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1 PATRIMÔNIO, MEMÓRIA E BENS CULTURAIS 1 SUMÁRIO SUMÁRIO .................................................................................................... 1 NOSSA HISTÓRIA ...................................................................................... 2 a. INTRODUÇÃO ................................................................................ 3 1.1- METODOLOGIA .......................................................................... 5 b. HISTÓRIA CULTURAL: RETROSPECTIVA ................................... 6 c. A REALIDADE CONSTRUÍDA E VIVIDA: AS REPRESENTAÇÕES 12 d. AS ACEPÇÕES DO PATRIMÔNIO CULTURAL ........................... 17 e. A INFLAÇÃO PATRIMONIAL, TRANSCURSO DO TEMPO ......... 26 f. PATRIMÔNIO E HISTORICIDADE DAS POLÍTICAS DE PRESERVAÇÃO NO BRASIL .......................................................................... 31 g. CULTURA, PATRIMÔNIO E MEMÓRIA ....................................... 47 h. AS PRÁTICAS PRESERVACIONISTAS E O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL ................................................................................................ 52 i. FERRAMENTAS EM PROL DOS BENS CULTURAIS E NATURAIS 56 j. A REABILITAÇÃO DOS CENTROS HISTÓRICOS BRASILEIROS . 60 k. A HISTÓRIA ORAL ....................................................................... 70 l. A IMPORTÂNCIA DAS RAÍZES CULTURAIS PARA A IDENTIDADE CULTURAL DO INDIVIDUO ............................................................................. 77 m. SABER MAIS ................................................................................ 81 n. CONCLUSÃO ................................................................................ 82 o. REFERÊNCIAS ............................................................................. 84 2 NOSSA HISTÓRIA A nossa história inicia com a realização do sonho de um grupo de empresários, em atender à crescente demanda de alunos para cursos de Graduação e Pós-Graduação. Com isso foi criado a nossa instituição, como entidade oferecendo serviços educacionais em nível superior. A instituição tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas de conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua. Além de promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de publicação ou outras normas de comunicação. A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma confiável e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base profissional e ética. Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições modelo no país na oferta de cursos, primando sempre pela inovação tecnológica, excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. 3 a. INTRODUÇÃO Nos dias de hoje tornou-se muito comum, no âmbito acadêmico, deparar-se com expressões do tipo: “cultura da pobreza, “cultura do medo”, “cultura das armas”, “cultura do corpo”, “cultura dos adolescentes” e tantas outras. O termo “cultura”, pode-se afirmar que ocupa atualmente o lugar que outrora fora destinado a “sociedade” e “civilização”. Entretanto, o termo cultura é mais do que um conceito, sugere um campo histórico de disputa em torno de sua função social. No decorrer de seu estudo a palavra “cultura” atingiu vários significados, desde o cultivo agrícola em oposição ao crescimento natural, passando por desenvolvimento mental, modo de vida até alcançar práticas de atividade intelectual. Alguns historiadores, dentre eles Raymond Williams, contestam a apropriação de um só uso para o termo cultura, sugerindo nesse sentido: um conceito de cultura que englobe não apenas “um modo de vida” ou “ produtos artísticos”, mas na experiência que sua forma constitui. O interesse pelos aspectos culturais da sociedade encontra profícua acolhida de 1970 até os dias de hoje, quando houve uma considerável virada teórica e metodológica em determinadas disciplinas como: Geografia, Antropologia, Economia, Psicologia, Ciência Política, Estudos Culturais e História, que passaram a dar mais atenção aos aspectos culturais nos seus estudos, permitindo dessa forma o surgimento de um nova História, denominada “Nova História Cultural”. Para entender um pouco mais sobre alguns aspectos teóricos e metodológicos da Historia Cultural e da Nova História Cultural, os estudiosos brasileiros podem contar com a obra O que é História Cultural?, do historiador britânico Peter Burke, traduzido por Sergio Góes de Paula e publicado recentemente pela editora Jorge Zahar. A relevância desse trabalho está na capacidade de síntese e análise do autor, que em 191 páginas, conseguiu apresentar com clareza e profundidade a História da História Cultural. Essa obra, sem sombra de dúvidas, tem uma grande contribuição a dar aos estudiosos da História Cultural, não somente pelo fato de ela ser um compêndio da trajetória dessa História, mas também por apresentar seus problemas e paradoxos ao longo de duzentos anos de sua existência. 4 As críticas mais agravantes ao período clássico da História Cultural vieram dos historiadores marxistas, que, além de salientarem a falta de análise cuidadosa das fontes, evidenciaram também a pouca análise social e econômica, e a homogeneização cultural ausente de conflitos. O principal expoente desses críticos foi o historiador E. P. Thompson, designando o conceito “termo desajeitado” para a prática de alguns historiadores culturais que não deram tanta importância às distinções culturais presentes nas sociedades. A Formação da Classe Operária Inglesa (1963), obra basilar da “Nova História Cultural”, considerado um marco na Nova História Cultural Britânica, foi duramente criticado por alguns marxistas, colegas de Tompson. As críticas focaram a pouca ênfase nas realidades econômicas, sociais e políticas e por privilegiar em excesso as experiências e as idéias. Entretanto, a tensão entre culturalismo e ecominicismo apresentou-se bastante profícua, pois permitiu aos estudiosos refletirem sobre essas questões. Os problemas continuam. Por um lado, um marxismo que dispensa as noções complementares de base e superestrutura corre o risco de perder suas qualidades distintivas. Por outro, crítica de Thompson às “noções holísticas” parece tornar impossível a história cultural ou, pelo menos, parece reduzi-la a fragmentos. Por mais diferentes que fossem os dois estudiosos, Thompson parecia estar apontando para a mesma direção que Gombrich, quando este rejeitava as “fundamentações hegelianas” das sínteses de Burckhardt e Huizinga. Tais críticas levantam uma questão fundamental: é possível estudar as culturas como um todo, sem fazer falsas suposições sobre homogeneidade cultural? (p. 38). Na primeira metade do século XX, a história “abriu-se” para as demais ciências, com uma proposta de diálogo interdisciplinar. O campo historiográfico, então, sofreu mudança significativa, obrigando os historiadores a reconsiderar o conceito de fontes, para além daquelas predominantemente documentais, na pesquisa em história. Sobre essas fontes de pesquisa incidem a reflexão, considerando-se a contribuição que os avanços tecnológicos trazem à coleta de dados, em particular, na história oral. Do ponto de vista metodológico, trata-se de estudo de caso, com caráter bibliográfico, que traça uma retrospectiva da história cultural, enfatizando as possibilidades de uso da história oral. Como aportes teóricos foram consultados estudos d e Ribeiro (2003), Pesavento (2005) e Alberti (2005). Os resultados apontam para possibilidades de utilização da história oral na pesquisa em história cultural. 5 1.1- METODOLOGIA Paraa construção deste material, foi utilizada a metodologia utilizada de pesquisa bibliográfica, com o intuito de proporcionar um levantamento de maior conteúdo teórico a respeito dos assuntos abordados. Segundo Gil, a pesquisa bibliográfica consiste em um levantamento de informações e conhecimentos acerca de um tema a partir de diferentes materiais bibliográficos já publicados, colocando em diálogo diferentes autores e dados. Entende-se por pesquisa bibliográfica a revisão da literatura sobre as principais teorias que norteiam o trabalho científico. Essa revisão é o que chamamos de levantamento bibliográfico ou revisão bibliográfica, a qual pode ser realizada em livros, periódicos, artigo de jornais, sites da Internet entre outras fontes. Outro método utilizado foi à metodologia de ensino Waldorf, esta metodologia é uma abordagem desenvolvida pelo filósofo Rudolf Steiner. Ele acreditava que a educação deve permitir o desenvolvimento harmônico do aluno, estimulando nele a clareza do raciocínio, equilíbrio emocional e a proatividade. O ensino deve contemplar aspectos físicos, emocionais e intelectuais do estudante. Ainda para a construção deste, foi utilizado a etnometodologia, pela fenomenologia e pelo legado de Wittgenstein, além de alguns elementos marxistas e outros pensamentos mais contemporâneos, como os desenvolvidos por Pierre Bourdieu e Anthony Giddens. Segundo Nicolini, Gherardi e Yanow (2003) a noção de prática, na sua essência filosófica, está baseada em quatro grandes áreas do saber - na tradição marxista, na fenomenologia, no interacionismo simbólico e no legado de Wittgenstein -, das quais podem ser citados fenômenos como: conhecimento, significado, atividade humana, poder, linguagem, organizações, transformações históricas e tecnológicas, que assumem lugar e são componentes do campo das práticas para aqueles que delas compartilham. Com tudo, o intuito deste modelo é possibilitar os estudos e contribuir para a aprendizagem de forma eficaz, clara e objetiva. 6 b. HISTÓRIA CULTURAL: RETROSPECTIVA A história, tradicionalmente, “ocupa - se, de um lado, com as bases materiais e sociais da existência humana, e de outro, com as idéias mediante as quais os homens representam essa existência”, afirma Castanho (200 6, p. 139 ). Como construção moderna, consolida-se como disciplina científica no século XIX. As mudanças mais representativas em sua historiografia, porém, ocorrem no decorrer do século XX. Para que se possa perceber o alcance das mudanças no campo da história e da historiografia no decorrer do século XX, em especial no período que corresponde aos anos (30/70) é necessário, contudo, que se estabeleça contraste com o século XIX. É nesse período que se registra o abandono das concepções relativas à investigação e à escr ita da história que constituíam a tradição europeia, com a convergência, por parte das diversas escolas e correntes historiográficas do século XX, para que a história recuperasse seu sentido antigo de investigação. No decorrer da primeira metade do século XIX, os historiadores preocupavam-se em escrever histórias nacionais, recuperando os heróis e seus grandes feitos, no objetivo de construir os Estados nacionais e estimular o surgimento da identidade nacional. Jules Michelet (1798 - 1874), historiador franc ês, autor da “História da França”, chama a atenção dos historiadores contemporâneos por identificar um agente sem rosto, o povo e as massas, como personagens da história. Esse trabalho de Michelet não o coloca, todavia, como precursor da história cultural, mas significa uma nova postura de trabalhar a história, como bem esclarece Pesavento (2005), de pensar temas e problemas pertinentes ao imaginário, como forma de construção da realidade histórica. Podem ser considerados precursores da história cultural Ja cob Burckhardt, cuja obra “A civilização da Renascença na Itália” (1860) apresenta uma história em que os acontecimentos se diluíam diante da exposição do clima de uma época, das formas de pensar e das mentalidades; Leopold Von Ranke, que buscava um método científico para a história, avançando para fórmulas científicas que influenciaram gerações de historiadores na Alemanha e na França, mas que afirmava a descontinuidade da história, as múltiplas temporalidades e a historicização dos significados; e Johann Gustav Droysen, que se opunha a Ranke, mas entendia que a realidade do passado era inatingível (CHARTIER, 1990). 7 É, portanto, no século XIX, segundo Bourdé e Martin (1990), apud Castanho (2006, p. 140), que a história se instituirá como ciência autônoma, c om objetivo específico e método próprio. Nos seus últimos trinta anos, auge do cientificismo, articularam-se o pensamento burguês, nas vertentes do positivismo e do darwinismo social, e o seu contrário dialético, na obra revolucionária de Marx e Engels. No s domínios da e tnologia e da a ntropologia, Marcel Mauss e Émile Durkheim, com suas pesquisas sobre povos primitivos contemporâneos, davam destaque às representações, propiciando uma aproximação do campo da história com o da antropologia cultural. Em outros contextos, ensaios isolados apontavam para novos caminhos que desembocariam neste novo campo que denominamos história cultural. Assim, é no século XX que a história cultural desabrocha, quer como história das ideias, quer como história intelectual ou aind a como história cultural propriamente dita. Relembra Pesavento (2005) que, nos anos 30, dois grandes intelectuais tiveram a ousadia da mudança no pensar, em momento tão conturbado pela emergência dos fascismos e da eclosão da guerra mundial: “Walter Benjam in, na Alemanha, e Antonio Gramsci, na Itália, de dentro do pensamento marxista, trilharam outros caminhos de análise”. É certo que, embora não tivessem se conhecido, repensaram suas matrizes de pensamento, interessando-se pela área cultural, que passar ia doravante a interessar ao pensamento marxista. Gramsci, ao dar continuidade à tradição marxista, elaborou uma teoria ampliada de Estado, entendendo a sociedade como uma organização constituída de instituições complexas, públicas e privadas, articuladas en tre si, na busca da garantia da hegemonia de seus interesses (GRAMSCI, 1991). Propôs, assim, uma concepção da cultura e dos intelectuais, interpretando a cultura como conjunto de valores construídos, socializados, legitimados e operacionalizados, a partir de um grupo específico, o dos intelectuais, abrindo espaço para a superestrutura, que se liberta das amarras que mantinha com a infraestrutura, em termos de determinação (GRAMSCI, 1982). 8 Benjamin, cuja meta era realizar uma espécie de arqueologia da cultura do século XX, por sua vez, trabalhou com o imaginário social de uma época, com imagens que faziam crer, que se substituíam ao real, fazendo os homens viverem no mundo das representações. Outros pensadores, entre tantos que contribuíram para a mudança no discurso historiográfico, foram Paul Ricoeur (1994), que discutia a possibilidade de obtenção da verdade histórica e de sua finalidade; Roland Barthes, que indagava sobre os traços que distinguiam a narrativa histórica da ficcional; Edward P. Thompson (198 7), historiador inglês que alargou o conceito de classe social, entendendo - a em seu mundo cultural e resgatando a dimensão do empírico na pesquisa histórica; Norbert Elias (2001), que estudou a confluência entre a sociogênese e a psicogênese, incluindo a formação do sentimento; Ernst Gombrich (1994) e Erwin Panofsky (1991), que trabalharam as imagens pictóricas vendo nelas vida, sentimentos, valores. Esta relação se refere aos autores mais conhecidos no Brasil, cujas obras foram sendo traduzidas e estudadas pelos intelectuais que participavam do processo de abertura política do país, décadas depois. No mesmo período, o panorama historiográficofrancês passava por desdobramentos que iam da revista “Les Annales d’Histoire Économique et Sociale”, fundada em 19 29, por Marc Bloch e Lucien Febvre, à história das mentalidades, p ela qual se chegaria à história cultural francesa contemporânea, segundo explica Vainfas (1997). 9 Em sua crítica à historiografia tradicional, Bloch e Febvre tinham por objetivo substituí-la por uma história que contemplasse todas as atividades humanas e atingisse outras áreas do conhecimento. Mais preocupada com os aspectos estruturais do que com os narrativos, a nova história buscava novos objetos de pesquisa.Segundo Constantino ( 2004, p. 49), o objeto da ciência histórica deix ava de “ ser simplesmente alcançado pelas fontes para ser construído pelo historiador, a partir das demandas do seu presente”, modificando a relação do historiador com o passado. A constituição da história das mentalidades, que se conformou no primeiro período das “Annales”, sua perspectiva globalizante com Fernand Braudel e o terceiro período da escola, caracterizado pela recusa aos referenciais marxistas, substituído pela busca dos arquivos e pela coleta sistemática d e dados, são descritas por Cardoso e Vainfas em sua obra “Domínios da história” (1997), cuja análise, no momento, foge à proposta deste trabalho. Vale mencionar, no entanto, que para estes autores, além da amplitude dos objetos, a nova história enfatizou “ [...] a reivindicação do individual, do subjetivo, do simbólico como dimensões necessárias e legítimas da análise histórica” (CARDOSO e VAINFAS, 1997, p. 22). Peter Burke (200 8 ), em “O que é história cultural?”, trata da relevância da grande diáspora para a estruturação e ascensão da história cultural na Europa, destacando que a id e ia de “cultura popular” ou Volkskultur, originada na Alemanha, no final do século XVIII, só na década de 1960 é que foi retomada pelos historiadores acadêmicos alemães. No último quartel do século XX, marcada por uma incrível pluralidade de denominações e de ênfases, a história cultural enfrentava novos desafios. Era evidente uma linha de tensão entre os historiadores que de algum modo relacionavam o universo das ideias com o de sociedade e aqueles que trabalhavam as ideias a partir do conceito de mentalidade e das representações. Os primeiros, referindo-se às ideias contextualizadas; os segundos, voltados para o texto que servia de suporte. Tal situação tornou difícil o diálogo entre a história cultural e o marxismo. Cientes disso, autores como Goldmann (1967) e Jameson (1992), passaram a se preocupar com essa interlocução. Em área ambígua entre o textualismo e o contextualismo, situam-se Chartier (1990) e Bourdieu (1987), 10 ambos c om tendência a dar primazia ao texto, que, em 1997, com Foucault, se expande. De acordo com a nova tendência, voltada à história como narrativa, firmava- se a ideia de que tudo poderia ser história, que surgia como o resultado de uma interrogação feita pelo historiador, misturando-se com a ficção. Na segunda metade dos anos 90, comenta Pesavento (2005, p. 37), “o campo da História já se achava afetado por questionamentos tão profundos que se podia falar, verdadeiramente, de uma busca de novos paradigmas exp licativos da realidade”. De um lado, a história moderna, com método e procedimentos sólidos de investigação nos arquivos. De outro, a história pós - moderna, sem nenhum referencial teórico de análise, sem racionalidade. A história havia se transformado em uma disciplina com campo de abrangência muito vasto, abrangendo: [...] a história da cultura material e do mundo das emoções, dos sentimentos e do imaginário, assim como o das representações e imagens mentais, da cultura da elite ou dos grandes pensadores - história intelectual em sentido estrito -, e a da cultura popular, a da mente humana como produto sócioistórico - no sentido vigotskiano - e a dos sistemas de significados compartilhados - no sentido geertziano -, ou outros objetos culturais produzidos por essa mesma mente e, entre eles, - por que não? - a linguagem e as formações discursivas criadoras de sujeitos e realidades sociais. Tudo isso, ademais, não a partir de uma perspectiva fragmentada, mas conectada e integrada (VIÑAO FRAGO, 1995, pp. 64 - 65 ). Na visão de Lombardi et al . (2006), porém, é Ronaldo Vainfas (1997) quem consegue melhor identificar três maneiras distintas de tratar a história cultural. Para tanto, Vainfas parte da recusa de um conceito vago, ambíguo e impreciso de mentalidades, val orizando o cotidiano, a micro - história ; da predileção pelo informal e pelo popular, distanciando-se da história dos “grandes pensadores”; da preocupação em resgatar o papel das classes sociais e do conflito social; e da possibilidade de a história cultural apresentar caminhos alternativos para a investigação histórica. Apresenta, então, as maneiras pelas quais a história cultural poderia ser tratada: 1. A história da cultura praticada pelo italiano Carlo Ginzburg, notadamente suas noções de cultura popular e de circularidade cultural presentes quer 11 em trabalhos de reflexão teórica, quer nas suas pesquisas sobre religiosidade, feitiçaria e heresia na Europa quinhentista. 2. A história cultural de Roger Chartier, historiador vinculado, por origem e vocação, à histo riografia francesa - particularmente os conceitos de representação e de apropriação expostos em seus estudos sobre ‘ leituras e leitores na França do Antigo Regime ’ . 3. A história da cultura produzida pelo inglês Edward Thompson, especialmente na sua obra sobr e movimentos sociais e cotidiano das ‘ classes populares ’, na Inglaterra do século XVIII (VAINFAS, 1997, p. 148). Como se percebe, a história cultural envolve historiadores com posturas tão diferentes como Thompson (1987), Chartier (1990) e Ginzburg (1991), numa reviravolta em termos de abordagem cujos frutos serão colhidos mais tarde. A questão epistemológica da história cultural estaria centrada no conceito de cultura como objeto de investigação, no estudo das representações sociais, das práticas culturai s e do processo de apropriação. As representações construídas sobre o mundo não só se colocariam no lugar do mundo, como fariam com que os homens percebessem a realidade e a partir delas pautassem sua existência. Seriam elas as geradoras de condutas e práticas culturais e sociais. Caberia à história cultural resgatar representações, construindo uma representação sobre o que já foi representado. A esse conceito, outro seria anexado: o de imaginário, como “um sistema de ideias e imagens de representação coletiva que os homens, em todas as épocas, construíram para si, dando sentido ao mundo” (PESAVENTO, 2005, p. 43). 12 O imaginário comportaria as crenças, mitos, ideologias, valores, construindo identidades e exclusões, hierarquizando, dividindo, apontando semelha nças e diferenças sociais, organizando o mundo, produzindo a coesão ou o conflito. Partindo dessas reflexões, a metodologia de pesquisa que mais se adequaria à história cultural seria a fenomenologia, à qual incumbiria descrever, e não explicar nem analisa r (TRIVIÑOS, 2006, p. 43). Não haveria interesse em colocar em relevo a historicidade dos fenômenos, desde que estes, submetidos à redução fenomenológica, se manifestassem em toda sua pureza. O importante, na opção de pesquisa, é que o pesquisador mantenha coerência entre sua concepção de mundo e o quadro teórico que lhe serve de apoio. O prefácio da “Introdução à Pesquisa em Ciências Sociais”, de Augusto N. S. Triviños é elucidativo a respeito: Devemos ser claros, porém, que a necessidade de colocar nossos pontos de vista neste livro deve - se, primordialmente, a uma realidade que muitas vezes constatamos: a confusão, a mistura, o ecletismo, que guiam muitas das pesquisas que repousam nasprateleiras das bibliotecas do ensino superior, e que fazem delas um co njunto de idéias sem a amarra de conceitos centrais orientadores (TRIVIÑOS, 2006, p. 13). Com base nos conceitos centrais orientadores da história cultural, a memória de um indivíduo comum “pode ser investigada como se fosse um microcosmo de uma camada so cial inteira em um determinado período histórico”, como ensina Ginzburg (1991, p. 22). c. A REALIDADE CONSTRUÍDA E VIVIDA: AS REPRESENTAÇÕES Ao lermos as concepções e considerações de Peter Burke, Roger Chatier e Sandra Pesavento, observamos que o conceito de História Cultural se faz em torno dos significados construídos pelo homem, pois é a partir da leitura dos mesmos que o historiador cultural pode apreender o modo de viver e pensar de uma sociedade, de um grupo ou mesmo de um indivíduo, como Carlo Ginzburg mostrou em O Queijo e os Vermes, ao contar a história de Menocchio. 13 A palavra significado remete-nos ao signo que, linguisticamente, é formado de significante e significado, os quais são ligados de maneira arbitrária e conjetural a partir de uma convenção social partilhada por todos os membros que compõem essa sociedade. Como menciona Foucault (2000), o signo deve encontrar seu espaço no interior do conhecimento e só existe a partir do momento em que seja conhecida por todos do grupo a possibilidade de relação de substituição entre dois elementos já conhecidos. Servir-se de signos é tentar descobrir seu caráter arbitrário, o qual autoriza sua existência numa determinada época e numa dada sociedade; é tentar analisar as leis que regem sua composição e existência. A História Cultural serve-se de signos, símbolos, marcas e representações para compreender uma dada época e sociedade. A representação nada mais é do que um signo, e seu conceito tem acompanhado as concepções acerca da História Cultural e delineado seu campo de investigação. Roger Chartier (1988) afirma que os esquemas intelectuais criam as representações que conferem um sentido ao mundo e que possibilitam decifrarmos como, historicamente, os homens expressaram a si próprios e o mundo, pois as representações são matrizes de condutas e constituintes de práticas de uma sociedade. Essa nova maneira de trabalhar com a cultura e a história traz aos historiadores culturais também maneiras diferentes de se olhar para as fontes e os documentos, que agoram passam a ser vistos também como representações do passado, materiais passíveis de perguntas. Dessa forma, o historiador da cultura, segundo Pesavento (2005), visa construir as representações do passado por meio de documentos e fontes que representam esse passado. A História Cultural é uma narrativa de representações do passado, pois formula versões, compreensíves e plausíveis sobre as experiências vividas pelos homens em outro tempo. (PESAVENTO, 2005). 14 Peter Burke (1992), ao comentar em seu texto sobre o problema das fontes históricas, vivenciado pelos novos historiadores, salienta a necessidade do historiador ler as entrelinhas dos documentos, e ter a consciência de que todo documento, imagem ou objeto são produções humanas; portanto, representações da realidade. Desse modo, as fontes não falam por si somente, elas exigem a análise cuidadosa do historiador, com a finalidade de apreender tanto as falas quanto os silenciamentos presentes nelas, conforme as palavras de Pesavento (2005, p.41): As representações são também portadoras do simbólico, ou seja, dizem mais do que aquilo que mostram ou enunciam, carregam sentidos ocultos, que, construídos social e historicamente, se internalizam no inconsciente coletivo e se apresentam como naturais, dispensando reflexão. Roger Chartier (1988) reforça a não existência de uma neutralidade nas representações, mostrando que as mesmas devem ser tomadas como construções históricas surgidas por relações de lutas, disputas e conflitos. As representações do mundo social assim construídas, embora aspirem à universalidade de um diagnóstico fundado na razão, são sempre determinadas pelos interesses de grupo que as forjam (CHARTIER, 1998, p. 17). O papel do historiador cultural volta-se, então, para o deciframento das fontes que lhe são apresentadas. Ele é um decifrador que se vale de provas, de 15 indícios cuidadosamente pesquisados, selecionados e combinados para revelar os significados de uma época (PESAVENTO, 2005). E nesse momento é que o historiador deve contar com sensibilidade e intuição de Sherlock Holmes, Giovanni Morelli ou Sigmund Freud, mencionados por Ginzburg (1989) ao explicar sobre o novo método epistemológico, o paradigma indiciário. O paradigma indiciário emergiu como modelo epistemolódico no final do século XIX, no âmbito das ciências humanas. Na arte, na literatura, na psicologia, na semiótica médica podemos encontrar exemplos e utilização desse método que se volta para análise de dados particulares, insignificantes, negligenciáveis e imperceptíveis, na tentativa de revelação de fenômenos mais gerais. Giovanni Morelli utilizava-se desse método para distinguir as cópias de quadros pintados por grandes pintores, baseando-se em pormenores da pintura que revelavam o estilo próprio do pintor, menos influenciados pelas características da escola à qual pertencia e, portanto, mais difíceis de serem imitados. Na literatura, Conan Doyle constrói seu mais famoso personagem, o detetive Sherlock Holmes, que aplica o método para descobrir autores de crimes baseando- se em indícios imperceptíveis para a maioria. A partir de gestos inconscientes das pessoas o caráter pode ser revelado. Na psicologia, temos Sigmundo Freud, considerado o pai da psicanálise, que revela ter recebido influências de Giovanni Morelli, a partir da leitura de seus livros. O método interpretativo, centrado nos indícios e nos dados marginais, é considerado revelador e serve para fazer emergir os produtos mais elevados do espírito humano, objetos da psicologia. Ginzburg (1989, p. 151) encontra um ponto de encontro entre os 3 casos - a semiótica médica -, que consiste na “disciplina que permite diagnosticar as doenças inacessíveis à observação direta na base de sintomas superficiais, às vezes irrelevantes aos olhos do leigo”. No entanto, as raízes do paradigma indiciário são bem mais antigas, originam-se de um saber venatório, o saber relativo à caça, no qual o caçador reconstrói as formas e movimentos de suas presas invisíveis por intermédio das pegadas deixadas pela floresta, dos ramos quebrados, do esterco, do tufo de pelos e dos odores. A partir desses indícios, sinais, o caçador lê as pistas deixadas pelos animais e encontra sua presa. 16 As pegadas, os tufos de pelos, os odores tornam-se significantes passíveis de um significado relevante ao caçador: são signos a serem decifrados, pois trazem com eles um conhecimento sobre a caça. Para Ginzburg (1989), as disciplinas que têm por objeto casos, situações e documentos individuais, como a medicina, a filologia e a história, são consideradas disciplinas indiciárias. Conforme já mencionamos, apoiados nas concepções de Pesavento (2005), a História Cultural constrói uma representação sobre o representado. O conhecimento histórico por ela produzido é considerado um conhecimento indireto, indiciário e conjetural; por esta razão o paradigma indiciário proposto por Ginzburg (1989) pode ser considerado um método que muito contribui para o perfil da investigação na qual o historiador cultural mergulha. Movido pela suspeita, pelas perguntas que levanta sobre o passado, o historiador reúne dados, organiza-os, compara-os, classifica-os a partir das pistas, dos indícios que esses dados lhe apresentam. São pormenores, particularidades, silêncios, falas, contextos que formam um conjunto de significados expostos à sensibilidade e intuição do historiador,pois “se a realidade é opaca, existem zonas privilegiadas – sinais, indícios – que permitem decifrá-la” (GINZBURG, 1989, p. 177). O passado não se mostra por inteiro nas fontes de pesquisa, apenas reflete nuances de como o mundo se apresentava e era representado por uma época. Cabe 78 ao historiador decifrar essas nuances, na tentativa de compreender aquilo que já foi vivido e experimentado pela existência humana. A intuição delineia um rigor flexível ao paradigma indiciário, muito desejável, segundo Ginzburg (1989), para formas de saber mais ligadas à experiência cotidiana, como é o caso da história. Por meio da sua intuição, o historiador constrói uma quebra-cabeça com os traços e registros do passado que são capazes de produzir um sentido. E deve ir mais além, deve construir esse quebra-cabeça a partir do contexto no qual o seu objeto de pesquisa se insere (PESAVENTO, 2005). Assim, cuidado e atenção dados às fontes, a utilização de um método estratégico e flexível, mas que lhe dará mais chances de se aproximar da realidade construída pelo homem em seu tempo, a intuição e o rigor científico darão autoridade da fala ao historiador cultural, para validar a representação que 17 construiu do passado, a partir de sua pesquisa, como algo plausível de ter acontecido, pois como diz Pesavento (2005, p. 119): A História Cultural pressupõe um método, trabalhoso e meticuloso, para fazer revelar os significados perdidos do passado. Pressupõe ainda uma carga de leitura ou bagagem acumulada, para potencializar a interpretação por meio da construção do maior número de relações possível entre os dados. Como resultado, propõe versões possíveis para o acontecido, e certezas provisórias. d. AS ACEPÇÕES DO PATRIMÔNIO CULTURAL Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN, o patrimônio cultural de um povo é formado pelo conjunto dos saberes, fazeres, expressões, práticas e seus produtos, que remetem à história, à memória e à identidade desse povo. O patrimônio cultural de uma sociedade é também fruto de uma escolha, que, no caso das políticas públicas, tem a participação do Estado por meio de leis, instituições e políticas específicas. Essa escolha é feita a partir daquilo que as pessoas consideram ser mais importante, mais representativo da sua identidade, da sua história, da sua cultura, ou seja, são os valores, os significados atribuídos pelas pessoas a objetos, lugares ou práticas culturais que os tornam patrimônio de uma coletividade (ou patrimônio coletivo). De acordo com o Art. 216 da Constituição Federal Brasileira constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira. São eles: As formas de expressão; Os modos de criar, fazer e viver; As criações científicas, artísticas e tecnológicas; As obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais; Os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico. 18 A Lei nº 4.741 de 17 de dezembro 1985, que dispõe sobre o tombamento de Bens para integração no Patrimônio Histórico, Artístico e Natural do Estado de Alagoas, afirma que patrimônio cultural consiste nos bens de interesse cultural e consequentemente suscetíveis da proteção e vigilância do Poder Público estadual todos aqueles que, móveis ou imóveis, atuais ou futuros, existentes no território alagoano, por seu valor histórico, artístico, arqueológico, etnográfico, paisagístico, folclórico ou bibliográfico, mereçam ser preservados de destruição ou de utilização inadequada. O patrimônio cultural pode ser classificado quanto à sua natureza, que pode ser material ou imaterial. O patrimônio material consiste, segundo o Decreto-Lei nº 25/1937, no conjunto de bens culturais móveis e imóveis existentes no país e cuja conservação seja de interesse público, quer por sua vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil, quer por seu excepcional valor arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico. Já o patrimônio imaterial, por sua vez, é definido pela UNESCO como as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas – com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados - que as comunidades, os grupos e, em alguns casos os indivíduos, reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural. 19 A noção de patrimônio advém etimologicamente da concepção de "herança paterna". Esse termo nas línguas românicas, segundo Pedro Paulo Funari, deriva do latim patrimonium e faz alusão à "propriedade herdada do pai ou dos antepassados" ou "aos monumentos herdados das gerações anteriores". Para o referido historiador e arqueólogo, essas expressões fazem menção a moneo, que em latim significa "levar a pensar". Portanto, as noções de patrimônio cultural mantêm-se vinculadas às de lembrança e de memória — uma categoria basal na esfera das ações patrimonialistas, uma vez que os bens culturais são preservados em função dos sentidos que despertam e dos vínculos que mantêm com as identidades culturais. Nos recônditos da memória residem aspectos que a população de uma dada localidade reconhece como elementos próprios da sua história, da tipologia do espaço onde vive, das paisagens naturais ou construídas. A memória, do ponto de vista de Jaques Le Goff, estabelece um "vínculo" entre as gerações humanas e o "tempo histórico que as acompanha". Tal vínculo, além de constituir um "elo afetivo" que possibilita aos cidadãos perceberem-se como "sujeitos da história", plenos de direitos e deveres, os torna cônscios dos embates sociais que envolvem a própria paisagem, os lugares onde vivem, os espaços de produção e cultura. Sob essa ótica, Le Goff destaca que a "identidade cultural de um país, estado, cidade ou comunidade se faz com a memória individual e coletiva"; a partir do momento em que a sociedade se dispõe a "preservar e divulgar os seus bens culturais" dá-se início ao processo denominado pelo autor como a "construção do ethos cultural e de sua cidadania". 20 O ethos cultural, em essência, tangencia tudo aquilo que distingue a existência dos grupos sociais no interior de uma sociedade. Observado isoladamente, o vocábulo cultura, advindo de colere, denota o sentido de cultivar, originalmente circunscrito ao labor agrícola, mas o termo ainda contempla a educação, a polidez, a civilidade do indivíduo. Sem dúvida, a cultura apreendida como "formas de organização simbólica do gênero humano remete a um conjunto de valores, formações ideológicas e sistemas de significação" que norteiam os "estilos de vida das populações humanas no processo de assimilação e transformação da natureza". No âmbito do patrimônio, o restabelecimento da acepção antropológica da cultura como "todo conhecimento que uma sociedade tem de si mesma, sobre outras sociedades, sobre o meio material em que vive e sobre sua própria existência" provocou a ampliação do conceito. Este passou a abarcar também as maneiras de o ser humano existir, pensar e se expressar, bem como as manifestações simbólicas dos seus saberes, práticas artísticas e cerimoniais, sistemas de valores e tradições. Essa noção de cultura, fomentada desde o início da década de 1980 nas convenções internacionais promovidas pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura — Unesco, adquiriu maior magnitude em 1985, por ocasião da "Declaração do México". 21 A caracterização ampliada da cultura, apresentada nesse documento, definiu o patrimônio como produções de "artistas, arquitetos, músicos, escritores e sábios", "criaçõesanônimas surgidas da alma popular" e "valores que dão sentido à vida". Nessa linha argumentativa, a referida declaração frisou a importância da preservação de "obras materiais e não materiais que expressassem a criatividade de um povo: a língua, os ritos, as crenças, os lugares e monumentos históricos, a cultura, as obras de arte e os arquivos e bibliotecas". E também salientou que a "preservação" e o "apreço" pelo patrimônio cultural permitem aos povos a "defesa da sua soberania e independência". Há que se admitir que embora a definição de patrimônio cultural busque contemplar as mais diversas formas de expressão dos bens da humanidade, tradicionalmente o referido conceito continua sendo apresentado de maneira fragmentada, associado às distintas áreas do conhecimento científico que o definem como patrimônio cultural, natural, paisagístico, arqueológico e assim por diante. Contudo, nos últimos anos do século XX e início do século XXI, já se depreende que essas áreas se inter-relacionam e que, independentemente das suas respectivas categorias, todo o patrimônio se configura e se engendra mediante suas relações com a cultura e o meio. Sem dúvida, hoje se reconhece que a cultura é construída historicamente, de forma dinâmica e ininterrupta, alterando-se e ampliando seu cabedal de geração em geração, a partir do contato com saberes ou grupos distintos. A emergência de uma "consciência preservacionista" na esfera ambiental se consolidou na década de 1980, mas essa mobilização não partiu do Estado como ocorreu com o patrimônio histórico durante a Revolução Francesa, no século XVIII. Pelo contrário, o movimento em prol do direito e da proteção ao meio ambiente se irradiou através da comunidade científica e acabou difundido entre organizações não-governamentais que passaram a reivindicar melhor "qualidade de vida" no planeta. Entretanto, a questão da preservação do patrimônio natural vem suscitando polêmicas desde longa data. Para as correntes naturalistas do século XIX, a maneira mais adequada de garantir a proteção das áreas naturais residia em afastá-las do homem. Esse entendimento, por sua vez, consistia em uma reação à 22 corrente culturalista, segundo a qual a natureza representava uma ameaça de volta à condição "selvagem" do homem. Em meados do século XIX, a concepção de wilderness (ou mundo selvagem) favoreceu a criação de parques e estações ecológicas americanas e a edificação de uma imagem incompatível entre a existência humana e a conservação da natureza — o que implicou a defesa do uso restrito (ou sua total supressão) das áreas de proteção ambiental. No século XXI, o reconhecimento das chamadas populações tradicionais e da sua possível contribuição para a conservação e manutenção da diversidade biológica apontou o surgimento de um ecologismo diferenciado daquele emergente nos países industrializados que sacralizavam o mito da "natureza intocada", dois séculos antes. A acepção do "equilíbrio dos ecossistemas" e do "novo naturalismo", manifestos por meio de movimentos sociais, primou pela diversidade cultural e pela união entre o homem e a natureza de modo a garantir a gestão democrática dos espaços territoriais e o adequado manejo das áreas de proteção ambiental. Ainda assim, faz-se necessário atentar para as armadilhas decorrentes das visões simplistas que, por um lado, apostam na possibilidade de a tecnologia moderna reverter qualquer impacto das atividades humanas sobre a natureza, e por outro, defendem que as populações tradicionais figuram como "conservacionistas natos" ou profundos conhecedores da dinâmica do mundo natural. Talvez, as saídas para esses impasses se delineiem mediante o investimento em pesquisas sobre as possibilidades de se relativizar a manutenção da diversidade biológica e a conservação da pluralidade cultural. Noutro extremo, não se pode negligenciar a complexidade adquirida pela temática do patrimônio natural, quando esta se articula à noção de paisagem, uma vez que ela incorpora as relações do homem com o meio, e ainda sugere que os "modos" ou "gêneros" do viver humano produzem "paisagens culturais". As singularidades relacionais entre as culturas e o meio ambiente definem, conforme os fundamentos da geografia cultural, os traços da própria paisagem e a distinguem de outros espaços, determinando o seu geni'us loci, ou seja, a "alma do lugar". Nesse âmbito, torna-se possível apreender por que Augustin Berque afirma que a "paisagem é uma marca, pois expressa uma civilização" e, ao mesmo tempo, "participa dos esquemas de percepção, de concepção e de ação — ou seja, da 23 cultura — que canalizam, em certo sentido, a relação de uma sociedade com o espaço e com a natureza". Sob esse enfoque o conceito de patrimônio ambiental adquire dimensões sociais, cujo significado aponta a materialização dos sentidos atribuídos no decorrer do processo histórico e lhe imprime uma perspectiva dinâmica, uma conotação que fomenta a consciência do uso comum do meio e, principalmente, a responsabilidade coletiva pelo espaço. As demandas da modernização imputam às elites políticas e intelectuais latino-americanas a necessidade de normatizar as formas de apropriação dos territórios. No decorrer do século XX, a noção de patrimônio ambiental urbano amplia-se e também passa a ser considerada fator de reconhecimento dos núcleos históricos. Aliás, a natureza não raro referendou representações de memórias coletivas e, como bem o lembram Gilmar Arruda e Zélia Lopes da Silva, cristalizou elementos fundantes das construções identitárias de distintas sociedades, inclusive da brasileira. Mas, entre 1932 e 1937, os efeitos do desmatamento e da "descarga" de dejetos residenciais e resíduos industriais nos mananciais urbanos passaram a constituir alvo de matérias veiculadas por meio do jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, e a serem debatidos em associações como a "Academia Brasileira de Ciências", a "Sociedade Amigos das Árvores" e a "Sociedade Amigos de Alberto Torres". A ampliação das interpretações sobre a natureza alcança os debates entre os constituintes e a redação da Carta Magna de 1937 chega a referir-se aos bens naturais como "monumentos" da nação brasileira. A defesa efetiva dos bens naturais e culturais do país acabou sendo implementada através do Decreto-Lei no 25/1937, referente ao tombamento, porém os termos dessa proteção se restringiram, conforme o artigo primeiro da lei, aos 24 valores paisagísticos e estéticos referentes aos "sítios e paisagens" distinguidos "pela feição notável com que tenham sido dotados pela natureza ou agenciados pela indústria humana". Passados 51 anos, os bens enumerados no artigo no 216 da Carta Constitucional do país (1988) mantiveram-se articulados às noções de patrimônio ambiental circunscritas aos "conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico". Nessa direção, se reconhece que o tombamento ainda persiste como o instrumento mais eficaz para a proteção dos bens naturais e culturais. Os critérios de promoção de certos bens à condição de patrimônio têm se vinculado à imputação de valores culturalmente defensáveis. Desde a instituição da "Convenção do Patrimônio Mundial", em 1972, a definição dos parâmetros para identificação dos bens de interesse universal tem oscilado entre critérios como raridade, urgência, autenticidade, integridade e universalidade. Hoje, os critérios de autenticidade e universalidade têm sido tomados como balizas definidoras dos bens integrados à Lista do Patrimônio da Humanidade. Cabe ressaltar que a par da importância atribuída aos bens, perfilham-se os seus significados afetivos, culturais, estéticos, sociais, históricos, econômicos e técnicos. Por essa razão o francês Hugues de Varine-Bohan argumentou, há mais de36 anos, que o patrimônio cultural deveria ser abordado da perspectiva de três vetores básicos: o do conhecimento, o dos bens culturais e o do meio ambiente. Sob esse prisma, definia o "patrimônio do conhecimento" como os "costumes", as "crenças" e o "saber fazer" capaz de viabilizar a sobrevivência do homem no meio ambiente onde vivia, e delimitava o "patrimônio dos bens culturais" como conjunto de artefatos e tudo o mais que derivava do uso do patrimônio ambiental. Este último contemplava os elementos inerentes à natureza, como o próprio meio e os recursos naturais. Talvez a maior releva ncia da abordagem de Varine-Bohan deva-se ao fato de que tais acepções do patrimônio coadunam-se às noções de bens naturais e culturais, concatenadas mediante as articulações entre natureza e cultura, haja vista que a própria cultura parece ser conc ebi da pelo autor como a "natureza transformada pelo trabalho humano". Ora, na medida em que os bens culturais parecem entendidos como resultado da transformação da natureza, se reconhece que as constantes alterações do meio decorrem das novas necessidades que surgem ao longo da existência humana. Interpretada dessa maneira, a referida 25 definição do patrimônio ambiental inclui não somente os "recursos naturais" ou "a natureza não apropriada pelo trabalho", mas também os subsídios da construção cultural, quais sejam, os ambientes urbanos percebidos como lócus da materialização das relações sociais. Esse ponto de vista permite ainda a incorporação do conceito de territorialidade à questão do patrimônio, pois, como bem o lembra Milton Santos, os territórios se delineiam a partir de "sua utilidade atual, passada e futura", derivam do uso que lhes é atribuído "pelos grupos humanos que os criaram ou que os herdaram das gerações anteriores". Essa assertiva descortina as múltiplas facetas da problemática patrimonial, libertando-a da clausura inerente às definições isoladas, sem dissociá-la das referências culturais e do espaço geográfico. Assim, se depreende que a interpretação do patrimônio cultural ou do patrimônio ambiental não pode ser abstraída dialeticamente das ações historicamente responsáveis por sua construção, nem tampouco do sentido de pertencimento. Exposto isso, vale lembrar que a instituição do tombamento para fins de proteção do patrimônio também se engendrou no contexto da Modernidade. Curiosamente, a proteção de ecossistemas, paisagens naturais, conjuntos arquitetônicos, centros urbanos, monumentos, sítios arqueológicos, peças móveis, manifestações culturais e artísticas prefigurou-se, por algum tempo, como um movimento anacrônico devotado a refrear as trajetórias progressivas do desenvolvimento e a domesticação da natureza. Em meio às contínuas transformações advindas da modernização, a defesa do meio ambiente e das tradições culturais foi dotada do sentido de afiançar a imortalidade dos signos da identidade nacional, cultural e ecológica. Portanto, somente nos últimos anos do século passado a preservação dos bens naturais e culturais passou a ser admitida como uma atitude positiva e inteligível. Nesse contexto, como tem sido tratado o patrimônio cultural latino- americano? Quais as implicações da preservação num continente territorialmente vasto e culturalmente diversificado? As várias nações latino-americanas têm características pluriculturais oriundas de suas inúmeras etnias. Essa riqueza cultural se inscreve num processo dinâmico que se reorganiza, se renova e se transmite de geração em geração. Trata-se de um processo contínuo, apontado pelos especialistas como um sistema capaz de reafirmar a identidade do povo 26 latino-americano e de promover o seu desenvolvimento. Mas, a complexidade da proteção de uma coleção tão extensa de bens culturais dispersos em tão imenso território tem implicado a adoção de ações pontuais no campo das políticas públicas devotadas à defesa do patrimônio e do turismo. Estas têm sido respaldadas pela implantação de cursos de Educação Patrimonial e Educação Ambiental, tomadas como instrumentos para a construção da cidadania, do progresso econômico e da preservação dos bens culturais e sócio-ambientais. Assim, cabe indagar de início quais as práticas preservacionistas adotadas na América Latina, e depois, investigar de que maneira o Brasil tem enfrentado o desafio de associar a preservação do patrimônio cultural material e imaterial, a recuperação da memória social, o desenvolvimento e o crescimento urbano. e. A INFLAÇÃO PATRIMONIAL, TRANSCURSO DO TEMPO Observamos o termo “patrimônio” adentrar o século XXI como uma espécie de cruzada ocidental, conduzida pelo seu poder de evocação (POULOT, 2009), até tornar-se, com o seu correlato “conservação”, o novo imperativo a operar sobre os deslocamentos das sensibilidades temporais (HARTOG, 2006). Os sentidos múltiplos atribuídos à palavra patrimônio dotaram-na de uma complexidade conceitual que vozes simultâneas, entrelaçadas e distintas repertoriam os diversos usos da palavra para dizer coisas muitas vezes diferentes e nem sempre harmoniosas entre si. É a batalha semântica a qual nos reporta Kosellek para interpretarmos a polissemia que palavras e conceitos compartilham em sua vinculação com o presente. Os conceitos são, portanto, vocábulos nos quais se concentra uma multiciplicidade de significados. O significado e o significante de uma palavra podem ser pensados separadamente. No conceito, significado e significante coincidem na mesma medida em que a multiciplicidade da realidade e da experiência histórica se agrega à capacidade de plurissignificação de uma palavra, de forma que seu significado só possa ser conservado e compreendido por meio dessa palavra. Uma palavra contém possibilidades de significado, um conceito reúne em si diferente totalidades de sentidos (KOSELLECK, 2006, p. 108-109). 27 Em sintonia com o “boom da memória”, a onda universalizante do patrimônio, em sua versão ampliada e rotinizada, tem convergido para a vulgarização da ideia de que tudo é patrimônio ou, potencialmente, poderia vir a ser. Vivemos uma obsessão pelo patrimônio. Cada vez mais o vocábulo tem figurado os empreendimentos de toda ordem – seja político, social, econômico e/ou simbólico – e mobilizado diferentes ações de preservação com vistas aos interesses das comunidades em escalas locais, nacionais e internacionais. Mas se, por um lado, é notório que a palavra patrimônio distanciou-se de sua concepção original de monumento histórico, por outro lado, passou a designar, simultaneamente, o conjunto das manifestações culturais em sua diversidade de suporte material, natural e intangível. Na condição de uma categoria aberta, tem assimilado novos conteúdos e significados como as crenças, o artesanato, a culinária, a música, a dança, o teatro, as festas, a paisagem, as tradições oral e escrita, as práticas sociais, as técnicas, etc.; ao mesmo tempo, tem resignificado outros já consagrados como a arquitetura (erudita, vernácula, corrente) (CHOAY, 2005). Segundo François Hartog (2006, p. 272), “seria ilusório nos fixarmos sobre uma acepção única do termo”: O patrimônio é uma maneira de viver as rupturas, de reconhecê-las e reduzi-las, referindo-se a elas, elegendo-as, produzindo semióforos. Inscrito na longa duração da história ocidental, a noção conheceu diversos estados, sempre correlatos com tempos fortes de questionamento da ordem do tempo. O patrimônio é um recurso para o tempo de crise. Se há assim momentos do patrimônio, seria ilusório nos fixarmos sobre uma acepção única do termo. Na assertiva de Hartog (2006, p. 272), os diversos sentidos do patrimônio foram se configurando “sempre correlatos com tempos fortes de questionamento da ordem do tempo”. Em par com a memória, constitui-se palavra-chave de nossa experiência temporal contemporânea. Ambos representamum mesmo movimento: ao mesmo tempo em que são sintomas e traduzem o que somos hoje, cumprem uma função de proteção e refreamento ao mal-estar causado “pela nossa profunda ansiedade com a velocidade de mudanças e um contínuo encolhimento dos horizontes de tempo e espaço” (HUYSSEN, 2000, p. 28). 28 Ao relacionar patrimônio e memória como testemunhos de um tempo de crise, Hartog opera com um novo “regime de historicidade” que o Ocidente vive desde a Queda do Muro de Berlim (1989). Esta noção possibilitou compreendermos a complexidade do tempo tanto no sentido de “como uma sociedade trata o seu passado” quanto “a mobilidade de si de uma comunidade”, ou seja, “maneiras de ser no tempo” (HARTOG, 2006, p. 262-263). Tal constatação emerge da observação do autor em relação ao crescimento rápido da categoria do presente, que se impôs como evidência de um tempo presente onipresente, nomeado por ele de “presentismo”, onde se vive entre a amnésia e vontade de nada esquecer. O fenômeno da patrimonialização que marcou as três últimas décadas do século XX trouxe, associados à logica do conservar e destruir, os conceitos de identidade e memória como palavras de ordem do processo de representação de uma retórica da perda (GONÇALVES, 1996). Nesse contexto, a função social atribuída ao recurso identitário conferido ao patrimônio se impôs como um reconhecimento de sua necessidade (JEDY, 1990). De lá para cá, o que se observou foi uma busca desenfreada pelo passado consubstanciada pelos movimentos de defesa da diversidade cultural e pelo desejo de transformar nossas histórias, monumentos e manifestações culturais em patrimônio (LOWENTHAL apud TAMASO, 2006). É o momento de uma virada em que a questão do patrimônio se transforma em dever de memória – “traço distintivo do momento que nós vivemos ou acabamos de viver: uma certa relação ao presente e uma manifestação do presentismo” (HARTOG, 2006, p. 271) operado pela obsessão em tudo preservar. 29 Pierre Nora (1993) identifica essa pulsão compensatória de tudo guardar e preservar em seu refinado diagnóstico da aceleração da história, objetivado pelo conceito de “lugares de memória”. Segundo o historiador, perdida a memória como elo de continuidade e preservação do social, seriam, os lugares de memória, a última fronteira na tentativa de restabelecer a continuidade entre presente e passado. Nascem como forma de compensar a perda, ainda que irreparável, da memória como experiência coletiva, resultando, daí, o fenômeno da patrimonialização da história. A própria semântica do termo patrimônio se constrói em sua relação mediatizada com o tempo avalia Manoel Luiz Salgado Guimarães (2012, p. 99): “O termo patrimônio supõe, portanto, uma relação com o tempo e seu transcurso. Em outras palavras, refletir sobre o patrimônio significa, igualmente, pensar nas formas sociais de culturalização do tempo, próprias a toda e qualquer sociedade humana”. Por outro lado, se a evidência do patrimônio corresponde ao desejo e necessidade de passado plasmado por uma “ilusão de continuidade” (CANDAU, 2011, p. 159), diante das incertezas e angústias de um tempo saturado de presente, fracassaria a ideia de que o fenômeno da patrimonialização é sinal da obsessiva tentativa em domesticar o tempo: 30 De fato, é evidente que fracassaria o patrimônio que fosse um controle utópico do tempo, tentando reproduzi-lo de uma forma idêntica. O patrimônio não é o passado, já que sua finalidade consiste em certificar a identidade e em afirmar valores, além da celebração de sentimentos, se necessário, contra a verdade histórica. Neste aspecto é que a história parece, com tamanha frequência, “morta”, no sentido corrente. Mas, ao contrário, o patrimônio é “vivo”, graças às profissões de fé e aos usos comemorativos que o acompanham (POULOT, 2009, p. 12). Interessante perceber a leitura de Dominique Poulot quando colocada em conexão com a perspectiva do “presentismo” postulado por Hartog. No novo regime de historicidade, marcado pela crise de futuro, observamos os patrimônios se multiplicarem e a memória se tornar plural “graças às profissões de fé” e aos “usos comemorativos” que os revestem em nome de um “investimento de identidade” a ser transmitido. Essa nova experiência do tempo fechado em si mesmo, onipresente – onde o passado e o futuro são cotidianamente fabricados segundo sua própria necessidade – foi, simultaneamente, desenvolvendo o medo da amnésia (coletiva e individual) e a vontade de nada esquecer. Seria esta a condição do patrimônio e da memória que tem orientado as políticas de preservação? Não estaria, neste movimento reativo, a emergência de uma consciência patrimonial que tem impulsionado diferentes sujeitos a ações preservacionistas face ao processo de mudanças estruturais decorrentes de uma mundialização da cultura, do consumo e do turismo? E o que dizer do desejo e a necessidade das pessoas de verem o seu passado se transformar em patrimônio? Os anos de 1980 foram marcados pelos debates em torno da memória e do patrimônio, mais especificamente sobre os deslocamentos conceituais de um e de outro em perspectiva com os anseios de novos sujeitos históricos que entraram em cena e forjaram a necessidade de se repensar os silêncios e os ocultamentos, assim como o que deve ser protegido, valorizado, repertoriado. A memória se tornou plural. Outras vozes, narrativas, apropriações e sentidos passaram a informar e a conformar a memória de si e a memória nacional. Proliferam museus, memoriais, centros de memória, arquivos, memórias de bairros, de partidos, de sindicatos, de 31 igrejas, de grupos sociais, de acervos digitais, etc. A moda “retrô” invadiu a produção de documentários e novelas de época. O retorno das biografias tem, cada vez mais, seduzido os historiadores e público em geral. E que dizer do crescimento das autobiografias que se impõem como forma recorrente de expressão de arte contemporânea? Também o conceito de patrimônio cultural se multiplicou e foi ganhando diferentes significados. Transcendendo os adjetivos que recebeu ao longo do tempo (histórico, artístico, móvel, imóvel, tangível, intangível, material, imaterial, paisagístico, genético, tesouro vivo, etc.), a ressemantização do conceito de patrimônio é, em si mesma, sinalizadora das concepções de tempo, lugar social de produção, perspectiva teórica e metodológica e sentido político. Nesta perspectiva, o conceito de patrimônio deve ser pensado em termos de uma prática social construída histórica e culturalmente em consonância com a busca de identidade e as demandas de “vontade de memória” no tempo presente. Com frequência, o termo patrimonialização tem sido empregado para designar todo o processo de constituição de patrimônios a partir da seleção e atribuição de valor de referência cultural a bens e práticas culturais de determinados grupos de identidade. O ato de patrimonializar refere-se, assim, à ação de identificar os valores culturais de um dado bem, de os reconhecer socialmente e assim constituir patrimônio. f. PATRIMÔNIO E HISTORICIDADE DAS POLÍTICAS DE PRESERVAÇÃO NO BRASIL Os estudos de Françoise Choay (2006, p. 10), colocados sob a ótica de uma abordagem semântica do patrimônio e das críticas às políticas de patrimonialização, têm sido referência necessária para compreendermos os deslocamentos conceituais do termo em sua intrínseca relação com o tempo. Debruçada sobre o Der Moderne Denkmalkultus (O Culto moderno dos monumentos), de Alois Riegl, a autora traz à luz a distinção entre monumento e monumento histórico. Praticando a etimologia da palavra “monumento”, encontra em seu sentido original, antropológico, o seu caráter de “universal cultural” manifestado em 32 praticamente todas culturas. Enquanto “uma arte da memória”, sua nítida intenção é nostocar a lembrança. Já “a invenção do monumento histórico é solidária daquela dos conceitos de arte e história” e de uma concepção de tempo histórico, linear e irreversível. A teoria dos valores formulada por Riegl, no início do século XX, apresenta-se de suma importância para superar a ideia de que os monumentos são constituídos de categorias fixas e imutáveis. Segundo Choay (2006, p. 10), ao “empreender o inventário dos valores não ditos e das significações não explícitas, subjacentes ao conceito de monumento histórico”, Riegl encontrou, na Renascença, o distanciamento – que as culturas antiga e medieval ignoraram – para apreender a historicidade de tais valores em sintonia com as novas concepções de tempo e de espaço. Tal distanciamento, fundado na teoria dos valores, permitiu perceber os deslocamentos dos dispositivos mnemônicos em sua relação com o tempo. Se, no monumento, passado e presente estão entrelaçados em sua destinação memorial, no monumento histórico, as relações com a memória viva e a duração são determinadas pela emergência de um saber em estreita relação com formas diferenciadas de pensar historicamente. Ao ser considerado objeto de conhecimento, se insere numa concepção linear do tempo, uma vez que o valor cognitivo o reporta ao passado e à história em geral ou ainda à história da arte. Já na condição de objeto de arte, é o valor de sensibilidade que o torna “parte constitutiva do presente vivido, mas sem a mediação da memória e da história” (CHOAY, 2001, p. 26). São essas relações que se mantêm com o tempo, a memória e o saber, segundo Choay, é que vão determinar uma diferença maior quanto à conservação dos monumentos e dos monumentos históricos, respectivamente (CHOAY, 2001). Foi no contexto da Revolução Francesa e da construção das culturas nacionais que a ideia de nação veio conferir status ideológico ao conceito de patrimônio e assegurar, por meio da institucionalização de práticas específicas, a sua preservação. Se a possibilidade de conhecimento e o amor à arte não foram suficientes para garantir a sua preservação, o medo da destruição e da perda fez colocar no centro do debate a necessidade de sua preservação. Nessa perspectiva histórica, a constituição dos patrimônios tem seu momento fundador ligado à formação dos Estados modernos e à construção de uma identidade nacional. 33 No papel de testemunhos do passado, conformadores de um tempo nacional, consubstanciaram igualmente uma escrita da história política e ideologicamente comprometida com o projeto de construção da nação no século XIX. Neste contexto, a operação histórica (CERTEAU, 2000) se valeu dos adjetivos histórico, artístico e nacional como valores de testemunho, documentos de uma verdade que se buscava comprovar “tal como realmente aconteceu”, ou seja, monumentos, edificações e obras de arte passaram a ser sacralizados e preservados, investidos que estavam do poder de reificar a nação localizando-a no tempo e no espaço. Essa perspectiva francesa de patrimônio monumental fundada nos valores nacional, estético e didático passou a figurar como paradigma na constituição de políticas públicas de preservação do patrimônio no ocidente. A criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – SPHAN, em 1937, hoje, IPHAN e de seus congêneres em vários países da América Latina é exemplar. No Brasil, a ideia de uma singularidade nacional que norteou as narrativas sobre o passado caminhou em perspectivas distintas, mas complementares: a escrita da história e a institucionalização das práticas preservacionistas. De um lado, a criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e seus congêneres regionais que, em conjunto com o Arquivo Nacional, ambos criados em 1838, iniciam o processo de institucionalização da memória nacional; de outro, as narrativas modernistas corroboraram para a fundamentação de um tempo nacional 34 tendo como um dos seus correspondentes ao projeto de construção da brasilidade a definição de uma noção de patrimônio cultural e a formulação de uma política de preservação. No projeto de consolidação do Estado Nacional, o duplo esforço de delinear a gênese da nação e garantir a consolidação de uma nova civilização nos trópicos foi acompanhado por uma escrita histórica peculiar ao IHGB. A concepção pragmática e exemplar de história assentada no tempo linear era a bússola padrão (GUIMARÃES, 1998). Assim, na perspectiva de forjar um lugar de memória e um modelo de história oficial, o IHGB pautava suas diretrizes centrais na coleta e publicação de documentos históricos sobre as diferentes regiões do Império. A fundamentação de um tempo nacional empreendido pelos modernistas dever ser entendida em consonância com as peculiaridades do movimento ensejado pelo desejo de inserção do Brasil no “concerto das nações civilizadas” (MORAES, 1978, p. 71). Passado o deslumbramento de renovação estética em sua primeira fase, todo o esforço do Modernismo foi direcionado para a construção de um projeto de cultura nacional assentado na dialética do local e do universal (CANDIDO, 2000). Na perspectiva de um nacionalismo universalista, foi-se delineando um passado a partir daquilo que nos individualiza e nos singulariza: a consciência do sentido de uma arte e de uma cultura nacionais levou os modernistas ao encontro dos testemunhos do passado colonial como signo do Brasil moderno. Nas representações da brasilidade procurada, o passado reelaborado é o tempo de origens da nação. Ali onde se encontra a tradição, os modernistas elegeram Minas Gerais e o barroco como berço da nação civilizada. Não é a toa que Mário de Andrade, já em 1919, fez sua primeira viagem às cidades históricas 35 do século XVIII, desconfiado estava que ali existiu uma primeira manifestação artisticamente brasileira. “É um fóssil, necessitando ainda de classificação, de que pouca gente ouviu falar e ninguém incomoda” (ANDRADE, 1972), declarou o poeta tomando para si essa missão. Já na companhia de outros modernistas que viajavam a Minas Gerais em 1924, é Malazarte quem relata: “Estávamos em busca de arte e de passado” (ANDRADE, 1972). Interessante observar que essas e outras viagens de descoberta do Brasil, representam a obsessiva tentativa do pai de Macunaíma de construção da nação. Aqui, o passado seria matéria-prima a ser resgatada como referencial. Não um passado que não existe mais, mas sim aquele que manifestado nas diferentes temporalidades confere sentidos às coisas mais comezinhas encontradas nas camadas sobrepostas do tecido social. A partir da experiência e aprendizado – de viajante e Diretor de Departamento de Cultura do Município de São Paulo –, Mário de Andrade organizou a Missão de Pesquisas Folclóricas (1936), de base etnográfica, e protagonizou uma de suas maiores contribuições para a história das práticas de preservação no Brasil materializada em seu “inventário dos sentidos” (NOGUEIRA, 2005). Foi justamente do reconhecimento dessa experiência e engajamento dos intelectuais modernistas, encabeçados por Mário de Andrade, que surgiu um movimento de defesa e proteção dos monumentos históricos e artísticos nacionais culminando, na década de 1930, no processo de institucionalização das práticas de preservação do patrimônio cultural no Brasil em nível federal. Em 1936, a pedido do ministro da Educação e Saúde Gustavo Capanema, Mário de Andrade elaborou o anteprojeto que serviu de base para o decreto-lei 25/37 de criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Antes disso, entretanto, é preciso reconhecermos que outras iniciativas já vinham se processando na área do patrimônio cultural como é o caso da fundação do Museu Histórico Nacional (1922), da criação das Inspetorias Estaduais de Monumentos Históricos: Minas Gerais (1926), Bahia (1927) e Pernambuco (1928),até a criação da Inspetoria de Patrimônios Nacionais, em 1934, subordinada à direção do Museu Histórico Nacional, representada por Gustavo Barroso. Nesse processo, um marco 36 importante para a história do pensamento preservacionista no Brasil foi a promulgação do decreto 22.298, de 12 de julho de 1933. Realizada por Getúlio Vargas, tal ação significou a elevação de Ouro Preto à categoria de monumento nacional. Além de assegurar que aquele passado histórico e estético, sagrado e cívico fosse protegido, o documento revelou uma concepção de patrimônio que elegeu como nosso primeiro monumento o espaço/tempo da cidade, sacralizando o lugar fundador da nação civilizada. Ali, a ideia de nação civilizada manifestada no barroco colonial mineiro colocou, no centro do debate, a natureza mesma do “ser histórico” e os usos do passado na construção de um Brasil moderno. Ainda na década de 1930, a criação do SPHAN (1937) pode ser observada como parte de uma conjuntura política explicitada em várias ações que marcaram o projeto ideológico do Estado varguista como agente fundamental na construção simbólica da nação. Mesmo que o decreto-lei 25/37 tenha restringido a concepção de arte patrimonial de Mário de Andrade, que procurava abarcar todas as manifestações e expressões do povo brasileiro, incluindo nas oito categorias de arte, além dos bens móveis e imóveis de valor histórico e artístico, a arte arqueológica, a arte ameríndia e a arte popular, a vitória dos modernistas foi constituída por meio de lutas, conflitos e negociações no interior do próprio Estado e de sua concepção sobre política preservacionista. O referido decreto trouxe, junto com a concepção de patrimônio fundado nos valores de monumentalidade e excepcionalidade, o tombamento e o restauro como instrumentos de preservação. O inventário, embora constasse no decreto, ficou relegado a um segundo plano, como reconheceu o próprio Rodrigo Melo Franco de Andrade, diretor do SPHAN (1937-1967). O tombamento, por sua vez, ganhou centralidade e contribuiu para a construção de um conceito hegemônico de patrimônio nacional que marcou a chamada fase da “sacralização da memória em pedra e cal” (CHUVA, 2009; FONSECA, 1997; NOGUEIRA, 1995, 2005; RUBINO, 1991). Diante dos impasses que envolviam os bens móveis e imóveis patrimonializados na complexa relação entre público e privado, o tombamento se apresentou como solução normativa viável. Entretanto, para além de seu caráter 37 técnico e legal, é preciso percebê-lo como um dispositivo que tem o poder nomeador de construir uma representação da nação – a partir das escolhas e dos valores atribuídos a bens patrimonializados – fundada em um continuum temporal. Segundo Julia Wagner Pereira (2012, p. 166), “ao recontextualizar o bem, remetendo-o simbolicamente a um espaço-tempo histórico-mítico, o tombamento acrescenta-lhe novos significados, que permitem transcender sua existência comum, passando a pertencer concomitantemente ao passado e ao presente”. A conformação de um quadro simbólico de legitimação da nação foi se configurando, no interior da política de preservação do patrimônio cultural do SPHAN, à medida que o “rito do tombamento” (KERSTEN, 2000, p. 49-50) conferia, ao conjunto do patrimônio cultural selecionado, status de documentos da nação, passível, portanto, de uma releitura do passado em articulação com um futuro a ser construído. Nesse processo, o resgate do passado para lançar-se ao futuro aproximou-se do ideário estado novista. Conhecer o passado e a tradição passou a ser visto como determinante para o projeto de construção de uma nova consciência para o futuro (OLIVEIRA, 2008, p. 122). Na construção da representação da nação, concomitantemente, foram dispostos um repertório de bens de excepcional valor e os conceitos clássicos de história e de cultura – respectivamente a oficial e a erudita – que caracterizaram sobremaneira a “fase heróica” do SPHAN, a “sacralização da memória em pedra e cal” (NOGUEIRA, 1995). Nesse sentido, costurou-se uma perspectiva elitista e redutora desenhada pela herança europeia decorrente da seleção dos exemplares arquitetônicos e artísticos do período colonial. Enfim, era preciso “autenticar” o Brasil como forma de garantia da entrada do país na “história universal das civilizações” (CHUVA, 2009). Mesmo diante das alterações contundentes dos anos 1930 no âmbito das ciências humanas, em virtude das análises inclusivas de Caio Prado Júnior, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda ou, mesmo antes, com os trabalhos do historiador cearense Capistrano de Abreu, não houve incorporação do legado cultural e histórico de múltiplas etnias. Assim, no novo desenho sobre a Nação, ficavam de fora as contribuições de índios e africanos, principalmente no que tange à nossa língua, costumes, religião, modos de morar, de cultivar, de comer, de festejar, etc. Na tradição preservacionista que vigorou até a década de 1970, também ficaram de 38 fora as contribuições dos imigrantes e a chamada tradição popular com suas festas e folguedos, de cunho religioso ou profano. Todo esse conjunto de manifestações foi alvo de interesse de folcloristas (Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro – CDFB), etnólogos e antropólogos que, durante boa parte do século XX, foram aprimorando uma metodologia de inventário e registro, segundo as acepções diferenciadas do popular e do lugar institucional ao qual pertenciam. A partir da década de 1970, uma nova relação entre patrimônio cultural e identidades começou a se configurar. Se, como mostrou Hartog, esse é o momento de uma virada em que a questão do patrimônio se transformou em dever de memória; em termos globais, o tempo nacional, que fundamentava uma singularidade nacional, desdobrou-se numa pluralidade de singularidades locais, tangíveis e intangíveis, mas, ainda assim, em diálogo com o nacional. É o momento em que o campo do patrimônio se torna mais complexo “levado a refletir sobre novas possibilidades de fronteiras ou clivagens, motivadas por outras dimensões de pertencimento que não à nação” (CHUVA, 2012, p. 73). Os estudos de Sérgio Miceli (1984), Renato Ortiz (1994), Alexandre Barbalho (1998) e Lia Calabre (2009) têm sido de fundamental importância para compreender os novos domínios da cultura no contexto do regime militar brasileiro. A formulação do Plano Nacional da Cultura em par com as metas da política de desenvolvimento social integradas nos Planos de Nacionais de Desenvolvimento 39 (PNDs) vai incidir diretamente nos órgãos de preservação da cultura quais sejam: o IPHAN e a CDFB. Nessa trajetória de mudanças, os primeiros sintomas de uma nova orientação voltada para a identificação da diversidade e o registro do popular ocorrem com a criação do Centro Nacional de Referência Cultural – CNRC (1975), posteriormente integrado à Fundação Nacional Pró-Memória (1979) por Aloisio Magalhães, portanto, um espaço fora do âmbito do Ministério da Educação e Cultura – MEC e da alçada do IPHAN. Mostrando-se ressonância do projeto andradino para o patrimônio, distingue- se deste à medida que opera com o conceito de bem cultural como dispositivo capaz de identificar toda a dinâmica cultural como patrimônio. Com o objetivo de proceder ao “referenciamento da dinâmica cultural brasileira”, vários inventários foram realizados com o propósito de catalisar a ideia de um “patrimônio não consagrado” consubstanciado na reelaboração da noção de cultura e, sobretudo, de cultura popular (FONSECA, 1997, 2008; MAGALHÃES, 1985). Segundo o discurso de Aloisio Magalhães, o atrelamento da cultura ao desenvolvimento do país passa pelo reconhecimento de uma cultura “viva”, um patrimônio ainda não reconhecido, mas importante indicador para uma opção interna de desenvolvimento. Com vistas à elaboração de “indicadores”de “desenvolvimento harmonioso”, foram desenvolvidos projetos de mapeamento e documentação da diversidade cultural que deveriam alimentar um futuro banco de dados. Essa ideia de inventariar e registrar a memória da cultura popular, almejando alcançar as condições sociais de produção e o processo criativo, tem sua versão estadualizada no Centro de Referência Cultural do Ceará – CERES (1975-1990). À semelhança do CNRC, surge motivado pelo alarde de que “a cultura popular corria perigo”. Diante da ameaça de descaracterização do artesanato, em meio às influências externas, demandas mercadológicas e cursos de formação de artesãos, surgiu a necessidade de promover o registro do saber-fazer popular e da memória da cultura tradicional popular do Estado. Não se tratava de imortalizar o produto do trabalho, mas de registrar o próprio trabalho e a forma como os sujeitos 40 se relacionavam com a prática cultural no seu cotidiano (NOGUEIRA, 2010, p. 447- 460). Nessa trajetória do CNRC, que Aloisio levará para o IPHAN, é notável o distanciamento de uma noção de patrimônio assentada na atribuição de valores e sentidos aos bens patrimoniais em si para uma concepção mais preocupada com os processos e sujeitos produtores desses bens culturais. Preservar processos e não mais produtos ou objetos culturais tornou-se, então, os desafios e dilemas da prática preservacionista. Toda essa mudança que a virada antropológica imprimiu ao campo do patrimônio cultural deve ser entendida num contexto de mudanças maiores que vinham se processando em termos de transformações histórico-políticas da sociedade contemporânea, segundo as tensões locais e internacionais. A perspectiva antropológica de cultura voltada para as práticas cotidianas e para as manifestações e saberes diversos colocou, no plano cultural, a diferença como elemento constitutivo de apreensão do social. As singularidades e valores que referenciam as práticas culturais de diversos grupos passaram a ser reconhecidas forjando mudanças nas narrativas sobre o passado reconfigurando a escrita da história e as políticas de preservação do patrimônio cultural (NOGUEIRA, 2008). As orientações internacionais que vinham da UNESCO, através das “cartas” e “recomendações”, desde a aprovação da Convenção do Patrimônio Mundial, em 1972, passando pela Recomendação sobre a Salvaguarda da Cultura Tradicional e Popular do Mundo, em 1989, e Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Imaterial, em 2003, são indícios importantes que respondem à pressão e às demandas de grupos e nações de tradições não-europeias para que a dimensão intangível do patrimônio fosse inserida no acervo do chamado patrimônio da humanidade. Já no Brasil, o debate em torno da defesa da diversidade cultural e do direito à memória de distintos grupos étnico-culturais, nos anos de 1980, mobiliza e aciona diferentes apropriações do patrimônio tornando-o um “conceito engajado”. Nos movimentos de grupos indígenas, negros e culturas tradicionais “a luta pelos conceitos adequados ganha relevância social e política”, lembra Koselleck (2006, p. 100-101). 41 As reivindicações de reconhecimento social e a preservação de suas tradições serão respaldadas pelo artigo 216 da Constituição de 1988 (BRASIL, 1988), que acolhe uma noção ampla e plural de identidade e define a atual concepção de patrimônio cultural, legitimando juridicamente a salvaguarda dos bens culturais de natureza imaterial. “Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira.” Em sintonia com esse movimento, também a renovação da historiografia brasileira, em diálogo com a antropologia, levou os historiadores a reconhecerem as ações desses novos sujeitos e a emergência da cultura imaterial, entendendo que festas, músicas e danças constituem um importante espaço de luta política e identitária na história do Brasil (ABREU, 2007). A partir da Carta de Fortaleza (1997) e dos resultados do Grupo de Trabalho do Patrimônio Imaterial e da Comissão de Assessoramento ao Grupo de Trabalho, ambos criados pelo Ministério da Cultura, em 1988, foram elaboradas propostas para a proteção do patrimônio imaterial. Os estudos e as discussões levaram à aprovação do decreto 3.551, de 2000, que instituiu o Registro e o Programa Nacional de Patrimônio Imaterial – PNPI. A noção de patrimônio imaterial, tal como definida pela Constituição de 1988, será tomada, no âmbito do Programa, como “um instrumento de construção e fortalecimento de cidadania, tendo o interesse público como princípio norteador de seu reconhecimento” (INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL, 2000). Para a historiadora Martha Abreu (2007, p. 356): “O decreto abre a possibilidade para o surgimento de novos canais de expressão cultural e luta política para grupos da sociedade civil, antes silenciados, que são detentores de práticas culturais imateriais locais e tidas como tradicionais”. Segundo o artigo 8º do mesmo decreto, o Programa visa “à implementação de política específica de inventário, referenciamento e valorização desse patrimônio”. Em apoio ao Registro, deverá “viabilizar a adequada instrução de processos, o tratamento e acesso às informações produzidas, a promoção do patrimônio cultural imaterial junto à sociedade, e o apoio e fomento aos bens registrados” (INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL, 2000). 42 O Inventário Nacional de Referências Culturais – INRC é outro importante instrumento de identificação das referências culturais que passou a ser adotado como metodologia a subsidiar a instrução dos processos de Registro. A adoção desses novos instrumentos legais e administrativos para a identificação, (re)conhecimento e promoção de bens culturais de natureza dinâmica e processual tem colocado em debate a necessidade de enfrentar questões de ordem epistemológica, metodológica e política, ao mesmo tempo em que vem recair sobre a redefinição dos paradigmas clássicos da política de preservação. Esses novos instrumentos foram criados em distinção ao tombamento com o objetivo de abarcar os diferentes suportes da memória, manifestados num conjunto de práticas culturais cujas medidas de salvaguarda visam à preservação de festas e celebrações, saberes e ofícios, formas de expressão e demais referenciais constitutivos da “memória, identidade e formação da sociedade brasileira”. Em meio a essas questões, dialogamos com as considerações da antropóloga Izabela Tamaso (2006) acerca dos novos olhares e desafios trazidos, ao campo do patrimônio cultural, com a introdução dos bens culturais de natureza imaterial. Para além da operação semântica do termo – uma vez que “manifestações culturais” e “cultura”, aos olhos dos folcloristas ou aos olhos dos antropólogos, passam a ser percebidas como “patrimônios” –, o que a autora procura destacar é “o papel que desempenhará o antropólogo inventariante ao ser parte do processo de inventário e registro de bens de natureza imaterial”, ou seja, está preocupada com o novo lugar do antropólogo (em perspectiva com o novo nicho de trabalho) que transmuta da condição de “pesquisador de políticas e recepção de práticas patrimoniais para o de inventariante de patrimônio cultural” (TAMASO, 2006, p. 9). A categoria “antropólogo inventariante”, criada pela autora, deve-se à leitura que fez do texto de apresentação da metodologia do Inventário de Referências Culturais – INRC, de autoria de Antonio Augusto Arantes. Ao abrir os trabalhos do Manual de aplicação do INRC, o antropólogo evidencia a dimensão política do instrumento e chama a atenção para “a responsabilidade social de pesquisadores e técnicos”. 43 Ao mesmotempo, adverte sobre os efeitos que o INRC deverá produzir como “consequências na formação e reconfiguração das identidades dos grupos e categorias sociais”. Ou ainda evidencia a reflexividade provocada pelo inventário ao “criar impactos sobre estratégias políticas e de mercado associadas ao patrimônio nos meios sociais envolvidos” (TAMASO, 2006, p. 27). Não é propósito deste texto aprofundar estas questões. O que procuramos destacar são alguns aspectos que nos ajudem a pensar de modo semelhante o lugar da história e o papel do historiador nesse novo rearranjo do campo do patrimônio cultural, tendo em vista a centralidade que os inventários (seguindo ou não a metodologia do INRC) passaram a ocupar nas políticas de preservação em níveis federal, estadual e municipal. Uma vez que o Registro e o Inventário correspondem à identificação e à produção de conhecimento sobre o bem de natureza imaterial – instrumentos que agora conferem status de patrimônio nacional aos bens culturais de natureza imaterial –, a história tem sido novamente designada como ”fiadora” dos processos de patrimonialização. Segundo Márcia Sant’Anna (2006, p. 139), a noção de continuidade histórica veio substituir a noção de “autenticidade” e seu correspondente “imobilismo” que tanto caracterizou o tombamento. Considerando a natureza dinâmica e processual dessas expressões, a história tem sido acionada com o objetivo de identificar os processos históricos e culturais de sua criação e situa-las no tempo e no espaço. 44 Assim, justifica o caráter provisório do Registro e a possibilidade de revogação do reconhecimento do bem após dez anos. Não obstante, diferentemente de uma perspectiva “mais ampla de retenção e releitura do passado, seus símbolos e significados, e da própria cultura brasileira” (ABREU, 2007, p. 356), a noção de continuidade histórica, condição necessária à identificação das experiências temporais dessas manifestações, acabou reproduzindo uma concepção naturalizada de tempo linear, herdeira da sacralização iluminista de história. Da mesma forma, a metodologia do INRC, pautada nas regras disciplinares da antropologia, tem reservado à história um papel de coadjuvante no processo de coleta de dados históricos com o objetivo de legitimar a antiguidade do bem, “perdendo, com isso, a dimensão diacrônica e sua associação com o trabalho de construção da memória” (CHUVA, 2008, p. 42). Entendendo que a memória é sempre uma reelaboração social e culturalmente determinada, o que mais tem desafiado os historiadores e demais pesquisadores das ciências humanas e sociais é identificar e problematizar os elementos pelos quais foram articulados determinados usos do passado em demandas ancoradas num presente igualmente determinado. Os tempos da memória são múltiplos e conflituosos e carregam, no jogo das dinâmicas identitárias, as marcas do presente. O tempo da memória é o presente porque são as demandas do presente que mobilizam a memória. É necessário perceber como os referenciais identitários de grupos, comunidades e segmentos sociais são cotidianamente criados, recriados e negociados em suas práticas sociais. Afinal, o tempo do saber e do saberfazer, dos ofícios e dos mestres é o tempo da tradição. O tempo do transmitir e do receber é atravessado de presente e pelo presente. Dito de outra maneira: é preciso atentar que, por trás do desejo e da vontade de memória, manifestados no apelo à tradição, está a própria necessidade de reatualizar o sentimento de identidade de determinados grupos ou comunidades (CANDAU, 2011, p. 122). Ainda na perspectiva de pontuar alguns aspectos dos trabalhos do historiador diante da posição distinta que os inventários passaram a operar nas 45 novas políticas de memória e do patrimônio, nesse instante, é preciso problematizar questões de ordem epistemológica e política que atravessam o ato de inventariar e produzir documentos de e sobre memória e patrimônio cultural. Afinal, também aqui, o “historiador inventariante”, que se utiliza desta ferramenta, tem um compromisso social e político dadas as implicações inerentes ao processo de produção de evidências pautado na seleção e escolha de uma história e uma memória a serem preservadas. Nos últimos anos, observamos uma proliferação de inventários sendo realizados, independentemente da natureza do bem, de estarem ligados ou não a alguma das agências do patrimônio cultural e de seguirem ou não a metodologia do INRC disponibilizada pelo IPHAN. É cada vez mais corriqueiro o historiador ser solicitado a responder à demanda pela constituição de inventários vindos dos diferentes editais do IPHAN, MEC (PROEXT), Secretarias de Cultura dos estados e dos municípios ou, ainda, de ONGs, movimentos sociais, étnicos e culturais, universidades e escolas, entre outros. O resultado desses “empreendimentos de memória e patrimônio” tem se traduzido numa profusão enorme de pesquisas históricas, na maioria das vezes, sem nenhum critério ou critérios poucos consistentes. Diante das diferentes formas de apropriações do inventário, até mesmo um inventário aplicado em situação urbana (numa escala menor, um bairro, e.g.) ou numa comunidade de saberes tradicionais – quando professores universitários e de ensino fundamental e médio aventuram-se a exercitar a educação patrimonial no estudo da memória e patrimônio locais – não está isento desta questão, o que, em certa medida, garantem que essas experiências de trabalhos da memória não incorram numa prática muito comum de apenas corroborar a tradição, esquecendo- se do “dever da história” em interpelar a memória. Estamos falando de memórias sociais em conflito e da atribuição de significados que orientam a produção de evidências (NOGUEIRA et al., 2012, p. 228). Como podemos interpretar todo um conjunto de outras questões que se abre em torno dessa massa documental produzida em tipologias e suportes tão distintos (audiovisual, texto, áudio, fotografias, mapas, relatórios, etc.)? A emergência de um debate ampliado em torno da ética e da preservação desses documentos, suscitado pelos usos e direitos de propriedade envolvendo imagens, sons e depoimentos, o 46 processo de constituição de acervos e o direito à memória têm contribuído igualmente para adensar ainda mais os desafios e dilemas de historiadores e demais pesquisadores na complexidade que envolve a nova configuração do campo do patrimônio cultural (CHUVA; NOGUEIRA, 2012). Se entendemos que patrimônio cultural é aquilo que define o outro a partir de referenciais identitários e é referendado por valores atribuídos a bens e práticas culturais em diferentes momentos e espaços, é preciso atentar para a historicidade desse processo, uma vez que a história do patrimônio, recorrendo novamente a Dominique Poulot, é a “história da construção do sentido de identidade”, forjada no âmbito das políticas públicas de preservação. Neste raciocínio, a reflexão sobre o patrimônio contribui “para revelar a identidade de cada um, graças ao espelho que oferece de si mesmo e ao contato que ele permite com o outro: o outro de um passado perdido e como que tornado selvagem; o outro se for o caso, do alhures etnográfico” (POULOT, 2009, p. 14). Este é o desafio e o dilema da lida com o patrimônio cultural: a lida com as temporalidades diferentes que definem o outro. A despeito das especificidades dos instrumentos que fundamentam a institucionalização do patrimônio cultural no Brasil, ainda que olhares apressados tendam a caracteriza-los como sendo de ordem conceitual e/ou metodológica, em estreita articulação com a dimensão material e imaterial do bem, o que temos procurado evidenciar, nessa perspectiva histórica, é que tanto o tombamento quanto o registro se inserem na lógica das escolhas e atribuição de valores, segundo as contingências sociais e temporaissob as quais eles se constroem e se localizam. Ao documentar a memória de determinados bens e práticas culturais no tempo e no espaço, o registro e o inventário constituem-se, assim como o tombamento, em um importante dispositivo de construção de uma representação da nação igualmente assentado num continuum temporal. Na perspectiva de uma modalidade de escrita do passado, as reflexões sobre o patrimônio cultural devem considera-lo como parte do esforço dos agentes envolvidos (poder público e sujeitos sociais) de tornar a experiência do transcurso do tempo em experiência partilhável social e coletivamente (GUIMARÃES, 2012, p. 87). 47 É nessa propositura que observamos, na nova configuração do campo do patrimônio, a substituição de um imperativo tempo monumental – remanescente de uma memória histórica e identidade nacional que pouco referia-se a maioria da população – por um tempo social – importante testemunho das temporalidades sociais que compõem as múltiplas experiências vividas por indivíduos e grupos em seu processo de reelaboração das identidades na sociedade contemporânea. Talvez, seja mais pertinente pensar a “efervescência patrimonial”, expressa nas diferentes modalidades de patrimonialização (CANDAU, 2011, p. 158-164), incluindo aqui a própria dilatação do campo do patrimônio, como um amplo processo decorrente de deslocamentos profundos que seguem o movimento das memórias e acompanham as dinâmicas identitárias. O novo desenho e a expansão do campo do patrimônio cultural têm seus contornos sempre definidos em sintonia com a expansão da memória e a transitoriedade das identidades, entendendo que o ato de patrimonializar, inscrito na lógica do lembrar e esquecer, nem sempre constrói e preserva identidades. Nesse jogo conformado pelas dinâmicas identitárias, os usos sociais do passado ao mesmo tempo que confere a cada um o poder de tomar para si um patrimônio, autoriza-lhes a ver e narrar-se a si mesmo. Daí o patrimônio tem sido cada vez mais reivindicado e menos herdado. g. CULTURA, PATRIMÔNIO E MEMÓRIA O estudo das manifestações populares permite compreender novas formas de ver e pensar a cultura, pois elas representam mais do que simplesmente uma expressão local, mas também as formas de pensar e sentir de um povo e o modo como estes elementos se modificam com o passar do tempo. Neste caso, é fundamental compreendemos como a cultura se transforma e como ela se insere no ambiente festivo. Deste modo, podemos entender a cultura segundo duas concepções, “a primeira remete a todos os aspectos de uma realidade social, a segunda refere-se mais especificamente ao conhecimento, às idéias e crenças de um povo” (SANTOS, 1994: 23). 48 Portanto, pode-se entender o universo cultural como uma forma de organização social, no qual estão inscritos uma série de códigos que quando associados coletivamente dão origem a uma manifestação cultural e social. Clifford Geertz (1978) faz referência à sociedade como um elemento em constante mutação e evolução, onde a cultura se origina da relação entre o caráter social e psicológico de cada ser humano. Em que o todo e o individual se completam e criam uma simbologia única, interpretada e vivenciada pelo homem de seu tempo. Arizpe complementa afirmando que: Cultura se define como todo el complejo de rasgos espirituales, materiales, intelectuales y emocionales que destinguen a una sociedad o grupo social. No solo incluye las artes e las letras, sino también los modos de vida, los derechos fundamentales del ser humano, los sistemas de valores, las tradiciones y las creencias (ARIZPE, 2009: 40). Convém ressaltar a cultura como elemento mutável, suscetível a seu tempo e contexto. “En efecto, habría que reconocer que las culturas son momentos en el tempo e no costumbres fósiles de la historia. Y que los indivíduos y los grupos son quienes deciden crearlas y practicarlas porque tienen razones para valorarlas” (ARIZPE, 2009: 238). Deste modo, notamos que a cultura pode assumir diversas facetas, dependendo do momento histórico em que se encontra. Cada nação possui culturas com características particulares, mesmo assim, é possível notar certas semelhanças entre tais culturas, visto que sociedades diferentes podem partilhar experiências, que se manifestam através de alguns traços culturais. 49 O universo cultural também pode ser explorado através das práticas e representações que o compõem, sendo que sua interpretação pode dar a conhecer a cultura como um processo comunicativo e não somente como a totalidade dos bens culturais produzidos pelo homem. A cultura é comunicada a cada indivíduo que a interpreta de acordo com a sua concepção individual (CHARTIER, 1988). É através da história construída pelo sujeito anônimo que o todo se constitui e passa a ser integrado à vida cotidiana, fazendo parte das convenções sociais. É através destas convenções que surge uma identidade cultural, que se expressa de diversas maneiras, seja no comportamento, nas festas, na fala ou nas tradições. Uma das maneiras de manter viva a identidade é preservar os símbolos destas práticas culturais, sejam eles monumentos de pedra e cal ou manifestações culturais. Neste sentido conservar práticas culturais não implica o fato de mantê-las estáticas, mas de registrá-las enquanto manifestação cultural localizada no tempo e no espaço. Assim sendo, o termo patrimônio reflete a tentativa de salvaguarda de bens tangíveis e intangíveis, assim como também é uma forma de preservar as raízes de uma cultura. O termo patrimônio possui uma fundamentação ideológica bastante ampla, abrange a concepção de proteção nos seus mais variados sentidos, bem como o ideal de conservação e registro de objetos e práticas culturais (GONÇAVES, 2002). De outro modo, “os bens patrimoniais podem ser compreendidos como inscrição que fala de um tempo pretérito, que o relata e o torna presente e significativo, apontando para um futuro até certo ponto possível” (KERSTEN, 2000: 29). Portanto, a relação entre cultura e patrimônio pode ser entendida, segundo Magmami, como um conjunto de códigos: [...] se a cultura é um conjunto de códigos, o patrimônio é a série de falas que só adquirem inteligibilidade por referência àqueles códigos. A noção de patrimônio, desta forma, aponta para o aspecto da exterioridade da cultura: objetos, técnicas, espaços, edificações, crenças, rituais, instrumentos, costumes, etc, constituem os suportes físicos, as formas particulares e tangíveis de expressão dos padrões culturais (MAGMAMI, apud KERSTEN, 2000: 33). O patrimônio está ligado à concepção de identidade, representa as transformações culturais, ideológicas e sociais pelas quais passam os habitantes de uma cidade, região ou país. Não são apenas os monumentos e bens tangíveis 50 que expressam tal identidade, as práticas culturais também o fazem e são reconhecidas como patrimônio imaterial. O Patrimônio Imaterial é transmitido de geração em geração e constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função de seu ambiente, de sua interação com a natureza e de sua história, gerando um sentimento de identidade e continuidade, contribuindo assim para promover o respeito à diversidade cultural e à criatividade humana. O ato de conservar o patrimônio material, imaterial, ou manifestação cultural está ligado ao conceito de memória, pois é através do processo de rememoração que o “mito” se mantém vivo no cotidiano dos indivíduos. Segundo Halbwachs (1990), a memória pode dividir-se em duas possibilidades: a memória individual e coletiva. Ambas relacionam-se e interferem-se entre si. A memória individual seria aquela que toda pessoa possui, que faz menção ao que ela viveu ao longo de sua vida, ou seja, faz referência às lembranças individuais. Já a memória coletiva: Envolve as memórias individuais,mas não se confunde com elas. Ela evolui segundo suas leis, e se algumas lembranças individuais penetram algumas vezes nela, mudam de figura assim que sejam recolocadas num conjunto que não é mais uma consciência pessoal (HALBWACHS, 1990: 53). Deste modo, a construção da memória coletiva se dá através da junção entre o coletivo e o individual, pois a memória de um fato ou acontecimento é interpretada e gravada individualmente, a partir de determinados valores coletivos. Contextualizando a construção desta memória, tanto coletiva quanto individual, Ecléa Bosi ressalta a relação passado-presente: “a memória parte de um presente, um presente ávido pelo passado, cuja percepção é a apropriação veemente do que nós sabemos que não nos pertence mais” (BOSI, 2003: 20). A memória é como uma colcha de retalhos, fragmentada e combinada através da consciência individual, mas que quando analisada como um todo, ganha um significado coletivo, mantendo vivo um fragmento cultural e histórico, preservado na memória do indivíduo. “A memória é sim um trabalho sobre o tempo, mas sobre o tempo vivido, contado pela cultura e pelo indivíduo” (BOSI, 2003: 53). 51 Neste contexto de memória coletiva e social, é conveniente ressaltar a importância da escrita, que registra no papel os acontecimentos, diferente da memória individual que registra no sujeito a vivência dos fatos ou a tarefa de passá- los adiante. “Na maior parte das culturas sem escrita, e em numerosos setores da nossa, a acumulação de elementos na memória faz parte da vida cotidiana” (LE GOFF, 1994: 427). Manter uma memória viva para uma sociedade sem escrita é utilizar as variáveis da oralidade para preservar e despertar em outros indivíduos o desejo de manter viva aquela memória. No entanto, a oralidade por si só não permanece no tempo, ela não pode ser registrada, e com o passar dos anos os fatos vão se modificando ou se perdendo. Já as sociedades que possuem a escrita, a usam para preservar sua história. Todavia, mesmo na cultura escrita à memória é alterada; não da mesma maneira que nas culturas orais, mas sempre de modo diferente aos fatos ocorridos e também está sujeita ao desaparecimento: A escrita enquanto memória possui duas funções principais: uma é o armazenamento de informações, que permite comunicar através do tempo e do espaço, e fornece ao homem um processo de marcação, memorização e registro; a outra reexaminar, reordenar, retificar frases e até palavras isoladas (LE GOFF, 1994: 433). No entanto, a memória escrita não se refere unicamente aos documentos, mas também a escrita cotidiana que registra momentos ou as mais variadas informações. Assim, a memória funciona como uma forma de expressão cultural, 52 que pode ser preservada das mais diversas maneiras, seja através da oralidade, da escrita, das tradições ou monumentos. Portanto, compreender a inter-relação entre cultura, patrimônio e memória é uma forma de entender como as manifestações culturais se modificam, e, como as comunidades mantêm e buscam conservar suas raízes e memórias. h. AS PRÁTICAS PRESERVACIONISTAS E O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL Nas últimas décadas do século XX, como se afirmou há pouco, a acepção de patrimônio se dilatou, não se limitando à definição de sítios arqueológicos, obras de arte, monumentos, conjuntos arquitetônicos ou antigos objetos referentes às representações do poder político. Essa noção estendeu-se aos diversos modos de viver, formas de linguagem, celebrações, festas, gastronomia, enfim, maneiras de usar os bens, os espaços físicos e a paisagem. A emergência dos bens simbólicos à condição de patrimônio estimulou a sociedade — em especial, as minorias e os grupos étnicos — a reivindicar o plural reconhecimento de seus referenciais culturais e identitários. A percepção de que o patrimônio não se restringia aos bens das elites dominantes tornou evidente que o próprio conceito de patrimônio e as ações em sua defesa figuram como construções sociais, historicamente arquitetadas, aptas a promover o sentido de pertencimento dos cidadãos. Além disso, a valorização dos núcleos históricos como centros agregadores de bens naturais e culturais diversificados, de ordem material e imaterial, tornou-se possível a partir das alterações nos modos de se analisar e eleger o patrimônio. Todavia, os processos de modernização do espaço urbano e a globalização econômica de certa forma forjaram a homogeneização das cidades, dos modos de existência, dos valores e costumes sociais. Até os gostos gastronômicos e os modismos estéticos generalizaram-se em todo o mundo. Por essa razão, a atitude de proteger o patrimônio local tem sido incentivada, de modo a conservar as raízes plurais dos povos e suas tradições culturais, uma vez que estas expressam as origens étnicas e implicam a manutenção de suas 53 identidades. Nesse horizonte, parece oportuna a retomada da problemática do "turismo cultural" tal como proposta por Josep Ballart Hernández, um estudioso desse tema que ao discorrer sobre as noções que circundam a indústria turística e cultural procura apontar caminhos possíveis para uma ação complementar entre essas duas áreas, de modo a garantir o desenvolvimento sustentável. No entendimento do autor, a planificação turística, processada mediante a colaboração entre as administrações pública e privada, e o fomento da comercialização de produtos e serviços culturais podem facultar oportunidades para o desenvolvimento social e econômico, e ainda, garantir a ação de mecanismos auto-sustentáveis de preservação dos bens materiais e imateriais dos povos ibero-americanos. Não por acaso, a "Carta de Nairobi" (1976) ao ocupar-se das "Recomendações relativas à preservação e ao papel contemporâneo das áreas históricas", alertou para os perigos da abordagem e do trato meramente museais dos núcleos históricos, suas repercussões na esfera dos negócios turísticos e da especulação imobiliária. Naquela ocasião, essa carta já definiu o ambiente como o cenário natural ou construído pela ação humana e aconselhou que os núcleos históricos fossem observados no seu conjunto, abarcando a "organização espacial" e seus arredores, as edificações e seus entornos, e particularmente as "atividades humanas" desenvolvidas no local. Alguns meses depois, a "Carta do Turismo Cultural" (1976) aprofundou as sugestões da "Carta de Nairobi". E, embora salientasse as benesses advindas da promoção dos empreendimentos turísticos, advertia para a necessidade de se combinar o uso e a conservação dos bens naturais e culturais, de modo a se evitar o acesso indiscriminado ao patrimônio. A Conferência sobre Educação Ambiental (1977), realizada em Tbilisi (Geórgia), reuniu autoridades governamentais de várias partes do mundo e respaldou um approach inovador no âmbito da valoração da natureza e do meio ambiente, estimulando a produção e democratização de saberes interdisciplinares no trato desse tema. Posteriormente, o documento síntese da "Conferência Internacional sobre Meio Ambiente e Sociedade, Educação e Consciência Pública para a Sustentabilidade", efetuada em Tessalônica, na Grécia, destacou a urgência de se promover na esfera da educação debates sobre temas como ética e 54 sustentabilidade, identidade cultural e diversidade, mobilização e práticas interdisciplinares. O entendimento de desenvolvimento sustentável nessa época voltou-se às necessidades de se coadunar a preservação ambiental com a melhoria da qualidade de vida no planeta, por intermédio da otimização dos ecossistemas e dos procedimentos socioeconômicos. A temerária deterioração ambiental constatada através do aniquilamento da camada de ozônio e o conseqüente aquecimento do planeta, detectado nas duas últimas décadas do século XX, repercutiram consideravelmente nos debates da "II Conferência Geraldas Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Humano", em 1992, no Rio de Janeiro. A "Rio-92" configurou uma das mais importantes conferências realizadas pela Organização das Nações Unidas — ONU e consolidou a criação de estratégias e políticas nacionais de desenvolvimento e a formação de redes de cooperação internacionais e interinstitucionais prescritas na chamada "Agenda 21". Esse documento assinado por cento e setenta países, incluindo o Brasil, consistia num programa estratégico universal propenso a alcançar o desenvolvimento sustentável no século XXI. Em síntese, apresentava uma proposta de constituição de parcerias entre governos e sociedades com vistas a gerar ações capazes de dar continuidade ao desenvolvimento sem prejuízo do meio ambiente. Por certo, a perspectiva integradora das políticas em defesa do meio ambiente, do patrimônio cultural e do incremento de atividades turísticas tem 55 resultado em experiências positivas no sentido da promoção da cidadania e do desenvolvimento sustentável. As cartas patrimoniais dedicadas ao assunto asseveram a urgência das políticas públicas nesses três campos, considerados estratégicos para a preservação dos bens naturais e culturais, e sua respectiva manutenção. A integração simultânea dessas áreas pode vir a corroborar a reafirmação de códigos visuais das identidades cívicas, patrióticas ou étnicas, na medida em que consiga agregar a população residente ao "legado vivo" da história de sua cidade ou região. Para tanto, faz-se imperiosa a adoção de políticas patrimoniais pluralistas, capazes de valorizar a diversidade ambiental, as heterogeneidades culturais e as múltiplas identidades, de modo a promover a convivência harmoniosa entre o homem e o meio, e ainda, garantir a inclusão social dos cidadãos. A despeito da heterogeneidade das condições políticas, sociais e econômicas das áreas preservadas e dos centros históricos latino-americanos, a maior parte deles parece enfrentar questões similares: a degradação do meio ambiente e dos bens culturais, a especulação do solo urbano e a privatização, entre outros problemas como a pobreza, as péssimas condições de existência e trabalho, as privações que corroboram a crescente agressão à natureza e a descaracterização do patrimônio. Diante de tão grandes desafios, autoridades políticas, estudiosos e técnicos devotados à causa da proteção do patrimônio têm reunido esforços visando à criação de instrumentos legais capazes de despertar a população latino-americana para o valor de seu patrimônio, inibir os atos de vandalismo e minimizar as condições de degradação do meio ambiente. A par das iniciativas executadas com êxito nos países de outros continentes, realizaram-se empreendimentos no campo do turismo em cidades como Cuzco e Lima (Peru), Buenos Aires (Argentina), Quito (Equador), Havana (Cuba), e em vários pontos do território brasileiro como Olinda, Salvador, Ouro Preto, São Paulo, Rio de Janeiro, São Luis e João Pessoa, entre outros. Mas, ainda há muito que se fazer no âmbito da integração da população residente nessas áreas, como anunciou a Carta de Machu Picchu (1977) — um documento que preconizava a incorporação de valores socioculturais aos processos devotados à recuperação do patrimônio natural e cultural. A preservação 56 do patrimônio, como ferramenta vigorosa para a manutenção da dinâmica urbana e para a proteção do meio ambiente, constituiu prerrogativas defendidas na década de 1980. A Declaração de Tlaxcala (1982) e a do México (1985) recomendaram também a recuperação de pequenos núcleos depositários de costumes e relações comunitárias tradicionais, considerando as identidades plurais como elementos significativos na configuração dos valores étnicos, nacionais ou regionais. Mas, toda essa diversidade não parece devidamente valorizada se as populações não reconhecerem o importância do seu patrimônio. Nessa direção, uma questão fulcral se coloca: qual a repercussão do investimento estatal devotado à conservação e à preservação do patrimônio se as populações não aprenderem a respeitar sua própria cultura e a valorizar o meio ambiente, se não reconhecerem esses bens como parte do legado que deixarão para as futuras gerações? i. FERRAMENTAS EM PROL DOS BENS CULTURAIS E NATURAIS Desde a década de 1990 o patrimônio cultural e natural tem sido cada vez mais reconhecido como um instrumento poderoso para se salvaguardar a independência, a soberania e as identidades culturais dos povos latino-americanos. No entanto, os grandes desafios para aqueles que se dedicam à defesa dos bens culturais não se circunscrevem à descoberta dos meios eficazes para o desenvolvimento da educação patrimonial ou da educação ambiental, mas englobam o despertar da consciência e do apreço a esses bens. Se for verdade que as identidades latino-americanas podem ser conservadas por meio da preservação de seu patrimônio, a educação patrimonial e ambiental pode contribuir para avivar a consciência do valor cultural e simbólico de distintos bens. A educação nesse campo deve iniciar-se pela percepção direta de que o patrimônio não se restringe somente aos bens culturais móveis e imóveis representativos da memória nacional, como monumentos, igrejas ou edifícios públicos. Pelo contrário, o conceito de patrimônio cultural é muito mais amplo, não se circunscreve aos bens materiais ou às produções humanas, ele abarca o meio ambiente e a natureza, e ainda se faz presente em inúmeras formas de manifestações culturais intangíveis. 57 A percepção da herança imaterial torna-se fundamental para a integração da população com suas próprias condições de existência, com a natureza e o meio ambiente. Essas relações constituem o espírito dos países que compõem o continente e se manifestam por intermédio de cerimônias, linguagens do povo materializadas em atividades artesanais e produções artísticas ou literárias, canções, festas, receitas culinárias e saberes medicinais, entre outras manifestações sociais ou coletivas. Desse modo, a educação patrimonial e ambiental torna-se tarefa prioritária, uma vez que consiste em revelar a diversidade e pontuar as mudanças culturais, sociais e ambientais que se vêm processando com o passar dos tempos, sem dissimular os conflitos de interesses dos distintos segmentos sociais. O ensino e a aprendizagem na esfera do patrimônio devem tratar a população como agentes histórico-sociais e como produtores de cultura. Para isso deve valorizar os artesanatos locais, os costumes tradicionais, as expressões de linguagem regional, a gastronomia, as festas, os modos de viver e sentir das diversas etnias latino- americanas. O ensino sistemático e contínuo da população através das metodologias da Educação Patrimonial e Ambiental precisa partir da idéia de que a sociedade que não respeita o patrimônio cultural e natural em toda a sua diversidade corre o risco de perder a identidade e enfraquecer seus valores mais singulares, inviabilizando o exercício da cidadania. Assim, deve promover a formação e a informação acerca do processo de construção das identidades étnicas e possibilitar o desenvolvimento de reflexões em torno do significado coletivo e plural da história e das políticas de preservação. Ademais, pode fomentar o desejo de manutenção das práticas do 58 passado sem ignorar os benefícios da tecnologia, promover a discussão sobre o manejo das áreas e parques protegidos, bem como sobre a imputação de novos valores de uso aos imóveis restaurados, visando à manutenção dos bens protegidos e preservados na dinâmica social e econômica da região ou cidade onde se inserem. A produção de conhecimento nessa área precisa contemplar as inter- relações do meio natural com o social, incluindo a análise dos determinantes do processo, o papel dos diversos atores envolvidos e asformas de organização social que aumentam o poder das ações alternativas em prol de um novo desenvolvimento, numa perspectiva que priorize o desenvolvimento ancorado nos pressupostos da sustentabilidade sócio-ambiental. Essa questão se tornou premente nas últimas décadas, em particular no Brasil, uma vez que a maior parte da nossa população passou a residir em áreas urbanas — aspecto que agravou a degradação das condições de vida e intensificou os problemas ambientais. Tal constatação evidencia, como sugeriu Enrique Leff, haver um desafio fulcral a ser enfrentado, qual seja a alteração dos valores e das bases do conhecimento fundado na ênfase econômica do desenvolvimento. Se a educação for acionada como recurso capaz de promover o desenvolvimento intelectual e moral de crianças ou adultos, com certeza tenderá a suscitar sua integração individual e coletiva, quiçá, um tratamento diferenciado do patrimônio. Talvez a relação ensino-aprendizagem nessa área possa favorecer a convivência dos homens com a coletividade, com o meio onde vivem. Nesse contexto, a educação patrimonial pode constituir, como alega Maria Luiza Horta, "um processo permanente e sistemático de trabalho educacional centrado no 59 Patrimônio Cultural como fonte primária de conhecimento e enriquecimento individual e coletivo". A educação patrimonial e ambiental deve ser conduzida de modo a contemplar a pesquisa, o registro, a exploração das potencialidades dos bens culturais e naturais no campo da memória, das raízes culturais e da valorização da diversidade. À medida que o cidadão se percebe como parte integrante do seu entorno, tende a elevar sua auto-estima e a valorizar a sua identidade cultural. Essa experiência permite que esse cidadão se torne um agente fundamental da preservação do patrimônio em toda sua dimensão. O conhecimento adquirido e a apropriação dos bens culturais por parte da comunidade constituem fatores indispensáveis no processo de conservação integral ou preservação sustentável do patrimônio, pois fortalece os sentimentos de identidade e pertencimento da população residente, e ainda, estimula a luta pelos seus direitos, bem como o próprio exercício da cidadania. Em termos práticos a abordagem do tema pode ser iniciada na própria escola, valorizando-se a área e o edifício no qual ela se encontra instalada, a biblioteca, as áreas de entretenimento e outros espaços que possam figurar como bens coletivos. Em seguida pode-se sugerir que os alunos investiguem os bens culturais de suas respectivas famílias, de seus bairros, de sua cidade. Tornam-se imperiosas a difusão da legislação que trata do assunto e a veiculação de informações sobre os decretos que normatizam as ações no campo do patrimônio cultural e ambiental, tais como o tombamento, as regras de proteção dos parques nacionais e demais áreas protegidas. Faz-se necessário desvendar e advertir a população sobre os procedimentos para a preservação dos bens (manutenção, conservação, restauração, uso e administração). Contudo, deve-se ambicionar algo mais, como por exemplo, irradiar o saber referente ao patrimônio por meio de agentes comunitários, professores do ensino fundamental, médio e universitário, propalando o significado dos bens culturais e naturais entre as comunidades. A educação ambiental na América Latina tem desempenhado uma atividade fundamental quanto à difusão da responsabilidade social pelo meio ambiente, incentivando os indivíduos a requererem um moderno padrão de desenvolvimento, o desenvolvimento sustentável. Para tanto, tem-se investido na tentativa de alterar as condições de degradação sócio-ambiental e na difusão de conhecimentos 60 conjugados para a construção de novos referenciais ambientais visando práticas sociais ancoradas no respeito à natureza e na minimização dos impactos dos humanos sobre o meio ambiente. A educação patrimonial no Brasil tem sido praticada de modo não sistemático desde a década de 1940, principalmente nas cidades em que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) mantém áreas tombadas, como Ouro Preto e Olinda. Trata-se de atividades extracurriculares e interdisciplinares que se propõem a reconhecer e valorizar as referências culturais locais, regionais ou nacionais. Na América Latina, de modo geral, essa atividade educacional é muito recente, mas vem se intensificando desde as décadas de 1980 e 1990. j. A REABILITAÇÃO DOS CENTROS HISTÓRICOS BRASILEIROS Como se afirmou anteriormente, nos últimos anos o tema do patrimônio tem adquirido espaço nas discussões sobre o desenvolvimento social e econômico. No entanto, a perspectiva mais imediata da associação entre o desenvolvimento sustentável e o patrimônio se traduz em ações voltadas a tornar os antigos núcleos históricos mais atrativos aos transeuntes ocasionais ou aos turistas. Para isso, o poder público e a iniciativa privada têm acionado programas de conservação muitas vezes limitados à recuperação das fachadas dos edifícios, à limpeza dos monumentos e à exclusão da população pobre — considerada perigosa e capaz de denegrir a imagem positiva do patrimônio aos olhos dos visitantes — das áreas centrais. Excetuando-se poucos casos, a revitalização dos centros históricos da América Latina tem ocorrido de forma superficial, alijando a população residente do processo e criando zonas miseráveis nos entornos dos núcleos preservados. A população, após a desapropriação de seus domicílios, acaba se refugiando em áreas próximas à sua antiga moradia. Algo semelhante se efetuou na recuperação da paisagem urbana do Centro Histórico de Lima (Peru) e também do Largo do Pelourinho, em Salvador (Bahia), nas décadas de 1980 e 1990. 61 A recuperação de Lima antes dos anos 90 limitou-se a intervenções pontuais por parte da iniciativa privada, que adquiria casarões velhos a preços módicos e os reformava com vistas a transformá-los em prédios utilizados por instituições financeiras, bancárias ou empresariais. Depois que o núcleo histórico de Lima foi incluído na lista do Patrimônio Cultural da Humanidade, em 1991, passou por inúmeras operações contra a degradação e por processos de recuperação dos prédios antigos. Todavia, essas intervenções foram realizadas sem estabelecer vínculos com políticas habitacionais capazes de amparar a população pobre residente nessa área, nem tampouco com programas de desenvolvimento sustentável. Portanto, a preservação realizada se restringiu ao embelezamento estético dos monumentos, edificações e praças. Tal procedimento instaurou um círculo vicioso de especulação dos preços dos imóveis e de valorização do solo urbano, e acabou provocando demolições que culminaram com a expulsão dos antigos moradores andinos do centro histórico de Lima. Situação similar foi vivida pela população residente entre as décadas de 1980 e 1990 no Centro Histórico de Salvador, conhecido como "Largo do Pelourinho". Nessa região, a pseudo-restauração se limitou à pintura externa dos sobrados, quando muito extensível ao interior do piso térreo dos edifícios que se transformaram em domicílios comerciais. Tanto em Lima, como no Pelourinho, a imposição do uso contemplativo das áreas comunitárias (praças, ruas e parques) inibiu a preservação do significado original e a função que esses lugares haviam adquirido para a população local. A imposição de padrões burgueses no uso desses lugares da cidade intensificou a exclusão dos moradores pobres. Ademais, a associação dos bens culturais ao seu valor de mercado corroborou a ampliação do consumo cultural e a transformação da paisagem histórica em "ruínas" patrimoniais de marketing urbano. Dessa maneira, observa-se que predominantemente os poderes públicos e a iniciativa privada no Brasil têm investido em programas 62 superficiais que criam simulacros de preservação oucenários vazios de historicidade, cujo intuito é buscar o desenvolvimento do turismo, não raro de um turismo indiscriminado e prejudicial, muitas vezes dissociado das prerrogativas do turismo cultural. A adaptação do "pseudo" patrimônio recuperado aos novos usos nem sempre resulta em processos integrados de reabilitação, ou seja, numa reabilitação pautada por estratégias de gestão urbana que visem "requalificar a cidade existente através de intervenções múltiplas destinadas a valorizar as potencialidades sociais, econômicas e funcionais" do local, capazes de fomentar a melhoria da "qualidade de vida das populações residentes". Tal processo "exige o melhoramento das condições físicas do parque construído pela sua reabilitação e instalação de equipamentos, infra-estruturas, espaços públicos, mantendo a identidade e as características da área da cidade a que dizem respeito". Em outros termos, esse procedimento implica a adoção de dispositivos aptos a "devolver a uma cidade ou a um conjunto histórico suas qualidades desaparecidas, sua dignidade, assim como sua aptidão a desempenhar um papel social". Mas, ao revés disso, as ações freqüentemente adotadas no Largo do Pelourinho se circunscreveram ao fenômeno definido pelos geógrafos como gentrificação, ou seja, a população residente foi expulsa do local e o espaço arquitetônico sofreu uma "restauração" aparente. Quando na verdade deveria tomar como fundamento metodologias adequadas à recuperação do patrimônio arquitetônico e/ou urbano em vias de degradação, a partir de técnicas de revalorização econômica, social e estética, devolvendo ao conjunto condições duradouras e adequadas de conforto. 63 A "restauração de fachada" tende a fomentar a homogeneização dos centros históricos, nos quais se constrói uma impressão de conjunto forjada pela demolição de alguns edifícios do entorno dos prédios considerados passíveis de recuperação e pela criação de amplas áreas vazias ou ajardinadas, pelo uso comum de padrões de época definidores de cores, luzes, móveis e demais objetos ou artefatos antigos. Por fim, a comercialização de produtos supostamente oriundos da cultura local, como o artesanato, as comidas típicas, rituais e festas, forja eventos turísticos visando atrair maior número de visitantes em determinadas épocas do ano. Alguns agentes públicos ou privados chegam a lançar mão do fenômeno definido por Eric Hobsbawm como a "invenção da tradição", criando datas comemorativas, festejos e rituais supostamente tradicionais. Essa forma de intervenção foi comumente utilizada em áreas próximas às orlas marítimas na Europa, como ocorreu em Barcelona e Cartagena (na Espanha), e também em bases portuárias, como Puerto Madero e o bairro imigrante conhecido como La Boca, em Buenos Aires (Argentina), onde as estruturas degradadas foram recuperadas e utilizadas como base para a recreação turística. 64 No Brasil, além do Largo do Pelourinho, esse efeito pode ser observado nos processos de recuperação parcial do centro histórico de Recife, em Pernambuco. Projetos desse tipo não raro dissimulam uma pseudo auto-sustentabilidade, fundamentada em postulados econômicos que visam reduzir os custos dos investimentos públicos, mas que comprometem a gestão de políticas ambientais e programas habitacionais e, sobretudo, esvaziam as questões da responsabilidade social. A precariedade da fiscalização do patrimônio nacional efetuada pelo Iphan de certa forma também facilita a depredação de parques nacionais e sítios arqueológicos, a destruição de produções artísticas e arquitetônicas, o desenvolvimento do turismo indiscriminado. Essa situação pode ser detectada no caso das inscrições rupestres da "Serra da Lua" (com cerca de onze mil anos), no município de Monte Alegre, Estado do Pará, e também, do sítio cerimonial da "Lapa do Frei Canuto", na Chapada dos Guimarães, estado de Mato Grosso. Ambos foram afetados pelo fluxo descontrolado de turistas, responsável por riscos nas pinturas rupestres. Entre as décadas de 1980 e 1990, experiências positivas se consolidaram nos países da América Latina. Cabe recordar, por exemplo, alguns casos de intervenções bem-sucedidas na cidade do México, em Quito e em alguns núcleos históricos brasileiros. No México, depois do terremoto de 1985, as ações em defesa do patrimônio e da reabilitação das áreas residenciais centrais da capital do país contribuíram para a melhoria da qualidade de vida dos habitantes locais. Desde então, as autoridades mexicanas, como assinalou René Coulomb, optaram pela integridade da gestão pública através de planos e políticas de desenvolvimento econômico e social, articuladas a programas habitacionais, planos diretores territoriais e urbanos. Nessa linha de argumentação, não se pode olvidar o êxito dos empreendimentos realizados em São Francisco de Quito (Equador), pois o Programa de Reabilitação do Centro Histórico dessa cidade propiciou a integração dos artesãos e da população que vivia na área. A reestruturação do comércio artesanal e dos produtos da culinária tradicional, somada à recuperação de habitações comunais fizeram a população sentir-se estimulada a cooperar com o referido projeto. Segundo os especialistas, o sucesso do trabalho realizado ao longo dos anos 90 em Quito deve-se ao fato de que as políticas patrimoniais foram 65 acionadas concomitantemente às políticas habitacionais e às políticas promotoras do turismo cultural, que garantiram o desenvolvimento sustentável no local. A recuperação das "moradias solidárias" contemplou a conservação integrada dos imóveis nos contornos próximos ao centro histórico, propiciando a otimização da infra-estrutura nessa área. Assim, a restauração das moradias da rua Caldas se apoiou na concentração dos serviços, equipamento e infra-estrutura — concepção que beneficiou a reativação econômica e turística do local, a preservação do uso tradicional do solo urbano e a incorporação do centro histórico à dinâmica da cidade. A recuperação do conjunto residencial conhecido como "Casa dos sete pátios" configura como um importante exemplo de reabilitação, haja vista que essa ação restabeleceu a convivência entre numerosas famílias que habitavam o local, a manutenção de seus hábitos e costumes tradicionais. Ademais, o Fundo de Reabilitação criado a partir de uma empresa mista (capital público e privado) comprometeu-se a garantir a manutenção dessa residência comunal por cerca de 25 anos — o que representa um investimento de curto e médio prazo. Sem dúvida, deve-se admitir que o êxito da reabilitação do centro histórico de Quito inspirou a restauração de conjuntos patrimoniais significativos nas áreas urbanas brasileiras através do "Programa Monumenta", administrado pelo Ministério da Cultura, com recursos do Banco Interamericano de Desenvolvimento — BID. Esse programa constituiu o primeiro plano de financiamento com vistas à preservação de patrimônio histórico com amplitude nacional e ação continuada, com recursos de duzentos milhões de dólares na primeira e segunda etapas, e mais quatrocentos milhões de dólares na última fase. Na sua primeira etapa, o programa contemplou os bens brasileiros incluídos na Lista do Patrimônio Cultural da Humanidade — Unesco, como Ouro Preto (Minas Gerais), Salvador (Bahia), Olinda (Pernambuco) e São Luís (Maranhão). A segunda fase abarcou o bairro do Recife (Recife, Pernambuco), as praças Tiradentes (Rio de Janeiro) e da Luz (São Paulo), com seus respectivos entornos. A estação da Luz, re-inaugurada no ano de 2004, fora utilizada principalmente para o escoamento do chamado "ouro verde", uma vez que interligava os centros comerciais do café de São Paulo ao Porto de Santos. No seu apogeu era conhecida como Estação do Café, e foi mantida em pleno funcionamento até por volta de 1945, 66 quando o transporte ferroviáriopassou a ser paulatinamente substituído pelo rodoviário. A suntuosa construção com cerca de sete mil e quinhentos metros quadrados foi erguida com materiais oriundos da Inglaterra, e após a sua reabilitação recebeu esmerada restauração e iluminação destacada. A terceira etapa do "Programa Monumenta" destinou-se à recuperação de núcleos históricos das cidades de Belém (Pará), Diamantina (Minas Gerais), Corumbá (Mato Grosso), Petrópolis (Rio de Janeiro), Cachoeira (Bahia), Antonina (Paraná) e São Francisco do Sul (Santa Catarina). Outros centros com reconhecido significado histórico e cultural também foram elencados como candidatos às etapas posteriores. Os resultados positivos desses empreendimentos não podem inibir a percepção de que em alguns casos essa experiência logrou corolários pouco duradouros. Lamentavelmente, as iniciativas de revitalização de áreas degradadas das cidades assentadas apenas em "operações" destinadas a realçar a sua vida econômica e social, em geral, visaram somente à reutilização do patrimônio cultural ou dos recursos ambientais locais através da "terceirização" de seus usos. Esses procedimentos se limitaram a atrair investimentos e a proporcionar novos usos aos espaços, privilegiando a sua exploração econômica, por meio da manipulação da sua dinâmica turística. Não buscaram a reabilitação das áreas degradadas em sua complexidade, nem tampouco a inclusão social da população residente. Esse tipo de intervenção terminou gerando problemas, de certa forma, subjacentes à cultura contemporânea, relativos ao consumo cultural, e ainda criou dilemas artificiais sobre as necessidades da preservação, ancorados em trocadilhos do tipo "preservar para consumir" ou "consumir para preservar". Mas, há que se considerar o efeito multiplicador das propostas norteadas pelo reaproveitamento econômico do patrimônio, pois a perspectiva inicial asseverada por seus defensores assentava-se na idéia de deflagrar ações integradas entre o poder público, a iniciativa privada e os usuários. Tal proposta de revitalização mostrava-se sedutora e lucrativa, apropriada a atrair outros empreendedores e arrebatar novos projetos. Contudo, o maior problema residiu no fato de que não raro esses projetos se dissiparam ou se caracterizaram por êxitos temporários, como ocorreu na praça Anthenor Navarro, no centro histórico de João Pessoa, na Paraíba. 67 A praça Anthenor Navarro, circundada por sobrados construídos em estilo art déco e art nouveau, foi revitalizada no final dos anos 90. Os casarões de dois pavimentos foram reformados em 1998 e convertidos em casas comerciais, bares com música ao vivo, cantinas ou restaurantes que animaram a vida noturna e o desenvolvimento de atividades heterogêneas nessa área da cidade. No entanto, os novos valores de uso imputados às casas sobradadas do centro histórico de João Pessoa não foram associados a políticas habitacionais e propostas de manutenção de espaços residenciais originais. A população pobre foi afastada para dar lugar aos turistas ou aos transeuntes ocasionais. Em curto prazo, a vitalidade da vida noturna transferiu-se para outros locais da cidade e novamente essa área caiu em desuso. O patrimônio parcialmente recuperado voltou a degradar-se. O desvendamento do dilema aqui exposto talvez possa ser mais bem compreendido a partir de duas vertentes interpretativas aptas a equacioná-lo. Enquanto alguns estudiosos do patrimônio afirmam a necessidade de reestruturação dos centros urbanos caracterizados como áreas decadentes e marginais, com base no patrocínio do crescimento local pautado por ações devotadas a criar serviço e renda, ou seja, por estratégias do desenvolvimento sustentável, outros especialistas refutam essa idéia por considerar que tais práticas suscitam o fenômeno da gentrificação e produzem uma cidade cada vez mais desigual, na medida em que, de um lado, promove a exclusão da população pobre das áreas revitalizadas a favor dos interesses econômicos dos segmentos mais abastados, e, de outro, propicia a apropriação das culturas tradicionais, tomadas apenas como mercadorias ou meios de captação de recursos financeiros. Por certo, a exacerbação das diferenças sociais no mundo globalizado evidencia-se de maneira alarmante. A concentração de renda e a redução da oferta de serviços no setor formal da economia fomentam a exclusão social, o desemprego e a miserabilidade, e acarretam o aumento dos índices de violência. Esse fenômeno torna-se visível, mesmo àqueles que hesitam em enxergar o progressivo número de moradias improvisadas nos morros, nas várzeas dos rios urbanos ou debaixo das pontes. Os desconcertantes contingentes populacionais que residem nas ruas das cidades não deixam dúvida quanto a isso. De outro modo, os processos de revitalização são considerados instrumentos eficazes para dinamizar a economia e recuperar o espaço público. 68 Com efeito, essa alegação parece convincente a curto prazo, mas não se mostra extensiva a toda a população, nem tampouco promove a consciência da preservação e o direito à cidadania. A desigualdade e o limitado acesso aos espaços públicos e aos equipamentos urbanos, seguramente, afetam a população mais carente, menos abastada. Esses efeitos redundam, paradoxalmente, na privatização das áreas distinguidas como patrimônios culturais nacionais ou da humanidade, culminando com impedimentos ao exercício da cidadania. Diante desse impasse, talvez a saída mais viável se assente na interpretação das propostas de reabilitação centradas na idéia de promover a identidade coletiva e a apropriação dos bens culturais por parte da população residente. Em termos legais, no Brasil, a Carta Constitucional de 1988 afiançou os vínculos entre direitos sociais e culturais do "povo" brasileiro. Do mesmo modo, a Lei nº 10.257 (10.07.2001), referente ao "Estatuto da cidade", chamou a atenção para o direito ao usufruto do espaço coletivo. Todavia, na prática, a revitalização efetuada nas localidades como o bairro do Recife e o núcleo antigo de João Pessoa, na década de 1990, intensificou a segregação espacial das referidas cidades. À medida que as áreas urbanas centrais se deterioraram receberam a população urbana carente, mas quando se tornaram alvo de projetos de revitalização, os referidos moradores foram deslocados para a periferia da cidade. Algo semelhante ocorreu nas orlas marítimas: estas, ao receberem equipamentos e serviços urbanos modernos, passaram a ser ocupadas por residências dos segmentos médios e dos mais afortunados, receberam investimentos na esfera do entretenimento, casas comerciais e shopping centers, entre outros benefícios. Assim, no decorrer do século XX, como bem o lembra Fernando Carrión, surgiram as novas centralidades urbanas. Essas áreas se expandiram em detrimento dos antigos núcleos que paulatinamente foram perdendo suas funções residenciais e comerciais. Somente nos anos finais da década de 1990, a retomada da consciência dos núcleos históricos e da sua potencialidade identitária e turística propiciou investimentos na construção de uma imagem positiva dos centros históricos como no Recife Antigo (Pernambuco), em João Pessoa (Paraíba) e Fortaleza (Ceará). Os dados divulgados pelo Ministério da Cultura, no ano de 2004, atestam que cerca de quinhentas companhias do setor privado e público apoiaram projetos 69 de recuperação da memória e do patrimônio nacional. O "Programa Monumenta", como se afirmou anteriormente, visou incentivar a ocupação e o uso efetivo das áreas reabilitadas por meio de atividades econômicas, culturais e sociais auto- sustentáveis. Para tanto, foram associadas ao programa, com apoio do BID, linhas de crédito complementares do Banco Nacional de Desenvolvimento — BNDES e da Caixa Econômica Federal. A necessidade de modernizar os projetos de preservação do patrimôniocultural aliando-os ao desenvolvimento urbano das cidades parece constituir uma demanda que não pode mais ser postergada. As políticas de desenvolvimento devem permitir o incremento territorial e socioeconômico culturalmente renovado e ecologicamente justo. Definitivamente, existe urgência na articulação da política cultural com as demais políticas setoriais que incidem sobre as cidades, como as políticas de educação, desenvolvimento urbano, meio ambiente e turismo, entre outras. Aliás, uma das premissas do "Estatuto da Cidade" (Lei nº 10.257) apontava a proeminência da criação de "Planos Diretores Municipais" visando ao "pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e da propriedade urbana", asseverando "a proteção, a preservação e recuperação do meio ambiente natural e construído, do patrimônio cultural, histórico, artístico, paisagístico e arqueológico", entre outras diretrizes. No entanto, há que se romper com a visão fracionada das políticas públicas que tratam o urbano sem observá-lo em sua globalidade e, simultaneamente, sem perceber as peculiaridades dos seus elementos culturais. Há que se investigar novos padrões de preservação que não se reduzam à conjunção das áreas de saneamento básico, transportes e habitação. Faz-se necessário investigar perspectivas de interação físico-espacial das áreas urbanas, admitindo suas características e a aplicação de procedimentos particularizados, não restritos a métodos homogêneos para o trato de áreas urbanas que em essência se mostram desiguais. Talvez, a coordenação de esforços nessa direção possa gerar os instrumentos apropriados à gestão e acionar a articulação entre as diversas esferas político-administrativas do Estado e da sociedade, de modo a se criarem espaços de discussão e debate como "Câmaras Multi-setoriais de Política Pública" e "Planos Plurianuais de Governo". A realização de simpósios sobre a cidade com tais fins 70 pode reunir especialistas, munícipes, administradores e políticos em favor do desenvolvimento e da preservação de núcleos históricos das cidades. A focalização das políticas públicas, em síntese, pode apresentar um conjunto de medidas assentadas num tripé fundamental, qual seja a recuperação física da área degradada, a revitalização funcional urbana e a otimização da gestão ambiental local. Dessa maneira, torna-se viável a promoção do desenvolvimento sustentável e a inclusão da população, a quem de direito pertence o patrimônio cultural e natural. k. A HISTÓRIA ORAL A história oral, explica Alberti (2005, p. 155), “permite o registro de testemu nhos e o acesso a ‘histórias dentro da História’ e, dessa forma, amplia as possibilidades de interpretação do passado”. Esse termo [história oral], como observa Fraser (1993, p. 80), “se presta a confusão, porque parece que quer ser uma disciplina distinta, [...], quando de fato é uma técnica para a investigação histórica”. No entanto, sua utilização se explica porque quando os historiadores começaram a entrevistar testemunhas e atores diretos para obter informações não incluídas nos arquivos documentais, n os textos impressos ou em documentos oficiais, optaram por definir a nova atividade como “história oral”, conforme argumenta De Garay (1999). No Brasil, a história oral passou a ser estudada e utilizada a partir de 1975, quando foi realizado o I Curso Naci onal de História Oral, organizado pelo Subgrupo de História Oral do Grupo de Documentação em Ciências Sociais (GDCS), formado por representantes de quatro instituições: a Biblioteca Nacional, o Arquivo Nacional, a Fundação Getúlio Vargas e o Instituto de B ibliografia e Documentação, como narra Alberti (2005, p. 160). Já ao longo da década de 1980, núcleos de pesquisa e programas de história oral voltados para diferentes temas e objetos de estudo foram se formando em instituições de pesquisa, somando-se vinte e uma delas ao seu final. De lá para cá, a história oral consolidou-se e disseminou-se no país. A utilização da história oral como procedimento decorre do fato de poder ser empregada em pesquisas sobre temas recentes, ao alcance da memória dos entrevista dos, envolvendo 71 acontecimentos ocorridos num espaço de aproximadamente 50 anos. Consiste, portanto, “na realização de entrevistas gravadas com indivíduos que participaram de, ou testemunharam, acontecimentos e conjunturas do passado e do presente” (ALBERTI, 2005, p. 155). Com o advento das novas tecnologias, a história oral conta com o suporte de gravadores de som, câmaras fotográficas e de vídeo disponíveis em diversos equipamentos, além do uso do computador, para o registro dessas entrevistas. Um bom prog rama informático poderá auxiliar no processo de análise de dados qualitativos, facilitando as rotinas que lhe são inerentes. Dentre os softwares disponíveis, o ATLAS/ti tem sido dos mais utilizados, por propiciar a análise qualitativa de grande volume de d ados textuais, sonoros e visuais. No que se refere ao tipo de entrevista, a história oral admite a realização de entrevistas temáticas ou de história de vida. As entrevistas temáticas dizem respeito à participação do entrevistado no tema escolhido, enquant o que as histórias de vida têm como centro de interesse o próprio indivíduo na história, envolvendo sua trajetória desde a infância até o momento em que fala, mencionando diversos acontecimentos que presenciou ou vivenciou. De um modo geral, a história ora l, em seus dois formatos, tem dado suporte a pesquisas históricas sobre mobilidade social, vidas de professores, organização da escola, migrações, mulheres, jovens, entre outras. Para a realização das entrevistas, além das providências preliminares relativ as ao convite e à cessão de direitos sobre o depoimento para uso dos dados na pesquisa, são necessários equipamentos de gravação e reprodução de áudio e vídeo. De acordo com os especialistas, a vantagem na escolha de equipamentos digitais, sejam eles sonor os ou audiovisuais, é a qualidade de reprodução do som e da imagem. Se tempos atrás a aquisição desses aparelhos apresentava alguma dificuldade, hoje os smartphones e tablets realizam essa tarefa com sucesso. O número de entrevistados será de ordem a permi tir a possibilidade de comparar as diferentes versões sobre o passado, tendo como contraponto permanente o que as fontes existentes já mencionam sobre o assunto. Quanto maior o número de entrevistas realizadas, mais consistente será o material disponível para análise. Tanto nas entrevistas gravadas como nas filmadas, devem 72 ser tomados todos os cuidados para que o documento não perca sua qualidade técnica, de forma a explorar ao máximo as fontes de conhecimento e reflexão nele contidas. Os procedimentos reco mendados pela metodologia da história oral devem ser, também, cuidadosamente observados. É aconse lhável que o pesquisador redija notas de campo, que conterão suas reflexões pessoais sobre a atividade, de acordo com os critérios de categorização definidos. De cada entrevista o pesquisador fará o processamento, que consiste na passagem da entrevista de forma oral para a escrita, compreendendo as etapas de transcrição, conferência de fidelidade da transcrição e copidesque. Essas tarefas são demoradas e “requer em dedicação, paciência e sensibilidade”, como alerta Alberti (2004, p. 173 - 174). A transcrição constitui a primeira versão escrita do depoimento, consistindo em traduzir para a linguagem escrita aquilo que foi gravado, com absoluta fidelidade. Segue-se-lhe a conferência de fidelidade da transcrição, que será realizada escutando-se o depoimento e ao mesmo tempo lendo-se sua transcrição. É a oportunidade para que sejam corrigidos erros, omissões e acréscimos feitos indevidamente pelo transcritor. Estima-se uma média de cinco horas de trabalho de conferência de fidelidade para uma hora de gravação.Na etapa do copidesque, submete-se a entrevista a um último tratamento para que possa ser consultada em sua forma escrita. Observa Alberti (2004) que: Não se trata de aprimorar a forma de enunciar as ideias para alcançar uma linguagem mais elaborada. Ao contrário: porque o documento de história oral guarda uma especificidade que o distingue de outras fontes, convém preservar as características da linguagem falada ( ALBERTI, 2004, p. 214). No copidesque estarão mantidas as informações de que o pesquisador necessitará para fazer a análise das fontes produzidas. Os depoimentos orais e os documentários serão utilizados como discursos a serem decifrados, com o auxílio da s técnicas de análise do discurso. A análise do discurso deverá considerar as condições de produção do discurso, a noção de tempo e espaço histórico, traduzindo a expressão dos sujeitos no mundo que explicite sua identidade. Para Bardin ( 2011 ), a análise d e conteúdo pode ser definida como: 73 Um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conheci mentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens (BARDIN, 2011, p. 48). Desta forma, a análise de conteúdo permite ir além da simples descrição do conteúdo, passando à interpretação nele contida. As preocupações que o investigador deve ter presentes, no que se refere à aferição da validade interna das categorias que emergirem dos depoimentos, estão bem retratadas por Ribeiro: Em primeiro lugar, deve assegurar-se da sua exaustividade e exclusividade mútuas, isto é, cada categoria deve abranger a totalidade dos significados possíveis como ela relacionados, pelo que se recomenda a sua definição rigorosa, para evitar a ambiguidade e sobreposição entre categorias decorrente do facto de um elemento poder ser classificado em mais do que uma delas. [...] Por outro lado, o investigador deve prosseguir objetivos de procura de objectividade e fidelidade das categorias, procurando reduzir, na medida do possível, os efeitos de subjectividade na classificação e codificação do mate rial em análise (variação temporal e intercodificadores dos juízos). A pertinência e a produtividade das categorias são qualidades igualmente importantes a ter em conta (RIBEIRO, 2003, p. 285 - 286). Ao beneficiar-se de ferramentas teóricas de diferentes di sciplinas das ciências humanas, como a antropologia, a psicologia, a sociologia, a linguística, por exemplo, o trabalho com a história oral assum iu a forma interdisciplinar por 74 excelência. A preocupação central da história oral, destaca Ferreira (2002, p. 328), “é garantir o máximo de veracidade e de objetividade nos depoimentos orais produzidos”. As entrevistas e os depoimentos visuais analisados possibilitarão reunir elementos para realizar a contraprova e excluir eventuais distorções identificadas. Por sua característica subjetiva, a história oral privilegia o estudo das representações e atribui um papel central às relações entre memória e história. Observe-se que a entrevista em si não é história, é apenas uma fonte que, como todas as demais fontes, nec essita ser interpretada e analisada. Só após a análise do historiador é que os depoimentos orais serão transformados em fontes, e as fontes em documentos históricos . Repetindo Marc Bloch (2003, p. 107), “A diversidade dos testemunhos históricos é quase inf inita. Tudo o que o homem diz ou escreve, tudo o que fabrica, tudo o que toca pode e deve informar - nos sobre ele”. Com apoio em Le Goff (2003, p. 110), faz-se necessário observar que “Todo o documento é um monumento que deve ser des - estruturado, des - monta do”, para que o historiador possa discernir o que é falso e avaliar a credibilidade do documento. Cabe ao historiador fazer a crítica do documento enquanto monumento, analisando suas condições de produção, indo além dos documentos, avançando na busca de re lações, intenções e condições. Acrescenta Le Goff: O documento não é inócuo. É antes de mais nada o resultado de uma montagem, consciente ou inconsciente, da história, da época, da sociedade que o produziram, mas também das épocas sucessivas durante as qu ais continuou a ser manipulado, ainda que pelo silêncio. O documento é uma coisa que fica, que dura, e o testemunho, o ensinamento que ele traz devem ser em primeiro lugar analisados desmistificando - lhe o seu significado aparente. O documento é monumento ( LE GOFF, 2003, p. 547 - 548). Quando o pesquisador se interessa em ter acesso a interações e documentos em seu contexto natural, abstendo-se de formular hipóteses no início para depois testá - las e partindo da ideia de que os métodos e a teoria devem ser aju stados àquilo que se estuda, ele realiza uma pesquisa qualitativa. Bogdan e 75 Biklen (1994) apresentam cinco características básicas da pesquisa qualitativa, que se aplicam à história oral: A pesquisa qualitativa tem o ambiente natural como sua fonte direta de dados e o pesquisador como seu principal instrumento: para se fazer uma pesquisa qualitativa, o pesquisador deve estar em contato com o que está estudando e o ambiente em que está sendo realizada a pesquisa. Os dados coletados sã o predominantemente des critivos. O pesquisador deve recolher o maior número possível de fontes e documentos para confirmar suas afirmações, e deve também levar em conta todo e qualquer questionamento que venha surgir durante a pesquisa. A preocupação com o processo é muito maior do que com o produto: o pesquisador tem interesse em verificar o problema e como ele se manifesta. O significado que as pessoas dão às coisas e à sua vida são focos de atenção especial pelo pesquisador: o pesquisador deve levar em conta o ponto de vista d os participantes da pesquisa, tomando sempre o cuidado de confirmá - los. A análise dos dados tend e a seguir um processo indutivo. A busca das conclusões segue um processo indutivo, a partir do desenvolvimento da pesquisa, articulando os dados obtidos sem que os sujeitos da pesquisa prendam-se a hipóteses previamente concebidas. O uso de fontes orais traz, portanto, como contrapartida, uma série de problemas derivados da subjetividade da memória, como seu caráter de incompletude, de variabilidade, de cred ibilidade. As implicações teóricas e epistemológicas que acarretam são diferentes daquelas produzidas pelas fontes adotadas numa história positivista. Em face dessas características, a análise qualitativa acarreta consequências em nível metodológico, anali sadas por Carrasco (2002) e que resumimos conforme segue: O conhecimento não representa uma soma de fatos definidos por constatações imediatas do momento empírico. A interpretação é um processo no qual o investigador integra, reconstrói e representa em diversos indicadores produzidos durante a investigação, os quais não terão nenhum sentido se forem tomados de uma forma isolada como constatações empíricas. O sujeito, como tal, produz ideias ao longo de toda a 76 investigação, em um processo permanente, no q ual estão presentes momentos de integração e continuidade em seu próprio pensamento, sem referenciais identificáveis no momento empírico. O caráter interativo do processo de produção do conhecimento é uma dimensão crucial, no estudo dos fenômenos humanos, o que destaca a importância do contexto. A singularidade na investigação da subjetividade como nível legítimo da produção do conhecimento implica uma importante significação qualitativa, constituindo-se como uma realidade diferenciada na história da cons tituição do indivíduo. A investigação qualitativa é, assim, um processo permanente de produção de conhecimento, apresentando resultadosparciais, que se integram a outros, dando lugar a novas perguntas e abrindo novos caminhos na produção do conhecimento. O enfoque teórico, nesse processo, é relevante, considerando-se que a história oral se situa em uma zona de fronteira entre a própria cientificidade e o mundo real, entre a memória produzida pelos historiadores e as memórias individuais. No contexto da in vestigação qualitativa, “em resposta a preocupações com a validade interna e externa dos dados produzidos”, conforme recomenda Ribeiro (2003, p. 287), “podem ser acionadas estratégias múltiplas de pesquisa, quer ao nível do recurso a mais do que um investi gador, quer ao nível da diversificação das fontes ou dos métodos e técnicas de informação”, combinação essa designada, habitualmente, por triangulação. 77 l. A IMPORTÂNCIA DAS RAÍZES CULTURAIS PARA A IDENTIDADE CULTURAL DO INDIVIDUO Conceituar cultura não é uma tarefa fácil, cada individuo apresenta uma forma de definição da cultura, Arias (2002, p. 103) descreve o conceito de cultura como: "… una construcción específicamente humana que se expresa a través de todos esos universos simbólicos y de sentido socialmente compartidos, que le ha permitido a una sociedad llegar a “ser” todo lo que se ha construido como pueblo y sobre el que se construye un referente discursivo de pertenencia y de diferencia: la identidad" O autor afirma que cultura é uma expressão da construção humana. A cultura é construída através do diálogo entre as pessoas no dia a dia. Nessa interação social é construído gradativamente símbolos e significados que tem sentido a essas pessoas, e são compartilhados entre elas. A construção de uma cultura está repleta de elementos e significados que vão identificar esse povo como pertencente a uma determinada comunidade ou região, diferenciando-os de outras comunidades, surge assim, a identidade cultural. O entendimento do significado de cultura subsidiará a compreensão das raízes culturais. Quando nos referimos às raízes culturais estamos nos referindo à sua origem, principio, ou seja, a forma como foi construída a cultura de um povo, o que determina que alguns elementos ou algumas manifestações culturais sejam considerados tipicamente desse povo. Não temos a pretensão de nos aprofundar 78 em questões sociológicas. O propósito de enfocar as raízes culturais nesse artigo está direcionado a questão da memória cultural do povo. Não é um trabalho arqueológico, não se pretende escavar o “passado”, mas sim, de se manter viva a história da construção ou da criação da cultura de um povo ou de uma região. É possível dizer que não se vive do passado, se vive do presente e do futuro. Porém, para se compreender as transformações pelas quais a cultura de um povo tem passado no decorrer dos tempos, se faz necessário conhecer como era antes no inicio de sua construção. Há de se estabelecer parâmetros para se poder definir em que aspectos a cultura foi transformada e em que grau. Acredita-se que, não se deve pregar o isolamento cultural, se fechando em guetos. O individuo deve estar aberto e receptivel ao novo. Deve-se conhecer e experimentar as outras culturas como forma de valorizar a diversidade cultural dos povos e como enriquecimento cultural. Supõe-se que, para conhecer e assimilar a história da construção da cultura de outros povos, deve-se primeiro conhecer a história da própria cultura, saber como se deu essa construção e como foi o processo de evolução e desenvolvimento da mesma. Só assim, pode-se conhecer e entender outras culturas. Conhecendo a própria cultura, o individuo compreenderá a importancia de mante-la viva na memoria, protege-la e valorizar a cultura como forma de preservar o que somos, nossas caracteristicas, nossa identidade. Segundo Barros (2008). “proteger não significa defender o isolamento ou o fechamento ao diálogo com outras culturas, mas sim encontrar meios de promover a sua própria cultura”. Pedroso (l999) afirma que. “Um povo que não tem raízes acaba se perdendo no meio da multidão. São exatamente nossas raízes culturais, familiares, sociais, que nos distinguem dos demais e nos dão uma identidade de povo, de nação”. Percebe-se a importância de se conhecer as raízes da própria cultura para que haja a formação de identidade, no propósito de se definir enquanto cidadão sabendo situar-se na sociedade. Entende-se que, para a assimilação da relevância desse conhecimento há de se ressaltar a construção histórica da cultura de um povo. Segundo Arias (2002, p.9): 79 "La cultura no es algo dado, uma herencia biológica, sino uma construcción social e históricamente situada, em consecuencia es um producto histórico concreto, uma construcción que se inserta em la história y especificamente em la história de las inter-acciones que los diversos grupos sociales establecen entre si” Pelo exposto acima, se entende que a cultura é construída a partir das ações e inter-relações sociais. As pessoas fazendo parte de uma sociedade acabam interagindo umas com as outras, trocando idéias, conhecimentos e etc, desse relacionamento deriva a cultura desse povo, que foi construída passo a passo. Juntos, constroem uma história de vida, onde os hábitos e costumes, manifestações, expressões, sentimentos e outros estão inseridos, identificando cada componente dessa sociedade determinando o seu modo de viver e de ser. Portanto, acredita-se que: se as pessoas têm conhecimento de suas próprias raízes e conscientemente sabem da relevância das mesmas para suas vidas, passarão a valorizar esse conhecimento transmitindo-o para as gerações futuras, isso evitará que sejam esquecidas ou adormecidas. Dessa forma, a memória do povo continuará sendo “aquecida”. Abaixo outra citação do autor Pedroso (l999), que enfatiza melhor a importância de se conhecer as próprias raízes. "Quem não vive as próprias raízes não tem sentido de vida. O futuro nasce do passado, que não deve ser cultuado como mera recordação e sim ser usado para o crescimento no presente, em direção ao futuro. Nós não precisamos ser conservadores, nem devemos estar presos ao passado. Mas precisamos ser legítimos e só as raízes nos dão legitimidade" Entende-se nessa citação que a vida tem sentido, em se tratando de identidade cultural, quando conhecemos nossas raízes, de onde viemos, quem somos e como somos. É preciso conhecer o inicio de tudo para entendermos as mudanças culturais que ocorrem no presente e que ocorrerão no futuro. O trecho, abaixo, retirado de uma reportagem realizada no Distrito de Ribeirão Pequeno enfatiza um projeto sobre memória cultural que tem sido desenvolvido em uma escola. 80 "....incluem em seus programas de história, geografia, língua portuguesa e artes temas relacionados ao patrimônio e à memória locais. O resultado comum dos projetos é um aluno mais interessado e motivado. A longo prazo, vem a mudança da mentalidade e a formação de um cidadão sensibilizado para com suas raízes e identidades culturais". Na realização desse projeto já se percebe a preocupação em introduzir nas escolas temas que visem trabalhar questões relacionadas ao patrimônio e a memória local. O resultado final desse projeto, pelo que se percebe foi muito satisfatório e gratificante, pois conseguiu atingir os alunos em aspectos muito importantes como no interesse e motivação, já é um ponto inicial para que com a continuação desse trabalho mais alunos tenham uma mudança de mentalidade em relação às próprias raízes e a própria identidade cultural. Que o mesmo possa ser um disseminador dessa idéia para toda a comunidade escolar. Para enfatizar melhor a importância da memória cultural do povo, podemos citar uma declaração muito interessante, encontrada em um site paraense, que fala sobre o texto de uma peça de teatro escrita por um grupo de alunos sobre a culturaregional local. "Foi gratificante ver jovens se preocupando com o futuro da nossa cultura e com a memória de nosso povo, o nosso maior patrimônio, com a natureza, enfim..., e o mais importante, nos ensinando a termos orgulho de nossas raízes, cores, sabores, crenças..., nos mostrando que o único e tenaz caminho é assumir, disseminar e manter cada vez mais nossas origens, para que só assim o mundo nos relacionem com respeito e admiração" Percebe-se nessa declaração, que o texto teatral apresentado foi bem escrito, que enfoca com bastante propriedade o orgulho desses jovens com suas raízes culturais e o mais importante de tudo, a preocupação dos mesmos com o futuro de nossa cultura e a memória de nosso povo. É importante ressaltar que no contexto da comunicação também há outras formas de aprendizagem da cultura. O ensino escolar é apenas uma parte onde ocorre a aprendizagem cultural do aluno. A escola tem uma contribuição bem especifica nessa aprendizagem, pois é na escola que o aluno vivência diariamente 81 a diversidade cultural, no contato com professores, colegas e outros. Por ser um assunto tão complexo a forma de aprendizagem se faz de maneira formal e informal. Quando o aluno vem para o ambiente escolar já traz consigo informações, vivências e experiências culturais que segundo Vigotsky não podem ser desprezados, mas trabalhadas para que haja assimilação e entendimento das mesmas pelos alunos A partir dessas considerações, acredita-se, que é um tema relevante que pode levantar reflexões e discussões que possam vir a contribuir com o despertar da consciência coletiva sobre a importância das raízes culturais. O resgate as raízes culturais de uma região poderá despertar no individuo a motivação e o interesse sobre a sua própria cultura, tornando-o um cidadão mais sensível e consciente da importância de suas raízes para preservação de sua história. m. SABER MAIS INDICAÇÃO DE LEITURA: Burke Peter, O que é História Cultural? Trad. Sergio Goes de Paula 2ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora. 2008. O QUE É HISTÓRIA CULTURAL? - Peter Burke (Resumo ampliado: Isabel Pacheco). Disponível em: <http://www.uesc.br/icer/resenhas/historia_cultura l.pdf>. História cultural e história das idéias diálogos historiográficos Cultural History and History of the Ideas – Historical Dialogues José D’Assunção Barros. Disponível em:< https://journals.openedition.org/cultura/3353>. 82 CONCLUSÃO Desde as últimas décadas do século XX agências internacionais incentivaram a formulação de projetos voltados ao turismo cultural e ao desenvolvimento sustentável em várias regiões do globo terrestre. Não raro essas iniciativas desencadearam processos de reabilitação das áreas degradadas, sugeriram novos usos aos bens recuperados e a proteção e o manejo adequado do meio ambiente. No século XX, empreendimentos dessa natureza acabaram promovendo a exclusão da população residente dessas áreas. Contudo, na atualidade o grande desafio consiste em promover a recuperação dos centros históricos e das áreas de proteção ambiental sem necessariamente excluir a população, integrando-a por meio de oficinas, cursos de educação patrimonial e ambiental, projetos de manejo que respeitem as tradições dos habitantes locais, seus costumes e conhecimentos milenares. No Brasil, a valoração do patrimônio imaterial configurou uma significativa conquista e também um meio de estimular a população a manter suas tradições. Mensagens publicitárias e propagandas governamentais veiculadas através de periódicos, de revistas especializadas e da televisão têm destacado a potencialidade dos núcleos históricos e dos parques ecológicos brasileiros, estimulando a exploração de rotas ou itinerários culturais em diversos estados. Nesse vídeo da seção Librorum o Bruno faz um resenha sobre a revisão bibliográfica "O Que É História Cultural?", do historiador britânico Peter Burke, um dos grandes nomes da historiografia contemporânea. Entrevista exclusiva do historiador inglês Peter Purke para o Portal Periódico VIDEO 1: LINK:<https://www.youtube.com/watch?v=AyDnbAnUvYY>. LI VIDEO 2: LINK:<https://www.youtube.com/watch?v=AF0ToYUGOkw>. 83 Algumas regiões estão criando ou inventando seu próprio patrimônio, ora recuperando histórias antigas, ora recriando tradições orais e religiosas. Enfim, são notáveis as mobilizações de instituições e organizações não-governamentais em favor do patrimônio ambiental e dos valores culturais. Indícios das repercussões dessas propostas evidenciam que a sociedade brasileira começa a se convencer de que é possível compatibilizar a preservação patrimonial e ambiental ao desenvolvimento sustentável. Centrada no conceito de cultura como objeto de investigação, a história cultural trata das representações sociais, das práticas culturais e do processo de apropriação, áreas em que a participação dos sujeitos que as vivenciam é fundamental. Nesse sentido, a história oral possibilita uma coleta de dados que, submetidos ao procedimento de triangulação para sua validação interna e externa, analisados e interpretados pelo historiador, permite a reconstrução dos fatos históricos. A história oral, subsidiando a pesquisa em história cultural, exige procedimentos e cuidados tanto na escolha dos entrevistados como nos processos subsequentes, que culminam com sua utilização na narrativa. Atualmente, esses procedimentos vêm sendo facilitados pela tecnologia que, disponibilizando e quipamentos digitais avançados e com múltiplas funções, coloca ao alcance do pesquisador recursos que até então exigiam esforços, tanto no sentido de sua aquisição quanto de sua utilização. Por último, considerando as limitações deste trabalho, entendemos que seu aprofundamento se encaminha para uma reflexão sobre questões ligadas à subjetividade no emprego da história oral, aos desafios que a categorização das respostas apresenta, bem como ao tratamento das questões éticas envolvidas na transcrição dos dep oimentos. 84 REFERÊNCIAS ALBONI, Marisa Dudeque Pianovski Vieira. Revista HISTEDBR On-line. Campinas, nº 61, p.367-378, mar/2015. Artigo A HISTÓRIA CULTURAL E AS FONTES DE PESQUISA. Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Acessado em: 01/05/2020. Disponível em: <https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/histedbr/article/view/8640533/809 2>. LINKE, Paula Piva. Manifestações populares: cultura, memória e patrimônio. Acessado em: 01/05/2020. Disponível em: <http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1300742228_ARQUIVO_MA NIFESTACAOESPOPULARESCULTURA,MEMORIAEPATRIMONIO.pdf>. NOGUEIRA, Antonio Gilberto Ramos. 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