativo do filme. Conclusão A partir deste artigo, É possível concluir que a trilogia Taisho de Seijun Suzuki trata de obras que podem exigir do espectador uma postura ativa perante à fruição, buscando refe- rências, associações com o passado, interpretações das metáforas visuais e das narrativas dos personagens. Os tais fantasmas que envolvem os filmes e não apenas os personagens, ainda se comunicam com a metaficção historiográfica de Linda Hutcheon e seu conceito de paródia: [...]utilizam a paródia não apenas para recuperar a história e a me- mória diante das distorções da ‘história do esquecimento’ (Thiher 1984, 202), mas também, ao mesmo tempo, para questionar a auto- ridade de qualquer ato de escrita por meio da localização dos dis- Su zu ki e a T ril og ia T ai sh o - Fa nt as m as n a pó s- m od er ni da de 97 cursos da história e da ficção dentro de uma rede intertextual em contínua expansão que ridiculariza qualquer noção de origem única ou de simples causalidade. (HUTCHEON, 1988, p. 169) A referência a outras épocas enquanto falam de seu próprio tempo, com o devido dis- tanciamento crítico, é uma característica de obras pós-modernas, algo presente nos filmes de Seijun Suzuki assim como nos de outros autores realizadores do período como David Lynch e Raoul Ruiz. Se a paródia é uma crítica com distanciamento, segundo Linda Hutcheon, subverter os símbolos é uma crítica a estes autores, que poderia ser interpretado como continuidade, uma transição do pensamento tradicional e também do pensamento moderno para o pós- -moderno. O fato da obra ser um filme de cinema, pautado nas imagens e na narrativa distante de discursos históricos e sociais não tira o mérito de ser uma paródia. É praticamente impossí- vel assistir a estes filmes e ignorar as tantas questões ambíguas presentes. Mesmo que fosse somente um filme de cinema, a interpretação do espectador amplia a obra, a duplica, triplica em uma miríade de visões, que vão da reflexão profunda e maliciosa ao grandioso espetáculo fantasmagórico das imagens em movimento. Referências DINITTO, Rachel, Translating Prewar Culture into Film: The Double Vision of Suzuki Seijun’s “Zigeunerweisen”, Journal of Japanese Studies, Vol. 30, No 1, The Society for Japanese Stu- dies, 2004. HUTCHEON, Linda, Poética do Pós-Modernismo, Imago Editora, São Paulo, 1988. JOHNSTON, Ian. Seijun Suzuki’s Taisho Trilogy. 2006. disponível em: http://www.notcoming. com/features/suzuki/. JAMESON, Fredric. Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio, Atica, São Paulo, 1996. JUNG, Carl, G. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Editora Vozes. Petrópolis. 2002. LYOTARD, Jean-François. A Condição Pós-Moderna. José Olympio. São Paulo. 1986. VICK, Tom. Time and Place are Nonsense: The Films of Seijun Suzuki (Freer Gallery of Art Occasional Papers, New Series), Smithsonian Institution, 2015. Á lv ar o A nd ré Z ei ni C ru z 98 Telenovela: do espelho ao retrato, do reflexo à memória1 Telenovela: from the mirror to the portrait, from reflection to memory Álvaro André Zeini Cruz2 (Doutor – Centro Universitário SENAC; FIB) Resumo: Este artigo compreende a telenovela como obra cultural que ocupa uma memória coletiva nacional, e que, por isso, influencia na formação de uma identidade nacional. A par- tir desse entendimento, propõe-se aqui uma metodologia de análise dessa memória a partir de uma categorização que, num escopo mais amplo, dialoga com questões como narrativa, estilo, autoria, contextos e tecnologia como marcadores memorativos. Palavras-chave: Telenovela, memória, memória coletiva, televisão. Abstract: This article comprises the telenovela as a cultural work that occupies a national collective memory, and therefore influences the formation of a national identity. From this understanding, we propose here a methodology for analyzing this memory from a catego- rization that,in a broader scope, dialogues with issues such as narrative, style, authorship, contexts and technology as memorative markers. Keywords: Telenovela, memory, collective memory, television. Em “A Telenovela: documento”, Maria Lourdes Motter (2000) sustenta a telenovela como um documento de valor histórico (p. 76), uma vez que ela incorpora em sua diegése “hábitos, costumes, preocupações que perpassam a vida cotidiana de um momento que [...] seleciona e fixa como ambiente sócio-cultural para estruturar uma história” (p. 80). A autora exemplifica esse decalque contextual a partir da novela “Laços de Família” (2000), trama das oito escrita por Manoel Carlos, que ia ao ar naquele momento; Motter destaca a docu- mentação de uma reconfiguração familiar monoparental feminina (p. 83), das inseguranças dos jovens frente ao mercado de trabalho (p. 85), além de discussões como o avanço da medicina e o cuidado com a saúde. Essa análise central do artigo de Motter parte da premissa de que a telenovela opera uma memória documental, vinculada com aquele presente de então, que a “impregna com suas marcas” (p. 76). Porém, a telenovela compreende também o conceito de memória co- letiva, “um compartilhamento de saberes que ela difunde para seu amplo público” (MOTTER, 1 - Trabalho apresentado no XXIII Encontro SOCINE na sessão: ME Ficção televisiva brasileira: narrativa, estilo e crítica. 2 - Doutor e mestre em Multimeios pela UNICAMP, especialista em Roteiro pela FAAP e bacharel em Cinema pela FAP. Fez doutorado sanduíche na University of Leeds. É professor na FIB e no SENAC São Paulo. Te le no ve la : d o es pe lh o ao re tr at o, d o re fle xo à m em ór ia 99 2000, p. 77). Motter parte do conceito de memória coletiva concebido por Maurice Halbwa- chs (1990), para quem esse tipo de lembrança depende de uma construção dada por inter- -relações sociais. Não faltam exemplos que apontem a telenovela como memória coletiva, seja pelas tramas, causos de bastidores ou personagens marcantes; Odete Roitman e Nazaré Tedesco são, ainda hoje, sinônimos de vilanias. Um caso pessoal envolvendo a última personagem exemplifica bem a retroalimenta- ção que Halbwachs identifica entre as memórias coletiva e individual: numa aula de roteiro, mencionei a vilã de “Senhora do Destino” (2004) a uma turma cujos alunos, em sua maioria, havia nascido no começo dos anos 2000. Mas o fato de estarem na primeira infância no momento de exibição da novela não foi empecilho para que reconhecessem a personagem, tampouco o método que a vilã usava para eliminar oponentes: um empurrão escada abaixo. Ou seja, tanto a personagem quanto seu ato mais marcante ocupavam uma memória coleti- va, que ultrapassava empecilhos pressupostos aquele público. Um aluno, no entanto, expan- diu esse exemplo ao lembrar-se de outra artimanha da vilã: a eletrocussão com o secador na banheira. A memória individual desse aluno recuperou o que, para mim, era uma memória latente; aparentemente, era também a outros na sala. Como defende Halbwachs, a memória individual retroalimentou aquela memória coletiva. Sem o entendimento de memória coletiva, a telenovela não teria se constituído como produto formador de uma identidade nacional, que atendeu demandas não só da emissora, como também interesses políticos e de mercado. O próprio formato, cuja interrupção folhe- tinesca propõe um exercício entre lembrança e expectativa, pressupõe a memória coletiva, que lida diariamente com conflitos e temas a partir de uma vitrine que negocia nacionalmen- te um ponto de vista sobre o país. Uma vitrine que, ao mesmo tempo, é espelho de um agora e retrato dos capítulos anteriores. Essa negociação em torno da memória é uma construção cujos artifícios tentaremos delinear melhor adiante, avançando sobre o tema desdobrando-o em possíveis categorias de abordagem, sem perder de vista o trabalho de Motter. O recorte mais evidente de análise, já trazido por Motter, é o da narrativa como memó- ria, o que no caso de “Laços de Família” se dá na camada mais denotativa da trama: acon- tecimentos e circunstâncias extra-diegéticas são incorporados pela diegése. Mas a narrativa pode operar por subtextos, mais ou menos evidentes: a trama “capa e espada” de “Que Rei Sou Eu” (1989) escamoteava uma paródia sobre o Brasil, que estava prestes a ter sua primei- ra eleição presidencial direta pós-ditadura. Nesse sentido, houve quem lesse no subtexto da novela uma apologia à campanha de Fernando Collor de Mello, traçando paralelos entre o presidenciável e o protagonista vivido por Edson Celulari (XAVIER, 2019). Num subtexto ainda mais profundo, é possível encontrar a ideia governante, o valor moral que norteia a obra. Busquei este nível de análise na tese “Renascer: narrativa cordial e estilo maneirista na telenovela brasileira” (2018), em que defendo a elaboração do conceito de Sérgio Buarque de Holanda de “homem cordial” enquanto espinha dorsal da trama de Benedito Ruy Barbosa. Isto não quer dizer que a teoria de Holanda precisa ser conhecida Á lv ar o A nd ré Z ei ni C ru z 100 pelo espectador; pelo contrário, o que a novela faz é injetar valores típicos da cordialidade – como o patriarcado e a defesa do privado em detrimento ao público – disfarçados na nar- rativa, operando a clássica articulação entre história e discurso. Artifícios singulares de determinadas narrativas também podem configurar uma me- mória proeminente: em “Anastácia, a mulher sem destino”, o autor Emiliano Queiroz pecou pelo excesso de personagens. Para tentar salvar a trama, Janete Clair assumiu o roteiro, criando uma solução exótica para sanar esse excedente: um terremoto, do qual saíram vivos apenas quatro personagens. O estilo – mise en scène, montagem e som – também opera como memória, sobretudo quando rompe com a pasmaceira das imagens e sons do fluxo televisivo. Nesse sentido, no- velas como “Meu Pedacinho de Chão” (2014) e “Velho Chico” (2016) são exemplos recentes marcantes pela hibridização de elementos de linguagens (cinematográfica, teatral, publici- tária, quadrinhos), transportando o “artificialismo explícito” (COLLAÇO, 2013) das séries de Luiz Fernando Carvalho às novelas. Em “A Próxima Vítima” (1995), o estilo é memorável por dar tratamento noir a uma então incomum trama de suspense no horário nobre; o Opala preto do assassino tornou-se um ícone da novela. Já na campanha de lançamento de “O Sétimo Guardião” (2018) – novela que citava outras obras do autor Aguinaldo Silva –, o uso da música “A Serpente e a Estrela” rememorava “Pedra Sobre Pedra”, aproveitando-se da música mais popular da trilha da novela de 1992 para fazer uma referência. A memória também pode se dar através de um entrelaçamento entre narrativa e esti- lo. Em pesquisa sobre “Renascer” (1993), ouvi o nome da personagem Buba como uma das recordações mais proeminentes da novela. Como no caso de Nazaré, essa memória atrelada à personagem se dá por uma conjunção entre narrativa (perfil do personagem, diálogos) e estilo (interpretação, figurino, maquiagem). Mas Buba teve ainda um marcador relevante: foi a primeira personagem intersexo da telenovela brasileira; a curiosidade acerca dessa condi- ção e a interpretação de Maria Luíza Mendonça, que dava à Buba meiguice que atendia a um feminino patriarcal, fez com que ela marcasse a memória coletiva. Há também a associação entre um tipo de personagem e um determinado ator. O caso de Antônio Fagundes é inevitável, já que o ator encarnou diversos coronéis ao longo da carreira (em “Renascer”, “O Rei do Gado” [1996] e “Terra Nostra” [1999]) até culminar na figura alegórica representada em “Velho Chico”, uma espécie de antropofagia maneirista de todos os outros coronéis. O resultado foi uma caracterização que espantou o espectador por desassociar Fagundes da figura de galã, que perdura na memória do público. Nesse intercruzamento entre narrativa e estilo,há ainda a memória relacionada a uma determinada cena, que, de certa forma, acaba por representar toda a novela. É o caso da famosa cena em que Camila (Carolina Dieckmann) raspa a cabeça em “Laços de Família” (2000), mas inúmeros outros exemplos podem surgir: a partida de Roque em “Roque San- teiro” (1985), a “banana” dada ao Brasil em “Vale Tudo” (1988), etc. Te le no ve la : d o es pe lh o ao re tr at o, d o re fle xo à m em ór ia 101 Por fim, essa intersecção também se dá nos paratextos da telenovela, que merecem um recorte à parte enquanto memória: aberturas e chamadas, sobretudo as chamadas de elenco, podem configurar uma memória tanto do casting da emissora, quanto da tecnologia usada ou do discurso publicitário de uma época. Esse tipo de peça causa tanta comoção que é comum encontrar em plataformas de vídeo como o Youtube, simulações, produzidas por internautas, de aberturas de novelas que estão por vir, ou chamadas de elenco de novelas futuras ou passadas, estas últimas atualizadas com um elenco contemporâneo (peças que, portanto, “falsificam” memórias!). Um outro recorte de análise pode se desdobrar desse intercruzamento entre narrati- va e estilo: as marcas de autoria como memória, considerando que, normalmente, o autor é o roteirista responsável pela trama. A partir disso, é possível pensar um encadeamento de características ou mesmo uma progressão das obras de determinados autores em con- sonância com a memória coletiva. Benedito Ruy Barbosa é lembrado pelas novelas rurais; Glória Perez, pelas tramas sobre culturas consideradas exóticas; Walcyr Carrasco, pelo texto didático e pelas cenas de torta na cara. Gilberto Braga é um exemplo muito associado à re- presentação das elites, mas é possível analisá-lo pelo esforço autoral de escrever uma trilo- gia sobre o Brasil. Assim, “Vale Tudo”, “O Dono do Mundo” (1991) e “Pátria Minha” (1994) são novelas que podem ser rememoradas pela perspectiva de um projeto autoral, que buscava refletir criticamente o país. Percebe-se desde já um movimento deste artigo em sair das engrenagens internas das novelas para, a partir daqui ir às engrenagens externas. A trilogia de Braga, por exemplo, pode ser analisada sob a luz da autoria, mas também sob a relação com o contexto como dispositivo da memória. Se “Vale Tudo” encontrou um país recém-democratizado e politiza- do, “O Dono do Mundo” abarcou as decepções e crises acerca do governo Collor. A premissa da trama, “Os ricos se preocupam com os pobres?”, acabou respondida fora da tela, com casos de corrupção com o dinheiro público, descontrole da economia e, mais adiante, com o congelamento das poupanças. O contexto fez com que o telespectador migrasse para o escapismo de tramas como “Carrossel” (1991), algo que já se anunciara um ano antes com o sucesso de “Pantanal” (1990), da Manchete. A exemplo desse caso, o contexto socioeconômico-cultural voltou a influir na organi- zação das telenovelas em 2016. Com o país em vias do impeachment de Dilma Roussef e a deflagração de uma crise política que se desdobrou em aspectos econômicos e sociais, a Globo amargou com “Babilônia” (2015) a pior audiência do horário nobre. A trama realista e com temáticas incômodas, como violência urbana, corrupção e racismo, foi seguida por “A Regra do Jogo” (2015), que voltou a esses mesmos temas, adensando-os sob uma estrutura menos folhetinesca e com personagens pouco maniqueístas. A melhora pífia da audiência fez com que a emissora suspendesse “A Lei do Amor”, novela que viria em seguida também com tramas políticas, para realocar “Velho Chico” do horário das seis para às nove, numa operação que tentou refazer o acerto acidental da Manchete com “Pantanal” ao providenciar ao telespectador uma nova ruptura do fluxo televisivo. Ou seja, assim como há neste caso uma memória a partir de um contexto socioeconômico-cultural, tem-se também a memória Á lv ar o A nd ré Z ei ni C ru z 102 relacionada ao contexto televisivo, que considera questões como o fluxo, a grade de pro- gramação e a História da televisão. Numa inter-relação entre esses mesmos fatores, mas no sentido contrário, a exibição das novelas “Cheias de Charme” e “Avenida Brasil” (ambas de 2012) representou uma articulação inserida no contexto televisivo, que passou a ser analisa- da sob o viés socioeconômico-cultural, uma vez que as duas novelas são lembradas como um retrato de uma então crescente classe C. Extrapolando os limites da televisão, há uma memória relacionada ao contexto midiáti- co, que engloba o a crítica televisiva, o jornalismo cultural e as revistas de fofoca. Entende-se aqui a crítica televisiva como um trabalho mais profundo do que o jornalismo cultural. No Brasil, Nilson Xavier, Maurício Stycer e Cristina Padiglione são exemplos nesse campo muito escasso e, não raramente, realizam um trabalho de memória quando citam casos históri- cos da telenovela. Já o jornalismo cultural tem como um trabalho memorial importante a realização de entrevistas com atores, autores, diretores; mesmo quando superficiais, essas entrevistas podem ser reveladoras ao exporem um ponto de vista de alguém que trabalha em determinada obra. As revistas de fofoca compõem um memorial curioso, pois são compostas por uma série de suposições sobre as tramas, e, embora algumas se concretizem, muitas se revelam falsas. A quem se dedica a historicizar a telenovela, esse manancial de informações pode se revelar como um desafio, pois além de distinguir o que de fato aconteceu do que era uma espécie de “fake news noveleira”, esse material gera um mosaico de hipóteses que, naquele momento, eram formuladas para determinadas tramas, o que pode ser conteúdo muito rico (e complexo) de análise. O contexto midiático geralmente revela uma outra conjuntura que merece ser elen- cada à parte: os bastidores da telenovela. Trata-se de um quadro cujo potencial relativo à memória é bastante amplo, indo de casos que se configuram como crises internas à produ- ção (o conflito conjugal entre o casal então formado por Felipe Camargo e Vera Fischer e que acarretou no afastamento de ambos da novela “Pátria Minha” é um exemplo) a casos que deram um nó no imaginário nacional em torno da telenovela, a morte de Daniela Perez sendo o mais proeminente. Assassinada pelo companheiro de cena, a perda da atriz, filha da autora Glória Perez, comoveu o país, estampou capas de revistas e chegou a ganhar mais atenção da mídia do que o impeachment de Fernando Collor, que acontecia paralelamente, como destaca Esther Hamburger (2015). Hamburger vê esse caso como um expoente tão potente da presença da telenovela no cotidiano do país – e da linha tênue que muitas vezes confunde ficção e realidade – que abre seu livro analisando-o. Por fim, outro item de análise é o uso da tecnologia televisiva como memória, sobre- tudo no que diz respeito às mudanças relativas ao aspect ratio e à qualidade da imagem e do som. O dilema do canal Viva e das reapresentações do “Vale a pena ver de novo” são casos interessantes: as reapresentações de novelas gravadas no aspect ratio 4:3, ou tem sido esticadas para ocuparem o quadro das novas televisões 16:9 (o que deforma a imagem) ou tem sido “cropadas”, o que cria um novo enquadramento e, consequentemente, uma Te le no ve la : d o es pe lh o ao re tr at o, d o re fle xo à m em ór ia 103 alteração do estilo com relação à novela originalmente apresentada. Nas reprises recentes de “Celebridade” (2003) e “Por Amor” (1997), foi comum o medium-close (acima do peito) típico das telenovelas transformar-se num primeiríssimo plano, cortando inclusive o queixo das personagens. Conclusão O objetivo deste artigo foi revisitar a ideia trazida por Motter de que a telenovela habita uma memória coletiva nacional, para, a partir disso, desdobrar possibilidades de ca- tegorizações que criem um ferramental parafuturas análises das obras enquanto memória. Contudo, essa categorização é flexível e, sobretudo, porosa, algo que fica claro no decorrer deste texto, em que vários exemplos se inter-relacionam nas possibilidades de memória. Bibliografia COLLAÇO, Fernando Martins. Luiz Fernando Carvalho e o processo criativo na televisão: a minissérie Capitu e o estilo do diretor. 2013. CRUZ, Álvaro André Zeini. Renascer: narrativa cordial e estilo maneirista na telenovela brasi- leira. – Campinas, 2018. HALBWACHS, Maurice. A Memória Coletiva. São Paulo, Vértice, 1990. HAMBURGER, Esther. O Brasil antenado: A sociedade da novela. Rio de Janeiro: Zahar, 2015. LOPES, Maria Immacolata V. de. Telenovela brasileira: uma narrativa sobre a nação. Comuni- cação e Educação, São Paulo, v. 26, p.17-34, jan. 2003. MOTTER, Maria Lourdes. A telenovela: documento histórico e lugar de memória. Revista Usp, São Paulo, v. 48, n. 1, p.74-87, dez. 2000. XAVIER, Nilson. Teledramaturgia. Disponível em: <http://teledramaturgia.com.br/que-rei- -sou-eu/>. Acesso em: 05 dez. 2019. Ju lia na M on te iro 104 Subterrâneos do horror enquanto experiência em Amizade Desfeita 2 – Dark Web1 Underground of horror as experience in Unfriended 2 – Dark web Ana Maria Acker2 (Doutora em Comunicação e Informação – ULBRA) Juliana Monteiro3 (Mestre em Comunicação – UAM) Resumo: A proposta investiga características de estilo, peculiaridades narrativas e de expe- riência com o desconhecido (THACKER, 2011 e 2015) no subgênero desktop horror, filmes por interface de computador ou múltiplas telas. Amizade Desfeita 2 – Dark Web (2018), de Stephen Susco, é a produção para a análise da fruição estética e seus desdobramentos tec- nológicos. A abordagem da apropriação criminosa da internet se aproxima das reflexões de Thacker sobre a escuridão no horror e os limites do pensamento. Palavras-chave: Horror, Cinema, Tecnologia, Interface. Abstract: The proposal inquiries style features, narratives particularities and unknown ex- perience in the subgenre desktop horror movies by computer interface or multiple screens. Unfriended 2 - Dark Web (2018), by Stephen Susco, it’s the analyzed production through aesthetics efforts and their technological developments. The approach of the criminal ap- propriation of internet comes near of Thacker’s arguments about the darkness in the horror and the limits of thought. Keywords: Horror, Cinema, Technology, Interface. A partir da observação da câmera subjetiva diegética, o aparelho sem olho humano e a imagem técnica como constituidora de ambiências no horror found footage (ACKER, 2017), a proposta investiga transformações de estilo, peculiaridades narrativas e de experiência com o desconhecido (THACKER, 2011 e 2015) no subgênero desktop horror ou screenlife/ social media horror (LARSEN, 2019). Esses filmes se apresentam por interface de computa- dor ou múltiplas telas e demandam uma atenção particular aos planos e respectivos limites 1 - Trabalho apresentado no XXIII Encontro SOCINE na mesa temática: História(s) do horror mundial: estética, tecnologia e convergências. 2 - Doutora em Comunicação e Informação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Profes- sora da Universidade Luterana do Brasil – ULBRA. Contato: ana_acker@yahoo.com.br. 3 - Mestra em Comunicação Social pela Universidade Anhembi Morumbi. Professora da Universidade Anhembi Morumbi. Contato: jullyc22@hotmail.com. mailto:ana_acker@yahoo.com.br mailto:jullyc22@hotmail.com Su bt er râ ne os d o ho rr or e nq ua nt o ex pe riê nc ia e m A m iz ad e D es fe ita 2 – D ar k W eb 105 (LARSEN, 2019), uma vez que vários quadros narrativos se abrem em uma situação familiar à experimentada pelos espectadores em artefatos de uso cotidiano. Tais realizações podem ser categorizadas, ainda, como falsos found footage de horror. Amizade Desfeita 2 – Dark Web (2018), dirigida por Stephen Susco, é a produção para a análise da fruição estética, o estilo e desdobramentos tecnológicos. Destacando-se pela relação performática entre os personagens, o longa-metragem distingue-se pela simulação do espaço hipermediado da web. Fotos e pastas na área de trabalho, o movimento do cursor do mouse, a múltipla utilização de redes sociais, sites des- conhecidos, vídeos misteriosos, aplicativo de música e conversas via videoconferência, estão acumulados na tela como camadas de ação que, em determinados momentos, são convo- cados para o primeiro plano do quadro pelo protagonista. Essa visualidade leva a um acha- tamento da imagem e se descola da tradição da perspectiva ou câmera subjetiva diegética, algo comum nos filmes de falsos registros documentais. Transcorrendo em tempo contínuo, tencionando compor um longo plano sequência, Amizade Desfeita 2 – Dark Web apresenta personagens que controlam os principais elementos estilísticos a fim de desvincular o longa de uma produção cinematográfica industrial e simular um evento real. O emprego do estilo na construção da experiência Para Lipovetsky e Serroy, o cinema do século XXI é, principalmente, fruto de uma nova modernidade ainda mais voltada para as sensações e a individualização da experiência. Esses novos dispositivos nos quais o cinema transita – do computador ao telefone celular, do tablet à fachada de mídia – alteram a própria natureza da tela original (CASETTI, 2015, p. 12). Segundo Lipovetsky e Serroy (2009, p. 11), essas novas tecnologias cambiaram o em- prego do ecrã, transformando a tela-espetáculo em tela-comunicação, de uma tela única ao tudo-tela. Para Casetti, mesmo quando o cinema migra de seu espaço no qual consolidou a cultura da imagem em movimento, ele conserva elementos individuais tradicionais que são próprios da sua identidade enquanto meio (2015, p. 20). Nesse cenário de constante desen- volvimento tecnológico, o que migra e se estabelece dentro desse novo contexto, segundo Casetti, é a experiência. A noção de experiência transborda a questão da percepção e implica também na re- flexividade e em práticas individuais ou sociais: [...] o que constitui o núcleo definidor de um meio é o modo como ele ativa nossos sentidos, nossa reflexividade e nossas práticas. A forma como ele o faz é indubitavelmente influenciada pelo complexo téc- nico, mas também se cristalizou ao longo do tempo em uma forma cultural que é reconhecível como tal e que também pode encontrar instanciações diferentes (CASETTI, 2015, p. 5, tradução nossa). A experiência do cinema não é calcada apenas no dispositivo espacial, mas engloba fa- tores culturais, sociais e estéticos e pode ser definida pela forma com que situa o espectador na relação com o mundo e com os outros (CASETTI, 2015, p. 24). Essas novas tecnologias Ju lia na M on te iro 106 reconfiguraram as imagens que se deslocam na hipermodernidade e, consequentemente, redesenham a relação da tela com o mundo, pois a superfície de exibição não é mais exclu- sividade do cinema e por isso ganha novas relações com o indivíduo. A relação que o espectador de Amizade Desfeita 2 – Dark Web experimenta é muito próxima do que Casetti argumenta: a audiência que utiliza os novos meios para uma dezena de atividades, inclusive para assistir filmes, importa-se com a interação que o filme pode produzir, com o quão dentro da história ele pode estar (CASETTI, 2015, p. 167). Dessa forma, os filmes dessa geração híper midiatizada exigem mais do público: so- licitam um envolvimento sensorial e até mesmo performático. Casetti aponta que a mul- tiplicidade de dispositivos proporcionou ao cinema uma multiplicidade de relações (2015, p.185). Para o autor, os espectadores novos agora modelam os filmes ou os remodelam em si, devido a uma associação de novas práticas que afetam o objeto, as modalidades e as con- dições da visão (CASETTI, 2015, p. 186). Frente a novos paradigmas imagéticos espalhados nas diversas novas telas, o estilo aplicadoaos produtos cinematográficos renuncia algumas de suas articulações clássicas para dar lugar a técnicas que priorizam a performance e a interação do sujeito. Em Amizade Desfeita 2 – Dark Web, a tela do computador é onde se desenvolve toda a história (até os minutos finais). A cena de abertura do filme começa com o som caracte- rístico de inicialização do notebook Mac e o espectador acompanha as inúmeras tentativas do novo dono de acessar o conteúdo interno da máquina. Depois de falhar algumas vezes, o protagonista, Matias (Colin Woodell), é apresentado ao público a partir de uma videocon- ferência. Figura 1: Visão do espectador. | Fonte: Amizade Desfeita 2 – Dark Web A partir deste momento, Matias (Figura 1) começa a fazer login em diversos portais: Spotify, Google, Facebook, Skype e a cada nova janela que se abre, o protagonista é obriga- do a deletar uma conta desconhecida para adicionar a dele. Enquanto experiência imersiva, o formato proposto ao filme foi originalmente pensado para ser assistido por um usuário úni- Su bt er râ ne os d o ho rr or e nq ua nt o ex pe riê nc ia e m A m iz ad e D es fe ita 2 – D ar k W eb 107 co (bem como o seu antecessor Amizade Desfeita). As primeiras cenas do longa-metragem estabelecem uma relação de proximidade e conhecimento do espectador com a ferramenta na qual o filme está sustentado: entrar em determinadas páginas exige certos códigos facil- mente reconhecidos por quem os utiliza com frequência. Assim, ver Matias trocar todos os usuários, um a um, pode causar estranhamento, o que favorece a narrativa no gênero horror. Uma vez dentro das plataformas desejadas, o computador novo de Matias começa a manifestar problemas. Já inserido em uma conversa com amigos no Skype, Matias pergunta a Damon (Andrew Lees) o que pode estar pesando no desenvolvimento da máquina nova, ao passo que o amigo indica que o HD do notebook deve estar cheio. Depois de executar um programa enviado pelo amigo hacker, o protagonista encontra uma pasta oculta que contém diversos vídeos de câmeras de segurança e webcams; além de um aplicativo (Figura 2) chamado “The River” (o Rio). Figura 2: Ingresso à darknet através do programa The River. | Fonte: Amizade Desfeita 2 – Dark Web Conforme o protagonista vai penetrando nos principais dados do computador recém adquirido, novas informações sobre o antigo dono são oferecidas pelo filme; e a cada nova janela que se abre, mais longe o jovem vai para descobrir o que tais dados querem dizer. As janelas se tornam um portal que dá acesso a um caminho sem volta para descobrir as atro- cidades existentes na deep web. O glitch (defeito, em tradução livre) no filme de horror não raro configura uma pre- sença midiática que avisa ao espectador que algo errado está acontecendo. Tal recurso foi utilizado no primeiro Amizade Desfeita com a intenção de pontuar as ações do fantasma de Laura Barns sobre os computadores dos colegas. Em Dark Web, o glitch não possui ligação com o sobrenatural - o defeito na imagem é provocado por um terceiro sujeito que monitora todas as ações dos personagens da ação. A “darknet”, como chamam os personagens da história, vigia e controla todos os atos dos indivíduos, em uma escalada de aprisionamento inevitável. Assim, o glitch é acionado sempre que há necessidade de proteger a identidade de um dos participantes do submundo da web. Ju lia na M on te iro 108 Além dos componentes estilísticos como parte da constituição da experiência fílmica, a narrativa favorece a imersão do espectador na medida em que permite o aprofundamento de questões sensíveis: o que é a dark web? O que acontece neste submundo? Qual será o desfecho do grupo de amigos que descobriu as ações ilícitas? A relação de confidencialida- de usuário-máquina que o espectador acompanha, também em seu computador, permite uma amplificação do processo imersivo na história possível, apenas, pela escolha estilística proposta para sustentar a narrativa. A dark web como um limite para o pensamento Amizade Desfeita 2 – Dark Web adentra no universo obscuro da Dark Web – apro- priação criminosa da internet por meio do uso de protocolos não rastreados. Essas ações ocorrem pela Darknet, que não necessariamente é ilegal. As manifestações nebulosas pela rede acontecem por sistemas criptografados, com roteamento anônimo, poucas aplicações e visibilidade escondida (AKED; BOLAN; BRAND, 2013). Jamie Bartlett (2015) argumenta que os mesmos mecanismos usados para crimes, como tráfico de drogas e pedofilia, podem servir para garantir o anonimato e a vida de ativistas e defensores dos direitos humanos em países em que a liberdade na rede é cerceada. O autor questiona até que ponto é possível estabelecer uma divisão entre as identidades reais e as ações desses indivíduos no ambiente digital. Ao entrevistar usuários desse lado obscuro da rede, Bartlett encontrou defensores de uma liberdade irrestrita no universo digital. Na produção de 2018, a web profunda possui aspectos sinistros que envolvem vigi- lância, jogos sádicos e assassinato. A interface proibida, com referências ao mundo subter- râneo da mitologia grega, se abre em espiral e aniquila quem por ela navega. É impossível sobreviver fora da Dark Web a partir do momento em que se entra em contato com os seus mecanismos, expressos no filme na figura de caronte, barqueiro que leva os mortos pelo Estige até o reino de Hades. A entrada no rio mitológico, em um dos planos em câmera subjetiva do filme (Figura 2), é a passagem para a escuridão da internet de fato - o volume de informação já conhecido da deep web é de 400 a 550 vezes maior que o da internet comum (2001). Em pesquisa pu- blicada pela revista Nature no começo deste século, divulgou-se que a deep web já continha aproximadamente 550 bilhões de documentos contra 1 bilhão da web da superfície, aquela que utilizamos por processos rastreados e identificáveis e que representa de dois a três por cento de toda a rede. Ou seja, há um mundo praticamente submerso, pois o que está escon- dido consequentemente não pode ser removido e tem efeitos imensuráveis. No filme de Susco, as personagens lutam contra um inimigo oculto, que age nas som- bras, e, uma vez acionado, se vale de mecanismos de vigilância, que levam todos a um des- fecho de morte. Conforme Eugene Thacker (2015), o que assombra o conceito de escuridão no horror é a iminência de pensar o impossível. Há um limite para o conhecimento humano, algo inalcançável. “Isso sugere que não há nada fora, e que este nada-fora é absolutamente inacessível. [...]. Não há nada, e isso não pode ser conhecido” (THACKER, 2015, p. 42). A in- Su bt er râ ne os d o ho rr or e nq ua nt o ex pe riê nc ia e m A m iz ad e D es fe ita 2 – D ar k W eb 109 ternet profunda em Amizade Desfeita 2 traz percepções acerca de um limite cognitivo para o desconhecido do mundo, no caso em estudo, na rede. Assim, a estratégia narrativa se po- tencializa diante da certeza de um abismo que é assustadoramente real. Figura 3: Vigilância constante controlada por usuários da dark web. | Fonte: Amizade Desfeita 2 – Dark Web A tecnologia como um processo inacessível (FLUSSER, 1985) se manifesta em diversos filmes contemporâneos, sobretudo os do estilo found footage (ACKER, 2017). Essa conexão ocorre no desktop horror e acrescentamos um terceiro elemento: a vigilância total (Figura 3). A escuridão e as fronteiras cognitivas, segundo Thacker, remetem ainda ao esforço de compreensão do não-humano. Mathias Clasen (2017) observa resquícios de um comporta- mento primitivo no temor do escuro: “[...] quando as pessoas falam sobre medo do escuro, elas geralmente querem se referir ao medo de quais perigos podem se esconder no escuro” (CLASEN, 2017, p. 32). A pouca visão desorienta e ativa um estado de ansiedade que busca detectar qual ameaça se apresenta. Ambos os espectrosde como podemos denominar a escuridão no filme dialogam com os conceitos de Thacker e Clasen. Em Amizade Desfeita 2, o avanço pelo caminho obscuro de interfaces estranhas, ar- caicas, que remetem às explorações no Internet Archive, levam as personagens ao clímax de horror quando todas descobrem a origem das imagens aleatórias que aparecem em suas máquinas. Muitos espionam e acompanham as ações de diversos desconhecidos. Em alguns momentos, decidem quem deve morrer, algo semelhante ao Assassination Market, uma das primeiras ações de usuários da dark web descritas por Bartlett (2015). A ubiquidade se des- loca para um mundo simplesmente inominável, impensável, inacessível, darkness. Thacker, ao comentar o texto religioso medieval The Cloud of Unknowing (que aborda entre outras questões, a relação com o divino como uma experiência com o desconhecido) argumenta que “O pensamento questiona, se desenvolve e é levado a um ponto em que não pode mais continuar sem negar a si. Eu amo o que não posso pensar. Talvez essa seja também uma formulação precisa do ‘horror da filosofia’” (THACKER, 2015, p. 32). Ju lia na M on te iro 110 O que não podemos pensar está no horror, na relação dele com a tecnologia, na dark web que, mesmo evitada, se estrutura como um submundo assustadoramente ubíquo. As- sim, o found footage e o desktop horror ainda têm muito a dizer sobre a interação complexa com as máquinas, que não pode ser descrita somente pela chave de leitura do medo. Ou seja, amamos o que não podemos discernir nesse universo cada vez mais obscuro. Referências ACKER, A. M. 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Ve lo -C in e: u m a fá br ic a de p ro je to re s no n or de st e br as ile iro 111 Velo-Cine: uma fábrica de projetores no nordeste brasileiro1 Velo-Cine: a projector factory on brazilian northeast André Huchi DIB2 (Mestrando – PPGC/UFPB) Resumo: Entre 1960 e 1980 uma indústria sediada em Pernambuco produziu e reformou mais de uma centena de projetores, equipando e prestando serviços para dezenas de ci- nemas em capitais e no interior do nordeste, como alternativa ao alto custo de aquisição e manutenção de projetores importados ou originários do sudeste. As relações entre a Indús- tria Velo-Cine e este circuito de exibição de filmes é o tema desta apresentação, situada no campo da história das mídias e arqueologia do cinema. Palavras-chave: projetor cinematográfico, história das mídias, arqueologia do cinema. Abstract: Between 1960 and 1980 a Pernambuco-based industry produced and refurbished more than a hundred projectors, equipping and serving dozens of cinemas in Northeast capitals and inThe country, as an alternative to the high cost of purchasing and maintaining imported or sourced from southeast projectors. The relations between the Velo-Cine Indus- try and this movie screening circuit is the theme of this presentation, situated in the field of media history and cinema archeology. Keywords: film projector, media history, cinema archeology. A história que esta pesquisa se dedica a contar pode ser resumida como o incrível caso do ex-militar que abriu uma fábrica de projetores no quintal de sua casa, em Olinda, Per- nambuco. Ela traz informações inéditas sobre o que possivelmente seja o único fabricante e montador nacional de projetores a atuar fora da região Sudeste. Ao colocar foco na Indústria Velo-Cine e no circuito de exibição por ela atendido, pretendemos articular temas em torno de mídias analógicas, artes de projeção, memória, cultura e sociedade. Como metodolo- gia, considerando a materialidade do objeto empírico, optou-se por abordagens situadas no campo da história da mídias, da arqueologia do cinema e do New Cinema History. Os primeiros equipamentos de projeção cinematográfica fabricados no Brasil datam dos anos 1930. De acordo com o pesquisador Rafael de Luna (2018), “o advento do filme sonoro na passagem para os anos 1930 que, além de provocar inúmeras mudanças no mer- cado cinematográfico brasileiro, alavancou o desenvolvimento dessa indústria”. Surgiram assim marcas que por décadas equiparam as cabines de projeção de todo o país: Cinephon, 1 - Trabalho apresentado no XXIII Encontro SOCINE na sessão 5 Dispositivos e Arquivos do Seminário Temático Exibição cinematográfica, espectatorialidades e artes da projeção no Brasil. 2 - Mestrando no Programa de Pós Graduação em Comunicação da Universidade Federal da Paraíba. Graduado em Comunicação Social - Jornalismo pela Universidade Federal de Pernambuco. A nd ré H uc hi D IB 112 Phonocinex, Cinetom, Solidus, Centauro, Triumpho. “Esse estágio envolve adaptações que, em nosso caso, incluem imitações e simplificações de uma tecnologia importada para aten- der às demandas dos exibidores brasileiros”. A existência da Indústria Velo-Cine foi identificada durante pesquisa para desenvol- vimento de roteiro de um filme, resultando em mapeamento que passa pelo local onde ela funcionou, pessoas que nela trabalharam, antigos cinemas atualmente em desuso ou dedi- cados a novas finalidades, máquinas e vestígios pertencentes ou relativos a esses espaços. Uma vez sistematizadas, tais informações permitiram elaborar não apenas um perfil sobre a Indústria Velo-Cine a partir de entrevistas, memória iconográfica formada por fotos, anún- cios e notícias buscadas em arquivos públicos e de família, além de explorações arqueoló- gicas, como nos conduziu a um número igualmente estimulante de histórias de cinemas, o que trouxe à tona um peculiar desenho do circuito exibidor do nordeste na segunda metade do século 20. Entre 1960 e 1980 a Indústria Velo-Cine produziu, montou, reformou e comercializou mais de uma centena de projetores, facilitando assim o upgrade técnico e a manutenção de cinemas situados em cinco estados: Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Este contexto traz à tona um corpo de técnicos, exibidores, distribuidores e antigos cinemas apontam para um mapeamento que passa prédios em desuso ou com novas finali- dades e máquinas e demais objetos pertencentes ou relativos a esses espaços. Assim, reve- la-se um cenário que, se por um lado se mostra disperso geograficamente, por outro esteve organicamente conectado por um peculiar sistema de distribuição de filmes. Ainda que este mapeamento tenha localizado “fósseis” de grandes salas como o Cine Decimper (Cabo de Santo Agostinho-PE), Cine Irapuã (Belém de São Francisco-PE) e Cine Triunfo (Arapiraca-AL, o maior do estado), a Indústria Velo-Cine tinha como clientes princi- paispequenos cinemas que até então operavam com projetores 16mm. O inventor dos projetores Velocine se chama Pedro Veloso (1906-1977), que desde quando servia o exército, nos anos 1930, já trabalhava na manutenção de cinemas. Mais tar- de, em Fernando de Noronha, montou alguns cinemas e aparelhos de radiotelegrafia, além de trabalhar em campos de aviação. Após a Segunda Guerra mudou-se para Vitória de Santo Antão, onde mudou de ramo, dedicando-se a produção de enxadas. Nos anos 1950, volta a realizar montagem e manutenção de cinemas, desta vez como funcionário da Philips, na época uma das maiores fabricantes mundiais de projetores. A partir desta experiência, Veloso conseguiu decifrar as fragilidades e os pontos fortes dos projetores, peças de maior desgaste, mecanismos mais resistentes e identificar os que apresentavam mais defeitos. A esse conhecimento aliou a habilidade no torno mecânico, o que o possibilitou forjar todos os componentes para construção de um projetor a partir do molde do Philips e elementos de outras marcas, possibilitando um modelo próprio, com menor necessidade de manutenção e mais barato do que os oferecidos pelos concorrentes. Além de fabricar o modelo próprio, Veloso continuou a recondicionar projetores Solidus, Triunfo, Zeiss-Ikon, além de instalar sistemas de ventilação para salas e cabines. Ve lo -C in e: u m a fá br ic a de p ro je to re s no n or de st e br as ile iro 113 Em 1965, notas e matérias jornalísticas descreviam os projetores Velo-Cine como apa- relhos “cuja qualidade rivaliza com as mais poderosas indústrias do sul do país”. Outro texto diz que “as máquinas Philips, Solidus, Triunfo, e tantas outras, não nos fazem inveja em ne- nhum sentido”, clamando para que o poder público apoie a iniciativa. Senso de oportunidade e habilidades técnicas foram decisivos para Veloso criar uma fábrica de projetores nos fundos de sua casa, em Olinda. No entanto, a longevidade do empreendimento também pode ser atribuída à compreensão de necessidades próprias do circuito exibidor regional, principalmente nos cinemas do interior, aonde os rolos de celu- loide chegavam após rodar nas capitais, não raro em más condições, com muitas emendas e avarias, tornando corriqueiras as sessões interrompidas por conta do rompimento da fita ou de dificuldades na leitura óptica do som ou da imagem. Combinando elementos de dife- rentes fabricantes e reforçando peças específicas, o projetor Velo-Cine era tido como uma opção barata e confiável para evitar sessões interrompidas por conta de rupturas da fita ou de dificuldades na leitura óptica do som ou da imagem. De acordo com Cláudio Mendes de Araújo, projecionista e exibidor residente na Paraí- ba, os projetores Velo-Cine eram “um pouco rudes” e menos silenciosos do que os outros. “Mas tinha um sistema que, mesmo com a fita estragada, ela não soltava. Pra quem usava fita picotada, como Rambo, faltando pedaço, era bom”. Cláudio, que conheceu a fábrica ain- da em funcionamento, descreve três ambientes principais: a parte eletrônica (onde Veloso trabalhava), a fundição (fora da fábrica) e a tornearia e montagem, onde Geovanito Viana, filho de Veloso, trabalhava. Em 1977, ano do falecimento de Veloso, seu filho Geovanito e o distribuidor recifense Arlindo Gusmão abriram um novo empreendimento equipado com projetores e sonorizado pela Velo-Cine: o Auto Cine Aeroclube, que funcionou no bairro do Pina, no Recife. Depois da morte de Veloso, Geovanito tentou tocar a fábrica até o início dos anos 1980, sendo as- sumida por seu outro filho, Hertz Veloso, apenas como estúdio de gravação, até meados dos anos 1990. Além da busca em compreender a relação entre as demandas específicas do circuito exibidor regional e como elas foram atendidas por Pedro Veloso e sua fantástica fábrica, esta pesquisa (atualmente em andamento) se relaciona com questões como a sala de cine- ma como dispositivo midiático-comunicacional, e a apropriação de tecnologias e conteúdos hegemônicos em ambientes periféricos, procurando colaborar com esforços recentes para a construção de uma história da exibição cinematográfica no Brasil. Indo além, podemos também perguntar o que o dispositivo exibidor analógico pode dizer sobre as atuais técnicas de projeção digital, ou seja, como relacionar passado e pre- sente, buscando na ruína uma transpiração própria em busca de indícios que possam revelar o “novo no velho”. Isso abre campo para análises (an)arqueológicas, na visão de Siegfried Zielinski, exercício de busca por origens (em vez de uma origem única), e desafiando a no- ção de tempo linear pela de tempo circular, e à compreensão do momento atual não neces- A nd ré H uc hi D IB 114 sariamente como o melhor ou mais evoluído, mas como uma entre as tantas possibilidades e potencialidades identificáveis em dispositivos e artefatos do passado, considerados arcaicos ou primitivos. Referências ELSAESSER, T. Cinema como arqueologia das mídias. 1ª ed. São Paulo: Editora Sesc, 2018. FERRAZ, T. A segunda Cinelândia carioca. 2 ed. Rio de Janeiro: Mórula editorial, 2012. FLUSSER, V. Filosofia da caixa-preta. São Paulo: Annablume, 2011. FREIRE, R.L. Cinematographo em Nictheroy: histórias das salas de cinema de Niterói. 1ª ed. Niterói: Niterói livros, 2012. ______. “Cinephon: sobre como o cinema sonoro impulsionou a fabricação de projetores cinematográficos no Brasil”. Aniki: Revista Portuguesa da Imagem em Movimento, v. 5, p. 105-125, 2018. KITTLER, F. Mídias ópticas. 1ª ed. Rio de Janeiro: Contraponto, 2016. ______. Gramofone, filme, typewriter. 1ª ed. Minas Gerais: Editora UFMG, 2019. ZIENLINSKI, Siegfried. Arqueologia da Mídia: em busca do tempo remoto do ver e do ouvir. São Paulo, SP: Annablume, 2006. O a fe to fa nt as m a 115 O afeto fantasma1 The phantom affection André Piazera Zacchi2 (Doutorando – UFSC) Resumo: Em quatro fragmentos de Apuntes para una biografía imaginária (2010) de Edgar- do Cozarinsky, diferentes rostos em primeiro-plano, entregues a seus pensamentos, mos- tram uma crescente intensidade afetiva. Mas seus olhares continuam vagos ou titubeantes, sugerindo que a emoção é causada por um extracampo imaginário, inacessível ao especta- dor, vivido apenas na memória compartilhada entre personagens. Um afeto fantasma que assombra o filme e investe de possíveis o texto biográfico. Palavras-chave: Cozarinsky, Afeto, Rosto, Biografia, Fantasma. Abstract: In four fragments of Apuntes para una biografía imaginaria (2010) by Edgardo Cozarinsky, different faces in close-up, surrendered to their thoughts, show a growing affec- tive intensity. But their eyes remain vague or hesitant, suggesting that the emotion is caused by an imaginary off-screen, inaccessible to the viewer, lived only in a memory shared by the characters. A phantom affection haunts the film and fill with possibilities the biographical text. Keywords: Cozarinsky, Affection, Face, Biography, Phantom. Borges conta que o cinema já havia sido chamado de biógrafo nos primórdios, mas que, naquele 1929, o termo corrente era o de cinematógrafo, fato que lamenta. (BORGES, 2015, p. 272-273) Talvez o nome de biógrafo seja consequência da profusão de filmes e sa- las da Biograph3, embora Borges esclareça que, diferente dos filmes que se esforçam em mostrar movimento, há filmes que apresentam almas a una alma (BORGES, 2015, p. 273), vidas a uma vida, personagens a um espectador. De todos os modos, o cinema estabelece uma relação com a vida que filma: que ele possa ser uma escritura, graphos, não apenas do movimento, kino, mas da vida, bios4. Isso tem uma consequência imediata e evidente: é uma escritura, uma grafia, algo separado da vida que lhe serviu de matéria-prima. Segunda con- sequência, também evidente, mas que depende das lealdades teóricas de cada um: essa im- pronta do cinema com a vida segue sendo a escritura de tal matéria-prima, um objeto sobreo qual a descrição se esmera em retratar ou, antes, cria uma vida nova, imaginária, ficcional, numa descrição que vem a substituir o objeto? 1 - Trabalho apresentado no XXIII Encontro SOCINE na sessão: Afetos. Pathos, minimalismo, não-lugar. 2 - Graduado em cinema, mestre em Literatura com pesquisa sobre os filmes de Alberto Cavalcanti e doutoran- do com tese sobre os primeiros-planos no cinema de Edgardo Cozarinsky. 3 - Uma das pioneiras do cinema, a Biograph, criada em 1895, adquiriu um dos primeiros cinematógrafos. Ficou mundialmente famosa pelos filmes de D.W. Griffith. Permaneceu ativa até 1928. 4 - Borges ironiza o gesto etimológico dizendo “Este, si mi griego adivinatorio no me traiciona, quiere ser es- critura de la vida; aquél, sólo del movimento.” Em: El cinematógrafo, el biógrafo – texto publicado no jornal La Prensa, Buenos Aires, 28 de abril de 1929, incluído no volume Textos Recobrados 1919-1929, Debolsillo, 2015. A nd ré P ia ze ra Z ac ch i 116 Apuntes para una biografía imaginaria, filme de Edgardo Cozarinsky de 2010 tende para a última opção, na qual o filme faz da vida sua matéria-prima para, a partir dela, tramar uma ficção5. Gostaria de começar pelo título do filme. Apuntes são notas. E notas geralmen- te são parciais, efêmeras, contingentes e, mesmo quando bem elaboradas, trazem consigo a marca do não-todo. Incompletude que também se exibe na preposição: não são notas de uma biografia, mas notas para uma biografia. Uma promessa de texto biográfico, que se de- clara ainda incipiente nessas notas. Por fim, no título, não há uma persona biografada. Não são notas para uma biografia de Edgardo Cozarinsky, e sim para uma biografia imaginária. E sabemos, é imaginária, menos pelo fato de que é feita de imagens, do que por ser um texto que cede à lógica da imaginação. No total são quinze apuntes, quinze fragmentos apresentados no filme da mesma ma- neira: um título em branco sobre o fundo negro; as imagens compondo um fragmento com certa unidade de sentido; e então, para finalizar, uma imagem de pequenas ondulações na água de um rio. E assim começa o apunte seguinte: título, sequência de imagens, plano do rio. No filme há poucas alterações nesse modelo, mas os fragmentos são muito diferentes entre si. Seguem-se três exemplos. A primeira de todas as notas chama-se, Saigon, 1975 – três cartões postais. Sobre imagens de rua em Saigon, tomadas como que por uma câmera amadora, que se detém várias vezes nos retratos de Ho Chi Min, o grande líder vietnamita, ouvimos três textos em tom de correspondência, como se fossem mesmo três cartas. A pri- meira delas em inglês, narrada por um homem, a segunda em francês na qual uma mulher se despede de seu amado, e uma terceira, lida pela voz de Cozarinsky, na qual um soldado conta à sua mãe como é servir na cidade de Saigon. Outro exemplo: A sexta nota se chama Souvenir de Bayreuth e usa imagens da vez em que Hitler foi a esta cidade alemã para assis- tir à encenação de Os mestres cantores de Nuremberg de Wagner. Sobre essas imagens de arquivo da peça e da audiência de Hitler, ouvimos o texto de um bilhete infantil aos pais, con- tando um passeio de escola ao festival de Bayreuth para assistir a mesma peça e a excitação pela possível presença do Fürer. Terceiro exemplo: Na sétima nota, intitulada Última Viagem, as imagens são tomadas a partir de um táxi em movimento em Buenos Aires, a banda sono- ra traz um texto especulativo que relaciona morte e viagem (com o qual pretende encerrar esta comunicação), enquanto assistimos o trânsito diante de monumentos da cidade. São três exemplos que demonstram o caráter díspar das 15 notas que compõem esse filme en- quanto vontade de biografia. Entretanto, gostaria de me deter em 4 desses apuntes que recebem o título de Luz de um corpo. Esses episódios estão distribuídos pelo filme e formam blocos de intensidade afetiva. Neles alguns rostos são filmados em primeiro-plano, e eles não têm qualquer relação com os outros fragmentos, estão isolados, mas lhes é concedida uma temporalidade, uma permanência em cena que mostra a irrupção de um fluxo afetivo, uma intensidade. A música de Ulises Conti, que acompanha essas 4 notas, também se inti- tula Luz de un cuerpo (CONTI, 2007), e reforça a intensidade emotiva pelo repetição de um 5 - Cozarinsky, declaradamente herdeiro de Borges – publicou no Brasil uma compilação de textos que Borges escreveu sobre cinema precedida de um ensaio perspicaz – diz preferir a opção cinematógrafo, não para opô- -la a biógrafo, mas à forma contraída “cine”, muito usada em espanhol. Por isso intitula sua coleção de ensaios publicada por ocasião do 12 BAFICI de “Cinematógrafos”. Ambos os livros constam nas referências desse artigo. O a fe to fa nt as m a 117 tema6. As lágrimas dos rostos se demoram no sofrimento enquanto afeto não convertido em ação, mas são também rostos que olham. Não olham para um extracampo que, contíguo à imagem, apenas não temos acesso mas que está lá. Antes olham para um nada, seu olhar está vago, fixo em um ponto sem interesse, olha para a câmera ou, em outros casos, o olhar titubeia para lá e pra cá, para que esses rostos possam se dedicar àquilo que imaginam, pos- sivelmente uma memória que lhes traz a carga emotiva. A imagem-afecção Todos nós conhecemos os tipos de imagem a partir dos quais Deleuze elabora suas leituras do cinema. Poderíamos dividí-los em dois grandes blocos: imagens-movimento (DE- LEUZE, 1985) e imagens-tempo (DELEUZE, 2007). As primeiras representam o tempo atra- vés do movimento e as segundas apresentam o tempo diretamente. No primeiro caso, das imagens-movimento, trata-se de um sistema, daquilo que Deleu- ze chama de um circuito sensório-motor: as imagens seguem um encadeamento: percebo, me afeto, ajo. Percepção, afecção, ação. O personagem age a partir daquilo que percebe, daquilo que o filme dá a perceber. Porque o filme, segundo a tese de Pasolini apropriada por Deleuze, é como um discurso “subjetivo indireto livre” do personagem (DELEUZE, 1986, p. 97). Entre a percepção (algo vem em minha direção, por exemplo) e a ação (subo num muro) há uma imagem que expressa o afeto (o susto, o medo, o amor, a dúvida, etc). A essa imagem Deleuze denomina imagem-afecção e diz que ela convencionalmente se dá em pri- meiro-plano. A imagem-afecção se dá em primeiro-plano, e o primeiro-plano é um rosto. As- sim, nesse esquema sensório motor, típico da imagem-movimento, Deleuze relaciona os três tipos de imagem com três tipos de enquadramentos: à imagem-percepção corresponderia o plano geral, à imagem-ação o plano médio e, para o que nos interessa aqui, a imagem- -afecção, corresponde ao primeiro-plano. Por isso diz que todo primeiro-plano é um rosto, e tem a característica de apresentar o estado do personagem, sua qualidade, e também a intensidade crescente de afeto derivada de alguma causa, ou seja, sua potência. Sigo bas- tante rápido porque importa menos a classificação das imagens para Deleuze, que estão acessíveis a todos em seus livros, do que o uso que pretendo fazer dessa imagem específica, a imagem-afecção, que se dá geralmente em primeiro-plano, que é sempre um rosto, ainda que um rosto não esteja nela representado (DELEUZE, 1985, p. 114). Na imagem afecção, no primeiro-plano que estiver dentro desse circuito sensório-mo- tor, como na maioria dos filmes que conhecemos, o afeto se resolve em ação. O primeiro- -plano tem causas - cachorro em minha direção - e consequências - subo no muro. Ele é o momento da indecidibilidade, em que tudo pode acontecer. Mas há casos em que o afeto não se resolve em ação e tampouco conhecemos suas causas, aí ele fica vagando pelo filme, assombrando-o, uma força buscando sua dissipação. Essa pode ser uma técnica narrativa, expressar um afeto que só conheceremos sua causa com a peripécia e o reconhecimento, mas não é disso que quero tratar. Interesso-me pelos primeiros-planosque dão uma carga 6 - Deleuze distingue dois modos da música no cinema: a cavalgada e o ritornello, com suas funções específicas. DELEUZE, Gilles. Cine 3 - Verdad y tiempo - potencias de lo falso. Buenos Aires, Cactus, 2018, p. 499. A nd ré P ia ze ra Z ac ch i 118 afetiva ao filme, mas que esses afetos não ganham prolongamento sensório-motor, afetos que, como fantasmas, ganham a possibilidade de estarem presentes com qualquer outra imagem do filme, e mais que isso, são fantasmas, e como tais pedem realização, pedem montagem, interpelam o próprio filme e o espectador. Voltemos ao filme Apuntes para una biografía imaginaria. Nos momentos de maior in- tensidade emotiva, cenas em que rostos são enquadrados, sem dizer qualquer palavra, sem qualquer legenda que os identifique, sem relação com os outros capítulos ou com alguma narração, nesses momentos, toca a música repetitiva de Ulises Conti (2007), pré-existente ao filme, chamada Luz de un cuerpo. Minha hipótese é a de que são afetos que se expressam no filme sem que apareça sua causa, ou melhor dizendo, sem que a causa ganhe uma repre- sentação imagética direta. Alguma coisa intensifica a emoção que acomete o personagem, vemos essa intensidade, a expressão do afeto num primeiro-plano, mas a causa está extra- campo e, nesse caso específico de Apuntes, estaria extra-filme (e não será conhecida, não é e nem será apresentada). Esses rostos, insisto, não têm qualquer relação com um extracam- po espacial: esses personagens não participam de outros momentos do filme e seu olhar não amplia o espaço, antes forçam um enquadramento centrípeto, um quadro que a princípio se fecha, elimina o exterior espacial, mas com isso se abre ao tempo, escava o tempo invocan- do a participação da memória. Não temos aí um flashback que daria realização imagética (atualização) a essa memória. Temos um salto no tempo e os efeitos que essas memórias produzem no personagem: o afeto presente de uma causa fantasma. Quando esteve lançando Apuntes em Florianópolis, Cozarinsky disse queria montar de maneira distinta os fragmentos de filmes antigos e intercalar tudo com novas filmagens como um mosaico “con experiências, con afectos, con intereses que algum dia tuve. Todo montado en una “suerte de espiral”7. O filme é então uma biografia que não tem como ele- mentos os fatos mais importantes de uma vida, as datas marcantes: nascimento, faculdade, viagem, publicações de seus livros, estreias de seus filmes, mas pequenos afetos atribuídos ao biografado, montados em espiral. A biografia não é, assim, construída por cenas fortes, históricas, representativas, mas pelo olhar vago para um extracampo que não está no espa- ço contíguo, por um olhar que quer se descolar do que vê e acessar a imaginação, ter uma visão. O rosto do biografado, aqui, aparece nos rostos que, pelo olhar vago, vazios de objeto, trazem à cena memória, imaginação e tempo. Um afeto-fantasma que assombra a monta- gem, demandando realização imagética. Esses afetos fantasmas nos perguntam sobre o personagem dessa carga emotiva, que de certa forma é fantasmal, é recusado ao espectador. Podemos imaginá-lo pelo desejo que deposita nesses 15 apuntes. O biografado aparece mais pelas direções nas quais aponta, pe- las opções da montagem de fragmentos como notas para uma biografia. Por isso a biografia não aparece pelo que apresentam ou representam as imagens, mas por aquela vida que está fora de campo e maneja as escolhas, escolhe para onde apontar sua câmera e sua escrita. É assim que a vida biografada se insinua. 7 - Na ocasião da conferência de Cozarinsky na UFSC em 2010, gravei sua fala e a transcrição estará publicada no texto final da tese que escrevo. O a fe to fa nt as m a 119 As imagens de Apuntes nos dão a ver um pensamento: de que não há biografia que prescinda da memória e que em toda cena da memória aparece o desejo e o retorno. E as- sim, qualquer texto biográfico é sempre contingente, sempre parcial, sempre histórico (não do acúmulo do historicismo mas da contingência da historicidade). Partindo de imagens que lhe são caras, de fragmentos de filmagens antigas suas, mas entremeadas por cada Luz de un cuerpo, as notas se afastam da personagem Cozarinsky como possível biografada e se multiplicam em conexões virtuais que podem engajar qualquer um nesse papel. No único episódio em que seu corpo aparece, dentro do táxi, sem ser creditado como Cozarinsky, o texto lido em voz off fala da morte, dos fantasmas, do desaparecimento e do motor do desejo: Para algunas mitologías la muerte no es un acontecimiento súbito, el tránsito abrupto de un instante en que aún hay vida a otro en que ya no la hay. La representa más bien un viaje, simbólico, que puede entenderse como un despojamiento y un aprendizaje. Es posible imaginar que durante ese tránsito subsisten, islas a la de- riva en un mar nocturno, fragmentos de conciencia, recursos, voces e imágenes de la existencia que se apaga, transitorio bagaje al que el viajero se aferra por un tiempo breve, impreciso, que nuestros instrumentos no saben medir. Nada sugiere que en esas islas perduren los momentos que el viajero hubiese considerado decisivos en su vida: tal vez solo se adhiera a ellas la resaca de un naufragio. De esas ruinas que se dispersan en el momento mismo de nombrarlas sería vano esperar el retrato de un individuo que desaparece. Tal vez su condición de añicos, de de- sechos, es lo que cautivaría la atención del improbable espectador que a ellos pudiese asomarse: fragmentos de un relato mutilado, pie- zas aisladas de un rompecabezas que ya nunca podrá completarse. (COZARINSKY, 2007, p. 70) Referências APUNTES para una biografía imaginaria. Produção Constanza Sanz Palacios. Argentina, 2010, 60 min., color. BORGES, Jorge L. Textos recobrados: 1919-1929. Buenos Aires: Debolsillo, 2015. CONTI, Ulises. Los paseantes. Metamusica, París, Marsella, Buenos Aires, 2007. Álbum digital disponível em https://ulisesconti.bandcamp.com/album/los-paseantes-2007. COZARINSKY, E. Borges em/e/sobre cinema. São Paulo, Iluminuras, 2000. ______. Cinematógrafos. Buenos Aires, BAFICI, 2010. ______. La novia de Odessa. Buenos Aires: Emecé, 2007. DELEUZE, Gilles. A imagem-movimento. Tradução Stella Senra. São Paulo, Brasiliense, 1985. ______. A imagem-tempo. Tradução Eloisa de Araujo Ribeiro. São Paulo, Brasiliense, 2007. ______. Cine 3 - Verdad y tiempo - potencias de lo falso. Buenos Aires, Cactus, 2018. A nd ré a C . S ca ns an i 120 O humano e o técnico em um só corpo: diálogos entre Simondon e Béla Tarr1 The human and the technical in one body: dialogues between Simondon and Béla Tarr Andréa C. Scansani2 (Doutora/UFSC) Resumo: Este trabalho propõe uma reflexão sobre o ato cinematográfico em Béla Tarr e sua equipe em diálogo com algumas ideias presentes na obra de Gilbert Simondon. Através do primeiro plano de seu último filme, O Cavalo de Turim (2011), traçaremos uma série de conexões entre as diversas facetas do pensamento de Simondon presentes em O modo de existência do objeto técnico (1958) e Imaginação e invenção (1965-66). Palavras-chave: Béla Tarr, Gilbert Simondon, cinematografia. Abstract: This paper proposes a reflection on the cinematic act of Béla Tarr and his crew in dialogue with some ideas present in Gilbert Simondon’s work. Through the first scene of his latest film, The Turin Horse (2011), we will trace a series of connections between the vari- ous facets of Simondon’s thought present in The Mode of Existence of the Technical Object (1958), and Imagination and Invention (1965-66). Keywords: Béla Tarr, Gilbert Simondon, cinematography. Os batimentos da imagem cinematográfica são criados, processados e expostos por máquinas. Desde a fabricação dos materiais até os procedimentos de filmagem, de finali- zação e da tão almejada projeção, todo o caminho é atravessado pela tecnologia vigente e disponívelpara a época em que tal ou qual produção é levada a termo. De tempos em tem- pos enfrentamos algumas revoluções tecnológicas que alteram os processos de filmagem e finalização, modificam os métodos de trabalho, transformam os mecanismos de articulação entre as máquinas e seus operadores e remodelam a própria dimensão daquilo que chama- mos cinema. Ao remontar a história tecnológica do cinema, vemos que ela sempre esteve em trans- formação e se, hoje, nossos celulares cumprem o papel de pequeninas cavernas de Platão, é porque o constante movimento da tecnologia é sua fortuna. Um movimento que, a nosso ver, não tem início nem fim. O que vemos como uma evolução de aparatos ópticos que ao longo dos séculos florescem em forma de imagens em movimento mais ou menos triun- 1 - Trabalho apresentado no XXIII Encontro SOCINE na sessão 6 do seminário temático Corpo, gesto e atuação em 11 de outubro de 2019. 2 - Professora do curso de Cinema da UFSC. Doutora pela ECA/USP com período sanduíche na Sorbonne Nou- velle, bolsa CAPES; mestre pela UNICAMP. O h um an o e o té cn ic o em u m s ó co rp o: d iá lo go s en tr e Si m on do n e B él a Ta rr 121 fantes, nada mais é do que a capacidade humana de transformar ideias em coisas, de de- bruçar-se com curiosidade sobre os materiais e de dar corpo à imaginação através de sua predisposição inventiva. Pensemos a imaginação, então, não apenas como uma abstração oposta à percepção [posto que se percebo estou em contato com o objeto percebido, por- tanto não-imaginário] e sim como uma potência de ação, de produção. A imaginação, tal qual pensada por Gilbert Simondon em seu curso Imagination et invention (1965/66), por exemplo, “nos mostra que o que precede a percepção [...] já é o nascimento de um ‘ciclo de imagem’ que se estende à percepção na forma de ‘imagens intra-perceptivas’ e para além da percepção através das ‘imagens-memória’” (BARTHÉLÉMY, 2012, p. 212). Assim, a imaginação seria um ciclo contínuo que perpassa o estado pré-perceptivo [tendências motoras que se encontram na antecipação da experiência], a percepção [intera- ção com o meio, com o objeto], a memória [ressonância afetivo-emocional da experiência], a invenção [organização e combinação das imagens] e a produção [um novo encontro com o objeto concreto, não o mesmo, mas um fruto da invenção]. Este ciclo de imagens que traça o caminho do pensamento inventivo a partir da imaginação, nos coloca numa continuidade não-linear, num fluxo perene de criações e transformações técnicas que ocorrem dentro de uma “compatibilidade sinérgica”. Isto é, dentro de uma ação simultânea de todos os dife- rentes momentos e diferentes agentes. Uma imaginação técnica formada por um circuito de imagens internas e externas a serviço da materialização das intenções humanas. A ideia de Simondon de uma imaginação técnica como uma sensibilidade capaz de enxergar nas coisas sua própria tecnicidade (2007, p. 94) faz com que o movimento de transformação seja constante e circular, visto que cada era dá existência a seus próprios objetos. O objeto técnico, deste modo, “pensado e construído pelo homem, não se limita a criar uma mediação entre homem e natureza; é uma mistura estável entre o humano e o natural, contém algo de humano e algo de natural” (2007, p. 261). Seguindo seu pensamento, veremos que todo artefato, tudo aquilo que é construído pelo homem [portanto, a própria definição de artificial] tem sua faceta natural. A artificialidade está necessariamente atrelada ao homem, porque dele é originário, e qualquer objeto técnico é dependente da intervenção humana para perpetuar sua existência. Sendo assim, a consistência interna dos próprios ob- jetos técnicos expressa sua porção naturalizada, onde “o artificial seria o natural suscitado” (2007, p. 271). Para que não fiquemos apenas na abstração das palavras do filósofo e con- sigamos enxergar parte de sua reflexão nas coisas da vida, pensemos um pouco no cinema [nosso objeto por excelência] e suas tantas máquinas, mais particularmente a câmera. A função elementar, a utilidade decisiva, do objeto técnico central do cinema [a câme- ra] é a reprodução [por falta de palavra mais precisa] de imagens. No entanto, ao executar sua despretensiosa e programada tarefa, ela entra na cadeia das imagens e oferece sua con- tribuição ao ciclo da imaginação-invenção [ela mesma sendo um fruto deste ciclo]. Uma vez realizada sua função, a imagem que dela nasce [uma imagem artificial], retroalimenta o pró- prio circuito. Sua artificialidade lhe confere uma condição exterior ao homem [mesmo que dele tenha vindo], e lhe garante uma vida própria dentro do universo dos objetos estéticos. Essa emancipação faz com que sua potencialidade enquanto imagem se intensifique, se tor- A nd ré a C . S ca ns an i 122 ne parte de um conjunto técnico que está predestinado a propiciar o reencontro dos seres humanos [projeção] e, nesse momento [repetidas vezes na história de cada ser e na histó- ria do cinema] a imagem artificial acaba por ser assimilada [tanto individualmente quanto socialmente], torna-se parte novamente do imaginário em forma de memória [ressonância afetivo-emocional] e, de certo modo, é absorvida. A imagem concebida no imaginário do criador/cineasta, modelada pela câmera [também concebida pela imaginação e invenção] e interiorizada na mente do espectador é naturalizada em novas imagens e o próprio con- junto técnico câmera-projeção [artificial por excelência] é também incorporado e renovado constantemente. Pensar o natural e o artificial num terreno comum de imbricações cria espaço não ape- nas às construções dos objetos técnicos como ferramentas específicas para problemas de uma certa época, mas como produtos da própria individuação humana [em constante muta- ção] que “forja conexões e as inscreve nos objetos” (SIMONDON, 2007). E ao vislumbrar na matéria “certas qualidades que não são práticas, nem diretamente sensoriais” a imaginação técnica atua como o propulsor, tanto das inovações tecnológicas quanto da inventividade estética que está diretamente atrelada às vicissitudes da humanidade. A comunhão entre o humano e o técnico, entre o artificial e o natural, ou entre a estética e a tecnologia no pen- samento de Simondon parece-nos certeira para abordarmos a cinematografia, não apenas como um instrumento para a realização de um filme, mas como um modo de existência pró- prio e concebê-la para além dos limites da aplicabilidade direta de suas máquinas. Simondon clama por um “título de cidadania” (2007, p. 31) ao objeto técnico e de- senvolve os vínculos desse protesto em sua tese secundária de doutoramento, O modo de existência dos objetos técnicos. Para o filósofo, a técnica [a máquina] exerce uma influência direta nos corpos dos indivíduos e sua ação utilizadora, sua suposta serventia, desencadeia uma alteração transversa, uma espécie de permuta contínua com quem [ou com o que] faz parte dessa articulação. Desse modo, o objeto técnico nada mais é do que um ser em cone- xão com os corpos e mentes, e não um objeto mecânico dissociado da realidade humana, ou mesmo independente de outros objetos técnicos. “A presença do homem nas máquinas é uma invenção perpetuada. O que reside nas máquinas é a realidade humana, o gesto hu- mano fixado e cristalizado em estruturas que funcionam” (2007, p. 34). Essa presença se dá igualmente em caráter reverso, pois a máquina também se cristaliza no gesto humano. Essa permuta se dá através do que ele elabora como a margem de indeterminação das máquinas: O verdadeiro aperfeiçoamento das máquinas [...] não tem nada a ver com um aumento de automatismo [...] tem a ver com o fato de seu funcionamento abrigar uma certa margem de indeterminação [...] que permite que uma máquina possa ser sensível à informação exterior. [...] A máquina dotada de alta tecnicidade é uma máquina aberta, e oconjunto de máquinas abertas aceita o homem como um organizador permanente, como um intérprete vivo das inter-rela- ções entre as máquinas” (SIMONDON, 2007, p. 33). O h um an o e o té cn ic o em u m s ó co rp o: d iá lo go s en tr e Si m on do n e B él a Ta rr 123 Se entendermos a câmera cinematográfica como uma máquina aberta que reflete a materialização do pensamento humano, podemos nos indagar com qual informação exterior ela estaria propensa a dialogar quando sob a batuta de quem orquestra as inter-relações de uma equipe de filmagem e seus tantos objetos técnicos. Como sabemos, a realização cine- matográfica, normalmente, se encontra nas mãos [nos olhos e nos corpos] de um conjunto numeroso de pessoas e de máquinas, cada qual com suas imensas possibilidades técnicas e criativas. No momento em que tudo está preparado, em que todos os instrumentos entram em sintonia e passam a vibrar de forma orquestrada com vistas a uma tomada específica, o que entra em jogo [além da programação] é a maneira como esses corpos interagem e articulam todo o conjunto técnico, preservando seu caráter aberto e sua sensibilidade ao mundo exterior. O que é expressado não é mais a individualidade de cada membro da equi- pe, mas uma composição coletiva [dentro da compatibilidade sinérgica] (SIMONDON, 2013), uma transindividualidade que coloca os indivíduos em relação, mas não através da sua indivi- dualidade constituída, separando-os uns dos outros [...], mas através dessa carga de realidade pré-individual, que contém potenciais e vir- tualidades. O objeto fruto da invenção técnica traz consigo algo do ser que o produziu, expressa algo desse ser que está menos ligado a um hic et nunc (SIMONDON, 2007, p. 263). Para termos uma clara ideia sobre as variáveis envolvidas numa equipe ordinária de cinema poderíamos relembrar aqui a cena de abertura de O cavalo de Turim (A Torinói ló, 2011), de Béla Tarr, em que o cavalo [aquele salvo do açoitamento por Friedrich Nietzsche] puxa uma carroça conduzida por um homem e, ao longo de pouco mais de quatro minutos, é acompanhado pela câmera em um longo “travelling”. O nível de complexidade de realização de tal plano é alto. Pensemos um pouco em seus detalhes. Há toda uma longa movimentação da câmera em um terreno acidentado. Se formos fazer a exegese do movimento, veremos que a altura da câmera é variável e sua distância em relação ao percurso da carroça também. Há uma liberdade de aproximações e afastamentos da câmera em relação ao trajeto da carroça e suas variações na altura são al- cançadas com a coordenação de um veículo em movimento e um braço de grua. Esta com- binação faz, inclusive, com que a câmera possa aproximar-se do cavalo com certa sutileza, sem a proximidade do operador ou de outros suportes mais robustos. Como sabemos, venta muito durante todo o filme o que nos fez investigar3 que foram usados grandes ventiladores e, para os planos mais abertos, há o apoio de um helicóptero para alcançar distâncias nas quais os ventiladores não seriam eficazes. A atmosfera visual nascida da associação desses poucos [mas complexos] elementos torna-se eficiente, não apenas pela escolha dos componentes do quadro - como a paisagem desolada, o esforço do cavalo, o deslocamento da câmera, as folhas, a poeira, o sol etc. -, mas, fundamentalmente, pela forma como todos esses ingredientes são assimilados pela câmera.4 O filme é compos- 3 - Cenas do documentário sobre o cineasta I Used to Be a Filmmaker, 2013, de Jean-Marc Lamoure. 4 - Não poderíamos nos furtar em dizer que o clima da cena de abertura de O cavalo de Turim não seria o mes- mo sem a presença da música composta por Mihály Vig, parceiro de Béla Tarr em todos os seus filmes. A nd ré a C . S ca ns an i 124 to dentro de uma amplitude entre claros e escuros monumental. O que queremos dizer com ‘monumental’ é, por exemplo, podermos ver em detalhes os pelos escuros e suados de um cavalo filmado em contra plongée com o céu nublado e o sol ao fundo. Tudo é visível, [por- tanto palpável] desde o recanto mais sombrio e discreto à intempérie mais violenta. Nenhu- ma área é especialmente acentuada, não apenas pela escolha óptica de uma profundidade de campo ampla, mas particularmente pela exploração primorosa da latitude do negativo dentro de sua extensa capacidade dinâmica. Ao agruparmos todos esses elementos num único conjunto técnico, aquele compro- metido com a realização de O cavalo de Turim, veremos que a margem de indeterminação de cada núcleo [travelling, vento etc.] é grande. O que faz da união dos conjuntos individuais algo ainda mais complexo. Sendo assim, a margem de indeterminação de cada agrupamento da equipe [do maquinista responsável pelo movimento da grua, do câmera que a opera por controle remoto, da velocidade em que o motorista dirige o caminhão, da sintonia do heli- cóptero com a mise-en-scène; ou ainda dos agentes da ação em cena: o cavalo, a carroça e seu cocheiro-ator] configura a potência do conjunto de máquinas abertas operadas por um conjunto de seres técnicos de alta especialização. As palavras já mencionadas de Simondon, “o conjunto de máquinas abertas aceita o homem [...] como um intérprete vivo das inter-re- lações entre as máquinas”, fazem eco na cena de abertura de O cavalo de Turim. Quando Simondon pensa a imaginação dentro de um ciclo de imagens internas e ex- ternas em constante movimento, ele está questionando a concepção de uma imaginação atrelada unicamente à subjetividade para pensar tal ciclo fora do domínio exclusivo do indi- víduo. Como um fluxo de imagens numa realidade intermediária, num espaço comum entre o abstrato e o concreto, entre o passado e o futuro e entre o sujeito e o objeto. Uma equipe de cinema trabalha nesse espaço. Na impossibilidade de fissura entre o técnico e o artístico ou entre o essencialmente humano e a máquina, o cinema compactua com Simondon. E não poderia ser diferente, pois, para ele, “o destino da inspiração estética de todo pensamento que tende à sua realização é constituir no interior de cada modo de pensar uma retícula que coincida com a retícula dos demais modos de pensar: a tendência estética é o ecumenismo do pensamento” (SIMONDON, 2007, p. 199). Dito de outro modo, o cinema proporciona um terreno comum [retícula] onde as várias formas de pensamento podem se manifestar. Sua tendência estética não propicia manifestações isoladas deste ou daquele princípio ou desta ou daquela capacidade técnica e, sim, uma eficiente articulação entre todos os seus compo- nentes. O cinema, através da inspiração estética que o motiva e a personalidade técnica que lhe dá forma, é a um só tempo objeto técnico e estético. Ele assimila de forma equivalente as diferentes individualidades que habitam esse espaço compartilhado e transforma-se num agregado transindividual. Desse modo, Simondon nos aponta alguns caminhos para compreendermos de forma integral os diversos tipos de pensamento [e intuições] que compõem o ato cinematográfico. Com ele, também podemos ver para além da obra em si, a qual está “menos ligada a um hic et nunc” e mais conectada aos ciclos de imagem-imaginação-invenção do próprio cinema. Consequentemente, quando nos referimos às pulsações vitais do cinema, à sua vibração, O h um an o e o té cn ic o em u m s ó co rp o: d iá lo go s en tr e Si m on do n e B él a Ta rr 125 estamos nos referindo aos vários estratos que o constituem dos quais fazem parte tanto a própria história técnica das imagens quanto as assimilações deste percurso pelos homens; num fluxo constante desta arte necessariamente tecnológica e indiscutivelmente humana. Referências KELEMEN, Fred. “The Thinking Image: Fred Kelemen on Béla Tarr and The Turin Horse”. Cin- ema Scope, n. 46, 2011. LAMOURE, Jean-Marc [direção]. I Used to Be a Film Maker. 2014. SIMONDON, Gilbert. Du mode d’existencede objects tecchiniques. Paris: Aubier, 1989. ___________. El modo de existencia de los objetos técnicos. B. Aires: Prometeo, 2007. ___________. Curso sobre la percepción. Buenos Aires: Cactus, 2012. ___________. Imaginación e invención. Buenos Aires: Cactus, 2013. ___________. Sur la technique. Paris: Press Universitaires de France, 2014. A nd ré ia d e Li m a Si lv a 126 Padrões de linguagem e identidade no filme Muleque té doido! (2014)1 Patterns of language and identity in the movie Muleque té doido! (2014) Andréia de Lima Silva2 (UFF) Resumo: Esta comunicação propõe a caracterização dos padrões de linguagem e identida- de maranhense do filme Muleque té doido! (2014), tomando por referencial teórico o imagi- nário e as representações culturais de um cinema ainda considerado local/regional. O filme em análise foi um fenômeno local de bilheteria e ficou em cartaz por cerca de três meses. Ao inserir o folclore e as lendas locais, o longa mesclou elementos “regionais” maranhenses com elementos “universais” hollywoodianos (em termos estéticos). Abstract: This paper proposes the characterization of the language and identity patterns from Maranhão in the movie Muleque té doido! (2014), taking as theoretical reference the imaginary and cultural representations of a cinema still considered local/regional. The movi under review was a local box office phenomenon and ran for about three months. By insert- ing local folklore and legends, the feature merged “regional” elements from Maranhão with Hollywood “universal” elements (in aesthetic terms). Palavras-chave: Padrões de linguagem, identidade, imaginário, cinema maranhense. Keywords: Language patterns, identity, imaginary, Maranhão cinema. A linguagem regional e os traços marcantes da identidade maranhense parecem de- cisivos para a composição da narrativa do filme Muleque té doido! (2014), longa-metragem de ficção do cineasta Erlanes Duarte, considerado um dos maiores fenômenos do cinema recente do Maranhão. Pesquisas do campo audiovisual têm demonstrado a relevância das produções cinematográficas para a difusão do imaginário e cultura de um povo, bem como das formas de sentir e pensar o mundo. Em filmes de circulação mais restrita a determinadas regiões, as escolhas técnicas e estéticas guardam certa consonância com as referências cul- turais do seu local de produção, o que, de certa forma, funciona como estratégia para gerar identificação mais direta com o público. Além desse recurso a padrões linguísticos e identitários regionais, filmes como Muleque té doido! (2014) possivelmente alcançam grande sucesso de público ao também recorrer à linguagem fílmica que remete aos padrões narrativos e estéticos do cinema hollywoodiano. 1 - Trabalho apresentado na Mesa “Coletivos, entrelugar, identidade”. 2 - Estudante de Doutorado do Curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense (UFF) e servidora (cargo Jornalista) do Instituto Federal do Maranhão (IFMA). Pa dr õe s de li ng ua ge m e id en tid ad e no fi lm e M ul eq ue té d oi do ! ( 20 14 ) 127 Assim, neste longa, o caráter “regional” maranhense se mesclou ao “universal” hollywoodia- no ao inserir elementos do folclore e das lendas locais na película, aproximando a obra do espectador que a recepciona. O enredo de Muleque té doido! (2014) se passa em São Luís (MA). A história gira em torno das aventuras vividas por quatro amigos – Erlanes, Guida, Nikima e Sorriso –, que com- põem uma banda chamada Raça Ruim. Na trama, após viverem uma noite de muita confusão envolvendo a mocinha Laura e os bandidos da Gangue da Bota Preta, eles encontram um mapa que deve levá-los a um tesouro escondido. Para tentar decifrar o mapa eles recorrem a vários personagens que conhecem a história de São Luís. O filme, que não foi registrado na ANCINE, obteve cerca de 15 mil espectadores e ren- da de cerca de 50 mil reais – dado impressionante para um filme local. Em alguns cinemas, o longa, que estreou em 26 de junho de 2014, estendeu-se até o mês de setembro daquele ano, fato até então inédito para o cinema maranhense. O grande sucesso de bilheteria chegou a gerar um case na rede de cinemas Cine System, já que o filme maranhense superou a bilhe- teria de blockbusters internacionais que estavam em cartaz na mesma época. O sucesso nos cinemas de São Luís levou rapidamente o primeiro filme de Erlanes Duarte para o mercado da pirataria. Muleque té doido! (2014) também foi disponibilizado na internet, no canal do YouTube, e já teve em torno de 4,5 milhões de visualizações3. Tanto sucesso viabilizou a produção de mais dois filmes: Muleque té doido 2 – a lenda de Dom Sebastião (2016) e Mu- leque té doido 3 – mais doido ainda (2019). Em 2020 o diretor irá produzir o quarto e último filme da saga. Essência local em molde “global” Em um primeiro momento destacamos como o gênero comédia foi trabalhado no filme de forma a congregar outros gêneros cinematográficos que funcionaram como seus corroboradores. É o caso, por exemplo, dos efeitos especiais durante a destruição da cidade de São Luís. A princípio a ideia do diretor talvez fosse dialogar com o cinema hollywoodia- no e seus filmes com temáticas de fim do mundo em que grandes metrópoles começam a ser destruídas antes da dissolução final do herói. Entretanto, com poucos recursos a serem empregados no filme maranhense o resultado saiu mal-acabado e grosseiro sendo, também, um dos principais elementos cômicos do filme. A linguagem que se destaca em Muleque té doido! (2014) é composta essencialmente por elementos provenientes do cinema hollywoodiano clássico em que os personagens têm papéis bem demarcados com alguns padrões de enredo recorrentes, tais como: a proposta de achar um tesouro perdido; a ideia de salvar a cidade (comum nos filmes com temáticas de fim de mundo); a demarcação da dicotomia mocinho e bandido; ou mesmo o protagonis- ta que salva a mocinha do bandido. 3 - Dados de dezembro de 2019 que reúnem os números da publicação oficial da produtora e as publicações não oficiais. A nd ré ia d e Li m a Si lv a 128 Quando o espectador vai a um filme clássico, vai muito bem preparado. (...). O espec- tador conhece os personagens e as funções de estilo mais prováveis. Possui internalizadas as normas cênicas de exposição, de desenvolvimento da linha causal anterior, etc. (BOR- DWELL, 2005, p. 295). No filme maranhense esses elementos “universais” do cinema hollywoodiano se mes- clam com outros, locais. Assim, temos no filme várias referências à cultura ludovicense que sustentam o enredo e provocam a empatia do espectador, pois eles compartilham daquelas mesmas lendas, histórias, manifestações culturais e linguagem. Partindo dessa construção narrativa massiva estabelecida pela indústria cinematográ- fica estadunidense, é importante destacar que todo filme produzido fora dos Estados Unidos passa a assumir o rótulo de “nacional” ou “regional”, o que já pressupõe, no próprio termo, que há um “universal” comum a todos. Sobre essa articulação nacional/regional, a partir das questões identitárias, Albuquerque Jr. (1996) explica que essas construções espaciais foram determinadas por questões políticas e podem mudar com o tempo. [..] devemos tomar as relações espaciais como relações políticas e os discursos sobre o espaço como o discurso da política dos espa- ços, resgatando para a política e para a história, o que nos aparece como natural, como nossas fronteiras espaciais, nossas regiões. O espaço não preexiste a uma sociedade que o encarna. É através das práticas que estes recortes permanecem ou mudam de identidade, que dá lugar à diferença; é nelas que as totalidades se fracionam, que as partes não se mostram desde sempre comprometidas com o todo, sendo este todo uma invenção a partir destes fragmentos, no qual o heterogêneo e o descontínuo aparecem como homogêneo e contínuo, em queo espaço é um quadro definido por algumas pin- celadas (ALBUQUERQUE JR., 1996, p.25). É interessante observar também o uso da trilha sonora no filme, já que ao adotar uma trilha regionalizada com sons típicos da cultura maranhense, como o reggae, o tambor de crioula ou mesmo o bumba-meu-boi o diretor pretende criar uma identificação com o es- pectador. Imaginário e identidade urbana nas representações de São Luís no filme Em Muleque té doido! (2014) investigamos as principais referências à cultura ludovi- cense explicitando como elas são reveladas ao espectador e quais as possíveis associações que estes podem fazer a partir do seu universo simbólico. Entendemos que essa conexão com a cidade de São Luís é ressignificada pelos espectadores de forma diferenciada, de acordo com a experiência de vida de cada um e as relações que eles estabeleceram (ou não) com aquele local. Nesse ponto, a questão identitária do filme se revela na escolha da cidade de São Luís como cenário, nas referências a fatos conhecidos dos moradores locais como a Pa dr õe s de li ng ua ge m e id en tid ad e no fi lm e M ul eq ue té d oi do ! ( 20 14 ) 129 Gangue da Bota Preta e a Loka do Rio Anil, na menção à manifestação cultural do Bumba- -meu-boi, na Lenda da Serpente Encantada e na própria linguagem regionalizada utilizada pelos personagens do filme. Tomamos aqui a questão da identidade como algo que é formado no seio da socie- dade, e que varia em cada grupo social, já que as redes de representações, construções simbólicas e discursivas são variáveis, como bem expõe Bronislaw Baczko: “todas as cidades são, entre outras coisas, uma projeção dos imaginários sociais no espaço” (BACZKO, 1985, p. 313). Desse modo, para perceber tais identidades é preciso uma postura de fugir do con- senso visível e enraizado. A identidade é realmente algo formado, ao longo do tempo, através de processos inconscientes, e não algo inato, existente na consciên- cia no momento do nascimento. Existe sempre algo “imaginário” ou fantasiado sobre sua unidade. Ela permanece sempre incompleta, está sempre em ‘processo’, sempre ‘sendo formada’. [...] Assim, em vez de falar da identidade como uma coisa acabada, deveríamos falar de identificação, e vê-la como um processo em andamento. (HALL, 2006, p. 38-9) Em Muleque té doido! (2014) há uma forte presença da cidade de São Luís tornando- -a quase um personagem do longa-metragem. Assim, as paisagens da capital maranhense surgem durante todo o filme em uma forma de apresentar os principais pontos turísticos contrastando-os com a zona periférica da cidade. O enredo do filme também se articula com diversas referências culturais ligadas ao município e que estão presentes no imaginário do espectador e, também, com o objetivo final dos protagonistas: salvar a cidade da destruição total ocasionada pelo despertar da serpente encantada. O imaginário é, pois, representação, evocação, simulação, sentido e significado, jogo de espelhos onde o “verdadeiro” e o aparente se mesclam, estranha composição onde a metade visível evoca qual- quer coisa de ausente e difícil de perceber. Persegui-lo como objeto de estudo é desvendar um segredo, é buscar um significado oculto, encontrar a chave para desfazer a representação do ser e parecer. (PESAVENTO, 1995, p. 24) Outra representação de São Luís que o filme aborda foi a menção à Gangue da Bota Preta e à Loka do Rio Anil. As duas histórias permeiam o imaginário social dos moradores que vivem em São Luís. No longa, a Gangue da Bota Preta surge como grupo rival dos pro- tagonistas. Eles são apresentados como a gangue mais perigosa da cidade que costuma cortar o bico dos seios das mulheres. Quem viveu em São Luís no início dos anos 1990 logo vai entender a referência, pois essa gangue realmente existiu embora as histórias que foram contadas sobre ela nem sempre corresponderam à realidade como mostrou o historiador Antônio Marcos Costa (2011). Já a personagem da Loka do Rio Anil surge em cenas descontextualizadas. Ela sempre aparece correndo com os braços para cima e gritando. Quando um dos protagonistas per- gunta de quem se trata o outro responde “É a Loka do Rio Anil” deixando para o espectador A nd ré ia d e Li m a Si lv a 130 criar a conexão sobre aquela referência. A cena é uma alusão ao que foi considerado um dos primeiros memes de internet do Maranhão. A história surgiu em 2010 durante a inauguração de um grande shopping na cidade de São Luís: o Rio Anil Shopping. Centenas de pessoas aguardavam a abertura dos portões, pois o novo empreendimento prometia grandes pro- moções e a presença de atores globais. Quando os portões abriram todos começam a correr e um fotógrafo do Jornal O Estado do Maranhão conseguiu captar a imagem de uma garota sorridente com os braços para cima. A foto foi postada no Portal Imirante e chamou a aten- ção do designer Wandson Lisboa, na época estagiário do portal, que logo transformou a foto em dezenas de memes de internet que viralizaram na cidade. Em Muleque té doido! (2014) há uma referência clara à cultura do Bumba-meu-boi por meio da trilha sonora em alguns trechos do longa-metragem e, também, quando surgem dois personagens conhecidos na encenação do auto: o Miolo do Boi e o Pai Francisco. No filme o personagem do Miolo do Boi surge durante um sonho do protagonista Erlanes para lhe contar sobre a sua missão de salvar São Luís. Já o personagem do Pai Francisco também aparece de surpresa para lembrar ao protagonista da sua missão e lhes fornecer pistas para o desenrolar da história. Uma das principais histórias que envolve a ilha de São Luís é a Lenda da Serpente En- cantada. Segundo a lenda, uma gigantesca serpente habita as galerias do Centro Histórico de São Luís e cresce sem parar e um dia destruirá a ilha quando a cabeça encontrar a calda. No filme a história original da lenda, relatada pelo personagem do Químico, serve de cami- nho norteador para os elementos de ficção que serão criados a partir dela. Assim, é contado no filme que a cada 400 anos a serpente encantada desperta para destruir a ilha de São Luís que deve ser salva por alguns escolhidos. É importante ressaltar que essa lenda faz parte do imaginário do povo ludovicense. Nesse sentido, o longa-metragem maranhense funcionou como elo entre o mundo social onde o espectador vive e todas as representações sociais que permeiam aquele lugar. Outro ponto relevante do longa-metragem maranhense é o uso da linguagem popular e as gírias locais trabalhadas no filme. São palavras e expressões típicas dos ludovicenses utilizadas nos diálogos dos personagens. O próprio título do filme, Muleque té doido, é uma expressão recorrente no Maranhão. Dessa forma, a peculiaridade linguística do Estado é ex- plorada como estratégia para provocar a empatia do espectador que compartilha daqueles mesmos termos em seu dia-a- dia. Funciona, também, como recurso cômico, na medida em que muitas dessas palavras e expressões são engraçadas e só utilizadas naquele Estado. A trama é permeada de diálogos como estes: “Ai, só tem gente feia aqui (...). Mucura! Cati- roba!”, ou mesmo no trecho “(Nikima) – Lá em Salvador a gente chama isso aí é de veado. (Erlanes) – Aqui em São Luís é qualira mesmo. E pense num qualira esparroso!”. Pa dr õe s de li ng ua ge m e id en tid ad e no fi lm e M ul eq ue té d oi do ! ( 20 14 ) 131 Conclusão Em relação às representações de São Luís presentes no filme Muleque té doido! (2014), entendemos que elas, associadas a uma linguagem simples e acessível, possivelmente trans- formaram o longa-metragem em um sucesso de público na capital maranhense na medida em que as projeções referentes à cidade, aos modos de falar do povo, às lendas populares e a alusão a fatos recentes realizados na obra de Erlanes Duarte faziam parte do imaginário social dos espectadores. Assim, aadoção de procedimentos estéticos e narrativos do cine- ma hollywoodiano facilitaram a compreensão do espectador, já que esse tipo de narrativa, esses modos de ver, já são (re)conhecidos por ele. É importante ressaltar que Muleque té doido! (2014) é uma homenagem aos 400 anos da cidade de São Luís, completados em 2012 – ano em que o longa foi filmado. Dessa forma, a cidade turística, com seus monumentos e prédios históricos, divide espaço no filme com uma cidade menos “vendável”, que possui mazelas e problemas. Isso acontece também com a cultura ludovicense divulgada no filme. Assim, as manifestações culturais ou lendas locais tipicamente associadas à cidade, como o Bumba-meu-boi e a Lenda da Serpente Encantada, dividem espaços com histórias quase desconhecidas para aqueles que não moram em São Luís, como a Gangue da Bota Preta e a Loka do Rio Anil. Muleque té doido! (2014) é, portanto, um passeio pelos principais elementos da iden- tidade ludovicense. Nesse sentido, a cidade de São Luís é o tesouro a ser salvo. Se por um lado o longa-metragem reforça o discurso oficial da cidade patrimônio, por outro faz uma crítica sobre o direito à cidade. No filme Erlanes e seus companheiros salvam a São Luís que os exclui. Eles salvam o Centro Histórico, o patrimônio, mas habitam as zonas periféricas. Referências ALBUQUERQUE JR., D. M. de. A invenção do Nordeste e outras artes. Recife: FJN. Ed. Mas- saragana, 1996. BACZKO, B. A imaginação social. In: LEACH, Edmund et al. Anthropos-homem. Lisboa: Im- prensa Nacional/Casa da Moeda, 1985. p. 296-332. BORDWELL, D. O cinema clássico hollywoodiano: normas e princípios narrativos. In: RAMOS, Fernão Pessoa (Org.). Teoria contemporânea do cinema: documentário e narratividade fic- cional. São Paulo: Editora Senac, 2005. p. 277-301. v. 2. COSTA, A. M. M. Os garotos da bota preta (1989-1994): entre práticas de visibilidade pública e de delinquência. Monografia (Graduação). Universidade Federal do Maranhão, São Luís, 2011. HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. 11. ed. Tradução de Tomaz Tadeu da Silva e Guaracira Lopes Louro. Rio de Janeiro: DP&A, 2006. MULEQUE té doido!. Direção: Erlanes Duarte. [S.I]: Raça Ruim Filmes, 2014. (123 min). Dispo- nível em: <https://www.youtube.com/watch?v=tJO0MwT2VNk>. PESAVENTO, S. J. Em busca de uma outra história: imaginando o imaginário. Rev. Bras. de Hist, São Paulo, v. 15, n. 29, p. 9-27, 1995. A nd re ss a G or dy a Lo pe s do s Sa nt os 132 “Let’s keep going”: O silêncio em Thelma & Louise (Ridley Scott, 1991)1 “Let’s keep going”: The silence in Ridley Scott’s Thelma & Louise (1991) Andressa Gordya Lopes dos Santos2 (Doutoranda – Multimeios/UNICAMP) Resumo: O presente trabalho analisa o silêncio das protagonistas no filme de Ridley Scott, de 1991, Thelma & Louise. Violentadas, subjugadas e perseguidas, elas rebelam-se contra um sistema masculino e paternalista que busca, a todo custo, colocá-las sob controle. Dado o conflituoso cenário, isolam-se. A recusa pela comunicação é uma escolha contra tudo que é masculino e exterior a elas. Apenas elas e nós, espectadores, sabemos a verdade. Verdade que carregam consigo até o derradeiro e infame fim. Palavras-chave: Silêncio, Road Movie, Thelma & Louise, Estudos Feministas do Cinema. Abstract: This paper analyzes the silence of the protagonists in Ridley Scott’s 1991 film Thel- ma & Louise. Violated, subjugated and persecuted, they rebel against a paternalistic male system that seeks at all costs to bring them under control. Given the conflicting scenario, they isolate themselves. The refusal to communicate is a choice against everything that’s masculine and external to them. Only they and we, viewers, know the truth. Truth that they carry with them to the infamous end. Keywords: Silence, Road Movie, Thelma & Louise, Feminist Film Studies. Introdução Elas estão dirigindo por dias deserto adentro sem dormir direito. Elas querem chegar ao México. A polícia tem-nas perseguido inces- santemente. Contudo, fogem mais desesperadamente de sua pró- pria sociedade opressiva: trabalho duro com salários baratos, uma vida doméstica que se assemelha a uma prisão, abuso verbal e físico, um sistema legal que as presume culpadas. Atravessando inúmeras fronteiras entre estados, elas também atravessaram um estado al- terado de percepção. Dirigindo, elas se redescobriram, renasceram, auxiliadas pela “doula” de sua jornada desesperada. Transcendendo mera amizade ou romance, são agora íntimas, camaradas, almas gê- meas (LADERMAN, 2002, p. 1).3 1 - Comunicação individual apresentada no XIII Encontro da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Au- diovisual – SOCINE: Silêncio, música, ritmo. 2 - Mestra em Multimeios pelo Instituto de Artes da UNICAMP e doutoranda no mesmo instituto sob orientação da Profa. Dra. Iara Beleli. 3 - Tradução nossa. “L et ’s k ee p go in g” : O s ilê nc io e m T he lm a & L ou is e (R id le y Sc ot t, 19 91 ) 133 Os momentos finais de Thelma & Louise, descritos por David Laderman, invocam uma legião de outros road movies e denota muitas das características essenciais do gênero. O conturbado e controverso fim dramatiza o impulso primordial do gênero: rebelião contra a ordem social conservadora e opressiva. Para Laderman, a força motriz que impulsiona a maioria dos road movies é o abraço da jornada como crítica cultural. A fronteira que os personagens buscam ultrapassar é, para o autor, a da familiaridade cultural, buscando no desconhecido uma revelação ou transcendência (LADERMAN, 2002, p. 2) A cultura comercial americana se agarra tanto à rodovia e ao automóvel, como ima- ginário e metáfora, que o estouro do road movie no período pode ser entendido como uma resposta à invasão dessa nova “rodovia4” instituída na virtualidade (LADERMAN, 2002, p. 176). Ao mesmo tempo em que o gênero segue as linhas narrativas do road movie indepen- dente pós-moderno dos anos 1980, também testemunhamos a sua reformulação revigoran- te com todo o espírito de rebelião de Bonnie & Clyde (Arthur Penn, 1967) e Easy rider (Dennis Hopper, 1969). Assim, o road movie do fim do século XX abraça seu propósito essencial e contracul- tural, repolitizando e trazendo novos pilotos para as narrativas: usualmente gays, mulheres e negros. Para além de Thelma & Louise, alimentados por um desejo de retornar às margens e fronteiras sociais e viajar subversivamente desafiando a estrutura conservadora, filmes como My own private Idaho (Gus Van Sant, 1992), The adventures of Priscilla, queen of the desert (Stephan Eliott, 1994), To Wong Foo, thanks for everything! Julie Newmar (Beeban Kidron, 1995), compõem o hall dos que se tornaram tão clássicos quanto Easy Rider. A maioria desses filmes adota o revisionismo pós-moderno de subverter gêneros e trazer sensibilidades atuais onde o “outro” marginalizado assume o que um dia foi um conto masculinista sobre o anarquista solitário. Com elementos de screwball comedy5, Thelma & Louise ataca tanto a opressão patriarcal da ordem social, quanto as bases patriarcais do gê- nero (LADERMAN, 2002, p. 179). Entre silêncios e ruídos de comunicação Steve Cohan e Ina Rae Hark demarcam Thelma & Louise como uma importante virada popular e acadêmica na recepção do road movie, alegando que o filme “galvanizou a aten- ção crítica no road movie como um produto identificável de Hollywood”, revivendo o gênero ao subverter sua ideologia patriarcal anterior (1997, p. 10). Thelma & Louise é mais que uma rebelião contra os papéis de gênero, é uma rebelião contra o domínio masculino dos espaços. Confinadas no interior da esfera doméstica, ambas se vêem em situações de servidão. Thelma, como uma ingênua dona de casa, representa a 4 - A internet era chamada de “information highway” nas propagandas. 5 - Tipo de comédia que se baseia na sucessão de eventos fora do comum e situações inesperadas. A nd ress a G or dy a Lo pe s do s Sa nt os 134 infantilização das mulheres no seio doméstico, onde são tratadas como indivíduos de segun- da classe. Território masculino, o feminino precisa ser controlado, subjugado e, quando saido controle, é necessário que seja severamente punido. Ao imporem-se fora de casa, o filme denuncia o quanto a esfera pública é hostil às mulheres. O assédio, o estupro, o descrédito, a desconfiança e a lei se impõem sobre elas como se a presença de mulheres sozinhas fosse um convite socialmente justificado para a violência. E a estrada, aquele lugar de ninguém, é o único lugar onde a liberdade se mostra alcançável no horizonte. O isolamento social em que elas se encontram define sua liberdade não muito além do limite do espaço do Ford Thunderbird de Louise. Fora dele, elas estão contra tudo e contra todos. A falta de informação que gere o conflito – a ausência de suas versões sobre a ten- tativa de estupro, sobre o assassinato, sobre seus próximos passos e sobre as escolhas que fazem para se salvar ou escapar – é o que gera confusão na mente dos homens do filme, é fantasticamente sarcástica e pode ser compreendida como o choque entre o paternalismo machista e o silenciamento histórico das mulheres. Esse mistério não desvendado é a femi- nilidade aos olhos masculinos, essa subjetividade por tanto tempo ignorada que de repente eclode e se impõe. O mistério feminino é uma ameaça e desvelá-lo é, como aponta Laura Mulvey, uma forma de reduzir o risco que as mulheres representam à ordem patriarcal (MULVEY, 2003). Thelma e Louise são hostilizadas porque contestam diversas convenções da ordem social burguesa em relação aos papéis de gênero: as falhas da lei em relação à violência sofrida por mulheres e porque rejeitam seu papel subalterno de subserviência. Em outros termos, porque desacreditam em tudo o que é masculino e exterior à relação de ambas. Entre elas, são verborrágicas e cheias de discursos de efeito sobre suas experiências, sobre a crise que vivem, sobre o passado e sobre os seus anseios. Exteriormente a elas, si- lêncio. Deixar os outros personagens no escuro é mais que uma fuga pelas consequências de um crime, é uma escolha, porque, aos olhos delas, mulheres são sempre descreditadas. Logo após o crime, quando Thelma sugere que contem o que houve à polícia, Louise não demonstra sequer considerar o diálogo com as autoridades: “– Nós não deveríamos ir à polícia? Digo, eu acho que nós devería- mos ir à polícia. – Para dizer o que para eles? O que, Thelma? O que acha que deve- ríamos dizer a eles? – Eu não sei. Apenas contar o que aconteceu. – Qual parte? – Tudo. Que ele tentou me estuprar. – Apenas umas 100 pessoas a viram bochecha com bochecha com ele à noite inteira, Thelma! Quem vai acreditar nisso? Nós simples- mente não vivemos nesse tipo de mundo.” (THELMA ..., 1991, cap. 2). “L et ’s k ee p go in g” : O s ilê nc io e m T he lm a & L ou is e (R id le y Sc ot t, 19 91 ) 135 Apenas Thelma, Louise e nós, espectadores, sabemos a verdade. Verdade que guar- damos e que elas carregam consigo até o derradeiro fim. Sobre essa questão do silêncio, E. Ann Kaplan revisita uma entrevista cedida por Marguerite Duras à Jean-Jacques Rivette e Jean Narboni, em 1969, na qual ela expressa sua opinião sobre os hippies e outros grupos oprimidos: Eles [os hippies] primaram por não fazer nada. Chegar a tal ponto é fantástico. Você sabe como não fazer absolutamente nada? Eu não sei. É disso que somos mais carentes... Eles criaram um vácuo e todos esses... recursos das drogas... é um meio, tenho certeza dis- so... Eles estão criando um vácuo, mas nós ainda não podemos ver o que vai substituir o que foi destruído neles – ainda é muito cedo para isso. [...] O hippie é uma criatura que não tem absolutamente nenhuma ligação com nada. Não estando somente fora de toda es- pécie de segurança, de qualquer espécie de previdência social, mas fora de tudo. Não é uma rejeição, é um período de espera. Como alguém que dá uma pausa. Antes de comprometer-se com a ação... é muito difícil passar de um estado para o outro. Abruptamente. É até mesmo anormal, não é saudável... É preciso esperar... Você não faz uma coisa a menos que desfaça o que havia anteriormente (KAPLAN apud DURAS, 1995, p. 134). Duras defende que essa posição “de fora” é útil; é um lugar que permite às pessoas moverem-se de uma situação para outra sem que haja uma mudança radical. Um pouco mais adiante na entrevista, esta posição torna-se mais clara quando Duras fala sobre “a lacuna que há entre a esperança e o desespero... uma lacuna indescritível”. E é justamente a essa lacuna que ela se refere quando fala sobre “o vácuo”, ou de um “ponto zero”, o lugar onde “a sensibilidade reagrupa-se... e redescobre-se” (KAPLAN, 1995, p 135). Apesar da relação de Thelma e Louise com os hippies se encerrar no espírito subver- sivo e contracultural, podemos fazer uma ponte bastante coerente com a forma com que Duras construiu narrativamente o silêncio em seu filme Nathalie Granger (1972). No filme, duas mulheres, interpretadas por Lucia Bosé e Jeanne Moreau, moram juntas numa casa do subúrbio parisiense cujo mais rotineiro hábito é escutar o rádio. Apesar da discrepância nar- rativa com Thelma & Louise, nos interessa aqui expor como Duras compreende as relações das mulheres com o espaço doméstico, com a comunicação com o mundo exterior, com elas mesmas e com outras mulheres. No contexto, Duras está inserida no seio das vanguardas europeias e das teóricas fe- ministas francesas inspiradas por Lacan e, apesar de não nos interessar adentrar no cerne da psicanálise, nos ateremos à forma como elas compreendem o uso da linguagem. Na com- preensão dessas teóricas, a linguagem como principal ferramenta de progresso e organiza- ção social possui um viés inerente ao homem. Consequentemente, se a linguagem é por de- finição “masculina”, as mulheres que a falam estão alienadas de si mesmas. Com base nisso, Kaplan alega que as mulheres defrontam-se com uma contradição real: se permanecerem em silêncio, ficarão fora do processo histórico. Mas, se começarem a falar e a escrever como fazem os homens, entrarão na história subjugadas e alienadas; é uma história com a qual, A nd re ss a G or dy a Lo pe s do s Sa nt os 136 falando de forma lógica, seu discurso deveria romper (KAPLAN, 1995, p 135). Esse discurso é a gênese do contracinema feminista da década de 1970 e de todo o experimentalismo lin- guístico que ele implica. O silêncio em Thelma & Louise não tem origem na ausência de diálogos, mas na au- sência de comunicação com tudo o que é exterior ao carro de Louise, e cuja informação a respeito de qualquer subjetividade é oferecida por meio de seus rastros e vídeos de segu- rança. Essa taciturnidade permite que a relação entre elas se aprofunde num contexto de sororidade e que o arco das personagens evolua mantendo-as externas ao conflito: elas estão sempre um passo à frente de tudo e de todos; qualquer presença masculina é invasiva, violenta e opressiva. Até mesmo no ato final e diante de toda a emboscada, elas ainda optam por levar consigo alguma verdade ou diálogo. O filme se encerra e, junto com ele, o ponto de vista das protagonistas. Kaplan cita Claudine Herrmann quando esta aponta que a única coisa que resta à mulher é encontrar (e falar a partir dele) um espaço vazio, uma “terra de ninguém” à qual ela possa chamar de sua. O vácuo tem para ela, então, um valor respeitável, ou, como Julia Kristeva coloca, “estranhas à linguagem, as mulheres são visionárias, dançarinas que sofrem enquanto falam” (KAPLAN apud KRISTEVA, 1995, p. 137). Em respeito à transfiguração das personagens no decorrer da narrativa, o filme foi recebido com polêmica e controvérsia. Havia quem defendesse e havia quem criticasse o feminismo no filme apontando-o como problemáticoe distorcido. Peter Reiner (1991) publi- cou no jornal Los Angeles Times o artigo, “Thelma and Louise Just Good Ol’ Boys?”, em que ele criticava o que chamou de “masculinização” das personagens e que isso seria “contrário ao feminismo”. O que nos intriga na afirmação de Reiner é: o que seria exatamente essa masculiniza- ção? Uma vez que vivemos em uma sociedade cujas atividades, espaços e comportamentos são divididos por binarismos de gênero e que nada são mais que performances sociais? Hilary Neroni, em The violent woman, argumenta que as expectativas de gênero ex- põem as divisões dos códigos sociais e que há comportamentos considerados inerentes ao homem e à mulher (2005, p. 9). Numa sociedade binária, não há como extrapolar essas di- visões, mas pode-se contestá-las. Quando ela se refere a “não é possível extrapolar”, Neroni reforça como a masculinidade e a feminilidade funcionam na ordem simbólica e que tudo o que há no entremeio, as nuances identitárias que podem ir de um lado para o outro, para nenhum ou transitar no “entre”. Logo, o que Reiner aponta como “masculinização”, sobre- tudo a respeito das drásticas mudanças de Thelma, se deve mais à forma como o próprio autor lida com as suas expectativas de gênero do que à suposta masculinização de Thelma na narrativa. “L et ’s k ee p go in g” : O s ilê nc io e m T he lm a & L ou is e (R id le y Sc ot t, 19 91 ) 137 Considerações Finais Em nenhum momento a tensão ideológica do filme se torna mais pronunciada do que em seu final catártico. O desespero por um refúgio longe da violência e da punição do início transforma-se no espírito rebelde do “não há nada a perder”. Figura 1: Ao fim de Thelma & Louise, a imagem congela-se, eternizando o momento de transcendência, ou de declínio, dependendo da perspectiva de quem assiste. Laderman argumenta que, ao “continuarem indo”6 elas encontram a maior solução para a rebelião, seu último salto para a morte é a prova definitiva da incapacidade da ordem social masculina de contê-las (2002, p. 192). É nesse momento, também, que a maior am- biguidade do filme se revela: por um lado, o filme recusa de maneira convencional a seguir com sua rebelião feminista, eliminando-as por meio de um martírio sentimentalizado; por outro, exalta sua resistência através do extremo dignificante. O abraço de seu destino fatal significa uma potente forma de sub- versão vigorosa: um tapa na cara do patriarcado. E então, novamen- te, a luz branca, sem sangue e feliz, lavando seu salto em câmera len- ta, significa a capacidade insidiosa do patriarcado (e de Hollywood) de absorver e higienizar a subversão (LADERMAN, 2002, p. 192).7 Um cenário em que a morte é a única possibilidade de liberdade possível não é para ser aplaudido, mas refletido. Todos os homens no filme simbolizam algum tipo de violência e opressão a que ambas decidem resistir: o marido abusivo, o namorado aproveitador, o estuprador do bar, o assediador do caminhão, o xerife paternalista e o ladrão sedutor. Por um lado, uns usam da violência física e psicológica que submetem suas condições de mulher a mero objeto; por outro, aqueles que supostamente as querem salvar infantilizam-nas e as reduzem a meras donzelas em que eles, as figuras paternalistas da lei, devem proteger. Thel- ma e Louise não querem proteção, não querem ser salvas, elas querem salvar a si mesmas e assumem para si o panteão de consequências que isso significa. O fim bucólico e a esco- lha pela morte assume claramente que nenhuma dessas figuras masculinas serve para elas como alento num mundo de opressão. 6 - “Let’s keep going”, referência ao diálogo final de Geena Davis. 7 - Tradução nossa. A nd re ss a G or dy a Lo pe s do s Sa nt os 138 Referências COHAN. Steve. HARK. Ina Rae. The Road Movie Book. London: Routledge. 1997. KAPLAN, E. Ann. A mulher e o cinema - Os dois lados da câmera. Rocco. São Paulo – SP. 1995. LADERMAN, David. Driving Visions: Exploring the Road Movie. University of Texas Press, Austin, 2002. MULVEY, Laura. Prazer Visual e Cinema Narrativo. Ismail Xavier (Org.). A Experiência do Ci- nema. Rio de Janeiro: Graal Embrafilme, 2003. NERONI, Hilary. The violent woman – Femininity, Narrative and Violence in Contemporary American Cinema. Nova York, State University of New York Press, 2005. RAINER, Peter. “True or False: Thelma and Louise Just Good Ol’ Boys?”. Los Angeles Times, Maio, 1991. O re gi st ro e a in ve nç ão e m A fe st a e os c ãe s e M on st ro 139 O registro e a invenção em A festa e os cães e Monstro1 Documenting and invention in A festa e os cães and Monstro Annádia Leite Brito2 (Doutoranda – PPGCOM-UFRJ) Resumo: A festa e os cães (2015), de Leonardo Mouramateus, e Monstro (2015), de Breno Baptista, são dois filmes cearenses que se situam entre as imagens fixas e em movimento. Através do conceito de fotográfico em Bellour (2008), são investigadas suas estruturas for- mais e diegéticas, estabelecendo aproximações com (nostalgia) (1971), de Hollis Frampton, e A balada da dependência sexual (1980-1986), de Nan Goldin. Palavras-chave: Fotográfico, cinema, fotografia. Abstract: A festa e os cães (2015), by Leonardo Mouramateus, and Monstro (2015), by Breno Baptista, are two films from Ceará with images between still and movement. Their formal and diegetic structures are analyzed through Bellour’s concept of photographic alongside with the investigation of their similarities with Hollis Frampton’s (nostalgia) (1971) and Nan Goldin’s The Ballad of sexual dependency (1980-1986). Keywords: Photographic, film, photography. Leonardo Mouramateus nasceu em Fortaleza e é formado pelo curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Ceará. Desde a graduação vem realizando traba- lhos bastante expressivos e com repercussão internacional, como o documentário Mauro em Caiena (2012), vencedor do prêmio de melhor curta no 35º Cinéma du réel. Suas obras investem bastante no corpo, no som e no espaço dentro da mise-en-scène, principalmente através da aproximação com a dança, a música eletrônica e com um olhar sobre sua cidade natal. A festa e os cães (2015) é um curta-metragem de vinte e cinco minutos realizado pouco tempo antes de Mouramateus se mudar para Lisboa. O início do filme vai lentamente revelando sua estratégia: em planos estáticos, carimbos em papel kraft apresentam os crédi- tos enquanto o realizador cantarola em voz over e fala sobre a procedência das fotografias que começam a ser mostradas e empilhadas. A origem é a câmera analógica comprada e utilizada até quebrar e seu período de uso entre dezembro de 2013, durante a realização de História de uma pena (2015), e abril de 2014. As fotos trazem vivências com amigos em fes- tas em Fortaleza, Curitiba e Lisboa e imagens de cães no seu bairro, a Maraponga. 1 - Trabalho apresentado no XXIII Encontro SOCINE na sessão Entre-imagens do ST Inteseções Cinema e Arte. 2 - Doutoranda em Tecnologias da Comunicação e Estéticas no PPGCOM-UFRJ e Mestre em Poéticas da Cria- ção e do Pensamento em Artes no PPGARTES-ICA|UFC. O presente trabalho foi realizado com apoio da CAPES. A nn ád ia L ei te B rit o 140 O artista narra suas experiências nas cidades no momento da captura daquelas fo- tografias, fala sobre a iminência de ir embora e conversa com outros três amigos – Geane, Clara e Kevin –, que supostamente aparecem nas imagens e passam a refletir também sobre suas trajetórias de vida, incluindo partidas e chegadas e projetando futuros possíveis e não realizados. De certa maneira, não se sabe o que é verdadeiro ou não sobre o que se recorda e o que se imagina, aproximando-se de (nostalgia) (1971), de Hollis Frampton, não só pela forma de dispor as fotos no plano, mas por se posicionar entre o registro e a invenção, o que se diz e o que se vê, e entre a contiguidade dos afetos e o descolamento das ironias. Sãoformas de falar sobre si e de compor a imagem de uma geração através do embaralhamento de temporalidades propiciado pela imbricação entre o estático e o móvel. Em vídeo, ao final, Mouramateus conversa com Júnior, seu primo. É aí que se sabe mais sobre o bairro, a chegada dos cães, os assaltos, as construções de prédios e, mais uma vez, sobre a partida do realizador de sua cidade. O artista descreve para seu primo uma música eletrônica da qual gosta bastante. Em plano, vê-se Júnior sentando-se numa cama, ouvindo atentamente e falando com Mouramateus, que então aparece em contraplano. Enquanto a música se intensifica, Leonardo descreve o som visualmente e o relaciona com os momentos em que dança nas festas e vê os amigos ao redor, instantes esses nos quais, para o realiza- dor, as coisas passam a ter sentido. É uma sequência bastante emocionante, que culmina novamente com fotos de diversos lugares e pessoas, terminando com a retirada da imagem de um homem correndo em direção a um trem e restando o fundo de papel kraft. A câmera analógica foi um meio fundamental para que o curta fosse feito enquanto possibilidade de realização – visto que seu material barato, o plástico, não chamaria atenção de ladrões, sendo facilmente substituída caso fosse roubada –; enquanto consecução do retrato de um período na vida de um grupo de pessoas – que produziram um corpo de ima- gens juntas quando a câmera rodava nas festas de mão em mão –; e, finalmente, enquanto viabilizadora das características estéticas existentes nas fotografias e, consequentemente, impregnadas no vídeo, como a instantaneidade, a visualização e reflexão posterior ao ato fotográfico a partir da revelação, da materialidade e da temporalidade das imagens. A festa e os cães, ao mostrar o manusear de fotografias em vídeo e refletir a partir de- las em voz over, compõe um tempo multifacetado, que imbrica o passado das experiências, o presente do encadeamento e das conversas com suas projeções e dúvidas quando ao futuro. Passar as imagens com as mãos é deflagrar a construção do dispositivo fílmico como algo organizado pelo realizador, mas, ao mesmo tempo, é também uma forma de se mostrar muito próximo, inclusive fisicamente, de tudo aquilo que passou e que retorna para se fazer potência nos empilhamentos das fotos, dos espaços e dos tempos no presente do vídeo. Constrói-se, por meio da materialidade, uma intimidade como quando se veem – ou se viam – fotografias recém reveladas, ou há muito não vistas, junto a amigos ou familiares. As vozes e a reflexão sobre as experiências vivenciadas, assim como em Se eu tivesse quatro dromedários (Si j’avais quatre dromedaires, 1966), de Chris Marker, reforçam o campo ínti- mo. Porém são acompanhadas de áudios em volume mais baixo de ruídos da cidade e, ao O re gi st ro e a in ve nç ão e m A fe st a e os c ãe s e M on st ro 141 fim, da música descrita, que entra como som diegético. Ambos avolumam a espessura da camada da imagem, adicionando a ambiência da cidade ponto de partida, que também se faz presente como personagem, e um fluxo de emoção fortemente conectado às noites em que Mouramateus e seus amigos festejavam a vida juntos. A montagem de empilhamento e de detalhe, que move com as mãos as fotos umas sobre as outras ou as arrasta para direcionar o olhar ao que se deve ver, dá lugar, depois da sequência de vídeos, às imagens estáticas encadeadas por cortes secos ao som da música. Nesse ponto, as potências trazidas pelas fotografias como experiências manuseadas por um grupo que conversa passam a tomar o fílmico no sentido de serem transpostas para quem assiste, como se o dispositivo de passagem também pertencesse ao espectador e, dessa for- ma, se tornasse um compartilhamento reforçado pela fala de Mouramateus: “Olha pra isso. Au-Au. Consegue ouvir o que eu ouço? Ver o que eu vejo?”. Essa citação é uma referência direta a Frampton, que termina (nostalgia) com as frases “Here it is. Look at it. Do you see what I see?” ao se remeter a um detalhe largamente ampliado de uma foto não mostrada ao público e que o deixou fortemente amedrontado, a ponto achar que não ousaria fazer outra foto novamente. Mouramateus se apropria de parte da forma framptoniana para estabelecer as ambi- guidades já citadas, no entanto, por mais que possa compor certas ficções, a sobreposição de vivências, a constatação do realizador sobre aquilo que perdura depois das festas e o alargamento em direção ao espectador, fazem do filme de fato um autorretrato daquela turma em determinada época, expandindo-o, das fotografias para o fotográfico3 imbuído no filme, como uma afirmação daquilo que podem a juventude, os corpos, os encontros e as festas. Sob esse ponto de vista, A festa e os cães se torna igualmente próximo do trabalho de Nan Goldin quando de sua vivência na década de 1980, constituindo uma fotografia de afetos, da noite e de saturação. Segundo a fotógrafa, ao contrário de muitas leituras críticas feitas, sua obra não se refere a um grupo marginalizado, e sim ao cotidiano de pessoas que compuseram uma família e que viviam de forma diferente do considerado como normal pela sociedade. De outra maneira, o aspecto grave de um tema doloroso e mesmo o dispositivo de encadeamento das fotografias presentes na Balada da dependência sexual (The Ballad of Sexual Dependency, 1985), de Goldin, não se encontram presentes na obra de Mouramateus, mas em Monstro (2015), de Breno Baptista. 3 - Bellour (2008, p.251, tradução nossa) conceitua o “fotográfico” como algo mais amplo que a fotografia e que “existe em algum lugar entre; é um estado de “estar entre”: no movimento, é aquilo que interrompe, que paralisa; na imobilidade, talvez sugere sua relativa impossibilidade”. A nn ád ia L ei te B rit o 142 Baptista é um jovem realizador, também graduado pelo curso de Cinema e Audiovisual da UFC, que co-dirigiu o longa-metragem O animal sonhado (2015), exibido na 18º Mostra de Cinema de Tiradentes e em outros eventos nacionais e internacionais. Seus filmes abordam questões de relacionamento e sexualidade de maneira visceral, aproximando o prazer à dor e, por vezes, à violência. Monstro (2015), seu trabalho de conclusão de curso, foi apresentado em diversos fes- tivais, sendo premiado na Mostra do Filme Livre de 2016. Em forma instalativa, quatro foto- grafias do filme4 também foram exibidas na exposição Transborda (2015, Galeria Triângulo, São Paulo), com curadoria de Yuri Firmeza. O curta de vinte minutos reúne imagens fixas analógicas digitalizadas por scanner e alguns registros em vídeo de momentos de extrema intimidade entre o realizador e Gabriel Rett, seu ex-namorado. A fisicalidade dos corpos mostrados ganha maior dimensão ao ser somada à materialidade pressuposta por essas fotos analógicas em seu dispositivo inicial e aos resíduos de poeira ou pelos sobrepostos à camada imagética durante a digitalização. Baptista aparece como imagem em poucos momentos, mas sua presença é constante na voz over e como operador de câmera – aquela para qual Rett olha, sorri e se masturba. Seu fluxo enunciativo permanece sempre sob a mesma entonação enquanto narra fatos, sonhos, sentimentos e delírios, estabelecendo sobre as imagens tomadas durante o relacio- namento e normalmente remetidas ao real fotográfico uma camada ficcionalizante. De fato, assim como em (nostalgia), há também uma dubiedade entre documentário e ficção no âmago de Monstro, já que existe um jogo de espelhamento que coloca o que normalmente é dado como real ou como construído em questão. Reforçam essa tensão as imagens estáticas – em sua maioria em cores frias – em contraposição à fluidez dos vídeos em cores quentes e que dão certo respiro à angustia predominante; a trilha musical que ora se faz por um som melancólico de guitarra e ora por um tom grave com sons de tilintares, como numa estranha ambiência;e o paradoxo de as imagens materiais, junto aos pelos e poeiras, serem tornadas imateriais pelo processo de digitalização em scanner. É pela soma de todas essas ambiguidades acima que Monstro oscila entre a ternura e a violência, entre a solidez do passado e o que não mais se pode tocar no presente, entre o registro e a ficção científica, como quando se passa por um processo traumático que perten- ce à própria vida, mas ao mesmo tempo parece absolutamente estranho ou no unheimlich freudiano5. Para Bellour (1997, p.151-152), através do “congelamento da imagem e na imagem”, é possível trazer aos filmes a capacidade da imobilidade de ressaltar “atos ou momentos excepcionais, ou fundamentais” de maneira muito forte, como “a morte, o beijo, o gozo” encontrados em La Jetée (1962), de Marker, e Salve-se quem puder (a vida) (Sauve qui peut (la vie), 1979), de Godard. Assim, o fotográfico encontrado em Monstro se aproxima dessa qualidade, evidente na Balada da dependência sexual, ao utilizar snapshots para tratar da 4 - https://cargocollective.com/brenobaptista/monstro 5 - O estranhamente familiar que provoca angústia. O re gi st ro e a in ve nç ão e m A fe st a e os c ãe s e M on st ro 143 existência humana, dos corpos, do beijo, do gozo, da sobrevivência e da morte de maneira íntima e visceral. Mais uma pista dessa proximidade com Goldin é a sinopse de Monstro: “ba- lada de amor e destruição”. Há um embaralhamento do tempo realizado pela montagem, ora apresentando se- quências nas quais não é possível saber se todas as imagens são de um mesmo encontro do casal, ora encadeando fotografias de tempos assumidamente diferentes, como no final do filme. A feição e o corte de cabelo de Rett são os maiores indícios da passagem do tempo em Monstro. A construção do curta aponta para o choque das temporalidades em modula- ções entre as supostas continuidades e os anacronismos aparentes, pois o que de fato im- porta e resta ao fim é mais a experiência subjetiva de desejo e perda entregue ao espectador do que contar essa história de maneira linear. Fotografar é aqui um ato de amor extremo, mesmo que nocivo, e de reconhecimento por parte do outro, que constantemente nota e fita o olhar do realizador através das obje- tivas da câmera. Curiosamente, quando Breno está em quadro, Gabriel se volta para ele ou fecha os olhos. “O monstro que nós somos e não conseguimos deixar de ser” se faz pouco a pouco e, ao fim, é o próprio filme – assim nomeado apenas antes dos créditos. O curta é o momento síntese que oscila entre o prazer e o carinho vistos nas imagens em movimento e a distância e a frieza crescentes na textura das fotografias ao longo do filme. Tanto A festa e os cães quanto Monstro partem das imbricações de imagens fixas e em movimento, estabelecendo tensões entre o registro e a invenção. No entanto, é impor- tante pontuar que ambos são bastante diferentes quanto ao dispositivo que criam, os temas que trabalham e o tom que imprimem aos seus materiais iniciais. O curta de Mouramateus mostra sua manipulação de maneira aberta, através das mãos que passam as fotos em seu próprio ritmo, das vozes em diálogo que se colocam em questão quanto à temporalidade de suas narrativas e da intersecção entre a descrição da música e sua presença mista – intra e extradiegética. Já em Monstro, por mais que se crie um emaranhado de tempos através da possível não cronologia das imagens, elas se encadeiam sem o vislumbrar da mão que as ordena. A voz over, ratificando a presença ausente de Baptista, quase sempre por trás da câmera, reforça o fluxo da singularidade de uma pessoa. Não ouvimos a voz de Rett e só vemos seu passado feito presente em tela. De forma alguma a diferenciação acima se faz como um juízo de valor. Apenas é ne- cessária para perceber como, apesar de partirem de um material construído por meios tão próximos – câmeras analógicas e processamento digital – e transitando entre o documentar das vivências e o que se pode fabular sobre elas, essas obras se fazem tão radicalmente potentes e diferentes, trazendo em si uma pulsão de vida e uma pulsão de morte, uma ode e uma elegia. Referências BELLOUR, Raymond. Concerning “the photographic”. In: BECKMAN, Karen; MA, Jean (Orgs.). Still moving: between cinema and photography. Durham, NC: Duke University Press, 2008. A nn ád ia L ei te B rit o 144 __________. Entre-imagens: foto, cinema, vídeo. Campinas, SP: Papirus, 1997. GOLDIN, Nan; COSTA, Guido. Ten years after. Zurique: Scalo, 1998. MOURÃO, Patrícia. Um jogo entre “eu” e “mim”: (nostalgia), de Hollis Frampton. In: DUARTE, Theo; MOURÃO, Patrícia (Orgs.). Cinema estrutural. São Paulo: Aroeira, 2015. O e sp aç o fo ra d o lu ga r no fi lm e In fe rn in ho 145 O espaço fora do lugar no filme Inferninho1 The space out of place in the movie My own Private Hell Arthur Lins2 (Doutorando – UFF/UFPB) Resumo: A partir do filme Inferninho (2018), dirigido por Guto Parente e Pedro Diogénes, buscarei refletir sobre a categoria de espaço no que se refere a sua condição material, que pretende encerrar a encenação em um único lugar físico (estúdio), mas elabora estratégias de ampliação do espaço da representação diegética, empurrando a ação dramática rumo a uma heterotopia, um lugar que escapa de uma apreensão realista e propõe a ficção como um gesto de reinvenção possível do mundo. Palavras-chave: Espaço cinematográfico; cinema brasileiro contemporâneo; fabulação; mul- tilinguagem. Abstract: Starting from the movie My Own Private Hell (2018), directed by Guto Parente e Pedro Diogénes, I will seek to reflect on the category of space with regard to its material con- dition, that wants to restrict the staging in one place (the studio), but elaborates strategies for expanding the space of diegetic representation, driving the dramatic action towards a heterotopia, a place that escapes a realistic apprehension and proposes fiction as a possible reinvention gesture of the world. Keywords: cinematic space; contemporary Brazilian cinema; fabulation; multilingual; Em sua aparente fixidez, clausura e imobilidade, o que o inferninho nos esconde e nos dá a perceber gradativamente é o percurso que transforma um lugar demarcado por suas fronteiras e repetições em espaço aberto e poroso aos fluxos dos acontecimentos e as mutações subjetivas da contemporaneidade. Marcado pelo excesso do artifício e da dra- matização, Inferninho (2018)3, filme dirigido por Guto Parente e Pedro Diógenes, se insere em um panorama recente do cinema brasileiro independente que busca, através da ficção e das potencias do falso, criar pontes com o discurso da realidade dominante, em uma aposta politica e estética do cinema como espaço privilegiado para o gesto da fabulação. Pretendemos com esse ensaio analisar quais procedimentos fílmicos são utilizados na concretização desse espaço inventado, como por exemplo a emulação de um estúdio cine- matográfico, a utilização do chroma key, o uso de fantasias e adereços que hiper-ficcionali- zam os personagens e os efeitos de iluminação e cor. 1 - Trabalho apresentado no XXIII Encontro SOCINE na sessão: ST Cinema brasileiro contemporâneo: política, estética, invenção – Sessão 6 2 - Professor de Montagem no curso de cinema da UFPB. Doutorando no PPGCINE/UFF com pesquisa voltada para o cinema contemporâneo brasileiro em diálogo com o gênero de ficção-científica. 3 - Neste ensaio, usaremos Inferninho (inicial maiúscula) ao nos referirmos ao nome do filme, enquanto inferni- nho (em minúsculo) ao se tratar de um bar ou outro espaço que possa se adequar ao termo. A rt hu r Li ns 146 Acreditamos que essa heterotopia do presente atua na constituição de um espaço re- lacional que propicia fissuras na fixidez das identidades e no estabelecimento das fronteiras do imaginário, que cerca e impossibilita aos espectadores a invenção de si e do mundo.Espaço concreto, diegético e fabular Ao tratar a categoria de espaço como uma palavra-chave em evidência em diversos campos do saber, o geógrafo David Harvey propõe uma distinção que possa ser útil concei- tualmente para indicar significados mais específicos no uso do termo. Partiremos como base de sua divisão tripartite no intuito de refletirmos sobre o espaço em Inferninho, propondo termos correlatos que possam ser mais eficazes na análise cinematográfica. Dessa forma, propomos que o espaço absoluto, relativo e relacional sejam aqui tratados em termos de espaço concreto, diegético e fabular. Em cinema, por espaço concreto, pensamos o equivalente a uma locação, termo desig- nado no processo de pré-produção de um filme para o lugar determinado onde irá ocorrer a filmagem. Em Inferninho, ao concentrar praticamente toda a ação do filme em apenas um lugar - o bar homônimo - podemos afirmar que a construção material desse espaço nos indica uma série de procedimentos narrativos/estéticos que será determinante para a con- cretização do filme como um todo. Trata-se de um modo de filmagem que podemos aproximar de um modelo-estúdio, espaço hermeticamente fechado, onde a ausência de luz e o isolamento acústico gera as condições ideais para que um ato criador seja sentido como gesto de controle a partir da manipulação de elementos utilizados para fins específicos. Como o ateliê de um artista vi- sual, um palco teatral vazio de cenografia, uma página em branco de uma escrita em poten- cial, o estúdio cinematográfico é um não-lugar onde uma ‘realidade ausente’ abre espaço para uma realidade fabricada. Utilizado como modelo predominante em contextos onde o cinema está plenamente estabelecido como uma indústria – notadamente o caso de Hollywood – a filmagem em es- túdio não é uma prática recorrente no cinema independente brasileiro, que historicamente encontrou seus picos de força e potência estética no entrelaçamento com a matéria bruta do real. Nesse sentido, a utilização do modelo-estúdio nos aparece como um gesto inventi- vo e provocador, abrindo fértil terreno criativo para outros possíveis filmes que possam se constituir dentro desse modelo4. 4 - Não queremos afirmar que se trata de um modelo de filmagem ausente no cinema brasileiro, mas sim que o seu uso criativo em Inferninho e a visibilidade que o filme teve em circuitos de legitimação do cinema indepen- dente de viés mais artístico possa renovar o interesse por essa método de filmagem. Outro filme que achamos importante destacar nesse contexto é Batguano (2014), dirigido por Tavinho Teixeira, que também faz uso cria- tivo desse modelo/espaço. Nos parece inclusive, que Batguano é uma referência estética de grande importância para o filme Inferninho, mas não trataremos desse assunto aqui neste ensaio. O e sp aç o fo ra d o lu ga r no fi lm e In fe rn in ho 147 Do processo ao filme em si, esse modelo-estúdio que se estabelece como espaço ma- terial, absoluto, concreto, controlado, faz eco ao inferninho de Deusimar, bar herdado pela proprietária que aparece no filme como sendo o lugar dela por excelência, o seu lugar de origem e de pertencimento, um lugar que ela pode chamar de seu. Através de uma iluminação pontual, que prioriza os feixes de luzes num ambiente majoritariamente escuro, cores saturadas e enquadramentos equilibrados, o bar vai se cons- tituindo como o território privilegiado onde Deusimar exerce controle sobre o seu mundo e sobre a constelação de personagens que lá trabalham e frequentam. Em diversas cenas fica notório a sua personalidade imperativa, taciturna, ríspida, mas fundada em uma enorme generosidade e senso de justiça e humanidade, evocando o habitual carisma das donas e donos de bares noturnos reconhecíveis em outros inferninhos do nordeste e, provavelmente, do mundo. No bar inferninho há um ritual diário onde todos parecem conhecer e se adequar ple- namente as suas posições. Nesse sentido, Inferninho nos é apresentado como um lugar fixa- do num imaginário desviante, uma espécie de lócus de aceitação da diferença e do outsider. Pensamos este lugar em detrimento ao espaço, tal como proposto por Michel de Cer- teau em A invenção do cotidiano (1994). Para ele “o lugar é a ordem (seja qual for) segundo a qual se distribuem elementos das relações de coexistência... um lugar é portanto uma configuração instantânea de posições. Implica uma indicação de estabilidade” (CERTEAU, 1994, 201). Inicialmente, o bar inferninho é mostrado como esse lugar determinado, onde um véu de aparente beleza e suavidade paira harmonicamente sobre todos os cantos, iluminados por uma luz difusa e espectral, onde o brilho cintilante da lantejoula coexiste com o mofo das paredes envelhecidas. Logo na primeira sequência há uma série de planos embalados por uma música romântica que mostra os personagens praticamente imóveis, vivendo mecani- camente os seus papéis. Mas o portão que dá acesso ao bar se abre e o marinheiro (estran- geiro) surge despertando a curiosidade de todos ali presentes. Porém, é nesse espaço diegético, onde acompanhamos o percurso da crise da perso- nagem Deusimar, desencadeada a partir do encontro/desencontro com o personagem do Marinheiro, e da própria impossibilidade de que o bar se mantenha intacto diante das ques- tões que atravessam o mercado imobiliário e as relações sociais criadas dentro de um siste- ma capitalista capilarizado, que o equilíbrio em Inferninho é rompido para que as tensões e conflitos venham desestabilizar o lugar e criar as condições de um espaço aberto e dinâmi- co, onde imprevistas relações podem se dar e o todo-mundo se ampliar em sua inquietante complexidade, se inserindo simbolicamente no tecido narrativo do filme. A rt hu r Li ns 148 A imagem do portão será recorrente ao longo do filme para marcar a fronteira que de- fine o inferninho e assim figurar as relações entre o dentro e o fora. Os planos de chegada de novos personagens funcionam como disparadores da narrativa e os planos mais fechados no cadeado demarca frontalmente a metáfora central da fábula que se desenha gradativa- mente ao longo do filme. Ainda dentro do espaço material (estúdio) e do espaço diegético (bar), há um dispo- sitivo que funciona como outra demarcação de fronteira, mais fluida e porosa do que a me- táfora do portão e cadeado. Trata-se do uso do chroma-key, que simultaneamente circuns- creve ainda mais o filme nos limites do modelo-estúdio, enquanto se abre a possiblidade de expandir diegeticamente os espaços narrativos por onde transcorre a ação. O que o estúdio em sua concepção ideal faz com o espaço concreto da filmagem (a locação), o chroma-key faz com o espaço imagético da tela: um espaço liso, por onde as imagens de qualquer lugar podem deslizar indefinidamente substituindo as relações entre figura e fundo. Vale ressaltar que num primeiro momento (fig.1), o chroma-key é usado para materia- lizar na tela o sonho de Deusimar, onde a cabeceira da cama se transforma na proa de um navio a chegar na mítica América ao lado de seu amado marinheiro. Num segundo momento (fig.2), o chroma-key é usado para possibilitar narrativamente a Deusimar fazer sua grande viagem pelo mundo. Nesse salto, do sonho a viagem ‘real’ da personagem, toda uma crença no gesto da fabulação a construir um mundo sempre em vias de se fazer, de se descobrir, de se inventar. A verdade no cinema seria a fabulação do real, como gesto inventivo e criador possível de desestabilizar momentaneamente as normas condicionantes que determinam os modos de vida e a fixidez das identidades. Figura 1: Deusimar ‘sonha acordada’ com o seu amado marinheiro. Primeiro uso do Chroma-key. Figura 2: Deusimar e sua ‘viagem real’ por todo o mundo. Segundo uso do Chroma-Key. O percurso de Deusimar fabula a passagem de um lugar de recolhimento e clausura a um espaço relacional, múltiplo, aberto a potência criadora dorelato e das experiências vivi- das e ainda por viver. O tempo da narração, ou do relato, é detonador de um espaço fabular em criação, eclode a fixidez imóvel do absoluto e instaura o espaço movediço de uma subjetividade atuante. No filme, é a chegada de Deusimar após sua viagem pelo mundo que cria essa con- O e sp aç o fo ra d o lu ga r no fi lm e In fe rn in ho 149 dição ao afirmar o tempo como um vetor de múltiplas direções - quanto tempo durou sua viagem? Em que tempo se localiza o inferninho? -, irrompendo o imperativo de um tempo único e linear. Ela reencontra o inferninho e se surpreende ao perceber que tudo continua como ela deixou. Mas o que Deusimar não sabe e vai descobrir aos poucos é que agora ela é estrangeira em seu próprio lugar. Construiu uma ponte para si como gesto inventivo que lhe devolveu a possibilidade de sonhar/viver em um mesmo espaço de fabulação. “(...) de sorte que cruzando a ponte para lá e para cá e voltando ao recinto fechado, o viajante aí encontra agora o outro lugar que tinha a princípio procurado partindo e fugindo depois voltando. No interior das fronteiras já está o estrangeiro, exotismo ou sabbat da memória, inquietante familiaridade. Tudo ocorre como se a própria delimitação fosse a ponte que abre o dentro para seu outro” (CER- TEAU, 1994, 215). Do espaço absoluto/concreto que garante as condições em que possa se exercer uma ação criadora, ao espaço relativo/diegético, onde a construção de pontes e a transgressão das fronteiras são gestos necessários para que o relato possa ativar o fluxo dos aconteci- mentos, há por sua vez o espaço relacional/fabular, abertura radical que atravessa as sub- jetividades movediças e faz circular a diversidade de saberes e práticas. Há um caminho e um risco a desvendar, pois como sugere David Harvey “é aqui, sobretudo, que consiste a transformação das subjetividades políticas. A relacionalidade é enganosa, se não mesmo impossível de apreender, mas nem por isso é menos essencial” (HARVEY, 2015, 16). Como também sugere Certeau, o espaço – aqui já pensado em termos relacionais – “estaria para o lugar como a palavra quando falada, isto é, quando é percebida na ambi- guidade de uma efetuação” (CERTEAU, 1994, 205). A palavra (obra) plural já não corre em sentido único e nem se deixa manipular pelo controle do gesto ordenador, mas implode o referencial ao se lançar na teia das significações que se espalha por todas as direções. Nesse curto-circuito em potencial, buscaremos reter o complexo jogo de identidades que se en- reda no tecido narrativo do filme e traçar algumas notas que possam sugerir uma política progressista que leve em conta a imprevisibilidade e o descontrole como a desmedida dos processos relacionais. Por uma estética da relação: o caos mundo das imagens em movimento Em sua poética da diversidade, o poeta, ensaísta e teórico antilhano Édouard Glissant desenvolve as suas reflexões buscando apontar para uma política progressista que leve em conta o conceito de identidade e lugar em termos relacionais. Em sua poética, é no entrela- çamento das culturas/identidades - levando em conta as afinidades eletivas mas também os dissensos e os conflitos em latência – que o caos-mundo se apresenta em toda a sua beleza e complexidade tendo em vista a imprevisibilidade dos processos. É a ciência do caos, que por sua vez, afirma que existem sistemas dinâmicos determinados que se tornam erráticos. A rt hu r Li ns 150 Como sabemos, esse processo que cria zonas de contato e encontro entre diferentes culturas se estabelece, na maioria dos casos, a partir de relações de forças terrivelmente assimétricas movidas por interesses unilaterais que visam a manutenção do status quo e de um sistema capitalista predatório e colonizador. Porém, o que Glissant nos faz perceber nes- se emaranhado cultural que constitui a história dos povos no tempo presente é a dimensão dialógica e errática que propicia influências recíprocas entre as culturas a partir da imprevi- sibilidade inerente às relações. “O que constitui o ‘Todo-o-mundo’ não é o cosmopolitismo, que é uma transformação negativa da Relação. O que constitui o ‘Todo- -o-mundo’ é a própria poética dessa Relação, que permite sublimar, em pleno conhecimento de si e do todo, o sofrimento e a anuência, o negativo e o positivo, ao mesmo tempo” (GLISSANT, 2005, 107). Acrescenta ainda que é apenas na prática dessa poética que o Todo-o-Mundo se torna uma desmedida capaz de superar as “velhas impossibilidades que sempre determinam as intolerâncias, os massacres e os genocídios” (GLISSANT, 2005, 108). Nesse sentido, a poética proposta por Glissant recusa qualquer pressuposto que vá em direção a uma postura política de viés regressiva, reacionária e recalcada, encarcerada em si e na recusa do Outro. “(...) é preciso nunca hesitar em defender o oprimido e o ofendido; entretanto, o problema hoje é conseguir mudar a própria noção de identidade, a própria profundidade da vivência que temos de nossa identidade, e concebermos que somente o imaginário do Todo-o- -mundo (isto é, o fato de que eu possa viver em meu lugar estan- do em relação com a totalidade-mundo), somente esse imaginário pode nos fazer ultrapassar essas espécies de limites fundamentais que ninguém quer ultrapassar” (GLISSANT, 2005,108). Em consonância com Glissant, acreditamos que os modos de visibilidade e criação dessa poética das relações nos aparece como um problema geral que as artes deve enfren- tar na contemporaneidade, fazendo surgir pontes por onde as identidades possam se mover ao conceber uma língua que seja capaz de entrar em relação com todas as outras línguas, falar com uma multilíngua, como sugere Glissant. Referências GLISSANT, Édouard. Introdução a uma poética da diversidade. Tradução de Enilce Alberga- ria Rocha. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2005. HARVEY, David. O espaço como palavra-chave. In: EM PAUTA, Rio de Janeiro – 1 semestre de 2015-n.35, v.13, p. 126-152 LAZZARATO, Maurizio. Signos, Maquinas, Subjetividades. São Paulo: Edição Sesc: n-1 edi- ções, 2014. MASSEY, Doreen. Um sentido global de lugar. In: ARANTES, Antonio A. O espaço da diferen- ça. Campinas: Papirus, 2001. So ns d o pa ss ad o: re la to s no st ál gi co s em p ai sa ge ns s on or as fí lm ic as 151 Sons do passado: relatos nostálgicos em paisagens sonoras fílmicas1 Sounds of the past: nostalgic accounts in film soundscapes Breno Mota Alvarenga2 (Mestrando - UFPE) Resumo: O trabalho tem como intenção investigar a possibilidade de paisagens sonoras fílmicas de instaurarem atmosferas específicas, em especial atmosferas nostálgicas. Para tal, propõe-se a análise da sonoridade de três filmes: Nostalgia (1983), Memórias do Subde- senvolvimento (1967) e Aquarius (2016). Por meio de uma reflexão sobre o uso de ruídos, silêncios, músicas e vozes nos três filmes, almeja-se questionar se o som do cinema faz com- parecer a nostalgia de seus personagens. Palavras-chave: Nostalgia, paisagem sonora, som do cinema. Abstract: The article intends to investigate the possibility of film soundscapes of estab- lishing specific atmospheres, especially nostalgic atmospheres. To this end, we propose to analyze the sound of three films: Nostalghia (1983), Memories of Underdevelopment (1967) and Aquarius (2016). Through a reflection on the use of noises, silences, songs and voices in the three films, the aim is to question whether the sound of cinema makes the nostalgia of its characters noticeable. Keywords: Nostalgia, soundscape, film sounds. O termo nostalgia tem origem grega, em que nostos significa “retorno a casa” e algos “dor”. Ou seja, a raiz da palavra remete a um desconforto unido a um desejo de regresso. Para Lin- da Hutcheon, “É o próprio fato do passado ter passado, sua inacessibilidade, que provavel- mente é responsável por grande parte do poder da nostalgia3” (HUTCHEON;VALDÉS, 2000, p. 20). Hutcheon comenta que este retorno ao passado é seletivo, sendo distorcido e lembrado de acordo com o desejo. Esses momentos selecionados pelo desejo “constroem um passado” que é “simples, puro, organizado, fácil, bonito ou harmoniosa” em oposição a um presente “complicado, contaminado, anárquico, difícil, feio e confrontante” (HUTCHEON; VALDÉS, 2000, p. 20). Há um consenso, pelo menos entre Linda Hutcheon e Svetlana Boym (2001), que a cultura e a sociedade contemporâneas têm a nostalgia como “elemento-chave” (HUT- CHEON; VALDÉS, 2000, p. 18), em que as constantes mudanças tecnológicas, o intenso fluxo de informações e dados, o aumento da mobilidade das pessoas pelos espaços e as rápidas mudanças de estruturas sociais e até locais físicos desempenham importante papel 1 - Trabalho apresentado no XXIII Encontro SOCINE na sessão: Estilo e som no audiovisual - Sessão 3. 2 - Breno Alvarenga é graduado em Comunicação Social pela UFMG e mestrando pelo PPGCOM da UFPE, além de realizador cinematográfico. E-mail:brenomalvarenga@gmail.com 3 - Tradução minha, assim como para as demais citações da autora. B re no M ot a A lv ar en ga 152 no desenvolvimento de uma crise de nostalgia coletiva. Essa nostalgia contemporânea deixa transparecer, segundo Ana Paula Goulart (2018), crises do cenário contemporâneo, como a fragilização dos vínculos afetivos, descrença em projetos políticos e promessas religiosas, além de um pessimismo em relação ao futuro: “o desejo de passado expressa o esfacela- mento de nossa capacidade de projeção, nossa dificuldade de imaginar “futuros possíveis” (HUYSSEN, 2014).” (GOULART, 2018, p. 11). A indústria cultural e do consumo, cientes da crise coletiva de nostalgia tão dissemina- da em nossa sociedade, passam a comercializar a nostalgia, oferecendo produtos e serviços que possibilitem pontos de contato com o passado. O nostálgico, em seu constante desejo por rememoração de tempos pretéritos, tende, portanto, a consumi-los e, por meio deles, experienciar o passado no presente. No cinema não seria diferente: segundo Goulart (2018), filmes de reconstituição de épocas, os remakes e histórias baseadas em fatos e personagens reais são alguns exemplos de narrativas nostálgicas do cinema contemporâneo. Pam Cook (2005) defende que o teor nostálgico dos filmes contemporâneos permite que o espectador experiencie o passado no presente, possibilita-o “imaginar como era na- quela época e conectar-se emocionalmente com as representações do passado”4 (COOK, 2005, p. 03). A autora acredita que a capacidade de reconstrução de épocas do cinema é uma interessante oportunidade de reflexão sobre eventos de outrora, em que se está claro para o espectador que ele não está diante de uma realidade passada e sim de uma repre- sentação dela. Enquanto histórias autênticas pretendem nos educar sobre o passado em si, impondo ordem narrativa à realidade caótica, essas reconstruções modernas nos dizem mais sobre nossa relação com o passado, sobre as conexões entre passado e presente e nossas respos- tas afetivas. Eles também podem inspirar os espectadores a buscar mais conhecimento e compreensão (COOK, 2005, p. 02) Para ela, o cinema de nostalgia não é apenas sintoma de um saudosismo leviano, mas sim uma oportunidade de rever e refletir sobre o presente a partir de uma comparação com o passado. Paisagens sonoras de nostalgia Levando em consideração essa capacidade de construção de tempos no cinema, por que escolher o som dos filmes como o elemento a ser investigado? Segundo Truax, alguns sons “lembram-nos de memórias agradáveis ou desagradáveis e, portanto, evocam uma resposta condicionada” (TRUAX, 2001, p. 28). O autor nomeia de “sons românticos” as manifestações sonoras capazes de instigar o comparecimento de boas lembranças, em que considera a possibilidade de certos sons de conectar pessoas a memó- rias de locais e situações romantizadas. 4 - Tradução minha, assim como para as demais citações da autora. So ns d o pa ss ad o: re la to s no st ál gi co s em p ai sa ge ns s on or as fí lm ic as 153 Ele (Truax) sustenta que a maioria das preferências sonoras parecem ser associações aprendidas que podem provocar nostalgia quando ouvidas em anos posteriores (Truax, 2001a). De acordo com Schafer, há um romance que se desenvolve em torno dos sons “desaparecidos” do passado. À medida que novos sons são criados, a tensão e uma reação nostálgica por sons mais antigos e familiares podem ser induzidas” (SCHINE, 2010) O ponto apresentado por Schine é que, por vezes, uma memória é tão associada a certo som que só de estar em contato com o ambiente que antes aquele evento acústico soava, a mente já é capaz de recompô-lo. Segundo Aimee Mollaghan (2015) , é justamente a “qualidade difusa” do som o disparador de emoções, uma vez que ele é capaz de trazer não uma memória específica, mas um complexo conjunto de vivências passadas em associação. Como poderia o som do cinema utilizar dessa característica nostálgica dos sons? Antes de partimos para as nossas análises, é preciso esclarecer que vamos considerar paisagem sonora fílmica como sendo os elementos sonoros de um filme (ruídos, diálogos, silêncios, músicas etc) que fazem parte da diegese fílmica e que têm como intuito represen- tar as paisagens sonoras dos ambientes retratados na narrativa, sejam estes ambientes reais ou imaginados. Sendo assim, não consideraremos elementos extra-diegéticos, como alguns efeitos sonoros, narrações ou até mesmo algumas músicas. Memórias do Subdesenvolvimento (1968) No filme, acompanhamos o personagem Sérgio vivendo a crise política e social de uma Havana meio a Guerra Fria. Sua esposa e amigos deixam a capital de Cuba para encontrar melhores oportunidades em Miami, nos Estados Unidos. Deixado para trás, o personagem reflete sobre as condições do país e sobre suas próprias condições, observando como am- bas se relacionam e se influenciam. Solitário na cidade, ele relembra vivências do passado em que a vida parecia mais leve e fácil. Em uma das cenas, Sérgio dá play em uma espécie de gravador. A partir deste, ouvi- mos um diálogo gravado entre Sérgio e sua esposa antes de sua partida. Enquanto ouvimos essa conversa, Sérgio vai até o guarda-roupa e seleciona uma echarpe feminina de pêlos, provavelmente pertencente à mulher. Cheira-a e então veste-a. Em seguida, vasculha um porta-jóias e seleciona um colar de pérolas enquanto escuta-se desde o gravador dizer que a esposa tem treinado muito o inglês e que provavelmente tem planos de ir embora. Ao encontrar um batom, o protagonista desenha no espelho a face de uma mulher enquanto escutamos ela reclamar que ele anda estranho. Ele contesta que, por outro lado, a mulher anda cada dia mais bonita e atraente. A esposa muda o tom e revela que já não aguenta mais morar com ele naquele calor. Ele ainda tentar manter o tom jocoso alertando que tudo está sendo gravado e que será engraçado para ele ouvir isso mais tarde. A esposa parece ainda mais revoltada e ameaça quebrar o gravador. Sérgio, no presente, se direciona até a sala e pausa o áudio. B re no M ot a A lv ar en ga 154 O som vindo do gravador é o disparador para que o personagem se relaciona com a saudade que sente da esposa foragida. As roupas e acessórios da esposa de Sérgio o co- nectam a ela. É como se a voz vinda do gravador o guiasse por essa trajetória pelo quarto, em que toca e cheira diferentes objetos que o recordam da esposa. A impossibilidade de retorno ao passado, porém, é escancarada pela inutilidade dos acessórios no presente e pelo caráter de finitude da gravação: não é possível ir além do que foi gravado, o que forçaria o personagem a sempre ouvir as mesmas informações. Ainda, o próprio xiado do dispositivo e a maneira como o som soa abafado escancaram sonoramente que aquele diálogo se trata de uma reprodução