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OUTRA ESC OLA POSSÍVEL lrandé Antunes Eciroa: Marcos Marcionilo Capas Paostro Grasxo: Andréia Custódio Conssuso Eceromar: Ana Stahl Zilles [Unisinos] Carias Alberta Faraco (UFPR) Egon de Oliveira Rangel [PUC-SPI Gilvan Miller de Oliveira (UFSC ipol Henrique Menteagudo (Universidade de Santgo de Compostela] Kanavilit Rajagopalan [Unicamep! Marcos Bagro UnB) Maria Marta Pereira Scherre UFA), UnB) Rachel Gazoila de Andrade [PUC-SP] Salma Tannus Muchail (PUC-SP! Stella Maris BortanhRscardo [UnB] CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE SINDICATO MACIONEL DOS EDTORES DE LIVROS, RI asa Amis tange 937 Lisegud, Wado é eme cura estala pecuive ! irado Mure She Pasto : Buda ls ESSA DIOR (Estuagas o emuno 10 ts to bioçratiu RENSILAS ARO d+ E linguagem - Brawl ) lmguatica radio o qrmueis 1 Linguagens e baguas Esteio e emsro Tendo Ni Some mas co so cos Em Diretos reservados à PARÁBOLA EDITORIAL | Rua Dr. Mario Vicente, 394 | Ipiranga 04270-000 São Paulo, SP Fone: [11] 5061-9262 | 5061-8075 | Fax: [11] 2589-9263 home page: www parabolaeditoriaL com br ema parabologparabolaeditorial com br ' Todas os deeitos reservados, Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida Ou tramsenitida por qualquer forma a/c quaisquer meios foletônica ou mecénico, eclundo fotocópia e gravação) ou arquasada em qualquer sistema Du banco ce clados sem premasão po escrito da Parábola Editorial Leda. ISBN: 978-85-53456-91.4 Vedição, 2º reimpressão: setembro de 2011 - conforme novo acordo cetagrafico da Lingua Portuguesa o do texto: Maria Irandé Antunes Costa Morais. março de 2009 & da edição: Parábola Editorial, São Paula. março de 2009 SUMÁRIO Apresentação. TNCEUTUIÇÃO Us ccnscorccarmsaicsscassnoso crie rise cenicas PARTE 1- A LÍNGUA SOB NOVOS OLHARES CarítruLo 1 - A língua e a identidade cultural de um povo... CariruLo 2 - Lingua e cidadania: repercussões para o ensino... PARTE 1 - O TEXTO SOB NOVOS OLHARES CAPÍTULO 3 - Textualidade e gêneros textuais: referência para o ensino de línguas .....csessmrerreneressesses CariTuLo 4 - Ir além dos elementos linguísticos do texto: um desafio para os interlocutores. CaríTULO 5 - Mas... € a coerência do texto a partir de seu material linguístico? ....cesreneemsreseneenmares CarítuLo 6 - Os vazios naturais do texto e sua coerência CariTuLo 7 - O que é mesmo a informatividade do texto? ese CapiTULO 8 - As funções do léxico na construção do texto e CapíruLo 9 - Da intertextualidade à ampliação da competência na escrita de textos... PARTE IL - O ENSINO SOB NOVOS OLHARES CasíruLo 10 - E seo ensino de línguas não perder de vista as funções sociais da interação verbal? see capiruLo 11 = A leitura: de olha nas suas funções «us es ssa 185 CapiruLo 12 = A escrita de textos na escola: de olho na diversidade 207 capituLo 13 - Concepções de lingua: ensino e avaliação — avaliação & ensino... sessenta ones RR a 217 capítuLo 14 - Resuminda a ESCUbd. aameseeescmemrere eeesentaestemamcm estes z29 BIBLIOGRAFIA mass iesmesmecicttmtaseimo a cepa Ed 235 A Marcuschi, a quem se ligam muitos dos fios com que ui tecendo a rede semântica destes textos. CAPÍTULO 11 — — cap: A LEITURA: DE OLHO NAS SUAS FUNÇÕES Cada ano, avaliações de diferentes portes dão con- ta de que, no Brasil, a escola vem falhando na sua fun- ção de formar leitores. De fato, ensinar a decifrar os sinais gráficos é apenas uma das condições para que se possa, gradativamente, inserir o aluno no mundo dos livros, das informações escritas, da cultura letra- da, da ficção literária; afinal, no mundo da convivên- cia com a lingua escrita. A propósito, em algumas es- colas, nem mesmo essa condição básica de ensinar a decifrar os sinais da escrita tem tido o êxito esperado, Este texto serviu de — ponto de partida para uma discussão em torno da leitura e suas. funções sociais, por ocasião de um evento para professores | promovido pela: Secretaria de s Educação de vm Pernambuco, em 2002. Na análise das causas desse problema, pode-se perceber que, por in- crível que pareça, o livro (ou os materiais escritos, de diferentes gêneros e suportes) ainda não é, em todas as escolas, o centro das atividades peda- gógicas, nem mesmo daquelas atividades ligadas ao ensino de linguas, o que constitui uma evidente contradição. Uma pesquisa feita em escolas da cidade de Campinas (SP), na década de 1980, deu conta de que existiam escolas cuja programação não reservava tempo para a leitura, porque, nas palavras dos alunos, “os professores se preocupam com a gramática”; ou “se lêssemos não ia dar tempo para aprender toda a matéria”, CAPÍTULO 33 [A LEITURA: DE DLHO NAS SUAS FUNÇÕES 185 Como se a Inigura de A partir desses depoimentos, é cabível con- + texto pudesse sor foita cluir que a fixação quase obsessiva no ensino da - ne O gramática - cuja caracterização, multas vezes, à pena lero livro A escola mesma não sabe bem o que é - tem deixa- pci ba do a sala de aula sem tempo para a leitura. O mais dá feia Ta ns grave é que aquilo que se concebe como sendo “en- Lopes Martin da sino de gramática” na verdade, é apenas q ensino Silva, onde aparecem das classes de pal à av ras, fora Iguer dE reniêdoida p de qualquer contexto pesquisa a que nos de interação, com ênfase em sua nomenclatura e referimos aqui e de quase nada sobre suas funções na constru ção E na onde são retirados os | E organização dos textos, confirme, reitera digg denlidids rg ç me, damente, agora citadés, temos referido em nossos trabalhos. (insisto “para Seriam qutras os verse pega...) resultados se e55a pesquisa fosse Esse ensino descontextualizado tem cronsfar- realizada n iii á : ado em privilégio de poucos o que é ur 1 x presentemente, em prenea Pa ad çã qualquer pontado pais? todos: a saber, o ocesso à leituro ed competência cem escrita de textos. Lamentavelmente, até o momet- to, aprender a ler, ou melhor, ser feitor, tem sido no Brasil prerrogativa das classes mais favorecidas, Quer dizer, os meninos pobres são levados a se convencerem de que “têm dificuldades de aprendizagem” e. portanto, não nasceram pra leitura. Tentam por alguns anos: cansam-se e acabam desis- tindo, Grande parte das pessoas acha isso natural; ou seja, ninguém consi- dera absurda a “coincidência” de apenas os pobres não aprenderem q ler. Ninguém acredita que esse déficit pode ter uma solução e depende de um conjunto de ações pelas quais somos, todos nós, responsáveis. Até quando vamos ignorar nossas responsabilidades sociais frente à esse quadro? Além de injusta e indecente, tal situação é comprometedora do própria desenvolvimento econômico que tem caracterizado 05 últimos periodos da história nacional e que afeta a nós todos. Ganha relevância, portanto, um momento de reilexão como este, que pretende focalizar as funções individuais e sociais da leitura, Funções que envolvem, além da acesso ao conhecimento já produzido, à produção de novos conhecimentos, a continuidade e o avanço das descobertas cientifi- cas e do patrimônio artistico-cultural da sociedade. 1H Pelo viés de suas funções, portanto, vamos considerar neste apito! questão da lestura, um tema praticamente inesgotável, embora airda pôuê compreendido na escola (mesmo por seus gestores, às vezes) e entre o po das pessoas, o que prova, mais uma vez, aquele fosso que se tem constat 1 entre as teorias defendidas pelos pesquisadores e as práticas das salas de a Vejamos alguns desses aspectos, introduzidos aqui sob a forma [n : didática) de perguntas. ) i 1. A leitura é fundamental apenas nas aulas de linguas. 1 Fica evidente, pelo exame do cotidiano escolar, que as competêneis em leitura, compreensão e escrita não se restringem às aulas de lingua Em geral, o professor de qualquer disciplina apoia suas aulas em texué escritos (embora alguns sejam explicadosoralmente), o que é Facilit. À até mesmo pela indicação de um livro didático especifico. Lições de hi ria, geugrafia, biologia, matemática etc, para citar apenas esses, são af sentadas em gêneros expositivos, quase sempre, com imagens, quadra gráticos, que precisam ser lidos, compreendidos, sumarizados, esquem: tados, resumidos, em atividades que demandam refinadas estralépié de processamento dos sentidos. Um problema de matemática, a aná..s de uma explicação de biologia, por exemplo, exigem o exercício de n tiplas interpretações, sem sucesso quando não se sabe mobilizar 0s d'”; rentes tipos de conhecimento suscitados na atividade da leitura. Não tem fundamento, pois, a concepção ingênua, meio generaliz | na prática, de que cabe apenas ao professor de linguas a tarefa de e dar da leitura e de outras habilidades comunicativas. Todo professor, & qualquer disciplina, é um leitor e, para sua atividade de ensino, depend necessoriamente, de convívio com textos os mais diversos. ! A laitura à, pois, dever de toda a escola, 2. Aquem compete ainda desenvolver o apreço à leitura. O desenvolvimento do tópico anterior não implica que podemos atr buir à escola a exclusividade do papel de desenvolver competências, net CAPÍTULOS | À LEITURA: DE QLHO NAS SUAS FUNÇÕES é mesmo aquelas diretamente vinculadas à leitura e à compreensão de tex- tos. Se à escola é concedida uma prioridade nessa tarefa, não se exclui, contudo, a Intervenção de outras instituições sociais, como à família, os meios de comunicação, as associações comunitárias e tantas outras, Talvez, a visão também ingênua de que cabe exclusivamente à escola ensinar e de que somente se aprende na escola, tenha favorecido à omis- são de muitas instituições sociais, que, assim, transferem para a escola toda a responsabilidade de promover à ampliação das competências em linguagem, Em se tratando da leitura, também é mantida essa crença ingênua de creditar tudo à escola. Sabemos que, anteriores à experiência escolar, estão as situações de convívio com materiais escritos, vividas no ambiente familiar Na verda- de, é aí que tudo começa. O que vem depois é só acréscimo (au conserto!) Uma professora me Evidentemente, não pretendemos com essa contolgueadiretors observação atentar ou até mesmo neutralizar desua escola, diante do interesse da professora, em expor instituição social encorregade de promover, apro as alunos à leitura a papel da escola, À escola é especificamente, à fundar e sistemotizar a formação instrucionol e diaria de livros, lhe o , : recomendava que q educação do comunitiade. Porém, ela não deve “logo começasse a der estar sozinha nessa tarefa, Certamente, 0 que a Bula de gramática”! E E . E escola poderia fazer seria envolver iliaras Na verdade, há uma E F er seria envolver a familia na sensação meio empreitada da leitura; convocê-la a participar generalizada de que a dos programas, das ações que objetivam promo- laitura nos faz Ra atrasar o curas! vera convivência do aluno com a cultura escrita, Até agora, não parece que a família seja sulicien- temente convocada a entrar nesse “jogo da descoberta das funções da leitura. Pelo contrário, a escola, em geral, tem sido conivente com a fa- mília, diante das queixas dos pais de que seus filhos “têm tido poucas aulas de gramática”. Falta, portanto, uma aliança entre escola e família, para que a leitura ocupe, sem desconfianças, o lugar que, legitimamente, lhe cabe na forma- ção da pessoa. 188 3. Sendo assim, que foco escolher para os objetivos pedagógicos? Ultimamente tem sido corrente e enfática a afirmação de que os ob- jetivos da escola se devem voltar para a ampliação de diferentes compe- tências. E, naturalmente, o termo competência entrou para o dia a dia do discurso pedagógico. Mas, como é costume acontecer quando um termo novo entra em cena, à preocupação maior pareceu ser definir o que é competência, qual a diferença entre competência e habilidade, entre competência e objetivo Fujo, aqui, consciente, a esse gosto muito acadêmico de discutir a exati- dão de certos conceitos e, sem a absoluta precisão, passo a fazer algumas abservações em torno do que poderia implicar um trabalho pedagáógicr com abjetivos centrados em ampliar comperências, Antes, vale a pena fazer notar que, de propósito, digo complior compe tências, uma vez que não podemos esquecer que as pessoas a quem ensi namos (mesmo as “pessoinhas” do ensino infantil!) já sabem muita coisa já desenvolveram muitas competências, inclusive aquelas comunicativas Bastaria analisar o curto discurso de uma criança para ver quantas regra: = fonológicas, lexicais, mortossintáticas, semânticas, textuais, pragmáticas - foram integralmente respeitadas. Então, a função da escola consiste, exata mente, em ampliar essas competências, desenvolvê-las ainda mais, juntar s elas outras ainda não conseguidas. A esse propósito, alerta Sírio Possenti [ct bibliografia), convinha ao professor, para orientação de seu tralialho, tenta identificar o que os alunos jó sabem, o que caindo não sabem, o que precisam saber Conforme cada etapa de seu ciclo de vida social e escolar: Por exemplo: uma criança do primeiro ciclo do ensino fundamenta! para ler e escrever bem, precisa saber definir um digrato, um ditonge crescente; um substantivo? Precisa saber o que é um advérbio” Não. Mas, por outro lado, precisa ir ampliando seu saber sobre que regula idades cada um dos tipos e dos gêneros tem; precisa ir descobrindo, po exemplo, que um texto expositivo ou dissertativo gira em torno de um único tema; precisa ir descobrindo que esse tema deve progredir; pre cisa ir descobrindo quais os recursos que podem deixar esse texto arti CAPÍTULO ài |« culado, sequenciado, coeso etc. etc. Precisa ir descobrindo q que se deve fazer para entender um texto, oral ou escrito, desse ou daquele tipo, etc, elc, Enfim, precisa ir descobrindo muita coisa que nem dá para enumerar aqui, No entanto, em geral, a escola se concentra naquilo que a criança já sabe ou naquilo que não lhe faz falta saber Mas, voltemos ao ponto cen- tral de nosso tópico. EE 3.1. 0 que pretendemos compreender aqui por competência? Inspiro-me em Perrenoud (2000, p.15), para dizer que: * competência corresponde à aptidão dos sujeitos para ligar às “sabe- tes” que adquiriram ao longo da vida às situações da experiência, a fim de, pelo recurso a esses saberes, vivenciar essas experiências de forma gratificante e eficaz, Equivale, assim, à capacidade do sujeito para enfrentar com o maior sucesso possível, as mais diferentes si- tuações da vida, mobilizando intuições, conceitos, principios, infor- mações, dados, vivências, métodos, técnicas já aprendidas. Assim, é inevitavelmente, a competência envolve uma relação com o “saber” ou com os saberes acumulados previamente, ao longo da vida, En- volve, ainda, uma relação com o “fazer”, ou seja, com a “execução de atividades”, e com a resolubilidade das dificuldades enfrentadas, uma vez que toda competência é exercida e é revelada no enfren- tamento com os mais distintos tipos de situação. Por isso, necessa- riamente, a competência supõe a articulação do saber já acumulado com as condições especificas das situações enfrentadas. * Come se pode ver, então, trata-se de “saberes e competências”, numa relação clara de inclusão, e não de “saberes ou competên- clas”, numa relação de mútua exclusão, Quer dizer, as competências incluem, mobilizam os saberes; não excluem, portanto, a explora- são de conteúdos. Uma visão simplista da questão poderia levar à suposição de que o foco da escola em competências dispensaria a exposição de conteúdos, de conceitos, de teorias, que, assim, já não contam, pois “bastam as competências”. Não É assim: os saberes acumulados são condição para o exercicio das competências, IRANDE ANTUMES | LiMGUA, TEKTO EENSINO lestura! Que razões haveria para que tanto se defenda a relevância da leitura, sobretudo como foco da atua- ão escolar" Noutras palavras, qual o papel da leitura - ou quais as lunções da leitura? Que competências ela requer? Que competências ela desenvolve? lemtura sigmilica poder eerçer o eleito de acesso * Convém lembrar ainda que esses saberes - condição para o exer- cicio da competência - não constituem apenas um conhecimento eq: pas Y estabilizado, pronto, estocado na memória, Na verdade, trata-se do saber já apreendido, mas também do saber que, como condição prévia do próprio enfrentamento da situação, vai refazendo-se & ampliando-se, São saberes dinâmicos, então. Em processo constan- te. Um possibilitando o outro. + Logo, não se trata aqui de uma competência técnica para um fazer mecânico, estático, repetitivamente colado à situação. O próprio cuidado de eleger quais as competências a ampliar, em cada etapa do percurso, já supõe um nível de competência geral para ver, per- ceber, selecionar os objetos e os objetivos, de fato, relevantes de trabalho, na direção das competências fundamentais, que ultrapas- sam aquele fazer mecânica. + Pensemos por exemplo, numa competência básica, fundamental, - no sentido mesmo do que envolvem as palavras base" e “Tunda- mento - que é a competência para aprender e, dentro desta, a com- petência para selecionar os objetivos e os objetos de nossa aprendi- zagem, Esta é uma competência decisiva, aquela que cabe à escola prioritariamente, desenvolver, isto é, a competência para aprender Não podemos esquecer, apoiados em Schneuwly, Dolz e colabora- dores (2004), que a escola representa, em nossa cultura, um lugar social particular de aprendizagem. Sobre o concesto de letramento, já circular 4. Que competências são esperadas papas Wa F Ii n pelo exercicio da leitura? chamar a atenção de escola e da sociedade em geral para os limitas dia alfabetização caso não signifique o melo mais eficaz de possibilitar ab alfabetizando sua progressiva & competente convivência com a cultura escrita, Vale a pena perguntar-se: por que tanta ênfase na So âmbito do mais geral, poder ter acesso à CAPITULO 22 | o Lena: DE OLmi MAS SUAS FUNÇÕES 101 J meme mutena — a ques, em sociegades pouco desenvolvidas, relembro, tem-se convertido em privilégio de poucos. A escrita é, sem dúvida, uma das maiores construções da humanidade. Possibilitou-nos superar os limites da fala, que exige, de uma vez, a simul- taneidade de tempo ea confluência de espaço para as pessoas envolvidas na sua realização. Graças à escrita, as pessoas puderam ter acesso ao que outros “disseram” em outros momentos e lugares, fossem esses momen- tos e lugares, temporal e geograficamente, distantes, Graças à escrita foi possivel “registrar”, “deixar documentado” o que, de outra forma, seria apenas memória e tradição oral. Dai que “ela permeia hoje quase todas as práticas sociais dos povos em que penetrou” [Marcuschi, 2001, p. 19), Com o surgimento da escrita, portanto, estava desfeito um dos gran- des limites à circulação universal das ideias, à divulgação dos feitos e das conquistas humanas. Ora, a outra face da escrita é a leitura, Tudo 0 que é escrito se com- pleta quando é lido por alguém. Escrever e ler são dois atos diferentes do mesmo drama (ou da mesma trama!). Alfabetizar-se, no sentido mais elementar do termo, é adquirir a competência inicial para lidar com os sinais da escrita, uma tarefa da qual a escola, no decorrer da história, se tem encarregado, É desenvolver condições para o sujeito poder inserir- -se no mundo dos eventos que envolvem o intercâmbio através da grafia, E, neste particular, entra o conceito atual de “letramento”, um conceito que ultrapassa a simples conquista das competências em decifração dos sinais da escrita, Em estado de letramento já se encontram as crianças que veem, que ouvem ou que manuselam diferentes suportes de escri- ta (livros, jornais, folhetos, anúncios, avisos etc.). Esse estado vai-se afir- mando, vai-se ampliando, continuamente, de maneira que, em estado de letramento, estamos nás todos, a vida inteira. Assim, entre escrita, leitura e escola se estabelece uma vinculação de interdependência tão forte que qualquer uma das três, necessariamente, leva às outras. Propor, portanto, que a leitura ocupe um lugar de destaque no curri- culo escolar, como instrumento de cidadania, constitui uma das mais legí- timas pretensões, Mas, por quê? Ou seja: que competências são esperadas pelo exercício da leitura? 192 IRANDE ANTUNES | LÍNGUA, TEXTO E ENSINO 4.1. À leitura favorece o acesso a novas informações Em primeiro lugar, a leitura deve preencher os objetivos prioritários da escola porque nos permite o acesso ao imenso acervo cultura! consti- tuído ao longo da história dos povos e possibilita, assim, a ampliação de nossos repertórios de informação. Na verdade, pela leitura, temos acesso a novas ideias, novas concep- ções, novos dados, novas perspectivas, novas e diferentes informações acerça do mundo, das pessoas, da história dos homens, da intervenção dos grupos sobre o mundo, sobre o planeta, sobre o universo, Ou seja, pela leitura promovemos nossa entrada nesse grande e ininterrupto di- álogo empreendido pelo homem, agora e desde que o mundo é mundo. A leitura expressa, dessa forma, o respeito ao princípio democrático de que todos têm direito à informação, ao aceso aos bens culturais já pro: duzidos, «os bens culturais em vias de produção ou simplesmente previstos, nas sociedades, sejam elas letradas ou não. Tal acesso à informação representa, sobretudo, o exercício da parti- lha do poder, o qual acontece muito precariamente sem a corresponden- te partilha do acessa à estrita. Basta pensar em todas as oportunidades das quais os “não leitores” são excluídos: o analfabeto pleno, 0 analfabeto funcional, isto é, o alfabetizado afastado da prática da leitura. Todos esses “não leitores” são, preferencialmente, candidatos a estarem, de maneira mais ou menos profunda, “imersos” no mundo, de cabeça encoberta, sem “olhos” para ver determinados tipos de objetos. Sem saber muito do que se passa à volta de si, costumam ter apenas restritas possibilidades de poderem intervir no curso de suas vidas e dos grupos em que atuam. Só o homem “emerso”, "de cabeça para fora', na visão de Paulo Freire, é capaz de “vir à tona”, olhar em volta, perceber o entorno. A leitura nos dá esse poder de emersão, nos confere esse poder de enxergar e perceber o que nos circunda, a fim de, como cidadãos, assumirmos nossos diferen- tes papéis na construção de uma sociedade que respeite a lógica do bem coletivo e dos valores humanos. Nesse sentido, lembramos a grande oportunidade que a escola pode oferecer pela confluência multidisciplinar da leitura programada. Sa- CAPÍTULO 13 | A LEITURA: DE OLHO NAS SUAS FUNÇÕES 193 temos quanto os livros didáticos vinculados a todas as áreas do estudo escolar = além daqueles em torno da linguagem - podem constituir um encontro bastante significativo do aluno com us grande contingente de novas informações, Por essa perspectiva, duas mudanças poderiam ocor- rer na prática escolar: | [+ primeiro, a leitura deixaria de ser considerada como uma atividade exclusiva A da aula ou do professor de português, como tem parecido a alguns; 4 ; | * segundo, a leitura de textos de cutras disciplinas adquinriam esse teor de fonte de informação”, matéria-prima para futuras interações em que q conhecimento especializado de algum tema fosse solicitado. Aescola parece ignorar esse princípio quando. não púé em pauta prio- ritária o estudo das questões textuais, For que não facalizar a matéria-prima com Que se constréi qualquer gênero de texto, OU Seja, seu conteúdo semântico, SEUS propósitos comunicativos é suas regularidades textuais? A propósito, a consulta ao livro arganizadopor Neves et ali, em 2003, Exploraa pertinência de se fazerda leitura eda escrita um interesse de ensino & pesquisa em tadas as disciplinas. Com efeito, conforme já salientamos, informa- ções de uma lição de geografia, de história, de ci- ências Podem fornecer os argumentos de que pre- cisamos para apoiar nossos comentários. em uma análise opinativa, por exemplo. Na grande maioria das vezes, o que nos falta, na elaboração de certos gêneros de texto, não são conhecimentos linguis- ticos (esses, nós já os temos berm armazenados!) muito menos conhecimentos acerca das termino- logias gramaticais, O que nos falta, Frequentemen- te, são informações relevantes em torno das quais podemos nos dar ao exercicio de desenvolver vm tema, Comentar - contra ou a favor - um tema de Política, preservação ambiental, pluralidade e con- vivência social, economia, desenvolvimento ete exi- 8e ter sobre essas questões uma gama razoável] de informações, capazes de nos fazer dizer o que ou- tras poderão considerar “ditos relevantes”. Mesmo Caso, quando não sg tem o que dizer a saída é “encher” as “vinte linhas”, é dizer 0 óbvio, irrelevante, é dar voltas ao mesmo, o que em nada acrescenta ao que já se sabe Em muitas das improvisadas “reda- goes” dos alunos, sem um trabalho prévio de exploração do tema, resta a obvieeade, a irrelevância das afirmações e dos comentar 1%, dos, com signi- IRAMDE ANTUNES | LiMGLIA, TEXTO E ENSINO 1 ficativo comprometimento da qualidade dos textos. Tudo isso agravado, depois, pela prática de avaliação de alguns professores que se restringem ao cuidado com a correção gramatical. É bom lembrar que pobreza de informação, de ideias, que o fato de não ter o que dizer sobre determinado tema, afinal, são problemas que só se resolvem com a ampliação de nosso repertório de informações e de ideias; coma nossa capacidade de, criticamente, ler, ouvir, refletir, tirar conclusões, estabelecer relações entre os fatos. Não são propriamente problemas que se resolvem com aulas de análise sintática, com a procura da distinção en- tre complemento nominal e adjunto adnominal, diga-se mais uma vez. à propúsito da escassez de informação, e pensando na atuação das pessoas em setores da vida social e política, poderiamos lembrar = com posar - a condição indefesa de quem não sabe ler e, consequentemente, de quem apenas dispõe de um corpo de informações restritas à transmis- são da oralidade, Por isso, a leitura acaba promovendo a inclusão social, acaba sendo uma condição do exercício pleno da cidadania. Em suma e em termos bem prosaicos, podemos lembrar o óbvio: ler é uma forma de saber o que se passa, o que se pensa, o que se diz; é uma for- ma de ficar inteirado acerca do que vai pelo mundo, acerca do que vai po- voando a cabeça e o coração dos pensadores, dos formadores de opinião, dos cientistas, dos poetas; é uma forma de saber acerca das descobertas que foram feitas ou das hipóteses que estão sendo testadas, ou dos planos e projetos em andamento, Não podemos esquecer de que o mundo é “se- miotizado” pela linguagem e de que somos feitos no diálogo viabilizado por ela. Às con cepções que Lemos, as teorias que propomos, os projetos que elaboramos nascem do acesso que temos à palavra circulante, Dai que q leitura é umo espécie de porta de entrado; isto é, é uma via de avesso à palavra que se tornou público e, assim, representa a oportunidade de sair do dominio do privado e de ultrapassar o mundo da interação face a face. É uma experiência de partilhamento, uma experiência do encontro com a olteridede, onde, paradoxalmente, se dá a legitima afirmação do eu. Não podemos deixar de referir a utilização cada vez maior e mais per- tinente de textos que conjugam sinais de diferentes linguagens, que, para CAPÍTULO 21 | à LETRA: DE OLHO NAS SUAS FLINIÇÕES DGE u e serem entendidos, exigem também a mobilização de outros modos de compreender. A sociedade letrada recorre, atualmente, a muitas outras maneiras de significar, de modo que apenas a leitura dos signos verbais já chega a ser insuficiente. Em suma, a leitura, na sua perspectiva informativa, exerce q grande papel de favorecer a ampliação e o aprofundamento de nossos conheci. mentos, a competência para a observação, a análise, a reflexão acerca das certezas ou das hipóteses que vamos construindo. É à tenha com que ali- mentamos o fogo de nossas buscas. Ter vez à palavra escrita é uma forma de partilhar do poder social. Vamos a um outro ponto que justifica a funcionalidade da leitura. 4.2. Como relacionar leitura e escrita? Antes de qualquer outra consideração, vale a pena fazer uma observa- ção: não se pode estabelecer entre leitura e escrita uma relação automática, de causa e consequência imediata e inevitável, segundo pensam al guns: se alguém lê, escreve bem, Como vimos, a leitura constitui uma das condições que propiciam o sucesso da escrita. Mas, não de uma forma mecânica. Não existe uma relação milagrosa ou mágica entre uma coisa e outra. Ou seja, não podemos alimentar o simplismo de que quem Iê, necessariamente es- creve bem. A competência em escrita é, do mesmo Farta literatura que modo que todas as outras, resultado, também, de descreve as relações uma prútica constante, persistente, refletida, num processo de crescente aprimoramento. Não basta, portanto, ler para escrever bem, No entanto, não podemas negar que a leitura também constitui um meio de acesso às formas particulares e específicas de escrever. À maior evi- dência — principalmente para quemlêé-cadeque não se escreve e não se fala absolutamente do mesmo jeito, embora se use a mesma língua e, em princípio, possam estar em jogo as mesmas pre- tensões interativas. IRANDÉ ANTUNES | LÍNGUA, TEXTO E ENSINO Prevalece, atualmente, a compreensão de que a fala constitui a moda- lidade de uso da lingua que requer o concurso simultâneo de dois ou mais interlocutores, atuantes em uma mesma situação comunicativa. Nesse jogo, os papéis de falante e ouvinte se alternam. O discurso oral, especifica- mente aquele da conversação corriqueira, é, dessa forma, construído na interação, conjuntamente, à medida que vai acontecendo. Sua continuida- de e progressão são condicionadas pela própria direção do diálogo, con- forme a orientação que vai tomando a adequada concentração tópica do discurso. Em contextos da fala pública, a exemplo de conferências, apre- sentações, sermões, a palavra é, pelo menos por algum tempo, privativa de apenas um dos interlocutores. Na escrita, no entanto, normalmente, a recepção do material textual é adiada, pois falta aquela presença simultânea dos interlocutores, que, as- sim, não ocupam, ao mesmo tempo, o mesmo espaço. A imposição desse adiamento poderia significar uma desvantagem, se não fosse vista como a possibilidade de planejar e de revisar o texto, tanto quanto seja neces- sário. De fato, uma das vantagens da escrita é que fica concedido a quem escreve um tempo maior para a elaboração verba! de seu texto, incluindo ai, reiteramos, a chance de o planejar, de o rever e de o recompor. Levando em conta a maior probabilidade de, na fala, estarem presen- tes as coisas a que nos referimos, podemos observar, ainda, que, na escri- ta, há que suprir, com palavras, a indicação dos itens a que nos referimos e sobre os quais predicamos. Na fala, podemos dizer, sem prejuizo do en- tendimento: É preciso ler isto. O contexto fornece os elementos aos quais podemos remeter a identificação do objeto referido pelo pronome isto, Na escrita, é exigido que tenhamos de encontrar no próprio texto (preceden- te ou subsequente) o item a que o pronome faz referência. Ou seja, na es- crita, é bem mais comum a “descrição” de pessoas, propriedades e objetos ausentes da situação do discurso, o que requer uma maior explicitação linguística dessas referências. Logo, na escrita, o emprego das unidades lexicais (substantivos,adjetivos, verbos) e de formulações sintáticas mais explícitas e completas é ampliado e mais comumente diversificado. É co- mum ainda que se evite o uso de frases incompletas, a meias, práticas comuns na fala informal. CAPÍTULO 12 | LETURA: DE OLHO NAS SUAS FUNÇÕES 197 RE esti o qe — compreendendo como Sn Deserita formal"? Trata-se daquela escrita = que se insere numa prôti- ca social pública, com um “auditório” ou “interho- “— cutores" que, em geral, ultrapassam as relações da simetria social ou higrárquica. Persemos, por exemplo, “em uma monografia, - em um artigo cientifico, Os sinais de pontuação - e certos recursos grá- ficos (negrito, itálico, sublinhado, “aspas”, LETRAS EM CAIXA ALTA, entre outros) são outros recursos que tendem a suprir a falta daqueles elementos contextualizadores, sobretudo aqueles que expres. sam as particularidades da entonação, por exem- plo. Além disso, uma maior explicitude dos conecti- vos, entre orações, periodos e parágrafos, também pode ser apontada como marca da escrita (sobre- tudo da escrita formal), pelo mesmo fato de esta- rem ausentes certos traços esclacedores do contex- em um editorial jormalistico, em um processo judicial etc. Wales observar que, mesma dentro dessa escrita formal, existem wariáções de maior ou menortormalidade, to situacional, Na verdade, o interlocutor, a priori, tem interesse em que seu texto seja entendido sem grandes esforços, o que o leva a usar todas as indi- cações que podem resolver possíveis dificuldades. Não esqueçamos que escritor e leitor estão envolvi- dos numa tarefa comum, dialógica e reciproca: um em encontro com o outro. Que não falte nenhum sinal! (4 menos que a “falta do sinal” já constitua uma indicação de um sentido qualquer). Merece considerar que não estamos concebendo a fala e a escrita como dois padrões de uso uniformes - o que, por vezes, ingenuamente pensam al- guns. Toda fala não é informal ou não é coloquial, Do mesmo modo que toda escrita não é expressa apenas no registro formal, Existem práticas orais informais e outras, formais; o mesmo acontecendo com a escrita. Daí por que não é muito apropriado comparar oralidade e escrita, de uma dorma indiscriminada, sem pontuar os níveis de registro (mais ou menos formal ou mais ou menos informal) de uma e de outra. Uma conversação informal, entre familiares, entre amigos, não serve de padrão para a definição do que seja um texto escrito de divulgação cientifica, ou um editorial da comuni- cação jornalística. Na verdade, o que é mais relevante é analizar as relações entre o orale o escrito sem enfatizar as diferenças entre uma e outra, Essa visão da pluralidade de registros para o oral e para o escrito, bem mais coerente com o que de fato acontece socialmente, tem implicações significativas na hora de explorar, em sala de aula, as especificidades de 198 IRANDÉ & NTUMES | LÍMGLIA, TEXTO E ENSINO 7 H uma e de outra. Dai que apenas a experiência da tala informal não pod » promover o entendimento e a aprendizagem da fala Formal e, muito me nos, da escrita de textos formais, Mais grave é constatar que as análises, linguísticas que são feitas na escola, em geral, não especificam se as regu- y laridades apontadas são especificas da fala ou da escrita, nas suas escalas de formalidade e informalidade. Quase sempre, essas análises se referem ) a uma lingua em potencial, em frases que exemplificam certas categoria. gramaticais, válidas, nessa proposta, para qualquer circunstância socia O saldo é a impressão de que a lingua não apresenta nenhum tipo de ve riação; funciona da mesma maneira na fala ou na escrita, formais ou ir 1 formais. Não importa: o substantivo, 0 adjetivo, o verbo parecem coisas estanques que se aplicam, sem variações, a qualquer uso, No âmbito das considerações que fazemos neste tópico, vale concluir que +, apenas pelo convivência com textos escritos formais, pela leituro e pelo | | análise das especificidades desses textos, é que alguém pode apreender os , | L modos de formulação próprios da escrito formal. L Falta toda a escola se convencer de que, apenas “ouvindo, os aluno. não conseguem desenvolver a competência para lidar com a leitura e cor | a escrita de textos. Qu seja, aprender à ler e o escrever, somente lendo escrevendo. Só através de um amplo convívio com textos escritos. Com pró dicas letrodos cada vez mais diversificadas e complexas frequentemente aliadas, no presente, a outros modos gráficos e icônicos de significar. Ou seja, os não leitores acabam por sofrer um tipo de exclusão social, diferente, é claro; mas tão dolorosa e limitante quanto qualquer outra de caráter físico. Na verdade, os não leitores ficam excluídos da possibilidade de participar dos grupos que se organizam em torno da comunicação eser ta. Muitos espaços do mundo do trabalho se inserem entre esses grupos. | Será que ainda podemos viver, felizmente, parecendo ignorar as immpl. cações sociais do descaso a esses principios? 43. Aleitura favorece o contato com a arte do palavra A leitura é fundamental, aínda, na educação da pessoa para a afet. vidade, para o desenvolvimento da sensibilidade artistica e do gosto e: CAPÍTULO 22 | A LEITURA: DE OLHO NAS SUAS PUNÇÕES LE tético. Para o “prazer inútil” das coisas que não se fecham em utilidades materiais e imediatas. Ler textos literários possibilita-nos o contato com a arte da palavra, tom o prazer estético da criação artística, com a beleza gratuita da ficção, da fantasia e do sonho, expressos por um jeito de falar tão singular, tão carregado de originalidade e beleza. Leitura que deve acontecer simples- mente pelo prazer de fazê-lo. Pelo prazer da apreciação, e mais nada, Para entrar no mistério, na transcendência, em mundos de ficção, em cenários de outras imagens, criadas pela polivalência de sentido das palavras. Saber “entrar no “mistério, como sugeri logo acima, não é alguma coisa QUE acontece espontaneamente, sem o estímulo da experiência, da convivência com os textos literários. Daí que emuito Jiterotura tinha que ser trazida para a sala de aula; não para exemplificar o emprego das classes de palavras e outras questões gramaticais. Mas, para se aprender pouco a pouco, a sentir o prazer e emoção de curtica beleza dos objetos wrtísticos criados com à polevra, Para aprender, inclusivamente, o modo de se ler um poema, bem diferente, por exemplo, do modo de ler-se uma noticia, 4 própria natureza do gênero já constitui uma pista para entendimento dos sentidos possíveis, Caso se trate de uma leitura em voz alta, aí é que pesa a forma como se lê, Na verdade, em voz alta, o poema deve ser "declamado” = isso faz parte do gênero =, deve ser lido da maneira que mais eficazmen- te promova o encantamento e à emoção. Diante de um poema, o que nos cabe dizer, sobretudo, é algo do tipo: Que coisa bonita! O cuidado por desenvolver uma competência na leitura dos gêneros textuais que mais cotidianamente circulam na sociedade (como cartas, avisos, anúncios etc.) não deve enfraquecer a empenho em promover o convívio com diferentes gêneros literários e com as obras de que os textos fazem parte, À história de nossa travessia, ao longo dos séculos, está refle- tida também no grande intertexto que constitui nosso acervo literário, Não pretendo deter-me aqui nas críticas tão comuns à mã qualidade du ensino da leitura, especialmente da leitura dos gêneros literários nem tampouco responsabilizar unicamente os professores - já tão sobrecarre- gados = por esse problema. Entretanto, não posso fazer de conta que não vejo propostas, inteiramente inadequadas, de atividades com leitura de 200 IRANDE ARNTU EMS ING W poemas São propostas - de escolas públicas e escolas particulares - feitas ainda agora, em pleno ano de 2009, nas quais se pede aos alunos, simples- mente, que encontrem palavrasno aumentativo, identifiquem adjetivos ou substantivos, observem os sons que se repetem, copiem as palavras que rimam, entre outras coisas. Por essa prática, 0 aluno não aprende a curtir literatura, à achar graça em poemas, crônicas, contos, romances Tem sido notória a dificuldade dos alunos para interpretarem e comen- tarem textos de natureza simbólica e função expressiva, organizados a partir de analogias ou de recursos metafóricos ou imagéticos (como os próprios poemas, as charges). Em geral, a maioria não consegue ir além do literal e se limita ao estritamente óbvio e periférico para daí apreender algum sentido. Mas, as alunos não podem ser responsabilizados s por essas competências que não desenvolveram! Eles, em geral, não têm silo expostos com frequência a esses gêneros ou, quando o são, se depa- ram com objetivos (os “objetivos escolares“ de procurar coisas vu de reti- rar coisas dos textos!) que não lhes aguçam a capacidade interpretativa. zinhos E. outra vez, queremos frisar: de muita experiência gratificante os não leitores são excluídos! 5. Como vem o gosto pela leitura? Não se nasce com o gosto pela leitura, do mesmo modo que não se nas ce com o gasto por coisa nenhuma, O ato de ler não é, pois, uma habilidade inata. Se isto é verdadeiro para aquelas leituras informativa e formativa apresentadas nos dois primeiros pontos desta reflexão, muito mais 0 é paro essa leitura de “fruição do belo” vista há pouco, que ultrapassa os interes ses imediatos das exigências sociais e profissionais. Como vimos, o goste por Jer literatura é aprendido por um estado de sedução, de fascínio, de encantamento. Um estado que precisa ser estimulado, exercitado e vivido, A quem compete desenvolver esse fascínio, essa sedução? À quem com- pete desenvolver o gosto pela busca da informação que está nos livros? À quem compete despertar o interesse pelas particularicades da escrita? À es- cola, certamente. Formar leitores, desenvolver competências em leitura e es- crita é uma tarefa que a escola tem que priorizar e não pode sequer protelar. CAPÍTULO 44 | & LEITURA: DE OLHO HAS SUAS F UNÇÕES 205 Incluir a escola é incluir prioritariamente a figura do professor, aquele que, concretamente, dá visibilidade ao ato de ler. Aquele que apresenta o livro, que expõe e lê o texto, analisa-o, fala sobre ele, traz noticias sobre os autores, sobre novas publicações; enfim, aquele que transita pelo mundo das páginas, que deixa o rastro de sua experiência de leitor. É o mediador, entre o aluno leitor e o autor do livro, Para que o ato do descobrimen- to pessoal aconteça... E para que, nesta relação professor-aluno-autor, os atuais aprendizes possam reconhecer-se também como possíveis auto- res, de outras versões, de outros textos, agora e em outros tempos, Essa prioridade da escola na formação do leitor não exclui, evidente- mente, a atuação da família, na ação diuturna dos pais, que devem assu- mir a iniciação da criança nesse mundo gráfico (e, por vezes, mágico) das palavras. Não exclui ainda a sociedade, os meios de comunicação - todos: jornais, revistas, rádio, Tv, páginas da internet - nem exclui (principal- mente essas!) as políticas públicas orientadas para a educação e a pro- moção da cultura letrada, Não podemos esquecer que os não leitores são outro tipo de excluídos sociais! Todos os dias o analfabeto sente na pele sua condição de inferioridade. 6. Onde está o sentido do texto? Essa pergunta pretende nos fazer ponderar sobre que conhecimen- tos devemos mobilizar para entender um texto, De propósito, ela enseja atingir aquele equivoco tão comum de ver um texto reduzido a um arte- fato puramente linguístico: um conjunto de substantivos, de verbos, de advérbios, onde, eventualmente, aparecem ditongos, tritongos, palavras oxítonas e outras coisas mais. Ou seja, ainda há escolas onde se procede como se o entendimento do que é dito fosse feito apenas pelo recurso à gramática. Na visão ingênua de muitos, reiteramos, saber gramática é suficiente para saber ler com sucesso. Em muitas passagens, vimos pontuando que o sentido do texto não está apenas nas palavras que constam na sua superfície nem está nos limites da gramática, Os sentidos de um texto, melhor dizendo, resultam de uma confluência de elementos que estão, simultaneamente, dentro e fora dele, 207 FRANDE ANTUNES | LÍNGUA, TEXTO E ENSINO ) Basta lembrar os diferentes tipos de conhecimentos que o leitor mo- biliza no contato com o texto: é conhecimento linguístico (conhecimento da gramática, do léxico e da for- | ma como se faz o agrupamento e a segmentação das unidades menores), , Z conhecimento textual (tipos e gêneros; estratégias e recursos de sequen- | y | cialização dos diferentes blocos do texto; recursos dacoesão, dacoerência e de outras propriedades da textualidade; padrões de referenciação etc.) ) é conhecimento de mundo [conhecimento que decorre de nossa familian- | dade com os esquemas de organização da experiência, a partie dos quais podemas prever a coexistência (ordenada ou não) de elementos, e, assim, apreender os senudos do texto, sobretudo aqueles não explicitados]. Em geral, deixamos implicitono texto aquilo que é tipico de uma situação, que é previsível a ela, pois esperamos que nosso interiocutor faça Os cálculos necessários para encontrar coerência no que está sendo dito. | Convém lembrar ainda que os sentidos do texto resultam também do.. elementos que compõem a “cena” de sua produção e a outra, não meno + pertinente, de sua circulação. 7. De que leitura estou falando? Falo de uma leitura interacionista. Não apenas porque a leitura permit” o encontro entre dois ou mais interlocutores; mas, sobretudo, porque esses interlocutores são autores leitores e leitores autores que já trazem em seus repertórios experiências de outras escritas e de outras leituras. Escrever ele, são, assim, oportunidades de dar continuidade a uma quase infinita corren. de ideias, de concepções, de informações que têm seu começo não se sal bem onde ou em que paragens desse imenso mundo geográfico e cultural. Falo de uma leitura interacionista, também, porque a leitura envolve a int ração entre diversos tipos de conhecimento, conforme foi mostrado logo atrás Fato de uma leitura interacionista, ainda, porque tenho em vista a le tura que visa objetivos e propósitos interativos claros e diversificados e, à sim, não se reduz a uma mera tarefa escolar (a qual, para ser feita, tem qr” ser pra nota!). Por sinal, uma leitura que não responda a um propósito co- CAPÍTULO 21 | À LEITURA: DE OLHO NAS SUAS FUNÇÕES 24 municativo qualquer (propósito informativo, de localização de dados, de informações; propósito de fruição apenas) não é propriamente Leitura, Fala, portanto de uma leitura que, a partir de hipóteses, de predições inicialmente levantados, vai além da superficie do texto, além do que está explicito, do que estã declarado. De uma leitura que mobiliza um sentido plural, portanto: que está no texto, que está no leitor que está no contexto, Falo de uma leitura que, ao lado de um sentido, busca descobrir inten- ções, pretensões, objetivos para o dizer do texto. Uma leitura, portanto, de um “dizer que é também um 'fazer' o que não deixa também de ser uma leitura atenta dos elementos formais desse dizer Falo, portanto, de uma leitura que é uma “atividade de procura”, na expressão de Angela Kleiman, em seu livro Texto & Leitor: falo de uma leitura que é uma “atividade de encontro” também, digo eu. 8. Ea escola frente a essas concepções? Evidentemente, todas essas concepções têm implicações pedagógicas, quer na definição das prioridades, quer na seleção dos objetivos: quer na previsão dos conteúdos, das atividades; quer, até mesma, no planejamen- to de diferentes situações de leitura. À primeira implicação tem a ver com a certeza de que apenas aalfabe-tização é insuficiente. Como vimos insistindo, é preciso que o alfabetizado vá inserindo-se, sempre mais, no universo da comunicação escrita = 0 que se tem definido como letramento -, pelo contato cam diferentes materiais e objetivos de leitura. A convivência com a informação escrita, com a exposição de ideias. com a literatura é a condição desse ietramento, uma conquista gradativa, que se vai sedimentando a ponto de tornar-se parte constitutiva das ati- vidades sociais do sujeito. Não deveria parecer estranho nem perda ee tempo que a escola desti- nasse grande parte de seus horários à leitura, À escola é lugar de leitura. Assim como a igreja é lugar de oração, e o estádio é lugar de jogo. O que deveria parecer muito estranho é que a escola não priorize a leitura & que 204, IBANDE ANTUNES ÍNGUA, TESTO E EMSIMO não seja ela a assumir a promação do gosto pelos livros, pela informação escrita, pela produção literária. O que deveria parecer muito estranho, repito, é que a escola não seja a sede daquele letramento, o ambiente na- tural em que os alunos mergulham no mundo das linguagens escritas. Mergulho que aconteceria, como? + Pelo estimulo à uma cultura do livro. e Pela fartura de um bom e diversificado material de leitura. Ps Pelo acesso fácil e bem orientada a esse material. | e Pela diversidade de objetivos de leitura. é Pela fraquência de atividades de lere de analisar materiais escritos * Pela formação do gosto estético na convivência com a literatura Apostamos em que a leitura é: um projeto social inadiável; - * uma conquista possivel, Aa uma competência em permanente construção; [e uma porta de entrada para novos mundas, onde a autêntica e democráti- | ca construção humana pade acontecer com Maior SUCESSO. Em sintese, devemos e podemos promover a conversão da escola em fa- vorda leitura. Por políticas educacionais que priorizem a ampliação das com- petências relevantes para o pleno exercício da cidadania. Pela intervenção de uma escola que ponha a produção do conhecimento relevante c o acesso a ele no centro de seus objetivos, de sua atividade. Que priorize a ampliação das competências das pessoas, para que possam intervir, positivamente, na dire- ção do bem coletivo, Concretamente que tenha livros e leitores desses livros, com tempo e vez para saber o que esses livros dizem. Tudo isto, para que possamos nos aproximar sempre mais da solução das grandes problemas humanos. Pela ação não menos consistente de uma sociedade que se sinta no legitimo direito de contar com uma escola na qual, pelo exercício pleno da leitura, se aprenda também a pensat,a expressar-se, a participar na condição de cidadão, das decisões da comunidade e a interferir no seu destino. Não posso deixar de referir, como agente dessas mudanças, a presença determinante das faculdades de letras e de pedagogia. Das faculdades pú- CAPÍTULO 14 [A LEITURA: DE OLHO NAS SUAS FUNÇÕES 205 CAPÍTULO 12 blicas e privadas situadas nas capitais. Mas, sobretudo, das faculdades de formação de professores, espalhadas pelo interior dos Estados, de onde, com certeza, sai a maior parte dos professores que irão atuar nas escolas estaduais e municipais. Tais faculdades são, portanto, um polo altamente responsável pela condução dessas mudanças, principalmente daquelas mais prementes nos espaços rurais ou nos espaços urbanos afastados das grandes metrópoles, Seria muito sonhar com uma escola na qual o exercício da leitura fos- se o centro da proposta pedagógica, de onde tudo o mais derivaria? Seria muito sonhar com uma escola na qual o gosto da leitura pelo simples pra- zer de ler fosse um cuidado de cada dia? Seria muito sonhar com uma es- cola em que a alegria de poder aprender fosse o desafio de cada momento e o apelo de cada livro? Seria muito sonhar com uma escola que pudesse estar totalmente a favor da solução de problemas? Uma escola que fosse efetivamente comprometida com deixar as pessoas mais aptas para faze- rem desaparecer a miséria, a fome, a violência, as discriminações sociais? Não sei se seria sonhar muito. Mas acredito que, se desde o início, for dada aos alunos a oportunidade da leitura plena (do livro e do mundo) - aquela que desvenda, que revela, que lhes possibilita uma visão crítica do mundo e de si mesmos -, se lhes for dada a oportunidade da leitura plena, repito, uma nova ordem de cidadãos poderá surgir e, dela, uma nova configuração de sociedade. PODEMOS, AINDA, ADIAR ESSE PROJETO? A VIDA NÃO GOSTA DE ESPERAR. AMANHÃ NINGUÉM SABE No PEITO DE UM CANTADOR MAIS UM CANTO SEMPRE CABE. (CHico BUARQUE) 206 IRANOU ANTUNES | LINGUA, TEXTO E Eres cap: A ESCRITA DE TEXTOS NA ESCOLA: DE OLHO NA DIVERSIDADE 1. Lingua e variação Originalmente, este o texto foi apresentado A questão da variação linguistica tem con- no! Simpósio Nacion templado as múltiplas possibilidades de a lingua de Estudos Linguístico- realizar-se, atendendo a diferenças do lugar, do ami uuo erro cia promovido pela UFP. meto social ou da situação sociocultural em que a em João Pessoa, em auvidade verbal ocorre. Tais possibilidades de va- setembro de 1997. riação têm sido analisadas, preferencialmente, em relação à oralidade, com foco maior para as especificidades dialetais. Va- riações, por exemplo, do português falado em diferentes regiões do Brass, ou entre o português de Portugal e o português do Brasil têm merecido . atenção de pesquisadores aqui e lá. No entanto, a língua escrita ainda não recebeu esse “olhar” que enxerga as suas diferenças de uso; ou seja, ainda parece subsistir impressão de uma lingua escrita uniformemente, totalmente estí vel, sem variações. Tal impressão é naturalmente reforçada pelo vié da ortografia oficial, um padrão rigido e inalterável, com mudanço pouco significativas em intervalos muito longos de tempo, A visar de uma escrita uniforme repercute no trabalho da escola, que, as CAPITULO 22 4 E5CH/75 DE TEXTOS NA ESCOLA: DE OLHO NA DIVERSIDADE Me, sim, privilegia o ensino de esquemas rigidos, em cujas formas todos os textos têm de se encaixar. Vamos refletir um pouco sobre esse ponto, Seja em relação à oralidade, seja em relação à escrita, a consideração do fenômeno da variação linguística implica, necessariamente, a inclusão dos muitos fatores pragmáticos envolvidos na interação. Quer dizer, se a : realização da lingua comporta variações é, sobre- tudo, por determinação de elementos extrinsecos a ela, elementos constituintes da situação social em que a atividade verbal se insere, tais como o esta- tuto social dos interlocutores, o tipo de relação que se estabelece entre eles, os propósitos em causa, o espaço cultural em que acontece o evento comuni- cativo, entre outros. os. s conceitos são reiterados Se tomarmos como parâmetro a lingua escrita, na mesma perspectiva podemos perceber que a existência de (quase) in- de sublinhar a Cau tie cg2 Caia dCN EI VÊ de fia cd si idade da escrita, contaveis generos constitui um campo privilegia- em geral, vista como da para o entendimento funcional dessas possibi- mais uniforme que a faia. lidades de variação da lingua. 2. Língua escrita, variação e gêneros textuais Dentro das semelhanças existentes entre as modalidades oral e es- crita da língua, uma, sem dúvida, reside na constatação de que os textos escritos também admitem variações, de modo que, a rigor, não existe uma escrita uniforme, inteiramente padronizada e submissa a uma única for- ma. Se é verdade, segundo propõem Schneuwly, Dolz et alfi (2004), que não existe “o oral”, mas, “os orais”, também é verdade que o que existe são “escritos”, como expressões da multiplicidade de conteúdos e de propósi- tos comunicativos dependentes das práticas sociais de escrita. Na mesma perspectiva de uma escrita plural, se aplicam as palavras de Dubois et alii (1989, p. 609), quando definem a variaçãocomo um fenômeno pelo qual, no cotidiano da atuação verbal, uma língua nunca é, “numa época, 208 IRANDE ENTUNES | LINGUA, TEXTO E ENSINO num lugar e num grupo social determinados, idêntica ao que foi em outra época, em outro lugar e em outro grupo social” (destaque nosso). A aceitação desse princípio implica que se esteja considerando a lin- gua escrita para além da frase, isto é, na sua forma textual e como ativi- dade interativa, a qual, por sua vez, é parte significativa da atuação social das pessoas. Ficar no exercício de formar frases, copiar frases, analisar frases escritas não permite a ninguém perceber o fenômeno da variação, uma vez que esta, reiteramos, decorre exatamente das diferentes circuns- tâncias em que acontece a interação. Ou seja, a escrita, como atividade de linguagem, tem que ser percebida na sua dimensão de texto. Tanto para quem escreve quanto para quem lê, Com efeito, escrever é, simultaneamente, inserir-se num contexto qual- quer de atuação social e pontuar nesse contexto uma forma particular de interação verbal. Daí que, além das determinações do sistema linguístico, a interação verbal por meio da escrita está sujeita também às determina- ções dos contextos socioculturais em que essa atividade acontece. Ora, sabemos que as formas de atuação social que as pessoas empre- endem são múltiplas e diferenciadas, pois resultam de situações também múltiplas e diferenciadas, no tempo e no espaço, ou respondem a inten- ções e objetivos vários. À própria singularidade inscrita na determinação da natureza humana conduz à previsibilidade da variação, da desseme- lhança, da heterogeneidade, da instabilidade. A história da humanidade se confunde com a história da mudança, da ininterrupta quebra do esta- belecido pela introdução do novo, nesse contexto, já não inesperado. Pode-se admitir, portanto, o princípio de que a língua varia também na sua modalidade escrita, em decorrência da imposição de adequar-se às diferentes situações de uso em que se insere. As linguas existem para essas situações, em função de suas solicitações interacionais. Os textos estão sempre em correlação com os fatores contextuais pre- sentes à situação de comunicação, o que, de certa forma, influencia até mesmo a escolha do tipo e do gênero a ser escrito. O fato de que cada tipo de texta é caracterizado pela predominância de determinadas marcas lin- guísticas de superfície (por exemplo, o emprego de certos tempos verbais CAPÍTULO 12 JA ESCRITA DE TEXTOS NA ESCOLA; DE OLHO NA DIVERSIDADE 209 = w imperfeito, para o tipo descritivo; à imperativo, para o tipo instrutivo; uv perfeito para o tipo narrativo etc.) não deixa de ter suas raízes mais re- motas em aspectos de sua dimensão contextual. Também em decorrência desse foco contextual é que um gênero do tipo narrativo pode requerer mais ocorrências de marcadores temporais que deem conta do luxo cronológico em que as informações se distri- buem (anterioridade, simultaneidade, posterioridade) Um gênero do tipo dissertativo, ao contrário, demanda outra classe de marcadores, uma vez que, em geral, estão em jogo sequências apoiadas em evidências de muitas outras ordens, normalmente evidências atemporais, Isto é, até mesmo as determinações linguísticas de um texto têm raízes nas condi ções reais de sua produção e recepção. Dentro dessa perspectiva da variação dos textos em função dos con- textos em que circulam, a linguística, sobretudo aquela de orientação pragmática, tem proposto e desenvolvido a categoria discursiva de gêne- res textugis, na pretensão de caracterizar as especificidades das manifes- tações culturais concernentes ao uso da lingua e de facilitar o tratamento cognitivo desse uso, seja oral, seja escrito. Tais gêneros têm sido definidos como constitutivos der situação dis cursiva e como modelos mais ou menos estáveis de textos (Bakhtin, 1995), Essa categoria soma-se à outra, já bem mais conhecida, dos tipos textuais, porém amplia-a, no sentido de que especifica e regula os conteúdos, a es- trutura de organização e as próprias configurações dos textos. Par isso, 05 gêneros supõem regularidades que não se limitam oo que é dito, mas que especificam um modo próprio de dizer Sob esse ponto de vista, os gêneros ditam, numa espécie de coerção tácita e generalizada, modas estubilizados de dizer, Partilham, assim, características comuns, embora sempre vulne- ráveis a mudanças, Inscritos no universo cultural de cada grupo, os gê- neros fazem parte do conhecimento de mundo desse grupo é constituem, por isso, elementos de seu saber partilhado, Ninguém é totalmente “sobe- cano no momento de atuar verbalmente. Prevalece o imperativo maior de fazer valer nossa condição de seres sociais, “livremente” submetidos, também, às coerções de modos especificos de organizar nossos discursos. ni IRANDÊ ANTUMES | LÍNGUA, TEXTO E ENSINO Lima visão, mesmo sumária, dos gêneros escritos dá conta desses múltiplos modos específicos de dizer, o que comprova à variabilidade que pretendo evid enciar com esta reflexão. Na verdade, convivemos, no dia a dia de nossas escritas e leituras, com: e noticia, reportagem, editorial, artigo de opinião, entrevista, nota de esclarêcimento, carta, Coma A te, circular, intimação, anúncio, publicidade, avi- so, boletim, folder, edital, declaração, atestado, parecer, (autobiografia, regulamento, código, estatuto, ata, boletim de ocorrência, relatório, re- querimento, curriculum vitae, projeta, monagra- fia, dissertação, [25E, ensaiofartigo acadêmico, resumo, cesonha, petição, despacho, sentença, oficio, mandado, procuração, contrato, portaria, escritura, memorando, recibo, receita culinária, E provérbio, instruçãolmodo de usa, prognóstico do tempo, horáscopo, roteiro turístico, laudo médico, bula, anedota, adivinhação, prece, cardápio, con- to, romance, fábula, crônica, poema, home page, portal, site, email, blog, entre muitos, Muitos Qu- tros, dificeis até mesmo de serem enumerados. Meu interesse com essa discriminação, mesmo muitissimo parcial, é em primeira mão, tornar mais evidente alnda quanto a escrita de textos supõe uma variação de modelos e de apresentação formal. Em segundo, criar um pane de fundo para pensar mais tarde a questão do ensino da lingua nas escolas. Há um aspecto que parece contrariar esse princípio da diferença dos modos de dizer, Na verdade, a variedade € | que se fala não é aleatória, Acontece nos limites impostos pelas conver ções estabelecidas nas já mencionadas condições de funcionamento d- atividade verbal. Ou seja, 08 gêneros constituem modelos específicos de texto, diferentes entre si, mas essas diferenças são, umas mais, outras me- nos, controladas pelas próprias convenções sociais. CAPÍTULO 42 [A ESCRITA DE TEXTOS a ESCOLA: DE OLHO NA Did ERS IDADE 2 Assim é que as diferentes classes de gêneros constituem um conjunto regular de formas e de padrões de ocorrência, de maneira que essas clas- ses são reconhecidas como protótipos, convencionalmente estabelecidos e socialmente esperados. Constituem, assim, padrões historicamente se- dimentados e. assim, orientam e regulam a atividade verbal, pois todo texto se apresenta a um tempo, típico e singular, como propõe Bronckart, em seus trabalhos sobre o interacionisma (ver indicações na bibliografia), É também sob essa condição de típico que se dá a demarcação de seu arranjo sequencial, incluindo “os elementos obrigatórios” “os elementos opcionais”, “os elementos iterativos” (segundo mostram Halliday & Hasan, 1989] - mais ainda a delimitação de seu sentido global [segundo propõe van Dijk, 1984, Adam, 1990; entre outros). Assim é que podemos, prever, por exemplo, quais elementos podem constar numa carta, num requerimento, num aviso, e em que ordem eles vão aparecer. É evidente que tais previsões podem ser quebradas, na de- pendênciada intenção do sujeito de, violando-as, conseguir um efeito co- municativo qualquer Essa condição dos gêneros, a um tempo típicos e flexíveis, é reflexo da natureza mesma da lingua, também ela, simultaneamente, sujeita à tradi- ção e à ação livre da sociedade. Se, por um lado, nas palavras de Saussure (1973, p. 88-90), uma língua é “radicalmente incapaz de se defender” dos fatores que, constantemente, a deslocam, por outro, a solidariedade com a passado restringe e controla esse inevitável deslocamento. Em suma, os gêneros póem em evidência a complexidade da constituição dos textos: são multiformes e, simultaneamente, prototípicos, em atenção mesmo à natureza convencional das instituições sociais em que acontecem, 3. Lingua escrita, variação e ensino Para começo de conversa, temos em conta que o desempenho dos alu- nos, na escrita, não tem correspondido, em geral, ao dispêndio de tempo e de recursos envolvidos na atividade pedagógica do ensino da lingua, À experiência com a avaliação de textos de alunos, mesmo no final do ensi- 242 IRANDÉ ANTUNES | Liniáisã, TEXTO E EM SINO no médio, autoriza que tenhamos um certo “espanto” frente a certos de- sempenhos normalmente injustificáveis, Mas, esses resultados já têm sido denunciados e com algum destaque, embora, quase sempre, eles sejam atribuídos mais aos alunos do que às inadequações do sistema escolar, incluindo ai a formação dos professores, a distribuição do tempo escolar, o múmero de alunos por sala, à Escassez e a pouca qualidade do material didático disponível etc. Neste instante, prefiro deter-me no que poderia ser feito, em termos de um ensino escolar mais eficaz da língua escrita. + O ensino da lingua escrita deveria privilegiar a produção, a leitura e à análise dos diferentes gêneros, de cuja circulação social somos agentes e testemunhas. Os critérios de escolha desses gêneros de textos, conforme cada estágio da escolaridade, poderiam advir da observação das ocorrências comunicativas atuais, ou seja, daquilo que, de fato, é usado no cotidiana de nossas transações sociais. À diversidade de gêneros requisitada pela diversificação de seus usos, em tão diferentes domínios discursivos, e pela importância crescen- te que se tem atribuido à escrita são justificativas relevantes para buscar promover a competência dos alunos na produção e na recepção de textos adequa- dos « relevantes socialmente, Aliás, o conhe- cimento da diversidade de gêneros em circu- lação, como já referimos, também faz parte de nosso conhecimento de mundo, também constitui parcela de nossa cultura social. A superestrutura típica de cada gênero, conforme está legitimada pelas convenções «vciais, constituiria um dos pontos centrais desse estudo, A cara de uma carta, de um re- latório, de um projeto, de um avisa etc, seria um dos objetos de estudo. A partir da consi- deração dessa cara prototípica é que seriam exploradas as possíveis variações que po- dem acontecer dentro de um mesmo gênero. Dessa forma, a escrita de textos, sem referên- Imaginemos às dificuldades para se escrever um testo com base na seguinte solicitação: “Faça um texto a partir desta figura” (é apresentada, ao lado afigura de uma paisagem, de um animal, de urmã pessoa ec.) bias, texto de que gênero? Com que finalidade? Para quem? Para constar em que suporte? Admira que os alunos tenham dificuldade para escrever bons textos? eapITULO 42 [à ESCRITA DE TEXTOS Má ESCOLA: DE oLHO Ná DIVERSIDADE 213 cia às suas especificidades de gênero, daria lugar à escrita de gê- neros específicos, ressalto, que supõem planos de desenvolvimento, de progressão e de ordenação diferentes. O foco da competência em escrita deixaria de ser a correção gramatical ou a higiene ortogrã- fica das palavras. Não que esses elementos não sejam, em alguns contextos, importantes; mas não podem ser 0 foc o, a prioridade da que se ensina. É preciso ter olhos para enxergar à comp lexidade do próprio exercicio da linguagem é à hierarquia de importância que 05 elementos desse exercício implicam, As motivações para escrever na escola deveriam inspirar-se nas mo- tivações que temos para escrever fora dela. Se alguma ve z fazemos deserições a partir de figuras, é com alguma finalidade de finida; por exemplo, para apresentar a alguém um abjeto que está à venda ou para fundamentar nossa discordância frente a uma sol icitação de preço. À propúsito, os técnicos em engenharia civil, muitas vezes, fazem descrições dos imóveis que vistoriam. Ninguém, porém, faz descrições aleatórias, para nada, sem alguma finalidade definida. Normalmente, sobretudo, no ensino médio, o trabalho escolar tem- se fixado na produção de um mudelo de “redação” , um texto com uma cata só, engessado em uma forma rigida de desenv olvimento; na verdade numa “forma” igual para todos, Sem traços da singul ari- dade autoral. Nem mesmo o fato de alguns vestibulares terem plu- ralizado suas propostas de escrita tem sido suficiente para lev ar a escola a também diversificar suas solicitações de produção escrita. A gramática da língua — um quebra-cabeças (para uns, qua se sem solução!) na vida de grande parte dos professores - seria a gram áti- ca requisitada por esses gêneros, em função do que se poderi a esta- belecer, com mais precisão e muito mais consistênci a, o alcance das regras e, principalmente, o impulso para minimizar o estudo das no- menclaturas e das irrelevâncias classificatórias. Seria uma gra mática dos gêneros, voltada para os diferentes domínios sociais de ocor rên- cia desses gêneros, lugar onde a lingua, de fato, cobra inteira rele vân- cia. Seria uma gramática mais próxima das uperações que as pessoas realizam quando usam a lingua em situações concretas de comuni cação, Pareceria assim irrelevante, inócua, inalcançável? Despert aria IRANDE ANTUNES | LINGUA, TEXTO E ENSINO tanta aversão entre os alunos? Reforçaria a crença de muitos de que: não sabem português, claro! uma lingua mu ito dificil? Explorar 0: ! gêneros seria uma forma de explorar a lingua aconte cendo; uma lim gua à altura das capacidades cognitivas de q ualquer um, Na prática do ensino dos gêneros, devia-se destacar e explicitar complexidade da variabilidade e da tipicidade dos textos, pondo-sr, em correlação a tensão natural entre 0 poder de escolha do sujeito e as Injunções sociais que regulam o uso da lingua. D essa forma, o. sujeito se via como alguém que pode decidir, fr ente à sua criação! individual e, ao mesmo tempo, como alguém que pe rtence a um. comunidade onde se vivencia a solidariedade li nguística. Ou, aind. | como autor singular do seu texto e participant e da ampla e irresti ta intertextualidade dos usos sociais da lingua. Ainda, pela concentração nos gêneros, se po deria, com pertinêr , cia, identificar o destinatário do texto (ou os destina tários, se fos- se 0 caso), em seu papel social particular, para lev á-lo em conta rá dosagem da informação veiculada, na antecip ação das posições contrárias e, mais pontualmente, na escolha sintáti co-semáântiou das unidades linguísticas. Outro aspecto favorecido seria a den ficação do lugar e do momento institucional em qu e o texto ser | lido. Essa previsão constitui um dos pa râmetros de seleção dos e! |, mentos disponíveis nos paradigmas da tex tualidade, Que m escreve deve empenhar-se em assegurar, a Seu leitor, as pistas neces sárias em cada contexto, para que ele possa reconhecer 05 sentidos & as intenções pretendidos, sem dificuldade. ) Em síntese, o mito da uniformidade linguística e a compreen são in gênua de uma escrita única, inalteravelment e padronizada, tão comu tt ao simplismo abusivo da prática escolar, seriam radica lmente abala é pelo confronto com à diversidade dos diferentes gêner os de textos. À a predominância de um ensino da metalinguagemgramat ical det: a ideia de uma lingua oral inalterável, muito mais ainda aconteceu relação à língua escrita, vista, quase sempre, na S ua realização foro ou, pior ainda, como exercício de uma * redação” sem i ntenção, sem fi nalidade comunicativa, sem leitor, sem conte xto. Exaurindo-se apena na finalidade do treino. , CAPÍTULO 22 |£ ESCRITA DE TERTOS MA ESCOLA; RE DLHO MA vERSIADE À