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A VOCAc;AO MEDICA*
Paulo Correa Vaz de Arruda
Luiz Roberto Millan
INTRODU<;AO
o vocabulo "vocac;ao" vem do latim vocatio**. E a tendencia, propensao ou
inclinac;ao para qualquer oficio, profissao, etc; indole, talento, clisposic;aonatural do
espfrito; escolha, eleic;ao,chamamento, predestinac;ao. 0 sentido original da palavra
. vocac;aq e teol6gico, pois temsido designado assim 0 chamamento pelo qual Deus
destina urn homem a uma func;ao determinada. Essa concepc;ao deu origem aos
significados modernos, tanto aos que sao de uso na linguagem corrente como aos que
se empregam em tecnica cientffica e psicol6gica.
Compreende-se, de modo geral, como 0 conjunto das caracterfsticas de uma
personalidade, em virtude das quais urn individuo e mais apto a exercer determinada
func;ao e nao outra. Ulrimamente, tem-se realizado numerosos estudos no sentido
de se evitarem os desajustamentos provocados pela atuac;aode inclividuos em fun<;oes
inadequadas a seu ripo de personalidade (Arruda e Col. 1998).
Os problemas tecnicos acerca da vocac;ao podem ser classificados em duas
grandes categorias: a dos que tern por finalidade resolver qual e a melhor profissao
para um determinado individuo; e a dos que vieram a decidir qual e, dentro de urn
grupo de individuos, 0 melhor para determinada profissao. Os problemas do
primeiro grupo sac designados como orienta<;ao profissional. Na orientac;ao
pro fissional, parte-se de urn individuo para encontrar uma profissao qqe lhe
convenha; na sele<;aopro fissional, parte-se de uma dada profissao para encontrar
o individuo que possa exerce-Ia.
* Esse tema tambem e abordado no Capitulo 4 deste livro.
** Ellcic/opMia Bmrileira Mento, vol. 20, pr. 447, Porto Alegre, 1964.
A QUESTAO DA ORIENTA<;AO PROFISSIONAL
Diante de uma serie de dificuldades que atualmente envolvem a escolha da
profissao de urn jovem em uma sociedade, orientas:ao vocadonal e urn campo que se
vem arnpliando, tanto no ambito te6rico,como tambem no pratico.Novas publicas:oes
tern surgido, rnostrando a complexidade no campo da orienta~ao vocacional: urn
campo que era visto de maneira mednica e simplista, fundarnentado na antiga visao
psicometrica e adivinhat6ria da escolha da profissao, foi substituido por uma
abordagem dinamica e profunda que leva em conta tanto os fatores individuais
(consdentes e inconscientes), quanto os fatores da realidade socioecon6rhica e cultural,
atraves de diversos tipos de abordagem sobre 0 assunto.
Bohoslavsky (1971) lembra que a funs:ao do orientador vocadonal e auxiliar 0
jovern a: chegar a urna dedsao responsavel e nao lhe ruzer, de forma paternal, qual deve
ser a sua escolha. Para ele, as carreiras e profissoes requerem potendalidades que nao
SaGespedficas e que podem modificar-se no transcorrer da vida. 0 prazer no estudo
e na profissao depended. do tipo de vinculo que se estabelece com eles; 0 vinculo, por
sua vez, depende da personalidade. A realidade sociocultural muda incessantemente,
sendo que as carreiras, as especializa~6es e os campos de trabalho renovam-se
continuamente. No transcorrer da orienta~ao vocacional, 0 psic610godeve esclarecer e,
informar, e 0 adolescente deve desempenhar urn papel ativo nesse processo. Afirrna,
com razao, que "ninguem pode predizer 0 sucesso, a menos que seja entendido
cornoa possibilidade de superar obstaculos com maturidade".
Quando a escolha vocacional diz respeito a Medicina, a visao atual deve ser bem
aclarada. Antigamente, a Medicina era considerada eminentemente como urna "arte",
urn conjunto de conhecimentos pragmaticos e de receitas.Na atualidade,ela esta em vias
de vir a ser a ciencia das ciencias.Todas as cienciasvao, gradativamente, convergir para a
sua elevas:ao.Desprezada por aqueles de visao mais estreita, a Medicina esci em vias de
demonstrar que a cienciado homem e aprimeira de todas as ciencias:e aquela que deve
resumir todas. Dia ap6s dia,agrega ao seu imperio a higiene,a etnografia, a antropologia,
a demografia, a psicologia, a engenharia biol6gica, a fisicamolecular e a filosofia.Neste
instante, ela esci pedindo conselhos as ciendas espadais. Este e urn dos aspectos mais
fascinantes que ela oferece, mas que a grande maioria dos estudantes, ao ingressar nas
escolas medicas, desconhece: ela oferece mUltiplas vias de adapta~ao. Dai a grande
dificuldade da sele~ao vocacional, redundando verdadeiros desastres quando esta e
realizada apenas atraves das aferi~6escognitivas.fu escolhas atraves dos diferentes tipos
de arquetipos (Cunha, 1997), a analiseetnografica e os testes projetivos talvez sejam, ao
lado das entrevistas, as melhores maneiras de captar aquilo que se denomina, ainda,
como voca~ao medica.
Nao devemos esquecer nunca que a Medicina e a Filosofia SaGirmas e vivem
sempre juntas: "sob a pele de urn medico, digno desse nome, esci sempre urn £16sofo"
(pacheco e Silva, 1962).A Filosofia tern por objeto fundamental a pesquisa da verdade.
Infelizmente, na maioria das vezes, somente no firnda carreira 0 medico se consdentiza
de que a Medieina, como todas as dencias, exige urn born preparo ftlos6fico.
o sucesso do jovern na carreira que escolheu e seu ajustamento futuro a ela
dependem, em grande parte, da escolha inieiaImente ftita. Se esta civersido adequada,
suas probabilidades de adapta<;ao e Sucesso no exerdcio profissional serao maiores. Se,
por outro lado, a escolha foi inadequada, 0 ajustamento e mais dificil, e quase sempre
e conseguido atraves da mudan<;a de area pro fissional ou de especialidade. Nao podemos
nos esquecer de explorar tal situac;:aoem que 0 individuo se acomoda a determinada
profissao apenas por medo de mudan<;as.
AS CONTRIBUIC;OES DE PACHECO E SILVA
o problema da voca<;ao medica e da sele<;ao profissional tem sido tema de
uma serie de trabalhos apresentados em semimlrios e congressos no pais e no
estrangeiro. Quem primeiramente abordou e lutou pela implanta<;ao de criterios
s6lidos para a sele<;ao de medicos em nosso meio foi Pacheco e Silva (1962). Ja em
1951, apresentou urn trabalho a Congrega<;ao da FMUSP, cujos t6picos principais
fazemos questao de resumir.
Reconhecendo-se a importancia e a necessidade imperiosa de se pro ceder a
seIe<;aodos que revelam voca<;aomedica, em quase todos os paises do mundo, na
Fran<;a,na Inglaterra, nas na<;6esda Europa Central, nos Estados Unidos, na Russia,
escio hoje sendo aplicados varios metodos com 0 objetivo de se escolherem os
mais dotados, de vez que, em toda a parte, como entre n6s, 0 numero dos que
pleiteiam matrkula nas escolas mcdicas e muito superior ao das vagas ex.istentes.
Na Inglaterra, 0 Instituto Britanico de Opiniao Publica, num inquerito realizado
em 1945, apurou que 7,5% dos pais ingleses desejariam que seus fJlhosabra<;assem
a carreira medica.
o problema nao deixade ser complexo, como assinalou um dos que mais
se tem dedicado a esses estudos, 0 Professor Lucien Comil, Diretor da
Faculdade de Medicina de Marselha, ao escrever: "0 problema da se1e<;aodos
estudantes de Medicina, muito embora se integre no quadro da se1ec;aodas
profiss6es liberais, dele se destaca em varios pontos, 0 que vem multiplicar,
sob 0 ponto de vista pratico, as dificuldades de uma tal realizac;ao".
Dentre todos os paises, um dos que mais se tem preocupado com a se1ec;ao
dos estudantes de Medicina e sem duvida a Inglaterra.
Ha 40 anos pass;dos, Sir Clifford Allbutt ponderou que 0 medico
devidamente preparado e aqude em quem se acham combinadas "instruc;ao
real e pratica, que esta provido de destreza tecnica, versatilidade e iniciativa,
bem como iluminado por ideias e guiado pdo discernimento mental e
imaginativo que nasce de uma educac;ao ampla, deliberada e inventiva". Anos
depois, retomando as ideias de Allbutt, Georges Newman, num trabalho
intitulado "Some Notes on Medical Education in England", resumiu os
requisitos que, no seu entender, deveria possuir um futuro medico, salientando
que nele "necessitamos de um homem de carater elevado, capaz e disposto a
manter a verdadeira dignidade de uma grande profissao, a viver a altura das
elevadas tradic;6es
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