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Avaliação: Práticas sociais, saúde coletiva e itinerários terapêuticos

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE - UFRN
CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE
AVALIAÇÃO III
Antropologia do Corpo
Beatriz Câmara de Oliveira
Alana Suelen Araújo Costa
Natal – RN 
(27 de agosto de 2021)
Avaliação III
Descrição:
Com base na Unidade III, Práticas sociais, saúde coletiva e itinerários terapêuticos, nos textos e autores estudados, responda:
Quais as relações entre alimentação e corpo? Como práticas alimentares correspondem a formas específicas de socialidade? Prescrições e proscrições alimentares são questões individuais apenas? Elas variam com o tempo?
Para o sociólogo Norbert Elias (1997) e o antropólogo Pierre Bourdieu (1983) hábitos e padrões alimentares, assim como a memória alimentar, são parte do que eles definem como habitus. Para Elias (1997) o habitus é basicamente aquela “tradição”, que vai passando dos mais antigos para a nova geração. Ellen Woortmann em seu texto memória alimentar fala das diferenças existentes até mesmo em um mesmo país, nos mostrando a pluralidade de culturas vivenciadas no Brasil. Essas culturas alimentares podem ser mudadas, ou melhor, atualizadas do passado para o presente, mas a base principal, dificilmente variará com o tempo. Woortmann disse que as proscrições podem ser sim uma questão particular, e cita que alguns profissionais de abatedouros ou frigoríferos podem desenvolver uma certa reação/resistência ao consumir carne, devido, muitas vezes, por trabalhar com aquele material com frequência. Ou seja, a alimentação sempre esteve e creio que sempre estará ligada com o corpo e a sociedade. É só olharmos para culturas que sejam diferentes nas nossas, abrir os olhos e os conhecimentos nos deixam perceber que esses quisitos estão sim interligados.
Questões de saúde pública, como epidemias e seus impactos sobre a população, ocorrem do mesmo modo em todos os lugares e sobre todos os corpos? Quais são as parcelas mais afetadas por políticas públicas destinadas à saúde? Descrevam como preconceitos e desigualdades sociais podem influenciar em diferentes modos de acesso e garantia à saúde.
Acredito que não, cada população sofre um impacto e um tratamento diferente. Pires, Neves & Fialho discutiram sobre Saberes Tradicionais na revista ANTHROPOLÓGICAS no ano de 2016, falando um pouco sobre suas considerações sobre o atendimento de saúde pública aos indígenas dos Xukuru do Ororubá, PE, e é sobre tal texto que vou comentar agora. Em um trecho as autoras dizem: “A média de famílias assistidas por cada agente de saúde é entre sessenta e oitenta famílias. Com isso, os AIS só conseguem visitar cada família uma vez por mês, principalmente porque eles são orientados a dar maior atenção aos idosos, às crianças, hipertensos e diabéticos, o que consome grande parte do trabalho e requer mais visitas regulares”. Ou seja, uma pequena equipe de profissionais da saúde vão até essas tribos para atenderem aos indígenas que ficam mais distantes dos prontos-socorros ou até mesmo preferem não se consultarem de maneira médica, utilizando-se de curas culturais. No entanto, sabe-se que a população por ser grande precisaria de uma maior assistência, como não tem, eles vão dando prioridades aos casos graves, orientando aos outros que procurem o atendimento médico mais próximo. Só que o acontece é que essa população não se sente acolhida e bem assistida, e sua grande maioria não possui meios para chegarem a tais atendimentos, longes de sua tribo. Acabam que tornam-se “invisíveis” no mundo, não há uma preocupação em procurar atendê-los nem em facilitar esse atendimento, distanciando-os da saúde pública.
Portanto, acho que a parcela mais prejudicada nos atendimentos médicos, odontológicos, é a classe pobre, a qual não encontra facilidade em chegar até um atendimento. Se precisa de uma consulta com médico específico, pode passar meses e meses em uma fila a espera. Enquanto a classe alta consegue resolver seus problemas em hospitais particulares de forma rápida.
“Além disso, com a dificuldade de tempo para atender satisfatoriamente as pessoas, os AIS não têm tempo para se preocupar com a medicina tradicional, trabalhando cotidianamente no apoio à EMSI, fazendo uso apenas da biomedicina (Pires, et al.
2016)”. As desigualdades sociais são amplamente discutidos nesse texto, nesse trecho ficam claras duas coisas: todas as pessoas não são atendidas de forma satisfatória e os profissionais não tentam vincular a cultura da região com o aporte da medicina. Se fosse feito um melhor acolhimento, uma tentativa de inserir uma medicação biomédica mantendo a medicação natural do paciente, tentando encaixar-se naquela realidade, as chances dessa população procurem um atendimento e sentirem-se melhores, seriam enormes.
Considerando o que estudamos sobre corpo, saúde, itinerários terapêuticos e relações humanas com o ambiente e com seus territórios, podemos pensar nesses termos como representativos de algo universal? Haveria uma única forma de se compreender o corpo, a pessoa, o ambiente e a vida no território? Existe um único modelo de futuro?
Diante de todos nossos aprendizados na disciplina, seria errôneo falarmos em qualquer coisa universal, quanto mais quando o assunto é corpo, saúde e relações humanas.
Rozeli Maria Porto e Patricia Rosalba Salvador Moura na página 164 do artigo O corpo Marcado falam que em sua escrita pensaram também em Foucault (1996), e dizem que os discursos são marcados historicamente, e que sua produção é controlada, selecionada, enquadrada e redistribuída conforme sugerem os interesses e as relações de poder vigentes. Foucault nos diz que “O discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou o sistema de dominação, mas aquilo por que, pelo que se luta, o poder do qual nos queremos apoderar” (Foucault 1996:10). Com essa introdução quero chegar no boom de Zica Vírus que infelizmente vivenciamos em 2015. Naquele momento eram procurados culpados quando a criança nascia com microcefalia advinda da doença, os maiores vilões eram: as mães, a periferia e as mulheres no geral. Como uma pessoa que mora em um ambiente totalmente diferente de sua realidade chega em um canal midiático e diz o que o outro deve fazer em um ambiente e território hostil? Eram discursos que doíam na alma, pois queriam fazer um discurso “padrão”, orientações “padrões”, em um mundo totalmente “despadronizado”, cheio de pluralidades. Em o Amanhã não está à venda de Ailton Krenak ele já traz uma discussão mais atual, a pandemia do Covid-19. Ailton nos faz pensar sobre o quanto tantas pessoas em um momento tão caótico só pensam em seu futuro, tratamento as dores dos outros e as perdas como algo momentâneo, e que a economia, os investimentos, vão voltar, o futuro vem aí e tudo estará “normal”. Tomara que não voltemos à normalidade, pois, se voltarmos, é porque não valeu nada a morte de milhares de pessoas no mundo inteiro (Ailton Krenak, 2020). Que modelo de futuro é esse que essas pessoas preveem? E o presente? E as dores dos outros? O futuro não é e nem pode ter um único modelo.
 
REFERÊNCIAS
BOURDIEU, P. Outline of a Theory of Practice. Cambridge: Cambridge University Press, 1977.
ELIAS, N. Os Alemães: luta pelo poder e a evolução do habitus nos séculos XIX e XX. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.
FOUCAULT, M. 1996. A Ordem do Discurso. São Paulo: Edições Loyola. Brasil.
Krenak, Ailton. O amanhã não está a venda. Companhia das letras. São Paulo. 2020.
Pires, Maria. Saberes Tradicionais e Biomedicina: reflexões a partir da experiência dos Xukuru do Ororubá, PE. Revista ANTHROPOLÓGICAS. Ano 20, 27(2):240-262, 2016.
PORTO, Rozeli; Patricia Rosalba Salvador MOURA Vol 03, N. 02 - Mai. - Ago., 2017 | https://portalseer.ufba.br/index.php/cadgendiv
Woortmann, E. Memória alimentar: prescrições e Proscrições. Ensaios sobre a Antropologia da alimentação: saberes, dinâmicas e patrimônios. Rio Grande do Norte: Natal, 2016.

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