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F u n d a m e n to s d a E d u c a ç ã o I n fa n ti l Luciana de Luca Dalla Valle 1Capa.indd 1 8/7/2010 10:44:56 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 08/07/2010 APROVAÇÃO: NÃO ( ) SIM ( ) ____________ Fund_Educ_Infantil.indd 4 6/7/2010 13:52:07 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 4 of 100 Fundamentos da Educação Infantil Curitiba 2010 Luciana Rocha de Luca Dalla Valle Fund_Educ_Infantil.indd 1 6/7/2010 13:52:07 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 1 of 100 FAEL Diretor Acadêmico Osíris Manne Bastos Diretor Administrativo-Financeiro Cássio da Silveira Carneiro Coordenadora do Núcleo de Educação a Distância Vívian de Camargo Bastos Coordenadora do Curso de Pedagogia EaD Ana Cristina Gipiela Pienta Secretária Geral Dirlei Werle Fávaro SiStEmA EDuCACioNAL EADCoN Diretor Executivo Julián Rizo Diretores Administrativo-Financeiros Armando Sakata Júlio César Algeri Diretora de operações Cristiane Andrea Strenske Diretor de ti Juarez Poletto Coordenadora Geral Dinamara Pereira Machado EDitorA FAEL Coordenador Editorial William Marlos da Costa Edição Silvia Milena Bernsdorf Projeto Gráfico e Capa Denise Pires Pierin ilustração da Capa Cristian Crescencio Diagramação Denise Pires Pierin Ficha Catalográfica elaborada pela Fael. Bibliotecária – Cleide Cavalcanti Albuquerque CRB9/1424 Valle, Luciana Rocha de Luca Dalla L931f Fundamentos da educação infantil / Luciana Rocha de Luca Dalla Valle. – Curitiba: Editora Fael, 2010. 98 p.: il. Nota: conforme Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. 1. Educação de crianças. I. Título. CDD 372 Direitos desta edição reservados à Fael. É proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização expressa da Fael. Fund_Educ_Infantil.indd 2 6/7/2010 13:52:07 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 2 of 100 Agradeço aos meus primeiros tempos de professora de Educação Infantil e aos alunos dessa época, pelas tardes maravilhosas de aprendizado mútuo. Agradecimentos Fund_Educ_Infantil.indd 3 6/7/2010 13:52:07 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 3 of 100 Fund_Educ_Infantil.indd 4 6/7/2010 13:52:07 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 4 of 100 apresentação Para ser um educador infantil é preciso tornar-se um profissional com múltiplas possibilidades e sólida formação, que tenha como base a docência em seu sentido amplo. Assim, adquire-se as capacidades de discernimento, de senso de justiça, de organização, de relações humanas e pedagógicas, de postura investigativa, de planejamento, de astúcia e visão de futuro, de validar atitudes e experiências e de encarar seu papel como um articulador ou catalizador das ideias construídas pelo coletivo. O completo e abrangente conteúdo deste livro representa o resultado da longa experiência de Luciana de Luca como educadora e pesquisadora da Educação Infantil. Por isso, constitui-se, sem dúvidas, em um instrumen- to importantíssimo nas mãos de educadores. Após realizar um panorama sobre os primeiros caminhos da Educação Infantil, a autora estabelece um paralelo entre a infância de ontem e de hoje, com destaque para suas impli- cações educacionais. Além disso, procura delinear a história e a legislação, buscando articular concepções da infância, suas teorias e práticas. Certa- mente, essa é a parte mais rica do trabalho, sobretudo por estar impregna- da pela prática profissional extremamente bem-sucedida da autora. No livro, também são tecidas tendências em relação ao trabalho do professor de Educação Infantil. Levando em conta tais reflexões perti- nentes, mencionando diretrizes e parâmetros educacionais e repensando o processo de avaliação, as considerações da autora fornecem subsídios importantes para viabilizar a ação docente. A Educação Infantil, sendo a prática mais humana e fundamental da es- pécie, acaba muitas vezes sendo mais vivenciada do que pensada. No entanto, longe disso, Fundamentos da Educação Infantil nos convida ao pensamento. Ana Maria Baroni Rezende* * Pedagoga com especialização em Educação Infantil e Psicopedagogia (UEMG). Educa- dora infantil há 16 anos, atualmente é diretora pedagógica de uma escola particular de Curitiba e dá palestras para educadores, dentro da perspectiva “Educando para educar”. apresentação Fund_Educ_Infantil.indd 5 6/7/2010 13:52:07 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 5 of 100 Fund_Educ_Infantil.indd 6 6/7/2010 13:52:07 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 6 of 100 Prefácio........................................................................................ 9 1 Os primeiros caminhos da Educação Infantil ........................... 13 2 Os caminhos da Educação Infantil no Brasil: história e legislação .................................................................. 23 3 Concepção de infância: inter-relações da sociedade com a criança ............................................................................ 37 4. Documentos da Educação Infantil............................................. 51 5 Propostas metodológicas para a Educação Infantil ................. 63 6 Reflexões sobre a formação do professor da Educação Infantil ....................................................................... 73 7 Parceria e avaliação na Educação Infantil ................................ 83 Referências................................................................................ 91 sumário sumário Fund_Educ_Infantil.indd 7 6/7/2010 13:52:07 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 7 of 100 Fund_Educ_Infantil.indd 8 6/7/2010 13:52:07 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 8 of 100 9 prefácio prefácio No início de 1990, fui aceita como professora de uma sala de aula de pré-escola (a terminologia “Educação Infantil” surgiu de- pois), em uma grande rede de escolas de Curitiba, capital paranaense. Estava em vias de me formar em Pedagogia e essa oportunidade de trabalho era a chance que precisava para que os conteúdos teóricos fresquinhos que havia adquirido na graduação se tornassem práticos. Dessa forma, frente àqueles 15 pequenos alunos, nascia uma pro- fessora idealista, sonhadora e que rapidamente percebeu que tinha muito mais perguntas – como ensinar, o que as crianças sabem, o que devem saber, e tantas outras – do que respostas. Ao mesmo tempo, percebi que a “culpa” pela falta de respostas não era dos meus cursos ou dos poucos estudos. A questão que se apresentava (sobre a qual ainda reside minha busca diária) é que as dúvidas surgiam na medida em que o relacionamento com as crianças ia progredindo. Portanto, as respostas não estão prontas em um grande livro; elas são construí- das a cada dia, em um ritmo dialético estritamente ligado à vivência da práxis. A busca, portanto, era, e ainda é ininterrupta. A inquietude da busca dessas respostas me fez estudar cada vez mais, e quanto mais estudava, mais desejava aprender. Aos poucos, fui aprofundando-me no tema do ensino de crianças pequenas: havia muito a saber e minha vontade não tinha fim. Como professora, vivi dias maravilhosos, com experiências que são bem mais fáceis de serem sentidas do que explicadas. Também como professora, ouvi de outros profissionais que eu deveria me dedi- car a outros temas da Educação que não fossem tão “simples” quanto a educação dos pequenos. Fico feliz de não ter desistido. Fund_Educ_Infantil.indd 9 6/7/2010 13:52:07 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 9 of 100 10 A deliciosa experiência do meu primeiro ano como professora e pesquisadora do temam, e dos muitos anos seguintes, fizeram-me perceber o quão rico é o trabalho com essa faixa etária e quanto dessa riqueza cabe ao professor, destacando a dedicação e competência que esse profissional precisa ter. Quando as crianças deixaram de fazer parte do meu dia a dia como alunos, meu caminho, então, enveredou por uma estrada diferente: decidi dividir, com outros professores decrianças pequenas, os conhecimentos que acumulei nesses anos todos de trabalho. Costumo dizer que a melhor parte de ser professor é realmente ser professor. É viver a realidade da escola, buscar as res- postas através dos referenciais teóricos necessários para fundamentar sua prática. Como professores, estamos sempre convidados a obter o conhe- cimento. É isso que faço aqui: este livro é um convite para se co- nhecer os fundamentos que alicerçam a Educação Infantil, com des- taques para a importância do conhecimento dos fundamentos, não em detrimento das práticas, mas como sustentação para as atividades que executamos diariamente. Muitas vezes, vi professores solicitando exemplos de práticas educativas (que são fundamentais para um bom desenvolvimento da ação pedagógica), mas que se esqueciam de es- tudar a teoria, o nascimento das ideias, o fundamento que sustenta a práxis. Não há prática educativa sem o embasamento de uma teoria. Assim, neste livro, o leitor encontrará a história da Educação Infantil, desde as formas de atendimento destinadas às crianças pe- quenas ao longo da história da humanidade, com uma retrospectiva das concepções sobre a educação de crianças pequenas na Idade Mé- dia, passando pelas Idades Moderna e Contemporânea, e chegando prefácio prefácio Fund_Educ_Infantil.indd 10 6/7/2010 13:52:07 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 10 of 100 11 prefácio prefácio aos dias atuais. Conhecerá, também, alguns precursores da Educação Infantil e suas importantes contribuições para a metodologia de edu- car as crianças pequenas e, finalmente, irá compreender melhor os conceitos que compõem a Educação Infantil, abrangendo tanto as ideias pedagógicas, quanto a legislação. Esta obra pretende, através de sua leitura, oportunizar momentos de reflexão sobre como as sociedades atenderam e educaram as crian- ças de suas épocas, e que reflexos esses estudos têm na forma como educamos nossas crianças atualmente. Isso nos fará compreender as tendências pedagógicas, as concepções de infância e metodologias de ensino destinadas à Educação Infantil. Portanto, ao abordar o tema Educação Infantil neste livro, pro- pus-me explicitar seus fundamentos, dando destaque ao fato de que uma Educação Infantil de qualidade passa, seguramente, pela forma- ção adequada e bem fundamentada de seus professores. Sendo assim, aceitem o convite e sejam bem-vindos ao mundo dos Fundamentos da Educação Infantil. Uma boa construção de sa- beres a todos! A autora.* * Luciana Rocha de Luca Dalla Valle é Pedagoga com especializações em Educação In- fantil e Psicopedagogia (PUC), Mestre em Engenharia da Produção com Ênfase em Mídia e Conhecimento (UFSC). É pesquisadora da Educação Infantil e profere várias palestras sobre o tema, bem como cursos de extensão universitária. É autora de temas relaciona- dos à Educação Infantil, e professora do curso de Pedagogia da Fael. Fund_Educ_Infantil.indd 11 6/7/2010 13:52:07 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 11 of 100 Fund_Educ_Infantil.indd 12 6/7/2010 13:52:07 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 12 of 100 13 Para fazermos um recorte histórico da Educação Infantil, ini- ciaremos este capítulo tecendo um panorama da Educação Infantil a partir da Idade Média, procurando demonstrar as formas encontradas pelas sociedades, ao longo dos anos, para educar as crianças peque- nas. Ao final, serão apresentados os precursores da Educação Infantil, autores cujos trabalhos beneficiaram – e continuam beneficiando – o atendimento e a educação das crianças. A infância na Idade Média Ao longo dos séculos, as sociedades foram construindo formas de educar suas crianças. Na Idade Média, a Educação Infantil sempre foi entendida como um papel das famílias, sobretudo das mulheres. Sendo assim, desde o nascimento até os primeiros meses de vida, a criança era cuidada pelas mulheres da família. Porém, logo após de desmamar e conseguir independência motora, a criança passava a ajudar os adultos, sendo tratada como tal, já que podia realizar as tarefas cotidianas, pois se acreditava que, apenas no contexto das atividades familiares, a crian- ça se desenvolveria (OLIVEIRA, 2002). ReflitaReflita Sobre esse período histórico, que durou do século V ao século XV no continente europeu, é importante considerar que era uma época agrária, na qual os donos da terra (feudo), os chamados senhores feu- dais, dominavam a riqueza, enquanto os vassalos trabalhavam para manter a hierárquica condição, em uma relação de servidão para com Os primeiros caminhos da Educação Infantil 1 Fund_Educ_Infantil.indd 13 6/7/2010 13:52:08 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 13 of 100 Fundamentos da Educação Infantil FAEL 14. o senhor feudal. É também nessa época que a Igreja detinha um gran- de poder sobre as pessoas, influenciando as decisões. ReflitaReflita É importante destacar que, nessa época, em função das precárias condições de higiene e saúde, era muito elevado o índice de mortalidade infantil, a ponto de a morte de crianças ser considerada um fenômeno natural. Nesse contexto, uma prática comum era a de separar as crianças de aproximadamente sete anos de seus pais e entregá-las aos cuidados de outras famílias, evitando o estabelecimento de laços emocionais com a família genitora. Além disso, acreditava-se, na época, que estar com outra família faria com que essas crianças aprendessem ofícios e viven- ciassem as situações do mundo adulto do qual já faziam parte. Dessa forma, a criança era considerada uma miniatura de adulto, tanto nas ações, quanto em seu desenvolvimento socioemocional. Isso refletia-se inclusive na forma de se vestir de cada gênero: mulheres e meninas vestiam saias e lon- gos vestidos, homens e meninos, calças compri- das e camisas. Observando as pinturas da época, como a obra Las meninas, de Diego Velázquez, percebe-se nitidamente que as crianças aparecem como pequenos adultos, e suas vestimentas anun- ciavam que elas deveriam se comportar como tal, não havendo lugar para a infância nesse contexto. É importante salientar que, mesmo sem haver uma distinção entre os trajes usados por crianças e adultos, havia uma diferenciação de roupas entre as classes sociais. Obviamente, não era apenas nos trajes que as pessoas das classes sociais se diferenciavam. Outro exemplo disso é que, mesmo com a ideia de que a família era a grande responsável pelo atendimento das crianças pequenas, as crianças oriundas da classe dos vassalos tiveram seu atendimento realizado de formas diferenciadas ao longo do tem- po. Como exemplos, podemos considerar desde o uso de parentescos nas sociedades primitivas (em que, normalmente, uma mãe cuidava de Las Meninas, de Diego Velásquez. M us eo d el P ra do Fund_Educ_Infantil.indd 14 6/7/2010 13:52:09 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 14 of 100 Capítulo 1 Fundamentos da Educação Infantil 15 todas as crianças da comunidade), de amas, também chamadas de mães mercenárias (em que se pagava uma mãe ou pessoa do sexo feminino para a realização do cuidado das crianças), de lares substitutivos (em que as crianças iam morar com outras famílias), até o uso da conhecida, na Idade Média e Moderna, roda dos enjeitados, ou roda dos expostos. “A roda dos enjeitados era uma espécie de cilindro giratório de madeira, construído em muros de igrejas e hospitais de caridade. Ela permitia que bebês fossem deixados nesses locais sem que a identidade de quem os levasse fosse declarada.” (OLIVEIRA, 2002, p. 59). O recolhimento das crianças ficava sob a responsabilidade de insti- tuições religiosas, que assumiam a função de fazer com que o enjeitado tivesse um ofício quando crescesse. A infância na Idade Moderna A partir do século XVI, com o final da Idade Média e o início da Idade Moderna, as concepções sobre como educar as crianças fo- ram redimensionadas, principalmente em decorrência das transforma- ções econômicas e políticas,e do surgimento da sociedade capitalista. Com a Idade Moderna, houve uma profunda transformação do que se conhecia como sociedade originalmente agrária para a capitalista. Dois movimentos, o Renascimento e o Iluminismo, tiveram extrema influencia nesse cenário. O Renascimento (ou Renascença) começou no século XIV, na Itá- lia, e difundiu-se pela Europa no decorrer dos séculos XV e XVI. Foi um período na história do mundo Ocidental – com um movimento cultural marcante na Europa – considerado como um marco do final da Idade Média e do início da Idade Moderna. Além de atingir a filo- sofia, as artes e as ciências, o Renascimento fez parte de uma gama de transformações culturais, sociais, econômicas, políticas e religiosas que caracterizaram a transição do Feudalismo para o Capitalismo. Trata-se de uma volta deliberada, que propunha a ressurreição consciente (o renascimento) do passado, considerado, agora, como fonte de inspira- ção e modelo de civilização. Em um sentido amplo, esse ideal pode ser entendido como a valorização do homem (Humanismo) e da natureza, em oposição ao divino e ao sobrenatural, conceitos que haviam impreg- nado a cultura da Idade Média (RENASCIMENTO, 2010). Fund_Educ_Infantil.indd 15 6/7/2010 13:52:09 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 15 of 100 Fundamentos da Educação Infantil FAEL 16 O Iluminismo foi um movimento intelectual, surgido na segunda metade do século XVIII (o chamado “século das luzes”), que enfatizava a razão e a ciência como formas de explicar o universo. Foi um dos movimentos impulsionadores do capitalismo e da sociedade moderna. Seu nome se deve aos filósofos da época, os quais acreditavam iluminar as mentes das pessoas. É, de certo modo, um pensamento herdeiro da tradição do Renascimento e do Humanismo, pois defendia a valori- zação do Homem e da Razão. Os iluministas colocavam-se contra a fé, acreditando que a Razão seria a explicação para todas as coisas no universo (OCULTURA, 2010). Na Idade Moderna, diferentemente do que ocorria no Período Feu- dal, o capitalismo ansiava por maiores ganhos na produção de mercado- rias, buscando alternativas para melhorá-la. Por isso, a educação desempenhou um importante papel na formação de profissio- nais técnicos de diversas espe- cialidades, visando suprir essa demanda criada pelo mercado de trabalho moderno, devido à construção de muitas indústrias. Com o advento da chamada Revolução Industrial, que transfor- mou definitivamente a vida em sociedade ao inserir a manufatura, estabeleceu-se um conflito que teve como centro as crianças com idade entre 0 e 6 anos. Como as fábricas recém-construídas necessitavam de trabalhadores, pais e mães (elas em um segundo momento e em escala menor) abandonavam seus filhos para poder trabalhar, deixando-os sob o cuidado de terceiros ou à própria sorte. Nesse momento em especial, houve a necessidade de repensar qual destino se daria às crianças, filhos dos operários, pois estavam sofrendo maus tratos e abandono, enquanto os filhos de pais burgueses frequen- tavam a escola. Aos poucos, para o atendimento dessas crianças abandonadas, fo- ram sendo criadas instituições formais, que não tinham propostas pe- dagógicas. A maioria das atividades realizadas nesses estabelecimentos eram voltadas para a obtenção de bons hábitos de comportamento, internalização de regras morais e de valores religiosos. A Revolução Industrial consistiu em um con- junto de mudanças tecnológicas com profundo impacto no processo produtivo, nos níveis econômico e social. Iniciada na Inglaterra, em meados do século XVIII, expandiu-se pelo mundo a partir do século XIX (REVOLUÇÃO INDUSTRIAL, 2010). Saiba mais Fund_Educ_Infantil.indd 16 6/7/2010 13:52:09 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 16 of 100 Capítulo 1 Fundamentos da Educação Infantil 17 Nesse período, com o ideal destacado nos movimentos religiosos da época, foram organizadas escolas para pequenos na Inglaterra (petty schools), na França (écoles petites) e em outros países europeus, nas quais a escrita e a leitura eram ensinadas às crianças a partir dos seis anos de idade, embora o objetivo maior fosse o ensino religioso. Mais tarde, nos séculos XVII e XVIII, crianças de dois ou três anos já eram incluídas nas charity schools ou dame schools, então criadas na Europa Ocidental. Esse foi o início do atendimento formal à criança por parte de uma instituição educativa. Alguns precursores da Educação Infantil Jan Amos Komenský Nos séculos XVI e XVII, o pensamento pedagógico moderno começou a ganhar outra dimensão, tendo como primeiro estudioso Jan Amos Komenský (1592-1670) – em português conhecido como Comênius ou Comênio – nascido na atual República Tcheca. Comênius combateu os métodos educacionais usados na época medieval, sendo o primeiro filósofo do qual se tem notícia que consi- derou os sentimentos das crianças. Comênius costumava reagir à ideia de que a educação deveria ser autoritária usando a expressão: “Por que não se pode aprender brincando?” e é criador do conceito de que po- demos e devemos ensinar tudo a todos, considerando, dessa forma, que todos os homens têm direito de conhecer e aprender sobre o mundo em que vivem. Essas considerações eram importantes, pois esboçavam uma possível educação para crianças pequenas, em um tempo em que suas especificidades ainda não eram respeitadas. Sua obra mais famosa é a Didática magna, livro em que preconiza a ideia de um método universal que pudesse ensinar tudo a todos e que já destacava a importância da metodologia de ensino dos professores em relação ao aprendizado das crianças. O autor afirma que a didática (aqui, referindo-se a seu ao Didática magna) pode interessar: Aos professores, a maior parte dos quais ignorava comple- tamente a arte de ensinar; e por isso, querendo cumprir o seu dever, gastavam-se e, à força de trabalhar diligentemen- te, esgotavam as forças; ou então mudavam de método, Fund_Educ_Infantil.indd 17 6/7/2010 13:52:09 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 17 of 100 Fundamentos da Educação Infantil FAEL 18 tentando, ora com este ora com aquele, obter um bom su- cesso, não sem um enfadonho dispêndio de tempo e de fa- diga (COMENIUS, 2010, [s. p.]). Como se pode perceber, Comênius já destacava a importante ne- cessidade de o professor adequar sua metodologia de trabalho ao que ele chamava de “arte de ensinar”, de forma a não empreender esforços inúteis em sua tarefa. No livro A escola da infância, publicado em 1628, Comênius en- focou a ideia de educar crianças menores de seis anos e de diferen- tes condições sociais. O autor propunha que o acesso à edu- cação dessas crianças fosse feito em um nível inicial de ensino que era como o “colo da mãe” (mother’s lap). Ressaltava, tam- bém, a necessidade da formação do professor das crianças peque- nas, uma vez que considerava a infância como um período im- portante do desenvolvimento humano. Comênius acreditava que o processo de aprendizagem iniciava-se pelas sensações e, por isso, as crianças deveriam expe- rimentar o manuseio de objetos para internalizar conhecimentos que, futuramente, seriam inter- pretados pela razão. Disso vem sua defesa de que a educação de crian- ças pequenas deveria utilizar-se de materiais e atividades diversificados de acordo com suas idades, como passeios, quadros, modelos e obje- tos reais, auxiliando-as, no futuro, a realizar aprendizagens abstratas (GADOTTI, 2004). Jean Jacques Rousseau A educação das crianças pequenas teve muitos benefícios com os estudos e propostas de Jean Jacques Rousseau (1712-1778), pensador suíço nascido em Genebra. Você pode conhecer o famoso livro de Comênius, Didatica Magna, na sua versão di- gital acessando o seguinte endereço eletrôni- co: <http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/ didaticamagna.html>. Além disso, você pode saber mais sobre Comênius, importante personagem da história da Educação Infantil, acessandoos seguintes endereços: <http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/ comeniusdw.html>. <http://revistaescola.abril.com.br/historia/ pratica-pedagogica/pai-didatica-moderna- 423273.shtml>. Saiba mais Fund_Educ_Infantil.indd 18 6/7/2010 13:52:09 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 18 of 100 Capítulo 1 Fundamentos da Educação Infantil 19 Contrário à ideia de que a educação de crianças deveria ter como referência os interesses dos adultos, Rousseau propôs que, em uma edu- cação apropriada à faixa etária, as crianças deveriam ser incentivadas desde cedo a experimentar situações variáveis, de acordo com o ritmo de maturação. Dessa forma, chamou a atenção para as necessidades da criança em seus diferentes estágios de desenvolvimento. Os estudos de Rosseau reti- raram as crianças da posição de miniadulto, defendida na Idade Média, e trouxeram à tona a ideia de que elas tinham carac- terísticas próprias e que neces- sitavam de uma educação que respeitasse suas fases de desen- volvimento, com professores ca- pacitados para tal entendimento. As propostas de Rousseau eram muito diferentes das praticadas pelas sociedades da época, nas quais o uso da memória e a rígida disciplina eram concebidos como educação. Nesse sentido, propôs trabalhar com a criança alguns elementos, como: brin- quedo, esporte, agricultura, uso de instrumentos de variados ofícios, linguagem, canto, aritmética e geometria (GADOTTI, 2004). Johann Heinrich Pestalozzi Suíço, nascido em Zurique, este famoso pensador contribuiu mui- to para o desenvolvimento da Educação Infantil como a concebemos hoje: Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827). Segundo ele, o principal objetivo do ensino era levar as crianças a desenvolver suas habilidades naturais e inatas, ressaltando que todas tinham direito absoluto à educa- ção, para que pudessem desenvolver os poderes dado a elas por Deus. As ideias desse pensador eram contrárias àquelas vigentes na sua época, em que as escolas eram controladas, em sua maioria, pela Igreja, a qual não se preocupava com a melhoria da qualidade do ensino e das condições físicas das crianças, o que se refletia na falta de habilidade dos professores e no pequeno número de escolas existentes. Os trabalhos de Pestalozzi trouxeram inovação ao ambiente edu- cacional quando propuseram um método de ensino diferente do que Para conhecer mais sobre esse importante pensador, acesse o site: <http://revistaescola.abril.com.br/historia/ pratica-pedagogica/filosofo-liberdade- como-valor-supremo-423134.shtml>. Saiba mais Fund_Educ_Infantil.indd 19 6/7/2010 13:52:09 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 19 of 100 Fundamentos da Educação Infantil FAEL 20 se praticava. Centrado nos princípios de tranquilidade, amor, segu- rança e afeto, de forma que se assemelhasse ao ambiente familiar, o ambiente escolar era considerado por ele como um ambiente ideal para a aprendizagem. As influências de Pestalozzi alcançaram, também, a formação dos professores, pois ele formalizou procedimentos de treinamento para os mestres, levando em conta suas preocupações: a educação pelos sentidos e as atividades diversi- ficadas, como artes, música, so- letração, geografia, aritmética, linguagem oral e contato com a natureza (GADOTTI, 2004). Friedrich Fröebel Considerado o pai da pré-escola, este autor alemão, nascido em Oberweibach, estudou com Pestalozzi e foi por ele influenciado. Fröbel (1782-1852), entretanto, desenvolveu sua própria teoria edu- cacional voltada às crianças pequenas, independentemente das ideias de seu mestre. Para Fröebel, as crianças eram como plantinhas em desenvolvi- mento, e o professor, o jardineiro que as fazia desabrochar. Para esse desenvolvimento, criou um espaço especial, a primeira instituição com caráter educacional para crianças de Educação Infantil, chama- da por ele de kindergarten (jardim de infância, em alemão). Em sua escola, criada em 1837, as crian- ças eram atendidas do primeiro ao sexto ano de idade, e, como princípio pedagógico, defendia a ideia de que elas se desenvolviam por meio de uma relação entre a imaginação e a ação. O que torna os estudos de Friedrich Fröebel tão relevantes para a Educação Infantil é o fato de que ele sempre priorizou o conhecimento sobre crianças como uma forma de detectar suas características e neces- sidades, para adequar seu modo de educação a essa realidade infantil. Outras informações sobre esse autor podem ser obtidas no site: <http://revistaescola.abril. com.br/formacao/formacao-inicial/teorico- incorporou-afeto-sala-aula-423096.shtml>. Saiba mais Conheça mais sobre Fröebel no site: <http:// revistaescola.abril.com.br/educacao-infantil/ 4-a-6-anos/formador-criancas-pequenas- 422947.shtml>. Saiba mais Fund_Educ_Infantil.indd 20 6/7/2010 13:52:09 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 20 of 100 Capítulo 1 Fundamentos da Educação Infantil 21 Muitas das técnicas utilizadas atualmente nas salas de aula de Educação Infantil devem a Fröebel o seu surgimento, uma vez que a proposta pedagógica desse autor apresentava dois pontos fortes: as ati- vidades de cooperação e os jogo livres. Sendo assim, como homenagem por seus préstimos, Fröebel carrega até hoje o título de “pedagogo do jardim de infância” (FERRARI, 2008b). Maria Montessori Primeira mulher a se formar como médica na Itália, Maria Montessori (1870-1952) iniciou seus trabalhos como psiquiatra de um hospital de crianças especiais, chamadas, na época, de crianças com retardo mental. Para essas crianças, criou materiais coloridos, facilmente manipu- láveis, pois defendia a ideia de que elas deveriam construir suas apren- dizagens a partir do que existia em seus ambientes. Com o sucesso des- ses materiais, Maria Montessori abriu um precedente para a utilização deles na educação de crianças com desenvolvimento normal. O sucesso foi imediato e, desde então, deve-se a Montessori esta importante con- tribuição, que é amplamente utilizada, até hoje, na Educação Infantil: a percepção de que as crianças, com materiais adequados e interessantes, respondem aos estímulos com rapidez e entusiasmo, ao mesmo tem- po em que podem exercitar suas habilidades e autonomia. Com isso, contrariou as práticas educacionais que privilegiavam a repetição e a memorização em detrimento do desafio e da construção de conceitos. Maria Montessori criou sua teoria de educação com base em três princípios: individualidade, atividade e liberdade do aluno, de forma que, em cada estágio de seu desenvolvimento, o estudante recebesse um atendimento especializado, que vinha ao encontro das suas possibilida- des e interesses. A prioridade dos estudos dessa autora foram os anos iniciais do desenvolvimento infantil, o que a torna fundamental para a faixa etária de 0 a 6 anos. Para colocar em prática sua teoria, Montessori fundou sua primeira escola, na periferia de Roma, chamada Casa dei Bambini (Casa das Crianças). O sucesso foi imediato, e outras casas a seguiram, de forma que até hoje existam escolas, no mundo todo, que seguem suas orientações. Há, aproximadamente, cem instituições no Brasil trabalhando com o chamado Método Maria Montessori. Fund_Educ_Infantil.indd 21 6/7/2010 13:52:10 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 21 of 100 Fundamentos da Educação Infantil FAEL 22 Analisando, então, suas formas de origem na Europa, pode-se afirmar que as instituições de Educação Infantil nasceram como uma resposta à situação de abandono e maus tratos a que as crianças eram submetidas. A educação da primeira infância foi criada em um concei- to de assistencialismo, visto que era destinada às famílias de clas- ses desfavorecidas, que necessi- tavam trabalhar e não podiam cuidar de suas crianças. Porém, com o passar dos anos, os ideais e propostas pedagógicas, criados originalmente para os filhos das camadas menos favorecidas, fo- ram reelaborados e oferecidos a outras faixas sociais, prevalecen- do, na maioriadas vezes, para as classes desfavorecidas, uma edu- cação assistencialista. Síntese Neste capítulo, conhecemos as primeiras concepções sobre a edu- cação da primeira infância, desde seu início, na Idade Média, quando a criança era considerada um miniadulto, passando pelas ideias da Ida- de Moderna. Os precursores da Educação Infantil e suas contribuições para o desenvolvimento dos estudos sobre essa faixa etária também fo- ram abordados, de modo a compor as primeiras noções sobre o atendi- mento e a educação das crianças pequenas. Para conhecer mais sobre essa precursora, visite o site: <http://educarparacrescer.abril.com.br/ aprendizagem/maria-montessori-307444.shtml>. O método proposto por Maria Montessori é composto de muitas particularidades. Se você acessar o seguinte site, vai conhecer algumas escolas que trabalham com o método montes- soriano, no Brasil. Disponível em: <http://www. omb.org.br/>. Saiba mais Fund_Educ_Infantil.indd 22 6/7/2010 13:52:10 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 22 of 100 23 A valorização infantil e a concepção de infância como é consi- derada na atualidade foram construídas através dos tempos. No pano- rama histórico que será abordado neste capitulo, será possível conhecer como eram as formas de tratamento das crianças pequenas, tanto no âmbito social, incluindo o contexto familiar e o escolar, quanto no le- gislativo. Continua-se, portanto, com reflexões a respeito da trajetória histórica da Educação Infantil, desta vez nos contextos da educação e da legislação brasileira. Assim, será possível conhecer as formas de atendimento destinadas às crianças pequenas, desde o início da história da educação no Brasil até o século XX, e de como as leis foram contem- plando a educação das crianças de 0 a 5 anos. Panorama histórico da Educação Infantil no Brasil até o século XX No Brasil, tradicionalmente e financeiramente, o contexto mais aceito era o de que a criança deveria ser atendida pela mãe, ou outros familiares, em um ambiente doméstico. A educação de crianças pequenas começou com caráter assisten- cialista, na metade do século XIX, em decorrência do capitalismo, que também nascia no país. Com as recém-criadas fábricas, cria-se uma demanda até então inexistente: as mães da classe operária precisavam de lugares para deixar seus filhos pequenos durante a jornada de traba- lho, pois as crianças ainda eram muito novas para irem à escola. Além disso, o Brasil vivia o período da abolição da escravatura e acentuada migração para as zonas urbanas. Portanto, o aumento da população Os caminhos da Educação Infantil no Brasil: história e legislação 2 Fund_Educ_Infantil.indd 23 6/7/2010 13:52:10 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 23 of 100 Fundamentos da Educação Infantil FAEL 24. nesses locais e o desenvolvimento das fábricas, que buscavam mão de obra especializada, são dois fatores influentes quando se começou a dar atenção para as crianças da primeira infância. Até o começo desse século, não havia distinção entre o atendi- mento a crianças realizado na creche e o feito em asilos e internatos. Preconizava-se a ideia de que o atendimento institucional às crianças era um favor, feito como caridade para mães solteiras ou que não ti- nham condições de ficar com seus filhos. Essa demanda mobilizava organizações sociais e filantrópicas, do- nos de indústrias e senhoras da alta sociedade, na construção de um aparato que pudesse atender bem ao filho da mãe operária, para que ela pudesse produzir mais. Dessa forma, seguindo as referências europeias, surgiu no Brasil o atendimento para crianças pequenas, que foi dividi- do em duas partes: as chamadas creches ou asilos da primeira infância, que se ● propunham a atender crianças de 0 a 2 anos; as chamadas salas de asilo para a segunda infância, poste- ● riormente denominadas de escolas maternais, que atendiam crianças de 3 a 6 anos. Uma diferenciação merece destaque. Na realidade brasileira, as instituições pré-escolares foram chamadas de jardins de infância. As instituições privadas, que atendiam às crianças ricas, receberam o nome de asilo, e as que atendiam às crianças pobres receberam o nome de creche, reforçando a ideia de que creche é uma entidade assistencialista, destinada a combater a pobreza. Com o desenvolvimento acelerado da medicina, a área da pediatria despontava como necessária, cabendo aos médicos dessa área ensinar as mães a cuidar de seus filhos, no intuito de diminuir a mortalidade infantil na época. No contexto brasileiro, ainda havia as mães de alu- guel (também chamadas de mães de criação, ou, ainda, de criadeiras), que eram pagas para cuidar das crianças pequenas, em detrimento das creches. Nesse sentido, os pediatras alertavam com veemência para o perigo de as crianças serem criadas em moradias inadequadas, com fal- ta de luz, de higiene e hábitos inadequados. Porém, mesmo com esse alerta, a situação não mudava muito, pois as criadeiras atendiam, em Fund_Educ_Infantil.indd 24 6/7/2010 13:52:10 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 24 of 100 Capítulo 2 Fundamentos da Educação Infantil 25 grande parte, os filhos das mulheres que eram discriminadas pela so- ciedade: prostitutas, mães solteiras e empregadas domésticas. Como se pode observar, o discurso dos médicos sobre o atendimento às crianças pequenas atribuía culpa à família pela situação de seus filhos. Aliás, esta era uma visão da época: como as famílias eram culpadas pela pobreza, o atendimento a essas crianças seria feito no sentido de acalmar esse mal, principalmente nas classes trabalhadoras (OLIVEIRA, 2002). Assim, historicamente, o desenvolvimento da Educação Infantil no Brasil passou pela defesa de uma concepção de atendimento em cre- ches e jardins de infância mais assistencialista do que educativa sendo sempre atrelada à classe social das crianças. Devido às precárias condições de moradia das crianças, a creche acabou se tornando o espaço onde eram proporcionadas as condições de higiene de saúde que não eram ofertadas em casa; assim, o aspecto de formação e de edu- cação era substituído pelo assis- tencial, em que o importante era a alimentação e o cuidado com a saúde. Por isso, dentro da creche, o atendimento ainda era somente assistencial, como que para “aparar as arestas” de um mal necessário (o trabalho) que separava as mães de seus filhos por um tempo e por condições que aumentariam o desenvolvimento do país. No entanto, o formato do atendimento praticado nas creches deixava clara a ideia de que ela era destinada à população pobre e que as crianças de família nobre deve- riam ser criadas em casa por suas mães. No Brasil, com essa concepção de atendimento à classe traba- lhadora, foram criados diversos jardins de infância particulares, em Castro, cidade do Paraná, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Foram criados, também, jardins de infância públicos, que eram destinados às crianças abandonadas. A chegada de muitos imigrantes europeus, no final do sécu- lo XIX, e sua rápida absorção ao mercado de trabalho, no início do É atribuído à Emília Faria de Albuquerque Erichsen o mérito de ter fundado o primeiro jardim de infância do Brasil, na cidade de Castro, estado do Paraná. Para conhecer mais sobre a história dessa pernambucana que utili- zou os métodos pedagógicos de Fröebel, aces- se o site: <http://www.faced.ufu.br/colubhe06/ anais/arquivos/151RonieCardosoFilho.pdf>. Saiba mais Fund_Educ_Infantil.indd 25 6/7/2010 13:52:10 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 25 of 100 Fundamentos da Educação Infantil FAEL 26 século XX, originou alguns protestos e reivindicações por melhores condições de trabalho e por creches para o atendimento dos filhos desses trabalhadores. Porém, somente na década de 20 do século XX, o governo estimulou o atendimento às crianças pequenas da classe ope- rária, limitando-se, entretanto, a fornecer somente professores, mate- riais pedagógicose mobília, deixando a cargo da sociedade a realização desse serviço. Após 1930, em virtude dessa situação, pensadores brasileiros (Fer- nando de Azevedo, Anísio Teixeira e Lourenço Filho) divulgaram a educação progressiva da chamada Escola Nova e suscitaram algumas reformas educacionais que cul- minaram no Manifesto dos Pio- neiros da Educação Nova. Em 1932, mesmo redigido por Fer- nando Azevedo, este manifesto foi subscrito por muitos outros educadores e intelectuais. O manifesto pedia, urgentemente, medidas educacionais dentro de um programa próprio, com itens que faziam referência à educação pré-escolar, no que diz respeito à criação de instituições específicas para esse fim, e enfatizavam a necessidade de uma organização escolar unifi- cada, da pré-escola à universidade, respectivamente. Na década de 40 do século XX, aumentou a quantidade de atitudes governamentais em direção ao assistencialismo, principalmente na área de saúde, e, na década seguinte, as creches que eram mantidas por enti- dades filantrópicas e religiosas passaram a receber ajuda do governo. O trabalho realizado nessas instituições tinha como preocupação a questão da alimentação, da higiene e da segurança física, e, como sobreviviam de doações, nem sempre podiam contar com esses quesitos básicos. Em 1943, Getúlio Vargas criou a Consolidação das Leis de Tra- balho (CLT), que, entre outras coisas, tornava obrigatória a criação de creches e berçários para os filhos dos funcionários. Por falta de fiscaliza- ção do governo, isso não foi consolidado na prática, e o número dessas instituições, criadas nesse período, fosse pouco significativo. Cada vez mais, a mulher participava do mercado de trabalho e mi- grava para os grandes centros urbanos; por isso, tinha problemas para Você pode conhecer, na íntegra, o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, no endereço eletrônico: <http://www.pedagogiaemfoco. pro.br/heb07a.htm>. Saiba mais Fund_Educ_Infantil.indd 26 6/7/2010 13:52:10 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 26 of 100 Capítulo 2 Fundamentos da Educação Infantil 27 conciliar o trabalho com o atendimento de seus filhos. Mudava-se a épo- ca, mas o problema permanecia igual, enraizado na crença de que eram as mães que deveriam tomar conta de seus filhos ou arrumar alguém que pudesse, temporariamente, oferecer um atendimento similar. Como não havia preocupação do governo em tomar atitudes que pudessem resultar em medidas práticas, cada mãe resolvia os problemas a seu modo. Encon- tra-se, assim, além da dificuldade de atendimento, a “culpa” sentida por essas mães, que precisavam deixar os filhos sob o cuidado de outros. Quando a marginalização de crianças e jovens apresentou-se em um patamar muito alto, a creche foi defendida como uma possível re- dutora desse problema. Observe que a ideia de marginalidade crescia, muitas vezes, originada no fato de a criança ficar sozinha em casa e/ou ficar sob os cuidados de seus irmãos mais velhos, enquanto a mãe tra- balhava para manter o lar. Acidentes domésticos aconteciam em grande escala, pois o que se impunha às crianças maiores era uma responsabili- dade de cuidado que ainda não podiam carregar. Desse modo, não raro, descarregavam suas angústias e frustrações na marginalidade. A creche, portanto, não atenderia somente à criança pequena, mas a toda uma estrutura que se ruía em torno dela (na relação do atendi- mento precário que as famílias tentavam organizar). Mais uma vez, a instituição era colocada como um favor que servia para proporcionar a essas crianças um espaço que não teriam em casa. Não havia, contudo, uma preocupação com a amplitude do pro- blema que levava as mães a deixarem seus filhos sozinhos em casa, nem com a relação de sua necessidade de trabalho, nem com a questão da marginalidade de jovens. Na situação que se apresentava, a creche era considerada apenas como um remédio a esses males. Sendo assim, é possível afirmar que as creches foram, por muito tempo, uma estratégia dos governos para combater a pobreza e resolver problemas ligados à sobrevivência das crianças, o que justificou por mui- tos anos a existência dessas instituições no Brasil (KRAMER, 1993). Na outra metade do século XX, mesmo com a maioria da popu- lação ainda não tendo acesso a condições ideais de vida, as instituições de atendimento a crianças de 0 a 5 anos passaram a ser cada vez mais requisitadas, não só pela chamada classe operária, mas também pelas mulheres que trabalhavam no comércio e no funcionalismo público. Fund_Educ_Infantil.indd 27 6/7/2010 13:52:10 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 27 of 100 Fundamentos da Educação Infantil FAEL 28 Fundamentos legais da Educação Infantil Vamos fazer uma retrospec- tiva histórica da legislação sobre Educação Infantil, no intuito de conhecermos como ela se articu- lou no nosso país. No projeto de reforma de Leôncio Carvalho, em 1878, durante o Período Imperial, encontra-se a primeira referên- cia oficial à pré-escola no Brasil. Nessa época, Rui Barbosa, par- lamentar, emitiu dois pareceres a respeito da reforma de Leôncio de Carvalho. Esses dois documentos contêm uma apreciação sobre a metodo- logia dos jardins de infância (chamados assim por Rui Barbosa, em uma tradução literal da expressão kindergarten, de Fröebel). Neles, Rui Barbosa empregou expressões utilizadas até hoje, como “atividade livre da criança” e “espontaneidade de ação”. Mesmo com as contribuições de Rui Barbosa para esta etapa de en- sino, o precursor da Educação Infantil, no Brasil, foi Joaquim Teixeira de Macedo, defensor de ideias de nacionalidade pregadas por Rosseau, Pestalozzi e Fröebel. Com grande admiração pela educação alemã, defendia a ideia de que havia a necessidade de uma educação que fortalecesse o espírito de na- cionalidade do povo brasileiro, sendo essa educação a solução para o período agitado que era vivido – consequência do desen- volvimento econômico do país (KRAMER, 1993). Em 26 de novembro de 1947, sob o número 17.698, sur- Leôncio de Carvalho nasceu em 18 de junho de 1847, em Iguaçu, na província do Rio de Janeiro. Advogado, foi convidado para ocupar a pasta dos Negócios do Império em 15 de janeiro de 1878 e, por meio do Decreto de 19 de abril de 1879, reformou a instrução pública primária e secundária no Município da Corte e o Ensino Superior em todo o Império, o que deu origem aos pareceres/projetos de Rui Barbosa. Para saber mais sobre Leôncio de Carvalho, acesse o site: <http://jus2.uol.com.br/doutrina/ texto.asp?id=7865>. Saiba mais 1. Para compreender os caminhos percorridos para se chegar à Educação Infantil conhecida atualmente é importante conhecermos um pouco mais sobre esse assunto. Disponível em: <http://www.projetomemoria.art.br/Rui Barbosa/glossario/r/reforma-ensino.htm>. 2. Acompanhe uma interessante relação entre as ideias de Rui Barbosa e a questão da brinca- deira infantil no site: <http://www.alb.com.br/ anais16/sem13pdf/sm13ss11_05.pdf>. Saiba mais Fund_Educ_Infantil.indd 28 6/7/2010 13:52:10 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 28 of 100 Capítulo 2 Fundamentos da Educação Infantil 29 giu o primeiro decreto relativo à Educação Infantil, chamado de Consolidação das Leis de Ensi- no e que tratava especificamente das escolas maternais e dos jar- dins de infância. Segundo ele, a função das escolas maternais oficiais deveria ser a de receber os filhos de operários, oferecen- do a eles um desenvolvimento harmônico, em um ambiente similar ao do lar (SÃO PAULO, 1947). Já os jardins de infân- cia deveriam dar oportunidade para que os alunos praticassem a autodireção e o autocontrole, desenvolvendo a iniciativa e a invenção e aprendendo a coor- denar esforços e interesses de seus companheiros. Esse decre- to orientou o ensino pré-escolar até 1961, quando surgiram as Leis de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional(1961) e a educação de crianças pequenas A primeira LDB foi publicada em 20 de dezembro de 1961, sob número 4.024, no governo do presidente João Goulart, após ter sido designada pela Constituição de 1934. Assim, quase trinta anos depois de ter sido prevista e 13 anos depois de seu primeiro projeto ter sido en- caminhado ao Poder Legislativo, finalmente nasceu o texto da primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (SALOMÃO, 2010). Com uma estrutura de 120 artigos, a LDB n. 4.024/1961 trata- va da educação das crianças chamadas pré-escolares no Título VI (Da Educação de Grau Primário), assim dividido: Para melhor compreensão do tema deste capí- tulo, é interessante que você conheça as legis- lações brasileiras. Ao conhecer as três Leis de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, (Lei n. 4.024/61, Lei n. 5.692/71 e Lei n. 9.394/96, que está atualmente em vigência) você terá muito mais subsídios para acompanhar os estu- dos específicos sobre os caminhos históricos e legislativos percorridos pela Educação Infantil. LDB n. 4.024/61• : disponível em: <http:// www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/ L4024.htm>. LDB n. 5.692/71• : disponível em: <http:// www.planalto.gov.br/Ccivil_03/LEIS/ L5692.htm>. LDB n. 9.394/96• : disponível em: <http:// www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/ L9394.htm>. Saiba mais Fund_Educ_Infantil.indd 29 6/7/2010 13:52:10 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 29 of 100 Fundamentos da Educação Infantil FAEL 30 Capítulo I – Da Educação Pré-Primária ● Capítulo II – Do Ensino Primário ● No capítulo que trata da chamada educação pré-primária, que diz respeito às crianças pequenas, a LDB n. 4.024/1961 traz o se- guinte texto: Art. 23. A educação pré-primária destina-se aos menores até sete anos e será ministrada em escolas maternais ou jardins de infância. Art. 24. As empresas que tenham a seu serviço mães de me- nores de sete anos serão estimuladas a organizar e manter, por iniciativa própria ou em cooperação com os poderes públicos, instituições de educação pré-primária (BRASIL, 1961, [s. p.]). Nessa época, o Brasil vivia um contexto de crescimento, com grande demanda de urbanização e industrialização e, dessa forma, mais mulhe- res iam aos campos de trabalho, necessitando deixar seus filhos em locais de atendimento. No entanto, ainda não havia o compromisso formal dos governantes em assumir as obrigatoriedades desse nível de ensino. A partir de 1964, com a época dos governos militares, foram cria- dos órgãos que continuaram a defender a ideia de que a creche era como um favor à criança e à sua família. Por meio da Legião Brasileira de Assistência (LBA) e da Fundação Nacional do Bem-estar do Menor (Funabem), o governo oferecia ajuda às entidades filantrópicas, na ten- tativa de atenuar o problema da marginalização ainda existente. Sem alterar as condições sociais e econômicas das famílias, o go- verno dava à creche a função de compensar e superar o deficit cultural apresentado pelas crianças menos favorecidas. A tônica desse trabalho era, portanto pautada em uma visão que estigmatizava a população de baixa renda. Nas décadas de 60 e 70 do século XX, essa ideia ainda era vigente e, em função disso, algumas creches e pré-escolas particulares (que se tornavam cada vez mais numerosas) basearam suas propostas de traba- lho em um patamar em que se encontravam a estimulação cognitiva e o preparo para a alfabetização. Com isso, era grande a diferença entre a educação oferecida às crian- ças de famílias mais abastadas e a oferecida às de família com renda menor. Fund_Educ_Infantil.indd 30 6/7/2010 13:52:10 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 30 of 100 Capítulo 2 Fundamentos da Educação Infantil 31 Enquanto a primeira baseava-se em estudos que ressaltavam a importância do período de 0 a 5 anos para o desenvolvimento infantil (como os estu- dos de Jean Piaget) e que se propunham a realizar um trabalho que ressal- tasse a criatividade e a sociabilidade, a segunda era somente um tentativa de “tapar buracos” causados por problemas econômicos e pelas diferenças culturais e permeados pelas políticas governamentais. Segunda Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (1971) e a educação de crianças pequenas A LDB n. 5.692 foi publicada em 11 de agosto de 1971, trazendo textos relativos à Educação Infantil, chamada, na época, de educação pré-escolar. De acordo com o parágrafo segundo do artigo 19 dessa lei, “Os sistemas de ensino velarão para que as crianças de idade inferior a sete anos recebam conveniente educação em escolas maternais, jardins de infância e instituições equivalentes” (BRASIL, 1971, [s. p.]). Percebe-se que, ao mesmo tempo em que se abriu a possibilidade para que cada sistema de ensino decidisse sobre a matrícula de crianças menores, havia a recomendação de que as crianças com idade inferior a sete anos fossem atendidas em escolas maternais, jardins de infância e instituições equivalentes, sem, contudo, especificar quem ficaria a car- go dessa responsabilidade educacional. A partir da segunda metade da década de 70 do século XX, a cre- che tornou-se um direito do trabalhador, sendo efetivado na prática das grandes empresas. Porém, em virtude do crescimento dos centros industriais, as creches das empresas não conseguiam mais atender à demanda criada, e o governo passou a incentivar e ajudar as já exis- tentes “creches domiciliares” (nas quais uma mãe tomava conta dos filhos de outras, mediante pagamento). Essa modalidade alternativa de atendimento à criança pequena, assim como as creches empresariais, funciona até hoje em nosso país. Além delas, existem as creches des- vinculadas do governo ou de empresas, sendo geridas pelos próprios usuários (OLIVEIRA, 2002). Pode-se considerar que a Lei n. 5.692/71, ao sugerir que os esta- belecimentos de ensino “velassem” pelas crianças pequenas, recomen- dando que os menores de sete anos recebessem educação em escolas e/ ou instituições equivalentes, teve pouca atuação efetiva no campo da Fund_Educ_Infantil.indd 31 6/7/2010 13:52:10 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 31 of 100 Fundamentos da Educação Infantil FAEL 32 educação das crianças pequenas. Somente em 1974 o Ministério da Educação criou uma coordenação para tratar dos assuntos relacionados à educação das crianças em idade pré-escolar. Foi nesse ano, também, que o Conselho Federal da Educação começou a receber pronuncia- mentos que destacavam a importância da educação pré-escolar. Alguns exemplos são a Indicação n. 45/75 e o Parecer n. 2.018/74, brevemente descritos a seguir (SOUZA; SILVA, 2002). Indicação n. 45/75 – Conselho Federal de Educação – Conselheiro Eurides Brito da Silva: importância da educação pré-escolar na formação do homem • brasileiro; a educação pré-escolar não é uma fase preparatória.• Parecer Conselho Federal da Educação n. 2.018/74 – Paulo Nathanael Pereira de Souza: encara a educação pré-escolar como estágio probatório;• por causa das reprovações ocorridas no primeiro grau, a ideia • de educação compensatória se fortalece; reduz a pré-escola apenas à faixa etária de 5 e 6 anos quando • fala de prontidão. Percebe-se, nessa indicação, uma característica que se atribuía à educação pré-escolar da época: a questão da defasagem cultural. A criança era considerada como culturalmente defasada, e a educação pré-escolar funcionaria como solução para isso. Sendo assim, o trecho desse documento enfatiza a ideia da pré-escola como elemento para a superação da defasagem cultural. Estudos e pesquisas realizados em vários países do mundo de- monstram que os cuidados dispensados ao pré-escolar contribuem para a prevenção do retardo escolar e de outros distúrbios (oriundos de ca- rências nutricionais e afetivas) e para a promoção do desenvolvimento Fund_Educ_Infantil.indd 32 6/7/2010 13:52:10 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 32 of 100 Capítulo 2 Fundamentos da Educação Infantil33 da criança, com pleno aproveitamento de todas as suas potencialida- des. Segundo numerosos psicólogos e pedagogos, a ação do meio social é tamanha, desde o nascimento à entrada na escola primária, que as crianças iguais se acham desiguais sobre os bancos da escola. Para supe- rar essa desigualdade, é durante o período que vai de 3 a 6 anos que é preciso agir (BRASIL, 1974). Por muitos anos, a visão sobre a educação de crianças relatada nes- ses pareceres e em outros documentos foi a que prevaleceu em nosso país: defasagem cultural, educação compensatória e preparação para o primeiro grau. Os documentos oficiais retratam a visão que se tinha acerca da função das instituições educativas destinadas a crianças de 0 a 5 anos. As leis, frutos de suas épocas, transmitem muitas vezes o descaso com que o tema era tratado pelos governos: algumas vezes com desatenção, outras com ignorância (no sentido de não ser considerada). Os enfo- ques assistencialistas foram marcas fortes na Educação Infantil desse tempo e, em alguns lugares do país, permanecem até hoje. Terceira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (1996) e a educação de crianças pequenas A Constituição promulgada em 1988 lançou uma visão diferente da que havia acerca do atendimento a crianças pequenas: opondo-se à visão tradicional de favor prestado às classes menos favorecidas e de período preparatório, a creche passou a ser reconhecida como uma ins- tituição educativa, “um direito da família e um dever do Estado”. A Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996, trouxe a primeira grande atenção em relação à diferença da ideia de atendimento ofereci- do às crianças pequenas. Um exemplo disso pode ser conferido no livro Creches: crianças, faz de conta & cia, no qual se faz uma importante reflexão sobre o papel da creche na realidade educativa brasileira, que foi sensivelmente alterado pela LDB n. 9.394/96. Nesse livro, ainda, é destacada a função educativa da creche, que exige o planejamento de um currículo de atividades, o qual deverá considerar tanto o grau de de- senvolvimento da criança, quanto os conhecimentos culturais básicos a serem por ela apropriados. Fund_Educ_Infantil.indd 33 6/7/2010 13:52:10 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 33 of 100 Fundamentos da Educação Infantil FAEL 34. Por essa e por tantas outras literaturas, nesse sentido, e pelas práti- cas educativas que estão se modificando em direção a ações educativas, percebe-se que está nascendo uma nova concepção acerca da Educação Infantil, que altera fundamentalmente a visão que se tinha antes sobre o atendi- mento a crianças pequenas. Se, em épocas anteriores, as crianças eram tratadas como adultos em miniatura, a atual lei reconhece-as por meio de suas necessidades e es- pecificidades, destacando, ainda, a importância de práticas pedagógicas adequadas à faixa etária de 0 a 5 anos (ABREU, 2004). Na LDB n. 9.394/96, um dos fatores que merece destaque é o fato de a Educação Infantil ser considerada parte da educação básica, o que demonstra uma preocupação em valorizar a primeira infância como etapa necessária à educação. Acompanhe o que o texto da lei diz acerca dos níveis e modalidades de educação (BRASIL, 1996, [s. p.]): Art. 21. A educação escolar compõe-se de: I – educação básica, formada pela Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio; II – Educação Superior. Como se pode verificar, a Educação Infantil, pela primeira vez na história brasileira, passou a ser concebida como parte da educação bá- sica. Se antes as escolas de Educação Infantil iniciavam suas atividades com um caráter assistencialista, hoje o que se defende sobre a educação de crianças pequenas é o fato de esse assunto pertencer à esfera educa- cional. A referida lei, no âmbito específico da Educação Infantil, traz o seguinte texto: Art. 29. A Educação Infantil, primeira etapa da educação básica, tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade, em seus aspectos físico, psicoló- gico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade. Art. 30. A Educação Infantil será oferecida em: I – creches, ou entidades equivalentes, para crianças de até três anos de idade; O livro Creches: crianças faz de conta & Cia., de Zilma de Moraes Oliveira et al., publicado pela Editora Vozes, é um material que deve ser conhecido, pois trata de assuntos muito perti- nentes à Educação Infantil brasileira. Saiba mais Fund_Educ_Infantil.indd 34 6/7/2010 13:52:11 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 34 of 100 Capítulo 2 Fundamentos da Educação Infantil 35 II – pré-escolas, para as crianças de quatro a seis anos de idade. Art. 31. Na Educação Infantil, a avaliação far-se-á mediante acompanhamento e registro do seu desenvolvimento, sem o objetivo de promoção, mesmo para o acesso ao Ensino Fun- damental (BRASIL, 1996, [s. p.]). Além do que destacamos anteriormente, a Seção II da LDB n. 9.394/96, retratada acima, ressalta que o desenvolvimento da crian- ça deve ser integral e determina que a educação dessas crianças seja feita em creches e pré-escolas, de acordo com a faixa etária. Embora a LDB n. 9.394/96 determine que a educação dessas crianças seja feita em creches e pré-escolas, existe a liberdade de escolha de nomenclatura dessas instituições. Por isso, é possível encontrar, no Brasil, diferentes nomes correspondendo às salas de aula de Educação Infantil, como berçário, maternal, mini- maternal, jardim 2 ou pré 2. Diante dessa nova proposta para a educação de crianças pequenas, o Ministério da Educação e do Desporto (MEC) propôs um Referencial Curricular para a Educação Infantil, cujo objetivo é conferir a esse nível de ensino uma intencionalidade educativa, em continuidade com os vários níveis do Ensino Fundamental. Nesse sentido, visa socializar e difundir o debate acerca da Educação Infantil, destacando sua impor- tância para a Educação Básica. Outras legislações são de suma importância no contexto da Educa- ção Infantil. Acompanhe, a seguir, o teor de cada uma delas: Lei n. 11.114, de 16 de maio de 2005 – altera os artigos 6º, ● 30, 32 e 87 da LDB n. 9.394/96, com o objetivo de tornar obrigatório o início do Ensino Fundamental aos seis anos de idade. Leia a lei na íntegra em: <http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/_Ato2004-2006/2005/Lei/L11114.htm>. Lei n. 11.274, de 06 de fevereiro de 2006 – altera a redação ● dos artigos 29, 30, 32 e 87 da LDB n. 9.394/96, dispondo Você pode saber mais sobre as legislações que alteraram o Ensino Fundamental de nosso país de oito para nove anos e que, de alguma for- ma, estão relacionadas à Educação Infantil. Acesse o site: <http://portal.mec.gov.br/seb/ arquivos/pdf/Ensfund/noveanorienger.pdf>. Saiba mais Fund_Educ_Infantil.indd 35 6/7/2010 13:52:11 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 35 of 100 Fundamentos da Educação Infantil FAEL 36 sobre a duração de nove anos para o Ensino Fundamental, com matrícula obrigatória a partir dos seis anos de idade. Leia a lei na íntegra em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ Ato2004-2006/2006/Lei/L11274.htm>. Dessa forma, mesmo sem a mudança no texto da LDB n. 9.394/96, em seu Art. 29, que trata da faixa etária da Educação Infantil, essa mo- dalidade de educação teve sua faixa etária de atendimento alterada, em decorrência da expansão do Ensino Fundamental de oito para nove anos de estudos, atendendo, atualmente, crianças de 0 a 5 anos. ReflitaReflita Modificar o vínculo da Educação Infantil de assistencial para “educa- tivo” significa colocar em pauta várias questões que vão muito além dos aspectos de legislação. É necessário que se refaçam conceitos so- bre a infância, como acompanhamos em nossos estudos anteriores, sobre as relações entre as classes sociais, sobre as responsabilidades da sociedade frente às crianças pequenas e, principalmente, sobre as especificidades da Educação Infantil. Sobre esse assunto, leiao texto A política de Assistência Social no contexto da Educação Infantil: possibilida- des e desafios para um trabalho socioeducativo, de Selma Frossard Costa, disponível em: <http://www.ssrevista.uel.br/c_v6n2_selma.htm>. ReflitaReflita Síntese Os temas presentes neste capítulo referem-se à história da legislação brasileira sobre a educação de crianças pequenas, fornecendo informa- ções importantes acerca das concepções sobre as formas de atendimen- to a essas crianças. Pode-se conhecer as três Leis de Diretrizes e Bases e analisar o que cada uma delas oferece sobre a Educação Infantil, com especial destaque à LDB n. 9.394/96, que reposicionou essa modalida- de de ensino, colocando-a na esfera básica da educação nacional. Fund_Educ_Infantil.indd 36 6/7/2010 13:52:11 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 36 of 100 37 Este capítulo aborda um tema de grande valia para a forma como as sociedades tratam as crianças pequenas, pois explica a relação das concepções que se têm a respeito da infância com as tendências pe- dagógicas percebidas nas práticas educativas. Sem pretender esgotar o assunto, mas, sim, teorizar a discussão, apresentam-se, ainda, as impor- tantes contribuições dos autores cujas pesquisas sobre desenvolvimento humano mapearam o desenvolvimento infantil, oferecendo alternativas teóricas para práticas educativas condizentes. A Educação Infantil sob a perspectiva da escola A história da Educação Infantil mistura-se com a própria história da infância, uma vez que, ao longo dos tempos, as sociedades alteraram as formas de atendimento às crianças pequenas, em grande parte por também alterarem a forma de pensar sobre a infância. Dessa forma, o tratamento dado a essas crianças, com caráter assistencial ou não, foi reflexo das ideias correntes que existiam sobre os direitos e deveres das crianças pequenas, sobre o desenvolvimento infantil, sobre o pensa- mento e as capacidades de aprendizagens, bem como sobre as necessi- dades específicas desse grupo etário. Nessa perspectiva, passamos do atendimento de crianças como parte exclusiva da família, em uma concepção que as via como seme- lhantes a um adulto, continuamos nosso caminho na ação da escola (creche), como substituta da família no atendimento à criança, e, por fim, passamos pela necessidade de trabalho dos entes da família e pela concepção da escola de Educação Infantil (pré-escola) como aquela que prepara a criança para o Ensino Fundamental. Concepção de infância: inter-relações da sociedade com a criança 3 Fund_Educ_Infantil.indd 37 6/7/2010 13:52:11 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 37 of 100 Fundamentos da Educação Infantil FAEL 38 É importante relembrar que a primeira função da pré-escola foi a de “guardar crianças”, e só no século XIX nasceu uma pro- posta mais voltada à ideia de educação do que à ideia de assis- tência. Mesmo assim, a educação destinada a crianças pequenas teve um caráter de compensação, como se a escola devesse (e pu- desse) superar as carências e de- ficiências culturais, linguísticas e afetivas que haviam sido criadas pelas situações da Segunda Guer- ra Mundial e, com isso, resolver o problema do fracasso escolar dos anos seguintes. Essa abordagem de compensação social justificou, por muitos anos, a estadia das crianças de até seis anos na escola. No Brasil, em 1970, a pré-escola foi utilizada exatamente como preparação para as séries posteriores, especialmente para a primeira sé- rie, e também para tentar reverter o fracasso escolar, sendo reconhecida facilmente por um caráter assistencialista. Kramer (1993, p. 35) res- salta: “a pré-escola dentro desta visão (compensatória-assistencialista) serviria para prever estes problemas (carências culturais, nutricionais, afetivas) proporcionando a partir daí a igualdade de chances a todas as crianças, garantindo seu bom desenvolvimento.” Como se percebeu mais tarde, não foi possível garantir esse desen- volvimento, pois se partia da ideia de que todas as crianças poderiam ser “igualadas” em seu desenvolvimento. As carências culturais, nutri- cionais e afetivas não podem ser sanadas pela escola, porque são proble- mas que ultrapassam a fronteira dos bancos escolares. Uma nova concepção de infância Para que se possa compreender a Educação Infantil da atualidade, comprometida com a educação do século XXI, é preciso repensar a forma pela qual a sociedade contemporânea conceitua e concebe a infância. Observe com atenção: o termo pré-escola, da forma como é escrito, não sugere que é uma etapa que vem “antes” da escola? Sobre isso, sugere-se a leitura do livro A pré-escola é não é escola, de Maria Lucia Machado, uma impor- tante autora da área de Educação Infantil que oferece muitos referenciais para pensarmos na pré-escola como um espaço de educação, com ideias próprias e que não está a serviço das séries seguintes, mas somente do desenvolvi- mento infantil. MACHADO, M. L. A pré-escola é não é escola: a busca de um caminho. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991. Saiba mais Fund_Educ_Infantil.indd 38 6/7/2010 13:52:11 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 38 of 100 Capítulo 3 Fundamentos da Educação Infantil 39 Segundo Oliveira (2002), a principal concepção a ser repensada diz respeito ao conceito de infância utilizado. Na etimologia da palavra, infância (in-fans) significa “não fala”. Observe que o sentido de não fala, aqui, não é o de ausência, mas, sim, o de não validade. Dessa forma, a concepção da infância como um espaço de silêncio afirma que mesmo que a criança pequena fale (e, obviamente, ela fala), suas falas ou suas ideias não devem ser levadas em conta, pois não são importantes e não mantém a mesma lógica do padrão da linguagem adulta. Infelizmente, a concepção de que não são importantes a fala das crianças, suas vontades, seus valores e as lógicas que utilizam para re- solver seus conflitos está presente em muitos ambientes educacionais. Ainda existem escolas que desenvolvem suas ações como se a criança fosse um ser frágil e indefeso, sem poder de decisão, sem opinião e incapaz de justificar suas atitudes e preferências. O questionamento a essa perspectiva apoia-se no fato de que o adulto precisa, independente de sua função para com a criança (pai, responsável ou professor), repensar o que espera e quais as possibilida- des de aprendizagem dessa criança. Precisa repensar a forma como age com ela, de modo a dar mais autonomia, o que, em absoluto, significa permissividade total. Urgentemente, a concepção de infância como um espaço de silên- cio precisa ser repensada, uma vez que esse período deve ser compreen- dido como um tempo de privilegiada comunicação, mesmo quando a criança ainda não fala utilizando a linguagem oral, mas usa outras lin- guagens para estabelecer comunicação, como sorrisos, choros e demais expressões. Por isso, de certa forma, pode-se dizer que as crianças com menos de um ano de idade também “falam”, pois se comunicam, à sua maneira, com as pessoas a sua volta. Ocorre que, para que pais e professores possam aumentar suas ex- pectativas em relação ao desenvolvimento infantil, é preciso que te- nham algum conhecimento científico sobre o tema. Somente baseadas no senso comum, as pessoas acabam por classificar a criança dentro de um patamar de dependência do adulto e de fragilidade. Para aprofundar esse tema, serão abordados, a seguir, três pes- quisadores que contribuíram com teorias que destacam o desenvolvi- mento humano, auxiliando os adultos a compreender como ocorre, Fund_Educ_Infantil.indd 39 6/7/2010 13:52:11 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 39 of 100 Fundamentos da Educação Infantil FAEL 4.0 nas crianças, o fenômeno de aquisição de conhecimento e quais são os aspectos relevantes para o seu desenvolvimento. Jean Piaget, Lev Semenovich Vygotsky e Henry Wallon, cada um sob sua ótica de es- tudos e pesquisas, mostraram muito acerca do desenvolvimento dacriança e de suas possibilidades de aprender. Jean Piaget (1896-1980) Para Jean Piaget, o conhecimento se constrói por meio da inte- ração da pessoa com objeto. Segundo ele, a atividade intelectual não pode ser separada do funcionamento total do organismo. Dessa forma, a interação com os objetos de estudo funciona como uma grande mola propulsora da aprendizagem, em que corpo e mente funcionam de for- ma indissociável. Embora tenha escrito uma teoria de desenvolvimento humano não propriamente relacionada ao ambiente escolar, as ideias desse psicólogo suíço influenciaram a educação de muitos países, inclusive o Brasil (LA TAILLE, 1992). Foi Piaget quem mapeou as etapas de desenvolvimen- to infantil, de 0 a 11 anos – aqui descritas segundo Ângela Biaggio (1976) –, conforme será visto a seguir. Estágio sensório motor ● : mais ou menos de 0 a 2 anos – a ati- vidade intelectual da criança é de natureza sensorial e motora. A principal característica dessa idade é a não representação mental dos objetos, sendo direta a ação da criança sobre eles. Essas atividades serão o fundamento da atividade intelectual futura. A estimulação ambiental interferirá na passagem de um estágio para o outro. Estágio pré-operatório ● : mais ou menos de 2 a 6 anos – nessa etapa, a criança já não depende tanto de seu movimento e sen- sações, como no estágio anterior, e já distingue um significa- dor (imagem, palavra ou símbolo) daquilo que ele significa (o objeto ausente), o significado. Para a educação, é importante ressaltar o caráter lúdico do pensamento simbólico. Nessa ida- de, a criança tem um pensamento egocêntrico, uma vez que ainda não consegue colocar-se no lugar do outro. Estágio operatório concreto ● : mais ou menos dos 7 aos 11 anos – é capaz de ver a totalidade dos fatos por meio de Fund_Educ_Infantil.indd 40 6/7/2010 13:52:11 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 40 of 100 Capítulo 3 Fundamentos da Educação Infantil 4.1 diferentes ângulos. Conclui e consolida as conservações do número, da substância e do peso. Apesar de ainda trabalhar com objetos, agora representados, sua flexibilidade de pen- samento permite inúmeras possibilidades de aprendizagens. Estágio operatório formal ● : mais ou menos dos 12 anos em diante – ocorre o desenvolvimento das operações de raciocínio abstrato. É importante salientar que, nesse nível, as pessoas tornam-se capazes de raciocinar corretamente sobre proposi- ções em que não acreditam ou em que ainda não acreditam, que consideram puras hipóteses. Como se pode verificar, a referência às faixas etárias das etapas de desenvolvimento descritas por Piaget foi feita com a expressão “mais ou menos”. Isso foi intencional para chamar a atenção do leitor para o fato de que as idades não são um limite para cada eta- pa. Piaget não determinou exatamente cada idade/fase, e não há, realmente, como fazer isso, pois outros fatores influenciam: meio e estímulos, por exemplo. O que se deve ter em mente é que todas as pessoas passam por todas essas fases em uma sequência. Portanto, nenhuma criança vai “pular de fase”, mas pode demorar mais ou menos tempo em cada uma dela, dependendo dos estímulos e desa- fios a que for submetida. O aspecto “estímulo” é fundamental na teoria de Piaget, sendo situado como algo que é oferecido à criança com a função de agu- çar sua curiosidade, de forçar suas justificativas e de impulsioná-la em direção ao conhecimento por meio de sua própria descoberta. Dessa forma, não basta que sejam oferecidos às crianças da Educação Infantil objetos físicos para a interação, é preciso, ainda, que o adulto funcione como elemento de desafio, seja para propor variações nos estímulos, com graus de dificuldade, seja para, com sua linguagem, fazer com que o outro reflita (BIAGGIO, 1976). A teoria de Piaget pode ser incorporada facilmente às práticas educativas. Como o autor defende a interação da criança com os objetos para uma apren- dizagem real, propõe-se, aqui, que sejam oferecidos às crianças de aproxi- madamente três anos vários objetos de formatos diferentes (que podem ser adquiridos em lojas especializadas ou ser provenientes de sucata, mas nesse Fund_Educ_Infantil.indd 41 6/7/2010 13:52:11 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 41 of 100 Fundamentos da Educação Infantil FAEL 4.2 caso é fundamental a higienização correta dos materiais, visto que nessa faixa etária as crianças, muitas vezes, levam à boca os objetos a elas oferecidos). De posse dos materiais, a criança deve ser estimulada a experimentar diver- sas formas de montar uma torre. Não é óbvio para ela que alguns formatos, como os cilíndricos e circulares, não serão fáceis de serem encaixados e, por diversas vezes, sua torre das vai cair. Nesse momento, cabe ao professor funcionar como um estimulador e compreender que, para a criança, fazer, derrubar e refazer a torre é uma grande forma de aprendizagem em que ela está em interação com os objetos. Mapear as etapas de de- senvolvimento intelectual das pessoas auxiliou muito as es- colas a comporem currículos e proporem atividades que pos- sam auxiliar verdadeiramente os alunos a se desenvolverem. Como destacado, mesmo não tendo feito esse mapeamento com intenção educativa, é inegável a for- te influência desse pensador nas ideias pedagógicas mundiais e princi- palmente brasileiras. Lev Semenovith Vygotsky (1896-1934) Psicólogo russo, Vygotsky foi defensor da ideia de que a constru- ção do pensamento é um processo cultural e não uma formação natural e universal da espécie humana. Dessa forma, seus estudos possibilita- ram reflexões acerca da importância da linguagem e de sua influência no desenvolvimento das pessoas. Há, em toda sua obra, destaque para as necessidades socias das pessoas (como conversar, dividir experiências, partilhar conhecimen- tos, etc.) e especialmente das crianças. Defendeu a sociabilização de- las com adultos e com outras crianças, como meio de desenvolvi- mento intelectual. Para Vygotsky, como não é possível separar o desenvolvimento do homem da história da sociedade, cada grupo social acaba repas- sando às crianças as formas de se relacionar naquela determinada Você pode (e deve!) saber mais sobre esse importante pesquisador de nossos tempos. Acesse os sites: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Jean_Piaget>.• <http://www.pedagogiaemfoco.pro.br/• per09.htm>. Saiba mais Fund_Educ_Infantil.indd 42 6/7/2010 13:52:11 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 42 of 100 Capítulo 3 Fundamentos da Educação Infantil 4.3 cultura. O autor destaca que essa partilha é muito importante para formação da criança, cabendo à linguagem um papel fundamental nesse contexto. Uma das grandes contribuições de Vygotsky para o desenvolvi- mento humano diz respeito aos níveis de aprendizagem que, para esse pensador, são dois: nível de desenvolvimento real ● – refere-se àquilo que as pes- soas já sabem, que já aprenderam. nível de desenvolvimento potencial ● – refere-se àquilo que a criança ainda não é capaz de fazer sozinha, mas pode fazer com ajuda de algum adulto. Como o próprio nome diz, a criança tem potencial para fazer. Um conceito que merece nossa atenção diz respeito ao que Vygotsky (1998, p. 112) chama de “Zona de desenvolvimento proximal”. A zona de desenvolvimento proximal da criança é a distância entre seu desenvolvimento real, que se costuma determinar através da solução independente de problemas, e o nível de seu desenvolvimento potencial, determinado através da solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais capazes. Nesse sentido, é importante que os professores de crianças pe- quenas observem, como destaca Vygotsky, que a escola deve focar suas propostas de aprendizagem na Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), de modo que o conteúdo oferecido à criança não seja por ela já conhecido (em ou- tras palavras, uma aprendizagem real, já efetuada e, consequente- mente,não interessante), nem tão difícil, de forma que ela ainda não consiga realizar o aprendiza- do (sendo, por consequência, um conteúdo desinteressante). Para enriquecer seus conhecimentos, leia a obra Pensamento e linguagem, de Vygotsky, que provocou uma revolução quanto à im- portância da linguagem para a elaboração do pensamento infantil. Mesmo tendo lança- do sua teoria há muitos anos, as ideias de Vygotsky ainda permanecem muito atuais. Além disso, indicamos a leitura do livro Vygotsky, quem diria?! Em minha sala de aula, em que Celso Antunes propõe uma relevan- te relação entre a teoria de Vygotsky e as ações do dia a dia escolar. Não só dedicado às crianças pequenas, mas útil, também, para o professor delas. Saiba mais Fund_Educ_Infantil.indd 43 6/7/2010 13:52:11 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 43 of 100 Fundamentos da Educação Infantil FAEL 4.4. Uma das manifestações mais fortes da teoria de Vygotsky é o aspecto social, defendido como uma grande forma de aprendizagem. Para o autor, a criança precisa do outro nos mais variados aspectos, inclusive para o confronto, para crescer. Dessa forma, o professor da Educação Infantil trabalha com a teoria de Vygotsky em sala de aula quando propõe atividades que sejam realizadas em grupo. Sugere-se, aqui, uma proposta de atividade de desenho para ser realizada em duplas. Nela cada criança irá desenhar o colega, ficando de frente para ele, e, posteriormente, fazer uma apresentação ao grupo. A criança desenha- da pode, após ser apresentada pelo colega desenhista para a turma, comen- tar quais semelhanças e diferenças que ela vê entre o desenho e a imagem de si mesma. Nessa atividade, além de as crianças estarem em entrosamento, visto que precisam prestar muita atenção no colega para retratá-lo, estarão, também, aprendendo a lidar com a opinião e o ponto de vista do outro. Nem sempre vai ser fácil, pois algumas podem discordar da forma como foram retratadas, mas essa sempre vai ser uma experiência de aprendizagem que proporciona estar em interação e aprender a ouvir a opinião de outros. Henry Wallon (1879-1962) Para Wallon, a afetividade tem um papel fundamental no desen- volvimento humano. Segundo esse autor, a emoção, os sentimentos e desejos são manifestações da vida afetiva e, em seus estudos, destaca a importância do afeto. O autor observa que, ao nascer, todos os contatos com a criança são feitos por meio da emoção, uma vez que o corpo dela demonstra tudo que está sentindo, por exemplo: fome e frio resultam em choro. Para o bebê pequeno, a comunicação se dá pela afetividade. Observe com atenção: quando a criança pequena está com fome, ela cho- ra. Não para ser atendida, chora Wallon tem muitos obras que podem funda- mentar a prática pedagógica e fortalecer os conhecimentos sobre a afetividade e sua rela- ção com as escolas de Educação Infantil. Sugiro algumas leituras: GALVAO, I. Henri Wallon: uma concepcão dia- lética do desenvolvimento infantil. São Paulo: Vozes, 2002. WALLON, H. As origens do pensamento na criança. São Paulo: Manole, 1989. Saiba mais Fund_Educ_Infantil.indd 44 6/7/2010 13:52:11 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 44 of 100 Capítulo 3 Fundamentos da Educação Infantil 4.5 por que tem um desconforto (a fome). Porém, na medida em que seu choro resulta no aten- dimento dessa necessidade (pelo adulto), ela compreende o choro como primeira forma de comu- nicação, pois foi capaz de “man- dar uma mensagem” ao adulto, tendo sua necessidade atendida (GALVÃO, 2002). Nesse contexto de afetivida- de, Wallon trata tanto da importância das relações das crianças com outras crianças, quanto com os adultos. O caráter social da criança vai sendo, as- sim, manifestado, uma vez que precisa dos outros para poder sobreviver. Wallon acredita que a origem do desenvolvimento das pessoas está na emoção, que posteriormente evolui para uma aprendizagem cognitiva. A criança de nosso exemplo anterior compreendeu que quando chora é atendida; então, não chora mais somente porque está desconfortável. Chora porque quer colo, quer atenção, quer comida, em suma: quer ser atendida. Dessa forma, o ser humano vai se desen- volvendo, aprendendo a administrar a emoção e as funções cognitivas (da própria aprendizagem). É relevante destacar que o que se apresenta neste capitulo é ape- nas uma parcela das contribuições que esses autores deixaram acerca do desenvolvimento infantil e, consequentemente, sobre as formas de educar as crianças. É importante reconhecer que esses estudos sobre o desenvolvimento infantil trouxeram à tona uma visão diferenciada de criança, um ser com ideias próprias a cada etapa de sua infância, e isso influenciou as formas de trabalho pedagógico destinadas a elas. Zilma Ramos de Oliveira (2002, p. 45) encontrou uma forma interessante para conceituar as crianças e destacar suas necessidades educativas: Crianças são aquelas “figurinhas” curiosas e ativas, com direitos e necessidades, que precisam de um espaço diferente tanto do Para formar conceitos sobre o assunto aqui discutido, sugere-se a leitura do livro: Piaget, Vygotsky, Wallon: teorias psicogenéticas em discussão, de Yves La Taille et al. Essa é uma importante referência teórica que, com certe- za, fará você pensar mais nesse assunto. LA TAILLE, Y. et al. Piaget, Vygotsky, Wallon: teorias psicogenéticas em discussão. São Paulo: Sammus, 1992. Saiba mais Fund_Educ_Infantil.indd 45 6/7/2010 13:52:11 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 45 of 100 Fundamentos da Educação Infantil FAEL 4.6 ambiente familiar, onde é objeto do afeto de adultos (em geral adultos muito confusos), quanto do ambiente escolar tradicional, frequentemente orientado para a padronização de condutas e ritmos e para avaliações segundo parâmetros externos à criança. O fato é que muitos autores dedicaram boa parte de seus estudos para realizar pesquisas que fundamentam as etapas do desenvolvimento infantil. Quanto mais se estuda sobre o desenvolvimento infantil, mais se pode chegar perto de compor uma metodologia adequada para as aulas. Certamente, o ponto de partida para o início de uma reflexão acerca do como fazer isso é considerar os estudos que temos. Os estudos sobre o desenvolvimento infantil destacam a impor- tância de considerar a criança como alguém curioso, ativo e com direi- tos, alguém que necessita de um espaço escolar que busque aproximar cultura, cognição, linguagem e afetividade ao seu desenvolvimento (LOBO; CARVALHO, 2005). A melhor maneira de garantir uma educação de qualidade per- passa pela estruturação de uma proposta pedagógica de qualidade. É muito importante o entendimento de que a Educação Infantil é uma etapa da educação básica (conforme a LDB n. 9.394/96) e precisa ser tratada como tal. Dessa forma, de nada adianta a escola investir em materiais caros e em modismos se a essência da Educação Infantil como etapa da educação não for desvelada. É preciso que haja o com- promisso da escola em cumprir a lei, oferecendo às crianças uma edu- cação de qualidade (que também é composta de atendimento, mas, essencialmente, de educação). De uma forma divertida, o filme A creche do papai demonstra a necessidade de um planejamento e de uma proposta pedagógica adequada para lidar com a faixa etária de 0 a 5 anos. A comédia retrata uma etapa da vida de Phil (Jeff Garlin) e Charlie (Eddie Murphy), que ficaram desempregados recentemente. Como não têm dinheiro para pagar a creche de seus filhos, são obrigados a Dica de Filme Fund_Educ_Infantil.indd 46 6/7/2010 13:52:11 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 46 of 100 Capítulo 3 Fundamentos da Educação Infantil 4.7 Dica de Filme retirá-los dela e cuidar deles até que arranjem um novo serviço. É quando eles têm uma ideia para ganhar dinheiro: criar uma ins- tituição que cuide de crianças enquanto seus pais trabalham. A dupla coloca o plano em prática e, devido aosmétodos pouco con- vencionais que usa ao cuidar das crianças, acaba ficando famosa, gerando o ódio de seus concorrentes. O filme proporciona boas risadas, que vão gerar reflexões. A CRECHE do papai. Direção de Steve Carr. Estados Unidos: 20th Century Fox; Revolution Studios; Day Care Productions; Davis Entertainment: Dist. 20th Century Fox Film Corporation; Colum- bia Pictures; Sony Pictures, 2003. 1 filme (93 min), sonoro, color. Tendências presentes nas escolas de Educação Infantil Na prática das escolas brasileiras de Educação Infantil, segundo Kramer (1993), é possível perceber três tendências que fundamentam as ações dos profissionais e, inclusive, as atividades ofertadas às crianças. 1. Tendência romântica: destaca principalmente os interesses da criança por meio das atividades lúdicas. Essa tendência compreen - de a criança como “semente do futuro”, cabendo ao professor a missão de ser o “jardineiro”, o guardião das crianças e de sua ino- cência. A proposta da tendência romântica é a de construir um currículo que tenha por base as atividades. Seus principais repre- sentantes são Decroly, Maria Montessori, e Fröebel. 2. Tendência cognitiva: tendo como principal inspirador Jean Piaget, essa tendência se propõe investigar como a criança pensa e constrói sua noção sobre o mundo por meio da interação com os objetos. Defende a ideia de que a criança precisa de materiais concretos para interagir e construir seu conhecimento por meio das experiências. A criança é vista como exploradora, e o profes- sor, como desencadeador e estimulador das etapas de desenvol- vimento infantil. Fund_Educ_Infantil.indd 47 6/7/2010 13:52:12 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 47 of 100 Fundamentos da Educação Infantil FAEL 4.8 3. Tendência crítica: essa tendência destaca a importância de as ex- periências infantis serem contextualizadas com a realidade cultu- ral, uma vez que não é possível separar cultura e meio ambiente da realidade infantil. É por meio desses elementos, cultura e contexto, que as crianças constroem seus valores. A tendência crítica (assim chamada por se opor às práticas tradicionais e descontextualizadas) tem como seu principal pensador Celestine Freinet. Atualmente, há fortes indícios nas linhas de pesquisa da área de Educação Infantil que possibilitam reflexão sobre a importância da tendência crítica nas práticas pedagógicas. Porém, não nos cabe, aqui, apontar qual é a melhor tendência a ser seguida. São linhas de pensa- mento diferentes, e cada profis- sional, de acordo com seus estu- dos e expectativas, delineia aos poucos a própria opinião, no sentido de caracterizar quais são os elementos necessários para a educação de crianças pequenas. O que se deve exigir é que a escola possua, em sua proposta pe- dagógica, linhas de ação bem explicadas e definidas, com padrões de qualidade que garantam uma educação apropriada ao nosso tempo e adequada ao desenvolvimento das crianças. O forte assistencialismo que marcou o início da história da Educação Infantil não deve ser para sempre um percalço no caminho da educação. É preciso compreender que o ensino da creche e da pré-escola não é com- posto somente por uma série de cuidados físicos. É necessário deixar as crianças confortáveis em relação ao sono, à fome e à higiene, mas é, tam- bém, necessário observar que o ambiente educativo deve garantir seguran- ça física e psicológica, bem como assegurar oportunidades de exploração e de demonstração sentimentos pessoais e de significados. Assim, a criança irá se perceber como sujeito de sua história (OLIVEIRA, 2002). Síntese Esse capítulo resgatou o pensamento de autores que escreveram teorias sobre o desenvolvimento humano e que têm franca influência Celestine Freinet é um importante teórico da Educação Infantil. Você pode conhecer mais sobre ele e sua obra em: <http://pt.wikipedia. org/wiki/C%C3%A9lestin_Freinet>. Saiba mais Fund_Educ_Infantil.indd 48 6/7/2010 13:52:12 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 48 of 100 Capítulo 3 Fundamentos da Educação Infantil 4.9 nas escolas do Brasil. A partir dos conhecimentos de Piaget, Vygotsky e Wallon, foi possível perceber como seus estudos alteraram o modo com que se percebe a infância no mundo. Refletiu-se, também, sobre o fato de que, para que se possa compreender a Educação Infantil da atualida- de, comprometida com a educação do século XXI, é preciso repensar a forma com que nossa sociedade concebe a infância, pois as tendências pedagógicas que permeiam essa modalidade de ensino derivam de di- ferentes concepções. Fund_Educ_Infantil.indd 49 6/7/2010 13:52:12 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 49 of 100 Fund_Educ_Infantil.indd 50 6/7/2010 13:52:12 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 50 of 100 51 Nesse capítulo serão apresentados alguns documentos que com- põem a base teórica da Educação Infantil da atualidade. Dessa forma, en- tende-se que, ao tomar conhecimento de tais documentos, o leitor poderá nortear uma ação de qualidade em suas práticas de Educação Infantil. É importante destacar que estamos vivendo um período de gran- des reflexões sobre o que se entende por Educação Infantil no Brasil. Conforme os capítulos anteriores, que delinearam a história do atendi- mento e da educação destinados às crianças pequenas, este capítulo se ocupará da Educação Infantil da atualidade. Considera-se, nos meios educacionais, que há consenso de que há a necessidade de que a educação para crianças pequenas promova a integração entre os aspectos físicos, emocionais, cognitivos e sociais, concebendo-as como seres indivisíveis e completos. Cabe destacar, no entanto, que nem todos os estudiosos da Edu- cação Infantil são unânimes em realizar um trabalho que privilegie os diversos aspectos do desenvolvimento da criança. As divergências estão exatamente no que se entende por trabalhar com cada um desses as- pectos. O fato de as crianças frequentarem, cada vez mais, as creches e pré-escolas coloca, para a Educação Infantil, dois grandes desafios: primeiro, é preciso garantir uma oferta de educação de qualidade; se- gundo, não se pode permitir que, com isso, atinja-se somente uma clas- se social, em detrimento da outra – destacando-se, aqui, a questão da oferta pública, principalmente da oferta e da qualidade. Portanto, é função das instituições de Educação Infantil vencer es- ses desafios e assegurar a todas as crianças, sem discriminação, uma vida Documentos da Educação Infantil 4. Fund_Educ_Infantil.indd 51 6/7/2010 13:52:12 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 51 of 100 Fundamentos da Educação Infantil FAEL 52 coletiva social que seja diferente e que complete o contexto familiar, ga- rantindo-lhe a possibilidade de vivenciar experiências em um novo meio, sustentado sobre relações estáveis e afetivas com adultos e crianças. Para a Educação Infantil poder cumprir seu papel verdadeiro de educação, é preciso que os profissionais tenham compromissos com estudos e conheçam os materiais (muitos oficiais) disponíveis para tal finalidade. Nesse capítulo, serão conhecidos alguns documentos que compõem a Educação Infantil brasileira contemporânea. Alguns documentos da Educação Infantil da atualidade Ao longo dos anos, foram muitas as ações realizadas no sentido de considerar a Educação Infantil como parte da Educação Básica, con- forme prevê a LDB n. 9.394/96. Desde 1988, quando a Constituição Federal determinou que seria dever do Estado garantir o atendimento às crianças de 0 a 5 anos em creches e pré-escolas, a Educação Infantil foi definitivamente inserida na educação brasileira, de forma a atender os direitos das crianças e dos pais e mães trabalhadores, tanto urbanos, quanto rurais. Uma vez estabelecida essa importância, cumpre, agora, determinar meios e fornecer documentos para que se possa estruturar uma educação de qualidade (ANGOTTI, 2006). O quadro a seguir lista algumas ações do Ministérioda Educação para a Educação Infantil nos últimos anos. Política Nacional de Educação Infantil (1994)• Por uma política de formação do profissional de Educação Infantil • (1994) Critérios para um atendimento em creches que respeite os direitos • fundamentais das crianças (1995) Propostas pedagógicas e currículo em Educação Infantil (1996)• Subsídios para o credenciamento e funcionamento de instituições de • Educação Infantil (1998) Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil• (1998) Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil• (Resolução CNE/CEB n. 1/1999) Fund_Educ_Infantil.indd 52 6/7/2010 13:52:12 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 52 of 100 Capítulo 4. Fundamentos da Educação Infantil 53 Diretrizes Operacionais para a Educação Infantil • (Parecer CNE/CEB n. 04/2000) Programa de Formação Inicial para Professores em Exercício na Edu-• cação Infantil – Proinfantil (iniciado em 2005) Parâmetros Nacionais de Qualidade para a Educação Infantil • (2005) Parâmetros Básicos de Infraestrutura para Instituições de Educação • Infantil (2006) Política Nacional de Educação Infantil • (2006) Revista Criança • (1982) Fonte: Brasil (2010). Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil O Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCNEI) é um conjunto de documentos oficiais do MEC (1998). Se- gundo o Ministério da Educação, esta publicação foi desenvolvida com o objetivo de “servir como um guia de reflexão para os profissionais que atuam diretamente com crianças de 0 a 6 anos, respeitando seus estilos pedagógicos e a diversidade cultural brasileira” (MEC, 1998, p. 7). O Referencial possui três volumes. O primeiro, chamado de “In- trodução”, propõe uma reflexão sobre as creches e pré-escolas no Brasil, definindo a situação atual, com fundamentação sobre as concepções de criança, de educação, de instituição e do profissional da Educação Infantil. Essas concepções são importantes, pois definem os objetivos gerais da Educação Infantil em nosso país. O volume dois, chamado de “Formação pessoal e social”, apresen- ta eixos de trabalho de forma a favorecer os processos de construção da identidade e da autonomia das crianças. O volume três, chamado de “Conhecimento de mundo”, contém seis documentos referentes aos eixos de trabalho: movimento, música, ar- tes visuais, linguagem oral e escrita, natureza e sociedade e matemática. Algumas considerações são importantes. Primeiro, destaca-se o fato de que esses documentos são inéditos na educação brasileira. Foi a primeira vez que se construiu um documento desse porte, que trouxe muita bagagem para a diversidade cultural da Educação Infantil do Fund_Educ_Infantil.indd 53 6/7/2010 13:52:12 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 53 of 100 Fundamentos da Educação Infantil FAEL 54. Brasil. Como segundo ponto, destaca-se que, conforme o leitor vem acompanhando e revivendo a história da Educação Infantil, esses docu- mentos não são obrigatórios. Como o próprio nome diz, são referências que têm como objetivo indicar alguns caminhos para a educação de crianças, de forma a auxiliá-las em seu desenvolvimento pleno. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil Em 7 de abril de 1999, foram instituídas as primeiras Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. O órgão responsável por isso foi o Conselho Nacional de Educação, que revisou essas diretri- zes, em novembro de 2009. Dessa forma, dez anos depois de instituídas pela primeira vez, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil ganharam uma nova versão, em maior consonância com o mo- mento vivido nas escolas de Educação Infantil do país. As Diretrizes devem ser consideradas por todos os sistemas de ensi- no, o que torna obrigatório o seguimento dessas ideias na elaboração das propostas pedagógicas das instituições de Educação Infantil. Acompanhe o texto explicativo da própria lei e observe os objetivos dessas Diretrizes. Art. 2º. As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil articulam-se com as Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Básica e reúnem princípios, fundamentos e proce- dimentos definidos pela Câmara de Educação Básica do Con- selho Nacional de Educação, para orientar as políticas públicas na área e a elaboração, planejamento, execução e avaliação de propostas pedagógicas e curriculares (BRASIL, 2009, [s. p.]). Porém, o mais importante é conhecer as próprias Diretrizes, pois elas serão a base de todo e qualquer trabalho desenvolvido nas institui- ções de Educação Infantil da atualidade. O quadro abaixo reproduz o documento do CNE. [...] Art. 3º. O currículo da Educação Infantil é concebido como um conjunto de práticas que buscam articular as experiências e os saberes das crianças com os conhecimentos que fazem parte do patrimônio cultural, artístico, ambiental, científico e tecnológico, de modo a promover o desenvolvimento integral de crianças de 0 a 5 anos de idade. Art. 4º. As propostas pedagógicas da Educação Infantil deverão considerar que a criança, centro do planejamento curricular, é sujeito histórico e de Fund_Educ_Infantil.indd 54 6/7/2010 13:52:12 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 54 of 100 Capítulo 4. Fundamentos da Educação Infantil 55 direitos que, nas interações, relações e práticas cotidianas que vivencia, constrói sua identidade pessoal e coletiva, brinca, imagina, fantasia, de- seja, aprende, observa, experimenta, narra, questiona e constrói sentidos sobre a natureza e a sociedade, produzindo cultura. Art. 5º. A Educação Infantil, primeira etapa da educação básica, é ofe- recida em creches e pré-escolas, as quais se caracterizam como espaços institucionais não domésticos que constituem estabelecimentos educacio- nais públicos ou privados que educam e cuidam de crianças de 0 a 5 anos de idade no período diurno, em jornada integral ou parcial, regulados e supervisionados por órgão competente do sistema de ensino e submetidos a controle social. § 1º É dever do Estado garantir a oferta de Educação Infantil pública, gratuita e de qualidade, sem requisito de seleção. § 2° É obrigatória a matrícula na Educação Infantil de crianças que com- pletam 4 ou 5 anos até o dia 31 de março do ano em que ocorrer a matrícula. § 3º As crianças que completam 6 anos após o dia 31 de março devem ser matriculadas na Educação Infantil. § 4º A frequência na Educação Infantil não é pré-requisito para a matrícula no Ensino Fundamental. § 5º As vagas em creches e pré-escolas devem ser oferecidas próximas às residências das crianças. § 6º É considerada Educação Infantil em tempo parcial, a jornada de, no mínimo, quatro horas diárias e, em tempo integral, a jornada com duração igual ou superior a sete horas diárias, compreendendo o tempo total que a criança permanece na instituição. Art. 6º. As propostas pedagógicas de Educação Infantil devem respeitar os seguintes princípios: I – Éticos: da autonomia, da responsabilidade, da solidariedade e do res- peito ao bem comum, ao meio ambiente e às diferentes culturas, identi- dades e singularidades. II – Políticos: dos direitos de cidadania, do exercício da criticidade e do respeito à ordem democrática. III – Estéticos: da sensibilidade, da criatividade, da ludicidade e da liber- dade de expressão nas diferentes manifestações artísticas e culturais. Art. 7º. Na observância destas Diretrizes, a proposta pedagógica das insti- tuições de Educação Infantil deve garantir que elas cumpram plenamente sua função sociopolítica e pedagógica: Fund_Educ_Infantil.indd 55 6/7/2010 13:52:12 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 55 of 100 Fundamentos da Educação Infantil FAEL 56 I – oferecendo condições e recursos para que as crianças usufruam seus direitos civis, humanos e sociais; II – assumindo a responsabilidade de compartilhar e complementar a edu- cação e cuidado das crianças com as famílias;III – possibilitando tanto a convivência entre crianças e entre adultos e crianças quanto a ampliação de saberes e conhecimentos de diferentes naturezas; diferentes classes sociais no que se refere ao acesso a bens culturais e às possibilidades de vivência da infância; V – construindo novas formas de sociabilidade e de subjetividade compro- metidas com a ludicidade, a democracia, a sustentabilidade do planeta e com o rompimento de relações de dominação etária, socioeconômica, etnorracial, de gênero, regional, linguística e religiosa. Art. 8º. A proposta pedagógica das instituições de Educação Infantil deve ter como objetivo garantir à criança acesso a processos de apropriação, renovação e articulação de conhecimentos e aprendizagens de diferentes linguagens, assim como o direito à proteção, à saúde, à liberdade, à con- fiança, ao respeito, à dignidade, à brincadeira, à convivência e à interação com outras crianças. § 1º Na efetivação desse objetivo, as propostas pedagógicas das institui- ções de Educação Infantil deverão prever condições para o trabalho coleti- vo e para a organização de materiais, espaços e tempos que assegurem: I – a educação em sua integralidade, entendendo o cuidado como algo indissociável ao processo educativo; II – a indivisibilidade das dimensões expressivo-motora, afetiva, cognitiva, linguística, ética, estética e sociocultural da criança; III – a participação, o diálogo e a escuta cotidiana das famílias, o respeito e a valorização de suas formas de organização; IV – o estabelecimento de uma relação efetiva com a comunidade local e de mecanismos que garantam a gestão democrática e a consideração dos saberes da comunidade; V – o reconhecimento das especificidades etárias, das singularidades indi- viduais e coletivas das crianças, promovendo interações entre crianças de mesma idade e crianças de diferentes idades; VI – os deslocamentos e os movimentos amplos das crianças nos espaços internos e externos às salas de referência das turmas e à instituição; VII – a acessibilidade de espaços, materiais, objetos, brinquedos e instru- ções para as crianças com deficiência, transtornos globais de desenvolvi- mento e altas habilidades/superdotação; VIII – a apropriação pelas crianças das contribuições histórico-culturais dos povos indígenas, afrodescendentes, asiáticos, europeus e de outros países da América; Fund_Educ_Infantil.indd 56 6/7/2010 13:52:12 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 56 of 100 Capítulo 4. Fundamentos da Educação Infantil 57 IX – o reconhecimento, a valorização, o respeito e a interação das crian- ças com as histórias e as culturas africanas, afro-brasileiras, bem como o combate ao racismo e à discriminação; X – a dignidade da criança como pessoa humana e a proteção contra qual- quer forma de violência – física ou simbólica – e negligência no interior da instituição ou praticadas pela família, prevendo os encaminhamentos de violações para instâncias competentes. § 2º Garantida a autonomia dos povos indígenas na escolha dos modos de educação de suas crianças de 0 a 5 anos de idade, as propostas pedagógi- cas para os povos que optarem pela Educação Infantil devem: I – proporcionar uma relação viva com os conhecimentos, crenças, valores, concepções de mundo e as memórias de seu povo; II – reafirmar a identidade étnica e a língua materna como elementos de constituição das crianças; III – dar continuidade à educação tradicional oferecida na família e ar- ticular-se às práticas socioculturais de educação e cuidado coletivos da comunidade; IV – adequar calendário, agrupamentos etários e organização de tempos, atividades e ambientes de modo a atender as demandas de cada povo indígena. § 3º As propostas pedagógicas da Educação Infantil das crianças filhas de agricultores familiares, extrativistas, pescadores artesanais, ribeirinhos, assentados e acampados da reforma agrária, quilombolas, caiçaras, povos da floresta, devem: I – reconhecer os modos próprios de vida no campo como fundamentais para a constituição da identidade das crianças moradoras em territórios rurais; II – ter vinculação inerente à realidade dessas populações, suas culturas, tra- dições e identidades, assim como a práticas ambientalmente sustentáveis; III – flexibilizar, se necessário, calendário, rotinas e atividades respeitando as diferenças quanto à atividade econômica dessas populações; IV – valorizar e evidenciar os saberes e o papel dessas populações na pro- dução de conhecimentos sobre o mundo e sobre o ambiente natural; V – prever a oferta de brinquedos e equipamentos que respeitem as carac- terísticas ambientais e socioculturais da comunidade. Art. 9º. As práticas pedagógicas que compõem a proposta curricular da Educação Infantil devem ter como eixos norteadores as interações e a brincadeira, garantindo experiências que: Fund_Educ_Infantil.indd 57 6/7/2010 13:52:12 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 57 of 100 Fundamentos da Educação Infantil FAEL 58 I – promovam o conhecimento de si e do mundo por meio da ampliação de experiências sensoriais, expressivas, corporais que possibilitem movi- mentação ampla, expressão da individualidade e respeito pelos ritmos e desejos da criança; II – favoreçam a imersão das crianças nas diferentes linguagens e o pro- gressivo domínio por elas de vários gêneros e formas de expressão: gestual, verbal, plástica, dramática e musical; III – possibilitem às crianças experiências de narrativas, de apreciação e interação com a linguagem oral e escrita, e convívio com diferentes supor- tes e gêneros textuais orais e escritos; IV – recriem, em contextos significativos para as crianças, relações quan- titativas, medidas, formas e orientações espaçotemporais; V – ampliem a confiança e a participação das crianças nas atividades individuais e coletivas; VI – possibilitem situações de aprendizagem mediadas para a elaboração da autonomia das crianças nas ações de cuidado pessoal, auto-organiza- ção, saúde e bem-estar; VII – possibilitem vivências éticas e estéticas com outras crianças e grupos culturais, que alarguem seus padrões de referência e de identidades no diálogo e reconhecimento da diversidade; VIII – incentivem a curiosidade, a exploração, o encantamento, o ques- tionamento, a indagação e o conhecimento das crianças em relação ao mundo físico e social, ao tempo e à natureza; IX – promovam o relacionamento e a interação das crianças com diversifi- cadas manifestações de música, artes plásticas e gráficas, cinema, foto- grafia, dança, teatro, poesia e literatura; X – promovam a interação, o cuidado, a preservação e o conhecimento da biodiversidade e da sustentabilidade da vida na Terra, assim como o não desperdício dos recursos naturais; XI – propiciem a interação e o conhecimento pelas crianças das manifes- tações e tradições culturais brasileiras; XII – possibilitem a utilização de gravadores, projetores, computadores, má- quinas fotográficas, e outros recursos tecnológicos e midiáticos. Parágrafo único. As creches e pré-escolas, na elaboração da proposta cur- ricular, de acordo com suas características, identidade institucional, es- colhas coletivas e particularidades pedagógicas, estabelecerão modos de integração dessas experiências. Art. 10. As instituições de Educação Infantil devem criar procedimentos para acompanhamento do trabalho pedagógico e para avaliação do desen- volvimento das crianças, sem objetivo de seleção, promoção ou classifica- ção, garantindo: Fund_Educ_Infantil.indd 58 6/7/2010 13:52:12 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 58 of 100 Capítulo 4. Fundamentos da Educação Infantil 59 I – a observação crítica e criativa das atividades, das brincadeiras e inte- rações das crianças no cotidiano; II – utilização de múltiplos registros realizados por adultos e crianças (re- latórios, fotografias, desenhos, álbuns, etc.); III – a continuidade dos processos de aprendizagens por meio da criação de estratégiasadequadas aos diferentes momentos de transição vividos pela criança (transição casa/instituição de Educação Infantil, transições no interior da instituição, transição creche/pré-escola e transição pré-es- cola/Ensino Fundamental); IV – documentação específica que permita às famílias conhecer o traba- lho da instituição junto às crianças e os processos de desenvolvimento e aprendizagem da criança na Educação Infantil; V – a não retenção das crianças na Educação Infantil. Art. 11. Na transição para o Ensino Fundamental a proposta pedagó- gica deve prever formas para garantir a continuidade no processo de aprendizagem e desenvolvimento das crianças, respeitando as especi- ficidades etárias, sem antecipação de conteúdos que serão trabalhados no Ensino Fundamental. Art. 12. Cabe ao Ministério da Educação elaborar orientações para a im- plementação dessas Diretrizes. Art. 13. A presente Resolução entrará em vigor na data de sua publica- ção, revogando-se as disposições em contrário, especialmente a Resolução CNE/CEB n. 1/99. Fonte: Brasil (2009). As Diretrizes representam um grande avanço na educação de crianças pequenas, uma vez que concebem a Educação Infantil como uma parte real da educação brasileira, que possui a responsabilidade, o compromisso e a necessidade de profissionais com formação específica. Nesse sentido, é indispensável que os educadores, ao elaborarem suas Propostas Pedagógicas para a Educação Infantil, norteiem-se pelas Di- retrizes Curriculares Nacionais. Diretrizes Operacionais para a Educação Infantil As Diretrizes Operacionais para a Educação Infantil são um docu- mento gerado pelo Conselho Nacional da Educação que tem como Fund_Educ_Infantil.indd 59 6/7/2010 13:52:12 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 59 of 100 Fundamentos da Educação Infantil FAEL 60 objetivo normatizar (o que o torna obrigatório) alguns as- pectos operacionais da educa- ção de crianças pequenas. Os temas abordados por essas di- retrizes são: vinculação das instituições de Educação Infantil aos sistemas ● de ensino; proposta pedagógica e regimento escolar; ● formação de professores e outros profissionais para o trabalho ● nas instituições de Educação Infantil; espaços físicos e recursos materiais para a Educação Infantil. ● Parâmetros Nacionais de Qualidade para a Educação Infantil Os Parâmetros Nacionais de Qualidade para a Educação Infantil consistem em dois vo- lumes que contêm referências sobre como instituir e manter uma Educação Infantil de qua- lidade. São documentos a serem utilizados pelos sistemas educa- cionais, de forma a promover a igualdade de oportunidades educacionais, levando em con- ta as diferenças, diversidades e desigualdades de nosso imenso território e das variadas culturas nele existentes. Parâmetros Básicos de Infraestrutura para Instituições de Educação Infantil Os Parâmetros Básicos de Infraestrutura para Instituições de Educa- ção Infantil ressaltam a importância do espaço e da estrutura física das Esse é um documento bem interessante para você conhecer. Leia-o na íntegra, acessando o site: <http://www.crmariocovas.sp.gov.br/pdf/ diretrizes_p0619-0628_c.pdf>. Saiba mais Os dois volumes dos Parâmetros Nacionais de Qualidade para a Educação Infantil represen- tam um grande avanço na concepção de escola de Educação Infantil que almejamos. Por isso, é interessante que todos os interessados pela educação dessa faixa etária leiam esse documento com atenção. Volume 1• : disponível em: <http://portal. mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/Educinf/edui nfparqualvol1.pdf>. Volume 2• : disponível em: <http://portal.mec. gov.br/seb/arquivos/pdf/Educinf/eduinfpar qualvol2.pdf>. Saiba mais Fund_Educ_Infantil.indd 60 6/7/2010 13:52:13 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 60 of 100 Capítulo 4. Fundamentos da Educação Infantil 61 escolas de Educação Infantil para o desenvolvimento da criança. Para isso, apresentam estudos e parâmetros nacionais relaciona- dos à qualidade dos ambientes das instituições de Educação In- fantil, de forma a assegurar que se tornem promotores de aventuras, descobertas, desafios e aprendiza- gens, bem como facilitar as interações. Política Nacional de Educação Infantil Segundo o Ministério da Educação, a Política Nacional de Educa- ção Infantil apresenta diretrizes, objetivos, metas e estratégias para a área da Educação Infantil, com o intuito de contribuir para um processo democrático de implementação das políticas públicas para as crianças de 0 a 6 anos. Esse documento também disponível para download no endereço <http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/Educinf/eduinfo lit2006.pdf>. Revista Criança A Revista Criança é editada, publicada e distribuída pela Coorde- nação Geral de Educação Infantil da Secretaria de Educação Básica do MEC e está em circulação há 25 anos, sendo distribuída gratuitamente. Por esse fato já podemos ter uma noção de sua qualidade, pois é uma referência ao mundo da criança pequena, sendo uma fonte de informa- ção e de formação de profissionais que atuam na área. Com uma tiragem de 200 mil exemplares, a revista é distribuída diretamente nas escolas públicas de Educação Infantil e nas instituições privadas sem fins lucrativos que mantêm convênios com o poder pú- blico. Também recebem a revista as Secretarias Municipais e Estaduais de Educação e do Distrito Federal, além de entidades que integram o Comitê Nacional de Políticas para a Educação Básica – CONPEB. Al- gumas revistas estão disponíveis para download no site: <http://portal. mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/rev_crian_38.pdf>. Ficou interessado no assunto? Saiba mais sobre isso acessando os sites: <http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/• Educinf/miolo_infraestr.pdf>. <http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/• Educinf/eduinfparinfestencarte.pdf>. Saiba mais Fund_Educ_Infantil.indd 61 6/7/2010 13:52:13 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 61 of 100 Fundamentos da Educação Infantil FAEL 62 Síntese Neste capítulo, você conheceu muitas publicações oficiais da Edu- cação Infantil que circulam em nosso país. É fundamental destacar as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil em sua ver- são mais recente, tendo em vista sua importância para tal âmbito. Dessa forma, foi possível perceber que existem muitos materiais disponíveis para consulta dos profissionais que querem fazer a diferença, para que possam construir uma Educação Infantil de qualidade. Fund_Educ_Infantil.indd 62 6/7/2010 13:52:13 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 62 of 100 63 Nos meios educacionais, é ampla a discussão sobre qual a melhor alternativa metodológica para a Educação Infantil. Algumas das propos- tas existentes serão explicitadas ao leitor com o intuito de subsidiá-lo, para que possa montar uma proposta de ensino com significado. Pensar sobre as práticas metodológicas de Educação Infantil im- plica refletir sobre bases teóricas, filosóficas, sociais e históricas, levan- do em conta, principalmente, a ligação direta que deve existir entre as ações metodológicas e o mundo real das crianças. Quando escolhe esta ou aquela atividade para oferecer aos alunos, o professor deixa claro suas opções metodológicas, que, por sua vez, são vinculadas às teorias da educação que o professor prefere. Assim, uma simples atividade rotineira da Educação Infantil pode ser tan- to adequada, contextualizada e significativa, quanto desmotivadora e nada interessante. ReflitaReflita Antes de se propor uma prática de pintura de um desenho, por exem- plo, é importante refletir sobre a questão das atividades que são ofe- recidas às crianças. Toda escola de Educação Infantil pede, em algum momento, para as crianças colorirem determinados desenhos, e cum- pre reforçar que as crianças gostam dessa ação. Mas essa é uma ativi- dade adequada metodologicamente falando? Depende. Se o desenho foi entregue como forma de ocupação do tempo e não tem nada aver com o que está sendo trabalhado pelo professor, não. Agora, se o desenho entregue para a pintura infantil é parte do assunto estudado, Propostas metodológicas para a Educação Infantil 5 Fund_Educ_Infantil.indd 63 6/7/2010 13:52:13 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 63 of 100 Fundamentos da Educação Infantil FAEL 64. e a criança encontra significado no que faz, reconhecendo o desenho, explorando suas particularidades, a atividade é ótima. Praticar a teo- ria também envolve reflexão. Devemos possuir senso crítico, uma vez que o assunto tratado nesse momento remonta ao uso de atividades possíveis de execução por crianças da faixa etária de 0 a 5 anos. Existem, portanto, atividades inadequadas, seja por uma questão cognitiva, ética ou ideológica, mas não são objeto de estudo nesse livro, embora devam ser preocupação constante dos educadores. ReflitaReflita O que vai, portanto, caracterizar como “adequada” ou não uma opção metodológica ou simplesmente uma atividade oferecida à crian- ça é o contexto em que ela se inclui. As escolhas metodológicas remetem a estudos teóricos e demons- tram as escolhas profissionais de cada educador. O que pretendemos, aqui, é oferecer alternativas metodológicas, sem nos esquecermos do fato de que é preciso sempre ter responsabilidades a respeito dos refe- renciais teóricos. A seguir, será dado destaque para alguns elementos que devem fazer parte da proposta curricular das instituições de Educação Infantil, os quais são, segundo Oliveira (2002, p. 227): “o trabalho pedagógico com múltiplas linguagens na Educação Infantil, o jogo como recurso privilegiado de desenvolvimento da criança pequena e a pedagogia de projetos didáticos.” O trabalho pedagógico com múltiplas linguagens na Educação Infantil A linguagem tem sido um eixo de trabalho muito importante na Educação Infantil. Muitas propostas pedagógicas defendem a ideia de que ela permeia as outras partes do currículo. Na Educação Infantil, deve-se considerar as diferentes linguagens presentes nas salas de aula e em nosso mundo contemporâneo. Temos de Fund_Educ_Infantil.indd 64 6/7/2010 13:52:13 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 64 of 100 Capítulo 5 Fundamentos da Educação Infantil 65 concordar que hoje é importante que o aluno seja capaz de compreender e de se comunicar nas mais variadas linguagens, como: linguagem plás- tica, linguagem gestual, linguagem musical, linguagem visual (imagem, cinema, dramatização), linguagem tecnológica, entre tantas outras. Segundo o dicionário Michaellis (2010, [s. p.]), a palavra lingua- gem pode ser definida como: 1. Faculdade de expressão audível e articulada do homem, produ- zida pela ação da língua e dos órgãos vocais adjacentes; fala. 2. Conjunto de sinais falados (glótica), escritos (gráfica) ou gesti- culados (mímica), de que se serve o homem para exprimir suas ideias e sentimentos. 3. Qualquer meio que sirva para exprimir sensações ou ideias. É assim, portanto, que se deve compreender a linguagem neste livro: como uma possibilidade de comunicação. Considerando a linguagem como uma forma de comunicação, pode- mos concluir que as brincadeiras utilizadas pela criança de Educação Infan- til, por exemplo, também são modos de comunicação com seu mundo. Assim sendo, uma proposta metodológica que se propõe a trabalhar com as múltiplas lin- guagens da Educação Infantil precisa ter em suas atividades o que chamamos de intenciona- lidade educativa (ou seja, a in- tenção educativa que se pretende naquela ação). Desse modo, pos- sibilita-se que a criança não ape- nas faça uso das múltiplas lingua- gens, mas, sim, que se aproprie delas para viver em seu mundo, entendê-lo e representá-lo. As múltiplas linguagens são um excelente campo de estudo na área de Educação Infantil. Com relação a isso e sobre a importância do professor nesse contexto, sugere-se a leitura do texto Educação Infantil: espaço de de- senvolvimento de múltiplas linguagens para professores e crianças, disponível no site da Associação de Leitura do Brasil. Confira, pois o material é bem interessante. Disponível em: <http://www.alb.com.br/ anais16/sem13pdf/sm13ss15_01.pdf>. Saiba mais Fund_Educ_Infantil.indd 65 6/7/2010 13:52:13 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 65 of 100 Fundamentos da Educação Infantil FAEL 66 Ao considerarmos a escola como um local de aprendizagens – e essa é mesmo uma importante função da escola – precisamos concentrar esfor- ços para incluir, no planejamento pedagógico, atividades que contemplem as múltiplas linguagens. De um modo prático, a escola precisa propor ati- vidades que oportunizem discussões, reflexões, conversas, dramatizações e que envolvam música e artes, além do que já se faz habitualmente. Acompanhe o que sugere Oliveira (2002, p. 228). Criar muitas oportunidades de diálogo com as crianças e interes- sar-se em compreender o sentido que emprestam às suas próprias palavras em uma situação, falar de modo gramaticalmente corre- to sem, contudo, repetir as falas infantis “erradas” ou fazer troça delas [...] são um trabalho pedagógico dentro dessa perspectiva, como também o são as linguagens corporais e plásticas. O trabalho com as múltiplas linguagens no ambiente da Educação Infantil não só demanda uma renovação nas ações pedagógicas, como também na própria atuação do professor. Cabe ao educador organizar sua prática pedagógica de modo que utilize com mais eficácia os espa- ços e privilegie as diferentes linguagens, que farão com que seus alunos utilizem gestos, brincadeiras, desenho, dança e música e tenham con- tato com objetos artísticos, como forma de aprender, de relacionar-se com o mundo e consigo mesmo. O jogo e a brincadeira como recursos privilegiados de desenvolvimento da criança pequena Uma grande parte dos educadores da faixa etária de 0 a 5 anos utiliza o jogo e as brincadeiras como práticas pedagógicas diárias, de- fendendo seu uso como um excelente recurso à aprendizagem e ao de- senvolvimento das crianças. Porém, algumas vezes, o jogo é entendido com certo equívoco pelas instâncias educativas, principalmente pelos professores, quando confundem o conceito de jogo simbólico com o “jogo livre”, em que a criança fica solta, escolhendo o que quer fazer, sem o suporte de um adulto. Em outra ocasião, ainda, alguns professores tratam o jogo como um elemento facilitador da aprendizagem, mas exercem extremo con- trole sobre a criança por meio de jogos e brincadeiras (OLIVEIRA, 2002). O fato é que qualquer uma dessas concepções afasta o professor Fund_Educ_Infantil.indd 66 6/7/2010 13:52:13 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 66 of 100 Capítulo 5 Fundamentos da Educação Infantil 67 da parceria, da interação com seu aluno e é por isso que precisamos ter extremo cuidado, pois uma proposta que contemple jogos para a Edu- cação Infantil deve ter o cuidado de oferecer as atividades específicas (jogos e brincadeiras) e, também, as interações entre crianças e crianças e entre crianças e seus professores. Para Piaget (1978), os jogos são caracterizados em três grandes tipos: jogos de exercício (0 a 2 anos), jogo simbólico (2 a 6 anos) e jogo de regras (6 anos em diante). Segundo o autor, “a função é que vai diferenciar esses jogos que não têm outra finalidade a não ser o próprio prazer do funcionamento” (PIAGET, 1978). A seguir, uma pequena explicação de cada um desses tipos de jogos. Jogos de exercício ● : é a primeira forma de jogo que a crian- ça conhece e que aparece antes do desenvolvimento verbal completo. Tem como característica o fato de a criança brincar pelo prazer de conhecer o objeto, de explorar, de realizar o desenvolvimento motor ou, como o próprio nome diz, o puro exercício. Nessa fase, a criança brinca basicamente sozinha ou com a mãe (ou com quem represente a figura materna). Jogos simbólicos ● : é uma forma de jogo em que a criança faz de conta que é outra pessoa, imagina-seem outra situação ou atribui outra função a um objeto. Por exemplo: criança que brinca de casinha, faz comidinha de “mentira”; criança que, de posse de um prato de papelão, imagina que é a direção de um carro, ou que, brincando de casinha, vivencia o papel da mãe em sua casa, reproduzindo trejeitos da sua própria mãe. O jogo simbólico é, de certa forma, uma maneira de a criança comunicar ao outro aquilo que sente. Jogos de regras ● : é caracterizado pelo conjunto de leis que é imposto pelo grupo social. Dessa forma, necessita de parcei- ros que aceitem o cumprimento das obrigações definidas nas regras. É um jogo estritamente social. Uma sugestão de atividade é o professor disponibilizar para os alunos vários objetos de uso social, como lenços, colares, pulseiras, roupas (mas não fan- tasias predeterminadas) e, ainda, teclados de computador, telefones antigos, ferros de passar roupa de brinquedo, enfim, o que mais a criatividade do professor permitir. Fund_Educ_Infantil.indd 67 6/7/2010 13:52:13 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 67 of 100 Fundamentos da Educação Infantil FAEL 68 É importante observar que será preciso ofertar muitos materiais para que as crianças tenham várias alternativas para brincar. A escolha dos materiais e as possibilidades de brincadeira, muita vezes, evo- luirão para um jogo simbólico, em que, no faz de conta, a criança irá comu- nicar suas vontades, anseios e, principalmente, sua percepção de mundo. A utilização de jogos e brincadeiras na escola de Educação Infan- til traz muitas vantagens para o processo de ensino e aprendizagem. Acompanhe o Referencial Curri- cular Nacional para a Educação Infantil (RCNEI) que dá um grande destaque às brincadeiras e aos jogos na Educação Infantil por serem tanto formas de lin- guagem, quanto uma forma na- tural de a criança se manifestar a respeito do mundo que a cerca, de seus desejos e felicidades. Acompanhe alguns trechos nos quais o Referencial trata sobre a brincadeira: A brincadeira favorece a autoestima das crianças, auxiliando-as a superar progressivamente suas aquisições de forma criativa. Brincar contribui, assim, para a interiorização de determina- dos modelos de adulto, no âmbito de grupos sociais diversos. Essas significações atribuídas ao brincar transformam-no em um espaço singular de constituição infantil. Nas brincadeiras, as crianças transformam os conhecimentos que já possuíam anteriormente em conceitos gerais com os quais brinca. Por exemplo, para assumir um determinado papel numa brincadeira, a criança deve conhecer alguma de suas características. Seus conhecimentos provêm da imitação de alguém ou de algo conhecido, de uma experiência vivida na família ou em outros ambientes, do relato de um colega ou de um adulto, de cenas assistidas na televisão, no cinema ou narradas em livros, etc. A fonte de seus conhecimentos é múltipla, mas estes encontram-se, ainda, fragmentados (BRASIL, 1998, p. 27). Como se pode perceber, as atividades que envolvem jogos e brincadeiras não devem ser descontextualizadas do universo infan- til, nem do que se está trabalhando naquele momento. Os jogos e Sugere-se a leitura de um livro muito inte- ressante sobre o assunto: Jogo, brinquedo, brincadeira e a educação, de Tizuko Morchida Kishimoto. Nesse livro, o autor traz interes- santes definições e diferenciações sobre os assuntos em pauta. Saiba mais Fund_Educ_Infantil.indd 68 6/7/2010 13:52:13 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 68 of 100 Capítulo 5 Fundamentos da Educação Infantil 69 as brincadeiras são elementos privilegiados de desenvolvimento das crianças, mas cabe aos professores criarem propostas pedagógicas que aliem o aprendizado à grande diversão que o jogo e a brincadei- ra proporcionam. Pedagogia de projetos didáticos Esta é uma tendência bem frequente na Educação Infantil. Um dos autores da atualidade que trata com muita propriedade desse assunto é o espanhol Fernando Hernandez, mas, na verdade, a ideia da educação por projetos de trabalho já era proclamada por John Dewey. Na metodologia de pro- jetos, os alunos deixam de ser meros expectadores das aulas e passam a ser sujeitos de seus próprios conhecimentos, pois lançam mão de pesquisas para encontrar determinados resul- tados. O professor, dentro dessa visão, passa a ser um pesquisador e não somente um transmissor de conhecimentos. “Os projetos de trabalho contribuem para uma ressignificação dos espaços de aprendizagem de forma que eles se voltem para a formação de sujeitos ativos, reflexivos, atuantes e participantes.” (HERNANDEZ, 1998, p. 47). Deve-se ter em mente que os projetos pedagógicos devem ser orga- nizados por graus de interesse e significados às aprendizagens infantis. Acompanhe o que exemplifica Oliveira (2002, p. 234). Os projetos didáticos organizam-se segundo temas sobre os quais as crianças vão tecer redes de significações. São propos- tos como estratégias de ensino que buscam superar uma visão de estabilidade e transparência do ambiente em que elas estão inseridas e abrem possibilidades para cada criança indagar, criar relações e entender a natureza cognitiva, estética, política e ética de seu ambiente, atribuindo-lhe significados. Para conhecer o trabalho de John Dewey aces- se os sites indicados: <http://pt.wikipedia.org/wiki/John_Dewey>;• <http://educarparacrescer.abril.com.br/• aprendizagem/john-dewey-307892.shtml>. Você também pode conhecer um pouco mais das ideias de Fernando Hernandez, famoso pensador de nossos tempos, no site: <http://educarparacrescer.abril.com.br/aprendi zagem/materias_296380.shtml?page=page2>. Saiba mais Fund_Educ_Infantil.indd 69 6/7/2010 13:52:13 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 69 of 100 Fundamentos da Educação Infantil FAEL 70 Assim, estabelecemos alguns diferenciais no que se refere à pedago- gia de projetos na Educação Infantil: o projeto pode ser um excelente aliado na educação de crianças, desde que leve em conta o significado da aprendizagem que se propõe para elas e o quanto serão pesquisado- ras de sua própria aprendizagem. Percebemos, juntos, que a prática pedagógica precisa de reflexões teóricas, como já ficou constatado, pois optar por uma ou por outra metodologia de ensino, nas propostas curriculares de Educação In- fantil, significa demonstrar as ideias teóricas que o professor apresenta sobre o desenvolvimento das crianças e a respeito do que é ensinar/ aprender nessa faixa etária. Na Educação Infantil da atualidade, as pré-escolas e creches po- dem construir com autonomia os próprios projetos pedagógicos. A dis- cussão, portanto, toma outro foco: que o projeto pedagógico escolhido seja de qualidade. É esse o ponto mais importante do momento: garan- tir uma Educação Infantil de qualidade. ReflitaReflita Tratamos, neste capítulo, sobre a importância de um traba- lho de qualidade na Educação Infantil. Porém, em alguns mo- mentos, pode parecer que só será possível fazer esse trabalho se a escola dispor de grande quantidade de material didáti- co, de grande repertório de jogos e de brincadeiras e de um grande ambiente. Não podemos desconsiderar a importância de termos tudo isso em nossa realidade escolar, mas existem outros pontos mais importantes, como um grande referen- cial teórico sobre o assunto. Agora, reflita: será que os professores que estão nas salas de aula de Educação Infantil sabem da importância da lei- tura de bons materiais teóricos sobre o assunto? Em uma reflexão mais aprofundada e pessoal: você já percebeu essa importância? E quantos livros dos que foram sugeridos por seus professores até agora você adquiriu? Quantos sites você acessou? O que aprendeu por sua conta, que não estava neste livro, por exemplo? Fund_Educ_Infantil.indd 70 6/7/2010 13:52:13 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 70 of 100 Capítulo 5 Fundamentos da Educação Infantil 71 Essa reflexão tem por objetivo desafiar o leitor a leros ma- teriais teóricos sugeridos, de forma que cada vez mais possa adentrar no universo teórico da Educação Infantil. ReflitaReflita Síntese Apresentar algumas propostas metodológicas disponíveis para o trabalho pedagógico na Educação Infantil foi a proposta deste capí- tulo. Para isso, baseou-se, especificamente, em três metodologias dife- renciadas de trabalho com a Educação Infantil: o trabalho pedagógico com múltiplas linguagens na Educação Infantil, o jogo como recurso privilegiado de desenvolvimento da criança pequena e a pedagogia de projetos didáticos. Essas não são as únicas maneiras de ensinar crianças pequenas, mas são formas que dão certo por serem coerentes com os estudos sobre o desenvolvimento infantil. Por fim, destacou-se como é importante que a escola de Educação Infantil tenha uma linha teórica clara para compor sua proposta pedagógica, de modo a oportunizar aos alunos aulas mais significativas e que vão gerar grandes aprendizagens. Fund_Educ_Infantil.indd 71 6/7/2010 13:52:13 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 71 of 100 Fund_Educ_Infantil.indd 72 6/7/2010 13:52:13 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 72 of 100 73 Quem é o professor da Educação Infantil da atualidade? O que se espera desse profissional? Qual deve ser a sua formação? Certamente o leitor já pensou nessas questões e vai poder conhecer mais detalhada- mente, neste capítulo, alguns pontos sobre a formação do professor. Caracterizar o professor: tarefa densa Caracterizar a identidade do profissional da Educação Infantil da atualidade é uma tarefa densa e de extrema reflexão, uma vez que, ao lon- go dos anos, assim como foi mudando a concepção de infância, foram se alterando as características do educador infantil, pois isso também acon- teceu com as questões metodológicas e profissionais. Nesse momento, há uma grande necessidade de voltar os olhares para reflexões acerca da formação necessária para o professor de crianças pequenas. Hoje muita coisa mudou em relação ao inicio da Educação brasileira, e são exigidas outras competências dos que educam as nossas crianças pequenas. Antes de tudo, é preciso explicar que não pretendemos, neste es- tudo, determinar um formato para a profissão de professor de crianças pequenas; ao contrário, gostaríamos de deixar claro que entendemos que cada educador tem seu estilo, sua forma de ser, e o que se pretende é elencar os aspectos de sua formação e sua importante responsabilida- de nesse processo. Sobre o estilo do educador, Palácios e Paniagua (2007, p. 131) afirmam: Na Educação Infantil, há muita diversidade [...] e diferenças entre os professores. Entendemos por estilo do educador o Reflexões sobre a formação do professor da Educação Infantil 6 Fund_Educ_Infantil.indd 73 6/7/2010 13:52:13 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 73 of 100 Fundamentos da Educação Infantil FAEL 74. conjunto de características que marcam seu selo pessoal na sala de aula, sua forma de agir e de se relacionar. É constituída por um amplo leque de qualidades ligadas às características pessoais do adulto (idade, gênero, habilidades, interesses, etc.) assim como à sua história e ao seu perfil pessoal (suas ideias sobre educação, sua formação, sua experiência, suas habilida- des educativas). Como o leitor pode constatar, há que se ter respeito pelas dife- renças de cada profissional que, ao nosso ver, são naturais e necessárias em um ambiente como o escolar, em que muitas pessoas circulam ao mesmo tempo. A diversidade é um elemento importante nas redes da Educação Infantil. Porém, acompanhe a reflexão que os autores citados acima fazem sobre a importância do professor para o sucesso da Edu- cação Infantil: Na Educação Infantil [...] tais elementos [os citados acima] são determinantes na prática pedagógica. As atitudes e formas de agir do adulto têm uma influencia particular sobre o cli- ma na sala de aula e, em grande medida, condicionam que as coisas funcionem ou não (PALÁCIOS; PANIAGUA, 2007, p. 131, grifos nossos). Assim sendo, e levando em consideração os estilos diferentes de cada educador, continuemos no raciocínio dos estilos: a Educação In- fantil só tem a ganhar com educadores que possuem uma sólida for- mação e estilos diferentes. Mas nem sempre foi assim. Acompanhe o caminho histórico e como surgiu a necessidade da formação. Do início até a qualidade: o caminho passa pelo professor bem formado Há tempos, para que um profissional fosse contratado para atuar na Educação Infantil, o principal requisito era que gostasse de crianças. Obviamente, alguém que não tenha afinidade com crianças pouco terá a oferecer a elas como educador, mas o que se apresenta no campo da formação de professores requer uma reflexão mais apurada. O profissional da Educação Infantil apareceu no panorama da educação brasileira sem nenhuma exigência de qualificação. Não va- mos nos esquecer de que as instituições de Educação Infantil tinham um caráter assistencialista, e do adulto que estava com a criança não era Fund_Educ_Infantil.indd 74 6/7/2010 13:52:13 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 74 of 100 Capítulo 6 Fundamentos da Educação Infantil 75 exigida nenhuma formação, uma vez que o necessário, na época, era compensar a ausência da família. Dessa forma, como destaca Machado (2002, p. 102), era necessá- rio somente que alguém “olhasse, trocasse e alimentasse as crianças”. A autora também destaca que as características exigidas para se contratar um profissional para o trabalho, nas primeiras instituições de Educação Infantil, eram: “gostar de crianças, ter boa saúde, boa aparência, facili- dade de comunicação, simpatia, boa educação, experiência anterior e dinamismo.” (MACHADO, 2002, p. 103). De uma forma geral, os avanços pedagógicos decorrentes de es- tudos, bem como de uma série de reformas e mudanças ocorridas na educação nos últimos anos, principalmente as advindas do campo da legislação educacional (especialmente pela LDB n. 9.394/96), deram à escola, em seus diferentes sistemas de ensino, uma maior flexibili- dade e autonomia. Em nosso país, a partir da década de 90 do século XX, a tônica da discussão sobre a formação do profissional da Educação Infantil passou a ser efetivada com mais propriedade, inclusive fazendo parte de docu- mentos oficiais. Destacamos, aqui, dois documentos que fazem men- ção à formação dos professores. São eles: Referenciais para a Formação de Professores (1999) e Diretrizes para Formação Inicial de Professores de Educação Básica (2000). Os Referenciais para a Formação de Professores, de 1999, tratam do desenvolvimento profissional do professor e da progressão na carreira, da organização da formação inicial e continuada, da formação em ser- viço e da educação a distância. O documento intitulado Diretrizes para a Formação Inicial de Pro- fessores da Educação Básica, elaborado no ano 2000, apresenta análises e proposições e destaca as competências como um modelo de paradigma curricular que deve orientar a formação dos professores. Bonetti (2010, [s. p.]) destaca que “A visão oficial destes docu- mentos aparentemente reforça em seu discurso a luta dos professores pelo seu reconhecimento e valorização como profissionais da educação, opondo-se à histórica concepção do magistério como vocação”. Fund_Educ_Infantil.indd 75 6/7/2010 13:52:14 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 75 of 100 Fundamentos da Educação Infantil FAEL 76 ReflitaReflita Ainda é muito grande o número de pessoas que acreditam somente na versão de que o magistério é uma vocação. Pense nesse assunto com seriedade e compromisso: é possível alcançar competências teóricas para lecionar com qualidade na Educação Infantil somente com base na vocação? Se considerarmos que trabalhar com crianças pequenas é somente uma vocação, que valor estamos dando à formação teórica? ReflitaReflita É muito importante validar o caráter profissional que essesdocu- mentos impõem, uma vez que a realidade de nossas escolas de Educa- ção Infantil tem situações bem diferentes. Cumpre destacar, que, como ressalta Machado (2002, p. 126): A Educação Infantil, marcada por um quadro de desigual- dade, não só na possibilidade de acesso, mas também na qualidade do atendimento e no imaginário, [...] tem uma desvalorização do trabalho do profissional que se dedica ao atendimento das crianças de 0 a 6 anos. Acaba por aceitar pessoas com pouca ou nenhuma formação, o que leva a uma baixa remuneração e uma alta rotatividade, pois não há pers- pectiva em termos de carreira. Sendo assim, em muitas realidades escolares a formação exigida para a atuação com crianças de 0 a 5 anos é praticamente nula. De uma forma geral, as legislações e propostas aqui apresentadas podem auxiliar na mudança desse quadro. A formação do professor de Educação Infantil atual: alternativas Como referência para a formação de professores da Educação In- fantil, temos o artigo 62 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Na- cional n. 9.394/96: Art. 62. A formação de docentes para atuar na educação bá- sica far-se-á em nível superior, em curso de licenciatura, de graduação plena, em universidades e institutos superiores de educação, admitida, como formação mínima para o exercício Fund_Educ_Infantil.indd 76 6/7/2010 13:52:14 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 76 of 100 Capítulo 6 Fundamentos da Educação Infantil 77 do magistério na Educação Infantil e nas quatro primeiras sé- ries do Ensino Fundamental a oferecida em nível médio, na modalidade normal. Como se pôde conferir, a formação de professores deverá ser, prioritariamente, realizada em nível superior. No entanto, conside- rando-se a diversidade cultural brasileira e as diferentes formações de educadores existentes nos diversos estados do país, também são aceitos professores formados em nível médio, no curso Normal, substituto do curso de Magistério. O que se tem percebido, na prática, é que municípios e ins- tituições particulares que con- tratam professores de Educação Infantil têm preferido os que pos- suem formação superior. O Plano Decenal da Educação (PDE), ela- borado pelo governo e promul- gado em 2001, traça as metas da educação brasileira ao longo de uma década e sinaliza que todos os professores da educação básica (que possui a Educação Infantil como a primeira etapa) devem ser formados em cursos superio- res até o fim do Plano, em 2010 (BRASIL, 1993). Porém, amplamente discutido na realidade da escola de crianças pequenas, o PDE, no que diz respeito à formação de professores, não se mostrou passível de execução no Brasil, visto que uma grande parte dos profissionais que trabalha nessa área, especialmente nas creches, nas quais muitas pessoas não habilitadas prestam atendimento a uma grande parcela da população, não possui formação específica. Isso não significa dizer que os profissionais devem ser aceitos nas realidades de trabalho com somente a formação de nível médio. Signi- fica, como aponta o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (1998, p. 39), que: As diferentes redes de ensino deverão colocar-se a tarefa de investir de maneira sistemática na capacitação e atualização Segundo resultados do Censo Educacional de 2009, disponível em: <http://www.inep.gov.br/ basica/censo/Escolar/Sinopse/sinopse.asp> (o último divulgado pelo Governo Federal até o presente momento), no Brasil, até 2009 (ano do último dado divulgado), temos 6.699.109 crianças matriculadas nas creches e pré-esco- las do país. É um numero muito grande de pequenos cidadãos que precisam de um bom atendimento, com qualidade e com chances de desenvolver todo seu potencial com o auxílio de professores com sustentável formação teórica. Saiba mais Fund_Educ_Infantil.indd 77 6/7/2010 13:52:14 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 77 of 100 Fundamentos da Educação Infantil FAEL 78 permanente e em serviço de seus professores (sejam das cre- ches ou pré-escolas), aproveitando as experiências acumuladas daqueles que já vêm trabalhando com crianças há mais tempo e com qualidade. A formação do docente para atuar na Educação Infantil é questão urgente em nosso meio educacional e, também, em outros países, so- bretudo no continente europeu. Acompanhe o que destacam Cristine Pascal e Anthony Bertron (apud SANCHES, 2003, p. 57): Há clara evidência de que a qualidade do professor é um de- terminante central na qualidade e eficiência dos programas de Educação Infantil [...] se quisermos melhorar a qualidade da educação de crianças pequenas devemos nos preocupar com a qualidade de seus professores. Na Europa, os países estão reco- nhecendo isso e tomando medidas para melhorar os cursos de formação de professor de Educação Infantil. O objetivo de trazer à tona citações que indicam que outros países também estão se mobilizando para melhorar o atendimento e a educa- ção ofertada às crianças de 0 a 5 anos é fornecer elementos de reflexão, para verificarmos como a necessidade disso é iminente. Formar o pro- fissional da Educação Infantil é um dos desafios de todas as instâncias educativas da atualidade. Em outras palavras, é necessário conceber o professor como ele- mento primordial da equipe de mudanças e isso nos remete a algumas implicações: valorização da atuação docente por parte das instâncias públi- ● cas e de ensino, no que se refere a investimentos que traduzam condições dignas de vida e de trabalho; implantação e adequação de programas institucionalizados ● que possibilitem o domínio de suas habilidades e a aquisição de quantas forem necessárias para contribuir com a formação do indivíduo polivalente que o mercado de trabalho exige; capacitação não somente para comunicar, mas, também, para ● desenvolver práticas voltadas para a realidade do contexto so- cial de sua atividade profissional; necessidade iminente de revisão de sua prática e de sua forma- ● ção profissional, baseada na reflexão. Fund_Educ_Infantil.indd 78 6/7/2010 13:52:14 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 78 of 100 Capítulo 6 Fundamentos da Educação Infantil 79 A partir da década de 90 do século XX, a formação dos professo- res trouxe muitas discussões acirradas. Pesquisadores centralizaram suas investigações com o objetivo de responder à pergunta: O que se espera do profissional docente, na atualidade? De forma geral, as indicações desses autores apontam para o caminho no sentido de que os professo- res devem ter consonância com a educação de seu tempo, sendo media- dores e pesquisadores, competentes e reflexivos. A reflexão sobre a prática pedagógica tem sido, ultimamente, o con- ceito mais adotado por pesquisadores e formadores de professores, quando se referem às tendências de formação do educador. Atualmente, torna-se difícil encontrar referências escritas sobre propostas de formação de pro- fessores que, de algum modo, não incluam o conceito de reflexão como um elemento estruturador. Sendo assim, estamos de acordo com Freire (1997, p. 43), quando afirma que “na formação permanente dos professo- res, o momento fundamental é o da reflexão crítica sobre a prática”. A necessidade de formar professores que reflitam sobre a própria prática é um instrumento essencial ao desenvolvimento do pensamento e da ação docente (SCHÖN, 1995). Os conhecimentos e competências adquiridos pelo professor, antes e durante sua formação inicial, têm se mostrado insuficientes para o exercício de suas funções ao lon- go de toda a carreira. Diferente- mente do que se pensava antes, o professor está longe de ser um profissional acabado e amadure- cido no momento em que recebe a sua habilitação profissional. Essa nova visão do professor como alguém que está em permanen- te desenvolvimento teve a contribuição de vários fatores: as já citadas mudanças na sociedade, que causaram mudanças na escola (não só em sua estrutura, como em seu próprio conceito),bem como as novas teo- rias pedagógicas que desencadearam pensamentos acerca da função do professor, reconhecendo a complexidade e as dificuldades dessa função e, também, a complexidade de sua formação. Sendo um dos autores que teve o maior peso na difusão do concei- to de reflexão, Schön (1995) propôs o conceito de “reflexão-na-ação”, Você pode saber mais sobre Donald Schön e sua teoria sobre reflexão na ação. Basta ler o texto de Vasconcelos (2010), disponível no site: <http://www.ipv.pt/millenium/17_ect9.htm>. Saiba mais Fund_Educ_Infantil.indd 79 6/7/2010 13:52:14 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 79 of 100 Fundamentos da Educação Infantil FAEL 80 como o processo pelo qual os professores aprendem a partir da análise e interpretação de sua própria atividade. Em consonância com Schön e desejando ultrapassar as antigas concepções sobre formação de professores, que não se mostraram efica- zes, delineou-se outro tipo de formação, chamada de “formação conti- nuada” (NÓVOA, 2002). Pontuando como seu eixo central a pesquisa em educação, essa formação valoriza o conhecimento do professor, em um processo de interação e reflexão, buscando contribuir para uma análise do próprio fazer docente. Para que se possa formar sob essa perspectiva, Nóvoa (2002) jul- gou ser fundamental considerar os professores a partir de três eixos es- tratégicos: a pessoa do professor e sua experiência; a profissão e seus saberes e a escola e seus projetos. Segundo ele, A formação não se constrói por acumulação (de cursos de conhecimento ou de técnicas), mas sim através de um tra- balho de reflexão crítica sobre práticas e de (re)construção permanente de uma identidade pessoal. Por isso é tão impor- tante investir na pessoa a dar estatuto ao saber da experiência (NÓVOA, 2002, p. 38). Dessa forma, entendemos a formação continuada como uma ati- tude de permanente reflexão, não como um acúmulo de cursos. Para formar é preciso respeitar os professores como pessoas; assim, podemos ter a eficácia de uma formação contextualizada, que busque transfor- mação e que permita ao professor conhecer o grupo no qual está in- serido, estabelecendo novos paradigmas e tendo, muitas vezes, como consequência, um ressignificar de suas práticas pedagógicas. Como destaca Freire (1997), o professor não é um receptador de formação. Ele deve ser o sujeito de sua formação, respeitado por suas potencialidades e necessidades diversas. O desenvolvimento profissio- nal é, assim, uma perspectiva em que se percebe a necessidade de cres- cimento e de aquisições diversas, é um processo que tem no próprio professor o sujeito capital. Dessa forma, todo curso de capacitação de professores deve compreender possibilidades de reflexão, alianças entre teoria e prática e continuidade. Dentro dessa perspectiva, Nóvoa (2002) enfoca que desenvolver prá- ticas pedagógicas mais eficientes e manter-se atualizado são, atualmente, Fund_Educ_Infantil.indd 80 6/7/2010 13:52:14 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 80 of 100 Capítulo 6 Fundamentos da Educação Infantil 81 os principais desafios do professor. A formação continuada é necessária, mas difícil em função do complicado equilíbrio entre inovação e tradi- ção. Para o autor, existem dois polos fundamentais de desenvolvimento na formação de professores: o primeiro, a pessoa professor como agente de mudanças; o segundo, a estrutura escolar como espaço de mudança. O autor defende a ideia de que o desenvolvimento profissional depende, ainda, do local onde é realizada a prática pedagógica, uma vez que o cres- cimento profissional também é feito pela reflexão com os colegas. Sendo a escola um espaço no qual se aprende e se ensina, e consi- derando que a capacidade de trabalhar em grupo é uma competência que os professores precisam desenvolver, Nóvoa (2002, p. 44) afirma: “tem faltado uma dimensão coletiva, não no sentido corporativo, mas na perspectiva da colegialidade docente. Não me refiro a dinâmicas voluntárias de colaboração, mas sim à instauração de culturas de rotinas profissionais que integrem esta dimensão.” Sem esse pilar de reflexão, a formação não atinge seu objetivo, que é o de promover mudanças de pensamento e, consequentemente, da ação educativa. Síntese Neste capítulo, conhecemos alguns pressupostos acerca da forma- ção do profissional da Educação Infantil da atualidade e estabelecemos boas bases para reflexões acerca dessa temática, passando por seu con- texto histórico até chegarmos às características da formação profissional do educador infantil de nossos dias, delineando algumas perspectivas atuais. Destacou-se que, mesmo que a formação de professores não fosse uma obrigatoriedade legal, poderia ser considerada como uma obrigato- riedade moral, uma vez que a garantia de uma Educação Infantil de qua- lidade passa, seguramente, pela formação adequada de seus professores. Fund_Educ_Infantil.indd 81 6/7/2010 13:52:14 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 81 of 100 Fund_Educ_Infantil.indd 82 6/7/2010 13:52:14 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 82 of 100 83 Como forma de ampliar os conhecimentos sobre a Educação Infantil brasileira de nossos tempos e possibilitar reflexões acerca de práticas pedagógicas e ações educativas, este capítulo apresenta consi- derações sobre dois temas bastante relevantes na educação de crianças de 0 a 5 anos: a questão da avaliação formativa e a fundamental parceria entre a escola e a família da criança. A avaliação formativa na Educação Infantil De acordo com o que determina o artigo 31 da LDB n. 9.394/96, sobre a avaliação na Educação Infantil, “na Educação Infantil a avalia- ção far-se-á mediante acompanhamento e registro do seu desenvolvi- mento [da criança], sem o objetivo de promoção, mesmo para o acesso ao Ensino Fundamental”. Uma ideia que podemos extrair do texto da lei é a de que a avalia- ção na Educação Infantil não tem caráter de reprovação nem de acesso para o Ensino Fundamental. Isso, na prática educativa, denota duas considerações: 1. Por não ter caráter de nota, a avaliação pode ser feita com mais registros e acompanhamentos, validando, a todo momento, as pe- quenas alterações que ocorrem no desenvolvimento da criança. 2. Como os profissionais da educação brasileira convivem há muito tempo com a mensuração do conhecimento (a trans- formação em algo que possa ser medido), muitas vezes, ao se depararem com uma avaliação sem essa necessidade, acabam não a validando como um instrumento de ação pedagógica. Parceria e avaliação na Educação Infantil 7 Fund_Educ_Infantil.indd 83 6/7/2010 13:52:14 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 83 of 100 Fundamentos da Educação Infantil FAEL 84. Como podemos perceber nas práticas educativas e nos resultados oriundos dessas práticas, amplamente divulgados pela mídia (Prova Brasil, Provinha Brasil e o ENEM, por exemplo), não é tarefa fácil realizar a avaliação em nenhum dos nívieis da educação brasileira, nem na Educação Infantil. Algumas perguntas nos remetem à necessidade de conceituar “ava- liação”: O que se entende por avaliação? Para que ela serve no ambiente escolar e, especificamente, no contexto da Educação Infantil? As ideias de avaliação trazidas pelo Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil destacam que os professores devem ter um olhar sensível e reflexivo sobre a criança, procurando compreender e aceitar seus sinais de aprendizagem, de carinho, de vivências, de esperanças. Veja, a seguir, um trecho do texto sobre avaliação proposto pelo volume 2 do Referencial (1998, p. 66): No que se refere à avaliação formativa, deve-se ter em conta que não se trata de avaliar a criança, mas sim as situações de aprendi- zagem que foram oferecidas. Isso significa dizer que as expectati- vas com relação à aprendizagem devem estar sempre vinculadas às oportunidades e experiências que foram oferecidos a ela. Observa-se que, no início do texto,está presente a expressão “avaliação formativa” e é esse for- mato de educação que será expli- citado a seguir. A avaliação formativa tem um papel muito importante no processo de aprendizagem e fun- ciona não só com os resultados da aprendizagem, mas, também, com o próprio processo de apren- dizagem. Por isso, costuma-se di- zer que avaliação não é produto (resultado somente), é processo. Sendo assim, na avaliação formativa, muito mais do que medir o desempenho dos alunos, o processo de avaliação deve mostrar a forma como eles atuam durante a aprendizagem, permitindo uma reorienta- ção da ação pedagógica. Prova Brasil, Provinha Brasil e Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) são avaliações diagnósticas realizadas pelo Ministério da Educação para mapear a aprendizagem dos alunos brasileiros. Para saber mais sobre a Prova Brasil, acesse: <http://provabrasil.inep.gov.br/>. Para informações sobre a Provinha Brasil, acesse: <http://provinhabrasil.inep.gov.br/>. Para maiores informações sobre o ENEM, acesse: <http://www.enem.inep.gov.br/>. Saiba mais Fund_Educ_Infantil.indd 84 6/7/2010 13:52:14 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 84 of 100 Capítulo 7 Fundamentos da Educação Infantil 85 Dessa forma, salienta-se que a avaliação não é somente responsabi- lidade dos estudantes. É responsabilidade, também, do professor, pois os resultados demonstrados serão os reorganizadores da ação docente. Vale ressaltar que essa avalia- ção não significa que o aluno não deva ser corrigido, ou que não se deva indicar a ele os próprios er- ros, mas o contexto da formação necessita que haja reflexão em cima do que não deu certo, do que não foi aprendido. De acor- do com Jussara Hoffmann (1996, p. 77), especialista no assunto: A questão que deve ser feita é se tal correção favorece a com- preensão e o desenvolvimento da autonomia dos alunos. Ou seja, se o fato de o educador apontar ou ratificar suas respostas contribui para a possibilidade de o estudante tomar consciên- cia das contradições. Conceber a avaliação como um elemento de aprendizagem faz com que eliminemos aquela versão de que a avaliação busca os erros e os culpados. Ela é, então, substituída por uma dinâmica que transfor- ma o trabalho docente e dá uma nova chance à aprendizagem. Há uma consideração importante a se fazer. Quando falamos em avaliar, na Educação Infantil, é comum que algumas pessoas confundam a própria avaliação com o meio que será usado para transmitir os resul- tados, e isso nos passa a ideia de que a avaliação, nessa modalidade de educação, seja somente composta de pareceres, notas, bolinhas coloridas e outras formas que representam os conceitos. O formato que será esco- lhido pela escola para demonstrar seus resultados é menos importante do que o formato da própria avaliação e da teoria que a sustenta. Sem dúvidas, para que a avaliação na Educação Infantil seja de qualidade, é preciso ressignificá-la em práticas pedagógicas igualmente eficazes. A importante relação entre família e escola no universo da Educação Infantil A família é o primeiro grupo social do qual a criança faz parte. Porém, nos dias atuais, torna-se árdua a tarefa que se propõe a concei- tuar “família”. Para conhecer mais sobre esse estilo de avalia- ção, acesse o endereço: <http://revistaescola. abril.com.br/img/planejamento/hadji.doc> e leia uma entrevista com Charles Hadji, um dos maiores representantes da avaliação forma- tiva. Com certeza, as ideias dele farão você pensar sobre o assunto (NOVA ESCOLA, 2010). Saiba mais Fund_Educ_Infantil.indd 85 6/7/2010 13:52:14 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 85 of 100 Fundamentos da Educação Infantil FAEL 86 A família, por ser uma entidade dinâmica, que está sempre se alterando e formando-se diferente, apresenta muitas características e especificidades e, de um modo geral, pode ser considerada por dois aspectos: o primeiro, como entidade social em constante mudança, e o segundo, como um grupo social concreto por meio do qual se efeti- vam vínculos que resultam de três tipos de relação de parentesco: con- sanguinidade (irmãos), descendência (pais e filhos) e afinidade (casal) (SAMBRANO, 2006, p. 140). O Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil, em seu volume 1, “Introdução” (1998, p. 76), destaca a importância de se re- jeitar a ideia de que existe somente um tipo de família, uma vez que os enfoques mais recentes compreendem a família como “uma criação humana mutável, sujeita a determinações culturais e históricas, que se constitui tanto em espaço de solidariedade, afeto e segurança, como em campos de conflito, lutas e disputa”. A escola teve, portanto, seu papel ressignificado, considerando as mudanças da sociedade. Hoje em dia, ela também atende a uma de- manda que antes era exclusiva das famílias e não há como negar isso, embora nem sempre os educadores da Educação Infantil concordem. O fato é que itens como alimentação e higiene, que antigamente eram de exclusiva responsabilidade da família, passaram a fazer parte, também, do rol de atribuições da escola, principalmente nas camadas sociais me- nos favorecidas. Antigamente, a instrução dos filhos era dever exclusivo dos fami- liares e, com o tempo, o aumento de conteúdos e a redefinição das famílias, a escola passou a ter a função educativa. Porém, é importante salientar que, apesar das transformações pelas quais passaram, as fa- mílias continuam funcionando como o eixo principal na formação da identidade pessoal e social de seus membros, cabendo à escola a função de transmitir os conhecimentos sociais e historicamente acumulados pela humanidade e de proporcionar oportunidades de relacionamentos sociais. O que se deve que deixar claro, portanto, é que a escola é um espaço de aprendizagens. Na cultura brasileira, quando falamos sobre criança e desenvolvi- mento infantil estamos nos referindo a dois contextos básicos: família e instituição educacional, “não somente pela tradição imposta a esses Fund_Educ_Infantil.indd 86 6/7/2010 13:52:14 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 86 of 100 Capítulo 7 Fundamentos da Educação Infantil 87 ambientes, mas, sobretudo, por serem espaços privilegiados e frequen- temente únicos, nos quais a vida cotidiana acontece” (SAMBRANO, 2006, p. 139). Particularmente falando do relacionamento social criança do uni- verso da Educação Infantil, é fundamental entender que a família cum- pre um papel de mediadora entre a criança e a sociedade e é o primeiro espaço de aprendizagem infantil no que se refere a hábitos, costumes, valores, papéis sociais, atitudes e linguagem, além de desenvolver na criança, por meio da interação, as bases de sua personalidade e identi- dade (SAMBRANO, 2006). Tome-se, como exemplo, uma professora que percebe a seguin- te característica em seu aluno: fala utilizando gestos para se explicar melhor e usa determinadas expressões. A princípio, o comportamento desse aluno pode ser estranho à professora, mas quando se conhece pessoas do mesmo ambiente familiar, compreende-se: muitas vezes, os gestos e hábitos dos alunos são os mesmos que seus pais ou demais familiares demonstram. Nessa etapa do desenvolvimento infantil, é normal que as famí- lias tenham contato estreito com as escolas. Via de regra, quase que diariamente, os familiares tomam ciência do desempenho das crianças nas atividades escolares, bem como de suas necessidades no ambiente escolar. Pais e escolas devem, portanto, caminhar juntos em prol do desenvolvimento de seus filhos, destacando que, mesmo em contextos diferentes, possuem objetivos comuns em relação à mesma criança. A relação afetiva é importantíssima na educação de crianças (já falamos sobre isso quando tratamos sobre Henry Wallon). Por isso, pre- cisamos ficar muito atentos em nossos espaços de Educação Infantil, não só para a construção de vínculos afetivos entre crianças e seus pro- fessores e o ambiente educativo, mas, também,e com um grande grau de importância, entre as famílias e os educadores. Deve-se considerar que, historicamente, no Brasil, a mãe permane- ce no ambiente familiar como a pessoa que mantém acesa a afetividade na família. A cultura brasileira prega que, geralmente, é da mãe a res- ponsabilidade do cuidado e do afeto para com os filhos. Isso é bastante percebido nas escolas, pois, quase que exclusivamente, a mãe funciona como o elo entre a família e a instituição de Educação Infantil. Fund_Educ_Infantil.indd 87 6/7/2010 13:52:14 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 87 of 100 Fundamentos da Educação Infantil FAEL 88 Outro destaque importante para as reflexões aqui propostas é dado por Mamede (2010, [s. p.]), quando afirma que as “instituições de Edu- cação Infantil, além de prestarem atendimento direto às crianças, pre- cisam ter ações coletivas e individuais, no sentido de apoiar mulheres e homens nos cuidados e educação de seus filhos”. Obviamente, destaca a autora, não se trata de ensinar às famílias um modelo de “como uma criança deve ser educada, mas sim de dialogar com elas, trazendo algum conhecimento técnico para que possa ser confrontado com o saber dos pais e das famílias” (MAMEDE, 2010, [s. p.]). Esse diálogo entre família e escola é o ponto principal da construção de vínculos afetivos, que vão se fortalecendo ao longo do tempo. Infeliz- mente, entretanto, tem-se observado que a corresponsabilidade educativa das famílias e da escola de Educação Infantil orienta-se mais para acusa- ções recíprocas do que para uma busca de soluções. Segundo Oliveira (2002, p. 177), “as equipes da escola apesar de reconhecerem a impor- tância do trabalho com a família, costumam considerá-la despreparada e menos competente que o professor, particularmente em se tratando de famílias de baixa renda ou famílias formadas por pais adolescentes”. Acompanhe o quadro a seguir, que aponta situações em que a ação dos pais e professores pode prejudicar o desenvolvimento da criança. Ação dos pAis e/ou professores ConsequênCiA pArA As CriAnçAs Pais ou professores se antecipam, tentam adivinhar o que aconteceu na escola ou família, ficando na posição de críticos julgadores (“aconteceu isso por causa disso...”). Quando pais ou professores tentam adivinhar o que aconteceu, perturbam a criança, pois estão dificultando a sua “autoria” (ela não é escutada e, principalmente, respeitada no que diz). Pais ou professores ficam na posição de juízes. Quando pais e professores ficam na posição de polícia ou juiz, bloqueiam e inibem a criança, gerando culpa, pois ela fica na posição de “delatora”. Pais ou professores são ausentes ou indiferentes aos fatos que acontecem na escola e com a criança. Quando pais ou professores ficam em uma posição de indiferença e ausência, podem criar, na criança, apatia, desinteresse, aborrecimento, sentimentos de incapacidades, desvalia, rejeição e inadequação. Fonte: adaptado de Anderle (2010). Fund_Educ_Infantil.indd 88 6/7/2010 13:52:14 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 88 of 100 Capítulo 7 Fundamentos da Educação Infantil 89 Considerando o exposto acima, é fundamental que haja parceria entre escola e família. Porém, é preciso atentar que cada família tem o direito de optar, à sua maneira, como quer viver e, assim, escolher como criar seus filhos. No entanto, tem também o direito de ter acesso aos conhecimentos que as apoiem em sua missão. A escola pode auxiliar os pais a educarem seus filhos. No entanto, também precisa estar ciente das mudanças pelas quais a família passou para que possa realizar um trabalho eficaz. Observe o quadro a seguir, que mostra alguns momentos em que há a relação família-instituição, que tem como foco principal a forma- ção da criança, e fornece sugestões de contato entre ambos. Destaca- mos que essas não são os únicas modos de contato, mas, sim, formas que podem auxiliar o professor a estabelecer os tão necessários víncu- los afetivos. ContAtos rotineiros Os momentos de entrada e saída das crianças da instituição devem revelar um clima de informalidade e familiaridade, para estabelecimento e manutenção da relação com os pais. reunião de pAis Momento privilegiado, mais consistente e organizado, de transmissão de informações entre instituição e familiares. É uma estratégia formal e de comunicação direta. reuniões de Conselho dA esColA Espaço e momento para informações sobre a gestão da escola. ComemorAções São relevantes para as famílias, pois refletem as expectativas delas com relação à aprendizagem e ao desempenho das crianças. mensAgens informAtivAs Bilhetes ou boletins são informativos transmitidos sobre o ambiente institucional para o familiar, e vice-versa. É momento que propicia dessa relação, pois ocorre com frequência. trAbAlho do professor O profissional pode utilizar o contexto familiar para explicar, suscitar questionamentos e soluções, reportando-se a conceitos e realidades vivenciadas pelas crianças em suas casas. Fund_Educ_Infantil.indd 89 6/7/2010 13:52:15 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 89 of 100 Fundamentos da Educação Infantil FAEL 90 informAções dA própriA CriAnçA Diariamente, a criança transmite informações, julgamentos, sentimentos, expectativas, percepções, aprendizagens, vivências, queixas e experiências referentes aos dois ambientes pelos quais transita cotidianamente. Fonte: adaptado de Sambrano (2006). Um ponto importante do relacionamento entre família e escola é o que propõe Sambrano (2006): “Há que se considerar que a parceria entre escola e família pode se tornar acessível à medida que os profissio- nais assumirem a iniciativa pelo relacionamento e construírem estraté- gias que o viabilizem”. Como se vê, cabe à escola dar o primeiro passo, abrir as portas de seu ambiente para os pais e recebê-los sem prejulgamentos. Quem ganha com isso? A criança da Educação Infantil, que terá as duas ins- tâncias sociais mais importantes de sua vida aliadas em prol do seu desenvolvimento e felicidade. Síntese Reflexões sobre dois pontos importantes na Educação Infantil de nossos tempos foram propostas neste capítulo: a avaliação formativa e a relação família-escola. Sobre avaliação, destaca-se a alternativa da avaliação formativa como parte da aprendizagem do aluno e não mais a visão tradicional, que considera ser determinante a avaliação. Teceu-se ainda, considerações sobre a importância da relação entre a família e a escola para o pleno desenvolvimento da criança, com destaque para os vínculos afetivos, indispensáveis nesse contexto. Fund_Educ_Infantil.indd 90 6/7/2010 13:52:15 02 CONVALIDAÇÃO - 2 PROVA - 07/06/2010 - Page 90 of 100 91 ABREU, M. 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