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DISCIPLINA: TEORIAS E SISTEMAS DA PSICANÁLISE PROFESSOR: Marcelo Gonçalves Campos Referência Bibliográfica PSICOLOGIAS - UMA INTRODUÇÃO AO ESTUDO DE PSICOLOGIA Ana Mercês Bahia Bock; Odair Furtado; Maria de Lourdes Trassi Teixeira Cap. 5 – A Psicanálise Sigmund Freud (1856 - 1939) Teorias científicas: produtos históricos – contexto social, econômico, político, social. Médico vienense: alterou radicalmente o modo de pensar a vida psíquica. Investigação “regiões obscuras” (fantasias, sonhos, interioridade, etc.) – criação da Psicanálise. PSICANÁLISE Teoria – funcionamento e estrutura da vida psíquica. Método de investigação – método interpretativo, busca encontrar o significado oculto de ações, palavras, produções imaginárias. Prática profissional – análise, forma de tratamento que busca a cura ou o autoconhecimento. Psicanálise na contemporaneidade: Além do consultório; clínica ampliada. Atualmente a Psicanálise acontece de muitas formas. Base para psicoterapias, aconselhamento e orientação; Aplicada no trabalho com grupos e instituições; Instrumente para análise e compreensão de fenômenos sociais relevantes (novas formas de sofrimento, excesso de individualismo, violência, etc.). Percurso de Freud Formou-se em medicina, especializou-se em psiquiatria. Começa a clinicar atendo pessoas com “problemas nervosos”. Bolsa de estudos em Paris, trabalhou com Charcot (neurologista) que tratava as histerias com hipnose. De volta a Viena começou a utilizar a sugestão hipnótica em sua clínica. A técnica foi abandonada, não funcionava com todos os pacientes. Método catártico – Breuer (médico e cientista) – liberação das emoções associadas ao trauma – conversação normal (perguntas) Abandona método catártico por sugestão de uma paciente – deixando o sujeito falar livremente. A descoberta do Inconsciente Da eliminação do sintoma – para a obtenção da história da origem dos sintomas. Algo penoso (pensamentos, afetos) para o sujeito era “esquecido”, retirado de sua consciência – Repressão. Havia uma força psíquica que se opunha a este conteúdo se tornar consciente – Resistência. Esses conteúdos psíquicos “localizavam-se” no Inconsciente. Psicanálise (método de investigação e cura): descobrir a repressão, eliminá-la por um juízo que aceitasse ou condenasse definitivamente o excluído. Teoria sobre a estrutura do aparelho psíquico “A interpretação dos sonhos” (1900) – primeira concepção sobre a estrutura e funcionamento psíquico. Três sistemas do aparelho psíquico: ✓ Inconsciente ✓ Pré-consciente ✓ Consciente Aparelho psíquico: Ics Pcs Cs Inconsciente – Conteúdos não presentes no campo atual da consciência. Elementos que foram reprimidos (não tem acesso aos sistemas pré- consciente/consciente) ou eram mesmo inconscientes. O Ics tem leis próprias de funcionamento, por exemplo, é atemporal. (Ex:. sonhos). Pré-consciente – Conteúdos acessíveis à consciência, não está na Cs em um dado momento, mas, em outro momento, pode estar. Consciente – Recebe as informações do mundo exterior e do mundo interior; nela destacam-se a percepção, a atenção e o raciocínio. A descoberta da sexualidade infantil Prática clínica: maioria dos pensamentos e desejos reprimidos referia-se a conflitos de ordem sexual, localizados na infância. Na vida infantil estavam as experiências traumáticas reprimidas, que se configuravam como origem dos sintomas atuais. As ocorrências da infância deixam marcas profundas na estruturação da pessoa. Essas descobertas colocam a sexualidade no centro da vida psíquica, e é postulada a existência da sexualidade infantil. Principais aspectos da sexualidade infantil: ✓ A função sexual existe desde o princípio da vida, e não só a partir da puberdade – como afirmavam as ideias dominantes. ✓ O desenvolvimento da sexualidade é longo e complexo até chegar à sexualidade adulta, quando as funções de reprodução e obtenção de prazer podem (ou não) estar associadas – as ideias dominantes eram de que o sexo estava exclusivamente ligado à reprodução. ✓ Libido: energia dos instintos sexuais. Desenvolvimento Psicossexual: Inicialmente o sujeito encontra o prazer no próprio corpo. O corpo é erotizado, as excitações sexuais estão localizadas em partes do corpo. Há um desenvolvimento progressivo – fazes do desenvolvimento sexual. FASE ORAL ✓ Primeira fase do desenvolvimento libidinal. ✓ Zona de erotização: boca. ✓ Inicialmente ligada à sucção/alimentação, depois se desliga dessa função nutritiva e se torna autoerótica. Fase Oral: inicialmente ligada à sucção. Depois se desliga da função nutritiva... E se torna autoerótica. FASE ANAL ✓ Zona de erotização: ânus. ✓ Ligada à função de defecação: tanto na retenção quanto na expulsão das fezes. ✓ Apropriação do controle esfincteriano. Cuidados, higiene. Ensinar a usar o banheiro. FASE FÁLICA ✓ Zona de erotização: órgão sexual. ✓ Masturbação: comportamento exploratório, faz parte desta etapa, produz prazer. PERÍODO DE LATÊNCIA ✓ Diminuição das atividades sexuais. ✓ “Intervalo” na evolução da sexualidade até a puberdade. ✓ Desenvolvimento de sentimentos fraternos, curiosidade sobre o mundo, início formação de valores morais. Latência: declínio da sexualidade infantil, 5 ou 6 anos de idade. Fraternidade, curiosidade, valores... FASE GENITAL ✓ Última fase do desenvolvimento sexual. ✓ Atingida na puberdade. ✓ Pulsões parciais (boca, ânus) se organizam sob o primado das zonas genitais. ✓ Objeto de erotização/desejo: outro. Fase genital: o objeto de erotização não está mais no próprio corpo. O objeto de desejo é externo ao indivíduo. COMPLEXO DE ÉDITO ✓ Em torno dele ocorre a estruturação da vida psíquica do sujeito. ✓ Mãe como objeto de desejo do menino; pai como rival que impede seu acesso a ela.O menino busca ser como o pai para “ter” a mãe. ✓ Identificação ao pai: modelo de comportamento. ✓ Por medo de perder o amor do pai, o menino “desiste” da mãe – participação no mundo social. Exemplos: ✓ Menino quer dormir com a mãe, no lugar do pai. ✓ Criança repete atitudes do pai (brinca da profissão do genitor, finge que está dirigindo ou tomando cerveja). Exemplos: ✓ Menina diz que o papai é o namorado dela; que vai casar com ele quando crescer. EXPLICANDO ALGUNS CONCEITOS REALIDADE PSÍQUICA Inicialmente – todas as cenas relatadas pelos pacientes eram entendidas como fatos que tinham ocorrido. Posteriormente – as cenas poderiam ter sido imaginadas, mas com mesma força e consequência de uma situação real. Realidade Objetiva e Realidade Psíquica. FUNCIONAMENTO PSÍQUICO: 3 pontos de vista ✓ Econômico: Quantidade de energia que “alimenta” os processos psíquicos. ✓ Tópico: O aparelho psíquico é constituído de um número de sistemas, “lugares” psíquicos, diferentes modos de funcionamento. ✓ Dinâmico: No interior do psiquismo existem forças que entram em conflito, a origem delas é a pulsão. PULSÃO ✓ Estado de tensão que busca, por meio de um objeto, a supressão desse estado. ✓ EROS – Pulsão de Vida: pulsões sexuais e de autoconservação. (Mit. Greg.: deus do amor). ✓ TANATOS – Pulsão de Morte: autodestrutiva ou dirigida para fora, pulsão agressiva. (Mit. Greg.: deus da morte). SINTOMA ✓ É uma produção: comportamento ou pensamento. ✓ Resultante de um conflito psíquico: desejo x mecanismos de defesa. ✓ Sintoma: busca encobrir um conflito e substituir a satisfação do desejo. ✓ Sintoma – ponto de partida investigação psicanalítica – descobrir processos psíquicos encobertos que determinam sua formação. ✓ Ex.: Paralisia das pernas – análise – amor pelo cunhado/ culpa por este sentimento. A SEGUNDA TEORIA DO APARELHO PSÍQUICO ✓ Três sistemas dapersonalidade. ✓ Primeira teoria ou primeira tópica (1900) – Ics, Pcs, Cs. ✓ Segunda teoria ou segunda tópica (1920-1923) – Id, Ego, Superego. ID ✓ Reservatório da energia psíquica; ✓ Onde se localizam as pulsões de vida e de morte; ✓ As características do Ics são atribuídas ao Id; regido pelo princípio do prazer. EGO ✓ Sistema que estabelece o equilíbrio entre as exigências do Id, da realidade e as “ordens” do Superego. ✓ Procura “dar conta” dos interesses do sujeito. ✓ Regido pelo princípio de realidade. Funcionamento psíquico regido pelo princípio do prazer e princípio da realidade. ✓ O EGO é um regulador: altera o princípio do prazer para buscar a satisfação, considera as condições objetivas da realidade. ✓ Prazer: obter prazer ou evitar o desprazer. ✓ Funções básicas do ego: percepção, memória, sentimento, pensamento. SUPEREGO ✓ Origina-se com o complexo de Édipo, a partir da internalização das proibições, limites e da autoridade. ✓ Funções do superego: moral e ideais. ✓ O conteúdo do superego refere-se a exigências sociais e culturais. Sentimento de culpa ✓ O sentimento de culpa origina-se na passagem pelo complexo de Édipo. ✓ O sujeito sente-se culpado por alguma coisa que fez ou que desejou ter feito – considerada má pelo Ego. ✓ Principal punição: perda do amor e do cuidado. Sentimento de culpa... ✓ Por medo dessa perda, evita fazer ou desejar a coisa má, mas o desejo continua e, assim, existe a culpa. ✓ Mudança importante: autoridade externa é internalizada pelo sujeito. ✓ A proibição está dentro dele. ✓ A função de autoridade sobre o sujeito será realizada pelo superego. O sentimento de culpa é usado na ψA em uma ampla concepção ✓ Autorrecriminações, autodepreciações; ✓ Castigos e sofrimentos voltados para si mesmo; ✓ Em casos extremos, pode levar ao suicídio. ✓ S. Culpa: pode variar de grau “normal” até grau mais intenso (adoecimento grave). IMPORTANTE: ✓ O ego e o superego são diferenciações do id. ✓ Há uma interdependência entre os 3 sistemas. ✓ Não são estruturas vazias: habitados pelas experiências pessoais, relação com o outro e circunstâncias sociais. ✓ Para compreender determinado comportamento ou modo de estar no mundo, é necessário resgatar a história pessoal do sujeito, que está ligada à história de seus grupos e da sociedade em que vive. OS MECANISMOS DE DEFESA ✓ A percepção do mundo interno ou externo pode ser constrangedora, dolorosa, desorganizadora. ✓ Para evitar este desprazer o sujeito deforma ou suprime a realidade: não registra percepções externas, afasta conteúdos psíquicos, interfere no pensamento. Mecanismos de Defesa ✓ São vários os mecanismos de defesa. ✓ São processos realizados pelo Ego, e são Ics. ✓ Defesa: operação pela qual o Ego exclui da Cs conteúdos indesejáveis, protegendo o aparelho psíquico. Recalque ✓ Mecanismo de defesa mais radical. ✓ Supressão de uma parte da realidade. ✓ O aspecto do que não é percebido faz parte de um todo, e ao ficar “invisível” deforma o sentido do todo. ✓ Exemplo: entender uma proibição como permissão, não ouvir o “não”. ✓ Ex.: Ao ler a página de um livro, uma linha não estivesse impressa, impedindo a compreensão da frase ou o sentido do que está escrito. ✓ Indivíduo vê o pai em uma cena de traição, mas tal imagem é retirada da Cs. Formação reativa ✓ O ego procura afastar o desejo que vai em determinada direção, e, para isto, o indivíduo adota uma atitude oposta a este desejo. ✓ Ex.: Atitudes exageradas que escondem o seu oposto. Superproteção x Desejo agressivo intenso. Mãe superprotege filho, do qual sente raiva. Aterrador para a mãe admitir tal sentimento. Regressão: ✓ Sujeito retorna a etapas anteriores de seu desenvolvimento; passagem para modos de expressão mais primitivos. ✓ Ex.: Pessoa enfrenta bem situações difíceis e ao ver uma barata sobe na mesa, gritando. Não é só a barata que ela vê na barata. Projeção ✓ Confluência de distorções do mundo externo e interno. ✓ Sujeito localiza (projeta) algo de si no mundo externo e não percebe aquilo que foi projetado como algo seu que considera indesejável. ✓ Ex.: Jovem critica colegas por serem competitivos, e não se dá conta de que também o é, talvez até mais que os outros. Racionalização ✓ Sujeito constrói argumentação intelectualmente convincente e aceitável, que justifica os estados “deformados” da consciência. Isto é, uma defesa que justifica as outras. ✓ Ego coloca a razão a serviço do irracional; utiliza elementos da cultura e da ciência. ✓ Ex.: Pudor excessivo (formação reativa), justificado com argumentos morais. ✓ Justificativas ideológicas para os impulsos destrutivos que surgem na guerra, no preconceito, na defesa da pena de morte. Outros mecanismos de defesa Denegação (Negação): o sujeito expressa um desejo, pensamento ou ideia (até então recalcado), mas continua a defender-se dele, negando que lhe pertença. ✓ Ex.: sujeito sobre um sonho “não é minha mãe”. Identificação com o agressor ✓ Sujeito confrontado com perigo exterior, identifica-se com o seu agressor, ou através de autoagressão ou imitando a pessoa do agressor. ✓ Ex.: Patrão que maltrata empregado e este adota certo comportamento daquele. Isolamento ✓ Isolar um pensamento ou um comportamento da sucessão temporal dos pensamentos e atos. ✓ Ex.: Rituais, fórmulas. Anulação retroativa ✓ Sujeito se esforça por fazer com que pensamentos, palavras e atos não tenham acontecido; utiliza pensamento ou comportamento com significação oposta. ✓ Como se o tempo não fosse irreversível. ✓ Ex.: Adicionar alguém na rede social, depois apagar a conversa e desfazer amizade. Mecanismos de defesa: ✓ Todos nós os utilizamos em nossa vida cotidiana, isto é, deformamos a realidade para nos defender de perigos internos ou externos, reais ou imaginários. ✓ O uso destes mecanismos não é, em si, patológico, contudo distorce a realidade, e só o seu desvendamento pode nos fazer superar essa falsa consciência, ou melhor, ver a realidade como ela é.