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1 
 
 
PATRIMÔNIO, MEMÓRIA E BENS CULTURAIS 
1 
 
 
SUMÁRIO 
SUMÁRIO .................................................................................................... 1 
NOSSA HISTÓRIA ...................................................................................... 2 
a. INTRODUÇÃO ................................................................................ 3 
1.1- METODOLOGIA .......................................................................... 5 
b. HISTÓRIA CULTURAL: RETROSPECTIVA ................................... 6 
c. A REALIDADE CONSTRUÍDA E VIVIDA: AS REPRESENTAÇÕES
 12 
d. AS ACEPÇÕES DO PATRIMÔNIO CULTURAL ........................... 17 
e. A INFLAÇÃO PATRIMONIAL, TRANSCURSO DO TEMPO ......... 26 
f. PATRIMÔNIO E HISTORICIDADE DAS POLÍTICAS DE 
PRESERVAÇÃO NO BRASIL .......................................................................... 31 
g. CULTURA, PATRIMÔNIO E MEMÓRIA ....................................... 47 
h. AS PRÁTICAS PRESERVACIONISTAS E O DESENVOLVIMENTO 
SUSTENTÁVEL ................................................................................................ 52 
i. FERRAMENTAS EM PROL DOS BENS CULTURAIS E NATURAIS
 56 
j. A REABILITAÇÃO DOS CENTROS HISTÓRICOS BRASILEIROS . 60 
k. A HISTÓRIA ORAL ....................................................................... 70 
l. A IMPORTÂNCIA DAS RAÍZES CULTURAIS PARA A IDENTIDADE 
CULTURAL DO INDIVIDUO ............................................................................. 77 
m. SABER MAIS ................................................................................ 81 
n. CONCLUSÃO ................................................................................ 82 
o. REFERÊNCIAS ............................................................................. 84 
 
 
 
 
 
2 
 
 
 
NOSSA HISTÓRIA 
 
 
A nossa história inicia com a realização do sonho de um grupo de 
empresários, em atender à crescente demanda de alunos para cursos de 
Graduação e Pós-Graduação. Com isso foi criado a nossa instituição, como 
entidade oferecendo serviços educacionais em nível superior. 
A instituição tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas de 
conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação 
no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua. 
Além de promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos 
que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, 
de publicação ou outras normas de comunicação. 
A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma 
confiável e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base 
profissional e ética. Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições 
modelo no país na oferta de cursos, primando sempre pela inovação tecnológica, 
excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. 
 
 
 
 
 
 
 
 
3 
 
 
a. INTRODUÇÃO 
Nos dias de hoje tornou-se muito comum, no âmbito acadêmico, deparar-se 
com expressões do tipo: “cultura da pobreza, “cultura do medo”, “cultura das 
armas”, “cultura do corpo”, “cultura dos adolescentes” e tantas outras. O termo 
“cultura”, pode-se afirmar que ocupa atualmente o lugar que outrora fora destinado 
a “sociedade” e “civilização”. 
Entretanto, o termo cultura é mais do que um conceito, sugere um campo 
histórico de disputa em torno de sua função social. No decorrer de seu estudo a 
palavra “cultura” atingiu vários significados, desde o cultivo agrícola em oposição 
ao crescimento natural, passando por desenvolvimento mental, modo de vida até 
alcançar práticas de atividade intelectual. Alguns historiadores, dentre eles 
Raymond Williams, contestam a apropriação de um só uso para o termo cultura, 
sugerindo nesse sentido: um conceito de cultura que englobe não apenas “um 
modo de vida” ou “ produtos artísticos”, mas na experiência que sua forma constitui. 
O interesse pelos aspectos culturais da sociedade encontra profícua 
acolhida de 1970 até os dias de hoje, quando houve uma considerável virada 
teórica e metodológica em determinadas disciplinas como: Geografia, Antropologia, 
Economia, Psicologia, Ciência Política, Estudos Culturais e História, que passaram 
a dar mais atenção aos aspectos culturais nos seus estudos, permitindo dessa 
forma o surgimento de um nova História, denominada “Nova História Cultural”. 
Para entender um pouco mais sobre alguns aspectos teóricos e 
metodológicos da Historia Cultural e da Nova História Cultural, os estudiosos 
brasileiros podem contar com a obra O que é História Cultural?, do historiador 
britânico Peter Burke, traduzido por Sergio Góes de Paula e publicado 
recentemente pela editora Jorge Zahar. A relevância desse trabalho está na 
capacidade de síntese e análise do autor, que em 191 páginas, conseguiu 
apresentar com clareza e profundidade a História da História Cultural. 
Essa obra, sem sombra de dúvidas, tem uma grande contribuição a dar aos 
estudiosos da História Cultural, não somente pelo fato de ela ser um compêndio da 
trajetória dessa História, mas também por apresentar seus problemas e paradoxos 
ao longo de duzentos anos de sua existência. 
4 
 
 
As críticas mais agravantes ao período clássico da História Cultural vieram 
dos historiadores marxistas, que, além de salientarem a falta de análise cuidadosa 
das fontes, evidenciaram também a pouca análise social e econômica, e a 
homogeneização cultural ausente de conflitos. O principal expoente desses críticos 
foi o historiador E. P. Thompson, designando o conceito “termo desajeitado” para a 
prática de alguns historiadores culturais que não deram tanta importância às 
distinções culturais presentes nas sociedades. 
A Formação da Classe Operária Inglesa (1963), obra basilar da “Nova 
História Cultural”, considerado um marco na Nova História Cultural Britânica, foi 
duramente criticado por alguns marxistas, colegas de Tompson. As críticas focaram 
a pouca ênfase nas realidades econômicas, sociais e políticas e por privilegiar em 
excesso as experiências e as idéias. Entretanto, a tensão entre culturalismo e 
ecominicismo apresentou-se bastante profícua, pois permitiu aos estudiosos 
refletirem sobre essas questões. 
Os problemas continuam. Por um lado, um marxismo que dispensa as noções 
complementares de base e superestrutura corre o risco de perder suas qualidades distintivas. Por 
outro, crítica de Thompson às “noções holísticas” parece tornar impossível a história cultural ou, 
pelo menos, parece reduzi-la a fragmentos. Por mais diferentes que fossem os dois estudiosos, 
Thompson parecia estar apontando para a mesma direção que Gombrich, quando este rejeitava as 
“fundamentações hegelianas” das sínteses de Burckhardt e Huizinga. Tais críticas levantam uma 
questão fundamental: é possível estudar as culturas como um todo, sem fazer falsas suposições 
sobre homogeneidade cultural? (p. 38). 
Na primeira metade do século XX, a história “abriu-se” para as demais 
ciências, com uma proposta de diálogo interdisciplinar. O campo historiográfico, 
então, sofreu mudança significativa, obrigando os historiadores a reconsiderar o 
conceito de fontes, para além daquelas predominantemente documentais, na 
pesquisa em história. Sobre essas fontes de pesquisa incidem a reflexão, 
considerando-se a contribuição que os avanços tecnológicos trazem à coleta de 
dados, em particular, na história oral. Do ponto de vista metodológico, trata-se de 
estudo de caso, com caráter bibliográfico, que traça uma retrospectiva da história 
cultural, enfatizando as possibilidades de uso da história oral. Como aportes 
teóricos foram consultados estudos d e Ribeiro (2003), Pesavento (2005) e Alberti 
(2005). Os resultados apontam para possibilidades de utilização da história oral na 
pesquisa em história cultural. 
5 
 
 
1.1- METODOLOGIA 
Paraa construção deste material, foi utilizada a metodologia utilizada de 
pesquisa bibliográfica, com o intuito de proporcionar um levantamento de maior 
conteúdo teórico a respeito dos assuntos abordados. 
Segundo Gil, a pesquisa bibliográfica consiste em um levantamento de informações e 
conhecimentos acerca de um tema a partir de diferentes materiais bibliográficos já publicados, 
colocando em diálogo diferentes autores e dados. 
Entende-se por pesquisa bibliográfica a revisão da literatura sobre as 
principais teorias que norteiam o trabalho científico. Essa revisão é o que 
chamamos de levantamento bibliográfico ou revisão bibliográfica, a qual pode ser 
realizada em livros, periódicos, artigo de jornais, sites da Internet entre outras 
fontes. Outro método utilizado foi à metodologia de ensino Waldorf, esta metodologia 
é uma abordagem desenvolvida pelo filósofo Rudolf Steiner. 
Ele acreditava que a educação deve permitir o desenvolvimento harmônico do 
aluno, estimulando nele a clareza do raciocínio, equilíbrio emocional e a 
proatividade. O ensino deve contemplar aspectos físicos, emocionais e intelectuais 
do estudante. 
Ainda para a construção deste, foi utilizado a etnometodologia, pela 
fenomenologia e pelo legado de Wittgenstein, além de alguns elementos marxistas 
e outros pensamentos mais contemporâneos, como os desenvolvidos por Pierre 
Bourdieu e Anthony Giddens. 
Segundo Nicolini, Gherardi e Yanow (2003) a noção de prática, na sua 
essência filosófica, está baseada em quatro grandes áreas do saber - na tradição 
marxista, na fenomenologia, no interacionismo simbólico e no legado de 
Wittgenstein -, das quais podem ser citados fenômenos como: conhecimento, 
significado, atividade humana, poder, linguagem, organizações, transformações 
históricas e tecnológicas, que assumem lugar e são componentes do campo das 
práticas para aqueles que delas compartilham. Com tudo, o intuito deste modelo é 
possibilitar os estudos e contribuir para a aprendizagem de forma eficaz, clara e 
objetiva. 
 
6 
 
 
b. HISTÓRIA CULTURAL: RETROSPECTIVA 
A história, tradicionalmente, “ocupa - se, de um lado, com as bases materiais 
e sociais da existência humana, e de outro, com as idéias mediante as quais os 
homens representam essa existência”, afirma Castanho (200 6, p. 139 ). Como 
construção moderna, consolida-se como disciplina científica no século XIX. As 
mudanças mais representativas em sua historiografia, porém, ocorrem no decorrer 
do século XX. Para que se possa perceber o alcance das mudanças no campo da 
história e da historiografia no decorrer do século XX, em especial no período que 
corresponde aos anos (30/70) é necessário, contudo, que se estabeleça contraste 
com o século XIX. É nesse período que se registra o abandono das concepções 
relativas à investigação e à escr ita da história que constituíam a tradição europeia, 
com a convergência, por parte das diversas escolas e correntes historiográficas do 
século XX, para que a história recuperasse seu sentido antigo de investigação. 
No decorrer da primeira metade do século XIX, os historiadores 
preocupavam-se em escrever histórias nacionais, recuperando os heróis e seus 
grandes feitos, no objetivo de construir os Estados nacionais e estimular o 
surgimento da identidade nacional. Jules Michelet (1798 - 1874), historiador franc 
ês, autor da “História da França”, chama a atenção dos historiadores 
contemporâneos por identificar um agente sem rosto, o povo e as massas, como 
personagens da história. Esse trabalho de Michelet não o coloca, todavia, como 
precursor da história cultural, mas significa uma nova postura de trabalhar a 
história, como bem esclarece Pesavento (2005), de pensar temas e problemas 
pertinentes ao imaginário, como forma de construção da realidade histórica. 
Podem ser considerados precursores da história cultural Ja cob Burckhardt, 
cuja obra “A civilização da Renascença na Itália” (1860) apresenta uma história em 
que os acontecimentos se diluíam diante da exposição do clima de uma época, das 
formas de pensar e das mentalidades; Leopold Von Ranke, que buscava um 
método científico para a história, avançando para fórmulas científicas que 
influenciaram gerações de historiadores na Alemanha e na França, mas que 
afirmava a descontinuidade da história, as múltiplas temporalidades e a 
historicização dos significados; e Johann Gustav Droysen, que se opunha a Ranke, 
mas entendia que a realidade do passado era inatingível (CHARTIER, 1990). 
7 
 
 
É, portanto, no século XIX, segundo Bourdé e Martin (1990), apud Castanho 
(2006, p. 140), que a história se instituirá como ciência autônoma, c om objetivo 
específico e método próprio. Nos seus últimos trinta anos, auge do cientificismo, 
articularam-se o pensamento burguês, nas vertentes do positivismo e do 
darwinismo social, e o seu contrário dialético, na obra revolucionária de Marx e 
Engels. No s domínios da e tnologia e da a ntropologia, Marcel Mauss e Émile 
Durkheim, com suas pesquisas sobre povos primitivos contemporâneos, davam 
destaque às representações, propiciando uma aproximação do campo da história 
com o da antropologia cultural. Em outros contextos, ensaios isolados apontavam 
para novos caminhos que desembocariam neste novo campo que denominamos 
história cultural. Assim, é no século XX que a história cultural desabrocha, quer 
como história das ideias, quer como história intelectual ou aind a como história 
cultural propriamente dita. 
Relembra Pesavento (2005) que, nos anos 30, dois grandes intelectuais 
tiveram a ousadia da mudança no pensar, em momento tão conturbado pela 
emergência dos fascismos e da eclosão da guerra mundial: “Walter Benjam in, na 
Alemanha, e Antonio Gramsci, na Itália, de dentro do pensamento marxista, 
trilharam outros caminhos de análise”. É certo que, embora não tivessem se 
conhecido, repensaram suas matrizes de pensamento, interessando-se pela área 
cultural, que passar ia doravante a interessar ao pensamento marxista. 
Gramsci, ao dar continuidade à tradição marxista, elaborou uma teoria 
ampliada de Estado, entendendo a sociedade como uma organização constituída 
de instituições complexas, públicas e privadas, articuladas en tre si, na busca da 
garantia da hegemonia de seus interesses (GRAMSCI, 1991). Propôs, assim, uma 
concepção da cultura e dos intelectuais, interpretando a cultura como conjunto de 
valores construídos, socializados, legitimados e operacionalizados, a partir de um 
grupo específico, o dos intelectuais, abrindo espaço para a superestrutura, que se 
liberta das amarras que mantinha com a infraestrutura, em termos de determinação 
(GRAMSCI, 1982). 
8 
 
 
 
Benjamin, cuja meta era realizar uma espécie de arqueologia da cultura do 
século XX, por sua vez, trabalhou com o imaginário social de uma época, com 
imagens que faziam crer, que se substituíam ao real, fazendo os homens viverem 
no mundo das representações. 
Outros pensadores, entre tantos que contribuíram para a mudança no 
discurso historiográfico, foram Paul Ricoeur (1994), que discutia a possibilidade de 
obtenção da verdade histórica e de sua finalidade; Roland Barthes, que indagava 
sobre os traços que distinguiam a narrativa histórica da ficcional; Edward P. 
Thompson (198 7), historiador inglês que alargou o conceito de classe social, 
entendendo - a em seu mundo cultural e resgatando a dimensão do empírico na 
pesquisa histórica; Norbert Elias (2001), que estudou a confluência entre a 
sociogênese e a psicogênese, incluindo a formação do sentimento; Ernst Gombrich 
(1994) e Erwin Panofsky (1991), que trabalharam as imagens pictóricas vendo 
nelas vida, sentimentos, valores. Esta relação se refere aos autores mais 
conhecidos no Brasil, cujas obras foram sendo traduzidas e estudadas pelos 
intelectuais que participavam do processo de abertura política do país, décadas 
depois. 
No mesmo período, o panorama historiográficofrancês passava por 
desdobramentos que iam da revista “Les Annales d’Histoire Économique et 
Sociale”, fundada em 19 29, por Marc Bloch e Lucien Febvre, à história das 
mentalidades, p ela qual se chegaria à história cultural francesa contemporânea, 
segundo explica Vainfas (1997). 
9 
 
 
Em sua crítica à historiografia tradicional, Bloch e Febvre tinham por objetivo 
substituí-la por uma história que contemplasse todas as atividades humanas e 
atingisse outras áreas do conhecimento. Mais preocupada com os aspectos 
estruturais do que com os narrativos, a nova história buscava novos objetos de 
pesquisa.Segundo Constantino ( 2004, p. 49), o objeto da ciência histórica deix ava 
de “ ser simplesmente alcançado pelas fontes para ser construído pelo historiador, 
a partir das demandas do seu presente”, modificando a relação do historiador com 
o passado. 
A constituição da história das mentalidades, que se conformou no primeiro 
período das “Annales”, sua perspectiva globalizante com Fernand Braudel e o 
terceiro período da escola, caracterizado pela recusa aos referenciais marxistas, 
substituído pela busca dos arquivos e pela coleta sistemática d e dados, são 
descritas por Cardoso e Vainfas em sua obra “Domínios da história” (1997), cuja 
análise, no momento, foge à proposta deste trabalho. Vale mencionar, no entanto, 
que para estes autores, além da amplitude dos objetos, a nova história enfatizou “ 
[...] a reivindicação do individual, do subjetivo, do simbólico como dimensões 
necessárias e legítimas da análise histórica” (CARDOSO e VAINFAS, 1997, p. 22). 
Peter Burke (200 8 ), em “O que é história cultural?”, trata da relevância da 
grande diáspora para a estruturação e ascensão da história cultural na Europa, 
destacando que a id e ia de “cultura popular” ou Volkskultur, originada na 
Alemanha, no final do século XVIII, só na década de 1960 é que foi retomada pelos 
historiadores acadêmicos alemães. 
No último quartel do século XX, marcada por uma incrível pluralidade de 
denominações e de ênfases, a história cultural enfrentava novos desafios. Era 
evidente uma linha de tensão entre os historiadores que de algum modo 
relacionavam o universo das ideias com o de sociedade e aqueles que trabalhavam 
as ideias a partir do conceito de mentalidade e das representações. Os primeiros, 
referindo-se às ideias contextualizadas; os segundos, voltados para o texto que 
servia de suporte. Tal situação tornou difícil o diálogo entre a história cultural e o 
marxismo. Cientes disso, autores como Goldmann (1967) e Jameson (1992), 
passaram a se preocupar com essa interlocução. Em área ambígua entre o 
textualismo e o contextualismo, situam-se Chartier (1990) e Bourdieu (1987), 
10 
 
 
ambos c om tendência a dar primazia ao texto, que, em 1997, com Foucault, se 
expande. 
 De acordo com a nova tendência, voltada à história como narrativa, firmava-
se a ideia de que tudo poderia ser história, que surgia como o resultado de uma 
interrogação feita pelo historiador, misturando-se com a ficção. 
Na segunda metade dos anos 90, comenta Pesavento (2005, p. 37), “o 
campo da História já se achava afetado por questionamentos tão profundos que se 
podia falar, verdadeiramente, de uma busca de novos paradigmas exp licativos da 
realidade”. De um lado, a história moderna, com método e procedimentos sólidos 
de investigação nos arquivos. De outro, a história pós - moderna, sem nenhum 
referencial teórico de análise, sem racionalidade. 
A história havia se transformado em uma disciplina com campo de 
abrangência muito vasto, abrangendo: 
[...] a história da cultura material e do mundo das emoções, dos sentimentos e do imaginário, 
assim como o das representações e imagens mentais, da cultura da elite ou dos grandes 
pensadores - história intelectual em sentido estrito -, e a da cultura popular, a da mente humana 
como produto sócioistórico - no sentido vigotskiano - e a dos sistemas de significados 
compartilhados - no sentido geertziano -, ou outros objetos culturais produzidos por essa mesma 
mente e, entre eles, - por que não? - a linguagem e as formações discursivas criadoras de sujeitos 
e realidades sociais. Tudo isso, ademais, não a partir de uma perspectiva fragmentada, mas 
conectada e integrada (VIÑAO FRAGO, 1995, pp. 64 - 65 ). 
Na visão de Lombardi et al . (2006), porém, é Ronaldo Vainfas (1997) quem 
consegue melhor identificar três maneiras distintas de tratar a história cultural. Para 
tanto, Vainfas parte da recusa de um conceito vago, ambíguo e impreciso de 
mentalidades, val orizando o cotidiano, a micro - história ; da predileção pelo 
informal e pelo popular, distanciando-se da história dos “grandes pensadores”; da 
preocupação em resgatar o papel das classes sociais e do conflito social; e da 
possibilidade de a história cultural apresentar caminhos alternativos para a 
investigação histórica. Apresenta, então, as maneiras pelas quais a história cultural 
poderia ser tratada: 
1. A história da cultura praticada pelo italiano Carlo Ginzburg, notadamente 
suas noções de cultura popular e de circularidade cultural presentes quer 
11 
 
 
em trabalhos de reflexão teórica, quer nas suas pesquisas sobre 
religiosidade, feitiçaria e heresia na Europa quinhentista. 
2. A história cultural de Roger Chartier, historiador vinculado, por origem e 
vocação, à histo riografia francesa - particularmente os conceitos de 
representação e de apropriação expostos em seus estudos sobre ‘ 
leituras e leitores na França do Antigo Regime ’ . 
3. A história da cultura produzida pelo inglês Edward Thompson, 
especialmente na sua obra sobr e movimentos sociais e cotidiano das ‘ 
classes populares ’, na Inglaterra do século XVIII (VAINFAS, 1997, p. 
148). 
Como se percebe, a história cultural envolve historiadores com posturas tão 
diferentes como Thompson (1987), Chartier (1990) e Ginzburg (1991), numa 
reviravolta em termos de abordagem cujos frutos serão colhidos mais tarde. 
A questão epistemológica da história cultural estaria centrada no conceito de 
cultura como objeto de investigação, no estudo das representações sociais, das 
práticas culturai s e do processo de apropriação. 
As representações construídas sobre o mundo não só se colocariam no lugar 
do mundo, como fariam com que os homens percebessem a realidade e a partir 
delas pautassem sua existência. Seriam elas as geradoras de condutas e práticas 
culturais e sociais. Caberia à história cultural resgatar representações, construindo 
uma representação sobre o que já foi representado. A esse conceito, outro seria 
anexado: o de imaginário, como “um sistema de ideias e imagens de representação 
coletiva que os homens, em todas as épocas, construíram para si, dando sentido 
ao mundo” (PESAVENTO, 2005, p. 43). 
 
12 
 
 
O imaginário comportaria as crenças, mitos, ideologias, valores, construindo 
identidades e exclusões, hierarquizando, dividindo, apontando semelha nças e 
diferenças sociais, organizando o mundo, produzindo a coesão ou o conflito. 
Partindo dessas reflexões, a metodologia de pesquisa que mais se adequaria à 
história cultural seria a fenomenologia, à qual incumbiria descrever, e não explicar 
nem analisa r (TRIVIÑOS, 2006, p. 43). 
Não haveria interesse em colocar em relevo a historicidade dos fenômenos, 
desde que estes, submetidos à redução fenomenológica, se manifestassem em 
toda sua pureza. O importante, na opção de pesquisa, é que o pesquisador 
mantenha coerência entre sua concepção de mundo e o quadro teórico que lhe 
serve de apoio. 
O prefácio da “Introdução à Pesquisa em Ciências Sociais”, de Augusto N. 
S. Triviños é elucidativo a respeito: 
Devemos ser claros, porém, que a necessidade de colocar nossos pontos de vista neste 
livro deve - se, primordialmente, a uma realidade que muitas vezes constatamos: a confusão, a 
mistura, o ecletismo, que guiam muitas das pesquisas que repousam nasprateleiras das bibliotecas 
do ensino superior, e que fazem delas um co njunto de idéias sem a amarra de conceitos centrais 
orientadores (TRIVIÑOS, 2006, p. 13). 
Com base nos conceitos centrais orientadores da história cultural, a memória 
de um indivíduo comum “pode ser investigada como se fosse um microcosmo de 
uma camada so cial inteira em um determinado período histórico”, como ensina 
Ginzburg (1991, p. 22). 
 
c. A REALIDADE CONSTRUÍDA E VIVIDA: AS 
REPRESENTAÇÕES 
Ao lermos as concepções e considerações de Peter Burke, Roger Chatier e 
Sandra Pesavento, observamos que o conceito de História Cultural se faz em torno 
dos significados construídos pelo homem, pois é a partir da leitura dos mesmos que 
o historiador cultural pode apreender o modo de viver e pensar de uma sociedade, 
de um grupo ou mesmo de um indivíduo, como Carlo Ginzburg mostrou em O 
Queijo e os Vermes, ao contar a história de Menocchio. 
13 
 
 
A palavra significado remete-nos ao signo que, linguisticamente, é formado 
de significante e significado, os quais são ligados de maneira arbitrária e conjetural 
a partir de uma convenção social partilhada por todos os membros que compõem 
essa sociedade. Como menciona Foucault (2000), o signo deve encontrar seu 
espaço no interior do conhecimento e só existe a partir do momento em que seja 
conhecida por todos do grupo a possibilidade de relação de substituição entre dois 
elementos já conhecidos. Servir-se de signos é tentar descobrir seu caráter 
arbitrário, o qual autoriza sua existência numa determinada época e numa dada 
sociedade; é tentar analisar as leis que regem sua composição e existência. A 
História Cultural serve-se de signos, símbolos, marcas e representações para 
compreender uma dada época e sociedade. 
A representação nada mais é do que um signo, e seu conceito tem 
acompanhado as concepções acerca da História Cultural e delineado seu campo 
de investigação. Roger Chartier (1988) afirma que os esquemas intelectuais criam 
as representações que conferem um sentido ao mundo e que possibilitam 
decifrarmos como, historicamente, os homens expressaram a si próprios e o 
mundo, pois as representações são matrizes de condutas e constituintes de 
práticas de uma sociedade. 
Essa nova maneira de trabalhar com a cultura e a história traz aos 
historiadores culturais também maneiras diferentes de se olhar para as fontes e os 
documentos, que agoram passam a ser vistos também como representações do 
passado, materiais passíveis de perguntas. Dessa forma, o historiador da cultura, 
segundo Pesavento (2005), visa construir as representações do passado por meio 
de documentos e fontes que representam esse passado. A História Cultural é uma 
narrativa de representações do passado, pois formula versões, compreensíves e 
plausíveis sobre as experiências vividas pelos homens em outro tempo. 
(PESAVENTO, 2005). 
 
14 
 
 
 
Peter Burke (1992), ao comentar em seu texto sobre o problema das fontes 
históricas, vivenciado pelos novos historiadores, salienta a necessidade do 
historiador ler as entrelinhas dos documentos, e ter a consciência de que todo 
documento, imagem ou objeto são produções humanas; portanto, representações 
da realidade. Desse modo, as fontes não falam por si somente, elas exigem a 
análise cuidadosa do historiador, com a finalidade de apreender tanto as falas 
quanto os silenciamentos presentes nelas, conforme as palavras de Pesavento 
(2005, p.41): 
As representações são também portadoras do simbólico, ou seja, dizem mais do que aquilo 
que mostram ou enunciam, carregam sentidos ocultos, que, construídos social e historicamente, se 
internalizam no inconsciente coletivo e se apresentam como naturais, dispensando reflexão. 
Roger Chartier (1988) reforça a não existência de uma neutralidade nas 
representações, mostrando que as mesmas devem ser tomadas como construções 
históricas surgidas por relações de lutas, disputas e conflitos. 
As representações do mundo social assim construídas, embora aspirem à universalidade 
de um diagnóstico fundado na razão, são sempre determinadas pelos interesses de grupo que as 
forjam (CHARTIER, 1998, p. 17). 
O papel do historiador cultural volta-se, então, para o deciframento das 
fontes que lhe são apresentadas. Ele é um decifrador que se vale de provas, de 
15 
 
 
indícios cuidadosamente pesquisados, selecionados e combinados para revelar os 
significados de uma época (PESAVENTO, 2005). E nesse momento é que o 
historiador deve contar com sensibilidade e intuição de Sherlock Holmes, Giovanni 
Morelli ou Sigmund Freud, mencionados por Ginzburg (1989) ao explicar sobre o 
novo método epistemológico, o paradigma indiciário. 
O paradigma indiciário emergiu como modelo epistemolódico no final do 
século XIX, no âmbito das ciências humanas. Na arte, na literatura, na psicologia, 
na semiótica médica podemos encontrar exemplos e utilização desse método que 
se volta para análise de dados particulares, insignificantes, negligenciáveis e 
imperceptíveis, na tentativa de revelação de fenômenos mais gerais. Giovanni 
Morelli utilizava-se desse método para distinguir as cópias de quadros pintados por 
grandes pintores, baseando-se em pormenores da pintura que revelavam o estilo 
próprio do pintor, menos influenciados pelas características da escola à qual 
pertencia e, portanto, mais difíceis de serem imitados. 
Na literatura, Conan Doyle constrói seu mais famoso personagem, o detetive 
Sherlock Holmes, que aplica o método para descobrir autores de crimes baseando-
se em indícios imperceptíveis para a maioria. A partir de gestos inconscientes das 
pessoas o caráter pode ser revelado. Na psicologia, temos Sigmundo Freud, 
considerado o pai da psicanálise, que revela ter recebido influências de Giovanni 
Morelli, a partir da leitura de seus livros. O método interpretativo, centrado nos 
indícios e nos dados marginais, é considerado revelador e serve para fazer emergir 
os produtos mais elevados do espírito humano, objetos da psicologia. 
Ginzburg (1989, p. 151) encontra um ponto de encontro entre os 3 casos - a 
semiótica médica -, que consiste na “disciplina que permite diagnosticar as doenças 
inacessíveis à observação direta na base de sintomas superficiais, às vezes 
irrelevantes aos olhos do leigo”. 
No entanto, as raízes do paradigma indiciário são bem mais antigas, 
originam-se de um saber venatório, o saber relativo à caça, no qual o caçador 
reconstrói as formas e movimentos de suas presas invisíveis por intermédio das 
pegadas deixadas pela floresta, dos ramos quebrados, do esterco, do tufo de pelos 
e dos odores. A partir desses indícios, sinais, o caçador lê as pistas deixadas pelos 
animais e encontra sua presa. 
16 
 
 
As pegadas, os tufos de pelos, os odores tornam-se significantes passíveis 
de um significado relevante ao caçador: são signos a serem decifrados, pois trazem 
com eles um conhecimento sobre a caça. Para Ginzburg (1989), as disciplinas que 
têm por objeto casos, situações e documentos individuais, como a medicina, a 
filologia e a história, são consideradas disciplinas indiciárias. 
Conforme já mencionamos, apoiados nas concepções de Pesavento (2005), 
a História Cultural constrói uma representação sobre o representado. O 
conhecimento histórico por ela produzido é considerado um conhecimento indireto, 
indiciário e conjetural; por esta razão o paradigma indiciário proposto por Ginzburg 
(1989) pode ser considerado um método que muito contribui para o perfil da 
investigação na qual o historiador cultural mergulha. Movido pela suspeita, pelas 
perguntas que levanta sobre o passado, o historiador reúne dados, organiza-os, 
compara-os, classifica-os a partir das pistas, dos indícios que esses dados lhe 
apresentam. 
São pormenores, particularidades, silêncios, falas, contextos que formam um 
conjunto de significados expostos à sensibilidade e intuição do historiador,pois “se 
a realidade é opaca, existem zonas privilegiadas – sinais, indícios – que permitem 
decifrá-la” (GINZBURG, 1989, p. 177). 
O passado não se mostra por inteiro nas fontes de pesquisa, apenas reflete 
nuances de como o mundo se apresentava e era representado por uma época. 
Cabe 78 ao historiador decifrar essas nuances, na tentativa de compreender aquilo 
que já foi vivido e experimentado pela existência humana. 
A intuição delineia um rigor flexível ao paradigma indiciário, muito desejável, 
segundo Ginzburg (1989), para formas de saber mais ligadas à experiência 
cotidiana, como é o caso da história. Por meio da sua intuição, o historiador constrói 
uma quebra-cabeça com os traços e registros do passado que são capazes de 
produzir um sentido. E deve ir mais além, deve construir esse quebra-cabeça a 
partir do contexto no qual o seu objeto de pesquisa se insere (PESAVENTO, 2005). 
Assim, cuidado e atenção dados às fontes, a utilização de um método 
estratégico e flexível, mas que lhe dará mais chances de se aproximar da realidade 
construída pelo homem em seu tempo, a intuição e o rigor científico darão 
autoridade da fala ao historiador cultural, para validar a representação que 
17 
 
 
construiu do passado, a partir de sua pesquisa, como algo plausível de ter 
acontecido, pois como diz Pesavento (2005, p. 119): 
A História Cultural pressupõe um método, trabalhoso e meticuloso, para fazer revelar os 
significados perdidos do passado. Pressupõe ainda uma carga de leitura ou bagagem acumulada, 
para potencializar a interpretação por meio da construção do maior número de relações possível 
entre os dados. Como resultado, propõe versões possíveis para o acontecido, e certezas 
provisórias. 
 
d. AS ACEPÇÕES DO PATRIMÔNIO CULTURAL 
Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN, o 
patrimônio cultural de um povo é formado pelo conjunto dos saberes, fazeres, 
expressões, práticas e seus produtos, que remetem à história, à memória e à 
identidade desse povo. 
O patrimônio cultural de uma sociedade é também fruto de uma escolha, 
que, no caso das políticas públicas, tem a participação do Estado por meio de leis, 
instituições e políticas específicas. Essa escolha é feita a partir daquilo que as 
pessoas consideram ser mais importante, mais representativo da sua identidade, 
da sua história, da sua cultura, ou seja, são os valores, os significados atribuídos 
pelas pessoas a objetos, lugares ou práticas culturais que os tornam patrimônio de 
uma coletividade (ou patrimônio coletivo). 
De acordo com o Art. 216 da Constituição Federal Brasileira constituem 
patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados 
individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à 
memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira. 
 São eles: 
 As formas de expressão; 
 Os modos de criar, fazer e viver; 
 As criações científicas, artísticas e tecnológicas; 
 As obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços 
destinados às manifestações artístico-culturais; 
 Os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, 
arqueológico, paleontológico, ecológico e científico. 
18 
 
 
A Lei nº 4.741 de 17 de dezembro 1985, que dispõe sobre o tombamento de 
Bens para integração no Patrimônio Histórico, Artístico e Natural do Estado de 
Alagoas, afirma que patrimônio cultural consiste nos bens de interesse cultural e 
consequentemente suscetíveis da proteção e vigilância do Poder Público estadual 
todos aqueles que, móveis ou imóveis, atuais ou futuros, existentes no território 
alagoano, por seu valor histórico, artístico, arqueológico, etnográfico, paisagístico, 
folclórico ou bibliográfico, mereçam ser preservados de destruição ou de utilização 
inadequada. 
O patrimônio cultural pode ser classificado quanto à sua natureza, que 
pode ser material ou imaterial. 
O patrimônio material consiste, segundo o Decreto-Lei nº 25/1937, no 
conjunto de bens culturais móveis e imóveis existentes no país e cuja conservação 
seja de interesse público, quer por sua vinculação a fatos memoráveis da história 
do Brasil, quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico 
ou artístico. 
 
Já o patrimônio imaterial, por sua vez, é definido pela UNESCO como as 
práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas – com os 
instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados - que 
as comunidades, os grupos e, em alguns casos os indivíduos, reconhecem como 
parte integrante de seu patrimônio cultural. 
19 
 
 
 
A noção de patrimônio advém etimologicamente da concepção de "herança 
paterna". Esse termo nas línguas românicas, segundo Pedro Paulo Funari, deriva 
do latim patrimonium e faz alusão à "propriedade herdada do pai ou dos 
antepassados" ou "aos monumentos herdados das gerações anteriores". Para o 
referido historiador e arqueólogo, essas expressões fazem menção a moneo, que 
em latim significa "levar a pensar". Portanto, as noções de patrimônio cultural 
mantêm-se vinculadas às de lembrança e de memória — uma categoria basal na 
esfera das ações patrimonialistas, uma vez que os bens culturais são preservados 
em função dos sentidos que despertam e dos vínculos que mantêm com as 
identidades culturais. 
Nos recônditos da memória residem aspectos que a população de uma dada 
localidade reconhece como elementos próprios da sua história, da tipologia do 
espaço onde vive, das paisagens naturais ou construídas. A memória, do ponto de 
vista de Jaques Le Goff, estabelece um "vínculo" entre as gerações humanas e o 
"tempo histórico que as acompanha". Tal vínculo, além de constituir um "elo afetivo" 
que possibilita aos cidadãos perceberem-se como "sujeitos da história", plenos de 
direitos e deveres, os torna cônscios dos embates sociais que envolvem a própria 
paisagem, os lugares onde vivem, os espaços de produção e cultura. Sob essa 
ótica, Le Goff destaca que a "identidade cultural de um país, estado, cidade ou 
comunidade se faz com a memória individual e coletiva"; a partir do momento em 
que a sociedade se dispõe a "preservar e divulgar os seus bens culturais" dá-se 
início ao processo denominado pelo autor como a "construção do ethos cultural e 
de sua cidadania". 
20 
 
 
O ethos cultural, em essência, tangencia tudo aquilo que distingue a 
existência dos grupos sociais no interior de uma sociedade. Observado 
isoladamente, o vocábulo cultura, advindo de colere, denota o sentido de cultivar, 
originalmente circunscrito ao labor agrícola, mas o termo ainda contempla a 
educação, a polidez, a civilidade do indivíduo. Sem dúvida, a cultura apreendida 
como "formas de organização simbólica do gênero humano remete a um conjunto 
de valores, formações ideológicas e sistemas de significação" que norteiam os 
"estilos de vida das populações humanas no processo de assimilação e 
transformação da natureza". 
 
No âmbito do patrimônio, o restabelecimento da acepção antropológica da 
cultura como "todo conhecimento que uma sociedade tem de si mesma, sobre 
outras sociedades, sobre o meio material em que vive e sobre sua própria 
existência" provocou a ampliação do conceito. Este passou a abarcar também as 
maneiras de o ser humano existir, pensar e se expressar, bem como as 
manifestações simbólicas dos seus saberes, práticas artísticas e cerimoniais, 
sistemas de valores e tradições. Essa noção de cultura, fomentada desde o início 
da década de 1980 nas convenções internacionais promovidas pela Organização 
das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura — Unesco, adquiriu maior 
magnitude em 1985, por ocasião da "Declaração do México". 
21 
 
 
A caracterização ampliada da cultura, apresentada nesse documento, 
definiu o patrimônio como produções de "artistas, arquitetos, músicos, escritores e 
sábios", "criaçõesanônimas surgidas da alma popular" e "valores que dão sentido 
à vida". Nessa linha argumentativa, a referida declaração frisou a importância da 
preservação de "obras materiais e não materiais que expressassem a criatividade 
de um povo: a língua, os ritos, as crenças, os lugares e monumentos históricos, a 
cultura, as obras de arte e os arquivos e bibliotecas". E também salientou que a 
"preservação" e o "apreço" pelo patrimônio cultural permitem aos povos a "defesa 
da sua soberania e independência". 
Há que se admitir que embora a definição de patrimônio cultural busque 
contemplar as mais diversas formas de expressão dos bens da humanidade, 
tradicionalmente o referido conceito continua sendo apresentado de maneira 
fragmentada, associado às distintas áreas do conhecimento científico que o 
definem como patrimônio cultural, natural, paisagístico, arqueológico e assim por 
diante. 
Contudo, nos últimos anos do século XX e início do século XXI, já se 
depreende que essas áreas se inter-relacionam e que, independentemente das 
suas respectivas categorias, todo o patrimônio se configura e se engendra 
mediante suas relações com a cultura e o meio. Sem dúvida, hoje se reconhece 
que a cultura é construída historicamente, de forma dinâmica e ininterrupta, 
alterando-se e ampliando seu cabedal de geração em geração, a partir do contato 
com saberes ou grupos distintos. 
A emergência de uma "consciência preservacionista" na esfera ambiental se 
consolidou na década de 1980, mas essa mobilização não partiu do Estado como 
ocorreu com o patrimônio histórico durante a Revolução Francesa, no século XVIII. 
Pelo contrário, o movimento em prol do direito e da proteção ao meio ambiente se 
irradiou através da comunidade científica e acabou difundido entre organizações 
não-governamentais que passaram a reivindicar melhor "qualidade de vida" no 
planeta. Entretanto, a questão da preservação do patrimônio natural vem 
suscitando polêmicas desde longa data. Para as correntes naturalistas do século 
XIX, a maneira mais adequada de garantir a proteção das áreas naturais residia em 
afastá-las do homem. Esse entendimento, por sua vez, consistia em uma reação à 
22 
 
 
corrente culturalista, segundo a qual a natureza representava uma ameaça de volta 
à condição "selvagem" do homem. 
Em meados do século XIX, a concepção de wilderness (ou mundo selvagem) 
favoreceu a criação de parques e estações ecológicas americanas e a edificação 
de uma imagem incompatível entre a existência humana e a conservação da 
natureza — o que implicou a defesa do uso restrito (ou sua total supressão) das 
áreas de proteção ambiental. No século XXI, o reconhecimento das chamadas 
populações tradicionais e da sua possível contribuição para a conservação e 
manutenção da diversidade biológica apontou o surgimento de um ecologismo 
diferenciado daquele emergente nos países industrializados que sacralizavam o 
mito da "natureza intocada", dois séculos antes. A acepção do "equilíbrio dos 
ecossistemas" e do "novo naturalismo", manifestos por meio de movimentos 
sociais, primou pela diversidade cultural e pela união entre o homem e a natureza 
de modo a garantir a gestão democrática dos espaços territoriais e o adequado 
manejo das áreas de proteção ambiental. 
Ainda assim, faz-se necessário atentar para as armadilhas decorrentes das 
visões simplistas que, por um lado, apostam na possibilidade de a tecnologia 
moderna reverter qualquer impacto das atividades humanas sobre a natureza, e 
por outro, defendem que as populações tradicionais figuram como 
"conservacionistas natos" ou profundos conhecedores da dinâmica do mundo 
natural. Talvez, as saídas para esses impasses se delineiem mediante o 
investimento em pesquisas sobre as possibilidades de se relativizar a manutenção 
da diversidade biológica e a conservação da pluralidade cultural. 
Noutro extremo, não se pode negligenciar a complexidade adquirida pela 
temática do patrimônio natural, quando esta se articula à noção de paisagem, uma 
vez que ela incorpora as relações do homem com o meio, e ainda sugere que os 
"modos" ou "gêneros" do viver humano produzem "paisagens culturais". As 
singularidades relacionais entre as culturas e o meio ambiente definem, conforme 
os fundamentos da geografia cultural, os traços da própria paisagem e a distinguem 
de outros espaços, determinando o seu geni'us loci, ou seja, a "alma do lugar". 
Nesse âmbito, torna-se possível apreender por que Augustin Berque afirma que a 
"paisagem é uma marca, pois expressa uma civilização" e, ao mesmo tempo, 
"participa dos esquemas de percepção, de concepção e de ação — ou seja, da 
23 
 
 
cultura — que canalizam, em certo sentido, a relação de uma sociedade com o 
espaço e com a natureza". 
Sob esse enfoque o conceito de patrimônio ambiental adquire dimensões 
sociais, cujo significado aponta a materialização dos sentidos atribuídos no decorrer 
do processo histórico e lhe imprime uma perspectiva dinâmica, uma conotação que 
fomenta a consciência do uso comum do meio e, principalmente, a 
responsabilidade coletiva pelo espaço. As demandas da modernização imputam às 
elites políticas e intelectuais latino-americanas a necessidade de normatizar as 
formas de apropriação dos territórios. No decorrer do século XX, a noção de 
patrimônio ambiental urbano amplia-se e também passa a ser considerada fator de 
reconhecimento dos núcleos históricos. 
Aliás, a natureza não raro referendou representações de memórias coletivas 
e, como bem o lembram Gilmar Arruda e Zélia Lopes da Silva, cristalizou elementos 
fundantes das construções identitárias de distintas sociedades, inclusive da 
brasileira. Mas, entre 1932 e 1937, os efeitos do desmatamento e da "descarga" de 
dejetos residenciais e resíduos industriais nos mananciais urbanos passaram a 
constituir alvo de matérias veiculadas por meio do jornal Correio da Manhã, do Rio 
de Janeiro, e a serem debatidos em associações como a "Academia Brasileira de 
Ciências", a "Sociedade Amigos das Árvores" e a "Sociedade Amigos de Alberto 
Torres". A ampliação das interpretações sobre a natureza alcança os debates entre 
os constituintes e a redação da Carta Magna de 1937 chega a referir-se aos bens 
naturais como "monumentos" da nação brasileira. 
 
A defesa efetiva dos bens naturais e culturais do país acabou sendo 
implementada através do Decreto-Lei no 25/1937, referente ao tombamento, porém 
os termos dessa proteção se restringiram, conforme o artigo primeiro da lei, aos 
24 
 
 
valores paisagísticos e estéticos referentes aos "sítios e paisagens" distinguidos 
"pela feição notável com que tenham sido dotados pela natureza ou agenciados 
pela indústria humana". Passados 51 anos, os bens enumerados no artigo no 216 
da Carta Constitucional do país (1988) mantiveram-se articulados às noções de 
patrimônio ambiental circunscritas aos "conjuntos urbanos e sítios de valor 
histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e 
científico". Nessa direção, se reconhece que o tombamento ainda persiste como o 
instrumento mais eficaz para a proteção dos bens naturais e culturais. 
Os critérios de promoção de certos bens à condição de patrimônio têm se 
vinculado à imputação de valores culturalmente defensáveis. Desde a instituição 
da "Convenção do Patrimônio Mundial", em 1972, a definição dos parâmetros para 
identificação dos bens de interesse universal tem oscilado entre critérios como 
raridade, urgência, autenticidade, integridade e universalidade. Hoje, os critérios de 
autenticidade e universalidade têm sido tomados como balizas definidoras dos bens 
integrados à Lista do Patrimônio da Humanidade. Cabe ressaltar que a par da 
importância atribuída aos bens, perfilham-se os seus significados afetivos, culturais, 
estéticos, sociais, históricos, econômicos e técnicos. Por essa razão o francês 
Hugues de Varine-Bohan argumentou, há mais de36 anos, que o patrimônio 
cultural deveria ser abordado da perspectiva de três vetores básicos: o do 
conhecimento, o dos bens culturais e o do meio ambiente. Sob esse prisma, definia 
o "patrimônio do conhecimento" como os "costumes", as "crenças" e o "saber fazer" 
capaz de viabilizar a sobrevivência do homem no meio ambiente onde vivia, e 
delimitava o "patrimônio dos bens culturais" como conjunto de artefatos e tudo o 
mais que derivava do uso do patrimônio ambiental. Este último contemplava os 
elementos inerentes à natureza, como o próprio meio e os recursos naturais. 
Talvez a maior releva ncia da abordagem de Varine-Bohan deva-se ao fato 
de que tais acepções do patrimônio coadunam-se às noções de bens naturais e 
culturais, concatenadas mediante as articulações entre natureza e cultura, haja 
vista que a própria cultura parece ser conc ebi da pelo autor como a "natureza 
transformada pelo trabalho humano". Ora, na medida em que os bens culturais 
parecem entendidos como resultado da transformação da natureza, se reconhece 
que as constantes alterações do meio decorrem das novas necessidades que 
surgem ao longo da existência humana. Interpretada dessa maneira, a referida 
25 
 
 
definição do patrimônio ambiental inclui não somente os "recursos naturais" ou "a 
natureza não apropriada pelo trabalho", mas também os subsídios da construção 
cultural, quais sejam, os ambientes urbanos percebidos como lócus da 
materialização das relações sociais. 
Esse ponto de vista permite ainda a incorporação do conceito de 
territorialidade à questão do patrimônio, pois, como bem o lembra Milton Santos, os 
territórios se delineiam a partir de "sua utilidade atual, passada e futura", derivam 
do uso que lhes é atribuído "pelos grupos humanos que os criaram ou que os 
herdaram das gerações anteriores". Essa assertiva descortina as múltiplas facetas 
da problemática patrimonial, libertando-a da clausura inerente às definições 
isoladas, sem dissociá-la das referências culturais e do espaço geográfico. Assim, 
se depreende que a interpretação do patrimônio cultural ou do patrimônio ambiental 
não pode ser abstraída dialeticamente das ações historicamente responsáveis por 
sua construção, nem tampouco do sentido de pertencimento. 
Exposto isso, vale lembrar que a instituição do tombamento para fins de 
proteção do patrimônio também se engendrou no contexto da Modernidade. 
Curiosamente, a proteção de ecossistemas, paisagens naturais, conjuntos 
arquitetônicos, centros urbanos, monumentos, sítios arqueológicos, peças móveis, 
manifestações culturais e artísticas prefigurou-se, por algum tempo, como um 
movimento anacrônico devotado a refrear as trajetórias progressivas do 
desenvolvimento e a domesticação da natureza. Em meio às contínuas 
transformações advindas da modernização, a defesa do meio ambiente e das 
tradições culturais foi dotada do sentido de afiançar a imortalidade dos signos da 
identidade nacional, cultural e ecológica. Portanto, somente nos últimos anos do 
século passado a preservação dos bens naturais e culturais passou a ser admitida 
como uma atitude positiva e inteligível. 
Nesse contexto, como tem sido tratado o patrimônio cultural latino-
americano? Quais as implicações da preservação num continente territorialmente 
vasto e culturalmente diversificado? As várias nações latino-americanas têm 
características pluriculturais oriundas de suas inúmeras etnias. Essa riqueza 
cultural se inscreve num processo dinâmico que se reorganiza, se renova e se 
transmite de geração em geração. Trata-se de um processo contínuo, apontado 
pelos especialistas como um sistema capaz de reafirmar a identidade do povo 
26 
 
 
latino-americano e de promover o seu desenvolvimento. Mas, a complexidade da 
proteção de uma coleção tão extensa de bens culturais dispersos em tão imenso 
território tem implicado a adoção de ações pontuais no campo das políticas públicas 
devotadas à defesa do patrimônio e do turismo. Estas têm sido respaldadas pela 
implantação de cursos de Educação Patrimonial e Educação Ambiental, tomadas 
como instrumentos para a construção da cidadania, do progresso econômico e da 
preservação dos bens culturais e sócio-ambientais. 
Assim, cabe indagar de início quais as práticas preservacionistas adotadas 
na América Latina, e depois, investigar de que maneira o Brasil tem enfrentado o 
desafio de associar a preservação do patrimônio cultural material e imaterial, a 
recuperação da memória social, o desenvolvimento e o crescimento urbano. 
 
e. A INFLAÇÃO PATRIMONIAL, TRANSCURSO DO 
TEMPO 
Observamos o termo “patrimônio” adentrar o século XXI como uma espécie 
de cruzada ocidental, conduzida pelo seu poder de evocação (POULOT, 2009), até 
tornar-se, com o seu correlato “conservação”, o novo imperativo a operar sobre os 
deslocamentos das sensibilidades temporais (HARTOG, 2006). 
Os sentidos múltiplos atribuídos à palavra patrimônio dotaram-na de uma 
complexidade conceitual que vozes simultâneas, entrelaçadas e distintas 
repertoriam os diversos usos da palavra para dizer coisas muitas vezes diferentes 
e nem sempre harmoniosas entre si. É a batalha semântica a qual nos reporta 
Kosellek para interpretarmos a polissemia que palavras e conceitos compartilham 
em sua vinculação com o presente. 
Os conceitos são, portanto, vocábulos nos quais se concentra uma multiciplicidade de 
significados. O significado e o significante de uma palavra podem ser pensados separadamente. No 
conceito, significado e significante coincidem na mesma medida em que a multiciplicidade da 
realidade e da experiência histórica se agrega à capacidade de plurissignificação de uma palavra, 
de forma que seu significado só possa ser conservado e compreendido por meio dessa palavra. 
Uma palavra contém possibilidades de significado, um conceito reúne em si diferente totalidades de 
sentidos (KOSELLECK, 2006, p. 108-109). 
27 
 
 
Em sintonia com o “boom da memória”, a onda universalizante do patrimônio, 
em sua versão ampliada e rotinizada, tem convergido para a vulgarização da ideia 
de que tudo é patrimônio ou, potencialmente, poderia vir a ser. Vivemos uma 
obsessão pelo patrimônio. Cada vez mais o vocábulo tem figurado os 
empreendimentos de toda ordem – seja político, social, econômico e/ou simbólico 
– e mobilizado diferentes ações de preservação com vistas aos interesses das 
comunidades em escalas locais, nacionais e internacionais. 
Mas se, por um lado, é notório que a palavra patrimônio distanciou-se de sua 
concepção original de monumento histórico, por outro lado, passou a designar, 
simultaneamente, o conjunto das manifestações culturais em sua diversidade de 
suporte material, natural e intangível. Na condição de uma categoria aberta, tem 
assimilado novos conteúdos e significados como as crenças, o artesanato, a 
culinária, a música, a dança, o teatro, as festas, a paisagem, as tradições oral e 
escrita, as práticas sociais, as técnicas, etc.; ao mesmo tempo, tem resignificado 
outros já consagrados como a arquitetura (erudita, vernácula, corrente) (CHOAY, 
2005). 
Segundo François Hartog (2006, p. 272), “seria ilusório nos fixarmos sobre 
uma acepção única do termo”: 
O patrimônio é uma maneira de viver as rupturas, de reconhecê-las 
e reduzi-las, referindo-se a elas, elegendo-as, produzindo semióforos. 
Inscrito na longa duração da história ocidental, a noção conheceu diversos 
estados, sempre correlatos com tempos fortes de questionamento da ordem 
do tempo. O patrimônio é um recurso para o tempo de crise. Se há assim 
momentos do patrimônio, seria ilusório nos fixarmos sobre uma acepção 
única do termo. 
Na assertiva de Hartog (2006, p. 272), os diversos sentidos do patrimônio 
foram se configurando “sempre correlatos com tempos fortes de questionamento 
da ordem do tempo”. Em par com a memória, constitui-se palavra-chave de nossa 
experiência temporal contemporânea. Ambos representamum mesmo movimento: 
ao mesmo tempo em que são sintomas e traduzem o que somos hoje, cumprem 
uma função de proteção e refreamento ao mal-estar causado “pela nossa profunda 
ansiedade com a velocidade de mudanças e um contínuo encolhimento dos 
horizontes de tempo e espaço” (HUYSSEN, 2000, p. 28). 
28 
 
 
Ao relacionar patrimônio e memória como testemunhos de um tempo de 
crise, Hartog opera com um novo “regime de historicidade” que o Ocidente vive 
desde a Queda do Muro de Berlim (1989). Esta noção possibilitou compreendermos 
a complexidade do tempo tanto no sentido de “como uma sociedade trata o seu 
passado” quanto “a mobilidade de si de uma comunidade”, ou seja, “maneiras de 
ser no tempo” (HARTOG, 2006, p. 262-263). Tal constatação emerge da 
observação do autor em relação ao crescimento rápido da categoria do presente, 
que se impôs como evidência de um tempo presente onipresente, nomeado por ele 
de “presentismo”, onde se vive entre a amnésia e vontade de nada esquecer. 
O fenômeno da patrimonialização que marcou as três últimas décadas do 
século XX trouxe, associados à logica do conservar e destruir, os conceitos de 
identidade e memória como palavras de ordem do processo de representação de 
uma retórica da perda (GONÇALVES, 1996). Nesse contexto, a função social 
atribuída ao recurso identitário conferido ao patrimônio se impôs como um 
reconhecimento de sua necessidade (JEDY, 1990). 
De lá para cá, o que se observou foi uma busca desenfreada pelo passado 
consubstanciada pelos movimentos de defesa da diversidade cultural e pelo desejo 
de transformar nossas histórias, monumentos e manifestações culturais em 
patrimônio (LOWENTHAL apud TAMASO, 2006). É o momento de uma virada em 
que a questão do patrimônio se transforma em dever de memória – “traço distintivo 
do momento que nós vivemos ou acabamos de viver: uma certa relação ao 
presente e uma manifestação do presentismo” (HARTOG, 2006, p. 271) operado 
pela obsessão em tudo preservar. 
29 
 
 
 
Pierre Nora (1993) identifica essa pulsão compensatória de tudo guardar e 
preservar em seu refinado diagnóstico da aceleração da história, objetivado pelo 
conceito de “lugares de memória”. Segundo o historiador, perdida a memória como 
elo de continuidade e preservação do social, seriam, os lugares de memória, a 
última fronteira na tentativa de restabelecer a continuidade entre presente e 
passado. Nascem como forma de compensar a perda, ainda que irreparável, da 
memória como experiência coletiva, resultando, daí, o fenômeno da 
patrimonialização da história. 
A própria semântica do termo patrimônio se constrói em sua relação 
mediatizada com o tempo avalia Manoel Luiz Salgado Guimarães (2012, p. 99): 
“O termo patrimônio supõe, portanto, uma relação com o tempo e 
seu transcurso. Em outras palavras, refletir sobre o patrimônio significa, 
igualmente, pensar nas formas sociais de culturalização do tempo, próprias 
a toda e qualquer sociedade humana”. 
Por outro lado, se a evidência do patrimônio corresponde ao desejo e 
necessidade de passado plasmado por uma “ilusão de continuidade” (CANDAU, 
2011, p. 159), diante das incertezas e angústias de um tempo saturado de presente, 
fracassaria a ideia de que o fenômeno da patrimonialização é sinal da obsessiva 
tentativa em domesticar o tempo: 
30 
 
 
De fato, é evidente que fracassaria o patrimônio que fosse um controle 
utópico do tempo, tentando reproduzi-lo de uma forma idêntica. O patrimônio não é 
o passado, já que sua finalidade consiste em certificar a identidade e em afirmar 
valores, além da celebração de sentimentos, se necessário, contra a verdade 
histórica. Neste aspecto é que a história parece, com tamanha frequência, “morta”, 
no sentido corrente. Mas, ao contrário, o patrimônio é “vivo”, graças às profissões 
de fé e aos usos comemorativos que o acompanham (POULOT, 2009, p. 12). 
Interessante perceber a leitura de Dominique Poulot quando colocada em 
conexão com a perspectiva do “presentismo” postulado por Hartog. No novo regime 
de historicidade, marcado pela crise de futuro, observamos os patrimônios se 
multiplicarem e a memória se tornar plural “graças às profissões de fé” e aos “usos 
comemorativos” que os revestem em nome de um “investimento de identidade” a 
ser transmitido. 
Essa nova experiência do tempo fechado em si mesmo, onipresente – onde 
o passado e o futuro são cotidianamente fabricados segundo sua própria 
necessidade – foi, simultaneamente, desenvolvendo o medo da amnésia (coletiva 
e individual) e a vontade de nada esquecer. Seria esta a condição do patrimônio e 
da memória que tem orientado as políticas de preservação? Não estaria, neste 
movimento reativo, a emergência de uma consciência patrimonial que tem 
impulsionado diferentes sujeitos a ações preservacionistas face ao processo de 
mudanças estruturais decorrentes de uma mundialização da cultura, do consumo e 
do turismo? E o que dizer do desejo e a necessidade das pessoas de verem o seu 
passado se transformar em patrimônio? 
Os anos de 1980 foram marcados pelos debates em torno da memória e do 
patrimônio, mais especificamente sobre os deslocamentos conceituais de um e de 
outro em perspectiva com os anseios de novos sujeitos históricos que entraram em 
cena e forjaram a necessidade de se repensar os silêncios e os ocultamentos, 
assim como o que deve ser protegido, valorizado, repertoriado. A memória se 
tornou plural. 
Outras vozes, narrativas, apropriações e sentidos passaram a informar e a 
conformar a memória de si e a memória nacional. Proliferam museus, memoriais, 
centros de memória, arquivos, memórias de bairros, de partidos, de sindicatos, de 
31 
 
 
igrejas, de grupos sociais, de acervos digitais, etc. A moda “retrô” invadiu a 
produção de documentários e novelas de época. 
O retorno das biografias tem, cada vez mais, seduzido os historiadores e 
público em geral. E que dizer do crescimento das autobiografias que se impõem 
como forma recorrente de expressão de arte contemporânea? Também o conceito 
de patrimônio cultural se multiplicou e foi ganhando diferentes significados. 
Transcendendo os adjetivos que recebeu ao longo do tempo (histórico, artístico, 
móvel, imóvel, tangível, intangível, material, imaterial, paisagístico, genético, 
tesouro vivo, etc.), a ressemantização do conceito de patrimônio é, em si mesma, 
sinalizadora das concepções de tempo, lugar social de produção, perspectiva 
teórica e metodológica e sentido político. 
Nesta perspectiva, o conceito de patrimônio deve ser pensado em termos de 
uma prática social construída histórica e culturalmente em consonância com a 
busca de identidade e as demandas de “vontade de memória” no tempo presente. 
Com frequência, o termo patrimonialização tem sido empregado para designar todo 
o processo de constituição de patrimônios a partir da seleção e atribuição de valor 
de referência cultural a bens e práticas culturais de determinados grupos de 
identidade. O ato de patrimonializar refere-se, assim, à ação de identificar os 
valores culturais de um dado bem, de os reconhecer socialmente e assim constituir 
patrimônio. 
 
f. PATRIMÔNIO E HISTORICIDADE DAS POLÍTICAS DE 
PRESERVAÇÃO NO BRASIL 
Os estudos de Françoise Choay (2006, p. 10), colocados sob a ótica de uma 
abordagem semântica do patrimônio e das críticas às políticas de 
patrimonialização, têm sido referência necessária para compreendermos os 
deslocamentos conceituais do termo em sua intrínseca relação com o tempo. 
Debruçada sobre o Der Moderne Denkmalkultus (O Culto moderno dos 
monumentos), de Alois Riegl, a autora traz à luz a distinção entre monumento e 
monumento histórico. 
Praticando a etimologia da palavra “monumento”, encontra em seu sentido 
original, antropológico, o seu caráter de “universal cultural” manifestado em 
32 
 
 
praticamente todas culturas. Enquanto “uma arte da memória”, sua nítida intenção 
é nostocar a lembrança. Já “a invenção do monumento histórico é solidária daquela 
dos conceitos de arte e história” e de uma concepção de tempo histórico, linear e 
irreversível. A teoria dos valores formulada por Riegl, no início do século XX, 
apresenta-se de suma importância para superar a ideia de que os monumentos são 
constituídos de categorias fixas e imutáveis. 
Segundo Choay (2006, p. 10), ao “empreender o inventário dos valores não 
ditos e das significações não explícitas, subjacentes ao conceito de monumento 
histórico”, Riegl encontrou, na Renascença, o distanciamento – que as culturas 
antiga e medieval ignoraram – para apreender a historicidade de tais valores em 
sintonia com as novas concepções de tempo e de espaço. Tal distanciamento, 
fundado na teoria dos valores, permitiu perceber os deslocamentos dos dispositivos 
mnemônicos em sua relação com o tempo. Se, no monumento, passado e presente 
estão entrelaçados em sua destinação memorial, no monumento histórico, as 
relações com a memória viva e a duração são determinadas pela emergência de 
um saber em estreita relação com formas diferenciadas de pensar historicamente. 
Ao ser considerado objeto de conhecimento, se insere numa concepção 
linear do tempo, uma vez que o valor cognitivo o reporta ao passado e à história 
em geral ou ainda à história da arte. Já na condição de objeto de arte, é o valor de 
sensibilidade que o torna “parte constitutiva do presente vivido, mas sem a 
mediação da memória e da história” (CHOAY, 2001, p. 26). 
São essas relações que se mantêm com o tempo, a memória e o saber, 
segundo Choay, é que vão determinar uma diferença maior quanto à conservação 
dos monumentos e dos monumentos históricos, respectivamente (CHOAY, 2001). 
Foi no contexto da Revolução Francesa e da construção das culturas 
nacionais que a ideia de nação veio conferir status ideológico ao conceito de 
patrimônio e assegurar, por meio da institucionalização de práticas específicas, a 
sua preservação. Se a possibilidade de conhecimento e o amor à arte não foram 
suficientes para garantir a sua preservação, o medo da destruição e da perda fez 
colocar no centro do debate a necessidade de sua preservação. Nessa perspectiva 
histórica, a constituição dos patrimônios tem seu momento fundador ligado à 
formação dos Estados modernos e à construção de uma identidade nacional. 
33 
 
 
 
No papel de testemunhos do passado, conformadores de um tempo 
nacional, consubstanciaram igualmente uma escrita da história política e 
ideologicamente comprometida com o projeto de construção da nação no século 
XIX. Neste contexto, a operação histórica (CERTEAU, 2000) se valeu dos adjetivos 
histórico, artístico e nacional como valores de testemunho, documentos de uma 
verdade que se buscava comprovar “tal como realmente aconteceu”, ou seja, 
monumentos, edificações e obras de arte passaram a ser sacralizados e 
preservados, investidos que estavam do poder de reificar a nação localizando-a no 
tempo e no espaço. 
Essa perspectiva francesa de patrimônio monumental fundada nos valores 
nacional, estético e didático passou a figurar como paradigma na constituição de 
políticas públicas de preservação do patrimônio no ocidente. A criação do Serviço 
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – SPHAN, em 1937, hoje, IPHAN e de 
seus congêneres em vários países da América Latina é exemplar. 
No Brasil, a ideia de uma singularidade nacional que norteou as narrativas 
sobre o passado caminhou em perspectivas distintas, mas complementares: a 
escrita da história e a institucionalização das práticas preservacionistas. De um 
lado, a criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e seus 
congêneres regionais que, em conjunto com o Arquivo Nacional, ambos criados em 
1838, iniciam o processo de institucionalização da memória nacional; de outro, as 
narrativas modernistas corroboraram para a fundamentação de um tempo nacional 
34 
 
 
tendo como um dos seus correspondentes ao projeto de construção da brasilidade 
a definição de uma noção de patrimônio cultural e a formulação de uma política de 
preservação. No projeto de consolidação do Estado Nacional, o duplo esforço de 
delinear a gênese da nação e garantir a consolidação de uma nova civilização nos 
trópicos foi acompanhado por uma escrita histórica peculiar ao IHGB. A concepção 
pragmática e exemplar de história assentada no tempo linear era a bússola padrão 
(GUIMARÃES, 1998). 
 
Assim, na perspectiva de forjar um lugar de memória e um modelo de história 
oficial, o IHGB pautava suas diretrizes centrais na coleta e publicação de 
documentos históricos sobre as diferentes regiões do Império. A fundamentação de 
um tempo nacional empreendido pelos modernistas dever ser entendida em 
consonância com as peculiaridades do movimento ensejado pelo desejo de 
inserção do Brasil no “concerto das nações civilizadas” (MORAES, 1978, p. 71). 
Passado o deslumbramento de renovação estética em sua primeira fase, 
todo o esforço do Modernismo foi direcionado para a construção de um projeto de 
cultura nacional assentado na dialética do local e do universal (CANDIDO, 2000). 
Na perspectiva de um nacionalismo universalista, foi-se delineando um passado a 
partir daquilo que nos individualiza e nos singulariza: a consciência do sentido de 
uma arte e de uma cultura nacionais levou os modernistas ao encontro dos 
testemunhos do passado colonial como signo do Brasil moderno. 
Nas representações da brasilidade procurada, o passado reelaborado é o 
tempo de origens da nação. Ali onde se encontra a tradição, os modernistas 
elegeram Minas Gerais e o barroco como berço da nação civilizada. Não é a toa 
que Mário de Andrade, já em 1919, fez sua primeira viagem às cidades históricas 
35 
 
 
do século XVIII, desconfiado estava que ali existiu uma primeira manifestação 
artisticamente brasileira. “É um fóssil, necessitando ainda de classificação, de que 
pouca gente ouviu falar e ninguém incomoda” (ANDRADE, 1972), declarou o poeta 
tomando para si essa missão. Já na companhia de outros modernistas que 
viajavam a Minas Gerais em 1924, é Malazarte quem relata: 
“Estávamos em busca de arte e de 
passado” (ANDRADE, 1972). 
Interessante observar que essas e outras viagens de descoberta do Brasil, 
representam a obsessiva tentativa do pai de Macunaíma de construção da nação. 
Aqui, o passado seria matéria-prima a ser resgatada como referencial. Não um 
passado que não existe mais, mas sim aquele que manifestado nas diferentes 
temporalidades confere sentidos às coisas mais comezinhas encontradas nas 
camadas sobrepostas do tecido social. 
A partir da experiência e aprendizado – de viajante e Diretor de 
Departamento de Cultura do Município de São Paulo –, Mário de Andrade 
organizou a Missão de Pesquisas Folclóricas (1936), de base etnográfica, e 
protagonizou uma de suas maiores contribuições para a história das práticas de 
preservação no Brasil materializada em seu “inventário dos sentidos” (NOGUEIRA, 
2005). Foi justamente do reconhecimento dessa experiência e engajamento dos 
intelectuais modernistas, encabeçados por Mário de Andrade, que surgiu um 
movimento de defesa e proteção dos monumentos históricos e artísticos nacionais 
culminando, na década de 1930, no processo de institucionalização das práticas de 
preservação do patrimônio cultural no Brasil em nível federal. 
Em 1936, a pedido do ministro da Educação e Saúde Gustavo Capanema, 
Mário de Andrade elaborou o anteprojeto que serviu de base para o decreto-lei 
25/37 de criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Antes 
disso, entretanto, é preciso reconhecermos que outras iniciativas já vinham se 
processando na área do patrimônio cultural como é o caso da fundação do Museu 
Histórico Nacional (1922), da criação das Inspetorias Estaduais de Monumentos 
Históricos: Minas Gerais (1926), Bahia (1927) e Pernambuco (1928),até a criação 
da Inspetoria de Patrimônios Nacionais, em 1934, subordinada à direção do Museu 
Histórico Nacional, representada por Gustavo Barroso. Nesse processo, um marco 
36 
 
 
importante para a história do pensamento preservacionista no Brasil foi a 
promulgação do decreto 22.298, de 12 de julho de 1933. Realizada por Getúlio 
Vargas, tal ação significou a elevação de Ouro Preto à categoria de monumento 
nacional. 
Além de assegurar que aquele passado histórico e estético, sagrado e cívico 
fosse protegido, o documento revelou uma concepção de patrimônio que elegeu 
como nosso primeiro monumento o espaço/tempo da cidade, sacralizando o lugar 
fundador da nação civilizada. Ali, a ideia de nação civilizada manifestada no barroco 
colonial mineiro colocou, no centro do debate, a natureza mesma do “ser histórico” 
e os usos do passado na construção de um Brasil moderno. 
Ainda na década de 1930, a criação do SPHAN (1937) pode ser observada 
como parte de uma conjuntura política explicitada em várias ações que marcaram 
o projeto ideológico do Estado varguista como agente fundamental na construção 
simbólica da nação. Mesmo que o decreto-lei 25/37 tenha restringido a concepção 
de arte patrimonial de Mário de Andrade, que procurava abarcar todas as 
manifestações e expressões do povo brasileiro, incluindo nas oito categorias de 
arte, além dos bens móveis e imóveis de valor histórico e artístico, a arte 
arqueológica, a arte ameríndia e a arte popular, a vitória dos modernistas foi 
constituída por meio de lutas, conflitos e negociações no interior do próprio Estado 
e de sua concepção sobre política preservacionista. 
O referido decreto trouxe, junto com a concepção de patrimônio fundado nos 
valores de monumentalidade e excepcionalidade, o tombamento e o restauro como 
instrumentos de preservação. O inventário, embora constasse no decreto, ficou 
relegado a um segundo plano, como reconheceu o próprio Rodrigo Melo Franco de 
Andrade, diretor do SPHAN (1937-1967). O tombamento, por sua vez, ganhou 
centralidade e contribuiu para a construção de um conceito hegemônico de 
patrimônio nacional que marcou a chamada fase da “sacralização da memória em 
pedra e cal” (CHUVA, 2009; FONSECA, 1997; NOGUEIRA, 1995, 2005; RUBINO, 
1991). 
 Diante dos impasses que envolviam os bens móveis e imóveis 
patrimonializados na complexa relação entre público e privado, o tombamento se 
apresentou como solução normativa viável. Entretanto, para além de seu caráter 
37 
 
 
técnico e legal, é preciso percebê-lo como um dispositivo que tem o poder 
nomeador de construir uma representação da nação – a partir das escolhas e dos 
valores atribuídos a bens patrimonializados – fundada em um continuum temporal. 
Segundo Julia Wagner Pereira (2012, p. 166), “ao recontextualizar o bem, 
remetendo-o simbolicamente a um espaço-tempo histórico-mítico, o tombamento 
acrescenta-lhe novos significados, que permitem transcender sua existência 
comum, passando a pertencer concomitantemente ao passado e ao presente”. 
A conformação de um quadro simbólico de legitimação da nação foi se 
configurando, no interior da política de preservação do patrimônio cultural do 
SPHAN, à medida que o “rito do tombamento” (KERSTEN, 2000, p. 49-50) conferia, 
ao conjunto do patrimônio cultural selecionado, status de documentos da nação, 
passível, portanto, de uma releitura do passado em articulação com um futuro a ser 
construído. Nesse processo, o resgate do passado para lançar-se ao futuro 
aproximou-se do ideário estado novista. Conhecer o passado e a tradição passou 
a ser visto como determinante para o projeto de construção de uma nova 
consciência para o futuro (OLIVEIRA, 2008, p. 122). 
Na construção da representação da nação, concomitantemente, foram 
dispostos um repertório de bens de excepcional valor e os conceitos clássicos de 
história e de cultura – respectivamente a oficial e a erudita – que caracterizaram 
sobremaneira a “fase heróica” do SPHAN, a “sacralização da memória em pedra e 
cal” (NOGUEIRA, 1995). Nesse sentido, costurou-se uma perspectiva elitista e 
redutora desenhada pela herança europeia decorrente da seleção dos exemplares 
arquitetônicos e artísticos do período colonial. 
Enfim, era preciso “autenticar” o Brasil como forma de garantia da entrada 
do país na “história universal das civilizações” (CHUVA, 2009). Mesmo diante das 
alterações contundentes dos anos 1930 no âmbito das ciências humanas, em 
virtude das análises inclusivas de Caio Prado Júnior, Gilberto Freyre e Sérgio 
Buarque de Holanda ou, mesmo antes, com os trabalhos do historiador cearense 
Capistrano de Abreu, não houve incorporação do legado cultural e histórico de 
múltiplas etnias. Assim, no novo desenho sobre a Nação, ficavam de fora as 
contribuições de índios e africanos, principalmente no que tange à nossa língua, 
costumes, religião, modos de morar, de cultivar, de comer, de festejar, etc. Na 
tradição preservacionista que vigorou até a década de 1970, também ficaram de 
38 
 
 
fora as contribuições dos imigrantes e a chamada tradição popular com suas festas 
e folguedos, de cunho religioso ou profano. 
 
Todo esse conjunto de manifestações foi alvo de interesse de folcloristas 
(Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro – CDFB), etnólogos e antropólogos 
que, durante boa parte do século XX, foram aprimorando uma metodologia de 
inventário e registro, segundo as acepções diferenciadas do popular e do lugar 
institucional ao qual pertenciam. A partir da década de 1970, uma nova relação 
entre patrimônio cultural e identidades começou a se configurar. 
Se, como mostrou Hartog, esse é o momento de uma virada em que a 
questão do patrimônio se transformou em dever de memória; em termos globais, o 
tempo nacional, que fundamentava uma singularidade nacional, desdobrou-se 
numa pluralidade de singularidades locais, tangíveis e intangíveis, mas, ainda 
assim, em diálogo com o nacional. É o momento em que o campo do patrimônio se 
torna mais complexo “levado a refletir sobre novas possibilidades de fronteiras ou 
clivagens, motivadas por outras dimensões de pertencimento que não à nação” 
(CHUVA, 2012, p. 73). 
Os estudos de Sérgio Miceli (1984), Renato Ortiz (1994), Alexandre Barbalho 
(1998) e Lia Calabre (2009) têm sido de fundamental importância para 
compreender os novos domínios da cultura no contexto do regime militar brasileiro. 
A formulação do Plano Nacional da Cultura em par com as metas da política de 
desenvolvimento social integradas nos Planos de Nacionais de Desenvolvimento 
39 
 
 
(PNDs) vai incidir diretamente nos órgãos de preservação da cultura quais sejam: 
o IPHAN e a CDFB. 
Nessa trajetória de mudanças, os primeiros sintomas de uma nova 
orientação voltada para a identificação da diversidade e o registro do popular 
ocorrem com a criação do Centro Nacional de Referência Cultural – CNRC (1975), 
posteriormente integrado à Fundação Nacional Pró-Memória (1979) por Aloisio 
Magalhães, portanto, um espaço fora do âmbito do Ministério da Educação e 
Cultura – MEC e da alçada do IPHAN. 
Mostrando-se ressonância do projeto andradino para o patrimônio, distingue-
se deste à medida que opera com o conceito de bem cultural como dispositivo 
capaz de identificar toda a dinâmica cultural como patrimônio. Com o objetivo de 
proceder ao “referenciamento da dinâmica cultural brasileira”, vários inventários 
foram realizados com o propósito de catalisar a ideia de um “patrimônio não 
consagrado” consubstanciado na reelaboração da noção de cultura e, sobretudo, 
de cultura popular (FONSECA, 1997, 2008; MAGALHÃES, 1985). 
Segundo o discurso de Aloisio Magalhães, o atrelamento da cultura ao 
desenvolvimento do país passa pelo reconhecimento de uma cultura “viva”, um 
patrimônio ainda não reconhecido, mas importante indicador para uma opção 
interna de desenvolvimento. 
Com vistas à elaboração de “indicadores”de “desenvolvimento harmonioso”, 
foram desenvolvidos projetos de mapeamento e documentação da diversidade 
cultural que deveriam alimentar um futuro banco de dados. Essa ideia de inventariar 
e registrar a memória da cultura popular, almejando alcançar as condições sociais 
de produção e o processo criativo, tem sua versão estadualizada no Centro de 
Referência Cultural do Ceará – CERES (1975-1990). 
À semelhança do CNRC, surge motivado pelo alarde de que “a cultura 
popular corria perigo”. Diante da ameaça de descaracterização do artesanato, em 
meio às influências externas, demandas mercadológicas e cursos de formação de 
artesãos, surgiu a necessidade de promover o registro do saber-fazer popular e da 
memória da cultura tradicional popular do Estado. Não se tratava de imortalizar o 
produto do trabalho, mas de registrar o próprio trabalho e a forma como os sujeitos 
40 
 
 
se relacionavam com a prática cultural no seu cotidiano (NOGUEIRA, 2010, p. 447-
460). 
Nessa trajetória do CNRC, que Aloisio levará para o IPHAN, é notável o 
distanciamento de uma noção de patrimônio assentada na atribuição de valores e 
sentidos aos bens patrimoniais em si para uma concepção mais preocupada com 
os processos e sujeitos produtores desses bens culturais. Preservar processos e 
não mais produtos ou objetos culturais tornou-se, então, os desafios e dilemas da 
prática preservacionista. 
Toda essa mudança que a virada antropológica imprimiu ao campo do 
patrimônio cultural deve ser entendida num contexto de mudanças maiores que 
vinham se processando em termos de transformações histórico-políticas da 
sociedade contemporânea, segundo as tensões locais e internacionais. A 
perspectiva antropológica de cultura voltada para as práticas cotidianas e para as 
manifestações e saberes diversos colocou, no plano cultural, a diferença como 
elemento constitutivo de apreensão do social. 
As singularidades e valores que referenciam as práticas culturais de diversos 
grupos passaram a ser reconhecidas forjando mudanças nas narrativas sobre o 
passado reconfigurando a escrita da história e as políticas de preservação do 
patrimônio cultural (NOGUEIRA, 2008). 
As orientações internacionais que vinham da UNESCO, através das “cartas” 
e “recomendações”, desde a aprovação da Convenção do Patrimônio Mundial, em 
1972, passando pela Recomendação sobre a Salvaguarda da Cultura Tradicional 
e Popular do Mundo, em 1989, e Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio 
Imaterial, em 2003, são indícios importantes que respondem à pressão e às 
demandas de grupos e nações de tradições não-europeias para que a dimensão 
intangível do patrimônio fosse inserida no acervo do chamado patrimônio da 
humanidade. Já no Brasil, o debate em torno da defesa da diversidade cultural e 
do direito à memória de distintos grupos étnico-culturais, nos anos de 1980, 
mobiliza e aciona diferentes apropriações do patrimônio tornando-o um “conceito 
engajado”. Nos movimentos de grupos indígenas, negros e culturas tradicionais “a 
luta pelos conceitos adequados ganha relevância social e política”, lembra 
Koselleck (2006, p. 100-101). 
41 
 
 
As reivindicações de reconhecimento social e a preservação de suas 
tradições serão respaldadas pelo artigo 216 da Constituição de 1988 (BRASIL, 
1988), que acolhe uma noção ampla e plural de identidade e define a atual 
concepção de patrimônio cultural, legitimando juridicamente a salvaguarda dos 
bens culturais de natureza imaterial. “Constituem patrimônio cultural brasileiro os 
bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, 
portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos 
formadores da sociedade brasileira.” 
Em sintonia com esse movimento, também a renovação da historiografia 
brasileira, em diálogo com a antropologia, levou os historiadores a reconhecerem 
as ações desses novos sujeitos e a emergência da cultura imaterial, entendendo 
que festas, músicas e danças constituem um importante espaço de luta política e 
identitária na história do Brasil (ABREU, 2007). 
A partir da Carta de Fortaleza (1997) e dos resultados do Grupo de Trabalho 
do Patrimônio Imaterial e da Comissão de Assessoramento ao Grupo de Trabalho, 
ambos criados pelo Ministério da Cultura, em 1988, foram elaboradas propostas 
para a proteção do patrimônio imaterial. Os estudos e as discussões levaram à 
aprovação do decreto 3.551, de 2000, que instituiu o Registro e o Programa 
Nacional de Patrimônio Imaterial – PNPI. A noção de patrimônio imaterial, tal como 
definida pela Constituição de 1988, será tomada, no âmbito do Programa, como 
“um instrumento de construção e fortalecimento de cidadania, tendo o interesse 
público como princípio norteador de seu reconhecimento” (INSTITUTO DO 
PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL, 2000). 
Para a historiadora Martha Abreu (2007, p. 356): “O decreto abre a 
possibilidade para o surgimento de novos canais de expressão cultural e luta 
política para grupos da sociedade civil, antes silenciados, que são detentores de 
práticas culturais imateriais locais e tidas como tradicionais”. Segundo o artigo 8º 
do mesmo decreto, o Programa visa “à implementação de política específica de 
inventário, referenciamento e valorização desse patrimônio”. Em apoio ao Registro, 
deverá “viabilizar a adequada instrução de processos, o tratamento e acesso às 
informações produzidas, a promoção do patrimônio cultural imaterial junto à 
sociedade, e o apoio e fomento aos bens registrados” (INSTITUTO DO 
PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL, 2000). 
42 
 
 
O Inventário Nacional de Referências Culturais – INRC é outro importante 
instrumento de identificação das referências culturais que passou a ser adotado 
como metodologia a subsidiar a instrução dos processos de Registro. A adoção 
desses novos instrumentos legais e administrativos para a identificação, 
(re)conhecimento e promoção de bens culturais de natureza dinâmica e processual 
tem colocado em debate a necessidade de enfrentar questões de ordem 
epistemológica, metodológica e política, ao mesmo tempo em que vem recair sobre 
a redefinição dos paradigmas clássicos da política de preservação. 
Esses novos instrumentos foram criados em distinção ao tombamento com 
o objetivo de abarcar os diferentes suportes da memória, manifestados num 
conjunto de práticas culturais cujas medidas de salvaguarda visam à preservação 
de festas e celebrações, saberes e ofícios, formas de expressão e demais 
referenciais constitutivos da “memória, identidade e formação da sociedade 
brasileira”. 
Em meio a essas questões, dialogamos com as considerações da 
antropóloga Izabela Tamaso (2006) acerca dos novos olhares e desafios trazidos, 
ao campo do patrimônio cultural, com a introdução dos bens culturais de natureza 
imaterial. Para além da operação semântica do termo – uma vez que 
“manifestações culturais” e “cultura”, aos olhos dos folcloristas ou aos olhos dos 
antropólogos, passam a ser percebidas como “patrimônios” –, o que a autora 
procura destacar é “o papel que desempenhará o antropólogo inventariante ao ser 
parte do processo de inventário e registro de bens de natureza imaterial”, ou seja, 
está preocupada com o novo lugar do antropólogo (em perspectiva com o novo 
nicho de trabalho) que transmuta da condição de “pesquisador de políticas e 
recepção de práticas patrimoniais para o de inventariante de patrimônio cultural” 
(TAMASO, 2006, p. 9). 
A categoria “antropólogo inventariante”, criada pela autora, deve-se à leitura 
que fez do texto de apresentação da metodologia do Inventário de Referências 
Culturais – INRC, de autoria de Antonio Augusto Arantes. Ao abrir os trabalhos do 
Manual de aplicação do INRC, o antropólogo evidencia a dimensão política do 
instrumento e chama a atenção para “a responsabilidade social de pesquisadores 
e técnicos”. 
43 
 
 
Ao mesmotempo, adverte sobre os efeitos que o INRC deverá produzir 
como “consequências na formação e reconfiguração das identidades dos grupos e 
categorias sociais”. Ou ainda evidencia a reflexividade provocada pelo inventário 
ao “criar impactos sobre estratégias políticas e de mercado associadas ao 
patrimônio nos meios sociais envolvidos” (TAMASO, 2006, p. 27). 
 
Não é propósito deste texto aprofundar estas questões. O que procuramos 
destacar são alguns aspectos que nos ajudem a pensar de modo semelhante o 
lugar da história e o papel do historiador nesse novo rearranjo do campo do 
patrimônio cultural, tendo em vista a centralidade que os inventários (seguindo ou 
não a metodologia do INRC) passaram a ocupar nas políticas de preservação em 
níveis federal, estadual e municipal. 
Uma vez que o Registro e o Inventário correspondem à identificação e à 
produção de conhecimento sobre o bem de natureza imaterial – instrumentos que 
agora conferem status de patrimônio nacional aos bens culturais de natureza 
imaterial –, a história tem sido novamente designada como ”fiadora” dos processos 
de patrimonialização. Segundo Márcia Sant’Anna (2006, p. 139), a noção de 
continuidade histórica veio substituir a noção de “autenticidade” e seu 
correspondente “imobilismo” que tanto caracterizou o tombamento. Considerando 
a natureza dinâmica e processual dessas expressões, a história tem sido acionada 
com o objetivo de identificar os processos históricos e culturais de sua criação e 
situa-las no tempo e no espaço. 
44 
 
 
Assim, justifica o caráter provisório do Registro e a possibilidade de 
revogação do reconhecimento do bem após dez anos. Não obstante, 
diferentemente de uma perspectiva “mais ampla de retenção e releitura do 
passado, seus símbolos e significados, e da própria cultura brasileira” (ABREU, 
2007, p. 356), a noção de continuidade histórica, condição necessária à 
identificação das experiências temporais dessas manifestações, acabou 
reproduzindo uma concepção naturalizada de tempo linear, herdeira da 
sacralização iluminista de história. 
Da mesma forma, a metodologia do INRC, pautada nas regras disciplinares 
da antropologia, tem reservado à história um papel de coadjuvante no processo de 
coleta de dados históricos com o objetivo de legitimar a antiguidade do bem, 
“perdendo, com isso, a dimensão diacrônica e sua associação com o trabalho de 
construção da memória” (CHUVA, 2008, p. 42). 
Entendendo que a memória é sempre uma reelaboração social e 
culturalmente determinada, o que mais tem desafiado os historiadores e demais 
pesquisadores das ciências humanas e sociais é identificar e problematizar os 
elementos pelos quais foram articulados determinados usos do passado em 
demandas ancoradas num presente igualmente determinado. Os tempos da 
memória são múltiplos e conflituosos e carregam, no jogo das dinâmicas 
identitárias, as marcas do presente. 
O tempo da memória é o presente porque são as demandas do presente que 
mobilizam a memória. É necessário perceber como os referenciais identitários de 
grupos, comunidades e segmentos sociais são cotidianamente criados, recriados e 
negociados em suas práticas sociais. Afinal, o tempo do saber e do saberfazer, dos 
ofícios e dos mestres é o tempo da tradição. 
O tempo do transmitir e do receber é atravessado de presente e pelo 
presente. Dito de outra maneira: é preciso atentar que, por trás do desejo e da 
vontade de memória, manifestados no apelo à tradição, está a própria necessidade 
de reatualizar o sentimento de identidade de determinados grupos ou comunidades 
(CANDAU, 2011, p. 122). 
Ainda na perspectiva de pontuar alguns aspectos dos trabalhos do 
historiador diante da posição distinta que os inventários passaram a operar nas 
45 
 
 
novas políticas de memória e do patrimônio, nesse instante, é preciso problematizar 
questões de ordem epistemológica e política que atravessam o ato de inventariar e 
produzir documentos de e sobre memória e patrimônio cultural. 
Afinal, também aqui, o “historiador inventariante”, que se utiliza desta 
ferramenta, tem um compromisso social e político dadas as implicações inerentes 
ao processo de produção de evidências pautado na seleção e escolha de uma 
história e uma memória a serem preservadas. Nos últimos anos, observamos uma 
proliferação de inventários sendo realizados, independentemente da natureza do 
bem, de estarem ligados ou não a alguma das agências do patrimônio cultural e de 
seguirem ou não a metodologia do INRC disponibilizada pelo IPHAN. 
É cada vez mais corriqueiro o historiador ser solicitado a responder à 
demanda pela constituição de inventários vindos dos diferentes editais do IPHAN, 
MEC (PROEXT), Secretarias de Cultura dos estados e dos municípios ou, ainda, 
de ONGs, movimentos sociais, étnicos e culturais, universidades e escolas, entre 
outros. O resultado desses “empreendimentos de memória e patrimônio” tem se 
traduzido numa profusão enorme de pesquisas históricas, na maioria das vezes, 
sem nenhum critério ou critérios poucos consistentes. 
Diante das diferentes formas de apropriações do inventário, até mesmo um 
inventário aplicado em situação urbana (numa escala menor, um bairro, e.g.) ou 
numa comunidade de saberes tradicionais – quando professores universitários e 
de ensino fundamental e médio aventuram-se a exercitar a educação patrimonial 
no estudo da memória e patrimônio locais – não está isento desta questão, o que, 
em certa medida, garantem que essas experiências de trabalhos da memória não 
incorram numa prática muito comum de apenas corroborar a tradição, esquecendo-
se do “dever da história” em interpelar a memória. Estamos falando de memórias 
sociais em conflito e da atribuição de significados que orientam a produção de 
evidências (NOGUEIRA et al., 2012, p. 228). 
Como podemos interpretar todo um conjunto de outras questões que se abre 
em torno dessa massa documental produzida em tipologias e suportes tão distintos 
(audiovisual, texto, áudio, fotografias, mapas, relatórios, etc.)? A emergência de um 
debate ampliado em torno da ética e da preservação desses documentos, suscitado 
pelos usos e direitos de propriedade envolvendo imagens, sons e depoimentos, o 
46 
 
 
processo de constituição de acervos e o direito à memória têm contribuído 
igualmente para adensar ainda mais os desafios e dilemas de historiadores e 
demais pesquisadores na complexidade que envolve a nova configuração do 
campo do patrimônio cultural (CHUVA; NOGUEIRA, 2012). 
Se entendemos que patrimônio cultural é aquilo que define o outro a partir 
de referenciais identitários e é referendado por valores atribuídos a bens e práticas 
culturais em diferentes momentos e espaços, é preciso atentar para a historicidade 
desse processo, uma vez que a história do patrimônio, recorrendo novamente a 
Dominique Poulot, é a “história da construção do sentido de identidade”, forjada no 
âmbito das políticas públicas de preservação. 
Neste raciocínio, a reflexão sobre o patrimônio contribui “para revelar a 
identidade de cada um, graças ao espelho que oferece de si mesmo e ao contato 
que ele permite com o outro: o outro de um passado perdido e como que tornado 
selvagem; o outro se for o caso, do alhures etnográfico” (POULOT, 2009, p. 14). 
Este é o desafio e o dilema da lida com o patrimônio cultural: a lida com as 
temporalidades diferentes que definem o outro. A despeito das especificidades dos 
instrumentos que fundamentam a institucionalização do patrimônio cultural no 
Brasil, ainda que olhares apressados tendam a caracteriza-los como sendo de 
ordem conceitual e/ou metodológica, em estreita articulação com a dimensão 
material e imaterial do bem, o que temos procurado evidenciar, nessa perspectiva 
histórica, é que tanto o tombamento quanto o registro se inserem na lógica das 
escolhas e atribuição de valores, segundo as contingências sociais e temporaissob 
as quais eles se constroem e se localizam. 
Ao documentar a memória de determinados bens e práticas culturais no 
tempo e no espaço, o registro e o inventário constituem-se, assim como o 
tombamento, em um importante dispositivo de construção de uma representação 
da nação igualmente assentado num continuum temporal. Na perspectiva de uma 
modalidade de escrita do passado, as reflexões sobre o patrimônio cultural devem 
considera-lo como parte do esforço dos agentes envolvidos (poder público e 
sujeitos sociais) de tornar a experiência do transcurso do tempo em experiência 
partilhável social e coletivamente (GUIMARÃES, 2012, p. 87). 
47 
 
 
É nessa propositura que observamos, na nova configuração do campo do 
patrimônio, a substituição de um imperativo tempo monumental – remanescente de 
uma memória histórica e identidade nacional que pouco referia-se a maioria da 
população – por um tempo social – importante testemunho das temporalidades 
sociais que compõem as múltiplas experiências vividas por indivíduos e grupos em 
seu processo de reelaboração das identidades na sociedade contemporânea. 
Talvez, seja mais pertinente pensar a “efervescência patrimonial”, expressa 
nas diferentes modalidades de patrimonialização (CANDAU, 2011, p. 158-164), 
incluindo aqui a própria dilatação do campo do patrimônio, como um amplo 
processo decorrente de deslocamentos profundos que seguem o movimento das 
memórias e acompanham as dinâmicas identitárias. 
O novo desenho e a expansão do campo do patrimônio cultural têm seus 
contornos sempre definidos em sintonia com a expansão da memória e a 
transitoriedade das identidades, entendendo que o ato de patrimonializar, inscrito 
na lógica do lembrar e esquecer, nem sempre constrói e preserva identidades. 
Nesse jogo conformado pelas dinâmicas identitárias, os usos sociais do passado 
ao mesmo tempo que confere a cada um o poder de tomar para si um patrimônio, 
autoriza-lhes a ver e narrar-se a si mesmo. Daí o patrimônio tem sido cada vez mais 
reivindicado e menos herdado. 
 
g. CULTURA, PATRIMÔNIO E MEMÓRIA 
O estudo das manifestações populares permite compreender novas formas 
de ver e pensar a cultura, pois elas representam mais do que simplesmente uma 
expressão local, mas também as formas de pensar e sentir de um povo e o modo 
como estes elementos se modificam com o passar do tempo. 
Neste caso, é fundamental compreendemos como a cultura se transforma e 
como ela se insere no ambiente festivo. Deste modo, podemos entender a cultura 
segundo duas concepções, “a primeira remete a todos os aspectos de uma 
realidade social, a segunda refere-se mais especificamente ao conhecimento, às 
idéias e crenças de um povo” (SANTOS, 1994: 23). 
48 
 
 
Portanto, pode-se entender o universo cultural como uma forma de 
organização social, no qual estão inscritos uma série de códigos que quando 
associados coletivamente dão origem a uma manifestação cultural e social. Clifford 
Geertz (1978) faz referência à sociedade como um elemento em constante mutação 
e evolução, onde a cultura se origina da relação entre o caráter social e psicológico 
de cada ser humano. 
Em que o todo e o individual se completam e criam uma simbologia única, 
interpretada e vivenciada pelo homem de seu tempo. Arizpe complementa 
afirmando que: 
Cultura se define como todo el complejo de rasgos espirituales, materiales, 
intelectuales y emocionales que destinguen a una sociedad o grupo social. No solo 
incluye las artes e las letras, sino también los modos de vida, los derechos 
fundamentales del ser humano, los sistemas de valores, las tradiciones y las 
creencias (ARIZPE, 2009: 40). 
Convém ressaltar a cultura como elemento mutável, suscetível a seu tempo 
e contexto. “En efecto, habría que reconocer que las culturas son momentos en el 
tempo e no costumbres fósiles de la historia. Y que los indivíduos y los grupos son 
quienes deciden crearlas y practicarlas porque tienen razones para valorarlas” 
(ARIZPE, 2009: 238). Deste modo, notamos que a cultura pode assumir diversas 
facetas, dependendo do momento histórico em que se encontra. Cada nação 
possui culturas com características particulares, mesmo assim, é possível notar 
certas semelhanças entre tais culturas, visto que sociedades diferentes podem 
partilhar experiências, que se manifestam através de alguns traços culturais. 
 
49 
 
 
O universo cultural também pode ser explorado através das práticas e 
representações que o compõem, sendo que sua interpretação pode dar a conhecer 
a cultura como um processo comunicativo e não somente como a totalidade dos 
bens culturais produzidos pelo homem. A cultura é comunicada a cada indivíduo 
que a interpreta de acordo com a sua concepção individual (CHARTIER, 1988). 
É através da história construída pelo sujeito anônimo que o todo se constitui 
e passa a ser integrado à vida cotidiana, fazendo parte das convenções sociais. É 
através destas convenções que surge uma identidade cultural, que se expressa de 
diversas maneiras, seja no comportamento, nas festas, na fala ou nas tradições. 
Uma das maneiras de manter viva a identidade é preservar os símbolos destas 
práticas culturais, sejam eles monumentos de pedra e cal ou manifestações 
culturais. 
Neste sentido conservar práticas culturais não implica o fato de mantê-las 
estáticas, mas de registrá-las enquanto manifestação cultural localizada no tempo 
e no espaço. Assim sendo, o termo patrimônio reflete a tentativa de salvaguarda de 
bens tangíveis e intangíveis, assim como também é uma forma de preservar as 
raízes de uma cultura. O termo patrimônio possui uma fundamentação ideológica 
bastante ampla, abrange a concepção de proteção nos seus mais variados 
sentidos, bem como o ideal de conservação e registro de objetos e práticas culturais 
(GONÇAVES, 2002). 
De outro modo, “os bens patrimoniais podem ser compreendidos como 
inscrição que fala de um tempo pretérito, que o relata e o torna presente e 
significativo, apontando para um futuro até certo ponto possível” (KERSTEN, 2000: 
29). Portanto, a relação entre cultura e patrimônio pode ser entendida, segundo 
Magmami, como um conjunto de códigos: 
[...] se a cultura é um conjunto de códigos, o patrimônio é a série de falas que só adquirem 
inteligibilidade por referência àqueles códigos. A noção de patrimônio, desta forma, aponta para o 
aspecto da exterioridade da cultura: objetos, técnicas, espaços, edificações, crenças, rituais, 
instrumentos, costumes, etc, constituem os suportes físicos, as formas particulares e tangíveis de 
expressão dos padrões culturais (MAGMAMI, apud KERSTEN, 2000: 33). 
O patrimônio está ligado à concepção de identidade, representa as 
transformações culturais, ideológicas e sociais pelas quais passam os habitantes 
de uma cidade, região ou país. Não são apenas os monumentos e bens tangíveis 
50 
 
 
que expressam tal identidade, as práticas culturais também o fazem e são 
reconhecidas como patrimônio imaterial. 
O Patrimônio Imaterial é transmitido de geração em geração e 
constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função de seu ambiente, 
de sua interação com a natureza e de sua história, gerando um sentimento de 
identidade e continuidade, contribuindo assim para promover o respeito à 
diversidade cultural e à criatividade humana. 
O ato de conservar o patrimônio material, imaterial, ou manifestação cultural 
está ligado ao conceito de memória, pois é através do processo de rememoração 
que o “mito” se mantém vivo no cotidiano dos indivíduos. Segundo Halbwachs 
(1990), a memória pode dividir-se em duas possibilidades: a memória individual e 
coletiva. Ambas relacionam-se e interferem-se entre si. 
A memória individual seria aquela que toda pessoa possui, que faz menção 
ao que ela viveu ao longo de sua vida, ou seja, faz referência às lembranças 
individuais. Já a memória coletiva: Envolve as memórias individuais,mas não se 
confunde com elas. Ela evolui segundo suas leis, e se algumas lembranças 
individuais penetram algumas vezes nela, mudam de figura assim que sejam 
recolocadas num conjunto que não é mais uma consciência pessoal 
(HALBWACHS, 1990: 53). 
Deste modo, a construção da memória coletiva se dá através da junção entre 
o coletivo e o individual, pois a memória de um fato ou acontecimento é interpretada 
e gravada individualmente, a partir de determinados valores coletivos. 
Contextualizando a construção desta memória, tanto coletiva quanto individual, 
Ecléa Bosi ressalta a relação passado-presente: “a memória parte de um presente, 
um presente ávido pelo passado, cuja percepção é a apropriação veemente do que 
nós sabemos que não nos pertence mais” (BOSI, 2003: 20). 
A memória é como uma colcha de retalhos, fragmentada e combinada 
através da consciência individual, mas que quando analisada como um todo, ganha 
um significado coletivo, mantendo vivo um fragmento cultural e histórico, 
preservado na memória do indivíduo. “A memória é sim um trabalho sobre o tempo, 
mas sobre o tempo vivido, contado pela cultura e pelo indivíduo” (BOSI, 2003: 53). 
51 
 
 
Neste contexto de memória coletiva e social, é conveniente ressaltar a 
importância da escrita, que registra no papel os acontecimentos, diferente da 
memória individual que registra no sujeito a vivência dos fatos ou a tarefa de passá-
los adiante. “Na maior parte das culturas sem escrita, e em numerosos setores da 
nossa, a acumulação de elementos na memória faz parte da vida cotidiana” (LE 
GOFF, 1994: 427). 
 
Manter uma memória viva para uma sociedade sem escrita é utilizar as 
variáveis da oralidade para preservar e despertar em outros indivíduos o desejo de 
manter viva aquela memória. No entanto, a oralidade por si só não permanece no 
tempo, ela não pode ser registrada, e com o passar dos anos os fatos vão se 
modificando ou se perdendo. Já as sociedades que possuem a escrita, a usam para 
preservar sua história. Todavia, mesmo na cultura escrita à memória é alterada; 
não da mesma maneira que nas culturas orais, mas sempre de modo diferente aos 
fatos ocorridos e também está sujeita ao desaparecimento: 
A escrita enquanto memória possui duas funções principais: uma é o 
armazenamento de informações, que permite comunicar através do tempo e do 
espaço, e fornece ao homem um processo de marcação, memorização e registro; a 
outra reexaminar, reordenar, retificar frases e até palavras isoladas (LE GOFF, 
1994: 433). 
No entanto, a memória escrita não se refere unicamente aos documentos, 
mas também a escrita cotidiana que registra momentos ou as mais variadas 
informações. Assim, a memória funciona como uma forma de expressão cultural, 
52 
 
 
que pode ser preservada das mais diversas maneiras, seja através da oralidade, 
da escrita, das tradições ou monumentos. 
Portanto, compreender a inter-relação entre cultura, patrimônio e memória é 
uma forma de entender como as manifestações culturais se modificam, e, como as 
comunidades mantêm e buscam conservar suas raízes e memórias. 
 
h. AS PRÁTICAS PRESERVACIONISTAS E O 
DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL 
Nas últimas décadas do século XX, como se afirmou há pouco, a acepção 
de patrimônio se dilatou, não se limitando à definição de sítios arqueológicos, obras 
de arte, monumentos, conjuntos arquitetônicos ou antigos objetos referentes às 
representações do poder político. Essa noção estendeu-se aos diversos modos de 
viver, formas de linguagem, celebrações, festas, gastronomia, enfim, maneiras de 
usar os bens, os espaços físicos e a paisagem. A emergência dos bens simbólicos 
à condição de patrimônio estimulou a sociedade — em especial, as minorias e os 
grupos étnicos — a reivindicar o plural reconhecimento de seus referenciais 
culturais e identitários. 
A percepção de que o patrimônio não se restringia aos bens das elites 
dominantes tornou evidente que o próprio conceito de patrimônio e as ações em 
sua defesa figuram como construções sociais, historicamente arquitetadas, aptas a 
promover o sentido de pertencimento dos cidadãos. Além disso, a valorização dos 
núcleos históricos como centros agregadores de bens naturais e culturais 
diversificados, de ordem material e imaterial, tornou-se possível a partir das 
alterações nos modos de se analisar e eleger o patrimônio. Todavia, os processos 
de modernização do espaço urbano e a globalização econômica de certa forma 
forjaram a homogeneização das cidades, dos modos de existência, dos valores e 
costumes sociais. Até os gostos gastronômicos e os modismos estéticos 
generalizaram-se em todo o mundo. 
Por essa razão, a atitude de proteger o patrimônio local tem sido incentivada, 
de modo a conservar as raízes plurais dos povos e suas tradições culturais, uma 
vez que estas expressam as origens étnicas e implicam a manutenção de suas 
53 
 
 
identidades. Nesse horizonte, parece oportuna a retomada da problemática do 
"turismo cultural" tal como proposta por Josep Ballart Hernández, um estudioso 
desse tema que ao discorrer sobre as noções que circundam a indústria turística e 
cultural procura apontar caminhos possíveis para uma ação complementar entre 
essas duas áreas, de modo a garantir o desenvolvimento sustentável. 
No entendimento do autor, a planificação turística, processada mediante a 
colaboração entre as administrações pública e privada, e o fomento da 
comercialização de produtos e serviços culturais podem facultar oportunidades 
para o desenvolvimento social e econômico, e ainda, garantir a ação de 
mecanismos auto-sustentáveis de preservação dos bens materiais e imateriais dos 
povos ibero-americanos. 
Não por acaso, a "Carta de Nairobi" (1976) ao ocupar-se das 
"Recomendações relativas à preservação e ao papel contemporâneo das áreas 
históricas", alertou para os perigos da abordagem e do trato meramente museais 
dos núcleos históricos, suas repercussões na esfera dos negócios turísticos e da 
especulação imobiliária. Naquela ocasião, essa carta já definiu o ambiente como o 
cenário natural ou construído pela ação humana e aconselhou que os núcleos 
históricos fossem observados no seu conjunto, abarcando a "organização espacial" 
e seus arredores, as edificações e seus entornos, e particularmente as "atividades 
humanas" desenvolvidas no local. Alguns meses depois, a "Carta do Turismo 
Cultural" (1976) aprofundou as sugestões da "Carta de Nairobi". E, embora 
salientasse as benesses advindas da promoção dos empreendimentos turísticos, 
advertia para a necessidade de se combinar o uso e a conservação dos bens 
naturais e culturais, de modo a se evitar o acesso indiscriminado ao patrimônio. 
A Conferência sobre Educação Ambiental (1977), realizada em Tbilisi 
(Geórgia), reuniu autoridades governamentais de várias partes do mundo e 
respaldou um approach inovador no âmbito da valoração da natureza e do meio 
ambiente, estimulando a produção e democratização de saberes interdisciplinares 
no trato desse tema. Posteriormente, o documento síntese da "Conferência 
Internacional sobre Meio Ambiente e Sociedade, Educação e Consciência Pública 
para a Sustentabilidade", efetuada em Tessalônica, na Grécia, destacou a urgência 
de se promover na esfera da educação debates sobre temas como ética e 
54 
 
 
sustentabilidade, identidade cultural e diversidade, mobilização e práticas 
interdisciplinares. 
O entendimento de desenvolvimento sustentável nessa época voltou-se às 
necessidades de se coadunar a preservação ambiental com a melhoria da 
qualidade de vida no planeta, por intermédio da otimização dos ecossistemas e dos 
procedimentos socioeconômicos. 
 
A temerária deterioração ambiental constatada através do aniquilamento da 
camada de ozônio e o conseqüente aquecimento do planeta, detectado nas duas 
últimas décadas do século XX, repercutiram consideravelmente nos debates da "II 
Conferência Geraldas Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento 
Humano", em 1992, no Rio de Janeiro. A "Rio-92" configurou uma das mais 
importantes conferências realizadas pela Organização das Nações Unidas — ONU 
e consolidou a criação de estratégias e políticas nacionais de desenvolvimento e a 
formação de redes de cooperação internacionais e interinstitucionais prescritas na 
chamada "Agenda 21". 
Esse documento assinado por cento e setenta países, incluindo o Brasil, 
consistia num programa estratégico universal propenso a alcançar o 
desenvolvimento sustentável no século XXI. Em síntese, apresentava uma 
proposta de constituição de parcerias entre governos e sociedades com vistas a 
gerar ações capazes de dar continuidade ao desenvolvimento sem prejuízo do meio 
ambiente. 
Por certo, a perspectiva integradora das políticas em defesa do meio 
ambiente, do patrimônio cultural e do incremento de atividades turísticas tem 
55 
 
 
resultado em experiências positivas no sentido da promoção da cidadania e do 
desenvolvimento sustentável. As cartas patrimoniais dedicadas ao assunto 
asseveram a urgência das políticas públicas nesses três campos, considerados 
estratégicos para a preservação dos bens naturais e culturais, e sua respectiva 
manutenção. A integração simultânea dessas áreas pode vir a corroborar a 
reafirmação de códigos visuais das identidades cívicas, patrióticas ou étnicas, na 
medida em que consiga agregar a população residente ao "legado vivo" da história 
de sua cidade ou região. Para tanto, faz-se imperiosa a adoção de políticas 
patrimoniais pluralistas, capazes de valorizar a diversidade ambiental, as 
heterogeneidades culturais e as múltiplas identidades, de modo a promover a 
convivência harmoniosa entre o homem e o meio, e ainda, garantir a inclusão social 
dos cidadãos. 
A despeito da heterogeneidade das condições políticas, sociais e 
econômicas das áreas preservadas e dos centros históricos latino-americanos, a 
maior parte deles parece enfrentar questões similares: a degradação do meio 
ambiente e dos bens culturais, a especulação do solo urbano e a privatização, entre 
outros problemas como a pobreza, as péssimas condições de existência e trabalho, 
as privações que corroboram a crescente agressão à natureza e a 
descaracterização do patrimônio. 
Diante de tão grandes desafios, autoridades políticas, estudiosos e técnicos 
devotados à causa da proteção do patrimônio têm reunido esforços visando à 
criação de instrumentos legais capazes de despertar a população latino-americana 
para o valor de seu patrimônio, inibir os atos de vandalismo e minimizar as 
condições de degradação do meio ambiente. A par das iniciativas executadas com 
êxito nos países de outros continentes, realizaram-se empreendimentos no campo 
do turismo em cidades como Cuzco e Lima (Peru), Buenos Aires (Argentina), Quito 
(Equador), Havana (Cuba), e em vários pontos do território brasileiro como Olinda, 
Salvador, Ouro Preto, São Paulo, Rio de Janeiro, São Luis e João Pessoa, entre 
outros. 
Mas, ainda há muito que se fazer no âmbito da integração da população 
residente nessas áreas, como anunciou a Carta de Machu Picchu (1977) — um 
documento que preconizava a incorporação de valores socioculturais aos 
processos devotados à recuperação do patrimônio natural e cultural. A preservação 
56 
 
 
do patrimônio, como ferramenta vigorosa para a manutenção da dinâmica urbana 
e para a proteção do meio ambiente, constituiu prerrogativas defendidas na década 
de 1980. A Declaração de Tlaxcala (1982) e a do México (1985) recomendaram 
também a recuperação de pequenos núcleos depositários de costumes e relações 
comunitárias tradicionais, considerando as identidades plurais como elementos 
significativos na configuração dos valores étnicos, nacionais ou regionais. 
Mas, toda essa diversidade não parece devidamente valorizada se as 
populações não reconhecerem o importância do seu patrimônio. Nessa direção, 
uma questão fulcral se coloca: qual a repercussão do investimento estatal devotado 
à conservação e à preservação do patrimônio se as populações não aprenderem a 
respeitar sua própria cultura e a valorizar o meio ambiente, se não reconhecerem 
esses bens como parte do legado que deixarão para as futuras gerações? 
 
i. FERRAMENTAS EM PROL DOS BENS CULTURAIS E 
NATURAIS 
Desde a década de 1990 o patrimônio cultural e natural tem sido cada vez 
mais reconhecido como um instrumento poderoso para se salvaguardar a 
independência, a soberania e as identidades culturais dos povos latino-americanos. 
No entanto, os grandes desafios para aqueles que se dedicam à defesa dos bens 
culturais não se circunscrevem à descoberta dos meios eficazes para o 
desenvolvimento da educação patrimonial ou da educação ambiental, mas 
englobam o despertar da consciência e do apreço a esses bens. 
Se for verdade que as identidades latino-americanas podem ser 
conservadas por meio da preservação de seu patrimônio, a educação patrimonial 
e ambiental pode contribuir para avivar a consciência do valor cultural e simbólico 
de distintos bens. A educação nesse campo deve iniciar-se pela percepção direta 
de que o patrimônio não se restringe somente aos bens culturais móveis e imóveis 
representativos da memória nacional, como monumentos, igrejas ou edifícios 
públicos. Pelo contrário, o conceito de patrimônio cultural é muito mais amplo, não 
se circunscreve aos bens materiais ou às produções humanas, ele abarca o meio 
ambiente e a natureza, e ainda se faz presente em inúmeras formas de 
manifestações culturais intangíveis. 
57 
 
 
 
A percepção da herança imaterial torna-se fundamental para a integração da 
população com suas próprias condições de existência, com a natureza e o meio 
ambiente. Essas relações constituem o espírito dos países que compõem o 
continente e se manifestam por intermédio de cerimônias, linguagens do povo 
materializadas em atividades artesanais e produções artísticas ou literárias, 
canções, festas, receitas culinárias e saberes medicinais, entre outras 
manifestações sociais ou coletivas. 
Desse modo, a educação patrimonial e ambiental torna-se tarefa prioritária, 
uma vez que consiste em revelar a diversidade e pontuar as mudanças culturais, 
sociais e ambientais que se vêm processando com o passar dos tempos, sem 
dissimular os conflitos de interesses dos distintos segmentos sociais. O ensino e a 
aprendizagem na esfera do patrimônio devem tratar a população como agentes 
histórico-sociais e como produtores de cultura. Para isso deve valorizar os 
artesanatos locais, os costumes tradicionais, as expressões de linguagem regional, 
a gastronomia, as festas, os modos de viver e sentir das diversas etnias latino-
americanas. 
O ensino sistemático e contínuo da população através das metodologias da 
Educação Patrimonial e Ambiental precisa partir da idéia de que a sociedade que 
não respeita o patrimônio cultural e natural em toda a sua diversidade corre o risco 
de perder a identidade e enfraquecer seus valores mais singulares, inviabilizando 
o exercício da cidadania. Assim, deve promover a formação e a informação acerca 
do processo de construção das identidades étnicas e possibilitar o desenvolvimento 
de reflexões em torno do significado coletivo e plural da história e das políticas de 
preservação. Ademais, pode fomentar o desejo de manutenção das práticas do 
58 
 
 
passado sem ignorar os benefícios da tecnologia, promover a discussão sobre o 
manejo das áreas e parques protegidos, bem como sobre a imputação de novos 
valores de uso aos imóveis restaurados, visando à manutenção dos bens 
protegidos e preservados na dinâmica social e econômica da região ou cidade onde 
se inserem. 
A produção de conhecimento nessa área precisa contemplar as inter-
relações do meio natural com o social, incluindo a análise dos determinantes do 
processo, o papel dos diversos atores envolvidos e asformas de organização social 
que aumentam o poder das ações alternativas em prol de um novo 
desenvolvimento, numa perspectiva que priorize o desenvolvimento ancorado nos 
pressupostos da sustentabilidade sócio-ambiental. Essa questão se tornou 
premente nas últimas décadas, em particular no Brasil, uma vez que a maior parte 
da nossa população passou a residir em áreas urbanas — aspecto que agravou a 
degradação das condições de vida e intensificou os problemas ambientais. Tal 
constatação evidencia, como sugeriu Enrique Leff, haver um desafio fulcral a ser 
enfrentado, qual seja a alteração dos valores e das bases do conhecimento fundado 
na ênfase econômica do desenvolvimento. 
 
Se a educação for acionada como recurso capaz de promover o 
desenvolvimento intelectual e moral de crianças ou adultos, com certeza tenderá a 
suscitar sua integração individual e coletiva, quiçá, um tratamento diferenciado do 
patrimônio. Talvez a relação ensino-aprendizagem nessa área possa favorecer a 
convivência dos homens com a coletividade, com o meio onde vivem. Nesse 
contexto, a educação patrimonial pode constituir, como alega Maria Luiza Horta, 
"um processo permanente e sistemático de trabalho educacional centrado no 
59 
 
 
Patrimônio Cultural como fonte primária de conhecimento e enriquecimento 
individual e coletivo". 
A educação patrimonial e ambiental deve ser conduzida de modo a 
contemplar a pesquisa, o registro, a exploração das potencialidades dos bens 
culturais e naturais no campo da memória, das raízes culturais e da valorização da 
diversidade. À medida que o cidadão se percebe como parte integrante do seu 
entorno, tende a elevar sua auto-estima e a valorizar a sua identidade cultural. Essa 
experiência permite que esse cidadão se torne um agente fundamental da 
preservação do patrimônio em toda sua dimensão. O conhecimento adquirido e a 
apropriação dos bens culturais por parte da comunidade constituem fatores 
indispensáveis no processo de conservação integral ou preservação sustentável do 
patrimônio, pois fortalece os sentimentos de identidade e pertencimento da 
população residente, e ainda, estimula a luta pelos seus direitos, bem como o 
próprio exercício da cidadania. 
Em termos práticos a abordagem do tema pode ser iniciada na própria 
escola, valorizando-se a área e o edifício no qual ela se encontra instalada, a 
biblioteca, as áreas de entretenimento e outros espaços que possam figurar como 
bens coletivos. Em seguida pode-se sugerir que os alunos investiguem os bens 
culturais de suas respectivas famílias, de seus bairros, de sua cidade. Tornam-se 
imperiosas a difusão da legislação que trata do assunto e a veiculação de 
informações sobre os decretos que normatizam as ações no campo do patrimônio 
cultural e ambiental, tais como o tombamento, as regras de proteção dos parques 
nacionais e demais áreas protegidas. Faz-se necessário desvendar e advertir a 
população sobre os procedimentos para a preservação dos bens (manutenção, 
conservação, restauração, uso e administração). Contudo, deve-se ambicionar algo 
mais, como por exemplo, irradiar o saber referente ao patrimônio por meio de 
agentes comunitários, professores do ensino fundamental, médio e universitário, 
propalando o significado dos bens culturais e naturais entre as comunidades. 
A educação ambiental na América Latina tem desempenhado uma atividade 
fundamental quanto à difusão da responsabilidade social pelo meio ambiente, 
incentivando os indivíduos a requererem um moderno padrão de desenvolvimento, 
o desenvolvimento sustentável. Para tanto, tem-se investido na tentativa de alterar 
as condições de degradação sócio-ambiental e na difusão de conhecimentos 
60 
 
 
conjugados para a construção de novos referenciais ambientais visando práticas 
sociais ancoradas no respeito à natureza e na minimização dos impactos dos 
humanos sobre o meio ambiente. 
A educação patrimonial no Brasil tem sido praticada de modo não 
sistemático desde a década de 1940, principalmente nas cidades em que o Instituto 
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) mantém áreas tombadas, como 
Ouro Preto e Olinda. Trata-se de atividades extracurriculares e interdisciplinares 
que se propõem a reconhecer e valorizar as referências culturais locais, regionais 
ou nacionais. Na América Latina, de modo geral, essa atividade educacional é 
muito recente, mas vem se intensificando desde as décadas de 1980 e 1990. 
 
j. A REABILITAÇÃO DOS CENTROS HISTÓRICOS 
BRASILEIROS 
Como se afirmou anteriormente, nos últimos anos o tema do patrimônio tem 
adquirido espaço nas discussões sobre o desenvolvimento social e econômico. No 
entanto, a perspectiva mais imediata da associação entre o desenvolvimento 
sustentável e o patrimônio se traduz em ações voltadas a tornar os antigos núcleos 
históricos mais atrativos aos transeuntes ocasionais ou aos turistas. Para isso, o 
poder público e a iniciativa privada têm acionado programas de conservação muitas 
vezes limitados à recuperação das fachadas dos edifícios, à limpeza dos 
monumentos e à exclusão da população pobre — considerada perigosa e capaz de 
denegrir a imagem positiva do patrimônio aos olhos dos visitantes — das áreas 
centrais. 
Excetuando-se poucos casos, a revitalização dos centros históricos da 
América Latina tem ocorrido de forma superficial, alijando a população residente do 
processo e criando zonas miseráveis nos entornos dos núcleos preservados. A 
população, após a desapropriação de seus domicílios, acaba se refugiando em 
áreas próximas à sua antiga moradia. Algo semelhante se efetuou na recuperação 
da paisagem urbana do Centro Histórico de Lima (Peru) e também do Largo do 
Pelourinho, em Salvador (Bahia), nas décadas de 1980 e 1990. 
61 
 
 
A recuperação de Lima antes dos anos 90 limitou-se a intervenções pontuais 
por parte da iniciativa privada, que adquiria casarões velhos a preços módicos e os 
reformava com vistas a transformá-los em prédios utilizados por instituições 
financeiras, bancárias ou empresariais. Depois que o núcleo histórico de Lima foi 
incluído na lista do Patrimônio Cultural da Humanidade, em 1991, passou por 
inúmeras operações contra a degradação e por processos de recuperação dos 
prédios antigos. Todavia, essas intervenções foram realizadas sem estabelecer 
vínculos com políticas habitacionais capazes de amparar a população pobre 
residente nessa área, nem tampouco com programas de desenvolvimento 
sustentável. Portanto, a preservação realizada se restringiu ao embelezamento 
estético dos monumentos, edificações e praças. Tal procedimento instaurou um 
círculo vicioso de especulação dos preços dos imóveis e de valorização do solo 
urbano, e acabou provocando demolições que culminaram com a expulsão dos 
antigos moradores andinos do centro histórico de Lima. 
 
Situação similar foi vivida pela população residente entre as décadas de 
1980 e 1990 no Centro Histórico de Salvador, conhecido como "Largo do 
Pelourinho". Nessa região, a pseudo-restauração se limitou à pintura externa dos 
sobrados, quando muito extensível ao interior do piso térreo dos edifícios que se 
transformaram em domicílios comerciais. Tanto em Lima, como no Pelourinho, a 
imposição do uso contemplativo das áreas comunitárias (praças, ruas e parques) 
inibiu a preservação do significado original e a função que esses lugares haviam 
adquirido para a população local. A imposição de padrões burgueses no uso desses 
lugares da cidade intensificou a exclusão dos moradores pobres. Ademais, a 
associação dos bens culturais ao seu valor de mercado corroborou a ampliação do 
consumo cultural e a transformação da paisagem histórica em "ruínas" patrimoniais 
de marketing urbano. Dessa maneira, observa-se que predominantemente os 
poderes públicos e a iniciativa privada no Brasil têm investido em programas 
62 
 
 
superficiais que criam simulacros de preservação oucenários vazios de 
historicidade, cujo intuito é buscar o desenvolvimento do turismo, não raro de um 
turismo indiscriminado e prejudicial, muitas vezes dissociado das prerrogativas do 
turismo cultural. 
A adaptação do "pseudo" patrimônio recuperado aos novos usos nem 
sempre resulta em processos integrados de reabilitação, ou seja, numa reabilitação 
pautada por estratégias de gestão urbana que visem "requalificar a cidade existente 
através de intervenções múltiplas destinadas a valorizar as potencialidades sociais, 
econômicas e funcionais" do local, capazes de fomentar a melhoria da "qualidade 
de vida das populações residentes". Tal processo "exige o melhoramento das 
condições físicas do parque construído pela sua reabilitação e instalação de 
equipamentos, infra-estruturas, espaços públicos, mantendo a identidade e as 
características da área da cidade a que dizem respeito". Em outros termos, esse 
procedimento implica a adoção de dispositivos aptos a "devolver a uma cidade ou 
a um conjunto histórico suas qualidades desaparecidas, sua dignidade, assim como 
sua aptidão a desempenhar um papel social". 
Mas, ao revés disso, as ações freqüentemente adotadas no Largo do 
Pelourinho se circunscreveram ao fenômeno definido pelos geógrafos como 
gentrificação, ou seja, a população residente foi expulsa do local e o espaço 
arquitetônico sofreu uma "restauração" aparente. Quando na verdade deveria 
tomar como fundamento metodologias adequadas à recuperação do patrimônio 
arquitetônico e/ou urbano em vias de degradação, a partir de técnicas de 
revalorização econômica, social e estética, devolvendo ao conjunto condições 
duradouras e adequadas de conforto. 
63 
 
 
 
A "restauração de fachada" tende a fomentar a homogeneização dos centros 
históricos, nos quais se constrói uma impressão de conjunto forjada pela demolição 
de alguns edifícios do entorno dos prédios considerados passíveis de recuperação 
e pela criação de amplas áreas vazias ou ajardinadas, pelo uso comum de padrões 
de época definidores de cores, luzes, móveis e demais objetos ou artefatos antigos. 
Por fim, a comercialização de produtos supostamente oriundos da cultura local, 
como o artesanato, as comidas típicas, rituais e festas, forja eventos turísticos 
visando atrair maior número de visitantes em determinadas épocas do ano. Alguns 
agentes públicos ou privados chegam a lançar mão do fenômeno definido por Eric 
Hobsbawm como a "invenção da tradição", criando datas comemorativas, festejos 
e rituais supostamente tradicionais. Essa forma de intervenção foi comumente 
utilizada em áreas próximas às orlas marítimas na Europa, como ocorreu em 
Barcelona e Cartagena (na Espanha), e também em bases portuárias, como Puerto 
Madero e o bairro imigrante conhecido como La Boca, em Buenos Aires 
(Argentina), onde as estruturas degradadas foram recuperadas e utilizadas como 
base para a recreação turística. 
64 
 
 
No Brasil, além do Largo do Pelourinho, esse efeito pode ser observado nos 
processos de recuperação parcial do centro histórico de Recife, em Pernambuco. 
Projetos desse tipo não raro dissimulam uma pseudo auto-sustentabilidade, 
fundamentada em postulados econômicos que visam reduzir os custos dos 
investimentos públicos, mas que comprometem a gestão de políticas ambientais e 
programas habitacionais e, sobretudo, esvaziam as questões da responsabilidade 
social. A precariedade da fiscalização do patrimônio nacional efetuada pelo Iphan 
de certa forma também facilita a depredação de parques nacionais e sítios 
arqueológicos, a destruição de produções artísticas e arquitetônicas, o 
desenvolvimento do turismo indiscriminado. Essa situação pode ser detectada no 
caso das inscrições rupestres da "Serra da Lua" (com cerca de onze mil anos), no 
município de Monte Alegre, Estado do Pará, e também, do sítio cerimonial da "Lapa 
do Frei Canuto", na Chapada dos Guimarães, estado de Mato Grosso. Ambos 
foram afetados pelo fluxo descontrolado de turistas, responsável por riscos nas 
pinturas rupestres. 
Entre as décadas de 1980 e 1990, experiências positivas se consolidaram 
nos países da América Latina. Cabe recordar, por exemplo, alguns casos de 
intervenções bem-sucedidas na cidade do México, em Quito e em alguns núcleos 
históricos brasileiros. No México, depois do terremoto de 1985, as ações em defesa 
do patrimônio e da reabilitação das áreas residenciais centrais da capital do país 
contribuíram para a melhoria da qualidade de vida dos habitantes locais. Desde 
então, as autoridades mexicanas, como assinalou René Coulomb, optaram pela 
integridade da gestão pública através de planos e políticas de desenvolvimento 
econômico e social, articuladas a programas habitacionais, planos diretores 
territoriais e urbanos. 
Nessa linha de argumentação, não se pode olvidar o êxito dos 
empreendimentos realizados em São Francisco de Quito (Equador), pois o 
Programa de Reabilitação do Centro Histórico dessa cidade propiciou a integração 
dos artesãos e da população que vivia na área. A reestruturação do comércio 
artesanal e dos produtos da culinária tradicional, somada à recuperação de 
habitações comunais fizeram a população sentir-se estimulada a cooperar com o 
referido projeto. Segundo os especialistas, o sucesso do trabalho realizado ao 
longo dos anos 90 em Quito deve-se ao fato de que as políticas patrimoniais foram 
65 
 
 
acionadas concomitantemente às políticas habitacionais e às políticas promotoras 
do turismo cultural, que garantiram o desenvolvimento sustentável no local. 
A recuperação das "moradias solidárias" contemplou a conservação 
integrada dos imóveis nos contornos próximos ao centro histórico, propiciando a 
otimização da infra-estrutura nessa área. Assim, a restauração das moradias da 
rua Caldas se apoiou na concentração dos serviços, equipamento e infra-estrutura 
— concepção que beneficiou a reativação econômica e turística do local, a 
preservação do uso tradicional do solo urbano e a incorporação do centro histórico 
à dinâmica da cidade. A recuperação do conjunto residencial conhecido como 
"Casa dos sete pátios" configura como um importante exemplo de reabilitação, haja 
vista que essa ação restabeleceu a convivência entre numerosas famílias que 
habitavam o local, a manutenção de seus hábitos e costumes tradicionais. 
Ademais, o Fundo de Reabilitação criado a partir de uma empresa mista (capital 
público e privado) comprometeu-se a garantir a manutenção dessa residência 
comunal por cerca de 25 anos — o que representa um investimento de curto e 
médio prazo. 
Sem dúvida, deve-se admitir que o êxito da reabilitação do centro histórico 
de Quito inspirou a restauração de conjuntos patrimoniais significativos nas áreas 
urbanas brasileiras através do "Programa Monumenta", administrado pelo 
Ministério da Cultura, com recursos do Banco Interamericano de Desenvolvimento 
— BID. Esse programa constituiu o primeiro plano de financiamento com vistas à 
preservação de patrimônio histórico com amplitude nacional e ação continuada, 
com recursos de duzentos milhões de dólares na primeira e segunda etapas, e mais 
quatrocentos milhões de dólares na última fase. 
Na sua primeira etapa, o programa contemplou os bens brasileiros incluídos 
na Lista do Patrimônio Cultural da Humanidade — Unesco, como Ouro Preto (Minas 
Gerais), Salvador (Bahia), Olinda (Pernambuco) e São Luís (Maranhão). A segunda 
fase abarcou o bairro do Recife (Recife, Pernambuco), as praças Tiradentes (Rio 
de Janeiro) e da Luz (São Paulo), com seus respectivos entornos. A estação da 
Luz, re-inaugurada no ano de 2004, fora utilizada principalmente para o 
escoamento do chamado "ouro verde", uma vez que interligava os centros 
comerciais do café de São Paulo ao Porto de Santos. No seu apogeu era conhecida 
como Estação do Café, e foi mantida em pleno funcionamento até por volta de 1945, 
66 
 
 
quando o transporte ferroviáriopassou a ser paulatinamente substituído pelo 
rodoviário. A suntuosa construção com cerca de sete mil e quinhentos metros 
quadrados foi erguida com materiais oriundos da Inglaterra, e após a sua 
reabilitação recebeu esmerada restauração e iluminação destacada. 
A terceira etapa do "Programa Monumenta" destinou-se à recuperação de 
núcleos históricos das cidades de Belém (Pará), Diamantina (Minas Gerais), 
Corumbá (Mato Grosso), Petrópolis (Rio de Janeiro), Cachoeira (Bahia), Antonina 
(Paraná) e São Francisco do Sul (Santa Catarina). Outros centros com reconhecido 
significado histórico e cultural também foram elencados como candidatos às etapas 
posteriores. 
Os resultados positivos desses empreendimentos não podem inibir a 
percepção de que em alguns casos essa experiência logrou corolários pouco 
duradouros. Lamentavelmente, as iniciativas de revitalização de áreas degradadas 
das cidades assentadas apenas em "operações" destinadas a realçar a sua vida 
econômica e social, em geral, visaram somente à reutilização do patrimônio cultural 
ou dos recursos ambientais locais através da "terceirização" de seus usos. Esses 
procedimentos se limitaram a atrair investimentos e a proporcionar novos usos aos 
espaços, privilegiando a sua exploração econômica, por meio da manipulação da 
sua dinâmica turística. Não buscaram a reabilitação das áreas degradadas em sua 
complexidade, nem tampouco a inclusão social da população residente. Esse tipo 
de intervenção terminou gerando problemas, de certa forma, subjacentes à cultura 
contemporânea, relativos ao consumo cultural, e ainda criou dilemas artificiais 
sobre as necessidades da preservação, ancorados em trocadilhos do tipo 
"preservar para consumir" ou "consumir para preservar". 
Mas, há que se considerar o efeito multiplicador das propostas norteadas 
pelo reaproveitamento econômico do patrimônio, pois a perspectiva inicial 
asseverada por seus defensores assentava-se na idéia de deflagrar ações 
integradas entre o poder público, a iniciativa privada e os usuários. Tal proposta de 
revitalização mostrava-se sedutora e lucrativa, apropriada a atrair outros 
empreendedores e arrebatar novos projetos. Contudo, o maior problema residiu no 
fato de que não raro esses projetos se dissiparam ou se caracterizaram por êxitos 
temporários, como ocorreu na praça Anthenor Navarro, no centro histórico de João 
Pessoa, na Paraíba. 
67 
 
 
A praça Anthenor Navarro, circundada por sobrados construídos em estilo 
art déco e art nouveau, foi revitalizada no final dos anos 90. Os casarões de dois 
pavimentos foram reformados em 1998 e convertidos em casas comerciais, bares 
com música ao vivo, cantinas ou restaurantes que animaram a vida noturna e o 
desenvolvimento de atividades heterogêneas nessa área da cidade. No entanto, os 
novos valores de uso imputados às casas sobradadas do centro histórico de João 
Pessoa não foram associados a políticas habitacionais e propostas de manutenção 
de espaços residenciais originais. A população pobre foi afastada para dar lugar 
aos turistas ou aos transeuntes ocasionais. Em curto prazo, a vitalidade da vida 
noturna transferiu-se para outros locais da cidade e novamente essa área caiu em 
desuso. O patrimônio parcialmente recuperado voltou a degradar-se. 
O desvendamento do dilema aqui exposto talvez possa ser mais bem 
compreendido a partir de duas vertentes interpretativas aptas a equacioná-lo. 
Enquanto alguns estudiosos do patrimônio afirmam a necessidade de 
reestruturação dos centros urbanos caracterizados como áreas decadentes e 
marginais, com base no patrocínio do crescimento local pautado por ações 
devotadas a criar serviço e renda, ou seja, por estratégias do desenvolvimento 
sustentável, outros especialistas refutam essa idéia por considerar que tais práticas 
suscitam o fenômeno da gentrificação e produzem uma cidade cada vez mais 
desigual, na medida em que, de um lado, promove a exclusão da população pobre 
das áreas revitalizadas a favor dos interesses econômicos dos segmentos mais 
abastados, e, de outro, propicia a apropriação das culturas tradicionais, tomadas 
apenas como mercadorias ou meios de captação de recursos financeiros. 
Por certo, a exacerbação das diferenças sociais no mundo globalizado 
evidencia-se de maneira alarmante. A concentração de renda e a redução da oferta 
de serviços no setor formal da economia fomentam a exclusão social, o 
desemprego e a miserabilidade, e acarretam o aumento dos índices de violência. 
Esse fenômeno torna-se visível, mesmo àqueles que hesitam em enxergar o 
progressivo número de moradias improvisadas nos morros, nas várzeas dos rios 
urbanos ou debaixo das pontes. Os desconcertantes contingentes populacionais 
que residem nas ruas das cidades não deixam dúvida quanto a isso. 
De outro modo, os processos de revitalização são considerados 
instrumentos eficazes para dinamizar a economia e recuperar o espaço público. 
68 
 
 
Com efeito, essa alegação parece convincente a curto prazo, mas não se mostra 
extensiva a toda a população, nem tampouco promove a consciência da 
preservação e o direito à cidadania. A desigualdade e o limitado acesso aos 
espaços públicos e aos equipamentos urbanos, seguramente, afetam a população 
mais carente, menos abastada. Esses efeitos redundam, paradoxalmente, na 
privatização das áreas distinguidas como patrimônios culturais nacionais ou da 
humanidade, culminando com impedimentos ao exercício da cidadania. 
Diante desse impasse, talvez a saída mais viável se assente na interpretação 
das propostas de reabilitação centradas na idéia de promover a identidade coletiva 
e a apropriação dos bens culturais por parte da população residente. Em termos 
legais, no Brasil, a Carta Constitucional de 1988 afiançou os vínculos entre direitos 
sociais e culturais do "povo" brasileiro. Do mesmo modo, a Lei nº 10.257 
(10.07.2001), referente ao "Estatuto da cidade", chamou a atenção para o direito 
ao usufruto do espaço coletivo. Todavia, na prática, a revitalização efetuada nas 
localidades como o bairro do Recife e o núcleo antigo de João Pessoa, na década 
de 1990, intensificou a segregação espacial das referidas cidades. À medida que 
as áreas urbanas centrais se deterioraram receberam a população urbana carente, 
mas quando se tornaram alvo de projetos de revitalização, os referidos moradores 
foram deslocados para a periferia da cidade. Algo semelhante ocorreu nas orlas 
marítimas: estas, ao receberem equipamentos e serviços urbanos modernos, 
passaram a ser ocupadas por residências dos segmentos médios e dos mais 
afortunados, receberam investimentos na esfera do entretenimento, casas 
comerciais e shopping centers, entre outros benefícios. 
Assim, no decorrer do século XX, como bem o lembra Fernando Carrión, 
surgiram as novas centralidades urbanas. Essas áreas se expandiram em 
detrimento dos antigos núcleos que paulatinamente foram perdendo suas funções 
residenciais e comerciais. Somente nos anos finais da década de 1990, a retomada 
da consciência dos núcleos históricos e da sua potencialidade identitária e turística 
propiciou investimentos na construção de uma imagem positiva dos centros 
históricos como no Recife Antigo (Pernambuco), em João Pessoa (Paraíba) e 
Fortaleza (Ceará). 
Os dados divulgados pelo Ministério da Cultura, no ano de 2004, atestam 
que cerca de quinhentas companhias do setor privado e público apoiaram projetos 
69 
 
 
de recuperação da memória e do patrimônio nacional. O "Programa Monumenta", 
como se afirmou anteriormente, visou incentivar a ocupação e o uso efetivo das 
áreas reabilitadas por meio de atividades econômicas, culturais e sociais auto-
sustentáveis. Para tanto, foram associadas ao programa, com apoio do BID, linhas 
de crédito complementares do Banco Nacional de Desenvolvimento — BNDES e 
da Caixa Econômica Federal. 
A necessidade de modernizar os projetos de preservação do patrimôniocultural aliando-os ao desenvolvimento urbano das cidades parece constituir uma 
demanda que não pode mais ser postergada. As políticas de desenvolvimento 
devem permitir o incremento territorial e socioeconômico culturalmente renovado e 
ecologicamente justo. Definitivamente, existe urgência na articulação da política 
cultural com as demais políticas setoriais que incidem sobre as cidades, como as 
políticas de educação, desenvolvimento urbano, meio ambiente e turismo, entre 
outras. Aliás, uma das premissas do "Estatuto da Cidade" (Lei nº 10.257) apontava 
a proeminência da criação de "Planos Diretores Municipais" visando ao "pleno 
desenvolvimento das funções sociais da cidade e da propriedade urbana", 
asseverando "a proteção, a preservação e recuperação do meio ambiente natural 
e construído, do patrimônio cultural, histórico, artístico, paisagístico e 
arqueológico", entre outras diretrizes. 
No entanto, há que se romper com a visão fracionada das políticas públicas 
que tratam o urbano sem observá-lo em sua globalidade e, simultaneamente, sem 
perceber as peculiaridades dos seus elementos culturais. Há que se investigar 
novos padrões de preservação que não se reduzam à conjunção das áreas de 
saneamento básico, transportes e habitação. Faz-se necessário investigar 
perspectivas de interação físico-espacial das áreas urbanas, admitindo suas 
características e a aplicação de procedimentos particularizados, não restritos a 
métodos homogêneos para o trato de áreas urbanas que em essência se mostram 
desiguais. Talvez, a coordenação de esforços nessa direção possa gerar os 
instrumentos apropriados à gestão e acionar a articulação entre as diversas esferas 
político-administrativas do Estado e da sociedade, de modo a se criarem espaços 
de discussão e debate como "Câmaras Multi-setoriais de Política Pública" e "Planos 
Plurianuais de Governo". A realização de simpósios sobre a cidade com tais fins 
70 
 
 
pode reunir especialistas, munícipes, administradores e políticos em favor do 
desenvolvimento e da preservação de núcleos históricos das cidades. 
A focalização das políticas públicas, em síntese, pode apresentar um 
conjunto de medidas assentadas num tripé fundamental, qual seja a recuperação 
física da área degradada, a revitalização funcional urbana e a otimização da gestão 
ambiental local. Dessa maneira, torna-se viável a promoção do desenvolvimento 
sustentável e a inclusão da população, a quem de direito pertence o patrimônio 
cultural e natural. 
 
k. A HISTÓRIA ORAL 
A história oral, explica Alberti (2005, p. 155), “permite o registro de testemu 
nhos e o acesso a ‘histórias dentro da História’ e, dessa forma, amplia as 
possibilidades de interpretação do passado”. Esse termo [história oral], como 
observa Fraser (1993, p. 80), “se presta a confusão, porque parece que quer ser 
uma disciplina distinta, [...], quando de fato é uma técnica para a investigação 
histórica”. 
No entanto, sua utilização se explica porque quando os historiadores 
começaram a entrevistar testemunhas e atores diretos para obter informações não 
incluídas nos arquivos documentais, n os textos impressos ou em documentos 
oficiais, optaram por definir a nova atividade como “história oral”, conforme 
argumenta De Garay (1999). No Brasil, a história oral passou a ser estudada e 
utilizada a partir de 1975, quando foi realizado o I Curso Naci onal de História Oral, 
organizado pelo Subgrupo de História Oral do Grupo de Documentação em 
Ciências Sociais (GDCS), formado por representantes de quatro instituições: a 
Biblioteca Nacional, o Arquivo Nacional, a Fundação Getúlio Vargas e o Instituto de 
B ibliografia e Documentação, como narra Alberti (2005, p. 160). 
Já ao longo da década de 1980, núcleos de pesquisa e programas de história 
oral voltados para diferentes temas e objetos de estudo foram se formando em 
instituições de pesquisa, somando-se vinte e uma delas ao seu final. De lá para cá, 
a história oral consolidou-se e disseminou-se no país. A utilização da história oral 
como procedimento decorre do fato de poder ser empregada em pesquisas sobre 
temas recentes, ao alcance da memória dos entrevista dos, envolvendo 
71 
 
 
acontecimentos ocorridos num espaço de aproximadamente 50 anos. Consiste, 
portanto, “na realização de entrevistas gravadas com indivíduos que participaram 
de, ou testemunharam, acontecimentos e conjunturas do passado e do presente” 
(ALBERTI, 2005, p. 155). 
Com o advento das novas tecnologias, a história oral conta com o suporte 
de gravadores de som, câmaras fotográficas e de vídeo disponíveis em diversos 
equipamentos, além do uso do computador, para o registro dessas entrevistas. Um 
bom prog rama informático poderá auxiliar no processo de análise de dados 
qualitativos, facilitando as rotinas que lhe são inerentes. Dentre os softwares 
disponíveis, o ATLAS/ti tem sido dos mais utilizados, por propiciar a análise 
qualitativa de grande volume de d ados textuais, sonoros e visuais. No que se refere 
ao tipo de entrevista, a história oral admite a realização de entrevistas temáticas ou 
de história de vida. 
As entrevistas temáticas dizem respeito à participação do entrevistado no 
tema escolhido, enquant o que as histórias de vida têm como centro de interesse o 
próprio indivíduo na história, envolvendo sua trajetória desde a infância até o 
momento em que fala, mencionando diversos acontecimentos que presenciou ou 
vivenciou. De um modo geral, a história ora l, em seus dois formatos, tem dado 
suporte a pesquisas históricas sobre mobilidade social, vidas de professores, 
organização da escola, migrações, mulheres, jovens, entre outras. 
Para a realização das entrevistas, além das providências preliminares relativ 
as ao convite e à cessão de direitos sobre o depoimento para uso dos dados na 
pesquisa, são necessários equipamentos de gravação e reprodução de áudio e 
vídeo. De acordo com os especialistas, a vantagem na escolha de equipamentos 
digitais, sejam eles sonor os ou audiovisuais, é a qualidade de reprodução do som 
e da imagem. Se tempos atrás a aquisição desses aparelhos apresentava alguma 
dificuldade, hoje os smartphones e tablets realizam essa tarefa com sucesso. 
O número de entrevistados será de ordem a permi tir a possibilidade de 
comparar as diferentes versões sobre o passado, tendo como contraponto 
permanente o que as fontes existentes já mencionam sobre o assunto. Quanto 
maior o número de entrevistas realizadas, mais consistente será o material 
disponível para análise. Tanto nas entrevistas gravadas como nas filmadas, devem 
72 
 
 
ser tomados todos os cuidados para que o documento não perca sua qualidade 
técnica, de forma a explorar ao máximo as fontes de conhecimento e reflexão nele 
contidas. 
Os procedimentos reco mendados pela metodologia da história oral devem 
ser, também, cuidadosamente observados. É aconse lhável que o pesquisador 
redija notas de campo, que conterão suas reflexões pessoais sobre a atividade, de 
acordo com os critérios de categorização definidos. De cada entrevista o 
pesquisador fará o processamento, que consiste na passagem da entrevista de 
forma oral para a escrita, compreendendo as etapas de transcrição, conferência de 
fidelidade da transcrição e copidesque. Essas tarefas são demoradas e “requer em 
dedicação, paciência e sensibilidade”, como alerta Alberti (2004, p. 173 - 174). 
A transcrição constitui a primeira versão escrita do depoimento, consistindo 
em traduzir para a linguagem escrita aquilo que foi gravado, com absoluta 
fidelidade. Segue-se-lhe a conferência de fidelidade da transcrição, que será 
realizada escutando-se o depoimento e ao mesmo tempo lendo-se sua transcrição. 
É a oportunidade para que sejam corrigidos erros, omissões e acréscimos feitos 
indevidamente pelo transcritor. Estima-se uma média de cinco horas de trabalho de 
conferência de fidelidade para uma hora de gravação.Na etapa do copidesque, 
submete-se a entrevista a um último tratamento para que possa ser consultada em 
sua forma escrita. Observa Alberti (2004) que: 
Não se trata de aprimorar a forma de enunciar as ideias para 
alcançar uma linguagem mais elaborada. Ao contrário: porque o documento 
de história oral guarda uma especificidade que o distingue de outras fontes, 
convém preservar as características da linguagem falada ( ALBERTI, 2004, 
p. 214). 
No copidesque estarão mantidas as informações de que o pesquisador 
necessitará para fazer a análise das fontes produzidas. Os depoimentos orais e os 
documentários serão utilizados como discursos a serem decifrados, com o auxílio 
da s técnicas de análise do discurso. A análise do discurso deverá considerar as 
condições de produção do discurso, a noção de tempo e espaço histórico, 
traduzindo a expressão dos sujeitos no mundo que explicite sua identidade. Para 
Bardin ( 2011 ), a análise d e conteúdo pode ser definida como: 
73 
 
 
Um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando 
obter por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo 
das mensagens indicadores (quantitativos ou não) que permitam a 
inferência de conheci mentos relativos às condições de produção/recepção 
(variáveis inferidas) destas mensagens (BARDIN, 2011, p. 48). 
 
Desta forma, a análise de conteúdo permite ir além da simples descrição do 
conteúdo, passando à interpretação nele contida. As preocupações que o 
investigador deve ter presentes, no que se refere à aferição da validade interna das 
categorias que emergirem dos depoimentos, estão bem retratadas por Ribeiro: 
Em primeiro lugar, deve assegurar-se da sua exaustividade e exclusividade 
mútuas, isto é, cada categoria deve abranger a totalidade dos significados possíveis 
como ela relacionados, pelo que se recomenda a sua definição rigorosa, para evitar 
a ambiguidade e sobreposição entre categorias decorrente do facto de um 
elemento poder ser classificado em mais do que uma delas. 
[...] Por outro lado, o investigador deve prosseguir objetivos de 
procura de objectividade e fidelidade das categorias, procurando reduzir, na 
medida do possível, os efeitos de subjectividade na classificação e 
codificação do mate rial em análise (variação temporal e intercodificadores 
dos juízos). A pertinência e a produtividade das categorias são qualidades 
igualmente importantes a ter em conta (RIBEIRO, 2003, p. 285 - 286). 
Ao beneficiar-se de ferramentas teóricas de diferentes di sciplinas das 
ciências humanas, como a antropologia, a psicologia, a sociologia, a linguística, por 
exemplo, o trabalho com a história oral assum iu a forma interdisciplinar por 
74 
 
 
excelência. A preocupação central da história oral, destaca Ferreira (2002, p. 328), 
“é garantir o máximo de veracidade e de objetividade nos depoimentos orais 
produzidos”. As entrevistas e os depoimentos visuais analisados possibilitarão 
reunir elementos para realizar a contraprova e excluir eventuais distorções 
identificadas. 
Por sua característica subjetiva, a história oral privilegia o estudo das 
representações e atribui um papel central às relações entre memória e história. 
Observe-se que a entrevista em si não é história, é apenas uma fonte que, como 
todas as demais fontes, nec essita ser interpretada e analisada. Só após a análise 
do historiador é que os depoimentos orais serão transformados em fontes, e as 
fontes em documentos históricos . Repetindo Marc Bloch (2003, p. 107), “A 
diversidade dos testemunhos históricos é quase inf inita. Tudo o que o homem diz 
ou escreve, tudo o que fabrica, tudo o que toca pode e deve informar - nos sobre 
ele”. 
Com apoio em Le Goff (2003, p. 110), faz-se necessário observar que “Todo 
o documento é um monumento que deve ser des - estruturado, des - monta do”, 
para que o historiador possa discernir o que é falso e avaliar a credibilidade do 
documento. Cabe ao historiador fazer a crítica do documento enquanto 
monumento, analisando suas condições de produção, indo além dos documentos, 
avançando na busca de re lações, intenções e condições. 
Acrescenta Le Goff: O documento não é inócuo. É antes de mais nada o 
resultado de uma montagem, consciente ou inconsciente, da história, da época, da 
sociedade que o produziram, mas também das épocas sucessivas durante as qu 
ais continuou a ser manipulado, ainda que pelo silêncio. O documento é uma coisa 
que fica, que dura, e o testemunho, o ensinamento que ele traz devem ser em 
primeiro lugar analisados desmistificando - lhe o seu significado aparente. O 
documento é monumento ( LE GOFF, 2003, p. 547 - 548). 
Quando o pesquisador se interessa em ter acesso a interações e 
documentos em seu contexto natural, abstendo-se de formular hipóteses no início 
para depois testá - las e partindo da ideia de que os métodos e a teoria devem ser 
aju stados àquilo que se estuda, ele realiza uma pesquisa qualitativa. Bogdan e 
75 
 
 
Biklen (1994) apresentam cinco características básicas da pesquisa qualitativa, que 
se aplicam à história oral: 
 A pesquisa qualitativa tem o ambiente natural como sua fonte direta de 
dados e o pesquisador como seu principal instrumento: para se fazer uma pesquisa 
qualitativa, o pesquisador deve estar em contato com o que está estudando e o 
ambiente em que está sendo realizada a pesquisa. 
 Os dados coletados sã o predominantemente des critivos. O pesquisador 
deve recolher o maior número possível de fontes e documentos para confirmar suas 
afirmações, e deve também levar em conta todo e qualquer questionamento que 
venha surgir durante a pesquisa. 
 A preocupação com o processo é muito maior do que com o produto: o 
pesquisador tem interesse em verificar o problema e como ele se manifesta. 
 O significado que as pessoas dão às coisas e à sua vida são focos de 
atenção especial pelo pesquisador: o pesquisador deve levar em conta o ponto de 
vista d os participantes da pesquisa, tomando sempre o cuidado de confirmá - los. 
 A análise dos dados tend e a seguir um processo indutivo. A busca das 
conclusões segue um processo indutivo, a partir do desenvolvimento da pesquisa, 
articulando os dados obtidos sem que os sujeitos da pesquisa prendam-se a 
hipóteses previamente concebidas. O uso de fontes orais traz, portanto, como 
contrapartida, uma série de problemas derivados da subjetividade da memória, 
como seu caráter de incompletude, de variabilidade, de cred ibilidade. As 
implicações teóricas e epistemológicas que acarretam são diferentes daquelas 
produzidas pelas fontes adotadas numa história positivista. Em face dessas 
características, a análise qualitativa acarreta consequências em nível 
metodológico, anali sadas por Carrasco (2002) e que resumimos conforme segue: 
 O conhecimento não representa uma soma de fatos definidos por 
constatações imediatas do momento empírico. 
A interpretação é um processo no qual o investigador integra, reconstrói e 
representa em diversos indicadores produzidos durante a investigação, os quais 
não terão nenhum sentido se forem tomados de uma forma isolada como 
constatações empíricas. O sujeito, como tal, produz ideias ao longo de toda a 
76 
 
 
investigação, em um processo permanente, no q ual estão presentes momentos de 
integração e continuidade em seu próprio pensamento, sem referenciais 
identificáveis no momento empírico. 
 O caráter interativo do processo de produção do conhecimento é uma 
dimensão crucial, no estudo dos fenômenos humanos, o que destaca a importância 
do contexto. 
  A singularidade na investigação da subjetividade como nível legítimo da 
produção do conhecimento implica uma importante significação qualitativa, 
constituindo-se como uma realidade diferenciada na história da cons tituição do 
indivíduo. 
A investigação qualitativa é, assim, um processo permanente de produção 
de conhecimento, apresentando resultadosparciais, que se integram a outros, 
dando lugar a novas perguntas e abrindo novos caminhos na produção do 
conhecimento. O enfoque teórico, nesse processo, é relevante, considerando-se 
que a história oral se situa em uma zona de fronteira entre a própria cientificidade 
e o mundo real, entre a memória produzida pelos historiadores e as memórias 
individuais. 
No contexto da in vestigação qualitativa, “em resposta a preocupações com 
a validade interna e externa dos dados produzidos”, conforme recomenda Ribeiro 
(2003, p. 287), “podem ser acionadas estratégias múltiplas de pesquisa, quer ao 
nível do recurso a mais do que um investi gador, quer ao nível da diversificação das 
fontes ou dos métodos e técnicas de informação”, combinação essa designada, 
habitualmente, por triangulação. 
 
 
 
 
77 
 
 
l. A IMPORTÂNCIA DAS RAÍZES CULTURAIS PARA A 
IDENTIDADE CULTURAL DO INDIVIDUO 
Conceituar cultura não é uma tarefa fácil, cada individuo apresenta uma 
forma de definição da cultura, Arias (2002, p. 103) descreve o conceito de cultura 
como: 
"… una construcción específicamente humana que se expresa a través de 
todos esos universos simbólicos y de sentido socialmente compartidos, que le ha 
permitido a una sociedad llegar a “ser” todo lo que se ha construido como pueblo y 
sobre el que se construye un referente discursivo de pertenencia y de diferencia: la 
identidad" 
O autor afirma que cultura é uma expressão da construção humana. A 
cultura é construída através do diálogo entre as pessoas no dia a dia. Nessa 
interação social é construído gradativamente símbolos e significados que tem 
sentido a essas pessoas, e são compartilhados entre elas. A construção de uma 
cultura está repleta de elementos e significados que vão identificar esse povo como 
pertencente a uma determinada comunidade ou região, diferenciando-os de outras 
comunidades, surge assim, a identidade cultural. 
 
O entendimento do significado de cultura subsidiará a compreensão das 
raízes culturais. Quando nos referimos às raízes culturais estamos nos referindo à 
sua origem, principio, ou seja, a forma como foi construída a cultura de um povo, o 
que determina que alguns elementos ou algumas manifestações culturais sejam 
considerados tipicamente desse povo. Não temos a pretensão de nos aprofundar 
78 
 
 
em questões sociológicas. O propósito de enfocar as raízes culturais nesse artigo 
está direcionado a questão da memória cultural do povo. Não é um trabalho 
arqueológico, não se pretende escavar o “passado”, mas sim, de se manter viva a 
história da construção ou da criação da cultura de um povo ou de uma região. 
É possível dizer que não se vive do passado, se vive do presente e do futuro. 
Porém, para se compreender as transformações pelas quais a cultura de um povo 
tem passado no decorrer dos tempos, se faz necessário conhecer como era antes 
no inicio de sua construção. Há de se estabelecer parâmetros para se poder definir 
em que aspectos a cultura foi transformada e em que grau. 
Acredita-se que, não se deve pregar o isolamento cultural, se fechando em 
guetos. O individuo deve estar aberto e receptivel ao novo. Deve-se conhecer e 
experimentar as outras culturas como forma de valorizar a diversidade cultural dos 
povos e como enriquecimento cultural. 
Supõe-se que, para conhecer e assimilar a história da construção da cultura 
de outros povos, deve-se primeiro conhecer a história da própria cultura, saber 
como se deu essa construção e como foi o processo de evolução e 
desenvolvimento da mesma. Só assim, pode-se conhecer e entender outras 
culturas. Conhecendo a própria cultura, o individuo compreenderá a importancia de 
mante-la viva na memoria, protege-la e valorizar a cultura como forma de preservar 
o que somos, nossas caracteristicas, nossa identidade. Segundo Barros (2008). 
“proteger não significa defender o isolamento ou o fechamento ao diálogo com 
outras culturas, mas sim encontrar meios de promover a sua própria cultura”. 
Pedroso (l999) afirma que. “Um povo que não tem raízes acaba se perdendo 
no meio da multidão. São exatamente nossas raízes culturais, familiares, sociais, 
que nos distinguem dos demais e nos dão uma identidade de povo, de nação”. 
Percebe-se a importância de se conhecer as raízes da própria cultura para que haja 
a formação de identidade, no propósito de se definir enquanto cidadão sabendo 
situar-se na sociedade. 
Entende-se que, para a assimilação da relevância desse conhecimento há 
de se ressaltar a construção histórica da cultura de um povo. Segundo Arias (2002, 
p.9): 
79 
 
 
"La cultura no es algo dado, uma herencia biológica, sino uma construcción 
social e históricamente situada, em consecuencia es um producto histórico 
concreto, uma construcción que se inserta em la história y especificamente em la 
história de las inter-acciones que los diversos grupos sociales establecen entre si” 
Pelo exposto acima, se entende que a cultura é construída a partir das ações 
e inter-relações sociais. As pessoas fazendo parte de uma sociedade acabam 
interagindo umas com as outras, trocando idéias, conhecimentos e etc, desse 
relacionamento deriva a cultura desse povo, que foi construída passo a passo. 
Juntos, constroem uma história de vida, onde os hábitos e costumes, 
manifestações, expressões, sentimentos e outros estão inseridos, identificando 
cada componente dessa sociedade determinando o seu modo de viver e de ser. 
Portanto, acredita-se que: se as pessoas têm conhecimento de suas próprias 
raízes e conscientemente sabem da relevância das mesmas para suas vidas, 
passarão a valorizar esse conhecimento transmitindo-o para as gerações futuras, 
isso evitará que sejam esquecidas ou adormecidas. Dessa forma, a memória do 
povo continuará sendo “aquecida”. 
Abaixo outra citação do autor Pedroso (l999), que enfatiza melhor a 
importância de se conhecer as próprias raízes. 
"Quem não vive as próprias raízes não tem sentido de vida. O futuro nasce 
do passado, que não deve ser cultuado como mera recordação e sim ser usado 
para o crescimento no presente, em direção ao futuro. Nós não precisamos ser 
conservadores, nem devemos estar presos ao passado. Mas precisamos ser 
legítimos e só as raízes nos dão legitimidade" 
Entende-se nessa citação que a vida tem sentido, em se tratando de 
identidade cultural, quando conhecemos nossas raízes, de onde viemos, quem 
somos e como somos. É preciso conhecer o inicio de tudo para entendermos as 
mudanças culturais que ocorrem no presente e que ocorrerão no futuro. 
O trecho, abaixo, retirado de uma reportagem realizada no Distrito de 
Ribeirão Pequeno enfatiza um projeto sobre memória cultural que tem sido 
desenvolvido em uma escola. 
80 
 
 
"....incluem em seus programas de história, geografia, língua portuguesa e 
artes temas relacionados ao patrimônio e à memória locais. O resultado comum 
dos projetos é um aluno mais interessado e motivado. A longo prazo, vem a 
mudança da mentalidade e a formação de um cidadão sensibilizado para com suas 
raízes e identidades culturais". 
Na realização desse projeto já se percebe a preocupação em introduzir nas 
escolas temas que visem trabalhar questões relacionadas ao patrimônio e a 
memória local. O resultado final desse projeto, pelo que se percebe foi muito 
satisfatório e gratificante, pois conseguiu atingir os alunos em aspectos muito 
importantes como no interesse e motivação, já é um ponto inicial para que com a 
continuação desse trabalho mais alunos tenham uma mudança de mentalidade em 
relação às próprias raízes e a própria identidade cultural. Que o mesmo possa ser 
um disseminador dessa idéia para toda a comunidade escolar. 
Para enfatizar melhor a importância da memória cultural do povo, podemos 
citar uma declaração muito interessante, encontrada em um site paraense, que fala 
sobre o texto de uma peça de teatro escrita por um grupo de alunos sobre a culturaregional local. 
"Foi gratificante ver jovens se preocupando com o futuro da nossa cultura e 
com a memória de nosso povo, o nosso maior patrimônio, com a natureza, enfim..., 
e o mais importante, nos ensinando a termos orgulho de nossas raízes, cores, 
sabores, crenças..., nos mostrando que o único e tenaz caminho é assumir, 
disseminar e manter cada vez mais nossas origens, para que só assim o mundo nos 
relacionem com respeito e admiração" 
Percebe-se nessa declaração, que o texto teatral apresentado foi bem 
escrito, que enfoca com bastante propriedade o orgulho desses jovens com suas 
raízes culturais e o mais importante de tudo, a preocupação dos mesmos com o 
futuro de nossa cultura e a memória de nosso povo. 
É importante ressaltar que no contexto da comunicação também há outras 
formas de aprendizagem da cultura. O ensino escolar é apenas uma parte onde 
ocorre a aprendizagem cultural do aluno. A escola tem uma contribuição bem 
especifica nessa aprendizagem, pois é na escola que o aluno vivência diariamente 
81 
 
 
a diversidade cultural, no contato com professores, colegas e outros. Por ser um 
assunto tão complexo a forma de aprendizagem se faz de maneira formal e 
informal. Quando o aluno vem para o ambiente escolar já traz consigo informações, 
vivências e experiências culturais que segundo Vigotsky não podem ser 
desprezados, mas trabalhadas para que haja assimilação e entendimento das 
mesmas pelos alunos 
A partir dessas considerações, acredita-se, que é um tema relevante que 
pode levantar reflexões e discussões que possam vir a contribuir com o despertar 
da consciência coletiva sobre a importância das raízes culturais. O resgate as 
raízes culturais de uma região poderá despertar no individuo a motivação e o 
interesse sobre a sua própria cultura, tornando-o um cidadão mais sensível e 
consciente da importância de suas raízes para preservação de sua história. 
 
m. SABER MAIS 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
INDICAÇÃO DE LEITURA: 
Burke Peter, O que é História Cultural? Trad. 
Sergio Goes de Paula 2ª ed. Rio de Janeiro: 
Jorge Zahar Editora. 2008. 
 
 
O QUE É HISTÓRIA CULTURAL? - Peter Burke 
(Resumo ampliado: Isabel Pacheco). 
Disponível em: 
<http://www.uesc.br/icer/resenhas/historia_cultura
l.pdf>. 
História cultural e história das idéias diálogos historiográficos 
Cultural History and History of the Ideas – Historical Dialogues José 
D’Assunção Barros. Disponível em:< 
https://journals.openedition.org/cultura/3353>. 
 
82 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CONCLUSÃO 
Desde as últimas décadas do século XX agências internacionais 
incentivaram a formulação de projetos voltados ao turismo cultural e ao 
desenvolvimento sustentável em várias regiões do globo terrestre. Não raro essas 
iniciativas desencadearam processos de reabilitação das áreas degradadas, 
sugeriram novos usos aos bens recuperados e a proteção e o manejo adequado 
do meio ambiente. No século XX, empreendimentos dessa natureza acabaram 
promovendo a exclusão da população residente dessas áreas. Contudo, na 
atualidade o grande desafio consiste em promover a recuperação dos centros 
históricos e das áreas de proteção ambiental sem necessariamente excluir a 
população, integrando-a por meio de oficinas, cursos de educação patrimonial e 
ambiental, projetos de manejo que respeitem as tradições dos habitantes locais, 
seus costumes e conhecimentos milenares. 
No Brasil, a valoração do patrimônio imaterial configurou uma significativa 
conquista e também um meio de estimular a população a manter suas tradições. 
Mensagens publicitárias e propagandas governamentais veiculadas através de 
periódicos, de revistas especializadas e da televisão têm destacado a 
potencialidade dos núcleos históricos e dos parques ecológicos brasileiros, 
estimulando a exploração de rotas ou itinerários culturais em diversos estados. 
 
Nesse vídeo da seção Librorum o Bruno faz um resenha sobre a revisão 
bibliográfica "O Que É História Cultural?", do historiador britânico Peter Burke, um 
dos grandes nomes da historiografia contemporânea. 
 
 
Entrevista exclusiva do historiador inglês Peter Purke para o Portal Periódico 
VIDEO 1: 
LINK:<https://www.youtube.com/watch?v=AyDnbAnUvYY>. 
 
LI 
 VIDEO 2: 
LINK:<https://www.youtube.com/watch?v=AF0ToYUGOkw>. 
83 
 
 
Algumas regiões estão criando ou inventando seu próprio patrimônio, ora 
recuperando histórias antigas, ora recriando tradições orais e religiosas. Enfim, são 
notáveis as mobilizações de instituições e organizações não-governamentais em 
favor do patrimônio ambiental e dos valores culturais. Indícios das repercussões 
dessas propostas evidenciam que a sociedade brasileira começa a se convencer 
de que é possível compatibilizar a preservação patrimonial e ambiental ao 
desenvolvimento sustentável. 
Centrada no conceito de cultura como objeto de investigação, a história 
cultural trata das representações sociais, das práticas culturais e do processo de 
apropriação, áreas em que a participação dos sujeitos que as vivenciam é 
fundamental. Nesse sentido, a história oral possibilita uma coleta de dados que, 
submetidos ao procedimento de triangulação para sua validação interna e externa, 
analisados e interpretados pelo historiador, permite a reconstrução dos fatos 
históricos. 
A história oral, subsidiando a pesquisa em história cultural, exige 
procedimentos e cuidados tanto na escolha dos entrevistados como nos processos 
subsequentes, que culminam com sua utilização na narrativa. Atualmente, esses 
procedimentos vêm sendo facilitados pela tecnologia que, disponibilizando e 
quipamentos digitais avançados e com múltiplas funções, coloca ao alcance do 
pesquisador recursos que até então exigiam esforços, tanto no sentido de sua 
aquisição quanto de sua utilização. 
Por último, considerando as limitações deste trabalho, entendemos que seu 
aprofundamento se encaminha para uma reflexão sobre questões ligadas à 
subjetividade no emprego da história oral, aos desafios que a categorização das 
respostas apresenta, bem como ao tratamento das questões éticas envolvidas na 
transcrição dos dep oimentos. 
 
 
 
 
84 
 
 
REFERÊNCIAS 
 
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85 
 
 
<https://meuartigo.brasilescola.uol.com.br/artes/a-importancia-das-raizes-
culturais-para-identidade-.htm>.

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