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Indaial – 2020 Formas Democráticas De ParticiPação social e a meDiação Familiar, escolar e comunitária Prof.ª Cláudia Deitos Giongo Prof.ª Ângela Martins Rorato 1a Edição Copyright © UNIASSELVI 2020 Elaboração: Prof.ª Cláudia Deitos Giongo Prof.ª Ângela Martins Rorato Revisão, Diagramação e Produção: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. Impresso por: G496f Giongo, Cláudia Deitos Formas democráticas de participação social e a mediação familiar, escolar e comunitária. / Cláudia Deitos Giongo; Ângela Martins Rorato. – Indaial: UNIASSELVI, 2020. 222 p.; il. ISBN 978-85-515-0426-0 1. Direito. - Brasil. 2. Legislação. – Brasil. 3. Família. – Brasil. I. Rorato, Ângela Martins. II. Centro Universitário Leonardo Da Vinci. CDD 340 III aPresentação Caro acadêmico, pronto para apreensão de novos conhecimentos? Esperamos que sim. Antes de iniciarmos os estudos da Disciplina Formas Democráticas de Participação Social e a Mediação Familiar, Escolar e Comunitária apresentamos um breve currículo das professoras autoras deste livro didático. A prof.ª Cláudia Deitos Giongo é mestre em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2000). Possui graduação em Serviço Social pela Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1984). Atua como professora universitária desde 1989 em diferentes instituições de ensino tanto na graduação, quanto pós-graduação. No momento, atua como professora e supervisora no DOMUS – Centro de terapia individual, casal e família – parceria com a Faculdade Mário Quintana. É coordenadora do Curso de Pós-Graduação Trabalho Social com Famílias e Comunidades. Atua como uma das coordenadoras do Curso de Extensão em Mediação com parceria da Defensoria Pública de Porto Alegre. É responsável técnica pelo Programa DOMUS/SUAS. Atua como Mediadora Judicial e Extrajudicial. Presta serviços de assessoria e capacitação a Prefeituras nas áreas de Gestão do SUAS, Modelo Assistencial e Gestão do Trabalho. Tem experiência em ensino, pesquisa, extensão universitária e consultoria nas áreas de política de assistência social, família, mediação e redes sociais. A professora e mediadora de conflitos Ângela Martins Rorato, é especialista em educação, formada em Estudos Sociais (UNIFRA – 1989), atua como professora em cursos de pós-graduação, em capacitação de mediadores de conflitos e facilitadores de círculos de construção de paz para profissionais das mais variadas áreas. Presta consultoria na área de comunicação para diversas empresas e órgãos públicos. Atua como formadora e supervisora do Curso de Extensão em Mediação em parceria com a defensoria Pública de Porto Alegre. Atualmente, é consultora e assessora de coordenação do Projeto de Implantação e Consolidação de Práticas Restaurativas na Socioeducação. Palestrante na área de comunicação com foco em Comunicação não violenta, capacitada pelo NY Center for Nonviolent Communication. Possui certificação internacional em mediação de conflitos pelo ICFML e pelo IMAP. Iniciaremos os estudos da disciplina apresentando, na Unidade 1, a confluência de temas como participação, conflitos e comunicação. O Tópico 1 direciona o estudo para o tema participação social, buscando apresentar discussões conceituais e perspectiva histórica sobre como a população brasileira tem operado em termos de participação, considerando marcos IV legais que impulsionam para isto, mesmo que correlações de forças, instituídas no país, possam representar resistências. O tema cidadania e autonomia estão correlacionados à ideia de participação da população em uma comunidade política, o que gera comprometimento autônomo e pertencimento social. O conteúdo apresenta discussões sobre a importância da internalização de normas partilhadas, para que diferenças podem ser superadas por meio de discussões públicas na ideia de bem comum. Disso advém a importância do Tópico 2, que discorre acerca de entendimentos sobre a relação entre conflito e comunicação assertiva. Apresenta a Moderna Teoria de Conflitos, que propõe superar ideias pré-concebidas de entendimento do conflito como algo a ser evitado. Neste mesmo tópico, é apresentada a teoria da Comunicação Humana e a importância da comunicação não violenta. A discussão perpassa a ideia da dificuldade em estabelecer processos comunicacionais, com compreensão genuína sobre o que é dito, mesmo em um mundo cujos meios de comunicação expandiram as fronteiras de forma inimaginável. A Unidade 2 apresenta a Justiça Multiportas e suas especificidades como uma das formas encontradas de resolução dos conflitos, com o objetivo de oferecer possibilidades de conhecimento e análise para a busca de soluções mais adequadas, em um tempo histórico de excessiva litigiosidade e inseguranças jurídicas. No Tópico 1, o conteúdo apresenta, conceituação, legislação e defesa e dados que defendem a importância do entendimento da Justiça Multiportas no atual momento do país. No Tópico 2, são apresentados os Meios Heterocompositivos com seus dois caminhos de solução de conflitos: a Jurisdição e a Arbitragem. O texto ressalta a importância do reconhecimento, semelhanças e diferenças entre eles e do entendimento que a resposta da escolha se materializa através de sentença ou de laudo arbitral. Já no Tópico 3, é apresentado informações sobre meios adequados para superação da cultura litigiosa e dados sobre os esforços, empreendidos em diferentes contextos, para que possa ser reconhecida a importância das pessoas em situação de conflito se reconhecer protagonistas na identificação de interesses e nos esforços para o seu alcance. O tópico oferece conteúdo sobre a Resolução nº 125/2010 do Conselho Nacional de Justiça e o Código de Processo Civil de 2015 por representarem um marco no direito brasileiro por viabilizar a construção de um processo civil e sistema de justiça multiportas, bem como apresenta dados sobre Negociação, Conciliação e Mediação. A Unidade 3 apresenta dados sobre contextos para utilização da mediação como meio para resolução adequada de conflitos. O Tópico 1 se ocupa com a Mediação Familiar, oferecendo a oportunidade de entendimentos sobre a dinâmica relacional da família que podem indicar a necessidade da utilização da Mediação Familiar como método para a superação de conflitos. Os Tópicos 2 e 3 se dedicam a apresentar dados V Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há novidades em nosso material. Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo. Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente, apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto em questão. Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa continuar seus estudos com um material de qualidade. Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de Desempenhode Estudantes – ENADE. Bons estudos! NOTA sobre o espaço escolar e o espaço comunitário como espaços onde conflitos emergem cotidianamente, mas que podem ser espaços geradores de soluções. Desta forma, apresenta a Mediação Escolar e a Mediação Comunitária como espaço de construção de agentes para a solução de conflitos e fortalecimento de espaços de participação social. prof.ª Cláudia Deitos Giongo prof.ª Ângela Martins Rorato VI VII Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma disciplina e com ela um novo conhecimento. Com o objetivo de enriquecer teu conhecimento, construímos, além do livro que está em tuas mãos, uma rica trilha de aprendizagem, por meio dela terás contato com o vídeo da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complementares, entre outros, todos pensados e construídos na intenção de auxiliar teu crescimento. Acesse o QR Code, que te levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para teu estudo. Conte conosco, estaremos juntos nessa caminhada! LEMBRETE VIII IX UNIDADE 1 – PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS ..........................................1 TÓPICO 1 – CIDADANIA, PARTICIPAÇÃO POLÍTICA, SOCIAL E POPULAR ...........................3 1 INTRODUÇÃO .......................................................................................................................................3 2 SOMOS TODOS LIVRES E IGUAIS... SERÁ? .....................................................................................3 3 DIREITOS POLÍTICOS, SOCIAIS E CIVIS ........................................................................................5 4 CIDADANIA NA ATUALIDADE: CIDADANIA FORMAL X CIDADANIA REAL ...................7 5 MOVIMENTOS SOCIAIS NA ATUALIDADE ...............................................................................10 RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................12 AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................13 TÓPICO 2 – OS GRAUS DE PARTICIPAÇÃO PÚBLICA .................................................................15 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................15 2 OS DIREITOS HUMANOS NA CONSULTA PÚBLICA ................................................................15 3 OS GRAUS DE PARTICIPAÇÃO PÚBLICA ......................................................................................17 4 COMO INCENTIVAR A PARTICIPAÇÃO PÚBLICA .....................................................................20 RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................24 AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................25 TÓPICO 3 – SENSIBILIZAR PARA A DEMOCRACIA E A PARTICIPAÇÃO ..............................27 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................27 2 EDUCAÇÃO: AUTONOMIA E EMANCIPAÇÃO DOS SUJEITOS ..............................................27 3 AMBIENTES EDUCATIVOS DEMOCRÁTICOS ...........................................................................32 4 REPENSANDO OS AMBIENTES EDUCATIVOS ..........................................................................35 RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................40 AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................41 TÓPICO 4 – OS MOVIMENTOS SOCIAIS ........................................................................................43 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................43 2 A FORMAÇÃO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS .............................................................................43 3 O MOVIMENTO SOCIAL TRADICIONAL E OS NOVOS MOVIMENTOS SOCIAIS ..........46 4 MOVIMENTOS SOCIAIS, ESTADO E POLÍTICAS PÚBLICAS ..................................................48 RESUMO DO TÓPICO 4........................................................................................................................52 AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................53 TÓPICO 5 – TRAJETÓRIA DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL ....................................55 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................55 2 MOVIMENTOS SOCIAIS E POPULARES ......................................................................................55 3 PARTICIPAÇÃO SOCIAL, EDUCAÇÃO POPULAR E MOVIMENTOS SOCIAIS ...................59 4 HISTÓRICO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL ..........................................................62 RESUMO DO TÓPICO 5........................................................................................................................68 AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................69 sumário X TÓPICO 6 – CIDADANIA E MOVIMENTOS SOCIAIS..................................................................71 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................71 2 MOVIMENTOS SOCIAIS ...................................................................................................................72 3 PRIVAÇÃO RELATIVA ........................................................................................................................74 4 MOBILIZAÇÃO DE RECURSOS ........................................................................................................75 5 O SEXO E OS MOVIMENTOS SOCIAIS ........................................................................................76 6 NOVOS MOVIMENTOS SOCIAIS ..................................................................................................77 7 TEORIAS DE MUDANÇAS SOCIAIS ...............................................................................................78 8 TEORIA EVOLUCIONISTA ...............................................................................................................79 9 TEORIA FUNCIONALISTA ...............................................................................................................80 10 TEORIA DO CONFLITO ...................................................................................................................81 11 MUDANÇAS SOCIAIS MUNDIAIS ...............................................................................................82 12 RESISTÊNCIA ÀS MUDANÇAS SOCIAIS ..................................................................................84 13 FATORES ECONÔMICOS E CULTURAIS .....................................................................................84 14 RESISTÊNCIA À TECNOLOGIA .....................................................................................................86 15 A TECNOLOGIA E O FUTURO ........................................................................................................88 15.1 INFORMÁTICA ..............................................................................................................................88 RESUMO DO TÓPICO 6........................................................................................................................89 AUTOATIVIDADE .................................................................................................................................90TÓPICO 7 – MOVIMENTOS SOCIAIS E DIREITOS HUMANOS ...............................................91 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................................91 2 ESTADO, SOCIEDADE E DIREITOS HUMANOS .........................................................................91 2.1 ESTADO ............................................................................................................................................91 2.2 SOCIEDADE .....................................................................................................................................92 2.3 DIREITOS HUMANOS ...................................................................................................................94 3 HISTÓRIA E EVOLUÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS NO BRASIL .......................................96 4 MOVIMENTOS SOCIAIS EM DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS......................................99 LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................102 RESUMO DO TÓPICO 7......................................................................................................................105 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................106 UNIDADE 2 – OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS ....107 TÓPICO 1 – JUSTIÇA MULTIPORTAS ............................................................................................109 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................109 2 DEFINIÇÕES PRELIMINARES .......................................................................................................109 3 COMPREENSÃO HISTÓRICA .......................................................................................................110 4 LEGISLAÇÃO RELACIONADA .....................................................................................................112 RESUMO DO TÓPICO 1......................................................................................................................116 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................117 TÓPICO 2 – MEIOS HETEROCOMPOSITIVOS ...........................................................................119 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................119 2 JURISDIÇÃO .......................................................................................................................................119 3 ARBITRAGEM – CONCEPÇÃO HISTÓRICA .............................................................................122 4 DEFINIÇÕES PRELIMINARES .......................................................................................................122 5 PRINCÍPIOS E PROCEDIMENTO ................................................................................................123 6 ARBITRO ..............................................................................................................................................124 RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................................125 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................126 XI TÓPICO 3 – MEIOS AUTOCOMPOSITIVOS ................................................................................129 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................129 2 LEGISLAÇÃO RELACIONADA .....................................................................................................130 2.1 RESOLUÇÃO 125/2010 CNJ .........................................................................................................130 2.2 CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL 2015 .........................................................................................131 3 NEGOCIAÇÃO ..................................................................................................................................131 3.1 DEFINIÇÕES PRELIMINARES ...................................................................................................132 3.2 PRINCÍPIOS E PROCEDIMENTOS ............................................................................................134 3.3 FASES DA NEGOCIAÇÃO .........................................................................................................136 3.4 O NEGOCIADOR ..........................................................................................................................137 4 CONCILIAÇÃO ..................................................................................................................................137 4.1 DEFINIÇÕES PRELIMINARES ...................................................................................................138 4.2 PROCEDIMENTO .........................................................................................................................139 4.3 TÉCNICAS .....................................................................................................................................141 5 MEDIAÇÃO .........................................................................................................................................144 5.1 DEFINIÇÕES PRELIMINARES ...................................................................................................144 5.2 A PESSOA DO MEDIADOR ........................................................................................................145 5.3 FUNÇÕES DO MEDIADOR ........................................................................................................147 5.4 REGRAS E PRINCÍPIOS DA MEDIAÇÃO ................................................................................147 5.5 ESCOLAS OU MODELOS DA MEDIAÇÃO .............................................................................148 5.6 PROCEDIMENTOS .......................................................................................................................149 5.7 TÉCNICAS PARA A CONDUÇÃO DE UMA MEDIAÇÃO ..................................................150 LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................153 RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................156 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................157 UNIDADE 3 – PROCESSOS DE MEDIAÇÃO: MEDIAÇÃO FAMILIAR, ESCOLAR E COMUNITÁRIA ......................................................................................................159 TÓPICO 1 – MEDIAÇÃO FAMÍLIAR ..............................................................................................161 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................161 2 PERSPECTIVA HISTÓRICA DA MEDIAÇÃO FAMILIAR ......................................................161 3 FAMÍLIAS E FAMÍLIAS CONTEMPORÂNEAS .........................................................................163 3.1 DINÂMICA RELACIONAL DA FAMÍLIA ...............................................................................165 4 DIVÓRCIO E SUAS FASES ..............................................................................................................168 5 TEMAS PARA MEDIAÇÃO .............................................................................................................1695.1 DIVÓRCIO ......................................................................................................................................170 5.2 GUARDA E PARENTALIDADE FUTURA DOS FILHOS .......................................................170 5.3 PENSÃO ALIMENTÍCIA DOS FILHOS, TAMBÉM CHAMADA DE ALIMENTOS AOS FILHOS ...................................................................................................................................171 5.4 CUIDADO DE IDOSOS/DOENTES ...........................................................................................172 5.5 RECONHECIMENTO DE PATERNIDADE ..............................................................................172 6 ÂMBITO DE ATUAÇÃO DA MEDIÇÃO FAMILIAR ................................................................173 7 PARTICULARIDADES DA MEDIAÇÃO FAMILIAR ...............................................................173 8 TÉCNICAS DE MEDIAÇÃO FAMILIAR ......................................................................................175 9 MEDIABILIDADE ..............................................................................................................................176 RESUMO DO TÓPICO 1......................................................................................................................178 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................179 TÓPICO 2 – MEDIAÇÃO ESCOLAR ...............................................................................................181 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................181 2 ESPACO ESCOLAR ............................................................................................................................181 3 CONFLITOS NO AMBIENTE ESCOLAR .....................................................................................183 4 DIMENSÕES E FINALIDADES DA MEDIAÇÃO ESCOLAR .................................................184 XII 4.1 TÉCNICA DE INTERVENÇÃO NA GESTÃO E RESOLUÇÃO DOS CONFLITOS ..........186 4.2 METODOLOGIA DE DESENVOLVIMENTO PESSOAL E SOCIAL .....................................187 4.3 ESTRATÉGIA INTEGRADA DE PREVENÇÃO ......................................................................188 5 A ESTRUTURA DE UM PROJETO DE MEDIAÇÃO ESCOLAR ............................................189 5.1 DIAGNÓSTICO – LEVANTAMENTO DE DADOS .................................................................189 5.2 PLANO DE AÇÃO ........................................................................................................................190 5.3 SENSIBILIZAÇÃO .........................................................................................................................190 5.4 FORMAÇÃO: CAPACITAÇÃO TEÓRICA E PRÁTICA .........................................................190 5.5 INSTITUCIONALIZAÇÃO ..........................................................................................................191 RESUMO DO TÓPICO 2......................................................................................................................193 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................194 TÓPICO 3 – MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA ...................................................................................195 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................................195 2 RELAÇÕES DE PARTICIPAÇÃO COMUNITÁRIA NA RESOLUÇÃO DE CONFLITOS ......195 3 PERSPECTIVA CONCEITUAL ........................................................................................................197 4 BREVE HISTÓRICO DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA ........................................................197 5 CARACTERÍSTICAS DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA .......................................................199 6 FUNÇÕES DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA ............................................................................200 7 FASES DA MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA ...................................................................................202 8 O PAPEL DO MEDIADOR COMUNITÁRIO .............................................................................202 LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................204 RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................207 AUTOATIVIDADE ...............................................................................................................................208 REFERÊNCIAS .......................................................................................................................................209 1 UNIDADE 1 PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • compreender o significado de participação social, cidadania e autonomia na sociedade brasileira em uma perspectiva histórica; • compreender a relação entre participação, cidadania, autonomia e relações de conflito; • identificar e reconhecer conceitos relacionados à comunicação e comunicação não violenta; • reconhecer a importância da comunicação humana no tratamento positivo do conflito; • identificar as questões relacionadas à cidadania em suas variadas formas de participação; • reconhecer como se dão os processos de participação no âmbito político, social e popular; • analisar as evoluções históricas dos movimentos sociais na contempora- neidade; • entender a representatividade do conceito de direitos humanos nas con- sultas públicas; • identificar os distintos graus de participação pública; • compreender as formas para incentivar a participação pública nas con- sultas; • relacionar a prática educadora com os conceitos de autonomia e de eman- cipação dos sujeitos; • identificar os diversos ambientes educativos como espaços democráticos que possibilitam uma troca de saberes e um mútuo enriquecimento; • repensar a organização dos ambientes educativos para o favorecimento da coletividade, da democracia e da participação; • descrever a mobilização social em torno de um problema social específico na formação dos movimentos sociais; • identificar as demandas sociais de um movimento social tradicional e dos novos movimentos sociais; • relacionar movimentos sociais, Estado e políticas públicas; • definir movimentos sociais populares; • relacionar participação social, educação popular e movimentos sociais; • reconhecer a trajetória dos movimentos sociais no Brasil; • explicar a importância dos movimentos sociais em nossa sociedade; • reconhecer a dimensão do conceito de democracia nas sociedades atuais; • identificar os motivos que fizeram surgir os movimentos negros, sindicais, socialistas, educacionais e liberais; • descrever Estado, sociedade e Direitos Humanos; • reconhecer a história e a evolução dos Direitos Humanos no Brasil; • discutir sobre o papel dos movimentos sociais em defesa dos Direitos Hu- manos. 2 Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA PLANO DE ESTUDOS Esta unidade está dividida em sete tópicos. No decorrer da unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – CIDADANIA, PARTICIPAÇÃO POLÍTICA, SOCIAL E POPULAR TÓPICO 2 – OS GRAUS DE PARTICIPAÇÃO PÚBLICA TÓPICO 3 – SENSIBILIZAR PARA A DEMOCRACIA E A PARTICIPAÇÃO TÓPICO 4 – OS MOVIMENTOS SOCIAIS TÓPICO 5 – TRAJETÓRIA DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL TÓPICO 6 – CIDADANIA E MOVIMENTOS SOCIAIS TÓPICO 7 – MOVIMENTOSSOCIAIS E DIREITOS HUMANOS 3 TÓPICO 1 UNIDADE 1 CIDADANIA, PARTICIPAÇÃO POLÍTICA, SOCIAL E POPULAR 1 INTRODUÇÃO Direitos, cidadania, participação popular e movimentos sociais se tornaram temas frequentes nos pronunciamentos de governantes, políticos de diferentes partidos, empresários brasileiros ou estrangeiros, estudantes, trabalhadores e membros das camadas da sociedade que enfrentam as piores condições de vida. Qual o significado de tais temas para indivíduos pertencentes a grupos tão distintos? A cidadania está relacionada ao surgimento do Estado moderno e à expectativa de que este garanta aos cidadãos a conquista, manutenção e ampliação dos direitos sociais por meio da ação dos indivíduos e de grupos que lutam por uma sociedade mais justa e igualitária. 2 SOMOS TODOS LIVRES E IGUAIS... SERÁ? Ao longo dos séculos, muitos foram os pensadores que afirmaram a ideia de que os seres humanos nascem livres e iguais e têm garantidos determinados direitos inalienáveis. Vejamos os mais expressivos. O pensador inglês Thomas Hobbes (1588-1679), em seu livro Leviatã, afirma que os seres humanos são naturalmente iguais e, devido ao excesso de liberdade, lutam uns com os outros em defesa de seus interesses individuais, sendo assim necessário um acordo (o qual ele denominava de contrato) entre as pessoas. Ainda de acordo com o autor, para evitar a autodestruição, todos os membros da sociedade devem renunciar à liberdade e dar ao Estado o direito de agir em seu nome limitando os excessos. Ainda seguindo uma linha contratualista, temos o pensador inglês Jonh Locke (1632-1704), que afirma em sua obra Dois tratados sobre o governo, que apenas os homens livres e iguais podem fazer um pacto com o objetivo de estabelecer uma sociedade política. Vale ressaltar que esses homens livres e iguais eram apenas os que tinham alguma propriedade a zelar. Já para o pensador francês Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), no livro Contrato social, publicado em 1762, a igualdade só faz sentido se for baseada na liberdade. Segundo suas afirmações, a igualdade só pode ser jurídica: “todos devem ser iguais perante a lei”. UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS 4 Contratualismo é um conjunto de correntes filosóficas que tenta explicar a origem e a importância da construção das sociedades e das ordens sociais para o ser humano. De um modo geral, o contrato social ou contratualismo consiste na ideia de um acordo firmado entre os diferentes membros de uma sociedade, que se unem com o intuito de obter as vantagens garantidas a partir da ordem social. DICAS Vimos o cenário de final do século XVIII na Europa, onde as diferenças entre camadas sociais eram evidentes e ao se propor a igualdade de todos perante a lei, criava-se um direito igual para desiguais, ou seja, as pessoas não eram iguais porque nasciam livres e iguais, e sim porque tinham os mesmos direitos perante a lei, feita por quem dominava a sociedade. Será que algo mudou até o século XXI? Continuemos com o nosso dètour desse breve contexto histórico! Colocando o trabalhador como membro de uma classe e não como cidadão, temos o pensador Karl Marx (1818-1883), afirmando que uma concepção de cidadania/cidadão corresponderia a uma representação burguesa do indivíduo. Sua ideia de democracia está baseada no critério de igualdade social, que só poderia se tornar realidade através de uma revolução. Em seus escritos diferencia a emancipação política da emancipação humana, destacando que apenas no século XIX é que se reconheceu a ideia de direitos humanos, uma conquista dos trabalhadores em contraponto às tradições históricas vigentes até então. Apresentando cidadania vinculada à ideia de coesão social estabelecida com base na solidariedade orgânica, temos o pensador Émile Durkheim (1858- 1917), afirmando que quando o indivíduo desempenha diferentes funções sociais, este faz parte de uma sociedade que se apresenta como um organismo estruturado. Cabe ao cidadão cumprir suas obrigações e desenvolver uma prática social que vise a maior integração possível, pois ao participar da solidariedade social, levando em conta as leis e a moral vigente em uma sociedade, o indivíduo desenvolve plenamente sua cidadania. Valendo-me das palavras de Marshall (1967), a cidadania é um status con- cedido àqueles que são membros integrais de uma comunidade. Todos aqueles que possuem o status são iguais com respeito aos direitos e obrigações perti- nentes. Não há nenhum princípio universal que determine o que estes direitos e obrigações serão, mas as sociedades nas quais a cidadania é uma instituição em desenvolvimento criam uma imagem de uma cidadania ideal em relação a qual o sucesso pode ser medido e em relação a qual aspiração pode ser dirigida. Há que se ressaltar que a classe social, por outro lado, é um sistema de desigualdade. E como a cidadania, pode estar baseada num conjunto de ideais, crenças e valores. É, portanto, compreensível que se espere que o impacto da cidadania sobre a classe social tomasse a forma de um conflito entre princípios opostos. TÓPICO 1 | CIDADANIA, PARTICIPAÇÃO POLÍTICA, SOCIAL E POPULAR 5 Esse breve détour nos permite afirmar que a cidadania tem sido uma ins- tituição em desenvolvimento ao longo dos tempos. Desde a segunda metade do século XVII, tal fato coincide com o desenvolvimento do capitalismo, que é um sistema desigual. Como é possível que tais princípios opostos possam crescer e florescer, lado a lado, em um mesmo lugar, cidade ou país? A questão é pertinente, pois não há dúvida de que, no século XX, a cidadania e o sistema de classe capitalista estão em guerra (MARSHALL, 1967). O contexto histórico analisado por Marshall (1967), da relação entre cidadania e diretos, teve início na década de 1960, o que será que mudou até o século XXI? 3 DIREITOS POLÍTICOS, SOCIAIS E CIVIS Em seu livro Cidadania, classe social e status, Marshall (1967) deixa claro que o conceito de cidadania só começa a aparecer nos séculos XVII e XVIII, apresentando, de forma sutil, algumas formulações dos chamados direitos civis. Na época em que escreve, suas preocupações estavam voltadas para a garantia da liberdade religiosa e de pensamento, o direito de ir e vir, o direito à propriedade, a liberdade contratual, a escolha do trabalho, e, finalmente, a justiça, que devia salvaguardar todos os direitos citados anteriormente. Ainda nessa época, não significava que os direitos civis eram de fácil acesso a todas as pessoas, o cidadão que gozava de seus direitos era o indivíduo proprietário de terras, o que demostra uma cidadania ainda restrita. E os direitos políticos? Estes estão relacionados ao Estado democrático representativo e envolvem os direitos eleitorais (a possibilidade de eleger representantes e ser eleito). Inobstante os desdobramentos dos direitos civis, os direitos políticos começaram a ser reivindicados por movimentos populares já no século XVIII, mas, na maioria dos países, só se efetivou no século XX, com a extensão do direito ao voto às mulheres. Assim, podemos afirmar que os diretos políticos são, para o cidadão, o reconhecimento da lei quanto a sua capacidade de participação na formação do governo e na tomada de decisões estatais. Se de um lado a Constituição possibilita ao cidadão a participação na vida pública estatal; do outro prevê normas que impedem o cidadão de exercer seus direitos políticos, estamos falando, respectivamente, dos direitos políticos positivos e negativos (Figura 1). UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS 6 FIGURA 1 – CLASSIFICAÇÃO DOS DIREITOS POLÍTICOS FONTE: Adaptado de Marshall (1967) E vamos chegando ao século XX dando vez aos direitos sociais, o que possibilita aos indivíduos direito à educação básica e à assistência à saúde, bem como a programas habitacionais, transporte coletivo, programas de lazer, sistema previdenciário, acesso ao sistema judiciário, entre outros. Assentados nos princípios da igualdade,os direitos civis, políticos e sociais não podem ser considerados universais devido às variações existentes em cada Estado e em determinada época. Vale aqui lembrar a diversidade de sociedades que se estruturam de modo diferente e nas quais os valores, regras e costumes diferem daqueles que predominam no ocidente. Inobstante toda essa diferença, os países integrantes dos organismos mundiais que se propõem a defender os direitos humanos devem assumir responsabilidade e assegurar esses direitos a todos os seus cidadãos. TÓPICO 1 | CIDADANIA, PARTICIPAÇÃO POLÍTICA, SOCIAL E POPULAR 7 4 CIDADANIA NA ATUALIDADE: CIDADANIA FORMAL X CIDADANIA REAL Agora você já sabe que cidadania é o exercício dos direitos e deveres civis, políticos e sociais estabelecidos na Constituição de um país. Também podemos defini-la como a condição do cidadão, indivíduo que vive de acordo com um conjunto de estatutos pertencentes a uma comunidade politicamente e socialmente articulada. Uma boa cidadania implica que os direitos e deveres estão interligados, e o respeito e cumprimento de ambos contribuem para uma sociedade mais equilibrada e justa. Entre alguns dos principais deveres e direitos dos cidadãos podemos citar: Deveres do cidadão • Votar para escolher os governantes. • Cumprir as leis. • Educar e proteger seus semelhantes. • Proteger a natureza. • Proteger o patrimônio público e social do país. Direitos do cidadão • Direito à saúde, educação, moradia, trabalho, previdência social, lazer, entre outros. • O cidadão é livre para escrever e dizer o que pensa, mas precisa assinar o que disse e escreveu. • Todos são respeitados na sua fé, no seu pensamento e na sua ação na sociedade. • O cidadão é livre para praticar qualquer trabalho, ofício ou profissão, mas a lei pode pedir estudo e diploma para isso. • Só o autor de uma obra tem o direito de usá-la, publicá-la e tirar cópia, e esse direito passa para os seus herdeiros. • Os bens de uma pessoa, quando ela morrer, passam para seus herdeiros. • Em tempo de paz, qualquer pessoa pode ir de uma cidade para outra, ficar ou sair do país, obedecendo a lei feita para isso. Gerado a partir de lutas que ocorreram para estruturar os direitos universais do cidadão, desde o século XVIII, muitas ações e movimentos ocorreram para que se ampliasse o conceito e a prática de cidadania. O que nos leva a afirmar que defender a cidadania é lutar por direitos e, portanto, pelo exercício da democracia, que é uma constante criação de direitos. As transformações ocorridas na sociedade atual são tão complexas e de tamanha desigualdade que a divisão dos direitos do cidadão em civis, políticos e sociais já não conseguem explicar por si só a dinâmica existente nesse processo, para tal, podemos pensar em dois tipos de cidadania: a formal e a real (ou substantiva). UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS 8 Cidadania formal refere-se à maneira como a cidadania está descrita formalmente na lei, nas constituições nacionais, é a garantia que o indivíduo tem para lutar legalmente por seus direitos, ou seja, é a que está na Constituição e em outras leis mais específicas de cada país. Se não houvessem leis para determinar nossos direitos, estaríamos nas mãos de uma minoria, por exemplo, a situação vivida por escravos que não tinham direito algum. Já a cidadania real ou substantiva, refere-se à maneira como a cidadania é vivida na prática, no dia a dia. Através dela podemos ver que nem todos os seres humanos são iguais socialmente, que a sociedade se estrutura desigualmente e alguns grupos sofrem os mais diversos tipos de necessidades e preconceitos. Por exemplo: um aluno de uma escola pública que não consegue competir em condições de igualdade com um aluno de escola particular tem sua cidadania “formal” conquistada, pois a lei lhe garante acesso à educação, contudo, a cidadania “real” está bem longe de ser atingida. A mesma situação dos pobres, dos negros, dos deficientes etc, que, em maior ou menor grau, conseguiram reconhecimento “formal”, mas ainda tem um longo caminho para conquistar a cidadania “real”. O que isso infere? Ao analisarmos a cidadania substantiva percebemos que, apesar das leis existentes, ainda não há igualdade entre todos os seres humanos – entre homens e mulheres, negros e brancos, entre crianças, jovens e idosos. Se tomarmos como exemplo um direito previsto em nossa Constituição, o direito à vida e o direito de ir e vir, uma breve reflexão da realidade já nos permite afirmar que não temos tais garantias, pois milhares de pessoas, principalmente crianças, morrem de fome a todo instante, ou seja, essas pessoas não conseguiram ter o seu direito à vida garantidos, o direito real e substantivo à cidadania. E o tão falado direito de ir e vir, que é reconhecido desde o século XVII? É atendido atualmente? Vemos constantemente nos meios de comunicação o impedimento à livre circulação dos cidadãos em alguns lugares (ruas, vias públicas) devido à violência ou porque são fechados por seguranças particulares. Temos praias lindas, todas públicas, cujo acesso é vetado por pessoas que se comportam como se fossem suas propriedades, nesses, como em tantos outros casos que você deve estar imaginado, o direito de ir e vir não é respeitado. Em uma análise mais detalhada dos direitos humanos na atualidade, com o advento do mundo globalizado, as colocações do sociólogo Boaventura de Souza Santos (2000) se tornam pertinentes e enriquecedoras para nossas reflexões finais. Em suas colocações, Santos nos aponta uma outra possibilidade para a liberdade do conhecimento. Para que este se produza no interior da crítica, sem abstrações alienantes e reconhecimentos incompletos, que levam à falsa compreensão e encobrem os dramas vividos na sociedade. Nesse sentido, aponta o início de uma outra cognoscibilidade do planeta, que conta com a possibilidade de ser desvendado. A globalização é um todo sistêmico, desigual e combinado, mas a mídia nos passa essa concepção como uma fábula. TÓPICO 1 | CIDADANIA, PARTICIPAÇÃO POLÍTICA, SOCIAL E POPULAR 9 Cognoscibilidade do planeta, segundo Santos (2000), é a possibilidade de utilizarmos a unicidade das técnicas (as técnicas pensadas como família) e a convergência dos momentos (unicidade dos tempos) para uma compreensão do mundo. Acessar informação de diferentes lugares para um melhor entendimento do mundo. DICAS Nesse sentido, a contradição se refaz na impossibilidade de produzir uma informação libertadora e a alienação surge devido à globalização financeira, a globalização do dinheiro, uma exacerbação dos processos de exploração e alienação e de todas as formas de exclusão e violência. O que fica para o ser comum é a burlesca do consumo, o fetiche se realiza na ocultação do valor de troca e no falso evidenciamento do valor de uso. Alienação: atribuir ao fenômeno uma força que ele não tem, não revela o que o real é, de fato. ATENCAO A globalização está associada a vários termos, além dos inúmeros neo-, pós- e –ismos, assim como os neologismos que procuram destruir a perspectiva histórica, dando novos nomes a velhos processos, surgindo o pós-moderno, o pós- industrial, o desenvolvimento sustentável, a exclusão social, conceitos estes que procuram encobrir ao invés de revelar a natureza do capitalismo contemporâneo. São velhos conceitos cultivados como novos. Com o processo de globalização em aceleração intensa, os processos de internacionalização e mundialização inerentes ao capitalismo, o desbloqueio dos limites sociais impostos ao capital pelas políticas do Estado de bem-estar social, cumprem um papel ideológico de encobrir os processos de dominação e de desregulamentação do capital, instaurando o senso comum de que a mundialização do capital favorece a todos. O que ocorre na verdade é mais desigualdade entre as nações e os diversos grupos sociais, pois colocar todos no mesmo plano constitui um erro teórico e histórico. Para compreender essenovo contexto globalizado, são necessários dois elementos fundamentais: a formação técnica e a formação política. Uma per- mite a compreensão dos elementos tecnológicos que formam as composições UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS 10 necessárias à produção, e a outra indica quais setores serão privilegiados com a organização possível da produção. A partir dessa compreensão, a sociedade pode abrir um novo paradigma social que pode se opor com superação da nação ativa pela nação passiva. De acordo com Santos (2000), a nação ativa está ligada aos interesses da globalização perversa, nada cria e nem contribui para uma melhor formação de mundo, ao contrário da nação dita passiva, que a cada momento cria e recria uma nova forma de produzir o espaço social, mostrando que a atual forma de globalização não é irreversível e a utopia é pertinente. Com base nessa contestação, fundada na história real de nosso tempo, é que desejamos uma outra globalização acessível a todos. 5 MOVIMENTOS SOCIAIS NA ATUALIDADE Vamos iniciar conceituando o que são movimentos sociais. Segundo Gohn (2007), são ações sociais coletivas de caráter sociopolítico e cultural que viabilizam distintas formas da população se organizar e expressar suas de- mandas. Na ação concreta, tais formas adotam diversas estratégias que variam de simples denúncias, passando pela pressão direta (mobilização, marchas, concentrações, atos de desobediência civil, negociações etc.) até as pressões indiretas. Na atualidade, os principais movimentos sociais atuam por meio de redes sociais, locais, regionais, nacionais e internacionais, utilizando-se muito dos meios de comunicação e informação como a internet. Exercitam assim o que Habermas denominou de agir comunicativo. A criação e o desenvolvimento de novos saberes são produtos dessa comunicabilidade (GOHN, 2007). Aos movimentos sociais que acabamos de descrever anteriormente, é preciso acrescentar alguns outros que poderíamos denominar de conjunturais, que são os que duram alguns dias e desaparecem, retornando como uma fênix em outros momentos com novas formas de expressão. Diferença e mobilidade se fazem necessárias, pois é preciso analisar cada tipo de movimento para entender as ideias que os motivam e sustentam suas ações, bem como seus objetivos. Temos também os movimentos sociais atemporais, que se mantêm durante longos anos e tendem a criar uma estrutura de sustentação e uma organização burocrática. Os riscos dessa institucionalização podem resultar em uma “perda de eficiência”, pois para continuar suas ações, precisam obter recursos e assumir compromissos como gastos com funcionários e aluguel de sede, contas fixas por mês, pessoal de apoio. A preocupação que doravante era organizar ações efetivas, divide-se com a burocracia e preocupação de manter uma estrutura fixa, mudando um pouco o foco de suas ações. TÓPICO 1 | CIDADANIA, PARTICIPAÇÃO POLÍTICA, SOCIAL E POPULAR 11 Há os movimentos cujo objetivo é desenvolver ações que resultem em mudanças que favoreçam a sociedade com base no princípio fundamental do reconhecimento do outro, do “diferente”. Tais movimentos procuram dis- seminar visões de mundo, ideias e valores que possibilitem a diminuição do preconceito e discriminações que prejudicam as relações sociais. Podemos citar, como exemplo os movimentos: étnico-raciais, minorias sexuais, feministas, vegetarianos, pela paz e contra a violência. Valendo-nos das palavras do sociólogo alemão Axel Honneth (2003, p. 256-257), [...] as lutas sociais estão para além da defesa de interesses ou necessidades, tendo como objetivo também o reconhecimento individual e social. Quando um indivíduo se engaja em um movimento social, procura fazer com que suas experiências com os sentimentos desrespeito, vergonha e injustiça inspirem outros indivíduos, de modo que sua luta se transforme em uma ação coletiva, de reconhecimento pessoal e social, pois [...] uma luta só pode ser caracterizada de “social” na medida em que seus objetivos se deixam generalizar para além dos horizontes das intenções individuais, chegando a um ponto em que eles podem se tornar uma base de movimento coletivo. 12 Neste tópico, você aprendeu que: • Ao longo dos séculos, muitos foram os pensadores que afirmaram a ideia de que os seres humanos nascem livres e iguais e têm garantidos determinados direitos inalienáveis, tais como: Thomas Hobbes, Jonh Locke, Jean-Jacques Rousseau, Karl Marx, Émile Durkheim e Marshall. • Thomas Hobbes afirma que os seres humanos são naturalmente iguais e, devido ao excesso de liberdade, lutam uns com os outros em defesa de seus interesses individuais, sendo assim necessário um acordo (o qual ele denominava de contrato) entre as pessoas. • Jonh Locke afirmava que apenas os homens livres e iguais podem fazer um pacto com o objetivo de estabelecer uma sociedade política. • Jean-Jacques Rousseau expõe que a igualdade só faz sentido se for baseada na liberdade. Segundo suas afirmações, a igualdade só pode ser jurídica: “todos devem ser iguais perante a lei”. • Para Karl Marx a concepção de cidadania/cidadão corresponderia a uma representação burguesa do indivíduo. Sua ideia de democracia está baseada no critério de igualdade social, que só poderia se tornar realidade através de uma revolução. • Para Émile Durkheim quando o indivíduo desempenha diferentes funções sociais, este faz parte de uma sociedade que se apresenta como um organismo estruturado. • Para Marshall a cidadania é um status concedido àqueles que são membros integrais de uma comunidade. Todos aqueles que possuem o status são iguais com respeito aos direitos e obrigações pertinentes. • O conceito de cidadania só começa a aparecer nos séculos XVII e XVIII. RESUMO DO TÓPICO 1 13 1 Leia o trecho a seguir, da autoria de Maria da Glória Gohn: "Não nos resta a menor dúvida de que a principal contribuição dos diferentes tipos de movimentos sociais brasileiros nos últimos vinte anos foi no plano da reconstrução do processo de democratização do país. E não se trata apenas da reconstrução do regime político, da retomada da democracia e do fim do Regime Militar. Trata-se da reconstrução ou construção de novos rumos para a cultura do país, do preenchimento de vazios na condução da luta pela redemocratização, constituindo-se como agentes interlocutores que dialogam diretamente com a população e com o Estado". FONTE: GOHN, M. G. M. Os sem-terras, ONGs e cidadania. São Paulo: Cortez, 2003 (adaptado). Podemos afirmar que, no processo da redemocratização brasileira, os novos movimentos sociais contribuíram para: a) ( ) Diminuir a legitimidade dos novos partidos políticos então criados. b) ( ) Tornar a democracia um valor social que ultrapassa os momentos eleitorais. c) ( ) Difundir a democracia representativa como objetivo fundamental da luta política. d) ( ) Ampliar as disputas pela hegemonia das entidades de trabalhadores com os sindicatos. e) ( ) Fragmentar as lutas políticas dos diversos atores sociais frente ao Estado. 2 Da sequência de pensadores apresentados a seguir, está correta a opção na qual todos partem do princípio contratualista (Contrato Social) em: a) ( ) Marx, Thomas Hobbes e Rousseau. b) ( ) Lênin, Rousseau e John Locke. c) ( ) Thomas Hobbes, John Locke e Rousseau. d) ( ) Marx, Rousseau e Bauman. e) ( ) Simone de Beauvoir, Marx e Lenin. AUTOATIVIDADE 14 15 TÓPICO 2 OS GRAUS DE PARTICIPAÇÃO PÚBLICA UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Neste capítulo, você vai aprender sobre o direito que todo cidadão tem a um meio ambiente saudável e que possibilite a sua manutenção para as gerações futuras. Você vai estudar como a participação pública pode ser fundamental nas ações decisórias das atividades que possam causar impacto ambiental. Apesar de muito ter evoluído nesse sentido, a participação pública ainda é restrita. O que é possível fazer para reverter esse quadro? 2 OS DIREITOS HUMANOS NA CONSULTAPÚBLICA Entre as características de todo o processo de avaliação do impacto ambiental, está a participação pública. Essa característica é muito compreensível se considerarmos que as atividades podem gerar, além dos impactos, riscos à vida. Assim, é muito diferente quando tratamos da viabilidade técnica e econômica de um projeto, que pode ser analisada exclusivamente pela empresa responsável pela atividade, em relação à viabilidade ambiental. Uma atividade pode causar impactos ambientais potenciais, afetando, degradando e consumindo recursos naturais. Se isso ocorre, pode atingir, por exemplo, uma comunidade que esteja instalada em determinado local e utilize as reservas naturais para sua sobrevivência. ATENCAO UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS 16 Dessa forma, o direito do ser humano a um ambiente sadio, atual e futuro, é um direito reconhecido por lei, mas isso não significa que é garantido e facilmente obtido. Esse direito passou a existir em meados do século XX, por meio de leis nacionais e acordos internacionais. Dentre esses tratados, podemos exemplificar as declarações de Estocolmo e do Rio de Janeiro, promovidas pela ONU. Ambas garantem que exista um ambiente saudável e equilibrado ao ser humano. Esses importantes marcos podem ser representados pelo princípio 10 da Declaração do Rio de Janeiro (1992): A melhor maneira de tratar as questões ambientais é assegurar a participação, no nível apropriado, de todos os cidadãos interessados. No nível nacional, cada indivíduo terá acesso adequado às informações relativas ao meio ambiente de que disponham as autoridades públicas, inclusive informações acerca de materiais e atividades perigosas em suas comunidades, bem como a oportunidade de participar dos processos decisórios. Os Estados irão facilitar e estimular a conscientização e a participação popular, colocando as informações à disposição de todos. Será proporcionado o acesso efetivo a mecanismos judiciais e administrativos, inclusive no que se refere à com- pensação e reparação de danos. Outra convenção muito importante no marco dos direitos humanos ao meio ambiente foi a Convenção Internacional de Aarhus, entre os países europeus e os da Ásia Central, cujas características são descritas conforme segue: • acesso à informação; • participação no processo decisório; • acesso à informação ambiental (trâmites judiciais). Apesar de ter sido um acordo entre os países europeus e da Ásia Central, as suas premissas são de alcance global, sendo um excelente instrumento para tratativas de questões ambientais e participação pública. Cabe ressaltar que, quando essa declaração foi assinada, muitos países já tinham leis e regimentos semelhantes aos princípios da declaração, o que proporcionou, inclusive, o fortalecimento e a difusão dos mesmos. Assim, houve um passo significativo no âmbito internacional do reconhecimento dos direitos humanos a um ambiente saudável. A Convenção de Aarhus, em seu artigo 4º, aborda que os governos devem divulgar espontaneamente o acesso à informação ambiental para a sociedade, sem que a mesma expresse o seu desejo. Já no Brasil, essa abordagem é difundida pela Lei Federal n° 10.650 (BRASIL, 2003). DICAS TÓPICO 2 | OS GRAUS DE PARTICIPAÇÃO PÚBLICA 17 No artigo 6° da Convenção de Aarhus, trata-se da decisão do público sobre algumas atividades, principalmente quando elas afetam o meio ambiente. Em seu Anexo I, são listadas uma série delas, sobre as quais serecomenda que a população opine antes que os órgãos responsáveis decidam sobre a execução ou não de uma atividade. Assim, deve-se informar, por exemplo, qual atividade interessa realizar, que procedimentos que serão utilizados como objeto de decisão, quanto representa a participação da população, qual seria o órgão responsável por fornecer as informações à população, além dos prazos relacionados à atividade. Parece simples, mas, na prática, existe alguma limitação. Em relação ao conteúdo que o público, veja a seguir um resumo do que se pode consultar: • Descrição do local e das características físicas e técnicas das atividades. • Síntese das principais soluções e alternativas estudadas. • Descrição dos efeitos importantes da atividade sobre o meio ambiente. • Resumo não técnico dos itens precedentes. • Descrição das medidas para precisão e prevenção/redução de efeitos. Note que todas essas prerrogativas lembram muito o conteúdo de um estudo de impacto ambiental. Outro detalhe interessante sobre a Convenção de Aarhus se refere ao artigo 9°, que trata do direito legal ao acesso à informação. Para isso, ela deve seguir prazos acessíveis e ter custos acessíveis, garantindo não só a informação aos dados ambientais, como também a participação pública no processo decisório. Você sabia que o Brasil apresenta um grande avanço nesse sentido? A Lei Federal n° 7.347 de 1985 (BRASIL, 1985) fortaleceu os preceitos de aplicação da lei ambiental e ganhou mais força quando se integrou à Constituição de 1988 e ao Ministério Público. 3 OS GRAUS DE PARTICIPAÇÃO PÚBLICA Você sabia que é fundamental que exista a participação pública conjuntamente aos órgãos competentes na decisão sobre os estudos ambientais? Além de muito importante, ela pode ser motivada por três grandes aspectos. O primeiro deles seria um caráter mais ético, o segundo por princípios de igualdade e justiça e o terceiro se relaciona com motivos puramente funcionais, tendo em vista que a participação pública garante que o processo de decisão seja mais eficiente, verdadeiro, garantindo a sua rápida implementação. Quando pensamos em consulta pública, participações ou mesmo na necessidade do envolvimento público em um processo decisório de matéria ambiental, é possível construir um pensamento crítico da seguinte forma: • Que tipo de participação seria? • Quais os limites da participação popular? • Até que ponto o governo poderia ceder seu poder em prol de um plebiscito? UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS 18 Cabe ressaltar que, muitas vezes, a participação pública se limita a ouvir a opinão da população sobre determinada atividade, permitindo que a mesma acesse dados antes restritos e possa opiniar sobre os mesmos. Existe, na ver- dade, uma esperança de que a vontade popular seja respeitada por parte dos órgãos responsáveis por decidir sobre uma atividade. A participação pública, na realidade, representa mais uma maneira formal de ordenar as discussões, por meio de canais de expressão da voz popular. Apesar de ser prevista em lei, qual seria a sua real efetividade no processo de decisão? A Figura 2 expressa as diferentes formas de participação da população emuma democracia e, da mesma forma, pode ser aplicada aos processos ambientais. FIGURA 2 – AS FORMAS DE EXPRESSÃO DO CIDADÃO EM UMA DEMOCRACIA Possibilidade de expressão cidadã em uma democracia Participação Representação (Eleições, Plebicitos e Conselhos) Ação sob convite (Planejamento Participativo, Consulta Pública e Mediação) Ação autônoma (Lobby, Petições, Manifestações, Campanhas na imprensa etc.) FONTE: Adaptada de Sánchez (2013) Assim, a participação pública pode apresentar uma manifestação tipicamente tradicional (eleições e plebiscitos) ou alternativas (passeatas, abaixo-assinados, campanhas de mídia e outras ações). Se não existirem meios formais para que ocorra, ela acaba por ser caracterizada por manifestações autônomas e espontâneas. Da mesma forma, a ausência de canais de consulta pública torna menos transparentes as decisões tomadas, permitindo, inclusive, que grupos de interesse (político e econômico) se aproveitem das situações em seu favor, ou seja, aprovar um projeto mesmo com a possibilidade de impacto ambiental significativo. E como você acha que isso pode impactar na imagem dos governantes? TÓPICO 2 | OS GRAUS DE PARTICIPAÇÃO PÚBLICA 19 A participação pública não deve ser encarada como tentativa de criar um mecanismo justificado por uma lei,mascomo uma maneira da democracia ser expressa pelas parcelas da populaçãocom sua opinião a respeito de determinada atividade. A audiência pública, um dentre muitos graus de participação pública, busca integrar nichos da sociedade que não têm fácil acesso a determinadas estâncias de discussão, complementando o direito de liberdade e expressão dos cidadãos. Observando a Figura 2, vemos que a participação pública é iniciada quando é feito um “convite”; as pessoas são capazes de se expressar em determinado momento do processo, a partir da liberação das informações da atividade, para que possam formular seus questionamentos. Como se trata de um regime democrático, não significa que a participação se limite apenas a canais formais. Na verdade, ela pode ocorrer durante todo o momento informalmente. Com base nos tratados internacionais, há uma imposição aos governos para que permitam a participação dapopulação dentro de um processo de AIA, ficando apenas sob responsabilidade desses governos definir os mecanismos e regras para que ela ocorra. Como a participação pública envolve pessoas com graus de formação e níveis culturais diferentes, o diálogo pode variar bastante, ainda mais se considerarmos que muitas empresas responsáveis pela atividade solicitam que seus representantes sejam suas vozes nessas participações. Para isso, é fundamental que esses profissionais, que serão a voz das empresas junto à população, saibam entender e transmitir corretamente as informações. Os graus de participação pública são apresentados na Figura 3, representada pela Escala de Arnstein, na qual são atribuídos graus. FIGURA 3– ESCALA DE GRAUS DE PARTICIPAÇÃO PÚBLICA NAS DECISÕES Graus de poder do cidadão Graus de deferência Graus de não participação 8º - Controle 7º - Delegação 6º - Parceria 5º - Conciliação 4º - Consulta 3º - Informação 2º - Terapia 1º - Manipulação FONTE: Adaptada de Arnstein (1969) Segundo a escala de Arnstein, a participação pública pode conter certo grau de manipulação, muitas vezes mascarada sob os nomes de educação e informação. Em especial, os graus 3 e 4 (informação e consulta) não representariam uma real participação, já que o público não tem nenhum grau sobre a decisão tomada. UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS 20 Até mesmo o grau 5 (conciliação), que não passaria de uma formalidade para apaziguar as opiniões, não permitiria à população expressar a sua opinião. Apenas os graus de 6 a 9 constituiriam uma verdadeira participação, ou seja, a parceria seria uma verdadeira negociação e, na delegação, as decisões seriam tomadas pelos representantes públicos. Cabe ressaltar que esse estudo mencionado surgiu nos EUA antes da participação pública em AIA e que o termo se refere mais a outros tipos de questões de natureza não ambiental. Outro tipo de participação pública é expresso no modelo de Eidsvik (Figura 4), no qual, a partir de sete estágios de participação, a consulta pública é posicionada no meio do processo. Assim, a decisão partilhada e o planejamento conjunto são posicionados diretamente abaixo. Nesse modelo, o envolvimento público é muito mais focado na consulta eseria estimulado pelas organizações por evitar problemas, impedir confrontos, com grande possibilidade de obter, inclusive, o apoio e a colaboração dos envolvidos. Dessa forma, a participação pública seria mais fortemente concentrada na etapa de consulta. Cabe ressaltar que, mesmo com uma grande pressão popular e com a opinião da grande maioria sobre um tema, a autoridade pode vir a decidir contrariamente à decisão popular; entretanto, essa decisão pode inviabilizar politicamente um projeto. Você lembra de quando questionamos o impacto sobre os governantes no caso de não existir tanto espaço para a participação pública? FIGURA 4– PARTICIPAÇÃO PÚBLICA NO PROCESSO DECISÓRIO Informação Persuasão Consulta Parceria Controle Participação do público nas decisões Poder decisório da organização FONTE: Adaptada de Sánchez (2013) 4 COMO INCENTIVAR A PARTICIPAÇÃO PÚBLICA Um dos grandes desafios na participação pública está em como estimulá- la. Como vimos, a Constituição da República de 1988 (BRASIL, 1988) definiu meio ambiente, em seu artigo 225°, como “bem de uso comum do povo e es sencial à sadia qualidade de vida” e impôs ao “Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”. Assim, foi definida a democratização do direito ao acesso aos recursos ambientais, com a qual todos devem cuidar pela manutenção qualidade ambiental. Especificamente em seu artigo 5°, garante que a informação aos processos ambientais seja garantida ao cidadão, mas será que na prática ela é? TÓPICO 2 | OS GRAUS DE PARTICIPAÇÃO PÚBLICA 21 Vimos diversos mecanismos de participação popular, tanto formais quanto informais. Se está garantido em lei e existem muitos caminhos para que a população exerça seu direito de ser ouvida, por que na prática ainda parece que essa participação é tão pequena? A participação pública tem sua origem na sociologia política e reflete, resumidamente, a ideia de atuação da sociedade civil, esperando que o poder público corresponda eticamente, socialmente e comprometidamente com os valores e atribuições a serem respeitados e valorizados. Cada um de nós é responsável por sua parte em relação aos valores ambientais, devendo, inclusive, exigir não apenas dos governos, mas das próprias parcelas da sociedade, que cada um exerça sua parte na preservação do meio ambiente. Você, como cidadão, deve esperar que a sociedade assuma um papel ativo, sem interesses e solidário, com muita ética, pelo fato de lidarmos com bens que são fundamentais à preservação da vida. O espírito de coletividade deve prevalecer com um único objetivo: preserver o patrimônio ambiental de nosso país. A participação pública bem organizada é capaz de opinar na organização do espaço urbano, na construção de equipamentos públicos, além de poder se envolver em aspectos administrativos e na prestação de serviços públicos. Vale lembrar que a participação não é uma decisão exclusiva dos cidadãos. Ela envolve, também, a participação de autoridades governamentais e técnicas. Assim, por mais que a participação pública se intensifique, não será em todas as esferas que ela conseguirá o mesmo efeito, justamente porque muitas decisões não dependem da população. ATENCAO O passo inicial para que a voz da população ganhe força é obter as informações da atividade potencial causadora do impacto. A Lei n° 6.938/1981 (BRASIL, 1981), que institui a Política Nacional do Meio Ambiente – PNMA, decretou que o Sistema Nacional de Informações sobre Meio Ambiente, o Re- latóriode Qualidade do Meio Ambiente (divulgado anualmente pelo IBAMA) e a garantia da prestação de informações acerca do meio ambiente fossem divulgados pelo poder público. A Lei Federal n° 10.650, de 2003, determina o acesso público aos dados e às informações existentes nos órgãos e nas entidades integrantes do SISNAMA (Sistema Nacional do Meio Ambiente). Os docu- mentos a serem divulgados à população devem ser escritos, visuais, sonoros ou mesmo eletrônicos e devem se referir aos temas apresentados na Figura 5. UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS 22 FIGURA 5 – INFORMAÇÕES A SEREM DIVULGADAS À POPULAÇÃO. Apesar de valiosa, a Lei de Informação ao Cidadão ainda não consegue obrigar que os governos entreguem a informação dentro de prazos razoáveis e sem subjetividade. Muitas vezes, esses fatores limitam que a população se manifeste em tempo. O Estado é responsável não apenas por produzir a informação, mas também por atualizá-la e divulgá-la de forma pró-ativa, como já mencionamos anteriormente. A informação que deve chegar à população por parte do poder público pode abranger, por exemplo, pedidos de licenciamento e emissão dessas licenças, documentos que solicitem a supressão vegetal, autos de infração, Termos de Compromisso e Ajustamentode Conduta, registros de apresentação do EIA, bem como aprovação e rejeição do mesmo. Apesar dessa quantidade de informação, o que será que ainda falta para que a participação popular seja mais efetiva? UNI Qualidade do meio ambiente Organismos geneticamente modificados Diversidade biológica Substâncias tóxicas e perigosas Políticas, Planos e Programas causadores de impacto Resultados de monitoramento e auditoria, além de planos de recuperação Acidentes, situações de risco ou emergências ambientais Emissão de efluentes líquidos e gasosos, produção de resíduos sólidos. TÓPICO 2 | OS GRAUS DE PARTICIPAÇÃO PÚBLICA 23 Uma das formas é que a população saiba onde procurar as informações necessárias e consiga elaborar um pensamento crítico sobre as mesmas. O SINIMA disponibiliza ao público todas as informações, os documentos e processos administrativos que estejam relacionados à gestão ambiental. Podemos, assim, dizer que esse é um instrumento que busca o fortalecimento da cidadania ambiental. Esse Sistema está formatado sobre três eixos principais, conforme apresentado a seguir: • Eixo 1: Ferramentas de acesso à informação. • Eixo 2: Integração e compartilhamento das bases de informação ambiental. • Eixo 3: Sistematizações do processo de produção, coleta e análise estatística para elaboração de indicadores ambientais e de desenvolvimento sustentável. O SINIMA foi desenvolvido para que fosse utilizado por meio de softwares livres, coma integração das bases de dadoscom recursos tecnológicos. Dentro do SINIMA, existem vários sistemas governamentais, não governamentais. Outro recurso a favor da divulgação de informação para a população é o PNLA (Portal Nacional de Licenciamento Ambiental), que objetiva divulgar informações mais voltadas a licenciamentos ambientais em âmbito nacional. Ele integra o SINIMA e foi desenvolvido para compor e sistematizar todas as informações acerca do licenciamento ambiental nas esferas federal, estadual, distrital e municipal. Essa ferramenta está em constante adaptação e sua versão atual permite que o usuário acesse as licenças emitidas, as legislações relacionadas, além de dispor gratuitamente publicações e contatos dos órgãos licenciadores. Uma nova versão do PNLA está em discussão pelo CONAMA ebusca facilitar ainda mais o acesso do cidadão comum, contribuindo com a democratização do acesso à informação. Vimos que a informação existe, então o que realmente falta? Falta que a população aprenda a utilizá-la. Nesse quesito, o Governo poderia estimular ainda mais, ensinando a correta forma de buscar o pensamento crítico sobre o tema, facilitando a linguagem cada vez mais e promovendo ações de edu- cação ambiental, por exemplo. Além disso, a participação popular precisa ser organizada, legítima e integrada aos meios formais e informais. Dessa maneira, estaremos caminhando em direção a uma sociedade que, além de cobrar o seu direito, saberá fazê-lo corretamente. Você pode obter mais informações sobre o SINIMA e o PNLA acessando os links a seguir. • SINIMA (Ministério do Meio Ambiente): https://goo.gl/xX9ayj • PNLA: https://goo.gl/nvEpof UNI 24 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • O direito do ser humano a um ambiente sadio, atual e futuro, é um direito reconhecido por lei, mas isso não significa que é garantido e facilmente obtido. • Outra convenção muito importante no marco dos direitos humanos ao meio ambiente foi a Convenção Internacional de Aarhus, entre os países europeus e os da Ásia Central. • São características da Convenção Internacional de Aarhus: o acesso à informação; o participação no processo decisório; o acesso à informação ambiental (trâmites judiciais). • Quando pensamos em consulta pública, participações ou mesmo na necessidade do envolvimento público em um processo decisório de matéria ambiental, é possível construir um pensamento crítico da seguinte forma: o Que tipo de participação seria? o Quais os limites da participação popular? o Até que ponto o governo poderia ceder seu poder em prol de um plebiscito? • Um dos grandes desafios na participação pública está em como estimulá-la, ou seja, como incentivar a participação pública da população brasileira. 25 1 Durante a implantação de uma atividade extrativista do solo, a empresa se preocupa com possíveis manifestações de comunidades da região. Para isso, ela busca uma forma de minimizar possíveis discórdias. Com base nas alternativas a seguir, qual delas você sugeriria? a) ( ) Divulgar a informação formalmente por meio do órgão ambiental. b) ( ) Apresentar os relatórios técnicos com base em laudos e certificados de profissionais renomados. c) ( ) Solicitar que seja feita uma audiência pública em que o representante do órgão ambiental poderá expor a situação. d) ( ) Apresentar informações corretas por meio de linguagem de fácil assimilação. e) ( ) Tratar diretamente com o representante do governo para evitar conflitos diretos. 2 A participação pública na AIA parece ser incipiente em vários lugares do mundo. Um dos aspectos que ainda precisa ser melhorado está relacionado em como promover uma participação pública eficaz, na qual os empreendedores, as comunidades, os órgãos ambientais e as ONGs possam atuar para que os benefícios da participação pública sejam plenamente alcançados. Assim, como a participação social torna o processo de AIA mais efetivo? a) ( ) Quando ela ocorre apenas em momentos necessários do processo, não gerando ruídos desnecessários. b) ( ) Quando são utilizados meios que envolvam a população desde o processo de AIA. c) ( ) Quando são identificados os papéis dos atores envolvidos no processo. d) ( ) Quando há um envolvimento total da população, mesmo que não seja de forma organizada. e) ( ) Quando a lei que garante a participação pública é cumprida. AUTOATIVIDADE 26 27 TÓPICO 3 SENSIBILIZAR PARA A DEMOCRACIA E A PARTICIPAÇÃO UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Atualmente, o Brasil tem um sistema de governo democrático, que se baseia nos princípios da participação e do envolvimento coletivo nos assuntos de interesse dos cidadãos. Para o sistema educacional brasileiro, os princípios democráticos também são norteadores das ações educativas. A escola é a instituição encarregada de promover as aprendizagens necessárias para que os estudantes desenvolvam sua cidadania, percebam a importância da manutenção de um ambiente democrático e sejam capazes de agir por si próprios com criticidade e responsabilidade. Para que se possam atingir os objetivos de uma prática educacional voltada à participação de todos da comunidade escolar, é necessário que os ambientes educacionais sejam repensados e preparados para essas finalidades. Neste capítulo, você vai estudar os conceitos de autonomia e eman- cipação dos sujeitos a partir das práticas educacionais. Também vai identificar os ambientes educativos presentes na escola, associando-os com espaços democráticos estruturados para a troca de conhecimentos e o enriquecimento mútuo dos profissionais da educação e seus alunos. Além disso, vai ver como os ambientes da escola podem ser repensados e organizados para favorecer a participação da coletividade e reafirmar os princípios democráticos. 2 EDUCAÇÃO: AUTONOMIA E EMANCIPAÇÃO DOS SUJEITOS Reconhecer que a sociedade passou por inúmeras mudanças nas últimas décadas ajuda você a entender o conceito de autonomia. Afinal, sem autonomia você não seria capaz de perceber que hoje as pessoas são conduzidas a viver de acordo com o estilo de vida produzido por uma sociedade organizada pela lógica do capital, do consumo e da concorrência. 28 UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS O conceito de autonomia está ligado à independência, à capacidade que as pessoas têm de determinar e conduzir suas vidas. Essa tarefa se torna muito complexa na sociedade contemporânea, porém ela faz toda a diferença na tomada de decisões conscientes e na análisemais apurada das situações. A escola é uma instituição social que se encarrega (ou deveria), desde os primeiros anos de escolarização (na educação infantil), de proporcionar aos alunos o desenvolvimento de sua autonomia, tornando-os capazes de resolver por si só seus conflitos cotidianos. Esses conflitos incluem desde os mais simples, como o controle dos esfíncteres nas crianças do berçário, até as abstrações e formulações de hipóteses mais complexas e o traçado de cenários futuros no ensino médio. Segundo Nogaro e Nogaro (2007, p. 11), [...] a autonomia tem como princípio o atendimento da necessidade e orientação humana de liberdade e independência, que lhe garantem espaços e oportunidades para a iniciativa e a criatividade, as quais são impulsionadoras do desenvolvimento pessoal e organizacional. Dessa forma, para que a escola possa desenvolver a autonomia de seus alunos, os espaços escolares e as práticas educacionais devem possibilitar esses exercícios de liberdade e independência. Isso pode ferir o estatuto disciplinar da escola ou mesmo as normas estabelecidas no interior dela. Como exemplo, considere uma escola que preza, em seu regimento e em seu projeto político- pedagógico, pelo desenvolvimento da autonomia dos sujeitos e dos princípios democráticos. Contudo, nas práticas cotidianas desenvolvidas pelos professores em sala de aula, os alunos não podem manifestar-se, sendo coibidos de participar ou nem sequer sendo questionados sobre os formatos adotados para as aulas. Marchesi (2006, p. 27) adverte que: [...] aumentar o espaço para a autonomia das escolas e dos professores é lhes oferecer, e lhes exigir, uma maior responsabilidade. Reduzir esse espaço, ou não facilitar os meios para se mover dentro de seus limites, contribui para reduzir a responsabilidade individual e coletiva. Cabe a reflexão sobre o quanto os profissionais da educação são respon- sáveis pelo desenvolvimento da autonomia daqueles a quem ensinam. Será que os educadores simplesmente consideram que seus alunos devem agir passivamente, sem desenvolver seu espírito crítico? A autonomia se encontra fortemente relacionada com a emancipação do sujeito, com a sua condição de agir de forma coerente com uma melhor lei- tura de mundo, de sua realidade social e de sua capacidade de mudança. A emancipação do sujeito: [...] pode ser entendida como a capacidade do homem de, a partir da reflexão das incertezas da contemporaneidade e de perceber as contradições dialéticas do contexto social, se restituir como sujeito autônomo (processo de subjetivação) mediante o exercício de pensar criticamente sua condição humana [...] (MEDEIROS, 2015, documento on-line). TÓPICO 3 | SENSIBILIZAR PARA A DEMOCRACIA E A PARTICIPAÇÃO 29 Logo, esses exercícios de reflexão sobre as incertezas e contradições con- temporâneas devem ser propostos no interior das escolas para a formação de uma geração de adultos mais capazes de produzir atitudes condizentes com a construção de um mundo melhor. A emancipação do sujeito ocorre a partir do momento em que ele se torna capaz de perceber como a sua subjetividade vem sendo construída, produzida a partir de uma série de fatores que estão à sua volta. Para entender melhor, observe a Figura 6, a seguir. FIGURA 6 – FATORES IMPORTANTES NA CONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE. A subjetividade é constituída a partir de interações com os campos sociais (pessoas com quem se vive e interage), culturais (ensinamentos recebidos dos grupos sociais), econômicos (fatores que integram a materialidade da vida, a condição de classe etc.) e políticos (condição daqueles que governam e da forma como as pessoas se articulam no espaço democrático). Dessa forma, o sujeito emancipado é aquele que, ao analisar esses campos que o constituem, consegue perceber a importância e as articulações que existem entre eles. A subjetividade pode ser definida como os aspectos internos, íntimos de cada pessoa. Ela envolve o modo como a pessoa se relaciona consigo mesma e com outras pessoas, como ela interpreta o mundo em que vive, por meio de suas emoções, sentimentos e pensamentos. A subjetividade é construída a partir das experiências que cada um vivencia nos mais diversos campos sociais de que participa. É por isso que as pessoas são diferentes, singulares e únicas. ATENCAO De acordo com Freire (1997, p. 66), “[...] o respeito à autonomia e à dignidade de cada um é um imperativo ético e não um favor que podemos ou não conceder uns aos outros”. Dessa forma, é imperativo para um educador promover o desenvolvimento da autonomia em seus alunos. Bittar (2007, p. 2), ao analisar o conceito de autonomia, afirma que ela se verifica: Fatores Econômicos Fatores Sociais Fatores Políticos Fatores Culturais Emancipação do Sujeito 30 UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS [...] na capacidade de analisar e distinguir, para o que é necessária a crítica, pois somente ela divisa o errado no aparentemente certo, o injusto no aparentemente justo. O educando deve ser estimulado a perceber estas diferenças e a reagir a elas quando necessário. Novamente, você deve notar o papel do professor como aquele responsável pela mediação do processo de aprendizagem de seus alunos em busca do despertar para a criticidade. Lembre-se sempre de que os alunos são diferentes e, dessa maneira, apresentam necessidades de apoio e intervenção do professor em momentos distintos e graus diferentes. Outro aspecto de extrema importância para o docente que deseja exercer uma postura crítica, promovendo reflexões que produzam autonomia e emancipação em seus alunos, é o fato de não se manter somente preso aos conteúdos que devem ser ensinados. O professor deve ir além e fazer com que o cotidiano da vida de seus alunos seja vivenciado e problematizado a partir de suas aulas. Afinal: [...] a capacidade crítica se adquire com permanente olhar dedicado aos deslocamentos da vida social, cuja consciência histórica deve ser trazida à visão do aluno, não importando se o curso seja de matemática, biologia, física ou geografia, se de sociologia ou de psicologia (BITTAR, 2007, p. 3). Ou seja, todas as disciplinas ensinadas na escola fazem parte desse conjunto maior, dessa matriz que possibilita viver em sociedade. Por isso, devem ser aprendidas sem que o aluno perca a capacidade de localizá-las e articulá- las com as características da vida social. Os conhecimentos escolares não se encontram separados, fragmentados ou dissociados entre si da vida cotidiana. Eles ocorrem simultaneamente, quebrando as ideias cartesianas e positivistas ainda hoje utilizadas nas escolas. O termo “cartesiano” refere-se a René Descartes, que criou o método científico, tão utilizado na ciência. Tal método procura dividir o fenômeno em frações para que seja mais facilmente analisado, o que ocasionou a divisão do ensino em disciplinas, seguindo suas premissas. Por sua vez, as ideias positivistas remetem ao positivismo, corrente de pensamento educacional e filosófico moderna que enxerga na ciência a explicação verdadeira e válida para todas as coisas. DICAS TÓPICO 3 | SENSIBILIZAR PARA A DEMOCRACIA E A PARTICIPAÇÃO 31 Para desenvolver autonomia, capacidade crítica e emancipação dos sujeitos, melhor seria o uso de outras práticas além da disciplinar, como você pode ver no Quadro 1, a seguir. QUADRO 1 – INTERDISCIPLINARIDADE E TRANSDISCIPLINARIDADE Disciplinar Observação da realidade a partir de uma base de conhecimentos. Multidisciplinar Observação da realidade realizada por disciplinas do conhecimento isoladamente. Pluridisciplinar Observação da realidade realizada por várias disciplinas do conhecimento, havendo troca entre elas. Interdisciplinar Observação da realidade realizada por meio da transfe- rência de conhecimento de uma disciplina para outra. Transdisciplinar Observação da realidade realizada na interseção dos conhecimentos das disciplinas. FONTE: Adaptado de Iarozinski Neto e Leite (2010) Você deverefletir sobre a construção da sua própria autonomia, assim como das condições que possibilitam a você pensar criticamente. Nesse sentido, deve verificar se tal construção se associa com o período de sua escolarização inicial. Como você pode notar, é importante que os professores transcendam as metodologias e tendências pedagógicas mais tradicionais, focadas unicamente nos conteúdos. A ideia é que os professores façam conexões entre diferentes saberes, entre os mais variados aspectos da vida dos seus alunos. Isso, além de propor o desenvolvimento da autonomia, da criticidade e da emancipação, costuma despertar o interesse e motivar para novos desafios. Faça um esforço e procure lembrar como eram os professores que mais ficaram na sua lembrança. Eles agiam da mesma forma que os demais ou pareciam inovar e propor novos formatos ao ensinar suas disciplinas? Um sujeito emancipado é aquele capaz de analisar os aspectos de sua vida e fazer escolhas mais apropriadas, tendo assim maior liberdade. DICAS 32 UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS 3 AMBIENTES EDUCATIVOS DEMOCRÁTICOS O homem se diferencia dos demais animais porque possui condições de produzir os mais diversos conhecimentos dos quais necessita para a mate- rialidade da sua vida. Além disso, e principalmente, ele se distingue pela sua capacidade de ensinar aos seus descendentes. Essas ações humanas de ensinar e aprender ocorrem nos grupos em que os indivíduos convivem, constituindo sua cultura. A cultura é formada também pelos diversos fatores que estão na socie- dade, envolvendo os aspectos econômicos, sociais e políticos. Nessas áreas são produzidas ideias, conceitos e discursos que chegam às pessoas e aos quais elas podem aderir ou não, exercitando assim a sua autonomia e a sua subjetividade. Atualmente, no Brasil, há um sistema político denominado democracia representativa, caracterizado pela possibilidade de os cidadãos elegerem os representantes que atuarão em seu nome na condução do País. A democracia não se resume somente ao conceito de sistema político e às suas características, pois envolve a participação das pessoas em todas as áreas da nação, desempenhando seu papel de cidadãs. Desde a Constituição Federal de 1988, e principalmente após a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996 (LDB), a gestão democrática se constitui como o modelo de gestão que deve ser utilizado nas escolas do sistema educacional brasileiro. A LDB atual explicita, em seu art. 3°, que “[...] o ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: [...] VIII — gestão democrática do ensino público, na forma da Lei e da legislação dos sistemas de ensino” (BRASIL, 1996, documento on-line). Essa gestão democrática ocorre a partir dos espaços abertos para a participação da comunidade escolar no interior da escola. Por exemplo: os conselhos escolares, as associações de pais e mestres, os grêmios estudantis, as vagas reservadas para pais representantes de escolas no Conselho Municipal de Educação, bem como o próprio processo de escolha dos gestores da escola pela comunidade escolar por meio de eleições diretas. A promoção da democracia na escola também se dá por meio da análise de outros elementos que compõem o ambiente educativo, como você pode ver na Figura 7, a seguir. TÓPICO 3 | SENSIBILIZAR PARA A DEMOCRACIA E A PARTICIPAÇÃO 33 FIGURA 7 – COMPONENTES DO AMBIENTE EDUCATIVO A estrutura física da escola pode ser mais ou menos democrática quando é pensada para incluir todos os alunos. As salas de aula, com as suas medidas e a organização de seus espaços, as mobílias utilizadas e a sua disposição, os materiais escolares existentes e disponíveis aos alunos, os banheiros, as pias e os bebedouros, as salas de atividades múltiplas, o refeitório, a cozinha, as quadras poliesportivas, as pracinhas, os auditórios, o pátio aberto ou fechado e todos os outros espaços e elementos devem ser pensados para contemplar todos os alunos e especialmente aqueles com necessidades educativas especiais. São muitos os aspectos que envolvem a estrutura física da escola e que devem ser considerados quando se pensa nas finalidades desse ambiente educacional. Os aspectos da didática utilizada pelo professor, que muito dizem a res- peito da tendência pedagógica à qual ele se filia, também são importantes na construção do ambiente educativo. As metodologias adotadas pelo docente são diretamente proporcionais ao retorno que ele terá da turma em que o processo de ensino e aprendizagem é realizado. Freire (2003, p. 86) esclarece que “[...] o fundamental é que professor e alunos saibam que a postura deles, do professor e dos alunos, é dialógica, aberta, curiosa, indagadora e não apassivada, enquanto fala ou enquanto ouve”. A didática utilizada em sala de aula pelo docente acaba sendo decisiva, muitas vezes, para as respostas que ele terá de seus alunos, para definir se conseguirá motivá-los ou despertar sua curiosidade e seu interesse em aprender. O planejamento se alia com a didática, pois por meio dele são previstas as estratégias metodológicas mais adequadas, que podem levar ao alcance dos objetivos propostos para aquela aula ou para o projeto em questão. Esse elemento é essencial para que sejam previamente analisados os espaços de participação dos alunos no decorrer das aulas. Os recursos aqui também devem ser considerados, pois, ao planejar, o professor e o gestor da escola precisam avaliar a dimensão dos elementos necessários. A ideia é evitar, assim, a frustração de um mal planejamento, de modo que os recursos não sejam suficientes, ou, pior ainda, excluam alguns alunos de famílias mais vulneráveis da participação em alguma atividade proposta. Canais de Comunicação Interações Estrutura física Didática Diversidade Planejamento Recursos 34 UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS As interações ocorridas dentro do ambiente educativo são importantes quando se pretende que o diálogo se estabeleça. Caso contrário, serão coibidas e até mesmo evitadas. É a partir das interações professor-aluno e aluno-aluno que podem ser reconhecidos pontos em comum e aproveitadas as experiências e vivências de cada um em busca da troca e do enriquecimento mútuo dos saberes. Freire (2003) propõe a ideia de que o ensinar exige do professor o saber escutar. Ele ressalta que “[...] uma das tarefas essenciais da escola, como centro de pro- dução sistemática do conhecimento, é trabalhar criticamente a inteligibilidade das coisas e dos fatos e sua comunicabilidade” (FREIRE, 2003, p. 123). Para que a comunicabilidade se efetive, são necessários canais, propostos pela escola ou pelo professor em sala de aula, em que a participação dos sujeitos pode ocorrer. Para que os alunos e demais membros da comunidade escolar manifestem suas ideias, precisam visualizar que existe um canal aberto para isso. Caso contrário, a comunicação e, consequentemente, a participação deixarão de ocorrer. Outro aspecto que merece destaque e que tem sido muito enfatizado nas políticas públicas educacionais na contemporaneidade diz respeito ao direito de todos a uma educação de qualidade, o que na escola está relacionado à diversidade. Todos têm direito a um ambiente educativo que os considere em equidade de condições, independentemente de seu gênero, de sua origem étnico- racial, de sua religião ou de sua orientação sexual. A busca por uma cultura de paz e de propagação dos direitos humanos deve estar presente no interior das escolas, evitando preconceitos e discriminações de qualquer ordem. A didática hoje é normalmente entendida a partir do processo de ensino e aprendizagem. Nesse processo, se encontram envolvidos os aspectos inerentes ao professor e seus conteúdos (planejamento, metodologia etc.), o que se refere ao ensino. Já a aprendizagem se localiza no aluno, que é o centro do processo. Essa nova maneira de entender o processo educacional desloca a figura do professor como aquele quedetém e transfere o conhecimento. Hoje, o professor tem o papel de mediador, de orientador das atividades cotidianas de sala de aula. ATENCAO TÓPICO 3 | SENSIBILIZAR PARA A DEMOCRACIA E A PARTICIPAÇÃO 35 4 REPENSANDO OS AMBIENTES EDUCATIVOS A escola também deve atuar de forma democrática, propondo aos seus estudantes espaços onde possam se manifestar e se organizar de forma coletiva e individual sempre que for necessário. A escola contemporânea no Brasil, porém, em alguns momentos não promove a participação tanto da comunidade escolar como dos próprios alunos em sala de aula. Portanto, você deve se esforçar agora para repensar essa escola, propondo uma nova organização para os ambientes educativos. A ideia é aliar a escola e os princípios democráticos para de fato formar um aluno autônomo e emancipado, pela via do conhecimento e da criticidade de sua leitura de mundo. Primeiro, você deve considerar alguns aspectos históricos relacionados à finalidade da educação e ao surgimento das escolas ao redor do mundo no século XVIII. Esse início estava muito atrelado ao projeto civilizador moderno, que entendia que por meio da escolarização seriam incutidos os padrões com- portamentais típicos de um ser civilizado, que poderia viver socialmente sem maiores problemas. Como a educação escolar era um privilégio de poucos, do clero e dos monarcas num primeiro momento, escolarizar os demais membros da sociedade (os pobres principalmente) era uma tarefa extremamente disci- plinar, que associava rigor com castigos físicos. Nessas primeiras escolas, a disposição das classes nas salas de aula favorecia a vigilância do mestre, que sentava sobre um tablado, num nível mais elevado do que o dos alunos, o que reforçava a sua autoridade e o seu protagonismo em sala de aula. Ao aluno cabia ouvir, responder quando solicitado e manter-se em silêncio no restante do tempo. Os alunos que erravam eram castigados e, inclusive, humilhados publicamente na frente de seus colegas para que servissem de exemplo. A escola atual, embora tenha se modificado em vários dos aspectos cita- dos, ainda mantém resquícios dessa organização inicial. Alguns professores adotam práticas autoritárias em suas aulas, coibindo a participação dos alunos, reiterando pedidos de silêncio e mantendo a busca pelo controle e pelo domínio de classe. Esses professores colocam-se ainda como o centro do processo de ensino, não percebendo que a ênfase atual é na aprendizagem, e não só no ensino, e o protagonismo deve ser do aluno e não mais do professor. É interessante você perceber esse deslocamento das tendências da didática, pois ele se reflete diretamente nos papéis dos sujeitos presentes em sala de aula, como você pode ver na Figura 8, a seguir. 36 UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS FIGURA 8 – EVOLUÇÃO HISTÓRICA DAS IDEIAS CENTRAIS DA DIDÁTICA. Como você viu, o centro do processo de ensino e aprendizagem hoje é o aluno, que é o sujeito que deve desenvolver as competências necessárias. Além disso, busca-se agir de forma democrática em sala de aula. Portanto, nada mais coerente do que o aluno participar ativamente das atividades realizadas no interior dos ambientes educativos nos quais se insere, manifestando suas opiniões, estabelecendo suas hipóteses, agindo de forma individual e coletiva, interagindo com seus colegas e professores para que todos saiam dessa experiência enriquecidos. Dessa forma, cabe às escolas romper com o modelo tradicional de educação e propor metodologias mais colaborativas. A ênfase deve estar na resolução de problemas e desafios. O professor passa a ser um orientador para que o aluno faça bom uso inclusive das tecnologias para o aprimoramento da aprendizagem. Para conhecer melhor os aspectos relativos aos valores democráticos e a sua articulação com a educação, assista ao vídeo “O que é educação para a democracia?”, da Câmara dos Deputados, disponível no link a seguir. https://goo.gl/p7A1mW UNI Ênfase no ensino Ênfase na aprendizagem Transmissão de conhecimentos Atividades para pensar e refletir Reforços para atingir comportamentos Desenvolvimento de competências TÓPICO 3 | SENSIBILIZAR PARA A DEMOCRACIA E A PARTICIPAÇÃO 37 Agora você vai conhecer dois modelos de escolas que podem servir de inspiração para que as escolas do sistema educacional brasileiro adaptem sua organização e seu funcionamento em torno dos princípios da participação e do desenvolvimento da autonomia dos alunos: a Escola da Ponte, em Portugal, e a rede de escolas de educação infantil públicas de Reggio Emilia, na Itália. Ambas se destacam internacionalmente pelos seus projetos pedagógicos diferenciados e de vanguarda. As escolas de educação infantil de Reggio Emilia apresentam características particulares na sua organização e nos aspectos curriculares que conduzem o dia a dia das crianças e professores. Katz (1999) comenta algumas diferenças: o uso de projetos de longo prazo que norteiam os trabalhos e o amplo uso das linguagens gráficas pelas crianças para representarem visualmente o que pensam e o que sentem. Além dos projetos, [...] jogos espontâneos com blocos, dramatização, brincadeiras ao ar livre, audição de histórias, encenação de papéis, culinária, tarefas domésticas e atividades ligadas à arrumação pessoal, bem como atividades de pintura, colagem e trabalhos com argila estão disponíveis a todas as crianças diariamente (KATZ, 1999, p. 45). Não existe uma rotina fixa para os alunos, na qual mecanicamente tenham de realizar ações e respeitar as pausas cotidianamente estabelecidas pelo professor. O relacionamento professor-aluno tem como foco o próprio trabalho que desenvolvem e o uso de todas as possíveis linguagens é incentivado, para que as crianças exponham o que estão aprendendo e como estão se apropriando dos conhecimentos no interior da escola. Além disso, “[...] as crianças são livres para trabalhar e brincar sem interrupções frequentes e transições tão comuns na maioria de nossos programas para a primeira infância” (KATZ, 1999, p. 50). No Brasil, muitas vezes a rotina das escolas de educação infantil é regu- lada pelos horários dos lanches, por exemplo, ou da escrita das agendas pelas professoras, o que faz com que toda a parte pedagógica tenha que se adaptar a isso. O trabalho dos professores em Reggio Emilia ocorre em parceria: um complementa o outro sempre que necessário. Além disso, existe um espaço comum a todas as turmas da escola, que é o ateliê, onde os mais diversos tipos de materiais podem ser explorados por alunos e professores, organizados previamente a partir da atelierista da escola. Malaguzzi (1999, p. 87) ainda acrescenta mais um tópico importante sobre as escolas de Reggio Emilia, que é o uso da criatividade: “[...] a criatividade exige que a escola do saber encontre conexões com a escola da expressão, abrindo as portas (e este é o nosso slogan) para as cem linguagens da criança”. Enfim, utilizar-se das múltiplas linguagens que a criança pode manifestar dentro da escola garante que ela efetivamente participe, seja considerada seriamente em relação ao que traz consigo e protagonize o processo de aprendizagem, desenvolvendo-se assim plenamente e afirmando sua autonomia. 38 UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS A participação das famílias na escola ocorre a partir da diversidade de oportunidades abertas para que a interação ocorra. As famílias estão presentes não somente em reuniões sistemáticas ou entrega de avaliações, mas na discussão dos temas a serem trabalhados. Elas também atuam para mediar conflitos ou aumentar o engajamento em oficinas e laboratórios, passeios, etc., de acordo com a disponibilidade dos pais. Já a Escola da Ponte, segundo Alves (2007), apresenta também uma proposta curricular diferenciada, adaptada tanto ao interesse dos alunos quanto aos seus níveis de desenvolvimento. Os estudos são interdisciplinares e normalmente em grupos. Os alunos utilizam a internetsempre que possível para a busca das informações necessárias. Outro aspecto interessante é o convívio de crianças de faixas etárias diferentes, de modo que os mais velhos (ou que mais aprenderam) ensinam aos menores. O autor afirma que na Escola da Ponte o que mais se evidencia entre os alunos é a linguagem, a comunicação por meio de inúmeros canais, inclusive por intermédio de computadores. O autor resume sua experiência na Escola da Ponte da seguinte maneira: Escola da Ponte: um único espaço, partilhado por todos, sem separação por turmas, sem campainhas anunciando o fim de uma disciplina e o início da outra. A lição social: todos partilhamos de um mesmo mundo. Pequenos e grandes são companheiros numa mesma aventura. Todos se ajudam. Não há competição. Há cooperação. Ao ritmo da vida: os saberes da vida não seguem programas. É preciso ouvir os "miúdos", para saber o que eles sentem e pensam. É preciso ouvir os "graúdos", para saber o que eles sentem e pensam. São as crianças que estabelecem as regras de convivência: a necessidade do silêncio, do trabalho não perturbado, de se ouvir música enquanto trabalham. São as crianças que estabelecem os mecanismos para lidar com aqueles que se recusam a obedecer às regras (ESCOLA DA PON- TE, 2007, documento on-line). A Escola da Ponte promove a autonomia de seus alunos a partir de sua liberdade e da possibilidade de as crianças agirem pelos seus interesses de aprendizagem. Tal como ocorre na vida em sociedade, as regras de convivência e os comportamentos vão sendo moldados de acordo com as situações e as necessidades. Isso prepara os alunos para viverem em sociedade de forma mais humana e democrática. Cury (2007, p. 493), ao analisar a importância da gestão democrática nas escolas, afirma o seguinte: A escola é uma instituição de serviço público que se distingue por oferecer o ensino como um bem público. Ela não é uma empresa de produção ou uma loja de vendas. Assim, a gestão democrática é, antes de tudo, uma abertura ao diálogo e à busca de caminhos mais consequentes com a democratização da escola brasileira em razão de seus fins maiores postos no artigo 205 da Constituição Federal. TÓPICO 3 | SENSIBILIZAR PARA A DEMOCRACIA E A PARTICIPAÇÃO 39 A Constituição Federal de 1988 estabelece como objetivos a serem perseguidos pela educação escolar o “[...] pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” (BRASIL, 1988, documento on-line). Dessa forma, desenvolver-se plenamente significa ser capaz de analisar os aspectos da vida e tomar decisões, realizar escolhas conscientes e críticas (autonomia). Como você sabe, a própria cidadania envolve a capacidade de reconhecer direitos e deveres individuais e coletivos. Logo, um bom cidadão, autônomo e emancipado para a vida e para o trabalho, é produzido também a partir de sua vida escolar. Por isso, os ambientes educacionais devem ser repensados e reorganizados para promover ainda mais tais aspectos, qualificando a vivência social democrática. Leia o relato a seguir para ver como o conteúdo deste capítulo pode ser aplicado ao cotidiano das escolas: “Certa vez, ao visitar uma escola de educação infantil no papel de conselheiro municipal de educação, percebi que, ao me deslocar pela escola com duas professoras, éramos acompanhados por uma aluna. A criança constantemente chamava uma das professoras que caminhava ao meu lado, porém era ignorada. Depois de assistir por mais de 10 vezes a aluna interpelar a professora sem receber atenção, eu questionei a professora perguntando-lhe porque não respondia à criança. Ela me respondeu que a aluna passava o dia todo assim. Refleti com essa professora sobre a necessidade de escutar e responder às crianças desde a primeira infância, pois faz parte de seu processo de desenvolvimento questionar e requerer atenção. Para que se formem cidadãos conscientes, autônomos e críticos, precisamos ouvir e respeitar os alunos desde pequenos, pois todas essas vivências são importantes para a produção de suas subjetividades”. UNI 40 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • Sem autonomia você não seria capaz de perceber que hoje as pessoas são conduzidas a viver de acordo com o estilo de vida produzido por uma sociedade organizada pela lógica do capital, do consumo e da concorrência. • O conceito de autonomia está ligado à independência, à capacidade que as pessoas têm de determinar e conduzir suas vidas. • O homem se diferencia dos demais animais porque possui condições de produzir os mais diversos conhecimentos dos quais necessita para a materialidade da sua vida. • Além disso, e principalmente, ele se distingue pela sua capacidade de ensinar aos seus descendentes. • Essas ações humanas de ensinar e aprender ocorrem nos grupos em que os indivíduos convivem, constituindo sua cultura. • A cultura é formada também pelos diversos fatores que estão na sociedade, envolvendo os aspectos econômicos, sociais e políticos. Nessas áreas são produzidas ideias, conceitos e discursos que chegam às pessoas e aos quais elas podem aderir ou não, exercitando assim a sua autonomia e a sua subjetividade. • A escola também deve atuar de forma democrática, propondo aos seus estudantes espaços onde possam se manifestar e se organizar de forma coletiva e individual sempre que for necessário. 41 1 O aprendizado é uma atividade inerente à constituição do sujeito e, nesta perspectiva, todos somos aprendizes. Os vínculos entre educação e a formação humana não podem ser prescindidos de aspectos importantes como a emancipação e a autonomia dos sujeitos. Por isso, é mister considerar que cada um de nós é um agente ativo na construção dos saberes e não apenas um mero receptor. Relacionando, pois, estas ideias, com a educação formal, ofertada pelas diversas instituições de ensino, é possível considerar que: a) ( ) A escola deve focar-se em seus objetivos, a saber, a sistematização dos conhecimentos e a transmissão de conteúdos. b) ( ) A educação formal gera sujeitos emancipados, na medida em que os apresenta um modelo ideal de conduta e de comportamento. c) ( ) Educar para a emancipação auxilia a organização social em prol da participação na construção de uma democracia efetiva. d) ( ) Emancipar significa tornar o sujeito completamente livre dos condicionamentos impostos pela natureza e pela sociedade. e) ( ) O vínculo entre formação e educação estabelece uma etapa da vida que só termina quando o indivíduo alcança a emancipação. 2 A crise de valores éticos e relacionais na contemporaneidade tem levado à busca de novas formas de organização política e de participação social. Também no ambiente educacional, há uma necessidade de se repensar a hierarquia das relações profissionais, a relação aluno-educador e as exigências curriculares frente à capacidade humana de tecer novas relações e novos saberes. Neste contexto, marque a alternativa CORRETA: a) ( ) As estruturas consolidadas, como o sistema educacional, não são passíveis de mudanças, o que agrava a crise contemporânea. b) ( ) A educação enobrece o homem e suas relações sociais, mas ela perde suas forças quando o ato de educar torna-se uma profissão. c) ( ) Seria utópico pensar a organização do trabalho em vista do bem-estar dos sujeitos, pois, em sua essência, ele é um mal necessário. d) ( ) Cada trabalhador é um sujeito ativo na construção das relações sociais, tanto em sua produção material quanto intelectual. e) ( ) Historicamente, o Ocidente está habituado a um tipo de organização trabalhista que privilegia as relações igualitárias entre os sujeitos. AUTOATIVIDADE 42 43 TÓPICO 4 OS MOVIMENTOS SOCIAIS UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Neste capítulo, você vai ver que as mobilizações sociais em torno de um objetivo comum a um grupo de pessoas não são organizações recentes. Na verdade, a organização social em prol de uma causa é uma prática políticaantiga e pode levar a situações extremas, como insurgências, revoltas e até revoluções. As principais revoluções conhecidas se iniciaram a partir de um ideal e um objetivo compartilhado por um grupo de pessoas. Na modernidade, porém, os movimentos sociais passaram a ser elementos de diálogo entre sociedade civil e Estado, e também elementos de diálogos internos aos tecidos sociais. Você vai ver que, ainda que o desejo de se agrupar por uma causa seja antigo, os modelos de atuação, associação e desenvolvimento dos movimentos sociais se alteram a partir do tipo de sociedade na qual se inserem e, essencialmente, a partir da combinação entre contexto político, histórico, econômico e cultural. Por isso, ao longo deste texto, você vai conhecer os aspectos históricos da formação dos movimentos sociais. Também vai identificar as diferenças entre as demandas dos movimentos sociais tradicionais e as demandas dos novos movimentos sociais. Por fim, vai ver como os movimentos sociais e as suas demandas por diálogo se relacionam com o Estado na busca por políticas públicas que atendam às suas necessidades. 2 A FORMAÇÃO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS Os movimentos sociais são hoje uma das formas mais comuns de mobilização para a visibilidade de demandas sociais específicas. Você sabe como eles surgiram? A mobilização de pessoas em torno de uma demanda pode não parecer recente, mas hoje assume formas de organização e articulação diferentes das que possuía no passado. 44 UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS Até o início do século XX, as mobilizações sociais tinham um caráter iminentemente político. Setores sociais se reuniam em prol da manutenção de um ideal político ou da transformação de um ideal. Você pode observar esse tipo de movimento no século XVIII, no período que antecedeu a Revolução Francesa, ou no Brasil do século XIX, nas organizações abolicionistas. No entanto, esses movimentos partiam do pressuposto de que uma ideia, uma parte da estrutura ou mesmo todo o regime político vigente deveria ser alterado. Por isso, embora partissem de setores sociais, eram considerados articulações políticas. Na virada do século XX, os movimentos sociais começam a assumir características semelhantes às que possuem hoje. Os Estados totalitaristas que eclodiram na Europa após a Primeira Guerra Mundial fizeram com que as sociedades democráticas olhassem para as suas possibilidades políticas, e o espaço público se abriu para o diálogo entre a sociedade e o Estado (HA- BERMAS, 1968). Assim, alguns setores sociais se organizaram em torno de pautas que interessassem exclusivamente ao grupo, pedindo ao Estado as mudanças necessárias. Além disso, eles se organizavam para protestar quando era necessário. Nesse momento, os integrantes das sociedades democráticas percebe- ram que, ainda que todos estivessem sob o poder do Estado, o tecido social poderia observá-lo e manter com ele um relacionamento, aplaudindo-o ou questionando-o. O mais importante é que surge a noção de horizontalização do diálogo, ou seja, as falas e intenções de Estado e sociedade precisam ter o mesmo peso, a mesma importância. Somente a horizontalização do diálogo e a manutenção da liberdade da expressão social permitiriam que o Estado não se excedesse, não se tornasse superior à sociedade e não desenvolvesse características totalitárias (ARENDT, 2008). O tecido social, no entanto, é composto por pessoas de gênero, idade e origem diferentes. Assim, o diálogo seria melhor desenvolvido quando pessoas com um mesmo interesse se organizassem em torno dele, definindo as suas demandas e as formas de supri-las. Esse processo de organização de pessoas em torno de um interesse social, com o desenvolvimento de pautas e programas específicos para a causa central, é chamado de definição da agenda. Assim, os grupos sociais desenvolviam suas agendas a fim de manter a organização e chegar ao objetivo proposto. A noção de agenda está presente ainda hoje e é essencial aos movimentos sociais contemporâneos. É a partir dela que se definem: os pontos centrais a serem buscados ou discutidos, os pontos adja- centes que gravitam em torno dos centrais e as possibilidades de se chegar a esses objetivos. As agendas dos movimentos sociais definem objetos, objetivos e caminhos a serem traçados. Além disso, elas podem ser diferentes de um movimento social para outro. TÓPICO 4 | OS MOVIMENTOS SOCIAIS 45 No Brasil, você encontra um exemplo pertinente com o movimento dos trabalhadores fabris na década de 1920. Esse movimento se desenvolveria ao longo do tempo, até o surgimento do movimento sindicalista que você conhece hoje. O movimento estudantil é outro exemplo. No Brasil, a organização preli- minar que antecedeu a construção da União Nacional dos Estudantes data do final do século XIX, quando havia a chamada Casa do Estudante. A Casa do Estudante realizou seu primeiro grande evento nacional em 1910. O evento que mudou as formas de atuação das organizações estudantis foi o de 1939. Já nos anos 1920, impulsionados pelo movimento estudantil na Universidade de Córdoba, na Argentina, em 1919, estudantes brasileiros utilizaram conexões que já haviam sido estabelecidas no período abolicionista para se reorganizarem. A revolta dos estudantes na Universidade de Córdoba tinha, pela primeira vez na América Latina, um viés de grupo social. Os estudantes desejavam uma universidade menos tecnicista, cujos saberes estivessem a serviço da sociedade, e não apenas reproduzissem os conhecimentos produzidos na Europa. Nas duas décadas seguintes, o movimento de Córdoba foi uma inspiração para outros grupos estudantis na América Latina. No Brasil, os estudantes que chegavam às universidades eram quase totalmente provenientes das classes mais abastadas. Por isso, se articulavam em torno da criação de atividades estudantis, como campeonatos esportivos e bailes, além das reuniões locais, estaduais e nacionais, em que se discutia o posicionamento dos estudantes diante dos cenários políticos nacionais e mundiais. A organização preliminar dos estudantes no Brasil do início do século XX foi extremamente importante para o que viria a seguir. Vista com bons olhos pelas elites e por personagens políticos, as organizações estudantis passaram a dialogar com o Estado, como porta-voz social, a partir do primeiro governo de Getúlio Vargas. Nesse período, tais entidades eram protegidas politicamente e recebiam incentivos para manter o diálogo com o governo. Obviamente, o referido período foi marcado por disputas políticas, especialmente as disputas polarizadas entre esquerda e direita. Nelas, muitos estudantes se envolveram, e muitos grupos estudantis foram criados. No entanto, eram grupos e organi- zações isoladas, que não respondiam por toda a comunidade estudantil. Além disso, configuravam-se como um movimento de caráter político, não social. Como você pode observar, os membros da sociedade sempre se articularam na defesa de ideias e ideais. Foi a partir do século XX que essas ideias passaram a se descolar das formações legislativas do Estado. Assim, se passa a ter a noção de que existe um espaço em que as demandas de grupos sociais podem ser manifestadas. Dada a complexidade do tecido social, os grupos se formaram em torno não só de objetivos, mas instituíram as agendas, ou seja, as formas de compreender a sua demanda, de valorizá-la, expô-la e definir os caminhos necessários para a sua resolução. 46 UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS As ações coletivas resultam dos esforços de um grupo na busca de um objetivo comum. O que diferencia esses grupos dos outros tipos de movimentos sociais é que, normalmente, há o direcionamento da ação feita por atores diferentes, para a consecução de um objetivo específico. Assim, uma ação coletiva pode ser empreendida por diferentes movimentos sociais, ou por integrantes de um movimento, não por sua totalidade. A ação coletiva não é, necessariamente,parte das pautas do movimento social, mas se desenvolve no sentido de conquistar um benefício compreendido como “bem comum”. A ação coletiva geralmente resulta no delineamento de políticas públicas e direciona o diálogo sempre às instituições. ATENCAO 3 O MOVIMENTO SOCIAL TRADICIONAL E OS NOVOS MOVIMENTOS SOCIAIS Como você viu, os movimentos sociais são uma forma de diálogo horizontalizado com o Estado. Ou seja, são uma forma de a sociedade apresentar demandas e se colocar na mesma posição de destaque que o Estado. Assim, o Estado não fica numa posição de domínio com relação ao tecido social, muito embora se mantenham resguardadas as relações de poder previamente estabelecidas, que asseguram as fronteiras e a organização interna, por exemplo. No entanto, existem diferenças nas formas de organização e de construção de agendas entre os movimentos sociais tradicionais e os novos movimentos sociais. Os movimentos sociais tradicionais são aqueles que se colocam em diálogo com o Estado para que este possa solucionar um problema ou suprir uma demanda. É como se o grupo apontasse para a organização institucional uma situação que precisa ser exposta, observada e reorganizada. O movimento dos trabalhadores é um exemplo de movimento social tradicional. Na década de 1920, no Brasil, trabalhadores das fábricas de São Paulo fizeram um ciclo de greves em busca de melhores condições de trabalho, especialmente para mu- lheres, que trabalhavam em condições insalubres mesmo durante a gestação, já que não havia direitos trabalhistas que assegurassem o respeito a esse período. Esse movimento provocou muitas demissões e, especialmente, muita violência contra os trabalhadores. Mas, por meio dele, alguns dos fundamentos dos direitos trabalhistas que você conhece hoje foram delineados. É o caso do benefício de folgas semanais remuneradas, do pagamento de horas extras, bem como da supressão do trabalho infantil e de trabalhos insalubres para gestantes — ao menos nos ambientes laborais urbanos. Dessa forma, observe: há um grupo social, os trabalhadores, que estabelecem uma pauta, que são melhores condições de trabalho. Após a pauta, TÓPICO 4 | OS MOVIMENTOS SOCIAIS 47 foi estabelecida a agenda: as formas de mobilização, greves e concentração em frente às fábricas. Tudo isso se direciona ao Estado, para que observe a reivindicação do grupo e a supra. Supridas as pautas, a agenda é reorganizada, e o grupo pode se preparar para uma nova demanda, ou se direcionar à manutenção da organização. Esse é um exemplo clássico de movimento social tradicional. Nesse caso específico, preocupado com o avanço comunista na Europa, especialmente a partir da Revolução Russa de 1919, o Estado estabeleceu que o mais seguro para garantir a estabilidade nacional e afastar a ameaça comunista era criar e manter um canal de comunicação estável e contínuo com os trabalhadores. Posteriormente, foram criados os sindicatos, para que um grupo destacado especificamente para isso assegurasse que as demandas dos trabalhadores fossem atendidas e que, uma vez assegurados os seus direitos, a ordem fosse mantida. Trata-se de um jogo em que o Estado oferece as soluções ao grupo social. Os modelos tradicionais de movimentos sociais se articulam de forma a obter uma resposta do Estado. Há um problema, e os movimentos sociais pedem que o Estado o observe. Ou seja, há aí, além do diálogo horizontalizado, um movimento que parte da sociedade para o Estado e, espera-se, do Estado para a sociedade. Os novos movimentos sociais, por sua vez, emergem a partir da década de 1970, na Europa e nos Estados Unidos. Posteriormente, atingem a porção sul do hemisfério, especialmente com o movimento feminista e o movimento ambientalista. A diferença entre o novo modelo e o tradicional é que os novos movimentos sociais articulam seu diálogo não em direção ao Estado, mas em direção aos tecidos sociais. O sentido da interação parte da sociedade e se dirige à própria sociedade. Isso ocorre porque, a partir dos anos 1970, as ditaduras na América Latina e na África e a Guerra no Vietnã diminuíram drasticamente o espaço que os movimentos sociais podiam ocupar. O diálogo não existia e, quando havia a possibilidade de manifestação sem repressão, não havia resposta. Assim, os movimentos sociais contestatórios dos anos 1950 e 1960 deram lugar aos movimentos sociais que buscavam dialogar com setores diferentes da socie- dade. O sociólogo Melucci (2001) explica que, nesse período, a sociedade civil se coloca na arena política como um ator dissociado do Estado. Na ausência de resposta ou impossibilidade de expressão, este deve se voltar aos atores internos. Todo cidadão seria um ator social, no sentido de que ele poderia protagonizar os caminhos de suas demandas e crenças. Os atores sociais, então, se organizariam em redes, encontrando outros atores que dividissem as mesmas expectativas e necessidades. Assim, eles tentariam sanar os problemas e necessidades, ou então conscientizar outros setores e outros atores sociais sobre determinada causa. Nesse sentido, o diálogo permanece horizontalizado, mas não se dá mais em direção ao Estado. Ele ocorre internamente, de um grupo de atores sociais para os outros grupos. Os novos movimentos sociais buscam a conscientização e também a solução. Por isso, nesse período, surgem as organizações não governamentais (ONGs), que se destinam a promover uma causa desde a sua apresentação até as soluções possíveis. 48 UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS Os novos movimentos sociais também possuem características mais homogêneas do que as dos movimentos tradicionais, de forma que alguns se tornaram mundiais. É o caso do movimento ambientalista. Nesse movimento, setores da sociedade civil se organizaram para que os outros atores das sociedades passassem a ter mais consciência sobre o consumo de recursos naturais, promovendo a preservação. Mais ainda, organizaram-se a fim de que a própria sociedade, independentemente da resposta do Estado, pudesse cuidar disso. Foi o que aconteceu na criação da ISO 9000, a International Standart Organization, que, na década de 1970, oferecia um selo de qualidade para as empresas que comprovadamente produzissem os menores impactos ambientais possíveis. Os novos movimentos sociais inauguraram aquilo se chama hoje de terceiro setor: organizações não estatais que surgem na sociedade civil, mas não se mantêm apenas como parte do tecido social. A partir da década de 1980, elas ganham grande visibilidade e poder. O referido selo ISO, por exemplo, ultrapassou a Europa e ganhou o mundo. Desde então, as empresas procu- ram enquadrar suas produções para obtê-lo. Além disso, alguns setores do Estado, em licitações, privilegiam a contratação de empresas que o possuam. Nesse sentido, a sociedade se torna protagonista de sua própria demanda, na medida em que o selo é produzido, aplicado e fiscalizado inteiramente por ela, sem intervenção do Estado. As sociedades compreenderam que podem se articular internamente, a partir de sua demanda, obtendo como resposta a fiscalização social. Nesse sentido, você pode considerar que o consumo foi um dos direcionadores para o estabelecimento desse cenário. 4 MOVIMENTOS SOCIAIS, ESTADO E POLÍTICAS PÚBLICAS Os anos 2000 trouxeram novas formas de organização para os movimentos sociais, bem como novas formas de diálogo entre sociedade civil e Estado. Há uma emergência de novos movimentos sociais contestatórios, que se as- semelham na forma aos movimentos sociais tradicionais. No entanto, há uma série de dispositivos constitucionais que asseguram a sua existência e as pos- sibilidades de resposta pelo Estado. Por outro lado, a sociedade civil continua se articulando em movimentos sociais para si mesma, por meio das ONGs. A partir desse período, as demandas dos movimentos sociais passaram a ser utilizadas pelo Estado como parâmetros para a constituição de políticas públicas específicas.Normalmente, a partir de uma demanda específica e da organização em torno de um tema, é possível ganhar visibilidade. A partir da esfera local, é possível projetar as agendas dos movimentos a fim de que haja a resposta governamental. A resposta se dá por meio, principalmente, de novas políticas públicas. Você já percebeu que, cada vez mais, há a presença de intérpretes de Libras (Língua Brasileira de Sinais) em instituições educacionais, entidades e repartições públicas, e até mesmo em eventos culturais, como shows, peças de teatro, etc.? A presença desses profissionais permite que pessoas surdas ou com TÓPICO 4 | OS MOVIMENTOS SOCIAIS 49 deficiências auditivas possam se integrar socialmente, participando e transitando por todas as esferas em que uma pessoa ouvinte circula. Essa prática está ainda se estabelecendo, mas a ideia é que quem se comunica usando Libras possa ter conforto em qualquer lugar público. Por que isso acontece hoje? Porque os movimentos sociais ligados à inclusão social, especificamente os ligados à defesa de direitos da pessoa surda ou com deficiência auditiva, conseguiram estabelecer suas pautas. Assim, o Estado tomou providências e respondeu a tais demandas sob a forma de políticas públicas. Atualmente, as unidades federativas da União, ou seja, os estados, têm autonomia para definir como as suas instituições de ensino oferecerão os elementos que garantam a inclusão de pessoas com deficiência, mas é muito claro que as demandas dos movimentos pela inclusão social e educacional tiveram resultados. Para acontecerem, os movimentos sociais dependem de uma série de fatores que os tornam únicos, sem comparações com outros, embora possa haver “precedentes”, movimentos que inspirem ou impulsionem outra mobilização no futuro. Tudo depende do cenário histórico, cultural, político e econômico. Por isso, a sociologia dos movimentos sociais não faz uma única abordagem teórica ao tema. Na verdade, não há um consenso entre os pesquisadores sobre qual leitura seria a melhor para a análise de uma mobilização importante. En- tretanto, existem alguns pesquisadores que aparecem frequentemente quando a sociologia dos movimentos sociais se propõe a analisar determinado evento. São eles: Alain Touraine, Alberto Melucci e Manuel Castells. Esses três autores trabalham o conceito de movimento social na modernidade, ou seja, estudam os movimentos formados após a década de 1970, também chamados de novos movimentos sociais. É importante que você perceba que existe uma diferença entre os movimentos sociais anteriores à década de 1960 e os que vieram após esse período. Até então, a ocupação dos espaços públicos para a organização civil se baseava também no conceito de classes sociais, bem como na noção de que uma classe utilizava o campo da reivindicação para questionar os privilégios de outras classes. Essa leitura clássica dos movimentos sociais está associada a uma leitura estrutural marxista de disputa de classes. Essa disputa, essa contestação de privilégios, terminaria inevitavelmente no conflito. A leitura clássica dos movimentos sociais, portanto, tem viés marxista e foco na temática contestatória (PICOLOTTO, 2007). Ela se altera a partir da década de 1960 por dois fatores essenciais: a transformação dos modos de produção pelo primeiro período da revolução da informação e a existência de grande número de regimes autoritários e/ou ditatoriais pelo mundo, espe- cialmente na América Latina, na África e na Ásia. A alteração nos modos de produção diminui o sentido de classe e comunidade. Assim, se passa a dar maior ênfase à estruturação do conceito de indivíduo. É na relação entre um conjunto de individualidades e no diálogo com o Estado na modernidade que se baseiam as leituras dos novos movimentos sociais. 50 UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS O sociólogo francês Touraine (2003) oferece uma leitura historicista dos movimentos sociais. Para ele, esses movimentos surgem porque os atores sociais entendem que, para alcançar um propósito ou mudar algum fator estrutural da sociedade, é preciso ter o controle das especificidades históricas que orientam e determinam aquela sociedade, ou seja, os fatores culturais que a moldam. Além disso, Touraine (2003) identifica três princípios formadores dos movimentos: a identidade, ou seja, quem é o ator no movimento social; a oposição, ou o adversário (PICOLLOTO, 2007), que limita as possibilidades de que o movimento atinja seus objetivos; e a totalidade, ou seja, o complexo esquema entre estrutura da sociedade, cultura e história que o grupo social em movimento deseja alterar. Para Touraine (2003), embora o Estado seja ainda o elemento integrador daquele conjunto social, é na identidade do sujeito e em suas particularidades exteriores à estrutura do Estado que está alicerçado o conceito de modernidade. Isso faz com que os chamados novos movimentos sociais sejam diferentes dos movimentos clássicos. No link a seguir, você pode assistir à entrevista do sociólogo Alain Touraine para a rede de televisão portuguesa EuroNews. Nela, ele fala sobre o conceito de identidade e ação coletiva, que é aplicado a sua leitura dos movimentos sociais, por meio do processo de recepção de imigrantes às terras europeias. FONTE: <https://goo.gl/wgYpvq>. Acesso em: 8 jan. 2020. UNI Para Castells (1999), a perspectiva inicial sobre os movimentos sociais também se inicia pela perspectiva marxista, especialmente para que sejam salientadas as mudanças estruturais. Para ele, a revolução informacional, ou Terceira Revolução Industrial, altera não apenas os meios de produção, mas as formas de relacionamento social, fazendo com que a oposição indivíduo-Estado se modifique. Assim, surge uma construção mais cultural dos movimentos sociais, baseada especialmente em diálogos intrassociedade, de um segmento para o outro. Há ainda um elemento influenciador para tal alteração: a crise do Estado originada pelos desequilíbrios econômicos do período, que fez com que os indivíduos se articulassem para criar soluções sem a participação integral do Estado. Ou seja, não era mais produtivo contestar o Estado e gerar um conflito se este estava em crise e não poderia resolver as demandas. Os atores sociais, articulados, trabalhariam até que fosse possível de forma autônoma, até o momento em que fosse necessário dialogar com o Estado. Você deve perceber que essa relação entre indivíduo e Estado, embora suavizada nesse contexto, nunca foi suprimida. Mas o contexto, que imprimiu marcas únicas à modernidade, trouxe à tona um cenário sem precedentes, por isso as formas de articulação social também eram inéditas. TÓPICO 4 | OS MOVIMENTOS SOCIAIS 51 Melucci (2001) colabora para o arcabouço teórico da área com sua concepção de redes. Para ele, a modernidade conforma uma maneira única de relacionamento e organização social, em que cada indivíduo é um ator na arena social e política. Por isso, as mobilizações sociais derivam da formação de redes de movimentos sociais. O conceito de redes emerge porque os movimentos estariam, de alguma forma, interligados. Uma vez que não há o conceito de contraposição pela dis puta de classes, os interesses individuais podem cruzar as agendas de mais de um movimento, e o ator social não é apenas o ator de uma classe, mas de seus inúmeros interesses. Assim, um ator do movimento feminista pode também ser ator do movimento ambientalista, por exemplo. E esses dois movimentos podem ter pautas em comum: um movimento ambientalista que defende o manejo sus- tentável de áreas de proteção ecológica pode fomentar a produção artesanal de mulheres ribeirinhas — e este trabalho pode também ser o foco de um movimento feminista local. Assim, haveria redes de movimentos sociais dialogando também com o Estado, mas, de forma mais intensa, dialogando entre si. No Brasil, a pesquisadora mais reconhecida nas análises sobre a conjuntura e a formação dos movimentos sociais é aprofessora Maria da Glória Gohn. Gohn (2000) elabora um esquema de leitura e classificação dos movimentos sociais. Tal esquema também vincula a perspectiva marxista aos movimentos clássicos e relaciona os novos movimentos sociais àqueles moldados por perspectivas culturais extraclasses. Contudo, Gohn (2000) inova ao inserir a categoria dos movimentos sociais latino-americanos. Para ela, há uma especificidade nos movimentos sociais latinos, formados pela condição de dependência periférica dos Estados na América Latina. Um exemplo da relação entre Estado, movimentos sociais e políticas públicas pode ser observado nas pautas do movimento norte-americano #NeverForget (Nunca Esquecer). Em fevereiro de 2018, um jovem de 19 anos chamado Nikolas Cruz invadiu o prédio da escola Marjory Stoneman Douglas, na Flórida, Estados Unidos, onde havia estudado durante o ensino médio. O rapaz portava uma arma AR-15 e, atirando a esmo, atingiu diversas pessoas, matando 14 adolescentes e três adultos. A arma foi comprada legalmente, o jovem já havia atingido a maioridade legal e não teve dificuldades para adquirir o artefato nem para entrar na escola, já que havia sido um estudante que não ofereceu problemas à instituição. Os sobreviventes do massacre articularam um movimento de contestação, que rapidamente se espalhou para outras cidades do país com ajuda da internet. O movimento obteve a atenção midiática de redes de televisão e jornais impressos e online, arregimentando milhões de pessoas no país. O movimento chamado #NeverForget se propunha a chamar a atenção dos legisladores para o comércio de armas de fogo, clamando por dispositivos que impedissem a venda livre a todos os tipos de público. No dia 24 de março de 2018, liderado por jovens entre 14 e 18 anos, o #NeverForget levou milhões de pessoas à capital federal, Washington, com outros polos de concentração ao redor do país, atingindo Europa, Ásia e América Latina. O movimento arrefeceu no tocante à ocupação dos espaços públicos a partir de abril, permanecendo nas redes sociais. UNI 52 RESUMO DO TÓPICO 4 Neste tópico, você aprendeu que: • Os movimentos sociais são hoje uma das formas mais comuns de mobilização para a visibilidade de demandas sociais específicas. • Até o início do século XX, as mobilizações sociais tinham um caráter iminentemente político. • Na virada do século XX, os movimentos sociais começam a assumir características semelhantes às que possuem hoje. • Os movimentos sociais são uma forma de diálogo horizontalizado com o Estado. Ou seja, são uma forma de a sociedade apresentar demandas e se colocar na mesma posição de destaque que o Estado. Assim, o Estado não fica numa posição de domínio com relação ao tecido social, muito embora se mantenham resguardadas as relações de poder previamente estabelecidas, que asseguram as fronteiras e a organização interna, por exemplo. • Os movimentos sociais tradicionais são aqueles que se colocam em diálogo com o Estado para que este possa solucionar um problema ou suprir uma demanda. • Os novos movimentos sociais também possuem características mais homogêneas do que as dos movimentos tradicionais, de forma que alguns se tornaram mundiais. • Os novos movimentos sociais inauguraram aquilo se chama hoje de terceiro setor: organizações não estatais que surgem na sociedade civil, mas não se mantêm apenas como parte do tecido social. 53 AUTOATIVIDADE 1 Quais são os dois elementos que, respectivamente, modelam a estrutura e direcionam a ação dos movimentos sociais contemporâneos? a) ( ) Pauta e assunto. b) ( ) Partido e pauta. c) ( ) Agenda e pauta. d) ( ) Agenda e assunto. e) ( ) Assunto e agenda. 2 O sociológo Alberto Melucci é um dos pensadores que mais contribuíram para a compreensão dos novos movimentos sociais nas últimas décadas do século XX. De acordo com ele, o que representam os protagonistas dos movimentos? Escolha a opção CORRETA. a) ( ) Líderes. b) ( ) Motivadores. c) ( ) Apoiadores. d) ( ) Atores. e) ( ) Contestadores. 54 55 TÓPICO 5 TRAJETÓRIA DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Os movimentos sociais existem desde os tempos de colônia no Brasil, o qual é marcado por lutas e movimentos contra a dominação, a exploração econômica, a exclusão social e, atualmente, a política, a corrupção, a falta de ética dos políticos, entre outros problemas que o país vem enfrentando. Eles contribuíram e vêm contribuindo para a conquista e a manutenção de direitos e espaços de participação social, fortalecendo a cidadania e a democracia brasileira. Neste capítulo, você estudará sobre o conceito de movimentos sociais populares, compostos na maioria das vezes de classes sociais desprivilegiadas; a relação entre participação social, educação popular e movimentos sociais fundamentais para a construção e o exercício do poder popular; e a trajetória dos movimentos sociais no Brasil, desde a colônia até os dias atuais. 2 MOVIMENTOS SOCIAIS E POPULARES Apesar de haver muitos estudos sobre os movimentos sociais, as teorias existentes ainda não apresentam definições precisas devido à multiplicidade de interpretações e enfoques. Veja um conceito de movimento social sob o olhar de Gohn (2000, p. 13): movimentos sociais são ações coletivas de caráter sociopolítico, construídas por atores sociais pertencentes a diferentes classes e camadas sociais. Eles politizam suas demandas e criam um campo político de força social na sociedade civil. Suas ações estruturam-se a partir de repertórios criados sobre temas e problemas em situações de conflitos, litígios e disputas. As ações desenvolvem um processo social e político-cultural que cria uma identidade coletiva ao movimento, a partir de interesses em comum. Esta identidade decorre da força do princípio da solidariedade e é construída a partir da base referencial de valores culturais e políticos compartilhados pelo grupo. Dessa forma, os movimentos sociais se estruturam com base em um grupo social que compartilha uma dada situação social a qual gera insatisfação, causando neles um sentimento de pertencimento e objetivos específicos a serem alcançados por meio de reivindicações, projetos etc. (VIANA, 2016) (Figura 9). 56 UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS FIGURA 9 – MOVIMENTOS SOCIAIS FONTE: Adaptado de <Nosyrevy/Shutterstock.com>. Acesso em: 8 jan. 2020. O termo movimentos sociais populares ou movimentos populares é bastante utilizado, mas também não possui um conceito claro e, em alguns casos, é confundido com os movimentos sociais urbanos. Poucos autores tentaram defini-lo, sendo Camacho (1987) um deles, quando tentou diferenciar os movimentos sociais e os populares, mas ao final acabou definindo-os como uma manifestação dos sociais, o que é uma contradição. Para o autor, esses movimentos sociais possuem dois tipos de atuação distintos: eles podem ex- pressar os interesses dos grupos hegemônicos e podem expressar os interesses dos grupos populares, os chamados movimentos populares, que se diferem dos demais por sua formação social, elemento chave para entender o que o diferencia dos outros movimentos sociais (VIANA, 2016). Os movimentos sociais populares são compostos, na maioria das vezes, de classes sociais desprivilegiadas e, geralmente, sofrem processos de dominação, exploração, subordinação e marginalização. Nesse contexto, estão incluídos trabalhadores, camponeses, trabalhadores domésticos e manuais, moradores de periferia, desempregados, desabrigados e lumpemproletariado. Como a situação social dos grupos de base desses movimentos é distinta das classes mais privilegiadas, sua insatisfação, sua luta e seus objetivos também são diferentes. Lumpemproletariado é um termo criado e utilizado por Marx para denominar as camadas mais baixas da velha sociedade, possíveis de serem arrastadas aos movimentos por uma revolução proletária e levando-as a vender-se, devido a suas condições precáriasde existência (MARX, 1932). DICAS TÓPICO 5 | TRAJETÓRIA DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL 57 Os movimentos sociais possuem inúmeras diferenças que decorrem de suas orientações políticas e ramificações, em que as orientações políticas são determinadas pela formação social do grupo social de base e pela hegemonia no seu interior. Nesse contexto, os movimentos sociais podem ser classificados em três tipos (VIANA, 2016). • Conservadores: visam retomar uma situação que existia anteriormente ou impedir que reivindicações de grupos sociais opostos se mantenham. São monoclassistas ou policlassistas, com predomínio das classes privilegiadas. • Progressistas ou reformistas: visam mudar a situação do grupo social. São policlassistas, com grande presença de burocracia e intelectualidade. • Revolucionários: visam a uma mudança radical da situação que somente é possível se uma nova sociedade surgir para substituir a atual. Constitui- se como um processo que resolve o problema do grupo social. Podem ser monoclassistas ou policlassistas. Os grupos de base podem ser nomoclassistas, cujos componentes pertencem às classes sociais desprivilegiadas; e/ou policlassistas, cujos componentes são jovens, intelectuais e de diversas classes sociais, este é o que predomina nos movimentos sociais (VIANA, 2016). DICAS Entender a composição social de um movimento é fundamental para mostrar as possibilidades e as posições políticas, sendo que estas são definidas pela hegemonia existente em seu interior. Os movimentos sociais conservadores, por exemplo, possuem uma hegemonia burguesa, assim como a maioria dos movimentos sociais progressistas. Porém, algumas de suas ramificações podem apresentar uma hegemonia burocrática ou proletária. Já nos movimentos sociais revolucionários, a hegemonia surge como uma radicalização das lutas sociais ou tempos de revolução proletária (VIANA, 2016). Os movimentos sociais revolucionários praticamente não existem em tempos de estabilidade social e política (VIANA, 2016). ATENCAO 58 UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS Os movimentos populares são uma parte dos sociais progressistas, cuja hegemonia em seu interior pode ser burguesa, burocrática ou proletária, o que depende de múltiplas determinações. Para Viana (2016), os grupos sociais de base possuem tendência a gerar uma hegemonia semiproletária e, em casos raros, uma proletária, acarretada por sua situação de classe. A hegemonia na sociedade como um todo é burguesa por isso tende a influenciar os movimentos populares no sentido da hegemonia burguesa ou, secundariamente, burocrática. Assim, há uma contradição entre os interesses de classe e tudo que é derivado da situação de classe (desprivilegiada) e a hegemonia na sociedade civil, além do aparato estatal, meios oligopolistas de comunicação, necessidades imediatas etc. É por isso que há uma forte contradição no interior dos movimentos populares no plano da consciência e da hegemonia. Tal contradição se manifesta sob várias formas, entre os quais através da submissão a valores atrelados ao consumismo convivendo com a incapacidade de consumo, o que provoca uma contradição valorativa ou, então, a percepção do caráter conservador da política institucional ao lado da dificuldade de romper totalmente com ela (VIANA, 2016, p. 76). As reivindicações dos movimentos populares são voltadas às questões de educação, saúde, estrutura urbana, moradia e terra; as dos sociais urbanos, voltadas às questões urbanas como moradia, transporte, estrutura urbana etc.; já as dos movimentos sociais rurais possuem foco sobre as questões ambientais ou contra as políticas estatais ou sobre o desenvolvimento capitalista que atinge setores da população rural. Todas essas reivindicações são direcionadas ao aparato estatal, direta ou indiretamente, o que muitas vezes gera confronto entre eles. A forma mais comum de o Estado responder aos movimentos é com a repressão seletiva, que acontece sobretudo quando os movimentos populares realizam manifestações e ocupações por meio de discursos como agressão a policiais, reintegração de posse, entre outros. Quando eles não interferem de forma direta nos interesses do Estado, é dito que há omissão e, geralmente, a cooptação é em menor grau, tendo maior incidência nos demais movimentos sociais (CASTELLS, 1988; VIANA, 2016). O aparato estatal é o alvo direto ou indireto dos movimentos populares. Quando a luta é por bens coletivos, o alvo é direto. Já quando ela é por bens materiais, o alvo é indireto (VIANA, 2016). DICAS TÓPICO 5 | TRAJETÓRIA DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL 59 Os movimentos sociais têm dificuldades para se organizar, uma vez que as condições de vida desses grupos são precárias, bem como suas condições financeiras, culturais etc. No entanto, isso não os impede de lutar por suas questões, avançando ou recuando em suas lutas, que dependem de fatores como estabilidade dos governos, crises financeiras, aumento do desemprego, inflação, deterioração dos bens coletivos, entre outros. Sua dinâmica depende do desenvolvimento capitalista e da intensidade com que este impacta na vida de seus grupos sociais de base. Porém, essa relação será sempre marcada pelo conflito mais ou menos intenso, de acordo com os períodos de relativa estabilidade ou não. Para Gohn (2011), os movimentos sociais populares ficaram famosos no Brasil e em outros países da América Latina no final da década de 1970 e em parte dos anos de 1980, planejados por grupos que se opunham aos regimes militares, principalmente aqueles com base cristã, inspirados pela teologia da libertação. No entanto, o cenário sociopolítico mudou radicalmente no fim dos anos de 1980 e ao longo dos anos de 1990, fazendo as manifestações de rua, que davam visibilidade aos movimentos populares nas cidades, declinarem, segundo alguns analistas, por terem perdido seu principal alvo e inimigo, os regimes militares. Na verdade, as causas desse declínio foram as mais diversas, e não se pode negar que esses movimentos, no Brasil, contribuíram significativamente para a conquista de vários direitos sociais, instituídos por leis na Constituição Federal de 1988 (CF/88). Exemplos de movimentos populares: Custo de Vida (Carestia), Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), Via Campesina, Grito dos Excluídos etc. (MUTZENBERG, 2011). UNI 3 PARTICIPAÇÃO SOCIAL, EDUCAÇÃO POPULAR E MOVIMENTOS SOCIAIS Os movimentos sociais dos anos de 1980 contribuíram para a institucionalização de espaços públicos para a participação social, garantindo aos cidadãos identidades e novas formas de organização. Como resultado desse processo de lutas sociais acerca da democratização, tem-se a consolidação de valores como igualdade, solidariedade e liberdade, constituindo a democracia social (CARVALHO, 1998; BENEVIDES, 2002). No entanto, a democracia participativa somente será plena se tiver a participação ativa dos indivíduos nos espaços públicos, ação que sinaliza a existência de um processo educativo o qual 60 UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS tem a participação como um meio, e a construção e o exercício do poder popular como o fim (HURTADO, 2000). Dessa forma, praticar ações democráticas contribui para a reconfiguração do contexto sociopolítico das lutas no Brasil e para a construção da cidadania. A democracia, assim, não é um sistema político entre tantos, mas é a prática específica pela qual o povo se institui como sujeito. Nela, os indivíduos se tornam sujeitos públicos enquanto seres políticos ativos, se transformam em seres socializados porque desenvolvem relações sociais e responsabilidades coletivas (SEMERARO, 2002, p. 222). A participação contribui para a construção da cidadania, pois possibilita aos indivíduos adquirir maior consciência sobre seus interesses individuais e coletivos, gerando benefícios para toda a sociedade. Essa participação política pode ser vista como uma escola na qual o cidadãoadquire conhecimentos sobre o funcionamento institucional da democracia e os valores democráticos, como o da solidariedade social (DIAS, 2002). Enquanto participa, o indivíduo adquire o sentido de pertencimento e o significado de sua atuação em um grupo ou movimento social, assumindo uma condição de protagonista de sua própria história. Ao participar, ele desenvolve uma consciência crítica, agrega uma força sociopolítica ao grupo ou à ação coletiva, novos valores e nova cultura política (GOHN, 2005). A participação social configura-se como um processo que estimula o compartilhamento de poder por meio do fortalecimento da sociedade civil e da construção de caminhos que permitam alcançar uma nova realidade social pela cultura cidadã. Dessa forma, esse processo deve ser considerado de “baixo para cima”, tendo os cidadãos comuns como os principais protagonistas da ação transformadora das relações de poder da sociedade, o que mostra a importância de se implantar e manter práticas participativas no contexto sociopolítico, promovendo a sua autonomia, reconstruindo a história das lutas populares no Brasil, fortalecendo e renovando cada vez mais os princípios democráticos de igualdade, cidadania e justiça social (DIAS, 2002). Nesse contexto, a edu- cação popular tem favorecido a participação da população na esfera pública, empoderando os indivíduos e democratizando os espaços públicos. A educação popular privilegia a dimensão ética do diálogo, uma vez que considera os aspectos da realidade do indivíduo, como cultura, trabalho, liberdade e igualdade, que geram experiências e reflexões no processo de superação da exclusão e da desigualdade (MELO NETO, 2004). O caráter político da educação popular está na busca pela transformação da realidade na qual os indivíduos estão inseridos, pois, com a consciência sobre sua realidade, estes conseguem perceber as práticas opressoras e desiguais a que estão sujeitos e interferir nessa situação. TÓPICO 5 | TRAJETÓRIA DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL 61 Desse modo, a educação popular possui caráter transformador e libertador, tendo como princípios de sua existência justiça social e igualdade de direitos, uma vez que permite a emancipação e autonomia dos indivíduos, que assumem o papel de sujeitos de sua própria história. O caráter político na proposta da educação popular constituiu-se como elemento transformador da educação, já que buscou integrar a conscientização sobre a realidade dos indivíduos às melhorias de suas condições de vida, proporcionando resultados como a instituição de uma cultura cidadã que prega princípios de solidariedade, reciprocidade e sociabilidade (HURTADO, 2000). Educação popular é um modo de educação que considera os saberes prévios das pessoas e suas realidades na construção de novos saberes. Ela visa ao desenvolvi- mento da reflexão e do olhar crítico, por meio de diálogo e participação comunitária, permitindo uma leitura melhor da realidade social, política e econômica na qual os educandos estão inseridos (BRANDÃO, 2017). DICAS O conjunto das práticas educativas populares ganhou espaço junto aos movimentos sociais quando possibilitou o estabelecimento de uma dimensão educativa em suas ações, reforçando seu caráter político e transformador. Os movimentos sociais valorizam essa concepção e estimulam ações reflexivas nos indivíduos para que compreendam conceitos como cidadania e demo- cracia, transformando suas visões de mundo, renovando seus ideais sociais e construindo realidades a partir de relações mais justas e solidárias. Assim, eles formam indivíduos enquanto estes participam de suas ações, contribuindo para a elevação de sua autoestima e o surgimento do sentimento de pertencimento, permitindo sua atuação política, social e cultural, transformando-os em sujeitos. Nesse processo, os sujeitos constroem saberes, valores, cultura e ensaiam a vivência de novas relações sociais. Enquanto realizam a luta social, os mo- vimentos buscam materializar as relações econômicas, políticas e culturais, além de um projeto de futuro. É este vínculo entre formação, organização e luta que faz dos movimentos um espaço de construção de indivíduos renovados e um meio renovado de promoção da educação popular por intermédio das ações e práticas educativas que desenvolvem (GOHN, 1992). 62 UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS As práticas educativas populares, de modo geral, buscam adequar seus conteúdos a partir da realidade e das necessidades dos grupos populares, valorizando e recuperando as experiências, o saber e a cultura popular por meio de reflexão, diálogo e participação de todos os envolvidos (TORRES, 1988). DICAS O caráter político e sociocultural dessas práticas tem por base a concepção de que os indivíduos podem querer para si um mundo mais justo e diferente, determinando o estado das coisas e das relações sociais. Além de (re)educar quem participa dele, os movimentos (re)educam a sociedade, porque eviden- ciam as contradições sociais. Nesse contexto, pode-se dizer que coletividade, sentimento de pertencimento, movimento, identidade de projeto, organização, luta e transformação são expressões fortes que, interconectadas, permitem compreender o caráter educativo dos movimentos sociais (CALDART, 2000). A visão popular de educação trouxe a discussão sobre cidadania, direitos humanos e participação popular como uma causa de luta, reestruturando- se no campo da educação cidadã. No Brasil, permitiu o desenvolvimento de uma prática cidadã, trazendo para o centro das discussões a compreensão dos sujeitos sobre democracia participativa. Assim, as organizações populares e os movimentos sociais passaram a participar e intervir nas discussões sobre políticas públicas com maior frequência e responsabilidade, tomando para si os processos e estabelecendo um poder popular (GOHN, 1992). 4 HISTÓRICO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL A sociedade brasileira é marcada por lutas e movimentos sociais desde a época do Brasil Colônia, contra a dominação, a exploração econômica e a exclusão social. Há registros históricos sobre lutas de índios, negros, brancos e mestiços que eram pobres e viviam nos vilarejos, bem como de brancos que pertenciam às camadas médias da sociedade e eram influenciados pelas ideologias libertárias e contra a opressão dos colonizadores europeus (GOHN, 1995). No Brasil, a maioria das lutas e movimentos sociais no período colonial foi realizada pelos negros escravos e pela plebe, indivíduos pobres e livres. Os indivíduos que se incluíam na categoria povo eram comerciantes e artesãos; já senhores de engenho, militares, funcionários graduados e clero encontravam-se no topo da camada social e eram seguidos pelos lavradores, grandes mercadores e artesãos. TÓPICO 5 | TRAJETÓRIA DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL 63 Alguns movimentos e lutas no Brasil Colônia e na fase do Império até o século XX: Zumbi dos Palmares, Inconfidência Mineira, Conspiração dos Alfaiates, Revolução Pernambucana, Balaiada, Revolta dos Malês, Cabanagem, Revolução Praieira, Revolta de lbicaba, Revolta de Vassouras, Quebra-Quilos, Revolta Muckers, Revolta do Vintém, Canudos (GOHN, 2000). UNI No início do século XX, com a chegada da República e a substituição da mão de obra escrava pela assalariada, composta em sua maioria de imigrantes, a questão social mudou. Nesse período, o modo de produção se altera com a industrialização ainda incipiente e a formação de um proletariado urbano, fazendo surgir organizações de luta e resistência dos trabalhadores por meio de associações de auxílio mútuo, ligas e uniões, que reivindicavam serviços urbanos ou protestavam contra a política local. Dessa forma, o movimento operário foi influenciado pelas ideias anarquistas trazidas pelos imigrantes europeus (GOHN, 2000; LEMOS; FACEIRA, 2015). Exemplos de revoltas e lutas do século XX: Revolta da Vacina, Revolta da Chibata, Revolta do Contestado, ligas contra o analfabetismo, ligasnacionalistas pelo voto secreto e expansão da educação, revoltas contra o preço do pão, inspeção de bagagens nas estações de trens e colocação de trilhos para os bondes (GOHN, 2000). UNI Na primeira metade da década de 1920, houve um retrocesso do movimento operário, ocasionado pelas repressões e limitações das conquistas alcançadas pela classe trabalhadora. Já na segunda metade dessa década, o movimento operário cresce influenciado por ideias comunistas, passando a exercer sua hegemonia. Surgem também várias lutas e movimentos das camadas médias da população urbana e as revoltas de militares (GOHN, 2000; LEMOS; FACEIRA, 2015). 64 UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS Movimentos messiânicos e de cangaceiros no sertão nordestino do país, como o liderado pelo padre Cícero no Ceará e por Lampião na Bahia, Revolução dos Tenentes, Coluna Prestes, lutas pela educação lideradas por Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo etc. (GOHN, 2000). UNI Na década de 1930, a economia sofre uma mudança. O movimento estru- turado pelas elites, chamado de Revolução de 30, marca um novo tempo no país, que além de produtor agrícola, passa a produtor de industrializados na área têxtil, mobiliária e de gêneros alimentícios de primeira necessidade. A classe operária sofre uma mudança em sua composição, passando a ter imigrantes nacionais, vindos do campo para a cidade; já o movimento operário teve sua atuação limitada pelas reformas e pela institucionalização de políticas sociais, que visavam atender a suas reivindicações e abrem-se oportunidades para a formação de uma classe burguesa industrial (GOHN, 2000; LEMOS; FACEIRA, 2015). Movimento dos Pioneiros da Educação, Marcha Contra a Fome, Revolução Constitucionalista de São Paulo, Revolta do Caldeirão, criação da Aliança Libertadora Nacional e o Movimento Pau de Colher (GOHN, 2000). UNI O período entre 1945 e 1964 ficou marcado na história como regime político populista, sendo propício para o surgimento de lutas e movimentos sociais. A redemocratização do país, o desenvolvimento de um cenário internacional da sociedade de consumo e a política da guerra abrem espaços propícios a projetos que visavam ao desenvolvimento nacional, nos quais criam-se condições para a instalação de indústrias multinacionais no país; são desenvolvidas políticas para o setor de energia, em que a Petrobrás é criada e estradas, silos, armazéns, portos e usinas hidrelétricas são patrocinados pelo Estado; e são inauguradas Brasília e as primeiras fábricas de automóveis. Surge também um novo setor da classe operária no ABCD paulista, os metalúrgicos, e há um crescimento do movimento operário com certa autonomia e liberdade, possibilitada pela Constituição Liberal em vigor até 1964 (GOHN, 2000; LEMOS; FACEIRA, 2015). TÓPICO 5 | TRAJETÓRIA DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL 65 Ligas Camponesas do Nordeste, Movimento dos Agricultores Sem Terra, Movimento de Educação de Base e Círculos Populares de Cultura (GOHN, 2000). UNI Nesse período, os movimentos sociais avançaram com participação crescente da população nas discussões sobre os problemas nacionais, processo interrompido com o golpe militar de 1964. Entre 1964 e 1969, foram poucos os movimentos de resistência, nos quais duas greves ficaram conhecidas, as de Contagem (MG) e de Osasco (SP); os estudantes entram em cena, influen- ciados pela situação nacional e internacional; novas leis são instituídas; e novos aparelhos burocráticos de controle são criados. O Ato Institucional nº 5 (1968) atua na cassação e punição de pessoas e estabelece duras restrições aos direitos sociopolíticos dos cidadãos. Trata-se de uma época de medo, repressão e violação dos direitos humanos, comandada por regimes militares (GOHN, 2000). No início dos anos de 1970, os movimentos sociais renascem, motivados pela Teoria da Libertação, como o Custo de Vida (depois Carestia), movimentos por transportes, direito a terra, saúde nos centros, postos de saúde, vagas nas escolas etc., o que desencadeou greves por todo o país e possibilitou a recriação e a articulação das centrais sindicais aos partidos políticos (GOHN, 2000; MONTAÑO; DURIGUETTO, 2010). Na segunda metade da década de 1970, com a redemocratização brasileira, novos atores sociais são inseridos na esfera política, cujos resultados seriam sentidos mais adiante. Associação Nacional de Movimentos Populares e Sindicais, Central Única dos Trabalhadores (CUT) e Central Geral dos Trabalhadores (CGT), Confederação Nacional das Associações de Moradores (CONAM) (GOHN, 2000). UNI Nos anos de 1980, os movimentos sociais contribuíram para o avanço e a conquista de vários direitos sociais e da elaboração da CF/88, que garantiu os direitos fundamentais dos cidadãos, declarando a morte do regime militar. Foram conquistas sociais de trabalhadores, mulheres, índios, menores e cidadãos que até então eram considerados de segunda classe. A inserção de novos atores sociais na esfera política, na década de 1970, refletiu ao longo dos anos, de 1980 a 1990, na proliferação de espaços públicos de participação da sociedade civil, como fóruns, conselhos e comitês. 66 UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS Movimento Diretas Já, Movimento Nacional dos Meninos e Meninas de Rua (MNMMR), Movimento dos Aposentados, do Negro, do Indígena (GOHN, 2000; MIRANDA; CASTILHO; CARDOSO, 2009). UNI Os anos de 1990 são marcados por desemprego, reformas, reestrutura- ções no mercado de trabalho, entre outros. Os sindicatos dos trabalhadores se enfraqueceram e passaram a lutar contra políticas de exclusão social do governo, aumentando significativamente o número de pessoas que atuam de modo informal na economia; as reivindicações dos trabalhadores passam a ter foco na luta para a manutenção do emprego, e não por melhores salários ou condições de trabalho; os movimentos sociais populares urbanos se desarticulam; a luta social no campo cresce; e o MST, criado nos anos de 1980, volta à cena, transformando- se no principal agente de conflito social no país. Um movimento que ficou marcado nessa década foi o dos “caras-pintadas”, com o intuito de estabelecer a ética na política brasileira (GOHN, 2000; MIRANDA; CASTILHO; CARDOSO, 2009; LEMOS; FACEIRA, 2015). Fóruns são espaços públicos de participação social, caracterizados por encontros periódicos para diagnosticar problemas sociais e definir metas e objetivos (GOHN, 2000). DICAS Os movimentos sociais passaram a adotar uma postura mais propositiva do que de manifestações e reivindicações, em que as contestações ficaram de lado e a ênfase recaiu para um nível mais operacional e propositivo; já os novos atores entraram em cena para lutar por inclusão e integração dos excluídos gerados pelo sistema, chamado de terceiro setor. Na década de 1990, esses movimentos se constituíram em redes, dentro do próprio movimento social e de redes com outros sujeitos sociais. Dessa forma, o seu perfil se alterou em razão da mudança da conjuntura política (GOHN, 2000; LEMOS; FACEIRA, 2015). TÓPICO 5 | TRAJETÓRIA DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL 67 O terceiro setor é composto de organizações, movimentos sociais, organizações não governamentais (ONG), associações comunitárias, fundações, entidades filantrópicas, empresas cidadãs etc. (GOHN, 2000). DICAS O ano 2000 é marcado pela volta dos movimentos sociais à cena política. Os movimentos sociais urbanos retomam lentamente em outras bases, integrando a experiência assimilada nos processos de participação em conselhos, fóruns e outros meios institucionalizados de participação; o MST retorna com novo fôlego, se espalhando por todo o país; os estudantes voltam às ruas, mais politizados e lutando contra o desemprego e a corrupção; os professores entram em greve; e outras categorias também passam a se organizar e protestar. Surgem também as ONG, como uma nova forma de resistência em substituição aos movimentos sociais, que se organizam para defender osdireitos e reconstruir a vida social. Desse período até os dias atuais, muitos eventos aconteceram e ainda acontecem por meio de manifestações, marchas e ocupações contra a política, a corrupção, a falta de ética dos políticos etc. O perfil dos participantes também se modificou e hoje são chamados de ativistas. Um fato interessante que deve ser destacado é a convocação e organização dos movimentos sociais pelas redes sociais, que ganha mais força a cada dia (GOHN, 2004). Você pode perceber que os movimentos sociais sempre existiram e continuarão existindo para dar voz à sociedade civil na conquista e manutenção de direitos e espaços de participação social, contribuindo para o fortalecimento da cidadania e da democracia brasileira. Movimentos dos índios, movimento dos caminhoneiros das estradas, dos perueiros, entre outros (GOHN, 2000). UNI 68 RESUMO DO TÓPICO 5 Neste tópico, você aprendeu que: • Os Movimentos sociais são ações coletivas de caráter sociopolítico, construídas por atores sociais pertencentes a diferentes classes e camadas sociais. • Os Movimentos sociais politizam suas demandas e criam um campo político de força social na sociedade civil. • As ações dos Movimentos Sociais se estruturam a partir de repertórios criados sobre temas e problemas em situações de conflitos, litígios e disputas. • As ações dos Movimentos Sociais desenvolvem um processo social e político- cultural que cria uma identidade coletiva ao movimento, a partir de interesses em comum. • A identidade dos Movimentos Sociais decorre da força do princípio da solidariedade e é construída a partir da base referencial de valores culturais e políticos compartilhados pelo grupo. • Os movimentos sociais se estruturam com base em um grupo social que compartilha uma dada situação social a qual gera insatisfação, causando neles um sentimento de pertencimento e objetivos específicos a serem alcançados por meio de reivindicações, projetos etc. • Os movimentos sociais populares são compostos, na maioria das vezes, de classes sociais desprivilegiadas e, geralmente, sofrem processos de dominação, exploração, subordinação e marginalização. • Os movimentos sociais podem ser classificados em três tipos: o Conservadores: visam retomar uma situação que existia anteriormente ou impedir que reivindicações de grupos sociais opostos se mantenham. São monoclassistas ou policlassistas, com predomínio das classes privilegiadas. o Progressistas ou reformistas: visam mudar a situação do grupo social. São policlassistas, com grande presença de burocracia e intelectualidade. o Revolucionários: visam a uma mudança radical da situação que somente é possível se uma nova sociedade surgir para substituir a atual. Constituísse como um processo que resolve o problema do grupo social. Podem ser monoclassistas ou policlassistas. • A participação social se configura como um processo que estimula o compartilhamento de poder por meio do fortalecimento da sociedade civil e da construção de caminhos que permitam alcançar uma nova realidade social pela cultura cidadã. • A educação popular possui caráter transformador e libertador, tendo como princípios de sua existência justiça social e igualdade de direitos, uma vez que permite a emancipação e autonomia dos indivíduos, que assumem o papel de sujeitos de sua própria história. 69 1 Os movimentos sociais possuem inúmeras diferenças, que decorrem de suas orientações políticas e ramificações. As orientações políticas são determinadas pela formação social do grupo social de base e pela hegemonia no seu interior. Como são chamados os movimentos que visam retomar uma situação que existia anteriormente ou impedir que reivindicações de grupos sociais opostos se mantenham? a) ( ) Burocráticos. b) ( ) Revolucinários. c) ( ) Reformistas. d) ( ) Radicais. e) ( ) Conservadores. 2 Desde os tempos do Brasil Colônia, nossa sociedade é marcada por lutas e movimentos sociais contra a dominação, a exploração econômica e a exclusão social. Na primeira metade da década de 1920, as repressões e limitações das conquistas alcançadas pela classe trabalhadora geraram impacto no movimento operário. Que impacto foi esse? a) ( ) Crise. b) ( ) Avanço. c) ( ) Eliminação. d) ( ) Retrocesso. e) ( ) Revolta. AUTOATIVIDADE 70 71 TÓPICO 6 CIDADANIA E MOVIMENTOS SOCIAIS UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Nesse excerto de texto de Smart mobs, Howard Rheingold (2003) descreve um novo fenômeno no qual estranhos ligados por aparelhos de comunicação móvel convergem espontaneamente para atingir determinada meta. Rheingold, uma autoridade reconhecida no tocante às implicações sociais das novas tecnologias, identificou um comportamento social que está surgindo. Pode-se esperar esses efeitos não previstos. Geralmente, as novas tecnologias não podem evitar a mudança da maneira como as pessoas vivem as suas vidas e, por extensão, a evolução da sua cultura e sociedade. A invenção do computador pessoal e a sua integração na vida cotidiana das pessoas são um outro exemplo da mudança social que em geral se segue à introdução de uma nova tecnologia. A mudança social foi definida como uma alteração significativa nos padrões de comportamento e cultura, incluindo normas e valores (MOORE, 1967). O que é uma alteração “significativa”? Certamente, o aumento drástico na educação formal. Como veremos neste tópico os movimentos sociais desempenharam um papel importante na realização de mudanças sociais. Como ocorre uma mudança social? O processo é imprevisível ou podemos fazer determinadas generalizações a seu respeito? Por que algumas pessoas resistem às mudanças sociais? Que mudanças poderão advir das tecnologias do futuro? E quais foram os efeitos negativos das mudanças tecnológicas radicais do século passado? Examinaremos o processo de mudança social, com ênfase especial no impacto dos avanços tecnológicos. Começaremos com os movimentos sociais – esforços coletivos para efetuar mudanças sociais propositais. Depois, discutiremos a mudança social imprevista que ocorre quando inovações, como novas tecnologias, englobam a sociedade. Os esforços para explicar essas mudanças sociais de longo prazo levaram à elaboração de teorias sobre a 72 UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS mudança. Analisaremos as abordagens evolucionária, funcionalista e do conflito da mudança. Veremos como grupos interessados em manter o seu poder tentam bloquear mudanças que consideram ameaçadoras. Os vários aspectos do nosso futuro tecnológico, como a internet e a biotecnologia, também serão analizados. Examinaremos os efeitos dos avanços tecnológicos sobre a cultura e a interação social, o controle social e a estratificação e a desigualdade social. Juntos, os impactos dessas mudanças tecnológicas podem estar aproximando-se de um grau de magnitude comparável ao da Revolução Industrial. Por fim, na seção de política social discutiremos as formas pelas quais as mudanças tecnológicas intensificaram as preocupações com a privacidade e a censura. 2 MOVIMENTOS SOCIAIS Embora fatores como meio ambiente físico, população, tecnologia e desigualdade social sirvam como fontes de mudança, é o esforço coletivo das pessoas, organizado em movimentos sociais, que leva definitivamente a transfor- mações. Os sociólogos utilizam a expressão movimento social para se referir às atividades coletivas organizadas para efetuar ou enfrentar as mudanças básicas em um grupo ou uma sociedade existente (BENFORD, 1992). Herbert Blumer (1955, p. 19) reconheceu a importância especial dos movimentos sociais quando os definiu como “empreendimentos coletivos para definir uma nova ordem de vida”. Em muitos países, incluindo os Estados Unidos, os movimentos sociais tiveram um impacto crucial sobre o curso da história e a evolução da estrutura social. Considere os atos dos abolicionistas, sufragistas, trabalhadores dos direitos civis e ativistascontra a guerra no Vietnã. Os membros de cada um desses movimentos sociais saíram dos canais tradicionais para provocar mudanças sociais, mas tiveram uma influência notável sobre a política pública. Esforços coletivos igualmente drásticos ajudaram a derrubar regimes comunistas de maneira, em grande parte, pacífica, em países que muitos observadores con- sideravam “imunes” a essas mudanças sociais (RAMET, 1991). TÓPICO 6 | CIDADANIA E MOVIMENTOS SOCIAIS 73 UNI “Ei, Bush/ Quem luta as suas guerras?/ Só as minorias e os pobres!” Os alunos do ensino médio de Los Angeles protestam contra a guerra no Iraque fazendo uma demonstração de apoio aos trabalhadores em greve de um supermercado em Eagle Rock, Califórnia. Na sua demonstração contra a guerra e a favor de práticas trabalhistas justas, o grupo, denominado “As Animadoras de Torcida Adolescentes Radicais”, ilustra a teoria da privação relativa dos movimentos sociais. Embora os movimentos sociais pressuponham a existência de conflito, podemos analisar suas atividades do ponto de vista funcionalista. Mesmo quando não são bem-sucedidos, eles contribuem para a formação da opinião pública. Primeiro, as pessoas achavam que as idéias de Margaret Sanger e outras pioneiras defensoras do controle de natalidade eram radicais. Porém, hoje os contraceptivos estão amplamente disponíveis nos Estados Unidos. Além disso, os funcionalistas encaram os movimentos sociais como treinamento para os líderes da classe dirigente política. Chefes de Estado, como Fidel Castro, de Cuba, e Nelson Mandela, que presidiu a África do Sul, chegaram ao poder depois de atuarem como líderes de movimentos revolucionários. O polonês Lech Walesa, o russo Boris Yeltsin e o autor de teatro tcheco Vaclav Havel lideraram movimentos de protesto contra o domínio comunista e depois se tornaram líderes dos governos de seus países. Como e por que surgem os movimentos sociais? Obviamente, as pessoas, muitas vezes, estão desconten-tes com a maneira como as coisas estão. Mas o que as faz se organizarem em determinado momento em um esforço coletivo de provocar mudanças? Os sociólogos se baseiam em duas explicações do motivo pelo qual as pessoas se mobilizam: as abordagens da relativa privação e da mobilização de recursos. 74 UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS 3 PRIVAÇÃO RELATIVA Os membros de uma sociedade que se sentem frustrados e descontentes com as condições sociais e econômicas não estão necessariamente, do ponto de vista objetivo, em uma situação ruim. Os cientistas sociais há tempos reconhecem que o mais importante é como as pessoas percebem a sua situação. Como assinalou Karl Marx, a miséria dos trabalhadores foi importante para que percebessem a opressão que sofriam, tendo em vista a sua posição em relação à classe capitalista dominante (MARX E ENGELS [1847] 1955). A expressão privação relativa é definida como a sensação consciente de uma discrepância negativa entre as expectativas legítimas e a realidade presente (John WILSON, 1973). Em outras palavras, as coisas não vão tão bem quanto você esperava que fossem. Esse tipo de situação pode ser caracterizado por escassez e não por uma ausência completa das necessidades (como vimos na distinção entre pobreza absoluta e pobreza relativa no Capítulo 9). Uma pessoa relativamente carente está insatisfeita porque se sente oprimida em relação a algum grupo de referência adequado. Consequentemente, os operários que vivem em casas bifamiliares (geminadas) em pequenos pedaços de terra – embora não estejam na parte mais baixa da escala social – podem sentir-se privados em relação aos gerentes de empresas e aos profissionais que moram em casas suntuosas em subúrbios de elite. Além da sensação de relativa privação, dois outros elementos têm de estar presentes antes de o descontentamento ser canalizado para um movimento social. As pessoas precisam sentir que têm direito a seus objetivos, que merecem coisa melhor do que aquilo que possuem. Por exemplo, a luta contra o colonialismo europeu na África se intensificou quando uma quantidade cada vez maior de africanos decidiu que era legítimo ter independência política e econômica. Ao mesmo tempo, o grupo menos favorecido tem de sentir que não pode atingir suas metas por meios convencionais. Essa crença pode ser ou não correta. Em ambos os casos, o grupo não irá mobilizar-se em um movimento social se não houver uma percepção compartilhada de que os seus membros só podem acabar com a sua privação por intermédio de uma ação coletiva (MORRISON, 1971). Os críticos dessa abordagem observaram que as pessoas não têm de se sentir privadas de algo para serem impelidas a agir. Além disso, essa abordagem não explica por que determinadas sensações de privações se transformam em movimentos sociais enquanto em outras sensações semelhantes não se faz um esforço coletivo para remodelar a sociedade. Como decorrência, nos últimos anos, os sociólogos vêm dando cada vez mais atenção às forças necessárias para provocar o surgimento de movimentos sociais (ALAIN, 1985; FINKEL; RULE, 1987; ORUM, 1980) TÓPICO 6 | CIDADANIA E MOVIMENTOS SOCIAIS 75 4 MOBILIZAÇÃO DE RECURSOS É preciso mais do que desejo para dar início a um movimento social. Ter dinheiro, influência política, acesso aos meios de comunicação e pessoal ajuda. A expressão mobilização de recursos se refere às maneiras como um movimento social utiliza esses recursos. O êxito de um movimento por mudanças depende em grande parte de seus recursos e de quão eficazmente ele os utiliza (ver também Gamson, 1989; Staggenborg, 1989a, 1989b). O sociólogo Anthony Oberschall (1973, p. 199) argumenta que, para sustentar um protesto ou uma resistência social, é preciso que haja “uma base organizada e continuidade de liderança”. Quando as pessoas decidem participar de um movimento social, surgem regras que orientam o seu comportamento. Pode-se esperar que os membros do movimento participem de reuniões regula- res de organizações, paguem taxas, recrutem novos participantes e boicotem produtos ou locutores do “inimigo”. Um movimento social emergente pode fazer surgir uma linguagem especial ou novas palavras para termos/ex-pressões familiares. Nos últimos anos, os movimentos sociais vêm sendo responsáveis por novos termos/expressões de auto-referência, como negros e afro-americanos (para substituir crioulos), cidadãos seniores (para substituir idosos), gays (para substituir homossexuais) e pessoas portadoras de deficiências (para substituir deficientes). A liderança é o fator central na mobilização dos descontentes em movimentos sociais. Geralmente, um movimento é liderado por uma figura carismática, como o Dr. Martin Luther King Jr. Como descreveu Max Weber em 1904, carisma é aquela qualidade de alguém que o destaca das pessoas comuns. Evidentemente, o carisma pode desvanecer abruptamente, o que ajuda a explicar a fragilidade de determinados movimentos sociais (MORRIS, 2000). Porém, muitos movimentos sociais persistem por longos períodos de tempo porque a sua liderança é bem organizada e contínua. Ironicamente, como observou Robert Michels (1915), os movimentos sociais que lutam por mudanças sociais acabam assumindo alguns dos aspectos da burocracia contra a qual se organizaram para protestar. Os líderes tendem a dominar o processo de tomada de decisões sem consultar seus seguidores. No entanto, a burocratização dos movimentos sociais não é inevitável. Movimentos mais radicais, que defendem importantes mudanças estruturais em uma sociedade e adotam ações de massa, tendem a não ser hierárquicos ou burocráticos Fitzgerald e Rodgers (2000). Atualmente, o Movimento dos Sem-Terra (MST) é o o movimento social mais radical no Brasil ao reivindicar uma ampla distribuição de terras em todo o território nacional. Seus métodos de ação são também radicais, pois os membros entram em conflito direto com fazendeiros, invadem propriedades, queimam e destroem benfeitorias e destroemas plantações, desrespeitando a instituição da propriedade privada e exigindo desapropriações mesmo de terras produtivas. 76 UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS A reforma agrária está em processo no País e seus resultados até agora não têm sido promissores, já que as famílias assentadas produzem muito pouco por falta de instrumentos de trabalho, insumos básicos e, muitas vezes, por falta de conhecimento porque o recrutamento dos membros do MST admite desempre- gados das cidades e não apenas aqueles com tradição no – ou originalmente do – trabalho rural. Por que determinadas pessoas se associam a um mo-vimento social e outras que estão em situação semelhante não o fazem? Algumas delas são recrutadas para fazer parte. Karl Marx reconheceu a importância do recrutamento quando convocou os trabalhadores a se conscientizarem do seu status de oprimidos e criarem uma consciência de classe. Como os teóricos da abordagem da mobilização de recursos, Marx argumentava que um movimento social (especificamente, a revolta do proletariado) iria requerer que os líderes aguçassem a consciência dos oprimidos. Eles teriam de ajudar os trabalhadores a superar a sensação de falsa consciência, ou atitudes que não refletem a sua posição objetiva, para organizar um movimento revolucionário. Da mesma maneira, um dos desafios enfrentados pelas atividades do movimento de liberação feminina do final da década de 1960 e início da de 1970 era convencer as mulheres de que estavam sendo privadas de seus direitos e de recursos sociais valorizados socialmente. Mesmo em movimentos que surgem praticamente de um dia para o outro em resposta a eventos como uma guerra impopular, os recrutadores têm um papel importante. Durante a Guerra do Iraque em 2003, organizadores externos ajudaram a inflamar os protestos estudantis. 5 O SEXO E OS MOVIMENTOS SOCIAIS Os sociólogos destacam que o sexo é um elemento importante na compreensão dos movimentos sociais. Na nossa sociedade dominada pelos homens, as mulheres têm mais dificuldade do que eles de assumirem cargos de liderança em organizações de movimentos sociais. Embora, muitas vezes, as mulheres trabalhem desproporcionalmente como voluntárias nesses movimentos, o seu trabalho não é sempre reconhecido nem suas vozes são ouvidas com tanta facilidade quanto a dos homens. Além disso, a tendência sexual faz que a extensão real da influência das mulheres seja ignorada. A análise tradicional do sistema sociopolítico tende a se concentrar em corredores do poder dominados pelos homens, como as legislaturas e diretorias de empresas, em detrimento de domínios mais femininos, como casas, grupos comunitários e redes baseadas na fé. Porém, os esforços para influenciar valores familiares, a criação de filhos, a relação entre pais e escolas e os valores espirituais são claramente importantes para uma cultura e para a sociedade (FERREE; MERRILL, 2000; NOONAN, 1995). TÓPICO 6 | CIDADANIA E MOVIMENTOS SOCIAIS 77 Os estudiosos dos movimentos sociais hoje se dão conta de que o sexo pode afetar até a maneira como vemos os esforços organizados para provocar ou enfrentar as mudanças. Por exemplo, a ênfase na utilização da racionalidade e da lógica fria para atingir metas ajuda a obscurecer a importância da paixão e da emoção nos movimentos sociais bem-sucedidos. Seria difícil encontrar algum movimento – das lutas dos trabalhadores pelos direitos de votar aos embates pelos direitos dos animais – no qual a paixão não tenha sido parte da força criadora do consenso. As convocações para um estudo mais sério do papel da emoção frequentemente são vistas como aplicáveis apenas aos movimentos das mulheres, pois a emoção é tradicionalmente considerada algo feminino (FERREE; MERRILL, 2000; TAYLOR, 1995). 6 NOVOS MOVIMENTOS SOCIAIS No final da década de 1960, os cientistas sociais europeus observaram uma mudança tanto na composição quanto nas metas dos movimentos sociais que estavam surgindo. Anteriormente, os movimentos sociais tradicionais se concentravam nas questões econômicas, e eram liderados por sindicatos ou por pessoas que tinham a mesma profissão. No entanto, muitos movimentos sociais que se tornaram ativos nas últimas décadas – incluindo o movimento contemporâneo das mulheres – não têm as raízes de classe social típicas dos protestos de trabalhadores nos Estados Unidos e na Europa no século passado (TILLY, 1993). A expressão novos movimentos sociais se refere a atividades coletivas organizadas que abordam valores e identidades sociais, bem como melhorias na qualidade de vida. Esses movimentos podem estar envolvidos na criação de identidades coletivas. Muitos deles têm agendas complexas que vão além de uma única questão e às vezes até ultrapassam as fronteiras nacionais. Pessoas educadas de classe média são representadas de maneira significativa em alguns desses novos movimentos sociais, como o das mulheres e o movimento pelos direitos dos gays e lésbicas. Os novos movimentos sociais geralmente não veem o governo com um aliado na luta por uma sociedade melhor. Embora eles via de regra não tentem derrubar o governo, podem criticar, protestar ou importunar seus representantes. Os pesquisadores descobriram que os membros dos novos movimentos sociais apresentam pouca inclinação para aceitar a autoridade estabelecida, até mesmo a autoridade científica ou técnica. Essa característica está mais evidente nos movimentos ambientais e antienergia nuclear, cujos ativistas apresentam os seus próprios peritos para se oporem aos do governo ou das grandes empresas (GARNER, 1996; POLLETTA; JASPER, 2001; SCOTT, 1990). 78 UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS O movimento ambiental é um dos novos movimentos com um foco mundial. Em seus esforços para reduzir a poluição do ar e da água, reduzir o aquecimento global e proteger espécies animais em perigo de extinção, os ativistas ambientais perceberam que medidas regulamentadoras rígidas em um único país não são suficientes. Da mesma maneira, os líderes sindicais e defensores dos direitos humanos não podem abordar as condições de exploração das oficinas em um país em desenvolvimento se uma empresa multinacional é capaz de simplesmente transferir a fábrica para um outro país onde os trabalhadores ganham menos ainda. Enquanto as teorias tradi-cionais sobre os movimentos sociais tendiam a enfatizar a mobilização de recursos em âmbito local, a teoria do novo movimento social oferece uma perspectiva mais ampla e global sobre o ativismo social e político. 7 TEORIAS DE MUDANÇAS SOCIAIS O novo milênio nos dá a chance de apresentar explicações para as mudanças sociais, que definimos como uma mudança significativa com o decorrer do tempo nos padrões de comportamento e na cultura. Essas explicações evidentemente são um desafio no mundo diversificado e complexo no qual vivemos. Mesmo assim, os teóricos de várias disciplinas vêm tentando analisar as mudanças sociais. Em alguns casos, analisaram acontecimentos históricos para entender melhor as mudanças contem-porâneas. Vamos revisar três teorias sobre a mudança – a evolucionista, a funcionalista e a do conflito – e depois examinaremos as mudanças mundiais. Contribuições para a teoria do movimento social UNI Abordagem Ênfase Abordagem da privação relativa Os movimentos socia is têm grande probabilidade de surgir quando as expectativas crescentes são frustradas. Abordagem da mobilização de recursos Teoria do novo movimento social O êxito dos movimentos sociais depende de quais recursos estão disponíveis e de quão eficazmente são utilizados. Os movimentos sociais surgem quando as pessoas estão motivadas por questões de valor e identidade social. TÓPICO 6 | CIDADANIA E MOVIMENTOS SOCIAIS 79 8 TEORIA EVOLUCIONISTA O trabalho pioneiro de Charles Darwin (1809-1882) a respeito da evolução biológica contribuiu para as teorias sobre mudanças sociais do século XIX. A abordagem de Darwinenfatiza uma progressão contínua de formas de vida sucessivas. Por exemplo, os seres humanos apareceram depois dos répteis na evolução e representam uma forma de vida mais complexa. Na busca de uma analogia com esse modelo biológico, os teóricos sociais deram origem à teoria evolucionista, na qual a sociedade é vista como caminhando em uma direção definida. Os primeiros teóricos evolucionistas concordavam que a sociedade estava progredindo inevitavelmente para um estado mais elevado. Como era de se esperar, concluíram, à moda etnocêntrica, que seus próprios comportamento e cultura eram mais avançados do que das civilizações anteriores. Augusto Comte (1798-1857), um dos fundadores da sociologia, foi um teórico evolucionista das mudanças. Ele via as sociedades humanas como avançando da mitologia para o método científico na sua maneira de pensar. Da mesma maneira, Émile Durkheim ([1893] 1933) argumentou que a sociedade evoluía de formas simples para formas mais complexas de organização social. As obras de Comte e Durkheim são exemplos da teoria evolucionista unilinear. Esta abordagem afirma que todas as sociedades passam pelas mesmas fases sucessivas de evolução e inevitavelmente atingem o mesmo fim. O sociólogo inglês Herbert Spencer (1820-1903) utilizou uma abordagem semelhante: igualou a sociedade a um corpo vivo cujas partes interligadas caminhavam para um destino comum. No entanto, os teóricos evolucionistas contemporâneos, como Gerhard Lenski, têm mais probabilidade de considerar as mudanças sociais como multilineares do que se basearem na perspectiva unilinear mais limitada. A teoria evolucionista multilinear defende que as mudanças podem ocorrer de várias maneiras e não levam inevitavelmente à mesma direção (HAINES, 1988; TURNER, 1985). Os adeptos da teoria multilinear reconhecem que a cultura humana evoluiu ao longo de várias linhas. Por exemplo, a teoria da transição demográfica demonstra graficamente que a mudança na população nos países em desenvolvimento não seguiu necessariamente o modelo evidente nos países industrializados. Os sociólogos hoje argumentam que os acontecimentos não seguem uma ou mesmo várias linhas retas, em vez disso, estão sujeitos a rupturas – um tópico que analisaremos mais adiante na nossa discussão das mudanças sociais mundiais. 80 UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS 9 TEORIA FUNCIONALISTA Como os sociólogos funcionalistas se concentram naquilo que mantém um sistema e não no que o muda, aparentemente contribuem pouco para o estudo das mudanças sociais. Entretanto, como demonstra o trabalho do sociólogo Talcott Parsons, os funcionalistas fizeram uma contribuição singular para essa área da investigação sociológica. Parsons (1902-1979), um dos principais proponentes da teoria funcionalista, via a sociedade como estando em um estado natural de equilíbrio. Com “equilíbrio” ele queria dizer que a sociedade tende para um estado de estabilidade. Parsons via até as greves prolongadas de trabalhadores ou motins civis como transtornos temporários no status quo e não como alterações signifi- cativas na estrutura social. Consequentemente, de acordo com o seu modelo de equilíbrio, à medida que ocorrem mudanças em uma parte da sociedade, é preciso fazer ajustes em outras partes. Se isso não acontecer, o equilíbrio da sociedade estará ameaçado e ocorrerão tensões. Refletindo sobre a abordagem evolucionista, Parsons (1966) defendia que quatro processos de mudanças sociais são inevitáveis. O primeiro, a diferenciação, refere-se à complexidade cada vez maior da organização social. A transição do “homem de medicina” para médico, enfermeira e farmacêutico ilustra a diferenciação na área de saúde. Esse processo é acompanhado pelo de atualização adaptativa, no qual as instituições sociais se tornam mais especializadas em seus fins. A divisão dos médicos em obstetras, residentes, cirurgiões etc. é um exemplo de atualização adaptativa. O terceiro processo que Parsons identificou é da inclusão de grupos excluídos anteriormente por causa de seu sexo, sua raça, etnia e seu histórico de classe social. As escolas de medicina praticaram a inclusão admitindo uma quantidade cada vez maior de mulheres e negros. Por fim, Parsons argumenta que as sociedades passam por uma generalização de valores, ou seja, a criação de novos valores que toleram e legitimam uma gama maior de atividades. A aceitação das medicinas preventivas e alternativas é um exemplo de generalização de valores: a sociedade ampliou a sua visão da área de saúde. Todos os quatro processos identificados por Parsons enfatizam o consenso – a concordância da sociedade quanto à natureza da organização social e dos valores (JOHNSON, 1975; WALLACE; WOLF, 1980). Embora a abordagem de Parsons incorpore explicitamente o conceito evolucionista do progresso contínuo, o tema dominante em seu modelo é o equilíbrio e a estabilidade. A sociedade pode mudar, mas continua estável mediante novas formas de integração. Por exemplo, no lugar dos elos de parentesco que propiciavam a coesão social no passado, as pessoas criaram leis, processos judiciais e novos sistemas de valores e de crenças. TÓPICO 6 | CIDADANIA E MOVIMENTOS SOCIAIS 81 UNI Desde 1990, golfistas negros, como Tiger Woods, vêm sendo bem recebidos nos campos de golfe particulares mais exclusivos. A sua aceitação em enclaves antes exclusivamente de brancos, como o Augusta National Golf Club, sede do Torneio de Veteranos, ilustra o processo de inclusão descrito por Talcott Parsons. No entanto, esse processo está longe da conclusão. As mulheres ainda são impedidas de fazer parte do Augusta National e outros clubes de elite, independentemente de quão ricas ou bem-sucedidas sejam. Os funcionalistas pressupõem que as instituições sociais só persistirão se continuarem a contribuir para a sociedade. Essa hipótese os leva a concluir que alterar drasticamente as instituições irá ameaçar o equilíbrio da sociedade. Os críticos observam que a abordagem funcionalista quase ignora o uso da coerção pelos poderosos para manter a ilusão de uma sociedade estável e bem integrada (GOULDNER, 1960). 10 TEORIA DO CONFLITO A perspectiva funcionalista minimiza a importância da mudança, enfatiza a persistência da vida social e vê a mudança como uma forma de manter o equilíbrio de uma sociedade. Opostamente, os teóricos do conflito argumentam que as instituições e práticas sociais persistem porque grupos poderosos têm a capacidade de manter o status quo. A mudança tem uma importância crucial, já que é necessária para corrigir injustiças e desigualdades sociais. 82 UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS Karl Marx aceitou o argumento evolucionista de que as sociedades se desenvolvem ao longo de uma determinada trilha. Mas, ao contrário de Comte e Spencer, não via cada uma das etapas sucessivas como uma melhoria inevitável da anterior. A história, segundo Marx, segue em frente por uma série de etapas, cada uma delas explorando uma classe de pessoas. A sociedade antiga explorava os escravos; o sistema feudal explorava os servos, e a sociedade capitalista moderna explora a classe trabalhadora. No fim, com a revolução socialista liderada pelo proletariado, a sociedade humana irá caminhar para a etapa final de desenvolvimento: uma sociedade comunista sem classe ou “comunidade de indivíduos livres”, como Marx a descrevia em Das Kapital (O capital) em 1867 (ver Bottomore e Rubel, 1956, p. 250). Como vimos, Marx teve uma influência importante no desenvolvimento da sociologia. A sua maneira de pensar nos proporcionou insights sobre instituições, como economia, família, religião e governo. A visão marxista das mudanças sociais é atraente porque não restringe as pessoas ao papel passivo na reação aos ciclos inevitáveis ou às mudanças na cultura material. Em vez disso, a teoria marxista oferece uma ferramenta para aqueles que querem apoderar- se do controle do processo histórico e libertar-seda injustiça. Ao contrário da ênfase dos funcionalistas na estabilidade, Marx argumenta que o conflito é um aspecto normal e desejável da mudança social. Na verdade, a mudança precisa ser incentivada como um meio de eliminar a desigualdade social (LAUER, 1982). Um teórico do conflito, Ralf Dahrendorf (1958), observou que o contraste entre a perspectiva funcionalista na estabilidade e o foco da teoria do conflito na mudança reflete a natureza contraditória da sociedade. As sociedades humanas são estáveis e duradouras, porém vivenciam graves conflitos. Dahrendorf descobriu que a abordagem funcionalista e a teoria do conflito no final eram compatíveis, apesar dos seus vários pontos de discordância. Na verdade, Parsons falou de novas funções que resultam das mudanças sociais e Marx reconheceu a necessidade de mudanças para que as sociedades pudessem atuar de uma maneira mais igualitária. 11 MUDANÇAS SOCIAIS MUNDIAIS Estamos em um momento realmente crucial da história para analisar as mudanças sociais. Maureen Hallinan (1997), em seu discurso presidencial para a American Sociological Association, pediu aos presentes que pensassem apenas em alguns poucos acontecimentos políticos recentes: o colapso do comunismo; o terrorismo em várias partes do mundo, incluindo os Estados Unidos; as mudanças importantes de regimes e os problemas econômicos graves na África, no Oriente Médio e na Europa Oriental; a difusão da Aids; e a revolução do computador. Apenas alguns meses após suas observações, ocorreu a primeira clonagem de um animal complexo: a ovelha Dolly. TÓPICO 6 | CIDADANIA E MOVIMENTOS SOCIAIS 83 Nessa era de grandes transformações sociais, políticas e econômicas em escala mundial, é possível prever mudanças? Algumas mudanças tecnológicas parecem evidentes, mas a queda de governos comunistas na antiga União Soviética e na Europa Oriental no início da década de 1990 pegou todo mundo de surpresa. Contudo, antes da queda da União Soviética, o sociólogo Randall Collins (1986, 1995), um teórico do conflito, observou uma sequência crucial de eventos que havia passado despercebida da maioria dos observadores. Em seminários de 1980 e em um livro publicado em 1986, Collins havia argumentado que o expansionismo soviético resultara em uma superextensão de recursos, incluindo gastos desproporcionais com forças militares. Essa superextensão pressiona a estabilidade de um regime. Além disso, a teoria geopolítica sugere que os países no meio de uma região geográfica, como a União Soviética, tendem a se fragmentar em unidades menores com o decorrer do tempo. Collins previu que a coincidência das crises sociais em várias fronteiras iria precipitar o colapso da União Soviética. E foi exatamente isso o que aconteceu. Em 1979, o êxito da revolução iraniana levou à explosão do fundamentalismo islâmico no vizinho Afeganistão, bem como nas repúblicas soviéticas com grandes populações muçulmanas. Ao mesmo tempo, a resistência ao domínio comunista aumentava em toda a Europa Oriental e dentro da própria União Soviética. Collins havia previsto que a ascensão de uma forma dissidente de comunismo dentro da União Soviética poderia facilitar o colapso do regime. No final dos anos 80, o líder soviético Mikhail Gorbachev optou por não utilizar forças militares e outros tipos de repressão para conter dissidentes na Europa Oriental. Em vez disso, apresentou UNI A queda do regime totalitário de Saddam Hussein no Iraque, em 2003, foi uma das várias mudanças de regime que ocorreram no início do século XXI. Em uma sociedade global, essas mudanças afetam as pessoas no mundo todo e não em apenas um país. 84 UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS planos para a democratização e reforma social da sociedade soviética e parecia disposto a remodelar a União Soviética em uma federação de estados mais ou menos independentes. Porém, em 1991, seis repúblicas da periferia ocidental declararam a sua independência e alguns meses depois toda a União Soviética havia formalmente se desintegrado na Rússia e em uma série de outros países independentes. No seu discurso, Hallinan (1997) alertou que temos de ir além dos modelos restritivos da mudança social – a visão linear da teoria evolucionista e as hipóteses sobre o equilíbrio na teoria funcionalista. Ela e outros sociólogos recorreram à “teoria do caos” apresentada pelos matemáticos para entender os acontecimentos erráticos como parte da mudança. Hallinan observou que as grandes mudanças caóticas e revoluções ocorrem de fato e que os sociólogos precisam aprender a prever esses eventos, assim como Collins fez com a União Soviética. Por exemplo, imagine a impressionante mudança social não linear que resultaria de inovações nas comunicações e na biotecnologia – tópicos que serão abordados neste capítulo. 12 RESISTÊNCIA ÀS MUDANÇAS SOCIAIS Os esforços para realizar mudanças sociais provavelmente irão encontrar resistência. No meio de rápidas inovações científicas e tecnológicas, muitas pessoas se assustam com as demandas de uma sociedade em constante trans- formação. Além disso, determinados indivíduos e grupos têm interesse em manter o status quo. O economista Thorstein Veblen (1857-1929) cunhou a expressão interesses investidos para se referir àquelas pessoas ou grupos que irão sofrer no caso de uma mudança social. Por exemplo, a American Medical Association (AMA) assumiu posições firmes contra o seguro-saúde nacional e a profissionalização da obstetrícia. O seguro-saúde nacional poderia levar a limites nas rendas dos médicos e a elevação do status das parteiras poderia ameaçar a posição preeminente dos médicos como realizadores de partos. No geral, com uma parcela desproporcional da riqueza, do status e do poder da sociedade, esses membros da Associação Médica Norte-Americana têm interesse em preservar o status quo (STARR, 1982; VEBLEN, 1919). 13 FATORES ECONÔMICOS E CULTURAIS Os fatores econômicos têm um papel importante na resistência às mu- danças sociais. Para exemplificar, pode ser caro, para os fabricantes, atender altos padrões de segurança para os produtos, os trabalhadores e para a proteção do meio ambiente. Os teóricos do conflito argumentam que, em um sistema econômico capitalista, muitas empresas não estão dispostas a pagar o preço TÓPICO 6 | CIDADANIA E MOVIMENTOS SOCIAIS 85 UNI “Não no meu quintal” NIMBY, dizem esses manifestantes, opondo-se à colocação de um novo incinerador em uma região de Highland Park, Michigan. O fenômeno NIMBY tornou-se tão comum que é quase impossível os elaboradores de políticas encontrarem localidades aceitáveis para incineradores, aterros e lixões de materiais perigosos. para atender a padrões rígidos de segurança e ambientais. E podem resistir às mudanças sociais economizando ou pressionando o governo para amenizar as regulamentações. As comunidades também defendem os seus inte-resses, muitas vezes em nome de “proteger valores de propriedade”. A abreviação NIMBY significa “não no meu quintal”, um grito ouvido muitas vezes quando as pessoas protestam contra aterros, prisões, instalações de usinas nucleares e até trilhas para bicicleta e casarios para pessoas portadoras de deficiências. A comunidade visada pode não questionar a necessidade das instalações, mas simplesmente insiste que sejam colocadas em outro lugar. A atitude do tipo “não no meu quintal” tornou- se tão comum que é quase impossível, para os elaboradores de política, encontrar locais para instalações como lixões de materiais perigosos (JASPER, 1997). Como os fatores econômicos, os fatores culturais frequentemente moldam a resistência às mudanças. William F. Ogburn (1922) fez uma diferenciação entre os aspectos materiais e imateriais da cultura. A cultura material inclui invenções, artefatos e tecnologia. A cultura imaterial engloba ideias, regras, comunicações e organização social. Ogburn assinalou que não é possível criar métodos para controlar e utilizar nova tecnologiaantes da introdução de uma técnica. Desse modo, a cultura imaterial normalmente tem de reagir a mudanças na cultura material. Ogburn introduziu a expressão hiato, atraso ou defasagem cultural para se referir ao período de inadaptação, quando a cultura imaterial ainda está lutando para se ajustar a novas condições materiais. Um exemplo disso é 86 UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS 14 RESISTÊNCIA À TECNOLOGIA Inovações tecnológicas são exemplos de mudanças na cultura material que provocam resistência. UNI Em Londres, uma mulher de telefone celular caminha por uma linha de cabines telefônicas obsoletas recicladas como arte ambiental. No mundo todo, as mudanças tecnológicas derrubaram os canais de comunicação estabelecidos, alterando as interações sociais cotidianas das pessoas no processo. a Internet. O seu rápido crescimento descontrolado levanta questões quanto a regulamentá-la ou não e, em caso positivo, a extensão dessa regulamentação (ver seção sobre política social no final deste capítulo). Em certos casos, as mudanças na cultura material podem tensionar as relações entre as instituições sociais. Por exemplo, nas últimas décadas, foram criados novos meios de controle de natalidade. Famílias grandes não são mais economicamente necessárias nem comumente aprovadas pelas regras sociais. Determinadas crenças religiosas, porém – entre elas o catolicismo apostólico romano –, continuam incentivando grandes famílias e desaprovando métodos de controle da natalidade, como a contracepção e o aborto. Essa questão representa um hiato entre os aspectos da cultura material (tecnologia) e a cultura imaterial (crenças religiosas). Também podem surgir conflitos entre a religião e outra instituição social, como o governo e o sistema educacional, quanto à disseminação do controle de natalidade e de informações sobre o planejamento familiar (RILEY et al., 1994a, 1994b). TÓPICO 6 | CIDADANIA E MOVIMENTOS SOCIAIS 87 A Revolução Industrial, que ocorreu em grande parte na Inglaterra durante o período de 1760 a 1830, foi uma revolução científica que se concentrou na aplicação de fontes não animais de energia em tarefas operárias. À medida que essa revolução foi evoluindo, as sociedades começaram a depender de novas invenções que facilitassem a produção agrícola e industrial e de novas fontes de energia, como o vapor. Em algumas indústrias, a introdução de máquinas movidas a energia elétrica reduziu a necessidade de trabalhadores nas fábricas e tornou mais fácil, para os patrões, cortar salários. Surgiu uma forte resistência à Revolução Industrial em alguns países. Na Inglaterra, começando em 1811, artesãos mascarados tomaram medidas extremas: organizaram ataques noturnos às fábricas e destruíram alguns dos novos equipamentos. O governo caçou esses rebeldes, conhecidos como luditas, e os submeteu a expulsão ou enforcamento. Em um esforço semelhante na França, trabalhadores irados jogaram os seus tamancos (sabots) nas máquinas da fábrica para destruí-las, o que deu origem ao termo sabotagem. E, embora a resistência dos ludistas e dos trabalhadores franceses tenha tido curta duração e sido malsucedida, acabou simbolizando resistência à tecnologia. Estamos agora em uma segunda Revolução Industrial com um grupo contemporâneo de ludistas empenhados em resistir? Muitos sociólogos acreditam que vivemos em uma sociedade pós-industrial. É difícil apontar exatamente quando essa era começou. Em geral, ela é considerada como tendo início na década de 1950, quando pela primeira vez a maioria dos trabalhadores de sociedades industriais passou a se envolver também com serviços em vez de apenas na efetiva produção de bens (BELL, 1999; FIALA, 1992). Assim como os ludistas resistiram à Revolução Industrial, as pessoas em vários países resistiram às mudanças tecnológicas pós-industriais. O termo neoludistas se refere àqueles que desconfiam das inovações tecnológicas e que questionam a expansão incessante da industrialização, a destruição cada vez maior do mundo natural e agrário e a mentalidade de “jogar fora” do capitalismo moderno, com a sua resultante poluição do meio ambiente. Os neoludistas insistem que quaisquer que sejam os supostos benefícios da tecnologia industrial e pós-industrial, essa tecnologia tem custos sociais próprios e pode representar um perigo para o futuro da espécie humana e para o nosso planeta (BAUERLEIN, 1996; RIFKIN, 1995b; SALE, 1996; SNYDER, 1996). Vale a pena lembrar dessas preocupações quando nos voltarmos para o nosso futuro tecnológico e o seu possível impacto sobre as mudanças sociais. 88 UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS Tecnologia é um conjunto de informações culturais sobre como utilizar os recursos materiais do meio ambiente para satisfazer as necessidades e os desejos humanos. Os avanços tecnológicos – o avião, o carro, a televisão, a bomba atômica e, mais recentemente, o computador, o fax e o telefone celular – provocaram mudanças extraordinárias em nossa cultura, nossos padrões de socialização, nossas instituições sociais e nossas interações sociais cotidianas. As inovações tecnológicas, na verdade, estão surgindo e sendo aceitas a uma velocidade incrível. Nas seções a seguir, examinaremos os vários aspectos do nosso futuro tecnológico e analisaremos o seu impacto sobre as mudanças sociais, incluindo a pressão social que provocarão. Focaremos particularmente os desenvolvimentos recentes em informática e biotecnologia. 15.1 INFORMÁTICA A década passada foi testemunha de uma explosão de informática nos Estados Unidos e em todo o mundo. Os seus efeitos são particularmente dignos de nota no tocante à Internet, a maior rede de computadores do mundo. Estimou- se que em 2005 a Internet atingiria 1,1 bilhão de usuários de computador, contra apenas 50 milhões em 1996 (GLOBAL REACH, 2004). 15 A TECNOLOGIA E O FUTURO 89 RESUMO DO TÓPICO 6 Neste tópico, você aprendeu que: • Embora fatores como meio ambiente físico, população, tecnologia e desigualdade social sirvam como fontes de mudança, é o esforço coletivo das pessoas, organizado em movimentos sociais, que leva definitivamente a transformações. • Os sociólogos utilizam a expressão movimento social para se referir às atividades coletivas organizadas para efetuar ou enfrentar as mudanças básicas em um grupo ou uma sociedade existente • A expressão privação relativa é definida como a sensação consciente de uma discrepância negativa entre as expectativas legítimas e a realidade presente. Em outras palavras, as coisas não vão tão bem quanto você esperava que fossem. Esse tipo de situação pode ser caracterizado por escassez e não por uma ausência completa das necessidades. • É preciso mais do que desejo para dar início a um movimento social. Ter dinheiro, influência política, acesso aos meios de comunicação e pessoal ajuda. • A expressão mobilização de recursos se refere às maneiras como um movimento social utiliza esses recursos. O êxito de um movimento por mudanças depende em grande parte de seus recursos e de quão eficazmente ele os utiliza. • A expressão novos movimentos sociais se refere a atividades coletivas organizadas que abordam valores e identidades sociais, bem como melhorias na qualidade de vida. Esses movimentos podem estar envolvidos na criação de identidades coletivas. Muitos deles têm agendas complexas que vão além de uma única questão e às vezes até ultrapassam as fronteiras nacionais. Pessoas educadas de classe média são representadas de maneira significativa em alguns desses novos movimentos sociais, como o das mulheres e o movimento pelos direitos dos gays e lésbicas. • Os novos movimentos sociais geralmente não veem o governo com um aliado na luta por uma sociedade melhor. Embora eles não tentem derrubar o governo, podem criticar, protestar ou importunar seus representantes. • Existem três teorias sobre a mudança – a evolucionista, a funcionalista e a do conflito – e depoisexaminaremos as mudanças mundiais. 90 1 Os novos movimentos sociais são diferentes das ações coletivas de antes, por eles politizarem a esfera privada e tornarem públicas as problemáticas das minorias sociais. De acordo com essa afirmação e com os conteúdos apresentados em Dica do Professor, dentre esses movimentos, destacam-se aqueles que: a) ( ) Determinam a opinião pública sobre as questões ecológicas. b) ( ) Produzem discussões locais e regionais, não abarcando questões globais. c) ( ) Se desenvolvem a partir do controle do Estado e dos partidos políticos. d) ( ) Envolvem negros, indígenas, sem-terra e sem-teto. e) ( ) Realizam pressão política, apoiando contestação da política econômica, e lutam por melhores salários. 2 (UNICENTRO, 2012) "A vida política não acontece apenas dentro do esquema ortodoxo dos partidos políticos, da votação e da representação em organismos legislativos e governamentais. O que geralmente ocorre é que alguns grupos percebem que esse esquema impossibilita a concretização de seus objetivos ou ideais, ou mesmo os bloqueia efetivamente [...]. Às vezes, a mudança política e social só pode ser realizada recorrendo-se a formas não ortodoxas de ação política" (GIDDENS, 2012, p. 356-357). De acordo com Giddens e também a partir do conteúdo apresentado em Dica do Professor, há um tipo comum de atividade política não ortodoxa, que busca promover um interesse comum ou assegurar uma meta comum através de ações fora das esferas institucionais, que se chama: a) ( ) Interação social. b) ( ) Mobilidade lateral. c) ( ) Movimento social. d) ( ) Princípio preventivo. e) ( ) Movimento de acomodação urbana. AUTOATIVIDADE 91 TÓPICO 7 MOVIMENTOS SOCIAIS E DIREITOS HUMANOS UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Neste tópico estudaremos o conceito de Estado, sociedade e direitos humanos; a história e a evolução dos direitos humanos no Brasil; e o papel dos movimentos sociais em defesa dos direitos humanos. 2 ESTADO, SOCIEDADE E DIREITOS HUMANOS A seguir, veremos brevemente os conceitos de Estado, sociedade e direitos humanos e como eles estão relacionados à questão dos direitos humanos. 2.1 ESTADO O Estado é uma organização social soberana que possui poder supremo sobre os indivíduos em uma sociedade, tendo legitimidade para exercê- lo, inclusive com a força física, se necessária for. Dessa forma, entende-se que somente as organizações estatais são reconhecidas pelo povo para ditar regras que todos devem seguir e possuem autoridade e poder para regular o funcionamento da sociedade em um território. O exercício do poder ao qual se refere é a capacidade de o Estado influenciar a ação e o comportamento das pessoas, de forma decisiva. Apesar das características citadas, definir Estado não é fácil, uma vez que na ciência política sua definição ainda é imprecisa, levando as pessoas a confundirem Estado com governo, país, regime político ou sistema econômico. O conceito de Estado é dinâmico, porém, pode-se dizer que desde sua origem até os dias atuais certos aspectos prevalecem, como a existência do território e do povo. Alguns autores afirmam que o conceito de Estado não é universal, servindo apenas para indicar e descrever uma forma de ordenamento político. O que se pode afirmar é que “o Estado não admite concorrência e exerce de forma monopolista o poder político, que é o poder supremo nas sociedades contemporâneas” (COELHO, 2009, p. 16). Nesse contexto, Estado e poder são termos que não se dissociam. O Estado tem três funções fundamentais, das quais decorrem todas as suas ações (COELHO, 2009). UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS 92 • Legislativa: elabora as leis e o ordenamento jurídico, necessários à vida em sociedade. • Executiva: assegura que as leis sejam cumpridas. • Judiciária: julga a adequação ou não dos atos particulares sob as leis existentes. Em qualquer sociedade humana existe uma ordem jurídica e um poder político, que na verdade trata-se de um poder jurídico, uma vez que sua legitimidade é reconhecida pela ordem jurídica, fazendo-se obedecer por meio de normas jurídicas pelas quais exerce a dominação estatal (COELHO, 2009). ATENCAO 2.2 SOCIEDADE A sociedade pode ser caracterizada por um grupo de pessoas que compartilham a mesma cultura e as tradições e se localizam no mesmo tempo e espaço. Todo homem está concentrado na sociedade em que está inserido, sendo influenciado por ela em sua formação como indivíduo. A sociedade humana surgiu com a finalidade de atender as suas necessidades, pois desde os primórdios o ser humano precisa de ajuda para sobreviver e tem a tendência e a necessidade de viver em grupo para se desenvolver, o que faz a sociedade ser considerada uma rede de relações entre indivíduos, grupos sociais e organizações. Essas relações são chamadas de relações sociais, a base da existência da sociedade, a qual é construída diariamente por meio da organização social e da parti- cipação individual, que definem, de forma ativa, o seu modelo de referência para determinado grupo de pessoas. Por ter a capacidade de organização e cumprimento de normas, vive-se em sociedade, na qual a relação estabelecida se constitui por constantes trocas, não apenas sob a lógica do lucro, mas também sob a forma simbólica, por meio da criação e manutenção de laços de solidariedade que dão significado à sociedade. Dessa forma, o comportamento humano é permeado por grande complexidade, em que os indivíduos são influenciados pelo meio em que vivem, formando- se e agindo conforme sua formação, influenciando também a sociedade. O comportamento das pessoas sofre influências culturais e históricas, e, para que possam se desenvolver, elas têm como referência o comportamento ditado pela sociedade. Quando se fala em sociedade, não se pode deixar de mencionar a sociedade civil, que é a forma como ela se organiza politicamente para influenciar TÓPICO 7 | MOVIMENTOS SOCIAIS E DIREITOS HUMANOS 93 o Estado e suas políticas públicas. Não é fácil conceituar sociedade civil, uma vez que ela possui grande diversidade de significados e é produto de uma construção histórica, cultural, geográfica, social e política, sofrendo variações à medida que mudam os autores, as épocas, os contextos históricos e as perspectivas políticas que a influenciam e a enriquecem (LAVALLE, 1999; SCHOLTE, 2002). A sociedade civil é uma parte importante da história, uma vez que abrange uma dimensão ampla da vida social. No Brasil, sua reorganização foi estimulada pela rápida urbanização quando deslocou pessoas de baixa renda do campo para as cidades urbanas, em locais onde os serviços públicos eram incipientes, o que as fez se organizarem para lutar por eles (SANTOS, 1979; CALDEIRA, 2000); e pela modernização econômica do país, que transformou as políticas de planejamento urbano, saúde e educação em questões tecnocrá- ticas, fazendo os atores de classe média (economistas, médicos, advogados, professores universitários) reagirem a esse projeto, organizando meios de ação coletiva e associação para disputar os elementos tecnocráticos (BOSCHI, 1987; ESCOREL, 1999; AVRITZER, 2002). A liberdade, a justiça e a proteção do ambiente, bem como a ideia da divisão em classes sociais, grupos de interesse e indivíduos centrados na própria realização, são alguns dos objetivos universais da sociedade civil, na qual todos os membros correspondem ao seu capital, ao seu conhecimento e à sua capacidade de se organizar e se comunicar. Nesse contexto, as pessoas se unem de modo voluntário em torno de valores ou iniciativas com objetivos específicos, geralmente na forma de organizações, associações, institutos, fundações etc. Pode-se entender a sociedade civil como o local em que a sociedade e o Estado interagem socialmente por meio das famílias, associações, movimentos sociais e meios de comunicação pública (TESSMANN, 2007). Na sociedade civil, os conflitos acontecem e precisam ser administrados pelo Estado.Nesse contexto, ela atua como uma organização de interesses materiais e ideais; já o Estado como a organização da autoridade, sendo que ambos são indivisíveis e interdependentes. No entanto, o motor da história é a sociedade civil, que firma seu papel em lutas sociais, criação de consenso e ampliação do Estado, pois quanto maior for a organização popular em uma sociedade, maior é a chance de o Estado se ampliar, no sentido de abarcar os interesses da coletividade. Dessa forma, a relação entre eles pode garantir as condições necessárias para enfrentar, romper e construir uma nova ordem social, que possibilite ao Estado acolher as demandas da sociedade organizada. Nesse contexto, a participação social é fundamental, uma vez que contribui para a construção do consenso em relação ao interesse público, orientando o Estado no atendimento às demandas da sociedade, sejam públicas ou privadas. O atendimento a essas demandas configura-se como forma de legitimação do Estado, porque quanto maior for a capacidade de resposta às demandas da população, mais ele se tornará legítimo como agente de regulação social, apesar de sua essência política (BEZERRA, 2016). UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS 94 2.3 DIREITOS HUMANOS Pode-se entender os direitos humanos como aqueles inerentes ao ser humano, como o direito à vida e à liberdade, à liberdade de opinião e expressão, ao trabalho e à educação, entre outros, independentemente de raça, sexo, nacio- nalidade, etnia, idioma, religião, opinião política ou qualquer outra condição, por exemplo, origem social ou nacional, ou condição de nascimento ou riqueza. Todos possuem direitos, sem discriminação. Eles são garantidos por lei e visam proteger os indivíduos e grupos contra quaisquer ações que possam interferir no gozo das liberdades fundamentais e na dignidade humana. São características importantes dos direitos humanos (ONU BRASIL, s.d.): Os direitos humanos são fundados sobre o respeito pela dignidade e o valor de cada pessoa; os direitos humanos são universais, o que quer dizer que são aplicados de forma igual e sem discriminação a todas as pessoas; os direitos humanos são inalienáveis, e ninguém pode ser privado de seus direitos; eles podem ser limitados em situações específicas. [...]; os direitos humanos são indivisíveis, inter- relacionados e interdependentes, já que é insuficiente respeitar alguns direitos humanos e outros não. Na prática, a violação de um direito vai afetar o respeito por muitos outros; todos os direitos humanos devem, portanto, ser vistos como de igual importância, sendo igualmente essencial respeitar a dignidade e o valor de cada pessoa. Um dos principais documentos da área é a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), que foi lançada em 1948 e prevê a proteção universal dos direitos humanos, fundando os alicerces da nova convivência humana e buscando sepultar o ódio e os horrores do nazismo, do holocausto e do grande morticínio, o qual tirou a vida de 50 milhões de pessoas em seis anos de guerra. São diversos os pactos, os tratados e as convenções internacionais que vieram depois dela, construindo a cada dia um arcabouço mundial para a proteção dos direitos humanos. A declaração é um marco na história, uma norma comum que deve ser obedecida por todos os povos e nações; já serviu de inspiração para a constituição de muitos Estados e democracias recentes; e é o documento mais traduzido no mundo, em mais de 500 idiomas (ONU BRASIL, s.d.; BRASIL, 2010). Para ler a DUDH, acesse o link a seguir: https://goo.gl/uKU03U UNI TÓPICO 7 | MOVIMENTOS SOCIAIS E DIREITOS HUMANOS 95 A sociedade civil é um ator essencial para a efetivação dos direitos humanos, por ser um processo que não se dá apenas pela integração desses direitos em aparatos legais, no âmbito nacional ou internacional. É ela quem cria e recria as condições necessárias para que esses direitos sejam validados e concretizados por meio de ações que devem considerar alguns aspectos (VIEIRA; DUPREE, 2004), como os que você verá a seguir. • Promover uma gama de ações para todos os grupos sociais: isso significa que os discursos dos direitos humanos devem ser objetivos e acessíveis a uma diversidade de percepções e atrair grupos esquecidos e imperceptíveis como proponentes das mudanças necessárias à justiça. Na sociedade civil nascem os conflitos entre os pedidos por justiça, e discutir sobre os direitos humanos não cria mecanismos para a resolução dessas questões. No entanto, enquanto se discute, cria-se um espaço de interação e diálogo entre todos os envolvidos em determinado problema, podendo, sim, se chegar à resolução de alguns deles. • Tornar a injustiça pública: a sociedade civil contribui para a consolidação dos direitos humanos quando leva a injustiça à esfera pública. Para que isso seja possível, é preciso que a associação e o diálogo estejam abertos e com o mínimo de intervenção. Dessa forma, os grupos que atuam em questões sobre os direitos humanos tornam pública a injustiça ao defender mudanças ou exercer pressão para que elas aconteçam. Essa pressão pode ocorrer por meio do fornecimento de informações, educação para o público e outros grupos, propondo políticas públicas e encaminhando ações legais. • Proteger o espaço privado: os grupos de direitos humanos protegem o espaço no qual os indivíduos se expressam e se desenvolvem quando buscam as condições necessárias para essa ação, reforçando os limites de atuação do Estado e do mercado. • Intervir e interagir diretamente nos sistemas legais e políticos: hoje existem muitas leis e políticas voltadas para os direitos humanos. No entanto, essas normas apenas se efetivam de acordo com sua prática, refinamento e aprovação, sendo validadas pela sociedade civil. Grupos de direitos humanos participam de forma ativa nesse processo quando levam casos legais aos tribunais, fornecem informações e dados essenciais para o refinamento das políticas públicas e propõem novos mecanismos capazes de criar um sistema que apoie os direitos humanos. Essa deve ser uma intervenção estratégica focada na mudança de paradigma e na pressão sobre a política governamental, para que seja mais consistente com o seu discurso. • Promover a inovação social: a inovação social precisa ser factível, e o diálogo, o feedback e os resultados devem estar abertos e serem justificáveis a diversas perspectivas. A inovação social surge como uma resposta direta às injustiças localizadas na sociedade civil. Os inovadores são os que possuem profunda consciência, estão envolvidos com aqueles que são afetados pela injustiça e, trabalhando com eles, experimentam e criam outras formas de encontrar soluções. UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS 96 A sociedade civil é o principal ator para criar condições a fim de que os direitos humanos sejam efetivados. Ela promove o discurso que legaliza as normas dos direitos, voltados principalmente aos grupos esquecidos e imper- ceptíveis, e que pode variar de acordo com as diferentes estratégias e meios, os quais permitem a efetivação da lógica dos direitos humanos na sociedade. Porém, se ela é um agente tão importante para a consolidação dos direitos humanos, por que isso não acontece? Para Vieira e DuPree (2004), a sociedade não está protegida contra o Estado e o mercado, nem possui poder sobre eles, pois é fragmentada, não possui recursos e necessita de financiamentos. Desse modo, ao mesmo tempo em que flexibilidade, diversidade e voluntariado são potencialidades da sociedade civil, são também sua fraqueza, uma vez que ainda são um desafio para os movimentos de direitos humanos. A fragmentação, a neutralização do discurso e a dependência de recursos são barreiras que dificultam o avanço dos aspectos citados anteriormente. No entanto, estratégias como a melhoria da capacidade de comunicação e educação, o investimento em modelos socialmente inovadores e a construção de redes de direitos humanosque cessem a fragmentação e fortaleçam a utilização dos recursos podem possibilitar um maior impacto e melhores resultados na efetivação dos direitos humanos (VIEIRA; DUPREE, 2004). 3 HISTÓRIA E EVOLUÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS NO BRASIL Por se tratar de um instrumento importante, de proteção a todas as pessoas do mundo, os direitos humanos são assegurados por muitos tratados e documentos jurídicos em diversos países, inclusive no Brasil. Há vários meios existentes no país para assegurá-los a todos os cidadãos, porém, apesar disso, esse objetivo ainda não foi atingido em sua totalidade. A sua proteção no Brasil está diretamente ligada à história das Constituições brasileiras, marcada por avanços e retrocessos. A Constituição Imperial de 1824, a primeira do Brasil, declarou os direitos fundamentais em 35 incisos do art. 179. Apesar de aprovada, apresentou-se como uma Constituição liberal, com direitos parecidos com os encontrados nos textos constitucionais dos Estados Unidos e da França, defendendo a imunidade dos direitos civis e políticos. No entanto, com a criação do poder moderador que dava ao Imperador poderes constitucionais ilimitados, inclusive o de interferir no exercício dos demais poderes, a efetivação desses direitos foi prejudicada (DIMOULIS; MARTINS, 2007). A Constituição Republicana de 1891 manteve os direitos fundamentais declarados na Constituição de 1824, e no rol de direitos e garantias funda- mentais, instituiu o habeas corpus, antes concedido somente em nível de legislação ordinária; garantiu a liberdade de culto a todas as pessoas, motivada TÓPICO 7 | MOVIMENTOS SOCIAIS E DIREITOS HUMANOS 97 pela separação entre o Estado e a Igreja; e ampliou a titularidade dos direitos fundamentais aos estrangeiros que residiam no país, ao contrário da Cons- tituição de 1824 que os estendia apenas a cidadãos brasileiros (DIMOULIS; MARTINS, 2007). A Constituição de 1934 manteve uma série de direitos fundamentais similares aos especificados na de 1981, mas inovou estabelecendo normas de proteção ao trabalhador, como a proibição da diferença de salário em virtude de sexo, idade, nacionalidade ou estado civil; a proibição de trabalho para menores de 14 anos; o repouso semanal remunerado; a jornada de trabalho limitada a 8 horas diárias; a determinação de um salário mínimo; e a criação dos institutos do mandado de segurança e da ação popular (DIMOULIS; MARTINS, 2007). A Constituição de 1937 instituiu o Estado Novo, reduziu os direitos e as garantias individuais, destituiu o mandado de segurança e da ação popular, instituídos na Constituição de 1934, que foram novamente restaurados e ampliados na Constituição de 1946, assim como os direitos sociais (BULOS, 2003). Em seguida, com a ditadura militar, a Constituição de 1946 foi derrubada e a de 1967 apresentou grandes retrocessos, como a supressão da liberdade de publicação, restringindo o direito de reunião, estabelecendo foro militar para os civis, mantendo todas as punições e arbitrariedades decretadas pelos Atos Institucionais (AI), entre outros. Outras modificações foram a redução da idade mínima do trabalho para 12 anos, a restrição ao direito de greve, a eliminação da proibição de diferença de salário por motivos de idade e nacionalidade, e a cessão de vantagens mínimas ao trabalhador, como o salário-família. Em 1969, a Constituição de 1967 passa por reformas significativas por meio de emendas aditivas e supressivas, ficando em vigor até o final de 1968, quando o AI-5 foi decretado, repetindo todos os poderes descritos no AI-2. Além disso, ampliou a margem de arbítrio, deu poder ao governo para confiscar bens e suspendeu a garantia do habeas corpus para casos de crimes políticos, contra a segurança nacional, a ordem econômica e social e a economia popular. Dessa forma, o AI-5 não se associa à doutrina dos direitos humanos e muito menos à Emenda de 1969, que incorporou em seu texto as medidas autoritárias dos AI (DIMOULIS; MARTINS, 2007). Por fim, a Constituição de 1988, conhecida como Constituição Cidadã, é promulgada, garantindo a proteção dos direitos humanos, sendo conside- rada uma das Constituições mais avançadas do mundo nesse sentido. Ela faz referência aos direitos fundamentais em várias partes de seu texto e garante aos cidadãos, por exemplo, os direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais em seu art. 1 e o direito à vida, à privacidade, à igualdade, à liberdade e a outros direitos fundamentais, individuais ou coletivos em seu art. 5, entre outros. Para garantir a cidadania e a dignidade humana, a Constituição de 1988 defende princípios como (MARCHINI NETO, 2012): UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS 98 • igualdade de gêneros; • erradicação da pobreza, da marginalização e das desigualdades sociais; • promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, gênero, idade ou cor; • racismo como crime imprescritível; • direito à saúde, à previdência, à assistência social, à educação, à cultura e ao desporto; • reconhecimento de crianças e adolescentes como pessoas em desenvolvimento; • estabelecimento da política de proteção ao idoso, ao portador de deficiência e aos diversos agrupamentos familiares; • orientação de preservação da cultura indígena. Com os direitos humanos garantidos na Constituição de 1988, o Governo Federal passou a ter compromisso com eles e, hoje, estes são geridos como uma política pública, o Programa Nacional de Direitos Humanos (PNHD), instituído pelo Decreto nº 7.037, de 21 de dezembro de 2009, atualizado pelo Decreto nº 7.177, de 12 de maio de 2010. Para conhecer o PNHD, acesse o link a seguir: https://goo.gl/yzmb9w UNI No entanto, após décadas da promulgação da Constituição de 1988, ainda são muitas as dificuldades existentes para tirar esses princípios do papel. Os direitos humanos no Brasil são uma questão marcada por contradições, pois, apesar de assegurar conquistas inéditas concedidas aos direitos sociais, sobre- tudo em relação às questões sociais, apresenta grandes desigualdades sociais, nos âmbitos racial e regional, e precariedade quanto à segurança individual, à integridade física e ao acesso à justiça, que comprometem o usufruto desses direitos. Para Neves (1997), ainda existe um hiato significativo no Brasil em relação ao mundo real e legal. Apesar de o texto constitucional vigente estimular a cidadania ativa, o país está perdendo o ponto de partida para superar a distância entre o mundo real e o formal. Dessa forma, um país no qual a sociedade civil tenha real importância; e o Estado, efetiva função garantidora e implementadora de direitos sociais, ainda é um desafio a ser superado. TÓPICO 7 | MOVIMENTOS SOCIAIS E DIREITOS HUMANOS 99 PNDH foi elaborado em conjunto à sociedade, por meio de ampla consulta, na qual dezenas de entidades e centenas de pessoas apresentaram sugestões e críticas, parti- cipando de debates e seminários. A maior parte das ações contidas nesse documento visa cessar a banalização da morte, seja no trânsito, em filas de prontos-socorros, nos presídios, por armas de fogo, em chacinas de crianças e trabalhadores rurais. Ele visa ainda impedir a perseguição e a discriminação contra os cidadãos (BRASIL, 1996). DICAS De acordo com o relatório estado dos direitos humanos no mundo (2017), o Brasil ainda apresenta falhas em direitos humanos com a ocorrência de problemas como (ANISTIA INTERNACIONAL BRASIL, 2017): • alta taxa de homicídios, principalmente entre jovens negros; • abusos policiais e execuções extrajudiciais, efetuados por policiais emoperações formais ou paralelas; • situação do sistema prisional; • vulnerabilidade dos defensores de direitos humanos, sobretudo emáreas rurais; • violência sofrida pela população indígena, principalmente em decorrência de falhas nas políticas de demarcação de terras; • várias formas de violência contra as mulheres. Há grande preocupação com a persistência desses problemas, e muitos direitoshumanos ainda são violados, mesmo com o avanço em questões como a redução da pobreza. No entanto, apesar das falhas do governo na melhoria dessa situação, a sociedade tem trabalhado para mudar esse cenário, por meio de mobilização das periferias e favelas, principais vítimas das violações de direitos humanos, e de diversas manifestações de pessoas saindo às ruas ou lançando campanhas para reivindicar seus direitos. 4 MOVIMENTOS SOCIAIS EM DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS Na década de 1970, surgem os movimentos reivindicando a efetivação dos direitos sociais de igualdade e liberdade quanto à ampliação da participação política e à igualdade nas relações de raça, gênero, etnia e orientação sexual. Esses movimentos eram chamados de novos movimentos sociais, que se opu- nham ao clássico, marxista e estrutural e davam ênfase ao reconhecimento da diversidade cultural (GOHN, 2007, p. 25). Para Melucci (2001, p. 95): UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS 100 [...] Os movimentos juvenis, feministas, ecológicos, étnicoraciais, pacifistas não têm somente colocado em cena atores conflituais, formas de ação e problemas estranhos à tradição de lutas do capitalismo industrial; eles têm colocado, também, no primeiro plano, a inadequação das formas tradicionais de representação política para colher de maneira eficaz as questões emergentes. A mobilização coletiva assume formas, e em particular formas organizativas, que escapam às categorias da tradição política e que sublinham a desconti- nuidade analítica dos fenômenos contemporâneos, no que diz respeito aos movimentos do passado e, em particular, ao movimento operário. A bandeira de luta dos novos movimentos sociais é o respeito aos direitos humanos, e as ações diretas são seu modo de atuar e contestar a política ins- titucional e os valores morais e culturais vigentes. Reconhecer a diversidade de interesses e possibilitar as condições necessárias para a participação social dos sujeitos contribui para que esses movimentos se mobilizem para mudar a centralidade sociopolítica, passando de uma democracia política organizada a partir do Estado para uma democracia participativa e organizada a partir do poder da sociedade civil. A meta dos novos movimentos sociais é reivindicar continuamente a ampliação da agenda dos direitos de cidadania e a criação de mecanismos capazes de efetivar a promoção e a garantia desses direitos, que vão desde a concepção da inclusão social até a formação de sujeitos de direitos. Essas reivindicações possibilitaram a concepção jurídica e a revisão da concepção desse sujeito, em que este passa a ser visto em sua totalidade, especificidades e peculiaridades. Um exemplo disso é a defesa jurídica dos direitos de mulheres, crianças, grupos raciais minoritários, refugiados etc., não há um tratamento generalizado ao indivíduo, e sim categorizado de acordo com gênero, idade, etnia, raça, etc. (RAMÍREZ, 2003). Nesse contexto, depois da publicação da Declaração Universal de 1948, aconteceram as convenções sobre a eliminação de todas as formas de discrimi- nação racial, eliminação da discriminação contra a mulher, direitos da criança, entre outros instrumentos importantes para essa questão (PIOVESAN, 2009). Nas convenções temáticas, foram criadas diretrizes para orientar a concepção de políticas públicas em áreas prioritárias, como direitos humanos, segurança pública, educação, saúde, igualdade racial, direitos da mulher, juventude, crianças e adolescentes, pessoas com deficiência, idosos e meio ambiente (BRASIL, 2010). DICAS TÓPICO 7 | MOVIMENTOS SOCIAIS E DIREITOS HUMANOS 101 Em relação às políticas públicas, deve-se destacar o lançamento do PNDH I, em 1996, que trouxe diretrizes para orientar a atuação do poder público no âmbito dos direitos humanos, com o objetivo principal de garantir os direitos civis e políticos. O PNDH foi relançado em 2002, como PNDH II, que aceita as demandas dos movimentos sociais, contemplando os direitos econômicos, sociais e culturais. Em 2010, o PNDH é atualizado como PNDH III, sintetizando as principais reivindicações apresentadas pelos movimentos sociais, unindo as resoluções aprovadas nas conferências territoriais, estaduais e nacionais, realizadas pelo Governo Federal, desde 2003, em conjunto aos governos municipais, estaduais, aos movimentos sociais e à sociedade civil, nos 27 estados da Federação (PEREIRA, 2015). A implementação de ações que visam promover o direito à igualdade, o combate à discriminação e a promoção da equidade, encontram proteção em propostas de ações do governo relacionadas à educação, à conscientização e à mobilização, que estão presentes no Plano Nacional de Políticas para as Mulheres (2004), no Programa Brasil sem Homofobia (2004), no Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (2006) e no Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência (2011), gerados com os ativistas. Essas iniciativas são uma demonstração do reconhecimento do Estado sobre as reivindicações dos movimentos sociais por cidadania, que são transformadas em políticas públicas (PEREIRA, 2015). UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS 102 LEITURA COMPLEMENTAR A IMPORTÂNCIA DA PARTICIPAÇÃO SOCIAL PARA A BOA GESTÃO PÚBLICA [...] o tema participação social foi abordado diversas vezes a fim de demonstrar sua importância para a boa gestão pública. Nesta matéria, vamos conhecer melhor quais são os mecanismos que garantem a aproximação entre sociedade civil e Estado. A PARTICIPAÇÃO SOCIAL Se levarmos em consideração os princípios democráticos quanto à soberania popular, a participação se torna um dos aspectos mais relevantes para a garantia da vontade e do bem-estar social. Podemos pensar em duas categorias simples de participação social: “institucional” e “não institucional”. A primeira se trata de procedimentos organizados pelo próprio Estado (as eleições para cargos políticos, por exemplo) e a segunda de procedimentos mais espontâneos, organizados pela sociedade em si (passeatas de movimentos sociais). Colocando como foco as participações institucionais, este tema é historicamente sensível no caso brasileiro: ao longo da República Velha, por exemplo, a participação esteve atrelada aos procedimentos eleitorais que eram restritos à um grupo específico (homens, alfabetizados) e altamente manipuláveis (“voto de cabresto”). Em períodos de exceção, como a Era Vargas e o Regime Militar, a participação social institucional foi bloqueada por medidas autoritárias que impediam as eleições e criminalizavam os movimentos sociais. Nesse sentido, é só a partir de 1980, com a redemocratização, que a participação é levantada como bandeira fundamental para a construção de um novo período político do país. A Constituição Federal de 1988, como comentamos na matéria passada, foi um marco ao prever a participação social como um dos pilares da democracia brasileira. Desta forma, para além do procedimento eleitoral, outros mecanismos foram institucionalizados pelo poder público como forma de garantir o controle social e a participação contínua por parte da sociedade. Na matéria de hoje vamos conhecer melhor alguns desses mecanismos. CONSELHOS Os conselhos são espaços de diálogo entre poder público e sociedade civil. Há conselhos que são populares (as associações de bairro, por exemplo, não dependem da organização por parte do poder público) e institucionais, que passam por um processo de regulamentação junto ao poder público e possui legislação e especificidades acerca de sua atuação. TÓPICO 7 | MOVIMENTOS SOCIAIS E DIREITOS HUMANOS 103 Geralmente os conselhos podem ser: 1. Consultivo: o conselho é ouvido pelo poder público, mas somente a fim de coletar a opinião dos conselheiros em prol de maior qualidade nos processos da administração pública. 2. Participativo: o conselho possui maior envolvimento com os gestores públicos a medida que monitoram as ações do Estado (políticas públicas, orçamento…)e participam ativamente das tomadas de decisão através do controle social. 3. Deliberativo: o conselho age conjuntamente com o poder público em determinadas pautas, ratificando ou vetando as tomadas de decisões e participando ativamente do processo das políticas públicas. AUDIÊNCIAS PÚBLICAS A audiência pública se trata de um outro mecanismo da participação social que é prevista na Constituição Federal de 1988 e pode ser regulamentada pela União, estados e municípios. A proposta desse mecanismo é a convocação de um tipo de reunião aberta em que os órgãos públicos envolvidos em conjunto com organizações da sociedade civil e a população em geral possam debater propostas de políticas públicas, elaboração de um projeto de Lei ou qualquer política que impacte a organização social e política da União, estados ou municípios. Geralmente o formato adotado é abrir a reunião com uma fala do poder público explicando o tema a ser discutido e, em seguida, abre-se o diálogo para que a sociedade civil expresse sua opinião, concordâncias e/ou discordâncias com a proposta apresentada. OUVIDORIA PÚBLICA A Ouvidoria Pública é um instrumento de comunicação entre poder público e sociedade civil. Comumente, mesmo no âmbito privado, as ouvidorias servem como canal para que os indivíduos possam realizar reclamações, sugestões, elogios ou simplesmente tirar dúvidas. No caso dos órgãos públicos, a Ouvidoria serve como espaço para que a população possa exercer seus direitos e sua cidadania ao encaminhar denúncias (como casos de corrupção, por exemplo), reclamações (acerca dos serviços públicos), sugestões ou simplesmente tirar dúvidas e/ou obter mais informações quanto ao funcionamento de determinado serviço público. Geralmente o contato pode ser realizado via sistema eletrônico (a União e alguns estados e municípios disponibilizam um portal online) ou pessoalmente, nos balcões de atendimento dos órgãos públicos. UNIDADE 1 | PARTICIPAÇÃO SOCIAL E MOVIMENTOS SOCIAIS 104 A participação social é um tema fundamental para toda reflexão acerca da boa gestão pública. Na matéria de hoje conhecemos três principais mecanismos que contribuem diretamente para que o poder público atue de forma aproximada da população. Nesse sentido, por mais complexo que possa ser o desenvolvimento desses mecanismos e instrumentos, o salto qualitativo de uma gestão pública que está em constante diálogo com a população é visível. Além disso, o diálogo permite que o desenho das políticas públicas represente a pluralidade da sociedade civil, além do ganho da legitimidade para sua execução. FONTE: CLP. A Importância da participação social para a boa gestão pública. 2019. Disponível em:https://www.clp.org.br/a-importancia-da-participacao-social-para-a-boa-gestao-publica- mlg2/. Acesso em: 8 jan. 2020. 105 RESUMO DO TÓPICO 7 Neste tópico, você aprendeu que: • Os conceitos de Estado, sociedade e direitos humanos e como eles estão relacionados à questão dos direitos humanos. • O Estado é uma organização social soberana que possui poder supremo sobre os indivíduos em uma sociedade, tendo legitimidade para exercê-lo, inclusive com a força física, se necessária for. • O Estado tem três funções fundamentais, das quais decorrem todas as suas ações: o Legislativa: elabora as leis e o ordenamento jurídico, necessários à vida em sociedade. o Executiva: assegura que as leis sejam cumpridas. o Judiciária: julga a adequação ou não dos atos particulares sob as leis existentes. • A sociedade pode ser caracterizada por um grupo de pessoas que compartilham a mesma cultura e as tradições e se localizam no mesmo tempo e espaço. Todo homem está concentrado na sociedade em que está inserido, sendo influenciado por ela em sua formação como indivíduo. • Pode-se entender os direitos humanos como aqueles inerentes ao ser humano, como o direito à vida e à liberdade, à liberdade de opinião e expressão, ao trabalho e à educação, entre outros, independentemente de raça, sexo, nacionalidade, etnia, idioma, religião, opinião política ou qualquer outra condição, por exemplo, origem social ou nacional, ou condição de nascimento ou riqueza. • Todos possuem direitos, sem discriminação. Eles são garantidos por lei e visam proteger os indivíduos e grupos contra quaisquer ações que possam interferir no gozo das liberdades fundamentais e na dignidade humana. Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. CHAMADA 106 1 Os Direitos Humanos são aqueles inerentes ao ser humano, como o direito à vida e à liberdade, à liberdade de opinião e de expressão, o direito ao trabalho e à educação, entre outros, independente de raça, sexo, nacionalidade, etnia, idioma, religião, opinião política ou qualquer outra condição. Como se chama o documento lançado em 1948 que prevê a proteção universal dos Direitos Humanos, fundando os alicerces da nova convivência humana? a) ( ) Constituição Imperial. b) ( ) Programa Nacional de Direitos Humanos. c) ( ) Ato Institucional n.º 5. d) ( ) Declaração Universal dos Direitos Humanos. e) ( ) Constituição Cidadã. 2 A sociedade civil é um ator essencial para a efetivação dos Direitos Humanos, visto que é um processo que não se dá apenas pela integração desses direitos em aparatos legais, sejam eles no âmbito nacional ou internacional. É a sociedade civil que cria e recria as condições necessárias para que esses direitos sejam validados e concretizados. Dentre os aspectos que devem ser considerados nessas ações, qual é aquele que diz respeito aos discursos de direitos humanos objetivos e acessíveis a uma diversidade de percepções para atrair grupos esquecidos e imperceptíveis como proponentes das mudanças necessárias à justiça? a) ( ) Promoção de uma gama de ações para todos os grupos sociais. b) ( ) Proteção do espaço privado. c) ( ) Intervir e interagir diretamente nos sistemas legais e políticos. d) ( ) Promover a inovação social. e) ( ) Tornar a injustiça pública. AUTOATIVIDADE 107 UNIDADE 2 OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • compreender o significado da Justiça Multiportas no contexto do sistema judiciário; • identificar e reconhecer os caminhos da heterocomposição para a solução de conflitos; • reconhecer diferenças e semelhanças entre negociação, conciliação e me- diação, enquanto métodos autocompositivos, para viabilizar a escolha adequada em situações de disputa. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – JUSTIÇA MULTIPORTAS TÓPICO 2 – MEIOS HETEROCOMPOSITIVOS TÓPICO 3 – MEIOS AUTOCOMPOSITIVOS Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 108 109 TÓPICO 1 JUSTIÇA MULTIPORTAS UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Como já apresentado, viver em sociedade exige o desenvolvimento de capacidades para lidar com desentendimentos, conflitos de interesses e, quem sabe, discórdias, visto que as pessoas são únicas, diferentes umas das outras e, por isso mesmo, podem almejar coisas diferentes e dessas diferenças podem surgir relações de conflitos. Para a resolução desses conflitos, são acionadas diferentes formas de resolução, cada qual com suas especificidades. Neste tópico, será apresentada a Justiça Multiportas, com o objetivo de que outros métodos possam ser analisados e explorados, já que podem apresentar soluções mais adequadas neste tempo de excessiva litigiosidade e inseguranças jurídicas. 2 DEFINIÇÕES PRELIMINARES A expressão multiportas é uma metáfora utilizada para figurar as muitas portas de acesso à Justiça,de modo que, a partir da análise da demanda apresentada, as pessoas envolvidas possam ser encaminhadas para a porta que melhor atenda a sua necessidade: porta da justiça estatal, mediação, conciliação, arbitragem. A ideia geral da Justiça Multiportas – ou sistema de múltiplas portas –, é a de que o litígio judicial não é o único meio, tampouco a principal opção para a resolução de um conflito, existindo outras possibilidades que consideram a ideia de pacificação social. Assim, para cada tipo de litígio existe uma forma mais adequada de solução. A jurisdição estatal é apenas mais uma dessas opções. O sistema multiportas, assim, deixa de ser lugar onde apenas se julga, para ser um local de resolução de conflitos, cujas partes podem e devem sair satisfeitas com o resultado para suas controvérsias. Em outras palavras, é dizer que o nosso sistema jurídico paulatinamente está a consolidar a mudança da perspectiva unidimensional da justiça para uma perspectiva pluridimensional, com enfoque na tutela adequada, tempestiva e efetiva dos direitos. UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS 110 3 COMPREENSÃO HISTÓRICA Nas sociedades primitivas, quando haviam riscos para pessoas envolvidas em conflitos, uma terceira pessoa, respeitada pela comunidade, era incumbida de facilitar o consenso, para que não fosse necessário recorrer à justiça pelas próprias mãos. Com esse dado, é possível dizer que os métodos consensuais de solução de conflitos precederam a jurisdição estatal. Só mais tarde foi consolidado o poder do Estado no surgimento do processo judicial, que com o tempo mostrou todas as suas fraquezas. As fraquezas ou insuficiência da tutela estatal fizeram com que se instaurasse um processo de mudança com enfoque nos métodos consensuais de solução de conflitos. Segundo Richa e Lagrasta (2016), o sistema de múltiplas portas ou multiportas teve seu início em uma abordagem elaborada por Frank E. A. Sander, em 1976, sendo que este professor de Harvard se debruçou sobre a crescente demanda nos tribunais dos Estados Unidos, constatando uma insatisfação da população com o sistema judiciário. A proposta apresentada por ele previa programas diferenciados de solução de controvérsias, diversas da adjudicada, tanto dentro quanto fora dos tribunais. Essas propostas se davam a partir de um diagnóstico das causas e encaminhamentos para meios mais adequados. A intencionalidade da proposta, já na gênese, visava reduzir ou eliminar descontentamentos e agilizar o trabalho, preenchendo lacunas nos serviços de administração da justiça. Nasceu de forma experimental e avançou para propostas reconhecidas como Alternative Dispute Resolution (ADR), um mecanismo paraestatal conhecido no Brasil por “meio alternativos de resolução de disputas”. Comprovado o êxito das experiências inicias, os métodos foram se diversificando e, então, consolidados e estruturados por volta dos anos de 1980 e 1990, configurando diferentes possibilidades de atuação nas demandas relacionadas a conflitos, tanto antes do ingresso no Poder Judiciário ou a qualquer tempo após o ajuizamento das demandas, de forma a propiciar melhor qualidade de solução. São diferentes métodos que incluem conciliação, mediação, arbitragem, serviços sociais e governamentais, cada qual mediante técnicas abalizadas para auxiliar a solução dos conflitos de maneira que melhor pudesse atender a natureza das demandas, ao mesmo tempo em que objetivou a construção de aptidões sociais para os litigantes. Na cultura americana, nos anos 1980 a 1990, os métodos de tratamento adequado do conflito enraizaram-se, de forma a propiciar melhor qualidade de solução. No Brasil, a história seguiu os mesmos passos, porém mais tardiamente. As mesmas críticas identificadas nos EUA sobre o funcionamento do Poder Judiciário também se fizeram presentes, desencadeando transformações legislativas e estruturais em busca de uma maior efetividade. O ápice do movimento aconteceu com a reforma do Poder Judiciário, que teve início em 1992 e foi concretizado pela Emenda Constitucional nº 45, de 30/12/2004. TÓPICO 1 | JUSTIÇA MULTIPORTAS 111 No Brasil, ainda predomina a cultura do litígio. A população, em geral, quando se vê diante de um conflito, tem a tendência de buscar o Judiciário a fim de que este resolva a questão. Inclusive, dentro da própria estrutura edificada em torno do saber jurídico, é comum considerar a necessidade de pronta judicialização da questão em pauta. Mesmo tendo predomínio, é possível citar pelo menos duas razões pelas quais o excesso de judicialização é um problema no país. Primeiro, pelo aumento das demandas judiciais, sendo que o Poder Judiciário não consegue sozinho resolver os problemas das pessoas que o procuram diariamente. O resultado da cultura do litígio é facilmente verificável: raramente se consegue obter a prestação jurisdicional de maneira célere e justa ao mesmo tempo. Um segundo ponto diz respeito à satisfação alcançada com a decisão de um juiz, já que nem sempre os envolvidos ficam satisfeitos ou cumprem o que foi judicialmente determinado, ou seja, além de não trazer a pacificação, a sentença formalizada em um longo processo (na denominada fase de conhecimento), para ser cumprida, ainda passa por outra nova e longa etapa até que seja efetivada (na denominada fase de cumprimento de sentença). Custo, lentidão e complexidade dos processos judiciais são as maiores reclamações dos jurisdicionados. E o cenário do Poder Judiciário brasileiro é desanimador. Temos hoje cerca de 76,7 milhões de processos em tramitação e um crescimento do estoque acumulado de 31,2% nos últimos sete anos, conforme diagnóstico formulado na edição de 2017 do relatório Justiça em Números do Conselho Nacional de Justiça (2018, p. 334). FONTE: RODAS, J. G. et al. Visão multidisciplinar das soluções de conflitos no Brasil. Curitiba: Prismas, 2018. NOTA Fato é que vivemos num sistema jurídico aberto e incompleto e, justamente por isso, o direito configura uma realidade complexa, não havendo uma solução expressa para cada caso determinado. Disso resulta a paulatina consolidação do entendimento de que o direito à justiça é mais amplo do que acesso ao Poder Judiciário, razão pela qual o Estado deve disponibilizar ao cidadão não somente a forma adjudicada de solução de conflito, mas também os métodos extrajudiciais. A discussão acerca da aplicação do direito pelo Poder Judiciário deve ser considerada apenas como um dos aspectos a problematizar no cotidiano nacional. É hoje uma preocupação entres os atores do meio jurídico as dificuldades procedimentais (número e qualidade dos controles jurisdicionais) e substantivas (qualidade dos direitos a tutelar) do acesso e correspondente UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS 112 resolução de conflitos no âmbito judicial. O número excessivo de demandas judiciais no Brasil poder ser atribuído a mudanças importantes relacionadas à condução da garantia de direitos: • A Constituição Federal de 1988, prioritariamente no artigo XXXV, que assegura amplo acesso à justiça e permite a postulação da tutela jurisdicional preventiva ou reparatória, assistência judiciária integral e gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos (BRASIL, 1988). • Lei nº 9.099/95, que trata do direito de ação sem a presença de advogados, de forma gratuita e com procedimentos mais simples (BRASIL, 1995). • Estruturação da Defensoria Pública. • Código de Defesa do Consumidor. • Controle do Poder Judiciário nas atribuições de outros poderes. • A Constituição preconiza também ideais democráticos e faz inserção da consensualidade (o que avança ainda em passos lentos). É notório que a Constituição de 1988 avança em termos de garantia de direitos a partir do acesso à justiça. Entretanto, ela também aponta para a superação da postura de embate ao preconizar ideais democráticos materializados na consensualidade. Isso aponta para açõesque privilegiem a prevenção dos litígios e desjudicialização das demandas. 4 LEGISLAÇÃO RELACIONADA Didaticamente, a par de outras tantas classificações e estudos doutrinários, pode-se dizer que a legislação está subdivida em duas grandes categorias: o das normas substantivas (direito material) e normas adjetivas (direito processual), as quais convivem harmonicamente, na maioria das vezes, no mesmo texto normativo, como é o caso do Código de Defesa do Consumidor. Caro acadêmico, convido você a conhecer o Código de Defesa do Consumidor, acessando o site http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8078.htm. Boa leitura! DICAS Na primeira categoria estão as leis que regulam e afetam aspectos materiais da vida cotidiana, criando, modificando e/ou extinguindo direitos e obrigações nas relações em sociedade. São exemplos dessa classificação: a Lei do Divórcio, a Lei das Sociedades Anônimas, o Estatuto do Desarmamento e o Estatuto Nacional da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte. TÓPICO 1 | JUSTIÇA MULTIPORTAS 113 Na segunda categoria estão as normas que estatuem as ferramentas procedimentais para acesso à jurisdição, à formalização de determinado pedido a partir do modo, forma e no prazo legalmente estatuído, regulando-se por meio da norma adjetiva (direito processual) todas as formalidades para fazer cumprir as normas substantivas (direito material), a exemplo do Código de Processo Civil ou Código de Processo Penal. Acadêmico, você pode ter acesso ao Código de Processo Civil ou Código de Processo Penal na integra nos sites: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13105.htm – Código de Processo Civil; http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del3689.htm – Código de Processo Penal. DICAS Ao fim e ao cabo, é por meio do processo – um complexo de direitos e deveres contrapostos entre os sujeitos envolvidos em uma lide – que o Estado entrega a jurisdição. Processo, assim, está aqui concebido como instrumento para o exercício do direito de provocar o Estado a exercer a função jurisdicional, de modo a oferecer – àquele que promove a ação judicial – uma solução para o caso concreto, pela atuação da vontade da lei. A mudança que ora se desenha está no reconhecimento de que a função jurisdicional, ainda que predominantemente exercida pelo Estado-juiz (magistrados, individualmente, ou colegiados julgadores, no caso dos tribunais), pode ocorrer também por entidades ou sujeitos de natureza não estatal, precisamente em razão da possibilidade de que a pacificação dos conflitos seja fomentada e realizada não apenas por meio do processo judicial, mas por métodos consensuais. Nesse sentido, o Conselho Nacional de Justiça, demonstrando estar atento à necessidade de implementação de mecanismos adequados de resolução de disputas como forma de melhorar a justiça brasileira, editou a Resolução nº 125/10, em 29 de novembro de 2010, que trata da Política Judiciária Nacional de Tratamento Adequado de Conflitos de Interesses no âmbito do Poder Judiciário e dá outras providências. Por essa Política, buscou-se assegurar a todos o direito à solução dos conflitos por mecanismos adequados a sua natureza e complexidade, com vista à boa qualidade dos serviços judiciários e à disseminação da cultura da pacificação social, por meio da criação de uma estrutura física e pessoal própria, capaz de gerir as controvérsias de forma racional e profissional. UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS 114 Essa estrutura idealizada é composta pelo Conselho Nacional de Justiça, que fica responsável, no âmbito nacional, por implementar o programa com a participação de rede constituída por todos os órgãos do Poder Judiciário e por entidades públicas e privadas parceiras, inclusive universidades e instituições de ensino, pelos Núcleos Permanentes de Métodos Consensuais de Solução de Conflitos (NUPEMECs), que tratam dessa Política Judiciária no âmbito dos Tribunais Estaduais e Federais, e pelos Centros Judiciários de Solução de Conflitos e Cidadania (CEJUSCs), responsáveis pela execução da Política Judiciária de tratamento adequado dos conflitos. Nesse contexto, os Centros assumem a função de verdadeiros “Tribunais Multiportas”, na medida em que são os responsáveis por oferecer as diversas opções de meios adequados de resolução dos conflitos e, ainda, prestam serviços de orientação e informação ao cidadão. Assim, o interessado pode se dirigir ao Centro para a solução pré- processual do conflito, por meio da realização de sessões de conciliação ou de mediação, conforme o caso, ou para tentar resolver consensualmente conflitos já judicializados, bem como para obter serviços de cidadania. Trata-se, pois, de órgão do Poder Judiciário criado para efetuar a triagem, o tratamento e a resolução adequada dos conflitos de interesses. Importante enfatizar a consolidação, no sistema de múltiplas portas, ao Novo Código de Processo Civil, parágrafo 3º, artigo 3º da Lei nº 13.105/2015, segundo o qual “a conciliação, a mediação e outros métodos de solução consensual de conflitos deverão ser estimulados por juízes, advogados, defensores públicos e membros do Ministério Público, inclusive no curso do processo judicial” (BRASIL, 2015). Fato é que, sendo do Estado o exercício da função jurisdicional, a ele compete não apenas a aplicação do direito com o objetivo de realizar e manter a paz e harmonia social, como também a função de estimular a pacificação por meio de outros métodos que não a solução adjudicada. Sistematicamente, cabe a Política Judiciária Nacional, entre tantas outras ações, l possibilitar acesso à ordem jurídica justa, investir para que os operadores do direito possam oferecer menos resistência aos métodos consensuais, viabilizar capacitações para que conciliadores e mediadores possam prestar serviços com qualidade. TÓPICO 1 | JUSTIÇA MULTIPORTAS 115 Convido você, acadêmico, a conhecer a Resolução que trata dos Meios Adequado de Solução de Conflitos através do site: https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/atos- normativos?documento=156. DICAS O sistema multiportas deixa de ser lugar onde apenas se julga para ser um local de resolução de conflitos, cujas partes podem e devem sair satisfeitas com o resultado para suas controvérsias. Quanto às vantagens do sistema multiportas, é possível elencar: a) o cidadão assumiria o protagonismo da solução de seu problema, com maior comprometimento e responsabilização acerca dos resultados; b) estímulo à autocomposição; c) maior eficiência do Poder Judiciário, porquanto caberia à solução jurisdicional apenas os casos mais complexos, quando inviável a solução por outros meios ou quando as partes assim o desejassem; d) transparência, ante o conhecimento prévio pelas partes acerca dos procedimentos disponíveis para a solução do conflito (PEIXOTO, 2018, p. 118). Dessa forma, falar em Justiça Multiportas é demasiado importante para compreender e acionar o adequado meio para abordagem e resolução de conflitos, seja pelos meios heterocompositivos ou meios autocompositivos, assuntos que serão abordados mais adiante. 116 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico, você aprendeu que: • A importância de se pensar em Justiça Multiportas se deve ao excesso de judicialização do Poder Judiciário e de ele não poder, sozinho, resolver os problemas de quem o aciona, bem como a falta de satisfação com os resultados impostos pelo juiz, a falta de cumprimento dos acordos firmados e o fato de que a judicialização não viabiliza a pacificação social • São vantagens do sistema multiportas: estimulo à autocomposição e protagonismo na solução do conflito; maior eficiência do Poder Judiciário; transparência e conhecimento prévio pelas partes acerca dos procedimentos que podem ser acionados. • O novo Código de Processo Civil (CPC) normatiza que juízes, advogados, defensores e membros do Ministério Público devem estimular métodos consensuais de resolução de conflitos.117 AUTOATIVIDADE 1 O Código de Processo Civil adota o modelo multiportas, de modo que cada demanda deve ser submetida à técnica ou método mais adequado para a sua solução, devendo ser adotados todos os esforços para que as partes cheguem a uma solução consensual do conflito. Em regra, apenas se não for possível a solução consensual, o processo seguirá para a segunda fase, litigiosa, voltada para a instrução e julgamento adjudicatório do caso. ( ) Certo. ( ) Errado. 2 Há uma cultura do litígio enraizada na sociedade, cuja tendência é resolver os conflitos de forma adversarial. Nessas circunstâncias, os denominados meios alternativos de resolução de conflitos apresentam especial importância, na medida em que possuem os seguintes objetivos, EXCETO: a) ( ) Aliviar o congestionamento do judiciário. b) ( ) Promover a pacificação social. c) ( ) Democratizar o acesso à justiça. d) ( ) Promover a autocomposição da solução de controvérsias. e) ( ) Garantir a legitimidade dos ritos judiciais. 118 119 TÓPICO 2 MEIOS HETEROCOMPOSITIVOS UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO O método heterocompositivo, também chamado de impositivo, é aquele que conta com juiz ou árbitro como terceiro imparcial para decidir de forma impositiva a solução de um conflito. Através desse método, a vontade das partes envolvidas em uma controvérsia é substituída pela decisão de uma terceira pessoa, alheia ao conflito de interesses gerador da discórdia. Na heterocomposição, há dois caminhos de solução de conflitos: a Jurisdição e a Arbitragem. Conforme o caminho escolhido, a resposta poderá se dar através de sentença ou de laudo arbitral. Importante analisar cada um desses caminhos, a fim de que se possa compreender diferenças e semelhanças existentes entre eles. 2 JURISDIÇÃO Para falar em jurisdição, é necessário mencionar o Estado, visto que ela constitui função típica do Estado em dirimir conflitos que lhe são apresentados, quando da aplicação da lei. É entendida como a atividade e o poder do Estado de aplicar as normas do ordenamento jurídico em relação ao caso concreto, seja expressando autoritativamente o preceito, seja realizando efetivamente o que o preceito estabelece. É pela jurisdição que o Estado se substitui aos titulares dos interesses em conflito, dizendo o direito a partir de cada caso concreto. Segundo Fiorelli, Fiorelli e Malhadas Junior (2008, p. 51), os métodos heterocompositivos “[...] recebem essa denominação porque se deixa a solução nas mãos de um terceiro; fica a responsabilidade dele determinar o que as partes devem ou não fazer”. Ainda, em uma perspectiva conceitual, segundo Cintra, Grinover e Dinamarco (2003, p. 131), jurisdição: UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS 120 [...] é uma das funções do Estado, mediante a qual este se substitui aos titulares dos interesses em conflito para, imparcialmente, buscar a pacificação do conflito que os envolve, com justiça. Essa pacificação é feita mediante a atuação da vontade do direito objetivo que rege o caso apresentado em concreto para ser solucionado; e o Estado desempenha essa função sempre mediante o processo, seja expressando imperativamente o preceito (através de uma sentença de mérito), seja realizando no mundo das coisas o que o preceito estabelece (através de uma execução forçada). É através da pessoa do juiz que o Estado presta a tutela jurisdicional aos cidadãos que a procuram. Ela continua sendo a opção mais adotada pelos que se encontram em situação de conflito de interesses, uma vez que não há mais a possibilidade de fazer uso da autotutela. A generalização do processo como método heterocompositivo de resolução de controvérsias, a cargo da justiça privada ou pública, representou induvidosamente uma das maiores conquistas civilizatórias da humanidade, porquanto ensejou a gradual substituição da violência e da força bruta, que grassavam na aurora dos corpos sociais, por um mecanismo mais racional e apto a preservar ou resgatar a paz entre os membros da coletividade envolvidos na disputa de um bem da vida ou por esta afetados direta ou indiretamente (LIMA, 2013, p. 75-76). Mesmo sendo importante e necessária, muitas vezes a jurisdição não consegue atingir a finalidade a que se destina por diferentes motivos. Um deles diz respeito à subjetividade dos envolvidos que podem manter mágoas e ressentimentos devido ao resultado da lide. É necessário ter sempre presente que a solução dada pelo juiz irá pôr fim ao processo, mas não necessariamente à situação de litígio, que poderá perdurar no tempo. Isso significa que a sentença pode acabar com a relação processual entre as duas partes, determinando que um ganha e o outro perde, entretanto, o desconforto gerado pelo conflito irá se manter, não sendo alcançado e saciado por nenhuma decisão que provenha de uma terceira pessoa. Quando uma ou as duas partes se mostrarem insatisfeitas com o resultado, há previsão de interposição de recurso para uma instância superior àquela que definiu a decisão. Essa possibilidade tem como vantagem a oportunidade de a decisão passar por outra análise e, assim, ser mantida ou alterada. Entretanto, tem também desvantagens, visto que perpetua a tramitação dos processos nos tribunais, o que reflete na morosidade, valor e muitas vezes em ineficácia da prestação jurisdicional. Uma segunda questão a ser considerada é que a perda de um prazo ou a inobservância de algum critério considerado indispensável pode levar a parte que tem razão a não ter seu direito reconhecido e, ainda, ter que pagar custas judiciais e os honorários sucumbenciais. Importante referir que no Judiciário são estabelecidas uma série de regras e procedimentos, algumas vezes bastante TÓPICO 2 | MEIOS HETEROCOMPOSITIVOS 121 formais, mas que devem ser observadas por quem bate à porta do Judiciário. Essas regras e procedimentos são necessários para diminuir as inseguranças jurídicas. A importância do Judiciário se expressa em situações em que as partes tenham acessado outros métodos, mas não tenham tido êxito e prioritariamente em conflitos que só podem ser resolvidos pelo Judiciário, como quando se trata de conflitos sobre direitos indisponíveis, não havendo como ser negociados livremente por seus titulares. Direitos indisponíveis, como o termo sugere, são direitos sobre os quais há ingerência (intromissão) do Estado sobre a decisão. As ações que versam sobre alimentos fazem parte desses direitos. Para exemplificar, pode ser apresentada uma situação na qual um pai, cujos filhos estão sob cuidados e guarda da mãe, ajuíza ação de oferta de alimentos para fixar valores que dará aos filhos. Na petição inicial, ele apresenta uma realidade de dificuldades econômicas e refere poder pagar apenas meio salário mínimo, de acordo com o binômio necessidade/possibilidade. A mãe, que se diz conhecedora da realidade econômica do pai e sabedora de que o valor ofertado é muito aquém do necessário para manter os filhos, somado ao fato de estar desempregada, procura um advogado. Este profissional perde o prazo de contestar a ação do pai. Nessa situação, seria o caso de ser decretada revelia dos requeridos. Entretanto, em razão do direito de alimentos das crianças ser indisponível, os fatos referidos pelo pai não terão presunção de veracidade, o que significa que a revelia não produzirá seus efeitos. Na jurisdição, o papel do magistrado é indispensável. É ele quem precisa ser convencido sobre quem tem ou não tem razão. Segundo Staffen (2012, p. 89): “compete ao julgador ater-se à imparcialidade, ao equilíbrio das manifestações via ampla defesa e contraditório, dando fluência ao devido processo legal, aos direitos e garantias fundamentais”. O juiz detém o poder de decisão, entretanto, ela precisa ser fundamentada no processo legal, que encontra respaldo na Constituição Federal, no artigo 5º, inciso LIV, o qual preceitua: Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinçãode qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: [...] 7 LIV - ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal; [...] (BRASIL, 1988). Desta forma, para a definição da sentença, o magistrado e demais envolvidos na lide deverão seguir regras e procedimentos preestabelecidos e com consequências predefinidas. Além disso, a imparcialidade do juiz é uma condição para o exercício profissional. Cabe a ele oferecer tratamento igualitário aos envolvidos. Ao julgar, ele não deve considerar suas noções, crenças e valores pessoais, bem como visões religiosas ou filosóficas. UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS 122 3 ARBITRAGEM – CONCEPÇÃO HISTÓRICA Utilizar a arbitragem como meio de solução de controvérsias é fato desde a Antiguidade, fundamentada na ideia de que o povo é corresponsável pela condução da justiça na vida cotidiana. Nos últimos anos, entretanto, o Estado, buscando encontrar e desenvolver alternativas para a solução de controvérsias, a exemplo da instituição dos Juizados Informais de Conciliação e os Juizados Especiais de Pequenas Causas, a partir da Constituição de 1988, instituiu também os Juizados Especiais Cíveis e Criminais, visando agilizar processos e facilitar o acesso à justiça. Para Bértoli e Busnello (2017, s.p.) a arbitragem é um dos avanços jurídicos mais utilizados na atualidade, muito devido às exigências do comércio internacional. “Sua implantação originou a estimulação de estudos doutrinários e a criação de instituições que oferecem serviços aos comerciantes para organizar os diferentes tipos de arbitragem, e da mesma forma orientou as câmaras de comércio”. Na arbitragem, tanto quanto numa decisão judicial, um terceiro imparcial definirá de forma vertical qual solução será pertinente. A diferença está, primeiramente, no fato de que o árbitro ou árbitros são eleitos em uma convenção de natureza privada, ou seja, as partes interessadas assinam um instrumento em que a escolha pela arbitragem é formalizada. Outra diferença está no fato de que a sentença proferida pelos árbitros não comporta recurso. Nesse sentido, Bértoli e Busnello ensinam que na Jurisdição quem perde a ação tem possibilidades de interpor recursos, enquanto na arbitragem isto não pode acontecer. Quando as partes optam por arbitragem sabem que a decisão irá gerar uma sentença ou laudo arbitral que não é passível de solicitar recursos. Há algumas outras peculiaridades da arbitragem, as quais estão abordadas nos tópicos seguintes. 4 DEFINIÇÕES PRELIMINARES Trata-se de método de resolução de conflitos sem a participação do Poder Judiciário. No Brasil, é regido pela Lei nº 9.307/96, abrangendo direitos patrimoniais disponíveis, seja em relação a conflitos de interesses pessoais de pequena monta, como também grandes controvérsias empresariais ou estatais, desde que não estejam restritos pela legislação. Arbitragem, para Rocha (2003, p. 96-97), é: “um meio de resolver litígios civis, atuais ou futuros, sobre direitos patrimoniais disponíveis, através de árbitro ou árbitros privados, escolhidos pelas partes, cujas decisões produzem os mesmos efeitos jurídicos das sentenças proferidas pelos órgãos do Poder Judiciário”. A arbitragem, portanto, é um método de resolução de conflitos por meio de entidades privadas, as quais aplicarão a lei por meio de uma decisão denominada sentença arbitral. TÓPICO 2 | MEIOS HETEROCOMPOSITIVOS 123 Em princípio, as sentenças arbitrais são finais e vinculativas. Elas só podem ser objeto de recurso e questionadas no tribunal em circunstâncias excepcionais. Por exemplo, isso se aplica aos casos em que as partes nunca validamente acordaram em estabelecer uma arbitragem. Sentenças arbitrais podem ser aplicadas na maioria dos países em todo o mundo. Caracterizada pela informalidade, a arbitragem é um método alternativo ao Poder Judiciário que oferece decisões ágeis e técnicas para a solução de controvérsias. Só pode ser usada por acordo espontâneo das pessoas envolvidas no conflito que, automaticamente, abrem mão de discutir o assunto na Justiça. A escolha da arbitragem pode ser prevista em contrato (ou seja, antes de ocorrer o litígio) ou realizada por acordo posterior ao surgimento da discussão. Como se trata de um método privado, são as partes envolvidas no conflito que elegem um ou mais árbitros, geralmente um ou três, imparciais e com experiência na área da disputa, para analisar o caso. Os árbitros normalmente tentam ajudar as partes a entrar em acordo. Se não houver acordo, eles emitem a decisão, chamada laudo ou sentença arbitral, que tem força de sentença judicial. 5 PRINCÍPIOS E PROCEDIMENTO A arbitragem é orientada pelos seguintes princípios: • autonomia das partes; • contraditório e ampla defesa concentrado; • igualdade das partes; • imparcialidade do árbitro; • convencimento, conciliação, boa-fé, confidencialidade (DALE, 2016, s.p.). Do ponto de vista do procedimento, pressupõe que seja contratado por pessoas maiores e capazes e por pessoas jurídicas, admitindo-se apenas que sejam submetidos os conflitos patrimoniais disponíveis. Qualquer processo de arbitragem é baseado em um acordo por escrito entre as partes (convenção de arbitragem). Nesse aspecto, pode ser originado por meio de cláusula compromissória, em que a pactuação ocorre antes da ocorrência do litígio, ou por meio de compromisso arbitral, o qual é estipulado após a ocorrência do litígio. Além disso, a arbitragem fornece, aos árbitros e às partes, significativa liberdade e flexibilidade. As partes podem escolher os árbitros, o local da arbitragem e/ou a língua do processo. As partes podem, portanto, negociar sobre a estrutura e duração de suas arbitragens. As partes, porém, não podem desviar- se dos princípios da equidade e da igualdade, do direito à oitiva e do direito de serem representadas por um advogado. UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS 124 Existem dois tipos de arbitragem: institucionais e ad-hoc. Na arbitragem institucional, a instituição assume funções administrativas específicas, tais como entrega de intimações etc. O grau de envolvimento pode variar de uma instituição para outra, mas a disputa em si sempre será decidida pelo tribunal arbitral. Na arbitragem ad-hoc, essas funções administrativas ou são assumidas pelo próprio tribunal ou delegadas a terceiros. Hamburgo é a sede de reconhecidas instituições de arbitragem, como o German Maritime Arbitration Association (GMMA – Associação Alemã de Arbitragem Marítima); o Schiedsgericht der Handelskammer Hamburg (Tribunal de Arbitragem da Câmara de Comércio de Hamburgo); o Chinesisch Europäische Schiedsgerichtszentrum (CEAC – Centro de Arbitragem Chino-Europeu) e diversas outras instituições de arbitragem mercantil. Hamburgo também é frequentemente escolhida como local de arbitragem por instituições sediadas fora de Hamburgo, como o Deutsche Institution für Schiedsgerichtsbarkeit (DIS – Instituto Alemão de Arbitragem) e a International Chamber of Commerce (ICC – Câmara de Comércio Internacional). FONTE:<http://www.dispute-resolution-hamburg.com/pt/arbitragem/o-que-e- arbitragem/>. Acesso em: 12 dez. 2019. IMPORTANT E O processo de arbitragem, segundo Sales (2003), é bastante diferente dos processos de negociação, conciliação e mediação, visto ser um processo formal que exige regras processuais legais, as quais definem requisitos para que tenha validade. 6 ARBITRO A pessoa que se propõe a atuar como árbitro necessariamente precisa ter mais que 18 anos, ter discernimento e condições de expressar sua vontade e ter a confiança das pessoas envolvidas no conflito. O árbitro não precisa ser advogado, mas é bom que tenha conhecimentos sobre direito, já que a arbitragem envolve o uso de muitos conceitos legais.Assim como o juiz, o árbitro não pode ser amigo ou parente das partes, nem trabalhar para elas ou ter algum interesse pessoal no julgamento da causa. Segundo a lei, o árbitro deve ser independente e imparcial. Importante enfatizar que o arbitro é um juiz de fato e de direito, por isso precisa ter conhecimentos específicos na área relacionada ao conflito e o cumprimento, pelas partes, de suas decisões, é obrigatório. O árbitro precisa ter competências para dar conta da crescente demanda por este método e estar qualificado e consciente da responsabilidade de suas intervenções na construção de um futuro mais justo e pacífico para as futuras gerações. 125 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • No método heterocompositivo, as soluções ficam sob responsabilidade de um terceiro que decide sobre o que as partes devem ou não fazer. • É através da pessoa do juiz que o Estado presta a tutela jurisdicional aos cidadãos que o procuram. Essa segue sendo a opção mais adotada pelos que se encontram em situação de conflito de interesse. • A sentença coloca fim ao processo, mas a situação de litígio poderá perdurar. • A importância do Judiciário se expressa em situações em que as partes tenham acessado outros métodos, mas não tenham tido êxito, ou quando se trata de direitos indisponíveis. • Na definição da sentença, o juiz e demais envolvidos na lide deverão seguir as regras e procedimentos preestabelecidos e em consequências predefinidas. • A imparcialidade do juiz é uma condição para o exercício profissional. • Por meio da convenção de arbitragem, as partes elegem a arbitragem em primeiro plano, preterindo-se a solução por meio judicial. • Na arbitragem, um dos avanços jurídicos mais utilizados na atualidade, a resolução dos conflitos se dá por meio de entidades privadas, cujas decisões produzem os mesmos efeitos jurídicos das sentenças proferidas pelos órgãos do Poder Judiciário. • A arbitragem é comum em contratos comerciais, especialmente nos contratos relativos às transações internacionais. • Características gerais da arbitragem: o pode ser utilizada em qualquer controvérsia envolvendo direito patrimonial disponível; o há possibilidade de conciliação durante o processo; o possui um caráter decisório técnico (os envolvidos escolhem o árbitro de sua confiança, com profundo conhecimento sobre o objeto do conflito; o pode repercutir em economia processual; o há sigilo no procedimento; o dispensa de homologação judicial da sentença arbitral; o irrecorribilidade da sentença arbitral perante o Poder Judiciário, a não ser nos casos em que a lei prevê a nulidade da sentença arbitral. 126 AUTOATIVIDADE 1 Na relação entre jurisdição e arbitragem, é correto afirmar: I- Na jurisdição, o papel do magistrado é indispensável. É ele quem precisa ser convencido sobre quem tem ou não tem razão. II- O juiz detém o poder de decisão para a definição de sentença, mas precisa seguir regras e procedimentos preestabelecidos e com consequências predefinidas. III- O Juizado Especial Cível e Criminal sempre existiu desde a Antiguidade, o que é atual é a possibilidade de utilizar a arbitragem como meio de solução de controvérsias. IV- Em uma decisão judicial, um terceiro imparcial definirá de forma vertical a solução pertinente, já na arbitragem a forma é horizontal. V- A arbitragem é um método de resolução de conflitos sem a participação do Poder Judiciário. Agora, assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V – F – F – F – F. b) ( ) F – V – V – F – V. c) ( ) V – V – F – F – V. d) ( ) F – F – V – V – F. 2 Sobre a figura do árbitro, escolha a resposta INCORRETA. a) ( ) O árbitro é uma terceira pessoa, de confiança das partes e escolhida por estas para conduzir a solução do conflito. b) ( ) O árbitro não precisa ter formação jurídica. c) ( ) As partes podem escolher o árbitro de acordo com a especialidade técnica que seja mais útil à solução da questão em concreto. d) ( ) O árbitro, na arbitragem judicial, será o próprio juiz da causa. 3 Analise as afirmações a seguir e escolha a alternativa CORRETA: I- O árbitro poderá ser recusado pelas partes a qualquer tempo e por qualquer motivo. II- Estão impedidos de funcionar como árbitros as pessoas que tenham, com as partes ou com o litígio que lhes for submetido, algumas das relações que caracterizam os casos de impedimento ou suspeição de juízes, aplicando-se, no que couber, os mesmos deveres e responsabilidades, conforme previsto no Código de Processo Civil. III- As pessoas indicadas para funcionar como árbitro têm o dever de revelar, antes da aceitação da função, qualquer fato que denote dúvida justificada quanto a sua imparcialidade e independência. 127 ( ) Somente as alternativas I e II estão corretas. ( ) Somente as alternativas I e III estão corretas. ( ) Somente alternativas II e III estão corretas. ( ) Todas estão correta ( ) Todas estão erradas 128 129 TÓPICO 3 MEIOS AUTOCOMPOSITIVOS UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO O Brasil caminha em passos ainda lentos para mudanças dos paradigmas relacionados à forma como lida com conflitos. A cultura litigiosa mostra- se enraizada no íntimo das pessoas, sendo que, mesmo em suas residências ou comunidades, ainda parece prevalecer a Lei de Talião com a sua famosa expressão “olho por olho, dente por dente”. Para superar essa cultura litigiosa, têm sido empreendidos esforços em diferentes contextos para que as pessoas se reconheçam como protagonistas na identificação de interesses e nos esforços para o seu alcance. No que se refere ao Judiciário, desde a década de 90 vem sendo adotados projetos de atividades pré- processuais em vários setores (civil, penal, familiar, previdenciário, entre outros), na busca de implementar a prevenção de demandas. Esses projetos atingiram os objetivos esperados, o que resultou na criação de uma resolução com indicadores sobre como proceder nas prevenções de demandas. Em novembro de 2010, o Conselho Nacional de Justiça instituiu a “Política Judiciária Nacional de tratamento adequado dos conflitos de interesses no âmbito do Poder Judiciário”, o que tende a estimular e assegurar a solução de litígios por meio do consenso entre as partes (RESOLUÇÃO 125/2010). Importante assinalar que a adoção de outros métodos de resolução de conflitos não implica na exclusão do Poder Judiciário. Ao contrário, funcionam como complemento à atividade jurisdicional estatal. Nesse sentido, Petrônio Calmon ressalta que “os meios alternativos não excluem ou evitam um sistema judicial caótico, mas põem-se interativamente ao lado da jurisdição estatal, devendo-se valer do critério da adequação entre natureza do conflito e o meio de solução que entenda mais apropriado (CALMON, 2008, p. 49). 130 UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS 2 LEGISLAÇÃO RELACIONADA A Resolução nº 125/2010 do Conselho Nacional de Justiça e o Código de Processo Civil de 2015 representam um marco no direito brasileiro por viabilizar a construção de um processo civil e sistema de justiça multiportas, que indicam o método ou técnica mais adequada para a solução de conflitos. Espera-se que o Judiciário se constitua em um espaço de resolução de disputas, local onde os envolvidos em conflitos possam sair satisfeitos com o resultado. 2.1 RESOLUÇÃO 125/2010 CNJ Em novembro de 2010, foi aprovada a Resolução nº 125 do Conselho Nacional de Justiça: Art. 1º: Fica instituída a Política Judiciária Nacional de tratamento dos conflitos de interesses, tendente a assegurar a todos o direito à solução dos conflitos por meios adequados a sua natureza e peculiaridade. Parágrafo único: Aos órgãos judiciários incumbe, além da solução adjudicada mediante sentença, oferecer outros mecanismos de solução de controvérsias, em especial os chamados meios consensuais, como a mediação e a conciliação, bem assim prestar atendimento e orientação ao cidadão (CNJ, 2010).Os objetivos estão relacionados a seguir: I- institui a Política Judiciária Nacional de tratamento dos conflitos de interesses, por meios adequados a sua natureza e peculiaridade; II - disseminar a cultura da pacificação social e estimular a prestação de serviços autocompositivos qualidade (art. 2º); III - reafirmar a função de agente apoiador da implantação de políticas públicas do CNJ (art. 3º); IV - incentivar os tribunais a se organizarem e planejarem programas amplos de autocomposição (art. 4º). Leia, na íntegra, a Resolução nº 125 do Conselho Nacional de Justiça, através do site: https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/2011/02/Resolucao_n_125-GP.pdf DICAS TÓPICO 3 | MEIOS AUTOCOMPOSITIVOS 131 2.2 CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL 2015 O Novo Código de Processo Civil, com amparo da Constituição e do CNJ, representa uma conquista para os métodos adequados de resolução de conflitos. Exemplo: Art. 3º: Não se excluirá da apreciação jurisdicional ameaça ou lesão a direito. § 1º É permitida a arbitragem, na forma da lei. § 2º O Estado promoverá, sempre que possível, a solução consensual dos conflitos. § 3º A conciliação, a mediação e outros métodos de solução consensual de conflitos deverão ser estimulados por juízes, advogados, defensores públicos e membros do Ministério Público, inclusive no curso do processo judicial. (BRASIL, 2015) 3 NEGOCIAÇÃO A negociação é o meio mais simples, rápido, básico e elementar para a resolução de controvérsias. As pessoas negociam o tempo todo, em casa, no trabalho, com amigos e nos mais diferentes espaços por onde andam e vivem, porque é uma forma básica de conseguir o que se quer dos outros. Ela pode ser entendida como uma atividade na qual duas ou mais partes, tentam criar um acordo que resolva o conflito estabelecido entre eles, de forma diferente de recorrer à força ou à decisão de um terceiro. Uma importante fonte de construção de conhecimentos sobre negociação advém de décadas de pesquisas realizadas em Harvard, que passou a ser conhecida como método de negociação baseado em princípios, que busca interesses comuns e benefícios mútuos. Em qualquer situação esse método pode ser utilizado, desde situações cotidianas do espaço privado, quanto em processos de trabalho profissional. Segundo Fisher e Ury (2014), “não se deve negociar em base em posições”, visto que elas podem produzir acordos ineficientes, insensatos e ameaçar o relacionamento dos envolvidos. Os autores defendem como alternativa a negociação baseada em interesses. Para que a negociação produza o resultado esperado, dê atenção especial para a valorização do ser humano, da palavra e da continuidade da relação. NOTA 132 UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS 3.1 DEFINIÇÕES PRELIMINARES Como já foi assinalado, a negociação está presente no cotidiano de todas as pessoas. Entretanto, entender a negociação conceitualmente e metodologicamente pode facilitar que os envolvidos na negociação possam alcançar melhores resultados. “Negociação é um processo de comunicação bilateral com o objetivo de se chegar a uma decisão conjunta” (FISHER; URY; PATTON, 2005, p. 50). Nessa definição, a ênfase está na comunicação, na ideia da tomada de decisão conjunta. A comunicação na negociação não pode ser subestimada, desta forma, o momento da negociação, a escuta dos envolvidos e como é conduzida a fala são aspectos fundamentais para uma comunicação objetiva. Segundo Cohen (1980, p. 14), “Negociação é o uso da informação e do poder com o fim de influenciar o comportamento dentro de uma rede de tensão”. Na definição apresentada por Cohen são destacados comportamentos de influência, ficando subtendido um contexto de comunicação com base no poder e na informação. É possível afirmar que cada vez que duas ou mais pessoas trocam ideias com o intuito de modificar suas relações, cada vez que chegam a um acordo, estão negociando. A negociação depende da comunicação e ocorre entre pessoas que representam a si ou a grupos organizados. O destaque desse conceito está na troca de ideias com o objetivo de comprometer as relações com o outro visando acordo. Uma forma comum de entender a Negociação é a de um processo em que as partes, que em um primeiro momento parecem ter interesses antagônicos, procuram ajuda para discutir propostas com o objetivo de alcançar um acordo. Esta conceituação caracteriza o processo, as partes e os tipos de interesses orientados para um acordo. Todo o conflito e toda negociação envolvem esferas de poder, regras e interesses. Focar nas duas primeiras pode fazer o conflito escalar e dificultar a satisfação dos envolvidos. Focar na esfera dos interesses pode funcionar melhor porque, para cada interesse, existem muitas e diversas posições, sendo que alguma delas podem satisfazer os envolvidos, já que as pessoas tendem a adotar as posições mais óbvias possíveis. Quando o negociador possibilita que os envolvidos abandonem a posição inicial e passem a olhar para os interesses que os motivam, possivelmente será possível encontrar uma opção satisfaça os interesses de ambas as partes. A prerrogativa pressupõe que os envolvidos lidem com a controvérsia como um problema mútuo, entretanto, encontrar interesses comuns não é tarefa fácil. Nessa perspectiva, pode-se conceituar a negociação como “um meio básico de conseguir o que se quer de outrem. É uma comunicação bidirecional TÓPICO 3 | MEIOS AUTOCOMPOSITIVOS 133 concebida para chegar a um acordo, quando você e o outro lado têm alguns interesses em comum e outros opostos” (FISHER; URY; PATTON, 2005, p. 15). Nas vivências cotidianas podem ser identificadas duas formas de negociar. A primeira, baseada na empatia, faz com que o negociador faça diversas concessões a fim de evitar o conflito. A segunda, baseada no rigor e com foco no objetivo, leva a um comportamento por vezes áspero, de quem deseja vencer a qualquer custo, sem abrir mão da sua posição. Essa posição prejudica a concretização do acordo e influencia futuros relacionamentos entre os negociadores. A ideia da Escola de Negociação de Harvard foi justamente conciliar essas duas maneiras de negociar, desenvolvendo e difundindo uma nova forma de agir: a negociação baseada em princípios, a qual se baseia no conceito do “ganha-ganha”. O método da negociação baseado em princípios, desenvolvido no Projeto de Negociação de Harvard, consiste em decidir as questões a partir de seus méritos, e não através de um processo de regateio centrado no que cada lado se diz disposto a fazer e não fazer. A intencionalidade da negociação é alcançar um resultado que satisfaça ambas as partes, o que pressupõe que o outro não seja visto e tratado como oponente, mas sim como parceiro e colaborador na realização do acordo. A Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015 (Novo Código de Processo Civil) tratou da negociação, no parágrafo 3º. do art. 166, in verbis: “Admite-se a aplicação de técnicas negociais, com o objetivo de proporcionar ambiente favorável à autocomposição” (BRASIL, 2015). Uma das máximas desse método é criar valor antes de distribuir tais valores entre os envolvidos no processo de negociação. Siouf Filho (2012) apresenta a imagem de um bolo e afirma que se deve aumentar o bolo para só então cortá-lo e distribuí-lo. Assim, para o autor, quanto maior o bolo, maior a possibilidade de satisfação entre os participantes e maior a chance de se chegar a um acordo. Importante enfatizar que conflitos podem surgir em todos os aspectos da vida. Então, a negociação pode ser uma técnica importante e viável para a resolução desses conflitos. Teoricamente, os conflitos mais adequados à negociação direta são aqueles em que as pessoas possuem condições de dialogar mesmo sem a intervenção de um terceiro para facilitar esse diálogo – normalmente de ordem material, patrimonial. NOTA 134 UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS 3.2 PRINCÍPIOS E PROCEDIMENTOSA ideia da negociação é buscar a maximização de ganhos mútuos, e isso só é possível na medida em que os envolvidos em um conflito se concentrem em criar valor em vez de dividi-lo. A negociação baseada em princípios busca criar valor na negociação e possui quatro princípios gerais, que permitem resultados ganha-ganha pautados nos interesses: 1º separar as pessoas do problema; 2º focar nos interesses dos envolvidos e não nas suas posições; 3º criar opções de ganho mútuo; 4º mapear critérios objetivos para legitimar a escolha das opções . Pessoas: separe as pessoas dos problemas. Interesses: concentre-se nos interesses, não nas posições. Opções: crie uma variedade de possibilidades antes de decidir o que fazer. Critérios: insista que o resultado tenha por base algum padrão objetivo (FISHER; URY; PATTON, 2005, p. 28). NOTA 1º Princípio – Separar as pessoas dos problemas. A prerrogativa de um negociador eficaz é que ele possa ser capaz de distinguir o conflito e as pessoas nele envolvidas. Desta forma, não deve prevalecer na negociação o hábito de se fazer acusações pessoais, mas sim o exercício de um se colocar no lugar do outro, com foco no objetivo a ser atingido. As chances de acordo estão diretamente relacionadas à atmosfera favorável ao diálogo. É necessário ter claro que os envolvidos na negociação são seres humanos, que possuem sentimentos e desejos. Desta forma, o aspecto emocional da negociação é de extrema importância e não pode ser negligenciado. Em uma disputa, as emoções envolvidas fazem com que o outro seja visto como parte do problema e não como parte de uma negociação em que é possível buscar colaboração. Os autores defendem que é importante manter o foco nas questões a serem tratadas, e não nas pessoas envolvidas. O problema, para eles, deve ser tratado com dureza, já as pessoas precisam ser tratadas com afeto. Esse princípio considera que as pessoas não necessariamente fazem parte do problema, ou seja, trabalhar para a superação de um problema e manter uma boa relação não precisam ser objetivos que conflitam entre si. TÓPICO 3 | MEIOS AUTOCOMPOSITIVOS 135 2º Princípio – Concentrar-se em interesses, não em posições. Nas disputas, os envolvidos devem superar o costume de se concentrar nas posições. As posições obscurecem os reais interesses das pessoas. O que está envolvido em uma negociação são as necessidades, desejos, preocupações e temores. Esses sentimentos precisam ser explicitados e explorados. Quando isso é realizado, do processo podem emergir interesses comuns e compatíveis. Importante considerar que posições opostas podem esconder interesses comuns e compatíveis. Muitas vezes, esses interesses podem não ser explicitados e, para poderem ser conhecidos a utilização de técnicas pode ser útil. Uma técnica básica consiste em uma atitude empática de pensar na escolha do outro (perguntar “por quê?”; “por que não?”) com o intuito de reconhecer os interesses do outro como parte do problema, olhando para frente (futuro), e não somente para trás (passado). Desta forma, esse princípio preconiza que para uma boa negociação ser possível, os interesses dos envolvidos precisam ser reconhecidos para poder atender seus desejos, evitando-se a disputa por posições. Um exemplo bastante conhecido, provavelmente abordado pela primeira vez no Curso do Projeto de Negociação de Harvard, é a disputa de duas crianças por uma única laranja. A vinheta apresenta a história de duas crianças que brigavam há horas para ter a única laranja que havia em casa. A mãe, imbuída do desejo de terminar com a briga das filhas e solucionar o impasse da forma mais justa que ela entendia ser possível, simplesmente dividiu a laranja ao meio, dando metade para cada uma das filhas. Essa, de fato, parece ser a solução mais óbvia, que, aparentemente, parece ser a mais correta e que a maioria das pessoas tomaria. Entretanto, mais tarde, essa mãe descobriu o quanto essa solução era insatisfatória e não resolvia o problema de nenhuma das filhas, pois uma filha queria a laranja para fazer suco e a outra queria apenas a casca para brincar. Quando a laranja foi partida ao meio, ambas saíram perdendo, mesmo que pudessem ter os seus interesses integralmente satisfeitos, dado que não queriam a mesma coisa. Suas posições eram antagônicas, mas os interesses eram compatíveis. 3º Princípio – Inventar opções de ganhos mútuos Utilizar a criatividade para criar diferentes opções antes de tomar decisão pode facilitar a construção de um acordo cujos ganhos podem ser mútuos. Segundo Fisher, Ury e Patton (2005), o julgamento prematuro, a busca por uma resposta única e o entendimento de que os problemas do outro são de responsabilidade deles podem se constituir em obstáculos para chegar a um acordo. Para ser capaz de inventar opções criativas, é importante: buscar todas as opções possíveis sem avaliá-las; buscar ampliar o número de opções possíveis, rompendo com a ideia de que existe apenas uma resposta para o problema; buscar possibilidades de ganhos mútuos; harmonização de interesses discrepantes e facilitar a decisão da outra parte, criando opções que levem em conta as necessidades deles. 136 UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS Inventar opções criativas (brainstorming) pode ser feito tanto individual quanto conjuntamente pelas partes e pode constituir-se como uma atividade muito útil para encontrar opções de ganho mútuo. 4º Momento – Buscar critérios objetivos Critérios objetivos favorecem que as soluções possam ser consideradas justas pelas partes. Os critérios objetivos dizem respeito ao fato de não depender da vontade pura e simples das partes. Podem por sua vez, decorrer do valor de mercado, de alguma opinião especializada, costumes, entre outros. Os critérios, que não precisam ser únicos, devem partir de discussões, argumentações e independem da vontade de qualquer dos lados. Para a discussão de procedimento, é importante apresentar o Método dos Sete Elementos, desenvolvido na Escola de Direito da Universidade de Harvard. O método prescreve os elementos: comunicação, relacionamento, alternativas, interesses, opções, critérios e compromisso. I- Comunicação: Os negociadores precisam falar a mesma linguagem. Dificuldades comunicacionais podem levar a desentendimentos que não são necessários. II- Relacionamentos: A confiança está diretamente relacionada a relações próximas e amigáveis. Quando há confiança, as pessoas revelam interesses latentes, que de outra forma não seriam revelados. III- Alternativas: A identificação da MASA é a escolha da melhor alternativa dentre as possíveis. Isso é feito antes do início da negociação e será utilizado no caso não fechar o acordo. IV- Interesses: Quando se identificam os interesses, é possível aumentar o “todo” que, depois, será distribuído na negociação. V- Opções: Identificação de possíveis soluções construídas a partir da revelação de interesses subjacentes às posições. VI- Critérios: Utilização de padrões objetivos, gerais e independentes da vontade das partes. VII- Compromisso: Documentação do acordo de forma a deixar o combinado claro e registrado. 3.3 FASES DA NEGOCIAÇÃO Segundo Fisher e Ury (2014), em uma negociação podem ser identificadas três fases: análise, planejamento e discussão. • A fase da análise pressupõe fazer o diagnóstico da situação, reunir informações, organizá-las e fazer reflexão sobre elas. Nesta fase, é importante levar em conta a percepção, sentimentos e emoções das pessoas que estão envolvidas no conflito e também identificar os interesses dos envolvidos TÓPICO 3 | MEIOS AUTOCOMPOSITIVOS 137 • A próxima fase é o planejamento, no qual é decidido como será feita a negociação, considerando a análise realizada, os mais significativos e importantes interesses identificados, bem como os objetivos mais realistas. • A terceira fase é a fase de discussão, na qual os envolvidos se comunicam diretamente. Nessemomento, é necessário que o ambiente possa facilitar o diálogo e que todos tenham a oportunidade de expressar os seus sentimentos e interesses. Cada parte envolvida é incentivada a compreender os interesses e as necessidades do outro. Quando isso é alcançado, os envolvidos poderão trabalhar em conjunto para construir opções de ganho mútuo, buscando firmar um acordo com base em padrões objetivos para conciliar os interesses. 3.4 O NEGOCIADOR A teoria de Harvard apresenta a figura do negociador como uma pessoa cooperativa, que atua baseada em princípios que buscam o ganha-ganha em vez da preocupação em vencer no enfoque ganha-perde. O negociador ganha-ganha busca possibilidades de soluções criativas que agreguem valor às questões e que favoreçam a manutenção de relacionamentos. Cabe ao negociador conduzir a negociação através de uma conversa franca, investir na boa-fé das partes e no envolvimento de todos para alcançar uma solução. Quando o negociador consegue que isso aconteça, dificilmente o acordo será descumprido. 4 CONCILIAÇÃO A Lei federal nº 7.244/84 foi a grande impulsionadora para a projeção da conciliação como forma autocompositiva de resolução de conflitos. A Lei rompeu paradigmas ao introduzir no cenário jurídico nacional propostas de pacificação social, deu ênfase à conciliação e criou a figura do conciliador como facilitador na resolução de conflitos. Essa lei foi substituída pela Lei nº 9.099/95, que dispõe sobre os Juizados Especiais Cíveis e Criminais, definindo critérios para a criação de um espaço formal para a atuação do conciliador. Atualmente, a Resolução nº 125/2010 dá ordenamento jurídico aos mecanismos consensuais de resolução de conflitos no Brasil, consolidando-os como política pública judiciária e tem o propósito de incentivar, aperfeiçoar e assegurar tratamento adequado aos conflitos. A conciliação é um método para dirimir adversidades e investir na busca de interesses que satisfaçam os envolvidos não só na área jurídica, mas também nas outras dimensões de relações conflituosas. 138 UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS 4.1 DEFINIÇÕES PRELIMINARES A definição histórica da palavra “conciliação” tem origem latina e significa conciliatione. Foi traduzida em ato ou efeito de conciliar; ato de harmonizar disputantes ou pessoas com vontades opostas; acordo; entendimento; concordância. A conciliação ou autocomposição é realizada quando duas ou mais pessoas buscam pôr fim às divergências existentes entre elas de uma maneira consensual. As próprias partes são incentivadas a buscar uma solução de forma conjunta e participativa. Juridicamente falando, a conciliação tem suas definições enraizadas de acordo com o conhecimento transmitido pelo Conselho Nacional de Justiça, no sentido de autocomposição das partes. Conforme esclarece o CNJ, conciliação se traduz em “um meio alternativo de resolução de conflitos em que as partes confiam a uma terceira pessoa (neutra), o conciliador, a função de aproximá-las e orientá-las na construção de um acordo” (BRASIL, 2015). No caso da conciliação judicial, o procedimento é iniciado pelo magistrado ou por requerimento da parte, com a designação da audiência e a intimação das partes para o comparecimento. Na conciliação pré-processual, a parte comparece à unidade do Poder Judiciário apto a atendê-la – no caso, são as unidades de conciliação já instaladas ou os Juizados Especiais –, que marca uma sessão na qual a outra parte é convidada a comparecer. Na efetivação do acordo, o termo da audiência se transforma em título judicial. Na falta de acordo, é dado o encaminhamento para o ingresso em juízo pelas vias normais. A possibilidade de conciliação está prevista em diversas leis e regulamentos como: ANO LEI NÚMERO E ARTIGOS 1943 Consolidação das Leis do Trabalho CLT DL-005.452-1943 (artigos 764, 831, 847 e 850) 1973 Código de Processo Civil Artigos 125, IV, 269, III, 277 e outros. 1990 Código de Defesa do Consumidor Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990 (artigos 5º, IV, 6º, VII, e 107). 1995 Lei dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais Lei nº 9.099, de 26 de setembro de 1995 (artigo 2º). 1996 Lei de Arbitragem Lei nº 9.307, de 23 de setembro de 1996 (artigos 21, §4º, e 28) 2001 Lei dos Juizados Especiais Federais Lei nº 10.259, de 12 de julho de 2001. 2002 Resolução 20002/12 da ONU Princípios básicos para utilização de programas de justiça restaurativa em matéria criminal. Resolução 2002/12 de 24 de julho de 2002. TÓPICO 3 | MEIOS AUTOCOMPOSITIVOS 139 2002 Código Civil Lei 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (artigo 840). 2009 Lei dos Juizados Especiais da Fazenda Pública Lei nº 12.153, de 22 de dezembro de 2009. 2010 Política Judiciária Nacional de tratamento adequado dos conflitos de interesses Resolução nº 125, de 29 de novembro de 2010. FONTE: A autora Na atualidade, com base na política pública preconizada pelo Conselho Nacional de Justiça e consolidada em resoluções e publicações diversas, pode se afirmar que a conciliação busca no Poder Judiciário: i) além do acordo, uma efetiva harmonização social das partes; ii) restaurar, dentro dos limites possíveis, a relação social das partes iii) utilizar técnicas persuasivas, mas não impositivas ou coercitivas para se alcançarem soluções; iv) demorar suficientemente para que os interessados compreendam que o conciliador se importa com o caso e a solução encontrada; v) humanizar o processo de resolução de disputas; vi) preservar a intimidade dos interessados sempre que possível; vii) visar a uma solução construtiva para o conflito, com enfoque prospectivo para a relação dos envolvidos; viii) permitir que as partes sintam se ouvidas; e ix) utilizar se de técnicas multidisciplinares para permitir que se encontrem soluções satisfatórias no menor prazo possível (VELOSO et al., 2018, s.d.). Na conciliação, os envolvidos procuram a resolução de seus conflitos com a presença do conciliador, o qual interfere no processo visando à obtenção de um acordo. É esperado que o conciliador ofereça sugestões sobre possíveis soluções e melhores alternativas para o problema e acordo a ser construído. Esse parecer é dado a partir de uma avaliação criteriosa das vantagens e desvantagens para cada um dos envolvidos, que podem ou não acatar as sugestões recebidas. 4.2 PROCEDIMENTO Na conciliação, é esperado que o terceiro – conciliador -– interfira no processo da discussão, sugerindo um possível acordo e apontando possíveis soluções. Esse parecer é dado a partir de uma avaliação criteriosa das vantagens e desvantagens para cada um dos envolvidos, que podem ou não acatar as sugestões recebidas. Os conflitos mais adequados para a utilização de meio são aqueles esporádicos, nos quais os envolvidos não têm vínculo continuado, nem afetivo, tampouco emocional. Segundo Hidal e Sampaio (2016), questões em que as relações são casuais e superficiais, nas quais o interesse material se sobrepõe ao relacional. 140 UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS As diferentes etapas da conciliação apresentadas por Braga Neto (2003, p. 23) podem ser divididas em quatro: abertura, esclarecimentos, criação de opções e o acordo. Em relação às etapas, vale a observação de Lia Regina Castaldi Sampaio e Adolfo Braga Neto, no sentido de que não se trata de uma “receita culinária, em que são usados determinados ingredientes e marcas que resultarão, na maioria das vezes, se bem seguidas pelo usuário, em um alimento a ser consumido” (SAMPAIO; BRAGA NETO, 2007, p. 46-47). NOTA • Etapa da Abertura Na abertura, o conciliador fala sobre o procedimento que será realizado, faz os esclarecimentos iniciais e fala das implicações legais referentes ao acordo. Tavares Filho e Tavares (2016) ao se referirem à etapa da apresentação, salientam sobre a importância da criação de um ambiente de acolhimento que possa conquistar os participantes e dar legitimidade a estemeio autocompositivo. Os autores ainda listam itens a serem seguidos pelo conciliador nesta etapa: o cumprimentar as partes e seus advogados; o anotar os respectivos nomes e perguntar como cada qual prefere ser chamado; o fazer a sua apresentação pessoal, ressaltando o dever ético de imparcialidade e neutralidade; o destacar seu papel de facilitador do diálogo, não de julgador; o falar sobre a voluntariedade e informalidade dessa prática; o confirmar o interesse das partes em participar e parabenizá-las pela escolha; o esclarecer sobre os objetivos da conciliação e as implicações da celebração (ou não) do acordo; o realçar as vantagens dessa forma de solução de conflitos. • Etapa Esclarecimento Tavares Filho e Tavares (2016) agregam a terminologia investigação ao nome da etapa. Nela, cabe ao conciliador buscar esclarecimentos por parte dos envolvidos sobre ações, atitudes e iniciativas que geraram o conflito. O conciliador convida os envolvidos a relatarem a controvérsia. É nesta etapa que são identificados os temas, interesses e posições dos envolvidos. TÓPICO 3 | MEIOS AUTOCOMPOSITIVOS 141 Cabe ao conciliador identificar os pontos convergentes e divergentes do conflito através de uma escuta ativa e sem interrupções. É o momento de realizar perguntas sobre o fato e a relação entre eles para incentivar a comunicação e identificar a pretensão de cada parte envolvida no conflito. • Etapa Criação de opções de solução A terceira etapa pressupõe a criação de opções que pode se dar por uma sugestão apresentada pelo conciliador ou mesmo propostas construídas pelos envolvidos para a solução do conflito. O foco, segundo Tavares Filho e Tavares (2016, p. 350) “é o incentivo à criatividade das partes, na busca da solução da disputa, tendo em vista que quanto mais propostas forem discutidas, maiores as perspectivas de uma decisão consistente”. Os autores Tavares Filho e Tavares incluem uma outra etapa, antes da etapa final, chamada por eles de avaliação e escolha das opções de solução. • Avaliação e escolha das opções de solução A tarefa do conciliador é auxiliar na análise das opções construídas na fase três, com vistas a selecionar as opções que possam ser viáveis e atender aos interesses das partes. Nesta etapa, que é mais objetiva, pode ser necessária a presença de um advogado, pois não é prerrogativa do conciliador orientar quanto à exequibilidade das soluções propostas. • Acordo Trata-se da lavratura do termo final, do acordo. Segundo Tavares Filho e Tavares (2016, p. 352) é importante que na escrita possam ser considerados os seguintes aspectos: o forma escrita; o redigido na presença das partes, advogados e conciliador; o modo simples, claro, preciso; o fazer constar exatamente o que ficou combinado; o ter o tratamento jurídico necessário; o deixar assinalado quem vai fazer o quê, porquê, quando, como, onde e quando. 4.3 TÉCNICAS Vamos apresentar as técnicas de conciliação descritas por Tavares Filho e Tavares (2016). Estas técnicas também são utilizadas em outros métodos de solução de conflitos, como a mediação e negociação. Cabe ao conciliador decidir pela melhor técnica em resposta ao que busca resolver. 142 UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS Escuta ativa ou escuta dinâmica – A escuta ativa pode ser entendida como uma técnica que implica dar àquele que fala sua mais completa atenção e capacidade de compreensão. A prerrogativa é a necessidade de construção de um espaço propício para a comunicação, em que os envolvidos possam se sentir confortáveis para expressar ideias e sentimentos. Para compreensão do que é assinalado pelas partes, o conciliador utiliza perguntas exploratórias, que ajudam a elucidar o que é dito. Técnica da recontextualização ou parafraseamento – A técnica pressupõe que o conciliador construa um resumo reformulado do que foi dito pelas partes, extraindo a conotação negativa e enfatizando pontos positivos e comuns. O conciliador, com esta técnica, tem a chance de confirmar se entendeu bem o que foi dito e as partes têm a possibilidade de ouvir a sua própria fala. Técnica: concentrar-se nos interesses – A proposta da técnica é facilitar, por meio de perguntas, que os envolvidos no conflito possam sair de suas posições e expressar seus interesses. Quando as partes iniciam a sessão, elas têm a tendência de se manter nas posições, sendo a competição entre as partes o foco. Técnica do reforço positivo – Técnica que visa a valorização do comportamento da parte ou do advogado que apresenta propostas positivas. O conciliador elogia, estimula e encoraja posturas positivas. Técnica teste de realidade e enfoque prospectivo – Cabe ao conciliador, no momento da escolha da solução, questionar se o que está sendo combinado pode realmente ser exequível. O relato da experiência, apresentada a seguir, pode ajudar no entendimento da importância da conciliação enquanto método que constrói possibilidades de pacificação. IMPORTANT E TÓPICO 3 | MEIOS AUTOCOMPOSITIVOS 143 “Considerando minha experiência com a conciliação/mediação na Justiça Federal, ressalto um caso especial que me vem à memória. Uma ação de indenização por danos morais e materiais, em razão de vícios de construção em imóvel do Programa “Minha Casa, Minha Vida”, faixa 1 (PAR). A autora ajuizou ação contra a Caixa Econômica Federal e a empresa responsável pela construção do imóvel (casa popular) solicitando indenização por danos materiais e morais causados em razão de uma tempestade que ocorreu na cidade, alagando sua casa, danificando seus poucos móveis e tornando a residência praticamente inabitável. No laudo pericial restou demonstrado que os danos sofridos pela autora decorreram de vícios de construção. Na audiência de conciliação/mediação, após a declaração de abertura, a autora foi instada a relatar os fatos. Embora as fotos constantes no laudo pericial demonstrassem o estado de miserabilidade da autora, bem como as condições insalubres de sua moradia, a autora ainda apresentou outras fotos que haviam sido retiradas posteriormente, mostrando a piora na condição do imóvel. Não obstante a situação digna de compaixão, a autora relatou, com muito bom humor, simplicidade e demonstrando resignação, que tinha dois filhos (gêmeos) adolescentes, ambos deficientes, e que, como eles não andavam, passavam o dia brincando no chão, mas com as chuvas, com o barro que tinha entrado na casa e com todo o mofo, eles não estavam muito bem de saúde e não tinham como brincar direito e que, com a chuva, perdeu os poucos móveis, eletrodomésticos e até os colchões. Nesse ponto da audiência, o rumo da conversou mudou. Passamos a trazer para a mesa de negociação outras questões que não constavam no processo e que subjaziam à pretensão da autora de ressarcimento pelos danos morais e materiais. Fosse por compaixão ou mesmo por estratégia de atuação processual, mas o efeito foi além do esperado e o acordo alcançou não só o ressarcimento pelos danos alegados e o reparo da moradia, mas também previu: doação de duas cadeiras de rodas para os filhos da autora, auxílio médico-hospitalar, esclarecimentos sobre possível direito a recebimento de benefício assistencial para os filhos e encaminhamento para atermação”. Geovana Faza da Silveira Fernandes Diretora do Centro Judiciário de Conciliação da Subseção Judiciária de Juiz de Fora Instrutora de Conciliação e Mediação FONTE: TAKAHASHI et al. Manual de Mediação e Conciliação da Justiça Federal. 2019. Disponível em: https://www.cjf.jus.br/cjf/corregedoria-da-justica-federal/centro-de-estudos-judiciarios-1/ publicacoes-1/outras-publicacoes/manual-de-mediacao-e-conciliacao-na-jf-versao-online.pdf. Acesso em: 12 dez. 2019. 144 UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS 5 MEDIAÇÃO Mediar é uma estratégia de resolução de conflitos que viabiliza a compreensão dos problemas na perspectiva de cultura de paz, permitindo aos envolvidosa construção de decisões que melhor lhes favoreçam. A mediação avança não somente no Judiciário, mas na resolução de conflitos em ambientes escolares, prisões, empresas, comunidades e em muitos espaços que lidam com relacionamentos sociais. Esta estratégia oferece alternativas às propostas de judicialização dos conflitos, tão vigentes em nossa sociedade. Não só no Brasil, mas em muitos e diferentes países, tem aumentado consideravelmente o número de profissionais – como advogados, assistentes sociais, médicos e psicólogos – interessados em buscar capacitação na área. São diversas as ofertas de cursos, tanto no âmbito privado quanto acadêmico, que têm por objetivo capacitar profissionais para atuarem como mediadores e proporcionar uma atuação diferenciada, menos adversarial e mais colaborativa, no desenvolvimento e na prática de sua profissão de origem. Para tanto, faz- se necessário mais do que uma apreensão de conteúdos teóricos, mas uma qualificação que contemple o self do profissional, atentando para sua implicação no processo. 5.1 DEFINIÇÕES PRELIMINARES Falar em mediação é falar em estratégia autocompositiva para resolução de conflitos judiciais e extrajudiciais, que confere às pessoas a autoria de suas próprias decisões a partir de reflexão e ampliação de alternativas. Segundo Almeida (2019) é um processo não adversarial dirigido à desconstrução dos impasses que imobilizam a negociação, transformando um contexto de confronto em contexto colaborativo. Para Warat (2018, p. 17), “mediação é a forma ecológica de resolução dos conflitos sociais e jurídicos”. Segundo ele, essa prática “substitui a aplicação coercitiva e terceirizada de uma sanção legal, apontando para a realização da autonomia das partes envolvidas” (2018, p. 19). A mediação também pode ser definida como uma negociação que tem um terceiro como facilitador, por meio da qual pessoas em disputa, ou que podem se colocar em situação de disputa, são auxiliadas por uma terceira pessoa a construir alternativas autocompositivas. A proposta investe na ideia de mobilizar os envolvidos a compreender suas próprias posições quanto as da outra parte e, assim, possam criar uma nova. A mediação tem como produto idealizado a superação de um Judiciário sobrecarregado e demorado, de forma que os envolvidos nos conflitos consigam, em menos tempo, com baixo custo e com a possibilidade da manutenção dos relacionamentos, construir soluções que beneficiem a todos. TÓPICO 3 | MEIOS AUTOCOMPOSITIVOS 145 São muitos e diversos os campos de atuação da mediação, que pode ser realizada tanto na esfera pública quanto na privada, como escolas, prisões, comunidades e foros, sempre oferecendo uma alternativa aos processos litigiosos e visualizando cultura de paz. Vezzulla (1998) postula o reconhecimento da mediação como uma proposta de organização social e de convivência humana. Segundo ele, a mediação pode viabilizar a humanização da justiça e a restauração de valores sociais que foram sobrepostos por valores individualistas e competitivos do neoliberalismo. Desta forma, a mediação deve ser concebida como uma prática social que se estrutura a partir do respeito á lei, ao outro e a si próprio. Elementos preponderantes da Mediação 1º protagonismo e autonomia dos interessados na busca de uma solução que satisfaça a ambos; 2º papel do mediador como condutor do diálogo, o que demanda a sua capacitação em técnicas específicas para essa função; 3º duplo escopo do procedimento, direcionando não somente à resolução da controvérsia que gerou o processo, mas também a restauração da comunicação entre os litigantes, hábil à prevenção de novos litígios (MOLINARI, 2015) IMPORTANT E 5.2 A PESSOA DO MEDIADOR O mediador não é um observador externo, mas um participante ativo. Atua e dirige, joga e treina. Sua vontade e interesses precisam desaparecer para que as vontades e interesses das partes submerjam. Desde a acolhida, isso se manifesta pela forma como ele acolhe genuinamente os envolvidos e a maneira como se expressam, antes de acolher o conflito que os trazem ao espaço de trabalho. Para definir a pessoa do mediador, Vezzulla (1998) refere que uma das formas mais efetivas é dizer o que ele não é. O mediador não é um juiz, pois não cabe a ele julgar, tampouco dar vereditos. O mediador não é um negociador, cujo interesse direto é o resultado, visto que o sucesso da mediação não está atrelado ao fato dos mediandos chegarem a um acordo. Também não é um árbitro que emite laudos e decisões. O mediador é um terceiro que atua, como já foi assinalado, de forma neutra e conduz sem decidir. Ainda, segundo Vezzulla (1998), o mediador é como o marisco que fica na pior das posições, entre o mar e a rocha. Mediador é como a parteira, que ajuda a dar à luz aos reais interesses dos envolvidos. 146 UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS Segundo Haynes e Marodin (1996), o mediador é alguém que não está comprometido com qualquer uma das partes em particular, pois está equilibrado entre as partes; controla o processo, e não o conteúdo (este é controlado pelos participantes); não aceita definições unilaterais; trabalha pelas construções de opções; não guarda segredos um dos outros e viabiliza para que o “não dito” possa, em ambiente protegido, ser dito. O que os autores referidos apontam é a importância da pessoa do mediador no trabalho que realiza. Na sua atuação, valores, crenças e prismas pessoais podem, em algum momento, entrar em conflito com suas crenças, valores e prismas profissionais. Sua formação como mediador precisa capacitá-lo a reconhecer o conflito e concentrar-se na relação profissional que mantém com o conflito e com as pessoas que vivenciam o conflito. O mediador assume uma posição neutra na condução do processo de mediação. Isso não significa dizer que o mediador não tem sua posição pessoal sobre o conflito. Ele o tem, e isso interfere diretamente no trabalho que realiza. Essa posição tem como fundamentação epistemológica o pensamento sistêmico, que é coerente com as características da ciência contemporânea emergente. Conhecer o fenômeno passa diretamente por conhecer o observador. Disto resulta a viabilização da postura neutral do mediador, prevista na Lei da Mediação e no Novo Código de Processo Civil, no art. 2º da Lei nº 13.140/15 e no art. 166 da Lei nº 13.105/15, envolve a necessidade de que o mediador reconheça sua visão de homem mundo e de seus limites pessoais e profissionais. Para facilitar a consolidação dessa postura neutra e imparcial, faz-se necessária a autorreflexão que, segundo Vezzulla (1998), traz consciência ao mediador para analisar as próprias sensações e reações e confere caminhos para acessar as melhores ferramentas que darão suporte à condução produtiva em prol de objetivos satisfatórios. Para ele, o mediador necessita estar vigilante e convicto de que as pessoas buscam ajuda porque não conseguem enxergar a posição do outro, já que estão mergulhadas em sua posição. A produção de Ury (2015) muito contribui para reforçar o que está sendo problematizado. Ele apresenta uma metáfora interessante para o aprofundamento da discussão. Sugere que o mediador se sente à mesa de jantar com os seus próprios medos, emoções e sentimentos, a fim de entender melhor o modo como funciona. Segundo ele, essa postura pode auxiliar na construção de relacionamentos mais saudáveis em diferentes âmbitos, pois isso se dá, também, nos relacionamentos construídos no espaço da mediação. O método de autoconhecimento proposto por Ury (2015), composto por cinco passos, é, segundo ele, uma forma de chegar ao sim consigo mesmo. O primeiro passo refere-se à proposta de colocar-se no seu próprio lugar, ouvindo com empatia suas necessidades básicas. O segundo refere-se ao compromisso de tornar-se responsável pela sua própria vida, assumindo o TÓPICO 3 | MEIOS AUTOCOMPOSITIVOS 147 cuidado dos seus próprios interesses. O terceiroindica a necessidade de mudar a forma como vê a vida. Já o quarto passo indica que se mantenha no presente. O quinto, a necessidade de respeitar os outros e terminar com a indicação de saber dar e receber, mudando a abordagem do jogo de tomar para dar. O autoconhecimento, considerando o que já foi assinalado, é uma das prerrogativas para a formação profissional. Entretanto, a grande maioria das escolas de formação tem priorizado o desenvolvimento de competências e habilidades, em detrimento das estratégias para o desenvolvimento do self do profissional. 5.3 FUNÇÕES DO MEDIADOR O mediador tem a função de ser o catalizador do processo, para que cada mediando possa responsabilizar-se por si e pelo relacionamento no qual está envolvido. O envolvimento do profissional é para facilitar processos emancipatórios e programação do devir. Como apresenta Warat (1999, p. 122-123) o mediador precisa ser capaz de: a) ouvir e tranquilizar as partes, fazendo-as compreender que ele entende o problema; b) passar confiança às partes; c) explicitar a sua imparcialidade; d) mostrar às partes que seus conceitos não podem ser absolutos; e) fazer com que as partes se coloquem no lugar uma da outra, entendendo o conflito por outro prisma; f) auxiliar na percepção de caminhos amigáveis para a solução do conflito; g) ajudar as partes a descobrir soluções alternativas, embora não deva sugerir o enfoque; h) compreender que, ainda que a mediação se faça em nome de um acordo, este não é o único objetivo. Possível de ser dito que é papel fundamental do mediador ser agente de transformação, viabilizando possibilidade de empoderamento dos envolvidos através de perguntas que visam reflexões e esclarecimentos. O mediador esforça-se para que os mediandos compreendam o que ocorre e como está sendo conduzindo o encontro. 5.4 REGRAS E PRINCÍPIOS DA MEDIAÇÃO Uma das principais características é ser um processo voluntário que oferece àqueles que estão vivenciando uma situação de conflito a oportunidade e o espaço adequado para buscar soluções, preservando laços de convivência. Outra característica é ser um processo que respeita o sigilo e intimidade dos envolvidos, de forma a promover a recuperação da autonomia e controle da vida pessoal, social e produtiva. 148 UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS Para além das características de voluntariedade e confidencialidade, a mediação postula a participação de um terceiro, que atua com imparcialidade. Um acordo construído e aceito pelos participantes pode ser um dos resultados possíveis. • Princípios – baseiam-se na Resolução nº 125/2010 do CNJ. Eles definem o comportamento. • Regras – são normas de conduta a serem observadas pelos mediadores. Princípios Regras Confidencialidade Informações Decisão informada Autonomia de vontade das partes Competência Ausência de obrigação de resultado Imparcialidade Desvinculação da profissão de origem Independência e Autonomia Compreensão quanto à conciliação e à mediação Respeito a ordem pública e às leis vigentes Empoderamento Validação FONTE: A autora 5.5 ESCOLAS OU MODELOS DA MEDIAÇÃO São três modelos que orientam a atuação do profissional: o Modelo de Harvard, que inspira os demais modelos prioritariamente por ter sido o primeiro; o Modelo Transformativo, cujo foco está na interação; e o Modelo Circular- Narrativo, que foca na desestabilização. O Modelo de Harvard é um modelo negocial, com procedimentos estruturados. Neste modelo não está previsto nenhuma indicação de sugestão pelo mediador e ele se baseia nos princípios de Negociação de Harvard: O que mais? O Modelo Transformativo tem seu foco no empoderamento e no reconhecimento. Parte do pressuposto de que quando as pessoas estão em situação de conflito, elas têm percepção de que são frágeis e não são reconhecidas pelo que dizem ou fazem. Desta forma, o modelo busca o empoderamento e TÓPICO 3 | MEIOS AUTOCOMPOSITIVOS 149 o reconhecimento através da apropriação pelos mediandos de seus próprios objetivos, recursos, opções e preferências. As perguntas feitas pelos mediadores são voltadas ao empoderamento, sem direcionamento: Como vocês querem gerir o processo? Como gostariam de ser tratados? Onde querem chegar? Querem momentos individuais? O Modelo Circular-Narrativo tem como objetivo desestabilizar as histórias que definem o comportamento dos envolvidos de forma a complexificar e ressignificar a narrativa de cada envolvido. O mediador precisa saber sobre os efeitos que está provocando no diálogo e estar consciente de que o conflito está enraizado em histórias dominantes. O foco desta escola é a importância da atenção à construção discursiva das histórias contatas pelos mediandos. Defende a busca pela autonomização das pessoas por meio da investigação e desconstrução da perspectiva que tem do conflito. 5.6 PROCEDIMENTOS Com base no Manual de Mediação Judicial, elaborado pelo Conselho Nacional de Justiça, o processo de mediação inicia com a Sessão de Abertura ou Declaração de Abertura. Essa sessão tem como propósito informar às partes sobre o processo de mediação, realizar combinações sobre a importância do estabelecimento de um tom cordial para o debate das questões e explicitar as expectativas quanto aos resultados do processo que irá iniciar. É importante e necessário que o mediador possa ganhar a confiança das partes. A segunda fase, também com base no Manual de Mediação Judicial, é a fase de Reunião de Informações. É o momento no qual os mediandos apresentam seus relatos, percepções e sentimentos acerca dos motivos que os trouxeram à mediação e têm a oportunidade de ouvir e serem ouvidos de forma respeitosa e empática. Ao final desta fase, é esperado que o mediador apresente um resumo dos relatos dos mediandos, abarcando questões principais, interesses subjacentes e sentimentos em comum, checando com os mediandos se ele compreendeu o que foi dito por ambos. Logo em seguida, caso seu entendimento dos relatos for aprovado pelos mediandos, é feita uma pauta conjunta que norteará o trabalho de resolução das questões controversas. No seguimento, cabe ao mediador decidir se realizará ou não sessões individuais. Estas são indicadas pelo Manual como ‘”um recurso que o mediador deve empregar, sobretudo, no caso das partes não estarem se comunicando de modo eficiente.”, também quando forem identificadas animosidades, dificuldades de expressão de interesses, particularidades e expectativas quanto aos resultados a serem alcançados. 150 UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS Ao término da fase de esclarecimento de questões, interesses e sentimentos, a próxima etapa, segundo o referido manual, é uma sessão conjunta com os mediandos, que tem por objetivo apresentar os progressos alcançados durante a mediação e dar prosseguimento à negociação entre as partes. A Construção do Acordo, quando possível, é considerada a fase final e tem por meta a objetivação do compromisso entre as partes, sendo ou não formalizado através de documento escrito, caso os envolvidos no processo cheguem a algum entendimento. É importante enfatizar que, na prática, essas fases, mesmo sendo apresentadas como um guia e passíveis de flexibilização, o que se observa é um certo formalismo e cobrança na sua utilização quando a mediação é realizada pelo Poder Judiciário. O que as pessoas mais desejam é alguém que as escute de maneira calma e tranquila. Em silêncio. Sem dar conselhos. Sem que digam: “Se eu fosse você”. A gente ama não é a pessoa que fala bonito. É a pessoa que escuta bonito. A fala só é bonita quando ela nasce de uma longa e silenciosa escuta. É na escuta que o amor começa. E é na não-escuta que ele termina. Não aprendi isso nos livros. Aprendi prestando atenção (RUBENS ALVES, s.d.). 5.7 TÉCNICAS PARA A CONDUÇÃO DE UMA MEDIAÇÃO Quando se fala em técnicas, é possível pensar que o procedimento da mediação pode ser conduzido por alguém quedomine um número significativo de técnicas. Na verdade, é muito mais do que isso. Na mediação, técnica não é sinônimo de ferramenta por si só, mas um conjunto de procedimentos que podem ser acionados na interação teórico-prática. Uma outra discussão interessante é que, além de conhecer, é importante definir qual a melhor técnica para atender a demanda que se apresenta e qual o melhor momento de utilizá-la.. Tânia Almeida (2013), uma renomada mediadora brasileira, fala sobre uma caixa de ferramentas (tool Box). Segundo ela, o mediador vai reunindo técnicas, procedimentos e atitudes preconizados por diferentes modelos e vai acessando conforme a demanda, necessidade, seu estilo e perfil dos mediandos. A autora supramencionada fala que as técnicas na mediação são “recursos comunicacionais” que objetivam provocar mudanças e facilitar que objetivos sejam alcançados. No Manual de Mediação Judicial está explicitado que o grande desafio do mediador, ao acionar as ferramentas da mediação, é estimular que as partes possam desenvolver posturas colaborativas, na busca de um entendimento recíproco. TÓPICO 3 | MEIOS AUTOCOMPOSITIVOS 151 Segundo o Manual de Mediação Judicial, são estas as ferramentas para provocar mudanças: • Recontextualização (ou paráfrase): técnica em que o mediador estimula a busca de um enfoque positivo das questões, dando outra perspectiva ao fato. Reformulação, pelo mediador, de frases ditas pelas partes, a fim de sintetizá- las ou reformulá-las sem alterar seu conteúdo. Dessa maneira, estimula-se a parte a considerar ou entender uma questão, um interesse, um comportamento ou uma situação de forma mais positiva – para que, assim, as partes possam extrair soluções também positivas. • Audição de propostas implícitas: esforço para que os mediandos possam escutar propostas que eles próprios apresentam, mas que nem eles reconhecem como propostas devido ao estado de ânimo exaltado com o qual se comunicam. • Afago (ou reforço positivo): reforço, por parte do mediador, a um comportamento ou postura positiva dos envolvidos para a mediação. • Silêncio: o uso do silêncio pelo mediador pode facilitar que os envolvidos no conflito possam refletir sobre o conteúdo da comunicação na sessão de mediação, como os questionamentos, a expressão de sentimentos ou falas. • Sessões privadas ou individuais (cáucus): encontros privados com cada um dos mediandos, especialmente na fase de negociações, para acalmar os ânimos e para que possam expressar algo que não o fariam na frente da outra parte, como construir possibilidades de acordo, reunir informações úteis, entre outros. • Inversão de papéis: técnica que estimula que cada um dos envolvidos possa entender a situação do ponto de vista do outro. Desta forma, a técnica estimula a empatia. A inversão de papéis é usada prioritariamente nas sessões privadas com cada um dos envolvidos. • Geração de opções/perguntas orientadas à geração de opções: técnica que estimula, por meio de perguntas de cunho reflexivo, que os mediandos possam construir novas alternativas visando benefício de todos os envolvidos. • Normalização: técnica que normaliza o conflito, que cria a noção de que estar em conflito é algo comum às pessoas, estimulando que os mediandos possam perceber que o que está em pauta pode oportunizar melhoria na relação. • Organização de questões e interesses: técnica que facilita que se estabeleça com clareza uma relação entre as questões a serem debatidas e os interesses reais que as partes tenham. • Enfoque prospectivo: está relacionado à lide sociológica. Técnica utilizada para desconstruir um discurso que busca culpados e projeta para o futuro. • Teste de realidade: técnica utilizada nas sessões privadas, em que o mediador busca checar com os mediandos se as combinações propostas funcionarão na prática. • Validação de sentimentos: a técnica é utilizada para o reconhecimento dos sentimentos decorrentes do conflito, afirmando os aspectos de normalidade destes sentimentos. A validação de sentimentos semelhantes deve ser feita em conjunto, já para situações unilaterais é indicado utilizar em sessões privadas. 152 UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS A condução da mediação é flexível. Cabe ao mediador conhecer as técnicas e poder decidir quais e quando devem ser utilizadas para que o processo possa ser produtivo. Além de aprender sobre técnicas, deve-se investir no desenvolvimento de sensibilidade para compreender os conflitos, suas concepções e possíveis transformações. Acadêmico, a seguir, disponibilizamos uma lista de livros sobre mediação: Caixa de ferramentas em mediação: aportes práticos e teóricos de Tania Almeida. Mediação de conflitos: para iniciantes, praticantes e docentes de Tania Alemida, Samanta Pelajo e Eva Jonathan. Mediação de conflitos e práticas restaurativas de Carlos Eduardo de Vasconcelos. Arbitragem: mediação, conciliação e negociação de Luiz Antonio Sacavone Junior. Transformação de conflitos: teoria e prática de John Paul Lederach. Manual de mediação: teoria e prática na formação do mediador de Enia Cecilia Briquet. DICAS TÓPICO 3 | MEIOS AUTOCOMPOSITIVOS 153 LEITURA COMPLEMENTAR O texto indicado como Leitura complementar é parte de um artigo intitulado: Mediação de conflitos: um meio de prevenção e resolução de controvérsias em sintonia com a atualidade, escrito por Tania Almeida. O artigo integra uma coletânea organizada por José Ricardo Cunha em Poder Judiciário – Novos olhares sobre gestão e jurisdição, obra publicada pela Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro, em 2010. A opção por este texto decorre da importância de todo o acadêmico ocupar-se com a teoria que orienta a prática a ser desenvolvida. AS BASES TEÓRICAS DO RITO DA MEDIAÇÃO E DE SUAS TÉCNICAS Tania Almeida Além do quadrante de negociação da Escola de Harvard, a Mediação recebe contribuições de outros saberes e se caracteriza pela interdisciplinaridade. Teorias de comunicação contribuem com numerosos aportes e sustentam algumas técnicas utilizadas na Mediação. A comunicação humana é uma das vigas mestras de sustentação da dinâmica da Mediação e precisa ser decifrada pelo mediador, a cada momento, de forma a servir de referencial para a identificação do timing e da intervenção a ser utilizada. Mais voltadas para o pragmatismo da comunicação humana (WATZLAWICK, BEAVIN E JACKSON, 1967) ou para as narrativas e a análise dos discursos (MAINGUENEAU, 1997) e de sua subjetividade, as contribuições são inúmeras. Em comum, tais contribuições têm a concepção de considerar a linguagem como um cenário onde se constroem os sujeitos, sua forma de expressão e de ação, sempre relacionais, ou seja, referida ao outro. O olhar sistêmico (BERTALANFFY, 1977), outro pilar, contribui para que a Mediação reconheça os componentes multifatoriais dos desacordos – legais, psicológicos, sociológicos, financeiros, entre outros – e os maneje segundo sua prevalência, de forma a atender aos interesses e necessidades dos mediandos. Também como resultado do olhar sistêmico, mediadores entendem que o fato trazido à Mediação integra uma cadeia de acontecimentos passados e futuros e que sua intervenção provocará alterações na lógica de desenvolvimento dessa cadeia, com repercussões sobre um conjunto de pessoas. Mediadores comprometem-se com o curso e com o resultado da Mediação, agindo cuidadosamente na condução de sua dinâmica, avaliando, continuamente, a adequação de sua atuação, pois a consideram parte do sistema de resolução. Eles sabem que sua intervenção poderá contribuir para a construção ou para a desconstrução de impasses futuros. 154 UNIDADE 2 | OS MEIOS QUE COMPÕEM O SISTEMA DE JUSTIÇA MULTIPORTAS A contribuição da sociologia foi decisiva para se entender o valor das redes sociais nos processos negociais. Mediadores estão atentos à negociação, em paralelo, que os mediandos precisam fazer com os seus interlocutores – advogados, amigos,parentes, colegas de trabalho ou de crença religiosa, entre outros. Com essas pessoas são estabelecidas alianças e construídas leituras sobre o desacordo e sobre o oponente, assim como soluções e posições a serem defendidas. Os mediandos não podem, em determinados momentos, progredir em uma negociação, em função do compromisso de fidelidade estabelecido com suas redes de pertinência. Por vezes, é preciso auxiliá-los a negociar com essas redes, dentro ou fora do processo de Mediação, para que a desavença possa resultar em autocomposição. A Mediação estimula o diálogo dos mediandos com suas redes de pertinência e permite que essas ganhem a sala de negociações quando são identificadas como geradoras de impasses à fluidez do processo, ou, ainda, quando se constituem suporte para o cumprimento do acordado. A Mediação inspira-se no direito ao abraçar o propósito de auxiliar pessoas a resolverem seus conflitos, norteadas pelo parâmetro da solução justa, atentas a não ferirem as margens legais oferecidas por sua cultura – a solicitação de revisão legal do acordado, antes de sua assinatura pelos mediandos, sempre que a matéria assim o exigir, cumpre uma norma ética na Mediação. O instituto atende plenamente ao que o desembargador Kazuo Watanabe (1988) denomina de acesso à ordem jurídica justa, quando este se dá de forma adequada, tempestiva e efetiva. Nessa concepção, a Mediação potencializa o acesso à justiça na medida em que é: (i) adequada: quando eleita entre outros métodos, por possuir especial propriedade de abordagem e de resolução em relação ao tema do conflito; (ii) tempestiva: porque ocorre no tempo dos mediandos, uma vez que ditam o período de duração do processo, em muito influenciado por suas habilidades e capacidade negocial; (iii) efetiva: porque a solução é construída pelas próprias pessoas envolvidas no desacordo, tendo como parâmetros a satisfação e o benefício mútuos, a partir do atendimento de suas necessidades. Da psicologia, a Mediação importa leituras teóricas sobre o funcionamento emocional humano e valoriza, como componente constitutivo dos desentendimentos, as emoções (FIORELLI; MALHADAS JUNIOR; MORAES, 2004). Das emoções, a Mediação cuida, indiretamente, ao se dispor a trabalhar a pauta subjetiva, anteriormente mencionada, e ao se propor a incluir o restauro da relação social dos envolvidos, como objeto de cuidado. As abordagens que incluem o relacionamento humano como foco não podem deixar de considerar a presença invariável da emoção. À semelhança do que pensava Foucault sobre a existência de um jogo de poder nas relações – tomava-o como certo e dedicava- se, exclusivamente, a pensar em como o poder era manejado –, a presença da emoção nos jogos relacionais é inequívoca, restando identificar, somente, como está sendo manejada. TÓPICO 3 | MEIOS AUTOCOMPOSITIVOS 155 Da filosofia, além de Foucault, preciosas inspirações alimentam o processo de Mediação. Entre elas encontra-se o principal instrumento de trabalho do mediador, as perguntas, que devem ser oferecidas como na maiêutica socrática. Filho de uma parteira, Sócrates desejava, pela maiêutica, que as pessoas “parissem” as próprias ideias, após refletirem, em lugar de repetirem, indiscriminadamente e sem análise crítica, pensamentos e ideias do senso comum. Esse é o principal objetivo das perguntas na Mediação: gerar informação para os mediandos – aqueles que têm poder decisório e serão os autores das soluções – de forma a provocar reflexão. Dessa maneira, pode-se auxiliar os mediandos a flexibilizarem as ideias trazidas na fase inicial do processo, momento em que as reais necessidades e interesses do outro não estão sendo ainda levados em consideração. FONTE: ALMEIDA, T. As bases teóricas do rito da Mediação e de suas técnicas. [s.d.] https://www. cnj.jus.br/wp-content/uploads/2011/02/Artigo%20Tania-86_Dez-31_Mediacao_de_Conflitos_Um_ meio_de_prevencao_e_resolucao_de_controversias_em_sintonia_com.pdf. Acesso em: 12 dez. 2019. Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. CHAMADA 156 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • A Resolução nº 125/2010, do Conselho Nacional de Justiça, e o Código de Processo Civil de 2015 viabilizaram a construção da justiça multiportas, que indica o método ou técnica mais adequada para a solução de conflitos. • A Escola de Negociação de Harvard difundiu uma nova forma de agir: a negociação baseada em princípios, a qual se baseia no conceito do “ganha- ganha”. • A negociação baseada em princípios busca criar valor na negociação e possui quatro princípios gerais que permitem resultados ganha-ganha pautados nos interesses: 1º separar as pessoas do problema; 2º focar nos interesses dos envolvidos, e não nas suas posições; 3º criar opções de ganho mútuo; e 4º mapear critérios objetivos para legitimar a escolha das opções. • Na negociação, podem ser identificadas três fases: análise, planejamento e discussão. • Na conciliação, é esperado que o terceiro – conciliador – interfira no processo da discussão, sugerindo um possível acordo e apontando possíveis soluções. • O conciliador atua de forma ativa em conflitos pontuais e em casos nos quais não existe relacionamento continuado entre as partes. Ele sugere possíveis soluções • A mediação se dá preferencialmente em casos nos quais existe algum vínculo anterior entre os envolvidos no conflito, em casos de relações continuadas. • A mediação tem como produto idealizado a superação de um Judiciário sobrecarregado e demorado, de forma que os envolvidos nos conflitos consigam, em menos tempo, com baixo custo e com a possibilidade da manutenção dos relacionamentos, construir soluções que beneficiem a todos. • São procedimentos da mediação: pré-mediação ou acolhimento, declaração de abertura, narrativas, resumo, pauta, sessões privadas (quando necessário), geração de opções, teste de realidade, acordo e encerramento. 157 Considerando procedimentos indicados para a condução da mediação. 1 O que é importante relacionado à conduta do mediador? a) ( ) Prestar aconselhamento jurídico sobre a solução. b) ( ) Promover a reflexão e sintetização. c) ( ) Fazer coaching e ajudar na solução. d) ( ) Acusar uma das partes. 2 Deve o mediador despender o mesmo tempo e energia com cada uma das partes? a) ( ) Sempre. b) ( ) Sempre que possível deve ser concedido o mesmo tempo a cada uma das partes. c) ( ) É indiferente, nunca poderá ser o mesmo. d) ( ) O mediador é quem conduz o processo e aplica nele as competências e energias que forem necessárias. 3 “Imparcialidade” é uma definição de que característica indispensável a qualquer mediador? a) ( ) Autoridade b) ( ) Clarividência c) ( ) Neutralidade d) ( ) Compaixão AUTOATIVIDADE 158 159 UNIDADE 3 PROCESSOS DE MEDIAÇÃO: MEDIAÇÃO FAMILIAR, ESCOLAR E COMUNITÁRIA OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • compreender diferentes contextos para a utilização da mediação como meio para a resolução adequada de conflitos; • reconhecer elementos da dinâmica relacional da família que podem indi- car disfunções e possibilidades da utilização da mediação como método para a superação do impasse; • identificar o papel social das escolas e meios adequados para lidar com os conflitos que se expressam neste contexto; • compreender os contextos comunitários como espaços de conflito e de construção de agentes de solução destes conflitos. • relacionar a mediação comunitária como instrumento de fortalecimento da democracia. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – MEDIAÇÃO FAMILIAR TÓPICO 2 – MEDIADAÇÃO ESCOLAR TÓPICO 3 – MEDIAÇÃO COMUNITÁRIA Preparado paraampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 160 161 TÓPICO 1 MEDIAÇÃO FAMÍLIAR UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Famílias “normais” têm problemas e cotidianamente se esforçam para sua superação, sendo que algumas delas precisam de ajuda quando não conseguem superar desafios sozinhas. Famílias que vivenciam mudanças importantes na sua composição, como é o caso de separação, recasamentos, cuidado de familiares doentes ou idosos, podem demandar auxílio para definição de aspectos da dinâmica de suas relações. Definições sobre quem cuida de quem, quando cuida e a participação financeira são alguns dos aspectos que historicamente são decididos em espaços do judiciário. Já que as relações familiares se apresentam como relações continuadas, a mediação familiar pode ser um método adequado para facilitar o processo de comunicação entre os envolvidos e, dessa forma, auxiliar na transição da situação vivenciada pela família. Apresentar dados da história da mediação familiar, particularmente sobre como ela é incorporada no sistema jurídico e extrajurídico, apresentar informações sobre situações que podem demandar a utilização deste método, viabilizar problematizações sobre a família e a dinâmica de suas relações e, por fim, apresentar ponderações sobre perspectivas metodológicas da mediação familiar é o objetivo deste item. 2 PERSPECTIVA HISTÓRICA DA MEDIAÇÃO FAMILIAR Mudanças sociais, culturais e familiares surgidas nas décadas de 1960 e 1970, e outras ocorridas no século passado, impactaram em vários níveis na vida dos sujeitos sociais, por exemplo, o expressivo aumento de divórcios e demais conflitos familiares. Essas mudanças também acabaram por gerar necessidades de encontrar abordagens apropriadas para o enfrentamento dos problemas. Segundo Gomes (2018), o sistema jurídico (e judicial), alicerçado em leis dirigidas para a regulação de relações jurídicas familiares – relativamente estáveis – é confrontado com uma diversidade de conflitos familiares que requisitaram a revisão dessa estrutura e organização. UNIDADE 3 | PROCESSOS DE MEDIAÇÃO: MEDIAÇÃO FAMILIAR, ESCOLAR E COMUNITÁRIA 162 Essas tensões podem ter sido determinantes para o surgimento de soluções inovadoras que permitiram a (re)invenção do processo de mediação familiar como método extrajudicial de resolução de conflitos familiares. Conhecimentos da Psicologia, do Direito e de outras Ciências Sociais foram incorporados para a construção de estruturas de conhecimento que puderam dar base teórica e metodológica a este método. O entendimento sobre a forma como a mediação familiar foi se estruturando pode ser alcançado através da análise de alguns conceitos. A mediação familiar está incluída no campo dos meios complementares e alternativos de resolução de conflitos familiares, podendo acontecer antes, durante ou após um processo judicial. Tomé (2008, p. 43) afirma que a mediação familiar é um “método de resolução de conflitos, alternativo ou complementar ao sistema judicial que visa alcançar um acordo conjunto, melhorar a comunicação, reduzir a área de conflito e tomar decisões autônomas”. Na mesma direção, Parkinson (2008, p. 16) define mediação familiar como sendo um processo “no qual duas ou mais partes em litígio são ajudadas por uma ou mais terceiras partes imparciais (mediadores) com o fim de comunicarem entre elas e de chegarem à sua própria solução, mutuamente aceite, acerca da forma como resolver os problemas em disputa”. As definições acima têm em comum a prerrogativa de que as famílias podem, em algum momento de sua trajetória, necessitar da ajuda de um terceiro para lidar com conflitos, melhorando a comunicação entre seus membros, de forma a viabilizar a proteção que necessitam. Mediação de família pode também ser definida como um processo autocompositivo, em que as partes em disputa são auxiliadas por um terceiro neutro ao conflito, ou um painel de pessoas, sem interesse na causa, para auxiliá- las a chegar a uma composição dentro de conflitos característicos de dinâmicas familiares e, assim, estabilizarem, de forma mais eficiente, um sistema familiar (CNJ, 2011, s.p.). Importante salientar o enfoque do conceito para a pessoa do mediador. Neste próximo conceito, esse enfoque também é indicador para a compreensão da proposta. É o processo pelo qual uma terceira pessoa imparcial ajuda os que estão envolvidos numa ruptura familiar, em especial casais em vias de separação ou divórcio, a se comunicarem melhor entre si e atingirem, de comum acordo e com base em informações adequadas, as suas próprias decisões sobre alguma ou todas as questões relativas à separação, divórcio, filhos, finanças ou propriedades. Antes de apresentar reflexões sobre o processo teórico metodológico da mediação familiar, é importante focar na família e na dinâmica de suas relações, visto que são elas que materializam o objeto de trabalho sobre o qual devemos buscar aprofundamentos. TÓPICO 1 | MEDIAÇÃO FAMÍLIAR 163 3 FAMÍLIAS E FAMÍLIAS CONTEMPORÂNEAS Encontros e Despedidas “Todos os dias é um vai-e-vem, A vida se repete na estação, Tem gente que chega pra ficar, Tem gente que vai pra nunca mais. Tem gente que vem e quer voltar, Tem gente que vai e quer ficar, Tem gente que veio só olhar, Tem gente a sorrir e a chorar” (MILTON NASCIMENTO) É importante para a compreensão da família tomar como ponto de partida o imaginário social, que tende a postular família como um modelo único de instituição, em paradoxal relação com os dados histórico-sociais, cujas evidências demonstram, verdadeiramente, que apenas o vocábulo “família” apresenta similitude no tempo e no espaço da vida em sociedade. Portanto, se é fato que existe família tanto quanto existe o ser humano, fato inescondível é que família tem muitos conteúdos e formas. Nessa linha de raciocínio, quando se está diante da instituição família, Osório (1996) esclarece que é possível descrever as várias estruturas ou modalidades assumidas pela família através dos tempos, mas não é possível conceituá-la. Do mesmo modo que não é possível encontrar modelos únicos e que atendam idealizações. São muitas as variáveis culturais, ambientais, sociais, econômicas, políticas e religiosas que determinam as diferentes composições familiares. Por isso, é imprescindível conhecer as ditas variáveis para a compreensão e descrição da instituição família. A propósito desse tema, Sluski (1997) refere que se surpreende toda vez que se conecta com a representação social de família na modernidade – a famosa família constituída por pai-mãe-filhos (do pai trabalhador, mãe do lar, filhos cuidados pela mãe) –, visto que esse modelo idealizado de família não tem mais do que 200 anos. Porém, o referido modelo foi tão fortemente registrado no imaginário social da população que qualquer outro modelo tende a ser entendido como desajustado, desorganizado, disfuncional, entre outros predicados. E é justamente por isso que Vezzulla (2018) chama a atenção para o fato de que não existe um conceito que sirva única e exclusivamente para família, ele entende família como todos aqueles que se apresentam como família. Tal compreensão está diretamente vinculada à percepção dos avanços da cultura humana. Vezzulla (2018) diz que, de alguma maneira, sentimentos de união, UNIDADE 3 | PROCESSOS DE MEDIAÇÃO: MEDIAÇÃO FAMILIAR, ESCOLAR E COMUNITÁRIA 164 segurança e solidariedade mantêm um diálogo crescente com o que se entende por família, porque nossa sociedade contemporânea, cada vez mais, restringe o conceito de comunidade a partir da vivência do que seja família, enquanto espaço de proteção, de segurança e de reconhecimento. Nesse sentido, Vezzulla (2018) ressalta a importância de hoje colocar em pauta outros temas a partir do estudo do que seja família, tal como a fertilização, os relacionamentos homoafetivos e os ciclosde fertilidade alterada. A ciência, nesse aspecto, tem produzido profundas alterações nos cotidianos nas relações. Às vezes, o filho é mais novo que os netos ou o sobrinho é mais velho que os tios, o que torna necessário ampliar a concepção. Assim, mudando a sociedade, mudam seus conceitos. Pensar ou falar sobre maternidade, por exemplo, não explica por si só o que está contido nesse papel. Mulheres com 60 anos, por exemplo, atualmente podem gestar. Por isso, apesar do imaginário social sobre o que seja mãe, não se explica a maternidade pura e simplesmente por seu vocábulo, porque já não estamos mais diante da maternidade/paternidade de outrora. Além desses atravessamentos da atual realidade social, para a compreensão do sentido do que seja família, é importante saber que toda pessoa entende a família a partir de suas autorreferências. É impossível pensar na família, e não se reportar a essas questões subjetivas. Em outras palavras, falar em mãe implica necessariamente falar sobre a minha mãe. Eu me conecto com essa representação para compreender quem é aquela mãe a quem observo ou estou a interagir. Falar em família, portanto, segundo Minuchin (1990, p. 53), é falar em “matriz da identidade ou núcleo identitário”, termos que representam a ideia de pertencimento, dentro da ideia de construto da identidade. Supondo, por exemplo, que tenhamos Joana da Silva entre nós, antes de ser Joana, essa pessoa é “da Silva”. Assim, o nome representa não somente o registro de identidade perante os outros (Joana), perante a família e perante a comunidade, enquanto pessoa específica e separada do todo, como também representa, desde aquele minúsculo universo intraútero, o pertencimento a um determinado núcleo que lhe é ascendente (da Silva) e que lhe absorve dentro de um determinado tronco familiar. De outro lado, não se pode pensar família descolada de seu contexto social, porque esse contexto lhe confere determinadas especificidades. O jeito de ser, aquilo em que se acredita, como se responde a este ou aquele comportamento. Esse convívio e as tensões que dele decorrem explicitam a complementaridade da família por sua função social. No desenho da forma, conteúdo e normas de cada família, o meio social não apenas alimenta de sentido, como também é balizador de responsabilidades. Isso porque, se antes o Estado se prestava a constituir, validar e proteger TÓPICO 1 | MEDIAÇÃO FAMÍLIAR 165 prioritariamente o interesse particular de cada cidadão – a partir da ótica da tutela de liberdades –, atualmente, vive-se o modelo social de Estado, segundo o qual cada indivíduo precisa ser considerado em sua função social, já que “em toda sociedade deve haver uma solidariedade que implique que a atuação de cada um tenha reflexos na ordem global” (FACHIN; GONÇALVES, 2011, p. 11). Dentre as configurações familiares conhecidas na contemporaneidade, Vezzulla (2018) chama a atenção para a descrição do que seja família monoparental, porque de qualquer modo o pai esteve, a mãe esteve naquela família, mesmo que atualmente está ausente. Entende-se, portanto, que ainda que estejamos categorizando e ampliando a compreensão do que seja família, o termo monoparental parece inadequado, sendo meramente uma descrição aparente. Nesse sentido, há sempre a inclusão do terceiro e, para Vezzulla (2018), é muito importante a existência da terceiridade (o terceiro, o filho). Daí que a monoparentalidade representaria, a seu entender, um equívoco de concepção, dado que, em alguma medida, houve um pai e houve uma mãe que estão presentes na ausência. Por isso mesmo, a organização familiar está diretamente relacionada ao sistema comunicacional das pessoas envolvidas. Cada família constitui, na sensível compreensão de Carter e McGoldrick (2012, p. 9), um “subsistema emocional que reage aos relacionamentos passados, presentes e antecipa aos futuros”, compreendendo, por isso mesmo, um sistema emocional maior, em que a vida de cada partícipe está ligada a diferentes gerações, seja qual for a estrutura familiar. A rigor, um bom começo de um desfecho para este tópico é pensar que família não é, e sim que famílias são, uma vez que o plural abarca dentro do vocábulo “família” toda a diversidade de arranjos familiares existentes hoje. 3.1 DINÂMICA RELACIONAL DA FAMÍLIA Como nossos pais “É você Que ama o passado E que não vê Que o novo sempre vem”. (ELIS REGINA) Por que formamos família? É algo natural no ser humano, na cultura e na civilização? Para problematizar essa questão, é importante referir que pensar contemporaneidade implica pensar em constantes mudanças e transições sociais. A família participa desse processo transicional, o que UNIDADE 3 | PROCESSOS DE MEDIAÇÃO: MEDIAÇÃO FAMILIAR, ESCOLAR E COMUNITÁRIA 166 significa dizer que ela também muda, mas segue com a função de manter algum nível de proteção para seus membros, porque a condição neotênica do ser humano faz com que ele necessite de cuidados, e a família, a menor unidade da sociedade, é que tem oferecido o dito cuidado, independentemente da configuração de como se organiza. Neotênica – Trata-se da impossibilidade de a espécie humana sobreviver ao longo dos primeiros anos de vida sem cuidados intensivos. Sobre o tema, recomenda- se o texto de Gaio Fontella e Fabiane Majolo, disponível em: http://www.ufrgs.br/e-psico/ subjetivacao/familia/familia-texto.html. DICAS Segundo Anton (1998, p. 24), [...] sem dúvida, as famílias refletem e reforçam o sistema – um sistema que se organiza, em primeiro lugar, para manter a si mesmo. É nas famílias e entre amigos que as pessoas adquirem um significado e um valor muito particular, sentindo-se individuais e únicas; em condições favoráveis, sentindo-se, inclusive, íntimas. Para Minuchin (1990), a família é um sistema aberto em constante transformação com outros sistemas extrafamiliares. Referir-se à família em termos de sistema pode auxiliar a compreender quão dinâmica podem ser as interações dos diferentes subsistemas que o compõem, bem como os que com ele interagem. Subsistemas são “agrupamentos familiares baseados em gerações, gêneros e interesses comuns” (NICHOLS; SCHARTZ, 2007, p. 184), por exemplo, subsistema conjugal, parental, fraternal e filial, cada um deles desenvolvendo papéis e funções diferentes que regulam os relacionamentos entre si. Ao descrever as funções da família, Minuchin (1990) apresenta duas funções básicas e complementárias entre si: função nutritiva e função normativa. A primeira diz respeito ao cuidado, apego, alimentar, vestir, acalentar e dar a este sujeito um sentido de pertencimento. O sobrenome está relacionado ao exercício desta função, o “jeito” especial e único do grupo familiar ser e cuidar dos seus. Como já foi mencionado, complementar à função nutritiva, está a função normativa, que como o nome já diz, relaciona-se a regras, normas e socialização dos sujeitos. Cabe à família preparar seus membros a atuarem socialmente, irem aos poucos, encontrando formas de ser e agir no mundo segundo suas próprias escolhas. Nenhuma família cumpre suas funções se não deixa seus filhos “irem”, voarem. As famílias, considerando suas características, são mais nutritivas ou mais normativas. Algumas priorizam as relações internas e o estar junto, TÓPICO 1 | MEDIAÇÃO FAMÍLIAR 167 compartilhando momentos e experiências. Outras, investem na individualização dos seus membros, favorecendo que cada um possa buscar projetos individuais, baseados em suas próprias escolhas. Um importante indicador para o desempenho da parentalidade são as fronteiras, que definem como se dá essa proteção e diferenciação dos indivíduos. As fronteiras podem ser classificadas, segundo Minuchin (1990), como nítidas, difusas e rígidas. As nítidas são aquelas em que a família consegue determinar funções e espaços de cada integrante. Já as fronteiras difusas demonstram que não existem limites entre os subsistemas, sendo que os membros tendem a manteruma postura mais intrusiva uns com os outros. Segundo Minuchin (1990), as famílias que apresentam fronteiras difusas podem ser chamadas de famílias emaranhadas ou aglutinadas, por possuírem indiferenciação entre os subsistemas. Assim, o que acontece a um dos seus membros interfere diretamente na vida do outro. Famílias com esse tipo de fronteira tendem a apresentar falta de diferenciação entre os subsistemas, o que acaba por dificultar a autonomia dos seus membros. Por fim, temos as famílias que possuem fronteiras excessivamente rígidas entre os subsistemas. A comunicação entre os membros dessas famílias fica dificultada, bem como a função protetiva. Nessas famílias, os vínculos são frágeis, caracterizando distanciamento emocional e reduzido sentimento de pertencimento. A compreensão sobre fronteiras familiares está relacionada à ideia de que a família mantém unidade para apoiar seus membros, e tem sob sua responsabilidade basicamente duas funções: nutrir e normatizar. A ideia de nutrir está relacionada a dar colo, comida e aconchego, oferecendo ao sujeito o sentimento de pertença e de ser partícipe de determinado grupo social. A ideia de normatizar é oferecer ao sujeito a possibilidade de se individuar, de fazer escolhas, de atender a valores, normas, socializar e de ir a um só tempo se separando, mas pertencendo. Uma nota sobre a tarefa do cuidado e proteção é que, se na modernidade, a família nuclear conseguia viabilizar o cumprimento das funções de nutrir e normatizar, as mudanças na contemporaneidade evidenciam a necessidade de ampliação da rede de apoio. Não se pensa, portanto, apenas na família nuclear, mas na família enquanto rede, incluindo tanto as pessoas da família nuclear, quanto da família extensa que são pessoas significativas e que importam no cuidado integral daquelas pessoas (GIONGO, 2003). Retomando o que já foi anteriormente explicitado, historicamente tem havido uma divisão de funções relacionadas ao universo feminino e masculino: fusão, dependência e complemento costumam estar associadas a funções do universo feminino, enquanto separação, emancipação e normatização costumam estar associadas ao universo masculino. Todas as funções maternas estão relacionadas ao espaço privado, do lar e ao que acontece entre as paredes, no interior da casa. Já as funções paternas estão relacionadas ao que acontece no espaço social. UNIDADE 3 | PROCESSOS DE MEDIAÇÃO: MEDIAÇÃO FAMILIAR, ESCOLAR E COMUNITÁRIA 168 Essa divisão está tão presente no imaginário social que ainda nos surpreendemos quando mães referem que seus filhos ficarão melhor atendidos pelo pai, ou mães que decidem priorizar trabalho e ascensão profissional. Ilusoriamente, na função materna a criança não é independente. Forma- se uma dependência funcional geradora de vida, de um desenvolvimento erógeno que permite a construção do registro mental que interage entre o sujeito e o mundo exterior (leia-se: enquanto ser sensível). Dar de comer gera um registro de necessidade (fome) que se atende de determinada forma (alimento). Na satisfação das necessidades, produz-se a inscrição mental da necessidade. Essa interdependência, essa gravidez representacional, forma parte da função materna que é exercida por todos os adultos que cuidam da criança. É o movimento integrador da criança, a continuidade da gestação extrauterina Os elementos problematizados estão inter-relacionados e os membros da família, na dinâmica de suas relações, lidam com eles, considerando seu sistema de crenças e valores, a etapa do ciclo evolutivo que está vivenciando, bem como a rede de pertencimento social com que mantém relações. Importante considerar o quão exigente é para os adultos “dar conta” das tarefas que lhe são atribuídas, especialmente pelos atravessamentos sociais, que frequentemente perpassam as fronteiras da família. 4 DIVÓRCIO E SUAS FASES O divórcio é apresentado, neste texto, como um processo que pode ocorrer durante o ciclo vital da família, desafiando sua estrutura e sua dinâmica relacional. Desafiar não significa acabar com a família, mas transformá-la. Em outras palavras, a estrutura se altera com a dissolução da conjugalidade, mas a família, enquanto organização, mantém-se. O divórcio pode representar para os envolvidos um evento de vida estressante ou um momento de crise por exigir sucessivas mudanças, adaptações e reequilíbrios no funcionamento familiar. Ele é um processo singular, haja vista que ele terá maior ou menor impacto nas pessoas envolvidas dependendo de alguns fatores (econômico, social, cultural e religioso) e, ainda, das redes de apoio que se estabelecem ou não. Não há dúvidas sobre o aumento no número de divórcios. Quanto aos fatores etiológicos relacionados a sua incidência, Peck e Manocherian (2001) relacionam: a diferença de status socioeconômico, quando a mulher ganha mais do que o homem; a instabilidade de renda e do emprego do marido; o menor grau de instrução do homem, quando comparado com a sua esposa; a idade dos cônjuges, pois quanto mais jovens, mais alta é a incidência; a ocorrência de gravidez pré-nupcial; a diferença racial; e as questões de gênero. TÓPICO 1 | MEDIAÇÃO FAMÍLIAR 169 Cada divórcio é particular, assim como são únicas as pessoas que se separam. Entretanto, é possível assinalar padrões gerais sobre essa transição e como as pessoas lidam com o processo. Em um sentido amplo, é possível referir três fases de transição pelas quais passam as pessoas envolvidas no divórcio: A primeira compreende o primeiro ano após a separação, conformando um período de caos, confusão e crise; a segunda, o realinhamento, caracteriza-se por ser uma fase de transição, em que as questões econômicas, sociais e extrafamiliares vão sendo reorganizadas entre o segundo e terceiro ano após a separação; a fase da estabilização, na qual se poderia dizer que, com efeito, há uma reorganização do sistema familiar. As fases de transição do divórcio, em um sentido mais restrito, podem ser compreendidas através de seis momentos: luto, negação, rancor, negociação, vergonha e celebração. Esses momentos não seguem naturalmente uma ordem preestabelecida e nem em momentos distintos. Os envolvidos podem vivenciar duas ou mais fases em um único momento. Quanto à fase do luto, ela diz respeito a tudo que poderia ter sido. Saber que o casamento acabou e aceitar que não voltará mais com a mesma pessoa é um processo realmente difícil. Significa a perda de algo importante que esteve presente na vida dos envolvidos. A fase da negação é representada por tentativas de recuperar o relacionamento, mesmo sabendo que tudo já acabou. Acaba sendo uma forma inconsciente dos envolvidos de se protegerem, de negarem, então, o que está acontecendo. A próxima é referida como a fase do rancor, pois existe um sentimento de rancor experienciada por ele próprio, pelo outro e pelo mundo em geral. Sentimentos de injustiça, raiva e culpa são acionados em uma tentativa de diminuição da ansiedade para encontrar justificativas do término da relação. Na fase seguinte, a negociação, é evidenciado o fato de que o casamento é um contrato. Dessa forma, os envolvidos aceitam que o contrato que fizeram foi quebrado, e as cláusulas não foram respeitadas por ambos ou talvez tenham simplesmente expirado. Outra fase pela qual os envolvidos passam é a vergonha, na qual o sentimento de incompetência e frustração aparecem muito forte. Por fim, há a fase da celebração, quando é possível visualizar uma nova vida pela frente. Quando todas as fases do divórcio foram superadas, a aceitação real aparece, o que pode oferecer à pessoa um sentimento de satisfação. 5 TEMAS PARA MEDIAÇÃO Importante salientar que é nas questões relacionadas à dinâmica familiar que a mediação encontra sua mais adequada aplicação. Situações de tensão e conflitos nas relações familiares sempre necessitaram de recursos adequados, diferentes de negociação direta, da terapia e da resolução judicial. A mediaçãovem adquirindo destaque como um meio eficiente que valoriza a coparticipação e a coautoria. A mediação familiar trata de assuntos relacionados às relações familiares, tais como pensão alimentícia, adoções, guarda dos filhos, conflitos entre pais e filhos, separação judicial ou divórcio e todas as problemáticas advindas destes últimos. Na sequência, vamos apresentar ponderações sobre alguns desses assuntos. UNIDADE 3 | PROCESSOS DE MEDIAÇÃO: MEDIAÇÃO FAMILIAR, ESCOLAR E COMUNITÁRIA 170 5.1 DIVÓRCIO A experiência de passar por um divórcio é sempre complexa, pois envolve conflitos, rupturas e mudanças que repercutem em todo o sistema familiar. A forma como o divórcio é entendido e conduzido pode produzir resultados positivos ou negativos aos membros da família, o que está diretamente relacionado ao comportamento do ex-casal. É comum casais apresentarem dificuldade para lidar com a ruptura do vínculo conjugal, o que acaba sendo evidenciado com atitudes hostis e vingativas com o ex-cônjuge. Muitas vezes os filhos são usados para atingir a outra parte, mesmo sem perceber. Durante e após o divórcio pode haver conflitos de interesse e diferenças pessoais dos genitores, podem se sentir ameaçados pelas mudanças ocorridas e podem ter dificuldades para gerenciar questões relacionadas à partilha de bens, relacionamentos com família extensa, uso do nome, entre outros. 5.2 GUARDA E PARENTALIDADE FUTURA DOS FILHOS Falar em parentalidade é falar no subsistema parental que se distingue do subsistema conjugal, mesmo que na cotidianidade parece ser difícil separá- los. Em uma família, o casal exerce funções de conjugalidade e de parentalidade. A conjugalidade diz respeito ao relacionamento entre duas pessoas unidas por laços afetivos e sexuais que possa oferecer laços de apoio mútuo. O subsistema parental inicia com o nascimento do primeiro filho e exige do casal marital mudanças significativas nas suas relações para poder incluir uma terceira pessoa. A parentalidade diz respeito ao campo dos cuidados parentais e das relações entre pais e filhos, e necessita da capacidade de nutrir, guiar e controlar. A parentalidade precisa se manter mesmo que o casamento se desfaça e isto não é tarefa fácil para nenhum dos envolvidos. Conseguir manter os vínculos afetivos e o exercício das funções parentais após o divórcio é um desafio para a família em processo de reconfiguração. Pelo artigo 1632 do Código Civil, a separação ou divórcio não pode alterar a relação entre pais e filhos, e a guarda das crianças deve ficar com o cônjuge que tiver melhores condições de criá-los, independente de gênero. Segundo Chaves (2019, p.1), existem três tipos de guarda no Brasil: guarda unilateral, guarda alternada e guarda compartilhada. Guarda unilateral: neste tipo de guarda, apenas um dos pais tem responsabilidades e decide pelo menor, cabendo ao outro visitar o menor em dias e horários acordados entre as partes ou determinadas por um juiz. A guarda unilateral só é concedida em casos de maus tratos, abandono ou falta de condições que impeçam uma das partes TÓPICO 1 | MEDIAÇÃO FAMÍLIAR 171 de compartilhar a guarda ou quando um dos genitores abre mão da guardo do menor em prol do outro. Guarda alternada: Este tipo de modalidade é uma criação doutrinária e jurisprudencial, pois não está prevista em lei. Neste modelo, o menor tem duas residências, sendo a do pai e a da mãe. Ambos são responsáveis pelos direitos e deveres da criança/adolescente e existe a alternância das residências, ou seja, uma semana pode morar com a mãe e uma semana pode morar com o pai. Os períodos de alternância serão definidos conforme a entendimento entre os pais. Guarda compartilhada: Este tipo de guarda está respaldada pela lei 13.058/14. A guarda compartilhada é a melhor solução para os pais de um menor que não vivem juntos, pois trata-se da responsabilidade conjunta em tudo ao que diz respeito aos diretos e deveres da criança e do adolescente. Neste caso, o menor tem uma residência e a parte que não prover a residência, poderá visitar o filho a qualquer momento, sem que haja a necessidade de intervenção judicial. Mesmo que as leis preconizem igualdade entre pai e mãe quanto à possibilidade da guarda dos filhos após o divórcio, há ainda uma tendência cultural de que a mãe fique com a guarda. Entretanto novas configurações do masculino abrem possibilidades para alteração deste quadro, já que os pais têm participado cada vez mais dos cuidados com os filhos. Nas sessões de Mediação muitos temas relacionados a cuidado e guarda podem ser levantados: com quem os filhos passam a residir? De quem será a guarda? Como se dará a convivência: tomada de decisões, visitação, calendários, acesso durante possível enfermidade, escolaridade, acesso telefônico, obrigações da família extensa, relocalizações geográficas, entre tantas. 5.3 PENSÃO ALIMENTÍCIA DOS FILHOS, TAMBÉM CHAMADA DE ALIMENTOS AOS FILHOS É de extrema relevância o tema alimentos, visto que está relacionado às obrigações e responsabilidade entre pais e filhos. Na realidade o tema inclui relações entre cônjuges ou companheiros, entre avós e netos, bem como entre outros parentes. Do ponto de vista jurídico a expressão alimentos transcende o sentido literal e possui um significado muito mais abrangente. Além da alimentação inclui manutenção em todos os sentidos. Em se tratando de relações com filhos, é obrigação de ambos os pais proverem o sustento de seus filhos. Por exemplo, a pessoa que tem a guarda (seja ela pai ou mãe), não pode renunciar à pensão a que os filhos têm direito, mesmo que no momento não estejam precisando. Como no Brasil não existem parâmetros predefinidos para determinar o valor dos alimentos, esses devem ser fixados “com base no binômio necessidade do filho X possibilidade dos pais” (HAYNES; MARODIN, 1996, p. 77). UNIDADE 3 | PROCESSOS DE MEDIAÇÃO: MEDIAÇÃO FAMILIAR, ESCOLAR E COMUNITÁRIA 172 5.4 CUIDADO DE IDOSOS/DOENTES Os marcos legais que tratam da relação família-idoso tendem a focar na responsabilidade da família quanto ao cuidado ao idoso. A Constituição Federal preconiza como sendo dever dos pais assistir, criar e educar os filhos menores; e de outro lado, os filhos maiores tem o dever de ajudar e amparar os pais na velhice, carência ou enfermidade. O Estatuto do Idoso no seu art. 3º cita que é obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do Poder Público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária, além da priorização de atendimento por sua própria família, em detrimento do asilar, exceto àqueles que não a possuam ou careçam de condições de manutenção da própria sobrevivência (BRASIL, 2003). As relações de conflitos familiares envolvendo idosos que dependem de cuidados acontecem, muitas vezes, pelas dificuldades quanto à distribuição e administração dos cuidados – quando são os próprios familiares que tomam a tarefa para si –, ou na dificuldade da contratação de um cuidador e da divisão das despesas – quando se delega a função para um profissional. 5.5 RECONHECIMENTO DE PATERNIDADE Muitas crianças não têm assegurado o direito de obter o registro do nome do nome do pai na sua identidade, bem como o direito de poder contar com relações de cuidado por parte do progenitor. O Programa Pai Presente, criado em 2010 pela Corregedoria Nacional de Justiça, realizado em parceria com os Tribunais de Justiça de todo o país, busca garantir o cumprimento da Lei n. 8.560/1992. Esta lei visa regular e fomentar a regularização do vínculo familiar e estimular os pais que não registraram seus filhos na época do nascimento a assumirem essa responsabilidade, mesmo que tardiamente (BRASIL, 1992). A lei determina que, no momento do registro, o registrador indague à mãeo nome do suposto pai sempre que uma criança for registrada sem indicação de paternidade. Quando isso acontece, o oficial do cartório de registro civil deve encaminhar o expediente ao juiz da comarca para que ele convoque o suposto pai a se manifestar sobre a paternidade. Em caso positivo, o reconhecimento é formalizado e o nome do pai é incluído na certidão de nascimento. Caso o suposto pai se recuse a comparecer à audiência, ou mesmo a se submeter ao exame de DNA, o juiz pode aplicar a presunção, considerando o direito indisponível da criança em saber o seu vínculo de paternidade. Utilizar a mediação familiar na execução do Programa Pai Presente pode facilitar a construção da relação pai-filho. TÓPICO 1 | MEDIAÇÃO FAMÍLIAR 173 6 ÂMBITO DE ATUAÇÃO DA MEDIÇÃO FAMILIAR I. mediação de família judicial; II. prática privada da mediação de família; III. agências, secretarias, clínicas e programas comunitários, ONGs, núcleos de prática jurídica, entre outros. O mediador não busca quem está certo ou errado. Ele acolhe, reconhece e legitima as duas partes envolvidas no conflito. IMPORTANT E 7 PARTICULARIDADES DA MEDIAÇÃO FAMILIAR Possivelmente em decorrência da cultura jurídico-penal brasileira, a população está acostumada a enxergar responsabilidade como culpa, principalmente os pais, que acabam assumindo para si esse sentimento sobre qualquer problema que acontece no cotidiano familiar. A mediação verdadeiramente emancipadora procura quebrar esse paradigma, trabalhando com o conceito de responsabilidade integral, que compreende a responsabilidade funcional e a responsabilidade social. A responsabilidade funcional insere-se no âmbito relacional dos mediandos e traz a ideia de que a função assumida por cada mediado (função paterna, função materna etc.) traz consigo uma responsabilidade. Contudo, o não atendimento dessa função não deve ser castigado (culpa = Direito Penal), mas sim reparado, atendido e restaurado (responsabilidade funcional). Já a responsabilidade social introduz a ideia de uma consciência permanente de que toda e qualquer atitude ou escolha produz reflexos na sociedade de forma constante. Nessa ordem de ideias, a mediação se propõe a ser um espaço de reflexão dos mediandos sobre o que estão fazendo com as suas próprias vidas e com as vidas dos outros com os quais convivem. O mediador, nesse contexto, deve auxiliar os mediandos a tomarem consciência dos seus atos (passagem do ilusório para o simbólico), responsabilizando-se por esses e buscando a reparação/restauração. Especialmente no que tange às crianças e adolescentes, o conceito de responsabilidade integral se torna de suma importância para a mediação, pois traz a ideia de que a responsabilidade pelas crianças e adolescentes não é somente da família, mas também da escola, da comunidade e inclusive do Estado. UNIDADE 3 | PROCESSOS DE MEDIAÇÃO: MEDIAÇÃO FAMILIAR, ESCOLAR E COMUNITÁRIA 174 O mediador deve auxiliar os pais, na mediação, a identificarem as necessidades dos filhos, para, consequentemente, reconhecerem suas identidades como pessoas. Esse trabalho configura-se extremamente importante dentro deste conceito de responsabilidade integral, na medida em que a família que está em conflito vai, posteriormente, retornar à sociedade de uma determinada maneira e, consequentemente, produzir efeitos permanentes na comunidade. Em mediações familiares, não há como tratar o conflito objetivo sem tratar do conflito subjetivo, nos quais as emoções influenciam sobremaneira os envolvidos. Quando as situações envolvem casais que têm filhos, não há como trabalhar a relação do casal sem que os filhos sejam envolvidos. Igualmente, não há como trabalhar as questões atinentes aos filhos sem trabalhar o casal. Quando se trata dos filhos, os pais devem ser auxiliados a percebê-los como sujeitos, com habilidades e competências a serem desenvolvidas. É papel do mediador auxiliar os pais a reconhecerem essas habilidades e capacidades nos seus filhos, para que possam ser adequadamente estimuladas e desenvolvidas. Os pais têm desejos inconscientes do que esperam dos seus filhos, na verdade, esses desejos são construídos mesmo antes das crianças nascerem. Um indivíduo pode projetar a sua concepção ideal no filho, podendo deslocar para ele sua frustração ou desejar que ele seja um espelho. Entretanto, é necessário que os pais abandonem eventuais concepções dos filhos como coisas (auxiliares, reféns e mensageiros), passando a identificá-los como pessoas com identidade própria, detentores de suas próprias necessidades materiais e emocionais. Ou seja, os pais deverão perceber que os filhos não estão ali, por exemplo, para realizar os sonhos não alcançados pelos pais, para suprir suas frustrações e carências, ou para levar recados ou notícias de um para o outro. Não é bom que os filhos sejam usados para dirimir questões dos pais. O que o mediador faz para que isso não aconteça é resgatar os filhos pelos filhos, e não pelos pais. A emancipação que se busca na mediação não acontece se os mediandos continuarem a considerar os filhos como seus auxiliares. O mediador deve tentar averiguar se os pais estão falando da imagem que criaram dos filhos, ou dos filhos reais, como são. Para trazer os filhos como sujeitos, trabalha-se com questões como a maneira pela qual escolhem a escola do filho, quais questões levam em consideração para isso, e que atendimentos estão dando a ele. Questiona-se como foi o dia, como foi o final de semana e como organizam a rotina para que possam reconhecer os gostos e necessidades das crianças. Quando os pais vêm à mediação com ideias e percepções muito distintas sobre os filhos, não se deve tentar dirimir a verdade. Deve-se legitimar os dois e entender por que essa diferença de percepção existe, legitimar suas preocupações. O mediador não deve se prender aos “rótulos” usados pelos mediandos em relação aos filhos ou ao outro. Não se deve entrar nesses jogos de disputa por pontos de vista distintos. TÓPICO 1 | MEDIAÇÃO FAMÍLIAR 175 Para Vezzula (2018), mesmo se alguém mente, deve-se considerar que mentira é uma maneira de contar a verdade daquela pessoa que narra. Não há porque se preocupar. Deve-se legitimar as duas versões. São duas pessoas e o mediador está ali para atender as duas. É necessário romper com a ideia de que um tem razão e outro não, de que um está certo e outro errado. Quando o indivíduo é escutado e respeitado, nessa escuta podem ser esclarecidas muitas coisas. Com questionamentos, a mediação busca alcançar maior informação e sensibilidade por parte dos pais, para perceberem que, desde que nascem, os filhos são sujeitos. Em geral, os pais simplificam as questões pensando que as crianças não notam o que está acontecendo, que não compreendem e que vão se acostumar com qualquer coisa que os pais decidam. O trabalho do mediador consiste em auxiliar os mediandos a enxergarem o que realmente é do filho. Precisamos falar dos filhos para fazê-los presentes na mediação. Cria-se, assim, o espaço para que surja o reconhecimento dos filhos sujeitos, e não meros auxiliares ou objetos. A lógica deve ser a de atender às necessidades dos filhos, não os filhos atenderem às necessidades dos pais. O mediador tem o papel de fazer com que os filhos sejam vistos como sujeitos, mas, para isso, é necessário acolher as falas dos pais para que possa surgir o filho “verdadeiro”, para que se revele quem é o filho. 8 TÉCNICAS DE MEDIAÇÃO FAMILIAR As técnicas utilizadas na Mediação Familiar já foram apresentadas no item técnicas de Mediação. Algumas são especialmente utilizadas em situações de conflitos familiares, como é o caso do parafraseamento. Em casos de divórcio, por exemplo, a comunicação entre o casal pode ficar bastante prejudicada e muitas informações podem ser entendidas de forma equivocada pela outra parte. O uso do parafraseamento na sessão de mediação pode oportunizar o esclarecimento de diversos