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Denise Rodovalho Scussel Judith Mara de Sousa Almeida Maria Célia Borges Mônica Corrêa Avelar Neire Márcia da Cunha Selma Aparecida Ferreira da Costa Vivian Zerbinatti da Fonseca Kikuich Educação Inclusiva Catalogação elaborada pelo Setor de Referência da Biblioteca Central Uniube E83 Educação inclusiva / Maria Célia Borges ... [et al.]. – Uberaba: Universidade de Uberaba, 2018. 284 p. : il. Programa de Educação a Distância – Universidade de Uberaba. Inclui bibliografia ISBN 1. Educação inclusiva. 2. Educação especial. I. Borges, Maria Célia. II. Universidade de Uberaba. Programa de Educação a Distância. III. Título. CDD 371.9046 © 2019 by Universidade de Uberaba Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Universidade de Uberaba. Universidade de Uberaba Reitor Marcelo Palmério Pró-Reitor de Educação a Distância Fernando César Marra e Silva Coordenação de Graduação a Distância Sílvia Denise dos Santos Bisinotto Editoração e Arte Produção de Materiais Didáticos-Uniube Revisão textual Érika Fabiana Mendes Salvador Diagramação Andrezza de Cássia Santos Projeto da capa Agência Experimental Portfólio Edição Universidade de Uberaba Av. Nenê Sabino, 1801 – Bairro Universitário Denise Rodovalho Scussel Doutoranda em Educação pela Universidade Federal de Uberlândia. Possui mestrado em Educação: Formação de Educadores pela Universidade de Uberaba (2003), graduação em Pedagogia Especial pela Universidade de Uberaba (2000) e graduação em Pedagogia pela Universidade de Uberaba (1987). Supervisora pedagógica do Departamento de Educação Inclusiva da Secretaria Municipal de Educação da cidade de Uberaba. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Educação Pré-Escolar, atuando principalmente nos seguintes temas: pedagogia especial, educação inclusiva, trabalho interdisciplinar, educação infantil e formação continuada de professores. Judith Mara de Souza Almeida Doutora em Estudos Linguísticos pela Universidade Federal de Uberlândia. Mestre em Linguística pela Universidade Federal de Uberlândia (2008). Graduada em Letras e Pedagogia; especialização em Língua Portuguesa e Literatura; especialização em Informática para deficientes visuais e especialização em educação de surdos. Professora de Atendimento Educacional Especializado no Instituto Federal Catarinense -campus de Araquari. Atuou com alunos com baixa visão, realizando Avaliação Funcional da Visão e Estimulação Visual, no Núcleo de Tecnologias Avançadas do CAP - Centro de Apoio Pedagógico para Atendimento às pessoas com deficiência visual e, também, como professora formadora na Secretaria Municipal de Educação de Uberaba, Casa do Educador. Apresenta experiência em Atendimento Educacional Especializado na Sala de recursos multifuncionais da rede pública de ensino e também como professora de Português como segunda língua para alunos surdos. Tem experiência na área de Ensino e aprendizagem de Línguas Sobre as autoras e Educação Especial, atuando principalmente com os seguintes temas: ensino e aprendizagem de língua materna, educação a distância, alfabetização e letramento, leitura na perspectiva sociointeracionista, educação especial na perspectiva da educação inclusiva, educação de pessoas com baixa visão, cegueira e surdez, formação de professores para a educação inclusiva e para o atendimento educacional especializado. Maria Célia Borges Pós-doutorado em Educação pela FEUSP, no programa do Dpto. Filosofia da Educação e Ciências da Educação. Atualmente é Professora ASSOCIADA na Universidade Federal de Uberlândia, FACED, em Uberlândia-MG. Mestrado em Educação pela UFU. Doutorado pela PUCSP no Programa de Educação/Currículo. Graduação em Pedagogia na Faculdades Integradas de Uberaba. Especialização (lato sensu) em Metodologia do Ensino Superior, Psicopedagogia e Fundamentos da Educação. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Formação de professores, Didática e Metodologia do Trabalho Científico. Pesquisa e publica sobre os seguintes temas: Formação de Professores, Políticas Educacionais, Gestão Democrática; Educação Superior; Qualidade de Ensino e Inclusão Educacional e Social. Leciona nos cursos de graduação, pós-graduação e extensão. Coordenadora Institucional do PIBID/UFTM de 2009 a 2013. Participa em congressos com apresentação de trabalhos em várias regiões do País. Desenvolve pesquisa com projetos aprovados e financiados pela FAPEMIG e CNPQ. Docente permanente no Programa de Pós-Graduação em Educação (Mestrado em Educação) na Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), Linha Formação de professores e cultura digital. Docente Permanente no Programa de Pós-graduação Mestrado em Educação da Universidade de Uberlândia (UFU) linha Estado, Políticas e Gestão em Educação. Integrante do GPEFORM / Grupo de Pesquisas e Estudos sobre Formação de Professores e GEPPOPE / Grupo de Estudos e Pesquisas em Política, Formação Docente e Práticas Educativas. Mônica Corrêa Avelar Puertas Zafra Especialização em Psicopedagogia pela Universidade de Uberlândia, no ano de 2002 ; especialização em Metodologia do Ensino Superior , pela Faculdade do Noroeste de Minas em 2004 e especialização em Supervisão Pedagógica pela Faculdade do Noroeste de Minas, em 2008.Graduada em Pedagogia pela Universidade de Uberaba, UNIUBE, em 2000, com habilatação em Educação Especial. Selma Aparecida Feereira Costa Doutoranda em Educação pela UNESP- Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho; Mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da UNIUBE - Universidade de Uberaba. Graduada em Letras Português/Espanhol pela instituição FAZU- Faculdades Associadas de Uberaba. Graduada em Pedagogia, com habilitação em Orientação, Supervisão e Gestão escolar, pela UNIUBE. Atua como docente formadora no Departamento de Formação de Professores da Secretaria Municipal de Educação de Uberaba (SEMED). Atualmente realiza estudos e pesquisas sobre os temas: educação infantil, anos iniciais do ensino fundamental, linguagens, ensino e aprendizagem, alfabetização, literatura infantil, leitura e escrita, desenvolvimento da criança. Vívian Zerbinatti Fonseca Kikuchi Mestre em Educação pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Possui Certificação de Proficiência para o Ensino da Língua Brasileira de Sinais - PROLIBRAS, nível superior. Graduada em Pedagogia; habilitação em Educação Especial e Pedagogia; habilitação em Magistério das Séries Iniciais do Ensino Fundamental pela Universidade de Uberaba (UNIUBE) e Graduada em Letras - Português/Inglês pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM). Pós-graduada em Especialização em Psicopedagogia pela Faculdade da Região dos Lagos (FERLAGOS), Língua Brasileira de Sinais pela Faculdades Integradas de Jacarepaguá - FIJ e Atendimento Educacional Especializado pela UNESP, Campus Marília. Atua como professora da Rede Municipal desde 2001 e dedica-se à educação de surdos desde 2004. Atualmente, é professora nos cursos de Especialização em Psicopedagogia e Educação Especial/Educação Inclusiva na Universidade de Uberaba e Intérprete de Língua de Sinais na Escola Municipal Urbana Frei Eugênio. Sumário Apresentação ...................................................................................... IX Capítulo 1 A diversidade, a inclusão e as políticas educacionais ........ 1 1.1 Iniciando a nossa conversa .................................................................................... 2 1.2 Princípios que orientam a prática da educação especial: normalização, integração e inclusão .............................................................................................. 7 1.2.1 O princípioda normalização .......................................................................... 9 1.2.2 O princípio da integração............................................................................. 12 1.2.3 O princípio da inclusão ................................................................................ 27 1.3 A inclusão e a qualidade de ensino na escola pública ......................................... 40 1.4 Inclusão: utopia ou perspectiva? .......................................................................... 50 1.5 Conclusão ............................................................................................................. 57 Capítulo 2 Necessidades educacionais especiais: O que são? Por quê? Como trabalhar? ............................................. 101 2.1 Compreendendo a história das necessidades educacionais especiais ............ 103 2.1.1 Fase da fundação (1800-1930) ................................................................ 103 2.1.2 Fase de transição (1930-1936) ................................................................ 104 2.1.3 Fase de integração (1963-1980) .............................................................. 105 2.1.4 Fase contemporânea (1980-atualidade) .................................................. 106 2.2 Conceituação e descrição de dificuldade de aprendizagem, distúrbio e deficiência ....108 2.2.1 Conceituação ............................................................................................ 108 2.2.2 Descrição ....................................................................................................111 2.3 Causas ................................................................................................................ 123 2.3.1 Lesão cerebral ........................................................................................... 126 2.3.2 Alterações no desenvolvimento cerebral .................................................. 126 2.3.3 Desequilíbrios neuroquímicos ................................................................... 127 2.3.4 Hereditariedade ........................................................................................ 128 2.3.5 Influências ambientais .............................................................................. 128 2.4 Propostas pedagógicas ..................................................................................... 131 2.4.1 Primeiro passo .......................................................................................... 132 2.4.2 Conhecendo as necessidades fundamentais da criança na Educação Infantil ........................................................................................................ 135 2.4.3 A importância do estudo das funções cognitivas segundo Feuerstein para a prática pedagógica ........................................................................ 139 2.4.4 O trabalho pedagógico com os distúrbios e com a deficiência intelectual .... 142 2.5 Conclusão ........................................................................................................... 150 Capítulo 3 Interesses e necessidades de crianças superdotadas e talentosas ........................................................................ 155 3.1 Uma breve visão histórica da superdotação ..................................................... 158 3.2 Desmitificando conceitos .................................................................................... 160 3.2.1 Aspectos de notável desempenho e elevada potencialidade de crianças superdotadas e talentosas ........................................................................ 163 3.2.2 Perfis individuais em relação à superdotação/talento .............................. 164 3.3 Identificando os mais capazes .......................................................................... 169 3.3.1 Testes de inteligência (Q.I.) ....................................................................... 169 3.3.2 Técnica da autoidentificação .................................................................... 171 3.3.3 Observação com base em checklist .......................................................... 171 3.4 Aspectos emocionais e comportamentais das altas habilidades/superdotação ..... 180 3.5 Aspectos pedagógicos das altas habilidades/superdotação e talentos ............ 183 3.5.1 Formas de atender os alunos superdotados/talentosos no contexto educacional ............................................................................................... 184 3.5.2 Estratégias pedagógicas para a modificação do conteúdo curricular ..... 185 3.5.3 O atendimento oferecido pelas salas de Atendimento Educacional Especializado (AEE) – salas de recurso ................................................... 191 3.6 A superdotação, os distúrbios e as dificuldades de aprendizagem ....................... 192 3.7 Como trabalhar com os alunos superdotados em sala de aula? Qual é o papel da escola? ................................................................................................. 197 3.8 Conclusão ........................................................................................................... 202 Capítulo 4 Da teoria da mediação à prática da intervenção pedagógica ...................................................................... 207 4.1 A mediação pedagógica e a aprendizagem ....................................................... 208 4.2 Os processos de aprendizagem ......................................................................... 210 4.3 A função da intervenção pedagógica.................................................................. 212 4.4 Modificabilidade cognitiva estrutural ................................................................... 214 4.5 Intencionalidade da ação ................................................................................... 216 4.6 Mediação ............................................................................................................. 217 4.7 Prática pedagógica ............................................................................................. 219 4.8 Os dez mandamentos da aprendizagem ........................................................... 221 4.9 Teoria e prática pedagógica ................................................................................ 225 4.10 Promovendo o desenvolvimento de forma integral .......................................... 231 4.10.1 Pressupostos teóricos de Wallon ............................................................ 231 4.10.2 O movimento e o pensamento ............................................................... 233 4.10.3 Emoção e afetividade.............................................................................. 234 4.11 Postulado .......................................................................................................... 236 4.12 Conclusão ......................................................................................................... 237 Capítulo 5 Necessidades educacionais especiais e as práticas pedagógicas para a educação inclusiva das pessoas com deficiências físicas e mentais ................................. 241 5.1 Marcos históricos e normativos da educação brasileira: caminhando para uma proposta educacional inclusiva ................................................................... 243 5.2 Novo contexto educacional: um grande desafio para as escolas ...................... 247 5.3 Definição, caracterização e proposta de trabalho pedagógico referente às deficiências físicas e mentais ............................................................................. 249 5.3.1 Deficiência física ....................................................................................... 249 5.3.2 Deficiência mental..................................................................................... 252 5.4 Proposta de trabalho pedagógico ....................................................................... 255 5.5 Atendimento educacional especializado para pessoas com deficiência física ...... 257 5.6 Atendimento educacional especializado para pessoas com deficiência mental ... 262 5.7 Conclusão ........................................................................................................... 265 Capítulo 6 Necessidades educacionais especiais e as práticas pedagógicas para a educação inclusiva das pessoas com deficiência sensorial ................................................ 271 6.1 Os sistemas sensoriais ....................................................................................... 273 6.1.1 A estimulação sensorial na perspectiva inclusiva ..................................... 274 6.2 Práticas pedagógicas: necessidades educacionais especiais – deficiências sensoriais – educação inclusiva ......................................................................... 278 6.2.1 Crianças cegas e com baixa visão ....................................................................278 6.2.2 A prática pedagógica com o aluno que apresenta deficiência visual – cegueira .................................................................................................... 281 6.2.3 A prática pedagógica com alunos que apresentam deficiência visual – baixa visão ................................................................................................. 285 6.2.4 A prática pedagógica com alunos que apresentam deficiência visual e surdez – surdocegueira ............................................................................. 287 6.2.5 A prática pedagógica com alunos que apresentam surdez ...................... 295 6.2.6 A prática pedagógica com o aluno que apresenta deficiências múltiplas . 298 6.3 Educação inclusiva ............................................................................................. 299 6.4 Conclusão .......................................................................................................... 300 Nas últimas décadas, o nosso país tem passado por mudanças significativas, principalmente, no que se refere à organização educacional. Neste sentido, a universalização do ensino, a equidade de condições e a educação de qualidade para todos têm sido um desafio constante para toda sociedade, principalmente, para docentes e equipes pedagógicas das instituições de ensino, requerendo, desses profissionais, a formação pedagógica em consonância com o reconhecimento e respeito à diversidade humana. Neste livro discutiremos temas atuais e que muitas vezes também são polêmicos porque inquietam os profissionais da educação que assumem o compromisso da consolidação da educação de qualidade para todos. É por isso que convidamos você, prezado estudante, para fazer parte deste desafio: refletir, discutir, analisar e efetivar, na prática, a perspectiva da educação inclusiva. Para tanto, discutiremos sobre o processo histórico percorrido pela sociedade para compreender o caminho da inclusão e ainda ressaltaremos a construção das políticas públicas desse segmento. Abordaremos assuntos referentes ao ato de ensinar, de aprender e, sobretudo, de conviver com a diversidade humana. Caracterizaremos os alunos com necessidades educacionais especiais e alguns dos elementos essenciais para atendê-los dentro do contexto educacional, entre outros temas relacionados. Iniciaremos nossas reflexões com a temática A diversidade, a inclusão e as políticas educacionais. Nesse capítulo propomos algumas reflexões acerca da política de educação inclusiva como um ideário a ser construído para a conquista de mais qualidade na educação de todos. É necessária a compreensão de conceitos, de discursos das políticas educacionais Apresentação XII UNIUBE e das contradições que se apresentam na sua concretização. Faz-se necessário que você perceba a relação entre a inclusão educacional e social e o que implica a garantia de uma escola qualidade para todos. Por isso, no capítulo Necessidades Educacionais Especiais: O que são? Por quê? Como trabalhar?, abordamos o caminho histórico das dificuldades de aprendizagem. Refletimos sobre as terminologias utilizadas para a descrição de casos de dificuldade aprendizagem, distúrbios e deficiências, bem como a diferenciação entre eles. Analisamos algumas práticas docentes, refletindo sobre aquelas que não podem mais ser consideradas adequadas aos casos estudados. No capítulo, Interesses e necessidades de crianças superdotadas e talentosas, a autora mostra os fatores inerentes ao reconhecimento, à identificação, à compreensão, à orientação e, sobretudo, à atuação pedagógica que tem como meta a estimulação das potencialidades, dos talentos destes alunos. Tendo como foco, também, a formação docente comprometida com a educação inclusiva. No capítulo Da teoria da mediação à pratica da intervenção pedagógica, as autoras promovem uma reflexão sobre a mediação e a intervenção pedagógica como forma de potencializar o processo de ensino-aprendizagem das crianças. Tendo como foco a mediação e a intervenção docente de modo a privilegiar as potencialidades dos educandos. O capítulo Necessidades Educacionais Especiais e as Práticas Pedagógicas para a Educação Inclusiva das pessoas com deficiências físicas e mentais convida você para refletir sobre as pessoas com deficiência, não com o olhar da limitação ou incapacidade, que muitas vezes estamos habituados a enxergar, mas por meio do olhar da possibilidade, da potencialidade. Auxilia-o a compreender os conceitos de deficiência física e deficiência intelectual, além de proporcionar a análise de algumas das práticas pedagógicas existentes nesse campo de atuação. UNIUBE XIII Por fim, no capítulo Necessidades educacionais especiais e as práticas pedagógicas para a educação inclusiva das pessoas com deficiência sensorial, refletimos sobre a relação da prática pedagógica e as deficiências sensoriais, como forma de favorecer sua formação no enfrentamento de efetivar, na prática, a educação inclusiva. Neste capítulo, a ênfase será dada nas reflexões sobre a relação existente entre práticas pedagógicas, educação inclusiva e deficiências sensoriais e na utilização dos sentidos para conhecimento e relacionamento com o mundo. Ao tratar desses assuntos, esperamos oportunizar a compreensão da importância da docência na concretização de uma educação inclusiva, colaborando para o respeito e o reconhecimento da diversidade humana. E, esperamos que você, ao final desses estudos, compreenda os princípios da Educação Inclusiva e se utilize deles como forma de subsidiar e sustentar a práxis pedagógica fundamentada no desenvolvimento integral das potencialidades dos educandos. Bons estudos!!!! Neire Márcia da Cunha Maria Célia Borges Introdução A diversidade, a inclusão e as políticas educacionais Capítulo 1 Iniciaremos este componente curricular estudando a diversidade humana e suas diferentes manifestações na Educação. Também abordaremos o processo histórico percorrido pela sociedade para compreender o caminho da inclusão e ainda ressaltaremos a construção das políticas públicas desse segmento. Em seus estudos anteriores é possível que você tenha percebido que o conceito ou a concepção de aprendizagem é diversificada de acordo com o pensamento, cultura e o tempo social em que a sociedade está inserida. Para tanto, durante todo este capítulo, conversaremos aprofundando o tema por acreditar que docentes e pedagogos fazem parte dessa mudança de paradigma em relação à inclusão. Objetivos Com este capítulo, esperamos que você possa: • compreender a diversidade humana como uma riqueza no cotidiano das escolas e não como diferenças que rotulam e estigmatizamos educandos; • distinguir a diferença entre os conceitos de normalização, integração e inclusão escolar; • analisar criticamente os conceitos ou discursos das políticas educacionais e as contradições que se apresentam na sua concretização; 2 UNIUBE • relacionar o conceito de inclusão educacional e social com a garantia de uma escola de boa qualidade, para todos; • formular conceitos educacionais que valorizem a potencialidade dos alunos sem acentuar suas diferenças; • reconhecer a política de educação inclusiva como um ideário a ser construído para a conquista de mais qualidade na educação de todos. Esquema 1.1 Iniciando a nossa conversa 1.2 Princípios que orientam a prática da educação especial: normalização, integração e inclusão 1.2.1 O princípio da normalização 1.2.2 O princípio da integração 1.2.3 O princípio da inclusão 1.3 A inclusão e a qualidade de ensino na escola pública 1.4 Inclusão: utopia ou perspectiva? 1.5 Conclusão Iniciando a nossa conversa1.1 Na concepção da escola tradicional o ensino era ministrado de forma mecânica, centrado no professo, e o aluno era considerado um indivíduo passivo. Além disso, a escola não era democrática, e, sim, privilégio de alguns. Nesse modelo, os educadores não tinham acesso às teorias educacionais e psicopedagógicas e, na prática pedagógica, o ensino era o mesmo para todos. A concepção era de que todos aprendiam no mesmo UNIUBE 3 tempo e no mesmo espaço, com uma metodologia única. Como consequência, a escola tornou-se seletiva e excludente. Com o avanço do processo de industrialização, a criação de leis e a reivindicação da população para a conquista da “escola para todos”, a escola, aos poucos, vai se tornando mais democrática. O aumento do número de alunos tem, como consequência, a diversidade de educandos. Diante disso, cresce o desafio dos professores no sentido de “ensinar tudo a todos”, como disse Comênio na Didática Magna. Psicopedagógicas: aplicação dos princípios da Psicologia à Pedagogia visando ao sucesso do aluno e mais qualidade de ensino. Relacionam ser á busca da compreensão do desenvolvimento da criança e de suas anormalidades, buscando alternativas que possam contribuir para o desenvolvimento cognitivo, socioafetivo e psicomotor dela, de forma preventiva, ou mesmo para a intervenção de dificuldades instaladas consideradas patológicas. Seletiva e excludente: diz-se da escola que seleciona, dando oportunidade só para alguns, e, desse modo, exclui, permitindo a evasão escolar por meio da expulsão da maioria dos educandos do seu direito de estudar e aprender. Comênio na Didática Magna: o conhecimento sobre como se processa o ensino, a aprendizagem e suas leis só ocorreu no século XVII, quando João Amós Comênio (1592-1670) escreve a primeira obra clássica sobre Didática, a “Didacta Magna”. SAIBA MAIS Caso queira saber mais sobre Comênio, sugerimos a leitura: “Comenius”, na página : <http://pt.wikipedia.org/wiki/Comenius>. PESQUISANDO NA WEB 4 UNIUBE Diversidade Qualidade do diverso; variedade (em oposição à identidade); multiplicidade. Heterogeneidade Caráter daquilo que é heterogêneo; diferente, diverso. Assim, com a democratização do ensino escolar, temos uma diversidade de alunos matriculados em nossas escolas. Nossa hipótese inicial é de que a escola se abriu para atender outros grupos sociais e, para dar conta de sua missão, precisa se abrir também para o diálogo com novos conhecimentos. Mas, será que esse modelo tradicional foi superado? E o que significa essa tal diversidade? Devemos compreender a diversidade como riqueza, e não como diferença. Pois, entendemos por diversidade na escola as crianças de diferentes classes sociais, gêneros, etnias e raças, credos e valores, culturas, histórias de vida e, consequentemente, crianças que constroem o seu aprendizado de diferentes formas, ritmos e tempos. Então, em uma classe ou turma de alunos, o que temos é a heterogeneidade, pois não há como reunir pessoas iguais quando todos nós somos diferentes. Embora possamos ter algumas características comuns, é a singularidade que nos dá a identidade de cada um. Por conseguinte, com o aumento do número de alunos na escola, aumenta também o número de crianças com história de fracasso escolar. O cotidiano da escola brasileira encontra-se marcado pelo fracasso e pela evasão de uma parte significativa de seus alunos, os quais são marginalizados pelo insucesso, pelas privações que sofrem como consequência da falta de qualidade na educação como um todo. E, ainda, “continuamos a discriminar os alunos que não damos conta de ensinar.” (MANTOAN, 2003, p. 28). Assim, o Sistema Educacional democratizou o acesso à escola, porém ainda não conseguiu garantir o acesso à aprendizagem para todos. UNIUBE 5 Em 1994 foi promulgada a Declaração de Salamanca, na Espanha. Esse documento resultou de um encontro entre 92 governos e 25 organizações internacionais de diferentes países que se reuniram em Salamanca e reafirmaram o compromisso para com a Educação para Todos; defendendo o direito de todas as crianças, jovens e adultos com necessidades educacionais especiais, receberem o ensino de qualidade, na escola comum. Diante do grande desafio, o MEC (Ministério da Educação e Cultura) também aderiu ao Projeto de Inclusão Educacional, buscando alternativas para melhorar a qualidade de ensino. • Mas, o que significa inclusão escolar? • É o mesmo que integração? • E normalização? • Qual é a diferença entre tais conceitos? Passamos a discutir agora os princípios filosóficos que têm norteado as políticas públicas da Educação Especial no Brasil, bem como os principais pressupostos que têm orientado e subsidiado as práticas educacionais dessa área do conhecimento. A discussão desses princípios faz-se importante no nosso trabalho, pois tanto o processo de escolarização quanto o percurso histórico dos alunos egressos da Educação Especial dependem do entendimento das leis e dos princípios que orientam a prática educacional nessa área. Simultaneamente, a partir das modalidades de atendimento existentes no interior do sistema educacional, verificamos a relação e as contradições existentes entre o discurso e as formas de materialização destes princípios. 6 UNIUBE As teorias podem ter conceitos diferentes entre os diversos pesquisadores. Isso varia devido à concepção teórica que orienta a busca de conhecimentos e a visão de mundo de cada um. Também são influenciadas pelo contexto histórico e econômico. É importante ter claro que os conceitos evoluem com o tempo e, assim, são redimensionados e aperfeiçoados. Por exemplo, sobre a criação da Luz (Figura 1). Por isso, é importante ficar atento, ler criticamente, comparar conceitos e discutir as teorias com seus autores. IMPORTANTE! Figura 1: Criação da Luz. Fonte: Wikipédia, 2010. UNIUBE 7 1.2 Princípios que orientam a prática da educação especial: normalização, integração e inclusão A seguir, discutimos as principais tendências ou os princípios filosóficos que orientam a prática educacional da educação especial. São eles: a normalização, divulgada a partir de 1950, a integração, em 1970, e a inclusão, em 1975, todas elas objetivando orientar a filosofia de atendimento ao aluno com necessidades educativas especiais (NEE). Mas, por que a discussão de tais pressupostos? Percebemos que os preceitos que orientam o trabalho com as pessoas com NEE foram se aperfeiçoando e, desta forma, alterando a sua nomenclatura e a sua forma ao longo do processo histórico. Julgamos, pois, importante fazer uma retrospectiva desses princípios, visando compreender as suas diferenças e semelhanças, como também as contradições presentes em cada um deles. Inicialmente, podemos afirmar que a base que sustenta os discursos presentes nos princípios filosóficos da Educação Especial é a defesa da democratização da sociedade, a crença na “igualdade de oportunidades” e a “participação”social e do direito de todos à “educação de qualidade”. Estas bases coincidem com os fundamentos do liberalismo, que advogam que: “todos são iguais”, que é preciso ter “igualdade de oportunidades” e que a “educação é para todos” e ainda com a pretensão de que a “educação deve visar à unidade de cultura, unidade de espírito, homogeneidade nacional”. 8 UNIUBE Essas são ideias liberais divulgadas em conferência proferida na Escola Normal de São Paulo, em 24 de agosto de 1916, p. 19-54 (CARNEIRO LEÃO, 1917, p. 19-54). Estes princípios conduzem também à ideia da “incorporação de crianças com necessidades educativas especiais no ensino regular” (BUENO, 1999, p. 8), para que todos possam aprender juntos e igualmente. Além disso, estes preceitos defendem a justiça, a igualdade de direitos e o resgate da cidadania, que possibilitariam a todos, indistintamente, o direito à participação e à fruição de todos os bens da sociedade. Esse discurso, que regularmente poucas pessoas se posicionam contra, necessita ser discutido na tentativa de explicitar os seus limites, pois, no nosso modo de entender, os discursos nem sempre coincidem com a prática. CURIOSIDADE Liberalismo “A doutrina que tomou a si a defesa e a realização da liberdade no campo político. Tal doutrina nasce e se afirma na Idade Moderna e pode ser considerada dividida em duas fases: 1ª A fase do séc. XVIII, caracterizada pelo individualismo; 2ª a fase do séc. XIX caracterizada pelo estatismo”. ABBAGNANO, Dicionário de Filosofia, 1962, p. 576; Ainda : “a história do Liberalismo acha-se intimamente ligada à história da democracia (...) O Liberalismo é um fenômeno histórico que se manifesta na Idade Moderna e que tem seu baricentro na Europa ...” BOBBIO, Dicionário de Política, 1986, p. 686-687. SAIBA MAIS UNIUBE 9 1.2.1 O princípio da normalização Este princípio surgiu na Dinamarca, por volta de 1950, como estudos e pesquisas sobre o atendimento educacional das pessoas com necessidades especiais (PEREIRA et al 1980, apud MOUSSATCHÉ, 1997, p. 11). O conceito de normalização, cuja orientação só chega ao Brasil por volta de 1970, defende a ideia de possibilitar aos deficientes condições de vida normal, assemelhando-se com a de todos os outros indivíduos considerados não deficientes. Em documento oficial, o conceito de normalização vem expresso nos seguintes termos: Princípio que representa a base filosófico-ideológica da integração. Não se trata de normalizar as pessoas, mas sim o contexto em que se desenvolvem, ou seja, oferecer, aos portadores de necessidades especiais, modos e condições de vida diária o mais semelhantes possível às formas e condições de vida do resto da sociedade. (BRASIL, 1994, p.22). Os signatários deste princípio sustentam a ideia de que as crianças com NEE devem ser educadas num ambiente normal. Tem a intenção de igualar a todos no modelo padrão daqueles que são considerados normais, por representarem a maioria, e oferecer ao educando NEE ambiente e recursos materiais o mais semelhante possível aos dos demais educandos. Com isso, seu objetivo é o atendimento da pessoa com deficiência de forma menos segregadora. Contudo, a ideia de “criar um ambiente o mais parecido possível com o das outras pessoas na sociedade” tem sido interpretada por alguns como a criação de um mundo separado onde houvesse moradia, escola, trabalho e lazer, totalmente adequados e adaptados para atender as pessoas com necessidades especiais. É a ideia de que existe possibilidade de fazer com que o diferente se torne igual à maioria das pessoas. Signatários Que ou aquele que assina um documento, carta, recibo, etc. Defensor de uma ideia. 10 UNIUBE Para a concretização desse princípio, a realidade mostra que foram instaladas várias escolas e classes especiais, houve um esforço para eliminar as barreiras arquitetônicas dos prédios e ambientes educacionais como também na sociedade em geral. Além disso, existiu – e existe – uma preocupação com a formação de professores especialistas e com os recursos materiais e didáticos para atender às necessidades desses alunos. Contudo, muito pouco se fez ainda diante da necessidade de se oferecer atendimento à demanda existente e de forma adequada ao aluno com necessidades especiais, muitas vezes completamente excluído do sistema escolar. À esteira de MANTOAN (1998), o conceito de normalização pretende tornar acessíveis às pessoas socialmente desfavorecidas as mesmas condições e recursos que estão disponíveis apenas para um pequeno grupo da sociedade. Segundo esta autora, trata-se de um novo paradigma para a compreensão das relações entre as pessoas, adotando medidas que visam à eliminação de toda e qualquer forma de rotulação e estigmatização. O ideário da normalização revela-se, desse modo, bastante utópico, diante de nossa realidade tão desigual. Por outro lado, CARMO (1998) se posiciona em outra perspectiva, quando afirma que o ideário de normalização, dissemina a ideia de que é possível igualar o desigual, reproduzindo assim, fielmente, a concepção liberal burguesa, que em sua forma mais bem acabada, afirma ser possível, em nível de abstração através de leis e /ou outros instrumentos jurídicos, igualar os homens entre si. Esta visão de homem e sociedade não tem permitido que se perceba que o problema não está em tornar igual o desigual, mas sim em fazer com que os homens compreendam dinamicamente a igualdade na diferença e a diferença na igualdade. (CARMO, 1998, p. 391). Estigmatização Do verbo estigmatizar. Marcar com estigma. Rotular. Condenar. Verberar. Ideário Coletânea de ideias. Feixe de ideias. Exposição de ideias que traduzem um conceito. UNIUBE 11 A base de sustentação deste autor é a construção social alicerçada na desigualdade, fruto da relação capital x trabalho. Nessa sociedade, a forma como os homens se relacionam e produzem as suas riquezas resulta em classes sociais antagônicas, em que há uma minoria de pessoas privilegiadas com os bens sociais e econômicos e uma maioria carente de todos esses recursos. Com base nos dados coletados, o Atlas aponta que 42% dos municípios brasileiros, o equivalente a 21% da população brasileira, estão em situação de exclusão social. Já era esperado que grande parte estivesse nessa situação. Mas não deixa de surpreender o número de municípios que estão excluídos. Apenas 200 municípios estão em boas condições, boa parte está apenas em condições intermediárias e a maioria ainda está em condição de exclusão”, [...] Assim o levantamento aponta que mais de 25% dos brasileiros vivem em condições precárias, com baixa renda, sem emprego formal e baixo acesso à educação. (POCHMANN; AMORIM, 2003, p. 13). A desigualdade entre os homens começa, então, pelas relações de posse e poder. Por isso, as “condições dadas objetivamente que determinam o modo de produção, e em consequência a organização social, determinam o homem, suas ideias, assim como seus interesses”. (FROM, 1983, p. 22). Na nossa percepção, tal princípio tornou-se contraditório, pois notamos que o mesmo discurso que afirma que não devemos normalizar as pessoas afirma também que todos devem viver do mesmo jeito. Não se percebe que é impossível dar uma vida normal e igual para todos, quando não se pode tornar igual o desigual. Este princípio, portanto, dificilmente será alcançado tendo em vista a desigualdade estrutural da sociedade. Acreditamos que a ideia de melhorar as condições de vida das pessoas com necessidades especiais Antagônicas Em que há antagonismo. Oposto. Contrário. 12 UNIUBE é muito justa, porém, insuficiente, pois a melhoria das condições de acesso aos diferentes setores sociais não ocorrerá caso mudanças na estrutura política, econômica e social não aconteçam em nosso país. Portanto, a inclusão educacional depende da inclusão social e de distribuição de renda mais justa, em nosso país. 1.2.2 O princípioda integração Um outro princípio é o da integração, cuja divulgação ocorreu, no Brasil, depois dos anos setenta. Segundo Saint-Laurent (1997), o termo nasceu nos países escandinavos, precisamente na Dinamarca, mas se desenvolveu nos Estados Unidos. Em seguida, o Canadá juntou- se ao movimento, idealizado para atender aos objetivos da corrente integracionista em defesa dos alunos portadores de alguma deficiência ou com dificuldades específicas na aprendizagem. Oficialmente, a integração nos dias atuais é entendida como “um processo dinâmico de participação das pessoas num contexto relacional, legitimando sua interação nos grupos sociais. A integração implica reciprocidade” (BRASIL, 1994, p. 18). Por isso, “não podemos confundir integrar, que significa fazer seu ou participar de, com integrar entendido no sentido de fazer um elemento entrar num conjunto.” (VAYER & RONCIN, 1989, p. 61). Portanto, inserir e integrar tem significados diferentes. O primeiro diz respeito à entrada de um elemento num determinado espaço, e o segundo refere-se à participação do sujeito num dado ambiente, no qual possa se sentir como componente ativo, no seu espaço, onde teria condições de envolver-se nas atividades com liberdade e prazer. UNIUBE 13 Há documentos oficiais que apresentam os conceitos aqui discutidos. Confira no site do MEC sobre Educação Especial ou Educação inclusiva. Sugestão do documento: BRASIL.MEC.SEESP. Política Nacional de Educação Especial, 1994, p. 18. IMPORTANTE! Historicamente, o vocábulo integração é um termo complexo que recebeu diferentes interpretações. Segundo Saint-Laurent (1997), o termo passou por um processo de evolução distinguindo-se em fases distintas, as quais abordaremos em seguida. O primeiro momento da integração deu-se por volta de 1970, momento no qual a modalidade e o atendimento da Educação Especial ficaram organizados em formas diferenciadas dependendo da capacidade dos alunos. Desse modo, por um lado, os alunos com dificuldades leves (dificuldade de aprendizagem, distúrbios de comportamento, deficiência intelectual leve) foram encaminhados para as classes regulares, sem deixar de receber apoio pedagógico complementar. Por outro, os alunos diagnosticados com deficiências graves (déficit intelectual moderado e severo, deficiências múltiplas etc.) foram encaminhados para a classe especial na escola regular. Em ambos os casos, acreditava-se estar vivenciando a integração escolar, pois todos os alunos poderiam estar inseridos na mesma escola regular, sendo atendidos ora na classe comum, ora na classe especial. No segundo momento, por volta dos anos 80, a discussão do tema relacionado à Educação Especial se intensifica. A classe regular torna-se reconhecida como o ambiente pedagógico mais indicado para os alunos com NEE, sem desprezar o apoio pedagógico extra, em sala de recursos e em turno diferente. Porém, ainda com restrições àqueles alunos que apresentavam um déficit intelectual maior e para os quais a escola regular sutilmente indicava uma instituição especializada, que, segundo seus preceitos, seria mais propícia para a criança mais lesada. 14 UNIUBE Numa perspectiva crítica, acerca da integração, destacamos a afirmação de que a “integração escolar, cuja metáfora é o sistema de cascata, é uma forma condicional de inserção em que vai depender do aluno, ou seja, do nível de sua capacidade de adaptação às opções do sistema escolar, a sua integração, seja em uma sala regular, uma classe especial, ou mesmo em instituições especializadas. Trata-se de uma alternativa em que tudo se mantém, nada se questiona do esquema em vigor”. (MANTOAN, 1997, p. 8). Notamos que a autora denuncia a visão acrítica da escola, na defesa ingênua de alguns que consideram que esta, na forma como está organizada, tem sido eficiente no cumprimento de todos os seus objetivos. MANTOAN (1998), em outro momento de seus estudos, coloca que uma das opções de integração escolar denomina-se “mainstreaming”. Este modelo defende a ideia que todos os alunos, inclusive os com necessidades especiais, devem ter acesso à educação, cuja formação deve ser adaptada às suas necessidades específicas. A autora afirma, ainda, que este termo representa uma estrutura que recebeu o nome de “sistema de cascata” por objetivar tornar o “ambiente o menos restritivo possível”, oportunizando ao aluno a chance de transitar no “sistema”, da classe regular ao ensino especial. Outro autor que discute esta questão é Sassaki (1997), que acerca da “mainstreaming” diz ser um termo que “tem sido utilizado sem tradução e que significa levar os alunos o mais possível para os serviços educacionais disponíveis na corrente principal da comunidade”. (ASSAKI, 1997, p. 32). Dessa forma, pode variar a modalidade de atendimento oferecida ao aluno que possua alguma deficiência, de acordo com as necessidades do aluno. Assim, ele pode ser inserido com os alunos da escola regular na hora das refeições ou em atividades específicas, tais como aulas de dança, música, artes e educação física, como também em atividades extracurriculares organizadas pela escola. UNIUBE 15 Outra forma de inserção do aluno com NEE existente, e que foi abordada pelo mesmo autor, é a colocação do aluno “com deficiência” em diversas classes, apenas por alguns momentos, e em determinadas aulas ou atividades. Contudo, o aluno com necessidades educativas especiais, na verdade, não pertenceria a nenhuma turma, ocorrendo apenas “momentos” de inserção. Notamos que o sistema de cascata prevê, assim, serviços segregativos que não batem com os objetivos da normalização. Na realidade, a criança continua segregada na turma especial, ocorrendo apenas alguns momentos de “socialização” com os outros alunos ditos “normais”. A forma de inserção depende do aluno, ou seja, do nível de capacidade de adaptação deste às opções oferecidas pelo sistema escolar: nas escolas regulares, em sala comum ou na sala especial, e ainda em escolas ou em instituições especializadas. Portanto, ao mesmo tempo que a abordagem integracionista advoga a inserção dos alunos “deficientes” no sistema educacional, defendendo a igualdade de direitos e a democratização do ensino, advoga também o encaminhamento dos alunos mais lesados para as escolas especializadas, assumindo assim o despreparo da escola regular para atender tais alunos, como também a aceitação da segregação. A integração na escola comum, portanto, não é para todos os alunos com necessidades especiais, mas somente para aqueles que se adaptarem às classes regulares. Os demais serão encaminhados para escolas ou salas especiais. Para alguns autores como Beaupré (1997), “integrar é realizar estratégias pedagógicas para que uma pessoa com deficiência tenha acesso a um sistema de educação que corresponda às suas capacidades intelectuais e motoras”. E acrescentam ainda que os “professores sejam acompanhados com relação às suas reações perante os alunos deficientes” (BEAUPRÉ, 1997, p. 163-164) e para que estes consigam realizar um trabalho de qualidade atendendo às diferenças é necessário que lhes seja oferecido, além do apoio e orientações, o aperfeiçoamento contínuo. 16 UNIUBE Santos (1997) coloca que, para a integração dos alunos no ensino regular, torna-se “exigência que todos os professores se atualizem” (p.130) e reforça a ideia afirmando que “é preciso instrumentalizar o professor para saber trabalhar diversificado em sala de aula, porque a realidade não é homogênea”. (p. 131). Para essa autora, o investimento no professor, tão explicitado nos comícios e discursos políticos no Brasil, seria o caminho necessário para a melhoria da qualidade da educação geral. Concordamos com os autores acima citados, que afirmam que a formação e o aperfeiçoamento contínuo dos professores são de suma importância. Porém, percebemos que só isto não basta, pois a formação e a atualização dos professoresnão são suficientes para mudar a concepção de uma sociedade alicerçada pelos pilares da desigualdade. A questão envolve outros fatores, ligados ao modelo de organização da nossa sociedade capitalista, tais como a estrutura da escola brasileira. Comumente, as pessoas entendem a integração simplesmente como a inserção dos alunos com necessidades especiais nas classes regulares, sem o adequado suporte de apoio, o preparo dos profissionais, os recursos adequados e a assistência ao aluno. Assim, a integração só seria possível com o suporte e o apoio necessários. Caso contrário, corre-se o risco de inserir a criança na classe regular e ela continuar segregada na própria classe. A maioria dos autores que defendem a integração defendem também a ideia de se propiciar um atendimento diferenciado – em nível pessoal, didático ou metodológico – às crianças da Educação Especial. No entanto, quando cria tais serviços, organizando recursos pedagógicos e didáticos especializados, a escola regular está sendo contraditória em relação aos seus princípios, pois já está tratando de forma diferente aqueles que recebeu como iguais. Percebemos, desse modo, que existe uma “ambiguidade provocada pelo desejo de integrar quem é diferente e a noção de necessidades específicas...” (VAYER & RONCIN, 1989, p. 61). UNIUBE 17 Nesse sentido, Moussatché (1997) expõe seu ponto de vista dizendo que “colocar na mesma sala de aula grupos heterogêneos como crianças autistas com retardo mental e crianças normais não serve para a integração, por não haver como conciliar em um mesmo espaço demandas tão diferentes e específicas”. O autor vem confirmar então que colocar grupos diferentes no mesmo espaço físico exige tratamento diferenciado, uma vez que não é possível tratar como igual aquele que é diferente. Para atender a essa ideia, existe a defesa do respeito às diferenças, o atendimento às diferenças individuais. Dessa forma, torna-se difícil tratar igual à maioria aqueles que necessitam de atendimento diferenciado. Portanto, o mesmo discurso que defende a ideia de que todos são iguais e devem ser tratados como iguais, com os mesmos direitos, defende também a ideia de que cada indivíduo é único, aprende de maneira diferente e, por isso, é preciso ensinar com métodos e recursos diferentes, para atender às diferentes necessidades individuais. Apresentando outro ponto de vista, alguns autores discutem a questão da diversidade humana. Mantoan (1997) coloca que a “diversidade no meio social é, especialmente no ambiente escolar, fator determinante do enriquecimento das trocas, dos intercâmbios intelectuais, sociais e culturais que possam ocorrer entre os sujeitos que neles interagem”. Nesse mesmo sentido, Moussatché (1997) denuncia a dificuldade da sociedade em lidar com a diversidade humana, percebendo-a como uma incompletude. Em outro sentido, Mader (1997) diz que cada vez mais a diversidade está sendo vista como algo natural. Concordamos que a diversidade humana concreta nos leva ao reconhecimento das diferenças. Contudo, não aceitamos a defesa de que somente o reconhecimento das diferenças possa conduzir a atitudes de cooperação entre as pessoas e promover a verdadeira integração dos 18 UNIUBE deficientes e dos homens entre si. Pois é no sistema educacional e na sociedade em que vivemos que a concepção de mundo e de homem é reforçada pelos preceitos da sociedade capitalista, sustentada nas desigualdades sociais. Estas não podem ser superadas apenas pela “aceitação” imatura e irrefletida da diversidade humana, fazendo com que o conceito de diversidade venha a ser compreendido como um sustentáculo das desigualdades. Como se materializa, no cotidiano do sistema educacional, o princípio de integração? Constatamos que, no Brasil, na evolução histórica do processo educacional dos alunos com NEE, orientada pelo princípio de integração, foram feitas várias tentativas de inserção desses alunos no sistema educacional. E, para atender à orientação desse princípio, foram criadas várias modalidades de atendimentos como as salas especiais, as salas de recursos, o professor itinerante, nas Escolas Comuns e nas Escolas Especiais. No Estado de Minas Gerais, especificamente, todos esses atendimentos estão regulamentados e orientados pela Resolução nº 213/75, pelo Parecer nº 212/75 e pela Instrução da Secretaria do Estado da Educação número 001/1992. A primeira diz no inciso 2º do Art. 1º que deverá o “sistema estadual de ensino incentivar a organização de centros ou serviços” para a educação especial e continua no Art. 5º inciso 2º dizendo que as “escolas ou classes especiais criadas pelo poder público terão tipologia, quadro de pessoal e número de alunos por classe, adequados à natureza do trabalho que realizem de acordo com legislação específica e as normas baixadas pela Secretaria de Estado da Educação”. UNIUBE 19 A segunda orientação é a do Parecer nº 212/75, que atende a essa determinação trazendo as diretrizes sobre a clientela, currículo, regimento e princípios da educação especial do Estado. Destacamos o seu Art. 6º letra b, em que há a previsão da “criação de novos estabelecimentos...” e ainda afirma que o “parâmetro não será o ensino regular, e sim a satisfatória qualidade do conjunto de condições.” A terceira orientação que destacamos no Estado de Minas Gerais é a Instrução 001/92, que diz: as escolas da rede regular de ensino poderão receber alunos portadores de deficiência sensorial, mental, física e múltipla, devendo, para isto, garantir o acompanhamento especializado (...) as escolas ou grupo de escolas receberão assistência dos serviços de educação especial... E essa mesma instrução também apresenta as alternativas de atendimento da Educação Especial, dentro da escola comum de ensino regular. A escola regular cria, então, serviços de apoio para tentar igualar o aluno especial ao nível dos demais. Os serviços de apoio se concretizam na criação de Salas de Recursos e de Oficina Pedagógica de Artes ou semiprofissionalização, presentes na escola regular ou especial, visando à complementação e ao apoio ao trabalho realizado na sala de aula do ensino regular. São as seguintes formas de atendimento apresentadas, buscando atender ao pressuposto da integração do educando com necessidades educativas especiais, no ensino regular: 1. A Turma Comum de ensino regular com número reduzido de alunos (20-25), para que se possa atender às necessidades dos educandos com necessidades educativas especiais, em qualquer faixa etária ou nível de ensino. 20 UNIUBE 2. Na turma especial, onde o professor especializado pode atender de 8 a 15 alunos com organização curricular e metodologias alternativas. 3. O Ensino Itinerante, o qual o professor especializado ou a equipe multidisciplinar itinerante se deslocam periodicamente, objetivando dar o suporte e o apoio ao aluno matriculado na turma regular de ensino bem como orientações ao seu professor. 4. A Sala de Recursos, que dispõe de recursos didáticos apropriados, equipamentos e professor especializado para dar o apoio e complementar o trabalho realizado na sala de ensino regular. Os atendimentos devem ser organizados individualmente quando necessário ou com grupos de até 8 alunos com necessidades educativas especiais, com atendimentos de 50 minutos a 2 horas. 5. As Oficinas Pedagógicas profissionalizantes ou semiprofissionalizantes existem para desenvolver atividades extracurriculares, objetivando instrumentalizar o educando com necessidades educativas especiais, com mais de 14 anos e com acentuadas dificuldades acadêmicas para uma profissão, facilitando a sua integração social. 6. As Oficinas de Artes são destinadas ao trabalho da “criatividade, da aprendizagem das artes, e ao trabalho manual como atividade curricular”. 7. O NAPE (Núcleo de Assistência Psicopedagógica Educacional) é um conjunto de serviços de apoio pedagógico especializado implantado juntoa uma escola estadual para oferecer diagnóstico e atendimento educacional especializado ao portador de deficiência para facilitar o processo ensino – aprendizagem. UNIUBE 21 Desses serviços autorizados pela referida instrução, por algum tempo, o mais comum, encontrado na escola regular, foi a turma especial. Neste modelo, reúnem-se, num mesmo espaço, as crianças com “problemas” e “deficientes”, que inevitavelmente se tornam segregadas e estigmatizadas pela própria comunidade escolar. Você conhece algumas das formas de atendimento citadas acima? Já teve alguma experiência com alguma delas? Troque com outras pessoas e registre a síntese dessa discussão em seu caderno. PARADA PARA REFLEXÃO Em síntese, a escola regular não consegue atender o aluno com NEE, sem discriminá-lo. Pois, ao separá-lo e tratá-lo de maneira diferente dos demais, chama a atenção para as suas diferenças. Assim sendo, a escola não consegue atender o aluno especial com eficiência de modo que possa elevar a sua autoestima e lhe propiciar o avanço na aprendizagem. Ela não se encontra preparada quanto aos recursos físicos, materiais e humanos. Diante do impasse, a escola regular encaminha esses alunos para a escola especial isentando-se da responsabilidade. É importante lembrar que os atendimentos oferecidos pelas instituições especializadas também respondem ao princípio da integração, por receberem as crianças PNE que não se adaptaram à escola regular, e, por isso, estariam ou poderiam estar fora da escola. Por conseguinte, o atendimento do educando NEE realizado em instituições de Educação Especial é, da mesma forma, orientado pela Instrução 001/1992, da SEE de Minas Gerais, para a efetivação em Escolas Especiais e em Centros de Educação Especial. A primeira é a instituição que 22 UNIUBE Dispõe de instalação, equipamentos, recursos didáticos específicos, e professores especializados para prestar atendimento a educandos portadores de acentuado grau de deficiência, sem condições de serem beneficiados temporariamente pelos serviços de educação especial oferecidos pela escola da rede regular de ensino. A escola especial, por sua vez, diferentemente da escola regular, fundamenta-se nos princípios filosóficos das diferenças individuais. Defende a ideia de que cada sujeito apresenta diferentes estágios de evolução e desenvolvimento. A escola especial reconhece as diferenças universais entre os homens. No seu discurso afirma que cada um é único e que todos são diferentes na construção de sua história e também na maneira de aprender, pois cada um tem seu ritmo próprio. Normalmente, as escolas especiais são providas tanto de pessoal especializado, como de adequações arquitetônicas e metodologias diversificadas e especializadas. Aos Centros de Educação Especial, além das funções da Escola Especial, são acrescentas as funções de capacitação de recursos humanos, atendimento complementar aos alunos integrados no ensino regular – por meio das salas de recursos, oficinas de artes e semiprofissionalizantes – e, ainda, a realização de estudos e pesquisas. Esses atendimentos, oferecidos pela Educação Especial, apresentam caráter transitório, representando o apoio às necessidades do indivíduo, que, uma vez superadas, este deve ser encaminhado para a inserção no ensino regular. Vimos, então, como é que se materializou e como ainda se materializa concretamente, no cotidiano do sistema escolar, o princípio de integração. Os alunos com necessidades educativas especiais são, pois, inseridos nesse sistema, ora na escola regular, ora na escola especial. Ambas as formas de atendimento, como foi aqui explicitado, apresentam vantagens e desvantagens, pontos positivos e também inúmeras contradições. UNIUBE 23 Por conseguinte, a política oficial de integração não foi plenamente alcançada, continuando a existir instituições e práticas de segregação. O sistema educacional não conseguiu consolidar o princípio da integração, pois este acabou não passando de um discurso com poucas atitudes em favor de sua concretização. De outra forma, o termo integração foi questionado por pressupor objetivos de reinserção de alunos deficientes na escola regular, depois de eles já terem sido excluídos do processo educacional. Segundo Vayer e Roncin (1989), se não houvesse a não integração antes, não haveria necessidade de integrar depois. Assim, o princípio pressupõe que a não integração fora previamente instalada. Por outro lado, chamou-nos a atenção a ideia da necessidade de tirar a pessoa portadora de deficiência do isolamento em que se encontra. Cremos que a pessoa não está integrada, está à margem da sociedade. Isto desperta-nos a ideia de que se a pessoa PNE for retirada do isolamento sociopolítico-econômico, acarretará a promoção da sua autoestima e a evolução de suas potencialidades. Porém, não se discute o papel da sociedade, que é quem coloca as pessoas nesse estado de inércia e isolamento. Na linha de apontar contradições acerca da integração, destacamos os posicionamentos de Fernandes (1995) e Carmo (1998). Fernandes (1995) realizou uma pesquisa objetivando conhecer a concepção dominante de integração das pessoas com necessidades educativas especiais, entre os professores que atuam na área. Constatou que existem diversos pontos de vista sobre a integração, mas que é preciso identificar os mecanismos gerados na sociedade capitalista, que reforçam a ideia de que as pessoas com necessidades educativas especiais não estão integradas na sociedade. Afirma que a integração não deve ter a concepção de tirar a pessoa do estado de não participação 24 UNIUBE e/ou do estado de inércia. Pois, na verdade, essas pessoas nunca ficaram fora da sociedade. A sociedade capitalista, que se preocupa com o valor da troca da mercadoria, é que define que todos têm um papel definido dentro dessa mesma sociedade. Nessa perspectiva, o princípio de integração deseja inserir os indivíduos com necessidades educativas especiais na sociedade, local onde, porém, eles nunca estiveram fora. CARMO (1998), com esse mesmo sentido, posicionou-se a respeito do princípio de integração afirmando que os defensores deste ideário ao buscarem a integração estão em última análise afirmando que os ‘deficientes’ não estão integrados na sociedade. Além disto, fazem esta afirmação tendo como leitura as carências desses indivíduos em termos de trabalho, educação, saúde, habitação, alimentação e muitas outras mazelas geradas pela relação capital x trabalho na sociedade brasileira. (p.391). Os integracionistas não consideram, portanto, que as diferenças são comuns entre todos os homens, e não só entre os deficientes. No nosso entendimento, concordamos com os autores que afirmam que nenhum sujeito encontra-se não integrado ou fora da sociedade. Pode estar, sim, fora do contexto ou dos valores defendidos pela sociedade capitalista, na qual todos têm de ter uma função definida e um papel estabelecido, sendo o homem valorizado pelo que ele tem e pelo que ele produz. Autores como Fernandes (1995) e Carmo (1998) percebem que a questão da integração é mais ampla, pois não deve se refletir apenas em relação ao aspecto educacional ou escolar. Há outros fatores, como saúde, lazer, moradia, assistência médica e alimentação, que são fundamentais para a sobrevivência humana com o mínimo de dignidade. Desse modo, o aspecto da exclusão se estende além das pessoas NEE. UNIUBE 25 Há também um contigente enorme de crianças em idade escolar, que não tem conseguido o acesso e a permanência – com sucesso – na escola. E, nesse sentido, não só os deficientes não estão integrados no meio em que vivemos, mas todas as pessoas carentes que se encontram à margem da sociedade. Dessa forma, a não integração é consequência dessa sociedade capitalista na qual vivemos, formada por classes tão diferentes e desiguais. Vista dessa forma, a integração torna-se uma questão infundada, poisos problemas que os representantes do governo tentam resolver com essa ação política não se restringem aos eficiente, mas a todos os marginalizados da sociedade. Fernandes (1995) diz ainda que o princípio de integração está acentuando a intolerância à diferença, na “tentativa de igualar o igual ao desigual”. Denuncia, dessa forma, a falsidade desse discurso e a não aceitação da diferença. Portanto a integração, segundo os autores citados, deveria ser para todos e não somente para os deficientes. Todos os desassistidos, os carentes dos recursos necessários a uma vida com dignidade, em nosso país e no mundo todo, deveriam ser reintegrados na sociedade. Porém, a igualdade de direitos só existe em nível abstrato, no discurso político ou expresso nas leis, pois concretamente não se viabiliza numa sociedade de classes construída sobre as bases das desigualdades sociais. Reafirmamos essas ideias, na constatação de que, por um lado, a corrente integracionista trata idealmente a realidade, por outro, ela reconhece a igualdade essencial entre os homens em direitos e deveres. Se defende a inclusão dos deficientes no âmbito escolar, seja em classes especiais, classes comuns ou escolas Contingente Quantidade máxima de pessoas ou crianças. 26 UNIUBE especiais de forma abstrata e universal, defende no fundo o acesso ao conhecimento pelo ‘deficiente’; se não consegue perceber as contradições mais profundas existentes nas relações entre os homens, consegue perceber e lutar para que os homens vivam e atuem socialmente. (CARMO, 1991, p.124). Em síntese, encontramos duas linhas de posicionamento distintas acerca da integração: o primeiro grupo a defende de forma ingênua, destacando os seus pontos positivos e a sua viabilidade; o segundo grupo, numa outra perspectiva, pôs-se a denunciar a falsidade desse discurso. Assim, os defensores desse ideário, de um lado, assumem uma posição ingênua perante a realidade, pois, ao pretender igualar o desigual, assumem a não tolerância pela diferença e o não reconhecimento da diversidade humana. Por outro lado, não percebem a amplitude maior da questão das desigualdades, que são sustentadas pelos pilares de nossa sociedade capitalista. Percebemos que o discurso da integração, defendido pela corrente integracionista, na verdade advoga a igualdade entre os homens, quando esses são totalmente diferentes. E, portanto, trata-se de um falso discurso, que tem servido para camuflar a não aceitação pelas diferenças. O princípio de integração torna-se, dessa forma, inviável numa sociedade de desiguais. Diante das contradições explícitas, em que pese toda a história de insucesso do preceito de integração, surge uma nova orientação, sobre a qual abordaremos em seguida: o ideal da escola inclusiva. Esta é a nova e atual proposta de se atender os educandos com necessidades especiais, com qualidade, sem estigmatização ou discriminação. UNIUBE 27 1.2.3 O princípio da inclusão A “chamada educação inclusiva teve início nos Estados Unidos em 1975”. (MRECH, 1998, p. 37). Surge como uma reação contrárias às políticas integracionistas cujo significado, bem como a efetivação da sua prática, trouxe muita discussão e polêmica. Trata-se de uma nova expressão que vem fazer da integração uma obrigação de todos: a inclusão, “que significa que a resposta às necessidades pedagógicas de todos os alunos se faça no mesmo contexto através de atividades comuns, embora adaptadas”. (SAPON–SHEIN, 1992: FRIEND e BURSUCK, 1996, apud SAINT-LAURENT. 1997, p. 68). As ideias desse ideário chegaram ao Brasil na década de 90. Esta nova política educacional visa à inserção não apenas dos deficientes, mas de todos os alunos nas escolas regulares, de forma mais completa e sistemática. Todos os alunos anteriormente excluídos devem ser inseridos na vida social e educativa, não permitindo que ninguém fique fora do ensino regular, desde o início da escolaridade. O conceito de inclusão coloca um grande desafio para o sistema educacional, pois o direito à educação na escola comum não é só para os “deficientes”, mas para todos. Confirma-se isto nos seguintes termos: as escolas devem acolher todas as crianças, independentemente de sua condições físicas, intelectuais, sociais, emocionais, linguísticas ou outras. Devem acolher crianças com deficiência e crianças bem dotadas; crianças que vivem nas ruas e que trabalham; crianças de populações distantes ou nômades; crianças de minorias linguísticas, étnicas ou culturais e crianças de outros grupos ou zonas desfavorecidos ou marginalizados. (BRASIL, 1987, p.17-18). 28 UNIUBE Encontramos autores que reafirmam essa ideia colocando que o termo inclusão se originou de “full inclusion” e prescreve a educação de todos os alunos nas classes e escolas de bairro; o conceito de inclusão (“inclusion”) reflete mais claramente e precisamente o que é adequado: todas as crianças devem ser incluídas na vida social e educacional da escola e classe de seu bairro, e não somente colocadas no curso geral (“mainstream”); “a ênfase nas escolas inclusivas deve-se aos meios de se construir um sistema que inclua e que considere as necessidades de cada um”. (STAINBACK E STAINBACH 1992 apud DORÉ, WAGNER, BRUNET, 1997, p. 176). Defende-se, assim, a educação para todos indistintamente, como também a atenção às necessidades individuais. Notamos que há autores que não apresentam muita clareza na distinção dos termos integração e inclusão. Alguns, preocupados com as deficiências mais graves, afirmam que podem ser ou não a favor da integração, pois depende do caso. Na verdade, eles defendem a integração, e não a inclusão. Assim, defendem a inserção do aluno no ensino regular como algo que depende da capacidade de adaptação do aluno. Então, a integração não é para todos, mas somente para aqueles que se adaptarem ao ambiente no qual foram inseridos. Merece destaque, por se tratar de um documento base, a Declaração de Salamanca, que defende a ideia de que “todas as crianças devem aprender juntas, sempre que possível, independente de suas dificuldades e diferenças”. (UNESCO, 1994, p. 23.) Entretanto, ela recomenda também a escolarização de crianças em classes e escolas especiais, “...nos casos, pouco frequentes, nos quais se demonstre que a educação nas classes comuns não pode satisfazer às necessidades educativas ou sociais da criança, ou quando necessário para o bem-estar da criança ou das outras crianças”. (UNESCO, 1994, p. 24) UNIUBE 29 Em nossa visão, contudo, aceitar a existência de instituições especializadas é o mesmo que admitir a existência de processos segregativos, que são valores defendidos pela integração. Diante disso, percebemos que esse documento apresenta uma contradição que deve ser aqui explicitada: ao mesmo tempo que ele advoga que todas as crianças PNE podem aprender juntas com as outras da escola regular, ele advoga também que elas podem aprender em instituições separadas, portanto, segregativas. Reconhecemos que este documento trouxe alguns aspectos positivos para a Educação Especial. O principal deles é a defesa da possibilidade da relação entre as diferenças, pois é por meio da convivência com as diferenças que reconhecemos nossas limitações. Outro aspecto importante da Declaração de Salamanca é que o documento chama a atenção dos governantes para a necessidade de aplicar todo investimento possível para o redimensionamento das escolas, quanto aos seus aspectos estruturais e organizacionais, para que possam atender, com qualidade, todas as crianças, independentemente de suas diferenças ou desigualdades. Outra autora coloca que a inclusão tem como metáfora o calidoscópio. A metáfora foi explicada nos seguintes termos: O calidoscópio precisa de todos os pedaços que o compõem. Quando se retira pedaços dele, o desenho se torna menos complexo, menos rico. As crianças se desenvolvem, aprendem e evoluem melhor em um ambiente rico e variado”. (FOREST& LUSTHAUS 1997 apud MANTOAN, 1998, p. 32).O calidoscópio precisa de todos os pedaços que o compõem. Quando se retira pedaços dele, o desenho se torna menos complexo, menos rico. As crianças se desenvolvem, aprendem e evoluem melhor em um ambiente rico e variado”. (FOREST & LUSTHAUS 1997 apud MANTOAN, 1998, p. 32). 30 UNIUBE Reconhece-se, desse modo, a riqueza de se trabalhar com a diversidade humana, bem como o valor da troca, da cooperação. A autora acrescenta ainda que a Inclusão se concilia com uma educação para todos e com um ensino especializado no aluno, mas não se consegue implantar uma opção de inserção tão revolucionária sem enfrentar um desafio ainda maior: o que recai sobre o fator humano. Os recursos físicos e os meios materiais para a efetivação de um processo escolar de qualidade cedem sua prioridade ao desenvolvimento de novas atitudes e formas de interação na escola exigindo mudanças no relacionamento pessoal e social e na maneira de se efetivar os processos de ensino e aprendizagem. (MANTOAN, 1997, p. 8-9) Essa autora acredita na viabilidade do ideário de inclusão, contanto que haja uma mudança substancial na formação dos professores, que conduzirão a novas atitudes, nos recursos físicos e materiais e no relacionamento entre as pessoas. Em outro artigo, a autora destaca a necessidade do aperfeiçoamento dos professores visando à oferta de um “ensino ‘especializado em todos os alunos’” (MANTOAN, 1997, p. 127). Nesse sentido, percebemos que a filosofia da escola inclusiva visa atender a criança com alguma deficiência, dentro de suas necessidades educacionais, oportunizando-lhe e favorecendo-lhe o máximo de desenvolvimento das suas capacidades. Para isso, alguns autores defendem que são necessárias muitas adaptações materiais no interior da escola. No entanto, na nossa visão, entendemos que isto não seria suficiente, pois, num sentido mais amplo, implicaria modificações de ordem estrutural na organicidade da escola. Os princípios que defendem a inclusão pretendem assegurar os direitos das pessoas com necessidades educativas especiais, mediante modificações e adaptações do ambiente físico e humano, para garantir e facilitar a fruição dos direitos garantidos em lei. Os documentos oficiais chamam-nos UNIUBE 31 a atenção para as parcerias com a comunidade, para colaboração e conscientização dela quanto à compreensão e aceitação das diferenças. Para que a escola dê conta desse seu novo desafio, chama-se a atenção para a necessidade de se propiciar aos professores da classe comum um suporte técnico, subsidiando-os para que encontrem formas criativas de atuação junto às crianças especiais. Estes deverão se adaptar às particularidades dos educandos, para atender às suas necessidades educacionais. • O princípio de inclusão é referendado pela legislação em vigor, tais como a Constituição Federal de 1988; pela LDB/1996 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional); a Declaração de Salamanca e, ainda, por Documentos da SEE-MG (Secretaria do Estado da Educação): “Escola Sagarana – Educação para a vida com dignidade e esperança” e a Resolução 08 de 26.01.2000, publicada no “Minas Gerais”, dia 27.01.2000, • A Resolução n° 2/2001, aprovada pela Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação, coloca para os sistemas de ensino o desafio de se organizar para incluir os alunos e atender às suas necessidades educacionais especiais. Veja mais informações no site do MEC: <http://portal.mec.gov.br/index. php?option=com_content&view=article&id=12648%3Adiretrizes-nacionais- para-a-educacao-especial-na-educacao-basica&catid=192%3Aseesp- esducacao-especial&Itemid=860>. SAIBA MAIS Citamos então alguns autores que colocam como condição para a efetivação do ideário da inclusão a efetivação de reformas e ajustes na escola comum, como adaptações arquitetônicas e curriculares, compra de material didático-pedagógico e o aperfeiçoamento dos professores. 32 UNIUBE Dessa forma, alguns autores como MANTOAN (1997), SANTOS (1997), entre outros, acreditam que, para se efetivar o processo de inclusão, seria necessário equipar a escola com recursos e professores especializados, recursos e instrumentos técnicos para o apoio pedagógico e prédios adaptados. Concordamos com a ideia de que todo esse equipamento, como também professores mais especializados traria benefícios positivos para a educação. Contudo, questionamos se somente isto, seria suficiente para a efetivação do processo de inclusão. No nosso modo de entender, para que o ideal de inclusão realmente se efetivasse, muitas mudanças seriam cabíveis na sociedade como um todo. Seria necessário acabar com toda forma de preconceito e com todos os mecanismos geradores de discriminação e de exclusão, existentes no sistema educacional brasileiro. Isso pressupõe uma mudança na filosofia do sistema educacional e da sociedade como um todo. Na realidade brasileira, depararmos com uma sociedade preconceituosa, que discrimina e exclui os diferentes. O padrão de normalidade é difundido pela sociedade elitista, em que vence o melhor, o mais bonito, o mais inteligente. Pais, profissionais, professores, todos discriminam e não aceitam as deficiências. É muito forte o padrão de normalidade imposto pela classe privilegiada. Soma-se a isso o despreparo da escola tanto quanto à sua infraestrutura física, quanto aos recursos materiais pedagógicos, como também quanto à preparação dos professores. Além do mais, as ações isoladas, como a aquisição de alguns jogos pedagógicos, uma palestra sobre as diferenças individuais e um seminário sobre a educação dos alunos com necessidades educativas especiais são medidas paliativas que não resolvem os problemas em discussão. Acreditamos que o sistema educacional, para atender a este princípio na sua plenitude, deva ser reestruturado radicalmente, a partir de sua organicidade. UNIUBE 33 A inclusão, segundo MADER (1997), é o termo [...] que se encontrou para definir uma sociedade que considera todos os seus membros como cidadãos legítimos. Uma sociedade em que há inclusão é uma sociedade em que existe justiça social, em que cada membro tem seus direitos garantidos e em que sejam aceitas as diferenças entre as pessoas como algo normal. (MADER, 1997, p. 47). No nosso entendimento, dificilmente conseguiremos “justiça social” numa sociedade edificada sobre bases desiguais, existindo diferenças de cor, sexo, classe social, direitos e deveres. Essa mesma autora defende ainda que a “inclusão do portador de deficiência depende da mudança de nossos valores; é a vivência de um novo paradigma”. (MADER, 1997, p. 50). Esta posição da autora deixa transparecer que bastaria então a compreensão e aceitação da diferença, para que a inclusão se viabilizasse. Entretanto, como já foi discutido anteriormente, o preconceito e a não aceitação da diferença em nossa sociedade estão condicionados ao longo processo histórico da humanidade. A polêmica em torno do entendimento do que venha a ser inclusão fica mais acirrada, ainda, quando alguns autores, ao discutirem este princípio, não delimitam de forma necessária o entendimento sobre diferença e desigualdade. Na visão de CARMO (1999), são contraditórios os autores que não fazem esta distinção, pois misturam desigualdade com diferença, como se fossem a mesma coisa, isto é, a criança desigual é também diferente e vice-versa. Segundo ainda este autor, a diferença diz respeito às nossas características biológicas e as desigualdades às nossas diferenças sociais. 34 UNIUBE Nesta perspectiva, “existe diferença na diferença e desigualdades nas diferenças”. (CARMO, 1999, no prelo). A prova disso é que dois alunos cegos, favelados ou abandonados, são completamente diferentes e desiguais socialmente, com história e necessidades distintas. Dessa forma, duas pessoas podem ter em comum uma deficiência, ou uma condição social qualquer, porém continuarão tendo históriase processos de aprender diferentes um do outro. O ideal de inclusão é dirigido a todos, independentemente das diferenças e desigualdades que possuam. Porque são diferentes, todos podem permanecer juntos, no mesmo espaço e tempo. Nessa linha de raciocínio, trata-se de mais uma maneira de tentar igualar todos pela diferença e pela desigualdade. Assim sendo, se antes a integração defendia o discurso da igualdade abstrata entre os homens, afirmando que todos são iguais, agora, o princípio da inclusão afirma que todos somos diferentes, por isso devemos permanecer juntos. Dessa forma, somos igualados agora pela diferença. Assim, somos agora igualados pela diferença e desigualdade, pois o que temos de comum ou de igual é a evidente constatação de que todos somos diferentes. Dessa forma, novamente percebemos que não são levados em conta e nem são discutidos outros fatores intervenientes nas relações existentes entre os homens e a realidade cultural. Na prática os desassistidos, carentes dos bens básicos para se viver dignamente, continuam à margem dessa sociedade, enquanto os privilegiados continuam usufruindo de bens e vantagens maiores que os primeiros. Outra questão, decorrente do caráter contraditório discutido anteriormente, é o discurso que defende a equidade de oportunidades na educação, visando oferecer as mesmas oportunidades para todos. UNIUBE 35 Este ideário, se por um lado contribuiu para a abertura das escolas regulares e para o recebimento dos alunos com necessidades educativas especiais, mesmo sem o devido preparo das instituições educacionais, por outro, como consequência, transferiu a responsabilidade do sucesso e do fracasso única e exclusivamente para as crianças com necessidades educativas especiais e as pertencentes às classes menos favorecidas, ficando o projeto político da escola acima de qualquer suspeita. Os defensores deste princípio utilizam este mecanismo de exclusão com base na ideia de que a estas pessoas foram dadas as mesmas oportunidades e, no caso de ocorrer o fracasso, a culpa é somente delas. Justifica-se, desse modo, que foi dada oportunidade educacional igual a todos e vencem os mais capazes e os que mais se esforçam. Vive-se, ainda, na prática, a concepção darwiniana da educação, com a crença de que só vencem os melhores. Não são levadas em conta as diferenças de natureza biológica e muito menos os fatores sociopolítico-econômicos presentes nesse processo. Darwiniana: relativo a Darwin. O Darwinismo é a doutrina da evolução biológica, enunciada por Darwin (1809-1882), “fundada em dois princípios: 1º a existência das condições ambientais, e das quais algumas, pela lei da probabilidade, seriam biologicamente vantajosas; 2º a seleção natural graças à qual sobreviveram, na luta pela vida, os indivíduos em que se manifestassem as variações orgânicas mais favoráveis”. Para conhecer mais sobre Charles Darwin, visite a página <http://pt.wikipedia. org/wiki/Charles_Darwin>. SAIBA MAIS 36 UNIUBE Charles Darwin, naturalista e teórico da seleção natural, viveu entre 1809 a 1882 e, no decorrer de sua vida, tornou-se famoso internacionalmente como um influente cientista estudando tópicos controversos. Diante do exposto até aqui, torna-se conveniente isentar as políticas públicas e as escolas de qualquer responsabilidade pelo mecanismo de exclusão empregado. Com o objetivo de fazer cumprir a lei, encarando o princípio de inclusão como um dever, corremos o risco de colocarmos todos os alunos com NEE, independentemente de suas condições, na escola regular, quando esta não está preparada para recebê-los. Esta atitude pode conduzi-los à segregação, ao fracasso e à evasão da escola, como também à perda da autoestima, quando não conseguem responder às exigências dessa escola. É do conhecimento comum que a escola regular dificilmente nas condições atuais atenderá os alunos com NEE, uma vez que ela não tem dado conta de cumprir a sua função nem mesmo com os alunos ditos “normais”. Para se ter respostas mais claras, basta constatar que as taxas de repetência evidenciam a baixa qualidade do ensino e a incapacidade dos sistemas educacionais e das escolas de garantir a permanência do aluno, penalizando, principalmente, os alunos de níveis de rendas mais baixos. (BRASIL, 1997, p.25). Outra questão polêmica acerca da inclusão é a inserção de todas as crianças NEE na escola regular, inclusive as que possuem algum tipo de deficiência severa. A proposta de uma escolarização geral, de forma ampla e total, no ensino regular, sugere a abolição de todos os serviços segregativos, extinguindo, desse modo, as classes especiais, os centros e/ou as escolas especiais. Consequentemente, toda a responsabilidade de atendimento dos alunos NEE seria transferida para a escola regular. UNIUBE 37 Com isto, as diretoras das escolas regulares defendem a existência das instituições especializadas para o atendimento dos alunos especiais, desejosas de se livrarem do problema e, da mesma forma, as diretoras e os profissionais que trabalham nas instituições especializadas defendem a sua continuidade e ampliação, justificando-se pela importância do trabalho que realizam. A Secretaria do Estado da Educação de Minas Gerais, em setembro de 1999, publicou seu projeto político pedagógico denominado “Escola Sagarana – Educação para a vida com dignidade e esperança”, que, definindo a ação do Estado para a Educação Especial, coloca como objetivo “intensificar políticas de inclusão e integração social, de melhoria da qualidade do ensino...” e, para a efetivação disto, define sua ação, nos seguintes termos: promover novos estudos sobre critérios e métodos de integração dos portadores de necessidades educativas especiais no ensino regular, desenvolver projetos nas escolas de forma a facilitar essa integração, manter convênios com instituições especializadas e acordos operacionais para cessão de professores, técnicos e especialistas. Este documento não faz referência à continuidade ou à existência das escolas ou centros especializados. É colocada, apenas, a intensificação do trabalho da Secretaria, visando alcançar a política da escola inclusiva. A Secretaria Estadual de Educação encarregou-se de “suavizar” o texto da Escola Sagarana e publicou a Resolução nº 08 de 16 de janeiro de 2000, sobre a organização do ensino nas escolas estaduais, na Seção V, “da Educação Especial”, em seu parágrafo único, acrescenta que o atendimento educacional será feito em classes, escolas ou serviços especializados, sempre que, em função das condições específicas dos alunos, não for possível sua integração nas classes comuns de ensino regular. Fica claro, neste documento, que a própria Secretaria de Educação do Estado não distingue claramente os vocábulos integração e inclusão, 38 UNIUBE pois, ao mesmo tempo em que defende a construção de escolas inclusivas e a promoção gradativa dos alunos NEE no ensino regular, defende também o encaminhamento de alunos para os centros e escolas especializadas, sempre que “não for possível a integração nas classes regulares”. Dessa forma, as orientações da Secretaria oscilam, ora avançando para a implantação da escola inclusiva, ora retornando à defesa de atendimentos em escola especiais, que representam ações do antigo princípio de integração. Mediante tanta contradição Carmo (2006, p.51) afirma que O modelo social e educacional precisa excluir para justificar a inclusão, alimentando-se dessa contradição. Quanto mais tempo mantiver viva essa relação, mais tempo perpetuará a dominação e a hegemonia de alguns sobre os outros. Mas, para que existem, então, as políticas educacionais voltadas para a minorias excluídas? Carmo (2006) acredita que os homens que dominam são também vítimas do seu próprio processo de exclusão, pois, quando não conseguem alimentar a cultura das massas, têm que ceder, nas relações sociais, espaços para que culturas específicas e discriminadaspossam se manifestar e crescer. Assim, há ‘permissão’ para os movimentos dos negros, das prostitutas, dos índios, dos deficientes, dos homossexuais etc. e de todos aqueles que representam as minorias e precisam de espaço de luta e manifestação, como também de pequenas conquistas, visando manter a “ordem e o progresso” e conter as violências. Acredita-se, dentro desse prisma, que é mais uma estratégia do capitalismo para manter a estrutura de desigualdade, orientada pela política neoliberal. UNIUBE 39 Vamos ver se você entendeu o que falamos até aqui. Como os princípios de normalização, integração e inclusão se materializam na prática do cotidiano escolar? PARADA PARA REFLEXÃO Em síntese, podemos afirmar que toda essa discussão nos leva a algumas ilações importantes acerca desses princípios de normalização, integração e inclusão. Em primeiro lugar uma das vantagens destes ideários é a possibilidade da convivência com as diferenças, sendo que a interação com o outro, o intercâmbio e as trocas sociais e culturais entre os diferentes e desiguais são sempre enriquecedores. Segundo: o discurso da equidade de oportunidade na educação, que visa oferecer as mesmas oportunidades para todos, se por um lado contribuiu para a abertura de diferentes espaços nas escolas regulares, visando ao atendimento aos alunos com necessidades educativas especiais, por outro, não conseguiu acabar ou minimizar os problemas relativos ao fracasso e à permanência dessas crianças na escola, fato este marcante também no processo de integração. Terceiro: aparece agora um outro discurso, com uma nova roupagem, chamado de inclusão escolar, visando colocar, no ensino regular, não somente as crianças “deficientes”, mas todos os deserdados da educação. Este ideário, ao advogar que todos somos concretamente diferentes, está conseguindo de forma eficiente fazer crer que seja possível, pela desigualdade, que todos sejam colocados em espaços e tempos comuns. Em outros termos, é possível fazer com que as diferenças, bem como as desigualdades, convivam harmoniosamente. 40 UNIUBE Então a inclusão educacional é uma utopia? O que realmente acontece, de fato, no interior das escolas da educação básica com relação à inclusão? PARADA PARA REFLEXÃO A inclusão e a qualidade de ensino na escola pública1.3 • Mas, será que não existe inclusão? • Ou o que existe é a exclusão educacional, principalmente para as pessoas com NEE? • E os pobres, os negros, as crianças trabalhadoras, os nômades e os que aprendem de forma diferente do que a maioria necessitam de metodologia apropriada e diferenciada? • Que tipo de escola existe para eles? Lancemos nosso olhar para a escola pública, a mesma que acolhe principalmente os educandos das classes desprovidas de riquezas, aqueles que veem na escola uma possibilidade de se instrumentalizar e se preparar para garantir um futuro melhor. Mas, e as escolas públicas, destinadas às classes menos abastadas, como se encontram dentro dessa sociedade capitalista, desigual e excludente? E o conhecimento científico, a educação e, especificamente, as escolas, poderão contribuir para a construção de um mundo melhor? A realidade brasileira reflete a exclusão social e educacional. As escolas públicas do Ensino Fundamental atendem a maioria, recebendo a matrícula daqueles que a procuram. O que se anuncia é que há vagas UNIUBE 41 Terezinha A. Rios (2003, p. 21) afirma que é “comum utilizarmos o conceito de qualidade como se ele já guardasse uma conotação positiva – dizemos que algo é de qualidade querendo dizer que é bom. Entretanto, a qualidade é um atributo essencial da realidade. Há boa e má qualidade nos seres com que nos relacionamos, nas situações que vivenciamos. Trata-se, assim, de qualificar a qualidade, de refletir sobre a significação de que ela se reveste no interior da prática. SAIBA MAIS para todos. Contudo, percebemos que falta qualidade de ensino para todos. A escola não tem conseguido cumprir a sua função de ensinar a toda diversidade de alunos presentes no seu cotidiano. Por conseguinte, com a abertura da escola como direito de todos os cidadãos, nos últimos trinta anos, aumentou consideravelmente o número de vagas nas escolas e essa passa de seletiva para democrática. Cresce o número de alunos e, consequentemente, a diversidade de educandos no interior das escolas. E para atender a toda essa diversidade de alunos, fazem-se necessários muitos ajustes, investimentos, mudança de valores, de planejamento, de formas e muito mais. É uma nova e desafiante realidade. Como vimos, a ideia de diversidade trouxe a obrigação do reconhecimento de que não há mais homogeneidade na escola. Antes, na escola tradicional, os papéis dos educadores eram/são prescritos. Ensinava-se de uma única maneira, para todos, supondo que todos aprendessem no mesmo tempo e no mesmo espaço. Agora, o professor está diante de algo que não conhece, o que representa um grande desafio. Destarte, Rios (2003, p. 43) afirma que diante deste “mundo complexo, também se tornam mais complexas as tarefas dos educadores.” 42 UNIUBE Como voltar-se criticamente para a realidade, como definir os caminhos do conhecimento, da aprendizagem, em última instância, da construção do humano, de sua afirmação? Nessa sociedade na qual impera a desigualdade, há um sistema escolar desigual e contraditório, que se materializa na organização do sistema de ensino dual, formado, de um lado, por escolas de má qualidade, com infraestrutura inferior, carga horária restrita, com professores com formação insuficiente, com ênfase na formação da mão de obra especializada para atender ao mercado de trabalho; e, de outro, por escolas particulares bem estruturadas e equipadas, com professores especializados que oferecem os cursos propedêuticos e, por isso, garantem o ingresso nas universidades públicas de boa qualidade. O tema da qualidade de ensino já se fazia presente na antiguidade grega, constituindo-se como uma das preocupações daquela civilização. No período áureo da filosofia iluminista, na nascente modernidade, o pensador Locke, no século XVIII, chegou a classificar a qualidade, evidenciando as diferenças que ela é capaz de comportar. Nesse sentido, a história nos mostra que a qualidade não é um tema inscrito na contemporaneidade e que vem acompanhando a trajetória da humanidade e assumindo diversos formatos e significados, nas diversas formações sociais que o mundo conhece. É preciso, então, contextualizar a qualidade na história, no tempo e no espaço. Assim, a preocupação com a qualidade de ensino e as pesquisas sobre os resultados da educação são antigas. Bárbara Freitag (1980, p. 61) já apontava que de (...) 1.000 alunos que em 1960 ingressaram no primeiro ano primário, somente 466 atingiram a segunda série primária. Na quarta série ainda restavam 239. Dessas, somente 152 ingressaram em 1964 no ensino ginasial, 91 alcançaram a quarta série e 84 o último ano do colégio. Dos 1.000 alunos iniciais em 1960, somente 56 UNIUBE 43 conseguiram alcançar o primeiro ano universitário em 1973. Isso significa taxas de evasão de 44% no primeiro ano primário, 22% no segundo, 17% no terceiro. A elas se associam taxas de reprovação que entre 1967 e 1971 oscilavam em torno de 63,5%. A autora justifica que a situação caótica da educação nessa época deve-se aos sistemas rígidos de avaliação classificatória, aos currículos inadequados, professores mal preparados, aos parcos equipamentos e a falta de infraestrutura para condições dignas do trabalho docente. Entretanto, duas décadas depois disso, Silva e Vizim (2001, p. 30) denunciam que em “São Paulo, o estado mais rico do país, a maioria dos jovens de 18 a 24 anos (56,2%) está fora da escola, sendo que destes, 44,3% não completaram o ensino fundamental.” Mais recentemente, os resultados da pesquisa realizada pelo SAEB (Sistema de Avaliação da Educação Básica), em 2003, apontamque a qualidade da educação pública apresenta índices ainda bastante insatisfatórios. A pesquisa constatou, por exemplo, que, em média, os alunos de 4ª série se atrapalham ao interpretar textos longos ou com informação científica e não conseguem ler horas em relógios de ponteiros. Também não conseguem fazer operações de multiplicação com números de dois algarismos (SANDER, 2006). Os dados estatísticos, resultados das pesquisas, mostram que a escola não tem conseguido cumprir integralmente a sua função social. E aqueles que fracassam na escola são aqueles que justamente mais precisam dela. São os filhos das classes subalternas que teriam, nesta, uma chance de ascender socialmente e, mais importante que isso, recordando Paulo Freire, aprender “ler o mundo” de forma crítica e tornar-se sujeito com autonomia para construir e transformar a sua própria história. 44 UNIUBE Se a escola não cumpre a sua função, acaba funcionando como aparelho ideológico do estado (AIE) como denunciou Althusser (apud FREITAG, 1980 p.35) servindo de instrumento para a manutenção e a preservação do status quo. Pois, a reprodução da ideologia vem a ser uma condição sine qua non da reprodução das relações materiais e sociais de produção. A escola, como AIE mais importante das sociedades capitalistas modernas, satisfaz plenamente essa função (FREITAG, 1980, p.34-35). Bárbara Freitag, em seu livro Estado, Escola e Sociedade (1980, p. 34-36 ), relembra a tese de Althusser que afirma que as escolas representam aparelhos ideológicos do Estado (AIE) por difundirem a ideologia dominante e colaborarem para a manutenção do status quo, ou seja, a perpetuação da classe dominante e, consequentemente, das desigualdades sociais. CURIOSIDADE Caso queira saber mais, sugerimos a leitura: Louis Althusser afirmou que a escola funciona como aparelho ideológico do Estado. Veja mais informações na página: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Louis_ Althusser>. PESQUISANDO NA WEB Contudo, sabemos que a escola não é a única causa da alienação ou produção da falsa consciência, nem o único veículo de perpetuação das relações de desigualdade. Mas, será que a maioria dos professores tem consciência disso? Os menos esclarecidos representam aqueles com uma visão mais estreita do mundo, não passando de meros reprodutores, submissos ao sistema existente, e que acabam contribuindo para a política neoliberal. Serão muitos? UNIUBE 45 Dessa forma, a escola acaba reproduzindo a exclusão social, criando vítimas do sistema capitalista excludente. Pois, sem o domínio dos conteúdos científicos historicamente acumulados, de forma compreensiva, clara, interdisciplinar e contextualizadas, o filho da classe operária torna-se um indivíduo sem condições de concorrer a uma vaga no competitivo mercado de trabalho. É, sem dúvidas, um candidato à exclusão social. Diante do exposto, reafirmamos que a preocupação com a qualidade do ensino não é recente e existem diferentes conceitos sobre a qualidade de ensino. E por que não conseguimos avançar? Por que diante de tanto progresso e evolução da ciência ainda hoje falta qualidade no ensino? E o que se entende por qualidade de ensino? Recordamos que a escola tradicional de décadas atrás foi muito mais seletiva, e os alunos que frequentavam a escola pública eram os filhos da elite. Nesse prisma, o seu objetivo era formar líderes e também preparar os jovens para o ingresso na universidade. Atualmente, a escola pública democratizou suas vagas, trazendo os filhos da classe menos favorecida para o seu interior. Entretanto, os objetivos do trabalho pedagógico continuam muito parecidos com o da escola tradicional. Tais objetivos restringem-se a preparar para o trabalho, para o ingresso na universidade e para a aprovação nos exames, entre eles, o fadado vestibular. Por isso, Paro (2007) denuncia a “falta de objetivos socialmente relevantes e humanamente defensáveis a dirigir a ação escolar”, e a competência da ação escolar fica restrita à sua capacidade de garantir a aprovação dos alunos nos exames, é a cultura do mero treino para “tirarem boas notas”. Nesse sentido, Lobrot (1992) afirma que a escola atual não nos desperta para o desejo de conhecer, para a sede pela sabedoria. A nossa cultura escolar faz com que as notas, as promoções em série, os diplomas e os 46 UNIUBE certificados sejam valorizados no lugar do verdadeiro conhecimento. A sede pelo saber nos conduziria à busca pelo conhecimento tendo-o como valioso e inesgotável. A sabedoria, assim, seria o foco e a meta. Ainda, nesse prisma, Lobrot (1992) afirma que a escola é monótona, chata, sem cor e não dá prazer ao aluno. Além do mais é castradora e repressiva. Cita como exemplo a ordem de que o aluno (...) produza um fenómeno muito importante, e ver-se- á que se produz, com uma frequência variável. O aluno tem vontade de fazer outra coisa, quero dizer algo que não o contato com essa fonte de informação e obriga-se a fazê-lo. Chame-se A ao ato que ele teria vontade de praticar, por exemplo, falar com os colegas, brincar, sonhar, escrever uma carta pessoal, realizar uma outra atividade escolar e, B, à atividade escolar que é imposta, por exemplo, um exercício de matemática. Para este preciso aluno, o facto de realizar- se A não é, necessariamente em si, um ato penoso e doloroso; eventualmente pode mesmo constituir uma fonte de prazer. No entanto, torna-se penoso e doloroso apenas porque impede a realização de uma outra atividade, desejada e desejável. B torna-se uma fonte de frustração. E apesar de ser recompensado, pelo conjunto de vantagens que são oferecidas se ele for efetuado, continua a ser extremamente penoso devido à experiência verdadeiramente sentida que provoca (p.47, 48). Tal situação ilustra como a criança aprende a se afastar das atividades, entregando-se a uma tarefa, numa experiência infeliz. Por isso, as crianças desenvolvem as atividades sem prazer, por obrigação. Para Saviani, a escola de qualidade vai garantir a aquisição dos conteúdos vivos e atualizados aos alunos das classes menos favorecidas, pois, a escola precisa mesmo ser de qualidade, uma vez que “(…) o dominado não se liberta se ele não vier a dominar aquilo que os dominantes dominam. Então, dominar o que os dominantes dominam é condição de libertação.” (SAVIANI, 2005, p. 55). O autor destaca a ideia UNIUBE 47 de que precisamos defender o “aprimoramento exatamente do ensino destinado às camadas populares. Essa defesa implica na prioridade de conteúdo.” (Ibid, p 55). Entretanto, valoriza o conteúdo que é da elite e este deve ser de domínio do excluído, para sua libertação. Nesse sentido, podemos então concluir que é preciso que haja um conteúdo e um líder que imponha um saber e uma estratégia salvadora àqueles que se encontram na opressão, este líder deve vir de fora. Pois, se por um lado os oprimidos estão oprimidos porque não sabem, por outro, poderão ser libertados e ascender socialmente, se vierem a deter o conhecimento dos opressores. O conceito de qualidade concebido dessa forma é preconceituoso e seletivo, uma vez que valoriza apenas o conhecimento de uma determinada e privilegiada classe. Voltamos ao pensamento de Rios (2003, p. 74) para afirmar que a educação da melhor qualidade é a que “se coloca sempre à frente, como algo a ser construído e buscado pelos sujeitos que a constroem” e Arroyo (apud Rios, 2003, p. 74) acrescenta a ideia de qualidade sociocultural que passa pela “construção de um espaço público, de reconhecimento de diferenças, dos direitos iguais nas diferenças” e, contemporaneamente, “renovação dos conteúdos críticos e da consciência crítica dos profissionais”, pela “resistência a uma concepção mercantilizada e burocratizada do conhecimento”, pelo “alargamento da função social e cultural da escola e intervenção nas estruturas excludentes do velho e seletivo sistema escolar”. Mas, qual é a função social da escola? Segundo Rios (2003,p. 91) “é tarefa da escola desenvolver capacidades e habilidades e isso se realiza pela socialização dos conhecimentos, dos múltiplos saberes”. Por isso, os conteúdos transmitidos, construídos ou socializados na escola, têm de ter sentido para a construção do ser humano, mais comprometida com o desenvolvimento humano. 48 UNIUBE Para Lobrot (1992) o sucesso escolar é condicionado pela cultura da família. Assim, “quando as crianças modernas aprendem a ler é porque vivem num meio em que se dá importância à leitura” (p. 16). Assim, o sucesso escolar é condicionado pela cultura de origem e que é oficialmente rejeitada e constantemente desfigurada pelos processos psicológicos escolares, considerando a forma em que está estruturada a escola. A escola atual favorece o desenvolvimento e o aprendizado da elite, que já possui toda uma estimulação e um modelo de cultura que lhe é familiar. Portanto, é importante que a escola pública tenha qualidade de ensino adequado, que atenda às suas necessidades. Pois, talvez seja a única chance das populações subalternas se desenvolverem no processo de aprendizagem, tomar consciência de seus direitos e se libertarem da ignorância e da opressão. Por isso, precisamos nos comprometer com essa causa. Portanto, a escola pública precisa oferecer-lhes o melhor ensino, pois o domínio do conhecimento conduz à autonomia e representa um instrumento de libertação para os oprimidos. Acreditamos que não podemos supervalorizar os conteúdos endossados pela pequena elite burguesa e nem pressupor que a classe menos favorecida precisa de um “salvador ” para libertá-la da opressão. Nesse mesmo sentido, Rios (2003, p. 87) diz que “ A ética deve estar presente na técnica, que não é neutra, e na política, que abriga uma multiplicidade de poderes e interesses. A ética garante, então, o caráter dialético da relação”. A ética é que problematiza e orienta o que é bom ou mal e que define também o que é válido para o bem-comum. Para a mesma autora, competência tem o sentido de saber fazer bem o dever. Refere-se, então, a um conjunto de saberes e ao posicionamento diante daquilo que é desejável e necessário. É preciso considerar, nesse prisma, o saber, o fazer e o dever como elementos historicamente situados e construídos pelos sujeitos em sua práxis. UNIUBE 49 Em relato da sua experiência na Secretaria de Educação de São Paulo, Paulo Freire afirmou que a escola, para ser prazerosa, deve ser atraente e gostosa de ficar, evitando-se, assim, o desânimo, a falta de entusiasmo, o descompromisso com a aprendizagem e, consequentemente, a evasão e a repetência. Assim, as paredes, as portas, as carteiras escolares, tudo deve ser bem cuidado, cheio de zelo e boniteza. Freire diz ainda que “precisamos demonstrar que respeitamos as crianças, suas professoras, sua escola, seus pais, sua comunidade, que respeitamos a coisa pública, tratando-os com decência” (FREIRE, 2005, p.34). Não podemos falar de princípio e valores se a escola estiver suja, invadida de água, de vento frio, de sujeira, pois o “ ético está muito ligado ao estético” (Ibid). Desse modo, a escola, para ser atraente, deve ser bonita, bem cuidada, com professores bem preparados, valorizados e respeitados. É preciso explicitar valoração e respeito aos sujeitos que frequentam a escola, tanto alunos, quanto professores, quanto os pais dos alunos e os demais servidores. Para manter o entusiasmo, o compromisso, o zelo e a dedicação, é preciso manter o “cuidado” amoroso, o zelo e a boniteza interna e externa da escola enquanto espaço físico e espaço de acolhimento e desenvolvimento das pessoas. A educação de boa qualidade é uma prática exercida por profissionais educadores comprometidos com o desenvolvimento, sob todas as formas, da classe oprimida. Por isso, é uma “prática fundamentalmente ética contra a exploração dos homens e mulheres e em favor de sua vocação de ser mais”. (FREIRE, 2003, p. 42). Diante do exposto, concluímos que a escola ainda não é de qualidade para todos. Ela falha não só no atendimento aos educandos com NEE, mas também no atendimento aos pobres, aos negros, aos nômades, aos que aprendem de forma diferente; portanto, com aqueles que mais necessitam dela. A Figura 2 explica a evolução das teorias educacionais que orientam as práticas educacionais na escola pública, bem como os desafios para a conquista de uma escola de qualidade, portanto, mais inclusiva. 50 UNIUBE Mudanças de paradigmas Qualidade de ensino para todos. Normalização Inclusão educacional e social Integração Escola Pública Figura 2: Esquema da evolução das teorias educacionais que orientam o ensino público. Inclusão: utopia ou perspectiva?1.4 Retomando alguns conceitos, vimos que o princípio de integração escolar é definido por Mantoan (2003, p. 22) como a alternativa de todos os alunos terem “acesso às escolas por meio de um leque de possibilidades educacionais, que vai da inserção às salas de aula do ensino regular ao ensino em escolas especiais”. Nessa perspectiva, o aluno é que tem que se adaptar à escola e esta em nada se modifica para atender às diferenças individuais. Por outro lado, Mantoan (2003, p. 24) compreende que a “inclusão implica uma mudança de perspectiva educacional, pois não atinge apenas alunos com deficiência e os que apresentam dificuldades de aprender, mas todos os demais.” Nessa concepção, a escola tem que se reestruturar para melhorar a qualidade de ensino e atender os alunos que fracassam nas salas de aula, garantindo o desenvolvimento de todos. UNIUBE 51 Nessa perspectiva, entre as diretrizes que norteiam nossa proposta da inclusão, está presente a ideia da diversidade, pela qual as “escolas devem acolher todas as crianças, independentemente de suas condições físicas, intelectuais, sociais, emocionais, linguísticas ou outras”. (BRASIL, 1987, p.17-18). Vale ressaltar que essa diversidade deve ser compreendida como uma riqueza que precisa ser bem atendida para que todos se desenvolvam. A Declaração de Salamanca (UNESCO, 1994) afirma que para a conquista da inclusão é preciso que os Sistemas Escolares “incluam todo mundo e reconheçam as diferenças, promovam a aprendizagem e atendam às necessidades de cada um”. Trata-se, sem dúvida, de um documento importante, pois coloca para o sistema educacional o desafio de se reestruturar para acolher todas as crianças, indistintamente, independentemente de suas diferenças, dessa forma, atendendo-as dentro das suas necessidades. A Constituição Federal de 1988 (art.206, inciso I) institui como um dos princípios do ensino a igualdade de condições de acesso e permanência na escola. Além do mais, destaca a democracia, na qual se estabelece a base para se viabilizar a igualdade de oportunidades, dando lugar à expressão das diferenças e dos conflitos e, desse modo, da convivência com a pluralidade. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (9394/96) no Art. 59 garante que os sistemas de ensino “assegurarão aos educandos com necessidades especiais currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização específica, para atender às suas necessidades. Dessa forma, é garantido legalmente o atendimento especializado a todos os educandos, de acordo com as suas necessidades. Pluralidade O que é plural e apresenta grande número, o geral, multiplicidade, representa a diversidade. 52 UNIUBE As políticas educacionais do MEC sobre a educação inclusiva trazem a Resolução n° 2/2001, aprovada pela Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação, que coloca para os sistemas de ensino o desafio de se organizar para incluir os alunos e atender às suas necessidades educacionais especiais. Assim, no Brasil estabeleceu-se em Lei o princípio de que a escolarização da criança com NEE deva ocorrer preferencialmente em escolas regulares e com atendimento de qualidade. Reafirmamos que o princípio da Educação Inclusiva adotoua concepção de que todas as pessoas têm direito à educação e, principalmente, à educação de qualidade. E esse é também um princípio ético. Daí, as pessoas com necessidades educacionais especiais, entre essas, as que possuem alguma deficiência, terem direito à mesma educação de qualidade, o que exige o atendimento de suas necessidades individuais. A preservação da dignidade humana junto ao direito de constituir e reconhecer uma identidade própria conduz à ideia do respeito às diferenças e no direito à igualdade, assegurando oportunidades diferenciadas e, por certo, a equidade. “O princípio da equidade reconhece a diferença e a necessidade de haver condições diferenciadas para o processo educacional”. (BRASIL/MEC, 2001, p. 18). Assim, viabilizar a inclusão escolar garantindo que todos os alunos, independentemente da classe, raça, gênero, sexo, características individuais ou necessidades educacionais especiais, possam aprender juntos em uma escola de qualidade, é uma atitude humanitária e justa, demonstrando uma prática alicerçada nos valores éticos de respeito à diferença e ao compromisso com a promoção dos direitos humanos. Equidade Relativo à igualdade; retidão; imparcialidade na concessão de benefícios e atendimento aos direitos; justiça. UNIUBE 53 Para tanto, exige-se o redimensionamento da prática pedagógica aderindo a uma metodologia de caráter interdisciplinar, aberta, lúdica e criativa. Tal proposta só pode ser viabilizada com sucesso dentro de uma visão de trabalho que se orienta por meio de uma nova concepção de educação que comunga com os novos paradigmas educacionais, pautada pelos princípios da equidade na educação e da inclusão. Contudo, ainda hoje, “deparamo-nos com uma sociedade preconceituosa, que discrimina e exclui os diferentes. O padrão de normalidade é difundido pela sociedade elitista, onde vence o melhor, o mais bonito, o mais inteligente”. (DALBERIO, 2000, p.117). Portanto, a sociedade é ainda preconceituosa e excludente. Nesse sentido, os valores dos educadores, pais, alunos e sociedade como um todo também deverão ser repensados. Toda forma de preconceito deve ser superada, adotando-se uma atitude humanística e justa. Acreditamos, ainda, que para a viabilização da inclusão educacional a escola brasileira tem de ser redesenhada. Muitas adaptações e mudanças devem acontecer marcando uma revolução que se concretiza na reestruturação do espaço, do tempo e da prática pedagógica vivenciada na escola. Assim, a escola inclusiva avançará, ao garantir que a homogeneização dê lugar à individualização do ensino, na qual os objetivos, a sequência e ordenação de conteúdos, o processo de avaliação e a organização do trabalho escolar em tempos e espaços diversificados contemplem os diferentes ritmos e habilidades dos alunos, favorecendo seu desenvolvimento e sua aprendizagem. (RIBEIRO, 2003, p.49). Ora, para a implementação da escola inclusiva, inicialmente, exige-se a mudança de mentalidade e a construção de um novo paradigma educacional. Deve-se avançar de uma sociedade preconceituosa para uma sociedade humana e solidária com todos; de uma escola tradicional e fechada a uma escola aberta e inovadora; de uma prática pedagógica 54 UNIUBE homogeneizadora a ações voltadas para atender, com qualidade, toda a diversidade de alunos presentes no sistema educacional. É preciso entender que existem ritmos e tempos diferentes para aprender, como também diversas maneiras de ensinar. Se por um lado, na escola tradicional os educadores avaliavam as crianças dando enfoque às suas dificuldades e deficiências, portanto, fechando suas perspectivas de desenvolvimento, por outro lado, na escola inclusiva busca-se a construção dos novos paradigmas educacionais nos quais a ênfase é valorizar a riqueza das diferenças humanas. Diante de tudo que discutimos, você sabe o que é preciso fazer para que a inclusão se efetive no cotidiano escolar? Inicialmente, precisamos superar a ideia preconceituosa de que temos que “tolerar” as pessoas com deficiência na escola comum, enturmando- as por categorias e atribuindo a elas a responsabilidade pelo fracasso e incapacidade de acompanhar o ensino comum. Em outro prisma, a inclusão se efetivará dentro de um novo paradigma, “considerando cada aluno o resultado da multiplicação infinita das manifestações da natureza humana e, portanto, sem condições de ser encaixado em nenhuma classificação artificialmente atribuída...” (MANTOAN, 2005, p. 28) A formação dos professores deve merecer atenção especial, pois, muitas vezes, a rejeição dos professores quanto à ideia de inclusão se dá justamente por não se sentirem preparados para enfrentar o grande desafio. Por isso, os professores precisam ser subsidiados com os conhecimentos de como lidar com os alunos com deficiência e os demais. Para ensinar a todos com qualidade é imprescindível que se esteja aberto a aprender e a inovar sempre. Desse modo, o investimento na formação permanente dos professores é fundamental para o processo de inclusão. Homogeneizadora Capaz de homogeneizar, tornar homogêneo, igualar, tratar por igual a todos, uniformizar ações. UNIUBE 55 O estudo de Carmo (2006) propõe a superação da escola seriada. Nesse sentido ele argumenta que a escola seriada Traz consigo uma contradição interna latente, isto é, o mesmo discurso que reconhece as diferenças entre os alunos, os insere em classes comuns, como se fossem iguais. A ideia de classe, como local de iguais, é também local de diferentes (CARMO, 2006, p. 63). Dentro dessa perspectiva, as avaliações continuam classificatórias e excludentes, pois os professores, em nome da justiça social e igualdade entre os homens, aplicam a mesma prova para todos os alunos e depois comparam seus desempenhos, sem levar em conta o desenvolvimento e a história de vida de cada um. (CARMO, 2006, p. 63). Desse modo, confirmamos a ideia de que o diálogo com novos conhecimentos, a revisão dos currículos e da forma de avaliação, a prática pedagógica na perspectiva da interdisciplinaridade e a reestruturação da organização escolar tornam-se condição sine qua non para a mudança. Reafirmamos que o avanço da inclusão educacional está entrelaçado com o avanço da inclusão social, com uma distribuição de renda mais justa e equânime ou seja, com a construção do modelo de uma sociedade menos excludente e mais igualitária. Precisamos aprender a explorar e utilizar as políticas educacionais que nos favorecem ações e atitudes para construir uma escola de maior qualidade, portanto mais inclusiva. É preciso aproveitar as oportunidades para Sine qua non Sem a qual não é possível, condição prévia, pré-requisito. Uma pré-condição é um estado ou uma propriedade que devem ser atendidos antes que qualquer outro estado ou processo. Interdisciplinaridade Qualidade do que é interdisciplinar. Interação e diálogo entre as diversas áreas do conhecimento, superação da fragmentação do conhecimento. Equânime Que tem equanimidade. Igualitária, igualdade. 56 UNIUBE conscientizar a sociedade e buscar formas de driblar as intenções do capital, mobilizando ações para a construção de uma sociedade, realmente, mais inclusiva, justa e democrática. A discussão sobre a inclusão se faz necessária porque ela ainda não é uma realidade, mas é, certamente, um desejo e se coloca como um projeto. É, ainda, uma utopia. Mas, pode ser uma utopia ou um sonho, que, com a conscientização e o trabalho de toda a sociedade brasileira e, principalmente, de nós educadores, poderá ser alcançado num futuro bem próximo. Então, a diversidade de educandos está presente no sistema escolar, o que representa uma riqueza e a conquista relativa à democratização do acesso à escola. As políticas educacionais relativas à inclusão investem na melhoria da escola de maior qualidade. Precisamos, todos juntos, trabalhar na perspectiva de se democratizar o acesso ao saber,para todos. Nesse prisma, estamos certos que a discussão sobre o respeito à diversidade e à necessidade da busca de maior inclusão social e escolar nos mobiliza à construção de uma sociedade mais humana. Assim, Carmo (2006, p. 47) afirma que Reconhecer a diversidade humana entre os indivíduos e culturas é uma exigência dos princípios democráticos e da equidade dos direitos humanos. A preocupação, a responsabilidade, a civilidade, a tolerância e o respeito com o outro são valores universais, que devem ser promovidos e garantidos por toda a sociedade. Driblar Em vários desportos, conduzir a bola, com fracos toques sucessivos, fintando o adversário. No presente texto, significa ultrapassar, assim, um adversário. UNIUBE 57 Conclusão1.5 Finalmente, concluímos a discussão sobre “A Diversidade, a Inclusão e as Políticas Educacionais” à esteira de Gentili (1996), retomando a sentença gramsciana, que aqui tem o sentido exato: o pessimismo da inteligência, otimismo da vontade. Devemos usar o pessimismo de nossa inteligência para compreender criticamente as políticas educacionais sobre a inclusão e como elas se materializam na prática, denunciando as contradições das práticas excludentes com discursos inovadores. Porém, não podemos abrir mão do nosso otimismo da vontade, o qual nos deve manter esperançosos e ativos na luta contra o sistema de exclusão social que enfraquece as bases de sustentação democrática no sistema educacional e na sociedade como um todo. E, nesse sentido, restringe “[...] o direito à educação como pré-requisito essencial para a conquista da cidadania, uma cidadania completa que só pode ser efetivada numa sociedade igualitária” (DALBERIO, 2009, p.64.), O esforço conjunto, paciente, ativo e esperançoso de toda a sociedade, a mobilização e a força dos educadores têm importância fundamental nessa missão. Gramsciana Baseado em Antônio Gramsci, teórico que viveu entre 1891 e 1937, em Roma, Itália. Sugerimos que confira o site: http://pt.wikipedia.org/wiki/Antonio_Gramsci PESQUISANDO NA WEB Afirmamos que o alcance da Escola Inclusiva depende de um longo processo que envolve muitas ações e mudanças, mas que pode ser alcançado com a contribuição não só dos educadores, mas da sociedade como um todo. Você também tem a sua parte e muito pode contribuir. Vamos lá!... 58 UNIUBE Referências ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. Trad. Alfredo Bosi e Maurici Cunio. 2. ed. São Paulo: Mestre Jou, 1962. BEAUPRÉ. P. O desafio da integração escolar: ênfase na aprendizagem acadêmica. In. MANTOAN, M. T. E. A Integração de pessoas com deficiência: contribuições para uma reflexão sobre o tema. São Paulo: Memnon/SP: SENAC, 1997. BOBBIO, N., MATEUCCI, N. & PASQUINO, G. Dicionário de Política. Brasília: UNB, 1986. p. 686-705. (verbete Liberalismo). BRASIL.MEC.SEESP. Política nacional de educação especial. Brasília, 1994. (Livro1). BRASIL. MEC.SEF. Parâmetros curriculares nacionais: Introdução. 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Capítulo 2 É muito condizente, sobretudo em nossa profissão, o convite de Lacerda (2001, p. 143) “Uma iluminação indireta pode revelar detalhes que até à resplandecente luz do sol escaparam. Portanto: olhe sempre de outros jeitos. “O profissional docente é o sujeito da educação que sempre deve procurar diferentes formas e diferentes focos de compreender e surpreender aqueles com os quais se relaciona e interage em seu contexto de vida. Após os estudos realizados referentes ao projeto político- pedagógico, às relações que o homem estabelece ao aprender e às diferentes teorias que defendem as formas diversas de condução da aprendizagem, é chegada a hora de conversarmos a respeito das necessidades especiais que surgem na escola e, mais intimamente, na sala de aula. Então, vamos aprofundar nosso conhecimento em relação à aprendizagem humana. Acredito que possivelmente esse assunto já tenha lhe causado interesse e até mesmo sido estudado em sua sala de aula, caso já trabalhe na área. Neste capítulo, iremos abordar o caminho histórico das dificuldades de aprendizagem; explicar as terminologias utilizadas para a descrição de casos de dificuldade de aprendizagem, distúrbios 64 UNIUBE Neste capítulo, estudaremos as necessidades educacionais especiais inerentes aos seres humanos. Após o estudo deste capítulo, esperamos que você seja capaz de: • compreender o estudo histórico das necessidades educacionais especiais e os desdobramentos ocorridos de acordo com cada época; • diferenciar as terminologias utilizadas para a descrição de casos de dificuldade de aprendizagem, distúrbios e deficiências; • compreender as práticas pedagógicas utilizadas nos contextos escolares e refletir sobre aquelas que são mais convenientes entre os diferentes casos; • identificar as diferentes necessidades educacionais especiais das crianças e dos jovens, considerando-os o eixo central para a atuação pedagógica. e deficiências, bem como a diferenciação entre eles; analisar as práticas que os educadores estão utilizando em seus contextos escolares e refletir sobre aquelas que são mais convenientes entre os diferentes casos. Este estudo vem ao encontro das necessidades do profissional docente e gestor que está na escola, esforçando-se para fazer o melhor dentro das possibilidades e entraves que encontra. O estudo também tem como finalidade chamar o educador para desenvolver um trabalho de observador e investigador constante, pois somente com essa análise investigativa, fundamentada na teoria e em uma prática reflexiva, é que teremos o avanço não só do aluno com necessidades especiais, mas de todos os alunos. Objetivos UNIUBE 65 2.1 Compreendendo a história das necessidades educacionais especiais 2.2 Conceituação e descrição de dificuldade de aprendizagem, distúrbio e deficiência 2.3 Causas 2.4 Propostas pedagógicas 2.5 Conclusão Esquema Compreendendo a história das necessidades educacionais especiais 2.1 O início dos estudos das necessidades educacionais especiais partiu do conceito que os estudiosos tinham de criança com lesão cerebral. Somente a partir de 1963 é que os termos relacionados às necessidades educacionais especiais ganham outras configurações e são oficializados. Para melhor compreensão do assunto, Cruz (1999) organizou os momentos históricos em quatro fases. 2.1.1 Fase da fundação (1800-1930) A medicina, em especial a neurologia, que primeiro se interessou pelo tema e pela observação de pacientes com algum tipo de lesão cerebral, observou que, de acordo com a especificação e localização cerebral das funções tais como a linguagem, memória, personalidade e inteligência, as reações dos pacientes eram totalmente diferentes. Em 1860, Pierre Broca descobre que o lado esquerdo do cérebro funciona de modo diferente do lado direito, e as desordens da fala e da linguagem expressiva devem-se a danos ou lesões em uma área específica do cérebro. Outro fato a ressaltar foi o de 1908, em que Carl Wernicke, em pesquisa, assinala que a área temporal esquerda é responsável 66 UNIUBE pela compreensão verbal, tanto na compreensão como na associação de sons e da linguagem escrita. Em 1917, com estudos de James Hinshelwood, foi detectada a localização distinta para a memória visual de tipo cotidiano, para memória visual de letras e para memória visual de palavras, localizando-se estas últimas no girus angular do hemisfério esquerdo. Samuel Orton, em 1928, relata que todos os indivíduos têm um hemisfério cerebral dominante e que o hemisfério dominante nos destros é o esquerdo e, nos canhotos, o hemisfério cerebral dominante é o direito. Pode-se dizer que a história das pessoas com necessidades educacionais especiais encontra suas heranças nos estudos neuropsicológicos de adultos que perderam a habilidade para falar, ler, escrever ou calcular depois de sofrerem uma lesão cerebral. Tais investigações e teorias foram, posteriormente, alargadas às crianças que apresentavam um desenvolvimento aquém do esperado das habilidades acadêmicas em específico. Essa fase da história foi muito importante para a ciência relacionada ao desenvolvimento das capacidades e habilidadesdo homem, porém foi também um período de estudos restrito ao grupo de teóricos e estudiosos das ciências relacionadas à saúde. 2.1.2 Fase de transição (1930-1936) Psicólogos e educadores começam a desenvolver instrumentos e programas úteis para o diagnóstico e a recuperação de distúrbios manifestados pelas crianças, no processo de aprendizagem. Podemos dizer que algumas pessoas foram muito importantes para o estudo das necessidades educacionais especiais nessa época, entre elas, citamos: Girus angular do hemisfério esquerdo Atua como conexão entre as regiões auditivas e visuais, centro básico da conversão do estímulo visual- grafema em unidades auditivas equivalentes – fonemas – ou seja, o processo básico da leitura. Fonte: Fonseca (1995, p. 39). UNIUBE 67 • Werner (filósofo alemão); • Strauss (antropólogo, filósofo e professor, considerado fundador da antropologia); • Marianne Frostig (realizou estudos voltados para o desenvolvimento perceptivo e motor); • Maslow (psicólogo americano); • Lefèvre (neurologista que se dedicou aos testes e programas psicomotores); • Myklebust (estudioso dos distúrbios de aprendizagem, ligados ao desenvolvimento psicomotor) e outros. Verificou-se que a maioria dos estudiosos destacados já não procedia do campo da neurologia, passando a ter origem no campo da psicologia e da educação, o que justifica a proliferação de produção de testes e programas de recuperação, verificados nesta época. Também, nesta fase, as necessidades educacionais especiais ganham outra visão, além da visão neurológica, constata-se a inferência da questão educacional, pois, na realidade, os investigadores observavam uma variedade de problemas presentes em crianças de inteligência normal, que pareciam intervir na aprendizagem. Essa fase foi muito importante para nós, educadores. Nessa época, o espaço para educação começa a ganhar força! SAIBA MAIS 2.1.3 Fase de integração (1963-1980) Samuel Kirk, em 1965 (apud FONSECA, 1995), populariza o termo dificuldade de aprendizagem (learning disability), com isso, surgem métodos de avaliação e diagnóstico, bem como programas de intervenção específica. 68 UNIUBE A partir do momento em que surge, oficialmente, o campo da dificuldade de aprendizagem e que ele se concretiza em sua área de atividade própria, surgem interesses pelos possíveis problemas que podem surgir no processo ensino-aprendizagem. Esse interesse foi manifestado em diferentes formas por meio de publicações, programas universitários para a formação de especialistas, associações de profissionais e disposições legais para dotar, economicamente, serviços adequados que atendam as crianças com dificuldades de aprendizagem a fim de que adquiram habilidades escolares. Mesmo que a educação tenha conseguido um espaço para discussão e participação desse estudo, ele foi muito pequeno e restrito, pois se acreditava que os professores não estavam aptos a discutir e a colaborar com esse processo tão elaborado que é a construção do conhecimento humano. 2.1.4 Fase contemporânea (1980-atualidade) Alargam-se tendências para o diagnóstico e para a intervenção. Há grande avanço nos trabalhos interdisciplinares entre os profissionais. Nesse período, é possível estabelecer três quadros conceituais relacionados às dificuldades de aprendizagem: • Inicialmente, tem-se uma visão comportamental, nesse caso as dificuldades de aprendizagens são explicadas por ações observáveis entre respostas dadas em situações específicas de aprendizagem e os estímulos recebidos. Nessa perspectiva, a aprendizagem é vista somente como sendo a relação entre o estímulo fornecido e uma resposta ou recompensa, de alguma forma, é providenciada pelo indivíduo, ou entre esta resposta e um reforço. • Outra visão é a inatista, que dá ênfase ao aspecto cognitivo da criança. Nessa perspectiva, as pessoas com dificuldades de aprendizagem necessitam de um controle, de um programa ou UNIUBE 69 plano de ação; as crianças com dificuldades de aprendizagem são aquelas que apresentam alterações nas capacidades de retenção da informação na memória de trabalho, na seleção de informação e/ou retêm pouca informação na memória de longo prazo. • E, finalmente, a perspectiva neuropsicológica, que procura relacionar o conhecimento neurológico relacionado à bagagem do indivíduo dentro da neurociência com os aspectos psicológicos e os aspectos educacionais. Essa abordagem acredita que a aprendizagem é um comportamento complexo mediatizado por questões físicas, emocionais, ambientais e pedagógicas. É possível que você ainda esteja confuso(a) em relação ao que vem a ser realmente uma dificuldade de aprendizagem e se as necessidades educacionais especiais estão relacionadas ou não com as dificuldades de aprendizagem, bem como com as deficiências. Vamos tentar conversar mais um pouco sobre isso e esclarecer o que são essas terminologias e também o alcance delas na escola e na aprendizagem. Visão comportamental: é o conjunto das teorias psicológicas (entre elas, a análise do comportamento, a psicologia objetiva) que postulam o comportamento como o mais adequado objeto de estudo da psicologia. O comportamento geralmente é definido por meio das unidades analíticas de respostas e estímulos. Historicamente, a observação e a descrição do comportamento fizeram oposição ao uso do método de introspecção. Fonte: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Behaviorismo>. Acesso em: 9 abr. 2012. SAIBA MAIS 70 UNIUBE Visão inatista: a visão inatista defende que os seres humanos nascem programados biologicamente para falar, assim como os pássaros para voar. Fonte: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Teoria_inatista>. Acesso em: 9 abr. 2012. Memória de trabalho: entende-se memória de trabalho ou memória de curto prazo como um componente cognitivo ligado à memória, que permite o armazenamento temporário de informação com capacidade limitada. Fonte: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Mem%C3%B3ria_de_trabalho>. Acesso em: 9 abr. 2012. Conceituação e descrição de dificuldade de aprendizagem, distúrbio e deficiência 2.2 A grande finalidade desse tópico no estudo das necessidades educacionais especiais vem ao encontro do documento do MEC (BRASIL, 2003, p. 18), elaborado para a Educação Infantil. Esse documento refere-se à funcionalidade e à capacidade de uma pessoa. Essa funcionalidade é concebida como uma interação dinâmica entre os estados de saúde (doenças, distúrbios, lesões e traumas), que podem trazer limitações no desenvolvimento, e os fatores contextuais. Logo, antes de antecipar a realização de um diagnóstico precoce e, por isso mesmo indevido, todos os aspectos do desenvolvimento, bem como o meio cultural que esse sujeito está inserido, devem ser considerados e analisados profundamente. 2.2.1 Conceituação É sempre bom compreendermos a conceitualização e as diferenças entre os termos dificuldade de aprendizagem, distúrbio e deficiência, pois ao conhecê-los com maior propriedade melhor será nossa posição e nossa intervenção frente a eles. UNIUBE 71 2.2.1.1 Dificuldade de aprendizagem A dificuldade de aprendizagem constitui uma inadequação de rendimento acadêmico, não explicável pelo déficit cognitivo, pelo prejuízo sensorial e físico ou pelo desajustamento emocional. As causas das dificuldades de aprendizagem são diversas e podem ser relativas à capacidade básica para aprender, às técnicas de ensino, aos recursos físicos, humanos ou didáticos, às estratégias de ensino, à avaliação e, por último, a um meio social e escolar pouco estimulante. As crianças com queixas de dificuldades de aprendizagem apresentam as seguintes características: • problemas de atenção; • problemas emocionais decorrentes do fracasso acadêmico; • problemas de memória; • dificuldades psicolinguísticas; • dificuldades ou atrasos motores; • dificuldades significativas na aquisição, compreensãoe utilização auditiva; • dificuldades de linguagem oral, leitura, escrita e raciocínio lógico- matemático; • inadequação didático-metodológica do processo ensino-aprendizagem. 2.2.1.2 Distúrbio de aprendizagem O distúrbio de aprendizagem está relacionado a quadros de alterações neurológicas, descartando causas que provocam deficiências ou dificuldades. Referem-se às pessoas que possuem problemas significativos de aquisição e uso das capacidades de compreensão e expressão linguísticas e das operações lógico-matemáticas. Manifesta-se costumeiramente em uma ou poucas habilidades, sendo possível a criança ser ótima em matemática e não conseguir ler e escrever satisfatoriamente. 72 UNIUBE As causas advêm de disfunções cerebrais tanto de origem genética como adquirida. As crianças apresentam comportamento “anormal” em relação à aprendizagem e apresentam um cérebro anatomicamente “normal”. As características dos distúrbios de aprendizagem comumente não manifestam irregularidades em exames médicos. As crianças com queixas de distúrbios de aprendizagem podem apresentar: • distúrbio de leitura e escrita – dislexia; • distúrbio na articulação da fala – dislalia; • distúrbio na grafia – disgrafia; • distúrbio na organização das palavras – disortografia; • distúrbio na organização e no trabalho com números – discalculia. 2.2.1.3 Deficiência de aprendizagem A deficiência de aprendizagem diz respeito a uma incapacidade intelectual acentuada. Nesse grupo, geralmente estão crianças com déficits cognitivos. Há, nesse grupo, um comprometimento geral nos aspectos: motor, cognitivo e social. A aprendizagem está sempre atrasada em comparação à dos alunos ditos normais. Para que a criança seja considerada deficiente intelectual, é necessário que sua conduta esteja aliada a duas ou mais dificuldades adaptativas que correspondem à/ao: • comunicação; • autocuidado; • vida familiar; • vida social; • autonomia; • saúde e segurança; • funcionalidade acadêmica; • lazer; • trabalho. UNIUBE 73 É preciso que você compreenda a necessidade do educador em se aprofundar nos estudos de cada característica para, então, poder auxiliar o aluno, bem como a família dele. Não podemos rotular nossos alunos com base em suspeitas e observações infundadas. As suspeitas e observações são de grande importância desde que fundamentadas teoricamente e analisadas por uma equipe multiprofissional. 2.2.2 Descrição Dentro desse tópico, abordaremos as características e as causas das dificuldades de aprendizagem, dos distúrbios e das deficiências. Acreditamos ser de grande importância esse conhecimento, pois ele poderá favorecer-lhe subsídios mais precisos para as suas observações e atuações nas práticas pedagógicas. 2.2.2.1 Dificuldades de aprendizagem As dificuldades de aprendizagens se manifestam de maneira tão sutil que muitas vezes as crianças que apresentam essa característica passam despercebidas no contexto de sala de aula e, consequentemente, não recebem o devido cuidado. Equipe multiprofissional É uma equipe composta por diferentes profissionais. Aqui, nesse caso, enfatizam-se os profissionais da saúde e educação. Muitas crianças com dificuldades de aprendizagem têm a inteligência superior, considerando a média. E em geral são boas e se mostram capazes em algumas áreas e em outras apresentam muitas dificuldades! CURIOSIDADE 74 UNIUBE Como no exemplo de Smith e Strick (2001, p. 15) em que questiona: Como uma criança pode saber tudo o que é possível saber sobre dinossauros aos quatro anos, mas ainda ser incapaz de aprender o alfabeto? Como um aluno que lê aos três anos à frente do nível de sua série entrega um trabalho por escrito completamente incompreensível? Como uma criança pode ler um parágrafo em voz alta impecavelmente e não recordar seu conteúdo cinco minutos depois? Não admira que os estudantes sejam acusados frequentemente de desatentos, não cooperativos ou desmotivados. Essa discrepância entre o que esperamos que a criança devesse fazer e o que ela realmente faz com suas limitações é a marca das dificuldades de aprendizagem. Como diz Smith e Strick (2001, p. 1), o que essas crianças têm em comum é o baixo desempenho inesperado. Diversos autores acreditam que algumas dificuldades de aprendizagem estão ligadas a problemas neurológicos, o que não deixa de ser verdadeiro, porém já foi percebido, por diferentes estudiosos, que os problemas mais comuns que afetam essas crianças podem ou não estar relacionados com disfunções neurológicas. Tais problemas estão relacionados à percepção visual, ao processamento da linguagem, às habilidades motoras finas e à capacidade para focar atenção. É importante ressaltar que Smith e Strick (2001) observaram em crianças e jovens que apresentam dificuldades de aprendizagem: • fraco alcance de atenção: a criança se distrai com facilidade e não consegue focar a atenção em apenas uma situação ou objeto; • dificuldade para seguir instruções: as instruções não são bem compreendidas ou assimiladas, então a criança pergunta repetitivamente os comandos que lhe são fornecidos; • imaturidade social: a criança age com se fosse mais nova do que sua idade cronológica e prefere a companhia das crianças menores; • dificuldade com a conversação: dificuldade em encontrar as palavras certas para se expressar e, às vezes, apresentam gagueira temporária até encontrarem a palavra que querem falar; UNIUBE 75 • inflexibilidade: teimosia em continuar fazendo aquilo que já testou e que não deu certo; também nega apoio e auxílio; • fraco planejamento e habilidades organizacionais: não consegue estabelecer um cronograma de tempo e organização para a realização das suas atividades; • distração: perdem com frequência seus objetos, roupas, esquecem- se de compromissos referentes à realização de tarefas; • falta de destreza: desajeitadas, deixam cair tudo, esbarram nas pessoas e objetos e geralmente têm a caligrafia muito ruim; • falta de controle dos impulsos: dificuldade de esperar sua vez nos momentos de falar e agir. Interrompe com frequência a fala das pessoas. É possível afirmar que muitas crianças que apresentam dificuldades de aprendizagem sofrem muito com esse comportamento e essas manifestações. Por falta de informação e conhecimento, são mal compreendidas pela escola e pela família. Contudo, acreditam, realmente, que são incapazes e isso as leva a acreditar em rótulos desrespeitosos (“desastrada”, “cabeça vazia”, “tartaruga”), que, muitas vezes, as pessoas dão a elas. Com autoestima baixa e incompreendidas, muitas procuram os caminhos da dependência química e o mundo do crime. 2.2.2.2 Distúrbios de aprendizagem Para você compreender melhor, ressaltamos que os distúrbios estão intimamente ligados às disfunções neurológicas. Essas disfunções podem ser de ordem anatômica ou de ordem fisiológica. Os distúrbios estão relacionados com as dificuldades acentuadas de aprendizagem, Anatômica Adj. 1 relativo ou pertencente à anatomia, ex: traços a. [...] 2 corporal, físico lesão ex: a.[...]. Fonte: Houaiss e Villar (2009, p. 127). Fisiológica Relativo à Fisiologia ─ s.f. [...] estudo das funções e do funcionamento normal dos seres vivos, esp. dos processos físico- químicos que ocorrem nas células, tecidos, órgãos e sistemas dos seres vivos sadios, biofisiologia. [...]. Fonte: Houaiss e Villar (2009, p. 900). 76 UNIUBE dificuldades relacionadas às habilidades acadêmicas básicas de leitura, escrita, ortografia, aritmética e linguagem (compreensão e expressão). É importante excluir as causas relacionadas aos déficits (deficiências) sensoriais, deficiência motora, desvantagem ambiental e distúrbios emocionais e/ou psiquiátricos. O parceiro ideal para auxiliar no diagnóstico dos distúrbios é uma equipe multiprofissional como: médico, pediatra ou neurologista, psicólogo, fonoaudiólogo, psicopedagogo e professores.Em relação à parte pedagógica, a avaliação deve estar voltada para as questões pedagógicas do ato de aprender, o olhar deve estar voltado para as questões que revelem distorções na aprendizagem acadêmica e a prioridade delas na vida da criança. A equipe dirigente, bem como a equipe pedagógica da escola, deve valer-se da observação de atividades espontâneas, jogos, brincadeiras, desenhos, assim como a produção escolar, para diagnosticar a dificuldade acentuada de aprendizagem da criança. A conclusão encontrada pelas equipes da escola deve ser confrontada com os outros especialistas, como mencionamos anteriormente. Vamos agora conhecer os distúrbios mais comuns perceptíveis dentro da escola, os quais, muitas vezes, têm nos atormentado, deixando-nos totalmente inertes frente às dificuldades e aos entraves apresentados por eles. Dislexia A dislexia é um dos muitos distúrbios de aprendizagem. É um distúrbio específico da linguagem de ordem constitucional, caracterizado pela dificuldade de decodificar palavras simples, além de ser uma insuficiência no processo fonológico. Garcia (1988) deixa claro que a dislexia vem de uma dificuldade acentuada de processar a informação procedente da linguagem escrita. UNIUBE 77 Tais dificuldades, devido à complexidade dos sistemas funcionais integrados, podem dar lugar a distintos sintomas relativos à leitura, à escrita, tanto em nível gráfico como ortográfico. Geralmente a dislexia é hereditária, ou, às vezes, adquirida, afetando a aprendizagem da leitura, da escrita, da ortografia, da gramática e da redação. Assim, a criança disléxica apresenta várias formas de dificuldades e, frequentemente, problemas de leitura, na aquisição e na capacidade de escrever e soletrar. Para efeito de melhor compreensão e intervenção, Condemarin (1986) classifica e ressalta as manifestações mais comuns das dislexias da seguinte forma: a) Tipos de dislexia: • Acústica: manifesta-se na insuficiência da diferenciação acústica dos fonemas e na análise e síntese destes. • Visual: imprecisão de coordenação visuoespacial, manifestando-se na confusão de letras com semelhantes grafias. • Motriz: evidencia-se em dificuldade na movimentação ocular. b) Manifestações mais comuns: • Inversão de palavras. • Dificuldades para ler. • Cópia de forma errada. • Confusão de letras que têm o som parecido. • Alteração na sequência das letras. • Confusão de palavras parecidas. • Erros na separação de palavras. • Dificuldade no traçado das letras. • Falhas na construção gramatical. 78 UNIUBE Dislalia A dislalia é o transtorno na articulação dos fonemas, por alterações funcionais dos órgãos da fala. As dificuldades dessas crianças começam com a palavra falada e, tipicamente, interferem na leitura e/ou na escrita quando a criança ingressa na escola. A família tem consciência dessa dificuldade antes mesmo que a criança inicie o processo de escolarização. Os estudos de Morais (1986) classificam as dislalias: a) Tipos de dislalia: • Fisiológica: é a dislalia que se apresenta na criança durante o desenvolvimento da fala e tende a desaparecer antes de chegar à idade escolar. • Funcional: caracteriza-se pela omissão, substituição ou deformação de fonemas. • Audiógena: é a dificuldade na articulação dos fonemas, que tem como causa um déficit de audição. • Orgânica: caracteriza-se por transtornos na articulação de fonemas, causados por alteração anátomo-funcional nos órgãos da fala. Segundo Smith e Strick (2001), as crianças que apresentam dislalia geralmente apresentam: b) Manifestações mais comuns: • Atraso para aprender a falar. • Dificuldade de modular o tom de voz (fala monótona ou muito alta). • Problemas em citar nomes de objetos e de pessoas. • Má pronúncia das palavras. • Trocas, inversões, omissões de fonemas na linguagem oral e/ou escrita. • Fala lenta ou com interrupções. • Confunde palavras com sons similares. UNIUBE 79 • Demonstra pouco interesse por livros e histórias. • Com frequência, não compreende ou não recorda instruções. • Dificuldade para analisar sons. Disgrafia A disgrafia é uma deficiência na qualidade do traçado gráfico. As crianças ou jovens com esse tipo de problema motor não conseguem controlar plenamente os grupos de pequenos músculos das mãos. Segundo Smith e Strick (2001), esse distúrbio não tem impacto sobre a capacidade intelectual, mas interfere no desempenho escolar, porque prejudica a capacidade de o aluno comunicar-se pela escrita. a) Segundo Ellis (1985), crianças que possuem disgrafia podem apresentar: • Má organização da página: está intimamente ligada à orientação espacial. A escrita caracteriza-se pela apresentação desordenada do texto com margens malfeitas ou inexistentes. • Má organização das letras: caracteriza-se pela incapacidade a criança em submeter-se às regras, às caligrafias, às hastes das letras deformadas, aos contornos das letras enroscados, às irregularidades em suas dimensões. • Erros de formas e proporções: referem-se ao grau de clareza do traçado das letras, das dimensões e do grau de organização das formas de escrita muito alongada ou comprida. b) Outras manifestações: • Parecem desajeitados e atrapalhados. • Apresentam dificuldades para manipular pequenos objetos, como peça de quebra-cabeça ou blocos. • Apresentam problemas com abotoamentos (botões, zíper, laços e amarrar os cadarços). 80 UNIUBE • Apresentam dificuldade para colorir, não conseguem manter a cor dentro dos contornos do desenho. • Dificuldade para o uso da tesoura. • Desajeitados para segurar o lápis (podem segurar com muita força ou frouxo demais). • Atrasos para escrever letras e os números são malformados. • Podem ter atraso na aprendizagem da fala ou ter problemas de articulação. • Erros de cálculos são comuns, devido a numerais ilegíveis, amontoados e pouco alinhados. Disortografia A disortografia é a impossibilidade de visualizar a forma correta da escrita das palavras. A criança escreve seguindo os sons da fala e sua escrita, por vezes, torna-se incompreensível. É caracterizada pela dificuldade de orientação no tempo e no espaço. A criança apresenta também falhas de coordenação motora. Segundo Condemarin (1986), os sinais que as crianças ou jovens podem apresentar: • Trocas de grafemas. • Problemas de ligações lógicas e ideias. • Problemas de concordância. • Omissões de palavras/letras. • Acréscimos indevidos de letras. • Alterações na sequência de letras ou sons (prola – porta). • Substituições de letras. Segundo Guerra (2002), os erros mais comuns são: • Erros fonéticos: semelhança visual da ortografia. UNIUBE 81 • Erros visuais. • Erros de substituição de letras. • Erros de inserção ou acréscimo e de omissão. • Erros sequenciais. De acordo com Smith e Strick (2001), as crianças que apresentam essa dificuldade acentuada da percepção visual têm problemas em entender o que veem. O problema não é de visão, mas sim relacionado ao modo como seus cérebros processam as informações visuais. Ainda ressaltam que essas crianças podem ter problemas relacionados ao entendimento de espectro de símbolos, números, diagramas, mapas, gráficos e tabelas. Discalculia A discalculia é um distúrbio de ordem neurológica com causas diversas que envolvem as questões orgânicas e psiconeurológicas. Caracteriza- -se pela dificuldade ou incapacidade para reconhecer e codificar sinais/ números, aspectos geométricos dos objetos e total inabilidade para quaisquer cálculos matemáticos. É sempre bom ressaltar que é necessário estar bem atento(a) às características, conhecer bem o aluno e estar em comum acordo com o diagnóstico da equipe multiprofissional, para que se possa distinguir o distúrbio das falhas metodológicas do ensino. As dificuldades específicas da aprendizagem da matemática, segundo Guerra (2002), envolvem problemas na/no: • Compreensão matemática: a criança com essa dificuldadepoderá escrever o numeral e não compreender o quanto este vale. • Funções operacionais: dificuldades em somar, subtrair, multiplicar ou dividir. • Processo de seleção: dificuldade em selecionar a operação apropriada para resolver o problema. 82 UNIUBE • Memória sequencial: dificuldade de lembrar a ordem das operações para resolver problemas. • Organização sequencial: dificuldade em estabelecer ordem numérica. • Expressão matemática verbal: dificuldade em expressar termos e conceitos matemáticos. • Simbolização abstrata: dificuldade em entender a representação dos números por símbolos (álgebra). • Associação visual: dificuldade de identificar um número com símbolo escrito (leitura dos numerais). • Agrupamento: dificuldade de discernir ou identificar grupos ou objetos. • Manipulação matemática concreta: dificuldade em julgar o tamanho e o número de objetos reais. • Conservação de quantidades: dificuldade em entender que a quantidade não altera com a forma. • Estabelecimento da relação “um a um”: dificuldade de lidar com proporções matemáticas constantes. • Representação gráfica dos números: dificuldade em lembrar como escrever números. • Interpretação de sinais: dificuldade na leitura e na compreensão dos símbolos aritméticos como “+” e “ –”, por exemplo. 2.2.2.3 Deficiências As deficiências são consideradas necessidades educacionais permanentes. A expressão pessoa com deficiência pode ser aplicada ao nos referirmos a qualquer pessoa que possua dificuldades acentuadas no comportamento, dificuldades acentuadas de comunicação e sinalização – deficiência física; dificuldades de comunicação e sinalização – surdocegueira; dificuldade acentuada na comunicação e audição – surdez; dificuldade acentuada da percepção visual – deficiência visual; altas habilidades e superdotação. UNIUBE 83 Colocamos, de modo geral, todas as deficiências, mas iremos aprofundar nossa conversa na deficiência mental. As sensórias (visual, auditiva), física e altas habilidades são conteúdos de outros capítulos. Para que a deficiência intelectual seja diagnosticada como deficiência ou mais comumente como déficit cognitivo, é necessária a observação e um estudo comparativo, levando em consideração as diferentes reações e manifestações do indivíduo diante das dificuldades, entraves e mesmo frente às situações que a vida cotidiana nos impõe. Segundo documento do MEC, Carvalho (1997), que faz parte do programa de capacitação de recursos humanos do Ensino Fundamental, que descreve o trabalho com os recursos humanos que irão atuar com as pessoas com deficiência intelectual, deixa claro que, para uma pessoa ser identificada como deficiente, é necessário que, no mínimo, duas áreas de habilidades adaptativas estejam defasadas. Vejamos, a seguir, as áreas adaptativas descritas na conceituação. Iremos detalhar cada uma delas. • Comunicação: diz respeito às habilidades para compreender e expressar informações por meio de palavras, faladas ou escritas, e ainda para compreender as emoções e as mensagens das outras pessoas. • Autocuidado: refere-se às habilidades que asseguram a higiene pessoal, a alimentação, o vestuário, o uso do sanitário etc. • Vida familiar: refere-se às habilidades necessárias para uma adequada funcionalidade no lar, no cuidado com os pertences, com o ambiente doméstico, os cuidados com os bens da família, a participação nos trabalhos domésticos, no convívio e nas relações familiares. • Vida social: diz respeito às trocas na comunidade, ao respeito e às relações com vizinhos, colegas, amigos e membros da comunidade, compartilhar e cooperar, respeitar limites e normas, fazer escolhas, controlar impulsos, resistir às frustrações. 84 UNIUBE • Autonomia: refere-se às habilidades para fazer escolhas, tomar iniciativas, cumprir planejamento, atender aos próprios interesses, cumprir tarefas, pedir ajuda, resolver problemas, defender-se, explicar-se, buscar ajuda quando necessário etc. • Saúde e segurança: diz respeito às habilidades para cuidar da saúde, cuidar da segurança, evitar perigos, seguir leis de trânsito e outras que visem ao bem-estar. • Funcionalidade acadêmica: refere-se às habilidades relacionadas à aprendizagem dos conteúdos curriculares propostos na escola, como: ler, escrever, calcular, obter conhecimentos científicos e sociais. • Lazer: diz respeito ao interesse de participar de atividades de entretenimento individual ou coletivo, de acordo com a idade e com o ambiente cultural e comunitário. • Trabalho: refere-se às habilidades para realizar um trabalho em tempo parcial ou total, comportando-se apropriadamente, cooperando, compartilhando, concluindo as tarefas, tomando iniciativas, administrando bem o salário, aceitando a hierarquia e as próprias limitações e dos demais, realizando atividades independentes etc. A descrição que colocamos foi exposta de modo geral, mas para compreendermos melhor sobre cada item colocado é preciso que não nos esqueçamos de enfatizar que é de grande responsabilidade e perigoso um diagnóstico unilateral. É preciso realmente o estudo, as observações e avaliações específicas de cada área envolvida, da equipe de profissionais. Para nós, educadores, cabe o acesso às informações, o aprofundamento do assunto por meio de pesquisas. O que é de nossa real competência é fazer o trabalho pedagógico focando as especificidades e capacidades de cada um, em parceria com a família e com a equipe de profissionais envolvidos com a dificuldade da criança. Acreditamos ser necessário, para que este estudo fique mais completo, expor as causas das dificuldades, dos distúrbios e das deficiências. Então, vamos lá! UNIUBE 85 Causas2.3 As causas das dificuldades, dos distúrbios e das deficiências não são muito diferentes umas das outras, mas é possível fazer a diferenciação em relação às causas neurológicas, quanto à intensidade, à localização, ao período e à fisiologia da criança ou do jovem. Para você compreender melhor essa colocação, é preciso relembrar a divisão do cérebro, suas áreas e as atribuições gerais de cada uma delas (Figura 1). Figura 1: Divisão didática do cérebro humano. Fonte: Acervo EAD–Uniube. Área Frontal: do hemisfério esquerdo, centro do controle das unidades motoras. Área Parietal: centro da leitura. Área Temporal: centro da compreensão das palavras. Área Occipital: centro da identificação visual das imagens. RELEMBRANDO 86 UNIUBE Tratando-se de aprendizagem da leitura e da escrita, o cérebro é dividido didaticamente em hemisfério direito e hemisfério esquerdo, um responsável pelas questões verbais, outro pelas questões não verbais. Para ilustrar, mostraremos, a seguir, sobre o que cada hemisfério é responsável, diante da leitura e da escrita, segundo Kumura (1973 apud FONSECA, 1995). O hemisfério direito, responsável pelos conteúdos não verbais, realiza preferencialmente as seguintes funções: • Funções visuais: • localização de pontos em duas dimensões; • enumeração de pontos e formas; • reconhecimento de faces e de figuras sem significado. • Funções manuais (tátil-cinestésicas): • reconhecimento de relevo (braille); • reconhecimento de estruturas. • Funções auditivas: • sons da vida cotidiana; • padrões melódicos. Em compensação, o hemisfério esquerdo tem sido considerado responsável pelos conteúdos verbais. Realiza preferencialmente as funções: • Funções visuais: • reconhecimento de letras e palavras. • Funções manuais: • movimentos complexos; • fala. • Funções auditivas: • reconhecimento de palavras; • reconhecimento de sílabas. UNIUBE 87 Essa divisão serve como ilustração para melhor compreensão do caminho da aprendizagem. Para que a aprendizagem ocorra, é necessário que todas as partes estejam em plena integridade e funcionando harmonicamente. As causas das dificuldades de aprendizagem são de difícil especificação e, ao mesmo tempo, o grupode alunos com esse tipo de necessidade educacional é, sem dúvida, o maior. Há sempre muitas perguntas, questionamentos: como isso aconteceu? O que deu errado? Será que as crianças podem superar as dificuldades de aprendizagem? Isso é uma doença? Tem cura? Mas pais e professores nem sempre podem obter respostas claras para as questões relacionadas aos problemas dos filhos e dos alunos. Os fatores são múltiplos e os estudos também. Contudo, embora estudos e pesquisas tenham trazido informações mais claras sobre as estruturas e o funcionamento do cérebro, nem sempre é possível aplicar, na íntegra, essas informações a um indivíduo. Entretanto, o desenvolvimento individual da criança e o ambiente familiar e escolar são fatores que podem interferir no processo de aprendizagem. Embora, supostamente, as dificuldades de aprendizagem tenham uma base biológica, o ambiente da criança determina a gravidade e o impacto da dificuldade. Isso tem demonstrado que alterações no ambiente familiar e escolar da criança fazem uma diferença impressionante no progresso educacional. IMPORTANTE! Segundo Smith e Strick (2001), os fatores biológicos que contribuem para as dificuldades de aprendizagem podem ser divididos em cinco categorias gerais: lesão cerebral, alterações no desenvolvimento cerebral, desequilíbrios neuroquímicos, hereditariedade e influências ambientais. 88 UNIUBE Por vários anos, os atrasos na aprendizagem foram explicados por meio das lesões cerebrais, mas com o avanço das pesquisas foi possível verificar que indivíduos sem lesões cerebrais também tinham atrasos significativos na aprendizagem. 2.3.1 Lesão cerebral Como vimos, o cérebro foi, didaticamente, dividido em partes e cada parte é responsável diretamente por desempenhar funções específicas. Mas, para que as ações, interações, pensamentos, sentidos e sensações humanas ocorram de forma tranquila, é preciso que todas as áreas estejam constituídas anatomicamente e fisiologicamente de forma perfeita e estejam trabalhando harmonicamente entre si. Nesse sentido, as dificuldades de aprendizagem, distúrbios e/ou deficiência podem surgir a partir de lesões do cérebro. Entre os tipos de lesões associadas aos atrasos no desenvolvimento e na aprendizagem estão os acidentes, as hemorragias e os tumores cerebrais, doenças como encefalites e meningite, transtornos glandulares não tratados na infância e hipoglicemia na primeira infância. A desnutrição e a exposição a substâncias químicas tóxicas (como chumbo e pesticidas) também causam danos cerebrais. Eventos de privação de oxigênio, tratamento com quimioterapia para câncer, doenças que ocorrem durante a gestação e exposição ao álcool e drogas podem estar associados a uma variedade de problemas de aprendizagem, déficit cognitivo, déficit de atenção, hiperatividade e problemas de memória. 2.3.2 Alterações no desenvolvimento cerebral O desenvolvimento do cérebro humano inicia-se na concepção e desde então não para mais. Ele se desenvolve em estágios, e um dos períodos mais importantes é entre o 5º e 9º mês. Período em que o córtex cerebral está sendo pouco a pouco estruturado. UNIUBE 89 As regiões do cérebro vão se tornando cada vez mais especializadas à medida que as crianças vão ficando mais velhas. Durante a primeira e a segunda infância, novas conexões entre as partes do cérebro vão se estruturando e o pensamento dos infantes vai ficando mais elaborado. Se esse processo de maturação e ativação do cérebro for perturbado, poderão ocorrer problemas no desenvolvimento global da criança. O tipo de problema causado por alterações no desenvolvimento cerebral depende das regiões do cérebro afetadas. É importante ressaltar que a aprendizagem e outros comportamentos envolvem diferentes e diversas partes do cérebro, assim, o prejuízo em uma das áreas pode afetar o desenvolvimento em outra parte do sistema. Por isso, é difícil um aluno com problemas de aprendizagem ter um problema único e isolado; problemas associados são bem comuns nessas crianças. 2.3.3 Desequilíbrios neuroquímicos As células cerebrais e os neurônios conseguem comunicar-se entre si por meio de substâncias químicas, chamadas neurotransmissores. Qualquer mudança na química do cérebro pode interferir nesses neurotransmissores e prejudicar a capacidade do cérebro funcionar adequadamente. Segundo diversos estudos, os medicamentos para equilibrar a química necessária para o funcionamento preciso do cérebro e as adequações educacionais realizadas conjuntamente têm dado resultados positivos, principalmente para os alunos com déficit de atenção e dificuldade na aprendizagem, decorrente de problemas de memória. Córtex É uma estrutura de múltiplas camadas que forma o envoltório do cérebro, responsável por praticamente todos os aspectos da atividade consciente do homem. O seu desenvolvimento e funcionamento pleno são essenciais para o pensamento e a aprendizagem de nível superior. 90 UNIUBE 2.3.4 Hereditariedade Estudos com familiares das crianças com dificuldades de aprendizagem e/ou deficiência demonstram incidência no problema. Muitas vezes, quando o problema da criança é apresentado para os pais, eles afirmam: “Mas eu também não consigo fazer isso!” Nesse sentido, os pais também necessitam do apoio que é oferecido para a criança, tanto dos profissionais quanto por parte de outros membros da família. 2.3.5 Influências ambientais Para compreendermos melhor a dificuldade de aprendizagem, é preciso compreender também o ambiente doméstico e o ambiente escolar da criança, pois eles afetam diretamente o desenvolvimento intelectual e o potencial para a aprendizagem. a) Ambiente doméstico: o ambiente doméstico exerce importante papel no desenvolvimento da aprendizagem das crianças. Estudos apontam que um ambiente enriquecido, estimulador e afetuoso não apenas tem impacto na aprendizagem, na formação do autoconceito, como também estimula o crescimento e o desenvolvimento cerebral. Professores relatam que crianças com dificuldades de aprendizagem que não tiveram estímulos e apoio em casa quando encontram problemas antecipam o fracasso, parecendo “desistir” antes de começar. Outros pontos a destacar em favor do ambiente doméstico são os aspectos relacionados aos cuidados, como: a nutrição alimentar, o sono, a higiene, os cuidados médicos, os hábitos de estudo, o estresse emocional, a privação cultural, a proteção pessoal, a estimulação do bebê e da criança pequena. Para ilustrar, vejamos um resumo do que Erik Erikson (apud UNIUBE 91 SMITH; STRICK, 2001, p. 32), psicólogo americano, considerava mais necessário para as crianças, em suas famílias, em cada estágio do desenvolvimento. • Confiança básica (do nascimento até 1 ano): os bebês obtêm um senso de confiança básica quando as interações com os adultos são agradáveis e prazerosas. Os bebês precisam de pais calorosos, receptíveis, previsíveis e sensíveis às suas necessidades. • Autonomia (de 1 a 3 anos): a confiança na capacidade para fazer escolhas e decisões é desenvolvida enquanto as crianças exercitam as habilidades exploratórias de caminhar, correr, escalar e manusear objetos. • Iniciativa (de 3 a 6 anos): os pré-escolares aprendem sobre si mesmos e suas culturas por meio de jogos de faz de conta, à medida que encenam diferentes papéis, começam a pensar sobre o tipo de pessoa que desejam tornar-se. • Produtividade (dos 6 anos até a puberdade): durante esse período é muito importante o estímulo às crianças para o trabalho produtivo e cooperativo, para se sentirem úteis e encorajadas aos desafios que a vida adulta lhes imporá. • Identidade (adolescência): essa fase é de integração das fases anteriores, o que irá favorecer a construção da identidade, favorecendo o entendimento de seu lugar na sociedade, formando assim expectativas para o futuro. b) Ambiente escolar: a criança deve estar preparada para aprender e, assim,as oportunidades dessa aprendizagem devem ser fomentadas e oferecidas pelo sistema educacional. Se o aluno nunca tem a oportunidade apropriada para desenvolver suas capacidades, torna-se efetivamente “deficiente”, embora não tendo nada fisicamente errado com ele. Sabemos que a escola e o professor enfrentam entraves que vão além de suas competências, mas também é de conhecimento de todos que necessitamos, como professores, de conhecimentos mais específicos e aprofundados das diferentes metodologias. Muitas práticas, amplamente aceitas, não oferecem variações normais no estilo de aprendizagem. 92 UNIUBE Assim, podemos imaginar o seguinte: Um aluno cuja orientação é principalmente visual e exploratória, ou seja, que precisa ver e tocar as coisas para compreendê-las, não se sairá bem com professores que “palestram” o tempo todo; não importando o quanto é inteligente e interessado na matéria. Quando deparamos com esse tipo de situação, é prudente indagar: o aluno não aprende por que é problema dele? Na verdade, muitos alunos que se saem mal na escola são vítimas da incapacidade do sistema educacional de se ajustar às diferenças individuais e culturais. PARADA PARA REFLEXÃO Ressaltamos que todas essas possíveis causas são relacionadas, aqui, para que você tenha um entendimento mais aprofundado da questão, visto que desejamos que seja um profissional a favor da promoção de um ensino de qualidade e de um processo ensino-aprendizagem rico e significativo. É importante lembrar que pais, professores e governo, muitas vezes, ficam tentando descobrir o culpado ou os culpados das dificuldades, dos distúrbios ou das deficiências e, geralmente, questionam: • Será que a culpa foi do médico? • A culpa foi do alimento consumido na gestação? • A culpa é do pai ou é da mãe ausente? • A culpa é da falta de materiais nas escolas? Indagações como essas são naturais, mas não são produtivas. Afinal, descobrir como uma criança veio a ter uma necessidade educacional especial é bem menos importante do que saber como esta afeta a visão de mundo da criança e como encontrar os tipos de apoio e auxílio de que ela necessita. UNIUBE 93 Propostas pedagógicas 2.4 O papel do professor, bem como de toda a equipe escolar, consiste, antes de tudo, em promover, por meio de ações, o apoio e, também, o resguardo do desenvolvimento pleno da criança e do jovem. A ação docente e as relações aluno e professor, na aprendizagem, devem ser movidas de significados tanto para quem ensina como para quem aprende. O professor necessita ser um profissional da educação competente, criativo, seguro e com alto grau de autonomia. O docente deve ter a autonomia de saber construir, com o aluno, aprendizagens significativas, utilizando-se dos conhecimentos científicos. O professor deve saber e dominar tais conhecimentos, articulando-os aos conhecimentos e às vivências culturais dos seus alunos, tornando- os aprendizes, criadores de conhecimentos de características próprias. Assim, é também função do professor ter a autonomia de escolher sua metodologia, fazer a seleção de conteúdos e atividades pedagógicas mais condizentes com o interesse dos alunos, com suas necessidades e dificuldades. Nesse sentido, o êxito do professor depende também de sua capacidade de manejar a complexidade da ação educativa e resolver problemas, por meio de uma interação inteligente e criativa, além de uma boa formação inicial e continuada. É exigido do profissional da educação conhecer e observar, constantemente, seu aluno, compreender os contextos sociais e as questões contemporâneas com as quais ele e seus alunos estão ampliando a concepção de educar para além do instruir; deve também zelar pela qualidade das relações afetivas e dos valores que permeiam as relações sociais na escola. É importante ressaltar as trocas, o trabalho coletivo, aperfeiçoando-se profissionalmente, individualmente e na troca com seus pares. 94 UNIUBE É preciso pensar que, em nossas escolas, a realidade educacional está estampada e o colorido relativo à diversidade de culturas e formas de aprender nos pede ações pontuais e processuais. No entanto, é preciso que voltemos o olhar para as práticas pedagógicas exercidas dentro das escolas e nos esforcemos para que, por meio delas, consigamos atingir todos os nossos alunos, inclusive os alunos com necessidades educacionais especiais, que tanto já sofreram e têm sofrido com uma educação excludente. Nesse sentido, iremos pontuar, para você, alguns conhecimentos para os quais o professor necessita estar mais atento, objetivando uma prática pedagógica de qualidade. 2.4.1 Primeiro passo Uma vez já detectada a dificuldade, os distúrbios ou as deficiências, é preciso que a equipe escolar elabore ações específicas para esses alunos, a fim de atendê-los em todas as suas dificuldades escolares. É preciso pensar: • De que serviços especiais o aluno necessita e quem oferecerá? • Que turma será mais apropriada para a criança frequentar? • Que tipo de acomodações ou modificações específicas serão feitas para a criança? • Que equipamento especial ou apoio técnico (se forem necessários) serão oferecidos? • Que objetivos serão estabelecidos? Após esse levantamento, deverá ser feito o registro dos resultados e a proposta deve ser iniciada. Nessa proposta de trabalho, segundo Smith e Strick (2001), é importante estar bem claro que o trabalho deverá ressaltar: UNIUBE 95 a) As habilidades básicas: incentivar as habilidades básicas (leitura, escrita e execução de cálculos). Textos e materiais didáticos especializados são necessários. Essas habilidades devem ser ensinadas em nível adequado de desenvolvimento de cada aluno, oportunizando-lhe a aquisição de novas habilidades. Geralmente, esse tipo de ensino deve ser oferecido individualmente ou em pequenos grupos, pois necessita ser monitorado e mediado atentamente pelo professor. Muitos estudantes com dificuldades mais graves e/ou deficiência não conseguirão soletrar bem, e a matemática de nível avançado sempre será um mistério para alguns. Nesses casos, é importante ensinar outras estratégias e habilidades, pois até mesmo uma pessoa que não sabe ler ou escrever pode educar-se se conhece outros meios de obter e dar informações. A tarefa da escola é ensinar ao aluno com deficiência exatamente quais são esses outros modos. b) Permitir que o aluno acompanhe sua classe: às vezes, será necessário modificar as tarefas acadêmicas para os alunos com deficiências no processamento de informações. Algumas orientações importantes: Na sala de aula: • permitir assentos preferenciais; • permitir tempo extra para a resposta às questões e para completar o trabalho escrito; • providenciar cópias de anotações de laboratórios ou de palestras; • permitir o uso de gravador para o registro da aula; • permitir o uso da calculadora; • providenciar o acesso ao computador; • permitir atividades alternativas (exemplo: pedir ao aluno que prepare um vídeo em vez de um relato por escrito); • oferecer instruções tanto de forma oral como por escrito; 96 UNIUBE • oferecer auxílios visuais melhores e em maior quantidade (dependendo do tipo de deficiência); • designar parceiros de estudo, para ajudar com as tarefas ou matérias particulares; • realizar pré-leitura do material escrito e discutir o conteúdo do texto. Nos testes: • permitir horários flexíveis (o aluno poderá fazer os testes em duas ou mais sessões e horários diversificados); • permitir que as instruções e as questões sejam lidas para o aluno; • reformular as questões em uma linguagem mais simples, se necessário; • permitir que o aluno responda às questões oralmente em vez de por escrito; • elaborar testes com respostas curtas (verdadeiro/falso ou múltipla escolha); • permitir que os testes sejam realizados no computador; • reduzir o número de questões ou problemas. Deveres de casa: • entregar as tarefasde casa por escrito com regularidade diária ou semanal; • providenciar livro-texto gravado em fita; • permitir que todo o texto ou parte dele seja lido para o aluno; • permitir que os textos sejam escritos em uma linguagem mais simples; • permitir que o aluno registre sua tarefa em áudio em vez de por escrito; • permitir que o aluno dite seu trabalho a um escriba; • não reduzir a nota ou tirar pontos por erros de ortografia. UNIUBE 97 Esses apoios visam ajudar os alunos a acompanhar o conteúdo de aula e, ainda, contribuir favoravelmente para que a escola cumpra sua tarefa. É importante ressaltar que é necessário estimular muito o aluno a fazer o máximo que puder, de atividades e tarefas, seguindo a mesma metodologia da turma, em sala de aula, porém as modificações e os ajustes serão bem-vindos sempre que necessário. c) A utilização de estratégias apropriadas ao aluno com dificuldade: geralmente as crianças com dificuldades de aprendizagem, distúrbios ou deficiência têm problemas para aprender habilidades de organização e de manejo do tempo, hábitos efetivos de estudo, métodos para aumento da memória, estratégias de solução de problemas e tomada de decisões e habilidades de autodefesa. O que os pais e professores devem fazer é servirem de apoio, ficando ao lado, evitando assumir o comando, o que é a tendência mais natural que conhecemos. Quando bem estimuladas e bem trabalhadas na infância, à medida que essas crianças vão crescendo, elas próprias vão descobrindo estratégias de memória, de adaptação, resolução de problemas e socialização. 2.4.2 Conhecendo as necessidades fundamentais da criança na Educação Infantil As propostas curriculares para as crianças com necessidades especiais se baseiam nas propostas já estabelecidas pelo MEC, por exemplo, os Referenciais Curriculares Nacionais para a Educação Infantil, para a pré-escola e creches. Então, a proposta de atendimento às crianças com necessidades educacionais especiais seria a flexibilização das metodologias a serem aplicadas nas atividades da prática educativa. 98 UNIUBE O que se diferencia nas propostas para esses alunos são os objetivos didáticos e os tipos de ajuda que cada aluno pode requerer em função de suas necessidades educacionais individuais. As crianças com qualquer deficiência, independentemente de suas condições físicas, sensoriais, cognitivas ou emocionais, são crianças. Crianças que têm as mesmas necessidades básicas de afeto, cuidado e proteção e os mesmos desejos e sentimentos das demais crianças. Mais importante que a caracterização da deficiência, das dificuldades ou limitações, é procurar compreender a singularidade da história de vida de cada criança, suas necessidades, seus interesses, como interage, como se relaciona com as pessoas, objetos e com o conhecimento. IMPORTANTE! Em seus estudos, em outros capítulos, o brincar e a socialização da criança foram amplamente ressaltados. Entretanto, consideramos importante trazer para nossa discussão a importância do brincar e da socialização para o desenvolvimento infantil, mas, dessa vez, com especial realce para as crianças com necessidades educacionais especiais na fase da Educação Infantil. O brincar O brincar da criança, do nascimento aos seis anos, tem um significado especial para a psicologia e para a educação, em seus múltiplos e diferentes enfoques. Segundo Oliveira (2000, p. 15), o brincar é: • condição de todo o processo evolutivo neuropsicológico saudável, que se alicerça neste começo; • manifestação da forma com que a criança está organizando sua realidade e lidando com suas possibilidades, limitações e conflitos, já que, muitas vezes, ela não sabe, ou não pode, falar a respeito deles; UNIUBE 99 • introdução da criança de forma gradativa, prazerosa e eficiente ao universo sócio-histórico-cultural; • mediador e facilitador do processo ensino-aprendizagem, oportunizando a construção da reflexão, da autonomia e da criatividade. Como podemos perceber, o brincar é uma atividade altamente significativa para a formação da personalidade da criança, oportunizando-lhe a sociabilidade, a criatividade e a autonomia e, ainda, auxilia na identificação, no controle e na canalização de impulsos provenientes de fantasias agressivas. É importante afirmar que, nesse processo, a motricidade e a capacidade de representar a realidade se entrelaçam num movimento dinâmico, no qual esse movimento forma e reflete a estrutura mental da criança. Após toda essa reflexão da importância do brincar para a criança, vamos pensar em uma criança ao nascer. Ela nasce com a capacidade cognitiva e motora inata a ser desenvolvida. Tratando-se de uma criança “normal”, essa capacidade é imensamente grande. Tratando-se de uma criança especial, ela é “indefinida”, nunca sabemos qual será a sua capacidade de desenvolvimento! As crianças, convivendo com pessoas, objetos, lugares e situações em casa, na escola e em outros ambientes sociais, vão aprimorando suas capacidades e habilidades. Mas como acontece com as crianças com necessidades educacionais especiais? Acontece do mesmo jeito? Sim, da mesma maneira, se dermos a ela oportunidade de brincar! Uma criança “normal” explora o ambiente, arrasta-se até o objeto de interesse, pega esse objeto, joga-o pelo chão, coloca-o na boca... E o que ela aprendeu com a brincadeira? Durante a exploração que fez do objeto, recebeu informações quanto à forma, ao tamanho, à textura, ao gosto, à temperatura, ao peso e outras. Adquiriu noções de peso, de força, de velocidade e de distância, enfim, todos esses conteúdos vão se aprimorando com a constante exploração do mundo pela criança. 100 UNIUBE O que acontece com a criança com necessidades educacionais especiais? Como ela vai brincar se não anda, ou não controla os movimentos de seu corpo, ou mesmo não demonstra interesse pela brincadeira, devido à grande deficiência intelectual que apresenta? Para que ela tenha a oportunidade de brincar e explorar as coisas do mundo, temos que levá-la até essas coisas ou trazer essas coisas até a criança. Oportunizar estímulos, auxiliando-a na exploração, chamando a sua atenção para eles, ajudando-a a manuseá-los quando necessário. Ainda, é importante ressaltar que na brincadeira não devemos limitar o espaço físico da criança, mesmo que ela não se locomova. Toda vez que a criança tiver condições de escolher a brincadeira, quando conseguir indicar de alguma maneira o que deseja fazer ou então souber escolher entre duas opções oferecidas a que mais lhe agrada, sua vontade deve ser respeitada. Mas, se ela não tiver condições de externar sua vontade ou preferência, temos que escolher por ela e ficarmos atentos às suas reações. Nessa situação, o adulto deverá explicar à criança, com antecedência, todos os passos da brincadeira que irão fazer. Isso ajuda a criança a entender o que vai acontecer e planejar suas ações. A socialização A socialização é fundamental para o desenvolvimento psicológico saudável, bem como para a formação humana dos sujeitos. É também na convivência com o outro que aprendo a me tornar homem. Esse assunto também já foi alvo de grandes reflexões em seu curso, mas, agora, o articularemos às crianças com necessidades especiais. Nos passeios e na convivência social com outras crianças em espaços públicos, o que mais dificulta a socialização das crianças com deficiência é a dificuldade de transporte, locomoção, as barreiras arquitetônicas e UNIUBE 101 a falta de adaptações nos banheiros e repartições. Outro motivo a ser destacado é que alguns pais têm dificuldade em aceitar a deficiência e sentem-se constrangidos com “olhares diferentes” das pessoas, tendo vergonha de passear com seu filho em público. Entretanto, na escola, mesmo ainda sendo um processo em construção, isso se torna bem mais fácil, pois as crianças dificilmente rejeitam a convivência com as crianças com deficiência. As experiênciasque temos observado é que o ganho tem sido muito grande por ambas as partes. O colorido da diversidade tem feito os profissionais da educação buscar mais conhecimentos e informações, os alunos aprendem com a diferença e as famílias se sentem mais seguras em confiarem seus filhos a uma educação mais aberta e flexível. 2.4.3 A importância do estudo das funções cognitivas segundo Feuerstein para a prática pedagógica Considerando todo o estudo até agora realizado, vamos agora partir para o eixo de atuação pedagógica diante das necessidades educacionais especiais. Iniciaremos a reflexão trazendo para o nosso texto a teoria que Reuven Feuerstein defende: a aprendizagem mediatizada. Já está incorporada na fala dos profissionais da educação a necessidade de conhecer o aluno e sua realidade, para se planejar e chegar a uma aprendizagem significativa. Mas também sabemos que essa fala muitas vezes não vira atitude, não sabemos se por falta de vontade ou de conhecimento. Para conhecer o aluno é preciso saber também como essa criança ou jovem organiza suas habilidades cognitivas e como lida com elas na resolução de problemas em seu cotidiano. O estudo que vamos abordar, agora, analisa as particularidades do pensamento dos indivíduos com defasagens significativas no desenvolvimento intelectual, de acordo com Feuerstein. 102 UNIUBE O trabalho de Feuerstein é um estudo que nos leva a compreender os impedimentos no desenvolvimento cognitivo que inclui as crianças com dificuldades escolares até os casos específicos da deficiência mental. Esse estudo ressalta as deficiências nas funções cognitivas dos alunos que têm necessidades educacionais especiais. É importante ressaltar que [...] Feurstein constitui um erro diagnosticar, em crianças com dificuldades cognitivas, o baixo rendimento escolar como mera ausência do conhecimento ou como simples reflexo de um baixo nível intelectual. Em sua opinião, deve-se, antes, averiguar quais funções deficientes prejudicam a ação cognitiva individual (BEYER, 1996, p. 100). Feurstein descreve três fases em que as funções cognitivas das crianças com necessidades educacionais especiais podem estar comprometidas. Segundo Beyer (1996, p. 101-102), elas estão dispostas da seguinte maneira: Fase da assimilação. Trata-se da dificuldade da criança na consideração inicial do problema proposto (destacam-se, aqui, as tarefas de solução de problemas): a) percepção difusa e superficial; b) consideração impulsiva e não sistemática dos dados; c) conceitos inadequados, limitantes da capacidade de diferenciação; d) ausência ou inadequação de conceitos espaciais; e) ausência ou inadequação de conservação de medidas (tamanho, quantidade, forma); f) necessidade limitada de exatidão ou precisão; g) dificuldade em considerar duas ou mais fontes de informação simultaneamente. Fase da elaboração. Depois que os dados de um problema foram assimilados, a criança demonstra dificuldades para solucioná-lo adequadamente, devido: a) à definição inexata do problema; b) à incapacidade em diferenciar informações relevantes de irrelevantes no ato comparativo; c) à limitação no estabelecimento de relações; UNIUBE 103 d) à falta de necessidade em trabalhar com evidências lógicas; e) à falta ou limitação de consciência dos próprios processos de pensamento (debilidade metacognitiva); f) à ausência do pensamento lógico-hipotético, com base no raciocínio “se então”; g) à ausência de métodos para averiguação das hipóteses; h) à ausência ou limitação da conduta cognitiva planejada; i) à precariedade dos conceitos verbais. Fase da resposta. Nesta fase, a criança tem determinadas dificuldades para uma divulgação adequada dos processos elaborados, devido: a) à forma egocêntrica de se comunicar; b) a bloqueios de natureza afetiva ou emocional; c) à conduta do tipo “tentativa e erro”; d) ao vocabulário limitado para poder se expressar adequadamente; e) à incapacidade em manter os elementos visuais abrangidos; f) à conduta impulsiva. Como podemos perceber, a fase da assimilação é caracterizada por problemas que se apresentam na fase de introdução, na captação da informação e na apresentação do conhecimento para a aprendizagem. Quando o aluno apresenta um ou mais dos problemas que foram expostos, a assimilação do conhecimento fica comprometida e dificilmente se conseguirá absorver o conhecimento, nem tampouco externá-lo. Já na fase da elaboração, chega o momento de a criança elaborar, processar, a informação e o conhecimento. Nessa fase, ela deverá fazer comparações, escolhas, levantar hipóteses e articulações com o que já vivenciou e o conhecimento novo. 104 UNIUBE Na fase da resposta, chega o momento de exposição, demonstração e divulgação de todo o conhecimento que assimilou e elaborou. É possível analisar que essa fase está muito ligada à questão da confiança, da autoestima e às questões afetivas, emocionais. Acreditamos que esse estudo de Feurstein veio contribuir para a análise das dificuldades específicas de pensamento da criança e também para auxiliar os professores no diagnóstico mais preciso, sobretudo, no planejamento de uma intervenção mediadora específica e individualizada, para superação das dificuldades encontradas. 2.4.4 O trabalho pedagógico com os distúrbios e com a deficiência intelectual A seguir, iremos apontar mais algumas estratégias para atuação pedagógica com alunos com distúrbios de aprendizagem sem a intenção de formatar um programa específico e fechado de intervenção. Sabemos que cada criança é única, mesmo que tenha a mesma dificuldade de outra criança, a história de vida é única, a realidade cultural é outra, portanto as intervenções são mutáveis, cíclicas e dinâmicas, de acordo com a necessidade de cada uma. Por meio de diferentes estudos, chegamos a destacar algumas características importantes a serem consideradas na atuação pedagógica em relação ao distúrbio da leitura. Segundo Guerra (2002): Distúrbio da leitura O que envolve uma leitura competente: • motivação; • focalizar a atenção no texto; • ver claramente as formas das letras; UNIUBE 105 • mapear as letras da esquerda para a direita com os olhos; • sequenciar letras das palavras, palavras das frases, formando a unidade texto; • as formas das letras têm que ser transmitidas em sequência para o cérebro e a posição exata no espaço; • conseguir a compreensão da unidade texto. Erros mais comuns: • nas palavras que possuem um ponto de articulação comum “d-t” e “c-q”; • inversões de sílabas “sol-los” e “as-sa”; • dificuldade na soletração de palavras monossílabas; • acréscimo ou omissão de sílabas “sapo-sapato” ou “sapato-pato”; • leitura sem ritmo; • confusão na visualização de letras parecidas graficamente “a-o”, “e-d”, “n-h”, “m-n”. Orientações aos pais e professores: • escolher local e horários adequados de estudo e leitura; • escolher o livro adequado para cada dificuldade; • fazer material com melhor impressão M h; • escolher livros com gravuras; • colocar um colega ou ajudante sentado ao lado da criança; • estimular a criança a fazer com que ela acompanhe a leitura com o dedo ou com o lápis posicionado horizontalmente abaixo da linha que está sendo lida; • dividir a leitura em partes; • não se preocupar com a entonação, por enquanto; • ajudar a interpretar o que leu; 106 UNIUBE • evitar comentários negativos; • ler sempre que possível para a criança, para estimulá-la a ler também; • trabalhar de forma lúdica, utilizando atividades prazerosas e jogos com leitura. Distúrbio da escrita Como pode ser avaliado: • amostra da escrita: três amostras – redação com tema livre, trecho de um ditado e uma cópia de algum material impresso; • verificar a eficiência com que a criança escreve a legibilidade, a postura e a forma de segurar a caneta ou lápis; • ficar atento se há algum dano motor ou visual, se tem alguma debilidademotora, tremor, movimentos involuntários. Características: • dificuldades no controle motor (afeta a maneira como as letras são produzidas); • dificuldade na percepção visual (afeta a maneira como as letras são percebidas, a configuração da letra. Podem sobrepor letras, escrevê- las ao contrário ou deixar longos espaços entre elas); • distúrbios na forma de segurar o lápis; • problemas na memória visual; • problemas de controle espacial. Proposta de trabalho: • Analisar a maneira como a criança senta e segura o lápis. Estimular a criança a segurar o papel com a mão que não escreve; ter um descanso para os pés, caso estes não alcancem o chão. UNIUBE 107 • Boa iluminação. • Inicialmente serão produzidas escritas grandes em folhas grandes, mais tarde a criança diminuirá o tamanho da letra e assim são aconselháveis folhas com pauta e alinhamento. • Inicialmente traçar com os dedos a forma da letra na areia, andando sobre a forma da letra e, por fim, a escrita no papel. • As letras com ponto de partida semelhante devem ser ensinadas em grupo, para aprender a forma das letras é preciso traçá-las. • No início da cópia o professor pode valer-se de sinais no papel que possam indicar o ponto de partida de cada letra. • Utilizar também o computador. Distúrbio na ortografia Como pode ser avaliado: • testes que envolvem o ditado; • abordar o reconhecimento da palavra impressa, para verificação da grafia; • diferenciar os tipos de erros ortográficos; • verificar a discriminação auditiva. Características: • erros fonéticos: semelhança visual com a ortografia correta; • erros visuais; • erros de substituição de letras; • erros de inserção ou acréscimo e de omissão; • erros sequenciais. 108 UNIUBE Proposta de trabalho: • trabalhar uma oposição de cada vez; • inicialmente trabalhar com atividades visuais; • trabalhar sempre com apoio visual; • começar trabalhando com palavras inteiras; • trabalhar com recursos visuais aliados aos auditivos; • trabalhar pedaços de palavras. Distúrbio na matemática Como pode ser avaliado: • O jogo de regras oportuniza a verificação e compreensão do que a criança já sabe sobre o mundo dos números e como utiliza esses conhecimentos para resolver problemas. Jogando a criança é capaz de: a) Realizar um número maior de cálculos e de problemas do que quando realiza as tarefas dos livros. b) Exercitar a reversibilidade operatória. c) Expressar-se de modo espontâneo. d) Desenvolver as relações sociais e a própria cidadania. e) Substituir o sentimento de rejeição pelo de aproximação dessa área do conhecimento. f) Ativar a memória. g) Compreender a função social dos números. UNIUBE 109 Características: • problemas nas estruturas do pensamento lógico-matemático; • dificuldades nas funções simbólicas (capacidade geral de compreender e de criar símbolos: expressão corporal, expressão do grafismo, comunicação nas variadas linguagens); • problemas com a linguagem matemática (ideográfica, sistema decimal posicional, combinação dos números naturais e outros). Proposta de trabalho: • análise cuidadosa da exata natureza do problema; • ajudar o professor a ter uma boa compreensão e relação com a matemática; • trabalhar situações do cotidiano; • seguir os estágios: a) Números, contagem, distribuição, correspondência e ordenação. b) Adição, subtração, multiplicação e divisão. c) Medidas, formas, tempo e dinheiro. • Construção do conceito de número: situações nas quais a criança possa comparar quantidades, observando se tem o mesmo tanto, se tem mais ou menos (isso pode ser observado nas provas de conservação do método de Piaget). • Contagem: valor cardinal e valor ordinal. Contagem mecânica, um a um e contagem compreensiva (de dois em dois, cinco em cinco, dez em dez). • Notação numérica: partir da ideia de que nosso sistema é decimal posicional, permitindo que a criança expresse suas hipóteses por meio de registros numéricos. • Operações e resolução de problemas: trabalhar a compreensão dos enunciados dos problemas, propor atividades que antecipem mentalmente as operações e as atividades que ajudem na sistematização das operações. Trabalhar a mútua relação da linguagem escrita com a linguagem matemática. 110 UNIUBE Quando falamos em deficiência de aprendizagem durante nosso estudo, estamos nos referindo à deficiência intelectual. As barreiras encontradas na deficiência intelectual são barreiras referentes à maneira de lidar com os conhecimentos e saberes, que refletem na construção dos conhecimentos escolares. Quando essa educação é trabalhada nos moldes da repetição, treino e adaptação, ela só vem reforçar a condição de deficiente do sujeito. Para que o aluno avance e seja o construtor do seu saber, é preciso que ele passe da ação mecânica e automática para situações de aprendizado/ experiência, que possibilitem a ele selecionar e optar por meios mais significativos de aprendizagem. A acessibilidade ao conhecimento, nesse caso, não depende de suportes externos ao sujeito; é preciso que ele tome conhecimento daquilo que não sabe e, a partir daí, saia da posição passiva e automatizada diante da aprendizagem para uma postura de apropriação ativa do próprio saber. Segundo documento de educação inclusiva (MEC) – Atendimento Educacional Especializado para a Deficiência Mental (BRASIL, 2006, p. 18): [...] a pessoa com deficiência mental encontra inúmeras barreiras nas interações que realiza com o meio para assimilar, desde os componentes físicos do objeto de conhecimento, como, por exemplo, o reconhecimento e a identificação da cor, forma, textura, tamanho e outras características que ele precisa retirar diretamente desse objeto. Isso ocorre porque são pessoas que apresentam prejuízos no funcionamento, na estruturação e na reelaboração do conhecimento. Exatamente por isso não adianta propor atividades que insistem na repetição pura e simples de noções de cor, forma etc., para que a partir desse suposto aprendizado o aluno consiga dominar essas noções e as demais propriedades físicas dos objetos e ainda possa transpô-las para um outro contexto. UNIUBE 111 Essa passagem não é algo simples para as crianças com deficiência intelectual, ela exige ações práticas e a coordenação dessas ações em pensamento, o que não ocorre de maneira natural nessas crianças. Essa passagem deve ser estimulada e provocada para que o conhecimento seja interiorizado. Segundo o MEC (BRASIL, 2006, p. 19), o esquema, a seguir, ilustra esse processo de construção mental do conhecimento, desenvolvido pela teoria piagetiana... ... e assim sucessivamente. Fonte: MEC (BRASIL, 2006, p. 19). Caso você queira conhecer o documento Atendimento Educacional Especializado para a Deficiência Mental (BRASIL, 2006), na íntegra, sugerimos que acesse: <http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/defmental.pdf> SAIBA MAIS 2º nível 1º nível Diante dessa proposta de trabalho, o atendimento educacional especializado para as crianças com deficiência intelectual vem ao encontro das dificuldades e necessidades dessas crianças, demonstradas na abstração 112 UNIUBE e na ação simbólica. O atendimento educacional especializado é um atendimento feito no contraturno da sala regular com ações que partem da prática da criança até chegarem à ação simbólica e à abstração. Nesse sentido, entendemos o esquema anterior como a construção do conhecimento, partindo de ações práticas vividas pelas crianças e, em seguida, utilizando diferentes linguagens e metodologias para que essas ações vividas sejam relacionadas com os conhecimentos científicos, transformando-os em ações simbólicas e subjetivas. Com base nessa abstração, a criança conseguirá atribuir significados próprios e emitir julgamentos em diferentes contextos. É preciso que o aluno com deficiência intelectual, como qualquer outro aluno, desenvolva sua criatividade,capacidade de conhecer o mundo e a si mesmo. Geralmente, professores generalizam a capacidade das pessoas com deficiência em nível mais baixo, atitude carregada de preconceitos e de falta de informações! O professor deve ser, sempre, aquele que busca e acredita na transformação das pessoas por meio da educação e também o sujeito que sempre se coloca na posição de aprendiz e crítico de sua prática pedagógica. Conclusão2.5 Neste capítulo, abordamos, inicialmente, a história das necessidades educacionais especiais, para que você pudesse compreender o percurso que a visão educacional das dificuldades, dos distúrbios e das deficiências teve. Atualmente, os estudos relacionados às necessidades educacionais especiais das crianças estão mais avançados e a prática pedagógica está sendo repensada, devido à contribuição de vários segmentos e diferentes contribuições teóricas. UNIUBE 113 Em seguida, abordamos o conceito, a descrição e as causas das dificuldades, dos distúrbios e das deficiências. Esse momento de fundamentação de conceitos e compreensão das causas é fundamental para o profissional da educação para ajudá-lo na realização da identificação dos problemas que afetam a aprendizagem. Logo após, refletimos sobre as práticas pedagógicas desfavoráveis e aquelas que mais favorecem as crianças e os jovens com dificuldades, distúrbios e deficiência. Tentamos colocar para você a importância da observação do profissional da educação, nas diferentes manifestações dos alunos, a dedicação aos estudos e buscas de estratégias/ metodologias para cada criança com dificuldade e/ou distúrbio e/ou deficiência. E, para finalizar, deixamos claro que a boa qualidade do atendimento às crianças com necessidades educacionais especiais na escola, mais precisamente na sala de aula, está no momento em que o professor coloca como eixo central, da sua atuação pedagógica, o aluno. Ainda é importante dizer que, ao final de mais um estudo ligado à educação especial, vale ressaltar que a concepção de educação e de metodologia discutida neste capítulo não é a única existente, mas, sim aquela em que acreditamos, pois trabalha com as capacidades e as habilidades das crianças e compreende o indivíduo como ser único e ao mesmo tempo múltiplo. Único, porque somos singulares na construção da nossa cultura, dos nossos valores, das nossas concepções e nossos conhecimentos. Múltiplo, porque somos dotados de diferentes capacidades. Ainda sobre a concepção de educação nessa perspectiva, a inclusão vem contribuir para efetivação de todo esse processo e ainda deixar claro que o professor necessita ampliar seu olhar para todas essas mudanças, colocando-se como sujeito investigativo e crítico. 114 UNIUBE Resumo • Este capítulo teve como finalidade chamar o educador para desenvolver um trabalho de observador e investigador constante, fundamentado na teoria e em uma prática reflexiva. • O início dos estudos das necessidades educacionais especiais partiu do conceito que os estudiosos tinham de criança com lesão cerebral. Os momentos foram distribuídos em quatro fases: fase da fundação, fase da transição, fase da integração e fase contemporânea até a atualidade. • Dificuldade de aprendizagem: constitui uma inadequação de rendimento acadêmico, não explicável à base de déficit cognitivo, prejuízo sensorial ou desajustamento emocional. • Distúrbios de aprendizagem: neste caso, as crianças possuem problemas significativos de aquisição e uso das capacidades de compreensão e expressão linguísticas e das operações lógico- matemáticas. Manifesta-se costumeiramente em uma ou poucas habilidades, sendo possível a criança ser ótima em matemática e não conseguir ler e escrever satisfatoriamente. • A deficiência de aprendizagem diz respeito a uma incapacidade intelectual acentuada. Nesse grupo, geralmente estão as crianças com déficits cognitivos. • As causas das dificuldades, dos distúrbios e das deficiências não são muito diferentes umas das outras, mas é possível fazer a diferenciação em relação às causas neurológicas, quanto à intensidade, à localização, ao período e à fisiologia da criança ou do jovem. • O papel do professor, bem como de toda a equipe escolar, consiste, antes de tudo, em promover, por meio de ações, o apoio e também a prevenção do desenvolvimento pleno da criança e do jovem. • A ação docente e as relações docentes com a aprendizagem de seus alunos devem ser movidas de significados tanto para quem ensina como para quem aprende. UNIUBE 115 Referências BEYER, Hugo otto. O fazer psicopedagógico. Abordagem de Reuven Feuerstein a partir de Vygotsky e Piaget. Porto Alegre: Mediação, 1996. BRASIL. Ministério da Educação. Educação Inclusiva. Atendimento educacional especializado para deficiência mental. 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Mônica Corrêa Avelar Introdução Interesses e necessidades de crianças superdotadas e talentosas Capítulo 3 É um enorme prazer estarmos juntos para dialogarmos e ampliarmos nossos conhecimentos sobre os interesses e as necessidadesde educandos que possuem altas habilidades, superdotação e/ ou talento. Para tanto, elucidarei no decorrer deste capítulo fatores inerentes ao reconhecimento, à identificação, à compreensão, à orientação e, sobretudo, à atuação pedagógica que tem como meta a estimulação das potencialidades, das habilidades e dos talentos desses alunos. Começaremos nossa conversa fazendo uma pequena retrospectiva histórica a respeito dos estudos de pesquisadores que abordaram o tema no Brasil e no mundo, depois, em um segundo momento, vocês irão conhecer o conceito de superdotação/alta habilidade e talento; irão verificar as técnicas e os instrumentos usados para a identificação; conhecer os aspectos emocionais, as características comportamentais e os mitos em torno desses alunos; e, para terminar, conhecerão os elementos essenciais para atendê-los dentro do contexto educacional. 118 UNIUBE Após o estudo deste capítulo, esperamos que você seja capaz de: • identificar os alunos superdotados, talentosos e/ou auto- habilidosos; • compreender os interesses e necessidades educativas desses alunos; • conhecer os processos pedagógicos mediacionais e/ou intervencionais, para esses alunos. 3.1 Uma breve visão histórica da superdotação 3.2 Desmitificando conceitos 3.2.1 Aspectos de notável desempenho e elevada potencialidade de crianças superdotadas e talentosas 3.2.2 Perfis individuais em relação à superdotação/talento 3.3 Identificando os mais capazes 3.3.1 Testes de inteligência (Q.I.) 3.3.2 Técnica da autoidentificação 3.3.3 Observação com base em checklist 3.4 Aspectos emocionais e comportamentais das altas habilidades/ superdotação Objetivos Esquema É de extrema importância você, educador, conhecer, saber diferenciar e atuar com tal público. De uma forma poética, podemos pensar que eles são como as estrelas: possuem muito brilho e, para que este não se ofusque chegando à total falta de luminosidade, se faz necessário ao educador uma prática pedagógica embasada, fundamentada e focada em seus interesses e necessidades. UNIUBE 119 3.5 Aspectos pedagógicos das altas habilidades/superdotação e talentos 3.5.1 Formas de atender os alunos superdotados/talentosos no contexto educacional 3.5.2 Estratégias pedagógicas para a modificação do conteúdo curricular 3.5.3 O atendimento oferecido pelas salas de Atendimento Educa cional Especializado (AEE) – salas de recurso 3.6 A superdotação, os distúrbios e as dificuldades de aprendizagem 3.7 Como trabalhar com os alunos superdotados em sala de aula? Qual é o papel da escola? 3.8 Conclusão Quando se fala em educação inclusiva, pensa-se, num primeiro momento, que ela está relacionada apenas a alunos com deficiência mental, auditiva, visual ou física. Porém, é esquecido que, assim como essas crianças, há os educandos superdotados, talentosos e portadores de altas habilidades. Par tindo dessa premissa, pergunta-se: Mas quem são esses alunos? Como identificá-los? E, principalmente, como atendê-los? Você está agora sendo convidado(a) a conhecer um pouco sobre esses alu nos para compreender e refletir sobre as necessidades educativas que eles requerem, assim como os deficientes físicos, sensoriais e mentais. 120 UNIUBE Uma breve visão histórica da superdotação 3.1 Foi na Grécia que surgiram os primeiros registros históricos sobre superdotação. Platão chamava as crianças superdotadas de crianças de ouro e salientou a importância de um diagnóstico precoce, ainda na infância também defendia a ideia de que estas tivessem um programa que as preparasse para se tornarem líderes (SOUZA, 2002). Já nos séculos XV e XVI, esses indivíduos eram considerados um perigo para as pes soas e eram vistos como seres do mal, chegando a serem comparados com demônios e vistos como doentes mentais. Francis Galton, cientista na Inglaterra no ano de 1869, após seus estudos, editou um livro (O gênio hereditário) em que enfatizava o fator genético da superdotação, ou seja, dizia que a superdotação era hereditária. Posição que alguns teóricos defendem. Alfred Binet, pedagogo e psicólogo, e Theodore Simon, psicólogo na França, em 1905, desenvolveram o primeiro teste de inteligência, nomeado de “Escala Binet”, e come çaram a aplicá-la em crianças com dificuldades de aprendizagem. William Stern, da Alemanha, em 1911, desenvolveu em seus estudos o conceito e a fórmula do Q.I. (quociente mental). Este assunto será abordado com mais detalhes, posteriormente, no item identificação. Em 1916, Levis Terman, psicólogo norte-americano, reviu a escala de inteligência de Binet e, em 1921, iniciou uma pesquisa com crianças com Q.I. acima de 140, na qual concluiu que o Q.I. aumentava ao longo da vida. Estudou também o fator socioafetivo dos superdotados. As pesquisas de Terman foram longas, abrangendo em torno de seis décadas. UNIUBE 121 Entre 1930 e 1940, no Brasil, Helena Wladimirna Antipoff, psicóloga e pedagoga russa, fundou a primeira sociedade Pestalozzi para atender crianças com deficiência. Antipoff ressaltou também a importância de desenvolver ações que atendessem os superdo tados. Leta Hollingworth, psicóloga americana, na década de 1940, descobre em suas pesquisas o fato de alunos superdotados apresentarem “problemas de adaptação” devido a: tratamento inepto por adultos e falta de desafio intelectual. A autora enfatiza a necessidade da escola em educar e treinar essas crianças, levando em conta os fatores afetivos, sociais e emocionais. Na década de 1960, no Brasil, em Minas Gerais, Helena Antipoff, em uma fazenda do estado, cria um Programa de Atendimento ao Aluno Superdotado. Em Israel, no ano de 1975, ocorreu a primeira Conferência Mundial sobre Superdotação. No Brasil, no ano de 1976, a Fundação Educacional do Distrito Federal deu início ao Programa para Atendimento ao Superdotado e, em 1978, criou a Associação Brasileira para Superdotados. Em 1983, Howard Gardner lança o livro Estruturas da mente e revoluciona o conceito de inteligência, pois aborda a teoria das inteligências múltiplas, que dimensiona sete inteli gências (inteligência visual/espacial, inteligência musical, inteligência verbal, inteligência lógica/matemática, inteligência interpessoal, inteligência intrapessoal e inteligência corpo ral/cinestética). Gardner propôs também mais duas inteligências (a inteligência naturalista e a inteligência existencialista). 122 UNIUBE Essa foi uma pequena mostra da visão histórica da superdotação. Caso queira aprofundar mais seus estudos, indicamos o site a seguir: <www.derbp.com.br/praticas_educacionais_superdotados.ppt> Esse site é da diretoria de ensino da região de Bragança Paulista. Ele possui uma sessão chamada “oficina pedagógica”, que apresenta materiais diversos sobre alfabetização, artes, tecnologia educacional, ciências, biologia, física, entre outros, inclusive sobre educação especial. Dentro do item educação especial, há vários materiais e orientações sobre esse tema. Há um subitem do tópico educação especial que se chama orientações técnicas, no qual encontramos alguns slides sobre a história da superdotação, assim como outros materiais. Para acessar os slides sobre a história da superdotação, você deverá entrar em “orientação técnica de 29-04-2009/ superdotação- altas habilidades”. Vale a pena ser lido pelas pessoas interessadas e comprometidas com a educação desses alunos. SAIBA MAIS Desmitificando conceitos3.2 É comum ouvirmos notícias de crianças com idades entre um ano e meio e dois anos que leem com rapidez e fluência, que conhecem os países, suas respectivas capitais e bandeiras, que possuem habilidade significativa em cálculos matemáticos, não é mesmo? Na maioria dos casos, a família alega nunca ter ensinado a criança a ler, a escrever e a contar. Mas será que realmente nunca oportunizaram a elas a manipulação de livros ou algum tipo de treinamento? Casos como esses geralmente aparecem na mídiae tanto os pais quanto as emissoras de televisão se engrandecem muito com tal situação. UNIUBE 123 Entretanto, precisamos ficar atentos, pois essas crianças podem estar apresentando uma precocidade e, ainda, não se pode identificá-las como superdotadas, talentosas ou portadoras de altas habilidades. Devemos analisar criteriosamente tais episódios, pois eles podem ser significativos para a identificação e diagnóstico da superdotação e altas habilidades em crianças com menos de sete anos. Sendo assim, um fator extremamente importante para a identificação de superdotação e/ou altas habilidades com crianças da Educação Infantil é a observação sistematizada. Essa observação deve ter o intuito de verificar se os seus traços superiores apresen tados são consistentes e irão continuar. Precocidade Chamamos de precoce uma criança que apresenta alguma habilidade específica prematuramente desenvolvida em qualquer área do conhecimento. Uma criança prodígio e com uma habilidade excepcional foi Wolfgang Amadeus Mozart, que começou a tocar piano com três anos, aos quatro aprendia peças com facilidade e rapidez e, aos sete, já compunha e fazia apresentações. Mozart foi capaz, também, de após ouvir uma peça inteira apenas uma vez retê-la na memória e reproduzi-la sem cometer erros. Assim como Mozart, temos Picasso, Einstein, entre outros considerados gênios na história da humanidade, pois além de serem “excepcionais”, deixaram marcas na História. EXEMPLIFICANDO! Veja que há diferenças entre o ser humano precoce, o prodígio e o gênio: Precoce: crianças que apresentam alguma habilidade prematuramente em qualquer área do conhecimento, como uma criança que lê entre três e quatro anos ou um aluno que ingressa na universidade aos onze. 124 UNIUBE Prodígio: crianças que realizam algo anormal para sua idade, que demonstram desem penho superior ao nível de um profissional adulto em qualquer área, por exemplo, Mozart que tocava piano aos três anos, aos quatro anos, sem orientação formal, já aprendia peças com rapidez, e aos sete já compunha e realizava apresentações. Gênio: é aquele que não apenas possui um talento relevante como também o utiliza de forma produtiva, gerando obras de valor. A superdotação intelectual não pode ser tratada como sinônimo de genialidade, pois indica apenas um dado tipo de capacidade mental, enquanto a genialidade resulta de uma condição de intelecto, condições socio econômicas, culturais, motivação e trabalho duro. No Brasil, em 1995, a partir das Diretrizes Gerais para o Atendimento Educacional aos Alunos Portadores de Altas Habilidades, Superdotação e Talentos, estabelecidas pela Secretaria de Educação Especial do Ministério da Educação e Desporto, foi proposta a seguinte definição: Alta habilidade refere-se aos comportamentos observados e ou relatados que confirmam a expressão de traços consistentemente superiores em relação a uma média (por exemplo, idade, produção ou série escolar) em qualquer campo do saber ou do fazer. Deve-se entender por “traços” as formas consistentes, ou seja, aquelas que permanecem com frequência e duração no repertório dos comporta mentos da pessoa, de forma a poderem ser registradas em épocas diferentes e situações semelhantes (BRASIL, 1995, p. 13). Podemos ressaltar que essa definição destaca os traços e comportamentos acima da média, relacionando-os à permanência e à sua duração. Superdotados seriam, de acordo com esta definição, aquelas pessoas que apresentam traços consistentemente superiores em relação a uma média e que sejam permanen tes, podendo ser identificados em épocas diferentes. Por exemplo, uma criança que aos dois anos reconhece e nomeia todas as letras do alfabeto; aos dois anos e meio reconhece e nomeia palavras simples; aos três anos lê muitas palavras e aos três anos e meio lê livros fluentemente. UNIUBE 125 3.2.1 Aspectos de notável desempenho e elevada potencialidade de crianças superdotadas e talentosas A definição de superdotação que consta na Política Nacional de Educação Especial de 1994 diz que crianças superdotadas e talentosas são as que apresentam notável desempenho e elevada potencialidade em qualquer um dos seguintes aspectos, isolados ou combinados: Capacidade intelectual geral: capacidade que envolve rapidez de pensamento, com preensão e memória elevadas, capacidade de pensamento abstrato. Aptidão acadêmica específica: atenção, concentração, rapidez de aprendizagem, boa memória, motivação por disciplinas acadêmicas do seu interesse, capacidade de produção acadêmica. Pensamento criador ou produtivo: originalidade de pensamento, imaginação, capa cidade de resolver problemas de forma diferente e inovadora. Capacidade de liderança: sensibilidade interpessoal, atitude cooperativa, capacidade de resolver situações sociais complexas, poder de persuasão e de influência no grupo. Talento especial para as artes: alto desempenho em artes plásticas, musicais, dra máticas, literárias ou cênicas. Capacidade psicomotora: desempenho superior em velocidade, agilidade de movi mentos, força, resistência, controle e coordenação motora. Assim como nós, os superdotados podem apresentar sentimentos, atitudes e compor tamentos diversificados, o que os caracteriza e os diferencia como pessoa. 126 UNIUBE 3.2.2 Perfis individuais em relação à superdotação/talento Um superdotado/talentoso pode se destacar em uma área ou combinar várias, pode também apresentar graus de habilidades diferenciadas. Destaca-se aqui a questão das características e dos perfis individuais, que são aspectos relevantes com relação à superdotação/talento. Os estudiosos George Betts e Maureen Neihart após anos de estudos, observações e entrevistas distinguem os perfis dos alunos com talentos/ altas habilidades e superdotação em seis tipos: bem-sucedido, desafiante, escondido, desistente, rótulo duplo e autônomo. Vamos abordar agora um pouco sobre cada um desses perfis, pois estes podem nos auxiliar a compreender o modo de ser e de agir dos alunos talentosos/superdotados, assim como nos ajudar a detectar suas dificuldades, necessidade e interesses. Tipo 1 – Bem-sucedido Com certeza, a maioria dos alunos identificados nas escolas são do tipo bem-sucedido, pois são alunos que se comportam adequadamente ao sistema educacional. Eles aprendem satisfatoriamente e são bem-sucedidos academicamente. Este tipo raramente apresenta problemas comportamentais, pois se preocupa com a aprovação dos profes sores, pais e outros. É perfeccionista, é dependente, tem facilidade para aceitar e se conformar mediante situações novas. Possui autoconceito positivo, culpa-se por faltas e fracassos, é responsável e autocrítico. É um realizador em potencial, é comedido. Não gosta de correr riscos. Perfis São as características gerais de uma pessoa, aspecto, caráter. Informação sobre a estrutura mental de um indivíduo ou de um grupo específico. UNIUBE 127 Na maioria das vezes é amado, querido e admirado pelos colegas, professores e fa miliares. Este tipo de aluno não está bem preparado para os desafios e mudanças de vida, por isso, necessita de motivação extrínseca, de correr riscos, de se posicionar, de perceber suas próprias deficiências, de ser desafiado, de ter autonomia. Assim terá mais chances de desenvolver sua criatividade, seus dons e talentos de modo pleno. Tipo 2 – Desafiante Este tipo possui problema de disciplina, possui um grau elevado de criatividade, utiliza -se de sarcasmos, gosta de desafiar e corrigir os professores, competitivo, questiona regras e defende suas convicções. Não é um tipo reconhecido pelos professores, pois suas relações sociais, na maioria das vezes, envolvem conflitos. É irritante e rebelde, mas alguns colegas o acham divertido. Tem tendência a se envolver com a delinquência e com drogas, sente frustração, possui baixa autoestima, é impaciente, defensivo, mas tem sensibilidade aguçada, apresenta-seincerto sobre os papéis sociais, possui mu danças de humor, é honesto e direto. Com relação aos hábitos de trabalho, demonstra inconstância e prefere atividades al tamente ativas e métodos questionadores. Dentro das suas necessidades, destaca-se em ações que o levem a aprender o autocontrole, a ser mais flexível, a desenvolver sua criatividade, suas habilidades cognitivas e sociais e contratos de comportamentos. É preciso ter uma comunicação clara e direta com esse tipo de aluno, permitindo que ele expresse seus sentimentos. 128 UNIUBE Tipo 3 – Escondido Este aluno geralmente não é identificado, pois é quieto, tímido, ansioso, obediente, inseguro, resistente a desafios. Tem tendência de negar seus talentos para se sentir incluído em relação ao grupo, pois quer ser aceito socialmente. Neste tipo, estão inseridas, na maioria das vezes, as meninas. Pode ser visto pelos outros como líder ou pode simplesmente ser irreconhecido. Possui média escolar boa e é bem-sucedido. É necessário desenvolver ações que proporcionem a este aluno o envolvimento com outros superdotados, liberdade de fazer escolhas, informações sobre universidade e carreira futura, apoio familiar, técnicas e dinâmicas de autoaceitação. Tipo 4 – Desistente Para este tipo de aluno, a escola parece ser irrelevante e hostil, pois seus interesses estão fora do currículo escolar. Sendo assim, não consegue completar as tarefas, seu trabalho é inconsistente e, em sala de aula, fica com o pensamento longe e se isola. Tem tendência de criticar os outros e a si mesmo. Com relação ao rendimento escolar, este é médio ou abaixo da média. É visto como solitário, desistente, cabeça de vento, pe rigoso e rebelde. É comum adultos demonstrarem raiva e ficarem nervosos mediante o comportamento deste tipo de aluno. Para esse aluno, é necessário um programa individualizado com metodologias de estudos não tradicionais voltados para seus interesses. UNIUBE 129 Tipo 5 – Rótulo duplo Este tipo parece estranho, bobo, não tem poder pessoal, tem baixa autoestima, é frus trado, raivoso e nervoso. Pode apresentar dificuldade de aprendizagem e se sentir desencorajado, rejeitado, impotente e se isolar. Esse aluno pode negar que está tendo dificuldades e alegar que as atividades são chatas. Demonstra trabalho inconsistente e suas notas, normalmente, estão na média ou abaixo. É visto como incapaz e destaca- se pelas suas produções e ações inade quadas, como uma escrita ilegível ou trocas/omissões e distorções de letras, chegando até mesmo a ser encaminhado ao serviço de educação especial. A escola tem tendência a se concentrar nas fraquezas desse aluno e deixa de alimentar suas áreas de interesse e talentos. Para este tipo é necessário dar ênfase nas áreas de seu interesse com o objetivo de desenvolver suas habilidades e seus talentos, colocá-lo em programas para superdotados, proporcionar alternativas de experiências de aprendizagem diversificadas e oportunizar momentos de interação com colegas. Tipo 6 – Autônomo Assim como o tipo bem-sucedido, o autônomo também aprende a trabalhar eficazmente na escola. A diferença é que o autônomo usa o sistema para criar novas oportunidades para si, ou seja, ele trabalha para si, e não para o sistema. Possui autoconfiança, autoaceitação, tem motivação intrínseca, aceita os outros, aceita falhas, tem desejo de saber aprender. É aceito e admirado pelos outros devido às suas habilidades. É visto como responsável e capacitado e é psicologicamente saudável. Possui habilidades sociais adequadas, trabalha independentemente, de senvolve seus próprios 130 UNIUBE objetivos, dá sequência às tarefas começadas, trabalha sem aprovação, é criativo, luta por suas convicções, corre riscos, segue suas áreas de paixão e interesse pessoal. Sente-se seguro criando seus objetivos pessoais e edu cacionais. É o tipo que percebe que pode desenvolver mudanças em sua vida e não espera que os outros o façam para ele. Essa “tipificação” não é um modelo diagnóstico de classificação, mas um referencial teórico que tem o objetivo de conscientizar os educadores que esses alunos são influenciados pela família, pelas vivências, por seus relacionamentos, sentimentos e pelo desenvolvimento pessoal de cada um. Conhecer esses alunos e tipos é importante, pois poderá servir como base teórica para a identificação, para orientação às famílias e planejamento educacional apropriado para o aluno superdotado/talentoso. PONTO-CHAVE Joseph Renzulli é psicólogo educacional, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa sobre superdotados e talentosos na Universidade de Connecticut, Estados Unidos. Ele foi pioneiro ao dizer que os comportamentos de superdotação consistem na inter-relação de três traços humanos: 1 – habilidade acima da média em alguma área do conhecimento (não, necessariamente, muito superior à média); 2 – envolvimento com a tarefa, motivação, vontade de realizar, perseverança, concen tração; 3 – criatividade, pensar algo diferente, ver novos significados, retirar ideias de um contexto e usá-las. Para ele, superdotados são aqueles que possuem esse conjunto de traços concomi tantemente. UNIUBE 131 Renzulli apresentou a inter-relação desses três traços humanos por uma imagem chamada modelo dos três anéis ou modelo triádico de superdotação. Caso você queira conhecer essa imagem, sugerimos que consulte o texto “o que as palavras querem dizer?”, que corresponde ao Capítulo 2 do livro Altas habilidades/superdotação: encorajando potenciais, de Angela M. R. Virgolim, Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial (2007). Na página 36, a autora mostra o quadro 2, “Diagrama da teoria dos três anéis”. O texto está no site da Fundação Catarinense de Educação Especial – FCEE, disponível em: <http://www.fcee.sc.gov.br/index.php?option=com_docman&task=cat_ view&gid=83&Itemid=91&limit=10&limitstart=0&order=hits&dir=ASC> Vale a pena conferir! PESQUISANDO NA WEB A concepção e os modelos de Renzulli são significativos porque sua definição e seus estudos provaram que os testes de Q.I. eram insuficientes para a identificação dos superdotados. Vamos continuar refletindo sobre os testes de Q.I. Identificando os mais capazes 3.3 Agora que já sabemos um pouco mais sobre a definição de superdotação/ altas habili dades, temos mais um desafio: como identificá-la? 3.3.1 Testes de inteligência (Q.I.) Há décadas, o processo de identificação era relativamente fácil, pois para tal bastava que fossem aplicados os testes de inteligência (Q.I.). O objetivo dos testes de Q.I. é comparar a idade cronológica com a mental. 132 UNIUBE Esse teste foi criado no início do século XX pelos estudiosos Binet e Simon e tinha o objetivo de identificar crianças com retardamento intelectual. No teste, há uma sequência de tarefas que focam as habilidades do indivíduo em relação a pensar, resolver problemas, enfim, raciocinar. As tarefas são de pensamento lógico-matemático, habilidade linguística, pensamento analítico, capacidade de abstração teórica, aptidão escolar, conhecimento e pensamento acadêmico. Com base no desempenho do indivíduo nessa sequência de tarefas, é que chegamos à sua idade mental. A pontuação obtida no teste é uma indicação de como está o desempenho do indivíduo em relação à maioria das pessoas de seu grupo de idade. O Q.I. médio varia de 95 a 100 pontos, portanto a pessoa que obtém essa média tem um nível de inteligência normal. Uma criança de sete anos faz o teste e tem uma pontuação de 160. Isso quer dizer que ela tem 60% a mais de inteligência do que o esperado para as crianças de sete anos. Nos últimos anos, observou-se a ineficácia desses testes, pois, como diz Winner (1998, p. 15): Os testes de Q.I. medem uma estreita gama de habilidades huma nas, principalmente facilidade com linguagem e número. Há poucas evidências de que superdotação em áreas não acadêmicas, como artes ou música, requeiram um Q.I.excepcional. Nesse sentido, há uma parcela da população que não está incluída nessas estatísticas, já que os testes padronizados não privilegiam áreas mais subjetivas, por exemplo, habilidades sinestésicas, musicais e artísticas. A partir desse conhecimento, percebe -se que para a identificação de crianças superdotadas múltiplos critérios devem ser utilizados, considerando-se informações obtidas de fontes variadas, incluindo tanto a criança como seus professores, pais e colegas, além, naturalmente, daquelas obtidas pelo psicólogo por meio do uso de testes. UNIUBE 133 3.3.2 Técnica da autoidentificação A técnica da autoidentificação é uma das técnicas sugeridas por Guenther (1995) para auxiliar no processo de identificação. Esta técnica consiste em perguntar à criança sobre seus hobbies, interesses principais, atividades desenvolvidas fora da escola, formas de pensamento preferidas, bem como reações a elementos de seu ambiente. A nomeação pelos companheiros de sala de aula dos alunos que se destacam em alguns traços é outro critério que deve ser utilizado no processo de identificação. Essa nomeação refere-se à indicação dos próprios alunos de sala de aula em relação às habilidades dos colegas. Ou seja, pode-se pedir para que respondam, por exemplo, às seguintes perguntas: “Quem consideram o colega mais inteligente?”, “Quem consideram o mais criativo?”, “Quem consideram o mais amigo e preocupado com o bem-estar de todos?” e outras. É muito importante também o julgamento, a avaliação e a observação do professor, pois ele desempenha um papel significativo no processo de identificação. O julgamento do professor é o seu olhar. Quem na sala de aula ele acha mais criativo, por exemplo, quem é o mais interessado, comunicativo etc. O papel do professor também é o de atender às necessidades dos alunos e oportunizar o desenvolvimento de suas potencialidades. 3.3.3 Observação com base em checklist O checklist é uma lista que contém atitudes, interesses, posturas, ações e característi cas comuns aos indivíduos superdotados-talentosos que alguns autores sugerem para facilitar a identificação. 134 UNIUBE Vejamos abaixo algumas dessas características: • o melhor aluno; • aquele com vocabulário maior; • o aluno mais criativo e original; • o aluno com maior capacidade de liderança; • o aluno com pensamento crítico mais desenvolvido; • o aluno com maior motivação para aprender; • o aluno de que os colegas mais gostam; • o aluno com maior interesse nas áreas das ciências; • o aluno que está mais avançado na escola em relação à idade. (ANTIPOFF, 1992, p. 36) Ellen Winner, em seu livro Crianças superdotadas: mitos e realidades (1998), ressalta também algumas características apresentadas em relação às habilidades escolares e algumas atitudes às quais a família e o professor devem ficar atentos: • leitura precoce por volta dos quatro anos, ou antes, com instrução mínima; • fascínio por números e relações numéricas; • memória prodigiosa para informação verbal e/ou matemática; • frequentemente brincam sozinhas e apreciam a solidão; • preferem amigos mais velhos, próximos a ela em idade mental; • interessa-se por problemas filosóficos, morais, políticos e sociais; • apresentam alto senso de humor em decorrência de habilidades verbais. UNIUBE 135 A pesquisadora Zenita Guenther, responsável pela criação do Centro para o Desenvol vimento do Potencial e Talento – CEDET, situado em Lavras (MG), que é uma referên cia no Brasil nessa área, após estudos e pesquisas, também desenvolveu e utiliza um checklist para facilitar o processo de identificação. A lista de Zenita contém itens para observação em sala de aula e é composta por ca racterísticas referentes ao talento verbal, talento científico/matemático, talento artístico, talento psicossocial, talento psicomotor e também referente às capacidades de inteli gência geral, de pensamento abstrato e criatividade. A autora ressalta que: não é propriamente o conteúdo de cada item de observação listado que vai pesar como parâmetro de identificação, mas a derivação dos troncos de caracterização de dotados e talentosos, expressos como construtos abstratos, relativos à população escolar (GUENTHER, 2000, p. 175). Ou seja, as características apresentadas, a seguir, deverão ser interpretadas em toda sua totalidade, devem ser analisadas na forma de ser, agir e reagir do aluno. Quando se diz, por exemplo, para indicar o melhor da turma em comunicação e expressão, se faz necessário compreender e analisar de fato como é a comunicação e expressão desse aluno, ou seja: “Por que ele se destaca dos demais nessa área? O que o diferencia? Ele está além do esperado tendo em vista seu contexto, sua realidade? A forma que ele utiliza para se comunicar e expressar é realmente inusitada? Na prática, em relação à ação e aos comportamentos visíveis, como o aluno lida com essa comunicação e expressão? 136 UNIUBE Portanto, é preciso saber utilizar as listas com coerência, com embasamento teórico e com ética. Vamos então conhecer agora, separadamente, as características de cada talento e capacidade. Inteligência e capacidade geral Está relacionada ao potencial geral, destacando-se a vivacidade mental, automotivação e confiança. A vivacidade mental é reconhecida pela maneira como as crianças expres sam curiosidade, questionam, interrogam, perguntam, enfrentam e apreciam desafios, encontram vias para expressar senso de humor, têm boa memória, domínio sobre um considerável fundo de conhecimento e informações, aprendem, compreendem, apreen dem com facilidade e por vários meios (GUENTHER, 2000, p. 47). A automotivação e a confiança, segundo Guenther (2000, p. 48), são compostas por características de crianças que têm “cabeça própria”. Sendo assim, está relacionada à independência, confiança, persistência, segurança, compromisso com a tarefa, res ponsabilidade, tomada de iniciativas, motivação interna. Para serem considerados com esta capacidade, é preciso que os alunos apresentem pelo menos seis das características a seguir: • melhores em atividades extracurriculares; • mais curiosos, interessados, perguntadores; • de melhor memória, aprendem e fixam com facilidade; • mais persistentes, compromissados, chegam ao fim do que fazem; • mais independentes, iniciam o próprio trabalho e fazem sozinhos; • entediados, desinteressados, mas não necessariamente atrasados; • mais ativos, perspicazes, observadores; UNIUBE 137 • mais capazes de pensar e tirar conclusões; • mais levados, engraçados, “arteiros”; • o professor os considere os mais inteligentes; • que produzem respostas inesperadas e pertinentes. Ou apresentarem quatro das características: • de melhor memória, aprendem e fixam com facilidade; • mais independentes, iniciam o próprio trabalho e fazem sozinhos; • mais originais e criativos; • mais ativos, perspicazes, observadores; • mais capazes de pensar e tirar conclusões; • o professor os considere os mais inteligentes; • produzem respostas inesperadas e pertinentes. O talento verbal O talento verbal está relacionado à capacidade acadêmica de se destacar na linguagem verbal, na expressão e na comunicação, seja oral e/ou escrita. A criança com este talento tem a capacidade de fazer uso da língua em nossa realidade com qualidade, propriedade e domínio. Para serem considerados com este talento, é preciso que os alunos apresentem pelo menos três das características: • melhores da turma nas áreas de linguagem, comunicação e expressão; • mais verbais, falantes e conversadores; • mais participantes e presentes em tudo, dentro e fora da sala de aula; • mais capazes de pensar e elaborar conclusões; • o professor os considere os mais inteligentes. 138 UNIUBE O talento científico-matemático (capacidade de pensamento abstrato) Esse também é um talento acadêmico e está relacionado às habilidades de associa ção, comparação, análise,síntese, raciocínio, lógica, identificação de causas e efeitos e de formação de conceitos. A maioria dos indivíduos com este talento e capacidade apresenta enorme persistência e concentração. Para serem considerados dotados deste talento, é preciso que os alunos apresentem três ou mais das seguintes características: • os melhores nas áreas de matemática e ciências; • têm melhor memória, aprendem e fixam com facilidade; • mais independentes, iniciam o trabalho e fazem sozinhos; • mais capazes de pensar e elaborar conclusões; • o professor os considere os mais inteligentes. O talento artístico e/ou capacidade criativa Esse talento e/ou capacidade relaciona-se com a capacidade de produção, de criação, de originalidade, de autoria. Segundo Guilford (apud GUENTHER, 2000, p. 48), a criatividade é considerada como uma dimensão da inteligência. Já Virgolim (2007, p. 59) comenta que nem sempre a pessoa mais inteligente é a que apresenta as respostas mais originais; da mesma forma, nem sempre a pessoa mais criativa é a mais inteligente entre seus pares. Os indivíduos criativos e com talento artístico são, na maioria das vezes, considerados pela sociedade como estranhos e diferentes, pois possuem pensamento divergente, apresentam Pensamento divergente É um processo de pensamento cujo objetivo é achar o maior número possível de soluções para um problema. Essa habilidade é usada para gerar ideias e resolver algo criativamente, em oposição ao pensamento convergente, que consiste em achar uma única solução apropriada a um problema. Fonte: Wikipédia, (2011). UNIUBE 139 inconformismo, são altamente críticos e autocríticos, o que pode gerar conflitos e tensões seja em nível interpessoal como intrapessoal. Embora seja curioso e imaginativo, com inclinação para brincar com as ideias e dar respostas bem-humoradas e diferentes do usual, o estudante criativo muitas vezes é percebido como o palhaço da turma, crítico de si mesmo e dos colegas, sarcástico, bagunceiro, não conformista, desrespeitoso para com as figuras de autoridade e para com as tradições. (CLARK, 1992 apud VIRGOLIM, 2007, p. 59). Para ser considerado com este talento e/ou capacidade, é preciso que o aluno apresente pelo menos quatro das seguintes características: • melhor nas áreas de arte e educação artística; • mais crítico com os outros e consigo próprio; • mais persistente, compromissado, chega ao fim do que faz; • mais original e criativo; • mais ativo, perspicaz, observador; • produz respostas inesperadas e pertinentes. O talento psicossocial Esse tem a ver com a habilidade de saber relacionar, interagir, viver e conviver em grupo. Está relacionado com a inteligência emocional, que é a capacidade que temos de reconhecer nossos sentimentos e os dos outros, assim como a capacidade de lidar com eles. O indivíduo que possui este talento apresenta sensibilidade e preocupação com os outros, possui um senso de justiça altamente aguçado e é uma pessoa que valoriza e irradia valores, como respeito, bondade e amizade. Para ser considerado com este talento, é preciso que o aluno apresente pelo menos quatro das seguintes características. Observe as características que estão em negrito, pois estas indicam capacidade de liderança: 140 UNIUBE • melhor em atividades extracurriculares e extraclasse; • mais participativo e presente em tudo, dentro e fora da sala de aula; • mais sensível aos outros e bondoso com os colegas; • preocupado com o bem-estar dos outros; • mais seguro e confiante de si; • mais simpático e querido pelos colegas; • capaz de liderar e passar energia própria para o grupo. Segundo Guenther (2000), esta área de talento não assegura bases muitos claras para observação e necessita de melhores definições. O talento psicomotor O talento psicomotor está relacionado ao talento esportivo. O indivíduo que possui esse talento tem habilidades sensório-motoras que proporcionam elevada capacidade de desempenho físico-motor. Para ser considerado com este talento, é preciso que o aluno apresente as seguintes características: • melhor em atividades extracurriculares e extraclasse; • melhor desempenho em esportes e exercícios físicos; • sobressair-se em habilidades manuais e motoras. É viável que você, educador, indique em cada item os dois alunos da turma, menino ou menina, que se destacam nas características apresentadas acima e é interessante também indicar alguma criança que apresente outros talentos especiais que não foram contemplados na listagem. UNIUBE 141 Guenther, em seu livro Desenvolver capacidades e talentos: um conceito de inclusão (2000), diz que o processo de identificação desenvolvido no CEDET, em síntese, constitui-se de três estágios, que são: 1º – a observação direta, registrada pelos professores da sala de aula, orientada pela lista de indicadores, com revisão, reavaliação e complementação das observações dos professores, feita pela equipe técnica da escola; 2º– o acompanhamento da criança pelo facilitador do CEDET, durante o ano de trabalho; 3º– a observação sistemática pelo professor que trabalhou com a criança durante o ano que se segue à primeira observação, em comparação com a nova turma de colegas. Sendo assim, ao final de cada ano, tem-se o olhar de três profissionais que acompa nharam o aluno: 1) o professor que preencheu o checklist no ano anterior, pois este é preenchido no final do ano; 2) o professor da sala de aula do aluno, ou seja, da sala de aula que ele frequentou; e 3) o facilitador do centro (CEDET), que teve o papel de oportunizar situações de aprendizagem, diferenciadas e enriquecidas, para o aluno. Estas atividades são desenvolvidas no contraturno no CEDET ou em outras instituições da comunidade parceiras do centro. O conceito de superdotação/altas habilidades evoluiu ao longo do tempo! Saiu de uma concepção unidimensional que se centrava em teste de Q.I. e avaliação de habilidades cognitivas para uma concepção multidimensional que valoriza também a criatividade, as habilidades artísticas, musicais, esportivas e sinestésicas. Com esta nova visão amplia-se o olhar que deixa de enxergar e valorizar somente os talentos acadêmicos! SINTETIZANDO... 142 UNIUBE 3.4 Aspectos emocionais e comportamentais das altas habilidades/ superdotação Você já pensou sobre a vida emocional dos superdotados/talentosos? Será que eles são emocionalmente iguais aos demais? Vamos ver? Existe um mito em relação à vida emocional desses alunos, muitos de nós acreditamos que todos superdotados/talentosos apresentam ótima saúde psicológica, mas estudio sos da área estimam que 20 a 25% das crianças superdotadas apresentam desajustes psicossociais. Hellen Winner (1998, p. 168) diz que embora a maioria das crianças superdotadas sejam social e emocionalmente bem ajustadas, uma minoria bastante substancial de superdotados de fato apresenta problemas sociais e emocionais que se originam das consequências de ser superdotado. Quanto mais elevado o nível de superdotação e abrangência da área de domínio, mais dificuldades em se relacionar, de interagir com os outros, são apresentadas, o que consequentemente leva a uma instabilidade emocional. O fato de os alunos superdo tados estarem em outro ritmo de desenvolvimento, por si só, já acarreta dificuldade de relacionamento. A estrutura da personalidade de um aluno superdotado/talentoso é diferente da dos seus pares, pois são alunos que apresentam: • alta motivação − prazer pelo trabalho, levando a excessivo empenho na tarefa/talento; • apreciação por desafios; • perfeccionismo exagerado, medo de não atingir a perfeição; • alta concentração; UNIUBE 143 • autoestima elevada, preferencialmente na área de interesse/talento e atividades acadêmicas; • autoestima baixa nas interações sociais; • independência e teimosia − realizam tarefas de seu jeito; • liderança – domínio e comando de situações; • independênciade pensamento e valores – alto nível de raciocínio moral; • inconformismo − alto nível de raciocínio moral; • introversão − dificuldade em se relacionar; • alto poder de criticidade; • agitação; • desatenção; • ansiedade e pessimismo; • sensibilidade; • solidão, necessidade de ficar sozinho. Não podemos dizer que todos os superdotados/talentosos apresentam as mesmas estruturas de personalidade, pois, como já foi dito anteriormente, existe a questão das diferenças individuais. Cada ser é único e apresenta comportamentos e sentimentos de acordo com suas vivências e experiências ambientais, culturais, socioeconômicas e biológicas. Mas podemos concluir que o superdotado/talentoso que esbanja saúde emocional e social é apenas um mito. Caso queira saber mais sobre a vida emocional do superdotado/talentoso, sugerimos que assista ao filme Maluca paixão e fique atento aos comportamentos e sentimentos da protagonista Mary Horowitz. Apesar de ser uma comédia, fica evidente as dificuldades emocionais e sociais de uma pessoa superdotada/talentosa. SAIBA MAIS 144 UNIUBE Agora que você conhece a definição e a identificação de algumas características e comportamentos de crianças superdotadas/talentosas, podemos começar a vislumbrar um trabalho pedagógico e educacional, não é? Vamos lá? Mas antes vamos refletir sobre esta fala de Albert Einstein acerca de nosso papel de edu cadores: Não é bastante ensinar uma capacidade. Através dela o indivíduo pode tornar-se uma espécie de máquina útil, mas não uma personalidade harmoniosa. É essencial que o profissio nal adquira compreensão e sensibilidade, viva para valores... tenha o senso de belo e o do moralmente bom. Se tal não acontecer, com todo seu conhecimento especializado, ele parecerá mais um animal bem treinado do que um Ser humano (GUENTHER, 2000, p. 113). Assim sendo, já que não queremos ser animais bem treinados e somos seres huma nos dotados de compreensão e sensibilidade, vamos conhecer algumas propostas pedagógicas para se trabalhar com nossos alunos superdotados e talentosos para que possamos fazer diferença em nossa prática pedagógica. Título original: All About Steve País de origem: EUA Gênero: Comédia Tempo de duração: 98 minutos Ano de lançamento: 2009 Estúdio/Distrib.:Fox Film Direção: Phil Traill UNIUBE 145 3.5 Aspectos pedagógicos das altas habilidades/superdotação e talentos Será que nossas escolas sabem o que fazer com alunos com superdotação/ altas ha bilidades e talentos? Assim como existe o mito com relação à vida emocional e social, existem outros mitos com relação às crianças superdotadas e talentosas, tais como: • elas não precisam de ajuda para se desenvolver, ou seja, se desenvolvem sozinhas; • elas são fisicamente fracas; • elas não são produtivas por muito tempo, ou seja, o talento desaparece na vida adulta; • a criança nasce superdotada e permanece pela vida toda e nada poderá modificá-la; • a criança superdotada continuará a demonstrar habilidade intelectual superior inde pendentemente das condições ambientais; • boa dotação é sinônimo de sucesso, alta produtividade na vida; • superdotação é um fenômeno muito raro, sendo poucas as crianças e jovens de nossas escolas que podem ser de fato consideradas superdotadas; • a criança superdotada geralmente tem bom rendimento escolar. Esses fatos precisam ser revistos e repensados por todos e cabe a nós, professores e educadores, uma parcela importante no sentido de reconhecer capacidades e talentos especiais dos alunos. Segundo Charles Schulz, “não existe fardo maior do que um potencial não realizado”, sendo assim, é preciso que aprendamos educar as crianças superdotadas no sentido de orientá-las de modo a aumentar, desenvolver, crescer e aperfeiçoar suas capaci dades e talentos. 146 UNIUBE Charles Monroe Schulz foi um cartunista americano, criador do desenho Charlie Brown e seu cachorro Snoopy, entre outros. SAIBA MAIS 3.5.1 Formas de atender os alunos superdotados/talentosos no contexto educacional Segundo Gallagher (1985 apud GUENTHER, 2000, p. 60) três elementos são, de uma maneira geral, essenciais para atender esses alunos dentro do contexto educacional. Veja, a seguir, quais são esses elementos e quais ações cada um deles requer: Modificação do ambiente: agrupar os alunos mais capazes em grupos compatíveis para a realização de atividades paralelas ou integradas ao trabalho regular da sala de aula. Modificação da postura do professor: o professor, na maioria das vezes, procura e oferece respostas para problemas, conceitos e conteúdos colocados em sala de aula. Esta posição deve ser revista: por que não colocar questões para os alunos em vez de oferecer respostas prontas e acabadas? Desta maneira, eles procurarão por soluções. O ensino deve ser centrado na compreensão da natureza do “problema” em vez de respostas certas. Modificação do conteúdo ensinado: os conteúdos devem focar temas maiores, ideias abrangentes que integram uma gama maior de conhecimento, dentro das diversas matérias e disciplinas do currículo. As estratégias mais comuns para a modificação do conteúdo curricular estão centradas na aceleração, no enriquecimento, na sofisticação e na novidade. UNIUBE 147 Todos os elementos citados são fundamentais para a aprendizagem do aluno, mas destaco como mais relevante a modificação do conteúdo ensinado, pois de que adianta modificar o ambiente e a postura do professor sem desenvolver adequadamente estra tégias pedagógicas para a modificação do conteúdo curricular? A seguir, veremos algumas dessas estratégias utilizadas. 3.5.2 Estratégias pedagógicas para a modificação do conteúdo curricular A aceleração A aceleração é uma estratégia que oportuniza ao aluno concluir sua escolaridade em menor tempo. Para isso, deve ser realizada uma avaliação do aluno pela escola, que deverá documentar, por meio de registros, o desempenho do aluno a fim de justificar sua aceleração. Esta estratégia está respaldada pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996 em seu capítulo V, art. 59, inciso II, que diz: II – terminalidade específica para aqueles que não puderem atingir o nível exigido para a conclusão do ensino fundamental, em virtude de suas deficiências e aceleração para concluir em menor tempo o programa escolar para os superdotados. Veja algumas formas de aceleração segundo Freeman e Guenther (2000, p. 110): • entrada mais cedo na fase seguinte do processo educativo, do nível da Educação Infantil em diante; • saltar séries escolares – promoção para séries seguintes; • aceleração por disciplina – frequentar séries mais adiantadas em determinadas disciplinas; 148 UNIUBE • agrupamento vertical – em classes mistas, com ampla variedade de idades e séries, de modo que os mais novos possam trabalhar com os mais velhos e mais avançados; • cursos especiais fora da escola que ofereçam mais conhecimento em áreas curriculares específicas; • estudos paralelos – cursar o Ensino Fundamental e o Ensino Médio ao mesmo tempo, e assim por diante; • planos de estudo auto-organizados – estratégia em que os alunos desenvolvem atividades ou projetos de seu interesse, enquanto esperam o resto da classe completar o que eles já fizeram ou aprenderam; • trabalho com um mentor, especialista de uma certa área de inte resse do aluno, na escola ou fora dela; • cursos paralelos – por correspondência, televisionados ou outra forma de ensino a distância. Segundo Alencar (1986, p. 57), vários aspectos devem ser examinados antes de se iniciar um programa de aceleração. O primeiro deles diz respeito à necessidade de se conhecer as várias habilidades dos alunos intelectualmente talentosos. Um segundo aspecto é com relação ao professor (ou professores) que levará ou levarão a efeito o programa de aceleração. Sendo assim, é preciso ter muita cautela ao optar pela aceleração do aluno, pois é necessário averiguarse esta será realmente benéfica. Os fatores sociais e emocionais influenciam, muito, a construção da aprendizagem, portanto é essencial analisar a situação em seu todo; verificar se o aluno tem condições de ser acelerado realmente e se a instituição, assim como seus profissionais, está preparada para que esta estratégia traga sucesso e, principalmente, estímulo ao potencial do aluno. UNIUBE 149 Alencar (1986, p. 57-58) ainda coloca que vantagens e desvantagens da aceleração têm sido lembradas por muitos que se dedicam à elaboração de programas para o superdotado. Entre os argumentos daqueles que se opõem e daqueles que veem muitas vantagens, salientam-se as vantagens e as desvantagens descritas no Quadro 1, a seguir. Quadro 1: Desvantagens e vantagens da aceleração Desvantagens e vantagens da aceleração Desvantagens É importante manter o aluno com aqueles da mesma idade e nível social e emocional. A criança que salta uma determinada série deixa de aprender uma gama de conhecimentos importantes e necessários. Nunca a aceleração se dá de forma adequada em todas as áreas. Vantagens Este é um método que pode ser usado em qualquer escola. Os alunos intelectualmente superiores tendem a escolher compa- nheiros mais velhos, e a aceleração vai favorecer este contato. A aceleração permite aos estudantes mais capazes dar início à sua vida profissional mais cedo, o que resulta em maior produtividade. Pelo fato de os estudantes permanecerem menos tempo na esco- la, os custos diminuem. Observam-se menos tédio e insatisfação entre os estudantes a quem se permite acelerar nos estudos, os quais percebem o novo programa como mais estimulante e menos enfadonho. O ajustamento social e emocional tem se mostrado superior nos estudantes que participam de programas de aceleração. A aceleração permite que se exija do aluno uma produtividade mais de acordo com suas capacidades. Se um estudante inusitadamente brilhante permanece com seus colegas da mesma idade, ele possivelmente achará as tarefas propostas pelo professor muito fáceis e desenvolverá hábitos ina- dequados de estudo. A oportunidade de interagir e participar de atividades acadêmicas tende a favorecer uma atitude mais responsável por parte do aluno e o estabelecimento de novos propósitos e objetivos. Fonte: Adaptado de Alencar (1986, p. 57-58). 150 UNIUBE Sendo assim, reveja o conceito de aceleração e pense sobre as vantagens e as des vantagens explicitadas. Lembre-se dos conhecimentos que tem acerca da escola. É muito importante que o educador pense nas vantagens e nas desvantagens da ace leração, especialmente em relação às singularidades do aluno em questão. O enriquecimento O enriquecimento é uma estratégia que proporciona ao aluno o acesso a experiências significativas de aprendizagem, com o objetivo de ampliar, aprofundar e enriquecer o conteúdo curricular e, também, sua área de interesse e talento. Para que tenha um bom resultado, são necessárias orientações sistematizadas. Esta estratégia pode ser desenvolvida individualmente e em grupo com os pares, por meio de projetos orientados por um facilitador ou mediador. Ela poderá acontecer na escola regular, em centros de atendimento, em salas de recursos e/ou com pessoas eminentes na sociedade (mentores). Alencar (1986, p. 59) ressalta que é importante um programa de enriquecimento que proporcione ao aluno liberdade de escolha dos tópicos a serem estudados, a extensão e a profundidade desejadas, permitindo-lhe ainda utilizar seu estilo preferido de apren dizagem. Nesse caso, o papel do professor seria, antes, o de facilitador na identificação de problemas, favorecendo ainda a aquisição de métodos de pesquisa. UNIUBE 151 Em visita ao Centro para o Desenvolvimento do Potencial e Talento – CEDET, de Lavras, MG, tive a oportunidade de acompanhar um grupo de alunos que participavam de aulas na universidade federal. Esses alunos estudavam, pela manhã, no ensino regular e, à tarde, eram inseridos nos programas de enriquecimento que o centro oferecia, por meio das parcerias com a comunidade e na própria sede. Os alunos se dividiam em dois grupos e iam assistir às aulas no laboratório sobre clonagem de plantas e anatomia. Para fazerem parte dessas aulas de enriquecimento, precisavam frequentar regularmente a escola e ter um rendimento satisfatório. Em meu ponto de vista, essa é uma proposta válida, pois todos, escola, aluno e família, se tornam parceiros e corresponsáveis pelo processo ensino-aprendizagem. EXEMPLIFICANDO! Renzulli (2004, p. 75), sobre esta estratégia, diz que tem o objetivo de desenvolver o conhecimento e as habilidades de pensamento, adquiridos por meio da instrução formal, com aplicação de conhecimentos e habilidades decorrentes da própria investigação feita pelo aluno. Tais conhecimentos resultam no desenvolvimento de um produto criativo. Um exemplo seria o aluno participar de um projeto que estimule seu talento e sua área de interesse, tendo como objetivo oferecer oportunidades para que ele aprofunde seus estudos, realize pesquisas e chegue a criar e/ ou descobrir algo novo. O autor subdividiu a estratégia de enriquecimento em três: Modelo de enriquecimento tipo 1: atividades gerais de exploração, realizadas por meio de palestras, excursões, visitas, minicursos, internet, filmes e outros que não fazem parte do currículo regular. 152 UNIUBE Modelo de enriquecimento tipo 2: atividades de treinamento dos níveis superiores de pensamento, como análise, síntese e avaliação. Atividades que desenvolvem habilidades críticas, criativas de desenvolvimento social, pessoal e de liderança. Por exemplo, pesquisas. Modelo de enriquecimento tipo 3: atividades que oportunizem o aluno a aprofundar, a desenvolver e a transformar a informação existente. Neste modelo, o aluno deixa de ser um mero espectador da informação existente, ele passa a atuar, a agir, a desenvolver algo, a criar. Por exemplo, escrever livros, criar homepage etc. É interessante pensarmos que esses três modelos se complementam e o objetivo é que os alunos cheguem ao modelo três, não é mesmo? Pois queremos que os alunos desenvolvam todo o seu potencial! A compactação do currículo A compactação do currículo é uma estratégia utilizada para oportunizar ao aluno um caminhar mais rápido, perante os componentes curriculares de seu domínio. O currí culo normal é completado em metade ou na terça parte do tempo previsto. Ou seja, é uma forma de tornar compacto os conteúdos do currículo que o aluno já sabe e são desnecessários para sua realidade. Essa estratégia motiva o aluno a prosseguir seus estudos na sala de aula regular, pois o ambiente torna-se mais desafiador e incentivador à medida que o aluno tem a opor tunidade de investir seu tempo em outros tópicos de seu interesse. Segundo Virgolim (2007, p. 62), dois procedimentos são essencias para a compactação do currículo: UNIUBE 153 1 - Um cuidadoso diagnóstico da situação. 2 - Completo conhecimento do conteúdo e dos objetivos da unidade de instrução. Esses são procedimentos importantes, pois o professor deverá analisar o que o aluno domina realmente e até que ponto, assim como conhecer os conteúdos do currículo em sua totalidade para que seja decidido o que compactar. A compactação oferece ao aluno oportunidades para trabalhar com as estratégias de enriquecimento e de aprofundamento. A compactação do currículo pode sugerir tam bém uma aceleração. Tudo irá depender do diagnóstico realizado pelo professor e do desempenho do aluno mediante o conteúdo dominado. Se, por exemplo, forem compactadas várias unidades de ciências, caberá ao professor analisar se o aluno deve ser acelerado para o próximo ano, se deverá aprofundar mais o conteúdo ou se deverá aproveitar seu tempo em outro tópico/ disciplina de interesse. 3.5.3 O atendimento oferecido pelas salas de Atendimento Educacional Especializado (AEE) – salas de recurso O Ministério daEducação (MEC), por meio da Secretaria de Educação Especial (SEESP), instituiu as salas de Atendimento Educacional Especializado (AEE). O AEE é um serviço de caráter complementar ou suplementar à formação dos alunos no ensino regular, voltado para a formação dos alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação, considerando suas necessidades específicas de forma a promover acesso, participação e interação nas atividades esco lares. Ele perpassa todos os níveis, etapas e modalidades de ensino, sem substituí-los, garantindo o direito de todas as crianças e jovens à educação escolar comum. O AEE é realizado no turno inverso ao da sala de aula comum. 154 UNIUBE Deve ser realizado, prioritariamente, na Sala de Recursos Multifuncionais da própria escola ou em outra sala de ensino regular, podendo ser realizado também em centro de atendimento educacional especializado público ou privado sem fins lucrativos, con veniado com a Secretaria de Educação. No caso dos alunos com altas habilidades/superdotação, são desenvolvidas atividades de enriquecimento curricular a partir das áreas de interesse real e potencial dos alunos. O interesse potencial surgirá a partir das vivências e experiências, desenvolvidas por meio de situações inovadoras, criativas e estimuladoras. Outro objetivo da sala de AEE para essa clientela é promover uma articulação com instituições de ensino, de pesquisa, de artes, de esportes etc., com a finalidade de oportunizar o estímulo e desenvolvimento dos talentos e da capacidade criadora do aluno em questão, pois se o talento não for estimulado, corre o risco de ser desperdiçado. A superdotação, os distúrbios e as dificuldades de aprendizagem 3.6 Por um bom período de tempo, foi defendida a ideia errônea de que para ser superdo tada a criança deveria ser brilhante em todas as áreas. Você sabia que Isaac Newton tirava notas baixas na escola? Que John Kennedy tinha dificuldades em soletrar e baixo rendimento na escola? Que Thomas Edison foi mau aluno e não frequentava a escola, era desinteressado e quem o ensinou a ler foi sua mãe? CURIOSIDADE Apenas, há pouco tempo, que estudiosos começaram a identificar e a reconhecer alu nos superdotados que possuíam distúrbios e dificuldades de aprendizagem, inclusive, a encontrar alunos superdotados com discalculia, dislexia, disgrafia, problemas de percepção, com déficit de atenção, entre outros. UNIUBE 155 Discalculia: impede a criança de compreender os processos matemáticos. Disgrafia: dificuldade de escrever letras e números. Dislexia: dificuldade em não conseguir identificar símbolos gráficos (letras e/ ou números), tendo como consequência disso a dificuldade na leitura e escrita. Fonte: Psicopedagogia Brasil (2011). EXPLICANDO MELHOR Você pode estar se perguntando, mas por quê? Podemos encontrar alunos superdotados com discalculia, dislexia, disgrafia, problemas de percepção, com déficit de atenção, entre outros distúrbios, pelos seguintes motivos: 1) apresentarem uma desordem cerebral que os impeçam de receber, processar e expressar informações, ou seja, apresentam um problema de ordem orgânico/neu rológico. Há indivíduos que se destacam em atividades de raciocínio verbal abstrato, mas não conseguem registrar no papel devido à sua disgrafia. Tais indivíduos podem possuir um problema perceptivo que leve à inversão de letras. EXEMPLIFICANDO! 2) serem academicamente superdotados, ou seja, possuírem uma habilidade maior e um interesse em uma determinada área e/ou disciplina. 156 UNIUBE Sobre este assunto, Winner (1998, p. 37) ressalta que: [...] muitas crianças que nós claramente chamaríamos de superdo tadas têm habilidades matemáticas muito mais altas do que verbais e vice-versa. Prodígios em matemática também não tendem a ser prodígios literários; nem prodígios em escrita tendem a se destacar em matemática. Vejam que o aluno pode se destacar em uma área de conhecimento, mas não se des tacar na outra. 3) apresentarem transtornos de déficit de atenção e hiperatividade. No caso de transtorno de déficit de atenção, o indivíduo apresenta uma inabilidade de focalizar e, realmente, não consegue prestar atenção. No caso da hiperatividade, ele apresenta um estado físico de agitação, inquietação e impulsividade. É importante analisar se a agitação e a inquietação são de fato problemas orgânicos, pois muitos alunos com superdotação/alta habilidade podem desencadear tais compor tamentos por estarem em um ambiente pouco estimulador e pouco desafiador. 4) apresentarem um talento artístico, pois os alunos com esta capacidade, na maioria das vezes, veem, pensam e sentem o mundo por meio de sua arte, deixando para um segundo plano as outras áreas do conhecimento. É como se o mundo para eles girasse somente em torno de seu interesse, de sua habilidade e talento específico. Uma criança aos dois anos sabia ler, mas também apresentou grande fascínio por números. O tempo foi passando e seu interesse por números crescia cada dia mais. Devido a esse fato seu interesse não se estendeu para outras áreas do conhecimento. EXEMPLIFICANDO! UNIUBE 157 Deixamos a sugestão do filme O som do coração. É um filme sensível e suave, que conta a história de August Rush, um menino que mora em um orfanato e possui alta habilidade musical. Pode-se observar claramente esta questão assistindo a esse filme. O protagonista deixa explícito que escuta música em todos os barulhos de seu cotidiano. Ele diz: “Ouça, consegue ouvir a música? Eu consigo ouvi-la em qualquer lugar, no vento, no ar, na luz... está ao nosso redor... a gente precisa se abrir... a gente só precisa ouvir...” Título original: August Rush Lançamento: 2007 (EUA) Direção: kirsten Sheridan Atores: Freddie Highmore, Keri Russell, Robin Williams, Leon G. Thomas III, Terrence Howard. Duração: 100 min. Gênero: Drama SAIBA MAIS Ao ler a biografia de Albert Einstein, percebe-se que ele apresentou problemas escolares, pois não possuía alta habilidade em disciplinas como geografia e história, que exigiam uma boa gestão da memória. Também não se interessava por atividades físicas, mas possuía alta habilidade em matemática e ciências naturais. Para alguns autores, ele possuía características de dislexia, o que podemos verificar no trecho desta reportagem da Revista da Folha (2004), intitulada “Confusão ao pé da letra”, veja: O físico alemão Albert Einstein não falou até os quatro anos de idade; não conseguia ler até os nove. Falhou nos exames de admissão para o colegial e só conseguiu passar após um ano adicional de preparatório. Ao se dedicar à Física, no entanto, seu elevado grau de criatividade permitiu que ele alcançasse voos altos, criando conceitos revolucionários para a época. 158 UNIUBE Veja que a dislexia não tem a ver com falta de inteligência. O disléxico pode ter altas habilidades em outras áreas. Com certeza, temos muitos alunos em nossas escolas com distúrbios e dificuldades de aprendizagem, mas mesmo assim superdotadas e vice-versa, não é mesmo? É emergencial ficarmos atentos às especificidades e às necessidades desses alunos, pois é preciso saber reconhecer se eles apresentam uma dificuldade, um distúrbio ou se estão apresentando um sintoma de desinteresse e/ou tédio. Contudo, imagine você quantos alunos temos em nossas escolas que se enquadram neste perfil? Quantos alunos diagnosticados somente como hiperativos temos por aí? Será que são somente hiperativos? É preciso analisar cada caso em especial e acima de tudo conhecer as características da superdotação para poder auxiliar na identificação e atendimento. Renzulli e Reis (1985 apud VIRGOLIM, 2007, p. 39) ressaltam que: [...] as pessoas que marcaram a história por suas contribuições e conhecimentos e à cultura não são lembradas pelas notas que obti veram na escola ou pela quantidade de informações que conseguiram memorizar, mas sim pela qualidade de suas produçõescriativas, expressas em consertos, ensaios, filmes, descobertas científicas etc. Sendo assim, seja qual for a causa é essencial compreendermos que: [...] todo aluno tem direito a um ambiente educacional flexível e responsivo, adaptado ao seu nível de aprendizagem, que permita certo nível de escolha de tópicos do seu interesse e que promova a excelência no estudo (VIRGOLIM, 2007, p. 57). Todos os alunos devem se sentir acolhidos na escola; mais do que isso, devem sentir que a escola está fazendo diferença em sua vida. UNIUBE 159 3.7 Como trabalhar com os alunos superdotados em sala de aula? Qual é o papel da escola? Vamos iniciar esse tópico, com uma reflexão de Helena Antipoff (1946 apud FREEMAN; GUENTHER, 2000, p. 94), vejamos: [...] que lhes reserva a escola? Ambiente de tédio irrespirável Transforma esses meninos bem dotados Em irriquietos, travessos, improdutivos, Que mestres medíocres são incapazes De manter, sem queixas, Nas suas salas de aula. Muitos estudantes superdotados não possuem experiências escolares satisfatórias e exitosas. Vários pesquisadores relataram o fato de esses alunos se saírem mal na escola e até mesmo se sentirem infelizes. Veja, por exemplo, um pequeno trecho da vida escolar de Einstein: [...] Este gênio do século XX teve uma infância solitária. Gostava de ler e ouvir música, não se identificando com os desportos praticados pelas outras crianças. Einstein sempre demonstrou grande habilidade para a compreensão dos conceitos matemáticos. Com 12 anos de idade aprendeu sozinho Geometria Euclidiana e, quando a sua família se mudou para Milão, em 1894, Einstein dedicou-se à leitura de inúmeros livros de ciências. “o Livro Popular das Ciências Naturais”, escrito por Bernstein, em 1869, é considerado como uma das obras que mais o marcou na sua juventude. Einstein foi sempre crítico dos métodos de ensino praticados na escola. Apesar de ter fracos resultados escolares, Einstein tinha uma enorme curiosidade em compreender o universo. Apresentou uma postura CURIOSIDADE 160 UNIUBE Mas onde será que está a causa desse problema? Na escola? Nos professores? Nos alunos? Nas políticas públicas? Nas metodologias e nos métodos? Nos currículos? Enfim, inúmeras são as variantes nas quais pode estar centrada a resposta, e isso com certeza também dependerá da realidade de cada aluno, das características e especifi cidades de sua superdotação e do contexto no qual o aluno e a escola estão inseridos. Porém, a maioria dos alunos, quando entrevistados, responde que a escola é de sestimulante, que não aprendem nada interessante lá, que eles sabem mais que os professores, que as práticas escolares são cansativas e sem sentido, que aprendem mais sozinhos; enfim, que aprendem mais fora da escola que dentro dela. Mas por que será que possuem este sentimento? Devido à rapidez e ao estilo de aprendizagem, as vivências escolares para os alunos mais capazes e bem dotados quase sempre são diferentes daquelas experienciadas pelas outras crianças. Na tentativa de conseguir amigos e se “misturar” melhor com os outros em um grupo comum, os mais capazes podem dissimular e esconder sua excepcionalidade (FREEMAN; GUENTHER, 2000, p. 98). autodidata, afirmando que “preferia suportar qualquer tipo de castigo a ter de papaguear as coisas aprendidas” e autoclassificava-se como “livre-pensador fanático”. Terminou a escola secundária em Arrau, Suíça, com boas notas apenas em Matemática. [...] Fonte: E-escola. Disponível em: <http://www.e-escola.pt/personalidades. asp?nome= einstein-albert>. Acesso em: 7 fev. 2011. UNIUBE 161 Outro fator que os alunos sempre ressaltam é que os professores e/ ou a escola não proporcionam um ensino diferenciado. Eles acham as tarefas muito fáceis, sem desafios e criticam as metodologias, pois não são inovadoras e tais dissabores podem gerar atitudes negativas como a indisciplina. [...] trabalhando com tarefas demasiadamente fáceis, os mais ca pazes podem então criar seus próprios desafios, tal como testar, ou mesmo quebrar, as regras estabelecidas (KANEVSKY, 1994 apud FREEMAN; GUENTHER, 2000, p. 97). Adotam posturas também de apatia, ficam alheios a tudo, como se estivessem no mundo da lua o que pode levar a cometerem erros de aprendizagem. Esta também é uma maneira de contornarem o tédio pelas aulas e pelos conteúdos sem significados. Agem dessa forma para aliviar o tédio daquilo que está desagradável e sem sentido ou por estarem envolvidos em pensamentos mais elevados e com seus reais interesses. O professor tem papel fundamental para o desenvolvimento dos talentos de nossos alunos “mais capazes”, portanto deixaremos como sugestão algumas atitudes e ações que poderão fazer a diferença: • elogiar sempre o aluno, mesmo que seja por um pequeno feito; • checar, frequentemente, os avanços do aluno; • dialogar com o aluno sobre metas, conteúdos, estratégias de aprendizagem; • utilizar materiais e metodologias diferenciadas que vão ao encontro do talento e interesse do aluno; • possibilitar que o aluno seja “mentor, monitor” na sala de aula do seu conteúdo e/ou área de destaque/talento; • oportunizar que o aluno tenha um mentor na sua área de interesse/talento; PONTO-CHAVE 162 UNIUBE Partindo do pressuposto que a escola é espaço de aprendizagem e construção de co nhecimentos e com o intuito de oportunizar uma escola mais significativa para todos os alunos, venho propor uma mudança em nossas práticas pedagógicas, tendo como pré-requisito a utilização de metodologias pautadas na teoria das múltiplas inteligências. Armstrong (2001, p. 38 apud VIRGOLIM, 2007, p. 54-55) descreve as necessidades cognitivas específicas do aluno, a partir do seu tipo de inteligência como podemos ver no Quadro 2. Quadro 2: Necessidades cognitivas específicas do aluno, a partir do seu tipo de inteligência Tipo de inteligên- cia Como as crianças pensam O que as crianças adoram De que as crianças precisam Linguística Em palavras. Ler, escrever, con- tar histórias, fazer jogos de palavras. Livros, fitas, materiais para escrever, papéis, diários, diálogos, dis- cussões, debates. Lógico- -matemá- tica Raciocinando. Experimentar, ques- tionar, resolver problemas lógicos, calcular. Coisas para explorar e pensar, materiais cien- tíficos, manipulativos, visitas ao planetário e ao museu de ciências. Espacial Por imagens e figuras. Planejar, desenhar, visualizar, rabiscar. Arte, legos, vídeos, filmes, slides, jogos de imaginação, labirintos, quebra-cabeças, livros ilustrados, visitas a museus de arte. Corporal- -cinesté- sica Por sensações somáticas. Dançar, correr, pu- lar, construir, tocar, gesticular. Dramatização, teatro, movimento, coisas para construir, esportes e jogos de movimentos experiências táteis, aprendizagem prática. • pedir ao aluno que faça uso de autoavaliações; • aceitar e respeitar o aluno mediante sua diversidade. UNIUBE 163 Musical Por ritmos e melodias. Cantar, assobiar, cantarolar, batucar com as mãos e os pés e escutar. Tempo para cantar, idas a concertos, tocar músi- ca em casa e na escola, instrumentos. Interpes- soal Percebendo o que os outros pensam. Liderar, organizar, relacionar-se, mani- pular, mediar, fazer festa. Amigos, jogos de gru- po, reuniões sociais, eventos comunitários, clubes, mentores/apren- dizados. Intrapes- soal Em relação às necessidades, aos sentimen- tos e aos obje- tivos. Estabelecer objeti- vos, mediar, sonhar, planejar, refletir. Lugares secretos, tem- po sozinhas, projetos e escolhas no seu ritmo pessoal. Naturalista Por meio da natureza e das formas naturais. Brincar com ani- mais de estimação, cuidar do jardim, in- vestigar a natureza, criar animais, cuidar do planeta Terra. Acesso à natureza, oportunidade para inte- ragir com animais, ins- trumentos para inves- tigar a natureza, como lupas e binóculos. Fonte: Adaptado de Armstrong(2001, p. 38 apud VIRGOLIM, 2007, p. 54-55). Um trabalho pedagógico desenvolvido a partir da realidade e dos estilos de aprendiza gem dos alunos possui mais chances de ser significativo e prazeroso, pois parte das necessidades cognitivas específicas de cada um. Um professor atento aos interesses dos alunos pode detectar mais prontamente o maior envolvimento do estudante com uma determi nada tarefa, o que pode ser o aspecto que vai levá-lo a desenvolver sua criatividade e habilidades específicas na área de interesse (VIRGOLIM, 2007, p. 62). Cabe ao professor saber reconhecer os estilos de inteligência de seus alunos e possi bilitar um trabalho a partir de seus reais interesses. Dessa forma, temos a certeza de que o sucesso será de ambas as partes. 164 UNIUBE Conclusão3.8 Muito pode ser feito para os alunos superdotados/talentosos, mas é de extrema impor tância estimular ao máximo o potencial e talento dos “alunos mais capazes” por meio de ações, métodos e metodologias adaptadas às suas necessidades educacionais especiais. Não se esqueça de respeitar os interesses, as características e as áreas de talento de cada um, pois somente dessa maneira você poderá oportunizar que as potencialidades desses alunos germinem e se desenvolvam. Podemos comparar o talento como uma semente que, ao ser lançada, a terra germinará, crescerá, dará flores e/ou frutos caso seja bem cuidada. Renzulli (1981 apud Virgolim, 2007, p. 38) explica-nos: A superdotação emerge ou se esvai em diferentes épocas e sob diferentes circunstâncias da vida de uma pessoa. Assim sendo, os comportamentos de superdotação podem ser exibidos em certas crianças (mas não em todas elas) em alguns momentos (não em todos os momentos) e sob certas circunstâncias (e não em todas as circunstancias de sua vida). Há, com certeza, em nossas escolas, inúmeros alunos esperando apenas por uma oportunidade para demonstrarem todo seu potencial. Sendo assim, por que não apro veitar seus talentos? Vejamos a mensagem de Ângela M. R. Virgolim (2002, p. 5): Você deve sempre estimular a criança, desenvolver sua imaginação. Instigar sua curiosidade para que possa desenvolver sua potenciali dade ao máximo, oferecendo, acima de tudo, compreensão e amor incondicionais, apoiando-a naquilo que a torna única, diferente e, por tudo isso, ESPECIAL. Termino aqui esta pequena reflexão sobre este tema e espero que tenha estimulado você a aprofundar mais sobre este assunto tão fascinante: a educação dos alunos mais capazes. UNIUBE 165 Resumo A superdotação é caracterizada por traços consistentemente superiores, marcados por uma elevada potencialidade de aptidões, talentos, habilidades e interesses específi cos. Contudo, esses traços superiores devem permanecer com frequência e duração na trajetória do aluno para poderem ser confirmados em épocas diferentes, mas em situações semelhantes. Um superdotado poderá se destacar em uma área ou combinar várias, poderá também apresentar graus de habilidades diferenciadas. Os superdota- dos, assim como outra pessoa qualquer, apresentam características, comportamentos e sentimentos que os diferenciam como pessoa. Ou seja, possui uma individualidade, um perfil, um caráter, uma estrutura mental e emocional que revela sua forma própria de ser e estar no mundo. Para reconhecer e identificar um aluno superdotado/talentoso, existem várias técnicas, como a autoidentificação, os testes de Q.I., a observação do aluno, tendo como refe rencial os checklists de autores renomados nesta área. Existem muitos mitos em relação aos alunos superdotados e talentosos, fato este que dificulta a identificação e o atendimento desses alunos. Com relação às práticas pedagógicas que podem ser desenvolvidas com nossos alunos mais capazes, temos a modificação do ambiente, a modificação da postura do professor e, no meu ponto de vista, a mais elementar, que é a modificação do conteúdo ensinado. Dentro dela, podemos optar pela compactação do currículo, pelo enriquecimento e pela aceleração do aluno. Todas essas práticas podem ser desenvolvidas na sala regular e/ ou em salas de recurso, tendo como pré-requisito um olhar pedagógico voltado para os reais interesses e as necessidades do aluno. Embora apresentem superdotação/altas habilidades, há alguns alunos que merecem cuidado, pois apresentam baixo rendimento escolar, dificuldades de aprendizagem, problemas comportamentais e distúrbios de aprendizagem que podem ser uma manifestação de desinteresse pelo cotidiano escolar ou realmente ser por um problema orgânico. 166 UNIUBE Finalizando, muito pode ser feito por nossos alunos mais capazes, mas cabe a nós, educadores, identificar, mediar, orientar para que seus talentos se aperfeiçoem e suas capacidades cresçam e se desenvolvam, pois, como diz Charles Schulz: “Não existe fardo maior do que um potencial não realizado”. Referências ALENCAR, S. E. Psicologia e educação do superdotado. São Paulo: EPU, 1986. ANTIPOFF, Helena. A Educação de bem dotados. Rio de Janeiro: SENAI, 1992. BRASIL. Secretaria de Educação Especial. Subsídios para a organização e funcionamento de serviços de educação especial: área de altas habilidades. Brasília: MEC/SEESP, 1995. ______. Ministério da Educação. Secretaria Nacional de Educação Especial. Política Nacional de Educação Especial. Brasília, DF, 1994. ______. Ministério da Educação. MEC. Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Disponível em: <portal.mec.gov.br/seed/arquivos/pdf/tvescola /leis/lein9394.pdf>. Acesso em: 29 mar. 2011. FREEMAN, Joan; GUENTHER, Zenita. Educando os mais capazes. Ideias e ações comprovadas. São Paulo: EPU, 2000. GALLAGHER, J.; GALLAGHER, S. Teaching the gifted child. 4. ed. Allyn and Bacon,1985. GUENTHER, Zenita Cunha. CEDET. Um Programa de Atendimento ao Bem Dotado no Brasil. Lavras: UFLA, 1995. ______. Desenvolver capacidades e talentos: um conceito de inclusão. Petrópolis: Vozes, 2000. LUCENA, M. Como criei um gênio. Galileu. Disponível em: <http://revistagalileu. globo.com/ Revista/Common/0,,EMI156889-17933,00-CoMo+ CRIEI+UM+GENIo.html>. Acesso em: 7 fev. 2011. UNIUBE 167 RENZULLI, J. S. The three ring conception of giftedness – a developmental model for creative and productivity. In: STERNBER, R. J.; Davidson, J. E. (Eds.). Conceptions of Giftedness. Nova York: Cambridge University Press,1986. RENZULLI, J. S. O que é esta coisa chamada superdotação, e como a desenvolvemos? Uma retrospectiva de vinte e cinco anos. Educação. Tradução de Susana Graciela Pérez Barrera Pérez. Porto Alegre – RS, ano XXVII, n. 1, p. 75-121, jan/abr. 2004. REVISTA DA FOLHA. Confusão ao pé da letra. São Paulo, ano 13, n. 627, 4 jul. 2004. Disponível em:<http://dislexia.zip.net/>. Acesso em: 7 fev. 2011. RENZULLI, J. S. O que é esta coisa chamada superdotação e como a desenvolvemos? Retrospectiva de vinte e cinco anos. Revista Educação, Porto Alegre, ano 27 n. 1, p. 75-134, jan./abr. 2004. SOUZA, B. C. Informação e Conhecimento sobre a Superdotação Intelectual: Portal Sapiens. 2002. Disponível em: <http://www.vademecum .com.br/ sapiens>. Acesso em: 25 jan. 2011. VIRGOLIM, Angela M. R. 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Para tanto, será preciso compreender as teorias psicológicas abordadas por Vygotsky, Feuerstein e Wallon, bem como os respectivos enfoques ressaltados por eles quanto aos diferentes caminhos, nem sempre previsíveis, da aprendizagem. É nosso objetivo aliar os estudos científicos que faremos com a prática pedagógica em sala do ensino regular e classes de Atendimento Educacional Especializado. Sugerimos então algumas situações práticas, em que é devidamente aplicável esse referencial teórico. A principal fonte inspiradora foi a prática pedagógica circundada pelas crianças com dificuldades de aprendizagem. A preocupação com uma educação de qualidade e o respeito à diversidade reforçaram-nos o desejo de contribuir para a reestruturação de um olhar diferenciado sobre a capacidade do ser humano de modificar-se. Pois, como já dizia Vygotsky (1988, p. 31), “O único bom ensino é aquele que se adianta ao desenvolvimento”. 170 UNIUBE 4.1 A mediação pedagógica e a aprendizagem 4.2 Os processos de aprendizagem 4.3 A função da intervenção pedagógica 4.4 Modificabilidade cognitiva estrutural 4.5 Intencionalidade da ação 4.6 Mediação 4.7 Prática pedagógica 4.8 Os dez mandamentos da aprendizagem 4.9 Teoria e prática pedagógica 4.10 Promovendo o desenvolvimento de forma integral 4.10.1 Pressupostos teóricos de Wallon 4.10.2 O movimento e o pensamento 4.10.3 Emoção a afetividade 4.11 Postulado 4.12 Conclusão Esquema Após o estudo deste capítulo, esperamos que você seja capaz de: • compreender o ato da mediação como uma importante estratégia de intervenção; • conhecer os conceitos de mediação segundo Vygotsky e Feuerstein; • identificar conhecimentos necessários ao mediador da aprendizagem. Objetivos A mediação pedagógica e a aprendizagem4.1 Neste capítulo, abordaremos a mediação pedagógica fundamentada nas ideias de mediação descritas por Vygotsky (1988). UNIUBE 171 Com o advento da teoria sociointeracionista apresentada por Lev Vygotsky, iniciou-se uma nova concepção do ensino como sendo um processo social. Consequentemente, ocorre uma inovação no papel da escola, especificamente do professor, que deixa de ser apenas um mero transmissor de conhecimentos preestabelecidos nos currículos escolares para se tornar um agente fundamental na construção do conhecimento de seus alunos, por meio da mediação pedagógica. Um conceito central para a compreensão das concepções vygotskyanas sobre como ocorre a gênese do desenvolvimento humano, principalmente no que se refere aos aspectos da cognição, é a mediação. Ela, em linhas gerais, seria o processo de intervenção de um elemento intermediário na relação estabelecida entre o ensino e a aprendizagem, independentemente do ambiente em que o indivíduo esteja, seja em casa, na igreja, na praça, no trabalho, no cinema, na escola, entre outros. RELEMBRANDO A mediação pedagógica é uma expressão que se refere, de um modo geral, ao relacio namento professor-aluno em busca de uma aprendizagem que se concretize dentro de um processo de construção do conhecimento. O professor mediador assume o papel de facilitador do aprendizado, não no sentido de dar as respostas prontas e resolvidas a seus alunos, e sim aguçando a curiosidade, intervindo, subsidiando as variadas formas de interpretação para que eles encontrem as respostas aos desafios propostos. Ressaltamos que no contexto escolar a mediação também se estabelece na relação aluno-aluno. Consideramos esta relação de grande importância dentro do processo; no entanto, neste capítulo, daremos enfoque à relação professor-aluno. Vygotsky trabalha constantemente com a ideia de que a relação do homem com o mundo não é uma relação direta, ou seja, baseada apenas em estímulo e resposta. Para ele, ela é fundamentalmente uma relação 172 UNIUBE mediada por ferramentas auxiliares da atividade humana, as quais ele chamou de instrumentos (elementos externos ao in divíduo) e símbolos (orientadores psicológicos do indivíduo). Ou melhor, os signos são como ferramentas que auxiliam nos processos psicológicos do indivíduo, como lembrar, comparar, quantificar, relatar etc. Enquanto os instrumentos auxiliam nas ações con cretas, como provocar mudanças nos objetos, controlar processos naturais, entre outros. Em seus estudos, Vygotsky dedicou-se principalmente a compreender o desenvolvi mento dos processos mentais superiores ou funções psicológicas superiores, que seria a capacidade que o ser humano possui de tomar decisões diante de uma informação nova, estabelecendo relações entre os diversos conhecimentos adquiridos. O mais importante desse tipo de comportamento é o seu caráter voluntário, diferentemente das ações condicionadas por reflexos. Dessa forma, fica explícito que o professor deve saber como e onde intervir no processo de aprendizagem de seus alunos, tendo sempre em mente qual o grau de dificuldade/habilidade deles, e quais procedimentos didático-pedagógicos poderá lançar mão para que o aluno avance em seu desenvolvimento cognitivo. O professor deverá estar ciente também que o conhecimento se dá de forma dialética entre o sujeito e o meio social em que está inserido. Os processos de aprendizagem4.2 Além de sua preocupação constante com a questão do desenvolvimento humano, Vygotsky (1988) enfatiza em sua obra a importância dos processos de aprendizagem. Para ele, desde o nascimento, a aprendizagem da criança está relacionada ao seu de senvolvimento. Obviamente, existe um percurso natural de desenvolvimento, em parte definido pelo processo Dialética Oposição, conflito gerado pela contradição entre princípios teóricos ou fenômenos empíricos. UNIUBE 173 de maturação do indivíduo, mas é o aprendizado que possibilita o desenvolvimento dos processos mentais superiores. O desenvolvimento fica impedido de ocorrer na falta de situações propícias ao aprendizado. Assim, podemos inferir que é principalmente na escola, pela interação social com outras crianças e pela mediação “intencional” do professor, que a criança aprende e se desenvolve. A importância que Vygotsky outorga ao papel do mediador no desenvolvimento do indivíduo é confirmada pela abordagem do conceito de zona de desenvolvimento proximal em sua teoria, que veremos logo a seguir. IMPORTANTE! A forma de avaliação do desenvolvimento de uma pessoa se dá por meio da comparação do que ela pode e sabe fazer sozinha com o que ela só consegue fazer com a ajuda do outro. Vygotsky denomina essa capacidade de realizar tarefas de forma independente nível de desenvolvimento real, resultante de processos psicológicos evolu tivos já consolidados. As tarefas que a criança necessita de subsídios para realizar ele denomina nível de desenvolvimento potencial. Essa possibilidade de alteração no desempenho de uma pessoa em função da interferência de outra é fundamental dentro da teoria de Vygotsky, em virtude do fato de que ele atribui uma importância extrema à interação social no processo de construção das funções psicológicas humanas. O aprendizado individual ocorre em um ambiente social determinado e a relação com o outro é imprescindível para o processo de construção do ser individual. EXPLICANDO MELHOR 174 UNIUBE No entanto, há um meio termo entre essas duas concepções de níveis de desenvolvimento real e potencial. É justamente aí que Vygotsky define a zona de desenvolvimento proximal como sendo a distância entre o nível de desenvolvimento real, que se costuma determinar através da solução independente de problemas, e o nível de desenvolvimento potencial, determinado através da solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração com companheiros mais capazes (OLIVEIRA, 1997, p. 60). Portanto, a zona de desenvolvimento proximal refere-se ao caminho a ser percorrido pelo indivíduo, em que o ponto de partida é o que ele conseguerealmente realizar sozinho, e o ponto de chegada seria atingir o ápice das potencialidades ainda em desenvolvimento. A zona de desenvolvimento proximal é como se fosse uma escada rolante em constante movimento, em que seus degraus representam os aprendizados necessários para se alcançar a culminância do desenvolvimento psicológico do indivíduo. Ao interferir nessa área de desenvolvimento, o professor ou as crianças mais experientes contribuem para alavancar os processos de evolução cognitiva da criança. COMPARANDO A função da intervenção pedagógica4.3 Conforme o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (2009), intervir significa ingerir -se, visando influir no seu desenvolvimento, interferir, interceder. É comum ouvirmos professores dizerem que têm dificuldades em intervir no processo cognitivo de seus alunos por não terem segurança quanto aos níveis de desenvolvi mento deles, principalmente na fase de alfabetização. É fundamental o conhecimento teórico-científico sobre o desenvolvimento infantil. UNIUBE 175 O professor deve ter o cuidado de não interpretar a teoria vygotskyana de forma distorcida e, por deter o conhecimento, interferir de forma incisiva e autoritária na aprendizagem de seu aluno, que, por sua vez, torna-se simplesmente um receptor passivo. Dessa forma, estaríamos retrocedendo à era da educação tradicional. IMPORTANTE! Vygotsky trabalha constantemente a ideia de “internalização”, apreensão do conheci mento por meio da interação do indivíduo com seu meio social. A subjetividade peculiar a cada ser humano é para ele a essência do desenvolvimento humano. A interação social da tríade aluno – professor – alunos é a chave para o enriqueci mento intelectual do aprendiz. Um bom caminho é o professor lançar mão de atividades promovidas em grupo, visto que as crianças são sempre heterogêneas quanto aos diferentes momentos da aprendizagem e podem, seguramente, intervir de maneira positiva no processo de enriquecimento cognitivo umas das outras. Assim, é evidente que a possibilidade de intervenção cabe tanto ao professor quanto às demais crianças envolvidas no processo. No entanto, o papel de intervir pedagogicamente, no sentido de mediar a aprendizagem, cabe ao educador, pois é ele quem detém o conhecimento teórico-científico que lhe dá condição de selecionar técnicas, metodologias, instrumentos eficazes para intervenção, bem como os objetivos a serem alcançados e o caminho a ser percorrido para que o “potencial” de seus alunos se torne “real”. É importante conhecer a base teórica acerca dos aspectos constitutivos dos níveis de escrita, para que o professor saiba quando, onde e como interferir adequadamente na zona de desenvolvimento proximal de seus alunos, provocando avanços que não ocorreriam aleatoriamente. 176 UNIUBE O estudo da teoria de Vygotsky reforça a tese de que o desenvolvimento da inteligên cia se dá primeiramente de forma interpessoal, por meio da interatividade social entre as pessoas, para, em seguida, ser internalizado pelo indivíduo. Ao ser internalizado, o indivíduo apropria-se de um determinado conhecimento, resultando assim em uma mudança de comportamento. Modificabilidade cognitiva estrutural4.4 Reuven Feuerstein se dedicou ao estudo da cognição e da sua modificabilidade. Sua filosofia da Modificabilidade Cognitiva Estrutural (MCE) baseia-se no fato de que todo ser humano é capaz de desenvolver a capacidade de aprender, ou seja, não há limites para o desenvolvimento da mente humana. Vamos conhecer um pouco sobre a vida e a obra desse estudioso. Reuven Feuerstein nasceu em Botosan (Romênia), em 1921, no seio de uma família judia muito sensível à cultura e à educação. Mostrou desde criança as suas qualidades: aos 3 anos já falava duas línguas e aos 8 ensinava o hebraico às crianças de sua comunidade. Quando em 1944 a Romênia foi ocupada, Feuerstein, que neste período ensinava em Bucareste numa escola para filhos de deportados, foi mandado para um campo de concentração. Afortunadamente conse guiu escapar e imigrou para Israel, onde se dedicou à educação dos adolescentes sobreviventes ao Holocausto. Tratava- se, a maior parte, de órfãos, pertencentes a diversas culturas, provindos de numerosos países europeus e africanos, que, devido às terríveis experiências vividas, apresentavam carências cognitivas muito semelhantes aos indivíduos com deficiência mental. Foi a partir dos estudos com estes adolescentes que Feuerstein e seus colaboradores desenvolveram um sistema de avaliação do potencial de aprendizagem (LPAD) e um programa de intervenção cognitiva (PEI), que se tornou conhecido no mundo como método Feuerstein. Entre 1940 a 1944, Feuerstein frequentou o Teachers College e Onesco College em Bucareste. Em 1944 e 1945 ele também estudou no Teacher Training Seminary, UNIUBE 177 em Jerusalém. Retomou seus estudos em 1949 na Suíça, onde frequentou palestras e seminários de Carl Jaspers, Carl Jung e L. Szondy. De 1950 a 1955 estudou na Universidade de Genebra, sob o comando de Andrey Rey e Jean Piaget, completando a sua formação em Psicologia Geral e Clínica (1952) e obtendo sua licença em Psicologia (1954). Em 1970 Feuerstein conquistou seu título de Ph.D. em Psicologia do Desenvolvimento na Sorbonne. Sua principal área de estudo foi Psicologia do Desenvolvimento, Clínica e Cognitiva desde uma perspectiva intercultural (CDCP, 2011). Sua teoria se contrapõe às teorias psicológicas do desenvolvimento, que consideram a origem das limitações do ser humano no indivíduo (inatista) ou nas condições de estímulos oferecidas em seu meio (ambientalista). Seus estudos favorecem o surgimento de uma nova abordagem para o atendimento psicopedagógico dos educandos com dificuldade de aprendizagem e crianças com deficiência. A MCE procura, objetivamente, descrever capacidade única, peculiar, singular e plural de os seres humanos mudarem ou modificaram a estrutura do seu funcionamento cognitivo, visando à adaptação às exigências, constantes e mutáveis das situações que caracterizam o mundo exterior envolvente. [...] A modificabilidade cognitiva deve ser definida como estrutural, e não esporádica ou acidental, ou seja, en cerra uma mudança de uma parte, mas que afeta um todo funcional da cognição. Trata-se de uma transformação do processo cognitivo em si próprio, no seu ritmo, na sua amplitude e na sua natureza autorreguladora (FONSECA, 1995, p. 85). A Modificabilidade Cognitiva Estrutural descortina uma nova perspectiva para o atendi mento às crianças com necessidades educacionais especiais (dificuldade de aprendiza gem, deficientes, altas habilidades, transtornos globais do desenvolvimento) e favorece o surgimento de uma nova concepção sobre a aprendizagem, tanto para estes como para as crianças “ditas normais”. Consolida que a capacidade de aprender é passível a todos os seres humanos e que todos nós temos a capacidade de desenvolver nossas potencialidades, sejam elas cognitivas, afetivas, emocionais, biológicas ou sociais. 178 UNIUBE Fonseca (1995, p. 73) ressalta que, quanto aos deficientes: A não ser em condições muito severas, em que entram fatores defectológicos genéticos e orgânicos (nos quais só as medidas de prevenção se justificam), o deficiente está aberto à modificabilidade cognitiva em vários estágios de seu desenvolvimento, fundamental mente nos mais precoces. Intencionalidade da ação 4.5 Esse modelo teórico aborda a diversidade humana, respeitando suas diferenças indivi duais e valoriza as interações entre o indivíduo e seu meio cultural. Os estímulos do meio e as mudanças intrínsecas do sujeito são produtos de uma série de atos carregados de intenção. Assim, Feuerstein reforça a importância da intenção da ação do professor no processo ensino-aprendizagem. Demonstra que a natureza do ser humano é ser flexí vel e que a inteligência é dinâmica, disponível, aberta às mudanças durante toda sua vida. O nível potencial dedesenvolvimento e aprendizagem irá depender da qualidade das interações do indivíduo com seu meio e da intencionalidade da ação mediadora. Fonseca (1995, p. 107) reafirma as palavras de Feuerstein e salienta a importância de defendermos os direitos de todas as crianças a uma boa educação. “Advogamos uma filosofia educacional em que qualquer criança, independentemente do seu potencial de aprendizagem (normal ou atípico), deverá ter o direito a uma educação que lhe permita realizar o máximo de seu potencial humano”. Para tanto, as escolas e os profissionais que nelas atuam devem estar preparados para receberem todas as crianças. UNIUBE 179 Mediação4.6 Feuerstein define duas formas de mediação: • a experiência direta de aprendizado: é a interação do organismo com o meio ambiente; baseada na teoria de Jean Piaget, em que o sujeito/aprendiz interage diretamente com o objeto de conhecimento e diante destes estímulos ele dá sua resposta. Ou seja, a aprendizagem acontece sem a interferência de outrem. Segundo Feuerstein, esse modelo não atende às necessidades da criança, pois para haver a aprendizagem significativa falta a presença do mediador. Podemos citar como exemplo o caso de uma criança que, passeando por um roseiral, fica encantada por ver tantas rosas, de diversas cores, que sente vontade de tocá-las (o estímulo). Ao tocá-las, sente o perfume, a textura de suas pétalas e percebe uma joaninha passeando sobre algumas pétalas. Neste exemplo, houve interação direta com o objeto de conhecimento (no caso, as rosas e a joaninha). EXEMPLIFICANDO! Vejam bem, caros alunos, esse tipo de aprendizagem é essencial e necessário para o processo de aprendizagem da criança, mas, segundo Feuerstein, não é suficiente para garantir uma aprendizagem efetiva. • a experiência de aprendizagem mediada: neste caso, requer a mediação, a inter venção intencional do outro na relação do aprendiz com seu meio sociocultural. Sua presença torna-se fundamental para auxiliar a organizar, a selecionar, a interpretar e a elaborar seu conhecimento. A intencionalidade da ação serve de alavanca pro- pulsora das novas aprendizagens. 180 UNIUBE Voltemos ao exemplo anterior, a criança no roseiral. Se os pais da criança estivessem juntos com ela e fizessem a mediação entre o aprendiz e o objeto de conhecimento, enriqueceriam ou favoreceriam uma nova aprendizagem. Ou seja, se os pais chamassem a atenção da criança para um aspecto específico (estímulo), por exemplo, as cores, a joaninha ou os tamanhos diferentes das roseiras, e explorassem bem esse aspecto com a criança, eles poderiam favorecer o desenvolvimento de uma nova habilidade na criança: habilidade de diferenciação de tonalidades; descoberta de diferentes nomenclaturas de cores; insetos; diferentes tamanhos; entre outros. EXPLICANDO MELHOR Naquela situação, os pais poderiam ir além, favorecendo, por exemplo, o conheci mento das questões sobre a necessidade do cuidado com a natureza, com os insetos (joaninha) e sua relação na cadeia alimentar, entre outros assuntos. Obviamente, com uma linguagem simples, estariam estimulando a criança para a descoberta de novos conhecimentos, assim como estariam sensibilizando-a para a preservação da natureza. Muitas relações e conhecimentos poderiam ser construídos aí. Vocês percebem a importância da mediação, nesse caso? Voltamos a ressaltar que ambas as formas de mediação, direta e mediada, são ne cessárias para o desenvolvimento integral das crianças, pois “a exposição direta aos estímulos é fundamental para o desenvolvimento cognitivo, mas a interação mediati zada, isto é, a própria cultura, é que permite o acesso às funções cognitivas superiores”. (FONSECA, 1995, p. 89). UNIUBE 181 Concordamos com o Hugo Otto Beyer, quando diz: Feuerstein assimila a abordagem vygotskyana de mediação parafra seando-a através do seu conceito da “Experiência de Aprendizagem Mediada”. Conforme Feuerstein, a determinação diferencial do desen volvimento infantil dá-se em função das oportunidades da criança em ter sua aprendizagem informal e formal mediada. É isto exatamente o que ele afirma na citação seguinte: “A experiência de aprendizagem mediada pode ser considerada como o ingrediente que determina o desenvolvimento cognitivo diferencial” (BEYER, 1996, p. 81). Caso queira conhecer mais sobre o que Beyer (1996) explica, leia o artigo “o método Reuven Feuerstein: uma abordagem para o atendimento psicopedagógico de indivíduos com dificuldades de aprendizagem, portadores ou não de necessidades educativas especiais”, para isso, acesse o site da Associação Brasileira dos Pesquisadores em Educação Especial e a Revista Brasileira de Educação Especial, vol. 4, disponível no site: http://www.abpee.net/homepageabpee04_06/artigos_em_pdf/revista4nu mero1pdf/r4_art07.pdf PESQUISANDO NA WEB E, ainda, podemos ir além, dizendo que a “Experiência de Aprendizagem Mediada”, revelada por Feuerstein, constitui-se na intencionalidade da ação do professor na “zona de desenvolvimento proximal”, descrita por Vygotsky, dos seus educandos. E este ato determinante influenciará o desenvolvimento da capacidade de “Modificabilidade Cognitiva Estrutural”. Prática pedagógica4.7 Quanto ao aspecto educacional, Feuerstein denomina “Experiência de Aprendiza gem Mediada” a relação entre mediador (professor) e mediado (aluno), quando esta envolve alguns critérios específicos. Observemos o que diz Fonseca (1995) em relação a esses critérios: 182 UNIUBE • Intencionalidade e reciprocidade: o educador deixa clara a “intencionalidade” da sua ação como facilitador do conhecimento, seja por meio dos gestos, intensidade da voz ou das palavras proferidas (sua postura), conseguindo provocar a “recipro cidade” do aluno para a receptividade para o aprendizado. Assim, é necessário que o professor desenvolva uma boa relação interpessoal com seus alunos, para que o processo de aprendizagem ocorra de uma maneira dinâmica e natural. • Transparência: o educador fornece subsídios para a percepção (conscientização) de que a interação fornecida naquele momento vai além dos fatos e das ações mo mentâneas, pois “transcende” o momento presente, ou seja, o aprendizado de hoje é subsídio para o de amanhã, de forma dinâmica e dialética. Dessa forma, os alunos perceberão os fundamentos norteadores de toda a aprendizagem, correlacionando as etapas do seu desenvolvimento cognitivo. • Significação: é a relação permeada na ação carregada de significado, valores e atitudes. A aprendizagem deve ser carregada de estímulos, de carga afetiva, para penetrar no sistema de significado, provocando a aprendizagem. Por meio da ação pedagógica, são transmitidas não só a cultura, mas também a filosofia de vida do grupo social. A significação está diretamente interligada ao prazer de aprender, ao estímulo às diversas curiosidades infantis, ao querer descobrir algo novo a cada dia e, principalmente, no deleite do professor empreendedor, que atribui significado a tudo o que faz. • Sentimento de competência: não só é respeitada a experiência e a capacidade da criança, como também fornece pistas para que ela encontre êxito na tarefa, aumentando sua autoestima, sua autoconfiança e melhorando a motivação para a aprendizagem. Acredite sempre em seu aluno, demonstre isso a ele e, por maiores que sejam suas limitações cognitivas, ele buscará caminhos, pois aprendeu com seu mestre a acreditar em si. Portanto, durante a prática pedagógica, o mediador deve deixar clara a intenção de sua ação. Demonstrar que essa intenção vai além dos fatos momentâneos, para penetrar, por meio da motivação, no sistema de significado do sujeito, transmitindo a filosofia do seu grupo social com o devido respeito em relação ao nível de desenvolvimento real da criança. UNIUBE 183 Deve fazer com que ela perceba, por meio das reflexões durante todo o processo, o seu próprio desenvolvimento potencial, elevandosua autoestima e motivando-a para as novas aprendizagens. Podemos perceber então a importância do papel do professor. O mediador deve ser o condutor de valores, de saberes culturais, de significados e estratégias que ajudam a interpretar a vida social, “provocando” o indivíduo para suas aprendizagens, influen ciando suas estruturas internas. Os dez mandamentos da aprendizagem4.8 Pozo (2002, p. 269) assim define os dez mandamentos da aprendizagem: As Tábuas da Lei da Aprendizagem: partirás dos interesses e mo tivos. Partirás dos conhecimentos prévios. Dosarás a quantidade de informação nova. Farás com que condensem e automatizem os conhecimentos básicos. Diversificarás as tarefas e aprendizagens. Planejarás situações de aprendizagem para a sua recuperação. Organizarás e ligarás as aprendizagens umas às outras. Promove rás a reflexão sobre os conhecimentos. Proporás tarefas abertas e incentivarás a cooperação. Instruirás no planejamento e organização da própria aprendizagem de cada um. Pozo reforça os pressupostos de Vygotsky que são sustentados e sistematizados por Feuerstein. Por esse motivo, vamos, a partir deste momento, elencar os conceitos con tidos nesses mandamentos na perspectiva de Pozo, como também trataremos de uma situação prática, exemplificando a ação de cada um desses dez mandamentos, para que se possa facilitar e aguçar a percepção dos profissionais de educação quanto aos aspectos de intervenção e mediação pedagógica, tão importantes no contexto escolar. 184 UNIUBE Partirás dos interesses e motivos O ponto de partida da aprendizagem deve ser o aluno. Cabe ao educador promover ativamente o interesse dos alunos para a aprendizagem. A motivação poderá levá-lo à proficiência, ao sucesso da aprendizagem ou ao seu fracasso. Portanto, deve-se incentivar o interesse intrínseco do aluno. Para tanto, é necessário conhecer as capacidades prévias dos seus alunos. Para conhecer essas capacidades, vocês deverão ter o conhecimento acerca das teorias psicológicas do desenvolvimento, que lhes proporcionarão informações precisas, úteis, dos possíveis e necessários “erros” que poderão cometer durante suas aprendizagens. Para que se sintam capazes, competentes e motivados para a descoberta do conheci mento, os alunos deverão perceber que os “erros” devem ser considerados como caminho que todos percorrem para chegar ao “acerto”, ou seja, cabe ao educador provocar a reflexão do aluno sobre suas decisões e ações durante todo o processo de aprendizagem. Nesse momento em que se busca a motivação intrínseca, as atividades acadêmicas devem ser organizadas de forma cooperativa, nas quais eles deverão se apoiar nos me diadores, seja ele professor ou seus pares. O importante é que os alunos compreendam o quê e como fazer e não que devem, obrigatoriamente, sempre obter êxito na atividade. Partirás dos conhecimentos prévios Para que a aprendizagem ocorra de modo efetivo, faz-se necessário que o educador planeje sua ação considerando o nível de desenvolvimento real, ou seja, conhecer o que o aluno já consegue realizar sozinho. A partir daí, ele irá fomentar o interesse do aluno na aquisição do conhecimento formal. Ao mesmo tempo, deverá estabelecer uma conexão entre o conhecimento do aluno e as novas aprendizagens. UNIUBE 185 Para que esse processo tenha êxito, faz-se necessária uma avaliação contínua e processual. E a concepção de avaliação aqui descrita refere- se à avaliação do processo ensino -aprendizagem, e não àquela focada no desempenho quantitativo do aluno. Dosarás a quantidade de informação nova As novas informações deverão ser dosadas, de forma a respeitar o nível de desen volvimento mental da criança. Ao mesmo tempo em que essas novas informações devem estar em consonância com as já internalizadas, ou seja, o professor deverá atuar na zona de desenvolvimento proximal, de maneira que o aluno atinja o nível de desenvolvimento potencial. Vale lembrar que tais informações devem ser desafiadoras, questionadoras e desestabilizadoras. Farás com que condensem e automatizem os conhecimentos básicos Com o objetivo de enriquecer os recursos de aprendizagens de seus alunos, o profes sor deverá propor situações que propiciem a condensação dos conhecimentos alvos e, ao mesmo tempo, favorecer a capacidade do educando de lançar mão de conheci mentos já adquiridos na resolução de novos propostos. Para isso, o educador deverá selecionar as informações viáveis e verdadeiramente relevantes, pois conhecimentos automatizados e pouco funcionais são normalmente esquecidos. Diversificarás as tarefas e aprendizagens O educador deverá propor situações de aprendizagens inovadoras e criativas para que o aluno tenha a oportunidade de retomar um mesmo conteúdo de maneiras diversifica das, bem como a utilização de recursos didáticos variados. Com isso, ao mesmo tempo que cristaliza conhecimentos necessários, estabelece conexão com os vindouros. 186 UNIUBE Planejarás situações de aprendizagem para a sua recuperação O professor deverá conhecer as reais dificuldades de seus alunos para, a partir daí, buscar diferentes estratégias e atingir seus objetivos. Nesse caso específico, o que se deseja é a recuperação da aprendizagem, lembrando que o educador deve sempre partir das habilidades conquistadas dos alunos para conseguir sanar as dificuldades deles, considerando que as estratégias utilizadas deverão ser contextualizadas, dife renciadas e prazerosas. Organizarás e ligarás as aprendizagens umas às outras O professor deverá organizar seu planejamento contemplando a interdisciplinaridade, a contextualização e a diversificação da sua prática pedagógica, de forma que atenda às necessidades dos alunos. Para confirmar a internalização do processo da aprendizagem, o professor deverá observar se o aluno está colocando em prática o que foi aprendido, por meio da aplicação dos conhecimentos adquiridos nas novas aprendizagens. Promoverás a reflexão sobre os conhecimentos O professor deverá oportunizar aos educandos vivências e situações desafiadoras e enriquecedoras que propiciem aos aprendizes buscarem suas próprias respostas e posicionamentos, consolidando sua autonomia como cidadãos. Para o educando atingir essa autonomia, é necessário que o professor tenha a clareza de que o aluno necessita de subsídios teórico-metodológicos que lhe favoreçam o desenvolvimento da reflexão sobre sua própria ação (metacognição). UNIUBE 187 Proporás tarefas abertas e incentivarás a cooperação O professor deverá oportunizar ao aluno a resolução de situações- problema abertas e abrangentes, de forma a exigir o aprimoramento da sua capacidade de percepção da realidade. Assim, tornará possível que ele compreenda a complexidade cultural que o envolve, para, a partir dela, tomar suas decisões para resolução das tarefas, utilizando -se de estratégias eficazes que o tornem proficiente. Vivenciar situações de cooperação mútua, de modo a favorecer o conflito cognitivo resultante da diversidade de pensamentos e, por meio da mediação cooperativa dos elementos envolvidos no processo, o aluno possa alcançar a melhoria de sua aprendi zagem social e sinta-se estimulado a aprender. Instruirás no planejamento e organização da própria aprendizagem de cada um O professor deverá favorecer a elaboração e organização do pensamento de seus alunos, para que eles possam, gradualmente, se tornar agentes de sua própria apren dizagem, conseguindo tomar suas decisões, selecionar, planejar, fixar metas, propor estratégias e avaliar resultados. Enfim, é essencial que se priorize a reflexão e a cooperação no desenvolvimento do processo ensino-aprendizagem. Teoria e prática pedagógica4.9 Com o objetivo de se aliar teoria e prática pedagógica, apresentaremos as Tábuas da Lei da Aprendizagem, propostas por Pozo (2002), por meio de técnicas efetivamente simples e dinâmicas, contextualizadas em relação à realidade docente, não com ointuito de fornecer receitas prontas, testadas e 188 UNIUBE aprovadas, como se fossem leis a serem seguidas, mas sim chamar a atenção para determinados aspectos, às vezes imperceptíveis na construção do conhecimento. Com o intuito de nortear a prática pedagógica, sugerimos algumas ati vidades simples, mas que, com a criatividade profissional de cada um dos leitores, poderão ser ampliadas e adaptadas de modo a atender às necessidades educativas de alunos. Partindo das citações de Pozo (2002), sugerimos as atividades que seguem. Partindo dos conhecimentos prévios “Partirás dos interesses e motivos, partirás dos conhecimentos prévios.” Quando dizemos partir dos interesses de seus alunos, estamos nos referindo que se parta de algo que tenha significado para eles. Para a criança em fase de alfabetização, a significação está relacionada ao lúdico, ao prazer de brincar. E, para fazer a correlação entre interesse e conhecimento prévio, é necessário que se faça uma sondagem inicial do nível de desenvolvimento cognitivo da escrita em que se encontram os alunos. Por meio de conversas informais, o professor terá condições de averiguar quais temas são do conhecimento e interesse de seu grupo de alunos. Nesse caso, sugerimos a “BRINCADEIRA DA FORCA”, para que o professor possa diagnosticar a etapa de conhecimento inicial de cada um de seus alunos e, subsequen temente, possa agrupá-los de forma a facilitar o trabalho com eles. Dosando a quantidade de informação “Dosarás a quantidade de informação nova, farás com que condensem e automatizem os conhecimentos básicos.” Na fase inicial de alfabetização, o conhecimento básico inicial é o domínio da base alfabética (o alfabeto) pela criança. UNIUBE 189 Para tanto, sugerimos o “BINGO DAS LETRAS” ou o “QUEBRA-CABEÇA ALFABÉTICO” como forma de automatizar o conhecimento necessário, aliado à ludicidade infantil. Com a utilização de atividades lúdicas, o professor consegue efetivar a apren dizagem de forma inovadora, de modo a fazer com que seus alunos apreendam o conhecimento, sem torná-lo massacrante. Diversificando tarefas “Diversificarás as tarefas e aprendizagens.” É fundamental que o professor proponha atividades variadas e desafiadoras, para que consiga despertar e manter o interesse de seus alunos para a aprendizagem. Tomando-se como base o exemplo citado anteriormente para o domínio da base alfa bética, existem inúmeras atividades lúdicas e desafiadoras que o professor pode lançar mão, como: DOLMINÓ DAS LETRAS, JOGO DA MEMÓRIA, BARALHO ALFABÉTICO, entre outras. Vale ressaltar que, além de as atividades serem inovadoras, é importante que o ambiente de estudo também seja diferenciado, ou seja, não fique restrito à sala de aula, utilizando-se de outros espaços físicos, como a biblioteca, a sala de vídeos, o pátio, a sala de informática, entre outros, que tornem o estudo mais prazeroso. Assim como também é importante diversificar as estratégias de ensino utilizadas pelo educador, desenvolvendo variadas alternativas para se atingir um mesmo objetivo. Diversificando situações de aprendizagem “Planejarás situações de aprendizagem para a sua recuperação.” 190 UNIUBE Ao diversificar as tarefas de aprendizagem, o educador estará automaticamente pro pondo atividades recuperadoras, ou seja, além de fixar melhor o conhecimento para as crianças que dominam o código alfabético, ele estará tornando possível a apreensão do código para aquelas que ainda possuem dúvidas. É importante lembrar que se faz necessário por parte do educador o conhecimento do estágio de desenvolvimento em que se encontra cada um de seus alunos. Para tanto, é preciso conhecer os estudos de Emília Ferreiro e Ana Teberosky e suas pesquisas referentes à psicogênese da leitura e da escrita, para poder propor atividades mais desafiantes aos que já estão em um nível de conhecimento mais elevado, além de propiciar a retomada do conhecimento de forma diversificada àqueles detentores de algum tipo de dúvida ou dificuldade. Ligando as aprendizagens “Organizarás e ligarás as aprendizagens umas às outras, promoverás a reflexão sobre os conhecimentos.” Quando o professor consegue estabelecer uma conectividade entre as aprendizagens, fica mais fácil para o aluno compreender que há um significado por detrás de tudo o que aprendemos, e o que foi apreendido hoje servirá como base para edificar o conhe cimento de amanhã. Quando falamos em conectividade de conhecimentos, estamos nos referindo também à relação existente entre as diferentes disciplinas, o que, na educação contemporânea, chamamos de intertextualidade. Em suma, o aprendizado é uma constância infinita de degraus que vão se solidificando mutuamente. Para isso, é importante que o educador, no início de cada atividade, retome os conhecimentos trabalhados anteriormente como ponto de partida para a introdução dos objetivos a serem atingidos. UNIUBE 191 Num jogo de “QUEBRA-CABEÇA DE NOMES DE ANIMAIS (DESENHO/ NOME)”, o educador estará constantemente retomando as sílabas conhecidas e simultaneamente introduzindo as sílabas novas ou complexas, para que o educando vá assimilando a trama que compõe nosso código linguístico escrito. Ele poderá, ainda, aliar os objetivos da língua portuguesa com a matemática, propondo a contagem quantitativa das letras das palavras ou dos nomes estudados, a escrita dos nomes dos numerais ou, ainda, o jogo “BATALHA NAVAL”, em que se trabalha de forma concomitante letras e números, entre outras. EXEMPLIFICANDO! Assim, o educador estará promovendo a interdisciplinaridade entre os conteúdos, ou seja, estabelecendo conexões entre os conteúdos e desenvolvendo a habilidade em seu aluno de perceber a importância das aprendizagens conquistadas, a dar significação ao conhecimento adquirido e continuidade do processo cognitivo. Incentivando a cooperação “Proporás tarefas abertas e incentivarás a cooperação.” As atividades em grupo são fundamentais para o desenvolvimento dos alunos em fase de alfabetização, pois favorecem a socialização das crianças, bem como propiciam a in teratividade dos alunos com o conteúdo em estudo. A troca de experiências enriquece o conhecimento, além de oportunizar o intercâmbio cultural, pois sabemos que as crianças são excelentes mediadoras e são capazes de elucidar as dúvidas do colega, às vezes, com mais eficácia que o próprio professor. 192 UNIUBE Em uma aula em que as crianças se sintam à vontade para perguntar, trocar experiências e conhecimentos entre si, elas por si mesmas vão se agrupar de acordo com suas afinidades pessoais, e é justamente essa troca de conhecimentos, uma ajudando a outra, que beneficia os envolvidos no processo. A criança que ajuda o colega com dificuldades sente-se importante e valorizada por deter o conhecimento, ao mesmo tempo que a que é auxiliada sente-se amparada e capaz de absorver o conhecimento numa linguagem acessível a ela. EXEMPLIFICANDO! Qualquer atividade que seja realizada em grupo possui uma gama de efeitos positivos, desde que o educador não perca o foco dos objetivos a serem atingidos. Os jogos, de uma maneira geral, exemplificam bem esse aspecto. Com eles as crianças conseguem perceber a importância do outro na construção e na efetivação do seu conhecimento. Os jogos reforçam positivamente o aspecto socioemocional, mesmo que em deter minados momentos surjam impasses e discussões, pois pode não parecer, mas as crianças crescem muito com isso, já que as discussões são oriundas de um mesmo problema visto sob ângulos diferentes, em que se buscam saídas diferentes para um mesmo desafio. Instruindo no planejamento e organização “Instruirás no planejamento e organização da própria aprendizagem de cada um.” A organização de um ambiente favorável à aprendizagem faz-se necessária aos pro fissionais da educação. Estimular o aluno a aprender, planejar situações de aprendi zagens motivadoras e desafiadoras, bem como UNIUBE193 estabelecer critérios organizacionais para a aplicação das variadas propostas de desenvolvimento do saber, são atitudes primordiais que garantirão a eficiência dos objetivos educacionais a serem atingidos. Vale lembrar que um planejamento eficiente deve conter de forma clara os objetivos a serem alcançados, interdisciplinarmente, de forma a estabelecer a conectividade com as demais disciplinas, quais estratégias serão utilizadas para a concretização desses objetivos, com atividades dinâmicas e desafiadoras, e, ainda, uma avaliação criteriosa e contínua do processo em desenvolvimento. Promovendo o desenvolvimento de forma integral4.10 Entender o processo de desenvolvimento do aluno de forma integral, abrangendo os aspectos psicológicos, cognitivos e motores, é essencial para a construção do co nhecimento do professor e, consequentemente, o aperfeiçoamento de sua atuação pedagógica. Com o objetivo de aprofundar nossos estudos alusivos a essa temática, principalmente no que tange à afetividade, a teoria walloniana auxilia na compreensão da forma de agregar saberes constitutivos de uma prática profissional inovadora e eficaz. Considerando a importância das concepções wallonianas para o contexto educacional, relembraremos a seguir as principais colocações deste autor para o estudo sobre a mediação e intervenção pedagógica. 4.10.1 Pressupostos teóricos de Wallon Ao examinar os pressupostos teóricos de Wallon, percebemos sua grande contribuição para o contexto educacional, e seus estudos foram relevantes para uma nova forma de se perceber o ser humano como uma pessoa integral, global. Ao longo de toda a vida, dedicou-se a conhecer o desenvolvimento infantil, a trajetória do desenvolvimento do psiquismo e a capacidade de aprender das crianças. 194 UNIUBE Para este teórico, é impossível dissociar os fatores orgânico e biológico dos fatores sociais no desenvolvimento do ser humano. Ele destaca que o ser humano é um ser completo: evidenciando que há uma interdependência entre os fatores afetivo, cognitivo e motor e que tais fatores interagem de forma integrada, propiciando o desenvolvimento pleno do ser humano. Um aspecto importante que sua teoria destaca é que “As funções psíquicas podem pros seguir num permanente processo de especialização e sofisticação, mesmo que do ponto de vista estritamente orgânico já tenham atingido a maturação” (GALVÃO, 2003, p. 41). Não se pode delimitar o desenvolvimento humano, seja quanto ao aspecto da aprendi zagem ou quanto à formação de sua personalidade. O desenvolvimento dependerá das condições do desenvolvimento do psiquismo do sujeito como também das condições desfavoráveis que o meio lhe proporcionará. Ele considera que o ritmo determinado às etapas de desenvolvimento não é con tínuos e poderá ser marcado por rupturas, retrocessos e reviravoltas, dependendo das condições dos fatores orgânicos e sociais que a criança vivencia. E, ainda, Wallon evidencia que “a passagem de um ao outro estágio não é uma simples ampliação, mas uma reformulação. Com frequência, instala-se, nos momentos de passagem, uma crise que pode afetar visivelmente a conduta da criança” (GALVÃO, 2003, p. 41). A passagem de um estágio para outro não é apenas a sobreposição ou a justaposição entre os conhecimentos anteriores e os atuais. Exige uma reestruturação, uma reela boração do pensamento. Para isso a criança dispensa um grande esforço, tanto afetivo quanto cognitivo e motor, pois UNIUBE 195 corpo e mente trabalham juntos para apreender as novas aprendizagens. Frequentemente, durante esta inter-relação (reelaboração), a criança revela seu “esforço” por meio do movimento do seu tônus muscular ou da motricidade (para Wallon, motricidade e psicomotricidade são palavras sinônimas), que são perce bidas em seu comportamento: raiva − agitação motora; ansiedade – inquietude; alegria ou tristeza – contrações musculares, entre outras. Somos pessoas completas, então não há dissociação entre as reações orgânicas e as reações psíquicas. Ressalta, ainda, que essa manifestação motora pode ocorrer em maior ou menor in tensidade, dependendo do grau de desenvolvimento da criança. Ao se desenvolver, transforma a atividade que antes era motora em atividade mental, ou seja, com o passar do tempo ela aprende a “controlar” pelo pensamento suas manifestações orgânicas. Por isso, é importante que o professor esteja atento às manifestações corporais de seus alunos, pois, como dizemos popularmente, o corpo “fala”. 4.10.2 O movimento e o pensamento Assim, a teoria walloniana estabelece uma relação entre movimento e o pensamento, que consideramos importantíssima para nós, profissionais da educação. Todos nós temos que ter a clareza da importância das atividades motoras/ psicomotoras no contexto da sala de aula, principalmente com crianças da Educação Infantil e os primeiros anos do Ensino Fundamental. O movimento é uma atividade infantil de extrema importância para o desenvolvimento da afetividade e da cognição. PONTO-CHAVE 196 UNIUBE Dantas, La Taille e Oliveira (1992) ressaltam que, segundo Wallon, no início, é o ato motor que desencadeia e dirige o pensamento. Uma criança quando chora imprime em seu corpo um tipo de sensação: mexe com os braços, muda seu tônus muscular, sua rigidez; estabelece uma comunicação com o mundo exterior. É a partir desse vínculo que se coloca dentro do contexto cultural, pois a partir do momento que a mãe atende às suas necessidades a criança estabeleceu seu vínculo cultural. Obviamente, nesse momento a criança não “pensa” para realizar esse vínculo, apenas manifesta suas sensações e emoções. Com o passar do tempo e com os estímulos do meio, a criança se desenvolve por meio da linguagem e das representações que ela faz da realidade. Ela elabora e reelabora novos conceitos e aprende a controlar seus gestos pelos seus pensamentos. Ou seja, o ato que antes era motor passa a ser mental, conforme dissemos anteriormente. Durante essa fase, das representações simbólicas, em que ocorre a descoberta de novos signi ficados, as atividades psicomotoras são essenciais, são estímulos e meio de conexão entre o eu subjetivo e o eu cultural. A criança tem necessidade do movimento como forma de exteriorizar suas sensações, seus sentimentos e sua capacidade intelectual. Assim, afirma-se que o educador deve utilizar as atividades psicomotoras como forma de intervenção no processo ensino-aprendizagem para o desenvolvimento pleno do educando. 4.10.3 Emoção e afetividade A emoção, segundo Wallon, são revelações do estado do sujeito ou existente nele (re velações subjetivas), exteriorizada por meio das manifestações orgânicas. As alterações emocionais provocam UNIUBE 197 modificações no tônus muscular, por meio das contrações mus culares e viscerais (órgãos maiores e mais profundos que se contraem, por exemplo, as contrações intestinais), demonstram seu estado íntimo. E, quando estimuladas pelo meio social, oportunizam a revelação do estado subjetivo do sujeito. Assim, a emoção é considerada o primeiro e mais forte vínculo entre os seres humanos. Ao longo do primeiro ano de vida, a afetividade corresponde às manifestações das funções orgânicas e dos aspectos vitais da emoção. Mais tarde, com a ampliação e o fortalecimento do vínculo do ambiente socialmente construído, das atividades orgânicas e dos aspectos psíquicos, essa concepção se amplia, tornando-se mais vasta, envolvendo uma gama maior de manifestações. Elas englobam tanto os aspectos biológicos ligados à emoção como os aspectos psicológicos com a manifestação dos sentimentos. Um exemplo de um professor que trabalha com a postura pedagógica, pautada nas definições de Wallon, relativas à afetividade e à concepção de ser humano como ser integral: social, biológico e emocional, é aquele que tem o conhecimento teórico meto dológico aliado à sensibilidade de perceber as características inerentes de seu aluno. A partirdo respeito a tais características, busca as estratégias adequadas a serem trabalhadas na zona de desenvolvimento proximal. Ou seja, é aquele que respeita e busca conhecer o desenvolvimento real e, a partir deste, envolve, motiva os alunos para o desejo de aprender. Esse professor possui intrínseco, em sua prática pedagógica, o respeito à diversidade, à liberdade de expressão, ao conhecimento científico, à capa cidade de colocar-se no lugar do outro e, fundamentalmente, acredita na capacidade da “modificabilidade cognitiva”, que todo ser humano possui. 198 UNIUBE Postulado4.11 Para nós, neste capítulo, seu postulado fundamental é que ao longo do desenvolvimento integral do aluno, sobremaneira durante a infância, a inteligência e a afetividade se in fluenciam mutuamente numa dialética entre os fatores orgânicos e os sociais. Portanto, tenhamos a consciência da importância da mediação e das intervenções que devemos propor aos nossos educandos. A proposta deste capítulo é que o educador transforme a afetividade em um fio condutor de toda a estratégia de intervenção, permeando sua prática pedagógica, para conseguir o desenvolvimento integral de seus alunos. Concordamos com Almeida (2006, p. 86) quando diz que: WALLON, o psicólogo e educador, legou-nos muitas outras lições. A nós, professores, duas são particularmente importantes. Somos pessoas completas: com afeto, cognição e movimento, e nos rela cionamos com um aluno também pessoa completa, integral, com afeto, cognição e movimento. Somos componentes privilegiados do meio de nosso aluno. Torná-lo mais propício ao desenvolvimento é nossa responsabilidade. Que possamos a cada dia procurar aperfeiçoar nossos conhecimentos para nos tor narmos profissionais conscientes de nossa responsabilidade como um mediador e interventor na vida escolar dos educandos. Dessa forma, faremos a diferença em suas vidas, assim como temos a certeza de que a cada novo desafio, a cada nova conquista, seja no aspecto profissional como também no pessoal ou afetivo, os educandos tam bém fazem a diferença na vida do educador. UNIUBE 199 Conclusão4.12 Sendo assim, podemos concluir que o professor mediador é aquele que acredita nas potencialidades de seus alunos e não mede esforços para efetivamente concretizar os objetivos propostos, sendo capaz de intervir com precisão nas dificuldades de seus aprendizes, transformando anseios em ações. Parafraseando o educador Paulo Freire, se o homem se considerasse um ser acabado, a educação não seria possível. Dessa forma, o professor deve sempre ter em mente o quão importante é seu papel, bem como as imprescindíveis intervenções eficazes que realiza. O educador é, por natureza, um sonhador. Sonha com um mundo humanamente melhor por isso não se acomoda diante da controvertida realidade que se apresenta. O verdadeiro educador irá agir, intervir e interferir de maneira a atingir suas metas. A sua arma é o conhecimento, a aprendizagem, pois sabe que, para realizar as mudanças necessárias, terá que oportunizar diversificadas experiências cognitivas a seus alunos. Eis a força mágica transformadora da educação de qualidade. Resumo A abordagem inicial deste capítulo foi sobre a mediação pedagógica. Vimos que o pro fessor mediador assume o papel de facilitador do aprendizado e que no contexto escolar a mediação também se estabelece na relação aluno-aluno. Os estudos realizados por Vygotsky nos esclareceram que no contexto escolar a mediação também se estabelece na relação aluno-aluno. Observamos também que é principalmente na escola, pela interação social com outras crianças e pela mediação “intencional” do professor, que a criança aprende e se desenvolve. 200 UNIUBE É fundamental conhecer a base teórica acerca dos aspectos constitutivos dos níveis de escrita, para que o professor saiba quando, onde e como interferir adequadamente na zona de desenvolvimento proximal de seus alunos, provocando avanços que não ocorreriam aleatoriamente. Aprofundamos um pouco mais na teoria de Reuven Feuerstein, que se dedicou ao es tudo da cognição e da sua modificabilidade. Sua filosofia da Modificabilidade Cognitiva Estrutural (MCE) baseia-se no fato de que todo ser humano é capaz de desenvolver a capacidade de aprender, ou seja, não há limites para o desenvolvimento da mente humana. A MCE descortina uma nova perspectiva para o atendimento às crianças com necessidades educacionais especiais. Feuerstein reforça a importância da intenção da ação do professor no processo ensino-aprendizagem. Demonstra que a natureza do ser humano é ser flexível e que a inteligência é dinâmica, disponível, aberta às mudanças durante toda sua vida. Reuven Feuerstein também salienta o papel da mediação no processo ensino e aprendizagem. Estimular o aluno para aprender, planejar situações de aprendizagens motivadoras e desafiadoras, bem como estabelecer critérios organizacionais para a aplicação das variadas propostas de desenvolvimento do saber, é atitude primordial que garantirá a eficiência dos objetivos educacionais a serem atingidos. O processo de desenvolvimento do aluno deve ocorrer de forma integral, abrangendo os aspectos psicológicos, cognitivos e motores, sendo essencial para a construção do conhecimento do professor e, consequentemente, o aperfeiçoamento de sua atuação pedagógica. Ao examinar os pressupostos teóricos de Wallon, percebemos sua grande contribuição para o contexto educacional, seus estudos foram relevantes para uma nova forma de se perceber o ser humano como uma pessoa integral, global. Ele salienta a relação entre movimento e pensamento, a importância do desenvolvimento psicomotor para a aprendizagem e o papel da afetividade nesse processo. UNIUBE 201 Referências ALMEIDA, Laurinda Ramalho de. Henri Wallon: Psicologia e educação. 6. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2006. BEYER, Hugo Otto. O método Reuven Feuerstein: uma abordagem para o atendimento psicopedagógico de indivíduos com dificuldades de aprendizagem, portadores ou não de necessidade educativas especiais. In: Revista Brasileira de Educação Especial, vol. 4, 1996. Disponível em: <http://www.abpee.net/ homepageabpee04_06/artigos_em_pdf/revista4numero1pdf/r4_art07 .pdf>. Acesso em: 18 jul. 2011. BOQUETO, Ricardo. Vygotsky e a aprendizagem escolar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998. CDCP − Centro de Desenvolvimento Cognitivo do Paraná. Disponível em: <http:// www.cdcp.com.br/ reuven_feuerstein.php>. Acesso em: 11 de abr. 2011. DANTAS, Heloysa; LA TAILLE, Yves de; OLIVEIRA, Marta kohl. Piaget, Vygotsky, Wallon: teorias psicogenéticas em discussão. São Paulo: Summus, 1992. FONSECA, Vitor da. Educação especial. Programa de Estimulação Precoce. 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Disponível em: <e-revista.unioeste. br /index.php/educereeteducare/article/.../1358>. Acesso em: 31 mar. 2010. VYGOTSKY, L. S. et al. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. São Paulo: Ícone/Edusp, 1988. Denise Rodovalho Scussel / Judith Mara de Sousa Almeida / Vivian Zerbinatti da FonsecaKikuichi Introdução Necessidades educacionais especiais e as práticas pedagógicas para a educação inclusiva das pessoas com deficiências físicas e mentais Capítulo 5 Neste capítulo, estudaremos um tema polêmico que intriga e perturba os professores e gestores em geral. Afinal, não é tarefa fácil ultrapassar os nossos próprios limites para conhecer o outro ou desconstruir conceitos preestabelecidos para aceitar o novo, o desconhecido. Como vimos, o trabalho na área educacional implica esse deslocar, essa saída de si mesmo em busca do conhecimento dos diferentes sujeitos que se apresentam no entorno de nós. É entender que esses sujeitos têm diferentes culturas, diferentes formas de aprender, diferentes níveis socioeconômicos, diferentes desejos, jeitos e sonhos. O olhar para o mundo, para as múltiplas relações que travamos com ele, para os diferentes sentidos que somos capazes de compor a partir de uma experiência vivida, é diferente de pessoa para pessoa, porque cada ser humano é singular e vive as experiências de maneira também singular. Por isso, neste texto, 204 UNIUBE convidamos você para continuar refletindo sobre as pessoas com deficiência, não com o olhar da limitação ou incapacidade, que, muitas vezes, estamos habituados a enxergar, mas por meio do olhar da possibilidade. Para isso, ressaltamos a importância desse deslocar de olhar, dessa mudança de postura, tentando perceber como essas pessoas compreendem e interagem com o mundo. Juntos, analisaremos e descobriremos o potencial e a capacidade de superação que essas pessoas têm; buscaremos estabelecer a relação com os conceitos que a sociedade lhes atribui e aqueles estabelecidos por estudiosos da área da deficiência física e da deficiência mental na educação, percebendo a concepção de homem e cidadania que perpassa esses conceitos ao longo da história. Pretendemos, também, com o nosso estudo, trazer para uma realidade mais próxima de você, aluno(a), algumas práticas pedagógicas que já estão acontecendo dentro das escolas; práticas que ressaltam as possibilidades e habilidades das pessoas com deficiência. Objetivos Ao final deste capítulo, esperamos que você seja capaz de: • demonstrar o conceito de deficiência física e de deficiência mental; • estabelecer relações dos conceitos dessas deficiências e as possibilidades de formação humana por meio da educação; e • analisar as diferentes práticas pedagógicas existentes para a atuação de qualidade do educador/gestor. UNIUBE 205 5.1 Marcos históricos e normativos da educação brasileira: caminhando para uma proposta educacional inclusiva 5.2 Novo contexto educacional: um grande desafio para as escolas 5.3 Definição, caracterização e proposta de trabalho pedagógico referente às deficiências físicas e mentais 5.3.1 Deficiência física 5.3.2 Deficiência mental 5.4 Proposta de trabalho pedagógico 5.5 Atendimento educacional especializado para pessoas com deficiência física 5.6 Atendimento educacional especializado para pessoas com deficiência mental 5.7 Conclusão Esquema 5.1 Marcos históricos e normativos da educação brasileira: caminhando para uma proposta educacional inclusiva Para iniciarmos nossa reflexão, faremos uma retomada, no que diz respeito à educação das pessoas com deficiência e à educação inclusiva, assuntos estes que já foram abordados em outros momentos do curso, mas que se faz necessário serem relembrados. O fato de o tema “deficiência” ser observado como um fenômeno individual ou social é determinado por representações culturais, políticas, éticas e morais de uma sociedade. O século XVIII marca uma época em que a ignorância, rejeição e discriminação do indivíduo deficiente eram comuns; naquele tempo, o infanticídio era uma prática normal quando a criança apresentava alguma anormalidade. 206 UNIUBE Na Idade Média a prática do infanticídio passa a ser condenada pela Igreja. Entretanto a anormalidade ou deficiência a partir de então são justificadas por causas sobrenaturais. Pessoas com deficiência eram submetidas ao exorcismo para se livrarem do demônio e de outros espíritos malfeitores. Durante os séculos XVI e XVII, os orfanatos, manicômios e, até mesmo, as prisões serviam como internato às pessoas com deficiência mental. É ao final do século XVIII e início do século XIX que surgem as primeiras instituições especializadas no atendimento às pessoas com deficiência. Considera-se essa época o início da Educação Especial. De caráter excludente e primordialmente assistencialista, a pessoa com deficiência recebia cuidados ao mesmo tempo que a sociedade se beneficiava por não precisar conviver com ela. A educação especial substituía o ensino comum e era desenvolvida em instituições especializadas, escolas especiais ou classes especiais. A filosofia de trabalho nessas instituições estava fundamentada na dicotomia normalidade/anormalidade e ainda em uma abordagem clínica/ terapêutica. Por meio desta breve retomada histórica, podemos concluir que a educação de pessoas com deficiências nasceu de uma forma solitária, segregada e excludente. Apenas no século XX, foram investigadas e comprovadas as origens das deficiências, rompendo, assim, a visão mítica que havia até então. Por meio da Declaração dos Direitos Humanos (ONU, 1948), é assegurado a todas as pessoas o direito à educação pública gratuita. Em 1961, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDBEN, Lei no 4.024/61, determina que as pessoas com deficiência tenham direito ao atendimento educacional, de preferência, na rede regular de ensino. UNIUBE 207 Atualmente, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei no 9.394/96, em seu artigo 59, determina que os sistemas educacionais ofereçam adaptações no currículo, nos métodos, nos recursos e na organização do ensino e da classe para atender às necessidades dos educandos. Com a descentralização do poder, surgem as Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica, com a colaboração das diferentes esferas: União, Estados e Municípios. Você conhece as Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica? Se não, acesse o endereço: <http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/ diretrizes.pdf>. É importante conhecê-las! PESQUISANDO NA WEB Com as diretrizes, ficou estabelecido que os atendimentos às necessidades individuais devem acontecer, preferencialmente, nas escolas comuns e apenas em relação às necessidades mais graves nas escolas especiais. As Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica, Resolução CNE/CEB no 2/2001, no artigo 2o, determinam que: Os sistemas de ensino devem matricular todos os alunos, cabendo às escolas organizarem-se para o atendimento aos educandos com necessidades educacionais especiais, assegurando as condições necessárias para uma educação de qualidade para todos (BRASIL, 2001). O Decreto no 5.296/04, que regulamenta as Leis no 10.048/00 e nos 10.098/00, traz à tona a questão da acessibilidade das pessoas com deficiência ou com dificuldade na mobilidade. A partir daí, os programas e projetos de acessibilidade buscam a promoção do acesso universal aos espaços públicos. 208 UNIUBE Temos o hábito de acreditar que, a partir do momento que o direito se constitui em lei, esse direito está resguardado e será praticado sem que fiquemos atentos a ele. Entretanto, mesmo com os direitos legalmente estabelecidos, as pessoas com necessidades educacionais especiais, na prática, ainda têm problemas relacionados ao acesso e à permanência no ensino regular. A escola abriu seus portões, porém não modificou sua postura homogeneizadora, suas práticas autoritárias e retrógradas nem tampouco suas concepções educacionais. Sendo assim, ocorreu o que podemos chamar de INTEGRAÇÃO do aluno com deficiência, e não o que chamamos de INCLUSÃO. IMPORTANTE! O conceito de integração surge com o princípio da normalização (KELSEN, 1959 apud FÁVEROet al., 2007, p. 18). Esse princípio visa oferecer ao aluno condições e oportunidades iguais ou parecidas com as dos demais membros da sociedade. Esse conceito (KAUFMAN, 1975; WARNOCK, 1978; apud FAVERO; PANTOJA; MANTOAN, 2007, p. 22) apresentava três dimensões abrangentes: integração física (espaço físico, do ambiente), integração funcional (do funcionamento e utilização de recursos) e integração social (a convivência e interação). Por meio de várias discussões sobre o tema, o segmento que sempre lutou pelo espaço das pessoas com deficiência decide, então, tomar como norte para as tomadas de decisão a Declaração Mundial de Educação para Todos, com os conceitos aprofundados e aperfeiçoados na Declaração de Salamanca. Por meio dessa Declaração, o MEC elabora documentos norteadores da educação do BRASIL (2007, p. 8), que trazem conceitos importantes como: UNIUBE 209 O termo necessidades educacionais especiais refere-se a todas aquelas crianças ou jovens cujas necessidades se originam em função de deficiências ou dificuldades de aprendizagem. As escolas têm de encontrar uma maneira de educar com êxito todas as crianças, inclusive as que têm deficiências graves. Nessa perspectiva, é responsabilidade da escola regular o atendimento a todos os alunos, com ou sem deficiência, incluindo-se aqui aquelas com deficiências graves ou ainda com dificuldades de aprendizagem. 5.2 Novo contexto educacional: um grande desafio para as escolas Por meio dos estudos que você já realizou e dos documentos que o MEC nos disponibiliza, é possível perceber que os fundamentos importantes na inclusão escolar iniciam-se pelos seguintes princípios: • da identidade; • do respeito à diversidade; • do trabalho em equipe; e • da interação entre todos os membros da escola, família e comunidade. A sala de aula inclusiva é aquela em que as estratégias de ensino são diferenciadas e modificadas, para que todos os alunos possam se desenvolver e aprender, lembrando que uma estratégia de ensino interessante para um aluno com deficiência pode ser igualmente interessante para todos os demais que não têm aquela deficiência. Sendo assim, as ideias utilizadas na proposta inclusiva podem ser as mesmas para os alunos com necessidades educacionais especiais e para os que não têm tais necessidades. Nessa perspectiva, não é necessário criar, mas apenas adaptar as propostas existentes às especificidades de cada deficiência. 210 UNIUBE Nesse novo contexto educacional, a Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva não deverá mais oferecer educação substitutiva ao ensino regular, entretanto sua parceria com as escolas regulares será fundamental no que diz respeito ao oferecimento de ensino complementar ou suplementar aos alunos com deficiência no atendimento educacional especializado. IMPORTANTE! A construção da escola inclusiva está pautada no princípio da acessibilidade. A partir desse princípio, as escolas passam a ser planejadas com ambiente acessível e sem discriminação. Esse trabalho não está restrito apenas a alguns profissionais, mas estende-se a toda a escola e a toda a sociedade. Sua efetivação exige mudanças, como: • a adaptação do espaço físico a fim de possibilitar que todos circulem e se movimentem sem restrições; • o acesso às tecnologias, mesmo que seja necessário alguma adaptação, acesso à comunicação, mesmo alternativa; • a adaptação das práticas pedagógicas às necessidades dos educandos; • a gestão democrática; e • a ênfase à formação continuada do professor; acordos e parcerias com o transporte, a saúde e outros setores da sociedade, a fim de viabilizar a promoção humana. Como já foram abordadas várias vezes aqui, não há necessidade de se elaborar uma proposta pedagógica específica para as crianças e jovens com necessidades educacionais especiais, mas, sim, a diferenciação de metodologias das práticas pedagógicas que atendam às ESPECIFICIDADES que cada deficiência e/ou dificuldade requer. Por isso, estudaremos agora um pouco sobre as deficiências físicas e também sobre as deficiências mentais, que são o foco do nosso estudo. UNIUBE 211 5.3 Definição, caracterização e proposta de trabalho pedagógico referente às deficiências físicas e mentais Partindo de nossas retomadas e reflexões, vamos pensar no conceito de deficiência? Segundo documento BRASIL (2001, p. 14), a deficiência é considerada: [...] uma restrição física, mental ou sensorial, de natureza permanente ou transitória, que limita a capacidade de exercer uma ou mais atividades essenciais da vida diária, causada ou agravada pelo ambiente econômico e social. Podemos perceber, assim, que a deficiência é encarada como uma situação ou característica específica da pessoa; que pode ser agravada ou melhorada, dependendo da forma com que essa é acolhida em seu meio. Nesse sentido, uma pessoa pode sentir-se discriminada em um ambiente que lhe impõe barreiras e que só destaca a sua deficiência ou, ao contrário, sentir-se acolhida, graças às transformações deste ambiente para atender às suas necessidades. 5.3.1 Deficiência física Ao buscar definir a deficiência física, observamos que existem diferentes conceitos na literatura. Trabalharemos com o conceito explicitado no documento da legislação brasileira, Decreto no 3.298 de 1999, por considerá-lo o mais completo: Art. 4o deficiência física – alteração completa ou par- cial de um ou mais segmentos do corpo, acarretando o comprometimento da função física, apresentan- do-se sob forma de paraplegia, paraparesia, mono- plegia, monoparesia, tetraplegia, triplegia, triparesia, hemiplegia, hemiparesia, amputação ou ausência de membro, paralisia cerebral, membros com deformi- dade congênita ou adquirida, exceto as deformidades estéticas e as que não produzam dificuldades para o desempenho das funções. 212 UNIUBE A partir dessa definição, a função física pode ficar comprometida quando faltar algum membro (amputação), sua má formação ou deformação (alterações que comprometem o sistema muscular e esquelético). Ainda temos as disfunções de ordem neurológica, que podem alterar as funções motoras. As alterações motoras decorrentes de lesão do sistema nervoso podem ser de diferentes tipos, como alterações: • de ordem muscular: podem ser denominadas hipertonias, hipotonias, atividades reflexas, movimentos descoordenados e involuntários; e • de ordem nervosa, no que diz respeito à sensibilidade e à força muscular: podem ser denominadas hemiparesias, paraparesia, monoparesia e tetraparesia. Outro aspecto a ser ressaltado, que é importante para o conhecimento do educador, são as denominações de comprometimento de movimento e/ou sensibilidade em cada membro do corpo. As denominações, como na sequência da figura abaixo, para MONO (um membro do corpo comprometido), DI ou PARA (dois membros do corpo comprometidos – geralmente são os membros inferiores), HEMI (envolvimento de um lado do corpo superior e inferior) e TETRA (alteração de movimentos nos quatro membros, o tronco e o pescoço) (Figura 1). Figura 1: Esquema demonstrativo do comprometimento de movimento e/ou sensibilidade em cada membro do corpo. Fonte: Acervo EAD-Uniube. UNIUBE 213 Iremos agora conversar um pouco mais a respeito da paralisia cerebral, por ser uma das causas mais presentes no segmento da deficiência física que chega à escola. As crianças que são acometidas pela paralisia cerebral sofrem grande preconceito e discriminação na escola, pois as pessoas pensam que estas têm também deficiência mental. Isso é um grande equívoco! IMPORTANTE! A criança com paralisia cerebral, muitas vezes, tem dificuldade de se comunicar e/ou também de se expressar, devido às suas limitações motoras e fonoarticulatórias, mas não cognitivas. Elas demonstram um comportamento alheio à realidade, por falta de oportunidades, desenvolvimento de formas alternativas de comunicação e de mediações que lhes auxiliem na expressão de toda a sua vontade.A principal característica da paralisia cerebral é o déficit motor, porém quase sempre se pode encontrar um ou outro distúrbio decorrente da lesão neurológica como: convulsões que podem levar ao déficit cognitivo, alterações oculares e visuais, distúrbios de deglutição, comprometimento auditivo, alterações nas funções corticais superiores, distúrbios do comportamento. De acordo com o local e a extensão da lesão cerebral, observam-se diferentes tipos de alterações no movimento (BLECK e NAGEL, [s.d.] apud BRAGA 1995, p. 9). Vale ainda ressaltar, mesmo que sinteticamente, as causas da paralisia cerebral (BRAGA, 1995, p. 10). Essas causas podem aparecer isoladas ou associadas entre si: Pré-natais: as causas que se destacam são as infecções intrauterinas (rubéola, toxoplasmose, citomegalia, herpes e sífilis), anóxia fetal, exposição à radiação ou a drogas, erros de migração neuronal e outras malformações cerebrais. 214 UNIUBE Perinatais: complicações durante o parto (traumatismo cerebral ou anóxia em trabalho de parto difícil ou demorado), prematuridade, nascimento com baixo peso, hiperbilirrubinemia e infecções perinatais. Pós-natais: as principais causas pós-natais são os traumatismos crânio- encefálicos, infecções do sistema nervoso central (como encefalites e meningites), anóxia cerebral (devido a asfixias, afogamentos, convulsões ou paradas cardíacas) e acidente vascular cerebral. Na escola, encontraremos diferentes tipos de deficiência física, por isso é fundamental, para você, professor, saber: • se o quadro é progressivo ou estável; • se há alterações ou não na sensibilidade tátil-térmica ou dolorosa; • se há a presença de complicações associadas, como epilepsia, ou problemas de saúde que requerem cuidados e medicações. Mantenha contato constante com os pais ou responsáveis por seus alunos. IMPORTANTE! 5.3.2 Deficiência mental O conceito de deficiência mental já foi muito discutido, entretanto estudiosos ainda encontram dificuldades em relação a uma definição que possa contemplar a nova visão de limitação cognitiva encarada pelas sociedades modernas. Em 1980, a Organização Mundial de Saúde propôs um conceito que define a deficiência mental em três níveis, mas lembre-se de que é importante observar com atenção o valor semântico que cada um dos termos, a seguir, agrega: UNIUBE 215 • deficiência: diz respeito à perda ou anormalidade na estrutura ou funcionamento de um órgão; • incapacidade: ocorre como consequência da deficiência, nesse caso a pessoa é dependente em relação à realização de atividades funcionais; • desvantagem: prejuízos advindos da situação de deficiência. Há, portanto, limitações e a necessidade de adaptação do indivíduo para que haja a interação dele com o meio. Ao analisar sucintamente os níveis, podemos perceber que a deficiência e a incapacidade estão mais ligadas a fatores intrínsecos (internos) e a desvantagem ligada a fatores extrínsecos (externos). Em 2001, essa proposta foi revista e foi introduzido o conceito de deficiência ligado ao desenvolvimento global do indivíduo em relação aos fatores do seu contexto cultural e social. Esse conceito está ligado a uma visão mais avançada de deficiência, podendo até mesmo dizer que a pessoa ESTÁ em situação de deficiência, destacando os efeitos do meio sobre a autonomia e independência da pessoa com deficiência. PARADA OBRIGATÓRIA As causas da deficiência mental podem ser inúmeras. As ocorrências descritas, a seguir, podem ou não levar o educando a uma deficiência mental. É importante que você as conheça para que possa ficar atento e, também, para que seus alunos possam se beneficiar de um trabalho mais seguro, pautado no conhecimento e no profissionalismo: • doenças neurológicas; • erros inatos do metabolismo; • deficiências visuais e auditivas (por falta de estimulação e trabalhos adequados); • asfixia perinatal; 216 UNIUBE • prematuridade; • hiperbilirrubinemia; • infecções congênitas; • malformações congênitas; • síndromes genéticas. Em vários momentos, nos referimos à influência do meio para o desenvolvimento das crianças. Com as crianças deficientes, isso não se apresenta de forma diferente, e sim com mais êxito e com significativa relevância. As crianças, desde pequenas, já estão formando seu “banco de dados”. Nesta fase, armazenam amplamente as experiências que vivenciam. Por meio dessas experiências, elas passam por sensações que são significativas em relação à afetividade, à intelectualidade e às percepções corpóreas. Neste sentido, todas as crianças devem gozar do direito da exploração do espaço, do ambiente físico em que vivem, tanto em sua casa, quanto na escola. As crianças com deficiência não podem estar em um mundo à parte para desenvolver suas habilidades motoras, físicas, cognitivas e afetivas. É preciso que elas recebam os benefícios dos recursos tecnológicos, metodológicos e de reabilitação para que seja garantido a elas o direito da interação com o objeto e com o outro. A escola é um espaço social por natureza, de interação de uns com os outros. É neste espaço que motivamos a comunicação, sentimos necessidade de locomoção, entre outras habilidades que nos fazem sentir seres humanos! IMPORTANTE! UNIUBE 217 Quando as crianças crescem juntas, convivendo de forma natural com a diversidade humana, elas não aprendem a enxergar e a construir o muro invisível da exclusão, mas, sim, aprendem a se considerarem apenas crianças e, no futuro, poderão considerar-se apenas homens e mulheres, sem adjetivos que as separem ou rotulem, sem preconceitos, sem espaços diferenciados. Proposta de trabalho pedagógico5.4 Como existem diferentes enfoques e abordagens para a educação das pessoas com deficiência, logicamente as escolas desenvolvem diferentes propostas de trabalho para elas. Porém, aqui, iremos optar por aquela que condiz com nossa abordagem de homem, de aprendizagem e de diferença. Favero et al. (2007) ainda ressaltam que a aprendizagem é o centro das atividades escolares e o sucesso dos alunos é uma das metas da escola – independentemente do nível de desempenho a que cada um seja capaz de chegar. Acolher as diferenças não é aceitá-las com suas possibilidades, mas, sim, a receptividade diante dos diferentes níveis de desenvolvimento das crianças e dos jovens. Nossa abordagem vem ao encontro das palavras de Favero et al. (2007, p. 49): [...] a inclusão não prevê a utilização de práticas de ensino escolar específicas para esta ou aquela deficiência, mas sim recursos, ferramentas, tecnologias que concorram para diminuir/eliminar as barreiras que se interpõem aos processos de ensino e de aprendizagem. Uma educação para todos precisa ser aberta com atividades diversificadas, que possam ser abordadas por diferentes níveis de compreensão, de conhecimento e de desempenho, sem que se evidenciem os que sabem mais e os que sabem menos. Essas atividades devem ser escolhidas pelos alunos e trabalhadas de forma a explorar ao máximo as possibilidades e os interesses de cada um. Estratégias como debates, 218 UNIUBE pesquisas, entrevistas, registros orais, escritos, fotografados, desenhados e filmados, observações e vivências são alguns processos pedagógicos que viabilizam a participação de todos os alunos e, ainda, oportunizam a elucidação de conteúdos importantes a serem aprendidos. Os alunos com grandes limitações provavelmente não vão aprender tudo o que os outros colegas poderão assimilar, porém eles vão se beneficiar da convivência social e poderão se beneficiar também, a seu modo, segundo suas possibilidades intelectuais, dos conteúdos curriculares trabalhados na sala de aula. As suas necessidades específicas poderão ser minimizadas e/ou resolvidas com a sua participação nos Atendimentos Educacionais Especializados. O que é o Atendimento Educacional Especializado? Como funciona? Qual é o perfil do aluno a ser atendido? O Atendimento Educacional Especializadotem respaldo legal por meio do Decreto no 6571/2008, que explicita: Art. 1o A União prestará apoio técnico e financeiro aos sistemas públicos de ensino dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, na forma deste Decreto, com a finalidade de ampliar a oferta do atendimento educacional especializado aos alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação, matriculados na rede pública de ensino regular. § 1o Considera-se atendimento educacional especializado o conjunto de atividades, recursos de acessibilidade e pedagógicos organizados institucionalmente, prestado de forma complementar ou suplementar à formação dos alunos no ensino regular. § 2o O atendimento educacional especializado deve integrar a proposta pedagógica da escola, envolver a participação da família e ser realizado em articulação com as demais políticas públicas. O MEC desenvolve e trabalha na divulgação da política da educação inclusiva que propõe a modificação do Ensino Regular e da Educação Especial. Nesse sentido, são implementadas e implantadas diretrizes UNIUBE 219 para ações que levem até as escolas o Atendimento Educacional Especializado (AEE). Esse atendimento deve oferecer aos alunos com deficiência a complementação da sua formação e não mais a substituição ou o reforço do ensino regular. O Atendimento Educacional Especializado deve ser realizado na sala de recurso multifuncional; preferencialmente na escola que frequenta, em turno oposto ao da sua turma comum. A Sala de Recurso Multifuncional é um espaço organizado com materiais didáticos, pedagógicos, equipamentos e profissionais com formação para o atendimento às necessidades educacionais especiais, projetada para oferecer suporte necessário a alunos portadores de necessidades especiais, favorecendo seu acesso ao conhecimento. O professor dessa sala, ofertada pelo MEC, deverá selecionar recursos e técnicas adequados a cada tipo de comprometimento físico e mental do aluno para o desempenho das atividades escolares. Os objetivos principais desses atendimentos são que o aluno desenvolva a independência e a autonomia e tenha acesso aos recursos essenciais para a inclusão na classe comum. Nesse sentido, o professor do ensino comum e o professor do AEE precisam trabalhar de forma harmoniosa em favor da inclusão e da qualidade de vida dos alunos. 5.5 Atendimento educacional especializado para pessoas com deficiência física No atendimento educacional especializado para a deficiência física, os benefícios que a tecnologia assistiva oferece são utilizados. O que seria, então, tecnologia assistiva? 220 UNIUBE Segundo Bersch et al. (2007, p. 27), a tecnologia assistiva: [...] deve ser entendida como um auxílio que promoverá a ampliação de uma habilidade funcional deficitária ou possibilitará a realização da função desejada e que se encontra impedida por circunstâncias da deficiência. Para melhor esclarecer como podemos fazer um trabalho pedagógico, utilizando-se das tecnologias assistivas, o MEC elaborou um guia pedagógico, explicitando diferentes materiais e instruções para a utilização desses recursos nas salas multifuncionais e, se for o caso, nas salas de aula regulares. Esses recursos devem ser solicitados à Secretaria de Educação conforme especificações de especialistas na área. O atendimento educacional especializado pode fazer uso das tecnologias assistivas nas diferentes modalidades: A) Uso da comunicação aumentativa e alternativa, para atender às necessidades dos educandos com dificuldades de fala e de escrita (Figura 2). Figura 2: Blissymbolics. Fonte: Acervo EAD-Uniube. Sistema de comunicação criado por Charles K. Bliss, inspirado nos caracteres chineses (Figura 3). Caso você queira conhecer mais sobre os Blissymbolics, acesse o endereço: <http://en.wikipedia.org/wiki/Blissymbols>. Acesso em: 22 nov. 2010. PESQUISANDO NA WEB UNIUBE 221 Figura 3: Organizador de símbolos para sala de aula. Fonte: Adaptada de Brasil (2007). Acervo EAD-Uniube. São cartões que auxiliam a comunicação tanto de alunos não falantes quanto de alunos falantes (Figuras 4 e 5). AMBULÂNCIA Figura 4: Prancha de comunicação alternativa. Fonte: Adaptada de Brasil (2007). Acervo EAD-Uniube. 222 UNIUBE Figura 5: Prancha de comunicação alternativa sendo usada por uma pessoa cadeirante. Fonte: Adaptada de Brasil (2007). Acervo EAD-Uniube. B) Adequação dos materiais didático-pedagógicos às necessidades dos educandos (Figuras 6 a 8). Figura 6: Tesoura adaptada. Fonte: Adaptada de Brasil (2007). Acervo EAD-Uniube. Figura 7: Engrossadores de lápis. Fonte: Adaptada de Brasil (2007). Acervo EAD-Uniube. UNIUBE 223 Figura 8: Quadro magnético. Fonte: Adaptada de Brasil (2007). Acervo EAD-Uniube. Esse quadro auxilia o aluno a desenvolver o raciocínio lógico-matemático, associando números e quantidades. C) Acessibilidade arquitetônica que auxilie o acesso das pessoas portadoras de necessidades especiais em prédios públicos, escolares, entre outros, por meio de projetos desenvolvidos em parcerias com engenheiros, arquitetos e outros profissionais. Podemos citar como exemplo rampas, portas alargadas para o acesso de cadeirantes, elevadores, entre outros. D) Adequação de recursos da informática: ponteira de cabeça, programas especiais, teclado, mouse, entre outros (Figuras 9 a 11). Caso você queira obter mais informações sobre as tecnologias assistivas e recursos alternativos para pessoas com deficiência, acesse o endereço: <http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/aee_df.pdf>. Acesso em: 12 nov. 2010. PESQUISANDO NA WEB 224 UNIUBE Figura 9: Programa especial de teclado. Fonte: Adaptada de Brasil (2007). Acervo EAD – Uniube. Figura 10: Programa especial e teclado. Fonte: Adaptada de Brasil (2007). Acervo EAD – Uniube. UNIUBE 225 Figura 11: Ponteira de cabeça. Fonte: Adaptada de Brasil (2007). Acervo EAD – Uniube. E) Uso de mobiliários adequados: mesas cadeiras, quadro, bem como os recursos de auxílio à mobilidade: cadeiras de rodas, andadores, entre outros (Figura 12). Figura 12: Poltrona postural. Fonte: Adaptada de Brasil (2007). Acervo EAD – Uniube. 226 UNIUBE Os recursos humanos necessários para a efetivação das tecnologias assistivas englobam toda uma parceria dos profissionais da Secretaria de Educação, gestores escolares, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, arquitetos, engenheiros, entre outros, para trabalharem em prol da aprendizagem e do desenvolvimento da qualidade de vida do educando. Há alguns alunos com deficiência física com muito comprometimento motor, que necessitam de cuidados especiais para alimentação, locomoção, utilização de recursos médicos específicos. Para eles, há a necessidade da presença de um acompanhante no período em que frequentam a classe comum. 5.6 Atendimento educacional especializado para pessoas com deficiência mental As barreiras da deficiência mental se encontram em como o educando lida com seus conhecimentos, como ele constrói sua bagagem cultural, enfim, a maneira como lida com o saber em geral. E, como já foi explicitado, o atendimento educacional especializado existe para ajudar os alunos a ultrapassarem as barreiras encontradas em relação às suas deficiências. O atendimento educacional especializado necessita assessorar o aluno com deficiência mental no sentido de que este saia do automatismo, ou seja, para que ele ultrapasse as atividades mecânicas e chegue a um outro patamar, o das atividades ativas descritas por Piaget. As atividades ativas são aquelas em que o sujeito pode opinar, optar, selecionar os meios que julgar mais conveniente para agir intelectualmente. IMPORTANTE! UNIUBE 227 Para as pessoas com deficiência mental, a acessibilidade não está nos suportes externos ao sujeito, mas tem a ver com a mudança de posição passiva e mecânica diante da aprendizagem para o acesso e a apropriação ativa do próprioconhecimento. As pessoas que não têm deficiência mental constroem seus conhecimentos por meio de práticas e vivências da interação com os objetos e com o mundo. Fazem projeções, interligações, comparações, julgamentos, enfim, todas as atividades mentais superiores mais refinadas, específicas dos seres humanos, com o simples estar em contato com o conhecimento. Entretanto, para as pessoas com deficiência mental, só essa interação não basta, por isso é necessário descobrirmos qual o problema na interrupção de informação. O atendimento educacional especializado para as pessoas com deficiência mental está centrado na dimensão subjetiva do processo de conhecimento e é trabalhado para se chegar à aprendizagem realmente efetivada. O conhecimento acadêmico refere-se à aprendizagem do conteúdo curricular e o atendimento educacional especializado, por sua vez, refere-se à forma pela qual o aluno trata todo e qualquer conteúdo que lhe é apresentado e como consegue significá-lo, ou seja, compreendê-lo. IMPORTANTE! O aluno com deficiência mental, como qualquer outro, necessita desenvolver sua criatividade e a capacidade de conhecer o mundo por si só, e não pelo que o outro pensa. 228 UNIUBE O nosso maior engano é subestimar as capacidades desses alunos, escolhendo o caminho mais fácil para ele percorrer, sem deixar que ele próprio se conscientize da necessidade do aprendizado. Por isso, é de fundamental importância o significado dessa aprendizagem para cada um. Assim, o professor deve possibilitar atividades que sejam significativas e relacionadas à história de cada sujeito. PARADA PARA REFLEXÃO O Atendimento Educacional Especializado – AEE não tem por compromisso o desenvolvimento dos conteúdos acadêmicos, no entanto ele deverá buscar meios para que os alunos se apropriem dos conhecimentos que lhes permitam a leitura, a escrita e a quantificação. O objetivo do AEE é de suprir as necessidades do aluno, possibilitando o acesso a recursos que possam minimizar limitações impostas por uma deficiência e, consequentemente, promover o desenvolvimento e a aprendizagem desse aluno. Assim sendo, o ensino comum e o atendimento educacional especializado precisam caminhar juntos, pois um se beneficia do desenvolvimento do outro. É relevante considerar que, no caso da deficiência mental, o desenvolvimento cognitivo pressupõe a estimulação: • da percepção, discriminação e interpretação dos estímulos que o sujeito recebe do meio; • da memória, destacando a necessidade de reflexão sobre a qualidade das informações armazenadas, ou seja, somente recuperamos um conteúdo se o aprendemos de fato e, principalmente, se ele for significativo. Este fator é de maior relevância quando consideramos a pessoa com deficiência mental; • da atenção: esta precisa também ser estimulada com a utilização de atividades significativas e que motivem o aluno a manter o foco no que esteja sendo construído no espaço acadêmico; UNIUBE 229 • do raciocínio: é fundamental que o aluno depare com atividades que exijam raciocínio, análise, criatividade e também formação de opinião; • da linguagem: o trabalho com a linguagem precisa favorecer a ampliação do vocabulário, da fluência verbal para expressão, quando existe essa possibilidade, do desenvolvimento da compreensão. Quando necessário, é importante desenvolver outras possibilidades de comunicação alternativa, como já explicitado neste capítulo. É o professor especializado quem pode orientar o professor da classe comum, no sentido de adaptação de materiais e atividades, bem como em outras necessidades que surgirem no decorrer do processo. Conclusão5.7 A articulação entre o ensino regular e o atendimento educacional especializado acontecerá conforme a necessidade de cada caso. Essa articulação não tem como primeira intenção garantir o bom desempenho escolar do aluno com deficiência mental, mas, sobretudo, a de que os professores do ensino regular e do atendimento educacional especializado se empenhem em entender a maneira como esse aluno lida com os seus conhecimentos e os processos que ele percorrem na construção de conhecimento. Entendemos que o professor é fundamental no processo de inclusão. Nesse sentido, efetivar, na prática, uma educação que seja inclusiva significa respeitar a diversidade, ou seja, o modo particular que cada um tem frente ao processo de construção de conhecimento e de constituição individual enquanto sujeito, sujeito este que é social, por se constituir na relação com o outro, mas que é também singular, pois escolhe a sua maneira de compor sentidos das experiências que vive e as histórias que deseja viver. Assim sendo, não cabe à escola uma prática que seja homogeneizadora. 230 UNIUBE Escola é também lugar da heterogeneidade, de multiculturalismo, construído por diversas identidades e permeado por experiências também diversas. Receber informações, processá-las e construir conhecimentos ocorre de maneira particular. Por esse motivo, enquanto educadores ou gestores, precisamos assumir uma prática reflexiva que torne o ensino sistematizado e formal da escola o mais significativo possível para a vida dos alunos. Não podemos deixar de abordar, mesmo que sucintamente, a configuração do processo avaliativo frente à questão inegável da diversidade presente no espaço acadêmico de aprendizagem formal, que é a escola. Nesse contexto, não há espaço para a avaliação como um fim em si mesma. A avaliação precisa ser observada como parte do processo de ensino e aprendizagem, assim, ela é dinâmica e considera tanto o conhecimento prévio e o nível atual de desenvolvimento do aluno quanto as possibilidades de aprendizagem futura. Assim, configura-se uma ação pedagógica processual e formativa, que analisa o desempenho do aluno em relação ao seu progresso individual, prevalecendo na avaliação os aspectos qualitativos que indicam as intervenções pedagógicas do professor. No processo de avaliação, o professor precisa criar estratégias, considerando que alguns alunos podem demandar ampliação do tempo para a realização dos trabalhos e o uso da língua de sinais, de textos em Braille, de informática ou de tecnologia assistiva como uma prática cotidiana. Outro aspecto importante e relacionado à avaliação é o fato de que ela pode servir de base para o professor se autoavaliar, ou seja, avaliar sua própria prática e redirecioná-la, caso haja necessidade. Cabe aos sistemas de ensino, ao organizar a educação especial na perspectiva da educação inclusiva, disponibilizar as funções de instrutor, tradutor/intérprete de Libras e guia-intérprete, bem como de monitor ou UNIUBE 231 cuidador dos alunos com necessidade de apoio nas atividades de higiene, alimentação, locomoção, entre outras, que exijam auxílio constante no cotidiano escolar. Os sistemas de ensino precisam organizar as condições de acesso aos espaços, aos recursos pedagógicos e à comunicação que favoreçam a promoção da aprendizagem significativa e a valorização das diferenças, de forma a atender às necessidades educacionais de todos os alunos. A acessibilidade precisa ser assegurada mediante a eliminação de barreiras atitudinais, arquitetônicas, urbanísticas, na edificação – incluindo instalações, equipamentos e mobiliários – e nos transportes escolares, bem como as barreiras nas comunicações e informações. Por todas as reflexões realizadas, entendemos que o professor é fundamental no processo de inclusão. Por isso, terminamos este capítulo com o desejo de que você possa, realmente, fazer a diferença na vida de seus futuros alunos! Resumo Neste capítulo, discutimos os marcos históricos e normativos da educação brasileira, delineando o percurso da educação, antes segregacionista e excludente, até a chegada de uma proposta educacional inclusiva. Posteriormente, discutimos sobre os desafios enfrentados pelos profissionais desse novo contexto educacional, que precisam garantireducação de qualidade e equidade de oportunidades a todos os alunos. Nesse sentido, atentamos nas questões relativas à identidade, ao respeito à diversidade, ao trabalho em equipe e à interação entre os membros da escola, família e comunidade. Destacamos que a sala de aula inclusiva é aquela em que as estratégias de ensino são diferenciadas e modificadas, oportunizando a aprendizagem a todos os alunos, sendo necessário adaptar as propostas existentes às especificidades de cada deficiência. Reafirmamos que a educação 232 UNIUBE da pessoa com deficiência deve acontecer na escola regular e que o papel de instituições especializadas na nova perspectiva educacional denominada inclusiva é de apoiar o aluno e o professor nos processos de desenvolvimento e aprendizagem, oferecendo principalmente o que a escola regular não pode oferecer, por exemplo, fonoaudiólogo, psicopedagogo, psicólogo, psicomotricista e, ainda, a parte diversificada do currículo. Atualmente, essa parte diversificada é também desenvolvida no contraturno de escolas regulares na sala de recursos multifuncionais para atendimento educacional especializado. Apresentamos, ainda, neste capítulo as questões referentes à acessibilidade das pessoas com deficiência física e as propostas de trabalho pedagógico referentes às deficiências físicas e mentais. Referências AQUINO, J. G. (Org.) Diferenças e preconceitos na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus, 1998. BERSCH, Rita; MACHADO, Rosângela. Conhecendo o aluno com deficiência física. In: Brasil MEC/Seesp Ministério da Educação e Cultura. Deficiência física. Brasília: MEC, 2007. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/ aee_df.pdf>. Acesso em: 20 maio 2009. BRAGA, Lúcia Willadino. Cognição e paralisia cerebral: Piaget e Vygotsky em questão. Salvador: Sarahletras, 1995. BRASIL. Decreto no 6.571/2008 de 17 de setembro de 2008. Disponível em: <http:// www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007010/2008/Decreto/D6571.htm>. Acesso em: 21 maio 2009. ______. Decreto no 3.298 de 1999. Disponível em: <http://74.125.113.132/ search?q= cache:v0_UGUizd4YJ:www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/D3298. UNIUBE 233 htm+Decreto+n%C2%BA.+3.298+de+1999&cd=1&hl=ptBR&ct=clnk&gl=br&lr=lang_ pt>. Acesso em: 21 maio 2009. ______. Diretrizes nacionais para a educação especial na educação básica/ Secretaria de educação especial. MEC; SEESP, 2001. Disponível em: <http:// portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/diretrizes.pdf>. Acesso em: 8 nov. 2010. FAVERO, Eugênia Augusta Gonzaga; PANTOJA, Luísa de Marillac P.; MANTOAN, Maria Teresa Eglér. In: BRASIL, MEC/SEESP. Ministério da Educação e Cultura – Introdução. Brasília: MEC, 2007. ______. In: BRASIL, MEC/SEESP Ministério da Educação e Cultura – Aspectos legais e orientações pedagógicas. Brasília: MEC, 2007. GOMES, Adriana L. Limaverde; FIGUEIREDO, Rita Vieira de. A emergência da leitura e da escrita em alunos com deficiência mental. In: BRASIL MEC/SEESP Ministério da Educação e Cultura. Deficiência mental. Brasília: MEC, 2007. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/me004706.pdf>. Acesso em: 20 maio 2009. ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU) NO BRASIL. Declaração dos Direitos Humanos. Disponível no site: <http://74.125.47.132/search?q=cache: cQ5OeS5BUbcJ:www.onubrasil.org.br/documentos_direitoshumanos Judith Mara de Sousa Almeida Introdução Necessidades educacionais especiais e as práticas pedagógicas para a educação inclusiva das pessoas com deficiência sensorial Capítulo 6 Há aproximadamente dez anos, as pessoas com algum tipo de deficiência frequentavam escolas especiais, conforme suas necessidades educacionais, Assim, havia instituições educacionais para surdos, outras para alunos com deficiência visual. A Associação de Pais e Amigos de Excepcionais ─ Apae ─ encarregava-se do atendimento especializado aos alunos com Síndrome de Down e também àqueles com deficiências mentais e assim por diante. Esse modelo de atendimento educacional especializado caracterizava- se como segregacionista, apresentava e ainda apresenta até hoje recebe a denominação de “Educação Especial” e tinha como papel essencial o atendimento aos excluídos do sistema escolar. 236 UNIUBE comum. Entretanto, o advento da Educação Inclusiva trouxe à tona o direito a todas as pessoas de frequentarem a escola comum. Nesse sentido, surgiu a necessidade de que instituições especializadas redefinissem o seu papel e passassem a apoiar o aluno com necessidades educacionais especiais, bem como seu professor na escola comum. Entretanto, ter o apoio de um profissional especializado não isentou o professor não especializado da necessidade de redefinir a sua prática, prática esta aparentemente determinada pela tradição, mas que se viu sem lugar em meio a tanta diversidade, agora marcada pela presença da deficiência na escola idealizada apenas para pessoas sem deficiência. Por esse motivo, estaremos neste capítulo e, principalmente, nesta etapa de sua formação como pedagogo refletindo sobre a relação entre prática pedagógica e as deficiências sensoriais. Acreditamos que esta reflexão seja fundamental para sua formação, visto que o desafio do momento é efetivar, na prática, a educação inclusiva e o seu papel nesse processo, futuro pedagogo, que é de suma importância. Nos inspiramos em Glat, Fontes e Pletsch (2006) e convidamos você para repensar a escola, sua cultura, sua política e, especialmente, as suas práticas pedagógicas. Objetivos Ao final deste capítulo, esperamos que você seja capaz de: • demonstrar a relação existente entre práticas pedagógicas, educação inclusiva e deficiências sensoriais; • explicar sobre a utilização dos sentidos humanos para o conhecimento e relacionamento com o mundo; e • praticar o desenvolvimento da acuidade sensorial no sistema educativo. UNIUBE 237 6.1 Os sistemas sensoriais 6.1.1 A estimulação sensorial na perspectiva inclusiva 6.2 Práticas pedagógicas: necessidades educacionais especiais – deficiências sensoriais – educação inclusiva 6.2.1 Crianças cegas e com baixa visão 6.2.2 A prática pedagógica com alunos que apresentam deficiência visual – cegueira 6.2.3 A prática pedagógica com alunos que apresentam deficiência visual – baixa visão 6.2.4 A prática pedagógica com alunos que apresentam deficiência visual e surdez – surdocegueira 6.2.5 A prática pedagógica com alunos que apresentam surdez 6.2.6 A prática pedagógica com alunos que apresentam deficiências múltiplas 6.3 Educação inclusiva 6.4 Conclusão Esquema Os sistemas sensoriais6.1 Ao nascer, nossa capacidade de percepção por meio dos sentidos encontra-se bastante desenvolvida. Assim, com poucas horas de vida, somos capazes de reconhecer a nossa mãe pelo olfato ou pela audição. Entretanto, nossa acuidade sensorial vai decrescendo conforme nos tornamos adultos. Por que será que isso ocorre? A resposta parece simples, pois, se buscarmos, em nossa memória, as experiências que vivemos no contexto escolar, observaremos que foram poucas as situações relacionadas ao uso integrado dos sentidos, ou até mesmo, ao uso de um deles. A interação por meio dos sentidos não faz parte da nossa cultura educacional. 238 UNIUBE Entretanto, o potencial perceptivo difere de pessoa para pessoa, principalmente quando se trata de pessoas em que um ou mais de um sentido não funciona ou apresenta-se prejudicado, diminuído, como os casos de alunos com baixa visão, alunos que apresentam surdez, alunos cegos ou ainda aqueles que apresentam surdocegueira. 6.1.1 A estimulação sensorial na perspectiva inclusiva Considerando os casos específicos, anteriormente apresentados, como trabalhar a estimulação sensorial em uma perspectiva inclusiva? E quando falta um ou mais de um sentido? Etnocêntricos que somos, não nos damos conta da percepção do mundo pelo uso integrado de todos os nossos sentidos. O fato de não apresentarmos nenhuma