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1 Bioquímica II – LM ✓ Para entender completamente o significado das vias metabólicas individuais e sua regulação, é necessário observar essas vias no contexto do organismo como um todo ✓ Sinais hormonais integram e coordenam as atividades metabólicas de diferentes tecidos e otimizam a alocação de combustíveis e precursores para cada órgão ✓ O fígado tem um papel central na integração do metabolismo ✓ Os hormônios têm um importante papel integrador, entre a insulina, o glucagon e a adrenalina, coordenando o metabolismo energético no músculo, fígado e tecido adiposo FUNÇÕES METABÓLICAS ESPECIALIZADAS NOS TECIDOS » Cada tecido do corpo tem uma função especializada, que se reflete na sua anatomia e atividade metabólica » O músculo esquelético permite o movimento direcionado » O tecido adiposo armazena e distribui energia na forma de gordura » No cérebro as células bombeiam íons através de suas membranas para produzir sinais elétricos » O fígado tem papel central de processamento e distribuição no metabolismo e abastece os outros órgãos e tecidos » A divisão do trabalho metabólico leva em conta as transformações de carboidratos, aminoácidos e gorduras no fígado dos mamíferos 2 Bioquímica II – LM FÍGADO – VIAS METABÓLICAS Durante a digestão as três classes principais de nutrientes sofrem hidrólise enzimática Após serem absorvidos, açucares, aa e TAG, passam das células do epitélio intestinal para os capilares sanguíneos, sendo transportados para o fígado pela corrente sanguínea A veia porta é uma via direta dos órgãos digestivos para o fígado O fígado tem dois tipos celulares principais: (1) células de Kupffer, são fagócitos, importantes na função imunológica, e (2) os hepatócitos, que transformam os nutrientes da dieta em combustíveis e precursores necessários para outros tecidos, e os exportam pelo sangue A demanda dos tecidos extra-hepáticos por combustíveis e precursores varia entre os órgãos e com o nível de atividade e o estado nutricional geral do indivíduo O fígado tem notável flexibilidade metabólica: → Quando a dieta é rica em proteína, os hepatócitos se abastecem com altos níveis de enzimas para o catabolismo dos aa e a gliconeogênese → Algumas horas após uma mudança para uma dieta rica em carboidratos, os níveis dessas enzimas começam a diminuir, e os hepatócitos aumentam a síntese de enzimas essenciais para o metabolismo de carboidratos e para a síntese de gorduras O fígado funciona, portanto, como centro de distribuição do organismo, exportando nutrientes nas proporções corretas para outros órgãos, reduzindo as flutuações no metabolismo causadas pela ingestão intermitente de alimento e processando o excesso de grupos amino em ureia e outros produtos para serem eliminados pelo rins O fígado também destoxifica compostos orgânicos estranhos, como fármaco, aditivos e conservantes alimentares, e outro agentes potencialmente perigosos e sem valor nutricional _______________________________________________________________________________________ CARBOIDRATOS: O GLUT2 permite difusão passiva e rápida da glicose de forma que a concentração deste açúcar em um hepatócito é essencialmente a mesma daquela no sangue A glicose é fosforilada pela hexocinase IV (glicocinase) para gerar glicose-6-fosfato A presença da glicocinase permite aos hepatócitos continuar fosforilando a glicose quando sua concentração se eleva muito acima dos níveis que sobrecarregariam outras hexocinase A glicocinase garante que a fosforilação da glicose nos hepatócitos seja mínima quando a concentração do açúcar é baixa A frutose, galactose e manose também são absorvidas a partir do ID e convertidas a glicose-6-fosfato A glicose-6-fosfato está no cruzamento do metabolismo dos carboidratos no fígado, podendo entrar em qualquer de várias vias metabólicas importantes, dependendo das necessidades metabólicas 3 Bioquímica II – LM Dessa forma a glicose-6-fosfato pode: 1. Ser desfosforilada pela glicose-6-fosfatase para gerar glicose livre, exportada para repor glicose sanguínea 2. Não ser imediatamente necessária para manter a glicemia e é convertida em glicogênio hepático 3. Seguir a glicólise e a reação da piruvato-desidrogenase e formar acetil-CoA para a produção de ATP no ciclo do ácido cítrico 4. Formar acetil-CoA para servir como precursora dos ácidos graxos e colesterol 5. Entrar na via das pentoses-fosfato gerando NADPH, necessário para a biossíntese de ácidos graxos e colesterol AMINOÁCIDOS: Os aa chegam ao fígado e seguem várias vias metabólicas importantes Dessa forma os aminoácidos: 1. São precursores para a síntese proteica, repondo constantemente suas proteínas, sendo local também de biossíntese da maioria das proteínas plasmáticas 2. Usados na síntese das proteínas teciduais 3. Precursores na biossíntese de nucleotídeos, hormônios e outros compostos nitrogenados no fígado e em outros tecidos 4. Gerar piruvato e intermediários do ciclo do ácido cítrico a. A amônia liberada é convertida em ureia 5. O piruvato pode ser convertido em glicose e glicogênio pela gliconeogênese 6. O piruvato pode ser convertido a acetil-CoA 7. A acetil-CoA podem entrar no ciclo do ácido cítrico 8. Gerar ATP pela fosforilação oxidativa 9. Converter em lipídeos para armazenamento 10. Os intermediários do ciclo do ácido cítrico podem ser desviados para a síntese de glicose pela gliconeogênese Durante o intervalo entre as refeições algumas proteínas musculares são degradadas a aminoácidos, que doam seus grupos amino para o piruvato, formando alanina 11. A alanina é transportada para o fígado e desanimada, convertendo a piruvato e a glicose sanguínea pela gliconeogênese, e a amônia em ureia para excreção LIPÍDIOS: Muitos ácidos graxos e monoacilgliceróis liberados pela digestão das gorduras no intestino são reunidos na forma de TAG dentro dessas células epiteliais Os AG são o principal combustível oxidativo do fígado 4 Bioquímica II – LM Os ácidos graxos componentes dos lipídeos que chegam aos hepatócitos também tem vários destinos: 1. Alguns são convertidos em lipídeos hepáticos 2. AG livres podem ser ativados e oxidados para gerar acetil-CoA e NADH 3. A acetil-CoA é posteriormente oxidada no ciclo do ácido cítrico 4. As oxidações no ciclo promovem a síntese de ATP por fosforilação oxidativa 5. O excesso de acetil-CoA é convertido em acetoacetato e beta-hidroxibutirato; esses corpos cetônicos circulam pelo sangue para outros tecidos, para serem usados como combustível para o ciclo do ácido cítrico 6. Uma parte da acetil-CoA derivada dos ácidos graxos é usada na biossíntese de colesterol; o colesterol também é o precursor de todos os hormônios esteroides e dos sais biliares 7. AG são convertidos em fosfolipídios e TAG de lipoproteínas plasmáticas, que transportam os lipídeos para o tecido adiposo para serem armazenados 8. Alguns AG livres são ligados à albumina sérica e transportados para o coração e para os músculos esqueléticos TECIDO ADIPOSO – VIAS METABÓLICAS ❖ Existem dois tipos distintos de tecido adiposo: 1. O branco, ou unilocular – amorfo e amplamente distribuído pelo corpo; se encontra sob a pele, ao redor dos vasos sanguineos mais profundos e na cavidade abdominal 2. Marrom, ou multilocular – armazenam TAG na forma de várias gotículas, tem maior suprimento de mitocôndrias e capilares; tem alta expressão do gene UCP1, que codifica a termogenina, responsável pela termogênese Os adipócitos têm um metabolismo glicolítico ativo, oxidam piruvato e ácidos graxos pelo ciclo do ácido cítrico e realizam fosforilação oxidativa Períodos de captação elevada de carboidratos: o tecido adiposo pode converter glicose em AG e converter esses últimos a TAG armazenados em grandes lóbulos de gordura; esse armazenamento aconteceparticularmente após uma refeição rica em gordura Períodos de demanda por combustível: as lipases dos adipócitos hidrolisam os TAG armazenados, liberando AG livres, que podem se deslocar pela corrente sanguínea para o músculo esquelético e o coração • A liberação dos AG dos adipócitos é aumentada pela adrenalina • A lipase sensível a hormônio também é estimulada por fosforilação 5 Bioquímica II – LM • A insulina contrabalança o efeito da adrenalina, reduzindo a atividade da lipase • O glicerol liberado pelas lipases dos adipócitos não pode ser reutilizado na síntese de TAG, por que os adipócitos não têm a glicerol-cinase • O glicerol-fosfato necessário para a síntese de TAG é obtido a partir do piruvato por gliceroneogênese • O tecido adiposo tem um importante papel como órgão endócrino, produzindo e liberando hormônios que sinalizam o estado das reservas de energia e coordenam o metabolismo das gorduras e dos carboidratos em todo o corpo MÚSCULOS – VIAS METABÓLICAS Os miócitos são especializados na geração de ATP como fonte imediata de energia para a contração Duas classes gerais de tecido muscular, que diferem no papel fisiológico e na utilização no papel fisiológico e na utilização de combustível 1. Músculo de contração lenta: proporciona tensão relativamente baixa, mas altamente resistente à fadiga; produzi ATP pelo processo de fosforilação oxidativa, relativamente lento, mas estável; rico em mitocôndria e irrigado por redes densas de vasos sanguineos, que fornecem o oxigênio essencial para a produção de ATP 2. Músculo de contração rápida: tem menos mitocôndrias e um suprimento menor de vasos sanguíneos do que o músculo vermelho, mas pode desenvolver grande tensão e o faz mais rapidamente O músculo esquelético pode usar ácidos graxos livres, corpos cetônicos ou glicose como combustíveis, dependendo do grau de atividade muscular Os músculos moderadamente ativos usam a glicose sanguínea, além dos ácidos graxos livres e dos corpos cetônicos A glicose é fosforilada, sendo então degradada pela glicólise a piruvato, o qual é convertido em acetil-CoA e oxidado pelo ciclo do ácido cítrico e fosforilação oxidativa Nos músculos de contração rápida em atividade máxima, a demanda por ATP é tão grande que o fluxo sanguíneo não consegue fornecer O2 e combustíveis com a rapidez necessária para gerar quantidade suficiente de ATP somente pela respiração aeróbica → nessas condições, o glicogênio armazenado no músculo é degradado em lactato por fermentação, respondendo mais rapidamente do que a fosforilação oxidativa O uso da glicose sanguínea e do glicogênio do músculo como combustíveis para a atividade muscular é muito incrementado pela secreção de adrenalina O acúmulo de lactato e a consequente redução do pH nos músculos em atividade máxima reduzem sua eficiência O músculo esquelético, contudo, tem outra fonte de ATP, a fosfocreatina, que regenera ATP rapidamente a partir de ADP pela reação da creatina-cinase Durante a recuperação do esforço, a mesma enzima sintetiza novamente a fosfocreatina a partir de creatina e ATP A creatina serve para enviar equivalentes de ATP da mitocôndria para locais de consumo de ATP e pode ser o fator limitante no desenvolvimento de tecido muscular novo Após um período de atividade muscular intensa, a pessoa continua a respirar intensamente por algum tempo, usando muito O2 extra na fosforilação oxidativa no fígado A glicose assim formada retorna aos músculos para repor seus estoques de glicogênio, completando o ciclo de Cori O músculo esquelético em contração ativa gera calor como um subproduto, realiza a termogênese com calafrio 6 Bioquímica II – LM 7 Bioquímica II – LM CÉREBRO – USO DE ENERGIA PARA TRANSMISSÃO DE IMPULSOS ELÉTRICOS Os neurônios do cérebro dos mamíferos adultos normalmente usam somente glicose como combustível Ele usa O2 a uma taxa bastante constante, respondendo por quase 20% do total de O2 consumido pelo corpo em repouso Ele depende constantemente da glicose do sangue e uma queda significativa da glicose sanguínea pode resultar em mudanças graves, e às vezes irreversíveis, na função cerebral Os neurônios podem, quando necessário, usar corpos cetônicos formados no fígado a partir dos AG A oxidação dos corpos cetônicos pelo cérebro poupa proteínas musculares durante um jejum prolongado ou inanição Os neurônios oxidam a glicose pela glicólise e pelo ciclo do ácido cítrico, e o fluxo de elétrons resultantes dessas oxidações fornece, pela cadeia respiratória, quase todo o ATP utilizado por essas células A energia é necessária para criar e manter um potencial elétrico através da membrana plasmática neuronal O potencial de ação são os mecanismos essenciais de transferência de informação no sistema nervoso, de forma que a depleção de ATP nos neurônios tem efeitos desastrosos sobre todas as atividades coordenadas pela sinalização neuronal 8 Bioquímica II – LM SÍNTESE DE NEUROTRANSMISSORES A PARTIR DO METABOLISMO DA GLICOSE 9 Bioquímica II – LM REGULAÇÃO HORMONAL ❖ Os ajustes que mantêm a concentração de glicose sanguínea envolvem ações combinadas da insulina, do glucagon, da adrenalina e do cortisol sobre os processos metabólicos em muitos tecidos corporais, mas especialmente no fígado, no músculo e no tecido adiposo INSULINA – NÍVEIS ALTOS DE GLICOSE SANGUÍNEA Agindo por meio de receptores na membrana plasmática, a insulina estimula a captação da glicose pelos músculos e pelo tecido adiposo, onde a glicose é convertida em glicose-6-fosfato No fígado, a insulina também ativa a glicogênio- sintase e inativa a glicogênio-fosforilase, de modo que grande parte da glicose-6-fosfato é canalizada para formar glicogênio Estimula o armazenamento do excesso de combustível no tecido adiposo na forma de gordura Ativa a oxidação da glicose-6-fosfato em piruvato pela glicólise e a oxidação do piruvato em acetil-CoA O excesso de acetil-CoA não necessária para a produção de energia é utilizado para a síntese de ácidos graxos, exportados do fígado para o tecido adiposo como TAG de lipoproteínas plasmáticas A insulina estimula a síntese de TAGs nos adipócitos Esses ácidos graxos são, em última análise, derivados do excesso de glicose captada do sangue pelo fígado A insulina pode agir, além do músculo e fígado, no cérebro, sinalizando indiretamente para esses tecidos, mudando seu metabolismo de carboidratos e gorduras CÉLULAS ß PANCREÁTICAS: A quantidade aumentada de glicose no sangue provoca um aumento na secreção de insulina pelo pâncreas Essa liberação é regulada basicamente pelo nível de glicose no sangue que irriga o pâncreas Os hormônios peptídicos são produzidos por agrupamentos de células pancreáticas especializadas, as ilhotas de Langerhans Cada tipo celular das ilhotas produz um único hormônio As células ß secretam a insulina Quando a glicose sanguínea aumenta: 1. Os transportadores GLUT2 carregam a glicose para dentro das células ß, onde é imediatamente convertida em glicose-6-fosfato pela hexocinase IV (glicocinase) e entra na glicólise 2. A [ATP] aumenta, causando o fechamento dos canais de K+ controlados por ATP na membrana plasmática 3. O efluxo reduzido de K+ despolariza a membrana, abrindo os canais de Ca++ controlados por voltagem 4. O aumento resultante na [Ca++] citosólica desencadeia a liberação da insulina por exocitose O cérebro integra o suprimento e a demanda de energia, e os sinais dos sistemas nervosos parassimpático e simpático também afetam a liberação as insulina A redução na glicose sanguínea é detectada pelas células ß pelo fluxo diminuído na reação da hexocinase; isto reduz ou interrompe a liberação da insulina Essa regulação por retroalimentação mantém a concentração daglicose sanguínea praticamente constante apesar da grande variação na captação dietética 10 Bioquímica II – LM 11 Bioquímica II – LM 12 Bioquímica II – LM GLUCAGON – NÍVEIS BAIXOS DE INSULINA SANGUÍNEA Várias horas após a ingestão de carboidratos, os níveis de glicose sanguínea diminuem levemente devido à oxidação da glicose pelo cérebro e por outros tecidos A diminuição da glicose sanguínea desencadeia a secreção do glucagon, pelas células α do pâncreas, e reduz a liberação da insulina O glucagon causa um aumento na concentração sanguínea da glicose de várias maneiras Ele estimula a degradação do glicogênio hepático por ativar a glicogênio-fosforilase e inativar a glicogênio- sintase O glucagon inibe, no fígado, a degradação da glicose pela glicólise, e estimula sua síntese pela gliconeogênese → ambos os efeitos resultam da redução da concentração da frutose-2,6-bifosfato, inibidor alostérico da enzima gliconeogênica frutose- 1,6-bifosfatase (FBPase-1) e ativador da enzima glicolítica fosfofrutocinase-1 O glucagon também inibe a enzima glicolítica piruvato-cinase, bloqueando a conversão do PEP em piruvato, e impedindo a conversão do piruvato no ciclo do ácido cítrico O acúmulo de PEP favorece a gliconeogênese Esse efeito é aumentado pela estimulação da síntese da enzima gliconeogênica PEP-carboxicinase O glucagon permite que o fígado exporte glicose, restaurando seu nível sanguíneo normal Embora seu alvo principal seja o fígado, o glucagon também afeta o tecido adiposo, ativando a degradação de TAG por causar fosforilação As lipases ativadas liberam ácidos graxos livres, que são exportados como combustível para o fígado e outros tecidos, poupando glicose para o cérebro Todos esses efeitos do glucagon são mediados por fosforilação proteica dependente de cAMP 13 Bioquímica II – LM ADRENALINA (EPINEFRINA) Em uma situação de estresse, que requer atividade aumentada, os sinais neuronais originários do cérebro provocam a liberação de adrenalina e noradrenalina da medula suprarrenal A adrenalina age principalmente nos tecidos muscular, adiposo e hepático Ela ativa a glicogênio-fosforilase e inativa a glicogênio-sintase pela fosforilação, estimulando a conversão do glicogênio hepático em glicose sanguínea A adrenalina também promove a degradação anaeróbica do glicogênio muscular pela fermentação em ácido láctico Esse hormônio estimula a mobilização da gordura no tecido adiposo, ativando a lipase sensível a hormônio Estimula ainda a secreção de glucagon e inibe a secreção de insulina, reforçando seu efeito de mobilização de combustíveis e inibição de seu armazenamento 14 Bioquímica II – LM CORTISOL O cortisol é responsável por mediar a reposta corporal a estressores de longa duração Agentes estressores são: ansiedade, medo, dor, hemorragia, infecção, glicose sanguínea baixa, jejum O cortisol, portanto: • Age no músculo, no fígado e no tecido adiposo para suprir o organismo com combustível para resistir à situação estressante • No tecido adiposo, o cortisol provoca um aumento na liberação dos ácidos graxos a partir dos TAG armazenados • Os AG servem como combustível para outros tecidos, e o glicerol é usado na gliconeogênese no fígado • Estimula a degradação das proteínas musculares não essenciais e a exportação dos aa para o fígado • No fígado promove a gliconeogênese por estimular a síntese da enzima-chave PEP-carboxicinase O efeito líquido dessas alterações metabólicas é a restauração dos níveis normais de glicose sanguínea e o aumento dos estoques de glicogênio, pronto para dar suporte à resposta de luta ou fuga comumente associada ao estresse Os efeitos do cortisol, portanto, contrabalançam os da insulina Durante períodos prolongados de estresse, a liberação constante de cortisol perde seu valor adaptativo positivo e começa a causar danos ao músculo e ao osso, prejudicando as funções endócrinas e imune 15 Bioquímica II – LM HORMÔNIOS TIREOIDIANOS Mudanças na secreção de hormônios na resposta ao exercício físico não está apenas relacionada à intensidade de esforço muscular, mas também é influenciada pelo estresse térmico A tireoide, localizada na face anterocervical, é a glândula responsável pela produção dos hormônios tiroxina (t4) e triiodotironina (t3). Apresenta grande dependência de iodo e tirosina para a produção e tem sua regulação através de um eixo de centro hipotalâmico-hipofisário Esses hormônios têm a ação sobre a síntese proteica e enzimática, aumentando o tamanho e número de mitocôndrias na maioria das células, elevando a atividade contrátil do coração, promovendo absorção rápida da glicose e incrementando a glicólise, a glicogenólise, a gliconeogênese e a mobilização de lipídeos, acelerando, assim, o metabolismo METABOLISMO DURANTE O JEJUM E INANIÇÃO As reservas de combustível de um adulto humano saudável são de três tipos: 1. Glicogênio armazenado no fígado e músculo 2. TAG no tecido adiposo 3. Proteínas teciduais que podem ser degradadas quando necessário Durante horas após uma refeição → glicose sanguínea levemente diminuída, os tecidos recebem glicose liberada a partir do glicogênio hepático Quatro horas após a refeição → a secreção de insulina diminui e a de glucagon aumenta, mobilizam os TAG do tecido adiposo, tornando-se o principal combustível para músculos e fígado Jejum prolongado → fígado degrada determinadas proteínas para fornecer glicose para o cérebro, aquelas mais dispensáveis; os grupos amino extras são convertidos em ureia; os esqueletos de carbono dos aminoácidos glicogênicos são convertidos em piruvato ou intermediários do ciclo do ácido cítrico Esses intermediários fornecem os materiais de partida para a gliconeogênese no fígado, gerando glicose para exportar para o cérebro Os AG liberados do tecido adiposo são oxidados a acetil-CoA no fígado, mas, como o OAA é depletado pelo uso intermediário do ciclo do ácido cítrico na 16 Bioquímica II – LM gliconeogênese, a entrada da acetil-CoA no ciclo é inibida e a mesma se acumula Isso favorece a formação de acetoacetil-CoA e corpos cetônicos Após alguns dias de jejum os níveis de corpos cetônicos no sangue estão aumentados, à medida que são exportados do fígado para o coração A acetil-CoA é crítica na regulação do destino do piruvato; ela inibe alostericamente a piruvato- desidrogenase e estimula a piruvato-carboxilase Os TAG armazenados no tecido adiposo podem fornecer combustível suficiente para manter uma taxa metabólica basal por cerca de três meses Quando acabam as reservas de gordura começa a degradação de proteínas essenciais, levando a perda da função cardíaca e hepática, e, na inanição prolongada, à morte Durante jejuns prolongados vitaminas e minerais devem ser fornecidos, sendo necessários aminoácidos glicogênicos na dieta em quantidade suficiente para substituir aquelas utilizados na gliconeogênese 17 Bioquímica II – LM OBESIDADE E REGULAÇÃO DA MASSA CORPORAL 30% dos adultos dos EUA são obesos e outros 35% têm sobrepeso A obesidade aumenta significativamente a chance do desenvolvimento de diabetes tipo 2, assim como ataque cardíaco, acidente vascular cerebral e câncer de colo, mama, próstata e endométrio Em uma primeira abordagem, a obesidade é o resultado da ingestão de mais calorias na dieta do que as gastas O corpo lida de três formas com o excesso de calorias dietéticas: 1. Converte o excesso de combustível em gordura e a armazena no tecido adiposo 2. Queima o excesso de combustível em exercício extra 3. Desperdiça combustível, desviando-o para a produção de calor (termogênese) pelas mitocôndrias desacopladas Uma hipótese inicial para explicar e homeostasia da massa corporal, o modelo da“retroalimentação negativa da adiposidade”, postulava um mecanismo que inibe o comportamento alimentar e aumenta o gasto de energia quando o peso corporal excede um determinado valor Esse modelo prevê que um sinal de retroalimentação que se origina no tecido adiposo influencia os centros encefálicos que controlam o comportamento alimentar e a atividade O tecido adiposo é um órgãos endócrino importante que produz hormônios peptídicos, conhecidos como adipocinas As adipocinas normalmente produzem mudanças no metabolismo energético e no comportamento alimentar, as quais restauram as reservas adequadas de combustível e mantêm a massa corporal Quando as adipocinas são sub ou superproduzidas, o descontrole resultante pode levar a uma doença muito grave LEPTINA: É uma adipocina que, ao alcançar o cérebro, age nos receptores hipotalâmicos e reduz o apetite Em consequência do apetite incontido, eles se tornam muito obesos 18 Bioquímica II – LM Quando se injeta leptina em camundongos, eles comem menos, perdem peso e aumentam sua atividade locomotora e termogênese O gene DB codifica o receptor de leptina A função sinalizadora da leptina é perdida quando o receptor é defeituoso A leptina leva a mensagem de que as reservas de gorduras são suficientes, e promove uma redução na captação de combustível e um aumento no gasto de energia A leptina também estimula o sistema nervoso simpático, aumentando a pressão sanguínea, a frequência cardíaca e a termogênese ❖ Dois tipos de neurônios do núcleo arqueado controlam o influxo de combustível e seu metabolismo Neurônios orexigênicos: estimuladores de apetite → estimulam a ingestão de alimento pela produção e liberação do neuropeptídeo Y (NPY) → faz o próximo neurônio do circuito enviar o sinal para o cérebro: COMA! O nível sanguíneo do NPY aumenta durante o jejum É provável que a alta concentração de NPY contribua para a obesidade nesses animais, que comem vorazmente Neurônios anorexigênicos: inibidores de apetite → produzem o hormônio estimulante de melanócito alfa → a liberação do alfa-MSH faz o neurônio seguinte no circuito enviar o sinal para o cérebro: PARE DE COMER! A quantidade de leptina liberada pelo tecido adiposo depende do número e do tamanho dos adipócitos Quando a perda de peso reduz a massa de tecido lipídico, os níveis de leptina no sangue diminuem, a produção de NPY aumenta e o processo no tecido adiposo A leptina também pode ser essencial ao desenvolvimento normal dos circuitos neuronais hipotalâmicos O crescimento das fibras nervosas a partir do núcleo arqueado durante o desenvolvimento cerebral inicial é diminuído na ausência de leptina, afetando os sinais orexigênicos e (em menor grau) os sinais anorexigênicos do hipotálamo O sinal da leptina é traduzido por um mecanismo usado também pelos receptores de interfon e fatores de crescimento, o sistema JAK-STAT O receptor de leptina dimeriza quando a leptina se liga ao domínio extracelular de dois monômeros Os resíduos de Tyr tornam-se locais de ancoragem para três proteínas que são transdutores de sinal e ativadores de transcrição (STAT) As STAT ancoradas são então fosforiladas em resíduos de Tyr pela mesma JAK A leptina altera as transmissões sinápticas dos neurônios no núcleo arqueado para o tecido adiposo e outros tecidos, estimulando a síntese de termogenina pelo sistema nervoso simpático Os níveis sanguíneos de leptina estão, na verdade, muito mais altos em animais obesos do que em animais com massa corporal normal Alguns elementos a jusante no sistema de resposta à leptina devem estar defeituosos nas pessoas obesas Em testes clínicos, a injeção de leptina não tem o efeito de redução de peso observado nos camundongos obesos O sistema da leptina ajusta a atividade e o metabolismo animal períodos de jejum e inanição 19 Bioquímica II – LM A redução no nível de leptina reverte os processos de termogênese, permitindo a conservação de combustível No hipotálamo, a redução do sinal da leptina também provoca redução na produção do hormônio da tireoide, redução na produção de hormônios sexuais e aumento na produção de glicocortidoides No fígado e no músculo, a leptina estimula a proteína-cinase ativada por AMP (AMPK), a qual inibe a síntese de ácidos graxos e ativa sua oxidação, favorecendo os processos geradores de energia A secreção de insulina pode refletir o tamanho das reservas de gordura e o equilíbrio do fluxo de energia, a insulina age no sistema nervoso central para inibir a ingestão de alimento Os receptores de insulina dos neurônios orexigênicos do núcleo arqueado inibem a liberação de NPY, e os receptores de insulina dos neurônios anorexigênicos estimulam a produção de alfa-MSH, reduzindo, dessa forma, o influxo de combustível e aumentando a termogênese A leptina torna as células do fígado e do músculo mais sensíveis à insulina Segundos mensageiros comuns às duas vias de sinalização permitem que leptina desencadeie alguns dos mesmos eventos a jusante desencadeados pela insulina ADIPONECTINA A adiponectina, hormônio peptídico, é uma adipocina que sensibiliza outros órgãos para os efeitos da insulina, protege contra a aterosclerose e inibe respostas inflamatórias Adiponectina circula no sangue e tem efeito potente sobre o metabolismo dos ácidos graxos e dos carboidratos no fígado e no músculo Ela aumenta a captação de ácidos graxos e a taxa da beta-oxidação no músculo Também bloqueia a síntese de ácidos graxos e a gliconeogênese nos hepatócitos, e estimula a captação de glicose A adiponectina, por meio de seu receptor na membrana plasmática, causa a fosforilação e a ativação da AMPK Quando ativada, a AMPK fosforila proteínas-alvo críticas para o metabolismo de lipídeos e carboidratos, com profundos efeitos no metabolismo de todo o animal Os receptores de adiponectina estão presentes também no cérebro; o hormônio ativa a AMPK no hipotálamo, estimulando a captação de alimento e reduzindo o gasto de energia A malonil-CoA é um potente inibidor da enzima carnitina-aciltransferase I, que inicia o processo de bata-oxidação pelo transporte dos ácidos graxos para a mitocôndria A AMPK inibe a síntese de ácidos graxos pela fosforilação e inativação da acetil-CoA-carboxilase, ao mesmo tempo em que alivia a inibição da beta-oxidação A síntese de colesterol também é inibida pela AMPK, que fosforila e inativa a HMG-CoA-redutase A AMPK inibe a ácido graxo-sintase e a aciltransferase, bloqueando efetivamente a síntese de TAG O gene da adiponectina defeituoso são menos sensíveis à insulina do que aqueles normal e mostram baixa tolerância à glicose 20 Bioquímica II – LM Esses defeitos metabólicos são semelhantes aos humanos com diabetes tipo 2, os quais também são insensíveis à insulina e removem muito lentamente a glicose do sangue A adiponectina parede ser uma ligação importante entre o diabetes tipo 2 e seu mais importante fator de predisposição, a obesidade MTORC1 A atividade de uma segunda proteína-cinase nova auxilia na mediação da proliferação celular e no aumento do tamanho da célula A Ser/Thr-cinase mTORC1 é ativada por fornecimento abundante de nutrientes e energia Essa proteína, quando ativada, fosforila vários fatores de transcrição, levando ao aumento na expressão de genes que codificam enzimas da síntese de lipídeos e proliferação mitocondrial e aumento da biogênese de ribossomos O jejum resulta na inativação de mTORC1, levando ao aumento da degradação de proteínas e glicogênio no fígado e no músculo e mobilização de TAG do tecido adiposo A ativação crônica de mTORC1 em deposição excessiva de TAG no tecido adiposo e também no fígado e músculo Esse acúmulo anormal de lipídeos no fígado e no músculo pode contribuir para a insensibilidade à insulina e para o diabetes tipo 2 As proteínas de uma família de fatores de transcrição ativados por ligantes, osreceptores ativados por proliferação de peroxissomos, respondem a mudanças nos lipídeos da dieta com a alteração da expressão de genes envolvidos no metabolismo de gorduras e de carboidratos GRELINA: A grelina é um hormônio peptídico produzido pelas células que revestem o estômago e um potente hormônio estimulante do apetite Os receptores de grelina estão localizados na hipófise e no hipotálamo, bem como no músculo cardíaco e no tecido adiposo A grelina atua por meio de um receptor acoplado à proteína G para gerar o segundo mensageiro IP3, que controla sua ação A concentração de grelina no sangue varia entre as refeição, atingindo um pico imediatamente antes da refeição e diminuindo rapidamente logo após A injeção de grelina em humanos produz sensação imediata de intensa fome Pessoas com síndrome de Prander-Willi, cujos níveis de grelina no sangue são extremamente altos, tem apetite incontrolável, levando à extrema obesidade que, com frequência, resulta em morte antes dos 30 anos 21 Bioquímica II – LM OBESIDADE, SÍNDROME METABÓLICA E DIABETES TIPO 2 ❖ Existe uma crescente epidemia de obesidade e de diabetes tipo 2 associado a ela A patologia do diabetes inclui doença cardiovascular, insuficiência renal, cegueira, restabelecimento insatisfatório das extremidades que requerem amputações e neuropatia A característica do diabetes tipo 2 é o desenvolvimento de resistência à insulina: estado no qual é necessário mais insulina para realizar os mesmos efeitos biológicos produzidos no estado sadio normal por uma quantidade mais baixo do hormônio As células beta e a falta de insulina torna-se aparente pela incapacidade do corpo de regular a glicose sanguínea O estágio intermediário que precede o diabetes tipo 2 é, às vezes, denominado síndrome metabólica, ou síndrome X ❖ Essa síndrome é caracterizada por: ― Obesidade ― Especialmente no abdome ― Hipertensão ― Lipídeos sanguíneos anormais ― Glicose sanguínea levemente elevada ― Capacidade reduzida de remover a glicose sanguínea em um teste de tolerância à glicose ― Alterações nas proteínas sanguíneas, associadas com a coagulação anormal ou inflamação Os adipócitos normalmente mantém as células preparadas para sintetizar e armazenar TAG – os adipócitos são sensíveis à insulina e produzem leptina, o que leva à deposição intracelular contínua de TAG O excesso de ingestão calórica em pessoas obesas faz os adipócitos ficarem repletos de TAG O tecido adiposo repleto de lipídeos libera fatores proteicos que atraem macrófagos que se infiltram no tecido e podem chegar a representar, em massa, até 50% do tecido adiposo Os macrófagos desencadeiam a resposta inflamatória, que prejudica a deposição dos ácidos graxos nos adipócitos e favorece sua liberação para o sangue Esse excesso de ácidos graxos entra nas células hepáticas e musculares, onde é convertido em TAG que se acumulam como gotículas lipídicas Essa deposição ectópica de TAG leva à insensibilidade à insulina no fígado e no músculo, a característica do diabetes tipo 2 Além disso, de acordo com essa hipótese, AG e TAG em excesso são tóxicos para o fígado e o músculo Tanto a síntese de adiponectina pelos adipócitos como seus níveis sanguineos decrescem com a obesidade, e aumentam com a perda de peso Existem fatores genéticos que claramente predispõem para o diabetes tipo 2 Embora 80% das pessoas com diabetes tipo 2 sejam obesas, a maioria das pessoas obesas não desenvolve a doença 22 Bioquímica II – LM CONTROLE DO DIABETES TIPO 2: Três fatores aumentam a saúde das pessoas com diabetes tipo 2: • Restrição alimentar • Exercício regular • Fármacos que aumentam a produção de insulina ou sensibilidade ao hormônio A restrição alimentar reduz a carga total de ácidos graxos controláveis Várias classes de fármacos são utilizados no manejo do diabetes tipo 2 As sulfonilureias agem sobre os canais de K+ controlados por ATP em células beta pancreáticas e estimulam a liberação de insulina As tiazolidinedionas agem por meio de PPARy, aumentando a concentração de adiponectina no plasma e estimulando a diferenciação dos adipócitos, de forma a aumentar a capacidade de armazenamento de TAG Os inibidores da protease IV de dipeptídeos previnem a degradação proteolíticas do GLP-1 que estimula a secreção pancreática de insulina A inibição da peptidase prolonga a ação do GLP-1, aumentando efetivamente a secreção da insulina A combinação entre perda de peso e exercício é a forma recomendada para prevenir o desenvolvimento da síndrome metabólica e do diabetes tipo 2 Dada a difusão e a ocorrência aumentada do diabetes tipo 2, a possibilidade de estimular a oxidação das gorduras pela ativação do TAM certamente merece ser explorada Menor utilização de glicose Resistência à insulina Menor liberação de insulina pelas células beta pancreáticas Tratamentos Cirurgia bariátrica