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1 HISTÓRIA CULTURAL 1 Sumário NOSSA HISTÓRIA ................................................................................. 2 INTRODUÇÃO ....................................................................................... 3 HISTÓRIA, CULTURA, E ANÁLISES DOS DOCUMENTOS DA PRODUÇÃO COMO DIFERENÇA ................................................................ 5 A HISTÓRIA CULTURAL NA HISTORIOGRAFIA CONTEMPORÂNEA ................................................................................ 10 2 NOSSA HISTÓRIA A nossa história inicia com a realização do sonho de um grupo de empresários, em atender à crescente demanda de alunos para cursos de Graduação e Pós-Graduação. Com isso foi criado a nossa instituição, como entidade oferecendo serviços educacionais em nível superior. A instituição tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas de conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua. Além de promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de publicação ou outras normas de comunicação. A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma confiável e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base profissional e ética. Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições modelo no país na oferta de cursos, primando sempre pela inovação tecnológica, excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. 3 INTRODUÇÃO Ao considerar as temáticas da história cultural e da análise de documentos, é importante ressaltar as práticas que forjam modos de ser, de pensar e de agir, no presente, e como elas atualizam um campo de possibilidades de existências. O presente artigo pretende problematizar algumas práticas historicamente fabricadas que, todavia, não são causais deterministas, pois são correlatas e imanentes. No intuito de refletir sobre aspectos da contemporaneidade, foi utilizado um trabalho de análise baseada nas contribuições da teoria da história para a Psicologia Social. Para tanto, empregamos alguns conceitos de Michel Foucault, de Michel De Certeau, de Roger Chartier e de Nietzsche, no campo dos estudos históricos. Com base na análise, foi possível interrogar as práticas que forjam a relação entre história cultural e documentos, propor um olhar pautado na filosofia da diferença como posição ética, estética e política, a fim de colocar em xeque a dualidade cultura popular e cultura erudita, além de problematizar os efeitos racistas e de discriminação que essa divisão enseja. Até o século XVI, a palavra “cultura” era utilizada para denominar ações ou processos que se referiam a “ter cuidado com algo”, podendo servir tanto para animais quanto para a colheita e o cultivo da terra. A partir do final do século XIX, a objetivação de cultura passa por uma transformação, sendo definida como desenvolvimento das faculdades humanas, em comparação ao cuidado para o desenvolvimento agrícola. Nesse período, as obras de arte e as práticas envolvidas na construção das atividades artísticas passam a representar a própria cultura (Cuche, 2002). As noções oriundas do pensamento iluminista francês evidenciam que cultura é um estado de espírito cultivado pela instrução, como um conjunto de saberes que foram acumulados e que são transmitidos pela humanidade, ao longo da história. Associado às ideias de evolução, progresso e educação, o termo cultura também estava intimamente relacionado com o de civilização, somente com a diferença de que cultura 4 indicava o progresso individual e civilização referia-se ao progresso coletivo (Canedo, 2008). É nesse contexto que se estabelece uma ruptura entre a visão de homem em seu estado natural (selvagem, irracional e sem cultura) e o homem civilizado, o qual adquire cultura através dos meios de instrução intelectual. Produziu-se o binarismo cultura versus natureza, e essa distinção resultou na criação do pensamento corrente o qual caracterizava indivíduos como detentores dos chamados saberes formais. Esses indivíduos eram designados como aqueles que possuíam cultura. Provém daí igualmente a noção de que as comunidades tradicionais poderiam evoluir culturalmente, alcançando assim o estágio de progresso das nações civilizadas (Canedo, 2008). A concepção francesa de cultura, entendida como característica do gênero humano de aquisição e transmissão de conhecimentos engendrou um conceito universalista de cultura. Enquanto isso, a noção de cultura, vista sob a ótica alemã, se referia especificamente ao conjunto das produções artísticas, intelectuais e morais de uma nação, considerada como patrimônio fundador de uma unidade nacional, o qual resultou no conceito particularista e nacionalista de cultura, alimentando racismos variados e totalitarismos de diferentes ordens. O desenvolvimento do sentido de cultura na trama de relações em tensão entre França e Alemanha marcou a emergência desse acontecimento, desdobrando-se em duas correntes de pensamento que estão na base dos estudos em Ciências Sociais (Cuche, 2002). Contemporaneamente, destaca-se a importância de se dilatar o conceito de cultura, considerando-o como fruto da criação coletiva de símbolos, valores e ideias, os quais conformam os indivíduos e grupos de indivíduos como sujeitos culturais. Dessa maneira, atribui-se valor também ao patrimônio cultural imaterial, como as tradições orais, as formas de organização social tradicionais, as crenças e costumes da cultura popular que remontam à noção de mito fundador de cada comunidade. Nesse caso, em especial, a perspectiva de cultura como folclore foi apropriada politicamente para gerar consensos, sobretudo, em uma prática de integração nacional, na Doutrina de Segurança Nacional, nos períodos ditatoriais brasileiros (Chauí, 1995). Nesse aspecto, a história tem produzido análises sobre extensa documentação a respeito das ditaduras e regimes autoritários, no Brasil, por exemplo, problematizando o uso da cultura como vetor de difusão do ideário totalitário como podemos acompanhar nos estudos realizados na Fundação Getúlio Vargas, nos últimos 5 anos. Tais pesquisas vêm debatendo aspectos da cultura política ditatorial, descrevendo de que modo os valores do cotidiano eram usados para criar uma visão de modernidade e de desenvolvimento do país (Gomes, 1996; Pandolfi, 1999). Outro fator caro aos estudos culturais se relaciona às análises do consumo das produções e difusões culturais, de seus modos de circulação e apropriação. A criação, a distribuição e o consumo de bens e serviços que constituem o sistema de produção cultural tornaram-se elementos considerados estratégicos para o desenvolvimento das nações, visto que essas atividades colocaram em movimento uma cadeia produtiva em franca expansão, inclusive gerando emprego e renda. Ou seja, a cultura se transformou em um mercado instrumentalizado, no capitalismo atual, uma indústria que extrai mais-valia subjetiva dos modos de pensar, de agir e de sentir, conforme apontam Félix Guattari e Suely Rolnik (1996). Figura 1: Suely Rolnik HISTÓRIA, CULTURA, E ANÁLISES DOS DOCUMENTOS DA PRODUÇÃO COMO DIFERENÇA É fundamental realizar uma análise e descrição histórica das práticas culturais cristalizadas e naturalizadas, que operam pela organização dos arquivos e pela guarda de documentos-monumentos. Os monumentos são 6 construções edificadas pela apropriação da cultura e pelo arquivamento da memória, em narrativas que selecionam quais acontecimentos devem ser alvo de cuidado e perpetuação – e quais não. Essa seleção é fruto de um olharvalorativo, que avalia culturalmente as práticas, para torná-las documentos- monumentos ou não. Por isto, é relevante desnaturalizar pela via da análise histórica e, assim, romper com qualquer forma de hierarquia cultural. Criticar a construção de racismos de Estado e de sociedade, por meio da pesquisa com arquivos em instituições penais e médicas foi uma preocupação de Foucault (1979), de sorte a colocar em xeque os projetos etnocêntricos e xenófobos tão presentes, nas narrativas de documentos que operaram a exaltação da cultura de alguns grupos e banalizaram e calaram o que diferenciava, em termos de valores. Nesse sentido, a História Cultural, através da História Nova, permitiu a fabricação de uma filosofia da diferença, em que diferir passou a ser uma possibilidade de existência e não um marcador estigmatizante de condutas. Não estamos aludindo à diferença pela diferença, em uma estética sem ética e sem política. Ao contrário, tratamos de uma política e de uma ética em que a criação de possibilidades pode ser um processo de subjetivação que não representa descarte de subjetividades já existentes. Ou seja, agimos historicamente, sublinhando que toda maneira de viver, de sentir e de pensar foi fabricada e pode ser criticada e modificada, não sendo, portanto, objetos naturais (Veyne, 1998). Isso não quer dizer que defendemos uma sociedade niilista, em uma vontade de nada, apenas destacamos que tudo tem história e que essa postura nos dá liberdade de agir e pensar, considerando o passado, sem, contudo, erigi-lo como monumento a ser apenas reproduzido e narrado como marcador de superioridade de qualquer grupo e/ou povo frente aos outros. Friedrich Nietzsche (2003) destaca, em seus estudos, em especial em Segundas considerações intempestivas, de que maneira era forjada a história monumental e como ela nos fazia enaltecer o passado enquanto tradição a ser reproduzida e exaltada, impedindo-nos de viver o presente. Já a cultura antiquário seria ligada à idolatria e reverência dos museus e das chamadas obras raras, que resultaria em exaltação de formas culturais eruditas diante de outras, denominadas senso comum ou práticas culturais menores, comparativamente. O autor também ressalta que a história crítica era uma concepção de cultura a ser sempre superada, de modo evolutivo e continuísta, rumo às teleologias progressistas do 7 futuro, que operam o desprezo pelo passado e pelo presente. Ao final do estudo, Nietzsche (2003) defende uma história a favor do tempo e contra o tempo, que nomeia como efetiva, trazendo marcas das anteriores e, ao mesmo tempo, operando fora da memória inchada, do ressentimento xenófobo e do etnocentrismo racista. Assim, ao pensar a cultura desse modo, nota-se a importância de observar as especificidades das produções em processos singulares e heterogêneos. Não se trata apenas de fazer distinções, mas de pensar sobre as formas de acesso aos espaços e de qualificação da produção, com base nos valores sociais criados a partir do distanciamento entre os grupos. Significa, igualmente, pensar e romper com seletividades que fazem alguns valores serem apresentados como mais importantes que outros, implicando decisões sobre as vidas no campo dos racismos, materializados em arquivos históricos e em escrituras. Em meio ao debate sobre essas questões que permeiam a temática da cultura, é essencial retomar os aspectos antes mencionados, a fim de problematizar a noção de acesso. Este estudo, ao propor uma análise crítica, buscou refletir sobre os modos de realização e consumo da cultura, uma vez que as conjunturas da contemporaneidade modificam, em certa medida, algumas ideias cristalizadas. Por essa razão, é importante pensar na produção da diferença que possibilita o trânsito e as possibilidades de existências, em um processo de transvaloração cultural. Em genealogia da moral, Nietzsche (2009) analisa a história da cultura e efetua uma defesa ética da estilística da existência, pensando a produção da verdade e da cultura, por meio de uma filosofia genealógica, historiando as emergências e as proveniências dos acontecimentos. Estamos aludindo a uma história política da verdade e da crítica corajosa de uma cultura que padecia pela moral ressentida e vingativa. Assim, sair da noção de valores naturais a serem imitados por tradições e nacionalismos populistas é uma prática histórica, que apresenta a vida ética, estética e politicamente. Em Paul Veyne, na obra Como se escreve a história (1998), podemos visualizar um modo de narrar, analisar e descrever as práticas culturais como efeitos datados, os quais figuram no espaço e no tempo e não são naturais, portanto. O historiador delimita um questionamento aos usos de universais e de conceitos que funcionariam como tipos ideais fora do tempo e de lugar. Ou seja, Veyne critica o princípio do comentário e o dogmatismo repetidor de conceitos, tomados como universais culturais. Essa ação não 8 impossibilitava o trabalho conceitual do historiador, na análise dos documentos e na escrita histórica, apenas alertava para o fato de que estes não poderiam ser universais e não deveriam funcionar como explicação para tudo, em qualquer tempo. Nesse sentido, Veyne pensou uma história conceitual sem criar uma grade hierárquica das epistemologias e das ciências mais e menos importantes, das disciplinas mais ou menos interessantes etc. Por isto, Foucault (1979) se preocupava em efetuar a genealogia enquanto uma insurreição dos saberes assujeitados e de uma desdisciplinarização dos mesmos. Inúmeros projetos sociais têm sido desenvolvidos, proporcionando a participação de indivíduos de baixa renda em atividades que, majoritariamente, seriam realizadas por grupos elitistas. No entanto, é importante ter em vista o caráter de tais ações, já que os princípios assistencialistas e de inserção são sinônimos, muitas vezes, de práticas utilitaristas. Nesse contexto, interrogar o acesso às diferentes culturas também traz reflexões sobre as políticas de inserção e assistência que visam forjar a integração social, por meio da construção de consensos e políticas compensatórias. Ora, a cultura erudita tem sido ofertada por programas sociais como maneira de adestrar a pobreza e os grupos classificados como desviantes sociais, reiterando a hierarquia de valores, simultaneamente ao uso de um aparato artístico como mediador de um processo de integração social acrítico. Porém, há situações em que elementos da chamada cultura popular são igualmente instrumentalizados para forjar consensos em políticas sociais para grupos classificados como em risco ou em situação de vulnerabilidade, por especialistas das normas sociais. Podemos vislumbrar essa prática em projetos e oficinas com hip hop, com rodas da capoeira, com confecção de pipas, com danças como o funk, entre outros, que objetivam gerir a vida e disciplinar as condutas através da cultura dita de massa. Nos dois casos, mantém-se a lógica dual e a hierarquia social racista. Trata-se de uma prática disciplinar divisória a qual segmenta a cultura, exalta alguns valores e desqualifica e enaltece outros. Opor erudição a popular é uma visão maniqueísta, que não nos auxilia a questionar historicamente nossas produções valorativas, pois cria tribos e grupos supostamente unitários, que fortalecem discriminações e preconceitos. Assim, não defendemos a cultura erudita nem a popular, pois ambas só funcionam na dualidade causal determinista e hierarquizante da vida. O objetivo em pauta, neste texto, é operar a transformação social e a ruptura dos modos de 9 ser pautados em valores estabelecidos como normais e que sustentam a difusão de modelos a serem imitados por aqueles que são tachados de párias e refugos da sociedade, em uma política de segurança cada vez mais erigida como capital social. Neste ponto, documentos sãousados para fazer das práticas culturais um capital, em termos da apropriação de danças, músicas, esculturas, pinturas, ritmos, hábitos diversos, dialetos, maneiras de se alimentar, poesias, vestimentas e construções em um dispositivo de reconhecimento de identidades culturais. O interesse pelos aspectos culturais da sociedade encontra profícua acolhida de 1970 até os dias de hoje, quando houve uma considerável virada teórica e metodológica em determinadas disciplinas como: Geografia, Antropologia, Economia, Psicologia, Ciência Política, Estudos Culturais e História, que passaram a dar mais atenção aos aspectos culturais nos seus estudos, permitindo dessa forma o surgimento de um nova História, denominada “Nova História Cultural”. Para entender um pouco mais sobre alguns aspectos teóricos e metodológicos da Historia Cultural e da Nova História Cultural, os estudiosos brasileiros podem contar com a obra O que é História Cultural?, do historiador britânico Peter Burke, traduzido por Sergio Góes de Paula e publicado recentemente pela editora Jorge Zahar. A relevância desse trabalho está na capacidade de síntese e análise do autor, que em 191 páginas, conseguiu apresentar com clareza e profundidade a História da História Cultural. Essa obra, sem sombra de dúvidas, tem uma grande contribuição a dar aos estudiosos da História Cultural, não somente pelo fato de ela ser um compêndio da trajetória dessa História, mas também por apresentar seus problemas e paradoxos ao longo de duzentos anos de sua existência. As críticas mais agravantes ao período clássico da História Cultural vieram dos historiadores marxistas, que, além de salientarem a falta de análise cuidadosa das fontes, evidenciaram também a pouca análise social e econômica, e a homogeneização cultural ausente de conflitos. O principal expoente desses críticos foi o historiador E. P. Thompson, designando o conceito “termo desajeitado” para a prática de alguns historiadores culturais que não deram tanta importância às distinções culturais presentes nas sociedades. Na primeira metade do século XX, a história “abriu- se” para as demais ciências, com uma proposta de diálogo interdisciplinar. O campo historiográfico, então, sofreu mudança significativa, obrigando os historiadores a reconsiderar o conceito de fontes, para além daquelas 10 predominantemente documentais, na pesquisa em história. Sobre essas fontes de pesquisa incidem a reflexão, considerando-se a contribuição que os avanços tecnológicos trazem à coleta de dados, em particular, na história oral. Do ponto de vista metodológico, trata-se de estudo de caso, com caráter bibliográfico, que traça uma retrospectiva da história cultural, enfatizando as possibilidades de uso da história oral. Como aportes teóricos foram consultados estudos d e Ribeiro (2003), Pesavento (2005) e Alberti (2005). Os resultados apontam para possibilidades de utilização da história oral na pesquisa em história cultural. A HISTÓRIA CULTURAL NA HISTORIOGRAFIA CONTEMPORÂNEA Entendendo-se o cultural como um certo tipo de enfoque ou abordagem, ficaria de pé a ideia da unidade da história - "só existe uma história". Logo, a ser aceito esse ponto de vista, a história cultural equivale teoricamente às outras grandes divisões da história - a econômica, a política e a social. No lugar de objetos previamente definidos como culturais, a história cultural contemplaria de fato o conhecimento de uma dimensão do real. Haveria assim uma diferença conceitual bastante real entre história cultural e história da cultura, já que esta última se definiria a partir de objetos ou de um único objeto, a cultura reconhecidos como aqueles pertencentes, ou inerentes, à própria idéia de cultura. Logo, em lugar de um tipo de abordagem ou de uma dimensão do real, tratar-se-ia do recorte de objetos históricos reconhecidos como culturais. Que não se trata de um simples jogo de palavras, pode-se perceber com clareza, por exemplo, em Gombrich (1994), quando se propõe a definir aquilo que deveria ser uma verdadeira história cultural, em oposição à "velha história da cultura", autêntico obstáculo epistemológico, segundo ele, no caminho da construção necessária de uma "história cultural realmente histórica". Peter Burke (2000), ao escrever sobre as Variedades de história cultural, assinala o fato de que hoje já existem muitos historiadores que preferem definir-se como historiadores culturais, algo talvez impensável há alguns poucos anos. Ao mesmo tempo, a maioria desses historiadores prefere trabalhar com disciplinas setoriais em vez de escrever sobre culturas totais como reação à dependência da antiga história cultural ao postulado da unidade ou consenso cultural (tipo "espírito do tempo", weltanschauung, "civilizações" etc.). Outro exemplo desse tipo de crítica a um 11 conceito unitário de cultura é dado por Thompson (1963, 1968) em seu conhecido estudo sobre a formação da classe operária inglesa. Afirma Schorske (1988) que, assim como é necessário conhecer os métodos críticos da ciência moderna para interpretá-la historicamente, também é preciso conhecer os tipos de análise empregados pelos estudiosos de humanidades para se poder abordar a produção cultural não-científica do século XX. Mas o historiador não partilha totalmente do objetivo do analista de textos na área de humanas. Este visa o máximo de elucidação de um produto cultural, relacionando todos os princípios de análise com o seu conteúdo particular. Já o historiador procura situar e interpretar temporalmente o artefato, num campo no qual se cruzam duas linhas. Uma é vertical, ou diacrônica, com a qual ele estabelece a relação de um texto ou um sistema de pensamento com expressões anteriores no mesmo ramo de atividade cultural (pintura, política etc.). A outra é horizontal, ou sincrônica; com ela, o historiador avalia a relação do conteúdo do objeto intelectual com as outras coisas que vêm surgindo, simultaneamente, em outros ramos ou aspectos de uma cultura. O fio diacrônico é a urdidura, e o sincrônico é a trama do tecido da história cultural. O historiador é o tecelão, mas a qualidade do tecido depende da firmeza e cor dos fios. Ele tem de aprender um pouco de fiação com as disciplinas especializadas, cujos estudiosos, na verdade, perderam o interesse de utilizar a história como uma de suas modalidades básicas de entendimento mas ainda sabem melhor do que o historiador o que constitui, em seu ofício, um fio resistente de cor firme (1988, p. 17). O ponto de vista de Chartier (1990) a respeito da natureza da história cultural foi expresso de uma forma bastante sintética: [...] trata-se de identificar o modo como em diferentes lugares e momentos determinada realidade social é construída, pensada, dada a ler, [sendo necessário] considerar os esquemas geradores das classificações e das percepções próprias de cada grupo ou meio como verdadeiras instituições sociais, incorporando sob a forma de categorias mentais e de representações coletivas as demarcações da própria organização social. (p. 25, nota 45) Afirma ele, ainda, que podemos [...] pensar uma história cultural do social que tome por objeto a compreensão das formas e dos motivos, isto é, das representações do 12 mundo social que, à revelia dos atores sociais, traduzem as suas posições e interesses objetivamente confrontados e que, paralelamente, descrevem a sociedade tal como pensam que ela é ou como gostariam que fosse. (idem, ibidem) Essas duas citações permitem-nos perceber que estamos diante de duas concepções da história cultural: uma que a associa a uma história da cultura orientada para o recorte e a análise de objetos específicos chamados objetos culturais - e aí entra, é claro, a distinção entre cultura material e cultura imaterial (ou espiritual); e outra que privilegia o critério dos pressupostosmetodológicos que têm em vista a abordagem tanto das representações como das práticas sociais de acordo com as concepções típicas das diversas teorias sociais. 3. O conceito de história cultural também não se encontra imune ao conflito dos sentidos: há quem pense a história cultural nos moldes da velha oposição historicista entre um mundo natural e um mundo da cultura, ou humano, histórico por definição. No bojo de algumas dessas interpretações, persiste, não raro, uma associação do cultural ao espiritual ou mental, fazendo-nos recordar as conhecidas distinções oitocentistas entre uma alta cultura, ou cultura das elites letradas, e uma cultura popular, iletrada, por definição, e muito próxima, quando não mesmo idêntica, das manifestações chamadas então folclóricas. Já no território marxista, a história cultural ora vem referida aos produtos e manifestações da cultura material, ora se restringe ao estudo das formas de consciência social, e aí entra em cena o problema da ideologia. Muito comum, também, é a discussão segundo pressupostos estruturais - e estruturalistas, mais recentemente -, na qual se indaga se a cultura e o cultural constituem ou não uma instância do real, sua autonomia relativa e as relações que mantêm com as outras instâncias do real. De acordo com o conceito de cultura que se tenha em vista, há pelo menos duas concepções básicas acerca do campo de abrangência da história cultural: a primeira delas define a história cultural como história da cultura intelectual ou desinteressada, voltada para as coisas do espírito, sinônimo talvez de história intelectual, e muito próxima da antiga história das ideias. Basicamente voltada para as formas textuais em geral, essa história cultural identifica-se bastante com a chamada alta cultura, ou cultura dominante. Já no caso da segunda, porém, a história cultural compreende tanto a cultura intelectual (ou do espírito) quanto a cultura material, ou seja, a erudita e a 13 popular, a cultura científica, filosófica e artística, mais sofisticada, e a cultura cotidiana, ou do senso comum. Frequentemente, a alta cultura, enquanto cultura dominante, é associada às chamadas elites ou classes letradas, ao passo que a cultura cotidiana é vista como a cultura popular, ou dominada. Todas essas denominações e oposições vêm sendo submetidas a críticas constantes. Para não poucos historiadores, aliás, tais dicotomias culturais são demasiado simplistas, reducionistas e irreais - tal como se dá, por exemplo, com Roger Chartier (1990), Jacques Revel (1989) e Carlo Ginzburg (1991) -, já que a dinâmica das relações culturais e sociais tende a misturar essas divisões e distinções aparentemente tão homogêneas. Quanto aos autores marxistas, suas críticas têm sido endereçadas a esse conceito supostamente amplo de história cultural, mas que deixa de fora praticamente toda a cultura material. Trabalhar cada vez menos com um conceito único de cultura ou com suas supostas oposições dicotômicas parece ser a tendência entre os historiadores do cultural. A historiografia contemporânea vem demonstrando a realidade e a especificidade da história cultural. No limite, aliás, já existem aqueles que admitem não ser mais aceitável tentar pensá-la segundo os esquemas explicativos que legitimam os demais campos do conhecimento histórico, tal como acabo de fazer. Assim, chega-se a uma conclusão bastante interessante: a história cultural não deveria ser apenas uma denominação ou rótulo que se aplicaria a um campo de estudos constituído de objetos e temas específicos. A ideia de atribuir uma espécie de lugar ao cultural em termos de realidade histórica, um lugar situado entre o econômico, o político e o social, talvez tenha tido sua razão de ser no começo da história cultural. OBJETOS E MÉTODOS DA HISTÓRIA CULTURAL Afirma Georges Duby (1982, p. 14) que "a história cultural tem como proposta observar no passado, em meio aos movimentos de conjunto de uma civilização, os mecanismos de produção dos objetos culturais" (da produção vulgar à mais refinada). Nas atas do Colóquio Franco-Húngaro de Tihany sobre "Objeto e métodos da história da cultura", realizado em 1977, do qual participaram Duby, Le Goff, Makkai e Kosary (os dois últimos historiadores 14 húngaros), ficaram registradas as seguintes indicações temáticas (cf. Le Goff & Kopeczi, 1982): a) Visões de mundo: sistemas de valores e de normas ligados às necessidades econômicas, sociais e políticas da sociedade, sua influência sobre o conhecimento cotidiano, científico e artístico e sobre as atitudes e modos de vida. b) Política cultural: as concepções das diferentes classes e camadas sociais e dos diversos movimentos e correntes. c) Atividades institucionais na difusão da cultura material e intelectual (ensino, edição, imprensa, rádio, televisão, igrejas e organizações sociais; a língua como meio de comunicação). d) Intelectuais: seu papel/função como difusores da cultura e a sua realização/concretização. e) Ciência: condições de existência, resultados e funções no cotidiano, no desenvolvimento da sociedade, da consciência cotidiana e das ideologias. f) Literatura e artes: condições de existência, resultados, funções e influência sobre a consciência cotidiana, as ideologias, as atitudes e os modos de vida; a imagem da sociedade e do homem em seus produtos. g) Cultura material e intelectual da vida cotidiana das diversas classes, camadas e grupos sociais. Principais características. h) Tradição e inovação cultural de uma época; valores que se transmite ou que desaparecem; lugar do período em causa na evolução global de determinado povo ou da humanidade. Quanto aos métodos, Duby (1982, p. 14-17) sublinha o conceito de produção cultural, pois, segundo afirma, o historiador deve considerar o conjunto da produção cultural e as relações que possam existir entre os acontecimentos produzidos no topo do edifício - como obra-prima - e essa base quase inerte da produção corrente, pois, em geral, as disciplinas separadas/especializadas permanecem ancoradas no excepcional. Seria fundamental, segundo ele, elucidar as relações existentes entre o movimento criador, que arrasta a evolução de uma cultura, e as suas estruturas profundas. Entre estas últimas 15 estão situadas as estruturas econômicas e suas conexões com os ritmos da produção cultural em certas épocas. Ainda segundo Duby, há também outros fatores, não-econômicos, a considerar: a) uma herança, um capital de formas de que cada geração lança mão (formas literárias, artísticas, filosóficas). b) os fatores ideológicos, o papel do imaginário, do sistema de valores, das imagens que servem para explicar o mundo). c) o fato de que não existe apenas uma cultura, mas sim culturas, mesmo em sociedades pouco evoluídas; logo, é importante não trabalhar com as noções de povo e elite como se fossem blocos homogêneos, ignorando-lhes as estratificações e combinações variadas "os deslizamentos, passagens, interferências, origens da complexidade do espaço cultural" (apud Falcon, 2002, p. 100-102). HISTÓRIA E LITERATURA Uma das vertentes da História Cultural que tem recebido grande atenção no momento atual é aquela que se debruça sobre os diversos tipos de textos para pensar sua escrita, linguagem e leitura. Para Duby (s.d. apud MENDES, 2010), a História Cultural estuda, dentro de um contexto social, os “mecanismos de produção dos objetos culturais”, entendidos em sentido amplo e não apenas obras, literárias ou não, reconhecidas ou obscuras, e autores canônicos. Ela enfoca os mecanismos de produção dos objetos culturais, como suas intencionalidades, a dimensão estética, a questão da intertextualidade ou do diálogo que um texto estabelece com outro, dentre aspectos diversos, como seus mecanismos de recepção, a qual pode ser pensada como uma forma de produçãode sentidos. Isto, porque, de acordo com Chartier (1990, p. 27), o termo “apropriação” é visto como “a maneira de usar os produtos culturais” e de “reescritura”, que ocorre na diferença e nas transformações sofridas pelos textos quando adaptados às necessidades e expectativas do leitor. Pensando que as narrativas, sejam históricas ou literárias, ou outras, constroem uma 16 representação acerca da realidade, procura-se compreender a produção e a recepção dos textos, entendendo que a escrita, a linguagem e a leitura são indivisíveis e estão contidas no texto, que é uma instância intermediária entre o produtor e o receptor, articuladora da comunicação e da veiculação das representações. Dessa forma, há uma tríade a considerar na elaboração do conhecimento histórico, composta pela escrita, o texto e a leitura. No que se refere à instância da escrita ou da produção do texto, o historiador volta-se para saber sobre quem fala, de onde fala e que linguagem usa. Já ao enfocar o texto em si, o que se fala e como se fala são questões indispensáveis. No trato da recepção, visa abordar a leitura deum determinado receptor/leitor ou de um grupo de receptores/leitores, tratando das expectativas de quem recebe o texto, de sua contemplação, ou seu enfrentamento ou resistência a ele (PESAVENTO, 2013). A Literatura registra e expressa aspectos múltiplos do complexo, diversificado e conflituoso campo social no qual se insere e sobre o qual se refere. Ela é constituída a partir do mundo social e cultural e, também, constituinte deste; é testemunha efetuada pelo filtro de um olhar, de uma percepção e leitura da realidade, sendo inscrição, instrumento e proposição de caminhos, de projetos, de valores, de regras, de atitudes, de formas de sentir, entre outros. Enquanto tal é registro e leitura, interpretação, do que existe e proposição do que pode existir, e aponta a historicidade das experiências de invenção e construção de uma sociedade com todo seu aparato mental e simbólico. Sendo a Literatura uma forma de ler, interpretar, dizer e representar o mundo e o tempo, possuindo regras próprias de produção e guardando modos peculiares de aproximação com o real, de criar um mundo possível por meio da narrativa, ela dialoga com a realidade a que refere de modos múltiplos, como a confirmar o que existe ou propor algo novo, a negar o real ou reafirmá-lo, a ultrapassar o que há ou mantê-lo. Ela é uma reflexão sobre o que existe e projeção do que poderá vir a existir; registra e interpreta o presente, reconstrói o passado e inventa o futuro por meio de uma narrativa pautada no critério de ser verossímil, da estética clássica, ou nas notações da realidade para produzir uma ilusão de real. Como tal, é uma prova, um registro, uma leitura das dimensões da experiência social e da invenção desse social, sendo fonte histórica das práticas sociais, de modo geral, e das práticas e fazeres literários em si mesmos, de forma particular (BORGES, 2010). 17 Figura 2: Literatura IDENTIDADES As identidades são, pelo seu lado, um outro campo de pesquisa para a História Cultural. Enquanto representação social, a identidade é uma construção simbólica de sentido, que organiza um sistema compreensivo a partir da ideia de pertencimento. A identidade é uma construção imaginária que produz a coesão social, permitindo a identificação da parte com o todo, do indivíduo frente a uma coletividade, e se estabelece à diferença (...), é relacional, pois ela se constitui a partir da identificação de uma alteridade. Frente ao ‘eu’ ou ao ‘nós’ do pertencimento se coloca a estrangeiridade do outro (PESAVENTO, 2005). A questão das identidades, o modo como os indivíduos e grupos enxergam a si mesmos, constroem referenciais culturais e defendem seus valores, criando espaços de negociação com outros grupos ou sustentando conflitos, é hoje uma discussão essencial. Em um cenário em que a globalização massificou o acesso à informação, padronizando comportamentos e referenciais, a conscientização acerca do convívio com as diferenças, paradoxalmente, adquiriu uma importância ímpar. A razão é óbvia, diante dos antagonismos, a diversidade saltou aos olhos, os mais diferentes grupos voltaram seu olhar para si mesmos tentando manter viva, entre outras, a identidade étnica ou regional. Por outro lado, a integração econômica, no âmbito do capitalismo neoliberal, fomentou a necessidade de conhecer o outro, entender seus anseios e desejos, o que passa pelo estudo das identidades. Esta preocupação não é nova, desde o século XVII, a filosofia discuti o tema, enquanto o século XIX trouxe a temática para o campo de estudo de ciências nascentes como a psicologia, a sociologia e a 18 antropologia. Posteriormente, a interdisciplinaridade dos estudos culturais, nas ciências humanas e sociais, questionou a formação das identidades. Foi quando linguistas e teóricos da comunicação somaram esforços, abordando o tema através de uma infinidade de métodos de análise, cunhando uma enorme gama de significados, fragmentando as pesquisas em volta da identidade nacional, étnica e social. Entretanto, a preocupação com as identidades é relativamente recente para os historiadores. A temática veio à tona somente no final do século XX, com o surgimento dos debates sobre a pós-modernidade e o multiculturalismo. Para a história existe uma vinculação estreita entre as identidades e a memória que os grupos mantêm de si mesmos. Segundo André Lalande, a memória seria uma reminiscência do passado, uma leitura feita a partir daquilo que é almejado como tendo sido e não como realmente foi, espelhando uma representação que serve de sustentação a criação de identidades. Neste sentido, é obvio o interesse da história pela construção das identidades, já que o trabalho do historiador consiste em abordar a memória dos grupos como fonte. Na realidade, a história realiza um duplo movimento. Ao tentar entender a construção das identidades, estudando a memória, como afirmou Massimo Mastrogregori, expressa uma tradição de lembranças, ordenadas com o apoio de relatos e visões particularizadas. Por outro lado, forja uma memória coletiva que, não correspondendo exatamente como as coisas foram, na maior parte das vezes, legitima a ordem política e ideológica estabelecida e, simultaneamente, cria ou reforça identidades construídas. Inserido neste contexto, no Brasil, ao mesmo tempo em que, recentemente, grupos de pesquisa surgiram nas universidades para tentar entender a formação das identidades, há décadas a história já tinha servido à construção de identidades que atendiam aos interesses dos grupos no poder, uma discussão também relevante dentro do âmbito da temática. Seja como for, abordar as identidades, atreladas à história, tornou-se essencial não só para entender quem somos, como nos vemos e porque nos identificamos com referenciais específicos, os quais nem sempre correspondem as nossas origens concretas; como também promove a conscientização sobre a diversidade, auxiliando na compreensão do mundo contemporâneo. Um conceito que, a partir das ideias de Jean Jacques Rousseau, afirmava a sobreposição das individualidades sobre o coletivo. No final do século XIX, Emile Durkheim deu prosseguimento à 19 contestação da identidade liberal, afirmando que a sociedade seria composta sim por indivíduos, mas não seria fruto destas individualidades cruzadas, pois, ao inverso, as identidades seriam produto da coletividade. Segundo esta concepção, nas sociedades pré-industriais, com nenhuma ou pouca especialização econômica, todos os membros da sociedade seriam similares em atitudes, valores e normas. Uma homogeneidade mantida pelo que Durkheim chamou de solidariedade mecânica, uma consciência coletiva sustentada por uma identidade única que suprime as individualidades através da punição dossujeitos que se desviam das normas estabelecidas pelo grupo. Em contraposição, nas sociedades industriais imperaria a solidariedade orgânica, uma complexa divisão de trabalho, exigindo que cada membro da sociedade seja um especialista, incapaz de suprir suas necessidades sem a cooperação do outro. Neste sentido, nas sociedades modernas não haveria mais necessidade de punição para os sujeitos desviantes, já que a coesão seria mantida pela própria estrutura social, a qual, por sua vez, seria garantida por uma identidade coletiva. Figura 3: Tarsila do Amaral – Obra Operários (Retratando as identidades) 20 HISTÓRIA DO TEMPO PRESENTE Segundo Ferreira (2000), a História dos fatos recentes nem sempre foi vista como problemática. Na Antiguidade clássica, muito ao contrário, a História recente era o foco central da preocupação dos historiadores. Para Heródoto e Tucídides, a História era um repositório de exemplos que deveriam ser preservados, e o trabalho do historiador era expor os fatos recentes atestados por testemunhos diretos. Não havia, portanto, nenhuma interdição ao estudo dos fatos recentes, e as testemunhas oculares eram fontes privilegiadas para a pesquisa. Mas, a partir do século XIX, a História recente, então chamada de contemporânea, tornou-se um objeto problemático. O ponto de partida para entender esse processo é a constatação do triunfo de uma determinada definição de História a partir da institucionalização da própria História como disciplina universitária. Essa definição, fundada sobre uma ruptura entre o passado e presente, atribuía à História a interpretação do passado e sustentava que só os indivíduos possuidores de uma formação especializada poderiam executar corretamente essa tarefa. A profissionalização da História e dos historiadores exigia uma disciplina mais rígida, que afastasse os amadores, que tivesse seu próprio ritual, sua mística, seu método. Foi nesse quadro de afirmação dos historiadores profissionais que se colocou como condição indispensável para se fazer uma História científica um punhado de posicionamentos estanques: a visão retrospectiva, a lisura das informações, o documento escrito, autêntico e sua análise intensiva. O documento e sua crítica eram assim essenciais para distinguir a História científica da História literária, os profissionais historiadores dos ensaístas, literatos, contistas e amadores. A afirmação da concepção da História como uma disciplina que possuía um método de estudo de textos que lhe era próprio, que tinha uma prática regular de decifrar documentos, implicou a concepção da objetividade como uma tomada de distância em relação aos problemas do presente. Assim, só o recuo no tempo poderia garantir uma distância crítica. Se se acreditava que a competência do historiador devia-se ao fato de que somente ele podia interpretar os traços materiais do passado, seu trabalho não podia começar verdadeiramente senão quando não mais existissem testemunhos vivos dos mundos estudados. Para que os traços pudessem ser interpretados, era necessário que tivessem sido arquivados. 21 Desde que um evento era produzido ele pertencia à História, mas, para que se tornasse um elemento do conhecimento histórico erudito, era necessário esperar vários anos, para que os traços do passado pudessem ser arquivados e catalogados (SANTOS,2009). Enfim, havia vários embates, dentre eles, o reconhecimento profissional, acadêmico e científico. A delimitação de espaço de atuação e do campo de trabalho, objetivava o desligamento com o popularesco, o folclórico, o corriqueiro e o amador. A luta pelo reconhecimento da disciplina histórica exigia naquele momento um rompimento entre passado e presente, erudito e popular, profissional e amador, Literatura e ciência. Com tal cisma, o desprezo e a desqualificação dos testemunhos diretos, pelas fontes orais foi inevitável, ficando quase que exclusivamente nas mãos dos historiadores (ditos) amadores já que o período recente, acreditavam eles, não exigia uma farta cultura clássica, nem o controle dos procedimentos eruditos do método histórico. Uma outra questão sempre levantada contra esse tipo de História é a de que o historiador sofre as influências de seu tempo já que participou, viveu, protagonizou os acontecimentos. Hobsbawm (1996) admite que relutou em iniciar tal tarefa devido à consciência dos assuntos públicos que lhe trariam opiniões e preconceitos sobre a época. Mesmo assim, Hobsbawm além de vencer as dificuldades de ser participante, ainda ultrapassa os seus preconceitos e de outros, para considerar assuas ações enquanto agente histórico do processo, utilizando sua memória como fontes. Dessa forma, ele abre caminho para se entender que a História enquanto o historiador está presente é mais do que possível, é necessária. Mediante as apresentações acima, a História Cultural é, nesse sentido, um movimento internacional, e não tipicamente francês, como muitas vezes se presume.Com a abertura de áreas e campos de pesquisa proporcionados pela História Cultural, ocorreu uma verdadeira quebra das fronteiras, sejam as de pesquisa, sejam mesmo as que definiam as áreas do conhecimento. Dentre os principais contatos que foram intensificados pela História Cultural está: a) O da História com a Antropologia, por intermédio do conceito de cultura. b) O da História com a Literatura, por intermédio da discussão das fronteiras do texto histórico e do texto literário. 22 c) O da História com a Arte, a partir dos debates sobre as imagens. d) E o da História com a Arquitetura (ou ao Urbanismo), pela identificação com o tema da cidade, suas imagens e representações (literárias e pictóricas). Mas por outro lado, o sucesso acadêmico, e mesmo no plano da mídia, alcançado pela História Cultural, não deve obscurecer certos riscos na análise, na abordagem e nos problemas levantados pelo historiador ao praticá-la (ROIZ, 2008). Entre eles, Pesavento (2013) destaca: 1) O historiador, enquanto produtor de um texto, e também o público leitor, consumidor de História, devem assumir a dúvida como um princípio de conhecimento do mundo. 2) Um outro aspecto a ser discutido como desafio para o historiador é esta espécie de nostalgia da totalidade ou dos modelos globais, que se sintetizaram em um texto harmônico e compreensível, em uma explicação acabada. 3) Um outro desafio é aquele trazido pela incorporação da subjetividade no trabalho do historiador. Primeiro, o desafio dá-se pela consciência da própria subjetividade do historiador, com sua intuição, sua individualidade, sua trajetória devida e sua inserção no mundo acadêmico e social. Depois, quando se leva em conta a subjetividade dos atores a resgatar no passado. Uma das características da História Cultural foi trazer à tona o indivíduo, como sujeito da História, recompondo histórias de vida, particularmente daqueles egressos das camadas populares. Das breves explanações sobre os campos de estudo/investigação da História Cultural, podemos resumir que as fotografias, as crônicas e gêneros literários encenados na cidade, as propagandas de moda e de produtos da vida cotidiana, a iconografia em geral, entre outros, são documentos que deixam transparecer valores, ideias, comportamentos e imaginários, que recriam a realidade e reapresentam os modos de ver e agir dos diferentes grupos sociais em determinada época e suas representações do mundo. Esses documentos descrevem a realidade não como um espelho, mas como uma interpretação daquilo que a sociedade é ou daquilo que ela poderia ser ou gostariam de ser. A proposta seria de compreender como estes “leitores especiais da cidade” descrevem a cidade e sociedade enquanto atores sociais, elaborando 23 representações que são determinadas pelos interesses dos grupos que as forjam e, portanto, devem ser relacionadascom a posição de quem as utiliza, para revelar os códigos e convenções que regulam a sua produção e que remetem ao contexto cultural em que se inserem. De acordo com o conceito de cultura que se tenha em vista, há pelo menos duas concepções básicas acerca do campo de abrangência da história cultural: a primeira delas define a história cultural como história da cultura intelectual ou desinteressada, voltada para as coisas do espírito, sinônimo talvez de história intelectual, e muito próxima da antiga história das ideias. Basicamente voltada para as formas textuais em geral, essa história cultural identifica-se bastante com a chamada alta cultura, ou cultura dominante. Já no caso da segunda, porém, a história cultural compreende tanto a cultura intelectual (ou do espírito) quanto a cultura material, ou seja, a erudita e a popular, a cultura científica, filosófica e artística, mais sofisticada, e a cultura cotidiana, ou do senso comum. Frequentemente, a alta cultura, enquanto cultura dominante, é associada às chamadas elites ou classes letradas, ao passo que a cultura cotidiana é vista como a cultura popular, ou dominada. Todas essas denominações e oposições vêm sendo submetidas a críticas constantes. Para não poucos historiadores, aliás, tais dicotomias culturais são demasiado simplistas, reducionistas e irreais - tal como se dá, por exemplo, com Roger Chartier (1990), Jacques Revel (1989) e Carlo Ginzburg (1991) -, já que a dinâmica das relações culturais e sociais tende a misturar essas divisões e distinções aparentemente tão homogêneas. Quanto aos autores marxistas, suas críticas têm sido endereçadas a esse conceito supostamente amplo de história cultural, mas que deixa de fora praticamente toda a cultura material. Trabalhar cada vez menos com um conceito único de cultura ou com suas supostas oposições dicotômicas parece ser a tendência entre os historiadores do cultural. Na expressão “História do Tempo Presente” a atenção, tanto de historiadores/ as profissionais quanto do público não especializado, é normalmente direcionada para a palavra “presente”. Afinal, dada a forma adquirida pela disciplina ao longo do século XIX, principalmente, quando de sua sistematização como área de saber científico, esta passou a ser apresentada como a “ciência do passado”. Tal configuração ganhou ainda mais consistência na medida em que se firmou uma periodização da História a partir de um modelo quadripartite francês que se tornou referência para diferentes historiografias nacionais, a exemplo da 24 brasileira, que mantém ainda, produtiva ou não, estreita ligação com aquela periodização francesa. Ao constituir-se como uma “cartografia” do que seria o tempo histórico universal, o quadripartismo tem óbvias implicações intelectuais e socioculturais ao firmar uma determinada ordem ocidental que se fia no progresso linear e ascendente. Outras tentativas de mapear o que seria a História mundial, como aquelas derivadas do materialismo histórico, não escapariam de um modelo análogo e sucessivo de grandes etapas, saltos evolutivos e teleologias. Nas narrativas históricas assim tracejadas, como aponta Jean Chesnaux (1995, p. 96-97), em particular a História contemporânea viria encerrar a construção de uma longa linha do tempo e “celebrar a aptidão dos historiadores ocidentais para apresentar um quadro coerente e global do mundo dos séculos XIX e XX, para ser os guias naturais da História africana, asiática ou americana”. Diante dessa construção tão coerente quanto frágil em suas pretensões universalizantes, afirmar a possibilidade de uma História do Tempo Presente pode soar estranho ou contraditório, somado à desconfiança quanto à validade de tal empreendimento, objeto ainda considerado muito fugidio e opaco. Entendemos, contudo, que ainda é possível acrescentar elementos a um debate que é certamente um dos que mais mobilizaram contribuições aguçadas e produtivas e que fazem parte da melhor cultura historiográfica desde, pelo menos, o último século. A relação entre história e tempo tornou-se problemática, envolvendo questões tão abrangentes como a do “sentido da história” e os interesses por diferentes “durações”, desde a do tempo muito longo e estrutural até a do passado mais imediato. Nesta dimensão, duas definições fundamentais, aquela referida aos pontos de partida e outra que diz respeito à periodização, com a formação de unidades mensuráveis equivalentes em duração, ganharam contornos menos pronunciados, pois o tempo histórico encontra-se e é atravessado pelo tempo da memória. Constatações que se abrem para compreender que “o historiador está submetido ao tempo em que vive” (LE GOFF 1994, p. 13). Isso significou que a demanda de que passado pudesse explicar o presente por si só tenha se tornado insuficiente para os historiadores, os quais se voltaram para discutir o quanto o presente tem de passado, mas também o quanto este tem de presente. Desde a chamada Escola dos Annales, as diferentes e possíveis concepções de tempo histórico referidas à historiografia acompanham os questionamentos teóricos e metodológicos e as diferentes 25 posições assumidas nos debates acadêmicos e nas abordagens de temas, objetos e processos. Duração, repetibilidade, movimento, estruturas e conjunturas, singularidade e universalidade, diacronia, sincronia e anacronia, memória e imaginação, constituíram-se, por si próprios, em objetos historiográficos, ao passo em que também suscitaram a reflexão quanto a métodos e abordagens adequados à documentação pesquisada e às escalas temporais adotadas. O tempo deixa de ser um pano de fundo para tornar-se a própria trama social construída em distintas dimensões e tensões. Se a História do Tempo Presente tem sua configuração inexoravelmente ligada à “dimensão temporal” (DELGADO; FERREIRA 2014, p. 7-12), pode-se questionar se o “tempo” referido na expressão que nomeia esta nova abordagem corresponde a um tempo histórico diferente, naquilo que contém em termos de experiências sociais e culturais, ou seja, como dimensão do que se costuma chamar de temporalidade. Do que seria composta esta temporalidade presente? Compreende-se que pode ser demarcada a partir de critérios ainda em construção, naquilo que diz respeito ao vivido tal como se apresenta a cada um ou cada uma, em suas contingências e significados, e que venha a definir episódios e articular o que se passa individual ou coletivamente ao tempo histórico abrangente. Se os últimos movimentos do campo historiográfico voltam- se para o desafio, longe de qualquer zona de conforto, de interrogar os fenômenos sociais do presente com elementos característicos deste tempo naquilo que informa as experiências de homens e mulheres, ainda que sob o risco do abandono de “cartografias” do tempo histórico consagradas, em relação às quais a própria História do Tempo Presente permanece tributária. Entendemos que elaborar uma História do Tempo Presente requer, entre outras problemáticas ainda mais complexas, dar-se conta do desafio que subjaz à própria expressão que define esta nova dimensão historiográfica e explorá-la em termos ainda não suficientemente abordados. Pensar o tempo presente e, em particular, este tempo vivido no momento em que se elabora este texto, requer um esforço de reflexão que põe em discussão alguns dos limites de nossa compreensão do “tempo e suas temporalidades”, em particular do campo historiográfico como tal. Portanto, ao empreender este esforço intelectual, é necessário considerar que o próprio tempo histórico em suas implicações para a escrita historiográfica está em questão. Sem pretender simplesmente questionar 26 o quadripartismo, ademais alvo de críticas contundentes há décadas, o que se quer dizer é que uma História do Tempo Presente não deve ser compreendida como mais um pilar na construção do grandee consagrado edifício do tempo histórico, cujo projeto estrutural foi configurado pela historiografia ocidental predominante nos séculos XIX e XX. 27 REFERÊNCIAS LOHN, Reinaldo; CAMPOS, Emerson. Tempo Presente: entre operações e tramas. HISTÓRIA DA HISTORIOGRAFIA, 2017. Disponível em: <https://www.historiadahistoriografia.com.br/revista/article/view/1176> Acesso em 12/09/2020. FALCON, Francisco. História cultural e história da educação. SCIELO, 2006. Disponível em: <https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1413- 24782006000200011&script=sci_arttext&tlng=pt> Acesso em 12/09/2020. 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