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Apostila Profª Nilma Bastos

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administrativo (que compreende instrução, defesa e relatório) e julgamento, enquanto que a sindicância somente colhe indícios sobre a existência da infração, de sua autoria e do elemento subjetivo com que agiu o responsável. 
Verifica-se, pois, que a verdade material não se coaduna com o processo administrativo preliminar – sindicância – onde está premente a presença do seu caráter inquisitório, não havendo necessidade de observância aos preceitos constitucionais da ampla defesa e do contraditório, devendo, por outro lado, buscar o administrador a verdade material nos processos administrativos principais a fim de satisfazer o interesse público. 
Informalismo a favor do administrado
Trata-se, aqui, de princípio que somente pode ser invocado pelo administrado, e nunca pela Administração. 
A LPA (9.784/99), nesta direção, estatui a "adoção de formas simples, suficientes para propiciar adequado grau de certeza, segurança e respeito aos direitos dos administrados" (art. 2º, IX). No mesmo sentido, dispõe que "os atos do processo administrativo não dependem de forma determinada, senão quando a lei expressamente a exigir". 
Mencionado princípio apresenta-se como decorrência do caráter democrático da Administração Pública, e destina-se a propiciar o acesso de todos os administrados ao processo administrativo, importando em diversas implicações. Deve-se despir o procedimento administrativo de todo formalismo que obstaculize ou impeça a participação do interessado, flexibilizando, dentro do possível, os requisitos de acesso do administrado à via administrativa. Tal exigência se faz ainda mais premente quando se tem em conta a diversidade de níveis sócio-econômicos dos administrados em nosso país, marcado por profundas desigualdades regionais e sociais. 
Roberto Dromi (Derecho Administrativo, Ediciones Ciudad Argentina, 5ª ed., p. 769) apresenta algumas aplicações práticas deste princípio. Cite-se, dentre outras possibilidades, a desnecessidade de qualificar juridicamente as petições e os recursos; a interpretação das petições e recursos em conformidade com a intenção de requerente, colocando-se em segundo plano a letra escrita; a correção, pelo agente competente, de equívocos na designação da autoridade ou órgãos destinatários do requerimento; eliminação de fases desnecessárias e trâmites supérfluos.
De fato, como registra García de Enterría, o procedimento administrativo não pode ser encarado como uma corrida de obstáculos para o administrado, onde, a todo momento, existam armadilhas para fazê-lo cair, obstando a segurança e a credibilidade de que necessita para atingir o objeto a que é destinado.
Direito a revisibilidade (duplo grau)
As decisões administrativas, inclusive e principalmente aquelas proferidas no processo, podem conter equívocos. Daí a necessidade de que as condutas estatais submetam-se a duplo exame, porque a oportunidade de se haver uma segunda análise propicia uma melhor conclusão e maior segurança para o interessado e para a coletividade. À própria autoridade que tenha proferido a decisão recorrida é oferecida uma oportunidade de reexame, em geral, vez que a ela é que se dirige o recurso e o pedido de reconsideração, o que, não ocorrendo, determina a remessa à autoridade hierarquicamente superior.
A possibilidade de reexame da decisão retira o arbítrio de quem decide e obriga a que a decisão proferida seja devidamente fundamentada e motivada, dando ensejo à possibilidade de controle, inclusive judicial, sem o qual não existe o chamado Estado de Direito. 
A natureza jurídica dos recursos administrativos é a de meio formal de impugnação de atos e comportamentos administrativos. É um meio de impugnação porque serve como instrumento de exercício do direito de petição pelo interessado, é formal porque deve ser interposto por petição escrita e devidamente protocolizada na repartição competente e é considerado instrumento de impugnação porque através dele o interessado hostiliza, por alguma razão, a atividade administrativa e requer seja esta reexaminada por outro órgão da administração. 
Os recursos administrativos têm suporte em três fundamentos básicos: 1) o sistema de hierarquia orgânica; 2) o exercício do direito de petição; 3) a garantia do contraditório e da ampla defesa.
Depreende-se, portanto, que cabe ao agente hierarquicamente superior o poder revisional sobre a conduta de seus subordinados. Tal forma interessa não só ao recorrente, que deseja seja alterado um ato administrativo, mas também a administração, que deve ter interesse em averiguar todas as razões trazidas pelo recorrente.
Da mesma forma, o direito de petição é fundamento dos recursos administrativos, pois destaca-se por ser um dos meios de controle administrativo previsto no art. 5º, XXXIV, a, da CR/88 que abrange os pleitos revisionais, não podendo os administrados encontrar óbices para a sua interposição.
O terceiro fundamento dos recursos administrativos está previsto no art. 5º, LV, da CR/88, quando assinala que é assegurado o direito de ampla defesa e o contraditório com os meios e recursos a ela inerentes. Torna-se claro que o princípio da ampla defesa não estará completo senão garantir ao interessado o direito de interposição de recursos.
A denominação “recurso administrativo” tem caráter genérico, havendo as espécies Representação, Reclamação, Pedido de Reconsideração e Revisão.
A Representação é o recurso administrativo pelo qual o recorrente (que pode ser qualquer pessoa), denunciando irregularidades, ilegalidades e condutas abusivas oriundas de agentes da Administração, postula a apuração e a regularização dessas situações, significando efetivo meio de exercer as faculdades decorrentes da cidadania.
Oferecida e recebida a representação, a Administração deve instaurar o processo administrativo a apurar a situação informada, constituindo um poder-dever de agir da administração, eis que diante de supostas ilegalidades não se pode admitir que se conduza com indiferença e comodismo.
A Reclamação é a modalidade de recurso em que o interessado postula a revisão de ato que lhe prejudica direito ou interesse. Sua característica é exatamente essa: diferentemente da representação, o recorrente há de ser o interessado direto na correção do ato que entende prejudicial.
O Pedido de Reconsideração se caracteriza pelo fato de ser dirigido à mesma autoridade que praticou o ato contra o qual se insurge o recorrente. O pedido de reconsideração não altera o prazo para interposição de recursos, tampouco suspende ou interrompe o prazo prescricional.
Revisão é o recurso administrativo através do qual o interessado postula a reapreciação de determinada decisão, já proferida em processo administrativo. È normalmente utilizado pelos servidores públicos, valendo-se da previsão do mesmo em vários estatutos funcionais. Há um requisito especial para que seja conhecido o recurso: a existência de fatos novos suscetíveis de conduzir o administrador a solução diversa daquela que apresentou anteriormente no processo administrativo. A Revisão, assim, enseja a instauração de um novo processo, que tramitará em apenso ao processo anterior. 
Grande controvérsia existe acerca da EXIGÊNCIA DE GARANTIA PARA A ADMISSIBILIDADE DO RECURSO, eis que algumas leis impõem à parte o oferecimento de garantia – normalmente o depósito prévio – para que o recurso seja conhecido.
Parte da doutrina entende que a exigência seria inconstitucional porque refletiria ofensa ao direito de defesa e ao duplo grau de jurisdição. Em sentido oposto, outra parte da doutrina entende que a lei pode estabelecer essa condição especial para a interposição de recursos.
Para José dos Santos Carvalho Filho, não há na Constituição qualquer regra expressa no sentido de ser vedado prévio depósito a título de garantia. Ao contrário, limitou-se a Carta Maior a garantir o direito ao contraditório e a ampla defesa nos processos judiciais e administrativos quando houvesse litígio. No silêncio da Constituição, a única interpretação cabível é aquela segundo a qual cabe ao legislador estabelecer