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PANCREATITE (Robbins cap19; Bogliolo cap23) A pancreatite ocorre quando há disfunção em um dos mecanismos que protegem o pâncreas da autodigestão: - Zimogênios: proenzimas inativas armazenadas em vesículas de secreção; - Enterocinase: enzima duodenal que ativa as proenzimas, para que não sejam ativadas no pâncreas; - SPINK1: inibidor de serina protease tipo 1 de Kasal → inibidor de tripsina secretado por células acinares e ductais, ou seja, a atividade da tripsina no órgão é limitada PANCREATITE AGUDA: ocorre quando há liberação e ativação de forma inadequada de enzimas pancreáticas, que acarreta em LESÕES REVERSÍVEIS no parênquima local e inflamação aguda a) ETIOLOGIA: agressões tóxicas (drogas e álcool); obstrução do ducto pancreático (cálculos biliares); lesões vasculares; infecções; mutações genéticas e metabólicas b) PATOGENIA: a tripsina é um zimogênio pancreático, entretanto, a ativação inapropriada da tripsina no pâncreas acarreta na ativação de outras proenzimas e causa: - Degradação de células adiposas; - Dano nas fibras elásticas dos vasos sanguíneos; - Estimulação do sistema de cininas → estimula o fator de coagulação XII A inflamação e trombose de pequenos vasos danificam as células acinares, que, por sua vez, ampliam a ativação intrapancreática das proenzimas. A ativação inicial das proenzimas pode ocorrer por 3 fatores: - Obstrução dos ductos pancreáticos: pode ocorrer por infecção parasitária, cálculos biliares e neoplasias. A obstrução dos ductos leva ao edema (aumento de pressão na região e acúmulo de líquido no interstício) → comprometimento do fluxo sanguíneo local → isquemia e lesão das células acinares → maior ativação de proenzimas como forma de “defesa” - Lesão de células acinares: o estresse oxidativo leva a produção de EROS (espécies reativas de oxigênio), que, por sua vez, provocam oxidação lipídica e ativação de fatores de transcrição que alteram o metabolismo celular, promovendo influxo de cálcio. O cálcio é importante na regulação da tripsina: quanto maior a [Ca2+], maior a ativação de tripsina. Logo, fatores que aumentam a concentração de cálcio nas células acinares, levam a ativação excessiva de tripsina e lesão de células acinares - Transporte intracelular defeituoso de proenzimas dentro das células acinares: em condições normais, as hidrolases lisossômicas (proenzimas) são transportadas no meio extracelular. Quando há um transporte intracelular defeituoso, as hidrolases são liberadas no compartimento intracelular → ativação das proenzimas → rompimento dos lisossomos → ativação intracelular de enzimas → lesão de células acinares c) MORFOLOGIA: Pancreatite aguda intersticial: - Edema; - Necrose gordurosa → resultado da atividade enzimática da lipase; - Inflamação aguda; - Destruição dos vasos sanguíneos; - Hemorragia intersticial - Extravasamentos microvasculares; - Destruição do parênquima pancreático; - Aparência granular azul às células adiposas → combinação de ác. graxo + cálcio = sais insolúveis Pancreatite necrosante aguda: - Necrose de tecidos acinares, ductais e ilhotas de Langerhans; - Hemorragia no parênquima pancreático → aspecto vermelho-enegrecido com focos branco-amarelados de necrose gordurosa; - Achados de necrose gordurosa extra pancreáticas → mesentério intestinal e tecido adiposo subcutâneo; - Presença de fluído turvo acastanhado na cavidade peritoneal d) ASPECTOS CLÍNICOS: - Dor abdominal; - Náuseas e vômitos; - Níveis plasmáticos elevados de amilase e lipase; - Leucocitose; - Coagulação intravascular disseminada; - Edema; - SARA (síndrome da angústia respiratória aguda); - Choque; - Necrose pancreática; - Falência orgânica sistêmica; - Óbito; e) PANCREATITE AGUDA HEREDITÁRIA: pode ocorrer alteração nos genes PRSS1 e SPINK1 - Pancreatite aguda hereditária associada à mutação do gene PRSS1 (tripsinogênio): ocorre ganho de função nesse gene, tornando a tripsina resistente a auto inativação → padrão autossômico dominante - Pancreatite aguda hereditária associada à mutação do gene SPINK1: ocorre perda de função do gene, que é inibidor da tripsina → padrão autossômico recessivo PANCREATITE CRÔNICA: ocorre uma inflamação prolongada do pâncreas associada a uma destruição IRREVERSÍVEL do parênquima exócrino e endócrino e fibrose local a) ETIOLOGIA: obstrução prolongada do ducto pancreático; lesão autoimune do órgão; pancreatite crônica hereditária; etilismo b) PATOGENIA: ela ocorre por episódios constantes de pancreatite aguda, ao longo do tempo, ocorre a perda do parênquima pancreático e fibrose do mesmo. A lesão pancreática crônica aumenta a produção de mediadores inflamatórios que causam fibrose e perda das células acinares. As citocinas fibrogênicas estão associadas ao TGF-beta (fator transformante de crescimento-beta) e ao fator de crescimento associado as plaquetas, que induzem a ativação e proliferação de miofibroblastos periacinares → deposição de colágeno → fibrose → perda de células acinares c) MORFOLOGIA: é caracterizada por atrofia e destruição de ácinos, fibrose e dilatação de ductos pancreáticos. - Macro: pâncreas rígido com ductos extremamente dilatados que apresentam calcificações; infiltrado inflamatório em torno dos lóbulos e ductos; metaplasia escamosa ou atrofia/hiperplasia do epitélio ductal - Micro: preservação relativa das ilhotas de Langerhans, que se incorporam no tecido fibroso e podem parecer ampliadas. Ao longo do avanço da doença, as ilhotas desaparecem obs.: A pancreatite crônica causada pelo etilismo é caracterizada pela dilatação ductal, calcificações e acúmulo de proteínas no lúmen d) ASPECTOS CLÍNICOS: - Repetidas crises de pancreatite aguda ou ataques repetidos de dor abdominal; - Abuso de: álcool, alimentos e opióides → exigem uma maior demanda do pâncreas; - Insuficiência pancreática; - Diabete mellitus → é desencadeada pela destruição parcial do pâncreas