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LMA 1 - Anexo - Suprarrenais e Emoções

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muito mais Eixo Hipotálamo-Hipofisário-Suprarrenal e secretam, pois, mais cortisol. Tenta-se assim, estabelecer uma relação entre a secreção de cortisol aumentada com alterações infantis de atenção e comportamento.
Suporte Afetivo da Criança (Teoria do Apego), Estresse e Personalidade
A Teoria do Apego (John Bowlby) diz respeito à interação entre a pessoa que cuida, geralmente a mãe, e a criança, constituindo uma das condições mais importantes na formação das respostas da criança aos estímulos estressores, não só nas fases precoces do desenvolvimento mas, sobretudo, com repercussões na formação futura do temperamento. Por isso, a Teoria do Apego é também chamada Teoria da Regulação do Afeto, de acordo com Feeney, Noller e Patty (1993).
A parte da personalidade entendida como Temperamento representa a maneira como a pessoa lida com os estressores, enfim, de que forma a pessoa reage à vida (através do afeto ou humor). O Temperamento é uma parte constitucional da personalidade, ou seja, ela faz parte do potencial biológico da pessoa e se desenvolve com ela como, por exemplo, sua estatura. A despeito da estatura ser constitucional, por exemplo, ela sofre influências (limitadas) do meio, tal como ocorre com o Temperamento. Imaginemos que uma criança tenha potencial hereditário de ser alta, mas, num determinado momento de seu desenvolvimento, faltou-lhe proteínas suficientes, resultando em um indivíduo não tão alto quanto poderia. Isso é a influência do meio sobre um determinante constitucional.
Apego e Temperamento no bebê sempre foram objetos de pesquisas. Rothbart (2000, 2001) define o temperamento como "as diferenças individuais constitucionais de reatividade e autoregulação", entendendo-se como "constitucionais" as bases orgânicas da personalidade, determinadas pela hereditariedade e influenciadas pelo desenvolvimento e pela experiência.
O Temperamento da criança tanto influencia como é influenciado pela formação do Apego, assim como também, o Apego é influenciado pelo temperamento da pessoa que cuida da criança. Assim sendo, tanto o Temperamento constitucional da criança quanto o Temperamento de quem cuida dela influenciarão as respostas desta criança diante do estresse.
No desenvolvimento precoce da criança, portanto, a mãe (ou quem cuida) "empresta" a função de regulador de emoções à criança, contribuindo para a formação da parte ambiental do temperamento (já que outra parte é constitucional).
Segundo a hipótese da Teoria do Apego, a partir de repetidas experiências as crianças desenvolvem expectativas a respeito das interações entre ela e o mundo (incluindo e principalmente a figura do apego). Por exemplo, a repetida experiência de ser alimentada cada vez que sentir fome, leva à expectativa de ter esse tipo de sofrimento prontamente atendido e assim por diante.
Estudos em roedores e primatas sugerem que a função do Eixo Hipotálamo-Hipofisário-Suprarrenal do indivíduo adulto pode ser modulada por experiências sociais durante o desenvolvimento precoce. Gunnar (2002) estudou a sensibilidade dos níveis de cortisol à qualidade dos cuidados aos bebês e crianças, evidenciando também que as crianças mais temperamentais ou emocionalmente problemáticas são aquelas que exibiam maiores elevações no nível de cortisol sob circunstâncias de cuidados insatisfatórios.
Tal constatação nos remete à dúvida do "ovo ou a galinha?" ou seja, da dúvida em saber se as crianças submetidas à cuidados precoces insatisfatórios ou negligentes desenvolvem uma resposta exagerada do Eixo Hipotálamo-Hipofisário-Suprarrenal, com isso tornando-se emocionalmente problemáticas ou, ao contrário, se essa alteração no Eixo Hipotálamo-Hipofisário-Suprarrenal seria uma causa fisiológica e orgânica (hereditária ou não) das crianças emocionalmente problemáticas, agravadas quando elas fossem submetidas à cuidados insatisfatórios. 
Essa questão é ainda bastante controversa: se o temperamento da criança influi sobre a qualidade do Apego, ou, ao contrário, se é a atitude do cuidador (mãe) e o tipo de Apego disso decorrente que influem sobre o Temperamento da criança.
Em uma de suas muitas pesquisas, Gunnar (1992) avaliou também as respostas Suprarrenais de crianças em diferentes situações de estresse, tentando verificar as alterações hormonais, de conduta e emocionais provocado pela separação da mãe, substituída por uma babá. Os resultados demonstraram que os bebês reagem à separação das mães conforme o comportamento das babás.
Os bebês que foram cuidados por babás afetuosas apresentaram alterações de cortisol salivar menores que as demais, bem como uma menor freqüência de afetos negativos. Isso pode sugerir que as diferenças individuais e constitucionais no Temperamento emocional da criança não devem ser o único fator que determina as reações da criança diante das separações, e que a qualidade do cuidador substituto pode ter importante papel (Escosteguy, 2002).
 
para referir:
Ballone GJ - Suprarrenais e Estresse, in. PsiqWeb, Internet, disponível em www.psiqweb.med.br, revisto em 2005.
Referências Bibliográficas
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3. Escosteguy NU - Adrenocortical responses in children to a stress-situation (relation with observation of behavior and interaction with caregivers, considering variables "temperament and attachment", Internet, disponível em www.revistapsiqrs.org.br
4. Feeney JA, Noller P, Patty J.- Adolescents interactions with the opposite sex: influence of attachment style and gender. J Adolesc. 1993 Jun;16(2):169-86.
5. Gunnar MR, Donzella B - Social regulation of the cortisol levels in early human development. Psychoneuroendocrinology. 2002 Jan-Feb;27(1-2):199-220.
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8. Rothbart MK, Ahadi SA, Evans DE - Temperament and personality: origins and outcomes. J Pers Soc Psychol. 2000 Jan; 78(1):122-35.
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10. Watamura SE, Sebanc AM, Gunnar MR - Rising cortisol at childcare: relations with nap, rest, and temperament. Dev Psychobiol. 2002 Jan;40(1):33-42.