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1 TBL 1 UCXIV EPILEPSIA DEFINIÇÃO DE EPILEPSIA E DE CRISE EPILÉPTICA A epilepsia, a doença neurológica grave mais comum, ocorre em todas as idades e se caracteriza por uma variedade de apresentações e etiologias. É definida como um distúrbio cerebral caracterizado por predisposição permanente de gerar crises epilépticas e por suas consequências neurobiológicas cognitivas, psicológicas e sociais. A pessoa com epilepsia deve ser percebida e avaliada na sua totalidade. A partir dela, entende-se ainda que o tratamento na epilepsia vise não apenas o controle das crises, mas também todos os distúrbios delas decorrentes. Entende-se ainda que o tratamento deva respeitar as características de cada indivíduo. Do ponto de vista operacional define-se epilepsia como uma doença encefálica caracterizada por uma das condições seguintes: Pelo menos duas crises não provocadas (ou reflexas) ocorrendo em intervalo superior a 24 horas. Uma crise não provocada (ou reflexa) e uma probabilidade de crises subsequentes semelhante ao risco geral de recorrência (pelo menos de 60%) após duas crises não provocadas, ocorrendo nos próximos 10 anos. Diagnóstico de uma síndrome epiléptica. Epilepsia é considerada resolvida para indivíduos que tiveram uma síndrome epiléptica idade-dependente mas agora passaram a idade vulnerável ou aqueles que permaneceram livres de crises por pelo menos 10 anos, sem medicações antiepilépticas pelos últimos 5 anos. Crise epiléptica é a ocorrência de sinais e/ou sintomas transitórios devidos a uma atividade neuronal anormal, excessiva e síncrona no cérebro. CLASSIFICAÇÃO DAS CRISES EPILÉPTICAS Em 1981 a Comissão de Terminologia da ILAE avaliou centenas de registros de vídeo-EEG para desenvolver recomendações que dividiram as crises epilépticas entre as de início parcial e generalizado, e as crises parciais em crises parciais simples e complexas e vários tipos específicos de crises generalizadas. Ainda utilizada. Após um hiato de 35 anos, a disseminação de serviços de vídeo-EEG por todo o mundo e o advento de modalidades diagnósticas como estudos de neuroimagem estrutural e genética, exigiram uma revisão da Classificação de 1981. A primeira tarefa do clínico é determinar se um evento tem as características de uma crise epiléptica e não de um dos muitos imitadores de crises. O próximo passo é a classificação do(s) tipo(s) de crise(s). Tendo como lema uma citação de Albert Einstein: “Torne as coisas o mais simples possível, mas não seja simplista”, a nova classificação ainda é semiológica, mas permite que todas as modalidades de exames complementares sejam associadas às manifestações clínicas das crises com o objetivo final de chegar ao diagnóstico etiológico das mesmas e com ele ao tratamento mais adequado e ao estabelecimento do prognóstico da doença. CLASSIFICAÇÃO DE 2017 A nova Classificação das Crises Epilépticas da ILAE publicada em dois esquemas, um simplificado para uso por leigos e um expandido, para profissionais da área, considera quatro grupos de crises epilépticas: 1. Crises focais; 2 TBL 1 UCXIV 2. Crises generalizadas; 3. Crises de início desconhecido 4. Crises não classificáveis. Crises epilépticas focais: são aquelas que se originam em redes neuronais limitadas a um hemisfério cerebral, as quais podem ser restritas ou distribuídas de forma mais ampla. Crises epilépticas generalizadas: são aquelas que se originam em algum ponto de uma rede neuronal e rapidamente envolvem e se distribuem em redes neuronais bilaterais. CRISES FOCAIS: o Crises focais são divididas em perceptivas- quando a percepção de si próprio e do meio ambiente é preservada e disperceptivas ou com comprometimento da percepção quando a percepção é comprometida. o As crises focais, podem ser motoras (sete subtipos) ou não motoras (cinco subtipos), e ambos os tipos podem evoluir para crises tonicoclônicas bilaterais. CRISES GENELARIZADAS: Crises generalizadas são também subdivididas em crises motoras e não motoras (ausências). Há oito subtipos de crises generalizadas motoras e quatro subtipos de ausências como não motoras. A diferenciação destes subtipos de ausências é fundamental para o estabelecimento do diagnóstico sindrômico e do prognóstico. CRISES DE INÍCIO DESCONHECIDO Crises de início desconhecido por não terem sido integralmente testemunhadas, por exemplo, que seriam referidas pela simples palavra “não classificadas” na Classificação de 1981 podem agora receber características adicionais, incluindo motoras e não motoras. Um tipo de crise de início desconhecido pode posteriormente ser classificado tanto como de início focal quanto de início generalizado quando estiverem disponíveis exames complementares como EEG, neuroimagem ou testes genéticos. Finalmente, pode ser impossível classificar uma crise epiléptica, tanto por informações incompletas como pela natureza incomum da crise; nesse caso deverá ser chamada de crise epiléptica não classificada. 3 TBL 1 UCXIV Categorização como não classificada deve ser feita somente em situações excepcionais quando o clínico está seguro de que o evento é uma crise epiléptica, mas não consegue prosseguir na classificação do evento. Por que o termo crises focais substitui o termo crises parciais? Em 1981, os participantes da comissão rejeitaram designar como “focal” uma crise que poderia envolver um hemisfério inteiro, então preferiram o termo “parcial”. A terminologia de 1981 estava de alguma forma prevendo a ênfase moderna de circuitos neurais, mas “parcial” pode transmitir a ideia errônea de que se trata de uma parte da crise em vez da localização ou do sistema anatômico. O termo focal é mais compreensível em termos de localização do início da crise. Por que crises perceptivas e disperceptivas e não crises com preservação e comprometimento da consciência? A Classificação de 1981 sugeriu uma diferenciação fundamental entre crises sem e com comprometimento da consciência (crises parciais simples e complexas).3 Esta diferenciação é fundamental, pois apresenta impacto significativo na vida do paciente. Estes termos foram retirados da presente classificação. A menção do termo crise parcial simples pode banalizar o impacto da crise a um paciente que não crê que as manifestações e consequências de suas crises sejam de forma alguma simples; por outro lado, a menção de que suas crises são parciais complexas pode significar a ele e seus familiares que esse tipo de crise é mais complicado ou difícil para entender (e tratar...) do que outros tipos de crises. Um classificador não treinado poderia considerar que, para mostrar comprometimento da consciência durante uma crise epiléptica, uma pessoa precisaria estar no solo, imóvel, não perceptiva e não reativa (ou seja, “desmaiada”). Consciência é um fenômeno complexo que envolve componentes subjetivos e objetivos com quatro elementos fundamentais: 1. a percepção de si próprio; 2. a percepção do ambiente; 3. a responsidade; 4. a memória. Cada um dos quais é variavelmente comprometido durante as crises epilépticas. A Comissão de Terminologia da ILAE resolveu utilizar o comprometimento ou não da percepção de si próprio e do meio como os componentes fundamentais da alteração que pode ocorrer durante crises focais, pois a responsividade nem sempre é avaliada durante as mesmas e a memória dos fatos ocorridos durante a crise é variavelmente afetada. Por que crises focais evoluindo para tonicoclônicas bilaterais? O tipo de crise “focal evoluindo para tonicoclônica bilateral” é um tipo especial de crise, que corresponde ao termo de 1981 “crise parcial com generalização secundária”. O termo “evoluindo para tonicoclônica bilateral” em vez de “secundariamente generalizada” foi usado para distinguir uma crise de início focal da crise de iníciogeneralizado. O termo “bilateral” é usado para padrões de propagação e “generalizado” para crises epilépticas que envolvem circuitos bilaterais desde o início. Por que crises de início desconhecido? Clínicos comumente ouvem relatos sobre crises tonicoclônicas nas quais o início não foi presenciado. Talvez o paciente estivesse dormindo, sozinho ou os observadores estavam emocionalmente muito afetados pelas manifestações da crise para perceber a presença de características focais. Deveria haver uma oportunidade de classificar provisoriamente essa crise, mesmo na ausência de conhecimento sobre sua origem. A Classificação de 4 TBL 1 UCXIV 2017 permite descrições adicionais das crises de início desconhecido quando características-chave, como atividade tonicoclônica ou parada comportamental são observadas durante o curso da crise. NOVOS TIPOS DE CRISES FOCAIS Alguns tipos de crises que previamente eram descritos somente como crises generalizadas, agora aparecem também como crises de início focal, generalizado ou desconhecido. Novos tipos de crises focais incluem: Automatismos Autonômicas De parada comportamental Cognitivas (com fenômenos cognitivos negativos, como, por exemplo, nas crises afásicas, ou positivos, como déjà vu, jamais vu, ilusões ou alucinações) Emocionais, Hipercinéticas Sensoriais Focais evoluindo para crises tonicoclônicas bilaterais Crises atônicas, clônicas, espasmos epilépticos, mioclônicas e tônicas podem ter início focal ou generalizado. Esta diferenciação é muito importante, pois uma crise focal tônica ou mioclônica ou espasmos epilépticos focais podem ser a manifestação epiléptica de uma lesão estrutural localizada. Crise focal evoluindo para tonicoclônica bilateral é um novo tipo, renomeando “crise secundariamente generalizada”. NOVOS TIPOS DE CRISES GENERALIZADAS Novos tipos de crises generalizadas incluem: Ausências com mioclonias palpebrais Crises mioclono-atônicas Crises mioclono-tonicoclônicas Crises com mioclonias palpebrais poderiam ser inseridas na categoria motora, mas como mioclonias palpebrais são mais significantes como características de crises de ausência, crises com mioclonias palpebrais foram inseridas na categoria não motora/ausência. Similarmente, crises de ausências mioclônicas potencialmente têm características tanto de ausências quanto de crises motoras e poderiam ser colocadas em qualquer grupo. Espasmos epilépticos : são crises representadas nas categorias de início focal, generalizado e desconhecido e a distinção pode requerer registro de vídeo-EEG. O termo “epiléptico” está implícito para todos tipos de crise, mas foi explicitamente apontado nos espasmos epilépticos, em decorrência da ambiguidade da palavra “espasmo” em neurologia. o REGRAS PARA CLASSIFICAR • Ao classificar crises, ao decidir se as crises têm início focal ou generalizado, o médico deve usar o intervalo de confiança de 80%. • Se a percepção é comprometida em qualquer ponto durante uma crise focal, ela será classificada como crise focal disperceptiva. • O primeiro sinal ou sintoma proeminente de uma crise focal deve ser usado para a classificação, com exceção da parada comportamental transitória. Uma crise focal somente será considerada uma crise de parada comportamental se este sintoma for a característica mais proeminente de toda a crise. 5 TBL 1 UCXIV • Clínicos são encorajados a acrescentar a descrição de outros sinais e sintomas. • É possível usar exames complementares para a classificação. • Crises podem ser não classificadas por informação inadequada ou incapacidade de inseri-la em outras categorias. Em resumo, a nova Classificação das Crises Epilépticas representa uma evolução nos conceitos das crises epilépticas e muito provavelmente atingirá seu principal objetivo, ou seja, auxiliar o clínico a alcançar o diagnóstico etiológico das crises e com ele melhorar a abordagem terapêutica e o prognóstico de pacientes com epilepsia. CLASSIFICAÇÃO DAS EPILEPSIAS A classificação das epilepsias tem propósitos clínicos, mas influencia e exerce impacto não apenas nas consultas na área da epilepsia como também nas pesquisas básicas e clínicas e no desenvolvimento de novas terapias. Nesta revisão, a denominação Classificação das Epilepsias substitui o termo Organização das Crises Epilépticas e das Epilepsias proposto por Berg et al. em 2010.6 ESQUEMA DIAGNÓSTICO O esquema diagnóstico para a classificação das epilepsias oferece a possibilidade de diagnóstico em múltiplos níveis, dependendo da informação e dos recursos disponíveis. Nele, o primeiro passo (nível 1) consiste em estabelecer se um determinado evento paroxístico é uma crise epiléptica. Uma vez que este diagnóstico tenha sido estabelecido clinicamente (ou através de exames auxiliares, como EEG, vídeo-EEG ou ambos), o próximo passo será classificar o(s) tipo(s) de crise(s). Algumas vezes o diagnóstico precisará ser interrompido a este nível, pois em algumas situações, como quando estamos diante de uma primeira crise epiléptica, não será possível prosseguir para os próximos níveis. Na maioria das vezes, no entanto, será possível chegar ao nível 2, ou seja, tentar classificar a epilepsia com base no(s) tipo(s) de crise(s). No nível 2 as epilepsias deverão ser classificadas como focais, generalizadas, focais e generalizadas (quando ambos os tipos de crises estiverem presentes) ou desconhecidas (quando for impossível classificar as crises como focais ou generalizadas). 6 TBL 1 UCXIV No próximo passo (nível 3) vamos tentar estabelecer o diagnóstico de uma síndrome epiléptica. Uma síndrome epiléptica é um conjunto de características clínicas, eletroencefalográficas, imagenológicas e etiológicas. Embora o esquema diagnóstico enfatize em todos os seus três níveis que é fundamental estabelecer a etiologia da epilepsia (no esquema diagnóstico à direita, na barra vertical, estão os seis grupos etiológicos), é o quarto nível (nível 4) que define o diagnóstico da epilepsia e sua etiologia. Em algumas circunstâncias, mesmo sem o estabelecimento da síndrome epiléptica, é possível estabelecer o diagnóstico etiológico. Um exemplo de uma destas condições é a definição de que a etiologia da epilepsia de um determinado paciente é uma mutação na subunidade alfa 1 do canal de sódio (SCN1A), a qual é encontrada em um espectro de manifestações clínicas, de gravidade crescente, desde crises febris simples até a síndrome de Dravet, no extremo mais grave deste espectro. Embora em todos os níveis nossa atenção deva estar voltada para o estabelecimento da etiologia da epilepsia, infelizmente, em vários deles, a etiologia não poderá ser estabelecida a despeito de todos os nossos esforços. Em outros casos, verificaremos mais de uma etiologia para uma mesma epilepsia. Assim, a epilepsia pode ter duas etiologias como, por exemplo, uma estrutural e outra genética, como é o caso da esclerose tuberosa. Nesta, ambas as etiologias acarretam implicações terapêuticas fundamentais como a ressecção da lesão estrutural, ou seja, de um túber, ou o uso de inibidores da mTOR (mammaliam-Target of Rapamycin – alvo da rapacimicina em mamíferos) no tratamento medicamentoso que promoverá uma interferência na via do distúrbio genético. Finalmente, encerrando o esquema diagnóstico, pacientes com epilepsia podem apresentar uma gama ampla de comorbidades (representadas na elipse à esquerda), as quais podem ser encontradas em qualquer forma das doenças epilépticas e também podem contribuir para o diagnóstico etiológico. Assim, por exemplo, meninas com mutações no gene PCDH-19 que produz a proteína protocaderina 19 (PCDH-19) apresentam alterações comportamentais com características do espectro autista e episódios de terror os quais são, de longe, mais graves do que ascrises epilépticas per se. Termos importantes para caracterização das epilepsias. Genético Até agora, uma mutação genética é reconhecida em algumas poucas formas de epilepsias e uma mesma mutação pode determinar várias síndromes epilépticas. Em poucas destas síndromes as mutações são familiares. A maioria delas é de mutações de novo, ou seja, que ocorrem apenas em um indivíduo de uma família. Assim, o termo genético não é sinônimo de hereditário, e na maioria das epilepsias não há, ainda, demonstração inequívoca do fator genético determinante da doença. Epilepsias generalizadas genéticas O termo “idiopático” foi usado na classificação das etiologias das epilepsias de 19897 quando a etiologia de uma forma de epilepsia era “presumivelmente genética”. Nele se enquadravam as epilepsias generalizadas idiopáticas, um grupo muito importante, pois contribui para 25% de todas as epilepsias constituídas pela epilepsia ausência da infância, epilepsia ausência juvenil, epilepsia mioclônica juvenil e epilepsia apenas com crises tônico-clônicas generalizadas. Nestas síndromes, estudos de gêmeos e de famílias com grande número de indivíduos afetados sugerem fortemente um componente genético, embora na maioria delas ainda não tenham sido individualizados genes específicos. Para este grupo, o termo etiologia de origem desconhecida poderia ser 7 TBL 1 UCXIV utilizado. No entanto, em algumas famílias com estas epilepsias, como na epilepsia mioclônica juvenil, já foram identificados os genes EFHC1 e GABRA, entre outros, fazendo, assim, que a epilepsia destas famílias seja mais bem definida como de etiologia genética. Ainda se busca uma melhor denominação para este grupo de síndromes epilépticas, como, por exemplo, epilepsias generalizadas genéticas ou epilepsias generalizadas de etiologia genética ou desconhecida. Encefalopatia epiléptica e do desenvolvimento Este termo, embora não utilizado neste esquema diagnóstico, tem sido amplamente utilizado na área de epilepsia nas últimas décadas. A definição de Berg et al. em 2010 introduziu a noção de que, em algumas epilepsias, a atividade epileptiforme per se contribui para comprometimentos cognitivos e comportamentais acima e além do que os que seriam esperados pela patologia subjacente. Estes comprometimentos, sejam eles seletivos ou globais, expressariam um espectro de gravidade e poderiam piorar com o passar do tempo. Desde a década de 1970 se reconhece, especialmente em lactentes e crianças pequenas, que, enquanto a presença de atividade epileptiforme abundante promove alentecimento cognitivo e regressão no desenvolvimento associados a consequências psiquiátricas e comportamentais, a melhora deste padrão eletroencefalográfico pode promover melhor prognóstico por prevenir as consequências deletérias observadas neste grupo de epilepsias em um estágio crítico do desenvolvimento neurológico. Há algumas síndromes em que este fato definitivamente ocorre como nas clássicas síndromes de West e de Lennox-Gastaut, mas há algumas encefalopatias mais recentemente reconhecidas em que também se evidencia claramente esta associação, como nas encefalopatias CDKL5 (síndrome de Rett atípica) e CHD2. Em outras, contudo, muito provavelmente, apenas a presença de atividade epileptiforme não é suficiente para deflagrar vários destes prejuízos. Assim, na síndrome de Dravet, uma epilepsia tida como um protótipo das “encefalopatias epilépticas”, a regressão neurológica e comportamental já é evidente entre 1 e 2 anos de idade, em uma época em que as alterações eletroencefalográficas ainda não estão presentes ou são pouco importantes. Nesta doença há, portanto, dois componentes, o primeiro relativo ao desenvolvimento e o segundo, epiléptico, ambos determinados, em 80% dos casos, por alguma das mutações hoje conhecidas no gene SCN1A. Ao descrever este grupo de doenças epilépticas podem-se utilizar os termos isoladamente, “encefalopatia epiléptica”, “encefalopatia do desenvolvimento” ou conjuntamente “encefalopatia epiléptica e do desenvolvimento”. Epilepsias autolimitadas A proposta da Organização das Crises Epilépticas e Epilepsias de 20106 já sugeria o abandono do termo benigno. De fato, nas anteriormente denominadas epilepsias benignas há diferentes graus de comorbidades, desde dificuldades de aprendizado a transtornos do espectro autista. O termo benigno subestimaria a gravidade destas comorbidades. Foram sugeridas as denominações epilepsias autolimitadas, implicando que as mesmas se resolvem com o tempo ou epilepsias farmacorresponsivas, pois nelas as crises são facilmente controladas com o uso de fármacos antiepilépticos adequados. TRATAMENTO MEDICAMENTOSO Os fármacos antiepilépticos (FAEs) constituem a principal forma de tratamento das epilepsias. Atualmente existe uma grande variedade de FAEs disponíveis. O tratamento das epilepsias nem sempre é fácil, e pontos 8 TBL 1 UCXIV críticos como a decisão de iniciar e interromper o tratamento, assim como a escolha da medicação mais apropriada, permanecem como assuntos de grande interesse. O tratamento moderno das epilepsias é individualizado. Desta forma, diversas particularidades do paciente e da patologia devem ser consideradas durante todas as etapas do tratamento. QUANDO INICIAR AS MEDICAÇÕES o ANTIEPILÉPTICAS A decisão de iniciar um tratamento deve levar em consideração que os FAEs também oferecem um risco potencial e podem ter impacto negativo na qualidade de vida do paciente. Esta decisão é ainda mais relevante considerando que a duração do tratamento em geral é longa. Portanto, o início do tratamento deve ser cuidadosamente ponderado, sobretudo nos pacientes com crise epiléptica única. Crises epilépticas podem ocorrer em vigência de uma condição transitória e reversível, sendo denominadas crises sintomáticas agudas. Estas crises não necessariamente requerem tratamento com FAEs, mas sim controle do fator desencadeante. Crises sintomáticas agudas correspondem a até 25%-30% das crises epilépticas. A sua pronta identificação é importante, uma vez que o risco de mortalidade em 30 dias é nove vezes maior e o risco de recorrência das crises em 10 anos é 80% menor comparado com as crises epilépticas não provocadas. No caso de uma primeira crise epiléptica não provocada, as chances de recorrência variam de 31% a 56% com um tempo de acompanhamento de 2 a 5 anos. Este risco aumenta, após a segunda crise, para 73% e, depois da terceira, para 76%. Por isso, em geral o tratamento medicamentoso é instituído após uma segunda crise não provocada. A maioria das recorrências ocorre no primeiro ano e os fatores associados a maior risco incluem a presença de uma etiologia estrutural, alterações no exame neurológico e predomínio das crises durante o sono. O eletroencefalograma (EEG) é frequentemente utilizado para avaliar o risco de recorrência de crises, e a atividade epileptiforme está associada ao maior risco de recorrência. Cabe ressaltar que a sensibilidade do EEG em predizer a recorrência após uma primeira crise varia de 48% a 61% e a especificidade (pacientes sem anormalidades epileptiformes que realmente não apresentam recorrência) é de 71% a 91%. O uso de FAEs após uma primeira crise reduz o risco de crises subsequentes, entretanto o tratamento não afeta o prognóstico de controle das crises e não modifica a história natural da epilepsia. Assim, o tratamento precoce é justificável nos pacientes com vários fatores de risco para recorrência das crises ou naqueles em que a recorrência oferece potenciais consequências relacionadas com a direção de veículos, o trabalho e a segurança em geral. QUANDO PARAR AS MEDICAÇÕES o ANTIEPILÉPTICAS A maioria dos pacientes com epilepsia apresenta bom controle das crises. Remissão foi observada em 86% dos pacientes durante 3 anos e 68% em 5 anos. Entreas razões para interromper o tratamento estão os efeitos adversos, potencial efeito teratogênico, inconveniências do tratamento medicamentoso e efeitos adversos associados ao uso crônico de um FAE. A probabilidade de retorno das crises após a interrupção de FAEs varia de 12% a 63%, sendo que a maioria dos estudos mostra um risco inferior a 41%. Vários fatores estão associados ao risco de recorrência. Entre eles destaca- se a classificação da síndrome epiléptica. Epilepsia ausência infantil e epilepsia focal benigna da infância com espículas centrotemporais apresentam baixa porcentagem de recorrência. Por outro lado, epilepsia 9 TBL 1 UCXIV mioclônica juvenil e epilepsia de lobo temporal estão relacionadas com elevada taxa de retorno das crises. Um dos fatores mais consistentes para o risco de recorrência é a idade de início das crises. Crises com início após 10- 12 anos apresentam perfil desfavorável para a retirada dos FAEs. Outro importante dado é que, quanto maior o tempo sem crises, maior a chance de permanecer sem crises após a interrupção dos FAEs. Portanto, em geral, a retirada das medicações é considerada quando o paciente permanece por 2 anos sem crises. Os fatores de risco para recorrência precisam ser investigados criteriosamente. O EEG é um exame útil na determinação do risco de recorrência. Entretanto, deve ser utilizado com cautela, pois certa controvérsia ainda existe na literatura. Além disso, as limitações relacionadas com a sensibilidade do exame também precisam ser consideradas. Tanto anormalidades epileptiformes quanto não epileptiformes estão associadas a maior risco de recorrência. No caso de recorrência das crises após a descontinuação de FAEs, complicações como estado de mal epiléptico, traumatismos e morte são consideradas bastante raras. Com relação ao controle das crises após a reintrodução da medicação, 95% dos pacientes apresentaram 1 ano de remissão em 3 anos de seguimento; e 90%, 2 anos de remissão em 5 anos de seguimento. Os FAEs devem ser retirados de forma gradual e um de cada vez, no caso de politerapia. Com relação ao tempo de retirada, não há evidência suficiente na literatura. Em comparação com as outras medicações, os barbitúricos e os benzodiazepínicos precisam ser retirados de forma ainda mais lenta. REGRAS GERAIS PARA O TRATAMENTO DAS EPILEPSIAS Existe uma ampla disponibilidade de FAEs e formas de apresentação para o tratamento das epilepsias . O princípio mais importante na escolha do FAE é selecionar a medicação mais eficaz para o tipo de crise ou síndrome epiléptica em questão, o que pode ser encontrado nos guias com base em evidência. O segundo passo é considerar o perfil de efeitos adversos da medicação escolhida. Neste passo, as características individuais de cada paciente devem ser analisadas. Portanto, identificar se o paciente se enquadra em classes especiais, como idosos, crianças, mulheres em idade fértil ou a presença de comorbidades como depressão, migrânea, dor crônica e obesidade, auxilia na escolha do FAE mais apropriado. Finalmente, precisamos considerar a conveniência da medicação selecionando, então, a apresentação mais adequada. FAEs com uma ou duas tomadas diárias facilitam a adesão ao tratamento. O custo também é um importante ponto a ser avaliado. 10 TBL 1 UCXIV O uso de monoterapia é preferido, e a titulação da medicação selecionada deve ser realizada de forma gradual, minimizando o risco de efeitos adversos. Em caso da falha no controle das crises, a dose deve ser aumentada até a máxima tolerada antes de afirmar que uma medicação foi ineficaz. Dose máxima tolerada é a maior quantidade de FAE que o paciente é capaz de tomar sem a indução de efeitos adversos. Se os efeitos adversos ocorrerem, a medicação deve ser reduzida até a dose que não os produziu, ou seja, a dose máxima tolerada. Na necessidade de troca, a medicação nova deve ser introduzida até sua dose-alvo. Sua eficácia e tolerabilidade devem ser observadas. Em seguida, o primeiro FAE pode ser gradualmente retirado. ESCOLHA DA MEDICAÇÃO Epilepsias focais: existem poucos estudos de elevado nível de evidência mostrando maior eficácia de qualquer FAE sobre outro para crises de início focal e em monoterapia. Carbamazepina apresentou o melhor equilíbrio entre eficácia e tolerabilidade em um estudo comparativo que também incluiu fenitoína, fenobarbital e primidona. A partir deste estudo, a carbamazepina é geralmente considerada uma das primeiras opções para monoterapia inicial em pacientes adultos com epilepsias focais. O uso da carbamazepina diminuiu com o aparecimento de novas medicações com perfil farmacocinético melhor. Lamotrigina é mais tolerada que a carbamazepina de liberação imediata. Entretanto, estudos avaliando a carbamazepina de liberação prolongada mostram perfil semelhante à lamotrigina e ao levetiracetam também consideradas medicações de primeira linha para o tratamento das epilepsias focais. Epilepsias generalizadas: as evidências para as crises generalizadas são ainda mais escassas. Entretanto, o Valproato é a medicação considerada mais eficaz para pacientes com crises generalizadas incluindo ausências e mioclonias. Levetiracetam e lamotrigina também são considerados FAEs de primeira linha neste grupo de epilepsias. O valproato deve ser evitado em mulheres devido ao risco de teratogenicidade. Etossuximida é classicamente avaliada como a medicação de escolha para crises de ausência, entretanto ela não tem ação contra outros tipos de crise. Em um estudo envolvendo crianças com crises de ausência, a etossuximida foi comparada com valproato e lamotrigina. Os autores concluíram que, na epilepsia ausência infantil, a etossuximida é a terapia ótima inicial tanto pelo melhor controle das crises, quanto pelo menor efeito adverso na atenção destas crianças. Bloqueadores de canal de sódio como a carbamazepina e a fenitoína não devem ser utilizados nas epilepsias generalizadas idiopáticas, porque podem piorar as crises e induzir estado de mal epiléptico. Individualizando o tratamento: para a seleção da medicação antiepiléptica, o perfil único do paciente deve ser respeitado. Pacientes com epilepsia frequentemente apresentam comorbidades e o uso racional dos FAEs pode melhorar o controle das crises, minimizando o risco dos efeitos adversos. Algumas medicações podem ser selecionadas com o objetivo de tratar duas patologias. PRINCIPAIS FÁRMACOS ANTIEPILÉPTICOS Benzodiazepínicos Atuam principalmente no receptor tipo A do ácido gama-aminobutírico (GABA-A) aumentando a frequência de abertura dos canais de cloro. Os mais utilizados para o tratamento das epilepsias são o clobazam e o clonazepam. 11 TBL 1 UCXIV O clobazam é o único 1,5-benzodiazepínico, os demais são 1,4- benzodiazepínicos. Esta diferença bioquímica pode estar relacionada com os efeitos clínicos favoráveis desta medicação. Prática clínica: os benzodiazepínicos, e principalmente o clobazam, são geralmente utilizados na terapia adjuvante de epilepsias refratárias. O clonazepam pode ser utilizado para o tratamento de mioclonias. Em pacientes com epilepsia mioclônica juvenil o uso do clonazepam deve ser feito com cautela, pois as mioclonias podem ser o único aviso de uma crise tonicoclônica generalizada iminente. Carbamazepina Seu mecanismo de ação é por meio da ligação com canais de sódio em estado ativo prolongando o estado de inativação rápida. A carbamazepina é metabolizada no fígado pelo citocromo P450 e principalmente pela enzima 3A4. Seu metabólito mais importante é o carbamazepina-12,11- epóxido. É um metabólito ativo também responsável por alguns efeitos adversos. A carbamazepina é um potente indutor enzimático. Desta forma, esta medicação reduz o nível sérico de medicações e substâncias endógenas metabolizadas pelo sistema enzimático do citocromoP450. Prática clínica: a carbamazepina permanece como uma das medicações de primeira linha para o tratamento das epilepsias focais. Seu efeito indutor deve ser considerado durante a escolha. Esta medicação também pode ser utilizada para o tratamento da neuralgia do trigêmio, mania aguda e transtorno bipolar. Etossuximida O mecanismo de ação é por meio do bloqueio das correntes de cálcio tipo T explicando sua ação nas crises de ausência. Prática clínica: é a medicação de escolha para epilepsia ausência quando o indivíduo apresenta apenas crises de ausência. Fenitoína O mecanismo de ação da fenitoína é semelhante ao da carbamazepina. Ela bloqueia os canais de sódio reduzindo o disparo neuronal de alta frequência. É uma medicação com elevada taxa de ligação proteica (90%), portanto sua fração livre pode variar na insuficiência hepática e renal, em situações de hipoproteinemia, durante a gestação, em idosos e na presença de outras medicações com alta ligação proteica como o valproato. Seu metabolismo é saturável resultando em uma cinética não linear. Deste modo, após determinada concentração, geralmente além do limite terapêutico, pequenos aumentos de dose resultam em aumentos desproporcionais da sua concentração. É potente indutor do sistema microssomal hepático. Prática clínica: o uso da fenitoína tem diminuído por ser medicação indutora enzimática e em decorrências de seus efeitos adversos como hipertrofia gengival. Possui apresentação parenteral sendo ainda muito utilizada no tratamento do estado de mal epiléptico. Fenobarbital Seu mecanismo de ação é por meio da ligação com o receptor GABA-A prolongando a abertura do canal de cloro associado. Prática clínica: o fenobarbital é pouco utilizado por ser um potente indutor enzimático e em decorrência dos efeitos adversos na esfera cognitiva. Entretanto, por ser uma medicação amplamente disponível, ministrada em uma tomada diária e de baixo custo pode ser uma opção para indivíduos com níveis socioeconômicos inferiores. Gabapentina 12 TBL 1 UCXIV Seu mecanismo de ação é por meio da ligação com a unidade alfa-2-delta do canal de cálcio voltagem dependente reduzindo o influxo de cálcio e a liberação de neurotransmissores associados em condições hiperexcitáveis. Apresenta espectro de ação estreito atuando contra crises focais. Prática clínica: frequentemente utilizada para dores neuropáticas. No tratamento das epilepsias pode ser utilizada em idosos, geralmente como adjuvante, ou em pacientes com neuropatias dolorosas como comorbidade. Lacosamida É um bloqueador de canal de sódio. Entretanto, a lacosamida prolonga a inativação lenta de forma oposta à maioria dos bloqueadores de canal de sódio que bloqueiam a inativação rápida. Apresenta excelente perfil farmacocinético. Prática clínica: atualmente utilizada para crises focais e como terapia adjuvante. Lamotrigina É um bloqueador de canal de sódio como a fenitoína e a carbamazepina. Entretanto, deve ter outros mecanismos de ação para explicar sua eficácia contra ausências. É amplamente metabolizada no fígado predominante por glucuronidação. A lamotrigina é um FAE de amplo espectro, porém para ausências é menos eficaz do que o valproato e a etossuximida. Pode ser eficaz para mioclonias em alguns pacientes e exacerbar estas crises em outros. É também utilizada para o tratamento do transtorno bipolar. Sua titulação deve ser feita de forma lenta para evitar reações cutâneas. A titulação precisa ser feita de forma ainda mais lenta na presença do valproato. Por outro lado, na presença de indutores sua titulação pode ser mais rápida. Os anticoncepcionais orais reduzem em até 50% o nível sérico de lamotrigina. Assim, quando se inicia o tratamento com anticoncepcionais orais frequentemente é necessário aumentar a dose da lamotrigina. Prática clínica: a lamotrigina é uma medicação de primeira linha para pacientes com epilepsias focais e generalizadas. A lamotrigina apresenta uma das mais baixas taxas de teratogenicidade podendo ser utilizada em mulheres. Entretanto, o manejo em gestantes é difícil devido a queda do nível sérico relacionada com o aumento de sua metabolização. Apresenta efeito sinérgico quando utilizada com o valproato com eficácia maior que a prevista. Levetiracetam O principal mecanismo de ação é a ligação com a proteína sináptica SV2A. Esta ligação resulta em diminuição da liberação de neurotransmissores durante a hiperativação neuronal. É uma medicação de amplo espectro com excelente perfil farmacocinético. Irritabilidade e hostilidade podem ocorrer, principalmente em crianças. Prática clínica: considerado primeira linha para epilepsias focais e generalizadas. O levetiracetam é uma das medicações de escolha para mulheres em idade fértil com epilepsia generalizada idiopática. Oxcarbazepina É um análogo estrutural da carbamazepina, porém com grandes diferenças no metabolismo e nas vias de metabolização. De forma semelhante a carbamazepina e a fenitoína, atua nos canais de sódio inibindo disparos neuronais repetitivos de alta frequência. A oxcarbazepina é rapidamente convertida em seu metabólito ativo, o mono-hidroxi-derivado (MHD ou licarbazepina), que é o responsável pela ação da medicação. De forma oposta a carbamazepina, o efeito indutor da oxcarbazepina é pequeno. Geralmente, pode interagir com contraceptivos orais em doses maiores do 13 TBL 1 UCXIV que 900 mg/dia. A transição da carbamazepina pode ser feita rapidamente utilizando 300 mg de oxcarbazepina para cada 200 mg de carbamazepina sobretudo quando a dose diária da carbamazepina é inferior ou igual a 800 mg. Prática clínica: apresenta eficácia semelhante a fenitoína e a carbamazepina de liberação imediata e provavelmente com tolerabilidade superior. A oxcarbazepina induz mais hiponatremia do que a carbamazepina. Idosos utilizando diuréticos constituem um grupo de alto risco para a hiponatremia. Pregabalina Estruturalmente relacionada com a gabapentina e apresenta mecanismo de ação semelhante. Prática clínica: espectro estreito. Pode ser utilizada da mesma forma que a gabapentina. Primidona É convertida no fígado em fenobarbital e feniletilmalonamida (PEMA) que também é um metabólito ativo. Portanto, seu mecanismo de ação é semelhante ao fenobarbital. A primidona pode ser utilizada para o tratamento do tremor essencial. Entretanto, a primidona é menos tolerada que a carbamazepina, fenitoína e fenobarbital e está associada a uma reação tóxica aguda não relacionada ao fenobarbital. Prática clínica: raramente utilizada. Pode ser utilizada ocasionalmente em pacientes com epilepsia e tremor essencial. Pelos efeitos adversos, deve ser iniciada em doses baixas 50 mg/dia ou menos e gradualmente titulada. Topiramato Apresenta múltiplos mecanismos de ação incluindo antagonismo dos receptores alfa-amino-3-hidroxi-metil-5-4-isoxazolpropiónico (AMPA)/cainato, aumento da atividade do GABA e bloqueio dos canais de sódio voltagem dependentes. É um indutor enzimático leve. Em doses maiores que 200 mg/dia pode reduzir o nível sérico de contraceptivos orais. É uma medicação de amplo espectro. É frequentemente utilizado para tratamento do transtorno bipolar, na profilaxia de migrânea e para perda de peso. A titulação deve ser lenta e o maior problema do topiramato são os efeitos adversos cognitivos. Os pacientes podem não perceber estes efeitos. O topiramato está associado a malformações incluindo fendas orais e baixo peso. Prática clínica: não é considerado medicação de primeira linha devido aos efeitos adversos. Pode ser utilizado em pacientes com migrânea e obesidade como comorbidades. Valproato (ácido valproico e divalproato) Apresenta múltiplos mecanismos de ação incluindo potencialização do GABA, bloqueio dos canais de cálcio tipo T (explicando a eficácia contra crises de ausência)e bloqueio de canais de sódio. Liga-se altamente a proteínas (90%). Sua fração livre aumenta com o aumento da dose e com a coadministração da fenitoína que compete pela ligação proteica. É amplamente metabolizado por conjugação e oxidação. O valproato é um potente inibidor enzimático reduzindo o clearance do fenobarbital, lamotrigina e do epóxido da carbamazepina. Apresenta amplo espectro de ação e pode ser utilizado para o tratamento profilático da migrânea e bipolaridade. Prática clínica: o valproato é uma medicação de primeira linha no tratamento das epilepsias generalizadas idiopáticas. Permanece como primeira escolha em homens com estas síndromes. Entretanto, o valproato 14 TBL 1 UCXIV não deve ser utilizado em mulheres, pois é o FAE mais teratogênico. Os riscos de malformações maiores são superiores a 30% em pacientes com doses maiores que 1.100 mg/dia. Este risco parece ser dose dependente e é ainda maior com politerapia ou histórico de malformações. A exposição ao valproato intraútero está também associada com redução do QI verbal e autismo. A tolerabilidade e a eficácia do valproato nas crises focais com perda de consciência parece ser inferior à da carbamazepina. Vigabatrina É um inibidor irreversível da GABA transaminase resultando em acúmulo deste neurotransmissor. O efeito adverso mais preocupante é a constrição do campo visual que ocorre de forma concêntrica, progressiva e permanente. Pode ocorrer em 30%-40% dos indivíduos. O risco aumenta com o aumento da dose e da duração do tratamento. Prática clínica: raramente utilizada devido ao risco de efeito adverso. Só se justifica o seu uso em espasmos infantis da síndrome de West. EFEITOS ADVERSOS Um percentual elevado de pacientes que iniciam tratamento com FAEs apresentará efeitos adversos. Durante as consultas de retorno a presença destes efeitos deve ser sistematicamente pesquisada. Os efeitos adversos podem ocorrer de forma aguda ou crônica e serem de natureza dosedependente ou idiossincrásica. Os principais efeitos adversos relacionados com os FAEs são dose-dependentes. Deste modo, com redução na dosagem total ou escalonamento gradual da medicação, sua incidência diminui. Os principais efeitos adversos dose- dependentes ocorrem no sistema nervoso central (SNC) (tonturas, alterações cognitivo-comportamentais, cefaleia, ataxia, diplopia), na pele (rash cutâneo) e relacionados com o peso. Os efeitos adversos idiossincrásicos são menos frequentes e podem não ter relação com a dosagem da medicação, e precisam ser sempre suspeitados nos pacientes em uso de FAEs. Estes efeitos, quando ocorrem, frequentemente são graves e constituem uma das poucas indicações de retirada abrupta da medicação. Os efeitos principais incluem alterações na pele, no sistema gastrointestinal e envolvimento da medula óssea. A atenção com os efeitos adversos deve ser ainda maior em pacientes utilizando medicações indutoras enzimáticas (carbamazepina, fenitoína e fenobarbital). As medicações indutoras devem ser evitadas em pacientes com comorbidades por causa do elevado potencial de interação medicamentosa e diminuição da eficácia de medicações associadas. Além disso, em longo prazo, os indutores apresentam ação em hormônios sexuais, no metabolismo ósseo, podendo levar a osteopenia e osteoporose, aumento do colesterol, triglicérides e marcadores de risco vascular. Há evidências de que as pessoas que fazem uso de FAEs convencionais indutoras hepáticas têm aumento do risco de mortalidade cardiovascular. EPILEPSIA REFRATÁRIA A epilepsia é considerada refratária ao tratamento medicamentoso quando as crises não melhoram com pelo menos dois tratamentos com medicações adequadas e em doses apropriadas. A resposta inicial ao tratamento medicamentoso das epilepsias tem valor prognóstico. Os pacientes que não melhoram têm baixa probabilidade de controle das crises. Uma segunda monoterapia é mais útil principalmente quando a primeira monoterapia foi mal tolerada ou totalmente ineficaz. A politerapia é uma opção mais interessante quando a primeira monoterapia foi bem tolerada e 15 TBL 1 UCXIV parcialmente eficaz. O mecanismo de ação da medicação adjuvante deve ser diferente da medicação em monoterapia. A combinação de medicações com mecanismos de ação distintos está associada com maior equilíbrio entre tolerabilidade e eficácia. Além disso, a medicação adjuvante não deve ocasionar interações farmacocinéticas negativas com o primeiro FAE ou outras medicações concomitantes. As associações de FAEs consideradas mais eficazes são: valproato + lamotrigina, associação de carbamazepina + clobazam, associações com levetiracetam, topiramato e lacosamida. Finalmente, é preciso lembrar que poucos pacientes apresentarão melhora com a politerapia, e os riscos de efeitos adversos aumentam. Para pacientes com epilepsia focal refratária, o tratamento cirúrgico pode ser uma opção. Pacientes com epilepsia de lobo temporal mesial com atrofia hipocampal unilateral e exames de EEG com atividade ipsilateral à atrofia são os principais candidatos ao tratamento cirúrgico com baixa morbimortalidade relacionada com o procedimento e com os índices elevados de sucesso. CONCLUSÃO Ainda existe uma lacuna entre a prática clínica e os estudos com elevado nível de evidência para o tratamento das epilepsias. Contudo, atualmente a grande disponibilidade de medicações e o conhecimento sobre o assunto indicam que o tratamento medicamentoso das epilepsias deve ser realizado da forma mais tradicional possível. O paciente deve ser tratado de forma individualizada. As medicações devem ser iniciadas, selecionadas e, por fim, retiradas, levando em conta os estudos existentes e, principalmente, o perfil único do paciente que estamos atendendo naquele momento. EPILEPSIA DEFINIÇÃO DE EPILEPSIA E DE CRISE EPILÉPTICA CLASSIFICAÇÃO DAS CRISES EPILÉPTICAS CLASSIFICAÇÃO DE 2017 CRISES FOCAIS: CRISES GENELARIZADAS: CRISES DE INÍCIO DESCONHECIDO NOVOS TIPOS DE CRISES FOCAIS NOVOS TIPOS DE CRISES GENERALIZADAS CLASSIFICAÇÃO DAS EPILEPSIAS ESQUEMA DIAGNÓSTICO TRATAMENTO MEDICAMENTOSO QUANDO INICIAR AS MEDICAÇÕES QUANDO PARAR AS MEDICAÇÕES ESCOLHA DA MEDICAÇÃO EFEITOS ADVERSOS EPILEPSIA REFRATÁRIA