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UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CENTRO-OESTE DEPARTAMENTO DE MEDICINA DOENÇAS ASSOCIADAS A LIPÍDEOS Filme: Óleo de Lorenzo (ADL) JOYCE MARIA DE OLIVEIRA BENDER Guarapuava 09 de outubro de 2021 Filme: Óleo de Lorenzo O filme ‘Óleo de Lorenzo’ retrata a jornada de um pai e uma mãe na busca por um tratamento eficaz para a doença do seu filho Lorenzo. A criança possui uma doença genética grave e progressiva chamada adrenoleucodistrofia (ALD) com um prognóstico de sobrevida de até 2 anos. Introduzindo o óleo na dieta do filho, eles observaram que os sintomas pararam de progredir e conseguiram controlar o acúmulo anormal de ácidos graxos de cadeia muito longa no organismo de Lorenzo. Adrenoleucodistrofia (ADL) A adrenoleucodistrofia é um distúrbio genético raro ligado ao cromossomo X (X-ALD) que afeta 1:15.000 a 25.000 indivíduos em todo o mundo, predominantemente do sexo masculino. A doença resulta de mutações no gene que codifica o transportador peroxissomal ABCD1 (adenosina trifosfato — Subfamília D de Transportador de Cassetes de Ligação de ATP, membro 1), localizado no braço longo do cromossomo X, Xq28. Figura 1: Localização do gene afetado na Adrenoleucodistrofia A proteína ALDP pertence a uma superfamília de proteínas de membrana que se ligam ao ATP. Sua função ainda não completamente caracterizada, mostra relação com o transporte da proteína VLCFA-CoenzimaA sintetase para o interior dos peroxissomos, estando envolvida, desta forma, no metabolismo de VLCFA (ácidos graxos de cadeia muito longa). A inatividade de ALDP tem como resultado direto, aparentemente, a alteração na função de cinco enzimas peroxissomais, originando o aparecimento dos sintomas da X-ALD, em geral, até os dez anos de idade. Uma vez que essa proteína de membrana é responsável pelo transporte de VLCFA em peroxissomos, a fim de promover sua degradação por oxidação, o distúrbio é caracterizado por seu acúmulo em tecidos e fluidos corporais. Consequentemente, leva à insuficiência adrenal e desmielinização axonal dos neurônios. Os mecanismos exatos pelos quais o excesso de VLCFA leva à neurotoxicidade ainda são desconhecidos, mas presume-se que ele promove instabilidade da membrana celular e estresse oxidativo. Os indivíduos afetados podem apresentar várias manifestações, que variam de acordo com o envolvimento isolado, simultâneo ou sequencial da glândula adrenal e do sistema nervoso central, e não há correlação entre o tipo de mutação e o fenótipo apresentado. Figura 2: Tecidos e glândulas afetadas pela Adrenoleucodistrofia A doença foi classificada nas seguintes formas: pré-sintomática, adrenoleucodistrofia inflamatória desmielinizante cerebral (CALD), adrenomieloneuropatia (AMN), mielopatia entre mulheres e apenas insuficiência adrenal primária. A maioria dos casos no sexo masculino evolui para insuficiência adrenal e mielopatia. Quando as manifestações clínicas da doença estão associadas a alterações na substância branca, evidenciadas por ressonância magnética (RM) com desmielinização ativa potenciadora de gadolínio, há forte suspeita de X-ALD. No entanto, o distúrbio só é confirmado com os níveis séricos de VLCFA e/ou testes genéticos. Sinais e Sintomas O paciente de Adrenoleucodistrofia começa a manifestar os sintomas da doença ao perder a capacidade de realizar movimentos, falar, e se alimentar. Surgem ainda problemas de visão, como o estrabismo. Na ALD neonatal, tanto meninos quanto meninas podem ser afetados. A doença ocorre nos primeiros meses de vida e pode provocar convulsões, deformações faciais e retardo mental. Já a ALD clássica ou infantil é considerada a forma mais grave da doença. Tal modalidade da doença surge entre os 4 e os 10 anos, provocando demência severa, perda de visão, da audição e da fala. A ALD adulta surge no final da adolescência ou início da vida adulta e pode ser controlada por décadas. Ela provoca, entre outros sintomas, disfunção erétil e incontinência urinária. Há ainda a ALD entre mulheres, que é ainda mais rara, e mais branda, a qual provoca perda de equilíbrio e coordenação, além de fraqueza nas pernas. Há, contudo, casos completamente assintomáticos, podendo ocorrer grande diversidade de fenótipos em uma mesma família. CÉREBRO GLÂNDULAS ADRENAIS Diagnóstico A X-ALD é diagnosticada com base na idade e intervalo entre o surgimento dos sintomas. Quando existem suspeitas de X-ALD, deve ser realizada dosagem de VLCFA. Estas suspeitas consistem em identificação dos sinais e sintomas característicos de cada faixa etária. O diagnóstico pré-natal de indivíduos afetados por X-ALD é realizado através da verificação dos níveis de VLCFA ou estudo citogenético e ou molecular de vilosidade coriônica. Contudo, devido a não associação entre genótipo e fenótipo e descrição de indivíduos com deleção da região Xq28 e ausência de sinais clínicos, sua indicação é controversa. Quando um paciente com X-ALD é diagnosticado, deve-se informar à família a possível identificação de outros portadores. É relativamente fácil identificar portadores do sexo masculino através da dosagem de VLCFA em plasma sanguíneo. A detecção de casos na família é importante para: • permitir a detecção de mais outros casos de X-ALD; • o tratamento dos assintomáticos ou apenas casos sintomáticos, evitando o surgimento dos sintomas; • a detecção de portadoras com risco de recorrência na família; • fornecer aconselhamento genético e diagnóstico pré-natal para sujeitos em risco. Entretanto, o diagnóstico das portadoras é mais complicado, devido à inativação não-randômica do X. Deve- se avaliar o nível plasmático de VLCFA de todas as mulheres com portadores de X-ALD na família; caso o resultado seja normal, deve ser feita a dosagem em fibroblastos. A probabilidade de uma mulher exibir padrões normais de VLCFA em plasma e fibroblastos e ser portadora é de aproximadamente 7%. O ideal, nestes casos, é a realização de análise molecular, contudo, esta só é informativa quando a mutação do caso-índice é conhecida ou quando a família é informativa para análise de ligação. Além disso, 20 a 50% das portadoras são sintomáticas (os sintomas nas mulheres portadoras costumam ser semelhantes aos da adrenomieloneuropatia), devendo receber acompanhamento clínico regular. A opinião do radiologista sobre um exame de ressonância magnética de encéfalo também é crucial para a condução clínica. Na apresentação típica da ADL ligada ao X, associada com sintomas de insuficiência adrenal, é de diagnóstico relativamente fácil para o radiologista experiente em doenças do sistema nervoso central (SNC), o que aumenta a responsabilidade da sua identificação. Recentemente, os bons resultados obtidos com o tratamento por transplante de medula óssea, quando o diagnóstico é feito precocemente, tornaram ainda mais importante o papel da imagem. Tratamentos A adrenoleucodistrofia é uma doença que exige um tratamento multidisciplinar, ou seja, são necessárias diversas especialidades da saúde no acompanhamento do paciente – como enfermeiros, fisioterapeutas, fonoaudiólogas e psicólogos. A intervenção da fisioterapia na adrenoleucodistrofia deve acontecer desde o diagnóstico da doença. Nas manifestações da enfermidade nota-se mudanças no tônus do corpo da criança, nos movimentos, marcha, fala, habilidades para comer, visão, audição, comportamento, memória e processos mentais, e, a partir de então, o trabalho fisioterapêutico torna-se paliativo. A terapia curativa/preventiva é composta pela dietoterapia que compreende a restrição de alimentos que contenham AGCML. O primeiro tratamento proposto para X-ALD consistia em dieta com baixa ingestão de VLCFA. Os resultados da utilização desta dieta não foram eficientes, permitindo à doença, rápida progressão. Outra proposta terapêutica foi a de combinar a dieta combaixa ingestão de VLCFA com a ingestão de ácido oléico monossaturado (GTO). Esta conseguiu reduzir os níveis plasmáticos de C26:0 em até 50%. Posteriormente, propôs-se a adição de ácido erúcico monossaturado (GTE) ao GTO, na proporção de 4:1 (mistura conhecida como Óleo de Lorenzo), ainda aliada à baixa ingestão de VLCFA, permitindo a normalização dos níveis de C26:0 no prazo de até um mês. Avaliações posteriores, no entanto, questionaram o efeito do tratamento com Óleo de Lorenzo, em alguns pacientes, demonstrando sua ineficiência em impedir o progresso dos sintomas neurológicos. Uma avaliação mais precisa da eficiência do Óleo de Lorenzo é praticamente inviável devido a questões éticas. Estima-se que 30 a 40% dos pacientes pré-sintomáticos avaliados desenvolveriam os sintomas, sendo possível reduzir para 10% com seu uso. Atualmente, recomenda-se o emprego do Óleo de Lorenzo, dieta com baixo teor de VLCFA e o consumo de ácido linoléico e ácido linolênico. Estes podem ser obtidos do óleo de soja e óleo de peixe. Um melhor prognóstico e progresso lento dos sintomas foram obtidos através desta terapia. Em geral, uma dieta com baixos teores de VLCFA, pode ser obtida utilizando: leite desnatado, carne bovina ou suína magra, frango (exceto pele), frutas e vegetais. Deve-se evitar: suplementos com multivitaminas minerais (fontes essenciais de ácidos graxos – gorduras saturadas), como gordura industrial (manteiga, creme de leite, leite integral, sorvete), gordura de carnes e derivados e óleo vegetal. Outras terapias foram propostas para o tratamento da X-ALD, como o transplante de medula óssea e a imunossupressão. O transplante de células-tronco hematopoiéticas (TCTH) só apresenta resultados satisfatórios se realizado no início dos sintomas neurológicos, quando a RM revela desmielinização inflamatória, mas quando a doença cerebral é ainda tão baixa que o paciente não manifesta doença clinicamente óbvia. Assim, é necessário que os profissionais de saúde sejam capazes de identificar sinais e sintomas da doença, uma vez que ela pode levar rapidamente a um estado vegetativo ou a óbito logo após as primeiras manifestações neurológicas. Outras doenças associadas a lipídios Os lipídios – ou moléculas de gordura – são encontrados em grande quantidade e variedade no SNC e desempenham funções importantes: controlam a fluidez das membranas celulares e formam uma espécie de capa chamada bainha de mielina, que envolve os axônios nos neurônios e facilita a transmissão de impulsos elétricos. Alterações no metabolismo lipídico em neurônios estão associadas ao envelhecimento e ao aparecimento de doenças neurodegenerativas. Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) Doença que afeta o sistema nervoso de forma degenerativa e progressiva e acarreta em paralisia motora irreversível. Pacientes com a doença sofrem paralisia gradual e morte precoce como resultado da perda de capacidades cruciais, como falar, movimentar, engolir e até mesmo respirar. O físico britânico Stephen Hawking, morto em 2018, foi um dos portadores mais conhecidos mundialmente da ELA. https://antigo.saude.gov.br/#Esclerose%20Lateral%20Amiotr%C3%B3fica Não há cura para a Esclerose Lateral Amiotrófica. Com o tempo, as pessoas com doença perdem progressivamente a capacidade funcional e de cuidar de si mesmas. O óbito, em geral, ocorre entre três e cinco anos após o diagnóstico. Cerca de 25% dos pacientes sobrevivem por mais de cinco anos depois do diagnóstico. A descrição do seu nome, Esclerose Lateral Amiotrófica, significa: Esclerose - endurecimento e cicatrização. Lateral - endurecimento da porção lateral da medula espinhal. Amiotrófica - fraqueza que resulta na redução do volume real do tecido muscular, atrofia. A ELA é uma das principais doenças neurodegenerativas ao lado das doenças de Parkinson e Alzheimer. A idade é o fator preditor mais importante para a sua ocorrência, sendo mais prevalente nos pacientes entre 55 e 75 anos de idade. Desde 2009, o Ministério da Saúde, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), oferece assistência e medicamentos gratuitos, de forma integral, aos pacientes com essa doença, com base no que está cientificamente comprovado. Ainda não existem evidências em nível mundial de tratamento que levem à cura da doença. Por ser um distúrbio progressivo, a ELA envolve a degeneração do sistema motor em vários níveis: • Bulbar • Cervical • Torácico • Lombar A incidência da ELA - Esclerose Lateral Amiotrófica (média cerca de 1 / 50, 000 por ano) e prevalência (média cerca de 1 / 20, 000) são relativamente uniformes nos países ocidentais, apesar de terem descritos focos de maior frequência no Pacífico Ocidental. No geral, há uma ligeira preponderância do sexo masculino (razão entre homens e mulheres de cerca de 1,5:1). Leucodistrofia Metacromática É uma doença de armazenamento autossômica recessiva causada pela deficiência da enzima lisossomal aril- sulfatase, responsável pela degradação dos sulfátides (glicolipídios que contêm um grupo sulfato). Isto leva ao acúmulo desta substância em macrófagos no sistema nervoso central e em células de outros órgãos. O gene para aril-sulfatase foi mapeado ao cromossomo 22q13, e mais de 40 mutações já foram identificadas. Descrevem-se formas infantil tardia (início entre 1 e 3 anos de idade), juvenil (início na infância tardia/ adolescência) e adulta (início entre 20 e 30 anos). A incidência na população é entre 1:40.000 e 1:100.000. Homozigose para as mutações abole a função da enzima completamente, causando as formas infantis. Mutações ‘missense’ reduzem a atividade enzimática a 3 – 5 % do normal, e são responsáveis pelas formas adultas. Pacientes heterozigotos para uma mutação ‘null’ e uma mutação ‘missense’ podem desenvolver o fenótipo juvenil. Clinicamente, na forma infantil há ataxia, disartria, disfagia, disfunção cognitiva, com progressão ao óbito após vários anos. Na forma adulta predomina quadro psiquiátrico, com alterações de comportamento e psicose, devido ao predomínio do acometimento frontal. Doença de Krabbe (Leucodistrofia de células globóides) É uma doença autossômica recessiva que se manifesta no primeiro ano de vida. As crianças nascem normais, mas aos 4 a 6 meses desenvolvem sintomas neurológicos, como falta de aquisições motoras, hiperirritabilidade, hipersensibilidade a estímulos, hipertonia, atrofia óptica e severa deterioração mental. Dificilmente a sobrevida ultrapassa 2 anos. A incidência da forma infantil é de 1:100.000 a 1:200.000. Há envolvimento do sistema nervoso central e de nervos periféricos, mas não de outros órgãos. Reconhecem-se raras formas tardias: juvenil (início aos 3 a 10 anos) e adulta (início na 3ª. a 5ª. décadas). O gene foi mapeado ao cromossomo 14q25-31. Mais de 65 mutações já foram descritas. Há deficiência da enzima lisossomal galactosil-ceramidase (ou galactocerebrosídeo – beta – galactosidase) levando a acúmulo do intermediário galactosil-esfingosina ou galactocerebrosídeo, ou psicosina, que é tóxico a neurônios, oligodendrócitos e células de Schwann. Radiologicamente há lesões periventriculares simétricas hiperintensas em T2. Em estágios avançados pode haver atrofia cerebral. Leucodistrofia de Pelizaeus-Merzbacher O nome ‘Doença de Pelizaeus-Merzbacher’ (leucodistrofia hipomielinizante) já foi usado para descrever 5 tipos de leucodistrofias sudanófilas, com quadros clínicos e anormalidades anatômicas semelhantes, mas diferindo pela idade de início, taxa de progressão e transmissão genética. A forma clássica tem herança recessiva ligada ao sexo. Pacientes apresentam já nos primeiros meses com movimentos nistagmóides dos olhos, retardo do desenvolvimento motor, espasticidade e movimentos involuntários. O curso é lento e pode parecer estático, levando ao diagnóstico de ‘paralisia cerebral’. Morte ocorre no fim da adolescência ou início da idade adulta.Na forma conatal a herança pode ser recessiva ligada ao sexo ou autossômica, assim também meninas podem ser afetadas. Os sinais podem estar presentes já ao nascimento ou iniciar-se precocemente no período pós- natal. Além dos movimentos nistagmóides e hipercinesia extrapiramidal, desenvolve-se espasticidade, atrofia óptica e convulsões, com morte no início da infância. Todas formas da doença parecem resultar de anormalidades (duplicação ou deleção) do gene PLP1 no cromossomo Xq22, codificando a proteína proteolipídica 1 (proteo-lipid protein, PLP), a principal proteína das membranas da baínha de mielina do sistema nervoso central, e sua isoforma DM20. Há mais de 40 mutações identificadas, a maioria levando a duplicação do gene. Outras são mutações pontuais. Há correlação genótipo- fenótipo, com as duplicações associadas a fenótipo menos grave. Pacientes com a forma clássica têm na maioria duplicação do gene e aumento da PLP1. A proteína acumula-se no retículo endoplasmático devido a falha no dobramento da molécula. A DM20 chega à superfície celular, assim a mielina pode formar-se parcialmente. Pacientes com mutações pontuais do gene têm a forma mais severa. Leucodistrofias sudanófilas ou ortocromáticas Estas constituem um grupo heterogêneo e temporário, em que vários casos esporádicos ou familiais são incluídos por falta de diagnóstico genético preciso. Não correspondem a uma entidade nosológica definida ou separada. O critério é puramente anátomo-patológico, na falta de definição patogenética. Alguns casos são infantis, apresentando-se antes da idade de 5 anos, com curso rápido. Há também casos em adultos com evolução arrastada, e representam as leucodistrofias mais comuns do adulto. As lesões envolvem só o sistema nervoso central, com desmielinização difusa, mal definida e irregular, tendendo a predominar nos lobos frontais e causando sintomas psiquiátricos. A reação macrofágica é discreta, há freqüente envolvimento axonal e não há reação inflamatória. Leucodistrofia de Alexander A doença de Alexander, descrita em 1949, é uma doença autossômica dominante rara, mas mutações novas são tão comuns que o padrão de herança se aproxima do de uma doença esporádica. Há formas infantil, juvenil e adulta. Na forma infantil o início é no 1º. ou 2º. ano de vida com óbito em 1 a 10 anos. Crianças mostram retardo no desenvolvimento neuropsicomotor, megalencefalia, convulsões, espasticidade e quadriparesia. Não há testes laboratoriais que permitam o diagnóstico, que só é possível em exame histológico. A doença é devida a mutações no gene para proteína glial ácida fibrilar (GFAP), o filamento intermediário próprio dos astrócitos, localizado no cromossomo 17q21-31. Há produção excessiva de GFAP, levando à formação de abundantes fibras de Rosenthal, e desmielinização difusa ou focal secundária. Radiologicamente, há lesões desmielinizantes simétricas com predomínio frontal. Pode haver degeneração cística, alargamento dos giros e tumefação da substância branca. Fibras arqueadas em U subcorticais não são poupadas. Há relativa preservação do córtex cerebral, cerebelo e tronco cerebral. Não há envolvimento de nervos periféricos ou outros órgãos. Na microscopia chama a atenção o grande acúmulo de fibras de Rosenthal, especialmente em localizações subpial, subependimária e perivascular. Astrócitos reacionais podem mostrar grânulos hialinos no citoplasma, correspondendo a fibras de Rosenthal em miniatura. Há extensa perda das baínhas de mielina da substância branca cerebral, por vezes chegando a cavitação. Em microscopia eletrônica, as fibras de Rosenthal são formadas por material homogêneo amorfo e eletrodenso, circundado por filamentos intermediários com 10 nm de espessura. Para ver exemplos em astrocitoma pilocítico, clique. Em imunohistoquímica, a periferia das fibras de Rosenthal é positiva para alfa-B- cristalina, GFAP, ubiquitina e proteína de choque térmico 27 Kd. Leucodistrofia de Canavan Doença autossômica recessiva, com gene localizado no cromossomo 17p13,2, que codifica a enzima aspartato- acilase. Esta é necessária para o catabolismo do N-acetilaspartato (NAA), e sua falta leva ao acúmulo deste. Há predomínio em populações judias. A freqüência de portadores de gene é 1 : 37,7 e a de doentes 1:5000. O início dos sintomas é quase sempre no período pós-natal, entre 10 semanas e 4 meses. Excepcionalmente afeta crianças mais velhas. Há perda da fixação e acompanhamento visual, dificuldade na sucção, irritabilidade, perda do controle da cabeça (por atonia da musculatura cervical), macrocefalia e convulsões. Sobrevida de meses a anos. Leucodistrofia de van der Knaap (Leucoencefalopatia megalencefálica com cistos subcorticais e alterações clínicas suaves) Esta doença autossômica recessiva é caudada por mutações no gene MLC1 no cromossomo 22qtel, que codifica uma presumível proteína de membrana. A doença é notável pelo contraste entre a sintomatologia neurológica discreta e anormalidades radiológicas severas. Pode haver macrocefalia no primeiro ano de vida. Mais comumente, os sintomas apresentam-se o segundo ano de vida por retardo no desenvolvimento neuropsicomotor e lenta deterioração neurológica, disartria e ataxia. O perímetro cefálico estabiliza após o primeiro ano e depois segue a curva normal. A maioria dos pacientes necessita cadeira de rodas aos 8 a 10 anos, mas alguns conseguem andar curtas distâncias sem suporte até os 12-13 anos. Uma minoria desenvolve crises convulsivas controláveis por medicação. Deterioração cognitiva lentamente progressiva se instala a partir do meio da infância. Estudos patológicos mostram uma mielinopatia vacuolizante em que as camadas externas das baínhas de mielina estão delaminadas, mas as internas não são afetadas. Os axônios estão preservados. Estudos de imagem são notáveis pela ausência quase completa de mielina na substância branca subcortical. A substância branca central é poupada, particularmente no corpo caloso e lobos occipitais. A substância branca periférica parece tumefeita, com alargamento dos giros. Uma feição característica são cistos subcorticais nos lobos frontais e temporais. A substância branca cerebelar é menos afetada, mas pode haver hipersinal em T2 nos casos mais graves. Os aspectos radiológicos são semelhantes aos da doença de Canavan, sendo a diferenciação baseada em critérios clínicos (início no primeiro ano na doença de Canavan, segundo ano na doença de van der Knaap); envolvimento do globo pálido e tálamo quase sempre presente na doença de Canavan, ausente na doença de van der Knaap; espectroscopia de prótons mostrando grande pico de NAA no Canavan, pequeno ou ausente na doença de van der Knaap, e restrição à difusão – reduzida no Canavan, aumentada na van der Knaap. Leucodistrofia associada a distrofia muscular congênita por deficiência de merosina Distrofias musculares congênitas são um grupo heterogêneo caracterizadas por hipotonia, fraqueza, freqüentemente contraturas congênitas (artrogripose) e alterações distróficas do músculo em biópsias. Parte dos pacientes tem anormalidades confinadas aos músculos, mas em outros também há anormalidades nos olhos e cérebro, podendo ser divididos em 3 grupos: • com ressonância magnética normal, sem sinais ou sintomas neurológicos; • pacientes com sinais ou sintomas neurológicos que mostram mielinização anormal, mas com córtex cerebral e cerebelar normais. Quase todos estes pacientes têm deficiência de merosina, um componente da membrana basal das fibras musculares. • pacientes com sinais ou sintomas neurológicos em que os estudos de imagem mostram malformações corticais associadas. A distrofia muscular congênita por deficiência de merosina parece ter herança recessiva, resultando em mutação do gene lamina-alfa-2 (LAMA2) no cromossomo 6q22-23. Pacientes são hipotônicos e fracos desde o nascimento epodem ter artrogripose, resultante da diminuição dos movimentos fetais in útero. Reflexos tendíneos estão diminuídos e o desenvolvimento motor é retardado. Inteligência é normal, mas pode estar um pouco diminuída. Pode haver convulsões, pouco comuns. Há aumento dos níveis de creatina quinase até cerca de 1000 unidades/litro. A ressonância magnética mostra retardo da mielinização ou hipomielinização na substância branca central do cérebro. Pode haver discreta hipoplasia do vermis cerebelar e da ponte. O diagnóstico é feito pela combinação destes achados com a biópsia muscular, associados aos dados clínicos. O motivo das alterações da mielina não é claro. Há evidência recente de que a falta de laminina altera as vias bioquímicas que promovem a maturação dos oligodendrócitos. Laminina é uma glicoproteína de múltiplos domínios, formada por 3 cadeias polipeptídicas (alfa, beta e gama) associadas por pontes dissulfídicas na forma de uma cruz assimétrica. A haste vertical da cruz é formada pela cadeia alfa. As cadeias beta e gama enrolam-se em espiral em torno da parte inferior da haste e formam cada uma um dos braços da cruz. A laminina é componente essencial da membrana basal em associação com outras moléculas, como colágeno IV, perlecan e nidogen. Os receptores na membrana celular para as moléculas da membrana basal são da família das integrinas. Outro importante receptor (ponto de ancoragem) para a laminina é a proteína transmembrana distroglican que, juntamente com as integrinas, ajuda a organizar a montagem da membrana basal. O termo merosina é usado para a laminina 2. S-merosina é sinônimo de laminina 4. A cadeia alfa-2 entra na constituição das lamininas 2 e 4. Referências Furlan, Fernanda L. S. et al. Adrenoleucodistrofia ligada ao X no Brasil: Uma série de casos. Revista Paulista de Pediatria. 2019, v. 37, n. 4, pp. 465-471. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1984-0462/;2019;37;4;00015. Acesso em: 9 out. 2021. Santos, Antonio C. Adrenoleucodistrofia ligada ao X: diagnóstico e quantificação da progressão. Revista: Radiologia Brasileira. 2014, v. 47, n. 6, pp. 7-8. 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