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Biologia Celular Me. Eloiza Muniz Capparros C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Distância; CAPPARROS, Eloiza Muniz. Biologia Celular. Eloiza Muniz Capparros. Maringá-PR.: Unicesumar, 2021. 232 p. “Graduação - Híbridos”. 1. Biologia Celular. 2. Citologia . 3. EaD. I. Título. ISBN 978-85-459-1756-4 CDD - 22 ed. 574.87 CIP - NBR 12899 - AACR/2 NEAD - Núcleo de Educação a Distância Av. Guedner, 1610, Bloco 4 - Jardim Aclimação CEP 87050-900 - Maringá - Paraná unicesumar.edu.br | 0800 600 6360 Impresso por: Coordenador de Conteúdo Gustavo Affonso Pisano Mateus. Designer Educacional Hellyery Agda. Revisão Textual Jaqueline M. Ikeda Loureiro. Editoração Lavignia da Silva Santos, Matheus Silva de Souza. Ilustração Marta Sayuri Kakitani. DIREÇÃO UNICESUMAR Reitor Wilson de Matos Silva, Vice-Reitor e Pró-Reitor de Administração Wilson de Matos Silva Filho, Pró-Reitor Executivo de EAD William Victor Kendrick de Matos Silva, Pró-Reitor de Ensino de EAD Janes Fidélis Tomelin, Presidente da Mantenedora Cláudio Ferdinandi. NEAD - NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Diretoria Executiva Chrystiano Mincoff, James Prestes e Tiago Stachon; Diretoria de Graduação e Pós-gra- duação Kátia Coelho; Diretoria de Permanência Leonardo Spaine; Diretoria de Design Educacional Débora Leite; Head de Metodologias Ativas Thuinie Daros; Head de Curadoria e Inovação Tania Cristia- ne Yoshie Fukushima; Gerência de Projetos Especiais Daniel F. Hey; Gerência de Produção de Conteúdos Diogo Ribeiro Garcia; Gerência de Curadoria Carolina Abdalla Normann de Freitas; Supervisão de Projetos Especiais Yasminn Talyta Tavares Zagonel; Projeto Gráfico José Jhonny Coelho e Thayla Guimarães Cripaldi; Fotos Shutterstock PALAVRA DO REITOR Em um mundo global e dinâmico, nós trabalha- mos com princípios éticos e profissionalismo, não somente para oferecer uma educação de qualida- de, mas, acima de tudo, para gerar uma conversão integral das pessoas ao conhecimento. Baseamo- -nos em 4 pilares: intelectual, profissional, emo- cional e espiritual. Iniciamos a Unicesumar em 1990, com dois cursos de graduação e 180 alunos. Hoje, temos mais de 100 mil estudantes espalhados em todo o Brasil: nos quatro campi presenciais (Maringá, Curitiba, Ponta Grossa e Londrina) e em mais de 300 polos EAD no país, com dezenas de cursos de graduação e pós-graduação. Produzimos e revi- samos 500 livros e distribuímos mais de 500 mil exemplares por ano. Somos reconhecidos pelo MEC como uma instituição de excelência, com IGC 4 em 7 anos consecutivos. Estamos entre os 10 maiores grupos educacionais do Brasil. A rapidez do mundo moderno exige dos educadores soluções inteligentes para as ne- cessidades de todos. Para continuar relevante, a instituição de educação precisa ter pelo menos três virtudes: inovação, coragem e compromisso com a qualidade. Por isso, desenvolvemos, para os cursos de Bem-estar, metodologias ativas, as quais visam reunir o melhor do ensino presencial e a distância. Tudo isso para honrarmos a nossa missão que é promover a educação de qualidade nas diferentes áreas do conhecimento, formando profissionais cidadãos que contribuam para o desenvolvimento de uma sociedade justa e solidária. Vamos juntos! BOAS-VINDAS Prezado(a) Acadêmico(a), bem-vindo(a) à Co- munidade do Conhecimento. Essa é a característica principal pela qual a Unicesumar tem sido conhecida pelos nossos alu- nos, professores e pela nossa sociedade. Porém, é importante destacar aqui que não estamos falando mais daquele conhecimento estático, repetitivo, local e elitizado, mas de um conhecimento dinâ- mico, renovável em minutos, atemporal, global, democratizado, transformado pelas tecnologias digitais e virtuais. De fato, as tecnologias de informação e comu- nicação têm nos aproximado cada vez mais de pessoas, lugares, informações, da educação por meio da conectividade via internet, do acesso wireless em diferentes lugares e da mobilidade dos celulares. As redes sociais, os sites, blogs e os tablets ace- leraram a informação e a produção do conheci- mento, que não reconhece mais fuso horário e atravessa oceanos em segundos. A apropriação dessa nova forma de conhecer transformou-se hoje em um dos principais fatores de agregação de valor, de superação das desigualdades, propagação de trabalho qualificado e de bem-estar. Logo, como agente social, convido você a saber cada vez mais, a conhecer, entender, selecionar e usar a tecnologia que temos e que está disponível. Da mesma forma que a imprensa de Gutenberg modificou toda uma cultura e forma de conhecer, as tecnologias atuais e suas novas ferramentas, equipamentos e aplicações estão mudando a nossa cultura e transformando a todos nós. Então, prio- rizar o conhecimento hoje, por meio da Educação a Distância (EAD), significa possibilitar o contato com ambientes cativantes, ricos em informações e interatividade. É um processo desafiador, que ao mesmo tempo abrirá as portas para melhores oportunidades. Como já disse Sócrates, “a vida sem desafios não vale a pena ser vivida”. É isso que a EAD da Unicesumar se propõe a fazer. Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está iniciando um processo de transformação, pois quando investimos em nossa formação, seja ela pessoal ou profissional, nos transformamos e, consequentemente, transformamos também a so- ciedade na qual estamos inseridos. De que forma o fazemos? Criando oportunidades e/ou estabe- lecendo mudanças capazes de alcançar um nível de desenvolvimento compatível com os desafios que surgem no mundo contemporâneo. O Centro Universitário Cesumar mediante o Núcleo de Educação a Distância, o(a) acompa- nhará durante todo este processo, pois conforme Freire (1996): “Os homens se educam juntos, na transformação do mundo”. Os materiais produzidos oferecem linguagem dialógica e encontram-se integrados à proposta pedagógica, contribuindo no processo educa- cional, complementando sua formação profis- sional, desenvolvendo competências e habilida- des, e aplicando conceitos teóricos em situação de realidade, de maneira a inseri-lo no mercado de trabalho. Ou seja, estes materiais têm como principal objetivo “provocar uma aproximação entre você e o conteúdo”, desta forma possibilita o desenvolvimento da autonomia em busca dos conhecimentos necessários para a sua formação pessoal e profissional. Portanto, nossa distância nesse processo de crescimento e construção do conhecimento deve ser apenas geográfica. Utilize os diversos recursos pedagógicos que o Centro Universitário Cesumar lhe possibilita. Ou seja, acesse regularmente o Stu- deo, que é o seu Ambiente Virtual de Aprendiza- gem, interaja nos fóruns e enquetes, assista às aulas ao vivo e participe das discussões. Além disso, lembre-se que existe uma equipe de professores e tutores que se encontra disponível para sanar suas dúvidas e auxiliá-lo(a) em seu processo de apren- dizagem, possibilitando-lhe trilhar com tranquili- dade e segurança sua trajetória acadêmica. APRESENTAÇÃO Seja bem-vindo(A)! Você ingressou em um curso da área da saúde, no qual você conhecerá diversos as- pectos relacionados a vida dos seres humanos: suas relações com o meio que habitam, especificidades sobre o “funcionamento” do organismos e acerca do metabolismo para a manutenção da homeostasia. Uma das bases das ciências da vida é a Biologia Celular, ou, como ela também pode ser chamada, Citologia. Nessa disciplina, você irá conhecer a célula de maneira aprofundada, identificando cada elemento de sua estrutura, suas organelas, seu metabolismo, a comunicação entre células e também o material genético e a divisão celular. Ao mesmo tempo em que você estuda os princípios de Citologia, você também será atualizado sobre os estudos e as técnicas mais recentemente desenvolvidas para traba- lhar com células, o que só foi possível com os avanços da Biologia Molecular. Assim, essa disciplina se propõea integrar os principais conceitos relativos à Biologia Celular e Molecular, os quais constituirão a base conceitual de que você precisará para estudar os seres vivos ao longo do seu curso de graduação. Para que esse objetivo seja alcançado, você estudará as células sob diferentes perspec- tivas apresentadas ao longo das cinco unidades: Na Unidade 1 (Estrutura, Função e Evolução das Células), você conhecerá os princi- pais elementos celulares e funções; você também terá uma ideia sobre os principais paradigmas que sustentam a evolução das células. Nesta unidade será abordado o histórico da Biologia Celular; será apresentada uma visão panorâmica sobre a evolu- ção das células; você aprenderá a identificar os principais tipos celulares (procariotos e eucariotos); será abordada a relação dos vírus com as células e você irá reconhecer a organização estrutural, a constituição e as principais moléculas encontradas no interior das células. A Unidade 2 (Envoltórios Celulares, Citoplasma e Citoesqueleto) apresentará a você os principais aspectos a respeito dos componentes externos à célula, você conhecerá a estrutura e a função da Membrana Plasmática, da Parede Celular e do Glicocálix. Você também aprenderá em quais tipos de célula é possível encontrar cada um dos envoltórios; conhecerá as trocas que a célula realiza com o meio extracelular, tanto as trocas ativas quanto as passivas; estudará sobre a estrutura, a composição e as funções do citoplasma nos diferentes tipos celulares; conhecerá o citoesqueleto e como ele se relaciona com os movimentos celulares; aprenderá sobre a comunicação celular por meio de sinais químicos, como os hormônios e os neurotransmissores. A Unidade 3 (Organelas Celulares e Metabolismo Celular) apresentará a você os di- ferentes tipos de organelas encontradas em diferentes organismos; você irá relacionar as organelas ao tipo de atividade que elas executam nas células, como o metabolismo, a síntese (produção) e a degradação de macromoléculas, com ênfase especial aos ribossomos e à síntese de proteínas; você também irá identificar os elementos que constituem as mitocôndrias e como eles são necessários à respiração celular; você irá identificar os tipos de célula em que são encontrados os cloroplastos, conhecerá sua estrutura e irá relacionar essa estrutura com as reações químicas da fotossíntese. A Unidade 4 (Núcleo, Ciclo Celular e Divisão Celular) apresentará a você os eventos que acontecem no núcleo celular, a estrutura do DNA e do RNA e você conseguirá relacionar a estrutura do material genético com a expressão gênica. Você também conhecerá cada uma das etapas do Ciclo Celular, identificando os eventos que ocorrem em cada uma delas. Para compreender como as células se tornam tecidos, você conhecerá a especiali- zação ou a diferenciação celular e também irá diferenciar os dois tipos de divisão celular pelos quais as células eucariontes podem passar: a mitose e a meiose. A Unidade 5 (Técnicas de Estudo em Biologia Celular e Molecular) reunirá atualidades sobre Biologia Celular e Molecular, por meio das principais técnicas de manipula- ção do material genético. Você conhecerá os fundamentos da Tecnologia do DNA recombinante e da Clonagem Molecular; você aprenderá as principais técnicas de manipulação do DNA, compreenderá os princípios de eletroforese, extração do DNA, noções de amplificação do DNA por PCR e sequenciamento do DNA. Você estudará também a hibridização molecular e a impressão genética do DNA; conhecerá as etapas para a construção de Bibliotecas Genômicas e compreenderá alguns princípios sobre o estudo das células-tronco, da transgênese e da terapia gênica. Ao cursar esta disciplina, você irá se familiarizar com os principais conceitos relativos às células, terá conhecimentos básicos sobre a estrutura morfológica e funcional dos diferentes tipos de célula e terá contato com as inovações e atualidades no desenvol- vimento de pesquisas nesta área do conhecimento. Espero que você possa construir um alicerce consistente e que, por meio do mate- rial proposto, dos materiais complementares e das atividades propostas, você possa desenvolver conhecimentos significativos sobre as células e sua importância para os seres vivos. Bons estudos! CURRÍCULO DOS PROFESSORES Me. Eloiza Muniz Capparros Doutoranda em Ciências Ambientais, pelo Programa de Pós-graduação em Ecologia de Am- bientes Aquáticos Continentais, PEA-UEM (2015-). Mestra em Biologia das Interações Orgânicas, pelo Programa de Pós-graduação em Biologia Comparada, PGB-UEM (2013-2015). Especialista em Análises Clínicas, pela Unicesumar (2016-2017). Especialista em Análises Ambientais, pela Unicesumar (2014-2015). Especialista em Biologia da Conservação e da Fauna Silvestre, pela Universidade Estadual de Maringá (2013-2014). Bióloga licenciada e bacharel pela Universi- dade Estadual de Maringá (2008-2012). Currículo Lattes disponível em: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?i- d=K4419086T0 Estrutura, Função e Evolução das Células 13 Envoltórios Celulares, Citoplasma e Citoesqueleto 59 Organelas Celulares e Metabolismo Celular 101 Núcleo, Ciclo Celular e Divisão Celular 145 Técnicas de Estudo em Biologia Celular e Molecular 187 PLANO DE ESTUDOS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM Me. Eloiza Muniz Capparros • Contextualizar temporalmente o desenvolvimento do mi- croscópio e de técnicas que possibilitaram os primeiros estudos relativos à Citologia. • Caracterizar a biologia estrutural e funcional das células eucariontes e procariontes. • Reconhecer a estrutura e o metabolismo viral. • Identificar os elementos que formam a estrutura básica de uma célula (envoltórios, citoplasma, organelas e núcleo). • Reconhecer as principais moléculas que constituem a es- trutura e que fazem parte do metabolismo celular. Histórico da Biologia Celular e a Evolução das Células Principais tipos Celulares - Procariotos e Eucariotos Organização Estrutural e Constituição Molecular da Célula Principais Moléculas Celulares Vírus e sua Relação com as Células Estrutura, Função e Evolução das Células 14 Estrutura, Função e Evolução das Células Histórico da Biologia Celular e a Evolução das Células INTRODUÇÃO Olá, caro(a) aluno(a)! Seja bem-vindo(a) à primeira unidade de estu- dos da disciplina Biologia Celular. É com grande prazer que compartilho com você alguns conhe- cimentos a respeito de uma das disciplinas que constituem a base da Biologia Moderna: a Cito- logia ou Biologia Celular. Nesta unidade, você será apresentado(a) ao desenvolvimento da Biologia Celular, desde os primeiros cientistas e pesquisadores que estu- daram os microrganismos e que desvendaram 15UNIDADE 1 É possível que, em algum momento de sua vida escolar, você já tenha estudado as células e a organização celular dos seres vivos. Isso acontece porque a chamada Teoria Celular é utilizada como critério para diferenciar seres vivos de matéria não viva, mas nem sempre foi assim. Até a invenção dos microscópios, em meados do século XVI, a vida microscópica era totalmente desconhecida. No século XVII, dois cientistas, Robert Hooke e Antonj von Leeuwenhoek, revolucionaram o co- nhecimento a respeito da organização celular dos seres vivos (ROONEY, 2018). Robert Hooke (1635-1703) foi o primeiro a distinguir e cunhar o termo “célula”, ele literalmente deu nome ela. A palavra célula vem do latim cellula, que é o diminutivo de cella, o que significa pequeno compartimento. No momento, ele se referia aos componentes que formam a estrutura dos seres vivos, tomando como base uma amostra de cortiça (Figura 1). (até então) os mistérios da célula até as descobertas mais recentes, nas últimas décadas. Ao organizar cronologicamente os eventos que levaram os cientistas e pesquisadores ao descobrimento das células, você compreenderá a relação que existe entre a descoberta de um universo microscópico com a saúde e o desenvolvimento humano. Alémdisso, você terá uma visão panorâmica sobre os paradigmas atuais que sustentam a origem e a evolução das células, relacionando todos os seres vivos existentes atualmente por meio da ancestrali- dade comum. Assim, você identificar á um organismo procarioto (como as bactérias) e o diferenciará de organismos eucariotos (protozoários, fungos, vegetais e animais). Um dos assuntos que ainda é alvo de polêmica na comunidade científica são os vírus. Devido à sua estrutura acelular (ou seja, sem célula) e ao metabolismo que só existe no interior de uma célula hospedeira, não há consenso científico sobre o fato de os vírus serem considerados seres vivos ou não. Você compreenderá melhor esse debate ao longo desta unidade, pois poderá relacionar os vírus com as células. Ao final da unidade, você conhecerá a organização estrutural básica celular e também as principais moléculas celulares que serão importantes depois, quando você estiver estudando o metabolismo celular. Bons estudos! 16 Estrutura, Função e Evolução das Células Antonie von Leeuwenhoek (1632-1723), um fabricante de lentes holandês, foi o primeiro a visualizar os microrganismos. Os microscópios que Leeuwenhoek utilizou permitiam um aumento de até 200x e, por isso, ele conseguiu observar diferentes tipos de células: hemácias, espermatozoides e protozoários de vida livre, entre outros organismos (ROONEY, 2018). Em 1893, Theodor Schwann (1810-1882), um fisiologista alemão, estabeleceu o que hoje conhece- mos como a base da Teoria Celular, em que todos os seres vivos se compõem de células e de produtos de células, ou seja, todos os seres vivos seriam constituídos de células (ROONEY, 2018). A Teoria Celular ainda é amplamente utilizada pelos cientistas e é considerada a base da Biologia Celular. Rudolf Virchow (1821-1902) adicionou elementos e elaborou a hoje conhecida Teoria Celular Moderna (SILVA; AIRES, 2016), que tem por pressupostos (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2012): • Todos os organismos vivos conhecidos são formados de células. • A célula é a unidade estrutural e funcional de tudo o que é vivo. • Todas as células vêm de células preexistentes por divisão (a geração espontânea não ocorre). • As células contêm informações hereditárias passadas de célula para célula na divisão celular. • Todas as células têm, basicamente, a mesma composição química. • Todo o fluxo de energia da vida (metabolismo e bioquímica) ocorre dentro das células. A partir de então, o estudo das células passou a ser relacionado com a causa de muitas doenças. O médico francês Nicolas Andry de Bois-Regard (1658-1742) foi o primeiro a propor, sem evidências, que os microrganismos seriam os causadores das doenças. Ideia essa que ficou conhecida depois como Teoria dos Germes. Em 1860, o cientista francês Louis Pasteur (1822-1895) foi o primeiro a demonstrar que a teoria dos germes da doença estava correta, pois conseguiu demonstrar muitos tipos de ação microbiana (ROONEY, 2018). Figura 1 - Ilustração elaborada por Hooke a respeito de suas observações da cortiça no microscópio Fonte: Wikimedia Commons (2018, on-line)¹. Figura 2 - Microscópio usado por Hooke Fonte: Wikimedia Commons (2006, on-line)². 17UNIDADE 1 O estudo das doenças abriu portas para uma nova discussão: a de que poderiam existir seres ainda menores do que as bactérias, mas que também causavam doenças. Iniciou-se, então, o estudo dos vírus. Eles estão diretamente relacionados ao es- tudo das células, pois são parasitas intracelulares obrigatórios. Você estudará os vírus de maneira mais aprofundada em “Vírus e sua relação com as células”, ainda nesta unidade. Martinus Beijerinck (1851-1931), microbiolo- gista e botânico holandês, estudou uma curiosa doença que afetava o tabaco. Sem sucesso ao su- gerir que se tratavam de bactérias, ele sugeriu a existência de um líquido, como um veneno (daí o nome “vírus” que, em latim, significa fluido ve- nenoso ou toxina), sem partículas vivas, e que seria o responsável pela doença (ROONEY, 2018). O médico alemão Friedrich Loeffler (1852- 1915) e o bacteriologista Paul Frosch (1860-1928), também alemão, foram os primeiros a sugerir, de fato, a existência dos vírus. Em 1898, ao es- tudarem o agente da febre aftosa, um vírus que afeta principalmente bovinos, eles propuseram a existência de uma partícula minúscula, pequena demais para ser filtrada, contrariando a ideia de um fluido venenoso de Beijerinck. Com aproximadamente um centésimo do ta- manho de uma bactéria, os vírus permaneceram invisíveis até a invenção do microscópio eletrô- nico, no século XX. Aos poucos, a melhora na microscopia revelou, além dos vírus, a complexi- dade das células eucariontes: as organelas foram observadas (ROONEY, 2018). O desenvolvimento do microscópio eletrônico começou, em 1931, com o trabalho dos engenheiros eletricistas alemães Ernst Ruska (1906-1988) e Max Knoll (1897-1969). Um microscópio eletrônico mo- derno tem uma resolução de até 0,2 nm, mil vezes menor do que a resolução do mais potente micros- cópio óptico (Figura 3). De onde veio a primeira célula? Miller (1952), em um experimento, conseguiu observar a formação de aminoácidos, que origi- nam coacervados. A partir deles, teriam surgido as primeiras células. Fonte: Marshall (2017, on-line)3. pensando juntos Certamente, você já bebeu leite, sucos industrializados ou laticínios que são pasteurizados. O processo de pasteurização foi desenvolvido por Louis Pasteur (daí o nome), o cientista alemão citado no texto. A pasteurização é utilizada para tratar alimentos (principalmente leite) e evitar que estraguem. O processo consiste em basicamente aquecer o alimento até uma temperatura suficiente para matar todos os microrganismos e resfriar, em seguida, enquanto se exclui o ar para impedir a entrada de novos microrganismos. Fonte: Pelczar Jr, Chan e Krieg (2005). explorando Ideias 18 Estrutura, Função e Evolução das Células O próximo desenvolvimento importante para o estudo da Biologia Celular e Molecular foi a descoberta do DNA. Em 1953, o biofísico e neurocientista britânico Francis Crick (1916- 2004) e o geneticista americano James Watson (1928-) apresen- taram, em forma de artigo cien- tífico, um modelo de DNA que explicava a possível existência de um mecanismo de reprodu- ção e transmissão de informa- ções hereditárias (CHALTON; MacARDLE, 2017). Figura 3 - Microscópio óptico, possibilita a observação de células e algumas estruturas celulares, como o núcleo, a parede celular e os cromossomos Figura 4 - Microscópio eletrônico moderno, possibilita a visualização de estruturas do interior da célula e também os vírus Na Biologia Celular, todo esse progresso possibilitou o desenvolvimento de técnicas de manipulação do material genético. Logo após a publicação do trabalho de Watson e Crick, iniciou-se o Projeto Ge- noma Humano, que buscou encontrar os genes que constituem o nosso material genético (CHALTON; MacARDLE, 2017). É importante que você saiba que o campo da Biologia Celular, principalmente a Molecular, ainda está em desenvolvimento e que, consequentemente, está sujeito a muitas mudanças. E no futuro? Hoje, temos a oportunidade de acompanhar as mudanças e descobertas em tempo real, veremos o que nos aguarda. 19UNIDADE 1 Visão Panorâmica Sobre a Evolução da Célula A Biologia Celular se ocupa em estudar a estru- tura e o funcionamento das células. Para com- preender de maneira satisfatória a evolução dos diferentes tipos de células, primeiro, você precisa entender, mesmo que de maneira geral, as estru- turas celulares. Visão Panorâmica Sobre a Estrutura Celular Seu corpo é formado por trilhões de células, que podem ser muito diferentes umas das outras, pois estão organizadas em tecidos. Estes são conjun- tos de células semelhantes, que trabalham juntas desempenhando uma determinada função. Em seres humanos há mais de 200 tipos de células di- ferentes, que formam os tecidos e desempenham as mais diversas funções. Ao ler sobre você(um indivíduo), seus tecidos e suas células, você está lendo sobre diferentes níveis de organização biológica. Há vários níveis hierárquicos de organização entre os seres vivos, que se iniciam nos átomos, por ordem crescen- te de tamanho e complexidade, e terminam na biosfera (Figura 5). Considerando a questão dos níveis de organização, você estudará, em relação às moléculas (algumas, apenas), organelas celulares e, principalmente, células. Figura 5 - Níveis de organização biológica, do átomo à biosfera 20 Estrutura, Função e Evolução das Células Olhando desse modo, é como se todas as células tivessem um “modelo padrão básico” e, a partir dele, desenvolveram suas especificações. No nível mais fundamental, as células que existem na Terra se mostram relacionadas e unificadas. Em relação à estrutura, todas as células (de to- dos os seres vivos, não apenas as do seu corpo) têm aspectos em comum (JUNQUEIRA; CAR- NEIRO, 2015): • Membrana Plasmática, uma barreira que separa as células do ambiente ao seu redor. • Citoplasma (veja na Unidade 2), o volume dentro de todas as células, delimitado pela membrana plasmática. • DNA (ácido desoxirribonucleico), que contém as informações para a construção e o metabolismo celular. • Você observou, até agora, como as cé- lulas são parecidas entre si. Agora, você verá o outro lado, em que as células são diferentes. As células são as menores partes vivas do seu cor- po. Tudo o que você faz que o(a) mantém vivo(a) está relacionado aos processos celulares, consti- tuindo o metabolismo celular. Isso acontece na absorção de moléculas provenientes da alimen- tação, na respiração e no crescimento. Ao crescer, suas células estão se dividindo (ou multiplicando) para formar novas células e estruturar seu corpo. Além de você, tudo que é vivo é formado por células. Todas as células são constituídas, basica- mente, dos mesmos componentes e funcionam de forma semelhante. Isso indica que toda forma de vida na Terra está relacionada. Para entender melhor como isso acontece, observe os argumen- tos a seguir (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2015): • Todas as células têm DNA como material genético. • Todas as células usam os mesmos proces- sos para produzir proteínas. • Todas seguem os mesmos princípios bási- cos de metabolismo. Divisão e multiplicação celular são sinônimos. A célula original se divide, formando novas, mas também podemos dizer que, a cada ciclo celular, o número de células aumenta, isto é, se mul- tiplica. pensando juntos 21UNIDADE 1 Origem e Evolução das Células Existem dois tipos celulares bási- cos: procariotos e eucariotos. Os procariotos (ou procariontes; pro: primeiro e cario: núcleo) são os organismos mais simples, como as bactérias, que não possuem membrana nuclear. Os eucariotos (ou eucariontes; eu: verdadeiro e cario: núcleo) são maiores e mais complexos, apresentam mais or- ganelas em seu interior e possuem membrana nuclear, separando o DNA (material genético) do cito- plasma. Protozoários, fungos, ve- getais e animais são eucariontes. Por se tratarem de células mais simples, seria intuitivo supor que os procariontes surgiram antes dos eucariontes. O estudo das células está diretamente relacio- nado ao estudo da vida, no pla- neta Terra. Muitas perguntas já foram feitas sobre como e quando a vida teria surgido, mas até hoje nenhum cientista ou pesquisador foi capaz de desenvolver vida em laboratório. Isso não significa que não houve avanços. Atualmente, as hipóteses mais aceitas indicam que o pro- cesso evolutivo, na Terra, teve início há, aproximadamente, 4 bilhões de anos. Os fósseis mais antigos de microrganismos aquáticos são datados de 3.7 bi- lhões de anos (NUTMAN et al., 2016; HOMANN et al., 2018). A atmosfera terrestre, nesse período, era bastante diferente da atual. A Terra primitiva não tinha gás oxigênio (O2) disponível, que começou a fazer parte da composição da atmosfera apenas a partir da atividade fotossintética de células eucariontes (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2015). As moléculas presentes na atmosfera, unidas à grande quan- tidade de água disponível na superfície do planeta Terra, teriam formado uma massa líquida chamada caldo primordial, a base da teoria de Stanley Miller sobre a Síntese Prebiótica. De acordo com essa hipótese, moléculas orgânicas teriam surgido sem a participa- ção de seres vivos. Miller elaborou um experimento (Figura 6) em que conseguiu, de fato, sintetizar moléculas orgânicas importantes, os aminoácidos glicina e alanina, considerados fundamentais na estrutura dos seres vivos. Figura 6 - Aparelho criado e utilizado por Stanley Miller para testar a Síntese Prebiótica Devido à simplicidade estrutural, é mais provável que a molécu- la de RNA seja mais primitiva do que a de DNA (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2015). É provável, também, que a primeira célula era procarionte heterotrófica (incapaz de produzir moléculas orgâni- cas complexas) e anaeróbia (não havia gás oxigênio na atmosfera terrestre) (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2015). 22 Estrutura, Função e Evolução das Células Devido à alimentação heterotrófica, as primeiras células pro- vavelmente esgotaram os compostos orgânicos. Surgiram, então, as primeiras células autotróficas, capazes de sintetizar moléculas orgâ- nicas complexas a partir de substâncias muito simples, utilizando a energia da luz solar (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2015). Além de moléculas orgânicas, essas células liberavam gás oxigênio, que se acumulava até a mudança da composição dos gases na atmosfera. A disponibilidade de oxigênio, na atmosfera terrestre, fa- voreceu o surgimento e, depois, a ampla ocupação de células aeróbias (ou aeróbicas), que utilizam oxigênio para quebrar li- gações químicas de compostos orgânicos e, assim, obter energia. A ocupação dos primeiros organismos aeróbios foi tão grande, que os anaeróbios ficaram restritos a poucos lugares, em que há ausência de oxigênio (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2015). O próximo acontecimento importante, na história evolutiva celular, foi o surgimento de células eucariontes. A principal hipótese sugere que as células eucariontes surgiram a partir das células pro- cariontes que tiveram suas membranas invaginadas. Esta hipótese explica a existência de organelas, como o Retículo Endoplasmático, o Complexo de Golgi e os Peroxissomos, além do próprio núcleo. Ao observar, porém, as células eucariontes ao microscópio, al- guns cientistas propuseram que as estruturas visíveis no interior das células eucariontes seriam como bactérias, vivendo em um tipo de simbiose (HOONEY, 2018). Na década de 60, Lynn Margulis (1938-2011) elaborou a Teoria da Endossimbiose Seriada. Segundo Margulis, as mitocôndrias e os cloroplastos tiveram origem em bactérias que foram fagocitadas e que conseguiram escapar dos mecanismos de digestão intracelular, estabelecendo-se como simbiontes (endossimbiontes). Isto porque esse relacionamento (célula e bactéria fagocitada) era benéfico para as duas partes envolvidas e se tornou irreversível com o passar do tempo. 23UNIDADE 1 Figura 7 - Formação das células eucariontes Fonte: Santos (2007). Considerando que os cloroplastos estão presentes em células vegetais e de algas, e que, por outro lado, as mitocôndrias estão presentes em todas as células eucariontes, é provável que a simbiose que deu origem às mitocôndrias (endossimbiose primária) ocorreu antes da que originou os cloroplastos (endossimbiose secundária). Assim, primeiro surgiram células eucariontes com mitocôndrias e, pos- teriormente, algumas dessas células realizaram uma nova endossimbiose, com bactérias autotróficas (fotossintéticas) (Figura 7) (MARGULIS, 2001; JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2015). A partir da formação das células eucariontes, houve grande expansão na diversidade dos seres vivos, até chegar aos dias de hoje, com uma enorme variedade de células e organismos. A Biologia Celular e Molecular impacta a sua vida de várias maneiras, certamente, ela se tornará mais importante nofuturo. 24 Estrutura, Função e Evolução das Células Ao comparar todas as células que existem, toman- do como base os componentes químicos celulares básicos, as estruturas celulares e o material genéti- co hereditário presente em todas as células, é pos- sível perceber que todas as células se enquadram em uma das três divisões: Arqueia, Bactéria ou Eucária. Pense nisso como se toda a vida na Terra fosse uma árvore, sendo que as raízes são as partes mais antigas, e as folhas, as mais recentes. Principais Tipos Celulares: Procariotos e Eucariotos 25UNIDADE 1 Nesta ideia, as divisões dos tipos celulares seriam os primeiros galhos (primeiras ramificações) dessa árvore (Figura 8). Figura 8 - Cladograma indicando os três domínios em que as células estão classificadas Fonte: adaptada de Woese et al. (1990). O domínio Bactéria é composto por microrganismos unicelulares e procariontes, que são conhecidos por causarem doenças em humanos, eles são nomeados de eubactérias. Os Arqueia também são mi- crorganismos unicelulares e procariontes, mas são menos conhecidos porque foram descobertos mais recentemente em ambientes extremos (WOESE et al., 1990). São procariontes metanogênicos, ou seja, têm o gás metano como produto de seu metabolismo e vivem em condições extremas de temperatura, salinidade e pH. O domínio Eucaria tem como representante os protistas (protozoários), os fungos, as plantas e os animais. Como o próprio nome sugere, os Eucaria se diferenciam dos outros dois domínios pela presença de núcleo em suas células. O fato mais interessante sobre os Arqueia, entretanto, não são as condições extremas em que esses microrganismos vivem. Os Arqueia possuem algumas semelhanças com os Eucaria e, ao mesmo tempo, muitas diferenças com os microrganismos do domínio Bactéria. As conclusões de estudos moleculares sugerem que a célula procarionte ancestral universal deu origem a dois domínios: Arqueia e Bactéria. A partir do domínio Arqueia, então, surgiram as primeiras células eucariontes, que constituem o domínio Eucária (Figura 9). 26 Estrutura, Função e Evolução das Células Figura 9 - Domínios (Bactéria, Arquéia e Eucária) em que todos os tipos celulares se enquadram O domínio Eucária é classificado em Reinos: Pro- tozoários, Fungos, Vegetais e Animais. Depois de esclarecer a origem dos domínios, o foco será nos tipos celulares básicos: eucariontes e procariontes. Uma questão a se pensar a respeito das células procariontes e eucariontes são as diferenças de tama- nho. É bastante difícil dimensionar essas células, pois são microscópicas e também porque geralmente são representadas do mesmo tamanho. Muitas vezes, dizer que uma célula eucarionte tem entre 10 a 100 micrômetros (μm) enquanto as células procarion- tes têm aproximadamente 1 micrômetro (μm), pode não dizer muito. Então, faça o seguinte exercício mental: imagine um cômodo de uma casa (sala, quarto etc.) com, aproximadamente, 5 m x 7 m x 2,5 m (5 metros de comprimento, 7m de largura e 2,5m de altura), isto resulta em 87,5 m³. Esse cômodo será a escala para uma célula eucarionte (célula animal ou vegetal, por exemplo). Nessa mesma escala, uma célula proca- rionte teria o tamanho aproximado de uma caixa de sapatos, enquanto um vírus seria ligeiramente maior do que a cabeça de um fósforo. Figura 10 - Escala de organismos e estruturas biológicas, em comparação Com este breve raciocínio, é possível imaginar a facilidade de infecção de um vírus em uma célula eucarionte, por exemplo. Também fica mais fácil compreender como a teoria da endossimbiose (lem- bra do primeiro tópico?) foi desenvolvida. Também podemos usar outras escalas comparativas, levando em consideração outros organismos (Figura 10). Observe o espectro alcançado a olho nu, ao micros- cópio óptico e ao microscópio eletrônico. 27UNIDADE 1 Figura 11 - Estrutura de uma célula bacteriana (procarionte), sem escala e colorida para fins didáticos (fantasia) Procariotos As células procariontes têm como representantes as (comumente conhecidas por causarem doenças) bactérias ou eubactérias e também os menos conhecidos microrganismos da divisão Arqueia, as bac- térias extremófilas. Essas células são as mais simples, com menos estruturas e organelas (Figura 11) e também são consideradas mais primitivas. Os procariontes se diferenciam dos eucariontes, principalmente pela ausência de membrana nuclear (carioteca), sendo que o DNA dos procariontes é circular e fica no citoplasma, geralmente, concentrado em uma região denominada nucleoide. Além disso, os procariontes não possuem organelas membra- nosas, tais como Retículo Endoplasmático e Complexo de Golgi, além de serem muito menores do que as células eucariontes. Outra diferença entre os procariontes e os eucariontes está nos ribossomos, que são menores e apresen- tam composição química diferente. Isto se explica pela própria complexidade das células, então lembre-se: os ribossomos são responsáveis pela produção de proteínas, e as células eucariontes, sendo muito maiores e mais complexas, demandam produção proteica maior e mais elaborada (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2015). 10% Humano(a) Segundo a bióloga e autora do livro 10% Humano, seu organismo não é formado apenas de carne e osso, músculos e sangue, cérebro e pele - você também é formado(a) por bactérias e fungos. Segundo a autora, ao considerar o número de células, para cada célula humana em seu corpo, existem outras nove células de bactérias ou fungos, portanto, sua composição corporal seria apenas 10% humana. Fonte: Collen (2016). pensando juntos 28 Estrutura, Função e Evolução das Células Eucariotos Os eucariontes têm representantes divididos em quatro reinos: Protista (protozoários), Fungi (fungos), Plantae (vegetais) e Animalia (animais). Apesar da grande diversidade, as células de todos os eucariontes são muito similares à sua estrutura e às funções que executam. A característica mais relevante das células eucariontes é a presença de núcleo (Figura 12), um com- partimento cercado pela membrana nuclear (ou carioteca) que abriga o material genético (DNA). O núcleo isola e protege o DNA de danos que podem resultar em mutações. Figura 12 - Células do fígado de camundongo, coradas em hematoxilina/eosina, vistas sob o microscópio óptico (40x) Figura 13 - Células da epiderme de cebola (Allium cepa), coradas com azul de metileno, vistas sob microscópio óp- tico (40x) Figura 14 - Diagrama dos componentes nucleares básicos de uma célula eucarionte 29UNIDADE 1 Nos eucariotos, o DNA é afilado e está seg- mentado em cromossomos, ao contrário do DNA circular dos procariotos. Os eucariotos também possuem muito mais DNA, de modo que o empa- cotamento é auxiliado pela presença de proteínas, chamadas histonas. Os eucariotos apresentam organelas mem- branosas que realizam suas respectivas funções de maneira compartimentalizada, quase como uma linha de produção. Assim, organelas como o Retículo Endoplasmático (Liso e Rugoso) e o Complexo de Golgi trabalham associadas, pois enquanto o Retículo Endoplasmático está re- lacionado à produção de lipídios e proteínas, o Complexo de Golgi é responsável pelo armaze- namento, transformação, modificação e controle da secreção dessas substâncias. A grande complexidade das células eucarion- tes se reflete nos organismos que apresentam essa estrutura celular, sendo que, entre os eucariontes, há representantes uni e pluricelulares. Para fins comparativos, observe a tabela a seguir. Tabela 1 - Comparação entre os reinos que apresentam organismos com células eucariontes Protista Fungi Plantae Animalia Número de células Unicelulares. Uni ou pluricelula- res. Pluricelulares. Pluricelulares. Envoltórios Alguns com parede celular. Parede celular de quitina. Parede celular de celulose. Sem parede celular Caracter í s t i cas celulares Célula que funcio- na como um orga- nismo. Apresentam diges- tão extracelular. Cloroplastos*; va- cúolo*. Centríolos (parti- cipamda divisão celular). * Cloroplastos e vacúolos também estão presentes nas células das algas, que apresentam classificação controversa. Fonte: adaptada de Junqueira e Carneiro (2015). A parede celular é um envoltório presente em plantas (Figura 15), fungos e em alguns protozoários, mas ausente em células animais. As comparações mais comuns entre os tipos celulares são feitas entre os animais e os vegetais, por isso, observe as semelhanças e as diferenças entre essas células. Figura 15 - Esquema anatômico de uma célula vegetal, com as organelas e estruturas presentes nesse tipo celular 30 Estrutura, Função e Evolução das Células Tanto para as células vegetais quanto para as cé- lulas animais, o esquema ilustrado retrata apenas uma célula padrão hipotética. Por se tratarem de organismos de grande complexidade estrutural, há grandes diferenças entre as células encontradas em um mesmo organismo. Em seu próprio corpo isso acontece, por isso, conseguimos perceber os diferentes tecidos, como epitelial (pele), nervo- so, muscular, entre outros. A formação de células especializadas é conhecida como diferenciação ou especialização celular (Figura 17) e se inicia, ainda, na vida embrionária, a partir das famosas Figura 16 - Esquema anatômico de uma célula animal, com as organelas e estruturas presentes nesse tipo celular Figura 17 - Diferenciação ou especialização celular em células animais a partir de células embrionárias que dão origem às células-tronco células-tronco. Você estudar á especialização ce- lular mais profundamente na Unidade 4. Ao reconhecer os principais tipos celulares e diferenciar os organismos procariotos e eucario- tos, o seu foco deve ser nos principais exemplos e nas diferenças encontradas nas células analisadas. Nas próximas unidades, você estudará, detalhada- mente, cada organela celular em separado, então, tenha em mente quais organelas estão presentes em cada um dos tipos celulares, observando as diferentes configurações que as células podem apresentar. 31UNIDADE 1 Agora que você já conhece um pouco mais sobre as células, seus componentes e suas estruturas, você conhecerá um universo ainda menor, que foi descoberto muito mais recentemente do que as células e as bactérias: são os vírus. Toda célula, como você viu, se origina de outra célula. Isto, porém, não acontece com os vírus, pois eles são produzidos pela maquinaria de uma célu- la hospedeira, conforme as informações contidas no genoma viral. Por causa dessa característica, os vírus são chamados de parasitas intracelulares obrigatórios. A primeira coisa que você precisa saber sobre os vírus é que eles não são células, ou seja, são ace- lulares. Mas o que são os vírus? Eles são partículas microscópicas compostas por ácidos nucleicos e proteínas, que atacam as células e as transformam em verdadeiras “fábricas” para a formação de no- vas partículas virais. Vírus e Sua Relação Com as Células 32 Estrutura, Função e Evolução das Células Devido ao seu tamanho, os vírus só foram identificados de fato em meados do século XX, quando o microscópio eletrônico foi inventado. Eles são muito diversos em suas estruturas (Figura 18) e apresentam diferentes padrões de reprodução no interior das células. Em seres humanos, alguns vírus bastante conhecidos são os causadores de doenças, como a gripe, a poliomielite (paralisia infantil) e a AIDS. Figura 18 - Ilustração dos diferentes padrões da morfologia dos vírus Devido ao fato de serem parasitas intracelulares obrigatórios, existe uma discordância entre os cientistas sobre a classificação dos vírus. Primeiro, porque eles são acelulares e, por isso, já não se enquadram em nenhum dos reinos dos seres vivos. Segundo, porque fora de uma célula hospedeira, os vírus não podem fazer nada, não conseguem se reproduzir e não têm metabolismo próprio. Assim, para alguns cientistas, os vírus não são considerados seres vivos. Para aqueles que se opõem, os argumentos são: os vírus têm material genético, conseguem evoluir e, mesmo que no interior de uma célula, têm comportamento de seres vivos, como metabo- lismo e reprodução. Nesta controvérsia, você não precisa escolher um lado, basta entender os argumentos propostos. Por causa dessa discordância, não é adequado dizer que os vírus estão “vivos” ou “mortos”, então, é melhor dizer que estão “ativos” (no interior das células) ou “inativos” (fora das células). 33UNIDADE 1 Estrutura dos vírus Os vírus mais simples são compostos por um ácido nucleico (DNA ou RNA, nunca os dois) e uma estrutura proteica que o envolve, composta por unidades que se repetem, chamadas de capsômeros e que, juntas, formam o capsídeo (Figura 19), como é o caso do vírus HPV. Figura 19 - Estrutura viral interna do HPV (papiloma vírus humano) O material genético dos vírus apresenta algumas particularidades em relação às células. Nestas, o DNA é encontrado sempre na estrutura de dupla fita e o RNA sempre forma uma fita simples. Nos vírus, entretanto, além dessas duas formas, podem ser encontrados, também, o DNA fita simples e o RNA fita dupla. Alguns vírus podem apresentar um envoltório extra, chamado invólucro ou envelope. Esses vírus são chamados, então, de envelopados. O envelope tem origem celular, formado por duas camadas de lipídios derivadas da membrana plasmática e é im- portante na identificação das células hospedeiras. Os vírus invadem as células conforme a compati- bilidade entre as proteínas na superfície do vírus e os receptores na superfície da membrana da célula hospedeira. Este sistema funciona como chave-fechadura: os vírus são a “chave” que abre a “fechadura” das células hospedeiras, invadindo-as. Por isso, a especificidade dos vírus pode variar, existem alguns bastante espe- cíficos (tanto para os tipos celulares quanto para as espécies de hospedeiros), e há também vírus que são mais generalistas, invadindo uma variedade maior de tipos celulares ou hospedeiros. Vírus e Bactérias Vírus e bactérias causam doenças em humanos, mas eles podem ser inimigos uns dos outros. Isto porque existem alguns vírus da classe dos bacteriófagos, que são especializados na invasão de bactérias. O bacteriófago é um vírus com simetria com- plexa, não envelopado e que possui fibras em sua base capazes de identificar as bactérias que serão suas hospedeiras (Figura 21). Seu mecanismo de infecção é bastante semelhante ao dos outros vírus, pois os bacteriófagos invadem e manipu- lam a bactéria hospedeira, fazendo com que ela passe a produzir material genético e proteínas da estrutura viral. Figura 20 - Estrutura viral externa do HPV (papiloma vírus humano) 34 Estrutura, Função e Evolução das Células Os bacteriófagos podem se reproduzir por dois ciclos diferentes. Devido à relativa simplicidade estrutural, a reprodução dos bacteriófagos será usada como exemplo geral de reprodução dos vírus. Figura 21 - Estrutura do vírus bacteriófago Reprodução dos vírus Os vírus se reproduzem no interior da célula hospedeira de duas maneiras: Ciclo Lítico (rápido) e Ciclo Lisogênico (lento). Existem vírus, como é o caso dos bacteriófagos, que realizam os dois ciclos. Alguns tipos entretanto, só conseguem se reproduzir por meio do ciclo lítico. Vírus são confundidos como bactérias e vice-versa. Sua composição estrutural, porém, faz dife- rença, pois antibióticos que são prescritos para infecções bacterianas não têm nenhum efeito sobre os vírus. pensando juntos Reprodução dos vírus 35UNIDADE 1 No Ciclo Lítico (Figura 22), o vírus ataca e usa imediatamente a célula hospedeira, colocando-a em função do vírus, ou seja, a célula passa imediatamente a produzir partículas virais. Por isso, as doen- ças que se desenvolvem por esse ciclo são consideradas agudas, ou seja, de desenvolvimento rápido. As fases do Ciclo Lítico são: Figura 22 - Esquema de Ciclo Lítico dos bacteriófagos, ênfase nas fases de Pe- netração, Maturação e Liberação dos vírus Por outro lado, o Ciclo Lisogênico(Figura 23) é um pouco diferente, porque o material genético (DNA ou RNA) viral é incorporado ao DNA bacteriano e há, assim, uma fase de “dormência”. Nesta fase, a bactéria pode se reproduzir, passando adiante o DNA bacteriano com material genético viral incluído. Após esse período, pode ocorrer uma alteração (no organismo ou no ambiente) que faz com que o DNA viral, incorporado ao DNA bacteriano, passe a comandar a produção de novos vírus e, então, o comportamento da célula hospedeira passa a ser similar ao que ocorre no ciclo lítico. Ao comparar, as fases do Ciclo Lisogênico são um pouco dife- rentes do Ciclo Lítico: 36 Estrutura, Função e Evolução das Células Vírus de células Eucariontes Os vírus que mais preocupam são aqueles que causam doenças em seres humanos, as chamadas viroses. Vírus como os do sarampo, da varíola, da poliomielite e da gripe já foram ou, ainda, são responsáveis por verdadeiras epidemias que, inclusive, podem levar muitos doentes à morte. Figura 23 - Esquema comparativo entre os ciclos lítico e lisogênico do vírus bacteriófago infectando uma bactéria hospedeira Fonte: Wikimedia Commons (2014, on-line)4. Diferente das bactérias, para as quais é possível tomar antibióticos, ao contrair uma virose, você contará, basicamente, com seu sistema imune ou, então, se houver, com vacinas. HIV e AIDS Uma das epidemias mais importantes das últimas décadas é causada pelo vírus HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana). Esse vírus ataca um grupo de células de defesa do organismo co- nhecidas como linfócitos T4, que são cruciais para o funcionamento do sistema imune. O HIV é causador da AIDS (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida), uma DST (Doença Sexualmente Transmissível), para a qual não há vacina. Para saber mais, acesse: <https://www.unicef.org/ prescriber/port_p16.pdf>. Fonte: Unicef (1998). explorando Ideias 37UNIDADE 1 O ciclo reprodutivo dos vírus de células eucariontes é igual ao que ocorre em células procariontes, com as fases de: infecção, penetração, produção viral, maturação e liberação. O material genético dos vírus de células eucariontes é mais complexo do que em procariontes. Isto porque células eucariontes são mais complexas, o que demanda do material genético viral maior capacidade de adaptação e de variabilidade. Outra característica interessante sobre o material genético viral está nos vírus que têm RNA como material genético. Mais adiante, na Unidade 4, você verá com maiores detalhes a estrutura do DNA e do RNA. Por enquanto, considere que, se um vírus tem DNA como material genético, ele “coloca” seu DNA para trabalhar no lugar do DNA da célula hospedeira. Porém se o material genético é o RNA, não é possível fazer isso. Eis aí uma particularidade. Os vírus de RNA realizam uma transcrição reversa (Figura 24), ou seja, uma molécula de RNA dá origem a uma de DNA (ao contrário da transcrição usual, em que o DNA dá origem ao RNA), tudo isso usando a maquinaria celular. Assim, o DNA recém-formado passa a substituir as funções do DNA da célula hospedeira. Figura 24 - Replicação do DNA (DNA forma outro DNA); Transcrição (DNA forma RNA); Tradução (RNA forma pro- teínas) e Transcrição reversa (realizada pelos vírus de RNA, em que o RNA viral dá origem a um DNA) 38 Estrutura, Função e Evolução das Células Nos tópicos anteriores, você pôde conhecer me- lhor as células procariontes e eucariontes e iden- tificar elementos que essas células possuem em comum. Você aprofundou seus estudos também sobre partículas menores do que as células: os vírus. Agora, você vai passar para uma nova escala, de estruturas ainda menores: as moléculas. As moléculas são, basicamente, os componen- tes químicos das células, ou seja, todas as células são constituídas de diversas moléculas que desem- penham funções fundamentais. Os seres vivos e, mais especificamente, as células, são compostos por moléculas muito semelhantes: 99% da massa das células é formada de Carbono, Hidrogênio, Oxigênio e Nitrogênio (chame esta combinação de componentes de “CHON”, para facilitar). Em contrapartida, os seres inanimados que existem na Terra são, basicamente, compostos de oxigênio, silício, alumínio e sódio (JUNQUEIRA; CAR- NEIRO, 2015). Organização Estrutural e Constituição Molecular da Célula 39UNIDADE 1 As moléculas constituintes dos seres vivos po- dem ser classificadas em inorgânicas (água e sais minerais, que dão origem aos íons) e orgânicas (carboidratos, lipídios, proteínas e ácidos nuclei- cos) (Figura 25). A água tem a tendência de se combinar com íons positivos (cátions) e negativos (ânions), que é maior do que a atração entre os íons que formam a molécula do composto. Esta capacidade de formar íons faz com que a água seja considerada um dos melhores solventes conhecidos. A molécula de água é morfológica e eletrica- mente assimétrica: os dois hidrogênios formam um ângulo com o oxigênio de 104,45º (Figura 26), devido às diferenças de cargas elétricas. Assim, a água é uma substância polar, um dipolo, em que o oxigênio é o polo positivo e os dois hidrogênios são os polos negativos. Figura 25 - Composição química das células em porcenta- gem das substâncias Fonte: Bio Point (2011, on-line)5. Água A água é a substância mais abundante nos seres vivos, compondo de 75% a 85% das células dos diferentes organismos. Além disso, as primeiras células se desenvolveram em meio líquido. Ao contrário do que pode parecer, ela não é uma substância inerte, com função única de preen- chimento das células. Figura 26 - Molécula de água em vista 3D Fonte: Wikimedia Commons (2014, on-line)6. 40 Estrutura, Função e Evolução das Células Sais Minerais (íons) Os sais minerais, em meio aquoso como no interior das células, dão origem aos íons, que têm papel fundamental no metabolismo celular. Os íons desempenham diversas funções vitais (Tabela 2) e alguns deles são encontrados em todos os seres vivos. Tabela 2 - Principais íons orgânicos e suas respectivas funções Íon Função Cálcio (Ca²+) Componente de membranas, cromossomos, e esqueleto dos vertebrados; participa da contração muscular e da coagulação sanguínea. Ferro (Fe²+) Participa da respiração celular; compõe os citocromos e a hemoglobina. Magnésio (Mg²+) Componente da molécula de clorofila. Zinco (Zn²+), Cobre (Cu+) e Cobalto (Co²+) Atuam como coenzimas em algumas reações químicas do metabolismo. Sódio (Na+) Potássio (K+) Participam da transmissão do impulso nervoso. Fosfato (PO4³ -) Componente da molécula de ATP e dos nucleotídeos do DNA e do RNA. Fonte: adaptada de Junqueira e Carneiro (2012). Carboidratos Os carboidratos são moléculas orgânicas formadas, basicamente, de átomos de carbono, hidrogênio e oxigênio. São conhecidos como açúcares e desempenham funções essenciais para o funcionamento das células, como: • Energética: são importantes fontes de energia para as células. Ex.: glicogênio (animais) e amido (vegetais). • Estrutural: estão presentes na parede celular de plantas, algas, fungos e bactérias. • Marcadores da identidade celular. Ex.: glicoproteínas na membrana plasmática. • Componentes extracelulares fazem parte da matriz extracelular. Com relação à estrutura, os carboidratos podem ser de dois tipos: monossacarídeos e polissacarídeos. Os monossacarídeos são os açúcares simples, como a glicose e a frutose. Os polissacarídeos são carboi- dratos complexos, pois são polímeros de monossacarídeos. A celulose (Figura 27), presente na parede celular dos vegetais, é um exemplo de polissacarídeo. 41UNIDADE 1 Figura 27 - Estrutura e localização da celulose, um polissacarídeo que forma a parede celular dos vegetais Lipídios Os lipídios são conhecidos como óleos, gorduras e ceras. Eles for- mam moléculas apolares que não se misturam bem com a água, ou seja, são hidrofóbicas. A maioria dos lipídios são produzidos pelas próprias células: gorduras, fosfolipídios, graxas e esteróis. Nas células, os lipídios exercem funções muito importantespara as células, tais como: • Estoque energético: cada grama de lipídio fornece 9 kcal, enquanto carboidratos e proteínas fornecem, aproximada- mente, 5 kcal cada. • Isolamento térmico: ao formar o tecido adiposo, os lipídios têm função de proteção contra o frio em animais, como ursos e baleias. • Estrutural: são componentes fundamentais na estrutura das membranas celulares. • Impermeabilização: devido à hidrofobia, os lipídios atuam como impermeabilizadores em diversos vegetais. • Sinalização: alguns lipídios atuam como hormônios e, assim, sinalizam e controlam diversos processos no metabolismo celular. 42 Estrutura, Função e Evolução das Células Os lipídios formam o grupo de moléculas orgânicas mais diversas em estrutura, com maior diversidade do que os carboidratos, as proteínas e os ácidos nucleicos. Isto acontece porque os lipídios, diferente dos outros grupos, não são polímeros. A estrutura básica dos lipídios são os hidrocarbonetos, moléculas com longas cadeias de carbono ligadas aos hidrogênios (Figura 28). Figura 28 - Estruturas moleculares dos principais tipos de lipídios Proteínas As proteínas têm papel chave na estrutura e no funcionamento celular. Dentre as funções realizadas pelas proteínas, destacam-se: • Enzimática: aceleram reações químicas do metabolismo. • Estrutural: componentes da membrana plasmática, do citoesqueleto, da matriz extracelular e dão suporte às células (como o colágeno). • Transporte: ligadas à membrana plasmática, são responsáveis por transportar substâncias para dentro e para fora das células. • Identidade celular: sinalizam células específicas, como as glicoproteínas na superfície da mem- brana plasmática. • Movimentação celular: proteínas do citoesqueleto que podem se estender até cílios e flagelos. • Comunicação celular: recebem e enviam informações de uma célula para outra, como é o caso da insulina. 43UNIDADE 1 • Organização: as chaperonas garantem o sucesso da formação de outras proteínas. • Defesa: anticorpos do sistema imune são proteínas que aju- dam na defesa do organismo contra agentes externos, como vírus e bactérias. • Controlam a síntese de DNA e RNA. Proteínas são polímeros de aminoácidos que desempenham uma função. Existem mais de 150 tipos de aminoácidos na natureza, mas apenas 20 deles aparecem nas proteínas celulares (Figura 29). Figura 29 - Estrutura dos aminoácidos presentes nas células 44 Estrutura, Função e Evolução das Células Cada polipeptídeo tem um formato específico, conforme a função que executa. O formato, ou seja, a estrutura de uma proteína, é tão importante que, se há alguma mudança nesse formato, a proteína desnatura (de maneira irreversível) e não funciona mais. De acordo com a conformação das proteínas, elas são classificadas em quatro categorias: primária, secundária, terciária e quaternária (Figura 30). Figura 30 - Estruturas primária, secundária, terciária e quaternária assumidas por uma proteína Fonte: Wikimedia Commons (2013, on-line)7. A estrutura primária é formada pela união de aminoácidos em se- quência, em uma cadeia polipeptídica. A ordem dos aminoácidos, nessa cadeia, é determinada pelo DNA. A estrutura secundária se forma quando a estrutura primária se dobra ou se envolve sobre ela mesma, formando um arranjo complexo, sustentado por pontes de hidrogênio. A estrutura terciária se forma quando uma cadeia que contém a estrutura secundária dobra novamente sobre si mesma, adquirindo o formato tridimensional. A estrutura quaternária está presente em proteínas grandes e complexas, formadas por muitas cadeias polipeptídicas. A hemoglobina, proteína sanguínea que transporta o oxigênio, apresenta estrutura quaternária com as cadeias terciárias alfa e beta (Figura 31). 45UNIDADE 1 Um dos tipos mais importantes de proteínas são as enzimas. Sem elas, as reações quími- cas não aconteceriam rápido o suficiente para manter a célula viva. Como são proteínas, as enzimas também são produzidas sob o controle do DNA. As enzimas se combinam a substratos específi- cos para que a reação aconteça. Substrato é o nome que se dá ao composto que sofre a ação da enzima. Na estrutura de cada enzima, há um centro ativo, um local (na enzima) em que o substrato se encaixa para que haja ação enzimática (Figura 32). Figura 31 - Estrutura da enzima com o centro ativo, que se combina aos substratos para formar o produto As enzimas podem ser inibidas quando a reação não é catalisada. As inibições podem ser do tipo competitiva ou não competitiva (Figura 33). Inibição competitiva: uma molécula semelhante ao substrato, mas que não sofre ação enzimática (inibidor) e que se encaixa no sítio ativo da enzima, impedindo a reação de catalisação. Inibição não competitiva: o inibidor é uma molécula que não compete com o substrato, mas que muda a configuração da enzima, impedindo o encaixe com o substrato e, consequentemente, a reação. Figura 32 - Inibição competitiva (a), quando o inibidor ocupa o lugar do substrato. Inibição não competitiva (b), o inibidor muda a conformação da enzima, impedindo o encaixe com o substrato Fonte: Wikimedia Commons (2016, on-line)8. 46 Estrutura, Função e Evolução das Células Além da inibição, existem também fatores externos ou ambientais que afetam a atividade enzimática: as variações de temperatura (aumentos excessivos na temperatura podem desnaturar a proteína, enquanto a redução na temperatura pode reduzir a atividade enzimática) ou pH, a concentração do substrato e a presença de ativadores e inibidores que alteram a velocidade de atuação das enzimas. Ácidos nucleicos As moléculas de DNA têm a capacidade de arma- zenar o código genético por meio da sequência das bases nitrogenadas em sua estrutura. Estas informações determinam as características das células e, consequentemente, dos organismos. No DNA, há instruções para a formação de proteínas, para a transcrição (DNA para RNA) e também informações para a regulação da atividade do próprio DNA. O RNA, formado a partir da molécula de DNA, tem funções diferentes dependendo do seu local de atuação: • RNA mensageiro (RNAm): contém, em sua estrutura, as informações para a for- mação de uma proteína. • RNA transportador (RNAt): Está ligado a um aminoácido e participa da tradução de RNA para proteína. • RNA ribossômico (RNAr): é componente da estrutura dos ribossomos, organelas res- ponsáveis pela síntese de proteínas. O DNA e o RNA, ácidos nucleicos celulares, são polímeros de nucleotídeos. Um nucleotídeo é for- mado por três partes: uma pentose (açúcar de 5 carbonos), um grupamento fosfato (PO₄³-) e uma base nitrogenada. Os carbonos de cada pentose são numerados de 1 a 5 a partir da ligação com a base nitrogenada (Figura 34): Figura 33 - Ribose e desoxirribose, com carbonos nume- rados de 1 a 5 Fonte: Pinto (2013, on-line)9. As bases nitrogenadas podem ser de cinco tipos: Adenina, Guanina, Citosina, Timina (apenas no DNA) e Uracila (apenas no RNA). Quanto à sua estrutura, elas podem ser classificadas em: • Purinas: são bases maiores, compostas por dois anéis aromáticos. Adenina (A) e Guanina (G) são purinas e estão presentes tanto no DNA quanto no RNA. • Pirimidinas: são menores do que as pu- rinas, compostas por apenas um anel aro- mático. Citosina (C), Timina (T) e Uracila (U) são pirimidinas, sendo que a citosina está presente em ambos os ácidos nuclei- cos, mas a timina é exclusiva do DNA e a uracila é encontrada somente no RNA. OH CH25 4 1 23 OHO H HH H OH OH Ribose Desoxirribose OH CH25 4 1 23 OHO H HH H OH H Se só houvesse ligações peptídicas na estrutura das proteínas, as moléculas seriam dobradas ao acaso, e as funções exercidas pelas proteínas seriam comprometidas. pensando juntos 47UNIDADE 1 Há também uma diferença quanto à estrutura. O RNA é formado por apenas uma cadeia de nucleo- tídeos, enquanto o DNA tem, em sua estrutura, duas cadeias nucleotídicas unidas. Além disso, na molécu- la de DNA, as purinas (adeninae guanina) se ligam às pirimidinas (timina e citosina) por meio de pontes de hidrogênio que unem às duas cadeias de nucleo- tídeos. Essas ligações se dão sempre em: Timina/ Adenina (duas pontes de hidrogênio) e Guanina/ Citosina (três pontes de hidrogênio) (Figura 35). Na estrutura do RNA, essas ligações não se formam, pois a molécula de RNA é formada por apenas uma cadeia de nucleotídeos (Figura 36). Figura 34 - Ligações tipo pontes de hidrogênio entre as bases nitrogenadas que formam a estrutura do DNA Figura 35 - Comparação da estrutura do DNA (dupla cadeia de nucleotídeos) e do RNA (cadeia única) 48 Estrutura, Função e Evolução das Células Caro(a) aluno(a), ao longo desta unidade, você pôde conhecer melhor a estrutura de uma célula. A proposta desta unidade foi introduzi-lo (a) ao estudo da Biologia Celular. Desde o histórico da descoberta dos microrganismos, passando pela estrutura de uma célula, até chegar nas principais moléculas celulares, todos estes conteúdos serão base para o que você estudará nas próximas uni- dades. Sempre que julgar necessário, retome a esta unidade para o esclarecimento de eventuais dúvi- das. Buscar as informações e os materiais extras pode ajudá-lo (a) a avançar para passos cada vez mais largos e certeiros. CONSIDERAÇÕES FINAIS Chegamos ao fim da primeira unidade e você já possui uma bagagem considerável de informações e conhecimentos a respeito das células. Vamos, então, retomar e estabelecer conexões entre tudo o que foi estudado. Inicialmente, relacionamos a descoberta dos microrganismos (células) à invenção de micros- cópios. A melhora na tecnologia possibilitou o aumento na resolução destes aparelhos e foram descobertas as estruturas das organelas celulares e mesmo, os vírus. Em seguida, você conheceu a estrutura geral de uma célula, com as respectivas organelas. A partir da estrutura celular, relacionamos todas as células por meio de uma origem evolutiva co- mum, além de levantar as principais hipóteses a respeito da origem das primeiras células ainda nos dias de hoje. Dentre as diferentes células que existem, es- tudamos os organismos procariontes e eucarion- tes, com os respectivos exemplares na natureza. Estudamos também os principais componentes celulares: os envoltórios, o citoplasma, as organe- las e o núcleo. Estas características são de funda- mental importância para o desenvolvimento e o metabolismo celular, bem como ampliam a visão a respeito da atual biodiversidade que existe em nosso planeta. Apesar de acelulares, os vírus estão estreita- mente relacionados às células e, por isso, enfatiza- mos a estrutura e o metabolismo viral que ocor- re dentro de uma célula hospedeira. Conhecer a ação do vírus no interior das células tem grande importância para o desenvolvimento de medica- mentos que combatem as viroses, bem como sua utilização adequada. Em interface com a bioquímica, estudamos os principais componentes das estruturas celu- lares, tanto inorgânicos, como água e íons (sais minerais), quanto os orgânicos, como carboidra- tos, lipídios, proteínas e ácidos nucleicos. Estas moléculas desempenham funções fundamentais para o metabolismo celular e, consequentemente, para a manutenção da vida. Toda a proposta desta unidade consiste em servir de base para o estudo das próximas, pois, a partir daqui, aprofundaremos ainda mais os estudos sobre a estrutura e o metabolismo ce- lular. 49 Você pode utilizar seu diário de bordo para a resolução. 1. Considerando tudo o que foi estudado a respeito do histórico da Biologia Celular, elabore uma linha do tempo com, pelo menos, cinco eventos principais que você considera fundamentais para o conhecimento atual nesta área. 2. De acordo com a Teoria Celular, todos os seres vivos são formados por células. Mesmo com organismos uni e pluricelulares e uma biodiversidade muito grande, todas as células são constituídas de alguns elementos em comum. Assinale a alternativa em que só existam elementos presentes em todos os tipos de células. a) Membrana plasmática, parede celular e ribossomos. b) Mitocôndria, citoplasma e DNA. c) Núcleo, Complexo de Golgi e vacúolo. d) Membrana plasmática, citoplasma e ribossomos. e) Parede celular, retículo endoplasmático e RNA. 3. Sobre a hipótese da origem das mitocôndrias e dos cloroplastos por endossim- biose, analise as afirmativas a seguir. Depois, assinale verdadeiro (V) ou falso (F): ) ( Os cloroplastos tiveram origem anterior às mitocôndrias. ) ( A origem das mitocôndrias é explicada pela endossimbiose secundária. ) ( Presença de DNA e ribossomos próprios, capacidade de autorreplicação e membrana dupla nas mitocôndrias e nos cloroplastos são argumentos para a hipótese da endossimbiose. Assinale a sequência correta: a) V, V e F. b) F, F e V. c) V, F e V. d) F, F e F. e) V, V e V. 50 4. Sobre as células procariontes e eucariontes, analise as afirmativas a seguir: I) Os domínios Archaea e Bacteria têm representantes exclusivamente unice- lulares e procariontes. II) Algumas diferenças entre as células procariontes e eucariontes são o ta- manho; a presença/ausência de núcleo; a presença/ausência de organelas membranosas e ribossomos com tamanhos e composições diferentes. III) São semelhanças entre as células animais e vegetais: presença de núcleo, parede celular e ribossomos. IV) As células dos fungos, assim como as dos vegetais, possuem parede celular de celulose. Assinale a alternativa correta: a) Apenas as afirmativas I e II estão corretas. b) Apenas as afirmativas II e III estão corretas. c) Apenas a afirmativa I está correta. d) Apenas as afirmativas II, III e IV estão corretas. e) Nenhuma das afirmativas está correta. 5. Sobre os vírus, assinale a alternativa correta: a) Os vírus são os menores organismos celulares que existem, ainda menores do que as bactérias, podendo, inclusive, atacar bactérias. b) O material genético dos vírus é composto por DNA e RNA. c) O ciclo lítico de reprodução dos vírus apresenta um período de latência, em que o DNA viral é incorporado ao DNA da célula hospedeira. d) Bacteriófagos são vírus que atacam células, como os linfócitos humanos. e) Vírus são parasitas intracelulares obrigatórios e não apresentam metabolismo ou capacidade de reprodução fora de uma célula hospedeira. 51 6. A respeito das moléculas que compõem a estrutura das células, analise as afir- mativas a seguir e assinale verdadeiro (V) ou falso (F): ) ( Água e sais minerais, que dão origem aos íons, são componentes orgânicos das células. ) ( Os carboidratos são polímeros de nucleotídeos e são importantes para a identidade celular. ) ( Os lipídios são moléculas hidrofóbicas, ou seja, não têm afinidade com a água por conta de sua estrutura molecular apolar que se opõe à estrutura da água. ) ( As enzimas são tipos especiais de proteínas que catalisam reações químicas no metabolismo celular. ) ( As proteínas são formadas por longas cadeias de monossacarídeos unidos por ligações glicosídicas. Assinale a sequência correta: a) V, V, F, V e V. b) F, V, V, F e F. c) V, F, V, F e V. d) F, F, V, V e F. e) V, V, F, F e V. 52 HOUVE MUDANÇAS RECENTES NA BIOLOGIA EM RELAÇÃO À CITOLOGIA? Nas últimas décadas, houve um progresso con- siderável no conhecimento da organização e função das organelas e estruturas celulares e da interação entre os diversos tipos de células que compõem os tecidos animais. Pode-se citar, como exemplo, a identificação de canais iônicos e receptores na superfície celu- lar, de moléculas de adesão, de proteínas do citoesqueleto, de fatores de crescimento etc. A identificação e a localização de diferentes moléculas permitiram maior compreensão de fenômenos celulares, tais como a migração de células, a regeneração de neurônios e de fibras musculares, a compartimentalização do com- plexo de golgi ou mesmo a identificação de novas organelas em protozoários. Esse progresso é resultado do desenvolvimentode tecnologias que permitem a identificação precisa de macromoléculas, não só no interior das células, mas também na matriz extracelular. Com a micros- copia confocal, por exemplo, pode-se visualizar a organização tridimensional de moléculas marca- das com compostos fluorescentes. A técnica de crioultramicrotomia – que permite a obtenção de secções muito finas (60-100 nanômetros) de células/tecidos congelados – permite o estudo de células que não foram submetidas ao processo de fixação química, diminuindo, significativamente, os artefatos resultantes desse processo. A utilização de sondas para detectar ácidos nucleicos (segmentos de DNA e diferentes tipos de RNA) permite estudar a expressão de genes em células submetidas a diferentes condições experimentais e em diversas doenças. Como na ciência moderna não há mais barreiras entre as diferentes áreas do conhecimento, essas técnicas são utilizadas por pesquisadores de diferentes especialidades: morfologistas, bioquímicos, microbiologistas, patologistas etc. É importante salientar que, embora os termos citologia e histologia tenham conotação mor- fológica, a pesquisa nessas áreas tem adquirido, cada vez mais, caráter interdisciplinar. Fonte: Camargos (2006). 53 O Planeta Simbiótico Autor: Lynn Margulis Editora: Rocco Sinopse: a autora apresenta sua Teoria da Endossimbiose Sequencial em lin- guagem simples. Essa teoria mostra que a célula, como a conhecemos hoje, surgiu de uma simbiose entre bactérias primitivas. Para comprová-la, baseia-se no material encontrado no citoplasma. LIVRO Crick, Watson e o DNA em 90 minutos Autor: Paul Strathern Editora: Zahar Sinopse: em 1953, Francis Crick e James Watson identificaram a estrutura do DNA, vencendo a batalha travada entre importantes cientistas para descobrir e mapear o código genético. Seu trabalho mudou a história do século XX e da humanidade, possibilitando avanços e inovações antes impensáveis. E também levantou questões éticas fundamentais que a comunidade científica luta para responder. LIVRO 10% Humano Autor: Alanna Collen Editora: Sextante Sinopse: somos apenas 10% humanos. Não somos feitos apenas de carne e osso, músculos e sangue, cérebro e pele — somos também bactérias e fungos. Um livro pioneiro e extraordinário, que conta a história de uma das relações íntimas mais antigas da humanidade: a das pessoas e dos seus micróbios. LIVRO 54 As teorias para o surgimento das primeiras células — e da vida na Terra Matéria da BBC, traduzida para o português, com uma explicação bastante completa a respeito das principais teorias sobre o surgimento das primeiras células. Web: <https://www.bbc.com/portuguese/vert-earth-38205665>. E a Vida Continua Ano: 1993 Sinopse: no início dos anos 80, surgiu uma misteriosa doença. Uma pesquisa independente conseguiu identificar o vírus transmissor da doença e a batizou de HIV. Este drama documental conta a história da mais devastadora epidemia do século XX: a AIDS. Comentário: existe um filme brasileiro, de 2001, com o mesmo nome. Então, se atente ao procurar pelo título. FILME O Monge e o Executivo Links: Lus, milin diem licerfinclus criosteredem sedius, Catque ia in Etravo, C. Ut pra nos estam inatrec movides demus, sisus a audam. vis spiocae ernirmis escer quam publicienium inaride ntintiam ad menterd ienamquit. Para acessar, use seu leitor de QR Code. WEB http:// 55 BROWN, T.; LEMAY Jr, H. E.; BURSTEN, B. E.; MURPHY, C. J.; WOODWARD, P. M.; STOLZFUS, M. W. Che- mistry: The Central Science. 13. ed. New Jersey: Prentice-Hall, 2014. CAMARGOS, E. R. S. Houve mudanças recentes na biologia em relação à citologia e à histologia animal e vegetal? In: COSTA, V. R.; COSTA, E. V. Biologia: explorando o ensino. Brasília: Ministério da Educação; Secretaria de Educação Básica, 2006. Volume 6. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/EnsMed/expensbio. pdf>. Acesso em: 28 dez. 2018. CHALTON, N.; MacARDLE, M. História da Ciência para quem tem pressa. 1. ed. Rio de Janeiro: Valentina, 2017. COLLEN, A. 10% Humano: como os microrganismos são a chave para a saúde do corpo e da mente. Rio de Janeiro: Sextante, 2016. HOMANN, M. et al. life and biogeochemical cycling on land 3,220 million years ago. Nature Geoscience, v. 11, n. 9, 2018. JUNQUEIRA, L. C.; CARNEIRO, J. Biologia Celular e Molecular. 9. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2012. MARGULIS, L. O planeta simbiótico: uma nova perspectiva da evolução. Rio de Janeiro: Rocco, 2001. MARTINS, S. C. S.; MARTINS, C. M. Bacteriófagos: ferramenta para o controle de bactérias patogênicas. En- ciclopédia Biosfera, Goiânia, v.10, n.18, 2014. Disponível em: <http://www.conhecer.org.br/enciclop/2014a/ CIENCIAS%20BIOLOGICAS/bacteriofagos.pdf>. Acesso em: 28 dez. 2018. NUTMAN, A. P.; BENNETT, V. C.; FRIEND, C. R.; Van KRANENDONK, M. J.; CHIVAS, A. R. Rapid emergence of life shown by discovery of 3,700-million-year-old microbial structures. Nature, v. 537, n. 7621, 2016. PELCZAR JR., M. J.; CHAN, E. C. S.; KRIEG, N. R. Microbiologia: conceitos e a aplicações. 2. ed. São Paulo: Makron Books, 2005. ROONEY, A. A História da Biologia: da Ciência dos tempos antigos à Genética moderna. São Paulo: M. Books do Brasil, 2018. SANTOS, D. M. M. Universidade Estadual Paulista. Departamento de Biologia. Disciplina de Biologia Celular. A teoria endossimbiótica celular. Jabuticabal: Unesp, 2007. Aula. 3 p. Disponível em: <http://www.fcav.unesp. br/Home/departamentos/biologia/DURVALINAMARIAM.DOSSANTOS/TEXTO-97.pdf>. Acesso em: 28 dez. 2018. 56 SILVA, E. C. C.; AIRES, J. A. Panorama histórico da Teoria Celular. História da Ciência e Ensino: construindo interfaces, v. 14, p. 1-18, 2016. UNICEF. Fundo das Nações Unidas para a Infância. HIV/AIDS: Prevenção, tratamento, cuidado. A Prescrição, n. 16-17. [S.l.]: set. 1998. Disponível em: <https://www.unicef.org/prescriber/port_p16.pdf>. Acesso em: 28 dez. 2018. WOESE, C. R.; KANDLER, O.; WHEELIS, M. L. Towards a natural system of organisms: proposal for the domains Archaea, Bacteria, and Eucarya. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 87, n. 12, p. 4576-4579, 1990. Referências On-Line ¹ Em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:RobertHookeMicrographia1665.jpg>. Acesso em: 87 dez. 2018. ²Em: <https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=529517>. Acesso em: 27 dez. 2018. ³Em: <https://www.bbc.com/portuguese/vert -earth-38205665>. Acesso em: 28 dez. 2018. 4Em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Phage_lambda_life_cycle_es.svg>. Acesso em: 28 dez. 2018. 5 Em: <http://svaleria68.blogspot.com/2011/03/base-molecular-da-vida_9026.html>. Acesso em: 28 dez. 2018. 6 Em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Tetrahedral_Structure_of_Water.png>. Acesso em: 28 dez. 2018. 7 Em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:225_Peptide_Bond-01.jpg>. Acesso em: 28 dez. 2018. 8 Em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Competitive%26NonCompetitive_Enzyme_Inhibition. jpg>. Acesso em: 28 dez. 2018. 9 Em: <http://ead.hemocentro.fmrp.usp.br/joomla/index.php/publicacoes/folhetins/469-dna-o-senti- do-da-vida>. Acesso em: 28 dez. 2018. 57 1. Hooke: primeiro a descrever uma célula (século XVII). Theodor Schwann: Teoria Celular (1893). Beijerinck: descoberta dos vírus (ainda menores do que as células) (século XIX). Desenvolvimento do microscópio eletrônico (século XX). Watson e Crick: descoberta da estrutura do material genético (DNA e RNA) (século XX). 2. D. 3. B. 4. A. 5. E. 6. D. 58 PLANO DE ESTUDOS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM • Conhecer a organização e as propriedades da membrana plasmática. • Identificar os componentes e as trocas que ocorrem entre o meio intracelular e extracelular. • Reconhecer as principais estruturas e as respectivas fun- ções dos componentes citoplasmáticos. • Compreender a organização e as funções do citoesqueleto e sua relação com os movimentos celulares. • Compreender os aspectos da interação e da comunicação entre as célulaspor meio de sinais químicos. Membrana Plasmática, Parede Celular e Glicocálix Trocas Entre a Célula e o Meio Extracelular Citoesqueleto e Movimentos Celulares Comunicação Celular por Meio de Sinais Químicos Citoplasma: Estrutura, Função e Composição Professora Me. Eloiza Muniz Capparros Envoltórios Celulares, Citoplasma e Citoesqueleto 60 Envoltórios Celulares, Citoplasma e Citoesqueleto Membrana Plasmática, Parede Celular e Glicocálix INTRODUÇÃO Olá, caro (a) aluno(a)! Considerando tudo o que você estudou na pri- meira unidade, a partir de agora, você terá uma visão mais aprofundada a respeito das células. Começaremos os estudos sobre a célula “de fora para dentro”, ou seja, nesta unidade, os envoltórios celulares serão nosso ponto de partida, passando pelo citoplasma e o citoesqueleto, finalizando com as comunicações celulares. Inicialmente, já considerando tudo o que você estudou sobre os componentes químicos da célu- la, aprofundaremos o conhecimento da estrutura e da função da membrana plasmática, que é o envoltório presente em todas as células e, em se- guida, estudaremos dois tipos de envoltórios mais específicos, que são a parede celular e o glicocálix. 61UNIDADE 2 Os envoltórios celulares, como o próprio nome sugere, são estruturas que envolvem e deli- mitam as células, separando o meio extracelular do interior da célula. Existem três tipos de envoltórios: membrana plasmática, que é universal, ou seja, encontra-se em todos os tipos de célula; parede celular, que está presente nos vegetais, fungos e bactérias; glicocálix, presente nas células animais. O objetivo aqui é estudar a estrutura, a composição e as funções que cada envoltório realiza, porque, mais adiante, você conhecerá o funcionamento dos envoltórios no metabolismo celular. Ao estudar sobre a membrana plasmática, você perceberá a importância de manter o meio externo à célula diferente de seu interior, pois estas diferenças garantem a atividade das células, ou seja, seu metabolismo. Para entender como essas diferenças acontecem, estudaremos as trocas que ocorrem entre a célula e seu entorno, envolvendo tanto processos passivos (que não consomem energia) quanto ativos (os que consomem). Depois de estudar sobre os envoltórios, passaremos para o interior da célula: o citoplasma. Enten- deremos melhor como é a estrutura do citoplasma, quais são seus componentes e quais funções realiza. Associado ao citoplasma, e também muito importante na determinação da consistência do ci- toplasma, está o citoesqueleto. Esta estrutura, que chamamos de citoesqueleto, sustenta a célula e é fundamental para a movimentação celular, a qual estudaremos em seguida. Encerraremos a segunda unidade com a comunicação celular, que envolve processos de enviar e receber sinais químicos. Como veremos, a comunicação é de grande importância para o funcionamento das células em conjunto, quando formam os tecidos. Bons estudos! 62 Envoltórios Celulares, Citoplasma e Citoesqueleto Membrana Plasmática A membrana plasmática, também conhecida como membrana citoplasmática ou plasmalena, é a parte mais externa do citoplasma, que separa a Figura 1 - Eletromicrografia de duas células próximas, em que é possível visualizar a membrana plasmática de ambas, separadas por um espaço intercelular Fonte: Chimica ([2018], on-line)¹. Membrana celular Membrana celular Espaço intercelular célula do meio extracelular. Com espessura entre 7 a 10 nm, só é possível visualizá-la ao microscópio eletrônico. Nas eletromicrografias, aparece como uma estrutura trilaminar: duas linhas escuras se- paradas por uma linha clara (Figura 1). Na estrutura dos eucariontes existem outras membranas além da plasmática, então, essa orga- nização leva o nome de unidade de membrana. As unidades de membrana são bicamadas fos- folipídicas (Figura 2) que separam dois meios, no caso da membrana plasmática, a separação é entre o meio extracelular e o citoplasma. Na membrana plasmática, além dos fosfolipí- dios, há também proteínas, esteróis e carboi- dratos (Figura 2). • Fosfolipídios: principais componentes da membrana plasmática associados às proteí- nas. São anfipáticos (contêm, nas mesmas moléculas regiões polares e apolares), pois os lipídios são hidrofóbicos (não se mistura à água), mas o grupamento fosfato é hidro- fílico (tem afinidade e se mistura à água). Membrana Plasmática A membrana plasmática, também conhecida como membrana citoplasmática ou plasmalena, é a parte mais externa do citoplasma, que separa a célula do meio extracelular. Com espessura entre 7 a 10 nm, só é possível visualizá-la ao microscó- pio eletrônico. Nas eletromicrografias, aparece como uma estrutura trilaminar: duas linhas es- curas separadas por uma linha clara (Figura 1). Na estrutura dos eucariontes existem outras membranas além da plasmática, então, essa orga- nização leva o nome de unidade de membrana. As unidades de membrana são bicamadas fos- folipídicas (Figura 2) que separam dois meios, no caso da membrana plasmática, a separação é entre o meio extracelular e o citoplasma. 63UNIDADE 2 Na membrana plasmática, além dos fosfolipí- dios, há também proteínas, esteróis e carboi- dratos (Figura 2). • Fosfolipídios: principais componentes da membrana plasmática associados às pro- teínas. São anfipáticos (contêm, nas mes- mas moléculas regiões polares e apolares), pois os lipídios são hidrofóbicos (não se mistura à água), mas o grupamento fosfato é hidrofílico (tem afinidade e se mistura à água). • Proteínas: estão associadas às extremida- des interna e externa da membrana plas- mática, e a quantidade de proteínas varia conforme a atividade funcional de cada célula (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2015). • Esteróis: ficam anexos à membrana plas- mática. Os tipos de esteróis estão relacio- nados às funções que a célula executa. • Carboidratos: ficam anexos às proteínas receptoras, na face externa da membrana plasmática. Figura 2 - Componentes e estrutura da membrana plasmática Fosfolipídeo Cabeça hidrofílica Cauda hidrofóbica Polar Apolar Polar Proteína integral Glicolipídeo Proteína de canal (transportadora) Cadeia de carboidratos Colesterol Proteína periférica Proteína alfa-hélice hidrofóbica Proteína globular Glicoproteína Bicamada fosfolipídica Meio extracelular Meio intracelular (citoplasma) Em relação ao funcionamento, a membrana plasmática tem permeabilidade seletiva, ou seja, ela tem o controle de tudo o que entra e sai da célula. Alguns compostos e íons atravessam a bicamada lipídica, mas o controle propriamente dito é realizado pelas proteínas de membrana, especialmente as receptoras e as transportadoras. Existem diversos tipos de proteínas associadas à membrana plasmática, algumas atravessam toda a membrana (chamadas integrais, intrínsecas ou transmembrana) enquanto outras não chegam a atravessar (periféricas ou extrínsecas). 64 Envoltórios Celulares, Citoplasma e Citoesqueleto Com relação à função, as proteínas de membrana podem ser: • Transportadoras: são proteínas integrais que auxiliam moléculas a atravessar a membrana plasmática. • Receptoras: recebem sinais (químicos, físicos, hormonais) de fora da célula. • (De) Adesão: realizam conexões entre o lado interno e externo da célula, aumentando a coesão. • (De) Identidade: são glicoproteínas que ficam na superfície externa da membrana plasmática e auxiliam no reconhecimento de tipos celulares diferentes. • Enzimas: existem algumas enzimas (catalisadores de reações químicas do metabolismo) que estão aderidas à membrana plasmática. Parede Celular Todas as células têm membrana plasmática. Algumas células, porém, ainda possuem uma camada adicional, externa à membrana plasmática, como é o caso da parede celular. Isto confere à célula maior resistência, mas não apresenta função seletiva e tampouco delimita o citoplasma. Estas funções são exclusivas da membrana plasmática. A parede celular é um envoltório mais espesso do que a membranaplasmática (Figura 3) e pode ser vista sem dificuldade pelo microscópio óptico. Figura 3 - Parede celular vegetal: eletromicrografia dos en- voltórios (parede celular e membrana plasmática) de duas células vizinhas Fonte: Biología Vegetal ([2018], on-line)². Figura 4 - Parede celular do epitélio de cebola (Allium cepa) sob microscópio óptico, corada com azul de metileno A estrutura de uma parede celular pode ser bem diferente. De maneira geral, ela é formada por uma cadeia de carboidratos ou proteínas envoltas por uma matriz. Nos vegetais, a celulose é o carboidrato que forma a parede celular. Em algumas plantas, pode haver lignina na parede celular também, quando há crescimento secundário. Nos fungos, a quitina forma a parede celular. Todos os vegetais e todos os fungos a apresentam. As bactérias apresentam componentes variados na estrutura de suas paredes celulares que, inclusive, não estão presentes em todas as bactérias. 65UNIDADE 2 Além de fornecer resistência e maior proteção às células, a parede celular desempenha outras funções, tais como: • Impede a mobilidade das células. • Participa da aderência celular para a formação de tecidos. • Suporta tensão e compressão. • Regula a expansão osmótica (mantém a integridade osmótica). • Barreira protetora contra agentes patogênicos. • Fornece sustentação (vegetais). Figura 5 - Eletromicrografia de célula epitelial do intestino, mostrando as microvilosidades das membranas celulares e glicocálix (porção mais externa) Fonte: El Universo Bajo el Microscopio (2017, on-line)³. Glicocálix Também chamado de glicocálice (Figura 5), é um envoltório externo à membrana plasmática, presente nas células animais. Geralmente, é uma extensão da própria membrana plasmática, pro- veniente do Complexo de Golgi (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2015). Bactérias Gram Positivas e Gram Negativas Hans Christian Gram (1853 - 1938), bacteriologista dinamarquês, definiu a técnica para corar bactérias que leva seu nome, em 1884. A coloração gram combina dois corantes diferentes que reagem com a parede celular das bactérias. Se a estrutura é simples, então a coloração é Gram Positiva, pois as bactérias coram com vio- leta de genciana e ficam com a cor roxa. São gram-positivas, por exemplo, Estreptococos sp. e Estafilococos sp. Se, entretanto, a bactéria apresentar uma estrutura complexa em sua parede celular, então ela se cora com safranina e fucsina básica, adquirindo a cor vermelha. Escheri- chia coli e Salmonella sp. são exemplos de bactérias gram-negativas. Fonte: Pelczar et al. (1997). explorando Ideias 66 Envoltórios Celulares, Citoplasma e Citoesqueleto Meio extracelular Fibra de colágeno Fibronectina GrupamentoGrupamento de carboidratode carboidrato Bicamada fosfolipídica Proteoglicana Proteoglicana CITOPLASMAFilamentos do citoesqueleto Carboidrato Polissacarídeo Complexo da proteoglicana Proteína central Cabeça hidrofília Cauda hidrofília Molécula de fosfolipídeo Grupamento de carboidrato Figura 6 - Componentes do glicocálix (matriz extracelular) A composição do glicocálix não é estática, varia muito de um tipo de célula para outra e, na mesma célula, varia conforme a região da membrana e também de acordo com a atividade funcional da célula em um determinado momento. São funções do glicocálix: • Identificação e reconhecimento celular, tanto para formar tecidos quanto para rejeitar células diferentes. • Proteção contra agentes químicos e físicos. • Barreira de difusão, funciona como um “filtro” para moléculas grandes. • Enzimática, existem enzimas aderidas ao glicocálix que facilitam a ação enzimática. • Movimentação celular. • Reprodução para a adesão do espermatozoide no óvulo, acontece por reações do glicocálix dessas células. 67UNIDADE 2 Trocas Entre a Célula e o Meio Extracelular Como já comentado, a membrana plasmática pos- sui permeabilidade seletiva, propriedade que permite a seleção de moléculas que a atravessam, conforme as necessidades de cada tipo de célula. Dois fatores principais determinam se a molécu- la atravessa a membrana plasmática: o tamanho (moléculas menores atravessam mais facilmente do que as maiores) e a afinidade à água (moléculas hidrofóbicas atravessam a membrana plasmática com mais facilidade do que as hidrofílicas). Existem muitas maneiras diferentes de uma molécula, substância ou partícula entrar e sair de uma célula. Há tipos de transporte que atraves- sam a membrana, e há também aqueles em que a membrana engloba uma partícula para transpor- tá-la para fora ou para dentro da célula (fagocitose e pinocitose). Em relação aos tipos de transporte por meio da membrana, podemos classificá-los em dois tipos, conforme o gasto energético: trans- porte passivo ou transporte ativo. 68 Envoltórios Celulares, Citoplasma e Citoesqueleto Transporte passivo Ocorre sem gasto energético, a favor do gradiente de concentração da molécula ou da substância. Difusão (simples e facilitada) e osmose são exem- plos de transporte passivo. Difusão A difusão consiste no movimento de moléculas de um meio em que elas estão mais concentradas para um meio em que elas estão menos concen- tradas, até atingir o equilíbrio na concentração. Algumas moléculas conseguem atravessar a bi- camada fosfolipídica da membrana plasmática, porém outras são hidrofílicas demais para que isso aconteça. Então, há dois tipos de difusão: simples e facilitada. A difusão simples ocorre por intermédio da bicamada fosfolipídica, geralmente por moléculas pequenas e hidrofóbicas. Consiste, basicamente, em atravessar a bicamada fosfo- lipídica a favor do gradiente de concentração: do meio mais concentrado para o menos con- centrado (Figura 7). Moléculas, como gás car- bônico (CO₂), gás oxigênio (O₂) e água (H₂O), atravessam a bicamada por difusão simples. Na Figura 7, as moléculas estão mais concentradas no meio extracelular e, depois, atravessam a membrana até que as concentrações estejam equilibradas. Tempo Meio extracelular Bicamada lipídica (membrana plasmática) Meio intracelular Figura 7 - Difusão simples por meio da membrana plasmática Fonte: Wikimedia Commons (2018, on-line)4. Algumas moléculas, entretanto, não conseguem atravessar a bicamada fosfolipídica, então precisam da ajuda de proteínas transportadoras, em um processo chamado difusão facilitada. Há um gra- diente de concentração dessas moléculas, porém, por serem polares ou possuírem cargas (íons), elas não conseguem atravessar a bicamada. As proteínas transportadoras as protegem da parte hidrofóbica da membrana, formando uma rota por onde podem passar. As duas principais classes de proteínas facilitadoras de transporte são: os canais e as proteínas carreadoras. 69UNIDADE 2 Os canais são proteínas transmembrana que formam verdadeiros túneis hidrofílicos, quais per- mitem a passagem de algumas moléculas por difusão. Os canais proteicos são bastante seletivos e aceitam um ou poucos tipos de moléculas para transporte. As aquaporinas (Figura 8), por exemplo, permitem a passagem da água muito rapidamente, o que previne a passagem de íons e outros solutos, uma vez que a entrada ou a saída de água altera o gradiente de concentração de íons e de substâncias em geral. As aquaporinas, ou canais de água, são muito importantes para o funcionamento das hemá- cias e também para a retenção que ocorre nos rins, evitando a eliminação excessiva de água na urina. Figura 8 - Aquaporinas, proteínas transmembrana do tipo canal que facilitam a passagem de água Hormônio esteroide Dióxido de carbono Oxigênio Aquaporina Água As proteínas carregadoras, por sua vez, não formam túneis, mas podem mudar sua estrutura para atravessar uma molécula-alvo. As moléculas de glicose, por exemplo, são transportadas por proteínas carregadoras. O gradiente de concentração de uma molécula ou substância é sempre analisado em compa- ração a dois meios, ignorando a existência de outras moléculas. Fonte: a autora. pensando juntos 70 Envoltórios Celulares,Citoplasma e Citoesqueleto Osmose A osmose é um tipo especial de difusão, em que a água passa de um meio o qual há maior concentração de água (e não de solutos) para um meio em que há menor concentração de água. É um processo passivo, que não demanda gasto energético. Como a água é um solvente, é possível também pensar na osmose do ponto de vista do soluto. Na membrana plasmática das células, a concentração relativa dos solutos de ambos os lados da membrana determina o sentido da movimentação das moléculas de água. Em relação à quantidade de água e solutos, os meios (intra ou extrace- lular) podem ser comparados, de modo que podem ser (Figura 9): • Hipertônico: é o mais concentrado em soluto. • Hipotônico: menos concentrado em soluto. • Isotônico: os dois meios têm a mesma concentração de soluto. Figura 9 - Osmose de uma hemácia em comparação com o meio extracelular Isotônico Hipotônico Hipertônico Concentração relativa do soluto Movimento das moléculas de água. Em meios isotônicos, as concentrações estão equilibradas. Quando o meio externo está hipotônico em relação à hemácia, a água entra. Se o meio extracelular está hipertônico, a água sai da célula por osmose. Osmose 71UNIDADE 2 Ao levar em consideração a presença de solutos na osmose, podemos dizer que a água está mais con- centrada onde o soluto está mais diluído (meio hipotônico) e, por outro lado, há menor concentração de água quando o soluto está presente em maior quantidade (meio hipertônico). Ou seja, do ponto de vista do soluto, a água passa do meio menos concentrado (em soluto; hipotônico) para o mais con- centrado (hipertônico), como que para diluir o meio mais concentrado e equilibrar as concentrações (deixar os meios isotônicos). Transporte Ativo Muitas vezes, as células precisam mover moléculas contra seu gradiente de concentração. Por este motivo, o transporte demanda gasto energético da célula, proveniente da molécula de ATP (Adeno- sina Trifosfato). O transporte ativo só ocorre por meio de proteínas, que utilizam o ATP para transportar uma molé- cula contra seu gradiente de concentração. As proteínas permeases que realizam o transporte ativo são conhecidas como bombas. O transporte por meio dessas permeases pode ser do tipo uniporte, simporte e antiporte (Figura 10) (ROBERTS; HIB, 2001). Não importa o ponto de vista (da água ou do soluto), ao final da osmose, as moléculas de água ficam distribuídas de maneira mais homogênea. pensando juntos ATP Adenosina Trifosfato (ATP) representa uma fonte de energia amplamente utilizada pela célula, por isso é co- nhecida como moeda energética. O ATP armazena energia em suas ligações químicas quando perde/ganha um radical fosfato. Assim, a forma alternativa (ADP) forma um ATP consumindo energia e, quando o ATP perde o radical fosfato terminal e se torna ADP, essa energia é liberada para o consumo imediato. Fonte: Junqueira e Carneiro (2015). explorando Ideias 72 Envoltórios Celulares, Citoplasma e Citoesqueleto • Uniporte: apenas uma molécula é transportada contra seu gradiente de concentração. • Simporte: duas moléculas atravessam a membrana plasmática simultaneamente e contra seus gradientes de concentração e no mesmo sentido. • Antiporte: duas moléculas utilizam a bomba para se movimentarem contra seus gradientes de concentração, porém as moléculas são carregadas para sentidos opostos. Simporte Antiporte Uniporte Figura 10 - Tipos de transporte ativo: simporte (passagem no mesmo sentido), antiporte (sentidos opostos) e uniporte (apenas uma molécula) Um tipo de transporte ativo antiporte, que é fun- damental para as células animais, é a Bomba de Sódio-Potássio (Na+/K+ ATPase). Em etapas, a Bomba Na+/K+ transporta, ao mesmo tempo, só- dio e potássio para lados opostos da membrana. Esse transporte é fundamental para processos ce- lulares, como a transmissão do impulso nervoso. Fagocitose e Pinocitose Há casos em que uma molécula ou substân- cia é grande demais para ser transportada por meio da membrana. Fagocitose e pinocitose são transportes em quantidade e, nestes casos, a membrana plasmática se desloca, alterando sua morfologia de maneira a englobar a partícula a ser importada. Fagocitose Fagocitose (Figura 11) é o processo pelo qual a célula forma prolongamentos (pseudópodes) que englobam partículas sólidas (visíveis ao microscó- pio óptico), a serem introduzidas no citoplasma (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2015). Ao envolver a partícula, forma-se uma vesícula no interior da célula, envolta por parte da membrana plasmática (fagossomo), que será degradada. 73UNIDADE 2 A célula que realiza fagocitose possui receptores específicos que re- conhecem proteínas nas membranas do organismo ou na partícula a ser fagocitada. Após o reconhecimento da partícula, o citoplasma da célula fagocitária a engloba por meio da formação de pseudópodes. No interior da célula, a partícula envolvida por membrana é reco- nhecida por um lisossomo, que se une a essa estrutura, formando um fagolisossomo (estrutura digestiva). Nos protozoários, a fagocitose é o meio de alimentação. Nos animais, é um mecanismo de defesa, como quando uma célula de defesa (macrófago, por exemplo) engloba um agente externo (vírus, bactéria) a ser destruído no interior da célula. Pinocitose Quando a pinocitose foi descoberta, ela era tratada como o englo- bamento de gotículas líquidas. Hoje, porém, sabe-se que se trata da captação ativa de moléculas em solução. O que ocorre na pinocitose é um tipo de endocitose onde pequenas quantidades de material são envoltas por depressão da membrana plasmática, que se separa e forma uma vesícula no citoplasma (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2015). Existem dois tipos de pinocitose: seletiva e não seletiva. • Pinocitose seletiva: há receptores específicos para a molé- cula ser incorporada ao citoplasma. • Pinocitose não seletiva: as vesículas englobam os solutos do meio extracelular, sem especificidade. Figura 11 - Fagocitose Proteína Receptor Lisossomo Fagossomo 74 Envoltórios Celulares, Citoplasma e Citoesqueleto Até agora, você conheceu os revestimentos ce- lulares e também as trocas de substâncias que acontecem entre a célula e o meio externo. A partir de agora, você conhecerá melhor o in- terior da célula, que chamamos de meio intra- celular. No interior de todas as células existe um cito- plasma, que consiste em todo o conteúdo celular que é envolvido pela membrana plasmática, po- rém, se você estiver pensando em uma célula eu- carionte, o citoplasma é o que fica entre o núcleo e a membrana plasmática (Figura 12). Nas células eucariontes, ele fica entre o núcleo e a membrana plasmática. Citoplasma: Estrutura, Composição e Função 75UNIDADE 2 Figura 12 - Células em corte transversal de um ducto coletor na região da medula renal Durante muito tempo, o citoplasma era descrito como o fluido de preenchimento do interior das células e acreditava-se que sua função era exata- mente esta: preenchimento. Hoje, porém, já se sabe que ele é muito mais complexo e desempe- nha funções fundamentais para as células. O citoplasma é preenchido por moléculas, estruturas celulares (citoesqueleto e organelas) e também é o local onde acontecem muitas reações químicas do metabolismo, como a síntese de pro- teínas (ALBERTS et al., 2017). Apesar de variável, o citoplasma apresenta, basicamente, três componentes: matriz cito- plasmática (ou citosol), organelas e depósitos diversos. Matriz citoplasmática Também conhecida como citosol, a matriz é o fluido que preenche a célula e envolve as organelas e os depósitos. A matriz citoplasmática, somada às organelas, ocupam mais da metade do volume total das células (ALBERTS et al., 2017). Apesar de apresentar composição variada, a matriz é com- posta basicamente por: água, íons, aminoácidos, precursores de DNA e RNA e enzimas. A matriz costuma ser semelhante em células procariontes e eucariontes: complexos enzimáti- cos, RNAm (mensageiro), RNAt (transportador)e RNAr (ribossômico) estão presentes em ambos os tipos celulares. Nas células eucariontes, porém, é comum a presença de mais elementos no citosol devido ao tamanho, que é muito maior em com- paração com as células procariontes e também por conta das funções que são executadas. Organelas Não há um consenso sobre o conceito de organe- la, para alguns autores, elas são estruturas locali- zadas no interior das células e que são envolvidas por membranas, como mitocôndria, cloroplasto, retículo endoplasmático e Complexo de Golgi. Outros autores, porém, consideram que organelas são todas as estruturas intracelulares presentes em todas as células e que desempenham funções definidas, mesmo sem serem envolvidas por membranas. Neste segundo caso, ribossomos, centrossomos e corpúsculos basais (dos cílios) são organelas. Existem, como você já viu na primeira uni- dade, diferenças nas organelas presentes em células procariontes e eucariontes (Figura 13). De maneira geral, organelas endomembranosas, mitocôndrias, cloroplastos (vegetais e algas) e pe- roxissomos (degradam proteínas) são diferenças importantes ao comparar o citoplasma de células procariontes e eucariontes. 76 Envoltórios Celulares, Citoplasma e Citoesqueleto Depósitos citoplasmáticos O citoplasma pode apresentar depósitos de substâncias diversas, como grânulos de glicogênio, partículas lipídicas e pigmentos. Assim, formam-se os depósitos citoplasmáticos (Figura 16) que, geralmente, são temporários, formados por diversas substâncias e não envolvidos por membrana. Flagelo Cápsula Parede celular Membrana plasmática DNA do Plasmídeo Citoplasma Fímbria DNA cromossômico Grânulo alimentar Ribossomo CÉLULA BACTERIANA Figura 13 - Estruturas e organelas presentes na célula pro- carionte (bactéria) e nas células eucariontes CÉLULA ANIMAL Mitocôndria Complexo de Golgi Retículo Endoplasmático Rugoso Núcleo Nucléolo Retículo Endoplasmático Liso Ribossomo Membrana plasmática Centríolo Citoplasma Lisossomo Figura 14 - Estruturas e organelas presentes na célula animal CÉLULA VEGETAL Figura 15 - Estruturas e organelas presentes na célula vegetal Membrana plasmática Parede Celular Lisossomo Complexo de Golgi Ribossomo Retículo Endoplasmático Rugoso Nucléolo Núcleo Retículo Endoplasmático Liso Mitocôndria Citoplasma Vacúolo Cloroplasto 77UNIDADE 2 Os grânulos de glicogênio (ou glicossomos) podem existir iso- lados ou agrupados. São muito comuns em hepatócitos (prin- cipais células do fígado) e em células musculares estriadas. As gotículas lipídicas apre- sentam constituição química e tamanhos variados. Nos adipó- citos (células do tecido adiposo, a camada de gordura abaixo da pele), as gotículas lipídicas apa- recem em grandes quantidades. Nos músculos, elas ficam pró- ximas às mitocôndrias, onde serão oxidadas. Nas glându- las mamárias, participam da produção do leite. Os lipídios, assim como o glicogênio, cons- tituem importante reserva ener- gética celular. Figura 16 - Eletromicrografia de células da hipófise: cada célula tem grânulos (pontos mais escuros) de diferentes tipos e tamanhos, com distribuição variada nas células Os pigmentos são substâncias que dão cor às células. Clorofila (nos vegetais) e melanina (nos ani- mais) são os pigmentos mais conhecidos. A melanina está presente nas células da epiderme, a camada mais superficial da pele, e ajuda na proteção contra os raios UV solares. Os depósitos de pigmento são responsáveis, em parte, pela cor dos seres vivos, com consequências no mimetismo, na atração para o acasalamento e na proteção contra raios UV (ROBERTS; HIB, 2001). Considerando os componentes que formam o citoplasma, é possível afirmar que as funções que ele desempenha estão diretamente relacionadas aos seus componentes que, por sua vez, variam conforme cada tipo de célula. 78 Envoltórios Celulares, Citoplasma e Citoesqueleto Citoesqueleto e Movimentos Celulares Ao pensar em uma célula, é possível que você a imagine com uma consistência pastosa e com estrutura indefinida, que varia conforme o am- biente em que se encontra. Na verdade, as células são muito bem estruturadas e os componentes dessa estrutura são chamados de citoesqueleto (como o próprio nome diz, o “esqueleto da célu- la”). Assim, o citoesqueleto é o alicerce da célula, fornecendo sustentação e garantindo a organi- zação interna da estrutura celular (Figura 17), presente apenas em células eucariontes. 79UNIDADE 2 Figura 17 - Imunofluorescência de uma célula tumoral, evidenciando (em amarelo) os filamentos que formam o citoesqueleto Fonte: Wikimedia Commons (2018, on-line)5. Além do papel mecânico de suporte, o ci- toesqueleto também é o responsável pelos mo- vimentos celulares. Existem diversos tipos de movimentos, tais como a contração (em células musculares, por exemplo), a formação de pseu- dópodes (em ameboides ou em células de defesa, como os macrófagos) e o deslocamento intrace- lular de organelas. Componentes do Citoesqueleto A disposição, a distribuição e a quantidade de ele- mentos que compõem o citoesqueleto são bastan- te variáveis para cada tipo de célula e também de acordo com as necessidades que elas apresentam. O citoesqueleto, porém, é formado pela combina- ção de diferentes tipos de filamentos (Figura 18): • Microtúbulos: estão em constante reor- ganização, são importantes para a movi- mentação de cílios e flagelos e também participam da divisão celular, pois formam as fibras do áster que deslocam os cromos- somos. • Microfilamentos de actina: são os mais fi- nos, formados por actina, que se distribuem por toda a célula. Realizam a contração mus- cular, participam dos movimentos das par- tículas intracelulares, reforçam a membrana plasmática e participam da fagocitose. • Filamentos intermediários: são consti- tuídos de diversas proteínas fibrosas que se agregam espontaneamente, sem neces- sidade de energia. São estáveis, importan- tes para a sustentação e não participam da movimentação celular. São muito abun- dantes em células que sofrem atrito, onde se prendem a especializações da membra- na plasmática, os desmossomos (Figura 19), que unem as células umas às outras. • Proteínas motoras: miosina, dineí- nas e cinesinas são responsáveis pelo deslocamento intracelular de organelas e outras partículas, associadas a outros componentes do citoesqueleto. 80 Envoltórios Celulares, Citoplasma e Citoesqueleto A Figura 19, a seguir, apresenta a estrutura de um desmossomo, que tem o formato de disco e, na mem- brana de cada célula, existe uma placa na qual se inserem os filamentos intermediários de queratina Citoplasma Micro�lamentos Filamentos intermediários Microtúbulos Organelas imobilizadas pelos componentes do citoesqueleto Figura 18 - Componentes do citoesqueleto (microtúbulos, microfilamentos e filamentos intermediários) e sua relação com as organelas celulares Fonte: The Living World ([2019], on-line)6. Glicoproteína ligante Placa Queratina (�lamentos intermediários) Espaço intercelular Figura 19 - Estrutura de um desmossomo: uma especiali- zação da superfície de duas células que estão lado a lado, com a função de aderência Figura 20 - Fotomicrografia em microscópio óptico, mos- trando o estrato da epiderme corado com hematoxilina, evidenciando os filamentos de queratina e desmossomos entre as células 81UNIDADE 2 Movimentos Celulares A maioria dos movimentos celulares é realizada pelos microfi- lamentos de actina, microtúbulos e proteínas motoras (miosina, dineína e cinesina). De acordo com o efeito que eles têm sobre as células, existem dois tipos de movimentos celulares (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2015): • Movimentos que modificam o formato das células: contração das células musculares, movimentos nas células mioepiteliais (contráteis, nas glândulas exócrinas, que auxi- liam a expelir a secreção), nas células endoteliais, nas células mióides (testículos), no movimento ameboide e na citocinese (finalda divisão celular). • Movimentos que não modificam o formato das células: transporte intracelular (grânulos de pigmento, organelas e vesículas). Aqui, você conhecerá mais profundamente dois tipos específicos de movimentos celulares: a interação actina/miosina (na contração Figura 21 - Componentes estruturais de um músculo estriado esquelético: fibras, miofibrilas, actina e miosina Cada músculo é formado por feixes de fibras musculares, que apresentam faixas claras e escuras (estrias), consequência do arranjo de filamentos que formam as miofibrilas. Estas, por sua vez, são formadas por unidades que se repetem, os sarcômeros. É a estrutura do sarcômero que torna as estrias visíveis ao microscópio óptico. Cada sarcômero é uma unidade contrátil, formada por filamentos de actina (finos, nas extremidades) e miosina (grossos, ao centro). muscular, especialmente) e os movimentos dos microtúbulos (em cílios e flagelos). Actina e Miosina Para compreender como acon- tece a interação entre os fila- mentos de actina e miosina, tomaremos como exemplo a célula muscular estriada, também conhecida como fibra muscular. Estas células têm ca- pacidade de contração, o que gera movimento. O músculo esquelético é formado por di- versos componentes estruturais que se repetem (Figura 21). 82 Envoltórios Celulares, Citoplasma e Citoesqueleto A miosina, na verdade, é uma enzima, uma ATPase que catalisa a reação química que quebra o ATP e libera o grupamento fosfato, formando um ADP. Esta quebra libera energia que, no caso da contração muscular, é utilizada para movimentar os filamentos de actina ao longo dos filamentos de miosina para dentro do sarcômero, encurtando-o (Figura 22). Sarcômero Mio�brila (organela formada por feixes de mio�lamentos). Sarcômero (músculo relaxado) Filamento �no (actina). Filamento grosso (miosina). 1. cabeça globular do �lamento de miosina se liga ao sítio no �lamento de actina. 2. o �lamento de actina desliza sobre a miosina, pela mudança na con�guração da molécula. 3. ATP se liga à miosina que se desliga da actina e volta à sua posição original, pronta para um novo ciclo. Filamento grosso (miosina). Sarcômero (músculo contraído) Sarcômero (unidade contrátil da mio�brila). Filamento �no Respiração aeróbica. Filamento grosso. Na morte, não há produção de ATP e o ciclo para aqui (rigor mortis). Figura 22 - Estrutura das células musculares e etapas da contração dos músculos por meio da interação entre as proteínas actina e miosina Quando a contração se inicia, a cabeça globular da miosina se liga ao sítio no filamento de actina. Esta ligação faz com que o filamento de actina deslize sobre a miosina, pela mudança na configuração da molécula. A miosina tem atividade enzimática, então o ATP se liga a ela e, quando a reação é catalisada, há liberação de energia. Essa energia faz com que a miosina se desligue da actina e volte à sua posição original, pronta para um novo ciclo. O controle da contração muscular é realizado pelos íons Ca²+. Quando o músculo está em repouso, a actina e a miosina não se ligam porque a tropomiosina e as troponinas estão ligadas à actina, tapando o sítio de ligação com a miosina. Se há um estímulo no músculo (um sinal do sistema nervoso, por exemplo), abrem-se os canais de Ca²+ da membrana plasmática, fazendo com que grandes quantidades desse íon entrem na célula muscular. Os íons Ca²+ deformam a tropomiosina, liberando, então, o sítio de ligação, dando início à contração muscular (Figura 23). 83UNIDADE 2 Existem, ainda, outras ações celulares importantes realizadas pelas interações entre a actina e a mio- sina. Entre elas, estão: • Participação na citocinese, que é a separação das células-filhas ao fim da divisão celular. • Formação de microvilos na superfície de células de alguns epitélios. Nos microvilos, há apenas actina com função estrutural. • Participação no movimento ameboide, realizado pela formação de pseudópodes, importantes para a fagocitose e para a movimentação celular, por exemplo. Os filamentos de actina e miosina “puxam” a célula na formação dos pseudópodes. Troponina I Tropomiosina Músculo relaxado Músculo contraído Filamento no do sarcômero Troponina C Troponina T Ca2+ presenteCa 2+ ausente Na presença de íons de Ca2+, a tropomiosina muda de formato, arrastando as troponinas e liberando o sítio de ligação para a miosina, o que dá início à contração muscular. Filamento de actina quando o músculo está relaxado, a tropomiosina e as troponinas cobrem o sítio de ligação com a miosina. Figura 23 - Controle da contração muscular por íons de cálcio 84 Envoltórios Celulares, Citoplasma e Citoesqueleto Figura 25 - Trichomonas sp.: protozoário causador da trico- moníase (DST), que se locomove utilizando flagelos Figura 24 - Paramecium sp.: um protozoário de vida livre, que se movimenta por batimento ciliar Vacúolo contráctil Vacúolo alimentar Película Cílios Macronúcleo Sulco oral Citossomo Núcleo Flagelo Vacúolo Axóstilo Cílios e flagelos Cílios e flagelos são prolongamentos celulares com funções, como o deslocamento celular (em pro- tozoários ou espermatozoides) ou também a movimentação de partículas na superfície dos tecidos corporais (como no revestimento das vias aéreas no sistema respiratório). A diferença entre os cílios e flagelos é externa, cílios são curtos e muito numerosos, enquanto flagelos são longos e únicos (ou poucos) (Figura 24). O movimento de cílios e flagelos acontece porque os pares de microtúbulos deslizam uns sobre os outros durante a contração. A energia para essa contração vem da catalisação do ATP feita pela dineína (uma ATPase, assim como a miosina). O deslizamento provoca envergaduras temporárias na estrutura dos cílios e flagelos, resultando em um movimento de chicote. Esse deslizamento para apenas quando as dineínas prendem os pares de protofilamentos uns aos outros (Figura 26). Microtúbulo duplo Braço de dineína Força de deslizamento ATP Figura 26 - Movimento ciliar/flagelar por deslizamento de microtúbulos, com auxílio da dineína Fonte: Slideplayer ([2019] on-line)7. 85UNIDADE 2 Comunicação Celular Através de Sinais Químicos Nos organismos multicelulares, incluindo você, as células precisam se comunicar. Os mensagei- ros são muito importantes para as células, pois influenciam e coordenam o metabolismo, a mul- tiplicação celular, a secreção, a fagocitose, a pro- dução de anticorpos e a contração muscular. Pra- ticamente todas as funções celulares e teciduais são reguladas por sinais químicos. 86 Envoltórios Celulares, Citoplasma e Citoesqueleto Figura 27 - Célula secretora liberando hormônios que atuam nas células-alvo, que são aquelas com receptores específicos para o hormônio Célula secretora Célula incompatível (sem receptores) Hormônio Receptor Célula-alvo Na comunicação celular ocorre a produção de sinais ou mensageiros químicos por uma de- terminada célula. Para ser considerado mensageira ou sinal químico, é preciso que haja uma resposta para sua presença na célula-alvo. Para que uma célula responda a um sinal químico, ela precisa reconhecê-lo, para, então, agir. O re- conhecimento acontece apenas quando há um receptor para esse sinal. As moléculas sinalizadoras são chamadas de ligantes, que se prendem aos locais específicos das moléculas receptoras ou receptores. Um receptor é capaz de reconhecer especificamente outra molécula (seu ligante) e de desencadear uma resposta celular, quando unida ao ligante (Figura 27). Dependendo do tipo de distância percorrida pela molécula e pelas características do trajeto, a co- municação celular pode ser classificada em três tipos: comunicação por hormônios, comunicação parácrina e por neurotransmissores. Hormônios Certamente, você já ouviu falar em hormônios. Muitas vezes, eles são associados aos problemas de saúde, ao crescimento ou mesmo em relação às mudanças corporais que acontecem na puberdade. Os hormônios são mesmoresponsáveis por todas estas funções. São moléculas secretadas em órgãos especializados pelas glândulas endócrinas (Figura 28). 87UNIDADE 2 Os hormônios são sinais que atravessam grandes distâncias até encontrarem seu local de atuação. Após a produção, eles são lançados no espaço ex- tracelular, penetram os capilares sanguíneos e se distribuem por todo o corpo. A insulina, por exemplo, é um hormônio produ- zido no pâncreas e que percorre todo o organismo por meio das células sanguíneas para retirar a gli- cose do sangue e enviá-la para os tecidos e que será usada como recurso alimentar. De maneira similar, as auxinas nos vegetais atuam como hormônios de crescimento nos meristemas. A comunicação hormonal é relativamente lenta porque a distribuição hormonal é por meio da corrente sanguínea, e isto leva tempo. Os hor- mônios deixam os capilares sanguíneos por di- fusão, onde são captados por células que contêm os receptores específicos, ou seja, as células-alvo. A especificidade hormonal depende da na- tureza química do hormônio, mas também da existência de receptores apropriados na célula- -alvo. As respostas ao estímulo de um hormô- nio dependem do tipo de célula-alvo: o mesmo hormônio pode ter ação inibitória de secreção em alguns tipos celulares e liberar secreção em outros. Uma vez que o hormônio encontra sua célula-alvo, a resposta por ela apresentada pode ser lenta (como os esteroides) ou rápida. A solubilidade de um hormônio está relacio- nada ao seu local de recepção na célula-alvo. A maioria dos hormônios é hidrossolúvel e atua sobre os receptores de membrana externamente, porém alguns são lipossolúveis e, por isso, atra- vessam a membrana plasmática com facilidade. No interior da célula, ligam-se aos receptores lo- calizados no citoplasma ou no núcleo. Comunicação Parácrina A secreção parácrina é realizada por células es- pecializadas por meio de mediadores químicos de ação local. Os mediadores atuam em células adjacentes; após a atuação, as moléculas podem ficar retidas na matriz extracelular do local de produção ou podem ser inativadas logo após exer- cerem suas funções. Geralmente, a molécula secretada por um tipo celular atua sobre outro tipo, porém, em algumas vezes, a produção e a atuação das moléculas sina- lizadoras são feitas pelo mesmo tipo celular, então a secreção é autócrina. Figura 28 - Esquema que ilustra as células que formam as glândulas, circundadas por capilares sanguíneos, por onde os hormônios são liberados Figura 29 - Tecido glandular visto ao microscópio óptico, corado com hematoxilina/eosina Hormônio na corrente sanguínea Células endócrinas Capilares sanguíneos 88 Envoltórios Celulares, Citoplasma e Citoesqueleto Os mastócitos (Figura 30) são células de defesa que têm por mecanismo de atuação a secreção parácrina de histamina e heparina no tecido conjuntivo. Ao receberem um estímulo, tais como os antígenos do sistema imune ou a ação de agentes químicos, os grânulos de histamina e heparina são expulsos dos mastócitos. Antígeno Liberação dos grânulos Histamina Receptor IgE Figura 30 - Esquema de um mastócito com o antígeno e seu receptor, os grânulos saindo do citoplasma e a histamina saindo dos grânulos Figura 31 - Mastócito (ao centro) com grânulos de histami- na e heparina que são liberados no tecido conjuntivo (em azul, ao redor), fotomicrografia óptica Além da defesa contra patógenos e agentes ex- ternos, existem mediadores de ação local que atuam na inflamação, na proliferação celular, no tubo digestivo, nos brônquios e na secreção celular. Neurotransmissores Os neurotransmissores são moléculas respon- sáveis pela transmissão de informações nervo- sas, provenientes, principalmente, de precursores proteicos. A comunicação celular por neuro- transmissores depende de estruturas altamente especializadas, as sinapses. Sinapse é o local de comunicação entre dois neurônios ou entre um neurônio e uma célula efetora (excretora ou mus- cular). O neurônio é uma célula do sistema nervoso constituída de dendritos, um corpo celular e o axônio, com seus terminais. Os dendritos cons- tituem a parte receptora de sinais, eles são o local por onde os neurotransmissores chegam a um neurônio. O corpo celular é responsável pela síntese de macromoléculas, é o local em que se encontram o núcleo, o retículo endoplasmático, os ribossomos e o Complexo de Golgi. O axô- nio forma terminais axônicos, que são os locais onde se formam as sinapses e onde são liberados os neurotransmissores (Figura 32). Os dentrito, o corpo celular e o axônio são os componentes básicos de um neorônio. 89UNIDADE 2 Na sinapse, a membrana das duas células que se comunicam é separada por uma fenda (interva- lo sináptico). A membrana do terminal axônico é chamada de pré-sináptica e é o local de onde saem as vesículas com neurotransmissores. A membrana da célula que tem os receptores para os neurotransmissores é chamada de terminal pós-sináptico (Figura 33). Dendrito Núcleo Bainha de Mielina Axônio Terminais axônicos Figura 32 - Estrutura de um neurônio, célula do sistema nervoso Neurônio pré-sináptico Mitocôndria Terminal axônico Fenda sináptica Membrana pós-sináptica Canal iônico ligante Neurônio pós-sináptico Ca2+ Canais de Ca2+ Neurotransmissores chegam aos receptores na membrana do neurônio pós-sináptico, abrindo os canais iônicos da membrana. Despolarização da membrana plasmática, que abre os canais de Ca2+. Neurotransmissores são liberados na fenda sináptica por exocitose. Impulso nervoso passa pelo neurônio pré-sináptico. Neurotransmissores são produzidos em vesículas nos terminais pré-sinápticos. Figura 33 - Sinapse entre dois neurônios As sinapses podem ocorrer entre dois neurônios ou entre um neurônio e uma célula efetora, como as mus- culares. No caso da comunicação com músculos, o principal neurotransmissor é a acetilcolina, liberada por exocitose na placa motora (ou junção neuromuscular) que se forma no ponto de comunicação. A comunicação por neurotransmissores é rápida e de breve duração. Além da acetilcolina (nos mús- culos), GABA (ácido gama-aminobutírico), dopamina, serotonina e glicina também são exemplos de neurotransmissores. Algumas moléculas podem atuar como neurotransmissores e também por outro modo de comunicação. Isto acontece com a epinefrina e a norepinefrina (também conhecidas como adrenalina e noradrenalina), que atuam como neurotransmissores e também podem atuar como hormônios produzidos pelas glându- las adrenais. 90 Envoltórios Celulares, Citoplasma e Citoesqueleto Além dos processos que você estudou ao longo deste tópico, que envolvem ligantes e receptores, algumas células conseguem se comunicar dire- tamente por meio de moléculas que passam por canais existentes entre células contíguas, as jun- ções comunicantes ou gap junctions (Figura 34). Caro(a) aluno(a), ao longo desta unidade, você pôde conhecer melhor a estrutura de uma célula. A ideia que orienta seus estudos aqui é conhecer os componentes celulares, principalmente em células eucariontes, como se você pudesse visualizar a cé- lula “de fora para dentro”. Os envoltórios celulares Fechado Canal hidrofílico Espaço de 2-4 nm Espaço intercelular Membrana plasmática Monômero de conexão Complexo conector Aberto Figura 34 - Junções comunicantes ou gap junctions, presentes entre duas células contíguas que permitem comunicações diretas entre as células por meio de moléculas que atravessam esses canais Fonte: Wikimedia Commons (2015, on-line)8. delimitam o citoplasma, a membrana plasmática regula as trocas entre os meios intra e extracelular. No citoplasma, entre outros componentes, o citoes- queleto sustenta a estrutura e realiza movimentos celulares. Em todos os organismos multicelulares existe comunicação entre as células, feita por dife- rentes vias, por diversos mensageiros. Todos os co- nhecimentos desta unidade se integram de forma a estruturar e a diferenciar as células,esta foi a primeira etapa no estudo aprofundado dos constituintes e do metabolismo celular, que serão importantes para as próximas unidades. 91UNIDADE 2 CONSIDERAÇÕES FINAIS Chegamos ao fim da segunda unidade, em que você conheceu algu- mas estruturas e mecanismos celulares de maneira mais detalhada. Sua jornada teve início no estudo dos envoltórios celulares, onde foram diferenciadas estruturalmente e funcionalmente a membrana plasmática, a parede celular e o glicocálix. Diferenciamos também os tipos celulares que apresentam cada tipo de envoltório, com suas respectivas funções. Além disso, com ênfase maior na permeabilidade seletiva da membrana plasmática, você conheceu os tipos de trocas realizadas entre os meios intra e extracelular, tanto por processos passivos quanto por ativos. Algumas substâncias atravessam a bicamada fosfolipídica sem gasto energético, mas outras dependem de pro- teínas integrais para conseguirem entrar no citoplasma. Ao analisar o meio intracelular, notamos os diferentes compo- nentes do citoplasma, bem como suas respectivas funções. Além do preenchimento, o citoplasma é fundamental para as reações químicas do metabolismo e pode variar de acordo com cada tipo de célula. Vimos, também, os constituintes do citoesqueleto e seus meca- nismos de funcionamento, enfatizando a importância que cada um deles tem para as células. A unidade foi encerrada com os principais tipos de comunicação celular, tanto a distância quanto localmente. A segunda unidade teve por objetivo apresentar as estruturas celulares que sustentam, compõem e delimitam a célula. Além da estrutura, o funcionamento e a importância desses componentes serve como base para o desenvolvimento dos conteúdos nas próxi- mas unidades, em que analisaremos as organelas celulares. 92 Você pode utilizar seu diário de bordo para a resolução. 1. A respeito dos envoltórios celulares, assinale a alternativa correta. a) A membrana plasmática tem como principal função manter a estrutura da célula e fornecer resistência, especialmente em tecidos que sofrem atrito. b) A parede celular tem permeabilidade seletiva, então ela atua mantendo a dife- rença entre os meios intra e extracelular. c) A membrana plasmática é formada por duas camadas de fosfolipídios e pro- teínas de membrana. d) A parede celular está presente em células vegetais, animais e de fungos, as bactérias não apresentam parede celular. e) O glicocálix auxilia na manutenção da integridade osmótica das células, impe- dindo que elas se rompam. 2. Para manter a diferença entre os meios intra e extracelular, realizam-se diver- sos tipos de transporte por meio da membrana. Faça um quadro comparativo entre os tipos de transporte, separando-os em ativos e passivos, se possível, dê exemplos. 3. Sobre o citoplasma e seus componentes, analise as afirmativas a seguir. I) Todas as células possuem citoplasma. II) O citoplasma de células procariontes é diferente de células eucariontes. III) A principal função do citoplasma é manter o formato da célula. IV) Matriz citoplasmática, organelas e depósitos (glicogênio, lipídios ou pigmentos) são os principais componentes do citoplasma. Assinale a alternativa correta: a) Somente as afirmativas I e II. b) Somente as afirmativas II e III. c) Somente a afirmativa I. d) Somente as afirmativas I, II e IV. e) Todas as alternativas estão corretas. 93 4. O citoesqueleto é composto por microtúbulos, microfilamentos, filamentos intermediários e proteínas motoras. Sobre este assunto, julgue as afirmativas a seguir como verdadeiras (V) ou falsas (F). ) ( Os microtúbulos são importantes para a contração muscular. ) ( Microtúbulos são formados por dímeros de tubulina que se polimerizam ou despolimerizam, aumentando ou diminuindo de tamanho. ) ( Os filamentos intermediários são os únicos tipos de filamentos do citoesqueleto que não participam dos movimentos celulares. Assinale a sequência correta: a) V, V e F. b) F, F e V. c) V, F e V. d) F, F e F. e) F, V e V. 5. Sobre a comunicação celular por meio de sinais químicos, analise as afirmativas a seguir. I) Moléculas sinalizadoras são chamadas de ligantes, que se prendem a locais específicos nas células-alvo, chamadas receptores. II) Os hormônios são produzidos por células especializadas do sistema endócrino que atuam nos tecidos adjacentes de onde se encontram. III) Hormônios hidrossolúveis atuam em proteínas da superfície da membrana plasmática, enquanto os lipossolúveis encontram seus receptores apenas no citoplasma ou no núcleo celular. IV) Os neurônios são células do sistema nervoso responsáveis pela produção de hormônios e que são distribuídos pelo corpo por meio da corrente sanguínea. Assinale a alternativa correta: a) Somente as afirmativas I e II. b) Somente as afirmativas I e III. c) Somente as afirmativas II, III e IV. d) Somente a afirmativa II. e) Todas as afirmativas estão corretas. 94 DIABETES MELLITUS O Diabetes Mellitus configura-se hoje como uma epidemia mundial, e é um grande desafio para os sistemas de saúde de todo o mundo. O envelhe- cimento da população, a urbanização crescente e a adoção de estilos de vida pouco saudáveis como sedentarismo, dieta inadequada e obesi- dade são os grandes responsáveis pelo aumento da incidência e prevalência do diabetes. Segundo estimativas da Organização Mundial de Saúde, o número de portadores da doença em todo o mundo era de 177 milhões em 2000, com expectativa de alcançar 350 milhões de pessoas em 2025. No Brasil são cerca de dez milhões de portadores, e esse número ainda cresce. As con- sequências humanas, sociais e econômicas são devastadoras: são 4 milhões de mortes por ano relativas ao diabetes e suas complicações (com muitas ocorrências prematuras), o que repre- senta 9% da mortalidade mundial total. O grande impacto econômico ocorre nota- damente nos serviços de saúde, como consequência dos crescentes custos do tratamento da doença e, sobretudo das com- plicações, como a doença cardiovascular, a diálise por insuficiência renal crônica e as cirur- gias para amputações de membros inferiores. No Brasil, o diabetes junto com a hipertensão arterial, é responsável pela primeira causa de mortalidade e de hospitalizações, de ampu- tações de membros inferiores e representa ainda 62,1% dos diagnósticos primários em pacientes com insuficiência renal crônica sub- metidos à diálise. O diabetes é um grupo de doenças metabólicas caracterizadas por hiperglicemia e associadas a complicações, disfunções e insuficiência de vários órgãos, especialmente olhos, rins, nervos, cérebro, coração e vasos sanguíneos. Pode resul- tar de defeitos de secreção e/ou ação da insulina envolvendo processos patogênicos específicos, por exemplo, destruição das células beta do pân- creas (produtoras de insulina), resistência à ação da insulina, distúrbios da secreção da insulina, entre outros. A classificação etiológica da doença a separa em duas categorias: Diabetes Tipo I e Tipo II. 95 DIABETES TIPO I O termo tipo I indica destruição da célula beta que eventualmente leva ao estágio de deficiência absoluta de insulina, quando a administração de insulina é necessária para prevenir cetoacidose, coma e morte. A destruição das células beta é geralmente causada por processo auto-imune, que pode se detectado por auto-anticorpos circulantes como anti-descarboxilase do ácido glutâmico (anti-GAD), anti-ilhotas e anti-insulina, e, algu- mas vezes, está associado a outras doenças auto-imunes como a tireoidite de Hashimoto, a doença de Addison e a miastenia gravis. Em menor proporção, a causa da destruição das células beta é desconhecida (tipo 1 idio- pático). O desenvolvimento do diabetes tipo 1 pode ocorrer de forma rapidamente progressiva, principalmente, em crianças e adolescentes (pico de incidência entre 10 e 14 anos), ou de forma lentamente progressiva, geralmente em adultos, (LADA, latent autoimmune dia- betes in adults;doença auto-imune latente em adultos). Esse último tipo de diabetes, embora assemelhando-se clinicamente ao diabetes tipo 1 auto-imune, muitas vezes é erroneamente classificado como tipo 2 pelo seu aparecimento tardio. Estima-se que 5-10% dos pacientes inicialmente considera- dos como tendo diabetes tipo 2 podem, de fato, ter LADA. DIABETES TIPO II O termo tipo II é usado para designar uma deficiência relativa de insulina. A adminis- tração de insulina nesses casos, quando efetuada, não visa evitar cetoacidose, mas alcançar controle do quadro hiperglicêmico. A cetoacidose é rara e, quando presente, é acompanhada de infecção ou estresse muito grave. A maioria dos casos apresenta excesso de peso ou deposição central de gordura. Em geral, mostram evidências de resistência à ação da insulina e o defeito na secreção de insulina manifesta-se pela incapacidade de compensar essa resistência. Em alguns indiví- duos, no entanto, a ação da insulina é normal, e o defeito secretor mais intenso. Fonte: Brasil (2006). 96 Quebrado Ano: 2012 Sinopse: após testemunhar um ataque violento, a vida de uma jovem inglesa é transformada e seu mundo começa a parecer cada vez mais estranho. Ela enfrenta o desconhecido e o medo, vendo a inocência da infância ir embora, com o apoio de Rick, um rapaz doce e sofrido. A comunidade em que vivem é dividida pelo terrível crime e os esforços da menina vão alterar as opiniões e os sentimentos dos moradores do bairro. Comentário: o filme retrata de maneira realista o convívio diário com o diabetes tipo 1 sob a ótica de uma menina de 11 anos. FILME O vídeo mostra as etapas da contração muscular, envolvendo os filamentos de actina e miosina. O vídeo está em inglês, mas é possível ativar as legendas. Para acessar, use seu leitor de QR Code. WEB http:// 97 ALBERTS, B.; JOHNSON, A.; LEWIS, J.; RAFF, M.; DE ROBERTS, K.; WALTER, P. Biologia molecular da célula. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017. BRASIL. Ministério da Saúde. Diabetes Mellitus. Cadernos de Atenção Básica n. 16. Brasília: Ministério da Saúde, 2006. Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/diabetes_mellitus.PDF>. Acesso em: 28 jan. 2019. DE ROBERTS, E. M. F.; HIB, J. Bases da biologia celular e molecular. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koo- gan, 2001. JUNQUEIRA, L. C.; CARNEIRO, J. Biologia Celular e Molecular. 9. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2012. MOYES, C. D.; SCHULTE, P. M. Princípios de fisiologia animal. Porto Alegre: Artmed, 2009. PELCZAR, M. J.; CHAN, E. C. S.; KRIEG, N. R.; EDWARDS, D. D.; PELCZAR, M. F. Microbiologia: conceitos e aplicações. São Paulo: Makron Books, 1997. Referências On-Line ¹Em: <https://www.chimica-online.it/biologia/membrana-cellulare.htm>. Acesso em: 25 jan. 2019. ²Em: <http://biovegetal.es/docencia-asignaturas-impartidas/biolog%C3%ADa-de-la-plantas/tema-1/>. Acesso em: 25 jan. 2019. ³Em: <http://eluniversobajoelmicroscopio.blogspot.com/2017/11/glucocalix.html>. Acesso em: 25 jan. 2019. ³Em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Scheme_simple_diffusion_in_cell_membrane-en.svg>. Acesso em: 25 jan. 2019. ⁵Em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Citoesqueleto.gif>. Acesso em: 28 jan. 2019. ⁶Em: <https://schoolbag.info/biology/living/31.html>. Acesso em: 28 jan. 2019. ⁷Em: <https://slideplayer.es/slide/134804/2/images/38/Mecanismo+de+curvatura+o+movimiento+de+un+- microt%C3%BAbulo+en+cilios+y+flagelos.jpg>. Acesso em: 28 jan. 2019. ⁸Em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Gap_cell_junction-en.svg>. Acesso em: 28 jan. 2019. 98 1. C. 2. Exemplo de resposta: Transporte Passivo Transporte Ativo • Sem gasto energético. • A favor do gradiente de concentração da molécula. Ex.: Osmose; difusão simples e facilitada. • Com gasto energético. • Contra o gradiente de con- centração. Ex.: Bomba de Sódio/Potássio. 3. D 4. E. 5. B. 99 100 PLANO DE ESTUDOS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM • Diferenciar organismos procariontes e eucariontes (pro- tozoários, fungos, animais e vegetais) quanto às organelas celulares e quanto ao metabolismo. • Compreender os principais aspectos referentes à estrutu- ra, à função e ao metabolismo do retículo endoplasmático, do Complexo de Golgi, dos lisossomos e dos peroxisso- mos. • Identificar os principais componentes estruturais e as fun- ções de um ribossomo. • Esquematizar e correlacionar a estrutura da mitocôndria com as principais reações químicas que ocorrem na res- piração celular. • Compreender os eventos que ocorrem em cada etapa da fotossíntese: etapa fotoquímica; fotofosforilação cíclica; fotofosforilação acíclica; reações da fase luminosa; etapa química ou enzimática. Tipos Celulares: Organelas e Metabolismo Organelas Responsáveis Pela Síntese e Degradação de Macromoléculas Cloroplastos e Fotossíntese Mitocôndrias e Respiração Celular Ribossomos e Síntese de Proteínas Me. Eloiza Muniz Capparros Organelas Celulares e Metabolismo Celular Tipos Celulares: Organelas e Metabolismo Introdução Olá, caro(a) aluno(a)! Você está iniciando a terceira unidade e, ao longo desta jornada, o objetivo é aprofundar seus conhecimentos a respeito das células, tanto na estrutura quanto no funcionamento. Esta unidade é uma continuidade do que você viu nas outras duas, com um enfoque estrutural e funcional das organelas celulares e do seu metabolismo. Nas duas unidades anteriores, você teve contato com o histórico do desenvolvimento da Biologia Celular, bem como conheceu estruturalmente os principais tipos celulares. Você identificou também os elementos que estruturam uma célula, como se você pudesse observá-la de “fora para dentro”. Utilizando a permeabilidade seletiva da mem- brana, você pode reconhecer as trocas que a célula realiza com seu meio extracelular, bem como iden- tificar os componentes do citoplasma. Estas infor- mações serão bastante úteis agora, pois você conhe- cerá alguns desdobramentos e particularidades do movimento de moléculas por meio de membranas. 103UNIDADE 3 A respeito da estrutura das células eucariontes, você pode conhecer também o citoesqueleto e seus componentes, além de identificar o funcionamento das estruturas que o compõem. Nesta unidade, você verá como organelas e processos metabólicos interagem com o citoesqueleto. Ao assumir que as células se comunicam, você verá que existem diferentes vias para que esta co- municação ocorra. Entre elas, está a produção e a secreção de substâncias pelas células, tais como os hormônios. Estes processos serão aprofundados nesta unidade, tendo em vista que a importância e o mecanismo de comunicação já são conhecidos. A partir de agora é com você. A terceira unidade apresentará a estrutura e o metabolismo das prin- cipais organelas celulares presentes nos eucariontes. Aproveite para relacionar os conhecimentos aqui apresentados com tudo o que você já estudou. Bons estudos! Ao longo das duas primeiras unidades, você pôde perceber que todos os seres vivos são formados por células. Alguns são unicelulares, outros pluri ou multicelulares, as bactérias são procariontes, mas você é um indivíduo formado por células eucariontes. A organização em grupos, entretanto, não significa que as células são idênticas, muito pelo contrário, a diversidade delas é muito grande, tanto para os organismos uni quanto os plurice- lulares, em que há diferenças, inclusive, nos dife- rentes tecidos que formam o mesmo organismo. A partir de agora, o foco será na estrutura e no funcionamento das organelas, de modo a interligar isto com o metabolismo celular. Este compreende o conjunto de processos químicos de degradação e síntese de moléculas (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2015; DE ROBERTS; HIB, 2001). Para fins didáticos, organelas são definidas aqui como todas as estruturas intracelulares pre- sentes em todas as células e que desempenham funções bem definidas, sem necessariamente se- rem delimitadas por membranas (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2015). De acordo com esta definição,tanto organismos procariontes quanto eucarion- tes têm organelas em sua estrutura, sendo que cada tipo celular apresenta organização, quan- tidade e tipos de organelas relacionadas ao seu metabolismo. 104 Organelas Celulares e Metabolismo Celular Procariotos As células procariontes (Figura 1), devido à estrutura simples, apresentam variedade menor de organe- las quando comparadas às células eucariontes. Nos procariontes, a célula é delimitada pela membrana plasmática, que pode formar os mesossomos. Podem apresentar concentração de enzimas respiratórias, fundamentais para o metabolismo. Alguns podem apresentar parede celular ao redor da membrana plasmática, que fornece rigi- dez e funciona de modo análogo ao citoesqueleto, que existe apenas em células eucariontes. Algumas bactérias podem, ainda, apresentar uma cápsula que as envolve e protege de fatores ambientais potencialmente danosos. Cápsula Parede celular Membrana plasmática Citoplasma Flagelos Fímbrias Ribossomos DNA cromossômico DNA plasmidial Figura 1 - Estrutura de uma célula bacteriana (procarionte), evidenciando estruturas e organelas O DNA dos eucariontes é circular e fica no citoplasma, em uma região chamada nucleoide. Além do DNA que forma os cromossomos, existe também o DNA no plasmídeo, o que é muito importante para a manutenção da variabilidade genética dos procariontes, visto que a reprodução desses organismos é feita por bipartição, ou seja, basicamente, são formados clones da célula original. O citoplasma dos procariotos não apresenta organelas membranosas, sendo o citosol e os polirri- bossomos os principais componentes. Os polirribossomos são resultados da união entre um ribossomo e um RNAm (mensageiro), responsável pela síntese de proteínas. No citoplasma, pode haver, ainda, a presença de grânulos diversos que, neste caso, são acúmulos de alimentos. Nas bactérias fotossintetizantes existem membranas paralelas entre si que estão associadas à clorofila ou, outros pigmentos, funcionando como reservatório. Alguns podem apresentar cílios e flagelos, importantes para a locomoção. Apesar da simplicidade estrutural, os procariotos apresentam grande diversidade metabólica, que se reflete em sua distribuição universal. As condições ambientais em que vivem as bactérias e arqueias são as mais variadas, incluindo lugares extremos em que as condições de temperatura, pH, umidade e oxigênio disponível impossibilitam a vida de outros organismos. 105UNIDADE 3 Os procariotos têm grande capacidade de uti- lizar muitos nutrientes como fonte de carbono e energia, apresentando alta plasticidade e capa- cidade de adaptação. Quanto ao metabolismo, podem ser fototróficos (utilizam luz solar como fonte de energia) ou quimiotróficos (obtêm ener- gia nos compostos químicos encontrados no am- biente em que vivem). Eucariotos As células eucariontes são aquelas que, por de- finição, apresentam núcleo. A complexidade es- trutural dessas células, porém, vai muito além do núcleo. Os eucariontes apresentam organelas endomembranosas, de modo que o citoplasma é dividido em compartimentos ou microrregiões, onde se encontram moléculas diferentes do cito- sol e que executam funções especializadas. A compartimentalização do citoplasma das cé- lulas eucariontes aumenta a eficiência metabólica, pois a separação das atividades permite que essas células atinjam maior tamanho, sem prejuízo de suas funções. Além dos ribossomos, que também existem nas células procariontes, as organelas encontradas em eucariotos são: • Mitocôndrias: responsáveis pela respi- ração celular e o metabolismo energético. • Retículo endoplasmático: rede de vesí- culas que se comunicam e que são respon- sáveis pela inativação de moléculas tóxicas, síntese de fosfolipídios e proteínas, produ- ção de hormônios esteroides, depósito de íons Ca²+. • Complexo de Golgi: vesículas circulares achatadas ou esféricas, responsáveis pela separação e endereçamento das moléculas sintetizadas nas células, encaminhando-as para as vesículas de secreção (que serão expulsas da célula), ou para os lisossomos (permanecem na célula, no citoplasma ou na membrana plasmática). • Lisossomos: são responsáveis pela diges- tão de moléculas que entram na célula por fagocitose ou pinocitose. • Peroxissomos: realizam a oxidação de substâncias, o metabolismo do ácido úrico e a desintoxicação celular. As estruturas e o funcionamento de cada organela serão estudados nos próximos tópicos. O objetivo aqui é ter uma visão panorâmica a respeito das organelas celulares. Dentre os diferentes tipos celulares, existem diferenças significativas que distinguem células animais e células vegetais (Figura 2). As vegetais apresentam estruturas e organelas que são ausen- tes nas células animais, que são: • Presença de parede celular. • Presença de plastídios (plastos), quando não apresentam pigmento, são chamados de leucoplastos, quando têm pigmentos, são cromoplastos. O tipo mais frequente é o cloroplasto, rico em clorofila, que é o principal pigmento fotossintético. • Vacúolos citoplasmáticos são grandes re- servatórios de diversas substâncias. • Presença de amido como polissacarídeo de reserva. Nos animais, a reserva é de gli- cogênio. • Presença de plasmodesmos. Canais que conectam as células vegetais adjacentes, fornecendo resistência e capacidade de comunicação. Com função análoga, os animais apresentam junções comuni- cantes. 106 Organelas Celulares e Metabolismo Celular Figura 2 - Estrutura de célula eucarionte animal Figura 3 - Estrutura de célula eucarionte vegetal Mitocôndria Centríolo Retículo endoplasmático Microtúbulos Complexo de Golgi Lisossomos Ribossomos Vesículas Núcleo Nucléolo Mitocôndria Cloroplasto Citoplasma Plasmodesmo Parede Celular Membrana Plasmática Retículo endoplasmático Microtúbulos Complexo de Golgi Lisossomos Ribossomos Vacúolo Núcleo Nucléolo 107UNIDADE 3 As células captam nutrientes do meio extracelular, degradando e utilizando os produtos da degra- dação na síntese de moléculas importantes para o metabolismo celular. O processamento dessas moléculas é realizado pelo sistema de endo- membranas, que se distribui por todo o cito- plasma e é formado por vários compartimentos localizados nas organelas. Organelas Responsáveis Pela Síntese e Degradação de Macromoléculas 108 Organelas Celulares e Metabolismo Celular Os compartimentos celulares (cisternas, sacos, túbulos, vesículas) têm comunicação uns com os outros de maneira direta ou por meio de vesícu- las de transporte. As vesículas se originam em um compartimento e são transferidas para outro em um processo de perda e ganho de membranas entre as organelas para que o conteúdo das vesícu- las seja transportado (DE ROBERTS; HIB, 2001). O sistema de endomembranas é composto pelo retículo endoplasmático (liso e rugoso), o Com- plexo de Golgi e os lisossomos. Os peroxissomos serão abordados aqui também, por se tratarem de organelas que degradam substâncias no interior das células. Todo o processo de síntese e degradação de moléculas está relacionado, sendo que o retículo endoplasmático e o Complexo de Golgi são os responsáveis pela produção de substâncias, en- quanto os lisossomos e peroxissomos degradam partículas e moléculas (Figura 4). Esses processos têm fundamental importância para o equilíbrio das funções celulares e do organismo em geral. Figura 4 - Retículo Endoplasmático e seus componentes Proteínas são empacotadas em vesículas secretoras para exocitose. Vesícula se torna um lisossomo. Vesícula se insere na membrana plasmática. NÚCLEO E RETÍCULO ENDOPLASMÁTICO NúcleoMembrana nuclear Fagolisossomo Corpo residual MicróbioFagossomo Proteínas secretadas Proteínas são modi�cadas dentro do complexo de Golgi. Descarte de partículas da digestão. Vesícula de transporte COMPLEXODE GOLGI CromatinaNucléolo Poro nuclear Ribossomos Retículo Endoplasmático Liso (Síntese de lipídeos e participaçãoem outras funções). Retículo Endoplasmático Rugoso (Síntese de proteínas e participação em outras funções). Proteínas do Retículo Endoplasmático Rugoso migrando para o complexo de Golgi. Na Figura 4, temos a formação de vesículas de transporte; o Complexo de Golgi e a recepção de ve- sículas; a produção e o envio de substâncias por novas vesículas (para secreção extracelular e para o lisossomo) e a atuação dos lisossomos na degradação de molécula. 109UNIDADE 3 Retículo Endoplasmático (RE) O RE consiste em uma rede de membranas que delimitam cavidades (chamadas de cisternas, lúmen ou luz) que se intercomunicam (Figu- ra 5). O RE se estende a partir do envoltório nuclear e por grande parte do citoplasma, consistindo em uma organela indivisível, com uma membrana contínua e cavidade única (DE ROBERTS; HIB, 2001). A função principal do retículo endoplasmático consiste na síntese de novas membranas celula- res. Desse modo, ele atende à demanda funcional: substitui membranas perdidas por envelhecimen- to e também as duplica antes da divisão celular. Em neurônios, o RE participa da produção de membranas que constituirão o axônio (JUN- QUEIRA; CARNEIRO, 2015). Todas as células eucariontes apresentam RE, que fornece suporte mecânico ao citosol, junto com os microtúbulos e os microfilamentos. É pos- sível diferenciar o RE em dois tipos: • Retículo Endoplasmático Rugoso (RER) ou granular, com ribossomos acoplados à face citoplasmática das membranas; parti- cipa da síntese de proteínas. • Retículo Endoplasmático Liso (REL) ou agranular, que não possui os ribossomos aderidos e está associado ao metabolismo de lipídios. No RER, os ribossomos aderidos à membrana externa se associam ao RNAm, formando polir- ribossomos. A síntese das proteínas que se asso- ciarão ao RER se inicia ainda no citoplasma. Essas proteínas têm uma marcação especial, chamada sequência sinal, que interrompe a síntese cito- plasmática. A síntese recomeça somente na super- fície da membrana do RER (Figura 5). Figura 5 - Síntese de proteínas no retículo endoplasmático rugoso Fonte: Access Medicina ([2019], on-line)¹. 5’ 5’ 5’ 5’ 5’ 3’ 3’ 3’ 3’ RNAm 3’ Sequência única Translocon Interior do Retículo Endoplasmático Rugoso Receptor de SRP SRP Passo 1 Passo 2 Passo 3 Passo 4 Passo 5 Peptidase Sinal A tradução da proteína forma uma sequência sinal, que é ligada à partícula de reconheci- mento de sinal (SRP). O polirribossomo associado à SRP se liga ao receptor de SRP, na superfície da membrana do RER. a SRP é liberada, e a sequência sinal se liga a uma região especí�ca do complexo proteico (translocon). Essa ligação muda a conformação dos translocons, abrindo os canais aquosos por onde a proteína atravessa. Ao entrar na cisterna, a enzima peptidase sinal cliva a sequência sinal e libera o restante da cadeia polipeptídica para a cisterna. 110 Organelas Celulares e Metabolismo Celular As proteínas sintetizadas pelos polirribossomos são processadas e acumuladas nas cisternas, de onde são transportadas para seus locais de destino por meio de vesículas. Essas proteínas compo- rão tanto as membranas quanto o interior das cavidades do próprio RE, do Complexo de Golgi e também dos lisossomos (JUNQUEIRA; CAR- NEIRO, 2015). O REL pode ter continuidade com o RER e é responsável pela síntese de lipídios, processos de desintoxicação, degradação do glicogênio e também pelo controle da concentração de Ca2- intracelular. O REL realiza a síntese da grande maioria dos lipídios que compõem as membranas celulares, incluindo os fosfolipídios e o colesterol (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2015). Complexo de Golgi O Complexo de Golgi costuma se localizar pró- ximo à região do retículo endoplasmático, mas pode variar de acordo com o tipo e a função de célula. Costuma ser mais desenvolvido em célu- las secretoras (Figura 6) e é formado por vários compartimentos em sequência (sacos membra- nosos, achatados e empilhados), revestidos por membranas, formando as cisternas. Figura 7 - Microscopia eletrônica de transmissão mostrando o citoplasma de uma célula da glândula suprarrenal, secre- tora de adrenalina, porém sem coloração Figura 6 - Microscopia eletrônica de transmissão mostrando o citoplasma de uma célula da glândula suprarrenal, secre- tora de adrenalina; vermelho: cisternas do Complexo de Golgi; verde: centríolos; azul: grânulos de secreção Verde Vermelho Azul As proteínas sintetizadas e liberadas pelo retículo endoplasmático sofrem alterações pós-traducionais no Complexo de Golgi, que modificam profundamente suas características funcionais, influenciando, por exemplo, a sua forma tridimensional. Além da recepção e da modificação de moléculas, o Complexo de Golgi também apresenta uma via secretora, na qual ocorre o empacotamento das macromoléculas (lipídios, proteínas e polissacarídeos) em diferentes tipos de vesículas e o transporte para seus destinos finais. O transporte por vesículas diferentes no interior do citoplasma assegura o destino correto das macromoléculas. Se a vesícula não apresenta sinais específicos, as macromoléculas são transportadas para a membrana plasmática em um fluxo contínuo, nesta sequência: retículo endoplasmático → Complexo de Golgi → superfície celular. Este fluxo não é seletivo e incorpora proteínas e lipídios à membrana plasmática. É assim que ocorre, por exemplo, a secreção extracelular. 111UNIDADE 3 Se a vesícula apresenta um sinal, no entanto, uma marcação específica, a via é regulada e as macromo- léculas são secretadas em resposta a sinais extracelu- lares. Isso ocorre com os hormônios nas células das glândulas endócrinas e também com os neurotrans- missores nos neurônios. As substâncias que serão excretadas se acumulam até que um sinal externo dispare sua liberação na superfície celular. Ocorre, então, a exocitose, mediada pelos microtúbulos. Lisossomos São organelas com características morfológicas e dimensões muito variáveis (Figura 8). Geral- mente, ocupam cerca de 5% do volume celular e estão presentes em todas as células animais, com exceção das hemácias. Nos vegetais, o va- cúolo desempenha as funções atribuídas aos lisossomos. Figura 8 - Eletromicrografia de transmissão com falsa coloração, mostrando muitos lisossomos (vermelho) e o citoplasma (verde); à esquerda, uma célula que secreta no- radrenalina (azul) Figura 9 - Eletromicrografia de transmissão com falsa co- loração, mostrando muitos lisossomos, porém sem a colo- ração falsa Cada lisossomo é envolvido por uma unidade de membrana e contém enzimas em seu interior (Figu- ra 10). Essas enzimas são utilizadas pelas células para digerir moléculas introduzidas por pinocitose, fagocitose ou mesmo organelas celulares, para manutenção de um bom estado funcional. Os lisossomos podem digerir substâncias por meio de duas vias: • Via endocítica (Figura 10): moléculas são englobadas por pinocitose seletiva e precisam da separação prévia de seus receptores, realizada pelos endossomos. • Via fagocítica/autofágica (Figura 11): quando a partícula é incorporada sem receptores, o li- sossomo se funde à vesícula, formando um fagossomo (via fagocítica), os lisossomos também podem digerir componentes citoplasmáticos (via autofágica). 112 Organelas Celulares e Metabolismo Celular Membrana plasmática Receptor Invaginação Endossomo Lisossomo Endossomo Degradação Fusão com endossomoReciclagem do receptor Ligante A digestão das partículas incorpora- das por pinocitose seletiva só acontece quando o endossomo se funde à vesícula e promove a separação das moléculas e dos seus receptores. Depois de separadas, as moléculas são digeridas pelos lisossomos, que também se fundem ao endossomo. Figura 10 - Via endocítica de atuação dos lisossomos Fonte: Alamy Stock Photo ([2019], on-line)². Os endossomos são formados pela fusão de vesículas da membrana plasmática, do Complexo de Golgi e dos lisossomos na endocitose. Fagossomos e pinossomossão tipos de endossomos. Fonte: a autora. pensando juntos Ciclo da ação dos lisossomos Partícula alimentar Fagocitose Fagossomo Vacúolo residual Vacúolo autofágico Lisossomo primário Vacúolo digestivo (lisossomo secundário) Sistema golgiense Exocitose de resíduos (clasmocitose) Meio externo B A Figura 11 - Mecanismo de ação direta dos lisossomos (A) via fagocítica; (B) via autofágica Fonte: Só Biologia ([2019], on-line)3. 113UNIDADE 3 Peroxissomo Peroxissomo é uma organela pequena, delimita- da por membrana, que utiliza oxigênio molecu- lar para oxidar moléculas orgânicas. Com vida média de cinco a seis dias, os peroxissomos se reproduzem por fissão binária (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2015). O nome dessas organelas se refere à sua ca- pacidade de produzir e decompor peróxido de hidrogênio (H₂O₂). Em alguns casos, os peroxis- somos podem apresentar, em seu interior, uma região chamada core cristaloide, decorrente da alta concentração de enzimas (Figura 12). Dentre as funções desempenhadas pelos peroxissomos estão a participação no metabolismo do ácido úrico e a desintoxicação (o álcool etílico ou o etanol é degradado por oxidação nos peroxissomos). Em células vegetais, os peroxissomos estão relacionados com o metabolismo de triglicerídeos e são chamados de glioxissomos. Esse processo é importante para a germinação de sementes, que demanda degradação de lipídios (DE ROBERTS; HIB, 2001). Além disso, os peroxissomos também participam do metabolismo energético, pois, assim como as mitocôndrias, eles também são os principais locais de utilização do oxigênio molecular (DE ROBERTS; HIB, 2001). Figura 12 - Estrutura do peroxissomo, indicando a mem- brana que o envolve e o core cristaloide Fonte: adaptada de Wikimedia Commons (2006, on-line)4. Figura 13 - Eletromicrografia com um peroxissomo iden- tificado Fonte: Infoescola (2010, on-line)5. Síndrome de Zellweger Também conhecida como síndrome cérebro-hepatorrenal, a Síndrome de Zellweger é uma condição hereditária que é caracterizada pela redução ou ausência de peroxissomos nas célu- las do fígado e do cérebro. Indivíduos com esta síndrome apresentam anomalias severas no cérebro, fígado e rim, consequentemente, morrem logo após o nascimento. Fonte: Junqueira e Carneiro (2012). explorando Ideias 114 Organelas Celulares e Metabolismo Celular Os ribossomos são grânulos sem membrana, compostos de RNA ribossômico (RNAr) asso- ciado a proteínas específicas, que catalisam a síntese proteica a partir de informações do RNA mensageiro (RNAm) (ALBERTS et al., 2017). Eles são organelas presentes em todas as células, en- contrados no citoplasma ou aderidos à membrana do RER (apenas nos eucariotos) e visíveis apenas ao microscópio eletrônico. Ribossomos e Síntese de Proteínas 115UNIDADE 3 Cada ribossomo é formado por duas su- bunidades distintas, a maior e a menor, ambas constituídas de RNAr e proteínas. A subunidade maior fica acima da menor, com uma molécula de RNAm entre elas. A subunidade menor do ri- bossomo tem forma bastante irregular, e na face que se comunica com a subunidade maior, há um canal por onde passa o RNAm. Neste canal exis- tem três áreas escavadas, uma ao lado da outra, chamadas de Sítio A (aminoacil), Sítio P (pep- tidil) e Sítio E (de exit, saída em inglês). Componentes Estruturais da Tradução Proteica Tradução é o nome que se dá ao processo de formação de uma proteína a partir de um frag- mento de RNA mensageiro (RNAm). Para que a síntese de uma proteína aconteça, é preciso unir aminoácidos por ligações peptídicas, ativida- de realizada pelos ribossomos. A ordem em que esses aminoácidos são colocados na cadeia, bem como o tamanho da proteína, são determinados pelas informações do RNAm, que são “lidas” pelos ribossomos. O RNAm tem origem em um gene, ou seja, um fragmento de DNA que o codifica. O DNA é transcrito (no núcleo) para RNA, inclusive RNAm. A transcrição será tratada mais adiante, quando estudarmos o núcleo celular. Depois de transcrito, o RNAm recebe um CAP (uma espécie de capa ou marcação), que identi- fica a extremidade 5’ do RNAm e ajuda a célula a distinguir o RNAm dos demais. Em seguida, o RNAm sai do núcleo e vai para o citoplasma, local se encontra com o ribossomo, formando um polirribossomo. Outro componente importante da síntese de proteínas é o RNAt. As proteínas são formadas pela união de aminoácidos, e cada RNAt está ligado a um aminoácido diferente, que são “carregados” para o polirribossomo. Como exposto na primeira unidade, existem 20 tipos de aminoácidos que compõem as proteí- nas nos seres vivos. Fonte: a autora. pensando juntos A informação da sequência de aminoácidos e do tamanho da proteína que o RNAm coordena está justamente na ordem das bases nitrogenadas em sua estrutura. Então, uma sequência AUGCCC codifica uma proteína diferente da sequência CACUCG, mesmo que o tipo e a quantidade de bases nitrogenadas sejam os mesmos em ambas, sequências. A leitura pelo ribossomo é realizada de três em três bases nitrogenadas, chamadas de trincas ou códons. Cada códon corresponde a um anticódon do RNAt, que transporta um determinado aminoácido (Figura 14). 116 Organelas Celulares e Metabolismo Celular 2ª BASE U U C A G C A G 1ª B A SE 3ª B A SE UUU UUC UUA UUG UCU UCC UCA UCG U C A G U C A G U C A G U C A G CUU CUC CUA CUG CCU CCC CCA CCG AUU AUC AUA AUG GUU GUC GUA GUG ACU ACC ACA ACG GCU GCC GCA GCG UAU UAC UAA UAG CAU CAC CAA CAG AAU AAC AAA AAG GAU GAC GAA GAG UGU UGC UGA UGG CGU CGC CGA CGG AGU AGC AGA AGG GGU GGC GGA GGG Fenilalanina (Fen) Tirosina (Tir) Cisteína (Cis) Histidina (His) Glutamina (Glu) Asparagina (Asn) Lisina (Lis) Serina (Ser) Arginina (Arg) Ácido aspárti- co (Asp) Ácido glutâ- co (Glu) Leucina (Leu) Isoleucina (Ile) Metionina (Met) Codão de iniciação Codão de �naliza- ção Codão de �naliza- ção Codão de �naliza- ção Triptofano (Trp) Leucina (Leu) Serina (Ser) Prolina (Pro) Arginina (Arg) Treonina (Tre) Alanina (Ala) Glicina (Gli)Valina (Val) Figura 15 - Possíveis combinações de códons do RNAm e seus respectivos aminoácidos correspondentes Fonte: Esse e Outras (2014, on-line)6. Figura 14 - Combinações de códons possíveis no RNAm e seus respectivos aminoácidos, em diagrama e tabela 117UNIDADE 3 Síntese de proteínas Também conhecida por tradução, a síntese de proteínas pode ser dividida em três etapas: iniciação, alongamento e terminação. Iniciação O ribossomo, o RNAm e o RNAt iniciador (que carrega o primeiro aminoácido da proteína, corresponde, na maioria das vezes, à Metio- nina) formam o complexo de iniciação. A iniciação é regulada por proteínas citosólicas chamadas fatores de iniciação (IF), que atuam na extremidade 5’ do RNAm e na subunidade menor do ribosso- mo. A extremidade 5’ dos RNAm contém uma sequência de dez nucleotídeos antes do códon de iniciação, que não são traduzidos. Em eucariotos (Figura 16), o RNAt que carrega a Metionina (aminoácido inicial) se liga à subunidade menor do ribossomo, e ao mesmo tempo, se liga também à extremidade 5’ do RNAm pelo reconhecimento do marcador CAP-5’. Na sequência, o complexo de iniciação “caminha” ao longo do RNAm na direção 5’ → 3’ e param ao encontrar o códon de iniciação (AUG). (14) A imagem deve ser lida do centro para as extremidades, no centro estão as quatro possibilidades de bases nitrogenadas iniciais, na ponta 5’ do RNAm. Em seguida, de dentro para fora, estão as possibilidades de segunda e terceira bases na trinca. Exemplo de leitura: se a primeira base é A (ao centro), a segunda G e a terceira U, formando a trinca AGU, que corresponde ao aminoácido serina. (15) Tabela com as possíveis combinações de códons do RNAm e seus respectivos aminoácidos corres- pondentes 118 Organelas Celulares e Metabolismo Celular Nos procariotos (Figura 17), a iniciação é dife- rente. Isto porque a subunidade menor do ribos- somo não começa pela extremidade 5’ e caminha para 3’. Aoinvés disso, ela se associa diretamente a sequências específicas no RNAm, chamadas de sequências Shine-Dalgarno. Essas sequências antecedem e apontam para os ribossomos e os códons em que a tradução deve ser iniciada. Esta diferença existe porque os genes bacte- rianos são traduzidos em grupos (chamados de operons), o que significa que um RNAm bacte- riano pode conter as sequências codificadoras para vários genes. A sequência Shine-Dalgarno marca o início de cada sequência no RNAm, o que permite que o ribossomo encontre o códon de iniciação de cada gene. RNAt inicial Subunidade maior do ribossomo Complexo de iniciação Subunidade menor do ribossomo O complexo formado pela subunidade menor do ribossomo e RNAt se ligam ao marcador CAP-5'. O complexo percorre o RNAt até encontrar o códon de iniciação (AUG). O RNAt inicial se liga ao códon de iniciação. A subunidade maior do ribossomo se une, formando o complexo de iniciação. Códon de iniciação 5’ 3’ 5’ 3’ 5’ 3’ 5’ 3’ 5’ cap AUG AUG UAC UAC Met Met AUG UAC Met UAC Met AUG E P A O complexo de iniciação reconhece o RNAm através do CAP-metil 5’. Depois de identi�cado, o complexo percorre o RNAm até encontrar o códon de iniciação (AUG), onde o códon iniciador (que carrega a Metionina) se liga. A subunidade maior do ribossomo se une ao complexo de iniciação, dando início à tradução. Figura 16 - Iniciação da tradução em eucariotos Fonte: Khan Academy ([2019], on-line)7. 119UNIDADE 3 Alongamento Como o próprio nome indica, nesta fase acontece a adição de aminoácidos nas cadeias polipeptídicas, deixando-as maiores (ou seja, mais longas). Na etapa de iniciação, o primeiro RNAt (transportador da Metionina) se encaixou no sítio P, o compartimento central. Ao lado, no sítio A, um novo códon (sequên- cia de três pares de bases nitrogenadas) é exposto, de modo que o próximo RNAt se encaixa ali. O próximo RNAt é aquele que tem um anticódon correspon- dente (complementar) ao do códon no sítio A. Por exemplo, se o códon de RNAm exposto no sítio A é a trinca ACU, então o anticódon correspondente no RNAt será UGA, que carrega o aminoácido Serina (reveja a Figura 15). UAC fMet Complexo de iniciação Subunidade menor do ribossomo. Subunidade maior do ribossomo. Sequência Shine-Dalgarno Códon de iniciação RNAt inicial 5’ 3’ 5’ 3’AUGGGAGG AUGGGAGG UAC E P A Iniciação da tradução em bactérias fMet Figura 17 - Iniciação da tradução em procariotos, com o intermédio da sequência Shine-Dalgarno que indica o início correto da tradução. Fonte: Khan Academy ([2019, on-line)7. Ribossomos CélulaRNAt Aminoácido Proteína recém-formada Subunidade maior Subunidade menor RNAm Figura 18 - Etapa de alongamento da cadeia polipeptídica na tradução proteica 120 Organelas Celulares e Metabolismo Celular Na Figura 18, ocorre a ligação peptídica, entre os sítios P e A, que une os aminoácidos. Depois que liberam os aminoácidos, o RNAt é arrastado para o sítio E que, agora “vazio”, é liberado do complexo de alongamento. Depois que o RNAt se encaixa no sítio A, acontece a ligação peptídica, que conecta os dois aminoácidos (no nosso exemplo, a Metionina e a Serina), transferindo a metionina do primeiro RNAt para o aminoácido do segundo RNAt, no sítio A. Depois que a ligação peptídica acontece, o RNAm é puxado para frente no ribos- somo, no sentido 5’ → 3’, “andando” um códon. O deslocamento faz com que o RNAt inicial, agora sem o aminoácido, saia por meio do sítio E. Além disso, um novo códon fica exposto no sítio A e todo o ciclo recomeça. Terminação A terminação acontece quando um códon de término (UAA, UAG ou UGA; retorne à Figura 15) fica exposto no sítio A. Os códons de término são reconhecidos por proteínas chamadas fatores de liberação, que se adaptam ao sítio P (mesmo não sendo RNAt). Os fatores de liberação fazem com que a enzima que forma ligações peptídicas adicione uma molécula de água no último ami- noácido. Esta reação separa a cadeia polipeptídica do RNAt, então a proteína recém-traduzida é liberada. O ribossomo e a enzima que fazem a síntese de proteínas podem ser utilizados novamente por muitas e muitas vezes, de modo que, após a fase de terminação, cada elemento fica dispo- nível para começar um novo ciclo de síntese proteica. Após a tradução, o polipeptídeo (pré-proteína) pode sofrer mo- dificações pós-traducionais para se tornar uma proteína ativa. Os polipeptídeos são editados pela alteração ou remoção química de aminoácidos. A tradução determina apenas a estrutura primária de uma proteína, as estruturas secundária, terciária e quaternária são realizadas pelas proteínas chaperonas. Algumas proteínas podem, ainda, receber sinais (marcadores) que indicam seu destino. 121UNIDADE 3 A fotossíntese é, muito provavelmente, a reação química mais importante para a vida no planeta Terra. Isto porque, por meio dela, vegetais, algas e algumas bactérias produzem seu próprio alimen- to (e, por isso, são chamadas de autotróficas), que também é fonte de energia para outros seres vivos (os heterotróficos). Além disso, o gás oxigênio liberado como produto da fotossíntese é também fundamental para a respiração celular de todos os organismos aeróbios. Os vegetais são os organismos autotróficos mais comuns nos ecossistemas terrestres, por isso, serão utilizados aqui como modelo de estudo. Apesar de se tratar sempre de plantas, lembre-se que a fotossíntese também ocorre em outros or- ganismos (algas e cianobactérias). Cloroplastos e Fotossíntese 122 Organelas Celulares e Metabolismo Celular Na maioria dos vegetais, a fotossíntese ocorre principalmente nas folhas, local de maior con- centração dos cloroplastos, mesmo que todos os tecidos tenham potencial para isso. A fotossíntese consiste em um conjunto de reações químicas que utiliza a energia solar para transformar dióxido de carbono (CO₂) e água (H₂O) em carboidratos (açúcares). Cloroplastos Os cloroplastos são organelas especializadas na fotossíntese. Revestidos por uma dupla membra- na, internamente, os cloroplastos possuem um sistema de membranas que contém clorofila, um pigmento que capta a energia da luz solar utilizada nas reações químicas. Cada cloroplasto contém várias moléculas circulares de DNA (próprias, o que é diferente do DNA nuclear). A fotossíntese, portanto, o fato de serem autotróficas, permitiu que as plantas se desenvolvessem com organis- mos fixos no ambiente. Ao produzir seu próprio alimento, a necessidade de buscá-lo acaba. pensando juntos Pigmento é uma molécula capaz de absorver energia luminosa e, com ela, eleva seu nível ener- gético, tornando-se excitada. As ligações químicas da fotossíntese captam a energia liberada na excitação. Fonte: a autora. pensando juntos Em sua estrutura, cada cloroplasto apresenta três conjuntos de membrana: externa, a interna e as mem- branas do tilacoide (Figura 19). Isso separa o cloroplasto em três compartimentos solúveis, o espaço intermembranoso, o estroma e a luz do tilacoide. Interior do tilacoide Lamela Granum Lamela do estroma Membrana externa Membrana interna Estroma Tilacoide Figura 19 - Estrutura de um cloroplasto, evidenciando os componentes e compartimentos internos 123UNIDADE 3 O revestimento externo do cloroplasto é formado por duas membranas, a interna e a externa. Entre elas, forma-se um espaço intermembranoso. A membrana externa possui porinas e é permeável, enquanto a membrana interna é impermeável a íons e a metabólitos, que precisam de transpor- tadores específicos (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2015). O estroma constitui a matriz amorfa do interior dos cloroplastos, rica em enzimas solú- veis, como as responsáveis pelas reações da fase bioquímica da fotossíntese. O sistema de membranas do tilacoide for- ma lamelas que se localizam no estroma e não se conectam com a membrana interna do cloro- plasto, formando, assim, o espaço intratilacóide. Os tilacoides dão origem às lamelas em forma de disco (comomoedas) que se organizam for- mando pilhas, quando são chamados de granum (pl. grana). Nas membranas dos tilacoides, loca- lizam-se as moléculas de clorofila, unidas a pro- teínas (formando os fotossistemas). A clorofila é o pigmento fotossintetizante encontrado nos cloroplastos das células vegetais. Quanto à sua estrutura molecular, existem diferentes tipos de clorofila, que apresentam propriedades de absor- ção luminosa distintas. Fotossíntese Como citado, a fotossíntese é um conjunto de reações químicas que ocorre nos organismos au- totróficos, os quais utilizam energia solar para transformar dióxido de carbono (CO₂) e água (H₂O) em carboidratos (açúcares), especialmente a glicose. Esta transformação, porém, não é tão simples assim. O fato mais importante a respeito da fotossíntese é a transferência de energia lumi- nosa (do Sol) em energia química (armazenada nas ligações químicas das moléculas de carboidra- tos), tornando essa energia disponível para todos os seres vivos. É possível resumir os principais eventos da fotossíntese com uma reação química básica: 6CO₂ + 6H₂O + energia solar → C₆H₁₂O₆ + 6O₂. De acordo com essa reação, os átomos de carbono (C), o hidrogênio (H) e o oxigênio (O) provenientes do dióxido de carbono (CO₂) e da água (H₂O) são rearranjados para formar açúcares (glicose) e gás oxigênio (O₂). Desta forma, os componentes ambientais passam a fazer parte da estrutura dos vegetais e, ao mesmo tempo, um componente (o gás oxigênio) é devolvido à atmosfera. A energia necessária para formar uma molécula de glicose vem da luz solar e, por meio da fotos- síntese, a energia luminosa é transformada em energia química, armazenada nas ligações químicas da molécula de glicose. Essa energia química será utilizada posteriormente pela própria planta (ou então, por outro organismo que se alimente dela). Diferente do indicado pela reação simplificada, a fotossíntese não ocorre em uma etapa só. Ba- sicamente, ela ocorre em duas etapas separadas e consecutivas, que estão interligadas. A primeira é chamada de etapa fotodependente ou fotoquímica e ocorre na membrana dos tilacoides; a segunda é denominada etapa bioquímica ou fotoindependente e suas reações ocorrem no estroma. Como o próprio nome sugere, a presença de luz é fundamental para as reações químicas que ocorrem na primeira etapa, mas é dispensável na segunda. 124 Organelas Celulares e Metabolismo Celular Etapa fotoquímica Nas membranas dos tilacoides existem fotossistemas, especializados na coleta e absorção de luz, que têm papel chave nas reações fotoquímicas. A primeira reação da etapa fotoquímica é a fotofosforila- ção não-cíclica, em que os elétrons são removidos das moléculas de água e levados aos fotossistemas (FSII e FSI), para depois compor o NADPH (coenzima do complexo energético). Essa reação faz com que a energia luminosa seja absorvida em dois momentos, um em cada fotossistema, produzindo ATP (Figura 20). Figura 20 - Reações da etapa fotoquímica Membrana do tilacoide Luz Luz H2O PQ PQH O2 H+ H+ H+ H+ H+ H+ H+ H+ Plastoquinona Plastocianina Ferrodoxina NADP NADPH ATP- sintase P680 Citocromo Ferrodoxina NADPH-redutase Lumen do tilacoide ATP Pi CO2 Carboidratos ADP FSI Fd FNR FSII b6f PC Ciclo de Calvin Legenda: A energia luminosa é absorvida pelo fotossistema I (PSI), onde excita um elétron da clorofila e promove a quebra da molécula de água, liberando um novo elétron (da água) e oxigênio (O2). O elétron deixa o FSII e atravessa a cadeia transportadora de elétrons, formada pela plastoquinona (PQ), o complexo citocromo b6f e a plastocianina (PC). O transporte do elétron pela cadeia faz com que o elétron perca energia, o que gera um gradiente de prótons. Esse gradiente é usado pela ATP-sintase para produzir um ATP, adicionando um fosfato ao ADP. No FSI, o elétron eleva novamente seu nível energético pela absorção de energia luminosa e, então, é enviado para a enzima FNR (ferredoxina NADP-redutase), que transfere os elétrons na produção de NADPH. 125UNIDADE 3 No FSII, a energia da luz solar é absorvida, o que eleva o nível energético de um elétron da clorofila. O elétron de alta energia passa para uma molécula aceptora (feofitina) e é substituído por um elétron da molécula de água. Esta quebra da água libera átomos de oxigênio que se unem para formar o gás oxigênio (O₂), o ar que respiramos. Quando o elétron deixa o FSII, ele viaja pela cadeia transportadora de elétrons. Conforme o elétron atravessa a cadeia de transporte, ele per- de energia. Parte dessa energia causa o bombea- mento de íons H+ do estroma para o interior do tilacóide, produzindo um gradiente de prótons usado na produção de ATP, pela atividade da enzima ATP-sintase. Essa enzima utiliza o fluxo de prótons para adicionar um fosfato ao ADP, for- mando ATP. Este processo é chamado quimios- mose, pois gera um ATP usando a energia de um gradiente químico. No FSI, o elétron releva seu estado energético, quando a energia luminosa é absorvida. Assim, o elétron energizado é transferido para uma mo- lécula aceptora, a ferredoxina (Fd), liberando espaço para a entrada de um novo elétron que, assim como o primeiro, também é usado para produzir o NADPH. A ferredoxina está associada à enzima NADP+ redutase (abrev. FNR, de fer- redoxina-NADP-redutase), que transfere elétrons para a produção de NADPH. Na fase fotoquímica, então, a energia luminosa é convertida em energia química na forma de ATP e NADPH. Essas moléculas energéticas são usadas na produção de açúcares da etapa bioquímica (ou Ciclo de Calvin). Figura 21 - Estômatos, complexos celulares que permitem a entrada e saída de oxigênio e gás carbônico, indicando a localização dos estômatos Figura 22 - Fotomicrografia óptica de estômatos foliares Etapa Bioquímica ou Ciclo de Calvin Essa etapa ocorre no estroma e não necessita diretamente de energia luminosa, mas usa ATP e NADPH para fixar o dióxido de carbono (CO₂) e produzir açúcares de três carbonos, G3P (gliceraldeído-3-fos- fato), que se unem para formar a molécula de glicose. Nos vegetais, o dióxido de carbono tem acesso ao interior de uma folha por meio dos estômatos (Figura 21), células especiais que abrem e fecham. Dos estômatos, difundem-se para o estroma dos cloroplastos, local em que ocorre as reações da etapa bioquímica. 126 Organelas Celulares e Metabolismo Celular Na etapa bioquímica (ou Ciclo de Calvin), ocorre a fixação de átomos de carbono provenientes do dióxido de carbono (CO₂). As reações dessa etapa podem ser divididas em três fases: fixação do car- bono, redução e regeneração (Figura 23). Figura 23 - Reações da etapa bioquímica Cloroplasto Ciclo de Calvin Açúcar (glicose) 1. Fixação do carbono 3. Regeneração da RuBP 2. Redução Açúcar 6 G3P 5 G3P 3 RuBp 3 RuBp 6 NADPH 6 ADP 6 ATP 3 ATP 6 Pi 3 ADP6 Pi 6 NADP 3 CO2 6 3-PGA 6 H Cada reação está representada três vezes. O ciclo de Calvin é dividido em: �xação do carbono, em que os carbonos do CO2 se unem à RuBP, formando duas moléculas 3-PGA; redução, ATP e NADPH são usados para converter 3-PGA em G3P, que são liberados para formar a glicose; regeneração, RuBP é reorganizada com a utilização de ATP. • Fixação do carbono: as moléculas de dió- xido de carbono (CO₂) se unem à RuBP (1,5-ribulose-bifosfato), uma molécula receptora formada por cinco carbonos. Ao receber mais um, ela se torna um com- posto com seis carbonos, que se divide em duas moléculas com três carbonos cada, o 3-ácido-fosfoglicérico (3-PGA), reação catalisada pela enzima rubisco (RuBP car- boxilase/oxigenase). • Redução: ATP e NADPH são usados para converter as moléculas de 3-PGA em mo- léculas de açúcar com três carbonos, o G3P (gliceraldeído-3-fosfato), que é liberado do ciclo. Este processo é chamado de re- dução, porque o NADPH doa elétrons, ou seja, reduz para um intermediário de três carbonos para formar o G3P. • Regeneração: duas moléculas de G3P pre- cisam se unir para compora glicose, en- quanto as demais, que permaneceram no ciclo, devem ser recicladas para regenerar o receptor da RuBP, processo que requer energia do ATP. 127UNIDADE 3 Para que um G3P saia do Ciclo de Calvin (para compor a molécula de glicose), três moléculas de CO₂ devem entrar no ciclo, fornecendo três no- vos átomos de carbono fixado. Quando três CO₂ entram no ciclo, são produzidas seis moléculas de G3P. Uma delas sai do ciclo, mas as outras cinco são recicladas para regenerar as três moléculas do receptor RuBP. Ajustando os reagentes e os produtos, para produzir uma molécula de glicose (C₆H₁₂O₆), são necessárias seis voltas no ciclo, o que significam 6CO₂, 18 ATP (12 na fixação, 6 em cada ciclo; mais 6 na regeneração, 3 em cada ciclo) e 12 NADPH (6 para cada ciclo). Apesar de ocorrerem separadas temporalmente e fisicamente, a etapa fotoquímica e a etapa bioquí- mica estão intimamente interligadas (Figura 24). Na etapa fotoquímica, a energia luminosa é usada para produzir ATP e NADPH, que serão utilizados na fixação do carbono, na fase bioquímica. Assim, água e gás carbônico “entram” no cloroplasto, os ATPs e NADPHs (e as formas alternativas, ADP e NADP+) circulam entre as duas fases da fotossíntese. Depois do Ciclo de Calvin, um açúcar (glicose, C₆H₁₂O₆) é produzido, além de uma molécula de gás oxigênio (O₂) que é liberada para a atmosfera, ainda como produto da primeira etapa. Figura 24 - Reações da fotossíntese Ciclo de Calvin Luz Granum Açúcar Cloroplasto Processo de fotossíntese A fotossíntese tem grande importância ecológica, pois introduz carbono fixado (glicose) e ener- gia aos ecossistemas, além de afetar a composição da atmosfera, pois remove CO2 e libera O2. Fonte: a autora. pensando juntos 128 Organelas Celulares e Metabolismo Celular Quando você se alimenta, a energia que está nos alimentos é transferida para as suas células. Esta transferência, em suas células, necessita de gás oxigênio e, em termos de nível celular e molecular, é chamada de respiração celular. A respiração celular é o processo de obtenção de energia mais utilizado pelos seres vivos. Existem organismos procariontes que fazem respiração celular aeró- bica (que utiliza oxigênio) e também anaeróbica (sem oxigênio). O foco aqui, porém, será a respi- ração celular aeróbia, que ocorre em células euca- riontes. Nos eucariotos, ela se inicia no citoplas- ma e termina nas mitocôndrias (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2015). Mitocôndrias e Respiração Celular 129UNIDADE 3 Mitocôndrias As mitocôndrias (mitos, filamento; condria, partícula) são organelas membranosas esféricas ou alon- gadas, presentes em todas as células eucariontes e responsáveis por extrair energia dos nutrientes. Existem duas unidades de membrana revestindo cada mitocôndria, a externa e a interna (Figura 25). A membrana externa é lisa e muito permeável de- vido à presença de aquaporinas. Sua principal função é separar mecanica e quimica o interior da mitocôn- dria do citoplasma celular. A membrana interna é pregueada, originando dobras em forma de túbulos, as cristas mitocondriais. As duas membranas estão localizadas de modo que formam compartimentos dentro da mitocôndria: o espaço intermembrano- so, formado entre as duas membranas e a matriz mitocondrial, delimitado pela membrana interna. Figura 25 - Esquema de uma mitocôndria, identificando as principais estruturas Matriz Membrana externa Porinas Membrana interna 1. DNA 2. Grânulos 3. Ribossomos 4. ATP-sintase Como são as organelas as responsáveis pela respiração celular e, consequentemente, pela obtenção de energia, as mitocôndrias são mais numerosas em células com elevado me- tabolismo energético, como as células muscu- lares estriadas esqueléticas (que você viu na Unidade 2). A distribuição das mitocôndrias no citoplasma é bastante variável, mudando constantemente pela atividade das proteínas do citoesqueleto (Figura 26). Figura 26 - Eletromicrografia de transmissão mostrando as mitocôndrias em uma célula muscular cardíaca 130 Organelas Celulares e Metabolismo Celular Respiração Celular Durante a respiração celular aeróbica, as molécu- las provenientes dos alimentos são rearranjadas de modo que a energia armazenada fique disponível para a célula, processo que consome gás oxigênio (O₂), libera gás carbônico (CO₂) e demanda ener- gia, obtida pela degradação das moléculas de ATP. A respiração celular se inicia no citoplasma, mas são as mitocôndrias que possuem a maqui- naria para a fosforilação oxidativa aeróbica, que é muito eficiente na transferência da energia dos nutrientes para o ATP. As moléculas energéticas mais usadas pelas células são a glicose e os ácidos graxos. A respiração celular pode ser dividida em três etapas principais: a glicólise, o ciclo do áci- do cítrico (ou ciclo de Krebs) e a fosforilação oxidativa. Glicólise A primeira etapa da respiração ocorre no citosol, ou seja, fora da mitocôndria e é chamada de glicó- lise. Como o próprio nome sugere (glico, glicose; lise, quebra), nesta etapa, ocorre a quebra de uma molécula de glicose (C₆H₁₂O₆) em duas molécu- las de piruvato (ou ácido pirúvico; C₃H₄O₃), em um processo que envolve dez reações químicas diferentes. A glicólise é a etapa anaeróbia da respiração celular, porque ocorre na presença ou na ausência de oxigênio. É realizada em duas fases: investi- mento e compensação, e resulta na formação de duas moléculas de ATP. • Investimento: nesta fase, são “gastos” dois ATPs, formando ADP+Pi. Os dois Pi (fos- fato inorgânico) são adicionados à molé- cula de glicose, ativando-a. A glicose fica instável e se quebra em ácido pirúvico. • Compensação: a quebra da glicose em ácido pirúvico libera 4 ATPs, porém, como dois foram usados na fase de investimento, o saldo final da glicólise é de 2 ATPs. Durante a glicólise também são liberados quatro elétrons e quatro íons H+. Desse, dois H+ e quatro elétrons são capturados por duas moléculas de NAD+ (dinucleotídeo nicotinamida-adenina), produzindo NADH. O ácido pirúvico será utili- zado na próxima etapa, no ciclo do ácido cítrico. Assim, a equação da glicólise pode ser re- presentada da seguinte maneira (lembrando: C₆H₁₂O₆ é a glicose e C₃H₄O₃ é o ácido pirúvico): C₆H₁₂O₆ + 2ADP + 2Pi + 2NAD+ → 2C₃H₄O₃ + 2ATP + 2NADH + 2H + Piruvato é sinônimo de ácido pirúvico, que é composto de menor energia que se pode obter da glicose sem a utilização de oxigênio. pensando juntos Em leveduras expostas a condições anaeróbicas, a glicólise continua transformando o piruvato em eta- nol (é assim que é produzida a cerveja!) por uma série de reações químicas, processo conhecido como fermentação alcoólica. Quando células musculares ou bactérias lácticas são expostas à anaerobiose, a quebra também continua, mas o produto final é o ácido láctico, processo chamado de fermentação láctica (Figura 27). 131UNIDADE 3 Na presença de oxigênio, inicia-se o ciclo do ácido cítrico. Na ausência, ocorre a fermentação láctica (em células musculares ou bactérias lácticas) ou alcoólica (em leveduras). Ciclo do Ácido Cítrico Também conhecido como Ciclo de Krebs (Fi- gura 28), esta etapa da respiração celular se inicia logo após a glicólise, com o transporte do ácido pirúvico para a matriz mitocondrial. É uma etapa aeróbia, ou seja, só ocorre na presença de oxigênio. Na matriz, o ácido pirúvico reage com a coenzima A (CoA) e forma Acetilcoenzima-A (Acetil-CoA) e gás carbônico (CO₂). Nesse processo, uma mo- lécula de NAD+ é transformada em NADH pela captura de dois elétrons e um dos dois íons H+ que foram liberados na reação. Em seguida, o ciclo do ácido cítrico se inicia a partir da condensação da acetil-CoA, prove- niente do piruvato, ou então, da β-oxidação dos ácidos graxos, com o ácido oxalacético, pro- duzindo o ácido cítrico. Assim, inicia-se um ciclo de reações enzimáticas (desidrogenases), em que ocorre a liberação gradual de elétrons e prótons, que também libera gás carbônico (CO₂). Apóstodas as reações, o ácido cítrico dá origem ao ácido oxalacético, que reinicia o ciclo. Os elétrons e os íons H+ são captados por moléculas de NAD+ (nicotinamida adenina- -dinucleotídeo) e FAD (flavina adenina dinu- cleotídeo), formando três NADH e um FADH₂, respectivamente. Durante o ciclo, a energia li- berada também leva à formação do GTP (gua- nosina trifosfato), molécula semelhante ao ATP. Figura 27 - Vias aeróbia (laranja) e anaeróbica (verde e lilás) do piruvato formado a partir da glicólise Fonte: Wikimedia ([2019], on-line)8. Glicose Piruvato Glicólise Aerobiose Anaerobiose Anaerobiose Lactato Etanol Animais e plantas Fermentação alcoólica: leveduras Fermentação láctica: músculos e bactérias lácticas Acetil-CoA Acetaldeído Ciclo de Krebs O2 H2O + CO2 Fosforilação oxidativa NADH NAD+ NADH NAD+ 132 Organelas Celulares e Metabolismo Celular Célula Respiração celular Ciclo de Krebs Ciclo de Krebs A Acetil-CoA (com dois carbonos; 2C) se une ao ácido oxalacético (com quatro carbonos; 4C) para formar o citrato (com seis carbonos; 6C). Após sucessivas reações com as enzimas desidrogenases, são liberados íons H+, elétrons (captados por NAD+ ou FADH) e gás carbônico. Ao �nal do ciclo, o ácido oxalacético (4C) se recompõe para dar início a um novo ciclo. Figura 28 - Ciclo de Krebs (ciclo do ácido cítrico) Fosforilação oxidativa A terceira e última etapa da respiração celular ocorre na membrana interna da mitocôndria, em que elétrons são transportados da matriz para o espaço intermembrana e há a produção de ATP por quimiosmose. A participação do oxigênio é fundamental para essa etapa e, sem ele, o processo seria interrompido, pois os elétrons não seriam transportados. Nas células procariontes (bactérias) não há mitocôndrias e a cadeia que transporta elétrons se encontra na face interna da membrana plasmática dessas células. Fonte: a autora. pensando juntos Na fosforilação oxidativa, ocorre a reoxidação das moléculas de NADH e FADH₂. Devido à grande afinidade com o gás oxigênio, os elétrons são “roubados” e percorrem quatro grandes complexos proteicos na membrana interna da mitocôndria (Figuras 29), liberando, no percurso, uma grande quantidade de energia. Essa energia ocasiona a passagem dos íons H– da matriz mitocondrial para o espaço intermembranoso. 133UNIDADE 3 Como a concentração de íons H+ no espaço entre as membranas é bastante elevada, eles tendem a retornar à matriz mitocondrial e, no caminho, ativam a enzima ATP-sintase. Isto porque a mem- brana interna é impermeável a esses íons e, então, o único canal disponível é por meio da enzima. A ATP-sintase utiliza o fluxo de H+ para adicionar um fosfato ao ADP, formando ATP (Figura 30). Esse processo é chamado quimiosmose, pois gera um ATP usando a energia de um gradiente químico, e a reação ADP → ATP é chamada de fosforilação oxidativa. Figura 29 - Cadeia transportadora de elétrons e a fosforilação oxidativa (Q: ubiquinona; Cyt.C: citocromo oxidase, enzimas que participam do complexo citocoromo-oxidase) Legenda: Em verde estão representados os quatro grandes complexos proteicos que separam o espaço intermembranoso (acima) da matriz mitocondrial (abaixo). As moléculas de NADH e FADH2, formadas nas etapas anteriores, reagem com o oxigênio, liberando íons H + e elétrons, o que forma NAD+ e FAD. Enquanto os elétrons são transportados até chegarem ao oxigênio, é liberada grande quantidade de energia. que promove a passagem dos íons H+ da matriz mito- condrial para o espaço intermembranoso. Como a concentração de íons H+ é maior no espaço intermembranoso, eles tendem a voltar para a matriz e, no caminho, atravessam a enzima ATP-sintase, que forma ATP. Os elétrons se juntam ao oxigênio e formam moléculas de água. 134 Organelas Celulares e Metabolismo Celular A fosforilação oxidativa é responsável pela maior parte dos ATPs produzidos pela célula. O saldo energético, ao final da respiração celular, é de 30 ATPs, sendo que: • Glicólise 2 ATPs. • Ciclo do ácido cítrico 2 ATPs. • Fosforilação oxidativa 26 ATPs. É possível também representar a equação final simplificada da respiração celular como: Figura 30 - Atividade da ATP-sintase Acima da membrana está o espaço intermembranoso e abaixo, a matriz mitocondrial. A con- centração de íons H+ no espaço intermembranoso é maior do que na matriz, mas a membrana é impermeável a esses íons. Então, eles atravessam a membrana a favor do seu gradiente de concentração por meio do canal que existe na ATP-sintase, processo que muda a conformação da enzima e, devido à atividade de síntese, adiciona um fosfato ao ADP, formando um ATP. C₆H₁₂O₆ + 6O₂ 6CO₂ + H₂O + energia Apesar de tratadas em separado, as etapas da respiração celular são contínuas e ocorrem em locais dife- rentes na célula, de modo que os produtos de cada etapa são importantes para as próximas (Figura 31). 135UNIDADE 3 Citosol Mitocôndria Fosforilação oxidativa Glicólise 1 glicose 2 piruvato Ciclo de KrebsAcetil-CoA Figura 31 - Visão panorâmica sobre a respiração celular Outra reflexão importante a ser feita é a respeito da relação entre a respiração celular e a fotossíntese. Você estudou cada processo em separado e, apesar de ocorre em locais e até em organismos diferentes, eles estão intimamente ligados. Isto porque os produtos da respiração celular (gás carbônico e água) são exatamente os reagentes da fotossíntese, enquanto o produto da fotossíntese (glicose e oxigênio) também são os produtos da respiração celular (Figura 32). Legenda: No citosol, uma molécula de glicose é quebrada em duas de piruvato. Ele é oxidado e forma a acetil coenzima-A, que, na matriz mitocondrial, entra no ciclo do ácido cítrico. Os NADH e FADH2 formados na glicólise e no ciclo do ácido cítrico são oxidados na cadeia transportadora de elétrons, promovendo a formação de ATPs em grande quantidade. 136 Organelas Celulares e Metabolismo Celular Caro(a) aluno(a), na terceira unidade, o objetivo era aprofundar seus conhecimentos a respeito das organelas e do metabolismo celular. Seguindo o ponto de vista da unidade anterior, em que estudamos a célula “de fora para dentro”, essa unidade trouxe as principais organelas presentes nas células eucariontes, bem como as principais reações metabólicas a ela relacionadas. Todos os conhe- cimentos aqui apresentados se relacionam com o que você estudou nas unidades anteriores, pois muitas reações se iniciam no citoplas- ma e terminam no interior das organelas. Além disso, estudamos as organelas em separado, porém o metabolismo é contínuo, e a atividade das organelas estão relacionadas. Luz solar Cloroplasto Mitocôndria Fotossíntese Respiração celular Energia química (ATP) Figura 32 - Correlação entre a fotossíntese e a respiração celular 137UNIDADE 3 Considerações Finais Estamos encerrando a terceira unidade, em que a ênfase foi a estru- tura e o metabolismo das principais organelas presentes nas células eucariontes. Como você viu no início da unidade, a definição de organela é bastante variável e pode incluir, ou não, organelas que não são delimitadas por membrana. Adotamos, aqui, a ideia de que as organelas são estruturas celulares que realizam uma função em específico, o que inclui, por exemplo, os ribossomos, que não são membranosos. O metabolismo celular envolve a produção e a quebra de mo- léculas que transitam no interior da célula, que são realizadas pelo sistema de endomembranas existente nas células eucariontes. Esse sistema é constituído pelo retículo endoplasmático, pelo Comple- xo de Golgi e pelos lisossomos. Além deles, estudamos também a estrutura e o metabolismo dos peroxissomos, que degradam mo- léculas por oxidação. Associados ao Retículo Endoplasmático Rugoso estão os ribos- somos responsáveis pela síntese de proteínas. Este processo ocorre graças a uma molécula de RNA mensageiro “lida” pelo ribossomo, ligando os aminoácidos que formam a proteína em ligações pep- tídicas. Oscloroplastos, presentes apenas em células de vegetais e algas, são responsáveis pela fotossíntese. Por meio desta, essas células conseguem transformar energia luminosa em energia química, armazenada nas ligações químicas de moléculas de açúcar, como a glicose. As moléculas de glicose formadas na fotossíntese são quebradas na respiração celular, que ocorre nas mitocôndrias. Por meio da reação com o oxigênio, a energia contida nas ligações químicas da glicose fica disponível para a célula na forma de ATP. Assim, é im- portante que você note as relações que existem entre o metabolismo dos cloroplastos e das mitocôndrias, na produção e na obtenção de energia pelas células. 138 Você pode utilizar seu diário de bordo para a resolução. 1. Considerando a estrutura e o metabolismo de células procariontes e eucariontes, monte um quadro comparativo entre os dois tipos de célula, em que haja as organelas encontradas em cada um e, também, o metabolismo realizado por cada uma delas. 2. A respeito da síntese e degradação de moléculas no interior das células, analise as afirmativas a seguir: I) O Retículo Endoplasmático é a organela responsável por empacotar, identificar e destinar as moléculas produzidas na célula. II) O Complexo de Golgi é mais desenvolvido em células com atividade secretora, como as encontradas nas glândulas. III) Os lisossomos degradam moléculas por oxidação. Assinale a alternativa correta: a) Somente as afirmativas I e II. b) Somente a afirmativa II. c) Somente as afirmativas I e III. d) Somente as afirmativas II e III. e) Nenhuma das alternativas está correta. 139 3. Analise as afirmativas a seguir e assinale V para o que for verdadeiro e F para falso: ) ( Os ribossomos são as organelas responsáveis pela síntese de proteínas e estão presentes em todas as células. ) ( O RNA transportador carrega mensagens que serão “lidas” pelos ribossomos para a produção de proteínas. ) ( A síntese de proteínas e dos componentes que participam dela acontece no citoplasma. ) ( Na formação de uma proteína, os aminoácidos são unidos por ligações pep- tídicas. Assinale a sequência correta: a) V, F, F e V. b) F, F, V e F. c) V, F, V e F. d) F, F, F e V. e) F, V, V e F. 4. Assinale a alternativa que explica a função da enzima ATP-sintase, presente no metabolismo dos cloroplastos e das mitocôndrias: a) Quebra ATP em ADP e ácido pirúvico, liberando energia. b) Une duas moléculas de ATP para conservar energia que será utilizada depois pela célula. c) Produz ATP, adicionando um fosfato ao ADP, o que armazena energia que pode depois ser usada pela célula. d) Produz glicose a partir da energia armazenada nas moléculas de ATP. e) Quebra a molécula de glicose, liberando ATPs para a célula. 5. Reveja as reações químicas que acontecem nos cloroplastos e nas mitocôndrias. Depois, explique como o metabolismo dessas duas organelas está relacionado. 140 1. GLICÓLISE, FERMENTAÇÃO E CULINÁRIA Há muito tempo, a humanidade vem consu- mindo alimentos fermentados, que, além de conferir às matérias-primas utilizadas um sabor agradável, também prolongam a durabilidade dos alimentos, como é o caso do iogurte. Embora alguns micro-organismos façam mal à saúde, alguns são de grande importância e não nos fazem mal, podendo até conferir benefícios à saúde, como os leites fermentados. Os leites fermentados podem melhorar a flora intestinal, fortalecer o sistema imunológico, auxiliar no combate ao colesterol, entre outros benefícios. Acredita-se que sejam capazes até de prevenir determinados tipos de câncer no estô- mago e no intestino. Os benefícios do iogurte estão diretamente ligados ao aparelho digestivo, regulando o intestino e combatendo também prisão de ventre. O iogurte é produzido por meio da fermentação do leite. Entre as fermentações utilizadas em alimentos destacam-se como as mais importantes, a fermentação alcoólica, a fermentação acética e a fermentação láctica. Fermentação alcoólica: realizada por diversos micro-organismos, bastante utilizada na fabri- cação de bebidas alcoólicas, como a cerveja, o vinho, entre outros. Produz como principal pro- duto o álcool. Fermentação acética: largamente utilizada na indústria de alimentos, utiliza micro-organis- mos como as bactérias acéticas, com a finalidade de produzir, por exemplo, o vinagre, gerando o ácido acético como principal composto. Fermentação láctica: é aplicada na produção de diversos alimentos, tanto de origem vegetal, como picles, chucrute e azeitonas, quanto de ori- gem animal, como queijos, iogurtes e salames. A fermentação láctica é assim chamada porque produz o ácido láctico como composto principal. É um processo bioquímico realizado por bac- térias lácticas como Lactobacillus delbrueckii, L. bulgaricus, L. pentosus, o L. casei, L. leichmannii e Streptococcus lactis, entre outros. A fermentação do leite resulta em vários tipos de produtos. Todos eles possuem durabili- dade (ou vida de prateleira) mais extensa do que a do leite fresco. Esse fato deve-se à pro- dução do ácido láctico, que resulta em maior acidez e abaixamento do pH do meio, dificul- tando o crescimento de micro-organismos que podem fazer mal à saúde humana ou deterio- rar o produto. O leite empregado no processo de fermentação deve ser de boa procedência e qualidade, livre de antibióticos ou resíduos tóxicos, importante para garantir a segurança alimentar do produto, mantendo o padrão de qualidade estabelecido pela legislação em vigor no país que o produz e comercializa. É importante entender que, por mais avançada que seja a tecnologia empregada no processa- mento do leite fermentado, nunca se conseguirá fabricar um produto de boa qualidade a partir de matéria-prima deficiente. Vários defeitos de fabricação podem ocorrer devido à contaminação do leite, por exemplo, a coagulação incompleta, sabor amargo ou de ranço. Portanto, deve-se utilizar leite de boa procedência, bem refrigerado e livre de conta- minantes (pesticidas, herbicidas e sanitizantes). Fonte: Martins, Veiga e Castilho (2014). 141 O Óleo de Lorenzo Ano: 1992 Sinopse: um garoto é diagnosticado com uma doença extremamente rara, que provoca uma preocupante degeneração no cérebro. No filme, seus pais passam a estudar e a pesquisar uma possível cura, na esperança de descobrir algo que possa deter o avanço da doença. FILME Guia Mangá - Bioquímica Autor: Masaharu Takemura e Office Sawa Editora: Novatec Sinopse: Kumi adora comer, mas está preocupada que sua paixão por alimen- tos pouco saudáveis esteja afetando sua saúde. Determinada a desvendar os segredos do regime perfeito, ela decide buscar a ajuda de seu estudioso amigo, Nemoto, e de sua professora de Bioquímica, dra. Kurosaka. Assim tem início nossa aventura... Acompanhe esta viagem no Guia Mangá Bioquímica enquanto Kumi explora os mistérios do funcionamento de seu corpo. Com o auxílio do robô-gato, o simpático robô endoscópico da professora, você conhecerá a incrível máquina química que nos mantém vivos e verá de perto biopolímeros, como o DNA e as proteínas, processos metabólicos que transformam os alimentos em energia e enzimas que catalisam as reações químicas do nosso corpo. LIVRO Artigo científico intitulado “Modelo didático para estudar os processos energéti- cos fotossíntese e respiração celular: processos energéticos fundamentais para a manutenção da vida no planeta”. Para acessar, use seu leitor de QR Code. WEB Artigo científico intitulado “Ciclo de Krebs Como Fator Limitante na Utilização de Ácidos Graxos Durante o Exercício Aeróbico”. Para acessar, use seu leitor de QR Code. WEB http:// http:// 142 ALBERTS, B.; JOHNSON, A.; LEWIS, J.; RAFF, M.; DE ROBERTS, K.; WALTER, P. Biologia molecular da célula. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017. DE ROBERTS, E. M. F.; HIB, J. Bases da biologia celular e molecular. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2001. JUNQUEIRA, L. C.; CARNEIRO, J. Biologia Celular e Molecular.9. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2012. MARTINS, R. L.; VEIGA-SANTOS, P.; CASTILHO, S. G. Fermentação divertida: introdução à ciência através de atividade culinária investigativa. Rio de Janeiro: Cultura Acadêmica, 2014. Disponível em: <https:// repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/126252/ISBN9788579835278.pdf?sequence=1&isAllowed=y>. RAVEN, P. H.; EVERT, R. F.; EICHORN, S. E. Biologia vegetal. 7. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2007. Referências On-Line ¹Em: <https://accessmedicine.mhmedical.com/data/books/1441/murray29_ch46_unfig-46-06.png>. Acesso em: 28 jan. 2019. ²Em: <https://c8.alamy.com/compde/bb46kp/rezeptor-vermittelte-endozytose-ermoglicht-zellen-molekule-wie- proteine-aufnehmen-die-fur-die-normale-zellfunktion-notwendig-sind-bb46kp.jpg>. Acesso em: 28 jan. 2019. 3Em: <https://www.sobiologia.com.br/conteudos/Citologia/cito21.php>. Acesso em: 28 jan. 2019. 4Em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Peroxisome.jpg>. Acesso em: 28 jan. 2019. 5Em: <https://www.infoescola.com/citologia/peroxissomos/>. Acesso em: 28 jan. 2019. 6Em: <https://essaseoutras.com.br/tabela-do-codigo-genetico-universal-com-codons-de-rnam-aminoacidos/>. Acesso em: 29 jan. 2019. 7Em: <https://pt.khanacademy.org/science/biology/gene-expression-central-dogma/translation-polypeptides/a/ the-stages-of-translation>. Acesso em: 29 jan. 2019. 8Em: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/3/32/Voies-aerobiose-anaerobiose.svg/941px- Voies-aerobiose-anaerobiose.svg.png>. Acesso em: 29 jan. 2019. 143 1. Exemplo de resposta: Procariontes Eucariontes R.E. e Complexo de Golgi Síntese de moléculas. Ausentes. Presentes em todas as células. Lisossomos e Peroxissomos Degradação molecular. Ausentes. Presentes em todas as células. Ribossomos Síntese de proteínas. Presentes. Presentes. Cloroplastos Fotossíntese. Ausentes. Apenas em vegetais e algas. Mitocôndria Respiração celular. Ausentes. Presentes em todas as células. 2. B. 3. A. 4. C. 5. Exemplo de resposta: os cloroplastos realizam a fotossíntese a partir de moléculas de gás carbônico e água, em que são produzidas moléculas de glicose e gás oxigênio, utilizando a energia da luz solar. As mitocôn- drias utilizarão a glicose produzida na fotossíntese como fonte de energia para as células na respiração celular. A glicose reage com o oxigênio (os produtos da fotossíntese), formando gás carbônico e água, que são exatamente os reagentes da fotossíntese. 144 PLANO DE ESTUDOS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM • Reconhecer elementos nucleares relacionando-os com a expressão gênica. • Identificar cada uma das fases do ciclo celular (G0; G1; S; G2 e divisão celular), bem como os eventos que nelas ocorrem. • Reconhecer os principais eventos pelos quais as células passam durante o processo de especialização e diferen- ciação. • Diferenciar e identificar os principais eventos que ocorrem em cada uma das fases da Mitose (prófase, metáfase, anáfase e telófase). • Diferenciar e identificar os principais eventos que ocorrem em cada uma das fases da meiose (meiose i e meiose ii). Núcleo Celular, Material Genético Expressão Gênica Ciclo Celular Divisão Celular I: Mitose Divisão Celular II: Meiose Especialização e Diferenciação Celular Me. Eloiza Muniz Capparros Núcleo, Ciclo Celular e Divisão Celular Núcleo, Ciclo Celular e Divisão Celular Introdução Olá, caro(a) aluno(a)! A partir de agora, o foco será o núcleo celular. Você se lembra da visão da célula “de fora para dentro”? Agora, você conhecerá a estrutura mais “interna” das células eucariontes, que é o núcleo celular. Como você viu nas unidades anteriores, a pre- sença de um núcleo delimitado por membrana é a principal característica que diferencia células eucariontes das células procariontes. Assim, todas as estruturas, os processos e as reações que serão descritas nesta unidade são referentes às células eucariontes. Eventualmente, porém, pode haver comentários específicos traçando paralelos com os procariontes. 147UNIDADE 4 A quarta unidade começa com uma visão estrutural a respeito do núcleo celular, em que você co- nhecerá os principais componentes nucleares. Em seguida, serão retomados os principais conceitos sobre o material genético, relacionando-os com a expressão gênica. Você conhecerá também o ciclo de vida de uma célula, o chamado ciclo celular. Uma célula que passa pelo ciclo celular pode continuar se multiplicando ou se diferenciar, o que a leva para a formação de tecidos. Chamamos este processo de diferenciação ou especialização celular, e você entenderá, em linhas gerais, como ele ocorre e qual é sua importância. Outra etapa do ciclo celular é a divisão, processo que origina duas (ou quatro) novas células. A divisão celular em células eucariontes é chamada de mitose ou, em casos específicos, de meiose. Nesta unidade, você precisará, em alguns momentos, retomar conceitos e ideias vistos em estudos anteriores. Sempre que achar necessário, retome esses conceitos para prosseguir seus estudos com melhor aproveitamento. Núcleo Como você já viu anteriormente, o núcleo celular (Figura 1) está presente apenas em células eucariontes e é a principal estrutura que as diferencia das células procariontes. Figura 1 - Eletromicrografia de transmissão mostrando o núcleo de uma célula sintetizadora de proteínas Figura 2 - Eletromicrografia de transmissão mostrando o núcleo de uma célula sintetizadora de proteínas (sem coloração) 148 Núcleo, Ciclo Celular e Divisão Celular Na Figura 1, o envelope nuclear é representado pela cor vermelha; a cromatina, verde; o nucléolo, azul. No citoplasma, é possível ver grande quanti- dade de retículo endoplasmático rugoso. Por meio da expressão gênica, o material gené- tico nuclear controla o metabolismo da célula, pois o DNA é transcrito em RNA, que (quase todos) são traduzidos em proteínas, o produto final da infor- mação genética. O fluxo direcional da informação genética (DNA → RNA → proteínas) é chamado de dogma central da Biologia Molecular. O núcleo (Figura 3) é separado do citoplasma por uma dupla membrana, chamada de cariote- ca. Na face citoplasmática da membrana externa que forma o envelope nuclear, são encontrados polirribossomos, que se estendem até o início do retículo endoplasmático rugoso (RER). Na su- perfície interna da membrana nuclear existe uma rede de proteínas chamada lâmina nuclear, com função de sustentação. Em cada célula, a posição do núcleo é fixa no citoplasma, pois ele está associado a componentes do citoesqueleto. O componente mais importante do núcleo, entretanto, é o DNA e, associado a ele, o RNA. Juntos, eles formam o material genético celular. Material Genético As moléculas de DNA e RNA constituem o ma- terial genético das células. As estruturas químicas de ambos foram trabalhadas na primeira unidade. Aqui, algumas ideias serão retomadas, então, caso julgue necessário, retorne à Unidade 1 e reveja os ácidos nucleicos. Poro nuclear Lâmina nuclear Nucleoplasma Cromatina NucléoloPoro nuclear Ribossomo Figura 3 - Núcleo celular: a membrana, os poros, a lâmina nuclear e o nucléolo Figura 4 - Núcleo celular: a membrana, os poros, a lâmina nu- clear, o nucléolo, o nucleoplasma, os ribossomos e a cromatina Nucléolo Poro Membrana Lâmina nuclear Em uma célula eucarionte, todo o DNA nu- clear está associado a proteínas chamadas de histonas, formando os cromossomos (Figura 5). O número de cromossomos varia de acordo com cada espécie, porém, em indivíduos de uma mesma espécie, o número de cromossomos é sem- pre o mesmo. Em seres humanos, por exemplo, o número padrão de cromossomos é 46 (23 pares). 149UNIDADE 4 Na Figura 5, observa-se (de cima para baixo) os cromossomos celulares condensados e a estru- tura em dupla-hélice do filamento de DNA, que se associa a proteínas histonas, formando um cromossomo que se condensa e fica visível ao microscópio óptico. Durante a divisão celular, os cromossomosse condensam em seu grau máximo, de modo que é possível visualizá-los em microscópio óptico. Porém quando a célula não está em divisão celular (o que ocorre na maior parte do tempo de vida de uma célula), o DNA associado às histonas assume uma forma menos condensada, a cromatina (Figura 7). É na forma de cromatina que o DNA se expressa nas células, pois apenas assim ele pode ser transcrito nos diferentes tipos de RNA. Figura 5 - Cromossomos celulares condensados Figura 6 - Fotomicrografia óptica de cromossomos condensados 150 Núcleo, Ciclo Celular e Divisão Celular Figura 7 - Filamento de DNA associado às proteínas histonas, formando os nucleossomos Expressão gênica A expressão gênica é o processo pelo qual a informação hereditária que está em um gene (uma sequência específica de DNA) é pro- cessada em um produto genético funcional (ou seja, uma molécula necessária para realizar uma atividade celular), como RNA ou pro- teínas. Para que um gene codifique polipeptídeos, são necessárias duas etapas: transcrição e tradução. Transcrição Na transcrição, um fragmento de DNA dá origem a um RNA pela atividade da enzima RNA-polimerase. Em células eucariontes, a trans- crição ocorre no núcleo. A RNA-polimerase se liga aos nucleotídeos do DNA, usando-os como molde para produzir uma cadeia de RNA complementar. A transcrição ocorre em três etapas: iniciação, alon- gamento e término. 151UNIDADE 4 Iniciação A RNA-polimerase se liga a uma sequência espe- cífica de DNA, chamada de promotor, encontra- da próxima ao início de um gene. Em seguida, a RNA-polimerase se posiciona para iniciar a trans- crição no local e na direção corretos. As duas fitas de DNA são separadas, formando uma forquilha (ou bolha) de transcrição. Este é o local onde a transcrição ocorrerá, pois a fita molde de cadeia simples (filamento único) de DNA fica exposta para a “leitura” pela RNA-polimerase. Alongamento Nesta etapa, a fita molde de DNA é “lida” pela RNA- -polimerase, uma base nitrogenada (A, C, G, T) por vez e, a partir de cada base encontrada no DNA, é adicionada uma base complementar na cadeia de nucleotídeos do RNA. Por exemplo, se no filamento molde (DNA) está uma Guanina (G), será adicio- nada ao RNA uma Citosina (C) (Figura 8). O RNA transcrito carrega a mesma informação que o fila- mento do DNA não usado como molde, mas com a base nitrogenada Uracila (U) no lugar da Timina (T). Figura 8 - Fase de alongamento Fonte: Wikimedia Commons (2009, on-line)¹. Na transcrição, a RNA-polimerase reconhece as bases nitrogenadas na fita molde de DNA e acres- centa nucleotídeos complementares na fita de RNA. Terminação A RNA-polimerase continua a leitura e a produ- ção da fita de RNA até que sequências finaliza- doras (que aparecem no RNA) sinalizam que o RNA está pronto. Uma vez que essas sequências são transcritas, o RNA é liberado do complexo da RNA-polimerase. Em procariotos, o RNA transcrito já pode fun- cionar como um RNA mensageiro (RNAm). Nos eucariotos, porém, o RNA transcrito ainda precisa ser processado para se tornar um RNA maduro (apto para a tradução). 152 Núcleo, Ciclo Celular e Divisão Celular Nas células eucariontes existem muitas regiões não codificadoras de DNA chamadas íntrons. Essas sequências precisam ser removidas para que os éxons (sequências codificadoras) sejam unidos. Este processo é chamado de splicing (Figura 9). Figura 9 - Splicing em eucariotos: remoção de íntrons e união dos éxons depois que o RNA é transcrito Fonte: Wikimedia Commons (2013, on-line)². 153UNIDADE 4 Além do splicing, no processamento do pré-RNAm são adicionados CAP-5’ ao começo do segmento de RNA e uma cauda Poli-A ao final (Figura 10). Ambos protegem o RNA transcrito e o ajudam a ser transportado até os ribossomos. É importante lembrar que, nos eucariotos, a transcrição ocorre no núcleo e a tradução no citoplasma, onde estão os ribossomos. Nos procariotos, porém, não há membrana nuclear separando o material genético dos ribossomos, então tudo acontece no citoplasma. Tradução A tradução consiste no processo de formar um polipeptídeo (proteína) a partir de um RNAm que foi formado no processo de transcrição. Dizemos que o RNA é traduzido na sequência de aminoácidos que formam o polipeptídeo. Você estudou sobre a tradução na Unidade 3 (ribossomos e a síntese de proteínas), então, caso jul- gue necessário, retorne a esta seção para conectar as informações e aprimorar os seus conhecimentos. Figura 10 - CAP-5’ e cauda Poli-A adicionados ao RNA transcrito, no processamento antes do envio para os ribossomos Fonte: Wikimedia Commons (2010, on-line)³. Extremidade 5΄ Extremidade 3΄ Cap 5΄ 5΄UTR Códon de iniciação Códon de terminação Sequência codante Cauda Poli-A3΄UTR 154 Núcleo, Ciclo Celular e Divisão Celular Ciclo Celular De acordo com a Teoria Celular, toda célula se origina da divisão de uma outra preexistente. A origem de uma célula ocorre por divisão celular e, para que ela aconteça, ocorre também uma se- quência de eventos preparatórios, compondo o ciclo celular, isto é, o ciclo de vida de uma célula. Quando um zigoto se forma, ele passa por sucessivas duplicações até formar o organismo. Esta multiplicação celular ocorre tanto na vida embrionária quanto ao longo do desenvolvimento do indivíduo, nas células somáticas. 155UNIDADE 4 Nas células eucariontes, os estágios do ciclo celular são divididos em duas grandes fases: interfase e mitose (Figura 11). • Interfase: período entre duas divisões; a célula cresce e duplica seu DNA. Em seu corpo existem dois tipos de células: somáticas e reprodutivas. Células reprodutivas são ovócitos (mulhe- res) ou espermatozoides (homens); as somáticas são todas as demais células. Fonte: a autora. pensando juntos Figura 11 - Ciclo celular G1: crescimento celular, grande atividade metabólica e primeiro ponto de checagem. S: período em que o DNA é duplicado. G2: crescimento celular e segundo ponto de checagem. M: mitose, que compreende a prófase, metáfase, anáfase e telófase, seguida da citocinese (divisão citoplasmática). Entre a fase M e a G1, a célula pode entrar em G0, um período. Crescimento celular (aproximadamente 4h). Crescimento celular (aproximadamente 10h). • Fase mitótica (M): a célula separa o DNA (previamente duplicado) em dois conjun- tos e depois divide seu citoplasma, forman- do duas novas células (células-filhas). 156 Núcleo, Ciclo Celular e Divisão Celular 157UNIDADE 4 Aqui, neste tópico, o foco será a interfase. A mitose será trabalhada mais adiante, especificamente, em Divisão Celular I: mitose. Interfase A interfase é o período entre duas divisões celu- lares. É uma fase preparatória que inclui eventos fundamentais para que a próxima divisão celular ocorra, como a duplicação do DNA. A fase de duplicação do DNA é chamada de fase S, de du- plicação ou síntese, daí o nome. As fases que ocorrem imediatamente antes e depois da fase S são chamadas de G₁ e G₂. A letra G se refere a gap (intervalo, em inglês). A fase G₁ é o período pós-mitótico ou pré-sintético, pois ocorre a partir do fim de uma mitose até o início da síntese de DNA (fase S). A fase G₂, entretanto, é chamada de período pós-sintético ou pré-mitóti- co, porque se inicia logo que a duplicação do DNA termina e se estende até o início da divisão celular. Apesar de levarem em seus nomes o termo “in- tervalo”, o que fazia referência a um suposto repou- so celular, as fases G₁ e G₂ são os períodos em que a célula está em maior atividade metabólica, inclusiva na síntese de RNA e proteínas. Além disso, ocorre o crescimento contínuo da célula e os mecanismos de controle da divisão celular. Assim, a interfase pode ser dividida em três fases: G₁, S e G₂. Fase G₁ A fase G₁ se inicia logo que uma mitose acaba. A síntese de RNA e proteínas recomeça e, devido à grande atividade metabólica, a célula cresce, re- plica organelas e também produz componentes celulares que serão úteis na faseS, tais como as DNA-polimerases e as proteínas histonas. Duran- te essa fase, ocorre também uma importante de- cisão celular: entrar em um novo ciclo de divisão celular ou retirar-se dele, entrando em um estado quiescente (fase G₀). Essa decisão é chamada de ponto de checagem G₁ e é determinada por fa- tores externos, tais como fatores de crescimento ou nutrientes. Se a célula passar pelo primeiro ponto de che- cagem e entrar na fase S, então ela continuará o processo de divisão celular. Neste ponto, a célula verifica se as condições estão favoráveis à divisão celular avaliando fatores, como: tamanho da célu- la, disponibilidade de nutrientes, sinais molecula- res (como fatores de crescimento) e integridade do DNA. Se, entretanto, a célula não obtém os sinais que precisa para seguir em frente no ciclo celular, ela pode sair do ciclo e entrar em um estado de re- pouso, chamado fase G₀. Essa fase tem duração bastante variada e, em algumas células, a fase G₀ pode acabar quando as condições externas esti- verem favoráveis à divisão. 157UNIDADE 4156 Núcleo, Ciclo Celular e Divisão Celular 157UNIDADE 4 Fase S A fase S é caracterizada pela duplicação (ou síntese) do DNA (Figura 12). Durante toda a fase G₁, a célula possui uma quantidade de DNA que será chamada de “C”. Ao longo da fase S, essa quantidade é duplicada e o núcleo celular, então, passa a ter 2C. Durante toda a fase G₂, a quantidade de DNA continua duplicada e só recai novamente para a C durante a mitose, que separa os núcleos das duas células que estão se formando, chamadas células-filhas. Quantidade de DNA por núcleo 2C C C1 S M SC2 C1 INTÉRFASE MITOSE INTÉRFASE Tempo Figura 12 - Gráfico da quantidade de DNA por núcleo ao longo do ciclo celular Fonte: Biologia e Vida (2017, on-line)4. Observe na figura que, na fase G₁ da interfase, a célula possui uma quantidade C de DNA. Durante a fase S, essa quantidade é duplicada e a célula, então, passa a ter 2C. Essa quantidade duplicada permanece durante toda a fase G₂ e só recai novamente para a C durante a mitose, que separa os núcleos das duas células que estão se formando. Logo que a síntese de DNA começa, inicia-se também a fase S. Ocorre, então, uma série de processos chamados de replicação, duplicação ou síntese de DNA. Além do DNA, também são duplicados os centrossomos, estruturas que organizam os microtúbulos que participam da sepa- ração do DNA na fase M. 158 Núcleo, Ciclo Celular e Divisão Celular Replicação do DNA O processo de replicação do DNA é fundamental para a divisão celular, pois o DNA duplicado na fase S é, posteriormente, separado na mitose. Esse processo de replicação, seguido da mitose, garante que o DNA se propague nas células ao longo das gerações (DE ROBERTS; HIS, 2001). Uma das características mais importantes da Figura 13 - Replicação do DNA semiconservativa A síntese das novas moléculas de DNA é realizada por um conjunto de enzimas associadas à DNA- -polimerase, que é a enzima chave no processo de replicação. A DNA-polimerase adiciona nucleo- tídeos, um a um, na extremidade 3’ da nova fita de DNA de maneira complementar à fita molde. Para que isso aconteça, entretanto, é preciso ter uma sequência de nucleotídeos chamada primer (iniciador), pois a DNA-polimerase não inicia sozinha o trabalho de síntese. Além disso, ao final da síntese da nova fita de DNA, elas revisam seu trabalho, removendo nucleotídeos que são adicio- nados de maneira incorreta à cadeia. replicação do DNA é que ela é semiconservativa (Figura 13). Isto quer dizer que cada fita na dupla hélice, que forma o DNA, serve de modelo para a síntese de uma fita nova, a complementar. Além disso, depois que as novas fitas são sintetizadas, elas se unem cada uma à sua fita molde. Assim, de cada fita nova de DNA sintetizado, uma fita da dupla-hélice é velha, pois uma era o molde e a outra é nova, recém-produzida. Além da DNA-polimerase, outras enzimas participam do processo de replicação (Figura 14): • Helicase: abre a dupla fita na forquilha de replicação. • Topoisomarase: segura o DNA na região anterior à forquilha, evitando que ele se enrole. • Primase: produz primers de RNA com- plementares à fita de RNA. • DNA polimerase I: remove os primers de RNA e os substitui por DNA. • DNA ligase: fecha as lacunas entre os frag- mentos de DNA. 159UNIDADE 4 Figura 14 - Replicação do DNA. A dupla fita é aberta pela helicase A replicação do DNA começa em locais especí- ficos, chamados de origens de replicação. Esses locais possuem diversas ligações A-T (com duas pontes de hidrogênio), que permitem que o DNA se abra mais facilmente. A helicase reconhece a origem e abre o DNA, quebrando as pontes de hidrogênio entre os pares de bases nitrogenadas. Depois, ela prossegue quebrando as pontes de hidrogênio por toda a fita de DNA, até que a re- plicação termine. Assim, a forquilha se abre para que a DNA-po- limerase comece a trabalhar. Essa enzima, porém, não consegue adicionar o primeiro nucleotídeo à nova fita. Este trabalho é feito pela primase, enzima que produz um primer de RNA, ou seja, uma pequena sequência (entre cinco a dez nu- cleotídeos) de RNA complementar ao DNA, que fornece uma extremidade 3’, em que a DNA-po- limerase inicia a síntese. Em cada uma das duas fitas abertas, ocorre a síntese de novas fitas. A DNA-polimerase, entretanto, só pode adicionar nucleotídeos na extremidade 3’, ou seja, no sentido 5’ 3’. De- vido à complementaridade das duas fitas do DNA, a dupla hélice é antiparalela: uma das fitas começa com 5’ e termina com 3’, enquan- to a outra, na mesma direção, começa com 3’ e termina com 5’. Esta propriedade do DNA faz com que a replicação ocorra de maneira diferente nas duas fitas. Na fita em que a DNA polimerase começou a síntese no sentido 5’ 3’, chamada de fita líder ou contínua, a replicação ocorre de uma só vez, pois a DNA-polimerase se desloca no mesmo sentido da forquilha de replicação. A outra fita, que se desloca no sentido inverso, tem a síntese realizada em fragmentos. Por isso, essa fita é chamada de tardia ou descontínua. 160 Núcleo, Ciclo Celular e Divisão Celular Isso significa que, na síntese dessa cadeia, são produzidos vários fragmentos de DNA com pri- mers de RNA 5’ nas extremidades. Esses fragmen- tos são unidos posteriormente. Esses trechos são conhecidos por fragmentos de Okazaki. A fita líder precisa de apenas um primer para sua repli- cação, enquanto a fita tardia precisa de um primer para cada fragmento de Okazaki. Depois que as duas fitas foram duplicadas, a DNA-polimerase revisa o DNA e remove os pri- Figura 15 - Estrutura de um cromossomo ^ Quando o DNA está duplicado, cada uma das duas moléculas de DNA recebe o nome de cromá- tide (juntas, elas são as cromátides-irmãs) e ambas permanecem unidas pelo centrômero. Fase G₂ Depois que a duplicação do DNA termina, a célu- la retoma sua atividade metabólica de síntese de RNA e, na sequência, de proteínas que participam da divisão celular. Na fase G₂, a célula continua crescendo, produz mais organelas e começa a or- ganizar-se para a mitose. Um dos eventos mais importantes do ciclo celular acontece nesta fase, chamado de ponto de checagem G₂. Neste momento, alguns mecanismos moleculares verificam a integridade do DNA (que foi recém-duplicado), verificando se há algum dano que poderia prejudicar a divisão celular. Se algum tipo de dano é detectado, a célula não continua o ciclo, mas pausa no ponto de checagem G₂ para que os reparos adequados sejam realiza- dos. Caso os danos ao DNA sejam grandes demais ou irreversíveis, o ciclo celular é interrompido definitivamente e a célula entra em apoptose. A apoptose (morte celular programada) é um meca- nismo de autodestruição que impede que o DNA danificado seja passado adiante. A fase G₂ acaba, então, quando a mitose se inicia. mers de RNA, substituindo-os por DNA. Então, a DNA-ligase une os fragmentos descontínuos de DNA, formando umafita contínua. Logo que a fase S termina e até que as molécu- las de DNA sejam separadas na mitose, elas per- manecem unidas na altura do centrômero (Figura 15). Enquanto permanecem unidos, cada um dos fragmentos de DNA é chamado de cromátide-ir- mã (DE ROBERTS; HIS, 2001). 161UNIDADE 4 Especialização e Diferenciação Celular Em organismos unicelulares, todas as funções e reações químicas do metabolismo são realizadas pela mesma célula. Nos pluricelulares, as muitas células estão agrupadas em tecidos, que são espe- cializados nas mais diversas funções: contração, secreção, absorção, entre outras. O processo de especialização das células é cha- mado de diferenciação (Figura 16) e é importante para que as células consigam executar tarefas es- pecíficas com grande eficiência. A diferenciação eleva a eficiência das células em conjunto, mas as tornam dependentes umas das outras (JUN- QUEIRA; CARNEIRO, 2015). 162 Núcleo, Ciclo Celular e Divisão Celular As células-tronco embrionárias pluripotentes têm a capacidade de se diferenciar em diversos tecidos do corpo humano: nervoso, muscular, epitelial e glandular. Em seu corpo, e também em todos os outros animais, as células que formam os tecidos dife- renciados derivam de uma célula inicial chamada zigoto. Ele é a célula que se forma, nos animais, a partir do encontro do ovócito com o espermato- zoide (Figura 17). Neste evento, o material genético proveniente de cada um dos gametas se une, forne- cendo ao zigoto toda a informação genética neces- sária para a formação dos diferentes tipos celulares que, posteriormente, comporão o organismo. Figura 16 - Células-tronco embrionárias pluripotentes 163UNIDADE 4 O zigoto é a célula com o potencial máximo para a diferenciação, pois pode formar todas as célu- las do corpo. Assim, dizemos que o zigoto é uma célula totipotente. Todas as células, em relação ao seu desenvolvimento, possuem duas propriedades opostas: a potencialidade e a diferenciação. A potencialidade diz respeito à capacidade que a célula possui de formar outros tipos celulares. Se Figura 17 - O zigoto é a célula que se forma a partir do encontro do ovócito com o espermatozoide uma célula tem alto potencial, então, ela não pode ser especializada em uma função, o que significa que sua diferenciação é baixa ou nula. Por outro lado, a diferenciação significa o quanto uma célula está especializada em uma determinada função e, de maneira oposta à potencialidade, se uma célula tem grande diferenciação, então, ela apresenta baixa potencialidade (JUNQUEIRA; CARNEIRO, 2015). O zigoto é uma célula totipotente (toti: total). Ele tem grau zero de diferenciação e grau máximo de potencialidade. Fonte: a autora. pensando juntos 164 Núcleo, Ciclo Celular e Divisão Celular Se você considerar uma célula qualquer de seu corpo, ela terá um de- terminado grau de potencialidade e de diferenciação. Quanto maior for a potencialidade, menor será a diferenciação e vice-versa. Durante todo o desenvolvimento embrionário e também após o nascimento, a diferenciação continua acontecendo. Durante a em- briogênese, as células do embrião formam três folhetos embrionários (ectoderme, mesoderme e endoderme), que dão origem a todos os tecidos corporais (Figura 18). Figura 18 - Diferenciação celular 165UNIDADE 4 O zigoto, que é a célula inicial totipotente, dá origem à blástula e, depois, à gástrula. Na gástrula, formam- -se três tecidos embrionários diferentes, a ectoderme (que forma células da pele e neurônios, por exem- plo), a mesoderme (forma células musculares, ósseas e sanguíneas) e a endoderme (forma células dos órgãos, como pulmões, estômago e pâncreas). Existe, ainda, uma linhagem especial que forma as células germinativas (espermatozoide e ovócito). A diferenciação celular, então, é um conjunto de processos que transformam uma célula com alta potencialidade em uma célula especializada. Tenha em mente que todas as células de um organismo possuem o mesmo conjunto de genes. As modifi- cações celulares que ocorrem na diferenciação são, então, resultado da inibição da atividade de alguns genes e da ativação de outros. Assim, em cada célula de um organismo adulto, é produzida apenas uma pequena e específica quantidade de proteínas. Outra particularidade da diferenciação celular é que ela pode ser revertida. Durante os processos de clonagem (o qual você verá em detalhes na próxima unidade) e de regeneração, como é o caso das células do fígado, a diferenciação é revertida por meio de uma desprogramação nuclear. Mesmo depois que um organismo chega à vida adulta, algumas de suas células ainda conservam alta potencialidade, ou seja, ainda têm capacidade de formar outros tipos celulares. A diferença é que essas células, diferente das embrionárias, conseguem formar alguns tipos celulares específicos, e não um organismo inteiro. Por isso, são chamadas de pluri- potentes ou multipotentes. Isso é o que ocorre, por exemplo, com as células hematopoiéticas na medula óssea marrom, que ori- ginam todos os tipos celulares que formam o sangue (Figura 19), mas não têm potencial para formar cé- lulas musculares ou epiteliais, por exemplo. hemtopoiéticas Figura 19 - Hematopoiese em células da medula óssea marrom 166 Núcleo, Ciclo Celular e Divisão Celular As células da medula óssea marrom são pluripotentes e têm capaci- dade de originar todos os componentes celulares que formam o sangue. Uma etapa importante do desenvolvimento de um organismo plu- ricelular é a apoptose. Este é o processo de morte celular programada, ou seja, não é acidental ou por dano, como a necrose (Figura 20). Na apoptose, ocorre uma série de eventos no interior da célula, coor- denados pela expressão gênica. Inicialmente, formam-se “bolhas” que empacotam os componentes celulares, os quais são, posteriormente, fagocitados por células do sistema imunológico. A necrose consiste na morte por dano e o conteúdo da célula extravasa, rompendo as mem- branas plasmática e nuclear, o que causa processos inflamatórios. Durante o desenvolvimento é a apoptose que remove as células, dando forma aos tecidos. Células pré-cancerosas também são elimina- das por apoptose, bem como células infectadas por vírus. Figura 20 - Processos de morte celular por apoptose e necrose 167UNIDADE 4 Divisão Celular I: Mitose Você se lembra do ciclo celular, que mostra as etapas da vida de uma célula? Durante o ciclo, a célula precisa optar (por meio de mecanis- mos moleculares) entre se diferenciar e formar um tecido ou continuar se dividindo. Vimos, ainda há pouco, o que ocorre na diferenciação. Agora, iremos ver o que ocorre caso a célula escolha se dividir. Uma vez que a célula passa pelo ponto de checagem na fase G₁, ela “opta” por continuar a se dividir. O primeiro passo para que isso ocorra é a duplicação de seu material genético, como vimos anteriormente. Então, a célula en- tra em G₂, fase que antecede a divisão celular. 168 Núcleo, Ciclo Celular e Divisão Celular O DNA da célula, que é duplicado na fase S do ciclo celular, é dividido na mitose, formando dois núcleos, um para cada nova célula. Fonte: a autora. pensando juntos A mitose é o principal tipo de divisão celular que ocorre nos eucariotos. Com exceção das divisões que ocorrem nos ovários e nos testículos, que formam os gametas, todas as demais células de seu corpo foram formadas por mitose. Além da formação estrutural, a mitose também é importante para o crescimento e a manutenção dos tecidos, substituindo células velhas ou desgastadas. Então, podemos dizer que a mitose ocorre nas células somáticas, todas aquelas que formam o organismo, à exceção dos gametas. Durante a mitose, o DNA (que já foi duplicado) da célula-mãe é dividido em dois conjuntos idênticos que pertencerão, cada um, a uma das duas células-filhas. Devido à manutenção no número de cromossomos nas células-filhas em relação à célula-mãe, dizemos que a mitose é equacional.É possível identificar quatro fases que compõem a mitose: prófase, metáfase, anáfase e te- lófase (Figura 21). Lembre-se que este processo é contínuo, então, em um corte histológico (Figura 22), por exemplo, podemos vi- sualizar células vizinhas em estágios diferentes da mitose, incluindo alguns estágios intermediários entre duas fases. https://apigame.unicesumar.edu.br/getlinkidapp/3/236 169UNIDADE 4 Figura 21 - Interfase (G₂), fases da mitose e prófase: fase inicial em que o núcleo se desfaz, os cromossomos se condensam e as fibras do áster são produzidas Figura 22 - Fases da mitose em tecido epitelial de cebola (Allium cepa) visto ao microscópio óptico 170 Núcleo, Ciclo Celular e Divisão Celular Prófase Esta é a fase inicial da mitose, em que a célula se organiza estruturalmente para separar seu material genético. Alguns eventos caracterizam a prófase: • Os cromossomos se condensam, o que faci- lita a divisão do DNA posteriormente. • Se formam as fibras do áster (ou do fuso mitótico). Essas fibras têm estrutura for- mada por microtúbulos, é responsável por organizar e mover os cromossomos durante a divisão celular. Elas se ligam ao cinetó- coro, no centrômero (Figura 23) de cada cromossomo. • A carioteca se rompe, liberando os cromos- somos para o citoplasma. Metáfase Na metáfase, os cromossomos atingem seu grau máximo de condensação. As fibras do fuso mitótico já estão completamente formadas e ligadas aos cromossomos, que se alinham ao centro da célula. Quando os cromossomos se encontram nesta posição, ao centro, dizemos, então, que eles formam a placa metafásica. Outro evento importante que ocorre na me- táfase é o ponto de checagem do fuso. A célula verifica se todos os cromossomos estão ligados às fibras do fuso, bem como se eles se encon- tram na placa metafásica. Se algo estiver errado, a célula pausa a divisão até que o problema se resolva. Anáfase A principal característica da anáfase é a sepa- ração das cromátides-irmãs. É possível iden- tificar facilmente uma célula neste estado ao microscópio, pois se formam dois grupos de cromossomos em cada polo da célula. Em cada cromossomo (duplicado), as cro- mátides-irmãs se separam pela quebra da pro- teína que as mantêm unidas. As fibras do áster e as proteínas motoras (estudamos sobre elas na Unidade 2, você se lembra?) coordenam essa separação, sendo que cada centrossomo da cé- lula “puxa” os cromossomos para um dos polos opostos. Além disso, alguns microtúbulos não se ligam aos cromossomos, mas atuam alongan- do a célula e separando os polos, o que deixa a separação bastante evidente. Figura 23 - Estrutura de um cromossomo indicando a região do centrômero, em que os microtúbulos que formam as fi- bras do áster se ligam ao cinetócoro (complexo de proteínas) Fonte: Lodish et al. (2005). 171UNIDADE 4 Telófase Depois da separação do DNA, a célula começa a se organizar para dividir seu citoplasma também. Assim, alguns eventos importantes (que, curiosa- mente, são opostos aos que ocorrem na prófase) marcam a telófase: • As fibras do áster se separam em duas par- tes, uma em cada polo. • A carioteca e os nucléolos reaparecem (em cada um dos dois novos núcleos). • Os cromossomos reassumem a forma mais solta, a cromatina. • Ocorre a citocinese (divisão do conteúdo citoplasmático). O último evento da telófase, que marca o final da mitose, é a citocinese. Geralmente, ela se inicia ain- da durante a telófase, mas pode acabar logo depois. Existem diferenças entre a citocinese em células animais e vegetais (Figura 24) que são importantes de ressaltar. Dizemos que, nos animais, a citocinese é centrípeta, pois ela ocorre “de fora para dentro”. Isto significa que ocorre um movimento contrátil de conjunto de filamentos de actina e miosina, que apertam a célula em duas, formando um sulco de clivagem. As células vegetais, entretanto, possuem uma diferença importante: a parede celular. Devido à grande resistência que a parede celular oferece, a citocinese nas células vegetais é centrífuga, ou seja, “de dentro para fora”. Forma-se uma estrutura denominada placa celular ou fragmoplasto, que divide as duas novas células com uma nova parede. A citocinese encerra a divisão celular e, então, são formadas duas novas células, sendo que cada uma delas tem um conjunto completo de cromossomos, iguais entre si e aos da célula-mãe. Cada célula recém-formada inicia um novo ciclo celular, podendo (ou não, caso sejam diferenciadas) passar por uma nova mitose. Figura 24 - Citocinese em célula vegetal (acima) e animal (abaixo) Fonte: Think Bio (2012, on-line)5. 172 Núcleo, Ciclo Celular e Divisão Celular Divisão Celular II: Meiose Como você pode perceber, a mitose é o tipo de divisão celular mais comum nos organismos plu- ricelulares. Vimos que a mitose ocorre na forma- ção de praticamente todas as células, com exceção dos gametas (óvulos e espermatozoides). O que ocorre na formação de gametas é um tipo especial de divisão celular, chamado meiose. Em vários aspectos, a meiose se assemelha à mitose: as etapas são similares, as estruturas e os processos pelos quais as células passam para separar o material genético são bastante pareci- dos. Na meiose, porém, ocorrem duas divisões celulares em sequência, chamadas de Meiose I e Meiose II. Na primeira divisão, os cromos- somos homólogos se separam, na segunda, as cromátides-irmãs de cada cromossomo é que são separadas. Como ocorrem duas divisões em sequência, na meiose são formadas quatro célu- las-filhas, que depois se diferenciam em esperma- tozoides ou óvulos. 173UNIDADE 4 A meiose é uma divisão celular reducional, já que as células-filhas têm a metade do número de cromossomos da célula-mãe. Isto ocorre porque os cromossomos têm seus homólogos (os “pares”) separados. Dizemos que a célula-mãe é diploide (2n), pois é formada por dois conjuntos de cro- mossomos completos. No caso dos humanos, são 23 pares de cro- mossomos (Figura 25). Cada gameta, entretanto, é haploide (n), possui apenas um conjunto de cromossomos, sem seus respectivos homólogos. Isto significa que, durante a meiose, os pares de cromossomos se separam. Assim, óvulos e es- permatozoides têm, cada um, 23 cromossomos. Quando um espermatozoide haploide (n) se en- contra com um óvulo haploide (n), os dois con- juntos de cromossomos se combinam, formando um zigoto diploide (2n). Figura 25 - Cariótipo (conjunto de cromossomos) humano em células somáticas masculinas (à esquerda) e femininas (à direita) Na Figura 25, cada cromossomo tem seu respectivo homólogo, sendo que, nos homens, o par 23 (sexual) é chamado de XY e nas mulheres, de XX. Os cromossomos formam pares em suas células somáticas. Cada cromossomo de um mesmo par é cha- mado de homólogo, e em cada par, um cromossomo é proveniente do espermatozoide (pai) e, o outro, do óvulo (mãe). Fonte: a autora. pensando juntos 174 Núcleo, Ciclo Celular e Divisão Celular Meiose I A Meiose I (Figura 26) é formada por quatro etapas: Prófase I, Metáfase I, Anáfase I e Telófase I. Assim como ocorre na mitose, a célula que passa pela meiose se prepara anteriormente, na interfase, onde o material genético é duplicado, o volume celular aumenta e as organelas se replicam. Na Prófase I, os cromossomos começam a se con- densar e, diferente do que ocorre na mitose, eles se pareiam de modo que cada cromossomo fica alinhado com seu homólogo. Devido à comple- xidade desta fase, ela é dividida em outras cinco pequenas etapas, que são bastante importantes para a formação dos gametas. As etapas da Prófase I são: • Leptóteno: é caracterizada pela conden- sação dos cromossomos. • Zigóteno: os cromossomos homólogos se emparelham na região central da célula. • Paquíteno: os cromossomos emparelha- dos se encostam, formando o quiasma, uma região em que ocorre crossing-over ou permutação. Este fenômeno é carac- terizado pela translocação entre partes de ambos cromossomos (Figura 27), demodo que alguns genes trocam de lugar e é de fundamental importância para a manuten- ção da variabilidade genética dos gametas. • Diplóteno: os cromossomos homólogos se afastam ligeiramente, mas ainda permane- cem unidos pelos quiasmas. Em cada cro- mossomo, as cromátides-irmãs também permanecem unidas. • Diacinese: a carioteca se desfaz e os pares de cromossomos homólogos se espalham pelo citoplasma. Figura 26 - Meiose I; In- terfase; Prófase I (com formação de quiasma e crossing-over); Metáfase I; Anáfase I; Telófase I e Citocinese (separação do citoplasma) 175UNIDADE 4 Ao final da Prófase I, as fibras do áster já estão formadas e se ligam aos cromossomos, moven- do-os para o centro da célula, onde se forma a placa metafásica. Neste ponto, já se iniciou a Metáfase I e os pares de cromossomos se alinham (e não os cromossomos individuais, como na mitose). Cada cromossomo (do par) se liga às fibras de apenas um dos polos, de modo que os cromossomos homólogos se ligam, cada um, a polos opostos. A orientação é ao acaso, o que permite diversas combinações entre os cro- mossomos que migram para cada um dos polos. A Anáfase I é caracterizada pela separação dos cromossomos homólogos para polos opos- tos da célula. Em cada cromossomo, entretanto, as duas cromátides-irmãs permanecem unidas. Quando os cromossomos chegam aos polos, Cromossomos homólogos Cromátides não-irmãs Cromáti- des-irmãs Quiasma Emparelhamento Cromátides recombinantes Figura 27 - Emparelhamento dos cromossomos homólogos (esquerda); formação dos quiasmas (centro) e permutação (direita), em que ocorre troca de material genético entre os dois cromossomos do mesmo par tem início a Telófase I. Em alguns organismos, a carioteca se recompõe e o DNA volta à forma de cromatina, mas, em outros, isso não ocorre, de modo que, logo após a citocinese, a Meiose II já se inicia. Geralmente, a citocinese e a Telófase I ocor- rem simultaneamente, formando duas células-fi- lha haploides (n), mas com seu material genético duplicado (n+n), formando as cromátides-irmãs. Meiose II Logo que a Meiose I acaba, a Meiose II (Figura 28) se inicia, sem que o DNA seja duplicado. As duas células-filhas, que se formaram na Meiose I, passam pela Meiose II, então, todos os eventos aqui descri- tos acontecem em duas células, simultaneamente. 176 Núcleo, Ciclo Celular e Divisão Celular Na Meiose II, ocorre a separação das cromátides-ir- mãs de cada cromossomo, formando quatro células haploides (n) com cromossomos não duplicados. Aqui, a divisão também ocorre em quatro fases: Prófase II, Metáfase II, Anáfase II e Telófase II. Logo que a Prófase II se inicia, os cromossomos se(re)condensam e a carioteca se desfaz. Os cen- trossomos se separam e as fibras do áster começam a se ligar aos cromossomos. Em cada cromossomo, as duas cromátides-irmãs se ligam a fibras de polos opostos do áster. Em seguida, os cromossomos se alinham na região central da célula, formando a placa meta- fásica, o que caracteriza a Metáfase II. Durante a Anáfase II, ocorre a separação das cromátides-ir- mãs de cada cromossomo, que são levadas pelas fibras para polos opostos da célula. Depois que as cromátides foram separadas, inicia-se a Telófase II. Nesta fase, a carioteca se recompõe ao redor dos cromossomos, que voltam à forma de cromatina. A última etapa é a citocinese, em que o citoplasma também é dividido. Assim, ao final da meiose, formam-se quatro células-filhas haploides (n), com cromos- somos que têm apenas uma cromátide. Em seres humanos, essas células se diferenciarão por es- permatogênese (formando espermatozoides) ou por oogênese (formando óvulos). Figura 28 - Meiose II: em cada célula-filha formada, ocorre a Prófase II, a Metáfase II, a Anáfase II e a Telófase II 177UNIDADE 4 Diferenças entre meiose e mitose Existem várias semelhanças entre os processos de divisão celular por mitose e por meiose. Em ambos ocorre a formação das fibras do áster, a carioteca se rompe, os cromossomos se condensam em seu grau máximo e migram para o centro da célula. É importante destacar, porém, as principais diferenças entre os dois processos (Figura 29): • Tipos de célula: mitose ocorre em células somáticas, meiose, em gaméticas. • Número de células-filhas: na mitose, são duas diplóides (2n), na meiose, são quatro haplóides (n). • Prófase: apenas na meiose ocorre a formação do quiasma e o crossing-over ou permutação. • Metáfase: na mitose, cada cromossomo duplicado se liga a fibras de polos opostos, enquanto que, na Metáfase I, cada cromossomo se liga a apenas um dos polos. • Anáfase: na mitose, as cromátides-irmãs se separam, na meiose, primeiro, os cromossomos homólogos se separam (Anáfase I) e, depois as, cromátides-irmãs (Anáfase II). • Telófase: na Telófase I, os cromossomos estão duplicados, mas não formam pares, como na mitose. Na Telófase II, a quantidade de material genético de cada célula é reduzida à metade. Óvulos e espermatozoides A diferenciação das células formadas a partir da meiose ocorre de maneira distinta em homens e mulheres, inclusive no número de gametas formados. Em homens, as quatro células são gametas funcionais, ou seja, tornam-se espermatozoides. Nas mulheres, durante a oogênese, é desenvolvido apenas um óvulo funcional. Das quatro células-filhas forma- das a partir da meiose, uma se desenvolve em óvulo, enquanto as outras três formam os corpúsculos polares. Os corpúsculos não são fertilizados e sofrem apoptose logo que são produzidos. Fonte: Garcia e Fernandéz (2012). explorando Ideias 178 Núcleo, Ciclo Celular e Divisão Celular Caro(a) aluno(a), chegamos ao fim da Unidade 4, em que o estudo da célula “de fora para dentro” também é finalizado. Relembre os momen- tos em que cada processo celular ocorre, bem como quais partes da célula estão envolvidas nele. A visão panorâmica a respeito da célula é fundamental para que você construa e consolide seus conhecimentos. Figura 29 - Semelhanças e diferenças entre o processo de divisão celular por mitose (esquerda) e por meiose (direita) 179UNIDADE 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS Estamos finalizando a Unidade 4. Ao longo dessa unidade, concen- tramo-nos no núcleo celular: as estruturas, o material genético e o metabolismo nuclear. Estudamos também os processos que ocorrem com uma célula ao longo de sua vida: o ciclo celular, diferenciação e divisão (mitose ou meiose). Ao longo de sua vida, uma célula pode se multiplicar ou optar por se especializar, formando tecidos. Os tecidos são conjuntos de células semelhantes que desempenham funções específicas de maneira eficien- te. A diferenciação e a formação de tecidos são fundamentais para o desenvolvimento do organismo, assim como a apoptose (morte celular programada). Caso a célula opte por continuar se dividindo, um novo ciclo se inicia, em que seu material genético é duplicado e ela entra em divisão celular. Existem dois tipos de divisão celular: a mitose e a meiose. Vimos que a mitose ocorre na maioria das células dos organismos pluricelula- res, enquanto a meiose ocorre somente na formação de gametas. Agora, é importante que você note os pontos em que os processos celulares se conectam, pois você tem uma ampla gama de informações a respeito das células. Busque “costurar” todas estas informações como alguém que costura uma colcha de retalhos. Todos os processos celulares estão relacionados e o equilíbrio dinâmico entre eles é o que garante que o organismo sobreviva. Na próxima unidade, concentrar-nos-emos nas principais técnicas de estudo utilizadas na biologia celular e molecular. Assim, conhe- cerermos os “bastidores” de como todas estas descobertas e avanços científicos ocorrem. 180 Você pode utilizar seu diário de bordo para a resolução. 1. Analise as afirmações a seguir: I) É um evento que ocorre no interior do núcleo das células eucariontes, durante a fase S do ciclo celular. II) Ocorre no citoplasma, depende da atividade de um ribossomoe resulta na produção de proteínas. III) Em procariontes, ocorre no citoplasma, mas, em eucariotos, ocorre no interior do núcleo. Resulta na formação de um RNA. Na ordem I, II e III, os eventos descritos são: a) Duplicação; transcrição; tradução. b) Duplicação; tradução; transcrição. c) Transcrição; duplicação; tradução. d) Tradução; transcrição; duplicação. e) Transcrição; tradução; duplicação. 2. Sobre a duplicação do DNA, julgue as alternativas como verdadeiras (V) ou falsas (F). ) ( Em eucariotos, a duplicação ocorre no núcleo celular, enquanto que, nos pro- cariotos, ela ocorre no citoplasma. ) ( A RNA-polimerase é a principal enzima envolvida no processo de duplicação do DNA. ) ( A enzima topoisomerase atua prendendo a molécula de DNA e mantendo-a aberta para formar a forquilha de replicação. ) ( A duplicação do DNA é semiconservativa, ou seja, cada nova fita é formada por uma fita velha (molde) e uma nova, recém-sintetizada. 181 A sequência correta é: a) V, F, V e V. b) F, F, V e V. c) V, F, F e V. d) F, V, F e F. e) V, V, F e F. 3. A respeito do ciclo celular, assinale a alternativa correta: a) O ciclo celular é o período em que a célula está se dividindo e que resulta na formação de duas células-filhas. b) As fases do ciclo celular são G1, G2, S e divisão celular, nesta ordem. c) Durante a fase S, o DNA é duplicado. d) Na fase G2, os cromossomos estão em seu grau máximo de condensação. e) A fase G0 ocorre em algumas células logo antes de a divisão celular ter início. 4. Em organismos pluricelulares, a especialização ou a diferenciação é fundamental para que os tecidos se formem. Sobre este assunto, assinale o que for correto: a) A potencialidade diz respeito ao quanto uma célula se diferenciou. b) Neurônios são células especializadas, com alta potencialidade. c) O zigoto é uma célula pluripotente. d) Células musculares têm elevado grau de diferenciação. e) Todas as células adultas de um organismo pluricelular perdem a capacidade de se diferenciarem. 5. Para que um organismo pluricelular se desenvolva, dois processos são funda- mentais: a diferenciação e a apoptose. Explique como cada um desses processos atua no desenvolvimento do organismo e também como eles interagem entre si. 182 6. Analise as afirmativas a seguir: I) A mitose é uma divisão celular equacional, pois as células-filhas têm o mesmo número de cromossomos da célula-mãe. II) O zigoto se desenvolve em um organismo por mitose. III) O crossing-over ocorre na Prófase da mitose. Assinale a alternativa correta: a) Somente as afirmativas I e II. b) Somente as afirmativas II e III. c) Somente a afirmativa I. d) Somente as afirmativas I e III. e) Nenhuma das alternativas está correta. 7. Analise a imagem a seguir e assinale o que for correto. a) A divisão celular representada é a mitose. b) Em 2, está ocorrendo a formação de quiasmas e crossing-over entre os cro- mossomos, por isto, essa fase é a Prófase I. c) A fase 3 é a Metáfase II, em que os cromossomos homólogos se separam. d) A Telófase está representada na fase 4, em que as cromátides-irmãs separadas voltam à forma de cromatina. e) As quatro células-filhas formadas têm a mesma quantidade de material genético da célula-mãe. 183 CÂNCER E O CICLO CELULAR O câncer é uma doença genética no sentido de que o fenótipo maligno resulta de uma alteração que é transmitida da célula alte- rada para suas células filhas. Todos os dias, milhões de células se dividem no organismo adulto normal. A cada divisão celular, esta- mos expostos a sofrer o efeito dos inúmeros carcinógenos ambientais. No entanto, o apa- recimento e desenvolvimento de um clone de células tumorais é um evento relativamente raro. Isto ocorre porque a célula necessita romper uma série de barreiras fisiológicas para se tornar cancerígena. As barreiras mais primárias são os próprios pontos de controle do próprio ciclo celular. Esta sequência de fases, com seus respectivos pontos de controle, permite que a célula com- plete seu ciclo normal, replicando-se sem dar origem a células anormais. A divisão celular normal é positivamente regulada ou estimu- lada através de vias sinalizadoras. Estas vias respondem a fatores extracelulares, os quais agem através de uma seqüência de proteínas. (...) Anormalidades tanto nos genes estimu- ladores de divisão celular (chamados de oncogenes), como nos protetores ou bloque- adores do ciclo celular (chamados de genes supressores tumorais), podem conferir a uma célula vantagens de crescimento e desen- volvimento sobre as células normais. Cada uma das proteínas envolvidas no ciclo celular é codificada por um gene. Mutações nestes genes podem levar à desregulação do ciclo celular. Os genes que atuam de forma positiva, induzindo ou estimulando a progressão do ciclo, são chamados proto-oncogenes pois, ao sofrerem mutações, se tornarão oncogenes, cuja ação permitirá ganho de função à célula mutante. Ao contrário, as proteínas envol- vidas no controle negativo do ciclo celular são codificadas pelos assim chamados genes supressores tumorais. Mutações neste grupo de genes se manifestam pela sua falta de ação mas o efeito final será similar: perda dos meca- nismos controladores do ciclo celular normal. Já se sabe há muito tempo que expressão imprópria de fatores de crescimento ou de seus receptores contribui para o desenvolvi- mento de neoplasias. Fonte: Ward (2002). 184 O imperador de todos os males: uma biografia do câncer Autor: Siddahartha Mukherjee Editora: Companhia das Letras Sinopse: com a precisão de um biólogo, a visão de um historiador e a paixão de um biógrafo, o oncologista Siddhartha Mukherjee traça uma biografia detalhada do câncer, do primeiro registro às mais avançadas pesquisas, últimas descober- tas e expectativas para o futuro, abrindo caminho para a desmitificação dessa doença tão temida. LIVRO Unidas pela vida Ano: 2013 Sinopse: desde criança Annie Parker (Samantha Morton) é assombrada por um mal: o câncer. Quando descobre ser também vítima da doença que provocou a morte de sua mãe e irmã, ela perde completamente o controle e sua vida torna-se um caos, mas Annie decide não deixar de lutar pela cura em nenhum instante e encontra na pesquisadora Mary-Claire King (Helen Hunt) uma grande aliada. Comentário: baseado em fatos reais, o filme retrata as descobertas da equipe de geneticistas liderada por Mary-Claire King, responsáveis pela descrição do gene BRCA1, que tem atividade que impede o aparecimento de tumores. FILME O artigo relaciona alguns agentes químicos que atuam no DNA contra o câncer, tanto específicos quanto não-específicos do ciclo celular. Para acessar, use seu leitor de QR Code. WEB http://www.scielo.br/pdf/qn/v28n1/23048.pdf 185 ALBERTS, B.; JOHNSON, A.; LEWIS, J.; RAFF, M.; ROBERTS, K.; WALTER, P. Biologia molecular da célula. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017. DE ROBERTS, E. M. F.; HIB, J. Bases da biologia celular e molecular. 3. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2001. GARCIA, S. M. L.; FERNANDÉZ, C. G. Embriologia. Embriologia. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2012. GRIFFITHS, A. J. F.; WESSLER, S. R.; CAROLL, S. B.; DOEBLEY, J. Introdução à Genética. 11. ed. Rio de Janeiro: Gua- nabara Koogan, 2016. JUNQUEIRA, L.C.; CARNEIRO, J. Biologia Celular e Molecular. 9. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2012. LODISH, H. Biologia Celular e Molecular. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2005. WARD, L. S. Entendendo o processo molecular da tumorigênese. Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia, v. 46, n. 4, 2002. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/abem/v46n4/12790.pdf>. Referências On-Line ¹ Em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:DNA_transcription.svg>. Acesso em: 17 jan. 2019. ² Em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Estrutura_mRNA.svg>. Acesso em: 17 jan. 2019. ³ Em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Estrutura_mRNA.svg>. Acesso em: 17 jan. 2019. 4 Em: <http://biologiaevida3.blogspot.com/2017/03/exercicios-sobre-interfase-e-um-periodo.html>.Acesso em: 17 jan. 2019. 5 Em: <https://thinkbio.wordpress.com/2012/01/04/ciclo-celular/>. Acesso em: 17 jan. 2019. 186 1. b. 2. a. 3. c. 4. d. 5. Exemplo de resposta: a diferenciação consiste no processo de elevar a eficiência de um grupo de células ao realizar uma determinada função. Quando as células se diferenciam, elas formam tecidos especializados nas mais diversas funções. Por outro lado, a apoptose, que é a morte celular programa- da, coordena quais células devem ser eliminadas durante o desenvolvimento (especialmente na vida embrionária), bem como é responsável pela remoção de células “velhas”, para que novas células ocupem seu lugar. 6. a 7. b PLANO DE ESTUDOS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM • Identificar, passo a passo, as principais técnicas que en- volvem a Tecnologia do DNA recombinante e a clonagem molecular. • Adquirir noções básicas de manipulação do DNA, incluin- do noções de eletroforese, extração do DNA, técnica de amplificação por PCR e sequenciamento do DNA. • Identificar as principais etapas da hibridização molecular e da impressão genética no DNA. • Conhecer as principais bibliotecas genômicas online e os organismos de interesse nessas bibliotecas. • Identificar os processos que envolvem as células-tronco, a transgênese e a terapia gênica. Fundamentos e Passos da Tecnologia do DNA Recombinante e Clonagem Molecular Manipulando o DNA: Princípios de Eletroforese, Extração do DNA, Noções de PCR e Sequenciamento do DNA Construção de Bibliotecas Genômicas Introdução ao Estudo de Células Tronco, Transgênese e Terapia Gênica Hibridização Molecular e Impressão Genética do DNA Me. Eloiza Muniz Capparros Técnicas de Estudo em Biologia Celular e Molecular Fundamentos e Passos da Tecnologia do DNA Recombinante e Clonagem Molecular Introdução Olá, caro(a) aluno(a), estamos iniciando a quinta unidade, em que a abordagem será mais técnica do que nas unidades anteriores. O foco agora será a manipulação do DNA e as técnicas utilizadas na clonagem, no melhoramento e também no estudo das células-tronco. Até agora, você conheceu a célula de maneira aprofundada, tanto no que diz respeito às estru- turas quanto ao funcionamento. A partir de ago- ra, todos esses conhecimentos serão necessários para que você compreenda como são realizadas as principais técnicas de manipulação do DNA e como elas contribuíram para os principais avan- ços científicos das últimas décadas. 189UNIDADE 5 Iniciaremos esta unidade com os fundamentos e passos da tecnologia do DNA recombinante, uma técnica de clonagem molecular que é responsável por muitos avanços científicos, inclusive na área da medicina. Depois, você compreenderá como é possível extrair o DNA de uma amostra, como ele é amplificado pela PCR, como o seu produto é visualizado por eletroforese e também como ocorre o sequenciamento do DNA. Você conhecerá também os principais mecanismos de hibridização molecular, que são responsá- veis pela obtenção de moléculas hoje fundamentais para a fabricação de remédios e alimentos, por exemplo. Cada indivíduo é único e isto pode ser detectado pela impressão genética de seu DNA. Você verá como isso é possível e também como é útil, principalmente em estudos forenses. A unidade se encerra com o estudo das células-tronco, bem como da utilização dessas células para a transgênese e para a terapia gênica. A partir de agora, seu olhar precisa ser mais técnico e voltado para o futuro. Bons estudos! A descoberta da estrutura da molécula de DNA, em 1953, por Watson e Crick, com o auxílio de Rosa- lind Franklin, foi o pontapé inicial para o desenvolvimento de uma série de técnicas de manipulação do DNA. A clonagem molecular é uma técnica muito comum, usada com as mais diversas finalidades: • Biofarmacêutica: produção de proteínas de interesse humano (a insulina, por exemplo) com aplicações biomédicas. • Terapia gênica: tratamento de doenças que são resultantes da mutação de um (ou mais) genes. Neste caso, a clonagem molecular fornece uma cópia normal para as células do indivíduo afetado. • Análise genética: com a técnica de clonagem molecular são feitas várias cópias de um gene a fim de estudá-lo para descobrir sua função. 190 Técnicas de Estudo em Biologia Celular e Molecular Clonagem gênica A tecnologia do DNA recombinante, que também pode ser chama- da de clonagem gênica ou clonagem molecular, consiste em uma série de processos que visam a transferência de um trecho de DNA de um organismo para outro, ou seja, a transferência de informações genéticas (Figura 1). Fragmentos de DNA a serem inseridos. Plasmídeo (vetor) Plasmídeo (vetor)EcoRI Digestão e ligaçãopela EcoRI. Amp Amp Transformação de E.coli com plasmídeos recombinantes. Meio de culturas de bactérias e antibiótico em Placa de Petri. Meio de cultura com antibiótico. Ori DNA inserido Ori Colônias de bactérias resistentes ao antibiótico. DNA de E. coli Bactéria com plasmídeo de DNA recombinante. Colônia isolada Figura 1 - Tecnologia do DNA recombinante, por meio de clonagem plasmidial Fonte: Cooper e Hausman (2003, on-line)¹. 191UNIDADE 5 Na clonagem gênica, várias cópias idênticas de um trecho espe- cífico do DNA (de interesse) são produzidas para, então, serem in- seridas em um trecho de DNA plasmidial. Isto ocorre, por exemplo, na produção de insulina (hormônio que regula as taxas de açúcar na corrente sanguínea), muito importante para pessoas com diabetes. Plasmídeos são moléculas circulares de DNA encontradas em bactérias que são capazes de se reproduzir de maneira independente do DNA cromossômico. Fonte: a autora. pensando juntos A inserção do trecho de DNA de interesse no plasmídeo é feita por enzimas de restrição (que cortam o DNA em locais específicos; a EcoRI, por exemplo, é um trecho bastante utilizado em plasmídeos de Escherichia coli) e também pela DNA ligase (que une/cola o DNA). Desse modo, é produzida uma molécula de DNA re- combinante (montado a partir de fragmentos de origens diferentes). O plasmídeo, que atua como portador dos fragmentos de DNA, é chamado de vetor de clonagem. O vetor é, então, introduzido em bactérias por um processo chamado de transformação. Nesse processo, as células bacterianas passam por um choque (como uma exposição a altas temperaturas), que faz com que elas incorpo- rem o DNA externo. A maioria dos plasmídeos possui, naturalmente, um gene de resistência aos antibióticos e esta é utilizada para selecio- nar bactérias transformadas. Utiliza-se, então, antibióticos para que apenas as bactérias que incorporaram plasmídeos sobrevivam. Logo, as bactérias selecionadas são colocadas em uma placa de Petri, em que se reproduzem e rapidamente formam colônias. As colônias são formadas por bactérias idênticas que carregam o plasmídeo com o gene de interesse (de outro orga- nismo). Essas bactérias são utilizadas na produção de maiores quantidades de DNA plasmidial, ou ainda, podem ser induzidas a expressar o gene e a produzir proteína. Depois que a proteína de interesse é produzida, ela deve ser purificada, ou seja, separada de outras moléculas celulares que não são de interesse. Esse processo acontece por técnicas bioquímicas. A proteína purificada pode ser utilizada em expe- rimentos ou mesmo ser administrada a pacientes, como ocorre com a insulina. Clonagem Animal O clone animal mais famoso do mundo é a ovelha Dolly, realizado, em 1996, por cientistas do Ins- tituto Rosalind, na Escócia. A fama da ovelha se deve ao fato de que ela foi o primeiro mamífero clonado a partir de uma célula somática adulta. Isto significa que ela é um clone (geneticamente idêntico) de outra ovelha. A clonagem que deu origem à ovelha Dolly é chamada de transferência nuclear de célula somá- tica (TNCS). Esse processo consiste, basicamente, na introdução de um núcleo doador (proveniente de uma célula somática) a um óvulo (Figura 2). 192 Técnicas de Estudo em Biologia Celular e MolecularNesse tipo de clonagem, o núcleo de uma célu- la somática doadora é removido (e os demais componentes celulares são descartados). O núcleo do óvulo receptor também é removido, abrindo espaço para a introdução do núcleo da célula doadora. O padrão de expressão nuclear é reprogramado pela célula hospedeira, de modo que o óvulo começa a se dividir, dando início ao desenvolvimento de um clone (da célula que doou o núcleo). No caso da ovelha Dolly, três ovelhas participa- ram do processo. A primeira forneceu o ovócito, a segunda forneceu o material genético que foi in- serido no ovócito. A terceira foi a responsável pela gestação. No ano de 1999, estudos indicaram que a Dolly estaria apresentando formas de envelhe- cimento precoce, pois apresenta telômeros mais curtos que ovelhas não clonadas de mesma idade. Este fato deu origem a uma discussão científica e ética sobre o efeito da clonagem no envelhecimen- to precoce, que, inclusive, ainda está em aberto. Atualmente, a clonagem animal por TNCS tem aplicações científicas e comerciais, tais como: produção de animais transgênicos, preservação de animais com genética desejável, rara ou em extinção, aplicação para o estudo de aspectos bá- sicos em biologia molecular, celular e do desen- volvimento. Figura 2 - Clonagem animal por transferência nuclear de célula somática 193UNIDADE 5 Manipulando o DNA: Princípios de Eletroforese, Extração do DNA, Noções de PCR e Sequenciamento do DNA Para que a molécula de DNA seja uma ferramenta útil para a medicina, na resolução de crimes ou até mesmo em testes de paternidade, são necessárias algumas técnicas de manipulação que tornarão o DNA “legível”. Desde o momento da coleta da amostra genética até a obtenção dos resultados, existem, basicamente, quatro etapas: extração do DNA, PCR, eletroforese em gel e o sequenciamento. Extração do DNA Quando uma amostra biológica é coletada para ser analisada (uma amostra de sangue, saliva ou pele, por exemplo), ela contém muitas outras substâncias além do DNA, que é a molécula de interesse. Para que possa ser analisado, é preciso remover essas impurezas, num processo que é chamado de extração do DNA. Existem diferentes modos de extração, mas o protocolo padrão tem três passos: 194 Técnicas de Estudo em Biologia Celular e Molecular • Lise celular: consiste em romper as células para liberar o DNA do núcleo. Geralmente, é feita em banho-maria com uma solução tampão que contém enzimas que provo- cam a lise celular. • Remoção de proteínas: as quais com- põem a maior parte da amostra biológica. As proteínas são digeridas com fenol ou clorofórmio, agentes desnaturantes de pro- teínas contidas nas amostras. • Purificação do DNA: com álcool (etanol). A precipitação com etanol absoluto con- centra o DNA na superfície da amostra, além de ajudar na remoção de resíduos de fenol e de clorofórmio presentes nela. Para cada tipo de amostra analisada existe um protocolo mais adequado. O DNA de células vegetais, por exemplo, demanda mais passos na extração devido à presença da parede celular. Depois que o DNA da amostra é isolado, ele passa por um processo chamado PCR (reação em cadeia da polimerase, ou, em inglês, Poly- merase Chain Reaction). PCR (Polymerase Chain Reaction) A PCR é uma técnica aplicada ao DNA extraí- do, que amplifica uma determinada região de interesse. Isto significa, que durante os ciclos da PCR, são realizadas muitas cópias de uma região específica do DNA, in vitro (em laboratório). O DNA amplificado por PCR tem várias aplica- ções: pode ser enviado para sequenciamento, visualizado por eletroforese em gel ou clonado em plasmídeo para futuros experimentos. PCR (Polymerase Chain Reaction) conecte-se Para compreender como uma PCR ocorre, você precisará relembrar alguns passos da duplicação do DNA. Diferente do que ocorre nos organis- mos, em laboratório, é necessária uma enzima que duplique o fragmento de DNA, a Taq-poli- merase, um tipo específico de DNA-polimerase que trabalha em altas temperaturas (70 ºC), des- coberta e isolada em bactérias termorresistentes (Thermus aquaticus). A alta temperatura é usada repetidamente na PCR para desnaturar o DNA molde, isto é, promover a separação de suas fitas. Além disso, para que a Taq-polimerase inicie a duplicação do DNA, é necessário fornecer um primer, uma sequência curta de nucleotídeos que indica um ponto de partida para a síntese de DNA. Os primers são determinantes para o reconheci- mento das regiões de interesse na amplificação. Quando os primers são ligados à fita molde de DNA, eles são estendidos pela Taq-polimerase, e a região que está entre eles será copiada. https://apigame.unicesumar.edu.br/getlinkidapp/3/237 195UNIDADE 5 Os reagentes fundamentais para que a PCR ocorra são a Taq-polime- rase, os primers, o DNA molde e os nucleotídeos (que serão utilizados na construção dos novos fragmentos de DNA). Todos eles são reunidos em um tubo e colocados em um aparelho chamado termociclador (Figura 3), que é basicamente um banho-maria de laboratório, onde é possível controlar a temperatura em que as amostras ficam a cada etapa do ciclo, assim como a quantidade de ciclos necessários. Figura 3 - Termociclador, o equipamento utilizado para amplificar o DNA por PCR No termociclador são colocados os tubos com as amostras de DNA e os reagentes necessários para que a PCR ocorra. Essas amostras ficam em um tipo de banho-maria e o termocicla- dor, pré-programado, controla a temperatura de cada etapa do ciclo e também a quantidade de ciclos que ocorrerão. • No termociclador, a PCR ocorre, basica- mente em três etapas (Figura 4): • Desnaturação (96 °C): a amostra é aqueci- da para desnaturar e separar as duas fitas que compõem a molécula de DNA. Assim, um dos lados da fita fica disponível para atuar como molde para a replicação. • Anelamento (55 ºC - 65 °C): depois que o DNA está aberto, a amostra é resfriada para que os primers se liguem às respecti- vas sequências complementares no DNA molde de fita simples. • Extensão (72 °C): a amostra é novamen- te aquecida à temperatura ótima para a atividade da Taq-polimerase. Assim, os primers são estendidos, sintetizando no- vas fitas de DNA. 196 Técnicas de Estudo em Biologia Celular e Molecular Figura 4 - Etapas da PCR 197UNIDADE 5 Em uma reação típica de PCR, esse ciclo se repete de 25 a 35 vezes e demora entre duas a quatro horas, conforme o comprimento da região a ser amplificada. A cada ciclo, a quantidade de DNA é do- brada, pois além do DNA original, os novos fragmentos de DNA também são utilizados como molde, então a amplificação ocorre exponencialmente (Figura 5). Eletroforese em gel Depois que um fragmento de DNA foi amplificado pela PCR, ele não pode ser visto a olho nu ou mes- mo ao microscópio, então a eletroforese em gel per- mite a conferência se, por exemplo, a amplificação deu certo. Esta é uma técnica utilizada para separar fragmentos de DNA com tamanhos distintos. Na eletroforese ocorre a passagem de uma cor- rente elétrica por meio de um gel que contém o Figura 5 - Ciclos da PCR e a quantidade de DNA produzida a cada ciclo DNA (ou outras moléculas, como RNA e proteí- nas) de interesse (Figura 6). As moléculas de DNA apresentam carga elétrica negativa, portanto, ao serem colocadas em um campo elétrico, elas mi- gram (ou “correm”) em direção ao polo positivo (ZAHA et al., 2014). Como todos os fragmentos de DNA possuem carga elétrica negativa, então eles são separados por seu tamanho, de modo que fragmentos menores atravessam o gel mais rapidamente que os maiores. No primeiro ciclo, as duas fitas de DNA originam quatro fitas. No segundo ciclo, cada fita é duplicada, formando oito fitas e assim sucessivamente. No final de 35 ciclos, a quantidade de fragmentos ultrapassa os milhões. 198 Técnicas de Estudo em Biologia Celular e Molecular Eletroforese significa: forese, migração ou movimento e eletro refere-se ao uso da eletricidadepara as moléculas migrarem. Fonte: a autora. pensando juntos Figura 6 - Eletroforese em gel 199UNIDADE 5 Conforme ilustra a figura, as amostras são colo- cadas nos poços, na parte superior do gel. Este é colocado na caixa em que há a solução buffer e que está conectada a uma fonte de energia, que determina o ânodo (carga positiva) e o cátodo (carga negativa). O DNA “corre” no gel, sendo que os fragmentos mais leves se deslocam mais rapidamente. Após este processo, é possível vi- sualizar os resultados colocando o gel sob luz UV. O gel utilizado na eletroforese geralmente é feito de agarose, um polissacarídeo que, quan- do aquecido e colocado em solução (água e sais minerais) para depois ser resfriado, forma um gel transparente com textura muito semelhante a uma gelatina. O gel de agarose funciona com uma matriz com poros, por onde os fragmen- tos de DNA passam. Em uma extremidade são feitos poços, isto é, pequenas cavidades onde as amostras são colocadas. Para que a separação aconteça, o gel deve ser colocado em uma caixa (específica), por onde passa uma corrente elétrica. Essa caixa tem uma extremidade conectada a um eletrodo positivo e outra, a um negativo, indicando o sentido da corrente. No interior da caixa, onde o gel é adiciona- do, é também adicionada uma solução tampão contendo sal que preenche a caixa, e inclusive, cobre o gel, possibilitando a condução da corren- te elétrica. Devido à carga elétrica negativa das moléculas de DNA, os poços devem ser voltados para o eletrodo negativo, para que o DNA “corra” para o lado positivo. Em cada poço é adicionada uma amostra e, em um deles, é adicionada um DNA padrão como referência, que contém frag- mentos de tamanhos conhecidos. Em seguida, a caixa é ligada à fonte de energia e a corrente elétrica começa a atravessar o gel. O sistema deve permanecer assim entre uma a duas horas. Após este período, os fragmentos menores de DNA chegarão mais próximos do polo positivo do que os fragmentos mais longos, que estarão mais próximos dos poços. Para a visualização dos fragmentos de DNA, o gel é pigmentado com um corante que se liga ao DNA. Em seguida, ele deve ser colocado sob a luz UV, o que faz com que os fragmentos de DNA fiquem bastante visíveis, formando bandas. Cada banda representa um grande número de fragmentos de DNA (que foi amplificado) com o mesmo tamanho e que percorreram o gel jun- tos, ocupando a mesma posição. Comparando as bandas com o DNA padrão, é possível identificar os tamanhos dos fragmentos. 200 Técnicas de Estudo em Biologia Celular e Molecular Figura 7 - Sequenciamento de DNA por método de Sanger (terminação de cadeia) Fonte: Wikimedia Commons (2016, on-line)². Sequenciamento de DNA O sequenciamento consiste em determinar a sequência das ba- ses nitrogenadas (A, T, C, G) dos nucleotídeos em um trecho de DNA. O método de Sanger ou método da terminação de cadeia é o mais tradicional e é bastante utilizado em fragmentos de DNA com até 900 pares de bases. O método de Sanger (Figura 7) se assemelha bastante a uma PCR, de modo que são produzidas muitas cópias de uma região-alvo do DNA, mas com tamanhos diferentes. Este efeito é obtido pela adição de dideoxinucleotídeos (ddNTP), que são terminadores de cadeia. Existem versões dideoxi para cada um dos quatro nucleotídeos (ddATP, ddTTP, ddCTP e ddGTP) e cada uma delas é marcada com uma cor de corante diferente. Os ddNTP são adicionados às amostras e atuam de maneira similar aos nucleotídeos, porém impedem que a polimerização da cadeia continue. 201UNIDADE 5 A reação ocorre de maneira semelhante à PCR, em ciclos. Quando todos os ciclos se completam, o tubo conterá fragmentos de diferentes tamanhos, terminando em cada uma das posições de nucleotídeos no DNA original. Os fragmentos são, então, “lidos” por eletroforese capilar em gel, realizada em um pequeno tubo conectado a um leitor a laser. Os fragmentos menores se movem mais rapidamente por meio dos poros e chegam primeiro ao laser. Por ordem de tamanho, os fragmentos vão chegando ao detector e, a partir das cores fluorescentes (atribuídas aos nucleotídeos pelo equipamento) são detectados um nucleotídeo por vez. O detector está conectado a um computador que fornece um gráfico com uma série de picos com intensidades de luz diferentes, fornecendo um cromatograma. A sequência é lida a partir dos picos do cromatograma. O método de Sanger é bastante utilizado para sequências curtas (até 900 pares de bases) e específicas, mas é caro e ineficiente para grandes projetos, como sequenciar o genoma de uma espécie. Atualmente, es- ses projetos são realizados com técnicas de sequenciamento de última geração, que consistem, basicamente, em várias reações de Sanger de sequenciamento paralelo. Isto reduz os custos e o tempo de sequencia- mento, otimizando o processo. Figura 8 - Leitura do cronograma 202 Técnicas de Estudo em Biologia Celular e Molecular Hibridização Molecular e Impressão Genética do DNA Hibridização molecular Ao analisar um genoma de interesse, é possível que o pesquisador deseje encontrar uma sequên- cia específica (que determina uma anomalia ge- nética, por exemplo). É possível também que esse pesquisador busque as sequências de DNA expressas em RNA e proteínas. Para essa investi- gação, foram desenvolvidos métodos de hibridi- zação molecular, que se baseiam na capacidade de pareamento das moléculas de DNA (e também de RNA). Dentre as técnicas de hibridização, des- tacam-se: Southern blotting, Northern blotting, Western blotting, Microarray e RFLP. Southern blotting Essa técnica foi desenvolvida pelo biólogo britâni- co Edwin Southern (daí o nome) e é utilizada para pesquisar sequências específicas em uma amostra de DNA analisada. Essa busca é realizada com a utilização de uma sonda conhecida e marcada, que se parear á com a região de interesse no DNA em análise (Figura 9). 203UNIDADE 5 Amostra Extração do RNA RNA separado por tamanho. Sondas marcadas Visualização do RNA de interesse em �lme raio x.Northern blotting (transferência do RNA para uma membrana). Eletroforese *O RNA é extraído de uma amostra e os fragmentos são separados por tamanho por meio da eletroforese em gel de agarose. O RNA é transferido para uma membrana, onde são colocadas também as sondas marcadas. Após a hibridização, o resultado pode ser visto em �lme de raio-X. Figura 9 - Técnica de hibridização por Southern blotting Fonte: Laboratório de biodiversidade e evolução molecular da UFMG ([2018] on-line)³. Nesta técnica, após a eletroforese em gel (pro- cedimento descrito no tópico anterior), o DNA que está no gel é transferido para uma membrana de nitrocelulose, onde são hibridizadas com as sondas de interesse. A membrana e as sondas são submetidas às temperaturas necessárias para abrir as duas fitas do DNA e permitir que a sonda se encaixe em seu complementar, a região de inte- resse. Como as sondas são marcadas, o resultado é visível por meio de uma radiografia da membrana. Northern blotting O Northern blotting (Figura 10) é utilizado para estudar a expressão gênica. Com ela, é possível verificar se um determinado gene foi transcrito para o RNA e quantificar essa transcrição. Em relação à metodologia empregada, essa técnica se assemelha bastante ao Southern blotting, a di- ferença é que a amostra utilizada é de RNA ao invés de DNA. 204 Técnicas de Estudo em Biologia Celular e Molecular Western blotting O princípio da técnica de Western blotting é basicamente o mesmo do Southern e Northern blotting, mas com o objetivo de rastrear pro- teínas em tecidos biológicos ou substratos. A expressão gênica também pode ser avaliada por esta técnica, uma vez que, para as proteínas es- tarem presentes nas amostras, elas foram trans- critas para RNA e traduzidas. As proteínas das amostras são desnaturadas e submetidas à eletroforese em gel, em segui- da, são transferidas para uma membrana de Amostra Extração do RNARNA separado por tamanho. Sondas marcadas Visualização do RNA de interesse em �lme raio x.Northern blotting (transferência do RNA para uma membrana). Eletroforese *O RNA é extraído de uma amostra e os fragmentos são separados por tamanho por meio da eletroforese em gel de agarose. O RNA é transferido para uma membrana, onde são colocadas também as sondas marcadas. Após a hibridização, o resultado pode ser visto em �lme de raio-X. Figura 10 - Técnica de hibridização por Northern blotting Fonte: Wikimedia Commons (2018, on-line)4. nitrocelulose. Como proteínas não se ligam ao DNA, as sondas utilizadas aqui são, na ver- dade, anticorpos específicos, marcados com fluorocromos. Microarray Também conhecido como chip de DNA, o Mi- croarray é uma técnica quantitativa de análise gênica. As sondas utilizadas nesta técnica são sintetizadas e fixadas em uma superfície sólida, que forma a placa de Microarray (Figura 11). 205UNIDADE 5 Figura 11 - Placa de Microarray como é comercializada Fonte: Wikimedia commons (2006, on-line)5. Figura 12 - Amostras que reagiram com as sondas na placa Figura 13 - Leitura do resultado do Microarray Uma placa de Microarray é uma pequena pla- taforma de reações que contém uma coleção de pontos microscópicos (spots). Cada spot contém milhares de sondas idênticas que se hibridizam com moléculas-alvo. As amostras de DNA são marcadas com corantes fluorescentes (que po- dem, inclusive, ser de cores diferentes) e são co- locadas para reagir com a placa de Microarray. Depois da reação, a placa é lavada e as amostras que não foram hibridizadas são removidas. A con- centração de DNA é mensurada de acordo com a intensidade da fluorescência, por meio de um scanner de Microarray. Uma hibridização forte resultará em uma fluorescência mais nítida, o que pode ser medido por um scanner de fluorescência. Esta técnica é bastante útil para a detecção de agentes infecciosos que ocorrem simultaneamen- te, ou até mesmo para a sondagem de mutações que podem levar a doenças graves, como alguns tipos de câncer. RFLP O RFLP (do inglês Restriction Fragment Length Polymorphism) é uma técnica de análise combi- nada do material genético (Figura 14), bastante utilizada em testes de paternidade e também na medicina forense. Esta técnica se baseia no fato de que indivíduos diferentes possuem sequências de nucleotídeos diferentes em seu DNA, então é possível comparar os polimorfismos. As amostras de DNA (duas ou mais) são sub- metidas a clivagem por enzimas de restrição, formando fragmentos de diferentes tamanhos. Esses fragmentos são amplificados (por PCR) e separados por eletroforese, para que fiquem visí- veis em bandas. A visualização pode ser feita com Southern blotting, coloração por prata, brometo de etídeo (submetido a raios UV) ou por substân- cias radioativas (raio-X). 206 Técnicas de Estudo em Biologia Celular e Molecular Assim, cada indivíduo apresentará um padrão próprio de fragmen- tos, chamado perfil de digestão, que é detectado pela quantidade e pelo tamanho dos fragmentos obtidos. Impressão genética do DNA A impressão genética do DNA, ou genetic finger- print, é uma técnica de reconhecimento de indi- víduos por seu DNA. Como você deve se lembrar, no DNA dos organismos eucariotos há regiões que não são transcritas e nem traduzidas e, nesta parte do DNA, é comum serem encontradas se- quências curtas que se repetem em padrões, em um determinado número de vezes. Essas sequências que se repetem são chama- das de microssatélites, ou STRs (Short Tandem Repeats, em inglês). Este (Figura 15) são bastan- te comuns entre todos os seres humanos, mas a sequência das bases nitrogenadas e a quantidade de repetições são variáveis em cada indivíduo, formando uma “impressão digital” genética. Figura 14 - Interpretação dos resultados de RFLP Fonte: Wikimedia Commons (2018, on-line)6. 207UNIDADE 5 O SNP (single nucleotide polymorphism ou polimor- fismo de nucleotídeo único) é uma variação na sequência de DNA que afeta apenas uma base nitrogenada. O indivíduo 1 tem uma variação em relação aos outros dois. Existem diversas técni- cas possíveis para analisar os microssatélites (Figura 16), a mais utilizada é por meio do RFLP, ou seja, utilizando en- zimas de restrição que clivam o material genético dos indi- víduos, formando fragmentos de tamanhos diferentes que passam por eletroforese em gel de agarose e, depois, são mar- cados com sondas específicas para sua visualização. Figura 15 - Microssatélites (STRs) em segmentos de DNA de três indivíduos diferentes Fonte: Jobling (2009, on-line)7. Figura 16 - Técnica de impressão genética do DNA com a utilização de enzimas de restrição e sondas que se hibridizam com o material genético em análise Fonte: Your Genome ([2019], on-line)8. 208 Técnicas de Estudo em Biologia Celular e Molecular Como o material genético é herdado dos pais, o padrão de repetição dos microssatélites apresenta semelhanças quando os indivíduos são aparentados. Assim, com a técnica de microssatélites é possível determinar se dois indivíduos quaisquer apresentam algum grau de parentesco. É com essa mesma técnica que são realizados os testes de paternidade e também a solução de crimes na biologia forense. Para entender melhor como o reconhecimento dos microssatélites auxilia nesses casos, observe os exemplos a seguir (Figura 17). Mãe Criança Mãe Criança“Pai” 1 “Pai” 2 “Pai” 3 “Pai” 1 “Pai” 2 “Pai” 3 1 2 3 4 5 6 Per�l genético da mãe e da criança. Per�s de três possíveis pais. A análise de paternidade é realizada comparando o per�l da criança com o da mãe e, ao mesmo tempo, com o per�l de cada um dos possíveis pais. Figura 17 - Teste de paternidade por detecção de microssatélites (DNA fingerprint). Fonte: BioNinja([2019], on-line)9. Na Figura 17 é apresentado um exemplo de teste de paternidade. À esquerda estão os perfis gené- ticos da mãe e da criança e, à direita, os perfis de três possíveis pais biológicos. Para interpretar os resultados, precisamos comparar cada um dos perfis (da mãe e dos possíveis pais) com o perfil da criança. Todo o material genético foi herdado, então cada uma das bandas é proveniente dos cromossomos maternos ou paternos. Interpretando os perfis genéticos de cima para baixo, é possível ver que a primeira banda do perfil da criança não está no perfil da mãe e nem no “Pai 1”, mas está nos outros dois possíveis pais. A segunda é idêntica à banda da mãe, a terceira também (mesmo estando presente nos pais 1 e 2). A quarta e a quinta banda estão ausentes no perfil da mãe e só aparecem juntas no perfil de um possível pai, o “Pai 3”. A última também é idêntica à banda da mãe. Assim, por comparação dos perfis genéticos, é possível concluir que o perfil genético apresentado pela criança é compatível com o da mãe e com o “pai” 3. 209UNIDADE 5 Vítima Cena do crime Cena do crimeVítima Suspeito 1 Suspeito 2 Suspeito 3 Suspeito 1 Suspeito 2 Suspeito 3 1 2 3 4 5 6 Per�l genético da vítima e da cena do crime. Per�s de três suspeitos.A análise é realizada comparando o per�l da cena do crime com o da vítima e, ao mesmo tempo, com o per�l de cada um dos suspeitos. A metodologia de análise é muito semelhante à metodologia ado- tada no teste de paternidade, mas o referencial agora é o mate- rial genético encontrado na cena do crime. Esse perfil deve ser confrontado (e precisa ser compatível) com o perfil da vítima e, concomitantemente, deve ser comparado ao perfil de cada um dos três suspeitos. As bandas 1, 3 e 6 do perfil da cena do crime são compatíveis com o DNA da vítima. Quanto às demais, a banda 2 está presente no perfil dos suspeitos 1 e 2, enquanto as bandas 4 e 5 estão presentes juntas apenas no DNA do suspeito 2. Assim, de acordo com esse exame, o suspeito número 2 tem seu material genético encontrado na cena do crime. Figura 18 - Identificação do material genético encontrado na cena de um crime Fonte: BioNinja ([2018], on-line)10.A Figura 18 retrata uma situação semelhante, mas se trata da cena de um crime. À direita é apresentado o perfil genético da vítima e da cena do crime, à esquerda estão os perfis de três suspeitos. 210 Técnicas de Estudo em Biologia Celular e Molecular Construção de Bibliotecas Genômicas Até agora você conheceu, nesta unidade, as prin- cipais técnicas de manipulação do material ge- nético. Você viu as possibilidades de aplicação de cada técnica e também teve noções básicas de como cada uma delas é realizada. Agora, você será apresentado a uma visão mais holística do DNA, ou seja, o foco será o genoma. O genoma consiste no conjunto de todos os genes de uma espécie (Figura 19). Uma biblioteca genômica, por sua vez, é uma coleção com um nú- mero suficientemente representativo de fragmen- tos de DNA de uma espécie. Esses fragmentos são obtidos a partir da ação de enzimas de restrição ligadas a vetores apropriados (plasmídeos, por exemplo), que são clonados após a inserção em um hospedeiro (células bacterianas). 211UNIDADE 5 Figura 19 - Genoma de um organismo: 1. Cromossomo; 2. Genoma; 3. Célula; 4. Genes; 5. DNA; 6. Proteínas; 7. Máquina molecular; 8. Células em conjunto; 9. Célula viva Fonte: Wikimedia Commons (2015, on-line)11. A biblioteca genômica de um organismo precisa ser representativa de todo o genoma de uma de- terminada espécie, deve conter cópias ou clones de cada fragmento de DNA. Isto aumenta a chan- ce de conseguir isolar posteriormente os genes e é bastante útil quando é preciso replicar um trecho específico do DNA, como ocorre, por exemplo, na clonagem molecular. Quando se constrói uma biblioteca genômica, um meio de garantir que o trecho de DNA de inte- resse esteja entre os fragmentos clonados é estimar o tamanho necessário da biblioteca conforme o tamanho do fragmento e do genoma. Quando os fragmentos que constituem a biblioteca são prove- nientes do DNA genômico, tem-se uma biblioteca genômica. Existem, basicamente, duas etapas para a sua construção: • Isolamento do DNA: enzimas de restri- ção clivam o DNA, produzindo fragmentos com tamanho adequado para a inserção no vetor de clonagem. • Introdução dos fragmentos de DNA no vetor: podem ser utilizados os bacteriófa- gos λ ou plasmídeos recombinantes (Figura 20), em ambos os casos, os fragmentos de DNA serão injetados na célula hospedeira. Clones de bactérias. (a) Biblioteca de plasmídeos (b) Biblioteca de fagos Plasmídeos recombinantes. Fago com DNA recombinante. Clones de fagos. ou Genoma do organismo clivado com enzimas de restrição. Figura 20 - Introdução de fragmentos de DNA em vetores para clonagem: (a) Biblioteca de plasmídeos; (b) biblioteca de fagos Fonte: Biblioteca Genómica ([2018], on-line)12. 212 Técnicas de Estudo em Biologia Celular e Molecular Para obter um fragmento específico em uma biblioteca, é preciso fazer um rastreamento utilizando sondas de DNA, que identificam e selecionam os clones que possuem o frag- mento-alvo. Além da biblioteca genômica, outra possibili- dade é o armazenamento de informações gené- ticas por meio de uma biblioteca de DNAc. Um DNAc é um DNA complementar obtido a partir de um RNAm. Este processo de produção de um fragmento de DNA a partir de um RNA só é possível graças à ação de uma enzima específica, a transcriptase reversa. Talvez você se recorde deste nome ou do processo de transcrição rever- sa, pois ele foi trabalhado na primeira unidade, quando o assunto eram os vírus. O importante é que, ao utilizar essa enzima, é possível pro- duzir fragmentos de DNA complementares ao RNA mensageiro, sendo, então, cópias de trechos transcritos, sem as regiões não-codificantes. A formação de uma biblioteca de DNAc é fei- ta em etapas (Figura 21). Inicialmente, são cole- tadas e isoladas amostras de RNAm de um orga- nismo de interesse. O RNA isolado é submetido à transcrição reversa, que origina fragmentos de DNAc (DNA complementar ao RNAm). O DNAc obtido é inserido em plasmídeos, que depois serão inseridos em células bacterianas. Essas células com plasmídeos são colocadas em cultura e crescem. Quando necessário, os plas- mídeos são isolados e o DNA é purificado para a obtenção da sequência de interesse. Figura 21 - Formação de uma biblioteca de DNAc Fonte: adaptada de Bosterbio ([2018], on-line)10. 213UNIDADE 5 Uma biblioteca de DNAc sem- pre é menor do que uma ge- nômica, pois a biblioteca de DNAc é baseada apenas em regiões transcritas do geno- ma. As bibliotecas de genes podem ser colônias de bac- térias (Figura 22), caso tenha sido construída utilizando um plasmídeo ou placas de fagos, se o vetor é um bacteriófago com DNA recombinante. Na biblioteca estão sequên- cias de um conjunto grande de genes, com o genoma total do organismo. Em casos específi- cos, podem existir bibliotecas com sequências expressas de um tipo específico de célula ou sequências presentes em um fragmento de DNA. Figura 22 - Colônias de bactérias cultivadas em placa de Petri no meio agar-agar Onde toda essa informação genética é armazenada? Além das bibliotecas genômicas, que proporcionam os fragmentos de DNA desejados e prontos para a utiliza- ção, existem também bancos de dados de informações genéticas. O GenBank é um exemplo, esse é um banco de dados de nucleotídeos que fica disponível online, onde estão as informações sobre as sequências de nucleo- tídeos de mais de 260 mil espécies. A utilização dos dados disponíveis em bancos de dados, como o GenBank, possibilita estudos filogenéticos entre diferentes espécies e também auxilia na produção de primers ou sondas, uma vez que as sequências de nucleo- tídeos estão disponíveis. Para saber mais, acesse: <http://www.genebio.ufba.br/?page_id=303>. Fonte: a autora. explorando Ideias 214 Técnicas de Estudo em Biologia Celular e Molecular Introdução ao Estudo de Células-Tronco, Transgênese e Terapia Gênica Os avanços da biologia celular e molecular, prin- cipalmente o desenvolvimento de técnicas de ma- nipulação do material genético, possibilitaram muitos avanços que se refletem em áreas da tecno- logia e do melhoramento genético de alimentos, por exemplo, além da medicina. Agora que você já conheceu as principais técnicas de manipulação e estudo do DNA, o foco será em três aplicações importantes desses avanços: células-tronco, trans- gênese e terapia gênica. Células-tronco Na Unidade 4, no tópico sobre especialização e diferenciação celular, você conheceu aspectos importantes a respeito das células-tronco. Caso julgue necessário, retorne a essa unidade para re- ver o conteúdo que foi apresentado. Aqui serão retomadas algumas ideias e serão aprofundados alguns pontos, principalmente no que diz respeito à biotecnologia e às aplicações médicas. 215UNIDADE 5 As células-tronco são um tipo específico de células que possuem o máximo de potencialidade (são chamadas de totipotentes) e não são diferenciadas (Figura 23). Isto significa que as células-tronco estão em divisão contínua e têm capacidade de formar outras células de quaisquer tipos. Em um organismo saudável, as células-tronco (pluripotentes) são importantes para a reposição celular e a regeneração tecidual. É possível classificá-las em dois tipos: embrionárias e não embrionárias. Figura 23 - Células totipotentes e a diferenciação celular 216 Técnicas de Estudo em Biologia Celular e Molecular Células-tronco embrionárias São provenientes de etapas bastante iniciais do desenvolvimento embrionário, em duas etapas distintas: os blastômeros (Figura 24) e as células internas dos blastocistos (Figura 25). Os blastômeros são as primeiras células formadas a partir da clivagem do zigoto, que antecedem a fase de blastocisto. Essas células são totipotentes, pois têm capacidade de originar todas as células do organismo, inclusive os folhetos embrionários. Os blastocistos apresentam células-tronco pluripotentes, que se encontram em sua parte interna. Essas células apresentam alta capacidadede diferenciação, podendo originar quase todos os tipos de células do organismo, com exceção dos folhetos embrionários, por isso são chamadas de pluripotentes. Mórula Blastocisto Células tronco Neurônios Órgãos Células ósseas Células musculares Células sanguíneas Massa de células internas Figura 24 - Fases iniciais do desenvolvimento embrionário: as células-tronco totipotentes se encontram em todas as fases que antecedem o blastocisto Figura 25 - Blastocisto, onde se originam as células-tronco embrionárias (em azul) 217UNIDADE 5 Células-tronco não embrionárias Também conhecidas como células-tronco adultas, as células-tronco não embrionárias estão presentes em tecidos específicos do organismo. Essas células conseguem se desenvolver em outros tipos celulares, mas não em um organismo inteiro, por isto são chamadas de multipotentes. São muito importantes para a regeneração tecidual e a manutenção ce- lular. As células da medula óssea (hematopoiéticas), que se diferenciam em todas as células sanguíneas, são um exemplo de células-tronco não embrionárias. Devido à capacidade de originar novas células, o estudo das células- -tronco, especialmente as embrionárias, tem se mostrado um avanço importante para o tratamento de doenças degenerativas ou mesmo para a substituição de órgãos vitais danificados. Transgênese A transgênese (produção de transgênicos) consiste na altera- ção do material genético de uma espécie-alvo (uma planta cultivável, um animal de interesse econômico) por meio da introdução de material genético proveniente de outra espécie. Este processo confere aos transgênicos novas características que não existiam antes, como resistência a herbicidas, produção de toxinas ou a produção de componentes nutritivos. Existem várias técnicas possíveis para a rea- lização da transgenia, aqui são destacadas as principais: • Biolística: insere genes selecionados à célula receptora por meio de uma “pistola” de DNA, que projeta microesferas de metal com- binadas com DNA para serem incorporadas ao DNA celular. • Eletroporação: aplicação de um campo elétrico nas células recep- toras que aumenta a permeabilidade da membrana plasmática e possibilita a entrada de fragmentos de DNA. • Agrobactérias: bactérias parasitas de vegetais que transferem na- turalmente seu material genético para as plantas parasitas, por transferência horizontal de genes. Essas bactérias são manipu- ladas e têm seu DNA modificado para receber os genes a serem introduzidos nos vegetais. 218 Técnicas de Estudo em Biologia Celular e Molecular Uma vez que a introdução do material genético de outro or- ganismo teve sucesso, o organismo transgênico está apto para se reproduzir, dando origem a novos indivíduos geneticamente al- terados. Os transgênicos são, portanto, resultado da manipulação genética e resultam em indivíduos com características cruzadas que não ocorreriam na natureza. A transgênese é utilizada para vários fins, como a pesquisa biológica médica e a produção de alimentos. Graças à tecnologia do DNA recombinante (que você viu no início desta unidade), a produção de alimentos transgênicos já ocorre em larga escala e em diversos países no mundo (Figura 26). É grande, entretanto, a polêmica a respeito da produção e do con- sumo de alimentos transgênicos. Nota-se, na Figura 26, que o Brasil é o segundo maior produtor de transgênicos (em área cultivada). Figura 26 - Dez países com as maiores áreas disponibilizadas para a plantação de transgênicos, com dados de 2016 Fonte: Conselho de Informações sobre Biotecnologia (2017, on-line)13. 219UNIDADE 5 Inicialmente, os defensores dos alimentos trans- gênicos sustentavam o discurso de que esta seria a solução para o problema da fome no mundo (devido ao aumento na produtividade agrícola) e também a solução para a sobrevivência de espécies em um cenário de aquecimento global. Após mais de 30 anos de cultivo de transgêni- cos, entretanto, não houve mudança a respeito do problema da fome mundial. De fato, a pro- dutividade agrícola aumentou, mas não houve mudança na distribuição de renda, o que conti- nua impedindo o acesso de muitas pessoas aos alimentos transgênicos, ou não. Outro ponto importante é a respeito das consequências da utilização de transgênicos. Isto porque a utilização desses alimentos é relativamente recente, os organismos não se formaram de maneira natural, o que pode levar a uma interação inesperada e impossível de calcular, tanto na saúde humana quanto para o ambiente. Nesse sentido, muitos estudos estão sendo realizados para avaliar a periculosidade no consumo de alimentos transgênicos, mas os resultados ainda não são conclusivos. No Brasil, o uso de produtos transgênicos é au- torizado pela legislação federal, mas produtos que foram fabricados a partir de transgênicos precisam trazer um símbolo (um triângulo amarelo com um “T”), que informa este fato ao consumidor. Terapia gênica A terapia gênica é um tipo de tratamento médico que utiliza a biotecnologia para realizar a transfe- rência de material genético (de uma fonte externa, outra pessoa) para dentro das células do paciente. O objetivo é melhorar uma função celular que não está sendo desempenhada corretamente ou resolver anormalidades na expressão de genes. A inserção de material genético exógeno no or- ganismo do paciente provoca mudanças no DNA das células afetadas e ativa os mecanismos de defesa do organismo, que passam a reconhecer e eliminar as células dos tecidos afetados. Os métodos de trans- ferência dos genes são: • Físicos: os genes são introduzidos mecani- camente nas células. • Químicos: o vetor é uma substância química. • Biológicos: os vetores são organismos como os vírus ou algumas bactérias, que têm a ca- pacidade de injetar material genético nas células hospedeiras. O método biológico é o mais utilizado por ser o mais eficiente. Quanto à maneira de inserção do material genético no organismo, a metodologia mais comum é a ex-vivo, em que o tecido afetado é alterado e substituído por outro, geneticamente alterado. Essa metodologia apresenta os passos a seguir, conforme detalhado na Figura 27. 220 Técnicas de Estudo em Biologia Celular e Molecular Uma técnica alternativa de terapia gênica é por método in-vivo, em que o tecido com material genético modificado é inserido diretamente no organismo, sem ter uma amostra retirada. Ainda em fase experimental, doenças como câncer, dia- betes, epilepsia e outras doenças degenerativas ou genéticas apresentam avanços no tratamento por terapia gênica. Caro(a) aluno(a), chegamos ao fim da Uni- dade 5, em que você pode conhecer as princi- pais técnicas de estudo em biologia celular e molecular. O objetivo desta unidade era apre- sentar os aspectos práticos e as aplicações das tecnologias referentes à manipulação do DNA. Aqui, você teve acesso às principais técnicas de maneira geral, caso deseje aprofundar os seus conhecimentos ou testar os principais protoco- los, existe uma vasta gama de materiais disponí- veis, os quais alguns se encontram nas sugestões de materiais complementares. Método biológico Figura 27 - Passo a passo do método biológico Fonte: a autora. 221UNIDADE 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Estamos encerrando a Unidade 5, em que você teve acesso a diversos avanços tecnológicos a respeito da manipulação do material genéti- co. Nesta unidade, foram abordados os fundamentos e as etapas da tecnologia do DNA recombinante, bem como, consequentemente, a clonagem molecular. Em seguida, você conheceu as principais técnicas rotineiras de um laboratório de biologia molecular: extração do DNA, amplificação por PCR, visualização dos fragmentos por eletroforese e sequencia- mento genético. É importante que, neste ponto, você associe cada técnica com as suas aplicações e que compreenda a versatilidade na combinação de técnicas, conforme os objetivos do estudo. Para encontrar um determinado fragmento em um genoma, são utilizadas técnicas dehibridização molecular por meio de sondas complementares ao trecho alvo. Existem muitas possibilidades de rastreio (Southern blotting, Northern blotting, Microarray, entre outras), conforme o objetivo da análise. Você viu como é realizado o mapeamento do genoma de um indivíduo e também como é possível comparar e diferenciar dois indivíduos por seu material genético por meio da técnica de im- pressão genética do DNA (DNA fingerprint). Esta técnica é muito utilizada em investigações criminais e em testes de paternidade e, portanto, tem grande aplicação prática. É possível colecionar os genes de uma espécie de organismo em vetores (vírus ou bactérias) para que o acesso a um determinado gene seja facilitado. Isto é possível por meio da construção de bibliotecas genômicas. Atualmente, as pesquisas envolvendo células-tronco, organis- mos transgênicos e também terapia gênica são alvos de muita po- lêmica devido às questões morais, éticas e religiosas. Essa polêmica foi sutilmente abordada aqui, e caso você deseje aprofundar seus conhecimentos, estão disponíveis algumas sugestões de materiais complementares sobre esse assunto. 222 Você pode utilizar seu diário de bordo para a resolução. 1. Sobre as técnicas utilizadas na clonagem molecular e no DNA recombinante, assinale o que for correto: a) Na clonagem molecular, fragmentos de RNA e proteínas são transferidos de um indivíduo para outro. Em relação às técnicas de biologia molecular, para que formem produtos idênticos. b) A produção de insulina por bactérias que receberam DNA plasmidial recombi- nante é um exemplo de aplicação da clonagem gênica. c) A ovelha Dolly é resultado de uma clonagem gênica que envolveu três ovelhas: a doadora, a receptora e a que gestou. d) A técnica de clonagem por transferência nuclear é bastante utilizada na produ- ção de medicamentos e biofármacos, com grande aplicação médica. e) Na clonagem gênica, um vetor plasmidial recombinante é transferido para a célula receptora em um processo chamado transdução. 2. A analise as alternativas a seguir: I) A extração é importante para separar o DNA de diferentes indivíduos que podem estar presentes em uma amostra biológica. II) A PCR é uma técnica de amplificação do DNA que atua com um tipo especial de enzima, a Taq-polimerase. III) Na eletroforese em gel de agarose, os fragmentos de DNA se deslocam do polo negativo em direção ao polo positivo e são separados por tamanho. IV) O sequenciamento é o processo de determinar a ordem das bases nitroge- nadas que estão em um trecho de DNA. Assinale a alternativa correta: a) Somente as afirmativas I e II. b) Somente as afirmativas II e III. c) Somente a afirmativa I. d) Somente as afirmativas II, III e IV. e) Nenhuma das alternativas está correta. 223 3. Julgue as alternativas a seguir, utilizando (V) para verdadeiro e (F) para falso. I) A técnica de hibridização por Southern blotting é utilizada para procurar fragmentos específicos de DNA em uma amostra, por meio de uma sonda fluorescente. II) Na técnica Northern blotting, os alvos são proteínas que são sondadas por anticorpos específicos marcados com fluorescência. III) A técnica de hibridização por Microarray é importante para exames diagnós- ticos, pois permite a verificação simultânea de muitos fragmentos de DNA diferentes. A sequência correta é: a) V, F e F. b) F, V e V. c) V, V e V. d) F, V e F. e) V, F e V. 4. Observe o perfil genético a seguir, referente a um exame de paternidade. Mãe Criança 1 Pai 2 3 Figura - Teste de paternidade Fonte: Wikimedia Commons (2017, on-line)14. Analise o perfil da criança, da mãe e dos três possíveis pais e, em seguida, dê um parecer sobre esse teste de paternidade, indicando quem é o pai biológico e argu- mentando com base nos perfis genéticos disponíveis. 224 5. Sobre as bibliotecas genômicas e de DNAc, assinale o que for correto. a) As bibliotecas de DNAc são compostas por todo o material genético de uma determinada espécie, incluindo íntrons e éxons. b) As bibliotecas genômicas são utilizadas no tratamento de doenças degenera- tivas. c) Colônias de bactérias com plasmídeos geneticamente modificados são um exemplo de armazenamento das bibliotecas genômicas e de DNAc. d) Na construção de uma biblioteca de DNAc, o material genético da espécie é transcrito para RNA e, então, é inserido em um vírus ou, uma bactéria. e) As bibliotecas são importantes para a construção de um perfil genético indivi- dual em cada espécie. 6. Em relação às células-tronco embrionárias, analise as alternativas a seguir: I) As células-tronco embrionárias estão presentes nas fases iniciais do desen- volvimento e são totipotentes. II) As células-tronco não embrionárias são capazes de formar apenas alguns tipos específicos de células, como é o que ocorre com a hematopoiese nas células da medula óssea. III) Tanto células-tronco embrionárias quanto não embrionárias são de interesse médico, pois são totipotentes. Assinale a alternativa correta: a) Somente as afirmativas I e II. b) Somente as afirmativas II e III. c) Somente a afirmativa I. d) Somente a afirmativa III. e) Todas as alternativas estão corretas. 225 O Projeto Genoma Humano O Projeto Genoma Humano (PGH) teve como objetivo o sequenciamento dos 3,1 bilhões de bases nitrogenadas do genoma humano. O genoma é o conjunto de DNA de um ser vivo, e o DNA é formado pela liga- ção sequencial de moléculas denominadas nucleotídeos [...]. A ordem com que os nucleotídeos são dispostos no DNA é que faz com que uma molécula difira da outra. Podemos determinar esta diferença por meio do sequenciamento dos genomas. Como as moléculas de fosfato e açúcar são sempre as mesmas, a ordem da sequência é dada pelas bases nitrogenadas [...]. O grupo que se propôs a sequenciar o genoma humano consistiu em um con- sórcio público internacional, liderado pelo National Human Genome Research Institute (NHGRI), subordinado ao National Institute of Health (NIH) dos Estados Unidos. Reu- nindo equipes de pesquisa e laboratórios de vários países, seu objetivo central era o sequenciamento completo do genoma humano [...]. O produto final do projeto consistiu no sequenciamento de um genoma-referên- cia composto por genomas de diferentes povos. Eram amostras de doadores anôni- mos, oriundos de diferentes grupos étnicos. Em 2007, foi descrita a primeira sequência genômica completa diploide de um único indivíduo [...]. Entretanto, a conclusão do Projeto Genoma não atendeu as expectativas [...]: benefícios imediatos que levariam à cura de diversas doenças congênitas e grande avanço às pesquisas biomédicas. Sem dúvida, houve um imenso avanço em relação ao conhe- cimento do genoma humano. Mas, se no início do milênio a mídia esperava noticiar avanços médicos com grande euforia, no fim dessa mesma década, humildes reportagens e entrevistas apresentavam a dificuldade de um leigo identificar ou entender algum benefício imediato resultante do sequen- ciamento do genoma humano. As perspectivas pós-genômicas encon- tram-se no surgimento de outras áreas de pesquisa, outros “omas”, onde o genoma se apresentava apenas como uma informação inicial, o pioneiro. No entanto, o avanço que o pioneiro estudo da genômica trouxe teve efeito avassalador na “Biologia Molecular do século XXI”, como um ponto de partida básico, uma referência, que guia estudos e investigações a um sem-número de desco- bertas a cada dia. Fonte: Goes e Oliveira (2014). 226 Guia Mangá Biologia Molecular Autor: Masaharu Takemura Editora: novatec Sinopse: Rin e Ami mataram aulas de biologia molecular o semestre inteiro, o professor Moro decidiu dar um basta nesta situação e, como castigo, condenou as duas a passarem o verão estudando em sua ilha particular. Usando a máquina de realidade virtual do Dr. Moro para viajar pelo corpo humano, elas verão de perto o mundo da biologia molecular. Junte-se a elas no Guia Mangá de Biologia Molecular e aprenda sobre DNA,RNA, proteínas, aminoácidos e muito mais. LIVRO Guia de Práticas em Biologia Molecular Autor: Cristiana Valleta de Carvalho, Giannina Ricci e Regina Affonso Editora: Yendis Sinopse: as descobertas na área da genética crescem de maneira surpreenden- te. Aliada a isso, temos a Biologia Molecular, uma peça-chave na aplicabilidade dessas descobertas. As autoras e organizadoras do Guia de Práticas em Biologia Molecular notaram a atual escassez literária sobre o tema e elaboraram esta obra para os profissionais de laboratórios de biologia molecular. Este é um guia rico em dicas e “receitas” úteis na realização de protocolos, traz as principais soluções, reações e fórmulas químicas, além de conter as principais siglas da área. Destinado a estudantes e profissionais, este livro descreve técnicas muito utilizadas nos laboratórios, destacando, inclusive, as dificuldades que podem ser encontradas na interpretação de um protocolo. LIVRO 227 Gattaca - Experiência Genética Ano: 1997 Sinopse: na ficção científica, parte da população é criada geneticamente em laboratórios. As pessoas concebidas biologicamente são consideradas “inválidas”, pois podem conter doenças herdadas do seu histórico familiar. Vincent Freeman, um “inválido”, consegue um trabalho de destaque em uma corporação, escon- dendo sua verdadeira origem. Mas seu segredo pode acabar sendo revelado. FILME O material apresenta protocolos de técnicas de biologia molecular: extração do DNA e amplificação por PCR. Para acessar, use seu leitor de QR Code. WEB Sugestão de aula prática da extração caseira do DNA de morangos. Para acessar, use seu leitor de QR Code. WEB https://upload.wikimedia.org/wikiversity/pt/d/de/Extracao_DNA_Morango_web.pdf https://www.alice.cnptia.embrapa.br/bitstream/doc/48295/1/LivroProtMolecular.pdfr 228 ALBERTS, B.; BRAY, D.; HOPKINS, K.; JOHNSON, A.; LEWIS, J.; RALF, M.; ROBERTS, K.; WALTER, P. Funda- mentos de Biologia Celular: uma Introdução à Biologia Molecular da Célula. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2011. ALBERTS, B.; JOHNSON, A.; LEWIS, J.; RALF, M.; ROBERTS, K.; WALTER, P. Biologia Molecular da Célula. Tradução de Vanz. et al. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2010. GÓES, A. C. S.; OLIVEIRA, B. V. X. Projeto Genoma Humano: um retrato da construção do conhecimento cien- tífico sob a ótica da revista Ciência Hoje. Ciência & Educação, Bauru, v. 20, n. 3, 2014. Disponível em: <http:// www.scielo.br/pdf/ciedu/v20n3/1516-7313-ciedu-20-03-0561.pdf>. Acesso em: 18 jan. 2019. JUNQUEIRA, L. C.; CARNEIRO, J. Biologia Celular e Molecular. 9. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2012. LODISH H.; BERK, A.; MATSUDAIRA, P. Biologia Celular e Molecular. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2005. MATIOLI, S. R.; FERNANDES, F. M. C. Biologia Molecular e Evolução. 2. ed. Ribeirão Preto: Holos, 2012. WATSON, J. D.; BAKER, T. A.; BELLl, S. P. Biologia Molecular do gene. 7. ed. Porto Alegre: Artmed, 2015. ZAHA, A.; FERREIRA, H. E.; PASSAGLIA, L. M. P. Biologia Molecular Básica. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014. 229 Referências On-Line ¹ Em: <https://users.med.up.pt/~med05009/bcm/images/320.JPG>. Acesso em: 18 jan. 2019. ² Em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Sanger-sequencing.svg>. Acesso em: 18 jan. 2019. ³ Em: <http://labs.icb.ufmg.br/lbcd/grupoc/1southBlotg.html>. Acesso em: 18 jan. 2019. 4 Em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Northern_blot_diagram.png>. Acesso em: 18 jan. 2019. 5 Em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Affymetrix-microarray.jpg>. Acesso em: 18 jan. 2019. 6 Em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:RFLP_genotyping.gif>. Acesso em: 18 jan. 2019. 7 Em: <https://www.le.ac.uk/ge/maj4/NewWebSurnames041008.html>. Acesso em: 18 jan. 2019. 8 Em: <https://www.yourgenome.org/facts/what-is-a-dna-fingerprint>. Acesso em: 18 jan. 2019. 9 Em: <http://ib.bioninja.com.au/_Media/forensicbefore_med.jpeg>. Acesso em: 18 jan. 2019. 10 Em: <http://ib.bioninja.com.au/_Media/forensicbefore_med.jpeg>. Acesso em: 18 jan. 2019. ¹¹ Em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Genome_numbered.svg>. Acesso em: 21 jan. 2019. ¹² Em: <https://users.med.up.pt/~med05009/bcm/bibliogenom_frame.htm>. Acesso em: 21 jan. 2019. ¹³ Em: <https://cib.org.br/top-10-area-plantada-no-mundo-com-transgenicos-em-2016/>. Acesso em: 21 jan. 2019. 14 Em: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:DNA_paternity_testing_en.svg>. Acesso em: 21 jan. 2019. 230 1. B. 2. D. 3. E. 4. Exemplo de resposta: o pai é o indivíduo 1. No perfil da criança, as bandas 1, 3 e 7 são compatíveis com o material genético materno. As bandas 2, 4, 5 e 8 são compatíveis, em conjunto, apenas com o indivíduo 1. A banda número 6 não é compatível com nenhum dos perfis analisados e pode ser resultado de uma mutação. 5. C. 6. A. 231 232 Técnicas de Estudo em Biologia Celular e Molecular CONCLUSÃO Prezado(a) aluno(a), espero que a leitura e as reflexões proporcionadas por este livro te- nham atendido às suas expectativas enquanto aluno(a). Neste livro, foram apresentados os principais tópicos sobre Biologia Celular e conhecimentos básicos sobre a estrutura morfológica e funcional dos diferentes tipos de célula, além das inovações e atualidades no desenvolvimento de pesquisas nessa área do conhecimento. Na Unidade 1, Estrutura, função e evolução das células, foram apresentados um breve histórico a respeito da descoberta das células e uma visão panorâmica sobre a evo- lução das células procariontes e eucariontes, incluindo os vírus. Encerramos a primeira unidade com a bioquímica celular. Na Unidade 2, Envoltórios celulares, citoplasma e citoesqueleto, você pôde perceber as diferenças existentes entre os envoltórios; você também conheceu as trocas que a célula realiza com o meio extracelular, conheceu a estrutura, a composição do citoplasma e do citoesqueleto, além dos principais aspectos sobre a comunicação celular. Na Unidade 3, Organelas celulares e metabolismo celular, você conheceu a estru- tura e o metabolismo das organelas, como: Retículo Endoplasmático, Complexo de Golgi, lisossomos, peroxissomos, ribossomos, mitocôndrias e cloroplastos. A Unidade 4, Núcleo, ciclo celular e divisão celular, teve foco nos eventos que aconte- cem no núcleo celular, como: expressão gênica, ciclo celular, divisão celular e diferenciação. Na Unidade 5, Técnicas de estudo em biologia celular e molecular, você conhe- ceu as principais técnicas de manipulação do material genético, hibridização molecular, impressão genética do DNA, bibliotecas genômicas e os estudos das células-tronco, da transgênese e da terapia gênica. Espero que você tenha construído uma base sólida e consistente sobre citologia e que, por meio do conteúdo, dos materiais e das atividades propostas, você tenha desenvolvido conhecimentos significativos sobre as células e sua importância para os seres vivos. Grande abraço. Estrutura, Função e Evolução das Células Envoltórios Celulares, Citoplasma e Citoesqueleto Organelas Celulares e Metabolismo Celular Núcleo, Ciclo Celular e Divisão Celular Técnicas de Estudo em Biologia Celular e Molecular Button 4: Botão 22: Botão 23: Button 2: Botão 24: Botão 25: Botão 1: Botão 2: Botão 3: Botão 4: