Prévia do material em texto
Nutrição Materno-Infantil Caso Clínico - Desnutrição Paciente do sexo feminino, 2 anos e 8 meses, história de vômitos e perda de peso acentuada há 2 meses. Na admissão encontra-se chorosa, irritada, letárgica e prostrada. História Pregressa: histórico de múltiplas internações prévias, com manejo de hidratação oral e venosa e tratamento antiparasitário, sem melhora do quadro. Ao exame: lesão pelagroide em região occipital, desidratada moderadamente, taquipneica e taquicárdica, em anasarca, com cabelos finos, quebradiços e despigmentados. Antropometria: Peso = 7,1Kg, estatura = 75,5cm. Exames bioquímicos: Eletrólitos dentro dos limites de normalidade, albumina = 2,5g/dL, hemograma indicativo de anemia megaloblástica e infecção. Avaliação dietética: relato de aleitamento materno no primeiro mês de vida e uso de fórmula láctea nos 3 meses seguintes. Após esse período, foi substituído por leite integral, complementado com dieta habitual para a idade. 1) Classifique o estado nutricional da criança. Desnutrição grave do tipo o Kwashiorkor, que predomina deficiência proteica. Muitas vezes o desmame precoce por ser a causa desse tipo de desnutrição. IMC = 7,1/(0,755)² = 7,1/0,570025 = 12,455 Kg/m². Está abaixo do -3 escore Z. A presença de edema simétrico, emagrecimento grave há 2 meses, além do peso/estatura e estatura/idade estarem abaixo do -3 escore Z e estatura/idade também menor que -3 escore Z, demonstram que o estado nutricional é desnutrição grave. 2) Calcule as necessidades nutricionais (energia) na fase de estabilização e reabilitação. Fase I - Estabilização: é importante não utilizar ferro nas duas primeiras semanas de tratamento, já que é um micronutriente pró-oxidante e, diante de um quadro de infecção, é possível que ele se agrave. É o momento de tratar problemas que ocasionem risco de morte e corrigir deficiências nutricionais específicas. Além disso, é essencial reverter anormalidades metabólicas e iniciar a alimentação. Optou-se por realizar terapia nutricional enteral visando redução de complicações decorrentes da condição clínica - CNE (cateter nasoentérico). Através da Fórmula de Schofield: TMB= 16,25 x P + 1023,2 x E – 413,5 16,25 x 7,1 Kg + 1023,2 x 0,755 – 413,5 = 115,375 + 772,516 – 413,5 = 474,391 Kcal/dia = aprox. 474,4 Kcal/dia Fase II - Reabilitação: é o momento de dar uma alimentação intensiva para assegurar o crescimento rápido visando recuperar grande parte do peso perdido, ainda quando a criança estiver hospitalizada. Na maioria das situações já controladas, é possível utilizar uma das fórmulas (Schofield ou OMS) junto com o fator estresse. Diferente da fase inicial, em uma situação de maior gravidade, quando as fórmulas são utilizadas sem o fator estresse. Sendo assim, foi utilizado o valor encontrado na fase I multiplicado pelo fator estresse (para desnutrição, pode chegar até 2,0): 474,4 x 2 = 948,8 = aprox. 950 Kcal/dia 3) Proponha e justifique o esquema de micronutrientes a ser adotado. De modo geral, orienta-se as multivitaminas 1,5x a recomendação + a dieta. Além disso, ingestão de ferro, em torno de 3mg/Kg/dia a partir da melhora clínica e ganho de peso. Sendo assim, 3mg x 7,1kg = 21,3mg de ferro/dia. A recomendação de zinco é de 2mg/Kg (máximo 20mg/dia). Sendo assim, 2mg x 7,1Kg = 14,2mg de zinco/dia. A orientação quanto ao cobre é de 0,2mg/Kg (máximo 3mg/dia). Portanto, 0,2mg x 7,1Kg= 1,42mg de cobre/dia. Já o ácido fólico é de 1mg/dia, sendo que no primeiro dia é importante administrar 5mg. 1º dia: 5mg. Outros dias: 1mg x 7,1Kg = 7,1mg de ácido fólico/dia. Ademais, é imprescindível suplementar a vitamina B12, pois ela e o ácido fólico irão ajudar no tratamento da anemia megaloblástica. Além disso, suplementar niacina junto com triptofano, devido a Pelagra. A recomendação de vitamina A para crianças >12 meses é de 200.000 UI em dose única, exceto se a criança recebeu vitamina A há menos de 30 dias. 4) Explique a possível causa da anasarca. O edema é definido como um inchaço palpável produzido pela expansão do volume de fluido intersticial; quando generalizado, é chamado de anasarca. Proteínas totais e frações, quando diminuídas, reduzem a pressão coloidosmótica plasmática favorecendo o edema. Assim, uma criança com desnutrição pode ter edema pois a albumina que mantém a pressão no vaso. A criança desnutrida tem baixa reserva de albumina, déficit proteico e alimentação inadequada, diminuindo a sua capacidade de manter o líquido no vaso, havendo um extravasamento para o interstício, causando o edema. 5) Destaque os pontos da semiologia nutricional relevantes para o caso. A semiologia é o estudo dos sinais e sintomas das doenças. Ela oferece a oportunidade de conhecer o paciente não só quanto às suas queixas, como também a sua pessoa, as condições sociais, influências genéticas, hábitos de vida e aspectos da personalidade. Em um primeiro momento, é muito importante pensar, em uma condição de desnutrição grave, quando a criança está em uma situação crítica. O estresse metabólico pode levar à uma metabolização limitada de substratos, principalmente relacionados aos macronutrientes e a criança também pode ter uma retenção hídrica, que vai aumentar a permeabilidade vascular, perda proteica e acúmulo de líquido no interstício. A criança teve aleitamento materno apenas no primeiro mês de vida, utilizando fórmula láctea nos 3 meses seguintes. Depois, foi substituído por leite integral. Portanto, é possível que ela tenha desenvolvido alergia à proteína do leite de vaca. O aleitamento materno exclusivo, sem a introdução de leite de vaca, de fórmulas infantis à base de leite de vaca e de alimentos complementares até os 6 meses, tem sido ressaltado como eficaz na prevenção do aparecimento de sintomas alérgicos. Ao exame, foi avaliado lesão pelagroide em região occipital, característica de quem está com Pelagra. Pelagra ou Deficiência de niacina é uma deficiência nutricional causada pela falta de ácido nicotínico (também conhecida como niacina ou vitamina B3) ou falta de triptofano, um aminoácido essencial. A anemia megaloblástica, por sua vez, resulta da deficiência de vitamina B12 e/ou ácido fólico. Por não serem produzidos pelas células do nosso corpo, a vitamina B12 e o folato precisam estar presentes em nossa dieta, através de alimentos ricos nessas duas substâncias, como carnes, ovos, leite e seus derivados, leguminosas, além de vegetais de cor verde escuro. É essencial avaliar os sinais de vômito, taquicardia e taquipneia e investigar se há alterações no fígado, já que a taquicardia e hepatomegalia são sintomas de insuficiência cardíaca. Pelo exame físico, a criança possui cabelos quebradiços e despigmentados, provavelmente devido a carência de vitaminas e micronutrientes de modo geral, como vitaminas do complexo B, zinco e vitamina D, por exemplo.