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Definir Estado?

Sociologia

PUC-RIO


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Há mais de um mês

Há como compreender o Estado do ponto de vista sociológico e do ponto de vista jurídico. A concepção de Estado como pessoa jurídica é feita de forma muito incisiva em autores como Kelsen, que defende que “o Estado é resolvido totalmente no ordenamento jurídico e portanto desaparece como entidade diversa do direito, que dele regula e atividade dedicada à produção e à execução de normas jurídicas”  (BOBBIO, 2010: 57).  Sobre este contraponto a respeito do entendimento de que a concepção de Estado como pessoa jurídica representa um extraordinário avanço, Bobbio faz as seguintes colocações: 1. “De todas as teses Kelsenianas, a da redução radical do Estado a ordenamento jurídico foi a que teve menos fortuna” (BOBBIO, 2010: 57); 2. “tal reconstrução do Estado como ordenamento jurídico não tinha feito com que se esquecesse que o Estado era também, através do direito, uma forma de organização social e que, como tal, não podia ser dissociado da sociedade e das relações sociais subjacentes” (BOBBIO, 2010: 56); 3. “Com a transformação do puro Estado de direito em Estado social, as teorias meramente jurídicas do Estado, condenadas como formalistas, foram abandonadas pelos próprios juristas. Com isso, recuperam o vigo soo estudos de sociologia política, que têm por objeto o Estado como forma complexa de organização social (da qual o direito é apenas um dos elementos constitutivos).”  (BOBBIO, 2010: 57).

Feito este comentário inicial, segue a definição e a importância para o avanço da disciplina jurídica da concepção de Estado como pessoa jurídica:

O que representa o Estado entendido como ordenamento jurídico:

Com relação a doutrina sociológica, a doutrina jurídica apresenta um contraponto do entendimento do Estado: “Esta distinção tornara-se necessária em seguida à tecnicização do direito público e à consideração do Estado como pessoa jurídica, que dela derivava.” (BOBBIO, 2010: 56). A importante da concepção do Estado como pessoa jurídica é de tal definição deriva em da concepção de Estado de direito: “Por sua vez, a tecnicização do direito público era a consequência natural da concepção do Estado como Estado de direito, como Estado concebido principalmente como órgão de produção jurídica e, no seu conjunto, como ordenamento jurídico.” (BOBBIO, 2010: 56).

O Estado de direito relaciona-se a necessidade de garantir os direitos fundamentais. Esses direitos dizem respeito às “liberdades burguesas: liberdade pessoal, política e econômica” (BOBBIO, 1993: 401), e podem ser traduzidos unicamente  por “um direito contra a intervenção do Estado” (BOBBIO, 1993: 401). Assim, quando se aponta para a questão do Estado como ordenamento jurídico e a relação disso com a visão do Estado como Estado de direitos, entende-se que o Estado deve ser concebido formalmente como estrutura organizada por um sistema jurídico que visa a garantia do status quo burguês.

O Estado entendido como ordenamento jurídico:

Kelsen define Estado, segundo a doutrina jurídica, da seguinte forma: 1. “O Estado é a comunidade criada por uma ordem jurídica nacional (em contraposição a uma internacional). O Estado como pessoa jurídica é a personificação dessa comunidade ou a ordem jurídica nacional que constitui essa comunidade.” (KELSEN, 2005: 261 – 262); 2. “Um sistema de normas, segundo essa visão, possui a unidade e a individualidade, que faz merecer o nome de ordem jurídica nacional, exatamente porque está, de um modo ou de outro, relacionado a um Estado como fato social concreto, porque é criado ‘por’ um Estado ou válido ‘para’ um Estado.” (KELSEN, 2005: 262); 3. “O Estado é aquela ordem da conduta humana que camacha de ordem jurídica, a ordem à qual se ajustam as ações humanas, a ideia à qual os indivíduos  adaptam sua conduta.” (KELSEN, 2005: 272); 4. “Apenas como ordem normativa o Estado pode ser uma autoridade com o poder de obrigar, especialmente se essa autoridade for soberana” (KELSEN, 2005: 273); 5. “O Estado é uma organização política por ser uma ordem que regula o uso da força, porque ela monopoliza o uso da força. Porem (...) esse é um dos caracteres essenciais do Direito. O Estado é uma sociedade politicamente organizada porque é um comunidade constituída por uma ordem coercitiva, e essa ordem coercitiva é o Direito.” (KELSEN, 2005: 273).

Kelson, em Teoria Geral do direito e do Estado (2005), aponta para a seguinte direção: “A doutrina tradicional distingue três ‘elementos’ do Estado: seu território, seu povo e seu poder.” (KELSEN, 2005: 299). O capítulo Os elementos do Estado, presente no livro citado, tem como conteúdo um aprofundamento a respeito do que essa afirmação inicial sugere.

Segue as principais vias de argumentação feita pelo autor:

TERRITÓRIO

Todo o Estado possui um território, entretanto, a unidade territorial deve ser entendida para além da dimensão geográfica. Se o Estado é em realidade um ordenamento jurídico, o território do Estado deve ser medida de acordo com o alcance desse ordenamento jurídico. Um exemplo ilustrativo, mesmo que incompleto: se, na época do Brasil colônia, obedecia-se a cartilha cartilha (um sistema de regras/ uma determinada ordem social) de Portugal, o território brasileiro constituía uma parte do todo que era o território português. “A unidade do território do Estado e, portanto, a unidade territorial do Estado, é uma unidade jurídica, não geográfica ou natural. Porque o território do Estado, na verdade, nada mais é que a esfera territorial de validade da ondem jurídica chamada Estado.” (KELSEN, 2005: 300) / “A validade exclusiva de uma ordem jurídica nacional, segundo o Direito internacional, estende-se apenas até onde essa ordem é, como um todo eficaz, ou seja, até onde atos coercitivos previstos por essa ordem são efetivamente postos em prática. Este é o princípio jurídico de acordo com o qual as fronteiras dos Estados dispostas sobre a superfície da Terra são determinadas.” (KELSEN, 2005: 307) / “A teoria tradicional faz distinção entre fronteiras ‘naturais’ e ‘artificiais’, i. e., jurídicas; mas as fronteiras de um Estado sempre têm caráter jurídico, coincidam elas ou não com fronteiras ‘naturais’ (...).” (KELSEN, 2005: 307).

O Estado, entendido como uma ordem jurídica, é em realidade uma ordem coercitiva. A limitação da ordem jurídica nacional é limitada pela ordem jurídica internacional apenas no que se refere a execução coercitiva. Por exemplo, é possível que um Estado determine que dita ação constitui um crime, tanto em território nacional quanto em território internacional, entretanto, o ordenamento coercitivo apenas pode ser de fato executado em território nacional. O fato de que a ordem jurídica do Estado, sendo ela em realidade uma ordem de coerção, só possuir validade (cumprimento) no espectro nacional representa o limitação do ordenamento nacional diante do internacional, entretanto, tal fato é representativo pois demonstra que a ordem jurídica do Estado é, em realidade, uma ordem fundamentalmente coercitiva (assim como o Direito o é). “A limitação da esfera de validade da ordem coercitiva chamada Estado a um território definido significa que as medidas coercitivas, as sanções, estabelecidas pela ordem, têm de ser instituídas apenas para esse território e executadas apenas dentro dele.” (KELSEN, 2005: 300) / “O fato de a limitação da validade territorial da ordem jurídica nacional pela ordem jurídica internacional referir-se apenas aos atos coercitivos estabelecidos por essa ordem e o fade de, com a restrição desses atos coercitivos a um determinado território, a existência jurídica do Estado ficar restrita a esse território demonstram claramente que a ordenação de atos coercitivos um elemento essencial do Direto, é, ao mesmo tempo, a função essencial do Estado.” (KELSEN, 2005: 304)

O Estado federal – nos casos que os Estados-membros são genuínos –, e guerras são casos de exceção do princípio de impenetrabilidade do Estado “O princípio de que a ordem a ordem jurídica nacional tem validade exclusiva para um determinado território, o território do Estado no sentido mais restrito, e de que, dentro desse território, todos os indivíduos estão sujeitos única e exclusivamente a essa ordem jurídica nacional ou ao poder coercitivo do Estado, é geralmente expresso dizendo-se que só pode existir um Estado no mesmo território, ou – tomando emprestada uma expressão da física – que o Estado é ‘impenetrável’. Existem, contudo, certas exceções a esse princípio.” (KELSEN, 2005: 306)

 POVO

De acordo com a teoria tradicional, o povo, assim como o território e o poder, é um dos elementos do constitutivos do Estado. Assim como não há Estado sem território, não há Estado sem povo – um Estado, um território, um povo. Assim como deve haver uma unidade territorial, o povo também deve compor um outro tipo de unidade, uma unidade composta de seres humanos que habitam um determinado espaço (o território de um Estado). “Assim como o Estado tem apenas um território, ele tem apenas um povo, e, como a unidade do território é jurídica e não natural, assim o é a unidade do povo. Ele é constituído pela unidade da ordem jurídica válida entre os indivíduos cuja conduta é regulamentada pela ordem jurídica nacional, ou seja, é a esfera pessoal de validade dessa ordem. Exatamente como a esfera territorial de validade da ordem jurídica nacional é limitada, assim também o é a esfera pessoal. Um indivíduo pertence ao povo de um dado Estado se estiver incluído na esfera pessoal de validade de sua ordem jurídica. Assim como todo Estado contemporâneo abrange apenas uma parte do espaço, ele também compreende apenas uma parte da humanidade. E, assim como a esfera territorial de validade da ordem jurídica nacional é determinada pelo Direito internacional, assim o é a sua esfera pessoa.” (KELSEN, 2005: 334) / “A ordem jurídica regulamenta a conduta de um indivíduo vinculando uma sanção coercitiva à conduta contrária, sendo este condição da sanção. Mas, segundo o Direto internacional, o ato coercitivo estipulado pela ordem jurídica nacional só pode ser dirigido a indivíduos que estejam dentro do território do Estado (...). Isso não significa que a ordem jurídica só possa vincular atos coercitivos aos atos realizados dentro do território. (...). No entanto, essas sanções só podem ser executadas contra indivíduos que estão dentro do território. Desse modo, a esfera pessoal de validade da ordem jurídica nacional é determinada pelo Direto internacional. Trata-se de uma determinação indireta. Ela resulta da determinação da esfera territorial de validade.” (KELSEN, 2005: 335)

“A cidadania ou nacionalidade é um status pessoal, a aquisição e a perda são reguladas pelo Direto nacional e pelo internacional A ordem jurídica nacional faz desse status a condição de certos deveres e direitos.” (KELSEN, 2005: 336) / “O compromisso de fidelidade é habitualmente citado como um dos deveres específicos dos cidadãos. Quando se concede cidadania a uma pessoa, ela às vezes tem de jurar fidelidade ao seu novo Estado. (...). Juridicamente, a fidelidade nada mais significa que a obrigação geral de obedecer à ordem jurídica, uma obrigação que os estrangeiros também têm e que não é criada pelo juramente de fidelidade.” (KELSEN, 2005: 337) / “As vezes, fala-se do direito de um cidadão ser ‘protegido’ por seu Estado como a contraparte de sua fidelidade a este. (...) Fidelidade e proteção são consideradas obrigações recíprocas. Mas, exatamente como a fidelidade não significa nada além dos deveres que a ordem jurídica impõe aos cidadãos a ela sujeitos, assim o direito do cidadão à proteção não possui nenhum conteúdo a não ser os deveres que a ordem jurídica impõe aos órgãos do Estado para com os cidadãos.” (KELSEN, 2005: 340)

“Os chamados direitos políticos encontram-se entre os direitos que a ordem jurídica costuma reservar a cidadãos. Eles são comumente definidos como os direitos que são ao seu possuidor um poder de influência na formação da vontade do Estado. O principal direito político é o direito de votar, isto é, o direito de participar na eleição dos membros do corpo legislativo e de outros funcionários de Estado.” (KELSEN: 2005: 337) / “Também são considerados direitos políticos certas liberdades garantidas pela constituição, tais como liberdade religiosa, liberdade de expressão e de imprensa, o direito de manter e portar armas, o direito do povo à segurança de suas pessoas, casas, documentos e bens, o direito contra buscas e apreensões desarrazoadas, o direito de não ser privado de vida, liberdade ou propriedade sem o devido procedimento de Direito, de não ser desapropriado sem justa compensação, etc.” (KELSEN: 2005: 338) / “Habitualmente, considera-se também um direito político a capacidade – em geral reservada a cidadãos – de ser eleito ou nomeado para um cargo público.” (KELSEN: 2005: 339).

 PODER

“Costuma-se classificar o poder do Estado como sendo o seu, assim chamado, terceiro elemento. Pensa-se no Estado como um agregador de indivíduos, um povo, que vive dentro de certa parte delimitada da superfície da Terra e que está sujeito a certo poder: um Estado, um território, um povo, um poder. Diz-se que a soberania é a característica definidora desse poder. Embora se sustente que a unidade do poder é tão essencial quanto a unidade do território e do povo, pensa-se, não obstante, que é possível distinguir três diferentes poderes componentes do Estado: o poder legislativo, o executivo e o judiciário.” (KELSEN, 2005: 364) / “A palavra ‘poder’ tem significados diferentes nesses diversos usos. O poder do Estado ao qual o povo está sujeito nada mais é que a validade e a eficácia da ordem jurídica, de cuja unidade resultam a unidade do território e a do povo. O ‘poder’ do Estado deve ser a validade e a eficácia da ordem jurídica nacional, caso a soberania deva ser considerada uma qualidade desse poder. Porque a soberania só pode ser a qualidade de uma ordem normativa na condição de autoridade que é a fonte de obrigações e direitos. Quando, por outro lado, se fala dos três poderes do Estado, sendo distinguidas três funções do Estado.” (KELSEN, 2005: 364/365)

“Uma vez que o Estado é aqui compreendido como uma ordem jurídica, o problema da constituição – tradicionalmente tratado a partir do ponto de vista da teoria política – encontra o seu lugar natural na teoria geral do Direito.” (KELSEN, 2005: 369) / “A constituição do Estado, geralmente caracterizada como a sua ‘lei fundamental’, é a base da ordem jurídica nacional. É bem verdade que o conceito de constituição, tal como compreendido na teoria do Direito, não é exatamente igual ao conceito correspondente na teoria política. O primeiro é o que chamamos de constituição no sentido material do termo, abrangendo as romãs que regulamentam o processo de legislação. Tal como usado na teoria política, faz-se com que o conceito também compreenda as normas que regulamentam a criação e a competência dos órgãos executivos e judiciários mais altos.” (KELSEN, 2005: 369)

 

-- O Estado segundo a teoria marxista:

Segundo Marx o Estado capitaneia os interesses de uma classe específica, a classe dominante, o que significa dizer que o Estado age em defesa dos valores burgueses.

Sobre os valores burgueses, nas palavras de Marx: “As ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes, isto é, a classe que é a forma material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, sua força espiritual dominante. A classe que tem à sua disposição os meios de produção material dispõe também dos meios de produção espiritual, e de modo que a ela estão submetidos aproximadamente ao mesmo tempo os pensamentos daquelas aos quais faltam os meios de produção espiritual. As ideias dominantes não são nada mais do que a expressão ideal [compreender ‘ideal’ por ‘ideologia’] das relações materiais dominantes, são as relações materiais dominantes apreendidas como ideias; portanto, são a expressão das relações que fazem de uma classe a classe dominantes, são as ideias de sua dominação. Os indivíduos que compõem a classe dominantes possuem, entre outras coisas, também a consciência e, por isso, pensam; na medida em que dominam como classe e determinam todo o âmbito de uma época histórica, é evidente que eles o fazem em toda a sua extensão, portanto, entre outras coisas, que eles dominam também como pensadores, como produtores de ideias, que regulam a produção e a distribuição das ideias de seu tempo; e, por conseguinte, que num país em que o poder monárquico, a aristocracia e a burguesia lutam entre si pela dominação, onde portanto a dominação está dividida, aparece como ideia dominante a doutrina da separação dos poderes, enunciada então como ‘lei eterna’.” (MARX, 2007: 47). “A divisão do trabalho, (que já encontramos acima (p. [34-35]) como uma das forças principais da história que se deu até aqui, se expressa também na classe dominante como divisão do trabalho espiritual e trabalho material, de maneira que, no interior dessa classe, uma parte aparece como os pensadores dessa classe, como seus ideólogos ativos, criadores de conceitos, que fazem da atividade de formação da ilusão dessa classe sobre si mesma o seu meio principal de subsistência, enquanto os outros se comportam diante dessas ideias e ilusões de forma mais passiva e receptiva, pois são, na realidade, os membros ativos dessa classe e têm menos tempo para formas ilusões e ideias sobre si próprios. No interior dessa classe, essa cisão pode evoluir para uma certa oposição e hostilidade entre as duas partes, a qual, no entanto, desaparece por si mesma a cada colisão prática em que a própria classe se vê ameaçada, momento no qual se desfaz a aparência de que as ideias dominantes são seriam as ideias dominantes da classe dominante e que elas teriam uma força distinta da força dessa classe. A existência de ideias revolucionárias numa determinada época pressupõe desde já a existência de uma classe revolucionária, sobre cujos pressupostos já foi dito anteriormente o necessário.” (MARX, 2007: 47 – 48).

Sobre o Estado Capitalista (ditadura burguesa), o Estado Socialista (ditadura do proletariado) e o Estado comunista (Estado sem Estado):

Não é possível dissociar o homem de sua história (temporalidade), tampouco é possível pensar no homem nada fora ou independente da sociedade da qual pertence (espacialidade). “Dependência da personalidade humana em relação à sociedade historicamente determinada a que pertence, dependência em virtude da qual ela nada é fora dessa sociedade e independente dela” (ABBAGNANO, 2007: 193).

Marx não nega a importância da burguesia no processo histórico e material que constitui as sociedades, o que significa apenas que Marx não faz uma critica necessariamente moral a burguesia. Segundo Marx foi de caráter revolucionário o feito burguês que tornou possível a superação da sociedade pré-burguesa (feudal). É este mesmo caráter que faz a burguesia uma classe capaz de seguir transformando ininterruptamente formas tradicionais presentes na sociedade humana para garantir sua sobrevivência imediata.  As relações de produção e de trabalho são produtos do tempo de uma sociedade (história/passado). As relações de produção e de trabalho constituídas historicamente em uma dada sociedade, determinam também todas as manifestações humanas (socialmente reconhecidas, aceitáveis, normais, comuns), como os aspectos de moralidade, religião, filosofia e política. “Dependência da estrutura de uma sociedade historicamente determinada das relações de produção e de trabalho que são próprios de tal sociedade e que determinam todas as suas manifestações: moralidade, religião, filosofia etc., além das formas da sua organização política.” (ABBAGNANO, 2007: 193).

A burguesia na condição o agente da transformação constante dos meios de produção, constitui um elemento socialmente transformador, pois “enquanto a condução da existência das classes pré-burguesas era a imutável conservação do antigo modo de produção, a burguesia, ao invés, não pode existir sem revolucionar continuamente os instrumentos de produção; e por consequência as relações de produção e, também, todo o conjunto de relações sociais. Esta ação incessante dissolve, quer as estáveis e enferrujadas condições de vida, quer as opiniões e ideias tradicionais, enquanto as novas envelhecem antes de terem conseguido formas os ossos.” (BOBBIO, 1993: 208).

A teoria marxista prevê uma crise inevitável. A burguesia está fadada ao fracasso. As formas de acumulação do capitalismo capitaneadas pela burguesia tornam as crises do capitalismo cíclicas e inevitáveis. Quando “as forças produtivas se tornam potentes demais e as relações burguesas demasiadamente estreitas para consumir as riquezas produzidas” (BOBBIO, 1993: 209) o mundo capitalista entra em crise. A burguesia reage aos ciclos de crise “de um lado, destruindo à força uma grande quantidade de forças produtivas e, por outro lado, conquistando novos mercados e explorando mais intensamente os mercados já existentes.” (BOBBIO, 1993: 209). Entretanto tal reação em realidade apenas posterga os problemas inerentes às contradições do capitalismo, pois apenas “prepara crises [outras] mais extensas e mais violentas e reduz os meios para prevenir as crises futuras” (BOBBIO, 1993: 209). A burguesia assim se auto sabota pois as mesmas “armas com que ela derrubou o feudalismo [que] agora estão voltadas contra ela e a levam inexoravelmente para a decadência e a morte.” (BOBBIO, 1993: 209).

Luta de classes e a ditadura do proletariado. Marx aposta que o sentido do capitalismo culmina na aguda polarização entra as classes, ou seja, na inexistência de uma classe intermediária. De uma lado, a burguesia constituída por uma minoria detentora dos meios de produção. Do outro lado, o proletariado constituída por uma maioria operária. Esse é o limite do capitalismo, uma minoria que promoveu a aniquilação de uma classe intermediária, e relegou a maioria da população a uma condição de vida de desumanidade: “a classe burguesa se distingue de todas as precedentes classes dominantes, porque não está em condições de assegurar aos seus escravos nem a existência dentro dos limites da escravidão, já que é obrigada a deixa-los cais em condições tais de modo a ter de alimenta-los em vez de ser por eles alimentada” (BOBBIO, 1993: 209). O ciclo das crises inevitáveis se findará quando o capitalismo atingir seu limite, ou seja, quando o nivelamento da sociedade chegar em um ponto onde as classes intermediárias deixarão de existir, e quando o processo de acumulação de riquezas nas mãos da classe dominante culminar no padecimento (na miséria extrema, na fome e na morte) da classe operária. Quando não houver mais por onde o capitalismo se expandir, ou seja, quando a burguesia não possuir mais as armas necessárias para postergar a crise final, a maioria criada pela própria burguesia aniquilar as classes intermediárias e nivelar a população em uma única classe de operários, tomará inevitavelmente o poder. Marx aponta que a sociedade sairá de uma espécie de ditatura burguesa para se tornar uma ditadura do proletariado: “Este caráter largamente majoritário do movimento proletário assegura, segundo Marx, que a revolução socialista e a fase da ‘ditadura do proletariado’, que a ele se seguirá, embora caracterizadas por medidas violentas e coercitivas (em primeiro ligar da destruição da máquina estatal burguesa, instrumento da ditadura da burguesia), serão sustentadas pela grande maioria da população; e que as próprias medidas coercitivas terão uma área de aplicação, restrita em termos gerais, e serão, portanto, temporárias.” (BOBBIO, 1993: 209). “para ele [Marx] a revolução proletária pode realizar uma transformação comunista da sociedade somente quando a evolução capitalista tiver atingido seu cume; qualquer tentativa de apressar arbitrariamente os tempos da revolução levaria somente ao insucesso ou à adoção de medidas terroristas, que descaracterizariam a própria revolução.” (BOBBIO, 1993: 209);

Marx coloca então como ponto central um materialismo histórico, cujos elementos são: a) “Caráter permanente e necessário da luta de classes em toda e qualquer sociedade capitalista, ou seja, em toda sociedade na qual os meios de produção sejam propriedade privada.” (ABBAGNANO, 2007: 193); b) “A necessária e inevitável passagem da sociedade capitalista, depois que ela atinja o seu ponto máximo de concentração da riqueza em poucas mãos e de empobrecimento e nivelamento de todos os trabalhadores, para a sociedade socialista, que possui e emprega diretamente os meios de produção, sendo por isso sem classe.” (ABBAGNANO, 2007: 193); c) “Existência de um período de superação entre a sociedade capitalista e a sociedade comunista, durante o qual o proletariado tomará o poder do Estado e o exercerá, como fizera o capitalismo, em seu próprio interesse. Esse será o período da ditadura do proletariado.” (ABBAGNANO, 2007: 193);

No marxismo gramsciano o termo “comunismo” é substituído pelo termo “sociedade regulada”. Uma sociedade regulada, ou seja, comunista, cuja a característica mais marcante é a não existência do Estado, é também aquela que sucede a sociedade socialista. A sociedade socialista, segundo a teoria marxista, trata-se de uma sociedade de transição. Em resumo, o ponto final da teoria marxista é o comunismo, marcado por uma sociedade regulada o bastante para não necessitar do Estado. O ponto intermediário da teoria marxista é o socialismo, marcado por um período onde a sociedade deixa de viver uma ditadura da burguesia e passa a viver uma ditadura do proletariado. Ou seja, onde o poder coercitivo do Estado deixa de estar nas mais da burguesia, composta de uma parcela minoritária na sociedade, e passa a estar nas mais da classe operária, que em virtude do progressivo nivelamento da sociedade, ou seja, do aniquilamento das classes intermediária, passam a compor a parcela majoritária da sociedade. O Estado gerido pela maioria é o que marca o socialismo. O processo evolutivo que culmina na extinção do Estado, representa uma fase onde a sociedade encontra-se regulada, é apenas neste momento que é possível afirmar a existência em uma sociedade, de fato, comunista.

“G. [ler Gramsci] utiliza o termo ‘socialismo’ para designar a ‘cidade futura’, inicialmente concebida como ‘possibilidade de atuação integral da personalidade humana concedida a todos os cidadãos’, de modo que haja ‘o máximo de liberdade com o mínimo de coerção’ (...). Não é o ‘Estado profissional’ dos sindicalistas, nem o Estado monopolista de produção e distribuição a que aspiram os reformistas, mas a ‘organização da liberdade de todos e para todos’ (...), ‘um desenvolvimento infinito em regime de liberdade organizada e controlada pela maioria dos cidadãos, ou seja, pelo proletariado’ (...). Rejeitando a ontiestatismo precedente, G. sustenta a necessidade de ‘um Estado tipicamente proletário’ (...) que, a diferença do Estado burguês, ‘pede participação ativa e permanente dos companheiros na vida das suas instituições’ (...)” (LINGUORI, VOZA; 2017: 729).

“a concepção de uma sociedade socialista como processo de transição – numa completa dialética entre Estado e sociedade civil – de uma fase inicial econômico-corporativa, em que os elementos de base ainda são escassos (...), para aquela em que a iniciativa econômico-política será ‘passada nitidamente às forças que visam à construção sendo um plano, de pacífica e solidária divisão do trabalho’ (...), processo que ‘provavelmente durará alguns séculos, isto é, até o desaparecimento da Sociedade política e o advento da sociedade regulada’ (...) [ou seja, da sociedade comunista]. O Estado, ‘condução prelimitar de toda atividade econômica coletiva’ (...), é ‘o instrumento para adequar a sociedade civil à estrutura econômica’ (...), desde que quem dirija sejam os representantes do proletariado, que devem trabalhar pelo desenvolvimento de ‘novas formas de vida estatal, em que a iniciativa dos indivíduos e dos grupos seja ‘estatal’, ainda que não se deva ao ‘governo dos funcionários’ (fazer co que a vida estatal se torne ‘espontânea’)’ (...), de modo que se pode ‘imaginar o elemento Estado-coerção em processo de esgotamento à medida que se afirma elementos cada vez mais conspícuos de sociedade regulada’ (...). Mas para isso são necessárias ao mesmo tempo – o que é difícil – tanto a elaboração de uma alta cultura e de grupos dirigentes adequados à gigantesca tarefa de transição socialista, quanto a educação e a participação ativa das grandes massas no ‘processo molecular de afirmação de uma nova civilização’, um Resnascimento e uma Reforma juntos (...).” (LINGUORI, VOZA; 2017: 729 – 730).

 “Precisa G.: ‘Enquanto existir o Estado-classe não pode existir a sociedade regulada, a não ser por metáfora isto é, apenas no sentido de que também o Estado-classe é uma sociedade regulada. Os utopistas, na medida em que exprimiam uma critica da sociedade existente em seu tempo, compreendiam muito bem que o Estado-classe não podia ser a sociedade regulada, tanto é verdade que nos tipos de sociedade pensadas pelas diversas utopias introduz-se a igualdade econômica como base necessária da reforma projetada: nisto os utopistas não eram utopistas, mas cientistas concretos da política e críticos coerentes. O caráter utópico de alguns deles era dado pelo fato de que consideravam possível introduzir a igualdade econômica com leis arbitrárias, com um ato de vontade etc. Mas permanece exato o conceito [...] de que não pode existir igualdade política completa e perfeita sem igualdade econômica’ (...).” (LINGUORI, VOZA: 736). “à sociedade de transição: ‘Nesta sociedade, o partido dominante não se confunde organicamente com o governo, mas é instrumento para a passagem da sociedade civil à ‘sociedade regulada’ na medida em que absorve ambas em si, para superá-las (e não para perpetuar sua contradição) etc.’. (...) a concepção marxista de Estado se torna a ‘doutrina do Estado que conceba este como tendencialmente capaz de esgotamento e de dissolução na sociedade regulada’.” (LINGUORI, VOZA; 2017: 736). “A sociedade regulada é, pois, Estado sem Estado: se (...) o Estado é ‘sociedade política + sociedade civil’ (Estado ‘integral’), a sociedade regulada é aquela ‘sociedade civil-política’ em que perece o Estado tradicionalmente entendido, o Estado como aparelho repressivo (...). A expansão dos elementos de autogoverno, no âmbito da sociedade socialista, levará, segundo G., a uma redução gradual dos elementos de estatismo propriamente dito, diminuindo a necessidade de momentos repressivos e coercitivos.” (LINGUORI, VOZA; 2017: 736).

Referências Bibliográficas:

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

MARX, Karl. A ideologia alemã: Crítica da mais recente filosofia alemã em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stiner, e do socialismo alemão em seus diferentes profetas (1845 – 1846). São Paulo: Boitempo, 2007.

BOBBIO, Norberto. Estado, governo, sociedade: Para uma teoria geral da política. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de Política. 5. ed. Brasília: Edunb, 1993.

KELSEN, Hans. Teoria geral do direito e do Estado. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

Há como compreender o Estado do ponto de vista sociológico e do ponto de vista jurídico. A concepção de Estado como pessoa jurídica é feita de forma muito incisiva em autores como Kelsen, que defende que “o Estado é resolvido totalmente no ordenamento jurídico e portanto desaparece como entidade diversa do direito, que dele regula e atividade dedicada à produção e à execução de normas jurídicas”  (BOBBIO, 2010: 57).  Sobre este contraponto a respeito do entendimento de que a concepção de Estado como pessoa jurídica representa um extraordinário avanço, Bobbio faz as seguintes colocações: 1. “De todas as teses Kelsenianas, a da redução radical do Estado a ordenamento jurídico foi a que teve menos fortuna” (BOBBIO, 2010: 57); 2. “tal reconstrução do Estado como ordenamento jurídico não tinha feito com que se esquecesse que o Estado era também, através do direito, uma forma de organização social e que, como tal, não podia ser dissociado da sociedade e das relações sociais subjacentes” (BOBBIO, 2010: 56); 3. “Com a transformação do puro Estado de direito em Estado social, as teorias meramente jurídicas do Estado, condenadas como formalistas, foram abandonadas pelos próprios juristas. Com isso, recuperam o vigo soo estudos de sociologia política, que têm por objeto o Estado como forma complexa de organização social (da qual o direito é apenas um dos elementos constitutivos).”  (BOBBIO, 2010: 57).

Feito este comentário inicial, segue a definição e a importância para o avanço da disciplina jurídica da concepção de Estado como pessoa jurídica:

O que representa o Estado entendido como ordenamento jurídico:

Com relação a doutrina sociológica, a doutrina jurídica apresenta um contraponto do entendimento do Estado: “Esta distinção tornara-se necessária em seguida à tecnicização do direito público e à consideração do Estado como pessoa jurídica, que dela derivava.” (BOBBIO, 2010: 56). A importante da concepção do Estado como pessoa jurídica é de tal definição deriva em da concepção de Estado de direito: “Por sua vez, a tecnicização do direito público era a consequência natural da concepção do Estado como Estado de direito, como Estado concebido principalmente como órgão de produção jurídica e, no seu conjunto, como ordenamento jurídico.” (BOBBIO, 2010: 56).

O Estado de direito relaciona-se a necessidade de garantir os direitos fundamentais. Esses direitos dizem respeito às “liberdades burguesas: liberdade pessoal, política e econômica” (BOBBIO, 1993: 401), e podem ser traduzidos unicamente  por “um direito contra a intervenção do Estado” (BOBBIO, 1993: 401). Assim, quando se aponta para a questão do Estado como ordenamento jurídico e a relação disso com a visão do Estado como Estado de direitos, entende-se que o Estado deve ser concebido formalmente como estrutura organizada por um sistema jurídico que visa a garantia do status quo burguês.

O Estado entendido como ordenamento jurídico:

Kelsen define Estado, segundo a doutrina jurídica, da seguinte forma: 1. “O Estado é a comunidade criada por uma ordem jurídica nacional (em contraposição a uma internacional). O Estado como pessoa jurídica é a personificação dessa comunidade ou a ordem jurídica nacional que constitui essa comunidade.” (KELSEN, 2005: 261 – 262); 2. “Um sistema de normas, segundo essa visão, possui a unidade e a individualidade, que faz merecer o nome de ordem jurídica nacional, exatamente porque está, de um modo ou de outro, relacionado a um Estado como fato social concreto, porque é criado ‘por’ um Estado ou válido ‘para’ um Estado.” (KELSEN, 2005: 262); 3. “O Estado é aquela ordem da conduta humana que camacha de ordem jurídica, a ordem à qual se ajustam as ações humanas, a ideia à qual os indivíduos  adaptam sua conduta.” (KELSEN, 2005: 272); 4. “Apenas como ordem normativa o Estado pode ser uma autoridade com o poder de obrigar, especialmente se essa autoridade for soberana” (KELSEN, 2005: 273); 5. “O Estado é uma organização política por ser uma ordem que regula o uso da força, porque ela monopoliza o uso da força. Porem (...) esse é um dos caracteres essenciais do Direito. O Estado é uma sociedade politicamente organizada porque é um comunidade constituída por uma ordem coercitiva, e essa ordem coercitiva é o Direito.” (KELSEN, 2005: 273).

Kelson, em Teoria Geral do direito e do Estado (2005), aponta para a seguinte direção: “A doutrina tradicional distingue três ‘elementos’ do Estado: seu território, seu povo e seu poder.” (KELSEN, 2005: 299). O capítulo Os elementos do Estado, presente no livro citado, tem como conteúdo um aprofundamento a respeito do que essa afirmação inicial sugere.

Segue as principais vias de argumentação feita pelo autor:

TERRITÓRIO

Todo o Estado possui um território, entretanto, a unidade territorial deve ser entendida para além da dimensão geográfica. Se o Estado é em realidade um ordenamento jurídico, o território do Estado deve ser medida de acordo com o alcance desse ordenamento jurídico. Um exemplo ilustrativo, mesmo que incompleto: se, na época do Brasil colônia, obedecia-se a cartilha cartilha (um sistema de regras/ uma determinada ordem social) de Portugal, o território brasileiro constituía uma parte do todo que era o território português. “A unidade do território do Estado e, portanto, a unidade territorial do Estado, é uma unidade jurídica, não geográfica ou natural. Porque o território do Estado, na verdade, nada mais é que a esfera territorial de validade da ondem jurídica chamada Estado.” (KELSEN, 2005: 300) / “A validade exclusiva de uma ordem jurídica nacional, segundo o Direito internacional, estende-se apenas até onde essa ordem é, como um todo eficaz, ou seja, até onde atos coercitivos previstos por essa ordem são efetivamente postos em prática. Este é o princípio jurídico de acordo com o qual as fronteiras dos Estados dispostas sobre a superfície da Terra são determinadas.” (KELSEN, 2005: 307) / “A teoria tradicional faz distinção entre fronteiras ‘naturais’ e ‘artificiais’, i. e., jurídicas; mas as fronteiras de um Estado sempre têm caráter jurídico, coincidam elas ou não com fronteiras ‘naturais’ (...).” (KELSEN, 2005: 307).

O Estado, entendido como uma ordem jurídica, é em realidade uma ordem coercitiva. A limitação da ordem jurídica nacional é limitada pela ordem jurídica internacional apenas no que se refere a execução coercitiva. Por exemplo, é possível que um Estado determine que dita ação constitui um crime, tanto em território nacional quanto em território internacional, entretanto, o ordenamento coercitivo apenas pode ser de fato executado em território nacional. O fato de que a ordem jurídica do Estado, sendo ela em realidade uma ordem de coerção, só possuir validade (cumprimento) no espectro nacional representa o limitação do ordenamento nacional diante do internacional, entretanto, tal fato é representativo pois demonstra que a ordem jurídica do Estado é, em realidade, uma ordem fundamentalmente coercitiva (assim como o Direito o é). “A limitação da esfera de validade da ordem coercitiva chamada Estado a um território definido significa que as medidas coercitivas, as sanções, estabelecidas pela ordem, têm de ser instituídas apenas para esse território e executadas apenas dentro dele.” (KELSEN, 2005: 300) / “O fato de a limitação da validade territorial da ordem jurídica nacional pela ordem jurídica internacional referir-se apenas aos atos coercitivos estabelecidos por essa ordem e o fade de, com a restrição desses atos coercitivos a um determinado território, a existência jurídica do Estado ficar restrita a esse território demonstram claramente que a ordenação de atos coercitivos um elemento essencial do Direto, é, ao mesmo tempo, a função essencial do Estado.” (KELSEN, 2005: 304)

O Estado federal – nos casos que os Estados-membros são genuínos –, e guerras são casos de exceção do princípio de impenetrabilidade do Estado “O princípio de que a ordem a ordem jurídica nacional tem validade exclusiva para um determinado território, o território do Estado no sentido mais restrito, e de que, dentro desse território, todos os indivíduos estão sujeitos única e exclusivamente a essa ordem jurídica nacional ou ao poder coercitivo do Estado, é geralmente expresso dizendo-se que só pode existir um Estado no mesmo território, ou – tomando emprestada uma expressão da física – que o Estado é ‘impenetrável’. Existem, contudo, certas exceções a esse princípio.” (KELSEN, 2005: 306)

 POVO

De acordo com a teoria tradicional, o povo, assim como o território e o poder, é um dos elementos do constitutivos do Estado. Assim como não há Estado sem território, não há Estado sem povo – um Estado, um território, um povo. Assim como deve haver uma unidade territorial, o povo também deve compor um outro tipo de unidade, uma unidade composta de seres humanos que habitam um determinado espaço (o território de um Estado). “Assim como o Estado tem apenas um território, ele tem apenas um povo, e, como a unidade do território é jurídica e não natural, assim o é a unidade do povo. Ele é constituído pela unidade da ordem jurídica válida entre os indivíduos cuja conduta é regulamentada pela ordem jurídica nacional, ou seja, é a esfera pessoal de validade dessa ordem. Exatamente como a esfera territorial de validade da ordem jurídica nacional é limitada, assim também o é a esfera pessoal. Um indivíduo pertence ao povo de um dado Estado se estiver incluído na esfera pessoal de validade de sua ordem jurídica. Assim como todo Estado contemporâneo abrange apenas uma parte do espaço, ele também compreende apenas uma parte da humanidade. E, assim como a esfera territorial de validade da ordem jurídica nacional é determinada pelo Direito internacional, assim o é a sua esfera pessoa.” (KELSEN, 2005: 334) / “A ordem jurídica regulamenta a conduta de um indivíduo vinculando uma sanção coercitiva à conduta contrária, sendo este condição da sanção. Mas, segundo o Direto internacional, o ato coercitivo estipulado pela ordem jurídica nacional só pode ser dirigido a indivíduos que estejam dentro do território do Estado (...). Isso não significa que a ordem jurídica só possa vincular atos coercitivos aos atos realizados dentro do território. (...). No entanto, essas sanções só podem ser executadas contra indivíduos que estão dentro do território. Desse modo, a esfera pessoal de validade da ordem jurídica nacional é determinada pelo Direto internacional. Trata-se de uma determinação indireta. Ela resulta da determinação da esfera territorial de validade.” (KELSEN, 2005: 335)

“A cidadania ou nacionalidade é um status pessoal, a aquisição e a perda são reguladas pelo Direto nacional e pelo internacional A ordem jurídica nacional faz desse status a condição de certos deveres e direitos.” (KELSEN, 2005: 336) / “O compromisso de fidelidade é habitualmente citado como um dos deveres específicos dos cidadãos. Quando se concede cidadania a uma pessoa, ela às vezes tem de jurar fidelidade ao seu novo Estado. (...). Juridicamente, a fidelidade nada mais significa que a obrigação geral de obedecer à ordem jurídica, uma obrigação que os estrangeiros também têm e que não é criada pelo juramente de fidelidade.” (KELSEN, 2005: 337) / “As vezes, fala-se do direito de um cidadão ser ‘protegido’ por seu Estado como a contraparte de sua fidelidade a este. (...) Fidelidade e proteção são consideradas obrigações recíprocas. Mas, exatamente como a fidelidade não significa nada além dos deveres que a ordem jurídica impõe aos cidadãos a ela sujeitos, assim o direito do cidadão à proteção não possui nenhum conteúdo a não ser os deveres que a ordem jurídica impõe aos órgãos do Estado para com os cidadãos.” (KELSEN, 2005: 340)

“Os chamados direitos políticos encontram-se entre os direitos que a ordem jurídica costuma reservar a cidadãos. Eles são comumente definidos como os direitos que são ao seu possuidor um poder de influência na formação da vontade do Estado. O principal direito político é o direito de votar, isto é, o direito de participar na eleição dos membros do corpo legislativo e de outros funcionários de Estado.” (KELSEN: 2005: 337) / “Também são considerados direitos políticos certas liberdades garantidas pela constituição, tais como liberdade religiosa, liberdade de expressão e de imprensa, o direito de manter e portar armas, o direito do povo à segurança de suas pessoas, casas, documentos e bens, o direito contra buscas e apreensões desarrazoadas, o direito de não ser privado de vida, liberdade ou propriedade sem o devido procedimento de Direito, de não ser desapropriado sem justa compensação, etc.” (KELSEN: 2005: 338) / “Habitualmente, considera-se também um direito político a capacidade – em geral reservada a cidadãos – de ser eleito ou nomeado para um cargo público.” (KELSEN: 2005: 339).

 PODER

“Costuma-se classificar o poder do Estado como sendo o seu, assim chamado, terceiro elemento. Pensa-se no Estado como um agregador de indivíduos, um povo, que vive dentro de certa parte delimitada da superfície da Terra e que está sujeito a certo poder: um Estado, um território, um povo, um poder. Diz-se que a soberania é a característica definidora desse poder. Embora se sustente que a unidade do poder é tão essencial quanto a unidade do território e do povo, pensa-se, não obstante, que é possível distinguir três diferentes poderes componentes do Estado: o poder legislativo, o executivo e o judiciário.” (KELSEN, 2005: 364) / “A palavra ‘poder’ tem significados diferentes nesses diversos usos. O poder do Estado ao qual o povo está sujeito nada mais é que a validade e a eficácia da ordem jurídica, de cuja unidade resultam a unidade do território e a do povo. O ‘poder’ do Estado deve ser a validade e a eficácia da ordem jurídica nacional, caso a soberania deva ser considerada uma qualidade desse poder. Porque a soberania só pode ser a qualidade de uma ordem normativa na condição de autoridade que é a fonte de obrigações e direitos. Quando, por outro lado, se fala dos três poderes do Estado, sendo distinguidas três funções do Estado.” (KELSEN, 2005: 364/365)

“Uma vez que o Estado é aqui compreendido como uma ordem jurídica, o problema da constituição – tradicionalmente tratado a partir do ponto de vista da teoria política – encontra o seu lugar natural na teoria geral do Direito.” (KELSEN, 2005: 369) / “A constituição do Estado, geralmente caracterizada como a sua ‘lei fundamental’, é a base da ordem jurídica nacional. É bem verdade que o conceito de constituição, tal como compreendido na teoria do Direito, não é exatamente igual ao conceito correspondente na teoria política. O primeiro é o que chamamos de constituição no sentido material do termo, abrangendo as romãs que regulamentam o processo de legislação. Tal como usado na teoria política, faz-se com que o conceito também compreenda as normas que regulamentam a criação e a competência dos órgãos executivos e judiciários mais altos.” (KELSEN, 2005: 369)

 

-- O Estado segundo a teoria marxista:

Segundo Marx o Estado capitaneia os interesses de uma classe específica, a classe dominante, o que significa dizer que o Estado age em defesa dos valores burgueses.

Sobre os valores burgueses, nas palavras de Marx: “As ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes, isto é, a classe que é a forma material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, sua força espiritual dominante. A classe que tem à sua disposição os meios de produção material dispõe também dos meios de produção espiritual, e de modo que a ela estão submetidos aproximadamente ao mesmo tempo os pensamentos daquelas aos quais faltam os meios de produção espiritual. As ideias dominantes não são nada mais do que a expressão ideal [compreender ‘ideal’ por ‘ideologia’] das relações materiais dominantes, são as relações materiais dominantes apreendidas como ideias; portanto, são a expressão das relações que fazem de uma classe a classe dominantes, são as ideias de sua dominação. Os indivíduos que compõem a classe dominantes possuem, entre outras coisas, também a consciência e, por isso, pensam; na medida em que dominam como classe e determinam todo o âmbito de uma época histórica, é evidente que eles o fazem em toda a sua extensão, portanto, entre outras coisas, que eles dominam também como pensadores, como produtores de ideias, que regulam a produção e a distribuição das ideias de seu tempo; e, por conseguinte, que num país em que o poder monárquico, a aristocracia e a burguesia lutam entre si pela dominação, onde portanto a dominação está dividida, aparece como ideia dominante a doutrina da separação dos poderes, enunciada então como ‘lei eterna’.” (MARX, 2007: 47). “A divisão do trabalho, (que já encontramos acima (p. [34-35]) como uma das forças principais da história que se deu até aqui, se expressa também na classe dominante como divisão do trabalho espiritual e trabalho material, de maneira que, no interior dessa classe, uma parte aparece como os pensadores dessa classe, como seus ideólogos ativos, criadores de conceitos, que fazem da atividade de formação da ilusão dessa classe sobre si mesma o seu meio principal de subsistência, enquanto os outros se comportam diante dessas ideias e ilusões de forma mais passiva e receptiva, pois são, na realidade, os membros ativos dessa classe e têm menos tempo para formas ilusões e ideias sobre si próprios. No interior dessa classe, essa cisão pode evoluir para uma certa oposição e hostilidade entre as duas partes, a qual, no entanto, desaparece por si mesma a cada colisão prática em que a própria classe se vê ameaçada, momento no qual se desfaz a aparência de que as ideias dominantes são seriam as ideias dominantes da classe dominante e que elas teriam uma força distinta da força dessa classe. A existência de ideias revolucionárias numa determinada época pressupõe desde já a existência de uma classe revolucionária, sobre cujos pressupostos já foi dito anteriormente o necessário.” (MARX, 2007: 47 – 48).

Sobre o Estado Capitalista (ditadura burguesa), o Estado Socialista (ditadura do proletariado) e o Estado comunista (Estado sem Estado):

Não é possível dissociar o homem de sua história (temporalidade), tampouco é possível pensar no homem nada fora ou independente da sociedade da qual pertence (espacialidade). “Dependência da personalidade humana em relação à sociedade historicamente determinada a que pertence, dependência em virtude da qual ela nada é fora dessa sociedade e independente dela” (ABBAGNANO, 2007: 193).

Marx não nega a importância da burguesia no processo histórico e material que constitui as sociedades, o que significa apenas que Marx não faz uma critica necessariamente moral a burguesia. Segundo Marx foi de caráter revolucionário o feito burguês que tornou possível a superação da sociedade pré-burguesa (feudal). É este mesmo caráter que faz a burguesia uma classe capaz de seguir transformando ininterruptamente formas tradicionais presentes na sociedade humana para garantir sua sobrevivência imediata.  As relações de produção e de trabalho são produtos do tempo de uma sociedade (história/passado). As relações de produção e de trabalho constituídas historicamente em uma dada sociedade, determinam também todas as manifestações humanas (socialmente reconhecidas, aceitáveis, normais, comuns), como os aspectos de moralidade, religião, filosofia e política. “Dependência da estrutura de uma sociedade historicamente determinada das relações de produção e de trabalho que são próprios de tal sociedade e que determinam todas as suas manifestações: moralidade, religião, filosofia etc., além das formas da sua organização política.” (ABBAGNANO, 2007: 193).

A burguesia na condição o agente da transformação constante dos meios de produção, constitui um elemento socialmente transformador, pois “enquanto a condução da existência das classes pré-burguesas era a imutável conservação do antigo modo de produção, a burguesia, ao invés, não pode existir sem revolucionar continuamente os instrumentos de produção; e por consequência as relações de produção e, também, todo o conjunto de relações sociais. Esta ação incessante dissolve, quer as estáveis e enferrujadas condições de vida, quer as opiniões e ideias tradicionais, enquanto as novas envelhecem antes de terem conseguido formas os ossos.” (BOBBIO, 1993: 208).

A teoria marxista prevê uma crise inevitável. A burguesia está fadada ao fracasso. As formas de acumulação do capitalismo capitaneadas pela burguesia tornam as crises do capitalismo cíclicas e inevitáveis. Quando “as forças produtivas se tornam potentes demais e as relações burguesas demasiadamente estreitas para consumir as riquezas produzidas” (BOBBIO, 1993: 209) o mundo capitalista entra em crise. A burguesia reage aos ciclos de crise “de um lado, destruindo à força uma grande quantidade de forças produtivas e, por outro lado, conquistando novos mercados e explorando mais intensamente os mercados já existentes.” (BOBBIO, 1993: 209). Entretanto tal reação em realidade apenas posterga os problemas inerentes às contradições do capitalismo, pois apenas “prepara crises [outras] mais extensas e mais violentas e reduz os meios para prevenir as crises futuras” (BOBBIO, 1993: 209). A burguesia assim se auto sabota pois as mesmas “armas com que ela derrubou o feudalismo [que] agora estão voltadas contra ela e a levam inexoravelmente para a decadência e a morte.” (BOBBIO, 1993: 209).

Luta de classes e a ditadura do proletariado. Marx aposta que o sentido do capitalismo culmina na aguda polarização entra as classes, ou seja, na inexistência de uma classe intermediária. De uma lado, a burguesia constituída por uma minoria detentora dos meios de produção. Do outro lado, o proletariado constituída por uma maioria operária. Esse é o limite do capitalismo, uma minoria que promoveu a aniquilação de uma classe intermediária, e relegou a maioria da população a uma condição de vida de desumanidade: “a classe burguesa se distingue de todas as precedentes classes dominantes, porque não está em condições de assegurar aos seus escravos nem a existência dentro dos limites da escravidão, já que é obrigada a deixa-los cais em condições tais de modo a ter de alimenta-los em vez de ser por eles alimentada” (BOBBIO, 1993: 209). O ciclo das crises inevitáveis se findará quando o capitalismo atingir seu limite, ou seja, quando o nivelamento da sociedade chegar em um ponto onde as classes intermediárias deixarão de existir, e quando o processo de acumulação de riquezas nas mãos da classe dominante culminar no padecimento (na miséria extrema, na fome e na morte) da classe operária. Quando não houver mais por onde o capitalismo se expandir, ou seja, quando a burguesia não possuir mais as armas necessárias para postergar a crise final, a maioria criada pela própria burguesia aniquilar as classes intermediárias e nivelar a população em uma única classe de operários, tomará inevitavelmente o poder. Marx aponta que a sociedade sairá de uma espécie de ditatura burguesa para se tornar uma ditadura do proletariado: “Este caráter largamente majoritário do movimento proletário assegura, segundo Marx, que a revolução socialista e a fase da ‘ditadura do proletariado’, que a ele se seguirá, embora caracterizadas por medidas violentas e coercitivas (em primeiro ligar da destruição da máquina estatal burguesa, instrumento da ditadura da burguesia), serão sustentadas pela grande maioria da população; e que as próprias medidas coercitivas terão uma área de aplicação, restrita em termos gerais, e serão, portanto, temporárias.” (BOBBIO, 1993: 209). “para ele [Marx] a revolução proletária pode realizar uma transformação comunista da sociedade somente quando a evolução capitalista tiver atingido seu cume; qualquer tentativa de apressar arbitrariamente os tempos da revolução levaria somente ao insucesso ou à adoção de medidas terroristas, que descaracterizariam a própria revolução.” (BOBBIO, 1993: 209);

Marx coloca então como ponto central um materialismo histórico, cujos elementos são: a) “Caráter permanente e necessário da luta de classes em toda e qualquer sociedade capitalista, ou seja, em toda sociedade na qual os meios de produção sejam propriedade privada.” (ABBAGNANO, 2007: 193); b) “A necessária e inevitável passagem da sociedade capitalista, depois que ela atinja o seu ponto máximo de concentração da riqueza em poucas mãos e de empobrecimento e nivelamento de todos os trabalhadores, para a sociedade socialista, que possui e emprega diretamente os meios de produção, sendo por isso sem classe.” (ABBAGNANO, 2007: 193); c) “Existência de um período de superação entre a sociedade capitalista e a sociedade comunista, durante o qual o proletariado tomará o poder do Estado e o exercerá, como fizera o capitalismo, em seu próprio interesse. Esse será o período da ditadura do proletariado.” (ABBAGNANO, 2007: 193);

No marxismo gramsciano o termo “comunismo” é substituído pelo termo “sociedade regulada”. Uma sociedade regulada, ou seja, comunista, cuja a característica mais marcante é a não existência do Estado, é também aquela que sucede a sociedade socialista. A sociedade socialista, segundo a teoria marxista, trata-se de uma sociedade de transição. Em resumo, o ponto final da teoria marxista é o comunismo, marcado por uma sociedade regulada o bastante para não necessitar do Estado. O ponto intermediário da teoria marxista é o socialismo, marcado por um período onde a sociedade deixa de viver uma ditadura da burguesia e passa a viver uma ditadura do proletariado. Ou seja, onde o poder coercitivo do Estado deixa de estar nas mais da burguesia, composta de uma parcela minoritária na sociedade, e passa a estar nas mais da classe operária, que em virtude do progressivo nivelamento da sociedade, ou seja, do aniquilamento das classes intermediária, passam a compor a parcela majoritária da sociedade. O Estado gerido pela maioria é o que marca o socialismo. O processo evolutivo que culmina na extinção do Estado, representa uma fase onde a sociedade encontra-se regulada, é apenas neste momento que é possível afirmar a existência em uma sociedade, de fato, comunista.

“G. [ler Gramsci] utiliza o termo ‘socialismo’ para designar a ‘cidade futura’, inicialmente concebida como ‘possibilidade de atuação integral da personalidade humana concedida a todos os cidadãos’, de modo que haja ‘o máximo de liberdade com o mínimo de coerção’ (...). Não é o ‘Estado profissional’ dos sindicalistas, nem o Estado monopolista de produção e distribuição a que aspiram os reformistas, mas a ‘organização da liberdade de todos e para todos’ (...), ‘um desenvolvimento infinito em regime de liberdade organizada e controlada pela maioria dos cidadãos, ou seja, pelo proletariado’ (...). Rejeitando a ontiestatismo precedente, G. sustenta a necessidade de ‘um Estado tipicamente proletário’ (...) que, a diferença do Estado burguês, ‘pede participação ativa e permanente dos companheiros na vida das suas instituições’ (...)” (LINGUORI, VOZA; 2017: 729).

“a concepção de uma sociedade socialista como processo de transição – numa completa dialética entre Estado e sociedade civil – de uma fase inicial econômico-corporativa, em que os elementos de base ainda são escassos (...), para aquela em que a iniciativa econômico-política será ‘passada nitidamente às forças que visam à construção sendo um plano, de pacífica e solidária divisão do trabalho’ (...), processo que ‘provavelmente durará alguns séculos, isto é, até o desaparecimento da Sociedade política e o advento da sociedade regulada’ (...) [ou seja, da sociedade comunista]. O Estado, ‘condução prelimitar de toda atividade econômica coletiva’ (...), é ‘o instrumento para adequar a sociedade civil à estrutura econômica’ (...), desde que quem dirija sejam os representantes do proletariado, que devem trabalhar pelo desenvolvimento de ‘novas formas de vida estatal, em que a iniciativa dos indivíduos e dos grupos seja ‘estatal’, ainda que não se deva ao ‘governo dos funcionários’ (fazer co que a vida estatal se torne ‘espontânea’)’ (...), de modo que se pode ‘imaginar o elemento Estado-coerção em processo de esgotamento à medida que se afirma elementos cada vez mais conspícuos de sociedade regulada’ (...). Mas para isso são necessárias ao mesmo tempo – o que é difícil – tanto a elaboração de uma alta cultura e de grupos dirigentes adequados à gigantesca tarefa de transição socialista, quanto a educação e a participação ativa das grandes massas no ‘processo molecular de afirmação de uma nova civilização’, um Resnascimento e uma Reforma juntos (...).” (LINGUORI, VOZA; 2017: 729 – 730).

 “Precisa G.: ‘Enquanto existir o Estado-classe não pode existir a sociedade regulada, a não ser por metáfora isto é, apenas no sentido de que também o Estado-classe é uma sociedade regulada. Os utopistas, na medida em que exprimiam uma critica da sociedade existente em seu tempo, compreendiam muito bem que o Estado-classe não podia ser a sociedade regulada, tanto é verdade que nos tipos de sociedade pensadas pelas diversas utopias introduz-se a igualdade econômica como base necessária da reforma projetada: nisto os utopistas não eram utopistas, mas cientistas concretos da política e críticos coerentes. O caráter utópico de alguns deles era dado pelo fato de que consideravam possível introduzir a igualdade econômica com leis arbitrárias, com um ato de vontade etc. Mas permanece exato o conceito [...] de que não pode existir igualdade política completa e perfeita sem igualdade econômica’ (...).” (LINGUORI, VOZA: 736). “à sociedade de transição: ‘Nesta sociedade, o partido dominante não se confunde organicamente com o governo, mas é instrumento para a passagem da sociedade civil à ‘sociedade regulada’ na medida em que absorve ambas em si, para superá-las (e não para perpetuar sua contradição) etc.’. (...) a concepção marxista de Estado se torna a ‘doutrina do Estado que conceba este como tendencialmente capaz de esgotamento e de dissolução na sociedade regulada’.” (LINGUORI, VOZA; 2017: 736). “A sociedade regulada é, pois, Estado sem Estado: se (...) o Estado é ‘sociedade política + sociedade civil’ (Estado ‘integral’), a sociedade regulada é aquela ‘sociedade civil-política’ em que perece o Estado tradicionalmente entendido, o Estado como aparelho repressivo (...). A expansão dos elementos de autogoverno, no âmbito da sociedade socialista, levará, segundo G., a uma redução gradual dos elementos de estatismo propriamente dito, diminuindo a necessidade de momentos repressivos e coercitivos.” (LINGUORI, VOZA; 2017: 736).

Referências Bibliográficas:

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

MARX, Karl. A ideologia alemã: Crítica da mais recente filosofia alemã em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stiner, e do socialismo alemão em seus diferentes profetas (1845 – 1846). São Paulo: Boitempo, 2007.

BOBBIO, Norberto. Estado, governo, sociedade: Para uma teoria geral da política. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de Política. 5. ed. Brasília: Edunb, 1993.

KELSEN, Hans. Teoria geral do direito e do Estado. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

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WASHINGTON DC

Há mais de um mês

A palavra Estado, grafada com inicial maiúscula, é uma forma organizacional cujo significado é de natureza política. É uma entidade com poder soberano para governar um povo dentro de uma área territorial delimitada.

As funções tradicionais do Estado englobam três domínios: Poder ExecutivoPoder Legislativo e Poder Judiciário. Numa nação, o Estado desempenha funções políticas, sociais e econômicas.

Também são designadas por Estado, cada uma das divisões político-geográficas de uma república federativa. Estas divisões são autônomas e possuem um governo próprio regido por uma estrutura administrativa local. O Brasil é dividido em 26 Estados e um Distrito Federal.

Grafada com inicial minúscula, a palavra estado significa a situação presente em que se encontra alguma entidade. Exemplos: estado de pobreza, estado do tempo, estado civil, estado físico etc.

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Victoria Campolina

Há mais de um mês

A palavra Estado, grafada com inicial maiúscula, é uma forma organizacional cujo significado é de natureza política. É uma entidade com poder soberano para governar um povo dentro de uma área territorial delimitada

 

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