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CARACTERIZAÇÃO DA DEFICIÊNCIA AUDITIVA E SURDEZ Relma Urel Carbone Carneiro Daiane Natalia Schiavon 1 Introdução O ser humano, de maneira geral, é dotado de sentidos que o ajudam em sua interação com o meio físico e social possibilitando de maneira gradual seu desenvolvimento global. A ausência ou diminuição de um ou mais sentidos interfere nessa dinâmica natural e provoca a utilização de mecanismos variados, diferentes dos usualmente utilizados, para adaptação do indivíduo ao seu meio. Assim, compreender quais as consequências da deficiência auditiva/surdez se faz necessário e importante sabermos sobre o processamento normal da audição, que envolve conhecimentos sobre a estrutura anatômica do ouvido humano e de seu funcionamento. A audição é um dos sentidos presente, na criança, desde o seu nascimento, trazendo informações sobre o mundo que a cerca, além de oferecer ao indivíduo informações sonoras, capazes de alertar quanto ao perigo e de situar um objeto no espaço, é o principal meio de desenvolvimento da linguagem oral, importante canal de desenvolvimento da comunicação e interação humana. Embora a linguagem seja manifestada de várias formas como pela escrita, por gestos, por expressões, a fala é muito importante e comumente a mais usada para a expressão do pensamento humano. Assim, indivíduos que não possuem a audição que proporcione o desenvolvimento natural da linguagem oral, desenvolvem outra forma de expressão da linguagem, isto é, de sinais. Essas diferenciações interferem diretamente no desenvolvimento e na aprendizagem de cada indivíduo e dependem de alguns fatores que serão discutidos a seguir. 2 Conhecendo um pouco mais sobre a Deficiência Auditiva e Surdez Existem diversas causas que podem contribuir para ocasionar à deficiência auditiva ou a surdez, sendo que, podem acontecer em momentos diferentes da vida. É importante ressaltarmos a evidência de conceitos distintos relacionados à deficiência auditiva e a surdez, isto é, um, do ponto de vista clínico (grau da perda) e outro, do ponto de vista linguístico e cultural. Destacamos neste momento que estes termos não são utilizados como sinônimos. Segundo autores como Lloyd e Kaplan (1978), Gonzáles (2007), Coll, Marchesi e Palacios (2004) e Bevilacqua (1998), podemos caracterizar estas de acordo com três principais aspectos: a Etiologia (causas da deficiência auditiva/surdez); ao período de aquisição e localização da lesão. 2.1 Etiologia Pré-natais: quando a alteração ocorreu antes do nascimento, na vida intrauterina (dentro do útero), e como exemplo dessas causas temos fatores genéticos e hereditários, doenças adquiridas pela mãe como rubéola, toxoplasmose, sífilis, citomegalovírus, entre outras, drogas ototóxicas1, drogas como fumo, álcool, exposição a raio X, consanguinidade, fator RH, entre outras. Peri-natais: quando a alteração ocorreu durante o nascimento ou nos primeiros dias de vida podendo ser por anóxia2, baixo peso, traumatismo de parto, prematuridade e pós maturidade, entre outras. Pós-natais: quando a audição foi afetada após o nascimento podendo ocorrer ao longo da vida do indivíduo como doenças infecto contagiosas (caxumba, sarampo, meningite, etc), medicamento ototóxico, otites recorrentes, traumatismo craniano, exposição constante a ruído, avanço da idade, entre outras. Dependendo do momento em que audição foi lesada ela apresenta consequências diferentes como se antes ou depois do desenvolvimento da fala. Outro fator relevante é a localização da lesão dentro do sistema auditivo, que pode decorrer tanto um prejuízo leve quanto um severo. 1 Remédios ingeridos pela mãe que podem afetar o desenvolvimento auditivo do feto. 2 Falta de oxigenação no organismo por respiração deficiente. 2.2 Período de aquisição e localização da Lesão Com relação ao período de aquisição, a surdez pode ser dividida em dois grandes grupos: Congênitas: quando o indivíduo já nasceu surdo. Nesse caso a surdez é pré-lingual, ou seja, ocorreu antes da aquisição da linguagem. Adquiridas: quando o indivíduo perde a audição no decorrer da sua vida. Nesse caso a surdez poderá ser pré ou pós-lingual, dependendo da sua ocorrência ter se dado antes ou depois da aquisição da linguagem (BRASIL, 2002, p. 21-23). Com relação à localização (tipo de perda auditiva) da lesão, a alteração auditiva pode ser: Condutiva: quando está localizada no ouvido externo e/ou ouvido médio; as principais causas deste tipo são as otites, rolha de cera, acúmulo de secreção que vai da tuba auditiva para o interior do ouvido médio, prejudicando a vibração dos ossículos (geralmente aparece em crianças frequentemente resfriadas). Na maioria dos casos, essas perdas são reversíveis após tratamento. Neurossensorial: quando a alteração está localizada no ouvido interno (cóclea ou em fibras do nervo auditivo). Esse tipo de lesão é irreversível; a causa mais comum é a meningite e a rubéola materna. Mista: quando a alteração auditiva está localizada no ouvido externo e/ou médio e ouvido interno. Geralmente ocorre devido a fatores genéticos, determinantes de má formação. Central: A alteração pode se localizar desde o tronco cerebral até às regiões subcorticais e córtex cerebral (BRASIL, 2002, p. 21-23). Dessa maneira, vemos na figura abaixo a estrutura do aparelho auditivo e podemos localizar em quais partes desta estrutura elas ocorrem: Imagem 1 – Estrutura do aparelho auditivo. Fonte: http://otorrinochapeco.site.med.br/index.asp?PageName=OUVIDOS 2.3 Definição e classificação A deficiência auditiva/surdez é caracterizada como uma diminuição da capacidade de percepção dos sons que pode variar de um grau leve até um grau profundo. O ouvido humano é capaz de perceber sons que variam entre 0 e 120 decibéis (dB), sendo que sons acima de 120 decibéis causam desconforto. A caracterização da deficiência auditiva/surdez quanto ao grau de comprometimento é classificada, de acordo com Lloyd e Kaplan (1978) e Bevilacqua (1998) da seguinte forma: ≤ 25 dB (Audição normal); 26 - 40 dB (Perda auditiva de grau leve); 41 - 55 dB (Perda auditiva de grau moderado); 56 - 70 dB (Perda auditiva de grau moderadamente severo); 71 - 90 dB (Perda auditiva de grau severo); 91 dB (Perda auditiva de grau profundo) (Lloyd e Kaplan, 1978). Essa classificação significa que uma pessoa que tem uma perda de audição leve precisa que um som tenha uma intensidade maior que 26 decibéis para que ela o ouça. Da mesma forma, pessoas com perdas profundas de audição precisam que os sons sejam de intensidade maiores que 91 decibéis. Os sons da fala variam entre 50 e 70 decibéis, desta forma, pessoas com perdas auditivas severas e profundas não percebem sons de fala. Essa variação de capacidade auditiva demonstra a heterogeneidade das pessoas com perdas de audição. Segundo Coll, Marchesi e Palacios (2004, p.221), "o desenvolvimento comunicativo e linguístico de crianças surdas com uma perda auditiva profunda, por exemplo, apresenta aspectos muito distintos daquelas com perdas leves ou hipoacústicas". Se os pais de crianças com perdas auditivas são surdos ou ouvintes também é um fator importante no desenvolvimento global dessa criança, uma vez que, são os primeiros modelos de comunicação. Pais surdos de crianças surdas as expõem ao contato com a língua de sinais desde seu nascimento, e isso, propicia um desenvolvimento linguístico adequado, diferentemente, pais ouvintes de filhos surdos não serão, a menos que façam isso intencionalmente, modelos linguísticos naturalmente. 3 Caracterizando a perda auditiva Uma pessoa que nasce surda percebe os sons da fala? Pode adquirir linguagem? Deve colocar o implante? Deve apender Libras? Será que os diferentes grausde perda auditiva implicam em diferentes condições e possibilidades? Quais seriam essas? A seguir apresentamos um quadro das principais consequências da perda auditiva para o desenvolvimento da linguagem oral de uma criança, considerando os graus da perda. Quadro 1 – Classificação da Deficiência auditiva e Surdez Deficiência Auditiva de grau Leve: 26 a 40 dB • Percebe todos os sons de fala (que variam entre 50 e 70 dB); • Adquire linguagem oral espontaneamente; • Pode apresentar algumas dificuldades de compreensão em ambientes muito ruidosos. Deficiência Auditiva de grau Moderada: 41 a 55 • Geralmente há atraso na aquisição da linguagem oral; • Apresenta alterações articulatórias (trocas de fonemas na fala); dB • Não percebe todos os sons da fala com a mesma clareza; • Apresenta dificuldade em perceber a fala em ambiente ruidoso; • Geralmente apresentam-se desatentas e com dificuldades na aprendizagem da leitura e da escrita. Porém podem se desenvolver quase que normalmente com a utilização de aparelho de amplificação sonora individual (AASI). Deficiência Auditiva de grau moderadamente severo: 56 - 70 dB • Apresenta dificuldade em adquirir a fala naturalmente, desenvolvendo, às vezes, apenas um vocabulário familiar de poucas palavras. • Pode se beneficiar do uso de aparelho de audição e terapia fonoaudiológica. Deficiência Auditiva de grau Severo: 71 a 90 dB • Apresenta dificuldade de aprendizado da leitura e escrita, mas, com uso de aparelho auditivo e/ou implante coclear e intervenção fonoaudiológica a criança poderá receber informações utilizando a audição para o desenvolvimento da fala, linguagem e aprendizado acadêmico; • Quando usuária de LIBRAS necessita do professor interlocutor (intérprete educacional) e apoio da comunidade surda para referência e desenvolvimento da identidade surda. Deficiência Auditiva de grau Profundo: acima de 91 dB • Não detecta sons de fala de forma que dificilmente a desenvolve; • Só responde auditivamente a sons muito intensos como bomba, trovão, motor de avião. • Pode ocasionar transtornos na vida social e educacional da criança; • O diagnóstico e a intervenção precoces (uso de aparelhos de audição e/ou implante coclear e terapia fonoaudiológica) são fatores fundamentais para o desenvolvimento da fala, da linguagem e, mais adiante, da leitura e escrita; • Caso a opção seja pela LIBRAS, as famílias devem buscar cursos de LIBRAS e a proximidade com a comunidade surda desde a mais tenra idade para que a criança possa ter ganhos na aprendizagem, bem como conversar com a criança em LIBRAS e contar histórias em LIBRAS na mesma época de outras crianças. • Frequentemente irão se valer da leitura orofacial, a qual produz resultados melhores em conversas de pares e grupos pequenos. Fonte: Elaborado pelas autoras. Tais dados demonstram que as características de indivíduos com perda de audição são muito distintas, o que significa que suas necessidades também o são. Diante de um diagnóstico de perda de audição, a família deve ser orientada a fazer a opção ou não da adaptação de aparelho de amplificação sonora individual que, no caso de crianças com perdas leves e moderadas, podem auxiliar na percepção e desenvolvimento da linguagem oral. 3.1 Perdas auditivas severas e profundas No caso de crianças com perdas severas e profundas de audição é necessário considerar que as experiências de aprendizagem dessa criança serão diferentes, não ancoradas na audição, mas sim nos outros sentidos. Neste caso a família deve ser orientada a aprender a língua de sinais, além de buscar o ensino dessa língua para seu filho o mais breve possível, pois a maioria das crianças surdas são filhas de pais ouvintes, o que não as coloca em um ambiente linguístico propício naturalmente. 4 Deficiência Auditiva/Surdez e ações pedagógicas E na escola? Quando recebemos nossos estudantes com deficiência auditiva/surdez, o que pode acontecer? Como eles se comportam? Como os professores agem ou devem agir? Pensando no ambiente escolar percebemos que as ações pedagógicas necessárias para efetiva participação desses estudantes requerem adaptações de maneiras variadas e de acordo com a necessidade de cada um. Apresentamos no quadro abaixo, algumas estratégias de acordo com as características dos estudantes a partir do grau de sua perda auditiva. Quadro 2 - Características de estudantes com Deficiência Auditiva/Surdez e estratégias na escola. Deficiência Auditiva de grau Leve: 26 a 40 dB Pode passar despercebido ou ser confundido como um estudante desatento ou desinteressado. O professor deve encaminhar para avaliação audiológica e, se confirmado o diagnóstico, considerar essa condição, preocupando-se com o ruído da sala de aula, colocando o estudante mais próximo dele e se certificando de que o estudante está acompanhando a aula. Deficiência Auditiva de grau Moderado: 41 a 55 dB Este estudante requer adaptações mais específicas como utilização de aparelho de amplificação sonora individual- AASI e acompanhamento fonoaudiológico, que o auxiliará no desenvolvimento da linguagem oral. Na escola deve sentar- se próximo ao professor, que deve sempre falar de frente para ele, beneficiando sua leitura orofacial-LOF; a sala de aula não deve ser ruidosa e o estudante poderá ter atendimento educacional especializado-AEE se a escola avaliar como necessário. Em sua prática pedagógica o professor deve considerar sua condição enriquecendo sua aula com informações visuais. Deficiência Auditiva de grau Requer adaptações didáticas que podem variar de estratégias metodológicas a recursos variados, bem como, moderadamente severo: 56 - 70 dB atendimento educacional especializado. Deficiência Auditiva de grau Severo: 71 a 90 dB Este estudante deve ter acesso a aprendizagem da língua de sinais, professor interlocutor em sala de aula e atendimento educacional especializado. Deficiência Auditiva Profunda: acima de 91 dB Este estudante deve ter acesso a aprendizagem da língua de sinais, intérprete em sala de aula e atendimento educacional especializado. Fonte: Elaborado pelas autoras. No quadro fizemos menção à leitura orofacial-LOF que é a capacidade de entender a palavra falada por outra pessoa por meio dos movimentos dos lábios, independentemente da inteligência, sexo, grau de perda, época do aparecimento da deficiência e outros fatores. Este é um recurso bastante utilizado pelas pessoas com deficiência auditiva ou surda, auxiliando-os na compreensão da informação. O mais importante, inicialmente, não é o conteúdo do que se diz, mas a tentativa de se habituar a criança a fixar a atenção nos lábios do interlocutor, até o final da palavra ou frase, pois um dos objetivos principais do treinamento em LOF (que deve ser feito pelo fonoaudiólogo) é criar no estudante o hábito da atenção visual, interesse nos movimentos dos lábios e na expressão da face. Para o desenvolvimento da LOF, é imprescindível que se observe fatores como: • O rosto de quem fala deverá estar voltado para luz e ao nível dos olhos de quem está sendo treinado; • A distância entre emissor e receptor deverá ser suficiente para uma visão total do rosto; • A voz deverá ser normal, clara e a palavra bem articulada, mas sem exageros; • A expressão de quem fala deve ser coerente com a mensagem; • Os movimentos de boca, cabeça ou braços não devem ser exagerados; • Cigarros, balas, dedos na boca, devem ser evitados, pois podem dificultar a compreensão da leitura dos lábios; • As frases devem ser bem estruturadas em orações completas, porém claras, simples e significativas para o estudante; • A emissão da mensagem deve ser global e não fragmentada, pois a comunicação telegráficapode bloquear a compreensão. A surdez interfere diretamente nas interações do estudante na escola, considerando-se suas relações com os outros estudantes, com os professores, com os demais membros da equipe escolar, quando não é estabelecido um canal de comunicação. Desta forma é imprescindível que a escola se organize para oferecer ao estudante com deficiência todas as condições necessárias para sua participação de forma efetiva. 4.1 Sugestões A seguir apresentamos algumas ações que podem, somadas a outras decorrentes da realidade de cada escola e de cada estudante, auxiliar neste processo. • Trate o estudante de forma natural, não adotando atitudes paternalistas e também não o relegando a um plano secundário; • Esclareça os demais estudantes da classe sobre as suas condições e necessidades favorecendo, assim, a sua aceitação e inclusão no ambiente escolar; • Determine o lugar do estudante, de modo que este veja o professor/intérprete a maior parte do tempo e que a luz incida sobre o mesmo, a fim de facilitar o uso de pistas visuais; • Esteja alerta para que o estudante tenha sua atenção constantemente voltada para o professor/intérprete durante as explicações; • Fale com clareza, naturalidade, sempre voltado para os estudantes, sem aumentar o tom de voz; • Exponha e repita as mesmas ideias e conceitos de formas variadas com vocabulário adequado e flexível; Inclua o estudante em todas as atividades como elemento integrante do grupo. 4.2 Atenção! Considerando as necessidades específicas podemos diferenciar as ações pedagógicas para essa clientela em dois grandes grupos: • Para os estudantes com perdas leves e moderadas de audição que se beneficiam da tecnologia para amplificação de seu resíduo auditivo, as adaptações curriculares devem prever acompanhamento fonoaudiológico, a estruturação do ambiente físico, a formação do professor para adequação de sua metodologia e estratégias de ensino, e, quando necessário, AEE para apoiar sua escolarização e uma predisposição para o reconhecimento e valorização das diferenças dos estudantes. • Para os estudantes surdos, com perdas severas e profundas de audição as adaptações curriculares englobam outros aspectos. Conforme a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008), os estudantes surdos devem receber uma educação bilíngue (Língua Portuguesa/LIBRAS), sendo este um papel da escola. Assim, deverá oferecer o ensino de língua portuguesa na modalidade escrita como segunda língua, os serviços de tradutor/intérprete, promover o ensino da LIBRAS para os demais estudantes, oferecer o AEE tanto na modalidade oral e escrita quanto na língua de sinais e garantir o direito de estar com pares surdos nas turmas comuns. Essa recomendação é fundamental para proporcionar a interação comunicacional entre os pares. O AEE deve contar com profissionais com conhecimentos específicos no ensino da LIBRAS e na língua portuguesa como segunda língua. Para efetivação de um ensino de qualidade para os estudantes surdos temos que atentar para alguns aspectos: 1º Aspecto: apropriação da Língua de Sinais como 1ª Língua O artigo 22 do Decreto nº 5.626/2005 (BRASIL, 2005), fala da garantia de escolas e classes de educação bilíngue, aberta a estudantes surdos e ouvintes, com professores bilíngues, na educação infantil e ensino fundamental, e esclarece que escolas ou classes bilíngues são aquelas em que a LIBRAS e a modalidade escrita da língua portuguesa sejam línguas de instrução utilizadas no desenvolvimento de todo o processo educativo. O decreto fala também de atendimento especializado no contraturno para o desenvolvimento de complementação curricular. Para tanto, as escolas com estudantes surdos de educação infantil e ensino fundamental devem contar com um professor de LIBRAS que ensine a língua de sinais aos estudantes surdos que não a possuem (a maioria dos surdos são filhos de pais ouvintes), como primeiro passo ao desenvolvimento do ensino. Sem uma língua de acesso a comunicação e aos conteúdos curriculares, o estudante surdo não pode ser ensinado. 2º Aspecto: Presença do professor interlocutor de Libras - Língua Portuguesa em sala de aula A atuação do intérprete é prevista por lei e fundamental para garantia de acesso do surdo a escolarização, uma vez que, o professor da classe comum vai se utilizar da modalidade oral da língua portuguesa para transmitir os conteúdos curriculares. O tradutor/intérprete tem a função exclusiva de traduzir e interpretar os conteúdos linguísticos, cabendo ao professor a responsabilidade pelo desenvolvimento acadêmico do estudante surdo, contando com o apoio do professor especializado quando necessário. 3º Aspecto: Adaptações curriculares Considerando as instruções oferecidas pelo material “Adaptações Curriculares – estratégias para educação de estudantes com necessidades educacionais especiais” (BRASIL, 1999), a inclusão de estudantes surdos em classes comuns passa, necessariamente, pela possibilidade das seguintes adaptações curriculares: Adaptações curriculares de grande porte: • contratação de professor de libras; • de tradutor/intérprete de libras/língua portuguesa; • organização de serviços de apoio especializado; • eliminação de objetivos, conteúdos, estratégias de ensino, formas de avaliação incompatíveis com a condição de surdez; • introdução de objetivos, conteúdos, estratégias de ensino, formas de avaliação, diferenciados, que contemplem a diferença linguística e cultural do surdo. • alteração na temporalidade de aprendizagem, quando necessário. Adaptações curriculares de pequeno porte: • organizativas (organização de agrupamentos, didática e espaço); • relativas aos objetivos e conteúdos (priorização, sequenciação e eliminação de conteúdos secundários); • avaliativas (adaptação e modificação de técnicas e instrumentos); • nos procedimentos didáticos e nas atividades (modificação, eliminação, adaptação); • na temporalidade (modificação da temporalidade para determinados objetivos e conteúdos previstos). Adaptações no nível do projeto pedagógico: • a escola assume a diversidade e trabalha com equidade. Adaptações relativas ao currículo da classe: • relação professor/estudante/estudante; • trabalho colaborativo; • organização do trabalho em classe promovendo a inclusão. Adaptações individualizadas do currículo devendo-se considerar: • a real necessidade das adaptações; • a avaliação do nível de competência curricular do estudante, tendo como referência o currículo regular; o respeito ao seu caráter processual, de modo que permita alterações constantes e graduais nas tomadas de decisão. Considerações finais As reflexões contidas neste texto apontam para a necessidade da correta identificação e caracterização dos estudantes com deficiência auditiva e com surdez, de forma a organizar a escola e o trabalho pedagógico com vistas a oferecer as respostas adequadas para que seu desenvolvimento aconteça de forma plena em uma escola democrática, plural e equânime. Zanata (2004) traz orientações específicas, advindas da Série Diretrizes, formulada pelo MEC em 1995, quanto ao atendimento educacional do estudante com perda auditiva, levando-se em consideração o nível de sua perda. A autora destaca o seguinte trecho sobre os estudantes com os seguintes graus de surdes: Surdez leve: o estudante deverá frequentar a escola comum do ensino regular, (...) em geral esse estudante não apresenta dificuldades na classe comum. Surdez moderada: o estudante poderá frequentar a creche ou a sala de estimulação, ou pré-escola do ensino regular, bem como ser alfabetizado e prosseguir seus estudos com educandos ouvintes desde que receba atendimento especializado em outro período diário. Surdez severa:o estudante deverá receber estimulação no período da educação infantil, em clínica fonoaudiológica, em sala de recurso, em escola especializada ou classe especial, em forma individual ou em grupo de até 30 oito estudantes.(...) tendo adquirido a linguagem e estando alfabetizado, poderá começar a frequentar a classe comum geralmente na 3ª série do Ensino Fundamental em um período e uma escola especial ou sala de recurso para apoio pedagógico. Surdez profunda: o estudante geralmente ingressará em uma classe comum na 3ª série do ensino fundamental (...) e será alfabetizado em classe especial ou escola especializada (BRASIL, 1995 apud ZANATA, 2004, p. 35). A partir dos documentos acima é possível perceber que para cada perda auditiva são indicadas orientações específicas ao trabalho do professor, isso porque, ao se falar em educação de surdos, é imprescindível considerar o aspecto da linguagem, tanto sua aquisição como seu desenvolvimento. Referências BEVILACQUA, M.C. Conceitos básicos sobre a audição e deficiência auditiva. Bauru: HPRLLP-USP, 1998. BRASIL. Ministério da Educação/ Secretaria de Educação Especial. Política de Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva. Brasilia: MEC, 2008. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/politicaeducespecial.pdf. Acesso em: 24 jul. 2014. BRASIL. Ministério da Educação/ Secretaria de Educação Especial. Parâmetros Curriculares Nacionais. Adaptações Curriculares – estratégias para educação de estudantes com necessidades educacionais especiais. Brasília: MEC/SEESP, 1999. BRASIL. Decreto-lei nº 5626, de 22 de dezembro de 2005. Regulamenta a Lei no 10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - Libras, e o art. 18 da Lei no 10.098, de 19 de dezembro de 2000. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Brasília, 23 dez. 2005. GONZÁLEZ, E. Necessidades educacionais específicas - intervenção psicoeducacional. Porto Alegre: Artmed, 2007. LLOYD, L. L. e KAPLAN, H. Audiometric interpretation: a manual o basic audiometry. University Park Press: Baltimore; 1978. p. 16-7, 94. MARCHESI, A. et al. A educação da criança surda na escola integradora. In: ______. Desenvolvimento Psicológico e educação: necessidades educativas especiais e aprendizagem escolar. V.3. Porto Alegre, RS: Artes Médicas, 1995a. Cap. 14, p. 215-231. ZANATA, E. M. Práticas pedagógicas inclusivas para estudantes surdos numa perspectiva colaborativa. 2004. Tese (Doutorado em Educação Especial) – Programa de Pós-graduação em Educação Especial: UFSCar, São Carlos, 2004.