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FUNDAMENTOS DA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS Maria Helena Roman 2 SUMÁRIO 1 BREVE HISTÓRICO DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA ........................................ 3 2 O PENSAMENTO PEDAGÓGICO DE PAULO FREIRE ................................. 16 3 O ACOLHIMENTO AO EDUCANDO NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS ................................................................................................................. 29 4 PROPOSTAS DE ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO PARA JOVENS E ADULTOS .................................................................................................. 43 5 LETRAMENTO NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS ........................... 59 6 POLÍTICAS PÚBLICAS EDUCACIONAIS E A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS .................................................................................................. 72 3 1 BREVE HISTÓRICO DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA Neste bloco, iremos estudar o percurso histórico da Educação de Jovens e Adultos, desde o Período Colonial, até o período de redemocratização do nosso país. Ao revisitar a história da Educação de Jovens e Adultos no Brasil, temos como objetivos conhecer as diferentes visões acerca do analfabetismo e dos analfabetos e, ao longo da história, compreender a importância dessa modalidade de ensino para enfrentamento desse problema em nosso país, para a garantia do direito à educação gratuita e de qualidade a todos aqueles que não frequentaram a escola na época adequada ou que dela tiveram de se ausentar prematuramente. O conhecimento desse percurso histórico possibilita, ao futuro educador, valorizar a Educação de Jovens e Adultos como um direito conquistado, e assumir o compromisso com a promoção de uma educação de qualidade para esse público. 1.1 Educação no Período Colonial No Período Colonial, a educação brasileira estava especificamente voltada às crianças. No entanto, os indígenas adultos também foram submetidos às ações educativas realizadas pelos jesuítas, com a finalidade de catequizá-los e alfabetizá-los na Língua Portuguesa. Com a saída dos jesuítas do país, em 1759, a educação passa a ser responsabilidade do Império. Com isso, a educação brasileira passa a se configurar pelo elitismo, na medida em que estava voltada, apenas para as classes mais abastadas. As ações educativas, pautadas pelo ensino de latim, grego, filosofia e retórica, eram voltadas para os filhos dos colonizadores portugueses. Delas, estavam excluídos os negros e os indígenas. A Constituição Imperial de 1824 trouxe a garantia de instrução primária para todos os cidadãos. Contudo, essa garantia não saiu do papel. Nessa época, houve uma grande discussão sobre maneiras para a inserção das camadas inferiores (homens e mulheres brancos pobres, negros e negras escravos, livres e libertos) nos processos de educação formal. 4 O Ato Constitucional de 1834 fez com que passasse a ser de responsabilidade das províncias a instrução primária e secundária de todas as pessoas. Nesse período, partindo de um princípio missionário, passou a ser alvo de atenção a educação de jovens e adultos. Essa alfabetização deixa de ser vista como um direito, e passa a ser vista como um ato de caridade que as pessoas alfabetizadas praticavam às pessoas “perigosas” e “degeneradas”. E, com isso, o analfabeto passa a ser visto como um indivíduo à margem da sociedade e como um causador de problemas sociais. Em 19 de abril de 1879, Leôncio de Carvalho, deputado e chefe da pasta de negócios do Império, por meio de um Decreto, reformou a instrução pública primária e secundária no Município da Corte e o Ensino Superior em todo o Império. Na reforma empreendida por ele, os analfabetos eram vistos como dependentes e incompetentes. Em 1881, a Lei Saraiva, que instituiu pela primeira vez o Título de Eleitor, reforçou a ideia dos analfabetos como sendo dependentes e incompetentes, ao proibir que eles votassem. Em 1882, Rui Barbosa afirmou que “os analfabetos são considerados, assim, como crianças, incapazes de pensar por si próprios” (STRELHOW, 2010, p. 51), gerando mais preconceito em relação aos analfabetos e uma maior exclusão deles. 1.2 Educação na Primeira República A visão preconceituosa acerca dos analfabetos ainda piora com a Constituição Republicana de 1891, que restringiu o direito ao voto às pessoas alfabetizadas e com posses, o que constituía uma pequena minoria. Apesar disso, segundo Haddad e Di Pierro (2000), a Constituição de 1891 se deu como o primeiro marco legal da República Brasileira a descentralizar a responsabilidade pública pelo ensino básico, entre as províncias e os municípios. Nesse cenário, a União passou a ser uma espécie de “animador” das atividades, dedicando-se com ênfase maior ao Ensino Secundário e ao Ensino Superior. 5 Essa descentralização favoreceu a formação das elites, em detrimento de uma educação voltada para as camadas menos privilegiadas socialmente, na medida em que as decisões referentes à oferta de vagas no ensino elementar ficaram dependentes da fragilidade econômica das províncias e dos municípios, bem como dos interesses das oligarquias regionais que os controlavam politicamente. A nova Constituição preteriu os analfabetos do direito ao voto, em um momento em que a maior parte da população adulta se encontrava na condição de analfabetismo. A Primeira República, apesar da falta de compromisso da União com a educação elementar, se caracterizou como um período com uma grande quantidade de reformas educacionais voltadas para a constituição de um princípio de normatização e para a melhoria das condições do ensino básico. Mas, apesar dessa preocupação, isso pouco foi efetivamente realizado, tendo em vista a falta de recursos financeiros para que propostas fossem implementadas. Um censo realizado em 1920 revelou que 72% da população brasileira, acima de cinco anos de idade, era formada por analfabetos. Até essa época, a preocupação com a educação de jovens e adultos praticamente era inexistente, e, com as camadas populares, era restrita à educação das crianças. Nessa década, o movimento de educadores e da população, em prol da ampliação do número de escolas e da qualificação da educação oferecida, começa a criar condições favoráveis para a implementação de políticas públicas voltadas para a educação de jovens e adultos. Além disso, os índices de escolarização no país estavam muito aquém dos alcançados pelos outros países da América Latina e do restante do mundo, gerando uma preocupação permanente na população e na autoridades brasileiras. Essa inflexão no pensamento político-pedagógico ao final da Primeira República está associada aos processos de mudança social inerentes ao início da industrialização e à aceleração da urbanização no Brasil. Nossas elites, que já haviam se adiantado no estabelecimento constitucional do direito à educação para todos – sem propiciar as condições necessárias para sua realização –, viam agora esse direito unido a um dever que cada brasileiro deveria assumir perante a sociedade. (HADDAD e DI PIERRO, 2000, p. 110). 6 A Revolução de 1930 marca o fim da Primeira República, também conhecida como República Velha, e dá início à Era Vargas. 1.3 Educação na segunda República A Revolução de 1930 se constituiu como uma marco para a reformulação do papel do Estado brasileiro. Em um movimento contrário ao que vinha sendo realizado até então, com o privilégio dos interesses das oligarquias, passou-se a afirmar a Nação como um todo. Essa mudança ficou explicitada na Constituição de 1934, na qual estava presente a ideia de Estado aberto para as problemáticas econômica, educacional e cultural do país. No que se refere à educação, a Constituição propôs um Plano Nacional de Educação, planejado, coordenado e fiscalizado pelo Governo Federal, que se caracterizoupor: • Fixar as competências da União, dos Estados e dos Municípios em relação à educação; • Vincular, constitucionalmente, recursos financeiros para a manutenção e o desenvolvimento do ensino; • Reafirmar o direito de todos e o dever do Estado para com a educação; • Estabelecer medidas para efetivar as ações propostas e para cobrar do setor público a sua responsabilidade. Somente no final da década de 1940 a Educação de Jovens e Adultos passou a receber a atenção devida, como uma demanda a ser suprida. Em 1938 havia sido criado o Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP) que, através de estudos e pesquisas, em 1942, levou à criação do Fundo Nacional do Ensino Primário. Os recursos desse fundo deveriam ser utilizados para a realização de um programa progressivo de ampliação da educação primária que incluísse o Ensino Supletivo para jovens e adultos. Em 1945, houve a regulamentação do fundo e a destinação de 25% dos seus recursos para o desenvolvimento de um plano geral de Ensino Supletivo, voltado para jovens e adultos analfabetos. 7 No âmbito internacional, um movimento semelhante estava sendo realizado em relação à EJA. Também em 1945, foi criada a UNESCO, que explicitou em nível mundial as profundas desigualdades entre os países e chamou a atenção para a importância da educação, sobretudo de jovens e adultos, para a superação desse quadro. Em 1947, foi criado o Serviço de Educação de Adultos (SEA), como um serviço especial do Departamento Nacional de Educação, do Ministério da Educação e Saúde, visando a orientação e a coordenação geral dos trabalhos dos planos do Ensino Supletivo para jovens e adultos analfabetos. O movimento iniciado com a criação do Serviço de Educação de Adultos se estendeu até o final da década de 1950, com a Campanha de Educação de Adolescentes e Adultos, durante a qual foram criadas condições de infraestrutura, nos Estados e Municípios, para atender as demandas de Educação de Jovens e Adultos. 1.4 Educação de Jovens e Adultos durante a Ditadura Militar A década de 1960 foi marcada por dois períodos bastante distintos, no que diz respeito à EJA. Nos primeiros anos, houve um grande efervescência de iniciativas voltadas para a Educação de Jovens e Adultos, impulsionada pela ampla divulgação das ideias de Paulo Freire, que foi o grande responsável por mudar, radicalmente, a visão que se tinha do analfabeto até então. Na perspectiva freiriana, o analfabeto deixou de ser visto como um causador de problemas sociais e passou a ser visto como uma vítima das condições sociais causadas pelas grandes desigualdades existentes na sociedade. Paulo Freire ficou bastante conhecido, sobretudo, por atribuir um caráter político à educação, concebendo-a como um instrumento de conscientização dos indivíduos e consequentemente, de transformações sociais. Segundo ele, cabia à educação partir da consciência ingênua dos sujeitos acerca da realidade, para oportunizar a sua transformação em consciência crítica. 8 Um outro aspecto inovador das ideias de Paulo Freire foi a valorização da cultura dos educandos jovens e adultos e dos conhecimentos construídos por eles fora do ambiente escolar. De acordo com ele, esses conhecimentos deveriam ser acolhidos e valorizados pela escola, constituindo-se como pontos de partida para a construção de novos conhecimentos. A efervescência de suas ideias foi interrompida pelo Golpe Militar de 1964. O golpe militar de 1964 produziu uma ruptura política em função da qual os movimentos de educação e cultura populares foram reprimidos, seus dirigentes, perseguidos, seus ideais, censurados. O Programa Nacional de Alfabetização foi interrompido e desmantelado, seus dirigentes, presos e os materiais apreendidos. A Secretaria Municipal de Educação de Natal foi ocupada, os trabalhos da Campanha “De Pé no Chão” foram interrompidos e suas principais lideranças foram presas. (HADDAD e DI PIERRO, 2000, p. 113). No início da Ditadura, por volta dos primeiros anos da década de 1960, todos os envolvidos nas ações foram cassados nos seus direitos políticos ou tolhidos no exercício de suas funções. A resposta do Estado foi a repressão governamental, autoritário à atuação dos programas de educação de adultos cujas ações de natureza política contrariavam os interesses impostos pelo golpe militar. Para dar continuidade ao enfrentamento do problema do analfabetismo no Brasil, o Estado consentiu e incentivou alguns programas de caráter mais conservador. Um desses programas foi a Cruzada de Ação Básica Cristã (ABC), que teve origem em Recife e ganhou caráter nacional, buscando ocupar os espaços deixados pelos movimentos de cultura popular. A Cruzada era dirigida por evangélicos norte- americanos e servia, de maneira assistencialista, aos interesses do Regime Militar. As críticas pela forma como era conduzida fez com que, a partir de 1968, ela fosse progressivamente extinta. Visando mostrar à comunidade internacional que o Brasil poderia ser um grande país, o Governo Militar buscou novos caminhos para diminuição dos índices de analfabetismo e para a melhoria dos índices de escolarização básica no país. A resposta encontrada foi a fundação, em 1967, do Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL) e com a implantação do Ensino Supletivo, em 1971. 9 1.4.1 O MOBRAL O Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL) foi criado pela lei 5379, de 15 de dezembro de 1967, por um grupo interministerial, como uma alternativa de caráter pedagógico para o trabalho que vinha sendo realizado pela Cruzada ABC. Em 1969, com o endurecimento do regime militar, o MOBRAL começou a se distanciar de sua proposta original, passando a configurar-se como, por um lado, um programa de atendimento aos objetivos de dar uma resposta aos marginalizados do sistema escolar, e, por outro, um programa de atendimento aos objetivos políticos dos governos militares. Nele, [...] buscava-se ampliar junto às camadas populares as bases sociais de legitimidade do regime, no momento em que esta se estreitava junto às classes médias em face do AI-5, não devendo ser descartada a hipótese de que tal movimento tenha sido pensado também como instrumento de obtenção de informações sobre o que se passava nos municípios do interior do país e na periferia das cidades e de controle sobre a população. Ou seja, como instrumento de segurança interna. (PAIVA, 1982, p. 99 apud HADDAD e DI PIERRO, 200º, p. 114). Os materiais didáticos utilizados no MOBRAL não tinham qualquer caráter de criticidade e buscavam veicular a ideia de uma “realidade cor-de-rosa” no país. Fonte: OLIVEIRA e SOUZA, 2012, p. 23. Figura 1.1 – Cartilha do MOBRAL (Acervo pessoal Sebastião Araújo Sobrinho). 10 1.4.2. O Ensino Supletivo O Ensino Supletivo foi regulamentado no capítulo IV da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 11 de agosto de 1971 (LDB 5692/71), tendo como proposta a reposição da escolaridade, o suprimento como aperfeiçoamento, a aprendizagem e a qualificação sinalizando para a profissionalização. Seus fundamentos e suas características foram melhor explicitados no Parecer do Conselho Federal de Educação n. 699, publicado em 28 de julho de 1972, no qual foi considerado como o maior desafio proposto aos educadores brasileiros, pela LDB 5692/71, e no documento “Política para o Ensino Supletivo”. Com isso, o Ensino Supletivo visou se constituir em “uma nova concepção de escola”, em uma “nova linha de escolarização não-formal, pela primeira vez assim entendida no Brasil e sistematizada em capítulo especial de uma lei de diretrizes nacionais”, e, segundo Valnir Chagas, poderia modernizar o Ensino Regular por seu exemplo demonstrativo e pela interpenetração esperada entre os dois sistemas. (HADDAD e DI PIERRO, 2000, p. 116 apud FRIEDRICH et al., 2010, p. 398). A criação do Ensino Supletivovisou oferecer àqueles que não puderam frequentar a escola na época adequada, a retomada dos estudos e a possiblidade de acesso à novas oportunidades de educação continuada. De acordo com Haddad e Di Pierro (2000, p. 117 apud FRIEDRICH, 2010, p. 398), “o Ensino Supletivo se propunha a recuperar o atraso, reciclar o presente, formando uma mão-de-obra que contribuísse no esforço para o desenvolvimento nacional, através de um novo modelo de escola”. Sob o ponto de vista dos legisladores, o Ensino Supletivo surgiu para reorganizar o antigo exame de madureza, que era um exame que facilitava a certificação daqueles que não tinham concluído o ensino regular. Como tal, era um fator de pressão pelo aumento de vagas nos graus seguintes, sobretudo, no ensino superior. De acordo com o Parecer 699, a criação do Ensino Supletivo decorreu, também, do aumento de demanda de formação profissional para aqueles que já estavam inseridos no mercado de trabalho e precisavam de uma formação profissional de curto prazo. Por fim, ainda foram criados cursos fundamentados na ideia de educação permanente, que buscavam atender a oferta de uma escolaridade menos formal e mais aberta. 11 1.5 Redemocratização e Educação de Jovens e Adultos No início dos anos 1980, o Brasil começou a viver um processo de redemocratização, que se consolidou com o fim da Ditadura Militar, em 1985. O período que deu sequência à retomada do governo pelos civis foi marcado pela democratização das relações sociais e das instituições políticas brasileiras, com a ampliação dos direitos sociais da população. Foi um momento histórico em que antigos e novos movimentos sociais e atores da sociedade civil, que haviam emergido e se desenvolvido ao final dos anos 70, ocuparam espaços crescentes na cena pública, adquiriram organicidade e institucionalidade, renovando as estruturas sindicais e associativas preexistentes, ou criando novas formas de organização, modalidades de ação e meios de expressão. (HADDAD, 2000, p. 110). Nesse período, as ações da sociedade civil organizada estiveram direcionadas para a consolidação das instituições políticas voltadas para o fortalecimento da democracia. Desse processo resultou a promulgação da Constituição Federal de 1988, seus desdobramentos nas constituições dos estados e nas leis orgânicas municipais. Na Constituição Federal de 1988, a educação é garantida a todos como um direito público subjetivo, marcando o início de um novo período na educação brasileira. Nesse documento, a Educação de Jovens e Adultos passa a ser reconhecida como uma modalidade da educação básica, fazendo com que haja uma grande movimentação para a ampliação de vagas, com recursos financeiros dos estados e municípios. Essa movimentação não conta, nesse momento, com recursos do Governo Federal. Até 1990, os recursos advindos do governo eram garantidos pela Fundação Educar, criada após a extinção do MOBRAL, com a finalidade de apoiar técnica e financeiramente, iniciativas voltadas para a educação básica de jovens e adultos, propostas pelos municípios e instituições da sociedade civil. A Fundação Educar foi extinta em 1990, tendo por consequência o encerramento dos programas de alfabetização que estavam em vigor. Esse mesmo ano é definido, pela UNESCO, como o Ano Internacional da Alfabetização, que teve seu ápice com a Conferência Mundial de Educação para Todos, realizada em Jomtien, na Tailândia. Um dos temas que mereceu maior destaque durante a Conferência foi o analfabetismo das pessoas jovens e adultas. 12 Durante a Conferência, foi redigido um dos principais documentos para a educação mundial: a Declaração Mundial de Educação para todos, que trouxe dados significativos para a compreensão, no cenário mundial, da qualidade da educação oferecida e para a presença de um grave problema a ser enfrentado, o analfabetismo funcional. Um outro grande avanço à Educação de Jovens e Adultos foi dado pela Lei de Diretrizes de Bases 9394/96, que a considerou como sendo uma modalidade da educação básica no Ensino Fundamental e no Ensino Médio. Nesse documento, são reconhecidas as especificidades do alunado dessa modalidade de ensino, tanto no que se refere à faixa etária, quanto às demandas de aprendizagem. Feito isso, é necessário que a escola busque estratégias e materiais adequados para o trabalho com esse público. A Lei determina que, na EJA, a idade mínima para a certificação no Ensino Fundamental é de 15 anos e no Ensino Médio, de 18 anos. No mesmo ano em que a LDB foi promulgada, foi aprovada a Emenda Constitucional n. 14, de 12 de setembro, que inviabilizou o repasse de recursos públicos para a Educação de Jovens e Adultos, ao privilegiar o Ensino Fundamental regular de crianças e adolescentes, sob a alegação de que era prioritário prevenir o analfabetismo. Com isso, foi negado o princípio da universalidade, da qualidade e da oferta gratuita da educação aos jovens e adultos. A oferta e manutenção dos serviços da EJA ficaram, então, a cargo de cada Unidade Federal. Nesse mesmo período, surgiram vários programas filantrópicos voltados para o enfrentamento do problema do analfabetismo, como o Programa Alfabetização Solidária, o Recomeço e a Educação na Reforma Agrária. Já no Brasil, os recursos estavam sendo restringidos durante a V Conferência Internacional de Educação de Adultos, realizada em Hamburgo, em 1997, estava sendo proclamado o direito de todos à educação continuada ao longo da vida, trazendo essa nova perspectiva para a aprendizagem na Educação de Jovens e Adultos. 13 No ano 2000, o parecer do Conselho da Educação Básica n. 11/2000, aprovado em 10 de maio, criou as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação de Jovens e Adultos, que abrangem os processos formativos da Educação de Jovens e Adultos como sendo uma das modalidades da Educação Básica nas etapas dos Ensino Fundamental e Médio, nos termos da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, LDB 9394/96. Muitos ainda são os desafios da Educação de Jovens e Adultos nos dias atuais. Ainda há um grande índice de pessoas analfabetas e sub escolarizadas privadas do direito à educação no país. Juntam-se a essas pessoas um grande contingente de analfabetos funcionais, ou seja, de pessoas que, mesmo tendo passado pela escola, não conseguem utilizar a leitura e a escrita para o enfrentamento das necessidades cotidianas. Faz-se necessário que a sociedade se mobilize para que, todos juntos, continuem a luta pela Educação de Jovens e Adultos, garantindo a todos os cidadãos o direito à educação pública, gratuita e de qualidade. Conclusão O percurso histórico da Educação de Jovens e Adultos no Brasil tem início no Período Colonial, com os jesuítas buscando catequizar os indígenas e alfabetizá-los na Língua Portuguesa. Com a saída dos jesuítas, a educação passa a ser responsabilidade do Império e volta-se para as classes mais privilegiadas, assumindo um caráter bastante elitista. Ao longo da Primeira República, a preocupação com o problema do analfabetismo começa a fazer parte das discussões educacionais, ainda de maneira não suficiente para que ações efetivas fossem implementadas. Com a crescente industrialização do país, a preocupação com a educação passa a ser ampliada, mas as ações voltadas para a Educação de Jovens e Adultos ainda são insuficientes para dar conta do problema do analfabetismo e do analfabetismo funcional. Até o final da década de 1950, o analfabeto era visto como um ser dependente e incapaz, causador de problemas sociais. Essa visão era fonte de exclusão e preconceitos. 14 No final dos anos 1950, início dos anos 1960, as ideias de Paulo Freire revolucionaram a Educação de Jovens e Adultos. Isso ocorreu, primeiro, porque ele modificou a visão que se tinha até então do analfabeto, ao demonstrar que ele não era um causadorde problemas sociais, mas, sim, uma vítima das desigualdades sociais e econômicas do país; e, depois, por ele ter atribuído um caráter político à educação. Na perspectiva freiriana, o papel da educação era oportunizar aos alunos uma consciência crítica acerca da realidade para que eles pudessem transformá-la. As ideias de Paulo Freire, amplamente difundidas nos primeiros anos da década de 1960 e que inspiraram diversas iniciativas voltadas para a Educação de Jovens e Adultos, foram duramente reprimidas após o Golpe Militar de 1964. O Governo Militar proibiu as iniciativas mais críticas e puniu os envolvidos nelas. Para enfrentar o grave problema do analfabetismo no país, o Governo Militar criou iniciativas de Educação de Jovens e Adultos sem qualquer caráter crítico. Os materiais utilizados eram produzidos e controlados pelo próprio governo. Nesse período, destaca- se a criação do MOBRAL e do Ensino Supletivo. No período da redemocratização, a Educação de Jovens e Adultos voltou a ganhar uma atenção maior, levando à sua contemplação, como modalidade da Educação Básica, na Constituição Federal de 1988 e a definição de suas especificidades em diferentes legislações e documentos oficiais. Grandes avanços foram alcançados ao longo da história da EJA. No entanto, ainda há um grande caminho a ser percorrido, tanto no que diz respeito à ampliação de oferta de vagas para as pessoas que não tiveram acesso à escola na idade adequada como para aquelas que foram alijadas, prematuramente, do processo educativo formal, como no que diz respeito à melhoria da qualidade da educação oferecida. 15 REFERÊNCIAS FRIEDRICH, M. et al. Trajetória da escolarização de jovens e adultos no Brasil: de plataformas de governo a propostas pedagógicas esvaziadas. Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação, Rio de Janeiro, v. 18, n. 67, p. 389-410, abr.-jun. 2010. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0104-40362010000200011>. Acessado em: 20 abr. 2020. HADDAD, S.; DI PIERRO, M. C. Escolarização de jovens e adultos. Rev. Bras. Educ., Rio de Janeiro, n. 14, p. 108-130, Aug. 2000. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413- 24782000000200007&lng=en&nrm=iso>. Acessado em: 17 mar. 2020. OLIVEIRA, L. B.; SOUZA, S. T. A alfabetização no Mobral, métodos e materiais didáticos Uberlândia, 1970-1985. Revista Acolhendo a alfabetização nos países de língua portuguesa. Brasil, São Paulo, volume 1, n. 13, pp. 11-37, set. 2012. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/reaa/article/view/45617/49216>. Acessado em: 20 abr. 2020. STRELHOW, T. B. Breve história sobre a educação de jovens e adultos no Brasil. Revista HISTEDBR On-line, Campinas, n. 38, p. 49-59, jun. 2010 - ISSN: 1676-2584. Disponível em: <http://www.histedbr.fe.unicamp.br/revista/edicoes/38/art05_38.pdf>. Acessado em 17 mar. 2020. 16 2 O PENSAMENTO PEDAGÓGICO DE PAULO FREIRE Os primeiros anos da década de 1960 se constituíram como um marco para a Educação de Jovens e Adultos pela difusão das ideias de Paulo Freire. Ele ficou conhecido mundialmente, por seu método de alfabetização para jovens e adultos e por ter atribuído um caráter político à educação. Na perspectiva freiriana, a educação tem por objetivo maior a conscientização das classes oprimidas, para que elas possam buscar meio para as transformações sociais que geram as condições de desigualdade. Suas ideias impulsionaram a criação de várias iniciativas de educação de jovens e adultos no início da década de 1960, que foram retomadas após o fim da Ditadura Militar no país. Seus legados continuam até os dias atuais inspirando iniciativas educativas mais críticas. 2.1 Quem foi Paulo Freire? Paulo Freire foi o mais célebre educador brasileiro, reconhecido mundialmente. Nasceu em Recife, em 19 de setembro de 1921, e faleceu em São Paulo, em 02 de maio de 1997. Formou-se no curso de Direito, mas não chegou a exercer a profissão, tendo dedicado sua vida profissional ao magistério. Paulo Freire ficou conhecido, principalmente, pela criação de um método de alfabetização que leva o seu nome, ao chefiar um programa que alfabetizou trezentas pessoas em um mês, em Angicos (RN), em 1963. Contudo, sua maior contribuição para a educação brasileira foi atribuir ao ato educativo um caráter assumidamente político. Para ele, o objetivo maior da educação é a conscientização dos alunos acerca da realidade na qual estão inseridos. Essa conscientização visa oportunizar às camadas menos favorecidas da população, a compreensão de sua condição de opressão, para que possam agir em favor da própria libertação. 17 Na perspectiva freiriana, para que a escola pudesse desenvolver a criticidade dos alunos, era preciso romper com as práticas características do que ele chamou de “educação bancária” – práticas educativas baseadas na transmissão dos conhecimentos pelo professor que “depositava” os conhecimentos em alunos passivos, que deveriam os reproduzir nos momentos de avaliação. Sendo assim, não havia espaço nem para a conscientização, nem para as mudanças sociais. Para ele, o papel do professor era outro: cabia ao professor oportunizar aos alunos o acesso ao conhecimento, visto não como verdade absoluta. De acordo com Paulo Freire, o professor é alguém que ensina mas, ao mesmo tempo, aprende. Aprende com os conhecimentos construídos pelos educandos fora da escola, com suas experiências e suas vivências. Para que essa aprendizagem ocorra, o ambiente de sala de aula precisa ser afetivo e dialógico, para que todos se sintam à vontade para se expressarem. A efervescência das suas ideias foi interrompida em 1964 pelo Golpe Militar. Paulo Freire foi preso e passou setenta dias na prisão antes de se exilar. No exílio no Chile, em 1968, Paulo Freire escreveu um dos seus mais conhecidos e importantes livros, que foi a “Pedagogia do Oprimido”. A Pedagogia do Oprimido baseava-se na ideia que a educação libertadora é incompatível com uma pedagogia que, de maneira consciente ou mistificada, tem sido prática de dominação. A prática da liberdade só encontrará adequada expressão numa pedagogia em que o oprimido tenha condições de, reflexivamente, descobrir-se e conquistar-se como sujeito de sua própria destinação histórica. (FREIRE, 1987, p. 9). Durante o Governo Militar no Brasil, ele foi professor nos Estados Unidos e na Suíça, e organizou planos de alfabetização em países africanos. Paulo Freire voltou ao Brasil em 1979 por conta da anistia, e integrou à vida universitária. Filiou-se ao Partido dos trabalhadores durante o mandato de Luiza Erundina, na Prefeitura de São Paulo, e entre 1989 e 1991 foi Secretário Municipal da Educação. Foi nomeado doutor honoris por 28 universidades em diversos países, e teve suas obras traduzidas para mais de vinte idiomas. Casou duas vezes e teve cinco filhos, e faleceu em 1997 de enfarto. 18 2.2 O pensamento pedagógico de Paulo Freire Um dos principais legados de Paulo Freire ao pensamento pedagógico brasileiro foi a sua concepção de educação e de pedagogia chamada por Gadotti (2004), de “militante”, ou seja, com um caráter político e transformador da sociedade. Sua visão militante acerca da educação começa a ser demonstrada em seu livro “Educação como prática da liberdade” (GADOTTI, 2004), no qual o autor discute a necessidade de que a sociedade brasileira supere a cultura colonial, para que possa desenvolver-se economicamente. Nessa discussão, Paulo Freire atribui à educação, um papel político fundamental para a construção de uma “sociedade aberta”. Segundo Paulo Freire, essa nova sociedade não poderia ser conduzida pelas elites dominantes, mas, sim, pelas massas populares. Para as elites não interessavam as mudanças, e as camadas populares eram vistas por ele como as únicas capazes de operar as transformaçõessociais necessárias. Segundo Gadotti (2004), para Paulo Freire, a educação era o único caminho possível para ampliar a participação consistente das massas na sociedade e para oportunizar sua crescente organização. Paulo Freire também apresentou o conceito de consciência transitiva crítica, entendida como uma “consciência articulada com a práxis, desafiadora e transformadora” (GADOTTI, 2004, p. 32-33). Para que se chegasse a essa consciência, segundo Freire, era necessário o diálogo crítico, a fala e a vivência. O diálogo proposto não é o diálogo das elites, definido por ele como sendo vertical e rígido. É um diálogo “horizontal”, que “nutre-se de amor, humildade, esperança, fé e confiança” (Ibid., p. 33). O diálogo proposto por Paulo Freire, como um aspecto central das práticas educativas, deveria partir da realidade, dos conhecimentos e das experiências dos educandos, para que, a partir desses elementos, pudessem ser construídos novos conhecimentos, vinculados aos seus interesses. 19 O estabelecimento de uma relação educativa dialógica iria se constituir como um ponto central nas ideias de Paulo Freire, constituindo-se como uma das bases de seu método histórico e global, que coloca o educando como um sujeito histórico, que se insere no processo educativo como um momento do seu processo de humanização. O ponto de partida é o “universo vocabular” e as “palavras geradoras” extraídas de sua própria experiência vivida, partindo do sensível, do imediato, do dado, do empírico para o mediatizado, para o concreto. O empírico passa a ser visto de outra forma, recriado pela reflexão e pela ação (práxis). Seguindo o modo dialético de pensar, o seu método pedagógico tem no particular o ponto de partida: da parte para o todo, do empírico para o abstrato. (Ibid.). Nessa perspectiva, o saber assume um papel emancipador e a alfabetização assume um papel importante como instrumento de subversão às ordens sociais estabelecidas pelas elites dominantes. A pedagogia libertadora, preconizada por Paulo Freire, é a pedagogia comprometida com a transformação social, que é, em um primeiro momento, tomada de consciência da situação existencial e, logo depois, práxis social, engajamento e autocrítica. Em sua obra seguinte, “Pedagogia do Oprimido”, Paulo Freire completou suas concepções pedagógicas, ao explicitar sua ótima de classe, ao criticar, de maneira contundente, a pedagogia capitalista, chamada por ele de “educação bancária”. Na perspectiva do autor, essa educação baseada no “depósito” de conhecimentos nos alunos, pelo professor, tem um caráter disciplinador. Em contraposição à “Educação bancária”, Paulo Freire apresenta a sua proposta de “educação problematizadora”, fundamentada na relação dialógico-dialética entre educador e educando, na qual ambos aprendem juntos. O diálogo é abordado também nessa obra, como sendo uma “exigência existencial” capaz de possibilitar a comunicação e permitir ultrapassar as vivências imediatas. Ao ultrapassá-las, educador e educando conseguem ver a realidade de uma maneira diferente, mais crítica e totalizante. 20 Como tal, ele deve ocorrer desde a elaboração dos programas educativos, passando pelos “temas geradores”, permeando todo o processo de ensino e de aprendizagem, até chegar à última etapa de desenvolvimento de cada estudo. Isso posto, fica claro que o pensamento pedagógico de Paulo Freire vincula a educação à luta e à organização de classe do oprimido. Ao vinculá-las, o autor deixa claro que o conhecimento deve ser visto como instrumento de transformação social e, como tal, as práticas educativas não podem se limitar a transmiti-lo. O trabalho pedagógico não pode abordar o conhecimento de maneira informativa, embora as informações também sejam importantes para a constituição dos sujeitos. Contudo, ao lado delas, deve ser oportunizada, aos sujeitos, a formação de uma estrutura do conhecimento que lhes “permita reelaborar e reordenar seus próprios conhecimentos e apropriar-se de outros”. (Ibid., p. 36-37). 2.3 As contribuições de Paulo Freire para a Educação de Jovens e Adultos A partir do início dos anos 1960, até o final de sua vida, incluindo o período que passou no exílio, Paulo Freire contribuiu para programas educativos de vários países e influenciou, sobretudo na América Latina, a Educação de Jovens Adultos. Suas ideias colocaram a EJA em uma perspectiva popular, crítica e dialógica, que tem por objetivo o desenvolvimento de todas as potencialidades dos educandos e o exercício pleno da cidadania. Segundo Oliveira e Santos (2018), Paulo Freire não só influenciou, por meio de seu pensamento educacional, intelectuais e educadores dos países que viveu no exílio, como também aprendeu e incorporou em seu discurso pedagógico as experiências vividas e, sobretudo, manteve a coerência com os pressupostos teóricos e metodológicos de sua pedagogia libertadora. (OLIVEIRA e SANTOS, 2018, p. 47) Vários autores (Ibid.) destacaram as contribuições de Paulo Freire em diversas partes do mundo. Na América Latina, as ideias freirianas foram fundamentais para a consolidação de um pensamento pedagógico latino-americano, conhecido como “educação popular”. 21 De acordo com Paulo Freire, a educação popular é aquela que estimula a participação organizada das classes sociais populares, na luta por uma sociedade mais democrática e justa, no sentido da superação das injustiças e desigualdades sociais. Na América Latina, a pedagogia de Paulo Freire realizou duas tarefas importantes: 1.Reconstruir a memória pedagógica por meio de uma “arqueologia da consciência”; 2. Recuperar as pedagogias silenciadas durante séculos de dominação. (Ibid., p. 47). De acordo com Paulo Freire, as classes dominantes instituíram às classes populares, uma “cultura do silêncio”. O silenciamento das classes populares, segundo ele, se manifestava também no silenciamento das práticas educativas transformadoras. Embora Paulo Freire tenha ficado bastante conhecido pelo seu método de alfabetização para jovens e adultos, suas contribuições para essa modalidade de ensino não ficam restritas a criação de um método. Suas contribuições o extrapolam, atribuindo à educação um caráter político, trazendo diretrizes fundamentais tanto para a educação popular, como para as pedagogias críticas. A Educação de Jovens e Adultos se insere no contexto da educação popular de Paulo Freire como uma educação crítica, engajada politicamente com as classes populares e que tem como objetivo a transformação social. Na perspectiva freiriana, a EJA deve permitir aos alunos vencer o analfabetismo político para oportunizar a leitura crítica do mundo, a partir da sua experiência, da sua cultura e da sua história. Para que isso se faça possível, as práticas educativas devem fazer com que os educandos se reconheçam na condição de oprimidos e que, a partir da tomada de consciência sobre sua condição, busque libertar-se dela. A perspectiva freiriana demandou uma revisão das práticas educativas voltadas para a Educação de Jovens e Adultos, no que diz respeito aos materiais, às estratégias e ao papel do educador e do educando. 22 No que se refere ao educador, para a promoção de uma educação libertadora, ele deve deixar de assumir o papel de detentor absoluto do saber e de transmissor de conhecimentos para assumir o papel de organizador de boas situações de aprendizagem, nas quais os alunos possam se sentir acolhidos para manifestar os saberes já construídos e de avançar na construção de novos conhecimentos. O educador passa a assumir um papel de quem ensina e ao mesmo tempo aprende. Seu conhecimento não é melhor do que o dos educandos, é diferente. E na relação dialógica com os educandos e na escuta atenta do outro, todos aprendem e ensinam. Os conhecimentos passam a ser vistos não como um fim em si, mascomo instrumentos para que os alunos possam passar de sua consciência ingênua, para uma consciência crítica acerca da realidade na qual estão inseridos. Esse aluno deixa de ser visto como um receptor passivo de conhecimentos e passa a ter um papel ativo no seu processo de aprendizagem. Sua cultura e seus saberes precisam ser acolhidos, valorizados e utilizados como pontos de partida para a construção de novos conhecimentos. As práticas educativas não podem se pautar pela memorização e pela mecanização de procedimentos. Elas devem visar a autonomia cognitiva dos sujeitos para que os conhecimentos aprendidos na escola possam ser utilizados na leitura crítica do mundo e no enfrentamento das situações cotidianas e profissionais, nos quais eles venham a ser requeridos. Os materiais devem ser significativos para os alunos. Para isso, precisam contemplar a realidade desse aluno, oferecendo elementos para que ele a compreenda. As ideias de Paulo Freire motivam até hoje ações da sociedade civil em prol da efetivação da cidadania. 2.4 Análise da Metodologia de Paulo Freire para Educação de Jovens e Adultos Paulo Freire (1982) mudou radicalmente a visão que se tinha do analfabeto e do analfabetismo no Brasil, difundindo a ideia de ambos como expressões concretas de uma estrutura social injusta e desigual. 23 A superação do analfabetismo requeria, então, uma revisão dos métodos de alfabetização utilizados até então, que se limitam a depositar letras, sílabas e palavras. A alfabetização não poderia ser realizada com textos que se relacionassem em nada ou quase nada com a vida dos educandos. Sendo assim, a cultura do aluno deveria estar no centro das práticas alfabetizadoras, atribuindo-lhe significado. A valorização da cultura dos educandos era também o ponto de partida para o processo de conscientização promovido pelas práticas educativas. Visando uma alfabetização que fosse coerente com seu pensamento pedagógico, Paulo Freire criou um método de alfabetização que recebeu o seu nome, o qual tornava mais rápido e acessível o aprendizado e habilitava os alunos para a “leitura do mundo”, antes mesmo que fosse capaz de “ler as palavras”. O primeiro momento do método criado por Paulo Freire, com o objetivo de ensinar os analfabetos a lerem as palavras e o mundo, consistia no levantamento do universo vocabular dos alunos, ou seja, das palavras utilizadas com maior frequência por eles. O educador realizava o levantamento desse universo vocabular indo até a residência dos educandos, ouvindo-os, identificando as palavras mais frequentes e catalogando-as. A equipe de educadores selecionava um conjunto de palavras, dentre as catalogadas, que tivessem maior densidade de sentido e que pudessem contemplar os diversos padrões silábicos da Língua. Essas palavras eram chamadas de “palavras geradoras” e eram organizadas de acordo com a complexidade dos padrões. Elas sugeriam situações da vida comum e eram significativas para os integrantes de comunidade na qual as ações educativas estavam sendo realizadas. As aulas eram chamadas de círculos de cultura, e contavam com os alunos e o professor sentados em uma disposição circular. Fonte: Figuras de UNIÃO CATARINENSE DE ESTUDANTES, 1964. Figura 2.1 – Slides para alfabetização com Método Paulo Freire do projeto-piloto do PNA em Santa Catarina 24 Antes do trabalho com os padrões silábicos da Língua, o educador utilizava uma das palavras geradoras, acompanhada de sua ilustração. Contendo a palavra e a ilustração, os cartazes eram utilizados como pontos de partida de discussões que visavam a conscientização dos educandos, que abordavam o papel ativo dos homens como produtores de cultura, sobre os diferentes tipos de cultura (letrada, não letrada, arte, trabalho, religião, diferentes padrões de comportamento e sociabilidade) e colocavam os educandos no papel de sujeitos da própria aprendizagem. Feito isso, as palavras geradoras eram desdobradas em sílabas que eram estudadas e registradas em um quadro das famílias silábicas. As sílabas já aprendidas eram utilizadas para a escrita de outras novas palavras. Entre dez e vinte palavras geradoras possibilitavam a alfabetização, em nível rudimentar, em um período de três meses. Na etapa posterior, essas palavras eram substituídas por temas geradores que permitiam o aprofundamento da análise dos problemas e um maior engajamento nas atividades comunitárias ou associativas. Segundo Ferrari (2008), embora o trabalho desenvolvido por Paulo Freire tenha ficado conhecido como um “método”, essa não é a palavra mais adequada por se constituir como um reducionismo das ideias do educador. Para ele, o trabalho de Paulo Freire se constitui como um reflexão sobre o caráter político da educação e seu papel na construção de uma sociedade mais humana e igualitária. 2.5 O MOVA Nas eleições para a Prefeitura de São Paulo realizadas em novembro de 1988, a candidata de Partido dos Trabalhadores, Luiza Erundina, foi escolhida para governar a maior metrópole da América do Sul. Ao assumir a Prefeitura em janeiro de 1989, ela se propôs a inverter as prioridades adotadas até então, ampliando a participação popular e as iniciativas voltadas para as mudanças sociais. Nessa perspectiva, a educação passou a ser prioritária e Paulo Freire foi convidado a assumir a Secretaria Municipal da Educação. 25 Nessa ocasião, em um movimento de grande valorização da Educação de Jovens e Adultos o município de São Paulo introduziu o ensino noturno em todas as escolas de Ensino Fundamental e transferiu o Programa de Educação de Adultos (EDA) da Secretaria do Bem Estar Social para a Secretaria da Educação. O Programa de Educação de Adultos (EDA) havia sido criado, em São Paulo, no início da década de 1970, constituía-se como um programa de alfabetização e de pós alfabetização em nível de Suplência, em convênio com a Fundação MOBRAL. O que realmente marcou a gestão da prefeita Luiza Erundina, no que diz respeito à Educação de Jovens e Adultos, foi a criação do MOVA-SP (Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos da cidade de São Paulo), em parceria com a sociedade civil. O MOVA-SP foi lançado no dia 29 de outubro de 1989, na Câmara Municipal de São Paulo, com a ampla participação de movimentos sociais e populares da capital paulista. Vale ressaltar que esses movimentos haviam surgido para ocupar o espaço não ocupado pelo Estado no provimento da Educação de Jovens e Adultos. Na nova gestão, esses movimentos encontraram seu espaço na luta conjunta com os órgãos municipais, contra o grave problema do analfabetismo. Com isso, colocaram a experiência já construída a serviço do governo municipal. A criação do MOVA-SP teve por objetivos (GADOTTI, 2013): • o desenvolvimento de um processo de alfabetização que instrumentalizasse os educandos para uma leitura crítica da realidade; • contribuir, por meio do Movimento de Alfabetização, para o desenvolvimento de uma consciência crítica tanto por parte dos educandos como dos educadores; • incentivar a participação popular na luta pelos direitos sociais do cidadão, com ênfase no direito básico à educação pública e popular; • reforçar e ampliar a atuação dos grupos populares que já vinham trabalhando com a alfabetização de jovens e adultos nas regiões periféricas da cidade. 26 Segundo Gadotti (2013), o MOVA-SP reuniu três condições essenciais para que um programa de Educação de Jovens e Adultos pudesse ser bem-sucedido, sendo elas: a vontade política da administração; o empenho e a organização dos movimentos sociais e populares e; o apoio da sociedade. Os núcleos de alfabetização e pós-alfabetização do MOVA-SP foram sediados em equipamentos da própria comunidade e concebidos como focos aglutinadores e irradiadores da cultura local que incluía a história do próprio movimentopopular da região, procurando ler, dessa maneira, a sua realidade, de forma crítica. (GADOTTI, 2013, p. 27). O trabalho pedagógico desenvolvido, pautado na tomada de consciência da realidade na qual os indivíduos estavam inseridos e na construção de novos conhecimentos, visou a formação de sujeitos capazes de transformar a sua própria realidade. A maior parte dos professores que atuavam no programa pertenciam à própria comunidade na qual as ações educativas eram desenvolvidas. O pertencimento à comunidade fazia com que esses professores estivessem comprometidos com as lutas locais. Esses professores recebiam cursos de formação promovidos pela Secretaria Municipal da Educação. Dentre os professores, eram escolhidos os Supervisores que recebiam uma formação específica para assumir a nova função. As formações oferecidas visavam, sobretudo, a formação de educadores e supervisores capazes de ver a alfabetização como um ato político, capaz de desenvolver a consciência crítica dos sujeitos. Para o fortalecimento da parceria criada entre a prefeitura e os movimentos sociais e populares, foi criado o Fórum dos Movimentos Populares de Educação de Adultos da Cidade de São Paulo. A criação do Fórum e a sua realização com periodicidade mensal, possibilitou a unificação e a ampliação das experiências. Já no seu primeiro ano de funcionamento, o MOVA-SP implementou 626 núcleos de alfabetização, formou 2001 alfabetizadores de jovens e adultos e possibilitou que 12.185 pessoas deixassem a condição de analfabetas. 27 A iniciativa desenvolvida no município de São Paulo deu origem a muitos outros MOVAs, em todo o território nacional, oferecendo formação a milhares de educadores e alfabetização a milhares de educandos jovens e adultos. Conclusão Paulo Freire é um dos mais importantes educadores brasileiros, conhecido mundialmente e teve sua obra traduzida para vários idiomas. Suas ideias começaram a ficar conhecidas no início dos anos 1960, quando ele criou um método para alfabetizar jovens e adultos em três meses. Era um método muito inovador para a época, na medida em que preconizava a necessidade de que a realidade e os interesses dos educandos fossem contemplados na alfabetização. Suas ideias inspiraram a criação de várias iniciativas de Educação de Jovens e Adultos, que foram interrompidas pelo Golpe Militar, em 1964. Embora tenha ficado bastante conhecido pelo método criado, suas contribuições para a Educação de Jovens e Adultos não se restringem a ele. Paulo Freire atribuiu um caráter político à educação e, especialmente, à educação de jovens e adultos, ao atribuir-lhe um caráter de instrumento para as transformações sociais necessárias e para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Para ele, o papel maior da educação era conscientizar os educandos da sua condição de oprimido, instrumentalizando-os para empreender lutas por mudanças. Nas palavras de Paulo Freire, cabia à educação transformação a consciência ingênua dos educandos, em consciência crítica. Essa transformação só seria possível pela revisão das práticas educativas, antes pautadas em uma educação bancária, alteradas para uma educação transformadora, baseada no diálogo. Suas ideias influenciaram muitas iniciativas de educação e muitos programas de Educação de Jovens e Adultos, no Brasil e no mundo. Até hoje, são bastante discutidas no cenário educacional, e continuam a embasar ações educativas mais críticas. 28 REFERÊNCIAS FREIRE, P. Ação cultural para a liberdade e outros escritos. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 1982. ______. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 1987. FERRARI, M. Paulo Freire, o mentor da Educação para a consciência. Revista Nova Escola, out. 2008. Disponível em: <https://novaescola.org.br/conteudo/460/mentor- educacao-consciencia>. Acessado em 25 mar. 2020. GADOTTI, M. Lições de Freire. Rev. Fac. Educ., São Paulo, v. 23, n. 1-2, jan. 1997. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0102-25551997000100002>. Acessado em 27 mar. 2020. ______. Pensamento Pedagógico Brasileiro. São Paulo: Ática, 2004. ______(org.). MOVA-Brasil 10 anos: Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos. São Paulo: Instituto Paulo Freire, 2013. OLIVEIRA, I. A. de; SANTOS, T. R. L. A contribuição de Paulo Freire para a Educação de Jovens e Adultos na América Latina. Revista Internacional de Educação de Jovens e Adultos, v. 01, n. 01, p. 45-52, jan./jun. 2018. Disponível em: <https://www.revistas.uneb.br/index.php/rieja/article/viewFile/5227/3294>. Acessado em 25 mar. 2020. UNIÃO CATARINENSE DE ESTUDANTES. Slides para alfabetização com Método Paulo Freire do projeto-piloto do PNA. Grupo Assessorias em Programas, Projetos e Campanhas e Movimentos Nacionais de Educação; Subgrupo Programa Nacional de Alfabetização. Material doado por Rosamaria da Silva Beck, do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC). DSpace, Acervo Paulo Freire, 1964. Disponível em: <http://www.acervo.paulofreire.org:8080/jspui/handle/7891/3440>. Acessado em 25 mar. 2020. 29 3 O ACOLHIMENTO AO EDUCANDO NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS A Educação de Jovens e Adultos, enquanto modalidade da Educação Básica, possui especificidades que devem ser contempladas no trabalho pedagógico, que dizem respeito à heterogeneidade do alunado, no que diz respeito à faixa etária, às histórias de vida, aos saberes já construídos e aos ritmos de aprendizagem. Para que essa heterogeneidade seja contemplada, faz-se necessário que o professor esteja atento a aspectos como a acolhida dos alunos, ao estabelecimento de uma relação dialógica entre ele, os educandos e à organização dos tempos e espaços escolares, para que a aprendizagem ocorra efetivamente. 3.1 A chegada do educando à Escola Os jovens e adultos que chegam à escola na Educação de Jovens e Adultos já trazem consigo conhecimentos construídos como consequência de suas vivências e experiências de vida. São jovens e adultos que, em algum momento de sua história de vida, tiveram que fazer uma escolha entre estudar ou sobreviver, e que voltam à escola para recuperar o tempo perdido e buscar melhorias nas condições impostas pela sociedade, para aqueles que não tem escolaridade. Esses indivíduos vivenciam cotidianamente desigualdades sociais e raciais perante o mundo, no qual se inclui a escola, que também é desigual, o que não pode traduzir-se num determinismo causal de condições de sucesso na escola, e, no caso da EJA, não pode significar uma fragilização e aligeiramento da escolarização na relação com o saber científico, com o conhecimento. (LAFFIN, 2007, p. 102). Para que possa acolher esses alunos, é fundamental que o educador desenvolva a escuta atenta dos educandos, para conhecer suas histórias de vida e suas intencionalidades ao procurarem a escola. As histórias de vida e as intencionalidades dos educandos devem ser consideradas pelo educador para a seleção dos conteúdos, estratégias e materiais que serão utilizados nas práticas educativas. 30 A valorização dos conhecimentos e vivências é um elemento fundamental para o resgate da autoestima do sujeito. Vivendo em uma sociedade centrada na escrita e nos saberes formais, cientes de suas condições sociais, os educandos da EJA chegam à escola com a autoestima muito baixa, sentindo-se incapazes de aprender. Os conhecimentos construídos em situações escolares costumam ser desvalorizadas pelos próprios sujeitos que já compreenderam que, pelo menos na educação regular, os conhecimentos válidos são aqueles que são ensinados na escola. Ao acolher e valorizar os conhecimentos prévios, utilizando-os como pontos de partida para a construção de novos saberes, o professor mostra para os alunos que eles são sujeitos históricos dotados de cultura, e que os conhecimentos construídos são válidos. A construção de um ambienteem sala de aula, no qual os sujeitos se sintam à vontade para manifestarem seus conhecimentos, é um outro ponto determinante do resgate da autoestima. Nesse sentido, a relação estabelecida em sala de aula deve ser dialógica, e não deve ser atribuído nenhum juízo de valor aos conhecimentos dos educandos. Os conhecimentos construídos em ambientes não escolares não são melhores nem piores do que os conhecimentos escolares, são apenas diferentes. Um outro aspecto a ser considerado na chegada dos alunos da EJA à escola é a heterogeneidade dos sujeitos. Com faixas etárias distintas, histórias de vida diferentes e variadas intenções, os sujeitos chegam à escola com diferentes conhecimentos. Cabe ao professor identificar, por meio de instrumentos de avaliação diagnóstica, para contemplá-los nas propostas educativas. Isso pode ajudar a propor diferentes desafios para alunos com diferentes níveis de conhecimentos. Por exemplo, em uma classe de alfabetização de jovens e adultos, podemos encontrar educandos com conhecimentos ainda rudimentares da língua escrita e outros bastante próximos à aquisição das formas de registro convencional. Se o professor propuser uma atividade muito simples, pensando nos alunos que ainda sabem pouco sobre a escrita, acabará por desmotivar aqueles que já tem mais conhecimentos. Por outro lado, se propuser uma atividade que demande mais conhecimentos, poderá desmotivar aqueles que não conseguirem realizá-la. Sendo assim, o professor poderá propor uma mesma atividade para todos, com desafios diferentes. 31 A proposição de atividades diferenciadas, que contemplam os diferentes saberes e os diferentes ritmos de aprendizagem, demandam, por parte do professor, uma flexibilização do currículo, tendo por objetivo garantir a aprendizagem de todos. Entre cumprir o conteúdo proposto e garantir que todos aprendam, o educador deve priorizar sempre a aprendizagem. A gestão dos tempos e espaços escolares é um outro aspecto a ser considerado nas classes da Educação de Jovens e Adultos. O tempo escolar deve ser muito bem aproveitado, uma vez em que é na escola que os educandos poderão se dedicar às tarefas escolares. Grande parte dos alunos da EJA já estão inseridos no mercado de trabalho ou tem ocupações domésticas que os impedem de dedicar um tempo extraclasse para as atividades escolares. Para garantir a permanência na escola e oferecer uma educação de qualidade, os sistemas de ensino precisam se adaptar às condições concretas da vida dos educandos. O professor, nesse contexto, deve assumir o papel de mediador entre os sujeitos e os conhecimentos a serem adquiridos. Essa mediação pressupõe o conhecimento profundo dos educandos, suas histórias de vida e suas expectativas em relação à escola. Pressupõe, também, a valorização e acolhimento dos conhecimentos prévios dos educandos e o respeito a seus ritmos de aprendizagem. 3.2 A rotina do trabalho pedagógico O estabelecimento de uma rotina de trabalho é importante para a constituição do grupo e para a gestão dos tempos e espaços escolares, na Educação de Jovens e Adultos. Uma rotina caracterizada por marcas bem definidas, que equilibre diversidade e constância, permite a formação de um grupo harmonioso e produtivo, no qual cada membro se sinta contemplado em suas necessidades. A diversidade de atividades dentro da rotina estabelecida permite que alunos com saberes e ritmos diferentes de aprendizagem possam acompanhar um mesmo conteúdo sob diferentes olhares e caminhos. Além disso, a diversidade imprime um maior dinamismo às aulas, desperta interesse, atenção e envolvimento dos alunos. 32 É bom lembrar que diversificar as atividades, na rotina da sala de aula, não significa ter a responsabilidade de criar uma novidade a cada aula, a cada dia. Falamos de uma diversidade de caminhos, tempos, lugares e de olhar; pensamos numa aula onde a lógica didática mais tradicional dê lugar à experiência inteira do aprender: ver, agir, pensar, fazer, experimentar, com todos os sentidos acionados. (BARRETO, 2006, p. 29). A constância, nesse contexto, diz respeito aos momentos de trabalho que se repetem com uma certa periodicidade. Como exemplo, podemos citar as rodas de conversa, que devem ser realizadas, diariamente, na rotina das classes da Educação de Jovens e Adultos. Uma outra atividade que deve fazer parte da rotina diária dessas classes, é a leitura feita pelo professor, como um momento fundamental para a formação de novos leitores. Outras atividades que devem fazer parte da rotina, com periodicidades distintas, são: a leitura feita pelo aluno, a produção oral com destino escrito, a escrita pelos alunos, o registro das descobertas e aprendizagens por meio de diferentes linguagens (texto, desenho, esquemas, fala), entre outras. É importante que a periodicidade com que as atividades que fazem parte da rotina seja definida com base nas especificidades do grupo de alunos com os quais se está trabalhando e com os ritmos de aprendizagem dos alunos. De acordo com esses critérios, as atividades podem ter uma periodicidade diária, semanal, mensal ou, ocasional. ➢ Modalidades didáticas Os estudiosos da Didática, já há algum tempo, organizaram e denominaram algumas modalidades didáticas, com o intuito de auxiliar o professor a tornar o seu planejamento e a sua rotina de trabalho com os alunos, mais proveitosos. As modalidades didáticas são situações de trabalho bastante conhecidas e utilizadas em sala de aula. Elas podem ser classificadas em: - atividades permanentes; - atividades sequenciadas; - situações independentes; - projetos. 33 Projetos Atividades sequenciadas Atividades permanentes Situações independentes O que são? situações didáticas que se articulam em função de um objetivo e de um produto final. Contextualizam as atividades de linguagem oral e escrita (ler, escrever, estudar, pesquisar) e podem ser interdisciplinares. situações didáticas articuladas que possuem uma sequência de realização, cujo critério principal são os níveis de dificuldade. situações didáticas propostas com regularidade, com o objetivo de construir atitudes, criar hábitos etc. Por exemplo, atividades planejadas para promover o gosto de ler e escrever e desenvolver atitudes e procedimentos que os leitores e escritores adquirem a partir da prática de leitura e escrita. situações ocasionais: trabalha-se algum conteúdo significativo, mesmo sem relação direta com o que está sendo desenvolvido. Situações de sistematização: não se relacionam a propósitos imediatos, mas sim a objetivos e conteúdos definidos para a série, pois se destinam justamente a sistematizar os conhecimentos. Periodicidade Depende dos objetivos propostos; pode equivaler a dias ou a meses. Os projetos de duração mais longa permitem planejar as etapas com os alunos e prever um tempo para cada etapa. Variável Repetem-se de forma sistemática e previsível (diária, semanal, quinzenalmente). Variável Característica básica Ter uma finalidade, compartilhada por todos os envolvidos, que se expressa em um produto final. Funcionam de forma parecida com os projetos e podem integrá-los, mas não tem um produto final pré- determinado. a marca principal dessas situações é a regularidade; por isso, propicia um contato intenso com um tipo de atividade de texto – de um autor, de um assunto etc. ocorrer de maneira eventual sem, necessariamente, estar vinculada ao que está sendo trabalhado no momento. (Continua...) 34 (...Continuação) Exemplos - coletânea de textos de um mesmo gênero textual (poemas, contos, crônicas, etc.). - Livro ou revista sobre um tema estudado. - Mural. - Cartilha sobre cuidados com a saúde. - Folheto informativo.- Cartazes de divulgação sobre eventos. - Vídeo de curiosidades do tipo: “Você sabia que...” - a partir de textos de jornal - observação de fenômenos (terrário, por exemplo) etc. - leitura feita pelo professor. - hora das curiosidades científicas. - Hora das notícias - Roda de biblioteca ou de leitores situações ocasionais: - Discussão de um tema muito abordado na mídia - Leitura de um artigo de jornal, de um poema, ou de um conto trazido por algum aluno etc.; situações de sistematização: - Refletir sobre os traços característicos e as diferenças entre crônicas e contos (nas classes em que o trabalho com esses gêneros é prioritário) - Analisar as características de diferentes textos publicados em jornais. * Discutir usos da pontuação. * Analisar regularidades ortográficas etc. 3.3 A relação entre educador e educandos Ao longo da história da educação, os papéis desempenhados por alunos e professores nos processos de ensino e aprendizagem sempre foram bem definidos e distinto. O professor era o detentor absoluto do saber, responsável pela transmissão dos conhecimentos, e o aluno, o receptor passivo daquilo que era ensinado pelo professor. Na Educação de Jovens e Adultos, essa definição de papéis passou a ser revista a partir das ideias de Paulo Freire. Na concepção freiriana, o professor passou a ser visto como alguém que ensina e também aprende. 35 Alunos e professores têm saberes distintos e, na interação, ambos aprendem. Além disso, os alunos também levam seus professores a fazer descobertas sobre as melhores maneiras de ensinar. O exemplo abaixo, fruto do relato de uma professora de Uberlândia, é um exemplo que como os alunos podem ensinar seus professores. Há algum tempo, eu queria organizar uma proposta de matemática relacionada à questão do cálculo de área. Era uma turma de terceiro ano e eu levei um problema para que calculassem a quantidade de piso que seria necessária para cobrir o piso de uma determinada cozinha. Alguns alunos tiveram dificuldade para entender o problema e, então, seu José, que era pedreiro, pediu para explicar como ele fazia quando precisava calcular a quantidade de piso a ser comprada por alguém que estava construindo ou reformando a casa. Ele foi para a lousa, fez o desenho de uma planta e mostrou que era preciso medir os dois lados e, depois, multiplicá-los. Disse, também, que piso se calcula por metro quadrado e, usando as lajotas da nossa própria sala de aula, explicou o que era um metro quadrado. Agradeci suas explicações e pedi para que, então, todos tentassem resolver o problema que iniciou o nosso trabalho. Praticamente todos os alunos me apresentaram respostas com desenhos! Naquela ocasião, eu vi que o melhor caminho para compreender e fazer cálculos de área era mesmo o desenho, e percebi que devia ter, de antemão, convidado seu José para falar sobre área antes de propor aquele problema aos alunos. (BARRETO, 2006, p. 18). O exemplo ilustra alguns aspectos relevantes da Educação de Jovens e Adultos. O primeiro é que o professor deve conhecer seus alunos, suas ocupações e seus conhecimentos prévios, para que possa vislumbrar as possibilidades de parceria em sala. Grande parte dos conteúdos a serem ensinados em sala de aula possuem uma relação direta com os saberes que muitos alunos utilizam no seu dia a dia. O segundo é que os conhecimentos construídos pelos alunos fora da sala de aula não são inferiores aos conhecimentos escolares. Sendo apenas diferentes, podem se constituir como pontos de partida ou como facilitadores para a construção de novos conhecimentos. Outro aspecto fundamental nesse contexto é que a relação entre professores e alunos deve ser dialógica. Caso a professora mineira não tivesse oportunizado a fala do Senhor José e tivesse insistido em uma relação vertical, na qual ela era a única responsável pela ação educativa, certamente, os alunos teriam mais dificuldades para entender o problema proposto. 36 3.4 A organização da Sala de Aula O estabelecimento de uma relação dialógica em sala de aula permite que ela passe a ser vista como um grupo de trabalho. Um grupo se constrói a partir da convivência e da identificação de afinidades e de traços que unem as pessoas ali reunidas, fazendo-as olhar numa mesma direção. (...) um grupo é um conjunto de pessoas movidas por necessidades semelhantes, unidas em torno de uma tarefa específica, em busca de um objetivo comum. (Ibid., p. 20). Na sala de aula, o elemento de união do grupo é a busca pelo conhecimento. Cabe ao professor fortalecer os vínculos do grupo e incentivar os alunos para que se tornem parceiros na busca pelo objetivo comum. Cabe a ele provocar e facilitar o diálogo entre os participantes do grupo, favorecer as trocas e as ajudas mútuas. A construção do grupo se dá pelo diálogo constante, pelo trabalho em equipe, pelo direito à expressão individual e pelo estabelecimento de relações de respeito e auxílio mútuo. Se na Educação de Jovens e Adultos, a semelhança quanto à origem dos sujeitos pode se constituir como um fator de aproximação entre as pessoas, a heterogeneidade etária, religiosa, de valores e de gênero pode se constituir, em um primeiro momento, como um obstáculo à formação do grupo. As resistências iniciais ao trabalho em grupo, com as diferenças, podem ser superadas desde que o professor faça as mediações adequadas para romper os preconceitos e para criar situações que favoreçam o estabelecimento de vínculos entre todos. [O professor] é aquele(a) que propõe situações que aproximam, diminuem a distância entre as idades, as crenças, os valores. É experimentando participar de um grupo que os alunos descobrem que juntos sempre é possível aprender melhor. O(a) professor(a) desempenha também um papel importante quando evidencia a potencialidade do grupo ao mesmo tempo em que garante a expressão individual. (Ibid., p. 21). Diferentes estratégias podem ser utilizadas por diferentes professores para garantir a formação de grupos de trabalho com seus alunos. Barreto (2006), indica quatro elementos que podem contribuir para essa formação, sendo eles: a organização do espaço, as rodas de conversa, os mapas do grupo e os eventos culturais. 37 ➢ A organização do espaço Uma disposição tradicional da sala de aula, com as carteiras enfileiradas e os alunos olhando para a figura do professor, não se constitui como um elemento facilitador da formação de grupos. Diferentes disposições das carteiras oferecem diferentes possibilidades de interação e imprimem um maior dinamismo ao trabalho. Carteiras dispostas em pequenos grupos permitem uma interação entre os seus componentes. O professor e a lousa deixam de ser o centro da atenção dos alunos. O professor pode transitar entre os grupos e interagir com eles. Essa disposição das carteiras pode ser utilizada na proposição de produções, conversas e discussões em pequenos grupos. As carteiras também podem ser dispostas em círculo, no qual o professor se coloca entre os alunos. Nessa disposição, as pessoas estão em um mesmo patamar, voltadas para o centro da roda, podendo olhar e se dirigir a qualquer outra pessoa, sem qualquer dificuldade. Não há um caminho único para a organização do espaço da sala de aula. Os caminhos dependem do tipo de atividade que será realizada, e podem ser decididos coletivamente. ➢ As rodas de conversa Um espaço no qual se quer incentivar a formação de um grupo deve contemplar um espaço diário para as rodas de conversa, na medida em que elas se constituem como espaços para a construção de afinidades e intimidades. Muitas são possibilidades que o professor pode explorar nas rodas de conversa: a tomada de decisões pelos alunos sobre os rumos pedagógicos do grupo; a apreciação de imagens e textos; a expressão de opiniões pessoais; a análise desituações da realidade local ou veiculadas pelas mídias, entre outras. 38 ➢ Os mapas do grupo A fim de permitir a identificação de características e interesses comuns, o professor pode propor a confecção de quadros com referências dos alunos. No quadro, elaborado individualmente, podem constar informações sobre: ano de nascimento, estado de origem, cidade natal, bairro no qual reside, estado civil, número de filhos, trabalhos realizados, expectativas de aprendizagem, sonhos a serem realizados, entre outras informações. Cada aluno deve ter a oportunidade de apresentar o seu quadro, falando de si. O professor pode criar um quadro geral, chamando a atenção para as características comuns e para os aspectos que os diferencia dos demais. A análise do quadro geral permite também a identificação dos temas de interesse do grupo, a partir dos quais, o planejamento que pode ser realizado. ➢ Os eventos culturais A escola e a sala de aula precisam oportunizar as diferentes manifestações da cultura popular pelos alunos. Ao fazê-lo, a escola permite que essa cultura seja valorizada e difundida, e que os alunos sejam valorizados. Um caminho para oportunizar essas manifestações é a proposição de “encontros culturais”, nos quais os alunos, individualmente ou em grupos, possam apresentar ou ensinar aquilo que sabem fazer e que a aprendizagem foi realizada de maneira informal, pela experiência, na interação com pessoas da sua comunidade ou da sua família. São exemplos dessas manifestações as danças populares, os repentes, as músicas de viola, as comidas regionais típicas, o artesanato e a grafitagem. 3.5 Propostas avaliativas Durante muito tempo, as práticas avaliativas estiveram voltadas para a sentenciação dos alunos e para a sua responsabilização pelos resultados obtidos. 39 Essa perspectiva de avaliação era característica do Ensino Tradicional, no qual acreditava-se que sempre que houvesse o ensino, necessariamente, ocorreria a aprendizagem. Se o professor era o detentor absoluto do saber e a ele cabia o ensino, e se a aprendizagem não ocorresse, a culpa era do aluno, considerado incapaz, desinteressado, entre outros adjetivos. Os resultados obtidos, em geral, nas provas escritas e orais, utilizadas como instrumentos de avaliação e o consequente fracasso escolar, foram responsáveis pela evasão escolar de muitos alunos jovens e adultos que voltam à escola na Educação de Jovens e Adultos. Os referenciais de aprendizagem Interacionistas e a abordagem de ensino Construtivista demonstraram que não é qualquer ensino que promove a aprendizagem. Somente o “bom” ensino a promove, e ele pode ser entendido como o ensino mais adequado aos educandos. Nessa perspectiva, a avaliação assume um outro caráter: o de instrumento necessário para a adequação do planejamento às especificidades e necessidades dos alunos. Para executar bem um plano, ou seja, fazer os ajustes necessários para que seus objetivos se cumpram, o educador deve ter uma postura avaliativa constante. Ele deve avaliar, ao longo de todo o processo, tanto a dinâmica geral do grupo, que vai lhe dar indicações quanto à necessidade de modificar as linhas gerais do plano, quanto o desempenho de cada um dos alunos, o que pode lhe indicar a necessidade de criar estratégias pontuais ou dirigidas a alunos específicos. Nessa perspectiva, não se avalia apenas o que os alunos sabem ou não fazer: está se avaliando também a proposta pedagógica e a adequação do tipo de ajuda que o professor está oferecendo a seus alunos. (RIBEIRO, 2001, p. 225). Nesse sentido, a avaliação deve ser realizada em diferentes momentos, e o professor deve utilizar diferentes instrumentos para realizá-la. Utilizar a avaliação como instrumento para a promoção da aprendizagem de todos, significa respeitar as diferenças individuais e os diferentes ritmos de aprendizagem. Os educandos da Educação de Jovens e Adultos se caracterizam por uma grande heterogeneidade etária, de saberes e de vivências. Essa característica precisa ser levada em consideração na proposição das atividades e pode significar a necessidade de que atividades distintas sejam propostas para grupos distintos de alunos. 40 Hoffmann (2003), ao abordar a avaliação com um caráter mediador e formativo, propõe que ela seja realizada em diferentes momentos, com diferentes finalidades. A outra propõe que, antes do início da abordagem de qualquer conteúdo, o professor realize uma avaliação inicial. Esta visa o levantamento dos conhecimentos prévios dos educandos, para que eles possam ser utilizados como pontos de partida para a construção de novos conhecimentos e para que o planejamento seja adequado às reais demandas do grupo. Se o professor desconsidera esses conhecimentos, ele corre dois riscos: o primeiro, de se dispor a ensinar aquilo que já é sabido pelos alunos, não promovendo novas aprendizagens; o segundo, de propor algum conteúdo que, naquele momento, os alunos ainda não têm condições de compreender, por não terem adquiridos os conhecimentos que se constituem como pré-requisitos para a aprendizagem daquele conteúdo. Feito a avaliação diagnóstica e o consequente ajuste do planejamento docente, ao longo de todo o processo de ensino de um determinado conteúdo, o professor deve lançar mão de instrumento de avaliação para uma avaliação continuada ou formativa. Realizada ao longo de todo o processo de ensino e de aprendizagem, a avaliação continuada permite, ao professor, realizar os ajustes necessários no planejamento para garantir que todos aprendam. Na análise dos resultados das avaliações, o professor deve ter a certeza de que os objetivos propostos estão sendo cumpridos. Caso não estejam, novas estratégias e propostas devem ser adotadas. No final da abordagem de um determinado conteúdo, o professor deve realizar uma avaliação final. Por ela, o professor pode ter certeza de que os objetivos propostos foram, efetivamente, atingidos. Caso não tenham sido, mesmo que por poucos ou por um aluno, o professor tem a obrigação de propor outros caminhos, para que todos aprendam. Um aspecto bem importante a ser considerado nessa perspectiva é que avaliação não é sinônimo de prova. Vários instrumentos podem ser utilizados para avaliar os alunos: produções textuais, debates, apresentação de seminários, listas de exercícios, 41 pesquisas, rodas de conversa, entre outros. A escolha do instrumento de avaliação mais adequado depende da natureza do conteúdo a ser ensinado, dos objetivos docentes e do momento em que a avaliação está sendo realizada. Cada instrumento deve ser pensado, também, em termos de critérios de avaliação, que devem ser definidos levando em consideração os objetivos propostos, as características do alunado e aquilo que é fundamental em termos de aprendizagem. Os critérios norteiam o olhar do professor durante o processo avaliativo e permitem a identificação das aprendizagens já construídas, daquelas que ainda são pretendidas e de quais caminhos seguir para que isso ocorra. Conclusão Os educandos da Educação de Jovens e Adultos chegam à escola com diferentes saberes e com diferentes histórias de vida. Essas diferenças individuais referem-se, também, à escolarização pregressa, que, em geral, foi marcada por interrupções, evasões e fracassos, que determinam uma grande insegurança em relação à escola. O aluno que chega à escola precisa ser acolhido e ter seus conhecimentos prévios valorizados, para que possa se sentir parte do processo educativo e para que possa aprender. Nesse contexto, o educador tem um papel fundamental. Cabe a ele acolher os alunos, incentivar a formação de um grupo de trabalho coeso em sala de aula e organizar o trabalho pedagógico de maneira a contemplar as diferenças e interesses de todos os envolvidos. As práticas avaliativas se constituem comoinstrumentos fundamentais para que o professor cumpra o seu papel, na medida em que permitem a identificação dos saberes já construídos e o acompanhamento da efetividade das ações desenvolvidas, permitindo o replanejamento, sempre que necessário. 42 REFERÊNCIAS BARRETO, V. Trabalhando com a Educação de Jovens e Adultos: a sala de aula como espaço de vivência e aprendizagem. Brasília: Ministério da Educação, 2006. HOFFMANN, J. Avaliação Mito & Desafio – uma perspectiva construtivista. Porto Alegre: Mediação, 2003. LAFFIN, M. H. L. F. Reciprocidade e acolhimento na educação de jovens e adultos: ações intencionais na relação com o saber. Educ. rev., Curitiba, n. 29, p. 101- 119, 2007. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0104-40602007000100008>. Acessado em 29 mar. 2020. RIBEIRO, V. M. (org.). Educação de Jovens e Adultos. Ensino Fundamental. Proposta Curricular: 1º segmento. São Paulo: Ação Educativa; Brasília: Ministério da Educação, 2001. 43 4 PROPOSTAS DE ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO PARA JOVENS E ADULTOS O problema do analfabetismo existe no Brasil desde os tempos mais remotos. Para enfrentá-lo, ao longo da história, várias iniciativas foram empreendidas, embasadas por diferentes aportes teóricos. Na década de 1980, as descobertas de Emília Ferreiro e Ana Teberosky sobre a psicogênese da Língua Escrita explicitaram a necessidade de que práticas que priorizavam a memorização e a mecanização de procedimentos fossem revistas. As pesquisas realizadas sobre a origem e o desenvolvimento da construção da escrita em crianças, jovens e adultos mostraram que os sujeitos constroem conhecimentos sobre a escrita na interação com materiais escritos, presentes no meio onde estão inseridos e que tenham real função social. Essas constatações provaram a importância de que a sala de aula deve se constituir como um ambiente alfabetizador, e que as atividades propostas sejam significativas. 4.1 História da Alfabetização de Jovens e Adultos no Brasil Segundo Di Pierro (2008), a difusão da alfabetização no Brasil ocorreu apenas no século XX, acompanhando a constituição do sistema público de ensino. Até então, as oportunidades de escolarização eram acessíveis apenas às elites proprietárias e aos homens livres, que constituíam uma minoria da população. Em 1872, o primeiro recenseamento nacional brasileiro realizado durante o Império mostrou que 82,3% da população com mais de cinco anos de idade eram analfabetas. Em 1890, após a Proclamação da República, um novo censo trouxe os mesmos índices de analfabetismo no país. No início do período republicano, a alfabetização e a instrução elementar do povo ocuparam lugar de destaque nos discursos de políticos e intelectuais, que qualificavam o analfabetismo como vergonha nacional e creditavam à alfabetização o poder da elevação moral e intelectual do país e de regeneração da massa dos pobres brancos e negros libertos, a iluminação do povo e o disciplinamento das camadas populares, consideradas incultas e incivilizadas. (DI PIERRO, 2008, p. 24-25). 44 Apesar do destaque dado à alfabetização e à instrução elementar nesse período, na prática pouco foi feito, determinando que até 1950 mais da metade da população brasileira continuasse sendo analfabeta. O analfabetismo excluía metade da população da vida política, tendo em vista que que voto só era permitido aos alfabetizados. As primeiras políticas públicas voltadas para a Educação de Jovens e Adultos foram implementadas a partir de 1947, quando foi estruturado o Serviço de Educação de Adultos do Ministério da Educação e que teve início a Campanha de Educação de Adolescentes e Adultos. Na década de 1950, outras duas campanhas foram realizadas: a Campanha Nacional de Educação Rural, em 1952 e a Campanha Nacional de Erradicação do Analfabetismo, em 1958. No final dessa década, as campanhas foram alvo de várias críticas, por conta do caráter superficial do aprendizado, que era realizado em um curto período de tempo, e da inadequação dos programas, modelos e materiais didáticos adotados, que não levavam em conta as particularidades nem do alunado, nem do contexto no qual a ação educativa estava sendo realizada. No início dos anos 1960, a alfabetização de adultos recebeu olhares mais atentos, na medida em que foi incorporada às estratégias de ampliação das bases eleitorais e de sustentação política das reformas que o governo pretendia realizar. Esse cenário criou condições para que novas práticas de alfabetização fossem criadas e implantadas, inspirada, sobretudo, pelas ideias de Paulo Freire. As iniciativas foram interrompidas pelo Golpe Militar de 1964, que levou Paulo Freire e outros adeptos de uma educação problematizadora para a prisão e para o exílio. Durante a Ditadura, o Governo Militar adotou um modelo de educação neutro, visando a manutenção da coesão social e a legitimação do regime autoritário. Com esse intuito, em 1971 foi criado o Movimento Brasileiro de Alfabetização (MOBRAL), com a promessa de erradicar o analfabetismo. A promessa não foi cumprida e, em 1985, com a redemocratização do país, o MOBRAL foi extinto e substituído pela Fundação Educar. 45 Em 1988, a Constituição Federal restituiu o direito de voto aos analfabetos e concedeu aos jovens e adultos o direito à educação pública e gratuita, em nível de Ensino Fundamental, além de comprometer os governos com a superação do analfabetismo e com a provisão do ensino elementar para todos. As políticas educacionais da década de 1990 não foram condizentes com o que estava proposto na Constituição Federal de 1988, na medida em que priorizaram a universalização do acesso de crianças e adolescentes ao Ensino Fundamental, em detrimento do acesso de jovens e adultos. Por conta das questões educacionais de jovens e adultos serem relegadas a segundo plano, em 1990, a Fundação Educar foi extinta e a alfabetização de jovens e adultos descentralizada para os municípios ou delegadas às organizações sociais. Nos anos 2000, a alfabetização de jovens e adultos voltou a ser contemplada na agenda das políticas públicas nacionais, com o lançamento de programas como o Programa Brasil Alfabetizado em 2003, e com a progressiva inclusão da modalidade no Fundo de Financiamento da Educação Básica (FUNDEB) em 2007. Ainda hoje, o país ainda precisa vencer grandes desafios no que se refere à alfabetização de jovens e adultos, tendo em vista que, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística em 2018, cerca de 6,3% dos brasileiros com 15 anos ou mais, se encontravam na condição de analfabetos. 4.2 As contribuições de Emília Ferreiro e Ana Teberosky Embora os estudos sobre a construção da escrita de Emília Ferreiro e Ana Teberosky tenham ficado mais conhecidos em referências às escritas infantis, as autoras também se dedicaram ao estudo da psicogênese da Língua Escrita em jovens e adultos. Ao demonstrarem, por meio de suas pesquisas, que os indivíduos não alfabetizados constroem conhecimentos sobre a escrita e que nessa construção elaboram diferentes hipóteses, as autoras mostraram que era preciso rever as práticas de alfabetização baseadas na memorização e na mecanização de procedimentos, oportunizando a interação com materiais escritos diversos e boas situações de reflexão sobre a escrita. 46 Segundo Ferreira et al. (2013), Emília Ferreiro, ao realizar pesquisas com jovens e adultos não alfabetizados, observou diferenças e semelhanças entre as concepções de escrita apresentadas e as concepções infantis. Uma das principais diferenças apresentadas diz respeito à amplitude dos conhecimentos que os jovens e adultos têm sobre o sistema de escrita. Mesmo sem saber ler e escrever, os indivíduos jovens e adultos estão há mais tempo inseridos em uma sociedade letrada, ou seja, usuária da leitura eda escrita. Por estarem há mais tempo inseridos em situações tanto da vida cotidiana como da vida profissional, nas quais interagem com materiais escritos, esses indivíduos apresentam maior compreensão dos usos e funções sociais da língua. Além da inserção na sociedade letrada, essas pessoas são submetidas a várias situações nas quais a interação com a leitura e a escrita são demandas, tais como identificar qual ônibus tomar, identificar produtos nas prateleiras dos supermercados ou fazer uma máquina funcionar. Justamente por já terem um maior conhecimento das funções sociais da escrita e do que ela representa, esses indivíduos apresentam uma maior resistência em escrever, de acordo com os conhecimentos que já possuem. Essa resistência decorre da consciência de que não sabem escrever da maneira convencional e de que há um “jeito certo” de realizar registros escritos. A resistência também decorre da vergonha de não saber escrever “da maneira correta”. Em uma sociedade na qual a leitura e a escrita são muito valorizadas, ser analfabeto é uma situação vexatória. Outras constatações pontuadas por Ferreiro (1983 apud FERREIRA et al., 2013), em relação à construção da escrita pelos indivíduos jovens e adultos, são: • a hipótese icônica, ou seja, aquela na qual o registro é realizado por meio de desenhos, é muito incomum entre os jovens e adultos, uma vez que eles já têm consciência da existência da escrita como uma forma de registro; 47 • quando se encontram na hipótese pré-silábica, os jovens e adultos não costumam utilizar números ou pseudo-letras (caracteres que buscam reproduzir letras, assemelhando-se a elas). A utilização desses caracteres é comumente observada nas grafias infantis; • na escrita silábica, os conflitos vivenciados pelos alunos são os mesmos das crianças, no que diz respeito à exigência de uma quantidade mínima de letras e à não repetição de letras sequenciadas; • assim como as crianças, os jovens e adultos chegam à hipótese alfabética pela superação da hipótese silábica, quando se dão conta de que é necessário usar duas letras ou mais, para o registro de cada sílaba; • apenas após a compreensão do sistema de escrita e a aquisição da escrita alfabética é que os adultos têm condições de começar a enfrentar os problemas ortográficos da língua. Ainda de acordo com Ferreiro (FERREIRA et al., 2013) assim como para as crianças, a construção da escrita demanda, para os adultos, um grande esforço cognitivo. Por isso, o processo de alfabetização requer a mobilização das capacidades cognitivas do sujeito e a sua reflexão sobre a língua, para compreender o que a escrita representa e como realizar essa representação. A percepção de que há pontos de semelhança entre a construção da escrita realizada por crianças e adultos não significa, de modo algum, que as práticas de alfabetização desenvolvidas na Educação de Jovens e Adultos deve infantilizar os educandos. É preciso levar em consideração toda a bagagem histórica que os sujeitos adultos detêm, suas vivências com a língua escrita e “conhecer o adulto do ponto de vista intelectual, para desenvolver uma atitude de respeito com o adulto. (...) Ao mesmo tempo, não se pode considerar que esse sujeito, por ser adulto, deva construir suas hipóteses sobre a escrita sozinho, sem uma intervenção consequente do professor. (FERREIRA et al., 2013, p. 183). As propostas para a alfabetização de jovens e adultos devem respeitar as especificidades etárias dos alunos e contemplar a utilização de textos diversos, com função social real, para se estreitar a relação entre a cultura escrita e a cultura escolar, promovendo uma significativa aprendizagem. 48 Isso significa que as práticas desenvolvidas na EJA devem instrumentalizar os sujeitos, para que utilizem as habilidades de leitura e escrita em todas as situações nas quais elas se fizerem necessárias. Em outras palavras, a escola não deve formar apenas sujeitos que tenham domínio das técnicas de codificação e de decodificação, pois eles devem ser usuários competentes da leitura e da escrita, sentindo prazer nessa utilização. O sujeito que volta à escola, ou que nela se insere pela primeira vez, o faz porque sente que em uma sociedade letrada a leitura e a escrita são de grande importância. Para esses sujeitos, juntar as letras de palavras simples ou realizar a leitura de frases que só tem existência no contexto escolar não é suficiente para o exercício pleno da cidadania. Para que eles tenham seus direitos garantidos, a escola precisa “alfabetizar letrando”. 4.3 A sondagem Originalmente, a sondagem foi criada por Emília Ferreiro como um instrumento metodológico de sua pesquisa sobre a Psicogênese da Língua Escrita, para a verificação ou refutação das hipóteses que pautaram suas investigações. No contexto escolar, a sondagem de escrita passou a ser utilizada como um instrumento de avaliação diagnóstica, ou seja, de identificação dos conhecimentos que os indivíduos já construíram sobre a escrita. A realização da sondagem permite ao professor a identificação das hipóteses de escrita que os alunos não alfabetizados possuem sobre a escrita alfabética, para que possa planejar boas intervenções capazes de promover avanços no processo de construção da escrita. A sondagem é uma atividade de escrita espontânea, durante a qual são ditadas aos alunos algumas palavras e uma frase, que eles não podem conhecer de memória, e para a qual não devem ter qualquer tipo de apoio nem de outras fontes escritas, nem do aplicador. Há todo um protocolo a ser seguido, para que a sondagem se constitua, efetivamente, como um instrumento de avaliação diagnóstica dos conhecimentos dos alunos. Esse protocolo consiste na observação de alguns aspectos, a saber que: 49 • a sondagem precisa ser realizada individualmente, em que cada aluno deve ser chamado à mesa do professor, enquanto os demais estão envolvidos com outras atividades; • a sondagem deve ser sempre realizada em uma folha de papel sulfite, inteira, sem pautas ou desenhos; • ela deve ser realizada a lápis e deve-se pedir que o aluno não apague aquilo que ele venha a considerar como erro, sendo que ele deve ser incentivado a escrever em outro lugar (a manutenção do “erro” permite ao professor a análise do percurso de registro do aluno); • devem ser ditadas, pelo menos quatro palavras, com diferentes números de sílabas e uma frase, na qual deverá constar uma das palavras ditadas; • as palavras precisam ser ditadas, necessariamente, da maior para a menor e depois a frase. Assim, o professor irá ditar as palavras na seguinte ordem: a polissílaba, a trissílaba, a dissílaba, a monossílaba e a frase.; • as palavras ditadas devem fazer parte do universo vocabular dos alunos, mas elas não podem já ter sido trabalhadas pelo professor ou terem sido memorizadas pelos alunos; • as palavras ditadas devem fazer parte do mesmo campo semântico. Por exemplo, podemos realizar uma sondagem com palavras referentes a nomes de animais. Nesse caso, poderiam ser ditadas as seguintes palavras: - Hipopótamo - jabuti - gato - rã E a frase poderia ser: Eu tenho um gato preto. Se quiséssemos realizar uma sondagem com nomes de alimentos que consumimos na hora do lanche, poderíamos ditar: 50 - mortadela; - presunto; - queijo; - pão. E a frase poderia ser: Ontem eu comi presunto. • as palavras e frases devem ser ditadas naturalmente, sem qualquer tipo de artificialização da fala ou silabação das palavras; • a leitura pelo aluno deve ser feita imediatamente após a grafia de cada uma das palavras. É importante que seja pedido a ele que aponte, com o lápis ou com o dedo, o que está sendo lido. Como o que está se pretendendo é a identificação dos saberes já construídos pelos alunos, não há escrita “errada”. Sendo assim, o professor não podemanifestar, de modo algum, qualquer forma de desaprovação do registro apresentado. Ele não pode, também, fazer qualquer tipo de anotação na folha na qual o aluno está realizando a sondagem. É interessante que o professor faça anotações sobre as falas dos alunos durante a sondagem, sua forma de registro ou, sobre a realização da leitura, em uma folha à parte, para que possa retomar as anotações posteriormente e utilizá-las como subsídios para o planejamento de boas intervenções. A realização de sondagens de escrita não pode ser um procedimento burocrático, ou protocolar no sentido de ser realizada como uma exigência da equipe gestora da escola e não ser utilizada como instrumento para a aprendizagem dos alunos. Uma vez analisadas as sondagens e identificadas as hipóteses de escrita dos alunos, cabe ao professor propor atividades que desestabilize as hipóteses apresentadas, promovendo avanços no processo de construção da escrita. Isso significa pensar em atividades distintas para os alunos que apresentam as diferentes hipóteses, para que as atividades não sejam desmotivadoras nem para aqueles que já sabem mais e podem achá-las óbvias, nem para aqueles que se encontram nas hipóteses iniciais e podem ainda não compreender atividades que demandem conhecimentos mais complexos. Significa, também, utilizá-las para o planejamento das atividades em grupo (duplas, 51 trios), nas quais alunos com diferentes saberes trabalhando juntos, cognitivamente, podem promover avanços na construção de conhecimentos uns dos outros. Esse tipo de agrupamento, pensado a partir dos saberes dos alunos, é chamado de agrupamento produtivo. 4.4 Ambiente Alfabetizador A Psicogênese da Língua Escrita, descrita por Emília Ferreiro, mostrou que os indivíduos não alfabetizados constroem conhecimentos sobre a escrita na interação com materiais escritos que tenham função social real. Quando nos referimos aos jovens e adultos não alfabetizados que retornam à escola, estamos nos referindo a indivíduos que têm contato com elementos da cultura escrita (rótulos, placas de ruas, letreiros de ônibus, folhetos de supermercado), por estarem inseridos em uma sociedade letrada, mas sem um fácil acesso a outros tipos de textos como livros, jornais e revistas. Cabe então ao educador da EJA oportunizar a esses alunos a interação com diferentes materiais escritos, na sala de aula. Em outras palavras, o professor precisa fazer da sala de aula um “ambiente alfabetizador”. Um ambiente alfabetizador na sala de aula pode se constituir como um facilitador da alfabetização, na medida em que estimula as práticas de leitura e de escrita. Entende-se como ambiente alfabetizador, o ambiente “...em que a linguagem escrita está presente com sentido, significado e função social” (MORAES, 2008, p. 6). As propriedades que um ambiente rico em cultura escrita deve ter podem resumir-se nas seguintes categorias: 1. Inventário dos portadores e suportes escritos. 2. Tipos de linguagem escrita. 3. Localização e disponibilidade de material na sala de aula. 4. Qualidade do material (....) 5. Tempo de exposição do material. (TAYLOR et al., 1986 apud TEBEROSKY e COLOMER, 2003, p. 106). 52 ➢ Inventário dos portadores e suportes escritos O inventário dos portadores e suportes escritos se refere à escolha dos materiais mais apropriados para criar um ambiente rico em cultura escrita, levando-se em consideração às especificidades do aluno da Educação de Jovens e Adultos. É importante que sejam disponibilizados textos significativos aos alunos, e que contemplem os diferentes tipos (escritos da vida cotidiana, produtos comerciais, impressos administrativos e suportes impressos como livros, jornais e revistas, entre outros). Segundo Teberosky e Colomer (2003), os textos da vida cotidiana podem ser classificados em escritos domésticos, escritos urbanos e escritos das máquinas interativas. No quadro abaixo, você irá encontrar alguns exemplos desses diferentes tipos de textos, que o professor pode utilizar para constituir um ambiente alfabetizador. Tabela 4.1 – Exemplos de portadores textuais da vida cotidiana. Escritos urbanos Escritos domésticos Escritos de máquinas interativas. Exemplos • Pôsteres; • Cartazes; • Painéis; • Textos comemorativos; • Folhetos. • Rótulos; • Signos; • Marcas e logotipos presentes em embalagens. • Telefone público; • Celular; • Caixas automáticos; • Máquinas de venda de bilhetes de ônibus/metrô/trem. ➢ Tipos de linguagem escrita Diferentes tipos de linguagem escrita devem estar presentes na sala de aula. Além de explorar os textos da vida cotidiana, o professor também deve disponibilizar os suportes próprios do mundo da escrita: livros, jornais, revistas, gibis, entre outros. 53 Um exemplo de linguagem escrita que pode estar presente nas classes da EJA é o jornal. O professor pode deixar disponível na sala e combinar com os alunos que, sempre que chegarem, devem ler as manchetes. No início da aula, o professor pode fazer perguntas do tipo: que manchete mais chamou a atenção de vocês hoje? Você sabe do que ela está tratando? Com isso, os alunos serão incentivados a realizar a leitura diária de jornais. Um gênero textual bastante familiar aos alunos migrantes da Educação de Jovens e Adultos é o cordel. O professor pode fazer um varal de cordéis na sala de aula e incentivar os alunos para que realizem a leitura e que, se quiserem, produzam os seu próprios cordéis e os coloquem no varal. ➢ Localização e disponibilidade de material na sala de aula A localização e a disponibilidade dos materiais em sala de aula devem ser planejadas para que garantam o acesso dos alunos a eles. Esse planejamento garante que o material faça parte, integralmente, do projeto de ensino em uma classe. Retomando o exemplo do jornal, o professor pode criar um “porta jornal” (uma caixa, um suporte de parede, um gancho com uma sacola), que fique bem próximo à porta, para que quando os alunos chegarem na classe, já se lembrem de pegar o jornal para a leitura. É interessante, também, criar uma “biblioteca da sala”, com livros que poderão ser lidos nos momentos em que o aluno terminar uma atividade ou emprestar para a leitura em casa ou no transporte público. ➢ Qualidade do material para os jovens e adultos Cabe ao professor o desenvolvimento de critérios de seleção dos livros e dos materiais a serem disponibilizados, para que, efetivamente, possam despertar o interesse dos jovens e adultos. O desenvolvimento desses critérios deve levar em consideração as características etárias e culturais dos alunos. Não é incomum o professor acreditar que novos leitores precisam de livros com poucas palavras e muitas figuras, e trazer para a sala de aula materiais escritos voltados para o público infantil. Jornais, revistas, receitas culinárias e rótulos de produtos são exemplos 54 de texto que fazem parte do dia-a-dia dos jovens e adultos da EJA, e que, por suas características, facilitam a leitura daqueles que ainda não sabem ler convencionalmente, sem perder a qualidade. ➢ Tempo de exposição do material Os materiais expostos em uma sala de aula devem estar relacionados com as atividades que estão sendo desenvolvidas na classe. Sendo assim, as mudanças dos materiais disponibilizados são indicadores da sucessão e da duração das atividades. Se os materiais disponibilizados no período permanecem por todo o ano letivo, ele deixa de assumir seu papel na aprendizagem da leitura e da escrita e passa a ter um papel decorativo. Por exemplo, durante o primeiro mês de aula, o professor trabalha, semanalmente, com o gênero textual poesia, fixa as poesias lidas em um mural e coloca, em uma lista nesse mesmo mural, o nome das poesias lidas. A cada mês, um gênero textual novo é trabalhado. Se as poesias do primeiro mêscontinuam afixadas no mural, elas deixam de ter qualquer vinculação com a atividade que está sendo desenvolvida no momento. 4.5 Sugestões e Propostas de Atividades Quando pensamos na alfabetização de jovens e adultos, costumamos pensar na leitura e na escrita, como eixos do trabalho a ser desenvolvido. Além desses dois eixos, as práticas alfabetizadoras devem contemplar também a oralidade. ➢ Oralidade A linguagem oral é um meio linguístico primordial dos seres humanos, na medida em permite a comunicação entre os participantes de uma mesma cultura. Os modos de falar de jovens e adultos analfabetos ou pouco escolarizados se constituem como a expressão mais forte de sua bagagem cultural e de suas experiências de vida. Dentre esses indivíduos, podemos encontrar aqueles que têm um domínio excepcional da expressão oral, como os contadores de história, os repentistas, os poetas e os líderes populares. Também entre eles podemos encontrar aqueles que já foram discriminados por não se comunicarem utilizando a variação linguística mais privilegiada socialmente. 55 Nas turmas da Educação de Jovens e Adultos, encontramos uma grande variedade linguística e de sotaques, expressões de diferentes regiões do país, típicas das diferentes gerações e modismos de programas televisivos. Durante muito tempo, essa variedade linguística foi vista como um impedimento à aprendizagem, sendo necessário homogeneizar as falas para que a aprendizagem ocorresse. Estudos mostraram a riqueza dessa diversidade e a inadequação de coibi-la. Nesse sentido, o trabalho pedagógico deve acolher a diversidade e oportunizar aos educandos a ampliação de suas formas de expressão, possibilitando-lhes adequar as falas aos contextos nos quais elas ocorrerão. Para isso, é necessário que o educador crie condições para que os educandos falam e ouçam, reelaborem argumentos a partir de novas informações, construam novos conceitos, incorporem novas palavras e significados. O papel do educador é de desinibir, perguntar e comentar, incentivando os alunos a que participarem das situações comunicativas propostas. ➢ Escrita O sujeito que busca a escola na juventude ou na idade adulta, ou, que a ela regressa, deseja aprender a ler e a escrever para que possa utilizar essas habilidades nos mais variados contextos sociais e profissionais. Sendo assim, a escrita desejada não é sinônimo de capacidade de transformar fonemas em grafemas, mas, sim, de produzir textos diversos. O objetivo central do trabalho pedagógico deve ser formar bons leitores e produtores de textos, que “saibam apreciar suas qualidades, encontrar e compreender informações escritas, expressar-se de forma clara e adequada à intenção comunicativa” (RIBEIRO, 2001, p. 54). Sendo assim, é essencial que o professor proponha atividades que envolvam a leitura e a produção de textos, para que esse objetivo seja alcançado. Para aprender a escrever, é fundamental que os alunos escrevam, da mesma forma para aprender a ler, precisam realizar leituras. 56 A escrita de listas, bilhetes, cartas, e-mails e o preenchimento de formulários de emprego ou de dados médicos, são situações que fazem parte da vida dos educandos jovens e adultos e que podem estar presentes nas práticas de sala de aula. ➢ Leitura Se escrever não é sinônimo de transformar fonemas em grafemas, ler também não é sinônimo de decodificar os grafemas, transformando-os em fonemas. O educando da EJA precisa aprender a ler ou aperfeiçoar suas habilidades de leitura, para que possa dar conta das situações cotidianas e profissionais nas quais a leitura é requerida. Nesse sentido, o trabalho com a leitura deve se estruturar, desde o início do processo educativo, em torno de textos. Com as turmas iniciantes, podem ser utilizados textos mais curtos e simples, como listas, folhetos, cartazes, bilhetes, receitas, poesias, piadas, manchetes de jornal, cartas e pequenas histórias. Quanto maior o domínio do sistema de representação, maiores as possibilidades de ler e escrever textos mais longos e complexos, ampliar os recursos utilizados, aprofundar as análises das características linguísticas de cada um. (RIBEIRO, 2001, p. 55). Para se tornarem leitores fluentes, os educandos precisarão, desde o início, da ajuda do professor. Uma estratégia fundamental para a formação leitores é a leitura diária de bons textos realizada pelo professor, em voz alta. Ao ler, o professor amplia o repertório vocabular dos alunos, oportuniza o estabelecimento de uma relação prazerosa com a leitura e o vínculo com os portadores textuais, bem como ensina comportamentos leitores. A escolha de bons textos deve levar em consideração as possibilidades de atribuição de significado ao texto lido e às particularidades do grupo para o qual se está lendo. É importante não infantilizar os alunos com textos voltados para o público infantil e não subestimá-los, no sentido de oferecer textos muito simples ou “pobres”, em termos linguísticos, para que eles não sejam desestimulados a ler. 57 Conclusão O analfabetismo no Brasil tem se constituído como um problema a ser enfrentado, desde o Império até os dias atuais. Na busca por resolvê-lo, ao longo da história da educação brasileira, várias iniciativas foram empreendidas, sobretudo, a partir da década de 1950. Os anos 1960 se constituíram como um marco para a alfabetização de jovens e adultos no país, em decorrência da difusão das ideias de Paulo Freire. Ele atribuiu à alfabetização um caráter político, como instrumentos de transformação social. Para que ela pudesse cumprir seu papel, Paulo Freire criou um método de alfabetização que partia da realidade do aluno e que problematizava essa realidade, visando conscientizá-lo e instrumentalizá-lo para a busca de meios para a promoção das mudanças necessárias. As iniciativas educativas mais críticas foram interrompidas pelo Governo Militar e voltaram a ser desenvolvidas após a redemocratização do país. Na mesma época, aportes teóricos da Psicogênese da Língua Escrita começaram a provocar a revisão das práticas alfabetizadoras, ao demonstrarem que os sujeitos constroem conhecimentos sobre a escrita na interação com materiais escritos disponíveis em seu meio e que tenham função social real. As pesquisas realizadas por Ferreiro e Teberosky mostraram que os sujeitos passam por diferentes etapas na construção da escrita e que cabe ao professor identificá-las, para que possa propor as intervenções adequadas para desestabilizar as hipóteses construídas, promovendo avanços em direção à escrita alfabética. A identificação dos conhecimentos já construídos é feita por meio da realização de sondagens de escrita. Os aportes teóricos da psicogênese da língua escrita também embasaram a necessidade de que a sala de aula se constituísse como um ambiente alfabetizador e que as práticas educativas voltadas para a leitura, para a escrita e para a oralidade fossem significativas e vinculadas à realidade dos educandos. 58 REFERÊNCIAS DI PIERRO, M. C. (Coord.). Alfabetização de jovens e adultos no Brasil: lições da prática. Brasília: UNESCO, 2008. FERREIRA, A. T. B. et al. Práticas dos professores alfabetizadores da EJA: o que fazem os professores, o que pensam os seus alunos? Educ. rev., Belo Horizonte, v. 29, n. 3, p. 177-198, set. 2013. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0102- 46982013000300008>. Acessado em: 20 mar. 2020. MORAES, F. Ambiente Alfabetizador. IN: Letra A: o jornal alfabetizador. Belo Horizonte, março/abril de 2008. Ano 4. Número 13. RIBEIRO, V. M. (org.). Educação de Jovens e Adultos. Ensino Fundamental. Proposta Curricular: 1º segmento. São Paulo: Ação Educativa. Brasília: Ministério da Educação, 2001. TEBEROSKY, A.; COLOMER, T. Aprender a ler e a escrever: uma proposta construtivista. Porto Alegre: Artmed, 2003.59 5 LETRAMENTO NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS Quando pensamos na Educação de Jovens e Adultos, em geral, pensamos nos índices de analfabetismo em nosso país, que, embora venham diminuindo, ainda são bastante expressivos. De acordo com o Instituto de Geografia e Estatística (IBGE), em 2018, cerca de 6,8% da população brasileira era constituída por pessoas analfabetas, com 15 anos ou mais de idade, o que equivale a 11,3 milhões de pessoas. Para termos uma ideia dessa quantidade, ele é quase equivalente à população da cidade de São Paulo, que tem por volta de 12, 2 milhões de pessoas. Por si só, o enfrentamento do problema do analfabetismo já se constitui como um grande desafio para a educação brasileira. Contudo, para além deste, há um número considerável de brasileiros que são considerados iletrados, ou seja, incapazes de utilizar a leitura e a escrita para o enfrentamento das demandas sociais cotidianas. 5.1 O que é Letramento? Estudos e pesquisas que vem sendo realizados sobre as mudanças sociais ao longo da história e as demandas de leitura e escrita demonstraram que há uma estreita relação entre elas. Na medida em que a sociedade se transforma, novas demandas de leitura e escrita são impostas aos indivíduos. Nesse cenário, o domínio da tecnologia do ler e do escrever deixam de ser suficientes para a inserção plena dos indivíduos na sociedade, demandando a atualização e a extensão progressiva do conceito de alfabetização. A preocupação com o domínio das técnicas de codificação e de decodificação foi central nas práticas de alfabetização, até os anos 1980. Até então, era considerado alfabetizado o indivíduo que soubesse transformar todos os fonemas em grafemas (codificar) e todos os grafemas em fonemas (decodificar). No início dos anos 1980, dois fatores contribuíram para a revisão das práticas de alfabetização no nosso país: as contribuições da Psicogênese da Língua Escrita, que mostraram a inadequação das práticas cartilhescas para a formação de sujeitos 60 competentes no uso da leitura e da escrita; e a constatação de que o domínio das técnicas não era suficiente para habilitar os sujeitos para o uso das habilidades de leitura e de escrita em situações diversas. Intensifica-se, então, a discussão sobre o conceito de letramento, entendido como a capacidade de uso da leitura e da escrita para responder às demandas da sociedade. Nessa perspectiva, ser letrado significa apropriar-se da leitura e da escrita para satisfazer seus desejos e suas necessidades e ser capaz de envolver-se nas práticas sociais de leitura e de escrita. O conceito de Letramento foi amplamente difundido pela pesquisadora Magda Soares, da Universidade Federal de Minas Gerais. Segundo a autora, Letramento é palavra e conceito recentes (...). Seu surgimento pode ser interpretado como decorrência da necessidade de configurar e nomear comportamentos e práticas sociais na área da leitura e da escrita que ultrapassem o domínio do sistema alfabético e ortográfico, nível de aprendizagem da língua escrita perseguido, tradicionalmente, pelo processo de alfabetização. Esses comportamentos e práticas sociais de leitura e de escrita foram adquirindo visibilidade e importância à medida que a vida social e as atividades profissionais tornaram-se cada vez mais centradas na e dependentes da língua escrita, revelando a insuficiência de apenas alfabetizar – no sentido tradicional – a criança ou o adulto. (SOARES, 2004, p. 96-97). Segundo Soares (2004), o movimento de ampliação do conceito de alfabetização começou pela adjetivação da palavra. Começou-se a falar de “alfabetização funcional”. A mudança na terminologia utilizada mostrou-se insuficiente para a revisão das práticas educativas. Nesse sentido, deu-se início ao uso da palavra “letramento”, como sendo “consequência da necessidade de destacar e claramente configurar, nomeando-os, comportamentos e práticas de uso do sistema de escrita, em situações sociais em que a leitura e/ ou a escrita estejam envolvidas” (Ibid., p. 97). Emília Ferreiro já afirmou, em algumas entrevistas, que não há a necessidade de utilização de dois termos distintos (alfabetização e letramento), uma vez que não há alfabetização se não houver, necessariamente, a inserção dos indivíduos na cultura letrada. Em outras palavras, a autora adota uma perspectiva na qual se aprende a ler, lendo e a escrever, escrevendo, na interação com materiais escritos que tenham função social real. 61 Não haveria a necessidade dos dois termos, caso as práticas voltadas para o uso social da leitura e da escrita já tivessem sido incorporadas pela escola. No entanto, nem sempre isso ocorre. É fundamental que a escola “alfabetize letrando”, ou seja, que possa integrar e articular os processos de alfabetização e de letramento na aprendizagem inicial da língua escrita, fazendo com que eles sejam indissociáveis, simultâneos e interdependentes. De acordo com Soares (2004), os indivíduos, ao se alfabetizarem devem construir o conhecimento do sistema alfabético e ortográfico da língua escrita, em situações de letramento, ou seja, no contexto e por meio da interação com material escrito real e de sua participação em práticas sociais de leitura e de escrita. Além disso, nessa perspectiva, enquanto se alfabetiza, o indivíduo desenvolve habilidades e comportamentos de uso de uso competente da língua escrita nas práticas sociais que a envolvem no contexto do, por meio do e em dependência do processo de aquisição do sistema alfabético e ortográfico da escrita. (Ibid., p. 100). 5.2 A importância do Letramento na EJA Os jovens e adultos que retornam à escola o fazem porque precisam da leitura e da escrita para que possam se inserir no mercado de trabalho, ou para que consigam ocupar cargos nos quais essas habilidades são exigidas. Se para as crianças as práticas de alfabetização, entendida como domínio das técnicas de codificação e decodificação, não são suficientes para que elas se tornem usuárias competentes da leitura e da escrita, essa abordagem se torna ainda mais inadequada para os jovens e adultos que já estão ou querem estar inseridos no mundo do trabalho e que enfrentam maior desafios em relação à escrita, em situações cotidianas. A importância do letramento na Educação de Jovens e Adultos é reforçada pelos dados do analfabetismo funcional em nosso país. O Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional (INAF), realizado pelo Instituto Paulo Montenegro em parceria com a Organização Não-governamental Ação Educativa, desde 2001, se constitui como um estudo para medir os níveis de Alfabetismo da população brasileira, entre 15 e 64 anos de idade. 62 Ao analisar os níveis de Alfabetismo no país, o Inaf busca contribuir para a defesa dos direitos educativos dos brasileiros incidindo na agenda acerca do desenvolvimento educacional do país. Assim, coloca em debate o próprio significado de analfabetismo, que não pode se restringir a uma visão binária de alfabetizado x não-alfabetizado e sim de um processo gradativo de aquisição e consolidação de habilidades. Os instrumentos utilizados na coleta de dados do Inaf procuram abarcar a complexidade do fenômeno tanto na dimensão das habilidades cognitivas quanto das práticas sociais nos diversos contextos de vivência dos jovens e adultos entre 15 e 64 anos. (LIMA e JÚNIOR, 2018, p. 4). Para o INAF, alfabetismo é entendido como a capacidade de compreender e utilizar a informação escrita e refletir sobre ela, um contínuo que abrange desde o simples reconhecimento de elementos da linguagem escrita e dos números até operações cognitivas mais complexas, que envolvem a integração de informações textuais e dessas com conhecimentos e as visões de mundo aportados pelo leitor. (Ibid.). O INAF aponta, ainda, dois domínios do alfabetismo, sendo o primeiro referente às capacidades de processamentode informações verbais, que envolvem conexões lógicas e narrativas (letramento) e às capacidades de processamento de informações quantitativas, que envolvem noções e operações matemáticas (Numeramento). Os resultados preliminares de 2018 mostraram que cerca de 3 em cada 10 brasileiros são analfabetos funcionais, ou seja, têm muita dificuldade para fazer uso e leitura da escrita e das operações matemáticas em situações simples da vida cotidiana, como reconhecer informações em um cartaz ou folheto, ou, ainda, fazer operações aritméticas simples com valores de grandeza superiores às centenas. Há uma parcela significativa de analfabetos funcionais que passaram pela escola e, ainda assim, não conseguem utilizar os conhecimentos adquiridos para o enfrentamento das situações com as quais se deparam no dia-a-dia. Para assegurar aos educandos da Educação de Jovens e Adultos o direito ao exercício pleno da cidadania, alfabetização e letramento, devem ocorrer simultaneamente nas práticas pedagógicas. Isso significa que as práticas pedagógicas devem oportunizar aos educandos jovens e adultos: a apropriação das especificidades da alfabetização, em termos da estrutura da Língua; e do letramento, em termos de seus usos sociais, em um contexto que envolva a leitura, a escrita e a produção textual, com gêneros textuais significativos e de uso social real. 63 Adotar práticas de alfabetização que se restrinjam à memorização e à mecanização de procedimentos, limita o acesso dos educandos da EJA à produção cultural e à inserção em práticas sociais de leitura e de escrita. Segundo Vóvio (2009), as práticas de alfabetização não podem ser centradas apenas no ato de ler para aprender a ler e, no escrever, para aprender a escrever. Elas devem oportunizar aos educandos o desenvolvimento de habilidades, para que eles possam se inserir, de maneira autônoma, em práticas de leitura, interpretação e produção de textos. Para que isso ocorra, é preciso que as práticas pedagógicas “alfabetizem letrando”, ou seja, ao mesmo tempo em que as dimensões específicas estão sendo trabalhadas, os usos sociais do ler e do escrever também estão. Nas palavras de Albuquerque e Leal (2006, p. 153), alfabetizar letrando significa “ensinar a ler e escrever no contexto dos usos da leitura e da escrita de textos”. Isso é fundamental para a promoção de uma educação de qualidade para jovens e adultos, além de garantir a permanência deles na escola. 5.3 As práticas de Letramento na EJA Os educandos da EJA se deparam, cotidianamente, com situações nas quais precisam interagir com gêneros textuais diversos, como quando precisam ler a bula de um remédio, seguir uma receita culinária, registrar os produtos que precisam ser comprados no supermercado. A aquisição das habilidades de leitura e de escrita, na escola, deve formar sujeitos competentes para o enfrentamento dessas e outras situações, nas quais a interação com os gêneros textuais diversos se faz necessária. Nesse sentido, a promoção do letramento na Educação de Jovens e Adultos deve proporcionar, na sala de aula, a interação com gêneros textuais diversos e a reflexão sobre a língua e seus usos a partir deles. A presença dos gêneros textuais na sala de aula envolve os alunos em práticas de linguagem diversificadas e significativas. 64 Tendo por objetivo oportunizar, em sala de aula, práticas de linguagem diversificadas e significativas, o trabalho com gêneros textuais assume um lugar privilegiado. Assim sendo, bilhetes, poemas, legislações, e-mails, requerimentos, piadas, histórias em quadrinhos, contos, diários etc. devem estar presentes nas práticas educativas. O trabalho com gêneros textuais diversos permite a abordagem das características e estilos próprios de cada gênero, dos modos específicos de produção, circulação e recepção, além das implicações ideológicas particulares. Segundo Mendonça (2008), é preciso lembrar que não basta trazer os gêneros textuais para a sala de aula para que haja a promoção do letramento. Para que isso ocorra, o docente precisa realizar as intervenções necessárias. Entende-se por boas intervenções a criação de oportunidades para que os educandos reflitam sobre como se constituem os diversos gêneros, levando em consideração desde aspectos mais amplos, como os contextos nos quais são produzidas as notícias e os critérios para que determinados fatos sejam passíveis de serem noticiados, até aspectos mais pontuais, como a intencionalidade no uso de determinados tempos verbais nas manchetes das notícias. Para desenvolver um trabalho com os gêneros textuais nos vários eixos de ensino, acreditamos que as práticas de leitura/escrita na escola devem ultrapassar a identificação da informação óbvia, explorando-se estratégias de levantamento e checagem de hipóteses, inferências, comparações, sínteses e extrapolações, dentre outras. O desenvolvimento dessas capacidades serve à compreensão de qualquer texto, em qualquer gênero. (MENDONÇA, 2008, p. 15). Nesse trabalho, também é preciso considerar as estratégias de leitura mais adequadas para determinados gêneros e objetivos que se tenha. Ler a capa e contracapa de um livro para decidir se irá lê-lo ou não é diferente de ler um texto para selecionar as informações mais relevantes a fim de apresentá-las em um seminário. Também no que se refere à produção oral e escrita, é preciso deixar claras as condições para a produção e circulação dos gêneros. Os educandos precisam compreender por que o texto está sendo produzido, quem é o destinatário e em qual suporte será veiculado. Feito isso, devem ser oportunizadas situações nas quais os alunos possam vivenciar as etapas de planejamento, produção, revisão e reescrita de textos diversos. 65 Não se pode deixar de considerar que, muitas vezes, o aluno não tem conhecimentos prévios sobre o gênero textual com o qual se pretende trabalhar. Esse conhecimento precisa ser garantido pelo professor, pela realização de um trabalho prévio de discussão, leitura de outros textos do mesmo gênero, do levantamento das ideias principais e das marcas características, das dúvidas e eventuais polêmicas. Quanto maior a familiaridade com um determinado gênero, maiores serão as possibilidades de compreensão e produção textual. Tabela 5.1 – Gêneros que podem ser usados em aula. Fonte: MENDONÇA, 2008, p. 16. O trabalho com as diferentes esferas e os diferentes gêneros textuais possibilitará, aos educandos, o desenvolvimento de habilidades de letramento, que poderão ser utilizadas em qualquer situação nas quais elas sejam requeridas. 5.4 Sugestões de Atividades 1 Mesmo sem saber escrever convencionalmente, os alunos podem e devem produzir textos. Uma das atividades na qual essa produção pode ocorrer é a “produção oral com destino escrito”, na qual os alunos ditam o texto produzido para um escriba, que pode ser o professor. Aqui, iremos mostrar um exemplo dessa atividade com o gênero textual carta, podendo ser adaptado para outros gêneros textuais. 66 Proposta de atividade: Público alvo: educandos jovens e adultos no processo inicial de alfabetização. Objetivo geral: oportunizar aos alunos a produção de gêneros textuais diversos, tendo o professor como escriba. Objetivos específicos: • Refletir sobre as características e finalidades do gênero textual “carta”. • Produzir gêneros textuais diversos, mesmo antes do domínio da escrita alfabética; • Refletir sobre a estrutura de um texto escrito; • Refletir, a partir dos textos produzidos, sobre aspectos da Língua Escrita; • Experenciar a revisão de textos escritos. Condução da atividade: Inicialmente, o professor deverá realizar um levantamento dos conhecimentos prévios dos alunos, sobre o gênero textual cartas, propondo perguntas do tipo: • Quem já enviou/recebeu uma carta? • De quem era a carta recebida(remetente) ou para quem era a carta enviada (destinatário)? • Quais elementos estão presentes em uma carta (data, saudação inicial, despedida, assinatura)? • Por que as pessoas escrevem cartas? O professor pode pedir para que os alunos tragam para a sala de aula cartas que tenham recebido e que falem sobre elas (por quem foi enviada, com qual finalidade, em que ocasião etc.). O professor também deverá trazer para a sala de aula algumas cartas, para que possa explorá-las com os alunos, a fim de repertoriá-los sobre o gênero textual. Na sequência, o professor deverá decidir com o grupo para quem eles irão enviar uma carta. Pode ser para um grupo de uma outra escola de Educação de Jovens e Adultos, pode ser para um grupo de outra sala da mesma escola, ou ainda para a equipe gestora da escola, reivindicando alguma melhoria ou agradecendo por algo que ela tenha feito. 67 Uma vez decidido o destinatário, a redação da carta será iniciada, com o ditado do texto ao professor. Cabe ao professor, em um primeiro momento, registrar o texto tal qual ele está sendo ditado, na lousa. Um vez findado o ditado, o professor pode propor uma leitura coletiva do texto, para fins de revisão. Caso o professor prefira, ele pode copiar o texto tal qual foi ditado, para que a revisão seja proposta em outro momento. Em qualquer um dos casos, o professor não deve direcionar a revisão, propondo as mudanças necessárias. Ele deve oportunizar a reflexão sobre a Língua, propondo questões como: - Esse trecho da nossa carta está claro? Como poderíamos deixá-lo mais claro? - Vocês não acham que há muita repetição da palavra “x”? O que poderíamos colocar no lugar dela, para evitar essas repetições? - Vocês não acham que essa expressão é mais usada na língua oral do que na língua escrita? Como podemos resolver essa questão? Ao proporem mudanças para a escrita inicial, os alunos refletirão sobre a língua escrita e ampliarão seus conhecimentos sobre ela. Importante: os alunos constroem a escrita alfabética em tempos diferentes. Sendo assim, haverá momentos durante o ano letivo nos quais alguns alunos já estarão alfabetizados e outros ainda não. Nesse caso, o professor pode formar duplas de alunos (agrupamentos produtivos), nas quais um aluno será o escriba (aquele que já está alfabetizado) e o outro, o produtor do texto que irá realizar o ditado. 5.5 Sugestões de Atividades 2 Para que o educador possa promover o letramento de seus alunos, é importante que promova o contato com gêneros textuais diversos em sala de aula. A título de exemplo, vamos apresentar uma sugestão de atividade com um anúncio publicitário, que é um gênero textual presente no cotidiano dos educandos jovens e adultos. 68 O anúncio publicitário está presente no cotidiano dos educandos jovens e adultos, uma vez que é um gênero textual com o qual eles se deparam constantemente em portadores textuais diversos como jornais, revistas, televisão, rádio, outdoors, cartazes nos ônibus e internet. Os anúncios podem ser destinados para finalidades comerciais (compra e venda de produtos) e não comerciais (campanhas de saúde, educação, solidariedade, cidadania, entre outros). Proposta de atividade: Público alvo: educandos jovens e adultos do ciclo de alfabetização. Objetivo geral: explorar o gênero anúncio publicitário, buscando compreender sua função social e conhecer suas diferentes formas de realização e de circulação, buscando realizá-lo de maneira adequada. Objetivos específicos: • Refletir sobre a função social do anúncio publicitário; • Reconhecer as características de um anúncio publicitário; • Elaborar anúncios publicitários para diferentes públicos e locais de circulação. Condução da atividade: O professor deverá levar para a sala de aula jornais e revistas, e pedir para que os alunos, organizados em duplas, identifiquem e selecionem anúncios publicitários presentes nesses portadores textuais. Após um tempo determinado, as duplas serão convidadas a mostrar o anúncio encontrado e a contar como sabiam que era um anúncio. O professor fará, para cada dupla, as seguintes perguntas: • De qual produto é esse anúncio? • Quem é o público-alvo dessa propaganda? (A quem ela se destina?) • Que características desse anúncio chamam a atenção do leitor? • Em que lugares poderíamos encontrar esse anúncio? 69 As respostas dos alunos deverão ser registradas pelo professor na lousa ou em um cartaz, com os itens a seguir: Produto Público-alvo Características Locais de circulação Depois de preenchido o quadro, o professor retomará o que foi registrado, visando fazer, com os alunos: - o levantamento das características mais frequentes nos anúncios publicitários (cores, tamanhos de letras, imagens etc.); - os recursos que diferenciam anúncios voltados para os públicos de diferentes idades (crianças, jovens, adultos e idosos); - suas finalidades; - locais de circulação (televisão, jornal, revista, rádio, internet). A atividade poderá ser finalizada com a produção pelos alunos, organizados em grupos, de diferentes anúncios publicitários para diferentes locais de circulação. Importante: os grupos podem ser formados pelo professor, tendo por critério o domínio da escrita dos alunos. Sendo assim, alunos com menor domínio da escrita podem elaborar um anúncio que seria veiculado pela televisão, enquanto aqueles que tem maior domínio da escrita fariam um anúncio para veículos, que demanda mais informações escritas. 70 Conclusão Dados levantados sobre os índices do analfabetismo funcional na população brasileira tem se mostrado preocupantes, no sentido de mostrarem que cerca de três em cada dez brasileiros, mesmo tendo passado pela escola, têm dificuldades em utilizar a leitura, a escrita e as operações matemáticas em situações simples do cotidiano. Para o enfrentamento desse problema, faz-se necessário, sobretudo na Educação de Jovens e Adultos, que a escola não se limite às práticas que priorizem a memorização e a mecanização de procedimentos, mas que oportunizem situações nas quais os alunos possam se tornar usuários competentes dos conhecimentos adquiridos na escola, em outras situações. Na promoção do letramento, o trabalho com os gêneros textuais em sala de aula tem um lugar privilegiado, uma vez que oportuniza uma aprendizagem significativa e contextualizada. Trabalhar com os gêneros textuais em sala de aula não significa só trazê-los para a sala e abordá-los de maneira mecânica. Significa criar oportunidades a partir deles, para que os educandos possam refletir sobre os aspectos formais da língua e sobre o uso social da escrita, para ampliar suas habilidades de leitura, escrita e oralidade. 71 REFERÊNCIAS ALBUQUERQUE, E. et al. Alfabetização e letramento: o que são? Como se relacionam? Como “alfabetizar letrando”? In: BORGES, Eliana et al. Alfabetização de jovens e adultos. Belo Horizonte: Autêntica, 2006. LIMA, A. M.; JÚNIOR, R. C. (coords.). INAF Brasil 2018: resultados preliminares. São Paulo: Ação Educativa. Instituto Paulo Montenegro, 2018. MENDONÇA, M. Diversidade Textual: Propostas para a sala de aula. Recife: CEEL, 2008. SOARES, M. B. Alfabetização e Letramento: caminhos e descaminhos. Revista Pátio. Porto Alegre: Artmed Editora, fev. 2004. Disponível em: <https://acervodigital.unesp.br/bitstream/123456789/40142/1/01d16t07.pdf>. Acessado em 15 mar. de 2020. VÓVIO, C. L. Alfabetização de pessoas jovens e adultas: outras miradas, novos focos de atenção. In: SAMPAIO, M. N.; ALMEIDA, R. S. (Orgs.). Práticas de Educação de Jovens e Adultos: complexidades, desafios e propostas. Belo Horizonte: Autêntica, 2009. 72 6 POLÍTICAS PÚBLICAS EDUCACIONAIS E A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS O direito à educação pública, gratuita e de qualidadepara jovens e adultos é fruto de um luta histórica, que teve início no Período Colonial e continua até hoje. No percurso histórico da constituição desse direito, diversos instrumentos legais foram sendo elaborados para que as conquistas adquiridas pudessem ser mantidas. Nesse bloco, você conhecerá os instrumentos legais mais recentes que embasam e amparam a Educação de Jovens e Adultos, refletirá sobre o papel político dessa modalidade de ensino e analisará, criticamente, a ausência de um texto específico para a EJA na Base Nacional Comum Curricular. 6.1 As legislações para EJA Ao longo da história, grande foi a luta para assegurar o direito à educação para os jovens e adultos que não tiveram acesso à escola na idade adequada, ou que tiveram que deixá- la por conta de imposições sociais e econômicas. Garantir o acesso a uma Educação de Jovens e Adultos de qualidade deve ser um compromisso de toda a sociedade brasileira, para que as desigualdades sociais sejam minimizadas e para que haja inclusão e justiça social, amparados pela legislação brasileira. Um dos documentos legais que ampara a Educação de Jovens e Adultos como modalidade fundamental da educação para a constituição de uma sociedade mais justa e igualitária é a Constituição Federal de 1988. Nela consta como princípio, em seu artigo 205, que a educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. (BRASIL, 1988, art. 205). 73 No artigo seguinte, está posto que o ensino será ministrado com base nos princípios de igualdade de condições de acesso e de permanência na escola. No mesmo artigo está posto que a República Federativa do Brasil tem por objetivos promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer formas de discriminação. A Educação de Jovens e Adultos volta a ser contemplada no artigo 208, no qual fica assegurada a obrigatoriedade da educação básica gratuita para todos os indivíduos entre quatro e dezessete anos de idade, sendo que a obrigatoriedade e oferta estão asseguradas, também, para todos aqueles que não tiveram acesso à ela, na idade adequada. É previsto a eles, também, o atendimento por meio de programas suplementares de material didático-escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde, no inciso sétimo do mesmo artigo. Isso posto, o direito à educação para jovens e adultos é um direito positivado, constitucionalizado e cercado de mecanismos financeiros e jurídicos de sustentação. Um outro instrumento legal bastante relevante para a Educação de Jovens e Adultos é a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDN 9394/96). Nela foi retomado o princípio constitucional que contempla o conjunto de educandos sem limitações etárias. No título V, do segundo capítulo da LDB 9394/96, a Educação de Jovens e Adultos é concebida como modalidade da Educação Básica, e sua oferta é regulamentada para todos aqueles que não tiveram acesso a ela ou não concluíram o Ensino Fundamental. No artigo 37, parágrafo 1º, está posto que os sistemas de ensino assegurarão gratuitamente aos jovens e aos adultos, que não puderam efetuar os estudos na idade regular, oportunidades educacionais apropriadas, consideradas as características do alunado, seus interesses, condições de vida e de trabalho, mediante cursos e exames. (BRASIL, 1996, art. 37, § 1). Na sequência, fica assegurado que o Poder Público deverá viabilizar e estimular o acesso e a permanência do trabalhador na escola, por meio de ações desenvolvidas com essa finalidade. 74 No artigo 38 da mesma Lei, está prevista a manutenção de cursos e exames supletivos, que devem contemplar a base nacional do currículo oficial, para que os sujeitos possam dar continuidade aos seus estudos no ensino regular. A Lei prevê também a possibilidade de certificação, desde que realizados exames que possam avaliar os conhecimentos adquiridos pelos indivíduos jovens e adultos, tanto por meios informais, como pela realização de estudos independentes. Podem obter o certificado de conclusão do Ensino Fundamental indivíduos com idade igual ou superior a 15 anos, já do Ensino Médio, maiores de dezoito anos. 6.2 Diretrizes Curriculares para Educação de Jovens e Adultos Segundo o Todos pela Educação (2018), para a Educação Básica, as Diretrizes Curriculares Nacionais são obrigatórias, pois “orientam o planejamento curricular das escolas e dos sistemas de ensino. Elas são discutidas, concebidas e fixadas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE)”. Elas são formadas por um conjunto de definições doutrinárias sobre princípios, fundamentos e procedimentos na Educação Básica que orientam as escolas na organização, articulação, desenvolvimento e avaliação de suas propostas pedagógicas. (TODOS PELA EDUCAÇÃO, 2018). As Diretrizes Curriculares Nacionais tiveram origem na Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB 9394/96), que definiu como incumbência da União o estabelecimento, em colaboração com os estados, com o Distrito Federal e com os municípios, das competências para os diferentes níveis da Educação Básica (Educação Infantil, Ensino Fundamental e Médio), que deverão nortear os currículos e seus conteúdos mínimos. Nesse sentido, as Diretrizes Curriculares visam promover a equidade de aprendizagem, garantindo o ensino dos conteúdos básicos para todos os alunos, levando em consideração os diferentes contextos nos quais eles estão inseridos. Mesmo após a publicação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), em 2017, as Diretrizes Curriculares continuam vigorando uma vez que são documentos complementares, na medida em que as Diretrizes definem a estrutura, enquanto a BNCC detalha os conteúdos a serem trabalhados e as competências a serem desenvolvidas. 75 As Diretrizes Curriculares para a Educação de Jovens e Adultos que estão vigentes foram determinadas pelo Parecer 11/2000, do Conselho Nacional de Educação e do Conselho de Educação Básica e pela Resolução 1/2000, dos mesmos órgãos e se constituíram como uma documento a ser observado no planejamento e na estruturação dos componentes curriculares para essa modalidade de ensino. As Diretrizes Curriculares para a EJA superaram a visão preconceituosa do analfabeto como incapaz, e reconheceram a diversidade cultural e regional presentes nas diferentes classes sociais. As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação de Jovens e Adultos passaram a valorizar ainda: – as especificidades de tempo e espaço para seus educandos; – o tratamento presencial dos conteúdos curriculares; – a importância em se distinguir as duas faixas etárias (jovens e adultos) consignadas nesta modalidade de educação; e – a formulação de projetos pedagógicos próprios e específicos dos cursos noturnos regulares e os de EJA. (ARCO-VERDE, 2006, p. 22). No documento está posto que a Educação de Jovens e Adultos é uma modalidade da Educação Básica que tem uma identidade própria e, como tal, deverá levar em consideração as características do alunado para a proposição de um modelo pedagógico próprio. As Diretrizes Curriculares para a Educação de Jovens e Adultos definem três funções para essa modalidade de ensino: reparadora, equalizadora e qualificadora. A função reparadora atribui à Educação de Jovens e Adultos o papel de porta de entrada para os direitos civis, pela restauração do direito negado de acesso à uma escola de qualidade. Cumprida essa função, a EJA reconhecerá a igualdade de direitos a todos os seres humanos. A função equalizadora prevê que a Educação de Jovens e Adultos deverá oferecer ampla cobertura aos profissionais de diversas áreas e aos indivíduos de diferentes segmentos sociais. Ao cumprir sua função equalizadora,a EJA reparará, de maneira corretiva, estruturas arcaicas de desigualdade e oferecerá aos indivíduos novas oportunidades de inserção no mundo do trabalho e na vida social. A função qualificadora visa o pleno desenvolvimento do potencial de todos os indivíduos, se constituindo como o próprio sentido da Educação de Jovens e Adultos. 76 No ano seguinte (2001), a Educação de Jovens e Adultos foi incluída no Plano Nacional de Educação (PNE), criado pelo Governo Federal, com vigência de 10 anos (2001-2011). Nele, ficou estabelecido que para a Educação de Jovens e Adultos deveria ser oferecida, no mínimo, uma formação equivalente às oito séries do Ensino Fundamental, e foi reconhecida a necessidade de produção de materiais didáticos adequados, do desenvolvimento de técnicas pedagógicas apropriadas às características do aluno e da especialização do corpo docente. A Educação de Jovens e Adultos passou também a ser contemplada nas metas desse Plano. A Meta 9 visava a elevação da taxa de alfabetização da população com 15 anos ou mais para 93,5%, até o ano de 2015 e até o final da vigência do PNE, a erradicação do analfabetismo absoluto e a redução, em cinquenta por cento, da taxa de analfabetismo funcional. Segundo o Observatório do Plano Nacional de Educação, em 2015, a taxa de alfabetização da população com 15 anos ou mais era de 92%. Em 2018, 29% da população brasileira era considerada analfabeta funcional. A Meta 10 visava oferecer, no mínimo, um quarto das matrículas de Educação de Jovens e Adultos, no Ensino Fundamental e Médio, na forma integrada à educação profissional. Ainda segundo o Observatório do Plano Nacional de Educação, em 2017, 0,5% dos alunos da Educação de Jovens e Adultos no Ensino Fundamental cursavam a Educação Profissional de forma integrada, enquanto no Ensino Médio esse número era de 3%. Portanto, o acompanhamento das metas do Plano Nacional de Educação revela que as metas propostas para a Educação de Jovens e Adultos ainda estão muito longe de serem atingidas. 6.3 Educação de Jovens e Adultos na BNCC A Base Nacional Comum Curricular deve ser utilizada por todas as modalidades de ensino como referência para a elaboração dos seus currículos. No entanto, apesar das especificidades da Educação de Jovens e Adultos, o documento não trouxe orientações específicas para ela, sendo que as adaptações ficaram a cargo dos estados e municípios, bem como as adequações às realidades locais. 77 Antes mesmo da sua publicação, a ausência de diretrizes para a Educação de Jovens e Adultos já preocupava os educadores. Em sua primeira versão, lançada em 2015, a ausência de qualquer formulação referente à Educação de Jovens e Adultos já havia chamado a atenção. O texto apenas informava que determinados eixos e conteúdos eram aplicáveis às crianças, jovens e adultos, sem realizar qualquer reflexão sobre as especificidades dessa modalidade de ensino. A ausência foi tema de várias discussões em encontros de educadores da EJA, uma vez que mostrava a inadequação do documento para a referida modalidade. Ainda que se pudesse pensar que os conteúdos destinados a todas as pessoas que se certificam nas diferentes modalidades da Educação Básica deveriam ser os mesmos, garantindo-se a todos os mesmos direitos de aprendizagem – para usar os mesmos termos da BNCC – há outros elementos que precisam ser considerados para a garantia da equidade. (JUNIOR, 2019, p. 313). Os debates apontavam para a necessidade de problematização das especificidades dessa modalidade de ensino, levando em consideração a diversidade de sujeitos que buscam a Educação de Jovens e Adultos em todo o território Nacional. Era também necessária uma reflexão, com a participação daqueles que já estavam envolvidos na EJA, sobre o que deveria ser contemplado no currículo, para atender as demandas daqueles que retornam à escola ou ingressam nela pela primeira vez na idade adulta. Na segunda versão do documento, lançada em abril de 2016, houve um pequeno esforço de inclusão da EJA no texto curricular. A inclusão se caracterizou como uma artificialização do texto, na medida em que onde antes se lia “crianças e adolescentes”, passou-se a ler “crianças, adolescentes, jovens e adultos”. Na opinião de Junior (2019), essa inclusão piorou ainda mais o problema já existente, na medida em que atribuiu ao currículo um caráter ainda mais homogêneo, desconsiderando qualquer particularidade da EJA. Na versão preliminar apresentada no início de 2017, perdurou a inexistência de uma abordagem específica para a Educação de Jovens e Adultos. De acordo com a secretária executiva do Ministério da Educação (REDAÇÃO, 2017), o motivo pelo qual a modalidade não tenha sido abordada de forma separada, foi para não estigmatizar o público da Educação da Jovens e Adultos, retirando-os da educação regular. 78 Sua afirmação decorreu da leitura por ela realizada da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Matemática, na qual “essa modalidade está incluída na educação regular e, como tal, foi considerada no conjunto dos direitos de aprendizagem de todos” (REDAÇÃO, 2017). No texto final da Base Nacional Comum Curricular (BRASIL, 2017), quando é abordada a relação entre a BNCC e os currículos, está posto que o documento norteador e os currículos se identificam na comunhão de princípios e valores, presentes na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e nas Diretrizes Curriculares Nacionais. Assim sendo, reconhecem que a educação tem um papel de grande relevância na formação e no desenvolvimento humano global, em todas as suas dimensões (intelectual, física, afetiva, social, ética, moral e simbólica). Apesar disso, a BNCC abre mão de assumir um compromisso com as diferentes modalidades de ensino, ao afirmar que devem ser adotadas as mesmas ações na organização de currículos e propostas adequados às diferentes modalidades de ensino (Educação Especial, Educação de Jovens e Adultos, Educação do Campo, Educação Escolar Indígena, Educação Escolar Quilombola, Educação a Distância), atendendo-se às orientações das Diretrizes Curriculares Nacionais. (BRASIL, 2017, p. 15). A necessidade de elaboração de propostas curriculares voltadas, especificamente, para a Educação de Jovens e Adultos, não é uma discussão recente. Como já vimos, data do ano 2000 a elaboração das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação de Jovens e Adultos. Dez anos depois da publicação das Diretrizes Curriculares foram publicadas as diretrizes operacionais, que abordam a duração dos cursos, a idade mínima para o ingresso e a educação a distância, nessa modalidade. Em 2001, foi publicada a Proposta Curricular Nacional voltada para os anos iniciais do Ensino Fundamental, por iniciativa da Organização Não-Governamental Ação Educativa. No ano seguinte, foi publicada uma proposta voltada para os anos finais do Ensino Fundamental, nos mesmos moldes. A proposta para o Ensino Médio não chegou a ser elaborada e, desde então, nenhuma outra proposta nacional foi elaborada. 79 Embora não haja documentos com orientações curriculares mais recentes, em nível nacional, alguns estados e municípios publicaram, nesse período, suas próprias propostas curriculares para a Educação de Jovens e Adultos. Com a falta de referências específicas para a Educação de Jovens e Adultos na Base Nacional Comum Curricular, a inexistência de uma proposta curricular nacional continuará vigorando. Espera-se que cada estado e município assuma o compromisso com a elaboração de um proposta própria, capaz de contemplar as especificidades do alunado e de garantir, a todos, as aprendizagens básicas necessárias para o exercício pleno da cidadania e para oportunizar a continuidade dos estudos. 6.4 Leitura Crítica à Base Nacional Comum Curricular A ausência de orientações específicas para a elaboração dos currículosda Educação de Jovens e Adultos, na Base Nacional Comum Curricular, foi alvo de muitas críticas por parte de educadores e de pesquisadores que atuam nessa modalidade de ensino. As críticas foram decorrentes das especificidades dessa modalidade de ensino, que atende um público muito heterogêneo e muito diferente do público atendido pelo ensino regular. As especificidades dos alunos demandam a adaptação dos conteúdos abordados e da maneira de tratá-los. A não observação das características do aluno e a consequente não adaptação curricular e metodológica, pode fazer com que o aluno deixe a escola, privando-o, mais uma vez, do seu direito à educação. Nesse sentido, a Base Nacional Comum Curricular não poderia se eximir de dedicar uma parte do seu texto para a Educação de Jovens e Adultos, assim como para as outras modalidades de ensino, citadas brevemente. Ao fazê-lo, o documento reforça o papel recorrente de coadjuvante, que essa modalidade de ensino ocupa nas discussões sobre a educação básica. Evidentemente, a inclusão da EJA na BNCC não seria de pronto a solução para que tivéssemos avanços significativos na modalidade. Entretanto, a ausência completa de propostas e o esvaziamento da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão do MEC (SECADI/MEC) a partir de 2016, com a chegada de Michel Temer à presidência, vêm apenas reforçando o lugar marginal da Educação de Jovens e Adultos no país. (JUNIOR, 2019, p. 315). 80 Um passo a mais na marginalização da Educação de Jovens e Adultos no país foi dado no final de 2018, quando ficou estabelecido, pelo Conselho Nacional de Educação, que 80% da carga horária definida para essa modalidade de ensino poderia ser cumprida à distância. Ao considerar o ensino a distância como uma boa possibilidade para a Educação de Jovens e Adultos, para o atendimento da diversidade de sujeitos e os variados horários de trabalho dos educandos, mais uma vez, o Conselho Nacional de Educação desconsiderou as características do aluno. O discurso recorrente é de que vivemos em uma época de fácil acesso aos meios tecnológicos, na qual “todas as pessoas” utilizam as tecnologias. Esse afirmação não se aplica, necessariamente, aos alunos da Educação de Jovens e Adultos. Nem sempre os indivíduos das classes sociais menos privilegiadas, das quais advém os alunos da EJA, têm equipamentos eletrônicos adequados para o ensino à distância e fácil acesso à internet. Além disso, dada a heterogeneidade etária dos alunos, nem todos têm a familiaridade necessária com as ferramentas tecnológicas, para que se tornem alunos à distância. O aumento da carga horária à distância parece visar, prioritariamente, a possibilidade de minimizar os custos dos cursos oferecidos com a participação da iniciativa privada e de reduzir a oferta de vagas presenciais para os jovens e adultos nas redes públicas. Em muitas redes estaduais brasileiras assistimos a um processo de redução de matrículas, fechamento de turmas e investimentos cada vez menores na modalidade. Em 2007, o Brasil tinha 4.985.338 matrículas na EJA, que se reduziu para 3.598.716 em 2017. Em alguns estados, como São Paulo, a redução é ainda mais acelerada, pois em 2007 eram 930.948 estudantes e, em 2017, 446.449, ou seja, menos da metade do que havia dez anos antes, conforme os dados do Censo Escolar. (JUNIOR, 2019, p. 316). Segundo Junior (2019), estudos recentes têm apontado que, do ponto de vista curricular, não será possível avançar na Educação de Jovens e Adultos, sem que se avance na construção de um currículo adequado para o atendimento à diversidade do público alvo dessa modalidade de ensino. 81 Estudos apontam, também, que a diminuição na procura pelos cursos de Educação de Jovens e Adultos é consequência da precariedade e da inadequação da oferta, ao despreparo dos professores, à adoção de modelos rígidos de organização do tempo e do espaço escolar e à desvinculação do que é abordado nos currículos daquilo que é demandado pelos jovens, adultos e idosos que procuram a escola. O que se evidencia é que, para além de orientações curriculares nacionais específicas que poderiam ser produzidas pelo governo federal para ampliar o diálogo sobre a modalidade, é necessário que se constituam meios para que em cada um dos municípios brasileiros se possa criar uma rede educacional para jovens e adultos que esteja preparada para atender à diversidade de públicos e leve em conta também as pretensões de jovens e adultos ao retomar os estudos. (JUNIOR, 2019, p. 317). Da forma pela qual a Base Nacional Comum Curricular aborda a Educação de Jovens e Adultos, ela terá pouca utilidade na ampliação e na qualificação dessa modalidade de ensino no país. O ideal é que tivesse trazido subsídios para a definição local dos currículos, abrindo mão dos currículos convencionais abordados com crianças e jovens no ensino regular e definindo critérios para a escolha dos conteúdos mais adequados, para que os jovens e adultos pudessem avançar nos seus processos de alfabetização, sendo instrumentalizados para o exercício pleno da cidadania. 6.5 Educação é Política Nenhum ato educativo é neutro, na medida em que as práticas educativas sempre têm uma intencionalidade e um propósito de formação de indivíduos e de sociedade. A Educação de Jovens e Adultos, além de ter essa intencionalidade, ainda deve estar voltada para a superação das desigualdades sociais que fizeram com que os indivíduos fossem privados do direito à escolarização ou tivessem que abrir mão desse direito prematuramente. A educação de jovens e adultos é um campo de práticas e reflexão que inevitavelmente transborda os limites da escolarização em sentido estrito. Primeiramente, porque abarca processos formativos diversos, onde podem ser incluídas iniciativas visando a qualificação profissional, o desenvolvimento comunitário, a formação política e um sem número de questões culturais pautadas em outros espaços que não o escolar. (DI PIERRO et al., 2001, p. 58). 82 Partindo dessa perspectiva, a Educação de Jovens e Adultos pode ser considerada como parte integrante e importante da história da educação brasileira, na medida em que se constitui como um espaço de lutas para a democratização do acesso ao conhecimento. Como espaço de lutas pela democratização do conhecimento, a Educação de Jovens e Adultos não pode ser vista como uma educação neutra, mas, sim, como um ato político. É importante desfazer aqui um equívoco: afirmar que a educação é um ato político não significa dizer que ela é um ato partidário. A confusão entre ambos tem sido comum. No dicionário Michaelis on-line, a palavra “política” é definida como: 1. Arte ou ciência de governar; 2. Arte ou ciência da organização, direção e administração de nações ou Estados; 3. Aplicação dessa arte nos negócios internos da nação (política interna) ou nos negócios externos (política externa). (MICHAELIS, 2020). É nessa perspectiva que a Educação de Jovens e Adultos deve ser considerada como um ato político, capaz de democratizar o acesso ao conhecimento das várias camadas da população, de garantir o acesso à educação pública, gratuita e de qualidade e de oferecer instrumentos de superação das desigualdades sociais. Segundo Freire (2001), a ação dos educadores da EJA deve assumir esse caráter político, não se limitando aos procedimentos didáticos e aos conteúdos propostos, mas adequando os conteúdos à realidade dos alunos e utilizando-os como instrumentos para a problematização da realidade. Educadores e grupos populares descobriram que Educação Popular é sobretudo o processo permanente de refletir a militância; refletir, portanto, a sua capacidade de mobilizar em direção a objetivos próprios. A prática educativa, reconhecendo-se como prática política, se recusa a deixar-se aprisionar na estreiteza burocrática de procedimentosescolarizantes. Lidando com o processo de conhecer, a prática educativa é tão interessada em possibilitar o ensino de conteúdos às pessoas quanto em sua conscientização. (FREIRE, 2001, p. 16). A crescente conscientização dos educandos da EJA faz parte da proposta de Paulo Freire (2001), para a superação do que foi chamada por ele de “Pedagogia do Oprimido” ou “educação bancária”, na qual o professor era o detentor absoluto do saber e “depositava” o conhecimento nos alunos, a quem nada mais restava além de receber, passivamente, os conhecimentos transmitidos. 83 Para a superação dessa educação bancária, Freire (2001) propõe que os alunos participem, ativamente, do seu processo de construção de novos conhecimentos e da sua crescente conscientização acerca da realidade, por meio dos novos saberes. Nessa perspectiva, os conteúdos passam a ser vistos como instrumentos para a análise da realidade concreta na qual os educandos estão inseridos. São eles que permitem a superação dos saberes anteriores, construídos no enfrentamento das situações cotidianas, por um saber mais crítico, menos ingênuo. A superação da consciência ingênua dos sujeitos não significa, de modo algum, a desvalorização da cultura dos indivíduos e dos seus saberes prévios. Na perspectiva freiriana, a cultura dos educandos deve ser valorizada e seus conhecimentos prévios utilizados como pontos de partida para a construção de novos saberes. Com a conscientização dos sujeitos para a transformação da sociedade, o objetivo maior da educação, para Paulo Freire, a leitura do mundo deve preceder à leitura da palavra. Esta é uma das tarefas fundamentais da educação popular de corte progressista, a de inserir os grupos populares no movimento de superação do saber de senso comum pelo conhecimento mais crítico, mais além do “penso que é”, em torno do mundo e de si no mundo e com ele. Este movimento de superação do senso comum implica uma diferente compreensão da História. Implica entendê-la e vivê-la, sobretudo vivê-la, como tempo de possibilidade, o que significa a recusa a qualquer explicação determinista, fatalista da História. (FREIRE, 2001, p. 16-17). Para que a leitura do mundo possa preceder à leitura da palavra, é fundamental que o educador assuma o seu papel político na EJA e ofereça sempre subsídios para que os alunos possam ler, criticamente, as informações veiculadas dentro e fora da sala de aula. Conclusão A Educação de Jovens e Adultos, assim como as outras modalidades educativas, tem um caráter político, no sentido da busca de uma sociedade mais justa e igualitária, na qual as desigualdades sociais possam ser minimizadas. Essa modalidade educativa é fruto de muita luta tanto por parte dos demandantes desse tipo de educação, como dos educadores e da sociedade em geral. 84 As conquistas obtidas foram sendo legitimadas, progressivamente, por meio de legislações que as amparam e embasam as ações dos órgãos públicos e das instâncias promotoras das ações educativas. Apesar das conquistas, ainda há um longo caminho a ser percorrido até que a oferta de uma educação pública, gratuita e de qualidade possa atender as demandas existentes. Um dos aspectos que ainda tem muito a avançar é a publicação de norteadores curriculares para a EJA, que sejam pensados em conjunto com aqueles que já tem experiência nessa modalidade de ensino. A Base Nacional Comum Curricular, documento norteador para a elaboração dos currículos das redes estaduais e municipais, aborda a Educação de Jovens e Adultos de maneira muito breve, e afirma que os mesmos conteúdos que serão desenvolvidos junto às crianças e os adolescentes devem ser desenvolvidos juntos aos jovens e adultos. A BNCC afirma, ainda, que as adequações e adaptações necessárias devem ser realizadas pelos estados e pelos municípios. Apesar da grande heterogeneidade do alunado, é importante que o Ministério da Educação possa pensar, em conjunto com os envolvidos na Educação de Jovens e Adultos, em quais conteúdos seriam importantes para que essa modalidade de ensino cumprisse, efetivamente, sua função de oportunizar uma educação de qualidade e que permitisse a continuidade dos estudos para jovens e adultos. O órgão deveria também oferecer parâmetros, para que os Estados e Municípios pudessem fazer as adaptações necessárias às particularidades dos contextos nos quais as ações educativas ocorrerão. Só respeitando essas particularidades e as especificidades dos alunos, a EJA irá se constituir como um ato político, capaz de instrumentalizar os sujeitos para a leitura crítica do mundo e para o enfrentamento dos problemas nele existentes. 85 REFERÊNCIAS ARCO-VERDE, Y. F. de S. (Coord.). Diretrizes Curriculares da Educação de Jovens e Adultos. Curitiba: Secretaria do Estado da Educação, 2006. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. D.O. 5 de out. de 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. Acesso em 20 mar. 2020. ______. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Lei n. 9.394, 20 dez. 1996. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm>. Acesso em 20 mar. 2020. ______. Conselho Nacional de Educação. Estabelece as Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação de Jovens e Adultos. Câmara de Educação Básica. Resolução n. 1, de 3 jul. 2000. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/CEB012000.pdf>. Acessado em 20 mar. 2020. DI PIERRO, M. C. et al. Visões da educação de jovens e adultos no Brasil. Cad. CEDES, Campinas, v. 21, n. 55, p. 58-77, nov. 2001. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0101-32622001000300005>. Acessado em 22 mar. 2020. FREIRE, P. Política e educação: ensaios. Coleção Questões de Nossa Época, v. 23. São Paulo: Cortez, 2001. JÚNIOR, R. C. O não-lugar da Educação de Jovens e Adultos na BNCC. In: CÁSSIO, F. (org.). Educação é a base – 23 educadores discutem a BNCC. São Paulo: Ação Educativa, 2019. POLÍTICA. In: MICHAELIS, moderno dicionário da língua portuguesa. São Paulo: Melhoramentos, 2020. Disponível em: <https://michaelis.uol.com.br/moderno- portugues/busca/portugues-brasileiro/pol%C3%ADtica/>. Acessado em 22 mar. 2020. 86 REDAÇÃO. Falta de diretrizes para a EJA na Base Nacional Comum preocupa educadores. Revista Educação, set. de 2017. Disponível em: <https://revistaeducacao.com.br/2017/09/13/falta-de-diretrizes-para-eja-na-base- preocupa-educadores/>. Acessado em 21 mar. 2020. TODOS PELA EDUCAÇÃO. O que são e para que servem as Diretrizes Curriculares? Todos pela Educação, jan. 2008. Disponível em: <https://www.todospelaeducacao.org.br/conteudo/o-que-sao-e-para-que-servem-as- diretrizes-curriculares-/>. Acessado em 21 mar. 2020.