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NEOPLASIA DE OVÁRIO ANATOMIA E HISTOLOGIA DOS OVÁRIOS A. Anatomia Anatomicamente, o ovário consiste em três regiões: − Córtex: camada externa que contém o epitélio germinal que origina os folículos. É nesta região que encontramos os folículos ovarianos em diferentes estágios de desenvolvimento; − Medula: camada central constituída por estroma de tecido conjuntivo frouxo com maior número de fibras elásticas, algumas fibras musculares lisas, além de considerável quantidade de vasos espiralados (principalmente veias), o que confere a esta camada um aspecto cavernoso; − Hilo (rete ovarii): região da zona de união do ovário ao mesovário, através da qual se inserem as fibras nervosas e os vasos sanguíneos. O mesovário corresponde a um folheto duplo de peritônio que envolve os ovários por onde transitam os vasos e nervos ovarianos. B. Vascularização − Arterial: artérias ovarianas, ramos da aorta abdominal (transitam pelos ligamentos infundíbulo-pélvicos e chegam aos ovários pelo mesovário) e pelos ramos ovarianos da artéria uterina. − Venosa: se faz pelo plexo pampiniforme que drena para as veias gonadais (ovarianas) e daí para a veia cava inferior, à direita, e veia renal, à esquerda. − Os linfáticos partem do mesênquima pelo hilo e acompanham a vascularização arterial para atingir os linfonodos aórticos e pré-aórticos. C. Embriologia e Histologia O ovário se encontra funcionalmente dividido em dois compartimentos que interagem entre si nas diversas etapas da maturação folicular: − Intersticial: formado por células do estroma e da teca externa; − Folicular: contém o oócito, as células da granulosa e as células da teca interna. De acordo com sua organização estrutural, definem-se cinco fases de desenvolvimento folicular: − Folículos primordiais; − Folículos primários; − Folículos secundários; − Folículos terciários; − Folículos de Graff (folículo pré-ovulatório). FISIOLOGIA Os ovários são órgãos complexos, responsáveis pela gametogênese e produção hormonal cíclica fundamental para manutenção da função reprodutiva. Além disso, os hormônios ovarianos exercem importantes funções no aparelho reprodutor feminino, assim como em outros órgãos: o coração, cérebro e tecido ósseo. A sequência de eventos que culmina com a liberação de apenas um oócito maduro, formação do corpo lúteo e posterior luteólise – se não houver gravidez – pressupõe o crescimento e regeneração de estruturas intraovarianas, o que parece tornar os ovários suscetíveis a inúmeras alterações estruturais e funcionais. É dividida entre doenças benignas de ovário e doenças malignas de ovário. NEOPLASIA DE OVÁRIO A. Epidemiologia − No brasil: o Representa 2% de todos os canceres o 8 causa de morte por câncer nas mulheres − Câncer de ovário: o 25% das malignidades do trato genital feminino o Alta mortalidade (devido ao diagnostico tardio - cerca de ¾ dos tipos de CA de ovário apresentam-se em estágio avançado no momento do diagnóstico) o Faixa etária dos carcinomas epiteliais ovarianos (tipo mais comum): ▪ 40-65 anos; o Raça/etnia: ▪ É mais frequente em brancos o Risco e ambiente: ▪ Desenvolvimento durante a vida: 1,4% ▪ Mais comum em países industrializados B. Fatores de risco: − Histórico familiar: o É o fator de risco mais importante para o desenvolvimento do câncer de ovário. o Eleva de 3 a 4 vezes o risco. − Fatores genéticos: o Na presença de síndromes hereditárias, o risco de desenvolver um câncer de ovário pode chegar a 50% ao longo da vida. Identificam-se três padrões distintos de hereditariedade: ▪ Câncer ovariano isolado ▪ Sindrome do câncer de mama-ovário hereditária ▪ Sindrome do ovário-cólon − Idade: o A incidência aumenta com a idade o A incidência máxima de câncer epitelial ovariano invasivo se dá em torno dos 60 anos. Quando são considerados todos os tipos histológicos, a incidência máxima encontra-se entre os 60 e 65 anos. − Menarca precoce e menopausa tardia − Paridade: o Maior incidência em nulíparas – aumento de 30% a 60% o Quanto maior a paridade, menor o risco. − Raça: o Mais comum na raça branca do que na negra − Uso de indutores da ovulação: − Fatores ambientais: o Paises industrializados (aumentam em 2x o risco) o A exposição ao asbesto/carbonato de cálcio (talco) na genitália externa tem sido referenciada como fator de risco. No entanto, esta relação é controversa e apresenta resultados conflitantes na literatura. − Fatores nutricionais: o Dietas ricas em gordura saturada (aumento 1,5x do risco) − Endometriose − Tabagismo − Obesidade: o IMC > ou = 30kg/m2 C. Fatores de proteção − Amamentação (inibição da função ovariana) − Uso de contraceptivos orais (reduz em 50%) − Ooforectomia profilática − Laqueadura tubária (reduz em 30%) D. Etiopatogenia A etiopatogenia dos tumores epiteliais do ovário permanece desconhecida. A rotina ovulatória por meio de traumatismos repetidos no ovário, foi apontada como causa de inclusões epiteliais. A transformação para malignidade seria favorecida por fatores genéticos, ambiente hormonal, exposição a carcinógenos, entre outros fatores. E. Classificação dos tumores ovarianos Tumores epiteliais: − Dos cânceres epiteliais, o tipo histológico seroso é o mais frequente e responde por 75% dos casos. Os tipos menos comuns incluem o carcinoma mucinoso (20%), endometrioide (2%), de células claras, de Brenner e indiferenciado − Os tumores epiteliais derivam da transformação maligna do epitélio da superfície ovariana (celômico), a qual é contígua com o mesotélio peritoneal. O epitélio celômico reveste as depressões formadas pela rotura folicular a cada ovulação. Com o processo de regeneração, esse epitélio pode diferenciar-se em epitélio tubário, dando origem aos tumores serosos; epitélio endometrial, dando origem aos tumores endometrioides; epitélio endocervical ou colônico (intestinal) ou do piloro gástrico originando os tumores mucinosos; epitélio endometrial durante a gestação, originando os tumores de células claras e em epitélio urotelial, originando os tumores de Brenner. Além disso, cerca de 20% dos tumores não se diferenciam (indiferenciados). Tumores de células germinativas: − Nas duas primeiras décadas de vida, aproximadamente 70% dos tumores ovarianos são de origem germinativa. Portanto, ocorrem principalmente em mulheres jovens e crianças. São geralmente diagnosticados por massas abdominais palpáveis. Dor abdominal, distensão abdominal e sangramentos vaginais anormais são outros sintomas que podem ser encontrados. O tipo histológico maligno mais comum é o disgerminoma, seguido pelo teratoma imaturo e pelo tumor do seio endodérmico. Entre os tumores benignos, como já vimos, o mais comum é o teratoma maduro ou cisto dermoide. Os tumores de células germinativas são frequentemente associados a atividades hormonais ou enzimáticas e os marcadores séricos são a Alfafetoproteína (AFP), a gonadotrofina coriônica humana (hCG) e a desidrogenase láctica (LDH). Tumores de células dos cordões sexuais Representam 5 a 8 % de todos os tumores malignos ovarianos. Derivam do estroma, que é constituído a partir do cordão sexual da gônada embrionária. Devido ao fato do mesênquima gonadal indiferenciado poder dar origem tanto a células femininas (granulosa e teca) quanto a masculinas (Sertoli e Leydig), os tumores estromais ovarianos podem conter todos estes tipos celulares. São benignos ou de baixo grau de malignidade e podem ser produtores de hormônios. Tumores metastáticos − Tumor de Krukenberg: Responde por 30-40% dos cânceres metastáticos para os ovários e podem ser responsáveis por aproximadamente 2% dos cânceres ovariano. O tumor primário mais frequente está no estomago, mas também pode ser de cólon, mama ou vias biliares. Quando responde por 2% dos tumores ovarianos, sua disseminação parece ocorrer por via linfática.− O sítio mais habitual de metástases à distância é o fígado, seguido pelas metástases pulmonares e cerebrais. F. Patogênese e disseminação Os tumores ovarianos podem se originar de três fontes celulares distintas: epitelial, germinativa e estromal. Formas de disseminação: − Transcelômica: o modo mais comum e mais precoce da disseminação é por esfoliação das células do ovário que se implantam na cavidade peritoneal. As células malignas esfoliativas propagam-se pela cavidade peritoneal através do fluxo de líquido peritoneal desencadeado pelos movimentos respiratórios, movimentos peristálticos e movimentação da própria paciente, originando implantes peritoneais. − Continuidade ou extensão direta: o comprometimento capsular do tumor facilita a disseminação direta pela vizinhança, ou seja, pelas trompas, útero, ovário contralateral e peritônio pélvico. − Linfática: é comum, mas acontece mais tardiamente. Tal disseminação segue o ligamento infundíbulo pélvico para comprometer os linfonodos para-aórticos e ao redor da veia cava. Cerca de 10% dos pacientes que se apresentam com tumores localizados possuem metástases para linfonodos para-aórticos. A disseminação linfática também pode seguir através do ligamento largo e canais parametriais atingindo os linfonodos pélvicos abrangendo a cadeia obturadora e as cadeias ilíacas interna e externa. A drenagem linfática pelo ligamento redondo é menos comum, mas quando acontece envolve os linfonodos inguinais. − Hemática: é rara e geralmente ocorre em estágios avançados da doença. G. Estadiamento H. Diagnóstico Devido à evolução insidiosa da doença, a maioria das pacientes no momento do diagnóstico possui doença disseminada na cavidade peritoneal. 1. Diagnóstico clínico: a. Manifestações clínicas: i. Os primeiros sintomas sugerem a presença de doença em andar superior do abdome, com o aparecimento de sensação de plenitude gástrica, saciedade precoce, dispepsia ou distensão abdominal e constipação intestinal. (devido a isso, essas primeiras manifestações são atribuíveis ao tubo digestivo em até 70% dos casos) ii. Ocasionalmente, pacientes podem apresentar dor pélvica. b. Sinais clínicos i. Apresentam-se de forma variada e tipicamente incluem massa ovariana palpável ao toque vaginal bimanual e/ou à palpação do abdome. ii. Mais raramente, ocorrem torções ou roturas tumorais que acarretam sintomas agudos. iii. Nos casos avançados, o quadro típico é ilustrado por caquexia, ascite e abdome volumoso e dispneia ocasionada pela restrição dos movimentos respiratórios ou derrame pleural. 2. Exame físico: a. Características da massa ovariana: i. Identificada ao toque e/ou à palpação abdominal (seu tamanho, seu contorno, seu grau de mobilidade ou aderência aos tecidos vizinhos) ii. O toque retal permite a avaliação do grau de aderência da massa aos ligamentos uterossacros, da presença de nodulações em fundo de saco de Douglas e da irressecabilidade cirúrgica do tumor em casos avançados de infiltração pélvica. iii. Outros achados incluem ascite, derrame pleural e massa umbilical (nódulo umbilical metastático) conhecida como nódulo umbilical metastático da irmã Maria José (Sister Mary Joseph’s Nodule). 3. Exame de imagem: a. US pélvica: i. É o primeiro exame a ser solicitado na avaliação de massa anexial. ii. Ela permite a definição das características morfológicas das massas ovarianas iii. Exame com elevada sensibilidade, porém sua especificidade não é tão elevada, o que significa dizer que uma imagem sugestiva de malignidade em grande número de casos não corresponderá a um câncer. iv. Baseado nos critérios de Sassone (valor preditivo negativo em torno de 96% para neoplasia ovariana) b. Dopplerfluxometria: i. Avalia a velocidade do fluxo sanguíneo pelo tumor. ii. Obs: Massa anexial com fluxo de baixa resistência à dopplerfluxometria significa que não há dificuldade (resistência) ao fluxo sanguíneo naquela massa, ou seja, que existe neovascularização e, portanto, lesão provavelmente maligna c. RM de pelve e TC de abdome e pelve: i. Permitem a avaliação de toda a cavidade abdominal. ii. São de grande auxílio no pré-operatório durante a programação da cirurgia de massas sugestivas de malignidade, mas não oferecem dados adicionais em relação à ultrassonografia na avaliação inicial das massas ovarianas. d. Tomografia emissora de pósitrons i. Com base no alto metabolismo da glicose, o PET pode ser empregado em busca de metástases ocultas. e. Radiografia ou TC de tórax i. Deve ser usada na avaliação pré-operatória. 4. Exames laboratoriais: a. Marcadores tumorais: i. São substâncias sintetizadas pelo tumor ou a ele associadas, identificáveis nos fluidos corpóreos. Podem ser solicitados e devem ser interpretados conforme suas particularidades I. Tratamento cirúrgico 1. Cirúrgico fundamental: Corresponde à histerectomia total com salpingo- -ooforectomia bilateral, omentectomia infracólica e citorredução tumoral 2. Cirúrgico conservador: Nas pacientes jovens que desejam manter a função reprodutiva, a cirurgia poderá se restringir à salpingooforoplastia unilateral, caso o tumor esteja confinado a um ovário (estádio IA grau 1). 3. Cirurgia citorredutora: Compreende uma grande variedade de procedimentos em função do volume e localização dos implantes tumorais. Indicada quando o tumor não está restrito aos ovários com o objetivo de deixar a menor quantidade de tumor residual, facilitando a ação da quimioterapia e atenuando os sintomas de massa. OU SEJA: mesmo pacientes com doença aparentemente irressecável teoricamente beneficiam-se de cirurgia, que neste caso deve objetivar a ressecção da maior massa tumoral possível! 4. Cirurgia de revisão: Corresponde a uma nova cirurgia após tratamento cirúrgico e quimioterápico, em pacientes sem sinais clínicos, laboratoriais ou de imagem de persistência tumoral. Visa vistoriar a cavidade abdominal e eventualmente ressecar um tumor persistente. Não é indicada rotineiramente, pois suas vantagens e indicações são discutíveis. 5. Cirurgia de intervalo: Em situações nas quais a ressecabilidade da neoplasia não é completa, vem-se propondo a realização de três ciclos de quimioterapia, visando a redução da massa tumoral, permitindo uma nova abordagem cirúrgica com mínima doença residual. A terapia quimioterápica é complementada após a cirurgia. Esta estratégia terapêutica ainda carece de maiores evidências científicas, não estando indicada até o momento. 6. Ooforectomia profilática: Pacientes de alto risco para neoplasia de ovário (síndromes hereditárias) com prole completa podem se beneficiar da ooforectomia bilateral profilática após os 35 anos J. Tratamento adjuvante: 1. Quimioterápico: a. Adjuvante: É amplamente empregada após o tratamento cirúrgico, sendo indicada de acordo com a classificação histológica do tumor, grau de diferenciação, estadiamento e volume residual. Geralmente é indicada nas seguintes pacientes: i. Estágios Ia e Ib, caso sejam grau III (tumores indiferenciados); ii. Estágio Ic em diante (independentemente do grau de diferenciação). Algumas referências ainda apontam a necessidade de quimioterapia adjuvante em TODAS as pacientes com carcinoma de células claras. A QT deve ser preferencialmente iniciada quatro a seis semanas após a cirurgia. 2. Radioterápico: a. Os tumores germinativos são mais sensíveis, enquanto os carcinomas epiteliais apresentam sensibilidade moderada. b. Seu uso em câncer de ovário é controverso. c. A radioterapia, em tese, deveria abranger toda a cavidade abdominal devido ao padrão de propagação da doença. Entretanto, como há necessidade de colocação de protetores sobre os rins e fígado, ela não atua de forma totalmente satisfatória sobre as regiões das goteiras parietocólicas e sobre a cúpula diafragmática, locais comuns de metástase. d. A grandeextensão a ser irradiada, a sensibilidade das vísceras abdominais e a limitação da dose de segurança desencorajam seu uso na terapêutica de neoplasias ovarianas. Ou seja, não é utilizada na prática! RESUMO: A. Sinais clínicos: a. Estado nutricional: emagrecimento; sinais de desnutrição. b. Edema de membros inferiores: uni ou bilateral; compressão de vasos retroperitoneais na pelve dificultando o retorno venoso. c. Aumento do volume abdominal: ascite; massas palpáveis (geralmente de consistência sólido-císticas e pouco móveis); linfonodomegalias inguinais. B. Exame físico: a. Exame do tórax: abafamento do murmúrio vesicular; chiados e sibilos durante o ciclo respiratório; linfonodomegalias axilares e supraclaviculares. b. Exame ginecológico: Caracterização da massa (dimensões, mobilidade e consistência). Fundo de saco vaginal: nódulos palpáveis a escavação retrouterina indicam carcinomatose peritoneal. Toque retal: compressões extrínsecas, integridade da mucosa e avaliação parametrial. C. Tratamento: a. Cirúrgico b. Quimioterápico Obs: é um diagnostico diferenciaL de massas anexiais na infância e na adolescência.