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PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) A Faculdade Multivix está presente de norte a sul do Estado do Espírito Santo, com unidades em Cachoeiro de Itapemirim, Cariacica, Castelo, Nova Venécia, São Mateus, Serra, Vila Velha e Vitória. Desde 1999 atua no mercado capixaba, destacando-se pela oferta de cursos de graduação, técnico, pós-graduação e extensão, com qualidade nas quatro áreas do conhecimento: Agrárias, Exatas, Humanas e Saúde, sempre primando pela qualidade de seu ensino e pela formação de profissionais com consciência cidadã para o mercado de trabalho. Atualmente, a Multivix está entre o seleto grupo de Instituições de Ensino Superior que possuem conceito de excelência junto ao Ministério da Educação (MEC). Das 2109 institu- ições avaliadas no Brasil, apenas 15% conquis- taram notas 4 e 5, que são consideradas conceitos de excelência em ensino. Estes resultados acadêmicos colocam todas as unidades da Multivix entre as melhores do Estado do Espírito Santo e entre as 50 melhores do país. MISSÃO Formar profissionais com consciência cidadã para o mercado de trabalho, com elevado padrão de qualidade, sempre mantendo a credibil- idade, segurança e modernidade, visando à satis- fação dos clientes e colaboradores. VISÃO Ser uma Instituição de Ensino Superior reconheci- da nacionalmente como referência em qualidade educacional. R E I TO R GRUPO MULTIVIX R E I 2 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 BIBLIOTECA MULTIVIX (Dados de publicação na fonte) Adriana Aparecida Cossentini Campos; Lucas Araujo Chagas. Pratica de Ensino V (Letras) / Campos, Adriana Aparecida Cossentini; Chagas, Lucas Araujo. - Multivix, 2020. Catalogação: Biblioteca Central Multivix 2020 • Proibida a reprodução total ou parcial. Os infratores serão processados na forma da lei. 3MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 4 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LISTA DE QUADROS > Tabela 1: Objetivos do ensino fundamental segundo os PCNs. 73 > Quadro 1: Tipos textuais 80 > Quadro 2: Fatores da textualidade 82 5MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 LISTA DE FIGURAS > Figura 1: Sala de aula 12 > Figura 2: Ensino Fundamental 16 > Figura 3: Dimensões da estrutura educacional escolar 17 > Figura 4: Alunos 19 > Figura 5: A Fala 21 > Figura 6: Diálogos do Mundo 23 > Figura 1: Aprender 30 > Figura 2: A linguagem direcionada à religião 31 > Figura 3: A Bíblia 32 > Figura 4: As línguas 33 > Figura 5: Ensino-aprendizagem de línguas 42 > Figura 6: Etapas da aquisição da linguagem 43 > Figura 7: Etapas do ensino de escrita 45 > Figura 1: Primeiros anos do Ensino Fundamental 51 > Figura 2: Desenvolvimento da psicomotricidade 52 > Figura 3: Desenvolvimento da escrita 53 > Figura 4: Processo de simbolização 54 > Figura 5: Construção das palavras 55 > Figura 6: Domínio da escrita 56 > Figura 7: benefícios da leitura e escrita 59 > Imagem 1: A literatura nos faz viajar e conhecer outras realidades. 90 > Figura 1: Narração 92 > Imagem 2: Contação de histórias 97 > Imagem 3: Irmãos Grimm 98 > Figura 1: Educação e Tecnologia 107 > Figura 2: Tecnologias em sala de aula 109 > Figura 2: Tecnologias em sala de aula 116 > Figura 4: Recursos lúdicos 117 6 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 SUMÁRIO APRESENTAÇÃO DA DISCIPLINA 9 1 VISÃO DO ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA A PARTIR DOS PCNS E DA BNCC 11 INTRODUÇÃO DA UNIDADE 11 1.1 BNCC E PCNS 12 1.2 BNCC, ENSINO FUNDAMENTAL E A LÍNGUA PORTUGUESA NO ENSINO FUNDAMENTAL 15 1.3 TEXTO, CONTEXTO E PRÁTICA PEDAGÓGICA 19 2. OS CAMPOS DE ESTUDO DA LINGUÍSTICA E A SOCIOLINGUÍSTICA 27 INTRODUÇÃO DA UNIDADE 27 2.1 LÍNGUA, LINGUAGEM E CIÊNCIA: UMA BREVE HISTÓRIA 28 2.2 LÍNGUA, LINGUAGEM E CIÊNCIA LINGUÍSTICA HOJE 31 2.3 ENSINO DE LÍNGUA MATERNA SOB A ÓPTICA DA CIÊNCIA LINGUÍSTICA 34 2.4 EDUCAÇÃO LINGUÍSTICA: RUPTURAS COM O MODELO COLONIAL DE ENSINO DE LÍNGUAS NA ESCOLA 37 2.5 DA AQUISIÇÃO DE LINGUAGEM AO ENSINO-APRENDIZAGEM DE LÍNGUAS 40 3 AS QUATRO HABILIDADES PARA A COMUNICAÇÃO: OUVIR, FALAR, LER E ESCREVER 49 INTRODUÇÃO DA UNIDADE 49 3.1 PRIMEIROS ANOS DE VIDA NA ESCOLA: O DESENVOLVIMENTO DE HABILIDADES LINGUÍSTICAS BÁSICAS 49 3.2 A SIMBOLIZAÇÃO E O RECONHECIMENTO DOS PRIMEIROS TEXTOS 53 3.3 O TEXTO COMO PRÁTICA SOCIAL: A LEITURA SOB A ÓPTICA DO TEXTO E DO LEITOR 57 3.4 PRÁTICAS DE INTERAÇÃO VERBAL E CONSTRUÇÃO DE LÉXICOS: ENTRE LEITOR E ESCRITOR 61 1UNIDADE 2UNIDADE 3UNIDADE 7MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 4 GÊNEROS TEXTUAIS E PRINCÍPIOS DE TEXTUALIDADE 67 INTRODUÇÃO DA UNIDADE 67 4.1 GÊNEROS TEXTUAIS E DISCURSIVOS NO COMPORTAMENTO SOCIAL 67 4.2 GÊNEROS TEXTUAIS NA ESCOLA 71 4.3 GÊNEROS TEXTUAIS E PRINCÍPIOS DE TEXTUALIDADE: HORIZONTES PARA A SALA DE AULA 77 4.4 TEXTUALIDADE E ESCRITA 80 5 ENSINO DE LITERATURA E PRODUÇÃO TEXTUAL 87 INTRODUÇÃO DA UNIDADE 87 5.1 LITERATURA INFANTO-JUVENIL 88 5.2 TÉCNICAS DE REDAÇÃO 90 5.3 LITERATURA E PRODUÇÃO TEXTUAL 93 5.4 A ARTE DE LER ORALMENTE E DE CONTAR HISTÓRIAS 95 5.5 A HORA E A VEZ DO CONTO 98 5.6 TEXTUALIDADE 100 6 NOVAS TECNOLOGIAS E METODOLOGIAS CONTEMPORÂNEAS NO ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA 105 INTRODUÇÃO DA UNIDADE 105 6.1 NOVAS TECNOLOGIAS PARA O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA 105 6.2 GÊNEROS DIGITAIS 108 6.3 METODOLOGIA CONTEMPORÂNEA PARA O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA 110 6.4 METODOLOGIAS ATIVAS 113 6.5 ATIVIDADES LÚDICAS PARA O ENSINO DA LÍNGUA PORTUGUESA 115 6.6 PLANEJAMENTO DE ATIVIDADES PARA O DESENVOLVIMENTO INTEGRAL DO ALUNO NO ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA 118 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 122 5UNIDADE 6UNIDADE 4UNIDADE 8 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 ATENÇÃO PARA SABER SAIBA MAIS ONDE PESQUISAR DICAS LEITURA COMPLEMENTAR GLOSSÁRIO ATIVIDADES DE APRENDIZAGEM CURIOSIDADES QUESTÕES ÁUDIOSMÍDIAS INTEGRADAS ANOTAÇÕES EXEMPLOS CITAÇÕES DOWNLOADS ICONOGRAFIA 9MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) APRESENTAÇÃO DA DISCIPLINA A disciplina Prática de Ensino V faz parte de um conjunto de saberes necessá- rios à atuação do professor de língua portuguesa. Como objetivo principal, es- peramos que, ao final desta disciplina, você seja capaz de entender e compre- ender as diferentes metodologias de ensino-aprendizagem de línguas, bem como ser capaz de desenvolver sensibilidade docente e identificar a realidade e as necessidades de aprendizagem de seus futuros alunos. Além disso, espe- ramos que você desenvolva fundamentação teórico-prática para se situar, en- quanto professor de língua portuguesa, frente as demandas da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNS). O conteúdo da disciplina Prática de Ensino V está centrado para a atuação do- cente no Ensino Fundamental, tendo em vista que esta é a etapa escolar em que os educandos desenvolvem diferentes habilidades e práticas de letramen- tos e multiletramentos. Além disso, essa etapa escolar é o momento em que o professor de língua portuguesa terá que lidar diretamente com as heteroge- neidades linguísticas provindas da educação básica e atuar como um agente direto no desenvolvimento e suprimento de habilidades e necessidades de aprendizagem linguística. Desejamos a você bons estudos e sucesso ao final dessa jornada! UNIDADE 1 > Organizar os conteúdos e encaminhamentos metodológicos para o ensino da língua portuguesa nos anos iniciais do ensino fundamental: oralidade, leitura e escrita. > Organizar os conteúdossão fundamentais para o seu sucesso! ANOTAÇÕES 47MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) UNIDADE 3 > Refletir a partir das quatro habilidades da língua e os diferentes gêneros discursivos do ensino de língua materna, tendo como base o texto como prática social; > Compreender o processo de leitura, considerando o texto e o leitor; > Reconhecer as categorias explicativas básicas dos processos linguísticos demonstrando domínio do léxico da língua. OBJETIVO Ao final desta unidade, você será capaz de: 48 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) 49MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) 3 AS QUATRO HABILIDADES PARA A COMUNICAÇÃO: OUVIR, FALAR, LER E ESCREVER INTRODUÇÃO DA UNIDADE Ao longo desta unidade, compreenderemos a língua como um objeto de es- tudo complexo que estrutura o desenvolvimento de habilidades linguísticas diversas, como a fala, escrita, leitura e audição. Além disso, desenvolveremos a percepção de que um texto, seja ele escrito, oral ou visual, é um construto dinâmico que sistematiza, espelha e rege as diferentes práticas sociais, tendo em vista que ele é lugar de memória e historicidade. Sob a óptica dos Estudos Linguísticos, estudaremos a leitura como um proces- so complexo que envolve leitor e escritor na percepção e ativação dos sentidos. Além disso, demonstraremos como o professor pode utilizar essas colocações teóricas para formular suas aulas e construir diferentes objetivos para a apren- dizagem linguística dos alunos. Esperamos que ao final desta etapa de estu- dos, você seja capaz de entender e compreender as categorias explicativas bá- sicas dos processos linguísticos e como elas estão conectadas com a produção lexical e geração de sentidos e percepções textuais. Bons Estudos! 3.1 PRIMEIROS ANOS DE VIDA NA ESCOLA: O DESENVOLVIMENTO DE HABILIDADES LINGUÍSTICAS BÁSICAS Existem muitas crenças em relação à aprendizagem de línguas nos anos ini- ciais da escola. A maior delas é que o aprendizado linguístico acontece segun- do a metáfora da escada, ou seja, primeiro a criança aprende a ouvir, depois a falar, ler e escrever. Pesquisas iniciadas em 1965 por Chomsky (1965), têm demonstrado que o desenvolvimento linguístico é algo muito mais complexo do que se prediz e que depende de habilidades amplas para ser desenca- deado, como a sociointeração, exposição do falante à contextos linguísticos e interculturalidade. 50 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 De acordo com Biderman (2001), os estudos do desenvolvimento linguístico avançaram muito no último século (XX), mas infelizmente, nos espaços escola- res, há um esforço precário e baixo para que professores se atualizem quanto as novas teorias e técnicas de abordagem do desenvolvimento linguístico. Para a autora, A linguagem, manifestando-se na fala, ou na escrita, constitui a nossa única fonte de acesso à realidade imaterial que é a língua. Nosso conhecimento sobre a estrutura e a realidade linguística será sempre precário porque a língua é uma realidade mental que, nos seus limites, se confunde com o próprio pensamento. Se quiser evitar a arbitrariedade nas suas deduções o estudioso dos problemas da linguagem terá que ascender da observação dos fatos da fala para concluir sobre os fatos da língua. (BIDERMAN, 2001, p. 3) Arbitrar sobre os fatos e fenômenos da linguagem é sempre arriscado, pois, a Ciência Linguística, em meio a suas inúmeras teorias de estudo, nos mostra que há diferentes interpretações sobre um mesmo fato linguístico sob a óptica de diferentes perspectivas de análise de um objeto estudado. Portanto, é pre- ciso entender a língua como um conjunto de multiplicidades e variantes que, independente das circunstâncias, constrói realidades humanas, que é, portan- to, um ponto chave do desenvolvimento linguístico na escola (RIOLFI, 2008). FIGURA 1: PRIMEIROS ANOS DO ENSINO FUNDAMENTAL Fonte: Plataforma Deduca (2019) 51MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) Quando a criança chega à escola é natural que ela tenha choques culturais nos primeiros anos do Ensino Fundamental. Se antes ela tinha um ciclo social restrito, agora ela começará a ter que conviver com várias crianças ao mesmo tempo. Precisará também aprender a dividir a atenção do professor (adulto presente) com todos os demais colegas. Espera-se que a criança entre na esco- la com a fala desenvolvida. Caso isso não ocorra os pais devem ser orientados a procurarem um fonoaudiólogo, pois a tarefa do professor nas séries iniciais é de colocar a criança em contato consigo, com a escrita e com a leitura das diferentes linguagens (Língua Materna, Matemática, História, etc.). FIGURA 2: DESENVOLVIMENTO DA PSICOMOTRICIDADE Fonte: Plataforma Deduca (2019) Os primeiros anos de aprendizagem escolar devem centrar-se no desenvolvi- mento da psicomotricidade e da preparação do corpo para novas rotinas. A educação física e exercícios de habilitação psicomotora são importantes neste momento, pois a criança aprenderá nessa fase a sentir o corpo e suas potencia- lidades. Aprender a rotina de ir ao banheiro, sentar-se, beber água, desenvolver o movimento pinça, aprender a escutar e falar nas horas certas, a recortar, a segurar no lápis a se portar na mesa e a respeitar os colegas também é parte do processo inicial de educação escolar. Afinal, o ambiente escolar não é como o ambiente familiar (CARDOSO, 2012). 52 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 FIGURA 3: DESENVOLVIMENTO DA ESCRITA Fonte: Plataforma Deduca (2019) A segunda fase da aquisição da linguagem acontece com o desenvolvimento da escrita. Ensinar a escrever requer que a psicomotricidade da criança já es- teja em processo de desenvolvimento. Inicialmente a criança deverá entender que há uma forma adequada de segurar no lápis. Para ajudá-la é bom criar espaços para que ela faça diferentes rabiscos até que se acostume a segurar no lápis. Em seguida, a criança deverá entender que os riscos feitos pelo lápis são símbolos e que eles representam alguma coisa. Nesta fase é normal que a criança queira desenhar a casa, a família, os amigos, a escola etc. Sempre que a criança desenhar é importante que o professor pergunte a ela o que repre- senta o que está no desenho. É por esse mecanismo de interação que ela vai desenvolvendo a habilidade de simbolização (CARDOSO, 2012). Mídias integradas Entenda mais sobre os estranhamentos da criança nos primeiros anos da escola assistindo ao documentário “Os primeiros anos da escola” (https://www.youtube.com/watch?v=ejaeTCTeatY) produzido pela TV Univesp. https://www.youtube.com/watch?v=ejaeTCTeatY 53MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) 3.2 A SIMBOLIZAÇÃO E O RECONHECIMENTO DOS PRIMEIROS TEXTOS FIGURA 4: PROCESSO DE SIMBOLIZAÇÃO Fonte: Plataforma Deduca (2019) Quando a criança começar a aprender as letras, ela deverá entender que cada- letra representa um som e que esses sons geralmente são próximos aos sons da língua que usamos. Nesse momento, é importante que o professor escreva sequências de palavras que iniciam com a letra estudada e faça a criança repetir e entender que o som de [a] está na palavra amor, amora, água, avião e tantas outras palavras do universo da criança. Assim, ele deve proceder com o alfabeto. Em seguida, deve trabalhar com o reconhecimento de morfemas e saber usar palavras dissílabas (duas silabas),depois trissílabas (três sílabas) até que a crian- ça consiga reconhecer morfemas de palavras grandes. 54 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Exemplo Por exemplo, para trabalhar o som do [b], o professor pode construir listas de palavras a partir de bola, bebê, balé, bicho, em seguida, banana, boneca, balanço, bengala, e por fim palavras como bebedouro, benefício, bifurcação. Importará nesse momento, também, o exercício de explicação do professor sobre o sentido de cada palavra. O que está em jogo, não é só a aprendizagem do som, mas a assimilação de som, morfema, palavra, símbolo e sentido. É imprescindível que as palavras usadas como exemplo sonoro sejam do contexto social do aluno. Uma criança que não passar por este processo de simbolização dificilmente aprenderá a ler e escrever entendendo o que leu e o que escreveu (LEMLE, 2003). FIGURA 5: CONSTRUÇÃO DAS PALAVRAS Fonte: Plataforma Deduca (2019). Quando a criança aprender a simbolizar os sons dos morfemas, é hora dela aprender os grafemas, ou seja, que cada unidade da palavra, além de um som, 55MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) tem um sentido e simboliza algo. Neste momento começa a fazer de cons- trução das palavras. O professor pode fazer diferentes grafemas em pequenos blocos e pedir que os alunos organizem esses blocos formando palavras. É importante, mais uma vez representar o que significa cada palavra. Bala não é apenas um som, mas é uma palavra composta de dois grafemas que representa um doce que consumimos em diferentes ocasiões. O que tem faltado hoje em nossas escolas de educação básica é a simboliza- ção das palavras. Quando a criança começar a escrever as primeiras palavras, é chegada a hora de ensinar a construir as primeiras frases. É importante o pro- fessor fazer uso do tempo presente, futuro, passado, e, em seguida, usar os de- mais tempos verbais. Deve-se lembrar que não é viável avançar para um novo tempo verbal, se a criança não conseguiu ainda assimilar a escrita e a leitura dos tempos verbais iniciais. Vale lembrar que a criança deverá aprender que toda frase inicia com letra maiúscula e termina com letra minúscula e um sinal de pontuação (LEMLE, 2003). FIGURA 6: DOMÍNIO DA ESCRITA Fonte: Plataforma Deduca (2019). É importante, também, a criança aprender a situar-se na folha de papel. Deve ser instruída a escrever da esquerda para direita, de cima para baixo, a respei- 56 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 tar a simetria das linhas e o seu tamanho. Comece a instigá-la a escrever pe- quenas frases, em seguida, parágrafos e, por fim, pequenos textos. Aprender a ler e escrever é um processo que acontece junto, mas é só após o domínio da escrita que a criança começa a entender melhor a relação simbólica e começa a pensar no que é lido. Neste momento é a hora de aprimorar a leitura. O pro- fessor deve contar histórias e depois instigar os alunos a ler histórias. É importante salientar que os primeiros anos de aprendizagem linguística na escola não seguem uma perfeição homogênea entre os alunos. Como dissemos anteriormente, o desenvolvimento de cada um dependerá, também, da exposição linguística que esses alunos têm em casa e nos ambientes culturais em que convivem. Essa convivência linguística, não diz respeito ao contato com a cultura clássica e erudita, do contrário, diz respeito a vivência em contextos diversos que ajudem a criança a desenvolver diferentes percepções de situações comunicativas e sociais. A criança deve ter e estar em contato direto com todo e qualquer tipo de realização linguística como, por exemplo: música e seus diferentes gêneros musicais; dança e seus diferentes estilos; artes plásticas; artes visuais e teatro; televisão e seus diferentes programas televisivos; virtualidade e seus diferen- tes aparelhos de interação (computador, celular, tablet, videogame etc.); livros e seus diferentes estilos literários e textuais; vivências reais de linguagem em diferentes contextos (padaria, supermercado, feira, igreja, reunião de família, silêncio, barulho etc.). Quanto menos a criança for limitada e privada de expe- riências linguísticas, mais habilidades com a linguagem ela terá (LEAL; SUAS- SUNA, 2014). Hoje, com os hábitos da vida moderna, infelizmente muitos pais ofertam tec- nologias digitais como celulares e tablets para a criança como uma ferramenta de cárcere e silêncio. É preciso alertar aos pais que, a criança não pode ficar restrita a este tipo de contato linguístico e que todos os outros meandros de contexto com a língua são importantes para que ela desenvolva a sua forma- ção social da mente. Não estamos dizendo, com isso, que a criança não deve ter acesso a tablets e celulares, do contrário, alertamos, apenas, ao fato de que ela não pode ter só acesso a essas tecnologias ao longo de seu desenvolvi- mento infantil e que não deve ser cerceada de conviver, pois a convivência em diferentes contextos é imprescindível para que ela desenvolva a linguagem e tenha acesso aos meios formais e saudáveis de educação e vida. 57MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) Biderman (2001) nos ajuda a pensar o desenvolvimento linguístico como uma pista de corredores. A língua assemelha-se a uma pista de corredores onde uns já ultrapassaram a barreira de chegada, outros acabam de atingi-la e outros vem chegando. O observador não vê apenas a linha de chegada e aqueles que ali estão no momento; se ele se interessa pela corrida como tal, acompanhará a competição no seu todo. (BIDERMAN, 2001, p.15) Como professor, é imprescindível que nos coloquemos no lugar de observador do desenvolvimento linguístico de nossos alunos. Mais ainda, devemos criar contextos de vivência e realização linguística para que eles consigam passar pela “pista de corredores” como verdadeiros atletas de linguagem, que não jogam apenas uma aposta de aprendizagem, mas aproveitam do percurso traçado para desenvolverem-se e aprendem a superar desafios. Cada palavra nova que aprendemos cria uma nova rede neuronal que reestrutura toda a nossa linguagem e nos faz, em um processo contínuo e vitalício, evoluir (CHA- GAS, 2016). Mídias integradas Assista ao vídeo “Leitura e Produção de Textos na Alfabetização” (https://www.youtube.com/ watch?v=Gf8f4V9i2yA) e entenda um pouco mais sobre como acontecem as primeiras fases do processo de simbolização. 3.3 O TEXTO COMO PRÁTICA SOCIAL: A LEITURA SOB A ÓPTICA DO TEXTO E DO LEITOR O mundo humano, a construção de valores, ideias, ideologias e histórias só é possível graças a linguagem. É na e pela linguagem que construímos práticas sociais e nos constituímos como seres humanos. Sem ela não é possível nos organizar em sociedade e, tampouco transformá-la de acordo com as novas demandas da natureza e dos desejos humanos (RIOLFI, 2008). Os traços, as marcas e os rastros de nossas existências e experiências de lin- guagem concebem sistemas de comunicação e interação verbal, que, por sua vez, sistematizam textos, sejam eles orais, escritos ou virtuais. Os textos são ele- mentos simbólicos codificados em língua que representam nossa maneira de https://www.youtube.com/watch?v=Gf8f4V9i2yA https://www.youtube.com/watch?v=Gf8f4V9i2yA 58 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 estruturar o pensamento e, evidentemente, de pensar. Ao longo de nossas vi- vências, muitas vezes sequer damos conta de que reproduzimos e nos move- mos com fundamentação em textos que estão marcados e cindidos em nossa constituição identitária. Se o textoenvolve e alimenta a materialização de nossos pensamentos em linguagem e realização atitudinal, é preciso dizer que ler e escrever vai muito além de dominar técnicas literárias e de estruturação textual. Ler e escrever pressupõe perceber, compreender e (re)elaborar fatos que constroem modos de pensar a respeito do mundo e das coisas que este mundo estrutura. Mais ainda, envolve explorar a própria subjetividade e (re)atribuir sentido a nós mes- mos, ao mundo em que vivemos e aos outros que compõem as sociedades que fazem parte de nossa existência (COSTA; SALCES, 2013). O que pouca gente sabe, entretanto, é que só há uma maneira de se tornar um agente ativo na sociedade: lendo e escrevendo. Isso acontece porque a leitura e a escrita são as únicas formas que temos de registrar pensamentos e, com isso, reestruturar e reinterpretar antigos textos e ideias sobre as coisas. Na quali- dade de cidadão, em um mundo cada vez mais uno e virtual, em que cada um é agente de sua própria instrução, nunca se precisou tanto de ler e escrever. FIGURA 7: BENEFÍCIOS DA LEITURA E ESCRITA Fonte: Plataforma Deduca 59MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) Para entendermos o quanto a escrita e a leitura estão ligadas à cidadania, va- mos relatar alguns exemplos simples do nosso dia a dia em que eles são fun- damentais para que possamos ter acesso aos bens sociais. Exemplo 1 Há aproximadamente 5 anos, para conseguir uma consulta médica com especialistas através do Sistema Único de Saúde (S.U.S.) as pessoas da cidade de Uberlândia-MG precisavam madrugar na porta de postos de saúde e policlínicas e esperar durante horas a reserva de uma senha. Muitas vezes, o responsável pela distribuição de senhas agendava a consulta em horários em que o cidadão não poderia comparecer. O que era mais dificultoso, também, era que nem sempre havia senhas para todos, o que gerava desgastes e até mesmo descaso na saúde pública. Com o avanço dos sistemas virtuais de comunicação, a prefeitura da cidade adotou agendas online para que a população consiga agendar automaticamente suas demandas na área da saúde. O procedimento de saúde, hoje, é todo feito eletronicamente e exige ler formulário e preencher de forma escrita alguns dados. Aqueles que têm leitura e escrita desenvolvidos conseguem instantaneamente agendar seus procedimentos médicos nos horários que melhor lhes atende e, com eficácia, comparecerem às consultas médicas. Já os que não dominam a leitura e a escrita, ficam dependentes de outras pessoas, que nem sempre fazem o preenchimento dos formulários adequadamente e repassam as informações necessárias ao cidadão, o que faz com que ele tenha prejuízos maiores durante o procedimento de agendamento das consultas, como, atrasos, realocação de setores médicos, dentre outros. Há ainda os resistentes à tecnologia, que continuam indo aos postos de saúde para agendar as consultas, enquanto o procedimento seguido é o mesmo que ele poderia fazer de casa. 60 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Exemplo 2 Hoje a maioria dos documentos são solicitados eletronicamente. Como o Governo Federal e Governos Estaduais unificaram seus bancos de dados cadastrais é possível agilizar o processo de reconhecimento de digitais e de caracterização pessoal. O procedimento para solicitação dos documentos é longo e complexo, mas se for feito eletronicamente via internet, o cidadão economiza horas de fila para fazer a checagem dos dados e a retirada do documento. Tem sido possível, até mesmo, agendar o horário de retirada do documento solicitado, o que é de grande valia para pessoas que trabalham e não podem comparecer presencialmente em uma agência ou terminal de atendimento documental. Contudo, o cidadão que não sabe ler e escrever dificilmente terá acesso a esse mecanismo que melhora e aprimora os modos de vida dos cidadãos que vivem em uma determinada comunidade. Uma boa referência para entender como esse sistema funciona é consultar o site do portal do Governo de Minas Gerais (https://www.mg.gov.br/conteudo/geral/agendamento-online-gratuito), basta ler o passo a passo para dar encaminhamento às solicitações. Exemplo 3 Um último exemplo e, talvez o mais presente na vida dos brasileiros, são os serviços de atendimento bancário que hoje são quase todos informatizados e eletrônicos. De um aparelho celular, basta seguir as orientações escritas em comandos, que é possível fazer a maioria dos procedimentos bancários que se faz em uma agência presencial. . Há, inclusive agências que são, 100% digitais e realizam todos os seus procedimentos online e, por isso, cobram taxas bancárias bem menores. O cidadão que não conhece, compreende, estuda e atribui sentido às práticas bancárias, dificilmente saberá ler e compreender o que está em uma plataforma digital de um banco. Pior ainda, não conseguirá escrever o que lhe é demandado e pode, inclusive, cair em fraudes bancárias com facilidade, por ter uma leitura generalizada sobre as coisas https://www.mg.gov.br/conteudo/geral/agendamento-online-gratuito 61MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) tem sido um meandro oficial legal que visa pleitear uma nova concepção do que é leitura e escrita e como ela está inserida nos meios sociais (BRASIL, 2018). Mais ainda, a BNCC, visa des- construir antigas visões de padrão de leitura e escrita como decodificação e produção de obras clássicas e estrangeirismos de pompa, para possibilitar o aprimoramento do ensino-aprendizagem de leitura e escrita na escola, tendo em vista a importância delas como agentes de produção cidadã no mundo contemporâneo. Como bem colocam Costa e Salces (2013): Vivemos em uma sociedade letrada na qual a leitura e a escrita são a base da comunicação e habilidades fundamentais de interação com o mundo que estamos inseridos, podendo ser consideradas condições necessárias para a sobrevivência. Nesse sentido, a leitura não pode ser entendida apenas como uma atividade escolar, mas sim como uma importante atividade de participação plena e consciente na vida pessoal, acadêmica, profissional e social do indivíduo. (COSTA; SALCES, 2013, p. 10) Além de ampla conscientização sobre a leitura é importante entender que a construção da aprendizagem de leitura e escrita é contínua e inacabada, tendo em vista que ler e escrever não está relacionado apenas à textos escritos, mas a percepção e codificação do mundo. Como a tendência é evoluirmos, estamos em constante aprimoramento no processo de construção e concepção de lei- tura e escrita, já que os meios como produzimos e consumimos informação se modificam e constroem novos gêneros textuais e modos leitura e significação. 3.4 PRÁTICAS DE INTERAÇÃO VERBAL E CONSTRUÇÃO DE LÉXICOS: ENTRE LEITOR E ESCRITOR Os diferentes sentidos que permeiam um texto são construídos na interação entre autor-texto-leitor (RIOLFI, 2008; LEAL; SUASSUNA, 2014). Partindo de uma noção interacional e dialógica da língua, leitor e autor são interlocutores ativos no processo de construção do sentido. Sendo assim, a leitura é uma atividade complexa, interativa, social, cidadã e crítica, pois não basta o autor codificar e o leitor decodificar o que foi escrito. É preciso ir além, pois quem escreve, nunca sabe por quem seu texto será lido, tampouco quem lê conhece bem quem escreveu o texto. Antigamente, existia um preciosismo por parte de alguns intelectuais em re- afirmar o que foi escrito por autores clássicos, mas quando os estudos em te- 62 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 oria literária começarama contrastar o que era dito sobre o texto pelos leito- res e pelos escritores, começaram a entender que o processo de concepção e construção do sentido é diverso e que, muitas vezes, o leitor constrói sentidos completamente diferentes dos que o escritor empenhou na elaboração de um texto. Costa e Salces (2013), resumem bem essa asserção. A construção de sentido de um texto não é produto exclusivo de seu autor, sendo o leitor, também, responsável pela produção de sentidos. Ou seja, o texto é lugar de interação entre leitor e o autor do texto, cuja legibilidade depende não só da coesão gramatical, da coerência de ideias e da sinalização de tópicos, mas também da relação do leitor com o texto e com o autor. (COSTA; SALCES, 2013, p.12) Exemplo O professor recorta uma notícia do jornal e leva para fundamentar a estruturação de uma aula. Antes de apresentar o texto, o professor questiona os alunos se eles viram o jornal, se sabem o que está acontecendo em tal lugar, e em um referido momento. Em seguida, distribui o texto para os alunos e lê com eles. Em uma segunda leitura, rastreia trechos do texto que são familiares aos alunos e procura contribuir com debates diversos a respeito desses localizadores. Por fim, pode pedir aos alunos que pesquisem em seus celulares ou na internet novidades em relação ao desfecho do fato apresentado na notícia. Há pouco tempo, professores do Ensino Fundamental demonstravam resistência sobre o uso da internet em sala de aula, mas hoje, pesquisas têm mostrado perspectivas para lidar com a tecnologia de forma positiva (CHAGAS, 2013). Além de usar o celular, o professor pode fazer uma comparação entre as diferentes versões que se tem da notícia e como os jornais constroem os discursos que fundamentam as mesmas. Conscientizar aos alunos sobre a importância de desenvolver diferentes pontos de vista sobre um assunto é fundamental para ampliar a habilidade de leitura. Enquanto trabalha o desenvolvimento da leitura, o professor poderá, também, desenvolver outras competências, como fala, audição e sociointeração. Demarcar tempo de fala e silêncio para escutar aos colegas são imprescindíveis para a educação linguística. 63MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) Para abordar um texto, o professor sempre deve estimular aos alunos a pes- quisar a história do texto, ou seja, o contexto de produção, o tempo, o meio de publicação e as características dos discursos daquela época. Só depois deve adentrar na leitura e na sinalização de pistas ali presentes que refratam o con- texto de produção textual. Deve, também, sinalizar na contemporaneidade pontes de sentido que aquele texto pode construir. Outro ponto que deve ser abordado na escola é a escrita responsável. Hoje, com o intenso uso de meios digitais, como veículos de expressão, a escrita tem sido usada como uma ferramenta dupla de ação social: • de um lado, você tem mais liberdade para se expressar e ser lido, atingindo grandes parcelas sociais; • de outro, você pode ser criminalmente e autoralmente responsabilizado pelo que expressa enquanto escreve. O professor deverá sempre construir essa responsabilidade crítica nos alunos fazendo anotações nos textos escritos e questionando a eles quanto a susten- tação dos argumentos elencados. Curiosidade Lembrando que questionar não é impor verdades, mas construir interrogações ao entorno de uma ideia procurando estabelecer diferentes pontos de vista sobre uma afirmação ou racionalidade. A arte de interrogar, é fundamental para o desenvolvimento da escrita e para a geração de ideias e pensamentos que podem ser materializados por um texto. Muitas aulas de escrita caem no insucesso na fase escolar, porque os professo- res demandam aos alunos que escrevam textos aleatoriamente sem um de- bate prévio. Debater em sala de aula não é desperdiçar tempo, mas é prover conhecimento de mundo que possibilite aos alunos construir possibilidades e entendimentos a respeito da multiplicidade de sentidos que podem estar conectadas a um mesmo eixo temático. 64 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Como afirma a BNCC, as novas políticas de ensino de língua na escola, preve- em que o professor deve trabalhar com materiais autênticos, ou seja, textos que estão presentes no dia a dia dos alunos ao longo de suas vivências. Dar diferentes interpretações para esses textos auxiliará aos alunos a entenderem a complexidade preexistente no mundo e como ela é representava e represen- tativa pela linguagem. Mídias integradas Entenda mais sobre a relação entre escrita, leitura, fala e oralidade a partir do documentário proposto pela Prof. Dra. Ângela Dionísio e o Prof. Dr. Luiz Antônio Marcuschi. Fala e Escrita – Parte 1 https://www.youtube.com/watch?v=XOzoVHyiDew Fala e Escrita – Parte 2 https://www.youtube.com/watch?v=6y9xK-9bbcw Fala e Escrita – Parte 3 https://www.youtube.com/watch?v=UqSfGyR1ERA Não confundir disciplina com desenvolvimento da oralidade e audição tam- bém é um ponto importante para o professor. O silêncio e a fala não é algo que acontece espontaneamente, eles devem ser incentivados e desenvolvidos. Vivemos em uma época de barulhos e conversas simultâneas. É natural que os alunos tenham clima de efervescência em sala de aula, mas a criação de acor- dos e contratos educacionais com cada turma para que criem suas próprias regras, e para que o professor tenha condição de negociar turnos de silêncio com os alunos é uma maneira de construir competências de oralidade. É imprescindível que a sala de aula do século XXI seja um espaço de colabora- ção e interatividade. Deve haver, sim, diálogo, mas deve também haver escuta. Ou seja, o silenciar não é o mesmo que escutar. Aquele que está silente, não consegue interagir e negociar sentidos com aqueles que estão no turno de voz. O desenvolvimento da fala e a audição serão os dois grandes desafios para o professor de língua portuguesa nos próximos anos, pois com a universalização da escrita, hoje é possível que as crianças tenham mais acesso ao escrito do que o falado no dia a dia. https://www.youtube.com/watch?v=XOzoVHyiDew https://www.youtube.com/watch?v=6y9xK-9bbcw https://www.youtube.com/watch?v=UqSfGyR1ERA 65MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) Diante disso, como interpretar e analisar o que é dito? Como construir sentido sobre os diferentes dizeres que estão dispersos por aí? Como, também, produ- zir dizeres que sejam construtores de pensamentos e ideias relevantes? Essas são perguntas ainda sem respostas, mas que servem como direcionamento reflexivo para que os professores em formação, proponham horizontes para os desafios de uma contemporaneidade que está por devir. CONCLUSÃO Ao longo dessa unidade, compreendemos quais são as principais habilidades linguísticas existentes no percurso humano. Além disso, foi possível entender qual é o papel da escola na assunção dessas habilidades, bem como as abor- dagens didáticas que podem ser desenvolvidas pelo professor ao longo do per- curso de educação linguística. Nesse contexto, estudamos o processo de desenvolvimento da leitura e o pa- pel do leitor e do escritor na geração de sentidos. Não obstante, analisamos as principais categorias explicativas dos processos linguísticos envolvidos na leitu- ra e como eles estão relacionados ao domínio do léxico e produção de sentidos existente e estruturantes de uma língua. Encerramos a unidade abordando aspectos gerais sobre a fala e a audição, que são habilidades linguísticas pouco trabalhadas na escola, mas que no futuro terão sua importância, já que, hoje, a maioria das informações que chegam até nós são acessadas por meios escritos. Esperamos que asreflexões trilhadas ao longo dessa unidade sirvam de subsídios gerais para o seu crescimento e amadurecimento como professor em formação de hoje, e que, no futuro, você possa contribuir com o aprimoramento do Ensino de Língua Portuguesa no contexto brasileiro! UNIDADE 4 > Reconhecer, em textos de diferentes gêneros, recursos verbais e não verbais utilizados com a finalidade de criar e mudar comportamentos e hábitos. > Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos. > Inferir em um texto quais são os objetivos de seu produtor e quem é seu público-alvo, pela análise dos procedimentos argumentativos utilizados. > Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público, tais como a intimidação, sedução, comoção, chantagem, entre outras. OBJETIVO Ao final desta unidade, você será capaz de: 66 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) 67MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) 4 GÊNEROS TEXTUAIS E PRINCÍPIOS DE TEXTUALIDADE INTRODUÇÃO DA UNIDADE No decorrer desta unidade, abordaremos um elemento importantíssimo nas aulas de língua portuguesa: a relação entre desenvolvimento linguístico e cida- dania. Para tanto, faremos um pequeno repertório epistemológico dos estudos discursivos procurando entender em que medida a língua tem relação com a história, memória, cultura e acervo social de um povo. Em seguida, falaremos mais especificamente sobre os gêneros textuais e gê- neros do discurso. Embora sejam parecidos, esses dois elementos são diferen- tes e compõe, ainda em um terceiro: os elementos textuais. Estudar, conhecer e saber analisar os diferentes gêneros textuais é um pré-requisito para um pro- fessor de Língua Portuguesa, pois este é um saber fundamental para a mobili- zação do desenvolvimento de habilidades linguísticas de seus alunos. É imprescindível relembrar que os modelos de Educação Linguística e de Ensi- no de Línguas no Brasil têm mudado positivamente nas últimas décadas, após o lançamento dos PCNs e da Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Falaremos um pouco mais sobre essas questões e esperamos que você tenha oportuni- dade de aprender, refletir e, principalmente se inteirar sobre a multiplicidade de questões envolvidas nos gêneros textuais e nos princípios de textualidade. 4.1 GÊNEROS TEXTUAIS E DISCURSIVOS NO COMPORTAMENTO SOCIAL Falar de língua é falar de sociedade. É a língua que rege, constrói, formata, or- ganiza e sustenta as mais diversas historicidades que compõem as origens e hábitos de um povo. Sendo assim, estudar a língua é fundamental para que possamos entender um pouco mais a cultura e povo do qual nos originamos e, principalmente, pensarmos em um conceito chave de qualquer sociedade: a cidadania. 68 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 A palavra cidadania começou a ser usada na Grécia (400 a.C.) para designar os povos nascidos no território grego. Anos mais tarde, em Roma (400 d.C.), a palavra cidadania passou a ser empregada para caracterizar a situação política e de poder que alguém tinha. Era usada também para caracterizar os direitos e deveres que uma pessoa tinha enquanto membro de uma sociedade. Juridicamente, cidadania indica a qualidade de ser cidadão, ou seja, sujeito, que pela capacidade de ser político age em prol de seus direitos e no cumprimento de seus deveres. Sendo assim, o cidadão deve participar efetivamente do Estado e não ser um mero passivo de direitos e cidadania. Sendo assim, é dever do cidadão zelar pelo bem público, bem como pelo espírito de comunidade. O conhecimento da língua e das diferentes manifestações da linguagem que compõem a interação social são fundamentais para que alguém possa participar socialmente e politicamente em um grupo de cidadãos. É preciso saber em que contexto falar, como falar, quais estratégias linguísticas usar para convencer alguém para que alguém possa, de fato, exercer sua cidadania, ou seja, seus direitos e deveres. O ensino de línguas na escola deve conter, portanto, a cidadania como centralidade. O conceito de cidadania, embora pareça recente no âmbito educacional bra- sileiro, passou a ser contemplado nesse escopo a partir da criação da Lei de 69MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 20 de dezembro de 1996. No ar- tigo de número 2, está escrito que a educação, entre demais intuitos, “tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” (BRASIL, 1998). Conforme Gue- des (1997, p. 1) o ensino de Língua Portuguesa tem um papel fundamental para atingirmos o objetivo educacional de cidadania na escola. Segundo o autor, Nenhum dos outros conteúdos processados na escola quanto a língua que falamos e nenhuma outra das habilidades nela desenvolvidas quanto ao uso que fazemos da língua que falamos estão tão intimamente vinculados à vida pessoal e social de cada um de nós, dentro da escola ou fora dela. Nosso aprendizado a respeito da adequada forma de interagir verbalmente é parte integrante do nosso processo pessoal de aquisição da linguagem, que é parte integrante de nossa construção pessoal como ser humano em interação com outros seres humanos. Desde muito cedo, percebemos que nem sempre as pessoas falam para transmitir informações e quase sempre falam para nos informar a respeito da posição que ocupam ou acham que ocupam. E é desse modo que aprendemos a falar para sermos ouvidos e respeitados: a habilidade de produzir efeitos sobre nossos interlocutores desenvolve-se como parte do processo de aquisição da linguagem. (GUEDES, 1997, p. 1) O processo de aquisição de linguagem é permeado de atos políticos. Ao longo do processo de desenvolvimento da linguagem aprendemos o que falar, que hora falar, em que contexto pode-se falar algo, para quem eu devo me dirigir mais formalmente, com quem eu tenho mais liberdade para me expressar. Enfim, são muitas variáveis que estão para além da escrita, leitura e fala. Nesse contexto, o professor de línguas é aquele que também ensina ao aluno a pen- sar a partir das palavras (BATTISTI; SILVA, 2017). O léxico e a sintaxe são meros elementos materiais da linguagem e que, por isso, nada mais são do que representações de um dizer. Nesse sentido, é preci- so instigar aos alunos adentrarem às sombras da linguagem e aos aspectos se- mânticos e semióticos envoltos na aquisição de linguagem. Instigar os alunos a questionarem e a se indagarem em relação ao que têm acesso pela linguagem é convidá-los a imergirem nas diferentes redes discursivas que estruturam e regem a memória que compõe o mundo em que vivemos. Essa memória é, por si, uma memória discursiva, ou seja, estrutura, molda e constrói parâmetros conscientes e inconscientes de comunicação aos quais vamos tendo acesso na medida em que vamos adquirindo e desenvolvendo a linguagem. 70 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 É a linguagem que constrói, reconstrói, elabora e reelabora a memória discur- siva e ter acesso às diferentes redes discursivas que compõe as memórias tem inteira relação com a experiência de linguagem que alguém consegue desen- volver. Nesse sentido, não adianta só conhecer, eu preciso também vivenciá-la e internalizá-la em meu eu. É preciso que uma nova palavra, uma nova sensa- ção e um novo sentido abram novas redes e circuitos neuronais naquele que experiência a nova palavra, a nova frase, a nova estrutura gramatical, o novocontexto de uso vocabular (CHAGAS, 2016). Exemplo Por exemplo: quando alguém morre e é velado no Brasil, os visitantes do velório não vão se despedir do féretro de biquini, calção de banho e camiseta regata. Caso isso aconteça, as pessoas que estão à volta acharão estranho. Ou seja, temos aqui um gênero discursivo que inconscientemente molda as relações sociais, processo esse que se dá pela linguagem. O biquini, o calção de banho e a camiseta regata, embora não sejam textos verbais, são exemplos de textos visuais (não verbais) que têm representatividade. Suas cores, o contexto em que são usados são elementos simbólicos e, portanto, representativos de sentido ou conteúdo. Outro exemplo que podemos dar é, se no velório em questão, o padre ou pastor resolvesse encomendar uma música estilo roque pauleira para fazer a benção, todos achariam estranho, já que no contexto enunciativo de um velório, o que paira são materialidades linguísticas silenciosas e introvertidas. Quando somos invadidos pela linguagem a partir de uma nova experiência, ela funda em nós traços de identidade. Passamos a ter saudade, a relembrar, 71MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) e a nos imaginar nos momentos e sensações que uma palavra nos possibili- tou viver. As regularidades que caracterizam o contexto de uso da língua são chamadas de gêneros do discurso e a materialização dessas regularidades em língua é chamada de texto (BAKHTIN, 2003). Podemos dizer que os gêneros discursivos são estruturas de memória discursi- va muito conhecidas por nós, mesmo que não nos deixamos dar conta de sua existência. Os textos representativos de um gênero constroem esferas discursivas e vice- -versa. Por exemplo, notícias, reportagens, carta de opinião, e editoriais compõe a mídia jornalística, assim como não se pode falar em mídia jornalística sem estes. Os gêneros do discurso e os gêneros textuais não se dissociam um do ou- tro. Além disso, são compostos por forma, tema e estilo linguístico (BAKHTIN, 2003). Ou seja, um determinado tema ou enunciado só se realiza a partir de um determinado estilo e de uma forma de composição específica. Uma carta de amor não pode ser escrita nos moldes dos discursos de Adolf Hitler, bem como não pode ser grafada no papel no formato de um artigo científico. Mídias integradas A teoria dos gêneros discursivos é complexa, mas deve ser parte dos saberes de um professor de línguas. Assista ao vídeo Gêneros do Discurso para conhecer um pouco mais como a prática dos gêneros discursivos podem propiciar formação cidadã na escola. https://tvcultura.com.br/videos/37258_d-17-os- generos-do-discurso.html 4.2 GÊNEROS TEXTUAIS NA ESCOLA A escola brasileira tem sido norteada pela Lei de Diretrizes e Bases da Edu- cação Nacional (LDB) desde 1996. O documento foi de grande ganho para a educação do país, pois orienta professores, escolas e secretarias de educação a regimentarem e a organizarem seus modelos de educação. Além disso, a LDB (1996) estabelece a criação de Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) que se https://tvcultura.com.br/videos/37258_d-17-os-generos-do-discurso.html https://tvcultura.com.br/videos/37258_d-17-os-generos-do-discurso.html 72 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 constitui de um documento com objetivos do desenvolvimento educacional. Vamos conhecer um pouco mais sobre esses objetivos: TABELA 1: OBJETIVOS DO ENSINO FUNDAMENTAL SEGUNDO OS PCNS. • Compreender a cidadania como participação social e política, assim como exercício de direitos e deveres políticos, civis e sociais, adotando, no dia a dia, atitudes de solidariedade, cooperação e repúdio às injustiças, respei- tando o outro e exigindo para si o mesmo respeito; • posicionar-se de maneira crítica, responsável e construtiva nas diferentes situações sociais, utilizando o diálogo como forma de mediar conflitos e de tomar decisões coletivas; • conhecer características fundamentais do Brasil nas dimensões sociais, materiais e culturais como meio para construir progressivamente a noção de identidade nacional e pessoal e o sentimento de pertinência ao país; • conhecer e valorizar a pluralidade do patrimônio sociocultural brasileiro, bem como aspectos socioculturais de outros povos e nações, posicionan- do-se contra qualquer discriminação baseada em diferenças culturais, de classe social, de crenças, de sexo, de etnia ou outras características indivi- duais e sociais; • perceber-se integrante, dependente e agente transformador do ambien- te, identificando seus elementos e as interações entre eles, contribuindo ativamente para a melhoria do meio ambiente; • desenvolver o conhecimento ajustado de si mesmo e o sentimento de confiança em suas capacidades afetiva, física, cognitiva, ética, estética, de inter-relação pessoal e de inserção social, para agir com perseverança na busca de conhecimento e no exercício da cidadania; • conhecer o próprio corpo e dele cuidar, valorizando e adotando hábitos saudáveis como um dos aspectos básicos da qualidade de vida e agindo com responsabilidade em relação à sua saúde e à saúde coletiva; • utilizar as diferentes linguagens verbal, musical, matemática, gráfica, plásti- ca e corporal como meio para produzir, expressar e comunicar suas ideias, interpretar e usufruir das produções culturais, em contextos públicos e pri- vados, atendendo a diferentes intenções e situações de comunicação; 73MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) • saber utilizar diferentes fontes de informação e recursos tecnológicos para adquirir e construir conhecimentos; • questionar a realidade formulando-se problemas e tratando de resolvê- -los, utilizando para isso o pensamento lógico, a criatividade, a intuição, a capacidade de análise crítica, selecionando procedimentos e verificando sua adequação. Fonte: BRASIL (1998, p. 21). Ao observarmos os objetivos do Ensino Fundamental, percebemos que há ne- les uma transversalidade, ou seja, um objetivo se liga ao outro, criando assim uma ideia de educação processual. É como se um objetivo fosse levando ao outro, de modo que ao final, possamos ter uma noção de desenvolvimento complexo. Em sua centralidade, esses objetivos são norteadores de todas as disciplinas, inclusive a disciplina de Língua Portuguesa. De todo modo, o professor de Língua Por- tuguesa, deve estar sempre ancorado nos princípios de Educação Linguística para que possamos, aos poucos, romper com o mito de ensino ideal de línguas, ainda arraigado em um modelo de educação colonizadora. Como bem sustentam os PCNs: O domínio da linguagem, como atividade discursiva e cognitiva, e o domínio da língua, como sistema simbólico utilizado por uma comunidade linguística, são condições de possibilidade de plena participação social. Pela linguagem os homens e as mulheres se comunicam, têm acesso à informação, expressam e defendem pontos de vista, partilham ou constroem visões de mundo, produzem cultura. Assim, um projeto educativo comprometido com a democratização social e cultural atribui à escola a função e a responsabilidade de contribuir para garantir a todos os alunos o acesso aos saberes linguísticos necessários para o exercício da cidadania. (BRASIL, 1998, p. 19) Promover acesso aos saberes linguísticos necessários para cidadania diz respeito à Questões Mas por que, então, muitas aulas de Língua Portuguesa do ensino fundamental têm se reduzido ao ensino da gramática pura e bruta? Muitas respostas cabem aqui, mas a que mais prevalece é a que muitos professores desconhecem os PCNs e quando conhecem, os setores pedagógicos da escola, que muitas vezes não têm formação em Linguística, cobram desse professorantigas práticas de ensino tradicionalista de gramática. 74 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 uma educação libertadora (FREIRE, 1979), que traga consigo a gramática como suporte de reflexões linguísticas, não como representação do saber linguístico. Nesse sentido, a prática dos gêneros textuais e gêneros discursivos são impres- cindíveis para a formulação das aulas de língua portuguesa. Como nos pontu- am os PCNs, O discurso, quando produzido, manifesta-se linguisticamente por meio de textos. O produto da atividade discursiva oral ou escrita que forma um todo significativo, qualquer que seja sua extensão, é o texto, uma sequência verbal constituída por um conjunto de relações que se estabelecem a partir da coesão e da coerência. Em outras palavras, um texto só é um texto quando pode ser compreendido como unidade significativa global. Caso contrário, não passa de um amontoado aleatório de enunciados. (BRASIL, 1998, p. 19) É importante lembrarmos que o texto se organiza dentro de gênero, tendo em vista que a comunicação acontece dentro de determinadas condições e intenções comunicativas. Os gêneros são, portanto, “determinados historica- mente, constituindo formas relativamente estáveis de enunciados disponíveis na cultura” (BRASIL, 1998, p. 20). Os gêneros geralmente são caracterizados por conteúdo temático, construção composicional e estilo. 1. Conteúdo temático: o que é ou pode tornar-se dizível por meio do gênero. 2. Construção composicional: estrutura particular dos textos pertencentes ao gênero. 3. Estilo: configurações específicas das unidades de linguagem derivadas, sobretudo, da posição enunciativa do locutor; conjuntos particulares de sequências que compõem o texto etc. 75MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) Fonte: BRASIL, 1998, p. 21. A Educação Linguística fundamentada em uma prática dialógica de gêneros tem trazido polêmicas no espaço escolar. Isso, porque infelizmente predomina o senso comum sobre a palavra gênero. Glossário O termo gênero é, portanto, um conceito generalista usado recorrentemente nas ciências como eixo representativo das características, particularidades de um grupo, classe, seres etc. São exemplos disso os termos: Gêneros Textuais, Gêneros do Discurso, Gêneros Musicais, Gêneros Canis, Gênero Piper, Gênero de Plantas, Gênero de Desempenho Físico etc. No caso específico da aula de Língua Portuguesa, quando formos tratar de um gênero textual falaremos de textos específicos que têm conteúdo temático, construção composicional e estilo próprio. É importante ressaltar, nesse ponto, que muitos professores ficam presos ao livro didático adotado pela escola para trabalhar com os gêneros textuais, entretanto, deve-se lembrar que os materiais didáticos servem como suporte para o professor e não como condutores do processo de ensino-aprendizagem. Além do mais, devemos considerar que os materiais didáticos são construídos seguindo uma lógica mercadológica e editorial e que, portanto, não têm em seu conteúdo gêneros textuais muito espaçosos – por exemplo, contos, fábulas, teatros e romances –, já que estes ocupariam muito espaço e tornaria a im- pressão cara. Deve-se ressaltar, também, que as novas gerações têm hábitos de leitura dinâmica e rápida e que a escola deve se alinhar a esse interesse para despertar nos alunos o desejo de ler textos maiores e mais complexos. A prática dos gêneros textuais na disciplina de Língua Portuguesa exigirá do professor ocupar o lugar de mediador do conhecimento. Assim, ele deverá in- teragir com o universo dos alunos propondo questões e reflexões com o intuito de (re)ordenar discursivamente e linguisticamente suas práticas sociais. Essa talvez seja a tarefa mais penosa, mais a mais bem-sucedida, para o professor de línguas na atualidade, pois a postura de detentor do saber tem sido vista como “violenta” no olhar dos alunos, independentemente da classe social que eles ocupam. Se o professor age como detentor do saber ele enfrentará resis- tência e em certos casos, até mesmo violência. 76 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Mídias integradas Para entender um pouco mais sobre o lugar que o professor deve ocupar no espaço educacional, assista à entrevista “O que a escola deveria aprender antes de ensinar” concedida pela Prof. Dra. Viviane Mosé ao programa Café Filosófico. Aproveite para refletir um pouco mais sobre a história da escola brasileira. (https://www.youtube.com/watch?v=EigUj_ d5n80). Na escola contemporânea, o professor não é melhor ou pior que os alunos, bem como inferior ou superior à comunidade escolar. Ele é parte e como parte deve exercer o papel de agente de diálogo. Para tanto, deve mobilizar o sa- ber da disciplina que ensina para promover dialogismos e, a partir de então, desenvolvimento social. Em vez de se frustrar porque os alunos não querem ler o excerto da tragicomédia proposto pelo livro didático – e evidentemente não lerão mesmo, pois isso não faz parte do contexto de práxis social de um adolescente –, ele deve, antes, tentar trazer textos que estejam inseridos no dia a dia dos alunos e mobilizá-los a se interessar por outros textos. Comece com a leitura de memes, posts, anúncios, manuais explicativos, pequenos contos e pela problematização desses textos, incentive os alunos a caminharem rumo à leitura de textos maiores. Como professor, é importante lembrar que a educação é processual. Não é ético um professor de línguas e literatura julgar o aluno porque ele não lê Machado de Assis no oitavo ano do Ensino Fundamental. Aliás, é tarefa desse professor incentivar ao aluno ler Machado de Assis, mas como? Antes de ler Machado de Assis, o aluno deve entender o contexto sócio histórico de produção do livro, deve conhecer possíveis indagações que o livro remete. Deve entender que os livros são característicos de uma época em que a descrição era o forte dos textos e que, embora ela pareça chata hoje, faz parte do estilo literário daquele tempo. Antes de ler um texto todo do Machado de Assis, traga excertos desse livro, desperte a curiosidade, relacione a história do livro com a história de vida dos alunos. https://www.youtube.com/watch?v=EigUj_d5n80 https://www.youtube.com/watch?v=EigUj_d5n80 77MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) Como mediador, é preciso construir pontes, é preciso mobilizar estruturas, é preciso promover ações, movimentações e experiências. Não é o conhecimen- to que muda um indivíduo, mas o uso que o indivíduo faz desse conhecimen- to. Portanto, o professor deve, enquanto mediador, auxiliar seus alunos a usar o saber linguístico e ensiná-los a respeito das diferentes possibilidades de mobi- lização de um determinado conhecimento na construção de ideias, significa- dos e saberes. Como nos sugere Bagno (2007): A gramática tradicional tenta nos mostrar a língua como um pacote fechado, um embrulho pronto e acabado. Mas não é assim. A língua é viva, dinâmica, está em constante movimento – toda língua é viva, dinâmica, está em constante movimento – toda língua viva é uma língua em decomposição e em recomposição, em permanente transformação. É uma fênix que de tempos em tempos renasce das próprias cinzas. É uma roseira que, quanto mais a gente vai podando, flores mais bonitas vai dando. E o professor também deve preferir ser uma “metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo” como cantava Raul Seixas. (BAGNO, 2007, p. 117) 4.3 GÊNEROS TEXTUAIS E PRINCÍPIOS DE TEXTUALIDADE: HORIZONTES PARA A SALA DE AULA Mídias integradas Antes de entrarmosnesse tema, trouxemos um pequeno fragmento de um vídeo que retrata o papel de mediador do professor de Língua Portuguesa. Além disso o vídeo nos dá uma demonstração breve de como devemos abordar o ensino de línguas na escola, conforme os PCNs. Aula Jornal 2º ano - Criação Título Notícia (https:// www.youtube.com/watch?v=ACs_oLoeegs). Preste atenção em cada detalhe. Na aula apresentada em nossa mídia integrada, é possível perceber que a pro- fessora inicia a atividade proposta indagando os alunos e instigando-os a pen- sar sobre uma determinada notícia. Sem afirmar, sem dar detalhes sobre a https://www.youtube.com/watch?v=ACs_oLoeegs https://www.youtube.com/watch?v=ACs_oLoeegs 78 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 caracterização da notícia, a professora procura instigar os alunos a desvelarem os mais variados sentidos do título da notícia e, em seguida, a lerem o texto para confirmarem suas hipóteses a respeito da temática tratada no título. A professora também explora a imagem presente na matéria como um subsí- dio para situar os alunos, no caso os leitores, no contexto enunciativo em que a notícia foi escrita. Percebam que há mais questões do que respostas sen- do colocadas pela professora. As afirmações a respeito da notícia vão sendo construídas coletivamente e a professora atua como uma mediadora. O mais interessante nessa aula é que a professora traz para sala de aula um material concreto, o Jornal Joca. Este jornal é direcionado à crianças e jovens e faz uso de linguagens que sejam mais interessantes e acessíveis aos alunos, fator que também contribui com a mobilização do conhecimento em sala de aula. Saiba Mais Conheça o Joca. Ele tem uma edição online gratuita e pode ser uma ótima fonte de recursos textuais para trabalhar em sala de aula com alunos do Ensino Fundamental e Médio. https://jornaljoca.com.br/portal/ Como proposto pelos PCNs, a abordagem dos gêneros textuais deve estar pre- sente em sala de aula. Lembramos que a aula de língua portuguesa também tem aspectos da literatura e da escrita, que é conhecida em algumas regiões do país como redação. De todo modo, a abordagem metodológica de ensino de língua portuguesa que utiliza os gêneros textuais como eixo norteador para a progressão da Educação Linguística, permite ao professor trabalhar simulta- neamente literatura, escrita e língua em uma mesma aula. Os gêneros textuais, como propõem Köche e Marinello (2014), são uma ter- minologia utilizada para denominar textos materializados que podem ser en- contrados em nosso dia a dia e que têm características sócio comunicativas definidas por conteúdos, propriedades funcionais, estilos e composição carac- terística. Köche e Marinello (2014) nos apontam que os gêneros textuais po- dem ser definidos como uma subcategoria dos tipos textuais, expressão esta que designa a natureza linguística da composição de um texto. https://jornaljoca.com.br/portal/ 79MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) Os tipos textuais são definidos por seus aspectos lexicais, sintáticos, tempos verbais, relações lógicas e formatação textual. Os principais tipos textuais são: narração, argumentação, exposição, descrição e injunção. Diferente dos tipos textuais, os gêneros textuais têm natureza ampla e constituem textos empiri- camente realizados que cumprem funções em situações comunicativas parti- culares (BARCELOS, 2016). Além disso, os gêneros textuais abrangem um con- junto aberto e ilimitado de designações concretas determinadas pelo canal, estilo, conteúdo, composição e função (MARCHUSCHI, 2008). Vejamos alguns exemplos de tipos textuais: QUADRO 1: TIPOS TEXTUAIS TIPOS TEXTUAIS GÊNEROS TEXTUAIS *Conto, narrativas de aventura, fábula, romance, crônica literária, novelas, dentre outros. *Artigos de opinião, carta argumentativa, carta ao leitor, debate, crítica, carta de solicitação, e-mail de reclamação, dentre outros. *Apresentação de trabalho, seminário, conferência, palestra, relatório de pesquisa, dentre outros. *Receita, regulamento, instruções de uso, manual, regras do jogo, comandos, textos metodológicos, bula de remédio, dentre outros. * Relato de experiência, diário íntimo, diário de bordo, reportagem, crônica social, autobiografia, biografia, anedota, história contada, notícia, dentre outros. NARRAÇÃO ARGUMENTAÇÃO EXPOSIÇÃO INJUNÇÃO RELATO Fonte: Elaborado pela Delinea (2019). A categorização dos tipos de texto exige entendermos, também, que às vezes um mesmo gênero textual tem dois ou mais tipos de texto. 80 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Exemplo Por exemplo: o texto argumentativo dissertativo, popularmente conhecido como redação do vestibular. Esse gênero textual requer argumentos, relatos, exposições e, em certos casos, injunções. Essa estrutura não é fixa e pode sempre alterar conforme o passar dos anos. Mídias integradas Para entender um pouco mais sobre a caracterização dos tipos textuais assista à uma breve explicação do Professor Pasquale 03 - REDAÇÃO - "TIPOS E GÊNEROS TEXTUAIS" (https:// www.youtube.com/watch?v=w9oR0TncVSM) Saiba Mais Para entender um pouco mais sobre a prática de Gêneros Textuais na escola, recomendamos o livro Gêneros textuais: práticas de leitura escrita e análise linguística de Vanilda Köche e Adriane Marinello. Editora Vozes. 4.4 TEXTUALIDADE E ESCRITA Até a década de 1990 era comum o ensino de escrita a partir de modelos. Du- rante as aulas de redação os professores seguiam manuais de escrita, muitas vezes redigidos por advogados ou por pessoas do setor jurídico. O aluno era um mero reprodutor de códigos e de jargões e não tinha dimensão de que um texto tinha em si um pensamento ou um sentido a ser expresso. Diga-se de passagem, muitos desses manuais eram repletos de erros gramaticais e de semântica, que ainda hoje são reproduzidos. Há vários livros didáticos que como modelo do gênero textual carta, ainda hoje, solicitam aos alunos que iniciem o texto com a sentença “Venho través desta carta...”Semanticamente falando, é impossível o aluno, enquanto pessoa, entrar https://www.youtube.com/watch?v=w9oR0TncVSM https://www.youtube.com/watch?v=w9oR0TncVSM 81MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) dentro do envelope e ir junto com a carta até ao seu destinatário. É muito mais viável que o aluno entenda que não é o mote “venho através desta carta” que caracteriza o texto como carta, mas a formatação do texto em si. A data, o as- sunto, o destinatário, a mensagem, o conteúdo, a assinatura já são elementos que demarcam o gênero textual carta. Outra coisa grave que muitos professores de português fazem é corrigir o texto apenas partindo da correção de elementos gramaticais. Um texto não é feito só de gramática, mas de várias outras materialidades que conhecemos como textualidade. Glossário A textualidade é responsável por encadear as ideias que são dispostas ao longo de um texto. Se não haver textualidade em um conjunto de palavras, elas se tornam vazias, sem sentido, sem pensamentos e, portanto, não compõem um texto, por mais gramaticalmente adequadas que elas estejam (KÖCHE; MARINELLO, 2014). Entre os principais fatores da textualidade temos: a coerência, a coesão, a infor- matividade, a intencionalidade, a aceitabilidade, a situacionalidade e a inter- textualidade. Confira a seguir as características de cada fator: QUADRO 2: FATORES DA TEXTUALIDADE Coerência É um dos fatores mais importantes na composição de um texto, pois é ela que gera harmonia de sentidos entre os enunciados. Ela está ligada à capacidade de selecionar, relacionar, organizare interpretar fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista ou na transmissão de uma mensagem. Coesão Diz respeito às marcas linguísticas que promovem a junção e conexão entre as partes de um texto. Os pronomes, advérbios, conjunções, sinônimos, antônimos e os sinais de pontuação são os principais elementos coesivos de um texto. 82 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Informatividade A informatividade é a capacidade que o autor do texto tem de fugir do senso comum, ou seja, daquilo que já é previsível sobre uma temática ou ponto de vista. Para desenvolver informatividade é importante que o autor tenha um amplo conhecimento de mundo, para tanto, é importante ler, viajar, estudar e desenvolver-se enquanto ser humano. Intencionalidade Muitas vezes confundida com a intenção do autor, a intencionalidade diz respeito ao empenho que o escritor faz para construir um discurso coerente em uma determinada situação comunicativa. É preciso tomar cuidado porque o autor geralmente não tem uma intenção ao escrever um texto, pois cada leitor absorverá diferentes sentidos do que foi escrito. Entretanto, é possível avaliar a intencionalidade, ou seja, o exercício que o escritor fez para usufruir-se de um gênero textual com o intuito de transmitir uma determinada mensagem em um determinado contexto. Aceitabilidade Diz respeito à utilidade e relevância do texto que será produzido. Isso dependerá do esforço que o escritor fará para agradar ao leitor. Sendo assim, quem escreve, sempre deve ter em mente o público-alvo do seu texto, pois para que o texto seja lido ele deve ser aceitável para o público o qual o escritor espera alcançar. Situacionalidade A situacionalidade diz respeito à adequação de um texto a uma situação comunicativa. Se é esperado que ele fale a partir de um determinado gênero textual, ele deve, portanto, fazer uso dos tipos textuais e da formalidade linguística que compõe o gênero textual em questão. Aqui entra, inclusive o domínio da norma padrão da língua portuguesa e a formatação do texto. Intertextualidade Esse é um fator imprescindível para a escrita de qualquer texto e ele implicará diretamente na informatividade. A intertextualidade nada mais é do que a relação existente entre textos. Ela pode ser explícita, quando a fonte do que foi dito é citada, ou implícita, quando a fonte não é citada. A intertextualidade tem a ver também com o dialogismo que o escritor faz entre ideias e acontecimentos. Por exemplo: algo que retoma um fato, ou um objeto que relembra uma determinada história. Fonte: COSTA e SALCES (2013, p. 15-30). O professor de língua portuguesa deve estar atento aos fatores de textualida- de. Aliás, pode fazer deles aulas de língua portuguesa muito mais ricas, já que pode promover debates, asserções e discussões com os alunos a respeito das características de um texto. Além disso, entender o texto como um elemento 83MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) dinâmico e processual, ajudará o professor a construir uma consciência crítica do processo de escrita como uma materialidade linguística de significação e de comunicação. Deve-se lembrar que todos esses fatores não são aprendidos de uma só vez, mas que o professor deve trabalhá-los um a um, de maneira dialógica, pois um está diretamente ligado ao outro. Não há intencionalidade sem coesão, bem como não há coerência sem aceitabilidade e assim por diante. Antes de ensi- nar o aluno a escrever um determinado gênero textual é importante, também, que ele já tenha lido, conhecido e estudado as tipologias (tipo de texto) textu- ais que compõem o texto em questão. Saiba Mais Conhecer os fatores de textualidade são muito importantes para o desenvolvimento da comunicação e, principalmente, para o aprimoramento do ensino de línguas na escola. Eles estão completamente presentes, também, nas práticas de persuasão e sedução discursiva. Indicamos a leitura do texto Linguagem e Persuasão de Adilson Citelli, para que você se inteire um pouco mais sobre o assunto. Além do mais, o livro tem ótimos exemplos que podem ser usados em sala de aula. Boa leitura! CONCLUSÃO No decorrer desta unidade, pudemos entender as relações entre linguagem e cidadania e, evidentemente, perceber que há no ensino de línguas muitas questões de poder. A relação entre língua e cidadania já era estudada pelos gregos cerca de 350 a.C. e ainda hoje nos chama atenção, pois é na medida em que eu consigo desenvolver a linguagem e emergir nos diferentes discur- sos que compõem a história e a cultura do povo em que eu habito, que tenho a capacidade para transformá-lo e dar continuidade à existência dele. 84 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Como vimos, a linguagem é estruturada por discursos que pela língua constro- em gêneros discursivos e textuais. Esses gêneros desenvolvem os mais variados processos de comunicação humana e, consequentemente são fundamentais para o desenvolvimento de habilidades relacionadas à Língua Portuguesa. Previstos nos PCNs, trabalhar com gêneros textuais na escola já não é mais uma “novidade”, mas um labor que faz parte do fazer docente do professor de Português. Encerramos nossa unidade abordando fatores de textualidade e apresentando sugestões de como o professor deve proceder didaticamente para trabalhar com gêneros textuais na escola. Esperamos que você enquanto futuro profes- sore de Língua Portuguesa consiga empreender, a partir dos conhecimentos desta unidade, de modo que tenhamos, cada vez mais, um ensino de línguas efetivo em nosso país. ANOTAÇÕES 85MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) UNIDADE 5 > Identificar ideias explícitas que contribuam para compreensão textual. > Compreender a leitura, buscando informações e significados das palavras no texto. > Compreender a produção oral e escrita no ensino de língua portuguesa. > Identificar marcas discursivas para o reconhecimento de humor, intenções, valores e preconceitos veiculados no discurso, dos textos verbais e não verbais. > Comparar textos, considerando o tema, características do gênero, organização das ideias, suporte e finalidade. OBJETIVO Ao final desta unidade, você será capaz de: 86 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) 87MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) 5 ENSINO DE LITERATURA E PRODUÇÃO TEXTUAL INTRODUÇÃO DA UNIDADE Nesta unidade, faremos uma reflexão a respeito do ensino de literatura e de produção textual no Ensino Fundamental. Diante da atual realidade educacional brasileira, é incontestável a relevância do domínio da leitura e da escrita para o desenvolvimento completo e efetivo dos alunos. Para você, futuro professor, a formação de leitores ativos, criativos e, sobretudo, críticos será um desafio constante. Na docência, o uso de diferentes estratégias de leitura e escrita de textos torna as aulas mais dinâmicas e dessa forma, os alunos conseguem perceber que esses conteúdos são relevantes não só para a formação educacional, mas para a vida cotidiana, pois vivemos em um mundo imerso em códigos, em signos, em sentidos e em significados que precisam ser analisados e compreendidos, para que possam revelar as mensagens por eles veiculadas. E a Literatura? A literatura, que está intimamente ligada à leitura, é um tipo de produção textual que se diferencia dos demais textos por não ter um propósito prático, uma utilidade específica na vida das pessoas.A literatura, nesse caso, é estética, ou seja, é um texto escrito com o objetivo de revelar a beleza das situações, imagens, seres e sentimentos. Material Complementar COMPAGNON, A. O demônio da teoria: literatura e senso comum. Belo Horizonte: UFMG, 1999, p. 29-44. Disponível em: https://edisciplinas. usp.br/pluginfile.php/4423380/mod_resource/ content/1/demonio%20da%20teoria%20.pdf. Acesso em: 2 dez. 2019. Como ensiná-la? O ensino da literatura passa pela leitura e nos leva, muitas vezes, à produção textual. Nesse contexto, a leitura e a produção de textos são https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4423380/mod_resource/content/1/demonio%20da%20teoria%20.pdf https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4423380/mod_resource/content/1/demonio%20da%20teoria%20.pdf https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4423380/mod_resource/content/1/demonio%20da%20teoria%20.pdf 88 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 consideradas essenciais à vida em sociedade, por isso dedicaremos essa unida- de ao seu aprofundamento. 5.1 LITERATURA INFANTO-JUVENIL Inicialmente, é necessário retomarmos que a literatura, segundo Antônio Cân- dido (2011): tem sido um instrumento poderoso de instrução e educação, entrando nos currículos, sendo proposta a cada um como equipamento intelectual e afetivo. Os valores que a sociedade preconiza, ou os que considera prejudicais, estão presentes nas diversas manifestações da ficção, da poesia e da ação dramática. A literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apoia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas. (CÂNDIDO, 2011, p. 45) Nesse sentido, é válido relembrarmos que, para isso, a Literatura faz uso de uma linguagem específica, que expressa uma experiência humana e que, difi- cilmente, poderá ser definida com precisão. No entanto, como a literatura infantil, segundo Lajolo (2002, p. 25) “foi vista como mercadoria para a sociedade aristocrática, e esta forma educacional foi investida de forma que era vista como um preparo na vida adulta.” Essa postura, des- considera que a literatura infantil, assim como a destinada a adultos, também é uma expressão artística, o que difere uma da outra é o seu público leitor. Nesse con- texto, o que percebemos é que a literatura infantil atende as particularidades de seu público leitor, mas jamais deve ter reduzi- do seu valor artístico. S5imultaneamente ao surgimento da lite- ratura infantil, na Europa, aparecem, ainda no século XIX, publicações voltadas para o público adolescente. As de maior des- taque estão as assinadas por Júlio Verne: Viagem ao centro da terra (1864), Vinte mil léguas submarinas (1870) e A volta ao mundo em 80 dias (1873). Saiba Mais Leia o conto “Felicidade clandestina”, de Clarice Lispector (disponível em: https://contobrasileiro.com. br/felicidade-clandestina- conto-de-clarice-lispector/), e reflita sobre o interesse e o acesso de crianças e jovens pela leitura de obras literárias na atualidade, e o que pode ser feito para equalizar a situação. https://contobrasileiro.com.br/felicidade-clandestina-conto-de-clarice-lispector/ https://contobrasileiro.com.br/felicidade-clandestina-conto-de-clarice-lispector/ https://contobrasileiro.com.br/felicidade-clandestina-conto-de-clarice-lispector/ 89MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) 5.1.1 A LITERATURA INFANTO-JUVENIL CONTEMPORÂNEA A literatura infanto-juvenil, no fim do século XX, deu destaque ao realismo, dei- xando de lado os temas mais amenos, lúdicos ou pedagógicos, passando para o reconhecimento de intenções, valores e preconceitos veiculados nos textos. Assim, percebe-se que a literatura infanto-juvenil, antes espaço de aventuras maravilhosas, agora se preocupa, também, em criticar a sociedade brasileira contemporânea, que, infelizmente, submete suas crianças a situações de de- gradação e privação de direitos, como por exemplo, Família em construção, de Margarida Fonseca Santos; Infância roubada, de Telma Guimarães e Júlio Emílio Braz; Açúcar amargo, de Luiz Puntel, entre outros. IMAGEM 1: A LITERATURA NOS FAZ VIAJAR E CONHECER OUTRAS REALIDADES. Fonte: Plataforma Deduca (2019). Diante do exposto até esse tópico, ficou claro que a literatura ocupa um lugar especial em nossa formação e, com o objetivo de aprimorar na leitura e escrita, é fundamental que o professor de língua portuguesa faça a relação coerente entre a literatura e a produção textual. Dando sequência aos nossos estudos, vamos compreender as características das tipologias textuais. 90 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 5.2 TÉCNICAS DE REDAÇÃO Tipologia textual é definida como sendo um conjunto de frases ou exposições de ideias estruturadas de modo bem específico e para adquirirmos as habili- dades necessárias para a prática da elaboração de redação, é fundamental co- nhecermos um pouco de três tipos textuais: descrição, narração e dissertação, que conforme Marcuschi (2003) são estratégias utilizadas para organizar os gêneros, muitas vezes independentemente das suas funções comunicativas. Vejamos cada um deles. DESCRIÇÃO Descrever é, por meio da linguagem, conseguir gerar e reinventar imagens – relacionadas ao cinco sentidos humanos − na consciência do leitor, ou seja, é utilizar a linguagem para produzir, verbalmente, imagens de seres – animados ou inanimados, de cenas, a partir de um ângulo de visão específico, visto que representar o mundo é um modo de enxergá-lo e interpretá-lo. De acordo com Vilela e Koch (2001, p. 549), a descrição “[...] consiste na exposi- ção das propriedades, qualidades e características de objetos, ambientes, ações ou estados”. Dessa maneira, o leitor consegue visualizar mentalmente o objeto apresentado, que é representado por meio de um processo de observação. Exemplo Ela não era feia; amorenada, com os seus traços acanhados, o narizinho mal feito, mas galante, não muito baixa nem muito magra e a sua aparência de bondade passiva, de indolência de corpo, de ideia e de sentidos — era até um bom tipo das meninas a que os namorados chamam — “bonitinhas”. O seu traço de beleza dominante, porém, eram seus cabelos: uns bastos cabelos castanhos, com tons de ouro, sedosos até ao olhar [...] (BARRETO, 2011, p. 38-9) Após a leitura do fragmento acima, percebe-se que a descrição exige percep- ção e imaginação criadora. Assim, só é possível elaborar uma boa descrição 91MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) a partir da percepção do objeto, e para isso, é crucial, portanto, desenvolver a sensibilidade sensorial. NARRAÇÃO O texto narrativo é um relato de fatos vividos por personagens e organizados em uma sequência lógica e temporal, por esse motivo essa tipologia caracte- riza-se pelo uso de verbos de ação que mostram a movimentação das perso- nagens no tempo e no espaço. A estrutura narrativa compõe-se de cinco ele- mentos essenciais para o seu desenvolvimento: personagem, enredo, narrador, tempo e espaço. Vale destacar que um gênero textual de caráter narrativo pode conter descri- ções, tornando-se, assim, híbrido. Um romance literário, por exemplo, é um gê- nero que faz uso da narração e da descrição, uma vez que conta uma história, por meio da narração, e descreve as personagens, apresentando ao leitor, com riqueza de detalhes, como elas são. FIGURA 1: NARRAÇÃO Situação inicial Conflito Desenvolvimento Climax Desfecho Trecho descritivo Protagonista Antagonista Secundários Peronagem observador onisciente TEXTO NARRATIVO PERSONAGENS ENREDO NARRADOR CENÁRIO Fonte: Como fazer um texto narrativo. Disponível em: http://paginaporpagina.com.br/ como-fazer-um-texto-narrativo/.e encaminhamentos metodológicos para o ensino da língua portuguesa nos anos finais do ensino fundamental: oralidade, leitura e escrita. > Refletir acerca do processo teórico- metodológico no campo do ensino da língua materna, permitindo a instrumentalização para a ação pedagógica. > Tendências pedagógicas que subsidiam o ensino da língua materna para as habilidades da oralidade e da escrita. OBJETIVO Ao final desta unidade, você será capaz de: 1 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) 2MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) 1 VISÃO DO ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA A PARTIR DOS PCNS E DA BNCC INTRODUÇÃO DA UNIDADE No decorrer desta unidade, conheceremos os principais elementos da práti- ca docente de ensino de língua portuguesa. É necessário entender, antes de tudo, que “saber língua” é diferente de “saber ensinar língua”. Logo, o professor de língua portuguesa além de conhecer a língua que leciona, deve também desenvolver mecanismos e didáticas que o permitam transmitir esses saberes aos seus alunos. FIGURA 1: SALA DE AULA Fonte: Plataforma Deduca (2019) Até a década de 1990, não havia no Brasil documentos e orientações curricu- lares que norteassem o desenvolvimento linguístico e o ensino de língua nas escolas. Isso muda quando, em 1996, foi outorgada a Lei de Diretrizes e Bases 3 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 da educação, que mais adiante, em 1998, dá subsídios para o surgimento dos primeiros Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). Embora esses documen- tos trouxessem concepções de língua, texto e linguagem a serem seguidas, es- tas não foram adotadas uniformemente de norte a sul do país. Evidentemente, quando uma nova lei ou política educacional é implementada é necessário a qualificação e formação de professores e profissionais para executá-las. Diante disso, foi apenas a partir de 2014, com a criação do Plano Nacional de Educação (PNE) que estratégias e incentivos foram criados para que fosse pos- sível unificar a educação brasileira. Nesse contexto, surge a elaboração da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) que em 2018 se torna um documento ofi- cial e passa a nortear e fundamentar a educação nacional como um todo. Ao longo desta disciplina, entenderemos os fatores que fundamentaram a cons- trução da BNCC, bem como o que muda na prática de ensino de língua portu- guesa a partir de sua criação. 1.1 BNCC E PCNS Nos setores educacionais, é comum escutarmos os termos BNCC e PCNs, mas muitas vezes não temos dimensão de sua importância para a consolidação e aprimoramento da educação brasileira. Assim, é importante conhecermos um pouco mais sobre esses documentos, já que eles conduzirão sua atuação en- quanto professor no ambiente formal de educação. A Base Nacional Comum Curricular, popularmente conhe- cida pelo acrônimo BNCC, é um instrumento universaliza- dor da educação brasileira previsto pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) – Lei nº 9.394 de 20 de dezembro de 1996 – que tem como principal intuito definir as aprendi- zagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo da educação básica (BRASIL, 2018). A BNCC é en- tão um documento que serve como referência nacional e obrigatória para a formulação dos currículos educacionais que operacionalizam o funcionamento escolar dos estados, municípios e Distrito Federal. Como futuro professor de português, é fundamental que você conheça o do- cumento como um todo. Além disso, deve estar sempre atento às orienta- ções e direcionamentos que o documento estabelece, pois são as normativas e competências previstas na BNCC que fundamentam e orientam a construção 4MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) de exames nacionais que aferem o desenvolvimento educacional brasileiro. Assim, soma-se aos propósitos da BNCC, construir um parâmetro de educação que viabilize a formação humana integral e a formação de uma sociedade jus- ta, democrática e inclusiva (BRASIL, 2018). Saiba Mais Entenda mais sobre a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Acesse: http:// basenacionalcomum.mec.gov.br/abase e entenda as propostas, desafios e cenários que o documento prevê para o aprimoramento da Educação Brasileira. Na mesma linha da BNCC, há os Parâmetros Curricula- res Nacionais (PCNs), que foram elaborados com o intui- to de “construir referências nacionais comuns ao proces- so educativo em todas as regiões brasileiras” (BRASIL, 1998). A principal função deste documento é criar condi- ções que permitam aos jovens brasileiros terem acesso aos conhecimentos socialmente realizados e reconheci- dos como necessários para o efetivo exercício da cidada- nia (BRASIL, 1996). Há polêmicas entre a proximidade de objetivos da BNCC e dos PCNs, entretan- to, é necessário ressaltar que a principal distinção existente entre eles é que, ao passo que a BNCC se ocupa dos conteúdos e competências a serem desen- volvidos na escola, os PCNs abrangem as abordagens teórico-metodológicas que sustentam o desenvolvimento dos conteúdos e competências propostos pela BNCC. De forma singela, a BNCC diz “o que deve ser ensinado” e os PCNs “como deve ser ensinado”. É importante observar que ambos documentos falam em competência. Este termo pode ser definido como “a mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas, cognitivas e socioemocionais), atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana” da cidadania e do mundo do trabalho (BRASIL, 2018). Sendo assim, desenvolver http://basenacionalcomum.mec.gov.br/abase http://basenacionalcomum.mec.gov.br/abase 5 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 competências está para além de “saber algo”. Engloba, também, “saber usar” algo em prol das diferentes demandas da vida cotidiana. Especificamente no âmbito do ensino de língua portuguesa, o BNCC propõe que além de ensinar os aspectos sistêmicos da língua, cabe ao professor, tam- bém, desenvolver nos alunos as diversas habilidades e atitudes que os mobili- zem a usar a língua em prol das diferentes demandas da vida cotidiana. Logo, ensinar língua portuguesa passa a ter em seu cerne a tarefa de mobilizar sabe- res em favor do desenvolvimento social e político do cidadão. Ao longo das próximas unidades, enten- deremos com mais clareza que o desen- volvimento linguístico está associado ao desenvolvimento cidadão e político. Por- tanto, é importante entender que a língua possui questões políticas, sociais e cultu- rais que precisam ser estimuladas na es- cola. É preciso compreender que a língua, enquanto sistema, tem funcionalidades, aplicabilidades e contextos e de produção de sentido que, por sua vez, constroem questões políticas e de cidadania. Dian- te disso, o professor de língua portugue- sa deve estar atento à língua enquanto elemento de constituição identitária e de emancipação social (RIOLFI, 2008). Mídias integradas A BNCC é uma ação inovadora que tem sido construída ao longo dos últimos anos e traz uma série de reinterpretações para o ensino de língua portuguesa na escola. Saiba um pouco mais sobre o assunto assistindo ao vídeo Língua Portuguesa na BNCC com a professora Alice Junqueira (https:// www.youtube.com/watch?v=xtnSjQXXnt8). Saiba Mais Conheça os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). Acesse: http://portal. mec.gov.br/seb/arquivos/ pdf/livro01.pdf e entenda as propostas do documento que englobam, tanto a educação quanto um todo, como as diferentes áreas do saber. https://www.youtube.com/watch?v=xtnSjQXXnt8 https://www.youtube.com/watch?v=xtnSjQXXnt8Acesso em: 2 dez. 2019. http://paginaporpagina.com.br/como-fazer-um-texto-narrativo/ http://paginaporpagina.com.br/como-fazer-um-texto-narrativo/ 92 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Vejamos um exemplo de texto narrativo. Exemplo “E ele, caminhando devagar sob as acácias, sentia no sombrio silêncio as pancadas desordenadas do seu coração. Subiu os três degraus de pedra – que lhe pareciam já de uma casa estranha. (…) Ali ficou. Melanie, com o xale na mão, veio dizer- lhe que a senhora estava na sala das tapeçarias… Carlos entrou. (…) E correu para ele, arrebatou-lhe as mãos, sem poder falar, soluçando, tremendo toda.” (QUEIRÓS, 2017, p.197) DISSERTAÇÃO A dissertação é o tipo de texto que analisa e interpreta dados, fatos, expressan- do opiniões e pontos de vistas sobre a realidade. Diferentemente da narração, na dissertação não se faz presente a progressão temporal entre os enunciados, mas relações de natureza lógica, como causa e efeito, premissa e conclusão. De acordo com Leal & Suassuna: Dada a amplitude com que a argumentação se faz presente no cotidiano dos indivíduos – dentro e fora da escola –, é possível afirmar que o desenvolvimento de competências de argumentação é uma das metas e desafios centrais do trabalho escolar. (LEAL; SUASSUNA, 2014, p. 101) Temos dois tipos de dissertação: a expositiva cujo objetivo é expor ou expla- nar, explicar ou interpretar ideias, fatos; e a argumentativa que visa conven- cer ou persuadir o leitor, apresentando pontos de vista e argumentos que os sustentem. Segundo Leal e Suassuna (2014, p. 99), “para justificar um ponto de vista, o indi- víduo inevitavelmente terá que tomar seu próprio ponto de vista como objeto de atenção e se indagar (refletir) sobre as bases em que o fundamenta”. Vamos a um exemplo de um trecho dissertativo-argumentativo. 93MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) Exemplo A poluição gerada e impregnada nas grandes cidades foi em grande parte fruto da urbanização desenfreada ou da atuação de indústrias; porém, deveres não cumpridos pelos homens também proporcionaram toda essa "sujidade". Nesse sentido, vale lembrar que pequenos atos podem produzir grandes mudanças se realizados por todos os cidadãos. Fonte: Texto dissertativo-argumentativo. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/ texto-dissertativo/. Acesso em: 2 dez. 2019. Vale dizer que essas tipologias textuais entram na composição de incontáveis gêneros textuais, assim, atividades que envolvam a produção textual devem considerar que os diferentes temas podem, e são, abordados por distintos gê- neros textuais, que possuem características composicionais diferentes e circu- lam em suportes variados sempre visando atingir a finalidade, ou seja, a inten- cionalidade discursiva. Mídias integradas Assista ao vídeo do professor Pascoale Cipro Neto sobre “Tipos e gêneros textuais”. Disponível em: https://www.youtube.com/ watch?v=w9oR0TncVSM. Acesso em: 2 dez. 2019 5.3 LITERATURA E PRODUÇÃO TEXTUAL É de conhecimento geral que, infelizmente, os brasileiros leem pouco e ad- quirem poucos livros. No entanto, diante de tal constatação, alguns questio- namentos surgem: Por que será que isso ocorre? Por que o desinteresse tão grande pela leitura? Nos últimos anos, o ensino da literatura no Ensino Médio tem utilizado a leitu- ra do texto literário apenas para construir, superficialmente, o conhecimento https://www.todamateria.com.br/texto-dissertativo/ https://www.todamateria.com.br/texto-dissertativo/ https://www.youtube.com/watch?v=w9oR0TncVSM https://www.youtube.com/watch?v=w9oR0TncVSM 94 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 de literatura, visto que a ênfase no processo ensino aprendizagem é dado à apresentação de características de autores, estilos e épocas, em detrimento do estudo aprofundado do texto literário. Nesse contexto, torna-se evidente a necessidade de um ensino que tenha como princípio a leitura efetiva do texto literário, para que seja possível contri- buir para a construção de um aprendizado consistente não apenas de língua portuguesa, mas de outras áreas como filosofia, história, sociologia, geografia, que são indispensáveis para a produção textual e para a formação do senso crítico dos estudantes. Nesse universo, Leal e Suassuna defendem que: Essa maneira de conceber a linguagem, que remete a uma abordagem de ensino da língua com ênfase em seu caráter dialógico e que considera o discurso como prática social, como forma de interação humana, é de extrema relevância para o estudo da língua. (LEAL; SUASSUNA, 2014, p. 38) Assim, ensinar a literatura não é apenas selecionar uma quantidade de textos ou autores e relacioná-los a um determinado período literário, mas mostrar ao estudante o caráter atemporal, o contexto socio-histórico e a função social da obra literária. Portanto, é fundamental pensar em uma proposta de ensino que articule li- teratura e produção textual, propiciando o estabelecimento de relações entre ambos, a fim de dar autonomia e ampliar o conhecimento de mundo dos alu- nos, considerando, que a literatura tem, incontestavelmente, um papel forma- tivo, já que é eficaz na formação de cidadãos críticos e conscientes e, capazes de elaborar textos coesos e coerentes. Saiba Mais CEREJA, W. R. Uma proposta dialógica de ensino de literatura no ensino médio. Tese (Tese em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem) – PUC, São Paulo, 2004. Disponível em: leffa.pro. br/tela4/Textos/Textos/Teses/William_Cereja.pdf. Acesso em: 26 nov. 2019. No tocante ao ensino de produção textual, grande parte das vezes a elabora- ção do texto serve de pano de fundo para a realização da correção ortográfica http://leffa.pro.br/tela4/Textos/Textos/Teses/William_Cereja.pdf http://leffa.pro.br/tela4/Textos/Textos/Teses/William_Cereja.pdf 95MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) e gramatical, sem que seja feita a adequada articulação com as condições de produção e o material usado para essa produção; assim, medem-se, apenas, as competências dos alunos do ponto de vista gramatical e estrutural de um tex- to, desconsiderando a formação de escritores competentes em sua totalidade. De acordo com Cândido (2011), a literatura é capaz de nos tornar compreensi- vos e abertos a questões que envolvem a sociedade como um todo e às pesso- as com quem convivemos. Entendo aqui por humanização [...] o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante. (CÂNDIDO, 2011, p. 182) Considerando o contexto escolar e analisando a dificuldade de dissertar e ar- gumentar acerca de alguns assuntos, atividades que relacionem literatura e produção textual são capazes de fazer com que os alunos ampliem e adqui- ram mais conhecimento por intermédio da leitura literária. Desse modo, é in- dispensável buscar metodologias capazes de aprimorar as habilidades dos alu- nos no que se refere à leitura, interpretação, reflexão e escrita, tendo em mente a existência dos obstáculos que surgirão no ensino e no ambiente escolar. Exemplo História e Literatura apresentam uma relação bastante estreita, a primeira é utilizada na construção das obras da segunda. Como exemplo, podemos citar os textos referentesà conquista da América, como a Carta de Pero Vaz de Caminha, estudada tanto como registro da história quanto como obra de literatura. 5.4 A ARTE DE LER ORALMENTE E DE CONTAR HISTÓRIAS O mundo escolar atual é marcado pelo letramento, desta forma como pode- mos imaginar o lugar da leitura e da contação de histórias no cotidiano esco- lar? Será que existe um privilégio do texto escrito em detrimento da oralidade? 96 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Narrar história contribui para a formação de um aluno? Quais as diferenças en- tre ler e contar? O que narrar? Assim, por meio dessas preocupações podemos pensar na arte de contar histórias. IMAGEM 2: CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS Fonte: Plataforma Deduca (2019). A narrativa oral tem uma magnitude e suas finalidades mudam de acordo com as conjunturas, levando a várias formas de contar uma história esse aspec- to possibilitou o surgimento de diversos gêneros textuais, de tipologia narrati- va, tais como o conto, as fábulas, os apólogos, as parábolas, as lendas e os mitos. Os contos e as fábulas ocupam um papel de destaque quando pensamos nas primeiras histórias orais. O francês Charles Perrault (1628-1703), foi o primeiro a colocar no papel as vá- rias histórias orais que você conhece como "Cinderela", "Chapeuzinho Verme- lho", “O Pequeno Polegar” entre outras. Além dele, Jacob Grimm (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859), conhecidos como os Irmãos Grimm, também coletaram e registraram histórias, principalmente o modo como eram ditas, registrando, dessa maneira, a maneira como as pessoas, de diferentes naciona- lidades, falavam. 97MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) IMAGEM 3: IRMÃOS GRIMM Fonte: Jacob e Wilhelm Grimm. Disponível em: https://editoras.com/os-irmaos-grimm/. Acesso em: 2 dez. 2019. Dessa forma, a leitura e a contação de histórias no cotidiano escolar deve con- tribuir para a formação de um espaço escolar, não somente de caráter lúdico, muitas vezes exercitado em momentos isolados da prática, por exemplo, a hora do conto ou da leitura, mas ser inserido na sala de aula, como metodologia que enaltece a prática docente, da mesma forma que possibilita conhecimentos e aprendizagens. A narrativa com o desenvolvimento da técnica correta é outro quesito essen- cial na utilização da oralidade para a aprendizagem. Assim, é fundamental a busca de equilíbrio nas situações em que o contador de histórias percebe que a emoção está para estourar de tal forma que há a necessidade de uma ação de racionalização que, somada à emoção, dê um toque de harmonia e equilí- brio àquele determinado momento. É necessário trabalhar com as crianças as questões da leitura e contação tanto de forma reflexiva, por meio de leituras, como prática, incorporando essa prática no cotidiano escolar. https://editoras.com/os-irmaos-grimm/ 98 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Saiba Mais Leia o artigo “A arte de contar histórias, integrada a outras linguagens de arte: uma prática pedagógica na educação básica”, Marina Tarnowski Fasanello e Marcelo Firpo de Souza Porto. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103- 7 3 0 7 2 0 1 2 0 0 0 3 0 0 0 0 8 & s c r i p t = s c i _ abstract&tlng=pt. Acesso em: 2 dez. 2019. 5.5 A HORA E A VEZ DO CONTO A formação de leitores permanece como tema central nas discussões dedica- das ao ensino de língua e literatura na escola. Na sala de aula a prática da leitu- ra está intimamente ligada à necessidade de leitura de textos literários, com o objetivo de incentivar e motivar os alunos, que se tornarão leitores, à prática da leitura por meio de obras e textos literários. Nesse viés, afirma Zilberman: A leitura do texto literário constitui uma atividade sintetizadora, na medida em que permite ao indivíduo penetrar no âmbito da alteridade, sem perder de vista sua subjetividade e história [...]. Por isso, trata-se também de uma atividade bastante completa raramente substituída por outra [...] de modo que o leitor tende a enriquecer graças ao seu consumo. (ZILBERMAN, 1990, p. 23) Dessa forma, a literatura, desde muito cedo, permeia a vida dos indivíduos apri- morando a imaginação, aflorando sentimentos, promovendo novas experiên- cias e aprendizados. Assim, fica evidente que a literatura contribui muito para a formação do indivíduo, como reconhece Antônio Cândido em seu ensaio “O direito à literatura”: A literatura corresponde a uma necessidade universal que deve ser satisfeita sob pena de mutilar a personalidade, porque pelo fato de dar forma aos sentimentos e à visão do mundo ela nos organiza, nos liberta do caos e, portanto, nos humaniza. Negar a fruição da literatura é mutilar nossa humanidade. (CÂNDIDO, 2011, p. 188) No âmbito escolar, seja no ensino fundamental ou no médio, a literatura, in- discutivelmente, exerce uma função de suma relevância: propiciar aos alunos novas experiências a cada leitura, a cada interpretação dos personagens e do contexto situacional, além disso apresenta um novo olhar de si mesmo e da realidade na qual está inserido, por isso a literatura tem caráter transformador. http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-73072012000300008&script=sci_abstract&tlng=pt http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-73072012000300008&script=sci_abstract&tlng=pt http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-73072012000300008&script=sci_abstract&tlng=pt 99MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) Por vezes, nas aulas de Língua Portuguesa, esquece-se desse caráter transfor- mador da literatura, sendo o texto literário utilizado simplesmente para abor- dar temas gramaticais, o que não permite que o aluno compreenda a literatura como arte, capaz de promover prazer estético, como afirma Coracini: Raramente se observa, na prática de sala de aula, a concepção de leitura enquanto processo interativo (leitor-texto, leitor-autor), a partir da recuperação explícita do que se acredita serem as marcas deixadas pelo autor, únicas responsáveis pelos sentidos possíveis. (CORACINI, 2002 p. 19) Com o objetivo de proporcionar aos alunos o sucesso nas suas leituras, o efe- tivo gosto pela leitura e a construção de conhecimentos, a metodologia e os recursos devem ter atenção constante do professor. Assim, o professor deve trabalhar com textos atrativos para que os estudantes sintam que a leitura é uma atividade interessante e motivadora. Considerando a relevância do trabalho com a literatura, acreditamos que, para início, o conto seja um gênero textual capaz de estimular a discussão, a inter- pretação e a troca de saberes entre os alunos durante a aula de Língua Portu- guesa, bem como propiciará o estímulo à oralidade. Nesse contexto, verifica-se que o conto contemporâneo apresenta diversidade temática, diferentes lin- guagens e perspectivas distintas diante da realidade. Glossário Vale dizer que o conto é um gênero textual de tipologia narrativa, de curta extensão e estrutura própria. Uma de suas características é ser capaz de muito com poucas palavras, suscita uma ampla gama de significado. Assim, o conto, por ser um texto narrativo curto, pode ser trabalhado na íntegra durante as aulas de literatura ou língua portuguesa, o que rompe com a tendência prejudicial de trabalhar apenas trechos de obras literárias. Diante do exposto, evidencia-se que promover o acesso dos educandos aos contos é uma opção exequível para formar leitores eficientes, mas para isso é indispensável que o professor aborde os elementos que estabelecem uma crítica da realidade. O trabalho com esse gênero na sala de aula colabora para 100 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciadapela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 despertar no aluno tanto o gosto pela leitura quanto pela análise textual, uma vez que o leva a notar as marcas linguísticas que constroem a textualidade e o sentido do texto. Conto: é um gênero textual, de tipologia narrativa, curto e objetivo que apresenta apenas um conflito, uma única ação, com espaço, geralmente limitado, tempo e número reduzido de personagens. Os contos de fadas, por possibilitarem uma série de mistérios e elementos mágicos, são obras que favorecem um trabalho com os leitores infantis desde cedo, visto que permitem a ativação da fantasia, imaginação e reflexão, pressupostos relevantes na formação de leitores competentes. 5.6 TEXTUALIDADE As práticas pedagógicas, atualmente, concorrem para a utilização na sala de aula de textos de diferentes gêneros textuais, não apenas nas aulas em Língua Portuguesa, mas em todas as áreas do conhecimento, visto que as práticas de leitura e de produção textual devem ser priorizadas, a compreensão do con- ceito de texto e dos padrões de textualidade é fundamental para a formação de professores. Texto será entendido como uma unidade linguística concreta (perceptível pela visão ou audição), que é tomada pelos usuários da língua (falante, escritor/ ouvinte, leitor), em uma situação de interação comunicativa específica, como uma unidade de sentido e como preenchendo uma função comunicativa reconhecível e reconhecida, independentemente de sua extensão. (KOCH; TRAVAGLIA, 1998, p. 10) O texto, então, é qualquer ocorrência linguística − falada ou escrita −, de qual- quer extensão, que exerce uma função social, apresenta unidade de sentido e, para tanto, faz uso do léxico e da gramática da língua. Partindo do princípio de que a prática de leitura e produção dos mais variados gêneros textuais, deve ser efetiva e pautada na realidade vivenciada pelos aprendizes, o ensino da gramática normativa, necessita ocorrer, então, de forma contextualizada, con- siderando essa perspectiva. 101MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) Nesse contexto, Beaugrande e Dressler (1981) conceituam texto como sendo uma ocorrência comunicacional que atende a critérios interdependentes, também chamados fatores de textualidade: coesão, coerência, intencionalida- de, aceitabilidade, intertextualidade, informatividade, situacionalidade. Vamos entender cada um desses critérios. FATORES DE TEXTUALIDADE Coesão diz respeito à ligação, conexão entre as unidades significativas do texto. Vale dizer que a coesão é a manifestação linguística da coerência, contribuindo para o seu estabelecimento, no entanto apenas o uso dos elementos coesivos não garante o estabelecimento da coerência. Coerência refere-se ao princípio de interpretabilidade do texto, ou seja, é o que faz com que o texto tenha sentido para os interlocutores, ou seja, a coerência depende do conhecimento de mundo partilhado pelos usuários. Nesse sentido, nota-se que a produção textual por ser uma atividade interacional não depende somente de aspectos linguísticos teóricos, mas também de um contexto comunicativo. Intencionalidade diz respeito à demonstração da intenção, do propósito do emissor numa determinada situação sociocomunicativa, ou seja, relaciona-se ao empenho do emissor em elaborar um texto coerente, coeso, adequado a atender seus intuitos em determinada situação de comunicação. Aceitabilidade refere-se à expectativa que o leitor demonstra de que o texto com que se defronta seja coerente e eficaz para sua aquisição de conhecimento, apresentando-se dessa forma, útil e relevante. Informatividade esse fator relaciona-se à taxa de informação presente no texto. No entanto, vale dizer que as informações não devem ser totalmente previsíveis, assim, o texto deve manter um nível mediano de informatividade para que possa ser compreendido e atenda aos objetivos dos interlocutores. Intertextualidade é a relação que se estabelece entre um texto e outros. A percepção do uso desse critério de textualidade depende do conhecimento que o leitor possui de outros textos, de diferentes gêneros textuais. Fonte: Adaptado de Beaugrande e Dressler (1981). 102 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Saiba Mais ALBERT, S. A. B. Coesão, coerência e construção de objetos de discurso: vislumbrando uma perspectiva sociocognitiva e interacional para o ensino da produção escrita. Linha D'Água (Online), São Paulo, v. 29, n. 1, p. 181-200, jun. 2016. Disponível em: http://www.revistas.usp.br/ linhadagua/article/view/112396. Acesso em: 2 dez. 2019. Leia o artigo “Implicações pedagógicas do uso da intertextualidade no ensino da literatura no ensino médio”, de Ronaldo Miguel da Hora. Disponível em: https://www.editorarealize.com.br/revistas/ sinalge/trabalhos/TRABALHO_EV066_MD1_ SA18_ID165_23032017233304.pdf. Acesso em: 2 dez. 2019. CONCLUSÃO Chegamos ao final de mais uma unidade de nossa disciplina. Aqui, pudemos compreender melhor como a literatura e a produção textual caminham juntas e o quanto é essencial o uso de estratégias pedagógicas que consigam articu- lar essas duas áreas em prol da ampliação do conhecimento e da capacidade comunicativa dos alunos. Vimos também as tipologias textuais que estão presentes em incontáveis gê- neros textuais, possibilitando que o professor de Língua Portuguesa explore os textos literários, como o conto, por exemplo, na construção de textos disserta- tivos ou de outras tipologias. Vale ressaltar que a possibilidade de relacionar gêneros textuais, tipologias textuais e a literatura permite a produção de textos com o objetivo de capacitar, cada vez mais, os alunos das competências comu- nicativas exigidas também fora do ambiente escolar. http://www.revistas.usp.br/linhadagua/article/view/112396 http://www.revistas.usp.br/linhadagua/article/view/112396 https://www.editorarealize.com.br/revistas/sinalge/trabalhos/TRABALHO_EV066_MD1_SA18_ID165_23032017233304.pdf https://www.editorarealize.com.br/revistas/sinalge/trabalhos/TRABALHO_EV066_MD1_SA18_ID165_23032017233304.pdf https://www.editorarealize.com.br/revistas/sinalge/trabalhos/TRABALHO_EV066_MD1_SA18_ID165_23032017233304.pdf 103MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) ANOTAÇÕES UNIDADE 6 > Ensinar língua portuguesa a partir dos mais variados gêneros discursivos em diferentes esferas de circulação, incluindo a digital; > Encaminhar atividades lúdicas para o ensino da língua materna; > Planejar aulas com uso de tecnologias digitais e metodologias ativas para o ensino da língua portuguesa; > Planejar atividades que promovam o desenvolvimento integral do aluno no desenvolvimento da língua portuguesa.. OBJETIVO Ao final desta unidade, você será capaz de: 104 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) 105MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) 6 NOVAS TECNOLOGIAS E METODOLOGIAS CONTEMPORÂNEAS NO ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA INTRODUÇÃO DA UNIDADE Esta unidade apresenta uma reflexão sobre o ensino da língua portuguesa, que sempre foi tema de diferentes discussões a respeito de como devem se comportar professores e alunos, buscando, sempre, o melhor rendimento em sala de aula. Com o surgimento das novas tecnologias, o uso somente de recursos didáti- cos como o quadro de giz, a apostila ou livro didático, tornou-se ultrapassado, diante das transformações constantes, que obrigam todos os envolvidos no processo ensino aprendizado a assumirem posturas e a desenvolverem estra- tégias mais pertinentes aoensino da língua materna. Assim, deve-se enfatizar o uso das novas tecnologias no seu ensino, sua aplicação e rendimento como metodologia inovadora. Percebe-se que o surgimento das tecnologias reforçou o papel do professor e das instituições de ensino, pois em uma sociedade competitiva como a nossa, a qualificação é um requisito essencial, assim como a formação de professores que assimilem a aprendizagem e o desenvolvimento de competências em tecnologias de informação e comunicação. 6.1 NOVAS TECNOLOGIAS PARA O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA O uso das tecnologias causa mudanças na maneira como nos relacionamos com o mundo, assim não poderia ser diferente com relação ao ensino de lín- gua portuguesa. A tecnologia tem gerado grandes mudanças no nosso modo de vida e na forma como percebemos o mundo colaborando para modifi- car as relações humanas e contribuindo para uma mudança de paradigma comunicativo. 106 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 FIGURA 1: EDUCAÇÃO E TECNOLOGIA Fonte: Plataforma Deduca (2019). Isso se dá por conta da expansão da informática nas últimas décadas, que pro- porciona o fácil acesso aos computadores, abrindo uma nova perspectiva para a inclusão de novas tecnologias no processo ensino-aprendizagem. Também a utilização e disseminação de novos softwares e atividades que possibilitam uma grande interatividade por parte dos aprendizes. Essas mudanças trazem vantagens, como: facilitar o esclarecimento de dúvidas, diminuir o isolamento dos alunos, beneficiar a obtenção de informações sobre seu desenvolvimento e motivá-lo para o aprendizado. Mídias integradas Assista ao vídeo sobre BNCC e Língua Portuguesa. Disponível em: https://www.youtube.com/ watch?v=gNSsDtDahp0 https://www.youtube.com/watch?v=gNSsDtDahp0 https://www.youtube.com/watch?v=gNSsDtDahp0 107MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) Como visto no vídeo. os meios digitais já fazem parte do planejamento do Ensi- no de Língua Portuguesa, baseados no documento da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), como segue: A BNCC reflete esse avanço, que se manifesta, principalmente, em dois aspectos: a presença de textos multimodais – popularizados pela democratização das tecnologias digitais – e as questões de multiculturalismo – uma demanda política da contemporaneidade. (BRASIL, 2017, p. 4) Já nos Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa (BRASIL, 2000, p. 61) na seção sobre Língua Portuguesa, o uso da tecnologia é contemplado incluindo a informática com a intenção de aproximar a escola dos alunos. Com base em tais documentos, podemos pensar em novas dinâmicas para o ensino de língua portuguesa que aproxime o ensino com uso da tecnologia. Portanto, devemos pensar em uma formação que utilize as TICs, juntamen- te com recursos tecnológicos que proporcionem um novo modo de pensar. Dessa forma, pode ser útil pensar em ensino dos gêneros textuais a partir da utilização de recursos tecnológicos como sites e blogs. Uso dos blogs O blog é um gênero pensado como um lugar para expressar o pensamento por meio da escrita, associando imagens e sons que compõem o todo dos textos veiculados pela Internet. Desse modo, o ambiente virtual torna-se um lugar privilegiado para o ensino da língua portuguesa. A ferramenta utilizada dá a possibilidade de atualização rápida e a manutenção dos escritos em rede, além da proporcionar interatividade com o leitor das páginas pessoais. Enfim, os blogs, gêneros textuais inseridos nas mídias digitais, são utilizados na educação por alunos e professores durante a realização de pesquisas e es- tudos, e também para divulgação e atualização de informações relevantes à comunidade escolar. Saiba Mais Leia o artigo “Tecnologias no Ensino da Língua Portuguesa: a inovação do convencional”, de Thâmillys Marques de Oliveira et al. Disponível em: http://www.tise.cl/volumen10/TISE2014/tise2014_ submission_187.pdf. Acesso em: 4 dez. 2019. http://www.tise.cl/volumen10/TISE2014/tise2014_submission_187.pdf http://www.tise.cl/volumen10/TISE2014/tise2014_submission_187.pdf 108 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 FIGURA 2: TECNOLOGIAS EM SALA DE AULA Fonte: Plataforma Deduca (2019). 6.2 GÊNEROS DIGITAIS Temos a noção, segundo estudos de Bakhtin (2000), de que texto e discurso são complementares, pois o discurso se realiza no texto. Desta forma, o dis- curso implica atividade comunicativa entre falantes com a possibilidade de construção de sentidos. Leitura Complementar Leia o artigo “Gêneros textuais: definição e funcionalidade”, de Luiz Antônio Marcuschi. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/ pluginfile.php/133018/mod_resource/content/3/ Art_Marcuschi_G%C3%AAneros_textuais_ defini%C3%A7%C3%B5es_funcionalidade.pdf. Acesso em: 2 dez. 2019 https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/133018/mod_resource/content/3/Art_Marcuschi_G%C3%AAneros_textuais_defini%C3%A7%C3%B5es_funcionalidade.pdf https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/133018/mod_resource/content/3/Art_Marcuschi_G%C3%AAneros_textuais_defini%C3%A7%C3%B5es_funcionalidade.pdf https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/133018/mod_resource/content/3/Art_Marcuschi_G%C3%AAneros_textuais_defini%C3%A7%C3%B5es_funcionalidade.pdf https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/133018/mod_resource/content/3/Art_Marcuschi_G%C3%AAneros_textuais_defini%C3%A7%C3%B5es_funcionalidade.pdf 109MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) Para Bakhtin (2000), todos os contextos sociais empregam a língua e nas diver- sas situações produz diferentes enunciados. Dessa forma, existem os chama- dos gêneros primários e secundários: Gêneros primários: transitam em esferas mais privados da sociedade, com- postos na vida cotidiana: diálogos, bilhetes, cartas. Gêneros secundários: aqueles que surgem em momentos relacionadas a tro- cas culturais e circulam no ambiente público como escolar, igreja, cartório, jor- nal e militar. Torna-se importante dominarmos os gêneros, pois é essencial para utilizarmos suas diferentes formas. Os gêneros discursivos são identificados por seu teor temático, construção composicional ou estrutural e estilo verbal, Fica, assim, associado à situação de produção e à interação qualitativa na qual se emprega. Objetivando um ensino de qualidade e cada vez mais próximo da realidade do educando, a Base Nacional Curricular Comum (BNCC), aprovada em 2018, continuará empregando os princípios adotados nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), no tocante ao texto e dos diferentes gêneros textuais, confor- me apresentado anteriormente, inclusive os digitais: Compreender e utilizar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares), para se comunicar por meio das diferentes linguagens e mídias, produzir conhecimentos, resolver problemas e desenvolver projetos autorais e coletivos. (BNCC, 2018, p. 65) Afirma, ainda, que dará a continuidade no ensino de português contextuali- zado articulando-se ao uso social da língua, com as mudanças constatadas nos estudos da linguagem nas últimas décadas (BNCC, 2018). Mesmo porque a sociedade passa a empregar cada vez mais a tecnologia e alguns gêneros deixam de ser usados enquanto outros surgem. Entre os gêneros textuais digitais destacados e muito utilizados hoje, estão: os blogs, Twitter, e-mail, todos eles como uma tipologia específica que devem ser ensinados nas escolas. Esses gêneros textuais nascem de uma necessidade da vida moderna, pois com o advento da tecnologia e a internet presente no dia a dia de todos a comunicação passou a serrealizada de forma diferente. Além disso, a rapidez do mundo contemporâneo fez com que o uso dos canais de comunicação, como Twitter e WhatsApp inaugurassem outras formas de ex- pressão escrita. 110 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Nessas formas de comunicação com o uso dos gêneros digitais, passou-se a utilizar outras formas de escrita que apre- sentam, em sua estrutura, abreviações, links, emoticons, tudo isso criando outros gêneros com características próprias. A distância existente entre o professor e os alunos é reduzida com o uso dos gêneros digitais em sala de aula, visto que propicia o desenvolvimento de novas práticas e ati- vidades voltadas para a leitura e a escrita, tudo isso criando outros gêneros com ca- racterísticas próprias. 6.3 METODOLOGIA CONTEMPORÂNEA PARA O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA Segundo estudos de Gil (2008), metodologia é um processo racional para che- gar a um determinado fim, ou seja, é a forma de operar, de expor a verdade, dentro de padrões estabelecidos e reconhecidos. Vale ressaltar que, para o trabalho de um professor ter resultados, é necessá- rio agir de maneira intencional, planejando as atividades para determinado objetivo. De acordo com Freire (2007), a escola é uma reprodução da sociedade, ou seja, os alunos se relacionam com os colegas de sala, professores e funcionários. As- sim, suas atitudes e ações estão comprometidas com o todo social. O professor deve trabalhar com objetivos e métodos definidos e diferenciados para chegar até seus alunos, efetivando a aprendizagem para o todo social de maneira vas- ta e com clareza. Com relação à disciplina língua portuguesa, é pertinente que cada aluno, tam- bém considerado cidadão, deva desenvolvê-la para se tornar uma pessoa autô- noma. O objetivo é que todo aluno adquira a competência necessária para que atinja o conhecimento e desenvolvimento para escrever e falar. Partimos da noção de que não nascemos prontos e aprendemos na medida que vamos nos desenvolvendo, assim as aulas de Língua Portuguesa devem oferecer método e técnicas diferenciadas. Exemplo Podemos citar como exemplos de gêneros digitais: vlogs, memes, podcasts, gifs, chats, dentre outros 111MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) Imaginamos que o aluno que frequenta a escola está em busca de uma for- ma de aprendizagem que lhe será importante e específica, e que poderá ser encontrada somente no ambiente escolar. Desse modo, o professor de língua portuguesa deve estar preparado para articular sua prática tendo em vista es- tas necessidades. Metodologias e recursos para o Ensino-Aprendizagem O professor deve utilizar recursos metodológicos para o desempenho da ati- vidade em consonância com a maneira de recepção e entendimento do con- teúdo. O que pesamos neste caso é que a aula expositiva se faz necessária, uma vez que possibilita ao educando estar em contato com o conteúdo num primeiro momento. A língua portuguesa, para nós, é a nossa porta para a vida. O professor deve estar preparado para lidar com a sua importância, pois é por meio dela que os demais professores conseguirão explicar o conteúdo, falando e escrevendo na lousa de forma correta. Portanto, podemos utilizar o método de intervenção na aula proposto por Zabala (2002). 1 – Sequências de atividades Maneiras de encadear e articular as diferentes atividades ao longo de uma unidade didática. 2 – O papel dos professores e alunos ou alunos/alunos Clima de convivência de acordo com as necessidades de aprendizagem. 3 – Organização social da aula Grandes grupos, grupos fixos e variáveis contribuem para o trabalho coletivo e pessoal. 4 – Utilização dos espaços e do tempo Concretizam as diferentes formas de ensinar. 112 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 5 – Organização dos conteúdos Provém da própria estrutura formal das disciplinas e formas organizativas globais e integradoras. 6 – Uso dos materiais curriculares Importância que adquirem nas diferentes formas de intervenção (nas exposições, experimentação). 7 – Sentido e papel da avaliação Entendida no seu sentido restrito de controle de resultados, como na concepção global do processo de ensino/aprendizagem. Fonte: ZABALA (2002, p. 18) É importante que o professor possa contribuir mais pelos alunos ensinando- -lhes a ler e a pensar do que aplicando somente o conteúdo, pois o uso da linguagem influência no pensamento. Por fim, é necessário que o professor esteja atento aos recursos metodológico, pois eles serão utilizados de modo a atender da melhor forma o aluno. Nesse sentido, cabe salientar que poderão fazer uso de diversas metodologias seja para a organização do espaço (sala de aula, pátio, biblioteca, sala de informáti- ca), da classe (trabalho com grupamentos, duplas, individualmente), do tempo (de acordo com a atividade prevista) e dos materiais (livros didáticos, paradidá- ticos, produções autorais). Assim, é bom salientarmos que o saber é um processo, não um produto, pois tudo é considerado para o favorecimento do aluno e o professor deve saber manejar os recursos para obter sucesso na aprendizagem. É importante que você aprofunde seus conhecimentos sobre possibilidades de inovação em sala de aula e como desenvolver estratégias que possam beneficiar a aprendizagem ativa dos alunos. Para isso leia o livro A sala de aula inovadora: estratégias pedagógicas para fomentar o aprendizado ativo, dos professores Fausto Camargo e Thuine Daros (2018). 113MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) 6.4 METODOLOGIAS ATIVAS Neste tópico, veremos que, diferentemente das metodologias tradicionais na ativa, o aluno é o agente principal e o grande responsável pelo processo de aprendizado, visto que o objetivo deste método de ensino é estimular os alu- nos a desenvolverem competência de aprendizagem de conteúdos de modo autônomo e participativo. Essa concepção iniciou-se no século XX, com Piaget, um pensador que prega- va o uso de novos métodos de educação. O vocábulo ativa contrapõe o ensino passivo, aquele modelo tradicional em que o professor ensina e o aluno apren- de. Dessa forma, os alunos passam de meros expectadores a participantes no processo de aprendizagem. Segundo Bacich e Moran: Metodologias ativas são estratégias de ensino centradas na participação efetiva dos estudantes na construção do processo de aprendizagem, de forma flexível, interligada e híbrida. As metodologias ativas, num mundo conectado e digital, expressam-se por meio de modelos de ensino híbridos, com muitas possíveis combinações. A junção de metodologias ativas com modelos flexíveis e híbridos traz contribuições importantes para o desenho de soluções atuais para os aprendizes de hoje. (BACICH; MORAN, 2018, p. 2) Sendo protagonista, o próprio estudante adquire maior autonomia para parti- cipar do seu processo de aprendizado. Assim, deixa de ser apenas um receptor de informações e torna-se responsável por buscar os meios para adquirir co- nhecimento de diferentes formas. Nesse contexto, Bacich e Moran consideram que: A aprendizagem é mais significativa quando motivamos os alunos intimamente, quando eles acham sentido nas atividades que propomos, quando consultamos suas motivações profundas, quando se engajam em projetos para os quais trazem contribuições, quando há diálogo sobre as atividades e a forma de realizá-las. Para isso, é fundamental conhecê-los, perguntar, mapear o perfil de cada estudante. Além de conhecê-los, acolhê- los afetivamente, estabelecer pontes, aproximar-se do universo deles, de como eles enxergam o mundo, do que eles valorizam, partindo de onde eles estãopara ajudá-los a ampliar sua percepção, a enxergar outros pontos de vista, a aceitar desafios criativos e empreendedores. (BACICH & MORAN, 2018, p. 5) Assim, existem diversas formas de aplicar a metodologia em sala de aula, e para tanto é fundamental a adequação aos diversos níveis educacionais: edu- cação básica, ensino superior, especialização, por exemplo, pois o desafio de envolver o aluno é diferente em cada faixa etária. 114 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Na metodologia ativa, é fundamental que o professor assuma uma postura di- ferenciada, ele tem o papel de discutir com os alunos as ideias, questionamen- tos e dúvidas que eles apresentam durante a aula, ou seja, os alunos passaram a ser ativos e participativos no processo ensino-aprendizagem. Nesse contexto, o professor adota uma postura de facilitador do processo, mediando a relação entre o conhecimento e os alunos, estimulando e incentivando a sua aquisição. Saiba Mais Leia o artigo “Metodologias ativas e modelos híbridos na educação”, de José Moran. Disponível em: http://www2.eca.usp.br/moran/wp-content/ uploads/2018/03/Metodologias_Ativas.pdf. Acesso em: 3 dez. 20192019. Para se trabalhar com metodologias ativas existem várias técnicas, como: sala de aula invertida (flipped classrom); ensino híbrido (blended learning), e apren- dizagem baseada em projetos. Sala de aula Invertida nesse modelo, o aluno tem acesso aos conteúdos on-line, para que o tempo em sala seja otimizado. Ensino híbrido combina atividades com e sem o professor com o uso de tecnologia. Dessa forma, possibilita que o aluno estude sozinho, com o apoio da internet, e em sala de aula, seja em grupo ou com o professor. Aprendizagem baseada em projetos construção de conhecimento por intermédio de um trabalho longo e contínuo de estudo, cujo propósito é atender a uma indagação, a um desafio ou a um problema. é preciso começar com um problema desafiador, sem respostas fáceis que possam ser obtidas rapidamente, por exemplo, no Google. Fonte: https://blog.lyceum.com.br/metodologias-ativas-de-aprendizagem No link a seguir, você encontrará planos de aula que utilizam tirinhas para o strip sequence. Você pode realizar essas atividades com seus alunos. Ver: http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=51113 http://www2.eca.usp.br/moran/wp-content/uploads/2018/03/Metodologias_Ativas.pdf http://www2.eca.usp.br/moran/wp-content/uploads/2018/03/Metodologias_Ativas.pdf https://blog.lyceum.com.br/metodologias-ativas-de-aprendizagem http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=51113 115MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) 6.5 ATIVIDADES LÚDICAS PARA O ENSINO DA LÍNGUA PORTUGUESA Após percorrer um longo caminho, o texto das Diretrizes Curriculares de Língua Portuguesa aponta para a importância de utilizarmos a característica funcional da gramática com a intenção de permitir ao aluno: um processo de construção de significados, que tenha compreensão do objetivo de aprender gramática e que saiba utilizá-la (BRASIL, 1998). Dessa forma, pretende-se ensinar Gramática de uma forma prazerosa, rom- pendo com a didática tradicional, onde o professor é responsável pelo apren- dizado monótono e sem desafios para o estudante. Assim, os jogos se tornam atividades ideais para trabalhar a imaginação e a curiosidade, prendendo o interesse e a participação dos alunos. FIGURA 2: TECNOLOGIAS EM SALA DE AULA Fonte: Plataforma Deduca (2019). 116 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Glossário De acordo com o dicionário Aurélio, lúdico é aquilo realizado por meio de jogos, brincadeiras, atividades criativas. Que faz referência a jogos ou brinquedos: brincadeiras lúdicas. Que tem o divertimento acima de qualquer outro propósito; divertido. Que faz alguma coisa simplesmente pelo prazer de fazer. (https://www.dicio.com.br/ ludico/) Mídias integradas Assista ao vídeo: “O lugar do lúdico na Educação Infantil”. Disponível em: https://youtu.be/ s0UJHU57kyE. Acesso em 02 dez 2019. A utilização dos jogos pode se dar de diferentes formas e situações, tudo isso vai depender dos objetivos para a aula e para a turma. Assim são exemplos de atividades para a Educação Infantil: FIGURA 4: RECURSOS LÚDICOS CAÇA-PALAVRAS ANAGRAMAS CRUZADINHAS DOMINÓ DE NOMES RECURSOS LÚDICOS Fonte: Elaborada pela Delinea (2019) https://www.dicio.com.br/ludico/ https://www.dicio.com.br/ludico/ https://youtu.be/s0UJHU57kyE https://youtu.be/s0UJHU57kyE 117MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) As atividades apresentadas podem ser aplicadas em diferentes contextos da aprendizagem, seja para o processo de alfabetização, ou para revisar assuntos estudados na compreensão da Língua Portuguesa. Vale ressaltar, que tais re- cursos podem ser utilizados como atividades produzidas, tanto pelo professor como construídas coletivamente com os alunos. Exemplo Existe ainda a possibilidade de o professor utilizar recursos lúdicos disponíveis na internet ou em softwares próprios que auxiliam o professor neste processo. Exemplos destes jogos podem ser encontrados nos sites: https://www.soportugues. com.br/secoes/jogos.php http://guida.querido.net/jogos/. Outros recursos lúdicos que podem ser utilizados são as oficinas de jogos pe- dagógicos, pois se torna um instrumento importante de ensino e é um grande diferencial em sala de aula. Mesmo porque a metodologia de ensino tradicio- nal, na qual o aluno é apenas o receptor de conteúdo de forma passiva, está cada vez mais sendo recusado nas escolas atuais. A aprendizagem deste século está centra- da na promoção de um aprendizado par- ticipativo, em que o estudante e o educa- dor concebam novos conhecimentos em parceria. Dessa maneira, saber usar as atividades lú- dicas como ferramenta de ensino torna-se um recurso que diferencia a aula. Assim nas oficinas criam-se oportunidades para incrementar a troca de experiência entre professores. Onde existe a possibilidade de aprender novas formas de lecionar de forma eficiente e prazerosa e de motiva- ção aos alunos. Saiba Mais Leia o artigo “Educação escolar e cultura(s): construindo caminhos”, de Antonio Flávio Moreira e Vera Maria Candau. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ rbedu/n23/n23a11.pdf. Acesso em 04 dez 2019. https://www.soportugues.com.br/secoes/jogos.php https://www.soportugues.com.br/secoes/jogos.php http://guida.querido.net/jogos/ http://www.scielo.br/pdf/rbedu/n23/n23a11.pdf http://www.scielo.br/pdf/rbedu/n23/n23a11.pdf 118 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 6.6 PLANEJAMENTO DE ATIVIDADES PARA O DESENVOLVIMENTO INTEGRAL DO ALUNO NO ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA Nas últimas décadas, as leis brasileiras estão convergindo para a organização do ensino que seja pautado: no desenvolvimento integral do aluno, na orga- nização de um currículo nacional e baseado em competências. Essas leis e documentos tem início com a promulgação da Constituição de 1988, passa pela formulação da LDB em 1996, tem continuidade nos Planos Nacionais de Educação e por fim são concluídos na edição da Base Nacional Curricular Co- mum em 2018. Desse modo, o primeiro documento no Brasil que determina que a Educação deva ser integral é a Constituição de 1988, quando afirma em seu artigo 205 que: A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. (BRASIL, 1988)Posteriormente, em 1996, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), em seu artigo 9º, institui o ensino por competências: Estabelecer, em colaboração com os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, competências e diretrizes para a Educação Infantil, o Ensino Fundamental e o Ensino Médio, que nortearão os currículos e seus conteúdos mínimos, de modo a assegurar formação básica comum. (BRASIL, 1996) Esses dois documentos darão origem aos planos Nacionais de Educação que em 2014 farão a organização dos currículos estabelecendo as diretrizes a se- rem seguidas em todos os pais. Mais tarde em 2017 com a Lei 13.415 estabelece: Art. 35-A. A Base Nacional Comum Curricular definirá direitos e objetivos de aprendizagem do ensino médio, conforme diretrizes do Conselho Nacional de Educação, nas seguintes áreas do conhecimento [...] § 7º Os currículos do ensino médio deverão considerar a formação integral do aluno, de maneira a adotar um trabalho voltado para a construção de seu projeto de vida e para sua formação nos aspectos físicos, cognitivos e socioemocionais. Por fim, com a edição da Base Nacional Curricular Comum fica reafirmado o compromisso de uma educação integral: 119MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) [...] a BNCC afirma, de maneira explícita, o seu compromisso com a educação integral. Reconhece, assim, que a Educação Básica deve visar à formação e ao desenvolvimento humano global, o que implica compreender a complexidade e a não linearidade desse desenvolvimento, rompendo com visões reducionistas que privilegiam ou a dimensão intelectual (cognitiva) ou a dimensão afetiva. Significa, ainda, assumir uma visão plural, singular e integral da criança, do adolescente, do jovem e do adulto – considerando- os como sujeitos de aprendizagem – e promover uma educação voltada ao seu acolhimento, reconhecimento e desenvolvimento pleno, nas suas singularidades e diversidades. (BNCC, 2018, p. 14) Tendo como base essas legislações entendemos que os sistemas de ensino estaduais e municipais e os sistemas privados devam avançar no sentido de promover práticas que adotem esse tipo de educação pautando o trabalho de formação de professores, o de produção de materiais pedagógicos e os de gestão escolar. As aulas de língua portuguesa, então, deverão ser planejadas tendo em vista o desenvolvimento integral do aluno como estabelece a BNCC que determina construir e aplicar procedimentos de avaliação formativa de processo ou de resultado que levem em conta os contextos e as condições de aprendizagem. Ainda nas aulas de língua portuguesa, o planejamento deve estar primeira- mente em consonância com a LDB devendo servir como propulsores das competências. Dessa forma, ao ensinar Gramática, Literatura e Redação, os alunos devem per- ceber que o uso destas disciplinas faz parte de sua formação e são dinâmicas estabelecendo relações com sua vida e com a sua comunidade. É preciso aulas que mostrem que o texto deva ser abordado como uma unidade de sentido que faz parte de um discurso. Assim como nas aulas de gramática, é preciso refletir sobre os usos das normas estabelecidas para que o aluno em seu de- senvolvimento possa ter um entendimento integral dos usos da língua. Por fim, nas aulas de redação o aluno deve ser capaz de entender as estruturas da es- crita e seus diferentes gêneros e relacionar as ideias dentro do contexto social que vive. 120 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 CONCLUSÃO Chegamos ao final de mais uma unidade da nossa disciplina e percebemos a importância que as tecnologias digitais têm no processo de ensino-apren- dizagem. Assim, é possível afirmar que a maioria dos professores já percebe a necessidade de utilizar os recursos tecnológicos, como afirma Moran: [...] na sociedade da informação, todos estamos reaprendendo a conhecer, a comunicar-nos, a ensinar; reaprendendo a integrar o humano e o tecnológico, a integrar o individual, o grupal e o social. É importante conectar sempre o ensino com a vida do aluno. Chegar ao aluno por todos os caminhos possíveis: pela experiência, pela imagem, pelo som, pela representação (dramatizações, simulações), pela multimídia, pela interação on-line e off-line. (MORAN, 2000, p. 61) No entanto, não se pode esquecer do que declara Demo (2008, p. 134), "temos que cuidar do professor, porque todas essas mudanças só entram bem na es- cola se entrarem pelo professor, ele é a figura fundamental". Dessa forma, o professor é, e sempre será, peça fundamental para o processo ensino-aprendi- zagem, independentemente das metodologias utilizadas em sala de aula. Sabendo que a escola tem a função de formar cidadãos conscientes, é indis- pensável que os professores acompanhem as mudanças, para isso a busca por formação ajuda o professor oportunizando reflexões críticas e tornando-o ca- paz de avaliar a qualidade de ensino. ANOTAÇÕES 121MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) 122 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMEIDA, M. A. Memórias de um sargento de milícias. São Paulo: Penguin Companhia das Letras, 2013. ARNAULD, A.; LANCELOT, C. Gramática de Port Royal. Tradução Bruno Fregni Bassetto e Henrique Graciano Murachco. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001. BACICH, L.; MORAN, J. Metodologias ativas para uma educação inovadora: uma abordagem teórico-prática. Porto Alegre: Penso, 2018. BAGNO, M. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. São Paulo: Loyola, 2007. BAKHTIN, M. Os gêneros do discurso. In: Estética da criação verbal. 3. ed. São Paulo: Martins Fon- tes, 2000. p. 277-326. BARCELOS, E. C. C. Sociolinguística. Porto Alegre: SAGAH, 2016. BARRETO, L. Triste fim de policarpo quaresma. 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Quadro 1: Tipos textuais Quadro 2: Fatores da textualidade Figura 1: Sala de aula Figura 2: Ensino Fundamental Figura 3: Dimensões da estrutura educacional escolar Figura 4: Alunos Figura 5: A Fala Figura 6: Diálogos do Mundo Figura 1: Aprender Figura 2: A linguagem direcionada à religião Figura 3: A Bíblia Figura 4: As línguas Figura 5: Ensino-aprendizagem de línguas Figura 6: Etapas da aquisição da linguagem Figura 7: Etapas do ensino de escrita Figura 1: Primeiros anos do Ensino Fundamental Figura 2: Desenvolvimento da psicomotricidade Figura 3: Desenvolvimento da escrita Figura 4: Processo de simbolização Figura 5: Construção das palavras Figura 6: Domínio da escrita Figura 7: benefícios da leitura e escrita Imagem 1: A literatura nos faz viajar e conhecer outras realidades. Figura 1: Narração Imagem 2: Contação de histórias Imagem 3: Irmãos Grimm Figura 1: Educação e Tecnologia Figura 2: Tecnologias em sala de aula Figura 2: Tecnologias em sala de aula Figura 4: Recursos lúdicos APRESENTAÇÃO DA DISCIPLINA 1 Visão do ensino de língua portuguesa a partir dos PCNs e da BNCC INTRODUÇÃO DA UNIDADE 1.1 BNCC e PCNs 1.2 BNCC, Ensino Fundamental e a Língua Portuguesa no Ensino Fundamental 1.3 Texto, contexto e prática pedagógica 2. Os campos de estudo da linguística e a sociolinguística INTRODUÇÃO DA UNIDADE 2.1 Língua, linguagem e ciência: uma breve história 2.2 Língua, linguagem e ciência linguística hoje 2.3 Ensino de língua materna sob a óptica da ciência linguística 2.4 Educação linguística: rupturas com o modelo colonial de ensino de línguas na escola 2.5 Da aquisição de linguagemao ensino-aprendizagem de línguas 3 AS QUATRO HABILIDADES PARA A COMUNICAÇÃO: OUVIR, FALAR, LER E ESCREVER INTRODUÇÃO DA UNIDADE 3.1 Primeiros anos de vida na escola: o desenvolvimento de habilidades linguísticas básicas 3.2 A simbolização e o reconhecimento dos primeiros textos 3.3 O texto como prática social: a leitura sob a óptica do texto e do leitor 3.4 Práticas de Interação verbal e construção de léxicos: entre leitor e escritor 4 GÊNEROS TEXTUAIS E PRINCÍPIOS DE TEXTUALIDADE INTRODUÇÃO DA UNIDADE 4.1 Gêneros textuais e discursivos no comportamento social 4.2 Gêneros textuais na escola 4.3 Gêneros textuais e princípios de textualidade: horizontes para a sala de aula 4.4 Textualidade e escrita 5 Ensino de literatura e produção textual INTRODUÇÃO DA UNIDADE 5.1 Literatura infanto-juvenil 5.2 Técnicas de redação 5.3 Literatura e produção textual 5.4 A arte de ler oralmente e de contar histórias 5.5 A hora e a vez do conto 5.6 Textualidade 6 NOVAS TECNOLOGIAS E METODOLOGIAS CONTEMPORÂNEAS NO ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA INTRODUÇÃO DA UNIDADE 6.1 Novas tecnologias para o ensino de língua portuguesa 6.2 Gêneros digitais 6.3 Metodologia contemporânea para o ensino de língua portuguesa 6.4 Metodologias ativas 6.5 Atividades lúdicas para o ensino da língua portuguesa 6.6 Planejamento de atividades para o desenvolvimento integral do aluno no ensino de língua portuguesa REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAShttp://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro01.pdf http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro01.pdf http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro01.pdf 6MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) 1.2 BNCC, ENSINO FUNDAMENTAL E A LÍNGUA PORTUGUESA NO ENSINO FUNDAMENTAL Como vimos anteriormente, a BNCC tem desempenhado um papel muito im- portante para o aprimoramento e unificação da educação no Brasil. Por ser um documento maior firmado na forma de Pacto Federativo, ele deve ser a base de todas as outras iniciativas educacionais firmadas nos estados e municípios (BRASIL, 2018). FIGURA 2: ENSINO FUNDAMENTAL Fonte: Plataforma Deduca (2019) É importante ressaltar que a BNCC é uma base referencial a ser seguida, e não um currículo em si. Em virtude disso, seu papel é ser norteador das revisões e construções curriculares adotadas por estados e municípios. Para entender melhor essa diferença, é como se compreendêssemos a BNCC como um norte ou um direcionamento a ser alcançado e os currículos são os caminhos que traçaremos para alcançar o destino. É importante termos essa compreensão, pois o Brasil é um país diverso e cada estado e município tem diferenças e riquezas culturais que devem ser preservadas. A ideia de ter um 7 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 objetivo maior (BNCC) e dar autonomia para que cada estado e município construa o caminho (currículo) a ser traçado é exatamente para valorizar e respeitar a multiplicidade étnico e cultural do Brasil (LEAL; SUASSUNA, 2014). Em um panorama simplificado, podemos considerar que a BNCC conduzirá o currículo educacional formulado por cada estado e município, a formulação dos Projetos Político Pedagógicos (PPP) da escola e, por fim, os planos de curso e de aula do professor. Para entender um pouco mais essa organização, veja a figura a seguir. FIGURA 3: DIMENSÕES DA ESTRUTURA EDUCACIONAL ESCOLAR BNCC Plano de Aula Plano de Curso PPP da Escola Currículo Estadual/Municipal Fonte: Elabora pelo autor (2019). No contexto da disciplina de língua portuguesa, o professor é responsável di- retamente pela elaboração do Plano de Curso e Plano de Aula. Além disso, ele comporá a equipe pedagógica que organizará o Projeto Político Pedagógico da escola. Diante disso, é fundamental que o professor conheça e estude fre- quentemente o BNCC, pois ele será um dos principais atores da execução da proposta governamental. A disciplina de Língua Portuguesa está dentro da Área de Linguagens prevista pela BNCC, que por sua vez também é composta pela disciplina de Arte, Edu- cação Física e Língua Inglesa. O ensino de português dialoga com os documen- tos e orientações curriculares produzidas nas últimas décadas, entretanto, traz inovações ao conceber a língua enquanto elemento de constituição identitária e de construção cidadã. Além disso, passa a abordar as interações e práticas de 8MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) linguagem desenvolvidas no século XXI, em grande parte motivadas pelas tec- nologias digitais da informação e comunicação (TDIC) (BRASIL, 2018). A BNCC apresenta diferentes nortes para o Ensino Fundamental. Vejamos alguns deles: 1. Ensino Fundamental – Anos Iniciais (1º ao 5º ano): ler e formular hipóteses sobre fenômenos, testá-las, elaborar conclusões; desenvolver múltiplas linguagens que agreguem autonomia ao desenvolvimento da criança; entender e valorizar as diferenças culturais, pessoais e sociais; ampliar a oralidade, percepção e representação de sentidos; ampliar a compreensão de si mesmos, do mundo natural e social, das relações dos seres humanos entre si com a natureza. 2. Ensino Fundamental – Anos finais (6º ao 9º ano): consolidar as aprendizagens anteriores através da prática social e da experiência intercultural da linguagem; mover-se do conhecimento generalista para o conhecimento especializado; fortalecer a autonomia, valores ético e morais; desenvolver argumentação e respeito à pontos de vista diferentes; consolidar identidades cívicas e pessoais; dialogar com diferentes saberes, práticas e culturas. O ensino de língua portuguesa deve ser orientado por esses nortes generalistas e, além deles, especificidades quanto ao ensino da língua. Os eixos centrais da aprendizagem linguística são: desenvolvimento da oralidade, leitura, produção de texto, análise linguística e semiótica. O texto, como conjunto de signos representativos de um sentido, seja ele ver- bal, não verbal ou misto, passa a ocupar o centro das aulas de Português. Para explorá-lo, o professor deve partir de uma abordagem enunciativo-discursiva, relacionando os textos e seus contextos de produção aos aspectos estruturan- tes da linguagem. Além disso, deverá abordar a gramática de modo contex- tualizado ao longo das atividades de leitura, produção de texto e análises de diferentes mídias e semioses (BRASIL, 2018). As práticas de linguagem devem ser estimuladas pelos diferentes instrumen- tos de produção linguística. O professor deve promover debates, desafios, lei- turas aprofundadas de textos presentes no dia a dia; a composição de textos 9 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 artístico-culturais; a escrita de gêneros textuais que façam parte do contexto de vivência dos alunos; promover passeios e viagens culturais que facilitem a percepção da interculturalidade e a vivência de diferentes culturas e realida- des sociais; instigar aos estudantes práticas de interação midiáticas que sejam construtoras de conhecimento. FIGURA 4: ALUNOS Fonte: Plataforma Deduca (2019) Mídias integradas Para muitos professores, ainda é um desafio entender quais são as perspectivas de ensino de Português previstas pelo BNCC. De todo modo, é importante estudar a respeito, já que o professor exercerá um papel fundamental no desempenho dos objetivos propostos pelo documento. Acompanhe um pouco mais o que os professores de língua portuguesa têm proposto a partir do BNCC (https://www.youtube.com/ watch?v=0TOrmsKYyKk). https://www.youtube.com/watch?v=0TOrmsKYyKk https://www.youtube.com/watch?v=0TOrmsKYyKk 10MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) Saiba Mais Como ensinar gramática de maneira contextualizada? Esse é um grande desafio para muitos professores, entretanto, há vários modos e metodologias ativas para que isso seja possível. Saiba mais assistindo ao vídeo da professora Jaqueline Fiorelli em parceria com a Revista Nova Escola (https://www.youtube.com/ watch?v=Nma9wZ3Xw-g&t=154s) 1.3 TEXTO, CONTEXTO E PRÁTICA PEDAGÓGICA Questões Antes de irmos adiante, tente responder às seguintes questões: 1) Quais habilidades um professor de língua portuguesa deve ter para cativar os alunos em um tempo de informações dispersas? 2) Como selecionar textos que ativem e cativem reflexões e aprendizados sobre a língua? 3) O que é ler um texto multissemioticamente, ou seja, a partir de diferentes pontos de vista? Há alguns anos, o professor de Língua Portuguesa era estereotipado como uma pessoa de personalidade séria, culta e de amplo conhecimento sobre arte e cultura erudita. Além disso, era confundido com um dicionário, pois era aquele que deveria saber, conhecer e entender as definições das palavras (BAGNO, 2007). Além disso, acreditava-se que o domínio da norma culta era um ins- trumento de ascensão social e que todos deveriam enquadrar-se expressiva- mente nos parâmetros de uma gramática prescritiva. Ou seja, bastava ensinar gramática e o erudito para que alguém “subisse na vida”. Como propõe Bagno (2007, p.69), se assim o fosse, os estereotipados professo- res de português “ocupariam o topo da pirâmide social, econômica e política https://www.youtube.com/watch?v=Nma9wZ3Xw-g&t=154s https://www.youtube.com/watch?v=Nma9wZ3Xw-g&t=154s 11 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 do país”. Além disso, se bastasse ensinar gramática e norma culta para uma criança para que ela fosse alguém na vida, não teríamos violência urbana e todos seriam ricos. Afinal, a gramática sempre foi a centralidade nas aulas de língua portuguesa do ensino fundamental. Enfim, o mero domínio “da norma culta não é uma fórmula mágica que, de um momento pra outro, vai resolver todos os problemas de um indivíduo carente” (BAGNO, 2007, p. 71). Os mitos que examinamos são perpetuados em nossa sociedade de geração em geração e, além de construírem preconceitos linguísticos, instauram mitos e crenças sobre o ensinar e aprender línguas. Com a centralidade do texto nas práticas pedagógicas do professor de língua portuguesa, a sustentação desses mitos tende a extinguir-se, pois a ideia é exatamente partir do texto como ele- mento de prática e reflexão social. Assim, os valores, as identidades, as culturas e as crenças passam a ser construídos linguisticamente nas interações que o texto permite aos alunos estabelecer com a sociedade. FIGURA 5: A FALA Fonte: Plataforma Deduca O professor, nessa perspectiva, não será mais um “detentor enciclopédico do saber”, mas um mediador das práticas de interação verbal. Além do mais, por 12MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) estarmos imersos em um mundo de constante produção e divulgação da in- formação pelas mídias impressas e virtuais, é impossível dizer que hoje o pro- fessor é um depósito de conhecimento. Pelo contrário, ele é um agente da produção de conhecimento. Não queremos dizer, com isso, que o professor não deva ter conhecimentos essenciais a res- peito da linguagem e da língua. Pelo contrário, ele precisa sim desses saberes, mas, além disso, ao professor de língua do século XXI é demandada a habilida- de de dialogismo, ou seja, a habilidade de construir reflexões sobre forma de diálogo. Tendo em vista que o texto passa a exer- cer um papel de centralidade na aula de língua portuguesa, é necessário, então, desenvolver olhares multissemióticos para interpretar, (re)construir sentidos e ao mes- mo tempo produzir reflexões a respeito de diferentes visões de um mesmo texto. Do mesmo modo, é preciso conscientizar os alunos de que a escrita de textos deve se- guir a mesma amplitude, ou seja, propor diálogos e reflexões sobre e coisas que es- tejam no mundo. Na perspectiva do BNCC, o texto de circu- lação cotidiana deve ganhar mais espaço na sala de aula. Além disso, o aluno passa a ser um produtor de textos que podem ocupar diferentes mídias e redes sociais. Dessa forma, ele não é visto como um mero reprodutor da língua escrita, mas um utilizador ativo da língua para cons- truir dialogismos e conhecimento. Mídias Integradas Antes de irmos adiante, é preciso entender o que é dialogismo, por uma perspectiva linguística. Para tanto, assista ao vídeo linguagem e dialogismo com as Profa. Dra. Elisabeth Brait (PUC-SP) e Profa. Dra. Maria Inês Campos (USP) produzido em parceria com a TV UNIVESP (https:// www.youtube.com/ watch?v=KShoiF1XI3A). Tente refletir sobre a aula de língua portuguesa como uma prática de dialogismo e que o texto pode ser um suporte de iniciação ou gatilho para a construção de reflexões sobre a forma de diálogo. r. https://www.youtube.com/watch?v=KShoiF1XI3A https://www.youtube.com/watch?v=KShoiF1XI3A https://www.youtube.com/watch?v=KShoiF1XI3A 13 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 FIGURA 6: DIÁLOGOS DO MUNDO Fonte: Plataforma Deduca Mídias integradas Vamos entender mais sobre o uso de textos multisemióticos na sala de aula de língua portuguesa. Assista ao vídeo da professora Ana Luiza Tayar Lima em parceria com a Revista Nova Escola e compreenda as etapas da construção das práticas dialógicas em sala de aula. (https:// www.youtube.com/watch?v=kRvtnRDlh6A). Bons estudos! É importante considerar que uma abordagem dialógica no ensino de língua portuguesa coloca em evidência uma prática de ensino que estimule os letra- mentos e multiletramentos, ou seja, a elaboração da escrita da leitura prática social. Essa percepção traz à tona a (re)formulação de vários paradigmas edu- cacionais, entre eles a avaliação. Em vez de termos avaliações estruturadas em perguntas e respostas, o profes- sor poderá avaliar o desenvolvimento linguístico dos alunos a partir de projetos de ensino que viabilizem a construção de práticas de letramento. https://www.youtube.com/watch?v=kRvtnRDlh6A https://www.youtube.com/watch?v=kRvtnRDlh6A 14MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) Exemplo Por exemplo, o professor poderá construir um blog com os alunos ao longo do bimestre letivo e deixar sob a responsabilidade dos alunos escrever e postar textos sobre temáticas de interesse deles. Poderá, ainda, construir um canal usando mídias sociais e estimular os alunos a escreverem sobre o bairro, comunidade ou escola em que vivem, bem como ler e compreender e relatar os diferentes textos que são característicos do lugar em que vivem Nesse sentido, o conhecimento linguístico constrói novas possibilidades de ver, construir e interagir com o mundo. Em outras palavras, resgata a língua como um meio de construção social e de demarcação de relações políticas que via- bilizam as práticas de cidadania (RIOLFI, 2018). Na qualidade de mediador do saber linguístico, o professor de língua portu- guesa deve entender, também, que ele faz parte do processo de dialogismo. Sendo assim, ele deverá interagir, bem como se permitir se integrar com o uni- verso linguístico dos alunos. Além do mais, o professor de língua portuguesa deverá estar sempre em constante estudo, pois em, um mundo em que cen- tenas de milhares de informações são publicadas e compartilhadas todos os dias, todo conhecimento é constantemente (re)atualizado. 15 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Saiba Mais As práticas de letramentos e multiletramentos têm sido bastante discutidas nos espaços acadêmicos e escolares. Letrar é diferente de alfabetizar. O alfabetizado tem o conhecimento das letras, dos sons das letras e das palavras. No vulgo português “sabe ler e escrever”, mesmo sem saber o que lê e o que escreve. Já o letrado, além de ser alfabetizado se interessa pelo que escreve, como escreve, porque escreve, quem escreve e pelos diferentes elementos multissemióticos que compõem os textos. Entenda mais sobre essas questões assistindo ao vídeo “Alfabetização e letramento: Conceitos e Relações” produzido pelo canal CeelUFPE (https://www.youtube.com/ watch?v=Gb_HDtzgmGo) CONCLUSÃO Ao longo da Unidade 1, estudamos um pouco mais sobre os aspectos legais que fundamentam e regimentam o ensino de língua portuguesa na escola regular brasileira, especificamente no contexto do Ensino Fundamental. É im- portante destacarmos que a criação da LDB, dos PCNs e da BNCC foram im- prescindíveis para o aprimoramento do ensino de língua portuguesa no Brasil. Além disso, elas trazem consigo o entendimento de que o saber linguístico é um agente de construção da cidadania e de desenvolvimento humano. Na qualidade de futuro professor de português, é importante que, ao final desta unidade, você tenha consciência crítica do seu fazer profissional. Além disso, é imprescindível entenderque os professores que estão em processo de formação serão fundamentais para a implementação da BNCC nas escolas brasileiras, pois este documento é de 2018, portanto, é recente e ainda desco- nhecido por professores que já estão no mercado de trabalho. https://www.youtube.com/watch?v=Gb_HDtzgmGo https://www.youtube.com/watch?v=Gb_HDtzgmGo 16MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) É necessário, também, que você empreenda rumo ao aprimoramento do en- sino de língua portuguesa, já que o enfoque proposto pela BNCC para a disci- plina está na prática linguística que estimule o desenvolvimento da oralidade, leitura, escuta, produção de textos, análise linguística e semiótica. Diante disso, compreender que há um modo de conceber a linguagem em sala de aula é o primeiro passo para que novas práticas pedagógicas e de ensino sejam cria- das. Caberá ao professor do século XXI encontrar novas maneiras de avaliar, construir saberes e conhecimentos a respeito da língua, bem como incentivar o aprendizado linguístico de seus alunos. Nas próximas unidades, entenderemos um pouco mais sobre essas questões, bem como estudaremos subsídios e didáticas que podem orientar, bem como direcionar o professor de português a caminhar rumo ao comprimento da BNCC. Desejamos a você bons estudos! ANOTAÇÕES UNIDADE 2 > Compreender a noção de língua e linguagem. > Entender o papel da linguística no ensino da língua materna. > Conhecer o processo fonológico da língua. > Conhecer as possíveis variantes do português brasileiro. > Utilizar métodos e técnicas para o ensino da língua portuguesa, considerando os conceitos, o erro e a norma. > Planejar diferentes abordagens que considerem os diferentes campos da atividade humana e realidades históricas, econômicas e sociais no processo de ensino-aprendizagem da língua portuguesa. OBJETIVO Ao final desta unidade, você será capaz de: 26 MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) 27MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) 2 OS CAMPOS DE ESTUDO DA LINGUÍSTICA E A SOCIOLINGUÍSTICA INTRODUÇÃO DA UNIDADE Ao longo desta unidade, abordaremos alguns conceitos básicos do ensino- -aprendizagem de línguas, bem como estudaremos um pouco mais sobre o papel do professor de Língua Portuguesa. Além disso, conheceremos mais so- bre a Sociolinguística, campo de estudo da Ciência Linguística que tem con- tribuído imensamente para o aprimoramento do ensino de línguas na escola. Vale relembrar que a Linguística, também conhecida como Ciência Linguísti- ca, ou Ciência da Língua (PETTER, 2006), se dedica ao estudo da língua e da linguagem e tem, há mais de dois mil anos, contribuído para que o homem consiga compreender a complexidade do universo em que vive. Embora a Lin- guística tenha ganhado status comoo ciência apenas no século XX e seja con- siderada uma ciência moderna, ela tem recebido atribuições cada vez mais importantes devido à sua transdisciplinaridade e produção de conhecimentos para outras áreas como medicina, comunicação, psicologia, entre outras (BAT- TISTI; SILVA, 2017). A sociolinguística é uma ramificação da linguística que se dedica ao estudo da relação entre língua e sociedade. Em outras palavras, é o campo da linguística que procura entender como uma sociedade se estrutura, organiza, politiza e se constrói pelos mais variados processos linguísticos. Como descreve Barcelos (2016, p. 8): A Sociolinguística se dedica ao estudo das relações entre a língua falada e o contexto social da comunidade linguística. Sendo assim, seu campo de estudos não fica restrito a determinadas situações, na verdade é extremamente amplo, uma vez que toda e qualquer relação entre fala e contexto constitui objeto de interesse para a análise sociolinguística. Como futuro professor de línguas, é essencial que você entenda que o fazer do professor de Português é altamente relevante para a construção da sociedade, pois é a partir do desenvolvimento da linguagem que o cidadão passa a ter 28 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 oportunidades de reinterpretar e reconstruir o mundo em que vive (BAGNO, 2007; BARCELOS, 2016). Compreender os diferentes aspectos da sociolinguís- tica é fundamental para que você consiga perceber essas questões como pro- fissional e agente de reflexão crítica sobre a língua portuguesa. Desejamos a você bons estudos! 2.1 LÍNGUA, LINGUAGEM E CIÊNCIA: UMA BREVE HISTÓRIA A origem da linguagem é um mistério, mas é fato que seu estudo sempre es- teve presente nas mais diversas sociedades e civilizações já que, saber sobre a linguagem é saber sobre o povo a que pertence, sobre a cultura da qual se faz parte e sobre si. Infelizmente, no Brasil ainda remanesce um discurso colonial sobre educação e sociedade, o qual impede, aos diferentes povos e comuni- dades que compõem a nação brasileira, de caminharem rumo a uma comu- nicação efetiva e, com isso, dar início à construção de uma sociedade que seja independente e consiga descolonizar suas visões de mundo e desmistificar sua história. Para romper com essa colonização, é preciso revisitar, reaprender, recriar, refazer e reestabelecer nossos laços e usos da linguagem. Como sugere Petter (2006): O fascínio que a linguagem sempre exerceu sobre o homem vem desse poder que permite não só nomear/criar/transformar o universo real, mas também possibilita trocar experiências, falar sobre o que existiu, poderá vir a existir, e até mesmo imaginar o que não precisa nem pode existir. A linguagem verbal é, então a matéria do pensamento e o veículo da comunicação social. Assim como não há sociedade sem linguagem, não há sociedade sem comunicação. Tudo o que se produz como linguagem ocorre em sociedade, para ser comunicado, e, como tal, constitui uma realidade material que se relaciona com o que lhe é exterior, com o que existe independente da linguagem. (PETTER, 2006, p. 11) Mídias integradas Assista ao vídeo Idiomaterno (https://www. youtube.com/watch?v=2LNopxcBVms&t=436s) e aprecie um pouco mais sobre a língua que marca a nossa identidade de brasileiros. https://www.youtube.com/watch?v=2LNopxcBVms&t=436s https://www.youtube.com/watch?v=2LNopxcBVms&t=436s 29MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) O desconhecimento dos estudos sobre a linguagem, bem como a falta de consciência de que eles são importantes para a expressividade e comunicação humana, faz com que o Brasil enfrente vários problemas sociais, sendo os mais reconhecidos deles a violência e a desigualdade social. Contratempos no trân- sito se tornam discussões que, pela ausência de diálogo, acabam em brigas as quais, por sua vez, ativam o instinto humano que faz uso cegamente da vio- lência para matar. Muitas mortes seriam evitadas se soubéssemos usar nossa competência de linguagem para entender o outro, bem como sabermos co- municar aquilo que desejamos dizer (LOPES; CORDEIRO, 2018). A linguagem é estruturante do nosso pensamento e de nossas ações e, quanto mais conhece- mos as suas artimanhas e desenvolvemos essa competência, melhor lidamos com o instinto e com as nossas impulsividades (LACAN, 1998). FIGURA 1: APRENDER Fonte: Plataforma Deduca (2019) Na qualidade de materialidade (sons, gestos, palavras, frases), a linguagem é relativamente autônoma, ou seja, ela independe dos desejos humanos. Ela an- tecede a natureza humana, isso é, preexiste ao homem. Apesar disso, como expressão de ideias, emoções, sentimentos, propósitos e desejos, a linguagem é orientada pela percepção de mundo, por determinações sociais, históricase culturais que fazem parte das experiências de vida de alguém (PETTER, 2006). 30 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 A linguagem é, portanto, estrutura verbal simbólica que permite ao homem estruturar-se psiquicamente como ser racional e simbolizar as coisas que cons- tituem e constroem o mundo em que habita (CHAGAS, 2016). O psicanalista francês Jacques Lacan propõe que a criança, quando vem ao mundo, nasce um pedaço de carne. É a partir do contato com a linguagem preexistente à carne é que a criança vai cindindo, estruturando e moldando o seu psiquismo, tornando-se ser humano (LACAN, 1998). Assim, o humano é fei- to de linguagem e nela se constitui. O homem que não ascende à linguagem não consegue ser humano, ou melhor, mantém-se irracional e na irracionalida- de é movido pelo instinto semelhantemente ao dos animais. FIGURA 2: A LINGUAGEM DIRECIONADA À RELIGIÃO Fonte: Plataforma Deduca (2019) O interesse pela linguagem, como matéria do pensamento que permite ao homem construir, criar, nomear e transformar sua realidade existencial, não é recente. Os primeiros relatos remontam ao século IV a.C. quando os povos hin- dus, originários da Índia e do Paquistão, propuseram-se a estudar a linguagem por motivos religiosos. Naquele tempo, eles acreditavam que era necessário modalizar a linguagem para que os textos religiosos não sofressem alterações de sentido quando eram proferidos. Após décadas de estudo direcionados à 31MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) religião, os hindus se dedicaram a descrever a língua que falavam produzindo modelos de gramaticalização. Pela falta de contato entre Ocidente e Oriente, esses conhecimentos sobre a linguagem chegaram ao Ocidente apenas no final do século XVIII (PETTER, 2006). 2.2 LÍNGUA, LINGUAGEM E CIÊNCIA LINGUÍSTICA HOJE No Mundo Ocidental, o relato mais antigo que temos sobre os estudos da lin- guagem vem da Grécia Antiga, quando os gregos perceberam que o exercício humano e do poder se davam pela palavra. Sócrates e Platão (século III a.C.) foram os pioneiros a pensarem nessas questões, mas foi com Aristóteles que sugiram os primeiros modelos de estruturação e análise da linguagem. Tanto os modelos de gramaticalização hindus quanto os de estruturação e análise da linguagem de Aristóteles tinham métodos, racionalidades e hipóteses, o que fez com que esses estudos fossem, talvez, os precursores da ciência da linguagem. A Reforma Religiosa (1517) também foi importante para o desenvolvimento de ciências que têm como objeto de estudo a linguagem, pois a Bíblia, ao deixar de ser propriedade da Igreja Católica, passou a ser traduzida para outras lín- guas (CAMPOS, 1986). FIGURA 3: A BÍBLIA Fonte: Plataforma Deduca (2019) 32 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Para que o livro fosse traduzido, sem que as palavras perdessem o sentido, foram necessárias várias pesquisas e estudos, o que gerou muitas polêmicas, pois acreditava-se que o sentido bíblico proposto pela língua latina era único e que as traduções feitas dos textos originais esvaziavam o que, de fato, fora dito pelos apóstolos. Algumas décadas após a Reforma Religiosa (1517), Lancelot e Arnaud (1660) ao escreverem a Gramática de Port Royal, demonstraram que “a linguagem se funda na razão, é a imagem do pensamento e que, portanto, os princípios de análise estabelecidos não se prendem a uma língua particular, mas servem a toda e qualquer língua” (PETTER, 2006, p. 12). Dessa forma, Lancelot e Arnaud (1660) conseguem atestar que não há uma língua mais rica ou mais pobre de sentido do que a outra, pois o pensamento não se funda na língua em si, mas no psiquismo. Os autores demonstraram, pela ciência da linguagem, que as línguas se transformam com o tempo e que essa mudança independe da von- tade dos homens. A partir daí, os estudos sobre a linguagem passaram a levar em consideração a linguagem como instituição social. FIGURA 4: AS LÍNGUAS Fonte: Plataforma Deduca (2019) 33MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) É no século XVI, entretanto, com a publicação do livro “Curso de Linguística Geral”, atribuído a Ferdinand de Saussure (1857-1913), que a ciência da lingua- gem é difundida e se reafirma como área de estudo sob o nome Linguística. Infelizmente, Ferdinand de Saussure morreu ainda jovem e não pôde dar con- tinuidade às suas pesquisas, mas suas teorias e propostas metodológicas de estudo da linguagem deixaram pistas para que outros linguistas, como Noam Chomsky, William Labov e pesquisadores de outras áreas, a exemplo de Jac- ques Lacan, dessem à Linguística o status de uma das ciências mais importan- tes dos séculos XX e XXI. A proposta saussuriana mais importante foi a distinção entre língua e lingua- gem. Para Saussure (2006), a linguagem é “heteróclita e multifacetada” e se constitui complexamente de vários elementos de ordem física, fisiológica, psí- quica, social e individual. Portanto, o estudo da linguagem é transdisciplinar pois requer conhecimento de outras ciências como a psicologia, psiquiatria, ciências sociais, antropologia etc. Em virtude da complexidade da linguagem, Saussure (2006) propõe que há algo dela que é “produto social” e que esta- belece um conjunto de convenções necessárias a partir de signos linguísticos que são homogêneos entre os falantes. Ou seja, o que é da língua é exterior ao indivíduo, não pode ser modificado pelo falante e obedece às convenções de comunicação dos membros de uma comunidade. Resumidamente, Saussure (2006) define a língua como sendo um “sistema de signos” e, apesar de hoje termos tantas outras definições para língua, as propo- sições de Saussure (2006) foram importantes, pois, a partir delas, foi possível estabelecer e perceber regularidades na complexa faculdade humana da lin- guagem. Após os estudos saussurianos, a Ciência Linguística cresceu e ganhou subdivisões como: psicolinguística, neurolinguística, linguística de corpus, lin- guística aplicada, lexicografia, lexicologia dentre outros. Além disso, os conheci- mentos em Linguística passam hoje a influenciar diretamente outras ciências transdisciplinares a ela, como a Psicologia, Psicanálise, Psiquiatria, Neurociên- cias, Pedagogia, Arqueologia, Geografia, Sociologia etc. Como afirmam Battisti e Silva (2017, p. 23): Nas duas últimas décadas, porém, as ciências linguísticas, encabeçadas pela área da linguística aplicada, traçaram uma crítica ao que prescreviam os estudos gramaticais. A partir deste momento, a língua começa a ser entendida como discurso e enunciação, e a linguagem, como uma faculdade do homem. 34 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Como ciência, a linguística está hoje relacionada diretamente ao desenvolvi- mento humano. Com isso, ela passa a ter um enfoque muito mais representa- tivo e multidisciplinar, já que produz conhecimentos amplos que surtem inter- ferências na sociedade. Saiba Mais Assista ao vídeo Princípios Gerais da Linguística, com participação da Dra. Maria Cristina Altman, e conheça mais sobre o surgimento da Ciência Linguística (https://www.youtube.com/ watch?v=RFZZvpWjsu4) 2.3 ENSINO DE LÍNGUA MATERNA SOB A ÓPTICA DA CIÊNCIA LINGUÍSTICA A Ciência Linguística, também conhecida como Estudos Linguísticos, Ciência da Linguagem ou apenas como Linguística, trouxe inúmeras contribuições para o ensino-aprendizagem de línguas. A primeira delas é que, na qualidade de ciência, a linguística conseguiu constatar que as regularidades linguísticas não se reduzem à gramática de uma língua. Em segundo lugar, poderíamosdizer que a linguística desvelou e desmitificou várias crenças que se tinha so- bre a aquisição de linguagem (BATTISTI; SILVA, 2017). Poderíamos enumerar uma série de fatores que fazem da Linguística uma área do saber relevante para o ensino de Língua Materna, entretanto, todas elas se convergem em dizer que: 1. ensinar língua é diferente de ensinar a gramática da língua; 2. o desenvolvimento linguístico traz consigo aspec- tos psicológicos, fisiológicos e identitários; 3. ser professor de língua exige muita responsabilidade, tanto so- cial quanto educacional, pois é o professor de línguas um dos principais agentes da nomeação, criação, transformação e (re)in- terpretação do mundo daqueles que frequentam a escola. Como propõe o linguista Raffaele Simone, o ensino de línguas na escola não é apenas uma “matéria escolar” entre tantas outras, mas o fator decisivo para o desenvolvimento integral do ser humano e, seguramente, do cidadão de bem (SIMONE, 1979). https://www.youtube.com/watch?v=RFZZvpWjsu4 https://www.youtube.com/watch?v=RFZZvpWjsu4 35MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) É pelo saber linguístico que o homem dá sentido e constrói o mundo em que habita e o professor de línguas deve ter ciência de que o aluno, antes de che- gar na escola, já traz consigo conhecimentos e visões diversas, o que faz dele um agente social. Como sugere o professor Evanildo Bechara: No fundo, a grande missão do professor de língua materna – no ensino de língua estrangeira o problema é outro – é transformar seu aluno num poliglota dentro de sua própria língua, possibilitando-lhe escolher a língua funcional adequada a cada momento de criação e até, no texto em que isso se exigir ou for possível, entremear várias línguas funcionais para distinguir, por exemplo a modalidade linguística do narrador ou as modalidades praticadas por seus personagens. (BECHARA, 1998) Desse modo, o ensino de línguas não deve ser resumido ao ensino da escri- ta e da leitura. Do contrário, ele precisa ser voltado para o desenvolvimento do saber linguístico que transpõe essas duas habilidades e permite ao aluno desenvolver-se como cidadão e, com isso, aprimorar, ressignificar e recriar o mundo em que vive. Porém, se o aluno deve ser um poliglota em sua pró- pria língua, o que é, afinal, Língua Materna, Língua Primeira, Língua Segunda e Língua Estrangeira? São apenas designações dadas aos diferentes contextos de ensino-aprendizagem de línguas, tendo em vista que cada contexto exige peculiaridades de ensino. 1. Língua Materna ou Língua Primeira: é designada levando em consideração os fatores: “a língua da mãe, a língua do pai, a língua dos outros familiares, a língua da comunidade em que nasceu, a língua adquirida por primeiro, a língua com a qual se estabelece uma relação afetiva, a língua do dia a dia, a língua predominante na sociedade, a de menor status para o indivíduo, a que ele melhor domina, a língua com a qual ele se sente mais à vontade” (SPINASSÉ, 2006, p. 5). 2. Segunda Língua ou Língua Segunda: “designação dada a qualquer “não-primeira-língua” (SPINASSÉ, 2006, p. 6), “falada por alguém dentro de um processo de sociabilização em um outro país ou no próprio país, quando existem várias línguas oficiais. De toda maneira, a diferença entre Língua Materna e Segunda Língua está no fato de que uma Segunda Língua é aprendida quando alguém 36 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 é submetido a um ambiente de imersão numa língua outra que, quando tomada como objeto de saber e de prática social, pode operar diferentemente daquela que ele tem como Língua Materna” (CHAGAS, 2016, p. 46). 3. Língua Estrangeira: designação dada à língua não materna geralmente estudada na escola, não utilizada cotidianamente por aquele que a aprendeu e é sempre apresentada com um fim utilitário, instrumental ou mecânico. Nesse caso, a língua seria apenas uma ferramenta ou instrumento de informação que pode ser utilizada por alguém” (CHAGAS, 2016, p. 47). 4. Língua Adicional: é a designação empregada a qualquer língua que alguém possa aprender após o aprendizado da Língua Materna. A Língua Adicional pode ser uma Segunda Língua ou uma Língua Estrangeira. Tendo em vista as diferentes designações utilizadas para nomear os contextos de ensino-aprendizagem linguística, qual seria, então, o papel do professor de Português – Língua Materna – no Brasil? A primeira coisa é entender que ensinar gramática não é ensinar língua. Em seguida, entender que o ensino de línguas da escola deve ser pensado em um modelo de educação e emancipação linguística (BECHARA, 1998). A língua padrão, a qual a escola se propõe a ensinar, é diferente da “língua da mãe, da língua do pai, a língua da comunidade em que o aluno nasceu e da língua com a qual o aluno se sente mais à vontade” (SPINASSÉ, 2006, p. 5). Mesmo assim, nada impede de que ele a aprenda e isso só acontecerá se o aluno tiver consci- ência de que a língua estudada na escola trará a ele novas visões e concepções de mundo. Um modelo de ensino de Língua Materna que se fundamenta na Linguística contrasta com os antigos modelos de alfabetização, pois novas concepções de linguagem e língua exigem novas metodologias de ensino de línguas. Para aprimorar e dar efetividade ao ensino de Língua Portuguesa nas escolas bra- sileiras, serão necessárias mudanças profundas, também, no “preparo” e “for- 37MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) mação” dos professores que entrarão na sala de aula. Não sugerimos, com isso, uma questão burocrática da educação, mas uma mudança de significação e posicionamento dos professores de Português para brasileiros. Mídias integradas Entenda um pouco mais sobre a proposta de Ensino de Língua Materna sob a óptica da Ciência Linguística e como ela traz rupturas com os antigos modelos de alfabetização abstrata. Clique aqui (https://www.youtube.com/ watch?v=DNhHs0PaSfE) e assista ao vídeo Norma Culta e Oralidade, da TV Cultura Digital, feito em parceria com Prof. Dr. Evanildo Bechara e a TV Unesp. 2.4 EDUCAÇÃO LINGUÍSTICA: RUPTURAS COM O MODELO COLONIAL DE ENSINO DE LÍNGUAS NA ESCOLA É comum ouvirmos nos discursos escolares o trato da Educação Linguística, Aquisição de Linguagem e ensino-aprendizagem de línguas como sendo a mesma coisa. O mais agravante é quando a condensação desses termos não resulta nem em um nem em outro. Antes de darmos sequência a essa unida- de, precisamos, entretanto, ter claro que os referidos termos tratam de coisas diferentes e que ensinar Língua Portuguesa na escola depende comumente do vasto domínio e conhecimento que o professor terá de todos eles. 1. Educação Linguística: é um processo de conscientização linguística que deve fundamentar todos os conteúdos escolares. Tem como centro o desenvolvimento das diferentes linguagens – corporal, visual, sensível, audível, artística, entre outras – com o intuito de fazer com que o aluno consiga ser agente de significação do mundo, e não apenas um mero consumidor de informações, como é de costume na educação tradicional. Educar linguisticamente é possibilitar ao aprendiz desenvolver a faculdade linguística que o torna ser humano e, portanto, ser de linguagem, identidade, memória e história. É viabilizar a autonomia social e https://www.youtube.com/watch?v=DNhHs0PaSfE https://www.youtube.com/watch?v=DNhHs0PaSfE 38 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 identitária de alguém para que ele seja agente do conhecimento e da linguagem (BECHARA, 1998). 2. Aquisição de Linguagem: processo iniciado na primeira infância em que o bebê assimila a linguageme seus diferentes dispositivos e que acompanha o homem por toda a vida. A aquisição de linguagem engloba a junção do desenvolvimento neurológico, psicológico, fisiológico e psicossocial do homem e tem inteira relação com o desenvolvimento do corpo e da mente. Todo conhecimento novo adquirido por alguém funda no cérebro estruturas neuronais próprias que são operacionalizadas pela linguagem. Na escola, engloba o desenvolvimento da psicomotricidade, do sistema fonológico e da sensitividade do aluno (KAIL, 2013). 3. Ensino-Aprendizagem de Línguas: pesquisadores têm proposto que não existe ensino sem aprendizagem, pois ambos fazem parte do mesmo processo. Não há como ensinar, se não houver quem deseje aprender; não há como aprender se não houver quem deseja ensinar. Assim, o termo ensino-aprendizagem sempre será conectado com hífen. O ensino-aprendizagem de línguas é composto por um processo complexo que envolve tanto aspectos inconscientes quanto da Educação Linguística e da Aquisição da Linguagem. Além disso, é mediado pela capacidade de interação entre professores, alunos, sociedade, escola e meio ambiente em que estão. Centra-se na capacidade que os envolvidos no ensino-aprendizagem têm de ponderar, desenvolver e aprimorar a linguagem de modo que essa ação seja resulte no desenvolvimento humano (CHAGAS, 2016). O professor de Língua Portuguesa muitas vezes não tem dimensão da impor- tância e da complexidade de seu trabalho no desenvolvimento humano e so- cial (LEAL; SUASSUNA, 2014). Como agente de ensino-aprendizagem, o profes- sor deve incessantemente estudar sobre a linguagem e como ela se envereda nas mais diferentes facetas do conhecimento. Seu conhecimento de lingua- gem e de mundo será essencial para que ele consiga trazer objetivos e cons- truir propostas de ensino-aprendizagem com os alunos. Conhecer sobre linguagem não é só saber ler, escrever, ouvir, pronunciar, do- minar a gramática e léxico de uma língua. É saber usar todas essas coisas em 39MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) prol do desenvolvimento da faculdade linguística, despertando em si identida- de, memória, conhecimento e historicidade: é desenvolver-se humanamente. O modelo tradicional que ainda vigora no senso comum da escola brasileira é arraigado de conceitos antigos e de crendices sobre o modelo ideal de ensino- -aprendizagem de Língua Portuguesa (BERTOLDO, 2009; BARCELOS, 2016). Um fator que freia o aprimoramento do ensino aprendizagem de línguas na escola é que os modelos de alfabetização da escola primária ainda são funda- mentados em um tradicionalismo colonial e na concepção de que a escrita é a reprodução da fala. Entretanto, esse é um erro que muitos professores da educação básica cometem, pois a escrita não é a reprodução da fala, mas sim uma representação da língua falada. Dessa forma, a escrita se aproxima da fala, mas não é capaz de reproduzi-la, nem de representá-la em todos os aspectos. Portanto, a escrita e a fala são materialidades e envolvem habilidades diferen- tes que devem ser desenvolvidas na aula de Língua Portuguesa. O tradicionalismo colonial concebe o processo educacional por um viés econô- mico, quântico e cambiável. Para ele, o que interessa é a quantidade de alunos na sala, de tempo que o cidadão passa na escola, de horários de aula que são ofertados, o custo de produção e de manutenção da escola etc. (MOSÉ, 2013). No entanto, sabemos que qualquer modelo de educação que envolva ensino- -aprendizagem, requer mudança (FREIRE, 1979), pois ela envolve desenvolvi- mento social, humano, psicológico, neurológico e agrega bem-estar social ao cidadão. A Educação Linguística é, portanto, um elemento fundamental para a ruptura com o tradicionalismo colonial, pois ela provê espaço para a reflexão crítica de mundo e a partir de então dá autonomia ao aluno para se posicionar como agente de desenvolvimento social dentro e fora da escola. 40 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Mídias integradas Aprofundar seus conhecimentos em Educação Linguística e Ensino-Aprendizagem de Línguas permitirá a você ser um professor que esteja apto para enfrentar os problemas da escola e propor rupturas com crendices sobre a aula de Língua Portuguesa. Como esse assunto é vasto e já existem muitas questões sendo colocadas em ação, indicamos para você três curtas-metragens com a Prof. Dra. Ângela Dionísio e o Prof. Dr. Luiz Antônio Marcuschi que abordam, de forma mais aprofundada, a noção de fala e escrita e o processo de ensino-aprendizagem da Língua Portuguesa. Fala e Escrita – Parte 1 https://www.youtube.com/watch?v=XOzoVHyiDew Fala e Escrita – Parte 2 https://www.youtube.com/watch?v=6y9xK-9bbcw Fala e Escrita – Parte 3 https://www.youtube.com/watch?v=UqSfGyR1ERA 2.5 DA AQUISIÇÃO DE LINGUAGEM AO ENSINO- APRENDIZAGEM DE LÍNGUAS Muitos adolescentes chegam analfabetos e iletrados no ensino fundamental e, diante disso, precisamos entender que a função do graduado/licenciado em Letras passa a ser hoje, também, a função do alfabetizador (SAMPAIO, 2014). Isso é necessário, porque, sem Educação Linguística, o aluno não consegue avançar, ou seja, não consegue entender, compreender e assimilar os conteú- dos e as linguagens que são característicos de outras matérias. É importante lembrar que educar linguisticamente não é ensinar alguém a ler e escrever, mas sim a pensar e perceber criticamente sobre o mundo e sobre as coisas. E só depois que o estudante consegue desenvolver essa habilidade de humanização é que a escrita, a leitura, a gramática, a história, a geografia etc., farão sentido para ele. https://www.youtube.com/watch?v=XOzoVHyiDew https://www.youtube.com/watch?v=6y9xK-9bbcw https://www.youtube.com/watch?v=UqSfGyR1ERA 41MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) A Educação Linguística é cíclica e precedida de Aquisição de Linguagem. O ensino-aprendizagem de línguas, portanto, opera e é operado por ambos. É importante ressaltar que fortalecer o Desenvolvimento e Aquisição da Lingua- gem não é o mesmo que Desenvolvimento da Fala. Sendo assim, o professor de Língua Portuguesa deve entender que a Aquisição da Linguagem é um processo amplo, neurológico, psicológico e fisiológico. Nessa perspectiva, o en- sino-aprendizagem de línguas vai além de saber falar, ler, escutar ou escrever. Veja na figura a seguir um esboço das relações entre ensino-aprendizagem de Línguas, Aquisição de Linguagem e Educação Linguística. FIGURA 5: ENSINO-APRENDIZAGEM DE LÍNGUAS Aquisição de Linguagem Educação Linguística Ensino- Aprendizagem de Línguas Fonte: O Autor (2019). 42 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Vamos conhecer isoladamente cada uma delas: 2.5.1 PRIMEIRAS ETAPAS DA AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM A Aquisição da Linguagem começa com o desenvolvimento da psicomotri- cidade. É normal o bebê começar a reproduzir gestos e barulhos feitos por adultos. Inicialmente, o bebê demonstra a ativação da sua psicomotricidade mexendo os braços, corpo e os lábios produzindo barulhos como “é... á... ú...” (fonemas). A partir do momento em que o aparelho fonador vai desenvolven- do a musculatura, o bebê começa a reproduzir sons mais complexos, como “Dá... Dá, Pa... Pá, Bu... Ga...” (morfemas) (KAIL, 2013). Quando o bebê inicia a re- produção de dois sons construindo fonemas, ele começa também a perceber que há sentido naquela combinação sonora. Com isso, ele aprimora o desen- volvimento da visão e da audição e esses sons passam a construir represen- tações acústicas que, por sua vez, passam a ter significados. Nesse momento, que acontece entre os seis e nove meses de idade, o bebêpassa a assimilar a linguagem e percebe que o que ele diz tem um significado. O bebê começa a espelhar-se no que e na maneira que o adulto fala, iniciando um constante processo de repetição. Ao longo desse processo, ele começa a fazer a junção de morfemas e fonemas, construindo as primeiras palavras. O morfema Pa... + o morfema Pa... + o fonema i ... = Papai. FIGURA 6: ETAPAS DA AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM Dados Dados Dados Dados Dados Fonemas Morfema Frase OraçãoPalavra P PA M MA PAPAI O PAPAI É BONITO PAPAI BONITO A AI I Fonte: O Autor (2019). 43MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) Quanto mais estimulada a criança for a reproduzir gestos e sons com a boca, mais fácil será essa etapa da Aquisição da Linguagem. Quando o bebê começa a andar e a desenvolver a percepção física das coisas à sua volta, inicia o desen- volvimento das redes neuronais que permitem fazer adjetivações e distinções. Com isso, o bebê começa a distinguir grande do pequeno, quente do frio, sim do não etc. Nesse período, ele passa a ter percepção de que as palavras pos- suem ordenação e começa a reproduzir essa ordem. Papá... quente... mamãe (O papá está quente, mamãe). O treino dessas ordenações fará com que o bebê produza as primeiras frases. Quando esse processo começa, a criança fica inquieta e quer tocar e apalpar tudo. É natural que isso ocorra, pois ela descobre os significados e os adjetivos das coisas. Em outros termos, o que elas são e para que elas servem. É só após os três a quatro anos, momento em que o bebê começa a ser autônomo para andar, comer e regula o corpo em uma rotina de hábitos, é que ele passa a verbalizar, ou seja, dar ação aos objetos que compõem o mundo que o cerca. Nessa etapa, ele começa a produzir as primeiras orações e, com a verbalização, o bebê deixa de ser um ser totalmente dependente e passa a ser, então um infans, ou uma criança, como comumente conhecemos (LACAN, 1998). É necessário ressaltar que adquirimos a linguagem ao longo de toda a nossa existência. Cada palavra nova que aprendemos cria uma nova rede neuronal que reestrutura toda a nossa linguagem (CHAGAS, 2016). Ao longo do Ensino Fundamental, o que está em jogo, entretanto, não é mais o desenvolvimento dos aspectos físicos da linguagem, mas a assimilação e construção dos aspec- tos psicológicos e conscientes da linguagem. Assim, a criança deverá aprender os diferentes contextos de uso, aplicação e colocação das palavras. Por exem- plo: a palavra bala pode ser usada para designar um doce que é chupado ge- ralmente por crianças, mas bala pode ser também uma munição de revólver, que pode ser usada para ferir alguém. Nesse momento, é importante familiarizar a criança com os diferentes gêneros textuais, como notícia, contos e autobiografias, que façam com que ela perce- ba a escrita como representação e reflexão da sociedade. É trabalhoso selecio- nar materiais que estejam próximos da realidade do aluno, entretanto, fazer isso é fundamental para que o estudante consiga desenvolver a linguagem (LEAL; SUASSUNA, 2014). A escrita também deve ser ensinada de modo que o aluno consiga aprender a argumentar sobre o mundo que vive e, por fim, dissertar sobre o mundo em 44 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 que vive e propor soluções para os problemas que enfrenta no dia a dia. É in- dispensável também que o professor entenda que descrever, narrar, argumen- tar e dissertar são habilidades cognitivas que dependem uma da outra para se desenvolverem. Não é possível queimar etapas e querer que um estudante do sexto ou sétimo ano saiba dissertar, já que isso só será possível depois que ele aprender as habilidades anteriores. FIGURA 7: ETAPAS DO ENSINO DE ESCRITA DESCREVER 6o ANO 7o ANO 8o ANO 9o ANO NARRAR ARGUMENTAR DISSERTAR Fonte: O Autor (2019). É importante, também, que o professor problematize as estruturas dos textos escritos e lidos. A criança deve saber que os gêneros textuais têm característi- cas diferentes e que não dá para escrever tudo da mesma maneira. Além disso, ela deve, também, aprender estruturas gramaticais que são características de cada texto e o professor deve sempre forçar os conhecimentos linguísticos es- tudados nas primeiras séries escolares. É fundamental que o professor nunca parta do pressuposto de que o aluno já sabe ou deveria saber. No processo de Educação Linguística, está em jogo, exatamente, o despertar para o conheci- mento de mundo. Se a criança tem dúvida, o professor sempre terá menos tra- balho, pois a dúvida é um gatilho para a aprendizagem (RIOLFI, C. et al., 2008). No Ensino Fundamental, o professor de Língua Portuguesa deverá entender, também, que existem variações linguísticas que fazem parte da Língua Por- tuguesa. Essas variações são geográficas, sociais, culturais e, diferentemente do que se coloca em um discurso colonial, são elas que enriquecem a língua. Desse modo, é importante que o educador de língua respeite as variedades sociais e culturais de seus alunos e, em vez de não deixá-los falar porque os estudantes enunciam a partir de um dialeto não padrão, devem instigá-los a conversar para que os demais reconheçam a heterogeneidade, característica do ser humano que é representada pela língua. 45MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) O processo de Educação Linguística requer também que o professor nunca cesse de estudar linguística. Como sugere Thais Cristófaro Silva (2013): Qualquer indivíduo pode “falar sobre” a linguagem e discutir aspectos relacionados às propriedades as línguas que conhece. Isso faz parte do “conhecimento comum” das pessoas. Contudo, há um ramo da ciência cujo objeto de estudo é a linguagem. (SILVA, 2013, p. 11) O professor deve, antes de afirmar algo sobre a língua e sobre seus falantes, ter conhecimento sobre esse objeto de estudo. Para melhor ensinar, é preciso conhecer as riquezas dessa língua. Portanto, para educar linguisticamente é necessário ser educado em linguagem. O ensino-aprendizagem linguístico re- quer de nós, professores, entender que somos agentes, mas, ao mesmo tempo, parte do processo de desenvolvimento linguístico dos nossos alunos. Mídias integradas Entenda um pouco mais sobre variação linguística e formação linguística do professor de língua portuguesa assistindo ao vídeo “Norma culta e variedade linguística” https://www.youtube.com/ watch?v=r9zGogVg8kA . CONCLUSÃO Ao longo desta unidade, estudamos um pouco mais sobre a relação entre lin- guística e ensino de línguas. Em um primeiro momento, definimos o histórico de estudo sobre a linguagem e como ele evoluiu até chegar à Ciência Linguís- tica. Esse percurso foi importante para percebermos a complexidade envolta no trato e no estudo da língua como um todo. Após termos uma noção do que é a Linguística e como ela está presente no ensino-aprendizagem de línguas, rompemos com alguns mitos e crenças sobre o estudo da língua no ambiente escolar, bem como nos inteiramos um pouco mais sobre a Aquisição de Linguagem. Estudamos que a Aquisição da Lingua- gem é feita em diversas etapas e que ela nos acompanha por toda a vida. https://www.youtube.com/watch?v=r9zGogVg8kA https://www.youtube.com/watch?v=r9zGogVg8kA 46 PRÁTICA DE ENSINO V (LETRAS) MULTIVIX EAD Credenciada pela portaria MEC nº 767, de 22/06/2017, Publicada no D.O.U em 23/06/2017 Terminamos nossa unidade abordando aspectos gerais sobre a aprendizagem linguística no Ensino Fundamental e a importância do reconhecimento da variação linguística do Português brasileiro. Na qualidade de futuro professor de Língua Portuguesa, esperamos que coloque em prática os conhecimentos dessa unidade ao preparar as aulas e ao estudar sobre a linguagem, pois eles