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Apendicite Aguda: · Histórico: · 1492: Leonardo da Vinci: desenhos anatômicos · Final do século XV: Bernardo di Capri: 1º a descrever o órgão · 1543: Andréas Vesálius: descrição do apêndice em “De Humani Corporis Fabrica” · 1753: Claudius Amyand: 1º relato de apendicectomia com sucesso · 1755: Lorenz Heister: autópsia com abcesso peri-apendicular (gangrenado) · 1865: Reginald H. Fitz: descreve posições anatômicas do apêndice e provável fator etiológico · 1867: Willar Parker: descreve os 3 estadios da apendicite (com gangrena; perfurado; com abcesso) · 1884: Krolein e Mikulicz: 1ª apendicectomia com diagnóstico no pré-operatório · 1894: Charles McBurney: descrição da incisão com suas vantagens e desvantagens · 1982: Kurt Semm: 1ª apendicectomia por vídeo · Definição: · Inflamação do apêndice vermiforme devido a obstrução, proliferação bacteriana e distensão do órgão · Anatomia: · Apêndice vermiforme (do latim vermis: em forma de verme) · Face póstero medial o ceco · Inferior a junção íleo-cecal · Tamanho: entre 6-10 cm · Largura: até 0,6 cm -> se for maior do que isso, é diagnóstico de apendicite até que se prove o contrário · Coalescência das 3 tênias colônicas · Vascularização: ramo apendicular da artéria íleo-cólica e tributárias da veia íleo-cólica · Incidência: · Causa mais comum de abdômen agudo · Abdômen agudo = DOENÇA abdominal que demanda CIRURGIA emergencialmente · Pico de incidência: 15-30 anos · 4:1000 crianças: apendicectomia antes dos 14 anos · 11:10.000 adultos (USA) · 1,4 homens: 1 mulher · 1:35 homens/ 1:50 mulheres · A partir dos 70 anos: risco de 1:1010 pessoas · Etiologia: · Obstrução do lúmen: · Fecalitos · Hiperplasia dos folículos linfoides (origem infecciosa) -> placas de Payer, que ficam nas fossas ilíacas, podem estar aumentadas, comprimindo externamente o apêndice, fazendo diagnóstico diferencial de apêndice (“criança com dor de garganta e apendicite, deve-se desconfiar”) · Parasitas (áscaris, oxiúros, tricocéfalos etc.) · Contraste e base de bário · Corpos estranhos · Tumores (carcinoide, adenocarcinoma etc.) · Obstrução -> processo inflamatório -> isquemia -> necrose -> perfuração -> peritonite · A 1ª coisa a ser afetada é a drenagem venosa, que interrompida gera edema, e o edema gera compressão arterial · Fisiopatologia: · Obstrução em alça fechada -> aumento da secreção de muco pela mucosa -> distensão da parede do apêndice -> rápida elevação da pressão intraluminal -> distensão da parede gerando estímulos para as fibras nervosas aferentes (dor abdominal difusa (periumbilical) -> aumento progressivo da pressão intraluminal · A dor da apendicite é uma “dor parietal”, posto que ocorre quando ocorre a afecção do peritônio parietal · Diminuição da drenagem venosa -> isquemia mucosa -> trombose de pequenas vênulas e fluxo arteriolar -> piora do edema -> mucosa progressivamente isquêmica -> presença de úlceras e quebra da barreira mucosa · Invasão das bactérias na parede apendicular -> progressão do processo inflamatório -> acometimento da serosa e peritônio parietal -> mudança da localização da dor (FID) + renitência -> persistência da obstrução -> necrose (+/- 48h) · Dor difusa ou visceral -> ocorre por distensão do apêndice, irradiando por causa da posição dos dermátomos · Dor parietal -> ocorre quando a inflamação ganha a serosa do apêndice, e o apêndice passa a encostar no peritônio parietal, gerando a dor localizada · Renitência = é uma forma de contração INVOLUNTÁRIA da musculatura abdominal como forma de defesa · Perfuração do apêndice (+/- 70h) -> abcesso -> peritonite · Diagnóstico: · Baseia-se em: · História clínica · Exame físico · Exames complementares · História Clínica: · Fase Inicial: · Anorexia (90%) · Dor abdominal mal definida, incialmente em região epigástrica e/ou mesogástrio (leve a moderada intensidade) · Dor visceral: mediado por fibras nervosas autônomas, de acordo com o dermátomo correspondente ao órgão · Distensão do apêndice por elevação da pressão intraluminal · Náusea e/ou vômitos (80%) · Febre moderada · Alteração do hábito intestinal (constipação ou diarreia) · Fase mais tardia (após +/- 12h) · Dor localizada em fossa ilíaca direita (FID) (+/- 95%) · Dor parietal: comprometimento do peritônio parietal devido a irritação das fibras somáticas · Dor contínua e de baixa intensidade com piora progressiva · Piora a movimentação e a tosse · 20-30% dos pacientes apresentam sintomas atípicos ou são até assintomáticos · Cuidado! · Dor e clínica podem variar de acordo com: · Localização e tamanho do apêndice: retrocecal, sub-hepático, retrovesical · DM, AIDS, Doenças neurológicas -> podem ter menor sensibilidade e o exame físico não é tão exuberante · Exame físico: · Inspeção · Sinais gerais de infecção · Distensão abdominal · Abaulamentos ou desvios da cicatriz umbilical · Posição antálgica (posição fetal) · Ausculta · Diminuição dos ruídos hidroaéreos · Percussão: · Áreas de macicez e sub-macicez · Dolorosa · Palpação · Superficial: hiperestesia cutânea, sensibilidade dolorosa, presença de abaulamentos, tônus da musculatura · Profunda: localização da dor, intensidade da dor, presença de massa (platrão), sinais de irritação peritoneal · Toque vaginal: · Dor em fundo de saco · Dor a mobilização de colo de útero (sinal de Chandelier – DIP) · · Toque Retal: · Dor, abaulamentos · Dissociação temperatura axilo/retal: · Temperatura Retal acima de 1ºC da temperatura axilar (sinal de Lennander) -> indica apenas processo inflamatório, não de apendicite · Sinais de irritação peritoneal · Sinal de Blumberg -> descompressão súbita dolorosa SOMENTE na fossa ilíaca direita (no ponto de McBurney – ponto no 2/3 da linha entre a crista ilíaca superior direita e a cicatriz umbilical). Não é patognomônico de apendicite. · Dor a descompressão súbita em qualquer outro local que não o ponto de McBurney NÃO é sinal de Blumberg, é só “dor a descompressão súbita” · Sinal de Rovsing -> indica que há uma válvula ileocecal competente. Faz-se a compressão a partir da fossa ilíaca esquerda em direção ao ceco, seguindo o caminho do intestino grosso. Isso faz o ceco se dilatar pelo ar deslocado, de modo que gera dor · Sinal de Lapinsky -> simulação da palpação abdominal bimanual (vai tentar simular a compressão o ceco por baixo como sustentação para musculatura abaixo do ceco enquanto a outra mão comprime anteriormente). Essa simulação é feita com a flexão da perna direita, posto que isso leva a contração do músculo psoas, que servirá de base para o ceco, enquanto a outra mão palpa o ceco · · Sinal do Psoas -> O sinal do psoas é feito com o paciente em decúbito lateral esquerdo, em que uma das mãos flete a coxa esquerda e a outra estende a coxa direita, o que pode gerar dor · · Sinal do Obturador -> é feito com a flexão e rotação externa do quadril direito (estando o joelho fletido), em que se houver irritação peritoneal haverá dor. Essa irritação com o movimento ocorre pela posição do músculo obturador interno (que é o músculo responsável pela rotação externa do quadril), que é um músculo que fica na base do ceco. A outra mão está comprimindo o ceco anteriormente · · Sinal de Dunphy -> dor em região de fossa ilíaca direita ao tossir com força (por a tosse aumentar a pressão intra-abdominal) · Sinal de Lopez-Cross -> é um sinal em pediatria, em que a criança pode ter uma semiereção peniana pela irritação peritoneal. Essa relação ocorre pela inervação comum do peritônio e do pênis · Diagnóstico: · Exames laboratoriais: exames que são ROTINA em abdômen agudo · Hemograma · Amilase · Beta-HCG · Parcial de urina · Exames de imagem · Rx simples de abdômen em pé e deitado · Ecografia abdominal total · Tomografia abdominal · RNM de abdômen · Videolaparoscopia diagnóstica · Rx simples do abdômen em pé e deitado · Nível hidroaéreo em ceco e íleo terminal -> ocorrem pela diminuição da movimentação intestinal em resposta a inflamação local, o que faz reter líquido e ar dentro da víscera · Distensão de delgado · Apagamento do músculo psoas · Presença de coprolito na projeção do apêndice(raro) · · Ecocgrafia abdominal: · Sensibilidade 76-96% e especificidade de 90% · Visualiza estrutura em fundo cego, imóvel, não compressível, com parede espessada, aumento do diâmetro (> 6mm), imagem em alvo tubular, coleção, flegmão e apendicolito (fecalitos) · · Tomografia abdominal total: · Distensão apendicular · Espessamento da parede · Densificação da gordura periapendicular · Presença de coprolito · Precisão dos limites de flegmão e abcessos · Sensibilidade 87-100% e especificidade 95-100% (exame de maior confiabilidade no diagnóstico) · Usado para diagnóstico e tratamento (drenagem percutânea de abcessos). · · Ressonância magnética de abdômen · Tratamento: · Sempre é cirúrgico, sendo aberto ou laparoscópico -> não se espera esfriar o processo (muito raramente se espera esfriar, só em casos especiais), sempre é um processo agudo · Aberto: · Incisão de McBurney (incisão no 2/3 da linha entre a crista ilíaca superior e a cicatriz umbilical), · Incisão infra-umbilical · Incisão de Daves (que é uma incisão horizontal, acima do ponto de McBurney) · Laparoscópica: 3 pequenas incisões para a colocação dos trocateres · · Nessas incisões, por haver musculatura imediatamente abaixo da pele, deve-se tentar incisar o menos possível quando chegar nos músculos, buscando sempre que possível divulsionar as fibras musculares · A retirada do apêndice sempre é total · Patologia · Fases de Inflamação da Apendicite · Fase congestiva ou catarral · Fase flemonosa ou supurativa · Fase gangrenosa ou necrótica · Fase perfurativa · · Fase edematosa ou catarral (Fase I): · Processo inflamatório · Congestão vascular (apêndice edemaciado) · Edema de parede · Abcesso intraluminal · Fase úlcera flegmonosa ou flegmonosa (Fase II): · Aumento do edema · Áreas de necrose (não acometendo toda a parede do apêndice) · Formação de úlceras dentro do apêndice · Abcessos intraluminais · Fase gangrenosa (Fase III) · Necrose do apêndice · Translocação bacteriana · Pode haver peritonite (mesmo sem perfuração) · Fase Perfurativa (Fase IV): · Necrose do apêndice · Perfuração apendicular · Necrose da parede -> perfuração -> extravasamento do conteúdo apendicular -> peritonite · Fase do “apêndice supurado” · Diagnóstico diferenciais: · Mucocele: · Dilatação apendicular com acúmulo anormal de muco · Incidência: 0,1-0,4% · Ocorre mais em mulheres do que em homens (4:1) · Idade: 50 anos · Tumor carcinoide: · Neoplasia maligna neuroendócrina · Faixa etária> 24-40 anos · Das neoplasias malignas do apêndice, 66-85% são tumores carcinoides · Incidência no apêndice: 35-45% · Localização no apêndice: · Extremidade distal do apêndice: 70-80% · Corpo do apêndice: 15-20% · Base do apêndice: 8% · Adenocarcinoma do apêndice · Incidência: 4-6% de todos os tumores primários do apêndice · 0,1% das apendicectomias · Faixa etária:50-60 anos · Sem preferência sexual · Linfadenite Mesentérica · Aumento das placas de Payer, que é um tecido linfoide peri-apendicular e ceco · O aumento das placas pode gerar apendicite por compressão externa também · Diverticulite de Meckel · É um divertículo verdadeiro, ocorrendo a 60-90cm da calca íleo-cecal, em que há células da mucosa gástrica dentro desse divertículo, o que pode perfurar o divertículo · Intussuscepção intestinal · Ocorre mais quando há pólipos intestinais, em que pela contração intestinal, uma parte da alça entra na outra alça · Por vezes pode se resolver espontaneamente com o jejum · Doença de Crohn: · Doença inflamatória transmural, com chance de formação de úlceras e irritação peritoneal · Hérnias de parede abdominal · Gastroenterite: provavelmente haverá uma história de diarreia evidente · Tumor de ceco · Abcesso de psoas: justamente pela posição imediatamente posterior ao ceco do psoas, um abcesso nessa região pode simular uma apendicite · · Febre tifoide: é um processo inflamatório causado pela Salmonella tiphy, geralmente cursando com história de diarreia · Amebíase: causada pela Entamoeba histolytica, geralmente cursando com história de diarreia · Cisto de ovário roto: o sangue ou o próprio conteúdo do cisto geram irritação do peritônio · Gravidez ectópica/tubária · Endometriose · Cálculo renal: pelo trajeto do ureter, que fica logo a frente do ceco em dada altura · · Infecção urinária · Doença inflamatória pélvica · Dor da ovulação ou Mittelschmerz -> distensão excessiva do folículo que envolve o óvulo na hora de sua eliminação · Úlcera perfurada -> embora a dor se inicie em epigástro, por ter a chance de o líquido cair na cavidade abdominal, esse líquido tende a cair na fossa ilíaca direita · Colecistite aguda -> acaba confundindo nos casos de posições atípicas do apêndice · Pneumonia de base pulmonar (mais comum em pacientes brevilíneos) · · 5-6 – compatível com apendicite, mas pode deixar o paciente em observação · 7-8 – probabilidade de apendicite, recomendado USG para confirmação · 9-10 – indicação de cirurgia direto, sem necessidade de outros exames