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INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA HISTÓRIA Antonio Fontoura E d u ca çã o IN T R O D U Ç Ã O A O E S T U D O D A H IS T Ó R IA A nt on io F on to ur a Curitiba 2016 Introdução ao Estudo da Historia Antonio Fontoura ´ Ficha Catalográfica elaborada pela Fael. Bibliotecária – Cassiana Souza CRB9/1501 F684i Fontoura, Antonio Introdução ao estudo da história / Antonio Fontoura. – Curitiba: Fael, 2016. 276 p.: il. ISBN 978-85-60531-56-1 1. História – Estudo e ensino I. Título CDD 907 Direitos desta edição reservados à Fael. É proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização expressa da Fael. FAEL Direção Acadêmica Francisco Carlos Sardo Coordenação Editorial Raquel Andrade Lorenz Revisão Jaqueline Damasio Moreira Projeto Gráfico Sandro Niemicz Capa Vitor Bernardo Backes Lopes Imagem da Capa Shutterstock.com/jorisvo Arte-Final Evelyn Caroline dos Santos Betim Sumário Carta ao Aluno | 5 1. Um panorama da história atual | 7 2. As fontes históricas | 33 3. Os arquivos | 57 4. Memória e história | 83 5. Tempo e história | 109 6. Perspectivas historiográficas | 135 7. O raciocínio histórico e seus erros | 159 8. Ler história | 183 9. Escrever história | 211 10. Profissionalismo, cidadania e conhecimento | 237 Conclusão | 261 Gabarito | 263 Referências | 267 Carta ao aluno Prezado(a) aluno(a), Assim como outras formas de conhecimento que procuram analisar e compreender a realidade, também a história é dinâmica. Procura constantemente reavaliar seus princípios e métodos de maneira a construir um conjunto de saberes que seja rigoroso, e que, na investigação de seu objeto de pesquisa preferencial – a ação humana no tempo – ofereça modelos e sínteses que expliquem de que modo a vida, a sociedade, e a cultura do presente são consequ- ências do passado. Porque, ainda que esteja íntima e tradicionalmente ligada a eventos que aconteceram dias, anos, séculos atrás, historiadores têm, desde os antigos gregos, voltado seus olhos para o passado, em – 6 – Introdução ao Estudo da História busca de significados para seu próprio presente. Afinal, mesmo que muito tenha mudado desde a Antiguidade – e boa parte desse livro tem como obje- tivo demonstrar o quanto os estudos históricos de hoje são diferentes daque- les dos tempos de Heródoto ou Tucídides –, pensar historicamente sempre se manteve enquanto uma atividade que objetiva o conhecimento da realidade em que as pessoas vivem. O intuito desse livro é apresentar uma visão panorâmica dos métodos, discussões e teorias contemporâneas, por meio dos quais, os estudos históri- cos procuram conhecer a realidade do presente. Afinal, a história tem sua pró- pria história: nesses mais de dois mil anos em que o conhecimento histórico tem existido, muita coisa mudou, e nós, historiadoras e historiadores (e uso o “nós” porque agora você faz parte desse grupo, também), muito aprendemos com aqueles que nos antecederam: a história não é a decoreba de algumas décadas atrás, que apenas listava datas e fatos; não é a busca pela verdade absoluta, como acreditavam os historiadores do século XIX; não é a visão religiosa do medieval Beda. É, na verdade, um conhecimento ativo, sempre em mudança, como o é o próprio presente. Esse livro foi pensado como um guia para o seu primeiro contato com essas formas atuais de se pensar a história. Trata-se de uma introdução, como revela o próprio título: um ponto de partida a temas importantes e complexos como a questão da temporalidade, da relação entre memória e história, das funções dos documentos e arquivos, dos limites e possibilidades da objetivi- dade, da verdade. Se, como diz o poeta, “não há caminho, faz-se caminho ao andar”, espero que esse livro lhe sirva de auxílio nesse novo trajeto que você escolheu cons- truir; ou, seria mais adequado dizer, na própria história que você busca criar. Abraços, Antonio. Um panorama da história atual A história é uma disciplina dinâmica, que volta seus olhos para o passado, em busca de compreender os processos pelos quais o presente foi construído. Neste primeiro capítulo discutiremos, de forma abrangente, as bases do conhecimento histórico na atu- alidade, suas características e importância como ferramenta para o entendimento da realidade. 1 Introdução ao Estudo da História – 8 – 1.1 “Professor, para que serve a história? ” Em uma edição francesa de 1729, De La Salle, autor do livro As regras das cortesias e da civilidade cristã, ensinava seus leitores sobre as boas maneiras no assoar o nariz e espirrar: É muito indelicado esgaravatar as narinas com os dedos e ainda mais insuportável por na boca o que se tirou do nariz.... É vil limpar o nariz com a mão nua ou assoar-se na manga ou nas roupas. É inteiramente contrário ao decoro assoar o nariz com dois dedos e, em seguida, lançar a sujeira no chão e enxugar os dedos na roupa. Há pessoas que tapam uma narina com o dedo e, soprando pela outra, jogam no chão a sujeira que está dentro. Pessoas que assim procedem não sabem o que é decoro. Após assoar-se, tenha o cuidado de não olhar dentro do lenço (ELIAS, 2011, p. 145). E se aos leitores faltar vocabulário, como a mim faltou, o dicionário define “esgaravatar” como “examinar com cuidado, limpar, escarafunchar”. A sensação de nojo que você provavelmente sente diante das secreções humanas obviamente não era a mesma para as pessoas do século XVIII, lei- toras do manual de boas maneiras de De La Salle. Se parecia necessário ensi- nar que se considerava descortês limpar os dedos na roupa ou esgaravatar as narinas com gosto, é provável que essas eram atitudes ainda relativamente comuns no período. Ninguém ensina algo que já se sabe. E note: este manual de boas maneiras é um livro destinado a adultos, e não a crianças. Temos a nítida impressão de que nossa aversão aos resíduos das secre- ções é natural, tão profundamente entranhado em nós está este sentimento. Causa-nos certo estranhamento perceber que adultos, como os leitores do livro de De La Salle, precisavam ser ensinados a assoar seus narizes em len- ços, e de forma discreta. Esta impressão de naturalidade vem do fato de que, ao contrário do que ocorria no século XVIII, somos educados desde muito jovens a controlarmos nossas funções corporais e mantê-las em locais priva- dos. Tenho plena certeza de que leitoras e leitores deste livro, bem-educados que foram, não escarram no chão: afinal, foram-nos incutidos sentimentos de vergonha e aversão de tal forma que, quando nos tornamos adolescentes, esses comportamentos e sensações já faziam parte de uma nossa segunda natureza. Mas não é o que ocorria entre os leitores de De La Salle, membros, veja bem, de determinada elite europeia. Para muitos deles, não existia um senti- – 9 – Um panorama da história atual mento de repulsa tão intenso às funções e excreções corporais pois, pode-se deduzir, faziam parte de seu cotidiano. Era algo com o que estavam acostu- mados. Por isso, quando se passou a considerar importante o decoro e a dis- crição em relação às funções corporais, tornava-se necessário convencer estes adultos a agir dentro de novas formas de comportamento. Ensinar-lhes o que deveria ser visto como sujo e que, por isso, deveria ser escondido. Educá-los no autocontrole e no comportamento cortês. Essa passou a ser uma das tare- fas dos autores de manuais de boas maneiras, como De La Salle. A estratégia parece ter sido bem-sucedida. Em uma edição do mesmo livro, publicado cerca de meio século depois (em 1774), o item que fala sobre o nariz é bem mais curto, e com algumas diferenças importantes. Colocar os dedos dentro do nariz é uma impropriedaderevoltante e tocando-o com muita frequência incômodos podem resultar. (...) Crianças cometem muito esse lapso. Os pais devem corrigi-las rigoro- samente (ELIAS, 2011, p. 145-6). Nesta edição, são bem menos explícitas as referências às secreções. As secreções humanas já estavam sendo vistas como fenômenos bastante ínti- mos, sobre os quais se construía uma determinada aversão, e deveriam ser escondidas da sociedade. E isso significava, também, falar menos delas nos livros. Tornaram-se “nojentas”. Repare, além disso, que há uma orientação bastante clara para que os pais corrijam o comportamento dos filhos: ou seja, gradualmente os adultos deixavam de ser o alvo desta pedagogia (porque, provavelmente, já a haviam incorporado) e o que importava agora era educar as crianças. Estamos discutindo trechos do livro de De La Salle, mas certamente ele não foi responsável pela criação desta noção de civilidade, bons modos e busca pelo autocontrole corporal. A sua obra, como outras tantas dedicadas a ensinar técnicas de bom comportamento, fazem parte de um processo his- tórico mais amplo que chega até nossos dias. Se o texto de 1729 mostra uma sociedade em que as funções corporais são cotidianas e explícitas e o de 1774 já revela que a ideia de autocontrole estava sendo implementada, nós somos uma comprovação de que esse processo não apenas teve uma direção, mas foi um sucesso: atualmente, escondemos nossos fluidos corporais, somos discre- tos em nossas secreções (só o fato de citá-las em um livro de história já é meio estranho, não?), e procuramos ter, ao máximo, controle sobre o nosso corpo. Introdução ao Estudo da História – 10 – Voltaremos a isso. É importante, porém, antes de avançarmos, iniciarmos outro tema. “Professor, para que serve a história? ” Qualquer professora ou professor de história, em algum momento de suas carreiras em sala de aula, se verá diante dessa pergunta. E terá diante de si alunas e alunos genuinamente interessados em uma resposta fundamental: por que devo saber que os antigos gregos desenvolveram a filosofia? Que a Igreja Católicas Romana desempenhou notável influência na Europa Medie- val? Que a abertura dos portos do Brasil, em 1808, beneficiou a Inglaterra? Que as medidas econômicas tomadas durante o regime militar se relacionam a uma estagflação no Brasil? A dúvida dos alunos sobre o porquê de se estudar história pode parecer ingênua à primeira vista, mas ela é de fundamental importância. Pois, para os alunos, parece mais evidente encontrar a utilidade nos estudos de matemá- tica, física ou biologia. Mas e a história? Definir o que é a história, e sua importância social, não é apenas uma dis- cussão reservada a alunos do ensino fundamental. Na verdade, pensadores dos mais diferentes períodos e campos de estudo preocuparam-se com essa ques- tão. “Aqueles que não se lembram do passado estão condenados a repeti-lo”, afirmou famosamente o filósofo estadunidense Georges Santayana (1863- 1952). Aqui, ele se aproxima de uma ideia de historiadores do século XIX, que afirmavam que a “História é a mestra da vida” (uma frase, aliás, que tem sua origem no filósofo da Roma antiga, Cícero): conhecendo-se o passado, seria possível agir no presente para evitar a repetição de certos erros, no futuro. Porém, tomar a história como uma série de lições exemplares pode ser tão perigoso quanto ignorá-la completamente. É conhecido o fato de que, em 1938, o primeiro ministro britânico Neville Chamberlain cedeu tanto às exigências de Adolf Hitler, que acabou contribuindo para o início da Segunda Guerra mundial. Durante a chamada Guerra Fria, o que fizeram os políticos estadunidenses a partir desta “lição”? Ou, para usar a frase de Santayana, a partir do conhecimento do passado, como tentaram evitar repeti-lo? Resis- tiram a ceder qualquer espaço político a seus oponentes, o que os levou a guerras na Coreia, na década de 1950, e no Vietnã, na década seguinte. Por que a história não foi, afinal, boa mestra? – 11 – Um panorama da história atual Saiba mais Um dos objetivos de Adolf Hitler, enquanto líder da Alema- nha Nazista, era unir todos os povos alemães, em uma política denominada de “pangermanismo”. Em 1938 já havia anexado a Áustria e, entre outras exigências, desejava ainda a anexação dos Sudetos, região de maioria alemã da então Tchecoslová- quia. Procurando evitar o início de uma nova guerra na Europa, líderes europeus autorizaram que Hitler anexasse aquelas regiões à Alemanha. Neville Chamberlain, à época primeiro-ministro da Grã-Bretanha, foi um dos principais mentores da chamada “política do apaziguamento” de Hitler que, como se sabe, não funcionou: em 1939 foi iniciada a Segunda Guerra Mundial. Se não é mestra da vida; se o conhecimento do passado pode ser apenas de maneira muito frágil aplicado ao presente; e se há, inclusive, suspeitas de que a história não serve para nada – “história é um despropósito”, teria dito o empresário estadunidense Henry Ford –, então, como respondemos a nossos alunos? De que maneira explicamos a importância do estudo da história? No que voltamos ao decoro e ao esgaravatar narizes que abandonamos há pouco: nossa pequena discussão sobre o manual de boas maneiras de De La Salle permite que se estabeleçam algumas das características da disciplina de história na atualidade, bem como sua importância para a compreensão da realidade. Vamos a elas. 2 A história nos permite entender as sociedades enquanto o resul- tado de um processo histórico. O que somos e como vivemos é o resultado de determinada história. Pode não parecer muito impor- tante, à primeira vista, descobrir que os europeus, no século XVIII, não possuíam o sentimento de nojo diante das secreções huma- nas, como nós hoje o sentimos. Mas é: mesmo sentimentos que nos parecem tão naturais, como a vergonha, ou a aversão, possuem um importante componente histórico e cultural. Nossa repulsa às excreções humanas, e nosso desejo de preservação da intimidade corporal, não são coisas óbvias, evidentes ou naturais, mas resul- Introdução ao Estudo da História – 12 – tado de certas opções históricas. Se considerarmos que as primeiras cidades humanas surgiram há cerca de 10 mil anos, podemos dizer que o processo de constituição desta intimidade corporal, iniciado há poucos séculos, é relativamente recente. O que gostamos ou rejeitamos, cremos ou duvidamos, aceitamos ou condenamos, possui uma história, um percurso e, em vários sentidos, uma razão de ser. E isso é válido não apenas para nossos comportamentos e sensações, mas também para a estrutura jurídica da sociedade, o sistema de casamentos, os padrões de sociabilidade, ou opções econômicas. Compreender a história significa entender a nós mesmos enquanto parte deste processo. Neste sentido, o passado ainda vive em nós, pois somos resultado dele. A história, assim, participa da constru- ção de um autoconhecimento, bem como de um conhecimento sobre os outros. Estimula, além disso, um sentimento de alteridade – ou seja, compreender que os outros (pessoas, povos, sociedades, períodos), possuem suas próprias histórias, suas próprias trajetó- rias, o que pode ajudar a explicar o seu presente. 2 Quando se afirma que algo possui uma história, significa dizer que é resultado de uma determinada construção. Foi o resultado de opções e decisões, e por vezes de disputas, inclusive violentas. Atual- mente, somos muito bons no domínio de nosso corpo, e mantemos na mais completa intimidade secreções corporais que, como vimos, poderiam ser expostas publicamente, em outros contextos e épo- cas. E se somos muito bons nesse autocontrole, isso ocorre porque fomos treinados para isso desde a mais tenra infância. Este sentido de intimidade foi, assim, construído – histórica e individualmente. E isso ocorreu a partir dos antigosmanuais de comportamento, do esforço das pessoas em adotar as regras corteses, da gradual vigilância sobre os próprios movimentos e os dos outros. O que se denomina de “boas maneiras” foram, assim, o resultado de opções históricas. Estudar história nos permite entender que as formas como somos e vivemos são resultado de uma construção. Poderíamos viver de forma absolutamente diferente se outros projetos históricos e – 13 – Um panorama da história atual culturais tivessem sido bem-sucedidos. O presente é resultado do passado, assim como nós mesmos somos o passado de determi- nado futuro. Daqui surge uma consequência importante: a história permite que as pessoas se tornem politicamente envolvidas com a sociedade em que vivem, pois se o presente é histórico, o futuro pode ser construído. 2 Nossa pequena análise do livro de De La Salle foi baseada nos estu- dos do pesquisador alemão Norbert Elias (1897-1990). O objetivo de Elias não foi estudar os manuais de boas maneiras (em seu livro ele analisa vários) por eles mesmos. Mas buscar compreender o que estes manuais revelam sobre uma determinada direção no processo histórico: de uma sociedade com menores restrições às paixões e à exposição pública, para outra, com maior controle e autocontrole. A relativa liberdade com que os fluidos corporais eram discutidos em 1729 foi substituída por um tratamento mais discreto, na obra de 1774. Um processo que continuou e se intensificou, como demons- tra nosso sentimento de repulsa às excreções corporais. Da libera- lidade do século XVIII ao quase completo silêncio de nossos dias. Houve, portanto, uma direção. Mas foi ideia de quem? Tendo sido um movimento que durou séculos, não se pode dizer que tenha sido elaborado ou planejado por apenas uma ou mesmo poucas pessoas. Tratou-se de um movimento social, e não individual. Então, como explicar algo que, mesmo sem ter tido um idealizador, apresenta uma lógica, uma direção? Para Elias, com a expansão das sociedades europeias, e uma maior divisão social, as pessoas passaram a ter de interagir cada vez mais entre si. Afinal, com funções cada vez mais especializadas, todos precisavam, cada vez mais, uns dos outros. Isso obrigou as pessoas a desenvolverem formas de controlar seus sentimentos e sensações, para que a própria sociedade pudesse existir. Ao mesmo tempo, o Estado foi tomando para si o monopólio do uso da violência. Dessa maneira, as pessoas não mais poderiam resolver por elas mesmas suas desavenças – através da violência dos duelos, por exemplo – Introdução ao Estudo da História – 14 – sendo necessário que se controlassem, e buscassem nas instituições do Estado a segurança e a reparação aos danos. O estudo de história, como demonstra o exemplo de Elias, permite que se compreenda que um determinado elemento da sociedade está em contato com outros. Os comportamentos individuais, por exemplo, estão relacionados a certas mudanças sociopolíticas na Europa do final da Idade Média e início da Era Moderna. Assim, a preocupação com a modificação de comportamentos não se redu- zia a uma mera campanha contra esgaravatar narinas, mas era parte de todo um movimento social, que influenciava os comportamen- tos. E isso pode ser ampliado: da mesma forma que a sociabilidade se liga ao social, também o cultural dialoga com a economia, que dialoga com a política, que pode possuir causas e efeitos religiosos. E assim sucessivamente. A história, portanto, permite a compreensão mais ampla e pro- funda das sociedades. Estimula a compreensão do mundo em que se vive, seus problemas e contradições, e as relações existentes entre os vários componentes de uma época ou cultura. Saiba mais O livro O processo civilizador, em que Norbert Elias discute a construção da civilidade na Europa, foi lançado há quase um século, em 1930. Não recebeu muita atenção à época de sua publicação, tendo sido redescoberto a partir dos anos 1960. Ainda que seja sociólogo de formação, Elias desenvolveu um trabalho efetivamente histórico, em que examina várias formas de comportamento, e seu processo de desenvolvimento em direção a um autocontrole cor- poral. O livro é um clássico das ciências humanas. 2 Há, por fim, questões mais prosaicas que nos ajudam a entender a importância e utilidade do estudo da história na sociedade. Conhe- cer o comportamento de outras sociedades estimula a nossa curio- sidade, e pode ser algo bastante divertido. Talvez estas não sejam – 15 – Um panorama da história atual razões muito profundas para se estudar história, mas são também válidas. Além disso – e por fim – a história tem uma utilidade con- creta para professores que vivem de dar suas aulas, diretores e coor- denadores em cursos superiores, editores de revistas, pesquisadores, autores de materiais didáticos e paradidáticos. Todos estes encon- tram na história, além de uma maneira de conhecer a sociedade, uma profissão. 1.2 Como se constrói a história Já há muitos anos, em uma conversa sobre um assunto que já não lem- bro, um amigo engenheiro mecânico achou muito engraçado quando comen- tei não gostar de um determinado livro de história, porque eu o considerava defasado. A graça estava no fato de que, para ele, a história não se defasava. Como poderia? Cabral descobriu o Brasil em 1500, todo mundo sabe disso. Como isso poderia ficar ultrapassado? Esse tipo de concepção não é incomum. Muitos acreditam que a história, por lidar com questões do passado, mudaria muito pouco, e os estudos his- tóricos simplesmente não seriam um campo de conhecimento dinâmico. As razões para esse tipo de opinião podem ser encontradas, principalmente, em duas causas: o desconhecimento em relação às particularidades da produção do conhecimento histórico, seus fundamentos, e os problemas que procura resolver; e a confusão que existe, no senso comum, entre história e passado. Comecemos por esta última. Na linguagem cotidiana, é muito comum a utilização do termo “histó- ria” com o mesmo significado de “passado”. Quando se diz, por exemplo, que “tal fato já é história”, significa dizer que já ficou no passado, não existe mais, e é imutável. Foi neste sentido que meu amigo engenheiro mecânico entendia a ideia de “história”. Porém, para os estudos acadêmicos de história (“estudos acadêmicos” referem-se aos realizados em instituições de ensino superior), a história não se confunde com o passado. Passado, por um lado, é tudo o que já aconteceu. História, por sua vez, são os estudos feitos sobre determinado passado. Como exemplo, examine a imagem a seguir. Introdução ao Estudo da História – 16 – Figura 1 - Vincenzo Pastore. Movimento em frente ao Mercado Municipal, c. 1910. São Paulo. Fonte: Acervo IMS - Instituto Moreira Salles Esta imagem de um mercado de São Paulo, em 1910, representa um instantâneo do passado. Tudo o que você está vendo, desde as pessoas no pri- meiro plano, a todos os movimentos que aparecem ao fundo, realmente acon- teceram, e sua existência não depende da vontade dos historiadores. Repare, ainda, que há uma quase infinidade de coisas acontecendo: há dezenas de pessoas retratadas, cada uma com sua vida e interesses particulares, os dife- rentes detalhes das construções, as árvores que se notam ao fundo, a carroça que passa rapidamente e mal se vê (à direita da foto). E mesmo sendo apenas um instantâneo, percebe-se que há uma quanti- dade imensa de eventos, pessoas e coisas. Pois mesmo o menor dos passados tem uma quantidade de informações que beira ao infinito, afinal, o passado envolve tudo o que já aconteceu. Mas de que maneira a história se diferencia do passado? A história refere- -se aos estudos sobre o passado. A história toma um determinado passado e o recorta e, a partir deste recorte, procura solucionar questões que são propria- mente históricas,utilizando-se de métodos que lhes são específicos. Tome-se a foto do mercado de São Paulo, em 1910. Seria histórico um estudo que buscasse resolver a questão: “qual a vestimenta da população pobre em São Paulo, em 1910?”. O passado foi, então, recortado, e aquela foto – 17 – Um panorama da história atual transforma-se em documento histórico, em fonte para resolver uma questão que é histórica: pesquisando aquela foto (e outras tantas) pode-se ter uma noção das vestimentas da população do período. Outras questões históricas poderiam ser pensadas: “como era a arquitetura daquela região de São Paulo, no período? ”; “como eram expostos os produtos a serem comercializados no mercado? ”; “há indícios de difusão da energia elétrica? ”; “qual era a situação da urbanização da região? ”. Pode-se, inclusive, pensar em questões como: “quais os temas preferidos pelos fotógrafos profissionais do final do início do século passado? ”; ou, “quais materiais as instituições do início do século XXI preferiam digitalizar e disponibilizar ao público? ”. Tentar recuperar todo o passado não é objetivo da história. Isso seria, em primeiro lugar, inútil, pois equivaleria a criar o mapa de uma cidade na escala 1:1. Que utilidade teria um mapa que não reduz em nada a realidade que representa? Por isso há a necessidade de reduções, de recortes. Em nosso exemplo, parte do recorte do passado foi dado pela fonte – um local (mercado de São Paulo) e uma data (1910) – e pelas questões a serem resolvidas. Mas, além de inútil, seria impossível tentar recuperar todo o passado, e isso não é uma característica apenas da história. Toda forma de conheci- mento, toda ciência, reduz e abstrai a realidade em alguma medida, de modo a tornar possível a sua análise. Se meu amigo engenheiro mecânico lesse as últimas páginas, já saberia que, nos estudos históricos, passado é diferente de história. Resta apresentar- -lhe as maneiras pelas quais o conhecimento histórico é produzido. E demons- trar que, ao contrário do que ele pensava, a produção histórica é dinâmica. 1.2.1 São as questões do presente que estimulam as interrogações ao passado A primeira e principal razão pela qual o conhecimento histórico está sempre se renovando é o fato de que o presente também está em constante mudança. Quando historiadoras e historiadores lançam seu olhar ao passado, fazem-no a partir de dúvidas e questionamentos que são despertados por pro- blemas da atualidade. E a atualidade, sabemos nós, está sempre se alterando. Como afirmou o historiador francês Marc Bloch (1886-1944), “a incom- preensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado. Mas talvez Introdução ao Estudo da História – 18 – não seja menos vão esgotar-se em compreender o passado se nada se sabe do presente” (BLOCH, 2001, p. 66). Quando a intelectualidade brasileira procurou descobrir, nos anos 1920 e 30, por que o Brasil era um país política e socialmente atrasado, surgiram vários estudos históricos que procuraram entender o passado colonial brasileiro, bus- cando entender as razões deste atraso. O final do regime militar, já na década de 1980, estimulou o surgimento de pesquisas históricas sobre a democracia brasi- leira, suas características e sua fragilidade. Discussões mais recentes na sociedade sobre o racismo estimularam estudos sobre a participação da população negra na formação do Brasil, a razão das diferenças sociais, a história de comunidades quilombolas, e o regate dos movimentos de resistência à escravidão. Pode-se ver, por estes exemplos, que a história é dinâmica justamente porque o presente está em permanente mudança. E isso faz com que novas perguntas surjam, fazendo com que historiadoras e historiadores dirijam sem- pre novas perguntas ao passado. 1.2.2 A história busca responder questões históricas, e não colecionar fatos aleatoriamente. “Por que era tão comum a representação de pessoas lutando contra caramujos gigantes, nas pinturas medievais?” A busca por compreender o presente a partir do passado, e que dirige o interesse de historiadoras e his- toriadores, se dá a partir de questões, muitas delas apresentadas na forma de perguntas. Vimos algumas quando analisamos a foto de 1910. Porque, para a pesquisa histórica, não adianta colher dados aleatoria- mente. Se a pergunta que procuro responder refere-se às vestimentas dos paulistanos do início do século XX, de nada me servirá colher dados sobre a arquitetura, ou a urbanização, ou a estrutura do sistema elétrico. Se o Fonte: Biblioteca Britânica. Figura 2 - Cavaleiro lutando com caramujo gigante – 19 – Um panorama da história atual objetivo da história é resolver um determinado problema, as perguntas dire- cionam a visão de historiadoras e historiadores, tornando possível encontrar as respostas nos documentos históricos. “Era muito difícil manter os arqueiros com suprimentos de flechas, durante as guerras medievais? ”; “quais eram os crimes que levavam uma pes- soa ao banimento, no período colonial? ”; “podiam existir escravos brancos? ”; “de onde surgiu a ideia defendida por Hitler, de que existia uma conspira- ção mundial de judeus? ”. Estes são alguns de exemplos de questões extraídas de um fórum de discussão para historiadores. Em trabalhos acadêmicos, as questões tendem a tomar uma forma mais rigorosa, mas ainda assim, fundamentam-se em perguntas a serem respondi- das. Um bom exemplo é a questão central da obra A construção da ordem, do historiador José Murilo de Carvalho: por que o Brasil, diferentemente do que aconteceu com as antigas colônias espanholas, adotou a monarquia e conseguiu manter sua unidade territorial após a sua independência? Em todo seu livro, Carvalho procura responder a essa questão, analisando documentos históricos, e debatendo com outros textos que se debruçaram sobre dúvidas semelhantes. Portanto, se a quantidade de questões que podem ser formuladas sobre o passado é infinita, torna-se infinita e dinâmica, também, a própria pes- quisa histórica. Sobre os gigantes caramujos medievais: ninguém sabe, com certeza, por que eram tão comuns nas pinturas. Sabe-se apenas que eram um tema recor- rente, e que os copistas o achavam muito divertido. Esta é uma questão his- tórica cuja resposta ainda está sendo buscada. 1.2.3 A história é fundamentada em documentos históricos Teremos um capítulo para discutir e analisar, com mais detalhes, o que são, em sua multiplicidade, as fontes históricas, e como formam o funda- mento do conhecimento histórico. Mas, por agora, basta dizer que todos os vestígios deixados pelos huma- nos são a base do conhecimento histórico. A foto de 1910 é um documento histórico (ou uma fonte), bem como as iluminuras medievais. Mas também Introdução ao Estudo da História – 20 – o são livros, jornais, pinturas, esculturas, monumentos, registros oficiais, a arquitetura de prédios e cidades, vídeos e músicas, depoimentos, e a lista con- tinuaria, até abarcar todos os vestígios humanos que nos permitam conhecer mais sobre a vida e as ideias das pessoas do passado. É a partir destes vestígios – quaisquer que sejam – que as perguntas históricas serão respondidas. Esta é, aliás, outra razão pela qual o conhecimento histórico é dinâmico. A descoberta de novos documentos, novas fontes, é sempre muito bem-vinda, mas mesmo antigos documentos podem produzir novos conhecimentos. Como na foto de 1910: um estudo sobre as vestimentas que utilize aquela imagem como documento será totalmente diferente de outro que trate das técnicas fotográficas, ou de um terceiro que esteja analisando a arquite- tura da cidade. Um mesmo documento histórico, portanto, pode ser lido de diversas formas, conforme os objetivos e as questões levantadas. Um mesmo documento pode ser tratado de infinitas maneiras diferentes, por diferentespesquisadores, a partir de diferentes questões. 1.2.4 A história trabalha com uma infinidade de temas Até as primeiras décadas do século XX, a história se dedicava, essencial- mente, a estudar os Estados nacionais, seu desenvolvimento e a ação de seus governantes. História era basicamente sinônimo de política, e por isso, as fon- tes históricas utilizadas eram, basicamente, os documentos oficiais escritos. Isso mudou. A dinâmica da história se dá atualmente, também, pela infinidade de assuntos com os quais trabalha, baseada na grande quantidade de fontes, bem como, de perspectivas diferentes. Um tema que a princípio poderia parecer banal, como as normas de boa conduta, pode servir para compreendermos como as pessoas alteram seus comportamentos diante da mudança social. Campos de estudo como a história da sexualidade, das práti- cas de leitura, do relacionamento com a morte, da medicina, ou da constru- ção das identidades, estão em franca ascensão, como resultado do interesse de historiadoras e historiadores nas práticas culturais. 1.2.5 A história é feita em diálogo com outros estudos históricos O conjunto de textos sobre um determinado tema histórico recebe o nome de historiografia. Existe, portanto, uma historiografia da história do – 21 – Um panorama da história atual Brasil colônia, uma historiografia sobre a sexualidade, uma historiografia sobre a tortura no regime militar. Uma historiografia sobre a fotografia em São Paulo do início do século XX. Qualquer estudo histórico deve ser feito a partir do debate com a his- toriografia existente. Não significa que uma nova pesquisa deva necessaria- mente concordar com o que já foi escrito. Na verdade, discordâncias são comuns, e bastante importantes para o desenvolvimento do conhecimento. Mas, concordando ou discordando, um texto histórico deverá sempre debater com a historiografia. Isso é importante para a manutenção do rigor no conhe- cimento histórico, pois, pela própria característica dinâmica da história, a historiografia está sempre sendo revista, debatida, discutida. 1.2.6 A história é feita em diálogo com outros historiadores Parte desse diálogo ocorre nos debates que um texto histórico deve man- ter com a historiografia, como vimos. Porém, há outras maneiras importantes pelas quais esse diálogo ocorre. Um texto histórico deve seguir as regras institucionais acadêmicas: isso significa que deve indicar claramente quais documentos históricos foram empregados (as fontes), qual a bibliografia consultada e os referenciais teóri- cos utilizados. Além disso, os textos históricos serão analisados pelos chama- dos “pares”: pesquisadores que avaliam os textos a partir do conhecimento histórico atual. Os primeiros “pareceristas” dos alunos em um curso de histó- ria serão sempre seus professores. Posteriormente, os acadêmicos poderão ter suas monografias avaliadas por uma banca, um artigo analisado por editores, ou um livro revisado por um conselho editorial. É o que aconteceu com este livro que está diante de você. Antes de ser publicado, passou pela avaliação de pareceristas. Trechos considerados con- troversos foram indicados pelos pares, erros foram corrigidos, complementa- ções sugeridas. Ninguém tem a palavra final em história. Não existe “foi assim e acabou”. A construção do conhecimento histórico só acontece a partir do diálogo com a historiografia, com outros historiadores e demais cientistas humanos e sociais. E está sempre sujeita a aperfeiçoamentos. A história é dinâmica porque é também dialógica. Introdução ao Estudo da História – 22 – 1.3 A história da história Pintada por Pedro Américo e finalizada em 1888, a imagem Independên- cia ou Morte representa um dos eventos mais conhecidos da história do Brasil. Observe-a com atenção: Figura 3 – “Pedro Américo de Figueiredo e Melo. Independência ou Morte! O grito do Ipiranga. 1888. Fonte: Museu Paulista, São Paulo - SP. Óleo sobre tela. 415x760 cm. Trata-se de uma idealização do chamado “Grito do Ipiranga”, quando em 7 de setembro de 1822, D. Pedro teria levantado sua espada e bradado “inde- pendência ou morte”, marcando assim, o rompimento com Portugal e o início da independência política do Brasil. É interessante observar como esse quadro possui uma concepção de história comum para o século XIX (e que encontra ressonância até os dias de hoje). (1) D. Pedro está no centro da imagem (é o personagem mais ao alto) e é para sua direção que todos os demais estão voltados. Trata-se de uma interpreta- ção visual de certa concepção de his- tória do período: os eventos históricos importantes são os políticos (trata-se da representação da proclamação da inde- pendência política do Brasil), e as pessoas que efetivamente “fazem” a Figura 4 - Uma visão da história. “Fragmento da obra Independência ou Morte! Pedro Américo” 4 2 1 3 – 23 – Um panorama da história atual história são os grandes líderes, governantes ou generais. No caso, D. Pedro, que seria responsável por guiar o Brasil em certa direção histórica. (2) e (3) O contexto importa pouco, pois são as ações individuais des- tes grandes líderes que criam os eventos históricos. Os membros da elite política do Brasil, representados em trajes civis (em 2) e o exército (em 3) saúdam a atitude de D. Pedro: são afetados por ela, mas não a produzem. (4) À margem da pintura está representado um trabalhador rural, que apenas observa a ação. Este trabalhador representa a população comum, que estaria à margem da história, da mesma forma que está à margem da pintura. As pessoas comuns não participariam da história, mas seriam simplesmente afetadas pelas decisões dos grandes homens. Esta forma de compreender a história está relacionada a uma determinada escola histórica, denominada metódica ou positivista, surgida na França do século XIX, como uma tentativa de tornar os estudos históricos científicos e objetivos. Além de se centrar no Estado e na ação dos grandes homens, como bem repre- senta a pintura de Pedro Américo, tinha uma concepção bastante estreita de fonte histórica (seriam documentos apenas aqueles que fossem oficiais e escritos), acre- ditava que os fatos históricos estavam dados e via as ações individuais como causas da história, minimizando ou desprezando análises contextuais. Saiba mais A escola metódica da história foi inspirada nos trabalhos do chamado historicismo alemão de Leopold Von Ranke (1795-1880). Frustrado ao descobrir que uma de suas novelas preferidas, Quentin Durward, do escritor escocês Walter Scott (1771-1832), não era historicamente precisa, Ranke dedicou-se a construir um método que trouxesse a cientificidade aos estudos históricos. Para Ranke, a história deveria ser baseada em fatos, obtidos em documentos históricos oficiais, que seriam organizados em uma cronologia. Para ser uma história efeti- vamente objetiva, as opiniões dos historiadores não deveriam estar presentes no texto, mas apenas a objetividade fria dos fatos. Ranke acreditava na separação entre o sujeito que conhece (o historiador) e seu objeto (o passado). Introdução ao Estudo da História – 24 – Este modelo de pensar a história foi muito influente. Em primeiro lugar, foi a partir desta concepção que surgiu, efetivamente, a profissão de historiador, e a história foi institucionalizada com a criação de institutos de pesquisa histó- rica (como o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, fundado em 1838) e cursos superiores de história. Além disso, a escola metódica preocupou-se em construir as narrativas do surgimento dos Estados nacionais, exercendo pro- funda influência no ensino, especialmente na escrita de livros didáticos (no item “Da teoria à prática”, a seguir, você estudará um pouco mais sobre isso). Em uma tal concepção de história, estudos como o realizado porNor- bert Elias, sobre as boas maneiras, não teria espaço. Não seriam considerados história ou, no máximo, seriam vistos como mera curiosidade. E, da mesma forma, fotografias que estudamos, como a de São Paulo, em 1910, não seriam consideradas fontes histórias – afinal, não são fontes escritas. A ampliação do conceito de história se inicia nas primeiras décadas do século XX, como uma reação às concepções estreitas da escola metódica. Histo- riadores britânicos, como Lewis Namier (1888-1960) e R. H. Tawney (1880- 1962), e franceses da chamada Escola dos Annales (veja quadro a seguir), como Marc Bloch e Lucien Febvre (1878-1956), iniciaram um processo de contesta- ção ao modelo metódico da história. Para estes historiadores – e outros tantos que os seguiram – a história não deveria se restringir apenas à política, mas deveria abordar todos os aspectos da vida humana; nem considerar como fon- tes apenas as oficiais e escritas, mas todos os vestígios que indicassem a ação humana – “o bom historiador se parece com o ogro da lenda. Onde fareja carne humana, sabe que ali está sua caça”, afirmou Marc Bloch (2001, p. 54). Figura 5 - Livro didático de história de 1968. Fonte: HERMIDA, B. Compêndio de história do Brasil. São Paulo: Editora Nacional, 1968. p. 188-9. – 25 – Um panorama da história atual Essa imagem de um livro didático de história impresso em 1968 apre- senta uma versão da proclamação da independência muito próxima àquela de Pedro Américo: a pintura inclusive é utilizada, sem qualquer menção ao fato de ser uma representação idealizada do evento. O texto que acompanha a imagem, não problematiza o evento: foi D. Pedro que, “indignado com as decisões de Portugal”, declarou a independência, sendo, posteriormente, “recebido com grandes festas” em São Paulo. Os alunos de história dos anos 1960 ainda aprendiam que pessoas, individualmente, mudavam os aconteci- mentos. E se compararmos com um livro publicado cerca de 30 anos depois, nos anos 1990? Figura 6 - Livro didático de 1999. Fonte: PILETTI, N. História e vida, vol. 1. São Paulo: Ática, 1999. p. 140. Em finais dos anos 1990, o modelo idealizado de história estava prati- camente superado. O mesmo episódio aparece socialmente contextualizado, pois são destacados, por exemplo, a situação econômica do país, a importância política dos proprietários de terras, e a influência econômica inglesa. O quadro de Pedro Américo é novamente utilizado, porém, deixa de ser uma ilustração e passa a ser problematizado: aparece indicado que é uma pintura posterior ao evento, e que não se tratava de uma reprodução fiel do que havia ocorrido. O que esta comparação procura mostrar é que a história tem, portanto, também sua própria história. O grego Heródoto, que escrevia no século V a.C., é usualmente considerado o “pai da história”, mas mesmo se conside- rando “objetivo”, isso não o impedia de acreditar em todas as narrativas que ouvia – como pessoas montando golfinhos e viajando pelos mares. Muitas foram as formas diferentes, ao longo do tempo, de se pensar e escrever a his- tória. Durante o período medieval, ela foi utilizada por pensadores ligados à Igreja para construir uma justificativa da religião cristã, e por escritores laicos, como exercício de retórica, visando à diversão: quando Richer, um monge do Introdução ao Estudo da História – 26 – século X, que viveu na região de Reims (onde hoje é a França), escreveu sua história da Gália, descreveu os reis locais como se fossem imperadores roma- nos, vestindo togas. Isso porque, para ele – como para tantos outros historia- dores do período –, mais importante que a verdade dos fatos, era a qualidade do estilo, que visava entreter seus leitores. Para os Renascentistas, a história foi utilizada para legitimar a recupe- ração do pensamento da Antiguidade Clássica, e durante o século XVIII, associou-se à filosofia, sob inspiração iluminista. A necessidade do estudo de fontes e diferentes temporalidades; a ampli- tude de temas históricos e sua abrangência; a compreensão de que eventos têm complexas explicações causais; a introdução de temas e personagens antes desprezados pela historiografia metódica; a específica leitura e escrita de tex- tos históricos; o papel da memória – enfim, revelam o amplo conjunto de elementos que caracterizam os estudos históricos nos dias de hoje, e que são também, resultados de processo histórico. A Escola dos Annales e a Nova História Fundada em 1929, pelos franceses Marc Bloch e Lucien Febvre, a revista Annales d’histoire économique et sociale marcou o início de uma nova concepção historiográfica na França. Contrapondo-se à concepção restrita de história defendida pela escola metódica, os historiadores ligados à escola de Annales defendiam uma ampliação nos temas de estudo, uma maior atenção aos contextos, além de aproxi- mação com ciências como economia e psicologia, na busca por construir melhores explicações históricas. Para isso, era necessário expandir o conceito de fonte histórica, que até aquele momento estava restrito aos documentos oficiais escritos. Buscaram, além disso, ampliar a noção de tempo histórico. Enquanto os metódicos pensavam a história ape- nas ao nível do fato, historiadores como Fernand Braudel (1902-1985), analisavam eventos históricos considerando – 27 – Um panorama da história atual as influências exercidas por eventos que ocorriam em lon- gas, médias e curtas durações (iremos dis- cutir mais sobre isso no capítulo 6). Uma expansão ainda maior nos estudos históricos ocorre com a chamada Nova História, herdeira dos Annales. A partir dos anos 1970, historiado- res como Jacques Le Goff (1924-2014) e Pierre Nora (nascido em 1931), defenderam a inclusão de novos objetos, abordagens e problemas para a história. Caracterizada pela interdisciplinari- dade, na Nova Histó- ria, os temas históricos passaram a ser analisa- dos em diálogos com a antropologia, sociologia, geografia, além de outras ciên- cias humanas e sociais. Da teoria para a prática As diferentes concepções de história podem ser notadas também, em materiais educacionais. Os primeiros livros didáticos sobre a história do Brasil surgem no final do século XIX, produzidos por autores do Instituto Histó- rico e Geográfico Brasileiro, para o colégio Pedro II, do Rio de Janeiro. Leia Figura 6 - Trecho do livro Lições de História do Brasil, de Joaquim Manuel de Macedo. Adaptado. Introdução ao Estudo da História – 28 – o trecho de um desses livros, Lições de história do Brasil, escrito por Joaquim Manuel de Macedo e publicado originalmente em 1863. Inicialmente, faça uma associação e procure relacionar quais elementos presentes neste texto concordam com a pintura de Pedro Américo. A seguir, realize uma análise desta descrição, procurando descobrir de que maneira esta versão está de acordo com a chamada concepção metódica de história. Pro- cure identificar de que maneira as concepções daquela escola histórica podem ser encontradas neste material didático. Por fim, procure recuperar um livro de história – seja do ensino funda- mental ou médio – que você mesmo utilizou quando estudante. Analise, neste livro, o capítulo que trata do processo de independência do Brasil, procurando responder às seguintes questões: o livro que você estudou ainda apresenta alguns elementos que podem ser associados a concepções tradicionais – ou seja, metódicas – de história? Que diferenças você pode notar entre o livro que você estudou e este de 1863? Você pode afirmar que o livro estudado por você está mais adequado às concepções atuais dos estudos históricos? Por quê? Síntese Na atualidade, os estudos históricos apresentam uma grande abrangên- cia em relação a temas, fontes de pesquisa, abordagens teóricas e diálogos com outras disciplinas.Essencialmente, todas as atividades humanas podem ser objeto de interrogações e pesquisas históricas. Esta caraterística da história dos dias de hoje é também resultado de uma história, ou seja, de um processo de desenvolvimento próprio, que influencia não apenas a história acadêmica, mas também, os livros didáticos. Atividades 1. Leia o trecho a seguir, que trata de uma característica da disciplina história na atualidade: sua fragmentação em uma grande quanti- dade de campos especializados. A história nacional, dominante no século dezenove, atualmente tem de competir com a história mundial e a história regional (...) para conseguir atenção. Há muitos campos novos, frequentemente – 29 – Um panorama da história atual patrocinados por publicações especializadas. A história social, por exemplo, tornou-se independente da história econômica apenas para se fragmentar, como alguma nova nação, em demografia his- tórica, história do trabalho, história urbana, história rural e assim por diante. (...) A história do gerenciamento é um interesse recente (...) a história da publicidade abarca a história econômica e a da comunicação (...) e ainda, um empreendimento jovem e ambicioso: a história do meio ambiente, às vezes conhecida como eco-história (BURKE, 1992, p. 8). Cada um desses campos históricos possui sua própria historiogra- fia, isto é, seu próprio conjunto significativo de obras em história. A respeito da importância da historiografia para os estudos históri- cos é correto dizer: a) Contribui para a formação de um conhecimento histórico sólido, pois é resultado de discussões de historiadores a partir de fontes e temas em comum. b) Fragmenta o conhecimento histórico em um sem número de temas diferentes, enfraquecendo a objetividade e debilitando a ciência. c) Transforma a história em uma arte, pois contribui para que estéti- cas e estilos diferentes de escrita possam ser representados. d) É fundamental para a superação da escola dos Annales, que era baseada em estudos de fontes primárias, mas desconsiderava as fon- tes secundárias. e) Passou a ser considerada irrelevante com a mudança dos estudos históricos, por conta das novas abordagens, temas e métodos ado- tados a partir do século XX. 2. A Carta de Pero Vaz de Caminha é um dos documentos históricos mais famosos do Brasil. Relata as primeiras impressões dos portu- gueses ao chegarem à “Terra de Vera Cruz”, como denominaram, em 1500, e os contatos iniciais com a população local. Conside- rando-se a importância da carta de Caminha enquanto um docu- mento histórico, assinale a alternativa correta: a) Não pode ser utilizada para a história religiosa, afinal, não foi pro- duzida por um membro da Igreja Católica, nem por alguém agindo sob suas ordens. Introdução ao Estudo da História – 30 – b) Por ser muito conhecida e popular, não pode mais ser utilizada enquanto documento histórico, pois não há mais qualquer novi- dade que possa ser extraída de seu conteúdo. c) Pode ser utilizada por um grande número de pesquisas diferentes, pois sua utilidade enquanto documento histórico depende das per- guntas formuladas pelos historiadores. d) Pode ser útil enquanto documento histórico apenas para o estudo das navegações portuguesas, afinal, foi sob esse contexto que o texto foi escrito. e) Como não é possível obter sua datação exata, e como não há outras fontes que corroborem suas informações, a carta não é mais utili- zada enquanto documento histórico. 3. No início do século XIX, o artista francês Jean Debret produziu a seguinte imagem que representava o que ficou conhecido como o “Dia do Fico” na história do Brasil: o momento em que D. Pedro, em 8 de janeiro de 1822, negou-se a cumprir as ordens das Cortes Portuguesas para o retorno a Portugal. Figura 1 - O Dia do Fico. Fonte: DEBRET, Jean Baptiste. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, 1978. – 31 – Um panorama da história atual Analisando-se a imagem em que aparece D. Pedro sendo saudado pela população após anunciar sua decisão, e considerando-se a con- cepção de “história” que está implícita, é correto afirmar: a) Salienta como o poder econômico é o que, realmente, faz a história evoluir, sendo a política uma de suas consequências. b) Explicita como o Brasil não possuía uma história até o século XIX, quando começaram a ser escritas as primeiras narrativas nacionais. c) Retrata a concepção de que os chamados “grandes homens” faziam a história, e que a população seria mera espectadora. d) Comprova que os estudos históricos são resultantes de questões lançadas por historiadores a suas fontes primárias. e) Demonstra a noção de que quem faz a história, realmente, é a população, e não seus líderes, como reis ou presidentes. 4. O professor francês de filosofia e sociologia Pierre Ansart publicou no Brasil, em 2001, um artigo que tinha como título “História e memória dos ressentimentos”. É correto afirmar que sentimentos e sensações como ressentimento, desejo, aversão, medo, alegria e tristeza, dentre outros: a) São temas da psicologia e, portanto, não são estudados pela história. b) Podem ser temas históricos, desde que associados à política ou economia. c) Resultam de meras funções biológicas e, sendo imutáveis, não são históricos. d) São curiosidades históricas, mas não são estudados nas universidades. e) São influenciados pela cultura e pela sociedade e, portanto, são temas históricos. As fontes históricas Todo conhecimento histórico é produzido a partir dos vestígios deixados pelo passado - os documentos históricos. Nesse capítulo serão discutidos o conceito atual de documento histórico, sua importância para a produção de estudos históricos, bem como aspectos essenciais da metodologia de trabalho metodológico com as chamadas fontes primárias. 2 Introdução ao Estudo da História – 34 – 2.1 O que são as fontes históricas Em 2000, na Inglaterra, o escritor britânico David Irving processou a historiadora estadunidense Deborah Lipstadt (nascida em 1947) por difamá- -lo. O que Lipstadt teria feito para receber tal acusação? Em 1993, a histo- riadora publicou o livro Negando o Holocausto: o crescente assalto à verdade e à memória, em que denunciava o fato de que na Europa e nos Estados Unidos, determinados autores (historiadores, inclusive), estavam distorcendo a histó- ria e negando que houvesse existido o processo de extermínio em massa dos judeus (além de outros grupos e povos), durante a Segunda Guerra Mundial, perpetrado pelos nazistas. Para Lipstadt, esses autores eram motivados por sentimentos antissemitas, ignoravam os fatos históricos e afirmavam que as câmaras de gás, os campos de extermínio e o Holocausto jamais teriam exis- tido. David Irving, afirmava Lipstadt, seria um desses autores “negacionistas”. E, de fato, David Irving negava a existência do Holocausto. Para ele, não existiriam evidências de execuções em massa, genocídio ou cremação de cor- pos. Segundo Irving, Hitler jamais tivera conhecimento da chamada Solução Final e as câmaras de gás seriam, segundo suas palavras, um “exercício de pro- paganda” (LIPSTADT, 1993, p. 16). Ao processar Lipstadt, Irving afirmava que não poderia ser considerado um falsificador da história, pois o Holo- causto não havia ocorrido. Ou seja, seria ele quem estava ao lado da verdade histórica. Dessa forma, concluiu Irving, Lipstadt o difamara. Diferentemente do que ocorre no Brasil para casos como esse, o sistema jurídico britânico coloca o ônus da prova na pessoa processada, no caso, a historiadora Deborah Lipstadt. Portanto, cabia a ela provar no tribunal que o Holocausto havia ocorrido, que o extermínio em massa de seres humanos fez parte do projeto de Solução Final nazista e que David Irving distorcia even- tos e documentos,com o objetivo de negar esse acontecimento. Em outras palavras, a objetividade histórica e a própria história estavam em julgamento. Todo processo durou três meses, nos quais advogados de ambos os lados apresentaram suas versões – no caso, se o Holocausto teria ocorrido ou não e se Irving distorcia os fatos históricos. Se em qualquer julgamento a utilização de testemunhas e evidências é comum, nesse caso ocorreu a intro- missão do método histórico, por parte de Deborah Lipstadt e seus defenso- – 35 – As fontes históricas res: as testemunhas foram historiadores especialistas no estudo da Segunda Guerra Mundial e dos campos de extermínio – no jargão histórico, seriam as fontes secundárias; e as evidências trazidas à corte foram os diferentes tipos de documentos históricos que comprovavam as afirmações, ou seja, as fontes primárias. Denominam-se fontes secundárias aquelas produzidas a uma determi- nada distância temporal do evento relatado, que pode variar de alguns anos a vários séculos. Portanto, não são contemporâneas ao fato histórico que se estuda, embora estejam relacionadas a ele. Se estivéssemos estudando a com- posição das famílias na Roma Antiga, por exemplo, o trabalho de um geó- grafo da atualidade sobre a pirâmide etária dos romanos à época de César seria uma relevante fonte secundária. No cotidiano do trabalho em histó- ria, as fontes secundárias tendem a ser, principalmente, análises realizadas por pesquisadores das mais diversas áreas do conhecimento, sendo as mais comuns os trabalhos de outros historiadores – isto é, a historiografia. No caso do processo Irving vs. Lipstadt, foram importantes fontes secundárias a opinião de historiadores especialistas, como o britânico Richard J. Evans, e o estadunidense Christopher Browning, convocados como testemunhas de defesa. Como em todos os trabalhos históricos, a demonstração da realidade do Holocausto passou, também nesse julgamento, pelo debate com o conhe- cimento histórico já existente. Teremos a oportunidade, nesse livro, de debater vários aspectos das fontes secundárias: a pesquisa bibliográfica, a leitura de livros de história, a produção escrita de análises, dentre outros temas. Nesse capítulo, porém, centraremos nossa atenção no principal elemento de evidência e sustentação do conhecimento histórico: as fontes primárias. São fontes primárias todos os documentos históricos produzidos à época do evento, ou eventos, que se estuda. São, em certo sentido, informações de “primeira mão”. E, mais do que isso, são evidências: e, aqui, o termo é utilizado de forma muito semelhante, tanto no trabalho de historiadoras e historiadores, quanto nos tribunais. É a partir das fontes desses documentos históricos que se fundamenta a análise dos eventos e que se responde às ques- tões históricas (embora – e isso é muito importante – não devam ser tomadas acriticamente, como veremos a seguir). Introdução ao Estudo da História – 36 – Saiba mais A distinção entre uma fonte secundária e uma fonte primária pode ser tênue. Se estivermos estudando qual a ideia dos pri- meiros colonizadores portugueses sobre a paisagem natural do Brasil, utilizaremos a obra Visão do Paraíso, de Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), como importante fonte secundária. Porém, se fizermos um estudo sobre os historiadores brasileiros da chamada “geração de 30” (Sérgio Buarque era um deles), a mesma obra será entendida enquanto uma fonte primária. Como demonstrar a existência do Holocausto? Da mesma forma como ocorre na pesquisa histórica, Lipstadt apresentou, no tribunal, uma grande quantidade de evidências – de fontes primárias – para sustentar sua argumen- tação: documentos oficiais de militares soviéticos que estiveram entre os primei- ros a liberarem os campos de extermínio na Polônia; vestígios materiais, como os restos dos crematórios de Auschwitz; testemunhas oculares, tanto de oficiais, quanto de prisioneiros que trabalharam em campos de extermínio; fotografias tomadas por aviões aliados que sobrevo- aram Auschwitz durante a guerra; outros documentos imagéticos, como plantas baixas das câmaras de gás e pinturas como as de David Olère. De todo esse debate, ficam algumas conclusões. A primeira é a de que, como demonstra o parágrafo acima, o conceito de fonte primária é vasto: abrange de testemunhos orais a documentos escritos; de vestígios materiais, a imagens, como fotografias ou pinturas; os produzidos por instituições como o exército, ou por indivíduos, como Olère. E outros tantos não citados aqui Figura 1 - Auto-retrato de David Olère. No campo de Auschwitz. F on te : © T he S ta te o f D av id O lè re /M em or ia l an d M us eu m A us ch w it z - B ir ke na u – 37 – As fontes históricas como esculturas e monumentos, pôsteres e partituras musicais, máquinas ou mobiliários. Alguns tão duradouros quanto uma tumba e outros efêmeros como um convite de aniversário. Tão públicos quanto vestimentas ou tão íntimos quanto objetos de higiene pessoal. Enfim: são documentos histó- ricos, fontes primárias, todos os vestígios que, de alguma forma, auxiliam à compreensão das ações humanas. Segunda conclusão: assim como Lipstadt se utilizou de uma ampla gama de fontes primárias diferentes para construir seu argumento, em geral, as res- postas às questões históricas são obtidas a partir da consulta a documentos diferentes. Dificilmente um problema é resolvido apelando-se apenas a um tipo exclusivo de documento. Perguntamos no primeiro capítulo “qual a ves- timenta da população pobre em São Paulo, em 1910? ”. A foto do mercado certamente seria uma fonte primária, que poderia ser complementada por descrições existentes em romances da época, por propagandas de lojas de roupas em jornais, pela análise de modelos em museus. Obviamente, tudo dependerá, também, da quantidade de fontes primárias disponíveis, pois há muito menos documentos para entender o Egito do século XI a.C. do que o Brasil do século XX, por exemplo. De toda forma, para um evento altamente complexo, como o Holocausto, a abrangência e a profundidade da análise só serão obtidas pela amplitude das fontes primárias utilizadas. Por fim, ainda que todos nós sejamos parciais de alguma maneira, a distorção do sentido das fontes, como a realizada por negacionistas do Holo- causto, como David Irving, não é história. Essa foi a conclusão, também, do juiz ao decidir em favor de Lipstadt: É minha conclusão que nenhum historiador, objetivo e razoável, poderia com seriedade duvidar de que existiram câmaras de gás em Auschwitz e que eram operadas em uma escala substancial para matar centenas de milhares de judeus. “As proposições de Irving são contrárias às evidências”, finalizou o juiz. Afinal, é base do conhecimento histórico que historiadoras e historiadores tenham suas proposições adequadas às evidências. Ao saber da decisão, Debo- rah Lipstadt afirmou que “a maneira de lutar contra os negacionistas do Holo- causto é com a história e com a verdade”. Se a ocorrência do Holocausto e a objetividade histórica estavam em julgamento, foi o método histórico, fun- dado no primado da fonte, que determinou o resultado favorável a Lipstadt. Introdução ao Estudo da História – 38 – 2.1.1 O conceito de fonte como consequência de uma ideia de história A quantidade de documentos existente, se não de todos os documen- tos conhecidos, está dada; o tempo, a despeito de todas as precauções que são tomadas atualmente, os está diminuindo continuamente; nunca irá crescer. A História tem à sua disposição um estoque limi- tado de documentos; essa circunstância limita o possível progresso da ciência histórica. Quando todos os documentos forem conheci- dos (...) o trabalho de estudos críticos terá terminado(LANGLOIS; SEIGNOBOS, 1912, p. 316). A disciplina histórica teria, então, um prazo para acabar? É o que afirma esse trecho extraído do livro francês de 1898, Introdução aos estudos históricos, de Charles Langlois (1863-1929) e Charles Seignobos (1854-1942). Escrito em um contexto de profissionalização da história, tornou-se muito popu- lar na França e bastante influente também no Brasil. Nessa obra, Langlois e Seignobos expõem o que acreditavam ser o adequado método de construir o conhecimento histórico científico; de onde o nome de “metódica”, atribuído à escola histórica que ajudaram a difundir. Nesse trecho, os autores deixam clara a sua concepção de documento histórico e também, de história. Para eles, haveria um limitado estoque de documentos e, sendo assim, trabalhando-se arduamente, seria possível um dia finalizar todo o estudo da história. Lidas todas as fontes, extraídos todos os fatos, nada mais restaria aos historiadores senão trancar os armários e ir para casa. Algo que, aliás, estaria prestes a acontecer em relação ao estudo da antiguidade “para os quais os documentos são raros, [e] nós agora podemos ver que em uma geração ou duas será hora de parar” (LANGLOIS; SEIG- NOBOS, 1912, p. 316). No entanto, a previsão de Langlois e Seignobos não se concretizou. Já se passaram mais de duas gerações desde a publicação de seu livro, e a história não apenas continua sendo produzida, como está sendo ampliada – inclusive para os estudos da antiguidade, um campo histórico em franco crescimento. É claro que, nas últimas décadas, vários documentos foram descobertos, o que é sempre motivo de celebração para historiadoras e historiadores. Porém, não é por essa razão que a história “não acabou”, e nem existe qualquer pre- visão para isso. É porque, desde o auge da chamada concepção tradicional de história, própria dos metódicos, muito mudou em relação ao conceito – 39 – As fontes históricas de fonte histórica, a ideia do que seria fato histórico, quais seriam os temas próprios da história, bem como sua relação com o presente. Haveria um limite do que poderia ser conhecido da história, porque era limitada, também, a ideia metódica de fonte primária: fundamentalmente, os documentos escritos que apresentassem alguma informação sobre a his- tória do Estado-Nação. E por que, por sua vez, os metódicos possuíam uma visão tão restrita de documento histórico? Porque para essa escola, “história” era sinônimo de narrativa dos eventos políticos, lideradas pelos chamados “grandes homens” que levaram à consolidação dos Estados nacionais. É nesse sentido que o historiador inglês John Seeley (1834-1895) afirmou que se “a história é a política no passado, a política é a história presente”. Estaria ali, na política, a síntese do que os metódicos consideravam como “fato histórico”. O Fato Histórico Para os metódicos, o fato histórico era um dado pronto, que poderia ser capturado de forma bruta dos documentos. Da mesma forma que o entomólogo coleciona insetos, o histo- riador colecionaria fatos: diante de uma fonte primária (muito provavelmente escrita) listaria os dados mais ou menos impor- tantes (muito provavelmente os políticos) que encontraria nos textos do passado. Historiadores, a partir do início do século XX passaram a con- testar essa concepção de fato histórico. Lucien Febvre, um dos expoentes da escola dos Annales, argumentava, por exemplo, que os fatos não existiam em si, mas eram resultado das ques- tões lançadas pelos historiadores. Um expediente, aliás, com- partilhado por outras ciências. Teríamos enfim surpreendido os nossos irmãos mais velhos, os historiadores [metódicos], dizendo-lhes que um histologista, na verdade, fabrica inicialmente, com grande esforço de técnicas delicadas de colo- rantes sutis, o próprio objeto de suas pesquisas e de suas hipóteses (FEBVRE, 1978, p. 105). Introdução ao Estudo da História – 40 – Portanto, assim como um histologista trabalha a realidade para construir seu objeto de estudo, também o faria o historiador. Atualmente se acredita que os fatos históricos não existam por si mesmos, mas sejam o resultado do interesse de historiadoras e historiadores. Mas, como um historiador “criaria” um fato his- tórico? Através das indagações que leva às fontes históricas. Retornemos à nossa velha conhecida foto de 1910, do mer- cado em São Paulo. Se nossa pesquisa estiver relacionada às vestimentas, direcionaremos nossa investigação, e poderemos dizer ser um fato histórico o disseminado uso de chapéus pela população masculina. Esse vai ser nosso “fato histórico”. Diferentes pesquisas chegarão a diferentes fatos, ainda que analisem os mesmos documentos: um historiador da urbani- zação ignorará obviamente os chapéus, e verá nas grandes construções, na qualidade do calçamento, e nos fios elétricos, fatos históricos que revelam certo desenvolvimento da cidade. Em 19 de janeiro de 1914, o jornal A República, de Curi- tiba, anunciou que Maria Ritta de Lima perdeu sua cader- neta da Caixa Econômica, de número 7229. Esse é um fato do passado, e imutável. Mas não é um fato histórico: só se transformará em tal se for utilizado para responder alguma questão propriamente histórica. O fato histórico será, portanto, todo evento, passível de ser identificado em fontes primárias, e que responde a uma determinada questão histórica. Por serem infinitas as questões lançadas aos documentos, serão também ilimitados os fatos históricos. Desaparece, assim, a limitação que os metódicos acreditavam existir. A forma como se entende a história direciona, portanto, a maneira como as fontes primárias serão compreendidas – algo que pode ser identificado em diferentes épocas e contextos. Se a ideia de verdade não era importante para – 41 – As fontes históricas historiadores medievais, por exemplo, segue-se que não existia preocupação com a construção de textos fundamentados em documentos históricos. Ou, como aconteceu durante o período da Reforma protestante do século XVI, a história foi utilizada pela Igreja para construir narrativas que procuravam afir- mar a superioridade da fé católica. Sob essa perspectiva, as únicas fontes con- sideradas adequadas seriam apenas aquelas que confirmavam esse discurso. O que se entende atualmente por fontes primárias, sua seleção e uso, bem como sua importância na fundamentação dos argumentos (entramos aqui, portanto, também no terreno da verdade histórica) relacionam-se a todo um contexto de mudança do conceito de história, especialmente a par- tir das primeiras décadas do século XX. O modelo metódico de compreen- são histórica, voltado à descrição das ações de governantes e países, gerava insatisfação naqueles que entendiam as ações humanas como resultantes de complexas influências estruturais, e não simples consequências da moti- vação individual de um punhado de líderes. Já no século XIX, sociólogos como François Simiand (1873-1935) criticavam essa concepção histórica, e nos Estados Unidos o historiador Frederick Jackson Turner (1861-1932) afirmava que “todas as esferas da atividade humana devem ser consideradas” (BURKE, 1992, p. 15). Na França, Marc Bloch e Lucien Febvre, que inicia- ram o movimento dos Annales, desejavam desenvolver uma “história total”, ou seja, uma análise que compreendesse todos os aspectos das vidas humanas. E os princípios metódicos eram insuficientes para isso. A ampliação da noção de história resultou em uma extensão do conceito de documento. Se Deborah Lipstadt foi capaz de se utilizar de uma ampla gama de fontes primárias para demonstrar a existência do Holocausto, foi porque partiu da concepção primeira de que as decisões não eram tomadas apenas por Adolf Hitler, ou qualquer outro político nazista: mas só poderia ser entendido se o episódio fosse inserido em um complexo contexto social,cultural, político, evidenciado pelo também complexo conjunto de fontes. Saiba mais As escolas históricas não se sucedem de maneira linear e sim- ples. Determinados elementos da escola metódica ainda exis- tiam nas faculdades de história do Brasil até os anos 1960, e Introdução ao Estudo da História – 42 – de certa forma conti nuam influenciando materiais didáticos. A historiografia dos Annales, por sua vez, passou a influenciar os estudos históricos no Brasil apenas a partir dos anos 1980, época em que as faculdades eram dominadas pelas análises marxistas (ainda hoje, aliás, muito influentes). E deve-se lem- brar, inclusive, que mesmo os metódicos, em seu auge, não conviviam sem críticas, ou concepções paralelas de história. O suíço Jacob Burckhardt (1818-1897), por exemplo, publicou em 1860, sua importante obra A civilização da Renascença na Itália, ligada à história cultural, e que nada se assemelhava aos princípios defendidos pelos expoentes da escola metódica. 2.2 Analisando as fontes históricas As duas imagens a seguir foram produzidas nas últimas décadas do século XVIII e representam a mesma pessoa, o rei Luís XVI da França. Compare-as com atenção. Figura 2 - Luís XVI em trajes reais, de 1779. Luís XVI como animal, de 1791. Fontes: Bibliothèque Nationale de France Qual mensagem cada uma das imagens procurava transmitir sobre Luís XVI? Comparando-se as representações, você acredita que foram produzidas pelas mesmas pessoas? Seus autores compartilhavam as mesmas opiniões sobre o rei? É evidente que as imagens apresentam visões opostas sobre Luís XVI. Mais do que isso, diferenciam-nas as intenções dos autores, o objetivo para o – 43 – As fontes históricas qual foram produzidas, seu contexto, bem como seus usos. Na primeira, Luís XVI é representado cercado por símbolos do poder em trajes reais, herdeiro de uma tradição de governantes absolutistas, sendo intenção de seu autor, o pintor Antoine-François Callet, transmitir a majestade de seu poder real. E, dado importante, foi concluída antes dos acontecimentos que tradicional- mente marcam o início da Revolução Francesa. A segunda imagem foi produzida apenas 12 anos depois, e seria impen- sável em 1779. Nela, não há qualquer majestade em Luís XVI: ele é repre- sentado tal qual um animal e, no texto sobre a imagem, é identificado como mentiroso e submisso à amante: “mordomo da Baronesa de Korf, seguiu sua amante na fuga”. Criada por um autor anônimo, a imagem possuía o claro objetivo de denegrir a imagem do rei, e foi produzida logo após Luís XVI ter sido capturado quando tentava fugir da França, em 1791. Qual destas duas imagens representa o Luís XVI “de verdade”, ou “como ele realmente era”? Nenhuma; ou, em certo sentido, ambas, pois são peças de um gigantesco mosaico que se pode construir para entender a monarquia no período, a mudança de sua imagem perante a população, a radicalização revo- lucionária. O certo é que, se qualquer uma das duas imagens for tomada isola- damente e de forma ingênua, corre-se o risco de aceitar a intenção do autor do documento como expressão da verdade. Lembre-se: os documentos históricos que nos chegam às mãos não foram produzidos por historiadores. Foram cria- dos por pessoas que tinham pressupostos e objetivos, possuíam certas crenças e agiam segundo determinadas condições, além de motivações específicas. Apesar de, na atualidade, não serem incomuns pesquisas apenas histo- riográficas, a grande maioria dos estudos históricos parte da análise das fontes primárias, que objetivam responder determinadas questões históricas. Imagens como essas, de Luís XVI, por exemplo, foram utilizadas em diferentes pes- quisas que buscavam compreender as conflitantes visões políticas a respeito da monarquia que conviviam sob os eventos da Revolução Francesa. Mas, para que pudessem ser adequadamente utilizadas enquanto fontes primárias, essas representações passaram por um necessário processo de contextualização e aná- lise, responsáveis por indicar os significados e os interesses ligados à sua criação. A utilização de uma fonte primária em um trabalho histórico exige sua con- textualização, interpretação de elementos fundamentais, localização temporal, e Introdução ao Estudo da História – 44 – identificação do autor (ou autores) em seu contexto. A seguir, serão apresentados os principais elementos que fazem parte desta análise prévia de uma fonte, e que par- ticipam do que se costuma denominar de fichamento de um documento histórico. 2.2.1 Data, local, autoria A compreensão de como duas representações de um mesmo per- sonagem, produzidas em períodos muitos próximos, carregam infor- mações tão diferentes, é possível por meio da contextualização, que nos informa sobre quem criou cada uma das imagens, quais foram seus objetivos, o que os motivava. Inde- pendente de quais sejam os objetivos da historiadora ou do historiador, a contextualização do documento é o primeiro passo para a sua análise. 2 Localização no tempo e no espaço: uma fonte his- tórica tem que estar, neces- sariamente, identificada corretamente em seu perí- odo e local de produção. Para um documento ofi- cial relativamente recente, como um registro geral para estrangeiros, é possí- vel identificar estas informações com precisão (Curitiba, 28 de abril de 1944). Há fontes, porém, para as quais não se pode realizar, de forma tão precisa, essa identificação, como ocorre muito comumente com documentos da Antiguidade. Nestes casos, procura-se trabalhar com décadas, ou séculos, nos quais teriam sido produzidos. 2 Identificação de autoria: Quem, em sua opinião, é o autor do regis- tro geral de Manoel Moreira da Silva? Tais documentos não possuem Figura 3 - Registro geral para estrangeiros de Manoel Moreira da Silva. Fonte: Acervo pessoal. – 45 – As fontes históricas como autor uma pessoa específica. Diferentemente do que ocorre com cartas, diários, pinturas, livros, em que a autoria pode muitas vezes ser personalizada, em documentos oficiais pode-se afirmar que um representante da instituição foi o autor do documento. Para a historiadora e o historiador, o importante é saber que o registo geral de Manoel Moreira da Silva foi produzido pelo governo brasileiro. A partir daí podem-se estabelecer análises e relações para uma com- preensão dos objetivos e da intenção do documento. Documentos anônimos, por sua vez, não invalidam o uso de um documento, embora restrinjam suas possibilidades de análise. Há ainda fontes primárias como filmes, ou programas de televisão, nos quais, apesar de um responsável geral ser indicado (o diretor, por exemplo), o produto final é coletivamente construído por roteiristas, fotógrafos, maquia- dores, figurinistas, dentre outros profissionais. 2.2.2 Condições para a criação de um documento Sempre haverá limites e condições para que algo seja dito, pintado, fil- mado, construído. Tratam-se de regras, diretrizes, tradições, objetivos, que definem o que pode ou não ser expresso, e que, no caso das fontes primárias, direcionam a forma final que o documento irá tomar. 2 A liberdade na produção: a ação da censura, durante o regime dita- torial que vigorou no Brasil entre 1964 e 1985 é um exemplo de como escritores, compositores, dramaturgos viam sua liberdade de criação cerceada por conta de ações governamentais. Para compreender his- toricamente o resultado final de vários produtos culturais do período, faz-se necessário considerar as limitações impostas pela censura. Figura 4 – Trecho do relatório dos censores sobre a novela “O bem amado”, da Rede Globo, em 1973. Fonte: Grupo de estudos sobre a ditadura. Introdução ao Estudo da História – 46 – Ao se tomar a novela “O bem amado” como fonte histórica, por exem- plo, devem-se considerar as pressões exercidaspelo autor, o diretor, e mesmo a empresa como um todo – que temia perder os investimentos realizados em sua produção –, e como buscavam adequar suas criações às exigências da censura. A ação da censura é certamente um exemplo bastante explícito dos limi- tes impostos ao surgimento de determinado documento histórico. Porém, quando se trata das condições de liberdade na produção, devem ser consi- derados ainda fatores muito mais amplos e mais diversos: uma postagem no Facebook possui grande liberdade para sua produção, enquanto que um rela- tório técnico seguirá regras estritas; a participação em partidos políticos, ins- tituições religiosas, associações de classes irão limitar o que pode ou não pode ser escrito, filmado, dito. Presidiários são forçados a participar da produção de muitos dos documentos a respeito de si mesmos. E há inclusive questões técnicas a considerar: a forma como as pessoas aparecem representadas em foto- grafias, em diferentes períodos, associa-se ao tempo necessário de exposição para a captura da foto, ao tipo de tecnologia (analógica ou digital), e mesmo aos custos de sua reprodução. A tecnologia limita, de certa forma, o documento. 2 Relação com eventos imediatos do período: uma música popular tornou-se famosa na cidade do Rio de Janeiro, em 1904. Dizia a letra: “Bem no braço do Zé povo, chega um tipo e logo vai/ Enfiando aquele troço, a lanceta e tudo o mais/ Mas a lei manda que o povo e o coitado do freguês/ Vá gemendo na vacina ou então vá pro xadrez”. O signi- ficado da letra é dado pela contextualização com o evento imediato com que se relaciona: no caso, a controvérsia sobre a vacina obrigatória no Rio de Janeiro, naquele ano. Método semelhante que nos permite compreender como um rei como Luís XVI, de herança absolutista, pôde ser representado como um porco: inserir a imagem no contexto revolucionário da França do século XVIII. De uma forma geral, as fontes históricas associam-se aos contextos mais ou menos imediatos de sua produção, que podem ser econômicos, políticos, culturais, reli- giosos, sociais, ou – o que é bastante comum – múltiplos fatores simul- taneamente, e que participam dos motivos pelos quais determinada pessoa ou instituição produziram dado documento. 2 Os tipos de fontes: o historiador de arte austríaco Ernst Gom- brich (1909-2001) certa vez afirmou que uma pintura se assemelha – 47 – As fontes históricas mais a outra pintura do que a uma paisagem. Gombrich se referia à forma como pintores buscavam interpretar a realidade a partir de determinados esquemas dominados pelos artistas, e característicos de determinada época. Esse conceito pode ser expandido para outras fontes, e é parte importante do trabalho da historiadora e do historiador categorizar adequadamente o tipo de fonte que se utiliza. Da mesma forma que os quadros se parecem com outros quadros, também os romances se parecem com romances do mesmo período, uma determinada vestimenta com as utilizadas pelas pessoas da mesma época, uma fotografia com outras fotografias. Figura 5 - A Vênus de Agnolo Bronzino, do século XVI, inicia essa seleção de imagens que mostra a importância das tipologias, e de seus códigos específicos, na análise de fontes históricas. Um braço erguido salientando o colo, um leve giro do torso, as pernas dobradas destacando as formas: a semelhança das poses nas várias imagens não é coincidência. Trata-se da repetição de um determinado código de representação que passou a significar, no Ocidente, valores como feminilidade e sensualidade. Para compreender cada uma das imagens é necessário, portanto, primeiro conhecer as convenções em que foram produzidas para, só depois, estabelecer relações com a realidade representada. Um código que surge na pintura ocidental, passa pelas fotografias eróticas (aqui, uma imagem de 1910) e pelas ilustrações do tipo “pin-up” (da década de 1960), até alcançar as revistas masculinas (capa de Ele Ela de 1976). Fontes: BRONZINO, Agnolo. Venus, Cupid and Time (Allegory of Lust). 1540-45. Oil on wood, 147 x 117 cm. National Gallery, London. / Wikimedia Commons, NERET, 2005, e reprodução. Introdução ao Estudo da História – 48 – A historiadora e o historiador devem estar atentos ao fato de que cada tipo de documento possui suas próprias convenções: para se utilizar uma pro- dução cinematográfica como uma fonte primária, por exemplo, devem ser considerados os seus códigos próprios e sua linguagem interna, que estão associados a certo período: os filmes mudos das primeiras décadas do século XX possuíam diferentes esquemas de representação se comparados àqueles produzidos um século mais tarde. Por sua vez, uma caricatura não procura representar fielmente a realidade, mas exagerar determinadas características fisionômicas para gerar um efeito cômico. Ignorar essa convenção levará à total incompreensão das caricaturas. Em resumo, compreender o tipo de fonte com o qual se trabalha – uma revista, um jornal, um monumento, um utensílio doméstico – significa inseri-lo em determinada tradição, o que acabará por revelar dados sobre sua forma e conteúdo finais. Esse é um dos passos mais extensos em uma pes- quisa histórica, pois se deve conhecer a história daquele tipo de documento, a construção de suas características, sua influência social, tecnologias, saberes. A tipologia de determinado documento liga-se também ao uso de deter- minados meios ou materiais – uma fonte histórica sobre Tiradentes em forma de escultura terá diferentes significados que um poema presente em um livro didático –, bem como sua durabilidade. Não se esperava que marchinhas, como a da revolta da Vacina, tivessem uma existência duradoura; nesse sen- tido, são fontes efêmeras. Diferentemente de monumentos, ou projetos urba- nos, que objetivam a longa duração. 2 A posição social do autor: Dá-se o nome de falácia ad hominem à ação de desautorizar o argumento de uma pessoa a partir de ataques pessoais: “você é um banqueiro, portanto, como pode saber algo de economia popular? ”, ou “você é um sacerdote, o que pode dizer de verdade sobre o aborto? ”. Na análise de documentos históricos deve-se tomar o cuidado para não cometer essa falácia: acreditar que a posição social do autor ou autores de um documento deter- mina seus discursos, ou que os invalida, devido a seus interesses. Dito isso, a posição social de uma pessoa ou de um grupo deve ser tomada em consideração quando se analisam as fontes primárias. Pessoas de diferentes estratos sociais vivenciam de forma diferente a realidade e, por isso, constroem, durante suas vidas, diferentes – 49 – As fontes históricas experiências. E será a partir destas experiências específicas que irão fazer análises de seu mundo: por isso, elementos como gênero, etnia, idade, grupo social, participação política e profissão são dados importantes a serem considerados na análise de fontes primárias. Um exemplo pode ser encontrado na Revolução Francesa. Bus- cando compreender as exigências dos diferentes grupos da popula- ção em um momento de crise, o rei Luís XVI convocou os Estados Gerais em 1789. Antes do início dos trabalhos, o rei solicitou a seus representantes que escrevessem uma lista com suas queixas. Lendo-as, poderia entender como cada um dos grupos – a nobreza, o clero e o restante da população – discordavam. Observe, a par- tir da seleção a seguir, como os diferentes objetivos, necessidades e exigências só podem ser entendidas se forem associadas à posi- ção social de seus membros. Dizendo de outra forma, as diferentes experiências criaram expectativas diversas em relação à sociedade. Exigências do primeiro estado, o clero. Exigências do segundo estado, a nobreza. Exigências do terceiro estado, o restante da população. • Os editores de livros, juntamente com os autores, devem serres- ponsabilizados pelos livros contrários à reli- gião, aos costumes e às leis. • Que a religião católica, apostólica e romana, a única verdadeira, seja considerada a única reconhecida na França. • Após 1º de janeiro de 1790, a ordem cessará, nesse momento, de pagar qualquer espécie de imposto, em virtude de seus antigos direitos. • Resolução absoluta de manter os direitos hono- ríficos ligados a seus feu- dos, as distinções ligadas a eles, e outras essenciais próprias de sua ordem. • Que as banalidades de moinho, forno e prensa, e de toda outra espécie, sejam suprimidas. • Que o número de seus deputados seja igual ao número reunido das duas outras ordens. • Que seja reconhecido e definido que todos os impostos devem ser e serão suportados pelas três ordens indistinta- mente. Introdução ao Estudo da História – 50 – 2.2.3 Os destinatários do documento histórico A quem o documento se destinava? É conhecido o fato de que o interior das igrejas medievais era decorado justamente porque os fiéis, analfabetos em quase sua totalidade, aprendiam e reforçavam seu conhecimento dos eventos importantes registrados na Bíblia através das imagens. Ou seja, a percepção de quem usaria aquele espaço influenciou na maneira como foi construído. Um documento é produzido tendo-se em mente determinado destinatário – leitor, ouvinte, consumidor, usuário –, que pode ser real ou imaginado, e cuja existência pode estar mais ou menos explícita. 2 Os destinatários explícitos: são aqueles para os quais determinado documento foi efetivamente criado ou produzido. Um documento pode ter sido construído para ser visto por toda uma população – como é o caso do templo egípcio de Abu-Simbel, ou da Constituição brasileira de 1988 –, para apenas grupos específicos – a Classifica- ção Internacional de Doenças é dirigida, fundamentalmente, para os profissionais ligados à saúde –, ou mesmo para indivíduos em par- ticular, como ocorre com correspondência ou mensagens de e-mail. A identificação do destinatário ajuda também a definir não apenas como o conteúdo será construído, mas quem terá acesso a ele. A famosa Carta de Pero Vaz de Caminha, hoje bastante divulgada por seu valor histórico, originalmente foi pensada para ser lida por um destinatário específico, o rei D. Manuel I, inclusive porque, para a época, seu conteúdo possuía alto valor estratégico. 2 Os destinatários implícitos: um cartaz, exposto em um espaço público, anunciando determinada manifestação terá como desti- natário explícito o grupo social convocado; mas, implicitamente, comunica-se a toda sociedade. Seja como forma de propaganda de suas ações, ou de manifestação de certa posição política. 2 A relação entre os destinatários e o autor do documento: o autor do documento pode estar visando convencer os destinatários, ou confrontá-los. Pode ser visto enquanto membro do grupo (um político falando para correligionários de seu próprio partido), ou como alguém externo, e talvez inclusive indesejado. Tais posições de relacionamento influenciam o documento produzido. – 51 – As fontes históricas 2.2.4 O conteúdo do documento A análise efetiva do conteúdo é diretamente influenciada pelas questões a serem levantadas na pesquisa. Mesmo documentos que poderiam, a prin- cípio, ser entendidos como objetivos ou neutros – como certidões de nasci- mento ou carteiras de identidade – terão diferentes conteúdos dependendo das questões que se busca responder. De toda forma, isso não impede uma análise prévia do conteúdo no momento do fichamento da fonte. 2 O conteúdo explícito de um documento: todo documento possui, a princípio, um conteúdo explícito: um monumento pode celebrar uma pessoa ou acontecimento, uma pintura representar persona- gens ou paisagens, um documento oficial registrar informações que o Estado considera necessárias. Tome-se, por exemplo, o trecho de uma página de um livro de Educação Moral e Cívica de 1979, escrito por Elian Alabi Lucci. Esse livro, especificamente, era para a 3ª e 4ª séries (equivalentes aos atuais 4º e 5º anos do fundamental). Explicitamente, o documento está definindo o conceito de família e o que seriam suas carac- terísticas fundamentais. 2 O conteúdo implícito de um documento: essa mesma página sobre a família, porém, traz, implicitamente, um conjunto importante de informações. Pre- tende definir um determinado ideal de família, expresso na imagem e confirmado pelo texto: a presença do amor (“o mais profundo senti- mento humano”), a necessidade do casamento e da heterossexualidade (“um homem unido pelo casa- mento a uma mulher”), o reforço das posições sociais de homem (o chefe de família, sentado sozinho, vestindo a roupa característica do mundo do trabalho, o terno), da mulher (sentada à direita do Figura 6 - Representação da família em livro de Educação Moral e Cívica. Fonte: LUCCI, E., 1979, p. 58. Introdução ao Estudo da História – 52 – homem, como sua companheira, ainda que em posição inferior), e dos filhos. O moralismo da ditadura militar, aliás, era responsável pela difusão desse modelo familiar. 2 A ausência de conteúdos: determinados conteúdos podem estar ausentes dos documentos, e isso também é um dado importante à historiadora e ao historiador. No modelo idealizado de família, pre- sente em todas as ilustrações desse livro didático de 1979, todos são brancos, e aparentam ser de classe média; há, além disso, sempre presentes o pai, mãe e filhos, o que faz com que modelos alternati- vos de família, considerados inadequados, não apareçam na fonte, estando assim silenciados. O estudo de grupos marginalizados em determinado período his- tórico – como escravos, trabalhadores, população pobre, mulheres – depara-se frequentemente com esse problema. Parte fundamen- tal da tessitura social, estas pessoas podem, muito frequentemente, aparecer senão de forma fortuita nos documentos. Essa ausência documental é um dado importante sobre a forma como a sociedade imaginava a si mesma, e o que considerava inadequado ou impró- prio, passível, portanto, de ser escondido. Para casos assim, aliás, não restará opção senão trabalhar com as fontes da elite, procu- rando recuperar informações fragmentárias do grupo pesquisado. Da teoria à prática Você pode treinar suas habilidades de pesquisador e utilizar os itens das últimas páginas para o fichamento e primeira análise de um documento his- tórico. Pesquise uma fonte primária de seu interesse – nesse momento, você já deve estar ciente de que suas possibilidades de escolha são bastante amplas – e, a partir das definições e explicações anteriores, identifique o maior número possível de elementos. 2 Quando o documento foi escrito ou produzido, e por quem (ou qual instituição)? 2 Sobre as condições para a criação de sua fonte: quais as restrições a que o autor estava submetido no momento da produção da fonte? – 53 – As fontes históricas E qual o motivo da produção do documento, ou seja, que relação mantém com eventos do período? 2 Qual o tipo de documento? Quais códigos ou convenções podem ser identificados? 2 Qual a posição social do autor? Essa posição influenciou na criação do documento? 2 A quem o documento era dirigido, explícita e implicitamente? 2 O destinatário do documento mantinha algum tipo de relação com o seu produtor? 2 Qual o conteúdo explícito do documento? Há conteúdos implíci- tos que podem ser identificados? 2 Existem temas que são silenciados no documento? Como você pode identificá-los? Não se preocupe, no momento, se algum dos elementos for mais com- plexo de ser encontrado. A leitura de fontes é resultado, também, da prática. Síntese As fontes primárias são o fundamento do conhecimento histórico. As aná- lises, descriçõese conclusões de qualquer trabalho histórico devem estar funda- mentadas nas evidências. O estudo das fontes exige uma determinada metodo- logia que compreenda a produção das fontes em seu contexto, localizando-as adequadamente no tempo e no espaço e, a partir disso, as intenções dos autores, bem como seus conteúdos explícitos e implícitos. A forma como as fontes tor- nam-se disponíveis a historiadoras e historiadores é, também, um importante elemento dos estudos históricos, que se evidencia na criação e manutenção de arquivos documentais – tema que será objeto do próximo capítulo. Atividades 1. Leia, a seguir, o seguinte trecho que trata das fontes históricas. A seguir, assinale a alternativa que melhor define uma concepção atual dos estudos históricos a respeito das fontes primárias. Introdução ao Estudo da História – 54 – Fontes têm historicidade: documentos que “falavam” com os historia- dores positivistas talvez hoje apenas murmurem, enquanto outros que dormiam silenciosos querem se fazer ouvir. E que dizer da História oral, das fontes audiovisuais, de uso tão recente? (PINSKY, 2005, p. 7). a) Ao afirmar que as fontes murmuram, quer-se significar que as fon- tes orais são pouco utilizadas na atualidade, pois se dá preferência aos documentos históricos impressos. b) Ao afirmar que as fontes têm “historicidade”, a autora se refere ao fato de que diferentes escolas históricas compreendiam de forma distinta a ideia do que seria uma fonte primária. c) Os historiadores positivistas foram os primeiros a conceder impor- tância fundamental à história oral, daí a razão da referência feita pela autora no parágrafo. d) A autora condena o uso de fontes audiovisuais por conta de seu caráter relativo e tendencioso, inadequado para uma ciência que pretende ser objetiva e busca a neutralidade. e) Entre as fontes históricas que querem se “fazer ouvir” estão os documentos escritos produzidos por instituições como o Estado, usualmente ignorados nos estudos de história. 2. Discutindo as visões históricas dos chamados “negacionistas” do Holocausto (pessoas que defendem que o extermínio em massa de judeus, cometido pelos nazistas, na Segunda Guerra Mundial, jamais existiu), o jornalista e filósofo Luis Milman afirma: O negacionismo, numa perspectiva estritamente historiográfica, não é uma interpretação alternativa, nem reacionária, nem mesmo nazistó- fila, do hitlerismo. Ele é uma construção ideológica de aparência histó- rica e, nessa condição, não suscita problemas ao nível da compreensão do Holocausto e das suas consequências. O desafio que os negacio- nistas nos apresentam é de outra natureza: na medida em que cons- troem uma versão fictícia da História e que essa versão produz efeitos políticos, os negacionistas obrigam-nos não somente a refutá-los, mas a fazermos uma reflexão sobre a relevância do papel da História e da memória para a educação humanista (MILMAN, 2000, p. 115). Compreendendo a relação entre o negacionismo do Holocausto e a questão das fontes primárias em história, é correto afirmar: – 55 – As fontes históricas a) O uso das fontes históricas não pode ser misturado com o uso polí- tico da história, e é por essa razão que historiadores não devem se manifestar em relação à negação do Holocausto. b) Dentro de um ponto de vista estritamente teórico, os negacionistas do Holocausto estão corretos, pois utilizam-se das mesmas fontes e ferramentas de análise que os historiadores. c) O estudo das fontes históricas da Segunda Guerra Mundial não comprova a existência do Holocausto, nem dá pistas de que esse episódio, efetivamente, tenha ocorrido. d) Para defender suas ideias, os negacionistas do Holocausto interpre- tam tendenciosamente as fontes históricas, violando assim um dos princípios básicos dos estudos históricos. e) Milman afirma que o negacionismo do Holocauso não é uma pers- pectiva reacionária, por ser resultado dos avanços em análise de fontes históricas ocorridos em meados do século XX. 3. Os metódicos (ou positivistas) afirmavam que os fatos históricos existiam antes da ação dos historiadores, e bastava encontrá-los nas fontes primárias. Qual a interpretação dada à existência dos fatos históricos pelos historiadores da Escola de Annales? a) Os fatos históricos não existem naturalmente, mas são resultado das perguntas lançadas por historiadores às fontes. b) Não existem fatos históricos, e a história deve ser construída em uma narrativa que não possua início, meio e fim. c) Todos os fatos históricos já foram descobertos pelos positivistas, e basta aos historiadores, agora, analisá-los. d) Há fatos históricos que são irrelevantes para a história, como os econômicos e políticos, e devem ser desconsiderados. e) Febvre, um dos historiadores mais destacados da escola de Annales, acreditava que fatos históricos poderiam ser inventados. 4. Os estudos históricos possuem inúmeras e diferentes “escolas his- tóricas”, ou seja, formas de se pensar a disciplina de história. Sobre elas, é correto dizer: Introdução ao Estudo da História – 56 – a) São reflexos de determinadas visões políticas, e relacionam-se a pro- jetos de poder nas sociedades contemporâneas. b) São maneiras ultrapassadas de se pensar a história, e devem ser abandonadas por formas modernas de análise. c) Possuem também uma historicidade, pois muda-se, com o tempo, as formas de se pensar a disciplina de história. d) Caracterizam-se por defender a história nacional, sendo que cada país possui sua própria escola histórica específica. e) Surgiram na Antiguidade, enquanto uma forma de compreender as maneiras pelas quais os deuses agiam nos eventos do mundo. Os arquivos Nesse capítulo discutiremos o significado, a construção e a utilização de arquivos dentro do trabalho histórico. Ainda que, na atualidade, as possibilidades de encontro de fontes primárias – os documentos históricos utilizados para a escrita da história – sejam bastante amplas, reside nos arquivos os locais primeiros de guarda e consulta de documentos a serem utilizados em estudos históri- cos. Após uma análise da constituição histórica dos arquivos, serão abordados elementos de sua tipologia, além de formas concretas de consulta e uso de acervos. 3 Introdução ao Estudo da História – 58 – 3.1 A constituição histórica dos arquivos Eis um episódio controverso: em 14 de dezembro de 1890, Rui Barbosa, à época ministro da Fazenda do governo de Deodoro da Fonseca, ordenou a destruição de todos os documentos relativos à escravidão – livros de matrícula e de controle de tributos, além de documentos de controle aduaneiro – que estivessem nas repartições públicas do ministério da Fazenda. Por que Barbosa teria tomado tal medida? Durante alguns anos, aventou- -se a hipótese de que sua ação teria por objetivo esconder das gerações futuras, a extensão da escravidão que manchava vergonhosamente a história do país. Não sem razão, pois é isso que explicita o texto do despacho, escrito pelo pró- prio Barbosa: “considerando que a nação brasileira, pelo mais sublime lance de sua evolução histórica eliminou do solo da pátria a escravidão”, afirmou, “a República está obrigada a destruir esses vestígios por honra da Pátria”. Assim, “todos os papéis, livros e documentos existentes nas repartições do Ministério da Fazenda, relativos ao elemento servil” deveriam ser reunidos no Rio de Janeiro, onde se procederia “a queima e destruição imediata deles” (BARBOSA, 1946, p. 338-40). A hipótese de que a destruição de documentos visava esconder a escravi- dão, mesmo que explicitada no despacho, é hoje questionada. Mais provável é que Barbosa, um abolicionista histórico, tenha tomado a medida como reação a certos grupos de ex-escravagistas que, tendo perdido seus escravos pela lei de 1888, organizavam-separa exigir do governo indenização por suas perdas. Afinal, não se pode esquecer que, além de mão de obra, os escravos eram bens, e relativamente custosos, no final do século XIX. Incinerando-se os documentos destruíam-se as provas que poderiam fundamentar tal pedido indenizatório. Se a Inglaterra, em 1833, ao abolir a escravidão em seu império (menos na Índia) indenizou seus proprietários, o Brasil não tinha condições financeiras de agir da mesma forma: a Lei Áurea libertou, em 1888, 700 mil escravos, que valiam à época cerca de 265 milhões de contos de réis. O governo, ainda monárquico naquele momento, possuía um total de 165 milhões de contos de réis. E menos condições teria ainda o recém-proclamado governo republicano, que enfrentava as consequências de uma crise econômica e financeira – pela qual, aliás, o próprio Rui Barbosa foi um dos responsáveis. – 59 – Os arquivos Acredita-se que a pouca eficiência da burocracia tenha salvo da destrui- ção muitos dos documentos que deveriam ter sido queimados. Alguns pes- quisadores argumentam que a maioria teria sido poupada – mas, na verdade, não se sabe ao certo o quanto da memória nacional acabou sendo perdida. O que se sabe, porém, é que nos arquivos públicos espalhados pelo país ainda podem ser encontrados documentos – em alguns estados, em grande quanti- dade – que foram salvos dos “autos de fé republicanos” (a expressão é do soci- ólogo Gilberto Freyre), e que apresentam relevantes dados sobre os escravos. Se usualmente, os documentos não são produzidos ou destruídos tendo- -se como horizonte a sua possível importância histórica, a medida “barbo- siana” parece ser uma exceção, pois à época, já se sabia que produziria um importante e negativo impacto em uma futura escrita da história do Brasil. Poucos dias depois da publicação do despacho, o deputado Francisco Badaró, de Minas Gerais, fez questão de criticar a medida, justamente pelo ataque que representava à memória nacional: O que faço é protestar contra o ato de cremação de todo o arquivo da escravidão no Brasil, porque envolve interesse histórico. Nós, em vez de procurarmos destruir, o que é uma obra de verdadeiros icono- clastas, devíamos ter a nossa Torre do Tombo, um edifício destinado a recolher os papéis de todos os arquivos do país. (Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 22.12.1890, p. 1). O Brasil corria “o risco de ter dificuldades para escrever a nossa his- tória”, finalizou Badaró. E de fato: não há pesquisadora ou pesquisador da escravidão no Brasil que não pondere sobre quais informações desapareceram e debatam sobre a extensão dos dados históricos que poderiam ser obtidos daqueles arquivos. Todos os documentos que estão à disposição da historiadora e do his- toriador, como ocorreu com os relativos à escravidão, possuem uma deter- minada trajetória. Podem sobreviver pelo puro acaso, pelo cuidado de cer- tos indivíduos (como nos arquivos familiares) ou mesmo pela diligência de certas instituições específicas – como ocorrem com os arquivos eclesiásticos. Em geral, porém, são consequências de determinados conflitos, resultados de decisões que acabaram criando ou a extinguindo certos vestígios. Dessa forma, arquivos públicos, museus e bibliotecas não são depositários neutros da memória do passado, mas resultados de escolhas – mais ou menos explí- Introdução ao Estudo da História – 60 – citas –, de visões de mundo, de representações da sociedade, de disputas por poder. Esse é um dado que se deve ter em mente quando se vai à pesquisa das fontes primárias: quais são os vestígios que ainda existem? E por que estes, e não quaisquer outros, permaneceram? Saiba mais Para o historiador francês Jacques Le Goff (1924-2014), toda fonte histórica tem algo de documento – que é escolhido pelo historiador – e de monumento – herança do passado. Segundo Le Goff, fonte histórica é “uma montagem (...) da história, da época, das sociedades que a produziram, (...) e esforço para as sociedades históricas para impor ao futuro (...) determinada imagem de si próprias” (LE GOFF, 1984, p. 103). Ao longo da história, as maiores sociedades desenvolveram estruturas burocráticas mais ou menos complexas para dar conta de sua gestão adminis- trativa. São bastante conhecidos, e não pouco numerosos, documentos que registram decisões governamentais, dados de comércio, e até mesmo estoques de armazéns de egípcios ou mesopotâmicos, enquanto sociedades como a romana e a chinesa destacaram-se pela complexidade de suas burocracias, o que envolvia tanto o ato de anotar quanto o de preservar suas transações. Nesse sentido, portanto, os arquivos – enquanto locais voltados à guarda dos registros administrativos – têm uma longa existência. Um dos mais antigos arquivos de documentos em língua portuguesa é o da Torre do Tombo, em Portugal, que se sabe existir, pelo menos, desde o século XIV. Porém, a transformação desses depósitos de documentos em arquivos, cuja preocupação passaria a envolver também a guarda de determinada memória nacional, participa de um mesmo movimento de mudança que envolveu museus e bibliotecas nacionais e, dentro do sentido contemporâneo do termo, são uma invenção relativamente recente. Figura 1 - O gabinete de curiosidade de Ole Worm. Fonte: Museum Wormianum, 1655 / CC by-SA 3.0 – 61 – Os arquivos Esses espaços e instituições específicas de guarda da memória têm suas origens mais imediatas nos cha- mados “gabinetes de curiosida- des”, próprios do Renascimento europeu (amplo período que vai do século XIV ou XVII): construí- dos pela e para a aristocracia, eram altamente diversos, não possuíam sistematização e reuniam quaisquer objetos considerados interessantes por seus proprietários. Assim, um gabinete como o do dinamarquês Ole Worm (1588-1654) poderia conter esqueletos de animais exóti- cos ao lado de documentos raros, e expor vestuário de povos distantes junto a armas antigas. Ainda que sem a profundi- dade e a metodologia das moder- nas concepções arqueológicas e históricas, o apreço de muitos des- ses colecionadores (ou “antiquaris- tas”), por suas coleções, ajudou ao desenvolvimento de técnicas para identificação de falsificações, além de datações aproximadas e contex- tualizações mais precisas dos vestí- gios do passado que colecionavam. Mas esses gabinetes não eram, efetivamente, museus. O Museu Britânico surgiu apenas em 1759 e o Museu do Louvre em 1793, coincidindo com o movimento de desenvolvimento de um naciona- lismo cívico na Europa e a busca pela construção de uma determinada identi- Figura 2 - Transportando fragmento de estatua de Ramsés II Fonte: Museu Britânico, 1816 / CC bu_SA 3.0 -“Assim que entrei naquelas ruínas, meu primeiro pensamento foi examinar aquele busto colossal que eu deveria levar. Eu o encontrei (...) com sua face virada para cima, e aparentemente sorrindo para mim, como que pensando em ser levado para a Inglaterra”. Essas são as palavras de Giovanni Belzoni, italiano contratado para conseguir peças egípcias para o Museu Britânico, diante do busto de Ramsés II, que na imagem acima aparece sendo levado para o navio. Obter relíquias do antigo Egito e da Mesopotâmia para seus museus era uma forma dos países europeus reforçarem suas identidades enquanto grandes impérios, pela identificação com aqueles da antiguidade. Napoleão Bonaparte, da França, também participou desse processo: ao invadir o Egito mandou fazer ilustrações das construções que encontrava, além de recolher objetos que seriam mandados à França. A famosa pedra de Roseta, fundamental para a decifração dos hieróglifos, foi obtida por uma expedição sob as ordens de Napoleão. O desenvolvimento da arqueologia, a criação de sentimentos nacionais, a expansão europeia, e a construção de museus compartilharam, portanto,elementos de um mesmo processo. Introdução ao Estudo da História – 62 – dade nacional, por meio das pesquisas sobre o passado. Essas coleções já não eram apenas curiosidades, como haviam sido tratadas pelos renascentistas, mas testemunhas da antiguidade de um povo, e legitimavam sua existência. Passeando pelos corredores, as pessoas transitavam por peças que, recuperadas pela nascente disciplina de arqueologia, reforçavam, pelo apelo ao passado, o que tornava a Inglaterra “inglesa”, ou a França “francesa”. Se os museus são construídos tendo-se como objetivo a criação de uma identidade e o fortalecimento de um sentimento nacional, pode-se imaginar que as peças recolhidas e expostas seriam aquelas que melhor apoiassem esse enredo. Isto é importante para que se perceba que a construção desses locais de guarda de acervo não foi neutra ou imparcial. Mais do que uma simples visão do passado, um acervo era construído a partir da forma pela qual as pessoas concebiam o próprio presente: ao escolher o que deveria ser guardado e o que seria descartado (o que teria valor, e o que não teria), privilegiava-se uma determinada narrativa, e um passado específico. Os arquivos nacionais, no moderno sentido de uma instituição que se preocupa em guardar os documentos, também por sua importância para a história e identidade de uma nação, passaram por um processo semelhante. Os primeiros foram os Arquivos Nacionais na França, no final do século XVIII, quando se determinou a apreensão e guarda de todos os documentos obtidos pelos revolucionários. No Brasil, o Arquivo Nacional foi criado em 1838, durante o período regencial, e no regulamento de sua criação já apa- recia a guarda de documentos históricos como uma de suas principais fun- ções: “os armários e gavetas serão distribuídos por três Seções que há de ter o Arquivo, a saber: Legislativa, Administrativa e Histórica”. O historiador estadunidense Edward Carr (1892-1982) certa vez, con- jecturou se nossa visão da Idade Média como uma época de profundo fervor religioso não seria consequência dos arquivos que são consultados pelos his- toriadores: preferencialmente os da Igreja Católica, que tinham o interesse de apresentar a vida, justamente, como repleta da religiosidade. Ainda que deva ser recebida com ressalvas, essa observação nos ajuda a pensar que os arquivos que estão à disposição da historiadora e do historiador não são uma amostra imparcial da realidade de determinada época. Possuem sua própria intencio- nalidade e historicidade que influenciam o tipo de imagem que transmitem – 63 – Os arquivos do passado. Construir e manter um acervo não deixa de ser, portanto, um ato político. Fundamentais ferramentas de pesquisa e preservação da memória, os arquivos, bem como museus e bibliotecas, não são imparciais: ter em mente esse aspecto é fundamental para se entender quais documentos estão disponí- veis; e imaginar aqueles que, por várias possíveis razões, não estão lá. 3.2 Os tipos de arquivos Durante o século XIX, os arquivos ganharam o estatuto de local prefe- rencial, onde o passado estava pronto para ser descoberto. Na atualidade, são múltiplos e diferentes os locais onde podem ser pesquisadas fontes primá- rias, inclusive por meio da internet, pois são várias as instituições de guarda de acervo que estão buscando digitalizar seus conteúdos e disponibilizá-los na rede. De toda forma, a consulta direta a arquivos ainda é uma condição fundamental para o trabalho de historiadoras e historiadores. Públicos ou privados, grandes ou pequenos, estarão em museus, arquivos e bibliotecas os documentos que serão utilizados como fundamentos para pesquisa, análise e argumentação nos textos históricos. Certas instituições, como universidades, órgãos públicos, grandes empresas, buscam manter os seus próprios arquivos, enquanto outras, como bibliotecas ou arquivos públicos, mantêm a docu- mentação de outras instituições. Saiba mais A Constituição de 1988 estabeleceu a gestão dos Arquivos Públicos enquanto questão do Estado. Seguindo o preceito constitucional, a Lei 8.159, de 8 de janeiro de 1991, passou a determinar que é “dever do Poder Público a Gestão Docu- mental e a proteção especial a documentos de arquivos, como instrumento de apoio à administração, à cultura, ao desenvol- vimento científico e como elementos de prova e informação”. Mais recentemente, a Lei de Acesso à Informação – Lei 12.527, de 18 de novembro de 2011 – buscou regulamentar o acesso, por qualquer pessoa, das informações produzidas por órgãos e entidades públicos. Ainda que essas leis, e outras Introdução ao Estudo da História – 64 – regulamentações, tenham procurado facilitar o acesso à informa- ção, inclusive por pesquisadores, os problemas de recursos, e de gestão dos arquivos, ainda se apresentam como dificuldades importantes para a prática histórica. No Brasil da atualidade, várias são as instituições que mantêm espa- ços organizados de pesquisa e índices de busca atualizados – muitos deles informatizados –, além de profissionais capacitados, que facilitam o acesso à documentação e, consequentemente, à pesquisa. Porém, no cotidiano do trabalho histórico, ainda são comuns os arquivos que não prezam pela guarda de seus documentos, e que podem mesmo não perceber neles qualquer valor histórico. Por isso, não é estranho à pesquisa encontrar dificuldades de acesso, falta de organização, não disponibilidade de espaços ou pessoal disponível; inadequada guarda e indexação de materiais e mesmo, desconfiança de certas instituições para com os pesquisadores – que, não raras vezes, os veem como “intrusos” em seus espaços. Conhecer os tipos de arquivos, as diferentes documentações que podem ser encontradas, bem como as próprias possibilidades e problemas existentes nas instituições de guarda de acervos são ponto de partida para uma eficiente e bem-sucedida pesquisa de fontes. 2 Os arquivos públicos têm, como uma de suas principais tarefas, a de guardar os documentos relativos às ações do Poder Execu- tivo. Não é incomum, porém, que guardem documentação dos demais poderes e, mesmo, de outras instituições, como cartórios, ou particulares. A imensa diversidade de documentos que podem ser encontrados nos arquivos públicos é reflexo, também, da grande quantidade de tipos diferentes de documentos. No caso do Poder Executivo, por exemplo, há correspondências, dados eleitorais, legislação, requerimentos e certidões, informes, atas, registros de imigração e colonização, dados e documentos educacionais, regis- tros de obras públicas, dados cartográficos – dentre outros. Como regra geral, são os arquivos do Poder Executivo e do Poder Legislativo que apresentam melhores condições. Contrastam com – 65 – Os arquivos a forma que, tradicionalmente, o Poder Judiciário trata a sua docu- mentação: alegando ausência de recursos e de espaço, seus registros não são mantidos com o adequado cuidado histórico, existindo, inclusive, processos de destruição de materiais que seriam impres- cindíveis à pesquisa. Muitos são os arquivos públicos que dispõem de sítios na inter- net, com informações detalhadas de seus acervos (algumas vezes, inclusive, com a apresentação de documentos digitalizados), além de revistas e informes que discutem detalhes de seus documentos. Quais são os arquivos que existem em sua cidade? Procure descobrir, além da existência de arquivos públicos, a pos- sível existência de arquivos particulares. Investigue, ainda, quais são os documentos que o arquivo guarda, se existem bancos de dados sobre o acervo e onde podem ser pesqui- sados, além de horários para o acesso de pesquisadores. Figura 3 - Repare nos tipos diferentes de fontes encontradas em arquivos públicos que foram utilizados pelo historiador Caiubi Dysarz, em sua pesquisa sobre colonizadores suíçosno litoral do Paraná do século XIX. FRANÇA, Tristão Martins D’Araujo. Informações sobre a carga do navio Seine. Paranaguá, 7 de março de 1853. Arquivo Público do Estado de São Paulo (AESP), Acervo Império (1822- 1889), Ofícios (1852-1872) Paranaguá, CO1144. FRANÇA, Tristão Martins D’Araujo. Cumprimento da portaria de 23 de fevereiro de 1853. Paranguá, 22 de março de 1853. Arquivo Público do Estado de São Paulo (AESP), Acervo Im- pério (1822-1889), Ofícios (1852-1872) Paranaguá, CO1144. FRANÇA, Tristão Martins d’Araujo. Correspondência enviada a Presidência da Província de São Paulo pelo Juiz Municipal Suplente de Paranaguá. Paranaguá, 4 de julho de 1853. Arquivo Público do Estado de São Paulo – Coleção Império. Ofícios (1852-1872) Paranaguá – CO1144. RECHSTEINER, Carlos. Lista dos enfermos acomettidos e trattados como indigentes da febre amarelta. Paranaguá, 14 de março de 1853. Arquivo Público do Estado de São Paulo (AESP), Acervo Império (1822-1889), Ofícios (1852-1872) Paranaguá, CO1144. BRASIL. Mappa das Bahias de Paranaguá compreendendo a Colônia de Superaguy Entrada do Mar Pequeno de Iguape. Rio de Janeiro: Archivo da S. de Desenho, 1870. Arquivo Nacional: 4M.0.MAP.163. ASSUMPÇÃO, Manoel Euphrasio d’. Provas de habilitação para João Francisco de Sant’Anna Neves exercer a instrução em Superagui. Curitiba, 2 de outubro de 1871. Arquivo Público do Paraná, AP – 371, p. 248-254. Fonte: Dysarz (2013). Adaptado. Introdução ao Estudo da História – 66 – 2 As Bibliotecas não são propriamente arquivos, mas costumam dis- por, em seu acervo, de importantes documentos históricos, particu- larmente, periódicos. Tornam-se, assim, importante local de guarda de fontes primárias. Pesquisas baseadas em séries de jornais ou revis- tas costumam ser realizadas nesses locais. Na atualidade, a Biblioteca Nacional tem realizado um projeto de digitalização de periódicos, disponibilizando, na internet, coleções nacionais inteiras para lei- tura e pesquisa. Não se pode esquecer, ainda, que além de possíveis livros raros que a biblioteca possa contar, os próprios títulos à dis- posição dos leitores podem ser eles próprios documentos históricos. Procure descobrir quais são as maiores bibliotecas de sua cidade, além dos horários de funcionamento. Se hou- ver grandes bibliotecas universitárias, investigue se são abertas ao público externo – muitas atendem apenas a alunos e professores da instituição. Descubra, ainda, se as bibliotecas armazenam periódicos de sua região. 2 Os museus também não são propriamente arquivos, e embora com- partilhem com esses as tradicionais tarefas de guarda e preservação de materiais, usualmente, sua ênfase está na exposição. Ainda assim, além de serem espaços para a pesquisa do acervo que disponibili- zam, não é incomum possuírem bibliotecas e documentos, ambos usualmente associados à temática do próprio museu, como costuma acontecer, por exemplo, com o Museu da Imagem e do Som, loca- lizado em São Paulo. Outro exemplo é o Museu do Expedicionário, em Curitiba, que além de apresentar exposições sobre a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, também mantém arquivos sobre as ações dos soldados tanto durante, quanto após a guerra. Que museus existem em sua cidade? Procure desco- brir o tema a que os museus locais se dedicam. Entre em contato com um desses museus e verifique se possui – 67 – Os arquivos biblioteca própria, se guarda documentos ou objetos que não estão expostos, e se possui estrutura para recepção de pesquisadores. Que pesquisas históricas poderiam ser desenvolvidas a partir do acervo desse museu? 2 Cartórios: não há no Brasil um sistema único que centralize as infor- mações geridas pelos cartórios o que, em si, já dificulta a atuação de historiadoras e historiadores. Existindo no país, desde o período colonial, os cartórios sempre foram parte integrante da administra- ção pública e possuem importante documentação sobre negócios, comércio, alforrias, dados genealógicos e procurações. Atualmente, são instituições privadas atuando sob concessão pública e não é incomum que dificultem o acesso à informação acreditando que são privados os dados que armazenam (o que não é verdade para muitas situações). Em muitos casos, inexistem nos cartórios espaços ade- quados para comportar o trabalho de pesquisadores. O cuidado que mantêm com documentos mais antigos é preocupante, pois, aliado ao fato de que, muitas vezes, não possuem estrutura adequada, não existe órgão responsável pela fiscalização e gestão dos documentos cartoriais, o que prejudica a preservação das informações. Escolha um cartório mais próximo à sua casa. Entre em contato, identifique-se como historiadora ou historiador, e descubra se pode realizar uma pesquisa história junto aos documentos ali arquivados. Procure descobrir, ainda, quais são os documentos com que trabalham, e a que década, ou século, remontariam os mais antigos. Se possível, procure descobrir o estado de conservação desses documentos. 2 Os arquivos eclesiásticos referem-se a todos os documentos rela- cionados a determinada fé, produzidos por instituições religiosas, ou por locais ligados à religiosidade. O acesso a esses materiais é bastante variável, não apenas dependendo da denominação reli- Introdução ao Estudo da História – 68 – giosa, mas também das políticas de diferentes instituições dentro de uma mesma religião. A importância da Igreja Católica na história do Brasil confere a seus arquivos uma especial relevância para a pesquisa. Deve-se conside- rar ainda que, em vários momentos da nossa história, a Igreja com- partilhou determinadas funções de registro com o Estado, atuando como um verdadeiro serviço público (BACELLAR, 2014). As instituições religiosas de sua cidade permitem o trabalho de historiadores? Entre em contato com tem- plos, ordens religiosas, ou instituições religiosas de sua preferência em sua região. Descubra os tipos de docu- mentos mantidos em acervos e quais seriam as con- dições para uma possível atividade de pesquisa. 2 Os arquivos privados referem-se a todos os tipos de acervos docu- mentais mantidos por empresas e indivíduos. Tanto a possibilidade de acesso, quanto o tipo de documentos que preservam, variam muito do interesse e disponibilidade dos responsáveis. Não é incomum que acer- vos privados sejam doados para instituições como museus ou arquivos públicos, podendo vir a se tornar de acesso irrestrito. A biblioteca do bibliófilo brasileiro José Mindlin, por exemplo, foi doada para a Uni- versidade de São Paulo, que atualmente realiza um projeto de digitali- zação e disponibilização de parte do acervo na internet. Os arquivos na era digital A velocidade do crescimento da internet e a sua faci- lidade, tanto para criação, quanto para a destruição de informações produziu, como consequência, uma perda constante de dados. O desaparecimento de sites leva consigo informações sobre determinado momento da – 69 – Os arquivos vida digital que podem não ser mais recuperáveis. E, ao mesmo tempo, a constante utilização do correio ele- trônico – o e-mail – para troca de mensagens pessoais, pode inviabilizar a utilização de uma fonte tradicional da história, as correspondências pessoais, enquanto material de pesquisa. Afinal, as pessoas não costumam guardar suas correspondências eletrônicas por longos períodos. Algumas iniciativas vêm sendo realizadas para a preser- vação desses dados. Em 1996, foi criado, nos Estados Unidos, o Internet Archives, que tem como objetivo sal- var, periodicamente, as páginas da World Wide Web. A Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos vem arquivando, desde 2010, todas as mensagens publica- das na rede social Twitter, embora tenha dificuldade em armazenar todo imenso material produzido diariamente. A empresa estadunidenseGoogle, por sua vez, arqui- vou e disponibilizou on-line as mensagens de sua rede social Orkut, popular no Brasil até os anos 2010. Todas essas são, porém, iniciativas isoladas, e que não formam parte de uma ação sistêmica para a salvaguarda dos arqui- vos digitais produzidos na internet. Por outro lado, a internet tem sido utilizada também como espaço de divulgação e democratização de acesso a documentos e arquivos. Muitos são os museus que, além de detalhes de seus acervos, têm colocado repro- duções on-line para visitas virtuais, bibliotecas que dispo- nibilizam catálogos ao público (e mesmo digitalização de obras), e arquivos disponibilizando documentos. Pesqui- sas de história antiga e medieval, por exemplo, que até não muitos anos atrás eram praticamente inviáveis para historiadores brasileiros, tornaram-se comuns, devido à possibilidade de acesso às versões digitais de fontes pri- márias desses períodos. A seguir, são apresentados alguns arquivos que possuem Introdução ao Estudo da História – 70 – documentos digitalizados e que podem ser consultados on-line. Devido ao caráter dinâmico da internet, não são apresentados links para as páginas, pois tendem a mudar com certa constância. De qualquer forma, elas podem ser facilmente encontradas utilizando-se o seu buscador preferido. Lembre-se de que se trata de uma lista inicial: a internet tem muito mais a oferecer. Torre do Tombo, de Portugal: apresenta extenso tra- balho de digitalização de arquivos. Pela própria relação histórica, possui uma grande quantidade de documentos relacionados à história do Brasil (em português). 2 Papyri.info: reúne o acervo de diferentes ins- tituições, apresentando documentos antigos produzidos em papiros e materiais semelhantes. O nome do sítio coincide com seu endereço eletrônico (em inglês). 2 O Arquivo Google (Google Newspapers) possui uma coleção on-line de jornais de várias partes do mundo, inclusive do Brasil. Para o Jornal do Brasil, por exemplo, são apresentadas edições que vão do início do século XX a 1999 (em português). 2 O CPDOC (Centro de Pesquisa e Documen- tação de História Contemporânea do Brasil), da Fundação Getúlio Vargas, abriga conjuntos documentais relevantes para a história recente do Brasil (em português). 2 A Biblioteca Nacional possui um importante conjunto de documentos históricos digitaliza- dos, que podem ser encontrados sob o item “acervo digital”, em seu sítio. Apresenta, ainda, um importantíssimo acervo de periódicos digi- talizados, que procuraremos explorar mais na – 71 – Os arquivos seção “Da teoria à prática” ainda nesse capítulo (em português). 2 O Arquivo Público de São Paulo possui um repositório digital em que disponibiliza mapas, fotos, filmes e documentos textuais. O Arquivo Público Mineiro desenvolve projeto de digi- talização semelhante, apresentando, inclusive, documentos da polícia política do período de 1927 a 1982 (ambos em português). 2 A Biblioteca Brasiliana Guita e José Midlin, gerida pela Universidade de São Paulo (USP), oferece milhares de livros digitalizados da biblio- teca do bibliófilo José Mindlin e sua esposa Guita (em português). 2 A Brasiliana Fotográfica é um projeto da biblio- teca nacional que procura digitalizar importantes acervos fotográficos ligados à história do Brasil (em português). 3.3 A prática do trabalho em arquivos históricos Nada além da experiência em trabalho com arquivos trará o conheci- mento sobre as maneiras de encontrar suas fontes, o cuidado com os docu- mentos e as formas de fichamento mais adequadas. Porém, algumas importan- tes noções prévias podem tornar mais produtivas as suas primeiras pesquisas. É o que se discutirá a seguir. 3.3.1 Procedimentos antes da visita aos arquivos Tenha certeza de que o arquivo que você irá consultar será relevante para a sua pesquisa e apresentará os documentos necessários para a análise preten- Introdução ao Estudo da História – 72 – dida. Alguns dos maiores arquivos do Brasil já possuem um sistema de base de dados on-line, e esse é um bom guia para direcionar a sua pesquisa – quem sabe os documentos que você procura já não estão digitalizados? Fora do Bra- sil, há instituições que investem grandes somas de recursos nesse processo: é o caso, por exemplo, dos arquivos da Torre do Tombo, em Portugal, que vem digitalizando e publicando seu acervo na internet, inclusive vários documen- tos diretamente ligados à história do Brasil. A consulta é automática e instan- tânea e, além da reprodução em alta resolução, encontram-se um resumo do conteúdo e especificações precisas de sua localização dentro do arquivo. Esta não é, porém, a realidade brasileira, em que os arquivos comumente padecem de problemas como falta de recursos, estrutura, espaço e organi- zação. Se for esse o caso do arquivo que você pretende consultar, busque informações iniciais por meio de caminhos alternativos, como conversas com outros pesquisadores e análise de pesquisas sobre seu tema. Tente também descobrir qual documentação o arquivo forneceu, ou mesmo, faça ligações telefônicas, realize contatos via internet e procure conversar com funcionários do local. Essas medidas são importantes, especialmente se os arquivos são distantes, o que exigirá despesas de locomoção e estada. Procure descobrir, com antecedência, se o arquivo que você pretende consultar exige algum tipo de documentação necessária para a consulta aos documentos. Não é incomum que pesquisadores só sejam aceitos em deter- minadas instituições se apresentarem comprovação de ligação com alguma instituição de ensino, além de detalhes sobre a pesquisa que pretendem desenvolver. Certas bibliotecas privadas costumam exigir a apresentação de documentos, mesmo para aquelas pessoas que não pretendem emprestar livros, apenas consultar o acervo. Diferentes arquivos dispõem, ainda, de regras específicas sobre as formas de copiar os dados obtidos. Atualmente, a maioria das instituições permite a utilização de máquinas fotográficas digitais (o uso de telefones celulares para esse fim é cada vez mais comum), o que acelera e facilita o processo de obtenção de cópias: a cópia digital é mais rápida que a fotocópia, e gera menos danos aos documentos. Quanto mais antigos e frágeis forem suas fon- tes, melhor deverá ser sua câmera, para captar todas as anotações que podem estar se desvanecendo com o tempo. Existem, porém, instituições que não permitem fotografias, e a pesquisadora e o pesquisador devem estar prepara- – 73 – Os arquivos dos para copiar à mão todos os dados possíveis. Por isso, sempre leve consigo seu bloco de notas, além de lápis, que são preferíveis às canetas, pois provo- cam menos danos caso, involuntariamente, ocorra algum rabisco nos docu- mentos. Por vezes, os próprios arquivos realizam cópias, com o pagamento de determinada taxa. Não se esqueça de anotar, por fim, dados simples, mas essenciais, como o endereço do arquivo e dias e horários de funcionamento. Lembre-se que, se você encontrar documentos interessantes, poderá passar várias horas, por vários dias (ou mais), dentro do arquivo. Assim, solicite informações sobre a possibilidade de levar alimentos e bebidas, embora seja regra básica não consumi-los perto dos documentos (há o óbvio perigo de danificá-los, além da possibilidade de atrair animais como ratos, prejudiciais aos acervos). 3.3.2 Consultando arquivos O contato com o pessoal responsável pela guarda dos documentos é o primeiro passo para a abordagem de um arquivo. Esses profissionais estão habituados à forma de organização dos documentos, e tendem a conhecer a maneira pela qual os diversos documentos estão organizados. Em arquivos em que haja inadequados ou ultrapassados instrumentos de pesquisa, não é incomum que apenas os funcionáriosmais experientes tenham conhecimento sobre a localização mais precisa dos materiais.^ A consulta exige paciência. Ainda que existam catálogos publicados indicando a localização de documentos sobre certos temas específicos da his- tória, o mais comum é que pesquisadores não encontrem com rapidez o que precisam, por conta das dificuldades na organização. Os arquivos públicos nacionais, por vezes, armazenam documentos de diferentes instituições, que não raras vezes desenvolvem sistemas específicos de organização do acervo, o que tende a tornar a pesquisa confusa e demorada. É por isso que, quando localizado um documento, ou um conjunto de fontes que responda às ques- tões de sua pesquisa, torna-se fundamental anotar da forma mais precisa pos- sível a sua localização. Diante dos documentos, faz-se necessário ter paciência e cuidado. A lei- tura pode exigir tempo, devido às possíveis dificuldades associadas à leitura da escrita manuscrita e às características específicas de um documento. Especial- Introdução ao Estudo da História – 74 – mente os textos ligados à burocracia estatal – alvará, boletim, aviso, circular, contrato, declaração, decreto, estatuto, memorando, parecer relatório, resolu- ção, dentre tantos outros – possuem uma linguagem própria, objetivos usos, itens, formatação, que devem ser conhecidos pelo pesquisador. Figura 4 - Últimas linhas da carta de Caminha Fonte: Arquivo Nacional Torre do Tombo Mais um comentário sobre a leitura: para determinados tipos de docu- mentos, o treinamento paleo- gráfico não é apenas recomen- dável, mas essencial. O que você consegue ler das últimas linhas da famosa carta de Pero Vaz de Caminha? Para documentos mais antigos, um aprendizado específico para iden- tificação da escrita, das abreviações e das características particulares de um texto é imprescindível, e sem o qual a leitura, bem como a correta trans- crição, tornam-se inviáveis. Porém, mesmo para documentos mais recentes, como aqueles produzidos em meados do século XIX, também há necessidade de aprendizado e treinamento, devido às dificuldades eventuais de leitura e interpretação de determinados textos manuscritos.^ E mais um comentário sobre o cuidado: todos os documentos escritos têm uma determinada fragilidade. Obviamente, a antiguidade de um texto tende a exigir uma maior atenção em seu manuseio, mas deve ser regra geral o uso cuidadoso de qualquer material de arquivo. A leitura com a utilização de lupas (para visualizar trechos mais esmaecidos) é recomendada, bem como a utilização de luvas, que possui duas utilidades: protege tanto o próprio documento, especialmente da gordura que existe em nossa pele; bem como o Figura 5 - Transcrição de uma das últimas frases da carta de Caminha Fonte: Elaborado pelo autor – 75 – Os arquivos próprio pesquisador, dos minúsculos detritos que podem existir em materiais estocados. Razão pela qual o uso de máscaras é, também, bastante comum: a história é, sem dúvida nenhuma, uma disciplina apaixonante, mas deveremos tê-la dentro de nós apenas no sentido metafórico. Obrigar que seus pulmões guardem pedaços, minúsculos que sejam, dos documentos que você pesquisa, pode trazer reais riscos à sua saúde. 3.3.3 Leitura e fichamento A abordagem a documento consultado em um arquivo segue, essencial- mente, as regras para leitura de fontes primárias, que estudamos no capítulo anterior. Vimos que os documentos não são registros imparciais da realidade, e dependerá da historiadora e do historiador identificar os objetivos, interes- ses e contextos de sua produção. Porém, além de identificar a parcialidade no documento que estuda, historiadores devem ficar atentos à sua própria: analisamos no último capí- tulo que foi justamente por ficar demonstrado que o negacionista do holo- causto, David Irving, distorceu informações das fontes históricas, gerando uma interpretação tendenciosa, que a historiadora Deborah Lipstadt venceu o processo. O problema da parcialidade não existe, entretanto, apenas para autores antissemitas como Irving (embora em casos assim a questão seja mais óbvia), mas está, de certa forma, presente em todo trabalho de pesquisa. As concep- ções, pressupostos, convicções da historiadora e do historiador não podem ser extraídas no momento da leitura das fontes primárias: ou seja, toda leitura parte de uma determinada perspectiva, que influencia na interpretação dos dados. Além disso, há hipóteses para o período que se estuda, concepções teó- ricas que guiam as interpretações, uma bibliografia com o conhecimento con- solidado sobre o assunto. A parcialidade, de alguma forma, estará presente. O historiador e ativista Staughton Lynd (nascido em 1929), por exem- plo, procurou realizar um estudo histórico do Condado de Duchess, no estado de Nova Iorque (Estados Unidos), do século XVIII, procurando iden- tificar ali uma luta de classes – segundo os princípios teóricos marxistas que considerava verdadeiros. O próprio Lynd, porém, percebeu que a leitura que fez das fontes havia sido tendenciosa: Introdução ao Estudo da História – 76 – Eu agora estou mais consciente de que eu selecionei um corpo de dados que eu estava certo de que fundamentava a tese que eu acre- ditava verdadeira. (...) A parcialidade envolvida em minha seleção do Condado de Duchess não invalida necessariamente minhas descober- tas, mas lança sérias questões sobre sua generalização. Eu acredito que é assim que a parcialidade caracteristicamente opera no trabalho de outros historiadores, também: não devido a uma manipulação deli- berada da evidência, mas na seleção do projeto de pesquisa (Apud FISCHER, 1970, p. 84). Após horas, dias, meses, nos arquivos, pode-se cair na tentação de sobre- valorizar as passagens nas fontes que parecem confirmar nossas hipóteses, e desconsiderar aquelas que nos contradizem. E isso não ocorre por deslize, ou leviandade, mas pela ausência de certos cuidados com o trato documental, como o próprio Lynd, na prática, descobriu. E a maneira mais adequada para trabalhar o complexo tema da leitura tendenciosa das fontes é deixar clara a perspectiva da qual parte sua leitura. O método mais adequado para ajustar a questão da parcialidade está na explicitação de pressupostos, perguntas e objetivos: esclarecendo-os, mini- miza-se a leitura tendenciosa das fontes. E se a neutralidade absoluta – desejo dos historiadores metódicos – é, como se acredita atualmente, inatingível, ao menos se consegue construir uma metodologia de pesquisa em que as fontes tenham a primazia sobre os pressupostos. E não o inverso. São os documentos encontrados nos arquivos que devem levar a determinada conclusão, e não uma conclusão prévia que deve guiar sua leitura documental. Da teoria à prática Como uma coleção de documentos chega às mãos da historiadora e do historiador? Nada supera uma vista aos próprios arquivos, museus e bibliote- cas, obviamente. Mas, o contato com documentos digitalizados e estocados em arquivos da internet permite uma experiência, não com trechos desses documentos (como aparecem, por exemplo, em livros de história), mas com o conjunto do material. Dá-se o nome de hemeroteca à seção das bibliotecas responsáveis pela guarda de periódicos, como jornais e revistas. A Biblioteca Nacional vem, – 77 – Os arquivos constantemente, digitalizando e disponibilizando on-line séries de periódicos em seu sítio, na internet. Para avançar- mos nessa atividade, basta você procu- rar por “hemeroteca biblioteca digital” em seu buscador preferido. Na página inicial, você deve encontrar o menu de buscas do acervo. Clique na aba “período”, para que pos- samos localizar uma publicação a par- tir de um determinado recorte tempo- ral. No item 1, “Escolha um período”, selecione a opção 1910-1919. No item 2, “Escolha um local”,selecione Rio de Janeiro (RJ) e, no item 3, selecione o periódico “Careta 1909 - 1964”. Será a revista que iremos analisar. Por agora, deixe o campo 4 em branco. Utilize- -o quando você desejar fazer pesquisas para termos específicos. Clique em Pesquisar. Se tudo deu certo, uma nova janela apa- recerá, mas nenhuma edição estará, ainda, à sua frente. No menu superior, escolha um ano qualquer, vamos dizer, 1913: uma pasta se abrirá indicando as edições que estão à disposição para aquele ano. Clique na pri- meira edição que está disponível para aquele ano, no caso, a de número 240. E pronto. Diante de si deverá estar a edição de 4 de janeiro de 1913 da revista Careta. Aprenda os comandos que permitem a mudanças das páginas, amplie e reduza o conteúdo, de modo que fique mais confortável. Explore a revista de forma livre. Descubra os temas que aborda, os conteúdos diferentes que trazia aos leitores; analise as ilustrações, os textos e as propagandas. Observe como as diferentes informações da revista fazem parte de todo um conjunto, todo um contexto, próprio daquela edição. Figura 7 - Selecionando um ano específico aparecem as opções disponíveis Fonte: http://bndigital.bn.br/ hemeroteca-digital/ Figura 6 - O menu de busca da hemeroteca digital da Biblioteca Nacional Fonte: http://bndigital.bn.br/hemeroteca- digital/ Introdução ao Estudo da História – 78 – Explorar a hemeroteca digital da Biblioteca Nacional é uma boa experiência para você compreender a complexidade da análise de séries inteiras de docu- mentos. Aproveite para explorar mais esse arquivo. Modifique datas, locais e publicações; pes- quise termos que ache interes- santes e veja o que você pode descobrir. Todo arquivo é sem- pre uma porta aberta ao passado. Síntese Os arquivos têm uma longa existência, embora suas trans- formações para instituição de guarda de acervo de documen- tos considerados historicamente relevantes sejam recentes, ao participar do processo de cons- tituição dos estados nacionais. Historiadoras e historiadores devem conhecer os tipos de arquivos e as dife- rentes fontes que neles podem ser encontradas, para um adequado trabalho de pesquisa. Diante das características de muitos dos arquivos nacionais, a prática histórica nos arquivos exige paciência, persistência e organização. Atividades 1. Ferramentas fundamentais ao trabalho histórico, os arquivos pos- suem, também, a sua própria história. Sobre a seleção de documen- tos que está presente nos arquivos históricos, é correto afirmar: Figura 8 - Revista Careta de 4 de Janeiro de 1913 Fonte: Fundação Biblioteca Nacional/BN Digital – 79 – Os arquivos a) O conteúdo dos arquivos reflete uma visão neutra de certo período histórico, pois foi a sorte que acabou por selecionar quais docu- mentos seriam armazenados e preservados. b) O acervo dos arquivos não é uma amostra fiel da realidade de uma época, mas também a seleção de determinados documentos consi- derados importantes pelas pessoas do período. c) Devido à sua antiguidade, a prática de constituição de arquivos não é afetada pelo contexto histórico e social, sendo realizada de forma objetiva pelos arquivistas. d) Os países economicamente desenvolvidos são os únicos que conse- guem realizar o arquivamento de todos os documentos produzidos por sua sociedade. e) O acervo dos arquivos reflete apenas os interesses dos grupos sociais dominantes, responsáveis pela destruição dos vestígios das vidas das classes desfavorecidas. 2. Leia o texto abaixo, a respeito do conceito de documento, escrito pelo historiador Jacques Le Goff. Quando os monumentos escritos faltam à história, ela deve pedir às línguas mortas os seus segredos e, através das suas formas e palavras, adivinhar os pensamentos dos homens que as falaram. A história deve perscrutar as fábulas, os mitos, os sonhos da imaginação, todas estas velhas falsidades sob as quais ela deve descobrir alguma coisa de muito real, as crenças humanas. Onde o homem passou e dei- xou alguma marca da sua vida e inteligência, aí está a história. (LE GOFF, 2003, p. 107). Qual é a relação que existe entre documento e monumento, para Le Goff? a) Os documentos são os registros neutros do passado, enquanto os monumentos, pelo seu caráter intencional, são vestígios tendencio- sos de uma sociedade. b) Documentos são aqueles que podem ser utilizados pelos historia- dores em suas pesquisas, enquanto os monumentos não são utiliza- dos para a produção de conhecimento histórico. Introdução ao Estudo da História – 80 – c) Enquanto os documentos fazem parte do trabalho de historiadores, os monumentos são estudados por antropólogos e urbanistas. d) Para os metódicos, a história poderia ser feita apenas pelos docu- mentos, enquanto que para os historiadores dos Annales, os monu- mentos também poderiam ser fontes primárias. e) Enquanto os documentos são escolhidos pelos historiadores, em seu processo de pesquisa, os monumentos são vestígios deixados pelo passado. 3. Os chamados Gabinetes de Curiosidades foram antecessores dos atuais museus e caracterizavam-se por suas amplas e heterogêneas coleções. A respeito desses gabinetes e sua relação com os museus é correto afirmar: a) Constituíam-se como grandes espaços destinados à população mais pobre, enquanto uma forma de divertimento semelhante ao circo. b) Desenvolveram-se como parte do movimento nacionalista euro- peu, pelo desejo por encontrar no passado a origem de suas nações. c) Os Gabinetes de Curiosidades não possuíam uma sistematização de suas coleções e eram atrações voltadas especialmente à aristocracia. d) Os museus diferenciam-se dos gabinetes de curiosidades apenas em relação a seu tamanho, pois expandiram-se desde a Renascença. e) Os Gabinetes de Curiosidades associavam-se a uma concepção metódica de histórica, voltada à coleção de pequenos fatos organi- zados temporalmente. 4. Entre 1789 e 1801, Napoleão Bonaparte liderou uma campanha militar francesa ao Egito e à Síria. Nessa expedição participaram 167 cientistas que produziram, entre outros conteúdos, imagens dos tempos do Antigo Egito, além de recuperarem peças arqueoló- gicas. Segundo Garraffoni e Stoiani (2006, p. 77), nesse período, os “egípcios são recolocados no cotidiano francês, seus principais símbolos revisitados, produzindo imagens muitas vezes específicas [desse povo], buscando definir a identidade nacional francesa”. – 81 – Os arquivos A respeito da relação entre o nacionalismo europeu e a busca pelo estudo das sociedades antigas, a partir do século XVIII, pode-se afirmar: a) Criados a partir das peças obtidas por Napoleão Bonaparte, os museus modernos surgem inicialmente como uma maneira de representar a inferioridade dos povos antigos frente aos europeus do século XVIII. b) Os museus surgem, na Europa, como uma maneira de preservar as antiguidades que poderiam estabelecer uma relação entre a gran- deza dos povos antigos e a dos europeus do período. c) Os museus são criados inicialmente no Egito, como uma maneira de franceses e ingleses organizarem os achados arqueológicos daquela região que, à época, estavam se deteriorando sem cuidados. d) Os arquivos nacionais surgem como uma forma de revolta contra as ações Napoleônicas de destruição de antigos vestígios arqueológicos, e buscavam a preservação de objetos considerados de valor histórico. e) A arqueologia surge no século XVIII como uma forma de resis- tir aos avanços imperialistas europeus – especialmente franceses e ingleses – sobre as sociedades africanas e asiáticas, e seus tesou- ros históricos. Memória e história 4 Para além de sua base neurobiológica, a memória possui diversas características que são coletivas – nossas lembranças se adaptarão às convençõese expectativas sociais, além de compar- tilharmos memórias com os grupos que interagimos. Mas, além disso, a memória coletiva é também algo que se cria, apaga-se, ou pela qual se disputa. Essas características da memória, e suas múlti- plas relações com a história, serão discutidas no presente capítulo. Introdução ao Estudo da História – 84 – 4.1 Da memória individual à memória social Figura 1 - Autorretratos de William Utermohlen como apareceram no jornal estadunidense New York Times, em outubro de 2006. Fonte: Disponível em http://www.nytimes.com/2006/10/24/health/24alzh.html Em 1996, o artista estadunidense William Utermohlen foi diagnosti- cado com a doença degenerativa de Alzheimer, que afeta várias funções cog- nitivas e que é conhecida, especialmente, pelos danos que causa à memória. Utermohlen continuou realizando autorretratos à medida que a doença avan- çava, registrando assim, de uma maneira visual e impactante, o processo de deterioração de seu estado de saúde mental. Para amigos e familiares de pacientes atingidos pela doença, a memória que se degrada é um dos aspectos emocionalmente mais difíceis de serem absorvidos. É o que revelam alguns depoimentos obtidos em uma pesquisa, realizada em 2009, com cuidadores de pessoas com doença de Alzheimer, “aí eu sentei na frente, passei a mão na testa dela e disse: ‘mãe, olhe bem firme pra mim, a senhora não está me reconhecendo? Eu sou sua filha”. Às vezes pensa coisas dos antigos, antigas coisas, e às vezes não se lembra do meu nome. Muitas vezes não conhece os filhos, às vezes pergunta para a T.: “Quem é que tu és?” (nossa filha). O M. também, ele diz assim: “Tu é nosso filho?” (BACKES, 2006, p. 271). A dramática perda da memória individual, por enfermidades ou trau- mas, tem um impacto direto nas maneiras pelas quais a pessoa se compreende, como se relaciona com familiares, e como atua socialmente. Afinal, em vários – 85 – Memória e história sentidos, nós somos nossas próprias memórias, que constantemente recupera- mos e reorganizamos de modo a construir nosso self, a nossa ideia de eu. Isso ocorre não apenas porque nos lembramos de nossos nomes, temos memórias da infância e dos pais, ou reconhecemos antigos e novos colegas. É isso também, sem dúvida, mas é mais: só podemos viver e agir no mundo se pudermos contar com nossa memória. Sem ela não poderíamos escrever, dirigir ou conversar; não saberíamos agir socialmente; não mais teríamos refe- renciais do que gostamos ou odiamos. Escrevo porque me lembro das letras e seus significados, ajo socialmente porque me foi ensinado certas regras de con- duta, e evito tudo aquilo que, por experiência, descobri que me prejudicava. A memória é fundamental para darmos coerência à realidade, em um processo que, aos poucos, foi sendo perdido em William Utermohlen. A ima- gem de seu rosto, que com o avanço da doença gradualmente se torna mais abstrato até o desaparecimento, faz parte desse esfacelamento da memória provocado pelo Alzheimer. E, com ele, dramaticamente, a deterioração das características sociais que são próprias da vida humana. Viver a realidade é, em grande parte, rememorar a todo momento anti- gas experiências: parte-se do já foi vivido para julgar, concluir, agir. E é aqui que a memória, algo que a princípio parece tão profundamente individual, liga-se ao que se pode denominar de uma memória social ou coletiva. Afinal, desde a infância, nossas experiências são influenciadas pela socie- dade e cultura. Somos criados em certo idioma, dentro de um grupo social específico, sob determinados costumes. Para recuperar um tema do primeiro capítulo, só saberemos como utilizar um lenço de forma discreta se lembrar- mos o que nos foi ensinado quando crianças. A memória que utilizamos para organizar as informações que recebemos e dar sentido ao mundo formou-se, assim, como resultado das experiências vividas nesse processo de socialização. A ideia de entender a memória como um fenômeno social foi desen- volvida pelo sociólogo francês Maurice Halbwachs (1877-1945), que forne- ceu um exemplo pessoal: “a primeira vez que estive em Londres, diante de Saint Paul ou da Mansion Home”, afirmou, “muitas impressões me faziam lembrar os romances de Dickens lidos na infância: eu passeava pela cidade com Dickens” (HALBWACHS, 2004, p. 31). Ou seja, as memórias de suas leituras acompanhavam-no em sua visita a Londres, e influenciavam as for- mas pelas quais entendia a cidade. Halbwachs questionava, assim, a ideia da Introdução ao Estudo da História – 86 – memória enquanto fenômeno puramente individual, para considerá-la como resultado de um processo social, construído a partir de relações estabelecidas dentro de determinados grupos. O que aprendemos na escola, em família, nas relações de trabalho, nos momentos de lazer, nos vários e quase infinitos momentos em que nos relacionamos com outras pessoas, forjam memórias que, por sua vez, participam da leitura e interpretação da realidade. Se formos a Londres, da mesma forma que Halbwachs, passaremos pela cidade acompanhados de nossas memórias, ou seja, do que já conhecemos a partir de filmes, das lembranças que tivemos das aulas de História, do que lemos em jornais ou revistas. A memória, portanto, não é passiva, como um arquivo no computador no qual se buscam informações. Mas participa de algo ativo, que lança continuamente interpretações à realidade. Para Halbwachs, são três as maneiras pelas quais organizamos nossas experiências do passado de forma a integrá-las às exigências sociais. 2 A memória autobiográfica. Trata-se da memória de eventos experimentados no passado, semelhantes ao registrado na imagem: a festa torna-se um momento de socialização que cria determinadas lembranças. Mas, além disso, par- ticipa do reforço da coesão social, pois a celebra- ção do aniversário estreita os laços de parentesco e amizade entre os participantes. Considerando a anotação na parte de trás da fotografia, a festa ocorreu em 12 de janeiro de 1980. Com o passar do tempo, as memórias autobiográficas tendem a enfraquecer e desapare- cer, a não ser que ocorra seu reforço ou sua recu- peração. Esse processo é social e coletivo, pois as memórias que se recuperam são compartilhadas por aqueles que participaram do evento. 2 A memória histórica. Refere-se ao pas- sado recuperado por meio de registros, como documentos escritos, fotografias, vestígios mate- riais. Trata-se, portanto, do conhecimento a res- Figura 2 - Festa de aniversário. Fonte: Acervo do autor. – 87 – Memória e história peito de eventos que não foram propriamente testemunhados, mas conhecidos apenas de maneira indireta. Determinados eventos coletivos, como as comemorações de aniversário de uma cidade, reforçam os sentimentos de coletividade, através da rememoração de sua história. Historiadores participam da criação dessa memó- ria histórica, em conjunto com instituições como escolas, museus, arquivos, bibliotecas. 2 A memória coletiva. Refere-se às memórias que são compartilha- das pelas pessoas de um determinado grupo, que pode ser pequeno, como uma família, ou abrangente, como um país. Halbwachs sabe que são os indivíduos, e não as instituições, que rememoram. Mas a memória que é recuperada por um indivíduo dentro de um con- texto coletivo será aquela que estiver de acordo com as concepções do grupo. Esta memória é parte do passado que se mantém presente na atu- alidade, e que participa da construção da identidade coletiva: uma festa de aniversário reforça a identidade familiar, da mesma forma que o desfile de 7 de setembro reforça o sentimento de brasili- dade. Em muitos sentidos e diversas formas, é a memória coletiva que constrói ideais de nacionalidade, pertencimento e tradição. E quando envolvem tais conceitos, tornam-se motivos de disputas:certos passados podem ser esquecidos ou rememorados (ou mesmo inventados), determinadas tradições valorizadas enquanto outras serão abandonadas, ou mesmo marginalizadas e proibidas. Narra- tivas utilizam-se das memórias e do passado para legitimar deter- minada situação social ou grupos de poder. É sobre esses processos que se discutirá a seguir. 4.2 A memória coletiva Em 1932, o estado de São Paulo inicia uma luta armada contra o governo federal, à época comandado por Getúlio Vargas. A elite política paulista havia perdido poder com a Revolução de 30, e transformou-se em uma das maiores críticas da resistência de Vargas em convocar uma Assembleia Constituinte. O movimento recebeu o nome de MMDC, em homenagem a quatro estu- Introdução ao Estudo da História – 88 – dantes mortos por forças getulistas – Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo. As forças armadas paulistas se organizaram e, em 9 de julho de 1932, iniciou- -se a chamada Revolução Constitucionalista. Nos cerca de três meses de conflito, São Paulo procurou direcionar seus recursos no com- bate contra as forças do governo. E parte importante desse esforço fundamentou-se no incentivo a determinado sentimento patriótico paulista, por intermédio da invoca- ção de uma determinada memória, e da construção de uma narrativa sobre seu próprio passado. Como mostram tanto o car- taz, quanto a cédula, a imagem do bandeirante foi utilizada para cor- porificar o que seriam os valores próprios dos paulistas. Idealizado enquanto um herói, essa imagem foi utilizada durante a guerra para reafirmar a existência de certa identidade que seria própria dos paulistas, e que os diferenciava dos demais brasileiros. Se eram herdeiros dos bandeiran- tes, a população de São Paulo seria, também, herdeira de sua suposta coragem e bravura: a memória coletiva, portanto, era utilizada para construir determi- nada identidade paulista. O mito do bandeirante destemido e corajoso estava culturalmente difundido no Brasil do período, especialmente em São Paulo. Um livro didá- tico de história, datado de 1930, assim ensinava às crianças do terceiro ano: Eram os paulistas dotados dum gênio ousado e empreendedor. For- mando expedições, sob a direção dum chefe experimentado, embrenha- vam-se pelas matas virgens, sem temor nem do feroz indígena nem dos animais selvagens. Nada havia que os dissuadisse do seu intento. (...) Bandeiras era a denominação dessas expedições. Daí o nome de ban- deirantes por que eram conhecidos os paulistas (SILVA, 1930, p. 84-5). Fonte: CPDOC/CDA/Roberto Costa | CC BY_SA 4.0 Figura 3 – Cartaz em defesa dos combatentes, e detalhe da cédula de bônus de guerra apresentando Domingos Jorge Velho: em ambos os documentos, destaca-se a imagem do bandeirante. – 89 – Memória e história Memórias coletivas podem ser invocadas, transformadas, apagadas, seguindo-se os interesses de determinados indivíduos ou grupos. Em certos momentos, nos quais se acredita que uma coletividade possa estar sendo ame- açada – é o que se acreditava, em São Paulo de 1932 –, a invocação e exaltação de certos aspectos da memória coletiva contribui para manter a coesão, incen- tiva a ação a certos objetivos, repele aqueles que são considerados externos, ou inimigos. Reforça a ideia do “nós” em contraposição aos “outros”. A memória do bandeirante foi utilizada, assim, para reforçar uma ideia de identidade e de pertencimento entre os paulistas. Fora construído determi- nado passado e, nele, identificada a origem dos valores que seriam próprios da “raça paulista”, que todos acreditavam compartilhar: a superior coragem dos intrépidos e gloriosos bandeirantes. Construía-se, assim, através da memória coletiva, um determinado passado que comunicava importantes característi- cas morais, o que, por sua vez, incentivava determinadas ações no presente, além de sugerir um caminho para o futuro. De que forma essa memória coletiva pode ser criada ou invocada? De que maneira se associa aos interesses de grupos, e procura construir noções de coesão e identidade? De várias formas, como construção de narrativas, reme- moração de eventos e personagens, alteração da paisagem, celebração de rituais. 4.2.1 Narrativa e identidade As narrativas construídas a partir da memória coletiva são enredos, geralmente simples, que carregam consigo lições e metáforas. No passado são buscados os caminhos que trariam soluções para os desafios vividos no presente: os revolucionários paulistas de 1932, por exemplo, foram buscar na figura mítica do bandeirante um exemplo ancestral de como, com perseve- rança e coragem, os maiores desafios poderiam ser superados. Esses enredos pressupõem e reforçam a ideia de homogeneidade. As pes- soas não são vistas em suas individualidades, e os grupos parecem não ter divergências: há apenas a conformidade e a divulgação de um ideal de que “somos todos assim”. A manchete do jornal paulista Diário Nacional, de 19 de julho de 1932, oferece um exemplo dessa memória coletiva que visa a criação de um pensamento unificador. Introdução ao Estudo da História – 90 – Figura 4 - Ataque à “Terra das Bandeiras”. Fonte: Diário Nacional, 19/7/1932. p. 1 Em primeiro lugar, repare que ao destacar a ação da “Terra das Bandei- ras”, o jornal procurava reforçar a relação com seu passado bandeirante. Mas, além disso, salientava os problemas que enfrentariam todos aqueles que ten- tassem se opor à “avalanche”, ou seja, aos paulistas. A metáfora da avalanche, aliás, é bastante significativa: cada pequena partícula é fraca em si, mas atu- ando conjuntamente, como um bloco, pode causar destruição. Transmite-se, assim, além de uma percepção de unidade, uma ideia de força. Essa representação da identidade de um grupo, ou de uma nacionali- dade, enquanto uma união indivisível, aparece mais nitidamente em momen- tos de conflito. Em tais ocasiões, a divisão “nós” versus “eles” fica explícita. Isso aconteceu, por exemplo, quando da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, por meio da Força Expedicionária Brasileira. O jornal do Rio de Janeiro “Diário da Noite” trazia, como a grande maioria dos perió- dicos do período, manchetes com informações sobre o avanço da guerra e a participação do Brasil. Repare, no trecho abaixo, como a memória coletiva de uma nação indivisível é utilizada. O texto trata da partida das tropas bra- sileiras para a Itália. A tropa e o povo, irmanados pelos mesmos sentimentos de brasili- dade, darão assim uma eloquente demonstração de unidade indes- trutível nesta luta de vida ou morte das Democracias contra o barba- rismo totalitário. Os nossos soldados marcharão equipados como se estivessem dire- tamente a caminho do “front” onde vingarão os nossos irmãos mas- sacrados nos traiçoeiros ataques do Eixo e os ultrajes feitos a nossa soberania (DIÁRIO DA NOITE, 30/3/1944, p. 1) As ideias de brasilidade e de irmandade são bastante explícitas. Expres- sões como “unidade indestrutível”, “democracias”, “irmãos” são reservadas aos soldados brasileiros; dos inimigos são destacados seu “barbarismo totalitá- rio”, seus “traiçoeiros ataques”, e seus “ultrajes”. O “nós” é radicalmente dife- – 91 – Memória e história rente dos “outros”: de um lado estão os certos, os que andam junto à verdade; do outro está, portanto, o erro e a mentira. O inimigo, o adversário, é visto de forma reducionista e não há preocupação em compreender suas reais inten- ções e motivações. Sabe-se apenas que seus objetivos ameaçam a identidade e os valores do grupo. Esse modelo bastante dicotômico de compreender a realidade se repete em outros enredos, como a oposição entre bandeirantes e indígenas, ou, como veremos a seguir, Tiradentes e a Coroa portuguesa: é característico destas narrativas da memória coletiva não se preocupar em descre- ver a realidade,mas reduzi-la, selecionando, colhendo ou modificando eventos. Saiba mais O irlandês Benedict Anderson (1936-2015) utilizou o termo “comu- nidades imaginadas” para descrever a criação de sentimentos nacio- nalistas, em um processo que se inicia na Europa e nas Américas no século XVIII, e que se difundirá nos séculos seguintes. Para Ander- son, as pessoas de uma mesma nacionalidade acreditariam fazer parte de uma mesma comunidade e que dividiriam os mesmos valores fundamentais. Seria uma comunidade “imaginada” porque conceitos como nacionalismo, identidade, e mesmo território seriam criações arbitrárias, e não teriam uma existência objetiva ou natural. As pessoas acreditariam fazer parte de uma mesma comunidade – uma “irman- dade de “brasileiros”, por exemplo, como afirmou o jornal de 1944 – embora jamais tenham encontrado face a face a grande maioria das pessoas que fazem parte de seu grupo. Foi tomado o exemplo dos bandeirantes no contexto da Revolução Constitucionalista, mas, na verdade, tais enredos – a busca por encontrar no passado eventos e heróis que, permeando a memória coletiva, justificassem e legitimassem o presente – foi um processo que ocorreu também a nível nacional. O exemplo mais notório é a construção mitológica de Tiraden- tes: resgatado de certo passado, Tiradentes foi transformado em herói pela República com o objetivo de estabelecer uma continuidade entre os supostos ideais da Inconfidência Mineira e os republicanos. Por isso, Tiradentes passa a ser representado como um personagem com moral e visão política superio- Introdução ao Estudo da História – 92 – res e, nas pinturas, aparece comumente em roupas brancas – indicando a pureza de seus ideais –, possuindo características físicas semelhantes às de Jesus, e altivo diante da morte. Na pintura de Aurélio de Figueiredo (1856-1916), por exemplo, seu olhar para o infinito procura evocar o personagem mar- tirizado que, porém, antevia o destino do país. A liberdade, representada pela pomba em voo, estaria logo em frente. Tradições inventadas Se, como afirma Benedict Ander- son, a nação é uma “comunidade imaginada”, fez-se neces- sário criar símbolos, mitos e, mesmo, uma história, que pudesse construir um sentimento de unidade entre os cida- dãos. Tiradentes, elevado a herói da Pátria, e os bandeiran- tes enquanto símbolos de São Paulo são exemplos destes significados convencionados. Muitas tradições, símbolos e ritos, em torno dos quais vivemos, e que muito comumente se acreditam antigos, podem ser na verdade invenções recentes, e estão associados à legitimação de determinada ordem social, e certa estrutura de poder. Ainda que as tradições sejam usualmente percebidas como imutáveis, elas podem ser modificadas, esquecidas ou cria- das. Neste caso, isso pode ocorrer mais ou menos intencio- nalmente. O historiador britânico Eric Hobsbawm (1917- 2012) define como “tradições inventadas” aquelas que, através de sua repetição, e da construção de determinada ligação com o passado, constroem e reforçam sentimentos de identidade e de patriotismo. Embora a invenção destas tradições possa ser encontrada em vários momentos da his- tória, Hobsbawm destaca sua importância no processo de Figura 5 - Martírio de Tiradentes F on te : F ig ue ir ed o, A ur él io d e. M ar tí ri o de T ir ad en te s. 1 8 9 3 . Ó le o so br e te la 5 7 x4 5 m m . M us eu H is tó ri co N ac io na l. R io d e Ja ne ir o. – 93 – Memória e história consolidação dos Estados nacionais, especialmente a partir do século XVIII. É a partir desse momento que rituais – como a pompa na monarquia inglesa –, símbolos – como os kilts1 escoceses –, e costumes são difundidos e estimu- lados, como se fossem síntese de um povo. Integradas à identidade de uma nação, essas tradições acabam sendo compreendidas como seus elementos definidores, além de serem percebidas como antigas (HOBSBAWM; RAN- GER, 1997). Bandeiras, hinos, símbolos nacionais são criados neste momento: percebidos de forma semelhante a objetos sagra- dos, seriam a representação sintética dos valores de um povo. Por isso, o ato de agredir esses símbolos significaria agredir a todo um país ou nação. A atual bandeira do Brasil teve sua instituição definitiva por meio de um decreto republicano de 1889. Mesmo sendo, obviamente, uma nova bandeira – própria para a Repú- blica – o decreto procurava estabelecer uma relação com passado, com certa tradição nacional. A manutenção das cores oriundas da bandeira imperial tinha como função esta- belecer esse ideal de antiguidade: as cores, como afirmava o decreto, “recordam as lutas e as vitórias gloriosas do exér- cito e da armada na defesa da pátria” e que, “independen- temente da forma de governo, simbolizam a perpetuidade e integridade da pátria entre as outras nações”. O novo símbolo era inventado, portanto, como se mantivesse uma continuidade com o passado. A disciplina histórica participou desse processo de inven- ção de tradições, definindo heróis, estabelecendo a natura- lidade das fronteiras, destacando eventos que seriam como mitos fundadores nacionais. Esse modelo de compreensão da história, bastante comum nos livros didáticos ainda nas primeiras décadas do século XX, visava reforçar o senti- 1 Saia, tipicamente masculina, característica da Escócia. A partir do século XIX, tor- nou-se símbolo da cultura escocesa como um todo. Introdução ao Estudo da História – 94 – mento nacionalista através do estabelecimento de relações com o passado. 4.2.2 Encenações rituais Um livro didático voltado para o segundo grau (atual ensino médio), produzido durante a ditatura militar (1964 a 1985), assim afirmava sobre o Hino Nacional: Ouvido longe da Pátria, o Hino Nacional provoca uma profunda emoção, pois ele resume e evoca todo nosso senti- mento de brasileiros. (...) Como a bandeira, o Hino Nacio- nal é também um símbolo sagrado. (GALACHE, 1979, p. 235). Mais do que simplesmente ensinar às crian- ças a letra e a música, a prática ainda comum de levar alunos de uma escola a cantar o Hino Nacional e presenciar o hasteamento da ban- deira visa reforçar sentimentos nacionais por intermédio de uma ação que em muito se asse- melha a um ritual. Isso é especialmente comum em governos ditatoriais e nacionalistas, como o regime militar: tratava-se de uma maneira de reavivar a memória coletiva em torno de deter- minados significados simbólicos como, no caso, identidade e patriotismo. E, de fato, não se pode negar que certas ence- nações produzem um impacto emocional maior do que o simples uso de palavras: no caso do Bra- sil, basta relembrar os jogos da seleção brasileira de futebol, e o que o cantar do hino significa para todos, torcedores ou jogadores. Nestes contextos, o canto unifica. Trata-se de uma ação que traz novamente ao presente os valores de identidade e comunidade associados ao patriotismo. Figura 6 - Em 1935, a memória dos bandeirantes era invocada, associada à imagem dos soldados que haviam lutado em 1932. Aqui, os bandeirantes aparecem representados como espíritos que estão por detrás da bandeira de São Paulo. Os soldados voluntários na Revolução Constitucionalista, a bandeira, e os bandeirantes são símbolos que se unem, reforçando a memória coletiva Fonte: Reprodução. – 95 – Memória e história A partir de 1935, o jornal Folha da Manhã, de São Paulo, passou a trazer em sua capa, sempre na data de aniversário do início da guerra, imagens e reportagens que relembravam a participação paulista na Revolução Constitu- cionalista. Embora não seja efetivamente um ritual, não deixava de se tratar de uma rememoração e uma reencenação:os valores associados à guerra são recuperados mais uma vez e, com isso, os sentimentos de identidade. Nova- mente o passado bandeirante era trazido ao presente. A data de 9 de julho, no estado de São Paulo, rememorada todos os anos, gradualmente ganhou significados locais, até se tornar uma data com significado próprio. A instituição de feriados também participa desse processo de recuperação do passado: nestes dias, rememoram-se eventos e ações con- siderados significativos. No caso do Brasil, ainda que 21 de abril seja feriado (relembrando a execução de Tiradentes), tem-se o dia 7 de setembro (relem- brando a Proclamação da Independência) como principal data de festividades cívicas. Como um ritual, as celebrações em datas significativas remetem à continuidade com o passado, com os eventos ou personagens rememorados. 4.2.3 Monumentos, parques, praças, bustos: espaço e memória coletiva Em 1955, São Paulo ainda via a Revolução Constitucionalista como um importante evento definidor de seu passado e identidade. Os corpos dos estudantes que batizaram o movimento MMDC, além de outra vítima, Paulo Virgínio, foram exumados e reunidos na capital, de forma que fossem aloja- dos em um monumento construído especificamente para relembrar o evento. Atingirão hoje o seu ponto culminante as comemorações da data máxima de São Paulo. Chegaram ontem os despojos de Paulo Vir- gínio e Miragaia, conduzidos em cortejo pelas ruas da cidade até a Catedral, juntamente com os de Martins, Dráusio e Camargo – Pro- mulgação de leis em homenagem à memória dos heróis. (Folha da Manhã, 10/7/1955, p. 8). Um obelisco de mais de 70 metros de altura, erguido no Parque Ibira- puera, na cidade de São Paulo, constituiu-se como um marco na paisagem, de forma a lembrar aquele evento na memória coletiva. Mais especificamente, tratava-se de um monumento funerário: comuns no Ocidente apenas após a Introdução ao Estudo da História – 96 – Primeira Guerra Mundial, como uma forma de relembrar os mortos nessa guerra, tais monumentos objetivavam reviver, para as pessoas do presente, a lembrança daqueles que morreram em combates considerados significativos. É o caso, para os paulistas, da Revolta Constitucionalista: “viveram pouco para morrer bem; morreram jovens para viver sempre”, está escrito à frente do monumento. A ideia da morte valorosa – “morrer bem” – e que será sempre lembrada – “viver sempre” – fica evidenciada. O impacto emocional que tais monumentos geram ao recuperar a memória coletiva não é difícil de ser constatado em vários outros contextos. Os soldados brasileiros mortos na Segunda Guerra Mundial foram sepulta- dos, inicialmente, em um cemitério na região de Pistoia, na Itália, onde luta- ram. Em 1960, após a trasladação dos corpos para o Brasil, o local foi trans- formado em Monumento Militar Votivo, mas ainda é visitado regularmente por turistas brasileiros. Nos livros de depoimentos revela-se a emoção diante do significado do lugar, e sua relação com o sentimento de nacionalidade. Emocionada com a visita aos irmãos brasileiros heróis em defesa da humanidade. Beijos saudosos a todas as mães brasileiras. Orgulho de ser brasileira E.S.A. O verdadeiro sentido da palavra herói, encontramos neste lugar cheio de recordações, dos feitos e da força da solidariedade. Estar aqui é uma honra e um dever de todo brasileiro, que tem como meta a paz e o entrelaçamento dos povos. Obrigado Heróis! Obrigado Brasileiros! Viva a FEB em 31/03/2004 (Apud PIOVEZAN, 2014, p. 127). Os monumentos funerários são apenas uma das formas de se invocar a memória coletiva. Outros monumentos procuram celebrar vitórias e con- quistas, além de personagens considerados notáveis pela sua atuação. E, além disso, a construção de praças, bustos e estátuas, bem como parques, são outras formas de se alterar a paisagem de modo a se construir uma determinada rela- ção entre o presente e o passado. Que cidade do Brasil, por exemplo, não tem ruas ou praças com nome de Tiradentes, Getúlio Vargas, Duque de Caxias? Os monumentos comunicam determinados valores, excluem concep- ções consideradas inadequadas, além de reforçarem hierarquias, ao repre- sentar de maneiras particulares os diferentes grupos sociais que compõem a sociedade. Não se pode esquecer, por exemplo, que a construção de um monumento exige planejamento, recursos e, usualmente, um extenso prazo – 97 – Memória e história de execução. Parte de todo esse planejamento reside na escolha de qual pas- sado será representado. Afinal, diante da infinidade de eventos que ocorre- ram, um monumento deverá efetuar um recorte da realidade, visando refor- çar ideias e produzir significados. Além disso, deve-se decidir o que vai ser monumentalizado: vai ser destacado o sofrimento ou a vitória? Destacará os líderes ou a participação popular? Incentiva a luta ou a pacificação? O que se escolhe representar do passado diz muito como uma sociedade se compre- ende no presente. O mesmo raciocínio serve para a preservação do patrimônio, seja ele material ou imaterial. Decidir quais elementos da paisagem, obras, rituais ou costumes serão considerados “patrimônio”, significa pensar o passado a partir de determinada concepção do presente. Ao se definir pela preservação, faz-se a escolha pela manutenção de certa memória; e ao se escolher um determi- nado passado, automaticamente excluem-se outros alternativos. Saiba mais Na busca por compreender a relação entre memória e história, o historiador francês Pierre Nora (nascido em 1931) desenvolveu a ideia de “lugares de memória”, definidos como quaisquer entidades, materiais ou não, que houvessem se tornado símbolo da herança de uma comunidade (NORA, 1993). Locais como arquivos e museus, espaços como catedrais e monumentos, objetos como bandeiras, seriam, assim, lugares de memória. Esses lugares não nascem espon- taneamente, mas surgem como resultado de conflitos e disputas pela representação da realidade, revelam interesses e visões de mundo e, em sua característica contemporânea, teriam como objetivo impedir o esquecimento. Como esses lugares costumam surgir especialmente em momentos de crise, passam a ter a importante função de ancorar o presente em determinada concepção de passado. 4.2.4 Memórias em disputa Entre 1937 e 1945, a política expansionista japonesa acabou por provo- car uma guerra contra a República da China, iniciando o que ficou conhecido Introdução ao Estudo da História – 98 – como a Segunda Guerra Sino-Japonesa. Logo no início dos combates, o exér- cito japonês invadiu a capital chinesa da época, Nanquim, buscando capturar seu líder, Chiang Kai-shek. É especificamente sobre este episódio que tratam os dois relatos a seguir, extraídos de um livro didático japonês e outro chinês. Trecho 1 Trecho 2 Em agosto de 1937, dois soldados japoneses e um oficial foram assas- sinados a tiros em Xangai. Após esse incidente, as hostilidades entre Japão e China aumentaram. Ofi- ciais militares japoneses acredita- vam que Chiang Kai-shek iria se render após a captura de Nanquim, a capital Nacionalista [da China]; eles ocuparam a cidade em dezem- bro*. Os conflitos continuaram. *Nota: neste período, muitos soldados e civis chineses foram mortos ou feri- dos pelas tropas japonesas (o incidente de Nanquim). Evidência documen- tal tem lançado dúvidas sobre o real número de vítimas desse incidente. O Massacre de Nanquim: em dezembro de 1937, o exército japo- nês capturou Nanquim. O exér- cito japonês cometeu atrocidades sangrentas contra residentes de Nanquim e prisioneiros de guerra, assassinando-os através de méto- dos cruéis, incluindo execução em massa, pelo fogo, enterrando-os vivos, decapitação, e por ataques de cães. O Massacre de Nanquim foi o evento mais horrível da história mundial. De acordo com estatísticas,o número estimado de mortos contra residentes desarmados de Nanquim e soldados chineses chegam a 300 mil, durante apenas as seis semanas de ocupação do exército japonês. Considerando a leitura de cada trecho, qual é a sua conclusão sobre o episódio? Para reflexão sobre os textos e suas abordagens, pode-se utilizar as seguintes questões: 1. É possível dizer que ambos concordam com o que aconteceu na cidade de Nanquim? Por quê? 2. Você consegue identificar qual texto tem origem no Japão e qual na China? Que diferenças na abordagem justificam a sua escolha? – 99 – Memória e história 3. Por que um dos livros escolhe utilizar o termo “inci- dente” e outro “massacre” para denominar o evento? Qual a diferença entre esses dois termos? Os textos trazem duas visões bastante diferentes sobre o mesmo evento. O trecho 1, extraído de um livro didático japonês (NEW HISTORY, 2005), é baseado em uma visão nacionalista, que busca isentar as ações do exército do Japão: além de indiretamente culpar a não rendição de Chiang Kai-shek pelo que ocorreu, define o episódio como um mero “incidente”, e questiona o número final de mortos. O trecho 2 tem origem em um livro escolar chinês (NEW CENTURY, 2001), trata o evento como uma agressão japonesa, e o define como um “massacre”. Tem-se aqui, claramente, uma disputa pela memória do que ocorreu em Nanquim. O mesmo episódio recebe dois tratamentos bastante diferen- tes, praticamente opostos, e se utilizam dos livros didáticos como forma de defender suas posições. É importante dizer que a historiografia, na atualidade, tende a se aproximar da visão chinesa, embora talvez com um número menor de mortos. Mesmo assim, a menor estimativa considera que pelo menos 40 mil pessoas foram massacradas pelas tropas chinesas – e “Massacre de Nan- quim” ou “Estupro de Nanquim” são as formas pelas quais o episódio é usu- almente nominado. Disputas pela memória de eventos ou personagens não é incomum, e explicitam diferentes percepções de grupos, estados ou indivíduos sobre o passado e o presente. Dentro de uma concepção nacionalista e de celebração de uma visão imperialista do Japão, o livro japonês tenta justificar as ações de guerra em Nanquim. A valorização nacionalista também ocorre no livro chi- nês, mas destaca o sofrimento de sua população. São, portanto, duas memó- rias conflitantes sobre o mesmo evento. Uma disputa semelhante ocorre, por exemplo, com o genocídio do povo armênio, ocorrido em 1915 pelo Império Otomano, em que ao menos 800 mil pessoas teriam morrido. Esse episódio tem sua existência negada de forma veemente pela Turquia, herdeira dos oto- manos, ainda nos dias de hoje. O Brasil também passa por um processo de revisão da memória a res- peito dos crimes cometidos pelo Estado, especialmente durante o regime Introdução ao Estudo da História – 100 – militar. A chamada Comissão Nacional da Verdade foi instalada oficialmente em 2012 e buscou colher depoimentos e obter documentos que pudessem esclarecer a responsabilidade do Estado na violação de direitos humanos, a atuação de agentes de repressão nos chamados “porões” da ditadura, além de colher depoimentos de pessoas que sofreram perseguições e torturas. Em seu relatório, a Comissão afirmou que ficou “perfeitamente configu- rada a prática sistemática de detenções ilegais, arbitrárias e de tortura, assim como, o cometimento de execuções, desaparecimentos forçados e ocultação de cadáveres por agentes do Estado brasileiro” (BRASIL, 2015, p. 962). Além disso, apresentou recomendações para que aqueles episódios não se repetis- sem, como a busca pela democratização das academias militares e policiais, a criação de mecanismos de combate à tortura, e a responsabilização jurídica dos agentes públicos que participaram da violação dos direitos humanos2. Além de recuperar determinada memória do período, o próprio rela- tório final da Comissão participa, também, de disputas pela memória. Por exemplo, o texto final sugere promover a alteração da denominação de logradouros, vias de trans- porte, edifícios e instituições públicas de qualquer natureza, sejam federais, estaduais ou municipais, que se refiram a agentes públicos ou a particulares que notoriamente tenham tido comprometimento com a prática de graves violações (BRASIL, 2015, p. 974). Essa recomendação busca a substituição de uma memória que passou a ser considerada indigna, porque estava associada à violação dos direitos humanos no regime militar, em favor de outra, agora socialmente valorizada e considerada mais democrática. Um determinado passado deve ser excluído, para que outro possa surgir. Deve-se notar, ainda, que essas e outras formas de atuar sobre a memória coletiva não são isentas: têm também sua parcialidade e seus objetivos; partem também de determinada visão de mundo, de socie- dade e, mesmo, de futuro. Por mais bem-intencionada que seja, e por mais 2 A responsabilização jurídica dos torturadores é atualmente proibida pela legisla- ção brasileira, por conta da lei n° 6.683 de 1979, denominada “lei da Anistia”. Promulgada durante a presidência de João Figueiredo, perdoava os crimes políticos não apenas daqueles que se posicionaram contra o governo militar, mas também dos que teriam cometido “crimes conexos”, ou seja, os agentes da repressão. A anistia, ao estabelecer o perdão a opositores e tor- turadores, acabou, também, por incentivar o apagamento, na memória coletiva, das violações aos direitos humanos cometidos durante o regime militar. – 101 – Memória e história relevante seu trabalho, não se pode esquecer que a Comissão Nacional da Verdade, embora tenha “verdade” em seu nome, não produz informações que se opõem à “mentira”, mas uma determinada seleção de fatos, que imagina os perseguidores e perseguidos de determinada forma. A partir de certo ponto de vista, portanto, e com determinada intencionalidade. Figura 7 - Apesar de aparentarem antiguidade e permanência, as memórias coletivas se modificam. Em abril de 2000, a revista de variedades Superinteressante publicou, em sua capa, uma visão dos bandeirantes bastante diferente daquela glorificada pelos paulistas nos anos 1930. A legenda diz: “Esqueça as barbas grandes, as botas altas e os chapéus de feltro. Os homens cruéis que desbravavam o país eram mestiços, usavam arco e flecha e andavam descalços”. A reportagem repercutia as mudanças na historiografia a respeito daqueles personagens, contestando a versão heroica, e contextualizando suas ações dentro de seu período, local e cultura. O fato dessa reportagem aparecer em um periódico de divulgação científica popular, mostra que não foi apenas a historiografia que mudou suas impressões a respeito dos bandeirantes, mas, na memória coletiva, perdeu-se muito do simbolismo heroico que sustentou seu uso pelos paulistas desde a Revolução Constitucionalista. Fonte: Reprodução. Introdução ao Estudo da História – 102 – 4.2.5 O esquecimento “1932: a guerra que esquecemos”. A manchete da edição de julho de 2012 da “Revista de História da Biblioteca Nacional” revela um último aspecto da memória coletiva que atingiu a Revolução Constitucionalista: o esquecimento. Outrora símbolo da identidade paulista, razão para celebra- ções e monumentos, o evento atualmente tem sua importância bastante dimi- nuída dentro da memória coletiva do estado, ainda que o feriado permaneça. Se as intervenções na paisagem, como vimos anteriormente, são uma forma de interferir na memória coletiva, podem acabar por se tornar, tam- bém, símbolos do esquecimento. Especialmente comuns nos ambientes urbanos, bustos que enfeitam as praças, por exemplo, muitas vezes passam a representar personalidades que, importantes no passado, acabam por não ter mais seus nomes e ações ressoando na memória do presente. Da mesma forma, determinadosmonumentos podem celebrar acontecimentos que, no passado, foram considerados marcantes, mas que acabaram sendo esquecidos. Determinados grupos sociais também podem ter sua memória esque- cida, como ocorre com pessoas socialmente marginalizadas. Nestes casos, pode haver desde um desinteresse social em registrar as experiências de certos indivíduos, até um sistemático apagamento de suas memórias. Vimos, no capítulo 2, sobre as dificuldades da historiadora e do historiador na busca por fontes primárias que permitam o estudo desses grupos. Para os antigos egípcios, ser lembrado pela coletividade significava o mesmo que estar vivo, fosse neste ou no outro mundo. Por isso, para evitar o risco de terem seus nomes esquecidos após o falecimento (o que implicava seu desaparecimento eterno), muitos produziam pequenas estelas em que apelavam aos passantes, para que recitassem em voz alta seu nome. Viva a memória, viva estaria sua alma no outro mundo. Neste sentido, o esquecimento é entendido como uma espécie de morte além da morte física e, talvez, mais definitiva. É por isso que muitos tex- tos memorialísticos tiveram, originalmente, como função primeira registrar eventos de forma a evitar que fossem esquecidos. Era uma forma de manter as ações de determinadas pessoas ainda ativas e relevantes socialmente. A bizan- tina Ana Comnena, por exemplo, decidiu-se por escrever sobre a vida de seu pai, o Imperador Aleixo I, de forma a evitar que ele fosse “esquecido (...) na – 103 – Memória e história corrente do tempo, em direção ao mar do esquecimento” (apud CUBITT, 2007, p. 50). E foi justamente para evitar o esquecimento dos horrores dos campos de extermínio nazistas, que Primo Levi (1919-1987), sobrevivente de Auschwitz, escreveu o livro “É isso um homem? ” sobre suas experiências enquanto sobrevivente do Holocausto. Logo no começo de sua obra, Levi escreve, em forma de poesia, sobre os perigos de se esquecer eventos como aqueles que testemunhou. Nunca esqueça do que aconteceu. Lembre-se destas palavras. Guarde-as em seus corações, Estando em casa ou na rua, Ao deitar, ao levantar. Repete-a a vossos filhos. Ou sua casa será destruída, A doença o tornará inválido, Seus descendentes virarão as faces ao lhe ver (LEVI, 1989, p. 2). E, se existem esforços em direção à rememoração, pode haver estratégias que visem o seu oposto, ou seja, o esquecimento. Em Roma a damnatio memo- riae, ou “condenação da memória”, era uma forma de desonra atribuída àqueles considerados traidores do estado romano. Os condenados tinham seus nomes e imagens apagados, em uma tentativa de fazer a pessoa desaparecer, por completo, dos registros do passado. Em diferentes períodos do passado existiram práticas que se assemelha- ram à damnatio memoriae romana. É notório, por exemplo, que o governante da União Soviética, entre 1922 e 1952, Joseph Stalin, procurou apagar de fotografias, textos e mesmo livros de história, pessoas que passaram a ser con- sideradas adversárias de seu governo. E pode-se dizer, inclusive, que o desejo da Comissão Nacional da Verdade, que vimos no item anterior, de excluir da paisagem nomes de agentes públicos ou particulares que tenham violado Figura 8 - Geta governou como imperador de Roma no início do século III. Sobraram poucas imagens suas, pois teve uma damnatio memoriae lançada contra si. Na imagem acima, seu rosto foi apagado da imagem familiar. CC BY_SA 4.0 Introdução ao Estudo da História – 104 – direitos humanos, faz parte de um projeto semelhante de apagamento de uma memória indesejada. Da teoria à prática A memória é diferente de história: mesmo o registro de diferentes memó- rias, sobre um determinado evento, não é história. Os registros das lembran- ças de pessoas que testemunharam determinados eventos, ou que tiveram específicas experiências de vida, importantes que sejam, não são estudos rigo- rosos sobre o passado. Tratam-se de determinadas visões e interpretações de alguns indivíduos, a respeito do que presenciaram. Mas isso não significa que tais memórias não tenham importância his- tórica. Podem, por exemplo, ser temas de pesquisa: o estudo das memórias coletivas é tema comum em história. Mas, especialmente, referem-se a impor- tantes fontes primárias nos estudos da atualidade, estudadas por meio de uma metodologia específica denominada “história oral”. Popularizada a partir dos anos 1980, seguindo o barateamento e a difu- são da tecnologia dos gravadores de fita, a história oral procura utilizar entre- vistas – ou seja, registros da memória de indivíduos – como fontes primárias. Seu uso como técnica de pesquisa foi, inicialmente, bastante criticado, por- que se afirmava que a memória das pessoas era parcial e, em sendo assim, seriam fontes também não confiáveis. Porém, como qualquer outro tipo de fonte, também os depoimentos devem ser submetidos à análise. Além disso, a história oral possui suas técnicas específicas que devem ser entendidas e utilizadas para que depoimentos possam ser efetivamente utilizados para a solução de problemas históricos. Toda fonte deve estar ligada a um problema histórico; e toda análise deve ser realizada a partir de técnicas adequadas. Sabendo disso, é o momento de iniciarmos o primeiro pequeno projeto de história oral, de modo a conhe- cermos um pouco sobre essa metodologia, suas potencialidades e limites. 2 Em primeiro lugar, defina um problema histórico, ligado à região em que você mora, e que possa ser resolvido a partir da consulta a testemunhos orais. – 105 – Memória e história 2 A seguir, estabeleça uma lista das pessoas que poderão ser entrevis- tadas por você, procurando explicitar a relação que mantêm com o tema a ser pesquisado. 2 Utilize-se das seguintes regras para buscar aproveitar ao máximo a sua entrevista. 2 A entrevista deve ser conduzida em função do problema histórico que deve ser solucionado. 2 Deve-se conhecer muito sobre o período que está sendo estudado, para fazer as perguntas corretamente. 2 Leve um conjunto de questões prontas, mas busque deixar as per- guntas abertas, de modo a estimular o depoimento. 2 Leve um gravador. Mas, além disso, procure reparar e anotar gestos, entonações, pausas, que fazem parte da fala e possuem significados – e que, portanto, devem ser interpretados. Uma câmara para a gravação de vídeo também é adequada. 2 Realize tantos depoimentos quantos forem possíveis, para atingir diferentes aspectos e visões da realidade. 2 Conclua seu trabalho, registrando de que maneira os depoimentos ajudaram você a resolver o problema histórico de sua pesquisa. Essas são orientações bastante iniciais sobre o método de história oral. Mas é importante você experimentar, ainda que de forma inicial, suas possi- bilidades. Além disso, lembre-se que, enquanto uma fonte primária, também a entrevista estará sujeita às mesmas condições de análise de fontes que foram trabalhadas no capítulo 2. Síntese A memória é, inicialmente, uma característica individual e biológica. Porém, não apenas é influenciada pela sociedade, mas também influencia a forma pela qual a realidade é compreendida. A memória coletiva, por sua vez, auxilia na construção de narrativas sobre o presente, além de poder ser Introdução ao Estudo da História – 106 – modificada, construída e mesmo esquecida. Por fim, a memória pode servir inclusive como ferramenta para os estudos históricos, como tema para pes- quisa ou como fonte primária, por intermédio da história oral. Atividades 1. O primeiro túmulo ao “soldado desconhecido” foi criado em Paris, em 1921, e colocado sob o arco do Triunfo. Trata-se dos restos mortais de um soldado francês morto na Primeira Guerra Mundial e que, apesar dos esforços, não pôde ter sua identidade compro- vada. “Aquirepousa um soldado francês morto pela pátria”, diz a lápide. Acompanham a construção outros elementos como a chama eterna, os arcos, e flores. Sobre a relação entre monumentos como esse e a memória, pode-se dizer: a) Monumentos são intervenções na paisagem que procuram reme- morar eventos que não possuem mais importância no presente. b) O túmulo ao soldado desconhecido não se refere à memória cole- tiva, pois trata da lembrança sobre apenas um indivíduo, e não uma memória social. c) Ainda que monumentos sejam documentos históricos, o túmulo ao soldado desconhecido não é fonte primária, pois não se conhece a identidade da pessoa ali enterrada. d) Esses monumentos constroem uma relação emocional entre os vivos que visitam o local, e a memória daquele que ali está enter- rado e é estimulada a veneração do passado. e) Os monumentos dedicados à memória só podem ser considerados documentos históricos se forem dedicados a eventos ou persona- gens ligados a guerras e combates. 2. O conceito de “comunidades imaginadas” desenvolvido pelo cien- tista político Benedict Anderson, refere-se: a) À noção de que o passado é sempre uma imaginação criada pelo presente, de maneira a construir uma inteligibilidade da situação social e econômica de um grupo. – 107 – Memória e história b) À ideia de que as nações são construções naturais, que se formam enquanto um grupo político a partir de determinado processo his- tórico e político. c) À construção de sentimentos de nacionalismo e pertencimento dentro de um determinado grupo, cujos membros acreditam fazer parte de uma mesma comunidade. d) Ao processo de desenvolvimento do poder criativo e imaginativo de uma sociedade, indicado pela sua capacidade de abstração, consti- tuição de leis, e desenvolvimento artístico. e) À ideia de que o sentimento de identidade é falso e ideológico, pois é construído de modo a atender os interesses de determinado grupo que está no poder. 3. Leia o texto abaixo e, a seguir, assinale a alternativa que melhor explica a relação entre o texto e a questão da memória. O professor de História da Escola Estadual Tiradentes, em Umua- rama (PR), Ângelo Alves, concorda com a colega de profissão paulista. Mesmo estudando no colégio que tem o nome do mais famoso incon- fidente, muitos de seus alunos não reconhecem Tiradentes como um herói. “Atualmente, a historiografia vem desmitificando muitos nomes. O próprio Tiradentes se diluiu bastante”. (“Mitos na berlinda”. Revista de História. Rio de Janeiro, 11/11/2010. Disponível em http://www. revistadehistoria.com.br/secao/capa/mitos-na-berlinda). A mudança nas concepções a respeito de Tiradentes são um exem- plo de como: a) A memória de Tiradentes não está sendo tratada de forma adequada nas aulas de História, que esquecem de representá-lo como herói. b) A memória coletiva não pode ser modificada e, por isso, o que acontece com o personagem Tiradentes está relacionado à mudança no estudo de história. c) O ensino de história deve ser preocupar apenas com fatos, e aban- donar a pesquisa de elementos como memória ou identidade. d) Determinadas memórias coletivas, mesmo que importantes em um período, podem se enfraquecer e mesmo desaparecer. Introdução ao Estudo da História – 108 – e) A memória só se mantém viva dentro de uma comunidade ser for apoiada pelos poderes públicos, com a construção de monumentos, por exemplo. 4. Sobre a relação entre memória e história é correto afirmar. a) A memória pode ser utilizada como fonte histórica. b) Memória e história são idênticas. c) A memória não é fonte histórica, por ser muito parcial. d) Apenas as memórias autobiográficas interessam à história. e) Toda memória é individual, e toda história é coletiva. Tempo e história O que é o tempo? Foi Santo Agostinho (354-430) quem deu uma das mais famosas respostas à questão: “se você me perguntar o que é o tempo, eu sei. Mas, se você me pedir para explicar o que é o tempo, permanecerei calado”. Diferentes sociedades pensam e utilizam ideias a respeito do tempo de maneira específica, e desem- penham diferentes papéis sociais: neste sentido, o tempo é um dado histórico e cultural. Mas o tempo é também uma importante fer- ramenta da história. E não apenas porque é nele que localizamos eventos, mas porque devemos recortá-lo, classificá-lo, identificar suas diferentes velocidades e direções, na busca por compreender as mudanças que nele ocorrem. 5 Introdução ao Estudo da História – 110 – 5.1 Tempo e sociedade A foto ao lado diz muito sobre uma impor- tante mudança cultural e histórica: a forma como as pessoas passaram a viver e depender do controle estrito do tempo, nas sociedades que se industrializavam a partir do século XVIII. Tirada em Londres, mostra Mary Smith em seu traba- lho cotidiano de soprar ervilhas secas nas janelas dos trabalhadores para acordá-los. Se, para os operários, possuir um relógio ainda era muito caro, controlar os horários com precisão já era importante. Assim, Smith funcionava como um despertador humano, literalmente, e trabalhava para que seus clientes não se atrasassem para o início de seus turnos nas fábricas, que tinham horários rígidos. Vivemos em um mundo controlado pelos relógios. Temos um tempo determinado para almoçar, jantar, assistir às aulas. Combinamos encontros com exatidão de minutos, e atrasos são considerados gafes que devem vir acompanhados de desculpas. Existem dias em que trabalhamos, e outros que reservamos ao lazer; feriados que conhecemos com antecedência e férias que podem ser planejadas. Possuímos agendas, calendários nas paredes, alarmes em nossos relógios e telefones; ficamos acostumados a ouvir sirenes que nos indicam o final de uma aula, o início de um turno de trabalho, o momento de um descanso. Sabe-se, a praticamente todo momento, qual é o “horário oficial de Brasília” e, com precisão espantosa, consegue-se anual- mente que milhões de pessoas ajustem seus relógios, em um mesmo dia, de forma a sincronizá-los para o horário de verão. Não há dúvida de que o desenvolvimento tecnológico, necessário para o aumento da precisão dos relógios, contribuiu para o reforço dessa relação de dependência que a nossa sociedade possui para com o tempo. Porém, como o exemplo do trabalho de Mary Smith demonstra, a necessidade social de ter horários controlados antecedeu a difusão e barateamento da tecnologia dos relógios. Em outras palavras: historicamente, antes dos operários terem con- Figura 1 - Mary Smith acorda seus clientes, na virada do século XX. Fonte: DAVIES, 2011 – 111 – Tempo e história dições de possuir seus próprios relógios, eles já estavam obrigados a seguir um tempo rígido. Tratava-se da implementação do tempo da produção industrial e da fábrica, dos horários controlados de trabalho. Sociedades pré-industriais possuíam uma relação bastante diferente com o tempo. Nessas, as horas que seriam dedicadas ao trabalho eram determi- nadas a partir das tarefas que deveriam ser realizadas em determinado dia. No mundo rural, por exemplo, as atividades eram inúmeras: alimentar os animais, preparar a terra, cortar lenha, ordenhar vacas. Além disso, mudavam conforme a época do ano, pois as tarefas de uma estação de plantio serão diferentes das de colheita. O tempo da natureza ditava, portanto, o cotidiano. Outro fator a ser considerado é que as pessoas não tinham necessaria- mente um chefe, pois usualmente trabalhavam para si mesmas. Não havia quem as dissesse o que fazer, em que momentos se alimentar, ou quanto deveriam produzir. O controle mais estrito do tempo existia, mas sua impor- tância estava reservada a questões religiosas – a Igreja Católica, por exemplo, acompanhava estritamente o calendário dos eventos importantes – ou buro- cráticas e legais.É a partir da revolução industrial que o modelo de controle estrito do tempo se torna padrão nas sociedades. A produção fabril exigia horários pre- cisos para entrada e saída dos trabalhadores, regulação dos momentos de des- canso, vigilância sobre a produção. Não se trabalhava mais para si, mas para outrem; e não se produzia mais em função de metas a serem concluídas, mas de modo contínuo e permanente. Entre discursos morais que difundiam a ideia de que “tempo é dinheiro”, e a exigência da estrita observação dos horários – controlados por sirenes, cartões-ponto, vigilância – gradualmente se disseminou, a partir das sociedades industriais, a concepção de um tempo que deveria ser sempre produtivo, além de preciso e regulado. Próprio, ainda, de nossos dias. A importância que devotamos atualmente ao controle do tempo é, por- tanto, o resultado de alterações históricas, e desempenha um papel bastante específico em nossa sociedade. Outras culturas mantêm diferentes relações com a passagem das estações, controle das atividades durante o dia, a lembrança de eventos do passado e as expectativas para o futuro. Há sociedades, inclusive, em que parece não existir palavras específicas para designar a contagem do tempo, para a ideia do “ontem”, ou de “antigamente”. Permanece, porém, uma Introdução ao Estudo da História – 112 – regra geral: toda sociedade estabelece um determinado conhecimento sobre o tempo que estará adequado às condições de sua própria vida social. 5.1.1 O tempo “histórico” Falamos acima do tempo enquanto um dado histórico e cultural. Mas, além desse, existem outros. Há o tempo que podemos denominar de “tempo da física”: aquele marcado pelos relógios, cada vez mais precisos, em níveis que superam em muito a extensão de um mero segundo. Existe, também, um tempo propriamente humano, tanto psicológico – atividades aborrecidas parecem durar eternidades, e as interessantes parecem fazer o tempo passar rapidamente –, quanto biológico – mantemos um relacionamento temporal com nossas próprias idades, pois percebemos o passar do tempo não apenas fazendo aniversários, mas atentando para as mudanças em nossos corpos. Porém, o que vai nos interessar nesse capítulo será, fundamentalmente, o chamado tempo histórico. A que se refere, exatamente, essa ideia de “tempo histórico”? 2 À forma como historiadores se relacionam com o tempo. Afinal, conhecidamente, estão no passado nossos objetos de pesquisa, e é no decorrer do tempo que se transformam. Porém, pode-se argumentar que o presente é tão fugidio, tão imediato, que basicamente qual- quer elemento da realidade é passado. Ou, contraditoriamente, o que somos hoje é o resultado de processos que nos antecedem, e que vive- mos num imenso “longo agora” – é o que defende, por exemplo, a Long Now Foundation, em seu objetivo de estimular o pensamento e o planejamento a longos prazos. Mas, além disso, pensar os estudos his- tóricos é pensar, tam- bém, o tempo. Para os historiadores da escola metódica, o tempo era um dado neutro, pois acredita- vam que o passado e Figura 2 - “O Longo Agora” Fonte: The Long Now Foundation – 113 – Tempo e história o presente estavam totalmente separados. Sendo assim, a objeti- vidade do historiador era possível. Essa ideia se contrapõe à visão histórica atual, que acredita que há uma relação de diálogo entre o presente e o passado: além de sermos uma continuidade do que já ocorreu (estamos, portanto, no tempo, e dele não podemos sair), são nossas dúvidas que existem no presente que lançam olhares sobre o passado. 2 O tempo é uma ferramenta para os estudos históricos, por meio da localização temporal dos eventos, da compreensão dos processos de escolha de recortes temporais, da definição de épocas a partir de determinadas características que constroem uma identidade a certo período, da percepção de que as mudanças do passado dialo- gam com mudanças e permanências. Estes dados serão estudados na segunda parte desse capítulo, a partir do item “O tempo como ferramenta para o estudo da história”. 2 Tempo histórico se refere, por fim, às formas pelas quais o tempo pode variar, conforme cada época e lugar. Para os historiadores da escola metódica, o tempo era um dado linear, pois importan- tes eram apenas os fatos localizados em datas específicas: em 7 de setembro de 1822, ocorreu a proclamação da independência. Pouco se estudava de contextos (recortando amplos períodos para analisá-los), e o que denominavam “história” era a relação dessa coleção de fatos que se sucediam no tempo. Atualmente, acredita- -se que a relação da história com o tempo seja bem mais complexa: ainda existem fatos, obviamente, que podem ser localizados tem- poralmente, e com precisão. Mas, além disso, estudam-se contex- tos mais ou menos longos, que podem abranger várias décadas ou séculos. O tempo, ainda, não é visto como contínuo, mas passí- vel de mudanças, crises, acelerações e retrocessos. Estes elementos serão estudados ainda na primeira parte desse capítulo, nos itens logo a seguir: “O tempo histórico tem diferentes velocidades” e “O tempo histórico tem direção? ”. 5.1.2 O tempo histórico tem diferentes velocidades Em 200 d.C. a cidade de Londinium (atual Londres, na Inglaterra), fazia parte do Império Romano. Se uma pessoa comum desejasse conhecer a capi- Introdução ao Estudo da História – 114 – tal Roma, a forma mais rápida seria viajar até o litoral britânico e nave- gar por aproximadamente 10 dias, costeando a Europa, até alcançar Burdigala (atualmente Bordeux, na França) de onde seguiria em lombo de burro, por quase 15 dias, até Narbo (hoje Narbona, também na França). Tomaria, então, um novo barco, viajando por cerca de uma semana, até aportar em Óstia (hoje, Itália). Dali, em menos de um dia, e novamente em lombo de burro, chegava-se finalmente em Roma. No total, a viagem teria durado em torno de 30 dias. Uma das características da revolução industrial foi o desenvolvimento tecnológico utilizado, dentre outros objetivos, para desenvolver os sistemas de transportes. Navios a vapor e ferrovias se multiplicaram, tornando as viagens mais rápidas e reduzindo o tempo exigido para superar grandes distâncias. Em 1914, a industrialização europeia atingia sua maior expansão, até aquele momento. Nesse ano o cartógrafo britânico John George Bartholo- mew publicou um mapa em que procurava mostrar quão distantes estavam os vários locais do mundo, viajando-se a partir de Londres. Segundo seus cálcu- los, Roma estava a cerca de cinco dias de viagem, utilizando-se linhas férreas e barcos a vapor. Caso desejasse, um viajante aportaria no Rio de Janeiro em cerca de 20 dias. E, nos mesmos 30 dias que levava uma viagem de Londi- nium até Roma no ano 200, podia-se partir da Inglaterra e alcançar Austrália e China, chegar ao interior da África, ou conhecer a costa oeste da América do Sul. O século XIX, especialmente, foi marcado pelos avanços técnicos que possibilitaram um encurtamento das distâncias e, com isso, dos tempos. Se, na Antiguidade, a maioria das pessoas não conheceria muito mais do que as fronteiras de sua própria comunidade, a capacidade e velocidade dos novos meios de transporte passaram a permitir a transposição de grandes quanti- Figura 3 - Caminho de Londinium até Roma em 200 d.C. Fonte: ORBIS Stanford – 115 – Tempo e história dades de pessoas e produtos, a longas distâncias, em espaços relativamente curtos de tempo. A ideia da técnica vencendo o tempo era reforçada por outras invenções: a produtividade ampliada com a utilização dos motores a vapor, máquinas registradoras automatizando cálculos, e o telégrafo rompendo distâncias para a transmissão de informações. Criava-se o mito do progresso: a ideia de que o tempo, encurtado pela ciência e pelatecnologia, permitiria um número de mudanças nunca vistas em outros períodos históricos. Assim afirmou um jornal estadunidense de 1848: Tivemos períodos geológicos, eras tradicionais, idades históricas, e agora nós apenas começamos, em 1º de janeiro de 1848, a era mila- grosa, que irá superar aquela de Moisés e dos Profetas. Vapor, eletri- cidade e maquinário, operados sob o intelecto nascido Divino, pro- duzem o todo. O resultado é que o espaço e o tempo são aniquilados (OUTMAN, 2003, p. 79. Adaptado). Quando se afirma que o tempo histórico pode possuir diferentes velo- cidades, quer-se dizer que diferentes períodos de tempo experimentam uma quantidade maior ou menor de modificações, diferentes graus de estabili- dade, alterações mais ou menos profundas e significativas. Utilizando-se a história europeia como exemplo, não é difícil constatar que o século XIX experimentou um número de mudanças mais impactante quando compa- rado, por exemplo, com o século III. Cada período histórico tem sua própria dinâmica que deve ser percebida pela historiadora ou historiador. Identificá- -la, e avaliar corretamente suas consequências só é possível a partir de uma adequada contextualização. Para finalizar esse item, pode-se dizer que fenômenos como a informati- zação do conhecimento, o surgimento de novas tecnologias de comunicação, a integração global dos mercados, e a continuidade dos desenvolvimentos tec- nológicos, mantêm a impressão de que, à semelhança do século XIX, também vivemos hoje em um tempo histórico acelerado: a duração de um voo entre Londres e Roma é de menos de duas horas. 5.1.3 O tempo histórico tem direção? Conta a Bíblia que, certa vez, o rei da Babilônia Nabucodonosor teria tido um sonho que o deixara com o “espírito perturbado” (DANIEL, 2:3). Introdução ao Estudo da História – 116 – Segundo aparece no livro de Daniel, do Antigo Testamento, o rei sonhara com uma grande estátua que teria a cabeça de ouro, peito e braços de prata, barriga e coxas de bronze, pernas de ferro, e pés que misturavam ferro e argila. Essa estátua, segundo o sonho, acabou destruída por uma pedra que se trans- formou em uma montanha e preencheu toda a terra. A interpretação dada pelo profeta Daniel foi a de que o sonho repre- sentava os quatro reinos que se seguiriam (associados aos quatro metais que formavam a estátua), até que chegasse o último reino, o de Deus, e que seria eterno. Na tradição cristã, estes quatro impérios seriam dos assírios, dos per- sas, dos gregos e dos romanos. Essa passagem bíblica tornou-se célebre por ser, em primeiro lugar, uma escatologia, ou seja, uma forma de compreender como, e de que maneira, aconteceria o fim do mundo. Mas, ao mesmo tempo, funcionou como uma comprovação de que a história estaria sob o controle divino, afinal, já estaria previamente definido quantos reinos se sucederiam antes do fim dos tempos. A profecia de Daniel é um exemplo de uma teleologia. No pensamento histórico, a teleologia refere-se à concepção de que a história teria um propó- sito, um significado, ou seja, que os eventos do passado se organizariam de forma a percorrer um caminho pré-determinado, até atingir um objetivo final já definido. O ponto final, qualquer que seja ele, seria inevitável. No caso da profecia de Daniel, a teleologia seria a sucessão de reinos até o aparecimento do reino de Deus. Nos estudos históricos existem também teleologias. Crenças, usual- mente de fundo filosófico, que acreditam identificar propósitos, objetivos, ou fins, aos processos históricos. A chamada concepção marxista da história, por exemplo, é teleológica. Segundo o que foi expresso pelos filósofos alemães Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895) no panfleto político “O manifesto comunista” de 1848, a história seria o resultado de inúmeras revoluções, que sempre con- trapunham duas classes: uma, que possuía os meios para produzir riqueza, e outra, que era explorada e realmente trabalhava. O último desses conflitos ocorreria no capitalismo, quando, do confronto entre burgueses e proletá- rios, esses últimos sairiam vencedores, e acabaria por iniciar uma nova era na história humana denominada de comunismo. Nessa, não haveria diferenças – 117 – Tempo e história de classes, e as pessoas teriam condições de viver em função da felicidade humana. Mirce Eliade (1907-1986), um historiador romeno das religiões, assim explicou o caráter teleológico do pensamento marxista: O marxismo atribui um significado à história. Para o marxismo, os acontecimentos não são uma mera sucessão de fatos arbitrários; eles revelam uma estrutura coerente e, sobretudo, conduzem a um obje- tivo concreto: a eliminação final do terror da História, a “salvação”. Portanto, a filosofia marxista da história conduz à Idade de Ouro (...) (ELIADE, 1972, p. 161). Percebe-se, portanto, que segundo esse pensamento, a história tem uma determinada direção e que, para alcançá-la, seriam necessárias revoluções sur- gidas do confronto de classes sociais diferentes. Um segundo exemplo de teleologia é a chamada escola britânica Whig1 de história, que selecionava os fatos do passado para demonstrar que a huma- nidade caminharia, de forma inevitável, àquele que seria o ápice do desenvol- vimento social humano: a democracia liberal e monarquia constitucional da Grã Bretanha do século XIX. Seu principal representante foi Thomas Macau- lay (1800-1859) que acreditava que as instituições britânicas, comparadas com as de outras regiões e épocas, eram moralmente superiores. Já nas últimas décadas do século XX, o historiador estadunidense Fran- cis Fukuyama defendeu uma nova teleologia da história, em seu livro “O fim da história e o último homem”. Semelhante à versão Whig, na concepção histórica de Fukuyama todas as sociedades, eventualmente, acabariam por adotar o modelo das democracias liberais ocidentais, que teriam – na opinião dele – demonstrado serem superiores, após o fracasso do comunismo. As concepções teleológicas da história são bastante problemáticas. Em primeiro lugar, distorcem a análise das fontes primárias, afinal, todos os fatos que concordam com a teleologia serão aceitos, e todos os que discordam serão descartados como excepcionalidades. Além disso, essas ideias podem ser utilizadas como fundamentos ideológicos de poder e de dominação: muitas pessoas na Europa do século XIX acreditavam que seu progresso tecnológico 1 O termo “Whig” refere-se aos whigs, partido político britânico atuante do século XVII ao XIX, e defensor da ideia de monarquia constitucional. Introdução ao Estudo da História – 118 – significava, também, maior evolução histórica, o que justificaria a dominação de povos considerados “atrasados”. Ainda – e teremos oportunidade de dis- cutir isso mais profundamente ainda nesse livro, quando analisarmos erros comuns nos raciocínios de historiadoras e historiadores –, trata-se de um caso de “presentismo”: a ideia de que somos, no presente, o ponto máximo atingido pela história; se acreditarmos nisso, leremos todo o passado como se fosse um caminho inevitável para nossa época e nossa sociedade. Pode-se afirmar de forma bastante objetiva que a história, como um todo, não possui uma única lógica. Não há regra exclusiva que explique o desenvolvimento dos países, as mudanças culturais, as alterações e conflitos sociais. As razões pelas quais as pessoas e os grupos humanos mudam devem ser buscadas em uma multiplicidade de fatores. E que, de qualquer forma, não caminham todos sempre para um mesmo fim, ou um mesmo objetivo, tampouco em uma mesma direção. O final da história nem somos nós, nem está dado. Cada pessoa e grupo social, dentro de seus momentos históri- cos, possuem seus próprios desafios e procuram, da melhor maneira possível, construir alguma segurança para suas vidas, a partirdos valores que conside- ram fundamentais, e das condições com que se defrontam. 5.2 O tempo como ferramenta para o estudo da história A história possui, também, ferramentas específicas para trabalhar com o tempo. As mais tradicionais são as linhas do tempo e as cronologias, que pro- curam organizar, de forma gráfica, os eventos do passado. Mas, além disso, há formas mais complexas como o estabelecimento de recortes temporais, e o trabalho com mudanças e permanências. 5.2.1 Recortes temporais O Colégio Pedro II foi uma escola padrão brasileira fundada em 1837, no Rio de Janeiro. Segundo seu plano de atividades, dentre as várias matérias, os alunos deveriam estudar História Sagrada, História Universal e História Pátria, embora esta última tenha surgido apenas em 1850, como disciplina autônoma. Inicialmente, eram utilizados livros didáticos franceses que não – 119 – Tempo e história abordavam, como seria de se esperar, eventos da história nacional. Foi apenas em 1861 que o romancista e pesquisador Joaquim Manuel de Macedo (1820- 1882), professor do Pedro II, publicou o primeiro livro didático de História do Brasil, sob o título “Lições de história do Brasil para uso das escolas de instrução primária”. Figura 1 - Trecho do índice da obra “Lições de História do Brasil”, de Joaquim Manuel de Macedo. Analisando-se o índice da obra, percebe-se que Macedo fez uma escolha que se tornou bastante comum, por várias décadas, nos estudos de história: ignorou cabalmente a presença indígena, definindo que a história do Brasil começaria, realmente, em 1500, com as navegações portuguesas e a chegada de Pedro Álvares Cabral. Figura 2 - Uma separação entre “pré-história” e “história”. Fonte: Elaborado pelo autor. As datas sobre o início da povoação das Américas ainda são incertas: sabe-se que há cerca de 17 mil anos (que no gráfico acima aparece como 15.000 a.C.) o continente já era habitado, e o fóssil humano mais antigo do Brasil que se conhece, denominado Luzia, possui cerca de 12.500 anos. Torna-se evidente, pela linha do tempo, o amplo espaço temporal da “pré- -história” que foi ignorado no livro de Macedo, e por tantos outros autores posteriores. No início do século XX, alguns livros de história do Brasil pas- saram a trazer, em poucas páginas, algumas informações sobre os indígenas, ainda que de uma forma generalizante e apressada. Introdução ao Estudo da História – 120 – Obviamente Macedo não dispunha dos detalhes atuais a respeito do início da povoação na América, mas já se sabia que o continente era habitado há milhares de anos. Por isso, a esco- lha de um determinado período – ou seja, o recorte temporal que efetua – para datar o início da história do Brasil, possui impor- tantes significados. Em primeiro lugar, seleciona algo do que é considerado valori- zado, ou seja, aquele que se rela- ciona com o continente europeu. A data de 1500 marca a chegada do que se considerava a “civiliza- ção”, própria da Europa, da qual se desejava enfatizar a herança. Além disso, ignora o passado dos povos sem escrita, considerados por isso “pré-históricos”. Do final do século XIX até ao menos meados do XX, os indígenas eram usualmente representados, nos livros de história do Brasil, exatamente como símbolos de resistência à civilização, obstáculos a serem superados, ou ingênuos que foram convertidos. Enfim: no século XIX, os pesquisadores olhavam para trás e selecionaram, por meio de recortes tempo- rais, qual era o passado que seria transformado em história – o que significava modernidade e civilização –, e qual seria ignorado ou minimizado – que era associado a atraso e barbárie. A utilização de recortes temporais é bastante comum em história. Até mesmo imprescindível: sem tais recortes, os estudos históricos se tornariam inviáveis e toda pesquisa histórica seria obrigada a recuar indefinidamente no tempo: afinal, todo evento social é sempre resultante de um determinado passado. Ou, falando de outra forma, todo evento histórico tem seus contex- tos e causas anteriores; que também terão seus próprios contextos e causas anteriores; que também terão... e por aí vai. Figura 3 - Em meados do século XIX, foram realizadas buscas por vestígios de civilizações antigas no Brasil. A mais famosa foi a que acreditava identificar inscrições fenícias na Pedra da Gávea do Rio de Janeiro (são, na verdade, marcas criadas pela erosão). Essa preocupação está de acordo com o recorte temporal de Joaquim Manuel de Macedo e de historiadores depois dele: o desejo de ligar o Brasil a determinada ideia de civilização que era valorizada - a clássica, ligada à história europeia. E ignoravam-se outros passados como o indígena. Na imagem, a reconstituição da suposta inscrição, e sua decifração. CC BY-SA 3.0 – 121 – Tempo e história Esse processo, aliás, é comum a toda produção de conhecimento rigo- roso – da antropologia à física; da geografia à medicina; da química à astro- nomia: a simplificação da realidade para torná-la compreensível e passível de análise. A história também realiza simplificações, através da utilização de conceitos, princípios metodológicos, e seleções. Porém, os recortes temporais, como mostra o caso de Macedo e, mesmo, a busca de incorporar os “fenícios” no passado brasileiro, não são inocentes e, caso sejam equivocadamente construídos, podem gerar distorções nas aná- lises históricas. Observe, por exemplo, a seguinte linha do tempo, extraída de um livro didático de história para o Ensino Médio, de 2001. Figura 4 - Linha do tempo em livro didático do Ensino Médio. Fonte: VICENTINO, 2001, p. 17. O objetivo dessa linha do tempo é bastante claro: fornecer aos alunos uma ampla visão sobre a periodização clássica da história, e isso é feito por intermédio de recortes temporais, ou seja, de seleções no tempo histórico. Porém, em primeiro lugar, os ícones e as separações utilizados podem passar a impressão de que os períodos são estanques (como se a “Antiguidade” não tivesse qualquer relação com a “Idade Média”); além disso, transmite uma impressão equivocada de que todo o mundo vivia sob condições semelhantes (a “Idade Média” teria começado em todos os lugares, e para todas as pes- soas, em 476); e, por fim, estão definidas datas em que parece ocorrer uma mudança radical: em 1453, a Europa deixa de ser “Idade Média” e se trans- forma, instantaneamente, em “Idade Moderna”. Introdução ao Estudo da História – 122 – Sobre esse último ponto, o escritor inglês George Orwell (1903-1950) relembra a estranheza que lhe causava, quando estudante, diante destas mudanças bruscas na história: Eu costumava pensar a história como um tipo de longo pergaminho com grossas linhas negras que o atravessavam em intervalos regulares. Cada uma dessas linhas marcava o fim do que era chamado um “perí- odo”, e lhe era dado a entender que o que vinha depois era completa- mente diferente do que havia antes. Era quase como a batida de um relógio. Por exemplo, em 1499 você ainda estava na Idade Média, com cavaleiros com armaduras cavalgando juntos com longas lanças, e então subitamente o relógio alcançava 1500, e você estava em algo chamado Renascença, e todo mundo vestia golas e casacas e estava ocupado rou- bando navios de tesouro nas possessões da Espanha (ORWELL, 1942). O texto de Orwell revela como a excessiva simplificação temporal leva a uma representação equivocada de diferentes períodos históricos e da própria dinâmica histórica. Quando a Europa alcançou 476, as pessoas não imagina- vam que estavam deixando a “Antiguidade” para entrar em tempos medievais. Elas continuavam vivendo suas vidas, sem ouvir qualquer “relógio da histó- ria” que representava a mudança das épocas. Da mesma forma, o século XII não foi o “século do feudalismo”, tam- pouco oXIX o da “industrialização”. Certamente houve feudalismo no século XII, e industrialização no XIX, em determinados locais; mas além de haver dife- rentes feudalismos e níveis diversos de industrialização, esses eventos históricos não ocorriam simultaneamente, e de maneira idêntica, em todo mundo. São, na verdade, bastante específicos a certas regiões. Além disso, se a industrializa- ção é uma das características da economia europeia e estadunidense no século XIX, ela teve início anterior, e se estendeu além dos anos 1800. É um erro, nada incomum, acreditar que as sociedades, por alguma mágica coincidência, mudariam exatamente no momento em que mudam os séculos. Corre-se um risco adicional quando se simplificam em demasia as carac- terísticas de um período histórico: a de tratá-lo como se não se relacionasse com o que veio antes, e com o que viria depois. Esse é um erro comum nas pesquisas históricas do século XVIII e XIX, e ganhou difusão com o historia- dor oitocentista2 Leopold von Ranke: para ele, cada período histórico deveria 2 O termo oitocentista refere-se ao que é relativo aos anos 1800. Portanto, ao século XIX. Da mesma forma que quinhentista refere-se ao século XVI, seiscentista ao XVII, setecen- tista ao XVIII, etc. – 123 – Tempo e história ser entendido dentro de sua própria especificidade. Somente assim, segundo suas palavras, seria possível entender a história “como realmente aconteceu”. Para alcançar esse objetivo, Ranke procurava conhecer o que ele denominava de “espírito de uma época”, ou o seu Zeitgeist (“espírito do tempo”, no origi- nal alemão), o que significava tratar um período de forma isolada. Os riscos do reducionismo e da deformação do passado não devem sig- nificar que os recortes temporais não sejam usados. Ao contrário: significa que sua utilização deve ser feita com rigor. Nos estudos históricos, todo recorte temporal busca abarcar um período que tenha uma determinada identidade, ou seja, que possua características que o definem a partir do objetivo da aná- lise. Para que uma análise seja realizada, o recorte deve ser feito em função do problema histórico que se pretende resolver, em relação com as fontes históricas à disposição da historiadora ou do historiador. Como historiadores justificam, na prática, estes recortes? Vamos a alguns exemplos. O historiador Ismael Alves, buscando compreender as públicas materno-infantis na Região Carbonífera Catarinense, assim justificou seu recorte temporal entre 1920 e 1960: Enquanto nas cidades maiores e na capital federal as primeiras políticas públicas materno-infantis se desenvolveram principalmente a partir de 1920 devido sua importância econômica, estas mesmas políticas só chegaram aos centros menores, como aqueles da Região Carbonífera de Santa Catarina, nos anos de 1940 em diante. Apesar da tempora- lidade distinta, as políticas públicas materno-infantis implementadas no contexto do Complexo Carbonífero se inserem no mesmo aparato político-conceitual de Estado de Bem-Estar. (...) Devido a esse atraso (...) se deram entre as décadas de 1940 e 1960, quando a região passou a ter maior relevância econômica (ALVES, 2014, p. 25). A justificativa, portanto, parte de uma identidade entre as atuações locais e nacionais (“se inserem no mesmo aparato (...) de Estado de Bem-Estar”), tomando em consideração as diferentes temporalidades entre os grandes e os menores centros (“estas mesmas políticas só chegaram aos centros menores (...) nos anos de 1940”). Datações em outros trabalhos podem parecer mais intuitivas. A histo- riadora Caroline Marach estudou a revista Clube Curitibano, e seu recorte – 1890 a 1912 – refere-se ao período de circulação da revista (MARACH, 2013). Lorena Beghetto analisou, em sua tese de doutorado, a literatura do Introdução ao Estudo da História – 124 – escritor italiano Emilio Salgari, definindo as datas de 1862 a 1911 como seu período de investigação, que correspondem ao período da vida do escritor (BEGHETTO, 2014). Ambas as pesquisas poderiam ser recortadas diferentemente. A revista Clube Curitibano poderia ser estudada em relação à sua inserção no mer- cado editorial de Curitiba, o que poderia levar a uma ampliação do recorte temporal. Beghetto poderia ter analisado a influência da obra de Salgari, o que faria seu recorte se estender ao longo do século XX; e, se não tivesse preocupações biográficas, não haveria razão para iniciar em 1862 – data do nascimento do autor –, e poderia partir do momento da publicação de suas primeiras histórias. 5.2.2 Linhas do tempo e cronologias A localização precisa dos eventos no tempo é uma das funções mais básicas de qualquer trabalho histórico. O fato de Jânio Quadros ter renun- ciado à Presidência da República em 25 de agosto de 1961 é um dado imu- tável, que independe dos interesses, objetivos, ou problemas levantados pela historiadora ou historiador. Na Idade Média, a cronologia – o específico conhecimento responsável por organizar os fatos no tempo – desenvolveu- -se enquanto uma disciplina autônoma e valorizada, e por vezes, considerada superior à história justamente porque seria uma atividade precisa, enquanto os estudos históricos teriam seu rigor enfraquecido pelas interpretações. As linhas do tempo estão entre as ferramentas mais comuns utilizadas por historiadores para representar, graficamente, as cronologias. São especial- mente populares em livros didáticos, embora trabalhos acadêmicos possam, eventualmente, utilizá-las, pois traduzem o tempo em uma forma gráfica, de leitura intuitiva e fácil interpretação. Porém, por mais objetiva e intuitiva que uma linha do tempo possa parecer, a sua construção no modelo mais conhecido na atualidade – uma seta em que fatos ou períodos são destacados – reflete ideias particulares a respeito do tempo e da história, além de possuir pressupostos e consequências. Nesse modelo, o tempo, transformado em uma seta, não apenas parece correr na direção indicada pela seta – uma concepção de tempo própria de nossa sociedade – mas também afirma uma ideia de força e necessidade (o – 125 – Tempo e história tempo seguirá sempre, inflexível), de continuidade e linearidade (os eventos parecem seguir-se uns após os outros, sem crises), e progresso (transmitindo certa noção de aperfeiçoamento). Figura 6 - Nos anos 1960, o artista Rudolph Zallinger foi contratado pela editora estadunidense Time Life para ilustrar uma obra sobre a evolução humana. A sua criação, denominada “marcha para o progresso” – em que hominídeos aparecem andando em fila até alcançar o homo sapiens moderno – tornou-se uma das mais conhecidas imagens a respeito da evolução, ainda que não seja cientificamente precisa. Sua difusão e influência demonstram que posicionar determinados eventos em uma linha do tempo cria uma noção de necessidade, de continuidade e, também, de progresso. Fonte: CC BY-SA 3.0 Além disso, o que se escolhe colocar em cronologias e linhas do tempo é revelador dos critérios prévios à sua criação. É por isso que causa certa estra- nheza quando se observa a seguinte cronologia de eventos, presente na obra “Anais de São Galo”, escrita na região em que hoje é a Suíça, no século XI. O trecho a seguir trata de eventos considerados significativos ocorridos entre os anos 709 e 722. 709. Inverno rigoroso. Morreu o Duque Gottfried. 710. Ano difícil e plantações fracas. 711. 712. Inundações em todos os lugares. 713. 714. Pippin, prefeito do palácio morreu. 715. 716. 717. 718. Carlos [Martel] devastou a Saxônia com grande destruição. 719. 720. Carlos lutou contra os Saxões. 721. Eudes retira os Sarracenos da Aqui- tânia. 722. Grandes plantações. (Apud ROSENBERG, 2009, p. 11-2) Introdução ao Estudo da História – 126 – A estranheza vem justamente da aparente ausência de critérios, alémda alternância entre eventos locais e gerais. Não há diferenciação entre ações humanas e ocorrências naturais, e há inclusive anos em que parece não ter ocorrido nada digno de ser registrado. Por fim, os eventos não parecem apre- sentar qualquer relação entre si (ROSENBERG, 2009). A construção de linhas do tempo ou cronologias assemelha-se aos recor- tes temporais, ou seja, implica determinada seleção de eventos e personagens que serão considerados significativos, com a consequente exclusão daqueles considerados irrelevantes. Reflete, portanto, também uma visão de história e de sociedade e de uma maneira de compreender e selecionar o passado. No item “Da teoria à prática”, ainda neste capítulo, veremos como diferentes visões do passado e da história promovem a construção de diferentes modelos de linhas do tempo e cronologias. As divisões tradicionais da história A divisão clássica dos períodos históricos em pré-his- tória e idade Antiga, Média, Moderna e Contempo- rânea tem sua própria historicidade. A ideia de existir uma “pré”-história (ou seja, haveria um período antes da história) difunde-se com a escola metódica. Afinal, se a história só poderia ser escrita a partir de documentos escritos, os povos sem escrita não teriam história. Hoje, essa concepção é considerada ultrapassada. Já o conceito de Idade Média foi criado pelos renas- centistas. Para eles, teria existido um período “médio”, intermediário, entre a Antiguidade e a própria Renas- cença, que acreditava reviver os valores e conhecimen- tos antigos. Essas divisões não são universalmente adotadas. Na França, acredita-se que em 1789 teve início a chamada “idade Contemporânea”, separando-a da Moderna, em uma divisão criada a partir de um projeto escolar da Ter- ceira República Francesa (1870-1940). O Brasil, bastante – 127 – Tempo e história influenciado pela historiografia da França desde o século XIX, também adotou essa divisão. Em países de língua inglesa, por exemplo, ela não existe. Além disso, trata-se de uma divisão criada para a histó- ria Ocidental, e mais particularmente europeia, que se estender ampliar para todos os locais. Porém, cada região do mundo possui as próprias características e dinâmicas do desenvolvimento histórico. Não se pode esquecer, ainda, que divisões esquemá- ticas têm sido gradualmente abandonadas, pois simplifi- cam períodos históricos, e ignoram continuidades. 5.2.3 Mudanças, permanências Reproduzir fotos familiares antigas, com máxima atenção aos detalhes, tornou-se uma brincadeira recorrente na internet a partir dos anos 2010. Repetem-se locações e roupas, procura-se imitar poses e expressões faciais, recriando, anos depois, uma determinada memória preservada em fotografias. A nossa vida se passa na continuidade. Dificilmente con- seguimos perceber as pequenas modificações cotidianas que, acumuladas ao longo do tempo, resultam em alterações signifi- cativas. Apenas quando se tem a possibilidade de se contrastar dois, ou mais, momentos dife- rentes, é que se podem perce- ber mudanças. Como nas fotos: mudam as idades, obviamente, e com isso os corpos, mas também as roupas, os ambientes; antes filhos pequenos e dependentes e, depois, já adultos. Mas há elementos que permanecem, afinal, tratam-se obviamente Figura 9 - Em reportagem da revista eletrônica Aplus, pais e irmãos estadunidenses recriam fotos de família. Fonte: Aplus, 2015 Introdução ao Estudo da História – 128 – ainda das mesmas pessoas, e que mantêm a mesma relação de parentesco que tinham quando jovens. Compreender as mudanças e as permanências é uma das atividades mais importantes nas análises históricas. Tomando-se dois momentos diferentes no tempo, a historiadora e o historiador devem compreender o que foi modi- ficado (e como, e em que extensão), e o que permaneceu inalterado. O que é uma continuação e o que é uma alteração, uma novidade, ou mesmo uma crise e revolução. Se há elementos que avançam, outros podem regredir. Um exemplo: para o ano de 1845, o Almanaque industrial e comercial Laemmert apresentava uma lista de pouco mais de dez fábricas que existi- riam, à época, na cidade do Rio de Janeiro. Cerca de 30 anos depois, o mesmo Almanaque já indicava mais de uma centena delas na cidade. Pela contrapo- sição desses dois momentos (e a partir dessas fontes primárias), constata-se uma importante alteração econômica no Brasil do Segundo Reinado, qual seja, o início de um processo de industrialização. Trata-se sem dúvida de uma mudança – que se relacionou a redirecionamento de capitais, novos investi- mentos, aumento de impostos, fim do tráfico de escravos –, mas que esteve acompanhada de continuidades importantes. O Brasil mantinha seu perfil econômico primário-exportador, preservando-se o desinteresse político em promover mudanças econômicas estruturais. E embora a industrialização sig- nifique algum desenvolvimento do capitalismo, que exige operários livres e assalariados, a mão de obra no Brasil era, ainda, essencialmente escrava. Há a novidade de uma pequena industrialização, ladeada por permanências econô- micas e sociais importantes. A história é, por definição, a disciplina que estuda a mudança. Mas as permanências também são históricas: por que algo não se alterou? Por que mudanças não ocorreram? O que não é histórico, porém, é a impossibilidade de mudança. Se algo é inalterável, imutável, não terá, por definição, história. Como afirmou o historiador estadunidense Henry Adams (1838-1918), “a sociedade em estado de equilíbrio é – por definição – uma que não tem his- tória, e não deseja historiadores”. É por essa razão que o apelo à fundamentação biológica de determinados comportamentos humanos ou estruturas sociais é anti-histórica. Afinal, se algo é “natural”, ou genético, ou racial, não possui possibilidade de mudança. É inalterável. O médico suíço Fritz Kahn publicou um dos manuais conju- – 129 – Tempo e história gais mais populares no Brasil do século XX, “A nossa vida sexual”. Nele, em determinado momento, afirmou que, no indivíduo “normal”, o homem seria caracterizado por cabelos curtos, barba, ventre baixo, e “fronte elevada, domi- nada pelo intelecto e pela atividade”. Já a mulher teria cabelos longos, poucos pelos corporais, ventre elevado e “fronte baixa, formada pelo sentimento e espírito de sacrifício” (KAHN, 1960, p. 66). Kahn reproduz aqui um tipo de conhecimento surgido ainda no século XVIII, que procurava naturalizar as diferenças sociais existentes entre homens e mulheres. Ao apelar para biologia para explicar a sociedade, Kahn acabava afirmando que todas as mulheres em todos os tempos e lugares eram dominadas pelo “espírito do sacrifício”, e que todos os homens seriam “tomados pelo intelecto”. O que, além de ser rigoro- samente falso, não era nada mais que uma justificativa para manutenção de determinadas relações de poder. Saiba mais O historiador francês Fernand Braudel (1902-1985) estudou, em seu livro “Mediterrâneo” de 1923, o governo do rei Filipe II da Espanha (século XVI). Buscando desenvolver uma “his- tória total”, Braudel procurou capturar as diversas mudanças e permanências da sociedade mediterrânica utilizando três tem- poralidades diferentes. Na primeira parte da obra utilizou-se da longa duração, quando analisou as determinantes geográficas, em períodos que abrangeram milênios, nos quais as mudanças são praticamente imperceptíveis; a seguir, centrou-se na aná- lise da média duração, medida em séculos, em que analisou as sociedades e os grupamentos humanos; e finalizou seu livro estudando a curta duração, temporalidade em que ocorria a his- tória política e social em acontecimentos que se dão no espaço de tempo da vida de uma pessoa. 5.2.4 Diferentes tempos em um mesmo tempo Os couraceiros eram uma tropa de cavalariaexistente em exércitos euro- peus, que se diferenciava por usar uma couraça (daí seu nome), ou armadura, Introdução ao Estudo da História – 130 – como forma de proteção. Eram herdeiros dos cavaleiros medievais e surgiram ao final do século XV, ganhando destaque, especialmente, nas cha- madas guerras napoleônicas do início do XIX. Os soldados que aparecem na imagem eram couraceiros franceses, lutando na Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Um deles, sen- tado, parece ferido, e sua armadura está sendo removida. A França era um dos poucos países que ainda mantinha batalhões de couraceiros no século XX, embora sua armadura não pos- suísse qualquer serventia contra as novas armas, e seus modos de combate fossem inadequados àquela guerra. Pode-se dizer que duas temporalidades diferentes se cruzaram nos campos de bata- lha europeus de 1914: uma mais antiga, de soldados armados com espadas, armaduras e montando a cavalos, enfrentando outra mais moderna, com armas de fogo poderosas, bombas e, posteriormente, bata- lhões motorizados. Diferentes temporalidades podem conviver em uma mesma época. Se dissermos, corretamente, que uma das características da vida contemporânea é a importância da vida digital, não se pode esquecer que existem sociedades inteiras sem acesso a condições mínimas de subsistência, vivendo no mesmo período que nós. E que ainda existem agrupamentos humanos que sobrevi- vem da caça, pesca e coleta, em um sistema econômico que se assemelha a outros de séculos ou milênios atrás. Outro exemplo, talvez mais dramático, é a persistência da escravidão ainda em nossos dias, inclusive no Brasil. As sociedades não mudam de forma uniforme, em todos os seus elemen- tos porque, afinal, não são um conjunto homogêneo. A coexistência de dife- rentes temporalidades deve muito a questões sociais (pobreza), mas também a questões culturais, e mesmo tecnológicas. Figura 10 - Soldado couraceiro francês ferido na Primeira Guerra. CC BY-SA 3.0 – 131 – Tempo e história Da teoria à prática Quando se constrói uma determinada linha do tempo ou cronologia, realizam-se escolhas: quais eventos ou personagens estarão representados, quais datas serão consideradas significativas, que detalhes serão selecionados. Reflete, portanto, certa concepção de passado e de história. Observe, abaixo, o trecho de uma cronologia sobre a Guerra do Para- guai, presente na obra “Lições de história do Brasil”, escrita por Joaquim Manuel de Macedo e publicada em 1863. PERSONAGENS ATRIBUTOS FEITOS E ACONTECI-MENTOS DATAS D. PEDRO II Imperador do Brasil Parte para o Rio Grande do Sul 10 Julho 1865 Chega em frente a Uru- guaiana ocupada pelos paraguaios 11 Setembro 1865 Assiste à capitulação de Uruguaiana 18 Setembro 1865 Regressa ao Rio de Janeiro 9 Novembro 1865 CONDE D’EU E DUQUE DE SAXE Príncipes Acompanham ao Rio Grande do Sul o Impera- dor D. Pedro II 10 Julho 1865 FRANCISCO MANOEL BAR- ROSO Almirante brasileiro Ataca a cidade de Cor- rientes 15 Maio 1865 Ganha a Batalha Naval do Riachuelo 11 Junho 1865 Força as passagens de Cuevas e Mercedes 18 Junho 1865 Na atualidade, como os livros de história compreendem a Guerra do Paraguai? Procure livros de história, didáticos ou acadêmicos, e encontre cro- nologias ou linhas do tempo que representem a Guerra do Paraguai. Que diferenças você pode encontrar entre a cronologia de 1863 e as atuais? Com- pare quais personagens foram escolhidos, que eventos e datas foram destaca- dos. O evento “Acompanham ao Rio Grande do Sul o Imperador D. Pedro II”, realizado pelo Conde D’Eu e pelo Duque de Saxe, mereceria destaque na Introdução ao Estudo da História – 132 – cronologia de um livro de história dos dias de hoje? Questões como essa per- mite relacionar as formas de se pensar cronologias com as diferentes formas de se compreender a disciplina histórica. Síntese O tempo é um conceito complexo, de difícil definição, ainda que esteja presente em vários momentos de nosso cotidiano. As formas de compreendê- -lo têm uma historicidade, e desempenham determinados papéis sociais: com a revolução industrial, por exemplo, tornou-se importante controlá-lo de maneira rigorosa e precisa. Já para a disciplina histórica, o tempo é uma ferra- menta importante, pois auxilia a compreensão de mudanças e permanências, de diferentes velocidades e direções que os eventos podem tomar, e é impres- cindível à correta localização temporal dos eventos históricos. Atividades 1. Leia o trecho abaixo, escrito pelo historiador britânico Edward Thompson (1924-1993), a respeito do tempo na sociedade industrial. A primeira geração de trabalhadores nas fábricas aprendeu com seus mestres a importância do tempo; a segunda geração formou os seus comitês em prol de menos tempo de trabalho (...); a terceira geração fez greves pelas horas extras ou pelo pagamento de um percentual adi- cional pelas horas trabalhadas fora do expediente. Eles tinham aceito as categorias de seus empregadores e aprendido a revidar golpes den- tro desses preceitos. Haviam aprendido muito bem a lição, a de que tempo é dinheiro (THOMPSON, 1998, p. 294). Sobre a relação entre o controle do tempo e a industrialização, é correto afirmar: a) O tempo passou a ser mais livre após a Revolução Industrial, ao regular os momentos de lazer dos trabalhadores. b) O tempo não sofre alterações históricas e sociais, pois é um dado da natureza e não cultural. c) O controle do tempo atingiu apenas sociedades agrárias, ao busca- rem competir com países industrializados. – 133 – Tempo e história d) O Brasil não sofreu processos de mudança na relação com o tempo do trabalho, pois não se industrializou. e) A industrialização consolidou uma nova forma de controle do tempo, baseado em regras rígidas e produtividade. 2. A respeito das linhas do tempo e das cronologias, instrumentos comuns nos trabalhos históricos, pode-se dizer: a) Que não apresentam dados neutros, pois refletem escolhas dos his- toriadores. b) São representações gráficas do tempo da natureza, em diversas sociedades. c) Devem ser utilizados apenas para eventos que ocorreram após o século XVIII. d) São construídos de forma objetiva, pois devem registrar fatos e não interpretações. e) Eram utilizados apenas por historiadores da chamada escola metódica. 3. Segundo o historiador francês François Hartog (nascido em 1946), cada sociedade tem uma forma diferente de se relacionar com o que ocorreu (o passado), o presente, e as expectativas do que vai ocorrer (o futuro). Essa relação Hartog denomina de “regime de historici- dade”. Sobre o tema, leia o texto a seguir. Eu entendo por regimes de historicidade os diferentes modos de arti- culação das categorias do passado, do presente e do futuro. Conforme a ênfase seja colocada sobre o passado, o futuro ou o presente, a ordem do tempo, com efeito, não é a mesma. O regime de historicidade não é uma realidade acabada, mas um instrumento heurístico. Não tendo função denotativa, ele nos leva para o lado do tipo ideal weberiano. Se ele ajuda a tornar mais inteligível as experiências ocidentais do tempo, ele não é, aqui está o desafio, estruturalmente eurocêntrico ou eurocentrista (HARTOG, 2006, p. 16). A existência de diferentes regimes de historicidade é possibilitada pela seguinte condição: a) A homogeneização do tempo em diferentes países, por conta da ins- titucionalização do controle do tempo após a Revolução Industrial. Introdução ao Estudo da História – 134 – b) O surgimento das noções de “passado” e de “futuro”, através do desenvolvimento do controle fabril de produção. c) As sociedades podem construir específicas relações com as noções de tempo, mais adequadas à sua própria sociedade.d) A inviabilidade de constituição de tempos não sincronizados em locais diferentes, especialmente com a globalização. e) A construção de linhas do tempo para diferentes sociedades, o que permite a comparação de eventos em locais geograficamente distantes. 4. Leia o seguinte texto, escrito pelo historiador britânico John Hale (1923-1999), que trata da Renascença europeia entre os anos 1480 e 1520. A seguir, assinale a alternativa adequada. Emocionalmente, o ano se iniciava com as primeiras flores, a amplia- ção do dia, a primeira avaliação dos grãos plantados no inverno (...). Apenas aqueles preocupados com documentos legais ou diplomáticos pensavam no ano como uma data oficial, e não algo sazonal (HALE, 1977, p. 11). Sobre essa concepção de tempo na sociedade renascentista euro- peia, é correto afirmar: a) Trata-se da demonstração do atraso europeu em relação aos Estados Unidos na constituição de controles fabris do tempo, pelos operários. b) Trata-se de uma preponderância do chamado tempo da natureza, que não era controlado pelo relógio, mas pelas diferentes estações. c) Demonstra a inexistência de uma concepção de tempo, pois cada pessoa o compreendia de uma maneira diferente. d) Associa-se à ideia das linhas do tempo como convenções dos his- toriadores, por permitir a localização temporal de certos eventos do período. e) Demonstra a ideia de presentismo, ou seja, a concepção de que o tempo é analisado a partir da perspectiva do presente. Perspectivas historiográficas 6 Contrapondo-se a uma história factual, linear, centrada nos chamados “grandes homens”, própria dos modelos positivistas e metódicos, a disciplina histórica vem, já há várias décadas, bus- cando multiplicar seus temas e suas formas de abordagem. Dessa fragmentação histórica surgiram diferentes perspectivas que se cris- talizaram em determinados campos historiográficos. Esse capítulo irá tratar das razões para o surgimento dessa fragmentação, além de apresentar características essenciais de algumas diferentes formas de se abordar e compreender o passado. Introdução ao Estudo da História – 136 – 6.1 Várias formas de se entender a história Em 1974, os historiadores franceses Jacques Le Goff e Pierre Nora edi- taram a coleção Faire l’histoire1 que se tornou marco da chamada “nova his- tória”. Traduzida no Brasil com os nomes de “História: novos objetos”, “His- tória: novos problemas” e “História: novas abordagens”, a coletânea buscou divulgar as diferentes maneiras pelas quais novos estudos históricos estavam sendo realizados, particularmente na França. Mas, além disso, procurava se contrapor a um tipo de escrita histórica tradicional – a metódica ou positi- vista –, fundamentada na “tirania do evento” (a expressão é de Le Goff) e na linearidade temporal. De fato, a coleção divulgou novidades no tratamento de temas histó- ricos, enfatizando questões como a necessidade da interdisciplinaridade na construção das explicações, da compreensão das estruturas mentais nas quais as pessoas viviam, e de defesa de uma atenção à pluralidade temporal, de modo a abordar adequadamente os objetos de análise. Tratava-se, assim, de uma síntese das várias formas novas de se pensar a disciplina histórica, e de se legitimar novos campos historiográficos que surgiam. Saiba mais A chamada “Nova História” tornou-se o nome de uma escola histórica associada à terceira geração da escola de Annales (sendo Marc Bloc e Lucien Febvre os representantes da pri- meira, e Fernand Braudel, da segunda). Além de defender uma abordagem ampla das questões históricas, essa escola destacou-se por sua grande presença institucional: possuía influência no mundo universitário, mas estava presente tam- bém em instituições de pesquisa e mesmo na mídia. Alguns dos historiadores da chamada Nova História, como o próprio Le Goff, Le Roy Ladurie (nascido em 1929) ou Georges Duby (1919-1996), tornaram-se, além de pesquisadores, cam- peões de vendas de livros. 1 “Fazer a história”, no original francês. – 137 – Perspectivas historiográficas Por influente que essa escola tenha sido, não se deve, porém, exagerar a novidade e o caráter revolucionário dos “novos historiadores”. No século XIX, o suíço Jacob Burckhardt (1818-1897) já realizava estudos de história cultural, e sua obra “A civilização do Renascimento na Itália” é ainda um clássico na historiografia. De forma semelhante ao holandês Johan Huizinga (1872-1945), que na passagem do século XX analisou as características men- tais dos europeus da Idade Média, além de abordar historicamente temas como morte ou jogos. Outro exemplo de historiografia que se contrapôs ao modelo tradicional foi a chamada história social, que renegava o estudo dos “grande homens” e buscou estudar as pessoas comuns: era, na frase do his- toriador britânico George Macaulay Trevelyan (1876-1962), “a história com as pessoas recolocadas nela”. E pode-se citar, por fim, o sociólogo brasileiro Gilberto Freyre (1900-1987), que trabalhava com um modelo de história que seria comum apenas muito posteriormente. Em obras como “Casa Grande & Senzala” (de 1933) e “Sobrados e Mocambos” (de 1936), abordou temas incomuns ao período, como a sexualidade, utilizando-se do recurso a diferen- tes temporalidades, além de basear seus estudos em fontes como notícias de jornais, livros de receitas, vestuário, ou arquitetura das casas. De toda forma, nas últimas décadas do século XX se cristalizou a mul- tiplicidade de campos históricos diferentes, fundados na ideia, ainda hoje muito presente, de que o passado poderia ser analisado a partir de múltiplas e originais perspectivas. Por isso, dentre outras, pode-se falar em abordagens antropológicas, sociológicas, micro-históricas, orais. De estudos políticos, ou culturais, ou demográficos, ou que combinem estes, ou outros domínios. Que tratem de temas como erotismo, religiosidade, marginalidade, alimentação, guerras, masculinidades e feminilidades, ou que investiguem relações com a tecnologia, com a leitura, com hábitos privados, com atividades públicas. E tantos outros mais. O historiador francês François Dosse (nascido em 1950) afirmou que uma das características da prática histórica contemporânea – e especialmente da “nova história” – é que ela estaria em “migalhas”. Ou seja, fragmentada em um sem número de domínios, abordagens e temas, cada vez menores e mais especializados. Ainda assim, é possível organizar os trabalhos históricos em determinados campos, que acabaram, por diferentes razões, instituciona- lizando-se. A seguir são tratados alguns dos mais conhecidos e importantes Introdução ao Estudo da História – 138 – desses domínios historiográficos da atualidade, embora se deva ter em mente que sua diversidade nos estudos históricos é muito mais ampla do que a apre- sentada nesse capítulo. 6.1.1 A história cultural Segundo o “Dicionário Prático Ilustrado” de 1963, a palavra “cultura” teria, à época, dois significados distintos na língua portuguesa: CULTURA1, s. f. (lat. cultura). Ato, modo ou efeito de cultivar: a cultura do cacto tem enriquecido a Ilha de São Tomé. Utilização cultural de certos produtos naturais: a cultura dos bichos-da-seda. CULTURA2, s. f. (al. Kultur) estudo: a cultura da poesia. Elegância, esmero: a cultura da linguagem. Adiantamento, civilização: a Alema- nha é um país de grande cultura. (DICIONÁRIO, 1963, p. 328). O primeiro significado do termo cultura, que o associa à plantação e a atividades agrícolas, ainda é usado de forma corrente, quando se fala em “cultura da soja” ou “cultura da cana”, por exemplo. Porém, mesmo na Roma Antiga, o termo já era utilizado em sentido metafórico, para significar ativi- dades que permitiam o cultivo das coisas relacionadas ao espírito visando o desenvolvimento humano. O segundo sentidomantém, de certa forma, ligações com o primeiro, pois significa sofisticação, refinamento, aperfeiçoamento, que são formas de se cultivar determinado conhecimento. Uma pessoa pode, então, tornar-se “culta” ao desenvolver sua fluência em literatura, em música, nas artes. Cul- tura, com esse significado, é algo que se pode ou não ter, em maior ou menor grau, mas que, de qualquer forma, é passível de ser apreendida a partir da leitura, da visita a museus, teatros ou concertos. Franz Boas (1858-1942) foi um antropólogo germano-estadunidense que difundiu um novo conceito de cultura, ligado à forma como uma socie- dade organiza o próprio mundo. Enquanto no século XIX era comum que se estudassem as sociedades ditas “primitivas”, com objetivo de reforçar o ideal de superioridade ocidental (na busca pela comprovação de que europeus, por exemplo, teriam “mais cultura”), Boas estudou populações como os Inuit do Canadá para entender como as sociedades construíam simbolicamente sua própria realidade. A partir dessa concepção, Boas passou a entender cultura – 139 – Perspectivas historiográficas a partir de um sentido totalmente novo, ou seja, enquanto um conjunto de saberes, práticas e crenças, particulares a cada sociedade, e que funcionavam como óculos pelos quais a realidade era vista, compreendida e organizada. Esse novo conceito foi gradualmente ampliado, corrigido e difundido por meio de estudos antropológicos durante o século XX, construindo-se uma ideia de cultura, desconhecida por nosso dicionário de 1963, que acabou por se tornar fundamental para as ciências humanas. A característica fundamental dos seres humanos, e o que os diferencia dos demais animais, é sua capacidade de abstração a respeito do mundo, e a construção de conceitos convencionalizados que permitem representar sim- bolicamente a realidade. Desde pequenos somos socializados nos significa- dos de nossa própria cultura e, por meio deles, compreendemos a realidade, aprendemos a interpretar e agir. Ganhamos, para utilizar a metáfora de Boas, nossos próprios “óculos culturais”. Podem ser citados exemplos mais superficiais desses óculos pelos quais enxergamos o mundo, como as diferentes vestimentas, as preferências culi- nárias, os significados de gestos, os tipos de música, os jogos e brincadeiras, que variam conforme as sociedades. Mais profundamente, porém, podem ser identificados específicos modos de vivência e organização social, tipos ade- quados e inaceitáveis de interação, rituais e cerimônias que reconstroem e confirmam certas identidades, mitos que fornecem significados à realidade, concepções morais e legais que guiam decisões, além de marginalizarem pes- soas e grupos, e definirem quem são os aliados, os amigos, ou os familiares. Partindo da antropologia, esse conceito de cultura influenciou forte- mente, também, a história. Uma das mais repetidas frases nos estudos his- tóricos foi criada pelo escritor britânico L. P. Hartley (1895-1972) quando afirmou: “o passado é um país estrangeiro: eles fazem as coisas diferentes lá”. Trata-se de uma afirmação que evoca a concepção antropológica de cultura, embora direcionada ao estudo do passado. Em outras palavras, para que se possam entender as razões e as opções disponíveis existentes em um dado período, é necessário inserir os eventos históricos em seu devido contexto. Ou seja, deve-se considerar o passado como se fosse uma cultura diferente, sim- bolicamente construída de forma diversa da nossa e que possuiria, também ela, seus próprios “óculos culturais”. Caso contrário, suas ações e decisões podem ser incompreensíveis. Introdução ao Estudo da História – 140 – Um exemplo: no início do século XVI, o conquistador Hernán Cortés procurava, no continente americano, riquezas que pudessem ser obtidas para si e para o governo espanhol. Nessa sua busca, entrou em conflito, por diversas vezes, com a população local, inclusive assassinando membros da nobreza do império Asteca, nas cidades por onde passava. Em novembro de 1519, e acompanhado de um grande exército formado por espanhóis e habitantes locais, Cortés encontrou-se com Montezuma II, governante asteca, na capital Tenochtitlán. Em carta de 1520 enviada ao rei espanhol Carlos V, Cortés revelou que havia sido tomado por um emissário divino, ou mesmo confundido com um deus; e que, por essa razão, Montezuma não apenas o havia recebido tão bem, como havia oferecido presentes valiosos. De onde veio essa impressão de Cor- tés? Segundo um documento escrito por nativos mexicanos, cerca de 30 anos após o episódio, essas teriam sido as palavras usadas por Montezuma a Cortés: Nosso senhor, você é muito bem-vindo em sua chegada a essa terra. Você satisfez sua curiosidade a respeito de nossa nobre cidade do México. Você veio aqui sentar-se em seu trono, que eu guardei para você. (...) Nossos ancestrais disseram que você viria para nossa cidade e se sentaria em nosso trono. E agora isto está cumprido, você retor- nou. Venha aproveitar seu palácio, descansar seu corpo. Bem-vindos nossos senhores a essa terra (apud RESTALL, 2003, p. 97). Por que Montezuma agiu dessa maneira, já conhecendo as violências que Cortés havia cometido por onde passara? Teria realmente Montezuma se equivocado, e confundido o conquistador espanhol por um deus, cuja volta teria sido prevista por seus ancestrais? Para compreender a atitude de Montezuma é necessário inseri-la nas con- cepções culturais dos nativos mexicanos. Observe como o historiador inglês Matthew Restall (nascido em 1964) explica o discurso do governante asteca. [Na cultura asteca], para ser polido e educado, devia-se evitar falar explícita ou diretamente, o que se exige dizer o oposto do que se quer. Assim, a afirmação de Montezuma de que seus predecessores estavam apenas guardando o governo do império Mexica em antecipação à che- gada de Cortés não deve ser entendida literalmente. É um artifício de retórica que objetivava significar o oposto – a grandeza de Montezuma e sua legitimidade de várias gerações (RESTALL, 2003, p. 97-8). Por esse exemplo pode-se perceber como a compreensão das ações de um indivíduo – no caso, Montezuma – deve partir da compreensão dos próprios – 141 – Perspectivas historiográficas “óculos culturais” que ele utilizava, ou seja, das crenças, modelos de compor- tamento, e regras sociais que seguia. Considerando o império asteca no século XVI como um “país estrangeiro” – no sentido dado por L. P. Hartley – pode- -se perceber como lá eles faziam as coisas realmente de forma diferente. E é papel da história cultural descortinar, discutir e analisar essas diferenças, de modo a melhor compreender indivíduos, povos e períodos. O objetivo da história cultural é, enfim, analisar o passado buscando compreender as maneiras pelas quais as sociedades construíram, simbolica- mente, as suas realidades e, a partir disso, entender suas ações. E considerando que a cultura é um conceito amplo – praticamente qualquer elemento da realidade é social e simbolicamente interpretado – também são muito amplos os temas abordados pela história cultural. Assim, existem histórias culturais da guerra, das danças, dos gestos, da sexualidade, dos corpos, das concepções religiosas, das relações com os alimentos, das formas de se relacionar com a limpeza e a sujeira, das relações familiares, do cotidiano de trabalho, da vida familiar, das formas de leitura, do descanso... Atualmente, a história cultural é uma área ainda em expansão, além de ser o campo historiográfico dominante nas universidades brasileiras. Sugestão de leitura: em História Cultural O grande massacre de gatos, de Robert Darnton Nesta obra, o historiador estadunidense Robert Darnton (nascido em 1939) estuda episódios da história cultural francesa – como um mas- sacre de gatos ocorrido no século XVIII, ea criação e difusão das histórias infantis – a partir da análise histórica. 6.1.2 Da história política à nova história política No século XIX, não havia nenhum sentido em falar em “história polí- tica”. Dentro da concepção tradicional, toda história era política por defini- ção, e toda história política era uma história do Estado: de sua formação, da ação de seus líderes, do relacionamento com os demais países. Relacionava-se a uma valorização do Estado Nação, passando pela justificativa de nacionalis- mos, personificando-se nos líderes, os próprios interesses nacionais. Introdução ao Estudo da História – 142 – Essa forma de se compreender a história estava plenamente de acordo com o que se pensava em relação aos agentes históricos – os “grandes homens”, líde- res dos Estados –, à temporalidade – linear, pois os fatos eram elencados uns após os outros, sem análises contextuais –, e às fontes – escritas e institucionais. Eventos de meados do século XX modificaram as concepções tradicio- nais a respeito do poder e da política, impactando também as concepções his- tóricas. Em primeiro lugar, as Guerras Mundiais – e especialmente a Segunda – não apenas envolveu toda a população nos locais em que ocorreu, mas as dimensões que tomou, inclusive destrutivamente, não poderiam ser expli- cadas apenas a partir da vontade de alguns governantes. Para se entender a experiência do Holocausto, por exemplo, era necessário desenvolver uma ampla análise histórica, e não apenas investigar as ações de um Hitler, ou um Himmler (um dos membros mais importantes do Partido Nazista e persona- gem importante para a efetivação do Holocausto). Com a difusão dos meios de comunicação de massa, a opinião pública passou a ter crescente importância. Cada vez mais o espetáculo das ações e o apelo às emoções tornaram-se componentes da política. O ganho de influên- cia social relacionou-se ao maior ou menor espaço que se passou a ter entre as várias mídias. Ocorreu, ainda, uma ampliação das noções de participação política, que deixou de ser algo considerada específica de grupos institucionalizados (por exemplo, políticos em seus partidos), e passou a ser entendida em suas várias dinâmicas sociais. Um bom exemplo é o desenvolvimento do feminismo, que contestou normas sociais, e buscou, dentre outros objetivos, a ampliação da participação política das mulheres: do direito ao voto, com as sufragistas, ao direito de participar de decisões governamentais. Percebeu-se, além disso, a importância que os significados simbólicos possuíam na criação e difusão de ideias políticas. O uso de técnicas de propa- ganda política, especialmente pelos fascistas, é um dos pontos principais em que se percebe essa influência cultural. A isso estão relacionadas a construção de simbologias e mitos utilizados na política, suas relações com a mídia e prá- ticas eleitorais e a difusão dos instrumentos de poder e controle em diferentes estratos sociais. Mas, além desse aspecto, pode-se falar na relação entre polí- tica e cultura em relação a temas mais específicos, como a criação de políticas – 143 – Perspectivas historiográficas sobre a sexualidade para questões de gênero, ações políticas que se relacionam a grupos marginalizados etc. Tanto as mudanças na concepção de política, quanto as relacionadas aos estudos históricos permitiram, especialmente a partir dos anos 1960, o desen- volvimento do que atualmente se denomina uma “nova história política”. Essa forma de se repensar um tradicional campo de estudos históricos aban- dona, em primeiro lugar, o voluntarismo. Não é a vontade de um ou poucos indivíduos, generais ou chefes de Estado, que movem a história. O poder deixa o exclusivo âmbito da institucionalidade (o Estado, por exemplo) e passa a ser visto enquanto parte de relações sociais. O poder está fragmentado em toda a sociedade. Por isso, diversos serão os momentos em que podem ser encontradas ações denominadas de “políticas”. A história política também não é mais linear: os eventos políticos são vistos a partir de amplas perspectivas (como o desenvolvimento dos naciona- lismos), ou experiências particulares (como da luta política de determinados indivíduos). Não há uma visão evolucionista em direção ao Estado, mas uma compreensão das crises, evoluções e retrocessos que constituem o fazer polí- tico. E essa multiplicidade de experiências políticas se reflete, por fim, em uma ampliação do conjunto documental. Sugestão de leitura: em Nova História Política A formação das almas, de José Murilo de Carvalho O historiador José Murilo de Carvalho (nascido em 1939) estuda, neste livro, as maneiras pelas quais a República buscou legitimar o seu poder político, a partir de 1889, por meio da invenção e valorização de mártires, criação de símbolos patrióticos e estabelecimento de rituais que fortalecessem um ideal de identidade e nacionalismo no Brasil. 6.1.3 A história do tempo presente Em 13 de maio de 2016, após mais de 20 horas de deliberações, o Senado Federal do Brasil aceitou iniciar o processo de Impeachment da então Introdução ao Estudo da História – 144 – presidente Dilma Rousseff, afastando-a do cargo. Assumiu, em seu lugar, o vice-presidente Michel Temer, em caráter interino. Essa mudança de poder pôde ser constatada, também, no site do Palácio do Planalto. Figura 1 - À esquerda, trecho do site do Palácio do Planalto no dia do afastamento da Presidente. À direita, o site como aparecia alguns dias depois, já dedicado a informações sobre o Presidente interino. Fonte: http://www2.planalto.gov.br Do ponto de vista documental, a comparação entre os dois momen- tos do site é interessante, pois revela discursos antagônicos sobre o mesmo evento: da denúncia do que seria um golpe (ainda sob o governo Dilma) aos apelos de reunificação nacional (Temer). Tal episódio certamente será estu- dado por historiadoras e historiadores, e não demorará a aparecer em livros didáticos. Mas, no momento em que ocorreu, seria um tema para a história? Em outras palavras, a análise de temas do presente imediato caberia à disci- plina histórica? A chamada “história do tempo presente” foi iniciada na França, mais especificamente em 1978, com a criação do Instituto de História do Tempo Presente, dirigido pelo historiador François Bédarida (1926-2001). Sua pre- ocupação era, exatamente, a de estimular os estudos históricos de temas con- – 145 – Perspectivas historiográficas temporâneos aos pesquisadores, por meio da aplicação das técnicas próprias da história. Em síntese, eventos como o afastamento da presidente Dilma Rousseff, em 2016, poderiam ser estudados historicamente. A viabilidade de se escrever uma história do tempo presente, porém, é questionada devido a questões ligadas à objetividade e às fontes. Comecemos por essa última. A principal fonte para a história do tempo presente são os depoimentos orais, e já vimos, no capítulo anterior, as críticas existentes à sua utilização para a história. Além disso, porém, há a questão da disponibilização de fontes mais atuais aos pesquisadores. Sem dúvida, para um tema como o Impeachment de Dilma Rousseff podem ser analisados documentos como o site do Palácio do Planalto. Mas outros documentos governamentais poderão estar protegidos pelo sigilo, o que impedirá seu acesso e inviabilizará as análises históricas. Uma segunda crítica refere-se à objetividade do conhecimento histórico produzido sobre eventos que ainda estão se desenrolando. Afinal, há o fato de que a historiadora e o historiador estarão diretamente ligados ao período e, devido a seus próprios interesses, poderão distorcer as análises. É possível que aqueles a favor do Impeachment da presidente Dilma leiam os documentos sobre o processo de 2016 de uma forma diferente daqueles que interpretam o processo comoum golpe. Além disso, não se sabe, ao certo, o caminho e a conclusão que serão tomados pelo evento que está sendo estudado. Não se poderia, dessa forma, analisar quais fatores são mais ou menos importantes, ou separar quais fatos foram ou não decisivos. Esse capítulo está sendo escrito em maio de 2016, e não se sabe, ainda, o resultado do julgamento do processo de Impeachment pelo Senado Federal. Dependendo do que for decidido, a interinidade de Temer será entendida como um evento passageiro (caso Dilma seja absolvida), ou permanente (caso seja confirmada sua culpa, e ratificado seu afastamento). Ao final do processo serão diferentes, portanto, as perspectivas utilizadas para analisar as mudanças no sítio do Palácio do Planalto, ou da política do Brasil como um todo. Para os historiadores do tempo presente, estas críticas não se sustentam. Se o fato de não saber o fim de determinado evento impossibilitasse análises, disciplinas como Ciência Política ou Economia – que se preocupam também em estudar eventos que ainda estão ocorrendo – deixariam de existir. Ou Introdução ao Estudo da História – 146 – seja, ainda que não se saiba o resultado final do processo de Impeachment, ou a conclusão de eventos importantes que ainda estão se desenrolando, nada impediria o uso dos métodos próprios da história para analisá-los. Sugestão de leitura: em História do Tempo Presente História do Tempo Presente, livro organizado por Gilson Porto Trata-se de uma coletânea de artigos em que os vários autores discu- tem, a partir de diferentes pontos de vista, as características da história do tempo presente, eventualmente debatendo, também, sua utiliza- ção em sala de aula na disciplina escolar de história. 6.1.4 Do marxismo ortodoxo à Nova Esquerda Inglesa O pensamento filosófico do alemão Karl Marx influenciou profunda- mente os estudos históricos. Era histórica sua forma de pensar a sociedade capitalista do século XIX e, por isso, inspirou (e, na verdade, continua inspi- rando) análises e teorias sociais que estão fundamentadas em seu pensamento. Para Marx, as pessoas e as sociedades em que viviam deveriam ser enten- didas historicamente e em sua realidade material. Ou seja, seria necessário compreender as relações existentes entre a estrutura social como um todo, e as maneiras pelas quais as pessoas, em um dado grupo social, e em determi- nado momento histórico, satisfaziam suas necessidades de alimentos, saúde, vestimentas, moradia. Em cada período, um modo de produção particular estabelecia as for- mas pelas quais a riqueza era produzida e distribuída. Por isso, a busca pela satisfação das necessidades materiais em um mundo feudal seria diferente da de uma sociedade capitalista: afinal viviam sob diferentes modos de pro- dução. Em seu livro “Contribuição à crítica da economia política”, lançado em 1859, Marx explicou melhor como imaginava o funcionamento de uma sociedade. Como se trata de um trecho importante, merece uma análise cui- dadosa. À esquerda, apresenta-se o texto original de Marx e, à direita, algumas análises e explicações. – 147 – Perspectivas historiográficas Para Marx, as lutas de classes seriam o principal motor da história. Ao longo do passado, classes com diferentes interesses e poderes desiguais, coexis- tiram. De uma forma esquemática, pode-se dizer que uma sempre possuiria as condições de produzir a riqueza, enquanto outra seria sempre explorada, obrigada a trabalhar tanto para si, quanto para sustentar a elite privilegiada. De uma relação dialética nasceria um conflito e, dele, o surgimento de uma nova organização social. A evolução dialética da história Figura 2 - Representação esquemática da dialética na sociedade pré-capitalista europeia. Fonte: Elaborado pelo autor Introdução ao Estudo da História – 148 – Para o marxismo, a história evolui dialeticamente. Ou seja, do confronto de diferentes concepções e interes- ses sociais surge uma síntese, que resolve aquele conflito. Acompanhe, a seguir, a forma pela qual se dá, esque- maticamente, o conflito de classes em uma sociedade pré-capitalista, segundo o pensamento de Marx. Em 1 aparece a tese (no caso, a aristocracia). Classe privi- legiada dentro da sociedade, possuía determinados direitos que lhes eram considerados naturais, como a posse de terras, o recebimento de taxas pela posse de feudos e o não paga- mento de impostos. Essa classe queria manter seus direitos. Em 2 há o seu oposto, ou seja, a sua antítese (“anti-tese”). A burguesia era a classe social em ascensão. Os burgueses queriam a igualdade de direitos, pois não desejavam pagar impostos pela aristocracia e queriam, também, a possibilidade de ascender ao poder político. Os interesses da burguesia eram contrários aos interesses da aristocracia, e essa situação conflituosa deveria ser resolvida pelo confronto 3 gerando, como resultado, uma síntese, 4. Essa sín- tese seria o resultado dialético do desenvolvimento social. Lembre-se, porém, que a história não para. No capitalismo, a burguesia se tornou a nova tese, e o proletariado (os trabalha- dores) a sua antítese. O processo dialético, portanto, deveria continuar. Karl Marx previu que do confronto dessas duas classes surgiria uma nova síntese, o socialismo, controlado pelo proletariado. A compreensão marxista confrontava vários aspectos da visão tradicio- nal da história de finais do século XIX e início do XX. Em primeiro lugar preocupava-se com contextos: era a estrutura econômica, como um todo, que definia os aspectos legais, jurídicos, artísticos etc. Os reis e generais não eram vistos como agentes históricos pois, segundo a concepção marxista, esta- vam agindo de forma determinada pelos interesses econômicos. Além disso, – 149 – Perspectivas historiográficas tratava-se de um modelo analítico que direcionava sua atenção para os tra- balhadores, por serem a classe social explorada dentro do sistema capitalista. Inspirados nas ideias essenciais de Marx, muitos pensadores, ligados à filosofia, bem como às ciências humanas e sociais, construíram modelos esquemáticos para a compreensão dos fenômenos históricos. Dentro de um modelo que se pode definir como marxismo ortodoxo, as questões econô- micas seriam consideradas sempre a base das sociedades, sua infraestrutura. Conceitos criados por Marx para analisar a realidade da Inglaterra do século XIX passaram a ser aplicados a povos e períodos completamente diferentes, e o desenvolvimento histórico europeu passou a ser considerado modelo para a evolução de todas as sociedades. Por exemplo: se a Europa teve feudalismo, fazia-se necessário – acreditavam alguns marxistas ortodoxos – encontrá-lo também no Brasil, e houve historiadores que identificaram a colonização como nosso período “feudal”. Essa historiografia marxista orto- doxa foi muito influente no Brasil após o fim do Regime Militar. Historiadoras e historiadores acreditavam encontrar, nesse modelo esquemático do pensa- mento de Marx, as explicações para o atraso do Brasil e as razões para as desigualdades sociais. Tal influência atingiu inclusive os livros didáticos, como pode ser observado na imagem, extraída de uma obra de 1987. Logo no início da obra, tenta-se explicar aos alunos conceitos como “modo de pro- dução” e “classe”. Mais do que ensinar história, os autores desses livros preocupavam-se em despertar sentimentos de indignação em relação a desigualdades sociais e econômicas. Vários foram os pesquisadores que contestaram esse modelo esquemá- tico e simplificador das ideias de Marx. Merece destaque a chamada Nova Esquerda Inglesa, surgida a partir dos anos 1960, da qual participaram histo- riadores como Edward Thompson (1924-1993), John Saville (1916-2009), Figura 3 - Conceitos marxistas em livro didático de história para 6a série (atual7o ano), de 1987. Fonte: FARIA, 1987, p.9. Adaptado. Introdução ao Estudo da História – 150 – e Perry Anderson (nascido em 1938). Recebendo esse nome por conta da publicação da revista New Left Review, esses historiadores questionavam a ortodoxia marxista, e procuravam construir um diálogo entre as ideias Marx e as concepções culturais de sociedade. Thompson, por exemplo, considerava as ideias de Karl Marx válidas em sua essência. Porém, não aceitava a noção de que a economia determinava a consciência das pessoas. Influenciado pelas discussões a respeito da importân- cia da cultura na formação do indivíduo, Thompson acreditava que as pessoas construiriam determinada consciência de seu próprio papel social e de seu local na sociedade, a partir das experiências vivenciadas. Passar fome, receber baixos salários e viver em ambientes insalubres formariam uma espécie de consciência de classe, utilizada para que se pudesse lutar por melhores con- dições de trabalho ou de salários. Tais ações, por sua vez, acabariam por criar novas experiências. Para Thompson, portanto, os trabalhadores participavam da construção de sua própria consciência. Saiba mais Foi também Edward Thompson quem criou a expressão “história vista de baixo”, que servia para designar a compreensão histórica a par- tir do ponto de vista das pessoas comuns, pobres e trabalhadores. Tratava-se de uma forma de se contrapor à história vista do “alto”, ou seja, dos poderosos, utilizada pelos estudos históricos do final do século XIX e início do XX, que tinha como perspectiva as ações dos líderes dos Estados. Sugestão de leitura: em História Marxista A Miséria da Teoria, de Edward Thompson Nesse importante livro teórico, Thompson discute o destaque que deve ser dado às ações das pessoas comuns nos processos históri- cos. Ele contesta especialmente as ideias do marxismo ortodoxo do filósofo francês Louis Althusser (1918-1990), para quem as ações dos indivíduos não eram importantes para o entendimento do passado. – 151 – Perspectivas historiográficas 6.1.5 Gênero e história Todas as sociedades humanas possuem divisões internas que concedem a seus indivíduos direitos e deveres específicos. Em comunidades ditas totê- micas, por exemplo, totens2 participam da explicação de como aquele grupo se relaciona com o universo como um todo, além de organizarem e estabe- lecerem as funções das diversas posições sociais dos membros na sociedade. A partir de uma visão sagrada que organiza o mundo, portanto, as pessoas passam a ter certas obrigações e poderes. Nossa sociedade é também estratificada. Determinadas posições sociais podem garantir a indivíduos certas vantagens ou desvantagens, destaque social ou marginalização. As formas pelas quais uma sociedade organiza seus cidadãos possui sua própria historicidade, e desempenha determinadas fun- ções sociais. Divisões comuns são aquelas estabelecidas a partir da riqueza de um indivíduo, de seu poder político, da idade, opção sexual ou cor da pele. Algumas dessas fazem parte da estrutura social, embora não sejam desejadas, como aquela que separa ricos e pobres. Outras, como o preconceito baseado na cor da pele ou origem étnica, têm sido ativamente combatidas, pelo seu caráter preconceituoso. Uma das divisões mais fundamentais em nossa sociedade é baseada na ideia de gênero. Em todas as sociedades humanas conhecidas, os indivíduos são divididos em dois grupos principais de homens e mulheres, aos quais são conferidos determinados direitos e deveres, obrigações e benefícios, que são cultural e historicamente construídos. Gênero não se confunde com sexo. Quando se fala em sexo, está se falando dos caracteres que separam o homem da mulher em nível biológico, ainda que haja uma historicidade sobre a forma como os corpos são compreendidos. Gênero, por sua vez, liga-se à construção social. A partir da diferença percebida entre os sexos, as sociedades construíram, e constroem, deter- minados papéis que julgam próprios da mulher e do homem. Pelo fato de serem associados a características biológicas, é muito comum acreditar que os papéis sociais de gênero sejam dados naturais. Como se toda mulher e 2 Totens são emblemas utilizados por alguns grupos humanos que servem como iden- tificação de sua linhagem ou de sua tribo. Totens podem ser imagens específicas, animais, seres ou objetos considerados sagrados. Introdução ao Estudo da História – 152 – todo o homem fossem iguais, em todas as socieda- des, em todos os tempos. Mas não são: aquilo que se define como “feminino”, ou próprio das mulheres, e “masculino”, ou próprio dos homens, possui fortes e importantes componentes culturais3. Se em nossa sociedade existe a crença de que o homem possui mais desejos sexuais que as mulheres, em outras pode ser o oposto – como acontecia na Europa pré-moderna, em que a mulher era conside- rada mais erotizada que o homem. Entre os Trobrian- deses da Nova Guiné (segundo revelaram pesquisas antropológicas do início do século XX), as tarefas domésticas que exigiam força física eram realizadas por mulheres, e não por homens, como se pode- ria esperar a partir de nosso ponto de vista sobre os gêneros. E a própria maternidade, que concebemos como um instinto tão poderoso, pode parecer fraco ou quase inexistente em comunidades como a França do século XVIII – em que as crianças, muito comu- mente, eram criadas por pessoas estranhas à família. Aliás, dentro de uma mesma sociedade, a ideia do que é ser mulher ou homem pode variar: para o Brasil do século XIX, por exemplo, ser mulher branca de classe alta significava experimentar a vida de uma maneira fundamentalmente diferente da de outra, pobre e negra (livre ou escrava), mesmo que vivessem geograficamente muito próximas. O desenvolvimento do conceito de gênero surge por conta do feminismo, especialmente a par- tir do século XX. As lutas feministas por igualdade 3 Deve-se atentar que existem indivíduos que, tendo nascido com um sexo biológico, acreditam pertencer a outro gênero, caso dos travestis e transexuais. Há, ainda, aquelas pessoas que nascem sem uma definição anatômica clara sobre qual sexo pertencem, os intersexuais; ou os andróginos, que não desejam se identificar a qualquer gênero. Infelizmente, por questões de espaço, não se poderá discutir nesse livro esses e outros casos que fogem à regra da separação entre sexos e sua relação com o conceito de gênero. Figura 4 - Alguns dados sobre violência revelam como os papéis de gênero impactam homens e mulheres em nossa sociedade. Fontes: IBGE, 2007 (Taxa de mortalidade por homicídios entre 1992 e 2007); Instituto de Segurança Pública - Dossiê Mulher, 2010. – 153 – Perspectivas historiográficas de direitos e seus estudos em torno da questão da construção das masculi- nidades e feminilidades demonstraram a influência social e cultural da ideia de gênero e seus papéis sociais relacionados. O objetivo da luta feminista era demonstrar que não existiam locais “naturais” para homens e mulheres – o mundo do trabalho para eles, ou o doméstico-maternal, para elas. Mas que essas condições seriam decisões políticas, e o apelo à naturalidade dos papéis nada mais seria do que um discurso que visava legitimar desigualdades sociais. A historiografia que se utiliza do conceito de gênero vai bem além de uma “história das mulheres” que se desenvolveu nos anos 1960. Naquele momento, e por questões políticas, fazia-se necessário demonstrar que, mesmo nos estudos históricos, as mulheres possuíam vozes que foram apa- gadas do passado, sendo sua contribuição diminuída na narrativa histórica. As mulheres estavam, literalmente, excluídas da história. A “história das mulheres” buscou, então, recuperar essas contribuições perdidas ou ignora- das, demonstrando sua vitalimportância social e histórica para movimentos e transformações sociais. O conceito de gênero é utilizado em estudos históricos de modo a demonstrar a construção dos diferentes papéis masculinos e femininos nas sociedades. Pretende, assim, discutir como se instituíram historicamente as diferentes relações sociais entre homens e mulheres, e como se estabeleceram os desiguais direitos e deveres nas relações entre gêneros. É a partir dos estu- dos de gênero, também, que se estudam a construção histórica do erotismo e das sexualidades, e se aprofundam os debates sobre grupos marginalizados, como ocorre com pessoas que se identificam como LGBT. Por fim, é importante mencionar que existe uma relação entre natureza e cultura, ou, entre sexo e gênero, o que é confirmado por pesquisas em socio- logia, biologia, pedagogia, psicologia, e mesmo neurologia. Não se sabe com exatidão, porém, de que forma natureza e cultura dialogam e como mutua- mente se influenciam. Apenas pesquisas interdisciplinares, que ainda devem ser feitas, poderão solucionar essa questão. Sugestão de leitura: em Estudos Histó- ricos de Gênero Visões do Feminino, de Ana Paula Vosne Martins Nessa obra, a historiadora brasileira Ana Paula Vosne Martins estuda Introdução ao Estudo da História – 154 – o surgimento da obstetrícia e da ginecologia no Brasil do século XIX, e analisa de que maneira a medicina do período construiu discursos de naturalização das diferenças entre homens e mulheres, difundindo mitos sobre os gêneros que são presentes ainda nos dias de hoje. Da teoria à prática Temas históricos não são monopólio de um determinado campo his- toriográfico. Por exemplo: as relações entre homens e mulheres são muito comumente abordadas nos estudos de gênero, mas podem ser objeto, tam- bém, de estudos marxistas, ou da história cultural. A multiplicidade de abor- dagens, aliás, enriquece a compreensão histórica. Ainda assim, há temas que são tradicionalmente trabalhados em um determinado domínio da história, especialmente quando se consideram os livros didáticos para o ensino fundamental e médio. Quando se fala em “Revolução Industrial”, a abordagem, em geral, é voltada à economia – tra- tando-se, portanto, de um tema da história econômica. Já quando se discute Renascença, a atenção é voltada à história cultural. Figura 5 - Porcentagem dos campos historiográficos nos currículos de ensino médio em alguns países europeus. Fonte: ECKER, 2002, p. 78-81. Adaptado. Na imagem encontra-se a comparação percentual de diferentes campos de estudo nos currículos do ensino médio de alguns países europeus. O item “história política e social” envolve temas tradicionais da história, como for- mação dos estados, atuação de reis ou presidentes, guerras e tratados (clássicos da história política), além de assuntos como mudanças sociais, história de ins- tituições (como as forças armadas ou a igreja), imperialismo ou colonização – 155 – Perspectivas historiográficas (próprios de uma abordagem social). Em “história econômica” estão even- tos como a Revolução Industrial, processos de industrialização, sistemas de plantation, exploração econômica colonial, trocas comerciais. E em “história cultural” recaem temas como arte, arquitetura, escolas filosóficas, história do cotidiano, formas de comportamento. De posse desses dados, pesquise um ou mais livros didáticos de história para o ensino médio, e procure verificar a distribuição dos temas historiográ- ficos seguindo os mesmos itens dos gráficos acima. Você pode escolher fazer uma contagem apenas pelos temas, ou pelo número de páginas dedicado a cada assunto. A seguir, procure responder: 1. A distribuição dos diferentes temas nos livros brasileiros de história se assemelha àqueles presentes nos currículos europeus? 2. Vimos, nas páginas anteriores, que nos estudos acadêmicos de história, a preponderância tem sido dada à história cultural. Essa preferência está sendo refletida nas aulas de história do ensino médio e fundamental? Por que isso ocorre? Lembre-se, para responder a essa questão, que os livros didáticos de história têm objetivos diferentes da história acadêmica. Além de existirem temas que são tradicionais a esses livros (e que os professores esperam encontrar), o que é selecionado como conteúdo a ser incorporado nessas obras – especialmente as do ensino médio – é influenciado pelo que é cobrado em provas como os vestibulares e o ENEM. Síntese A multiplicidade de perspectivas históricas permitiu o surgimento de campos historiográficos específicos, com seus autores referenciais, temáti- cas particulares e modos próprios de investigar questões históricas. De toda forma, os diferentes campos dialogam entre si, e o contato com uma maior variedade de olhares permite uma análise mais complexa e profunda sobre os eventos do passado. Atividades 1. Leia o que afirma Peter Burke (nascido em 1937) a respeito da chamada “Nova História”. Introdução ao Estudo da História – 156 – A expressão “a nova história” é mais bem conhecida na França. (...) A nova história é a história escrita como uma reação deliberada con- tra o “paradigma” tradicional. (...) Será conveniente descrever esse paradigma tradicional como “história rankeana”, conforme o grande historiador alemão Leopold von Ranke (1795-1886), embora esse estivesse menos limitado por ele que seus seguidores. (Assim como Marx não era um marxista, Ranke não era um rankeano) (BURKE, 1992, p. 10). Sobre a Nova História é correto afirmar: a) Confronta a chamada escola de Annales, ao defender a primazia dos fatores econômicos sobre os políticos ou culturais. b) Refere-se aos estudos de gênero, iniciados com o feminismo dos anos 1960, questionadores da biologização dos discursos sobre sexo e sexualidade. c) Trata-se da chamada terceira geração de Annales e caracteriza-se pela ampliação de temas, abordagens e objetos nos estudos históricos. d) Associa-se à história metódica pelo cuidado com as cronologias, o voluntarismo dos agentes e a centralidade da política. e) Tornou-se crítica da chamada nova história política, por serem os elementos culturais inadequados para explicar o funcionamento dos Estados. 2. Para o historiador francês François Dosse (nascido em 1950), a chamada “Nova História” abandonou “toda a relação dialética pas- sado/presente/futuro e a perspectiva globalizante em proveito de uma ‘história em migalhas’” (DOSSE, 1992, p. 11). Qual o signifi- cado da expressão “história em migalhas”, para a Nova História, na concepção de Dosse? a) Um abandono das práticas multidisciplinares, isolando a história enquanto disciplina sem contato com as demais ciências humanas. b) A atenção com os dados seriais e numéricos, como econômicos, enquanto a principal fonte de informações às análises históricas. c) Uma fragmentação de objetos e uma preocupação com temas cada vez menores e mais específicos, como temas de análise histórica. – 157 – Perspectivas historiográficas d) A preocupação com as explicações generalizantes, que evitavam cuidar de pequenos temas e problemas considerados a-históricos. e) A recusa à compressão biológica dos comportamentos, multipli- cando as possibilidades de interpretação cultural das sociedades. 3. A história política dita “tradicional” – associada à escola histórica chamada de positivista ou metódica – tem como duas de suas carac- terísticas a linearidade temporal e o voluntarismo. Isso significa: a) Que são fundamentais os contextos políticos e econômicos para a explicação da formação dos Estados nacionais e suas relações diplomáticas. b) Que os fatos históricos são elencados sucessivamente em uma linha do tempo, e as pessoas que “fazem” a história são os líderes que agem pela própria vontade. c) Que se preocupam com amplas análisestemporais, avanços e retro- cessos históricos, analisando a multiplicidade de agentes históricos e suas atuações. d) Que se compreende a história do ponto de vista cultural, pois são conceitos criados simbolicamente pelas sociedades que os utilizam. e) Que a população trabalhadora é vista como real motor da histó- ria, por conta das necessidades materiais que devem suprir sua sobrevivência. 4. Segundo Peter Burke, o conceito amplo de cultura dos antropólogos era, e continua sendo, um atrativo epistemológico (...) A ideia antropológica de “regras” ou “protocolos” culturais também atraiu os historiadores culturais; a ideia de que, como as crianças, eles tinham de aprender como as coisas eram feitas (BURKE, 2004, p. 57). De que maneira a história cultural se utiliza do conceito antropo- lógico de “cultura”? a) A partir de um ponto de vista biológico, em que os diferentes instintos humanos agem para construir as sociedades e suas regras de convivência. Introdução ao Estudo da História – 158 – b) Pela possibilidade de se compreender um propósito para a his- tória, por meio da identificação da lógica que tomam os eventos do passado. c) O passado é visto à maneira como uma cultura diferente, ou seja, é analisado a partir das maneiras pelas quais as sociedades criaram, simbolicamente, a própria realidade. d) A história é compreendida a partir de comparações com o modelo europeu-ocidental, tomado com parâmetro de avaliação de atrasos e retrocessos. e) O conceito de cultura foi considerado não-científico pela escola dos Annales, existindo apenas em livros didáticos de história, hoje vistos como ultrapassados. O raciocínio histórico e seus erros 7 Neste capítulo serão discutidas as diferentes formas pelas quais surgem problemas de análise no raciocínio histórico. Além dos erros que podem ser denominados de básicos – como datação equivocada, má verificação das fontes, identificação incorreta de personagens, locais ou eventos – há aqueles, nada incomuns em textos históricos, que envolvem incorreta incompreensão do con- texto histórico, formas de análise inadequadas que distorcem as fon- tes, incorreções na forma de conduzir argumentos, argumentações falaciosas. O presente capítulo discutirá alguns dos problemas mais comuns que podem aparecer no pensamento histórico. Introdução ao Estudo da História – 160 – 7.1 Como se erra em história? Todos os livros didáticos utilizados nas disciplinas de ensino fundamen- tal e médio, nas escolas públicas do Brasil, participam do Programa Nacional do Livro Didático - PNLD. Trata-se de um projeto mantido pelo Estado brasileiro que compra das editoras e distribui, gratuitamente, as obras neces- sárias ao ensino. Para que um livro possa participar do PNLD e assim ter a possibilidade de chegar aos alunos, ele deve ser avaliado e aprovado em crité- rios como a adequação do Manual do Professor, a atenção aos componentes curriculares de história, a explicitação da proposta pedagógica, dentre outros quesitos pedagógicos e técnicos. Os avaliadores, professores universitários escolhidos pelo Ministério da Educação, recebem uma ficha para cada livro, que deve ser preenchida com Ótimo (O), Bom (B), Regular (R), Insuficiente (I) e Ausente (A) para cada um dos cerca de 100 itens analisados. Um dos grupos de quesitos recebe o nome de “Correção e atualização de conceitos, informações e procedimen- tos”, e faz parte da avaliação do componente curricular de história. Figura 1 - Trecho dos critérios de avaliação dos livros didáticos de história. CRITÉRIOS SIM NÃO O B R I A V Correção e atualização de conceitos, infor-mações e procedimentos 13. Ausência de práticas de anacronismo. 14. Ausência de práticas de voluntarismo. 15. Ausência de compreensão do conhecimento histórico como verdade absoluta, de estereó- tipos e caricaturas, de simplificações explicati- vas, erros de informações parciais, descontex- tualizadas e/ou desatualizadas, e de conceitos e procedimentos apresentados de modo incor- reto, descontextualizado ou desatualizado. Para descrever e analisar este item, verifique a presença de cada um desses elementos. Fonte: BRASIL, 2014, p. 141. – 161 – O raciocínio histórico e seus erros A presença de elementos como anacronismo e voluntarismo, além de erros como desatualização, informações inadequadas, ou presença de estere- ótipos serão considerados pontos negativos, e se forem em quantidade signi- ficativa, poderão incorrer na exclusão do livro do PLND. Nesse caso, ele não será utilizado nas escolas públicas. Anacronismo, voluntarismo, simplificações excessivas, equívocos na localização temporal, etnocentrismo, são alguns dos erros que podem ocorrer nas análises e explicações históricas, não apenas em livros didáticos, mas tam- bém em obras historiográficas e análises teóricas. A presença de tais equívo- cos, nada incomuns, comprometem a análise e os resultados de uma pesquisa em história. 7.2 O anacronismo Como as pessoas de antigamente imaginavam o futuro? Um conjunto de imagens criado na França no final do século XIX fez relativo sucesso com previsões sobre como seria a vida cotidiana no ano 2000. A seguir encontram- -se duas dessas imagens: Figura 1 - Duas imagens da coleção francesa “En L’An 2000”, que foram distribuídas inicialmente em cigarros e, posteriormente, em cartões postais. Fonte: publicdomainreview.org À esquerda está representada uma empregada doméstica utilizando uma máquina, que teria a função de limpar e escovar o chão; e, à direita, um carteiro, em sua máquina voadora, entregando a correspondência. O quanto essas imagens se parecem com a realidade dos anos 2000? Pouco, não? Isso porque o ambiente doméstico e seus detalhes, as vestimentas, a máquina voa- dora, são representados como eram conhecidos no final do século XIX. Ou Introdução ao Estudo da História – 162 – seja, as ilustrações representam não muito mais do que o próprio dia a dia do artista, ao qual ele adicionou algumas máquinas. Isso fica evidente quando se compara aquelas ilustrações com exemplares do próprio século XIX. Constata-se, claramente, que o desenhista que criou a coleção En L’An 2000 nada mais fez do que projetar para uma outra época (o futuro), os referenciais existentes em seu próprio tempo. Figura 2 - Empregada doméstica em seus trajes de trabalho, e o inventor Jean- Marie Le Bris com seu projeto de máquina voadora: compare esses exemplares do século XIX com os desenhos da coleção “En L’An 2000”. Fonte: CC BY SA- 3.0 O talentoso desenhista do século XIX, ao criar sua popular coleção de imagens que deveriam ser futuristas, cometeu um dos mais comuns erros históricos: o anacronismo, ou seja, carac- terizar um determinado período histórico, como se fosse outro. No caso de nosso desenhista, seu anacronismo se revela quando pensou o ano 2000 como se fosse uma versão meca- nizada de sua própria realidade do século XIX. Mais comuns, porém, são os anacro- nismos que interpretam equivocadamente o passado. Um exemplo é o que aparece nesse detalhe da obra do século XVI de Hans Holbein, pintor nascido em Augs- burgo, região que hoje faz parte da Alema- nha. Na imagem, está representada Maria Figura 3 - Detalhe de “Noli me tangere”. F on te : Po r H an s H ol be in , o Jo ve m (1 5 2 6 – 2 8 ), na R oy al C ol le ct io n, d a fa m íli a re al b ri tâ ni ca . – 163 – O raciocínio histórico e seus erros Madalena – ou seja, uma mulher do século I da região da Galileia –, mas suas vestimentas, bem como o vaso que carrega em suas mãos, são próprios da Europa à época em que o pintor vivia. Pode-se ver, aqui, que também Holbein cometeu um anacronismo, poisrepresentou o século I a partir do que conhecia do século XVI (algo possivelmente intencional, aliás, pois com isso esperava criar, em seus apreciadores, uma identificação com a época e as pessoas retratadas). O anacronismo é um dos mais comuns equívocos cometidos por historia- doras e historiadores, e evitá-lo exige especial e constante atenção. No parágrafo anterior, afirmei que Holbein era um “pintor nascido em Augsburgo, região que hoje faz parte da Alemanha”. Não teria sido mais fácil afirmar simples- mente que ele era um “pintor alemão”? Sim, seria; mas seria também anacrô- nico, afinal o surgimento do Estado nacional alemão unificado só ocorreu no final do século XIX, mais de três séculos após a morte de Holbein. Não havia pintores alemães antes da própria Alemanha surgir. É por isso que não se pode falar em “admiráveis exemplos de patrio- tismo”, como afirmou um livro didático de 1930, para descrever a ação da população de Pernambuco, quando expulsou os holandeses no século XVII. Não existia “Pátria” brasileira no período; e nem mesmo a ideia de que o Brasil colônia era uma única e indivisível unidade política. Lançou-se, no passado, uma ideia de Pátria, própria do presente, gerando o anacronismo. Trata-se de anacronismo, também, a comparação reducionista entre perí- odos históricos, como afirmar que houve luta de classes na Grécia antiga, ou que o Brasil colônia era “feudal”: são análises anacrônicas, pois lançam, sobre certo período histórico, as características de outro. A frase de Karl Marx, tão famosa, de que “a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”, é também ela anacrônica – embora deva ser interpretada como ironia, e não como uma constatação realizada pelo filósofo alemão. Tanto a pintura de Holbein, quanto as imagens futuristas do século XIX são exemplo, ainda, de presentismo, que é a forma mais comum de anacro- nismo. Se no anacronismo toma-se uma época pela outra, no presentismo toma-se sempre o presente como medida para todas as épocas. Se eu qui- ser analisar a escravização indígena que ocorreu no Brasil do século XVI, tomando como parâmetro a vida dos escravos brasileiros do século XIX, esta- Introdução ao Estudo da História – 164 – rei cometendo anacronismo; se o parâmetro for a escravidão dos dias de hoje, estarei cometendo o anacronismo presentista. Tome-se como exemplo de anacronismo presentista o seguinte trecho, escrito pelo pensador marxista Edmundo Moniz (1911-1997), sobra a cha- mada Guerra de Canudos. Canudos foi a tentativa de estabelecer uma sociedade socialista no sertão da Bahia, tendo em vista o fato da burguesia unir-se aos lati- fundiários quando se apossou do poder político com a proclamação da República em vez de efetivar a reforma agrária, tarefa histórica que lhe competia realizar. Os camponeses de Canudos não lutaram contra o regime republicano que, para eles, não se distinguia do monárquico. Lutavam contra a burguesia em ascensão que se unira aos grandes proprietários rurais (MONIZ, 1978, p. 11). A Guerra de Canudos foi um movimento social e religioso que ocorreu no final do século XIX, no interior da Bahia. Pessoas pobres e marginalizadas, que por diferentes razões não conseguiam se manter sob o sistema político e econômico da região, organizaram-se em torno de um líder messiânico conhe- cido como Antônio Conselheiro. Aguardando o fim do mundo que julgavam próximo, e condenando a República recém-instaurada que viam como antir- religiosa, atraíram a atenção de membros da Igreja Católica, bem como de fazendeiros locais, que passaram a ver aquele movimento como uma ameaça. Chegando a alcançar uma população de mais de 20 mil pessoas, Canudos foi completamente destruído após uma série de conflitos armados, tendo os últi- mos combates ocorridos em 1897, no qual os sertanejos foram massacrados pelo exército republicano, composto por cerca de quatro mil soldados. Afirmar que o movimento de Canudos foi “socialista”, como fez Moniz, é um anacronismo. Em primeiro lugar, porque não há nada no movimento de Canudos que indique a existência de qualquer tentativa de implementação de socialismo na comunidade. Mas, além disso, porque Edmundo Moniz estava buscando encontrar, em um movimento do século XIX, uma ideologia polí- tica como ele a entendia no Brasil dos anos 1970 – momento em que escreveu seu texto. E, por fim, é anacrônico falar na existência de uma burguesia para o Brasil dos anos 1890. Se existiam burgueses no século XX, no século ante- rior o país era fundamentalmente primário-exportador, e não apresentava as características essenciais do sistema industrial capitalista, próprio para a exis- tência de uma “burguesia”: a mão de obra escrava havia sido abolida há cerca – 165 – O raciocínio histórico e seus erros de uma década e, com exceção do surgimento de algumas poucas fábricas nacionais, é incorreto dizer que o Brasil era um país industrializado. Como bônus, pode-se dizer que a explicação de Moniz passa ainda pelo erro de apresentar uma concepção teleológica da história (ou teleologismo), própria do marxismo ortodoxo, que discutimos no capítulo anterior: ele que- ria encontrar a existência, no sertão baiano oitocentista, de condições sociais, políticas e econômicas do desenvolvimento capitalista que estavam previstas em sua concepção de história. Saiba mais Um dos maiores clássicos da história, a obra “O problema da incre- dulidade no século XVI”, de Lucien Febvre (publicada em 1937) é também uma discussão sobre o que seria o “pior erro do historia- dor”, ou seja, o anacronismo. Nessa obra, Febvre procura demonstrar como é inadequado afirmar que o pensador renascentista François Rabelais (1494?-1553) seria “ateu” ou “descrente”, a partir da leitura de seus textos. Para Febvre, essas afirmações são anacrônicas, pois não existia, na época, condições mentais para que alguém – mesmo Rabelais – pudesse pensar a possibilidade da descrença. 7.3 Erros de análise Todos os trabalhos históricos partem de problemas que devem ser resolvidos por historiadores, e de certas concepções teóricas – implícitas ou explícitas – que organizam o conteúdo pesquisado. Erros analíticos surgem quando determinadas preconcepções equivocadas interferem na coleta e análise do material, interferindo no resultado da pesquisa e, por vezes, comprometendo-a. 7.3.1 O etnocentrismo O termo etnocentrismo refere-se à ação de julgar outros grupos e socie- dades a partir, unicamente, dos referenciais da própria cultura. O pensamento etnocêntrico parte da convicção de que a própria cultura é superior às demais Introdução ao Estudo da História – 166 – e, por isso, considera inferiores e atrasados os costumes, a organização social e as crenças de outros povos. Um bom exemplo do pensamento etnocêntrico foram os “zoológicos humanos”, comuns na Europa e nos Estados Unidos em finais do século XIX. Eram exposições em que pessoas de diversas partes do mundo eram colocadas em exposição para serem vistas pelos visitantes locais. Observe as duas imagens a seguir. Figura 1 - Imagem à esquerda: Galibi era o nome dado a uma etnia ameríndia da América do Sul, atualmente conhecidos como Kali’nas. A maior parte vive hoje na Venezuela, Guiana Francesa e no Brasil. O cartaz, do final do século XIX, anuncia a exposição de “Índios Galibis” que ocorreria em Paris, França. Imagem à direita: fotografia de 1895, mostrando uma exposição de “povos selvagens” no Jardin Zoologique d’Acclimatation, em Paris, França. De um lado da grade, os visitantes; do outro, as pessoas expostas à visitação. Fonte: CC BY SA- 3.0 Esses zoológicos deixam clara a ideia de que um grupo se considera superior a outros, a ponto de colocá-los em exposição, como curiosidades a serem observadas. Essa ação tinha, também, um papel na construção da pró-pria identidade: os visitantes reafirmavam sua superioridade, ao contrapor-se àqueles “atrasados” que estavam expostos como animais. No mundo ocidental, o etnocentrismo esteve intimamente ligado ao conceito de racismo. Trata-se de uma ideia, reforçada especialmente a partir da Europa do século XIX, de que os seres humanos poderiam ser divididos biologicamente em raças diferentes, cada uma posicionada em um deter- minado estágio evolutivo. Segundo essa concepção, os europeus ocidentais – 167 – O raciocínio histórico e seus erros seriam a “raça” mais evoluída, e os demais povos “raças” naturalmente infe- riores. Tratam-se de ideias, aliás, que hoje se sabem absolutamente falsas: a biologia – além de outros campos do conhecimento – já demonstrou que não existem “raças” humanas com capacidades ou níveis evolutivos diferentes. Por mais diversos que sejamos na aparência ou nos costumes, somos todos huma- nos, com as mesmas capacidades e potencialidades. Se o racismo, fundado na biologia, surge em sua forma específica no mundo ocidental, deve-se salientar, porém, que o etnocentrismo não é uma característica específica do ocidente. É próprio das pessoas acreditarem que os costumes de sua própria região, as crenças nas quais foram criadas, suas maneiras de ver o mundo, são mais adequados, naturais ou, mesmo, mais lógicos e superiores, que os de outras culturas. O etnocentrismo pode aparecer de diversas formas em textos históri- cos. Uma delas é por meio da apresentação caricata de determinados grupos ou povos. Esse é um tipo de erro histórico raro nos dias de hoje, tanto pelo aumento da preocupação em evitar concepções etnocêntricas por parte de historiadoras e historiadores, quando pelo próprio cuidado dos avaliadores do PNLD de impedirem a sua presença em materiais escolares de história. Já um livro didático de 1930, por exemplo, apresentava a seguinte visão dos indígenas brasileiros. Os indígenas viviam vida errante pelos bosques. Andavam seminus, trazendo à cinta apenas uma faixa, quase sempre enfeitada de penas de variadas cores. Moravam em choças muito grosseiras, e dividiam-se em diferentes tribos. Algumas dessas tribos eram guerreiras; outras, antropófagas, devoravam os prisioneiros. _ Professora, ainda há desses homens no Brasil? _ Sim; ainda os há no recesso de nossos bosques onde ainda não penetrou a civilização. Entretanto, o governo, seguindo o exemplo de beneméritos antepassados, procura atrair ao nosso convívio esses homens que vivem semelhantemente a feras bravias (PINTO, 1930, p. 26-9). Porém, diferentes concepções etnocêntricas persistem em trabalhos his- tóricos. Sempre que a historiadora ou o historiador exagerar na atuação do próprio grupo cultural ou de seu próprio país, quando realiza uma análise histórica, estará cometendo etnocentrismo. Foi a historiografia francesa que Introdução ao Estudo da História – 168 – criou a ideia de que a Revolução de 1789 teria iniciado uma nova era na história – a “era contemporânea” – em uma divisão histórica adotada ainda hoje também no Brasil. Na historiografia estadunidense, não é incomum que se valorizem as ações dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, dimi- nuindo a importância das ações de outros países no conflito. E no Brasil ficou famoso o estudo do crítico literário Wilson Martins (1921-2010), que em sua obra “Um Brasil diferente” (de 1955) afirmou que a região sul – ele, aliás, era paulistano radicado em Curitiba – teria tido um tipo de colonização sin- gular quando comparada ao resto do país: não teria havido grande influência da colonização portuguesa, nem da escravidão, mas principalmente dos imi- grantes europeus. A visão etnocêntrica de Martins o fez ignorar não apenas a importância dos portugueses no processo colonizador, mas especialmente do trabalho escravo, bastante comum na região. 7.3.2 O voluntarismo e o determinismo O Guia do Livro Didático é distribuído pelo Ministério da Educação para que professoras e professores das escolas públicas escolham os livros com os quais desejam trabalhar em suas escolas. Nele, além de detalhes e resumos de todas as obras aprovadas, aparecem também os critérios, definidos pela Comis- são Técnica, utilizados pelos avaliadores no processo de análise dos materiais. No Guia de 2011, sob o item “correção das informações apresentadas aos estudantes”, o voluntarismo aparecia assim definido: O voluntarismo, por sua vez, consiste em aplicar a documentos e tex- tos uma teoria a priori, em função daquilo que se quer demonstrar. Dessa forma, a escrita da História seria utilizada apenas para confirmar as explicações preestabelecidas, fato que pouco contribui à formação de uma atitude crítica perante o conhecimento (BRASIL, 2011, p. 11). Forçar que eventos históricos se encaixem em uma dada teoria prévia é, sem dúvida, um erro de análise histórica relativamente comum, e grave. Afinal, distorce a interpretação dos fatos, pois serão descartados como irregu- laridades todos os indícios que estão em desacordo com a teoria. Esclarecido isso, atente para um detalhe importante: isso não é voluntarismo. Voluntarismo é outra coisa: refere-se à concepção histórica que afirma que as pessoas agem nas sociedades em que vivem exclusivamente guiados – 169 – O raciocínio histórico e seus erros por sua própria vontade, sem importar contextos ou condicionantes sociais; daí, segue-se que as mudanças no passado aconteceram exclusivamente pelo desejo de um ou mais indivíduos. Você deve lembrar que no item “Da teoria à prática”, do capítulo 5, foi sugerida uma atividade com uma cronologia. Nos eventos importantes da Guerra do Paraguai, selecionados pelo livro didático de 1863, aparecem listadas algumas ações do Almirante Francisco Barroso: Ataca a cidade de Corrientes 15 Maio 1865 Ganha a Batalha Naval do Riachuelo 11 Junho 1865 Força as passagens de Cuevas e Mercedes 18 Junho 1865 Repare que, segundo o texto, é o Almirante Barroso quem ataca Cor- rientes, ganha a batalha do Riachuelo e força as passagens de Cuevas e Mer- cedes. É ele quem “faz” a história, a partir de sua vontade. São solenemente ignorados tanto as condições sob as quais lutou aquelas batalhas, quanto, especialmente, o fato de que foram os soldados quem, efetivamente, lutaram e acabaram por vencê-las. Note, ainda, a total ausência de contexto: o texto pressupõe que foram as intenções exclusivas do Almirante, deslocadas das condições históricas em que viveu, que definiram o rumo daqueles conflitos. Foi ele quem atacou, ganhou, forçou. Voluntarismo é isso. O erro do voluntarismo está profundamente associado a uma determi- nada visão de história que já discutimos várias vezes nesse livro: a concepção tradicional que dava aos “grandes homens” a prioridade em guiar os aconte- cimentos históricos. Trata-se de uma visão da história que ignora a existência das condicionantes sociais, e acredita que as pessoas vivem apenas segundo suas próprias vontades. Porém, ainda que o voluntarismo seja característico de uma concepção histórica já ultrapassada, algumas interpretações contemporâneas ainda o cometem. O historiador estadunidense Peter Fritzsche (nascido em 1959), por exemplo, utilizou-se de concepções voluntaristas em seu livro “Life and death in the Third Reich”1, de 2008. Ao procurar entender de que maneira os alemães apoiaram o Partido Nazista, e qual o grau de consciência que teriam 1 “Vida e morte do Terceiro Reich”, no original em inglês. Introdução ao Estudo da História – 170 – desse apoio, Fritzsche foi voluntarista: a população alemã teria feito uma escolha deliberada, um verdadeiro esforço, para se transformar em nazista. Não há dúvida que muitos cidadãos alemães optaram pelo nazismo de forma consciente, e inclusive apoiavam o regime comandado por Hitler. O pro- blema dessa análiseé que Fritzsche diminui, e por vezes ignora, as estratégias utilizadas pelo governo nazista para obrigar a população a agir em conformi- dade com o que desejava (EVANS, 2015, p.127). O erro oposto ao voluntarismo é o determinismo, ou seja, a ideia de que as pessoas não têm qualquer importância, suas vontades nada significam, e suas ações são sempre – e em todos os casos – determinadas pelo contexto em que vivem. As mudanças ocorrem à revelia dos desejos e intenções das pessoas. Conclui-se que, para o pensamento determinista, o indivíduo não tem qualquer importância histórica. Essa concepção é resumida pela frase do historiador inglês Lewis Namier (1888-1960): “não há livre arbítrio no pensamento e ações das massas, mais do que há na revolução dos planetas, na migração dos pássaros, e no mergulho ao mar de hordas de lemingues” (Apud CHOMSKY, 1989, p. 32). Trata-se de um erro que acompanha muito proximamente o problema da teleologia que vimos anteriormente: o passado caminhará inevitavelmente em certa direção, independentemente do que façam ou desejem as pessoas. Várias foram as formas, ao longo do tempo, que filósofos e historiado- res apresentaram essas ideias deterministas. Para Giambattista Vico (1668- 1744), por exemplo, a história era uma mente superior às vontades individu- ais; ideia que se assemelha à de Georg Hegel, para quem a história seria um processo em que a Razão se faz conhecer a si mesma. Friedrich Engels, um dos principais pensadores marxistas, afirmou certa vez que o “evento histórico (...) deve ser visto como produto de um poder que (...) opera inconsciente- mente” (apud THOMPSON, 1918, p. 102). E, para o filósofo Louis Althus- ser (1918-1990), também marxista, a história era um processo sem sujeito. Por que a concepção determinista é, também, equivocada? Porque, ao cair no erro contrário ao voluntarismo, exclui a possibilidade das pessoas agi- rem segundo suas próprias decisões. Ignora a originalidade e inventividade humanas, e a possibilidade de que possam encontrar novas soluções diante do contexto em que vivem. Entre o voluntarismo e o determinismo está a explicação dos fenômenos históricos: as pessoas são condicionadas pela época em que vivem, e pelas – 171 – O raciocínio histórico e seus erros condições sociais e culturais que têm à sua disposição. Mas ser condicionado não é ser determinado. O condicionamento aponta uma direção: estabelece condições e possibilidades e, dentro delas, as pessoas tenderão a agir da melhor forma possível para construir para si um mundo de segurança, atuando para proteger e maximizar o que, para elas, são os elementos mais importantes. Por intermédio de ações originais e inesperadas, apoiadas ou não por mudanças contextuais, suas ações podem inclusive influenciar o contexto social. É no diálogo entre as possibilidades sociais e os desejos individuais que se encontra a dinâmica das mudanças. 7.3.3 A generalização excessiva Toda análise científica é, por definição, generalizadora. De nada adianta existir uma explicação para a fervura da água em São Paulo, que não expli- que por que a água ferve também em Curitiba. Para ser útil, o conceito de “fervura” deve ser generalizante. E, em história, conceitos como “revolução”, definição de períodos como “feudal” ou “colonial”, recortes temporais como “ditadura militar brasileira” são todos exemplos de generalizações. Mas, uma generalização teórica se torna inútil quando o número de exceções supera o de fatos que são abrangidos pela regra. Definir um período de cerca de mil anos, por exemplo, como “Idade das Trevas”, é uma generali- zação excessiva, porque descarta um impressionante número de exemplos que demonstram a dinâmica histórica existente no medievo, seus avanços técnicos e científicos, e ignora especificidades locais e temporais. Figura 2 - O princípio do capitalismo. Fonte: NOVAES, 1984, p. 5 Um exemplo desse erro em história: os quadrinhos acima cometem uma generalização excessiva ao pretender explicar o surgimento do capitalismo, e Introdução ao Estudo da História – 172 – isso ocorre por várias razões. Primeiramente, por afirmar que, “na pré-histó- ria” (quando, exatamente? E onde?), não haveria distinções sociais, e todas as pessoas trabalhariam igualmente na sociedade. A seguir, por considerar o “capitalismo” como sendo algo único, monolítico em todas as épocas e lugares, e por defini-lo como sendo, simplesmente, a ação de exploração que pessoas privilegiadas exercem sobre outras. E, por fim, ao criar caricaturas: um empresário burguês é representado de forma estereotipada, com um sor- riso malicioso e que conota, claramente, uma má intenção. “Eu lucro, tu trabalhas”, ele diz, gerando a ideia de que, por conta de sua má índole, o sistema capitalista se aproveita do trabalhador que, coçando o queixo, parece não entender o que está ocorrendo. O estudioso, representado à direita, é o único que parece se incomodar: é o que indica a representação de sua face, combinada com a frase “ele reclama da inflação”. 7.4 Falácias Em definição simples, uma falácia é todo argumento falso que, no entanto, pretende parecer verdadeiro. No capítulo 2 discutimos rapidamente a chamada falácia ad hominem, que se caracteriza por buscar desqualificar um argumento por meio de ataques pessoais. Não apenas para rememorar, mas para reforçar a ideia, pode-se citar um exemplo histórico: o historiador ita- liano Carlo Ginzburg (nascido em 1939) apelou à falácia ad hominem quando denunciou um possível antissemitismo do filósofo belga Paul De Man (1919- 1983), de cujas ideias sobre filosofia Ginzburg discorda. Ser antissemita é, sem dúvida, um problema, mas é irrelevante para se discutir propriamente a doutrina filosófica de De Man – daí a falácia. Tema tratado usualmente pela filosofia, tipos diferentes de falácias exis- tem em grande quantidade: há as que envolvem o apelo à ambiguidade ou a força, ou uso do medo e da emoção para o convencimento; as que envolvem a inversão entre causa e consequência; os que se fundamentam em erros de definição e argumentação, dentre tantos outros. Trata-se de um tema, aliás, que seria interessante você expandir para além desse livro porque, nesse item, serão tratadas apenas algumas das falácias relacionadas diretamente à análise da argumentação em história. – 173 – O raciocínio histórico e seus erros 7.4.1 A falácia do apelo à autoridade Apelar à autoridade significa afirmar que um determinado argumento é verdadeiro, não por conta das evidências que o sustentam, mas por que é apoiado por determinadas pessoas, consideradas autoridades no assunto. Em nosso cotidiano, o apelo à autoridade é mais comumente utilizado como estratégia de convencimento em propagandas: “os dentistas recomendam o dentifrício tal”. Em Ciências Humanas, essa falácia eventualmente aparece como respeito demasiado a determinados pensadores que, por sua populari- dade ou relevância, têm suas ideias aceitas independentemente de qualquer crítica, mesmo que pareçam contrárias às evidências. Porém, segundo o historiador estadunidense David Fischer (nascido em 1935), a forma mais comum dessa falácia aparecer em textos históricos é por meio do apelo a formas rebuscadas de escrita, exagero na extensão de textos para torná-los obscuros, e o uso de frases pedantes (FISCHER, 1970, p. 285). Michel de Certeau (1925-1986) foi um famoso historiador francês, bastante referenciado no Brasil, ainda que apenas suas obras teóricas, e não as efetivamente historiográficas, tenham sido traduzidas para o português. Leia, a seguir, um trecho de seu famoso ensaio “A operação historiográfica”, de 1975. “A lei sempre tira partido daquilo que se escreve”. Se a historiografia resulta de uma operação atual e localizada, enquanto escrita, repete um outro início, impossível de datar ou de representar,postulado pelo desdobramento, à primeira vista simples, da cronologia. Dobra o tempo gratificante – o tempo que vem a vocês, leitores, e valoriza o lugar de vocês – com a sombra de um tempo proibido. A ausência, pela qual começa toda literatura, inverte (e permite) a maneira pela qual a narrativa se preenche de sentido e o discurso estabelece um lugar para o destinatário (CERTEAU, 1982, p.99). Ainda que tenha sido apenas um trecho, você não terá qualquer difi- culdade em responder às seguintes questões: 1. Qual o desdobramento (simples) da cronologia a que se refere Certeau? 2. Por que o tempo grati- ficante é dobrado pela sombra do tempo proibido? 3. Por que a ausência, pela qual começa toda literatura, inverte a maneira pela qual a narrativa se preenche de sentido? Introdução ao Estudo da História – 174 – Se você sentiu dificuldades em resolver essas questões, partem daqui minhas empáticas saudações acadêmicas. As perguntas do parágrafo anterior tiveram tom irônico, ainda que contenham o sério objetivo de exemplificar o apelo à autoridade fundado na escrita rebuscada. Não há dúvida de que foi extraído um trecho bastante específico do texto de Certeau, que não foi escrito, em sua totalidade, dessa forma (trata-se, na verdade, de um texto inte- ressante sobre a posição institucional dos profissionais da história). Porém, fica uma questão: qual o objetivo do autor em utilizar essa técnica de redação? Por que certos artigos ou obras inteiras são construídos de forma a torná-los de difícil, quando não impossível, entendimento? Uma anedota pode nos dar uma pista. Certa vez, o filósofo estaduni- dense John Searle (nascido em 1932) perguntou ao também filósofo Michel Foucault (esse, particularmente importante para os estudos históricos), por que Foucault escrevia de forma tão rebuscada quando, em suas palestras, apresentava suas ideias de forma objetiva e de fácil compreensão. A resposta: “na França você deve deixar 10% [de seu texto] incompreensível, senão as pessoas não vão acreditar que você é profundo – não acharão que você é um pensador profundo”. Não se pode afirmar o quão sério estava sendo Foucault com essa res- posta, mas da anedota pode-se passar a uma explicação mais adequada, ofe- recida pela filósofa estadunidense Martha Nussbaum (nascida em 1947): o uso dessa forma específica de apelo à autoridade seria uma maneira do autor tentar impressionar o leitor a partir da forma, e não do conteúdo, de seus argumentos. A escrita rebuscada teria como objetivo criar uma determi- nada fascinação do leitor para com o autor, pois esse passaria a aparentar alta superioridade intelectual, por conta da obscuridade de seu texto. Além disso, como o texto é muito complexo, o leitor sempre deverá repeti-lo ou citá-lo na íntegra, criando certa dependência intelectual para com o autor (NUSS- BAUM, 2012, p. 202). A solução para evitar esse tipo de falácia é sugerida por outro historiador, Marc Bloch, por meio de uma regra bastante simples: O ABC da minha atividade consiste em evitar termos abstratos impressionantes. Aqueles que ensinam história deveriam se preocupar permanentemente com a tarefa de buscar o sólido e o concreto por detrás do vazio e do abstrato (BLOCH, 1968, p. 27). – 175 – O raciocínio histórico e seus erros 7.4.2 A falácia do espantalho Imaginemo-nos em uma guerra, mas, ao invés de lutarmos contra um soldado real, atiramos em um espantalho vestido com uniforme do inimigo e, então, proclamamos vitória. A falácia do espantalho segue essa lógica: ao invés de argumentar contra a ideia original, argumenta-se contra uma repre- sentação caricatural da ideia; e, ao derrubar essa ideia-espantalho, a argumen- tação falaciosa quer fazer parecer que o argumento original foi refutado. Alun Munslow (nascido em 1947) é um historiador britânico descons- trucionista. Em linhas gerais, a concepção desconstrucionista afirma que a história não se diferencia de uma narrativa ficcional, que as evidências docu- mentais não dão suporte aos textos históricos, que os historiadores inventam um passado, e que não se pode conhecer nada da realidade. Pode-se ver que as ideias desconstrucionistas são a antítese do que se consi- deram boas práticas históricas. Mas como Munslow argumenta que o descons- trucionismo é uma opção válida para a história? Ele faz isso afirmando que a história não-desconstrucionista – que ele denomina de “empirista” – apresenta importantes falhas teóricas. Todas as frases abaixo são de Munslow (2006): [Há] a crença, defendida por empiristas radicais, que a história é a prática fundada na reconstrução objetiva dos fatos, através dos quais se chega ao que realmente aconteceu no passado (p. 8). Os empiristas (...) sugerem não apenas que devem ser imparciais e objetivos em seu tratamento da evidência, mas que devem rejeitar modelos teóricos na interpretação do passado (p. 9). Estes empiristas (...) insistem que sua experiência do mundo real não é afetada por suas percepções (...) – em outras palavras, eles se man- têm objetivos (p. 22). Os empiristas argumentam que é possível construir interpretações de alto nível e bem justificadas, baseadas em apenas uma única evidência (p. 25). Central ao empirismo está a suposição de que historiadores, como cientistas, buscam A verdade (p. 44). Não conheço nenhum historiador, vivo ou morto, que se identifique com essas características: que acredite ter por meta descobrir “A” verdade, ou cujas concepções sejam tão ingênuas a ponto de presumir que uma única evidência, sozinha e por seus próprios méritos, tenha a capacidade de revelar “como a história aconteceu”; muito menos que creia que, a partir de uma Introdução ao Estudo da História – 176 – fonte solitária, seja possível construir todo um sistema teórico. O que Muns- low faz, portanto, é criar um espantalho – que ele chama de história “empi- rista” – que ele ridiculariza e derrota, proclamando assim a vitória do que defende, o desconstrucionismo. Essas ideias de objetividade absoluta, de subjugação acrítica à evidência, estariam mais próximas das concepções históricas do século XIX, dentro do modelo “positivista” de história. Mas, mesmo aqueles historiadores não eram ingênuos da maneira descrita por Munslow. Já foi comentado que a escola metódica ganhou esse nome porque defendia um método que incluía, por exemplo, uma cuidadosa análise de fontes: não eram utilizadas cegamente, e para serem úteis à história, passavam por críticas internas e externas. Munslow, porém, não está sozinho como culpado da utilização da falá- cia do espantalho. Historiadores da escola dos Annales também reduziram seus contemporâneos metódicos a estereótipos, fazendo deles espantalhos, de modo a melhor argumentar sobre a superioridade de suas próprias concep- ções de história, temporalidade, documentos e fatos. 7.4.3 A falácia do historiador Trata-se de uma falácia específica à nossa profissão, teorizada por David Fischer. Caracteriza-se pela “tendência dos historiadores, com suas retrospec- tivas vantagens, de esquecer que seus objetos de pesquisa não sabiam o que ia ocorrer” (FISCHER, 1970, p. 209). Ou, dizendo-se de outra forma, conde- nam-se os indivíduos do passado por não terem a capacidade premonitória de conhecer o futuro. Como se as pessoas de outros tempos tivessem de ser tão bem informadas quanto historiadores do presente. Um exemplo é o ataque japonês à base americana de Pearl Harbor, em 1941: como puderam os Estados Unidos ignorar os numerosos indícios de que o Japão estava preparando o ataque? A pergunta toma uma forma fala- ciosa, pois parece indicar que qualquer pessoa, razoavelmente informada, teria à sua disposição fortes indícios da iminente japonesa. Porém, esquece que, ainda que de fato existissem informações que indicavam a possibilidade de uma ação de guerra porparte do Japão, havia uma quantidade imensa de dados que indicavam cenários alternativos. Será apenas por meio da falácia do historiador, da vantagem de se conhecer o futuro, é que se condenarão as pessoas, em 1941, por não anteciparem o ataque. – 177 – O raciocínio histórico e seus erros No Brasil, um exemplo mais controverso refere-se à condenação do apoio dado por parte da população, de políticos, e de meios de comunicação, ao golpe de 1964, dado pelos militares, quando depuseram João Goulart. Passado meio século de tantos enganos, releituras e novas narrati- vas, chegou a hora da exumação dos restos mortais da imprensa de 1964. Alguns jornalistas daquela época ainda andam por aí como espectros vangloriando-se do que nem sempre foram e disseminando (...) versões épicas sobre o que, na verdade, não passou, na hora do pior, no momento do mergulho no abismo, de uma adesão patética, vergonhosa, entusiasmada e convicta baseada em falsos argumentos (SILVA, 2014, p. 9). Tal julgamento moral das ações das pessoas daquele período adota uma perspectiva falaciosa. O “mergulho no abismo” é uma perspectiva possível, e confortável, de ser realizada quando se está a meio século do episódio. Para aqueles que, à época, apoiaram o golpe, a crença era de que se estava resol- vendo o que viam como um problema, e que a normalidade democrática seria restituída. Não tinham como antever os mais de 20 anos de ditadura, a res- trição aos direitos civis, a violação sistemática aos direitos humanos. Para os contemporâneos ao episódio, o futuro não estava escrito, e o que parece tão óbvio nos dias de hoje, certamente não o era para quem vivenciava aqueles momentos de turbulência política. Da teoria à prática Stanislaw Ponte Preta era o pseudônimo pelo qual ficou conhecido o cronista brasileiro Sérgio Porto (1923-1968), famoso por seus artigos humo- rísticos, publicados na imprensa e em livros. Uma de suas criações mais popu- lares é a música satírica “O samba do crioulo doido”, de 1968, que conta a história das dificuldades que um compositor encontrou ao tentar criar uma música para uma escola de samba do Rio de Janeiro. O início da canção de Ponte Preta é narrada e dá mais detalhes do contexto: Este é o samba do crioulo doido. A história de um compositor que durante muitos anos obedeceu ao regulamento2, e só fez samba sobre a his- 2 À época da criação da música, a Secretaria de Turismo do Rio de Janeiro obrigava, em seu regulamento, que as escolas de samba tratassem apenas de temas ligados à história do Brasil. Introdução ao Estudo da História – 178 – tória do Brasil: e tome de Inconfidência, Abolição, Proclamação, Chica da Silva. E o coitado do crioulo, tendo que aprender tudo isso para o enredo da escola. Até que no ano passado escolheram um tema complicado: a atual conjuntura. Aí o crioulo endoidou de vez, e saiu esse samba. Caso ainda não a conheça, na internet existem várias e diferentes inter- pretações dessa música. Com acompanhamento musical ou não, leia a letra abaixo com atenção. Foi em Diamantina, onde nasceu JK, Que a princesa Leopoldina lá resolveu se casar. Mas, Chica da Silva tinha outros pretendentes E obrigou a Princesa a se casar com Tiradentes. Laiá, laiá, laiá, o bode que deu vou te contar. O vigário dos índios aliou-se a dom Pedro E acabou com a falseta. Da união deles dois ficou resolvida a questão E foi proclamada a escravidão. Joaquim José, que também é da Silva Xavier, Queria ser dono do mundo E se elegeu Pedro Segundo. Das estradas de Minas seguiu prá São Paulo e falou com Anchieta. Assim se conta essa história Que é dos dois a maior glória: A Leopoldina virou trem E dom Pedro é uma estação também Oô, oô, oô, o trem tá atrasado ou já passou? (extraído de CAVALCANTE, B. A História doida. Nossa História, Rio de Janeiro, v. 12, p. 76 - 81, 12 dez. 2004). Faz parte do trabalho da historiadora e do historiador encontrar erros em análises historiográficas, materiais didáticos, obras teóricas. E, após tudo o que se apresenta nesse capítulo, é o momento de treinarmos o espírito crítico. Quantos e quais erros pode-se encontrar na música? Há erros de localização temporal, causalidade, incorreta identificação de personagens e locais; além de outros mais complexos, como etnocentrismo, falácias, erros de análise. Identifique as pessoas e os eventos históricos mencionados, contextualize-os, e a seguir, demonstre os equívocos históricos que aparecem na letra da canção. Síntese Vários são os tipos de erros que podem ser cometidos nas análises his- tóricas. A historiadora e o historiador devem ficar atentos ao anacronismo e ao presentismo, a problemas de análise, e a evitar que seus argumentos sejam baseados em princípios falaciosos. Tais erros não apenas distorcem os dados, mas produzem conclusões equivocadas e, podem inclusive, comprometer o trabalho de pesquisa. Ao mesmo tempo, deve-se ficar atento à existência des- – 179 – O raciocínio histórico e seus erros ses e outros erros, em materiais que serão utilizados no cotidiano do profis- sional de história, seja em pesquisa, seja em sala de aula. Atividades 1. O texto a seguir foi escrito pelo historiador francês Lucien Febvre, e trata-se de um trecho de sua obra “O problema da descrença no século XVI”. Leia-o com atenção. Contra Rabelais um processo é aberto. Um processo de ateísmo e de anticristianismo. (...) é, no domínio das ideias, munir Diógenes de um guarda-chuva e Marte de uma metralhadora. (Apud LOPES, M. Lucien Febvre reformador: notas em torno de O problema da descrença no século XVI. história da historiografia. Ouro Preto (MG) número 10, dezembro 2012. p. 229). Sobre essa obra de Febvre e a escrita da história, é correto afirmar: a) Uma das conclusões de Febvre foi demonstrar que não se pode con- siderar Rabelais um “descrente” ou “ateu”, porque tais concepções não existiam no período em que viveu. b) Febvre teve sua obra criticada por não considerar o contexto his- tórico em que Rabelais viveu, construindo uma análise anacrônica de suas ideias. c) Uma das características da escola dos Annales foi construir biogra- fias dos chamados “grandes homens” que, segundo a sua concep- ção, eram quem efetivamente faziam a história. d) A obra de Febvre se caracteriza por trabalhar diferentes temporali- dades – a longa, média e curta duração – objetivando compreender o amplo contexto social do período que estuda. e) A fundamentação teórica da obra é baseada na história política tradicional, em que busca compreender personagens históricos em temporalidades lineares a partir de fontes escritas. 2. Leia o trecho a seguir, que trata do Programa Nacional do Livro Didático, e as formas pelas quais livros educacionais são avaliados pelo governo: Introdução ao Estudo da História – 180 – Os livros didáticos distribuídos para as escolas públicas pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) passam por várias etapas de ava- liação. Primeiramente as editoras se cadastram a partir da divulgação de um edital publicado no Diário Oficial da União que estabelece as regras para inscrição e os prazos. (...) Os livros selecionados são encaminhados para avaliação pedagógica realizada por especialistas escolhidos pela Secretaria de Educação Básica (SEB/MEC) de acordo com os critérios divulgados no edital. (OTESBELGUE, R. Programa Nacional do Livro Didático e a aná- lise de livros didáticos de Química. Rio Grande do Sul. Unijuí, 2013. Disponível em https://www.revistas.unijui.edu.br/index.php/edeq/ article/viewFile/2778/2352). Também os livros didáticos de história devem passam por esses processos de avaliação. Do ponto de vista da produção do conheci- mento em história, por que tais avaliações são necessárias? a) Para identificar a presença de erros como o anacronismo, o volun-tarismo e o determinismo. b) Para garantir que o livro esteja de acordo com os objetivos do governo que está no poder. c) Para verificar a relevância dos conteúdos para exames como o ves- tibular e o ENEM. d) Para que as escolas privadas, e não as públicas, recebam materiais didáticos sem erros. e) Para impedir que atualizações no conhecimento histórico apareçam em livros didáticos. 3. Abaixo aparecem três mapas-múndi. O primeiro foi produzido nos Estados Unidos, e esse país aparece representado no centro do mapa, tendo-se deslocado, para obter esse efeito, a linha do Equa- dor para baixo; o segundo foi produzido na Europa, e Londres é mostrada ao centro do mapa; as regiões mais ao norte e ao sul são apresentadas de maneira distorcida, fazendo com que a Groelândia, por exemplo, apareça maior que o Brasil; o terceiro mapa-múndi foi produzido na China, e o Mar do Leste aparece ao centro, dando destaque, também, ao território chinês. – 181 – O raciocínio histórico e seus erros Figura 1 - Diferentes mapas-múndi. Fonte: BLAIR, J. Western Civilization with Chinese Comparisons. Xangai: Fudan University Press, 2009. p. 21-35. Adaptado. Esses mapas são exemplo de um erro analítico bastante comum, que ocorre também em história, e é denominado: a) Etnocentrismo, em que as culturas acreditam serem as mais impor- tantes, colocando-se acima das demais. b) Anacronismo, por criarem representações inadequadas do globo, tendo em vista o atual desenvolvimento tecnológico. c) Determinismo, afinal são indícios de diferentes processos evoluti- vos sociais, em diferentes regiões do planeta. d) Falácia do apelo à autoridade, por desqualificarem, nas imagens, países que não ocupam posições de destaque no mundo. e) Voluntarismo, pois representa a ação de determinados indivíduos sem referências ao contexto social em que vivem. 4. A pensadora francesa Élisabeth Badinter (nascida em 1944) produ- ziu importantes estudos argumentando que a imposição de ideais de maternidade às mulheres é historicamente construída. Alguns de seus críticos afirmam que as ideias de Badinter não devem ser levadas em consideração pois, sendo Badinter proprietária de uma agência de publicidade na França, ela ajudaria a reproduzir este- reótipos de gênero, inclusive os que dizem que o lugar social da mulher é o de ser esposa e mãe. O argumento utilizado por esses críticos é exemplo: Introdução ao Estudo da História – 182 – a) Do pensamento feminista, pois Badinter aparenta estar desqualifi- cada para discutir as questões das mulheres. b) De determinismo, ao afirmarem que as mulheres são biologica- mente determinadas a serem mães e esposas. c) De uma concepção marxista da história, interessada apenas em questões econômicas, e não culturais ou comportamentais. d) Da falácia ad hominem, em que se ataca a personalidade da pessoa, ao invés de seus argumentos. e) De anacronismo, pois em pleno século XXI não se pode aceitar que as pessoas reproduzam estereótipos de gênero. Ler história 8 Um trabalho historiográfico consistente deve apresentar argumentos sustentados pela bibliografia e fontes primárias, com a intenção de responder a uma questão histórica – esse é seu obje- tivo. E sendo uma das mais importantes atividades no cotidiano da historiadora e do historiador, a leitura crítica e profunda deve ser capaz de analisar a consistência e os fundamentos dos textos históricos, identificar problemas de análise, mau uso das fontes ou de argumentos e estabelecer a estrutura de raciocínio desenvolvida pelo autor. Introdução ao Estudo da História – 184 – 8.1 Diferentes perspectivas O que diferentes interpretações sobre a violência perpetrada pelos alemães, durante a Segunda Guerra Mundial, dizem-nos sobre história, teoria, e perspectivas historiográficas? Vamos começar esse capítulo com uma comparação. O historiador estadunidense Daniel Goldhagen (nascido em 1959), é autor de um livro com título bastante provocativo “Os carrascos voluntários de Hitler”, publicado originalmente em 1996. Abaixo, apresenta-se o trecho em que Goldhagen expõe sua interpretação sobre a participação do povo alemão nas violências cometidas pelos nazistas. As crenças que já eram senso comum do povo alemão à época da ascensão de Hitler ao poder, e que levaram o povo alemão a permitir e contribuir para medidas eliminacionistas dos anos 1930 (...), foram as crenças que prepararam não apenas os alemães que, pelas circunstân- cias, acaso ou escolha, terminaram como perpetradores, mas também a vasta maioria do povo alemão a entender, concordar e, quando possí- vel, fazer sua parte na ampliação do extermínio global do povo judeu. A cultura política alemã havia se desenvolvido ao ponto em que um enorme número de alemães comuns, representativos, tornaram-se – e mais da maioria dos demais alemães estava preparada para ser – os carrascos voluntários de Hitler (GOLDHAGEN, 1996, p. 454). Antes de discutirmos as concepções de Goldhagen, vamos compará- las com outra visão sobre a participação da população alemã em relação às violências nazistas. Dessa vez, a interpretação é do historiador estadunidense Christopher Browning (nascido em 1944). O comportamento de qualquer ser humano é, obviamente, um fenômeno complexo, e o historiador que tenta “explicá-lo” está cedendo a certa arrogância. (...) Ao mesmo tempo, porém, o com- portamento coletivo do Batalhão de Polícia 1011 tem implicações profundamente perturbadoras. Há muitas sociedades afligidas por tradições de racismo, e capturadas em uma mentalidade paranoica de guerra ou ameaça de guerra. Em todos os lugares a sociedade condiciona as pessoas a respeitar e se submeter à autoridade, e de fato nada poderia funcionar de outra maneira. Dentro de virtual- 1 O Batalhão da Polícia Reserva 101, criado na Alemanha, em 1939, tornou-se uma das principais forças militares que ocuparam a Polônia e foi grande responsável pelos crimes relacionados ao Holocausto naquele país. – 185 – Ler história mente toda coletividade social, a influência dos pares exerce uma grande pressão no comportamento e estabelece normas morais. (...) Se os homens do Batalhão de Polícia 101 puderam se tornar assassinos sob tais circunstâncias, que grupo de homens não se tornaria? (BROWNING, 1998, p. 188-9). Toda historiadora e todo historiador devem aprender, em primeiro lugar, a ler os textos historiográficos. Na verdade, boa parte da atividade profissional em história está na prática de leitura, com a correta interpretação dos objetivos, pressupostos, fundamentações e conclusões dos autores. Trata-se de uma condição básica, que serve para a leitura de uma tese de doutorado, para um artigo científico, ou para o Manual do Professor do livro didático. No caso das ideias de Goldhagen e Browning, a leitura indica duas concepções diferentes das relações entre a violência nazista e a sociedade alemã. Para Goldhagen, houve um apoio maciço, quase entusiasmado, dos alemães em relação à prática genocida. Ou seja, não seria algo restrito aos nazistas, ou mesmo aos membros das polícias e forças armadas alemãs, mas compartilhado por boa parte da população. Browning leva sua explicação para outra direção: para ele, foram as condições em que os membros do Batalhão 101 se encontraram que os tornou assassinos. Ou seja, as pessoas não seriam propensas à violência, mas ordens emitidas por superiores, reforçadas pela pressão social dentro do próprio grupo, permitiram que fossem cometidas as atrocidades que caracterizaram o Holocausto. Repare: não se tratam apenas de duas posições diferentes, mas de concepções que se confrontam e que foram 1. baseadas em fontes semelhantes e 2. fundadas em uma mesma historiografia. Goldhagen e Browning leram os mesmos livros, conhecem as fontes primárias um dooutro, e inclusive, citam-se mutuamente em suas obras. Como puderam, portanto, chegar a conclusões tão contrastantes? As evidentes diferenças de posicionamento geraram um debate historiográfico que envolveu críticas mútuas sobre má leitura de fontes e inadequadas práticas metodológicas. Veja, por exemplo, como Goldhagen critica a explicação de Browining: A explicação frequentemente invocada da “pressão dos pares”, pela qual mesmo Christopher Browning é seu principal representante, falha em apresentar reais evidências. Ele a constrói do nada. Nenhum dos homens do Batalhão de Polícia 101 menciona a pressão dos pares Introdução ao Estudo da História – 186 – como motivo nos milhares de páginas de testemunhos. E este é o único estudo de caso no qual ele (e todos aqueles que se baseiam em seu estudo) fundamentam suas conclusões gerais. (GOLDHAGEN, 1996, p. 10). Já Browning, por sua vez, critica os métodos de Goldhagen: Goldhagen emprega uma deplorável técnica de argumentação. Sua óbvia inteligência indica que ele não interpreta equivocadamente as visões de outros estudiosos, mas é ou ignorante delas, ou intencional- mente as distorce para encaixar em seus propósitos (BROWNING, 1997, s/p). Esse debate é uma demonstração de que a simples consulta a fontes primárias não gera, automaticamente, um trabalho histórico. Isso é algo que foi comentado desde o primeiro capítulo desse livro, mas é sempre importante reforçar. Para entender como dois autores, a partir das mesmas fontes, chegaram a conclusões tão diferentes, deve-se levar em consideração os pressupostos e referenciais teóricos de cada um. Em primeiro lugar, Goldhagen e Browning concebem diferentemente o funcionamento da sociedade. Para o primeiro, as pessoas são fundamentalmente livres para definirem suas ações enquanto que, para o segundo, as regras de convivência são determinantes na construção de comportamentos. Isso leva Goldhagen a acreditar que, dentro de um ambiente social e político propício, as pessoas poderão optar inclusive por se tornarem, voluntariamente, assassinas. No que Browning discorda: apenas a intensa pressão social é que poderá criar as condições para que grupos de pessoas participem ativamente de ações violentas. É por isso que, para Browning, apenas as pessoas submetidas a uma situação social estressante poderiam agir de maneira moral e socialmente reprovável, enquanto que Goldhagen acredita que mesmo o mais comum dos cidadãos, em seu dia a dia alheio às questões da guerra, poderia se tornar um “carrasco voluntário”. Os autores têm, por fim, diferentes concepções sobre a relação entre o nazismo e a sociedade alemã. Goldhagen acredita que o pensamento nazista se difundiu e foi aceito sem problemas, senão por todos os membros, pelo menos por uma quantidade significativa da população. Browning acredita que apenas sob intensa pressão é que indivíduos poderiam levar a cabo as decisões mais extremadas dos nazistas. Pode-se inclusive detectar um maior – 187 – Ler história ceticismo na bondade da natureza humana em Goldhagen, e uma maior crença na idoneidade moral do indivíduo em Browning. Essa comparação tem o objetivo pedagógico de demonstrar como não se pode ler qualquer texto historiográfico ingenuamente, como se fosse expressão da verdade. Imagine que você não conhecesse esse debate, e se deparasse como texto de Goldhagen. Como reagiria? Será que também acabaria por concluir que os alemães se tornaram “carrascos voluntários de Hitler”? É por isso que os textos históricos devem ser lidos a partir da perspectiva de um profissional da história. E isso significa procurar descobrir os pressupostos teóricos, os fundamentos em fontes, os objetivos do autor, as ideias centrais. Esse tipo de leitura exige treino, paciência, cuidado e também, experiência – especialmente para desvendar as escolas teóricas e de pensamento às quais os autores estão filiados. Isso dirá muito sobre eles. E é exatamente sobre esses pontos que o restante desse capítulo será dedicado: a discutir formas pelas quais os textos históricos podem ser lidos. Mas antes de passarmos ao próximo item: não é possível admitir, em história, que uma pergunta gere duas respostas assim tão opostas. Do conflito entre as visões entre Goldhagen e Browning (dentre outros), a maioria dos historiadores sobre a Segunda Guerra atualmente concorda que as ideias de Goldhagen são exageradas e não explicam adequadamente a relação entre a violência nazista e a população alemã. Sua abordagem, aliás, pode ser considerada inclusive um exemplo de voluntarismo. Ao mesmo tempo, Browning posteriormente reviu algumas de suas conclusões, admitindo que existiu, sim, um número não desprezível de pessoas que participou das práticas genocidas nazistas de forma voluntária, ativa, e consciente das implicações de seus atos (embora ele não admita que essa revisão se tenha dado por qualquer influência de Goldhagen). Saiba mais O ato de ler tem sua própria história. A forma pela qual, atualmente, as pessoas leem – isoladas, e de forma silenciosa – se desenvolveu junto com o avanço da criação de espaços de intimidade, na época moderna, e de uma valorização da individualidade. Em outros perí- odos e épocas podia-se ler apenas em grupos, ou em voz alta. A Introdução ao Estudo da História – 188 – leitura, além disso, poderia ser um ato reservado a membros de deter- minada elite. Há, além disso, as mudanças em relação ao suporte material, ou seja, pergaminhos, rolos, livros (e, mais recentemente, computadores ou tablets), que influenciam a forma pela qual as leitu- ras são feitas. Isso sem mencionarmos o desenvolvimento da alfabeti- zação que se estendeu a praticamente toda a população mais pobre, o que acabou por democratizar os momentos e as formas de leitura.. Figura 1 - Mulher grega lendo um rolo, em imagem do século V a.C. Fonte: ©Museu do Louvre 8.2 Como ler um texto historiográfico Discursos históricos vêm em diferentes formatos: de livros didáticos a teses de doutorado; de artigos em revistas populares a artigos em revistas acadêmicas; de livros a documentários para televisão, filmes e, mais recentemente, jogos digitais. Esse item se dedicará a discutir, especialmente, os textos historiográficos, que são uma de nossas principais ferramentas de trabalho. – 189 – Ler história 8.2.1 Julgando um livro pela capa As livrarias são um local interessante para se surpreender com lançamentos em sua área de estudos. Porém, nem tudo o que está na prateleira de história é, efetivamente, uma obra historiográfica. Como os temas históricos costumam gerar um bom interesse do público, e são um mercado interessante, não é incomum que as editoras lancem títulos que não são acadêmicos. Dizendo de outra forma: são obras de história (ao menos tecnicamente), mas não são resultado de pesquisas, não têm compromisso com a consulta a fontes primárias, não são baseadas em teorias bem fundamentadas. Figura 2 - Livros não acadêmicos de história. Fonte: Reprodução. Isso não quer dizer que essas obras não sejam recomendadas. Pelo contrário, algumas delas oferecem uma leitura muito divertida e prazerosa. Inclusive porque, ao contrário dos textos acadêmicos, têm a preocupação com o entretenimento (monografias, dissertações, teses e artigos científicos tendem a ter uma leitura árida), pois visam atingir o maior número possível de leitores não especialistas. Além disso, ainda que não respeitem o rigor que um profissional de história deve ter com o conteúdo com o qual trabalha, não deixam de difundir temas, personagens e eventos históricos, o que em si já é muito bom. Em dito tudo isso, repete-se: não são obras historiográficas. Os livros que aparecem na imagem – “A outra história do Brasil”, de Jovane Nunes; “1808”, de Laurentino Gomes e “Guia politicamenteincorreto da história do Brasil” de Leandro Narloch – irão nos ajudar a compreender as diferenças que existem entre o texto acadêmico e o não acadêmico. E, além disso, sobre Introdução ao Estudo da História – 190 – como é possível saber muito sobre uma obra e sua relevância historiográfica, mesmo antes de ver seu conteúdo. Julgando-a, quase que literalmente, por sua capa. Afinal, quando pesquisamos ou lemos história, devemos entrar em contato com autores que estão imersos em uma determinada tradição. Ou seja, que participam de debates historiográficos, que se baseiam em fontes e que constroem generalizações ou análises. Podemos discordar ou concordar com um Goldhagen ou Browning, mas sabemos que eles participam das regras acadêmicas de produção de conteúdo histórico, que são as que permitem o debate e o aperfeiçoamento do conhecimento. 2 A capa: não é difícil concluir, pelas capas, que essas três obras não são acadêmicas. Os livros efetivamente historiográficos não apelam ao humor, e o resumo que costuma aparecer na chamada quarta capa (a parte de trás do livro) é caracterizado pela sobriedade. Veja, por exemplo, a sinopse presente em um livro acadêmico de teoria da história: As reflexões teóricas deste livro buscam estimular a pesquisa empírica, inspirando-lhe problemáticas e caminhos metodológicos, orientando as opções e decisões de critérios de valor (REIS, 2006, s/p). Bastante sério, não? Compare, agora, com a descrição que aparece na obra de Jovane Nunes: A outra história do Brasil nos apresenta uma nova – e engraçada – visão da história de nosso país. O livro de estreia de Jovane Nunes narra, através de uma perspectiva diferente da que aprendemos nos livros escolares, a trajetória do Brasil desde os primórdios até os dias de hoje, passando por personagens célebres e situações intrigantes (NUNES, 2009, s/p). Propaganda semelhante à que aparece no livro de Leandro Narloch: EXISTE UM ESQUEMA tão repetido para contar a história do Brasil, que basta misturar chavões, mudar datas ou nomes, e pronto. Você já pode passar em qualquer prova de história na escola. Nesse livro, o jor- nalista Leandro Narloch prefere adotar uma postura diferente – que vai além dos mocinhos e bandidos tão conhecidos (NARLOCH, 2011, s/p). O estilo da escrita e o destaque dado ao “diferente” dessas obras são apelos mercadológicos que não estão presentes em livros acadêmicos. Mas, além do – 191 – Ler história estilo, há perspectivas adotadas que se configuram como erros históricos. Ambos – Nunes e Narloch – destacam que suas obras são “diferentes dos livros escolares” e que não repetem os “chavões” que permitem que o leitor possa “passar em qualquer prova de história na escola”. Essa abordagem supõe uma dupla existência da disciplina histórica: uma oficial, escolar, e outra mais verdadeira, mais profunda – e frequentemente escondida – que os autores prometem revelar. Muito semelhante às teorias da conspiração, que defendem existir um conhecimento secreto, e oculto à maioria das pessoas. 2 Os títulos complementam a ideia de que essas obras revelariam uma “outra” história do Brasil, que historiadores supostamente estariam escondendo dos leitores. Ao colocar como título “Guia politicamente incorreto da história do Brasil”, Narloch contrapõe seu livro a um suposto – e, diga-se, inexistente – modelo histó- rico que seria “politicamente correto”. “Este livro não quer ser um falso estudo acadêmico, como o daqueles estudiosos”, afirma no prefácio. Cria-se um espantalho (“aqueles estudiosos”: quem são?), que o autor se propõe, com sua obra, a destruir. Ideia semelhante é transmitida por Nunes, não apenas pelo título de seu livro, “A outra história do Brasil”, mas especialmente pelo subtítulo: “a ver- são desavergonhada e sem cortes que explica tudo”. A obra de Laurentino Gomes, por sua vez, possui um título bastante objetivo – 1808 –, embora o subtítulo demonstre que não se trata de obra acadêmica: “como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil” (GOMES, 2007, s/p). Há dois erros históricos explícitos nesse subtítulo: o primeiro é o voluntarismo, pois deixa claro que são as ações ou omissões das pessoas, que “mudam” a história; o segundo é o apelo aos “grandes homens”, no caso, a determinadas figuras políticas (D. Maria I, D. João, e Napoleão) que, exclusivamente por suas ações, influenciam o passado como um todo. 2 O autor: Jovane Nunes é humorista, Landro Narloch e Laurentino Gomes são jornalistas. A formação não é determinante – afinal, Gilberto Freyre e Norbert Elias eram ambos sociólogos que cons- truíram importantes obras de cunho histórico –, mas é um pri- Introdução ao Estudo da História – 192 – meiro indício da abordagem e da relação da obra com o campo de estudos. Um autor que não seja da área, e se propõe a escrever uma primeira obra histórica, tende a cometer mais erros, e ser inexpe- riente na metodologia e teoria próprias da história. Conhecer mais sobre qualquer autor auxilia na compreensão da perspectiva que adota. Especialmente em trabalhos acadêmicos, dados como sua nacionalidade e idade, a existência de outras obras, e dados biográficos, ainda que breves, permitem um maior entendimento da relação do autor com o tema, e de suas credenciais (que, repito, não são determinantes, mas importantes). Boa parte dos livros acadêmicos oferece um pequeno currículo do autor. Checar por resenhas, em sites de revistas acadêmicas especializadas, é uma garantia a mais sobre a qualidade da obra que você está consultando. 2 O ano: conhecer o ano da edição original é muito importante. “Formação do Brasil contemporâneo”, de Caio Prado Junior, é uma das mais importantes obras da história econômica brasileira, mas foi editado originalmente em 1942. Muito de suas ideias foram modificadas ou corrigidas. Lê-lo é importante, pois as historiogra- fias são construídas sempre em diálogo com outros autores, e a obra de Prado Jr. é um importante referencial. Mas não se pode esquecer que não se trata mais de um texto atualizado em história. 2 A editora: Planeta, Globo e Leya, que publicaram os livros que dis- cutimos nesse item, são editoras responsáveis e de renome nacional. Mas há determinadas editoras com as quais você deve ter algum cuidado. A editora Revisão, do Rio Grande do Sul, por exemplo, é conhecida pela publicação de livros antissemitas. No sentido exata- mente oposto, editoras universitárias costumam publicar obras his- tóricas que passaram por processos de avaliação e, por isso, tendem a ser bem fundamentadas. Os diferentes textos históricos Até aqui foram discutidos basicamente os livros de história, e algumas das características que os diferenciam dos trabalhos não historiográficos. Mas são vários, e diferentes, os tipos de – 193 – Ler história textos com os quais historiadoras e historiadores trabalham. Abaixo, uma descrição rápida de alguns deles. Monografia: trata-se de um estudo que procura se aprofundar em um tema bastante específico e delimitado, utilizando-se, em geral, fontes primárias. No Brasil, as monografias são mais conhecidas por serem comuns como trabalhos finais de cursos universitários, inclusive em história. Nesses casos, tendem a ser relativamente curtas, e é a primeira experiência de muitos alunos com uma produção acadêmica de maior fôlego, pois exige a presença de todos os elementos próprios a trabalhos acadê- micos, como introdução, referencial teórico, recorte temporal, delimitação de fontes, metodologia. Porém, especialmente em outros países, a expressão “monografia” é utilizada também para descrever trabalhos de pesquisadores experientes, desde que voltados a um tema bem específico, analisado em profundi- dade. Alguns dos trabalhosdos historiadores dos Annales, por exemplo, são classificados como monografias. Projetos: é bem provável que você, durante sua vida como profissional da história, vá se deparar com vários e diferentes projetos – de pesquisa, de requisição de bolsas de estudo, de implementação de mudanças pedagógicas. Um projeto é uma declaração de intenções – deve especificar claramente o que você quer fazer –, de métodos – como pretende desenvolver o trabalho –, e de objetivos – quais os resultados a alcançar. Dissertação de mestrado: trata-se de um trabalho de fôlego, a partir usualmente de pesquisas em fontes primárias, e cuja produção é pré-condição, no caso da história, à obtenção do título de “mestre”. Trata-se de um trabalho de maior exten- são e que, presumivelmente, revela a capacidade de pesquisa da historiadora ou do historiador. Além de escrita, deve ser defendida diante de uma banca. Tese de doutorado é um trabalho profundo, altamente com- plexo, que demanda anos para ser concluído, e deve repre- sentar as competências de um pesquisador já maduro. Uma Introdução ao Estudo da História – 194 – tese de doutorado em geral é longa, e não deve ser apenas completa – dentro do objeto de pesquisa que pretende ana- lisar – mas, também, apresentar alguma contribuição inédita ao conhecimento. A tese é precondição para que se obtenha, em história, o título de “doutor”. Também a tese precisa ser defendida diante de uma banca. Artigos: são textos menores, não raras vezes resultados de pesquisas que estão em andamento, ou resumos e trechos de trabalhos já concluídos. São mais rapidamente produzi- dos e publicados e sua leitura é fundamental para que se possa manter a atualização em relação a determinado campo de pesquisa. De importância para a historiadora e o histo- riador são os artigos publicados por revistas reconhecidas como publicações científicas. A Coordenação de Aperfei- çoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), ligada ao Ministério da Educação (MEC), tem como uma de suas funções catalogar e avaliar os periódicos científicos no Bra- sil. Um bom primeiro passo para encontrar revistas e artigos acadêmicos de história em sua área de interesse, é consultar o site da Capes na internet. Livros didáticos: como já foi mencionado, os textos educa- tivos em história não são, por definição, acadêmicos. Ainda assim, são uma das mais importantes ferramentas de trabalho em história e, por isso, leitura constante durante a vida pro- fissional. Tenha atenção especial com os “Manuais do Pro- fessor” desses materiais, onde os autores tendem a expor os princípios teóricos e as escolhas metodológicas que os guia- ram na escrita. 8.2.2 A leitura do conteúdo A leitura de um texto acadêmico em história não pode ser feita de maneira despretensiosa como se faz, por exemplo, com artigos de jornal. Um – 195 – Ler história livro, um artigo, uma tese, enfim, estão sempre em busca da defesa de uma ideia e, para isso, argumentarão baseados em determinadas fontes, lidas e analisadas a partir de certa metodologia, a respeito de um objeto que deve estar bem delimitado. Em resumo, pode-se dizer que a leitura de um texto historiográfico centra-se em descortinar suas ideias centrais, e avaliar se estão bem fundamentadas ou não. O tema e os objetivos gerais de um texto historiográfico podem ser, por exemplo, encontrados no título e no resumo. Ainda que, eventualmente, nem todas as informações possam ser obtidas dessa forma, tem-se um quadro amplo do ponto de partida e da conclusão esperados. Abaixo, o resumo de um artigo intitulado “A lógica da suspeição”: O objeto de pesquisa 1 é rapidamente identificável: a autora irá analisar as ações dos informantes e, em especial, os colaboradores espontâneos do regime militar. Claramente definidos estão, também, o recorte temporal 2 – 1964 a 1983 –, e as fontes primárias 3, no caso, a documentação produzida pelo DOPS. O argumento principal 4 do artigo, e que se espera que seja demonstrado ao longo da exposição, a partir da bibliografia utilizada e pela referência às fontes, é demonstrar como esses informantes desempenhavam um papel importante dentro do sistema de controle repressivo. Essa demons- tração passa a ser, portanto, o objetivo do texto. Note como o título também participa da apresentação do texto e de sua argumentação: “A lógica da suspeição” relaciona-se aos incentivos forneci- dos pelo sistema repressivo do regime militar, que criaram uma determinada lógica que implicava em suspeitar, por meio de quaisquer indícios, que certas Introdução ao Estudo da História – 196 – pessoas seriam subversivas. E, ao se apresentar essa suspeita à polícia, criava-se um informante. Tendo essa primeira ideia de quais são as intenções gerais do trabalho, torna-se mais fácil avaliar se a autora ou autor realizou adequadamente a argu- mentação. Uma forma de compreender, de um ponto de vista mais amplo, a estrutura do raciocínio, é consultar os tópicos do texto ou, para trabalhos mais extensos, o índice. O artigo “A lógica da suspeição” está assim dividido: Introdução A comunidade de informações A fabricação do informante A fabricação do medo Repare que a estratégia da autora é partir do mais amplo ao mais específico. Começa contextualizando o que seria a “comunidade de informações” dentro do sistema repressivo do regime militar brasileiro. A seguir, descreve como esse informante é “fabricado”, ou seja, como ele se insere como parte da comunidade de informações. E finaliza analisando um aspecto da ação desse informante, a construção de um sentimento de medo por conta da ação dos subversivos. Nem todos os trabalhos têm de seguir essa lógica de apresentação. Bastante comum em história, e por motivos óbvios, é a apresentação temporal do tema, ou seja, seu desenvolvimento dentro de uma cronologia. Outros textos podem optar por debater separadamente assuntos para, apenas na conclusão, reunir as análises. Pode-se, ainda, optar por uma formulação inversa àquela que vimos no artigo, e partir do mais específico para, ao final, alcançar os temas mais gerais. O que importa é que, ao ler-se um texto, consiga-se discernir o modelo de apresentação do raciocínio. O contexto Observe a foto. Que informações você pode extrair da cena retratada, das pessoas que aparecem, e da cidade, apenas observando a imagem? – 197 – Ler história Figura 3 – “O leiteiro”. Fonte: Fred Morley Na leitura – e, também, como veremos no capítulo seguinte, na escrita – é importante compreender o contexto que é apre- sentado pela historiadora ou pelo historiador, do objeto de estudo que está sendo analisado. De uma adequada contextu- alização dependem os argumentos e validade das conclusões. O objetivo da contextualização de um objeto de pesquisa é inseri-lo, em primeiro lugar, dentro de um período e espaço. No caso dessa foto – uma das mais conhecidas da Segunda Guerra Mundial –, trata-se de Londres, em 1940. A partir desses primeiros detalhes contextuais, é possível ler a imagem sob uma nova perspectiva: trata-se, portanto, de um leiteiro, andando sobre os escombros da cidade bombardeada enquanto que, ao fundo, é possível observar bombeiros trabalhando. Ao ler trabalhos históricos, é importante estar atento às formas pelas quais historiadores explicam os contextos dos temas com os quais trabalham. Se forem amplos e explicativos, a contex- tualização apoiará e validará os argumentos, serão estabeleci- das relações adequadas com as fontes, e a explicação ligará o Introdução ao Estudo da História – 198 – objeto de estudo a outros elementos da realidade. Contextualizações inadequadas ou parciais, por outro lado, comprometem o trabalho histórico. Como o que acontece na foto: sabendo que é uma foto da época da Segunda Guerra, pode-setransmitir uma impressão de um povo que, como seu leiteiro, procura continuar com seu dia a dia, apesar dos bom- bardeiros. Porém, seria uma impressão equivocada, resultante de uma contextualização incompleta. Algo que não foi dito até aqui é que o fotógrafo pediu para seu assistente posar com garrafas de leite e a roupa branca emprestadas. Não registra, portanto, uma cena espontânea. E, em certo sentido, é uma das razões pelas quais se tornou tão conhecida: os censo- res ingleses permitiram a sua divulgação, justamente porque transmitia – de forma encenada – o heroísmo do povo. O contexto influencia diretamente na análise. Não se esqueça, ainda, que a leitura envolve a identificação do autor. Quem é a autora do artigo “A lógica da suspeição”? Qual a sua formação? Quando o texto foi escrito e onde foi originalmente publicado? (Essas informações podem ser obtidas digitando-se o título do artigo e o sobrenome da autora no Google, e investigando os resultados da pesquisa). Procure identificar outros trabalhos escritos pela pesquisadora. Esse artigo que analisamos está inserido em sua especialidade enquanto historiadora? O último elemento que deve ser destacado nessa abordagem preliminar a respeito da leitura em história é a importância do fichamento das obras. Toda leitura é um esforço intelectual, e o fichamento exige uma atenção e trabalho a mais, mas é um presente que damos ao “nós” do futuro. Não apenas ele permite que se estabeleça uma melhor compreensão dos argumentos do texto como, também, que a obra seja utilizada novas vezes, em diferentes contextos – preparação para um artigo, consulta para uma aula, citação para um trabalho acadêmico, por exemplo. Um fichamento é um registro relativamente curto, que usualmente não ultrapassa uma página, com as ideias fundamentais e trechos destacados do material lido. Todo fichamento começa com a referência bibliográfica; no caso do artigo “A lógica da suspeição” seria: – 199 – Ler história MAGALHAES, Marionilde Dias Brepohl de. A lógica da suspeição: sobre os aparelhos repressivos à época da ditadura militar no Brasil. Rev. bras. Hist., São Paulo, v. 17, n. 34, p. 203-220, 1997. Em se tratando de um texto historiográfico, os elementos que devem constar de seu fichamento serão a definição do objeto de pesquisa (delimitando o espaço e o recorte temporal), o objetivo do texto, quais os argumentos sustentam o raciocínio, e quais as fontes primárias utilizadas. Forneça detalhes a respeito da formação da autora ou do autor, e aspectos da produção do material, que você julgar relevantes. Caso tenha observações particulares sobre o que leu, registre-as na ficha: mais do que um mero resumo, a prática da escrita de fichas deve prover os resultados das suas ideias sobre o que foi lido. A leitura acadêmica é um esforço intelectual, e é parte intrínseca de sua profissão. Em certo sentido, portanto, é seu trabalho. Quanto mais cuidadosa for, mais profunda, significativa e permanente será. Ah, sim: guarde suas fichas com carinho, seja em papel, seja digitalmente. 8.2.3 A importância da teoria Nas aulas de Brasil colônia, no ensino fundamental, é ainda comum que alunos estudem a diferenciação clássica entre colônias de exploração e de povoamento, de maneira semelhante à que aparece no quadro, extraído de um livro didático de história do 7º ano. COMPARATIVO ENTRE COLÔNIA DE EXPLORAÇÃO E DE POVOAMENTO Colonização de exploração Colonização de povoamento Condições Naturais Solo e clima adequados ao cul- tivo de gêneros tropicais. Solo e clima semelhantes ao da metrópole. Sistema de produção Plantation (latifúndio, mono- cultura, mão de obra escrava, produção para exportação). Minifúndio, policultura, mão de obra familiar, produção para o mercado interno. Exemplos de colônias Brasil; América espanhola; colô- nias inglesas no sul da América do Norte. Colônias inglesas no norte e cen- tro da América do Norte. Fonte: (PANAZZO, 2009) Introdução ao Estudo da História – 200 – O criador dessa interpretação histórica, bastante difundida em materiais didáticos, foi o historiador brasileiro Caio Prado Jr. (1907-1990), para quem “todo povo tem, na sua evolução, vista à distância, um certo ‘sentido’” (PRADO Jr., 1961, p.5). Ao lançar a sua obra “Formação do Brasil contemporâneo”, em 1942, Prado Jr. queria, justamente, buscar compreender qual seria o sentido específico que teria a história do Brasil. Ou, mais explicitamente, compreender as razões que explicariam o atraso nacional e as diferenças que poderiam ser observadas quando se comparava o país com países considerados desenvolvidos como, por exemplo, os Estados Unidos. As razões do atraso seriam encontradas no passado, por meio da identificação do sentido histórico do país, que seria, segundo acreditava Prado Jr., dado pelos diferentes tipos de colonização: enquanto, no Brasil, haveria a colonização de exploração, nos Estados Unidos, teria ocorrido a de povoamento2: se vamos à essência da nossa formação, veremos que na realidade nos constituímos para fornecer açúcar, tabaco e outros gêneros, mais tarde ouro e diamantes, depois, algodão e em seguida café para o comércio europeu. Nada mais do que isso. É com tal objetivo, objetivo exterior, voltado para fora do país e sem atenção às considerações que não fossem o interesse daquele comércio, que se organizarão a sociedade e economias brasileiras. Tudo se disporá naquele sentido: estrutura, bem como as atividades do país. (PRADO Jr., 1961, p. 25-6). Ao contrário, portanto, do que teria ocorrido nas colônias de povoamento – que buscaram o desenvolvimento do próprio local – as colônias de exploração teriam se estruturado para o desenvolvimento externo, de outras regiões. Os colonos, por sua vez, visavam o enriquecimento esperando que, em determinado momento, pudessem retornar aos seus locais de origem. Essa diferenciação original teria tido um importante e determinado impacto para o caminho histórico tomado pelo Brasil. O que Caio Prado Jr. fez foi apresentar uma teoria para a análise histórica. Qual o sentido que está sendo dado, aqui, ao termo “teoria”? Trata-se de uma explicação generalizante, que procura, a partir de enunciados racionais, dar 2 Caio Prado Jr. foi o primeiro historiador a utilizar essa tipologia para tentar explicar o sentido do desenvolvimento do Brasil. Porém, outros pensadores, antes dele, construíram semelhantes divisões de tipos de colônias. O primeiro foi o historiador Ludwig Heeren (1760- 1842). Prado Jr. utilizou como influência direta os trabalhos do economista francês Pierre Leroy-Beaulieu (1843-1916) (MONASTERIO, 2009). – 201 – Ler história conta dos dados empíricos existentes. É uma abordagem abstrata, no sentido de que a realidade pode apresentar determinadas diferenças em relação ao modelo teórico puro, mas que, de qualquer forma, não são exceções em quantidade e tipos diferentes que invalidariam a teoria. Um modelo teórico influente, como esse de Prado Jr., não apenas procura explicar a realidade, mas é uma forma muito efetiva de se direcionar as percepções dos pesquisadores. Inspirados por essa diferenciação entre colônias de exploração e de povoamento, historiadoras e historiadores passaram a ler de forma específica a realidade: selecionando certas fontes, e desconsiderando outras; ou, organizando dados de modo a encaixar, ou contestar o modelo teórico. Enfim: a teoria influenciou as maneiras pelas quais o passado era analisado. Adotar determinada abordagem teórica é, portanto, assumir certa perspectiva. Ou, dizendo-se de outra forma, é olhar a realidade de uma maneira específica. Repare: se são os objetivos econômicos da colonização que definiram a estrutura social e política do Brasil colônia, então a religião não teria qualquer papelfundamental. A concepção teórica de Prado Jr., além de tudo o mais, direcionava o olhar à economia, mas abandonava outros, como a religiosidade, ou a cultura, e mesmo as especificidades regionais. As diferentes conclusões a que chegaram Goldhagen e Browning, vistas no início desse capítulo, são outro claro exemplo da influência das concepções teóricas na leitura da historiografia e análise de fontes. Mas, ter consciência disso não basta. É necessário mais: é função da historiadora ou do historiador identificar tais referenciais nos materiais que lê. Mas, como isso é feito? Por uma série de pistas deixadas no texto. Se forem mencionados modos de produção, lutas de classe, materialismo histó- rico, estaremos diante de uma concepção marxista; se aparecerem expressões como corpos abjetos, heteronormatividade, fluidez de gênero, muito prova- velmente trata-se de um texto queer3. Porém, nem sempre a identificação é 3 Palavra inglesa que, originalmente, era utilizada como ofensa. Significa algo como estranho, esquisito. Foi adotada como nome de uma corrente filosófica e teórica, a “teoria queer” (surgida nas últimas décadas do século XX, e ainda bastante influente), justamente para destacar que os objetos de pesquisa são considerados “estranhos” por parte da sociedade. É o caso, por exemplo, dos transexuais. Por conta desse uso, o termo perdeu muito de seu signifi- cado original de ofensa. Introdução ao Estudo da História – 202 – assim tão simples. Não é incomum que autores não explicitem seus princípios teóricos, ou os considerem sabidos por todos. Nesse caso a coisa se complica, e exige-se determinada experiência para identificar, por meio dos vestígios deixados na argumentação e metodologia, os princípios teóricos: eles esta- rão presente no uso de conceitos, na perspectiva e abordagem adotadas, na escolha dos temas, na relação com certos autores referenciais, nos pressupos- tos teóricos que fundamentam os argumentos de um texto. Sempre busque identificá-los, cada vez que um novo material surgir às suas mãos. E, se for necessário, consulte outros autores, apele a resenhas, investigue biografias. E uma última palavra sobre a diferenciação entre colônias de exploração e de povoamento. Por mais importante que seja o trabalho de Prado Jr., não se acredita, atualmente, que essa tipologia explique, de forma satisfatória, o “sentido histórico” do Brasil. A quantidade de elementos regionais particu- lares que ignora, além de aspectos sociais importantes que não são engloba- dos (já se mencionou a religião e a cultura), fizeram com que esse modelo fosse reconsiderado pelos historiadores nas últimas décadas. Eventualmente, porém, livros didáticos ainda o apresentam. 8.3 Realizando uma pesquisa bibliográfica Dentro de um curso superior em história, na maior parte do tempo são os professores, ou os livros (inclusive esse, que está em suas mãos), que indi- cam aos alunos o que devem ler. E, não raras vezes, orientam inclusive como interpretar corretamente os textos. Não há nenhum problema aqui: faz parte do processo de ensino que aqueles mais experientes e treinados indiquem caminhos e, na medida do possível, facilitem o percurso dentro de um sis- tema de conhecimento já estabelecido. Mas sempre chega o momento em que alunas e alunos devem organizar por si mesmos o que deverão ler. Isso ocorre quando se desenvolve uma pesquisa histórica, ou quando se prepara uma aula. É aqui que entram as técnicas de pes- quisa bibliográfica: conseguir definir, considerando-se determinado objeto de pesquisa, os principais autores, e as mais relevantes obras sobre um tema. É muito comum que, na escrita de um artigo, uma monografia, ou uma tese, estejamos pesquisando temas com os quais nos identificamos. Ou – 203 – Ler história seja, assuntos com os quais já tivemos contato anteriormente (por exemplo, a bibliografia das disciplinas já cursadas), dos quais temos alguma leitura, e conhecemos, pelo menos, um ou dois autores relevantes. Nesses casos já existe um ponto de partida, e podem-se consultar as referências bibliográficas dessas obras para buscar indicações de outros textos que ampliem a bibliogra- fia. Além disso, física ou virtualmente, estamos em contato com professores ou colegas que podem ter sugestões: também são fontes importantes, e sem- pre se pode começar com essas indicações. Vamos supor, para esse item, um tema aleatório: as relações estabelecidas entre os viajantes europeus e a natureza do Brasil, no período colonial. Trata- -se de um tema bastante amplo, para um período também extenso, mas nos servirá, aqui, para uma pequena primeira experiência para produção de uma bibliografia, mesmo que inicial. Como, então, começamos? Pela internet, mas com cuidado. A internet é, sem dúvida, uma fonte importante, mas juntamente às informações relevantes costumam surgir uma grande quantidade de sites inadequados, produzidos por não espe- cialistas, e repletos de dados equivocados. Mesmo a Wikipedia, de fama internacional, não é considerada fonte confiável para trabalhos acadêmicos. Assim, a nossa procura online começa por um sistema de buscas específico: o Google Acadêmico. 2 Google Acadêmico é um buscador específico do Google para textos, como o nome já diz, acadêmicos. Para encontrá-lo, basta digitar “google acadêmico” no campo de buscas tradicional. E, a seguir, digitar o que está sendo buscado: em nosso caso, optou-se pelos termos bem genéricos natureza, Brasil, colônia. Afinal, esta- mos apenas começando nossa pesquisa. De toda forma, duas obras logo se destacaram. PRESTES, M. B. A investigação da natureza no Brasil Colônia. São Paulo: Annablume, 2000. LISBOA, K. A nova Atlântida de Spix e Martius. São Paulo: Huci- tec, 1997. Estas foram os dois resultados apresentados pelo buscador. O site indica mais de 60 mil resultados para os termos escolhidos e, ainda que a maioria não se enquadre exatamente no que buscamos, certamente mais textos poderiam Introdução ao Estudo da História – 204 – ter sido listados. Por hora ficaremos com esses. Já temos, assim, ao menos duas obras para pesquisar em bibliotecas locais. 2 Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict), apresenta um sistema de buscas importante em bancos de dados de várias uni- versidades brasileiras que oferecem cursos de pós-graduação. Digi- tando as mesmas palavras-chave em seu campo de busca, o buscador apresenta um trabalho diretamente ligado à nossa pesquisa. LIMA, A. P. Prática científica no Brasil colônia: ilustrado luso-brasi- leiro a serviço da natureza (1786-1808). Salvador: Universidade Fede- ral da Bahia, 2008. Dissertação de Mestrado em História. Essa biblioteca digital tem a grande vantagem de oferecer, na maior parte dos casos, acesso imediato aos textos completos. Consultando essa específica dissertação de mestrado, não apenas é possível obter mais obras interessantes a nosso tema, como descobrir alguns títulos e autores que são considerados referência e que, portanto, devem ser aprofundados. DEAN, Warren. A ferro e fogo: a História e a Devastação da Mata Atlântica Brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. DRUMMOND, José Augusto. A história ambiental: temas, fon- tes e linhas de pesquisa. Estudos históricos. Rio de Janeiro, vol.4, n.8, 1991. PÁDUA, José Augusto. Defensores da Mata Atlântica no Brasil Colô- nia. Revista Nossa História. Ano 1. n.6. Abr – 2004. RAMINELLI, Ronald. Baltasar da Silva Lisboa: a honra e os apuros do juiz naturalista. In.: VAINFAS, Ronaldo (org) (et al). Retratos do Império: trajetórias individuais no mundo português nos séculos XVI a XIX. Rio de Janeiro, 2006. E lembre-se: cada uma dessas obras deve ser consultada, para que sua bibliografia possa ser ampliada ainda mais. Por