Prévia do material em texto
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QOAA-AFN/2017
CONHECIMENTOS GERAIS
MÓDULO – 3 – MARÇO
PORTUGUÊS E REDAÇÃO Prof. Rafael Dias
Profª Bernadete Rocha
MATEMÁTICA Prof. César Loyola
GEOGRAFIA ECÔNOMICA Prof. Odilon Lugão
HISTÓRIA MILITAR NAVAL Prof. Vagner Souza
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MATERIAL INTERNO DE USO EXCLUSIVO DOS ALUNOS
Proibida a reprodução total ou parcial
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P
O
R
T
U
G
U
Ê
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ÍNDICE DO MÓDULO 3 DE PORTUGUÊS
REDAÇÃO
Planejamento de Uma Redação ................................................................................................................ 01
Planejamento Textual ............................................................................................................................... 02
Introdução ................................................................................................................................................ 03
Exercício de Introdução ........................................................................................................................... 07
GRAMÁTICA
Adjetivo ................................................................................................................................................... 08
Exercício de Fixação ................................................................................................................................ 11
MÓDULO 3 – Prof. Rafael Dias e Bernadete Rocha CURSO ADSUMUS
1
REDAÇÃO
PLANEJAMENTO DE UMA REDAÇÃO - Roteiro de uma redação
1. Ler e interpretar o tema.
2. Criação livre de ideias.
3. Seleção e organização de ideias.
4. Preenchimento do planejamento
5. Escrita do rascunho.
6. Revisão do rascunho.
7. Passar a limpo.
Exemplo de roteiro de planejamento
1. Tema
2. Introdução
3. Desenvolvimento
4. Conclusão
5. Título
A persistência da violência contra a
mulher na sociedade brasileira
Técnicas de introdução:
Tese: Nesse contexto, é possível afirmar que a herança patriarcal e a impunidade contribuem para
a permanência da violência contra a mulher na sociedade brasileira. Compreender tais fatores é o
primeiro passo para acabar com essa prática ainda constante.
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2
Planejamento Textual
Tema
6. Desenvolvimento
7. Conclusão
Título
(Na prova da MB, o tema dado será
usado como título.)
Ideia 1:
Ideia 2:
Ideia 3:
Técnica de Introdução:
Tese:
Parágrafo 1 = ideia 1
Parágrafo 2 = ideia 2
Parágrafo 3 = ideia 3
Retomada da tese:
Técnica de Conclusão:
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3
INTRODUÇÃO
1) Funções:
* Contextualizar: de onde o tema surgiu? Qual a relevância da questão proposta? Qual é a melhor
estratégia para começar a falar desse tema? Essa estratégia “fere” a essência da introdução ou, ao
contrário, consegue enriquecê-la?
* Direcionar a abordagem: como o tema será tratado? Que ponto de vista será defendido?
2) Estrutura:
* 1º parágrafo do texto → cerca de cinco ou seis linhas
* Contextualização + Tese
2.1) Tese
* Conceito: eixo central / linha de raciocínio /
Expressão do ponto de vista.
a) Tese explícita por etapas: explicitação dos três
argumentos
* Tese explícita por etapas: trata-se da apresentação
clara dos argumentos que serão explorados nos
parágrafos de desenvolvimento, resumidos em um
período, na ordem em que eles aparecerão no texto.
Exemplo 1:
Tema: Consumismo
Tese: Embora necessário, o consumismo constitui uma
violência simbólica, que pode levar, também, à
criminalidade.
Arg1: relevância econômica
Arg2: imposição de “necessidades” / sedução
publicitária
Arg3: criminalidade para o consumo
Exemplo 2:
Tema: Redução da maioridade penal
Com o aumento da quantidade e da gravidade dos casos
de delinquência juvenil, vem à tona o debate em torno
de suas possíveis soluções. Dentre as propostas,
destaca-se a redução da maioridade penal para dezesseis
anos no Brasil. Embora seja necessário melhorar
previamente o sistema carcerário, essa mudança no
código penal confirma a precocidade dos jovens de hoje
e ajuda a diminuir sua imunidade frente à lei.
Arg1:
Arg2:
Arg3:
Exemplo 3:
Tema: a identidade da música brasileira
Quem vai à História descobre logo que o samba não
seria o mesmo sem os ritmos africanos e as danças
latinas, o mesmo valendo para outros estilos
tipicamente brasileiros. Por isso, vê-se como histeria o
alarme diante da música americana nas rádios e lojas de
CDs. Entretanto a velocidade das influências, hoje, é
realmente motivo de preocupação. Afinal, embora as
trocas estejam na base de qualquer cultura, os excessos
da globalização econômica precisam ser filtrados, a fim
de que a música brasileira mantenha o mosaico que
sustenta sua identidade.
Arg1:
Arg2:
Arg3:
b) Tese implícita por ideia geral ou palavra-chave:
sugestão sutil de ponto de vista
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4
* Tese implícita por ideia geral ou palavra-chave:
trata-se da sugestão genérica e/ou sutil da opinião que
será defendida na argumentação.
Exemplo 1:
Tema: Efeitos negativos da tecnologia:
Tese: Existe um paradoxo tecnológico: quanto maior o
progresso, maior a desumanização.
Arg1: comunicação mediada
Arg2: dependência da tecnologia
Arg3: redução das identidades culturais
Exemplo 2:
Tema: Representações sociais da mulher no Brasil
hoje
O discurso politicamente correto parece ocupar todos os
espaços sociais disponíveis. Não seria diferente no que
diz respeito à mulher. Reconhecimento por parte de
autoridades, mudanças na legislação eleitoral, teses e
mais teses acadêmicas. Na hora do comercial, porém, lá
está a mesma mulher-objeto de sempre, corpo
escultural, boca calada. No Brasil, sem dúvida, vive-se
uma espécie de esquizofrenia, pois a imagem feminina
oficial nunca coincide com a real.
Exemplo 3:
Tema: Democracia e desigualdade social no Brasil.
Sabe-se que o Brasil é, historicamente, marcado por
absurdas desigualdades sociais e por nenhuma medida
política eficaz para, pelo menos, amenizá-las. Nesse
contexto de displicência governamental, o abismo entre
as classes apenas aumentou e chegou, nos dias atuais, a
uma assustadora realidade de divisão e segregação. O
paradoxal, no entanto, é que mesmo em um país de
gritantes diferenças, há quem acredite viver em uma
plena democracia.
c) Tese implícita por pergunta: questionamento
retórico e sugestivo
* Tese por pergunta retórica: trata-se da sugestão de
sutil de um ponto de vista por meio de um
questionamento que induz a uma resposta.
Exemplo 1:
Tema: Os avanços da consciência ecológica no
mundo.
Rio 92, Rio+10, Rio+20, Rio+? Não há, na história,
registro de tantas reuniões e congressos para discutir os
problemas ambientais que desafiam a todos. Tema
obrigatório em sala de aula e em páginas de jornal, a
ecologia entrou eficou na moda. O que era pura ciência
alcança o cidadão comum, que, nos atos mais simples,
aos poucos muda sua postura. Mantêm-se, no entanto,
os problemas mais graves, causados pelas grandes
empresas de sempre. Nesse contexto, cabe indagar: de
que adianta a pura consciência individual se o sistema
não vê obstáculos para sua expansão destruidora?
Tema: Redução da maioridade penal
Com o aumento da quantidade e da gravidade
dos casos de delinquência juvenil, vem à tona o debate
em torno de suas possíveis soluções. Dentre as
propostas, destaca-se a redução da maioridade penal no
Brasil. Uma análise menos emocionada da situação, no
entanto, revela governos incapazes de oferecer
educação de base; prisões lotadas, que não reintegram
indivíduos à sociedade e bandidos dispostos a aliciar
pessoas cada vez mais jovens para o tráfico. Nesse
contexto, será mesmo que prender jovens de dezesseis e
dezessete anos será benéfico para o país?
Exemplo 3:
Tema: Identidade da música brasileira
Samba misturado à batida “funk”. Música eletrônica
com pitadas de rock. Jazz com apelo brega. Se a
essência da música contemporânea é a mistura, o Brasil
desempenha com louvor seu papel. No país da
miscigenação étnica, a produção musical herda a
qualidade da reciclagem criativa, responsável pela
diversidade da cultural da nação. Convém incomodar:
mosaico ou colcha de retalhos?
2.2) Estratégias de contextualização
a) Tradicional
* Frases genéricas de ambientação
- “quando o assunto é (...), não são poucas as dúvidas
presentes (...)”
- “muito se discute acerca de (...)”
* Evitar os lugares-comuns
- “Atualmente” (impreciso)
- “Desde os primórdios da humanidade” (não faz
sentido)
- “A cada dia que passa”
Exemplos:
Tema: Descrença na política no mundo
contemporâneo
Muito se tem discutido acerca da desvalorização da
política no mundo atual. De fato, o descaso com o voto
parece constituir forte sintoma desse panorama. Para
compreender tal fenômeno, cabe analisar a influência
dos políticos, da sociedade e do próprio sistema. Só
assim será possível perceber a complexidade da
situação.
a: Preservação ambiental
Não são poucos os fatores envolvidos na discussão
acerca de preservação ambiental hoje. Basta ler com
atenção os jornais ou observar a força dos Partidos
Verdes em boa parte do mundo. Em meio a esse
acalorado debate, ganha espaço a valorização da água,
por razões científicas, econômicas e humanitárias.
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5
Compreender tais fatores é o primeiro passo para
afastar uma ameaça grave ao próprio ser humano.
Tema: Aquecimento global
É cada vez mais frequente a discussão sobre o
aquecimento global. Realmente, os cientistas alertam
para os perigos da emissão de gases poluentes os quais
estão afetando a temperatura da Terra. Diante disso, o
homem começa a se preocupar um pouco mais com
suas atitudes, enquanto governos preparam leis e
acordos. Resta saber se ainda há tempo para mudar.
b) Histórica
* Citação de época passada ou episódio histórico
* Objetivo: comparação com o presente
→ semelhança
→ diferença
* Necessidade de exatidão, sem detalhismo
* Interdisciplinaridade
Exemplos:
Tema: O fim das utopias
Em 1917, uma revolução começou a concretizar uma
das maiores utopias do ser humano – a criação de uma
sociedade igualitária. Menos de um século depois, mais
precisamente em 1989, esse ideal acabou com a
destruição de um muro que, de certa forma, o
simbolizava. A sociedade mundial chegou ao século
XXI descrente e cínica, apostando tudo em uma única e
triste certeza: o indivíduo. O problema – ou solução,
nesse caso, – é que o homem nunca deixou de sonhar.
Tema: Trote nas universidades
Na Idade Média, quando surgiu, o trote constituía um
ritual de passagem cuja violência apresentava
significados filosóficos: os traumas físicos e psíquicos
ajudavam os calouros a entender seu novo lugar. Hoje,
porém, essa prática tornou-se vazia e se limita à
expressão de uma violência cada vez mais banalizada.
Tema: Problemas na política brasileira
Quando o governo militar se aproveitou da vitória
brasileira na Copa de 70 para fazer propaganda política,
muitos denunciaram uma postura populista. Hoje,
apesar da liberdade de imprensa, não são poucos os
políticos que agem apenas pela simpatia do público e
fogem de medidas impopulares. Das cotas nas
universidades ao Bolsa Escola, passando pelos
restaurantes populares, muito pouco é feito para mudar,
de fato, as estruturas sociais do País.
c) Conceitual
* Definição da palavra-chave
* Útil em temas reflexivos abstratos
Exemplos:
Tema: Educação brasileira hoje
Em sua etimologia, educar significa elevar, conduzir a
um patamar superior. Infelizmente, nem sempre a teoria
se aproxima da prática. O sistema educacional
brasileiro é um bom exemplo desse distanciamento.
Infraestrutura decadente, baixa remuneração de
profissionais e currículos antiquados não combinam
com o discurso do ministério da Educação, pois o
tornam etéreo.
Tema: A ciência e o dinheiro
Os dicionários registram que a ciência é o conjunto de
conhecimentos de determinada área, obtidos segundo
um método objetivo e demonstrável. Embora clara, essa
definição deixa de lado um fator cada vez mais presente
no mundo científico: o dinheiro. Sejam as verbas para
universidades públicas, sejam os investimentos em
laboratórios privados, o fato é que os cientistas
tornaram-se reféns da lógica econômica. Nesse novo
contexto, a humanidade só tem a perder.
Tema: A transgressão às leis no contexto
contemporâneo
Segundo o filósofo grego Aristóteles, “a lei é a razão
livre da paixão”. A julgar pelo panorama atual, esse
precioso ensinamento tem sido constantemente
desvirtuado. Para muitos, a paixão – como sinônimo de
interesses e desejos pessoais – revela-se elemento
inerente à observância de uma lei, e, o que é pior, pode
ser o pretexto necessário para que esta não seja sequer
cumprida.
d) Fotográfica
* Citação de três imagens sucessivas que apresentem o
tema
* Vantagem: dinamismo
* Depois é preciso fazer uma frase para explicar os
flashes.
Exemplos:
Tema: Relações amorosas na atualidade
Adolescentes “ficando”. Namoros via internet.
Aumento do número de divórcios. Tais são alguns dos
indícios de que as relações amorosas têm passado por
transformações profundas. Sem dúvida, a economia, a
tecnologia e a aceleração dos processos têm sido
decisivas na caracterização do amor contemporâneo.
Cabe compreender esse processo para julgá-lo — se for
o caso.
Tema: O brasileiro diante do medo da violência
Olhos inquietos, bolsa levada à frente do corpo, andar
apressado. Esses exemplos não tratam de um cidadão
neurótico, mas de um típico brasileiro morador das
grandes cidades. Seja nas estatísticas, seja nas ruas, a
violência aparece em todas as suas dimensões e, dessa
forma, altera o cotidiano das pessoas. Nessa realidade,
todos garantem sua segurança como podem, uns
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compram armas, outros planejam roteiros, outros ainda
evitam sair de casa. Afinal, ninguém quer ser vítima da
violência.
Tema: Identidade da música brasileira
Samba misturado à batida “funk”. Música eletrônica
com pitadas de rock. Jazz com apelo brega. Se a
essência da música contemporânea é a mistura, o Brasil
desempenha com louvor seu papel. No país da
miscigenação étnica, a produção musical herda a
qualidade da reciclagem criativa, responsável pela
diversidade cultural da nação. Convém incomodar:
mosaico ou colcha de retalhos?
e) Jornalística
* Micronarrativa que ilustre o tema
* Uma espécie denarrativa
Exemplos:
Tema: Violência gratuita
Em junho de 2011, cinco adolescentes de classe média
espancaram uma empregada doméstica na Barra da
Tijuca. De modo semelhante ao que ocorrera com o
índio Galdino, incendiado em Brasília há dez anos, a
vítima ainda não entendeu por que sofreu a agressão.
Às gargalhadas, o grupo repetia um fenômeno que não
é novo e só piora a cada ano: a violência gratuita
praticada por jovens abastados. Embora injustificável,
essa prática precisa ser compreendida para ser
controlada. Eis o desafio.
Tema: Trote nas universidades
Há cerca de cinco anos, a USP foi palco de uma
tragédia: a morte de um calouro de medicina durante o
trote. Esse episódio trouxe à tona uma discussão que
ficara escondida por muito tempo. Trata-se do debate
em torno dos trotes universitários e sua violência
descontrolada. Embora represente um sadismo
compreensível, essa prática vai de encontro ao espírito
universitário e pode ser substituída por atividades mais
inteligentes.
f) Cultural
*Interdisciplinaridade com a cultura: música, artes,
literatura, etc.
Exemplos:
Tema: O sentido do tempo para o homem
contemporâneo
Entre os poderes da arte, encontra-se a capacidade de
traduzir certas percepções em palavras ou imagens
especiais. Na música, por exemplo, canções como a
“Oração ao Tempo”, de Caetano Veloso, e “Tempo
Rei”, de Gilberto Gil, falam de um mesmo assunto e o
fazem da mesma maneira: personificam o tempo com
letras maiúsculas. Essa opção faz sentido, sobretudo,
quando se reflete acerca da importância dada ao tempo
pelo homem contemporâneo, que o trata como uma
espécie de religiosidade vazia.
Tema: O sentido do tempo para o homem
contemporâneo
Há cem anos, Einstein mudou a cosmovisão ocidental
ao propor a teoria da relatividade. Embora se trate de
assunto complexo, a hipótese do físico alemão colocou
o tempo em evidência, tornando-se a grande questão
desta época. Em meio à preponderância da economia,
nunca foi tão verdadeiro o clichê “tempo é dinheiro”.
Em virtude dessa visão pragmática, a aceleração
tecnológica reduz o tempo do homem, que tenta detê-lo
em vão.
Tema: O sentido do tempo para o homem
contemporâneo
Quando Santos Dumont inventou o relógio de pulso,
talvez não tenha imaginado o quanto esse instrumento
seria importante, até mesmo para evidenciar sua obra
mais famosa. Sem dúvida, seja para embarcar num
avião, seja para regular suas atividades vitais, o homem
mede o tempo de tudo. Entretanto, quanto mais a
humanidade imagina controlar a passagem dos
ponteiros nos relógios, mais ela se torna refém desse
controle.
Outros Tipos de Contextualização
g) Divisão
Tema: Exclusão Social
Predominam ainda no Brasil duas convicções errôneas
sobre o problema da exclusão social: a de que ela deve
ser enfrentada apenas pelo poder público e a de que sua
superação envolve muitos recursos e esforços
extraordinários. Experiências relatadas mostram que o
combate à marginalidade social em Nova Iorque tem
contado com intensivos esforços do poder público e
ampla participação da iniciativa privada.
a) Oposição
Tema: Educação no Brasil
De um lado, professores mal pagos, desestimulados,
esquecidos pelo governo. De outro, gastos excessivos
com computadores, antenas Wi-Fi, aparelhos de DVD.
É este o paradoxo que vive hoje a educação no Brasil.
h) Uma frase nominal seguida de explicação
Tema: Educação no Brasil.
Uma catástrofe. Essa é a conclusão da própria
Secretaria de Avaliação e Informação Educacional do
Ministério da Educação e Cultura sobre o desempenho
dos alunos do 3º ano do Ensino Médio submetidos ao
Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), que
ainda avaliou estudantes em todas as regiões do
território nacional. É preciso, então, que o governo
busque alternativas para esse grave problema.
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i) Citação
Tema: política demográfica
"As pessoas chegam ao ponto de uma criança morrer e
os pais não chorarem mais". O comentário do fotógrafo
Sebastião Salgado sobre o que viu em Ruanda é um
estímulo no estado de letargia ética que domina
algumas nações do Mundo Desenvolvido. Será que a
humanidade está deixando de ser humana?
j) Citação de forma indireta
Tema: consumismo
O teórico Joaquim Nabuco, em sua comiseração pelo
escravo brasileiro, disse que este só tem a própria
morte. O movimento brasileiro antiescravista, quando já
fortalecido, deixou bem clara essa pungente acusação
nas palavras dos abolicionistas.
K) Comparação
Tema: reforma agrária
O tema da reforma agrária está presente há bastante
tempo nas discussões sobre os problemas mais graves
que afetam o Brasil. Numa comparação entre o
movimento pela abolição da escravidão no Brasil, no
final do século passado, e o movimento atual pela
reforma agrária, podem-se perceber algumas
semelhanças. Como na época da abolição da escravidão
existiam elementos favoráveis e contrários a ela,
também hoje há os que são a favor e os que são contra a
implantação da reforma agrária.
EXERCÍCIO DE INTRODUÇÃO
1. Leia com atenção o seguinte texto:
Com base nas ideias presentes nos textos
acima, redija 4 parágrafos diferentes de
introdução sobre o tema:
A redução da maioridade penal no
Brasil
OBS.:
- Utilize as várias técnicas de
contextualização e de tese;
- Não se esqueça de indicar a técnica por
você escolhida antes de cada parágrafo.
- Faça 2 ou 3 frases em cada parágrafo;
- Faça parágrafos de 4 a 6 linhas;
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GRAMÁTICA
ADJETIVO
Adjetivo é a palavra que expressa qualidade, característica ou estado dos seres em geral. É variável em gênero,
número e grau. Pode ser classificado de quatro formas.
Primitivo (não são formados por derivação de nenhuma outra palavra) – Ex.: azul, curto, feliz.
Derivado (formado por derivação) – Ex.: azulado, infeliz, desconfortável.
Simples (apresentam um radical) – Ex.: branco, claro, livre.
Composto (apresenta dois ou mais radicais) – Ex.: luso-africano, político-institucional, sul-rio-grandense.
Obs.: A locução adjetiva é uma expressão geralmente formada de preposição + substantivo, com valor de adjetivo.
Ex.: A água da chuva destruiu a lavoura de café. Ele apresentou uma atitude sem qualquer cabimento.
Emprego dos adjetivos e locuções adjetivas
1. Qualificação: livro interessante, restaurante modesto.
2. Caracterização: livro verde, livro grosso, livro de cima.
3. Informação: livro de meu pai, roupa importada da Alemanha.
4. Restrição: Secretaria de Educação, porta da sala,
5. Frequentemente, usa-se o adjetivo depois do substantivo. Ex.: Os assuntos ecológicos ganharam destaque.
6. Seu emprego antes do substantivo, em determinados contextos, confere-lhe destaque. Ex.: Suas belas músicas me
encantam.
7. Sua posição, em alguns casos, pode alterar-lhe o sentido. Ex.: A personagem central era uma pobre mulher. A
personagem central era uma mulher pobre.
INFORMAÇÕES COMPLEMENTARES
1. FLEXÃO DE NÚMERO
1.1. Plural dos adjetivos simples: seguem as mesmas regras dos substantivos.
1.2. Plural dos adjetivos compostos
1.2.1. Apenas o último elemento varia quando
*palavra invariável + adjetivo: semi-internos
*adjetivo + adjetivo: amizades luso-brasileiras; conflitos sino-soviéticos; folhas azul-claras.
OBS.: Nos substantivos compostos que designam cores, ambos os elementos vão para o plural: os verdes-claros, os
amarelos-esverdeados, os azuis-escuros.
EXCEÇÕES : surdo-mudo - surdos-mudos;
1.2.2. Adjetivos referentes a cores são invariáveis quando o segundo elemento da composição é um substantivo:
canários amarelo-ouro, uniformes verde-oliva, blusas verde-garrafa,camisas vermelho-sangue
OBS.: Nos substantivos compostos desse tipo, admitem-se dois plurais:
O verde-água - os verdes-águas ou os verdes-água
O verde-abacate - os verdes-abacates ou os verdes-abacate
1.4. São adjetivos invariáveis: azul-marinho, azul-celeste.
2. FLEXÃO DE GÊNERO (formação do feminino)
2.1. Os adjetivos terminados em –o trocam essa terminação por –a.
Ex.: ativo / ativa, branco / branca
2.2. Os terminados em –es, -or e –u geralmente recebem a terminação –a.
Ex.: freguês / freguesa, sedutor / sedutora, cru/ crua.
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Obs.: os adjetivos hindu, sensabor, cortês, incolor, multicor, bicolor, tricolor, maior, melhor, menor, pior, superior,
anterior, posterior são usados dessa forma também para o feminino. Ex.: roupa hindu, atitude superior.
2.3. Os terminados em –ão trocam essa terminação por –ã, -ona e, mais raramente, por –oa.
Ex.: alemão / alemã, cristão / cristã, chorão / chorona, comilão / comilona, beirão / beiroa.
2.4. Os terminados em –eu (com som fechado) trocam essa terminação por -eia/ os terminados em –eu (som aberto)
trocam por –oa.
Ex.: ateu / ateia, europeu / europeia, ilhéu / ilhoa, tabaréu / tabaroa.
Exceções: judeu / judia, sandeu / sandia, réu/ré
2.5. Feminino dos compostos: apenas o segundo elemento varia. Ex.: literatura hispano-americana
Exceção: menino surdo-mudo / menina surda-muda
Observação importante: Os adjetivos compostos cujo segundo elemento é um substantivo são invariáveis. Ex.:
amarelo-ouro, verde-mar.
2.6. Há muitos adjetivos uniformes (servem para masculino e feminino): agrícola, audaz, exemplar, frágil, ruim.
3. GRAUS DO ADJETIVO
COMPARATIVO (Indica uma relação de 1 ser para 2 adjetivos ou de 2 seres para 1 adjetivo.)
3.1. Grau comparativo de igualdade: Pedro é tão forte quanto eu./ Pedro é tão forte quanto inteligente.
3.2. Grau comparativo de superioridade: Pedro é mais forte (do) que eu./ Pedro é mais forte (do) que inteligente.
3.3. Grau comparativo de inferioridade: Pedro é menos forte (do) que eu. / Pedro é menos forte (do) que inteligente.
OBS.: Ao se comparar 2 qualidades ou ações de sum ser, empregam-se “mais bom”, “mais mau”, “mais grande”,
“mais pequeno” e, vez de melhor, pior, maior, menor:
Ele é mais bom do que mau. A escola é mais grande do que pequena. Ele é mais mau do que simpático. Ele é
mais pequeno do que grande.
SUPERLATIVO (Destaca um ser)
3.4. Superlativo absoluto: Pedro é muito forte. (analítico)
Pedro é fortíssimo. (sintético)
3.5. Superlativo relativo: Pedro é o mais forte da turma. (de superioridade)
Pedro é o menos forte da turma (de inferioridade)
Obs.: na linguagem coloquial, pode-se empregar a repetição do mesmo adjetivo, sem pausa e sem vírgula.
O dia está belo belo. Ela era linda linda.
4. FORMAÇÃO DO SUPERLATIVO ABSOLUTO SINTÉTICO
Forma-se pelo acréscimo de –íssimo:
original - originalíssimo
belo – belíssimo
triste - tristíssimo
4.2. Adjetivos terminados em –vel têm o superlativo em –bilíssimo:
amável - ambilíssimo
terrível –terribilíssimo
móvel –mobilíssimo
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4. 3. Adjetivos terminados em –z fazem o superlativo em –císsimo :
capaz – capacíssimo
feliz – felicíssimo
atroz – atrocíssimo
4. 4. Adjetivos terminados em -m e -ão recebem -níssimo :
comum – comuníssimo
são – saníssimo
4.5. Adjetivos que seguem a forma latina no superlativo :
amargo –amaríssimo
amigo – amicíssimo
antigo – antiquíssimo
benéfico – beneficentíssimo
cristão – cristianíssimo
cruel – crudelíssimo
doce – dulcíssimo
fiel – fidelíssimo
frio – frigidíssimo
geral – generalíssimo
inimigo – inimicíssimo
4.6. Adjetivos em -imo e -rimo :
célebre – celebérrimo
humilde - humílimo
livre – libérrimo
magro – macérrimo
negro – nigérrimo
pobre – paupérrimo
4.7. Adjetivos terminados em -io :
sério – seriíssimo
cheio – cheiíssimo
necessário – necessariíssimo ( também com um só –i )
4.8. Comparativos e superlativos anômalos
adjetivos comparativo de superioridade superlativo
Absoluto Relativo
bom melhor ótimo o melhor
mau pior péssimo o pior
grande maior máximo o maior
pequeno menor mínimo o menor
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EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO
1. “Talvez seja bom que o proprietário do imóvel possa
desconfiar de que ele não é tão imóvel assim.” As
palavras destacadas assumem, respectivamente, valor de
a) substantivo e substantivo.
b) substantivo e adjetivo.
c) adjetivo e verbo.
d) advérbio e adjetivo.
e) adjetivo e advérbio.
2. Assinale o período em que ocorre a mesma relação
significativa indicada pelos termos destacados em "A
atividade científica é tão natural quanto qualquer outra
atividade econômica":
a) Ele era tão aplicado, que em pouco tempo foi
promovido.
b) Quanto mais estuda, menos se aprende.
c) Tenho tudo quanto quero
d) Sabia a lição tão bem como eu.
e) Todos estavam exaustos, tanto que se recolheram logo.
3. “Os homens são os melhores fregueses do bairro" ...
Os melhores encontra-se no grau:
a) comparativos de superioridade.
b) superlativo comparativo de superioridade.
c) superlativo absoluto sintético.
d) superlativo relativo sintético de superioridade.
4. Assinale a alternativa em que o adjetivo está
flexionado no grau superlativo absoluto sintético:
a) O garoto é tão inteligente quanto sua irmã.
b) O aluno é o mais inteligente da sala.
c) A cerveja está geladíssima.
d) O político é muito influente.
e) O leite está melhor que o café.
5. O desagradável da questão era vê-lo de mau humor
depois da troca de turno.
Na frase acima, as palavras em destaque comportam-se,
respectivamente, como:
a) substantivo, adjetivo, substantivo
b) adjetivo, advérbio, verbo
c) substantivo, adjetivo, verbo
d) substantivo, advérbio, substantivo
e) adjetivo, adjetivo, verbo
6. Qual o significado das palavras destacadas nas frases?
a) O príncipe era um homem grande.
______________________________________________
___________________________________________
b) O príncipe era um grande homem.
______________________________________________
___________________________________________
c) Se você tem-se decepcionado com amigos cachorros,
arrume um cachorro amigo.
______________________________________________
___________________________________________
d) Seja paciente no trânsito para não ser paciente (usuário
do) no hospital.
______________________________________________
___________________________________________
7. Assinale a alternativa em que o termo cego(s) é um
adjetivo:
a) "Os cegos, habitantes de um mundo esquemático,
sabem aonde ir..."
b)"O cegode Ipanema representava naquele momento
todas as alegorias da noite escura da alma..."
c)"Todos os cálculos do cego se desfaziam na turbulência
do álcool."
d)"Naquele instante era só um pobre cego."
e)"... da Terra que é um globo cego girando ao caos."
8. Se preenchermos os espaços com a expressão colocada
entre parênteses, ficará gramaticalmente correta somente
a frase da alternativa:
a) Naquele ano, passariam pela ponte... de pessoas.
(duas milhões)
b) Quando chegaram ao local, ... estava dormindo.
(o sentinela)
c) Tivemos... deles, mas não pudemos fazer nada.
(muita dó)
d) Por causa do ferimento, ... não resistiu e morreu.
(a sabiá)
e) Falta apenas... para completarmos a quantidade
exigida. (uma milhar)
9. Assinale a alternativa que completa corretamente as
lacunas da frase.
Ficou com... quando soube que... caixa do banco
entregara aos ladrões todo o dinheiro... clã.
a) o moral abalado- o – do
b) a moral abalada- o – da
c) o moral abalado –o- da
d) a moral abalado – a – do
e) a moral abalada – a – da
MÓDULO 3 – Prof. Rafael Dias e Bernadete Rocha CURSO ADSUMUS
12
10. Classificam-se como substantivos as palavras destacadas, exceto em:
a) "... o idiota com quem os moleques mexem...".
b) "... visava a me acostumar à morna tirania...".
c) "Adeus, volto para meus caminhos".
d) "... conheço até alguns automóveis...".
e)"... todas essas coisas se apagarão em lembranças...".
11. Classifique o grau dos adjetivos nas frases abaixo.
a) O cajueiro é mais alto que a roseira.
_____________________________________________
b) A palmeira é a mais alta árvore desse lugar.
_____________________________________________
c) Henrique está menos adiantado do que Paulo.
_____________________________________________
d) Esta lição parece tão fácil como a precedente.
_____________________________________________
e) Guardei as melhores recordações daqueles dias de férias.
_____________________________________________
f) Sem o teu auxílio, o meu trabalho seria péssimo.
_____________________________________________
g) fizemos uma viagem muito rápida.
_____________________________________________
h) Moras em casa maior do que a minha.
M
A
T
E
M
Á
T
I
C
A
ÍNDICE DO MÓDULO 3 DE MATEMÁTICA
TEORIA DOS CONJUNTOS
Símbolos ................................................................................................................................................... 01
Relações entre Conjuntos ......................................................................................................................... 01
Diagramas de Euler-Venn ........................................................................................................................ 01
Operações com Conjuntos .................................................................................................................... 02
Conjunto das Partes ou Potências ............................................................................................................ 02
Conjuntos Numéricos .............................................................................................................................. 02
Questões de Concursos ........................................................................................................................... 03
Gabaritos ................................................................................................................................................. 13
CURSO ADSUMUS
Profº César Loyola
Matemática – Prof. César Loyola 1/13curso adsumus
Assunto: Matemática Módulo III – QOAM
TEORIA DOS CONJUNTOS
Símbolos
: pertence : existe
: não pertence : não existe
: está contido : para todo (ou qualquer que seja)
: não está contido : conjunto vazio
: contém N: conjunto dos números naturais
: não contém Z : conjunto dos números inteiros
/ : tal que Q: conjunto dos números racionais
: implica que Q'= I: conjunto dos números irracionais
: se, e somente se R: conjunto dos números reais
Símbolos das operações
: A intersecção B
: A união B
A - B: diferença de A com B
a < b: a menor que b
: a menor ou igual a b
a > b: a maior que b
: a maior ou igual a b
: a e b
: a ou b
Conjunto Universo : Em certos problemas da teoria dos
conjuntos, é preciso que se defina um conjunto que contenha
todos os conjuntos considerados. Assim, todos os conjuntos
trabalhados no problema seriam subconjuntos de um conjunto
maior, que é conhecido como conjunto universo , ou
simplesmente universo.
Por exemplo: em um problema envolvendo conjuntos de
números inteiros, o conjunto dos números inteiros Z é o
conjunto universo; em um problema envolvendo palavras
(consideradas como conjuntos de letras), o universo é o
alfabeto.
Relações entre conjuntos
Relação de Inclusão: Para relacionar um conjunto com
outro conjunto (ou subconjunto) utilizamos a relação de
inclusão.
Exemplo: Se considerarmos o conjunto formado por todas
as letras do alfabeto e o conjunto formado pelas vogais,
podemos dizer que (A contém V) ou (V
está contido em A)
Relação de Pertinência: Se é um elemento de , nós
podemos dizer que o elemento pertence ao conjunto e
podemos escrever . Se não é um elemento de ,
nós podemos dizer que o elemento não pertence ao conjunto
e podemos escrever .
Exemplos:
•
•
•
•
Conjunto vazio : é um conjunto que não possui elementos.
O conjunto vazio é representado por { } ou .
Conjunto unitário : é um conjunto que possui somente um
elemento.
Subconjuntos: quando todos os elementos de um
conjunto A qualquer pertencem a um outro conjunto B,
diz-se, então, que A é um subconjunto de B, ou seja
A B. Observações:
• Todo o conjunto A é subconjunto dele próprio, ou seja
;
• O conjunto vazio, por convenção, é subconjunto de
qualquer conjunto, ou seja
DIAGRAMAS DE EULER-VENN – Um bom modo de
visualizarmos relações entre conjuntos é através dos diagramas
de Euler-Venn. Os conjuntos são representados por regiões
planas interiores a uma curva fechada e simples.
Matemática – Prof. César Loyola 2/13curso adsumus
Operações com conjuntos
União de Conjuntos: dados os conjuntos A e B,
define-se como união dos conjuntos A e B ao conjunto
representado por , formado por todos os
elementos pertencentes a A ou B, ou seja:
Intersecção de Conjuntos: dados os conjuntos
A e B, define-se como intersecção dos conjuntos A e B
ao conjunto representado por , formado por
todos os elementos pertencentes a A e B,
simultaneamente, ou seja:
Diferença de Conjuntos: dados os conjuntos A e
B, define-se como diferença entre A e B (nesta ordem)
ao conjunto representado por A-B, formado por todos
os elementos pertencentes a A, mas que não
pertencem a B, ou seja
Produto Cartesiano: dados os conjuntos A e B,
chama-se peoduto cartesiano A com B, ao conjunto
AxB, formado por todos os pares ordenados (x,y),
onde x é elemento de A e y é elemento de B, ou seja
Conjunto Complementar: Dado um universo U,
diz-se complementar de um conjunto A, em relação ao
universo U, o conjunto que contém todos os elementos
presentes no universo e que não pertençam a A.
Também define-se complementar para dois conjuntos,
contanto que um deles seja subconjunto do outro.
Nesse caso, diz-se, por exemplo, complementar de B
em relação a A (sendo B um subconjunto de A) — é o
complementar relativo — e usa-se o símbolo .
Matematicamente:
Exemplo:
A = { 3,4,9,{10,12},{25,27} }
D = { {10,12} }
Conjunto das Partes ou Potência
Dado um conjunto A, definimos o conjunto das partes de A,
, como o conjunto que contém todos os subconjuntos
de A (incluindo o conjunto vazio e o próprio conjunto A).
Uma maneira prática de determinaré pensar em todos
os subconjuntos com um elemento, depois todos os
subconjuntos com dois elementos, e assim por diante.
Exemplo :
Se A = { 1, 2, 3 }, então = { ∅, {1}, {2}, {3}, {1,
2}, {1, 3}, {2, 3}, {1, 2, 3} }.
Número de subconjuntos de um conjunto: se um conjunto A
possuir n elementos, então existirão 2n subconjuntos de A.
Quantidade de subconjuntos não vazios: 2n - 1
Relação Quantitativa com 2 conjuntos:
( ) ( ) ( ) ( )n A B n A n B n A B∪ = + − ∩
CONJUNTOS NUMÉRICOS
• Conjunto dos números naturais (IN)
Um subconjunto importante de IN é o conjunto IN*:
IN*={1, 2, 3, 4, 5,...} � o zero foi excluído do conjunto IN.
Podemos considerar o conjunto dos números naturais
ordenados sobre uma reta, como mostra o gráfico abaixo:
• Conjunto dos números inteiros (Z)
IN={0, 1, 2, 3, 4, 5,...}
Z={..., -3, -2, -1, 0, 1, 2, 3,...}
Matemática – Prof. César Loyola 3/13curso adsumus
O conjunto IN é subconjunto de Z.
Temos também outros subconjuntos de Z:
Z* = Z-{0}
Z+ = conjunto dos inteiros não negativos = {0,1,2,3,4,5,...}
Z_ = conjunto dos inteiros não positivos = {0,-1,-2,-3,-4,-
5,...}
Observe que Z+=IN.
Podemos considerar os números inteiros ordenados sobre
uma reta, conforme mostra o gráfico abaixo:
• Conjunto dos números racionais (Q)
Os números racionais são todos aqueles que podem ser
colocados na forma de fração (com o numerador e denominador
∈ Z). Ou seja, o conjunto dos números racionais é a união do
conjunto dos números inteiros com as frações positivas e
negativas.
Exemplos:
Assim, podemos escrever:
É interessante considerar a representação decimal de um
número racional, que se obtém dividindo a por b.
Exemplos referentes aos decimais exatos ou finitos:
Exemplos referentes aos decimais periódicos ou infinitos:
Todo decimal exato ou periódico pode ser
representada na forma de número racional.
• Conjunto dos números irracionais
Os números irracionais são decimais infinitas não
periódicas, ou seja, os números que não podem ser escrito na
forma de fração (divisão de dois inteiros). Como exemplo de
números irracionais, temos a raiz quadrada de 2 e a raiz
quadrada de 3:
Um número irracional bastante conhecido é o número
π=3,1415926535...
• Conjunto dos números reais (IR)
Dados os conjuntos dos números racionais (Q) e dos
irracionais, definimos o conjunto dos números reais como:
O diagrama abaixo mostra a relação entre os conjuntos
numéricos:
Portanto, os números naturais, inteiros, racionais e
irracionais são todos números reais . Como subconjuntos
importantes de IR temos:
IR* = IR-{0}
IR+ = conjunto dos números reais não negativos
IR_ = conjunto dos números reais não positivos
Obs: entre dois números inteiros existem infinitos
números reais. Por exemplo:
• Entre os números 1 e 2 existem infinitos números reais:
1,01 ; 1,001 ; 1,0001 ; 1,1 ; 1,2 ; 1,5 ; 1,99 ; 1,999 ;
1,9999 ...
• Entre os números 5 e 6 existem infinitos números reais:
5,01 ; 5,02 ; 5,05 ; 5,1 ; 5,2 ; 5,5 ; 5,99 ; 5,999 ; 5,9999 ...
QUESTÕES DE CONCURSOS
1) Se um conjunto A possui 1024 subconjuntos, então o cardinal
de A é igual a:
a) 5
b) 6
c) 7
d) 9
e) 10
2) Se A, B e A ∩ B são conjuntos com 90, 50 e 30 elementos,
respectivamente, então o número de elementos do conjunto A
∪ B é:
a) 10
b) 70
c) 85
d) 110
e) 170
racionais. números são exemplo,por ,
2
3
,1 ,
5
3
,1 ,
4
5
2 :Então −−, -
3
3
2
2
1
1
1 )
3
9
2
6
1
3
3)
===
−=−=−=−
b
a
}0 e , com , |{ ≠∈∈== bZbZa
b
a
xxQ
...7320508,13
...4142135,12
=
=
IR=Q ∪∪∪∪ {irracionais} = {x|x é
racional ou x é irracional}
...1666,1
6
7
...428571428571,0
7
6
...333,0
3
1 ===
...1666,1
6
7
...428571428571,0
7
6
...333,0
3
1 ===
Matemática – Prof. César Loyola 4/13curso adsumus
3) Se F é um conjunto com n + 1 elementos, então o número de
elementos de P(F), ou seja, conjunto das partes do conjunto F,
é:
a) 2(n + 1)
b) n + 1
c) 2n
d) 4n
e) 2.2n
4) Dois clubes X e Y possuem um total de 3.000 sócios. Sabe-
se que 1.850 são sócios de X e 2.500 são sócios de Y. O
número de sócios de X que não são sócios de Y é:
a) 350
b) 500
c) 1.150
d) 1.350
e) 1.500
5) Sendo M(0) o conjunto dos múltiplos de zero e D(0) o
conjunto dos divisores de zero, M(0) e D(0) são,
respectivamente conjuntos:
a) unitário e infinito
b) unitário e vazio
c) vazio e unitário
d) vazio e infinito
e) infinito e vazio
6) Sejam A e B possuem um único elemento em comum. Se o
número de subconjuntos de A é igual a metade do número de
subconjuntos de B, o número de elementos do conjunto A
união B é o:
a) A metade do número de elementos de B
b) A metade do número de elementos de A
c) O dobro do número de elementos de B
d) O dobro do número de elementos de A
e) Igual ao número de elementos de B
7) A e B são conjuntos disjuntos e subconjuntos do conjunto
universo (U). Se A’ e B’ são conjuntos complementares em U
(conjuntos universo) então (B’ – A) ∪ (A ∪ B) é:
a) Conjunto vazio
b) Conjunto Universo
c) A união B’
d) (A – B)’
e) A’ – B
8) Num grupo de estudantes, 80% estudam inglês, 40%
estudam francês e 10% não estudam nenhuma dessas duas
línguas. Nesse grupo, a porcentagem de alunos que estudam
ambas as línguas é:
a) 25%
b) 50%
c) 15%
d) 33%
e) 30%
9) Se n é o número de subconjuntos não-vazios do conjunto
formado pelos múltiplos estritamente positivos de 5, menores do
que 40, então o valor de n é:
a) 127
b) 125
c) 124
d) 120
e) 110
10) Analisando as carteiras de vacinação das 84 crianças de
uma creche, verificou-se que 68 receberam a vacina Sabin, 50
receberam a vacina contra Sarampo e 12 não foram vacinadas.
Quantas dessas crianças receberam as duas vacinas?
a) 11
b) 18
c) 22
d) 23
e) 46
11) Sejam R e S conjuntos que possuem três elementos em
comum. Se o número de subconjuntos de R é a quarta parte do
número de subconjuntos de S, o número mínimo de elementos
do conjunto R ∪ S é o:
a) 5
b) 4
c) 6
d) 6
e) impossível
12) Em uma divisão do CPA são praticados dois esportes, vôlei
e natação. Exatamente 75% dos militares praticam vôlei e 70%
natação. Sabendo que todo militar é praticante de pelo menos
um dos esportes, determine o percentual de militares que
praticam somente um dos esportes.
a) 40%
b) 45%
c) 50%
d) 55%
e) 60%
Matemática – Prof. César Loyola 5/13curso adsumus
13) Numa pesquisa com fuzileiros navais foram feitas as
seguintes perguntas para que respondessem sim ou não: Gosta
de tirar serviço? Gosta de realizar treinamento de guerra?
Responderam sim somente à primeira pergunta 65 fuzileiro; 85
responderam sim à segunda; 30 responderam sim a ambas; e
35 responderam não a ambas. Quantos fuzileiros foram
entrevistados.
a) 185
b) 155
c) 150
d) 195
e) 200
14) Numa pesquisa realizada entre 500 pessoas, 318 gostavam
de uma mercadoria A, 264 de uma mercadoria B e 112
gostavam das duas mercadorias. Quantos não gostavam da
mercadoria Ae nem da B?
a) 30
b) 32
c) 35
d) 40
e) 42
15) Em uma prova de concurso público compareceram 500
candidatos. 30% deles acertaram a questão A, enquanto que
10% acertaram as questões A e B. Quantos candidatos
acertaram apenas a questão B?
a) 320
b) 350
c) 380
d) 400
e) 420
16) Numa turma de 30 alunos, 6 escrevem com a mão esquerda
e dois com as duas mãos. Quantos escrevem com a mão
direita?
a) 18
b) 20
c) 22
d) 24
e) 26
17) Numa turma de 35 alunos, 27 gostam de futebol, 16 de
basquete e 13 gostam dos dois. Quantos não gostam nem de
futebol e nem de basquete?
a) 5
b) 6
c) 7
d) 8
e) 9
18) Uma pesquisa entre telespectadores mostrou que, em cada
100 pessoas, 60 assistem a novela A, 50 assistem a novela B,
50 assistem a novela C, 30 assistem as novelas A e B, 20 as
novelas B e C, 30 as novelas A e C, e 10 as três novelas.
Quantos não assistem a essas novelas?
a) 8
b) 10
c) 12
d) 14
e) 16
19) Numa cidade existem dois clubes A e B, que têm juntos
6000 sócios. O clube A têm 4000 sócios e os dois clubes têm
500 sócios comuns. Quantos sócios têm o clube B?
a) 2300
b) 2400
c) 2500
d) 2600
e) 2740
20) Numa pesquisa , verificou-se que, das pessoas consultadas,
100 liam o jornal A, 150 liam o jornal B, 20 liam os dois jornais
(A e B) e 110 não liam nenhum dos dois jornais. Quantas
pessoas foram consultadas?
a) 320
b) 340
c) 350
d) 360
e) 380
21) Numa pesquisa de mercado, verificou-se que 2000 pessoas
usam os produtos A ou B. O produto B é usado por 800
pessoas, e 320 pessoas usam os dois produtos ao mesmo
tempo. Quantas pessoas usam o produto A?
a) 1480
b) 1500
c) 1520
d) 1540
e) 1560
Matemática – Prof. César Loyola 6/13curso adsumus
22) Sabe-se que o sangue das pessoas pode ser classificado
em quatro tipos quanto a antígenos. Em uma pesquisa efetuada
num grupo de 120 pacientes de um hospital, constatou-se que
40 deles têm o antígeno A, 35 têm o antígeno B e 14 têm o
antígeno AB. Nestas condições, pede-se o número de pacientes
cujo sangue tem o antígeno O.
a) 57
b) 59
c) 60
d) 63
e) 70
23) Em uma O.M. Naval são praticados dois esportes, vôlei e
basquetebol. Exatamente 80% dos fuzileiros praticam vôlei e
60% basquetebol. Sabendo que todo fuzileiro é praticante de
pelo menos um dos esportes, determine o percentual de
fuzileiros que praticam ambos.
a) 28%
b) 32%
c) 36%
d) 38%
e) 40%
24) Numa competição militar com 60 sargentos do CAP, 11
jogam xadrez, 31 são homens ou jogam xadrez e 3 mulheres
jogam xadrez. Calcule o número de homens que não jogam
xadrez.
a) 20
b) 26
c) 30
d) 32
e) 34
25) Numa O.M. Naval há n sargentos. Sabe-se que 56
sargentos praticam natação, 21 praticam natação e judô, 106
praticam apenas um dos dois esportes e 66 não praticam judô.
O valor de n é:
a) 146
b) 148
c) 152
d) 156
e) 158
26) Numa pesquisa com marujos, foram feitas as seguintes
perguntas para que respondessem sim ou não: Gosta de
navegar? Gosta de tirar serviço? Responderam sim à primeira
pergunta 90 marujos; 70 responderam sim à segunda; 25
responderam sim a ambas; e 40 responderam não a ambas.
Quantos marujos foram entrevistados.
a) 170
b) 175
c) 180
d) 182
e) 186
27) Temos 400 militares numa corporação da Marinha,
constatou-se que: 160 deles são oficiais, 130 são homens e 50
são homens oficiais. O número de militares praças mulheres é:
a) 150
b) 155
c) 160
d) 168
e) 170
28) Consultados 500 militares sobre as manobras de guerra a
que habitualmente participam obteve-se o seguinte resultado:
280 militares participam da manobra A, 250 participam da
manobra B e 70 participam de outras manobras distintas de A e
B. O número de militares que participam da manobra A e não
participam da manobra B é:
a) 170
b) 180
c) 185
d) 190
e) 196
29) Uma pesquisa de mercado sobre o consumo de três marcas
A, B e C de um determinado produto apresentou os seguintes
resultados: A 48%, B 45%, C 50%, A e B 18%, A e C 15%, B e
C 25% e nenhuma das três marcas 5%. Qual a porcentagem
dos entrevistados que consomem uma e apenas uma das três
marcas?
a) 57%
b) 58%
c) 60%
d) 61%
e) 62%
Matemática – Prof. César Loyola 7/13curso adsumus
30) Numa O.M., 58% dos militares são do sexo masculino.
Entre os homens, 22% estão na O.M. há mais de cinco anos;
entre as mulheres, este percentual é de 27%. A porcentagem
total de militares da O.M. que lá servem há mais de cinco anos
é de:
a) 21,8%
b) 22,6%
c) 23,7%
d) 24,1%
e) 25,4%
31) Um estudo de grupos sanguíneos humanos realizados com
1000 pessoas (sendo 600 homens e 400 mulheres) constatou
que 470 pessoas tinham o antígeno A, 230 pessoas tinham o
antígeno B e 450 pessoas não tinham nenhum dos dois.
Determine o número de pessoas que têm os antígenos A e B
simultaneamente.
a) 120
b) 130
c) 135
d) 140
e) 150
32) A e B são conjuntos disjuntos. Se A’ e B’ são conjuntos
complementares em U (conjunto universo), então o
complementar de (B – A) ∪ (A – A’) em U é:
a) A’
b) B’
c) (A ∪ B)’
d) (A ∩ B)’
e) A ∩ B
33) Sendo A e B dois conjuntos quaisquer, determine x para
que n(A) = x + 1, n(B) = 3 – x e n(A x B) = 3.
a) 0 ou 2
b) 1 ou 3
c) 2 ou 4
d) 1 ou 4
e) 2 ou 5
34) Um treinamento militar era constituído de dois exercícios.
300 militares concluíram somente um dos exercícios, 260
concluíram o segundo, 100 militares concluíram os dois e 210
não concluíram o primeiro. Quantos militares fizeram o
treinamento.
a) 380
b) 400
c) 430
d) 450
e) 460
35) Quantos elementos nós temos em: ( ) ( )A B B A− −U .
a) 109
b) 198
c) 216
d) 262
e) 290
36) Dados os conjuntos { }1,3,4,7,8A = , { }2,4,6,7B =
e { }2,3,5,7,8C = , então o conjunto ( )A C B∩ − é:
a) { }1,3,5,8
b) { }2,3,4,6,8
c) { }3
d) { }3,8
e) ∅
37) Dado o conjunto { } { }{ }1, , 1,2 ,3, 3,1A = ∅ podemos
afirmar:
a) { } A∅ ∈
b) { } { }1,2 3,1 A∩ ∈
c) { }1,2 A⊂
d) A∅ ∈
e) { } { }1,2 3,1 A∪ ∈
Matemática – Prof. César Loyola 8/13curso adsumus
38) A e B são dois conjuntos tais que A – B tem 30 elementos,
A B∩ tem 10 elementos e A B∪ tem 48 elementos.
Então, o número de elementos de B – A é:
a) 22
b) 12
c) 10
d) 8
e) 18
39) Dados os conjuntos { }1,3,4,7,8A = ,
{ }2,4,6,7B = e { }2,3,5,7,8C = , então o conjunto
( )B A C− ∩ é:
a) { }1,3,5,8
b) { }2,3,4,6,8
c) { }3
d) { }2,4,6
e) ∅
40) A parte hachurada no gráfico, representa:
41) O diagrama representa o conjunto
42) Sejam A, B e C três conjuntos não disjuntos. Das figuras
abaixo, aquela cuja região sombreada representa o conjunto
( )A B C∩ − é:
43) Numa turma de 35 alunos, 27 gostam de futebol, 16 de
basquete e 13 gostam dos dois. Quantos não gostam nem de
futebol e nem de basquete?
a) 5
b) 6
c) 7
d) 8
e) 9
Matemática – Prof. César Loyola 9/13curso adsumus
44) Um programa de proteção e preservação de tartarugas
marinhas, observando dois tipos de contaminação dos animais,
constatou em um de seus postos de pesquisa, que: 88
tartarugas apresentavam sinais de contaminação por óleo
mineral, 35 não apresentavam sinais de contaminação por
radioatividade, 77 apresentavam sinais de contaminação tanto
por óleo mineral como por radioatividade e 43 apresentavam
sinais de apenas um dos dois tipos de contaminação. Quantas
tartarugas foram observadas?
a) 144
b) 154
c) 156d) 160
e) 168
45) Num grupo de 54 pessoas, 20 usam óculos, 25 são homens
e 8 são mulheres que usam óculos. Calcule quantas mulheres
não usam óculos.
a) 20
b) 21
c) 22
d) 23
e) 24
46) Consultados 500 militares sobre as manobras e guerra a
que habitualmente participam obteve-se o seguinte resultado:
280 militares participam da manobra A, 250 participam da
manobra B e 70 participam de outras manobras distintas de A e
B. O número de militares que participam da manobra A e não
participam da manobra B é:
a) 100
b) 150
c) 180
d) 200
e) 210
47) Num seminário sobre as doenças relacionadas ao fumo
reuniram-se 50 pessoas, 32 são fumantes, 10 são homens não
fumantes e 20 são mulheres fumantes. Quantas mulheres não
fumantes foram ao seminário.
a) 6
b) 8
c) 9
d) 10
e) 12
48) Num avião temos brasileiros, estrangeiros, fumantes e não
fumantes. O total de passageiros é 50. 32 são brasileiros, 8
homens estrangeiros não fumantes, 25 fumantes, 10 mulheres
brasileiras não fumantes, 2 homens estrangeiros fumantes, 12
mulheres brasileiras fumantes, 16 brasileiros fumantes.
Determine quantos passageiros não fumantes tem no avião?
a) 20
b) 22
c) 25
d) 28
e) 30
49) Numa prova de 3 questões, 4 alunos erraram todas as
questões; 5 acertaram só a primeira; 6 acertaram só a segunda;
7 acertaram só a terceira; 9 acertaram a primeira e a segunda;
10 acertaram a primeira e a terceira; 7 acertaram a segunda e a
terceira e 6 acertaram todas as questões. Quantos alunos
possui a turma?
a) 36
b) 38
c) 40
d) 42
e) 45
50) Após uma briga de n malucos em um hospício, verificou-se
que:
- 50 malucos perderam os olhos
- 48 malucos perderam os braços
- 40 malucos perderam as pernas
- 28 malucos perderam os olhos e os braços
- 22 malucos perderam os olhos e as pernas
- 24 malucos perderam os braços e as pernas
- 10 malucos perderam braços, olhos e pernas
Pergunta-se:
(1) Quantos malucos brigaram
(2) Quantos malucos perderam somente as pernas
(3) Quantos malucos tiveram pelo menos duas perdas
a) 74; 12; 18
b) 100; 4; 74
c) 74; 4; 54
d) 80; 54; 6
e) 100; 2; 30
51) Em uma pesquisa de mercado, foram entrevistadas várias
pessoas acerca de suas preferências em relação a três
produtos: A, B e C. Os resultados da pesquisa indicaram que:
- 210 pessoas compram o produto A
- 210 pessoas compram o produto B
- 250 pessoas compram o produto C
- 100 pessoas não compram nenhum dos três produtos
- 60 pessoas compram os produtos A e B
- 70 pessoas compram os produtos A e C
Matemática – Prof. César Loyola 10/13curso adsumus
- 50 pessoas compram os produtos B e C
- 20 pessoas compram os três produtos
Quantas pessoas foram entrevistadas?
a) 670
b) 970
c) 870
d) 610
e) 510
52) Em uma pequena cidade, todos os 200 habitantes
masculinos gostam de praticar pelo menos um dos três
esportes: xadrez, futebol e voleibol. Sabe-se que do total:
- 100 gostam de xadrez
- 100 gostam de futebol
- 100 gostam de voleibol
- 50 gostam de xadrez e futebol
- 50 gostam de futebol e voleibol
- 20 gostam de xadrez e voleibol
Quantos habitantes masculinos gostam de praticar futebol e
voleibol e não gostam de praticar xadrez?
a) 22
b) 24
c) 26
d) 28
e) 30
53) Considerando os conjuntos { }{ }1,2, 2A = , { }2B = ,
{ },3C = ∅ e { }1,2,3D = , assinale a opção INCORRETA.
a) 2 A∈
b) { }2 A∈ `
c) C∅ ∈
d) C∅ ⊂
e) C D⊂
54) O número de subconjuntos X que satisfazem à equação
{ } { }1,3,5 1,2,3,4,5,6X⊂ ⊂ é:
a) 8
b) 10
c) 12
d) 16
e) 64
55) X e Y são dois conjuntos não vazios. O conjunto X possui
64 subconjuntos. O conjunto Y, por sua vez, possui 256
subconjuntos. Sabe-se, também, que o conjunto
Z X Y= ∩ possui 2 elementos. Desse modo, conclui-se que
o número de elementos do conjunto P Y X= − é igual a:
a) 4
b) 6
c) 8
d) 1
e) vazio
56) (ESAL) Foi consultado um certo número de pessoas sobre
as emissoras de TV que habitualmente assistem. Obteve-se o
resultado seguinte: 300 pessoas assistem ao canal A, 270
pessoas assistem o canal B, das quais 150 assistem ambos os
canais A e B e 80 assistem outros canais distintos de A e B. O
número de pessoas consultadas foi:
a) 800
b) 720
c) 570
d) 500
e) 600
57) (UF – Uberlândia) Num grupo de estudantes, 80% estudam
Inglês, 40% estudam Francês e 10% não estudam nenhuma
dessas duas línguas. Nesse grupo, a porcentagem de alunos
que estudam ambas as línguas é:
a) 25%
b) 50%
c) 15%
d) 33%
e) 30%
58) (VUNESP) Uma população utiliza 3 marcas diferentes de
detergente: A, B e C. Feita uma pesquisa de mercado colheram-
se os resultados tabelados abaixo:
Pode-se concluir que o número de pessoas que consomem ao
menos duas marcas é:
a) 99
b) 94
c) 90
d) 84
e) 79
Matemática – Prof. César Loyola 11/13curso adsumus
59) (UNESP) Numa classe de 30 alunos, 16 alunos gostam de
Matemática e 20 de História. O número de alunos desta classe
que gostam de Matemática e de História é:
a) exatamente 16
b) exatamente 10
c) no máximo 6
d) no mínimo 6
e) exatamente 18
60) (AFA) Entrevistando 100 oficiais da AFA, descobriu-se que
20 deles pilotam a aeronave TUCANO, 40 pilotam o helicóptero
ESQUILO e 50 não são pilotos. Dos oficiais entrevistados,
quantos pilotam o TUCANO e o ESQUILO?
a) 5
b) 10
c) 15
d) 20
e) 25
61) Uma prova era constituída de dois problemas. 300 alunos
acertaram somente um dos problemas, 260 acertaram o
segundo. 100 alunos acertaram os dois e 210 erraram o
primeiro. Quantos alunos fizeram a prova?
a) 300
b) 350
c) 400
d) 450
e) 500
62) (UF VIÇOSA) Dentre 100 leitores dos jornais A e B, 40 lêem
o jornal A e 70 lêem o jornal B. O percentual dos leitores que
leem os jornais A e B é:
a) 10%
b) 17%
c) 28%
d) 11%
e) 30%
63) (CESGRANRIO) Em uma universidade são lidos dois jornais
A e B; exatamente 80% dos alunos leem o jornal A e 60% o
jornal B. Sabendo-se que todo aluno é leitor de pelo menos um
dos jornais, o percentual de alunos que leem ambos é:
a) 48%
b) 60%
c) 40%
d) 140%
e) 80%
64) Numa escola há n alunos. Sabe-se que 56 lêem o jornal A,
21 lêem os jornais A e B, 106 lêem apenas um dos dois jornais
e 66 não leem o jornal B. O valor de n é:
a) 127
b) 137
c) 158
d) 183
e) 249
65) (AFA) Em um grupo de n cadetes da Aeronáutica, 17
nadam, 19 jogam basquetebol, 21 jogam voleibol, 5 nadam e
jogam basquetebol, 2 nadam e jogam voleibol, 5 jogam
basquetebol e voleibol e 2 fazem os três esportes. Qual o valor
de n, sabendo-se que todos os cadetes desse grupo praticam
pelo menos um desses esportes?
a) 31
b) 37
c) 47
d) 51
e) 60
66) (UF Pará) Uma escola tem 20 professores, dos quais 10
ensinam Matemática, 9 ensinam Física, 7 Química e 4 ensinam
Matemática e Física. Nenhum deles ensina Matemática e
Química. Quantos professores ensinam Química e Física e
quantos ensinam somente Física?
a) 3 e 2
b) 2 e 5
c) 2 e 3
d) 5 e 2
e) 3 e 4
67) Numa sociedade, existem 35 homens (que usam óculos ou
não), 18 pessoas que usam óculos, 15 mulheres que não usam
óculos e 7 homens que usam óculos. O número de pessoas que
são homens ou usam óculos é:
a) 42
b) 46
c) 50
d) 54
e) 61
Matemática – Prof. César Loyola 12/13curso adsumus
68) (U.F. Ouro Preto) Numa sala de aula com 60 alunos, 11
jogam xadrez, 31 são homens ou jogam xadrez e 3 mulheres
jogam xadrez. Conclui-se portanto, que:
a) 31 são mulheres
b) 29 são homens
c) 29 mulheres não jogam xadrez
d) 23 homens não jogam xadrez
e) 9 homens jogam xadrez
69) Feito exame de sangue em um grupo de 200 pessoas,
constatou-se que: 80 delas tem sangue com fator Rh negativo,
65 tem sangue tipoO e 25 tem sangue tipo O com fator Rh
negativo. O número de pessoas, com sangue de tipo diferente
de O e com fator Rh positivo é:
a) 40
b) 65
c) 80
d) 120
e) 135
QUESTÕES DO CONCURSO QOAM
1) (QOAM) Para cumprir pelo menos uma de duas missões, A e
B, 80% das praças de uma determinada Base Naval se
apresentaram como voluntários. Se 60% desses voluntários
querem cumprir a missão A e 55% desses voluntários querem
cumprir a missão B, qual é o percentual das praças da referida
Base Naval que são voluntários para ambas as missões A e B?
a) 15%
b) 12%
c) 10%
d) 8%
e) 6%
2) (QOAM - 2006) De um certo grupo de 180 Oficiais da
Marinha do Brasil, 122 pertencem ao conjunto T dos Tenentes,
108 pertencem ao conjunto A de Oficiais da Armada e 75
pertencem aos dois conjuntos. Quantos são os Oficiais desse
grupo que não pertencem ao conjunto T nem ao conjunto A?
a) 155
b) 100
c) 75
d) 55
e) 25
3) (QOAM – 2007) Sejam P e Q conjuntos que possuem um
único elemento em comum. Se o número de subconjuntos de P
é igual ao dobro do número de subconjuntos de Q, o número de
elementos do conjunto P Q∪ é o:
a) Triplo do número de elementos de P
b) Triplo do número de elementos de Q
c) Quádruplo do número de elementos de P
d) Dobro do número de elementos de P
e) Dobro do número de elementos de Q
4) (QOAM - 2008) A e B são subconjuntos de U. Se A’ e B’ são
os seus respectivos complementares em U, então
( ) ( )'A B A B∩ ∪ ∩ é igual a:
a) A’
b) B’
c) A
d) B
e) A’ – B’
5) (QOAM – 2009) Dados os conjuntos
{ }1,2,3,4,5, ,6,7,8,9,10A B C∪ ∪ = ,
{ }2,3,8A B∩ = , { }2,7A C∩ = , { }2,5,6B C∩ = ,
{ }1,2,3,4,5,6,7,8A B∪ = . Qual é o conjunto C B− ?
a) { }7,9,10
b) { }7,8,10
c) { }5,7,8
d) { }5,7,9
e) { }8,9,10
6) (QOAM - 2010) Um banco promoveu uma seleção de pessoal
para o quadro de estagiários. Exigia-se que os candidatos
fossem estudantes universitários. Concluída a seleção, foi feito
um levantamento sobre as carreiras que os estagiários
selecionados estavam cursando. O levantamento apontou que:
I. 60% dos selecionados cursavam Economia ou Administração
de Empresas;
II. 30% dos selecionados cursavam Administração de
Empresas;
III. 25% dos selecionados que cursavam Economia também
cursavam Administração de Empresas.
De acordo com as informações apresentadas acima, é correto
afirmar que a porcentagem de selecionados que cursavam
Matemática – Prof. César Loyola 13/13curso adsumus
Economia é igual a:
a) 10%
b) 30%
c) 37,5%
d) 40%
e) 55%
7) (QOAM – 2011) No intuito de conhecer suas preferências
alimentares, uma pesquisa foi feita junto à guarnição de um
navio que estava prestes a iniciar viagem. A pesquisa apontou
que os marinheiros que consomem carne de frango não
consomem peixe. Apontou ainda que 40% consomem carne de
frango, 30% consomem peixe, 15% consomem carne de frango
e carne bovina, 20% consomem carne bovina e peixe e 60%
consomem carne bovina. É correto concluir que a porcentagem
de marinheiros que não consome nenhum dos três alimentos é
igual a:
a) 18%
b) 15%
c) 10%
d) 8%
e) 5%
8) (QOAM – 2012) Um homem programou um passeio de barco
com seus netos, num domingo de verão, por ilhas secundárias
da Baía de Guanabara. Ele selecionou, dentre as muitas
existentes, algumas ilhas que foram listadas formando o
seguinte conjunto: I = (Ilha das Enxadas, Ilha da Conceição, Ilha
de Brocoió, Ilha do Sol, Ilha do Pinheiro). O objetivo do passeio
era visitar o maior número de ilhas possível do conjunto I,
porém, dependendo de fatores climáticos, isso podia não
acontecer. O homem, então organizou um número de roteiros
levando em conta a possibilidade de visitação a cinco ilhas,
quatro ilhas, três ilhas, duas ilhas e apenas a uma ilha, pois
decidiu que, mesmo com tempo ruim, ao menos a uma ilha, ele
levaria os netos convidados.
Considerando os dados e que a ordem de visitação às ilhas não
diferencia os roteiros, quantos roteiros, foram organizados?
a) 28
b) 29
c) 30
d) 31
e) 32
9) (QOAM – 2014) Sejam A e B conjuntos não vazios tais que
n(A – B) = 3 e n(A) = k , logo o total de subconjuntos não vazios
de A B∩ é igual a:
a)
32k −
b)
32 1k − −
c)
12k −
d)
12 1k − −
e) 2 1k −
10) (QOAM – 2015) Seja N o número total de maneiras de
escolher pelo menos um brinquedo, de um total de 7 distintos,
existentes em um parque de diversões. Pode-se afirmar que N é
um número natural:
a) par, formado por dois algarismos.
b) ímpar, formado por dois algarismos.
c) ímpar, formado por três algarismos.
d) par, formado por três algarismos.
e) ímpar, formado por um algarismo.
11) (QOAM – 2016) Dados os conjuntos
e ,
determine a soma de todos os inteiros pertencentes ao conjunto
A – B .
a) 3
b) 5
c) 6
d) 8
e) 9
GABARITO – QUESTÕES DE CONCURSOS
1 – e; 2 – d; 3 – e 4 – b 5 – b 6 – d 7 – b 8 – e
9 – a 10 – e 11 – a 12 – d 13 – a 14 – a 15 – b
16 – e 17 – a 18 – b 19 – c 20 – b 21 – c 22 – b
23 – e 24 – a 25 – e 26 – b 27 – c 28 – b 29 – a
30 – d 31 – e 32 – c 33 – a 34 – d 35 – d 36 – d
37 – d 38 – d 39 – d 40 – a 41 – c 42 – a 43 – a
44 – a 45 – b 46 – c 47 – b 48 – c 49 – a 50 – c
51 – d 52 – e 53 – e 54 – a 55 – b 56 – d 57 – e
58 – d 59 – d 60 – b 61 – d 62 – a 63 – c 64 – c
65 – c 66 – c 67 – b 68 – c 69 – c.
GABARITO – QUESTÕES DO CONCURSO QOAM
1 – b 2 – e 3 – e 4 – c 5 – a 6 – d 7 – e 8 – d
9 – b 10 – c 11 – e.
G
E
O
G
R
A
F
I
A
ÍNDICE DO MÓDULO 3 DE GEOGRAFIA ECONÔMICA
5. A LÓGICA DOS ESPAÇOS INDUSTRIAIS..................................................................................... 01
5.1 - As transformações no espaço ....................................................................................................... 01
5.1.1 - Evolução e classificação das Indústrias................................................................................... 02
5.1.2 - Classificações da Indústria....................................................................................................... 03
5.2 - Fatores de localização industrial: concentração e desconcentração............................................. 03
5.2.1 - As transformações na indústria e nos espaços......................................................................... 03
5.2.2 - Concentração Industrial........................................................................................................... 05
5.2.3 - Desconcentração industrial..................................................................................................... 06
5.3 - Ciclos tecnológicos da Revolução Industrial................................................................................. 07
5.3.1 - A "destruição criadora"............................................................................................................ 08
5.3.2 - Ondas de inovação tecnológica da economia industrial......................................................... 08
5.3.3 - Tecnologia e geografia............................................................................................................. 08
5.3.4 - O fordismo e o "século americano"......................................................................................... 11
5.3.5 - Adeus ao fordismo.................................................................................................................. 11
5.3.6 - A terceira Revolução Industrial..............................................................................................12
5.3.7 - A indústria na era da globalização.......................................................................................... 14
5.4 – Desemprego.................................................................................................................................. 15
5.5 - Países pioneiros no processo de industrialização – Cenários Regionais...................................... 16
5.5.1 - REINO UNIDO...................................................................................................................... 16
5.5.2 - OS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA............................................................................... 19
5.5.3 - ALEMANHA.......................................................................................................................... 25
5.5.4 - JAPÃO..................................................................................................................................... 28
5.5.5 - UNIÃO EUROPEIA: rumo à integração industrial?............................................................... 34
5.5.6 - CEI: da desconcentração estratégica ao modelo exportador.................................................... 34
EXERCÍCIOS.......................................................................................................................................... 35
1
5. A LÓGICA DOS ESPAÇOS INDUSTRIAIS
5.1 - As transformações no espaço
A geografia das indústrias - A importância da indústria
A atividade industrial é muito importante nas economias dos países desenvolvidos e de muitos países
em desenvolvimento, principalmente dos emergentes. Entretanto, não é simples captar a real contribuição do
setor industrial para a economia de um país. Por exemplo, nos países industrializados mais avançados, a
maior contribuição para o PIB vem do setor de serviços, não do industrial, embora este continue muito im-
portante. Mesmo em muitos países em desenvolvimento, a maior contribuição para o PIB vem dos serviços.
Nos países desenvolvidos os serviços contribuem em média com aproximadamente 75% do PIB, a indústria
com mais ou menos 25% e a agropecuária com 1% ou 2%. Nos Estados Unidos, por exemplo, em 2009, os
serviços contribuíram com 78% do PIB, a mais alta taxa do mundo, a indústria com 21% e a agropecuária
com 1%. Entretanto, sem a indústria não existiriam boa parte dos serviços e menos ainda a agricultura, que
depende de insumos industriais para produzir alimentos e matérias-primas.
Embora haja países extremamente pobres, como a Etiópia, em que o setor industrial tem uma partici-
pação muito reduzida no PIB, há outros, como a Argélia, onde essa participação é muito elevada, bem maior
que em alguns países desenvolvidos. Entretanto, esse percentual não mostra se nesses países a atividade in-
dustrial é moderna ou arcaica, se é diversificada ou dependente de um único setor (como no caso da Argélia,
muito dependente do petróleo), se as fábricas usam máquinas modernas e robôs, e a produtividade é alta, ou
se usam muita mão de obra, e a produtividade é baixa.
Em outras palavras, a contribuição da indústria para o PIB, considerada de forma isolada, não é sufici-
ente para mostrar a importância quantitativa e qualitativa da atividade industrial em um país. Por isso, a Or-
ganização de Desenvolvimento Industrial das Nações Unidas (Unido) elaborou o Índice de Competitividade
Industrial, um indicador que mede várias dimensões desse setor de atividade. Com base nele, é possível ava-
liar de forma mais abrangente a importância da indústria e seu grau de desenvolvimento tecnológico em di-
versos países.
Classificação das indústrias
Segundo a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) do IBGE, todas as atividades
desenvolvidas na economia brasileira estão classificadas em 21 grandes categorias: A – Agricultura, pecuá-
ria, produção florestal, pesca e aquicultura; B – Indústrias extrativas; C – Indústrias de transformação, e por
aí vai, até a letra U. Cada uma dessas atividades é dividida em setores e subsetores. A classificação da
CNAE segue padrões internacionais utilizados em levantamentos estatísticos para permitir comparações
entre o Brasil e outros países.
A produção industrial brasileira está, então, classificada em duas grandes categorias: B – indústrias ex-
trativas, divididas em cinco setores: extração de petróleo e gás natural, extração de minerais metálicos, etc.;
e C – indústrias de transformação, distribuídas em 24 setores: fabricação de produtos alimentícios, têxteis,
químicos, de máquinas e equipamentos, etc.
2
O que é comumente chamado de indústria da construção civil, o IBGE chamou de construção (item F
da lista da CNAE), categoria que abriga os setores de construção de edifícios e obras de infraestrutura. Há
outra classificação, com base na qual o IBGE coleta dados e divulga os Indicadores da produção industrial
por categorias de uso. Nessa classificação, mais sintética, o órgão do governo federal agrupa todos os setores
e subsetores das indústrias de transformação da CNAE em três categorias, de acordo com os bens produzi-
dos.
Existem ainda outras formas de classificação das indústrias, como sugere o texto a seguir.
Tipos de indústrias
Segundo a função:
a) indústrias germinativas – são as que geram o aparecimento de outras indústrias. Exemplo: a petroquímica.
b) indústrias de ponta – são as indústrias dinâmicas, que comandam a produção industrial. Exemplo: as in-
dústrias química e automobilística.
Segundo a tecnologia:
a) indústrias tradicionais – são as que estão ainda ligadas às vantagens oriundas da primeira “revolução”
industrial. podem ser empresas familiares (empresas “clânicas”) e denunciam sua presença pelos seus as-
pectos internos e externos e por sua localização. Há empresas brasileiras que são ainda deste tipo.
b) indústrias dinâmicas – são aquelas ligadas ao desenvolvimento recente da química, eletrônica e petroquí-
mica, principalmente.
Utilizam muito capital e tecnologia e relativamente pouca força de trabalho. possuem uma flexibilidade
maior de localização do que as anteriores e operam em economia de escala.
Segundo a aplicação dos recursos ou fatores:
a) indústrias capital-intensivas – as que aplicam os maiores recursos nos fatores capital e tecnologia.
b) indústrias trabalho-intensivas – as que empregam os maiores recursos em força de trabalho.
SILVA, Armando Correia da. O espaço fora do lugar. 2. ed. São paulo: Hucitec, 1988. p. 23-24.
5.1.1 - Evolução e classificação das Indústrias
Indústria é a atividade por meio da qual os seres humanos transformam matéria-prima em produtos
semi-acabados (matérias-primas para outros produtos) ou em produtos acabados. Nos dias atuais essa ativi-
dade é muito importante, pois quase tudo o que consumimos e utilizamos é processado ou produzido por ela.
Além de oferecer empregos, a indústria produz capital, desenvolve o comércio, os transportes e os ser-
viços, dinamizando a economia. Um país industrializado pode suprir muitas de suas necessidades de consu-
mo internas, reduzir as importações e aumentar as exportações.
Quanto à evolução histórica da indústria, podemos reconhecer três estágios fundamentais: o artesana-
to, a manufatura e a maquinofatura.
• Artesanato. Estágio em que o produtor (artesão) era responsável por todas as fases da produção e até
mesmo pela comercialização (em geral, local) do produto. Quase não havia divisão social do trabalho e não
se utilizavam máquinas, mas somente ferramentas simples. O artesanato prevaleceu até por volta do século
XVII, porém ainda pode ser encontrado em todas as partes do mundo, sobretudo nos países e comunidades
mais defasados tecnicamente.
• Manufatura. Apesar de a expressão "manufaturado" ser frequentemente empregada para designar os pro-
dutos industrializados, a manufatura corresponde ao estágio intermediário entre o artesanatoe a maquino-
fatura. Nessa fase, já havia divisão do trabalho (cada operário realizava uma tarefa ou se responsabilizava
por parte da produção), mas a produção ainda dependia fundamentalmente do trabalho manual, embora se
empregassem algumas máquinas simples. De modo geral, nessa fase o artesão deixou de ser o responsável
por todas as etapas da produção e se transformou em assalariado. O capital e os meios de produção já eram
propriedade de um patrão. A manufatura caracterizou a fase inicial do capitalismo, sobretudo nos séculos
XVII e XVIII.
• Maquinofatura. É o estágio atual, iniciado no século XVIII, com a Revolução Industrial. Pode ser carac-
terizado pelo emprego maciço de máquinas e fontes de energia modernas (carvão mineral, petróleo etc.),
produção em larga escala, grande divisão e especialização do trabalho. Em muitos casos, a divisão do tra-
balho é tão grande ou específica que o trabalhador perde a noção do todo ou do produto final. Em outros
casos, o processo está tão modernizado que a mão-de-obra é quase inexistente, sendo a produção quase to-
talmente realizada por robôs.
Há muitas diferenças na forma como cada país se integrou ou ainda se integra a esses estágios.
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5.1.2 - Classificações da Indústria
As indústrias podem ser classificadas de acordo com vários critérios, como a maneira de produzir, a
quantidade de matéria-prima ou de tecnologia, empregadas na produção, entre outros.
Levando em conta a maneira de produzir: temos as indústrias extrativas, que utilizam meios financeiros e
técnicas modernas para extrair recursos naturais (como, por exemplo, minérios, madeira, pescado); as indús-
trias de beneficiamento ou de processamento, que beneficiam ou refinam produtos como o petróleo (petro-
química) e cereais, por exemplo; a indústria de construção (como a construção civil); e a indústria de trans-
formação (de calçados, de computadores, entre outros), que transforma ou reelabora a matéria-prima.
Quanto à quantidade de matéria-prima e energia empregadas na produção: podemos falar de indústrias
leves, (de bebidas, de produtos farmacêuticos etc.), que consomem menos energia e matérias-primas e de
indústrias pesadas (de máquinas, navios, veículos), que, por exigirem vultosos investimentos, contaram ini-
cialmente com capital estatal ou pertencem a grandes grupos empresariais.
Quanto à tecnologia empregada: temos as indústrias tradicionais, características da Primeira Revolução
Industrial, que ainda requerem bastante mão-de-obra, em regime fordista, e utilizam tecnologia tradicional; e
as indústrias dinâmicas, como a informática, a aeroespacial e outras, que dependem mais de tecnologia mo-
derna e de capital, requerendo menos mão-de-obra (porém mais qualificada).
Quanto ao destino dos produtos, podemos dividir as indústrias em dois grandes grupos:
• de bens de produção - São aquelas que produzem bens para outras indústrias. Podem ser de dois tipos: as
indústrias de bens intermediários, que produzem matérias-primas que servirão de base para outras indús-
trias, como, por exemplo, a extrativa mineral, a petroquímica, a siderúrgica, a metalúrgica, a do cimento e
a química de base; e as indústrias de bens de capital ou de equipamentos, que produzem equipamentos para
outras indústrias, ou seja, são responsáveis em parte pelo funcionamento destas. São exemplos as indús-
trias que produzem máquinas, motores, outros equipamentos, material de transporte.
• de bens de consumo - São as indústrias que produzem bens (mercadorias) para uso e consumo da popula-
ção, como a indústria têxtil, a alimentícia, a de móveis etc. Geralmente localizam-se nas proximidades dos
centros consumidores.
As indústrias de bens de consumo, por sua vez, podem ser divididas em indústrias de bens de consumo
duráveis (automóveis e eletrodomésticos, por exemplo) e de bens de consumo não-duráveis (alimentos, cal-
çados, roupas e remédios, entre outros).
5.2 - Fatores de localização industrial: concentração e desconcentração
5.2.1 - As transformações na indústria e nos espaços
Dentre outros assuntos, na apostila anterior tratamos das fases da Revolução Industrial, que gerou pro-
fundas transformações socioeconômicas, decorrentes do progresso da técnica aplicada à indústria.
A partir da industrialização, o espaço geográfico também se modificou: cidades e regiões inteiras se
formaram e se organizaram. A função comercial das cidades na Idade Média cedeu lugar à função industrial,
o que fortaleceu a divisão territorial do trabalho não só entre o meio rural e o urbano, mas também entre as
cidades. Em alguns lugares, a produção em larga escala deu origem à sociedade de consumo; em outros, a
ampliou.
Num primeiro momento, a industrialização restringiu-se aos países desenvolvidos. Da Inglaterra, onde
se originou na segunda metade do século XVIII, ela se expandiu para os demais países europeus (século
XIX), além dos Estados Unidos, do Japão e da Rússia. A etapa em que ocorreu a industrialização dos atuais
países desenvolvidos é conhecida como industrialização clássica. Durante muito tempo a industrialização foi
um privilégio das grandes potências, que fizeram dessa atividade uma forma de domínio, pois países e colô-
nias dependiam de seus fornecimentos.
Os diagramas abaixo representam diferentes estratégias de localização da indústria siderúrgica, consi-
derando a localização das matérias-primas e dos mercados de consumo.
A melhor localização é a que possibilita a maior rentabilidade - essa é a regra básica da teoria da loca-
lização industrial.
Na etapa inicial da industrialização moderna - ocorrida no século XIX na Europa, Estados Unidos e
Japão -, os custos de transporte eram extremamente elevados.
Como o carvão mineral representava a fonte de energia básica tanto para as indústrias de base que
produzem matéria-prima para outras indústrias como para as indústrias de bens de consumo que produzem
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para o mercado consumidor, as bacias carboníferas tornaram-se áreas de concentração fabril (figura 26.1).
Também ocorreu a concentração industrial em áreas produtoras de minério de ferro.
Durante a primeira metade do século XX, entretanto, o carvão foi perdendo o domínio que exercia so-
bre o suprimento energético industrial. O petróleo, o gás natural e a eletricidade, cujos custos de transporte
são muito menores, passaram a ser amplamente usados como fonte de força motriz ou de energia térmica.
Além disso, os meios de transporte obtiveram desenvolvimento espantoso.
Mesmo assim, as velhas regiões fabris que haviam nascido associadas a jazidas carboníferas ou a re-
servas minerais continuaram a responder pela maior parte da produção industrial do mundo. A introdução
das linhas de montagens fabris e a emergência do sistema de produção em série, dirigido para o consumo de
massas, reafirmaram as vantagens locacionais das grandes concentrações industriais. As novas empresas e
os setores industriais em ascensão beneficiaram-se do ambiente industrial criado pelas indústrias já instala-
das, mercado consumidor, força de trabalho, das redes ferroviárias e rodoviárias e serviços.
Essa dinâmica de crescimento é conhecida pela expressão economias de aglomeração. Como vimos,
o meio geográfico típico do regime fordista é o das grandes aglomerações de fábricas, de mercados de con-
sumo e de trabalhadores.
Nas últimas décadas do século XX, com o esgotamento do fordismo e a emergência da revolução tec-
nocientífica, os novos padrões locacionais passaram a apontar no sentido da desconcentração espacial das
indústrias, ou seja, da busca de novas áreas de localização e da emergência de novos polos produtivos, afas-
tados das aglomerações tradicionais.
Os fatores locacionais
Os fatores locacionais são as diversas vantagens que determinado lugar pode oferecer para atrair a ins-
talação de indústrias. No momento de optar por uma localidade para instalar uma indústria, os empresários
levam em consideraçãoquais fatores são mais importantes para aumentar a taxa de lucro de seu investimen-
to. Os principais fatores locacionais que atraem indústrias, de modo geral, são:
• matérias-primas: minerais e agropecuárias;
• energia: petróleo, gás, eletricidade, etc.;
• mão de obra: pouco qualificada (baixa remuneração) ou muito qualificada (alta remuneração);
• tecnologia: parques tecnológicos, incubadoras, universidades, centros de pesquisa e desenvolvimento
(P&D);
• mercado consumidor: relacionado à quantidade de pessoas e disponibilidade de renda;
• logística: disponibilidade e custos competitivos de transporte e armazenagem;
• rede de telecomunicações: telefonia fixa e móvel, internet, etc.;
• complementaridade: proximidade de indústrias afins;
• incentivos fiscais: redução ou isenção de impostos concedida pelo Estado nas três esferas de poder.
Durante a Primeira Revolução Industrial, do final do século XVIII até meados do século XIX, como o
carvão era a fonte de energia usada para movimentar as máquinas, e a precariedade dos meios de transporte
dificultava seu deslocamento por longas distâncias, as jazidas de carvão mineral eram um dos fatores mais
importantes para a localização das fábricas. Daí ter ocorrido uma intensa industrialização em torno das prin-
cipais bacias carboníferas britânicas, alemãs, francesas e norte-americanas, para citar os exemplos mais rele-
vantes. Com a Segunda Revolução Industrial, na última metade do século XIX, e a utilização de outras fon-
tes de energia, como o petróleo e a eletricidade, houve modernização dos meios de transporte de cargas e
passageiros, e a proximidade das jazidas de carvão foi cada vez mais perdendo importância como fator loca-
cional das fábricas.
Os derivados de petróleo, além de serem fonte de energia, constituem matéria-prima essencial na fa-
bricação de diversos produtos, como plásticos, borrachas, tecidos sintéticos, fertilizantes, tintas, cosméticos,
etc. Um dos setores que mais cresceu desde a descoberta dessa nova fonte de energia e matéria-prima foi a
indústria petroquímica. Implantadas nas primeiras décadas do século XX, nessa época as petroquímicas se
concentravam perto das reservas de petróleo, mas a construção de oleodutos e de grandes navios petroleiros
levou à sua dispersão espacial.
É importante destacar que os custos com transporte são um dos principais fatores locacionais para as
indústrias pesadas. Por exemplo, a maioria das refinarias de petróleo se localiza próxima aos grandes centros
consumidores de seus produtos, o que nem sempre coincide com as áreas de extração, porque é mais barato
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transportar o petróleo bruto que seus derivados – gasolina, nafta, querosene e outros derivados ocupam vo-
lume maior que o petróleo bruto, demandando maior custo de transporte.
Em contrapartida, a proximidade das jazidas de minérios, como ferro, manganês, etc., constituem um
dos principais fatores para a localização das indústrias siderúrgicas, como as do Quadrilátero Ferrífero (Mi-
nas Gerais), porque é mais barato transportar as chapas de aço do que o minério bruto.
Como vimos, nas últimas décadas, um fator determinante para a localização de qualquer tipo de indús-
tria é a existência de uma boa logística de transportes e armazenagem que possibilite o recebimento de maté-
rias-primas e o escoamento das mercadorias produzidas a custos competitivos. Por isso, muitos centros in-
dustriais importantes desenvolveram-se próximos a portos marítimos ou fluviais ou ainda em entroncamen-
tos rodoviários ou ferroviários. Centros industriais mais modernos – que produzem bens de alto valor agre-
gado, como os da área de informática – tendem a se localizar perto de aeroportos. Com a mobilidade do ca-
pital e das mercadorias pelo mundo, a logística ganha importância determinante na alocação dos investimen-
tos produtivos no espaço geográfico.
Com o desenvolvimento tecnológico e o consequente barateamento dos transportes, as indústrias,
mesmo as que utilizam muita matéria-prima, já não precisam se localizar perto das reservas. O Japão, por
exemplo, grande produtor de aço, importa todo o minério de ferro e o carvão utilizados em suas indústrias; o
Canadá, grande produtor de alumínio, importa toda a alumina (óxido de alumínio, resultante do primeiro
processamento da bauxita) necessária à sua produção. Tanto as indústrias siderúrgicas japonesas como as
metalúrgicas canadenses localizam-se em áreas onde os navios carregados de minérios podem atracar. O
Japão, contudo, não é grande produtor de alumínio, porque o que mais conta no funcionamento dessa indús-
tria é a energia elétrica, da qual o Canadá, por sua vez, é grande produtor. A produção de alumínio a partir
da alumina consome muita energia e tende a se localizar em países que têm grande disponibilidade de ener-
gia hidrelétrica, caso do Canadá e também do Brasil.
Antigamente, a disponibilidade de mão de obra e a proximidade do mercado consumidor eram fatores
fundamentais para a localização de muitas indústrias, sobretudo as de bens de consumo, como eletrodomés-
ticos, alimentos e roupas. É por isso que o fenômeno industrial esteve inicialmente ligado às concentrações
urbanas, particularmente às grandes cidades, como Londres, Paris, Nova York, Tóquio, Munique, São Paulo,
Cidade do México e Seul.
Muitas vezes, a instalação de uma indústria ou de um distrito industrial promove o crescimento das ci-
dades em seu entorno, enquanto em outros casos as cidades atraem indústrias, que por sua vez promovem
seu crescimento e as transformam em polos de atração de novos estabelecimentos industriais. Vê-se, portan-
to, que as cidades e as indústrias se influenciaram de maneira recíproca. Isso ocorreu principalmente até me-
ados do século XX, mas já faz tempo que as indústrias têm saído das grandes cidades..
Além desses fatores, há outro que, cada vez mais, vem ganhando importância na hora da decisão sobre
onde implantar uma nova fábrica: os incentivos fiscais. Interessadas em atrair novas fábricas, diversas esfe-
ras de governo concedem isenções de impostos às empresas que pretendem se instalar em seus territórios.
Em geral fazem essas concessões a indústrias que têm efeito multiplicador, isto é, que atraem outras fábricas
que, por sua vez, não terão incentivos, o que em geral compensa a isenção concedida. Por exemplo, o gover-
no de um estado concede incentivos fiscais para atrair uma indústria automobilística – como fez o governo
da Bahia com a Ford, cuja fábrica foi inaugurada em 2001, no município de Camaçari –, que atrai várias
indústrias de autopeças para seu entorno. Porém, os incentivos fiscais têm de complementar outros fatores
locacionais; isoladamente não conseguem atrair indústrias.
É comum também a cessão de terrenos para a instalação de unidades produtivas, muitas vezes até
mesmo com a infraestrutura básica já implantada. Em qualquer país, quando uma grande empresa anuncia o
projeto de uma nova fábrica, começa uma “guerra” fiscal entre suas unidades políticas internas (estados,
províncias, departamentos, etc.) e entre municípios com o objetivo de atraí-la, para aumentar a geração de
empregos e a arrecadação de impostos, entre muitos outros benefícios.
5.2.2 - Concentração Industrial
As indústrias tradicionais (as primeiras a se formar, pouco automatizadas e que empregavam muita
mão-de-obra) procuravam se instalar em áreas que ofereciam o maior número ou a melhor combinação pos-
sível de fatores necessários à produção (fontes de energia, capitais, mão-de-obra abundante, transporte efici-
ente para fornecimento de matéria-prima e escoamento de mercadorias) e à comercialização dos produtos
(mercado consumidor). Procuravam assim obter o menor custo de produção e distribuição possível, para ter
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o máximo de lucro. Em geral, encontravam essas condições nas proximidades dos grandes centros urbanos.
Durante a Primeira Revolução Industrial (meados do século XVIII e primeira metade do XIX), inúmeras
cidadesindustriais surgiram nas proximidades de regiões carboníferas (fonte de energia mais utilizada na
época) da Inglaterra (Yorkshire, Lancashire, Midlands), da Alemanha (Vale do Ruhr), da França (Alsácia,
Lorena), da Rússia (Donetz) e da Polônia (Silésia).
Durante a Segunda Revolução Industrial (segunda metade do século XIX), com o desenvolvimento
de novos meios de transporte e o surgimento de novas fontes de energia, como o petróleo e a eletricidade,
mais fáceis de transportar, o carvão foi perdendo importância na localização industrial. Surgiram, assim,
novas áreas industriais.
Na segunda metade do século XX, as concentrações de indústrias tradicionais eram importantes polos
econômicos, constituindo verdadeiros complexos, tal sua quantidade e variedade. Alguns exemplos são o
manufacturing belt (cinturão das indústrias) do NE dos EUA e as concentrações industriais da Europa Oci-
dental e do Japão.
5.2.3 - Desconcentração industrial
Muitas das tradicionais regiões industriais já não são os polos industriais mais importantes. Nos Esta-
dos Unidos, por exemplo, a indústria moderna situa-se nos estados do sul (Texas, Louisiana, Mississipi) e na
Califórnia. Na região Sudeste brasileira, o setor de serviços já ultrapassa o setor industrial. A Europa ociden-
tal e o Japão têm exportado muitas indústrias para os chamados "países emergentes" da América Latina e da
Ásia.
No pós-guerra, empresas transnacionais estadunidenses, europeias e, posteriormente, japonesas estive-
ram à frente do processo de estabelecimento de modernas regiões industriais em países dos continentes afri-
cano, asiático e latino-americano. Aproveitando-se da variedade de recursos naturais, da mão-de-obra e
energia baratas e abundantes, dos incentivos governamentais e da falta ou ineficiência de legislações de pro-
teção ao meio ambiente, as corporações multiplicaram o número de filiais, modificando as paisagens dessas
regiões.
Atualmente essa desconcentração industrial tem-se acentuado e as indústrias abandonam áreas tradici-
onais (com custos de produção elevados) em busca de localizações mais vantajosas, principalmente em áreas
que ofereçam mão-de-obra barata, mercado consumidor expressivo, atuação sindical fraca ou inexistente,
isenções de impostos, concessões, incentivos fiscais etc. A modernização dos meios de comunicação permite
vender produtos e serviços com mais facilidade (via internet, por exemplo) para qualquer parte do mundo,
sem estar fisicamente próximo dos grandes centros de consumo ou das fontes de matérias-primas. As redes
de comunicação permitem administrar e controlar, simultaneamente, empresas em todo o mundo.
A indústria têxtil, a siderúrgica e a de bebidas, por exemplo, têm transferido suas fábricas para os paí-
ses subdesenvolvidos, em busca de mão-de-obra mais barata. Mesmo as indústrias de base, tradicionalmente
situadas em locais ricos em matéria-prima, de modo a reduzir gastos com transporte, nas últimas décadas
afastaram-se desses locais e, em muitos países centrais, aproximaram-se do litoral.
Atualmente, a China é o maior produtor têxtil mundial, mas também a Índia, o Paquistão e a Indonésia
vêm incrementando a produção e as vendas no mercado externo. Por sua vez, as indústrias têxteis dos Esta-
dos Unidos e da União Europeia passaram a investir em novas tecnologias, tais como fibras químicas, tor-
nando-se cada vez mais intensivas em capital e especializando-se em produtos de maior valor agregado.
Além disso, os países ricos e seus estilistas continuam a ditar os padrões da moda e da elegância, no mundo
todo.
Com a modernização das comunicações e dos transportes, matérias-primas provenientes do interior ou
de outros países podem chegar rapidamente aos portos, nas proximidades dos quais se instalam siderúrgicas,
petroquímicas etc. Dessa forma, é possível exportar mercadorias com a mesma facilidade.
Assim, as indústrias já não precisam mais se localizar nos corredores das áreas produtoras, o que difi-
cultava muito o transporte até o mercado de consumo. Elas se espalham pelos continentes em busca de van-
tagens.
Na escala global, a tendência de desconcentração é resultante da industrialização de vastas regiões do
mundo subdesenvolvido, em especial no Sudeste Asiático e na América Latina, que ocupam fatias significa-
tivas da produção industrial mundial em muitos setores.
Também no setor automobilístico, o peso das indústrias situadas em países subdesenvolvidos tem au-
mentado significativamente. Atraídas pelos menores custos de mão-de-obra, a Volkswagen, a Ford, a Chrys-
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ler, a Citröen e a Peugeot passaram a fabricar motores em suas filiais mexicanas. Além disso, várias fábricas
de montagem final de automóveis para exportação foram implantadas na cidade de Monterrey, enquanto a
Volkswagen se instalou em Puebla e a Nissan em Águas Calientes. Os Estados Unidos são o destino final de
grande parte dessa produção mexicana.
No contexto da América do Sul, o Brasil é considerado estratégico no mapa das grandes transnacionais
do automóvel: nesse caso, elas são atraídas não só pelos baixos salários, mas também pela grande dimensão
do mercado interno.
A Coréia do Sul representa um caso singular: o país desenvolveu uma indústria automobilística pró-
pria, que concorre em muitos mercados com as montadoras sediadas nos países desenvolvidos.
Mesmo setores considerados de alta tecnologia, como o de informática, passam por uma desconcentra-
ção, ainda que seletiva, no plano internacional. O setor de pesquisa e de concepção de novos produtos e
equipamentos permanece fortemente concentrado nos Estados Unidos, no Japão e na União Europeia; po-
rém, parte da linha de produção dos chips e microprocessadores, da montagem final dos equipamentos e a
produção de alguns tipos de software migraram para países industrializados semi-periféricos, em especial
para a Índia.
Na escala nacional, também ocorre uma tendência à desconcentração. As velhas concentrações indus-
triais dos países desenvolvidos vêm perdendo terreno para novas regiões produtivas, marcadas pelo uso de
tecnologias modernas, pelo baixo consumo energético e pela forte integração com as universidades e os cen-
tros de pesquisa e desenvolvimento.
A maior parte das antigas regiões industriais formadas em torno das bacias carboníferas da Europa e
dos Estados Unidos, por exemplo, apresenta diminuição das atividades produtivas, perda de dinamismo e
elevadas taxas de desemprego.
5.3 - Ciclos tecnológicos da Revolução Industrial
A Revolução Industrial divide a história das civilizações em duas épocas nitidamente diferentes. Antes
dela, a economia repousava sobre uma base técnica que evoluía apenas muito lentamente. Depois dela, a
transformação tecnológica transformou-se no fundamento da vida econômica. Do ponto de vista social e
cultural, as civilizações pré-industriais norteavam-se pela tradição, enquanto a civilização industrial orienta-
se pela mudança.
A economia industrial desenvolve-se, desde o nascimento das primeiras fábricas, através de ciclos
longos que começam com uma fase de rápido crescimento e acumulação de capital, atravessam uma fase de
estabilização e, em seguida, conhecem uma fase descendente caracterizada pela redução do crescimento e
dos lucros empresariais. O economista russo Nikolai Krondatieff, pesquisando na década de 1920 as estatís-
ticas de produção industrial, consumo, preços, juros e salários da Grã-Bretanha, Estados Unidos e França,
foi o primeiro a registrar esses ciclos longos. Mais tarde, o economista austríaco Joseph Schumpeter estu-
dou-os em profundidade, conseguindo associá-los à marcha da inovação tecnológica.
5.3.1 - A "destruição criadora"
A “Destruição Criadora” – segundo teoria elaborada pelo economista austríaco Joseph Schumpeter,
nos anos 1930, a economia mundial se desenvolve por meios de ciclos ou ondasde inovações tecnológicas.
(...) Schumpeter estabeleceu que a economia evoului por meio da “destruição criadora”. Quando um conjun-
to de novas tecnologias encontra aplicações produtivas, as tecnologias tradicionais são “destruídas”, deixan-
do de criar produtos capazes de competir no mercado econômico. Nesse momento as empresas que estão
inserindo as inovações tecnológicas obtem lucros de monopólio. Isto porque não há concorrentes ou muito
pouca concorrência, até o momento em que começa a ocorrer a inflexão no comportamento dos preços. A
economia evolui com a introdução de produtos ou serviços que adotam tecnologias cada vez mais baratas e
que atendem as finalidades das primeiras. A partir desse momento passa a ocorrer a diminuição da lucrativi-
dade devido ao aumento da oferta. A lucratividade diminui de tal forma que a concorrência tira dos merca-
dos as empresas que não conseguem trabalhar com margem tão pequena de lucros. Ou, então, as empresas
financeiramente mais fortes adquirem (compram) as mais fracas, incorporando suas parcelas nos mercados.
Esse momento é chamado de concentração de capitais e, normalmente, ocorrem na fase final das ondas de
inovação e antecedem o, possível, início de uma nova onda.
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5.3.2 - Ondas de inovação tecnológica da economia industrial
A fase inicial de cada onda de inovação é a época de ouro dos empreendedores. Adaptando pioneira-
mente as novidades tecnológicas à produção, empreendedores ousados conquistam vastos mercados. Quase
do nada, surgem empresas de grande porte, que se tornam símbolos do seu tempo. Enquanto isso, grandes
empresas baseadas em padrões tecnológicos superados entram em crise e acabam se reformulando ou sim-
plesmente desaparecem. É na fase inicial que ocorre a "destruição criadora". Quando a onda de inovação
atinge a fase de estabilização, as novidades tecnológicas consistem em aperfeiçoamentos do padrão tecnoló-
gico estabelecido. Essa é a época de ouro das grandes empresas, que dominam mercados já plenamente con-
figurados. Os pequenos empreendedores, que não dispõem de recursos financeiros vultosos, são incapazes
de concorrer com as grandes empresas. Freqüentemente, seus empreendimentos e suas inovações são incor-
porados pelas empresas dominantes. Outras vezes, tecnologias melhores são rejeitadas, pois um padrão me-
nos eficiente adquiriu aceitação geral.
Na fase descendente da onda de inovação, os mercados estão saturados. A economia registra super-
produção. Inúmeras empresas revelam-se incapazes de sustentar a concorrência, cada vez mais feroz, e são
incorporadas por conglomerados mais poderosos. Essa é a época de ouro da centralização de capitais. Quan-
do, finalmente, uma nova onda se inicia, surgem mercadorias revolucionárias. Sob o impacto da "destruição
criadora", a superprodução é eliminada pois os consumidores dirigem-se, ansiosamente, para os novos pro-
dutos disponíveis. Assim, o ciclo recomeça, em novas bases tecnológicas.
5.3.3 - Tecnologia e geografia
Os ciclos econômicos longos estão associados às formas de organização do espaço geográfico. A
energia hidráulica, fundamento dos primórdios da industrialização, atraiu as fábricas para as margens dos
cursos de água. A máquina a vapor, desde meados do século XIX, atraiu as fábricas para os depósitos carbo-
níferos. O advento das ferrovias possibilitou a exploração de novas terras pela agropecuária comercial. A
energia elétrica libertou a indústria das localizações tradicionais e revolucionou a divisão técnica do trabalho
no interior das fábricas.
A Inglaterra deu a largada para a Revolução Industrial. Nas últimas décadas do século XVIII, uma sé-
rie de inovações na tecnologia de produção (como a máquina de fiar e o tear hidráulico) possibilitou a meca-
nização do setor têxtil. A produtividade das indústrias algodoeiras - as primeiras indústrias modernas - cres-
ceu exponencialmente a partir de então. Produzia-se muito mais e em muito menos tempo.
Ao lado da indústria têxtil, a modernização das fundições de ferro impulsionou o ciclo inicial da indus-
trialização. Há séculos, o ferro era fundido em fornalhas a lenha. A utilização do carvão mineral em altos
fornos capazes de gerar temperaturas elevadíssimas inaugurou a siderurgia moderna.
O carvão se tornava cada vez mais importante. A sua utilização, como força motriz, foi iniciada com o
aperfeiçoamento da máquina a vapor, em 1769. Mas apenas em meados do século XIX, na Inglaterra, a má-
quina a vapor substituiu, largamente, o tear hidráulico. Na França e nos EUA, a energia hidráulica sobrevi-
veu por mais tempo.
A revolução do carvão expressou-se, fora das fábricas, no setor de transportes. As ferrovias e os barcos
a vapor "encurtaram" as distâncias, reduzindo brutalmente os custos de deslocamento de matérias-primas e
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alimentos. Na segunda onda de inovações da Revolução Industrial, as terras das planícies centrais dos Esta-
dos Unidos tornaram-se celeiros de alimentos para as cidades européias.
Não por acaso, o século XIX ficou conhecido com a "era das ferrovias". Ao mesmo tempo em que
serviam para escoar mais rapidamente os produtos e para unificar os mercados, as ferrovias foram uma exce-
lente opção para os investidores dos países industrializados. Assim, rapidamente, os trilhos ferroviários ga-
nharam o mundo, barateando os custos de transportes e aumentando os lucros do comércio.
A segunda onda caracterizou-se, ainda, por um grande salto tecnológico na siderurgia. O forno Besse-
mer, inventado em 1855, utilizava rajadas de oxigênio no refino do ferro fundido, permitindo a obtenção de
aços de alta qualidade. No oeste da Alemanha, junto às jazidas carboníferas do vale do rio Ruhr, desenvolve-
ram-se os conglomerados siderúrgicos da maior concentração industrial européia.
As cidades industriais típicas do século XIX - tais como Manchester e Liverpool, na Inglaterra, e Co-
lônia, na Alemanha - eram de tamanho médio, localizadas junto às bacias carboníferas. Elas concentravam a
produção siderúrgica e a produção de têxteis de algodão. O ritmo da produção fabril regulava a vida nesses
centros urbanos, onde a maioria da população era composta de empregados assalariados das indústrias.
A primeira onda da Revolução Industrial restringiu-se, praticamente, à Grã-Bretanha. Na segunda on-
da, se espraiou pela Europa, fincando raízes na Bélgica, França, Alemanha, Suécia e, um pouco depois, na
Holanda, Itália, Áustria e Rússia. Do outro lado do Atlântico, a indústria estabelecia-se nas cidades do nor-
deste dos EUA. No final do século, sob o impulso da centralização do poder político, o Japão decolava para
o industrialismo.
Durante a maior parte do século XIX, a Grã-Bretanha conservou a liderança econômica. A sua frota
mercante, a maior do mundo, havia conquistado o domínio dos mares. A supremacia comercial garantiu a
disponibilidade dos capitais necessários para o investimento industrial e assegurou o controle sobre os mer-
cados fornecedores de matérias-primas.
A Revolução Industrial abriu as portas para a formação da economia-mundo, ou seja, para a incorpo-
ração de todos os povos e continentes nos fluxos mercantis e circuitos de investimentos centralizados pelas
potências industriais. Nas últimas décadas do século XIX, navios cargueiros singravam os oceanos transpor-
tando mercadorias industriais, matérias-primas minerais e produtos agrícolas. O imperialismo - anexando
novas áreas coloniais na África e Ásia e esferas de influência na América Latina - criou um verdadeiro mer-
cado de dimensões planetárias.
As potências industriais importavam basicamente dois tipos de mercadorias: matérias-primas e produ-
tos agrícolas tropicais. Para as colônias e áreas de influência, elas exportavam seus produtos industrializa-
dos, principalmente os têxteis e metalúrgicos. A estrutura comercial britânica revela com nitidez a divisão
internacional do trabalho gerada pelas ondas iniciais da Revolução Industrial: no século XIX,alimentos e
matérias-primas constituíam 75% das importações; 85% das exportações eram produtos fabricados.
A borracha das florestas equatoriais da África e do Brasil, o estanho da Bolívia, o cobre do Chile, do
Peru e do Congo, por exemplo, se tornaram matérias-primas fundamentais para as novas indústrias européias
e norte-americanas. Os navios mercantes traziam das regiões tropicais enormes quantidades de cacau, açúcar
e café, gêneros cujo consumo estava se popularizando nas cidades da Europa e dos Estados Unidos.
O traçado das ferrovias ilumina uma das características essenciais da geografia produzida pelo imperi-
alismo. Na França e na Inglaterra, assim como nos demais países industrializados da Europa, foram constru-
ídos troncos principais complementados por uma densa rede de trilhos que se espalham em todas as dire-
ções, facilitando o transporte no interior do território e unificando o mercado interno. Nos Estados Unidos,
os grandes ramais ferroviários cortaram transversalmente o território e ajudaram a integrar o oeste agrícola
ao nordeste industrial.
Entretanto, na África - como também na América Latina - as ferrovias nasceram para ligar as regiões
produtoras de matérias-primas aos portos exportadores. Até hoje, o seu traçado serve de espelho da organi-
zação do espaço produzida pelo imperialismo. Nesse caso, o mercado externo funcionava como principal
motor da economia. As redes de transporte, em vez de integrar, fragmentavam os espaços nacionais. Junto
com o espaço geográfico de dimensões planetárias, emergia uma divisão internacional do trabalho que iria
marcar de forma duradoura as populações de continentes inteiros.
A divisão internacional do trabalho no capitalismo industrial envolvia também fluxos de investimentos
diretos das potências econômicas para as suas esferas de influência. Tais investimentos de capital concentra-
vam-se, essencialmente, em setores de infra-estrutura (eletricidade, iluminação, telefonia) e transportes (fer-
rovias, portos).
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Na última década do século XIX, a economia industrial britânica foi ultrapassada pelos Estados Uni-
dos. Na primeira década do século XX, era ultrapassada também pela Alemanha. Contudo, a sua duradoura
liderança passada continuou, por algum tempo, a se refletir nos investimentos de capital no exterior. No iní-
cio da Primeira Guerra Mundial, os capitais britânicos estabelecidos no estrangeiro representavam mais que
o dobro dos investimentos franceses e quase o triplo dos investimentos alemães
A geografia dos movimentos de capitais refletia, com bastante fidelidade, a influência política das po-
tências. Os capitais britânicos fluíam para todos os continentes, alimentando negócios no Império, na Amé-
rica e no Oriente. França, Alemanha e Holanda tinham vultosos investimentos, direcionados para a Europa
do leste e as colônias afro-asiáticas. Na época, os capitais norte-americanos apenas começavam a ganhar o
estrangeiro, limitando-se praticamente aos países vizinhos da América do Norte.
Os países-fábricas dominavam o mundo com os seus produtos e seu capital. As economias coloniais e
semicoloniais se especializaram na produção de uns poucos produtos primários, e cada vez mais se tornavam
dependentes dos mercados e investimentos externos.
Os parques tecnológicos
Atualmente, um fator fundamental para a escolha da localização industrial é a existência de mão de
obra com alto nível de qualificação, principalmente para as indústrias de alta tecnologia. Não por acaso, as
empresas de semicondutores (microchips), informática (equipamentos, programas e sistemas), telecomuni-
cações, novos materiais, biotecnologia, entre outras, se concentram nos parques tecnológicos ou parques
científicos, também chamados de tecnopolos. Utilizaremos esses termos indistintamente ao longo dos pró-
ximos capítulos, embora no Brasil a expressão parque tecnológico seja mais utilizada. Leia a definição a
seguir.
O que é um parque Científico ou Tecnológico?
De acordo com a Associação de parques Científicos do Reino Unido (UKSpA), um parque científico é
um apoio a empresas e uma iniciativa de transferência de tecnologia que:
• incentiva e apoia a criação e a incubação de empresas inovadoras, de alto crescimento e de base tecnológi-
ca.
• oferece um ambiente em que grandes empresas transnacionais podem desenvolver interações estreitas e
específicas com um centro local de produção de conhecimentos, trazendo benefícios mútuos.
• possui ligações formais e operacionais com centros de produção de conhecimentos tais como universida-
des, institutos de ensino superior e centros de pesquisa.
UNESCO – United nations Educational, Scientific and Cultural organization. Science policy and Capacity-Building. Con-
cept and definition. Disponível em: <www.unesco.org/new/en/natural-sciences/science-technology/universityindustry-
partnerships/unispar-programme/concept-anddefinition>. Acesso em: 15 nov. 2012. (traduzido pelos autores).
Os parques tecnológicos são o exemplo mais acabado da geografia industrial do capitalismo informa-
cional. Esses novos centros industriais e de serviços têm relação com a Terceira Revolução Industrial, assim
11
como as bacias carboníferas tinham com a Primeira ou as jazidas petrolíferas com a Segunda. Os tecnopolos
constituem os pontos de interconexão da rede mundial de produção de conhecimentos e os principais centros
irradiadores das inovações que caracterizam a revolução tecnológica que se iniciou nas últimas décadas do
século XX. Muitas das empresas inovadoras que existem hoje no mundo se desenvolveram numa incubado-
ra, no interior de um parque tecnológico.
Os tecnopolos concentram-se especialmente nos Estados Unidos, na União Europeia e no Japão, em-
bora existam em outros países desenvolvidos e também em alguns países emergentes: no Brics, na Coreia do
Sul, em Taiwan, no México, entre outros.
5.3.4 - O fordismo e o "século americano"
No alvorecer do século XX, um novo conjunto de tecnologias deflagrava a terceira onda da industria-
lização. O uso do petróleo como combustível e a invenção do motor a combustão interna originavam a in-
dústria automobilística. Nascia, ao mesmo tempo, a moderna indústria química. A eletricidade tornava-se a
fonte de energia das fábricas. Os motores elétricos e, com eles, as linhas de montagem propiciavam um salto
extraordinário na produtividade do trabalho.
Simultaneamente, a difusão do telex e do telefone revolucionavam as comunicações. "Os últimos se-
rão os primeiros" - esse provérbio bíblico descreve, com alguma precisão, a evolução do mundo industrial
durante a terceira onda. A maturidade industrial britânica foi atingida muito cedo, em meados do século
XIX, cerca de 70 anos depois da decolagem industrialista. A Alemanha, a França e os Estados Unidos, que
só então decolavam para o mundo industrial, não precisaram sequer de meio século para alcançar a maturi-
dade. Esses países retardatários aproveitaram-se dos avanços tecnológicos britânicos para queimar etapas e
saltar degraus. Na Grã-Bretanha, pelo contrário, a força inercial dos velhos padrões tecnológicos sabotava o
ritmo da inovação.
Os Estados Unidos constituem o exemplo mais notável desse avanço por saltos que caracterizou a in-
dustrialização das potências retardatárias. As suas condições históricas e geográficas específicas - princi-
palmente, a ausência de um passado feudal e as enormes potencialidades agrícolas do seu território - possibi-
litaram um surto de desenvolvimento desconhecido nos demais países industriais.
A etapa do consumo de massa, caracterizada pela incorporação da maior parte da população ao merca-
do consumidor de bens industriais, foi atingida pelos Estados Unidos já na década de 1920. Na Europa in-
dustrial, inclusive na pioneira Grã-Bretanha, essa etapa só veio a ser alcançada mais tarde, pouco antes ou
logo depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).A economia-mundo atravessou dois grandes ciclos no século XX. Até a Segunda Guerra Mundial vi-
veu a onda tecnológica baseada nos motores a combustão interna, no petróleo e na eletricidade. Essa onda
propiciou a "idade de ouro" da década de 1920, caracterizada pelo intenso crescimento que se seguiu à Pri-
meira Guerra Mundial, abruptamente interrompida pelo crash da Bolsa de Nova York, em 1929. A Grande
Depressão da década de 1930 assinalou, dolorosamente, a fase descendente do ciclo.
Depois da Segunda Guerra Mundial o crescimento foi retomado sobre novas bases tecnológicas. A in-
dústria eletrônica criou centenas de novos produtos e conferiu mais um impulso à produção automobilística.
O desenvolvimento da petroquímica gerou a indústria de plásticos e fibras sintéticas. A aeronáutica civil
beneficiou-se dos avanços na aviação militar, produzindo mais uma revolução nos transportes.
A quarta onda industrial reativou a produção e a circulação de mercadorias. Nas décadas do pós-
guerra, o crescimento industrial e a ampliação do comércio mundial atingiram índices maiores que os regis-
trados desde meados do século XIX.
A hegemonia dos Estados Unidos atingiu o seu ápice pouco depois da Segunda Guerra Mundial,
quando a vitalidade das suas indústrias contrastava com a desorganização geral dos sistemas produtivos dos
países europeus e do Japão, arrasados pelo conflito. O Produto Nacional Bruto (PNB) das cinco potências
econômicas européias e do Japão somados não atingiam o da potência hegemônica. A quarta onda de inova-
ção desenvolvia-se, em escala ainda mais pronunciada que a terceira, como uma "onda americana". As no-
vas tecnologias surgiam nas indústrias da América do Norte e os novos produtos estabeleciam-se, em pri-
meiro lugar, no mercado consumidor dos EUA.
5.3.5 - Adeus ao fordismo
A economia industrial do século XX desenvolveu-se sobre a base da aplicação da eletricidade à produ-
ção e da reorganização das fábricas em torno da linha de montagem. Essas inovações, introduzidas por Hen-
12
ry Ford na sua fábrica de automóveis, disseminaram-se por todos os setores e permitiram a produção em
série de mercadorias estandartizadas para mercados de massa. O aprofundamento da divisão técnica do tra-
balho, o emprego de mão-de-obra numerosa e semi-qualificada e a utilização intensiva de energia são carac-
terísticas associadas ao fordismo.
A revolução tecnocientífica e as indústrias de ponta da onda atual de inovações anunciam o esgota-
mento do fordismo. O conceito de produção serializada para mercados homogêneos é substituída pela de
produção flexível de mercadorias adaptadas a nichos de mercado com exigências específicas. A meta fordis-
ta da redução de preços através da constante ampliação da escala de produção dá lugar ao contínuo aperfei-
çoamento tecnológico dos produtos, com incorporação de valor a cada nova versão. Os computadores pesso-
ais, por exemplo, custam cada vez mais, mas a sua capacidade de processamento cresceu muito mais rapi-
damente que seus preços.
As indústrias de ponta da revolução tecnocientífica não são vorazes consumidoras de energia. Elas se
caracterizam pela intensa aplicação da ciência e do conhecimento na elaboração de novos produtos. As em-
presas que lideram a inovação investem pesadamente em pesquisa científica e tecnológica. As universidades
e centros de pesquisa constituem elos da produção industrial e a mão-de-obra de alta qualificação é disputa-
da pelas corporações da informática, das telecomunicações, da robótica, da biotecnologia e da química fina.
EMPRESA IBM Samsung Canon Sony Microsoft Panasonic Toshiba Hon Hai Qualcomm
PATENTE 6.809 4.676 3.825 3.098 2.660 2.601 2.416 2.279 2.103
Fonte: http://epocanegocios.globo.com/inspiracao/Empresa/noticia/2014/01/ibm-lidera-ranking-de-patentes
O meio geográfico típico do fordismo são as concentrações industriais associadas a jazidas carbonífe-
ras, reservas minerais ou metrópoles. Essas concentrações estruturam-se em torno de ferrovias, rodovias ou
portos. No seu entorno, estendem-se cidades ou bairros operários. A atividade sindical é intensa e as rela-
ções sociais são marcadas pelos movimentos reivindicativos de tipo corporativo.
O meio tecnocientífico-informacional é pós-fordista. As corporações estruturam redes de âmbito glo-
bal, integradas virtualmente pelas tecnologias da informação. Essas redes abrangem centros de pesquisa e
laboratórios, plantas industriais e uma vasta gama de empresas fornecedoras de produtos e serviços. Muitas
vezes, a administração empresarial foi inteiramente separada das plantas industriais, assim como os centros
de pesquisa e laboratórios. A produção em larga escala realiza-se, freqüentemente, em fábricas estabelecidas
em países que dispõem de força de trabalho barata. Os diversos componentes de um produto podem ser fa-
bricados em lugares diferentes do mundo, selecionados em função das vantagens comparativas de cada país.
As operações produtivas repetitivas automatizam-se e a mão-de-obra semiqualificada é largamente substitu-
ída por robôs industriais.
Texto de autoria de Demétrio Magnoli – Graduado em Jornalismo e Ciências Sociais pela USP e Doutor em Geografia
Humana pela USP
5.3.6 - A terceira Revolução Industrial
Hoje, um fantasma ronda a vida dos trabalhadores: o desemprego. Para muitos estudiosos, trata-se de
um desemprego estrutural, isto é, causado pelas transformações que vêm ocorrendo no padrão ou modelo de
desenvolvimento produtivo e tecnológico que predomina nos países capitalistas avançados. Essas transfor-
mações apresentam diferenças nos países onde ocorrem, mas estão alterando a organização do processo pro-
dutivo e do trabalho em todos eles e no resto do mundo também. E tais mudanças afetam o conjunto do
mundo do trabalho.
À primeira vista, os robôs ou as novas tecnologias de produção parecem ser os únicos e mais cruéis
causadores desse desemprego. No entanto, existem outras razões de ordem econômica, social, institucional e
geopolítica que, associadas à tecnologia, formam um conjunto que explica melhor aquilo que, para alguns
analistas, significaria até mesmo o fim de uma sociedade organizada com base no trabalho.
O sistema capitalista sofreu transformações ao longo de sua história. As mudanças podem ser
profundas, acumular tensões sociais e graves problemas econômicos, gerar crises, guerras e revoluções
políticas, mas o sistema permanece basicamente o mesmo, isto é, trata-se de um sistema produtor de
mercadorias cuja venda tem por objetivo o lucro. Por isso o chamamos, indistintamente, de economia de
mercado ou economia capitalista.
No entanto, para que as empresas capitalistas produzam mais e mais mercadorias - com maior eficiên-
cia e melhores níveis de produtividade, ganhando em competitividade em relação a outras empresas, e sem-
13
pre que possível obtendo lucros crescentes - elas precisam criar e aplicar novas técnicas e novas formas de
organização da produção e do trabalho, dividir funções com outras empresas, negociar salários, estipular
taxas de lucros etc.
Mas o capitalismo não se restringe apenas às unidades empresariais e suas dinâmicas internas. Na so-
ciedade como um todo, existem outros componentes extremamente importantes que precisam ser levados em
consideração, pois interferem na vida das próprias empresas. Tais componentes podem ser as formas institu-
cionalizadas, como as regras do mercado, a legislação social, a moeda, as redes financeiras, em grande parte
estabelecidas pelo Estado, ou ainda, as disputas pelo poder das nações, o comércio internacional, a renda e o
consumo de cada família, a qualidade dos recursos humanos, as convenções coletivas, as idéias produzidas
etc.
Quando esse conjunto de elementos, e muitos outros, é razoavelmente ajustado e aceito pela sociedade
(não se trata de um consenso pleno, pois sempre haverá oposições e tensões), estamos diante de um modelo
de desenvolvimento capitalista dominante,com uma organização territorial correspondente. E esse modelo
permanece até que uma nova crise ocorra e novos rearranjos sejam feitos na sociedade e no espaço.
Após a crise de 1929, o modelo de desenvolvimento que aos poucos passou a dominar nos países de
tecnologia avançada - Estados Unidos, Japão e em boa parte da Europa -, mantidas suas especificidades,
levou o nome de fordismo, pois nesse modelo foram incluídas formas de produção e de trabalho postas em
prática pioneiramente nos EUA, nas décadas de 1910 e 1920, nas fábricas de automóveis do empresário nor-
te-americano Henry Ford.
O fordismo teve seu ápice no período posterior à Segunda Guerra Mundial, nas décadas de 1950 e
1960, que ficou conhecido na história do capitalismo como “Os Anos Dourados”.
O modelo fordista pós-guerra, dependia da subida constante dos salários para manter o mercado ativo,
ou seja, manter os níveis de produção e de consumo crescentes. Porém, os salários não podiam crescer a
ponto de ameaçar os lucros empresariais; mantiveram-se os níveis salariais e os lucros aumentando os pre-
ços dos produtos, o que gerou uma crise inflacionária.
Nos Estados Unidos, os gastos públicos se agigantaram, tanto interna como externamente - a guerra do
Vietnã foi um exemplo. A moeda americana ficou debilitada. Esse país, que durante todo o período de do-
mínio do fordismo assegurava a estabilidade da economia mundial com base em sua moeda - o dólar -, viu
esse sistema monetário declinar. A competitividade da Europa e do Japão superavam a dos Estados Unidos.
Assistia-se a uma verdadeira guerra comercial, que nunca deixou de crescer.
A partir da década de 1970, a saída foi investir num novo modelo que rompesse com aquilo que era
considerado a rigidez do modelo fordista. A ordem era flexibilizar, ou seja, golpear a rigidez nos processos
de produção, nas formas de ocupação da força de trabalho, nas garantias trabalhistas e nos mercados de mas-
sa, então saturados.
As empresas multinacionais, para restabelecer sua rentabilidade, expandiram espacialmente sua pro-
dução por continentes inteiros. Surgiram novos países industrializados. Os mercados externos cresceram
mais que os mercados internos. O capitalismo internacional reestruturou-se.
Os países de economia avançada precisaram criar internamente condições de competitividade. A satu-
ração dos mercados acabou gerando uma produção diversificada para atender a consumidores diferenciados.
Os contratos de trabalho passaram a ser mais flexíveis. Diminuiu o número de trabalhadores permanentes e
cresceu o número de trabalhadores temporários. Flexibilizaram-se os salários - cresceram as desigualdades
salariais, segundo a qualificação dos empregados e as especificidades da empresa. Em muitas empresas,
juntou-se o que o taylorismo separou: o trabalhador pensa e executa. Os sindicatos viram reduzidos seu po-
der de representação e de reivindicação. Ampliou-se o desemprego.
Os compromissos do Estado do bem-estar social foram sendo rompidos pouco a pouco. Eliminaram-
se, gradativamente, as regulamentações do Estado.
As políticas keynesianas - que se revelaram inflacionárias, à medida que as despesas públicas aumen-
tavam e a capacidade fiscal estagnava - forçaram o enxugamento do Estado.
A transformação do modelo produtivo começou a se apoiar nas tecnologias que já vinham surgindo
nas décadas do pós-guerra (automação e robotização) e nos avanços das novas tecnologias da informação. O
método de produção americano foi substituído pelo método japonês de produção enxuta, que combina má-
quinas cada vez mais sofisticadas com uma nova engenharia gerencial e administrativa de produção - a re-
engenharia, que elimina a organização hierarquizada. Agora, engenheiros de projetos, programadores de
computadores e operários interagem face a face, compartilhando idéias e tomando decisões conjuntas.
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O novo método, rotulado por muitos como toyotismo, numa referência à empresa japonesa Toyota,
utiliza menos esforço humano, menos espaço físico, menos investimentos em ferramentas e menos tempo de
engenharia para desenvolver um novo produto. A empresa que possui um inventário computadorizado, jun-
tamente com melhores comunicações e transportes mais rápidos, não precisa mais manter enormes estoques.
É o just in time.
O novo método permite variar a produção de uma hora para outra, atendendo às constantes exigências
de mudança do mercado consumidor e das mudanças aceleradas nas formas e técnicas de produção e de tra-
balho. A ordem é manter estoques mínimos, produzindo apenas quando os clientes efetivam uma encomen-
da.
As grandes empresas começaram a repassar para as pequenas e médias empresas subcontratadas um
certo número de atividades, tais como concepção de produtos, pesquisa e desenvolvimento, produção de
componentes, segurança, alimentação e limpeza. Isso passou a ser conhecido como terceirização. Com ela,
as grandes empresas reduziram suas pesadas e onerosas rotinas burocráticas e suas despesas com encargos
sociais, concentrando-se naquilo que é estratégico para seu funcionamento.
A produção flexível vem transformando espaços e criando novas geografias, à medida que ocorrem
redistribuições dos investimentos de capital produtivo e especulativo e, conseqüentemente, redistribuição
espacial do trabalho. Numerosas empresas se transferiram das tradicionais concentrações urbanas e regiões
industriais congestionadas, poluídas e sindicalizadas, para novas áreas nas quais a organização e o poder de
luta dos trabalhadores é pouco significativa. Surgiram novos complexos de produção - os complexos cientí-
ficos-produtivos -, ligados a universidades e centros de pesquisa onde as inovações são constantes.
Um caso exemplar desses complexos é o do Vale do Silício (Silicon Valley), na Califórnia, cujo mo-
delo se difundiu por vários países. Nesse complexo, a Universidade de Stanford, juntamente com empresas
do ramo da microeletrônica, criou um parque tecnológico cuja fama cresceu com a produção de semicondu-
tores e o uso do silício como matéria-prima para sua fabricação. O Vale do Silício faz parte de uma área
maior em torno da baía de São Francisco onde se estabeleceram numerosas indústrias de alta tecnologia.
Esses tecnopolos também são encontrados no interior das tradicionais regiões industriais que vêm se
modernizando, a exemplo da região industrial de Frankfurt, na Alemanha, ou ainda daquelas que procuram
sair de uma situação de estagnação, como no caso da região de Turim, na Itália, ou de Lyon, na França.
O sistema just in time exige também uma reorganização do território. As firmas subcontratadas pelas
grandes empresas se aglomeram em torno da planta terminal de produção, criando um novo tipo de aglome-
ração produtiva.
Esse é o caso da fábrica da Volkswagen, instalada em Resende (RJ), que vem atraindo outras empresas
que produzirão, no próprio terreno da fábrica, componentes utilizados na montagem de ônibus e caminhões.
Sem nenhuma dúvida, vivemos hoje mudanças profundas que se refletem no mundo do trabalho. Para
os mais otimistas, a questão do desemprego tecnológico será resolvida pela própria tecnologia avançada que
estimulará o surgimento de novos setores produtivos e de atividades humanas a ela ligados, exigindo, assim,
novos trabalhadores. Para outros, o sonho dos empresários de fábricas sem operários está prestes a ser reali-
zado.
Também nos setores agrícolas e de serviços, as máquinas substituem o trabalho humano. Corporações
multinacionais fazem notar que estão cada vez mais competitivas, e ao mesmo tempo anunciam demissões
em massa. A questão que se coloca neste final de século é a seguinte: para onde vão os trabalhadores?
A resposta dependerá da posição assumida pelas sociedades como um todo.
5.3.7 - A indústria na era da globalização
No pós-guerra, os diversos avanços tecnológicos e a internacionalização da economia iniciaram a fase
da Terceira Revolução Industrial, Tecnológica ou Informacional.Nas últimas décadas do século XX ocorreram também modificações na forma de produzir. O modelo
fordista/taylorista foi substituído pelo modelo toyotista. A capacidade de adaptação ou de flexibilização na
produção (modelo toyotista) passou a ser mais valorizada do que as divisões rígidas na produção (fordis-
mo/taylorismo). A produção e os produtos fabricados tornaram-se cada vez mais complexos, impondo a ne-
cessidade de integrar indústrias e laboratórios de pesquisa, o que levou a tecnologia a ocupar um lugar cada
vez mais importante na produção industrial.
15
Outra transformação significativa foi a criação e a ampliação da indústria de ponta, com a utilização de
máquinas de ajuste flexível, que permitem modificações rápidas no processo produtivo. Essas indústrias
dependem de inovações constantes e, portanto, de investimentos em pesquisas científicas e tecnológicas.
Beneficiando-se do progresso
nos transportes e nas comunica-
ções, a produção industrial espa-
lhou-se por vários continentes,
permitindo separar a concepção e a
execução do produto.
Com a globalização, a indús-
tria deixou de ter o espaço local e
regional como base, ultrapassando
as fronteiras nacionais. Componen-
tes de um produto podem ter ori-
gem em países diferentes, pois as
corporações aproveitam as vanta-
gens comparativas das economias
nacionais. Qualquer desvantagem
pode acarretar a troca do fornece-
dor ou mesmo a transferência de
unidades produtoras inteiras.
Estabeleceu-se uma nova di-
visão de trabalho, a partir de uma
divisão territorial de indústrias. As
indústrias de ponta concentram-se
nos países centrais ou desenvolvi-
dos. As economias de maior avanço
tecnológico criam novos produtos e
investem na comercialização mun-
dial por meio de estratégias de
marketing (estudo dos mercados). Atuam no cotidiano das pessoas, articulando continentes inteiros com os
mesmos produtos e as mesmas imagens. Atualmente, esse tipo de indústria é em parte responsável pela pre-
ponderância de um país sobre outro.
5.4 - Desemprego
Se, por um lado, as inovações tecnológicas introduzidas nas indústrias aumentaram a produtividade,
por outro lado, reduziram os empregos, o que implica sérias questões sociais.
Enquanto os empregos, juntamente com as fábricas, foram transferidos para os países subdesenvolvi-
dos, nos países centrais parte da mão-de-obra passou a ser ocupada pelo setor terciário.
Lembre-se que as atividades econômicas geralmente são classificadas em três setores:
• setor primário – compreende a agricultura, a pecuária, a caça e o extrativismo;
• setor secundário – é composto pelas atividades industriais, em qualquer nível tecnológico;
• setor terciário ou de prestação de serviços – abrange o comércio, setor financeiro, setor público, educa-
ção, transportes, em suma todas as atividades que normalmente ocorrem em áreas urbanas, com exceção das
indústrias. Esse setor complementa os dois primeiros, pois permite ou induz ao consumo de produtos e exer-
ce papel fundamental na produtividade.
Atualmente, com o atual estágio tecnocientífico, tende-se a redividir os setores de atividade econômica
em quatro, incluindo o setor quaternário, que abrange a pesquisa de alto nível (biotecnologica, robótica,
aeroespacial, etc).
Assim, as inovações tecnológicas do passado acabaram com alguns postos de trabalho, mas deram ori-
gem a outros, em novos setores da economia.
Atualmente, as inovações tecnológicas têm provocado não só aumento de produtividade, mas também
desemprego em todos os grupos de países. Isso ocorre até mesmo no setor terciário, uma vez que a tecnolo-
gia da informação invade o setor de serviços, automatizando bancos, telecomunicações, escritórios, comér-
16
cio etc. Os computadores, além de diminuir a participação humana, permitem produção programada e varia-
da; a robotização reduz os custos na produção e permite realizar atividades que envolvem riscos de seguran-
ça ou ocorrem em lugares de difícil acesso ao ser humano, como dutos ou o fundo do mar (instalação de
equipamentos).
Esse processo provoca o desemprego estrutural, que afasta do mercado de trabalho grande massa de
população durante períodos mais ou menos prolongados, atingindo principalmente jovens (dificuldade de
acesso ao primeiro emprego) e trabalhadores de pouca qualificação técnica.
5.5 - Países pioneiros no processo de industrialização – Cenários Regionais
Entre os países pioneiros no processo de industrialização encontram-se o Reino Unido, a França, a
Bélgica e os Estados Unidos. Neste capítulo estudaremos o precursor de todos (Reino Unido) e a atual maior
potência econômica mundial (Estados Unidos).
O Reino Unido foi o primeiro país do mundo a se industrializar, entretanto, com o tempo seu PIB foi
ultrapassado por países que iniciaram o processo de industrialização posteriormente. Por que, embora tenha
sido o pioneiro, não conseguiu acompanhar o ritmo de crescimento econômico de seus concorrentes?
Os Estados Unidos iniciaram seu processo de industrialização na primeira metade do século XIX, um
pouco depois de sua ex-metrópole. Hoje o país é a maior potência do mundo, não só do ponto de vista eco-
nômico como também científico-tecnológico e geopolítico-militar. Vem perdendo poder relativo no mundo,
que se consolida como multipolar. Como começou a supremacia norte-americana, que ainda se mantém no
início deste século?
5.5.1 - REINO UNIDO
O processo de industrialização
O Reino Unido, muitas vezes chamado de Grã-Bretanha (leia o texto abaixo para entender a diferen-
ça), foi o primeiro país a reunir as condições necessárias para o início do processo de industrialização porque
foi um dos que mais acumulou capitais durante o período do capitalismo comercial. Mas disponibilidade de
capitais para investir na produção não foi o único fator importante no processo de industrialização. Além dos
econômicos, é preciso considerar também os fatores políticos, sociais, tecnológicos e naturais, que serão
analisados na sequência.
Foi na Inglaterra que ocorreu a primeira revolução burguesa da História, chamada Revolução Gloriosa.
Ela terminou em 1688, com a deposição do rei absolutista Jaime II e a ascensão ao poder do príncipe holan-
dês Guilherme de Orange e sua esposa Maria Stuart (filha mais velha de Jaime II). Coroados rei Guilherme
III e rainha Maria II, assinaram a Declaração dos Direitos (1689), que limitava o poder político da monar-
quia, transferindo-o para o parlamento – no qual a burguesia estava fortemente representada e podia, desse
modo, participar das decisões políticas do país. A Inglaterra tornou-se, assim, a primeira monarquia parla-
mentar do mundo, fator político que foi essencial para a eclosão da Revolução Industrial, quase um século
mais tarde.
Antes mesmo da Revolução Gloriosa, para estimular as trocas comerciais, o Estado britânico já vinha
tomando uma série de medidas, como os Atos de Navegação, que impunham a exclusividade do comércio
externo do país a navios britânicos. Ancorado em medidas protecionistas e em poderosa frota naval, o Reino
Unido tornou-se a maior potência mercantil do mundo na fase final do capitalismo comercial. Os capitais
acumulados nesse período foram gradativamente investidos na ampliação da rede de ferrovias e hidrovias,
na extração de carvão e na instalação de indústrias, fatores que, conjugados, permitiram grandes avanços
técnicos nas indústrias têxteis, siderúrgicas e navais, ramos mais importantes da Primeira Revolução Indus-
trial.
O Reino Unido ainda tinha a vantagem de dispor de grandes reservas de carvão mineral, fonte de
energia que possibilitou a disseminação do uso das máquinas a vapor, inicialmente na indústria têxtil e mais
tarde nos demais ramos industriais.
As principais condições econômicas e políticas para a Revolução Industrial no Reino Unido foram
sendo criadas ao longo da História: acúmulo de capitais, disponibilidade de matérias-primas e deenergia,
avanços técnicos e o controle do Estado pela burguesia. Faltava, porém, a força de trabalho.
Com as Leis dos Cercamentos, nas últimas décadas do século XVII, as terras – que em grande parte
eram comunais, ou seja, apesar de pertencerem à nobreza eram cultivadas pelos camponeses – foram cerca-
das. Com isso, as atividades agrícolas, muitas delas de subsistência, foram em grande parte substituídas por
17
atividades pecuárias, particularmente a criação de carneiros, realizada por grandes proprietários, para forne-
cer lã à indústria têxtil que estava se desenvolvendo. Os camponeses, que foram gradualmente expulsos das
terras, se deslocaram para as cidades à procura de trabalho.
Essa massa de trabalhadores rurais converteu-se na mão de obra barata e superexplorada da nascente
indústria britânica. A partir de então, começou de fato a se estabelecer uma relação capitalista de produção
baseada no trabalho assalariado e na exploração dos operários, o que proporcionou lucros crescentes aos
industriais.
Recursos naturais e localização industrial
A localização das primeiras indústrias ocorreu próximo aos portos e às jazidas de carvão, principal-
mente no centro da Grã-Bretanha, onde ficavam as maiores reservas desse combustível fóssil. Por esse mo-
tivo, houve grande industrialização nas proximidades de Yorkshire, Lancashire e Midlands (Inglaterra),
Lowlands (Escócia) e no País de Gales, provocando drásticas transformações nas paisagens, que passaram a
ser conhecidas como “regiões negras”.
No centro da ilha foram construídas usinas siderúrgicas, o que viabilizou a produção de locomotivas e
navios movidos a vapor. As indústrias de material ferroviário e naval localizavam-se em torno das siderúrgi-
cas, que, por sua vez, estavam perto do carvão, o qual também atraiu a indústria têxtil. Isso explica o grande
dinamismo das regiões carboníferas britânicas durante a Primeira Revolução Industrial. Porém, as mudanças
futuras no padrão tecnológico e energético levaram as “regiões negras” e suas indústrias pioneiras à deca-
dência.
Outro fator essencial de atração das indústrias foi a existência de portos marítimos e fluviais. Muitas
cidades portuárias desenvolveram um importante parque industrial, como Liverpool, Glasgow e principal-
mente a capital, Londres. O maior centro industrial no Reino Unido sempre foi a região metropolitana da
capital, em razão de seu poder de polarização sobre o território britânico (nacional e colonial). Inicialmente,
as indústrias menos dependentes de matérias-primas aí se localizaram por causa da disponibilidade de mão
de obra, de mercado consumidor e de rede de transportes. Durante a Primeira Revolução Industrial, Londres,
que já era o maior porto e centro comercial e financeiro britânico, tornou-se também o maior entroncamento
ferroviário, aumentando sua capacidade de polarização.
Posteriormente, na Segunda Revolução Industrial, muitas indústrias que não dependiam do carvão –
automobilísticas, aeronáuticas, químicas, elétricas, mecânicas, farmacêuticas, etc. – foram se instalando em
torno da metrópole, ampliando sua importância. A partir daí, essa região metropolitana se converteu no mai-
or entroncamento rodoviário do país e numa das maiores confluências de rotas aéreas do mundo. Esses fato-
res explicam o fato de Londres ter se transformado numa das mais importantes cidades globais da atualida-
de.
Por sua posição estratégica, outra cidade que se beneficiou bastante dessa nova tendência foi Birmin-
gham, que, depois de Londres, era o principal centro industrial britânico, polarizando uma série de cidades e
com um parque industrial bastante diversificado.
No contexto da atual revolução tecnológica, a reorganização das indústrias britânicas atinge o país de
forma bastante desigual: setorial e regionalmente. Há setores que entraram em decadência, como a indústria
têxtil, a siderúrgica e a naval, outrora as maiores do mundo e associadas às antigas bacias carboníferas. Mas
há setores bastante dinâmicos, como o de material bélico, o aeronáutico, o automobilístico, o químico-
farmacêutico, o petroquímico (graças ao petróleo explorado no mar do Norte) e o de biotecnologia. Essas
novas e modernas indústrias em geral estão localizadas nas pequenas cidades do centro-sul da Inglaterra,
onde se destaca o importante parque tecnológico de Cambridge, com suas empresas de alta tecnologia.
Cambridge é uma antiga cidade universitária, localizada a cerca de 80 quilômetros a noroeste de Lon-
dres. Em torno da Universidade de Cambridge começou a ser implantado, na década de 1970, um parque
tecnológico concentrando empresas de setores típicos da Terceira Revolução Industrial, como os de informá-
tica e biotecnologia, entre outros.
A cidade contou com fatores muito semelhantes aos do Vale do Silício (Estados Unidos): centros de
pesquisa de renome, mão de obra com alto nível de qualificação, disponibilidade de capitais de risco e de-
senvolvimento de empresas inovadoras. Há outros polos de alta tecnologia no Reino Unido, como na região
oeste de Londres, conhecida como Corredor Oeste ou Corredor M4. Observe no mapa da página anterior a
distribuição das principais indústrias no Reino Unido. A produção de carvão no Reino Unido caiu sensivel-
mente (a maioria das minas se esgotou) e seu consumo foi substituído por gás natural, petróleo e eletricida-
18
de. Embora o país seja produtor de petróleo, sua produção (1,1 milhão de barris/dia em 2011, vigésimo pro-
dutor mundial) não é suficiente para abastecer o consumo interno, havendo necessidade de importação, so-
bretudo da Noruega. O país também é importador de gás natural, combustível cujo consumo foi o que mais
aumentou no país, especialmente para a produção de eletricidade em termelétricas. Cresceu também a pro-
dução de energia em usinas termonucleares.
Nas regiões carboníferas, são visíveis a desindustrialização, o desemprego e o empobrecimento, prin-
cipalmente no centro da Grã-Bretanha, em cidades como Liverpool, Manchester e Sheffield. Desde a década
de 1970, com o fechamento de diversas fábricas, essa região converteu-se em zona de repulsão populacional.
O empobrecimento de parte da população britânica aumentou nos anos 1980, época em que também ocorreu
maior concentração de renda nas mãos de sua elite, em prejuízo do restante da sociedade. Essa situação re-
sultou da perda de competitividade do país diante do aumento da concorrência em uma economia globaliza-
da.
O Reino Unido enfrentava, de um lado, a concorrência de economias mais competitivas, ancoradas em
sistemas de produção flexível como a japonesa e a coreana, e, de outro, economias emergentes, ancoradas
em mão de obra barata, como a China, a Índia e outros países asiáticos. A gestão da primeira-ministra Mar-
garet Tatcher (1979-1990), do Partido Conservador, foi marcada por políticas neoliberais que visavam redu-
zir o papel do Estado na economia e aumentar a competitividade das empresas britânicas.
Nesse processo muitas empresas estatais foram privatizadas, entre as quais a BP – British Petroleum
(petrolífera). Essas privatizações reduziram a contribuição das estatais para o PIB britânico de 9%, em 1979,
para 3,5%, em 1990. A BP é a maior corporação do Reino Unido e a quarta do mundo (é a terceira no setor
de petróleo), de acordo com a Fortune Global 500 2012. Entre as grandes corporações britânicas, ainda se
destacam a Vodafone (telecomunicações), Rio Tinto (mineração), a BAE Systems (aeroespacial e material
bélico), a GlaxoSmithKline e Astra Zeneca (farmacêuticas), todas entre as quinhentas maiores empresas do
mundo.
A implantação de políticas neoliberais teve como efeitos colaterais o enfraquecimento do estado de
bem-estar e, durante o governo Thatcher, o aumento da concentração de renda. No fim dos anos 1990, como
mostra a tabela a seguir, apesar de ter havido um pequeno aumento da participação dos estratos mais pobres
na distribuição da renda, a participação dos 10%mais ricos continuou aumentando, em detrimento da classe
média.
A política econômica do governo Tatcher atingiu seus objetivos: reduziu o papel do Estado na econo-
mia, o deficit público e os custos de produção das empresas e aumentou a competitividade britânica no
mundo globalizado, tanto que de modo geral foi mantida por seus sucessores, mesmo os do Partido Traba-
lhista. Entretanto, para isso houve um custo social e a consequente redução de conquistas trabalhistas, o que
levou a enfrentamentos com os sindicatos de várias categorias, especialmente os do setor de mineração, cuja
greve durou um ano. O governo venceu essa queda de braço e, com o tempo, diversas minas foram fechadas.
A partir dessa greve emblemática, pois atingiu um setor outrora estratégico no país, os sindicatos em
geral se enfraqueceram. O gráfico ao lado mostra que, alguns anos após o fim do governo conservador, o
Reino Unido era, entre os principais países desenvolvidos, aquele no qual os trabalhadores tinham um dos
menores salários diretos e os menores benefícios sociais e previdenciários.
Em 2010, a situação não mudou; apesar da elevação salarial, os trabalhadores industriais do Reino
Unido permanecem entre os de menor remuneração (salário + benefícios) entre os dos principais países de-
senvolvidos.
A potência pioneira perde poder
Embora o Reino Unido tenha crescido economicamente após a Segunda Guerra Mundial, não acom-
panhou o ritmo de crescimento de outras potências econômicas como Estados Unidos, Japão e Alemanha, se
considerados os avanços tecnológicos e os ganhos de produtividade; consequentemente, foi perdendo posi-
ções no cenário internacional.
Observe na tabela a seguir o crescimento do PIB do Reino Unido no pós-Segunda Guerra e o compare
com o dos concorrentes. Perceba que até 1980 a economia britânica cresceu bem menos que as de seus com-
petidores. No período 1981-2010 o crescimento do PIB britânico acumulou uma taxa média de 2,7% ao ano,
superando dois de seus principais concorrentes (o Japão cresceu em média 2,0%, e a Alemanha, 1,6%); ficou
atrás apenas dos Estados Unidos, que cresceram 2,8% (no mesmo período, a China cresceu a taxas superio-
res a 10% ao ano).
19
Considerando o tamanho do PIB, a economia britânica foi ultrapassada pelo Japão e pela Alemanha
após a Segunda Guerra; antes disso, já tinha sido superada pelos Estados Unidos (após a Primeira Guerra
Mundial), e, mais recentemente, também pela China e França. Assim, o Reino Unido, que já foi a maior po-
tência industrial do planeta, em 2011 era o sétimo PIB mundial (quando foi ultrapassado também pelo Bra-
sil), bem atrás das três maiores potências econômicas, principalmente da maior delas, sua ex-colônia.
Apesar de permanecer entre as sete maiores economias mundiais, o Reino Unido já não dispõe do po-
der que deteve no passado. Não está mais na liderança dos principais avanços tecnológicos e já não tem mais
poder econômico e militar para exercer influência planetária de forma isolada, como fez desde o fim do sé-
culo XVIII até o começo do século XX. No entanto, o país ainda mantém certo status de potência mundial
porque o governo britânico tem atrelado sua política externa à dos Estados Unidos, apoiando incondicional-
mente as decisõestomadas em Washington. Isso ficou evidente na guerra empreendida contra Saddam Hus-
sein em 2003, na qual o então primeiro-ministro britânico Tony Blair, contrariando a maioria da população
britânica, apoiou política e militarmente (também enviou tropas) a invasão do Iraque pelas forças armadas
dos Estados Unidos.
5.5.2 - OS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA
O território que hoje pertence aos Estados Unidos da América foi colonizado por britânicos, franceses
e espanhóis; no entanto, foram os britânicos que se tornaram hegemônicos e mais influenciaram a formação
da sociedade norte-americana. A primeira colônia inglesa foi fundada em 1607 na Virgínia, na costa do oce-
ano Atlântico, e ao longo do século XVII várias outras foram fundadas, totalizando treze colônias, que cons-
tituíram o núcleo inicial do atual território.
Em 4 de julho de 1776, representantes de todas as colônias originais promulgaram na Filadélfia a De-
claração de Independência dos Estados Unidos da América, documento fundador dessa nação. A separação
só foi reconhecida pelos ingleses ao final da Guerra de Independência (1775-1783), com a assinatura do
Tratado de Versalhes. Após a independência, iniciou-se um processo de expansão para o oeste, marcado por
guerras contra os mexicanos e os povos indígenas, até então os habitantes dessa região, e o território norte-
americano passou a ter sua configuração atual (2012) – composto de cinquenta estados, além do Distrito de
Colúmbia, onde se localiza Washington, a capital do país.
Os fatores da industrialização
Quando o território do que viria a ser os Estados Unidos ainda pertencia ao Reino Unido, recebeu um
grande fluxo de imigrantes britânicos, principalmente nas colônias do Norte. Esses imigrantes, fugindo de
perseguições políticas e religiosas ou em busca de melhores condições de vida do que as da Europa, foram
se fixando na faixa litorânea, num trecho conhecido como Nova Inglaterra. Aí desenvolviam uma agricultura
diversificada (policultura) em pequenas propriedades, nas quais predominava o trabalho familiar.
Cidades como Nova York, Boston e Filadélfia começavam a surgir e crescer em ritmo acelerado, e te-
ve início uma atividade manufatureira, pois vários imigrantes que eram artesãos na Inglaterra, Escócia e
Irlanda trouxeram consigo suas habilidades e ferramentas. Gradativamente, foi se estruturando um mercado
interno, com o predomínio do trabalho familiar no campo e do trabalho assalariado nas cidades. Isso criou
condições para a crescente expansão das manufaturas, das casas de comércio e dos bancos.
Assim, nas colônias do Norte, organizou-se uma colonização de povoamento, enquanto nas do Sul im-
perava a colonização de exploração, estruturada sobre uma sociedade rigidamente estratificada e na explora-
ção do trabalho escravo. A economia sulista era baseada em plantations: grandes propriedades monocultoras
nas quais se cultivava principalmente o algodão e se utilizava trabalho escravo de povos negros trazidos à
força da África central. Praticamente toda a produção era exportada para o Reino Unido. A riqueza estava
fortemente concentrada nas mãos dos fazendeiros escravagistas (a que permanecia no país) e dos comercian-
tes britânicos, de forma que o mercado interno prosperava muito lentamente.
Já nas colônias do Norte os negócios se expandiam com rapidez e os capitais se concentravam nas
mãos da burguesia nascente. Com o tempo, os capitalistas e outros setores da sociedade nortista desenvolve-
ram interesses próprios que passaram a se chocar com os dos britânicos. O resultado desse conflito de inte-
resses, como vimos, levou a uma guerra entre a colônia e a metrópole e à independência política, que fez dos
Estados Unidos o primeiro país livre da América.
Com isso surge uma dúvida: por que o Reino Unido não manteve um controle mais rígido sobre as tre-
ze colônias, já que foi justamente nessa região que nasceram o separatismo e a industrialização? Esses fatos
20
contrariavam os interesses britânicos: o separatismo significava a perda de colônias, além de criar um peri-
goso precedente, e a industrialização, uma incômoda concorrência. O jornalista uruguaio Eduardo Galeano
deu uma boa resposta a essa questão:
A importância de não nascer importante
As treze colônias do Norte tiveram, pode-se bem dizer, a dita da desgraça. Sua experiência histórica
mostrou a tremenda importância de não nascer importante. Porque no norte da América não tinha ouro, nem
prata, nem civilizações indígenas com densas concentrações de população já organizada para o trabalho,
nem solos tropicais de fertilidade fabulosa na faixa costeira que os peregrinos ingleses colonizaram. A natu-
reza tinha-se mostrado avara,e também a História: faltavam metais e mão de obra escrava para arrancá-los
do ventre da terra. Foi uma sorte. No resto, desde Maryland até Nova Escócia, passando pela Nova Inglater-
ra, as colônias do Norte produziam, em virtude do clima e pelas características dos solos, exatamente o
mesmo que a agricultura britânica, ou seja, não ofereciam à metrópole uma produção complementar. Muito
diferente era a situação das Antilhas e das colônias ibéricas de terra firme. Das terras tropicais brotavam o
açúcar, o algodão, o anil, a terebintina; uma pequena ilha do Caribe era mais importante para a Inglaterra, do
ponto de vista econômico, do que as 13 colônias matrizes dos Estados Unidos. Essas circunstâncias expli-
cam a ascensão e a consolidação dos Estados Unidos como um sistema economicamente autônomo, que não
drenava para fora a riqueza gerada em seu seio. Eram muito frouxos os laços que atavam a colônia à metró-
pole; em Barbados ou Jamaica, em compensação, só se reinvestiam os capitais indispensáveis para repor os
escravos na medida em que se iam gastando. Não foram fatores raciais, como se vê, os que decidiram o de-
senvolvimento de uns e o subdesenvolvimento de outros; as ilhas britânicas das Antilhas não tinham nada de
espanholas nem portuguesas. A verdade é que a insignificância econômica das 13 colônias permitiu a preco-
ce diversificação de suas manufaturas. A industrialização norte-americana contou, desde antes da indepen-
dência, com estímulos e proteções oficiais. A Inglaterra mostrava-se tolerante, ao mesmo tempo que proibia
estritamente que suas ilhas antilhanas fabricassem até mesmo um alfinete.
GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina . Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986. p. 146.
A maioria dos primeiros imigrantes era britânica, seguidores de religiões cristãs protestantes, princi-
palmente puritanos (como eram chamados os calvinistas, os seguidores de João Calvino, na Grã-Bretanha),
que haviam rompido com a Igreja católica a partir da Reforma Protestante empreendida por Calvino e outros
teólogos no século XVI. As religiões protestantes favoreciam o desenvolvimento capitalista, uma vez que
não condenavam moralmente a riqueza. Ao contrário, pregavam que a riqueza era bem-vinda porque era
fruto do trabalho, de uma vida austera, que afastava o fiel do pecado e o aproximava da salvação divina.
Embora o aspecto cultural não seja determinante, pois na Itália católica e no Japão xintoísta/budista o
capitalismo também floresceu, é indiscutível que o protestantismo criou condições culturais extremamente
favoráveis ao desenvolvimento de um espírito empreendedor e de uma ética do trabalho, importantíssimas
para a acumulação de capitais (na seção Desenvolvendohabilidades será proposta uma atividade para explo-
rar esse aspecto do desenvolvimento capitalista norte-americano).
Fatores de ordem natural também foram fundamentais no processo de industrialização dos Estados
Unidos. O nordeste do território, além de estar próximo do oceano – o que há muito vem facilitando os
transportes marítimos e o intercâmbio comercial –, possui grandes reservas de carvão nas bacias sedimenta-
res próximas aos Apalaches, nos estados da Pensilvânia e de Ohio, e importantes jazidas de minério de ferro
nos escudos próximos ao lago Superior, nos estados de Minnesota e de Wisconsin. Além disso, o país dispõe
de grandes e diversificadas reservas minerais e energéticas. Veja no mapa a seguir a distribuição das princi-
pais ocorrências minerais e a localização das principais refinarias de petróleo e usinas geradoras de energia
nos Estados Unidos.
A farta e bem distribuída rede hidrográfica foi outro fator natural que favoreceu o desenvolvimento
dos Estados Unidos. A existência, no nordeste do país, de extensos lagos com desníveis consideráveis possi-
bilitou a construção de grandes barragens e usinas hidrelétricas para geração de energia. Ao lado das turbi-
nas hidráulicas foram edificadas eclusas, que permitiram às embarcações transpor os desníveis e ampliar
significativamente a rede de hidrovias, garantindo a disponibilidade de infraestrutura de energia elétrica e de
transportes para o desenvolvimento industrial. Os Grandes Lagos (como são chamados) favoreceram imen-
samente os transportes: pouco a pouco, foram interligados por canais artificiais e eclusas que possibilitaram
a ligação do interior do continente com o oceano Atlântico pelo rio São Lourenço, no Canadá, e pelo Hud-
21
son, nos Estados Unidos. Esse rio alcança o lago Erie, por meio de um canal artificial, e desemboca no
Atlântico, onde fica o porto de Nova York.
A arrancada industrial
Após a independência, as diferenças econômicas, sociais e culturais entre a sociedade nortista, das co-
lônias de povoamento, e a sociedade sulista, das colônias de exploração, afloraram nitidamente e acabaram
desencadeando um conflito armado, na segunda metade do século XIX. As elites aristocráticas que coman-
davam os estados escravagistas do Sul, em franca decadência política e econômica, na tentativa de manter o
poder e a escravidão criaram os Estados Confederados da América.
Com isso, esses estados declararam sua separação (secessão) da federação americana, dominada pelos
capitalistas industriais e financeiros do Norte. Essa atitude provocou a Guerra de Secessão, ou Guerra Civil
Americana.
A vitória da burguesia nortista teve como resultado geopolítico mais importante a manutenção da uni-
dade territorial do país, que já se estendia do Atlântico ao Pacífico. Interessada em garantir a ocupação dos
territórios tomados dos povos nativos (à custa de um grande genocídio) e aumentar o mercado consumidor
para os bens produzidos por suas indústrias, a elite do Norte passou a estimular a imigração. Em 1862 foi
elaborada a Lei Lincoln (Homestead Act), segundo a qual as famílias que migrassem para o oeste do país
receberiam 65 hectares de terra para se fixar e, caso permanecessem cultivando-os por pelo menos cinco
anos, ganhariam sua posse definitiva. Porém, embora essa lei tenha garantido a ocupação das terras do oeste,
principalmente os férteis solos das planícies centrais, o que mais contribuiu para atrair imigrantes e ampliar
o mercado interno do país foi a aceleração de seu processo de industrialização, sobretudo no final do século
XIX e início do XX: entre 1890 e 1929, mais de 22 milhões de imigrantes, especialmente europeus, se fixa-
ram no país.
A crise de 1929, a depressão dos anos 1930 decorrente dela e a Segunda Guerra Mundial reduziram
drasticamente a entrada de pessoas no país nos anos 1930-1940, porém, o fluxo imigratório voltou a aumen-
tar após a guerra e atingiu seu pico nos anos 1990, década em que entrou no país quase o mesmo número de
imigrantes que nos vinte anos anteriores. Entre 1850 e 2010 os Estados Unidos foram o país que mais rece-
beu imigrantes no mundo, com a fixação de mais de 74 milhões de pessoas em seu território.
Outra medida que ampliou o mercado consumidor interno foi a decretação, em 1863, do fim da escra-
vidão nos Estados Unidos. A partir de então, foi-se disseminando o trabalho assalariado e, pouco a pouco,
foi-se estruturando, pela primeira vez na História, uma ampla sociedade de consumo, que se consolidou após
a Primeira Guerra Mundial.
Nordeste: localização industrial e decadência recente
Apesar da desconcentração recente, que estudaremos a seguir, o Nordeste dos Estados Unidos ainda é
a maior região industrial do país e uma das maiores do mundo.
Como vimos, a primeira região do país a se industrializar foi o Nordeste, onde, durante muito tempo,
determinados setores se concentraram mais em algumas cidades que em outras, definindo as “capitais” do
aço, do automóvel, etc.
As grandes siderúrgicas, como a United States Steel Corporation, a maior do país, localizada em Pitts-
burgh, concentraram-se no estado da Pensilvânia po causa da disponibilidade de carvão, da facilidade de
recepção do minério que provém de Minnesota por meiodos Grandes Lagos e da proximidade dos centros
consumidores. Apesar do fechamento de fábricas e da transferência de usinas para outros lugares, Pittsburgh
ainda é conhecida como a “capital do aço”.
A região metropolitana de Detroit, no estado de Michigan, foi o grande centro da indústria automobi-
lística. Sua localização numa posição central facilitou a recepção de matérias-primas e peças, além do poste-
rior envio dos produtos acabados (localize-a no mapa). Abrigando fábricas das “três grandes” montadoras –
General Motors (GM), Ford e Chrysler – e diversas fábricas de autopeças, a cidade tornou-se a “capital do
automóvel”, mas atualmente sofre com a falência de algumas indústrias e a saída de outras, que migram para
regiões diversas em busca de menores custos de produção. Em razão da elevação do custo da mão de obra,
da má gestão praticada pelos seus administradores e da acirrada concorrência de carros de outras marcas,
especialmente japonesas e coreanas, as grandes montadoras americanas estão perdendo competitividade,
situação agravada pela crise financeira de 2008/2009.
22
A GM, que por décadas foi a maior montadora automobilística do mundo, pediu concordata em junho
de 2009 e, para não falir, foi encampada pelo governo norte-americano, que injetou 50 bilhões de dólares na
empresa e passou a controlar 61% de suas ações (o governo do Canadá ficou com 12%, o sindicato United
Auto Workers, com 17%, e os credores, com 10%). Entretanto, o plano do governo é se desfazer de suas
ações depois de sanear a empresa, o que em 2012 ainda não tinha ocorrido. Naquele mesmo ano, a Chrysler,
para evitar a falência, teve parte de suas ações vendidas ao Grupo Fiat. A Ford, sediada em Dearborn (Mi-
chigan), não enfrentou os mesmos problemas de suas concorrentes nacionais.
Em decorrência de seu enorme efeito multiplicador, a crise no setor automobilístico tem afetado diver-
sos outros setores da indústria norte-americana. Existe uma grande quantidade de indústrias complementares
imprescindíveis ao funcionamento das montadoras de automóveis: autopeças, plásticos, borrachas, vidros,
equipamentos eletrônicos, etc. Essas indústrias, por sua vez, necessitam de outros setores: siderúrgicas, me-
talúrgicas, petroquímicas, etc. Isso evidencia como a crise é grave. Detroit já não é mais a “capital do auto-
móvel” porque muitas de suas antigas fábricas de carros e autopeças fecharam as portas. A cidade e sua re-
gião metropolitana estão enfrentando o desemprego crescente, o empobrecimento da população e a deterio-
ração urbana. Muitos de seus moradores gostariam de se mudar, mas a profunda desvalorização imobiliária
dificulta a venda de suas casas e a compra de uma nova em outro lugar.
Diversos outros ramos industriais estão espalhados por inúmeras cidades do Nordeste dos Estados
Unidos, a região de maior concentração urbano-industrial do planeta. Ali, a História mostrou ser verdadeira
a frase: “Indústria atrai indústria”. Surgiu, assim, um grande cinturão industrial, o manufacturing belt, que se
estende por várias cidades, como Chicago, Detroit, Cleveland e Buffalo, às margens dos Grandes Lagos;
Pittsburgh e Columbus, na região dos Apalaches; Boston, Nova York, Filadélfia e Baltimore, na costa leste.
Em virtude da crise de setores com forte presença na região, como o automobilístico e outros que dependem
muito dele, como o siderúrgico, e do consequente fechamento de inúmeras fábricas, muitos têm afirmado
que essa região deveria ser chamada de Rust Belt (cinturão da ferrugem) em razão da decadência industrial.
A desconcentração industrial
Como vimos no capítulo 6, está ocorrendo nos Estados Unidos, já há algumas décadas, um processo de
desconcentração industrial. O cinturão industrial (manufacturing belt) do Nordeste já chegou a concentrar,
no início do século XX, mais de 75% da produção industrial dos Estados Unidos. De lá para cá sua partici-
pação vem se reduzindo, e hoje ela é inferior a 50%. Como consequência do grande crescimento de cidades
do Nordeste, que se agruparam em gigantescas megalópoles como a que se estende de Boston a Washington
(conhecida como Boswash), passando por Nova York, tem havido uma tendência de elevação dos custos de
produção na região. Novos centros industriais surgiram no sul e no oeste do país, e centros mais antigos nes-
sas mesmas regiões se expandiram, acarretando uma dispersão industrial. Algumas das cidades norte-
americanas que mais têm crescido estão nessas regiões novas, como Atlanta, Dallas, Houston, Seattle, São
Francisco, etc. Reveja no mapa das indústrias dos Estados Unidos (página 166) as regiões de expansão in-
dustrial ao sul e a oeste do território, detalhadas no texto a seguir.
Sul
As primeiras fábricas do Sul dos Estados Unidos datam de 1880: produziam fios e tecidos e foram ins-
taladas por industriais da Nova Inglaterra, atraídos pela disponibilidade de matéria-prima, o algodão cultiva-
do na região. Contudo, a industrialização efetiva do Sul ganhou grande impulso mesmo no início do século
XX, após a descoberta de enormes lençóis petrolíferos na região, principalmente no Texas. Após a Segunda
Guerra o processo se intensificou, pois as necessidades de defesa e de desenvolvimento do programa espaci-
al estimularam a expansão industrial no Sul. Foi construída uma fábrica de aviões em Marietta (Geórgia),
onde hoje se encontra uma das maiores unidades da Lockheed Martin, empresa do setor aeroespacial. Em
Huntsville (Alabama), foi construído um dos centros da Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos, e uma
fábrica de aviões militares e mísseis da Boeing, a maior indústria aeronáutica do mundo.
No Texas, localiza-se o importante Centro Espacial de Houston, sede da Nasa. Na Flórida, em Cabo
Canaveral, encontra-se o Centro Espacial John F. Kennedy, base de lançamento de foguetes. No Texas há
também importantes indústrias aeronáuticas, em Fort Worth e San Antonio, e grandes indústrias petrolíferas
em Houston, onde se destaca a Exxon Mobil. Em 2012 essa empresa era a maior dos Estados Unidos e a
segunda do mundo na lista das quinhentas maiores da revista Fortune, com um faturamento de 453 bilhões
23
de dólares, valor equivalente ao PIB da Argentina (a maior do mundo era a holandesa Royal Dutch Shell,
cujo faturamento era de 484 bilhões de dólares).
Oeste
A última região dos Estados Unidos a se industrializar foi o Oeste. Entre os fatores que contribuíram
para a instalação de indústrias nessa região, destacam-se:
• disponibilidade de mão de obra, que foi se estabelecendo desde a época da Corrida do Ouro, em me-
ados do século XIX, quando a exploração desse metal na Serra Nevada (Califórnia) atraiu muita gente;
• existência de outros minérios, como ferro e cobre, nas Montanhas Rochosas e na Serra Nevada, e de
petróleo e gás natural na Bacia da Califórnia;
• disponibilidade de elevado potencial hidrelétrico, principalmente nos rios Columbia e Colorado.
Em Seattle (estado de Washington) há uma importante concentração da indústria aeronáutica (divisão
de aviões comerciais da Boeing), e em Portland (Oregon) de indústrias siderúrgicas e metalúrgicas (alumí-
nio), entre outras. Mas o estado mais importante do Oeste é a Califórnia, com um parque industrial bastante
diversificado, localizado principalmente no eixo São Francisco-Los Angeles-San Diego, a segunda megaló-
pole do país (conhecida como San-San), com indústrias petroquímicas, automobilísticas, aeronáuticas, na-
vais, alimentícias e outras.
Há, assim, muitos setores tradicionais. No entanto, pelo fato de ser uma industrialização relativamente
recente, bastante vinculada à indústria bélica (tendo recebido por isso fortes incentivos governamentais) e
ligada a importantes universidades e centros de pesquisas, no Oeste se encontram as mais importantes con-
centrações de indústrias de alta tecnologia dos Estados Unidos, principalmente no tecnopolo do Vale do Si-
lício.
Os principais parques tecnológicosVale do Silício
O Vale do Silício (Silicon Valley), no norte da Califórnia, foi o primeiro parque tecnológico implanta-
do no mundo. Ainda é o mais importante e serve de modelo para muitos dos que surgiram posteriormente
em diversos países. Abrange as cidades de Palo Alto, Santa Clara, San José e Cupertino, entre outras locali-
zadas em torno da Baía de São Francisco. Essa região é chamada de Vale do Silício porque sua formação foi
baseada nas indústrias de semicondutores, que produzem microchips (ou microprocessadores), cuja matéria-
prima mais importante é o silício, e na indústria de informática, tanto de computadores e periféricos
(hardware) como de sistemas e programas (software).
Embora o início de sua industrialização remonte aos anos 1930, a expressão “Vale do Silício” surgiu
em 1971, e o impulso para o desenvolvimento da região se deu sobretudo durante a Guerra Fria, devido à
corrida armamentista e aeroespacial. Foram as indústrias eletrônicas do Vale do Silício que, por exemplo,
forneceram transistores para mísseis e circuitos integrados para os computadores que guiaram as naves
Apollo, cuja série 11 atingiu a Lua. Assim, o governo dos Estados Unidos, além de subsidiar as pesquisas
nos laboratórios de universidades e empresas, garantia mercado para a produção regional, comprando parte
do que era produzido.
A criação, em 1951, do Stanford Industrial Park, no campus da universidade do mesmo nome, também
teve importante papel no desenvolvimento desse parque tecnológico, pois atraiu indústrias de alta tecnolo-
gia, principalmente do setor de microeletrônica e informática. Outras universidades da região tiveram papel
crucial na formação de mão de obra qualificada e na produção de pesquisa avançada, entre as quais a Uni-
versidade da Califórnia (campus de Berkeley e de São Francisco), e a Universidade Estadual de San José.
Graças aos pesquisadores dessas universidades o Vale do Silício tornou-se o principal centro de alta
tecnologia do mundo. Também contribuiu para isso a existência de um espírito empreendedor, de capitais de
risco dispostos a bancar projetos inovadores e de um ambiente favorável aos investimentos e à gestação de
novas empresas. Muitas empresas dos setores de microeletrônica e informática, que hoje estão entre as mai-
ores do mundo, foram gestadas na região. Por exemplo, em 1939 William Hewlett e David Packard, dois
estudantes da Universidade Stanford, fundaram uma empresa de computadores e impressoras – a Hewlett-
Packard, mais conhecida como HP – que em 2012 era a maior produtora de hardware dos Estados Unidos e
a segunda do mundo desse setor (a primeira era a Samsung Electronics; entre as 500 maiores empresas do
mundo, a sul-coreana estava na 20a posição e a norte-americana, na 31a). Mas há diversas outras no Vale,
entre as quais se destacam: Intel e AMD (semicondutores); Apple (computadores); Oracle e Adobe (progra-
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mas e sistemas), Cisco Systems (TI), entre outras menos conhecidas. Grandes empresas do setor de informá-
tica que têm sede em outros lugares dos Estados Unidos, como a Microsoft, em Redmond (estado de Wa-
shington), e a IBM, em Nova York (estado de Nova York), também têm filiais aí. Mesmo corporações japo-
nesas e europeias mantêm centros de pesquisa na região.
Apesar da diversificação posterior, sobretudo com a biotecnologia (observe a foto da página anterior),
ainda é predominante a participação desses setores pioneiros. Importantes empresas que se desenvolveram
recentemente devido à expansão da internet, como a Google (fundada em 1998) e o Facebook (2004), tam-
bém têm sede no Vale do Silício.
Boston
No leste do país destaca-se outro importante tecnopolo, localizado na região metropolitana de Boston
(Massachusetts) e que se desenvolveu a partir dos anos 1960 ao longo da Rota 128, uma autoestrada que
contorna as cidades da metrópole. Esse tecnopolo também está vinculado à indústria bélica e ao setor de
informática e abriga empresas como a Raytheon (material bélico) e a Lionbridge Tecnologies (TI), entre
outras. Mais recentemente têm se desenvolvido novos setores de alta tecnologia na região, especialmente em
Cambridge e arredores, sobressaindo-se as de biotecnologia (novos remédios e terapias) e de equipamentos
médicos, com destaque para empresas como a Biogen Idec e a Genzyme.
A região de Boston passou por um processo de reconversão industrial. Em torno dessa cidade surgiram
os prédios inteligentes dos setores ligados à nova economia informacional, muitas vezes no lugar de antigas
fábricas, como as têxteis ou navais, típicas da Primeira Revolução Industrial. Diferentemente de outras cida-
des do Nordeste que passaram a fazer parte do Rust Belt, a região de Boston transformou-se num tecnopolo
porque dispõe do ativo mais importante da Revolução Técnico-Científica ou Informacional: conhecimento
científico-tecnológico avançado. Isso ocorre graças aos professores e pesquisadores da Universidade de
Harvard e do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT), duas das instituições de ensino e pesquisa mais
conceituadas do mundo, além da Universidade de Boston e de cerca de cinquenta outras menos conhecidas.
Além do Vale do Silício e da Rota 128, há diversos outros tecnopolos no território dos Estados Uni-
dos, entre os quais se destaca, logo abaixo dos dois mais importantes, o Research Triangle Park, na Carolina
do Norte. Esse parque de pesquisas recebe esse nome porque congrega empresas de alta tecnologia numa
região formada por um triângulo em cujos vértices estão três das mais importantes instituições de ensino e
pesquisa do país: Duke University, North Carolina State University e University of North Carolina at Chapel
Hill.
Para finalizar, vale destacar que, como vimos anteriormente, em 2012 os Estados Unidos tinham cor-
porações na lista da revista Fortune, o que correspondia a 26,4% das quinhentas maiores do mundo. Entre-
tanto, em 2001 chegou a ter 197 empresas na lista, 39,4% do total, um recorde. De lá para cá, empresas
de países emergentes, especialmente da China, têm ocupado esse espaço. Isso é mais uma evidência do
enfraquecimento relativo dos Estados Unidos e, paralelamente, do crescente fortalecimento das economias
emergentes no mundo atual.
A Alemanha e o Japão, assim como a Itália e o Canadá, industrializaram-se na segunda metade
do século XIX. São considerados países de industrialização tardia em comparação com os pioneiros
que estudamos no capítulo anterior. Neste, vamos analisar os dois primeiros, os mais importantes de s-
te grupo.
Por que a Alemanha se industrializou tardiamente em relação aos países pioneiros?
Sua história é marcada pelo envolvimento em guerras, por destruições e reconstruções. Derrota-
da na Primeira e na Segunda Guerra, foi arrasada e dividida, mas nas últimas décadas recuperou-se e
em pouco tempo emergiu novamente como potência econômica, com uma indústria moderna e compe-
titiva. O que explica essa rápida recuperação econômica? Que fatores mais contribuíram para isso?
O Japão foi a primeira potência industrial a se desenvolver na Ásia. A industrialização tardia o
levou, como a Alemanha, à expansão imperialista retardatária e a enfrentamentos com as potências já
consolidadas. Durante a Segunda Guerra, o país foi arrasado do mesmo modo que a Alemanha, com
quem se aliou. Em menos de três décadas emergiu dos destroços da guerra para o segundo posto na
economia mundial. Entretanto, desde os anos 1990 reduziu drasticamente seu ritmo de crescimento
econômico e acabou superado recentemente pela China. O que mudou para interromper o ciclo de
25
crescimento anterior? Para entender seu vertiginoso avanço econômico, e depois a crise pela qual o
país passou, é fundamental estudar seu processo de industrialização.
5.5.3 - ALEMANHA
Unificação territorial e indUstrialização
De 1815 a 1871 a Alemanha foi uma confederação composta de 39 unidades políticas independentes
(Estados, reinos, ducados,principados e cidades-Estado). Em 1861, sob o comando de Otto von Bismarck,
chanceler da Prússia, o Estado mais poderoso da confederação germânica, iniciou-se o processo de unifica-
ção político-territorial marcado por diversas guerras contra seus vizinhos. A Alemanha entrou em guerra
contra a Dinamarca, a Áustria e a França (observe o mapa). Venceu todas, inclusive a que travou contra seu
vizinho mais poderoso (a França), de quem tomou os territórios da Alsácia e Lorena ao final da Guerra
Franco-Prussiana (1870-1871)
Após esse período de guerras, o país completou sua unificação político-territorial. A partir daí houve
uma aceleração do processo de industrialização e, em fins do século XIX, a Alemanha já tinha uma econo-
mia mais forte que a do Reino Unido e a da França e liderava, com os Estados Unidos, os avanços tecnoló-
gicos da Segunda Revolução Industrial.
A unificação política de 1871 tornou a Alemanha não só um único Estado, mas também um único
mercado. Entretanto, o processo de unificação econômica já havia começado com a criação do Zollverein
(união aduaneira estabelecida em 1834 entre os Estados alemães), o que estimulou desde aquela época o
comércio e, portanto, o desenvolvimento industrial. Com a unificação política, consolidou-se a integração
econômica: instituição de uma moeda única, padronização das leis e constituição de um amplo mercado in-
terno, que ampliou as possibilidades de acumulação de capitais. Em consequência disso, a Alemanha tornou-
se uma potência econômica e militar, mas, como não tinha colônias, envolveu-se em outras guerras com o
objetivo de conquistar novos territórios.
Ao longo dos séculos XIX e XX, graças à disponibilidade de grandes jazidas de carvão mineral (a hu-
lha da bacia do Ruhr) e à facilidade de transporte hidroviário (observe a foto da página seguinte), muitas
indústrias se concentraram na confluência dos rios Ruhr e Reno, quase na fronteira com os Países Baixos.
Desde o final da Idade Média, o vale do Reno, que liga o norte da Itália aos Países Baixos, já era uma das
principais rotas do comércio, o que explica a significativa concentração de capitais na região e os investi-
mentos cada vez maiores, por parte de grandes proprietários de terras e banqueiros, na indústria que ali se
instalava.
Gradativamente, a população que vivia no campo migrou para as cidades, empregou-se como mão de
obra assalariada e contribuiu para a ampliação do mercado consumidor. Além desses fatores, a França, der-
rotada na Guerra Franco-Prussiana, terminada em 1871, foi obrigada a ceder à Alemanha as províncias da
Alsácia e Lorena (localize-as no mapa acima), ricas em carvão e minério de ferro, e a pagar pesada indeni-
zação aos alemães. Isso significou mais recursos e acesso a novas fontes de energia e de matérias-primas. A
soma desses fatores explica a intensa industrialização da Alemanha a partir de então, mas o país enfrentou
problemas para sustentar seu crescimento econômico.
Guerras, destruição e reconstrução
Na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a Tríplice Aliança, formada inicialmente por Alemanha,
Áustria-Hungria e Itália (os italianos saíram em 1915), saiu derrotada pela Tríplice Entente, composta de
Reino Unido, França e Rússia. Com o desenrolar do conflito, diversos países aderiram à Tríplice Entente,
entre os quais a Itália, o Japão e os Estados Unidos, ao passo que Alemanha e Áustria só obtiveram apoio do
Império Otomano. Os vitoriosos impuseram uma série de sanções à Alemanha por meio do Tratado de Ver-
salhes: pesadas indenizações financeiras, grandes restrições militares e significativas perdas territoriais.
Além de perder as poucas colônias ultramarinas que possuía, a Alemanha foi obrigada a devolver as provín-
cias da Alsácia e Lorena à França e perdeu territórios para a Polônia, que voltou a ter acesso ao mar por uma
faixa de terra que passava no meio do então território da Alemanha (e que ficou conhecida como “corredor
polonês”). Porém, a situação da Áustria-Hungria foi pior: o antigo império se fragmentou, dando origem a
novos países na Europa central.
Pelo fato de ter-se unificado tardiamente, a Alemanha perdeu a fase mais importante da corrida colo-
nial. Embora tenha se apropriado de algumas colônias na partilha da África durante o Congresso de Berlim
(1884-1885), e também de algumas ilhas no Pacífico, não obteve muitas vantagens econômicas. Esses terri-
26
tórios eram limitados em recursos naturais e o país se viu privado do acesso aos mercados consumidores, às
reservas de matérias-primas e às fontes de energia, fatores que poderiam acelerar sua expansão industrial.
Esse conjunto de fatores levou a Alemanha a um enfrentamento bélico com o Reino Unido e a França, as
duas principais potências coloniais da época, que depois envolveu outros países e resultou na 1ª Guerra.
As sanções impostas pelo Tratado de Versalhes e a crise de 1929 conduziram a Alemanha a profunda
crise social e econômica, o que criou as condições políticas para a ascensão de Adolf Hitler ao poder. Assim
que assumiu o posto de chanceler, em 1933, Hitler dissolveu o parlamento e convocou novas eleições, ven-
cidas esmagadoramente pelo Partido nazista. Com os nazistas no poder, o país transformou-se numa ditadura
na qual Hitler era o Führer (‘líder’, em alemão), e iniciou-se o Terceiro Reich, que se estendeu até 1945.
Assim como no século anterior, nesse período o Estado alemão lançou-se à conquista dos territórios
considerados vitais para sua expansão econômica. O general Karl Haushofer, conselheiro geopolítico e ami-
go de Hitler, inspirou-se nas ideias do geógrafo Friedrich Ratzel (1844-1904) para justificar o novo expansi-
onismo alemão. Ratzel, cujas ideias já tinham servido para justificar o expansionismo alemão que resultou
na Primeira Guerra, formalizou o conceito que chamou de espaço vital.
Em 1938 a Alemanha anexou a Áustria com o argumento de que os dois países eram habitados por
povos germânicos, e no ano seguinte, a Tchecoslováquia, onde havia minorias alemãs. Em setembro de
1939, após a invasão da Polônia por tropas alemãs, Grã-Bretanha e França declararam guerra à Alemanha,
dando início à Segunda Guerra Mundial. Em 1941 os Estados Unidos e a União Soviética saíram da neutra-
lidade e também entraram na guerra contra a Alemanha. Em 1945, ao final do conflito bélico, o país estava
mais uma vez derrotado: além das perdas humanas e da destruição material, sofreu novas perdas territoriais
e fragmentação política. Ao terminar a Segunda Guerra, a Alemanha teve seu território partilhado pelos paí-
ses vitoriosos em quatro zonas de ocupação, segundo tratado firmado na cidade de Potsdam, em 1945, e ain-
da perdeu territórios para a Polônia e a União Soviética.
Posteriormente, em 1949, o país foi dividido em dois: as zonas de administração americana, britânica e
francesa foram unificadas e constituíram a República Federal da Alemanha (RFA), com capital em Bonn
(Berlim Ocidental também ficou sob controle daqueles três países); e como resposta, os soviéticos criaram,
em sua zona de ocupação, a República Democrática Alemã (RDA), com capital em Berlim Oriental.
Com a divisão, dois modelos sociais, políticos e econômicos foram implantados, um em cada lado da
fronteira. Na Alemanha Ocidental, influenciada pelos Estados Unidos, passou a vigorar uma economia de
mercado, assentada na propriedade privada, na livre iniciativa e na concorrência. Politicamente o país se
organizou como uma democracia pluripartidária na forma republicana de governo e, gradativamente, estru-
turou o Estado de bem-estar. Aliada a uma elevação significativa da produtividade e, portanto, dos salários,
houve melhora considerável da capacidade de consumo e das condições de vida da população. Vale lembrar
que estavam em território da Alemanha Ocidental as regiões industriais mais importantes do país, entre as
quais o vale do Rhur.
Em contrapartida, sob a influência da União Soviética, na Alemanha Orientalpassou a vigorar uma
economia planificada, na qual os meios de produção eram quase integralmente controlados pelo Estado. Es-
truturou-se uma ditadura de partido único, o Partido Socialista Unificado, criado em 1946, nos moldes do
Partido Comunista da União Soviética. Havia, portanto, um monopólio político e econômico por parte do
Estado. A produtividade crescia lentamente e o parque industrial aos poucos foi se defasando tecnologica-
mente. O padrão de vida e de consumo não acompanhou os níveis ocidentais, gerando um descontentamento
popular que só não aflorava por causa da censura e da repressão política.
A Alemanha Ocidental, capitalista, organizou-se sob um sistema econômico estruturalmente mais
competitivo e dinâmico e beneficiou-se muito da Guerra Fria: recebeu 1,4 bilhão de dólares do Plano Mars-
hall. Esse fato, aliado à sua entrada em organizações supranacionais, como a Comunidade Econômica Euro-
peia (atual União Europeia), foi fundamental para sua rápida reconstrução econômica no pós-guerra, o que
aprofundou as diferenças entre as duas Alemanhas.
Ao ocorrer a reunificação política, em 1990, as diferenças sociais, econômicas, políticas e culturais en-
tre os dois sistemas afloraram nitidamente no novo país. O contraste de padrão de vida, comportamentos,
ideias e costumes entre alemães do oeste e do leste revelavam um distanciamento muito maior do que o ini-
cialmente esperado. Entretanto, passados mais de vinte anos da reunificação, apesar de algumas diferenças
socioeconômicas que ainda persistem – por exemplo, o desemprego e a pobreza no leste são maiores – a
Alemanha voltou a ser um único Estado-nação.
27
A trajetória político-econômica da Alemanha após a Segunda Guerra nega as afirmações de Ratzel no
final de seu texto. Apesar de suas perdas territoriais (mesmo com a reunificação não possui a mesma exten-
são que tinha antes do grande conflito bélico), o país não entrou em decadência; ao contrário, tornou-se uma
das maiores potências econômicas do mundo, com um parque industrial muito moderno e competitivo.
Distribuição das indústrias
As indústrias alemãs foram reconstruídas, em sua maioria, nos mesmos lugares que ocupavam antes da
Segunda Guerra. A região de maior concentração continuou sendo a confluência dos rios Ruhr e Reno, pelas
mesmas razões do passado: reservas de carvão, facilidade de transporte, disponibilidade de mão de obra e
amplo mercado consumidor. Porém, após a guerra houve uma rápida modernização do parque industrial e
ganhos significativos de produtividade em relação ao parque industrial britânico e francês. Além disso, antes
da guerra a Alemanha já possuía mão de obra qualificada, e maiores investimentos em educação contribuí-
ram para elevar ainda mais a produtividade dos trabalhadores.
Como afirmado anteriormente, a logística alemã é uma das melhores do mundo. Uma densa e moderna
rede de transportes (hidroviários, ferroviários e rodoviários), armazéns e centros de distribuição interliga os
principais polos industriais aos maiores portos do país – Hamburgo e Bremen – e ao porto de Roterdã, nos
Países Baixos.
Apesar de também ter havido certa dispersão, o parque industrial ainda está fortemente concentrado no
estado da Renânia do Norte-Vestfália. Conforme se pode observar, cidades renanas como Colônia, Essen,
Düsseldorf e Dortmund, entre outras, formam uma das maiores concentrações urbano-industriais do mundo.
Também é possível perceber que há praticamente todos os ramos industriais na região do Ruhr, mas
alguns merecem destaque, como o siderúrgico, o químico, o eletroeletrônico e o de refino de petróleo. Per-
cebe-se claramente a predominância de indústrias pesadas e de ramos oriundos da Segunda Revolução In-
dustrial. A reconstrução e a diversificação dos trustes, constituídos desde o final do século XIX, possibilita-
ram a formação dos grandes conglomerados que atuam em vários setores. Por exemplo, o grupo Thys-
senKrupp, com sede em Düsseldorf, é um conglomerado que atua nos setores siderúrgico, metalúrgico, me-
cânico, naval, de construção civil, entre outros, produzindo aço, máquinas industriais, elevadores, autopeças,
submarinos, etc.
Embora haja forte concentração nas cidades do estado da Renânia do Norte-Vestfália, o parque indus-
trial alemão está bastante espalhado pelo território, e algumas cidades de outros estados merecem atenção
especial.
• Stuttgart (Baden-Wurtemberg): possui importante concentração de indústrias mecânicas, principalmente
automobilística; nessa cidade está sediado o Grupo Daimler, terceira maior corporação da Alemanha;
• Hamburgo (Hamburgo): localizada na foz do rio Elba, é o maior porto da Alemanha e concentra, entre ou-
tras, importantes indústrias navais – como a TyssenKrupp Marine Systems, e companhias de navegação,
como a Hamburg Süd –, da mesma forma que a vizinha Bremen;
• Wolfsburg (Baixa Saxônia): localizada próxima à antiga fronteira com a ex-Alemanha Oriental, abriga a
sede do Grupo Volkswagen, a maior corporação alemã (12ª da lista da Fortune Global 500-2012) e a se-
gunda produtora mundial de automóveis (atrás da japonesa Toyota).
Parques tecnológicos alemães
Como a Alemanha é um país que está na vanguarda tecnológica em diversos setores, há diversos tec-
nopolos em seu território. A seguir veremos os mais importantes.
• Munique (Baviera) é um centro industrial antigo que, com o tempo, se transformou no mais importante
parque tecnológico da Alemanha, onde se concentram empresas dos setores eletrônico, de tecnologia de
informação (TI), automobilístico, de biotecnologia e aeroespacial. Implantado a partir dos anos 1970,
abriga doze importantes universidades, como a Universidade Técnica de Munique, e renomados centros
de pesquisa, entre os quais treze institutos dos oitenta controlados pela Sociedade Max Planck, principal
instituição de investigação científica alemã. Aí também se localizam as principais indústrias alemãs do
setor eletrônico, como a Siemens e a Robert Bosch, além de filiais de grandes empresas de outros países.
• Outro importante tecnopolo alemão é o Chempark (parque químico) de Leverkusen (Renânia do Norte-
Vestfália). Nele se concentram mais de setenta empresas do setor químico-farmacêutico que atuam em
pesquisa e desenvolvimento, produção industrial e prestação de serviços, destacando-se a Bayer, um dos
maiores conglomerados mundiais desse ramo.
28
Indústrias do leste após a reunificação
As indústrias da antiga Alemanha Oriental estão localizadas principalmente em torno das cidades de
Leipzig, Dresden e da antiga Berlim Oriental. Elas viveram uma profunda crise após a reunificação política
e muitas fecharam as portas porque eram defasadas tecnologicamente e não conseguiram concorrer com as
indústrias ocidentais, que estão entre as mais modernas e produtivas do mundo.
O símbolo mais emblemático da defasagem tecnológica e da baixa competitividade das indústrias do
leste pode ser resumido numa palavra: Trabant. Mais conhecidos como Trabi, esses carros eram fabricados
na antiga RDA. Com a abertura da fronteira, muitos alemães orientais passaram a viajar à RFA dirigindo
esses carros antiquados – vagarosos, barulhentos e de baixo rendimento, além de poluidores – que “invadi-
ram” o território dos Mercedes-Benz, BMW, Audi e Volkswagen, entre os mais conceituados automóveis do
mundo. Resultado: muitos Trabis eram abandonados por seus proprietários, que já não queriam os produtos
tecnologicamente defasados que eles mesmos fabricavam, e acabavam virando sucata!
Na economia planificada da Alemanha Oriental havia pleno emprego, porque o Estado era o único
empregador e as empresas, estatais, não se orientavam pela concorrência. Após a reunificação, muitas delas
foram compradas por empresas do oeste. Seus novos administradores, para enxugar o quadro de funcioná-
rios, demitiram trabalhadores, o que elevou os índices de desemprego e agravou os problemas sociais.
Para impedir que se agravassemas desigualdades socioeconômicas, a partir da reunificação o governo
despendeu vultosos recursos para modernizar a infraestrutura da ex-RDA. Esses gastos provocaram aumento
do deficit público, obrigando o governo a emitir moeda, o que elevou a taxa de inflação. Tentando minimizar
esses problemas, o Bundesbank (o banco central alemão) manteve, ao longo de 1992 e 1993, uma política de
altas taxas de juros, medida que causou desaceleração do crescimento econômico e levou o país à recessão,
em 1993, com o consequente aumento do desemprego.
Na segunda metade da década de 1990, a gradativa redução da inflação, do deficit público e do de-
semprego permitiram que a economia alemã retomasse o crescimento, mas o país, um dos mais atingidos
pela crise financeira de 2008/2009, enfrentou forte recessão em 2009. Apesar disso, a economia alemã já
demonstrou sinais de recuperação em 2010.
Segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC), em 2008 a Alemanha exportou 1,462 trilhão de
dólares, mas em 2010 o volume das exportações caiu para 1,269 trilhão de dólares (o principal mercado dos
produtos alemães são os países da União Europeia, onde naquele momento a crise era mais grave). Com
isso, o país perdeu para a China, cujas vendas externas somaram 1,578 trilhão naquele ano, a posição de
maior exportador do mundo. Na pauta de exportações alemãs predominam produtos industriais de alto valor
agregado, portanto, muito valorizados. De acordo com o Relatório de desenvolvimento industrial 2011, da
Unido (Organização de Desenvolvimento Industrial das Nações Unidas), em 2009 93,4% das exportações do
país eram de bens industrializados, dos quais 71,3% são produtos de média e alta tecnologia. Quando ocor-
rer a retomada do crescimento na União Europeia, o país deverá ampliar suas exportações.
Segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC), em 2008 a Alemanha exportou 1,462 trilhão de
dólares, mas em 2010 o volume das exportações caiu para 1,269 trilhão de dólares (o principal mercado dos
produtos alemães são os países da União Europeia, onde naquele momento a crise era mais grave). Com
isso, o país perdeu para a China, cujas vendas externas somaram 1,578 trilhão naquele ano, a posição de
maior exportador do mundo. Na pauta de exportações alemãs predominam produtos industriais de alto valor
agregado, portanto, muito valorizados. De acordo com o Relatório de desenvolvimento industrial 2011, da
Unido (Organização de Desenvolvimento Industrial das Nações Unidas), em 2009 93,4% das exportações do
país eram de bens industrializados, dos quais 71,3% são produtos de média e alta tecnologia. Quando ocor-
rer a retomada do crescimento na União Europeia, o país deverá ampliar suas exportações.
5.5.4 - JAPÃO
O primeiro contato dos japoneses com os europeus se deu no início do século XVI, com a chegada dos
comerciantes e evangelizadores portugueses, que lá permaneceram por cerca de cem anos. Entretanto, com a
ascensão do xogunato Tokugawa, em 1603, os estrangeiros foram proibidos de entrar no país (inclusive os
portugueses), e os japoneses, de sair. Com isso o Japão permaneceu bastante isolado do mundo exterior no
período em que foi governado pelo clã Tokugawa. Havia apenas uma exceção: as trocas comerciais feitas
com os holandeses, que mantinham um entreposto comercial em Nagasaqui. Por isso, quando uma esquadra
29
da marinha norte-americana aportou no Japão em 1853, fato que marcou o fim desse período de isolamento,
encontrou um país ainda feudal e defasado economicamente em relação ao mundo ocidental.
Tentando realizar seu projeto geopolítico de controle dos oceanos, os norte-americanos forçaram a
abertura do Japão por meio do Tratado de Kanagawa, assinado em 1854. Essa abertura acelerou a desinte-
gração do sistema feudal japonês e, em 1868, encerrou-se o domínio do clã Tokugawa e do próprio regime
do xogunato. Por que o Japão permaneceu isolado durante tanto tempo? Por que os europeus e, particular-
mente, os britânicos, que estenderam seu império à Índia e à China, não forçaram a entrada no país do Sol
Nascente?
O Japão é um país insular muito pequeno (sua área, de 377 mil quilômetros quadrados, corresponde
aos estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina), formado por montanhas e estreitas planícies, portan-
to, com pouquíssimas terras agricultáveis, a maioria na zona temperada do planeta, a qual não oferecia con-
dições para o cultivo dos cobiçados produtos tropicais, como a cana e o algodão, entre outros. Geologica-
mente, o Japão é formado por uma combinação de dobramentos e vulcanismo. Localiza-se numa zona de
contato de três placas tectônicas, no Círculo de Fogo do Pacífico, o que explica sua grande instabilidade
geológica, além de um subsolo extremamente pobre em minérios e combustíveis fósseis.
Assim, o que o Japão poderia oferecer às potências colonialistas, tanto na fase do mercantilismo, co-
mo, mais tarde, na etapa do imperialismo? Como se percebe, muito pouco, por isso o país não despertou
tanto interesse nos comerciantes e industriais europeus.
Entretanto, no final do século XIX, quando os Estados Unidos emergiram como potência e se lança-
ram em busca de pontos estratégicos nos oceanos Pacífico e Atlântico, o Japão se tornou um país interessan-
te para os norte-americanos, porque está numa posição estratégica no Pacífico, próximo à costa do leste da
Ásia. A partir de então, para não ficarem dependentes dos Estados Unidos, os japoneses empenharam-se de
modo enérgico em viabilizar seu processo de industrialização, por meio da intervenção do Estado na econo-
mia e do militarismo. Assim como a Alemanha e a Itália, o Japão é um país de capitalismo tardio, de imperi-
alismo tardio, e uma aliança entre esses três países foi apenas uma questão de tempo. Isso aconteceu no con-
texto da Segunda Guerra, quando formaram o eixo Berlim-Roma-Tóquio numa tentativa de dominar o mun-
do. Aos japoneses era muito interessante o domínio de territórios na Ásia que pudessem viabilizar sua ex-
pansão econômica. Eles também buscavam seu “espaço vital”.
Industrialização e imperialismo
O processo de industrialização e de modernização do Japão começou a partir de 1868, ano que marcou
o fim do xogunato Tokugawa e a restauração do império (os japoneses acreditam que seu primeiro impera-
dor foi entronado no século VII a.C.), com a ascensão do imperador Mitsuhito. Esse novo reinado, conheci-
do como Era Meiji (‘governo ilustrado’, em japonês), estendeu-se até 1912 e foi marcado por políticas mo-
dernizantes: investimentos para a criação de infraestrutura (ferrovias, portos, minas, etc.); maciços investi-
mentos em educação, que foi universalizada e voltada à qualificação de mão de obra; abertura à tecnologia e
aos produtos estrangeiros. A Constituição de 1889 estabeleceu o imperador como chefe “sagrado e inviolá-
vel” do Estado e também a Dieta Nacional do Japão (Parlamento). O governo também estimulou o desen-
volvimento de grandes conglomerados, que no Japão ficaram conhecidos como zaibatsus (em japonês: zai,
‘riqueza’; batsu, ‘grupo’). Esses grupos econômicos surgiram de tradicionais e poderosos clãs de comercian-
tes e proprietários de terras, como Mitsubishi, Mitsui, Sumitomo e Yasuda, entre outros menores. Com o
tempo, esses grupos passaram a atuar em praticamente todos os ramos industriais, além do comércio e das
finanças. Foram incorporando empresas menores e dominando cada vez mais a economia do país (os “quatro
grandes” zaibatsus chegaram a controlar até metade de alguns setores industriais).
Como consequência dessa política modernizante, o Japão viveu um acelerado processo de industriali-
zação. No entanto, o país enfrentava problemas estruturais graves: escassez crônica de matérias-primas e de
energia e limitação do mercado interno, o que levou o império japonês a se aventurar em busca de territórios
na Ásia e no Pacífico. Para atingir tal objetivo, investiu pesado em seu fortalecimento militar, o que foi faci-
litado pelarígida disciplina xintoísta (aspecto cultural), aliada à capacidade industrial (aspecto econômico).
A expansão territorial iniciou-se com a vitória na Guerra Sino-Japonesa (1894-1895), que garantiu a
ocupação de Taiwan, e em 1910 o Japão anexou a Coreia. Posteriormente, com a vitória na guerra contra a
Rússia (1904-1905), os japoneses tomaram as ilhas Sacalinas ao norte e, em 1931, ocuparam a Manchúria,
parte do território chinês, onde implantaram Manchukuo, um Estado fantoche sob o governo do último im-
perador chinês, Pu Yi.
30
Com o objetivo de conquistar novos territórios, em 1937 o Japão iniciou uma confrontação total com a
China, que se estendeu até a Segunda Guerra. Como mostra o mapa, essa conflagração mundial marcou a
fase de maior expansão territorial nipônica, quando o país ocupou parte do Sudeste Asiático e diversas ilhas
do Pacífico. Tal política expansionista, porém, levou o país a ser derrotado na guerra e à sua quase total des-
truição.
Em 1941 os japoneses realizaram um ataque-surpresa à base naval de Pearl Harbor, Havaí (Estados
Unidos), numa evidência de que superestimaram seu poderio militar. Esse ato precipitou a entrada dos norte-
americanos na guerra, o que acabou levando os japoneses à derrota. Após os Estados Unidos lançarem bom-
bas atômicas sobre Hiroxima e Nagasaki, em 6 e 9 de agosto de 1945, respectivamente, o Japão não teve
alternativa a não ser se render. A rendição – assinada em setembro de 1945 no porta-aviões Missouri, atra-
cado na baía de Tóquio – foi o principal símbolo da superioridade tecnológica e militar norte-americana e,
ao mesmo tempo, o prenúncio do papel reservado ao Japão durante a Guerra Fria: fiel aliado político e
aguerrido adversário econômico dos Estados Unidos.
Reconstrução após a segunda guerra
Durante a ocupação, que se estendeu até 1952, quando entrou em vigor um acordo de paz assinado um
ano antes (Tratado de São Francisco), o Japão foi governado pelo Conselho Supremo das Potências Aliadas,
presidido pelo general norte-americano Douglas MacArthur. Nesse período, profundas reformas foram im-
postas ao país com o objetivo de modernizá-lo do ponto de vista político e econômico. Em 1947 foi aprova-
da uma lei antitruste – a Lei de Proibição dos Monopólios –, o que levou os zaibatsus à dissolução. Com
isso, os norte-americanos pretendiam enfraquecer o poder dos grandes grupos e estimular a concorrência na
economia japonesa. No entanto, com o tempo os zaibatsus se rearticularam e se organizaram como keiretsus.
A Constituição, redigida e imposta pelos ocupantes em 1947, encerrou sua fase militarista ao proibir a
intervenção externa do exército japonês, que foi transformado em força de autodefesa. Na realidade, a prote-
ção do território nipônico, até mesmo de ataques nucleares, ficou a cargo dos Estados Unidos, com quem o
Japão assinou um tratado de defesa mútua em 1954. A Constituição também garantiu a liberdade de culto e
estabeleceu a separação entre Estado e religião: o xintoísmo deixou de ser a religião oficial e o ensino públi-
co passou a ser laico. A independência política e a soberania foram restabelecidas em 1952, mas o impera-
dor deixou de ser considerado uma divindade e passou a colaborar ativamente com as reformas. O impera-
dor Hiroito permaneceu no poder de 1926 até sua morte, em 1989 – período denominado Era Showa (‘paz
brilhante’, em japonês) –, quando foi substituído por seu filho Akihito, atual imperador do Japão (em 2012).
A recuperação econômica japonesa após a Segunda Guerra foi avassaladora. Na década de 1960, o pa-
ís já tinha conquistado o terceiro lugar na economia mundial e atingiu o segundo na década de 1980 (posição
que só perdeu para a China em 2010). Até o final dos anos 1980 o Japão foi uma das economias que mais
cresceu no mundo; entretanto, desde a década de 1990 vem apresentando um crescimento muito baixo. Que
fatores explicam primeiro as altas taxas de crescimento e, depois, as baixas?
Além das intervenções modernizadoras, os Estados Unidos elegeram o Japão como o principal ponto
de apoio asiático na luta contra o comunismo sino-soviético, estratégia que se fortaleceu, sobretudo, após a
Revolução Chinesa de 1949. Assim, o Japão passou a se beneficiar da ajuda financeira do Tesouro dos Esta-
dos Unidos, fundamental para a recuperação de sua economia. Ainda dentro da lógica da Guerra Fria, os
industriais japoneses tiveram altos lucros fornecendo suprimentos às guerras da Coreia (1950-1953) e do
Vietnã (1955-1975), que foram tentativas norte-americanas de conter a expansão comunista na Ásia.
Diversos outros fatores foram importantes para a rápida recuperação econômica do país, conhecida
como “milagre japonês”, e os crescentes ganhos de produtividade:
• a grande disponibilidade de mão de obra relativamente barata, disciplinada e qualificada (assim como a
Alemanha, o Japão já possuía trabalhadores qualificados antes da Segunda Guerra);
• os maciços investimentos estatais em educação, que melhoraram ainda mais a qualificação da mão de obra
e, junto à iniciativa privada, em pesquisa e desenvolvimento tecnológico;
• a reconstrução da infraestrutura e dos conglomerados (os antigos zaibatsus) em bases mais modernas e a
gradativa introdução de novos métodos organizacionais, como o toyotismo (orientado pelo lema kaizen),
aumentando a competitividade das empresas;
• a desmilitarização do país e de seu parque industrial, que permitiu investimentos maiores nas indústrias
civis de bens intermediários e de capital, o que deu sustentação ao desenvolvimento de uma poderosa e
competitiva indústria de bens de consumo.
31
Após a Segunda Guerra, em substituição aos zaibatsus, que tinham uma holding que controlava todas
as empresas do grupo (ou seja, possuíam uma “cabeça”), as companhias japonesas reorganizaram-se for-
mando os keiretsus (‘união sem cabeça’, em japonês). Essa palavra é perfeita para definir as redes de empre-
sas integradas que dominam a economia japonesa atual. As empresas que as formam são independentes,
embora muitas vezes uma possua parte minoritária das ações da outra e vice-versa. Um keiretsu geralmente
se articula em torno de algum grande banco que dá suporte financeiro às empresas da rede, as quais atuam
de forma integrada para atingir seus objetivos. Atualmente os grandes grupos japoneses – muitos deles anti-
gos zaibatsus, como Mitsubishi, Mitsui, Sumitomo – se organizam como keiretsu.
É importante destacar que até os anos 1970 a principal vantagem apresentada pelo Japão sobre os con-
correntes da Europa ocidental e da América do Norte foi a mão de obra barata. Essa foi a outra face do “mi-
lagre”, ou seja, a competitividade até então esteve assentada em grande medida na superexploração da força
de trabalho. Porém, com o passar do tempo, os salários foram aumentando como decorrência da elevação da
produtividade resultante dos avanços tecnológicos (como a robotização) e organizacionais (como o toyotis-
mo) incorporados ao processo de produção.
Na primeira metade da década de 1990 os trabalhadores japoneses alcançaram salários bastante eleva-
dos, entre os mais altos do mundo, o que sustentou um gigantesco mercado interno e lhes assegurou um dos
mais altos padrões de vida do mundo. Entretanto, a persistência da estagnação econômica provocou o au-
mento do desemprego e, consequentemente, a estagnação do valor dos salários. Somente a partir de 2005
houve uma recuperação salarial.
Carência de recursos naturais
Apesar de muito carente em matérias-primas e em fontes de energia, o Japão se transformou numa
grande potência industrial. O país possui pouquíssimas jazidas de minérios e as reservas de combustíveis
fósseis são irrelevantes em face das necessidades de sua indústria. Mesmo o potencial hidráulico, relativa-
mente grande por causa do relevo montanhoso e do clima úmido, já há muito tempo não é suficiente para
garantir as necessidades de consumo de energia. Com isso, o país se tornou um dosmaiores importadores de
recursos naturais do mundo, especialmente de combustíveis fósseis e minérios metálicos.
De acordo com o BP Statistical Review of World Energy 2011, as reservas de carvão do país são de
350 milhões de toneladas (menos de 0,05% do total mundial), o que daria somente para dois anos de consu-
mo, e sua produção anual é de apenas 900 mil toneladas. Com isso, o Japão importa praticamente 100% do
carvão que consome. O território japonês também abriga reservas de petróleo muito reduzidas: segundo o
World Factbook 2012, em 2011 o país produziu 17,5 mil barris de petróleo diários (74º produtor mundial)
para um consumo de cerca de 4,5 milhões de barris/dia (terceiro consumidor mundial). Isso significa que sua
produção equivale a apenas 0,4% do consumo interno, o que faz do país o terceiro maior importador de pe-
tróleo do mundo.
Conforme o relatório Minerals Yearbook 2010, o Japão importa 100% do minério de ferro, 100% do
minério de cobre e 93% do minério de zinco que consome. Ao mesmo tempo que é grande importador de
minério de ferro, por exemplo, é importante produtor e exportA _ m de obter saldos comerciais para com-
pensar as despesas com importações de recursos naturais e a limitação relativa de seu mercado interno, o
Japão passou a exportar volumes cada vez maiores de produtos industrializados. Assim, a economia japone-
sa foi gradativamente se convertendo numa grande importadora de produtos primários (metade de sua pauta
de importações) e numa gigantesca exportadora de bens industrializados,ador de aço. A Nippon Steel é a
maior indústria siderúrgica do país e a sexta do mundo: em 2011, segundo a World Steel Association, suas
usinas produziram 33,4 milhões de toneladas de aço (a primeira era a indo-luxemburguesa ArcelorMittal,
com 97,2 milhões de toneladas).
Principais setores industriais e sua distribuição
O Japão é um país fortemente industrializado, e de suas fábricas sai uma gama muito diversi_ cada de
produtos. Os bens intermediários, de capital e especialmente os de consumo de maior valor agregado, como
os que aparecem nas fotos a seguir, são predominantes em suas vendas ao exterior. De acordo com o Relató-
rio de desenvolvimento industrial 2011, em 2009, 96,7% de sua pauta de exportações era composta de bens
industrializados, dos quais 78,7% eram produtos de média e alta tecnologia. Especialmente a partir dos anos
1980, os produtos “made in Japan” ganharam o mundo devido ao seu preço competitivo, sua qualidade e
confiabilidade.
32
Como vimos, as primeiras indústrias foram implantadas no Japão no início da Era Meiji, quando teve
início seu processo de industrialização. Inicialmente, predominavam as fábricas de produtos têxteis, que
utilizavam seda e algodão como matéria-prima. Contudo, desde o começo do século XX, por conta das ne-
cessidades militares, o Estado e a iniciativa privada passaram a investir em indústrias intermediárias e de
bens de capital, como siderúrgicas, químicas e de máquinas e equipamentos. As indústrias de bens de con-
sumo, porém, nunca deixaram de se expandir. Com os avanços tecnológicos, passaram a ser produzidas _
bras sintéticas, como o náilon, e novos setores foram se desenvolvendo, como o eletrônico, o automobilísti-
co e o mecatrônico, entre outros.
A distribuição das indústrias no território japonês foi condicionada, entre outros fatores, por uma forte
dependência em relação ao exterior, tanto para exportar como para importar, somada ao fato de o país ser
insular e montanhoso.
A insularidade e a dependência de produtos primários importados condicionaram especialmente o de-
senvolvimento da indústria naval, uma das mais importantes do país. A frota naval japonesa foi quase toda
destruída durante a Segunda Guerra, mas, para um país com as condições geográficas do Japão, era estraté-
gico possuir uma marinha mercante bem equipada. Por isso o governo incentivou o desenvolvimento dessa
indústria: protegeu o mercado interno e assegurou encomendas para mantê-la funcionando. Com o tempo, os
investimentos em tecnologia, a qualificação da mão de obra e a elevação da produtividade transformaram a
indústria naval do país na maior e mais competitiva do mundo: em meados dos anos 1980, chegou a respon-
der por quase 60% das encomendas mundiais de navios. Com o crescimento da concorrência de países onde
os custos de produção são menores, o Japão foi perdendo terreno. No início dos anos 2000 sua indústria na-
val foi superada pela coreana e, em meados daquela década, pela chinesa. Segundo a Associação Japonesa
de Construtores Navais, em 2008 a Coreia do Sul foi responsável por 40,5% das encomendas mundiais de
novos navios, a chinesa, por 33,4%, e a japonesa, por 16,8%.
Assim, a maior parte do parque industrial japonês situa-se próximo aos grandes portos, nas estreitas
planícies litorâneas, onde, além da facilidade de transporte, historicamente a população se concentrou em
razão da possibilidade de praticar a agricultura do arroz, a mais importante do país. Com a industrialização,
a população foi se instalando em torno dessas cidades portuárias, principalmente na costa voltada para o
Pacífico, onde hoje se localizam as maiores concentrações urbano-industriais do país.
No sudeste da ilha de Honshu (a maior do país em extensão) fica a segunda aglomeração urbano-
industrial do mundo, e no eixo Tóquio-Osaka encontra-se o trecho mais importante da megalópole japonesa.
Extremamente diversificado, esse cinturão industrial concentra cerca de 80% da produção do país, e as regi-
ões de Tóquio e Osaka, sozinhas, são responsáveis por cerca da metade desse total. Nessas duas cidades es-
tão 81% das sedes administrativas das maiores corporações japonesas constantes da lista da revista Fortune
Global 500 2012 (69% em Tóquio). As sedes administrativas das grandes corporações, assim como suas
respectivas fábricas, são muito mais concentradas espacialmente no Japão (principalmente na região da capi-
tal) do que nos Estados Unidos e na Alemanha.
Principais parques tecnológicos
O Japão, ao lado dos Estados Unidos e da União Europeia, é o líder em novas tecnologias na atual Re-
volução Informacional. O país abriga diversos centros de pesquisa e inúmeras indústrias de alta tecnologia,
concentrados principalmente em seus dois mais importantes tecnopolos, ou cidades da ciência, como os ja-
poneses denominam seus parques tecnológicos: Tsukuba e Kansai.
A Cidade da Ciência de Tsukuba, no município de Ibaraki, a 60 quilômetros a nordeste de Tóquio, é o
principal tecnopolo do país e um dos mais importantes do mundo (localize-a no mapa da página 191). Sua
implantação começou na década de 1960, com investimentos estatais, e, ao longo dos anos 1970 e 1980,
recebeu diversos centros de pesquisas governamentais. Em 2010 existiam 55 institutos públicos e privados
de educação e pesquisa em funcionamento, entre eles a Universidade de Tsukuba, a Agência de Exploração
Aeroespacial do Japão, o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Industrial Avançada, o Instituto Nacio-
nal de Estudos Ambientais. Desde meados dos anos 1980, com a consolidação desse parque tecnológico,
ocorreu a instalação de muitas empresas privadas em seu interior.
A Cidade da Ciência de Kansai abrange os municípios de Kyoto, Osaka e Nara; por isso esse tecnopo-
lo também é conhecido pelo acrônimo Keihanna (Kei = Kyoto, Han = Osaka, Na = Nara). Trata-se da se-
gunda região mais industrializada do Japão, e sua implantação começou em meados dos anos 1980. Porém,
diferentemente deTsukuba, que é um empreendimento predominantemente estatal, em Kansai há uma forte
33
presença de laboratórios de empresas privadas, como a Panasonic e a Canon. Lá também há importantes
universidades e centros de pesquisa públicos e privados geradores de tecnologias inovadoras: Universidade
de Osaka, Instituto de Ciência e Tecnologia de Nara, Instituto Internacional de Pesquisas Avançadas em
Telecomunicações em Kyoto, entre outros.Um dos mais importantes setores de alta tecnologia em que o
Japão é líder mundial, e que pressupõe o domínio da microeletrônica e da mecânica, é a robótica. O país
domina o desenvolvimento e a aplicação da robótica ao processo produtivo. A utilização de robôs, sobretudo
na indústria automobilística, que é o setor mais automatizado da economia nipônica, foi um dos principais
fatores que colaboraram para o grande aumento da produtividade e da competitividade de seu parque indus-
trial. Em 2012, havia no Japão dezenas de empresas produzindo robôs industriais, tanto para o mercado in-
terno como para exportação. A Fanuc, a maior delas, tem sede em Yamanashi e filiais em outras cidades do
Japão e em outros países, como Estados Unidos, Alemanha, China, Coreia do Sul e Brasil.
Apesar de o Japão manter a liderança da produção e utilização de robôs industriais, a crise de
2008/2009 atingiu fortemente sua economia e levou a uma diminuição dos estoques em operação. Em 2008,
34% dos robôs industriais em funcionamento no mundo operavam em fábricas japonesas, mas em 2009 esse
percentual se reduziu para 33% e havia previsão de redução para 24% em 2012.
Crises econômicas
O grande sucesso econômico do Japão resultou de uma eficiente combinação de livre mercado com
planejamento estatal. O influente Ministério da Indústria e do Comércio Internacional, criado em 1951, teve
papel importante na elaboração de diretrizes macroeconômicas de longo prazo. Em 2001, após passar por
um processo de reorganização, teve seu nome mudado para Ministério da Economia, Comércio e Indústria.
Funcionando em sintonia com os grandes grupos econômicos, após a Segunda Guerra o Estado japonês deu
sustentação e apoio à competição para a conquista de mercados no exterior.
Entretanto, no início dos anos 1990 a economia japonesa perdeu fôlego e entrou em um período de es-
tagnação que de certa forma foi consequência do sucesso dos anos anteriores. O grande acúmulo de riquezas
no país levou os agentes econômicos a uma crescente especulação com ações, o que provocou uma enorme
alta na Bolsa de Valores de Tóquio e também dos imóveis, que atingiram valores estratosféricos. Os bancos
japoneses, que na época chegaram a ocupar oito das dez primeiras posições entre os maiores grupos finan-
ceiros do mundo, segundo o relatório World Investiment Report 2012, da Unctad, emplacaram apenas dois
entre os dez maiores, considerando o patrimônio: o Mitsubishi UFJ Financial Group e o Mizuho Financial
Group. A concessão de grandes empréstimos sem critério, principalmente para o mercado imobiliário, gerou
grande especulação nesse setor. Essa bolha especulativa – financeira e imobiliária – estourou no início dos
anos 1990. Os valores das ações e dos imóveis despencaram, fazendo a crise se propagar pela economia real
e provocar o fechamento de empresas e o aumento do desemprego. Os bancos, não tendo como receber dos
devedores, deixaram de fazer novos empréstimos. Muitas empresas (industriais e comerciais) e instituições
financeiras (bancos, seguradoras, corretoras de valores, etc.) foram à falência, levando o país à estagnação
econômica.
Agravando esse quadro, a população, receosa com a crise, passou a poupar mais, o que reduziu ainda
mais os níveis de consumo. Esse fato, além de aumentar a historicamente alta taxa de poupança interna, difi-
cultou a retomada do crescimento econômico. Com isso, a economia japonesa cresceu nos anos 1990 apenas
1% na média anual, e nos anos 2000 foi ainda pior: 0,9% (recordando: na década de 1980 o crescimento
médio anual havia sido de 4,1%).
Como mostram os dados do gráfico abaixo, a economia japonesa estava esboçando uma reação em
meados dos anos 2000, mas com a crise mundial de 2008/2009 o país entrou novamente em recessão.
Apesar da estagnação que viveu nos anos 1990 e 2000 e de ter sido um dos países mais atingidos pela
crise de 2008/2009, o Japão permanece como terceiro PIB do mundo ( foi superado pela China em 2010) e é
uma potência industrial de primeira linha: moderna e competitiva. O país sedia algumas das maiores corpo-
rações transnacionais do planeta, com destaque para Toyota, Nissan e Honda (automóveis); Hitachi, Panaso-
nic e Sony (eletrônicos em geral); Mitsubishi, Mitsui e Sumitomo (navios, automóveis, bancos, etc.); Fujitsu
e NEC (computadores e softwares); Canon e Fujifilm (equipamentos fotográficos); Nippon Steel (aço), todas
na lista das 500 maiores da revista Fortune.
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5.5.5 - UNIÃO EUROPEIA: rumo à integração industrial?
A Europa foi o berço das primeiras grandes aglomerações industriais do planeta, na maioria polariza-
das pela presença de complexos siderúrgicos. Na pioneira Grã-Bretanha, a siderurgia assentou-se sobre as
reservas de hulha do Black Country (Birmingham), do País de Gales e do sul da Escócia.
Na Alemanha, o Vale do Rio Ruhr tornou-se a maior região siderúrgica da Europa. A hulha do Ruhr e
das reservas menores na Bélgica abastecia também as indústrias francesas, através do sistema fluvial do Rio
Reno e de seus afluentes. Essa integração industrial franco-alemã transformou as ricas regiões da fronteira
em foco de disputas geopolíticas e militares, que se estenderam do século XIX à Segunda Guerra Mundial.
No pós-guerra, o tratado da Comunidade Européia do Carvão e do Aço (Ceca) transformou a disputa em
colaboração ativa, unificando fretes e tarifas em toda a bacia do Rio Reno.
Entretanto, apesar da integração precoce de parte da siderurgia, a lógica das economias nacionais é que
presidiu a implantação da atividade industrial no continente.
Cada país tinha seu mercado, delimitado e regulado por uma moeda nacional, no interior do qual as
empresas traçavam suas estratégias de localização.
Assim, diversos setores industriais europeus desenvolveram estruturas paralelas. Não existe, por
exemplo, uma indústria automobilística europeia, mas sim indústrias automobilísticas francesas, alemãs e
italianas. A localização das sedes e das unidades produtivas dessas empresas foi escolhida em função de
fatores internos a cada um desses países. É por isso que é muito difícil comparar o espaço industrial da Uni-
ão Européia com o dos Estados Unidos, apesar de se tratar de economias de dimensões similares. A produ-
ção do espaço industrial estadunidense se deu no interior de um único mercado nacional, regulado por uma
única moeda - o dólar.
Na Alemanha, principal potência econômica da União Européia, o complexo industrial do Reno-Ruhr
continua a ocupar lugar de destaque, mas existem muitos outros polos industriais importantes, comandados
principalmente pelas indústrias mecânicas, químicas e eletrônicas.
Na França, os principais centros industriais desses mesmos setores espalham-se no centro-norte do pa-
ís, destacando-se a região parisiense, a Alsácia-Lorena e a região da cidade de Lion.
Na Grã-Bretanha, grande parte dos novos investimentos se direciona para a região de Londres, que
concentra indústrias químicas e mecânicas. As velhas regiões industriais carboníferas, por sua vez, há déca-
das enfrentam um quadro de crise econômica e social generalizada. Na Itália, os centros industriais mais
importantes, ligados principalmente à siderurgia e às indústrias mecânicas, situam-se em Turim, Milão e
Gênova, no norte do país.
O aprofundamento da integração econômica entre os países da União Européia, coroado em janeiro de
1999 com a adoção de uma moeda única - o euro -, abriu o caminho para uma profunda reorganização espa-
cial da indústria européia. Contando com um espaço monetário unificado, as empresas e os setores industri-
ais tendem a traçar suas estratégias locacionais visando o conjunto do mercado europeu. Os processos de
fusão entre empresas, de eliminação de unidades produtivas redundantes e de mudança de localização de
fábricas refletem as necessidades geradas pela concorrência em escala européia.
A integração também parece ser o caminho da indústria de alta tecnologia. Coma criação de grandes
consórcios de pesquisa e desenvolvimento, as empresas européias buscam enfrentar a concorrência com o
Japão e os Estados Unidos. A indústria aeronáutica ilustra esse fenômeno, tal como mostra o caso da Airbus.
5.5.6 - CEI: da desconcentração estratégica ao modelo exportador
Na antiga União Soviética, o processo de industrialização foi marcado pelo controle estatal sobre os
meios de produção e pelo planejamento centralizado. Nesse caso, as estratégias de localização industrial não
derivaram de fatores econômicos; elas resultaram de escolhas políticas.
Dispondo de imensas reservas de carvão, petróleo e minérios nos Montes Urais, na Ásia Central e na
Sibéria ocidental, o Estado investiu intensamente na criação de regiões industriais dispersas, associadas aos
recursos naturais. Essa dispersão funcionava como uma medida de segurança, tornando a indústria soviética
menos vulnerável na hipótese de uma guerra.
Assim, a indústria de base do país desenvolveu-se em cinturões sucessivos, ao longo do traçado da
Ferrovia Transiberiana. Cada um desses cinturões organiza-se em torno de um polo produtivo de grandes
dimensões, nucleado por algumas usinas gigantescas. A indústria de bens de consumo, que jamais conheceu
um grande desenvolvimento, apresenta maior difusão espacial e atende aos mercados locais.
35
Quando a União Soviética deixou de existir, a indústria pesada (que transforma produtos brutos em
semi-elaborados) enfrentava problemas agudos de defasagem tecnológica. O vasto processo de privatização
das empresas estatais implicou o fechamento de unidades produtivas obsoletas, com queda abrupta da pro-
dução, do emprego e do PIB.
Mas, no contexto da implantação da economia de mercado na área da CEI, o setor industrial representa
forte atrativo para as corporações transnacionais. A indústria pesada está assentada sobre ampla base de re-
cursos naturais, dispõe de mão-de-obra qualificada e opera com baixos custos de trabalho. Essas vantagens
comparativas fundamentam o novo modelo exportador que se consolida na Rússia, principal herdeira da
indústria pesada soviética, e mais lentamente em algumas outras repúblicas da CEI.
O setor energético está no centro da reconversão da economia russa. Atualmente, a exportação de pro-
dutos primários - principalmente petróleo bruto e gás natural- representa mais de 40% do total, e as manufa-
turas básicas - o aço, o alumínio e os produtos da indústria mineral- equivalem a cerca de 30% das vendas
externas totais.
5.5.7 - CHINA: uma nova potência industrial
A China se tornou uma potência industrial e exportadora nos últimos decênios. A política de liberali-
zação e abertura econômica lançada em 1978 abriu o país para os investimentos estrangeiros.
As vantagens concedidas pelo governo às companhias transnacionais e a mão-de-obra barata abundan-
te transformaram o país em uma das mais importantes plataformas de exportação de bens de consumo do
mundo, em especial nos setores intensivos em mão-de-obra, tais como têxteis e de brinquedos. A participa-
ção do país no comércio mundial passou de menos de 1 % em 1973 para perto de 8% em 2006. A concor-
rência com os produtos chineses vem provocando falências generalizadas em vastas regiões industriais do
mundo subdesenvolvido.
A internacionalização da economia acelerou as transformações estruturais no espaço chinês, aprofun-
dando as diferenças de renda entre a cidade e o campo e entre a indústria e a agricultura. O ponto de partida
das reformas industriais foi a criação das Zonas Econômicas Especiais (ZEEs), em 1984, que funcionam
como verdadeiros enclaves econômicos internacionalizados. As empresas instaladas em ZEEs beneficiam-se
de legislação especial. A maioria desses enclaves situa-se em cidades do litoral sudeste ou em polos urbanos
dos vales dos rios Yang-Tsé e Huang-Ho.
O litoral, onde se concentram as principais cidades, configura-se como espaço econômico internacio-
nalizado. O dinamismo econômico dessa faixa, onde a renda per capita é mais elevada, difunde-se aos pou-
cos e através dos vales fluviais para o cinturão agrícola interior. Nessas províncias essencialmente rurais, a
agricultura percorre uma trajetória desigual de modernização e libera numeroso contingente de trabalhadores
para o litoral industrializado. As estimativas indicam que mais de 100 milhões de pessoas estão em perma-
nente migração na China, constituindo força de trabalho temporária nos polos urbanos e industriais.
A indústria pesada, por sua vez, concentra-se na Manchúria, que dispõe de vastas reservas de carvão
mineral e importantes jazidas de ferro. O complexo estatal de indústrias de base instalado nessa região ga-
rante ao país o primeiro lugar na produção mundial de aço. Contudo, essa área sofre de problemas estrutu-
rais de defasagem tecnológica.
EXERCÍCIOS
01. Uma mesma empresa pode ter sua sede administrativa onde os impostos são menores, as unidades de
produção onde os salários são os mais baixos, os capitais onde os juros são os mais altos e seus executivos
vivendo onde a qualidade de vida é mais elevada.
SEVCENKO, N. A corrida para o século XXI: no loop da montanha russa. São Paulo: Companhia das Letras, 2001 (adaptado).
No texto estão apresentadas estratégias empresariais no contexto da globalização. uma consequência social
derivada dessas estratégias tem sido:
A) o crescimento da carga tributária.
B) o aumento da mobilidade ocupacional.
C) a redução da competitividade entre as empresas.
D) o direcionamento das vendas para os mercados regionais.
E) a ampliação do poder de planejamento dos estados nacionais.
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02. A evolução do processo de transformação de matérias-primas em produtos ac abados oc orreu em três
estágios: artesanato, manufatura e maquinofatura. Um desses estágios foi o artesanato, em que se:
A) trabalhava conforme o ritmo das máquinas e de maneira padronizada.
B) trabalhava geralmente sem o uso de máquinas e de modo diferente do modelo de produção em série.
C) empregavam fontes de energia abundantes para o funcionamento das máquinas.
D) realizava parte da produção por cada operário, com uso de máquinas e trabalho assalariado.
E) faziam interferências do processo produtivo por técnicos e gerentes com vistas a determinar o ritmo de
produção.
03. Considere o papel da técnica no desenvolvimento da constituição de sociedades e três invenções tecno-
lógicas que marcaram esse processo: invenção do arco e flecha nas civilizações primitivas, locomotiva nas
civilizações do século XIX e televisão nas civilizações modernas.
A respeito dessas invenções são feitas as seguintes afirmações:
I. a primeira ampliou a capacidade de ação dos braços, provocando mudanças na forma de organização
social e na utilização de fontes de alimentação.
II. a segunda tornou mais eficiente o sistema de transporte, ampliando possibilidades de locomoção e pro-
vocando mudanças na visão de espaço e de tempo.
III. a terceira possibilitou um novo tipo de lazer que, envolvendo apenas participação passiva do ser huma-
no, não provocou mudanças na sua forma de conceber o mundo. Está correto o que se afirma em:
A) I, apenas.
B) I e II, apenas.
C) I e III, apenas.
D) II e III, apenas.
E) I, II e III.
04. Os fatores locacionais da indústria passaram por grandes modificações, desde o século XVIII, alterando
as decisões estratégicas das empresas acerca da escolha do local mais rentável para seu empreendimento.
O esquema ao lado apresenta alguns modelos de localização
da siderurgia, considerando os fatores locacionais mais im-
portantes para esse tipo de indústria: minério de ferro, carvão
mineral, mercado e sucata.
No caso dos modelos C e D, as mudanças socioeconômicas
que justificam as escolhas de novos locais para
instalação de usinas siderúrgicas nas últimas décadas são,
respectivamente:
A) dispersão dos mercados consumidores – revalorização das
economias de aglomeração.
B) eliminaçãodos encargos com a mão de obra – generaliza-
ção das redes de telecomunicação.
C) diminuição dos preços das matérias-primas – substituição
de fontes de energia tradicionais.
D) redução dos custos com transporte – ampliação das práti-
cas de sustentabilidade ambiental.
05. Sobre os diferentes tipos de indústrias e a sua dinâmica espacial, assinale o que for correto.
A) as indústrias de bens de produção ou de base produzem bens para outras indústrias, gastam muita energia
e transformam grandes quantidades de matérias-primas. são exemplos desse tipo de indústrias: petroquí-
micas, metalúrgicas, siderúrgicas, entre outras.
B) as indústrias de bens de capital ou intermediárias produzem máquinas, equipamentos, ferramentas ou
autopeças para outras indústrias, como, por exemplo, as indústrias dos componentes eletrônicos e a de
motores para carros ou aviões.
C) as indústrias de ponta estão ligadas ao emprego de alta tecnologia, elevado capital e de número grande de
trabalhadores qualificados. elas dependem de inovações constantes para que sejam possíveis modifica-
ções rápidas no processo de produção.
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D) a partir de 1990, intensificou-se no Brasil o processo de desconcentração industrial, ou seja, muitas in-
dústrias deixaram áreas tradicionais e instalaram unidades fabris em novos espaços na busca de vantagens
econômicas, como incentivos fiscais, menores custos de produção, mão de obra mais barata, mercado
consumidor significativo e atuação sindical fraca.
E) as indústrias de bens de consumo estão divididas em duráveis e não duráveis. a primeira se refere à indús-
tria de automóveis, eletrodomésticos e móveis. Já as não duráveis estão ligadas ao setor de vestuário, ali-
mentos, remédios e calçados.
06. A organização do espaço geográfico através de redes de comunicação eliminou a necessidade de fixar as
atividades econômicas num determinado lugar. Isso vale para um gr ande número de serviços, que podem
ser prestados a partir de qualquer lugar do mundo para qualquer outro, bastando que estes locais estejam
conectados.
Sobre essas redes de comunicação, é correto afirmar que:
A) eliminaram as restrições produtivas dos diferentes espaços geográficos, criando condições de trabalho
igualitárias em todos os países do mundo.
B) contribuíram, pela velocidade da informação e diversidade de serviços, para a dispersão geográfica dos
processos produtivos industriais, cujas etapas estão localizadas em diferentes países.
C) possibilitaram a disseminação dos lucros das empresas multinacionais, pela interligação de sistemas in-
dustriais de produção.
D) ampliaram as trocas no comércio internacional, mas não possibilitaram grandes transformações na orga-
nização do espaço geográfico mundial.
E) diminuíram, por sua ampliação, as desigualdades sociais entre os países, tendência mundial da atualidade.
07. Leia o texto a seguir.
Seguindo uma tendência observada nas empresas européias e americanas, alguns investidores brasileiros
estão migrando parte de seus negócios da China para o Vietnã. Os setores calçadista e têxtil são os que
mais observaram esse tipo de mudança, com a instalação principalmente de fábricas americanas e europei-
as no Vietnã. Em estudo divulgado em março, a Câmara de Comércio Americana de Xangai, a AmCham,
apontou que 88% das empresas estrangeiras sondadas optaram inicialmente por operar na China por cau-
sa dos baixos custos, porém, 63% dessas afirmaram que se mudariam ao Vietnã para cortar ainda mais o
preço de produção.
<www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2008/07/080709_vietannegociosmw.shtml>. adaptado.
Pode ser associada ao conteúdo da notícia a seguinte afirmação:
A) atualmente, grande parte das empresas multinacionais é originária dos países subdesenvolvidos e aí estão
instaladas.
B) embora seja objeto de investimentos capitalistas, o sistema socialista chinês ainda afugenta as empresas
multinacionais.
C) a globalização facilitou a mobilidade de capitais e empresas, aumentando a competição entre países.
D) nos países asiáticos, o alto custo da mão de obra é compensado pela abundância de matérias-primas mi-
nerais baratas.
E) a abertura comercial propiciada pela globalização permitiu às empresas brasileiras concorrerem com as
dos países europeus.
08. Por referência a dinâmica e o desenvolvimento do modo de produção capitalista em relação à organiza-
ção do espaço geográfico e aos problemas ambientais, analise:
I. a internacionalização dos problemas ambientais durante a 2 a revolução Industrial foi uma consequência
das disputas interimperialistas ocorridas a partir da unificação alemã e italiana, que se constituíram como
novos países capitalistas.
II. o espaço geográfico mundial, após a crise de 1929, teve uma intensa reorganização produtiva, conside-
rando a aplicação da política de bem-estar social, o taylorismo/fordismo e o just in time, estruturas admi-
nistrativas que possibilitam a produção/reprodução ampliada do capital.
III. os problemas da organização do espaço geográfico têm relação direta com as categorias de análise cen-
tral da geografia, como paisagem, região, espaço, território e lugar, sendo estes, em muitos momentos,
adjetivados como meio ambiente.
38
IV. a produção em série e o consumo de massa, implantados com o New Deal, estão na base da crise pela
qual passa a economia americana nos dias atuais.
São corretas:
A) I, II, III, IV
B) II, III, IV
C) II, IV
D) II, III
E) I, II, III
09. São as principais características do Vale do silício, nos Estados Unidos:
A) localizado no oeste dos Estados Unidos, próximo a importantes centros de pesquisa, forma um complexo
industrial com destaque para os ramos típicos da terceira revolução Industrial.
B) também conhecido por cinturão (belt), constitui-se na principal área produtora de cereais dos Estados
Unidos, sobretudo de milho e trigo, além de pecuária intensiva.
C) formado por erosão glacial, constitui-se numa área de preservação permanente, onde se destacam as faias,
as sequoias e as bétulas, espécies típicas da floresta boreal.
D) localizado no nordeste dos EUA, constitui-se numa área de antiga concentração industrial, destacando-se
as indústrias de bens de produção pela abundância de matérias-primas, energia e mão de obra e pela fa-
cilidade de transporte.
E) é uma das principais áreas de extração mineral, sobretudo de silício, cobre e ferro, altamente prejudicada
pela degradação do meio ambiente.
10. Os chineses não atrelam nenhuma condição para efetuar investimentos nos países africanos. Outro pon-
to interessante é a venda e compra de grandes somas de áreas, posteriormente cercadas. Por se tratar de
países instáveis e com governos ainda não consolidados, teme-se que algumas nações da África tornem-se
literalmente protetorados.
BrancolI, F. China e os novos investimentos na África : neocolonialismo ou mudanças na arquitetura global?
Disponível em: <http://opiniaoenoticia.com.br>. acesso em: 29 abr. 2010. (adaptado).
A presença econômica da china em vastas áreas do globo é uma realidade do século XXI. a partir do texto,
como é possível caracterizar a r elação econômica da china com o continente africano?
A) Pela presença de órgãos econômicos internacionais como o Fundo monetário Internacional (FMI) e o
Banco Mundial, que restringem os investimentos chineses, uma vez que estes não se preocupam com a
preservação do meio ambiente.
B) Pela ação de ONGs (Organizações não Governamentais) que limitam os investimentos estatais chineses,
uma vez que estes se mostram desinteressados em relação aos problemas sociais africanos.
C) Pela aliança com os capitais e investimentos diretos realizados pelos países ocidentais, promovendo o
crescimento econômico de algumas regiões desse continente.
D) Pela presença cada vez maior de investimentos diretos, o que pode representar uma ameaça à soberania
dos países africanos ou manipulação das ações destes governos em favor dos grandesprojetos.
E) Pela presença de um número cada vez maior de diplomatas, o que pode levar à formação de um mercado
comum sino-africano, ameaçando os interesses ocidentais.
H
I
S
T
Ó
R
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A
ÍNDICE DO MÓDULO 3 DE HISTÓRIA
Continuação do Capítulo II
13) As Grandes Invenções ....................................................................................................................... 01
Capítulo III (A Idade Moderna)
1) A Grande Crise dos Séculos XIV e XV ............................................................................................... 03
2) A Revolução Comercial e o Mercantilismo ......................................................................................... 04
3) A Transição para a Idade Moderna ......................................................................................... ............. 04
4) Os Estados Modernos e o Mercantilismo ............................................................................................ 05
5) A Expansão Comercial ........................................................................................................................ 06
Capítulo IV (As Nações)
1) Portugal ........................................................................................................................ ....................... 14
1.1) A Descoberta do Caminho Marítimo para as Índias ........................................................................ 20
1.2) Outras Navegações Portuguesas ...................................................................................................... 22
1.3) O Apogeu de Portugal ...................................................................................................................... 22
2) Espanha .................................................................................................................. ............................. 23
3) França .................................................................................................................................................. 28
4) Holanda .................................................................................................................. ............................. 36
Exercícios ................................................................................................................................................. 41
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MÓDULO 3 1 QOAA-AFN 2017
CONTINUAÇÃO DO CAPÍTULO II
13) As Grandes Invenções:
O fim da Idade Média é marcado por importantes invenções. Na arte da
navegação, deu-se um acontecimento de grande importância no século XIII, que foi
a introdução da bússola na Europa; esse instrumento já era conhecido pelos
chineses, parecendo mesmo que os mongóis já se orientavam por ela em suas
incursões pela Europa. Coube aos árabes servirem de ligação entre o Oriente e a
Europa, apesar de suas contínuas lutas com os cristãos; na época das cruzadas, os
europeus devem ter tomado conhecimento dessa invenção, que, a princípio, foi
considerada coisa de feiticeiro.
Nos fins do século XIII, no entanto, o uso da bússola já
estava generalizado na Europa, para a navegação. Juntamente
com outros instrumentos da época, o astrolábio e a balestilha
davam ao navegador um seguro conhecimento de sua latitude.
Quanto à longitude, porém, o único meio de conhecimento era
pelo caminho percorrido, o que se obtinha, com grande margem
de erro, navegando-se até o paralelo desejado e daí rumando para
leste ou oeste até o ponto desejado.
Coube aos portugueses o papel principal do
grande espetáculo dos descobrimentos marítimos.
Suas primeiras navegações foram feitas empregando-
se navios como a Barcha ou Barca e o Barinel.
A partir de 1440, aproximadamente, os
portugueses inventaram, ou melhor, aperfeiçoaram
um novo tipo de navio, que viria a ser o mais
característico dessa época: a caravela, navio mais
alongado que seus antecessores a vela, de borda alta,
empregando velas latinas (triangulares), o que o
tornava apto a navegar quase contra o vento, a orçar.
A Caravela:
De origem mourisca, de
armação latina, com
porte aproximadamente
de 50 a 100 tonéis:
“Navio capaz de afrontar
mares tempestuosos e de
lutar contra uma
condição de tempo
atmosférico difícil, a
caravela portuguesa foi,
até os fins do século XV,
triunfalmente, o navio
dos descobrimentos”.
http://2.bp.blogspot.com/_sFCOHpBx_Lk/SfxptMLTQqI/AAAAAAAAAKc/BFFmoh-N4xo/s1600-h/barinel.jpg
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A Nau e o Galeão:
Depois de explorada toda a costa africana do Atlântico,
os portugueses adotaram novo tipo de navio, a nau, bem maior
do que a caravela e capaz de navegar muito longe do litoral,
mesmo com tempo hostil. Foi com esse tipo de navio que
Vasco da Gama fez sua viagem às Índias.
Quando Portugal atingiu as Índias, entrou em
rivalidade com os comerciantes e as nações de origem árabes.
Mesmo havendo rivalidades entre árabes e cristãos, inclusive
do ponto de vista religioso, havia naquela época uma
importante relação comercial entre estes povos, como vimos
no módulo 2 (fevereiro) sobre as cidades marítimas italianas.
Ao criar uma nova rota comercial entre o Ocidente e o
Oriente, levando produtos diretamente das fontes produtoras
às áreas consumidoras e sem a participação de árabes e
italianos, Portugal criou inimigos tanto no oceano Índico
quanto no Atlântico.
A partir de então, Portugal teve que em inúmeras guerras manter sua posição ao longo das costas
conquistadas e garantir suas comunicações marítimas frente a nações europeias, africanas e asiáticas, e,
para tal, teve que adaptar as naus como navios de guerra, desenvolvendo o verdadeiro navio de guerra
moderno, o Galeão, bem mais reforçado para a batalha, com costados mais grossos e maior número de
canhões.
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MÓDULO 3 3 QOAA-AFN 2017
CAPÍTULO III
IDADE MODERNA
1) A Grande Crise dos Séculos XIV e XV :
A Guerra dos Cem Anos entre França e Inglaterra marcou
toda a Europa do século XIV. As rotas comerciais terrestres que
cruzavam a França, importantes para a articulação do comercio
continental, ficaram comprometidas pela guerra, tornando
necessário o estabelecimento de caminhos alternativos.
Ao mesmo tempo, a peste negra trazida nos porões dos
navios que circulavam entre o Oriente e Ocidente, dentro da bacia
do Mediterrâneo, devastou a população europeia em muitas áreas,
levando à violenta retração dos mercados consumidores e,
portanto, da atividade comercial. Cerca de um terço da população
europeia foi vitimado pela Peste.
Finalmente, a fome generalizada, provocada pela escassez
de víveres no cenário de destruição da guerra e abandono das
cidades afetadas pela doença, completou o contexto do que ficou
conhecido como a crise do século XIV.
A epidemia de peste negra começou a declinar por volta de 1350. As ocorrências de fome, porém,
continuariam ocorrendo esporadicamente até o final do século e a paz entre França e Inglaterra só seria
estabelecida em meados do século seguinte. Entretanto, a entrada do novo século significou o surgimento
de novos problemas.
A diminuição da população europeia criou uma situação na qual a retomada da atividade comercial
se faria de forma lenta, na mesma medida da própria expansão demográfica. O desvio de metais preciosos
para o Oriente, na compra das especiariase outros artigos de luxo, e o esgotamento das minas destes metais
preciosos, principalmente ouro e prata, no continente europeu, tornavam limitada a oferta de moeda,
estrangulando o comércio.
E, finalmente, o monopólio da lucrativa rota mediterrânea das especiarias, exercido pelas cidades
italianas, notadamente Gênova e Veneza, restringia a possibilidade de lucros de outras cidades europeias.
Foram esses fatores que acabaram por forçar a burguesia europeia a buscar novas alternativas para
expandir o comércio, e a saída evidente era a navegação atlântica. Teve origem ai o processo de expansão
marítima europeia.
A empreitada de enfrentar a desconhecida navegação no oceano Atlântico exigia investimentos de
vulto, que estavam muito além das possibilidades de qualquer cidade europeia isoladamente. Em outras
palavras, era necessária a mobilização ampla de recursos, o que foi feito em escala nacional, tornando a
centralização monárquica um verdadeiro pré-requisito para a expansão marítima.
Pelo fervilhante porto de Gênova passavam mercadorias das regiões mais longínquas do Oriente.
Como vimos, França e Inglaterra estiveram envolvidas na Guerra dos Cem Anos até o século XV,
o que retardou o processo de centralização monárquica nos dois países. A Espanha ainda enfrentava os
muçulmanos, somente expulsos completamente da península Ibérica em 1492. Outros territórios europeus
também se apresentavam fragmentados, inclusive os vastos territórios que faziam parte do Sacro Império
Romano-Germânico. Assim, a unificação precoce de Portugal (em relação às demais monarquias do
continente) contribuiu decisivamente para as primeiras iniciativas na expansão marítima europeia.
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2) A Revolução Comercial e o Mercantilismo:
O Antigo Regime dominante em quase toda a Europa durante a Idade Moderna caracterizava-se
pela combinação de elementos tipicamente feudais com outros surgidos do desenvolvimento comercial.
Assim, as seculares tradições políticas, sociais e econômicas remanescentes da velha ordem feudal foram-
se mesclando aos interesses de uma burguesia cada vez mais atuante e promovendo modificações nas
antigas relações.
Nesse período, os reis tentaram preservar o “status” político da nobreza, ao mesmo tempo em que
acomodavam, na estrutura de poder vigente, os interesses da burguesia comercial, cujas finanças se
mostravam cada vez mais necessárias aos negócios do Estado. Em decorrência, essas mudanças, antes de
significarem uma profunda ruptura com o passado, representaram a permanência das antigas hierarquias,
que mantinham vastos setores da população europeia à margem do poder.
3) A Transição para a Idade Moderna:
Assim como as cruzadas dinamizaram o renascimento das atividades comerciais na Europa, a
expansão marítima provocou uma verdadeira revolução comercial, na medida em que a atividade mercantil
passou a ser exercida em escala mundial. Em meio a esse processo, muitas instituições feudais já não
atendiam às novas necessidades econômicas e à estruturação do poder centralizado, resultando, ao longo
do tempo, em sua decadência enquanto se estruturava uma nova ordem socioeconômica, que alguns
estudiosos denominam capitalismo comercial, chamado por outros de capitalismo mercantil.
Contudo, tal ordem carregava ainda vários elementos sobreviventes do feudalismo, a exemplo do
poder e prestígio advindos de questões hereditárias (títulos de nobreza e clericais) e não do sucesso
econômico. De outro lado, os grupos sociais mais dinâmicos, como aqueles atrelados aos negócios
comerciais e financeiros, aceleravam a acumulação progressiva de riquezas (acumulação primitiva de
capitais), forjando as condições que desembocariam na industrialização dos séculos XVIII e XIX, quando
a ordem capitalista burguesa atingiria sua maturidade e completaria sua formação como sistema
hegemônico e poderoso.
Entre os séculos XV e XVIII, período denominado Idade Moderna ou época do Antigo Regime, o
capitalismo comercial foi se consolidando, abrindo espaços políticos para comerciantes e banqueiros. Entre
as aspirações desses indivíduos constavam, contraditoriamente, os títulos e privilégios da nobreza, a fim de
assegurarem sua supremacia, de resto já garantida pelo poder econômico.
Quanto aos nobres, os novos tempos desafiavam a manutenção dos seus privilégios, adquiridos há
séculos, exigindo-lhes esforços para se adaptarem à nova ordem e garantirem alguns dos seus privilégios e
poderes. Somente no final da Idade Moderna os burgueses romperiam definitivamente com as antigas
tradições e resquícios estamentais, sendo já suficientemente fortes para criar uma estrutura econômica,
social e política à sua própria imagem, de fato capitalista, eliminando os últimos vestígios feudais. Mas
para chegar a isso, predominaram durante o período moderno o rompimento e a combinação de interesses
dos herdeiros da velha ordem e dos nascidos do desenvolvimento comercial e urbano, consistindo na
transição do capitalismo comercial.
A formação dos Estados Centralizados iniciada na Baixa Idade Média e a dinamização comercial e
urbana, tiveram importância fundamental para a expansão mercantil. Em cidades onde já ocorriam as trocas
monetárias e a produção manufatureira, passou a vigorar maior controle da arrecadação de tributos e da
circulação de mercadorias e de dinheiro por parte do rei e seus auxiliares. A produção manufatureira que
ganhava impulso era, então, realizada por trabalhadores assalariados, contratados pelo proprietário que
também era patrão. Consolidavam-se novas relações sociais e produtivas, rompendo barreiras feudais
tradicionais.
No campo, muitas das antigas obrigações feudais que caracterizavam a servidão foram sendo
abolidas ao longo dos séculos, concomitantemente à introdução do trabalho assalariado e à expropriação
das terras comunais.
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Durante a Idade Moderna, a sociedade continuava dividida em ordens: clero, nobreza e povo. Tal
divisão refletia ainda a persistência de valores medievais que separavam as pessoas entre "os que rezavam",
"os que combatiam" e "os que trabalhavam". Porém, à medida que se acumulavam riquezas nas mãos de
parcelas desiguais da população, esboçava-se uma sociedade mais dinâmica em que se destacavam classes
de proprietários de terra (clero e nobreza), de burgueses (comerciantes e artesãos) e de trabalhadores
(assalariados, camponeses livres e servos).
4) Os Estados Modernos e o Mercantilismo:
Os Estados modernos europeus surgiram, a princípio, do processo de aproximação entre monarquia
e burguesia, em busca de crescentes quantidades de recursos monetários. Para tanto, muitos reis europeus
protegeram e estimularam os negócios burgueses, quer desmontando as estruturas feudais que entravavam
o comércio, promovendo e gerenciando a expansão comercial com as grandes navegações (Portugal,
Espanha, França) ou, ainda, incentivando a criação e a manutenção de colônias na América (França,
Inglaterra, Países Baixos).
A atenção dos reis aos negócios mercantis exigia-lhes o fortalecimento de seu poder, imprimindo
um caráter absolutista às monarquias. Modificava-se, assim, o sistema político feudal em que cada vassalo
reinava soberanamente sobre seu feudo. Estimulando a atividade mercantil, o monarca garantia seu próprio
fortalecimento, na medida em que ampliava a base de arrecadação de impostos. Com tais recursos,
sustentava uma poderosa administração estatal com vasta burocracia, verdadeira base de seu poder,
constituída, essencialmente, por membros da nobreza.
Ao convocá-los para exercer novos papéis na sociedade, os reis possibilitavam aos nobres amanutenção de seus privilégios, contrabalançando a expansão burguesa. Dessa forma, tanto nobres como
burgueses permaneciam dependentes do rei. Juntos e articulados na estrutura do Estado moderno, monarcas,
burgueses e nobres combinavam poderes que garantiam a ordem, a sujeição popular, a dinâmica comercial
e os privilégios, constituindo o chamado Antigo Regime.
Dentre as diversas medidas adotadas pelos reis absolutistas europeus para promover o
fortalecimento financeiro do Estado, encontra-se a adoção de um conjunto de diferentes práticas
econômicas conhecidas como mercantilismo. Embora não tivessem constituído uma teoria econômica, nem
tenham sido aplicadas de maneira homogênea na Europa, as práticas mercantilistas possuíam alguns
elementos comuns.
Elas partiam do ideal metalista1, ou seja, baseavam-se na concepção de que a riqueza de um Estado
dependia da quantidade de metais preciosos existente dentro de suas fronteiras. O metal poderia ser obtido
de forma direta, pela exploração de minas (aliás, como já dito, esgotadas na Europa desde o século XV),
ou do comércio, que possibilitava atrair e acumular moedas. Assim, surgiu o princípio da balança comercial
favorável, que associava a riqueza de uma nação à sua capacidade de exportar mais que importar.
Deste entendimento sobre a formação da riqueza nacional, muitos reis adotaram uma série de
medidas favoráveis à ampliação das exportações. Por meio do estímulo à produção manufatureira e
diminuição das importações, impunham barreiras tarifárias aos produtos estrangeiros, principalmente às
manufaturas que pudessem ser fabricadas dentro das fronteiras de seu Estado (protecionismo). Tais
orientações, revelando um alto grau de intromissão do Estado nas atividades produtivas, caracterizaram o
mercantilismo como uma política econômica fortemente intervencionista.
A adoção das práticas mercantilistas pelos diversos Estados europeus acabou por gerar um impasse
econômico: como realizar o comércio quando todos querem vender (exportar) e ninguém quer comprar
(importar)? Em outras palavras: como tornar a balança comercial mais favorável aos interesses do reino?
Muito desse impasse foi resolvido pelas armas, acreditando-se que o aumento da riqueza de um reino só
seria possível no confronto direto com Estados vizinhos.
1 No caso específico espanhol é utilizado o termo Bulhonismo, em referência ao nome da moeda espanhola. A Espanha foi a
nação que mais empregou o metalismo em toda a história.
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A saída foi o estabelecimento de colônias nas terras descobertas na América, em meio à expansão
marítima. Assim, cada nação europeia, na medida do possível, buscou tornar-se metrópole de uma ou mais
colônias, disputando e desbancando Estados rivais no expansionismo. As colônias deveriam se converter
em áreas com as quais as metrópoles iriam estabelecer um comércio desigual, isto é, desequilibrado em
benefício de um dos lados, o que garantiria sua balança comercial favorável (Pacto Colonial). Ao mesmo
tempo, seriam extraídos das colônias os metais preciosos que estavam esgotados na Europa, alcançando-se
assim, por quaisquer vias, os objetivos mercantilistas e o fortalecimento do poder do Estado.
Devido às maiores possibilidades de acumulo de riqueza, a colonização passou a ser o principal
meio pelo qual os Estados europeus tentaram atingir seus objetivos mercantilistas. Portugal e Espanha,
precoces na expansão marítima e na partilha do mundo que se seguiu, usufruíram de significativos meios
para se enriquecerem: Portugal pôde explorar o mercado de especiarias, ao ter estabelecido rotas
alternativas para as Índias Orientais. A Espanha apoderou-se de imensa riqueza em ouro e prata ao iniciar
o processo de exploração das minas americanas, na primeira metade do século XVI.
As demais nações europeias não reconheceram a partilha do mundo entre as nações ibéricas, e, ao
longo do século XVI, cobiçaram ferozmente a riqueza acumulada pelos reinos ibéricos, dedicando-se
frequentemente a ataques a suas colônias. Países como França e Inglaterra, retardatários no processo de
expansão marítima, pobres em colônias, foram obrigados a enfatizar outros aspectos do mercantilismo,
como o industrialismo.
De certa forma, é irônico observar que a base manufatureira da França e principalmente da Inglaterra
seria fundamental para a futura expansão capitalista desses dois países. Por outro lado, Espanha e Portugal,
com vastas colônias de onde eram capazes de extrair grande volume de metais preciosos, acabaram se
estagnando economicamente, tornaram-se cada vez mais dependentes de suas possessões na América e,
não raro, passaram por violentos surtos inflacionários provocados pelo excesso de metais preciosos. Além
disso, a manutenção de estruturas políticas que beneficiavam a nobreza e o clero foi fundamental para que
as nações ibéricas ficassem aquém do processo de desenvolvimento capitalista que se anunciava.
5) A Expansão Comercial:
Até época relativamente recente a ausência de boas estradas, as vastas extensões desabitadas, as
montanhas e demais acidentes geográficos constituíam empecilhos sérios ao desenvolvimento das trocas
comerciais. O intercâmbio de artigo de pequeno volume e peso ainda era viável nas caravanas de muares
ou camelos, ou em carroças, mas jamais as transações de vulto destinadas a abastecer de gêneros
alimentícios populações numerosas, ou a suprir de matérias-primas indústrias avançadas. Dessa forma, a
vantagem oferecida pela superfície ilimitada do mar para o transporte longínquo e o frete reduzido para os
produtos do solo ou da indústria evidenciaram-se desde a remota Antiguidade.
Na realidade, não foi senão no dia em que a navegação permitiu a países distantes e diferentes entre
si em civilização comunicarem-se, que o comércio propriamente dito nasceu. Por mar, o caminho está feito,
ou antes, não há necessidade de estradas; o elemento líquido suporta indiferentemente qualquer peso e sua
superfície permite o deslocamento livre em qualquer direção. A força motriz mais fraca, força gratuita, se
é empregado o vento, é suficiente para pôr em movimento massas enormes.
Não é, portanto, de ser admirar que o mar tenha sido por todos os tempos o grande caminho do
comércio e que povos separados por mil léguas de mar encontrem-se na realidade mais vizinhos que outros
separados por cem léguas de terra firme. Mesmo agora, com os progressos do transporte por via terrestre,
o transporte pelo mar é ainda menos oneroso, o que significa trabalho e custo menor. O preço do transporte
da tonelada quilométrica não ultrapassa quase nunca de um quinto a um décimo do preço do transporte por
via férrea. Em Marselha, o preço do carvão, que vem por mar da Inglaterra, passando pelo estreito de
Gibraltar e que percorre 3.500 quilômetros, é menor do que o do carvão transportado por estrada de ferro
procedente das minas de La Grande Combe, situadas a 177 quilômetros. Mares de livre navegação, lagos,
rios ou canais navegáveis constituem dádivas da natureza a determinadas regiões.
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MÓDULO 3 7 QOAA-AFN 2017
As vias aquáticas e a posição relativa das grandes regiões produtoras e consumidoras têm orientado
os fluxos comerciais do mundo. Por muitos séculos o Mediterrâneo foi o centro de cruzamento, no Mundo
Ocidental, das mais importantes linhas comercial-marítimas. Hoje é o Atlântico Norte.
Em outras épocas, alguns países beneficiaram-se da situação de proximidade das principais linhas
de deslocamento de mercadorias e das facilidades de acesso ao mar, propiciadas pelos seus litorais, para
assumirem a função lucrativa de intermediários do comérciomundial. A grande importância adquirida na
História Econômica pelo comércio fenício, púnico, holandês, genovês, veneziano ou inglês originou-se
justamente do fato de ter abarcado uma área extensíssima, servindo não apenas a algumas nações ou mesmo
a algum império, mas a vários continentes. As mercadorias que os navios fenícios deixavam ou apanhavam
nos portos desde a Espanha até o mar Negro, não eram, na sua maioria, nem destinadas às cidades sírias
nem delas procedentes. Mais provavelmente os artigos egípcios e babilônicos constituíam maior parte da
carga. Nas viagens de ida e nas viagens de volta, os artigos trazidos eram desembarcados nos portos de
onde pudessem atingir, depois, os países mais povoados e adiantados da época, sobretudo o Egito, a Assíria
ou a Babilônia.
Também na Idade Média não era o sal, nem as sedas, nem os espelhos produzidos na Cidade dos
Doges que enchiam os milhares de navios venezianos nas viagens de ida para os extremos do Mediterrâneo,
nem ao consumo dos habitantes da cidade, ou da indústria, se destinavam na sua maioria as mercadorias
carregadas no regresso. Chegada a Veneza, parte substancial da carga tomava o caminho da França, da
Alemanha ou da Holanda pelas estradas alpinas. Mais tarde, ainda não foram o queijo, o arenque seco ou
os tecidos holandeses que bastaram para encher os porões dos navios batavos. Era necessário aí acrescentar
os vinhos franceses, as manufaturas e o carvão da Inglaterra, as madeiras dos países do Báltico, as peles
russas, as especiarias orientais e etc.
A prosperidade e a riqueza da Fenícia, de Gênova, de Veneza, da Holanda e mesmo de Portugal
achavam-se de tal modo na dependência dos lucros provenientes dos fretes e da revenda de mercadorias
levadas por seus navios de um ponto para outro das respectivas áreas de atividade mercantil, que aquelas
nações entraram em decadência quando perderam a posição privilegiada de intermediárias comerciais.
Tão grandes e evidentes são as vantagens advindas da exploração das rotas marítimo-comerciais,
que desde a antiguidade observa-se a tendência das nações procurarem obter a exclusividade de sua
utilização sempre que as circunstâncias o permitiam. Se o monopólio dos caminhos marítimos por uma
única potência, nos moldes almejados pelos fenícios e cartagineses ou mesmo pelos genoveses,
venezianos e holandeses, não é hoje viável, nem por isso deixou de existir uma desenfreada competição
internacional pela preponderância nas linhas de navegação mais lucrativas.
A superabundância de produtos agrícolas, manufaturados ou do subsolo, constitui uma segunda
circunstância favorável à criação e ao desenvolvimento do comércio marítimo, pois o extravasamento dos
excessos naturalmente se encaminha pela rota mais fácil, em busca dos mercados deles sequiosos
(necessitados). Sem dúvida alguma, nos Estados Unidos, a prosperidade de grande número de cidades da
costa do Atlântico, do Pacífico e do golfo do México, bem como o desenvolvimento da Marinha Mercante,
têm sido devidos ao volumoso comércio exportador e importador do país. Outro tanto se pode afirmar do
progresso de Hamburgo e de Bremen, cidades que a partir da segunda metade do século passado mais se
têm beneficiado do extraordinário surto do comércio exterior alemão. Nesses dois centros, os estaleiros e
as instalações portuárias e a tonelagem de navios mercantes neles registrados acompanharam o incremento
das transações comerciais da Alemanha. De uma maneira geral, as cidades portuárias que servem de
escoadouro a regiões produtivas, convertem-se em centros de intensa atividade comercial, tendendo ligar
mesmo os países de características continentais aos empreendimentos marítimos.
Algumas cidades como Londres, Nova York e Rotterdam, na atualidade, e Alexandria, na
Antiguidade, situadas sobre rios, no ponto de encontro das navegações marítimas e fluviais, beneficiaram-
se, mais do que quaisquer outras, do movimento mercantil nascido em consequência da situação vantajosa
por elas ocupadas. Por um lado, toda a produção do interior desce pelo caminho natural das águas até
encontrar o grande centro de distribuição representado pelas cidades da foz. Em contrapartida, também é
nesses centros que os produtos importados desembarcam antes de ganhar em sentido inverso os mercados
interiores. Foi assim que Alexandria, recebendo pelo Nilo os artigos agrícolas e industriais produzidos no
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Egito, então um dos países mais ricos e adiantados, em contato pelo Mediterrâneo com a maior parte das
nações bárbaras e civilizadas da época, converteu-se numa das principais cidades da Antiguidade.
Rotterdam, na foz do Reno e do Escalda, que permitem a livre passagem de barcaças até bem o
interior da Europa, passando em zonas ricas da Bélgica, Alemanha e França, é o exemplo moderno, dos
mais eloquentes, de um centro de comércio que se beneficia, sobretudo, da posição geográfica. Anualmente,
muitas toneladas são movimentadas nos vinte e poucos quilômetros de cais daquela cidade. Não apenas o
comércio exportador e importador dos Países Baixos, mas também o comércio das nações circunvizinhas
encontra ali um ponto intermediário imprescindível. A fome de matérias-primas do Ruhr é saciada em
grande parte por Rotterdam, mais próxima que os portos alemães do Norte. A gigantesca produção da parte
mais industrial da Alemanha também se serve do seu porto quando destinada aos países do Sul da Europa,
ou de outros continentes.
Na América do Norte, nenhum centro comercial beneficia-se tanto da situação geográfica quanto
Nova York. Já um dos centros comerciais mais importantes desde os tempos coloniais, graças a seu porto
na foz do rio Hudson, servindo a uma área rica, Nova York agigantou-se com a abertura do canal Eriê em
1818, o qual permitiu a comunicação fácil com toda a vasta e rica região dos Grandes Lagos. Seu
desenvolvimento foi depois acelerado pela prosperidade da indústria americana localizada, em grande parte,
dentro do raio de absorção do seu porto. É hoje Nova York o porto de maior movimento no mundo,
ultrapassando mesmo Londres.
Bem outra era a situação de Lisboa e Sevilha. Não sendo os rios Tejo e Guadalquivir navegáveis
acima daquelas cidades, nem constituindo o interior de Portugal e Espanha importantes regiões produtoras
ou consumidoras, permaneceram os dois portos ibéricos apenas como portos de escala para os produtos
asiáticos e americanos, mas não como verdadeiros centros distribuidores. Coube à Marinha holandesa a
tarefa, negligenciada pelos portugueses, de embarcar em Lisboa os produtos ali acumulados e encaminhá-
los para os mercados do norte da Europa, via Amsterdã ou Rotterdam. Com o fim do Império Colonial
Português nas Índias, os navios batavos passaram a fazer o percurso direto sem mais irem a Lisboa.
Assim, a prosperidade comercial promove a formação de cidades portuárias, de características
semelhantes, tanto nos países marítimos como nos continentais. Até um país eminentemente agrícola, como
a China, viu crescer Xangai desmedidamente por força da intensa atividade comercial ali desenvolvida, no
cruzamento de rotas marítimas e fluviais. Mesmo não levando o resto do país a se ligar aos
empreendimentos oceânicos, não há dúvida de que o nascimento de cidades portuárias importantes, fruto
da expansão comercial, marca um passo decisivo no sentido do desenvolvimento marítimo, pois nelas,
paulatinamente, congregam-se os elementos materiais e humanos indispensáveis à conquista dos caminhos
sobre as ondas e nelas passam a habitar as classes de prestígio com interesses permanentes e vultosos nas
atividades náuticas.
Graças ao florescente comércio e graças às condições geográficas que possibilitaram o
desenvolvimento de alguns de seus portos, nações eminentemente continentais, comoo Egito antigo, os
Estados Unidos, a Alemanha e a Rússia foram levadas a participar da História Marítima.
É fato notório que o desenvolvimento econômico impõe, tacitamente, maior entrelaçamento
mercantil entre as nações e, consequentemente, uma maior dependência as comunicações marítimas. Tal
fato é observado desde a Antiguidade, adquirindo ainda maior realce com a Revolução Industrial. No caso
dos Estados Unidos, por exemplo, as cifras são concludentes. Segundo o relatório apresentado em 1952
pela Materiais Policy Comission, a produção americana em 1900 foi superior ao consumo em 15%. Em
1950 o consumo ultrapassou em 9% a produção. A estimativa da época para 1975, considerando o aumento
da população e do padrão de vida, previa um déficit de 20%. Em tais condições, na dependência crescente
de fontes externas, a antiga política isolacionista do agrado dos primeiros estadistas americanos, como
Washington e Jefferson, e ainda sustentada em certas regiões do país, tornou-se impossível. Uma lei de
embargo ao comércio exterior, como a decretada pelo Presidente Jefferson, em 1807, seria hoje rejeitada
como absurda antes de qualquer discussão.
A dependência progressiva da economia germânica às fontes externas é também facilmente
constatada. Basta um rápido confronto entre as situações econômicas enfrentadas pela Alemanha durante
as sucessivas guerras que enfrentou desde o fim do século XIX. Com efeito, durante os conflitos externos
de envergadura, o esforço total exigido coloca à prova não só a estrutura social e política da nação, mas
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também põe à mostra todas as suas possibilidades e limitações econômicas. Sem depender grandemente do
exterior, a Alemanha venceu a França em 1870. O armamento de superior qualidade produzido pelo seu
parque industrial em rápida ascensão não necessitava então de matérias-primas procedentes do ultramar ou
mesmo de outros países europeus. Já na guerra de 1914-18, o esforço de guerra alemão foi seriamente
afetado pela dificuldade em conseguir determinados artigos essenciais no exterior. No Segundo Conflito
Mundial, mais uma vez privada das comunicações marítimas com a maior parte do mundo, a economia de
guerra alemã exigiu decisões estratégicas de alta relevância. A Campanha da Noruega, em 1940, assegurou
o suprimento de minério de ferro, cuja interrupção teria feito cair a produção siderúrgica germânica em
50%. Entretanto, a falta de petróleo constituiu sempre um pesadelo para a Alemanha, que, em 1942, foi
obrigada a orientar sua ofensiva de verão na Rússia em busca dos poços do Cáucaso, abandonando objetivos
de elevada significação como Moscou e Leningrado.
Na verdade, os alemães, e muito menos os americanos, não se dedicam aos afazeres náuticos com
o mesmo vigor e a mesma eficiência dos povos que procuram o mar compelidos pelo ambiente geográfico.
A participação americana no transporte marítimo de suas próprias exportações e importações, por várias
vezes no século XX desceu a percentagens bem baixas. Mesmo depois da Segunda Guerra Mundial, a
Marinha Mercante dos Estados Unidos não tem enfrentado vantajosamente a concorrência inglesa,
norueguesa ou holandesa. Entretanto, o vulto do comércio americano, por si só, é capaz de absorver toda a
capacidade de transporte da frota mercante do país. Mediante algumas poucas leis protecionistas, a frota de
comércio dos Estados Unidos tem podido desenvolver-se, visto estar garantida a demanda de seus serviços.
A expansão comercial, mesmo sem incutir nos povos continentais a noção de dependência
econômica do mar, cria um jogo de interesses que obriga os governos a travarem contato com uma série de
problemas, entre os quais o do desenvolvimento marítimo é fundamental. Tanto na Alemanha como nos
Estados Unidos, bem antes das duas guerras mundiais, a ação estatal se fez sentir na esfera marítima,
visando à salvaguarda de interesses nacionais de primeira magnitude. Com o surto do comércio alemão,
Bismarck, em 1885, iniciou as subvenções a companhias de navegação germânica e posteriormente veio a
interessar-se por colônias. De forma semelhante à política exterior americana, coincidindo com a expansão
mercantil do país, adquiriu caráter até então inédito, assumindo, inclusive, aspecto imperialista no fim do
século XIX e começo do XX. Em ambos os países, essa mudança foi seguida de aumento considerável das
respectivas marinhas de guerra.
A influência do comércio no desenvolvimento das atividades oceânicas implicitamente estabelece
identidade entre os povos de espírito mercantilista e os de espírito marítimo. Essa identificação é flagrante
entre as diversas nações de características marítimas. Com exceção dos vikings, que permaneceram mais
ligados à pesca e à pirataria, os demais povos de acentuadas tendências marinheiras descambaram também
com vigor para a exploração marítimo-comercial. Duas ordens de razões explicam o fato: primeiro, nos
países de solo pobre ou limitado, como acontece na maioria das nações marítimas, uma fração importante
dos habitantes é forçosamente desviada do trabalho da terra para as atividades comerciais e industriais, em
busca de amparo econômico; o comércio assume assim uma relevância dificilmente atingível nas nações
de economia agrária. Segundo, só pela importação podem ser obtidos certos produtos indispensáveis à
alimentação do povo e ao funcionamento da indústria, o que implica, em contrapartida, um esforço para
desenvolver o comércio exportador que equilibre o sistema de trocas.
Viu-se que na Grécia antiga a população de Atenas dependia do suprimento de trigo das regiões do
mar Negro. O azeite, os artigos de cerâmica e os produtos espículas constituíam os elementos com que os
gregos efetuavam as trocas indispensáveis. De forma idêntica, os venezianos, muitos séculos depois, foram
encaminhados para o comércio, visto não haver possibilidade de encontrar no solo da República recursos
suficientes ao abastecimento dos habitantes. O sal, primeiro, e depois os vidros e as sedas permitiram o
desenvolvimento de um comércio capaz de contrabalançar as importações. Também o reconhecido espírito
mercantil do povo holandês provavelmente nasceu da necessidade de comprar fora das fronteiras produtos
agrícolas para a população adensada num território de escassa área.
Dos países do Báltico, da Alemanha e da França procediam grande parte dos alimentos com que,
quotidianamente, cada holandês completava suas refeições de peixe, e da Grã-Bretanha chegava a lã
indispensável ao funcionamento das indústrias têxteis. O arenque seco e o queijo serviram de base inicial à
prosperidade mercantil dos Países Baixos, possibilitando a importação dos variados produtos de que
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careciam. Tal vulto atingiu o comércio holandês depois que se converteu na principal preocupação do
Estado.
Semelhantemente, a expansão comercial da Inglaterra, a partir do século XVIII, estabeleceu um
sistema de troca, cuja preservação tem sido até os dias atuais o propósito número um dos estadistas
britânicos. Não tanto para atender aos reclamos básicos da população de um país marítimo, mas
principalmente visando consolidar a posse da fonte de seu poderio, o vasto Império ultramarino, o povo
inglês tem-se dedicado com ardor inigualável aos empreendimentos oceânicos.
Chega-se aqui ao ponto em que a expansão comercial, o colonialismo e o desenvolvimento marítimo
entrelaçam-se. De uma maneira geral, os povos marítimos são também os povos colonizadores. As mesmas
causas que os fazem procurar o mar, os propelem também a emigrar em busca de amparo econômico noutras
plagas.
O colonialismo, entretanto, nem sempre apresenta a mesma feição.Alguns movimentos
colonizadores foram espontâneos, obedecendo a condições naturais, nascendo da ânsia de conseguir terras
férteis ou as riquezas fáceis representadas pelos minérios nobres. A expansão grega nos séculos IX e X aC
constitui um exemplo típico de uma obra colonial nascida da penúria das terras. As invasões vikings, parte
da obra colonial portuguesa, inglesa, espanhola e mesmo holandesa constituem outros exemplos nos quais
populações se transladaram em massa para outros continentes, levando o sangue, a língua e os costumes,
fundando, em suma, novas pátrias em novos ambientes. Mais comumente, porém, o movimento colonial
tem possuído raízes comerciais. É a ânsia de assegurar o controle das fontes de matéria-prima e de mercados
consumidores que tem determinado a maioria delas.
O caráter comercial da colonização fenícia, cartaginesa, veneziana, genovesa, pisana e holandesa, e
algumas vezes o da inglesa e da lusitana, já foi acentuado. Sobretudo na Ásia e na África, os povos europeus
visaram, antes de tudo, o estabelecimento de pontos de apoio onde pudessem efetuar as trocas mercantis.
Também na América as potências colonizadoras não viram prolongamentos da Mãe-Pátria, mas campos a
serem explorados comercialmente, do que resultou, por fim, a revolta dos habitantes. Tanto a Inglaterra
como a Espanha e Portugal, seguindo o espírito da época, cercearam, com as leis odiosas, o
desenvolvimento econômico das colônias, desde que o mesmo pudesse por alguma forma ferir seus
interesses.
O colonialismo, baseado na posse de mercados produtores de matérias-primas e consumidores de
produtos manufaturados, levou mesmo alguns países continentais, como a França, a Alemanha e a Rússia,
a dele participarem. A obra colonial foi aí mais resultante da ação estatal, tendo sido mínima a participação
direta do povo, com pouca disposição para se deslocar em massa, em caráter definitivo, para ambientes
geográficos inteiramente adversos. Todavia, qualquer que seja sua feição, os impérios coloniais têm
dependido sempre da interligação marítima, impondo, consequentemente, o desenvolvimento dos
empreendimentos oceânicos para sua preservação e para atender ao intenso sistema de trocas.
Com a expansão comercial nos mares e com o colonialismo, devemos considerar outro aspecto da
história do desenvolvimento marítimo: o que se prende às contendas pela supremacia nas rotas oceânicas,
lutas essas que têm condicionado os destinos de muitos povos.
Conforme se verificou, a maioria das evoluções marítimas processou-se sob o império da força.
Raros países lograram atingir preponderância nos negócios marítimos sem terem apelado para a guerra.
Quase nenhuma nação entrou em decadência nos mares que não fosse em consequência de luta armada. Na
antiguidade os fenícios procuraram eliminar todos os possíveis concorrentes nas rotas oceânicas, não
poupando meios para alcançar esse fim. Eles foram suplantados pelos gregos, na porção oriental do
Mediterrâneo, depois de uma luta secular. Na parte ocidental do Mediterrâneo, os cartagineses, que também
eram fenícios de origem, suplantaram os etruscos e rechaçaram as investidas gregas, mas foram, por sua
vez, derrotados pelos romanos nas guerras surgidas em disputa das colônias na Sicília. Durante todo o fim
da Idade Antiga, Roma exerceu um benevolente domínio sobre o Mediterrâneo, no qual foi possível, aos
povos de suas praias comerciarem dentro dos limites que convinham. Ela era Senhora do Mundo Antigo.
Na Idade Média, as cidades marítimas da Itália, tendo provocado a ruína comercial de Bizâncio e
vencedoras dos sarracenos no Mediterrâneo, entraram em luta entre si, quando seus interesses foram
idênticos nas colônias do Oriente. No século XVI Portugal aniquilou a tiros de canhão o comércio egípcio
e árabe na Índia, sendo depois espoliado de suas conquistas pelos ingleses e holandeses. Esses povos do
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Norte da Europa já antes se dedicavam com afinco ao assalto do transporte espanhol e por fim se
defrontaram em luta em disputa do bocado todo. No século XVII, a França procurou ascender à categoria
de potência colonial e comercial, ganhando, em consequência, a inimizade da Holanda e, sobretudo, da
Inglaterra, com quem guerreou desde os tempos de Richelieu até Napoleão. Ainda no fim do século XIX a
Inglaterra e a França eram nações rivais, com interesses coloniais antagônicos bem acentuados. Surgiu,
porém, ameaça maior obrigando os dirigentes da França e da Grã-Bretanha a fazerem uma revisão
fundamental na política exterior. O desenvolvimento marítimo-comercial germânico preocupou não apenas
a Inglaterra, mas também os Estados Unidos, que já haviam eliminado a Espanha como nação influente nas
Antilhas. Duas guerras mundiais aniquilaram as pretensões alemãs nas rotas marítimas.
Os russos chegaram ao mar Báltico lutando contra os suecos e os germânicos, e ao mar Negro,
guerreando contra os turcos. Suas ambições na Manchúria e na Coréia provocaram a agressão japonesa de
1904. O Japão, convertendo-se em importante potência comercial marítima, passou a ser no Oriente o
inimigo potencial da Inglaterra, da Holanda e dos Estados Unidos. A Segunda Guerra Mundial pôs fim às
aspirações nipônicas de domínio naquela parte do mundo.
Não se pode atribuir apenas à rivalidade marítimo-comercial colonial a causa de desencadeamento
de tantas guerras que tão decisivamente influíram nos destinos dos novos, mas, sem dúvida alguma, sua
contribuição não foi pequena, e a repercussão dessas lutas na esfera marítima foi imensa.
Às margens dos conflitos internacionais, desde a remota Antiguidade até pelo menos o século
passado, foram os mares teatro de lutas quase permanentes, pois populações numerosas viveram
consagradas ao assalto das riquezas transportadas pelos navios. Todos os povos do Mediterrâneo, de uma
forma ou de outra, mesmo os mais civilizados, dedicaram-se, com bastante intensidade, à prática do roubo
em alto-mar.
Os habitantes das ilhas do mar Egeu, em particular, faziam da pirataria a indústria nacional por
excelência. Eles já preocupavam os Atenienses na época de Temístocles, cinco séculos aC, sendo
combatidos por César, Pompeu e Augusto, muitas gerações depois, e durante toda a Idade Média, italianos,
bizantinos e sarracenos sofreram seus ataques de rapina.
Os comerciantes pisanos, genoveses e venezianos, por seu turno, também eram corsários quando a
oportunidade surgia. Amálfi, Gênova, Pisa e Veneza eram centros de pirataria organizada. Elas deveram à
pirataria uma boa parte de suas riquezas. Tão normal eram considerados os ataques aos navios de outras
nacionalidades que o termo corsário, empregado nos atos genoveses, nada tinha de reprovável ou
pejorativo. Numerosos foram os mercadores italianos que, tendo dívidas a cobrar de algum grego e não o
podendo fazer, se tornaram corsários a fim de arrancar pela força o que não obteriam de outra forma.
Ainda nos séculos XVI e XVII as companhias inglesas e holandesas, destinadas à exploração
comercial na América e no Oriente, usavam métodos de rapina que mais se assemelhavam aos utilizados
por verdadeiros piratas. Algumas nações, a exemplo dos Estados berberes do Norte da África, tinham
mesmo na pirataria a principal fonte de renda. Até meados do século XIX a concessão de cartas de corso
foi de uso corrente em todos os países envolvidos em guerra, constituindo um meio para bandidos
internacionais ou aventureiros sequiosos de riquezas se aproveitarem das hostilidades. Os corsários foram
alguns dos melhores marinheiros da Grã-Bretanha, como Drake, Hawkin e Releigh, e da França, como Jean
Bart, Duguay-Trouin e Surcout.
A necessidade de proteger o tráfego marítimo dos assaltos das potências inimigas ou dos piratas e a
conveniência em privar o adversário dasvantagens das rotas sobre as águas, conduziram à formação, desde
épocas bem remotas, das marinhas de guerra. A necessidade de marinha de guerra, no sentido restritivo da
palavra, surge, portanto, da existência do transporte marítimo e desaparece com ele, exceto no caso de a
nação ter tendências agressivas e manter a marinha mercante como um ramo da organização militar. A
ligação da marinha de guerra ao transporte marítimo é tão íntima que por muito tempo não houve nítida
distinção entre o navio de combate e o navio mercante. Principalmente na Antiguidade, os traficantes
cuidavam, eles próprios, da proteção de suas frotas mercantes, armando os navios, e também dos ataques
ao transporte dos rivais. O comerciante era ao mesmo tempo marinheiro e guerreiro, adotando o
procedimento mais conveniente conforme as circunstancias.
Assim agiam os fenícios, os cartagineses, os gregos e os italianos cujas Maonas não eram mais do
que expedições marítimo-comerciais apoiadas na força militar. Ainda nos séculos XVI e XVII, os
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traficantes portugueses, ingleses, franceses e holandeses resolviam muitas de suas disputas a tiros de
canhão, malgrado a paz reinante entre seus países. Foi da amálgama de corsários, aventureiros,
comerciantes, navios de comércio, navios particulares ou armados pelo Estado, que nasceram as Marinhas
de Guerra inglesa e holandesa. Desde que se constituíram definitivamente as marinhas de guerra sob a égide
do Estado, o apoio das forças navais ao comércio passou a ser reflexo da política adotada pelo governo. Foi
apoiado nos canhões das marinhas de guerra que as potências europeias, do século XVII ao século XIX,
alargaram seus domínios coloniais e comerciais na Ásia, África e Oceania. Foi devido à presença da
esquadra do Comodoro Perry que o Japão se viu constrangido a reatar relações com o resto do mundo.
Sem dúvida alguma, a interligação das histórias do comércio, da expansão colonial e do poderio
marítimo remonta aos fenícios. Sem o apoio de marinha de guerra, própria ou de potência aliada, nenhuma
nação logrou beneficiar-se por muito tempo do transporte oceânico. O lento trabalho do estabelecimento
de uma rede comercial e a formação de uma frota mercante, devidamente apoiada em terra, servidora dessa
rede mercantil, são obras de alento que exigem décadas de labor continuado em setores múltiplos, por parte
de milhares de indivíduos.
Em caso de guerra, a falta de poder no mar tem representado o fim de toda essa obra em pouco
tempo. Como a eventualidade de um conflito armado nunca pôde ser afastada do espírito de dirigentes
responsáveis, pois a História mostra que os ciclos guerreiros se repetem num intervalo menor do que o
tempo exigido pelo completo desenvolvimento marítimo-comercial de um país, resulta que, quase sempre,
as marinhas militares expandem-se à medida que a esfera do comércio marítimo da nação se amplia. Muitas
vezes, porém, a exiguidade de recursos materiais impede o desenvolvimento da Marinha de Guerra de
acordo com suas responsabilidades, e o país é obrigado a confiar a proteção de seus interesses marítimos a
potências estrangeiras, valendo-se de alianças. Foi para a proteção recíproca do comércio marítimo que as
cidades gregas fundaram as chamadas Ligas Délicas. Foi procurando o apoio do poderio naval britânico,
necessário à preservação de seu Império, que Portugal, enfraquecido no mar, renovou constantemente sua
aliança com a Inglaterra.
Durante as duas guerras mundiais, sem a proteção da Royal Navy e da US Navy, as frotas mercantes,
o comercio e a maior parte das colônias dos demais países aliados teriam sido destruídos ou capturados.
Enquanto a marinha de comércio e as atividades mercantis de países poderosos como a Alemanha, a Itália
e o Japão eram quase totalmente eliminadas dos mares, nações de pequeno poderio naval como a Noruega,
a Holanda e a Grécia encontraram na aliança com as potências anglo-saxônicas a relativa segurança que
preservou de catástrofe total seus interesses marítimos e coloniais.
A expansão do comércio marítimo de uma nação tem o efeito paradoxal de estimular o
desenvolvimento das marinhas de guerra dos inimigos eventuais, pois no exercício do poder marítimo as
potências não visam apenas utilizar a rota oceânica, mas também negar seu uso ao inimigo. Desde que se
torna evidente a dependência de um país às rotas marítimas, é quase certo procurarem as potências rivais
dispor dos meios para, em caso de guerra, atacarem esse elo vital. Foi por essa razão que no século XVII a
Marinha Real inglesa se desenvolveu até ultrapassar a Marinha de Guerra batava, numa época em que os
Países Baixos tinham uma frota mercante quatro vezes superior à britânica, dominando o comércio mundial.
Com as derrotas de sua esquadra e consequente paralisação do comércio, a Holanda se viu obrigada a pedir
a paz, embora nenhum exército inglês ameaçasse seu território metropolitano.
Substituindo a Holanda no tráfego mundial, daí em diante a situação se inverteu para a Grã-Bretanha
e, em todos os conflitos seguintes de que participou, o seu comércio marítimo foi o alvo predileto dos
ataques navais inimigos. Não podendo atacar o território da própria Inglaterra, protegida por poderosa
Marinha de Guerra, os esforços navais das potências que contra ela guerreavam voltaram-se sempre com
fúria para as ligações marítimas na esperança de obter o seu estrangulamento econômico. O assalto ao
comércio marítimo inglês incentivou por quase três séculos os corsários franceses, holandeses e
americanos. Empresas e estaleiros foram fundados com o único fim de proporcionarem recursos a tais
ataques.
Na Primeira Guerra Mundial, a partir de 1917, grande parte do esforço bélico alemão foi orientado
no sentido de eliminar o comércio marítimo aliado, principalmente britânico, última esperança de alcançar
a vitória. Centenas de submarinos foram construídos em série, com a máxima rapidez, na tentativa
desesperada de obter a solução. Antes da Segunda Guerra Mundial a Marinha de Guerra germânica foi
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planejada, tendo ainda como fim principal o ataque ao sistema de transportes marítimos dos inimigos
eventuais. Também é a dependência ao comércio marítimo por parte das potências anglo-saxônias que
determinou a ascensão da Marinha de Guerra russa no século XX.
Pelas razões acima expostas, pode-se afirmar que a expansão comercial foi um estímulo dos mais
decisivos para o desenvolvimento marítimo, pois hoje como nos últimos três mil anos o transporte sobre as
águas é o mais barato e muitas vezes o único viável. Todavia, enquanto nas evoluções marítimas de
determinados povos o desenvolvimento comercial apareceu como elemento derivado do ambiente
geográfico ao qual ele se somou incrementando ainda mais os empreendimentos oceânicos, nas evoluções
do Egito, Alemanha etc., foi a expansão comercial fator inicial e decisivo da marcha dessas nações para as
aventuras sobre as superfícies líquidas. Não se pode dizer, com efeito, que foi o hábito da navegação que
levou os egípcios antigos, os alemães ou os americanos a se transformarem em traficantes nos mares, mas
sim a necessidade de comerciar que os compeliu a cuidarem das empresas marítimas.
Paralelamente, verifica-se constituir a capacidade de utilizar as vias marítimas em quaisquer
circunstâncias, negando ao mesmo tempo sua utilização às potências inimigas, a expressão última e
almejada do desenvolvimento de uma nação nos oceanos.
As Caravelas Portuguesas, um dos marcos do avanço da engenharia náutica realizado pela Escola
de Sagres, foram responsáveis pelas grandes conquistas oceânicas portuguesas dos séculos XVe
XVI, e pelo início da Revolução Comercial-Marítima realizada pelas nações europeias.
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CAPÍTULO IV
AS NAÇÕES
1) Portugal:
Projetada sobre o Oceano Atlântico, a Península Ibérica é a região
mais ocidental da Europa.
Desde épocas pré-históricas, povos lígures e iberos, talvez
provenientes do norte da África, se estabeleceram na região, seguidos dos
celtas, oriundos do centro da Europa, nos fins do século VII aC.
misturaram-se, formando uma população que se convencionou chamar
de celtibero. Fenícios, gregos e cartagineses, povos marítimos e
comerciantes, frequentaram a costa mediterrânea da península,
localizando-se, eventualmente, em trechos dessa costa, fundando
feitorias ao mesmo tempo em que impregnavam os seus costumes nos
habitantes.
A disputa entre Roma e Cartago pela supremacia no Mar Mediterrâneo
salientou a importância estratégica da região. A vitória de Roma abriu as
portas da Ibéria ao seu domínio. Tornou-se célebre a resistência de
Viriato, chefe destemido dos Lusitanos, que enfrentou as legiões romanas
a partir de 147aC, conseguindo um acordo de paz em 141aC. A luta
prosseguiu, terminando com o assassinato de Viriato 139aC por três
traidores. A destruição de Numância 133aC consolidou a conquista
romana. A elevada cultura romana exerceu, então, sobre os povos
mesclados da região, uma forte influência, em especial nos costumes, na
língua (latim vulgar, que era falado pelos comerciantes e soldados) e na
religião, com a assimilação do cristianismo.
Com o enfraquecimento do Império Romano, no século V, povos
bárbaros penetraram em seus domínios, apoderando-se das terras que
lhes apraziam. Em 409, álanos, vândalos e suevos conquistaram a
Península Ibérica sobrepondo-se à população existente e, em parte,
cristianizada.
Nada construíram, antes, guerrearam entre si e não puderam resistir à penetração dos visigodos em
414, chefiados por Ataulfo. Em pouco tempo, os visigodos estenderam o seu poder sobre a península e,
quando, em 586, morreu o Rei Leovigildo, formavam um poderoso reino. Seu filho Recaredo adotou o
cristianismo como religião oficial (587).
Ao mesmo tempo em que a religião cristã impregnava os habitantes da Península Ibérica, outra
religião, recentemente formada por Mafoma (Maomé), espalhava-se entre os povos do norte da África.
Atrair mais elementos, mesmo empregando a Guerra Santa, passou a ser a meta prioritária dos recém-
convertidos.
O Rei visigodo Rodrigo não se mostrou com capacidade para detê-los. Derrotado na batalha
próximo do lago Janda, em julho de 711, reorganizou as forças em Segoyuela, mas, neste local, perdeu o
reino e a vida (713). Rapidamente, os invasores muçulmanos, em sua maioria berberes, ocuparam a região,
impondo seus hábitos à população amedrontada.
Alguns visigodos cristãos não aceitaram a nova soberania. Refugiaram-se nas montanhas das
Astúrias e, dirigidos pelo nobre Pelagio, iniciaram a reconquista, Ao mesmo tempo, os invasores exerciam
na população (chamada moçárabe2) forte influência, dando início à cultura do arroz e da cana-de-açúcar,
2 Moçárabe: população cristã em territórios dominados pelos islâmicos. Apesar de manterem sua fé cristã, adotaram a língua e
outros costumes árabes durante o período de controle desse povo sobre territórios na península ibérica. Com a retomada do
controle do território pelos cristãos, os islâmicos que ficaram na mesma condição foram chamados de mudéjare.
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criando a manufatura da seda e da lã, produzindo uma arquitetura de rara beleza, restando muitos exemplos
na região sul da atual Espanha.
Pouco a pouco, os cristãos, espremidos ao norte, organizaram-se e recuperaram territórios aos
mouros (isto é, aqueles que não professavam a fé católica), transformando-os em mudéjares.
Depois da vitória alcançada na batalha de Covadonga, em 718, os cristãos formaram o reino das
Astúrias. Sucessivamente, constituíram os reinos de Leão, Navarra, Aragão e Castela. A luta contra os
mouros excitava os nobres, alguns provenientes de outras terras, ávidos de glórias militares e que nela
divisavam uma verdadeira cruzada. Raimundo, filho do Conde da Borgonha, e seu primo Henrique
ofereceram-se ao Rei de Leão e Castela, Afonso VI, para participarem das lutas.
Os dois jovens francos tão bem se houveram que o rei lhes premiou largamente. Raimundo recebeu
o governo da Galiza e a filha do rei, Urraca, em casamento. D. Henrique ganhou um pequeno condado,
chamado Portucalense, cujo nome deriva de uma antiga povoação romana na foz do Rio Douro e a mão de
outra filha de Afonso VI, Taraja.
O Conde Henrique de Borgonha combateu os mouros com vigor. Seu filho, D. Afonso Henriques,
obteve, em 25 de julho de 1139, uma notável vitória contra os mouros (talvez na região de Beja ou nas
planuras de Ourique), intitulando-se REX nesse mesmo ano, atitude legitimada graças ao amparo dos papas
Lúcio II e Alexandre III em troca da vassalagem oferecida. Em 1143, o Rei Afonso VII confirmou, ao
Conde de Portucale o título de REX (Tratado de Zamora). Estava fundado o Reino de Portugal.
A dinastia de Borgonha começa com D. Afonso Henriques.
Seguiram-se Sancho I, primogênito de D. Afonso Henriques, Afonso
II, Sancho II, deposto pelo Papa Inocêncio IV, com isso acarretando
luta civil em Portugal, terminada com a subida, ao trono, de Afonso
III, D. Dinis, seu filho, em cujo reinado foram criadas as
Universidades (1290), a princípio em Lisboa e depois (1308) sediada
em Coimbra, e a Ordem de Cristo (Bula de João XXII de 15 de março
de 1319), D. Afonso IV, D. Pedro I, que coroou Inês de Castro rainha
depois de morta, e, finalmente, D. Fernando, falecido em 1383.
Entretanto, foi ele quem aumentou o espaço geográfico do reino,
tomando-o, palmo a palmo aos mouros, conquistando também o
reino do Algarve, ao sul.
Esta fase da história portuguesa é caracteristicamente
militar, como consequência da Guerra de Reconquista. A
principal atividade econômica é a agricultura. O rei governava
seus súditos com firmeza, convocando, quando lhe aprazia, uma
assembleia, intitulada Cortes, composta por representantes dos
nobres, clero e povo, Portugal não experimentou um sistema
feudal como ocorria em outras regiões europeias, em
decorrência do poder exercido pela realeza.
Essa política centralizadora só foi possível graças à
criação de vários funcionários incumbidos do sistema fiscal e
judiciário, capazes de transitar no emaranhado de leis que se
encontravam em vigor. A primeira tentativa de ordenar a
legislação ocorreu no reinado de Afonso III; chamou-se Livro
das Leis e Posturas.
Com a morte de D. Fernando, pretendeu o trono D. João,
rei de Castela, casado com D. Beatriz, filha do rei falecido. O povo e pequena parte da nobreza apoiaram a
D. João, mestre da Ordem de Cavalaria de Avis, filho bastardo de D. Pedro I. Na batalha de Aljubarrota
(1385), o Mestre de Avis, ajudado pelo condestável D. Nuno Álvares Pereira, venceu as pretensões dos
castelhanos e deu início à Dinastia de Avis. D. João I instalou-se firmemente no trono, caminhando para o
absolutismo monárquico. Ligado à burguesia, reduziu os direitos dos nobres e do clero, ao mesmo tempo
em que se voltou para o alargamento dos horizontes comerciais, exigidos por essa mesma burguesia, que
Observatório de Sagres, no Cabo São
Vicente, ao Sul do Algarve
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cobiçava as riquezas das distantes Índias. Diversas cidadeslitorâneas transformaram-se em entrepostos
comerciais; a pesca se desenvolveu.
D. João I faleceu em 1433, substituído por seu filho D. Duarte, que instituiu a Lei Mental
(08/04/1434) que assim se chamou porque já se achava estruturada na mente de D. João I, possivelmente
com a ajuda do doutor João das Regras. Em síntese, ela proibia que os não primogênitos, mulheres,
ascendentes e colaterais pudessem herdar bens doados pela Coroa. Foi, assim, um duro golpe na nobreza.
No reinado seguinte, de D. Afonso V, as leis de Portugal foram reunidas nas Ordenações Afonsinas
que receberam publicação em 1446.
Depois dos vikings, os portugueses foram os primeiros que lançaram as vistas para a imensidão do
oceano Atlântico. Diversas causas concorreram para dar a esse pequeno povo uma hegemonia mercantil de
caráter colonial. Portugal só aparentemente está ligado ao planalto castelhano, pois o curso alto dos rios
peninsulares não é navegável por causa da estiagem e da irregularidade do fundo do leito. Em compensação,
a navegabilidade do curso baixo dos rios, juntamente com os grandes portos do litoral, deu conexão
econômica às regiões ocidentais, de maneira que Portugal constitui um Estado costeiro com interesses
marítimos perfeitamente definidos. As aspirações nacionais orientaram-se assim necessariamente para o
mar.
Por outro lado, no Portugal primitivo, a produção industrial, excluindo-se a da marinha de sal, mal
bastava às mais elementares necessidades da vida cotidiana. Por escassas que fossem, e de fato o eram, as
aspirações de conforto ou de luxo então existentes, só pelo comércio de importação poderiam ser satisfeitas.
Em contrapartida, havia excedentes quanto a certos produtos agrícolas, pecuários e apícolas e neles se
encontraria natural fundamento de equilibradas trocas comerciais.
Porém só com os progressos da constituição
territorial do País essas trocas se estabeleceram em
acentuado ritmo, criando-se então condições
adequadas e, como, ao tomarem vulto, elas
impunham o uso da via marítima, também só então
verdadeiramente se estabeleceu o contato entre o
Homem e o Mar na orla do ocidente peninsular em
que se instituíra o Estado português.
A conquista de Lisboa (1147), transferindo
para os portugueses a posse de um porto natural de
excepcional valor, abria à expansão comercial
portuguesa por via marítima as mais lisonjeiras
perspectivas; e a posse de Silves, temporária
primeiro (1189-1191), definitiva desde os meados
do século XIII, privando os muçulmanos do último
dos seus grandes portos ocidentais, bases de ação
naval depredadora dos litorais cristãos - consolidou
as condições de segurança necessárias àquela
expansão.
Pode dizer-se que até o fim do século XII não houve marinha da Espanha Ocidental. As lutas de
reconquista eram exclusivamente por terra, e a imperícia marítima dos cristãos, juntamente com os relativos
progressos dos árabes, concorria para tornar difícil a conservação das praças litorâneas conquistadas. Os
primeiros dispunham apenas de pequenas lanchas costeiras, enquanto os outros, tinham navios
regularmente armados e equipados, com que percorriam toda a costa ocidental, refrescando nos seus portos,
abastecendo-os de munições e gente quando estavam cercados e desembarcando amiúde com o fim de
atacar os campos dos cristãos e cativar os indefesos. Mas, desde meados do século XII o exame das armas
de cruzados, com cujo auxílio Lisboa e depois Alcácer foram tomadas, tinha vindo acrescentar os
conhecimentos, demonstrando ao mesmo tempo que sem o império no mar, jamais poderia levar-se a cabo
a conquista do sul do reino.
A conquista de Constantinopla pelos turcos em 29 de maio de 1453, seguida pouco depois pela da
Ásia Menor e da Península dos Bálcãs, acarretou o dano e, por fim, a supressão do tráfego que as cidades
Antigo mapa de Lisboa, cerca de 1812,
feito pelo inglês Sir Arthur, conde de Wellington,
durante as Guerras Napoleônicas.
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comerciais da Itália, especialmente Gênova, mantinham com os Portos do Bósforo, do mar Negro e do
Cáspio. A conquista de Constantinopla marcou o início de um crescente movimento de destruição das
vantagens e regalias comerciais que Veneza e Gênova usufruíam há muito tempo. Tornaram-se dia a dia
mais difíceis as relações das colônias italianas estabelecidas no antigo Império Bizantino com as cidades
pátrias, não só pelas dificuldades do intercâmbio, como pelas depredações, confiscos e perdas de foros que
elas próprias sofriam. Por fim, os descobrimentos portugueses no Atlântico deslocaram as correntes
mercantis que cruzavam o Mediterrâneo da Ásia para a Europa. Quando Pedro Pasqualigo, embaixador de
Veneza em Lisboa, comunicou que os portugueses tinham achado uma nova rota para as Índias e oferecido
especiarias mais baratas que os venezianos, esse acontecimento foi considerado um desastre público. Em
consequência, os venezianos fizeram saber ao sultão do Egito que seu país e sua religião estavam em perigo
e ofereceram-lhe armas e braços para exterminar os recém-vindos. A ajuda veneziana aos camorins hindus
não impediu, contudo, o estabelecimento dos portugueses na Índia e noutros pontos do Oriente. Assim,
outra das principais fontes da prosperidade da República mudou de explorador.
Veneza, provida de uma marinha grandiosa, superior a de qualquer outro Estado, pôde conservar
ainda no século XVI um prestígio invejável e uma importância política e comercial incomum. As fontes de
sua prosperidade e de seu poderio se achavam, entretanto, já cortadas, e a decadência processou-se
inexoravelmente daí por diante, até o final do século XVIII, quando Napoleão extinguiu o Estado
Veneziano.
A empresa de Silves, no tempo de Sancho I, já tinha navios portugueses. Essa marinha existiu nos
reinados de Sancho II e de Afonso III, como o provam as expedições marítimas que terminaram pela
conquista definitiva do Algarves e as façanhas do lendário Fuás Roupinho. Havia então já um corpo de
tropas especiais de embarque e nas terceiras navais se construía, sob direção de mestres estrangeiros, navios
de alto bordo para as frotas militares do rei. A frota de navios grossos que ajudara a tomada de Faro, as
fustas, as barcas, as caravelas, as pinaças e as bojudas naus do tempo deviam, em caso de guerra, defender
eficazmente o magnífico estuário do Tejo. No tempo de Afonso III, já o poder marítimo português é de tal
ordem que os navios vão em socorro à Castela, e o Papa convida os lusitanos a acompanhar as gentes do
Norte às cruzadas.
Livre da ameaça árabe, graças à conquista das principais cidades costeiras e sendo propelido para o
mar em virtude de razões já citadas, o comércio português pôde iniciar seus primeiros passos. Já em 1194
há notícias de ter naufragado um navio português que se destinava a Bruges, e os portugueses são
encontrados nos meados do século XII na feira anual de São Demétrio em Tessalônica. Em 1202, João Sem
Terra tomava sob sua proteção os mercadores portugueses que fossem residir nos seus domínios. Em 1290,
as relações comerciais com a França eram já tão importantes que Filipe, o Belo, concedeu aos mercadores
portugueses que frequentavam o porto de Honfleur, importantes privilégios, confirmados depois por vários
monarcas franceses que àquele sucederam. Inversamente, os comerciantes estrangeiros começaram a
interessar-se por Portugal. Os armadores da Normandia, do Flandres e da Inglaterra já no fim do século
XIII demandavam o Tejo para mercadejar.
Com o desenvolvimento do comércio, o da marinha, sua servidora, impulsionou por sua vez a
indústria de construção naval nas margens do Tejo. Em 1237 e 1260, fazem-se referências muito claras ao
arsenal régio e à carreira de construção em Lisboa.
O reinado de D. Diniz marca uma segundaera na história da Marinha nacional. Sendo a Marinha
Mercante e a Militar reciprocamente indispensável, os cuidados do rei administrador dirigiram-se
principalmente a fomentar a primeira, cuja importância o tratado de comércio feito em 1308 com a
Inglaterra acusa D. Diniz na sua eficiente missão organizadora, tendo criado o serviço de recrutamento nas
povoações marítimas.
As condições de navegação nessa época de pirataria infrene impunham caráter militar à Marinha
Mercante, confundindo-se assim as duas marinhas nacionais, cujo incremento levou D. Diniz a criar, em
1307, para sua superintendência, o cargo de Almirante Maior.
A obra de D. Diniz foi continuada por D. Fernando, que assistiu ao pleno desenvolvimento de uma
potência comercial e marítima. O rei em pessoa era armador e negociante de certos gêneros exclusivos.
Criou o rei bolsas de seguros marítimos mútuos, em Lisboa e no Porto, com o produto de uma taxa especial
lançada sobre o comércio, instituindo o cadastro ou estatística naval. Reduziu à metade os direitos de
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importação dos gêneros trazidos por navios nacionais, estabelecendo assim um direito diferencial de
bandeira, a cuja sombra se multiplicou o número dos navios mercantes portugueses. Deu, aos que
desejassem construí-los, a faculdade de cortar as madeiras nas matas reais. Os cuidados do rei em favor da
Marinha Mercante abraçavam também a Marinha de Guerra. A armada que foi bloquear Sevilha (1372) era
no dizer do cronista – formosa campanha de ver – e contava trinta e duas galés e trinta naus redondas. Vinte
e três meses teve bloqueado o Guadalquivir e retirou-se o bloqueio com o decreto de paz. Outra frota quase
tão poderosa como essa foi ainda ao Mediterrâneo, na seguinte guerra de Castela, para sofrer o desastre de
Saltes (1381).
A Marinha foi uma criação da monarquia e um produto da nação. Desde a reunião das esquadras
cruzadas no Tejo para a conquista de Lisboa, desde a introdução dos genoveses, que vieram ensinar a
navegar, vê-se começar a se formar essa nação cosmopolita, destinada à vida comercial, marítima e
colonizadora. Toda a atenção administrativa se aplica para o desenvolvimento da navegação e do comércio
pelo magnífico porto aonde todos os navios, em viagem dos mares do Norte para o Mediterrâneo, vinham
refrescar, desde que Lisboa era cristã.
O desenvolvimento do comércio, da navegação e de outras atividades correlatas, como não podia
deixar de ser, promoveu em Portugal a ascensão da burguesia que até então pouca importância tivera no
quadro social da nação. Esta burguesia comercial, rica, ativa, inteligente, não podia deixar de sentir as
mesmas aspirações das suas congêneres das restantes nações marítimas da Europa. E a sua influência na
gênese da expansão marítima portuguesa não se pode negar. Influência bem poderosa, porquanto é certo
que desde meados do século XIV a sua ação política era progressiva. No século seguinte, os reis portugueses
já dispunham do instrumento marítimo indispensável a obras mais vastas.
Sobre a abertura do mar, o primeiro lugar cabe indiscutivelmente aos portugueses. Foram eles que
durante mais de 200 anos abriram novos caminhos, exploraram novas fontes de riquezas e descobriram
novas terras. A descoberta da América por Colombo, a serviço da Espanha, é um episódio isolado, ao passo
que as navegações portuguesas se desenrolaram com caráter de continuidade e, muitas vezes, com planos
preestabelecidos.
Portugal inicia em 1415, conquistando Ceuta, uma
obra de expansão com um horizonte tão vasto que em menos
de um século realizou todos os objetivos econômicos da
Europa, duplicou os conhecimentos geográficos e feriu de
morte o poder muçulmano no Oriente. Duas ordens de razões
explicam a primazia de Portugal, desde que a expansão
ultramarina perdeu a feição de mero tentame, característico
dos séculos XIII e XIV: por um lado, a incapacidade das
demais nações marítimas; por outro, o grau de aptidão que
Portugal atingira.
Veneza, Gênova e Aragão, sobre não disporem de
recursos financeiros e militares exigidos por uma nação
completa e demorada, eram potências mediterrâneas,
portanto com uma situação geográfica que as colocava em
nível de inferioridade relativamente à expansão por via
atlântica.
Castela e França estavam a braços com alarmantes
problemas políticos e militares de que dependia a sua
definitiva constituição territorial. Em Portugal, pelo
contrário, tudo se congregava no sentido de tornar viável a
obra de expansão com que sonhavam todos os grandes
espíritos europeus.
A extensão territorial e a independência nacional eram problemas definitivamente resolvidos;
Portugal podia consagrar todos os seus esforços a outro qualquer empreendimento. Estreita faixa de terra
debruçada sobre o Atlântico, a situação geográfica e uma remota atividade marítima dos habitantes já de
Ceuta, hoje território
espanhol no Marrocos.
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antemão estabeleciam o sentido atlântico da expansão portuguesa. Inicialmente, o objetivo do príncipe D.
Henrique era modesto: explorar as costas da África além do cabo Não3.
Em meio ao primeiro quartel do século XV, a virtual
capacidade portuguesa para a tarefa do descobrimento marítimo foi
valorizada pela clarividente e firme intervenção de um homem o
infante D. Henrique, comumente conhecido pelo epíteto de
Navegador, não porque largamente tivesse navegado, pois não
excederam Marrocos os seus maiores percursos marítimos, mas por
se reconhecer que à sua ação decisiva se deveram o início e os
primeiros êxitos da expansão ultramarina portuguesa. Fundando a
Escola de Navegação e o Observatório, em Sagres, o infante D.
Henrique não só proporcionou aos marinheiros portugueses
elementos para mais arrojadas investidas contra o oceano, como
também sistematizou as expedições marítimas que passaram a serem
organizadas em obediência a diretrizes seguras. A bússola, o
astrolábio e o quadrante já guiavam as expedições marítimas
enviadas anualmente de Sagres pelo Infante a sondar o oceano, ou a
descer a costa para o sul. As ilhas de Porto Santo, Madeira e os
Açores foram por esta forma descobertas.
Com o ano de 1434, abriu-se na história de Portugal um período de sistemáticas explorações
marítimas que, lançadas cadencialmente como vagas contra a costa de todo o sul da África, em sessenta e
quatro anos rasgara o caminho pelo oceano até a Índia. A primeira que se registra é a de Afonso Gonçalves
Balda e de Gil Eanes que, com uma barca e um barinel4, foram para além do Bojador cerca de cinquenta
léguas. Nos anos seguintes, outros exploradores avançaram cada vez mais, para o sul, tendo Nuno Tristão
ultrapassado o cabo Branco. A mais baixa latitude geográfica (10ºN) logrou-a em 1446 Álvaro Fernandes,
sobrinho do Capitão Zarar, que foi para o sul do cabo Verde cento e dez léguas.
Na data da morte do Infante (1460) estavam, por conseguinte, descobertos, reconhecidos, estudados
e explorados cerca de dois mil quilômetros de costa para além do cabo Bojador.
No reinado de Afonso V, as expedições foram em pequeno número. As campanhas marroquinas
desviavam a atenção da conquista do oceano. Todavia, o golfo da Guiné foi reconhecido graças às viagens
empreendidas por iniciativa de Fernão Gomes, cidadão de Lisboa. Destacaram-se as expedições de
Fernando Pó, Lopo Gonçalves, Rui Sequeira, Diogo Cão e Pero de Sintra, que em 1471, segundo consta,
foi o primeiro navegante português a atingir o hemisfério sul.
A empresa iniciada pelo infante D. Henrique prosseguiu nas mãos do rei D. João II que tomou a
peito descobrir os mundos remotos. O seu poder naval era já tão grande, que o Tejovia com pasmo o
famoso galeão de mil tonéis, monstro boiando n'água, eriçado de canhões. Nunca os estaleiros tinham
produzido navio tão grande. Mandou o rei aperfeiçoar as bússolas, desenhar cartas marítimas para
orientação das rotas, cometendo esses estudos a uma junta que fez as primeiras tábuas de declinação do
Sol.
As expedições marítimas foram reiniciadas com maiores recursos. Em 1486 Bartolomeu Dias recebe
a missão de descobrir a passagem sul do continente africano, e, em 1488, após ter sido jogado mar afora
por uma violenta tempestade, voltou para leste para retomar o acompanhamento do litoral como vinha
fazendo e teve a surpresa de verificar que não o encontrava mais; voltou então para o norte e reencontrou
o litoral à sua frente (W-E); após prosseguir para leste algum tempo voltou e só então descobriu o extremo
sul da África, que, muito acertadamente, chamou de cabo das Tormentas, rebatizado mais tarde de cabo da
Boa Esperança.
3 O Cabo Não ou Cabo do Não, actual Cabo Chaunar, é um cabo situado na costa atlântica da África, no sul do Marrocos,
entre Tarfaya e Sidi Ifni. Até ao século XV era considerado intransponível por europeus e muçulmanos, de onde se originou o
seu nome.
4 Barca era um navio pequeno de madeira, com uma só coberta e com velas latinas e que podia levar ou não cesto de gávea.
Barinel é uma embarcação pequena que possui vela quadrangular podendo também ser movido utilzando remos.
http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/68/Morocco_CIA_WFB_map-pt.png
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1.1) A Descoberta do Caminho Marítimo para as Índias:
Portugal não se garantiu apenas por meio de instrumento diplomático na questão da propriedade das
terras descobertas e por descobrir. Usou também o velho e eficiente recurso da união familiar: D. Manuel,
rei de Portugal, pediu a mão de D. Isabel, filha dos Reis católicos Fernando e Isabel, para sua rainha,
realizando-se o casamento em 1497. Somente depois de garantidas para si as terras africanas já
descobertas e afastada durante muito tempo a possibilidade de conflito com a Espanha é que Portugal
reiniciou a sua jornada para as Índias pelo oriente.
No entanto, quando Vasco da Gama parte em 1497, ele segue a rota de todos os navegantes que
demandavam a costa da África até a altura de Serra Leoa e daí, surpreendentemente, guina para alto mar,
afastando-se do golfo da Guiné, região onde as calmarias eram frequentes e onde começava o trecho do
litoral africano em que a corrente de Benguela e os ventos dominantes são contrários ao sentido de
navegação. A corrente Sul-Equatorial e os ventos dominantes o levam para além do meio do Atlântico, a
ponto de ver sinais de terra, do que daria notícia a Cabral, quando este partiu para sua viagem em 1499,
da qual resultaria a descoberta do Brasil. Durante três meses só vê céu e água. Navegando decididamente
no rumo aproximado sul, vai encontrar, na altura do Prata e do sul da África, correntes e ventos favoráveis
que o levam diretamente ao extremo sul da África.
Nos dez anos que
mediaram entre essas duas
viagens e enquanto tantas
coisas importantes aconte-
ciam, como já vimos, é obvio
que alguém andou esquadri-
nhando todo o Atlântico Sul.
Observando o regime dos
ventos, não nos surpreende-
remos tanto com a viagem de
Vasco da Gama, pois na
navegação para o golfo da
Guiné a ida e a volta não se
faziam pelo mesmo caminho,
o que demonstrava perfeito
conhecimento do regime e do
sentido das correntes
marinhas no Atlântico Norte.
Passado o cabo da Boa Esperança, sobe ele o litoral africano do Índico até encontrar povos que lhe
dão seguras notícias das Índias, pois mantinham com essas regiões um comércio regular; esse comércio era
feito pelos árabes, que desde o século VIII possuíam o domínio do mar no oceano Índico. Contratando, por
bom dinheiro, um excelente piloto árabe, Vasco da Gama segue diretamente para as tão desejadas Índias,
aonde chega às proximidades de Calicute, em 20 de maio de 1498.
Os navios lusitanos, de grande porte em comparação com os dos árabes, não tinham a liberdade de
ação dos navios de guerra inimigos, mas tinham maior poder de fogo. E o mundo estava entrando numa
época de predomínio do fogo sobre movimento e choque. Foi nessa disputa que os portugueses, apesar das
distâncias mas fortemente amparados por um governo resoluto, em poucos anos tomaram dos orientais o
domínio dos mares índicos e passaram a exercer, com exclusividade, o comércio das especiarias e demais
mercadorias do Oriente para a Europa.
Com a chegada de Vasco da Gama a Calicute na Índia, a ligação marítima imediata entre a Europa
e as Índias tinha sido conseguida. O encontro dessa rota marítima foi somente o primeiro passo para o
verdadeiro fim. A questão mais difícil estava ainda de pé: estabelecer nas costas índicas mediante pacíficas
negociações com os chefes indígenas ou por imposição da força, pontos de apoio para o comércio e adquirir
depois, em face dos árabes, uma posição dominante. Os árabes tinham em seu poder, há vários séculos,
toda a navegação comercial pelo mar Vermelho e do golfo Pérsico até Málaca, depósito principal dos
produtos da Ásia Oriental. Era preciso arrebatar aos árabes essa situação de predomínio.
Mal Vasco da Gama regressou com as provas do resultado feliz de sua viagem, treze navios se
fizeram à vela sob o comando de Pedro Álvares Cabral, levando mil e duzentos soldados para vencer os
hindus. Ao demandar o cabo da Boa Esperança, a frota aportou ao litoral brasileiro, acrescendo dessa forma
os domínios do rei de Portugal, tomando posse das terras demarcadas pelo Tratado de Tordesilhas. Na Índia,
Cabral recebeu por toda parte votos de amizade e voltou para Portugal carregando riquezas nos poucos
navios que haviam escapado às desventuras da expedição. O rei, encorajado por esse primeiro ensaio,
Representação de Calecute no atlas
"Civitates orbis terrarum"
(Georg Braun e Franz Hogenber, 1572
http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/b/b5/Calicut_1572.jpg
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equipou quinze navios de alto bordo, sendo confiado o comando a Vasco da Gama. O almirante português
reduziu vários estados à condição de tributários, destroçou a frota do samorim de Calicute, e a presa enorme
que encontrou nesses navios valeu-lhe uma acolhida entusiástica no regresso.
Em viagem posterior, Francisco de Albuquerque obteve consentimento do rei de Cochin para
construir o Forte de Santiago e a Igreja de São Bartolomeu. Assim foi colocada a primeira pedra do domínio
espiritual e temporal de Portugal no país, domínio que iria durar até 1961. A heróica resistência no Forte
Santiago, com Eduardo Pacheco à frente de um punhado de bravos, contra a investida de dezenas de
milhares de soldados do samorim consolidou a posição portuguesa na Índia. A partir desse momento,
Portugal se considerou senhor dessas paragens. Não satisfeito de retirar ricas mercadorias, enviou Francisco
de Almeida na qualidade de Vice-Rei. A prudência e o valor de Almeida foram coroados do mais feliz
sucesso. Ele submeteu as tribos dos reis de Quiloa, de Mombaça e de outros Estados, construindo também
muitos fortes. Lourenço, seu filho, abordou a ilha de Ceilão. A posição e os portos dessa ilha fazem com
que ele seja o centro do comércio da África e da China. Nenhum porto é comparável, nesses mares, ao de
Trinquernale.
O Plano de domínio português acha-se esboçado na carta que o primeiro Vice-Rei, Francisco de
Almeida, enviou a D. Manuel I. É esse um dos documentos mais importantes da história portuguesa no
Oriente: "Toda a nossa força seja no mar, desistamosde nos apropriar da terra. As tradições antigas de
conquista, o império sobre reinos tão distantes não convém. Destruamos estas gentes novas [árabes,
afegãos, etíopes, turcomanos] e assentemos as velhas e naturais desta terra e costa e depois iremos mais
longe. Com as nossas esquadras teremos seguro o mar e protegidos os indígenas em cujo nome reinaremos
de fato sobre a Índia, e se o que queremos são os produtos dela, o nosso império marítimo assegurará o
monopólio português contra o turco e o veneziano”.
Perante a ameaça portuguesa e instigado por Veneza, o
sultão do Egito enviou para a Índia, mar Vermelho abaixo, uma
numerosa frota de guerra. Porém em Diu, a 3 de fevereiro de
1509, Francisco de Almeida a destroçou, apesar de os egípcios
contarem com o concurso de artilheiros italianos.
Nos anos seguintes, os portugueses iniciaram uma
política de conquista que, graças aos eminentes dotes militares
de Afonso de Albuquerque, se traduziu numa série de
extraordinários êxitos. Assaltou Goa, na costa de Malabar;
depois ocupou as Molucas e após uma desesperada luta
apoderou-se da rica cidade de Malaca. A notícia das invencíveis
esquadras estrangeiras, estendendo-se ao longo dos países
litorâneos do oceano Índico e de todas as partes, acudiram
embaixadores de reis indígenas para fazer alianças e tratados de
comércio.
Esses acordos permitiram o estabelecimento de feitorias e a
construção de firmes fortalezas para protegerem os comerciantes
portugueses. Desse modo, ficou o Extremo Oriente submetido à
esfera de interesse da Lusitânia. Mas Albuquerque percebeu, com
extraordinária perspicácia que, para aniquilar totalmente a
hegemonia mercantil dos árabes (mouros, como diziam os
portugueses), era preciso obturar a rota de importância mundial até
então, que atravessava o mar Vermelho e o Golfo Pérsico. Todos
os seus recursos militares fracassaram diante dos muros de Aden,
mas no ano de 1515 conseguiu forçar a cidade de Ormuz e,
levantando nela uma grande fortaleza, cortou ao comércio arábico
a ligação com o Mediterrâneo. Ormuz, Goa e Malaca, os três
pontos cardeais do império fundado por Albuquerque no breve
período de cinco anos, valiam o domínio em todo o mar das Índias
Península Arábica
http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/03/Lagekarte_Daman_und_Diu.svg.png
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e a vassalagem de todas as costas, desde Sofala, em África, ao cabo de Jar-Hafum; desde Khor Fakhan, na
Arábia, até o golfo Pérsico; desde o Indo até ao cabo Kumari; daí às bocas do Ganges e, descendo pelo
Arakan e pelo Pegu, até Malaca com as ilhas dispersas de Madagascar e Sokotra, Anjediva, os arquipélagos
de Lakha (Laquedivas) e de Malaca (Maldivas), Sinala (Ceilão) e Sumatra e Java, Bornéu e as Molucas até
os pontos extremos de Banda e Ambon.
Decaídos os árabes de sua privilegiada posição de intermediários entre o Oriente e o Ocidente, a
corrente de produtos orientais, que da Ásia anteriormente ia para a Europa através do Mediterrâneo, foi
encaminhada diretamente para Portugal, seguindo a via marítima.
A expansão portuguesa na Ásia continuou no decorrer de quase todo o século XVI, exigindo
frequentemente o recurso às armas, o que absorvia grande parte dos recursos do reino. Durante esse tempo,
os portugueses mantinham suas pretensões no Marrocos, sustentando diversas guerras, embora de pequena
envergadura. Ao mesmo tempo, seus navegantes descobriram várias ilhas no Atlântico Sul, chegaram às
costas do Canadá e exploraram quase todo o litoral da América do Sul. A partir da terceira década desse
século também foi iniciada a colonização do Brasil, e Portugal soube defender com indomável energia a
posse das novas terras, enfrentando a crescente agressividade de marinheiros ingleses, franceses e
holandeses. Num extremo do mundo, seus marinheiros, comerciantes e religiosos chegaram ao Japão e se
estabeleceram em Macau, na China; no outro, seus pescadores, ao largo da Terra Nova começaram a retirar
dos mares o bacalhau ali encontrado em cardumes imensos e, segundo consta, auxiliaram o navegante
francês Jacques Cartier nas suas primeiras explorações no Canadá. Assim, os portugueses, que não tinham
quarenta mil homens sob armas, faziam tremer o Império de Marrocos, os Berberes da África, os
mamelucos, os árabes e todo o Oriente de Ormuz à China, do cabo da Boa Esperança até Cantão, exercendo
seu domínio sobre mais de quatro mil léguas, por meio de uma cadeia de empórios e fortalezas.
1.2) Outras Navegações Portuguesas:
Os lusos andaram mesmo, como diz o poema famoso Os Lusíadas, “por mares nunca dantes
navegados”, pelo menos por europeus.
Mesmo antes da descoberta da América por Colombo, já nela teriam estado os portugueses: em
1491, João Vaz Corte Real e Álvaro Martins Homem estiveram na Terra Nova e, no mesmo ano da viagem
de Colombo, João Fernandes Labrador e Pedro de Barcelos descobriram a península que teria até hoje o
nome do primeiro.
Em 1501, Gaspar Corte Real descobriu o estreito de Davis, entre a Groenlândia e o continente norte-
americano e esteve naquela grande ilha.
As navegações lusitanas no Índico levaram à conquista de quase toda a costa da África e à descoberta
de inúmeras ilhas (Ceilão, Maurício, Reunião, Madagascar, Maldivas, Sonda, Sumatra, etc.).
Em 1516, Duarte Coelho atinge a Cochinchina (atual Vietnã) e, em 1525, Luiz Vaz Torres descobre a
Austrália. A Nova Guiné, em 1538, com João Fogaça, e o Japão, em 1541, com Fernão Mendes Pinto e
Antônio da Mota, mostram quão longe chegaram os portugueses para as bandas do Oriente.
Mas, o ponto alto das navegações lusitanas viria com as viagens de João Martins que, em 1588,
descobriu a passagem do noroeste, passando pelo estreito de Davis, mar de Baffin, ilhas Árticas, norte do
Alasca e estreito de Bering, vindo a sair no Pacífico, e de David Melgueiro que, em 1660, descobriu a
passagem do nordeste, partindo do Japão, passando pelo norte da Sibéria e das ilhas Spitzberg e chegando
a Portugal pelo norte do Atlântico.
Desse imenso império colonial pouco restou a Portugal; a decadência começou em 1580 com a
entrega da coroa ao Rei espanhol Felipe II, o que fez com que os holandeses, que estavam em luta com os
espanhóis, passassem a atacar os navios portugueses.
1.3) O Apogeu de Portugal:
Apesar dos sintomas de decomposição, o império comercial português atingiu, no fim do século
XVI, o seu apogeu. As frotas singravam carregadas de preciosidades até os mares do Japão e da China,
requerendo o serviço de mais de quatrocentos navios de alto bordo, além de duas mil caravelas e vasos
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menores. Considerada a obra toda do pequeno reino, convém reconhecer a sua grandeza excepcional em
relação às limitações de recursos. Portugal era um pequeno Estado com escassa população e condições
econômicas limitadas. Fundando sua expansão política e econômica no comércio marítimo e no império
colonial viu-se face a face com as grandes potências marítimas que ambicionavam por igual a implantação
de colônias e linhas de comércio oceânicas. Exangue em homens, sem recursos, principalmente devido às
funestas campanhas no Marrocos, e tendo perdido a independência para a Espanha após o desastre de
Alcácer-Kibir5, Portugal não pôde manter a maior parte de seu grandioso império ante a investida cada vez
mais pertinaz das novas potências marítimas surgidas na Europa. Enquanto os Países Baixos solapavam o
poder lusitano nas Índias Orientais, seja por ações diretas, seja fomentando a rebelião dos indígenas já
submetidos, a Inglaterra colaborava na ruína do império português, ajudando em 1622 a Pérsia a
reconquistar Ormuz. A Espanha,que se esforçava para proteger suas colônias na América, deixou em pleno
abandono as possessões portuguesas. No Brasil, onde já havia uma população de origem portuguesa
relativamente numerosa, as investidas holandesas fracassaram, mas na África e no Oriente os empórios e
fortalezas lusitanas, que dispunham de limitadas guarnições e com as comunicações precariamente
mantidas com a metrópole, foram sendo tomadas uma a uma.
Em 1640, Portugal conseguiu sacudir o domínio espanhol. D.
João IV, elevado ao trono pelo voto popular, encontrou o reino
arruinado por 61 anos de servidão (União Ibérica), sem exército, sem
navios, sem artilharia. Seguiram-se quase vinte anos de guerras antes
que a independência portuguesa fosse formal e definitivamente
reconhecida pelas demais potências europeias. Os portugueses
recobraram o Brasil, mas perderam as Molucas, Cochim, Ceilão, o cabo
da Boa Esperança e tudo mais de que os holandeses se haviam
apoderado nas Índias Orientais. Por outro lado, já não havia condições
nos séculos XV e XVI para serem recomeçadas as aventuras oceânicas.
O tempo do valor pessoal havia passado. No lugar das navegações
aventurosas estavam estabelecidas linhas de comércio regular
controladas por rivais poderosos. Dessa forma, a Holanda e a Inglaterra
foram as herdeiras do império econômico construído por Portugal.
2) Espanha:
A Espanha, com seu planalto extenso cercado de ásperas
cordilheiras, é um país nitidamente continental. Os rios
caudalosos na época das chuvas e secos no verão, fechados quase
sempre por bancos em sua desembocadura, prestam-se pouco à
navegação. Também não tem a Espanha bons portos, e mesmo o
tráfego pela costa é difícil. Em oposição a Portugal, a Espanha é
um país interior, no qual, ao lado da agricultura, da viticultura e
da criação do bicho-da-seda, teve grande importância a indústria
pastoril. Além disso, o país era bastante extenso para alimentar
devidamente a população, de maneira
que esta não sentia necessidade alguma de arriscar-se em empresas ultramarinas para aquisição de novas
terras.
5 O desastre de Alcácer-Kibir corresponde ao falecimento do rei de Portugal D. Sebastião, que combatendo no norte da África
os mulçumanos, ainda como parte das guerras de reconquista e das cruzadas, desaparece em batalha. Sua morte gera duas
situações históricas: a primeira é que ele tinha 23 anos de idade à época e ainda não tinha herdeiros. Após sua morte, assumiu o
trono seu tio que era cardeal da Igreja Romana e que ao morrer também não tinha herdeiros, permitindo a tomada do trono de
Portugal pelos espanhóis, correspondendo este período à União Ibérica. A segunda situação é que seu desaparecimento fomentou
histórias de que ele havia sido arrebatado ao reino dos céus e de lá retornaria comandando hordas celestiais para combater os
infiéis mulçumanos. Deste fato surgem os movimentos religiosos conhecidos como sebastianistas, com ações principalmente na
colônia portuguesa do Brasil.
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Embora houvesse ao longo do litoral uma população de arrojados marinheiros, como os de
Barcelona e Valência, os quais enfrentaram na Idade Média lutas porfiadas contra as frotas das cidades
marítimas italianas, os espanhóis não teriam empreendido, possivelmente, o caminho dos descobrimentos,
se um estrangeiro, o genovês Cristóvão Colombo, não lhes tivesse mostrado as rotas do oceano. Além de
apresentar seus planos por duas vezes ao governo espanhol, Colombo tentou conseguir o apoio de Gênova,
Inglaterra, França e Portugal.
Pouco antes de a expansão marítima portuguesa atingir o objetivo de chegar às Índias, a Espanha
acabou por organizar expedições atlânticas, tornando-se a segunda monarquia europeia a fazê-lo. A
primeira viagem espanhola, bastante modesta, foi concebida em 1492 por Cristóvão Colombo. Partiu em
agosto daquele ano, em três pequenas caravelas, com o projeto de atingir as Índias contornando o globo
terrestre, navegando sempre em direção ao Ocidente. Assim, buscava-se uma rota alternativa àquela
controlada pelos portugueses no sul, em torno da África.
A ideia de Colombo era relativamente simples: partindo do pressuposto de que a Terra era redonda,
as Índias poderiam ser atingidas navegando-se para o ocidente em vez do oriente. Como, porém,
a base de sua argumentação (a redondeza da Terra) fosse assunto mais do que discutido, até inaceitável para
a época, Colombo foi muitas vezes ridicularizado; se não tivesse chegado a fazer a viagem que o
imortalizou, seu mérito seria enorme somente pela fé inabalável que tinha na sua teoria; anos de persistência
foram necessários para conseguir convencer alguém que pudesse efetivamente auxiliá-lo. E esse alguém
foi a Rainha da Espanha Isabel.
Mas, antes de ver a sua ideia aceita na Espanha, Colombo havia estado em Lisboa onde sua ideia
também não fora aceita, mas não pelos mesmos motivos que na Espanha, isto é, descrença na ideia daquele
visionário. Não, ao que tudo indica, os sábios portugueses não acharam a ideia absurda e tanto isso é
verdade, que a levaram ao rei. Mas não interessava a Portugal abandonar uma norma que vinha seguindo
havia meio século, isto é, chegar às Índias passando pelo sul da África, para adotar uma nova conduta que
poderia ser correta, mas também poderia resultar em nada; essa viagem que Colombo imaginava era uma
aventura, sem dúvida, e os portugueses já estavam muito mais adiantados na maneira de encarar o problema.
De qualquer modo, porém, após longas peregrinações e dissabores, Colombo pôde armar a sua
pequena frota de três navios: a Santa Maria, a Pinta e a Niña. A Santa Maria, a maior das três caravelas,
tinha apenas 27 metros de comprimento e deslocava 100 toneladas; a Niña, a menor, deslocava apenas 40
toneladas.
Colombo desconhecia a existência de um vasto continente entre a Europa e as Índias; imaginava a
distância entre a Europa e a Ásia pelo ocidente muito menor do que realmente é. Durante a viagem, teve
que mentir para as guarnições rebeladas, dizendo que ainda não haviam percorrido o caminho previsto.
Colombo chegou ao continente americano, acreditando ter
alcançado as Índias, e morreu acreditando nisso. A descoberta da ilha
de Guanahani, hoje Watling island, uma das Bahamas, e, logo a
seguir, Cuba e Hispaniola, hoje Haiti, convenceu Colombo de ter
chegado às Índias, ideia essa tanto mais reforçada quando soube
vagamente da existência de um grande império, mais a oeste, onde
havia muitos metais preciosos; os indígenas se referiam ao Império
Asteca, mas para Colombo eram as tão ambicionadas Índias.
Somente em 1504 desfez-se o engano, quando o navegador Américo
Vespúcio confirmou tratar-se de um novo continente.
A essa altura, portugueses e espanhóis, espalhados pelo
Atlântico, detinham o monopólio das expedições oceânicas, sendo
seguidos por outras nações a partir do início do século XVI,
especialmente França e Inglaterra.
Entretanto, os dois reinos ibéricos já haviam decidido a partilha do mundo antes mesmo que outras
nações começassem a se aventurar nos novos territórios: em 1493, as bênçãos do papa Alexandre VI a esse
acordo levou à edição da Bula Intercoetera, substituída no ano seguinte pelo tratado de Tordesilhas. Este
estipulava que todas as terras situadas a oeste do meridiano de Tordesilhas (por sua vez situado 370 léguas
a oeste do arquipélago de Cabo Verde) pertenceriam à Espanha, enquanto as terras situadas a leste seriam
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portuguesas. O Acordo anterior previa apenas 100 léguas, mas a insistência por parte dos portugueses se
deu não apenas para garantir as possesde terras já parcialmente conhecidas no litoral da América do Sul,
mas principalmente as terras ocupadas nas Índias, já que a linha imaginária dividia o globo terrestre ao
meio.
A divisão, embora hábil do ponto de vista político, porque tentava evitar um conflito entre duas
importantes nações da cristandade, era frontalmente contrária aos prováveis interesses dos demais estados
(França, Inglaterra, Veneza, Gênova, etc.), que eram sumariamente excluídos da repartição do mundo. Para
Portugal era injusto, porque equiparava todo o longo e paciente trabalho de 70 anos com uma única viagem
dos espanhóis.
Fosse como fosse, a decisão papal era impossível de ser aplicada pelas seguintes razões:
a) não estabelecia qual o meridiano que serviria de ponto de partida para a contagem da longitude;
b) o meridiano de Açores não é o mesmo do arquipélago de Cabo Verde;
c) qualquer que fosse o grupo de ilhas considerado, haveria necessidade de se estabelecer exatamente qual
a ilha e qual o ponto nessa ilha para servir de ponto de partida, pois mesmo uma pequena diferença pode
acarretar longas discussões diplomáticas; e
d) a légua portuguesa não era igual à espanhola e a bula não dizia qual delas deveria ser usada como medida.
Desse modo, iniciou a Espanha uma política que não correspondia ao seu caráter continental, na
qual, a princípio, o povo não participou de maneira alguma. Não obstante, o recém-fundado Império
Colonial Espanhol conseguiu adquirir um imenso poder, graças à sua favorável situação geral em relação
às novas rotas marítimas. Além disso, os fabulosos êxitos dos primeiros aventureiros excitaram o afã dos
demais, fazendo com que fossem realizadas verdadeiras façanhas. Sob o comando de chefes da têmpera de
Pinzon, Vespúcio, Cortez, Pizarro, Del Cano, Magalhães, Narvaez, Ayolas, De Soto, Balboa e muitos
outros, os espanhóis, a partir dos primeiros anos do século XVI, transformaram grande parte do mundo em
palco de suas arrojadas expedições de conquista. Embora em pequeno número, esses aventureiros
edificaram o maior império colonial do século, conquistando regiões imensas em meio a dificuldades e
perigos incontáveis.
Sucediam-se as conquistas com tal rapidez, que durante o meio século seguinte quase não passava
um ano sem que o Império Colonial Espanhol ganhasse um grande território. Durante esse período, a
Espanha foi a potência mais importante do mundo. Abarcavam seus territórios o sul da Itália, a Holanda,
a Bélgica, a Espanha, Portugal e partes consideráveis da Franca, toda a América Central e Meridional, a
maior parte dos territórios ocidentais e meridionais dos Estados Unidos, as ilhas Filipinas, Madeira, Açores,
Cabo Verde, a Guiné, o Congo, Angola, Ceilão, Bornéu, Sumatra, Molucas, com numerosos
estabelecimentos em outras terras similares e continentais da Ásia. Nessa época, o exército espanhol era
reputado o melhor da Europa. No mar, o prestígio das armas espanholas foi assegurado pela vitória sobre
os turcos em Lepanto (1571).
Entretanto, a dispersão geográfica dos países submetidos à lei dos Habsburgos foi uma causa de
enfraquecimento para a Espanha, considerando que, para realizar a coesão política de suas possessões
disseminadas pelo mundo inteiro, ela tinha que ser toda poderosa no mar, o que não foi conseguido, se bem
que tentado constantemente. As numerosas guerras que a Espanha sustentou na Europa esgotaram os
tesouros tirados do México e do Peru. Por outro lado, essas guerras impediram-na de consagrar suas
energias e suas riquezas na manutenção do poderio marítimo que lhe asseguraria o controle dos territórios
mais preciosos: os da América e os dos Países Baixos.
A Espanha, depois de anexar Portugal (União Ibérica de 1580 a 1640), estava quase tão em contato
com o mar como a Inglaterra e dispunha, além disso, de uma frota de guerra com tradição naval, mas era
frota de galés, com escravos por remadores, e as suas tradições eram as do Mediterrâneo. A esquadra que
triunfou sobre os turcos em Lepanto, com a tática de Salamina e Actium, não poderia resistir à descarga
simultânea de Drake, não poderia atravessar o Atlântico e de pequena utilidade seria na baía de Biscaia e
no canal da Mancha.
A Espanha possuía, é fato, os seus navios para a navegação oceânica que velejavam ao longo da
costa americana ou atravessavam o Atlântico de Cádiz ao Novo Mundo, serviam para levar imigrantes e
trazer a prata e o ouro, mas, não sendo navios de guerra, caíram como presa fácil nas garras dos piratas
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ingleses. Na realidade, a Espanha só começou a construir navios capazes de combater a Inglaterra nas
vésperas da deflagração da guerra regular.
Havida a Reforma na Inglaterra, fundou-se ali a igreja anglicana; reinava lá a Rainha Isabel I, filha
de Henrique VIII, que mantinha presa sua prima Maria Stuart, Rainha da Escócia, que era católica. A
pretexto de vingar a morte de Maria Stuart, finalmente condenada pela soberana inglesa, e reclamando
direitos ao trono inglês, Felipe II, na verdade pressionado pelos problemas econômicos da Espanha e
ansioso para pôr as mãos na Inglaterra pré-industrial, lançou-se à guerra a fim de derrubar Isabel I.
Na verdade, Felipe II tinha grandes motivos para lançar-se numa luta contra os ingleses. Isabel I
encorajara as atividades de corso contra o comércio espanhol. Corsários renomados trafegaram pelos mares
a serviço da economia inglesa na segunda metade do século XVI. Um dos mais famosos, Francis Drake,
atravessou o estreito de Magalhães em 1578 e fustigou intensamente as cidades e povoações espanholas da
costa ocidental da América. Depois de dar a volta ao mundo, retornou à Inglaterra pelo cabo da Boa
Esperança levando ouro, prata e jóias estimadas em meio milhão de libras esterlinas. A Rainha Isabel I
aceitou e aprovou plenamente a empresa de Drake, recebendo boa parte do tesouro trazido e fazendo-o
cavaleiro no convés de seu próprio navio.
O momento mais crítico de toda a história da Espanha chegou quando a
Armada que enviara contra as costas da Inglaterra sofreu irreparável derrota em
1588; cento e sessenta navios, dois mil e seiscentos canhões, oito mil
marinheiros e vinte e dois mil homens de tropas, tal foi a força. Veio o desastre
e atrás dele as extraordinárias aventuras que afligiram o resto da frota:
tempestades, fome, enfermidades. Menos da metade dos navios conseguiu
retornar à Espanha.
Manobrando com superioridade e evitando toda forma a abordagem, em
que levariam desvantagem, empregando ainda canhões de maior alcance, os
ingleses impediram o êxito dos espanhóis.
Não houve nenhuma grande batalha. Houve diversos encontros, todos
taticamente indecisos, mas que alcançaram um grande resultado estratégico: os
espanhóis não desembarcaram na Inglaterra. Dando a volta nas ilhas britânicas,
já de regresso ao reino, a Grande Armada perdeu cerca de metade de seus navios,
dispersos por tempestades, afundando no Atlântico ou caindo sobre rochedos
costeiros. Historiadores de tempos posteriores reconheceram que o catastrófico
fracasso da Armada marcou o início do declínio da Espanha.
Se bem que fosse ainda preciso deixar passar três séculos para ver consumar-se a perda de suas
últimas colônias, o domínio do seu vasto império colonial achou-se imediatamente abalado por aquele
primeiro golpe na hegemonia marítima. Se bem que a Espanha houvesse ainda podido manter grandes frotas
até as guerras de Napoleão, nunca mais foi potência verdadeiramente temível.
Assim, por falta de um comércio próprio para cimentar o poder marítimo espanhol, apesar de toda
a força política e militar de Felipe e do seu império sobre milhões de indivíduos dispersos por metade do
globo, parte do Império ruiu ante o ataque de um pequeno Estado insular e de algumas cidades rebeldes das
planícieslamacentas e das dunas da Holanda.
A Espanha possuía o melhor exército da Europa no fim do século XVIII (1588). Felipe II tratou de
embarcar esse exército em navios que mandou preparar, a fim de desembarcar nas ilhas britânicas. A
empresa seria relativamente fácil, se não houvesse o mar pela frente! Os espanhóis tinham magníficos
soldados, mas para o recrutamento indispensável de marinheiros não dispunham da classe numerosa e
enérgica de mercadores e homens do mar particulares, tais como os que eram a riqueza e o orgulho da
Inglaterra.
Manobrando com superioridade e evitando toda forma a abordagem, em que levariam desvantagem,
empregando ainda canhões de maior alcance, os ingleses impediram o êxito dos espanhóis.
Não houve nenhuma grande batalha. Houve diversos encontros, todos taticamente indecisos, mas que
alcançaram um grande resultado estratégico: os espanhóis não desembarcaram na Inglaterra. Dando a volta
nas ilhas britânicas, já de regresso ao reino, a Grande Armada perdeu cerca de metade de seus navios,
dispersos por tempestades, afundando no Atlântico ou caindo sobre rochedos costeiros. Historiadores de
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tempos posteriores reconheceram que o catastrófico fracasso da Armada marcou o início do declínio da
Espanha.
Em consequência, permanecendo grande potência em terra, não mais foi possível à Espanha
competir no mar com a Holanda e a Inglaterra. Enfraquecida no mar, que serviu de ligação entre as várias
partes do Império durante dois séculos, tornou-se a Espanha inimiga natural de grande número de potências
que se esforçavam em arrancar o pavilhão de Castela das terras conquistadas ou das riquezas extraídas dos
novos territórios. Em todas as colônias de alguma importância, foram os espanhóis obrigados a levantar
fortificações custosas, a fim de garantir uma proteção relativa contra os ataques de piratas e das frotas das
potências inimigas. Embora decadente, a Marinha de Castela não estava, porém, ausente dos mares e soube
por mais de uma vez impor-se a seus contendores, como sucedeu ao largo dos Abrolhos por ocasião das
invasões batavas no Brasil (Jornada dos Vassalos).
A ameaça contra as rotas marítimas, cada vez maior com o
decorrer dos anos, obrigou a Espanha a tomar medidas extremas.
Todo o tráfego era regulado de maneira a encher as máximas
condições possíveis de segurança contra os navios corsários das
nações rivais. Uma vez por ano, dos portos de Cádiz, Sevilha e S.
Lucas partiam dois comboios de navios mercantes escoltados por
navios de guerra. Um desses comboios, chamado Frota, fazia vela
para o México, e o outro chamado Galeão, se dirigia para a América
do Sul. A Frota levava a Vera Cruz as mercadorias destinadas à
Nova Espanha.
Os galeões destinados ao abastecimento de Caracas, da Nova Granada, do Peru, do Chile,
desembarcavam suas mercadorias em Cartagena e em Porto Bello. Galeão e Frota reuniam-se em Havana
carregados de metais preciosos e dos produtos do México e da América do Sul, e entravam juntos em Cádiz.
Os comboios não seguiam cada ano a mesma rota, a fim de evitar o ataque dos navios corsários e o itinerário
era rigorosamente fixado pelo governo central. Todos os mercadores que quisessem exportar mercadorias
para as colônias ou importar na Espanha produtos coloniais tinham que se servir das duas frotas armadas
pelo Estado.
Paralelamente ao declínio da Marinha espanhola, se processou o esfacelamento do outrora
majestoso Império de Felipe II. Ainda nos séculos XVI e XVII, após o desastre da "Invencível Armada”, a
Espanha perdeu, na Europa, quase todo o território extra-peninsular e algumas ilhas nas Antilhas. No século
XVIII, em consequência da Guerra de Sucessão de Espanha, na qual a frota de Castela sofreu sérias
derrotas, Málaga, Gibraltar e a ilha de Minorca, no próprio território metropolitano, caíram sob os golpes
da Marinha britânica. A ilha de Minorca voltou, anos após, ao poder da Espanha, graças ao apoio da
Marinha francesa, mas Gibraltar até hoje está sob o pavilhão inglês.
Espanha, depois de Portugal, indicara o caminho a seguir, mas os holandeses, na Batalha de Dunes,
em 1639, deram o golpe de misericórdia no poderio naval dos espanhóis e, daí em diante, a luta pela
hegemonia marítima degenerou numa disputa confusa entre as grandes potências da Europa.
O progressivo esfacelamento do Império, de onde provinham os principais recursos para o tesouro
de Madri, as guerras incontáveis e desastrosas aliadas à infeliz situação social e econômica do próprio
território metropolitano, colocaram a Espanha no caminho da decadência. A agricultura ibérica, que na
Idade Média fora a mais adiantada da Europa, entrou em colapso e por volta de 1700 já mal podia alimentar
a população do país. Também as principais indústrias, como a da lã e da seda, minguaram.
O período napoleônico trouxe novas desgraças ao vacilante reino. Com indomável energia e
ferocidade, o povo espanhol enfrentou a invasão francesa, mas enquanto sustentava a luta heróica, a maior
e melhor parte do seu vasto Império Colonial alcançava a liberdade. Em consequência, a população
declinou, e a miséria espalhou-se.
Até a segunda década do século XIX, quase todas as colônias da América Central e do Sul se haviam
separado do Governo de Madri. No decorrer do século XIX, a Espanha deixou de vez de ser uma grande
potência. Sua população pouco havia crescido em confronto com a dos demais países europeus. Desprovida
de recursos naturais, não pôde a nação ibérica acompanhar o ritmo acelerado da revolução industrial
processado noutros países da Europa. Não dispondo de colônias ricas, sem indústria de vulto, sem outros
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recursos internos que permitissem o desenvolvimento comercial, dilacerada por graves dissensões internas,
a Espanha era uma sombra do que fora. Em 1898, depois das derrotas navais de Manilha e Santiago, a
Espanha foi obrigada a concluir a infeliz guerra contra os Estados Unidos, perdendo Cuba, Porto Rico e as
Filipinas.
3) França:
A história marítima da França não apresenta, como ocorre com
a da Inglaterra, interesse especial antes do século XVI. Até aquela
época, principalmente durante a Guerra dos Cem Anos, o canal
da Mancha foi teatro de grandes contendas navais entre ingleses,
flamengos, frísios e franceses, sem que dessas pugnas surgisse
uma potência de características eminentemente marítimas,
dominando as rotas oceânicas com suas frotas de guerra e
mercante, como faziam então, no Mediterrâneo, as repúblicas
italianas. As próprias batalhas navais da Guerra dos Cem Anos
foram mais entrechoques de exércitos embarcados que
procuravam cruzar um largo fosso de água salgada.
No século XVI, contudo, nas cidades marítimas da Normandia e da Bretanha, por espírito de
aventura e desejo de lucro, começou-se a armar navios para ousadas expedições que seguiam nas esteiras
das frotas portuguesas e espanholas, as senhoras dos mares da época. Não faltavam nas cidades marítimas
francesas marinheiros arrojados e hábeis navegantes desde muitos séculos afeitos às aventuras pesqueiras
nas perigosas paragens da Bretanha e do mar do Norte. Certos cronistas franceses mencionam viagens
realizadas por esses intrépidos navegantes ao longo da costa da África, anos antes das expedições
portuguesas terem explorado aquelas regiões. Não há, porém, provas concretas dessas aventuras marítimas.
Se não se pode estabelecer sobre muitos sólidos fundamentos que os franceses precederam aos portugueses
ao longo das costas ocidentais do continente africano, ao menos se sabe, sem dúvida, que eles os seguiram
de bem perto. Suas excursões foram mesmo, desde o começo, um motivoda reclamação dos reis de
Portugal.
Desde 1488, um comandante de nome Cousin frequentava as costas da Guiné, e seis anos, apenas,
após Vasco da Gama ter dobrado o cabo da Boa Esperança para se lançar à conquista das Índias Orientais,
um navegador normando, Birot Paulmier de Gouneville, partiu de Honfleur, no começo de junho de 1503,
para seguir a rota do célebre português. A partir de 1510, a Terra Nova se tornou a meta dos pescadores
bretões e bem depressa a costa da França pululou de corsários que espreitavam a navegação espanhola e
portuguesa no Novo Mundo, procurando deitar mão no ouro e nos produtos americanos.
O primeiro monarca francês que se interessou pelas aventuras ultramarinas foi Francisco I. Ele
determinou em 1523 as viagens à América de Verazzani, florentino a serviço da França. Nos anos seguintes,
os irmãos Parmantier chegaram ao mar das Índias e à Sumatra, e Jacques Cartier e Roberval iniciaram a
exploração do litoral canadense. Ao mesmo tempo, os armadores franceses iniciaram um vigoroso
contrabando de pau-brasil no Atlântico Sul, sendo tenazmente perseguidos pelos lusitanos. Em seguida, por
questões religiosas, os franceses procuraram fundar uma colônia na baía de Guanabara, mas também aí
foram repelidos pelos portugueses.
Nos sessenta anos seguintes, os franceses tentaram ainda fixar-se no Brasil e na América do Norte.
Conseguiram descobrir e colonizar algumas ilhas das Antilhas, (Martinica, São Domingos, Santa Lúcia) e
estabeleceram-se firmemente na Guiana e no Canadá. Quase todos esses empreendimentos foram, porém,
realizados por iniciativa privada dos armadores das cidades do Atlântico, principalmente Saint Malô,
Dieppe, Honfleur e La Rochelle, pois, após Francisco I, por uma razão ou outra, os reis de França
abandonaram de vista as realizações no além-mar.
Com Henri IV, o Estado francês voltou a ocupar-se das atividades marítimas, sendo aplicados
grandes esforços para o ressurgimento da Marinha Mercante e a retomada da política colonial de Francisco
I. Pela convenção de 1606, confirmou o Estado francês a situação privilegiada que disputavam desde muito
tempo os navios franceses no Levante e nos Estados Barbarescos, e assegurou à França a posse da maior
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parte do tráfego do Canadá. Paralelamente, a Marinha francesa com sanguinolenta determinação procurou
cercar as correrias dos corsários argelinos e tunisianos.
A atividade desenvolvida por Henri IV no domínio econômico foi continuada, seguindo um
princípio mais centralizado por Richelieu, pois ele representava um incomparável elemento de prestígio,
força e prosperidade. “Aquele que é mestre do mar tem grande poder na terra” disse Richelieu (1558-
1642), quando ministro de Luiz XIII, foi o primeiro a compreender a importância do poder marítimo para
garantir a influência internacional da França.
O regulamento marítimo é o mais característico das diferentes
medidas tomadas por Richelieu, para estimular e proteger eficazmente o
comércio francês. Foi interditada a exportação de mercadorias francesas,
exceção feita do sal, em navios de outras nacionalidades, ficando
estabelecido que a cabotagem deveria ser feita em navios nacionais e sendo
proibido aos franceses se servirem dos navios dos estrangeiros. Além do
mais, foram criados institutos de hidrografia e escolas para pilotos e
carpinteiros. Richelieu favoreceu em seguida a criação das companhias de
comércio, conferindo mesmo títulos de nobreza aos armadores e negociantes
mais eminentes, tudo no sentido de desenvolver poderosamente a Marinha e
o domínio colonial francês por ele considerados essenciais à grandeza da
nação. Em suma, Richelieu antecipou-se mesmo em suas medidas, às que
seriam adotadas na Grã-Bretanha, poucos anos depois, no “Ato de
Navegação”.
A fim de garantir a expansão da grande obra, Richelieu tomou medidas enérgicas para expandir a
Marinha de Guerra. Para comandá-la e guarnecê-la apelou para os melhores marinheiros da costa, atraindo-
os com soldos elevados. Todo o vasto complexo industrial que serve de base ao desenvolvimento marítimo
foi criado ou desenvolvido. No Havre e em Bronage, fundiam-se os canhões necessários ao armamento dos
navios. Importantes estaleiros de construção foram instalados em Indret, no Loire, ao abrigo dos assaltos
de surpresa. No Levante (Mediterrâneo), o porto principal das galeras ficou sendo Marselha, como era da
tradição, e Toulon, cuja importância começou a crescer, servia de base aos navios a vela. Mas todo esse
progresso foi de qualquer forma artificial, pois não chegou a criar interesses duradouros que afetassem as
camadas numerosas e importantes da população francesa.
A Marinha de Guerra, reaparelhada por Richelieu, distinguiu-se em lutas porfiadas contra ingleses
e espanhóis, no Atlântico e no Mediterrâneo (La Rochelle e Guaretaria), mas o Cardeal morreu em 1642,
deixando inacabado o gigantesco empreendimento. A Marinha de Guerra havia começado a viver, mas sua
estrutura era ainda frágil e poderia desmoronar se não fosse cercada de cuidados inteligentes ou se fosse
negligenciada. A única parte sólida da obra de Richelieu era, aliás, a Marinha de Guerra, mais fácil, mais
rápida e mais necessária, na época, de ser colocada em primeiro plano. As partes referentes ao
desenvolvimento colonial e à Marinha Mercante foram incomparavelmente mais frágeis.
Nos anos seguintes à morte de Richelieu, não sendo mais a Marinha sustentada por uma vontade
possante, corroída pelo terrível flagelo das discórdias internas, declinou lentamente. A Marinha, que é
essencialmente um instrumento de política exterior, deveria mais do que nenhuma outra instituição sofrer
dos conflitos interiores. Daí em diante, ela não recebeu mais dinheiro.
Em 1659, a paz dos Pirineus pôs fim à interminável guerra com a Espanha. A França triunfara em
terra, mas nos mares ela havia caído do lugar brilhante a que fora alçada pela lúcida vontade do grande
Cardeal. Os espanhóis haviam tomado Tortuga em 1653 e os ingleses a Arcádia em 1656. Fato mais grave
e pesado de consequências foi o fato de que a Companhia das Ilhas da América e depois a Companhia da
Nova França haviam sido constrangidas, para escaparem à ruína, a renunciar a seus direitos. Assim,
enquanto as companhias inglesas e holandesas auferiam lucros fantásticos de suas atividades nos oceanos,
integrando cada vez mais um número elevado de habitantes na vida marítimo-comercial, na França ocorria
o inverso.
A depressão econômica e política que a França sofreu durante dezoito anos sob o ministério de
Mazarino, sucedeu um período de grande prosperidade e de novo poderio, consequência da hábil política
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econômica de Colbert que ficou no poder de 1661 a 1683. Sua aparição marca o ponto culminante do
mercantilismo e da época mais próspera, mais gloriosa do comércio e do movimento colonial francês. Um
dos atos mais importantes de Colbert foi a publicação em 1673 das "Ordenanças do Comércio". A fim de
que as exportações fossem constantemente superiores às importações, Colbert colocou a indústria e o
comércio em condições favoráveis para o desenvolvimento e os tornaram capazes de resistir vitoriosamente
à concorrência estrangeira. Interditou a exportação das matérias-primas necessárias à indústria, reservou
mais uma vez o comércio de cabotagem aos navios franceses, encorajou a pesca em alto-mar e, enfim,
estimulou, por prêmios, a exportação de produtos manufaturados franceses. Essa política, entretanto, era
entravada pela falta de navios, pois em 1664 os ingleses possuíam quatro mil navios de comércio, os
holandeses dezesseis mil e a França dispunha de apenasduzentos.
Ante essa situação, Colbert ocupou-se particularmente do desenvolvimento e do aumento da
Marinha Mercante, com o fito de centralizar em mãos francesas o comércio dos transportes. Criou arsenais
e estaleiros em Brest, Rochefort: e no Havre, protegeu as florestas de madeiras de lei para obter a matéria
necessária à construção naval, encorajou por meio de prêmios e subvenções o armamento de navios
mercantes, favoreceu a compra de navios construídos e armados no estrangeiro. Ao mesmo tempo, os
navios mercantes pertencentes a outras nações foram submetidos, nos portos franceses, a uma taxa de
cinquenta sous por tonelada, na entrada e na saída. Pela Ordenança Marítima de 1681, criou escolas de
aprendizes, destinadas a formar um corpo numeroso de marinheiros hábeis e de pilotos experimentados.
Por conseguinte, Colbert procurou seguir com maior vigor a política anteriormente adotada por Richelieu,
a mesma, aliás, que a Inglaterra então procurava aplicar.
Paralelamente à expansão da Marinha Mercante e do comércio exterior, Colbert atacou o problema
da reorganização da Marinha de Guerra francesa, pois ele bem compreendia o papel capital da Marinha no
processo global do desenvolvimento marítimo. Na perseguição de seu grande ideal e na realização de seu
sonho grandioso, Colbert não foi bem entendido, nem bem secundado. Desaparecido ele, ninguém saberia
continuar sua obra, mas, enquanto viveu, soube imprimir um desenvolvimento econômico à França, nunca
antes igualado. Estaleiros, depósitos, hospitais surgiram da terra e se abrigaram atrás de fortificações. O
trabalho desses arsenais foi organizado e regulamentado. Na Holanda, foram procurados os engenheiros
que deveriam servir de iniciadores. Em breve, das carreiras dos arsenais, começaram a sair numerosos
navios de guerra, todos semelhantes nas proporções. Em 1671, eram já 120 os navios de guerra de linha e
70 os brulotes, fragatas e galeras nas costas do Atlântico e de Provença. Em 1677, duzentos navios militares
estavam à disposição do governo. Um amplo recrutamento de marinheiros assegurava 52 mil homens de
guarnição. A Marinha Mercante, enquanto isso sob a administração do grande ministro, superava a cifra de
mil unidades.
Faltou tempo a Colbert para orientar o povo para o mar, ligando-o pecuniariamente à prosperidade
do comércio marítimo. Essa tarefa também ultrapassava as forças de um homem. Só o tempo poderia agir,
mas faltaram continuadores. A Marinha de guerra não se fundou sobre uma frota de comércio poderosa que
por simples jogo de interesse lhe teria assegurado a longevidade. Criação artificial, toda de prestígio, ela
não sobreviveria à vontade que a havia feito ressurgir. Seignelay, plasmado por seu pai, encontraria ainda
esse caráter artificial da Marinha de Guerra que, depois dele, cairia de toda a sua altura. Mas, sob o impulso
fecundo dos dois Colbert, ela iria conhecer um esplendor que não deveria jamais alcançar no decorrer da
sua longa história.
Nas primeiras ações bélicas a que foi chamada a participar, a magnífica frota construída por Colbert
cobriu-se de glórias, derrotando, sob o comando de Tourville e Duquesne, espanhóis, holandeses e ingleses
nas batalhas de Stromboli, Palermo e Beachy Head.
Em aparência, Seignelay, ao morrer, deixou a Marinha poderosa, vitoriosa, florescente. Na
realidade, essa Marinha era um colosso com pés de argila. Ela era o fruto de uma vontade, a de Colbert,
prolongada, mas desvirtuada por seu filho.
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Quando pela política ambiciosa de Luiz XIV foram desencadeadas
diversas guerras terrestres, pesaram sobre o Estado francês encargos tão
grandes que para a frota de guerra só houve disponíveis parcos recursos. Por
outro lado, a Inglaterra, Estado puramente naval, pôde aplicar, em
consequência da sua posição insular, todas as suas energias ao cuidado da
frota, relativamente segura contra um ataque por terra. Valendo-se de seus
aliados continentais, a Inglaterra pôde manter, ao mesmo tempo, as forças
terrestres da França empenhadas, impedindo a frota francesa de se
desenvolver. Se, com suas rivais, Inglaterra e Holanda, a frota da França
tivesse, para proteger numerosos e importantes interesses comerciais, o
espírito de nação, não se teria jamais afastado dela. Mas tudo estava para ser
feito nesse sentido, e era necessário mais do que a vontade e a vida de um
homem para obter resultados bem assentes. As deficiências básicas do
desenvolvimento marítimo francês em breve manifestaram-se. Já Tourville
não pôde deixar Brest suficientemente cedo em 1690, devido à falta de
marinheiros. As guerras em terra absorviam todos os recursos humanos e
materiais da nação.
Mal tinha morrido Seignelay, e um memorial foi apresentado ao rei, propondo suprimir a Marinha,
que custava muito caro e que só servia para guardar as costas, função que, segundo ainda esse documento,
poderia muito bem ser desempenhada por recrutas do exército.
A partir da segunda fase da Guerra do Augsburgo, a Marinha francesa sofreu uma série de reveses,
culminando com o desastre de La Hague. Foi o fim da grandiosa Marinha de Guerra construída por Colbert.
O declínio da Marinha francesa acentuou-se em decorrência da Guerra de Sucessão da Espanha.
Para que ela pudesse renascer, seria preciso dinheiro e vontade. Não havia, porém, nem uma nem outra
coisa. Desencorajados pelas experiências infelizes de quase um século, os comerciantes franceses estavam
menos do que nunca dispostos a arriscar no mar interesses cuja proteção exigia uma forte Marinha. A
extraordinária vitalidade não tardaria a recolocar a França em plena saúde. Seu comércio conheceu novos
dias de esplendor, mas daí por diante ele se fez, na maior parte, sob pavilhão estrangeiro, mais
especialmente o inglês.
Por conseguinte, nem interesses políticos, nem interesses particulares exigiram a manutenção de
uma frota de guerra. Foi tacitamente admitido que a França devia abandonar definitivamente toda pretensão
ao tridente de Netuno. A Marinha desdenhada e considerada inútil davam-se apenas os créditos necessários
para impedi-Ia de morrer de vez.
Nas décadas seguintes, nada foi feito de notável para alçar novamente a França à categoria de
potência naval capaz de disputar a hegemonia britânica. No conflito seguinte entre as duas grandes nações
rivais, a Guerra de Sucessão da Áustria, não houve encontros navais de importância. A guerra revestiu-se
do caráter das guerras às comunicações. Os franco-espanhóis perderam 3.400 navios mercantes e os
ingleses 3.200. Se os números foram sensivelmente iguais em valor absoluto, foram incomparavelmente
mais desastrosos em valor relativo para as Marinhas da França e da Espanha, considerando suas fraquezas
numéricas em relação à frota mercante do Reino Unido.
A Guerra dos Sete Anos pouco depois teve características diferentes. A França tentou enfrentar a
Inglaterra nos mares com uma frota inferior em número e qualidade, sofrendo, em consequência, uma série
de derrotas que a privaram das ligações com os territórios ultramarinos. Uma a uma, suas principais
colônias, na Índia e no Canadá, foram ocupadas pelo inimigo. Custou essa guerra à Marinha francesa 37
naus e 56 fragatas. Em 1763, ao ser assinado o Tratado de Paris, pondo fim ao conflito, praticamente não
existia Marinha francesa, e a Marinha Mercante estava reduzida a poucos navios.
O orgulho nacional ferido e a certeza agora dominante nos círculos governamentais de que a perda
das melhores colônias fora fruto da ausência de marinha poderosa levaram a França, a partir de 1770, a
empreender um grande esforço no sentido de reequipar a frota de guerra. Sob a brilhante administração de
Choiseul, os estaleiros franceses do Atlântico e do Mediterrâneo voltaram à atividade. Um grandenúmero
de municipalidades financiou a construção de navios. Os comerciantes e o povo em geral contribuíram, nas
Luiz XIV
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várias províncias, para a construção de uma nova frota de guerra, desejosos de tirarem a desforra dos
ingleses.
Toda uma esquadra renasceu assim da generosidade pública, do patriotismo de uma nação. Mas essa
oferta generosa era também marcada pelo caráter artificial que conservava a Marinha inteira. Ela era fruto
de um elã sentimental, tanto mais efêmero quanto mais violento e não o resultado durável de uma sólida
discussão de interesses comprometidos. Richelieu e Colbert: tinham pelo menos tentado fundar sobre a
rocha sólida de uma Marinha mercante próspera a torre orgulhosa da Marinha de Guerra. A de Choiseul
não iria repousar senão sobre a areia, malgrado a bela aparência que deveria adquirir. Ela estava destinada
a desmoronar, desde que soprasse o vento de uma borrasca.
A guerra recomeçou em 1778, a propósito da independência das colônias inglesas da América do
Norte, estendendo-se rapidamente às Índias, como sucedera durante a Guerra dos Sete Anos.
A nova Armada francesa, sob o comando de Guichen, De Grasse e sobretudo de Suffren, conheceu
novamente dias de glória, desempenhando papel decisivo no desenrolar da guerra. A rendição de Cornwallis
marcou o fim da guerra ativa no continente americano. O desenrolar da luta estava na verdade assegurado
desde o dia em que a França devotou seu poderio marítimo à causa das colônias.
A paz foi assinada em 1783. A França tinha enfim uma bela Marinha, adquirida ao preço de terríveis
provas, mas a paz ia ter uma duração bem curta, e a Marinha, sustentáculo de tantas esperanças, iria
retroceder, ficando reduzida a quase nada. Sua decadência faria com que, malgrado uma colheita de vitórias
terrestres como o mundo jamais havia presenciado, malgrado o gênio do maior chefe militar dos tempos
modernos, a França sucumbiria finalmente diante do antigo adversário, forte numa só arma que se mostraria
decisiva: uma frota, senhora dos mares.
Com a Revolução Francesa, recomeçaram os dias negros da Marinha
gaulesa. Esse corpo tão robusto ainda em 1789 iria bem cedo entrar em
decomposição. Pela chaga da emigração, seu sangue mais puro se perdeu.
Mais da metade dos oficiais foram para o estrangeiro. A Marinha não era mais
do que um corpo exangue. A centelha vivificante que havia feito da França a
Grande Nação não havia tocado sua Marinha. Essa Revolução não trouxe
senão sua ruína, sua desorganização, sua indisciplina, sem lhe comunicar seu
entusiasmo, sua fé criadora. A grande agitação acusava, mais nitidamente que
nunca, o divórcio de fato existente entre a Marinha e o país. As razões desse
divórcio eram as mesmas do século XVIII. As longínquas previsões de
Colbert confirmaram-se.
Sem Marinha Mercante, sem interesses pecuniários no mar, a França não se poderia interessar senão
superficialmente, passageiramente, pela Marinha. Ela não era carne de sua carne como a Marinha inglesa
o era da Grã-Bretanha.
Mas uma vez caiu a Marinha francesa, agora vítima das dissensões internas e, consequência
desastrosa, levou na sua queda a Marinha do comércio. Quando foi assinada a paz de Amiens (Em1802,
pondo fim as hostilidades entre a França e a Inglaterra causadas pela Revolução Francesa), havia já muitos
anos que nenhum pavilhão de comércio francês tremulava nos mares do globo. Sem elementos para
enfrentar a Marinha inglesa, mais uma vez a França recorreu à guerra de corso. O decreto de 23 thermidor,
do ano III, definiu o fim a atingir: devastar o comércio do inimigo, destruir, aniquilar suas colônias, forçá-
lo a uma bancarrota vergonhosa. Bem cedo, dos portos do Atlântico saíram para o oceano, armados em
corsários, quase todos os navios capazes de navegar e iniciaram o ataque às rotas marítimas britânicas. Face
à devastação crescente exercida no seu comércio, os ingleses se viram obrigados a recorrer ao sistema de
comboios. Frotas imensas (de 500 e mesmo de 1.000 navios) atravessavam as regiões particularmente
perigosas, sob escolta de navios de guerra. Em 1801, os resultados, ao todo, desde o começo da guerra,
eram os seguintes: 5.557 navios mercantes haviam sido capturados; 593 corsários tomados; 41.500
marinheiros franceses feitos prisioneiros.
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Ao ser assinada a paz de Amiens, a perda anual média da Marinha
Mercante inglesa era de 500 navios, mas ela contara com 16.728 navios, em
1795 e 17.885, em 1800. A guerra de corso havia, por conseguinte, fracassado
na sua fase inicial.
Paralelamente à guerra de corso, Napoleão procurou aparelhar a
Marinha de Guerra francesa de maneira a, pelo menos, obter uma supremacia
temporária no canal da Mancha, mas a batalha de Trafalgar marcou o fim de
tal intenção. A batalha de Trafalgar, esmagando totalmente a remanescente
Marinha francesa e comprometendo por longo tempo seu futuro, resolveu de
maneira definitiva o grande problema da rivalidade pela hegemonia marítima,
nascida sob Luiz XIV. Como único recurso, a França continuou a guerra de
corso. No total de 11 anos de guerra (1803-14), 5.314 navios mercantes
ingleses foram capturados, mas os britânicos por seu turno destruíram ou
colocaram fora de estado de os atacar, 440 corsários guarnecidos por 27.600
marinheiros. No fim dessa longa guerra, a França não tinha mais que 100
corsários armados.
Na mesma época, perto de 25.000 navios mercantes faziam tremular o pavilhão britânico em todos
os mares do globo. Dos 1.500 navios franceses de longo curso existentes na abertura das hostilidades não
restavam mais de 200 em 1814. A Marinha Mercante da França estava morta ao lado da Marinha de Guerra.
Depois do esboroamento do Império e da última convulsão dos Cem Dias, a França renunciou à marinha.
Com a paz, a Marinha Mercante francesa recuperou-se, graças ao vigor do comércio interno e à existência
de estaleiros eficientes no país. Mais lento foi o renascimento da frota de guerra. Cerca de quarenta anos
durou a convalescença da Marinha de Guerra francesa. Malgrado a ação por ela desenvolvida em várias
demonstrações de força contra o Brasil (1828), Algéria (1830), Portugal (1831), México (1837) e Argentina
(1845), só voltou a ser poderosa de fato durante o Segundo Império, por ocasião da guerra da Criméia.
A política imperialista de Napoleão III e a revolução industrial processada pouco mais ou menos no
mesmo período favoreceram o desenvolvimento da Marinha francesa. Com efeito, depois da Grã-Bretanha,
era a França a maior potência industrial da época, seguida de perto pela Alemanha e pelos Estados Unidos.
Em 1864, contavam-se 430 altos-fornos em 55 departamentos que produziam 1.213.000 toneladas de ferro.
A França compreendeu que se apresentava uma oportunidade única para alcançar a supremacia marítima,
já que as antigas esquadras de madeira não poderiam subsistir na era do ferro e do vapor. Sob a orientação
de hábeis técnicos, como Depuy de Lome, foi a França em muitos aspectos a vanguardeira da evolução
marítima. De seus estaleiros saiu o primeiro navio encouraçado, o Gloire. Todavia a Grã-Bretanha, nação
também tecnicamente evoluída, enfrentou a corrida armamentista, conseguindo manter a sua supremacia,
malgrado a ameaça francesa, construindo o HMS Warrior, também encouraçado.
A corrida armamentista anglo-francesa sofreu um hiato com a Guerra Franco-Prussiana em 1870-
71. Poucos serviços relativamente prestou a Marinha francesa nessa guerra, apesar de seu imenso aparato
bélico. A Prússia, nação continental por excelência, dispondo de pequena Marinha, não disputou o domínio
dos mares à sua inimiga. Aguerra se decidiu totalmente em terra, e, ante a ameaça cada vez maior dos
exércitos invasores prussianos, os marinheiros franceses muitas vezes desembarcaram de seus magníficos
navios, para lutar em trincheiras na defesa do solo pátrio.
Depois do conflito, uma só questão dominava todas as outras: retomar as províncias perdidas a
revanche. Não se tinha em absoluto necessidade da Marinha para isso e convinha reduzi-la para não
desperdiçar créditos que eram necessários noutros lugares. Como a França não tinha interesses no mar para
justificar a existência da Marinha, uma vez ainda, conforme a frase de seu ministro, o Almirante Pothuan,
a Marinha deveria sacrificar-se no altar da pátria. De novo desabava a grandeza da Marinha, grandeza toda
artificial, criada por um regime de prestígio e ligada à sorte deste. O programa de 1872 fixou os destinos
da Marinha Republicana. Dos 400 navios do Império, foram conservados apenas 217. A Marinha foi,
portanto, sacrificada no altar da pátria. Thiers reduziu brutalmente seu orçamento, qualificando-a de arma
de luxo. O próprio Ministro da Marinha, Almirante Pothuan, declarou do alto da tribuna: “Todos os esforços
devem ser feitos do lado da terra. De que nos serviria agora uma marinha?".
Napoleão Bonaparte
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A partir da oitava década do século XIX, a França começou a perder a sua posição privilegiada de
grande potência econômica. Foi ultrapassada em produção industrial e desenvolvimento comercial, pela
Alemanha e pelos Estados Unidos. As causas desse fenômeno eram a paralisação, acusada desde vários
anos, do processo demográfico, assim como da falta de suficientes reservas carboníferas, circunstâncias
que dificultavam o crescimento da grande indústria. O tráfego ultramarino francês mostrou crescente
empenho em se servir das companhias de navegação de outros países, mas baratas e rápidas, em vez de
navegar sob o pavilhão nacional. Foi essa a causa da navegação na França não participar do florescimento
da frota mundial. De 1866 a 1900, ela permaneceu quase estacionária em um milhão de toneladas, e a
construção naval chegou quase à paralisação durante o último decênio anterior à Primeira Grande Guerra.
Em oposição, a França retornou aos empreendimentos coloniais paralisados desde a conquista da
Algéria e da aventura no México. A primeira das grandes operações coloniais foi à conquista da Tunísia
em 1881. Seguiu-se a da Indochina em 1884-85 e a de Madagascar em 1893, sem falar noutras menores
levadas a cabo em vários pontos da África e da Oceania. Em todos esses empreendimentos, a Marinha de
Guerra francesa teve atuação de primeira plana, ou destruindo as forças navais inimigas, ou reduzindo as
fortificações terrestres, ou, enfim, apoiando as tropas de desembarque.
Data também do final do século XIX o movimento chamado de “Jovem Escola” o qual causou não
pequenos prejuízos ao desenvolvimento da Marinha de Guerra francesa. A Jovem Escola defendia a
construção de uma esquadra numerosa de pequenos navios, sobretudo torpedeiros. A aparição do torpedo
e da mina perturbou os espíritos e o debate veio a público. Bem menos que por uma reforma administrativa
das instituições, uma opinião incompetente mal esclarecida apaixonou-se por uma reforma de concepções
da guerra naval. Uma grave crise de idéias se declarou e em consequência a Marinha francesa viu sua força
profundamente abalada. Agradava ao espírito francês mal avisado das realidades navais desprezar uma
força que achava brutal, substituindo-a pelos recursos de um espírito inovador e fecundo. A França que
nunca antes se tinha interessado pela Marinha ficou com febre. Dessa falta de uniformidade de vistas e das
contínuas mudanças de governo resultou uma armada numerosa, mas heterogênea. Malgrado os sacrifícios
consentidos pelo país, a Marinha francesa, nas vésperas da Primeira Grande Guerra, havia caído para o
quinto lugar, se bem que seu Império Colonial fosse o segundo do mundo. A razão básica dessa queda devia
de novo ser procurada na fraqueza da Marinha Mercante que, malgrado todos os esforços frequentemente
grandes do Governo, não conseguiu acordar de seu longo sono.
Tivesse tido a França uma Marinha Mercante florescente, rica e poderosa, com numerosos interesses
no mar, não haveria lugar para discussões bizantinas como a da Jovem Escola. A voz dos interesses
ameaçados faria prevalecer a verdadeira doutrina de que, numa questão de força como a guerra, deve-se ter
poder. Mas a Marinha Mercante francesa em 1914 era menos da metade da alemã e apenas um décimo da
britânica. Tendo perdido cerca de 920 mil toneladas durante a guerra, graças ao tratado de paz, a Marinha
Mercante francesa recuperou a tonelagem afundada, alcançando, em 1921, a 2 milhões e trezentas mil
toneladas. Entre os dois conflitos mundiais, pouco progresso realizou. Enquanto a Inglaterra voltava a ter
nos mares mais de 20 milhões de toneladas de navios mercantes e a Alemanha, partindo novamente do zero,
ultrapassava os cinco milhões, a França, em vinte anos, aumentava sua Marinha de comércio de 2 milhões
e trezentas mil para dois milhões e setecentas mil toneladas.
A Marinha de Guerra, em contraste, tendo adotado linhas seguras para sua evolução, e se
beneficiando da longa continuidade ministerial de Georges Leygues, passou a ocupar o quarto lugar na
tonelagem. As forças navais francesas perderam seu antigo aspecto heterogêneo, e a qualidade do material
ganhou reputação. Todavia, quase toda sua magnífica obra de mais de vinte anos desapareceu com a
Segunda Guerra Mundial.
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No início da Segunda Grande Guerra o domínio alemão na
Europa fica patente com a expulsão dos ingleses de Dunquerque
e os armistícios assinados pela França com a Itália e Alemanha,
em junho de 1940, que dividem o território francês em duas
partes. Os alemães visavam contornar as poderosas fortificações
francesas da Linha Maginot, construídas anos antes na fronteira
da França com a Alemanha. Com os britânicos e franceses
julgando que se repetiria a guerra de trincheiras da 1ª GM, e
graças à combinação de ofensivas de pára-quedistas com rápidas
manobras de blindados em combinação com rápidos
deslocamentos de infantaria motorizada (a chamada "guerra-
relâmpago" - Blitzkrieg, em alemão), os alemães derrotaram sem
grande dificuldade as forças franco-britânicas, destacadas para a
defesa da França. Nesse momento, a Alemanha nazista controla a
Áustria, Tchecoslováquia, Dinamarca, Noruega e a maior parte
da França. Toda a costa ocidental da Europa pertence ao III Reich
e não resta nenhuma tropa inglesa no continente. Os ingleses,
violentamente bombardeados, dia e noite, resistem aos nazistas.
Na Batalha da Inglaterra, no verão de 1940, a aviação inglesa,
RAF (Royal Air Force), consegue rechaçar os ataques da
Luftwaffe (aviação alemã).
Com a divisão da França, o primeiro-ministro francês, marechal Henri Phillipe Pétain, assume poderes
ditatoriais em 1940 e transfere a capital para Vichy, uma vez que Paris está ocupada pelas tropas alemãs.
O governo de Vichy é antirrepublicano, conservador, e colabora estreitamente com os nazistas, sobretudo
de janeiro de 1941 até a ocupação alemã, em novembro de 1942.
Enquanto isso, um grupo de franceses, sob a liderança de Charles De Gaulle, retira-se para Londres e
apresenta-se como governo alternativo a Vichy. O movimento, chamado "França Livre", entra em contato
com as organizações de resistência aos alemães na França ocupada, a "Resistência", em busca de apoio nas
colônias francesas da África.
No Mediterrâneo Oriental a situação era melhor. A Turquia, ao contrário do que acontecera