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FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL Márcio Marins 2FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL SUMÁRIO CENTRO UNIVERSITÁRIO UNIFTEC Rua Gustavo Ramos Sehbe n.º 107. Caxias do Sul/ RS REITOR Claudino José Meneguzzi Júnior PRÓ-REITORA ACADÊMICA Débora Frizzo PRÓ-REITOR ADMINISTRATIVO Altair Ruzzarin DIRETORA DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA (NEAD) Lígia Futterleib Desenvolvido pelo Núcleo de Educação a Distância (NEAD) Designer Instrucional Sabrina Maciel Diagramação, Ilustração e Alteração de Imagem Igor Zattera Revisora Ana Clara Garcia INTRODUÇÃO À LOGÍSTICA EMPRESARIAL 3 LOGÍSTICA E A GESTÃO DA CADEIA DE SUPRIMENTOS 7 SUPRIMENTO 16 Planejamento dos estoques 18 Contratos de fornecimento 20 Previsão de demanda 25 Classificação ABC 29 Modelo quantitativo de reposição 31 Lote Econômico de Compras (LEC) 35 Efeito chicote 38 Relacionamento com fornecedores 45 PRODUÇÃO 54 Os sistemas de produção 55 Postergação 58 Teoria das Restrições 61 Materials Requirements Planning (MRP) 63 Condomínios industriais e consórcio modular 73 ARMAZENAGEM 75 DISTRIBUIÇÃO E TRANSPORTE 79 Modais de transporte 80 Intermodalidade e multimodalidade 85 CONSIDERAÇÕES FINAIS 87 3FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL INTRODUÇÃO À LOGÍSTICA EMPRESARIAL Você sabia que a logística empresarial teve boa parte de suas raízes no marketing? Tornar os produtos e serviços desejáveis, este é um dos grandes desafios impostos pelo mercado às companhias atuan- tes nos mais diversos segmentos da economia. A globalização e o aumento da concorrência, passaram a exigir ainda mais dos departamentos de marketing que precisam desenvolver soluções criativas para clientes finais e corporativos, que estão cada vez mais exigentes. Você sabia que, nesse sentido, as premissas do marketing e da logística empresarial estão bem alinhadas? Vamos voltar um pouco no tempo para entender melhor essa conexão. Até os anos 1950, os mercados eram bastante restritos e pairava no ar um certo estado de tranquilidade. Uma vez que se vivia em um “pleno estado de satisfação dos clientes”, 4FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL não existia uma filosofia dominante que conduzisse as organizações em busca por uma explícita vantagem competitiva. Nes- se contexto, mesmo quando as organiza- ções fragmentavam a administração de suas atividades-chave, o gerenciamento da distribuição já era subordinado ao marke- ting. Visionário, não é mesmo? Porém, esta separação da distribuição das demais atividades empresariais (compras, gestão dos estoques, produção, vendas, proces- samento de pedidos, entre outras) gerava um grande conflito quanto aos objetivos e responsabilidades logísticas, resultando em um fraco nível de atendimento, o que consequentemente acarretava um fator ne- gativo na geração de valor para os clientes. Entretanto, alguns estudiosos do campo da logística já identificavam a li- gação direta entre a distribuição física, o processo de suprimento e a produção como elementos fundamentais para me- lhor atender às necessidades do mercado. Esse conceito foi muito bem explorado na prática pelas forças armadas americanas, durante a Segunda Guerra Mundial, in- fluenciando, inclusive, as operações logís- ticas das empresas governamentais durante a década de 1950. Foi exatamente nesse período que as ideias e metodologias lo- gísticas passaram a fazer parte de estudos acadêmicos. Além disso, as universidades passaram a oferecer cursos nessa área. Eis que o mundo começa a deixar para trás os sistemas de forte produção de bens, passando a ter uma preocupação maior com o mix “preço x qualidade”. No entanto, foi na década de 1960 que o transporte ganhou ainda mais im- portância, e nos anos 1970 e 1980 que as palavras “produtividade” e “informatiza- ção” ganharam força. Também, a partir da década de 1990 que a integração dos processos internos e o aprimoramento das comunicações – favorecido pela expansão tecnológica – impulsionaram um movi- mento de grande reestruturação organi- zacional. Isso permitiu para as empresas a coordenação externa dos parceiros estraté- gicos, das operações globais de produção, do gerenciamento de riscos, dos f luxos reversos e da administração de materiais em sua totalidade, direcionando as com- panhias, finalmente, à entrega de produtos e serviços, visando a plena satisfação do cliente e dos acionistas. As necessidades do cliente são mais importantes que bens e serviços. E o marketing? Bom, um dos prin- cípios básicos do marketing sugere que o foco de uma estratégia de negócios deve estar nos clientes que uma empresa deseja atender e, para atingir seus objetivos, essa mesma organização deve ser mais eficien- te que seus concorrentes na alocação dos recursos concentrados para atendimento e identificação das necessidades especí- ficas dos clientes. Esse princípio, ainda, baseia-se em quatro ideias fundamentais – diga-se de passagem, todas com uma 5FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL forte ligação com a logística. A primeira delas, a crença de que as necessidades do cliente são mais importantes que bens e serviços, faz-nos perceber que a chave está em entender e desenvolver a combinação de bens e serviços que atenderão essas ne- cessidades. Uma estratégia de marketing bem-sucedida começa com um estudo aprofundado dos clientes. A identifica- ção dos requisitos relacionados aos bens e serviços possibilita que um importante componente logístico – a manufatura – ofereça um grau de flexibilidade suficiente para se ajustar aos desejos do público-alvo. A segunda ideia fundamental é de que não há um único mercado para qualquer produto. Todos os mercados são compostos por diferentes segmentos e cada um com necessidades próprias. Essa segmentação de mercado exige que a empresa selecione alvos específicos e ajuste, cuidadosamen- te, sua capacidade para oferecer o nível de atendimento adequado e uma melhor entrega. Para que o marketing seja bem- -sucedido, bens e serviços devem estar disponíveis para os clientes, a f im de Bens e serviços só se tornam significativos quando disponíveis e posicionados a partir da perspectiva do cliente. 6FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL que eles possam obter imediatamente os produtos que desejam. Esta terceira ideia fundamental possui um alinhamento com quatro propriedades que agregam valor aos clientes e, também, à logística: forma, propriedade, tempo e lugar. Enquanto o marketing cria o desejo de propriedades, a logística fornece as utilidades de tem- po e lugar. E quanto à forma? Ela é, em grande parte, gerada durante o processo de manufatura – outro relevante componente logístico. Bowersox et al. (2014) afirmam que transações comerciais lucrativas só se materializam quando as quatro proprie- dades se combinam de modo relevante para os clientes. O quarto aspecto aponta que o vo- lume é menos importante que o lucro. Isso também possui uma ligação com as quatro propriedades e a segmentação do mercado. Há um contraste entre a lucratividade e o volume de vendas, já que um dos prin- cípios do marketing defende que o lucro está muito mais vinculado ao relaciona- mento com os clientes que com o volume vendido. Para isso, temos um exemplo bem simples: se um segmento de clientes manifesta o desejo pela “personalização” de um determinado produto e aceita pagar mais por isso, a solicitação pode e deve ser atendida, desde que a margem de contri- buição seja positiva. Por fim, podemos dizer que as estra- tégias voltadas à logística empresarial vêm contribuindo com a evolução da natureza do marketing. Antes focada na obtenção de trocas bem-sucedidas. Atualmente, com o desenvolvimento do conceito de Gestão da Cadeia de Suprimentos (GCS), ela está cada vez mais fundamentada no relacionamento de longo prazo, seja com clientes finais, clientes intermediários ou fornecedores. Outra mudança está no pró- prio Ciclo de Vida dos Produtos (CVP). A dinâmica do mercado já nos mostra que à medidaque empresas se especiali- zam na produção de determinados bens ou serviços, imediatamente surgem no- vos mecanismos para a troca desses bens, a fim de satisfazer novas exigências de consumo. Nesse sentido, é preciso que haja uma combinação entre os esforços de marketing e da logística empresarial para atingir adequadamente o público-alvo, visto que os locais de produção e consumo nem sempre são os mesmos. 7FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL LOGÍSTICA E A GESTÃO DA CADEIA DE SUPRIMENTOS Embora muito próximos, os conceitos são diferentes. A todo o momento ouvimos falar sobre logística, lo- gística integrada, logística empresarial e gestão da cadeia de suprimentos. Comumente, os termos são empregados como se fossem conceitos iguais, o que gera uma confusão bastante frequente. Vamos, então, entender a diferença entre eles? Já vimos que a logística é tida como parte essencial para o sucesso do comércio, pois ela contribui decisivamente para melhorar o padrão econômico de vida em geral. Embora ela exista desde o começo da civilização, a implementação das melhorias práticas atreladas a ela durante o século XXI, vem sendo considerada uma das áreas mais estimulantes e desa- fiadoras da cadeia de suprimentos. Isso mesmo! Um conceito 8FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL está dentro do outro. Para facilitar, va- mos entender mais sobre estas definições a partir da sua evolução em um contexto histórico. A origem da logística vem das or- ganizações militares e foi desenvolvida visando alocar os recursos certos no lo- cal e hora certa, com o único objetivo de vencer as batalhas. Mas em épocas ain- da mais antigas já era possível perceber a relevância da logística. As mercadorias não eram produzidas próximo aos luga- res onde seriam consumidas, e tão pouco estavam disponíveis nos períodos em que a demanda era maior, sendo essas abun- dantes e acessíveis apenas em determinadas ocasiões do ano. Devido à inexistência de sistemas de transporte e armazenamento desenvolvidos, a movimentação de mer- cadorias ficava muito limitada, fazendo com que bens perecíveis fossem estocados por um período muito curto de tempo – o que acabava conduzindo as pessoas a viverem perto das fontes de produção e, consequentemente, ao limitado consumo de uma escassa gama de mercadorias. Em economias como essas, um siste- ma logístico bem desenvolvido poderia agir como fator incentivador do intercâmbio de mercadorias com outras áreas produtoras, seja no mercado nacional ou global – o que não é tão diferente dos dias atuais. Segun- do Ballou (2006), na medida em que os sistemas logísticos fossem aperfeiçoados, o consumo e a produção experimentariam uma separação geográfica, muito dinâmi- ca, fazendo com que a produção excedente em uma determinada região pudesse ser enviada, com vantagem econômica a outras áreas consumidoras ou produtoras. O conceito propõe um modelo de gestão por funções. Quando analisamos todo este con- texto, parece ficar mais evidente que o conceito de logística esteja voltado ao pleno atendimento das necessidades dos clientes, independentemente de sua localização, através da coordenação eficiente de recur- sos, operações de produção, aquisição e distribuição. Bowersox et al. (2014) utiliza um conceito bem interessante para logísti- ca. Segundo ele, a logística envolve a gestão do processamento de pedidos (aquisição), estoques, transportes e a combinação de armazenamento, manuseio de materiais e embalagem, todos integrados por meio de uma rede de instalações, de forma a criar sistemas que levem ao alcance do menor custo total. Nesse sentido, o Council of Supply Chain Management Professionals (CSCMP) – Conselho de Profissionais de Gestão da Cadeia de Suprimentos, em tradução livre – nos permite ter uma visão mais ampla sobre o assunto ao estabelecer a logística como um componente da cadeia de suprimentos que planeja, implementa e controla, de forma eficiente e eficaz, os f luxos (adiante e reverso) e a estocagem de bens, serviços e informações desde o ponto de origem ao ponto de consumo, a fim de atender às necessidades dos clientes. 9FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL A primeira é chamada de suprimento (inbound logistic). Conhecida em muitas bibliografias como gestão dos materiais, esta grande etapa é onde estão concentra- dos todos os esforços para aquisição, previsão, recebimento e armazenamento das matérias-primas. Além disso, o suprimento também é responsável pelas negociações estratégicas e estabelecimentos de contratos com as empresas fornecedoras, bem como pela seleção e avaliação dessas companhias. É importante reforçar que todos os setores relacionados à etapa de suprimentos precisam estar muito alinhados com o regimento de conduta ética da organização, pois a “porta de entrada” na relação com empresas fornecedoras é justamente nesse ponto da cadeia. A segunda é chamada de produção ou manufatura. Este é o ponto da cadeia onde são realizadas todas as atividades de apoio às operações produtivas. Entre elas estão: o planejamento e programação da produção, a administração dos f luxos de materiais produtivos e o estabelecimento dos métodos de produção. Também fala- remos sobre as filosofias produtivas que regem a gestão dos estoques mais à frente. No entanto, aqui é recomendado, para maior aprofundamento sobre o tema, que seja feita uma revisão na disciplina: Modelos de Gestão, no que tange o Fordismo (SFP) e o Toyotismo (STP). São conceitos bastante técnicos, não é mesmo? Mas para facilitar o entendi- mento dessa base teórica, a primeira coisa a observar é que mesmo tendo conceitos diferentes, tanto a logística quanto a cadeia de suprimentos possuem o atendimento às necessidades dos clientes como um fun- damento comum. Agora, se a logística está dentro da cadeia de suprimentos – e não o contrário, como muitas correntes acadêmicas acreditam – como funciona o seu modelo de gerenciamento? Este é um questionamento importante, pois é a partir daqui que começamos a entender melhor as diferenças conceituais. A aplicação prática da logística den- tro das organizações pode ser percebida já na Administração Científica, onde pre- valece um modelo de gestão por funções. Nesse caso, o foco está na busca da efici- ência e eficácia organizacional, isso através do gerenciamento individual de cada uma das três grandes etapas do processo logís- tico. E já que falamos nelas, então vamos compreendê-las, fazendo uma abordagem generalista. Nos capítulos adiante, explo- raremos melhor cada uma delas. A logística compreende três funções: o suprimento (inbound logistic), a produção/manufatura e a distribuição física (oubound logistic). 10FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL Por fim, a terceira grande etapa da logística, a distribuição física (oubound lo- gistic), corresponde ao conjunto de operações relativas ao f luxo dos bens produzidos, desde a sua disponibilidade de pós-produção até o destino final. O recebimento do produto acabado, embalagem, roteirização e a seleção do melhor modal de transporte são apenas algumas das atividades que se destacam nessa etapa. No entanto, o sim- ples cumprimento da entrega física dos produtos é insuficiente para que se obtenha sucesso nessa função. É preciso que haja a garantia de que os bens chegarão em perfeitas condições comerciais e, principalmente, a preços competitivos. Para isso, a movimentação da carga, na origem, e sua adequada unitização requerem cuidados específicos para assegurar a integridade do que será transportado. Um outro enfoque dessa função está no controle e disponibilidade sobre as informações dos produtos a serem distribuídos. Com os aparatos tecnológicos que temos a disposição, já é possível identificar as cargas de forma a proporcionar aos clientes a autonomia para acompanhar seus próprios pedidos (follow-up). Da mesma forma, o rastreamento das encomendas (tracking) pode ser um diferencial competitivo, relevante para que asempresas possam incrementar seu nível de serviço. A logística integrada e seus fluxos de materiais e informações. Adaptado de: Bowersox et al., 2014. Entendendo todos estes elemen- tos que compõem a logística, consegui- mos entender como empresas de varejo, por exemplo, estão obtendo sucesso no compartilhamento de informações com fornecedores, ao mesmo tempo em que trabalham internamente no gerenciamen- to dos próprios estoques, para que sem- pre haja produtos nas prateleiras onde e quando os clientes estiverem dispostos a adquirir. E se você percebeu que o conceito evoluiu, ao comparar a gestão da logística por funções com as práticas atuais, então você está certo. Após os anos de 1970, o mundo ex- perimentou uma verdadeira revolução nos conceitos gerenciais, especialmente no que toca a função de operações. O movimento da qualidade total e o da produção enxuta (lean manufactoring) trouxeram consigo um conjunto de técnicas e procedimentos amplamente adotados em quase todos os países industrializados. A forte competição e o crescimento em nível global levaram as empresas a desenvolverem métodos e processos que resultassem em otimização da capacidade produtiva e no aproveita- 11FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL mento máximo dos recursos disponíveis. E foi esse novo ambiente que obrigou as empresas a modificar sua visão. Eis que surge o conceito de logística integrada, em contraponto a um modelo logístico funcional. Despontando no início dos anos 1980, a logística integrada baseou-se em um modelo de gestão por processos, exigindo ações coordenadas das suas principais fun- ções para realização dos objetivos organizacionais. Esta visão sistêmica ocupa-se da integração das etapas da logística, estabelecendo-se como nova estratégia competitiva, capaz de criar uma sincronia entre as funções logísticas de uma organização. Um conceito acadêmico que cabe bem aqui é o dado por Gomes e Ribas (2004). Segundo eles, a logística integrada é entendida como o relacionamento entre as funções de suprimento, manufatura e distribuição, havendo um f luxo adiante de bens e serviços para atender o cliente com menor custo e maior qualidade, e um retorno qualificado de informações. Bowersox et al. (2014) reforçam que as informações recebidas dos clientes são processadas e f luem na for- ma de atividades de vendas, previsões e pedidos, e são filtradas para tornarem-se planos específicos de compras e produção. O emprego da logística integrada evoluiu rapidamente, desde o início dos anos 1980 até os 15 anos que seguiram, devido a um impulso da revolução tecnoló- gica e pela exigência crescente em serviços de distribuição, uma das principais con- sequências dos movimentos da produção enxuta. O fluxo de informações possibilita identificar locais específicos dentro de um sistema logístico. Além de integrar as três etapas que realizam o trabalho logístico efetivo. Além disso, a informação facilita a coordenação do planejamento e do controle das operações cotidianas. Para Bowersox et al. (2014), “sem informações acuradas, o esforço envolvido no sistema logístico pode ser mal direcionado”. Lembra que lá atrás falamos sobre a relação da logística com o marketing? Pois bem. Nós já sabemos que a função do marketing é planejar as campanhas de lançamento ou promoção dos produtos. No 12FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL entanto, é a logística que precisa, de forma integrada, realizar suas atividades para que os planos mercadológicos sejam bem-su- cedidos dentro dos parâmetros pré-esta- belecidos (preço, tempo, local, qualidade, quantidade, disponibilidade, etc.). Assim, fica bem claro, que a logística integrada passa a ser uma ferramenta gerencial do marketing, capaz de agregar valor através da excelência no nível de serviço ao cliente. E foi nessa expectativa de ampliar a capa- cidade de resposta que nasceu o conceito de logística empresarial. Operando com um modelo de ges- tão, conhecido como supply chain manage- ment (SCM) – ou conforme tradução livre, gerenciamento da cadeia de suprimentos – a logística empresarial é um campo rela- tivamente novo. Devido a sua amplitude, ela propõe captar e ultrapassar a essência da logística integrada ao estender a coor- denação dos f luxos de materiais e de in- formações aos fornecedores e aos clientes, dos mais diferentes níveis, proporcionando uma série de alternativas para aumento da produtividade, redução de custos e identi- ficação de formas alternativas de agregar valor aos produtos. Para o CSCMP, a gestão da cadeia de suprimento abrange o planejamento e a gestão de todas as atividades envolvidas na seleção de fontes de fornecimento, na aquisição, na transformação e em todas as atividades de gestão logística. Inclui, também, a coordenação e a colaboração com parceiros que podem ser fornecedores, intermediários, prestadores de serviços (terceiros) e clientes. Em síntese, a logística Escopo da cadeia de suprimentos moderna. Adaptado de: Ballou, 2006. 13FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL empresarial integra o suprimento e gestão da demanda, de forma linear e cruzada com outras empresas. Logicamente, que o composto de atividades a serem gerenciadas varia de acordo com a empresa e sua estrutura or- ganizacional. Mas o fato é que a logísti- ca empresarial engloba todos os estágios envolvidos direta ou indiretamente no atendimento de um pedido de cliente, envolvendo fornecedores, transportado- ras, depósitos, varejistas e, também, os clientes finais. Devido ao seu dinamismo em movimentar um grande f luxo de in- formações, produtos e dinheiro (fundos), cada estágio executa diferentes processos e interage com os demais. Em termos práticos, a globalização trouxe consigo desafios que se acentuaram em meados dos anos 1990, mas que perdu- ram até os dias de hoje. Com a possiblidade de expandirem seu mercado consumidor e fornecedor, e com o surgimento de produ- tos cada vez mais parecidos, uma estratégia logística baseada na gestão de toda uma cadeia de suprimentos mostrava-se perti- nente para que as empresas mantivessem sua busca pela eficiência e diferenciação de seus concorrentes. Empresas que tra- vavam uma verdadeira batalha comercial pela preferência dos consumidores ainda precisavam lidar com uma mudança no perfil do cliente e mais o favorecimento pelo avanço tecnológico – o que não apenas facilitou o acesso do cliente à informação, mas também contribuiu para torná-lo mais seletivo. O preço deixava de ser o único critério de diferenciação, acirrando ainda mais a concorrência. Note que isso, impreterivelmente, vem nos conduzindo a enxergar a organi- zação, muito além de seus limites, obrigan- do os gestores de todas as áreas a entender que fazem parte de um imenso sistema complexo, onde produzir mais barato dei- xou de ser o único pilar da competitividade empresarial. As companhias passaram a entender que depender unicamente do desempenho individual de cada atividade ou do grau de integração entre elas seria insuficiente para estabelecer vantagens competitivas frente aos seus concorrentes. E por isso, Michael Porter, ao desenvolver sua teoria sobre a cadeia de valor, pro- põe que as empresas reconfigurem suas atividades estratégicas, para que possam gerar valor aos clientes através da execução das mesmas de forma mais barata e mais eficiente que seus competidores, respei- tando, é claro, o posicionamento dentro do sistema de valor. De todas as atividades evidencia- das por Porter como meios de diferen- ciação entre as empresas, observe que em logística aparecem quatro posições – três entre as atividades primárias e uma entre as atividades de apoio –, explicitando a integração do gerenciamento da cadeia de suprimentos à estratégia empresarial. Isso denota que a logística empresa- rial tem ref lexos em todos os “membros” da cadeia de valor, criando, assim, uma interdependência entre o desenvolvimento de fornecedores, as estratégiasde aquisi- ção, o gerenciamento do ciclo produtivo, o controle efetivo dos estoques e as opera- ções coordenadas, que fazem com que os produtos cheguem até os clientes – expli- cando facilmente o motivo de a logística 14FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL de distribuição ainda ter um vínculo muito tênue com o marketing das empresas. Os pressupostos sobre como uma organização aloca seus recursos para o de- senvolvimento da cadeia de valor podem proporcionar claras diretrizes competitivas. Se uma companhia, por exemplo, alocar maior parte de seus recursos em tecnologias e máquinas para a manufatura, o preço final dos produtos pode ter pouco a ver com os insumos. No entanto, focar unicamente nas atividades primárias como fonte de valor agregado, pode abrir oportunidade para os concorrentes que possuem uma visão holística sobre como ampliar o valor percebido pelos clientes, através da combinação entre produção enxuta, gestão da qualidade, alto nível de serviço e o marketing. A cadeia de valor e os custeios diretos do produto. Adaptado de: Hooley, Saunders e Piercy, 2005. Agora, vamos a algumas questões para exercitar nosso estudo! 1. Por que a logística é relevante desde épocas mais antigas? 2. Qual o conceito de logística? E a que ele está voltado? 3. Cite as três funções da logística e ex- plique brevemente as atividades que as compõem. 4. O que compreende o inbound logistics e o outbound logistics? 5. Qual a importância do alinhamento das áreas que compõe o suprimento com o regimento ético das organizações? 6. Por qual motivo o cumprimento da en- trega física dos produtos é insuficiente para o sucesso de uma estratégia de distribuição? 7. O que é logística integrada? Explique seu modelo de gestão. 8. O que fez a logística integrada evoluir tão rápido a partir dos anos 1980? 9. Conceitue a logística empresarial. Diferencie-a da gestão da cadeia de suprimentos. 10. Qual o fundamento comum existente entre a logística e a cadeia de suprimentos? 11. Quais os estágios que são envolvidos na logística empresarial? 12. Que tipo de desafios se acentuaram após o advento da globalização? 13. Explique a relação entre a logística e o marketing. 14. Quais são os elementos da cadeia de valor que estão diretamente ligados à logística? 16FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL SUPRIMENTO Da visão burocrática para a estratégica, em menos de 20 anos! A gestão de uma empresa requer um ótimo sistema de planejamento. Quando olhamos para as fontes de receita de uma companhia, é comum realizarmos múltiplos planeja- mentos de como vamos suprir nossos clientes e intermedi- ários quando tivermos lançamentos de produtos ou quando tivermos altas de demanda em datas comemorativas – como o que ocorre durante as festas do final de ano, por exemplo. Mas quando olhamos para a logística empresarial, onde ocorre o planejamento do que (e quanto) será adquirido, contratado ou produzido? Nesse cenário, a etapa de suprimento ocupa uma po- sição de destaque na maioria das organizações. No passado, o termo suprimento (ou sourcing) era empregado unicamente para definir o setor de compras. Mas em face do volume de recursos financeiros, materiais e patrimoniais envolvidos no gerenciamento da cadeia de suprimentos, essa etapa passou a ter um papel verdadeiramente estratégico. 17FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL Embora seja difícil desassociar o subsistema de suprimentos da manufatura, vamos tentar fazer esse exercício, aqui, de forma didática, para facilitar o entendi- mento sobre o tema. Porém, é relevante salientar que a logística empresarial não propõe a desassociação de qualquer um dos seus subsistemas e, por isso, mais adiante, essa ligação direta entre as duas funções será resgatada. De forma lógica, que as atividades de suprimento variam conforme o tama- nho e estrutura da empresa, e também podem mudar seu padrão, de acordo com o item que é adquirido. Mas o certo é que o suprimento passou a ter uma conotação em nível estratégico, principalmente nos últimos 20 anos, deixando para trás a visão de que tal etapa da logística empresarial era uma mera burocracia organizacional. A reestruturação responsável pela mudança nas empresas ajudou na evolução do conceito. Além da revolução tecnológica ter permitindo o alcance da informação e comunicação, de forma mais ágil e mais barata, também viabilizou às organizações Matriz de projeto/suprimento/aquisição. Adaptado de: Jacobs e Chase, 2012, p. 354. uma condição global de atuação. Estratégias de suprimento local (local sourcing) para produtos e serviços um dia monopolizados, os quais deram lugar a uma nova forma de competir. A possibilidade de redução de custos em escala, a partir de alianças estratégicas com fornecedores ao redor do mundo empolgou muitos empresários visionários, os quais perceberam a estratégia de suprimento global (global sourcing) como um caminho sem volta para “oxigenar” as próprias companhias. Contudo, isso tudo não é por acaso. A contratação de serviços e a aquisição de partes e peças representam, em geral, de 40% a 60% do valor final das vendas de qualquer produto, deixando claro que, mesmo com reduções de custos, relativa- mente baixas, conquistadas no processo de aquisição, por exemplo, podem ter um 18FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL impacto bem maior sobre os lucros do que aperfeiçoamentos semelhantes em outras áreas. Esse também foi o “gatilho” para o estabelecimento de um novo grau de rela- cionamento com os fornecedores em nível global para adquirir itens a serem trans- formados no processo de manufatura, que venham atender às necessidades imediatas dos clientes em termos de disponibilidade, preço e qualidade. Falando especificamente da função de aquisição, quando precisamos atender a uma compra pontual de itens comumente disponíveis é possível realizá-la através de um processo simples. Também, itens baratos e de baixo volume podem ser ad- quiridos durante a rotina normal de tra- balho através do comparativo de cotações advindas de concorrências de preço ou de consultas a catálogos eletrônicos. Porém, o mesmo não pode ser dito quando o com- ponente a ser comprado ou o serviço a ser contratado é de alta relevância estratégica. Nesse caso, o gerenciamento de contratos ou o estabelecimento de alianças estraté- gicas de longo prazo são recomendados para assegurar o nível de serviço em toda a cadeia de suprimentos. A matriz apre- sentada por Jacobs e Chase (2012) ilustra bem isso. Na medida em que os custos de transação comercial são maiores, exige-se um tratamento específico quanto ao mode- lo de negociação e gestão de fornecedores no curto e no longo prazo. Em aquisições para ressuprimento com baixos custos de transação, planos operacionais menos com- plexos podem ser definidos. Em casos assim, algumas companhias desenvolvem dispositivos (regramentos) administrativos para suprir identificações especiais de al- guns departamentos, podendo, inclusive, autorizar um funcionário a adquirir de- terminados grupos de materiais dentro de um orçamento pré-estabelecido. Planejamento dos estoques Além da aquisição/contratação, outra importante atividade da etapa de suprimento é o gerenciamento dos esto- ques. Seu objetivo central é equilibrar a disponibilidade dos produtos ou servi- ços, garantindo que os mesmos estejam disponíveis no tempo e nas quantidades necessárias. Assim, contribuindo para a satisfação das expectativas dos consumi- dores e o aumento no nível das vendas. Embora nosso foco esteja voltado ao atendimento dos clientes, eles não são os únicos que levam as empresas a manterem itens em estoque. Áreas, como, produ- ção, manutenção e acabamento são bons exemplos de requisitantes que possuem necessidades específicas de materiais para realizarem suas operações no dia a dia, tornando impossível às organizações tra- balharem sem estoques. Independentemente do tipo do item a ser estocado, a administraçãodestes esto- ques de materiais visa minimizar o inves- timento em acumulações desnecessárias. O custo de manutenção dos estoques pode variar entre 20% e 40% do seu valor por ano, tornando-se economicamente sensato administrá-lo cuidadosamente. Se hou- ver um mal dimensionamento do volume de materiais a ser armazenado, rupturas graves de estoque poderão ocorrer, impac- tando negativamente a linha de produção por falta de matérias-primas ou gerando 19FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL falta de produtos acabados, a fim de serem comercializados nos pontos de venda. Por outro lado, os estoques em excesso podem representar dinheiro parado para a com- panhia, já que o excedente dos materiais não é transformado em produto final e, consequentemente, não é convertido em vendas. Porém, a previsão das demandas depende de uma série de eventos macro- ambientais, os quais podem inf luenciar o mercado do ponto de vista econômico, político e social. Visualize uma situação onde sua empresa estabelece contratos de longo prazo com fornecedores estratégi- cos. Por mais que haja um acerto sobre as quantidades e as frequências de entrega ao longo de 12 meses, uma série de impre- vistos econômicos globais pode ocorrer durante o período de duração desse acordo comercial, aumentando os riscos gerados pela imprevisibilidade. Já deu para perceber que a previsão dos estoques é um trabalho que exige de- dicação. Você deve estar se perguntando sobre qual é a forma mais adequada para planejar as demandas da sua empresa. Nes- te material, ainda falaremos sobre algumas delas; ao menos as mais utilizadas. Mas antes, vamos conhecer os tipos de deman- Tipos de materiais a serem mantidos em estoque. Adaptado de: Martins e Alt, 2006. 20FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL da e as filosofias de produção que a elas estão atreladas, pois dependendo de como a empresa opera, a natureza da demanda pode ser altamente alterada. Nas organizações, é possível perce- ber, basicamente, dois tipos de demanda. Quando um determinado produto exige um número conhecido de itens para sua montagem, temos uma demanda depen- dente. Como este tipo de demanda está atrelada à produção puxada, a lista dos materiais a serem comprados e controla- dos é conhecida antecipadamente. Um exemplo disso está em algumas empresas do segmento moveleiro. Os produtos que são comercializados sob medida só têm sua produção iniciada (puxada) a partir do que, efetivamente, é vendido aos clientes. Logo, todas as atividades de aquisição dependem dos itens que precisarão real- mente ser fabricados. Dessa forma, evi- tando excedentes gerados por incertezas do mercado. E quando a demanda é gerada a par- tir de condições aleatórias? Esse é o caso de vários produtos que vemos nos super- mercados. As indústrias que mantém uma demanda independente, normalmente, empurram sua produção com base em procedimentos estatísticos que levam em consideração os históricos de vendas, a situação econômica, capacidade financeira dos consumidores, políticas tributárias, entre outros fatores. Mas aqui vai uma dica! Não tente entender esses conceitos de forma isolada. As demandas dependente e independente se cruzam eventualmente, mesmo que a produção seja empurrada. Algumas das mais conhecidas indústrias automotivas produzem seus carros empurrando uma parte da produção. Nesse caso, a deman- da dos clientes não é conhecida. Mas o estabelecimento do que será produzido é definido com base em métodos estatísticos pertinentes ao seu ramo de atuação, mu- nindo o setor de compras com informações sobre o que e quanto deve ser adquirido. Aqui, a venda de pneus para esta monta- dora depende justamente da produção dos carros que ela fará, ainda que o volume de veículos seja totalmente estimado. Mas se os conceitos de produção puxada e empurrada não ficaram muito claros, não se preocupe. Retomaremos este assunto no capítulo seguinte. Por enquanto, vale ressaltar que os modelos de demanda conhecida antecipadamente não precisam da aplicação de técnicas de previsão. O que ocorre de forma contrária com a maior parte dos modelos de deman- da independente, justamente por terem bases aleatórias. Contratos de fornecimento Há pouco falávamos sobre as ope- rações de aquisição do dia a dia, que são realizadas pelo departamento de compras para abastecimento da cadeia de suprimen- tos. Mas você sabe como essa atividade administrativa funciona? Na verdade, a rotina é muito simples. Quando o nível dos materiais atinge o nível mínimo de estoque, uma requisição de ressuprimento é enviada ao departamento de compras que, por sua vez, realiza uma concorrência onde são comparados o preço, o prazo de entrega, as condições de pagamento e 21FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL os requisitos técnicos do que está sendo adquirido. Assim, definindo o vencedor da tomada de preços, o pedido é enviado para que o estoque possa ser reabastecido. Muito simples, não é? Agora imagine essa operação sendo realizada diariamente em uma empresa com uma grande variedade de materiais requisitados. Basicamente, a operação de compras representaria um gargalo administrativo, a menos que a companhia tivesse um departamento com muitos compradores – o que tornaria o custo da área de compras muito elevado para a empresa, diga-se de passagem. Uma das muitas contribuições que a área de suprimentos proporciona à logística empresarial é a automatização dessa ope- ração, através da formalização de acordos de aquisição, por meio da celebração de contratos. Além de atribuir um caráter mais estratégico à área de compras, a ce- lebração de contratos com fornecedores- -chave, também ajuda a minimizar pos- síveis riscos comerciais e operacionais de abastecimento dos estoques, bem como a proteger os diferenciais competitivos e a identidade jurídica das companhias envolvidas na parceria. Exemplo de um fluxo rotineiro para aquisição de materiais com baixa exigência estratégica na cadeia de suprimentos. Um exemplo claro da importância de um contrato é a empresa Nike. Você sabia que essa gigante do seguimento de artigos esportivos não possui fábrica? Essa grande companhia direciona todo o seu foco em inteligência de marketing, design e inovação. Nesse caso, a escolha do parceiro industrial passa, também, pela compe- tência técnica. No entanto, um dos pontos-chave em uma parceria com a Nike está na aceitação dos termos estabelecidos para o período de vigência contratual, estando entre eles: o respeito às condições comerciais pré-determinadas, o sigilo quanto aos métodos e processos utilizados para fabricação dos produtos e a proteção da marca e propriedade intelectual. 22FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL Ainda que os compradores possuam competência para realizar o acompanha- mento da execução dos termos acordados – principalmente em relação ao venci- mento e à renovação do instrumento em questão –, muitos contratos são regulados por legislações específicas a serem obser- vadas, por isso a área de compras precisa trabalhar de forma muito integrada com o departamento jurídico. Mesmo em operações de aquisição mais simples, um pedido de compras (PC) já é considerado, juridicamente, um tipo de contrato, uma vez que ele expedita a formalização do negócio (relação dos itens, quantidades, preços, prazos de pagamento, local de entrega, termos de transporte, etc.). Contudo, outros tipos de contratos são formalizados e ajustados conforme o tipo de acordo entre empresas compradoras e seus fornecedores. Vamos conhecê-los? O contrato aberto (ou guarda-chu- va) é firmado quando as parcelas de entre- ga do produto (ou prestação do serviço) são efetuados no decorrer de um período, que geralmente é em torno de um ano. Nele são estabelecidos vários elementos como: valor unitário, frequência e quantidades estimadas de entrega. A grande vantagem desse tipo de contrato é que os materiais e suas quantidades podem ser revistos,caso as cláusulas estiverem prevendo tal situ- ação. Da mesma forma, outros materiais podem ser acrescidos em contratos adi- cionais se as empresas decidirem ampliar sua parceria comercial. O contrato por cotas de forneci- mento (ou por entregas) é justamente o oposto do contrato aberto. Nesse formato, o cliente é obrigado a adquirir e receber um lote em quantidades fixas do produto acordado e em uma determinada frequ- ência de entrega (diária, semanal, mensal, etc.). Esse tipo de acordo é bastante co- mum em situações onde há insegurança de que os fornecedores conseguirão suprir as demandas estabelecidas. Uma situação típica para empresas que efetivam compras em pequenos valo- res, poucas quantidades e alta frequência é a adoção de contratos de fornecimento em conta corrente. Para facilitar sua com- preensão sobre essa modalidade, vamos usar um exemplo prático de uma com- panhia que regularmente realiza ações voltadas à manutenção preventiva. Estes trabalhos irão requisitar que a área de com- pras seja acionada, frequentemente, para a aquisição de materiais para manutenção, reparo e operações (MRO). Aqui vai um importante detalhe: a empresa não gostaria de manter itens MRO em estoque. Nessa modalidade contratual, a empresa pode firmar um acordo de fornecimento e optar entre dois formatos bem distintos. Em um deles, a empresa cliente requisita os materiais previstos em contrato, enquanto o fornecedor emite uma única fatura para pagamento apenas no final de um período pré-determinado. Veja que este tipo de contrato é ideal para companhias que desejam otimizar seus processos em vários níveis. Comece- mos falando sobre a efetivação dos paga- mentos ao fornecedor. Sabe aquelas várias programações de pagamento que usual- mente são realizadas pelo departamento financeiro? Aqui elas são significativa- mente reduzidas, já que é possível quitar 23FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL os valores devidos em uma única vez, ao final do mês, do bimestre ou do semestre. Também é possível perceber que o próprio processo de abastecimento torna-se mais ágil. Uma vez que o contrato é firmado com um fornecedor, a área de compras se preocupará apenas com o repasse dos pedidos para reposição dos estoques, dis- pensando o comprador da realização de várias concorrências de preços para mate- riais MRO durante o período de vigência do acordo comercial. E quanto ao outro formato dessa modalidade de contrato? Bom, a confi- guração básica é exatamente a mesma. A grande diferença é que o fornecedor pode montar uma unidade de operação dentro da fábrica da empresa cliente. É exatamente como o funcionamento de uma loja dentro da companhia: sempre que um material MRO é requisitado, o comprador envia um pedido ao fornecedor que, por sua vez, faz a separação dos itens e os dei- xa à disposição da área solicitante. Este é um fluxo de suprimento que se assemelha muito às operações de bonded warehousing. Portanto, não esqueça desse concei- to, uma vez que ele será resgatado mais adiante quando falarmos de logística in- ternacional. Interessante, não é? Esta unidade, ainda que opere dentro da empresa clien- te, tem resguardada sua total autonomia – tanto é, que ela pode solicitar o abaste- cimento dos seus próprios estoques a qual- quer momento, sem precisar da autorização dos compradores (clientes) para tal. Além do mais, enquanto os materiais estiverem de posse do fornecedor, não há uma relação Fluxo de suprimento firmado através de um contrato de fornecimento em conta correte para materiais MRO e que é operacionalizado através do bonded warehousing. Adaptado de: Marins e Pasqual, 2012. 24FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL de compra e venda efetivada entre eles, inexistindo qualquer obrigatoriedade de consumo e cobrança, por qualquer uma das partes. São as compras advindas das operações de global sourcing que oferecem maiores riscos à cadeia de suprimentos. Você já deve ter notado que, agre- gado aos benefícios apontados no primei- ro formato, também obtemos vantagens logísticas muito grandes aqui. Além do tempo de entrega cair, consideravelmente, é possível reduzir os custos com fretes de maneira substancial. Em operações de local sourcing (suprimento local, em tradução livre) o impacto pode até não comprometer as operações dos clientes. Contudo, são as compras advindas de operações de global sourcing (suprimento global, em tradução livre) que oferecem maiores riscos à cadeia de suprimento. Até hoje, as políticas sobre manter ou não materiais MRO, em estoque, ge- ram muita discussão devido ao alto risco que eles proporcionam. Pode-se optar em manter o estoque e ele acabar representan- do dinheiro parado para a companhia, já que é muito difícil saber quando os com- ponentes serão necessários. Ou, pode-se optar por não manter materiais em estoque para minimizar os riscos financeiros e isso acabar representando um risco ope- racional, considerando que a empresa não terá os componentes caso haja uma quebra de máquina não prevista – ainda mais se o fornecedor estiver localizado em uma região distante que alongue, em muito, o prazo de entrega. Dependendo da localiza- ção do fornecedor no exterior, uma entrega realizada através de um frete marítimo pode levar entre 45 e 60 dias, exigindo um planejamento altamente complexo – o que faz este tipo de acordo comercial ser bastante pertinente. Falamos muito sobre reposição dos estoques. Mas o setor de compras tam- bém celebra contratos onde não há um produto tangível como objeto de nego- ciação, como é caso do contrato de pres- tação de serviços. Nessa modalidade, ao comprador caberá avaliar constantemente o desempenho e a capacidade técnica dos profissionais envolvidos na execução dos trabalhos. O monitoramento deverá ser uma das atividades-chave a serem realiza- das pelos compradores ou seus pares, para que a qualidade prometida em contrato seja cumprida. No entanto, existe um tipo de con- trato onde há um produto envolvido, mas, mesmo assim, ele é intangível. Estamos fa- lando do contrato de intensão de compras. Embora ele seja pouco usual, sua prática pode ser bem útil em negócios, onde a estimativa de preços pode ser determi- nante para o fechamento de um negócio. Então, imagine que uma empresa qualquer 25FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL esteja competindo por um grande pedido e precisa apurar custos de matérias-primas junto a seus fornecedores para formar o preço final de seu próprio produto. Assim, o fornecedor que vence a concorrência de preços recebe uma canta (ou contrato) de intensão, no qual a companhia compro- mete-se a consumir os elementos cotados, caso ela ganhe o pedido. Uma outra forma de aplicação desse tipo de contrato é através da reserva de aquisição, sem troca de valores monetá- rios. Um fabricante, que está lançando um produto inédito no mercado, pode utilizar esse tipo de contrato para garantir um lote das primeiras unidades produzidas a um cliente interessado. Contudo, o pagamento do cliente ao fornecedor só será efetivado após a entrega dos produtos. Previsão de demanda É recomendável sempre considerar dados qualitativos (opinião de especia- listas, conselhos de categoria, pesquisas de mercado) e quantitativos (crescimento populacional, evolução das vendas, va- riação dos indicadores econômicos) para que possamos atingir o principal objetivo dos métodos para previsão de demanda: a redução das incertezas. Mas, em face de tudo o que já foi exposto, estas informa- ções, por si só, são insuficientes. Na vida prática das empresas, é possível combinar- mos diversos modelos matemáticos, visto a grande quantidade de variáveis que podem inf luenciá-la. Todavia, vamos abordar os mais adotados pelos especialistas da área, na atual gestão empresarial. No modelo conhecido como Método da Média Aritmética (MMA) a previsão dos períodos que desejamos saber leva em consideração a média aritmética dosconsumos anteriores. A fórmula para sua apuração é a seguinte: Onde: • C1, C2, C3, Cn = consumo nos pe- ríodos anteriores • n = número de períodos considera- dos para a média Para entendermos melhor esse pro- cedimento, vamos propor um exemplo onde uma empresa fabricante de eletro- domésticos está preparando seu plano de vendas do mês de junho para um dos seus produtos. Ao apurar os consumos ante- riores, a companhia chegou ao seguinte histórico de cinco meses: Para chegarmos na previsão de Você conhece a Nike? Há algum tempo, a Época Negócios fez uma matéria intitulada “Por Dentro do Planeta Nike”, contando um pouco sobre sua história e sobre o seu pioneirismo nas estratégias de subcontratação da produção. Clique aqui e confira a matéria completa. Período Jan Fev Mar Abr Mai Demanda 1.100 750 1.200 1.250 1.300 http://epocanegocios.globo.com/Revista/Common/0,,ERT113186-16380,00.html 26FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL agosto usando a MMA, basta aplicar a fórmula: Bem simples, não é? Aqui, utili- zamos a média histórica dos cinco meses anteriores para descobrir o mês de junho. O mesmo método seria aplicado se quisés- semos descobrir o mês de novembro. Ou seja, somaríamos o histórico de janeiro a outubro e dividiríamos tudo por n=10. E se adotássemos o MMA para a realização de ajustamentos nas previsões? Vamos supor que estamos no início de 2016 e que esse levantamento refere-se ao histórico de janeiro a maio de 2015. Como não temos maiores informações sobre os próximos cinco meses desse ano, vamos utilizar as informações do ano ante- rior para prever as vendas. Neste exercício, iremos admitir que, devido a uma série de elementos de mercado, o mês de maio de 2016 não se confirmará igual ao de 2015. Então, aplicaremos a MMA para promover o seu ajustamento. Em maio de 2015 houve um con- sumo de 1.300 unidades e a previsão com ajustamento nos dá um mês com consumo estimado em 1.075. Se tivéssemos apenas replicado a previsão com base no histórico do ano anterior, poderíamos comprometer o gerenciamento do estoque, devido a um excesso de 225 unidades para armazenar. Entretanto, se quisermos traba- lhar as previsões de demanda com mais precisão, utilizando históricos de curto prazo, podemos utilizar o modelo conhe- cido como Média Móvel Simples (MMS). Muito similar ao MMA, porém a MMS leva em consideração a média aritmética, mas com apenas alguns dos períodos ante- riores de consumo. Ainda que tivéssemos um histórico com os últimos 10 meses de consumo, poderíamos fazer uma previsão utilizando apenas os últimos três – isso se a empresa entender que os dados seriam mais confiáveis. Vamos fazer mais um exercício prático? Utilizando o mesmo histórico dos exemplos anteriores, vamos tentar apurar a demanda do mês de junho. Desta vez, a companhia em questão considera que apenas os últimos três meses ref letem a possível realidade que teremos. Perceba que utilizamos apenas o consumo dos meses de maio, abril e mar- ço para esta apuração; logo teremos n=3. Não existe um padrão científico para de- terminação de “n” na média móvel. Isso vai depender de empresa para empresa e a sua preocupação em utilizar dados que possam melhor definir sua perspectiva de futuro. Mudanças mais recentes na economia, alterações na renda per capta, novos comportamentos que direcionam os desejos dos consumidores, entre outros, podem servir como critérios contundentes 27FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL para decidir “n”. Tanto é que a companhia poderia ter um horizonte de 12 meses no levantamento e apenas considerar os úl- timos quatro, se ela desejar, para calcular a MMS. O Método de Média Móvel pode ser utilizado também para estimar as pre- visões, continuamente. Agora que temos o mês de junho apurado, vamos calcular a previsão de julho, mantendo n=3. Isso significa que, nesse cálculo, utilizaremos a previsão de junho e os consumos de maio e abril. O modelo conhecido como Método da Média com Suavização Exponencial (MMSE) procura eliminar as variações exageradas que ocorrem em períodos ante- riores. A conceituação matemática parece um pouco mais complexa, mas na verda- de, ela requer poucos dados acumulados, permitindo constantes adaptações com os volumes de vendas. Para a aplicação de sua formulação precisamos conhecer a demanda prevista/projetada para o perí- odo anterior ao que queremos descobrir e calcular o erro (diferença) em cima da demanda real. Vamos, então, à fórmula: Onde: • Mt-1 = demanda prevista para o pe- ríodo atual • Dt = demanda real do período atual • α = ajustamento exponencial Uma característica importante que precisamos considerar ao realizar a MMSE é que este método de previsão de demanda utiliza-se de um coeficiente representado através do símbolo α (alfa), cujo objetivo é fazer um ajustamento entre a demanda prevista e a demanda realizada. Trata-se de uma tentativa de minimizar os erros de cálculo, pois, a menos que a nossa de- manda seja puxada, quase sempre teremos a necessidade de promover ajustamento nas previsões. Embora este número possa variar entre 0 e 1, muitos autores defendem que o coeficiente de ajustamento deve ficar entre 0,1 e 0,5 para que estimativa seja confiável. Mas então, o que significa se sua empresa, ao utilizar este método para previsão de demanda, definir α=0,35? Em termos práticos, isso quer dizer que há um grau de confiança de 35% de que a deman- da real repetir-se-á no período seguinte e de que há uma probabilidade de 65% de se confirmar a apuração da demanda projetada. A própria fórmula para apura- ção da MMSE deixa isso bem evidente e tenta suavizar a diferença entre as duas demandas. Veja que α é multiplicado pela demanda real, enquanto a demanda pre- vista é multiplicada por 1-α – o que no nosso exemplo fecha 0,65 ou 65%. Bom, vamos trabalhar em um exer- cício prático para facilitar a compreensão sobre a MMSE usando o enunciado dos exercícios anteriores. Olhando para o his- 28FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL tórico do mês de maio, podemos ver que a previsão de vendas (demanda projetada) foi de 1.300 equipamentos. Agora, vamos considerar a ideia de que, ao final do mês, a demanda real foi de 1.200 equipamentos vendidos, caracterizando um excesso de estoque de 100 unidades. Desse modo, nosso objetivo é minimizar este impacto negativo para o mês de junho, o que será possível, visto que temos os dois critérios básicos para apuração da previsão: a de- manda prevista de maio e a demanda real de maio. Para o nosso exemplo, adotare- mos coeficiente exponencial de 0,4. Veja como fica a resolução: Observe como o coeficiente age para ajustar a previsão de demanda. Quando definimos α=0,4, estamos tentando sua- vizar a margem de erro na previsão, esta- belecendo a soma entre os 40% dos 1.200 equipamentos vendidos e os 60% dos 1.300 previstos. Mas o que ocorre se atribuirmos uma confiança de 100% na demanda real, ao definirmos α=1? Isso mesmo: a previsão de demanda para o mês de junho seria igual a demanda real do mês de maio. Mas por que isso acontece? Existe uma relação inversamente proporcional entre α e n. Logo, quanto mais elevado for o coeficiente, maior é o nível de confiança nos cálculos de deman- da mais recentes. Sabendo disso, pode- mos definir o coeficiente de ajustamento exponencial através da seguinte equação: Imagine que sua empresa previu que em novembro 1.100 equipamentos seriam vendidos, mas a venda real foi de 980 pro- dutos. Precisamos fazer a previsão para dezembro, porém teremos que calcular o coeficiente de ajustamento. Vamos ad- mitir, nesse exemplo, que a demanda dos últimos três meses (novembro, outubro e setembro) é insuficiente para ref letir o provável cenário de dezembro. Então, teremos que considerar as demandas dos meses de junho, julho e agosto para uma apuração mais adequada. Com esse, um horizonte de seis meses (n=6), assim, já podemos calcular o coeficientede ajus- tamento. Com o coeficiente de ajustamento apurado, já podemos calcular a demanda, usando a MMSE. Veja como é importante avaliarmos os resultados sob diferentes perspectivas. Desconsiderando o último exercício, o que percebemos é que a apuração do mês de ju- nho apresentou variações quando compa- rados os três modelos básicos para previsão de demanda. Isso serve para nos mostrar 29FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL que fazer este tipo gerenciamento, com base em modelos previamente formulados, é muito difícil. Embora concentremos to- dos os esforços para evitar as incertezas, as previsões são imprecisas e, certamente, vão além dos modelos matemáticos. Uma forma que as organizações encontraram para minimizar este nível de incerteza é estreitar o espaço entre as projeções, tra- balhando com previsões quinzenais ou se- manais. Mas, mesmo assim, a diversidade crescente no número de produtos contribui para deixar mais complexa e trabalhosa a gestão dos níveis de estoque, exigindo maior cuidado no cruzamento dos dados quantitativos e qualitativos usados para a sua apuração. Classificação ABC Uma dúvida comum quando geri- mos o suprimento é saber qual tratamento logístico dar a cada fornecedor ou a cada tipo de suprimento. Algumas abordagens sobre a matriz BCG – ferramenta muito utilizada nas estratégias de marketing – já sugerem que há um tratamento logístico específico a cada fase do ciclo de vida do produto. Mas como saber, de fato, o grau de importância de cada um deles dentro da cadeia de suprimentos para, então, tomar decisões estratégicas quanto ao tratamento logístico? Dentro da área administrativa, a Classificação ABC, baseada no Princípio de Pareto, tornou-se de grande utilidade para setores que necessitam tomar decisões envolvendo altos valores ou elevada quanti- dade de dados. Sua fácil aplicação fez com que ela se tornasse uma das ferramentas mais usadas para tomada de decisão na gestão de estoques e gerenciamento estra- tégico com fornecedores na SCM. Sua sistemática é bastante simples e utiliza a regra 80-20, onde 80% dos valo- res apurados estão em, aproximadamente, 20% dos itens relacionados no estoque. Esse regramento deu origem a uma forma bastante didática para separação das classes de suprimento com base no seu valor. Fica claro que os itens de Classe A são os que possuem maior valor acumu- lado, podendo chegar muito próximo de 80% do valor de estoque. Na prática, esse volume em dinheiro corresponde a uma proporção próxima de 20% dos itens que estão armazenados. Dentro do mesmo raciocínio, devemos levar em considera- ção que os da Classe B representam uma proporção próxima a 15% e os da Clas- se C a 5%. Contudo, é muito difícil os acumulados fecharem de forma precisa. Portanto, devemos considerar os percen- tuais aproximados. Agora, para facilitar a compreensão, vamos exemplificar a apli- cação da Classificação ABC a partir dos seguintes dados anuais levantados: Classe Valor do estoque Número de itens no estoque A 80% 20% B 15% 30% C 5% 50% 30FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL Veja que nossa lista possui 13 com- ponentes que, juntos, representam R$ 401.830,00 em estoque. Para efetivar a classificação, precisamos colocá-los em ordem decrescente a partir do respectivo valor total de cada um. Depois, precisa- mos calcular o percentual de cada item em relação ao somatório total do estoque. Por último, precisamos calcular o per- centual acumulado da série, somando os percentuais individuais de cada material relacionado. Vamos ver como fica a reso- lução do exemplo: Peça Total Anual A R$ 130.000,00 B R$ 30.000,00 C R$ 14.500,00 D R$ 20.000,00 E R$ 5.000,00 F R$ 180.900,00 G R$ 320,00 H R$ 1.500,00 I R$ 250,00 J R$ 15.000,00 K R$ 360,00 L R$ 1.000,00 M R$ 3.000,00 Peça Total Anual % % ACUMULADO F 180.900,00 45,02% 45,05% A 130.000,00 32,35% 77,37% B 30.000,00 7,47% 84,84% D 20.000,00 4,98% 89,81% J 15.000,00 3,73% 93,55% C 14.500,00 3,61% 97,16% E 14.500,00 1,24% 98,40% M 5.000,00 0,75% 99,15% H 3.000,00 0,37% 99,52% L 1.500,00 0,25% 99,77% K 1.000,00 0,09% 99,86% G 360,00 0,08% 99,94 I 250,00 0,06% 100 TOTAL 401.830,00 100% 31FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL Podemos ver, que somando os percentuais individuais das peças “F” e “A”, as mesmas correspondem a 77,37% do dinheiro alocado em materiais, assim, ficando na Classe A. Na sequência, as peças “B”, “D” e “J” representam um acumulado entre 84,84% e 93,55%. Mas se somarmos seus percentuais individuais, juntas elas cor- respondem a 16,18% do valor desse estoque, ficando, então, na Classe B. As demais peças correspondem a 6,45% do dinheiro e, pela lógica, podem ser considerados como Classe C. Vale ressaltar que os itens de Classe A são aqueles que mais se aproximam dos 80% do valor estocado, assim como os de Classe B se aproximam dos 15% e os da Classe C dos 5%. Muitos relatórios disponibilizam apenas os custos unitários de cada item e as quantidades que foram adquiridas ao longo de um ano. Então, para obter- mos o valor total, basta multiplicarmos um pelo outro que chegaremos nesse número. Para finalizarmos, é preciso fazer a representação gráfica da classificação que acabamos de apurar. Muito utilizado em análise de processos, o Gráfico de Pareto é construído a partir da formação de dois eixos de informação. No eixo horizontal do gráfico pontuamos os itens do esto- que conforme ordenamos na Classifica- ção ABC. Já, o eixo vertical, utilizamos para marcar os percentuais da participação acumulada das respectivas peças. Veja que o gráfico a seguir demonstra como fica o gráfico do nosso exemplo. Mostran- do que cada peça possui uma linha que corresponde ao seu respectivo percentual acumulado. Caso a explanação tenha ficado muito sucinta, as vídeo aulas 6, 7 e 8 abordam especificamente este assunto, inclusive mostrando como aplicar a classificação ABC com o uso do Microsoft Excel 32FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL Modelo quantitativo de reposição Já vimos que toda empresa deve compreender o seu modelo de negócio para, então, definir a forma como geri-lo. Os métodos de previsão apresentados nos dão uma ideia de como poderá ser o comportamento da demanda, porém eles servem como uma forma de realizar projeções para os períodos que desejamos conhecer. Fora das previsões estimadas, as empresas estabelecem regras que estruturam o que podemos chamar de modelos quantitativos de administração dos estoques para que, através deles, possamos entender quando e quanto devemos comprar. O modelo de reposição contínua é um dos mais conhecidos e utilizados por, justamente, utilizar hipóteses bastante simplificadas. Ele faz algumas relações lógicas que facilitam a forma como os es- toques são administrados no dia a dia, a começar pelo estabelecimento da quanti- dade máxima a se manter armazenado. O estoque máximo (EMÁX) é calculado a partir da soma do estoque de segurança (ES) com a quantidade de ressuprimento (QR) que enviamos aos fornecedores atra- vés dos pedidos de compras. Em modelos ainda mais regulares, o QR pode ser subs- tituído pelo lote econômico de compras, que veremos mais adiante. Outra relação colocada por este mo- delo é que a reposição dos estoques ocor- re através de um ponto de pedido (PP), determinado através de uma equação que considera o tempo de atendimento (TA) – conhecido também como lead time – como um fator diretamente ligado à demanda (D). Modelo de reposição contínua ou lote padrão. Adaptado de: Ballou, 2006; Martins e Alt, 2006. 33FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL Veja que o estoque de segurança (ES) aparece novamente. Isso ocorre, porque no modelo de reposição contínua precisamos fixar um estoque de segurança em função dos riscos de ruptura de estoque após a emissão do pedido de compras ao fornecedor. A utilização de uma demanda (D), maior que a média utilizada na de- terminação do ponto de pedido (PP), os roubos de cargae os bloqueios nas estradas que impactem no tempo de atendimento (TA), são apenas algumas das ameaças possíveis à operação da companhia que reforçam a determinação e manutenção de um estoque de segurança (ES). Vamos fazer um exercício prático para melhorar a compreensão desse modelo de reposição? Um determinado item de estoque, comprado por uma companhia tem uma demanda de 500 unidades mensais. Como o prazo para atendimento é de 5 dias úteis, a companhia definiu um estoque de segu- rança de 75 unidades visando minimizar o risco de ruptura. Aqui, a quantidade comprada é de 2.000 unidades e nosso mês útil é de 20 dias. D = 500 unidades/mês TA = 5 dias úteis ES = 75 unidades QR = 2.000 unidades Relacionados os itens do exercício, vamos calcular o estoque máximo. EMÁX= ES+QR EMÁX= 75+2.000 EMÁX= 2.075 unidades Dessa maneira, o próximo passo é saber quando realizar o pedido de com- pras para repor o estoque em tempo de não gerar falta de materiais. Porém, antes, precisamos ter a certeza de que todas as unidades temporais estão iguais. No nosso exemplo, não estão. Note que a demanda é mensal e o tempo de atendimento é em dias – e elas precisam ter a mesma frequ- ência. Nesse caso, fica mais fácil converter a demanda. Se em 20 dias úteis consumi- mos 500 unidades, nossa nova demanda será de 25 unidades ao dia. Agora sim, já é possível calcular o ponto de pedido. Vejamos o que temos até este ponto. Sabemos que a quantidade máxima que podemos manter desse item, no estoque, é 2.075 unidades. Após o consumo, quando o nível baixar para 200 unidades, devemos enviar mais um pedido de 2.000 unidades ao fornecedor. Fácil, não é mesmo? No entanto, precisamos ir adiante. Temos que apurar mais dois dados importantes: o número de pedidos (N) a serem enviados e o tempo que representa o intervalo de envio entre um pedido e o outro (IP). As duas equações estão diretamente ligadas. No primeiro caso, precisamos relacionar a demanda e a quantidade a ser comprada para reabastecer o estoque. 34FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL É claro, que não é possível enviar uma fração de 0,25 de pedido por mês a um fornecedor. Então, pela lógica, se aplicarmos uma regra de três simples, a conclusão será de que devemos enviar um pedido a cada quatro meses. Contudo, nem sempre teremos números tão fáceis assim para calcular. Para isso, podemos usar a seguinte fórmula para obter o intervalo: Um outro importante indicador apurado pelos profissionais da logística empresarial, o qual também é utilizado pela direção das companhias para avalia- ção do capital médio, investido em mate- riais estocados, é o estoque médio (EM). Trata-se da média dos materiais que são consumidos em determinado período, podendo surgir na logística, medido em unidades e na administração financeira e orçamentária, medido em valores. Quanto menor for o estoque médio, menor será o capital investido em estoque. Esse é apenas um dos indicadores que fazem do estoque médio um índice muito relevante para to- mada de decisões em nível administrativo, já que outras estatísticas financeiras são dependentes desse dado. Voltando ao nosso exercício, iremos medir o estoque médio em unidades, uti- lizando a seguinte fórmula: E assim fica a resolução: Você deve estar lembrado de que, no início do exercício, o enunciado dizia que a empresa definiu uma quantidade como estoque de segurança para evitar rupturas. Pois bem, como ela definiu que seriam 75 unidades e não 50? Antes de responder essa pergunta, vamos atentar para uma divergência bem comum: mui- tas bibliografias confundem o conceito de estoque de segurança com o ponto de pedido, chegando, inclusive, a sugerir que a fórmula para a sua apuração é a mesma. Se olharmos para o gráfico da página an- terior, pode até fazer sentido, visto que o fornecedor já terá entregue o pedido enco- mendado quando o estoque de materiais se esgotar. Mas o que ocorre se o fornecedor, por algum contratempo, atrasar a entrega? Isso mesmo, teremos uma parada de linha produtiva. A produção de uma empresa, quando interrompida, pode gerar prejuí- zos financeiros enormes, que vão desde a mão-de-obra ociosa, até possíveis multas por atrasos – sem falar que a reputação da empresa fica em jogo, a partir da falta de compromisso com o mercado. Há muitas formas para calcular o estoque de segurança. Nesse exercício, em específico, a fórmula utilizada propõe uma solução muito simples: Observe que essa equação sugere multiplicarmos a demanda diária, con- sumida por uma margem de segurança, representada pelo tempo que o fornecedor precisaria para efetivar a entrega após o 35FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL estoque ser esgotado. A primeira informa- ção já apuramos: diariamente, consumimos 25 unidades do item em questão. Supondo que, quando há algum contratempo, o fornecedor leva, no máximo, 3 dias para realizar a entrega, assim fica a resolução do cálculo: ES=25 unidades×3 dias ES=75 unidades Embora esse método simplifica- do pareça ter uma aplicação muito fácil, ele está sujeito a erros. Uma situação de bloqueio de rodovias pode não gerar os mesmos transtornos que um roubo de car- gas, causando distorções na margem de segurança. Por isso, a definição de qual método deverá ser utilizado para estabe- lecimento do estoque de segurança requer muito cuidado e revisões constantes. Lote Econômico de Compras (LEC) O modelo de reposição contínua é também chamado de modelo do lote pa- drão, por consistir em emitir um pedido igual ao lote econômico de compras (LEC) sempre que os estoques atingirem o ponto de pedido. Uma ótima definição encon- trada nas bibliografias é de que o LEC é a quantidade de ressuprimento (QR) a ser comprada para minimizar os custos de estocagem e de aquisição. Precisamos manter itens armazena- dos em estoque para aumentar o nível de resposta às demandas da produção (ma- térias-primas) ou dos clientes (produtos prontos). Visando atingir um nível de atendimento satisfatório, as quantidades de ressuprimento (QR) podem acabar sen- do superdimensionadas. Se por um lado, isso diminui os custos de pedido (Cp), por outro lado acaba por aumentar os custos de manter os produtos armazenados em estoque (Cc). Como um dos maiores desafios para o administrador de materiais é o equilíbrio entre os custos de aquisição e armazenagem, cresce a importância de apurarmos o LEC. Podemos chegar ao lote padrão e econômico de compras através da seguinte fórmula: Onde: • D = demanda anual • Cp = custo de pedido • Ce = custo de manter no estoque Antes de partirmos para um exem- plo prático, é pertinente ratificarmos que cada item que formula a equação do LEC Neste caso, recomendo a leitura do livro “Gestão de Logística”, da editora Intersaberes, disponível na biblioteca virtual da Pearson. Nesta obra, os autores propõem um método para apuração do estoque de segurança, que utiliza dados mais aprofundados, com base probabilística, e que potencialmente ajudam a minimizar os riscos de abastecimento. 36FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL e deve ser anualizado. Na apuração dos níveis de estoque, a demanda (D) de um determinado item, normalmente, é trata- da por mês. Para o cálculo do LEC, esse número precisa ser convertido. O custo de pedido (Cp), automaticamente, já estará anualizado pela própria fórmula, pois esse corresponde à proporção entre as despesas anuais da área de compras e o número anual de pedidos emitidos por esse setor. O mesmo ocorre com o custo de manter no estoque (Ce) que corresponde a todos os valores anuais que inf luenciam o peso da armazenagem, tais como, impostos, seguros, depreciação, perdas, furtos, ma- nuseio, salários, aluguéis e outros custos fixos. É claro, que por meio de um sistema de custeio adequado, os custos de manter podem ser avaliados com boa precisão. Po- rém, é justamente nesse ponto que mora a grande dificuldade das empresas. Asáreas ligadas ao suprimento podem carecer de Custo total em função do lote econômico. Adaptado de: Martins e Alt, 2006. muitas destas informações, exigindo maior cooperação com as áreas de custos, tanto para levantar quanto para converter estes dados em informações para tomada de decisões. Para demonstrar o grau de com- plexidade, faremos um exercício prático a partir do último exemplo que utilizamos. Conforme o enunciado anterior, es- tamos comprando 500 unidades por mês de um determinado item. Anualizando este item, teremos uma demanda (D) de 6.000 peças adquiridas por ano. Precisamos agora fazer um levan- tamento de dados relativos à operação de aquisição para apurar o custo de pedido (Cp). Nesse caso, vamos supor que o depar- tamento de compras, considerando salários e encargos, represente R$ 1.000.000,00 anuais para a empresa, e no período de 12 meses, esse setor tenha emitido um total de 1.000 pedidos aos fornecedores. Através de uma fórmula simples, podemos estabelecer a proporção entre as despesas com aquisições e o número de pedidos emitidos: 37FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL Cp=R$ 1.000 Agora que o custo de pedido já está calculado, temos que apurar o custo de es- tocagem (Ce). A primeira informação que precisamos é o valor de aquisição. Segundo os compradores, o preço (P) praticado pelo item ficou em R$ 15,00 por unidade. E, para completar, o setor de custos concluiu que nossa taxa anual de estocagem (i) é de 20% (0,2 em seu formato numérico). Aqui vale um comentário: a taxa anual de estocagem – ou fator de arma- zenagem, como é tratado em outras bi- bliografias – é apurada a partir de um cálculo mais avançado, o qual sugere a soma dos percentuais de retorno de capi- tal, das taxas de armazenamento físico, do impacto do seguro, da obsolescência, do transporte, do manuseio e dos custos fixos. Infelizmente, não teremos tempo hábil para explorar mais esse conceito. No entanto, para o nosso exercício, fica claro que o detalhamento destas informações é vital para evitarmos erros na gestão dos custos logísticos. Então, vamos à solução: Ótimo! Agora que todos os dados já estão calculados, é hora de aplicarmos a fórmula e saberemos qual é o lote eco- nômico de compras ideal para o item que estamos simulando: Veja que os cálculos estão fechando. No exercício sobre modelos quantitativos, o enunciado dizia que a quantidade de ressuprimento (QR) é de 2.000 unida- des. Acabamos de constatar que o QR estabelecido é o lote econômico ideal. Por isso, muitos autores apontam que o lote econômico de compras e a quantidade de ressuprimento são iguais, estabelecendo a mesma fórmula para ambos. Será que ao calcularmos o número anual de pedidos, a partir dos números levantados para a apuração do LEC, che- garemos ao mesmo resultado? Vejamos: E novamente os números bateram. No exemplo sobre o modelo de reposição contínua, tínhamos apurado 0,25 pedidos por mês, o que, por consequência, resulta em 1 pedido a cada quatro meses, ou 3 pedidos por ano. Voltando ao LEC, já entendemos que a quantidade econômica, considerada ideal, é aquela que gera equivalência entre os custos de pedir e os de manter. Isso faz com que o custo total (CT) seja mínimo 38FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL nesse ponto. Na medida em que fugimos do lote de compras recomendado, o custo total começa a aumentar, independente das quantidades serem maiores ou menores que o LEC. A desvantagem para quan- tidades menor é que além do custo total não baixar, o risco de faltar material fica ainda mais evidente. Para finalizar nosso exercício, pre- cisamos obter o custo total e fazer uma leitura adequada do que ele representa. Esse número é obtido através dos custos anuais de pedir (CA), os custos anuais de manter no estoque (CE) e os custos anuais de aquisição (CAq), como segue: Podemos interpretar esses números da seguinte maneira: o volume ideal de peças para o lote econômico é de 2.000 por pedido, sendo suprido com 3 pedidos enviados durante o período de 12 meses, gerando um custo total de R$ 96.000,00. Embora todos estes métodos mate- máticos estejam a nossa disposição, não podemos esquecer que o LEC possui al- gumas limitações críticas. Isso porque nem sempre a demanda e os prazos de entrega (lead time) serão constantes e conhecidos, podendo variar conforme as influências do mercado que já abordamos. O tamanho dos lotes é outro ponto para atentarmos, pois o LEC não considera as restrições quanto à capacidade do meio de transporte quando apenas estabelece o volume ideal. Ainda que as diversas bibliografias divirjam sobre a melhor forma de apu- rar o LEC ou apresentem críticas a ele, é imprescindível que cada companhia co- nheça o seu lote de compras ideal. Para isso, deve-se observar cuidadosamente a realidade da empresa, o contexto onde ela está inserida e seu grau de relacionamen- to com os fornecedores. No que tange, especificamente, sobre o método de apu- ração, o formato postado neste material é o mais comum entre exercícios presentes em concursos ou em livros básicos sobre custos logísticos. Fica aqui, novamente, a recomendação para que diferentes biblio- grafias sejam pesquisadas como forma de aprofundar o assunto. O Livro “Adminis- tração de Materiais e Recursos Patrimo- niais”, referenciado no final desta apostila, é uma ótima fonte de informação, já que os autores propõem formas bastante rea- listas sobre como cada um destes custos é levantado e calculado. Efeito chicote É interessante ver como as técnicas para gestão de suprimentos possuem uma ligação interdependente entre si, não é mesmo? A definição dos lotes econômicos de compra está vinculada ao gerenciamen- to eficiente do estoque que, por sua vez, depende diretamente de como realizamos a previsão das demandas. Porém, o que torna a função de suprimentos ainda mais desafiadora é que estas técnicas podem acabar sendo insuficientes, ainda que você as domine em sua máxima plenitude, em razão das diversas variáveis do mercado, 39FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL que não podemos controlar e que impac- tam diretamente na cadeia de suprimentos. Um destes impactos é conhecido como efeito chicote (ou bullwhip effect). Este nome é atribuído ao conceito devido à amplificação das distorções que ocorrem ao longo da cadeia de suprimentos, quan- do as ordens de compra emitidas para os fornecedores apresentam uma grande amplitude gerada por erros de previsão de demanda. A grande linha de dependên- cia dos processos na logística empresarial faz com que inconsistências geradas na ponta da cadeia de suprimentos – normal- mente por quem está diretamente ligado ao cliente final – acabe produzindo um efeito sistêmico, nada benéfico ao longo de todo o canal de abastecimento, levan- do os fabricantes a lidarem com grandes f lutuações, bem maiores que a realidade. Façamos uma ref lexão sobre o conceito através de um exemplo prático. Para fa- cilitar sua visualização, vide novamente a ilustração que mostra o escopo da cadeia de suprimentos moderna, localizada na página 11. Ilustração de como ocorre a amplificação das distorções dos pedidos ao longo da cadeia de suprimentos devido ao efeito chicote. Imagine que você é o varejista e, neste momento, está trabalhando na previsão de demanda para os próximos meses, sendo que sua principal vantagem é a proximidade geográfica entre a sua empresa e todo o sistema de abastecimento. Bom, através dos seus cálculos, você apurou que serão vendidas 200 unidades mensais de um produto qualquer nos próximos cinco meses. E, para obter o máximo de aproveitamento da restante da cadeia – desde o distribuidor até o fornecedor do fabricante dos produtos que você está encomendando –, todos os dados sobre consumo, produção e necessi- dades materiais deverão ser repassadas semanalmente, de forma que toda a cadeia de suprimentos produza e entregue, rapidamente, as quantidades solicitadas. Comprevisões e pedidos repassados em curtos espaços de tempo, geralmente, poucos são os transtornos ao longo do sistema de abastecimento. Uma vez que con- 40FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL seguimos realizar ajustamentos semanais, torna-se mais fácil evitar os excessos de estoques e as potenciais rupturas. Mas o que ocorreria se as informações fossem enviadas apenas uma vez por mês? Na medida em que o intervalo entre os pedidos for maior, aumentam as chan- ces de toda a cadeia sofrer com grandes distorções. Além disso, se a tendência in- dicar que o consumo real chegará a 300 unidades, você precisará fazer o envio de vários pedidos extras, levando distribuido- res, fabricantes e fornecedores a aumentar esforços para atender às solicitações. E se, ainda, essas 300 unidades valerem ape- nas para o primeiro mês, você ficará com um potencial excessivo de estoque para os quatro meses seguintes, comprometendo os custos de estocagem. No entanto, se o consumo real for de 100 unidades, também teremos significativas distorções. Compa- rando com a previsão original, além do excesso de estoque, estaremos exigindo um esforço muito maior que o necessário do sistema de abastecimento. Como você pode ver, um sistema empurrado está sujeito a constantes mu- danças por parte dos consumidores. Se regionalmente estas pequenas f lutua- ções, ocasionadas pelos clientes, podem resultar em grandes variações nos pedi- dos colocados ao longo da cadeia, caso o fabricante estiver localizado no mercado global, essas distorções podem acabar sen- do potencializadas. Imagine que seu fornecedor está lo- calizado na Ásia e, entre a produção e o transporte, ele levará em torno de 75 dias para entregar sua encomenda. Do momen- to em que você fez o envio do pedido, até o instante em que a mercadoria estiver em trânsito, a realidade do mercado pode ter se reconfigurado, agravando ainda mais as possibilidades de ruptura ou excesso de estoque. Pequenas flutuações podem resultar em grandes variações ao longo da cadeia de suprimentos. Por mais que esta situação possa parecer muito semelhante a que ocorre no mercado doméstico, o agravante está justamente no estoque em trânsito. Uma vez, que a carga está a caminho do país de destino, você não tem como cancelar ou ajustar o pedido sem maiores penali- dades contratuais. Então, se você subes- timou a demanda, precisará contar com uma fonte de fornecimento alternativa 41FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL para minimizar efeitos negativos no nível de atendimento – embora saibamos que fornecimentos emergenciais podem com- prometer o f luxo de caixa da companhia. E se você superestimou a demanda, terá que, necessariamente, revisar as previsões dos meses seguintes para promover, aos poucos, o ajustamento do estoque. Mes- mo assim, isso não livrará sua empresa de arcar com um grande volume de materiais armazenados por um bom tempo – sem falar que se o produto em questão for um item de baixo giro de estoque, a sua com- panhia terá que sofrer com os efeitos da obsolescência. Agora que você já compreendeu o conceito, você deve estar se questionan- do sobre como diminuir estas distorções ao longo da cadeia de suprimentos. Mas antes de falarmos sobre as medidas que minimizam os impactos do efeito chico- te, é preciso que você saiba que muitos autores apresentam diferentes pontos de vista sobre as estratégias a serem imple- mentadas. Dessa forma, apresentaremos os elementos mais comuns e convergentes entre eles, deixando, aqui, uma recomen- dação para que você busque um aprofun- damento maior sobre o assunto. Lembre-se de confrontar as diferentes bibliografias para que seja possível tirar o máximo de aproveitamento delas. A primeira alternativa para mini- mizar o efeito chicote é a adoção de uma filosofia Just-in-Time (JIT) para reduzir a variabilidade. Trabalhar com sistemas puxados quase elimina a variabilidade cau- sada pelos clientes e que, justamente, é o que impacta negativamente em todos os elos da cadeia de suprimentos. Logo, se a demanda é conhecida e com mínimas possibilidades de alteração, o fabricante saberá o que comprar e o que produzir, tal como o distribuidor saberá exatamente o que entregar. Porém, como já abordamos ante- riormente, nem todos os modelos de ne- gócios possuem a possibilidade de puxar a produção, levando as empresas, a par- tir para uma alternativa bastante óbvia, à redução dos lead times. Como vimos em nosso exemplo prático, o lead time intensifica o aumento das variações atri- buídas à previsão de demanda – e quanto maior for o lead time na ponta da cadeia de suprimentos, mais graves podem ser as consequências nos demais elos do sistema de abastecimento. Aparentemente, uma forma simples para que se possa diminuir os lead times é a adoção de estratégias permanentes de suprimento local. Com os fornecedores estando mais próximos, torna-se mais fá- cil reduzir os tempos de ressuprimento, otimizar os lotes econômicos de compras e parametrizar, com eficiência, a elemen- tos fundamentais da gestão dos estoques (estoque mínimo, estoque de segurança, estoque máximo, etc.). No entanto, em uma economia global é praticamente im- possível não ter algum tipo de suprimento oriundo do comércio internacional. Então, sabendo-se que a cadeia de suprimentos sempre necessitará de “pulmões” para o ressuprimento de materiais, algumas possi- bilidades são muito pertinentes para ajudar a diminuir o tempo de atendimento dos pedidos, tais como: o uso de operadores logísticos, adoção de centros de distribui- ção e estratégias de cross docking. 42FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL A terceira alternativa é buscar a maior exatidão possível nas previsões. Como você sabe, o dimensionamento da demanda influenciará a definição dos pa- râmetros do estoque e do LEC, afetando todo o canal reverso de informação e o canal direto de abastecimento. Uma vez mantido o que está no pedido de com- pras, em princípio, as operações logísticas devem correr da melhor forma. Porém, não é pouco comum as empresas varejistas atualizarem as demandas algum tempo depois do envio dos pedidos aos fabrican- tes, gerando inevitáveis transtornos para todos os elos da cadeia. Se a previsão revisada indicar uma redução nos volumes com relação ao pre- visto, o fornecedor corre o risco de arcar com um prejuízo, caso ele já tenha pro- duzido todas as quantidades inicialmente encomendadas. A menos que exista um contrato vigente prevendo cláusulas de proteção contra situações assim. Além disso, o fornecedor não poderá entregar toda a produção que realizou, tendo que ficar com um estoque de produtos acaba- dos que não poderá faturar. O contrário também gera transtor- nos, pois se a revisão indicar que o volume será maior que o previsto, o fabricante, potencialmente, terá que consumir mais matéria-prima ou mobilizar mais mão-de- -obra, seja em quantidade ou horas-extras. E caso ele não tenha estoques suficientes de materiais para produzir a nova deman- da, será preciso que ele efetive pedidos adicionais ao seu fornecedor, aumentando substancialmente o custo de produção e entrega. Em muitas situações como essa, al- guns desses varejistas não aceitam o repas- se desses custos extraordinários no preço final dos produtos, sacrificando, assim, as Guarde bem essas informações. Voltaremos a falar em “pulmão” de estoque no capítulo sobre produção. Em relação aos operadores logísticos e centros de distribuição, teremos uma abordagem no capítulo sobre armazenagem. Por fim, resgataremos o conceito de cross docking no capítulo sobre distribuição. 43FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL margens de lucro dos fabricantes. Devido a isso, a quarta alternativa é defendida por muitos autores como uma ação que, ao invés de minimizar o efeito chicote, pode até eliminá-lo. Estamos falando sobre o estabelecimento de alianças estratégicas, alianças ao longo das diferentes camadasda cadeia de suprimentos. Firmar alianças faz com que exista um alinhamento sobre os métodos para controle dos materiais e previsão das de- mandas, levando à redução das f lutua- ções dos pedidos. E nesse sentido, uma das formas mais conhecidas de parcerias logísticas é a implementação de um esto- que gerenciado pelo fornecedor, também conhecido como vendor management in- ventory (VMI). Aqui, o fabricante admi- nistra o estoque do produto que é enviado ao varejista e, portanto, determina quanto de estoque deve ser mantido e quantos produtos devem ser despachados perio- dicamente. Uma coisa interessante sobre a im- plementação do VMI é que esta não é uma estratégia que esteja limitada pela geogra- fia. Os produtos podem ficar estocados em armazéns ou centro de distribuição (CD) administrados pelo próprio fornecedor, servindo de “pulmão” para atendimento do varejista. Porém, é preciso que estes CDs estejam regionalmente posicionados, de forma que seja favorável para toda a cadeia e, por consequência, para o atendimento do cliente final. O conceito é bem simples, não é? Todavia, implementar o VMI vai além do monitoramento do nível de inventário no recinto designado. Estamos falando de uma relação entre empresas, a qual im- plica em confidencialidade e operações cooperadas. Assim como é mandatório em alianças estratégicas, a prática do VMI exige o compartilhamento de informações em tempo real, tornando a tecnologia uma ferramenta indispensável dentro do pro- cesso logístico. O Sistema de Planejamento de Re- cursos e Materiais (conhecido também como Enterprise Resource Planning – ERP) é uma das tecnologias mais utilizadas na otimização de processos e comunicação com clientes e fornecedores. Partindo de uma base de dados central, bastante com- plexa. Este sistema permite a integração entre todos os departamentos de uma em- presa, o que torna esta tecnologia a espi- nha dorsal de muitas companhias. Visto que, seus módulos individuais sustentam as mais diversas funções do negócio, fa- cilitando o planejamento e controle das operações. Pense em uma situação onde um cliente faça um pedido para a sua empresa. Esse pedido entrará no banco de dados do ERP que, por sua vez, fará a apuração dos produtos que você tem em estoque para iniciar a produção e quais ain- da precisarão ser comprados para atender à solicitação do cliente. No momento em que você envia uma ordem de compra aos seus fornecedores, o ERP já contabiliza os estoques em trânsito e reserva os valo- res para pagamento. Após o recebimento dos materiais, o sistema já os contabiliza como volume em estoque e permite ao setor financeiro programar o pagamento das empresas parceiras. Interessante, não 44FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL é mesmo? Mas como esse sistema pode ser utilizado para minimizar o efeito chicote em estratégias de VMI? Uma das aplicações mais frequentes em estratégias de local sourcing – e em sistemas de produção enxuta, diga-se de passagem – é o ressuprimento automático dos estoques. Quando o sistema identifica que o ponto de pedido foi atingido, o próprio ERP faz o envio do pedido ao fornecedor que, na sequência, carrega, entrega e armazena os materiais na fábrica do cliente. Esta sistemática de trabalho é bem Módulos de operação e gerenciamento de recursos de um ERP. Adaptado de: Vieira, 2009, p. 110. frequente com itens de baixo valor e com alto giro de estoque – como o que ocorre com embalagens, em algumas indústrias. Porém, a maioria das companhias prefere não automatizar o ressuprimento de com- ponentes com maior relevância estratégica e criticidade, embora não exista um impe- ditivo para isso. Usar a tecnologia, nesse caso, pode representar uma larga economia na estrutura de custos, principalmente quando falamos sobre o tempo de processo e alocação de recursos humanos. Embora o ERP possua um módulo automático para gerar e enviar os pedi- dos, o f luxo de arquivos via e-mail pode colocar em risco a circulação de informa- ções comerciais sigilosas que trafegam pela rede. Porém, a falta de segurança que pode incidir na manipulação ou sequestro de documentos foi, em parte, ultrapassada com a utilização da transferência eletrônica de dados (também chamada de electronic data interchange – EDI). O EDI tornou-se uma das tecnolo- gias mais utilizadas para a transmissão de dados entre participantes de uma cadeia 45FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL cas particulares dos sistemas de origem e destino. Então, ainda que as empresas, cliente e fornecedora utilizem ERPs ou extensões de arquivos diferentes, o VAN intermediará a troca de dados de forma rápida e segura. Através das tecnologias de infor- mação e comunicação é possível enxugar atividades que antes demandavam uma repetição sucessiva de tarefas, dando maior eficiência à SCM. Com o tempo, elas ti- veram ampliada a sua aplicação, passando a contribuir, também, com todas as inicia- tivas para minimizar (ou eliminar) o efeito chicote. Tanto é que o compartilhamento de informações é uma das bases para redu- ção dos lead times e para implementação da filosofia JIT, ambos pilares fundamentais do STP. de suprimentos. Quando um pedido é emitido, o software codifica o documento, estabelecendo um padrão de linguagem para transferência. O arquivo codificado é reencaminhado através de uma rede privada de comunicação, sendo que apenas o EDI no destino poderá convertê-lo para a extensão de leitura das plataformas eletrônicas do fornecedor. É importante dizer que esta rede privada não se trata da internet comum. As Redes de Valor Agregado (Value Added Network – VAN) são disponibilizadas por provedores de serviço especializados, os quais possuem a incumbência de interme- diar a transferência dos dados de forma criptografada, respeitando as característi- Módulos de operação e gerenciamento de recursos de um ERP. Adaptado de: Vieira, 2009, p. 110. 46FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL Relacionamento com fornecedores A nova configuração do comércio global tem feito muitas empresas acorda- rem para a importância do relacionamento com seus fornecedores, como um elemento fundamental para uma permanência, fi- nanceiramente, sustentável no mercado. Estamos presenciando um momento úni- co, onde a formação de alianças estraté- gicas, sejam elas locais ou globais, tem ganhado relevância substancial. Todavia, antes de entrarmos neste assunto, faça- mos uma ref lexão quanto à relação entre o abastecimento externo de uma linha produtiva e a qualidade dos produtos por ela produzidos. Henry Ford era um empreendedor tão preocupado com a qualidade dos carros produzidos em suas fábricas que apelava pela verticalização da maior quantidade possível dos seus componentes, ou seja, a empresa produzia, internamente, tudo o que estivesse ao seu alcance. Nesse caso, era possível obter maior controle sobre os prazos, políticas de produção e padrões de qualidade. No entanto, isso pode custar muito caro, pois seria preciso um alto grau de especialização em diversas áreas que não fazem parte do negócio principal da companhia (core business), além, é claro, de uma estrutura fabril bem robusta. Um exemplo disso é a Fordlândia, uma cidade industrial, criada em 1927, pela Ford, às margens do Rio Tapajós, e que tinha como objetivo principal a extração do látex para produção de pneus. Essa era uma ação estratégica para diminuir a dependência dos fornecedores de borracha, localizados na Malásia. Mas a falta de experiência em diversas áreas relacionadas a esse tipo de extração e o falecimento de Henry Ford fizeram a montadora abandonar o projeto. E por que este exemplo é perti- nente? Porque várias companhias ainda verticalizam uma parte dos materiais que Se você gostou deste case, clique aqui e assista ao documentário “Fordlândia”, produzido em 2008 e exibido pela TV Brasil. 47FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL entrarão na linha de produção, a fim de comporo produto final. Montadoras ao redor do mundo adotam essa estratégia para componentes que incorrem em riscos de interrupção nas linhas de produção ou que são, financeiramente, mais viáveis se forem produzidos internamente. No entanto, uma verdadeira re- volução, no que tange a percepção dos consumidores sobre o valor percebido de produtos e serviços, vem ganhando força nos últimos anos. Os potenciais clientes percebem a qualidade dos produtos, mas estão cada vez mais exigentes, com rela- ção aos preços, forçando as empresas a buscar novas formas de redução de custo. Nesse sentido, a horizontalização vem surgindo como a estratégia preferida das companhias modernas, já que essa ação consiste em comprar o máximo de compo- nentes possíveis de terceiros. Ao contrário da verticalização, a horizontalização não necessita de investimentos em instalações e possibilita a f lexibilização na alteração dos volumes em função da sazonalidade. Mesmo que a empresa fique mais exposta às possibilidades de rupturas de estoque, ou que seja mais difícil para ela manter o controle tecnológico, aplicado pelos fornecedores, a horizontalização ganhou tamanha relevância para as novas orga- nizações. Outro setor é o da terceirização (outsourcing), o qual se encontra em maior expansão mercadológica. Pode-se pensar que a terceirização possui o único objetivo de minimizar impactos financeiros. Mas, na verdade, terceirizar é uma ótima estratégia quando uma organização deseja diminuir sua es- trutura de custos através da transferência da produção de um grupo, itens ou da prestação de um determinado serviço para uma empresa com mais competência para tal. É possível vermos isso com serviços que não fazem parte do core business da empresa, tais como, segurança, serviços de manutenção e conservação patrimonial. Em alguns casos, operações produtivas locais, não vinculadas à atividade-fim, também podem ser terceirizadas. O grande desafio nesse tipo de plano de ação é man- ter o comprometimento do terceirizado em relação aos controles de garantia e qualida- de – ambos elementos essenciais para que a parceria dê certo. Porém, de um modo geral, estes percalços ampliam-se muito em estratégias de offshore outsourcing. Para empresas com forte atuação no comércio internacional, a estratégia de offshore outsourcing pode ser uma alter- nativa interessante para reduzir custos de produção, mão-de-obra, encargos sociais e tributários. Embora as vantagens sejam atrativas, na prática, o abastecimento de matérias-primas advindas de empresas localizadas no exterior requer muito cui- dado. A barreira idiomática é o primeiro percalço a ser transpassado, visto que o idioma inglês, para muitos, é uma grande dificuldade. Consequentemente, a qua- lidade na comunicação com os próprios fornecedores e com as transportadoras localizadas em outros países pode ser afe- tada negativamente. Falando em transportadoras, a po- sição geográfica das empresas que nego- ciam entre si requer uma atenção especial. A contratação do transporte adequado é mandatória para que uma negociação internacional seja bem realizada em sua 48FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL totalidade. Independente da modalidade (marítima, aérea, rodoviária, etc.) acordada entre as partes integrantes do negócio, é importante que os materiais em trânsito sejam segurados, como forma de garantir que haverá ressarcimento em caso de roubo da carga ou de acidentes durante o trajeto. O “offshore outsourcing” pode ser uma alternativa para empresas com forte atuação internacional. Como é mais difícil conhecer todos os fornecedores no exterior, ainda é preciso ter garantias de que essas empresas terão capacidade para o cumprimento integral dos pedidos encomendados nos quesitos: preço, prazo, qualidade e quantidade. Em alguns casos, por iniciativa do fornecedor ou por solicitação da empresa cliente, uma produção em alta escala pode ser iniciada justamente para evitar que compromis- sos comerciais não sejam cumpridos. Em contrapartida, o risco de obsolescência destes estoques torna-se maior, visto que as variações macroeconômicas presentes no mercado global podem contribuir para um tempo de abastecimento mais longo, podendo tornar os materiais fora da vali- dade ou tecnicamente inviáveis para uso nesse meio período. Veja que as novas condições de atuação no mercado global vêm exigindo maior grau de adaptação por parte das companhias. A Nike é um ótimo exemplo nesse contexto. Por mais que a companhia mantenha uma estratégia conhecida como “fábrica sem fábrica”, ela precisa desenvol- ver atividades consideradas “chave” para o negócio nas áreas jurídica e gestão de marcas e patentes. Dificilmente veremos uma indústria moderna horizontalizando ou verticalizando 100% de suas operações. Isso, porque a decisão entre comprar ou fabricar requer um estudo que conside- ra vários aspectos ligados à estratégia de longo prazo da companhia, o que, na- turalmente, estabelece a necessidade de verticalizar alguns processos e horizonta- lizar outros através do fortalecimento das alianças estratégicas ao longo da cadeia de suprimentos. Vamos deixar claro que o conceito de alianças estratégicas vai muito além do termo “parceria”, que é popularmente uti- lizado por muitos para o estabelecimento de simples relações de compra e venda. Se observarmos a abordagem convencional, constataremos que a relação comercial entre o cliente e a empresa fornecedora é muito simples, de baixa conexão estraté- gica e sustenta-se, unicamente, no preço. Nesse tipo de visão, os clientes impõem uma série de condições rígidas para que estas empresas possam fornecer seus pro- dutos a ela; é uma linha de pensamento 49FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL onde o fornecedor é quase visto como um adversário. Mas o alto grau de competi- tividade, que tornou a concorrência mais acirrada, fez com que uma abordagem pela melhoria da qualidade reconfigu- rasse tudo que era praticado até então. Dessa forma, propondo que relacionamen- tos mais duradouros entre as empresas e seus fornecedores fossem firmados. Essa é uma visão bastante comum em modernas cadeias de suprimento: reduz-se o núme- ro de fornecedores e mantém-se apenas aqueles que ratificam o compromisso em entregar matérias-primas com maior qua- lidade, oportunizando à empresa cliente a possibilidade de superar as expectativas dos consumidores finais. O conceito de alianças estratégicas vai muito além do popular termo “parceria”. Quando falamos em desenvolvi- mento de fornecedores na SCM, estas são as duas abordagens mais percebidas nas empresas, não é mesmo? Todavia, o maior desejo dos fornecedores é o estrei- tamento nas relações comerciais com seus clientes, a ponto de atingir um nível de confiança mútua. Esse tipo de abordagem existe, porém é mais rara, em razão de que ela precisa de tempo para um adequado amadurecimento. Quando ouvimos falar que uma em- presa convidou seu fornecedor a partici- par da concepção do projeto de um novo produto (co-design) ou da melhoria de um processo produtivo, estamos falando de uma abordagem voltada à integração operacional. Ambas as empresas fazem esforços financeiros e operacionais dire- cionados à pesquisa e desenvolvimento. Não são poucos os casos nesse modelo específico, em que os clientes financiam programas de garantia e melhoria da qua- lidade dos seus fornecedores. O Progra- ma de Desenvolvimento de Fornecedores (PDF) é um projeto nacional do Sebrae, que nasceu com o apoio da Gerdau, e que visa apoiar esse tipo de iniciativa através de rodadas de negócios, capacitação e troca de conhecimento. Agora, existe um tipo de relacio- namento, que é tão estreito, que beira o alinhamento dos direcionamentos estra- tégicos os quais conduzem todas as com- panhias envolvidas. Estamos falando em um nível de gerenciamento tão sofisticado, que envolve a gestão comum dos processos, engenhariasimultânea, desdobramento da função de qualidade, qualidade assegurada e fornecimentos sincronizados. Trata-se da abordagem do tipo comakership. Aqui, sim, estamos falando do conceito de alian- ça estratégica na cadeia de suprimentos. No entanto, muita atenção: a prática do comakership não é simples, pois requer tempo para a avaliação correta dos forne- cedores que serão inclusos nessa aborda- gem. A existência de um foco na vantagem competitiva de ambas as partes é o ponto 50FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL crucial do sucesso da aliança. Uma vez que o comakership não envolve apenas as compras eventuais ou programadas, nesse nível de integração, o próprio desenvolvi- mento de produtos e o compartilhamento de informações estratégicas convidam o fornecedor a participar de todas as etapas da concepção dos produtos, até o acom- panhamento do desempenho dos mesmos no mercado. Um gerenciamento excelente da ca- deia de suprimentos requer um reconheci- mento inteligente do papel do fornecedor. O alinhamento dos objetivos em volta da eficiência da logística empresarial per- mitirá a ambos partilhar ganhos. Assim, recompensando, o que cada um contribuiu para o aumento na rentabilidade. Agora, vamos a algumas questões para exercitar nosso estudo! 1. Quanto, em média, a contratação de serviços e as aquisições de partes e peças representam no valor final dos produtos? 2. Que tipo de diferença podemos esta- belecer entre as compras que possuem baixo custo de transação e baixa espe- cificação e as que possuem custos de transação mais elevados e alto grau de especificação? 3. Qual tipo de criticidade impede uma companhia em implementar um siste- ma simples de aquisições para todos os tipos de materiais? 4. Cite e explique as cinco modalidades de contrato de fornecimento na cadeia de suprimentos. 5. Quais são as duas formas que podemos praticar um contrato de fornecimento em conta corrente? As questões 6, 7, 8 e 9 referem-se à tabela abaixo. 6. Com base no histórico anterior, calcule a previsão de demanda para julho, utilizando a MMA. 7. Supondo que estamos no início de 2017, e o histórico anterior refere-se a 2016, va- mos promover um ajustamento de previsão para minimizar possíveis divergências de mercado, admitindo que o mês de junho não se confirmará com 800 unidades. Recalcule a previsão para o referido mês, utilizando a MMA. Período jan fev mar abri mai jun Demanda 500 450 700 750 760 800 8. Utilizando a MMS com n=4, calcule a previsão de demanda para o mês de julho. 9. Ao observar o histórico, constata-se que a demanda projetada para o mês de junho é de 800 unidades. No en- tanto, ao fechar o faturamento do mês, constatou-se que a demanda real foi de 740 unidades nesse período. Calcule a previsão de demanda, utilizando o MMSE, considerando um coeficiente exponencial de 0,3. 10. Uma empresa previu que em agosto seriam vendidas 2.500 unidades do produto ABC, porém a venda real foi de 2.250 produtos. Para apurar o co- eficiente de ajustamento, deverão ser considerados os últimos sete meses. Calcule a previsão de demanda, utili- zando o MMSE. 11. A empresa Alfa Electric Ltd., buscan- do ser mais eficiente em sua gestão de materiais, realizou um levantamento dos itens demandados em sua cadeia de suprimentos ao longo de 12 meses. Produza a curva ABC correspondente, res- pondendo: a) quais itens da lista são classificados como “A”? b) qual o montante anual que eles representam financeiramente? c) qual é o percentual acumulado que eles representam? Peça Quantidade Valor unitário A 160 R$ 2.000,00 B 200 R$ 200,00 C 900 R$ 10,00 D 1.680 R$ 1.250,00 E 4.000 R$ 0,50 F 1.430 R$ 900,00 G 300 R$ 4,00 H 500 R$ 15,00 I 2.300 R$ 25,00 J 9.000 R$ 50,00 12. Um determinado item de estoque pos- sui uma demanda mensal de 2.000 uni- dades. Como o prazo de entrega do fornecedor é de 50 dias, a companhia estabeleceu uma margem de segurança de 10 dias. Considerando que a quan- tidade comprada é de 4.000 unidades e o mês útil de trabalho é de 20 dias, calcule: a) o estoque de segurança; b) o estoque máximo; c) o ponto de pedido; d) o estoque médio; e) o número de pedidos; e, f) o intervalo entre os pedidos. 13. Um fabricante de geradores eólicos compra componentes básicos para a manutenção de rotores a um preço uni- tário de R$ 5,00. Para a realização da manutenção preventiva em todos os equipamentos instalados nos parques eólicos brasileiros, a estimativa é que sejam necessárias 40.000 peças ao longo de um ano. Sabe-se que no ano anterior, o departamento de compras, que possui um custo de operação em R$ 1.000.000,00, enviou 20.000 pedidos para os fornecedores e, ainda, apurou uma taxa de estocagem de 20%. Com base nesses dados, calcule: a) o lote econômico de compras; b) o número de reposições anuais; e, c) o custo total. 14. Defina o efeito chicote e cite, ao menos, duas razões para que ele ocorra dentro da logística empresarial. 15. Quais são as alternativas mais adota- das pelas empresas para evitar o efeito chicote? Explique ao menos duas delas. 16. Explique o que é e como ocorre o VMI? 17. Qual a diferença entre ERP, EDI e VAN? 18. Estabeleça a diferença entre as estra- tégias de horizontalização e verticali- zação. 19. Aponte três riscos incidentes na imple- mentação do outsourcing. 20. Quais percalços podem impedir a boa operacionalização de estratégias de of- fshore outsourcing? 21. Descreva o conceito central das alian- ças estratégicas. 55FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL PRODUÇÃO A operação industrial é projetada em função dos desejos do cliente. Falamos exaustivamente sobre a função de suprimentos, não é verdade? Mas há um bom motivo. Isso ocorre, porque é, didaticamente, muito difícil abordar a função de suprimentos sem falar sobre seu direto apoio à operação industrial. Se al- guns conceitos forem resgatados ao longo deste capítulo, não se surpreenda. O objetivo é, justamente, evidenciarmos uma ligação relevante e interdependente entre estas duas funções da logística empresarial. Comecemos, então, com uma breve análise sobre o contexto empresarial atual. Você já percebeu que as empresas modernas não medem esforços para atender pedidos alta- mente desafiadores? Conforme vimos no capítulo anterior, os clientes, ao expandir seu grau de exigência, chegam a nortear a forma como selecionamos fornecedores ou desenvolvemos matérias-primas na cadeia de suprimentos. Nesse caso, quando o assunto é a manufatura, as coisas não são muito diferentes. É preciso ter em mente que o comportamento de compra dos clientes e a sua preocupação com relacionamentos, mais 56FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL profundos e sustentáveis, com as marcas consumidas por eles, regem a escolha dos recursos tecnológicos, apropriados e dos fundamentos competitivos que balizam o modelo de gestão da produção. Isso mes- mo, você pensou certo! Os clientes também condicionam as empresas a desenvolverem formas de produzir que estejam de acordo com a estratégia competitiva do produto e do escopo competitivo de atuação no mercado. Porém, antes de entrarmos nesse tema, vamos entender o que é a função de produção – por mais óbvio que o conceito esteja a essa altura da nossa disciplina. Os sistemas de produção A função de produção é a atividade logística que trata, sistematicamente, da transformação de matérias-primas e com- ponentes em mercadorias ou outros bens de produção. Imediatamente, nos vem à mente o filme: “Tempos Modernos”, com Charlie Chaplin, que faz uma crítica à relação entre as grandes companhias da época e seus colaboradores. No entanto, as indústrias não são as únicas empresas a Componentes presentes no conceito de sistema. ter sistemas produtivos. Outros tipos de organização, tais como, escolas, universida- des, escritórios de engenharia, hospitais, entre outros. Também possuem essa função logística, sendo que o resultado deste sistema, nestecaso, são os serviços (atividades especializadas) a serem prestados aos potenciais clientes. A função de produção é vista como um sistema, justamente, por reunir os mesmos componentes, clássicos presentes na formação desse conceito. A entrada do sistema (output) é formada pelos recursos que serão transformados na produção. Além das matérias-primas e demais componentes que compõe os estoques de materiais, aqui encontramos, também, outros recursos produtivos importantes, como, por exemplo, pessoas, tempo e dinheiro. E falando em materiais utilizados na produção, será comum encontrarmos duas denominações básicas. As quais iniciam pelos materiais diretos, que são aqueles que 57FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL fazem parte da composição do produto final – e por isso, também são conhecidos como materiais produtivos. Identificá-los rapidamente pode ser uma vantagem com- petitiva, importante na gestão de custos e formação do preço de venda. Uma vez que o enquadramento tributário do forne- cedor poderá gerar transações comerciais com o uso de crédito fiscal (ICMS, PIS, COFINS e IPI), e a área de compras pode utilizar isso como critério na seleção de fontes de abastecimento para a cadeia de suprimentos. Os materiais indiretos, ao contrário, não possuem crédito fiscal nas operações comerciais. Isso, porque eles são utilizados ativamente na produção, mas não compõe o produto final. Também conhecidos por materiais improdutivos, eles fazem parte dos estoques de produtos auxiliares. Aproveitando esta última parte, é pertinente que façamos uma referência ao que já falamos no início da disciplina sobre os estoques. A decisão sobre a filoso- fia aplicada à manufatura inf luenciará na forma como os estoques serão gerenciados, e isso se deve ao fato de que o controle dos estoques está associado a dois métodos clássicos relacionados à produção. Vamos conhecê-los? No sistema empurrado (push) as quantidades a serem produzidas baseiam- -se em planos de produção consolidados a partir de técnicas de previsão de deman- da, históricos e outras informações que possam ref letir as condições de mercado. Sim, isso mesmo! Estamos falando de um f luxo produtivo que ocorre antes mesmo de termos uma definição sobre a demanda real. E como é praticamente impossível alcançarmos 100% de certeza nas previ- sões de demanda – independente da téc- nica que utilizarmos –, muitas empresas preferem manter grandes quantidades de materiais em estoque, sendo uma forma de minimizar um potencial risco ao nível de atendimento. Esta filosofia é conhecida como Just-in-Case (JIC) e possui algumas características bastante peculiares: os lotes de produção são elevados e em larga escala para garantir que o nível de atendimen- to à demanda não seja comprometido; as quantidades armazenadas no estoque são grandes para garantir um alto nível de atendimento à manufatura; o número de fornecedores para abastecer a operação industrial é expressivo; e a produção é contínua (ou em linha). Se juntarmos todas essas caracterís- ticas, concluiremos que o JIC pode passar uma ideia de que os custos serão reduzidos, devido ao alto volume de produção. Mas a realidade sugere justamente o inverso, visto que há riscos eminentes de desperdícios de ponta a ponta da operação. Sem falar da robusta infraestrutura organizacional, necessária para o funcionamento da fá- As montadoras de automóveis ainda combinam a produção em linha e os elementos essenciais do JIC. 58FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL brica para evitar potenciais problemas de qualidade e obsolescência dos estoques. E se tudo isso está soando familiar para você, não é por acaso. Essas premissas são muito presentes no sistema de produção em massa que Henry Ford adotou em suas fábricas a partir de 1910, e que, também, você estudou com maior amplitude na disciplina de Modelos de Gestão. Agora, lembre-se de que um sistema que “empurra” a produção, com base em uma demanda estimada, pode acabar re- sultando em uma superprodução. E como a demanda real é desconhecida nesse sis- tema, não há qualquer garantia de que as mercadorias produzidas serão convertidas em vendas, conduzindo a empresa a fazer grandes esforços de comunicação e vendas para tal. Por outro lado, há um sistema que serve como contraponto ao Sistema Ford de Produção (SFP) e sua filosofia JIC. Sim, você já deve ter percebido que esta- mos falando do Sistema Toyota de Pro- dução (STP). Como você sabe, um dos pilares do STP é o sistema puxado (pull), onde a produção inicia em resposta direta ao pedido dos clientes. Como a demanda é conhecida antes da produção ser iniciada, cabe bem a aplicação da filosofia Just- -in-Time (JIT), que consiste em realizar o gerenciamento eficiente dos estoques, mantendo armazenados volumes bem re- duzidos. Ao contrário da linha de mon- tagem estática do SFP, aqui a produção é f lexível, podendo ser reconfigurada e auditada a qualquer tempo e pelos próprios colaboradores. Esse modelo participativo de gestão da produção e qualidade contri- buiu na queda de desperdícios e a liberação de produtos com defeito. Agora, falando, especificamente, sobre o gerenciamento dos materiais, as bibliografias apontam que um dos funda- mentos do JIT é o “estoque zero”. Porém, em termos práticos, as empresas prefe- rem manter um estoque mínimo como uma estratégia para atendimento do início imediato da operação fabril. Assim, as companhias que adotam essa filosofia de trabalho procuram focar, intensamente, na minimização dos custos de estoque, a partir da aquisição de lotes de materiais, conforme o que é requisitado para a re- alização dos pedidos, tendo algum tipo pedido extra, no máximo, para repor o estoque de segurança. De forma concreta, é preciso dizer que a demanda dependente – característica presente nesse sistema – proporciona uma série de possibilidades benéficas ao STP. Com lotes de fabricação mais ajustados, diminui-se o risco de obsolescência e su- cateamento dos materiais armazenados no estoque ou que estão em processo. Outro benefício está na significativa redução no número de fornecedores. Essa é uma con- dição que possibilita a realização de um controle de qualidade mais efetivo dos for- necedores, bem como o estabelecimento de processos de suprimento mais dinâmicos. Falando sobre o controle da qualidade, é fato que o uso de materiais advindos de fornecedores confiáveis é altamente po- sitivo na construção de uma imagem de credibilidade junto ao mercado. E com um número menor de fornecedores, torna-se menos complexo todo o processo de con- trole, inspeção e qualificação de fornece- dores e materiais utilizados na produção. 59FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL Agora, quando olhamos para os processos de suprimento da cadeia produtiva, no STP muitas das operações de abasteci- mento dentro do STP são realizadas pelo próprio fornecedor. Um exemplo está no uso de parcerias estratégicas, firmadas com empresas próximas que possam trabalhar na reposição imediata de determinados es- toques. Nesse caso, as companhias optam pelo kanban, um sistema visual, aplicado ao controle do f luxo de peças e que pode ser usado para repor, tanto os estoques em processo quanto os de componentes de alto giro, e que são fornecidos por empresas próximas. Note que estamos falando de um modelo regido pelo enxugamento de mui- tos elementos na cadeia de suprimentos (estoques, fornecedores, processos, etc.). Então, não estranhe se as bibliografias tratarem o Sistema Toyota de Produção com a nomenclatura de produção enxuta (lean manufactoring). Na certa, esse é um assunto com uma bibliografia tão vasta, que precisarí- amos de um material específico, apenas para falar sobre ele. Como precisamos seguir adiante, vou dar algumas dicas, caso você queira estudar o lean manufactoring com um pouco mais de profundidade. No vídeo instrucional, intitulado “O Sistema Just-in-Time e o Sistema Just-in-Case”,você poderá visualizar de forma bastante didática estas duas relevantes filosofias históricas. Também recomendo o vídeo instrucional, intitulado “Toyota – Lean Manufactoring”. Esse, por ser um material mais abrangente dentro de tudo que foi abordado sobre o STP, até aqui. Postergação Você vai lembrar que, lá atrás, foi recomendado entender os conceitos de demanda e gerenciamento de estoques de forma não isolada. Isso, porque as deman- das dependem e, independente, podem vir a se cruzar, de forma eventual, em deter- minados tipos de indústrias. E por uma questão estratégica, os sistemas produtivos também podem vir a se encontrar. Como a Dell produz e entrega produtos personalizados, tão rápido? Para melhorar sua compreensão so- bre este assunto, quero iniciar com um Se você se interessou sobre JIT e JIC, então clique aqui e assista ao vídeo. Mas se você prefere ter uma visão ainda mais ampla sobre o Sistema Toyota de Produção, então clique aqui. Ambos os vídeos estão disponíveis, gratuitamente, no Youtube, para assistir quantas vezes você quiser. https://www.youtube.com/watch?v=HLWgkPk0mMs https://www.youtube.com/watch?v=8KJaEOiHxNw 60FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL questionamento: você alguma vez já se per- guntou por qual motivo a Dell consegue produzir e entregar computadores perso- nalizados em uma velocidade tão grande? A primeira resposta que deve vir à mente é: “provavelmente porque a empresa mantém um grande volume de equipamentos em seu estoque de produtos acabados, para a realização das vendas à pronta entrega”. Muito bem! Se sua resposta foi essa, então aí vai outra indagação: mas como produ- zir um grande volume de computadores se estes são personalizados, conforme as preferências de cada cliente? Calma! Antes de você pensar que estamos falando de algo, quase impossível de se implementar, saiba que esta é uma estratégia produtiva, que exige disciplina e ações muito bem coordenadas, porém de fácil explanação. Já falamos aqui, que o sonho de muitas empresas é manter um elevado nível de atendimento aos seus clientes ao entregar produtos que atendam às prefe- rências dos mesmos, alinhando isso, ao mínimo de desperdícios possíveis e aos baixos investimentos em estoques. Parece difícil, visto que para muitas companhias, a imprevisibilidade do mercado pode ser um fator determinante nesse contexto, obrigando algumas delas a preferir um sistema de produção empurrado – ainda que percam a possibilidade da personali- zação dos produtos – ou puxado – mesmo que a entrega possa ser mais demorada. Na verdade, não é bem assim. Sistemas mistos não são pouco co- muns, e a Dell é um dos grandes nomes da indústria, quando se trata desse tipo de prática. Ainda, existe outro tipo de estra- tégia, a postergação (ou postponement), a qual é uma estratégia que consiste em adiar a execução das operações finais do processo de fabricação dos produtos, ao mesmo tempo que descentraliza os esto- ques dos mesmos em sua forma básica. Não ficou claro? Então, vamos explanar o conceito por etapas. Como não conseguimos eliminar o fator de imprevisibilidade em determina- dos ramos de negócio – e por isso há um grau de incerteza se a demanda prevista Diagrama esquematizado de um sistema de postergação. Adaptado de: Cheng et al, 2010. 61FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL irá se confirmar –, um sistema postergado sugere que as etapas iniciais da produção dos produtos seja em- purrada, abrindo caminho para a implementação da padronização (standardization, ou estandardização em tradução livre). No começo, pode parecer que esta ação, advinda da produção em massa, comprometerá os custos de estoque. No entanto, como estamos falando de um sistema misto, ao empurrar a confecção dos produtos semiacabados, a padronização permitirá o intercâmbio de partes e peças. Assim, contribuindo para a redução dos inventários de materiais diretos – o que, inclusive, ajuda a combater o risco de obsolescência desses ma- teriais, visto que as diferentes unidades de montagem podem realizar a transferência dos estoques. Empresas de tecnologia vivem em um mercado que evolui rapidamente, tornando essa uma estratégia pertinente para elas. Após empurrar a produção da estrutura básica de seus produtos, esses semiacabados podem ser descentralizados das instalações fabris, sen- do enviados, ainda que em uma versão intermediária, para outras unidades, capazes de executar a montagem, finalização, embalagem e entrega do produto final aos clientes. Aqui está um dos segredos da postergação. Em geral, as unidades de montagem estão localizadas em regiões estratégicas, permitindo que os clientes sejam Tipos de aplicação de postponement. Adaptado de: Campos, 2010 62FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL atendidos em muito menos tempo. No entanto, essa vantagem competitiva não termina aí. Visto que a maior proximi- dade dos consumidores eleva o nível de atendimento ao diminuir os prazos de en- trega, além de possibilitar que haja tempo suficiente para “puxar” os componentes do produto final, que são customizados (personalizados) pelos clientes. É preciso dizer, porém, que as chan- ces de sucesso de uma estratégia de poster- gação aumentam quando definimos, ade- quadamente, o ponto de diferenciação da produção, ou seja, até quando padronizar e a partir de quando customizar. No caso da Dell, a estrutura padrão dos computadores oferece menos riscos à gestão da cadeia de suprimentos. Com um planejamento de longo prazo, tal estrutura poderia até mesmo ser utilizada em modelos que serão lançados pela empresa no futuro. Já , os itens customizáveis (processadores, HDs, memória, entre outros) fazem parte de um grupo de materiais com alto risco de obsolescência, devido à rápida atualização proporcionada pelas fabricantes de com- ponentes tecnológicos. A Dell é um ótimo estudo de caso sobre como a estratégia de postergação é empregada em sua essência. Mas, note que empresas de tecnologia não são as únicas indústrias a adotá-la. Grandes companhias do seguimento de tintas utilizam essa sis- temática para responder às preferências do mercado. Como você deve imaginar, o fabricante empurra a produção das cores básicas para atender ao comércio varejista. Por sua vez, os varejistas, utilizando-se de equipamento adequado e instruções previamente determinadas, elaboram a mistura de cores específicas apenas para o pedido dos clientes. Teoria das Restrições Você já ouviu falar em gargalo? Se- gundo Jacobs e Chase (2012), um gargalo é uma restrição, cuja capacidade é menor que a demanda que ele precisa responder dentro de um sistema produtivo. O gargalo pode ser uma máquina, uma mão-de-o- Fluxo linear de um produto com gargalo. Adaptado de: Jacobs e Chase, 2012, p. 643. 63FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL bra escassa ou uma ferramenta específica, dentro da manufatura que limita o f luxo, tornando-o estreito. Uma ótima figura para demonstrar esse conceito é a de um funil. A maioria das indústrias possuem um ou dois equipamentos que represen- tam gargalos, justamente, por terem uma capacidade inferior de resposta em relação aos processos anteriores a ele. É importante a identificação da res- trição, para que sejam encontrados meios de contorná-lo e atender o maior núme- ro de pedidos possíveis. Olhando para a manufatura como um sistema, uma hora perdida em uma restrição equivale a uma hora perdida no sistema inteiro e que, di- ficilmente, será recuperada nos processos à frente. Em razão disso, entra em cena a Teoria das Restrições – mais conhecida como TOC, uma sigla que faz referência a sua tradução no idioma inglês (Theory of Constraints). Elaborada pelo físico Elyahu Goldratt na década de 1970, a TOC con- sidera que os ganhos são obtidos através da administração eficiente de todos os recursos e dos conjuntos de restrições que a empresa está submetida. Dessa maneira, reforçando a necessidade de conhecermosos gargalos produtivos. Eis que podemos aplicar o método Tambor-Pulmão-Corda (TPC) – ou metodologia DBR, sigla que faz referência a sua tradução em inglês Drum-Buffer-Rope. O objetivo é otimi- zar a produção por meio da identificação do gargalo, como um meio de dar ritmo adequado ao sistema de produção. Sob forma de analogia, o gargalo, chamado aqui de “tambor”, é quem dá o ritmo do sistema. Representado no nos- so f luxo pelo equipamento “D”, ele é o ponto de controle do processo. Portanto, uma parada não planejada do equipamen- to “D” pode gerar diversas perdas, o que poderia ser minimizado com um aumento da capacidade, através da modernização da máquina ou pelo acréscimo de mais máquinas, para compensar a baixa pro- dutividade. Como ação lógica para proteger o ganho da companhia, um estoque de segu- rança é mantido antes do gargalo. Dentro da mesma analogia, vamos chama-lo de “pulmão”. Aqui, cabe um esclarecimento importante. Pode parecer que esse estoque, em processo, represente um desperdício e vá contra às boas práticas da produção enxuta. Contudo, esse volume é mantido lá, estrategicamente. Vamos supor que, através dos mé- todos estatísticos adequados, esta empresa determinou que precisaria de um “pulmão”, equivalente a um dia de trabalho – guar- de bem este número. Caso as máquinas “A”, “B” ou “C” tivessem uma parada por qualquer tipo de eventualidade, o garga- lo conseguiria se manter trabalhando de forma ininterrupta por até um dia. Ao ter reestabelecida a produção, logo o “pulmão” estaria reposto, considerando que as de- mais máquinas trabalham em ritmo mais acelerado que o gargalo. No entanto, como impedir que essa disparidade de ritmos faça com que o “pul- mão” acabe tendo um volume acima do planejado? Para evitar que isso ocorra, faz-se necessária a comunicação entre o “pulmão” e o início do sistema. Isso é o 64FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL que chamamos de “corda”. Seguindo a analogia, a comunicação entre esses pon- tos da produção é nomeada dessa forma por “amarrar” os processos. Assim, se o “pulmão” estiver atingindo um nível que coloque em risco a operação fabril, o es- tabelecimento dessa comunicação faz com que o ritmo do sistema diminua, evitando estoques em processo, além do admitido. Materials Requirements Planning (MRP) Os sistemas de gestão da produção auxiliam, diretamente, os gestores na bus- ca constante pela eficiência. Nesse sentido, o MRP (Material Requirements Plan- ning ou Planejamento das Necessidades de Materiais) possui um papel bastante pertinente ao permitir que as empresas calculem os materiais que serão necessários para completar os pedidos em andamento, possibilitando que apenas os componen- tes faltantes possam ser encomendados ou comprados, gerando uma substancial redução de custos com estoques. Um sistema de MRP calcula as ne- cessidades de materiais, comparando os recursos disponíveis em estoque com os pedidos que fazem parte do plano de pro- dução. E para a realização desse processo, duas informações iniciais são necessárias: a demanda prevista e a lista de materiais. Como você já sabe, para obtenção da demanda, podemos contar com duas fontes possíveis: os pedidos dos clientes e as projeções realizadas, com base em métodos estatísticos ou históricos. Uma vez que conhecemos a demanda, podemos saber qual produto será produzido e em qual quantidade. Até aqui, nenhum tema novo, certo? Agora, o passo seguinte, exige um pouco Se você se quer saber ainda mais sobre este assunto, clique aqui e assista ao filme “A Meta”, inspirado no livro de mesmo nome que mostra o desafio de um executivo em mudar a situação de uma fábrica altamente improdutiva a partir da aplicação da Teoria das Restrições. http://www.dailymotion.com/video/xyejn9_filme-a-meta_shortfilms 65FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL mais de atenção, visto que se trata de uma tarefa bem mais trabalhosa e delicada. Estamos falando da configuração da lista de materiais (bill of material ou BOM). O que torna a atividade realmente complexa é que essa não é uma lista qualquer. A BOM é como um memorial descritivo completo do produto, onde são listadas todas as peças e componentes necessários para a sua fabricação. Um bom exemplo para ilustrar esse contexto é um fluxo de encomendas de uma confeitaria. Imagine que o cliente faz um pedido de duas tortas para uma determina- Esquema simples de funcionamento de um MRP. Adaptado de: Martins e Alt, 2006. da celebração. Tendo o dado confirmado sobre a demanda, o confeiteiro precisará conferir a lista de materiais – que no nosso exemplo pode ser bem representada pela receita. Depois disso, ele terá que verifi- car se há estoque suficiente de materiais (ingredientes) para início imediato da pro- dução. Caso os materiais estejam em um nível muito baixo, o confeiteiro irá com- prar apenas a quantidade adequada para realizar a encomenda e, ainda, manter um estoque de segurança. Perceba que, mesmo se tratando de um exemplo simples, o confeiteiro precisa ter plena certeza de que os dados cons- tantes, em sua lista de materiais foram, devidamente, levantados e estão, suficien- temente, detalhados. Caso contrário, ele terá que optar por postergar o prazo de entrega por insuficiência de estoque, ou comprometer a qualidade das tortas para manter o prazo. Se transportarmos esse exemplo para uma empresa, as consequências não serão muito diferentes. Uma vez que dados errados ou incompletos são cadastrados 66FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL em um sistema de MRP, toda a operação pode ficar comprometida, devido a ordens de compra ou de fabricação incorretas. Portanto, aqui vai uma dica: um dos segredos para trabalhar com a BOM é entender as relações de interdependência dos materiais. Voltando ao exemplo da con- feitaria, sabemos que para fazer a torta precisamos produzir a massa e a cobertura. Para produzir a massa utilizaremos ovos, farinha, fermento, leite e açúcar. E para produzir a cobertura vamos precisar de chocolate, leite condensado e chantilly. Note, que se o confeiteiro resolver tornar a receita da massa um padrão para produzir todas as tortas, a quantidade de chocolate estará relacionada somente para as que tiverem aquele tipo específico de cobertura. Logo, sabe-se que a aquisição dos componentes da lista de materiais que formam a massa estará relacionada com todos os pedidos da confeitaria. Mas, a compra do chocolate terá uma relação dependente, unicamente, com os pedidos que configurarem aquele tipo de cobertura. Para facilitar o entendimento dessas relações de demanda dependente e inde- pendente, sugere-se a montagem da estru- tura analítica, também chamada de árvore de produto. Através dela, conseguimos visualizar com clareza a inf luência direta entre os materiais e poderemos calcular as necessidades líquidas de estoque. Mesmo que a tecnologia venha via- bilizando a automatização dessa atividade, é imprescindível que os profissionais liga- dos à logística empresarial tenham pleno entendimento sobre esse assunto. Mais do que facilitar sua compreensão sobre os desafios do gerenciamento da manufatura, trata-se, também, de explicitar como é o funcionamento do planejamento e controle da produção. Vamos para um exercício prático? Um cliente solicitou a nossa empresa 600 unidades do Produto A. Uma vez que conhecemos a demanda do cliente, o próximo passo é cruzar os dados so- bre a estrutura analítica do Produto A e os recursos disponíveis para dar início à produção do pedido. 67FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL Quando o item encomendado é vis- to através da sua estrutura “explodida”, conseguimos enxergar a sua composição em diferentes camadas. Normalmente, o último nível de uma sequência na ár- vore de produto é representado por um item comprado. Essa identificação faz- -se fundamental para determinarmos as quantidades a serem adquiridas junto aos fornecedores, as quais serão montadas nanossa própria operação fabril. Sendo assim, podemos interpretar a estrutura analítica da seguinte maneira: • o Produto A é composto por com- ponentes “B”; • o componente “B” é montado inter- namente e precisa dos componentes “C”, “D” e “I”; • “C” e “D” também são montados internamente, mas para isso, pre- cisamos comprar os componentes do 4º nível; • ainda que faça parte do 3º nível, o componente “I” é comprado. Nosso próximo passo é verificar os níveis de estoques das matérias-primas e dos produtos semiacabados. Como forma de entender se temos materiais suficien- tes para o atendimento do pedido em sua totalidade, vamos utilizar uma relação equivalente a um relatório extraído de um sistema. Primeiramente, observe que não temos nenhuma quantidade do Produto A em estoque para pronta entrega. Logo, o plano de produção terá que contemplar todas as 600 unidades requisitadas. Para os demais itens, será preciso calcular a necessidade líquida, uma vez que possuí- mos quantidades em estoque de diversos componentes que formam o Produto A. Mas, antes, veja que nem todos os ma- teriais listados no relatório fazem parte do produto encomendado. Portanto, para apurar os componentes que precisaremos adquirir, junto aos fornecedores, concen- tre-se nos que estão referidos na árvore de produto. Então, como nosso primeiro exercí- cio, vamos calcular a necessidade líquida do componente “F”. Para tanto, é impor- tante que você identifique a demanda de- pendente que impacta sobre ele na árvore de produto. Nesse caso, veja que o com- ponente “F” é necessário para a produção do componente “D”. Por sua vez, este é necessário para a montagem do compo- nente “B”. Por fim, com duas unidades do componente “B” é que obteremos o Materiais Quantidades em estoque A 0 B 15 C 200 D 150 E 70 F 20 G 100 H 0 I 400 J 30 K 10 L 0 68FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL Produto A. Sendo assim, nossa linha de dependência para calcular a necessida- de líquida de “F” será: “F”, “D”, “B” e o “Produto A”. Aproveitando, que falamos sobre as quantidades do componente “B”, note que ao lado de cada componente há um número. Trata-se das quantidades que precisaremos de cada um deles, a fim de produzir uma unidade do Produto A, da mesma forma que faríamos ao determinar a proporção dos ingredientes para a con- fecção das tortas. Através desse número poderemos calcular a lista dos materiais e suas respectivas quantidades para atender o pedido em sua totalidade. A seguir, todos os dados foram dis- postos a ponto de nos permitir chegar na quantidade líquida de “F”. Em seguida, comentaremos a elaboração do cálculo. Na coluna 1 foram ordenados todos os componentes que representam uma linha de demanda, dependente em relação ao item que estamos buscando calcular. Na coluna 2 foram apontadas as respectivas 1. Item 2. Plano 3. Demanda (co- luna 2 X coluna 5, linha superior) 4. Estoque 5. Necessidade líquida (coluna 3 - coluna 4) Produto A 600 0 600 B 2 600x2=1.200 15 1.185 D 3 1.185x3=3.555 150 3.405 F 3 3.405x3=10.215 20 10.195 quantidades de cada componente, de acordo com a proporção elencada na árvore de produto. Na coluna 3 é elaborado o cálculo da demanda para cada um dos componentes. Diferente do Produto A, que tem a demanda definida pela quantidade solicitada no pedido do cliente, os demais componentes têm necessidade da quantia líquida de estoque dos itens que estão na linha de dependência direta. Assim, para calcular o componente “B”, precisamos da necessidade líquida do Produto A; para calcular a demanda de “D”, precisamos da necessidade líquida de “B”; e, para calcular a demanda de “F”, precisamos da necessidade líquida de “D”. O cálculo da demanda é bastante simples: basta multiplicarmos a quantidade apontada na árvore de produto (coluna 3) pela necessidade líquida (coluna 5), apurada para o item de direta dependência (vide a seta laranja na planilha). Na coluna 4 relacionamos as quantidades que temos em estoque. Essa informa- ção é fundamental para chegarmos na necessidade líquida de cada um dos materiais 69FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL (coluna 5). Se o propósito é comprar apenas o que precisamos para atender o pedido, para calcular a necessidade líquida, basta que você subtraia a quantidade em estoque da demanda (coluna 3 - coluna 4). Após calcularmos a necessidade líquida de “F”, conseguimos enxergar o efeito sistemático da demanda dependente, visto que não é possível calcular “F” sem calcular a necessidade líquida dos itens anteriores a ele. 1. Item 2. Plano 3. Demanda (co- luna 2 X coluna 5, linha superior) 4. Estoque 5. Necessidade líquida (coluna 3 - coluna 4) Produto A 600 0 600 B 2 600x2=1.200 15 1.185 D 3 1.185x3=3.555 150 3.405 E 2 3.405x2=6.810 70 6.740 Que tal calcular as necessidades líquidas dos itens “G”, “H” e “I”? Se você entendeu bem como operacionalizar os cálculos, monte uma planilha em Excel para que você possa utilizar, em sua empresa, ou até mesmo para tirar a prova real de seus cálculos. Mas aqui vai uma dica: se você chegou aos que estão abaixo, então está de parabéns! G = 2.855 H = 3.940 I = 3.155 70FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL Contudo, se o efeito da demanda é sistêmico, por qual motivo não calculamos as necessidades líquidas de “E”, “G” e “H”? Se analisar novamente a estrutura analítica do Produto A, você vai perceber que esses três componentes possuem uma relação independente com “F”. Se por alguma decisão estratégica decidirmos aumentar os estoques do componente “H”, por exemplo, em nada alterará a necessidade líquida de “F”. No entanto, a estrutura de cálculo que montamos, permite-nos chegar à demanda líquida de “E”. Quer ver? Como a linha de dependência entre “E” e “F” são iguais, o que muda entre eles é o saldo em estoque e a quantidade necessária para compor “D”, na estrutura do produto. Sendo assim, nesse exemplo, basta repetir a planilha, substituindo ape- nas os dados da última linha para termos a necessidade líquida de “E”. Agora, que você entendeu a dinâ- mica de trabalho do MRP, vamos replicar um exercício muito comum na vida prática das organizações: precisaremos calcular as necessidades líquidas de estoque de todos os componentes que fazem parte da es- trutura de um produto. Mas, como bus- camos simular uma realidade comum nas indústrias, esta árvore de produto possui componentes com mais de uma linha de dependência. Então, vamos supor que um deter- minado cliente fez uma encomenda de 1.500 unidades do Produto A. Analisan- do a árvore de produto, veja que os itens comprados “E”, “F” e “G” são essenciais para a construção de mais de um compo- nente montado. É muito importante você entender isso, pois será fundamental para calcularmos a demanda líquida de todos os componentes, mais adiante. Portanto, preste atenção nas linhas de dependência. Materiais Quantidades em estoque A 300 B 1200 C 0 D 800 E 6000 F 3500 G 4500 71FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL Verificando os níveis de estoque, veja que temos 300 unidades para pronta entrega do Produto A. Embora isso signi- fique que possamos melhorar muito nosso nível de atendimento, essa informação nos indica que não precisaremos produzir todo o pedido, já que temos produtos prontos. Desse modo, precisaremos colocar 1.200 unidades em produção para completar a requisição do cliente. Bom, é chegado o momento de calcularmos a lista dos materiais a serem comprados e montados. É recomendável que você siga o passo a passo, com calma, para garantir a compreensão desse exercí- cio. Para facilitar seu entendimento, vamos utilizar as cores azul, verde e vermelho para apontar a demanda dependente dos componentes “B”, “C” e “D”, respectiva- mente. Tudo bem? Para realizarmos o cálculo das ne- cessidades líquidas dos itens montados, basta seguirmos o mesmo procedimento dos exercícios anteriores. A necessidade líquida do Produto A, como já era de se esperar,serve de base para apurarmos as demandas dos itens “B”, “C” e “D”. Até aqui, nenhuma novidade, certo? No entan- 72FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL to, é a partir deste ponto que precisamos ter mais atenção, pois os itens “E”, “F” e “G” possuem mais de uma demanda dependente. Neste caso, uma soma sim- ples das quantidades do MRP (coluna 2) não resolverão. Precisamos calcular cada uma dessas dependências separadamente e, só depois disso, somamos o resultado na própria coluna 3. Vamos ver no exemplo? Observe novamente a árvore de pro- duto. No que o item “E”, por exemplo, depende de duas necessidades líquidas de estoque: a dos componentes “B” e “D”. Como cada um deles precisa, coincidente- mente, de 1 unidade do item “E” (coluna 2), precisaremos calcular separadamente a demanda dependente de ambos (coluna 3). Perceba que na relação de dependência entre “E” e “B”, a demanda é de 1.200 unidades; e, na relação de “E” e “D” a demanda é de 2.800 peças. Somando as duas demandas de “E”, constatamos, que para cumprir o restante do pedido, preci- saremos de 4.000 unidades do item “E”. Agora, se precisamos de 4.000 uni- dades de “E” para a atender a produção do Produto A, por qual motivo a necessidade líquida de estoque deste item é zero? Re- pare que temos 6.000 unidades desse com- ponente em estoque. Logo, teremos sobra desse material, não havendo necessidade de comprarmos mais peças. Lembre-se, que a necessidade líquida de estoque será resumida na lista dos materiais que preci- sarão ser comprados. Se você seguir para os itens “F” e “G”, os quais são os mesmos procedimentos adotados para o item “E”, chegaremos a uma lista de materiais com as seguintes necessidades: Com certeza, você já deve ter per- cebido que estamos diante de cálculos matemáticos que dependem de operações muito simples. Mas não se engane: a maior dificuldade está na coleta de dados confiá- veis para calcular as necessidades líquidas. Uma ótima opção para aumentar o grau de confiabilidade é o investimento em um ERP, já que muitos deles possuem um módulo de MRP. Condomínios industriais e consórcio modular O aprendizado mercadológico pos- sibilitou grandes avanços para as empresas ao redor do mundo todo. Falando espe- cificamente do Brasil, após os anos 1990 vimos muitas das ferramentas de gestão, antes apenas exploradas pelas organiza- ções consideradas referencias de mercado, possibilitando uma reconfiguração nos sistemas produtivos de muitas empresas nacionais. Movidas pela interdependência da sua produção, em relação aos seus forne- cedores, muitas dessas companhias intro- duziram novos padrões de arranjo produ- tivo ao seu negócio. O primeiro deles, o consórcio modular, é considerado como Materiais Quantidades em estoque A 1200 B 1200 C 1200 D 2800 F 1300 G 4700 73FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL uma nova forma de pensar a configuração de parques fabris. Nesse tipo de arranjo, fornecedores e prestadores de serviços tra- balham todos juntos e ao mesmo tempo, operando dentro da fábrica de um cliente em específico. Sim, estamos falando da adoção do conceito de outsourcing, visto que a empresa cliente transfere para alguns fornecedores (ou prestadores de serviços) diversas operações que deveriam ser rea- lizadas por ela. Esse arranjo é utilizado pela Volkswagen Caminhões, localizada na cidade de Resende/RJ. No início, a VW teve suas operações divididas em sete mó- dulos (ou subsistemas), cada um dirigido por uma empresa, denominada como mo- dulista (ou sistemista). O interessante é que dentro desse tipo de arranjo, o processo decisório na manufatura depende inteiramente do for- necedor no consórcio modular. A Meritor, por exemplo, possui total autonomia sobre seu próprio processo de produção, seus fornecedores, suas matérias-primas, seu modelo de gestão e sua forma de recru- tar a mão-de-obra, por mais que aquela unidade, em específico, esteja operando dentro da VW. No entanto, ela não pode fornecer módulos de suspensão para outras companhias sem a autorização da VW – e isso vale como regra para todas as empresas do consórcio, como forma de estreitar a aliança estratégica entre as empresas e os diferenciais competitivos. Não podemos esquecer de citar o segundo novo padrão de arranjo produ- tivo e que chega a se confundir com o consórcio modular: estamos falando dos condomínios industriais. Aqui, o conceito é um pouco diferente, pois os fornecedores Layout inicial do consórcio modular da VW Caminhões. Adaptado de: Rodrigues, 2006. 74FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL não estão dentro de uma planta única, como ocorre no consórcio modular. Os fornecedores escolhidos pela empresa para fazer parte do condomínio, instalam-se nas adjacências da sua fábrica, proporcionando o emprego de um sistema Just-in-Sequen- ce (JIS), uma forma mais sofisticada de aplicação do JIT. No JIS, conseguimos enxergar algu- mas vantagens similares às que vimos no JIT, tais como: reposição no tempo exato, redução dos estoques, minimização de desperdícios, entre outros. Em um com- parativo com outros conceitos que já vimos em nossa disciplina, pode ser que ele se aproxime, em alguns casos, de um VMI. Contudo, aqui as empresas precisam ser bem mais preparadas, já que os próprios fornecedores abastecem os estoques da produção do cliente, conforme a sequência pré-definida para a alinha de produto. Isso tudo torna a dinâmica de produção e reposição muito mais intensa que qual- quer tipo de abastecimento de estoques. Dessa forma, gerando a necessidade da implementação do EDI como uma ma- neira dinâmica de comunicação entre as empresas que fazem parte do condomínio industrial. A proximidade entre as companhias permite a racionalização de custos comuns, facilita o intercâmbio e a redução dos es- toques, a redução dos prazos de entrega, a minimização dos custos com transporte, entre outros grandes benefícios da produ- ção enxuta. No Brasil, temos dois grandes exemplos dessa estratégia de operações produtivas: a planta da GM em Gravataí/ RS e a da Ford em Camaçari/BA. De acordo com dados levantados no sistema, segue o relatório das peças que a empresa man- tém em estoque: Agora, vamos a algumas questões para exercitar nosso estudo! 1. Diferencie os materiais diretos dos ma- teriais indiretos. 2. Quanto as metodologias: empurrada e puxada de produção. A quais sistemas produtivos elas estão respectivamente associadas? 3. Quais são as características das deman- das dependente e independente? 4. O que é postergação? Cite e explique ao menos dois tipos. 5. Explique sobre o conceito de restrição em um sistema produtivo. 6. No que consiste o método TPC? 7. Uma empresa recebeu de um cliente um pedido de 1.800 unidades do Produto A. A seguir, segue a estrutura analítica do produto em questão: Com base nesses dados, calcule a lisa dos materiais que a empresa precisa para en- tregar o pedido completo ao cliente: 8. Quais as diferenças básicas entre o consórcio modular e o condomínio industrial? 9. Quais são os benefícios na implemen- tação de arranjos, como o consórcio modular e o condomínio industrial? 10. O que é o JIS? Materiais Quantidades em estoque A 400 B 2.000 C 1.000 D 7.000 E 11.500 F 6.000 G 500 H 13.200 I 6.300 J 2.000 K 1.500 77FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL ARMAZENAGEM Estratégia fundamental para aumentar a capacidade de resposta às demandas Ao longo da disciplina de logística empresarial vimos muitas técnicas para reduzir os inventários nas empresas. Embora possa parecer contraditório, a função de armazena- gem é fundamental para o bom desenvolvimento da cadeia de suprimentos, pois mesmo impactando em custos logísticos, estamos falando de operações essenciais que podem repre- sentar algumas vantagens competitivas para as organizações. O foco das organizações sempre foi tão intenso nas estratégicas de compra e produção que, por muitos anos, a função de armazenagemestava esquecida. Durante muito tempo, a armazenagem foi relacionada apenas com a movi- mentação interna dos materiais entre os estoques dos mesmos e a produção, ainda, posteriormente, entre a produção e a distribuição, fazendo com que muitos executivos olhassem para essa atividade como um alvo constante a fim de reduzir custos. Contudo, sempre que houver materiais estocados é preciso que eles sejam fisicamente administrados. Se por um lado, as empresas desenvolvem sistemáticas para abrigar seus estoques e viabilizar f luxos constantes para os setores de 78FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL produção e montagem, por outro elas pre- cisam operacionalizar formas de ampliar a cobertura de mercado, possibilitando a aproximação de suas fábricas com os principais pontos de consumo. Por esta abordagem inicial, você deve ter percebido que a armazenagem contempla tanto a manutenção da inte- gridade dos materiais quanto a unitização e embalagem dos mesmos antes de serem distribuídos. Apenas não podemos esque- cer sua relevante contribuição no aumento da capacidade de resposta às necessidades dos clientes. Vamos conhecer mais a res- peito? A armazenagem é o conjunto de operações responsável pelo recebimento, alocação de materiais, estocagem correta e guarda dos materiais, com vistas a facilitar a localização, garantia de integridade e a correta destinação das matérias-primas e demais itens que serão utilizados pela organização. Tais operações são realiza- das em instalações específicas, conhecidas como armazéns, depósitos, galpões ou almoxarifados. Analisando de maneira conceitual, o armazém existe para proporcionar um “estoque-pulmão” em qualquer lugar que for necessário. Você deve estar recordando sobre o que abordamos sobre JIT e outras técnicas que propõe a redução dos estoques por meio do sincronismo das operações. Mesmo que tenhamos visto, ao longo da nossa disciplina, técnicas para a minimiza- ção dos inventários, a armazenagem ainda se mostra necessária para reduzir custos de frete, otimizar custos de produção e gerar valor ao cliente, visto que estraté- gias de armazenagem podem melhorar o atendimento aos consumidores. A armazenagem, o manuseio de ma- teriais, a unitização e a embalagem são partes importantes do sistema logístico, pois servem de apoio às atividades primá- rias. Assim, sempre que houver estoque – ainda que mínimo – será necessário espaço para sua movimentação e armazenamento. Fluxo logístico com uso de um centro de distribuição. Adaptado de: Reis, 2015, p.66. 79FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL Da mesma forma como ocorre com os materiais que precisam estar à dispo- sição da manufatura no tempo adequado e para o processo de produção, é funda- mental que os produtos acabados este- jam ao alcance dos clientes para que seja mantido um adequado nível de resposta ás demandas. O grande percalço para muitas organizações é que elas estão muito dis- tantes dos pontos de consumo, fazendo com que a distribuição física represente um alto custo logístico. Para casos assim, a utilização de centros de distribuição (CD) pode ser bastante pertinente, uma vez que essas instalações possuem fortes atribui- ções ligadas à cadeia de suprimentos. Caracterizado pela ausência de es- truturas internas fixas – o que inclui co- lunas estruturais –, os CDs normalmente estão localizados em posições geográficas estratégicas de forma que uma empresa es- treite o canal de distribuição, diminuindo a distância entre ela e um grande número de clientes em potencial. Ademais, com o avanço rápido do comércio eletrônico, companhias que se utilizam desse canal de vendas passaram a aumentar o núme- ro de CDs posicionados em regiões mais próximas do público-alvo. Agora, falando especificamente do planejamento dos espaços, é preciso dizer que a preocupação com um armazém não se limita apenas à localização e à disposição de estruturas internas para hospedagem de materiais ou produtos acabados. Seja qual for o tipo de armazém, ele precisa ser projetado para maximizar seu benefício, o que nos conduz a tomar uma série de decisões sobre como dar o maior aprovei- tamento volumétrico e de movimentação do ambiente. Neste caso, devemos pensar em como bem empregar o espaço além da largura e do comprimento do galpão. Uma das preocupações que precisa- mos ter é com a definição do pé-direito (distância do chão até o teto) como uma forma de pensar a potencial utilização do espaço aéreo. Na medida em que o ambiente é mais alto, a possibilidade de otimização do aproveitamento vertical proporciona excelentes condições para a redução do custo de armazenagem por m³. Porém, é necessário que levemos em consideração a avaliação de determinadas Parte externa de um centro de distribuição (CD). Um CD não possui estruturas fixas, reservando mais espaços para porta-paletes e movimentação das cargas. 80FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL soluções para a ocupação volumétrica. Isso, porque de nada adiantará ter o galpão mais alto se os equipamentos utilizados para a movimentação dos materiais não puderem corresponder para tal objetivo. Um dos equipamentos mais popu- lares para a movimentação de materiais é a empilhadeira. Esse é um equipamento automotor que necessita de um condutor para o transporte, movimentação empilha- mento e arrumação das cargas. Os modelos mais conhecidos conseguem elevar cargas paletizadas a uma altura de até 6 metros, incorrendo no risco de um subaproveita- mento da capacidade vertical de um CD com um pé-direito muito alto. O uso de transelevadores é uma óti- ma opção para o aproveitamento das três dimensões de um galpão. Seu alto grau de automatização dá uma outra dinâmica ao processo de armazenagem, podendo, inclusive, gerar eficiência no aproveita- mento do espaço aéreo de um armazém. No entanto, esta é uma tecnologia que demanda fortes investimentos. Embora esteja claro que o maior aproveitamento do espaço reduz custos de armazenagem, é preciso que o profissional de logística avalie cuidadosamente o retorno do in- vestimento neste tipo de automatização. Um outro ponto, no qual precisamos direcionar nossa atenção é com a chegada e a saída dos materiais. Muitas empresas já estão seguindo um exemplo bastante utili- zado nos maiores centros de distribuição: a configuração das docas de recebimento e expedição na altura do compartimento de carga dos veículos que realizam o trans- porte dos produtos. Mais que uma questão estética, esta é uma estratégia operacional que traz vários benefícios para a movimen- tação das cargas que estão chegando ou sendo despachadas, entre eles: a redução no tempo, menor esforço físico, redução da exigência mecânica dos equipamentos (e por consequência, dos custos de manu- tenção dos mesmos), menor risco de danos com quedas, entre outros. Empresas como Tramontina e Natura são ótimos exemplos de como utilizar a tecnologia para otimização dos espaços verticais nos CDs. Clique aqui e assista o incrível trabalho realizado pela Bertolini para automatização do armazém da Tramontina. Ou se preferir, clique aqui para assistir o resultado de um projeto da SSI Schaeffer para automatização do depósito da Narura.realizado pela Bertolini, para automatização do armazém da Tramontina. Ou, se preferir, clique aqui para assistir o resultado de um projeto da SSI Schaeffer, para automatização do depósito da Narura. Carga paletizada sendo movimentada com o uso de uma empilhadeira. https://www.youtube.com/watch?v=qnRb90PGHY4&t=193s https://www.youtube.com/watch?v=E5bQkf9jCiQ 81FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL Vale lembrar que nem todos os espaços de armazenagem possuem este tipo de estrutura. Dessa forma, algumas companhias contam com o uso de equi- pamentos diversos para movimentação dos materiais, dentro e fora do ambiente. Este é o caso de alguns caminhões que possuem plataformas elevatórias acopla- das ao compartimento de carga, facili-tando atividades de carga e descarga em diferentes tipos de ambiente externo. As próprias empilhadeiras também podem ser utilizadas com esta finalidade devido a sua autonomia de utilização, tanto na movimentação dos materiais nas docas de recebimento e expedição quanto no ambiente externo ao galpão. Como uma estratégia para evitar altos impactos na estrutura de custos, a maioria das empresas prefere firmar um contrato de locação de empilhadeiras ao invés de comprá-las. Fora o alto valor de aquisição, os custos com manutenção e depreciação são elevados. Ainda assim, a decisão sobre comprar ou alugar precisa ser tomada com muito cuidado, porque mesmo a locação podendo ser um negó- cio melhor que a aquisição, um contrato desse tipo pode não ser condizente com as condições financeiras da empresa. Em situações como essa, a aquisição (ou lo- cação) de paleteiras pode ser uma saída plausível. Conhecida por muitos como uma empilhadeira manual, as paleteiras são versões mais simplificadas, sendo seu foco central a movimentação dos paletes. As versões mais automatizadas são guiadas em pé e conseguem uma autonomia de elevação bem parecida com a da empilha- deira. Porém, é preciso ter sempre muita cautela quanto ao tipo de carga que deverá ser movimentada, visto que o equipamento poderá apresentar restrições com relação ao peso do que se está transportando. Exemplo de um CD com docas de recebimento e expedição na altura do compartimento de carga do caminhão. Caminhão com plataforma elevatória automatizada acoplada ao compartilhamento de carga. Exemplos de paleteiras. Fonte: Fernandes, 2012, p. 81. 82FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL Terceirização de operações logísticas Como estamos falando sobre as decisões entre comprar e alugar, saiba que algumas empresas preferem utilizar espaços alugados, justamente, para evi- tar altos investimentos em edificações e a obsolescência tecnológica. Os operadores logísticos são companhias que atendem a este propósito, uma vez que elas possuem competência para prestação de diversos serviços logísticos – ou parte deles – e po- dem englobar todo o processo logístico de uma empresa cliente. De forma sofisticada e compatível com as modernas cadeias de suprimento, tais operadores, denominados third party logistics (ou 3PL), coordenam e integram um conjunto de atividades lo- gísticas (movimentação, armazenagem e transporte) com o objetivo de agregar valor aos produtos e proporcionar maiores oportunidades de ganho de capacidade produtiva e agilidade operacional. Dentro desse seguimento, uma outra tipologia de prestadores de serviços logís- ticos vem ganhando cada vez mais espaço: estamos falando dos fourth party logistics (ou 4PL). Como muitas empresas contra- tam mais de uma 3PL, o gerenciamento múltiplo destes operadores pode acabar se tornando uma atividade muito complexa. Abre-se, então, uma brecha para atuação dos operadores classificados como 4PL, uma vez que eles intensificam sua atuação em atividades de integração na cadeia de suprimentos, mais especificamente no que tange a interface entre o cliente e os 3PL. Isso mesmo! Estas empresas gerenciam os diversos operadores logísticos de forma a otimizar as múltiplas operações de abas- tecimento. Operações combinadas entre a armazenagem e a distribuição Mesmo ainda não tendo entrado no capítulo sobre distri- buição e transporte, faremos uma breve abordagem sobre ele, a fim de facilitar a sua Diferentes tipos de prestadores de serviços logísticos.Fonte: Marques e Oda, 2012, p. 55. Aqui vai mais uma dica, mas desta vez sobre operadores logísticos. A Disalfarm é uma 3PL que consegue conciliar operações manuais e automatizadas. Embora seja um vídeo institucional, vou deixar aqui o link para que você possa assistir e entender um pouco mais sobreas operações destas prestadoras de serviço. https://www.youtube.com/watch?v=uLn-E3-CpEg 83FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL compreensão sobre algumas estratégias de armazenagem. Certas operações combi- nadas servem como um incrível suporte às atividades relacionadas à última função da logística, e um dos exemplos mais in- teressantes de como é possível conciliar a armazenagem, o modal rodoviário e a distribuição física é o cross docking. Essa é uma operação de rápida movimentação de produtos acabados para a expedição entre fornecedores e clientes que utiliza CDs para a consolidação de cargas advindas de diferentes procedências. Ao invés de receberem grandes car- gas de um único fornecedor, no cross do- cking, os varejistas têm suas operações de recebimento apoiadas por um armazém. As grandes remessas são recebidas nos CDs que, por sua vez, fazem a triagem, consolidação das encomendas e posterior encaminhamento para lojas individuais em menores remessas. Esta metodologia que ajuda a diminuir os níveis de estoques só é possível devido à dinâmica de trabalho proporcionada pelo modal rodoviário. No entanto, a prática mais antiga de abastecimento, e que é plenamente aplicada à estratégia de estoques geren- ciados pelo fornecedor, é o milk run. Essa modalidade consiste em um sistema de coletas entre os fornecedores de peças ou componentes de forma programada e com rotas pré-definidas. O objetivo é reduzir custos de estoque e transporte sem deixar de abastecer o cliente. Pela sua dinâmica de operação, o milk run também é chamado de sistema de coleta programada. Essa forma de suprimento foi ala- vancada pela indústria automotiva e pos- sui como característica principal o ato de centralizar no cliente a operacionalização da coleta. Isso significa que a empresa cliente é quem contrata o transporte e faz a programação. No respectivo cenário, caso as peças não estejam prontas para a coleta conforme sugere a programação, o fornecedor poderá ser multado, além de ter que ele mesmo efetivar a entrega em caráter emergencial. E já que o cliente é quem precisa ter a preocupação com o planejamento e exe- cução do milk run, não podemos deixar de falar sobre a roteirização. A contratação de um serviço de transporte pode representar Fluxo de funcionamento do cross docking. Fluxo de abastecimento milk run. Fonte: Taboada, 2009, p. 28. 84FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL muito nos custos logísticos. Dessa maneira, alternativas preci- sam ser desenvolvidas para melhorar o nível de serviço logístico, principalmente quando se trata da resposta às demandas. Felizmente, com o avanço das tecno- logias interativas, cada vez mais aplicações voltadas para esta finalidade vêm sendo desenvolvidas. O planejamento das rotas com o apoio das tecnologias contribui com a escolha do melhor trajeto e do veículo adequado, sem falar da atualização em tempo real de transtornos recorrentes ad- vindos de rotas com alto f luxo de veículos, de rodovias em obras ou de vias que façam parte de roteiros frequentes de transporte escolar ou autoescolas. Tecnologias aplicadas à movimentação dos materiais Pela quantidade de vezes em que a tecnologia foi empregada ao longo de nossa disciplina, você já deve ter percebido que nem tudo no campo da armazena- gem restringe-se à movimentação física. A tecnologia aqui também é empregada de forma a tornar ágil e eficiente as operações de um armazém. Uma das tecnologias mais empre- gadas para gerenciamento de armazéns é o software conhecido como Warehouse Management System (WMS). Trata-se de um sistema de gestão que permite a fragmentação dos materiais armazenados em endereços dentro do galpão, facilitando sua rápida localização por estantes, porta- -paletes, corredores e até mesmo pelo lote e pela validade. O controle dos estoques com o uso do WMS pode representar ganhos de tempos e movimentos, já que ele aloca os produtos por similaridade, reduzindo o tempo de separação das mercadorias e o percurso de movimentação dos equi- pamentos, independentemente de serem manuais ou automáticos. A interligaçãodas atividades do armazém com as demais operações de uma empresa fez com que alguns ERPs contemplassem um módulo de WMS. Assim, uma vez que o cliente realiza um pedido, o WMS permite localizarmos rapidamente a posição das mercadorias no armazém, dando maior agilidade ao processo de distribuição e transporte – o que é muito relevante para elevar o nível de serviço. Agora, pensando nas operações do dia a dia, as equipes operacionais já podem contar com diversas tecnologias para agi- lizar o processo de recebimento e expedi- Exemplo de bons e maus sequenciamentos de escalas. Fonte: Ballou, 2006, p. 197. 85FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL ção. Uma das mais conhecidas entre estas tecnologias é o código de barras. Esse tipo de código bidimensional vem facilitado a identificação de produtos e documentos em múltiplas situações. Os módulos de expedição dos ERPs, por exemplo, já pos- suem integração com sistemas de leitura dos códigos de barras, chegando a emitir um alerta caso algum produto que faça parte de um pedido não tenha passado pela leitura, informando ao operador, inclusive, quais são os itens faltantes para completar a remessa. Outra tecnologia bastante eficaz, in- clusive para controle de estoque, é o Radio Frequency Identification (RFID). Trata-se de uma etiqueta inteligente constituída por microchip, antena e leitor muito utiliza- da para baixa automática do estoque em supermercados ou empresas com grandes quantidades de materiais armazenados. A utilização do RFID na logística empresarial é, de fato, ilimitada. O grande percalço do emprego desta tecnologia é o seu alto custo inicial frente ao código de barras, por exemplo. No entanto, uma grande vantagem do RFID é a possibili- dade de reaproveitamento das etiquetas, diluindo, assim, o investimento inicial. Ao longo do processo logístico, o RFID contribui com uma série de indi- cadores de gestão, possibilitando que os sistemas apurem, em tempo real, infor- mações sobre o tempo de permanência dos materiais em estoque, o atingimen- to do ponto de pedido e do estoque de segurança. Dentro da operação física, o dispositivo de identificação da etiqueta possui um alcance de leitura muito maior e sem envolvimento humano, tornando as atividades de controle e reposição dos estoques mais precisas e menos caras. Equipamento executando a leitura de uma mercadoria identificada com um código de barras. Um vídeo da Metro Group, intitulado “Supermercado do Futuro”, demonstra bem o uso associado do RFID e outras tecnologias para controle e movimentação dos itens em estoque, tal como a rápida reposição das prateleiras no ponto de venda. Clique aqui e assista o vídeo no Youtube quantas vezes você quiser. Equipamento executando a leitura de uma mercadoria identificada com um código de barras. https://www.youtube.com/watch?v=_p8pAG8fPjE Questões para discussão 1. Explique o conceito central da ar- mazenagem. 2. O que são CDs? Qual sua principal função no processo de distribuição física? 3. Apresente ao menos quatro elemen- tos que uma empresa precisa para direcionar sua atenção ao planejar um espaço de arma- zenagem. 4. Que tipos de benefícios trazem para os CDs as rampas de carregamento e desem- barque na altura do compartimento de carga dos veículos que realizarão o transporte dos produtos? 5. Cite alguns dos equipamentos mais utilizados para a movimentação dos materiais. 6. Estabeleça as diferenças entre as atividades realizadas entre os provedores de serviços logísticos 3PL e 4PL. 7. No que consiste o sistema de abas- tecimento milk run? 8. Como funciona a dinâmica do cross docking? 9. Qual a importância da roteirização para as estratégias combinadas entre arma- zenagem e distribuição? 10. Qual a grande contribuição do WMS para a função de armazenagem? 11. Diferencie o código de barras do RFID. Apresente as vantagens existentes da aplicação de uma ou outra tecnologia. 87FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL DISTRIBUIÇÃO E TRANSPORTE Como o mercado global aumenta a importância da logística internacional? Estamos chegando ao final de nossa disciplina. E nada mais justo encerrarmos fazendo uma abordagem sobre como a função logística conecta as empresas com seus clientes e parceiros comerciais ao redor de todo o mundo. Isso mesmo! Estamos falando da logística de distribuição. Você já aprendeu que dificilmente os produtos são con- sumidos no mesmo local em que são fabricados, atribuindo ao composto da distribuição um importante papel na cadeia de suprimentos. Nesse contexto, o transporte acaba sendo um diferencial na qualidade dos serviços nos quesitos tempo de entrega, confiabilidade e segurança dos produtos, o que inegavelmente o torna principal componente do sistema lo- gístico. Mas, antes de entrarmos no mérito da operação, que tal começarmos pelos motivos que vêm fazendo este elemento da distribuição física ganhar cada vez mais relevância para a economia? 88FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL Embora esse seja o mais importante custo logístico para as empresas, a globali- zação reconfigurou o comércio internacio- nal, evidenciando o transporte como um fator decisivo para o desenvolvimento de uma nação. As transações comerciais e o f luxo de capitais através das fronteiras se intensificaram e, dessa forma, o f luxo de mercadorias também. Se mais mercadorias circulam através do globo, maior será a exigência por um sistema de transporte operacionalmente eficiente e com preços competitivos. Ref lita sobre o seguinte dado: em média, o transporte chega a representar até 60% dos custos logísticos de uma empresa. Então, na medida em que conseguimos ser mais eficientes neste ponto da logística empresarial, é possível repassar vantagens financeiras para o preço final dos produtos, tornando estes mais atrativos aos olhos dos clientes. Isso deixa claro o significativo papel do transporte na logística, não restando dúvida de que há uma estreita ligação entre a boa utilização do transporte e o sucesso de uma cadeia de suprimentos. Exercer a prática de preços menores sem perder em qualidade contribui para potencializar o consumo e estimular a economia como um todo. Contudo, está é uma situação que não está unicamente nas mãos do transpor- tador ou de quem o está contratando. Há uma série de fatores que acabam inf luen- ciando nos preços dos fretes, a começar pela infraestrutura logística do país. Falando nisso, você sabia que uma característica comum entre os países que mais se desenvolveram nos últimos anos é o forte investimento em infraestrutura logística? Você pode até pensar que há uma coincidência. No entanto, isso ocorre devido ao fato de que, em longo prazo, o investimento para tornar ágil o funciona- mento de portos, aeroportos, ferrovias e rodovias impacta positivamente nos preços praticados pela indústria e pelo comércio, beneficiando a população com produtos a preços mais acessíveis. Matriz de transporte no mundo. Fonte: ANTF, 2011, p.5. 89FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL Neste momento você deve estar se perguntando: e como está o Brasil em comparação com outros países? Antes de responder a essa pergunta, precisa- mos conhecer as diferentes modalidades de transporte e como elas impactam nas decisões empresariais no dia a dia. Em seguida, estabeleceremos os comparativos que facilitarão seu aprendizado sobre a infraestrutura logística brasileira. Modais de transporte Certamente você já ouviu falar em modais de transporte, assim como já teve contato com alguns deles. Antes de fa- larmos especificamente sobre cada um deles, saiba que a excelência funcional em transportes envolve um grande número de decisões, indo muito além do valor do frete. Precisamos considerar, também, a curva de urgência, o tempo que a mer- cadoria ficará em trânsito (transit time), frequência, disponibilidade, restrições técnicas do modal, riscos de sinistralida- de, a relação entre o volumee o peso da remessa, a racionalização, consolidação, roteirização, agendamento (scheduling), gerenciamento de frotas, desempenho, entre outras. O ideal é que possamos chegar a uma definição mais simples de modais, tempos e distâncias para entrega dos pro- dutos, garantindo a utilidade de tempo, espaço e modo. O fato é que uma logís- tica de transporte bem elaborada ofere- ce condições apropriadas para aumentar a integração da cadeia de organizações, permitindo alinhar a localização da pro- dução, armazenagem e vendas, quando geograficamente dispersas, criando um sistema integrado. Divididos em cinco tipos, no Brasil, o modal rodoviário é o mais utilizado, representando 58% das cargas movimen- tadas em território nacional. Nesse modal, a distribuição ocorre por diversos tipos de veículos por via terrestre, sendo que os caminhões de grande porte são os mais apropriados para o transporte de grandes volumes em longos percursos, consideran- do que os prazos de entrega são relativa- mente curtos. Mesmo este modal apresentando uma série de vantagens, as variáveis às quais ele está exposto podem comprometer a formação do preço de venda dos produ- tos. Tal afirmação parece contraditória, considerando que China e Austrália pos- suem índices muito parecidos. No entanto, no Brasil as precárias condições da malha rodoviária (vias esburacadas, pistas sem duplicação e trechos sem asfalto), combi- nadas com os frequentes roubos de carga nas estradas, acabam gerando custos extras com a manutenção dos veículos, atrasos nas entregas e os altos preços de seguro praticados pelo mercado. O implemento rodoviário precisa ser apropriado para o transporte de containers, além de estar equipado com twist lock. 90FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL Outro elemento que pode inf luen- ciar o valor do frete rodoviário, é que cer- tos tipos de cargas não podem ser trans- portados por qualquer tipo de caminhão. Cargas que são unitizadas por meio de containers requerem implementos rodovi- ários equipados com twist lock, uma trava de segurança que prende o container ao compartimento de transporte do caminhão de forma a não permitir que ele vire em terrenos instáveis ou inclinados. Esse tipo de trava pode vir como um item de série do implemento, ou pode ser instalado posteriormente. Contudo, é im- portante contratar uma empresa confiável para a realização dessa atividade, visto que estamos falando de um importante item de segurança e que a sua ausência pode incorrer no risco de acidentes graves. Caso o prazo de entrega não seja tão urgente e a carga não seja tão perecí- vel, o uso do modal ferroviário seria uma alternativa ao rodoviário. Com capaci- dade para transportar cargas com maio- res peso e volume, o tráfego por ferrovias oferece menores custos de operação, pois a via permanente – também chamada de malha ferroviária – é dedicada exclusiva- mente para veículos que transitam sobre trilhos, reduzindo, assim, os transtornos causados pelas condições deficitárias das rodovias e, possivelmente, os altos custos com manutenção e seguro. Em 2013, o programa Fantástico, da Rede Globo, fez uma matéria sobre os gargalos do Brasil. Em mais um capítulo da série “Brasil, Quem Paga é Você”, a jornalista Sônia Bridi deflagra a situação daquela que poderia ser a maior via férrea em funcionamento no país, mas que, por conta da falta de planejamento, hoje é subaproveitada: a ferrovia Norte-Sul. Clique aqui e confira a matéria completa. Relação dos modais com o valor do frete, o transit time e a curva de urgência. http://g1.globo.com/fantastico/quadros/brasil-quem-paga-e-voce/noticia/2013/04/deficiencia-estrutural-nos-portos-e-ferrovias-faz-brasil-desperdicar-bilhoes.html 91FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL No Brasil, muitas são as razões para que apenas 25% das cargas sejam mo- vimentadas pelas vias férreas. Os vários trechos de malha sucateada e a falta de rotas que ligam os distritos industriais aos principais pontos de escoamento surgem como alguns dos problemas mais latentes neste modal. No entanto, note que no Canadá há um certo equilíbrio entre os modais rodoviário e ferroviário – com uma pe- quena vantagem para o transporte sobre trilhos. Muitas das cargas com maior peso são transportadas por vagões, ajudando no desafogamento do f luxo e na conservação das estradas – isso sem falar na redução nos índices de acidentes de trânsito. Com caminhões e outros veículos de carga cir- culando por rodovias mais conservadas, os altos custos com reparos, que impactam diretamente na formação de preço do frete, acabam sendo minimizados. Você já deve ter concluido que o modal ferroviário é uma solução atrativa para redução de custos na distribuição. Contudo, observe, que se a mercadoria for urgente ou perecível, o modal rodo- viário torna-se mais apropriado. A baixa disponibilidade e frequência do transpor- te ferroviário faz o seu transit time ser maior, tornando esse modal uma opção um pouco limitada para cargas de alto valor agregado. Agora, imagine que sua empresa precise transportar uma carga de grande volume e peso para um cliente localizado no outro lado do mundo. Logicamente, o uso do modal rodoviário não só compro- meteria os custos logísticos como, também, seria insuficiente para levar as mercadorias até o destino. Responsável por 90% das movimentações de mercadorias no comér- cio internacional, o transporte marítimo (também chamado de aquaviário), por se tratar de uma modalidade com grande ca- pacidade de carga – tanto em peso quanto de volume –, é ideal quando as cargas não são urgentes e precisam percorrer longos trajetos. Entre os navios mais comuns que realizam as rotas internacionais de co- mércio estão os porta-contêineres. Estas embarcações, exclusivas para o transporte de cargas unitizadas por contêiner, pos- suem uma capacidade extraordinária de transporte, o que ajuda a diluir o preço do frete. Na atualidade, a maior embarcação já construída pelo homem, nesta categoria, é o Triple-E. Esse navio comporta até 18 mil contêineres de 20’. Para você ter uma melgor ideia, estamos falando de um volume que pode ultrapassar 108 milhões de pares de sapatos armazenados, consi- derando que um contêiner dry box de 20’ comporta cerca de 6.000 pares. Mas não são apenas as cargas uni- tizadas por contêiner que circulam pe- los mares. Navios de carga em geral, por Triple-E: o maior navio porta contêiner do mundo. 92FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL exemplo, podem transportar diversos gê- neros de produtos, entre eles: sacarias, cai- xas, veículos encaixotados ou sobre rodas, bobinas de papel de imprensa, vergalhões e barris. Agora, falando especif icamente sobre transporte de veículos, não pode- mos esquecer de mencionar o roll-on/ roll-off (RO-RO). Esse navio especial é direcionado para o transporte de carretas, ônibus, trailers e veículos de passeio. O Andromeda Leader pode comportar até 8.500 carros, os quais são divididos em 13 andares. No entanto, se ao invés de uma carga volumosa e pouco urgente, você tivesse que transportar uma mercadoria de alto valor e em caráter de urgência? Isso lhe parece improvável? E se um componente importante da principal máquina da li- nha de produção da sua empresa acabasse apresentando defeito e você tivesse que ,urgentemente, repor esta peça para rea- lizar a manutenção? Já pensou na hipótese de precisar importar uma matéria-prima muito específica, mas o tempo para efeti- var esta ação fosse realmente escasso? Em casos como esses, o transporte aéreo pode ser uma alternativa inteligente. O modal aéreo é um meio de trans- porte com baixo nível de perdas e apropria- do para cargas com menor volume, maior valor agregado ou que são consideradas perecíveis. Conceituado como mais segu- ro que os modais terrestres, o transporte aéreo, devido ao alto grau de agilidade, também é indicado para remessas em ca- ráter de urgência, mesmo queseu custo seja mais elevado que os demais. No primeiro momento, isso pode parecer contraditório. Porém, você sabia que algumas companhias deixam de fa- turar em torno de R$ 150 mil por dia devido a problemas de manutenção? E isso sem mencionar as penalidades que são aplicadas sobre elas em decorrências de atrasos, podendo comprometer, inclusive, a avaliação da empresa como um “fornecedor confiável” perante os seus clientes. Cer- tamente, em casos assim, o custo do frete aéreo pode ser pequeno em comparação com os prejuízos gerados por uma linha de produção parada, seja por negligência ou imprevistos. Falando um pouco sobre o modal, propriamente dito, saiba que a autonomia do transporte aéreo é altamente impactada por uma combinação de três elementos: o tamanho da aeronave, seu peso e a infra- estrutura para sua operação. Um avião de grande porte, em sua plena capacidade de carga, totalmente abastecido, precisará de uma pista maior para que possa levantar voo. Caso não tenhamos pista suficiente e nossa opção for por ocupar a capacidade máxima da aeronave, o avião não poderá ser totalmente abastecido, pois precisare- Navio roll-on/roll-off com capacidade para até 5.000 veículos. 93FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL mos compensar o peso para a decolagem. Isso fará com que ele perca autonomia de voo, não permitindo que a aeronave cumpra rotas mais longas. Mas, se a opção for por uma maior autonomia de voo, não poderemos sair com sua máxima capaci- dade de carga, pois o avião estará pesado demais para decolar. Com 84 metros de comprimento e mais de 88 metros de ponta a ponta das asas, o Antonov An-225 é considerado o maior avião de carga do mundo. Em sua recente visita ao Brasil – mais precisamente no Aeroporto de Cumbica, localizado em Guarulhos/SP –, essa aeronave precisou ocupar um espaço equivalente ao de sete aviões de passageiros, apenas para estacio- nar. Visto que este avião possui capacidade de até 250 toneladas no espaço de cargas, poucos aeroportos no Brasil possuem con- dições de receber um equipamento desses, destacando, ainda, a importância da infra- estrutura aeroportuária para a composição do preço do frete aéreo. E para encerrar sobre modalidades de transporte, faltou apenas abordarmos sobre o modal dutoviário. Embora pou- co conhecida, esta modalidade é muito utilizada no comércio exterior brasileiro. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), são três os principais dutos existentes, sendo que o primeiro deles, o gasoduto, é aplicado para o transporte de gases, des- tacando-se, aqui, o gasoduto Brasil-Bolívia que possui quase 200km de extensão de dutos destinados ao transporte de gás na- tural. O segundo é o mineroduto, utilizado para transportar minérios entre as regiões produtoras, siderúrgicas e portos. E por fim, temos os oleodutos, responsáveis por bombear o transporte de petróleo bruto e seus derivados para os terminais portuários ou centros de distribuição. Intermodalidade e multimodalidade O modal dutoviário pode ser utilizado tanto para longas distâncias quanto na logística interna. O Antonov An-225 é a maior aeronave cargueira a cruzar os céus. Em 2013, o Jornal da Globo fez uma matéria sobre a ineficiência da infraestrutura aeroportuário no Brasil, chegando, inclusive, a comparar o tempo para realização dos serviços com países como EUA e China. Clique aqui e confira a matéria completa. http://g1.globo.com/jornal-da-globo/noticia/2013/04/falta-de-logistica-e-burocracia-atrasam-transporte-de-cargas-aereo-no-brasil.html 94FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL Em toda esta dinâmica dos trans- portes, fica muito difícil imaginarmos que as cargas, em algum momento, não poderão fazer algum tipo de transbordo. Sim, isso faz parte do planejamento da distribuição e é fundamental que pensemos em como otimizar as operações logísticas de forma a atingir o destino planejado, ainda que tenhamos que combinar dois ou mais modais de transporte. Nesse cenário, duas opções são pos- síveis. Na multimodalidade essas combina- ções ocorrerão através de um Operador de Transporte Multimodal (OTM). Embora tenhamos mais de um modal envolvido no transporte das cargas, o OTM assu- me total responsabilidade pela operação total, desde a origem até o destino, como se fosse um transportador principal. Na intermodalidade a liberdade operacional passa a ser toda de quem precisa contratar o transporte. Nesse caso, a combinação ocorrerá sistematicamente de forma se- parada e o contratante terá que articular operacionalmente todos os transportadores com quem estabeleceu contratos de pres- tação de serviços. As decisões sobre a multimodali- dade ou a intermodalidade dependerão de muitas análises. Portanto, é necessário que sua empresa avalie a praticidade, o custo, o tempo, o perecimento da carga, os acidentes geográficos de trajeto, a dispo- nibilidade, entre outros pontos relevantes. Porém, é interessante pensar que podería- mos chegar em regiões mais distanciadas dos centros, por meio da navegação de interior (através de hidrovias de interior) quando não fosse possível fazê-lo 100% por terra, ou que conseguiríamos reduzir, significativamente, outros custos logísticos através da combinação entre modalida- des terrestres e a navegação de cabotagem (realizadas pela costa brasileira e entre os portos). Unitização No capítulo sobre armazenagem, falamos algumas vezes sobre unitização sem entrar no assunto propriamente dito, não é verdade? Embora este tema esteja muito relacionado à armazenagem, parece ser bastante apropriado tratarmos dele aqui, justamente quando estamos falando sobre modais de transporte. Atente à explicação, uma carga é unitizada quando os diversos volumes de materiais que serão transportados são condicionados de modo a formarem uma unidade maior. Com o objetivo central de aumentar a eficiência no manuseio e transporte pela otimização do tempo de carga e descarga, os tipos e formatos são padronizados para que possam ser movi- mentados com maior facilidade nos modais de transporte. Uma das formas de unitização que Em 2010, o Jornal da Globo fez uma matéria muito interessante sobre como a vantagem adquirida na produção de soja no Brasil acaba se perdendo em função do transporte. Clique aqui e confira a matéria completa. http://g1.globo.com/jornal-da-globo/noticia/2010/12/vantagem-da-producao-de-soja-brasileira-e-perdida-no-transporte.html 95FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL abordamos bastante durante a nossa disci- plina é o palete. Estes estrados de madeira são utilizados como suportes de cargas, podendo ser movimentados tanto pelas paleteiras quanto pelas empilhadeiras. Os vãos localizados na parte inferior da es- trutura permitem o encaixe dos garfos das empilhadeiras e das paleteiras, gerando, dessa forma, uma otimização do manuseio da carga. Para que as mercadorias não fiquem soltas sobre os paletes, a fixação das em- balagens pode ser feita com cintas, fitas e lonas. Todavia, uma das formas mais interessantes utilizadas na logística para garantir a estabilidade das mercadorias é sobre o instrumento de unitização é o stretch. Este tipo de filme é aplicado com o uso de uma máquina para envolver as embalagens que serão transportadas. Caso você ainda não saiba, os con- têineres também são formas de unitiza- ção. Em um primeiro momento, quando pensamos nestes recipientes de metal, a primeira coisa que vem à cabeça é o trans- porte marítimo, não é mesmo? Mas, essa forma de unitização também é frequente- mente utilizada para mercadorias que são transportadas no modal aéreo. Você ficou surpreso? Sim, o modal aéreo também transporta cargas unitizadas através de contêineres. Estes contentores são menores, apropriadamente ajustados ao espaço do comportamento de carga do avião, e são embarcados com o auxílio de plataformas elevatórias. Já os containers utilizadosno modal marítimo possuem grandes dimen- sões, geralmente medidas em unidades de 20 “pés” (20’). Palete de madeira sendo movimentado por uma paleteira. Dimensionamento dos paletes. Adaptado de: Keedi, 2005. A empresa Lantech é uma das fabricantes de equipamentos para aplicação de filme stretch no processo de unitização. Clique aqui e confira o vídeo de demonstração do equipamento. Contêiner apropriado para o modal aéreo sendo embarcado. 96FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL Muitas vezes, na linguagem portu- ária, os contêineres são tratados pela sua unidade básica. Um contentor de 20’ é cha- mado de 1 TEU (twenty feet equivalent unit ou unidade equivalente a 20 pés, em tradução livre), enquanto o contentor de 40’ é chamado de 2 TEU ou 1 FEU (forty feet equivalent unit ou unidade equivalente a 40 pés, em tradução livre). Um contêiner de 1 TEU (20’) possui 6,058m de comprimento, 2,438m de largu- ra e 2,591m de altura em suas dimensões externas. Já um contêiner de 40’ (1 FEU) mantém largura e altura iguais ao de 1 TEU, diferenciando-se apenas no com- primento, onde apresenta praticamente o dobro de extensão (12,192m). Também vale ressaltar que diferen- tes tipos de cargas requisitarão diferentes modelos de contêineres. O dry box, por exemplo, é utilizado para mercadorias “secas”, como roupas, móveis e alimen- tos que não necessitam de conservação climatizada. Já para as mercadorias que necessitam de refrigeração, os chamados contentores refrigerados (reefer) são os mais adequados. Nos casos onde a carga possui maior altura que a do contêiner – e por isso não podem ser carregados pelas portas – o modelo open top pode ser a forma de unitização mais correta. As variações nos tipos e medidas dos contêineres são relativamente exten- sas para estabelecermos descritivos. Por isso, ao final deste capítulo, deixaremos uma relação com as medidas e uma breve explanação sobre a aplicação de cada um para facilitar os seus estudos. Contêiner modelo dry box. 97FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL Questões para discussão 1. Qual o impacto percentual do trans- porte nos custos das operações logísticas para as empresas? 2. Qual a característica comum, voltada para a logística, entre os países que mais se desenvolveram nos últimos anos? 3. Como está estabelecida a divisão (participação) dos modais de acordo com a matriz de logística no Brasil? 4. Cite ao menos três tipos de decisões a serem tomadas sobre a gestão dos transportes. 5. Para qual tipo de carga é recomen- dável o uso do modal rodoviário? 6. Explique a utilidade da twist lock em um implemento rodoviário. 7. Que tipo de cargas são mais adequa- das para o modal ferroviário? 8. Quais cargas recomenda-se que se- jam transportadas através do modal marítimo? 9. Diferencie a multimodalidade e a intermodalidade. 10. Quais são as formas mais comuns de unitização? Cite os modais apropriados para estes instrumentos de acondicionamento de cargas. 99FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL CONSIDERAÇÕES FINAIS Entregue o produto certo, no lugar certo, no momento certo, na quantidade precisa e com o preço adequado Gerenciar a cadeia de suprimento, na certa, é um desafio que ultrapassa os conceitos básicos da logística. Isso, porque a gestão da cadeia de suprimentos propõe desenvolver uma complexa sistemática, através de seus principais elementos, que agregua valor aos produtos e serviços, ao estabelecer uma sintonia fina entre a estratégia empresarial e todo o composto da logística empresarial. Respectivamente, significa, que entregar o produto certo, no local certo, no momento certo para o consumo, na quantidade que atenda à resposta da demanda e com o preço adequado ao público-alvo são esforços totalmente alinhados com o sucesso de uma organização. Em tempos tão competitivos, a tecnologia possibilitou o surgimento de produtos cada vez mais idênticos. Logo, está evidenciado um cenário global, onde a logística empresarial 100FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL tornou-se um dos pilares principais para que as companhias venham encontrar seu lugar de destaque nas preferências dos consumidores. Nunca foi tão pertinente a conscientização por parte das empresas, de que a logística empresarial só existe em razão daquele que dá o norte das prefe- rências do mercado: o cliente. Portanto, não pare nunca! Pesquise, estude, inove, evolua e agregue valor. A cada dia, surgem novos materiais, novos métodos de fabricação ou formas inovado- ras para atender às necessidades do públi- co-alvo. O mercado está em permanente mutação, e as empresas que a tenderem a esse constante cresci- mento, nos níveis de exigência dos clientes, terão maiores condições de buscar soluções criativas para vencer adversidades e, ainda, ampliar seu market share. 101FUNDAMENTOS DE LOGÍSTICA EMPRESARIAL REFERÊNCIAS ANTF. Material do Setor Entregue aos Presi- denciáveis e os Governadores. 2011. Disponível em: <http://www.antf.org.br/pdfs/presidenciaveis. pdf>. Acesso em: 20 de novembro de 2016. ARAUJO, Marco Antônio de. Administração de Produção e Operações: uma abordagem prática. Rio de Janeiro: Basport, 2009. 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INTRODUÇÃO À LOGÍSTICA EMPRESARIAL LOGÍSTICA E A GESTÃO DA CADEIA DE SUPRIMENTOS SUPRIMENTO Planejamento dos estoques Contratos de fornecimento Previsão de demanda Classificação ABC Modelo quantitativo de reposição Lote Econômico de Compras (LEC) Efeito chicote Relacionamento com fornecedores PRODUÇÃO Os sistemas de produção Postergação Teoria das Restrições Materials Requirements Planning (MRP) Condomínios industriais e consórcio modular Agora, vamos a algumas questões para exercitar nosso estudo! ARMAZENAGEM DISTRIBUIÇÃO E TRANSPORTE Modais de transporte Intermodalidade e multimodalidade CONSIDERAÇÕES FINAIS