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Indaial – 2020
Formas Democráticas 
De ParticiPação social 
e a meDiação Familiar, 
escolar e comunitária
Prof.ª Cláudia Deitos Giongo
Prof.ª Ângela Martins Rorato 
1a Edição
Copyright © UNIASSELVI 2020
Elaboração:
Prof.ª Cláudia Deitos Giongo
Prof.ª Ângela Martins Rorato
Revisão, Diagramação e Produção:
Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI
Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri 
UNIASSELVI – Indaial.
Impresso por:
G496f
 Giongo, Cláudia Deitos
 Formas democráticas de participação social e a mediação familiar, 
escolar e comunitária. / Cláudia Deitos Giongo; Ângela Martins Rorato. – 
Indaial: UNIASSELVI, 2020.
 222 p.; il.
 ISBN 978-85-515-0426-0
1. Direito. - Brasil. 2. Legislação. – Brasil. 3. Família. – Brasil. I. Rorato, Ângela 
Martins. II. Centro Universitário Leonardo Da Vinci.
CDD 340 
III
aPresentação
Caro acadêmico, pronto para apreensão de novos conhecimentos? 
Esperamos que sim. Antes de iniciarmos os estudos da Disciplina Formas 
Democráticas de Participação Social e a Mediação Familiar, Escolar e 
Comunitária apresentamos um breve currículo das professoras autoras 
deste livro didático.
A prof.ª Cláudia Deitos Giongo é mestre em Serviço Social pela 
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2000). Possui 
graduação em Serviço Social pela Universidade Católica do Rio Grande do 
Sul (1984). Atua como professora universitária desde 1989 em diferentes 
instituições de ensino tanto na graduação, quanto pós-graduação. No 
momento, atua como professora e supervisora no DOMUS – Centro 
de terapia individual, casal e família – parceria com a Faculdade Mário 
Quintana. É coordenadora do Curso de Pós-Graduação Trabalho Social com 
Famílias e Comunidades. Atua como uma das coordenadoras do Curso de 
Extensão em Mediação com parceria da Defensoria Pública de Porto Alegre. 
É responsável técnica pelo Programa DOMUS/SUAS. Atua como Mediadora 
Judicial e Extrajudicial. Presta serviços de assessoria e capacitação a 
Prefeituras nas áreas de Gestão do SUAS, Modelo Assistencial e Gestão do 
Trabalho. Tem experiência em ensino, pesquisa, extensão universitária e 
consultoria nas áreas de política de assistência social, família, mediação e 
redes sociais. 
A professora e mediadora de conflitos Ângela Martins Rorato, é 
especialista em educação, formada em Estudos Sociais (UNIFRA – 1989), atua 
como professora em cursos de pós-graduação, em capacitação de mediadores 
de conflitos e facilitadores de círculos de construção de paz para profissionais 
das mais variadas áreas. Presta consultoria na área de comunicação para 
diversas empresas e órgãos públicos. Atua como formadora e supervisora 
do Curso de Extensão em Mediação em parceria com a defensoria Pública de 
Porto Alegre. Atualmente, é consultora e assessora de coordenação do Projeto 
de Implantação e Consolidação de Práticas Restaurativas na Socioeducação. 
Palestrante na área de comunicação com foco em Comunicação não violenta, 
capacitada pelo NY Center for Nonviolent Communication. Possui certificação 
internacional em mediação de conflitos pelo ICFML e pelo IMAP. 
Iniciaremos os estudos da disciplina apresentando, na Unidade 1, a 
confluência de temas como participação, conflitos e comunicação. O Tópico 
1 direciona o estudo para o tema participação social, buscando apresentar 
discussões conceituais e perspectiva histórica sobre como a população 
brasileira tem operado em termos de participação, considerando marcos 
IV
legais que impulsionam para isto, mesmo que correlações de forças, 
instituídas no país, possam representar resistências. O tema cidadania e 
autonomia estão correlacionados à ideia de participação da população 
em uma comunidade política, o que gera comprometimento autônomo e 
pertencimento social. O conteúdo apresenta discussões sobre a importância 
da internalização de normas partilhadas, para que diferenças podem ser 
superadas por meio de discussões públicas na ideia de bem comum. Disso 
advém a importância do Tópico 2, que discorre acerca de entendimentos 
sobre a relação entre conflito e comunicação assertiva. Apresenta a 
Moderna Teoria de Conflitos, que propõe superar ideias pré-concebidas 
de entendimento do conflito como algo a ser evitado. Neste mesmo tópico, 
é apresentada a teoria da Comunicação Humana e a importância da 
comunicação não violenta. A discussão perpassa a ideia da dificuldade em 
estabelecer processos comunicacionais, com compreensão genuína sobre o 
que é dito, mesmo em um mundo cujos meios de comunicação expandiram 
as fronteiras de forma inimaginável.
A Unidade 2 apresenta a Justiça Multiportas e suas especificidades 
como uma das formas encontradas de resolução dos conflitos, com o 
objetivo de oferecer possibilidades de conhecimento e análise para a 
busca de soluções mais adequadas, em um tempo histórico de excessiva 
litigiosidade e inseguranças jurídicas. No Tópico 1, o conteúdo apresenta, 
conceituação, legislação e defesa e dados que defendem a importância do 
entendimento da Justiça Multiportas no atual momento do país. No Tópico 
2, são apresentados os Meios Heterocompositivos com seus dois caminhos 
de solução de conflitos: a Jurisdição e a Arbitragem. O texto ressalta a 
importância do reconhecimento, semelhanças e diferenças entre eles e do 
entendimento que a resposta da escolha se materializa através de sentença 
ou de laudo arbitral. Já no Tópico 3, é apresentado informações sobre meios 
adequados para superação da cultura litigiosa e dados sobre os esforços, 
empreendidos em diferentes contextos, para que possa ser reconhecida a 
importância das pessoas em situação de conflito se reconhecer protagonistas 
na identificação de interesses e nos esforços para o seu alcance. O tópico 
oferece conteúdo sobre a Resolução nº 125/2010 do Conselho Nacional de 
Justiça e o Código de Processo Civil de 2015 por representarem um marco no 
direito brasileiro por viabilizar a construção de um processo civil e sistema 
de justiça multiportas, bem como apresenta dados sobre Negociação, 
Conciliação e Mediação.
A Unidade 3 apresenta dados sobre contextos para utilização 
da mediação como meio para resolução adequada de conflitos. O Tópico 
1 se ocupa com a Mediação Familiar, oferecendo a oportunidade de 
entendimentos sobre a dinâmica relacional da família que podem indicar 
a necessidade da utilização da Mediação Familiar como método para a 
superação de conflitos. Os Tópicos 2 e 3 se dedicam a apresentar dados 
V
Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto 
para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há 
novidades em nosso material.
Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é 
o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um 
formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura. 
O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova 
diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também 
contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo.
Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente, 
apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade 
de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. 
 
Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para 
apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto 
em questão. 
Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas 
institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa 
continuar seus estudos com um material de qualidade.
Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de 
Desempenhode Estudantes – ENADE. 
 
Bons estudos!
NOTA
sobre o espaço escolar e o espaço comunitário como espaços onde 
conflitos emergem cotidianamente, mas que podem ser espaços geradores 
de soluções. Desta forma, apresenta a Mediação Escolar e a Mediação 
Comunitária como espaço de construção de agentes para a solução de 
conflitos e fortalecimento de espaços de participação social. 
prof.ª Cláudia Deitos Giongo
prof.ª Ângela Martins Rorato
VI
VII
Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma disciplina e com ela 
um novo conhecimento. 
Com o objetivo de enriquecer teu conhecimento, construímos, além do livro 
que está em tuas mãos, uma rica trilha de aprendizagem, por meio dela terás 
contato com o vídeo da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complementares, 
entre outros, todos pensados e construídos na intenção de auxiliar teu crescimento.
Acesse o QR Code, que te levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para teu estudo.
Conte conosco, estaremos juntos nessa caminhada!
LEMBRETE
VIII
IX
UNIDADE 1 – PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS ..........................................1
TÓPICO 1 – CIDADANIA, PARTICIPAÇÃO POLÍTICA, SOCIAL E POPULAR ...........................3
1 INTRODUÇÃO .......................................................................................................................................3
2 SOMOS TODOS LIVRES E IGUAIS... SERÁ? .....................................................................................3
3 DIREITOS POLÍTICOS, SOCIAIS E CIVIS ........................................................................................5
4 CIDADANIA NA ATUALIDADE: CIDADANIA FORMAL X CIDADANIA REAL ...................7
5 MOVIMENTOS SOCIAIS NA ATUALIDADE ...............................................................................10
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................12
AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................13
TÓPICO 2 – OS GRAUS DE PARTICIPAÇÃO PÚBLICA .................................................................15
1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................15
2 OS DIREITOS HUMANOS NA CONSULTA PÚBLICA ................................................................15
3 OS GRAUS DE PARTICIPAÇÃO PÚBLICA ......................................................................................17
4 COMO INCENTIVAR A PARTICIPAÇÃO PÚBLICA .....................................................................20
RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................24
AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................25
TÓPICO 3 – SENSIBILIZAR PARA A DEMOCRACIA E A PARTICIPAÇÃO ..............................27
1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................27
2 EDUCAÇÃO: AUTONOMIA E EMANCIPAÇÃO DOS SUJEITOS ..............................................27
3 AMBIENTES EDUCATIVOS DEMOCRÁTICOS ...........................................................................32
4 REPENSANDO OS AMBIENTES EDUCATIVOS ..........................................................................35
RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................40
AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................41
TÓPICO 4 – OS MOVIMENTOS SOCIAIS ........................................................................................43
1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................43
2 A FORMAÇÃO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS .............................................................................43
3 O MOVIMENTO SOCIAL TRADICIONAL E OS NOVOS MOVIMENTOS SOCIAIS ..........46
4 MOVIMENTOS SOCIAIS, ESTADO E POLÍTICAS PÚBLICAS ..................................................48
RESUMO DO TÓPICO 4........................................................................................................................52
AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................53
TÓPICO 5 – TRAJETÓRIA DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL ....................................55
1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................55
2 MOVIMENTOS SOCIAIS E POPULARES ......................................................................................55
3 PARTICIPAÇÃO SOCIAL, EDUCAÇÃO POPULAR E MOVIMENTOS SOCIAIS ...................59
4 HISTÓRICO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL ..........................................................62
RESUMO DO TÓPICO 5........................................................................................................................68
AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................69
sumário
X
TÓPICO 6 – CIDADANIA E MOVIMENTOS SOCIAIS..................................................................71
1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................71
2 MOVIMENTOS SOCIAIS ...................................................................................................................72
3 PRIVAÇÃO RELATIVA ........................................................................................................................74
4 MOBILIZAÇÃO DE RECURSOS ........................................................................................................75
5 O SEXO E OS MOVIMENTOS SOCIAIS ........................................................................................76
6 NOVOS MOVIMENTOS SOCIAIS ..................................................................................................77
7 TEORIAS DE MUDANÇAS SOCIAIS ...............................................................................................78
8 TEORIA EVOLUCIONISTA ...............................................................................................................79
9 TEORIA FUNCIONALISTA ...............................................................................................................80
10 TEORIA DO CONFLITO ...................................................................................................................81
11 MUDANÇAS SOCIAIS MUNDIAIS ...............................................................................................82
12 RESISTÊNCIA ÀS MUDANÇAS SOCIAIS ..................................................................................84
13 FATORES ECONÔMICOS E CULTURAIS .....................................................................................84
14 RESISTÊNCIA À TECNOLOGIA .....................................................................................................86
15 A TECNOLOGIA E O FUTURO ........................................................................................................88
15.1 INFORMÁTICA ..............................................................................................................................88
RESUMO DO TÓPICO 6........................................................................................................................89
AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................90TÓPICO 7 – MOVIMENTOS SOCIAIS E DIREITOS HUMANOS ...............................................91
1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................91
2 ESTADO, SOCIEDADE E DIREITOS HUMANOS .........................................................................91
2.1 ESTADO ............................................................................................................................................91
2.2 SOCIEDADE .....................................................................................................................................92
2.3 DIREITOS HUMANOS ...................................................................................................................94
3 HISTÓRIA E EVOLUÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS NO BRASIL .......................................96
4 MOVIMENTOS SOCIAIS EM DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS......................................99
LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................102
RESUMO DO TÓPICO 7......................................................................................................................105
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................106
UNIDADE 2 – OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS ....107
TÓPICO 1 – JUSTIÇA MULTIPORTAS ............................................................................................109
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................109
2 DEFINIÇÕES PRELIMINARES .......................................................................................................109
3 COMPREENSÃO HISTÓRICA .......................................................................................................110
4 LEGISLAÇÃO RELACIONADA .....................................................................................................112
RESUMO DO TÓPICO 1......................................................................................................................116
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................117
TÓPICO 2 – MEIOS HETEROCOMPOSITIVOS ...........................................................................119
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................119
2 JURISDIÇÃO .......................................................................................................................................119
3 ARBITRAGEM – CONCEPÇÃO HISTÓRICA .............................................................................122
4 DEFINIÇÕES PRELIMINARES .......................................................................................................122
5 PRINCÍPIOS E PROCEDIMENTO ................................................................................................123
6 ARBITRO ..............................................................................................................................................124
RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................................125
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................126
XI
TÓPICO 3 – MEIOS AUTOCOMPOSITIVOS ................................................................................129
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................129
2 LEGISLAÇÃO RELACIONADA .....................................................................................................130
2.1 RESOLUÇÃO 125/2010 CNJ .........................................................................................................130
2.2 CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL 2015 .........................................................................................131
3 NEGOCIAÇÃO ..................................................................................................................................131
3.1 DEFINIÇÕES PRELIMINARES ...................................................................................................132
3.2 PRINCÍPIOS E PROCEDIMENTOS ............................................................................................134
3.3 FASES DA NEGOCIAÇÃO .........................................................................................................136
3.4 O NEGOCIADOR ..........................................................................................................................137
4 CONCILIAÇÃO ..................................................................................................................................137
4.1 DEFINIÇÕES PRELIMINARES ...................................................................................................138
4.2 PROCEDIMENTO .........................................................................................................................139
4.3 TÉCNICAS .....................................................................................................................................141
5 MEDIAÇÃO .........................................................................................................................................144
5.1 DEFINIÇÕES PRELIMINARES ...................................................................................................144
5.2 A PESSOA DO MEDIADOR ........................................................................................................145
5.3 FUNÇÕES DO MEDIADOR ........................................................................................................147
5.4 REGRAS E PRINCÍPIOS DA MEDIAÇÃO ................................................................................147
5.5 ESCOLAS OU MODELOS DA MEDIAÇÃO .............................................................................148
5.6 PROCEDIMENTOS .......................................................................................................................149
5.7 TÉCNICAS PARA A CONDUÇÃO DE UMA MEDIAÇÃO ..................................................150
LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................153
RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................156
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................157
UNIDADE 3 – PROCESSOS DE MEDIAÇÃO: MEDIAÇÃO FAMILIAR, ESCOLAR 
 E COMUNITÁRIA ......................................................................................................159
TÓPICO 1 – MEDIAÇÃO FAMÍLIAR ..............................................................................................161
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................161
2 PERSPECTIVA HISTÓRICA DA MEDIAÇÃO FAMILIAR ......................................................161
3 FAMÍLIAS E FAMÍLIAS CONTEMPORÂNEAS .........................................................................163
3.1 DINÂMICA RELACIONAL DA FAMÍLIA ...............................................................................165
4 DIVÓRCIO E SUAS FASES ..............................................................................................................168
5 TEMAS PARA MEDIAÇÃO .............................................................................................................1695.1 DIVÓRCIO ......................................................................................................................................170
 5.2 GUARDA E PARENTALIDADE FUTURA DOS FILHOS .......................................................170
5.3 PENSÃO ALIMENTÍCIA DOS FILHOS, TAMBÉM CHAMADA DE ALIMENTOS 
 AOS FILHOS ...................................................................................................................................171
5.4 CUIDADO DE IDOSOS/DOENTES ...........................................................................................172
5.5 RECONHECIMENTO DE PATERNIDADE ..............................................................................172
6 ÂMBITO DE ATUAÇÃO DA MEDIÇÃO FAMILIAR ................................................................173
7 PARTICULARIDADES DA MEDIAÇÃO FAMILIAR ...............................................................173
8 TÉCNICAS DE MEDIAÇÃO FAMILIAR ......................................................................................175
9 MEDIABILIDADE ..............................................................................................................................176
RESUMO DO TÓPICO 1......................................................................................................................178
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................179
TÓPICO 2 – MEDIAÇÃO ESCOLAR ...............................................................................................181
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................181
2 ESPACO ESCOLAR ............................................................................................................................181
3 CONFLITOS NO AMBIENTE ESCOLAR .....................................................................................183
4 DIMENSÕES E FINALIDADES DA MEDIAÇÃO ESCOLAR .................................................184
XII
4.1 TÉCNICA DE INTERVENÇÃO NA GESTÃO E RESOLUÇÃO DOS CONFLITOS ..........186
4.2 METODOLOGIA DE DESENVOLVIMENTO PESSOAL E SOCIAL .....................................187
4.3 ESTRATÉGIA INTEGRADA DE PREVENÇÃO ......................................................................188
5 A ESTRUTURA DE UM PROJETO DE MEDIAÇÃO ESCOLAR ............................................189
 5.1 DIAGNÓSTICO – LEVANTAMENTO DE DADOS .................................................................189
5.2 PLANO DE AÇÃO ........................................................................................................................190
5.3 SENSIBILIZAÇÃO .........................................................................................................................190
5.4 FORMAÇÃO: CAPACITAÇÃO TEÓRICA E PRÁTICA .........................................................190
5.5 INSTITUCIONALIZAÇÃO ..........................................................................................................191
RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................................193
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................194
TÓPICO 3 – MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA ...................................................................................195
1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................195
2 RELAÇÕES DE PARTICIPAÇÃO COMUNITÁRIA NA RESOLUÇÃO DE CONFLITOS ......195
3 PERSPECTIVA CONCEITUAL ........................................................................................................197
4 BREVE HISTÓRICO DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA ........................................................197
5 CARACTERÍSTICAS DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA .......................................................199
6 FUNÇÕES DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA ............................................................................200
7 FASES DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA ...................................................................................202
8 O PAPEL DO MEDIADOR COMUNITÁRIO .............................................................................202
LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................204
RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................207
AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................208
REFERÊNCIAS .......................................................................................................................................209
1
UNIDADE 1
PARTICIPAÇÃO SOCIAL E 
MOVIMENTOS SOCIAIS
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:
• compreender o significado de participação social, cidadania e autonomia 
na sociedade brasileira em uma perspectiva histórica;
• compreender a relação entre participação, cidadania, autonomia e 
relações de conflito;
• identificar e reconhecer conceitos relacionados à comunicação e 
comunicação não violenta;
• reconhecer a importância da comunicação humana no tratamento 
positivo do conflito;
• identificar as questões relacionadas à cidadania em suas variadas formas 
de participação;
• reconhecer como se dão os processos de participação no âmbito político, 
social e popular;
• analisar as evoluções históricas dos movimentos sociais na contempora-
neidade;
• entender a representatividade do conceito de direitos humanos nas con-
sultas públicas;
• identificar os distintos graus de participação pública;
• compreender as formas para incentivar a participação pública nas con-
sultas;
• relacionar a prática educadora com os conceitos de autonomia e de eman-
cipação dos sujeitos;
• identificar os diversos ambientes educativos como espaços democráticos 
que possibilitam uma troca de saberes e um mútuo enriquecimento;
• repensar a organização dos ambientes educativos para o favorecimento 
da coletividade, da democracia e da participação;
• descrever a mobilização social em torno de um problema social específico 
na formação dos movimentos sociais;
• identificar as demandas sociais de um movimento social tradicional e dos 
novos movimentos sociais;
• relacionar movimentos sociais, Estado e políticas públicas;
• definir movimentos sociais populares;
• relacionar participação social, educação popular e movimentos sociais;
• reconhecer a trajetória dos movimentos sociais no Brasil;
• explicar a importância dos movimentos sociais em nossa sociedade;
• reconhecer a dimensão do conceito de democracia nas sociedades atuais;
• identificar os motivos que fizeram surgir os movimentos negros, 
sindicais, socialistas, educacionais e liberais;
• descrever Estado, sociedade e Direitos Humanos;
• reconhecer a história e a evolução dos Direitos Humanos no Brasil;
• discutir sobre o papel dos movimentos sociais em defesa dos Direitos Hu-
manos.
2
Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e 
vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim 
absorverá melhor as informações.
CHAMADA
PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em sete tópicos. No decorrer da unidade você 
encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.
TÓPICO 1 – CIDADANIA, PARTICIPAÇÃO POLÍTICA, SOCIAL 
 E POPULAR
TÓPICO 2 – OS GRAUS DE PARTICIPAÇÃO PÚBLICA
TÓPICO 3 – SENSIBILIZAR PARA A DEMOCRACIA E A
 PARTICIPAÇÃO
TÓPICO 4 – OS MOVIMENTOS SOCIAIS
TÓPICO 5 – TRAJETÓRIA DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL
TÓPICO 6 – CIDADANIA E MOVIMENTOS SOCIAIS
TÓPICO 7 – MOVIMENTOSSOCIAIS E DIREITOS HUMANOS
3
TÓPICO 1
UNIDADE 1
CIDADANIA, PARTICIPAÇÃO POLÍTICA, SOCIAL E POPULAR
1 INTRODUÇÃO
Direitos, cidadania, participação popular e movimentos sociais se 
tornaram temas frequentes nos pronunciamentos de governantes, políticos 
de diferentes partidos, empresários brasileiros ou estrangeiros, estudantes, 
trabalhadores e membros das camadas da sociedade que enfrentam as piores 
condições de vida. Qual o significado de tais temas para indivíduos pertencentes 
a grupos tão distintos?
A cidadania está relacionada ao surgimento do Estado moderno e 
à expectativa de que este garanta aos cidadãos a conquista, manutenção e 
ampliação dos direitos sociais por meio da ação dos indivíduos e de grupos que 
lutam por uma sociedade mais justa e igualitária.
2 SOMOS TODOS LIVRES E IGUAIS... SERÁ?
Ao longo dos séculos, muitos foram os pensadores que afirmaram a ideia 
de que os seres humanos nascem livres e iguais e têm garantidos determinados 
direitos inalienáveis. Vejamos os mais expressivos.
O pensador inglês Thomas Hobbes (1588-1679), em seu livro Leviatã, 
afirma que os seres humanos são naturalmente iguais e, devido ao excesso de 
liberdade, lutam uns com os outros em defesa de seus interesses individuais, 
sendo assim necessário um acordo (o qual ele denominava de contrato) entre 
as pessoas. Ainda de acordo com o autor, para evitar a autodestruição, todos os 
membros da sociedade devem renunciar à liberdade e dar ao Estado o direito de 
agir em seu nome limitando os excessos.
Ainda seguindo uma linha contratualista, temos o pensador inglês 
Jonh Locke (1632-1704), que afirma em sua obra Dois tratados sobre o governo, 
que apenas os homens livres e iguais podem fazer um pacto com o objetivo 
de estabelecer uma sociedade política. Vale ressaltar que esses homens livres e 
iguais eram apenas os que tinham alguma propriedade a zelar.
Já para o pensador francês Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), no livro 
Contrato social, publicado em 1762, a igualdade só faz sentido se for baseada na 
liberdade. Segundo suas afirmações, a igualdade só pode ser jurídica: “todos 
devem ser iguais perante a lei”.
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
4
Contratualismo é um conjunto de correntes filosóficas que tenta explicar 
a origem e a importância da construção das sociedades e das ordens sociais para o ser 
humano. De um modo geral, o contrato social ou contratualismo consiste na ideia de 
um acordo firmado entre os diferentes membros de uma sociedade, que se unem com o 
intuito de obter as vantagens garantidas a partir da ordem social.
DICAS
Vimos o cenário de final do século XVIII na Europa, onde as diferenças 
entre camadas sociais eram evidentes e ao se propor a igualdade de todos perante 
a lei, criava-se um direito igual para desiguais, ou seja, as pessoas não eram iguais 
porque nasciam livres e iguais, e sim porque tinham os mesmos direitos perante a 
lei, feita por quem dominava a sociedade. Será que algo mudou até o século XXI? 
Continuemos com o nosso dètour desse breve contexto histórico! Colocando o 
trabalhador como membro de uma classe e não como cidadão, temos o pensador 
Karl Marx (1818-1883), afirmando que uma concepção de cidadania/cidadão 
corresponderia a uma representação burguesa do indivíduo. Sua ideia de 
democracia está baseada no critério de igualdade social, que só poderia se tornar 
realidade através de uma revolução. Em seus escritos diferencia a emancipação 
política da emancipação humana, destacando que apenas no século XIX é que se 
reconheceu a ideia de direitos humanos, uma conquista dos trabalhadores em 
contraponto às tradições históricas vigentes até então.
 
Apresentando cidadania vinculada à ideia de coesão social estabelecida 
com base na solidariedade orgânica, temos o pensador Émile Durkheim (1858-
1917), afirmando que quando o indivíduo desempenha diferentes funções 
sociais, este faz parte de uma sociedade que se apresenta como um organismo 
estruturado. Cabe ao cidadão cumprir suas obrigações e desenvolver uma prática 
social que vise a maior integração possível, pois ao participar da solidariedade 
social, levando em conta as leis e a moral vigente em uma sociedade, o indivíduo 
desenvolve plenamente sua cidadania.
Valendo-me das palavras de Marshall (1967), a cidadania é um status con- 
cedido àqueles que são membros integrais de uma comunidade. Todos aqueles 
que possuem o status são iguais com respeito aos direitos e obrigações perti- 
nentes. Não há nenhum princípio universal que determine o que estes direitos e 
obrigações serão, mas as sociedades nas quais a cidadania é uma instituição em 
desenvolvimento criam uma imagem de uma cidadania ideal em relação a qual o 
sucesso pode ser medido e em relação a qual aspiração pode ser dirigida. Há que 
se ressaltar que a classe social, por outro lado, é um sistema de desigualdade. E 
como a cidadania, pode estar baseada num conjunto de ideais, crenças e valores. 
É, portanto, compreensível que se espere que o impacto da cidadania sobre a 
classe social tomasse a forma de um conflito entre princípios opostos. 
TÓPICO 1 | CIDADANIA, PARTICIPAÇÃO POLÍTICA, SOCIAL E POPULAR
5
Esse breve détour nos permite afirmar que a cidadania tem sido uma ins- 
tituição em desenvolvimento ao longo dos tempos. Desde a segunda metade 
do século XVII, tal fato coincide com o desenvolvimento do capitalismo, que 
é um sistema desigual. Como é possível que tais princípios opostos possam 
crescer e florescer, lado a lado, em um mesmo lugar, cidade ou país? A questão 
é pertinente, pois não há dúvida de que, no século XX, a cidadania e o sistema 
de classe capitalista estão em guerra (MARSHALL, 1967). O contexto histórico 
analisado por Marshall (1967), da relação entre cidadania e diretos, teve início na 
década de 1960, o que será que mudou até o século XXI?
3 DIREITOS POLÍTICOS, SOCIAIS E CIVIS
Em seu livro Cidadania, classe social e status, Marshall (1967) deixa claro 
que o conceito de cidadania só começa a aparecer nos séculos XVII e XVIII, 
apresentando, de forma sutil, algumas formulações dos chamados direitos 
civis. Na época em que escreve, suas preocupações estavam voltadas para a 
garantia da liberdade religiosa e de pensamento, o direito de ir e vir, o direito 
à propriedade, a liberdade contratual, a escolha do trabalho, e, finalmente, a 
justiça, que devia salvaguardar todos os direitos citados anteriormente. Ainda 
nessa época, não significava que os direitos civis eram de fácil acesso a todas as 
pessoas, o cidadão que gozava de seus direitos era o indivíduo proprietário de 
terras, o que demostra uma cidadania ainda restrita.
E os direitos políticos? Estes estão relacionados ao Estado democrático 
representativo e envolvem os direitos eleitorais (a possibilidade de eleger 
representantes e ser eleito). Inobstante os desdobramentos dos direitos civis, os 
direitos políticos começaram a ser reivindicados por movimentos populares já 
no século XVIII, mas, na maioria dos países, só se efetivou no século XX, com a 
extensão do direito ao voto às mulheres. Assim, podemos afirmar que os diretos 
políticos são, para o cidadão, o reconhecimento da lei quanto a sua capacidade 
de participação na formação do governo e na tomada de decisões estatais. Se 
de um lado a Constituição possibilita ao cidadão a participação na vida pública 
estatal; do outro prevê normas que impedem o cidadão de exercer seus direitos 
políticos, estamos falando, respectivamente, dos direitos políticos positivos e 
negativos (Figura 1).
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
6
FIGURA 1 – CLASSIFICAÇÃO DOS DIREITOS POLÍTICOS
FONTE: Adaptado de Marshall (1967)
E vamos chegando ao século XX dando vez aos direitos sociais, o que 
possibilita aos indivíduos direito à educação básica e à assistência à saúde, 
bem como a programas habitacionais, transporte coletivo, programas de lazer, 
sistema previdenciário, acesso ao sistema judiciário, entre outros.
Assentados nos princípios da igualdade,os direitos civis, políticos e 
sociais não podem ser considerados universais devido às variações existentes 
em cada Estado e em determinada época. Vale aqui lembrar a diversidade de 
sociedades que se estruturam de modo diferente e nas quais os valores, regras e 
costumes diferem daqueles que predominam no ocidente. Inobstante toda essa 
diferença, os países integrantes dos organismos mundiais que se propõem a 
defender os direitos humanos devem assumir responsabilidade e assegurar esses 
direitos a todos os seus cidadãos.
TÓPICO 1 | CIDADANIA, PARTICIPAÇÃO POLÍTICA, SOCIAL E POPULAR
7
4 CIDADANIA NA ATUALIDADE: CIDADANIA FORMAL X 
CIDADANIA REAL
Agora você já sabe que cidadania é o exercício dos direitos e deveres 
civis, políticos e sociais estabelecidos na Constituição de um país. Também 
podemos defini-la como a condição do cidadão, indivíduo que vive de acordo 
com um conjunto de estatutos pertencentes a uma comunidade politicamente 
e socialmente articulada. Uma boa cidadania implica que os direitos e deveres 
estão interligados, e o respeito e cumprimento de ambos contribuem para uma 
sociedade mais equilibrada e justa.
Entre alguns dos principais deveres e direitos dos cidadãos podemos 
citar:
Deveres do cidadão
• Votar para escolher os governantes.
• Cumprir as leis.
• Educar e proteger seus semelhantes.
• Proteger a natureza.
• Proteger o patrimônio público e social do país.
Direitos do cidadão
• Direito à saúde, educação, moradia, trabalho, previdência social, lazer, entre 
outros.
• O cidadão é livre para escrever e dizer o que pensa, mas precisa assinar o que 
disse e escreveu.
• Todos são respeitados na sua fé, no seu pensamento e na sua ação na sociedade.
• O cidadão é livre para praticar qualquer trabalho, ofício ou profissão, mas a lei 
pode pedir estudo e diploma para isso.
• Só o autor de uma obra tem o direito de usá-la, publicá-la e tirar cópia, e esse 
direito passa para os seus herdeiros.
• Os bens de uma pessoa, quando ela morrer, passam para seus herdeiros.
• Em tempo de paz, qualquer pessoa pode ir de uma cidade para outra, ficar ou 
sair do país, obedecendo a lei feita para isso.
Gerado a partir de lutas que ocorreram para estruturar os direitos 
universais do cidadão, desde o século XVIII, muitas ações e movimentos 
ocorreram para que se ampliasse o conceito e a prática de cidadania. O que 
nos leva a afirmar que defender a cidadania é lutar por direitos e, portanto, 
pelo exercício da democracia, que é uma constante criação de direitos. As 
transformações ocorridas na sociedade atual são tão complexas e de tamanha 
desigualdade que a divisão dos direitos do cidadão em civis, políticos e sociais já 
não conseguem explicar por si só a dinâmica existente nesse processo, para tal, 
podemos pensar em dois tipos de cidadania: a formal e a real (ou substantiva).
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
8
Cidadania formal refere-se à maneira como a cidadania está descrita 
formalmente na lei, nas constituições nacionais, é a garantia que o indivíduo tem 
para lutar legalmente por seus direitos, ou seja, é a que está na Constituição e em 
outras leis mais específicas de cada país. Se não houvessem leis para determinar 
nossos direitos, estaríamos nas mãos de uma minoria, por exemplo, a situação 
vivida por escravos que não tinham direito algum.
Já a cidadania real ou substantiva, refere-se à maneira como a cidadania é 
vivida na prática, no dia a dia. Através dela podemos ver que nem todos os seres 
humanos são iguais socialmente, que a sociedade se estrutura desigualmente 
e alguns grupos sofrem os mais diversos tipos de necessidades e preconceitos. 
Por exemplo: um aluno de uma escola pública que não consegue competir em 
condições de igualdade com um aluno de escola particular tem sua cidadania 
“formal” conquistada, pois a lei lhe garante acesso à educação, contudo, a 
cidadania “real” está bem longe de ser atingida. A mesma situação dos pobres, 
dos negros, dos deficientes etc, que, em maior ou menor grau, conseguiram 
reconhecimento “formal”, mas ainda tem um longo caminho para conquistar a 
cidadania “real”. 
O que isso infere? Ao analisarmos a cidadania substantiva percebemos 
que, apesar das leis existentes, ainda não há igualdade entre todos os seres 
humanos – entre homens e mulheres, negros e brancos, entre crianças, jovens e 
idosos. Se tomarmos como exemplo um direito previsto em nossa Constituição, o 
direito à vida e o direito de ir e vir, uma breve reflexão da realidade já nos permite 
afirmar que não temos tais garantias, pois milhares de pessoas, principalmente 
crianças, morrem de fome a todo instante, ou seja, essas pessoas não conseguiram 
ter o seu direito à vida garantidos, o direito real e substantivo à cidadania.
E o tão falado direito de ir e vir, que é reconhecido desde o século XVII? 
É atendido atualmente? Vemos constantemente nos meios de comunicação 
o impedimento à livre circulação dos cidadãos em alguns lugares (ruas, vias 
públicas) devido à violência ou porque são fechados por seguranças particulares. 
Temos praias lindas, todas públicas, cujo acesso é vetado por pessoas que se 
comportam como se fossem suas propriedades, nesses, como em tantos outros 
casos que você deve estar imaginado, o direito de ir e vir não é respeitado.
Em uma análise mais detalhada dos direitos humanos na atualidade, 
com o advento do mundo globalizado, as colocações do sociólogo Boaventura 
de Souza Santos (2000) se tornam pertinentes e enriquecedoras para nossas 
reflexões finais.
Em suas colocações, Santos nos aponta uma outra possibilidade para 
a liberdade do conhecimento. Para que este se produza no interior da crítica, 
sem abstrações alienantes e reconhecimentos incompletos, que levam à falsa 
compreensão e encobrem os dramas vividos na sociedade. Nesse sentido, aponta 
o início de uma outra cognoscibilidade do planeta, que conta com a possibilidade 
de ser desvendado. A globalização é um todo sistêmico, desigual e combinado, 
mas a mídia nos passa essa concepção como uma fábula.
TÓPICO 1 | CIDADANIA, PARTICIPAÇÃO POLÍTICA, SOCIAL E POPULAR
9
Cognoscibilidade do planeta, segundo Santos (2000), é a possibilidade de 
utilizarmos a unicidade das técnicas (as técnicas pensadas como família) e a convergência 
dos momentos (unicidade dos tempos) para uma compreensão do mundo. Acessar 
informação de diferentes lugares para um melhor entendimento do mundo.
DICAS
Nesse sentido, a contradição se refaz na impossibilidade de produzir 
uma informação libertadora e a alienação surge devido à globalização 
financeira, a globalização do dinheiro, uma exacerbação dos processos de 
exploração e alienação e de todas as formas de exclusão e violência. O que fica 
para o ser comum é a burlesca do consumo, o fetiche se realiza na ocultação do 
valor de troca e no falso evidenciamento do valor de uso.
Alienação: atribuir ao fenômeno uma força que ele não tem, não revela o que 
o real é, de fato.
ATENCAO
A globalização está associada a vários termos, além dos inúmeros neo-, 
pós- e –ismos, assim como os neologismos que procuram destruir a perspectiva 
histórica, dando novos nomes a velhos processos, surgindo o pós-moderno, o pós-
industrial, o desenvolvimento sustentável, a exclusão social, conceitos estes que 
procuram encobrir ao invés de revelar a natureza do capitalismo contemporâneo. 
São velhos conceitos cultivados como novos.
Com o processo de globalização em aceleração intensa, os processos de 
internacionalização e mundialização inerentes ao capitalismo, o desbloqueio 
dos limites sociais impostos ao capital pelas políticas do Estado de bem-estar 
social, cumprem um papel ideológico de encobrir os processos de dominação 
e de desregulamentação do capital, instaurando o senso comum de que a 
mundialização do capital favorece a todos. O que ocorre na verdade é mais 
desigualdade entre as nações e os diversos grupos sociais, pois colocar todos no 
mesmo plano constitui um erro teórico e histórico.
Para compreender essenovo contexto globalizado, são necessários dois 
elementos fundamentais: a formação técnica e a formação política. Uma per- 
mite a compreensão dos elementos tecnológicos que formam as composições 
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
10
necessárias à produção, e a outra indica quais setores serão privilegiados com 
a organização possível da produção. A partir dessa compreensão, a sociedade 
pode abrir um novo paradigma social que pode se opor com superação da nação 
ativa pela nação passiva.
De acordo com Santos (2000), a nação ativa está ligada aos interesses da 
globalização perversa, nada cria e nem contribui para uma melhor formação de 
mundo, ao contrário da nação dita passiva, que a cada momento cria e recria 
uma nova forma de produzir o espaço social, mostrando que a atual forma 
de globalização não é irreversível e a utopia é pertinente. Com base nessa 
contestação, fundada na história real de nosso tempo, é que desejamos uma outra 
globalização acessível a todos.
5 MOVIMENTOS SOCIAIS NA ATUALIDADE
Vamos iniciar conceituando o que são movimentos sociais. Segundo 
Gohn (2007), são ações sociais coletivas de caráter sociopolítico e cultural que 
viabilizam distintas formas da população se organizar e expressar suas de- 
mandas. Na ação concreta, tais formas adotam diversas estratégias que variam 
de simples denúncias, passando pela pressão direta (mobilização, marchas, 
concentrações, atos de desobediência civil, negociações etc.) até as pressões 
indiretas. Na atualidade, os principais movimentos sociais atuam por meio de 
redes sociais, locais, regionais, nacionais e internacionais, utilizando-se muito 
dos meios de comunicação e informação como a internet. Exercitam assim o que 
Habermas denominou de agir comunicativo. A criação e o desenvolvimento de 
novos saberes são produtos dessa comunicabilidade (GOHN, 2007).
Aos movimentos sociais que acabamos de descrever anteriormente, é 
preciso acrescentar alguns outros que poderíamos denominar de conjunturais, 
que são os que duram alguns dias e desaparecem, retornando como uma fênix 
em outros momentos com novas formas de expressão. Diferença e mobilidade se 
fazem necessárias, pois é preciso analisar cada tipo de movimento para entender 
as ideias que os motivam e sustentam suas ações, bem como seus objetivos. 
Temos também os movimentos sociais atemporais, que se mantêm durante 
longos anos e tendem a criar uma estrutura de sustentação e uma organização 
burocrática. Os riscos dessa institucionalização podem resultar em uma “perda 
de eficiência”, pois para continuar suas ações, precisam obter recursos e assumir 
compromissos como gastos com funcionários e aluguel de sede, contas fixas 
por mês, pessoal de apoio. A preocupação que doravante era organizar ações 
efetivas, divide-se com a burocracia e preocupação de manter uma estrutura fixa, 
mudando um pouco o foco de suas ações.
TÓPICO 1 | CIDADANIA, PARTICIPAÇÃO POLÍTICA, SOCIAL E POPULAR
11
Há os movimentos cujo objetivo é desenvolver ações que resultem em 
mudanças que favoreçam a sociedade com base no princípio fundamental do 
reconhecimento do outro, do “diferente”. Tais movimentos procuram dis- 
seminar visões de mundo, ideias e valores que possibilitem a diminuição do 
preconceito e discriminações que prejudicam as relações sociais. Podemos citar, 
como exemplo os movimentos: étnico-raciais, minorias sexuais, feministas, 
vegetarianos, pela paz e contra a violência.
 
Valendo-nos das palavras do sociólogo alemão Axel Honneth (2003, p. 
256-257),
[...] as lutas sociais estão para além da defesa de interesses ou 
necessidades, tendo como objetivo também o reconhecimento 
individual e social. Quando um indivíduo se engaja em um 
movimento social, procura fazer com que suas experiências com 
os sentimentos desrespeito, vergonha e injustiça inspirem outros 
indivíduos, de modo que sua luta se transforme em uma ação coletiva, 
de reconhecimento pessoal e social, pois [...] uma luta só pode ser 
caracterizada de “social” na medida em que seus objetivos se deixam 
generalizar para além dos horizontes das intenções individuais, 
chegando a um ponto em que eles podem se tornar uma base de 
movimento coletivo.
12
 Neste tópico, você aprendeu que:
• Ao longo dos séculos, muitos foram os pensadores que afirmaram a ideia de 
que os seres humanos nascem livres e iguais e têm garantidos determinados 
direitos inalienáveis, tais como: Thomas Hobbes, Jonh Locke, Jean-Jacques 
Rousseau, Karl Marx, Émile Durkheim e Marshall.
• Thomas Hobbes afirma que os seres humanos são naturalmente iguais e, 
devido ao excesso de liberdade, lutam uns com os outros em defesa de 
seus interesses individuais, sendo assim necessário um acordo (o qual ele 
denominava de contrato) entre as pessoas. 
• Jonh Locke afirmava que apenas os homens livres e iguais podem fazer um 
pacto com o objetivo de estabelecer uma sociedade política. 
• Jean-Jacques Rousseau expõe que a igualdade só faz sentido se for baseada na 
liberdade. Segundo suas afirmações, a igualdade só pode ser jurídica: “todos 
devem ser iguais perante a lei”.
• Para Karl Marx a concepção de cidadania/cidadão corresponderia a uma 
representação burguesa do indivíduo. Sua ideia de democracia está baseada 
no critério de igualdade social, que só poderia se tornar realidade através de 
uma revolução.
• Para Émile Durkheim quando o indivíduo desempenha diferentes funções 
sociais, este faz parte de uma sociedade que se apresenta como um organismo 
estruturado.
• Para Marshall a cidadania é um status concedido àqueles que são membros 
integrais de uma comunidade. Todos aqueles que possuem o status são iguais 
com respeito aos direitos e obrigações pertinentes.
• O conceito de cidadania só começa a aparecer nos séculos XVII e XVIII.
RESUMO DO TÓPICO 1
13
1 Leia o trecho a seguir, da autoria de Maria da Glória Gohn:
"Não nos resta a menor dúvida de que a principal contribuição dos diferentes 
tipos de movimentos sociais brasileiros nos últimos vinte anos foi no plano 
da reconstrução do processo de democratização do país. E não se trata apenas 
da reconstrução do regime político, da retomada da democracia e do fim 
do Regime Militar. Trata-se da reconstrução ou construção de novos rumos 
para a cultura do país, do preenchimento de vazios na condução da luta pela 
redemocratização, constituindo-se como agentes interlocutores que dialogam 
diretamente com a população e com o Estado". FONTE: GOHN, M. G. M. Os 
sem-terras, ONGs e cidadania. São Paulo: Cortez, 2003 (adaptado).
Podemos afirmar que, no processo da redemocratização brasileira, os novos 
movimentos sociais contribuíram para:
a) ( ) Diminuir a legitimidade dos novos partidos políticos então criados.
b) ( ) Tornar a democracia um valor social que ultrapassa os momentos 
eleitorais.
c) ( ) Difundir a democracia representativa como objetivo fundamental da 
luta política.
d) ( ) Ampliar as disputas pela hegemonia das entidades de trabalhadores 
com os sindicatos.
e) ( ) Fragmentar as lutas políticas dos diversos atores sociais frente ao 
Estado.
2 Da sequência de pensadores apresentados a seguir, está correta a opção na 
qual todos partem do princípio contratualista (Contrato Social) em:
a) ( ) Marx, Thomas Hobbes e Rousseau.
b) ( ) Lênin, Rousseau e John Locke.
c) ( ) Thomas Hobbes, John Locke e Rousseau.
d) ( ) Marx, Rousseau e Bauman.
e) ( ) Simone de Beauvoir, Marx e Lenin.
AUTOATIVIDADE
14
15
TÓPICO 2
OS GRAUS DE PARTICIPAÇÃO PÚBLICA
UNIDADE 1
1 INTRODUÇÃO
Neste capítulo, você vai aprender sobre o direito que todo cidadão tem a 
um meio ambiente saudável e que possibilite a sua manutenção para as gerações 
futuras. Você vai estudar como a participação pública pode ser fundamental nas 
ações decisórias das atividades que possam causar impacto ambiental. Apesar 
de muito ter evoluído nesse sentido, a participação pública ainda é restrita. O 
que é possível fazer para reverter esse quadro?
2 OS DIREITOS HUMANOS NA CONSULTAPÚBLICA
Entre as características de todo o processo de avaliação do impacto 
ambiental, está a participação pública. Essa característica é muito compreensível 
se considerarmos que as atividades podem gerar, além dos impactos, riscos 
à vida. Assim, é muito diferente quando tratamos da viabilidade técnica e 
econômica de um projeto, que pode ser analisada exclusivamente pela empresa 
responsável pela atividade, em relação à viabilidade ambiental.
Uma atividade pode causar impactos ambientais potenciais, afetando, 
degradando e consumindo recursos naturais. Se isso ocorre, pode atingir, por exemplo, 
uma comunidade que esteja instalada em determinado local e utilize as reservas naturais 
para sua sobrevivência.
ATENCAO
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
16
Dessa forma, o direito do ser humano a um ambiente sadio, atual e 
futuro, é um direito reconhecido por lei, mas isso não significa que é garantido 
e facilmente obtido. Esse direito passou a existir em meados do século XX, por 
meio de leis nacionais e acordos internacionais. Dentre esses tratados, podemos 
exemplificar as declarações de Estocolmo e do Rio de Janeiro, promovidas pela 
ONU. Ambas garantem que exista um ambiente saudável e equilibrado ao ser 
humano. Esses importantes marcos podem ser representados pelo princípio 10 
da Declaração do Rio de Janeiro (1992):
A melhor maneira de tratar as questões ambientais é assegurar a 
participação, no nível apropriado, de todos os cidadãos interessados. 
No nível nacional, cada indivíduo terá acesso adequado às 
informações relativas ao meio ambiente de que disponham as 
autoridades públicas, inclusive informações acerca de materiais 
e atividades perigosas em suas comunidades, bem como a 
oportunidade de participar dos processos decisórios. Os Estados 
irão facilitar e estimular a conscientização e a participação popular, 
colocando as informações à disposição de todos. Será proporcionado 
o acesso efetivo a mecanismos judiciais e administrativos, inclusive 
no que se refere à com- pensação e reparação de danos.
Outra convenção muito importante no marco dos direitos humanos 
ao meio ambiente foi a Convenção Internacional de Aarhus, entre os países 
europeus e os da Ásia Central, cujas características são descritas conforme segue:
• acesso à informação;
• participação no processo decisório;
• acesso à informação ambiental (trâmites judiciais).
Apesar de ter sido um acordo entre os países europeus e da Ásia Central, 
as suas premissas são de alcance global, sendo um excelente instrumento para 
tratativas de questões ambientais e participação pública. Cabe ressaltar que, 
quando essa declaração foi assinada, muitos países já tinham leis e regimentos 
semelhantes aos princípios da declaração, o que proporcionou, inclusive, o 
fortalecimento e a difusão dos mesmos. Assim, houve um passo significativo no 
âmbito internacional do reconhecimento dos direitos humanos a um ambiente 
saudável.
A Convenção de Aarhus, em seu artigo 4º, aborda que os governos devem 
divulgar espontaneamente o acesso à informação ambiental para a sociedade, sem que a 
mesma expresse o seu desejo. Já no Brasil, essa abordagem é difundida pela Lei Federal n° 
10.650 (BRASIL, 2003).
DICAS
TÓPICO 2 | OS GRAUS DE PARTICIPAÇÃO PÚBLICA
17
No artigo 6° da Convenção de Aarhus, trata-se da decisão do público 
sobre algumas atividades, principalmente quando elas afetam o meio ambiente. 
Em seu Anexo I, são listadas uma série delas, sobre as quais serecomenda que 
a população opine antes que os órgãos responsáveis decidam sobre a execução 
ou não de uma atividade. Assim, deve-se informar, por exemplo, qual atividade 
interessa realizar, que procedimentos que serão utilizados como objeto de decisão, 
quanto representa a participação da população, qual seria o órgão responsável 
por fornecer as informações à população, além dos prazos relacionados à 
atividade. Parece simples, mas, na prática, existe alguma limitação.
Em relação ao conteúdo que o público, veja a seguir um resumo do que se 
pode consultar:
• Descrição do local e das características físicas e técnicas das atividades.
• Síntese das principais soluções e alternativas estudadas.
• Descrição dos efeitos importantes da atividade sobre o meio ambiente.
• Resumo não técnico dos itens precedentes.
• Descrição das medidas para precisão e prevenção/redução de efeitos.
Note que todas essas prerrogativas lembram muito o conteúdo de um 
estudo de impacto ambiental. Outro detalhe interessante sobre a Convenção de 
Aarhus se refere ao artigo 9°, que trata do direito legal ao acesso à informação.
Para isso, ela deve seguir prazos acessíveis e ter custos acessíveis, 
garantindo não só a informação aos dados ambientais, como também a 
participação pública no processo decisório. Você sabia que o Brasil apresenta 
um grande avanço nesse sentido? A Lei Federal n° 7.347 de 1985 (BRASIL, 1985) 
fortaleceu os preceitos de aplicação da lei ambiental e ganhou mais força quando 
se integrou à Constituição de 1988 e ao Ministério Público.
3 OS GRAUS DE PARTICIPAÇÃO PÚBLICA
Você sabia que é fundamental que exista a participação pública 
conjuntamente aos órgãos competentes na decisão sobre os estudos ambientais? 
Além de muito importante, ela pode ser motivada por três grandes aspectos. 
O primeiro deles seria um caráter mais ético, o segundo por princípios de 
igualdade e justiça e o terceiro se relaciona com motivos puramente funcionais, 
tendo em vista que a participação pública garante que o processo de decisão seja 
mais eficiente, verdadeiro, garantindo a sua rápida implementação.
Quando pensamos em consulta pública, participações ou mesmo na 
necessidade do envolvimento público em um processo decisório de matéria 
ambiental, é possível construir um pensamento crítico da seguinte forma:
• Que tipo de participação seria?
• Quais os limites da participação popular?
• Até que ponto o governo poderia ceder seu poder em prol de um plebiscito?
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
18
Cabe ressaltar que, muitas vezes, a participação pública se limita a ouvir 
a opinão da população sobre determinada atividade, permitindo que a mesma 
acesse dados antes restritos e possa opiniar sobre os mesmos. Existe, na ver- 
dade, uma esperança de que a vontade popular seja respeitada por parte dos 
órgãos responsáveis por decidir sobre uma atividade. A participação pública, 
na realidade, representa mais uma maneira formal de ordenar as discussões, 
por meio de canais de expressão da voz popular. Apesar de ser prevista em lei, 
qual seria a sua real efetividade no processo de decisão? A Figura 2 expressa as 
diferentes formas de participação da população emuma democracia e, da mesma 
forma, pode ser aplicada aos processos ambientais.
FIGURA 2 – AS FORMAS DE EXPRESSÃO DO CIDADÃO EM UMA DEMOCRACIA
Possibilidade 
de expressão
cidadã em uma 
democracia
Participação
Representação
(Eleições, Plebicitos
e Conselhos)
Ação sob convite
(Planejamento 
Participativo,
Consulta Pública
 e Mediação)
Ação autônoma
(Lobby, Petições,
Manifestações, 
Campanhas na
imprensa etc.)
FONTE: Adaptada de Sánchez (2013)
Assim, a participação pública pode apresentar uma manifestação 
tipicamente tradicional (eleições e plebiscitos) ou alternativas (passeatas, 
abaixo-assinados, campanhas de mídia e outras ações). Se não existirem meios 
formais para que ocorra, ela acaba por ser caracterizada por manifestações 
autônomas e espontâneas. Da mesma forma, a ausência de canais de consulta 
pública torna menos transparentes as decisões tomadas, permitindo, inclusive, 
que grupos de interesse (político e econômico) se aproveitem das situações em 
seu favor, ou seja, aprovar um projeto mesmo com a possibilidade de impacto 
ambiental significativo. E como você acha que isso pode impactar na imagem 
dos governantes?
TÓPICO 2 | OS GRAUS DE PARTICIPAÇÃO PÚBLICA
19
A participação pública não deve ser encarada como tentativa de criar um 
mecanismo justificado por uma lei,mascomo uma maneira da democracia ser 
expressa pelas parcelas da populaçãocom sua opinião a respeito de determinada 
atividade. A audiência pública, um dentre muitos graus de participação pública, 
busca integrar nichos da sociedade que não têm fácil acesso a determinadas 
estâncias de discussão, complementando o direito de liberdade e expressão dos 
cidadãos.
Observando a Figura 2, vemos que a participação pública é iniciada 
quando é feito um “convite”; as pessoas são capazes de se expressar em 
determinado momento do processo, a partir da liberação das informações da 
atividade, para que possam formular seus questionamentos. Como se trata 
de um regime democrático, não significa que a participação se limite apenas 
a canais formais. Na verdade, ela pode ocorrer durante todo o momento 
informalmente. Com base nos tratados internacionais, há uma imposição 
aos governos para que permitam a participação dapopulação dentro de um 
processo de AIA, ficando apenas sob responsabilidade desses governos definir 
os mecanismos e regras para que ela ocorra.
Como a participação pública envolve pessoas com graus de formação 
e níveis culturais diferentes, o diálogo pode variar bastante, ainda mais se 
considerarmos que muitas empresas responsáveis pela atividade solicitam 
que seus representantes sejam suas vozes nessas participações. Para isso, é 
fundamental que esses profissionais, que serão a voz das empresas junto à 
população, saibam entender e transmitir corretamente as informações.
Os graus de participação pública são apresentados na Figura 3, 
representada pela Escala de Arnstein, na qual são atribuídos graus.
FIGURA 3– ESCALA DE GRAUS DE PARTICIPAÇÃO PÚBLICA NAS DECISÕES
Graus de poder
do cidadão
Graus de
deferência
Graus de não 
participação
8º - Controle
7º - Delegação
6º - Parceria
5º - Conciliação
4º - Consulta
3º - Informação
2º - Terapia
1º - Manipulação
FONTE: Adaptada de Arnstein (1969)
Segundo a escala de Arnstein, a participação pública pode conter certo 
grau de manipulação, muitas vezes mascarada sob os nomes de educação 
e informação. Em especial, os graus 3 e 4 (informação e consulta) não 
representariam uma real participação, já que o público não tem nenhum grau 
sobre a decisão tomada.
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
20
Até mesmo o grau 5 (conciliação), que não passaria de uma formalidade 
para apaziguar as opiniões, não permitiria à população expressar a sua opinião. 
Apenas os graus de 6 a 9 constituiriam uma verdadeira participação, ou seja, 
a parceria seria uma verdadeira negociação e, na delegação, as decisões 
seriam tomadas pelos representantes públicos. Cabe ressaltar que esse estudo 
mencionado surgiu nos EUA antes da participação pública em AIA e que o termo 
se refere mais a outros tipos de questões de natureza não ambiental.
Outro tipo de participação pública é expresso no modelo de Eidsvik 
(Figura 4), no qual, a partir de sete estágios de participação, a consulta pública é 
posicionada no meio do processo. Assim, a decisão partilhada e o planejamento 
conjunto são posicionados diretamente abaixo. Nesse modelo, o envolvimento 
público é muito mais focado na consulta eseria estimulado pelas organizações 
por evitar problemas, impedir confrontos, com grande possibilidade de obter, 
inclusive, o apoio e a colaboração dos envolvidos. Dessa forma, a participação 
pública seria mais fortemente concentrada na etapa de consulta. Cabe ressaltar 
que, mesmo com uma grande pressão popular e com a opinião da grande 
maioria sobre um tema, a autoridade pode vir a decidir contrariamente à decisão 
popular; entretanto, essa decisão pode inviabilizar politicamente um projeto. 
Você lembra de quando questionamos o impacto sobre os governantes no caso 
de não existir tanto espaço para a participação pública?
FIGURA 4– PARTICIPAÇÃO PÚBLICA NO PROCESSO DECISÓRIO
Informação Persuasão Consulta Parceria Controle
Participação do público
nas decisões
Poder decisório da 
organização
FONTE: Adaptada de Sánchez (2013)
4 COMO INCENTIVAR A PARTICIPAÇÃO PÚBLICA
Um dos grandes desafios na participação pública está em como estimulá-
la. Como vimos, a Constituição da República de 1988 (BRASIL, 1988) definiu meio 
ambiente, em seu artigo 225°, como “bem de uso comum do povo e es sencial à 
sadia qualidade de vida” e impôs ao “Poder Público e à coletividade o dever de 
defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”. Assim, foi definida 
a democratização do direito ao acesso aos recursos ambientais, com a qual todos 
devem cuidar pela manutenção qualidade ambiental. Especificamente em seu 
artigo 5°, garante que a informação aos processos ambientais seja garantida ao 
cidadão, mas será que na prática ela é?
TÓPICO 2 | OS GRAUS DE PARTICIPAÇÃO PÚBLICA
21
Vimos diversos mecanismos de participação popular, tanto formais 
quanto informais. Se está garantido em lei e existem muitos caminhos para que 
a população exerça seu direito de ser ouvida, por que na prática ainda parece 
que essa participação é tão pequena? A participação pública tem sua origem 
na sociologia política e reflete, resumidamente, a ideia de atuação da sociedade 
civil, esperando que o poder público corresponda eticamente, socialmente 
e comprometidamente com os valores e atribuições a serem respeitados e 
valorizados.
Cada um de nós é responsável por sua parte em relação aos valores 
ambientais, devendo, inclusive, exigir não apenas dos governos, mas das 
próprias parcelas da sociedade, que cada um exerça sua parte na preservação do 
meio ambiente.
Você, como cidadão, deve esperar que a sociedade assuma um papel 
ativo, sem interesses e solidário, com muita ética, pelo fato de lidarmos com 
bens que são fundamentais à preservação da vida. O espírito de coletividade 
deve prevalecer com um único objetivo: preserver o patrimônio ambiental de 
nosso país.
A participação pública bem organizada é capaz de opinar na organização 
do espaço urbano, na construção de equipamentos públicos, além de poder se 
envolver em aspectos administrativos e na prestação de serviços públicos.
Vale lembrar que a participação não é uma decisão exclusiva dos cidadãos. 
Ela envolve, também, a participação de autoridades governamentais e técnicas. Assim, 
por mais que a participação pública se intensifique, não será em todas as esferas que 
ela conseguirá o mesmo efeito, justamente porque muitas decisões não dependem da 
população.
ATENCAO
O passo inicial para que a voz da população ganhe força é obter as 
informações da atividade potencial causadora do impacto. A Lei n° 6.938/1981 
(BRASIL, 1981), que institui a Política Nacional do Meio Ambiente – PNMA, 
decretou que o Sistema Nacional de Informações sobre Meio Ambiente, o Re- 
latóriode Qualidade do Meio Ambiente (divulgado anualmente pelo IBAMA) 
e a garantia da prestação de informações acerca do meio ambiente fossem 
divulgados pelo poder público. A Lei Federal n° 10.650, de 2003, determina o 
acesso público aos dados e às informações existentes nos órgãos e nas entidades 
integrantes do SISNAMA (Sistema Nacional do Meio Ambiente). Os docu- 
mentos a serem divulgados à população devem ser escritos, visuais, sonoros ou 
mesmo eletrônicos e devem se referir aos temas apresentados na Figura 5.
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
22
FIGURA 5 – INFORMAÇÕES A SEREM DIVULGADAS À POPULAÇÃO.
Apesar de valiosa, a Lei de Informação ao Cidadão ainda não consegue 
obrigar que os governos entreguem a informação dentro de prazos razoáveis 
e sem subjetividade. Muitas vezes, esses fatores limitam que a população 
se manifeste em tempo. O Estado é responsável não apenas por produzir a 
informação, mas também por atualizá-la e divulgá-la de forma pró-ativa, como já 
mencionamos anteriormente.
A informação que deve chegar à população por parte do poder público pode 
abranger, por exemplo, pedidos de licenciamento e emissão dessas licenças, documentos 
que solicitem a supressão vegetal, autos de infração, Termos de Compromisso e 
Ajustamentode Conduta, registros de apresentação do EIA, bem como aprovação e 
rejeição do mesmo. Apesar dessa quantidade de informação, o que será que ainda falta 
para que a participação popular seja mais efetiva?
UNI
Qualidade do 
meio ambiente
Organismos
geneticamente 
modificados
Diversidade
biológica
Substâncias tóxicas
e perigosas
Políticas, Planos e 
Programas causadores
de impacto
Resultados de
monitoramento e
auditoria, além de 
planos de 
recuperação
Acidentes,
situações de risco
ou emergências
ambientais
Emissão de
efluentes líquidos
e gasosos, produção
de resíduos sólidos.
TÓPICO 2 | OS GRAUS DE PARTICIPAÇÃO PÚBLICA
23
Uma das formas é que a população saiba onde procurar as informações 
necessárias e consiga elaborar um pensamento crítico sobre as mesmas. O SINIMA 
disponibiliza ao público todas as informações, os documentos e processos 
administrativos que estejam relacionados à gestão ambiental. Podemos, assim, 
dizer que esse é um instrumento que busca o fortalecimento da cidadania 
ambiental. Esse Sistema está formatado sobre três eixos principais, conforme 
apresentado a seguir:
• Eixo 1: Ferramentas de acesso à informação.
• Eixo 2: Integração e compartilhamento das bases de informação ambiental.
• Eixo 3: Sistematizações do processo de produção, coleta e análise estatística 
para elaboração de indicadores ambientais e de desenvolvimento sustentável.
O SINIMA foi desenvolvido para que fosse utilizado por meio de softwares 
livres, coma integração das bases de dadoscom recursos tecnológicos. Dentro do 
SINIMA, existem vários sistemas governamentais, não governamentais.
Outro recurso a favor da divulgação de informação para a população é 
o PNLA (Portal Nacional de Licenciamento Ambiental), que objetiva divulgar 
informações mais voltadas a licenciamentos ambientais em âmbito nacional. 
Ele integra o SINIMA e foi desenvolvido para compor e sistematizar todas as 
informações acerca do licenciamento ambiental nas esferas federal, estadual, 
distrital e municipal. Essa ferramenta está em constante adaptação e sua 
versão atual permite que o usuário acesse as licenças emitidas, as legislações 
relacionadas, além de dispor gratuitamente publicações e contatos dos órgãos 
licenciadores. Uma nova versão do PNLA está em discussão pelo CONAMA 
ebusca facilitar ainda mais o acesso do cidadão comum, contribuindo com a 
democratização do acesso à informação.
Vimos que a informação existe, então o que realmente falta? Falta que 
a população aprenda a utilizá-la. Nesse quesito, o Governo poderia estimular 
ainda mais, ensinando a correta forma de buscar o pensamento crítico sobre 
o tema, facilitando a linguagem cada vez mais e promovendo ações de edu- 
cação ambiental, por exemplo. Além disso, a participação popular precisa ser 
organizada, legítima e integrada aos meios formais e informais. Dessa maneira, 
estaremos caminhando em direção a uma sociedade que, além de cobrar o seu 
direito, saberá fazê-lo corretamente.
Você pode obter mais informações sobre o SINIMA e o PNLA acessando os 
links a seguir.
• SINIMA (Ministério do Meio Ambiente): https://goo.gl/xX9ayj
• PNLA: https://goo.gl/nvEpof
UNI
24
RESUMO DO TÓPICO 2
 Neste tópico, você aprendeu que:
• O direito do ser humano a um ambiente sadio, atual e futuro, é um direito 
reconhecido por lei, mas isso não significa que é garantido e facilmente obtido.
• Outra convenção muito importante no marco dos direitos humanos ao meio 
ambiente foi a Convenção Internacional de Aarhus, entre os países europeus e 
os da Ásia Central.
• São características da Convenção Internacional de Aarhus: 
o acesso à informação;
o participação no processo decisório; 
o acesso à informação ambiental (trâmites judiciais).
• Quando pensamos em consulta pública, participações ou mesmo na 
necessidade do envolvimento público em um processo decisório de matéria 
ambiental, é possível construir um pensamento crítico da seguinte forma:
o Que tipo de participação seria?
o Quais os limites da participação popular?
o Até que ponto o governo poderia ceder seu poder em prol de um plebiscito?
• Um dos grandes desafios na participação pública está em como estimulá-la, 
ou seja, como incentivar a participação pública da população brasileira.
25
1 Durante a implantação de uma atividade extrativista do solo, a empresa 
se preocupa com possíveis manifestações de comunidades da região. Para 
isso, ela busca uma forma de minimizar possíveis discórdias.
Com base nas alternativas a seguir, qual delas você sugeriria?
a) ( ) Divulgar a informação formalmente por meio do órgão ambiental.
b) ( ) Apresentar os relatórios técnicos com base em laudos e certificados de 
profissionais renomados.
c) ( ) Solicitar que seja feita uma audiência pública em que o representante 
do órgão ambiental poderá expor a situação.
d) ( ) Apresentar informações corretas por meio de linguagem de fácil 
assimilação.
e) ( ) Tratar diretamente com o representante do governo para evitar conflitos 
diretos.
2 A participação pública na AIA parece ser incipiente em vários lugares 
do mundo. Um dos aspectos que ainda precisa ser melhorado está 
relacionado em como promover uma participação pública eficaz, na qual os 
empreendedores, as comunidades, os órgãos ambientais e as ONGs possam 
atuar para que os benefícios da participação pública sejam plenamente 
alcançados.
Assim, como a participação social torna o processo de AIA mais efetivo?
a) ( ) Quando ela ocorre apenas em momentos necessários do processo, não 
gerando ruídos desnecessários.
b) ( ) Quando são utilizados meios que envolvam a população desde o 
processo de AIA.
c) ( ) Quando são identificados os papéis dos atores envolvidos no processo.
d) ( ) Quando há um envolvimento total da população, mesmo que não seja 
de forma organizada.
e) ( ) Quando a lei que garante a participação pública é cumprida.
AUTOATIVIDADE
26
27
TÓPICO 3
SENSIBILIZAR PARA A DEMOCRACIA E A PARTICIPAÇÃO
UNIDADE 1
1 INTRODUÇÃO
Atualmente, o Brasil tem um sistema de governo democrático, que se 
baseia nos princípios da participação e do envolvimento coletivo nos assuntos 
de interesse dos cidadãos. Para o sistema educacional brasileiro, os princípios 
democráticos também são norteadores das ações educativas.
A escola é a instituição encarregada de promover as aprendizagens 
necessárias para que os estudantes desenvolvam sua cidadania, percebam a 
importância da manutenção de um ambiente democrático e sejam capazes de 
agir por si próprios com criticidade e responsabilidade. Para que se possam 
atingir os objetivos de uma prática educacional voltada à participação de todos 
da comunidade escolar, é necessário que os ambientes educacionais sejam 
repensados e preparados para essas finalidades.
Neste capítulo, você vai estudar os conceitos de autonomia e eman- 
cipação dos sujeitos a partir das práticas educacionais. Também vai identificar 
os ambientes educativos presentes na escola, associando-os com espaços 
democráticos estruturados para a troca de conhecimentos e o enriquecimento 
mútuo dos profissionais da educação e seus alunos.
Além disso, vai ver como os ambientes da escola podem ser repensados 
e organizados para favorecer a participação da coletividade e reafirmar os 
princípios democráticos.
2 EDUCAÇÃO: AUTONOMIA E EMANCIPAÇÃO DOS SUJEITOS
Reconhecer que a sociedade passou por inúmeras mudanças nas últimas 
décadas ajuda você a entender o conceito de autonomia. Afinal, sem autonomia 
você não seria capaz de perceber que hoje as pessoas são conduzidas a viver 
de acordo com o estilo de vida produzido por uma sociedade organizada pela 
lógica do capital, do consumo e da concorrência.
28
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
O conceito de autonomia está ligado à independência, à capacidade 
que as pessoas têm de determinar e conduzir suas vidas. Essa tarefa se torna 
muito complexa na sociedade contemporânea, porém ela faz toda a diferença 
na tomada de decisões conscientes e na análisemais apurada das situações. A 
escola é uma instituição social que se encarrega (ou deveria), desde os primeiros 
anos de escolarização (na educação infantil), de proporcionar aos alunos o 
desenvolvimento de sua autonomia, tornando-os capazes de resolver por si só 
seus conflitos cotidianos. Esses conflitos incluem desde os mais simples, como o 
controle dos esfíncteres nas crianças do berçário, até as abstrações e formulações 
de hipóteses mais complexas e o traçado de cenários futuros no ensino médio.
Segundo Nogaro e Nogaro (2007, p. 11),
[...] a autonomia tem como princípio o atendimento da necessidade e 
orientação humana de liberdade e independência, que lhe garantem 
espaços e oportunidades para a iniciativa e a criatividade, as quais são 
impulsionadoras do desenvolvimento pessoal e organizacional.
Dessa forma, para que a escola possa desenvolver a autonomia de seus 
alunos, os espaços escolares e as práticas educacionais devem possibilitar esses 
exercícios de liberdade e independência. Isso pode ferir o estatuto disciplinar 
da escola ou mesmo as normas estabelecidas no interior dela. Como exemplo, 
considere uma escola que preza, em seu regimento e em seu projeto político-
pedagógico, pelo desenvolvimento da autonomia dos sujeitos e dos princípios 
democráticos. Contudo, nas práticas cotidianas desenvolvidas pelos professores 
em sala de aula, os alunos não podem manifestar-se, sendo coibidos de participar 
ou nem sequer sendo questionados sobre os formatos adotados para as aulas.
Marchesi (2006, p. 27) adverte que:
[...] aumentar o espaço para a autonomia das escolas e dos professores 
é lhes oferecer, e lhes exigir, uma maior responsabilidade. Reduzir esse 
espaço, ou não facilitar os meios para se mover dentro de seus limites, 
contribui para reduzir a responsabilidade individual e coletiva.
Cabe a reflexão sobre o quanto os profissionais da educação são respon- 
sáveis pelo desenvolvimento da autonomia daqueles a quem ensinam. Será 
que os educadores simplesmente consideram que seus alunos devem agir 
passivamente, sem desenvolver seu espírito crítico?
A autonomia se encontra fortemente relacionada com a emancipação 
do sujeito, com a sua condição de agir de forma coerente com uma melhor lei- 
tura de mundo, de sua realidade social e de sua capacidade de mudança. A 
emancipação do sujeito:
[...] pode ser entendida como a capacidade do homem de, a partir 
da reflexão das incertezas da contemporaneidade e de perceber as 
contradições dialéticas do contexto social, se restituir como sujeito 
autônomo (processo de subjetivação) mediante o exercício de pensar 
criticamente sua condição humana [...] (MEDEIROS, 2015, documento 
on-line).
TÓPICO 3 | SENSIBILIZAR PARA A DEMOCRACIA E A PARTICIPAÇÃO
29
Logo, esses exercícios de reflexão sobre as incertezas e contradições con- 
temporâneas devem ser propostos no interior das escolas para a formação de 
uma geração de adultos mais capazes de produzir atitudes condizentes com a 
construção de um mundo melhor. A emancipação do sujeito ocorre a partir do 
momento em que ele se torna capaz de perceber como a sua subjetividade vem 
sendo construída, produzida a partir de uma série de fatores que estão à sua 
volta. Para entender melhor, observe a Figura 6, a seguir.
FIGURA 6 – FATORES IMPORTANTES NA CONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE.
A subjetividade é constituída a partir de interações com os campos 
sociais (pessoas com quem se vive e interage), culturais (ensinamentos recebidos 
dos grupos sociais), econômicos (fatores que integram a materialidade da vida, a 
condição de classe etc.) e políticos (condição daqueles que governam e da forma 
como as pessoas se articulam no espaço democrático). Dessa forma, o sujeito 
emancipado é aquele que, ao analisar esses campos que o constituem, consegue 
perceber a importância e as articulações que existem entre eles.
A subjetividade pode ser definida como os aspectos internos, íntimos de 
cada pessoa. Ela envolve o modo como a pessoa se relaciona consigo mesma e com 
outras pessoas, como ela interpreta o mundo em que vive, por meio de suas emoções, 
sentimentos e pensamentos. A subjetividade é construída a partir das experiências que 
cada um vivencia nos mais diversos campos sociais de que participa. É por isso que as 
pessoas são diferentes, singulares e únicas.
ATENCAO
De acordo com Freire (1997, p. 66), “[...] o respeito à autonomia e à 
dignidade de cada um é um imperativo ético e não um favor que podemos ou 
não conceder uns aos outros”. Dessa forma, é imperativo para um educador 
promover o desenvolvimento da autonomia em seus alunos. Bittar (2007, p. 2), 
ao analisar o conceito de autonomia, afirma que ela se verifica:
Fatores
Econômicos
Fatores
Sociais
Fatores
Políticos
Fatores
Culturais
Emancipação do Sujeito
30
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
[...] na capacidade de analisar e distinguir, para o que é necessária a 
crítica, pois somente ela divisa o errado no aparentemente certo, o 
injusto no aparentemente justo. O educando deve ser estimulado a 
perceber estas diferenças e a reagir a elas quando necessário.
Novamente, você deve notar o papel do professor como aquele 
responsável pela mediação do processo de aprendizagem de seus alunos em 
busca do despertar para a criticidade. Lembre-se sempre de que os alunos são 
diferentes e, dessa maneira, apresentam necessidades de apoio e intervenção do 
professor em momentos distintos e graus diferentes.
Outro aspecto de extrema importância para o docente que deseja 
exercer uma postura crítica, promovendo reflexões que produzam autonomia 
e emancipação em seus alunos, é o fato de não se manter somente preso aos 
conteúdos que devem ser ensinados. O professor deve ir além e fazer com que 
o cotidiano da vida de seus alunos seja vivenciado e problematizado a partir de 
suas aulas.
Afinal:
[...] a capacidade crítica se adquire com permanente olhar dedicado 
aos deslocamentos da vida social, cuja consciência histórica deve 
ser trazida à visão do aluno, não importando se o curso seja de 
matemática, biologia, física ou geografia, se de sociologia ou de 
psicologia (BITTAR, 2007, p. 3).
Ou seja, todas as disciplinas ensinadas na escola fazem parte desse 
conjunto maior, dessa matriz que possibilita viver em sociedade. Por isso, devem 
ser aprendidas sem que o aluno perca a capacidade de localizá-las e articulá-
las com as características da vida social. Os conhecimentos escolares não se 
encontram separados, fragmentados ou dissociados entre si da vida cotidiana. 
Eles ocorrem simultaneamente, quebrando as ideias cartesianas e positivistas 
ainda hoje utilizadas nas escolas.
O termo “cartesiano” refere-se a René Descartes, que criou o método científico, 
tão utilizado na ciência. Tal método procura dividir o fenômeno em frações para que seja 
mais facilmente analisado, o que ocasionou a divisão do ensino em disciplinas, seguindo 
suas premissas.
 Por sua vez, as ideias positivistas remetem ao positivismo, corrente de pensamento 
educacional e filosófico moderna que enxerga na ciência a explicação verdadeira e válida 
para todas as coisas.
DICAS
TÓPICO 3 | SENSIBILIZAR PARA A DEMOCRACIA E A PARTICIPAÇÃO
31
Para desenvolver autonomia, capacidade crítica e emancipação dos 
sujeitos, melhor seria o uso de outras práticas além da disciplinar, como você 
pode ver no Quadro 1, a seguir.
QUADRO 1 – INTERDISCIPLINARIDADE E TRANSDISCIPLINARIDADE
Disciplinar Observação da realidade a partir de uma base de conhecimentos.
Multidisciplinar Observação da realidade realizada por disciplinas do conhecimento isoladamente.
Pluridisciplinar Observação da realidade realizada por várias disciplinas do conhecimento, havendo troca entre elas.
Interdisciplinar Observação da realidade realizada por meio da transfe- rência de conhecimento de uma disciplina para outra.
Transdisciplinar Observação da realidade realizada na interseção dos conhecimentos das disciplinas.
FONTE: Adaptado de Iarozinski Neto e Leite (2010)
Você deverefletir sobre a construção da sua própria autonomia, assim 
como das condições que possibilitam a você pensar criticamente. Nesse sentido, 
deve verificar se tal construção se associa com o período de sua escolarização 
inicial. Como você pode notar, é importante que os professores transcendam as 
metodologias e tendências pedagógicas mais tradicionais, focadas unicamente 
nos conteúdos.
A ideia é que os professores façam conexões entre diferentes saberes, 
entre os mais variados aspectos da vida dos seus alunos. Isso, além de propor 
o desenvolvimento da autonomia, da criticidade e da emancipação, costuma 
despertar o interesse e motivar para novos desafios. Faça um esforço e procure 
lembrar como eram os professores que mais ficaram na sua lembrança. Eles 
agiam da mesma forma que os demais ou pareciam inovar e propor novos 
formatos ao ensinar suas disciplinas?
Um sujeito emancipado é aquele capaz de analisar os aspectos de sua vida e 
fazer escolhas mais apropriadas, tendo assim maior liberdade.
DICAS
32
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
3 AMBIENTES EDUCATIVOS DEMOCRÁTICOS
O homem se diferencia dos demais animais porque possui condições 
de produzir os mais diversos conhecimentos dos quais necessita para a mate- 
rialidade da sua vida. Além disso, e principalmente, ele se distingue pela sua 
capacidade de ensinar aos seus descendentes. Essas ações humanas de ensinar 
e aprender ocorrem nos grupos em que os indivíduos convivem, constituindo 
sua cultura.
A cultura é formada também pelos diversos fatores que estão na socie- 
dade, envolvendo os aspectos econômicos, sociais e políticos. Nessas áreas são 
produzidas ideias, conceitos e discursos que chegam às pessoas e aos quais elas 
podem aderir ou não, exercitando assim a sua autonomia e a sua subjetividade. 
Atualmente, no Brasil, há um sistema político denominado democracia 
representativa, caracterizado pela possibilidade de os cidadãos elegerem os 
representantes que atuarão em seu nome na condução do País. A democracia não 
se resume somente ao conceito de sistema político e às suas características, pois 
envolve a participação das pessoas em todas as áreas da nação, desempenhando 
seu papel de cidadãs.
Desde a Constituição Federal de 1988, e principalmente após a Lei de 
Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996 (LDB), a gestão democrática 
se constitui como o modelo de gestão que deve ser utilizado nas escolas do 
sistema educacional brasileiro. A LDB atual explicita, em seu art. 3°, que “[...] 
o ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: [...] VIII — gestão 
democrática do ensino público, na forma da Lei e da legislação dos sistemas de 
ensino” (BRASIL, 1996, documento on-line).
Essa gestão democrática ocorre a partir dos espaços abertos para a 
participação da comunidade escolar no interior da escola. Por exemplo: os 
conselhos escolares, as associações de pais e mestres, os grêmios estudantis, as 
vagas reservadas para pais representantes de escolas no Conselho Municipal de 
Educação, bem como o próprio processo de escolha dos gestores da escola pela 
comunidade escolar por meio de eleições diretas. A promoção da democracia na 
escola também se dá por meio da análise de outros elementos que compõem o 
ambiente educativo, como você pode ver na Figura 7, a seguir.
TÓPICO 3 | SENSIBILIZAR PARA A DEMOCRACIA E A PARTICIPAÇÃO
33
FIGURA 7 – COMPONENTES DO AMBIENTE EDUCATIVO
A estrutura física da escola pode ser mais ou menos democrática quando 
é pensada para incluir todos os alunos. As salas de aula, com as suas medidas 
e a organização de seus espaços, as mobílias utilizadas e a sua disposição, os 
materiais escolares existentes e disponíveis aos alunos, os banheiros, as pias e os 
bebedouros, as salas de atividades múltiplas, o refeitório, a cozinha, as quadras 
poliesportivas, as pracinhas, os auditórios, o pátio aberto ou fechado e todos os 
outros espaços e elementos devem ser pensados para contemplar todos os alunos 
e especialmente aqueles com necessidades educativas especiais. São muitos os 
aspectos que envolvem a estrutura física da escola e que devem ser considerados 
quando se pensa nas finalidades desse ambiente educacional.
Os aspectos da didática utilizada pelo professor, que muito dizem a res- 
peito da tendência pedagógica à qual ele se filia, também são importantes na 
construção do ambiente educativo. As metodologias adotadas pelo docente são 
diretamente proporcionais ao retorno que ele terá da turma em que o processo 
de ensino e aprendizagem é realizado. Freire (2003, p. 86) esclarece que “[...] o 
fundamental é que professor e alunos saibam que a postura deles, do professor e 
dos alunos, é dialógica, aberta, curiosa, indagadora e não apassivada, enquanto 
fala ou enquanto ouve”. A didática utilizada em sala de aula pelo docente acaba 
sendo decisiva, muitas vezes, para as respostas que ele terá de seus alunos, para 
definir se conseguirá motivá-los ou despertar sua curiosidade e seu interesse em 
aprender.
O planejamento se alia com a didática, pois por meio dele são previstas 
as estratégias metodológicas mais adequadas, que podem levar ao alcance dos 
objetivos propostos para aquela aula ou para o projeto em questão. Esse elemento 
é essencial para que sejam previamente analisados os espaços de participação dos 
alunos no decorrer das aulas. Os recursos aqui também devem ser considerados, 
pois, ao planejar, o professor e o gestor da escola precisam avaliar a dimensão 
dos elementos necessários. A ideia é evitar, assim, a frustração de um mal 
planejamento, de modo que os recursos não sejam suficientes, ou, pior ainda, 
excluam alguns alunos de famílias mais vulneráveis da participação em alguma 
atividade proposta.
Canais de
Comunicação
Interações
Estrutura
física
Didática
Diversidade
Planejamento
Recursos
34
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
As interações ocorridas dentro do ambiente educativo são importantes 
quando se pretende que o diálogo se estabeleça. Caso contrário, serão coibidas 
e até mesmo evitadas. É a partir das interações professor-aluno e aluno-aluno 
que podem ser reconhecidos pontos em comum e aproveitadas as experiências e 
vivências de cada um em busca da troca e do enriquecimento mútuo dos saberes. 
Freire (2003) propõe a ideia de que o ensinar exige do professor o saber escutar. 
Ele ressalta que “[...] uma das tarefas essenciais da escola, como centro de pro- 
dução sistemática do conhecimento, é trabalhar criticamente a inteligibilidade 
das coisas e dos fatos e sua comunicabilidade” (FREIRE, 2003, p. 123).
Para que a comunicabilidade se efetive, são necessários canais, propostos 
pela escola ou pelo professor em sala de aula, em que a participação dos 
sujeitos pode ocorrer. Para que os alunos e demais membros da comunidade 
escolar manifestem suas ideias, precisam visualizar que existe um canal aberto 
para isso. Caso contrário, a comunicação e, consequentemente, a participação 
deixarão de ocorrer.
Outro aspecto que merece destaque e que tem sido muito enfatizado nas 
políticas públicas educacionais na contemporaneidade diz respeito ao direito 
de todos a uma educação de qualidade, o que na escola está relacionado à 
diversidade. Todos têm direito a um ambiente educativo que os considere em 
equidade de condições, independentemente de seu gênero, de sua origem étnico-
racial, de sua religião ou de sua orientação sexual. A busca por uma cultura de 
paz e de propagação dos direitos humanos deve estar presente no interior das 
escolas, evitando preconceitos e discriminações de qualquer ordem.
A didática hoje é normalmente entendida a partir do processo de ensino 
e aprendizagem. Nesse processo, se encontram envolvidos os aspectos inerentes ao 
professor e seus conteúdos (planejamento, metodologia etc.), o que se refere ao ensino. Já 
a aprendizagem se localiza no aluno, que é o centro do processo. Essa nova maneira de 
entender o processo educacional desloca a figura do professor como aquele quedetém e 
transfere o conhecimento. Hoje, o professor tem o papel de mediador, de orientador das 
atividades cotidianas de sala de aula.
ATENCAO
TÓPICO 3 | SENSIBILIZAR PARA A DEMOCRACIA E A PARTICIPAÇÃO
35
4 REPENSANDO OS AMBIENTES EDUCATIVOS
A escola também deve atuar de forma democrática, propondo aos seus 
estudantes espaços onde possam se manifestar e se organizar de forma coletiva e 
individual sempre que for necessário. A escola contemporânea no Brasil, porém, 
em alguns momentos não promove a participação tanto da comunidade escolar 
como dos próprios alunos em sala de aula. Portanto, você deve se esforçar agora 
para repensar essa escola, propondo uma nova organização para os ambientes 
educativos. A ideia é aliar a escola e os princípios democráticos para de fato 
formar um aluno autônomo e emancipado, pela via do conhecimento e da 
criticidade de sua leitura de mundo.
Primeiro, você deve considerar alguns aspectos históricos relacionados 
à finalidade da educação e ao surgimento das escolas ao redor do mundo no 
século XVIII. Esse início estava muito atrelado ao projeto civilizador moderno, 
que entendia que por meio da escolarização seriam incutidos os padrões com- 
portamentais típicos de um ser civilizado, que poderia viver socialmente sem 
maiores problemas. Como a educação escolar era um privilégio de poucos, do 
clero e dos monarcas num primeiro momento, escolarizar os demais membros 
da sociedade (os pobres principalmente) era uma tarefa extremamente disci- 
plinar, que associava rigor com castigos físicos.
Nessas primeiras escolas, a disposição das classes nas salas de aula 
favorecia a vigilância do mestre, que sentava sobre um tablado, num nível 
mais elevado do que o dos alunos, o que reforçava a sua autoridade e o seu 
protagonismo em sala de aula. Ao aluno cabia ouvir, responder quando 
solicitado e manter-se em silêncio no restante do tempo. Os alunos que erravam 
eram castigados e, inclusive, humilhados publicamente na frente de seus colegas 
para que servissem de exemplo.
A escola atual, embora tenha se modificado em vários dos aspectos cita- 
dos, ainda mantém resquícios dessa organização inicial. Alguns professores 
adotam práticas autoritárias em suas aulas, coibindo a participação dos alunos, 
reiterando pedidos de silêncio e mantendo a busca pelo controle e pelo domínio 
de classe. Esses professores colocam-se ainda como o centro do processo de 
ensino, não percebendo que a ênfase atual é na aprendizagem, e não só no ensino, 
e o protagonismo deve ser do aluno e não mais do professor. É interessante 
você perceber esse deslocamento das tendências da didática, pois ele se reflete 
diretamente nos papéis dos sujeitos presentes em sala de aula, como você pode 
ver na Figura 8, a seguir.
36
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
FIGURA 8 – EVOLUÇÃO HISTÓRICA DAS IDEIAS CENTRAIS DA DIDÁTICA.
Como você viu, o centro do processo de ensino e aprendizagem hoje é 
o aluno, que é o sujeito que deve desenvolver as competências necessárias. 
Além disso, busca-se agir de forma democrática em sala de aula. Portanto, nada 
mais coerente do que o aluno participar ativamente das atividades realizadas 
no interior dos ambientes educativos nos quais se insere, manifestando suas 
opiniões, estabelecendo suas hipóteses, agindo de forma individual e coletiva, 
interagindo com seus colegas e professores para que todos saiam dessa 
experiência enriquecidos. Dessa forma, cabe às escolas romper com o modelo 
tradicional de educação e propor metodologias mais colaborativas. A ênfase deve 
estar na resolução de problemas e desafios. O professor passa a ser um orientador 
para que o aluno faça bom uso inclusive das tecnologias para o aprimoramento 
da aprendizagem.
Para conhecer melhor os aspectos relativos aos valores democráticos e a sua 
articulação com a educação, assista ao vídeo “O que é educação para a democracia?”, da 
Câmara dos Deputados, disponível no link a seguir.
https://goo.gl/p7A1mW
UNI
Ênfase no ensino
Ênfase na aprendizagem
Transmissão de conhecimentos
Atividades para pensar e refletir
Reforços para atingir comportamentos
Desenvolvimento de competências
TÓPICO 3 | SENSIBILIZAR PARA A DEMOCRACIA E A PARTICIPAÇÃO
37
Agora você vai conhecer dois modelos de escolas que podem servir de 
inspiração para que as escolas do sistema educacional brasileiro adaptem sua 
organização e seu funcionamento em torno dos princípios da participação e do 
desenvolvimento da autonomia dos alunos: a Escola da Ponte, em Portugal, e a 
rede de escolas de educação infantil públicas de Reggio Emilia, na Itália. Ambas 
se destacam internacionalmente pelos seus projetos pedagógicos diferenciados e 
de vanguarda.
As escolas de educação infantil de Reggio Emilia apresentam 
características particulares na sua organização e nos aspectos curriculares que 
conduzem o dia a dia das crianças e professores. Katz (1999) comenta algumas 
diferenças: o uso de projetos de longo prazo que norteiam os trabalhos e o amplo 
uso das linguagens gráficas pelas crianças para representarem visualmente o que 
pensam e o que sentem. Além dos projetos,
[...] jogos espontâneos com blocos, dramatização, brincadeiras 
ao ar livre, audição de histórias, encenação de papéis, culinária, 
tarefas domésticas e atividades ligadas à arrumação pessoal, bem 
como atividades de pintura, colagem e trabalhos com argila estão 
disponíveis a todas as crianças diariamente (KATZ, 1999, p. 45).
Não existe uma rotina fixa para os alunos, na qual mecanicamente 
tenham de realizar ações e respeitar as pausas cotidianamente estabelecidas pelo 
professor. O relacionamento professor-aluno tem como foco o próprio trabalho 
que desenvolvem e o uso de todas as possíveis linguagens é incentivado, para 
que as crianças exponham o que estão aprendendo e como estão se apropriando 
dos conhecimentos no interior da escola. Além disso, “[...] as crianças são livres 
para trabalhar e brincar sem interrupções frequentes e transições tão comuns na 
maioria de nossos programas para a primeira infância” (KATZ, 1999, p. 50).
No Brasil, muitas vezes a rotina das escolas de educação infantil é regu- 
lada pelos horários dos lanches, por exemplo, ou da escrita das agendas pelas 
professoras, o que faz com que toda a parte pedagógica tenha que se adaptar 
a isso. O trabalho dos professores em Reggio Emilia ocorre em parceria: um 
complementa o outro sempre que necessário. Além disso, existe um espaço 
comum a todas as turmas da escola, que é o ateliê, onde os mais diversos tipos 
de materiais podem ser explorados por alunos e professores, organizados 
previamente a partir da atelierista da escola.
Malaguzzi (1999, p. 87) ainda acrescenta mais um tópico importante 
sobre as escolas de Reggio Emilia, que é o uso da criatividade: “[...] a criatividade 
exige que a escola do saber encontre conexões com a escola da expressão, 
abrindo as portas (e este é o nosso slogan) para as cem linguagens da criança”. 
Enfim, utilizar-se das múltiplas linguagens que a criança pode manifestar dentro 
da escola garante que ela efetivamente participe, seja considerada seriamente 
em relação ao que traz consigo e protagonize o processo de aprendizagem, 
desenvolvendo-se assim plenamente e afirmando sua autonomia.
38
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
A participação das famílias na escola ocorre a partir da diversidade de 
oportunidades abertas para que a interação ocorra. As famílias estão presentes 
não somente em reuniões sistemáticas ou entrega de avaliações, mas na discussão 
dos temas a serem trabalhados. Elas também atuam para mediar conflitos ou 
aumentar o engajamento em oficinas e laboratórios, passeios, etc., de acordo com 
a disponibilidade dos pais.
Já a Escola da Ponte, segundo Alves (2007), apresenta também uma 
proposta curricular diferenciada, adaptada tanto ao interesse dos alunos 
quanto aos seus níveis de desenvolvimento. Os estudos são interdisciplinares e 
normalmente em grupos. Os alunos utilizam a internetsempre que possível para 
a busca das informações necessárias. Outro aspecto interessante é o convívio de 
crianças de faixas etárias diferentes, de modo que os mais velhos (ou que mais 
aprenderam) ensinam aos menores. O autor afirma que na Escola da Ponte o que 
mais se evidencia entre os alunos é a linguagem, a comunicação por meio de 
inúmeros canais, inclusive por intermédio de computadores. O autor resume sua 
experiência na Escola da Ponte da seguinte maneira:
Escola da Ponte: um único espaço, partilhado por todos, sem 
separação por turmas, sem campainhas anunciando o fim de uma 
disciplina e o início da outra. A lição social: todos partilhamos de um 
mesmo mundo. Pequenos e grandes são companheiros numa mesma 
aventura. Todos se ajudam. Não há competição. Há cooperação. Ao 
ritmo da vida: os saberes da vida não seguem programas. É preciso 
ouvir os "miúdos", para saber o que eles sentem e pensam. É preciso 
ouvir os "graúdos", para saber o que eles sentem e pensam. São as 
crianças que estabelecem as regras de convivência: a necessidade do 
silêncio, do trabalho não perturbado, de se ouvir música enquanto 
trabalham. São as crianças que estabelecem os mecanismos para lidar 
com aqueles que se recusam a obedecer às regras (ESCOLA DA PON- 
TE, 2007, documento on-line).
A Escola da Ponte promove a autonomia de seus alunos a partir de 
sua liberdade e da possibilidade de as crianças agirem pelos seus interesses de 
aprendizagem. Tal como ocorre na vida em sociedade, as regras de convivência 
e os comportamentos vão sendo moldados de acordo com as situações e as 
necessidades. Isso prepara os alunos para viverem em sociedade de forma mais 
humana e democrática. Cury (2007, p. 493), ao analisar a importância da gestão 
democrática nas escolas, afirma o seguinte:
A escola é uma instituição de serviço público que se distingue por 
oferecer o ensino como um bem público. Ela não é uma empresa de 
produção ou uma loja de vendas. Assim, a gestão democrática é, 
antes de tudo, uma abertura ao diálogo e à busca de caminhos mais 
consequentes com a democratização da escola brasileira em razão de 
seus fins maiores postos no artigo 205 da Constituição Federal.
TÓPICO 3 | SENSIBILIZAR PARA A DEMOCRACIA E A PARTICIPAÇÃO
39
A Constituição Federal de 1988 estabelece como objetivos a serem 
perseguidos pela educação escolar o “[...] pleno desenvolvimento da pessoa, 
seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” 
(BRASIL, 1988, documento on-line). Dessa forma, desenvolver-se plenamente 
significa ser capaz de analisar os aspectos da vida e tomar decisões, realizar 
escolhas conscientes e críticas (autonomia).
Como você sabe, a própria cidadania envolve a capacidade de reconhecer 
direitos e deveres individuais e coletivos. Logo, um bom cidadão, autônomo 
e emancipado para a vida e para o trabalho, é produzido também a partir de 
sua vida escolar. Por isso, os ambientes educacionais devem ser repensados e 
reorganizados para promover ainda mais tais aspectos, qualificando a vivência 
social democrática.
Leia o relato a seguir para ver como o conteúdo deste capítulo pode ser 
aplicado ao cotidiano das escolas:
“Certa vez, ao visitar uma escola de educação infantil no papel de conselheiro municipal 
de educação, percebi que, ao me deslocar pela escola com duas professoras, éramos 
acompanhados por uma aluna. A criança constantemente chamava uma das professoras 
que caminhava ao meu lado, porém era ignorada. Depois de assistir por mais de 10 
vezes a aluna interpelar a professora sem receber atenção, eu questionei a professora 
perguntando-lhe porque não respondia à criança. Ela me respondeu que a aluna passava 
o dia todo assim. Refleti com essa professora sobre a necessidade de escutar e responder 
às crianças desde a primeira infância, pois faz parte de seu processo de desenvolvimento 
questionar e requerer atenção. Para que se formem cidadãos conscientes, autônomos e 
críticos, precisamos ouvir e respeitar os alunos desde pequenos, pois todas essas vivências 
são importantes para a produção de suas subjetividades”.
UNI
40
RESUMO DO TÓPICO 3
 Neste tópico, você aprendeu que:
• Sem autonomia você não seria capaz de perceber que hoje as pessoas são 
conduzidas a viver de acordo com o estilo de vida produzido por uma 
sociedade organizada pela lógica do capital, do consumo e da concorrência.
• O conceito de autonomia está ligado à independência, à capacidade que as 
pessoas têm de determinar e conduzir suas vidas.
• O homem se diferencia dos demais animais porque possui condições 
de produzir os mais diversos conhecimentos dos quais necessita para a 
materialidade da sua vida. 
• Além disso, e principalmente, ele se distingue pela sua capacidade de ensinar 
aos seus descendentes. 
• Essas ações humanas de ensinar e aprender ocorrem nos grupos em que os 
indivíduos convivem, constituindo sua cultura.
• A cultura é formada também pelos diversos fatores que estão na sociedade, 
envolvendo os aspectos econômicos, sociais e políticos. Nessas áreas são 
produzidas ideias, conceitos e discursos que chegam às pessoas e aos 
quais elas podem aderir ou não, exercitando assim a sua autonomia e a sua 
subjetividade.
• A escola também deve atuar de forma democrática, propondo aos seus 
estudantes espaços onde possam se manifestar e se organizar de forma coletiva 
e individual sempre que for necessário.
41
1 O aprendizado é uma atividade inerente à constituição do sujeito e, nesta 
perspectiva, todos somos aprendizes. Os vínculos entre educação e a 
formação humana não podem ser prescindidos de aspectos importantes 
como a emancipação e a autonomia dos sujeitos. Por isso, é mister 
considerar que cada um de nós é um agente ativo na construção dos 
saberes e não apenas um mero receptor. Relacionando, pois, estas ideias, 
com a educação formal, ofertada pelas diversas instituições de ensino, é 
possível considerar que:
a) ( ) A escola deve focar-se em seus objetivos, a saber, a sistematização dos 
conhecimentos e a transmissão de conteúdos.
b) ( ) A educação formal gera sujeitos emancipados, na medida em que os 
apresenta um modelo ideal de conduta e de comportamento.
c) ( ) Educar para a emancipação auxilia a organização social em prol da 
participação na construção de uma democracia efetiva.
d) ( ) Emancipar significa tornar o sujeito completamente livre dos 
condicionamentos impostos pela natureza e pela sociedade.
e) ( ) O vínculo entre formação e educação estabelece uma etapa da vida que 
só termina quando o indivíduo alcança a emancipação.
2 A crise de valores éticos e relacionais na contemporaneidade tem levado 
à busca de novas formas de organização política e de participação social. 
Também no ambiente educacional, há uma necessidade de se repensar 
a hierarquia das relações profissionais, a relação aluno-educador e as 
exigências curriculares frente à capacidade humana de tecer novas relações 
e novos saberes. Neste contexto, marque a alternativa CORRETA:
a) ( ) As estruturas consolidadas, como o sistema educacional, não são 
passíveis de mudanças, o que agrava a crise contemporânea.
b) ( ) A educação enobrece o homem e suas relações sociais, mas ela perde 
suas forças quando o ato de educar torna-se uma profissão.
c) ( ) Seria utópico pensar a organização do trabalho em vista do bem-estar 
dos sujeitos, pois, em sua essência, ele é um mal necessário.
d) ( ) Cada trabalhador é um sujeito ativo na construção das relações sociais, 
tanto em sua produção material quanto intelectual.
e) ( ) Historicamente, o Ocidente está habituado a um tipo de organização 
trabalhista que privilegia as relações igualitárias entre os sujeitos.
AUTOATIVIDADE
42
43
TÓPICO 4
OS MOVIMENTOS SOCIAIS
UNIDADE 1
1 INTRODUÇÃO
Neste capítulo, você vai ver que as mobilizações sociais em torno de 
um objetivo comum a um grupo de pessoas não são organizações recentes. Na 
verdade, a organização social em prol de uma causa é uma prática políticaantiga 
e pode levar a situações extremas, como insurgências, revoltas e até revoluções. 
As principais revoluções conhecidas se iniciaram a partir de um ideal e um 
objetivo compartilhado por um grupo de pessoas.
Na modernidade, porém, os movimentos sociais passaram a ser 
elementos de diálogo entre sociedade civil e Estado, e também elementos 
de diálogos internos aos tecidos sociais. Você vai ver que, ainda que o desejo 
de se agrupar por uma causa seja antigo, os modelos de atuação, associação 
e desenvolvimento dos movimentos sociais se alteram a partir do tipo de 
sociedade na qual se inserem e, essencialmente, a partir da combinação entre 
contexto político, histórico, econômico e cultural.
Por isso, ao longo deste texto, você vai conhecer os aspectos históricos 
da formação dos movimentos sociais. Também vai identificar as diferenças 
entre as demandas dos movimentos sociais tradicionais e as demandas dos 
novos movimentos sociais. Por fim, vai ver como os movimentos sociais e as 
suas demandas por diálogo se relacionam com o Estado na busca por políticas 
públicas que atendam às suas necessidades.
2 A FORMAÇÃO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS
Os movimentos sociais são hoje uma das formas mais comuns de 
mobilização para a visibilidade de demandas sociais específicas. Você sabe como 
eles surgiram? A mobilização de pessoas em torno de uma demanda pode não 
parecer recente, mas hoje assume formas de organização e articulação diferentes 
das que possuía no passado.
44
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
Até o início do século XX, as mobilizações sociais tinham um caráter 
iminentemente político. Setores sociais se reuniam em prol da manutenção de 
um ideal político ou da transformação de um ideal. Você pode observar esse tipo 
de movimento no século XVIII, no período que antecedeu a Revolução Francesa, 
ou no Brasil do século XIX, nas organizações abolicionistas. No entanto, esses 
movimentos partiam do pressuposto de que uma ideia, uma parte da estrutura 
ou mesmo todo o regime político vigente deveria ser alterado. Por isso, embora 
partissem de setores sociais, eram considerados articulações políticas.
Na virada do século XX, os movimentos sociais começam a assumir 
características semelhantes às que possuem hoje. Os Estados totalitaristas 
que eclodiram na Europa após a Primeira Guerra Mundial fizeram com que 
as sociedades democráticas olhassem para as suas possibilidades políticas, e 
o espaço público se abriu para o diálogo entre a sociedade e o Estado (HA- 
BERMAS, 1968). Assim, alguns setores sociais se organizaram em torno de 
pautas que interessassem exclusivamente ao grupo, pedindo ao Estado as 
mudanças necessárias. Além disso, eles se organizavam para protestar quando 
era necessário.
Nesse momento, os integrantes das sociedades democráticas percebe- 
ram que, ainda que todos estivessem sob o poder do Estado, o tecido social 
poderia observá-lo e manter com ele um relacionamento, aplaudindo-o ou 
questionando-o. O mais importante é que surge a noção de horizontalização 
do diálogo, ou seja, as falas e intenções de Estado e sociedade precisam ter 
o mesmo peso, a mesma importância. Somente a horizontalização do diálogo 
e a manutenção da liberdade da expressão social permitiriam que o Estado 
não se excedesse, não se tornasse superior à sociedade e não desenvolvesse 
características totalitárias (ARENDT, 2008).
O tecido social, no entanto, é composto por pessoas de gênero, idade e 
origem diferentes. Assim, o diálogo seria melhor desenvolvido quando pessoas 
com um mesmo interesse se organizassem em torno dele, definindo as suas 
demandas e as formas de supri-las. Esse processo de organização de pessoas 
em torno de um interesse social, com o desenvolvimento de pautas e programas 
específicos para a causa central, é chamado de definição da agenda. Assim, 
os grupos sociais desenvolviam suas agendas a fim de manter a organização 
e chegar ao objetivo proposto. A noção de agenda está presente ainda hoje 
e é essencial aos movimentos sociais contemporâneos. É a partir dela que se 
definem: os pontos centrais a serem buscados ou discutidos, os pontos adja- 
centes que gravitam em torno dos centrais e as possibilidades de se chegar a 
esses objetivos. As agendas dos movimentos sociais definem objetos, objetivos 
e caminhos a serem traçados. Além disso, elas podem ser diferentes de um 
movimento social para outro.
TÓPICO 4 | OS MOVIMENTOS SOCIAIS
45
No Brasil, você encontra um exemplo pertinente com o movimento dos 
trabalhadores fabris na década de 1920. Esse movimento se desenvolveria ao 
longo do tempo, até o surgimento do movimento sindicalista que você conhece 
hoje. O movimento estudantil é outro exemplo. No Brasil, a organização preli- 
minar que antecedeu a construção da União Nacional dos Estudantes data do 
final do século XIX, quando havia a chamada Casa do Estudante. A Casa do 
Estudante realizou seu primeiro grande evento nacional em 1910. O evento 
que mudou as formas de atuação das organizações estudantis foi o de 1939. Já 
nos anos 1920, impulsionados pelo movimento estudantil na Universidade de 
Córdoba, na Argentina, em 1919, estudantes brasileiros utilizaram conexões que 
já haviam sido estabelecidas no período abolicionista para se reorganizarem.
A revolta dos estudantes na Universidade de Córdoba tinha, pela primeira 
vez na América Latina, um viés de grupo social. Os estudantes desejavam uma 
universidade menos tecnicista, cujos saberes estivessem a serviço da sociedade, 
e não apenas reproduzissem os conhecimentos produzidos na Europa. Nas duas 
décadas seguintes, o movimento de Córdoba foi uma inspiração para outros 
grupos estudantis na América Latina. No Brasil, os estudantes que chegavam às 
universidades eram quase totalmente provenientes das classes mais abastadas. 
Por isso, se articulavam em torno da criação de atividades estudantis, como 
campeonatos esportivos e bailes, além das reuniões locais, estaduais e nacionais, 
em que se discutia o posicionamento dos estudantes diante dos cenários políticos 
nacionais e mundiais.
A organização preliminar dos estudantes no Brasil do início do século 
XX foi extremamente importante para o que viria a seguir. Vista com bons olhos 
pelas elites e por personagens políticos, as organizações estudantis passaram 
a dialogar com o Estado, como porta-voz social, a partir do primeiro governo 
de Getúlio Vargas. Nesse período, tais entidades eram protegidas politicamente 
e recebiam incentivos para manter o diálogo com o governo. Obviamente, o 
referido período foi marcado por disputas políticas, especialmente as disputas 
polarizadas entre esquerda e direita. Nelas, muitos estudantes se envolveram, 
e muitos grupos estudantis foram criados. No entanto, eram grupos e organi- 
zações isoladas, que não respondiam por toda a comunidade estudantil. Além 
disso, configuravam-se como um movimento de caráter político, não social.
Como você pode observar, os membros da sociedade sempre se 
articularam na defesa de ideias e ideais. Foi a partir do século XX que essas ideias 
passaram a se descolar das formações legislativas do Estado. Assim, se passa 
a ter a noção de que existe um espaço em que as demandas de grupos sociais 
podem ser manifestadas. Dada a complexidade do tecido social, os grupos se 
formaram em torno não só de objetivos, mas instituíram as agendas, ou seja, 
as formas de compreender a sua demanda, de valorizá-la, expô-la e definir os 
caminhos necessários para a sua resolução.
46
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
As ações coletivas resultam dos esforços de um grupo na busca de um 
objetivo comum. O que diferencia esses grupos dos outros tipos de movimentos sociais 
é que, normalmente, há o direcionamento da ação feita por atores diferentes, para a 
consecução de um objetivo específico. Assim, uma ação coletiva pode ser empreendida 
por diferentes movimentos sociais, ou por integrantes de um movimento, não por sua 
totalidade. A ação coletiva não é, necessariamente,parte das pautas do movimento 
social, mas se desenvolve no sentido de conquistar um benefício compreendido como 
“bem comum”. A ação coletiva geralmente resulta no delineamento de políticas públicas e 
direciona o diálogo sempre às instituições.
ATENCAO
3 O MOVIMENTO SOCIAL TRADICIONAL E OS NOVOS 
MOVIMENTOS SOCIAIS
Como você viu, os movimentos sociais são uma forma de diálogo 
horizontalizado com o Estado. Ou seja, são uma forma de a sociedade apresentar 
demandas e se colocar na mesma posição de destaque que o Estado. Assim, 
o Estado não fica numa posição de domínio com relação ao tecido social, 
muito embora se mantenham resguardadas as relações de poder previamente 
estabelecidas, que asseguram as fronteiras e a organização interna, por exemplo. 
No entanto, existem diferenças nas formas de organização e de construção de 
agendas entre os movimentos sociais tradicionais e os novos movimentos sociais.
Os movimentos sociais tradicionais são aqueles que se colocam em 
diálogo com o Estado para que este possa solucionar um problema ou suprir 
uma demanda. É como se o grupo apontasse para a organização institucional 
uma situação que precisa ser exposta, observada e reorganizada. O movimento 
dos trabalhadores é um exemplo de movimento social tradicional. Na década 
de 1920, no Brasil, trabalhadores das fábricas de São Paulo fizeram um ciclo de 
greves em busca de melhores condições de trabalho, especialmente para mu- 
lheres, que trabalhavam em condições insalubres mesmo durante a gestação, já 
que não havia direitos trabalhistas que assegurassem o respeito a esse período.
Esse movimento provocou muitas demissões e, especialmente, muita 
violência contra os trabalhadores. Mas, por meio dele, alguns dos fundamentos 
dos direitos trabalhistas que você conhece hoje foram delineados. É o caso do 
benefício de folgas semanais remuneradas, do pagamento de horas extras, bem 
como da supressão do trabalho infantil e de trabalhos insalubres para gestantes 
— ao menos nos ambientes laborais urbanos.
Dessa forma, observe: há um grupo social, os trabalhadores, que 
estabelecem uma pauta, que são melhores condições de trabalho. Após a pauta, 
TÓPICO 4 | OS MOVIMENTOS SOCIAIS
47
foi estabelecida a agenda: as formas de mobilização, greves e concentração 
em frente às fábricas. Tudo isso se direciona ao Estado, para que observe a 
reivindicação do grupo e a supra. Supridas as pautas, a agenda é reorganizada, 
e o grupo pode se preparar para uma nova demanda, ou se direcionar à 
manutenção da organização. Esse é um exemplo clássico de movimento social 
tradicional. Nesse caso específico, preocupado com o avanço comunista na 
Europa, especialmente a partir da Revolução Russa de 1919, o Estado estabeleceu 
que o mais seguro para garantir a estabilidade nacional e afastar a ameaça 
comunista era criar e manter um canal de comunicação estável e contínuo com 
os trabalhadores. Posteriormente, foram criados os sindicatos, para que um 
grupo destacado especificamente para isso assegurasse que as demandas dos 
trabalhadores fossem atendidas e que, uma vez assegurados os seus direitos, a 
ordem fosse mantida. Trata-se de um jogo em que o Estado oferece as soluções 
ao grupo social.
Os modelos tradicionais de movimentos sociais se articulam de forma 
a obter uma resposta do Estado. Há um problema, e os movimentos sociais 
pedem que o Estado o observe. Ou seja, há aí, além do diálogo horizontalizado, 
um movimento que parte da sociedade para o Estado e, espera-se, do Estado 
para a sociedade. Os novos movimentos sociais, por sua vez, emergem a partir 
da década de 1970, na Europa e nos Estados Unidos. Posteriormente, atingem 
a porção sul do hemisfério, especialmente com o movimento feminista e o 
movimento ambientalista. A diferença entre o novo modelo e o tradicional é que 
os novos movimentos sociais articulam seu diálogo não em direção ao Estado, 
mas em direção aos tecidos sociais. O sentido da interação parte da sociedade e 
se dirige à própria sociedade.
Isso ocorre porque, a partir dos anos 1970, as ditaduras na América 
Latina e na África e a Guerra no Vietnã diminuíram drasticamente o espaço que 
os movimentos sociais podiam ocupar. O diálogo não existia e, quando havia 
a possibilidade de manifestação sem repressão, não havia resposta. Assim, 
os movimentos sociais contestatórios dos anos 1950 e 1960 deram lugar aos 
movimentos sociais que buscavam dialogar com setores diferentes da socie- 
dade. O sociólogo Melucci (2001) explica que, nesse período, a sociedade civil 
se coloca na arena política como um ator dissociado do Estado. Na ausência de 
resposta ou impossibilidade de expressão, este deve se voltar aos atores internos. 
Todo cidadão seria um ator social, no sentido de que ele poderia protagonizar os 
caminhos de suas demandas e crenças.
Os atores sociais, então, se organizariam em redes, encontrando outros 
atores que dividissem as mesmas expectativas e necessidades. Assim, eles 
tentariam sanar os problemas e necessidades, ou então conscientizar outros 
setores e outros atores sociais sobre determinada causa. Nesse sentido, o diálogo 
permanece horizontalizado, mas não se dá mais em direção ao Estado. Ele ocorre 
internamente, de um grupo de atores sociais para os outros grupos. Os novos 
movimentos sociais buscam a conscientização e também a solução. Por isso, nesse 
período, surgem as organizações não governamentais (ONGs), que se destinam 
a promover uma causa desde a sua apresentação até as soluções possíveis.
48
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
Os novos movimentos sociais também possuem características mais 
homogêneas do que as dos movimentos tradicionais, de forma que alguns se 
tornaram mundiais. É o caso do movimento ambientalista. Nesse movimento, 
setores da sociedade civil se organizaram para que os outros atores das sociedades 
passassem a ter mais consciência sobre o consumo de recursos naturais, 
promovendo a preservação. Mais ainda, organizaram-se a fim de que a própria 
sociedade, independentemente da resposta do Estado, pudesse cuidar disso. Foi 
o que aconteceu na criação da ISO 9000, a International Standart Organization, 
que, na década de 1970, oferecia um selo de qualidade para as empresas que 
comprovadamente produzissem os menores impactos ambientais possíveis.
Os novos movimentos sociais inauguraram aquilo se chama hoje de 
terceiro setor: organizações não estatais que surgem na sociedade civil, mas 
não se mantêm apenas como parte do tecido social. A partir da década de 1980, 
elas ganham grande visibilidade e poder. O referido selo ISO, por exemplo, 
ultrapassou a Europa e ganhou o mundo. Desde então, as empresas procu- ram 
enquadrar suas produções para obtê-lo. Além disso, alguns setores do Estado, em 
licitações, privilegiam a contratação de empresas que o possuam. Nesse sentido, 
a sociedade se torna protagonista de sua própria demanda, na medida em que 
o selo é produzido, aplicado e fiscalizado inteiramente por ela, sem intervenção 
do Estado. As sociedades compreenderam que podem se articular internamente, 
a partir de sua demanda, obtendo como resposta a fiscalização social. Nesse 
sentido, você pode considerar que o consumo foi um dos direcionadores para o 
estabelecimento desse cenário.
4 MOVIMENTOS SOCIAIS, ESTADO E POLÍTICAS PÚBLICAS
Os anos 2000 trouxeram novas formas de organização para os 
movimentos sociais, bem como novas formas de diálogo entre sociedade civil e 
Estado. Há uma emergência de novos movimentos sociais contestatórios, que se 
as- semelham na forma aos movimentos sociais tradicionais. No entanto, há uma 
série de dispositivos constitucionais que asseguram a sua existência e as pos- 
sibilidades de resposta pelo Estado. Por outro lado, a sociedade civil continua se 
articulando em movimentos sociais para si mesma, por meio das ONGs.
A partir desse período, as demandas dos movimentos sociais passaram 
a ser utilizadas pelo Estado como parâmetros para a constituição de políticas 
públicas específicas.Normalmente, a partir de uma demanda específica e da 
organização em torno de um tema, é possível ganhar visibilidade. A partir da 
esfera local, é possível projetar as agendas dos movimentos a fim de que haja a 
resposta governamental. A resposta se dá por meio, principalmente, de novas 
políticas públicas.
Você já percebeu que, cada vez mais, há a presença de intérpretes de 
Libras (Língua Brasileira de Sinais) em instituições educacionais, entidades e 
repartições públicas, e até mesmo em eventos culturais, como shows, peças de 
teatro, etc.? A presença desses profissionais permite que pessoas surdas ou com 
TÓPICO 4 | OS MOVIMENTOS SOCIAIS
49
deficiências auditivas possam se integrar socialmente, participando e transitando 
por todas as esferas em que uma pessoa ouvinte circula.
Essa prática está ainda se estabelecendo, mas a ideia é que quem se 
comunica usando Libras possa ter conforto em qualquer lugar público. Por 
que isso acontece hoje? Porque os movimentos sociais ligados à inclusão social, 
especificamente os ligados à defesa de direitos da pessoa surda ou com deficiência 
auditiva, conseguiram estabelecer suas pautas. Assim, o Estado tomou providências 
e respondeu a tais demandas sob a forma de políticas públicas. Atualmente, as 
unidades federativas da União, ou seja, os estados, têm autonomia para definir 
como as suas instituições de ensino oferecerão os elementos que garantam a 
inclusão de pessoas com deficiência, mas é muito claro que as demandas dos 
movimentos pela inclusão social e educacional tiveram resultados.
Para acontecerem, os movimentos sociais dependem de uma série de 
fatores que os tornam únicos, sem comparações com outros, embora possa haver 
“precedentes”, movimentos que inspirem ou impulsionem outra mobilização 
no futuro. Tudo depende do cenário histórico, cultural, político e econômico. 
Por isso, a sociologia dos movimentos sociais não faz uma única abordagem 
teórica ao tema. Na verdade, não há um consenso entre os pesquisadores sobre 
qual leitura seria a melhor para a análise de uma mobilização importante. En- 
tretanto, existem alguns pesquisadores que aparecem frequentemente quando a 
sociologia dos movimentos sociais se propõe a analisar determinado evento. São 
eles: Alain Touraine, Alberto Melucci e Manuel Castells.
Esses três autores trabalham o conceito de movimento social na 
modernidade, ou seja, estudam os movimentos formados após a década de 1970, 
também chamados de novos movimentos sociais. É importante que você perceba 
que existe uma diferença entre os movimentos sociais anteriores à década de 1960 
e os que vieram após esse período. Até então, a ocupação dos espaços públicos 
para a organização civil se baseava também no conceito de classes sociais, bem 
como na noção de que uma classe utilizava o campo da reivindicação para 
questionar os privilégios de outras classes. Essa leitura clássica dos movimentos 
sociais está associada a uma leitura estrutural marxista de disputa de classes. 
Essa disputa, essa contestação de privilégios, terminaria inevitavelmente no 
conflito.
A leitura clássica dos movimentos sociais, portanto, tem viés marxista 
e foco na temática contestatória (PICOLOTTO, 2007). Ela se altera a partir da 
década de 1960 por dois fatores essenciais: a transformação dos modos de 
produção pelo primeiro período da revolução da informação e a existência 
de grande número de regimes autoritários e/ou ditatoriais pelo mundo, espe- 
cialmente na América Latina, na África e na Ásia. A alteração nos modos de 
produção diminui o sentido de classe e comunidade. Assim, se passa a dar maior 
ênfase à estruturação do conceito de indivíduo. É na relação entre um conjunto 
de individualidades e no diálogo com o Estado na modernidade que se baseiam 
as leituras dos novos movimentos sociais.
50
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
O sociólogo francês Touraine (2003) oferece uma leitura historicista 
dos movimentos sociais. Para ele, esses movimentos surgem porque os atores 
sociais entendem que, para alcançar um propósito ou mudar algum fator 
estrutural da sociedade, é preciso ter o controle das especificidades históricas 
que orientam e determinam aquela sociedade, ou seja, os fatores culturais que 
a moldam. Além disso, Touraine (2003) identifica três princípios formadores 
dos movimentos: a identidade, ou seja, quem é o ator no movimento social; 
a oposição, ou o adversário (PICOLLOTO, 2007), que limita as possibilidades 
de que o movimento atinja seus objetivos; e a totalidade, ou seja, o complexo 
esquema entre estrutura da sociedade, cultura e história que o grupo social em 
movimento deseja alterar. Para Touraine (2003), embora o Estado seja ainda o 
elemento integrador daquele conjunto social, é na identidade do sujeito e em 
suas particularidades exteriores à estrutura do Estado que está alicerçado o 
conceito de modernidade. Isso faz com que os chamados novos movimentos 
sociais sejam diferentes dos movimentos clássicos.
No link a seguir, você pode assistir à entrevista do sociólogo Alain Touraine 
para a rede de televisão portuguesa EuroNews. Nela, ele fala sobre o conceito de 
identidade e ação coletiva, que é aplicado a sua leitura dos movimentos sociais, por meio 
do processo de recepção de imigrantes às terras europeias.
FONTE: <https://goo.gl/wgYpvq>. Acesso em: 8 jan. 2020.
UNI
Para Castells (1999), a perspectiva inicial sobre os movimentos sociais 
também se inicia pela perspectiva marxista, especialmente para que sejam 
salientadas as mudanças estruturais. Para ele, a revolução informacional, ou 
Terceira Revolução Industrial, altera não apenas os meios de produção, mas as 
formas de relacionamento social, fazendo com que a oposição indivíduo-Estado 
se modifique. Assim, surge uma construção mais cultural dos movimentos 
sociais, baseada especialmente em diálogos intrassociedade, de um segmento 
para o outro. Há ainda um elemento influenciador para tal alteração: a crise do 
Estado originada pelos desequilíbrios econômicos do período, que fez com que 
os indivíduos se articulassem para criar soluções sem a participação integral do 
Estado. Ou seja, não era mais produtivo contestar o Estado e gerar um conflito 
se este estava em crise e não poderia resolver as demandas. Os atores sociais, 
articulados, trabalhariam até que fosse possível de forma autônoma, até o 
momento em que fosse necessário dialogar com o Estado. Você deve perceber que 
essa relação entre indivíduo e Estado, embora suavizada nesse contexto, nunca 
foi suprimida. Mas o contexto, que imprimiu marcas únicas à modernidade, 
trouxe à tona um cenário sem precedentes, por isso as formas de articulação 
social também eram inéditas.
TÓPICO 4 | OS MOVIMENTOS SOCIAIS
51
Melucci (2001) colabora para o arcabouço teórico da área com sua 
concepção de redes. Para ele, a modernidade conforma uma maneira única de 
relacionamento e organização social, em que cada indivíduo é um ator na arena 
social e política. Por isso, as mobilizações sociais derivam da formação de redes 
de movimentos sociais. O conceito de redes emerge porque os movimentos 
estariam, de alguma forma, interligados. Uma vez que não há o conceito de 
contraposição pela dis puta de classes, os interesses individuais podem cruzar as 
agendas de mais de um movimento, e o ator social não é apenas o ator de uma 
classe, mas de seus inúmeros interesses. Assim, um ator do movimento feminista 
pode também ser ator do movimento ambientalista, por exemplo. E esses dois 
movimentos podem ter pautas em comum: um movimento ambientalista que 
defende o manejo sus- tentável de áreas de proteção ecológica pode fomentar a 
produção artesanal de mulheres ribeirinhas — e este trabalho pode também ser 
o foco de um movimento feminista local. Assim, haveria redes de movimentos 
sociais dialogando também com o Estado, mas, de forma mais intensa, 
dialogando entre si.
No Brasil, a pesquisadora mais reconhecida nas análises sobre a conjuntura 
e a formação dos movimentos sociais é aprofessora Maria da Glória Gohn. Gohn 
(2000) elabora um esquema de leitura e classificação dos movimentos sociais. 
Tal esquema também vincula a perspectiva marxista aos movimentos clássicos 
e relaciona os novos movimentos sociais àqueles moldados por perspectivas 
culturais extraclasses. Contudo, Gohn (2000) inova ao inserir a categoria dos 
movimentos sociais latino-americanos. Para ela, há uma especificidade nos 
movimentos sociais latinos, formados pela condição de dependência periférica 
dos Estados na América Latina.
Um exemplo da relação entre Estado, movimentos sociais e políticas 
públicas pode ser observado nas pautas do movimento norte-americano #NeverForget 
(Nunca Esquecer). Em fevereiro de 2018, um jovem de 19 anos chamado Nikolas Cruz 
invadiu o prédio da escola Marjory Stoneman Douglas, na Flórida, Estados Unidos, 
onde havia estudado durante o ensino médio. O rapaz portava uma arma AR-15 e, 
atirando a esmo, atingiu diversas pessoas, matando 14 adolescentes e três adultos. A 
arma foi comprada legalmente, o jovem já havia atingido a maioridade legal e não teve 
dificuldades para adquirir o artefato nem para entrar na escola, já que havia sido um 
estudante que não ofereceu problemas à instituição.
 Os sobreviventes do massacre articularam um movimento de contestação, 
que rapidamente se espalhou para outras cidades do país com ajuda da internet. O 
movimento obteve a atenção midiática de redes de televisão e jornais impressos e online, 
arregimentando milhões de pessoas no país. O movimento chamado #NeverForget 
se propunha a chamar a atenção dos legisladores para o comércio de armas de fogo, 
clamando por dispositivos que impedissem a venda livre a todos os tipos de público. No 
dia 24 de março de 2018, liderado por jovens entre 14 e 18 anos, o #NeverForget levou 
milhões de pessoas à capital federal, Washington, com outros polos de concentração ao 
redor do país, atingindo Europa, Ásia e América Latina. O movimento arrefeceu no tocante 
à ocupação dos espaços públicos a partir de abril, permanecendo nas redes sociais.
UNI
52
RESUMO DO TÓPICO 4
 Neste tópico, você aprendeu que:
• Os movimentos sociais são hoje uma das formas mais comuns de mobilização 
para a visibilidade de demandas sociais específicas.
• Até o início do século XX, as mobilizações sociais tinham um caráter 
iminentemente político.
• Na virada do século XX, os movimentos sociais começam a assumir 
características semelhantes às que possuem hoje.
• Os movimentos sociais são uma forma de diálogo horizontalizado com o 
Estado. Ou seja, são uma forma de a sociedade apresentar demandas e se 
colocar na mesma posição de destaque que o Estado. Assim, o Estado não 
fica numa posição de domínio com relação ao tecido social, muito embora se 
mantenham resguardadas as relações de poder previamente estabelecidas, 
que asseguram as fronteiras e a organização interna, por exemplo.
• Os movimentos sociais tradicionais são aqueles que se colocam em diálogo 
com o Estado para que este possa solucionar um problema ou suprir uma 
demanda.
• Os novos movimentos sociais também possuem características mais 
homogêneas do que as dos movimentos tradicionais, de forma que alguns se 
tornaram mundiais.
• Os novos movimentos sociais inauguraram aquilo se chama hoje de terceiro 
setor: organizações não estatais que surgem na sociedade civil, mas não se 
mantêm apenas como parte do tecido social.
53
AUTOATIVIDADE
1 Quais são os dois elementos que, respectivamente, modelam a estrutura e 
direcionam a ação dos movimentos sociais contemporâneos?
a) ( ) Pauta e assunto.
b) ( ) Partido e pauta.
c) ( ) Agenda e pauta.
d) ( ) Agenda e assunto.
e) ( ) Assunto e agenda.
2 O sociológo Alberto Melucci é um dos pensadores que mais contribuíram 
para a compreensão dos novos movimentos sociais nas últimas décadas 
do século XX. De acordo com ele, o que representam os protagonistas dos 
movimentos? Escolha a opção CORRETA.
a) ( ) Líderes.
b) ( ) Motivadores.
c) ( ) Apoiadores.
d) ( ) Atores.
e) ( ) Contestadores.
54
55
TÓPICO 5
TRAJETÓRIA DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL
UNIDADE 1
1 INTRODUÇÃO
Os movimentos sociais existem desde os tempos de colônia no Brasil, 
o qual é marcado por lutas e movimentos contra a dominação, a exploração 
econômica, a exclusão social e, atualmente, a política, a corrupção, a falta de 
ética dos políticos, entre outros problemas que o país vem enfrentando. Eles 
contribuíram e vêm contribuindo para a conquista e a manutenção de direitos e 
espaços de participação social, fortalecendo a cidadania e a democracia brasileira.
Neste capítulo, você estudará sobre o conceito de movimentos sociais 
populares, compostos na maioria das vezes de classes sociais desprivilegiadas; 
a relação entre participação social, educação popular e movimentos sociais 
fundamentais para a construção e o exercício do poder popular; e a trajetória dos 
movimentos sociais no Brasil, desde a colônia até os dias atuais.
2 MOVIMENTOS SOCIAIS E POPULARES
Apesar de haver muitos estudos sobre os movimentos sociais, as teorias 
existentes ainda não apresentam definições precisas devido à multiplicidade de 
interpretações e enfoques. Veja um conceito de movimento social sob o olhar de 
Gohn (2000, p. 13):
movimentos sociais são ações coletivas de caráter sociopolítico, 
construídas por atores sociais pertencentes a diferentes classes e 
camadas sociais. Eles politizam suas demandas e criam um campo 
político de força social na sociedade civil. Suas ações estruturam-se a 
partir de repertórios criados sobre temas e problemas em situações de 
conflitos, litígios e disputas. As ações desenvolvem um processo social 
e político-cultural que cria uma identidade coletiva ao movimento, a 
partir de interesses em comum. Esta identidade decorre da força do 
princípio da solidariedade e é construída a partir da base referencial 
de valores culturais e políticos compartilhados pelo grupo.
Dessa forma, os movimentos sociais se estruturam com base em um 
grupo social que compartilha uma dada situação social a qual gera insatisfação, 
causando neles um sentimento de pertencimento e objetivos específicos a serem 
alcançados por meio de reivindicações, projetos etc. (VIANA, 2016) (Figura 9).
56
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
FIGURA 9 – MOVIMENTOS SOCIAIS
FONTE: Adaptado de <Nosyrevy/Shutterstock.com>. Acesso em: 8 jan. 2020.
O termo movimentos sociais populares ou movimentos populares é 
bastante utilizado, mas também não possui um conceito claro e, em alguns 
casos, é confundido com os movimentos sociais urbanos. Poucos autores 
tentaram defini-lo, sendo Camacho (1987) um deles, quando tentou diferenciar 
os movimentos sociais e os populares, mas ao final acabou definindo-os como 
uma manifestação dos sociais, o que é uma contradição. Para o autor, esses 
movimentos sociais possuem dois tipos de atuação distintos: eles podem ex- 
pressar os interesses dos grupos hegemônicos e podem expressar os interesses 
dos grupos populares, os chamados movimentos populares, que se diferem dos 
demais por sua formação social, elemento chave para entender o que o diferencia 
dos outros movimentos sociais (VIANA, 2016).
Os movimentos sociais populares são compostos, na maioria das vezes, de 
classes sociais desprivilegiadas e, geralmente, sofrem processos de dominação, 
exploração, subordinação e marginalização. Nesse contexto, estão incluídos 
trabalhadores, camponeses, trabalhadores domésticos e manuais, moradores 
de periferia, desempregados, desabrigados e lumpemproletariado. Como a 
situação social dos grupos de base desses movimentos é distinta das classes mais 
privilegiadas, sua insatisfação, sua luta e seus objetivos também são diferentes.
Lumpemproletariado é um termo criado e utilizado por Marx para denominar 
as camadas mais baixas da velha sociedade, possíveis de serem arrastadas aos movimentos 
por uma revolução proletária e levando-as a vender-se, devido a suas condições precáriasde existência (MARX, 1932).
DICAS
TÓPICO 5 | TRAJETÓRIA DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL
57
Os movimentos sociais possuem inúmeras diferenças que decorrem de 
suas orientações políticas e ramificações, em que as orientações políticas são 
determinadas pela formação social do grupo social de base e pela hegemonia no 
seu interior. Nesse contexto, os movimentos sociais podem ser classificados em 
três tipos (VIANA, 2016).
• Conservadores: visam retomar uma situação que existia anteriormente ou 
impedir que reivindicações de grupos sociais opostos se mantenham. São 
monoclassistas ou policlassistas, com predomínio das classes privilegiadas.
• Progressistas ou reformistas: visam mudar a situação do grupo social.
 São policlassistas, com grande presença de burocracia e intelectualidade.
• Revolucionários: visam a uma mudança radical da situação que somente é 
possível se uma nova sociedade surgir para substituir a atual. Constitui-
se como um processo que resolve o problema do grupo social. Podem ser 
monoclassistas ou policlassistas.
Os grupos de base podem ser nomoclassistas, cujos componentes pertencem 
às classes sociais desprivilegiadas; e/ou policlassistas, cujos componentes são jovens, 
intelectuais e de diversas classes sociais, este é o que predomina nos movimentos sociais 
(VIANA, 2016).
DICAS
Entender a composição social de um movimento é fundamental para 
mostrar as possibilidades e as posições políticas, sendo que estas são definidas 
pela hegemonia existente em seu interior. Os movimentos sociais conservadores, 
por exemplo, possuem uma hegemonia burguesa, assim como a maioria dos 
movimentos sociais progressistas. Porém, algumas de suas ramificações podem 
apresentar uma hegemonia burocrática ou proletária. Já nos movimentos sociais 
revolucionários, a hegemonia surge como uma radicalização das lutas sociais ou 
tempos de revolução proletária (VIANA, 2016).
Os movimentos sociais revolucionários praticamente não existem em tempos 
de estabilidade social e política (VIANA, 2016).
ATENCAO
58
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
Os movimentos populares são uma parte dos sociais progressistas, cuja 
hegemonia em seu interior pode ser burguesa, burocrática ou proletária, o que 
depende de múltiplas determinações. Para Viana (2016), os grupos sociais de 
base possuem tendência a gerar uma hegemonia semiproletária e, em casos 
raros, uma proletária, acarretada por sua situação de classe.
A hegemonia na sociedade como um todo é burguesa por isso 
tende a influenciar os movimentos populares no sentido da 
hegemonia burguesa ou, secundariamente, burocrática. Assim, há 
uma contradição entre os interesses de classe e tudo que é derivado 
da situação de classe (desprivilegiada) e a hegemonia na sociedade 
civil, além do aparato estatal, meios oligopolistas de comunicação, 
necessidades imediatas etc. É por isso que há uma forte contradição 
no interior dos movimentos populares no plano da consciência e da 
hegemonia. Tal contradição se manifesta sob várias formas, entre 
os quais através da submissão a valores atrelados ao consumismo 
convivendo com a incapacidade de consumo, o que provoca uma 
contradição valorativa ou, então, a percepção do caráter conservador 
da política institucional ao lado da dificuldade de romper totalmente 
com ela (VIANA, 2016, p. 76).
As reivindicações dos movimentos populares são voltadas às questões 
de educação, saúde, estrutura urbana, moradia e terra; as dos sociais urbanos, 
voltadas às questões urbanas como moradia, transporte, estrutura urbana etc.; 
já as dos movimentos sociais rurais possuem foco sobre as questões ambientais 
ou contra as políticas estatais ou sobre o desenvolvimento capitalista que 
atinge setores da população rural. Todas essas reivindicações são direcionadas 
ao aparato estatal, direta ou indiretamente, o que muitas vezes gera confronto 
entre eles.
A forma mais comum de o Estado responder aos movimentos é com a 
repressão seletiva, que acontece sobretudo quando os movimentos populares 
realizam manifestações e ocupações por meio de discursos como agressão a 
policiais, reintegração de posse, entre outros. Quando eles não interferem de 
forma direta nos interesses do Estado, é dito que há omissão e, geralmente, a 
cooptação é em menor grau, tendo maior incidência nos demais movimentos 
sociais (CASTELLS, 1988; VIANA, 2016).
O aparato estatal é o alvo direto ou indireto dos movimentos populares. 
Quando a luta é por bens coletivos, o alvo é direto. Já quando ela é por bens materiais, o 
alvo é indireto (VIANA, 2016).
DICAS
TÓPICO 5 | TRAJETÓRIA DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL
59
Os movimentos sociais têm dificuldades para se organizar, uma vez que 
as condições de vida desses grupos são precárias, bem como suas condições 
financeiras, culturais etc. No entanto, isso não os impede de lutar por suas 
questões, avançando ou recuando em suas lutas, que dependem de fatores 
como estabilidade dos governos, crises financeiras, aumento do desemprego, 
inflação, deterioração dos bens coletivos, entre outros. Sua dinâmica depende 
do desenvolvimento capitalista e da intensidade com que este impacta na 
vida de seus grupos sociais de base. Porém, essa relação será sempre marcada 
pelo conflito mais ou menos intenso, de acordo com os períodos de relativa 
estabilidade ou não.
Para Gohn (2011), os movimentos sociais populares ficaram famosos no 
Brasil e em outros países da América Latina no final da década de 1970 e em 
parte dos anos de 1980, planejados por grupos que se opunham aos regimes 
militares, principalmente aqueles com base cristã, inspirados pela teologia da 
libertação. No entanto, o cenário sociopolítico mudou radicalmente no fim dos 
anos de 1980 e ao longo dos anos de 1990, fazendo as manifestações de rua, que 
davam visibilidade aos movimentos populares nas cidades, declinarem, segundo 
alguns analistas, por terem perdido seu principal alvo e inimigo, os regimes 
militares. Na verdade, as causas desse declínio foram as mais diversas, e não 
se pode negar que esses movimentos, no Brasil, contribuíram significativamente 
para a conquista de vários direitos sociais, instituídos por leis na Constituição 
Federal de 1988 (CF/88).
Exemplos de movimentos populares: Custo de Vida (Carestia), Movimento dos 
Trabalhadores Sem Terra (MST), Via Campesina, Grito dos Excluídos etc. (MUTZENBERG, 
2011).
UNI
3 PARTICIPAÇÃO SOCIAL, EDUCAÇÃO POPULAR E 
MOVIMENTOS SOCIAIS
Os movimentos sociais dos anos de 1980 contribuíram para a 
institucionalização de espaços públicos para a participação social, garantindo 
aos cidadãos identidades e novas formas de organização. Como resultado desse 
processo de lutas sociais acerca da democratização, tem-se a consolidação de 
valores como igualdade, solidariedade e liberdade, constituindo a democracia 
social (CARVALHO, 1998; BENEVIDES, 2002). No entanto, a democracia 
participativa somente será plena se tiver a participação ativa dos indivíduos nos 
espaços públicos, ação que sinaliza a existência de um processo educativo o qual 
60
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
tem a participação como um meio, e a construção e o exercício do poder popular 
como o fim (HURTADO, 2000). Dessa forma, praticar ações democráticas 
contribui para a reconfiguração do contexto sociopolítico das lutas no Brasil e 
para a construção da cidadania.
A democracia, assim, não é um sistema político entre tantos, mas é a 
prática específica pela qual o povo se institui como sujeito. Nela, os 
indivíduos se tornam sujeitos públicos enquanto seres políticos ativos, 
se transformam em seres socializados porque desenvolvem relações 
sociais e responsabilidades coletivas (SEMERARO, 2002, p. 222).
A participação contribui para a construção da cidadania, pois possibilita 
aos indivíduos adquirir maior consciência sobre seus interesses individuais e 
coletivos, gerando benefícios para toda a sociedade. Essa participação política 
pode ser vista como uma escola na qual o cidadãoadquire conhecimentos 
sobre o funcionamento institucional da democracia e os valores democráticos, 
como o da solidariedade social (DIAS, 2002). Enquanto participa, o indivíduo 
adquire o sentido de pertencimento e o significado de sua atuação em um grupo 
ou movimento social, assumindo uma condição de protagonista de sua própria 
história. Ao participar, ele desenvolve uma consciência crítica, agrega uma força 
sociopolítica ao grupo ou à ação coletiva, novos valores e nova cultura política 
(GOHN, 2005).
A participação social configura-se como um processo que estimula o 
compartilhamento de poder por meio do fortalecimento da sociedade civil e 
da construção de caminhos que permitam alcançar uma nova realidade social 
pela cultura cidadã. Dessa forma, esse processo deve ser considerado de “baixo 
para cima”, tendo os cidadãos comuns como os principais protagonistas da ação 
transformadora das relações de poder da sociedade, o que mostra a importância 
de se implantar e manter práticas participativas no contexto sociopolítico, 
promovendo a sua autonomia, reconstruindo a história das lutas populares 
no Brasil, fortalecendo e renovando cada vez mais os princípios democráticos 
de igualdade, cidadania e justiça social (DIAS, 2002). Nesse contexto, a edu- 
cação popular tem favorecido a participação da população na esfera pública, 
empoderando os indivíduos e democratizando os espaços públicos.
A educação popular privilegia a dimensão ética do diálogo, uma vez 
que considera os aspectos da realidade do indivíduo, como cultura, trabalho, 
liberdade e igualdade, que geram experiências e reflexões no processo de 
superação da exclusão e da desigualdade (MELO NETO, 2004). O caráter político 
da educação popular está na busca pela transformação da realidade na qual os 
indivíduos estão inseridos, pois, com a consciência sobre sua realidade, estes 
conseguem perceber as práticas opressoras e desiguais a que estão sujeitos e 
interferir nessa situação.
TÓPICO 5 | TRAJETÓRIA DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL
61
Desse modo, a educação popular possui caráter transformador e 
libertador, tendo como princípios de sua existência justiça social e igualdade 
de direitos, uma vez que permite a emancipação e autonomia dos indivíduos, 
que assumem o papel de sujeitos de sua própria história. O caráter político na 
proposta da educação popular constituiu-se como elemento transformador 
da educação, já que buscou integrar a conscientização sobre a realidade dos 
indivíduos às melhorias de suas condições de vida, proporcionando resultados 
como a instituição de uma cultura cidadã que prega princípios de solidariedade, 
reciprocidade e sociabilidade (HURTADO, 2000).
Educação popular é um modo de educação que considera os saberes prévios 
das pessoas e suas realidades na construção de novos saberes. Ela visa ao desenvolvi- 
mento da reflexão e do olhar crítico, por meio de diálogo e participação comunitária, 
permitindo uma leitura melhor da realidade social, política e econômica na qual os 
educandos estão inseridos (BRANDÃO, 2017).
DICAS
O conjunto das práticas educativas populares ganhou espaço junto aos 
movimentos sociais quando possibilitou o estabelecimento de uma dimensão 
educativa em suas ações, reforçando seu caráter político e transformador. Os 
movimentos sociais valorizam essa concepção e estimulam ações reflexivas 
nos indivíduos para que compreendam conceitos como cidadania e demo- 
cracia, transformando suas visões de mundo, renovando seus ideais sociais e 
construindo realidades a partir de relações mais justas e solidárias. Assim, eles 
formam indivíduos enquanto estes participam de suas ações, contribuindo para 
a elevação de sua autoestima e o surgimento do sentimento de pertencimento, 
permitindo sua atuação política, social e cultural, transformando-os em sujeitos.
Nesse processo, os sujeitos constroem saberes, valores, cultura e ensaiam 
a vivência de novas relações sociais. Enquanto realizam a luta social, os mo- 
vimentos buscam materializar as relações econômicas, políticas e culturais, além 
de um projeto de futuro. É este vínculo entre formação, organização e luta que 
faz dos movimentos um espaço de construção de indivíduos renovados e um 
meio renovado de promoção da educação popular por intermédio das ações e 
práticas educativas que desenvolvem (GOHN, 1992).
62
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
As práticas educativas populares, de modo geral, buscam adequar seus 
conteúdos a partir da realidade e das necessidades dos grupos populares, valorizando e 
recuperando as experiências, o saber e a cultura popular por meio de reflexão, diálogo e 
participação de todos os envolvidos (TORRES, 1988).
DICAS
O caráter político e sociocultural dessas práticas tem por base a concepção 
de que os indivíduos podem querer para si um mundo mais justo e diferente, 
determinando o estado das coisas e das relações sociais. Além de (re)educar 
quem participa dele, os movimentos (re)educam a sociedade, porque eviden- 
ciam as contradições sociais. Nesse contexto, pode-se dizer que coletividade, 
sentimento de pertencimento, movimento, identidade de projeto, organização, 
luta e transformação são expressões fortes que, interconectadas, permitem 
compreender o caráter educativo dos movimentos sociais (CALDART, 2000).
A visão popular de educação trouxe a discussão sobre cidadania, direitos 
humanos e participação popular como uma causa de luta, reestruturando-
se no campo da educação cidadã. No Brasil, permitiu o desenvolvimento de 
uma prática cidadã, trazendo para o centro das discussões a compreensão dos 
sujeitos sobre democracia participativa. Assim, as organizações populares e 
os movimentos sociais passaram a participar e intervir nas discussões sobre 
políticas públicas com maior frequência e responsabilidade, tomando para si os 
processos e estabelecendo um poder popular (GOHN, 1992).
4 HISTÓRICO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL
A sociedade brasileira é marcada por lutas e movimentos sociais desde a 
época do Brasil Colônia, contra a dominação, a exploração econômica e a exclusão 
social. Há registros históricos sobre lutas de índios, negros, brancos e mestiços 
que eram pobres e viviam nos vilarejos, bem como de brancos que pertenciam às 
camadas médias da sociedade e eram influenciados pelas ideologias libertárias e 
contra a opressão dos colonizadores europeus (GOHN, 1995).
No Brasil, a maioria das lutas e movimentos sociais no período colonial 
foi realizada pelos negros escravos e pela plebe, indivíduos pobres e livres. Os 
indivíduos que se incluíam na categoria povo eram comerciantes e artesãos; já 
senhores de engenho, militares, funcionários graduados e clero encontravam-se 
no topo da camada social e eram seguidos pelos lavradores, grandes mercadores 
e artesãos.
TÓPICO 5 | TRAJETÓRIA DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL
63
Alguns movimentos e lutas no Brasil Colônia e na fase do Império até 
o século XX: Zumbi dos Palmares, Inconfidência Mineira, Conspiração dos Alfaiates, 
Revolução Pernambucana, Balaiada, Revolta dos Malês, Cabanagem, Revolução Praieira, 
Revolta de lbicaba, Revolta de Vassouras, Quebra-Quilos, Revolta Muckers, Revolta do 
Vintém, Canudos (GOHN, 2000).
UNI
No início do século XX, com a chegada da República e a substituição da 
mão de obra escrava pela assalariada, composta em sua maioria de imigrantes, 
a questão social mudou. Nesse período, o modo de produção se altera com a 
industrialização ainda incipiente e a formação de um proletariado urbano, 
fazendo surgir organizações de luta e resistência dos trabalhadores por meio de 
associações de auxílio mútuo, ligas e uniões, que reivindicavam serviços urbanos 
ou protestavam contra a política local. Dessa forma, o movimento operário 
foi influenciado pelas ideias anarquistas trazidas pelos imigrantes europeus 
(GOHN, 2000; LEMOS; FACEIRA, 2015).
Exemplos de revoltas e lutas do século XX: Revolta da Vacina, Revolta da 
Chibata, Revolta do Contestado, ligas contra o analfabetismo, ligasnacionalistas pelo voto 
secreto e expansão da educação, revoltas contra o preço do pão, inspeção de bagagens 
nas estações de trens e colocação de trilhos para os bondes (GOHN, 2000).
UNI
Na primeira metade da década de 1920, houve um retrocesso do 
movimento operário, ocasionado pelas repressões e limitações das conquistas 
alcançadas pela classe trabalhadora. Já na segunda metade dessa década, o 
movimento operário cresce influenciado por ideias comunistas, passando a 
exercer sua hegemonia. Surgem também várias lutas e movimentos das camadas 
médias da população urbana e as revoltas de militares (GOHN, 2000; LEMOS; 
FACEIRA, 2015).
64
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
Movimentos messiânicos e de cangaceiros no sertão nordestino do país, 
como o liderado pelo padre Cícero no Ceará e por Lampião na Bahia, Revolução dos 
Tenentes, Coluna Prestes, lutas pela educação lideradas por Anísio Teixeira, Fernando de 
Azevedo etc. (GOHN, 2000).
UNI
Na década de 1930, a economia sofre uma mudança. O movimento estru- 
turado pelas elites, chamado de Revolução de 30, marca um novo tempo no país, 
que além de produtor agrícola, passa a produtor de industrializados na área têxtil, 
mobiliária e de gêneros alimentícios de primeira necessidade. A classe operária 
sofre uma mudança em sua composição, passando a ter imigrantes nacionais, 
vindos do campo para a cidade; já o movimento operário teve sua atuação limitada 
pelas reformas e pela institucionalização de políticas sociais, que visavam atender 
a suas reivindicações e abrem-se oportunidades para a formação de uma classe 
burguesa industrial (GOHN, 2000; LEMOS; FACEIRA, 2015).
Movimento dos Pioneiros da Educação, Marcha Contra a Fome, Revolução 
Constitucionalista de São Paulo, Revolta do Caldeirão, criação da Aliança Libertadora 
Nacional e o Movimento Pau de Colher (GOHN, 2000).
UNI
O período entre 1945 e 1964 ficou marcado na história como regime político 
populista, sendo propício para o surgimento de lutas e movimentos sociais. A 
redemocratização do país, o desenvolvimento de um cenário internacional da 
sociedade de consumo e a política da guerra abrem espaços propícios a projetos 
que visavam ao desenvolvimento nacional, nos quais criam-se condições para a 
instalação de indústrias multinacionais no país; são desenvolvidas políticas para 
o setor de energia, em que a Petrobrás é criada e estradas, silos, armazéns, portos 
e usinas hidrelétricas são patrocinados pelo Estado; e são inauguradas Brasília 
e as primeiras fábricas de automóveis. Surge também um novo setor da classe 
operária no ABCD paulista, os metalúrgicos, e há um crescimento do movimento 
operário com certa autonomia e liberdade, possibilitada pela Constituição Liberal 
em vigor até 1964 (GOHN, 2000; LEMOS; FACEIRA, 2015).
TÓPICO 5 | TRAJETÓRIA DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL
65
Ligas Camponesas do Nordeste, Movimento dos Agricultores Sem Terra, 
Movimento de Educação de Base e Círculos Populares de Cultura (GOHN, 2000).
UNI
Nesse período, os movimentos sociais avançaram com participação 
crescente da população nas discussões sobre os problemas nacionais, processo 
interrompido com o golpe militar de 1964. Entre 1964 e 1969, foram poucos 
os movimentos de resistência, nos quais duas greves ficaram conhecidas, as 
de Contagem (MG) e de Osasco (SP); os estudantes entram em cena, influen- 
ciados pela situação nacional e internacional; novas leis são instituídas; e novos 
aparelhos burocráticos de controle são criados. O Ato Institucional nº 5 (1968) 
atua na cassação e punição de pessoas e estabelece duras restrições aos direitos 
sociopolíticos dos cidadãos. Trata-se de uma época de medo, repressão e violação 
dos direitos humanos, comandada por regimes militares (GOHN, 2000).
No início dos anos de 1970, os movimentos sociais renascem, motivados 
pela Teoria da Libertação, como o Custo de Vida (depois Carestia), movimentos 
por transportes, direito a terra, saúde nos centros, postos de saúde, vagas nas 
escolas etc., o que desencadeou greves por todo o país e possibilitou a recriação 
e a articulação das centrais sindicais aos partidos políticos (GOHN, 2000; 
MONTAÑO; DURIGUETTO, 2010). Na segunda metade da década de 1970, 
com a redemocratização brasileira, novos atores sociais são inseridos na esfera 
política, cujos resultados seriam sentidos mais adiante.
Associação Nacional de Movimentos Populares e Sindicais, Central Única dos 
Trabalhadores (CUT) e Central Geral dos Trabalhadores (CGT), Confederação Nacional das 
Associações de Moradores (CONAM) (GOHN, 2000).
UNI
Nos anos de 1980, os movimentos sociais contribuíram para o avanço 
e a conquista de vários direitos sociais e da elaboração da CF/88, que garantiu 
os direitos fundamentais dos cidadãos, declarando a morte do regime militar. 
Foram conquistas sociais de trabalhadores, mulheres, índios, menores e cidadãos 
que até então eram considerados de segunda classe. A inserção de novos atores 
sociais na esfera política, na década de 1970, refletiu ao longo dos anos, de 1980 
a 1990, na proliferação de espaços públicos de participação da sociedade civil, 
como fóruns, conselhos e comitês.
66
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
Movimento Diretas Já, Movimento Nacional dos Meninos e Meninas de Rua 
(MNMMR), Movimento dos Aposentados, do Negro, do Indígena (GOHN, 2000; MIRANDA; 
CASTILHO; CARDOSO, 2009).
UNI
Os anos de 1990 são marcados por desemprego, reformas, reestrutura- 
ções no mercado de trabalho, entre outros. Os sindicatos dos trabalhadores se 
enfraqueceram e passaram a lutar contra políticas de exclusão social do governo, 
aumentando significativamente o número de pessoas que atuam de modo 
informal na economia; as reivindicações dos trabalhadores passam a ter foco na 
luta para a manutenção do emprego, e não por melhores salários ou condições de 
trabalho; os movimentos sociais populares urbanos se desarticulam; a luta social 
no campo cresce; e o MST, criado nos anos de 1980, volta à cena, transformando-
se no principal agente de conflito social no país. Um movimento que ficou 
marcado nessa década foi o dos “caras-pintadas”, com o intuito de estabelecer 
a ética na política brasileira (GOHN, 2000; MIRANDA; CASTILHO; CARDOSO, 
2009; LEMOS; FACEIRA, 2015).
Fóruns são espaços públicos de participação social, caracterizados por 
encontros periódicos para diagnosticar problemas sociais e definir metas e objetivos 
(GOHN, 2000).
DICAS
Os movimentos sociais passaram a adotar uma postura mais propositiva 
do que de manifestações e reivindicações, em que as contestações ficaram de lado 
e a ênfase recaiu para um nível mais operacional e propositivo; já os novos atores 
entraram em cena para lutar por inclusão e integração dos excluídos gerados 
pelo sistema, chamado de terceiro setor. Na década de 1990, esses movimentos 
se constituíram em redes, dentro do próprio movimento social e de redes com 
outros sujeitos sociais. Dessa forma, o seu perfil se alterou em razão da mudança 
da conjuntura política (GOHN, 2000; LEMOS; FACEIRA, 2015).
TÓPICO 5 | TRAJETÓRIA DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL
67
O terceiro setor é composto de organizações, movimentos sociais, 
organizações não governamentais (ONG), associações comunitárias, fundações, entidades 
filantrópicas, empresas cidadãs etc. (GOHN, 2000).
DICAS
O ano 2000 é marcado pela volta dos movimentos sociais à cena 
política. Os movimentos sociais urbanos retomam lentamente em outras bases, 
integrando a experiência assimilada nos processos de participação em conselhos, 
fóruns e outros meios institucionalizados de participação; o MST retorna com 
novo fôlego, se espalhando por todo o país; os estudantes voltam às ruas, mais 
politizados e lutando contra o desemprego e a corrupção; os professores entram 
em greve; e outras categorias também passam a se organizar e protestar. Surgem 
também as ONG, como uma nova forma de resistência em substituição aos 
movimentos sociais, que se organizam para defender osdireitos e reconstruir a 
vida social.
Desse período até os dias atuais, muitos eventos aconteceram e ainda 
acontecem por meio de manifestações, marchas e ocupações contra a política, 
a corrupção, a falta de ética dos políticos etc. O perfil dos participantes também 
se modificou e hoje são chamados de ativistas. Um fato interessante que deve 
ser destacado é a convocação e organização dos movimentos sociais pelas redes 
sociais, que ganha mais força a cada dia (GOHN, 2004). Você pode perceber que 
os movimentos sociais sempre existiram e continuarão existindo para dar voz à 
sociedade civil na conquista e manutenção de direitos e espaços de participação 
social, contribuindo para o fortalecimento da cidadania e da democracia 
brasileira.
Movimentos dos índios, movimento dos caminhoneiros das estradas, dos 
perueiros, entre outros (GOHN, 2000).
UNI
68
RESUMO DO TÓPICO 5
 Neste tópico, você aprendeu que:
• Os Movimentos sociais são ações coletivas de caráter sociopolítico, construídas 
por atores sociais pertencentes a diferentes classes e camadas sociais. 
• Os Movimentos sociais politizam suas demandas e criam um campo político 
de força social na sociedade civil. 
• As ações dos Movimentos Sociais se estruturam a partir de repertórios criados 
sobre temas e problemas em situações de conflitos, litígios e disputas. 
• As ações dos Movimentos Sociais desenvolvem um processo social e político-
cultural que cria uma identidade coletiva ao movimento, a partir de interesses 
em comum. 
• A identidade dos Movimentos Sociais decorre da força do princípio da 
solidariedade e é construída a partir da base referencial de valores culturais e 
políticos compartilhados pelo grupo.
• Os movimentos sociais se estruturam com base em um grupo social que 
compartilha uma dada situação social a qual gera insatisfação, causando neles 
um sentimento de pertencimento e objetivos específicos a serem alcançados 
por meio de reivindicações, projetos etc.
• Os movimentos sociais populares são compostos, na maioria das vezes, de 
classes sociais desprivilegiadas e, geralmente, sofrem processos de dominação, 
exploração, subordinação e marginalização.
• Os movimentos sociais podem ser classificados em três tipos:
o Conservadores: visam retomar uma situação que existia anteriormente ou 
impedir que reivindicações de grupos sociais opostos se mantenham. São 
monoclassistas ou policlassistas, com predomínio das classes privilegiadas.
o Progressistas ou reformistas: visam mudar a situação do grupo social. São 
policlassistas, com grande presença de burocracia e intelectualidade.
o Revolucionários: visam a uma mudança radical da situação que somente é 
possível se uma nova sociedade surgir para substituir a atual. Constituísse 
como um processo que resolve o problema do grupo social. Podem ser 
monoclassistas ou policlassistas.
• A participação social se configura como um processo que estimula o 
compartilhamento de poder por meio do fortalecimento da sociedade civil e 
da construção de caminhos que permitam alcançar uma nova realidade social 
pela cultura cidadã.
• A educação popular possui caráter transformador e libertador, tendo como 
princípios de sua existência justiça social e igualdade de direitos, uma vez que 
permite a emancipação e autonomia dos indivíduos, que assumem o papel de 
sujeitos de sua própria história.
69
1 Os movimentos sociais possuem inúmeras diferenças, que decorrem 
de suas orientações políticas e ramificações. As orientações políticas 
são determinadas pela formação social do grupo social de base e pela 
hegemonia no seu interior.
Como são chamados os movimentos que visam retomar uma situação que 
existia anteriormente ou impedir que reivindicações de grupos sociais 
opostos se mantenham?
a) ( ) Burocráticos.
b) ( ) Revolucinários.
c) ( ) Reformistas.
d) ( ) Radicais.
e) ( ) Conservadores.
2 Desde os tempos do Brasil Colônia, nossa sociedade é marcada por lutas 
e movimentos sociais contra a dominação, a exploração econômica e a 
exclusão social. Na primeira metade da década de 1920, as repressões e 
limitações das conquistas alcançadas pela classe trabalhadora geraram 
impacto no movimento operário. Que impacto foi esse?
a) ( ) Crise.
b) ( ) Avanço.
c) ( ) Eliminação.
d) ( ) Retrocesso.
e) ( ) Revolta.
AUTOATIVIDADE
70
71
TÓPICO 6
 CIDADANIA E MOVIMENTOS SOCIAIS
UNIDADE 1
1 INTRODUÇÃO
Nesse excerto de texto de Smart mobs, Howard Rheingold (2003) 
descreve um novo fenômeno no qual estranhos ligados por aparelhos de 
comunicação móvel convergem espontaneamente para atingir determinada 
meta. Rheingold, uma autoridade reconhecida no tocante às implicações sociais 
das novas tecnologias, identificou um comportamento social que está surgindo. 
Pode-se esperar esses efeitos não previstos. Geralmente, as novas tecnologias 
não podem evitar a mudança da maneira como as pessoas vivem as suas vidas e, 
por extensão, a evolução da sua cultura e sociedade. A invenção do computador 
pessoal e a sua integração na vida cotidiana das pessoas são um outro exemplo 
da mudança social que em geral se segue à introdução de uma nova tecnologia.
A mudança social foi definida como uma alteração significativa nos 
padrões de comportamento e cultura, incluindo normas e valores (MOORE, 
1967). O que é uma alteração “significativa”? Certamente, o aumento drástico 
na educação formal. Como veremos neste tópico os movimentos sociais 
desempenharam um papel importante na realização de mudanças sociais.
Como ocorre uma mudança social? O processo é imprevisível ou podemos 
fazer determinadas generalizações a seu respeito? Por que algumas pessoas 
resistem às mudanças sociais? Que mudanças poderão advir das tecnologias do 
futuro? E quais foram os efeitos negativos das mudanças tecnológicas radicais 
do século passado? Examinaremos o processo de mudança social, com ênfase 
especial no impacto dos avanços tecnológicos. Começaremos com os movimentos 
sociais – esforços coletivos para efetuar mudanças sociais propositais. Depois, 
discutiremos a mudança social imprevista que ocorre quando inovações, 
como novas tecnologias, englobam a sociedade. Os esforços para explicar essas 
mudanças sociais de longo prazo levaram à elaboração de teorias sobre a 
72
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
mudança. Analisaremos as abordagens evolucionária, funcionalista e do conflito 
da mudança. Veremos como grupos interessados em manter o seu poder tentam 
bloquear mudanças que consideram ameaçadoras. Os vários aspectos do nosso 
futuro tecnológico, como a internet e a biotecnologia, também serão analizados. 
Examinaremos os efeitos dos avanços tecnológicos sobre a cultura e a interação 
social, o controle social e a estratificação e a desigualdade social. Juntos, os 
impactos dessas mudanças tecnológicas podem estar aproximando-se de um 
grau de magnitude comparável ao da Revolução Industrial. Por fim, na seção 
de política social discutiremos as formas pelas quais as mudanças tecnológicas 
intensificaram as preocupações com a privacidade e a censura.
2 MOVIMENTOS SOCIAIS
Embora fatores como meio ambiente físico, população, tecnologia e 
desigualdade social sirvam como fontes de mudança, é o esforço coletivo das 
pessoas, organizado em movimentos sociais, que leva definitivamente a transfor- 
mações. Os sociólogos utilizam a expressão movimento social para se referir às 
atividades coletivas organizadas para efetuar ou enfrentar as mudanças básicas 
em um grupo ou uma sociedade existente (BENFORD, 1992). Herbert Blumer 
(1955, p. 19) reconheceu a importância especial dos movimentos sociais quando os 
definiu como “empreendimentos coletivos para definir uma nova ordem de vida”.
Em muitos países, incluindo os Estados Unidos, os movimentos sociais 
tiveram um impacto crucial sobre o curso da história e a evolução da estrutura 
social. Considere os atos dos abolicionistas, sufragistas, trabalhadores dos 
direitos civis e ativistascontra a guerra no Vietnã. Os membros de cada um desses 
movimentos sociais saíram dos canais tradicionais para provocar mudanças 
sociais, mas tiveram uma influência notável sobre a política pública. Esforços 
coletivos igualmente drásticos ajudaram a derrubar regimes comunistas de 
maneira, em grande parte, pacífica, em países que muitos observadores con- 
sideravam “imunes” a essas mudanças sociais (RAMET, 1991).
TÓPICO 6 | CIDADANIA E MOVIMENTOS SOCIAIS
73
UNI
“Ei, Bush/ Quem luta as suas guerras?/ Só as minorias e os pobres!” Os alunos do ensino 
médio de Los Angeles protestam contra a guerra no Iraque fazendo uma demonstração de 
apoio aos trabalhadores em greve de um supermercado em Eagle Rock, Califórnia. Na sua 
demonstração contra a guerra e a favor de práticas trabalhistas justas, o grupo, denominado 
“As Animadoras de Torcida Adolescentes Radicais”, ilustra a teoria da privação relativa dos 
movimentos sociais.
Embora os movimentos sociais pressuponham a existência de conflito, 
podemos analisar suas atividades do ponto de vista funcionalista. Mesmo 
quando não são bem-sucedidos, eles contribuem para a formação da opinião 
pública. Primeiro, as pessoas achavam que as idéias de Margaret Sanger e 
outras pioneiras defensoras do controle de natalidade eram radicais. Porém, 
hoje os contraceptivos estão amplamente disponíveis nos Estados Unidos. Além 
disso, os funcionalistas encaram os movimentos sociais como treinamento para 
os líderes da classe dirigente política. Chefes de Estado, como Fidel Castro, 
de Cuba, e Nelson Mandela, que presidiu a África do Sul, chegaram ao poder 
depois de atuarem como líderes de movimentos revolucionários. O polonês Lech 
Walesa, o russo Boris Yeltsin e o autor de teatro tcheco Vaclav Havel lideraram 
movimentos de protesto contra o domínio comunista e depois se tornaram 
líderes dos governos de seus países.
Como e por que surgem os movimentos sociais? Obviamente, as pessoas, 
muitas vezes, estão desconten-tes com a maneira como as coisas estão. Mas o 
que as faz se organizarem em determinado momento em um esforço coletivo de 
provocar mudanças? Os sociólogos se baseiam em duas explicações do motivo 
pelo qual as pessoas se mobilizam: as abordagens da relativa privação e da 
mobilização de recursos.
74
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
3 PRIVAÇÃO RELATIVA
Os membros de uma sociedade que se sentem frustrados e descontentes 
com as condições sociais e econômicas não estão necessariamente, do ponto de 
vista objetivo, em uma situação ruim. Os cientistas sociais há tempos reconhecem 
que o mais importante é como as pessoas percebem a sua situação. Como assinalou 
Karl Marx, a miséria dos trabalhadores foi importante para que percebessem a 
opressão que sofriam, tendo em vista a sua posição em relação à classe capitalista 
dominante (MARX E ENGELS [1847] 1955).
A expressão privação relativa é definida como a sensação consciente de 
uma discrepância negativa entre as expectativas legítimas e a realidade presente 
(John WILSON, 1973). Em outras palavras, as coisas não vão tão bem quanto você 
esperava que fossem. Esse tipo de situação pode ser caracterizado por escassez e 
não por uma ausência completa das necessidades (como vimos na distinção entre 
pobreza absoluta e pobreza relativa no Capítulo 9). Uma pessoa relativamente 
carente está insatisfeita porque se sente oprimida em relação a algum grupo 
de referência adequado. Consequentemente, os operários que vivem em casas 
bifamiliares (geminadas) em pequenos pedaços de terra – embora não estejam 
na parte mais baixa da escala social – podem sentir-se privados em relação aos 
gerentes de empresas e aos profissionais que moram em casas suntuosas em 
subúrbios de elite.
Além da sensação de relativa privação, dois outros elementos têm de estar 
presentes antes de o descontentamento ser canalizado para um movimento social. 
As pessoas precisam sentir que têm direito a seus objetivos, que merecem coisa 
melhor do que aquilo que possuem. Por exemplo, a luta contra o colonialismo 
europeu na África se intensificou quando uma quantidade cada vez maior de 
africanos decidiu que era legítimo ter independência política e econômica. Ao 
mesmo tempo, o grupo menos favorecido tem de sentir que não pode atingir 
suas metas por meios convencionais. Essa crença pode ser ou não correta. Em 
ambos os casos, o grupo não irá mobilizar-se em um movimento social se não 
houver uma percepção compartilhada de que os seus membros só podem acabar 
com a sua privação por intermédio de uma ação coletiva (MORRISON, 1971).
Os críticos dessa abordagem observaram que as pessoas não têm de se 
sentir privadas de algo para serem impelidas a agir. Além disso, essa abordagem 
não explica por que determinadas sensações de privações se transformam em 
movimentos sociais enquanto em outras sensações semelhantes não se faz um 
esforço coletivo para remodelar a sociedade. Como decorrência, nos últimos 
anos, os sociólogos vêm dando cada vez mais atenção às forças necessárias para 
provocar o surgimento de movimentos sociais (ALAIN, 1985; FINKEL; RULE, 
1987; ORUM, 1980)
TÓPICO 6 | CIDADANIA E MOVIMENTOS SOCIAIS
75
4 MOBILIZAÇÃO DE RECURSOS
É preciso mais do que desejo para dar início a um movimento social. Ter 
dinheiro, influência política, acesso aos meios de comunicação e pessoal ajuda. 
A expressão mobilização de recursos se refere às maneiras como um movimento 
social utiliza esses recursos. O êxito de um movimento por mudanças depende 
em grande parte de seus recursos e de quão eficazmente ele os utiliza (ver 
também Gamson, 1989; Staggenborg, 1989a, 1989b).
O sociólogo Anthony Oberschall (1973, p. 199) argumenta que, para 
sustentar um protesto ou uma resistência social, é preciso que haja “uma base 
organizada e continuidade de liderança”. Quando as pessoas decidem participar 
de um movimento social, surgem regras que orientam o seu comportamento. 
Pode-se esperar que os membros do movimento participem de reuniões regula-
res de organizações, paguem taxas, recrutem novos participantes e boicotem 
produtos ou locutores do “inimigo”. Um movimento social emergente pode 
fazer surgir uma linguagem especial ou novas palavras para termos/ex-pressões 
familiares. Nos últimos anos, os movimentos sociais vêm sendo responsáveis por 
novos termos/expressões de auto-referência, como negros e afro-americanos (para 
substituir crioulos), cidadãos seniores (para substituir idosos), gays (para substituir 
homossexuais) e pessoas portadoras de deficiências (para substituir deficientes).
A liderança é o fator central na mobilização dos descontentes em 
movimentos sociais. Geralmente, um movimento é liderado por uma figura 
carismática, como o Dr. Martin Luther King Jr. Como descreveu Max Weber em 
1904, carisma é aquela qualidade de alguém que o destaca das pessoas comuns. 
Evidentemente, o carisma pode desvanecer abruptamente, o que ajuda a explicar 
a fragilidade de determinados movimentos sociais (MORRIS, 2000).
Porém, muitos movimentos sociais persistem por longos períodos de 
tempo porque a sua liderança é bem organizada e contínua. Ironicamente, como 
observou Robert Michels (1915), os movimentos sociais que lutam por mudanças 
sociais acabam assumindo alguns dos aspectos da burocracia contra a qual se 
organizaram para protestar. Os líderes tendem a dominar o processo de tomada 
de decisões sem consultar seus seguidores. No entanto, a burocratização dos 
movimentos sociais não é inevitável. Movimentos mais radicais, que defendem 
importantes mudanças estruturais em uma sociedade e adotam ações de massa, 
tendem a não ser hierárquicos ou burocráticos Fitzgerald e Rodgers (2000).
Atualmente, o Movimento dos Sem-Terra (MST) é o o movimento social 
mais radical no Brasil ao reivindicar uma ampla distribuição de terras em todo o 
território nacional. Seus métodos de ação são também radicais, pois os membros 
entram em conflito direto com fazendeiros, invadem propriedades, queimam e 
destroem benfeitorias e destroemas plantações, desrespeitando a instituição da 
propriedade privada e exigindo desapropriações mesmo de terras produtivas. 
76
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
A reforma agrária está em processo no País e seus resultados até agora não têm 
sido promissores, já que as famílias assentadas produzem muito pouco por 
falta de instrumentos de trabalho, insumos básicos e, muitas vezes, por falta de 
conhecimento porque o recrutamento dos membros do MST admite desempre-
gados das cidades e não apenas aqueles com tradição no – ou originalmente do 
– trabalho rural.
Por que determinadas pessoas se associam a um mo-vimento social 
e outras que estão em situação semelhante não o fazem? Algumas delas 
são recrutadas para fazer parte. Karl Marx reconheceu a importância do 
recrutamento quando convocou os trabalhadores a se conscientizarem do seu 
status de oprimidos e criarem uma consciência de classe. Como os teóricos da 
abordagem da mobilização de recursos, Marx argumentava que um movimento 
social (especificamente, a revolta do proletariado) iria requerer que os líderes 
aguçassem a consciência dos oprimidos. Eles teriam de ajudar os trabalhadores 
a superar a sensação de falsa consciência, ou atitudes que não refletem a sua 
posição objetiva, para organizar um movimento revolucionário. Da mesma 
maneira, um dos desafios enfrentados pelas atividades do movimento de 
liberação feminina do final da década de 1960 e início da de 1970 era convencer 
as mulheres de que estavam sendo privadas de seus direitos e de recursos sociais 
valorizados socialmente.
Mesmo em movimentos que surgem praticamente de um dia para o outro 
em resposta a eventos como uma guerra impopular, os recrutadores têm um 
papel importante. Durante a Guerra do Iraque em 2003, organizadores externos 
ajudaram a inflamar os protestos estudantis.
5 O SEXO E OS MOVIMENTOS SOCIAIS 
Os sociólogos destacam que o sexo é um elemento importante na 
compreensão dos movimentos sociais. Na nossa sociedade dominada pelos 
homens, as mulheres têm mais dificuldade do que eles de assumirem cargos 
de liderança em organizações de movimentos sociais. Embora, muitas vezes, as 
mulheres trabalhem desproporcionalmente como voluntárias nesses movimentos, 
o seu trabalho não é sempre reconhecido nem suas vozes são ouvidas com 
tanta facilidade quanto a dos homens. Além disso, a tendência sexual faz que a 
extensão real da influência das mulheres seja ignorada. A análise tradicional do 
sistema sociopolítico tende a se concentrar em corredores do poder dominados 
pelos homens, como as legislaturas e diretorias de empresas, em detrimento de 
domínios mais femininos, como casas, grupos comunitários e redes baseadas na 
fé. Porém, os esforços para influenciar valores familiares, a criação de filhos, a 
relação entre pais e escolas e os valores espirituais são claramente importantes 
para uma cultura e para a sociedade (FERREE; MERRILL, 2000; NOONAN, 
1995).
TÓPICO 6 | CIDADANIA E MOVIMENTOS SOCIAIS
77
Os estudiosos dos movimentos sociais hoje se dão conta de que o sexo 
pode afetar até a maneira como vemos os esforços organizados para provocar 
ou enfrentar as mudanças. Por exemplo, a ênfase na utilização da racionalidade 
e da lógica fria para atingir metas ajuda a obscurecer a importância da paixão e 
da emoção nos movimentos sociais bem-sucedidos. Seria difícil encontrar algum 
movimento – das lutas dos trabalhadores pelos direitos de votar aos embates 
pelos direitos dos animais – no qual a paixão não tenha sido parte da força 
criadora do consenso. As convocações para um estudo mais sério do papel da 
emoção frequentemente são vistas como aplicáveis apenas aos movimentos das 
mulheres, pois a emoção é tradicionalmente considerada algo feminino (FERREE; 
MERRILL, 2000; TAYLOR, 1995).
6 NOVOS MOVIMENTOS SOCIAIS
No final da década de 1960, os cientistas sociais europeus observaram 
uma mudança tanto na composição quanto nas metas dos movimentos sociais 
que estavam surgindo. Anteriormente, os movimentos sociais tradicionais se 
concentravam nas questões econômicas, e eram liderados por sindicatos ou 
por pessoas que tinham a mesma profissão. No entanto, muitos movimentos 
sociais que se tornaram ativos nas últimas décadas – incluindo o movimento 
contemporâneo das mulheres – não têm as raízes de classe social típicas dos 
protestos de trabalhadores nos Estados Unidos e na Europa no século passado 
(TILLY, 1993).
A expressão novos movimentos sociais se refere a atividades coletivas 
organizadas que abordam valores e identidades sociais, bem como melhorias 
na qualidade de vida. Esses movimentos podem estar envolvidos na criação de 
identidades coletivas. Muitos deles têm agendas complexas que vão além de 
uma única questão e às vezes até ultrapassam as fronteiras nacionais. Pessoas 
educadas de classe média são representadas de maneira significativa em alguns 
desses novos movimentos sociais, como o das mulheres e o movimento pelos 
direitos dos gays e lésbicas.
Os novos movimentos sociais geralmente não veem o governo com um 
aliado na luta por uma sociedade melhor. Embora eles via de regra não tentem 
derrubar o governo, podem criticar, protestar ou importunar seus representantes. 
Os pesquisadores descobriram que os membros dos novos movimentos sociais 
apresentam pouca inclinação para aceitar a autoridade estabelecida, até mesmo 
a autoridade científica ou técnica. Essa característica está mais evidente nos 
movimentos ambientais e antienergia nuclear, cujos ativistas apresentam os 
seus próprios peritos para se oporem aos do governo ou das grandes empresas 
(GARNER, 1996; POLLETTA; JASPER, 2001; SCOTT, 1990).
78
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
O movimento ambiental é um dos novos movimentos com um foco 
mundial. Em seus esforços para reduzir a poluição do ar e da água, reduzir o 
aquecimento global e proteger espécies animais em perigo de extinção, os 
ativistas ambientais perceberam que medidas regulamentadoras rígidas em 
um único país não são suficientes. Da mesma maneira, os líderes sindicais e 
defensores dos direitos humanos não podem abordar as condições de exploração 
das oficinas em um país em desenvolvimento se uma empresa multinacional 
é capaz de simplesmente transferir a fábrica para um outro país onde os 
trabalhadores ganham menos ainda. Enquanto as teorias tradi-cionais sobre os 
movimentos sociais tendiam a enfatizar a mobilização de recursos em âmbito 
local, a teoria do novo movimento social oferece uma perspectiva mais ampla e 
global sobre o ativismo social e político.
7 TEORIAS DE MUDANÇAS SOCIAIS
O novo milênio nos dá a chance de apresentar explicações para 
as mudanças sociais, que definimos como uma mudança significativa com 
o decorrer do tempo nos padrões de comportamento e na cultura. Essas 
explicações evidentemente são um desafio no mundo diversificado e complexo 
no qual vivemos. Mesmo assim, os teóricos de várias disciplinas vêm tentando 
analisar as mudanças sociais. Em alguns casos, analisaram acontecimentos 
históricos para entender melhor as mudanças contem-porâneas. Vamos revisar 
três teorias sobre a mudança – a evolucionista, a funcionalista e a do conflito – e 
depois examinaremos as mudanças mundiais.
 Contribuições para a teoria do movimento social
UNI
Abordagem Ênfase
Abordagem da privação relativa Os movimentos socia is têm grande 
probabilidade de surgir quando as expectativas 
crescentes são frustradas.
Abordagem da mobilização de recursos 
Teoria do novo movimento social
O êxito dos movimentos sociais depende de 
quais recursos estão disponíveis e de quão 
eficazmente são utilizados.
Os movimentos sociais surgem quando as 
pessoas estão motivadas por questões de valor 
e identidade social.
TÓPICO 6 | CIDADANIA E MOVIMENTOS SOCIAIS
79
8 TEORIA EVOLUCIONISTA
O trabalho pioneiro de Charles Darwin (1809-1882) a respeito da 
evolução biológica contribuiu para as teorias sobre mudanças sociais do século 
XIX. A abordagem de Darwinenfatiza uma progressão contínua de formas de 
vida sucessivas. Por exemplo, os seres humanos apareceram depois dos répteis 
na evolução e representam uma forma de vida mais complexa. Na busca de uma 
analogia com esse modelo biológico, os teóricos sociais deram origem à teoria 
evolucionista, na qual a sociedade é vista como caminhando em uma direção 
definida. Os primeiros teóricos evolucionistas concordavam que a sociedade 
estava progredindo inevitavelmente para um estado mais elevado. Como era de 
se esperar, concluíram, à moda etnocêntrica, que seus próprios comportamento e 
cultura eram mais avançados do que das civilizações anteriores.
Augusto Comte (1798-1857), um dos fundadores da sociologia, foi 
um teórico evolucionista das mudanças. Ele via as sociedades humanas como 
avançando da mitologia para o método científico na sua maneira de pensar. Da 
mesma maneira, Émile Durkheim ([1893] 1933) argumentou que a sociedade 
evoluía de formas simples para formas mais complexas de organização social.
As obras de Comte e Durkheim são exemplos da teoria evolucionista 
unilinear. Esta abordagem afirma que todas as sociedades passam pelas mesmas 
fases sucessivas de evolução e inevitavelmente atingem o mesmo fim. O sociólogo 
inglês Herbert Spencer (1820-1903) utilizou uma abordagem semelhante: igualou 
a sociedade a um corpo vivo cujas partes interligadas caminhavam para um 
destino comum. No entanto, os teóricos evolucionistas contemporâneos, como 
Gerhard Lenski, têm mais probabilidade de considerar as mudanças sociais 
como multilineares do que se basearem na perspectiva unilinear mais limitada. 
A teoria evolucionista multilinear defende que as mudanças podem ocorrer de 
várias maneiras e não levam inevitavelmente à mesma direção (HAINES, 1988; 
TURNER, 1985).
Os adeptos da teoria multilinear reconhecem que a cultura humana 
evoluiu ao longo de várias linhas. Por exemplo, a teoria da transição 
demográfica demonstra graficamente que a mudança na população nos países 
em desenvolvimento não seguiu necessariamente o modelo evidente nos países 
industrializados. Os sociólogos hoje argumentam que os acontecimentos não 
seguem uma ou mesmo várias linhas retas, em vez disso, estão sujeitos a rupturas 
– um tópico que analisaremos mais adiante na nossa discussão das mudanças 
sociais mundiais.
80
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
9 TEORIA FUNCIONALISTA
Como os sociólogos funcionalistas se concentram naquilo que mantém um 
sistema e não no que o muda, aparentemente contribuem pouco para o estudo 
das mudanças sociais. Entretanto, como demonstra o trabalho do sociólogo 
Talcott Parsons, os funcionalistas fizeram uma contribuição singular para essa 
área da investigação sociológica.
Parsons (1902-1979), um dos principais proponentes da teoria 
funcionalista, via a sociedade como estando em um estado natural de equilíbrio. 
Com “equilíbrio” ele queria dizer que a sociedade tende para um estado de 
estabilidade. Parsons via até as greves prolongadas de trabalhadores ou motins 
civis como transtornos temporários no status quo e não como alterações signifi-
cativas na estrutura social. Consequentemente, de acordo com o seu modelo 
de equilíbrio, à medida que ocorrem mudanças em uma parte da sociedade, 
é preciso fazer ajustes em outras partes. Se isso não acontecer, o equilíbrio da 
sociedade estará ameaçado e ocorrerão tensões.
Refletindo sobre a abordagem evolucionista, Parsons (1966) defendia que 
quatro processos de mudanças sociais são inevitáveis. O primeiro, a diferenciação, 
refere-se à complexidade cada vez maior da organização social. A transição 
do “homem de medicina” para médico, enfermeira e farmacêutico ilustra a 
diferenciação na área de saúde. Esse processo é acompanhado pelo de atualização 
adaptativa, no qual as instituições sociais se tornam mais especializadas em 
seus fins. A divisão dos médicos em obstetras, residentes, cirurgiões etc. é um 
exemplo de atualização adaptativa.
O terceiro processo que Parsons identificou é da inclusão de grupos 
excluídos anteriormente por causa de seu sexo, sua raça, etnia e seu histórico 
de classe social. As escolas de medicina praticaram a inclusão admitindo uma 
quantidade cada vez maior de mulheres e negros. Por fim, Parsons argumenta 
que as sociedades passam por uma generalização de valores, ou seja, a criação 
de novos valores que toleram e legitimam uma gama maior de atividades. A 
aceitação das medicinas preventivas e alternativas é um exemplo de generalização 
de valores: a sociedade ampliou a sua visão da área de saúde. Todos os quatro 
processos identificados por Parsons enfatizam o consenso – a concordância da 
sociedade quanto à natureza da organização social e dos valores (JOHNSON, 
1975; WALLACE; WOLF, 1980).
Embora a abordagem de Parsons incorpore explicitamente o conceito 
evolucionista do progresso contínuo, o tema dominante em seu modelo é o 
equilíbrio e a estabilidade. A sociedade pode mudar, mas continua estável 
mediante novas formas de integração. Por exemplo, no lugar dos elos de 
parentesco que propiciavam a coesão social no passado, as pessoas criaram leis, 
processos judiciais e novos sistemas de valores e de crenças.
TÓPICO 6 | CIDADANIA E MOVIMENTOS SOCIAIS
81
UNI
Desde 1990, golfistas negros, como Tiger Woods, vêm sendo bem recebidos nos campos 
de golfe particulares mais exclusivos. A sua aceitação em enclaves antes exclusivamente 
de brancos, como o Augusta National Golf Club, sede do Torneio de Veteranos, ilustra o 
processo de inclusão descrito por Talcott Parsons. No entanto, esse processo está longe da 
conclusão. As mulheres ainda são impedidas de fazer parte do Augusta National e outros 
clubes de elite, independentemente de quão ricas ou bem-sucedidas sejam.
Os funcionalistas pressupõem que as instituições sociais só persistirão se 
continuarem a contribuir para a sociedade. Essa hipótese os leva a concluir que 
alterar drasticamente as instituições irá ameaçar o equilíbrio da sociedade. Os 
críticos observam que a abordagem funcionalista quase ignora o uso da coerção 
pelos poderosos para manter a ilusão de uma sociedade estável e bem integrada 
(GOULDNER, 1960).
10 TEORIA DO CONFLITO
A perspectiva funcionalista minimiza a importância da mudança, 
enfatiza a persistência da vida social e vê a mudança como uma forma de manter 
o equilíbrio de uma sociedade. Opostamente, os teóricos do conflito argumentam 
que as instituições e práticas sociais persistem porque grupos poderosos têm a 
capacidade de manter o status quo. A mudança tem uma importância crucial, já 
que é necessária para corrigir injustiças e desigualdades sociais.
82
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
Karl Marx aceitou o argumento evolucionista de que as sociedades se 
desenvolvem ao longo de uma determinada trilha. Mas, ao contrário de Comte e 
Spencer, não via cada uma das etapas sucessivas como uma melhoria inevitável 
da anterior. A história, segundo Marx, segue em frente por uma série de etapas, 
cada uma delas explorando uma classe de pessoas. A sociedade antiga explorava 
os escravos; o sistema feudal explorava os servos, e a sociedade capitalista 
moderna explora a classe trabalhadora. No fim, com a revolução socialista 
liderada pelo proletariado, a sociedade humana irá caminhar para a etapa final 
de desenvolvimento: uma sociedade comunista sem classe ou “comunidade de 
indivíduos livres”, como Marx a descrevia em Das Kapital (O capital) em 1867 
(ver Bottomore e Rubel, 1956, p. 250).
Como vimos, Marx teve uma influência importante no desenvolvimento 
da sociologia. A sua maneira de pensar nos proporcionou insights sobre 
instituições, como economia, família, religião e governo. A visão marxista das 
mudanças sociais é atraente porque não restringe as pessoas ao papel passivo na 
reação aos ciclos inevitáveis ou às mudanças na cultura material. Em vez disso, 
a teoria marxista oferece uma ferramenta para aqueles que querem apoderar-
se do controle do processo histórico e libertar-seda injustiça. Ao contrário da 
ênfase dos funcionalistas na estabilidade, Marx argumenta que o conflito é um 
aspecto normal e desejável da mudança social. Na verdade, a mudança precisa 
ser incentivada como um meio de eliminar a desigualdade social (LAUER, 1982). 
Um teórico do conflito, Ralf Dahrendorf (1958), observou que o contraste 
entre a perspectiva funcionalista na estabilidade e o foco da teoria do conflito na 
mudança reflete a natureza contraditória da sociedade. As sociedades humanas 
são estáveis e duradouras, porém vivenciam graves conflitos. Dahrendorf 
descobriu que a abordagem funcionalista e a teoria do conflito no final eram 
compatíveis, apesar dos seus vários pontos de discordância. Na verdade, Parsons 
falou de novas funções que resultam das mudanças sociais e Marx reconheceu 
a necessidade de mudanças para que as sociedades pudessem atuar de uma 
maneira mais igualitária.
11 MUDANÇAS SOCIAIS MUNDIAIS
Estamos em um momento realmente crucial da história para analisar as 
mudanças sociais. Maureen Hallinan (1997), em seu discurso presidencial para a 
American Sociological Association, pediu aos presentes que pensassem apenas 
em alguns poucos acontecimentos políticos recentes: o colapso do comunismo; 
o terrorismo em várias partes do mundo, incluindo os Estados Unidos; as 
mudanças importantes de regimes e os problemas econômicos graves na África, 
no Oriente Médio e na Europa Oriental; a difusão da Aids; e a revolução do 
computador. Apenas alguns meses após suas observações, ocorreu a primeira 
clonagem de um animal complexo: a ovelha Dolly.
TÓPICO 6 | CIDADANIA E MOVIMENTOS SOCIAIS
83
Nessa era de grandes transformações sociais, políticas e econômicas em 
escala mundial, é possível prever mudanças? Algumas mudanças tecnológicas 
parecem evidentes, mas a queda de governos comunistas na antiga União 
Soviética e na Europa Oriental no início da década de 1990 pegou todo mundo 
de surpresa. Contudo, antes da queda da União Soviética, o sociólogo Randall 
Collins (1986, 1995), um teórico do conflito, observou uma sequência crucial de 
eventos que havia passado despercebida da maioria dos observadores.
Em seminários de 1980 e em um livro publicado em 1986, Collins havia 
argumentado que o expansionismo soviético resultara em uma superextensão 
de recursos, incluindo gastos desproporcionais com forças militares. Essa 
superextensão pressiona a estabilidade de um regime. Além disso, a teoria 
geopolítica sugere que os países no meio de uma região geográfica, como a União 
Soviética, tendem a se fragmentar em unidades menores com o decorrer do 
tempo. Collins previu que a coincidência das crises sociais em várias fronteiras 
iria precipitar o colapso da União Soviética.
E foi exatamente isso o que aconteceu. Em 1979, o êxito da revolução 
iraniana levou à explosão do fundamentalismo islâmico no vizinho Afeganistão, 
bem como nas repúblicas soviéticas com grandes populações muçulmanas. 
Ao mesmo tempo, a resistência ao domínio comunista aumentava em toda a 
Europa Oriental e dentro da própria União Soviética. Collins havia previsto que 
a ascensão de uma forma dissidente de comunismo dentro da União Soviética 
poderia facilitar o colapso do regime. No final dos anos 80, o líder soviético 
Mikhail Gorbachev optou por não utilizar forças militares e outros tipos de 
repressão para conter dissidentes na Europa Oriental. Em vez disso, apresentou 
UNI
A queda do regime totalitário de Saddam Hussein no Iraque, em 2003, foi uma das várias 
mudanças de regime que ocorreram no início do século XXI. Em uma sociedade global, essas 
mudanças afetam as pessoas no mundo todo e não em apenas um país.
84
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
planos para a democratização e reforma social da sociedade soviética e parecia 
disposto a remodelar a União Soviética em uma federação de estados mais ou 
menos independentes. Porém, em 1991, seis repúblicas da periferia ocidental 
declararam a sua independência e alguns meses depois toda a União Soviética 
havia formalmente se desintegrado na Rússia e em uma série de outros países 
independentes.
No seu discurso, Hallinan (1997) alertou que temos de ir além dos 
modelos restritivos da mudança social – a visão linear da teoria evolucionista 
e as hipóteses sobre o equilíbrio na teoria funcionalista. Ela e outros sociólogos 
recorreram à “teoria do caos” apresentada pelos matemáticos para entender os 
acontecimentos erráticos como parte da mudança. Hallinan observou que as 
grandes mudanças caóticas e revoluções ocorrem de fato e que os sociólogos 
precisam aprender a prever esses eventos, assim como Collins fez com a União 
Soviética. Por exemplo, imagine a impressionante mudança social não linear que 
resultaria de inovações nas comunicações e na biotecnologia – tópicos que serão 
abordados neste capítulo.
12 RESISTÊNCIA ÀS MUDANÇAS SOCIAIS
Os esforços para realizar mudanças sociais provavelmente irão encontrar 
resistência. No meio de rápidas inovações científicas e tecnológicas, muitas 
pessoas se assustam com as demandas de uma sociedade em constante trans-
formação. Além disso, determinados indivíduos e grupos têm interesse em 
manter o status quo.
O economista Thorstein Veblen (1857-1929) cunhou a expressão interesses 
investidos para se referir àquelas pessoas ou grupos que irão sofrer no caso de 
uma mudança social.
Por exemplo, a American Medical Association (AMA) assumiu posições 
firmes contra o seguro-saúde nacional e a profissionalização da obstetrícia. O 
seguro-saúde nacional poderia levar a limites nas rendas dos médicos e a elevação 
do status das parteiras poderia ameaçar a posição preeminente dos médicos 
como realizadores de partos. No geral, com uma parcela desproporcional 
da riqueza, do status e do poder da sociedade, esses membros da Associação 
Médica Norte-Americana têm interesse em preservar o status quo (STARR, 1982; 
VEBLEN, 1919).
13 FATORES ECONÔMICOS E CULTURAIS
Os fatores econômicos têm um papel importante na resistência às mu-
danças sociais. Para exemplificar, pode ser caro, para os fabricantes, atender 
altos padrões de segurança para os produtos, os trabalhadores e para a proteção 
do meio ambiente. Os teóricos do conflito argumentam que, em um sistema 
econômico capitalista, muitas empresas não estão dispostas a pagar o preço 
TÓPICO 6 | CIDADANIA E MOVIMENTOS SOCIAIS
85
UNI
“Não no meu quintal” NIMBY, dizem esses manifestantes, opondo-se 
à colocação de um novo incinerador em uma região de Highland Park, Michigan. O 
fenômeno NIMBY tornou-se tão comum que é quase impossível os elaboradores de 
políticas encontrarem localidades aceitáveis para incineradores, aterros e lixões de materiais 
perigosos.
para atender a padrões rígidos de segurança e ambientais. E podem resistir às 
mudanças sociais economizando ou pressionando o governo para amenizar as 
regulamentações.
As comunidades também defendem os seus inte-resses, muitas vezes em 
nome de “proteger valores de propriedade”. A abreviação NIMBY significa “não 
no meu quintal”, um grito ouvido muitas vezes quando as pessoas protestam 
contra aterros, prisões, instalações de usinas nucleares e até trilhas para bicicleta 
e casarios para pessoas portadoras de deficiências. A comunidade visada pode 
não questionar a necessidade das instalações, mas simplesmente insiste que 
sejam colocadas em outro lugar. A atitude do tipo “não no meu quintal” tornou-
se tão comum que é quase impossível, para os elaboradores de política, encontrar 
locais para instalações como lixões de materiais perigosos (JASPER, 1997).
Como os fatores econômicos, os fatores culturais frequentemente moldam 
a resistência às mudanças. William F. Ogburn (1922) fez uma diferenciação entre 
os aspectos materiais e imateriais da cultura. A cultura material inclui invenções, 
artefatos e tecnologia. A cultura imaterial engloba ideias, regras, comunicações 
e organização social. Ogburn assinalou que não é possível criar métodos para 
controlar e utilizar nova tecnologiaantes da introdução de uma técnica. Desse 
modo, a cultura imaterial normalmente tem de reagir a mudanças na cultura 
material. Ogburn introduziu a expressão hiato, atraso ou defasagem cultural 
para se referir ao período de inadaptação, quando a cultura imaterial ainda 
está lutando para se ajustar a novas condições materiais. Um exemplo disso é 
86
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
14 RESISTÊNCIA À TECNOLOGIA
Inovações tecnológicas são exemplos de mudanças na cultura material 
que provocam resistência.
UNI
Em Londres, uma mulher de telefone celular caminha por uma linha de cabines telefônicas 
obsoletas recicladas como arte ambiental. No mundo todo, as mudanças tecnológicas 
derrubaram os canais de comunicação estabelecidos, alterando as interações sociais 
cotidianas das pessoas no processo.
a Internet. O seu rápido crescimento descontrolado levanta questões quanto a 
regulamentá-la ou não e, em caso positivo, a extensão dessa regulamentação (ver 
seção sobre política social no final deste capítulo).
Em certos casos, as mudanças na cultura material podem tensionar as 
relações entre as instituições sociais. Por exemplo, nas últimas décadas, foram 
criados novos meios de controle de natalidade. Famílias grandes não são mais 
economicamente necessárias nem comumente aprovadas pelas regras sociais. 
Determinadas crenças religiosas, porém – entre elas o catolicismo apostólico 
romano –, continuam incentivando grandes famílias e desaprovando métodos 
de controle da natalidade, como a contracepção e o aborto. Essa questão 
representa um hiato entre os aspectos da cultura material (tecnologia) e a cultura 
imaterial (crenças religiosas). Também podem surgir conflitos entre a religião 
e outra instituição social, como o governo e o sistema educacional, quanto à 
disseminação do controle de natalidade e de informações sobre o planejamento 
familiar (RILEY et al., 1994a, 1994b).
TÓPICO 6 | CIDADANIA E MOVIMENTOS SOCIAIS
87
A Revolução Industrial, que ocorreu em grande parte na Inglaterra durante 
o período de 1760 a 1830, foi uma revolução científica que se concentrou na 
aplicação de fontes não animais de energia em tarefas operárias. À medida que 
essa revolução foi evoluindo, as sociedades começaram a depender de novas 
invenções que facilitassem a produção agrícola e industrial e de novas fontes 
de energia, como o vapor. Em algumas indústrias, a introdução de máquinas 
movidas a energia elétrica reduziu a necessidade de trabalhadores nas fábricas e 
tornou mais fácil, para os patrões, cortar salários.
Surgiu uma forte resistência à Revolução Industrial em alguns países. 
Na Inglaterra, começando em 1811, artesãos mascarados tomaram medidas 
extremas: organizaram ataques noturnos às fábricas e destruíram alguns dos 
novos equipamentos. O governo caçou esses rebeldes, conhecidos como luditas, 
e os submeteu a expulsão ou enforcamento. Em um esforço semelhante na 
França, trabalhadores irados jogaram os seus tamancos (sabots) nas máquinas 
da fábrica para destruí-las, o que deu origem ao termo sabotagem. E, embora a 
resistência dos ludistas e dos trabalhadores franceses tenha tido curta duração e 
sido malsucedida, acabou simbolizando resistência à tecnologia.
Estamos agora em uma segunda Revolução Industrial com um grupo 
contemporâneo de ludistas empenhados em resistir? Muitos sociólogos 
acreditam que vivemos em uma sociedade pós-industrial. É difícil apontar 
exatamente quando essa era começou. Em geral, ela é considerada como tendo 
início na década de 1950, quando pela primeira vez a maioria dos trabalhadores 
de sociedades industriais passou a se envolver também com serviços em vez de 
apenas na efetiva produção de bens (BELL, 1999; FIALA, 1992).
Assim como os ludistas resistiram à Revolução Industrial, as pessoas 
em vários países resistiram às mudanças tecnológicas pós-industriais. O termo 
neoludistas se refere àqueles que desconfiam das inovações tecnológicas e que 
questionam a expansão incessante da industrialização, a destruição cada vez 
maior do mundo natural e agrário e a mentalidade de “jogar fora” do capitalismo 
moderno, com a sua resultante poluição do meio ambiente. Os neoludistas 
insistem que quaisquer que sejam os supostos benefícios da tecnologia industrial 
e pós-industrial, essa tecnologia tem custos sociais próprios e pode representar 
um perigo para o futuro da espécie humana e para o nosso planeta (BAUERLEIN, 
1996; RIFKIN, 1995b; SALE, 1996; SNYDER, 1996).
Vale a pena lembrar dessas preocupações quando nos voltarmos para o 
nosso futuro tecnológico e o seu possível impacto sobre as mudanças sociais.
88
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
Tecnologia é um conjunto de informações culturais sobre como utilizar 
os recursos materiais do meio ambiente para satisfazer as necessidades e os 
desejos humanos. Os avanços tecnológicos – o avião, o carro, a televisão, a 
bomba atômica e, mais recentemente, o computador, o fax e o telefone celular 
– provocaram mudanças extraordinárias em nossa cultura, nossos padrões de 
socialização, nossas instituições sociais e nossas interações sociais cotidianas. 
As inovações tecnológicas, na verdade, estão surgindo e sendo aceitas a uma 
velocidade incrível.
Nas seções a seguir, examinaremos os vários aspectos do nosso futuro 
tecnológico e analisaremos o seu impacto sobre as mudanças sociais, incluindo a 
pressão social que provocarão. Focaremos particularmente os desenvolvimentos 
recentes em informática e biotecnologia.
15.1 INFORMÁTICA
A década passada foi testemunha de uma explosão de informática nos 
Estados Unidos e em todo o mundo. Os seus efeitos são particularmente dignos 
de nota no tocante à Internet, a maior rede de computadores do mundo. Estimou-
se que em 2005 a Internet atingiria 1,1 bilhão de usuários de computador, contra 
apenas 50 milhões em 1996 (GLOBAL REACH, 2004).
15 A TECNOLOGIA E O FUTURO
89
RESUMO DO TÓPICO 6
 Neste tópico, você aprendeu que:
• Embora fatores como meio ambiente físico, população, tecnologia e 
desigualdade social sirvam como fontes de mudança, é o esforço coletivo 
das pessoas, organizado em movimentos sociais, que leva definitivamente a 
transformações.
• Os sociólogos utilizam a expressão movimento social para se referir às 
atividades coletivas organizadas para efetuar ou enfrentar as mudanças 
básicas em um grupo ou uma sociedade existente
• A expressão privação relativa é definida como a sensação consciente de uma 
discrepância negativa entre as expectativas legítimas e a realidade presente. 
Em outras palavras, as coisas não vão tão bem quanto você esperava que 
fossem. Esse tipo de situação pode ser caracterizado por escassez e não por 
uma ausência completa das necessidades.
• É preciso mais do que desejo para dar início a um movimento social. Ter 
dinheiro, influência política, acesso aos meios de comunicação e pessoal ajuda. 
• A expressão mobilização de recursos se refere às maneiras como um 
movimento social utiliza esses recursos. O êxito de um movimento por 
mudanças depende em grande parte de seus recursos e de quão eficazmente 
ele os utiliza.
• A expressão novos movimentos sociais se refere a atividades coletivas 
organizadas que abordam valores e identidades sociais, bem como melhorias 
na qualidade de vida. Esses movimentos podem estar envolvidos na criação de 
identidades coletivas. Muitos deles têm agendas complexas que vão além de 
uma única questão e às vezes até ultrapassam as fronteiras nacionais. Pessoas 
educadas de classe média são representadas de maneira significativa em 
alguns desses novos movimentos sociais, como o das mulheres e o movimento 
pelos direitos dos gays e lésbicas.
• Os novos movimentos sociais geralmente não veem o governo com um 
aliado na luta por uma sociedade melhor. Embora eles não tentem derrubar o 
governo, podem criticar, protestar ou importunar seus representantes.
• Existem três teorias sobre a mudança – a evolucionista, a funcionalista e a do 
conflito – e depoisexaminaremos as mudanças mundiais.
90
1 Os novos movimentos sociais são diferentes das ações coletivas de antes, 
por eles politizarem a esfera privada e tornarem públicas as problemáticas 
das minorias sociais. De acordo com essa afirmação e com os conteúdos 
apresentados em Dica do Professor, dentre esses movimentos, destacam-se 
aqueles que:
a) ( ) Determinam a opinião pública sobre as questões ecológicas.
b) ( ) Produzem discussões locais e regionais, não abarcando questões 
globais.
c) ( ) Se desenvolvem a partir do controle do Estado e dos partidos políticos.
d) ( ) Envolvem negros, indígenas, sem-terra e sem-teto.
e) ( ) Realizam pressão política, apoiando contestação da política econômica, 
e lutam por melhores salários.
2 (UNICENTRO, 2012) "A vida política não acontece apenas dentro do 
esquema ortodoxo dos partidos políticos, da votação e da representação em 
organismos legislativos e governamentais. O que geralmente ocorre é que 
alguns grupos percebem que esse esquema impossibilita a concretização de 
seus objetivos ou ideais, ou mesmo os bloqueia efetivamente [...]. Às vezes, 
a mudança política e social só pode ser realizada recorrendo-se a formas 
não ortodoxas de ação política" (GIDDENS, 2012, p. 356-357).
De acordo com Giddens e também a partir do conteúdo apresentado em Dica 
do Professor, há um tipo comum de atividade política não ortodoxa, que 
busca promover um interesse comum ou assegurar uma meta comum através 
de ações fora das esferas institucionais, que se chama:
a) ( ) Interação social.
b) ( ) Mobilidade lateral.
c) ( ) Movimento social.
d) ( ) Princípio preventivo.
e) ( ) Movimento de acomodação urbana.
AUTOATIVIDADE
91
TÓPICO 7
MOVIMENTOS SOCIAIS E DIREITOS HUMANOS
UNIDADE 1
1 INTRODUÇÃO
Neste tópico estudaremos o conceito de Estado, sociedade e direitos 
humanos; a história e a evolução dos direitos humanos no Brasil; e o papel dos 
movimentos sociais em defesa dos direitos humanos.
2 ESTADO, SOCIEDADE E DIREITOS HUMANOS
A seguir, veremos brevemente os conceitos de Estado, sociedade e 
direitos humanos e como eles estão relacionados à questão dos direitos humanos.
2.1 ESTADO
O Estado é uma organização social soberana que possui poder supremo 
sobre os indivíduos em uma sociedade, tendo legitimidade para exercê-
lo, inclusive com a força física, se necessária for. Dessa forma, entende-se 
que somente as organizações estatais são reconhecidas pelo povo para ditar 
regras que todos devem seguir e possuem autoridade e poder para regular o 
funcionamento da sociedade em um território. O exercício do poder ao qual 
se refere é a capacidade de o Estado influenciar a ação e o comportamento das 
pessoas, de forma decisiva. Apesar das características citadas, definir Estado não 
é fácil, uma vez que na ciência política sua definição ainda é imprecisa, levando 
as pessoas a confundirem Estado com governo, país, regime político ou sistema 
econômico.
O conceito de Estado é dinâmico, porém, pode-se dizer que desde sua 
origem até os dias atuais certos aspectos prevalecem, como a existência do 
território e do povo. Alguns autores afirmam que o conceito de Estado não é 
universal, servindo apenas para indicar e descrever uma forma de ordenamento 
político. O que se pode afirmar é que “o Estado não admite concorrência e exerce 
de forma monopolista o poder político, que é o poder supremo nas sociedades 
contemporâneas” (COELHO, 2009, p. 16). Nesse contexto, Estado e poder são 
termos que não se dissociam. O Estado tem três funções fundamentais, das quais 
decorrem todas as suas ações (COELHO, 2009).
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
92
• Legislativa: elabora as leis e o ordenamento jurídico, necessários à vida em 
sociedade.
• Executiva: assegura que as leis sejam cumpridas.
• Judiciária: julga a adequação ou não dos atos particulares sob as leis existentes.
Em qualquer sociedade humana existe uma ordem jurídica e um poder 
político, que na verdade trata-se de um poder jurídico, uma vez que sua legitimidade é 
reconhecida pela ordem jurídica, fazendo-se obedecer por meio de normas jurídicas pelas 
quais exerce a dominação estatal (COELHO, 2009).
ATENCAO
2.2 SOCIEDADE
A sociedade pode ser caracterizada por um grupo de pessoas que 
compartilham a mesma cultura e as tradições e se localizam no mesmo tempo e 
espaço. Todo homem está concentrado na sociedade em que está inserido, sendo 
influenciado por ela em sua formação como indivíduo. A sociedade humana 
surgiu com a finalidade de atender as suas necessidades, pois desde os primórdios 
o ser humano precisa de ajuda para sobreviver e tem a tendência e a necessidade 
de viver em grupo para se desenvolver, o que faz a sociedade ser considerada 
uma rede de relações entre indivíduos, grupos sociais e organizações. Essas 
relações são chamadas de relações sociais, a base da existência da sociedade, 
a qual é construída diariamente por meio da organização social e da parti- 
cipação individual, que definem, de forma ativa, o seu modelo de referência para 
determinado grupo de pessoas.
Por ter a capacidade de organização e cumprimento de normas, vive-se 
em sociedade, na qual a relação estabelecida se constitui por constantes trocas, 
não apenas sob a lógica do lucro, mas também sob a forma simbólica, por meio da 
criação e manutenção de laços de solidariedade que dão significado à sociedade. 
Dessa forma, o comportamento humano é permeado por grande complexidade, 
em que os indivíduos são influenciados pelo meio em que vivem, formando-
se e agindo conforme sua formação, influenciando também a sociedade. O 
comportamento das pessoas sofre influências culturais e históricas, e, para que 
possam se desenvolver, elas têm como referência o comportamento ditado pela 
sociedade.
Quando se fala em sociedade, não se pode deixar de mencionar a 
sociedade civil, que é a forma como ela se organiza politicamente para influenciar 
TÓPICO 7 | MOVIMENTOS SOCIAIS E DIREITOS HUMANOS
93
o Estado e suas políticas públicas. Não é fácil conceituar sociedade civil, uma vez 
que ela possui grande diversidade de significados e é produto de uma construção 
histórica, cultural, geográfica, social e política, sofrendo variações à medida que 
mudam os autores, as épocas, os contextos históricos e as perspectivas políticas 
que a influenciam e a enriquecem (LAVALLE, 1999; SCHOLTE, 2002).
A sociedade civil é uma parte importante da história, uma vez que 
abrange uma dimensão ampla da vida social. No Brasil, sua reorganização foi 
estimulada pela rápida urbanização quando deslocou pessoas de baixa renda 
do campo para as cidades urbanas, em locais onde os serviços públicos eram 
incipientes, o que as fez se organizarem para lutar por eles (SANTOS, 1979; 
CALDEIRA, 2000); e pela modernização econômica do país, que transformou 
as políticas de planejamento urbano, saúde e educação em questões tecnocrá- 
ticas, fazendo os atores de classe média (economistas, médicos, advogados, 
professores universitários) reagirem a esse projeto, organizando meios de ação 
coletiva e associação para disputar os elementos tecnocráticos (BOSCHI, 1987; 
ESCOREL, 1999; AVRITZER, 2002).
A liberdade, a justiça e a proteção do ambiente, bem como a ideia da 
divisão em classes sociais, grupos de interesse e indivíduos centrados na própria 
realização, são alguns dos objetivos universais da sociedade civil, na qual 
todos os membros correspondem ao seu capital, ao seu conhecimento e à sua 
capacidade de se organizar e se comunicar. Nesse contexto, as pessoas se unem 
de modo voluntário em torno de valores ou iniciativas com objetivos específicos, 
geralmente na forma de organizações, associações, institutos, fundações etc. 
Pode-se entender a sociedade civil como o local em que a sociedade e o Estado 
interagem socialmente por meio das famílias, associações, movimentos sociais e 
meios de comunicação pública (TESSMANN, 2007).
Na sociedade civil, os conflitos acontecem e precisam ser administrados 
pelo Estado.Nesse contexto, ela atua como uma organização de interesses 
materiais e ideais; já o Estado como a organização da autoridade, sendo que 
ambos são indivisíveis e interdependentes. No entanto, o motor da história 
é a sociedade civil, que firma seu papel em lutas sociais, criação de consenso 
e ampliação do Estado, pois quanto maior for a organização popular em uma 
sociedade, maior é a chance de o Estado se ampliar, no sentido de abarcar os 
interesses da coletividade. Dessa forma, a relação entre eles pode garantir as 
condições necessárias para enfrentar, romper e construir uma nova ordem social, 
que possibilite ao Estado acolher as demandas da sociedade organizada.
Nesse contexto, a participação social é fundamental, uma vez que 
contribui para a construção do consenso em relação ao interesse público, 
orientando o Estado no atendimento às demandas da sociedade, sejam públicas 
ou privadas. O atendimento a essas demandas configura-se como forma de 
legitimação do Estado, porque quanto maior for a capacidade de resposta às 
demandas da população, mais ele se tornará legítimo como agente de regulação 
social, apesar de sua essência política (BEZERRA, 2016).
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
94
2.3 DIREITOS HUMANOS
Pode-se entender os direitos humanos como aqueles inerentes ao ser 
humano, como o direito à vida e à liberdade, à liberdade de opinião e expressão, 
ao trabalho e à educação, entre outros, independentemente de raça, sexo, nacio- 
nalidade, etnia, idioma, religião, opinião política ou qualquer outra condição, 
por exemplo, origem social ou nacional, ou condição de nascimento ou riqueza. 
Todos possuem direitos, sem discriminação. Eles são garantidos por lei e visam 
proteger os indivíduos e grupos contra quaisquer ações que possam interferir no 
gozo das liberdades fundamentais e na dignidade humana. São características 
importantes dos direitos humanos (ONU BRASIL, s.d.):
Os direitos humanos são fundados sobre o respeito pela dignidade 
e o valor de cada pessoa; os direitos humanos são universais, o que 
quer dizer que são aplicados de forma igual e sem discriminação a 
todas as pessoas; os direitos humanos são inalienáveis, e ninguém 
pode ser privado de seus direitos; eles podem ser limitados em 
situações específicas. [...]; os direitos humanos são indivisíveis, inter-
relacionados e interdependentes, já que é insuficiente respeitar alguns 
direitos humanos e outros não. Na prática, a violação de um direito 
vai afetar o respeito por muitos outros; todos os direitos humanos 
devem, portanto, ser vistos como de igual importância, sendo 
igualmente essencial respeitar a dignidade e o valor de cada pessoa.
Um dos principais documentos da área é a Declaração Universal dos 
Direitos Humanos (DUDH), que foi lançada em 1948 e prevê a proteção universal 
dos direitos humanos, fundando os alicerces da nova convivência humana e 
buscando sepultar o ódio e os horrores do nazismo, do holocausto e do grande 
morticínio, o qual tirou a vida de 50 milhões de pessoas em seis anos de guerra. São 
diversos os pactos, os tratados e as convenções internacionais que vieram depois 
dela, construindo a cada dia um arcabouço mundial para a proteção dos direitos 
humanos. A declaração é um marco na história, uma norma comum que deve ser 
obedecida por todos os povos e nações; já serviu de inspiração para a constituição 
de muitos Estados e democracias recentes; e é o documento mais traduzido no 
mundo, em mais de 500 idiomas (ONU BRASIL, s.d.; BRASIL, 2010).
Para ler a DUDH, acesse o link a seguir:
https://goo.gl/uKU03U
UNI
TÓPICO 7 | MOVIMENTOS SOCIAIS E DIREITOS HUMANOS
95
A sociedade civil é um ator essencial para a efetivação dos direitos 
humanos, por ser um processo que não se dá apenas pela integração desses 
direitos em aparatos legais, no âmbito nacional ou internacional. É ela quem 
cria e recria as condições necessárias para que esses direitos sejam validados e 
concretizados por meio de ações que devem considerar alguns aspectos (VIEIRA; 
DUPREE, 2004), como os que você verá a seguir.
• Promover uma gama de ações para todos os grupos sociais: isso significa que 
os discursos dos direitos humanos devem ser objetivos e acessíveis a uma 
diversidade de percepções e atrair grupos esquecidos e imperceptíveis como 
proponentes das mudanças necessárias à justiça. Na sociedade civil nascem os 
conflitos entre os pedidos por justiça, e discutir sobre os direitos humanos não 
cria mecanismos para a resolução dessas questões. No entanto, enquanto se 
discute, cria-se um espaço de interação e diálogo entre todos os envolvidos em 
determinado problema, podendo, sim, se chegar à resolução de alguns deles.
• Tornar a injustiça pública: a sociedade civil contribui para a consolidação 
dos direitos humanos quando leva a injustiça à esfera pública. Para que isso 
seja possível, é preciso que a associação e o diálogo estejam abertos e com o 
mínimo de intervenção. Dessa forma, os grupos que atuam em questões sobre 
os direitos humanos tornam pública a injustiça ao defender mudanças ou 
exercer pressão para que elas aconteçam. Essa pressão pode ocorrer por meio 
do fornecimento de informações, educação para o público e outros grupos, 
propondo políticas públicas e encaminhando ações legais.
• Proteger o espaço privado: os grupos de direitos humanos protegem o espaço 
no qual os indivíduos se expressam e se desenvolvem quando buscam as 
condições necessárias para essa ação, reforçando os limites de atuação do 
Estado e do mercado.
• Intervir e interagir diretamente nos sistemas legais e políticos: hoje existem 
muitas leis e políticas voltadas para os direitos humanos. No entanto, 
essas normas apenas se efetivam de acordo com sua prática, refinamento e 
aprovação, sendo validadas pela sociedade civil. Grupos de direitos humanos 
participam de forma ativa nesse processo quando levam casos legais aos 
tribunais, fornecem informações e dados essenciais para o refinamento das 
políticas públicas e propõem novos mecanismos capazes de criar um sistema 
que apoie os direitos humanos. Essa deve ser uma intervenção estratégica 
focada na mudança de paradigma e na pressão sobre a política governamental, 
para que seja mais consistente com o seu discurso.
• Promover a inovação social: a inovação social precisa ser factível, e o diálogo, 
o feedback e os resultados devem estar abertos e serem justificáveis a diversas 
perspectivas. A inovação social surge como uma resposta direta às injustiças 
localizadas na sociedade civil. Os inovadores são os que possuem profunda 
consciência, estão envolvidos com aqueles que são afetados pela injustiça 
e, trabalhando com eles, experimentam e criam outras formas de encontrar 
soluções.
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
96
A sociedade civil é o principal ator para criar condições a fim de que 
os direitos humanos sejam efetivados. Ela promove o discurso que legaliza as 
normas dos direitos, voltados principalmente aos grupos esquecidos e imper- 
ceptíveis, e que pode variar de acordo com as diferentes estratégias e meios, 
os quais permitem a efetivação da lógica dos direitos humanos na sociedade. 
Porém, se ela é um agente tão importante para a consolidação dos direitos 
humanos, por que isso não acontece? Para Vieira e DuPree (2004), a sociedade 
não está protegida contra o Estado e o mercado, nem possui poder sobre eles, 
pois é fragmentada, não possui recursos e necessita de financiamentos. Desse 
modo, ao mesmo tempo em que flexibilidade, diversidade e voluntariado são 
potencialidades da sociedade civil, são também sua fraqueza, uma vez que ainda 
são um desafio para os movimentos de direitos humanos.
A fragmentação, a neutralização do discurso e a dependência de recursos 
são barreiras que dificultam o avanço dos aspectos citados anteriormente. No 
entanto, estratégias como a melhoria da capacidade de comunicação e educação, 
o investimento em modelos socialmente inovadores e a construção de redes 
de direitos humanosque cessem a fragmentação e fortaleçam a utilização 
dos recursos podem possibilitar um maior impacto e melhores resultados na 
efetivação dos direitos humanos (VIEIRA; DUPREE, 2004). 
3 HISTÓRIA E EVOLUÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS NO 
BRASIL
Por se tratar de um instrumento importante, de proteção a todas as 
pessoas do mundo, os direitos humanos são assegurados por muitos tratados 
e documentos jurídicos em diversos países, inclusive no Brasil. Há vários meios 
existentes no país para assegurá-los a todos os cidadãos, porém, apesar disso, 
esse objetivo ainda não foi atingido em sua totalidade. A sua proteção no Brasil 
está diretamente ligada à história das Constituições brasileiras, marcada por 
avanços e retrocessos.
A Constituição Imperial de 1824, a primeira do Brasil, declarou os direitos 
fundamentais em 35 incisos do art. 179. Apesar de aprovada, apresentou-se 
como uma Constituição liberal, com direitos parecidos com os encontrados nos 
textos constitucionais dos Estados Unidos e da França, defendendo a imunidade 
dos direitos civis e políticos. No entanto, com a criação do poder moderador que 
dava ao Imperador poderes constitucionais ilimitados, inclusive o de interferir 
no exercício dos demais poderes, a efetivação desses direitos foi prejudicada 
(DIMOULIS; MARTINS, 2007).
A Constituição Republicana de 1891 manteve os direitos fundamentais 
declarados na Constituição de 1824, e no rol de direitos e garantias funda- 
mentais, instituiu o habeas corpus, antes concedido somente em nível de 
legislação ordinária; garantiu a liberdade de culto a todas as pessoas, motivada 
TÓPICO 7 | MOVIMENTOS SOCIAIS E DIREITOS HUMANOS
97
pela separação entre o Estado e a Igreja; e ampliou a titularidade dos direitos 
fundamentais aos estrangeiros que residiam no país, ao contrário da Cons- 
tituição de 1824 que os estendia apenas a cidadãos brasileiros (DIMOULIS; 
MARTINS, 2007).
A Constituição de 1934 manteve uma série de direitos fundamentais 
similares aos especificados na de 1981, mas inovou estabelecendo normas de 
proteção ao trabalhador, como a proibição da diferença de salário em virtude de 
sexo, idade, nacionalidade ou estado civil; a proibição de trabalho para menores 
de 14 anos; o repouso semanal remunerado; a jornada de trabalho limitada a 8 
horas diárias; a determinação de um salário mínimo; e a criação dos institutos do 
mandado de segurança e da ação popular (DIMOULIS; MARTINS, 2007).
A Constituição de 1937 instituiu o Estado Novo, reduziu os direitos e 
as garantias individuais, destituiu o mandado de segurança e da ação popular, 
instituídos na Constituição de 1934, que foram novamente restaurados e 
ampliados na Constituição de 1946, assim como os direitos sociais (BULOS, 
2003). Em seguida, com a ditadura militar, a Constituição de 1946 foi derrubada 
e a de 1967 apresentou grandes retrocessos, como a supressão da liberdade de 
publicação, restringindo o direito de reunião, estabelecendo foro militar para 
os civis, mantendo todas as punições e arbitrariedades decretadas pelos Atos 
Institucionais (AI), entre outros.
Outras modificações foram a redução da idade mínima do trabalho para 
12 anos, a restrição ao direito de greve, a eliminação da proibição de diferença de 
salário por motivos de idade e nacionalidade, e a cessão de vantagens mínimas 
ao trabalhador, como o salário-família. Em 1969, a Constituição de 1967 passa 
por reformas significativas por meio de emendas aditivas e supressivas, ficando 
em vigor até o final de 1968, quando o AI-5 foi decretado, repetindo todos os 
poderes descritos no AI-2. Além disso, ampliou a margem de arbítrio, deu poder 
ao governo para confiscar bens e suspendeu a garantia do habeas corpus para 
casos de crimes políticos, contra a segurança nacional, a ordem econômica e 
social e a economia popular. Dessa forma, o AI-5 não se associa à doutrina dos 
direitos humanos e muito menos à Emenda de 1969, que incorporou em seu texto 
as medidas autoritárias dos AI (DIMOULIS; MARTINS, 2007).
Por fim, a Constituição de 1988, conhecida como Constituição Cidadã, 
é promulgada, garantindo a proteção dos direitos humanos, sendo conside-
rada uma das Constituições mais avançadas do mundo nesse sentido. Ela faz 
referência aos direitos fundamentais em várias partes de seu texto e garante aos 
cidadãos, por exemplo, os direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais 
em seu art. 1 e o direito à vida, à privacidade, à igualdade, à liberdade e a outros 
direitos fundamentais, individuais ou coletivos em seu art. 5, entre outros.
Para garantir a cidadania e a dignidade humana, a Constituição de 1988 
defende princípios como (MARCHINI NETO, 2012):
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
98
• igualdade de gêneros;
• erradicação da pobreza, da marginalização e das desigualdades sociais;
• promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, gênero, idade 
ou cor;
• racismo como crime imprescritível;
• direito à saúde, à previdência, à assistência social, à educação, à cultura e ao 
desporto;
• reconhecimento de crianças e adolescentes como pessoas em desenvolvimento;
• estabelecimento da política de proteção ao idoso, ao portador de deficiência e 
aos diversos agrupamentos familiares;
• orientação de preservação da cultura indígena.
Com os direitos humanos garantidos na Constituição de 1988, o Governo 
Federal passou a ter compromisso com eles e, hoje, estes são geridos como uma 
política pública, o Programa Nacional de Direitos Humanos (PNHD), instituído 
pelo Decreto nº 7.037, de 21 de dezembro de 2009, atualizado pelo Decreto nº 
7.177, de 12 de maio de 2010.
Para conhecer o PNHD, acesse o link a seguir:
https://goo.gl/yzmb9w
UNI
No entanto, após décadas da promulgação da Constituição de 1988, 
ainda são muitas as dificuldades existentes para tirar esses princípios do papel. 
Os direitos humanos no Brasil são uma questão marcada por contradições, pois, 
apesar de assegurar conquistas inéditas concedidas aos direitos sociais, sobre- 
tudo em relação às questões sociais, apresenta grandes desigualdades sociais, 
nos âmbitos racial e regional, e precariedade quanto à segurança individual, 
à integridade física e ao acesso à justiça, que comprometem o usufruto desses 
direitos. Para Neves (1997), ainda existe um hiato significativo no Brasil em 
relação ao mundo real e legal.
Apesar de o texto constitucional vigente estimular a cidadania ativa, o 
país está perdendo o ponto de partida para superar a distância entre o mundo 
real e o formal. Dessa forma, um país no qual a sociedade civil tenha real 
importância; e o Estado, efetiva função garantidora e implementadora de direitos 
sociais, ainda é um desafio a ser superado.
TÓPICO 7 | MOVIMENTOS SOCIAIS E DIREITOS HUMANOS
99
PNDH foi elaborado em conjunto à sociedade, por meio de ampla consulta, na 
qual dezenas de entidades e centenas de pessoas apresentaram sugestões e críticas, parti- 
cipando de debates e seminários. A maior parte das ações contidas nesse documento visa 
cessar a banalização da morte, seja no trânsito, em filas de prontos-socorros, nos presídios, 
por armas de fogo, em chacinas de crianças e trabalhadores rurais. Ele visa ainda impedir a 
perseguição e a discriminação contra os cidadãos (BRASIL, 1996).
DICAS
De acordo com o relatório estado dos direitos humanos no mundo 
(2017), o Brasil ainda apresenta falhas em direitos humanos com a ocorrência de 
problemas como (ANISTIA INTERNACIONAL BRASIL, 2017):
• alta taxa de homicídios, principalmente entre jovens negros;
• abusos policiais e execuções extrajudiciais, efetuados por policiais emoperações 
formais ou paralelas;
• situação do sistema prisional;
• vulnerabilidade dos defensores de direitos humanos, sobretudo emáreas 
rurais;
• violência sofrida pela população indígena, principalmente em decorrência de 
falhas nas políticas de demarcação de terras;
• várias formas de violência contra as mulheres.
Há grande preocupação com a persistência desses problemas, e muitos 
direitoshumanos ainda são violados, mesmo com o avanço em questões como 
a redução da pobreza. No entanto, apesar das falhas do governo na melhoria 
dessa situação, a sociedade tem trabalhado para mudar esse cenário, por meio de 
mobilização das periferias e favelas, principais vítimas das violações de direitos 
humanos, e de diversas manifestações de pessoas saindo às ruas ou lançando 
campanhas para reivindicar seus direitos.
4 MOVIMENTOS SOCIAIS EM DEFESA DOS DIREITOS 
HUMANOS
Na década de 1970, surgem os movimentos reivindicando a efetivação 
dos direitos sociais de igualdade e liberdade quanto à ampliação da participação 
política e à igualdade nas relações de raça, gênero, etnia e orientação sexual. 
Esses movimentos eram chamados de novos movimentos sociais, que se opu- 
nham ao clássico, marxista e estrutural e davam ênfase ao reconhecimento da 
diversidade cultural (GOHN, 2007, p. 25). Para Melucci (2001, p. 95):
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
100
[...] Os movimentos juvenis, feministas, ecológicos, étnicoraciais, 
pacifistas não têm somente colocado em cena atores conflituais, 
formas de ação e problemas estranhos à tradição de lutas do 
capitalismo industrial; eles têm colocado, também, no primeiro plano, 
a inadequação das formas tradicionais de representação política para 
colher de maneira eficaz as questões emergentes. A mobilização 
coletiva assume formas, e em particular formas organizativas, que 
escapam às categorias da tradição política e que sublinham a desconti- 
nuidade analítica dos fenômenos contemporâneos, no que diz respeito 
aos movimentos do passado e, em particular, ao movimento operário.
A bandeira de luta dos novos movimentos sociais é o respeito aos direitos 
humanos, e as ações diretas são seu modo de atuar e contestar a política ins- 
titucional e os valores morais e culturais vigentes. Reconhecer a diversidade 
de interesses e possibilitar as condições necessárias para a participação social 
dos sujeitos contribui para que esses movimentos se mobilizem para mudar a 
centralidade sociopolítica, passando de uma democracia política organizada a 
partir do Estado para uma democracia participativa e organizada a partir do 
poder da sociedade civil.
A meta dos novos movimentos sociais é reivindicar continuamente a 
ampliação da agenda dos direitos de cidadania e a criação de mecanismos capazes 
de efetivar a promoção e a garantia desses direitos, que vão desde a concepção 
da inclusão social até a formação de sujeitos de direitos. Essas reivindicações 
possibilitaram a concepção jurídica e a revisão da concepção desse sujeito, em 
que este passa a ser visto em sua totalidade, especificidades e peculiaridades. 
Um exemplo disso é a defesa jurídica dos direitos de mulheres, crianças, grupos 
raciais minoritários, refugiados etc., não há um tratamento generalizado ao 
indivíduo, e sim categorizado de acordo com gênero, idade, etnia, raça, etc. 
(RAMÍREZ, 2003).
Nesse contexto, depois da publicação da Declaração Universal de 1948, 
aconteceram as convenções sobre a eliminação de todas as formas de discrimi- 
nação racial, eliminação da discriminação contra a mulher, direitos da criança, 
entre outros instrumentos importantes para essa questão (PIOVESAN, 2009).
Nas convenções temáticas, foram criadas diretrizes para orientar a concepção 
de políticas públicas em áreas prioritárias, como direitos humanos, segurança pública, 
educação, saúde, igualdade racial, direitos da mulher, juventude, crianças e adolescentes, 
pessoas com deficiência, idosos e meio ambiente (BRASIL, 2010).
DICAS
TÓPICO 7 | MOVIMENTOS SOCIAIS E DIREITOS HUMANOS
101
Em relação às políticas públicas, deve-se destacar o lançamento do 
PNDH I, em 1996, que trouxe diretrizes para orientar a atuação do poder público 
no âmbito dos direitos humanos, com o objetivo principal de garantir os direitos 
civis e políticos. O PNDH foi relançado em 2002, como PNDH II, que aceita 
as demandas dos movimentos sociais, contemplando os direitos econômicos, 
sociais e culturais. Em 2010, o PNDH é atualizado como PNDH III, sintetizando 
as principais reivindicações apresentadas pelos movimentos sociais, unindo 
as resoluções aprovadas nas conferências territoriais, estaduais e nacionais, 
realizadas pelo Governo Federal, desde 2003, em conjunto aos governos 
municipais, estaduais, aos movimentos sociais e à sociedade civil, nos 27 estados 
da Federação (PEREIRA, 2015).
A implementação de ações que visam promover o direito à igualdade, 
o combate à discriminação e a promoção da equidade, encontram proteção 
em propostas de ações do governo relacionadas à educação, à conscientização 
e à mobilização, que estão presentes no Plano Nacional de Políticas para as 
Mulheres (2004), no Programa Brasil sem Homofobia (2004), no Plano Nacional 
de Educação em Direitos Humanos (2006) e no Plano Nacional dos Direitos da 
Pessoa com Deficiência (2011), gerados com os ativistas. Essas iniciativas são 
uma demonstração do reconhecimento do Estado sobre as reivindicações dos 
movimentos sociais por cidadania, que são transformadas em políticas públicas 
(PEREIRA, 2015).
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
102
LEITURA COMPLEMENTAR
A IMPORTÂNCIA DA PARTICIPAÇÃO SOCIAL PARA 
A BOA GESTÃO PÚBLICA
[...] o tema participação social foi abordado diversas vezes a fim de 
demonstrar sua importância para a boa gestão pública. Nesta matéria, vamos 
conhecer melhor quais são os mecanismos que garantem a aproximação entre 
sociedade civil e Estado.
A PARTICIPAÇÃO SOCIAL
 
Se levarmos em consideração os princípios democráticos quanto à 
soberania popular, a participação se torna um dos aspectos mais relevantes para 
a garantia da vontade e do bem-estar social. Podemos pensar em duas categorias 
simples de participação social: “institucional” e “não institucional”. A primeira 
se trata de procedimentos organizados pelo próprio Estado (as eleições para 
cargos políticos, por exemplo) e a segunda de procedimentos mais espontâneos, 
organizados pela sociedade em si (passeatas de movimentos sociais).
Colocando como foco as participações institucionais, este tema é 
historicamente sensível no caso brasileiro: ao longo da República Velha, por 
exemplo, a participação esteve atrelada aos procedimentos eleitorais que 
eram restritos à um grupo específico (homens, alfabetizados) e altamente 
manipuláveis (“voto de cabresto”). Em períodos de exceção, como a Era Vargas e 
o Regime Militar, a participação social institucional foi bloqueada por medidas 
autoritárias que impediam as eleições e criminalizavam os movimentos sociais. 
Nesse sentido, é só a partir de 1980, com a redemocratização, que a participação 
é levantada como bandeira fundamental para a construção de um novo período 
político do país.
A Constituição Federal de 1988, como comentamos na matéria passada, 
foi um marco ao prever a participação social como um dos pilares da democracia 
brasileira. Desta forma, para além do procedimento eleitoral, outros mecanismos 
foram institucionalizados pelo poder público como forma de garantir o controle 
social e a participação contínua por parte da sociedade. Na matéria de hoje 
vamos conhecer melhor alguns desses mecanismos.
CONSELHOS
Os conselhos são espaços de diálogo entre poder público e sociedade 
civil. Há conselhos que são populares (as associações de bairro, por exemplo, 
não dependem da organização por parte do poder público) e institucionais, que 
passam por um processo de regulamentação junto ao poder público e possui 
legislação e especificidades acerca de sua atuação.
 
TÓPICO 7 | MOVIMENTOS SOCIAIS E DIREITOS HUMANOS
103
Geralmente os conselhos podem ser:
1. Consultivo: o conselho é ouvido pelo poder público, mas somente a fim de 
coletar a opinião dos conselheiros em prol de maior qualidade nos processos 
da administração pública.
2. Participativo: o conselho possui maior envolvimento com os gestores públicos 
a medida que monitoram as ações do Estado (políticas públicas, orçamento…)e participam ativamente das tomadas de decisão através do controle social.
3. Deliberativo: o conselho age conjuntamente com o poder público em 
determinadas pautas, ratificando ou vetando as tomadas de decisões e 
participando ativamente do processo das políticas públicas.
 
AUDIÊNCIAS PÚBLICAS
A audiência pública se trata de um outro mecanismo da participação 
social que é prevista na Constituição Federal de 1988 e pode ser regulamentada 
pela União, estados e municípios.
A proposta desse mecanismo é a convocação de um tipo de reunião 
aberta em que os órgãos públicos envolvidos em conjunto com organizações da 
sociedade civil e a população em geral possam debater propostas de políticas 
públicas, elaboração de um projeto de Lei ou qualquer política que impacte a 
organização social e política da União, estados ou municípios.
Geralmente o formato adotado é abrir a reunião com uma fala do poder 
público explicando o tema a ser discutido e, em seguida, abre-se o diálogo para 
que a sociedade civil expresse sua opinião, concordâncias e/ou discordâncias 
com a proposta apresentada.
 
OUVIDORIA PÚBLICA
A Ouvidoria Pública é um instrumento de comunicação entre poder 
público e sociedade civil. Comumente, mesmo no âmbito privado, as ouvidorias 
servem como canal para que os indivíduos possam realizar reclamações, 
sugestões, elogios ou simplesmente tirar dúvidas.
No caso dos órgãos públicos, a Ouvidoria serve como espaço para 
que a população possa exercer seus direitos e sua cidadania ao encaminhar 
denúncias (como casos de corrupção, por exemplo), reclamações (acerca dos 
serviços públicos), sugestões ou simplesmente tirar dúvidas e/ou obter mais 
informações quanto ao funcionamento de determinado serviço público.
Geralmente o contato pode ser realizado via sistema eletrônico (a União e 
alguns estados e municípios disponibilizam um portal online) ou pessoalmente, 
nos balcões de atendimento dos órgãos públicos.
UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS
104
A participação social é um tema fundamental para toda reflexão 
acerca da boa gestão pública. Na matéria de hoje conhecemos três principais 
mecanismos que contribuem diretamente para que o poder público atue de 
forma aproximada da população. Nesse sentido, por mais complexo que possa 
ser o desenvolvimento desses mecanismos e instrumentos, o salto qualitativo de 
uma gestão pública que está em constante diálogo com a população é visível. 
Além disso, o diálogo permite que o desenho das políticas públicas represente 
a pluralidade da sociedade civil, além do ganho da legitimidade para sua 
execução.
FONTE: CLP. A Importância da participação social para a boa gestão pública. 2019. Disponível 
em:https://www.clp.org.br/a-importancia-da-participacao-social-para-a-boa-gestao-publica-
mlg2/. Acesso em: 8 jan. 2020.
105
RESUMO DO TÓPICO 7
 Neste tópico, você aprendeu que:
• Os conceitos de Estado, sociedade e direitos humanos e como eles estão 
relacionados à questão dos direitos humanos.
• O Estado é uma organização social soberana que possui poder supremo sobre 
os indivíduos em uma sociedade, tendo legitimidade para exercê-lo, inclusive 
com a força física, se necessária for.
• O Estado tem três funções fundamentais, das quais decorrem todas as suas 
ações:
o Legislativa: elabora as leis e o ordenamento jurídico, necessários à vida em 
sociedade.
o Executiva: assegura que as leis sejam cumpridas.
o Judiciária: julga a adequação ou não dos atos particulares sob as leis 
existentes.
• A sociedade pode ser caracterizada por um grupo de pessoas que 
compartilham a mesma cultura e as tradições e se localizam no mesmo tempo 
e espaço. Todo homem está concentrado na sociedade em que está inserido, 
sendo influenciado por ela em sua formação como indivíduo.
• Pode-se entender os direitos humanos como aqueles inerentes ao ser humano, 
como o direito à vida e à liberdade, à liberdade de opinião e expressão, ao 
trabalho e à educação, entre outros, independentemente de raça, sexo, 
nacionalidade, etnia, idioma, religião, opinião política ou qualquer outra 
condição, por exemplo, origem social ou nacional, ou condição de nascimento 
ou riqueza.
• Todos possuem direitos, sem discriminação. Eles são garantidos por lei e 
visam proteger os indivíduos e grupos contra quaisquer ações que possam 
interferir no gozo das liberdades fundamentais e na dignidade humana. 
Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem 
pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao 
AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo.
CHAMADA
106
1 Os Direitos Humanos são aqueles inerentes ao ser humano, como o 
direito à vida e à liberdade, à liberdade de opinião e de expressão, o 
direito ao trabalho e à educação, entre outros, independente de raça, sexo, 
nacionalidade, etnia, idioma, religião, opinião política ou qualquer outra 
condição. Como se chama o documento lançado em 1948 que prevê a 
proteção universal dos Direitos Humanos, fundando os alicerces da nova 
convivência humana?
a) ( ) Constituição Imperial.
b) ( ) Programa Nacional de Direitos Humanos.
c) ( ) Ato Institucional n.º 5.
d) ( ) Declaração Universal dos Direitos Humanos.
e) ( ) Constituição Cidadã.
2 A sociedade civil é um ator essencial para a efetivação dos Direitos 
Humanos, visto que é um processo que não se dá apenas pela integração 
desses direitos em aparatos legais, sejam eles no âmbito nacional ou 
internacional. É a sociedade civil que cria e recria as condições necessárias 
para que esses direitos sejam validados e concretizados. Dentre os aspectos 
que devem ser considerados nessas ações, qual é aquele que diz respeito 
aos discursos de direitos humanos objetivos e acessíveis a uma diversidade 
de percepções para atrair grupos esquecidos e imperceptíveis como 
proponentes das mudanças necessárias à justiça?
a) ( ) Promoção de uma gama de ações para todos os grupos sociais.
b) ( ) Proteção do espaço privado.
c) ( ) Intervir e interagir diretamente nos sistemas legais e políticos.
d) ( ) Promover a inovação social.
e) ( ) Tornar a injustiça pública.
AUTOATIVIDADE
107
UNIDADE 2
OS MEIOS QUE COMPÕEM O 
SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:
• compreender o significado da Justiça Multiportas no contexto do sistema 
judiciário;
• identificar e reconhecer os caminhos da heterocomposição para a solução 
de conflitos;
• reconhecer diferenças e semelhanças entre negociação, conciliação e me-
diação, enquanto métodos autocompositivos, para viabilizar a escolha 
adequada em situações de disputa.
Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, 
você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo 
apresentado.
TÓPICO 1 – JUSTIÇA MULTIPORTAS
TÓPICO 2 – MEIOS HETEROCOMPOSITIVOS
TÓPICO 3 – MEIOS AUTOCOMPOSITIVOS
Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e 
vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim 
absorverá melhor as informações.
CHAMADA
108
109
TÓPICO 1
JUSTIÇA MULTIPORTAS
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
Como já apresentado, viver em sociedade exige o desenvolvimento de 
capacidades para lidar com desentendimentos, conflitos de interesses e, quem 
sabe, discórdias, visto que as pessoas são únicas, diferentes umas das outras e, 
por isso mesmo, podem almejar coisas diferentes e dessas diferenças podem 
surgir relações de conflitos. Para a resolução desses conflitos, são acionadas 
diferentes formas de resolução, cada qual com suas especificidades.
 
Neste tópico, será apresentada a Justiça Multiportas, com o objetivo 
de que outros métodos possam ser analisados e explorados, já que podem 
apresentar soluções mais adequadas neste tempo de excessiva litigiosidade e 
inseguranças jurídicas.
2 DEFINIÇÕES PRELIMINARES
A expressão multiportas é uma metáfora utilizada para figurar as 
muitas portas de acesso à Justiça,de modo que, a partir da análise da demanda 
apresentada, as pessoas envolvidas possam ser encaminhadas para a porta que 
melhor atenda a sua necessidade: porta da justiça estatal, mediação, conciliação, 
arbitragem.
A ideia geral da Justiça Multiportas – ou sistema de múltiplas portas –, é 
a de que o litígio judicial não é o único meio, tampouco a principal opção para a 
resolução de um conflito, existindo outras possibilidades que consideram a ideia 
de pacificação social. Assim, para cada tipo de litígio existe uma forma mais 
adequada de solução. A jurisdição estatal é apenas mais uma dessas opções. 
O sistema multiportas, assim, deixa de ser lugar onde apenas se julga, 
para ser um local de resolução de conflitos, cujas partes podem e devem sair 
satisfeitas com o resultado para suas controvérsias. Em outras palavras, é dizer 
que o nosso sistema jurídico paulatinamente está a consolidar a mudança da 
perspectiva unidimensional da justiça para uma perspectiva pluridimensional, 
com enfoque na tutela adequada, tempestiva e efetiva dos direitos.
UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS
110
3 COMPREENSÃO HISTÓRICA
Nas sociedades primitivas, quando haviam riscos para pessoas 
envolvidas em conflitos, uma terceira pessoa, respeitada pela comunidade, 
era incumbida de facilitar o consenso, para que não fosse necessário recorrer 
à justiça pelas próprias mãos. Com esse dado, é possível dizer que os métodos 
consensuais de solução de conflitos precederam a jurisdição estatal. Só mais 
tarde foi consolidado o poder do Estado no surgimento do processo judicial, que 
com o tempo mostrou todas as suas fraquezas.
As fraquezas ou insuficiência da tutela estatal fizeram com que se 
instaurasse um processo de mudança com enfoque nos métodos consensuais de 
solução de conflitos. Segundo Richa e Lagrasta (2016), o sistema de múltiplas 
portas ou multiportas teve seu início em uma abordagem elaborada por Frank 
E. A. Sander, em 1976, sendo que este professor de Harvard se debruçou sobre 
a crescente demanda nos tribunais dos Estados Unidos, constatando uma 
insatisfação da população com o sistema judiciário. A proposta apresentada 
por ele previa programas diferenciados de solução de controvérsias, diversas 
da adjudicada, tanto dentro quanto fora dos tribunais. Essas propostas se 
davam a partir de um diagnóstico das causas e encaminhamentos para meios 
mais adequados. A intencionalidade da proposta, já na gênese, visava reduzir 
ou eliminar descontentamentos e agilizar o trabalho, preenchendo lacunas nos 
serviços de administração da justiça. Nasceu de forma experimental e avançou 
para propostas reconhecidas como Alternative Dispute Resolution (ADR), um 
mecanismo paraestatal conhecido no Brasil por “meio alternativos de resolução 
de disputas”.
Comprovado o êxito das experiências inicias, os métodos foram se 
diversificando e, então, consolidados e estruturados por volta dos anos de 
1980 e 1990, configurando diferentes possibilidades de atuação nas demandas 
relacionadas a conflitos, tanto antes do ingresso no Poder Judiciário ou a 
qualquer tempo após o ajuizamento das demandas, de forma a propiciar 
melhor qualidade de solução. São diferentes métodos que incluem conciliação, 
mediação, arbitragem, serviços sociais e governamentais, cada qual mediante 
técnicas abalizadas para auxiliar a solução dos conflitos de maneira que melhor 
pudesse atender a natureza das demandas, ao mesmo tempo em que objetivou a 
construção de aptidões sociais para os litigantes.
Na cultura americana, nos anos 1980 a 1990, os métodos de tratamento 
adequado do conflito enraizaram-se, de forma a propiciar melhor qualidade de 
solução. No Brasil, a história seguiu os mesmos passos, porém mais tardiamente. 
As mesmas críticas identificadas nos EUA sobre o funcionamento do Poder 
Judiciário também se fizeram presentes, desencadeando transformações 
legislativas e estruturais em busca de uma maior efetividade. O ápice do 
movimento aconteceu com a reforma do Poder Judiciário, que teve início em 
1992 e foi concretizado pela Emenda Constitucional nº 45, de 30/12/2004.
TÓPICO 1 | JUSTIÇA MULTIPORTAS
111
No Brasil, ainda predomina a cultura do litígio. A população, em geral, 
quando se vê diante de um conflito, tem a tendência de buscar o Judiciário a fim 
de que este resolva a questão. Inclusive, dentro da própria estrutura edificada 
em torno do saber jurídico, é comum considerar a necessidade de pronta 
judicialização da questão em pauta.
Mesmo tendo predomínio, é possível citar pelo menos duas razões pelas 
quais o excesso de judicialização é um problema no país. Primeiro, pelo aumento 
das demandas judiciais, sendo que o Poder Judiciário não consegue sozinho 
resolver os problemas das pessoas que o procuram diariamente. O resultado da 
cultura do litígio é facilmente verificável: raramente se consegue obter a prestação 
jurisdicional de maneira célere e justa ao mesmo tempo. Um segundo ponto diz 
respeito à satisfação alcançada com a decisão de um juiz, já que nem sempre os 
envolvidos ficam satisfeitos ou cumprem o que foi judicialmente determinado, 
ou seja, além de não trazer a pacificação, a sentença formalizada em um longo 
processo (na denominada fase de conhecimento), para ser cumprida, ainda passa 
por outra nova e longa etapa até que seja efetivada (na denominada fase de 
cumprimento de sentença). 
Custo, lentidão e complexidade dos processos judiciais são as maiores 
reclamações dos jurisdicionados. E o cenário do Poder Judiciário brasileiro é desanimador. 
Temos hoje cerca de 76,7 milhões de processos em tramitação e um crescimento do 
estoque acumulado de 31,2% nos últimos sete anos, conforme diagnóstico formulado na 
edição de 2017 do relatório Justiça em Números do Conselho Nacional de Justiça (2018, 
p. 334).
FONTE: RODAS, J. G. et al. Visão multidisciplinar das soluções de conflitos no Brasil. 
Curitiba: Prismas, 2018.
NOTA
Fato é que vivemos num sistema jurídico aberto e incompleto e, 
justamente por isso, o direito configura uma realidade complexa, não havendo 
uma solução expressa para cada caso determinado. Disso resulta a paulatina 
consolidação do entendimento de que o direito à justiça é mais amplo do que 
acesso ao Poder Judiciário, razão pela qual o Estado deve disponibilizar ao 
cidadão não somente a forma adjudicada de solução de conflito, mas também os 
métodos extrajudiciais.
A discussão acerca da aplicação do direito pelo Poder Judiciário deve 
ser considerada apenas como um dos aspectos a problematizar no cotidiano 
nacional. É hoje uma preocupação entres os atores do meio jurídico as 
dificuldades procedimentais (número e qualidade dos controles jurisdicionais) 
e substantivas (qualidade dos direitos a tutelar) do acesso e correspondente 
UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS
112
resolução de conflitos no âmbito judicial.
O número excessivo de demandas judiciais no Brasil poder ser atribuído 
a mudanças importantes relacionadas à condução da garantia de direitos:
• A Constituição Federal de 1988, prioritariamente no artigo XXXV, que assegura 
amplo acesso à justiça e permite a postulação da tutela jurisdicional preventiva 
ou reparatória, assistência judiciária integral e gratuita aos que comprovarem 
insuficiência de recursos (BRASIL, 1988). 
• Lei nº 9.099/95, que trata do direito de ação sem a presença de advogados, de 
forma gratuita e com procedimentos mais simples (BRASIL, 1995).
• Estruturação da Defensoria Pública.
• Código de Defesa do Consumidor.
• Controle do Poder Judiciário nas atribuições de outros poderes. 
• A Constituição preconiza também ideais democráticos e faz inserção da 
consensualidade (o que avança ainda em passos lentos).
É notório que a Constituição de 1988 avança em termos de garantia 
de direitos a partir do acesso à justiça. Entretanto, ela também aponta 
para a superação da postura de embate ao preconizar ideais democráticos 
materializados na consensualidade. Isso aponta para açõesque privilegiem a 
prevenção dos litígios e desjudicialização das demandas.
4 LEGISLAÇÃO RELACIONADA
Didaticamente, a par de outras tantas classificações e estudos doutrinários, 
pode-se dizer que a legislação está subdivida em duas grandes categorias: o das 
normas substantivas (direito material) e normas adjetivas (direito processual), 
as quais convivem harmonicamente, na maioria das vezes, no mesmo texto 
normativo, como é o caso do Código de Defesa do Consumidor.
Caro acadêmico, convido você a conhecer o Código de Defesa do 
Consumidor, acessando o site http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8078.htm.
Boa leitura! 
DICAS
Na primeira categoria estão as leis que regulam e afetam aspectos 
materiais da vida cotidiana, criando, modificando e/ou extinguindo direitos e 
obrigações nas relações em sociedade. São exemplos dessa classificação: a Lei 
do Divórcio, a Lei das Sociedades Anônimas, o Estatuto do Desarmamento e o 
Estatuto Nacional da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte.
TÓPICO 1 | JUSTIÇA MULTIPORTAS
113
Na segunda categoria estão as normas que estatuem as ferramentas 
procedimentais para acesso à jurisdição, à formalização de determinado pedido 
a partir do modo, forma e no prazo legalmente estatuído, regulando-se por meio 
da norma adjetiva (direito processual) todas as formalidades para fazer cumprir 
as normas substantivas (direito material), a exemplo do Código de Processo Civil 
ou Código de Processo Penal.
Acadêmico, você pode ter acesso ao Código de Processo Civil ou Código de 
Processo Penal na integra nos sites:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13105.htm – Código de Processo Civil; 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del3689.htm – Código de Processo Penal.
DICAS
Ao fim e ao cabo, é por meio do processo – um complexo de direitos e 
deveres contrapostos entre os sujeitos envolvidos em uma lide – que o Estado 
entrega a jurisdição. Processo, assim, está aqui concebido como instrumento 
para o exercício do direito de provocar o Estado a exercer a função jurisdicional, 
de modo a oferecer – àquele que promove a ação judicial – uma solução para o 
caso concreto, pela atuação da vontade da lei.
A mudança que ora se desenha está no reconhecimento de que a 
função jurisdicional, ainda que predominantemente exercida pelo Estado-juiz 
(magistrados, individualmente, ou colegiados julgadores, no caso dos tribunais), 
pode ocorrer também por entidades ou sujeitos de natureza não estatal, 
precisamente em razão da possibilidade de que a pacificação dos conflitos 
seja fomentada e realizada não apenas por meio do processo judicial, mas por 
métodos consensuais.
Nesse sentido, o Conselho Nacional de Justiça, demonstrando estar 
atento à necessidade de implementação de mecanismos adequados de resolução 
de disputas como forma de melhorar a justiça brasileira, editou a Resolução nº 
125/10, em 29 de novembro de 2010, que trata da Política Judiciária Nacional de 
Tratamento Adequado de Conflitos de Interesses no âmbito do Poder Judiciário 
e dá outras providências.
Por essa Política, buscou-se assegurar a todos o direito à solução dos 
conflitos por mecanismos adequados a sua natureza e complexidade, com vista à 
boa qualidade dos serviços judiciários e à disseminação da cultura da pacificação 
social, por meio da criação de uma estrutura física e pessoal própria, capaz de 
gerir as controvérsias de forma racional e profissional.
UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS
114
Essa estrutura idealizada é composta pelo Conselho Nacional de Justiça, 
que fica responsável, no âmbito nacional, por implementar o programa com a 
participação de rede constituída por todos os órgãos do Poder Judiciário e por 
entidades públicas e privadas parceiras, inclusive universidades e instituições 
de ensino, pelos Núcleos Permanentes de Métodos Consensuais de Solução 
de Conflitos (NUPEMECs), que tratam dessa Política Judiciária no âmbito 
dos Tribunais Estaduais e Federais, e pelos Centros Judiciários de Solução 
de Conflitos e Cidadania (CEJUSCs), responsáveis pela execução da Política 
Judiciária de tratamento adequado dos conflitos.
Nesse contexto, os Centros assumem a função de verdadeiros “Tribunais 
Multiportas”, na medida em que são os responsáveis por oferecer as diversas 
opções de meios adequados de resolução dos conflitos e, ainda, prestam serviços 
de orientação e informação ao cidadão.
Assim, o interessado pode se dirigir ao Centro para a solução pré-
processual do conflito, por meio da realização de sessões de conciliação ou de 
mediação, conforme o caso, ou para tentar resolver consensualmente conflitos 
já judicializados, bem como para obter serviços de cidadania. Trata-se, pois, 
de órgão do Poder Judiciário criado para efetuar a triagem, o tratamento e a 
resolução adequada dos conflitos de interesses.
Importante enfatizar a consolidação, no sistema de múltiplas portas, ao 
Novo Código de Processo Civil, parágrafo 3º, artigo 3º da Lei nº 13.105/2015, 
segundo o qual “a conciliação, a mediação e outros métodos de solução 
consensual de conflitos deverão ser estimulados por juízes, advogados, 
defensores públicos e membros do Ministério Público, inclusive no curso do 
processo judicial” (BRASIL, 2015).
Fato é que, sendo do Estado o exercício da função jurisdicional, a ele 
compete não apenas a aplicação do direito com o objetivo de realizar e manter 
a paz e harmonia social, como também a função de estimular a pacificação por 
meio de outros métodos que não a solução adjudicada. Sistematicamente, cabe 
a Política Judiciária Nacional, entre tantas outras ações, l possibilitar acesso à 
ordem jurídica justa, investir para que os operadores do direito possam oferecer 
menos resistência aos métodos consensuais, viabilizar capacitações para que 
conciliadores e mediadores possam prestar serviços com qualidade. 
TÓPICO 1 | JUSTIÇA MULTIPORTAS
115
Convido você, acadêmico, a conhecer a Resolução que trata dos Meios 
Adequado de Solução de Conflitos através do site: https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/atos-
normativos?documento=156.
DICAS
O sistema multiportas deixa de ser lugar onde apenas se julga para ser 
um local de resolução de conflitos, cujas partes podem e devem sair satisfeitas 
com o resultado para suas controvérsias. Quanto às vantagens do sistema 
multiportas, é possível elencar: 
a) o cidadão assumiria o protagonismo da solução de seu problema, 
com maior comprometimento e responsabilização acerca dos 
resultados;
b) estímulo à autocomposição;
c) maior eficiência do Poder Judiciário, porquanto caberia à solução 
jurisdicional apenas os casos mais complexos, quando inviável a 
solução por outros meios ou quando as partes assim o desejassem;
d) transparência, ante o conhecimento prévio pelas partes acerca dos 
procedimentos disponíveis para a solução do conflito (PEIXOTO, 
2018, p. 118).
Dessa forma, falar em Justiça Multiportas é demasiado importante 
para compreender e acionar o adequado meio para abordagem e resolução de 
conflitos, seja pelos meios heterocompositivos ou meios autocompositivos, 
assuntos que serão abordados mais adiante. 
116
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você aprendeu que:
• A importância de se pensar em Justiça Multiportas se deve ao excesso de 
judicialização do Poder Judiciário e de ele não poder, sozinho, resolver os 
problemas de quem o aciona, bem como a falta de satisfação com os resultados 
impostos pelo juiz, a falta de cumprimento dos acordos firmados e o fato de 
que a judicialização não viabiliza a pacificação social
• São vantagens do sistema multiportas: estimulo à autocomposição e 
protagonismo na solução do conflito; maior eficiência do Poder Judiciário; 
transparência e conhecimento prévio pelas partes acerca dos procedimentos 
que podem ser acionados.
• O novo Código de Processo Civil (CPC) normatiza que juízes, advogados, 
defensores e membros do Ministério Público devem estimular métodos 
consensuais de resolução de conflitos.117
AUTOATIVIDADE
1 O Código de Processo Civil adota o modelo multiportas, de modo que cada 
demanda deve ser submetida à técnica ou método mais adequado para a 
sua solução, devendo ser adotados todos os esforços para que as partes 
cheguem a uma solução consensual do conflito. Em regra, apenas se não 
for possível a solução consensual, o processo seguirá para a segunda fase, 
litigiosa, voltada para a instrução e julgamento adjudicatório do caso.
( ) Certo.
( ) Errado.
 
2 Há uma cultura do litígio enraizada na sociedade, cuja tendência é resolver 
os conflitos de forma adversarial. Nessas circunstâncias, os denominados 
meios alternativos de resolução de conflitos apresentam especial 
importância, na medida em que possuem os seguintes objetivos, EXCETO:
a) ( ) Aliviar o congestionamento do judiciário.
b) ( ) Promover a pacificação social.
c) ( ) Democratizar o acesso à justiça.
d) ( ) Promover a autocomposição da solução de controvérsias.
e) ( ) Garantir a legitimidade dos ritos judiciais.
118
119
TÓPICO 2
MEIOS HETEROCOMPOSITIVOS
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
O método heterocompositivo, também chamado de impositivo, é aquele 
que conta com juiz ou árbitro como terceiro imparcial para decidir de forma 
impositiva a solução de um conflito. Através desse método, a vontade das partes 
envolvidas em uma controvérsia é substituída pela decisão de uma terceira 
pessoa, alheia ao conflito de interesses gerador da discórdia. 
Na heterocomposição, há dois caminhos de solução de conflitos: a 
Jurisdição e a Arbitragem. Conforme o caminho escolhido, a resposta poderá 
se dar através de sentença ou de laudo arbitral. Importante analisar cada um 
desses caminhos, a fim de que se possa compreender diferenças e semelhanças 
existentes entre eles. 
2 JURISDIÇÃO
Para falar em jurisdição, é necessário mencionar o Estado, visto que ela 
constitui função típica do Estado em dirimir conflitos que lhe são apresentados, 
quando da aplicação da lei. É entendida como a atividade e o poder do Estado 
de aplicar as normas do ordenamento jurídico em relação ao caso concreto, seja 
expressando autoritativamente o preceito, seja realizando efetivamente o que o 
preceito estabelece. 
É pela jurisdição que o Estado se substitui aos titulares dos interesses 
em conflito, dizendo o direito a partir de cada caso concreto. Segundo Fiorelli, 
Fiorelli e Malhadas Junior (2008, p. 51), os métodos heterocompositivos “[...] 
recebem essa denominação porque se deixa a solução nas mãos de um terceiro; 
fica a responsabilidade dele determinar o que as partes devem ou não fazer”. 
Ainda, em uma perspectiva conceitual, segundo Cintra, Grinover e 
Dinamarco (2003, p. 131), jurisdição: 
UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS
120
[...] é uma das funções do Estado, mediante a qual este se substitui 
aos titulares dos interesses em conflito para, imparcialmente, 
buscar a pacificação do conflito que os envolve, com justiça. Essa 
pacificação é feita mediante a atuação da vontade do direito objetivo 
que rege o caso apresentado em concreto para ser solucionado; e o 
Estado desempenha essa função sempre mediante o processo, seja 
expressando imperativamente o preceito (através de uma sentença 
de mérito), seja realizando no mundo das coisas o que o preceito 
estabelece (através de uma execução forçada). 
É através da pessoa do juiz que o Estado presta a tutela jurisdicional aos 
cidadãos que a procuram. Ela continua sendo a opção mais adotada pelos que 
se encontram em situação de conflito de interesses, uma vez que não há mais a 
possibilidade de fazer uso da autotutela. 
A generalização do processo como método heterocompositivo de 
resolução de controvérsias, a cargo da justiça privada ou pública, 
representou induvidosamente uma das maiores conquistas 
civilizatórias da humanidade, porquanto ensejou a gradual 
substituição da violência e da força bruta, que grassavam na 
aurora dos corpos sociais, por um mecanismo mais racional e apto 
a preservar ou resgatar a paz entre os membros da coletividade 
envolvidos na disputa de um bem da vida ou por esta afetados direta 
ou indiretamente (LIMA, 2013, p. 75-76).
Mesmo sendo importante e necessária, muitas vezes a jurisdição não 
consegue atingir a finalidade a que se destina por diferentes motivos. Um 
deles diz respeito à subjetividade dos envolvidos que podem manter mágoas e 
ressentimentos devido ao resultado da lide. 
É necessário ter sempre presente que a solução dada pelo juiz irá pôr fim 
ao processo, mas não necessariamente à situação de litígio, que poderá perdurar 
no tempo. Isso significa que a sentença pode acabar com a relação processual 
entre as duas partes, determinando que um ganha e o outro perde, entretanto, 
o desconforto gerado pelo conflito irá se manter, não sendo alcançado e saciado 
por nenhuma decisão que provenha de uma terceira pessoa.
Quando uma ou as duas partes se mostrarem insatisfeitas com o resultado, 
há previsão de interposição de recurso para uma instância superior àquela que 
definiu a decisão. Essa possibilidade tem como vantagem a oportunidade de a 
decisão passar por outra análise e, assim, ser mantida ou alterada. Entretanto, 
tem também desvantagens, visto que perpetua a tramitação dos processos nos 
tribunais, o que reflete na morosidade, valor e muitas vezes em ineficácia da 
prestação jurisdicional.
Uma segunda questão a ser considerada é que a perda de um prazo ou 
a inobservância de algum critério considerado indispensável pode levar a parte 
que tem razão a não ter seu direito reconhecido e, ainda, ter que pagar custas 
judiciais e os honorários sucumbenciais. Importante referir que no Judiciário 
são estabelecidas uma série de regras e procedimentos, algumas vezes bastante 
TÓPICO 2 | MEIOS HETEROCOMPOSITIVOS
121
formais, mas que devem ser observadas por quem bate à porta do Judiciário. 
Essas regras e procedimentos são necessários para diminuir as inseguranças 
jurídicas.
A importância do Judiciário se expressa em situações em que as partes 
tenham acessado outros métodos, mas não tenham tido êxito e prioritariamente 
em conflitos que só podem ser resolvidos pelo Judiciário, como quando se trata 
de conflitos sobre direitos indisponíveis, não havendo como ser negociados 
livremente por seus titulares. 
Direitos indisponíveis, como o termo sugere, são direitos sobre os quais 
há ingerência (intromissão) do Estado sobre a decisão. As ações que versam sobre 
alimentos fazem parte desses direitos. 
Para exemplificar, pode ser apresentada uma situação na qual um 
pai, cujos filhos estão sob cuidados e guarda da mãe, ajuíza ação de oferta de 
alimentos para fixar valores que dará aos filhos. Na petição inicial, ele apresenta 
uma realidade de dificuldades econômicas e refere poder pagar apenas meio 
salário mínimo, de acordo com o binômio necessidade/possibilidade. A mãe, que 
se diz conhecedora da realidade econômica do pai e sabedora de que o valor 
ofertado é muito aquém do necessário para manter os filhos, somado ao fato 
de estar desempregada, procura um advogado. Este profissional perde o prazo 
de contestar a ação do pai. Nessa situação, seria o caso de ser decretada revelia 
dos requeridos. Entretanto, em razão do direito de alimentos das crianças ser 
indisponível, os fatos referidos pelo pai não terão presunção de veracidade, o 
que significa que a revelia não produzirá seus efeitos. 
Na jurisdição, o papel do magistrado é indispensável. É ele quem precisa 
ser convencido sobre quem tem ou não tem razão. Segundo Staffen (2012, p. 89): 
“compete ao julgador ater-se à imparcialidade, ao equilíbrio das manifestações 
via ampla defesa e contraditório, dando fluência ao devido processo legal, aos 
direitos e garantias fundamentais”. O juiz detém o poder de decisão, entretanto, 
ela precisa ser fundamentada no processo legal, que encontra respaldo na 
Constituição Federal, no artigo 5º, inciso LIV, o qual preceitua: 
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinçãode qualquer 
natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes 
no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à 
segurança e à propriedade, nos termos seguintes: 
[...] 7 
LIV - ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o 
devido processo legal; 
[...] (BRASIL, 1988).
Desta forma, para a definição da sentença, o magistrado e demais 
envolvidos na lide deverão seguir regras e procedimentos preestabelecidos e 
com consequências predefinidas. Além disso, a imparcialidade do juiz é uma 
condição para o exercício profissional. Cabe a ele oferecer tratamento igualitário 
aos envolvidos. Ao julgar, ele não deve considerar suas noções, crenças e valores 
pessoais, bem como visões religiosas ou filosóficas. 
UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS
122
3 ARBITRAGEM – CONCEPÇÃO HISTÓRICA
Utilizar a arbitragem como meio de solução de controvérsias é fato desde 
a Antiguidade, fundamentada na ideia de que o povo é corresponsável pela 
condução da justiça na vida cotidiana. Nos últimos anos, entretanto, o Estado, 
buscando encontrar e desenvolver alternativas para a solução de controvérsias, 
a exemplo da instituição dos Juizados Informais de Conciliação e os Juizados 
Especiais de Pequenas Causas, a partir da Constituição de 1988, instituiu também 
os Juizados Especiais Cíveis e Criminais, visando agilizar processos e facilitar o 
acesso à justiça.
Para Bértoli e Busnello (2017, s.p.) a arbitragem é um dos avanços 
jurídicos mais utilizados na atualidade, muito devido às exigências do comércio 
internacional. “Sua implantação originou a estimulação de estudos doutrinários 
e a criação de instituições que oferecem serviços aos comerciantes para organizar 
os diferentes tipos de arbitragem, e da mesma forma orientou as câmaras de 
comércio”. Na arbitragem, tanto quanto numa decisão judicial, um terceiro 
imparcial definirá de forma vertical qual solução será pertinente. A diferença 
está, primeiramente, no fato de que o árbitro ou árbitros são eleitos em uma 
convenção de natureza privada, ou seja, as partes interessadas assinam um 
instrumento em que a escolha pela arbitragem é formalizada. Outra diferença 
está no fato de que a sentença proferida pelos árbitros não comporta recurso. 
Nesse sentido, Bértoli e Busnello ensinam que na Jurisdição quem perde a ação 
tem possibilidades de interpor recursos, enquanto na arbitragem isto não pode 
acontecer. Quando as partes optam por arbitragem sabem que a decisão irá gerar 
uma sentença ou laudo arbitral que não é passível de solicitar recursos.
Há algumas outras peculiaridades da arbitragem, as quais estão 
abordadas nos tópicos seguintes. 
4 DEFINIÇÕES PRELIMINARES
Trata-se de método de resolução de conflitos sem a participação do 
Poder Judiciário. No Brasil, é regido pela Lei nº 9.307/96, abrangendo direitos 
patrimoniais disponíveis, seja em relação a conflitos de interesses pessoais de 
pequena monta, como também grandes controvérsias empresariais ou estatais, 
desde que não estejam restritos pela legislação. 
Arbitragem, para Rocha (2003, p. 96-97), é: “um meio de resolver litígios 
civis, atuais ou futuros, sobre direitos patrimoniais disponíveis, através de 
árbitro ou árbitros privados, escolhidos pelas partes, cujas decisões produzem 
os mesmos efeitos jurídicos das sentenças proferidas pelos órgãos do Poder 
Judiciário”. A arbitragem, portanto, é um método de resolução de conflitos por 
meio de entidades privadas, as quais aplicarão a lei por meio de uma decisão 
denominada sentença arbitral.
TÓPICO 2 | MEIOS HETEROCOMPOSITIVOS
123
Em princípio, as sentenças arbitrais são finais e vinculativas. Elas só 
podem ser objeto de recurso e questionadas no tribunal em circunstâncias 
excepcionais. Por exemplo, isso se aplica aos casos em que as partes nunca 
validamente acordaram em estabelecer uma arbitragem. Sentenças arbitrais 
podem ser aplicadas na maioria dos países em todo o mundo.
Caracterizada pela informalidade, a arbitragem é um método alternativo 
ao Poder Judiciário que oferece decisões ágeis e técnicas para a solução de 
controvérsias. Só pode ser usada por acordo espontâneo das pessoas envolvidas 
no conflito que, automaticamente, abrem mão de discutir o assunto na Justiça. A 
escolha da arbitragem pode ser prevista em contrato (ou seja, antes de ocorrer o 
litígio) ou realizada por acordo posterior ao surgimento da discussão.
Como se trata de um método privado, são as partes envolvidas no conflito 
que elegem um ou mais árbitros, geralmente um ou três, imparciais e com 
experiência na área da disputa, para analisar o caso. Os árbitros normalmente 
tentam ajudar as partes a entrar em acordo. Se não houver acordo, eles emitem a 
decisão, chamada laudo ou sentença arbitral, que tem força de sentença judicial.
5 PRINCÍPIOS E PROCEDIMENTO 
A arbitragem é orientada pelos seguintes princípios:
• autonomia das partes;
• contraditório e ampla defesa concentrado;
• igualdade das partes;
• imparcialidade do árbitro;
• convencimento, conciliação, boa-fé, confidencialidade (DALE, 2016, s.p.).
Do ponto de vista do procedimento, pressupõe que seja contratado por 
pessoas maiores e capazes e por pessoas jurídicas, admitindo-se apenas que 
sejam submetidos os conflitos patrimoniais disponíveis.
Qualquer processo de arbitragem é baseado em um acordo por escrito 
entre as partes (convenção de arbitragem). Nesse aspecto, pode ser originado 
por meio de cláusula compromissória, em que a pactuação ocorre antes da 
ocorrência do litígio, ou por meio de compromisso arbitral, o qual é estipulado 
após a ocorrência do litígio.
Além disso, a arbitragem fornece, aos árbitros e às partes, significativa 
liberdade e flexibilidade. As partes podem escolher os árbitros, o local da 
arbitragem e/ou a língua do processo. As partes podem, portanto, negociar sobre 
a estrutura e duração de suas arbitragens. As partes, porém, não podem desviar-
se dos princípios da equidade e da igualdade, do direito à oitiva e do direito de 
serem representadas por um advogado.
UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS
124
Existem dois tipos de arbitragem: institucionais e ad-hoc. Na arbitragem 
institucional, a instituição assume funções administrativas específicas, tais 
como entrega de intimações etc. O grau de envolvimento pode variar de uma 
instituição para outra, mas a disputa em si sempre será decidida pelo tribunal 
arbitral. Na arbitragem ad-hoc, essas funções administrativas ou são assumidas 
pelo próprio tribunal ou delegadas a terceiros.
Hamburgo é a sede de reconhecidas instituições de arbitragem, como o 
German Maritime Arbitration Association (GMMA – Associação Alemã de Arbitragem 
Marítima); o Schiedsgericht der Handelskammer Hamburg (Tribunal de Arbitragem da 
Câmara de Comércio de Hamburgo); o Chinesisch Europäische Schiedsgerichtszentrum 
(CEAC – Centro de Arbitragem Chino-Europeu) e diversas outras instituições de 
arbitragem mercantil. Hamburgo também é frequentemente escolhida como local de 
arbitragem por instituições sediadas fora de Hamburgo, como o Deutsche Institution für 
Schiedsgerichtsbarkeit (DIS – Instituto Alemão de Arbitragem) e a International Chamber 
of Commerce (ICC – Câmara de Comércio Internacional).
FONTE:<http://www.dispute-resolution-hamburg.com/pt/arbitragem/o-que-e-
arbitragem/>. Acesso em: 12 dez. 2019. 
IMPORTANT
E
O processo de arbitragem, segundo Sales (2003), é bastante diferente dos 
processos de negociação, conciliação e mediação, visto ser um processo formal que 
exige regras processuais legais, as quais definem requisitos para que tenha validade. 
6 ARBITRO
A pessoa que se propõe a atuar como árbitro necessariamente precisa ter 
mais que 18 anos, ter discernimento e condições de expressar sua vontade e ter a 
confiança das pessoas envolvidas no conflito. O árbitro não precisa ser advogado, 
mas é bom que tenha conhecimentos sobre direito, já que a arbitragem envolve o 
uso de muitos conceitos legais.Assim como o juiz, o árbitro não pode ser amigo ou parente das partes, 
nem trabalhar para elas ou ter algum interesse pessoal no julgamento da causa. 
Segundo a lei, o árbitro deve ser independente e imparcial.
Importante enfatizar que o arbitro é um juiz de fato e de direito, por 
isso precisa ter conhecimentos específicos na área relacionada ao conflito e o 
cumprimento, pelas partes, de suas decisões, é obrigatório. O árbitro precisa 
ter competências para dar conta da crescente demanda por este método e estar 
qualificado e consciente da responsabilidade de suas intervenções na construção 
de um futuro mais justo e pacífico para as futuras gerações.
125
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu que:
• No método heterocompositivo, as soluções ficam sob responsabilidade de um 
terceiro que decide sobre o que as partes devem ou não fazer.
• É através da pessoa do juiz que o Estado presta a tutela jurisdicional aos 
cidadãos que o procuram. Essa segue sendo a opção mais adotada pelos que 
se encontram em situação de conflito de interesse.
• A sentença coloca fim ao processo, mas a situação de litígio poderá perdurar.
• A importância do Judiciário se expressa em situações em que as partes tenham 
acessado outros métodos, mas não tenham tido êxito, ou quando se trata de 
direitos indisponíveis.
• Na definição da sentença, o juiz e demais envolvidos na lide deverão seguir as 
regras e procedimentos preestabelecidos e em consequências predefinidas.
• A imparcialidade do juiz é uma condição para o exercício profissional.
• Por meio da convenção de arbitragem, as partes elegem a arbitragem em 
primeiro plano, preterindo-se a solução por meio judicial. 
• Na arbitragem, um dos avanços jurídicos mais utilizados na atualidade, a 
resolução dos conflitos se dá por meio de entidades privadas, cujas decisões 
produzem os mesmos efeitos jurídicos das sentenças proferidas pelos órgãos 
do Poder Judiciário.
• A arbitragem é comum em contratos comerciais, especialmente nos contratos 
relativos às transações internacionais. 
• Características gerais da arbitragem: 
o pode ser utilizada em qualquer controvérsia envolvendo direito patrimonial 
disponível;
o há possibilidade de conciliação durante o processo;
o possui um caráter decisório técnico (os envolvidos escolhem o árbitro de 
sua confiança, com profundo conhecimento sobre o objeto do conflito; 
o pode repercutir em economia processual; 
o há sigilo no procedimento;
o dispensa de homologação judicial da sentença arbitral;
o irrecorribilidade da sentença arbitral perante o Poder Judiciário, a não ser 
nos casos em que a lei prevê a nulidade da sentença arbitral.
126
AUTOATIVIDADE
1 Na relação entre jurisdição e arbitragem, é correto afirmar:
I- Na jurisdição, o papel do magistrado é indispensável. É ele quem precisa 
ser convencido sobre quem tem ou não tem razão.
II- O juiz detém o poder de decisão para a definição de sentença, mas precisa 
seguir regras e procedimentos preestabelecidos e com consequências 
predefinidas.
III- O Juizado Especial Cível e Criminal sempre existiu desde a Antiguidade, o 
que é atual é a possibilidade de utilizar a arbitragem como meio de solução 
de controvérsias.
IV- Em uma decisão judicial, um terceiro imparcial definirá de forma vertical a 
solução pertinente, já na arbitragem a forma é horizontal.
V- A arbitragem é um método de resolução de conflitos sem a participação do 
Poder Judiciário.
Agora, assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:
a) ( ) V – F – F – F – F.
b) ( ) F – V – V – F – V.
c) ( ) V – V – F – F – V.
d) ( ) F – F – V – V – F.
2 Sobre a figura do árbitro, escolha a resposta INCORRETA.
a) ( ) O árbitro é uma terceira pessoa, de confiança das partes e escolhida por 
estas para conduzir a solução do conflito.
b) ( ) O árbitro não precisa ter formação jurídica.
c) ( ) As partes podem escolher o árbitro de acordo com a especialidade 
técnica que seja mais útil à solução da questão em concreto.
d) ( ) O árbitro, na arbitragem judicial, será o próprio juiz da causa.
3 Analise as afirmações a seguir e escolha a alternativa CORRETA:
I- O árbitro poderá ser recusado pelas partes a qualquer tempo e por 
qualquer motivo.
II- Estão impedidos de funcionar como árbitros as pessoas que tenham, com 
as partes ou com o litígio que lhes for submetido, algumas das relações 
que caracterizam os casos de impedimento ou suspeição de juízes, 
aplicando-se, no que couber, os mesmos deveres e responsabilidades, 
conforme previsto no Código de Processo Civil.
III- As pessoas indicadas para funcionar como árbitro têm o dever de revelar, 
antes da aceitação da função, qualquer fato que denote dúvida justificada 
quanto a sua imparcialidade e independência.
127
( ) Somente as alternativas I e II estão corretas.
( ) Somente as alternativas I e III estão corretas.
( ) Somente alternativas II e III estão corretas.
( ) Todas estão correta
( ) Todas estão erradas
128
129
TÓPICO 3
MEIOS AUTOCOMPOSITIVOS
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
O Brasil caminha em passos ainda lentos para mudanças dos paradigmas 
relacionados à forma como lida com conflitos. A cultura litigiosa mostra-
se enraizada no íntimo das pessoas, sendo que, mesmo em suas residências 
ou comunidades, ainda parece prevalecer a Lei de Talião com a sua famosa 
expressão “olho por olho, dente por dente”. 
 Para superar essa cultura litigiosa, têm sido empreendidos esforços em 
diferentes contextos para que as pessoas se reconheçam como protagonistas na 
identificação de interesses e nos esforços para o seu alcance. No que se refere ao 
Judiciário, desde a década de 90 vem sendo adotados projetos de atividades pré-
processuais em vários setores (civil, penal, familiar, previdenciário, entre outros), 
na busca de implementar a prevenção de demandas. Esses projetos atingiram os 
objetivos esperados, o que resultou na criação de uma resolução com indicadores 
sobre como proceder nas prevenções de demandas. Em novembro de 2010, 
o Conselho Nacional de Justiça instituiu a “Política Judiciária Nacional de 
tratamento adequado dos conflitos de interesses no âmbito do Poder Judiciário”, 
o que tende a estimular e assegurar a solução de litígios por meio do consenso 
entre as partes (RESOLUÇÃO 125/2010). 
Importante assinalar que a adoção de outros métodos de resolução de 
conflitos não implica na exclusão do Poder Judiciário. Ao contrário, funcionam 
como complemento à atividade jurisdicional estatal. Nesse sentido, Petrônio 
Calmon ressalta que “os meios alternativos não excluem ou evitam um sistema 
judicial caótico, mas põem-se interativamente ao lado da jurisdição estatal, 
devendo-se valer do critério da adequação entre natureza do conflito e o meio de 
solução que entenda mais apropriado (CALMON, 2008, p. 49). 
130
UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS
2 LEGISLAÇÃO RELACIONADA
A Resolução nº 125/2010 do Conselho Nacional de Justiça e o Código de 
Processo Civil de 2015 representam um marco no direito brasileiro por viabilizar 
a construção de um processo civil e sistema de justiça multiportas, que indicam 
o método ou técnica mais adequada para a solução de conflitos. Espera-se que 
o Judiciário se constitua em um espaço de resolução de disputas, local onde os 
envolvidos em conflitos possam sair satisfeitos com o resultado. 
2.1 RESOLUÇÃO 125/2010 CNJ
Em novembro de 2010, foi aprovada a Resolução nº 125 do Conselho 
Nacional de Justiça:
Art. 1º: Fica instituída a Política Judiciária Nacional de tratamento dos 
conflitos de interesses, tendente a assegurar a todos o direito à solução 
dos conflitos por meios adequados a sua natureza e peculiaridade.
Parágrafo único: Aos órgãos judiciários incumbe, além da solução 
adjudicada mediante sentença, oferecer outros mecanismos de solução 
de controvérsias, em especial os chamados meios consensuais, como a 
mediação e a conciliação, bem assim prestar atendimento e orientação 
ao cidadão (CNJ, 2010).Os objetivos estão relacionados a seguir:
I- institui a Política Judiciária Nacional de tratamento dos conflitos de 
interesses, por meios adequados a sua natureza e peculiaridade;
II - disseminar a cultura da pacificação social e estimular a prestação de serviços 
autocompositivos qualidade (art. 2º);
III - reafirmar a função de agente apoiador da implantação de políticas públicas 
do CNJ (art. 3º); 
IV - incentivar os tribunais a se organizarem e planejarem programas amplos de 
autocomposição (art. 4º).
Leia, na íntegra, a Resolução nº 125 do Conselho Nacional de Justiça, através 
do site: https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/2011/02/Resolucao_n_125-GP.pdf
DICAS
TÓPICO 3 | MEIOS AUTOCOMPOSITIVOS
131
2.2 CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL 2015
O Novo Código de Processo Civil, com amparo da Constituição e do CNJ, 
representa uma conquista para os métodos adequados de resolução de conflitos. 
Exemplo:
Art. 3º: Não se excluirá da apreciação jurisdicional ameaça ou lesão a 
direito. 
§ 1º É permitida a arbitragem, na forma da lei. 
§ 2º O Estado promoverá, sempre que possível, a solução consensual 
dos conflitos.
§ 3º A conciliação, a mediação e outros métodos de solução consensual 
de conflitos deverão ser estimulados por juízes, advogados, 
defensores públicos e membros do Ministério Público, inclusive no 
curso do processo judicial. 
(BRASIL, 2015)
3 NEGOCIAÇÃO 
A negociação é o meio mais simples, rápido, básico e elementar para 
a resolução de controvérsias. As pessoas negociam o tempo todo, em casa, no 
trabalho, com amigos e nos mais diferentes espaços por onde andam e vivem, 
porque é uma forma básica de conseguir o que se quer dos outros. Ela pode 
ser entendida como uma atividade na qual duas ou mais partes, tentam criar 
um acordo que resolva o conflito estabelecido entre eles, de forma diferente de 
recorrer à força ou à decisão de um terceiro.
Uma importante fonte de construção de conhecimentos sobre negociação 
advém de décadas de pesquisas realizadas em Harvard, que passou a ser 
conhecida como método de negociação baseado em princípios, que busca 
interesses comuns e benefícios mútuos. Em qualquer situação esse método pode 
ser utilizado, desde situações cotidianas do espaço privado, quanto em processos 
de trabalho profissional. Segundo Fisher e Ury (2014), “não se deve negociar 
em base em posições”, visto que elas podem produzir acordos ineficientes, 
insensatos e ameaçar o relacionamento dos envolvidos. Os autores defendem 
como alternativa a negociação baseada em interesses.
Para que a negociação produza o resultado esperado, dê atenção especial 
para a valorização do ser humano, da palavra e da continuidade da relação.
NOTA
132
UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS
3.1 DEFINIÇÕES PRELIMINARES
Como já foi assinalado, a negociação está presente no cotidiano 
de todas as pessoas. Entretanto, entender a negociação conceitualmente e 
metodologicamente pode facilitar que os envolvidos na negociação possam 
alcançar melhores resultados. 
 “Negociação é um processo de comunicação bilateral com o objetivo 
de se chegar a uma decisão conjunta” (FISHER; URY; PATTON, 2005, p. 50). 
Nessa definição, a ênfase está na comunicação, na ideia da tomada de decisão 
conjunta. A comunicação na negociação não pode ser subestimada, desta forma, 
o momento da negociação, a escuta dos envolvidos e como é conduzida a fala 
são aspectos fundamentais para uma comunicação objetiva. 
Segundo Cohen (1980, p. 14), “Negociação é o uso da informação e 
do poder com o fim de influenciar o comportamento dentro de uma rede de 
tensão”. Na definição apresentada por Cohen são destacados comportamentos 
de influência, ficando subtendido um contexto de comunicação com base no 
poder e na informação.
 
É possível afirmar que cada vez que duas ou mais pessoas trocam 
ideias com o intuito de modificar suas relações, cada vez que chegam a um 
acordo, estão negociando. A negociação depende da comunicação e ocorre 
entre pessoas que representam a si ou a grupos organizados. O destaque desse 
conceito está na troca de ideias com o objetivo de comprometer as relações com 
o outro visando acordo.
Uma forma comum de entender a Negociação é a de um processo em 
que as partes, que em um primeiro momento parecem ter interesses antagônicos, 
procuram ajuda para discutir propostas com o objetivo de alcançar um acordo. 
Esta conceituação caracteriza o processo, as partes e os tipos de interesses 
orientados para um acordo. Todo o conflito e toda negociação envolvem esferas 
de poder, regras e interesses. 
Focar nas duas primeiras pode fazer o conflito escalar e dificultar 
a satisfação dos envolvidos. Focar na esfera dos interesses pode funcionar 
melhor porque, para cada interesse, existem muitas e diversas posições, sendo 
que alguma delas podem satisfazer os envolvidos, já que as pessoas tendem a 
adotar as posições mais óbvias possíveis. Quando o negociador possibilita que 
os envolvidos abandonem a posição inicial e passem a olhar para os interesses 
que os motivam, possivelmente será possível encontrar uma opção satisfaça os 
interesses de ambas as partes. A prerrogativa pressupõe que os envolvidos lidem 
com a controvérsia como um problema mútuo, entretanto, encontrar interesses 
comuns não é tarefa fácil. 
Nessa perspectiva, pode-se conceituar a negociação como “um meio 
básico de conseguir o que se quer de outrem. É uma comunicação bidirecional 
TÓPICO 3 | MEIOS AUTOCOMPOSITIVOS
133
concebida para chegar a um acordo, quando você e o outro lado têm alguns 
interesses em comum e outros opostos” (FISHER; URY; PATTON, 2005, p. 15).
Nas vivências cotidianas podem ser identificadas duas formas de 
negociar. A primeira, baseada na empatia, faz com que o negociador faça 
diversas concessões a fim de evitar o conflito. A segunda, baseada no rigor 
e com foco no objetivo, leva a um comportamento por vezes áspero, de quem 
deseja vencer a qualquer custo, sem abrir mão da sua posição. Essa posição 
prejudica a concretização do acordo e influencia futuros relacionamentos entre 
os negociadores. A ideia da Escola de Negociação de Harvard foi justamente 
conciliar essas duas maneiras de negociar, desenvolvendo e difundindo uma 
nova forma de agir: a negociação baseada em princípios, a qual se baseia no 
conceito do “ganha-ganha”.
O método da negociação baseado em princípios, desenvolvido no Projeto 
de Negociação de Harvard, consiste em decidir as questões a partir de seus 
méritos, e não através de um processo de regateio centrado no que cada lado se 
diz disposto a fazer e não fazer. 
 A intencionalidade da negociação é alcançar um resultado que satisfaça 
ambas as partes, o que pressupõe que o outro não seja visto e tratado como 
oponente, mas sim como parceiro e colaborador na realização do acordo. A 
Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015 (Novo Código de Processo Civil) tratou 
da negociação, no parágrafo 3º. do art. 166, in verbis: “Admite-se a aplicação 
de técnicas negociais, com o objetivo de proporcionar ambiente favorável à 
autocomposição” (BRASIL, 2015). 
Uma das máximas desse método é criar valor antes de distribuir tais 
valores entre os envolvidos no processo de negociação. Siouf Filho (2012) 
apresenta a imagem de um bolo e afirma que se deve aumentar o bolo para só 
então cortá-lo e distribuí-lo. Assim, para o autor, quanto maior o bolo, maior a 
possibilidade de satisfação entre os participantes e maior a chance de se chegar a 
um acordo. 
Importante enfatizar que conflitos podem surgir em todos os aspectos 
da vida. Então, a negociação pode ser uma técnica importante e viável para a 
resolução desses conflitos.
Teoricamente, os conflitos mais adequados à negociação direta são aqueles 
em que as pessoas possuem condições de dialogar mesmo sem a intervenção de um 
terceiro para facilitar esse diálogo – normalmente de ordem material, patrimonial.
NOTA
134
UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS
3.2 PRINCÍPIOS E PROCEDIMENTOSA ideia da negociação é buscar a maximização de ganhos mútuos, e isso 
só é possível na medida em que os envolvidos em um conflito se concentrem em 
criar valor em vez de dividi-lo. A negociação baseada em princípios busca criar 
valor na negociação e possui quatro princípios gerais, que permitem resultados 
ganha-ganha pautados nos interesses: 
1º separar as pessoas do problema;
2º focar nos interesses dos envolvidos e não nas suas posições; 
3º criar opções de ganho mútuo;
4º mapear critérios objetivos para legitimar a escolha das opções .
Pessoas: separe as pessoas dos problemas.
Interesses: concentre-se nos interesses, não nas posições.
Opções: crie uma variedade de possibilidades antes de decidir o que fazer.
Critérios: insista que o resultado tenha por base algum padrão objetivo (FISHER; URY; 
PATTON, 2005, p. 28). 
NOTA
1º Princípio – Separar as pessoas dos problemas. 
A prerrogativa de um negociador eficaz é que ele possa ser capaz 
de distinguir o conflito e as pessoas nele envolvidas. Desta forma, não deve 
prevalecer na negociação o hábito de se fazer acusações pessoais, mas sim o 
exercício de um se colocar no lugar do outro, com foco no objetivo a ser atingido. 
As chances de acordo estão diretamente relacionadas à atmosfera favorável ao 
diálogo. 
É necessário ter claro que os envolvidos na negociação são seres 
humanos, que possuem sentimentos e desejos. Desta forma, o aspecto emocional 
da negociação é de extrema importância e não pode ser negligenciado. Em uma 
disputa, as emoções envolvidas fazem com que o outro seja visto como parte 
do problema e não como parte de uma negociação em que é possível buscar 
colaboração. Os autores defendem que é importante manter o foco nas questões 
a serem tratadas, e não nas pessoas envolvidas. O problema, para eles, deve ser 
tratado com dureza, já as pessoas precisam ser tratadas com afeto.
Esse princípio considera que as pessoas não necessariamente fazem parte 
do problema, ou seja, trabalhar para a superação de um problema e manter uma 
boa relação não precisam ser objetivos que conflitam entre si. 
TÓPICO 3 | MEIOS AUTOCOMPOSITIVOS
135
2º Princípio – Concentrar-se em interesses, não em posições. 
Nas disputas, os envolvidos devem superar o costume de se concentrar 
nas posições. As posições obscurecem os reais interesses das pessoas. O que 
está envolvido em uma negociação são as necessidades, desejos, preocupações e 
temores. Esses sentimentos precisam ser explicitados e explorados. Quando isso 
é realizado, do processo podem emergir interesses comuns e compatíveis. 
Importante considerar que posições opostas podem esconder interesses 
comuns e compatíveis. Muitas vezes, esses interesses podem não ser explicitados 
e, para poderem ser conhecidos a utilização de técnicas pode ser útil. Uma 
técnica básica consiste em uma atitude empática de pensar na escolha do outro 
(perguntar “por quê?”; “por que não?”) com o intuito de reconhecer os interesses 
do outro como parte do problema, olhando para frente (futuro), e não somente 
para trás (passado). Desta forma, esse princípio preconiza que para uma boa 
negociação ser possível, os interesses dos envolvidos precisam ser reconhecidos 
para poder atender seus desejos, evitando-se a disputa por posições. 
Um exemplo bastante conhecido, provavelmente abordado pela primeira 
vez no Curso do Projeto de Negociação de Harvard, é a disputa de duas crianças 
por uma única laranja. A vinheta apresenta a história de duas crianças que 
brigavam há horas para ter a única laranja que havia em casa. A mãe, imbuída 
do desejo de terminar com a briga das filhas e solucionar o impasse da forma 
mais justa que ela entendia ser possível, simplesmente dividiu a laranja ao meio, 
dando metade para cada uma das filhas. Essa, de fato, parece ser a solução 
mais óbvia, que, aparentemente, parece ser a mais correta e que a maioria das 
pessoas tomaria. Entretanto, mais tarde, essa mãe descobriu o quanto essa 
solução era insatisfatória e não resolvia o problema de nenhuma das filhas, pois 
uma filha queria a laranja para fazer suco e a outra queria apenas a casca para 
brincar. Quando a laranja foi partida ao meio, ambas saíram perdendo, mesmo 
que pudessem ter os seus interesses integralmente satisfeitos, dado que não 
queriam a mesma coisa. Suas posições eram antagônicas, mas os interesses eram 
compatíveis.
3º Princípio – Inventar opções de ganhos mútuos
Utilizar a criatividade para criar diferentes opções antes de tomar 
decisão pode facilitar a construção de um acordo cujos ganhos podem ser 
mútuos. Segundo Fisher, Ury e Patton (2005), o julgamento prematuro, a busca 
por uma resposta única e o entendimento de que os problemas do outro são 
de responsabilidade deles podem se constituir em obstáculos para chegar a 
um acordo. Para ser capaz de inventar opções criativas, é importante: buscar 
todas as opções possíveis sem avaliá-las; buscar ampliar o número de opções 
possíveis, rompendo com a ideia de que existe apenas uma resposta para o 
problema; buscar possibilidades de ganhos mútuos; harmonização de interesses 
discrepantes e facilitar a decisão da outra parte, criando opções que levem em 
conta as necessidades deles. 
136
UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS
Inventar opções criativas (brainstorming) pode ser feito tanto individual 
quanto conjuntamente pelas partes e pode constituir-se como uma atividade 
muito útil para encontrar opções de ganho mútuo.
4º Momento – Buscar critérios objetivos 
Critérios objetivos favorecem que as soluções possam ser consideradas 
justas pelas partes. Os critérios objetivos dizem respeito ao fato de não depender 
da vontade pura e simples das partes. Podem por sua vez, decorrer do valor de 
mercado, de alguma opinião especializada, costumes, entre outros. Os critérios, 
que não precisam ser únicos, devem partir de discussões, argumentações e 
independem da vontade de qualquer dos lados. 
Para a discussão de procedimento, é importante apresentar o Método dos 
Sete Elementos, desenvolvido na Escola de Direito da Universidade de Harvard. 
O método prescreve os elementos: comunicação, relacionamento, alternativas, 
interesses, opções, critérios e compromisso.
I- Comunicação: Os negociadores precisam falar a mesma linguagem. 
Dificuldades comunicacionais podem levar a desentendimentos que não 
são necessários.
II- Relacionamentos: A confiança está diretamente relacionada a relações 
próximas e amigáveis. Quando há confiança, as pessoas revelam interesses 
latentes, que de outra forma não seriam revelados.
III- Alternativas: A identificação da MASA é a escolha da melhor alternativa 
dentre as possíveis. Isso é feito antes do início da negociação e será utilizado 
no caso não fechar o acordo. 
IV- Interesses: Quando se identificam os interesses, é possível aumentar o 
“todo” que, depois, será distribuído na negociação.
V- Opções: Identificação de possíveis soluções construídas a partir da revelação 
de interesses subjacentes às posições.
VI- Critérios: Utilização de padrões objetivos, gerais e independentes da 
vontade das partes.
VII- Compromisso: Documentação do acordo de forma a deixar o combinado 
claro e registrado. 
3.3 FASES DA NEGOCIAÇÃO 
Segundo Fisher e Ury (2014), em uma negociação podem ser identificadas 
três fases: análise, planejamento e discussão. 
• A fase da análise pressupõe fazer o diagnóstico da situação, reunir informações, 
organizá-las e fazer reflexão sobre elas. Nesta fase, é importante levar em 
conta a percepção, sentimentos e emoções das pessoas que estão envolvidas 
no conflito e também identificar os interesses dos envolvidos
TÓPICO 3 | MEIOS AUTOCOMPOSITIVOS
137
• A próxima fase é o planejamento, no qual é decidido como será feita a 
negociação, considerando a análise realizada, os mais significativos e 
importantes interesses identificados, bem como os objetivos mais realistas. 
• A terceira fase é a fase de discussão, na qual os envolvidos se comunicam 
diretamente. Nessemomento, é necessário que o ambiente possa facilitar o 
diálogo e que todos tenham a oportunidade de expressar os seus sentimentos 
e interesses. Cada parte envolvida é incentivada a compreender os interesses 
e as necessidades do outro. Quando isso é alcançado, os envolvidos poderão 
trabalhar em conjunto para construir opções de ganho mútuo, buscando 
firmar um acordo com base em padrões objetivos para conciliar os interesses.
3.4 O NEGOCIADOR
A teoria de Harvard apresenta a figura do negociador como uma pessoa 
cooperativa, que atua baseada em princípios que buscam o ganha-ganha em vez 
da preocupação em vencer no enfoque ganha-perde. O negociador ganha-ganha 
busca possibilidades de soluções criativas que agreguem valor às questões e que 
favoreçam a manutenção de relacionamentos. 
Cabe ao negociador conduzir a negociação através de uma conversa 
franca, investir na boa-fé das partes e no envolvimento de todos para alcançar 
uma solução. Quando o negociador consegue que isso aconteça, dificilmente o 
acordo será descumprido.
4 CONCILIAÇÃO
A Lei federal nº 7.244/84 foi a grande impulsionadora para a projeção da 
conciliação como forma autocompositiva de resolução de conflitos. A Lei rompeu 
paradigmas ao introduzir no cenário jurídico nacional propostas de pacificação 
social, deu ênfase à conciliação e criou a figura do conciliador como facilitador 
na resolução de conflitos. Essa lei foi substituída pela Lei nº 9.099/95, que dispõe 
sobre os Juizados Especiais Cíveis e Criminais, definindo critérios para a criação 
de um espaço formal para a atuação do conciliador.
Atualmente, a Resolução nº 125/2010 dá ordenamento jurídico aos 
mecanismos consensuais de resolução de conflitos no Brasil, consolidando-os 
como política pública judiciária e tem o propósito de incentivar, aperfeiçoar e 
assegurar tratamento adequado aos conflitos.
 
A conciliação é um método para dirimir adversidades e investir na busca 
de interesses que satisfaçam os envolvidos não só na área jurídica, mas também 
nas outras dimensões de relações conflituosas. 
138
UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS
4.1 DEFINIÇÕES PRELIMINARES
A definição histórica da palavra “conciliação” tem origem latina 
e significa conciliatione. Foi traduzida em ato ou efeito de conciliar; ato de 
harmonizar disputantes ou pessoas com vontades opostas; acordo; entendimento; 
concordância. A conciliação ou autocomposição é realizada quando duas ou mais 
pessoas buscam pôr fim às divergências existentes entre elas de uma maneira 
consensual. As próprias partes são incentivadas a buscar uma solução de forma 
conjunta e participativa.
Juridicamente falando, a conciliação tem suas definições enraizadas de 
acordo com o conhecimento transmitido pelo Conselho Nacional de Justiça, no 
sentido de autocomposição das partes. Conforme esclarece o CNJ, conciliação 
se traduz em “um meio alternativo de resolução de conflitos em que as partes 
confiam a uma terceira pessoa (neutra), o conciliador, a função de aproximá-las e 
orientá-las na construção de um acordo” (BRASIL, 2015). 
No caso da conciliação judicial, o procedimento é iniciado pelo 
magistrado ou por requerimento da parte, com a designação da audiência e a 
intimação das partes para o comparecimento. Na conciliação pré-processual, a 
parte comparece à unidade do Poder Judiciário apto a atendê-la – no caso, são as 
unidades de conciliação já instaladas ou os Juizados Especiais –, que marca uma 
sessão na qual a outra parte é convidada a comparecer. Na efetivação do acordo, 
o termo da audiência se transforma em título judicial. Na falta de acordo, é dado 
o encaminhamento para o ingresso em juízo pelas vias normais.
A possibilidade de conciliação está prevista em diversas leis e 
regulamentos como:
ANO LEI NÚMERO E ARTIGOS
1943 Consolidação das Leis do Trabalho CLT DL-005.452-1943 (artigos 764, 831, 847 e 850)
1973 Código de Processo Civil Artigos 125, IV, 269, III, 277 e outros.
1990 Código de Defesa do Consumidor Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990 (artigos 5º, IV, 6º, VII, e 107).
1995 Lei dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais
Lei nº 9.099, de 26 de setembro de 1995
(artigo 2º).
1996 Lei de Arbitragem Lei nº 9.307, de 23 de setembro de 1996 (artigos 21, §4º, e 28)
2001 Lei dos Juizados Especiais Federais Lei nº 10.259, de 12 de julho de 2001.
2002
Resolução 20002/12 da ONU
Princípios básicos para utilização de 
programas de justiça restaurativa em 
matéria criminal.
Resolução 2002/12 de 24 de julho de 2002.
TÓPICO 3 | MEIOS AUTOCOMPOSITIVOS
139
2002 Código Civil Lei 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (artigo 840).
2009 Lei dos Juizados Especiais da Fazenda Pública Lei nº 12.153, de 22 de dezembro de 2009.
2010
Política Judiciária Nacional de 
tratamento adequado dos conflitos 
de interesses
Resolução nº 125, de 29 de novembro de 2010.
FONTE: A autora
Na atualidade, com base na política pública preconizada pelo Conselho 
Nacional de Justiça e consolidada em resoluções e publicações diversas, pode se 
afirmar que a conciliação busca no Poder Judiciário:
i) além do acordo, uma efetiva harmonização social das partes; ii) 
restaurar, dentro dos limites possíveis, a relação social das partes 
iii) utilizar técnicas persuasivas, mas não impositivas ou coercitivas 
para se alcançarem soluções; iv) demorar suficientemente para 
que os interessados compreendam que o conciliador se importa 
com o caso e a solução encontrada; v) humanizar o processo de 
resolução de disputas; vi) preservar a intimidade dos interessados 
sempre que possível; vii) visar a uma solução construtiva para o 
conflito, com enfoque prospectivo para a relação dos envolvidos; 
viii) permitir que as partes sintam se ouvidas; e ix) utilizar se de 
técnicas multidisciplinares para permitir que se encontrem soluções 
satisfatórias no menor prazo possível (VELOSO et al., 2018, s.d.). 
Na conciliação, os envolvidos procuram a resolução de seus conflitos 
com a presença do conciliador, o qual interfere no processo visando à obtenção 
de um acordo. É esperado que o conciliador ofereça sugestões sobre possíveis 
soluções e melhores alternativas para o problema e acordo a ser construído. Esse 
parecer é dado a partir de uma avaliação criteriosa das vantagens e desvantagens 
para cada um dos envolvidos, que podem ou não acatar as sugestões recebidas. 
4.2 PROCEDIMENTO
Na conciliação, é esperado que o terceiro – conciliador -– interfira no 
processo da discussão, sugerindo um possível acordo e apontando possíveis 
soluções. Esse parecer é dado a partir de uma avaliação criteriosa das vantagens 
e desvantagens para cada um dos envolvidos, que podem ou não acatar as 
sugestões recebidas. 
Os conflitos mais adequados para a utilização de meio são aqueles 
esporádicos, nos quais os envolvidos não têm vínculo continuado, nem afetivo, 
tampouco emocional. Segundo Hidal e Sampaio (2016), questões em que as 
relações são casuais e superficiais, nas quais o interesse material se sobrepõe ao 
relacional. 
140
UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS
 As diferentes etapas da conciliação apresentadas por Braga Neto (2003, 
p. 23) podem ser divididas em quatro: abertura, esclarecimentos, criação de 
opções e o acordo. 
Em relação às etapas, vale a observação de Lia Regina Castaldi Sampaio e 
Adolfo Braga Neto, no sentido de que não se trata de uma “receita culinária, em que são 
usados determinados ingredientes e marcas que resultarão, na maioria das vezes, se bem 
seguidas pelo usuário, em um alimento a ser consumido” (SAMPAIO; BRAGA NETO, 2007, 
p. 46-47).
NOTA
• Etapa da Abertura 
Na abertura, o conciliador fala sobre o procedimento que será realizado, 
faz os esclarecimentos iniciais e fala das implicações legais referentes ao acordo. 
Tavares Filho e Tavares (2016) ao se referirem à etapa da apresentação, salientam 
sobre a importância da criação de um ambiente de acolhimento que possa 
conquistar os participantes e dar legitimidade a estemeio autocompositivo. Os 
autores ainda listam itens a serem seguidos pelo conciliador nesta etapa:
o cumprimentar as partes e seus advogados;
o anotar os respectivos nomes e perguntar como cada qual prefere ser 
chamado;
o fazer a sua apresentação pessoal, ressaltando o dever ético de imparcialidade 
e neutralidade;
o destacar seu papel de facilitador do diálogo, não de julgador;
o falar sobre a voluntariedade e informalidade dessa prática;
o confirmar o interesse das partes em participar e parabenizá-las pela escolha;
o esclarecer sobre os objetivos da conciliação e as implicações da celebração 
(ou não) do acordo;
o realçar as vantagens dessa forma de solução de conflitos.
• Etapa Esclarecimento 
Tavares Filho e Tavares (2016) agregam a terminologia investigação 
ao nome da etapa. Nela, cabe ao conciliador buscar esclarecimentos por parte 
dos envolvidos sobre ações, atitudes e iniciativas que geraram o conflito. O 
conciliador convida os envolvidos a relatarem a controvérsia. É nesta etapa que 
são identificados os temas, interesses e posições dos envolvidos. 
TÓPICO 3 | MEIOS AUTOCOMPOSITIVOS
141
Cabe ao conciliador identificar os pontos convergentes e divergentes do 
conflito através de uma escuta ativa e sem interrupções. É o momento de realizar 
perguntas sobre o fato e a relação entre eles para incentivar a comunicação e 
identificar a pretensão de cada parte envolvida no conflito. 
 
• Etapa Criação de opções de solução
A terceira etapa pressupõe a criação de opções que pode se dar por uma 
sugestão apresentada pelo conciliador ou mesmo propostas construídas pelos 
envolvidos para a solução do conflito. O foco, segundo Tavares Filho e Tavares 
(2016, p. 350) “é o incentivo à criatividade das partes, na busca da solução da 
disputa, tendo em vista que quanto mais propostas forem discutidas, maiores as 
perspectivas de uma decisão consistente”.
 
Os autores Tavares Filho e Tavares incluem uma outra etapa, antes 
da etapa final, chamada por eles de avaliação e escolha das opções de 
solução. 
• Avaliação e escolha das opções de solução
A tarefa do conciliador é auxiliar na análise das opções construídas na 
fase três, com vistas a selecionar as opções que possam ser viáveis e atender 
aos interesses das partes. Nesta etapa, que é mais objetiva, pode ser necessária 
a presença de um advogado, pois não é prerrogativa do conciliador orientar 
quanto à exequibilidade das soluções propostas. 
• Acordo
Trata-se da lavratura do termo final, do acordo. Segundo Tavares Filho 
e Tavares (2016, p. 352) é importante que na escrita possam ser considerados os 
seguintes aspectos:
o forma escrita;
o redigido na presença das partes, advogados e conciliador;
o modo simples, claro, preciso;
o fazer constar exatamente o que ficou combinado;
o ter o tratamento jurídico necessário;
o deixar assinalado quem vai fazer o quê, porquê, quando, como, onde e 
quando.
4.3 TÉCNICAS 
Vamos apresentar as técnicas de conciliação descritas por Tavares Filho 
e Tavares (2016). Estas técnicas também são utilizadas em outros métodos de 
solução de conflitos, como a mediação e negociação. Cabe ao conciliador decidir 
pela melhor técnica em resposta ao que busca resolver.
142
UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS
Escuta ativa ou escuta dinâmica – A escuta ativa pode ser entendida 
como uma técnica que implica dar àquele que fala sua mais completa atenção 
e capacidade de compreensão. A prerrogativa é a necessidade de construção 
de um espaço propício para a comunicação, em que os envolvidos possam se 
sentir confortáveis para expressar ideias e sentimentos. Para compreensão do 
que é assinalado pelas partes, o conciliador utiliza perguntas exploratórias, que 
ajudam a elucidar o que é dito. 
Técnica da recontextualização ou parafraseamento – A técnica pressupõe 
que o conciliador construa um resumo reformulado do que foi dito pelas partes, 
extraindo a conotação negativa e enfatizando pontos positivos e comuns. O 
conciliador, com esta técnica, tem a chance de confirmar se entendeu bem o que 
foi dito e as partes têm a possibilidade de ouvir a sua própria fala. 
Técnica: concentrar-se nos interesses – A proposta da técnica é facilitar, 
por meio de perguntas, que os envolvidos no conflito possam sair de suas 
posições e expressar seus interesses. Quando as partes iniciam a sessão, elas têm 
a tendência de se manter nas posições, sendo a competição entre as partes o foco. 
Técnica do reforço positivo – Técnica que visa a valorização do 
comportamento da parte ou do advogado que apresenta propostas positivas. O 
conciliador elogia, estimula e encoraja posturas positivas. 
Técnica teste de realidade e enfoque prospectivo – Cabe ao conciliador, 
no momento da escolha da solução, questionar se o que está sendo combinado 
pode realmente ser exequível. 
O relato da experiência, apresentada a seguir, pode ajudar no entendimento da 
importância da conciliação enquanto método que constrói possibilidades de pacificação.
IMPORTANT
E
TÓPICO 3 | MEIOS AUTOCOMPOSITIVOS
143
 “Considerando minha experiência com a conciliação/mediação na 
Justiça Federal, ressalto um caso especial que me vem à memória. Uma 
ação de indenização por danos morais e materiais, em razão de vícios de 
construção em imóvel do Programa “Minha Casa, Minha Vida”, faixa 1 
(PAR). A autora ajuizou ação contra a Caixa Econômica Federal e a empresa 
responsável pela construção do imóvel (casa popular) solicitando indenização 
por danos materiais e morais causados em razão de uma tempestade que 
ocorreu na cidade, alagando sua casa, danificando seus poucos móveis e 
tornando a residência praticamente inabitável. No laudo pericial restou 
demonstrado que os danos sofridos pela autora decorreram de vícios de 
construção. Na audiência de conciliação/mediação, após a declaração de 
abertura, a autora foi instada a relatar os fatos. Embora as fotos constantes 
no laudo pericial demonstrassem o estado de miserabilidade da autora, bem 
como as condições insalubres de sua moradia, a autora ainda apresentou 
outras fotos que haviam sido retiradas posteriormente, mostrando a piora na 
condição do imóvel. Não obstante a situação digna de compaixão, a autora 
relatou, com muito bom humor, simplicidade e demonstrando resignação, 
que tinha dois filhos (gêmeos) adolescentes, ambos deficientes, e que, como 
eles não andavam, passavam o dia brincando no chão, mas com as chuvas, 
com o barro que tinha entrado na casa e com todo o mofo, eles não estavam 
muito bem de saúde e não tinham como brincar direito e que, com a chuva, 
perdeu os poucos móveis, eletrodomésticos e até os colchões. Nesse ponto da 
audiência, o rumo da conversou mudou. Passamos a trazer para a mesa de 
negociação outras questões que não constavam no processo e que subjaziam 
à pretensão da autora de ressarcimento pelos danos morais e materiais. Fosse 
por compaixão ou mesmo por estratégia de atuação processual, mas o efeito 
foi além do esperado e o acordo alcançou não só o ressarcimento pelos danos 
alegados e o reparo da moradia, mas também previu: doação de duas cadeiras 
de rodas para os filhos da autora, auxílio médico-hospitalar, esclarecimentos 
sobre possível direito a recebimento de benefício assistencial para os filhos e 
encaminhamento para atermação”.
Geovana Faza da Silveira Fernandes
Diretora do Centro Judiciário de Conciliação da Subseção 
Judiciária de Juiz de Fora Instrutora de Conciliação e Mediação
FONTE: TAKAHASHI et al. Manual de Mediação e Conciliação da Justiça Federal. 2019. Disponível 
em: https://www.cjf.jus.br/cjf/corregedoria-da-justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/
publicacoes-1/outras-publicacoes/manual-de-mediacao-e-conciliacao-na-jf-versao-online.pdf. 
Acesso em: 12 dez. 2019. 
144
UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS
5 MEDIAÇÃO
Mediar é uma estratégia de resolução de conflitos que viabiliza a 
compreensão dos problemas na perspectiva de cultura de paz, permitindo aos 
envolvidosa construção de decisões que melhor lhes favoreçam. A mediação 
avança não somente no Judiciário, mas na resolução de conflitos em ambientes 
escolares, prisões, empresas, comunidades e em muitos espaços que lidam com 
relacionamentos sociais. Esta estratégia oferece alternativas às propostas de 
judicialização dos conflitos, tão vigentes em nossa sociedade. 
Não só no Brasil, mas em muitos e diferentes países, tem aumentado 
consideravelmente o número de profissionais – como advogados, assistentes 
sociais, médicos e psicólogos – interessados em buscar capacitação na área. 
São diversas as ofertas de cursos, tanto no âmbito privado quanto acadêmico, 
que têm por objetivo capacitar profissionais para atuarem como mediadores e 
proporcionar uma atuação diferenciada, menos adversarial e mais colaborativa, 
no desenvolvimento e na prática de sua profissão de origem. Para tanto, faz-
se necessário mais do que uma apreensão de conteúdos teóricos, mas uma 
qualificação que contemple o self do profissional, atentando para sua implicação 
no processo. 
5.1 DEFINIÇÕES PRELIMINARES
Falar em mediação é falar em estratégia autocompositiva para resolução 
de conflitos judiciais e extrajudiciais, que confere às pessoas a autoria de suas 
próprias decisões a partir de reflexão e ampliação de alternativas. Segundo 
Almeida (2019) é um processo não adversarial dirigido à desconstrução dos 
impasses que imobilizam a negociação, transformando um contexto de confronto 
em contexto colaborativo. 
Para Warat (2018, p. 17), “mediação é a forma ecológica de resolução dos 
conflitos sociais e jurídicos”. Segundo ele, essa prática “substitui a aplicação 
coercitiva e terceirizada de uma sanção legal, apontando para a realização da 
autonomia das partes envolvidas” (2018, p. 19). 
A mediação também pode ser definida como uma negociação que tem um 
terceiro como facilitador, por meio da qual pessoas em disputa, ou que podem 
se colocar em situação de disputa, são auxiliadas por uma terceira pessoa a 
construir alternativas autocompositivas. A proposta investe na ideia de mobilizar 
os envolvidos a compreender suas próprias posições quanto as da outra parte e, 
assim, possam criar uma nova.
A mediação tem como produto idealizado a superação de um Judiciário 
sobrecarregado e demorado, de forma que os envolvidos nos conflitos consigam, 
em menos tempo, com baixo custo e com a possibilidade da manutenção dos 
relacionamentos, construir soluções que beneficiem a todos.
TÓPICO 3 | MEIOS AUTOCOMPOSITIVOS
145
São muitos e diversos os campos de atuação da mediação, que pode 
ser realizada tanto na esfera pública quanto na privada, como escolas, prisões, 
comunidades e foros, sempre oferecendo uma alternativa aos processos litigiosos 
e visualizando cultura de paz. Vezzulla (1998) postula o reconhecimento 
da mediação como uma proposta de organização social e de convivência 
humana. Segundo ele, a mediação pode viabilizar a humanização da justiça e a 
restauração de valores sociais que foram sobrepostos por valores individualistas 
e competitivos do neoliberalismo. Desta forma, a mediação deve ser concebida 
como uma prática social que se estrutura a partir do respeito á lei, ao outro e a si 
próprio. 
Elementos preponderantes da Mediação
1º protagonismo e autonomia dos interessados na busca de uma solução que satisfaça a 
ambos;
2º papel do mediador como condutor do diálogo, o que demanda a sua capacitação em 
técnicas específicas para essa função;
3º duplo escopo do procedimento, direcionando não somente à resolução da controvérsia 
que gerou o processo, mas também a restauração da comunicação entre os litigantes, 
hábil à prevenção de novos litígios 
(MOLINARI, 2015)
IMPORTANT
E
5.2 A PESSOA DO MEDIADOR
O mediador não é um observador externo, mas um participante ativo. 
Atua e dirige, joga e treina. Sua vontade e interesses precisam desaparecer para 
que as vontades e interesses das partes submerjam. Desde a acolhida, isso se 
manifesta pela forma como ele acolhe genuinamente os envolvidos e a maneira 
como se expressam, antes de acolher o conflito que os trazem ao espaço de 
trabalho. 
Para definir a pessoa do mediador, Vezzulla (1998) refere que uma das 
formas mais efetivas é dizer o que ele não é. O mediador não é um juiz, pois 
não cabe a ele julgar, tampouco dar vereditos. O mediador não é um negociador, 
cujo interesse direto é o resultado, visto que o sucesso da mediação não está 
atrelado ao fato dos mediandos chegarem a um acordo. Também não é um 
árbitro que emite laudos e decisões. O mediador é um terceiro que atua, como já 
foi assinalado, de forma neutra e conduz sem decidir. Ainda, segundo Vezzulla 
(1998), o mediador é como o marisco que fica na pior das posições, entre o mar 
e a rocha. Mediador é como a parteira, que ajuda a dar à luz aos reais interesses 
dos envolvidos.
146
UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS
Segundo Haynes e Marodin (1996), o mediador é alguém que não está 
comprometido com qualquer uma das partes em particular, pois está equilibrado 
entre as partes; controla o processo, e não o conteúdo (este é controlado pelos 
participantes); não aceita definições unilaterais; trabalha pelas construções de 
opções; não guarda segredos um dos outros e viabiliza para que o “não dito” 
possa, em ambiente protegido, ser dito. O que os autores referidos apontam é 
a importância da pessoa do mediador no trabalho que realiza. Na sua atuação, 
valores, crenças e prismas pessoais podem, em algum momento, entrar em 
conflito com suas crenças, valores e prismas profissionais. Sua formação como 
mediador precisa capacitá-lo a reconhecer o conflito e concentrar-se na relação 
profissional que mantém com o conflito e com as pessoas que vivenciam o 
conflito. 
O mediador assume uma posição neutra na condução do processo de 
mediação. Isso não significa dizer que o mediador não tem sua posição pessoal 
sobre o conflito. Ele o tem, e isso interfere diretamente no trabalho que realiza. 
Essa posição tem como fundamentação epistemológica o pensamento sistêmico, 
que é coerente com as características da ciência contemporânea emergente. 
Conhecer o fenômeno passa diretamente por conhecer o observador. 
Disto resulta a viabilização da postura neutral do mediador, prevista 
na Lei da Mediação e no Novo Código de Processo Civil, no art. 2º da Lei nº 
13.140/15 e no art. 166 da Lei nº 13.105/15, envolve a necessidade de que o 
mediador reconheça sua visão de homem mundo e de seus limites pessoais e 
profissionais. 
Para facilitar a consolidação dessa postura neutra e imparcial, faz-se 
necessária a autorreflexão que, segundo Vezzulla (1998), traz consciência ao 
mediador para analisar as próprias sensações e reações e confere caminhos para 
acessar as melhores ferramentas que darão suporte à condução produtiva em 
prol de objetivos satisfatórios. Para ele, o mediador necessita estar vigilante e 
convicto de que as pessoas buscam ajuda porque não conseguem enxergar a 
posição do outro, já que estão mergulhadas em sua posição.
A produção de Ury (2015) muito contribui para reforçar o que está 
sendo problematizado. Ele apresenta uma metáfora interessante para o 
aprofundamento da discussão. Sugere que o mediador se sente à mesa de jantar 
com os seus próprios medos, emoções e sentimentos, a fim de entender melhor o 
modo como funciona. Segundo ele, essa postura pode auxiliar na construção de 
relacionamentos mais saudáveis em diferentes âmbitos, pois isso se dá, também, 
nos relacionamentos construídos no espaço da mediação.
O método de autoconhecimento proposto por Ury (2015), composto por 
cinco passos, é, segundo ele, uma forma de chegar ao sim consigo mesmo. 
O primeiro passo refere-se à proposta de colocar-se no seu próprio 
lugar, ouvindo com empatia suas necessidades básicas. O segundo refere-se 
ao compromisso de tornar-se responsável pela sua própria vida, assumindo o 
TÓPICO 3 | MEIOS AUTOCOMPOSITIVOS
147
cuidado dos seus próprios interesses. O terceiroindica a necessidade de mudar 
a forma como vê a vida. Já o quarto passo indica que se mantenha no presente. O 
quinto, a necessidade de respeitar os outros e terminar com a indicação de saber 
dar e receber, mudando a abordagem do jogo de tomar para dar.
O autoconhecimento, considerando o que já foi assinalado, é uma das 
prerrogativas para a formação profissional. Entretanto, a grande maioria das 
escolas de formação tem priorizado o desenvolvimento de competências e 
habilidades, em detrimento das estratégias para o desenvolvimento do self do 
profissional.
5.3 FUNÇÕES DO MEDIADOR
O mediador tem a função de ser o catalizador do processo, para que 
cada mediando possa responsabilizar-se por si e pelo relacionamento no qual 
está envolvido. O envolvimento do profissional é para facilitar processos 
emancipatórios e programação do devir. 
Como apresenta Warat (1999, p. 122-123) o mediador precisa ser capaz 
de:
a) ouvir e tranquilizar as partes, fazendo-as compreender que ele entende o 
problema;
b) passar confiança às partes;
c) explicitar a sua imparcialidade;
d) mostrar às partes que seus conceitos não podem ser absolutos;
e) fazer com que as partes se coloquem no lugar uma da outra, entendendo o 
conflito por outro prisma;
f) auxiliar na percepção de caminhos amigáveis para a solução do conflito;
g) ajudar as partes a descobrir soluções alternativas, embora não deva sugerir o 
enfoque;
h) compreender que, ainda que a mediação se faça em nome de um acordo, este 
não é o único objetivo.
Possível de ser dito que é papel fundamental do mediador ser agente de 
transformação, viabilizando possibilidade de empoderamento dos envolvidos 
através de perguntas que visam reflexões e esclarecimentos. O mediador 
esforça-se para que os mediandos compreendam o que ocorre e como está sendo 
conduzindo o encontro.
5.4 REGRAS E PRINCÍPIOS DA MEDIAÇÃO
Uma das principais características é ser um processo voluntário que 
oferece àqueles que estão vivenciando uma situação de conflito a oportunidade 
e o espaço adequado para buscar soluções, preservando laços de convivência. 
Outra característica é ser um processo que respeita o sigilo e intimidade dos 
envolvidos, de forma a promover a recuperação da autonomia e controle da vida 
pessoal, social e produtiva. 
148
UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS
Para além das características de voluntariedade e confidencialidade, a 
mediação postula a participação de um terceiro, que atua com imparcialidade. 
Um acordo construído e aceito pelos participantes pode ser um dos resultados 
possíveis. 
• Princípios – baseiam-se na Resolução nº 125/2010 do CNJ. Eles definem o 
comportamento.
• Regras – são normas de conduta a serem observadas pelos mediadores.
Princípios Regras
Confidencialidade Informações
Decisão informada Autonomia de vontade das partes
Competência Ausência de obrigação de resultado
Imparcialidade Desvinculação da profissão de origem
Independência e Autonomia Compreensão quanto à conciliação e à mediação
Respeito a ordem pública e às leis 
vigentes
Empoderamento
Validação
FONTE: A autora
5.5 ESCOLAS OU MODELOS DA MEDIAÇÃO
São três modelos que orientam a atuação do profissional: o Modelo de 
Harvard, que inspira os demais modelos prioritariamente por ter sido o primeiro; 
o Modelo Transformativo, cujo foco está na interação; e o Modelo Circular-
Narrativo, que foca na desestabilização.
O Modelo de Harvard é um modelo negocial, com procedimentos 
estruturados. Neste modelo não está previsto nenhuma indicação de 
sugestão pelo mediador e ele se baseia nos princípios de Negociação de 
Harvard: O que mais?
O Modelo Transformativo tem seu foco no empoderamento e no 
reconhecimento. Parte do pressuposto de que quando as pessoas estão em 
situação de conflito, elas têm percepção de que são frágeis e não são reconhecidas 
pelo que dizem ou fazem. Desta forma, o modelo busca o empoderamento e 
TÓPICO 3 | MEIOS AUTOCOMPOSITIVOS
149
o reconhecimento através da apropriação pelos mediandos de seus próprios 
objetivos, recursos, opções e preferências. As perguntas feitas pelos mediadores 
são voltadas ao empoderamento, sem direcionamento: Como vocês querem gerir 
o processo? Como gostariam de ser tratados? Onde querem chegar? Querem 
momentos individuais?
O Modelo Circular-Narrativo tem como objetivo desestabilizar as 
histórias que definem o comportamento dos envolvidos de forma a complexificar 
e ressignificar a narrativa de cada envolvido. O mediador precisa saber sobre os 
efeitos que está provocando no diálogo e estar consciente de que o conflito está 
enraizado em histórias dominantes.
O foco desta escola é a importância da atenção à construção discursiva 
das histórias contatas pelos mediandos. Defende a busca pela autonomização 
das pessoas por meio da investigação e desconstrução da perspectiva que tem 
do conflito. 
5.6 PROCEDIMENTOS
Com base no Manual de Mediação Judicial, elaborado pelo Conselho 
Nacional de Justiça, o processo de mediação inicia com a Sessão de Abertura 
ou Declaração de Abertura. Essa sessão tem como propósito informar às partes 
sobre o processo de mediação, realizar combinações sobre a importância do 
estabelecimento de um tom cordial para o debate das questões e explicitar as 
expectativas quanto aos resultados do processo que irá iniciar. É importante e 
necessário que o mediador possa ganhar a confiança das partes. 
A segunda fase, também com base no Manual de Mediação Judicial, é a 
fase de Reunião de Informações. É o momento no qual os mediandos apresentam 
seus relatos, percepções e sentimentos acerca dos motivos que os trouxeram à 
mediação e têm a oportunidade de ouvir e serem ouvidos de forma respeitosa e 
empática. Ao final desta fase, é esperado que o mediador apresente um resumo 
dos relatos dos mediandos, abarcando questões principais, interesses subjacentes 
e sentimentos em comum, checando com os mediandos se ele compreendeu o 
que foi dito por ambos. Logo em seguida, caso seu entendimento dos relatos for 
aprovado pelos mediandos, é feita uma pauta conjunta que norteará o trabalho 
de resolução das questões controversas.
No seguimento, cabe ao mediador decidir se realizará ou não sessões 
individuais. Estas são indicadas pelo Manual como ‘”um recurso que o mediador 
deve empregar, sobretudo, no caso das partes não estarem se comunicando 
de modo eficiente.”, também quando forem identificadas animosidades, 
dificuldades de expressão de interesses, particularidades e expectativas quanto 
aos resultados a serem alcançados.
150
UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS
Ao término da fase de esclarecimento de questões, interesses e 
sentimentos, a próxima etapa, segundo o referido manual, é uma sessão conjunta 
com os mediandos, que tem por objetivo apresentar os progressos alcançados 
durante a mediação e dar prosseguimento à negociação entre as partes.
A Construção do Acordo, quando possível, é considerada a fase final 
e tem por meta a objetivação do compromisso entre as partes, sendo ou não 
formalizado através de documento escrito, caso os envolvidos no processo 
cheguem a algum entendimento.
É importante enfatizar que, na prática, essas fases, mesmo sendo 
apresentadas como um guia e passíveis de flexibilização, o que se observa é um 
certo formalismo e cobrança na sua utilização quando a mediação é realizada 
pelo Poder Judiciário.
O que as pessoas mais desejam é alguém que as escute de maneira 
calma e tranquila. Em silêncio. Sem dar conselhos. Sem que digam: 
“Se eu fosse você”. A gente ama não é a pessoa que fala bonito. É 
a pessoa que escuta bonito. A fala só é bonita quando ela nasce de 
uma longa e silenciosa escuta. É na escuta que o amor começa. E é 
na não-escuta que ele termina. Não aprendi isso nos livros. Aprendi 
prestando atenção (RUBENS ALVES, s.d.).
5.7 TÉCNICAS PARA A CONDUÇÃO DE UMA MEDIAÇÃO 
Quando se fala em técnicas, é possível pensar que o procedimento da 
mediação pode ser conduzido por alguém quedomine um número significativo 
de técnicas. Na verdade, é muito mais do que isso. Na mediação, técnica não 
é sinônimo de ferramenta por si só, mas um conjunto de procedimentos que 
podem ser acionados na interação teórico-prática.
Uma outra discussão interessante é que, além de conhecer, é importante 
definir qual a melhor técnica para atender a demanda que se apresenta e qual o 
melhor momento de utilizá-la.. 
Tânia Almeida (2013), uma renomada mediadora brasileira, fala sobre 
uma caixa de ferramentas (tool Box). Segundo ela, o mediador vai reunindo 
técnicas, procedimentos e atitudes preconizados por diferentes modelos e vai 
acessando conforme a demanda, necessidade, seu estilo e perfil dos mediandos. 
A autora supramencionada fala que as técnicas na mediação são “recursos 
comunicacionais” que objetivam provocar mudanças e facilitar que objetivos 
sejam alcançados.
 No Manual de Mediação Judicial está explicitado que o grande desafio 
do mediador, ao acionar as ferramentas da mediação, é estimular que as partes 
possam desenvolver posturas colaborativas, na busca de um entendimento 
recíproco. 
TÓPICO 3 | MEIOS AUTOCOMPOSITIVOS
151
Segundo o Manual de Mediação Judicial, são estas as ferramentas para 
provocar mudanças:
• Recontextualização (ou paráfrase): técnica em que o mediador estimula a 
busca de um enfoque positivo das questões, dando outra perspectiva ao fato. 
Reformulação, pelo mediador, de frases ditas pelas partes, a fim de sintetizá-
las ou reformulá-las sem alterar seu conteúdo. Dessa maneira, estimula-se a 
parte a considerar ou entender uma questão, um interesse, um comportamento 
ou uma situação de forma mais positiva – para que, assim, as partes possam 
extrair soluções também positivas.
• Audição de propostas implícitas: esforço para que os mediandos possam 
escutar propostas que eles próprios apresentam, mas que nem eles reconhecem 
como propostas devido ao estado de ânimo exaltado com o qual se comunicam.
• Afago (ou reforço positivo): reforço, por parte do mediador, a um 
comportamento ou postura positiva dos envolvidos para a mediação.
• Silêncio: o uso do silêncio pelo mediador pode facilitar que os envolvidos 
no conflito possam refletir sobre o conteúdo da comunicação na sessão de 
mediação, como os questionamentos, a expressão de sentimentos ou falas. 
• Sessões privadas ou individuais (cáucus): encontros privados com cada um 
dos mediandos, especialmente na fase de negociações, para acalmar os ânimos 
e para que possam expressar algo que não o fariam na frente da outra parte, 
como construir possibilidades de acordo, reunir informações úteis, entre 
outros.
• Inversão de papéis: técnica que estimula que cada um dos envolvidos possa 
entender a situação do ponto de vista do outro. Desta forma, a técnica estimula 
a empatia. A inversão de papéis é usada prioritariamente nas sessões privadas 
com cada um dos envolvidos. 
• Geração de opções/perguntas orientadas à geração de opções: técnica que 
estimula, por meio de perguntas de cunho reflexivo, que os mediandos 
possam construir novas alternativas visando benefício de todos os envolvidos.
• Normalização: técnica que normaliza o conflito, que cria a noção de que estar 
em conflito é algo comum às pessoas, estimulando que os mediandos possam 
perceber que o que está em pauta pode oportunizar melhoria na relação.
• Organização de questões e interesses: técnica que facilita que se estabeleça 
com clareza uma relação entre as questões a serem debatidas e os interesses 
reais que as partes tenham. 
• Enfoque prospectivo: está relacionado à lide sociológica. Técnica utilizada 
para desconstruir um discurso que busca culpados e projeta para o futuro.
• Teste de realidade: técnica utilizada nas sessões privadas, em que o mediador 
busca checar com os mediandos se as combinações propostas funcionarão na 
prática. 
• Validação de sentimentos: a técnica é utilizada para o reconhecimento dos 
sentimentos decorrentes do conflito, afirmando os aspectos de normalidade 
destes sentimentos. A validação de sentimentos semelhantes deve ser feita em 
conjunto, já para situações unilaterais é indicado utilizar em sessões privadas. 
152
UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS
A condução da mediação é flexível. Cabe ao mediador conhecer as 
técnicas e poder decidir quais e quando devem ser utilizadas para que o 
processo possa ser produtivo. Além de aprender sobre técnicas, deve-se investir 
no desenvolvimento de sensibilidade para compreender os conflitos, suas 
concepções e possíveis transformações.
Acadêmico, a seguir, disponibilizamos uma lista de livros sobre mediação: 
Caixa de ferramentas em mediação: aportes práticos e teóricos de Tania Almeida.
Mediação de conflitos: para iniciantes, praticantes e docentes de Tania Alemida, Samanta 
Pelajo e Eva Jonathan.
Mediação de conflitos e práticas restaurativas de Carlos Eduardo de Vasconcelos.
Arbitragem: mediação, conciliação e negociação de Luiz Antonio Sacavone Junior.
Transformação de conflitos: teoria e prática de John Paul Lederach.
Manual de mediação: teoria e prática na formação do mediador de Enia Cecilia Briquet.
DICAS
TÓPICO 3 | MEIOS AUTOCOMPOSITIVOS
153
LEITURA COMPLEMENTAR
O texto indicado como Leitura complementar é parte de um artigo 
intitulado: Mediação de conflitos: um meio de prevenção e resolução de controvérsias 
em sintonia com a atualidade, escrito por Tania Almeida. O artigo integra uma 
coletânea organizada por José Ricardo Cunha em Poder Judiciário – Novos olhares 
sobre gestão e jurisdição, obra publicada pela Fundação Getúlio Vargas do Rio 
de Janeiro, em 2010. A opção por este texto decorre da importância de todo o 
acadêmico ocupar-se com a teoria que orienta a prática a ser desenvolvida. 
AS BASES TEÓRICAS DO RITO DA MEDIAÇÃO E DE SUAS TÉCNICAS
Tania Almeida
Além do quadrante de negociação da Escola de Harvard, a Mediação 
recebe contribuições de outros saberes e se caracteriza pela interdisciplinaridade.
Teorias de comunicação contribuem com numerosos aportes e sustentam 
algumas técnicas utilizadas na Mediação. A comunicação humana é uma das 
vigas mestras de sustentação da dinâmica da Mediação e precisa ser decifrada 
pelo mediador, a cada momento, de forma a servir de referencial para a 
identificação do timing e da intervenção a ser utilizada. Mais voltadas para o 
pragmatismo da comunicação humana (WATZLAWICK, BEAVIN E JACKSON, 
1967) ou para as narrativas e a análise dos discursos (MAINGUENEAU, 
1997) e de sua subjetividade, as contribuições são inúmeras. Em comum, tais 
contribuições têm a concepção de considerar a linguagem como um cenário onde 
se constroem os sujeitos, sua forma de expressão e de ação, sempre relacionais, 
ou seja, referida ao outro. 
O olhar sistêmico (BERTALANFFY, 1977), outro pilar, contribui para que 
a Mediação reconheça os componentes multifatoriais dos desacordos – legais, 
psicológicos, sociológicos, financeiros, entre outros – e os maneje segundo sua 
prevalência, de forma a atender aos interesses e necessidades dos mediandos. 
Também como resultado do olhar sistêmico, mediadores entendem que o fato 
trazido à Mediação integra uma cadeia de acontecimentos passados e futuros 
e que sua intervenção provocará alterações na lógica de desenvolvimento 
dessa cadeia, com repercussões sobre um conjunto de pessoas. Mediadores 
comprometem-se com o curso e com o resultado da Mediação, agindo 
cuidadosamente na condução de sua dinâmica, avaliando, continuamente, a 
adequação de sua atuação, pois a consideram parte do sistema de resolução. 
Eles sabem que sua intervenção poderá contribuir para a construção ou para a 
desconstrução de impasses futuros. 
154
UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS
A contribuição da sociologia foi decisiva para se entender o valor das 
redes sociais nos processos negociais. Mediadores estão atentos à negociação, 
em paralelo, que os mediandos precisam fazer com os seus interlocutores – 
advogados, amigos,parentes, colegas de trabalho ou de crença religiosa, entre 
outros. Com essas pessoas são estabelecidas alianças e construídas leituras 
sobre o desacordo e sobre o oponente, assim como soluções e posições a serem 
defendidas. Os mediandos não podem, em determinados momentos, progredir 
em uma negociação, em função do compromisso de fidelidade estabelecido com 
suas redes de pertinência. Por vezes, é preciso auxiliá-los a negociar com essas 
redes, dentro ou fora do processo de Mediação, para que a desavença possa 
resultar em autocomposição. A Mediação estimula o diálogo dos mediandos 
com suas redes de pertinência e permite que essas ganhem a sala de negociações 
quando são identificadas como geradoras de impasses à fluidez do processo, ou, 
ainda, quando se constituem suporte para o cumprimento do acordado. 
A Mediação inspira-se no direito ao abraçar o propósito de auxiliar 
pessoas a resolverem seus conflitos, norteadas pelo parâmetro da solução justa, 
atentas a não ferirem as margens legais oferecidas por sua cultura – a solicitação 
de revisão legal do acordado, antes de sua assinatura pelos mediandos, sempre 
que a matéria assim o exigir, cumpre uma norma ética na Mediação. O instituto 
atende plenamente ao que o desembargador Kazuo Watanabe (1988) denomina 
de acesso à ordem jurídica justa, quando este se dá de forma adequada, 
tempestiva e efetiva. Nessa concepção, a Mediação potencializa o acesso à justiça 
na medida em que é: (i) adequada: quando eleita entre outros métodos, por 
possuir especial propriedade de abordagem e de resolução em relação ao tema 
do conflito; (ii) tempestiva: porque ocorre no tempo dos mediandos, uma vez 
que ditam o período de duração do processo, em muito influenciado por suas 
habilidades e capacidade negocial; (iii) efetiva: porque a solução é construída 
pelas próprias pessoas envolvidas no desacordo, tendo como parâmetros a 
satisfação e o benefício mútuos, a partir do atendimento de suas necessidades. 
Da psicologia, a Mediação importa leituras teóricas sobre o 
funcionamento emocional humano e valoriza, como componente constitutivo dos 
desentendimentos, as emoções (FIORELLI; MALHADAS JUNIOR; MORAES, 
2004). Das emoções, a Mediação cuida, indiretamente, ao se dispor a trabalhar 
a pauta subjetiva, anteriormente mencionada, e ao se propor a incluir o restauro 
da relação social dos envolvidos, como objeto de cuidado. As abordagens que 
incluem o relacionamento humano como foco não podem deixar de considerar a 
presença invariável da emoção. À semelhança do que pensava Foucault sobre a 
existência de um jogo de poder nas relações – tomava-o como certo e dedicava-
se, exclusivamente, a pensar em como o poder era manejado –, a presença da 
emoção nos jogos relacionais é inequívoca, restando identificar, somente, como 
está sendo manejada. 
TÓPICO 3 | MEIOS AUTOCOMPOSITIVOS
155
Da filosofia, além de Foucault, preciosas inspirações alimentam o 
processo de Mediação. Entre elas encontra-se o principal instrumento de 
trabalho do mediador, as perguntas, que devem ser oferecidas como na 
maiêutica socrática. Filho de uma parteira, Sócrates desejava, pela maiêutica, que 
as pessoas “parissem” as próprias ideias, após refletirem, em lugar de repetirem, 
indiscriminadamente e sem análise crítica, pensamentos e ideias do senso comum. 
Esse é o principal objetivo das perguntas na Mediação: gerar informação para os 
mediandos – aqueles que têm poder decisório e serão os autores das soluções 
– de forma a provocar reflexão. Dessa maneira, pode-se auxiliar os mediandos 
a flexibilizarem as ideias trazidas na fase inicial do processo, momento em que 
as reais necessidades e interesses do outro não estão sendo ainda levados em 
consideração.
FONTE: ALMEIDA, T. As bases teóricas do rito da Mediação e de suas técnicas. [s.d.] https://www.
cnj.jus.br/wp-content/uploads/2011/02/Artigo%20Tania-86_Dez-31_Mediacao_de_Conflitos_Um_
meio_de_prevencao_e_resolucao_de_controversias_em_sintonia_com.pdf. Acesso em: 12 dez. 
2019. 
Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem 
pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao 
AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo.
CHAMADA
156
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você aprendeu que:
• A Resolução nº 125/2010, do Conselho Nacional de Justiça, e o Código de 
Processo Civil de 2015 viabilizaram a construção da justiça multiportas, que 
indica o método ou técnica mais adequada para a solução de conflitos.
• A Escola de Negociação de Harvard difundiu uma nova forma de agir: a 
negociação baseada em princípios, a qual se baseia no conceito do “ganha-
ganha”.
• A negociação baseada em princípios busca criar valor na negociação e possui 
quatro princípios gerais que permitem resultados ganha-ganha pautados 
nos interesses: 1º separar as pessoas do problema; 2º focar nos interesses dos 
envolvidos, e não nas suas posições; 3º criar opções de ganho mútuo; e 4º 
mapear critérios objetivos para legitimar a escolha das opções.
• Na negociação, podem ser identificadas três fases: análise, planejamento e 
discussão.
• Na conciliação, é esperado que o terceiro – conciliador – interfira no processo 
da discussão, sugerindo um possível acordo e apontando possíveis soluções.
• O conciliador atua de forma ativa em conflitos pontuais e em casos nos quais 
não existe relacionamento continuado entre as partes. Ele sugere possíveis 
soluções
• A mediação se dá preferencialmente em casos nos quais existe algum vínculo 
anterior entre os envolvidos no conflito, em casos de relações continuadas.
• A mediação tem como produto idealizado a superação de um Judiciário 
sobrecarregado e demorado, de forma que os envolvidos nos conflitos 
consigam, em menos tempo, com baixo custo e com a possibilidade da 
manutenção dos relacionamentos, construir soluções que beneficiem a todos.
• São procedimentos da mediação: pré-mediação ou acolhimento, declaração 
de abertura, narrativas, resumo, pauta, sessões privadas (quando necessário), 
geração de opções, teste de realidade, acordo e encerramento.
157
Considerando procedimentos indicados para a condução da mediação.
1 O que é importante relacionado à conduta do mediador?
a) ( ) Prestar aconselhamento jurídico sobre a solução.
b) ( ) Promover a reflexão e sintetização.
c) ( ) Fazer coaching e ajudar na solução.
d) ( ) Acusar uma das partes.
2 Deve o mediador despender o mesmo tempo e energia com cada uma das 
partes?
a) ( ) Sempre.
b) ( ) Sempre que possível deve ser concedido o mesmo tempo a cada uma 
das partes.
c) ( ) É indiferente, nunca poderá ser o mesmo.
d) ( ) O mediador é quem conduz o processo e aplica nele as competências e 
energias que forem necessárias.
3 “Imparcialidade” é uma definição de que característica indispensável a 
qualquer mediador?
a) ( ) Autoridade
b) ( ) Clarividência
c) ( ) Neutralidade
d) ( ) Compaixão
AUTOATIVIDADE
158
159
UNIDADE 3
PROCESSOS DE MEDIAÇÃO: 
MEDIAÇÃO FAMILIAR, ESCOLAR E 
COMUNITÁRIA
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:
• compreender diferentes contextos para a utilização da mediação como 
meio para a resolução adequada de conflitos;
• reconhecer elementos da dinâmica relacional da família que podem indi-
car disfunções e possibilidades da utilização da mediação como método 
para a superação do impasse;
• identificar o papel social das escolas e meios adequados para lidar com os 
conflitos que se expressam neste contexto;
• compreender os contextos comunitários como espaços de conflito e de 
construção de agentes de solução destes conflitos.
• relacionar a mediação comunitária como instrumento de fortalecimento 
da democracia.
Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, 
você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo 
apresentado.
TÓPICO 1 – MEDIAÇÃO FAMILIAR
TÓPICO 2 – MEDIADAÇÃO ESCOLAR
TÓPICO 3 – MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA
Preparado paraampliar seus conhecimentos? Respire e 
vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim 
absorverá melhor as informações.
CHAMADA
160
161
TÓPICO 1
MEDIAÇÃO FAMÍLIAR 
UNIDADE 3
1 INTRODUÇÃO
Famílias “normais” têm problemas e cotidianamente se esforçam para sua 
superação, sendo que algumas delas precisam de ajuda quando não conseguem 
superar desafios sozinhas. Famílias que vivenciam mudanças importantes na sua 
composição, como é o caso de separação, recasamentos, cuidado de familiares 
doentes ou idosos, podem demandar auxílio para definição de aspectos da 
dinâmica de suas relações. Definições sobre quem cuida de quem, quando 
cuida e a participação financeira são alguns dos aspectos que historicamente são 
decididos em espaços do judiciário. 
Já que as relações familiares se apresentam como relações continuadas, 
a mediação familiar pode ser um método adequado para facilitar o processo de 
comunicação entre os envolvidos e, dessa forma, auxiliar na transição da situação 
vivenciada pela família. 
Apresentar dados da história da mediação familiar, particularmente 
sobre como ela é incorporada no sistema jurídico e extrajurídico, apresentar 
informações sobre situações que podem demandar a utilização deste método, 
viabilizar problematizações sobre a família e a dinâmica de suas relações e, por 
fim, apresentar ponderações sobre perspectivas metodológicas da mediação 
familiar é o objetivo deste item. 
2 PERSPECTIVA HISTÓRICA DA MEDIAÇÃO FAMILIAR
Mudanças sociais, culturais e familiares surgidas nas décadas de 1960 e 
1970, e outras ocorridas no século passado, impactaram em vários níveis na vida 
dos sujeitos sociais, por exemplo, o expressivo aumento de divórcios e demais 
conflitos familiares. Essas mudanças também acabaram por gerar necessidades 
de encontrar abordagens apropriadas para o enfrentamento dos problemas. 
Segundo Gomes (2018), o sistema jurídico (e judicial), alicerçado em leis dirigidas 
para a regulação de relações jurídicas familiares – relativamente estáveis – é 
confrontado com uma diversidade de conflitos familiares que requisitaram a 
revisão dessa estrutura e organização. 
UNIDADE 3 | PROCESSOS DE MEDIAÇÃO: MEDIAÇÃO FAMILIAR, ESCOLAR E COMUNITÁRIA
162
Essas tensões podem ter sido determinantes para o surgimento de 
soluções inovadoras que permitiram a (re)invenção do processo de mediação 
familiar como método extrajudicial de resolução de conflitos familiares. 
Conhecimentos da Psicologia, do Direito e de outras Ciências Sociais foram 
incorporados para a construção de estruturas de conhecimento que puderam dar 
base teórica e metodológica a este método. 
O entendimento sobre a forma como a mediação familiar foi se 
estruturando pode ser alcançado através da análise de alguns conceitos. 
A mediação familiar está incluída no campo dos meios complementares e 
alternativos de resolução de conflitos familiares, podendo acontecer antes, 
durante ou após um processo judicial. Tomé (2008, p. 43) afirma que a mediação 
familiar é um “método de resolução de conflitos, alternativo ou complementar ao 
sistema judicial que visa alcançar um acordo conjunto, melhorar a comunicação, 
reduzir a área de conflito e tomar decisões autônomas”. 
Na mesma direção, Parkinson (2008, p. 16) define mediação familiar como 
sendo um processo “no qual duas ou mais partes em litígio são ajudadas por 
uma ou mais terceiras partes imparciais (mediadores) com o fim de comunicarem 
entre elas e de chegarem à sua própria solução, mutuamente aceite, acerca da 
forma como resolver os problemas em disputa”. 
As definições acima têm em comum a prerrogativa de que as famílias 
podem, em algum momento de sua trajetória, necessitar da ajuda de um terceiro 
para lidar com conflitos, melhorando a comunicação entre seus membros, de 
forma a viabilizar a proteção que necessitam. 
Mediação de família pode também ser definida como um processo 
autocompositivo, em que as partes em disputa são auxiliadas por um terceiro 
neutro ao conflito, ou um painel de pessoas, sem interesse na causa, para auxiliá-
las a chegar a uma composição dentro de conflitos característicos de dinâmicas 
familiares e, assim, estabilizarem, de forma mais eficiente, um sistema familiar 
(CNJ, 2011, s.p.).
Importante salientar o enfoque do conceito para a pessoa do mediador. 
Neste próximo conceito, esse enfoque também é indicador para a compreensão 
da proposta. É o processo pelo qual uma terceira pessoa imparcial ajuda os que 
estão envolvidos numa ruptura familiar, em especial casais em vias de separação 
ou divórcio, a se comunicarem melhor entre si e atingirem, de comum acordo e 
com base em informações adequadas, as suas próprias decisões sobre alguma ou 
todas as questões relativas à separação, divórcio, filhos, finanças ou propriedades.
Antes de apresentar reflexões sobre o processo teórico metodológico da 
mediação familiar, é importante focar na família e na dinâmica de suas relações, 
visto que são elas que materializam o objeto de trabalho sobre o qual devemos 
buscar aprofundamentos. 
TÓPICO 1 | MEDIAÇÃO FAMÍLIAR 
163
3 FAMÍLIAS E FAMÍLIAS CONTEMPORÂNEAS
Encontros e Despedidas
“Todos os dias é um vai-e-vem,
A vida se repete na estação,
Tem gente que chega pra ficar,
Tem gente que vai pra nunca mais.
Tem gente que vem e quer voltar,
Tem gente que vai e quer ficar,
Tem gente que veio só olhar,
Tem gente a sorrir e a chorar”
(MILTON NASCIMENTO)
É importante para a compreensão da família tomar como ponto de 
partida o imaginário social, que tende a postular família como um modelo 
único de instituição, em paradoxal relação com os dados histórico-sociais, cujas 
evidências demonstram, verdadeiramente, que apenas o vocábulo “família” 
apresenta similitude no tempo e no espaço da vida em sociedade. Portanto, se é 
fato que existe família tanto quanto existe o ser humano, fato inescondível é que 
família tem muitos conteúdos e formas. 
Nessa linha de raciocínio, quando se está diante da instituição família, 
Osório (1996) esclarece que é possível descrever as várias estruturas ou 
modalidades assumidas pela família através dos tempos, mas não é possível 
conceituá-la. Do mesmo modo que não é possível encontrar modelos únicos e 
que atendam idealizações.
São muitas as variáveis culturais, ambientais, sociais, econômicas, 
políticas e religiosas que determinam as diferentes composições familiares. Por 
isso, é imprescindível conhecer as ditas variáveis para a compreensão e descrição 
da instituição família.
A propósito desse tema, Sluski (1997) refere que se surpreende toda 
vez que se conecta com a representação social de família na modernidade – a 
famosa família constituída por pai-mãe-filhos (do pai trabalhador, mãe do lar, 
filhos cuidados pela mãe) –, visto que esse modelo idealizado de família não tem 
mais do que 200 anos. Porém, o referido modelo foi tão fortemente registrado no 
imaginário social da população que qualquer outro modelo tende a ser entendido 
como desajustado, desorganizado, disfuncional, entre outros predicados. 
E é justamente por isso que Vezzulla (2018) chama a atenção para o fato 
de que não existe um conceito que sirva única e exclusivamente para família, 
ele entende família como todos aqueles que se apresentam como família. Tal 
compreensão está diretamente vinculada à percepção dos avanços da cultura 
humana. Vezzulla (2018) diz que, de alguma maneira, sentimentos de união, 
UNIDADE 3 | PROCESSOS DE MEDIAÇÃO: MEDIAÇÃO FAMILIAR, ESCOLAR E COMUNITÁRIA
164
segurança e solidariedade mantêm um diálogo crescente com o que se entende 
por família, porque nossa sociedade contemporânea, cada vez mais, restringe o 
conceito de comunidade a partir da vivência do que seja família, enquanto espaço 
de proteção, de segurança e de reconhecimento.
Nesse sentido, Vezzulla (2018) ressalta a importância de hoje colocar em 
pauta outros temas a partir do estudo do que seja família, tal como a fertilização, 
os relacionamentos homoafetivos e os ciclosde fertilidade alterada. A ciência, 
nesse aspecto, tem produzido profundas alterações nos cotidianos nas relações. 
Às vezes, o filho é mais novo que os netos ou o sobrinho é mais velho que os tios, 
o que torna necessário ampliar a concepção.
Assim, mudando a sociedade, mudam seus conceitos. Pensar ou falar 
sobre maternidade, por exemplo, não explica por si só o que está contido nesse 
papel. Mulheres com 60 anos, por exemplo, atualmente podem gestar. Por isso, 
apesar do imaginário social sobre o que seja mãe, não se explica a maternidade 
pura e simplesmente por seu vocábulo, porque já não estamos mais diante da 
maternidade/paternidade de outrora.
Além desses atravessamentos da atual realidade social, para a 
compreensão do sentido do que seja família, é importante saber que toda pessoa 
entende a família a partir de suas autorreferências. É impossível pensar na 
família, e não se reportar a essas questões subjetivas. Em outras palavras, falar 
em mãe implica necessariamente falar sobre a minha mãe. Eu me conecto com 
essa representação para compreender quem é aquela mãe a quem observo ou 
estou a interagir.
Falar em família, portanto, segundo Minuchin (1990, p. 53), é falar 
em “matriz da identidade ou núcleo identitário”, termos que representam 
a ideia de pertencimento, dentro da ideia de construto da identidade. 
Supondo, por exemplo, que tenhamos Joana da Silva entre nós, antes de ser 
Joana, essa pessoa é “da Silva”. Assim, o nome representa não somente o 
registro de identidade perante os outros (Joana), perante a família e perante 
a comunidade, enquanto pessoa específica e separada do todo, como também 
representa, desde aquele minúsculo universo intraútero, o pertencimento a 
um determinado núcleo que lhe é ascendente (da Silva) e que lhe absorve 
dentro de um determinado tronco familiar.
De outro lado, não se pode pensar família descolada de seu contexto 
social, porque esse contexto lhe confere determinadas especificidades. O jeito de 
ser, aquilo em que se acredita, como se responde a este ou aquele comportamento. 
Esse convívio e as tensões que dele decorrem explicitam a complementaridade 
da família por sua função social.
No desenho da forma, conteúdo e normas de cada família, o meio social 
não apenas alimenta de sentido, como também é balizador de responsabilidades. 
Isso porque, se antes o Estado se prestava a constituir, validar e proteger 
TÓPICO 1 | MEDIAÇÃO FAMÍLIAR 
165
prioritariamente o interesse particular de cada cidadão – a partir da ótica da 
tutela de liberdades –, atualmente, vive-se o modelo social de Estado, segundo 
o qual cada indivíduo precisa ser considerado em sua função social, já que “em 
toda sociedade deve haver uma solidariedade que implique que a atuação de 
cada um tenha reflexos na ordem global” (FACHIN; GONÇALVES, 2011, p. 11).
Dentre as configurações familiares conhecidas na contemporaneidade, 
Vezzulla (2018) chama a atenção para a descrição do que seja família 
monoparental, porque de qualquer modo o pai esteve, a mãe esteve naquela 
família, mesmo que atualmente está ausente. Entende-se, portanto, que ainda 
que estejamos categorizando e ampliando a compreensão do que seja família, 
o termo monoparental parece inadequado, sendo meramente uma descrição 
aparente.
Nesse sentido, há sempre a inclusão do terceiro e, para Vezzulla (2018), 
é muito importante a existência da terceiridade (o terceiro, o filho). Daí que a 
monoparentalidade representaria, a seu entender, um equívoco de concepção, 
dado que, em alguma medida, houve um pai e houve uma mãe que estão 
presentes na ausência.
Por isso mesmo, a organização familiar está diretamente relacionada 
ao sistema comunicacional das pessoas envolvidas. Cada família constitui, na 
sensível compreensão de Carter e McGoldrick (2012, p. 9), um “subsistema 
emocional que reage aos relacionamentos passados, presentes e antecipa aos 
futuros”, compreendendo, por isso mesmo, um sistema emocional maior, em 
que a vida de cada partícipe está ligada a diferentes gerações, seja qual for a 
estrutura familiar.
A rigor, um bom começo de um desfecho para este tópico é pensar que 
família não é, e sim que famílias são, uma vez que o plural abarca dentro do 
vocábulo “família” toda a diversidade de arranjos familiares existentes hoje.
3.1 DINÂMICA RELACIONAL DA FAMÍLIA
Como nossos pais
“É você
Que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem”.
(ELIS REGINA)
Por que formamos família? É algo natural no ser humano, na cultura 
e na civilização? Para problematizar essa questão, é importante referir que 
pensar contemporaneidade implica pensar em constantes mudanças e 
transições sociais. A família participa desse processo transicional, o que 
UNIDADE 3 | PROCESSOS DE MEDIAÇÃO: MEDIAÇÃO FAMILIAR, ESCOLAR E COMUNITÁRIA
166
significa dizer que ela também muda, mas segue com a função de manter 
algum nível de proteção para seus membros, porque a condição neotênica 
do ser humano faz com que ele necessite de cuidados, e a família, a menor 
unidade da sociedade, é que tem oferecido o dito cuidado, independentemente 
da configuração de como se organiza.
Neotênica – Trata-se da impossibilidade de a espécie humana sobreviver ao 
longo dos primeiros anos de vida sem cuidados intensivos. Sobre o tema, recomenda-
se o texto de Gaio Fontella e Fabiane Majolo, disponível em: http://www.ufrgs.br/e-psico/
subjetivacao/familia/familia-texto.html. 
DICAS
Segundo Anton (1998, p. 24),
[...] sem dúvida, as famílias refletem e reforçam o sistema – um sistema 
que se organiza, em primeiro lugar, para manter a si mesmo. É nas 
famílias e entre amigos que as pessoas adquirem um significado e um 
valor muito particular, sentindo-se individuais e únicas; em condições 
favoráveis, sentindo-se, inclusive, íntimas.
Para Minuchin (1990), a família é um sistema aberto em constante 
transformação com outros sistemas extrafamiliares. Referir-se à família em 
termos de sistema pode auxiliar a compreender quão dinâmica podem ser as 
interações dos diferentes subsistemas que o compõem, bem como os que com 
ele interagem. Subsistemas são “agrupamentos familiares baseados em gerações, 
gêneros e interesses comuns” (NICHOLS; SCHARTZ, 2007, p. 184), por exemplo, 
subsistema conjugal, parental, fraternal e filial, cada um deles desenvolvendo 
papéis e funções diferentes que regulam os relacionamentos entre si. 
Ao descrever as funções da família, Minuchin (1990) apresenta duas 
funções básicas e complementárias entre si: função nutritiva e função normativa. 
A primeira diz respeito ao cuidado, apego, alimentar, vestir, acalentar e dar 
a este sujeito um sentido de pertencimento. O sobrenome está relacionado 
ao exercício desta função, o “jeito” especial e único do grupo familiar ser e 
cuidar dos seus. Como já foi mencionado, complementar à função nutritiva, 
está a função normativa, que como o nome já diz, relaciona-se a regras, normas 
e socialização dos sujeitos. Cabe à família preparar seus membros a atuarem 
socialmente, irem aos poucos, encontrando formas de ser e agir no mundo 
segundo suas próprias escolhas. Nenhuma família cumpre suas funções se não 
deixa seus filhos “irem”, voarem.
As famílias, considerando suas características, são mais nutritivas 
ou mais normativas. Algumas priorizam as relações internas e o estar junto, 
TÓPICO 1 | MEDIAÇÃO FAMÍLIAR 
167
compartilhando momentos e experiências. Outras, investem na individualização 
dos seus membros, favorecendo que cada um possa buscar projetos individuais, 
baseados em suas próprias escolhas. Um importante indicador para o 
desempenho da parentalidade são as fronteiras, que definem como se dá essa 
proteção e diferenciação dos indivíduos. As fronteiras podem ser classificadas, 
segundo Minuchin (1990), como nítidas, difusas e rígidas. 
As nítidas são aquelas em que a família consegue determinar funções 
e espaços de cada integrante. Já as fronteiras difusas demonstram que não 
existem limites entre os subsistemas, sendo que os membros tendem a 
manteruma postura mais intrusiva uns com os outros. Segundo Minuchin 
(1990), as famílias que apresentam fronteiras difusas podem ser chamadas de 
famílias emaranhadas ou aglutinadas, por possuírem indiferenciação entre 
os subsistemas. Assim, o que acontece a um dos seus membros interfere 
diretamente na vida do outro. Famílias com esse tipo de fronteira tendem a 
apresentar falta de diferenciação entre os subsistemas, o que acaba por dificultar 
a autonomia dos seus membros. Por fim, temos as famílias que possuem 
fronteiras excessivamente rígidas entre os subsistemas. A comunicação entre os 
membros dessas famílias fica dificultada, bem como a função protetiva. Nessas 
famílias, os vínculos são frágeis, caracterizando distanciamento emocional e 
reduzido sentimento de pertencimento. 
A compreensão sobre fronteiras familiares está relacionada à ideia 
de que a família mantém unidade para apoiar seus membros, e tem sob sua 
responsabilidade basicamente duas funções: nutrir e normatizar. A ideia de 
nutrir está relacionada a dar colo, comida e aconchego, oferecendo ao sujeito 
o sentimento de pertença e de ser partícipe de determinado grupo social. A 
ideia de normatizar é oferecer ao sujeito a possibilidade de se individuar, de 
fazer escolhas, de atender a valores, normas, socializar e de ir a um só tempo se 
separando, mas pertencendo.
Uma nota sobre a tarefa do cuidado e proteção é que, se na modernidade, 
a família nuclear conseguia viabilizar o cumprimento das funções de nutrir e 
normatizar, as mudanças na contemporaneidade evidenciam a necessidade de 
ampliação da rede de apoio. Não se pensa, portanto, apenas na família nuclear, 
mas na família enquanto rede, incluindo tanto as pessoas da família nuclear, 
quanto da família extensa que são pessoas significativas e que importam no 
cuidado integral daquelas pessoas (GIONGO, 2003).
Retomando o que já foi anteriormente explicitado, historicamente tem 
havido uma divisão de funções relacionadas ao universo feminino e masculino: 
fusão, dependência e complemento costumam estar associadas a funções do 
universo feminino, enquanto separação, emancipação e normatização costumam 
estar associadas ao universo masculino. Todas as funções maternas estão 
relacionadas ao espaço privado, do lar e ao que acontece entre as paredes, no 
interior da casa. Já as funções paternas estão relacionadas ao que acontece no 
espaço social.
UNIDADE 3 | PROCESSOS DE MEDIAÇÃO: MEDIAÇÃO FAMILIAR, ESCOLAR E COMUNITÁRIA
168
 Essa divisão está tão presente no imaginário social que ainda nos 
surpreendemos quando mães referem que seus filhos ficarão melhor atendidos 
pelo pai, ou mães que decidem priorizar trabalho e ascensão profissional.
Ilusoriamente, na função materna a criança não é independente. Forma-
se uma dependência funcional geradora de vida, de um desenvolvimento 
erógeno que permite a construção do registro mental que interage entre o sujeito 
e o mundo exterior (leia-se: enquanto ser sensível). Dar de comer gera um 
registro de necessidade (fome) que se atende de determinada forma (alimento). 
Na satisfação das necessidades, produz-se a inscrição mental da necessidade. 
Essa interdependência, essa gravidez representacional, forma parte da função 
materna que é exercida por todos os adultos que cuidam da criança. É o 
movimento integrador da criança, a continuidade da gestação extrauterina
Os elementos problematizados estão inter-relacionados e os membros da 
família, na dinâmica de suas relações, lidam com eles, considerando seu sistema 
de crenças e valores, a etapa do ciclo evolutivo que está vivenciando, bem como 
a rede de pertencimento social com que mantém relações. Importante considerar 
o quão exigente é para os adultos “dar conta” das tarefas que lhe são atribuídas, 
especialmente pelos atravessamentos sociais, que frequentemente perpassam as 
fronteiras da família. 
4 DIVÓRCIO E SUAS FASES
 O divórcio é apresentado, neste texto, como um processo que pode 
ocorrer durante o ciclo vital da família, desafiando sua estrutura e sua dinâmica 
relacional. Desafiar não significa acabar com a família, mas transformá-la. Em 
outras palavras, a estrutura se altera com a dissolução da conjugalidade, mas a 
família, enquanto organização, mantém-se.
O divórcio pode representar para os envolvidos um evento de vida 
estressante ou um momento de crise por exigir sucessivas mudanças, adaptações 
e reequilíbrios no funcionamento familiar. Ele é um processo singular, haja vista 
que ele terá maior ou menor impacto nas pessoas envolvidas dependendo de 
alguns fatores (econômico, social, cultural e religioso) e, ainda, das redes de 
apoio que se estabelecem ou não. 
Não há dúvidas sobre o aumento no número de divórcios. Quanto aos 
fatores etiológicos relacionados a sua incidência, Peck e Manocherian (2001) 
relacionam: a diferença de status socioeconômico, quando a mulher ganha mais 
do que o homem; a instabilidade de renda e do emprego do marido; o menor 
grau de instrução do homem, quando comparado com a sua esposa; a idade 
dos cônjuges, pois quanto mais jovens, mais alta é a incidência; a ocorrência de 
gravidez pré-nupcial; a diferença racial; e as questões de gênero.
TÓPICO 1 | MEDIAÇÃO FAMÍLIAR 
169
Cada divórcio é particular, assim como são únicas as pessoas que se separam. 
Entretanto, é possível assinalar padrões gerais sobre essa transição e como as pessoas 
lidam com o processo. Em um sentido amplo, é possível referir três fases de transição 
pelas quais passam as pessoas envolvidas no divórcio: A primeira compreende o 
primeiro ano após a separação, conformando um período de caos, confusão e crise; 
a segunda, o realinhamento, caracteriza-se por ser uma fase de transição, em que 
as questões econômicas, sociais e extrafamiliares vão sendo reorganizadas entre o 
segundo e terceiro ano após a separação; a fase da estabilização, na qual se poderia 
dizer que, com efeito, há uma reorganização do sistema familiar.
As fases de transição do divórcio, em um sentido mais restrito, podem 
ser compreendidas através de seis momentos: luto, negação, rancor, negociação, 
vergonha e celebração. Esses momentos não seguem naturalmente uma ordem 
preestabelecida e nem em momentos distintos. Os envolvidos podem vivenciar 
duas ou mais fases em um único momento.
Quanto à fase do luto, ela diz respeito a tudo que poderia ter sido. Saber 
que o casamento acabou e aceitar que não voltará mais com a mesma pessoa é 
um processo realmente difícil. Significa a perda de algo importante que esteve 
presente na vida dos envolvidos. A fase da negação é representada por tentativas 
de recuperar o relacionamento, mesmo sabendo que tudo já acabou. Acaba 
sendo uma forma inconsciente dos envolvidos de se protegerem, de negarem, 
então, o que está acontecendo. A próxima é referida como a fase do rancor, 
pois existe um sentimento de rancor experienciada por ele próprio, pelo outro 
e pelo mundo em geral. Sentimentos de injustiça, raiva e culpa são acionados 
em uma tentativa de diminuição da ansiedade para encontrar justificativas do 
término da relação. Na fase seguinte, a negociação, é evidenciado o fato de que o 
casamento é um contrato. Dessa forma, os envolvidos aceitam que o contrato que 
fizeram foi quebrado, e as cláusulas não foram respeitadas por ambos ou talvez 
tenham simplesmente expirado. Outra fase pela qual os envolvidos passam é a 
vergonha, na qual o sentimento de incompetência e frustração aparecem muito 
forte. Por fim, há a fase da celebração, quando é possível visualizar uma nova 
vida pela frente. Quando todas as fases do divórcio foram superadas, a aceitação 
real aparece, o que pode oferecer à pessoa um sentimento de satisfação.
5 TEMAS PARA MEDIAÇÃO
Importante salientar que é nas questões relacionadas à dinâmica familiar 
que a mediação encontra sua mais adequada aplicação. Situações de tensão e 
conflitos nas relações familiares sempre necessitaram de recursos adequados, 
diferentes de negociação direta, da terapia e da resolução judicial. A mediaçãovem adquirindo destaque como um meio eficiente que valoriza a coparticipação 
e a coautoria. A mediação familiar trata de assuntos relacionados às relações 
familiares, tais como pensão alimentícia, adoções, guarda dos filhos, conflitos 
entre pais e filhos, separação judicial ou divórcio e todas as problemáticas 
advindas destes últimos. Na sequência, vamos apresentar ponderações sobre 
alguns desses assuntos. 
UNIDADE 3 | PROCESSOS DE MEDIAÇÃO: MEDIAÇÃO FAMILIAR, ESCOLAR E COMUNITÁRIA
170
5.1 DIVÓRCIO
A experiência de passar por um divórcio é sempre complexa, pois 
envolve conflitos, rupturas e mudanças que repercutem em todo o sistema 
familiar. A forma como o divórcio é entendido e conduzido pode produzir 
resultados positivos ou negativos aos membros da família, o que está diretamente 
relacionado ao comportamento do ex-casal.
É comum casais apresentarem dificuldade para lidar com a ruptura do 
vínculo conjugal, o que acaba sendo evidenciado com atitudes hostis e vingativas 
com o ex-cônjuge. Muitas vezes os filhos são usados para atingir a outra parte, 
mesmo sem perceber. 
Durante e após o divórcio pode haver conflitos de interesse e diferenças 
pessoais dos genitores, podem se sentir ameaçados pelas mudanças ocorridas e 
podem ter dificuldades para gerenciar questões relacionadas à partilha de bens, 
relacionamentos com família extensa, uso do nome, entre outros.
5.2 GUARDA E PARENTALIDADE FUTURA DOS FILHOS
 Falar em parentalidade é falar no subsistema parental que se distingue 
do subsistema conjugal, mesmo que na cotidianidade parece ser difícil separá-
los. Em uma família, o casal exerce funções de conjugalidade e de parentalidade. 
A conjugalidade diz respeito ao relacionamento entre duas pessoas unidas por 
laços afetivos e sexuais que possa oferecer laços de apoio mútuo. O subsistema 
parental inicia com o nascimento do primeiro filho e exige do casal marital 
mudanças significativas nas suas relações para poder incluir uma terceira pessoa. 
A parentalidade diz respeito ao campo dos cuidados parentais e das relações 
entre pais e filhos, e necessita da capacidade de nutrir, guiar e controlar.
A parentalidade precisa se manter mesmo que o casamento se desfaça e 
isto não é tarefa fácil para nenhum dos envolvidos. Conseguir manter os vínculos 
afetivos e o exercício das funções parentais após o divórcio é um desafio para a 
família em processo de reconfiguração. 
Pelo artigo 1632 do Código Civil, a separação ou divórcio não pode alterar 
a relação entre pais e filhos, e a guarda das crianças deve ficar com o cônjuge que 
tiver melhores condições de criá-los, independente de gênero. 
 
Segundo Chaves (2019, p.1), existem três tipos de guarda no Brasil: 
guarda unilateral, guarda alternada e guarda compartilhada.
Guarda unilateral: neste tipo de guarda, apenas um dos pais tem 
responsabilidades e decide pelo menor, cabendo ao outro visitar o 
menor em dias e horários acordados entre as partes ou determinadas 
por um juiz. A guarda unilateral só é concedida em casos de maus 
tratos, abandono ou falta de condições que impeçam uma das partes 
TÓPICO 1 | MEDIAÇÃO FAMÍLIAR 
171
de compartilhar a guarda ou quando um dos genitores abre mão da 
guardo do menor em prol do outro.
Guarda alternada: Este tipo de modalidade é uma criação doutrinária 
e jurisprudencial, pois não está prevista em lei. Neste modelo, o 
menor tem duas residências, sendo a do pai e a da mãe. Ambos são 
responsáveis pelos direitos e deveres da criança/adolescente e existe 
a alternância das residências, ou seja, uma semana pode morar com a 
mãe e uma semana pode morar com o pai. Os períodos de alternância 
serão definidos conforme a entendimento entre os pais.
Guarda compartilhada: Este tipo de guarda está respaldada pela lei 
13.058/14. A guarda compartilhada é a melhor solução para os pais 
de um menor que não vivem juntos, pois trata-se da responsabilidade 
conjunta em tudo ao que diz respeito aos diretos e deveres da criança e 
do adolescente. Neste caso, o menor tem uma residência e a parte que 
não prover a residência, poderá visitar o filho a qualquer momento, 
sem que haja a necessidade de intervenção judicial.
Mesmo que as leis preconizem igualdade entre pai e mãe quanto à 
possibilidade da guarda dos filhos após o divórcio, há ainda uma tendência 
cultural de que a mãe fique com a guarda. Entretanto novas configurações do 
masculino abrem possibilidades para alteração deste quadro, já que os pais têm 
participado cada vez mais dos cuidados com os filhos.
Nas sessões de Mediação muitos temas relacionados a cuidado e guarda 
podem ser levantados: com quem os filhos passam a residir? De quem será a 
guarda? Como se dará a convivência: tomada de decisões, visitação, calendários, 
acesso durante possível enfermidade, escolaridade, acesso telefônico, obrigações 
da família extensa, relocalizações geográficas, entre tantas. 
5.3 PENSÃO ALIMENTÍCIA DOS FILHOS, TAMBÉM CHAMADA 
DE ALIMENTOS AOS FILHOS
É de extrema relevância o tema alimentos, visto que está relacionado 
às obrigações e responsabilidade entre pais e filhos. Na realidade o tema inclui 
relações entre cônjuges ou companheiros, entre avós e netos, bem como entre 
outros parentes. Do ponto de vista jurídico a expressão alimentos transcende 
o sentido literal e possui um significado muito mais abrangente. Além da 
alimentação inclui manutenção em todos os sentidos. 
Em se tratando de relações com filhos, é obrigação de ambos os pais 
proverem o sustento de seus filhos. Por exemplo, a pessoa que tem a guarda 
(seja ela pai ou mãe), não pode renunciar à pensão a que os filhos têm direito, 
mesmo que no momento não estejam precisando. Como no Brasil não existem 
parâmetros predefinidos para determinar o valor dos alimentos, esses devem ser 
fixados “com base no binômio necessidade do filho X possibilidade dos pais” 
(HAYNES; MARODIN, 1996, p. 77). 
UNIDADE 3 | PROCESSOS DE MEDIAÇÃO: MEDIAÇÃO FAMILIAR, ESCOLAR E COMUNITÁRIA
172
5.4 CUIDADO DE IDOSOS/DOENTES 
Os marcos legais que tratam da relação família-idoso tendem a focar na 
responsabilidade da família quanto ao cuidado ao idoso. A Constituição Federal 
preconiza como sendo dever dos pais assistir, criar e educar os filhos menores; 
e de outro lado, os filhos maiores tem o dever de ajudar e amparar os pais na 
velhice, carência ou enfermidade. 
O Estatuto do Idoso no seu art. 3º cita que é obrigação da família, da 
comunidade, da sociedade e do Poder Público assegurar ao idoso, com absoluta 
prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à 
cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, 
ao respeito e à convivência familiar e comunitária, além da priorização de 
atendimento por sua própria família, em detrimento do asilar, exceto àqueles que 
não a possuam ou careçam de condições de manutenção da própria sobrevivência 
(BRASIL, 2003).
As relações de conflitos familiares envolvendo idosos que dependem de 
cuidados acontecem, muitas vezes, pelas dificuldades quanto à distribuição e 
administração dos cuidados – quando são os próprios familiares que tomam a 
tarefa para si –, ou na dificuldade da contratação de um cuidador e da divisão 
das despesas – quando se delega a função para um profissional.
5.5 RECONHECIMENTO DE PATERNIDADE
Muitas crianças não têm assegurado o direito de obter o registro do nome 
do nome do pai na sua identidade, bem como o direito de poder contar com 
relações de cuidado por parte do progenitor. O Programa Pai Presente, criado 
em 2010 pela Corregedoria Nacional de Justiça, realizado em parceria com os 
Tribunais de Justiça de todo o país, busca garantir o cumprimento da Lei n. 
8.560/1992. Esta lei visa regular e fomentar a regularização do vínculo familiar 
e estimular os pais que não registraram seus filhos na época do nascimento a 
assumirem essa responsabilidade, mesmo que tardiamente (BRASIL, 1992). 
A lei determina que, no momento do registro, o registrador indague à 
mãeo nome do suposto pai sempre que uma criança for registrada sem indicação 
de paternidade. Quando isso acontece, o oficial do cartório de registro civil deve 
encaminhar o expediente ao juiz da comarca para que ele convoque o suposto 
pai a se manifestar sobre a paternidade. Em caso positivo, o reconhecimento é 
formalizado e o nome do pai é incluído na certidão de nascimento. 
Caso o suposto pai se recuse a comparecer à audiência, ou mesmo a se 
submeter ao exame de DNA, o juiz pode aplicar a presunção, considerando o 
direito indisponível da criança em saber o seu vínculo de paternidade.
Utilizar a mediação familiar na execução do Programa Pai Presente pode 
facilitar a construção da relação pai-filho. 
TÓPICO 1 | MEDIAÇÃO FAMÍLIAR 
173
6 ÂMBITO DE ATUAÇÃO DA MEDIÇÃO FAMILIAR
I. mediação de família judicial; 
II. prática privada da mediação de família;
III. agências, secretarias, clínicas e programas comunitários, ONGs, núcleos de 
prática jurídica, entre outros.
O mediador não busca quem está certo ou errado. Ele acolhe, reconhece e 
legitima as duas partes envolvidas no conflito. 
IMPORTANT
E
7 PARTICULARIDADES DA MEDIAÇÃO FAMILIAR 
Possivelmente em decorrência da cultura jurídico-penal brasileira, 
a população está acostumada a enxergar responsabilidade como culpa, 
principalmente os pais, que acabam assumindo para si esse sentimento 
sobre qualquer problema que acontece no cotidiano familiar. A mediação 
verdadeiramente emancipadora procura quebrar esse paradigma, trabalhando 
com o conceito de responsabilidade integral, que compreende a responsabilidade 
funcional e a responsabilidade social. 
A responsabilidade funcional insere-se no âmbito relacional dos 
mediandos e traz a ideia de que a função assumida por cada mediado (função 
paterna, função materna etc.) traz consigo uma responsabilidade. Contudo, o 
não atendimento dessa função não deve ser castigado (culpa = Direito Penal), 
mas sim reparado, atendido e restaurado (responsabilidade funcional). Já a 
responsabilidade social introduz a ideia de uma consciência permanente de 
que toda e qualquer atitude ou escolha produz reflexos na sociedade de forma 
constante. 
Nessa ordem de ideias, a mediação se propõe a ser um espaço de 
reflexão dos mediandos sobre o que estão fazendo com as suas próprias vidas 
e com as vidas dos outros com os quais convivem. O mediador, nesse contexto, 
deve auxiliar os mediandos a tomarem consciência dos seus atos (passagem 
do ilusório para o simbólico), responsabilizando-se por esses e buscando a 
reparação/restauração. 
Especialmente no que tange às crianças e adolescentes, o conceito de 
responsabilidade integral se torna de suma importância para a mediação, pois 
traz a ideia de que a responsabilidade pelas crianças e adolescentes não é somente 
da família, mas também da escola, da comunidade e inclusive do Estado. 
UNIDADE 3 | PROCESSOS DE MEDIAÇÃO: MEDIAÇÃO FAMILIAR, ESCOLAR E COMUNITÁRIA
174
O mediador deve auxiliar os pais, na mediação, a identificarem as 
necessidades dos filhos, para, consequentemente, reconhecerem suas identidades 
como pessoas. Esse trabalho configura-se extremamente importante dentro deste 
conceito de responsabilidade integral, na medida em que a família que está em 
conflito vai, posteriormente, retornar à sociedade de uma determinada maneira 
e, consequentemente, produzir efeitos permanentes na comunidade. 
Em mediações familiares, não há como tratar o conflito objetivo sem 
tratar do conflito subjetivo, nos quais as emoções influenciam sobremaneira os 
envolvidos. Quando as situações envolvem casais que têm filhos, não há como 
trabalhar a relação do casal sem que os filhos sejam envolvidos. Igualmente, não 
há como trabalhar as questões atinentes aos filhos sem trabalhar o casal. 
Quando se trata dos filhos, os pais devem ser auxiliados a percebê-los 
como sujeitos, com habilidades e competências a serem desenvolvidas. É papel 
do mediador auxiliar os pais a reconhecerem essas habilidades e capacidades nos 
seus filhos, para que possam ser adequadamente estimuladas e desenvolvidas. 
Os pais têm desejos inconscientes do que esperam dos seus filhos, na verdade, 
esses desejos são construídos mesmo antes das crianças nascerem. Um indivíduo 
pode projetar a sua concepção ideal no filho, podendo deslocar para ele sua 
frustração ou desejar que ele seja um espelho. Entretanto, é necessário que os 
pais abandonem eventuais concepções dos filhos como coisas (auxiliares, reféns 
e mensageiros), passando a identificá-los como pessoas com identidade própria, 
detentores de suas próprias necessidades materiais e emocionais. Ou seja, os pais 
deverão perceber que os filhos não estão ali, por exemplo, para realizar os sonhos 
não alcançados pelos pais, para suprir suas frustrações e carências, ou para levar 
recados ou notícias de um para o outro. 
Não é bom que os filhos sejam usados para dirimir questões dos pais. O 
que o mediador faz para que isso não aconteça é resgatar os filhos pelos filhos, 
e não pelos pais. A emancipação que se busca na mediação não acontece se os 
mediandos continuarem a considerar os filhos como seus auxiliares.
O mediador deve tentar averiguar se os pais estão falando da imagem 
que criaram dos filhos, ou dos filhos reais, como são. Para trazer os filhos como 
sujeitos, trabalha-se com questões como a maneira pela qual escolhem a escola 
do filho, quais questões levam em consideração para isso, e que atendimentos 
estão dando a ele. Questiona-se como foi o dia, como foi o final de semana e 
como organizam a rotina para que possam reconhecer os gostos e necessidades 
das crianças. 
Quando os pais vêm à mediação com ideias e percepções muito distintas 
sobre os filhos, não se deve tentar dirimir a verdade. Deve-se legitimar os dois e 
entender por que essa diferença de percepção existe, legitimar suas preocupações. 
O mediador não deve se prender aos “rótulos” usados pelos mediandos em 
relação aos filhos ou ao outro. Não se deve entrar nesses jogos de disputa por 
pontos de vista distintos. 
TÓPICO 1 | MEDIAÇÃO FAMÍLIAR 
175
Para Vezzula (2018), mesmo se alguém mente, deve-se considerar que 
mentira é uma maneira de contar a verdade daquela pessoa que narra. Não há 
porque se preocupar. Deve-se legitimar as duas versões. São duas pessoas e 
o mediador está ali para atender as duas. É necessário romper com a ideia de 
que um tem razão e outro não, de que um está certo e outro errado. Quando 
o indivíduo é escutado e respeitado, nessa escuta podem ser esclarecidas 
muitas coisas. 
Com questionamentos, a mediação busca alcançar maior informação e 
sensibilidade por parte dos pais, para perceberem que, desde que nascem, os 
filhos são sujeitos. Em geral, os pais simplificam as questões pensando que as 
crianças não notam o que está acontecendo, que não compreendem e que vão 
se acostumar com qualquer coisa que os pais decidam. O trabalho do mediador 
consiste em auxiliar os mediandos a enxergarem o que realmente é do filho. 
Precisamos falar dos filhos para fazê-los presentes na mediação. 
Cria-se, assim, o espaço para que surja o reconhecimento dos filhos 
sujeitos, e não meros auxiliares ou objetos. A lógica deve ser a de atender às 
necessidades dos filhos, não os filhos atenderem às necessidades dos pais. O 
mediador tem o papel de fazer com que os filhos sejam vistos como sujeitos, 
mas, para isso, é necessário acolher as falas dos pais para que possa surgir o filho 
“verdadeiro”, para que se revele quem é o filho.
8 TÉCNICAS DE MEDIAÇÃO FAMILIAR
As técnicas utilizadas na Mediação Familiar já foram apresentadas no 
item técnicas de Mediação. Algumas são especialmente utilizadas em situações 
de conflitos familiares, como é o caso do parafraseamento. Em casos de divórcio, 
por exemplo, a comunicação entre o casal pode ficar bastante prejudicada e 
muitas informações podem ser entendidas de forma equivocada pela outra 
parte. O uso do parafraseamento na sessão de mediação pode oportunizar o 
esclarecimento de diversos

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