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Pedagogia da Educação infantil Prof.ª Larissa Marine Souza 2 AS PRINCIPAIS CONCEPÇÕES TEÓRICAS DA EDUCAÇÃO INFANTIL: RELAÇÃO TEÓRICO-PRÁTICA O CONSTRUTIVISMO DE PIAGET INTRODUÇÃO […] é na medida em que nós nos adaptamos aos outros que tomamos consciência de nós mesmos. É na medida em que descobrimos que os outros não nos compreendem espontaneamente, e que nós, da mesma forma, não os compreendemos, que nos esforçamos para modelar nossa linguagem de acordo com os mil acidentes que criam essa inadaptação, e que nos tornamos aptos para a análise simultânea dos outros e de nós mesmos. (PIAGET, 1967, p. 201). Quem nunca ouviu falar de Jean Piaget, não existe, não é mesmo? E de sua teoria, a Epistemologia Genética, o que você sabe? Já ouviu falar em construtivismo? Vamos relembrar um pouco. No Caderno de Estudos da disciplina Psicologia Geral e do Desenvolvimento, você estudou os princípios do desenvolvimento cognitivo de Piaget e os estágios do desenvolvimento. Já no caderno da disciplina de Psicologia da Educação e Aprendizagem, você estudou sobre a concepção construtivista, sobre os conceitos de assimilação e acomodação, sobre o processo de equilibração e sobre o erro no processo de aprendizagem. Você está lembrado(a)? Neste tópico iremos conhecer um pouco mais sobre a vida de Piaget e sobre a teoria construtivista. Embarque nesta viagem e venha desvendar conosco os principais conceitos desta teoria. JEAN WILLIAM FRITZ PIAGET (1896-1980) Primeiramente, vamos conhecer um pouco mais sobre a vida de Jean Piaget, com base nos textos de Munari (2010), Ferreiro (2001) e Ferrari (2012). 3 FIGURA 31 – PIAGET FONTE: Disponível em: <http://pedagogia.tripod.com/infantil/ piaget.htm>. Acesso em: 12 maio 2012. Piaget nasceu em 9 de agosto de 1896, em Neuchâtel na Suíça. Iniciou seus estudos na área de biologia, depois psicologia, epistemologia e educação. Foi professor da Universidade de Genebra por 25 anos, escreveu mais de cinquenta livros, tornando-se conhecido no mundo todo pelos seus estudos. Seu primeiro livro, “A linguagem e o pensamento na criança”, foi publicado em 1924. Morreu em 1980 em Genebra, na Suíça. Casou-se com Valentine Châtenay, com quem teve três filhos: Jacqueline, Lucienne e Laurent. A infância de seus três filhos foi a grande fonte de observação de suas pesquisas, o que chamou de “ajustamento progressivo do saber". FIGURA 32 – PIAGET E SUA FAMÍLIA FONTE: Disponível em: <http://revistaescola.abril.com.br/formacao/ formacao-continuada/esquemas-acao-piaget-sujeito-epistemico- jean- 617999.shtml?page=2>. Acesso em: 14 maio 2012. http://pedagogia.tripod.com/infantil/ http://revistaescola.abril.com.br/formacao/ 4 Piaget sempre foi um grande observador. Já aos onze anos realizou o seu primeiro trabalho científico, resultado da observação de um pássaro em uma praça da cidade onde morava. A partir da sua formação em biologia, iniciou suas pesquisas sobre o desenvolvimento do conhecimento nos seres humanos, a Epistemologia Genética, procurando responder de que forma a inteligência era desenvolvida. Com apenas quinze anos já havia publicado seus trabalhos em importantes revistas da época. Piaget sentia-se seduzido ao realizar pesquisas científicas. Perceba, na força de suas palavras, a paixão que tinha pelas pesquisas: Esses estudos, por prematuros que fossem, foram de grande utilidade para minha formação científica; além disso, funcionaram, poderia dizer, como instrumentos de proteção contra o demônio da filosofia. Graças a eles, tive o raro privilégio de vislumbrar a ciência e o que ela representa antes de sofrer as crises filosóficas da adolescência. Ter tido a experiência precoce destes dois tipos de problemática constituiu, estou convencido, o motivo secreto da minha atividade posterior em psicologia. (PIAGET, 1976, p. 3). Para Piaget, o método científico era a única forma de acesso ao conhecimento e, por isso, procurou inseri-lo na escola. Muito animado com este novo projeto, foi para Paris trabalhar nos laboratórios de Binet, onde descobriu a riqueza do pensamento infantil. Foi nesta época que ele elaborou o seu método crítico de interrogação da criança, buscando compreender de forma sistemática os processos lógico-matemáticos do raciocínio da criança. FIGURA 33 – PIAGET ESTUDANDO FONTE: Disponível em: <http://sergioflima.pro.br/blogs/index.php/ sergio-blog/nao-faca-isto-em-casa>. Acesso em: 18 mar. 2012. Em Paris, Piaget centrou suas pesquisas em crianças hospitalizadas, porém, quando se mudou para Genebra, iniciou seus estudos na escola Casa das Crianças do Instituto Jean-Jacques Rousseau, dedicando-se ao desenvolvimento e aperfeiçoamento dos sistemas e práticas educativas, e depois nas escolas primárias de Genebra, investigando as crianças em sua vida no dia a dia. Não estando muito http://sergioflima.pro.br/blogs/index.php/ 5 interessado com a educação, mudou-se para Neuchâtel onde foi substituir seu antigo professor. Em 1929, em Genebra, assumiu o cargo de diretor do Bureau Internacional de Educação (BIE), o que fez com que percebesse os elementos político-sociais que permeiam as ações educacionais, permanecendo na função até 1968. Durante todos esses anos, Piaget redigiu o “Discurso do Diretor”, coleção esta com aproximadamente 40 textos, nos quais se encontravam os elementos básicos das suas propostas educacionais, atribuindo grande importância à educação. Para Piaget (1934 apud MUNARI, 2010 p. 17), “[...] somente a educação pode salvar nossas sociedades de uma possível dissolução, violenta ou gradual”. No período da Segunda Guerra Mundial, Piaget declarou: “Após os cataclismos que marcaram estes últimos meses, a educação constituirá, uma vez mais, o fator decisivo não só da reconstrução, mas, inclusive e sobretudo, da construção propriamente dita” (PIAGET, 1940 apud MUNARI, 2010, p. 17), demonstrando que acreditava na força da educação para ultrapassar as diferenças ideológicas e políticas da época. Piaget não foi um pedagogo, mas foi um nome muito influente na educação e dedicou a sua vida à pesquisa do processo de aquisição do conhecimento pela criança. Para ele o desenvolvimento do pensamento infantil se dá em quatro estágios (que veremos mais adiante), desde o nascimento até o início da adolescência. Suas descobertas tiveram grande impacto no campo educacional, principalmente quando se referia à transmissão de conhecimentos que, segundo Piaget, dependiam de dois fatores: A TEORIA CONSTRUTIVISTA DE PIAGET A teoria de Piaget é bastante complexa e resulta de muitos anos de pesquisa e dedicação ao estudo do desenvolvimento da inteligência da criança. Neste caderno não detalharemos sua obra, mas traremos aspectos importantes de sua teoria, que consideramos necessários para seu conhecimento: - Fases do desenvolvimento - Organização e adaptação - Assimilação e acomodação - Esquemas (estruturas mentais) - Equilibração 6 Caso você tenha interesse em aprofundar-se nos estudos sobre Piaget, existem diversos livros que apresentam a sua teoria. Exemplos: CUNHA, Maria Auxiliadora Versiani. Didática fundamentada na teoria de Piaget. Rio de Janeiro: Forense, 1973. FARIA, Analia Rodrigues. Desenvolvimento da criança e do adolescente segundo Piaget. São Paulo: Ática, 1989. FURTH, Hans G. Piaget na sala de aula. Rio de Janeiro: Forense, 1986. GORMAN, Richard M. Descobrindo Piaget: um guia para educadores. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1976. NICOLAS, André. Introdução ao pensamento de Jean Piaget. Rio de Janeiro: Zahar, 1978. Sugerimos também alguns livros escritos por Piaget, vale a pena conhecê-los: PIAGET, Jean. Para onde vai a educação? Rio de Janeiro: J. Olympio, 1973.. A linguagem e o pensamento da criança. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1961. . A construção do real na criança. Rio de Janeiro: Zahar, 1975. . O nascimento da inteligência na criança. Rio de Janeiro: Zahar, 1975. . Psicologia e pedagogia. Rio de Janeiro: Forense, 1970. Em seus estudos sobre a Epistemologia Genética, Piaget verificou que o desenvolvimento da criança tem início ainda no período intrauterino e se estende até a adolescência, evoluindo de forma cada vez mais complexa, em etapas sucessivas, ao que chamou de fases ou períodos do desenvolvimento. FIGURA 34 – PERÍODOS DO DESENVOLVIMENTO FONTE: As autoras 7 Dependendo da qualidade das interações de cada sujeito com o meio, as estruturas mentais – condições prévias para o aprendizado [...] – vão se tornando mais complexas até o fim da vida. Em cada fase do desenvolvimento, elas determinam os limites do que os indivíduos podem compreender. (FERNANDES, 2012, p. 1). Vamos conhecer de forma resumida cada um destes períodos? QUADRO 6 – FASES DO DESENVOLVIMENTO PROPOSTAS POR PIAGET PERÍODO IDADE DESCRIÇÃO Período Sensório- Motor 0 a 2 anos Neste período a criança começa a administrar seus reflexos básicos, gerando ações de prazer e desenvolvendo a percepção de si mesma e dos objetos que estão à sua volta. Mama, suga, puxa, prende, pega um objeto e o leva à boca, afasta um objeto para pegar outro etc. É o período que antecede a linguagem. Seu vocabulário vai da repetição de algumas sílabas até a utilização da palavra-frase, representando seu desejo ou sentimento em relação ao objeto. FIGURA 35 – CRIANÇA LEVANDO OBJETO À BOCA FONTE: Disponível em: <http://revistacrescer. globo.com/Revista/ Crescer/0,,EMI298885-16891,00. html>. Acesso em: 16 maio 2012. Período Pré- operatório 2 a 7 anos Este é o período do surgimento da linguagem, do desenho, da imitação, da dramatização etc. A partir dos 2 anos a criança cria imagens mentais do objeto ou da ação, o que chamamos de faz de conta, jogo simbólico ou período da fantasia. Assim, consegue transformar uma simples caixa de fósforos num carrinho, um pedaço de madeira num cavalinho etc. Neste período costuma dar vida aos objetos, colocando a boneca para dormir, ou dizendo que ela está com fome. Pode também dizer que a bicicleta precisa descansar um pouco, ou que o carro da mamãe foi dormir na garagem. Neste período a linguagem é um monólogo coletivo. Todos falam ao mesmo tempo, sem responder ao que o outro está falando. A partir dos 4 anos, já existe um desejo de compreender o que acontece ao seu redor. É a “idade dos porquês”, pois questiona tudo o tempo todo. Já consegue dramatizar a fantasia, mesmo que não acredite nela, distinguindo a fantasia do real. Organiza coleções e conjuntos sem incluir conjuntos menores em maiores. Seu pensamento continua centrado no seu próprio ponto de vista e, em relação à linguagem, já consegue adequar as suas respostas às dos colegas. FIGURA 36 – CRIANÇAS FANTASIADAS FONTE: Disponível em: <http:/ www.juraemprosaeverso.com.br/ FotografiasEDesenhos/Carnaval. htm>. Acesso em: 16 maio 2012. http://revistacrescer/ http://www.juraemprosaeverso.com.br/ 8 Período Operatório Concreto 7 a 11 anos É o período em que a criança desenvolve a noção de tempo e espaço, casualidade, ordem, velocidade etc. Já conserva a noção de número, peso, volume e substância, conseguindo ordenar por tamanho e em conjuntos, compreendendo o mundo de forma lógica ou operatória. Socialmente organiza-se em grupos onde pode ser o líder ou aceitar ser liderado. Consegue compreender e estabelecer regras, estabelecendo compromissos. Já consegue conversar socialmente, porém sem discutir pontos de vista para chegar a um consenso. FIGURA 37 – CRIANÇA MEDINDO FONTE: Disponível em: <http:// www.fvc.org.br/galeria-fotos-25- anos.shtml?ft=8p>. Acesso em: 16 maio 2012. Período Operatório Abstrato 11 anos em diante Este período é o início da fase adulta, em termos cognitivos, onde o adolescente tem domínio do pensamento lógico/dedutivo, relacionando conceitos abstratos e criando hipóteses. A partir deste período, consegue discutir conceitos antes de chegar à conclusão sobre algum assunto. Continua organizando-se em grupo, porém consegue estabelecer relações de cooperação e reciprocidade. FIGURA 38 – JOVENS DISCUTINDO CONCEITOS FONTE: Disponível em: <http:// www.maraba.pa.gov.br/prefeitura- e- ministerio-publico-discutem- politicas-de-protecao-a-crianca-e- ao- adolescente>. Acesso em: 17 maio 2012. FONTE: Adaptado de: Fernandes (2012), Ferrari (2012), Peterson e Felton-Collins (2002) e Munari (2010) De acordo com Piaget (apud PETERSON; FELTON-COLLINS, 2002), existem quatro fatores que auxiliam a criança a passar de um período para o outro: http://www.fvc.org.br/galeria-fotos-25- http://www.maraba.pa.gov.br/prefeitura- 9 FIGURA 39 – FATORES PARA PASSAR DE UM PERÍODO DO DESENVOLVIMENTO AO OUTRO FONTE: As autoras A inteligência, segundo Piaget (1996), é um mecanismo de adaptação do organismo a uma nova situação proposta pelo meio que o cerca, sempre em busca de um equilíbrio. Assim, o desenvolvimento da inteligência ocorre por meio de estímulos e exercícios constantes, podendo ser potencializada através de intervenções cada vez mais complexas. FIGURA 40 – PIAGET OBSERVANDO AS FASES DO DESENVOLVIMENTO FONTE: Disponível em: <http://revistaescola.abril.com.br/formacao/ formacao-continuada/esquemas-acao-piaget-sujeito-epistemico- jean- 617999.shtml>. Acesso em: 15 jun. 2012. http://revistaescola.abril.com.br/formacao/ 10 Para Piaget (1982, p. 18), a atividade intelectual não pode ser separada do funcionamento "total" do organismo. “Do ponto de vista biológico, a organização é inseparável da adaptação: são os dois processos complementares de um mecanismo único, sendo o primeiro o aspecto interno do ciclo do qual a adaptação constitui o aspecto exterior”. Ou seja, a organização, segundo Piaget (1982), é a habilidade do indivíduo de integrar as sensações e os estímulos recebidos, transformando-os e organizando-os em novas estruturas físicas e psicológicas (também chamadas esquemas), aos quais se adapta. Esta adaptação acontece por meio da assimilação e da acomodação. Vamos falar então da assimilação e da acomodação? A assimilação, de acordo com a teoria de Piaget, é a comparação/classificação dos objetos do mundo exterior (estímulos) com os esquemas mentais/cognitivos já existentes. Por exemplo: a criança possui um esquema mental do que é um peixe: vive na água e nada naturalmente, possui escamas, barbatanas, guelras etc. Ao conhecer um tubarão, vai tentar comparar com o esquema mental de peixe que já possui: nada, vive na água, possui guelras, barbatanas. No entanto, vai verificar que o tubarão é um peixe que não tem escamas e, após aprender essa variante, vai adaptar o seu conceito geral de peixe, acrescentando a ele os peixes que não têm escama. A isto chamamos de acomodação. Para Piaget (1996, p. 18), “[...] chamaremos acomodação (por analogia com os "acomodatos" biológicos) toda modificação dos esquemas de assimilação sob a influência de situações exteriores (meio) ao quais se aplicam”. QUADRO 7 – ASSIMILAÇÃO E ACOMODAÇÃO PEIXES FIGURA 41 – PEIXE FONTE: Disponível em: <http:// www.antares.com.br/~cbpds/ salgada.html>. Acesso em: 13 jun. 2012. FIGURA 42 – TUBARÃO FONTE: Disponível em: <http:// noticias.terra.com.br/ciencia/ noticias/0,,OI3791768-EI238,00-Cientista s+descobrem+esconderijo+do+tubarao frade+no+inverno.html>. Acesso em: 13 jun. 2012. CARACTERÍSTICAS COMUNS - nadam; - vivem na água; - possuem guelras; - têm barbatanas etc. VARIANTES - possui escamas;- esqueleto vertebrado (ossos) etc. - pele lisa; - esqueleto cartilaginoso etc. FONTE: As autoras http://www.antares.com.br/~cbpds/ 11 Na teoria construtivista, portanto, a acomodação acontece quando a criança não possui uma estrutura mental ou cognitiva da nova informação ou estímulo, quando não consegue assimilar o que lhe foi apresentado (PIAGET, 1996). A partir desta dificuldade, a criança modifica um esquema já existente, como aconteceu no exemplo anterior, no qual a criança modificou o seu esquema mental em relação ao peixe após ser confrontada com uma variação do que já conhecia, ou cria um novo esquema, pelo fato de a informação não corresponder a nada que já conheça. Após ter acomodado a nova informação, assim que estiver frente a um estímulo parecido, fará a assimilação com a nova estrutura mental já criada. Podemos perceber, desta forma, que os esquemas, ou estruturas mentais, são construídos pouco a pouco, dando lugar às novas acomodações. Para isto, passam por um período de equilibração. A teoria da equilibração, de acordo com Piaget (1982), é um ponto de equilíbrio no processo de assimilação e acomodação, no qual a criança consegue interagir com o meio de forma eficiente. Este equilíbrio é necessário porque, se a criança apenas assimilasse os estímulos do meio, possuiria poucos esquemas mentais e não seria capaz de reconhecer as diferentes informações. Por outro lado, se a criança apenas acomodasse os estímulos recebidos, teria uma grande quantidade de esquemas em sua mente, para cada informação um esquema, o que impediria a criança de visualizar o todo. (PIAGET, 1996). Bom, agora que já estudamos um pouco da sua teoria, vamos nos ater ao que Piaget pensa sobre a escola e o professor. O PAPEL DA ESCOLA E DO PROFESSOR PARA PIAGET A principal meta da educação é criar homens que sejam capazes de fazer coisas novas, não simplesmente repetir o que outras gerações já fizeram. Homens que sejam criadores, inventores, descobridores. A segunda meta da educação é formar mentes que estejam em condições de criticar, verificar e não aceitar tudo o que a elas se propõe. Jean Piaget Por defender a pesquisa em sala de aula, Piaget é extremamente contra os métodos pedagógicos coercivos. Para ele, “[...] no terreno da educação, o exemplo deve desempenhar um papel mais importante do que a coerção” (PIAGET, 1948 apud MUNARI, 2010, p. 17). A escola deveria convidar o aluno a experimentar, reconstruindo o que precisa aprender. Para ele, não se aprende apenas vendo o professor experimentar, ou realizando exercícios já organizados. “Só se aprende a experimentar, tateando, por si mesmo, trabalhando ativamente, ou seja, em liberdade e dispondo de todo o tempo necessário”. (PIAGET, 1949 apud MUNARI, 2010, p. 18). As ações educativas deveriam ser ações de estímulo à pesquisa, à experimentação. A escola ideal, segundo Piaget (1949 apud MUNARI, 2010), não 12 teria livros nem manuais obrigatórios para os alunos, mas obras de referência utilizadas de forma livre. Os manuais seriam apenas de uso do professor. Piaget defende que a escola utilize métodos ativos, fruto do trabalho espontâneo, orientado por perguntas anteriormente planejadas, frutos do trabalho de redescoberta e reconstrução das verdades, sem recebê-las prontas. Como vimos no começo deste tópico, Piaget iniciou seus estudos sobre o desenvolvimento da inteligência bem cedo, procurando novos métodos e enfoques, confrontando seus estudos com trabalhos científicos da época e dando um grande impulso aos debates sobre a educação, o que acontece até os dias de hoje. Piaget foi um grande defensor de uma educação ativa, em que a criança é agente do seu conhecimento e o constrói progressivamente, por meio da experimentação. Esta educação ativa já havia sido defendida por outros estudiosos, como Montessori, Freinet, Decroly e Claparède, nos quais Piaget se apoiava. FIGURA 43 – PIAGET OBSERVANDO AS CRIANÇAS REALIZANDO ATIVIDADES FONTE: Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/ livrariadafolha/799404-livros-de-piaget-influenciam-educacao-30-anos-apos- sua- morte.shtml>. Acesso em: 13 jun. 2012. Em relação a algumas disciplinas específicas da época, como o ensino das ciências naturais, Piaget se posiciona: Aqueles que, por profissão, estudam a psicologia das operações intelectuais da criança e do adolescente sempre se surpreendem com os recursos de que dispõe todo aluno normal, desde que se lhe proporcionemos meios de trabalhar ativamente, sem constrangê- lo com repetições passivas [...]. Desse ponto de vista, o ensino das ciências é a educação ativa da objetividade e dos hábitos de verificação. (PIAGET, 1952 apud MUNARI, 2010, p. 19). Já em relação ao ensino da matemática para os pequenos, dizia ser importante proporcionar a eles esquemas de ação nos quais pudessem se basear futuramente, já que a criança nesta fase estava mais desenvolvida no aspecto sensório-motor do que no da lógica verbal. http://www1.folha.uol.com.br/folha/ 13 A compreensão matemática não é questão de aptidão da criança. É um erro supor que um fracasso em matemática obedeça a uma falta de aptidão. A operação matemática deriva da ação: resulta que a apresentação intuitiva não basta, a criança deve realizar por si mesma a operação manual antes de preparar a operação mental. [...] Em todos os domínios da matemática, o qualitativo deve preceder ao numérico. (PIAGET, 1950 apud MUNARI, 2010, p. 19). Além destas duas áreas, ciências naturais e matemática, Piaget defendia uma educação ativa, por meio da experimentação, também para outras áreas, como a aprendizagem de uma língua, que são menos técnicas. “É necessário estabelecer entre as crianças, sobretudo entre os adolescentes, relações sociais, apelar para a sua atividade e para a sua responsabilidade”. (PIAGET, 1948 apud MUNARI, 2010, p. 20). De acordo com Munari (2010), para Piaget é muito importante que a pedagogia parta do conhecimento do aluno, do que a criança já conhece. “A pedagogia é uma arte, enquanto que a psicologia é uma ciência; mas se a arte de educar supõe atitudes inatas insubstituíveis, ela requer ser desenvolvida por meio dos conhecimentos necessários sobre o ser humano que se educa”. (PIAGET, 1948 apud MUNARI, 2010, p. 20). FIGURA 44 – PIAGET CONVERSANDO COM AS CRIANÇAS FONTE: Disponível em: <http://revistaescola.abril.com.br/formacao/ formacao-continuada/conhecimento-previo-esquemas-acao- piaget- 621931.shtml>. Acesso em: 14 jun. 2012. Levar em consideração o que a criança já sabe é de suma importância para o professor. Este conhecimento prévio é o passo inicial para a construção de um novo conhecimento, em que a criança elabora novas estruturas mentais ou reconfigura as já existentes. A pedagogia reflexiva, proposta por Piaget, faz com que a criança reflita sobre o novo conteúdo e não apenas o aceite sem questionar. Este novo conteúdo torna-se significativo e amplia o conhecimento prévio da criança, tornando-o mais complexo. http://revistaescola.abril.com.br/formacao/ 14 Mas de que forma o professor pode verificar os conhecimentos prévios dos seus alunos? Como você, caro(a) acadêmico(a), faria esta sondagem? Que estratégias utilizaria? Bem, num primeiro momento imaginamos que você deva ter pensado: “conversaria com as crianças”. Mas será que esta é a melhor forma de verificar o conhecimento prévio do seu aluno na proposta de Piaget? Lembre-se de que Piaget não está necessariamente preocupado com a aprendizagem dos conteúdos e, sim, com o processo de desenvolvimento da inteligência da criança. Por isto, devemos avaliar em que fase do desenvolvimento a criança se encontra e se o conteúdo a ser ensinado irá trazer algo que a criança ainda não conhece. A melhor forma de realizar estelevantamento é propor desafios, situações-problema, que obriguem a criança a utilizar o conhecimento que possui para resolvê-los. Para Piaget, a inteligência só é possível de ser desenvolvida porque existem os conhecimentos prévios que podem ser ampliados. É assim que todos nós nos desenvolvemos. Cada novo conhecimento é agregado e passa a tornar-se conhecimento prévio quando tivermos um novo desafio pela frente. Nossas estruturas mentais se modificam, se reestruturam para que possamos compreender a nova realidade. Piaget não deu receitas prontas, não criou nenhum manual de didática para os professores, mas demonstrou que cada fase do desenvolvimento da criança, com características específicas, apresenta novas possibilidades de conhecimento, de aperfeiçoamento, fazendo com que o professor perceba quais estímulos poderá utilizar a fim de favorecer da melhor forma este desenvolvimento. De acordo com Lima (1980, p. 131), Aceitar o ponto de vista de Piaget, portanto, provocará turbulenta revolução no processo escolar [...] Quem quiser segui-lo tem de modificar, fundamentalmente, comportamentos consagrados, milenarmente (aliás, é assim que age a ciência, e a pedagogia começa a tornar-se uma arte apoiada, estritamente, nas ciências biológicas, psicológicas e sociológicas). Onde houver um professor ‘ensinando’... aí não está havendo uma escola piagetiana. Você está disposto(a) a ser um(a) professor(a) diferente? 15 O SOCIOINTERACIONISMO DE VYGOTSKY INTRODUÇÃO Desdeos primeiros diasdodesenvolvimentodacriança, suasatividades adquirem um significado próprio num sistema de comportamento social e, sendo dirigidas a objetivos definidos, são refratadas através do prisma do ambiente da criança. O caminho do objeto até a criança e dessa até o objeto passa através de outra pessoa. Essa estrutura humana complexa é o produto de um processo de desenvolvimento profundamente enraizado nas ligações entre história individual e história social. (VYGOTSKY, 1991, p. 33). ComcertezavocêjáouviufalarmuitodeVygotskyedosociointeracionismo, não é mesmo? Logo nas primeiras disciplinas do seu curso – Psicologia Geral e do Desenvolvimento e Psicologia da Educação e Aprendizagem –, você já estudou sobre ele e sua teoria. Está lembrado (a)? De qualquer forma, neste tópico iremos conhecer um pouco mais sobre a sua história de vida e os conceitos básicos de sua teoria para a educação, como: zona de desenvolvimento proximal, mediação, relação entre desenvolvimento e aprendizagem, entre outros. Também veremos como Vygotsky percebe o papel da escola e do professor em sua teoria. E então, preparado(a) para aprofundar seus conhecimentos sobre Vygotsky? LEV SEMYNOVITCH VYGOTSKY (1896-1934) Para explanar sobre a vida de Vygotsky, vamos utilizar como base os escritos de Veer; Valsiner (2001) e Rego (2004). Lev Semynovich Vygotsky nasceu em novembro de 1896, na cidade de Orsha, na Rússia (na época, União Soviética). Era o segundo filho (de um total de oito) de uma família judaica que possuía boas condições financeiras e proporcionou a todos os filhos uma excelente educação. 16 FIGURA 45 – VYGOTSKY FONTE: Disponível em: <http://sitepsicologia.webnode.com/lev- vygotsky/>. Acesso em: 12 fev. 2012. Em sua juventude seus passatempos favoritos eram as coleções de correspondências em esperanto, de selos e de xadrez. “Vygotsky participava ativamente, junto com um círculo de amigos, de discussões de assuntos altamente abstratos, como a filosofia da história de Hegel e o papel do indivíduo na história”. (VEER; VALSINER, 2001, p. 18). Também foi um admirador da poesia e dos teatros locais da época. Sua educação inicial foi com professores particulares. Mais tarde, frequentou turmas mais adiantadas (do antigo Ginásio) numa escola judaica particular de Gomel, onde se graduou com medalha de ouro em 1913. Entre 1914 e 1917 estudou Direito e Literatura na Universidade de Moscou. Nesta época, os interesses de Vygotsky ampliaram-se para os problemas da psicologia e da pedagogia. Entre 1917 e 1924, lecionou em vários institutos, como a Escola Noturna para Trabalhadores Adultos, os Cursos Preparatórios para Pedagogos, a Escola Trabalhista Soviética e o Colégio Pedagógico. Este último viria a desempenhar um papel importante no desenvolvimento de Vygotsky como cientista, pois foi aí que ele montou um pequeno laboratório psicológico no qual os alunos podiam fazer investigações práticas simples. Nesse laboratório, realizou suas primeiras experiências sobre reações dominantes e respiração, que proporcionaram o material para sua primeira palestra sobre investigação reflexológica e psicológica [...]. Enquanto trabalhava no Colégio Pedagógico de Gomel, também começou a preparar um de seus primeiros livros importantes: Psicologia Pedagógica. (VEER; VALSINER, 2001, p. 22). http://sitepsicologia.webnode.com/lev- 17 FIGURA 46 – VYGOTSKY LECIONANDO AOS TRABALHADORES FONTE: Disponível em: <http://www.vigotski.net/espelho.html>. Acesso em: 15 fev. 2012. Vygotsky fundou, juntamente com seu amigo Dobkin e seu primo David, a editora Eras e Dias (que publicou apenas dois livros), e a revista literária Urze (também de vida curta). Nesta mesma época chefiou a seção de teatro do Departamento de Educação Popular, em Gomel. Em 1920, Vygotsky e sua família foram acometidas pela tuberculose, e um de seus irmãos faleceu devido à doença. Vygotsky conseguiu recuperar-se, porém, pelo restante de sua vida, sofreu com as consequências da doença, resultando na sua morte em 1934. Em 1924, casou-se com Roza Smekhova (com a qual teve duas filhas) e mudou-se para Moscou, onde foi trabalhar no Instituto de Psicologia Experimental de Karnilov. Nos últimos anos de sua vida morou com sua mulher e seus filhos num quarto de um apartamento lotado. “Para ganhar seu sustento, Vygotsky assumiu uma quantidade enorme de trabalhos editoriais para editoras e uma pesada carga de aulas que envolviam viagens constantes entre Moscou, Leningrado e Kharkov” (VEER; VALSINER, 2001, p. 25). FIGURA 47 – VYGOTSKY E SUA FILHA EM 1932 FONTE: Disponível em: <http://revistaescola.abril.com.br/gestao- escolar/vygotsky-conceito-pensamento-verbal-639053.shtml>. Acesso em: 25 fev. 2012. http://www.vigotski.net/espelho.html http://www.vigotski.net/espelho.html http://revistaescola.abril.com.br/gestao- 18 Na manhã de 11 de junho de 1934, após ter sofrido por diversos dias com hemorragias decorrentes da tuberculose, Vygotsky faleceu aos 38 anos. Apesar de Vygotsky e Piaget terem nascido no mesmo ano e viverem na mesma época, e suas teorias terem vários pontos parecidos, eles não se conheceram. Piaget só conheceu as obras de Vygotsky por volta de 1960, quando estas chegaram ao Ocidente, e lamentou não terem se conhecido. No Brasil a teoria de Vygotsky é estudada há aproximadamente quatro décadas, já que suas obras chegaram aqui apenas em meados da década de 80. Apesar de não ter elaborado uma teoria pedagógica, suas ideias trouxeram diversas contribuições para a educação, principalmente no que diz respeito ao processo de aprendizagem. A TEORIA SOCIOINTERACIONISTA DE VYGOTSKY A teoria de Vygotsky é bastante complexa e ainda pouco conhecida, já que poucas de suas obras foram traduzidas para o português. Também pode ser considerada incompleta, já que, por causa da sua doença, não conseguiu concluir algumas pesquisas, apenas lançou ideias e conceitos que não chegaram a ser desenvolvidos por ele. No entanto, sua obra é tão intensa e, como já dissemos, complexa, que optamos por tratar aqui apenas dos conceitos básicos e mais utilizados na educação: FIGURA 48 – CONCEITOS BÁSICOS DO SOCIOINTERACIONISMO FONTE: As autoras 19 Para Vygotsky a aquisição dos conhecimentos só acontece pormeio da interação social/cultural da criança com o meio e de forma mediada. “No trabalho de Vygotsky, verifica-se uma visão de desenvolvimento baseada na concepção de um organismo ativo, cujo pensamento é construído gradativamente num ambiente que é histórico e social”. (RODRIGUERO, 2000, p. 101). É por meio das interações com o meio social que a criança se desenvolve. Com o auxílio dos adultos, as crianças passam a assimilar habilidades básicas, como sentar, falar, andar, comer com talheres, tomar água no copo etc. Por meio das interações constantes com o adulto ou crianças mais experientes, vai desenvolvendo processos psicológicos mais complexos. (REGO, 2004). Desde o nascimento, o bebê está em constante interação com os adultos, que não só asseguram sua sobrevivência, mas também medeiam sua relação com o mundo. Os adultos procuram incorporar as crianças à sua cultura, atribuindo significado às condutas e aos objetos culturais que se formaram ao longo da história. O comportamento da criança recebe influências dos costumes e objetos de sua cultura [...]. (REGO, 2004, p. 59). E então, conseguiu identificar como a falta de um ambiente social e humanizado influencia o comportamento do ser humano? “O desenvolvimento está intimamente relacionado ao contexto sociocultural em que a pessoa se insere e se processa de forma dinâmica (e dialética) através de rupturas e equilíbrios provocadores de contínuas reorganizações por parte do indivíduo”. (REGO, 2004, p. 58). Desta forma, a cultura é que fornece à criança os elementos simbólicos de representação da realidade, permitindo que ela construa a sua interpretação do mundo real que a rodeia. Esta interpretação é mediada, só se constrói na presença do outro. Este outro pode ser tanto o homem, quanto os objetos que a rodeiam, como ferramentas, signos (em especial a linguagem), técnicas culturais etc. Vygotsky ressalta a importância de dois elementos básicos no processo de mediação: QUADRO 8 – INSTRUMENTO E SIGNO INSTRUMENTO SIGNO Tem a função de regular as ações sobre os objetos. Regula as ações sobre o psiquismo das pessoas. O instrumento, ou ferramenta, é o meio pelo qual o homem aperfeiçoou a sua relação com o trabalho, na transformação da natureza. Ex.: Lembrar, comparar, relatar etc. Com o auxílio dos signos, o homem passa a controlar sua atividade psicológica, ampliando sua atenção, sua memória e a possibilidade de acúmulo de informações. 20 Desta forma, o instrumento provoca mudanças externas, ampliando a possibilidade de intervenção do homem na natureza. Ex.: trator, faca, computador etc. Os homens não apenas produzem os seus próprios instrumentos para tarefas específicas, como são capazes de armazená- los para uso posterior, preservando-os, aperfeiçoando-os e transmitindo suas funções aos membros do seu grupo. FIGURA 49 – INSTRUMENTO: FACA FONTE: Disponível em: <http:// www.diariosergipano.com.br/ler. php?op=noticia&id=1998> Acesso em: 3 mar. 2012. Um importante sistema simbólico que o homem utiliza para organizar os signos, e que foi fonte de diversos estudos de Vygotsky, foi a linguagem. Por meio da linguagem o homem designa os objetos do mundo exterior (faca - serve para se alimentar); estipula ações (serve para cortar); insere qualidades (lisa, cortante) e faz relações com os objetos (está próxima, abaixo etc.). FIGURA 50 – CORTANDO COM A FACA FONTE: Disponível em: <http://www. ameliasdesalto.com/2012/03/para-o- pao- nao-esfarelar.html>. Acesso em: 3 mar. 2012. FONTE: Adaptado de: Rego (2004) É assim que, por meio dos signos e instrumentos, o ser humano vai interagindo com os outros. Por meio da troca com os outros e consigo mesmo, vai internalizando o conhecimento e formando a sua consciência. Por isto, pode- se dizer que a criança não é apenas ativa, mas interativa, pois constrói o seu conhecimento por meio das relações inter e intrapessoais. Todas as funções psicointelectuais superiores aparecem duas vezes no decurso do desenvolvimento da criança: a primeira vez, nas atividades coletivas, nas atividades sociais, ou seja, como funções interpsíquicas; a segunda, nas atividades individuais, como propriedades internas do pensamento da criança, ou seja, como funções intrapsíquicas. (VYGOTSKY, 1988, p. 114, grifos no original). Desta forma, o processo de internalização, por parte da criança, nas interações que estabelece com o meio, envolve processos específicos como: Nesse sentido, de acordo com Sarmento; Rapoport e Fossati (2008, p. 34), “[...] assim como o desenvolvimento das funções psicológicas superiores acontecem no bojo da cultura, das práticas sociais, também o psiquismo humano se constrói a partir das relações sociais que o ser humano vai estabelecendo no decorrer de sua vida”. SIGNIFICAÇÃO APROPRIAÇÃO DIFERENTES MODOS DE PARTICIPAÇÃO http://www.diariosergipano.com.br/ler http://www/ 21 De acordo com Vygotsky, existem ao menos dois níveis de desenvolvimento: QUADRO 9 – NÍVEIS DE DESENVOLVIMENTO REAL POTENCIAL O desenvolvimento real é tudo aquilo que a criança consegue realizar sozinha, sem a ajuda de ninguém, pois já possui um conhecimento consolidado a respeito do assunto. Ex.: Saber andar de bicicleta, recortar, resolver um problema etc. FIGURA 51 – CRIANÇA ANDANDO DE BICICLETA FONTE: Disponível em: <http:// kitsegifts.blogspot.com. br/2012_05_01_archive.html>. Acesso em: 14 mar. 2012. O desenvolvimento potencial é quando a criança consegue realizar tarefas mais complexas, por instrução ou auxílio de um adulto, ou pela interação com as outras crianças. Ex.: Uma criança de cinco anos pode não conseguir montar sozinha um quebra-cabeças que tenha muitas peças, mas com a assistência de seu irmão mais velho ou mesmo de uma criança de sua idade, mas que já tenha experiência neste jogo, pode realizar a tarefa. (REGO, 2004, p. 73). FIGURA 52 – CRIANÇAS MONTANDO QUEBRA-CABEÇAS FONTE: Disponível em: <http://www. pedagogiaaopedaletra.com/posts/ melhorando-a-concentracao/>. Acesso em: 14 mar. 2012. FONTE: Adaptado de: Rego (2004), Salvador (2006), Davis e Oliveira (1994), Sarmento, Rapoport e Fossati (2008) De acordo com Vygotsky (1991), a distância entre o que a criança já sabe fazer de forma autônoma (zona de desenvolvimento real) e o que consegue realizar com a ajuda dos outros (zona de desenvolvimento potencial), é o que chamou de Zona do Desenvolvimento Proximal (ZDP). [...] a zona de desenvolvimento proximal define aquelas funções que ainda não amadureceram, que estão em processo de maturação, funções que amadurecerão, mas que estão presentes em estado embrionário. Essas funções poderiam ser chamadas de “brotos” ou “flores” dodesenvolvimento, ao invés de“frutos” dodesenvolvimento. (VYGOTSKY, 1991, p. 97). No entanto, devemos levar em consideração que, de acordo com Vygotsky, a Zona de Desenvolvimento Proximal não é algo intrínseco da criança, ela ocorre durante o processo de interação social. http://www/ 22 Retomando um pouco a teoria de Piaget, que vimos no tópico anterior, percebemos que na teoria construtivista, o processo de aprendizagem depende do estágio do desenvolvimento em que a criança se encontra. Assim, o papel do professor seria o de identificar em qual estágio do desenvolvimento a criança se encontra e, a partir dali, programar a aprendizagem da criança de acordo com o que ela é capaz de fazer naquele momento. Já no sociointeracionismo de Vygotsky, é o aprendizado que possibilita, orienta e estimula os processos de desenvolvimento. Ou seja, a aprendizagem vem antes do desenvolvimento. Para Vygotsky (1991): 1 O desenvolvimento das bases psicológicas para o aprendizado de matérias básicas não vem antes do aprendizado,mas se desenvolve numa interação contínua com as suas contribuições. 2 O aprendizado precede o desenvolvimento em muitas áreas. 3 O aprendizado de uma matéria influencia o desenvolvimento das funções superiores para além dos limites da matéria específica. É na Zona de Desenvolvimento Proximal, de acordo com Vygotsky, que a aprendizagem vai ocorrer. Neste sentido, o papel do professor é o de favorecer esta aprendizagem, mediando a criança em sua relação com o meio. Temos assim, um processo interativo entre aprendizagem e desenvolvimento, que ocorre em um contexto cultural, desenvolvendo-se com o auxílio dos mecanismos de aprendizagem propostos pelo mediador (professor ou outra criança). Por isto é importante que o professor inove a sua prática, procurando compreendera realidade socioculturaldassuascrianças, afim de que a educação se torne realmente significativa e construtiva, levando a criança ao desenvolvimento consciente da sua autonomia social. Em relação à tomada de consciência, Vygotsky afirma que a relação da criança, com a natureza e com outras crianças no nível da consciência, acontece de forma natural e espontânea. Somente aos poucos é que ela vai tomando consciência da consciência que já possui e, aos poucos, vai compreendendo seus atos sobre o meio que a cerca. A partir deste momento, os atos da criança deixam de ser espontâneos e passam a ser sociais e históricos. Para Vygotsky (1991) a autoconsciência é o estado supremo do homem. Para Vygotsky, não apenas o ensino sistematizado (disciplinas escolares) é responsável pela ampliação do conhecimento na Zona de Desenvolvimento Proximal, mas também o brinquedo. Para Vygotsky (1991), porém, o papel do brinquedo não é o de proporcionar prazer para a criança, já que outras atividades como chupar o bico são muito mais prazerosas, e o fato de nem sempre ganhar traz frustração e descontentamento para a criança. Assim, a função primordial do brinquedo é satisfazer algumas necessidades das crianças. 23 No início da idade pré-escolar, quando surgem os desejos que não podem ser imediatamente satisfeitos ou esquecidos e permanece ainda a característica do estágio precedente de uma tendência para a satisfação imediata dos desejos, o comportamento da criança muda. Para resolver essa tensão, a criança em idade pré-escolar envolve-se num mundo ilusório e imaginário onde os desejos não realizáveis podem ser realizados, e esse mundo é o que chamamos de brinquedo. (VYGOTSKY, 1991, p. 106). FIGURA 53 – CRIANÇA BRINCANDO FONTE: Disponível em: <http://paternidadejustica.wordpress. com/2011/09/07/a-importancia-do-brincar/>. Acesso em: 18 mar. 2012. Desta forma, é por meio do brinquedo que a criança aprende a agir de forma cognitiva, satisfazendo suas necessidades não apenas pelo que lhe é externo, mas por meio das motivações internas. Assim, para Vygotskyedvvxaq (1991), a criança começa a agir independente daquilo que vê. Desta forma, não é o brinquedo em si que a satisfaz e, sim, a situação imaginária através da qual a criança atribui significados. “O papel e a situação imaginária são fundamentais na atividade lúdica, pois através deles ocorre uma reestruturação radical das ações da criança e dos significados com os quais ela atua” (SARMENTO; RAPOPORT; FOSSATI, 2008, p. 40). Vygotsky acrescenta a esta relação a presença de regras. “[...] não existe brinquedo sem regras. A situação imaginária de qualquer forma de brinquedo já contém regras de comportamento, embora possa não ser um jogo com regras formais estabelecidas [...]”. (VYGOTSKY, 1991, p. 108). Assim, ao esforçar-se em desempenhar corretamente o que observa, a criança atua em um nível superior ao que se encontra no momento. “No brinquedo a criança sempre se comporta além do comportamento habitual de sua idade, além de seu comportamento diário: no brinquedo é como se ela fosse maior do que é na realidade”. (VYGOTSKY, 1991, p. 117). http://paternidadejustica.wordpress/ 24 FIGURA 54 – CRIANÇA IMITANDO OS ADULTOS FONTE: Disponível em: <http://zaroio.net/br/imagem/27283/ crianca_imitando_pessoas_andando/>. Acesso em: 24 mar. 2012. Desta forma, segundo Rego (2004), mesmo que exista uma distância entre o comportamento real da criança e o seu comportamento por meio do brinquedo, sua atuação no mundo imaginário, por meio de regras estabelecidas, criam uma Zona de Desenvolvimento Proximal, impulsionando conceitos e processos de desenvolvimento. O PAPEL DA ESCOLA E DO PROFESSOR PARA VYGOTSKY Para Vygotsky, a educação não deve ficar esperando o desenvolvimento intelectual da criança e sim estimulá-la, para que, quanto mais aprenda, mais se desenvolva mentalmente. Lembre-se de que, para Vygotsky, a aprendizagem vem antes do desenvolvimento, sendo assim, quanto mais a criança aprender, mais irá se desenvolver. FIGURA 55 – CRIANÇA APRENDENDO http://zaroio.net/br/imagem/27283/ 25 Vygotsky “[...] chama a atenção para o fato de que a escola, por oferecer conteúdos e desenvolver modalidades de pensamento bastante específicas, tem um papel diferente e insubstituível, na apropriação pelo sujeito da experiência culturalmente acumulada”. (REGO, 2004, p. 104). Por isto, para ele, a escola não pode se limitar ao que a criança já sabe, às etapas intelectuais que já alcançou e, sim, conduzi-la para novos estágios de desenvolvimento, que a criança ainda não incorporou. No próprio brinquedo, como vimos anteriormente, a criança procura atuar em relação àquilo que ainda não é, mas que virá a ser. Então a educação não pode apenas se propor a lhe oferecer o que ela já conhece. Deve, sim, propor desafios e estimulá-la a ir mais longe. A escola desempenhará bem seu papel, na medida em que, partindo daquilo que a criança já sabe (o conhecimento que ela traz de seu cotidiano, suas ideias a respeito dos objetos, fatos e fenômenos, sua “teorias” acerca do que observa no mundo), ela for capaz de ampliar e desafiar a construção de novos conhecimentos, na linguagem vygotskiana, incidir na zona de desenvolvimento potencial dos educandos. Desta forma poderá estimular processos internos que acabarão por se efetivar, passando a constituir a base que possibilitará novas aprendizagens. (REGO, 2004, p. 108). O papel do professor, portanto, é o de interferir na zona de desenvolvimento proximal de seus alunos, a fim de provocar avanços que não ocorreriam de forma espontânea. A Zona de Desenvolvimento Proximal é onde a escola e o professor devem atuar. É entre a Zona de Desenvolvimento Real e a Zona de Desenvolvimento Potencial que o professor deve agir, como mediador, intervindo na aprendizagem do aluno, para que ele se desenvolva. Segundo Rego (2004, p. 110), O paradigma esboçado sugere, assim, um redimensionamento do valor das interações sociais (entre os alunos e o professor e entre as crianças) no contexto escolar. Essas passam a ser entendidas como condição necessária para a produção de conhecimentos por parte dos alunos, particularmente aquelas que permitam o diálogo, a cooperação e troca de informações mútuas, o confronto de pontos de vista divergentes e que implicam a divisão de tarefas onde cada um tem uma responsabilidade que, somadas, resultarão no alcance de um objetivo comum. Cabe, portanto, ao professor não somente permitir que elas ocorram, como também promovê-las no cotidiano das salas de aula. Para Vygotsky (1991), a escola éo local onde, intencionalmente, a intervenção pedagógica faz acontecer o processo ensino-aprendizagem. O objetivo da escola, portanto, é fazer com que os conceitos espontâneos da criança, de senso comum, se transformem em conhecimentos científicos, através da mediação e da interação. Nesta teoria, a criança não é apenas sujeito da aprendizagem e, sim, aquela que aprende os valores, a linguagem e o próprio conhecimento,com o outro. 26 FIGURA 56 – CRIANÇA INTERAGINDO COM O OUTRO FONTE: Disponível em: <http://cidadedaesperanca.wordpress. com/2010/02/>. Acesso em: 5 abr. 2012. É por isto que a escola necessita ser um local privilegiado de interações, de diálogo, de transformação. A escola precisa proporcionar e estimular o desenvolvimento de todo o potencial da criança. Os postulados de Vygotsky parecem apontar para a necessidade de criação de uma escola bem diferente da que conhecemos. Uma escola em que as pessoas possam dialogar, duvidar, discutir, questionar e compartilhar saberes. Onde há espaço para transformações, para as diferenças, para o erro, para as contradições, para a colaboração mútua e para a criatividade. Uma escola em que professores e alunos tenham autonomia, possam pensar, refletir sobre o seu próprio processo de construção de conhecimentos e ter acesso a novas informações. Uma escola em que o conhecimento já sistematizado não é tratado de forma dogmática e esvaziado de significado. (REGO, 2004, p. 118). E então, vai ficar esperando para que esta nova escola surja? Que tal modificar a sua prática a fim de tornar a aprendizagem mais significativa? Se você ainda não é professor, reflita sobre o que você considera ser a melhor forma de ser um professor. Será que ela é mesmo a melhor e única forma de lecionar? Pense nas teorias apresentadas até agora. Reflita no tipo de professor que você quer ser, no tipo de aluno que quer formar... Não esqueça: depende de você fazer a diferença para aquela criança que está em sala de aula. Comece agora, é só dar o primeiro passo! http://cidadedaesperanca.wordpress/ 27 DIVERSOS CONTEXTOS DA EDUCAÇÃO INFANTIL: ORGANIZAÇÃO DO TEMPO E DOS ESPAÇOS ORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO FÍSICO E DOS AMBIENTES FACILITADORES NA EDUCAÇÃO INFANTIL INTRODUÇÃO O espaço físico não apenas contribui para a realização da educação, mas é em si uma forma silenciosa de educar. Como afirma Antônio Vinão Frago, referindo-se ao espaço escolar, este não é apenas um “cenário” onde se desenvolve a educação, mas sim “uma forma silenciosa de ensino”. (BRASIL, 2006a, p. 8). Pela afirmação anterior, pode-se perceber a importância que tem a organização dos espaços destinados à Educação Infantil, no processo ensino- aprendizagem. É sobre isto que iremos falar neste tópico: a organização do espaço físico e o papel do professor nesta organização. Traremos informações sobre a estrutura física e a organização dos espaços conforme indicação dos Parâmetros Básicos de Infraestrutura para Instituições de Educação Infantil, elaborados pelo MEC (2006a), assim como dicas e sugestões de organização dos espaços pelo professor, além de dicas de objetos e materiais a serem disponibilizados às crianças em cada um dos espaços trabalhados. Que bom que estamos juntos nesta caminhada. Com certeza você já ouviu falar em muitas das dicas que traremos neste tópico. Também deve conhecer muitas outras que não aparecem no texto, mas que são muito importantes para a organização dos espaços na Educação Infantil. Que tal socializar esse conhecimento com os seus colegas de turma? Abraços e boa troca de experiências! ORGANIZAÇÃO DOS ESPAÇOS PARA CRIANÇAS DE 0 A 1 ANO DE IDADE Os espaços para crianças de 0 a 1 ano de idade devem privilegiar o cuidar e o educar e serem organizados de forma a desenvolver as crianças de forma plena. As crianças de 0 a 1 ano, com seus ritmos próprios, necessitam de espaços para engatinhar, rolar, ensaiar os primeiros passos, explorar materiais diversos, observar, brincar, tocar o outro, alimentar-se, tomar banho, repousar, dormir, satisfazendo, assim, suas necessidades essenciais. Recomenda-se que o espaço a elas destinado esteja situado em local silencioso, preservado de áreas de grande movimentação e proporcione conforto térmico e acústico. (BRASIL, 2006a, p. 11). 28 Desta forma, de acordo com os Parâmetros Básicos de Infraestrutura para Instituições de Educação Infantil (2006a), o espaço para esta faixa-etária deve estar organizado de forma a conter: FIGURA 57 – ORGANIZAÇÃO DOS ESPAÇOS PARA CRIANÇAS DE 0 A 1 ANO FONTE: As autoras Este documento (BRASIL, 2006a) sugere ainda que a construção destes espaços observe os seguintes aspectos: FIGURA 58 – ASPECTOS CONSTRUTIVOS DOS ESPAÇOS PARA CRIANÇAS DE 0 A 1 ANO FONTE: As autoras Agora que você já sabe o que observar na construção dos espaços, vamos abordar a organização de cada ambiente. Acompanhe! 29 SALA DE REPOUSO Como o próprio nome diz, é um espaço destinado ao repouso/descanso das crianças desta faixa-etária (0 a 1 ano de idade). Por isto, deve conter colchões, colchonetes, entre outros, onde as crianças possam dormir tranquilamente, com conforto e segurança. FIGURA 59 – SALA DE REPOUSO FONTE: Disponível em: <http://revistaescola.abril.com.br/creche-pre-escola/ roteiro- didatico-identidade-autonomia-creche-634707.shtml?page=8.2>. Acesso em: 13 jul. 2012. Agora, vamos pensar um pouco como o professor pode organizar este espaço: - deixar um espaço adequado entre os colchões, se possível, de forma a facilitar a circulação entre eles; - colocar música ambiente (clássica, de relaxamento), que acalme e favoreça o descanso das crianças; - pendurar móbiles (elaborados com diversos materiais), para que a criança possa se distrair enquanto descansa. SALA DE ATIVIDADES É o espaço reservado para a realização das atividades previstas pelo professor no planejamento. Necessita ser um espaço amplo, que permita à criança a exploração do ambiente e dos objetos que ali se encontram. Conforme os Parâmetros Básicos de Infraestrutura para Instituições de Educação Infantil (BRASIL, 2006a), sugere-se que este espaço contenha: http://revistaescola.abril.com.br/creche-pre-escola/ 30 • espelhos amplos, onde as crianças possam se ver, se perceber. “Quando o bebê se vê diante de um espelho favorece o conhecimento de si e do mundo, porque a criança vê sua imagem refletida no espelho e, pela sua ação, identifica- se como distinta de outras crianças e dos objetos”. (KISHIMOTO, 2010, p. 3); • bancadas, prateleiras e/ou armários para guardar brinquedos, com altura em torno de 0,65 cm, para que as crianças tenham acesso livre a eles. Para que o ambiente fique bem organizado, os brinquedos devem ser disponibilizados em estantes baixas, em locais separados, “[...] com mobiliário adequado, em caixas etiquetadas para a criança saber onde guardar. Esse hábito se adquire durante a brincadeira, em local tranquilo, com opções interessantes e o apoio constante e afetivo da professora”. (KISHIMOTO, 2010, p. 8); • portas que deem acesso ao solário, ao pátio ou parque, para que elas possam tomar sol. De acordo com Kishimoto (2010, p. 9), os “[...] bebês devem ter acesso a um solário próximo a sua sala, com brinquedos, para brincadeiras interativas com as professoras. Crianças que começam a andar devem ser separadas daquelas que correm”, para que a professora possa dar atenção adequada a cada uma; • janelas de acordo com a altura das crianças, para que elas possam visualizar o ambiente externo. “A criança explora o mundo, vendo casas, prédios, morros, florestas, árvores com flores e frutos, pássaros, animais, nuvens, céu, plantações, rios, riachos e o mar, jardins, ruas, bueiros, lixos, fumaça das fábricas, mangues, supermercado e carros [...]”. (KISHIMOTO, 2010, p. 12). FONTE: Disponível em: <http://www. lookfordiagnosis.com/mesh_info. php?term=Ber%C3%A7%C3%A1rios&lang=3>. Acesso em: 17 jun. 2012. FIGURA 61 – SALA DE ATIVIDADES 2 FONTE: Disponível em: <http:// marleideias.blogspot.com.br/2010/12/ bercarios.html>. Acesso em: 17 jun. 2012. FIGURA 60 – SALA DE ATIVIDADES 1 http://www/31 De acordo com Kishimoto (2010), existem alguns aspectos a ser considerados na seleção dos brinquedos para os bebês: - TAMANHO – O brinquedo deve ser duas vezes mais largo do que a mão fechada da criança (punho). - DURABILIDADE – Não disponibilizar vidros, copos plásticos ou brinquedos muito duros que podem se quebrar facilmente durante o uso. - CORDAS E CORDÕES – Devem ser evitados, pois podem enroscar no pescoço da criança. - BORDAS CORTANTES OU PONTAS – Deve-se eliminar este tipo de brinquedo. - NÃO TÓXICOS – Evitar os brinquedos produzidos com tintas ou materiais tóxicos, já que os bebês os colocam na boca. - NÃO INFLAMÁVEL – Cuidar para que não seja um brinquedo que pegue fogo. - LAVÁVEL, QUE PODE SER LIMPO – Evitar principalmente bonecas e brinquedos com tecidos. - DIVERTIDO – O brinquedo deve ser interessante e atraente. É importante observar estes aspectos, pois a criança coloca o brinquedo na boca com grande frequência, procurando vivenciar diferentes sensações, como duro, mole, macio, áspero, ampliando assim as experiências sensoriais que já possui e iniciando sua caminhada na compreensão de conceitos, já que o professor, ao estar atento à brincadeira da criança, vai nomeando as texturas dos objetos. Texturas, cores, odores, sabores, sons são experiências que a criança adquire no contato com móbiles coloridos, sonoros e brinquedos com diferentes texturas, formas, saquinhos com ervas aromáticas. Os objetos de uso cotidiano são importantes itens para ampliar as experiências sensoriais. Objetos feitos com materiais naturais ou de metal, como bucha, escova de dente nova, pente de madeira ou de osso, maçã ou limão, argola de madeira ou de metal, chaveiro com chaves, bolas de tecido, madeira ou borracha, sino e outros, dentro de um cesto de vime, sem alças, grande e com base plana, serve para a exploração livre do bebê que fica sentado. (KISHIMOTO, 2010, p. 3). Por volta dos seis meses, os bebês fazem uso da mão para pegar, encaixar, segurar, sentir, enfim, manipular os objetos e brinquedos disponíveis. “A criança, nessa fase, pensa com as mãos”. (KISHIMOTO, 2010, p. 4). Por isto é importante dispor diversos materiais diferentes para que a criança possa explorá-los, senti- los, conhecê-los, conforme nos orienta Kishimoto (2010, p. 4): 32 Pinos de encaixe coloridos, no formato de carrinho ou trem, chamam sua atenção e os bebês querem saber o que se pode fazer com tais objetos. Usar o corpo como instrumento de conhecimento é característico de bebês e crianças pequenas. Eles gostam de entrar em caixas, em buracos, túneis, passagens estreitas, apreciam empurrar, puxar, subir, encaixar, empilhar. Há brinquedos e materiais que auxiliam o conhecimento do mundo físico, entre os quais, as bolas que são ótimas para apertar, conhecer sua textura, cor, deixar cair para ver como rolam. Há bolas com diferentes funções: produz som no toque, possui face espelhada, que auxilia o conhecimento de si, e buracos, que deixam o bebê enfiar o braço e a mão para explorá-los. [...] Outros brinquedos de construção podem servir para os pequenos empilharem e para os maiores construírem novos espaços para as brincadeiras imaginárias. (KISHIMOTO, 2010, p. 4). O mais importante é que o professor esteja atento às curiosidades dos bebês, e disponibilize novos desafios, estimulando cada vez mais o processo de conhecimento das crianças. Materiais simples como colchões, tecidos, lençóis servem para fazer um túnel, uma cabana (para elas se esconderem), balançar as crianças, transportá-las de um lado para outro (puxando-as com os colchões ou lençóis), para rolar, dar cambalhotas, engatinhar, entre outros. Não perca a oportunidade de utilizar os materiais encontrados no dia a dia, para estimular cada vez mais os bebês e se divertir. Módulos de espuma resistente, revestidos de tecidos emborrachados, de fácil limpeza, servem para criação de estruturas para exploração motora com rampas para subir e descer, pontes, para passar por baixo. Acoplados e outros módulos com buracos e túneis constituem experiências desafiadoras em que o movimento é a linguagem privilegiada. (KISHIMOTO, 2010, p. 4). Outros brinquedos interessantes, que não necessariamente precisam ser comprados e sim criados pelo(a) professor(a), são os balanços, que podem ser pendurados dentro da sala. Eles podem ser feitos com pneus, tecidos, cordas, materiais recicláveis, de forma a torná-los mais confortáveis e menos duros (que os tradicionais de madeira), e assim não machucar as crianças que os utilizam nem as que passam perto. Outro material que pode ser construído e que lembra um pouco o balanço é feito com tecidos e elásticos (grandes e resistentes), no qual a criança senta, encostando os pés no chão, e se balança empurrando os pés para cima e para baixo (dando pulos). Da mesma forma, os cavalinhos podem ser criados com madeira roliça, pintados com a turma e ficar disponíveis em sala. Triciclos sem pedal ou carrinhos/caixas de empurrar e puxar fazem a criança que começa a andar usar amplos movimentos. Cavalinhos e balanços possibilitam balançar e cavalgar, cubos servem para empilhar. Bancadas de brinquedos para martelar possibilitam a compreensão de que o pino penetra na bancada. É a descoberta da relação entre o martelar e o deslocar. (KISHIMOTO, 2010, p. 4). 33 Como você percebeu diversos brinquedos/objetos podem ser criados ou reutilizados, de forma a promover e estimular o desenvolvimento dos bebês. A seguir, segue uma lista de sugestões de materiais a serem disponibilizados aos bebês em sala: QUADRO 10 – SUGESTÕES DE BRINQUEDOS E MATERIAIS Idade Sugestões Bebês (0 a 1 ano e meio) - Chocalhos, móbiles sonoros, sinos, brinquedos para morder, bolas de diversos tamanhos, cores e texturas, blocos macios, livros e imagens coloridas, brinquedos de empilhar, encaixar, espelhos. - Objetos com texturas (mole, rugoso, liso, duro) e coloridos, que fazem som (brinquedos musicais ou que emitem som), de movimento (carros e objetos para empurrar), para encher e esvaziar. - Brinquedos de parque. - Brinquedos para bater. - Cesto com objetos de materiais naturais, metal e de uso cotidiano. - Colcha, rede e colchonete. - Estruturas com blocos de espuma para subir, descer, entrar em túneis. FONTE: Kishimoto (2010) FRALDÁRIO O fraldário é o local onde são guardadas as fraldas e materiais de higiene e é utilizado para a troca de fraldas e higienização das crianças. FIGURA 62 – FRALDÁRIO U.E.I. BAIRRO JOÁO PAULO II JOSÉ LINO KUHNEN, INDAIAL SC FONTE: As autoras 34 Além de possuir piso e paredes de fácil limpeza e janelas com boa ventilação, os Parâmetros Básicos de Infraestrutura para Instituições de Educação Infantil (BRASIL, 2006a) orientam que este espaço contenha: • bancada para troca de fraldas, com colchonete; • tanque com torneira para higienização das mãos; • banheira em material térmico, com ducha de água quente e fria; • armários e prateleiras para guardar as fraldas e materiais de higienização; • cabides para pendurar toalhas e sacolas; • lixeira com tampa. É importante que este espaço possua móbiles ou outros materiais com os quais a criança possa se distrair durante a troca. Também é importante que o professor converse com a criança e aproveite o momento para fazer massagens relaxantes... “brinque de esconder e achar com uma fralda, dizendo “cucu”, “escondeu”, “achou”. Quando toma a iniciativa e esconde outros brinquedos o bebê já domina a brincadeira e expressa de forma prazerosa, repetindo sua nova experiência, variando as situações”. (KISHIMOTO, 2010, p. 3). LACTÁRIO O lactário é o local destinado para o preparo e higienização das mamadeiras. Para isto, deve-se observar que o espaço esteja próximoà sala de atividades, a fim de facilitar o transporte dos utensílios, e distante da lavanderia e dos banheiros (BRASIL, 2006a). SOLÁRIO O solário é um espaço livre e descoberto, onde as crianças possam tomar banho de sol. De acordo com os Parâmetros Básicos de Infraestrutura para Instituições de Educação Infantil (BRASIL, 2006a), este espaço deve estar interligado à sala de atividades, e ser de uso exclusivo das crianças de 0 a 1 ano. Seu acesso deverá ser fácil, sem desníveis, permitindo o trânsito de carrinhos de bebê, e possuir dimensão compatível com o número de crianças da turma (aproximadamente 1,50m² por criança). Neste espaço podem ser realizadas diversas brincadeiras e atividades com os bebês. Puxá-los com carrinhos de madeira (em que uma criança ou duas vão sentadas), e passear pelo espaço externo da instituição é uma atividade interessante. Da mesma forma, aproveite este espaço para deixar a criança brincar com a água, a terra, a areia, ou fazer “experiências com tintas, alimentos, plantas e 35 outros materiais, para explorar e ver o que acontece, movidas pela curiosidade”. (KISHIMOTO, 2010, p. 4). Cabe ao(à) professor(a), conforme o seu planejamento, criar opções diferenciadas para o desenvolvimento integral dos bebês, exercitando a sua capacidade criativa. Agora que já vimos cada um dos espaços para crianças de 0 a 1 ano de idade, vamos explorar de que forma ocorre a organização dos espaços para as crianças com mais de um ano? ORGANIZAÇÃO DOS ESPAÇOS PARA CRIANÇAS DE 1 A 6 ANOS O espaço físico para a criança de 1 a 6 anos deve ser visto como um suporte que possibilita e contribui para a vivência e a expressão das culturas infantis – jogos, brincadeiras, músicas, histórias que expressam a especificidade do olhar infantil. (BRASIL, 2006a, p. 16). Desta forma, a organização dos espaços para crianças de 1 a 6 anos abrange a organização da instituição de Educação Infantil em si, pois as crianças utilizarão praticamente todos os espaços presentes. Para tanto, Neste caderno focaremos a discussão e apresentação dos espaços mais utilizados pelas crianças de 1 a 6 anos, como: FIGURA 63 – ESPAÇOS PARA CRIANÇAS DE 1 A 6 ANOS FONTE: As autoras No entanto, queremos afirmar que a organização dos demais espaços (lavanderia, cozinha, depósito, recepção, secretaria, direção, almoxarifado, sala de professores) também é importante para o desenvolvimento das atividades e da rotina da instituição. Em relação aos aspectos construtivos, os Parâmetros Básicos de Infraestrutura para Instituições de Educação Infantil (BRASIL, 2006a) orientam que sejam observados os seguintes aspectos: 36 FIGURA 64 – ASPECTOS CONSTRUTIVOS FONTE: As autoras Tendo observado os elementos para a construção dos espaços, vamos analisar de forma detalhada os ambientes mais utilizados pelas crianças de 1 a 6 anos? SALA DE ATIVIDADES A sala de atividades é destinada às crianças de determinada faixa etária (sala de referência), conforme a organização da instituição. Para isto, é necessário que o professor, de acordo com o planejamento, organize a sala de forma a facilitar e estimular o processo ensino-aprendizagem. As salas de atividades são espaços lúdicos, podendo ser organizadas em cantinhos (da leitura, da brincadeira, dos jogos, do desenho, da massinha, entre outros), e necessitam ser acessíveis, dinâmicos, vivos, brincáveis, fáceis de serem explorados e modificados. Sugere-se que estes ambientes variados, de acordo com Horn (2005, p. 29), sejam: 37 FIGURA 65 – CANTINHOS - U.E.I. BAIRRO JOÁO PAULO II - JOSÉ LINO KUHNEN, INDAIAL - SC FONTE: As autoras A forma como são organizadas as salas nas instituições de Educação Infantil depende do planejamento do professor, dos objetivos que pretende alcançar, do que quer desenvolver/estimular nas crianças, tornando-se parte integrante da prática pedagógica. A organização das salas de forma linear, com mesas e cadeiras, sem a organização de cantos diversificados, onde a criança não tem a possibilidade de escolher com qual atividade quer brincar e depende exclusivamente do que o professor selecionou para a turma toda desenvolver ao mesmo tempo reflete uma visão tradicional/cartesiana da educação, e há muito tempo deixou de ser indicada para o trabalho com as crianças. A organização dos espaços da Educação Infantil em cantinhos/ambientes facilitadores da aprendizagem [...] podem favorecer diferentes tipos de interações em que o professor tem papel importante como organizador dos espaços onde ocorre o processo educacional. Tal trabalho baseia-se na escuta, diálogo e observação das necessidades e interesses expressos pelas crianças, transformando-as em objetivos pedagógicos. (BRASIL, 2006a, p. 10). Desta forma, é muito importante o professor pensar qual a concepção que tem das crianças, que crianças quer formar (dependentes, adestradas ou autônomas, ativas, independentes). A organização dos espaços é um elemento curricular importante na Educação Infantil, pois dá suporte e cria oportunidades de diferentes formas de aprendizagem, [...] por meio das interações possíveis entre crianças e objetos e delas entre si. Assim considerado, o espaço na educação infantil não é somente um local de trabalho, um elemento a mais no processo educativo, é, antes de tudo, um recurso, um instrumento, um parceiro do professor na prática educativa. (HORN, 2005, p. 29). Por ser um parceiro da prática educativa, a organização dos ambientes/ espaços não deve ser engessada, permanecendo a mesma organização durante o semestre/ano todo. Os ambientes (cantinhos) precisam ser organizados conforme o planejamento do professor ou o interesse das crianças, e ser modificados a cada certo período de tempo: mensalmente, a cada dois ou três meses, conforme o (des)interesse das crianças pelos espaços, as necessidades do planejamento do professor, entre outros. 38 O importante é criar outras possibilidades de interação para as crianças, em que elas mesmas possam contribuir na organização e definição dos ambientes a serem criados. Com base nestas definições, vamos trazer algumas opções de ambientes facilitadores/cantinhos que você pode utilizar na organização das salas de Educação Infantil: Cantinho da leitura Ambiente aconchegante, com baú ou estante cheia de livros de diferentes tamanhos, cores e texturas, de histórias variadas, apenas com imagens, com sons, de pano, de plástico, entre outros, que podem ser livremente manipulados pelas crianças para contar, recontar, criar e ouvir novas histórias. Também pode haver almofadas (que cada criança traz para a instituição no início do ano), para as crianças sentarem nos momentos de leitura, ou até mesmo para ouvir uma história contada pela professora. As histórias do mundo encantado dos contos de fadas, dos reis, bruxas e super-heróis têm uma estrutura contendo palavras como: “Era uma vez” “Depois” “E viveram felizes para sempre”. O começo, meio e fim proporcionado por este gênero de literatura auxilia a criança a ampliar narrativas. Ao agregar a natureza lúdica, no recontar histórias, a expressão livre de experiências, vivências e formas de ver o mundo penetram nas narrativas infantis. Nas histórias recriadas, pelas crianças, a branca de neve virou morena das neves, trazendo as questões da diversidade, o lobo, da história da Chapeuzinho Vermelho, desdobrou-se no lobo do “bem” e do “mal”. (KISHIMOTO, 2010, p. 6). FIGURA 68 – CANTO DA LEITURA - U.E.I. BAIRRO JOÁO PAULO II - JOSÉ LINO KUHNEN, INDAIAL - SC FONTE: As autoras 39 Ouvir e recontar histórias faz com que as crianças sintam o prazer de contar histórias sobre elas mesmas, seus familiares, bichos de estimação, estimulando a sua capacidade narrativa. Você podeestimular as crianças a levarem os livros para casa, para os pais efetuarem a leitura, e depois relatarem como foi a experiência. Várias são as formas de incentivar a criança a criar o hábito da leitura. Experimente! Cantinho dos brinquedos Neste ambiente podem ser disponibilizados diversos tipos de brinquedos, estimulando “diferentes usos e atividades. Os confeccionados com materiais naturais da região costumam ser mais atrativos”. (BRASIL, 2006b, p. 28). Entre os brinquedos que podem ser disponibilizados, citamos: bolas (de diversos tamanhos e cores), boliches (de tecido e de plástico), bambolês, pião, triciclos, “[...] bonecas e acessórios, como berço, carrinho, caminhões de diferentes tipos (cegonha, caçamba, bombeiro), posto de gasolina, fantoches, bichinhos e kit médico, ampliando o repertório das brincadeiras”. (KISHIMOTO, 2010, p. 5). U.E.I. BAIRRO JOÁO PAULO II - JOSÉ LINO KUHNEN, INDAIAL - SC FIGURA 69 – CANTINHO DOS BRINQUEDOS 1 FONTE: As autoras FIGURA 70 – CANTINHO DOS BRINQUEDOS 2 FONTE: As autoras Cantinho dos jogos Neste ambiente podem ser disponibilizados diversos tipos de jogos, como: quebra-cabeça, memória, dominó, bingo, jogos das profissões, encaixes, jogos de percurso, loto, entre outros. Os jogos [...] auxiliam o letramento matemático, a relacionar os instrumentos de trabalho às profissões e animais domésticos e selvagens. Blocos lógicos servem para classificação de cores, formas e espessuras, mas a criança pode dar outros usos, como empilhar, juntar os blocos para criar formas de animais e objetos, ou um bloco virar sabonete, pente ou comida na brincadeira imaginária. (KISHIMOTO, 2010, p. 7-8). Cantinho das artes 40 Este ambiente pode conter: massinhas, folhas de diversas texturas, cores e tamanhos, cartolinas, canetinhas, lápis de cor, giz de cera, tesouras sem pontas, lápis, borracha, som, música, tintas, banda rítmica, latas lacradas com diversos tipos de grãos (para formar sons diferentes), tecidos, entre outros. Brincar de bandinha rítmica apropriada a crianças pequenas possibilita experimentar diferentes instrumentos. O brincar de fazer som inclui o movimento do corpo. Um papel amassado ou o bater palmas expressam a sonoridade que se cria com as mãos. Soprar uma pena ou bater na água mostra o poder de fazer coisas: a pena que voa e a água espirra. [...] Brincar com tinta, fazer tinta com plantas, com terra e utilizá-las para expressar o prazer de misturar, de ver as cores e, depois, representar coisas de que gosta é outra modalidade de linguagem plástica que requer materiais apropriados. Crianças gostam de fazer marcas, para expressar sua individualidade e as tintas são ferramentas para essa finalidade. As massinhas, argila, gesso ou materiais para desenhar, pintar, fazer colagens e construções com diferentes objetos são linguagens plásticas que dão prazer às crianças. (KISHIMOTO, 2010, p. 5). QUADRO 11 – SUGESTÕES DE BRINQUEDOS E MATERIAIS PARA CRIANÇAS DE 1 ANO A 6 ANOS Idade Sugestões Crianças pequenas (1 ano a 3 anos e 11 meses) - túneis, caixas e espaços para entrar e esconder-se; - brinquedos para empurrar, puxar, bater; - bolas de diversos tamanhos e cores, cordas, bambolês, papagaio (pandorga, pipa), perna de pau, amarelinha; - quebra-cabeças simples, jogos de memória e de percurso; - livros de história, fantoches (de diversas formas, tamanhos e cores) e teatro; - blocos, encaixes; - massinha e tinturas de dedo; - bonecas/os, brinquedos, mobiliários e acessórios para brincadeiras de faz de conta; - sucata doméstica e industrial e materiais da natureza. Sacolas e latas com objetos diversos de uso cotidiano para exploração; - TV, computador, aparelho de som, CD; - triciclos e carrinhos para empurrar e dirigir; - tanques/canchas de areia, brinquedos de areia e água; - estruturas para trepar, subir, descer, balançar, esconder; - materiais de artes e construções; - tecidos diversos; - bandinha rítmica. 41 Crianças maiores (4 a 6 anos) - boliches, jogos de memória, quebra-cabeça, dominó, blocos lógicos, loto, jogos de profissões e outros temas; - materiais de arte, pintura, desenho; - CD com músicas, danças, TV, máquina fotográfica, gravador, aparelho de som, computador, impressora; - jogos de construção, brinquedos para faz de conta e acessórios para brincar; - teatro e fantoches (de famílias de diversas etnias, de animais, de personagens do folclore, entre outros); - materiais e brinquedos estruturados e não estruturados; - bandinha rítmica; - brinquedos de parque, tanques de areia e materiais diversos para brincadeiras na água e areia; - sucata doméstica e industrial e materiais da natureza; - papéis, papelão, cartonados, revistas, jornais, gibis, cartazes e folhas de propaganda; - bola, corda, bambolê, pião, papagaio, cinco marias, bilboquê, perna de pau, amarelinha, varetas gigantes, triciclos, carrinhos; - livros infantis, letras móveis, material dourado, globo, mapas, lupas, balança, peneiras, copinhos e colheres de medida. FONTE: Adaptado de: Kishimoto (2010) SALA MULTIÚSO/BRINQUEDOTECA A sala multiúso é um espaço destinado para a realização de atividades diferenciadas, propostas pelo professor no planejamento, como: a) assistir a vídeos, filmes, DVDs - este tipo de atividade não deve ocorrer diariamente, pois, em casa, a maioria das crianças já passa muito tempo em frente à televisão. Por isto também é importante que a televisão não fique na sala de atividades e sim num espaço específico para este momento; b) ouvir uma história ou manusear os livros - apesar de a própria sala de atividades ter um ambiente para a leitura, o fato de as crianças se deslocarem para um novo espaço, mais silencioso, para ouvir uma história, assistir a um teatro de fantoches, entre outros, faz com que elas se tornem mais receptivas e atentas; c) escutar uma música, dançar, fantasiar-se etc. - como vimos anteriormente, estas atividades também podem ser realizadas na sala de atividades conforme o planejamento do professor. Caso não seja possível ter em cada sala um espaço com roupas e sapatos de adultos para as crianças brincarem (canto da fantasia), este espaço também pode ser utilizado para isto, já que todas as turmas podem ter acesso a ele. REFEITÓRIO O refeitório éo espaço utilizado para as crianças se alimentarem, estimulando que elas se sirvam e se alimentem sozinhas assim que possível, de forma a desenvolver a sua autonomia. Também é um espaço de socialização entre crianças de diversas faixas etárias. Conforme os Parâmetros Básicos de Infraestrutura para Instituições de Educação Infantil (BRASIL, 2006a), este espaço deve se localizar próximo da cozinha e contar com um mobiliário móvel, de forma a possibilitar diversas formas de organização do ambiente e prevendo a utilização por 1/3 das crianças do turno maior, intercalando as turmas no horário da alimentação. 42 FIGURA 74 – REFEITÓRIO - U.E.I. BAIRRO JOÁO PAULO II - JOSÉ LINO KUHNEN, INDAIAL - SC FONTE: As autoras BANHEIROS O ideal é que estejam próximos das salas das crianças, porém bem longe da cozinha e do refeitório, sem ter ligação direta com eles. De acordo com os Parâmetros Básicos de Infraestrutura para Instituições de Educação Infantil (BRASIL, 2006a), os pisos e paredes precisam ser de fácil limpeza, as janelas com boa iluminação, as portas não devem conter chaves nem trincos e os lavatórios precisam ser adequados de acordo com a altura das crianças (algo em torno de 0,60 cm), os sanitários também necessitam ser pequenos. FIGURA 75 – LAVATÓRIO - U.E.I. BAIRRO JOÁO PAULO II - JOSÉ LINO KUHNEN, INDAIAL - SC FONTE: As autoras É importante que os banheiros sejam adequados ao tamanho das crianças,para permitir que elas façam uso do espaço de forma cada vez mais autônoma. Para as crianças identificarem qual o banheiro correto a ser utilizado (para os meninos e para as meninas), é interessante identificá-los com figuras que lembrem objetos utilizados por eles ou até mesmo imagens de meninos e/ou meninas. 43 PÁTIO COBERTO O pátio coberto precisa ser amplo, para que todas as crianças da instituição consigam usá-lo ao mesmo tempo. Também se necessita prever a sua utilização para festas ou reuniões com os pais e para a realização das atividades físicas em dias de chuva. De acordo com os Parâmetros Básicos de Infraestrutura para Instituições de Educação Infantil (BRASIL, 2006a), caso a instituição não possua um espaço coberto, próprio para estes fins, pode-se utilizar o refeitório. ÁREA EXTERNA Este espaço necessita ser amplo para poder ser usado por todas as crianças da instituição, para as festas da escola ou comunidade, para as atividades físicas e de lazer, entre outros. Por ser uma área descoberta, é mais comum ser utilizada em dias nublados ou com sol. Além disso, os Parâmetros Básicos de Infraestrutura para Instituições de Educação Infantil (BRASIL, 2006a, p. 26) sugerem que estes espaços contemplem, sempre que possível: Caso a instituição tenha playground, é preciso ficar atento se está em boas condições de uso e observar como as crianças farão uso dos brinquedos. Por serem bastante ativas, pode acontecer de tentarem pular de onde “não devem” ao invés de escorregar ou descer pela escada, subir por caminhos inadequados e fáceis de causar uma queda, pelo simples fato de se sentirem desafiadas pelas novidades. No mais, o playground é um espaço de interação, com diversos “[...] desafios motores, como morros, estruturas para escalar, pular, descer, girar, balançar”. (KISHIMOTO, 2010, p. 9). FIGURA 76 – PLAYGROUND - U.E.I. BAIRRO JOÁO PAULO II - JOSÉ LINO KUHNEN, INDAIAL - SC FONTE: As autoras Caro(a) acadêmico(a)! Chegamos ao final de mais um tópico. Gostou das dicas que disponibilizamos no decorrer do texto? No próximo tópico traremos diversas informações sobre a organização do tempo e da rotina pelo professor da Educação Infantil. Não perca, continue conosco! 44 A ORGANIZAÇÃO DA ROTINA E O PLANEJAMENTO NA EDUCAÇÃO INFANTIL INTRODUÇÃO A palavra ROTINA normalmente nos remete a algo sempre igual, realizado da mesma maneira, todos os dias, com horários preestabelecidos, de maneira chata, sem graça e cansativa, não é mesmo? Pois é importante deixar claro que esta definição para rotina acontece em 90% dos casos, na concepção dos adultos. ROTINA para as crianças é algo muito mais interessante e significa, basicamente, tudo o que eles terão para fazer durante o período em que estiverem na escola. Isso exige, por parte dos educadores, planejar criativamente atividades novas e diferentes, respeitando os mesmos espaços e tempos disponíveis na unidade escolar. O melhor de tudo isso é saber que cada instituição tem liberdade para decidir como serão as suas rotinas, contando com o apoio e participação de seus gestores e equipe pedagógica. Em alguns casos, até os pais e crianças podem opinar. Ficou curioso(a)? Quer saber mais? Continue conosco, então! FIGURA 77 – ROTINA PLANEJADA FONTE: Disponível em: <http://revistaescola.abril.com.br/educacao-infantil/0-a-3- anos/rotina-planejada-espaco-aprender-629267.shtml>. Acesso em: 7 ago. 2012. http://revistaescola.abril.com.br/educacao-infantil/0-a-3- 45 A ORGANIZAÇÃO DO TEMPO E DA ROTINA Absolutamente tudo o que acontece na instituição, seria a resposta. Desde o horário de entrada e saída das crianças, a hora do lanche, da higiene, da história, da brincadeira, do canto, entre outras atividades que compõem o cotidiano da Educação Infantil. A rotina nada mais é do que um esquema, uma pauta do que se vai fazer e de como será feita esta ou aquela atividade. Antes de tudo é preciso lembrar que, em tudo que se faz na Educação Infantil, há que se estabelecer uma fortíssima relação entre o cuidar e o educar. As necessidades básicas das crianças como a alimentação, o descanso e a higiene são tão importantes quanto as necessidades de interação, afetividade e cognição. Quando conseguimos atender as nossas crianças em suas necessidades básicas, aliando-as às finalidades educativas, estamos muito próximos daquilo que consideramos a educação ideal. Com os bebês não é fácil manter uma rotina fixa, pois eles dormem mais, trocam mais vezes de fralda, choram mais, querem colo..., mas, à medida que vão crescendo, também passam a incorporar estas rotinas, tão fundamentais ao seu desenvolvimento. Em relação aos demais, sugerimos que essa rotina seja exposta em sala, com figuras, desenhos ou imagens fotografadas do próprio grupo, representando cada atividade a ser desenvolvida. Quando a criança visualiza a sequência das atividades daquele dia, sente-se mais segura e tranquila. Crianças menores adoram saber o que vai acontecer. Desta forma também aprendem a esperar, compreendendo que nem tudo acontece na hora e do jeito que elas desejam. FIGURA 78 – SABENDO APROVEITAR O TEMPO FONTE: Disponível em: <http://revistaescola.abril.com.br/educacao- infantil/0- a-3-anos/como-aproveitar-bem-tempo-creche-planejamento- rotina-educacao- infantil-bebes-criancas-535435.shtml>. Acesso em: 7 ago. 2012. O que faz parte dessa rotina? Como elaborar uma rotina que satisfaça as necessidades dos bebês e crianças pequenas? http://revistaescola.abril.com.br/educacao- 46 O que temos que levar em conta na hora de planejar nossa rotina de maneira que saibamos aproveitar o tempo de que dispomos com nossas crianças? Devemos levar em conta principalmente a idade das crianças. Não se aconselha planejar atividades que ultrapassem o tempo de concentração delas; também não se pode dar pouco tempo às brincadeiras no parque, porque elas vão reclamar; os recados e combinados muitas vezes não serão compreendidos de primeira, ou seja, com as crianças menores, a repetição dos comandos é absolutamente natural, até que todos compreendam as normas e estejam adaptados a elas. Conheça, a seguir, um exemplo de rotina na Educação Infantil, para cada dia da semana. Note que algumas atividades aparecerão na rotina de todos os dias, pois são consideradas essenciais: a acolhida, o parque e as brincadeiras, a leitura de história, a roda do canto, o lanche, a higiene, o descanso e a despedida. Já as demais atividades e momentos de socialização vão sendo encaixados à rotina, de acordo com a disponibilidade dos professores ou o ritmo do grupo: QUADRO 12 – ROTINAS Segunda-feira Terça-feira Quarta-feira Quinta-feira Sexta-feira Acolhida Acolhida Acolhida Acolhida Acolhida Parque e brincadeiras Parque e brincadeiras Parque e brincadeiras Parque e brincadeiras Parque e brincadeiras Psicomotricidade Inglês Musicalização Formação Psicomotricidade Roda do canto Roda do canto Roda do canto Roda do canto Roda do canto Higiene (troca de fraldas) - descanso Higiene (troca de fraldas) - descanso Higiene (troca de fraldas) - descanso Higiene (troca de fraldas) - descanso Higiene (troca de fraldas) - descanso Lanche Lanche Lanche Lanche Lanche Escovação Escovação Escovação Escovação Escovação Leitura de história Leitura de história Leitura de história Leitura de história Leitura de história Atividade artística/ jogo Atividade artística/jogo Atividade artística/jogo Atividade artística/jogo Atividade artística/jogo Despedida Despedida Despedida Despedida Despedida FONTE: As autoras Vale destacar também, prezado(a) acadêmico(a), que na elaboração das rotinas é interessante equilibrar sua intensidade, intercalando atividades mais calmas eagitadas, individuais ou coletivas, que incentivem a concentração ou a cooperação, que estimulem a autonomia ou o trabalho em equipe. É muito importante também pensar nas crianças que permanecem o dia todo na instituição e gerar uma rotina diversificada e criativa, para que elas não se aborreçam. Sugerimos que a primeira coisa do dia seja a apresentação da rotina às crianças, controlando o nível de ansiedade do grupo. 47 FIGURA 79 – ROTINA DO DIA FONTE: Disponível em: <http://amigasdaedu.blogspot.com.br/2011/03/sugestao- de- painel-para-rotina-na.html>. Acesso em: 7 ago. 2012. Quando a criança passa a compreender a sequência das atividades e a sua duração, começa a desenvolver as primeiras noções de tempo. Essas noções se desenvolvem durante a primeira infância, num processo relativamente longo. Não é nada incomum ouvirmos uma criança pequena dizer que “amanhã eu fui no meu avô” ou que” amanhã eu fiz aniversário”. Isso mostra a confusão que a questão do tempo ainda provoca nelas durante o processo de desenvolvimento. Por isso, é importante estabelecer com elas uma rotina, por meio de uma sequência de acontecimentos numa determinada ordem com início, meio e fim. As crianças, ao visualizarem, por exemplo, a rotina do dia e encontrarem a figura do lanche, são capazes de descobrir o que vem antes dele (que está no meio da manhã ou da tarde) e o que vem depois; percebem que, quando a professora realiza uma atividade artística ou jogo, já se aproxima a hora de ir embora e, desta forma, mesmo sem conhecer as horas, estabelecem suas próprias relações com a questão do tempo. Com o avançar da idade, sentem-se interessadas em saber sobre as horas, os dias da semana, os meses... e assim por diante. E a questão do tempo, como funciona para as crianças? http://amigasdaedu.blogspot.com.br/2011/03/sugestao- 48 FIGURA 80 – O TEMPO FONTE: Disponível em: <http://vidasetechaves.wordpress.com/author/ alinevianacruz/>. Acesso em: 7 ago. 2012. Barbosa (2006, p. 151) questiona: “A quem pertence o tempo? Às instituições? Aos professores? Às crianças em grupo ou no singular? Um dos objetivos centrais da temporalização da vida das crianças está relacionado à estruturação do tempo coletivo, mas deve-se fazer isso sem deixar de respeitar os tempos pessoais.” ROTINA E PLANEJAMENTO: O PAPEL DO PROFESSOR De acordo com Ostetto (2004), o(a) educador(a) deve assumir o planejamento educativo como um momento reflexivo, pois ele não é apenas um papel que preencherá, é atitude e envolve todas as ações e situações cotidianas presentes em seu trabalho pedagógico. E quando este(a) mesmo(a) educador(a) pensar a rotina, deve fazê-lo de modo a criar espaço para os cuidados básicos em consonância com a aprendizagem das crianças por meio da interação individual ou coletiva. FIGURA 81 – PLANEJAMENTO http://vidasetechaves.wordpress.com/author/ 49 FONTE: Disponível em: <http://educainfantilotc.blogspot.com.br/ planejamento-da-educacaonfantil- maio.html>. Acesso em: 8 ago. 2012. Neste sentido, o planejamento torna-se indispensável. Todos os detalhes devem ser pensados, pois muitos momentos diferentes formam a proposta pedagógica da Educação Infantil, que hoje, não pode mais ser encarada de maneira assistencialista, ou seja, o lugar onde as crianças recebem apenas os “cuidados” e... a educação, o estímulo e a cognição não têm espaço. O(A) educador(a) infantil deve ser consciente da importância de seu papel na vida das pequenas crianças, conhecê-las profundamente, estabelecer laços de afetividade com elas e, principalmente, estar ciente de todas as etapas que compõem o desenvolvimento infantil. Desta forma planejará suas ações pautadas nas Múltiplas Linguagens e nos Eixos Norteadores, possibilitando o desenvolvimento integral das crianças. Em primeiríssimo lugar, o respeito pelas crianças em suas especificidades, de acordo com a faixa etária do grupo. Em seguida, deve-se pensar nas experiências essenciais às crianças, como: a brincadeira, o movimento, a autonomia, a identidade, a linguagem oral, a música e a arte. Vale a pena investir num planejamento que se aproveite destas “palavras mágicas” tão presentes no mundo infantil. Para Ostetto (2004, p. 190), Elaborar um “planejamento bem planejado” no espaço da Educação Infantil significa entrar na relação com as crianças (e não com os alunos!), mergulhar na aventura em busca do desconhecido, construir a identidade de grupo junto com as crianças. Assim, mais do que conteúdos da matemática, da língua portuguesa e das ciências, o planejamento na Educação Infantil é essencialmente linguagem, formas de expressão e leitura do mundo que nos rodeia e que nos causa espanto e paixão por desvendá-lo, formulando perguntas e convivendo com a dúvida. a) Acolhida • É um dos momentos mais importantes, pois conforme o próprio nome já diz: é o momento de acolher, receber a criança e oferecer-lhe a certeza de que estará em boas mãos enquanto os pais não estarão com ela. • Essa acolhida precisa ser calorosa, amorosa, verdadeira. • A criança precisa sentir que a professora está feliz em vê-la e que está disposta a estar com ela, em todos os momentos, até a volta dos pais. Na hora de planejar, o que não pode faltar? http://educainfantilotc.blogspot.com.br/2012/05/ 50 FIGURA 82 - ACOLHIDA FONTE: Disponível em: <http://educandooamanha.blogspot.com.br/2012/01/ educacao-infantil-duvidas-mais.html>. Acesso em: 8 ago. 2012. b) Parque/brincadeiras • As crianças amam os parques porque se divertem ao ar livre. Nestes espaços é que se possibilita facilmente desenvolver atitudes de preservação ecológica (o professor deve aproveitar essa oportunidade). • Enquanto brinca a criança interage e convive com os colegas, desenvolvendo sua imaginação, autonomia, identidade e movimento. • Crianças transformam tudo o que encontram em brinquedos. Adoram a caixa de areia e brinquedos de plástico que facilitem seu transporte de um canto a outro ou que se transformam em panelas de comida ou formas de bolo, para as incríveis receitas ali mesmo preparadas. • É através da brincadeira que a criança entende o mundo, ampliando seu universo de informações. http://educandooamanha.blogspot.com.br/2012/01/ 51 • Brincar é um direito que as crianças têm – o professor pode e deve envolver- se nas brincadeiras e tornar estes momentos tão prazerosos em experiências educativas.FIGURA 83 – PARQUES FONTE: Disponível em: <http://www.escolagatoxadrez.com.br/galeria_ exibir.asp?ID=72>. Acesso em: 8 ago. 2012. c) Roda do canto/musicalização • É a hora de “pôr a voz para fora”... Até as crianças mais tímidas adoram cantar. • Através da música é possível estreitar laços com as crianças e até mesmo com as próprias famílias, quando se faz, por exemplo, um resgate das canções de ninar. • As canções podem vir acompanhadas de palmas, rodas, cirandas, dramatizações..., ampliando a atenção e a percepção sonora das crianças. • Aos poucos, a criança vai ampliando seu repertório, desenvolvendo cada vez mais a fala, a escuta atenta, a participação e a memória. • Através do manuseio de instrumentos musicais ou de sucata, as crianças começam a compreender os diferentes ritmos e sons. • Todos devem participar na escolha das canções. Cabe ao professor coordenar esta tarefa (em forma de rodízio, ajudante do dia). • É importante selecionar músicas de qualidade, sempre! http://www.escolagatoxadrez.com.br/galeria_ 52 d) Higiene/escovação/descanso • É um dos primeiros sentimentos de independência de que a criança desfruta na instituição. Para ela, escovar os dentes ou lavar as mãos sozinha representa uma grande conquista, tanto que é bem comum a professora ter que intervir para que feche a torneira, pois ela perde literalmente anoção do tempo, enquanto “brinca” com a água. • Quando participa efetivamente dos cuidados com o próprio corpo, a criança aprende a conhecê-lo melhor. Aos poucos, vai aprendendo a lavar e secar as mãos, fazer xixi e cocô sem utilizar a fralda e limpar-se sozinha (este é um processo lento que precisa ser estimulado gradativamente); dar descarga, assoar o nariz e escovar os dentes. • Durante a escovação é importante auxiliar de perto as crianças e administrar o creme dental sobre a escova – elas acabam “comendo mais creme” do que escovando os dentes, até porque hoje eles possuem cheiros e gostos bastante atrativos. • As fraldas devem ser trocadas sempre que houver necessidade e com todos os cuidados possíveis. É importante evitar a exposição das crianças – sugerimos um cantinho mais reservado da sala. Enquanto a criança está sendo trocada, o ideal é que se converse, cante ou que se sorria para ela, transformando este momento em algo gostoso, natural. Deve-se evitar qualquer comentário negativo à criança, por exemplo: “Nossa, que cocô fedido”, ou, então, “Meu chapéu, quanto cocô você fez hoje!” entre outros, pois a criança pode entender que você não gosta de limpá-la, preferindo trancar suas fezes. Para Gutierrez (apud ARRIBAS, 2004, p. 36), Os hábitos relacionados à higiene têm duas vertentes: uma de relação, outra de educação. No aspecto de relação, a limpeza se apresenta para criar uma imagem positiva do próprio corpo. Este modelo vem dos adultos. No aspecto da educação, é necessário perceber a riqueza dos prazeres que a higiene proporciona ao corpo, a abundância de sensações que ativa e seu significado para a saúde psicofísica, assim como a quantidade de valores e diretrizes que transmite nos hábitos que estão relacionados a ela. • O momento do descanso é muito mais comum nas creches ou escolas de tempo integral onde as crianças permanecem mais tempo, sendo opcional nas escolas onde ficam apenas durante quatro horas. Ele deve representar um momento tranquilo na rotina da criança. Para isso sugerimos berços ou colchonetes em salas específicas, distantes do barulho e com música clássica ao fundo. A criança poderá auxiliar na hora de arrumar as “camas”, sentindo-se segura nesta tarefa por estar acompanhada da professora e demais colegas. Outra dica interessante é deixá-la trazer de casa seu travesseiro, cheirinho ou bichinho de pano (antialérgico) para a hora do descanso. 53 • Na hora de despertar as crianças de seu soninho, deve-se fazê-lo com muita cautela, com voz baixa, afago nos cabelos, delicadeza. Nem todas as crianças despertam bem humoradas e dispostas. e) Alimentação • Ao se dirigir ao lanche ou refeição, cada criança (com exceção dos bebês que devem ser alimentados e conduzidos ao local) deve ser incentivada a: • carregar sua própria lancheira ou prato de comida até a mesa, com equilíbrio e cuidado; • sentar-se à mesa e aguardar que todos estejam acomodados; • cantar ou rezar, conforme o hábito da instituição; • abrir a lancheira ou servir-se sozinha; • trazer ou comer alimentos saudáveis; • abrir potes, segurar o prato e os talheres, controlar a quantidade de comida que leva à boca, comer mastigando bem e segurar seu copo com líquido. • Assim que terminar, cada criança deve: • recolher suas coisas; • jogar cada lixo na lixeira adequada (plásticos, papel, restos de comida...); • os maiores já podem até deixar a louça suja na pia; • aguardar os colegas terminarem ou a professora liberá-los para a escovação. • Desta forma trabalham-se diferentes conceitos com as crianças: autonomia (enquanto realizam as tarefas sozinhas), alimentação saudável e tranquila, paciência (ao aguardarem o tempo dos outros colegas para concluírem sua refeição), reciclagem (na separação dos lixos), cooperação (um podendo ajudar o outro), empatia e solidariedade (quando a professora os auxilia nas tarefas mais difíceis) e finalmente alegria, porque comer deve ser algo prazeroso e feliz para as crianças. • Podem-se experimentar diferentes estratégias com as crianças para que elas desenvolvam hábitos de alimentação saudável. Uma boa dica é oferecer aulas de culinária – as crianças adoram! Outra dica é construir com elas uma horta escolar, onde elas desenvolvam o gosto pelo plantar, cuidar e colher os alimentos, levando-os posteriormente à mesa, em forma de salada, sopa ou torta de legumes. O ideal é envolvê-las também no processo de cozimento ou preparo destes alimentos. Elas sentem-se desafiadas a experimentar tudo o que venha a ser fruto do trabalho e envolvimento delas, porém é importante respeitar o gosto de cada criança, não devendo obrigá-las a comer o que não gostam. f) Formação • Em todos os momentos da rotina é preciso trabalhar valores com as crianças. Estes valores referem-se aos conteúdos atitudinais, ou seja, atitudes que as crianças têm com elas mesmas e com os outros. 54 • Devem-se trabalhar questões pertinentes ao convívio familiar e escolar, como a questão das brigas, palavrões, mentiras, preguiça, birra infantil, teimosia, choro desnecessário, falta de limites, desrespeito com os colegas ou com a natureza, desperdício, desobediência, intolerância, entre outros. • O professor pode aproveitar as situações que observa no dia a dia para trabalhar estes conceitos, e isto pode ser feito através de canções, teatros de fantoches, dramatizações, leitura de histórias ou roda da conversa. • Pode-se aproveitar toda e qualquer oportunidade para trabalhar a formação humana entre as crianças, pois desta forma favoreceremos seu crescimento emocional e pessoal, que poderá lhes servir por toda a vida. • A escola precisa trabalhar mais os conceitos atitudinais entre as crianças, desde o berçário, para que tenhamos no futuro pessoas mais humanas, sensíveis e comprometidas com o bem-estar da humanidade. g) Leitura de história • Ler histórias é fundamental em todas as idades, mas na Educação Infantil este ato é ainda mais valorizado, pois, pelo fato de as crianças ainda não lerem, ouvir histórias torna-se essencial para o desenvolvimento da imaginação, da fantasia e do encantamento. • Ler para os pequenos nos traz sensações agradáveis, pois eles interagem com a história, acreditam em tudo o que ouvem e os olhos brilham e arregalam-se diante de cada nova página ou gravura. • As crianças amam os livros e muitas vezes são fiéis a eles, pedindo que se leia a mesma história “milhões” de vezes (chegam a decorar trechos, é impressionante o tamanho do fascínio que uma história bem lida pode acarretar nas crianças). • O professor pode incentivá-las a “ler” as imagens sozinhas, manusear livremente as obras e contar espontaneamente o que “leram” aos colegas. • Quanto mais livros na sala, melhor! • Ao professor cabem duas tarefas básicas e, diríamos até, obrigatórias: 1ª - selecionar obras de qualidade para ler às crianças; 2ª - preparar anteriormente a leitura, para dar à história mais vida, entonação e emoção. 55 h) Psicomotricidade/movimento • Quando falamos em psicomotricidade, não estamos nos referindo apenas aos momentos de recreação, de educação física, pois ela se encontra até mesmo no ato de abrir e fechar a mochila, pegar os materiais na estante ou recolher os brinquedos, afinal usamos o corpo o tempo todo para aprender. • A recreação/educação física trabalha comatividades/exercícios, que estimularão ainda mais o corpo, para que a criança se descubra e desenvolva a consciência corporal. • Esta descoberta do próprio corpo, através da psicomotricidade, trará às crianças o desenvolvimento da atenção, percepção visual e auditiva, coordenação motora ampla e fina, orientação espacial, lateralidade, além da habilidade em observar, comparar, medir, classificar e ordenar. • Através destes momentos desenvolve-seuma série de novas sensações nas crianças: alegria, cooperação, competição, liberdade, diversão, disputa, equilíbrio, agilidade, flexibilidade, resistência, respiração adequada, compreensão de regras, limites, vitórias e derrotas (aprendendo a ganhar e perder), autocontrole, paciência, tolerância, entre outras. • A massagem e o alongamento são excelentes recursos para a estimulação corporal dos bebês, aconselhados igualmente às crianças maiores. • i) Atividade artística/jogo • A hora de realizar atividades é o momento em que o professor consegue perceber a evolução individual de cada uma de suas crianças. É o momento de fazê-las experimentar toda a sua autenticidade, criatividade, imaginação e percepção de mundo. • Para cada dia, pedem-se novos desafios: recortar, colar, pintar, desenhar, realizar contagens, estabelecer relações, construir conceitos, enfim, deixar o espaço livre para manifestarem todo tipo de conhecimento. • As atividades precisam ser elaboradas com antecedência, dentro do planejamento do professor, respeitando a faixa etária do grupo, de forma criativa e contextualizada, de acordo com a temática escolhida. • Estas atividades agrupadas por temas ou semestres devem compor um portfólio individual da criança, para que sirvam de registro escrito e possam ser acompanhadas e apreciadas pelas famílias. • O jogo com objetivos pedagógicos significa um importante instrumento educativo às crianças. Brincando elas aprendem uma série de conceitos e regras. 56 O professor pode criar ou adaptar os jogos de acordo com as temáticas de estudo. • Quando a criança não leva o jogo para casa, para mostrar aos pais, pode- se realizar um registro fotográfico de cada etapa e montar um pequeno informativo, explicando o objetivo, as regras e o resultado daquele jogo. Todos recebem este informativo e, cada dia, uma criança pode levar o jogo para casa e ensiná-lo aos pais, com o compromisso de trazê-lo de volta no dia seguinte. Os pais podem escrever um depoimento a respeito do dia em que o “jogo” esteve em sua casa e podem inclusive fotografar este momento, para que fique registrado no portfólio de todas as crianças. j) Linguagem oral/inglês • Na Educação Infantil, a língua estrangeira acontece muito mais na oralidade, não há obrigação de registros escritos. Ela se dá através da música, de pequenos vídeos, de conversação e jogos (brincadeiras). • O ideal é que a professora utilize o vocabulário da criança e dentro da temática estudada pelo grupo, pois, havendo contextualização, há maior compreensão de uma segunda língua. • Sugere-se a introdução dessa segunda língua após os três anos de idade, já que os menores encontram-se ainda no processo de aquisição da língua materna. k) Despedida • Despedir-se é um momento tão especial quanto acolher. É necessário entregar a criança aos pais com todo o carinho e atenção. Deve-se relatar a eles qualquer fato que tenha sido importante na rotina daquele dia, em relação àquela criança: machucou-se, bateu no colega, teve dor, chorou, foi ao banheiro muitas vezes, não comeu, entre outras questões que possam ser pertinentes ao conhecimento dos pais. • Também é interessante relatar pequenos progressos, falas engraçadas, momentos em que exercitou autonomia, liderança... enfim, os pais adoram receber notícias deste tipo ao buscarem seus filhos. Esta relação os aproxima dos professores, estabelecendo laços de confiança e tranquilidade. • Antes de entregar a criança, deve-se verificar se ela está levando para casa tudo o que trouxe para a instituição (casaco, mochila, sapato, camisa reserva, material de higiene... eles vivem esquecendo coisas na escola); se está com o rosto, o nariz e as mãos limpas (nenhum pai aprecia receber a criança em condições ruins de higiene). • Despedir-se da criança com um abraço ou beijo estreita seus laços com ela e lhe passa a certeza de que deseja revê-la no dia seguinte. 57 A CONSTRUÇÃO DA AUTONOMIA E DA IDENTIDADE DA CRIANÇA INTRODUÇÃO Quando falamos em autonomia logo nos vem à cabeça a questão da independência, ou seja, o “saber se virar sozinho”, pois um sujeito autônomo é aquele que sabe aonde quer chegar e os caminhos que precisa percorrer, seguindo suas próprias leis e tomando decisões, sem precisar da opinião ou ajuda constante do outro. E isto não é tão fácil quanto parece, principalmente se não formos “desafiados” para isso, desde a primeira infância. Quando não somos estimulados a desenvolver a autonomia, nos tornamos cidadãos normalmente acomodados e passivos diante das adversidades da vida, aceitando com tranquilidade as “coisas” tais como se apresentam. Dê uma olhada à sua volta e verifique: entre os adultos que o(a) cercam, quantos preferem deixar que os outros decidam, intercedam por eles ou liderem ações simples do dia a dia por não se sentirem capazes, desafiados ou competentes para a realização daquela determinada função? Quantas vezes, eles deixam de tentar sozinhos algo que com certeza dariam conta, por pura insegurança, falta de iniciativa ou medo de errar? Com as crianças isso dificilmente acontece. Elas são naturalmente autônomas e não se preocupam com o que os outros vão dizer, se estarão “certas ou erradas”, se “estragarão algo” na tentativa de “consertar”, se aquilo tem que ser feito “desse ou daquele jeito”, enfim, dificilmente pedem opinião, pois seguem seus instintos: são corajosas e curiosas por natureza. Para tratarmos destas questões, abordaremos neste tópico o desenvolvimento da independência na aprendizagem, a pedagogia da autonomia de acordo com Paulo Freire e a construção da identidade, como pressupostos para uma infância autônoma, consciente e feliz. Boa leitura! 58 O DESENVOLVIMENTO DAINDEPENDÊNCIA NA APRENDIZAGEM Prezado(a) acadêmico(a)! Como futuro(a) educador(a), uma pergunta pode pipocar seus pensamentos neste momento: Como desenvolver a independência/ autonomia nas crianças? A resposta, porém, é muito simples: dando-lhes a oportunidade de fazer escolhas. Isso mesmo, deixando-as tomar decisões, não o tempo todo, é lógico, mas em determinadas situações. Este exercício tão simples fará a grande diferença na vida de nossas crianças, constituindo-as como “sujeitos ativos e participativos” no próprio processo de ensino e aprendizagem. Quando o professor toma todas as decisões na condução da aula, há pouco espaço para a construção autônoma, pois é ele quem decide tudo: o que vai acontecer, como vai acontecer, quem fará o que e de que forma tem que ser feita esta ou aquela atividade. Perde-se, neste momento, a grande oportunidade de desenvolver a criatividade, a responsabilidade, a iniciativa e a independência, que funcionariam como geradoras de autonomia. Já o professor que permite em suas aulas atividades que levarão as crianças a pensar, a tentar sozinhas e a gerir o próprio conhecimento, em comunhão com o grupo de maneira dinâmica, promove situações de aprendizagens significativas. Para isso, cabe ao professor “facilitar” a independência das crianças deixando brinquedos e materiais ao alcance delas em mobília mais baixa, em caixotes ou prateleiras. Desta forma, o acesso a estes materiais será favorecido, como já vimos no Tópico 1 desta unidade, dispensando o auxílio da professora. O professor pode também simular momentos em que ele precisará da ajuda das crianças, como, por exemplo, na preparação da mesa do lanche, na entrega de materiais ou atividades para a turma, enfim, pode criar situações em que as crianças desenvolvam a autonomia ajudando/cooperando com os colegas ou com a professora, mudando a forma autoritária e individualista a que estamos acostumados na maioria das escolas. Segundo Ceccon, Oliveira e Oliveira (1982, p. 71), “[...] a escola como está organizadanão estimulaa solidariedade, a ajuda mútuaentre os alunos ou o trabalho em equipe”. E é isto que queremos e precisamos mudar! Outra dica bem interessante é criar o “ajudante do dia” que auxiliará a professora e a turma em tudo o que for preciso. As crianças adoram e cooperam com muita disposição e alegria. Como afirma Kamii (1997, p. 108): É preciso encorajar a criança a tentar sozinha, desde as mais simples tarefas como: pendurar, abrir e fechar a lancheira, lavar as mãos, escovar os dentes, retirar e depois guardar o próprio lanche, comer sozinha, recortar, colar, desenhar, falar em voz alta, entre outras coisas. No início, a criança precisa conhecer a rotina; precisa de modelos do que deve ser feito; precisa que a ensinemos a fazer, que a acompanhemos passo a passo durante as primeiras tentativas, mas aos poucos, vai tornando-se cada vez mais autônoma e do seu jeito, dentro do seu ritmo e faixa etária, vai conquistando sua independência. 59 Para auxiliá-lo(a) na compreensão deste tópico, trazemos dicas práticas de como desenvolver a autonomia das crianças, tornando-as independentes e felizes na realização de tarefas: QUADRO 13 – DICAS PARA DESENVOLVER A AUTONOMIA DAS CRIANÇAS Converse com os pais para que as crianças tragam seu próprio material à sala de aula. Assim que chegarem à sala, receba a todos de maneira atenciosa e carinhosa e incentive as crianças a pendurarem sua mochila ou guardarem seus materiais sozinhas, em local previamente combinado. Dê as coordenadas, mas deixe que a criança execute sozinha seus pedidos. Exemplo: escolha brinquedos na caixa, pegue uma almofada e junte-se ao grupo, busque a pasta de atividades etc. Na hora do canto ou da história, sente-se com uma almofada no chão e aguarde que todos façam o mesmo à sua volta. Se for necessário, nas primeiras vezes, dê o comando. Com o passar do tempo, quando você se sentar, eles entenderão o que têm que fazer sem que você o diga. Na hora do lanche, incentive-as a lavar as mãos e a usar o banheiro sozinhas. Os menores (0 a 3 anos) precisarão de ajuda, os maiores (4 a 6 anos) já tentarão sozinhos. Ainda na hora do lanche, demonstre a forma de sentar, de abrir a lancheira, retirar, abrir e fechar os potes ou garrafinhas, servir-se ou conduzir o prato até a mesa e, aos poucos, deixe as crianças tentar. Cada dia, deve ser dado um pouquinho mais de autonomia à criança. Ela precisa ser encorajada a tentar, mesmo que mostre resistência ou diga que não consegue. Mostre a ela que é capaz, pois ela confia em você. Incentive-a a comer sozinha, por mais “lambança” que faça, ela se sente feliz e vitoriosa quando consegue. Após lanchar, comece todo o ritual novamente: jogar o lixo na lixeira, guardar no pote o que sobrou, fechar o pote, guardar na lancheira, fechar o zíper e ir até a sala de aula, levar o prato de comida até a pia (tudo isso sozinha e no seu ritmo). Algumas crianças farão mais depressa que outras, o que pode gerar ansiedade nas que ainda não terminaram, preferindo abandonar tudo para juntar-se ao grupo. Neste momento, o professor deve fazê-la recuar e, pacientemente, acompanhá-la em todo o seu processo, mostrando a ela que o mais importante é concluir a tarefa e não ser a mais rápida. E como fazer isso? 60 Na hora da escovação, cada criança deve identificar seu material de higiene (ela encontrará meios para isso, pois ainda não sabe ler) e encaminhar-se ao tanque para escovar os dentes sozinha. Observe a necessidade de auxiliar os que ainda não escovam direitinho e os ajude de maneira bem sutil, demonstrando, com sua escova nos seus dentes, como a criança deverá escovar os dentes dela. Desta forma, você não lhe tirará a autonomia e ela não se sentirá incapaz de realizar aquela tarefa sozinha. Durante as atividades, deixe as crianças buscarem os materiais necessários, já disponíveis e ao alcance delas: tinta guache, cola, tesoura..., deixe-as opinar em relação à cor, ao formato, ao tipo de atividade que irão desenvolver. Permita que sugiram, na hora do canto, as canções preferidas e que cada dia crianças diferentes possam opinar. Estimule atividades cooperativas onde as crianças precisem se ajudar. Sempre que acabarem de brincar, incentive as crianças que recolham e guardem seus brinquedos. O mesmo acontecerá com os materiais pedagógicos ou livros. Ensine-as o lugar das coisas e espere que de maneira autônoma elas desenvolvam esta função, mas, se isto não acontecer, faça o papel de “mediador”, até que este gesto seja internalizado. Estimule suas crianças a fazerem perguntas e evite responder a questões que elas têm condições de responder sozinhas, ou seja, incentive-as a pensar, devolvendo-lhes a pergunta. Isso traz resultados mágicos, faça a experiência! FONTE: As autoras Gostou das dicas? Esperamos que sim! Elas são bastante simples, porém fundamentais para o desenvolvimento da independência na aprendizagem e na vida das crianças! 3 A PEDAGOGIA DA AUTONOMIA, SEGUNDO PAULO FREIRE Quando se lê o sumário da obra de Paulo Freire, “Pedagogia da Autonomia - Saberes necessários à prática educativa”, percebe-se que é um livro de grande valor educativo..., um livro gigante, apesar de apresentar tamanho bem menor do que grande parte dos livros que circulam por aí. O sumário traz, em sua sequência, frases/tópicos marcantes a respeito da palavra ensinar, que poderiam nos servir perfeitamente como base de todo nosso trabalho. Leia a amostra do sumário na sequência e perceba a profundidade poética atribuída ao verbo ENSINAR, por Freire (1996): 61 QUADRO 14 – SUMÁRIO DO LIVRO PEDAGOGIA DA AUTONOMIA 1. Ensinar exige rigorosidade metódica 2. Ensinar exige pesquisa 3. Ensinar exige respeito aos saberes dos educandos 4. Ensinar exige criticidade 5. Ensinar exige estética e ética 6. Ensinar exige a corporeificação das palavras pelo exemplo 7. Ensinar exige risco, aceitação do novo e rejeição a qualquer forma de discriminação 8. Ensinar exige reflexão crítica sobre a prática 9. Ensinar exige o reconhecimento e a assunção da identidade cultural 10. Ensinar não é transferir conhecimento 11. Ensinar exige consciência do inacabamento 12. Ensinar exige o reconhecimento do ser condicionado 13. Ensinar exige respeito à autonomia do ser do educando 14. Ensinar exige bom senso 15. Ensinar exige humildade, tolerância e luta em defesa dos direitos dos educadores 16. Ensinar exige apreensão da realidade 17. Ensinar exige alegria e esperança 18. Ensinar exige a convicção de que a mudança é possível 19. Ensinar exige curiosidade 20. Ensinar é uma especificidade humana 21. Ensinar exige segurança, competência profissional e generosidade 22. Ensinar exige comprometimento 23. Ensinar exige compreender que a educação é uma forma de intervenção no mundo 24. Ensinar exige liberdade e autoridade 25. Ensinar exige tomada consciente de decisões 26. Ensinar exige saber escutar 27. Ensinar exige reconhecer que a educação é ideológica 28. Ensinar exige disponibilidade para o diálogo 29. Ensinar exige querer bem aos educandos FONTE: As autoras 62 De todos os tópicos listados por Freire (1996), escolhemos alguns para uma abordagem mais profunda (não teríamos como abordar todos, embora sejam igualmente importantes). Faremos agora uma pequena reflexão, amparados por Freire (1996), sobre cada um dos itens selecionados anteriormente: Sabemos que todas as crianças têm saberes socialmente construídos quando chegam à instituição de Educação Infantil. Elas conhecem com propriedade e sabem se posicionar a respeito de determinados assuntos, a ponto de surpreender quem estiver disposto a ouvi-las, sobretudo as crianças a partir dos três anos. Partir do conhecimento prévio das crianças nos dá subsídios para elaboraratividades ou projetos. Por exemplo, se uma criança convive com o descaso das autoridades em relação ao lixo despejado no riacho próximo de sua casa, pode- se discutir com a criança a respeito da postura dos habitantes e das autoridades, as consequências desta atitude para os demais munícipes, o problema da contaminação da água, a importância do tratamento para o consumo, enfim... uma série de assuntos poderão surgir a partir dessa situação trazida pela criança. Todo professor precisa ter consciência de que necessita refletir sobre a sua prática todos os dias, pois sempre há algo que se possa fazer diferente, fazer melhor ou de outras maneiras para não cair na rotina ou na zona de conforto, dois perigosos labirintos que levam o professor ao desânimo e/ou decadência profissional. Ensinar exige respeito aos saberes dos educandos Ensinar exige reflexão crítica sobre a prática 63 Existe algo que, segundo Freire (1996, p. 53), é fundamental ao educador: [...] saber que ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção. Quando entro em uma sala de aula devo estar sendo um ser aberto a indagações, à curiosidade, às perguntas dos alunos, a suas inibições; um ser crítico e inquiridor, inquieto em face da tarefa que tenho – a de ensinar e não a de transferir conhecimento. Se sou capaz de oferecer momentos de construção de conhecimentos, estabelecer metas para que o aprendizado ocorra de fato e se planejo com esta convicção e com esta consciência, torno-me, neste momento, um educador por excelência. Respeito é uma das palavras mais belas no vocabulário dos professores em relação às crianças. Cabe a eles respeitar cada pequeno ser que lhe chega às mãos, independentemente da idade, classe social, cor, raça, credo ou religião. Professor que ama o que faz não faz distinções, não tem nenhum tipo de preconceito ou preferência. Dá de si o que há de melhor e busca o que há de melhor nos outros, respeitando a autonomia e a identidade de cada educando. Leva com amor a profissão e é coerente em sua prática. De acordo com Freire (1996, p. 66), “O respeito à autonomia e à dignidade de cada um é um imperativo ético e não um favor que podemos ou não conceder uns aos outros”. A alegria de estar com as crianças deve ser comparada ao tempero essencial de um prato que se espera degustar todos os dias. Quando estamos com fome, o tempero se torna ainda mais marcante. É assim que deve ser o nosso “gosto” para as crianças. Um gosto que desperta a fome de saber, de aprender, de viver novos conhecimentos, de compartilhar ideias, de arriscar novos “pratos”, cada dia mais saborosos, diferentes e dispostos a deixar as crianças com água na boca, com gostinho de quero mais. Um prato recheado de alegria e esperança, pois, de acordo com Freire (1996, p. 80), Há uma relação entre a alegria necessária à atividade educativa e a esperança. A esperança de que professor e alunos juntos podem aprender, ensinar, inquietar-se, produzir e, juntos igualmente, resistir aos obstáculos à alegria. [...] a esperança faz parte da natureza humana. Ensinar não é transferir conhecimento Ensinar exige respeito à autonomia do ser do educando Ensinar exige alegria e esperança 64 Feliz do professor que tem alunos curiosos; Feliz do professor que tem alunos questionadores; Feliz do professor que tem alunos pesquisadores; Feliz, feliz, feliz! Feliz do aluno que tem professores que estimulam sua curiosidade; Feliz do aluno que tem professores que o incentivam a buscar respostas para seus questionamentos; Feliz do aluno que tem professores que reconhecem a importância da pesquisa e da mesma forma se tornam pesquisadores; Feliz, feliz, feliz! Freire (1996, p. 95) reforça: Como professor devo saber que sem a curiosidade que me move, que me inquieta, que me insere na busca, não aprendo nem ensino. Exercer a minha curiosidade de forma correta é um direito que tenho como gente e a que corresponde o dever de lutar por ele, o direito à curiosidade. [...] o exercício da curiosidade convoca a imaginação, a intuição, as emoções, a capacidade de conjecturar, de comparar, na busca da perfilização do objeto ou do achado de sua razão de ser. Impossível formar-se professor sem saber disso. Sem ter a certeza de que o nosso comprometimento com a educação é quase que integral, ou seja, ocupará grande parte do nosso tempo, de nossa dedicação e do nosso empenho, enquanto profissionais conscientes de nossa importância. Para Freire (1996, p. 108), [...] não é possível exercer a atividade do magistério como se nada ocorresse conosco. Como impossível seria sairmos na chuva expostos totalmente a ela, sem defesas, e não nos molhar. Não posso ser professor sem me pôr diante dos alunos, sem revelar com facilidade ou relutância minha maneira de ser, de pensar politicamente. Não posso escapar à apreciação dos alunos. E a maneira como eles me percebem tem importância capital para o meu desempenho. Daí, então, que uma das minhas preocupações centrais deva ser a de procurar a aproximação cada vez maior entre o que eu digo e o que eu faço, entre o que pareço ser e o que realmente estou sendo. Ensinar exige curiosidade Ensinar exige comprometimento 65 Para ensinar às crianças, é preciso querer bem a elas. É preciso conhecê-las, compreendê-las e, sobretudo, amá-las. Este querer bem, para Freire (1996, p. 159), [...] significa, de fato, que a afetividade não me assusta, que não tenho medo de expressá-la. Significa esta abertura ao querer bem a maneira que tenho de autenticamente selar o meu compromisso com os educandos, numa prática específica do ser humano. A minha abertura ao querer bem significa a minha disponibilidade à alegria de viver. Justa alegria de viver, que, assumida plenamente, não permite que me transforme num ser “adocicado” nem tampouco num ser arestoso e amargo. Para finalizar esta reflexão sobre ensinar de Paulo Freire, vamos usar uma frase de sua autoria que diz: “A alegria não chega apenas no encontro do achado, mas faz parte do processo da busca. E ensinar e aprender não podem se dar fora da procura, fora da boniteza e da alegria.” (FREIRE, 1996, p. 159). FIGURA 105 – PAULO FREIRE FONTE: Disponível em: <http://ufabloguei.blogspot.com/2010_04_24_ archive.html>. Acesso em: 12 jan. 2012. A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE Identidade tem a ver com “quem somos”, com o grupo do qual fazemos parte, em que acreditamos, o que de fato praticamos, nossas crenças, valores ou ideais, enquanto seres aprendentes. Essa identidade vai sendo construída à medida que interagimos com os outros ao longo da vida. Enquanto crescemos, vamo-nos desenvolvendo em todos os sentidos, inclusive na construção do próprio eu, passando a compreender de fato e gradativamente “quem somos”. Nossa identidade, recém-construída, não é fixa, ela pode mudar e se refazer o tempo todo, dependendo das necessidades ou experiências vividas. Ensinar exige querer bem aos educandos http://ufabloguei.blogspot.com/2010_04_24_ 66 Não somos sempre iguais nem temos sempre os mesmos comportamentos, às vezes, apresentamos identidades distintas, pois, se num momento somos solidários, no momento seguinte podemos ser extremamente egoístas; se num instante parecemos bonzinhos, segundos mais tarde, podemos demonstrar o quanto somos tiranos. Temos, portanto, identidades diferentes e necessitamos ter liberdade de nos posicionar também de diferentes maneiras. Aos poucos, as crianças também vão descobrindo que não existe uma única maneira de ser. Passam a se posicionar diante das diversas identidades que vão desenvolvendo e compreendem em si as mudanças, sendo então capazes de compreendê-las também nos outros. De acordo com Moyles(2010, p. 71), [...] uma criança pequena pode saber que é uma “ótima autora” quando as pessoas gostam das suas histórias na escola, que é a “menininha amada” da mamãe e do papai, a “irmã mais velha boazinha” do irmãozinho bebê ou a “irmã menor chata” da irmã mais velha quando ela quer participar das brincadeiras dos mais velhos. De acordo com o Parecer CNE/CEB nº 20/2009, aprovado em 11 de novembro de 2009, no documento intitulado Revisão das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil: Cada criança apresenta um ritmo e uma forma própria de colocar- se nos relacionamentos e nas interações, de manifestar emoções e curiosidades, e elabora um modo próprio de agir nas diversas situações que vivencia desde o nascimento conforme experimenta sensações de desconforto ou de incerteza diante de aspectos novos que lhe geram necessidades e desejos e lhe exigem novas respostas. Assim busca compreender o mundo e a si mesma, testando de alguma forma as significações que constrói, modificando-as continuamente em cada interação, seja com outro ser humano, seja com objetos. Cabe às instituições de Educação Infantil assegurar às crianças a manifestação de seus interesses, desejos e curiosidades ao participar das práticas educativas, valorizar suas produções, individuais e coletivas e trabalhar pela conquista por elas da autonomia para a escolha de brincadeiras e de atividades e para a realização de cuidados pessoais diários. Tais instituições devem proporcionar às crianças oportunidades para ampliarem as possibilidades de aprendizado e de compreensão de mundo e de si próprias trazidas por diferentes tradições culturais e a construir atitudes de respeito e solidariedade, fortalecendo a autoestima e os vínculos afetivos de todas as crianças. (BRASIL, 2009). E agora, caro(a) acadêmico(a), ficou um pouco mais fácil? Para auxiliá- lo(a), traremos algumas dicas de como estimular o desenvolvimento saudável da identidade das crianças, nas instituições de Educação Infantil: • Reconheça a importância da “construção da identidade” para a aprendizagem e o desenvolvimento. 67 • Apoie e incentive a criança diante da posição ou mudança de identidade que adotar. • Incentive movimentos de autoconhecimento e autoestima entre as crianças para que elas aprendam a se conhecer e a se ver como os outros a conhecem e a veem. • Provoque situações que levem as crianças a manifestarem seus sentimentos de diversas maneiras. • Crie situações para que interajam com o grupo e deixe-as livres para que possam tomar decisões e ocupar posições enquanto se relacionam socialmente. • Seja sensível a tudo aquilo que as crianças lhe disserem, preste atenção a elas. Para Moyles (2010, p. 84) [...] Se a criança sente que os adultos importantes da sua vida se importam com ela, a valorizam e a aceitam como ela é, provavelmente terá uma autoestima elevada. Para ajudar as crianças que estão desenvolvendo seu senso de self e garantir que sua autoestima se mantenha elevada, os profissionais devem conhecer e ser sensíveis aos discursos aos quais a criança tem acesso – assim, compreenderão melhor como ela está escolhendo se posicionar ou está sendo posicionada pelos outros. Os profissionais também precisam ter em mente a natureza multifacetada e fluida da identidade e procurar dar à criança acesso a uma grande variedade de discursos e “maneiras de ser”. • Deixe espaço para que as crianças possam manifestar os próprios gostos e preferências, como, por exemplo, escolhendo a brincadeira, o livro ou a música que irão cantar. • Favoreça atividades para que elas percebam suas habilidades e limites e sejam capazes de perceber-se como um ser único e especial, no meio de tantos outros igualmente únicos. • Não esqueça que este processo de autoconhecimento inicia quando a criança nasce e a acompanha até o final da vida, sendo marcado pela história, pela cultura, pela família e pelo ambiente onde vive esta criança. Valorize, portanto, cada um destes detalhes. • Não faça comparações, cada criança é única. • Chame cada criança pelo nome, evite apelidos ou diminutivos. • Fique atento(a) às diferentes manifestações das crianças (gestos, atitudes, choro...), elas podem se comunicar com você, mesmo sem saber ou querer falar. • Sinta-se importante durante todo o processo de construção da identidade das crianças. 68 OS EIXOS NORTEADORES DA EDUCAÇÃO INFANTIL: INTERAÇÃO, BRINCADEIRA E PRENDIZAGEM INTRODUÇÃO Sabemos que a Educação Infantil faz parte da primeira etapa da educação básica. Por ser a primeira, necessita ser muito especial, pois se trata da BASE educacional das crianças. Esta BASE tem que ser sólida, tem que ter qualidade no atendimento, no planejamento e na formação continuada dos profissionais. Entre os vários fatores que formam os EIXOS NORTEADORES DA EDUCAÇÃO INFANTIL, encontram-se as MÚLTIPLAS LINGUAGENS, e é sobre cada uma delas que falaremos neste tópico. FIGURA 109 – MÚLTIPLAS LINGUAGENS FONTE: As autoras 69 BRINCADEIRAS E JOGOS INFANTIS Toda criança adora brincar e enquanto brinca desenvolve tantas aprendizagens que vale a pena refletir sobre elas e sobre a sua importância, dentro do processo de ensino e aprendizagem. Conforme Nascimento (2000, p. 1), A criança não é um adulto que ainda não cresceu, ela tem características próprias. Para alcançar o pensamento adulto (abstrato), ela precisa percorrer todas as etapas de seu desenvolvimento físico, cognitivo, social e emocional. Brincando, a criança desenvolve potencialidades; ela compara, analisa, nomeia, mede, associa, calcula, classifica, compõe, conceitua, cria, deduz etc. Sua sociabilidade se desenvolve; ela faz amigos, aprende a compartilhar e a respeitar o direito dos outros e as normas estabelecidas pelo grupo e a envolver-se nas atividades apenas pelo prazer de participar, sem visar recompensas nem temer castigos. Brincando, a criança estará buscando sentido para sua vida. Sua saúde física, emocional e intelectual depende, em grande parte, dessa atividade lúdica. Perceba, prezado(a) acadêmico(a), como é grande a lista de vantagens que se esconde num simples brincar para o desenvolvimento de aprendizagens significativas. Vamos a elas: Por tudo isso, Nascimento (2000, p. 1) afirma que: Brincar é tão importante para a criança como trabalhar é para o adulto. É o que a torna ativa, criativa, e lhe dá a oportunidade de relacionar- se com os outros; também a faz feliz e, por isso, mais propensa a ser bondosa, a amar o próximo, a ser solidária. Enquanto brinca, a criança desenvolve: Ela aprende também a: 70 Enquanto a criança brinca percebe a necessidade do outro e passa a preferir brincar em companhia de mais crianças do que sozinha, mesmo que essa parceria, às vezes, seja conflituosa e frustrante. Com isso, desenvolve sua inteligência emocional, tão importante para o crescimento. Em grupo, especialmente através de jogos, ela aprende também o significado de “ganhar e perder”. Prezado(a) acadêmico(a)! Não é novidade alguma que a criança utiliza múltiplas maneiras de se comunicar ou se expressar, concorda? Durante os jogos ou brincadeiras o que fica evidente é o movimento como linguagem, não apenas como ato de mover-se, pois, enquanto se movimenta, a criança é capaz de expressar seus sentimentos, quer sejam eles manifestados por gestos, emoções ou posturas corporais, principalmente quando a criança ainda não fala. O corpo demonstra aquilo que a criança sente ou quer falar e nós, educadores, precisamos ter sensibilidade para perceber isso. Conforme o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (BRASIL, 1998, p. 18): O movimento para a criança pequena significa muito mais do que mexer partes do corpoou deslocar-se no espaço. A criança se expressa e se comunica por meio dos gestos e das mímicas faciais e interage utilizando fortemente o apoio do corpo. A dimensão corporal integra- se ao conjunto da atividade da criança. [...] Pode-se dizer que no início do desenvolvimento predomina a dimensão subjetiva da motricidade, que encontra sua eficácia e sentido principalmente na interação com o meio social, junto às pessoas com quem a criança interage diretamente. A internalização de sentimentos, emoções e estados íntimos poderão encontrar na expressividade do corpo um recurso privilegiado. 2 MÚSICA E ARTES VISUAIS As crianças adoram cantar ou ouvir música, certamente porque desde muito pequeninas esta linguagem as acompanha, desde as canções de ninar dos pais ao gosto musical que a própria família lhes impõe, muitas vezes de maneira inconsciente. Quanto mais estimulada a ouvir, cantar e até mesmo tocar diferentes ritmos musicais, maior será o desenvolvimento da criança; ela será capaz de produzir sons com o próprio corpo ou com diferentes objetos, ampliando seu repertório. Por isto é importante ao educador selecionar músicas de qualidade, como citamos anteriormente. A música está diretamente ligada à sensibilidade, à expressão e à alegria. É muito importante que ofertemos diferentes oportunidades de apreciação e fazer musical para as crianças, tais como: os sons da natureza, do corpo, de diferentes instrumentos musicais, de jogos cantados, exploração de ritmos, gestos, canções de roda ou parlendas, o que as desenvolverá social e intelectualmente. 71 As artes plásticas ou visuais também compõem a lista de preferências da criança na Educação Infantil. Quando ela tem a oportunidade de manusear diferentes materiais e criar suas próprias obras, manifesta no mesmo instante uma série de sentimentos, ampliando assim sua percepção de mundo. LINGUAGEM ORAL E ESCRITA A fala é o principal veículo de comunicação entre a criança, os familiares, professores e colegas. Por meio da fala, a criança expressa seus sentimentos, desejos ou angústias. Este desenvolvimento pode acontecer através de conversas informais (roda da conversa) ou planejadas, como numa entrevista ou apresentação. Deve-se proporcionar estes momentos em sala de aula ou mesmo fora dela, e é importante incentivar que todos falem, que todos opinem, que manifestem seus interesses e que saibam compartilhar com o grupo o que pensam e o que sentem a respeito de determinado assunto, fazendo-se compreender. Neste tipo de atividade, exercita- se também a escuta, outro fator determinante na aprendizagem. Enquanto a criança fala e é ouvida pelos colegas e pela professora, ela sente-se importante, ampliando sua leitura de mundo, apropriando-se de novos conceitos e aumentando sua capacidade de argumentação. Na roda da conversa, enquanto a criança narra seu final de semana, por exemplo, é possível descobrir muitas coisas a respeito de uma rotina familiar tranquila ou de uma convivência familiar complicada, que, porventura, esteja afetando a vida desta criança. Enquanto relata, ela expressa desejos, sentimentos, medos, abusos, enfim, fatos reais do seu dia a dia. Temos que ficar bem atentos aos “sinais” que as crianças nos dão e criar um ambiente que valorize e incentive o diálogo e a livre expressão da criança. A leitura também faz parte da linguagem oral, e não é só à leitura de livros que estamos nos referindo, existe a leitura de mundo (pessoas, ambientes, espaços), de objetos, de imagens ou de músicas, que ajudarão no desenvolvimento da criança. Mesmo sem ler o código escrito, a criança pode abrir um livro ou revista e inventar a história a partir das imagens que vê e do conhecimento prévio que possui. Quem nunca se encantou vendo uma criança com um livro nas mãos lendo as imagens como se lesse realmente a história? Para desenvolver crianças leitoras, é preciso que o educador seja apaixonado pelos livros e faça da leitura uma atividade diária, desde a Educação Infantil. Para isso, faz-se necessário ter um bom acervo literário na instituição, se possível montar um cantinho de leitura dentro da própria sala de aula, onde as crianças tenham oportunidade de manusear diferentes materiais impressos como: livros, revistas, jornais, panfletos etc. Sabemos que a maioria das crianças de creche e pré-escola ainda não lê o código escrito, por isso esta tarefa cabe ao educador, mas é muito interessante deixá-las manusear os diferentes materiais, observar a imagens e levar as obras preferidas para casa. 72 Em relação à linguagem escrita, é possível afirmar que ela acontece naturalmente, dentro do processo construído com a criança até então. A criança da Educação Infantil vai avançando em sua etapa alfabética à medida que mantém contato com as letras e com os livros, num mundo de descobertas e aprendizagens. NATUREZA E SOCIEDADE As crianças têm verdadeiro fascínio pela natureza e estabelecem com ela laços de afetividade. Este é, sem dúvida alguma, o assunto de maior interesse e curiosidade das crianças, que, com o auxílio do educador, pode possibilitar descobertas, questionamentos, experiências e diferentes formas de investigações. As crianças percebem a natureza enquanto observam o voo dos pássaros ou borboletas, enquanto experimentam a textura de folhas, enquanto sentem o perfume das flores e até mesmo enquanto vigiam o caminhar das formigas. As crianças têm mais tempo e maior sensibilidade para observar os pequenos animais do jardim, para sentirem a brisa no rosto ou a garoa nos cabelos. Para elas, nem o sol é tão forte que as impeça de brincar e nem a chuva tão prejudicial à saúde, como dizem os adultos. Sujar os pés na lama, encher os olhos de areia ou fartar-se de tanto rolar na grama faz parte do show, conhecido por elas como VIDA. Nos primeiros anos de vida, a criança vai aprendendo inúmeras possibilidades sobre o mundo que está à sua volta, com suas cores e texturas. Aos poucos, ela vai estabelecendo contatos com a natureza e construindo novos conhecimentos. Percebe que a natureza interage com ela e vice-versa. Compreende que os outros também participam desta comunhão e que são igualmente responsáveis pela natureza. Surge, neste momento, a noção de sociedade e, junto com ela, a corresponsabilidade em relação aos cuidados com a vida, com o próximo e com a natureza. É fundamental, prezado(a) acadêmico(a), que, enquanto educadores, nos esforcemos para despertar nas crianças a consciência de que todos somos responsáveis pelas questões ambientais. Esta consciência precisa ser estimulada nas crianças desde bem pequeninas e nas pequenas atitudes do dia a dia, quer sejam em relação à questão do lixo, do desperdício, dos cuidados com a água, como com os animais, com as plantas, com o solo, com o ar, pequenas ações que poderão salvar o planeta. E qual é a melhor maneira de fazer tudo isso? Nossa dica é a de formar sujeitos que percebam o quanto precisam dos recursos naturais para sua sobrevivência. Sujeitos que, desde a Educação Infantil, aprendam a pesquisar, a ser críticos, reflexivos e participativos, que saibam tomar decisões e desenvolver ações humanas em favor da vida e do planeta. 73 EDUCAÇÃO E SAÚDE Quando falamos em saúde, nos referimos a uma das mais importantes palavras do dicionário dos pais em relação aos filhos. Cuidar da saúde física, mental e social de nossas crianças é uma tarefa fundamental, para que se garanta o bem-estar e a qualidade de vida delas. Esse cuidado envolve a saúde individual e coletiva, física e mental, em relação ao próprio corpo, à higiene, ao ambiente, à alimentação, aos relacionamentos, enfim, a tudo que possa vir a transformar e/ ou melhorar a vida das crianças e ao que nós, educadores, devemos estar atentos. Existemcuidados que podem facilitar o atendimento e favorecer autonomia nas aprendizagens em relação à saúde das crianças, por exemplo: pias e privadas baixas; espelhos em vários lugares; toalhas individuais e escovas de dente ao alcance das crianças. São coisas simples que farão toda a diferença. MATEMÁTICA Por mais incrível que possa parecer, a matemática surge muito cedo na vida da criança, que é capaz de realizar uma série de raciocínios matemáticos (à sua maneira, é lógico): resolver pequenos problemas, efetuar contagens, agrupamentos ou seriações e, para isso, utiliza muitas vezes o próprio corpo ou pequenos objetos, tais como pedrinhas ou botões. Os jogos e brincadeiras que envolvem regras, noções espaciais (em cima, embaixo, atrás), conceitos, organização, sequência, geometria e contagem oral são excelentes recursos para a construção de conhecimentos matemáticos que poderão se dar, naturalmente, enquanto brincam. Jogos de encaixe, brinquedos de empilhar ou ordenar, quebra-cabeças, jogos da memória ou de formas geométricas são sempre bem-vindos para o trabalho com este importante eixo, pois ensinam na prática o que ainda é abstrato na teoria. Cabe a todos nós, educadores, estimular e fortalecer os laços entre a matemática e a vida real das crianças. Sejamos criativos e aproveitemos ao máximo todos os recursos existentes, além de uma boa dose de criatividade e imaginação, para levar nossas crianças a pensar, ou seja, exercitar o raciocínio lógico, formular respostas e não apenas reproduzir respostas prontas; criar e resolver situações problemas e comunicar-se matematicamente com o mundo à sua volta. É com esta reflexão que encerramos o tópico e o(a) convidamos a permanecer firme em seus estudos, rumo à Unidade 3 deste caderno, na qual falaremos um pouco mais sobre a brincadeira, a linguagem corporal, musical e afetiva, dentro da abordagem de Reggio Emília. Agradecemos sua companhia! Siga em frente, com o mesmo empenho e dedicação! 74 AÇÃO E INTERAÇÃO PEDAGÓGICA NA EDUCAÇÃO INFANTIL A CRIANÇA E AS MÚLTIPLAS LINGUAGENS A ABORDAGEM DE REGGIO EMÍLIANA EDUCAÇÃO DA PRIMEIRA INFÂNCIA Caro(a) acadêmico(a)! Diferentemente do que você está pensando, Reggio Emília não é o nome de algum teórico ou de uma escola, trata-se de uma cidade de aproximadamente 130.000 habitantes, no nordeste da Itália. Esta cidade tornou-se conhecida e valorizada por ter um dos melhores sistemas de educação do mundo para a primeira infância. O que torna a cidade um fenômeno, em termos de educação, é o fato de que a proposta pedagógica não ocorre num contexto de elite ou de educação particular e, sim, em nível municipal de ensino. As crianças pequenas são desafiadas o tempo todo a explorarem o ambiente e manifestarem as suas linguagens verbais e não verbais no uso de palavras, gestos, movimentos, brincadeiras, música, artes cênicas ou visuais. Por meio destas manifestações, desenvolvem a criatividade, a curiosidade, o espírito investigativo e, por consequência, uma série de habilidades e competências. O principal professor, inspirador e organizador desta proposta pedagógica desenvolvida em Reggio Emília, foi Loris Malaguzzi. De acordo com Hoyuelos (2004), o trabalho de Malaguzzi apresentava duas constantes: projetar e ter confiança no futuro. FIGURA 129 – LORIS MALAGUZZI FONTE: Disponível em: <http://redesolarebrasil.blogspot.com/2011/02/ http://redesolarebrasil.blogspot.com/2011/02/ 75 homenagem-loris-malaguzzi-2302-data-do.html>. Acesso em: 9 jan. 2012. A história de amor de Malaguzzi pela educação começou logo após o término da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando se iniciava o processo de reconstrução das escolas públicas de Reggio Emília. Malaguzzi desejava uma escola que rompesse com o formato anterior, determinado pelos fascistas. Queria uma escola que lutasse contra o tédio e a acomodação e que, acima de tudo, contribuísse com a formação humana. O lema deste importante educador era “PARA AS CRIANÇAS É PRECISO OFERECER O MELHOR”. E o que seria este melhor? Na opinião de Malaguzzi (apud EDWARDS; GANDINI; FORMAN, 1999), esse melhor era ter um espaço onde as crianças fossem acolhidas, ouvidas, desafiadas, estimuladas de todas as formas e nas mais diferentes linguagens, levando-as a se tornarem autônomas em todos os sentidos. Barbosa e Horn (2008, p. 118-121) sintetizaram alguns princípios que regem a pedagogia reggiana, que resumiremos no quadro a seguir: QUADRO 15 – PRINCÍPIOS DA PEDAGOGIA REGGIANA A escola/instituição de Educação Infantil O professor As crianças Não tem muros, é conectada com as crianças e a cidade onde está localizada – com as diversas organizações políticas, sociais e culturais e, de modo especial, com as famílias. Considera as inúmeras potencialidades das crianças e respeita sua cultura. Acredita que elas são competentes e curiosas e as impulsiona a usarem suas capacidades para prever, resolver problemas, planejar, encontrar soluções, organizar seu t rabalho, e s t a be l e ce r re l a çõe s e compreender como funciona o mundo, construindo sua história. São pessoas, não apenas alunos. Malaguzzi afirmou: “É necessário que estejamos convencidos, nós, os adultos, de que as crianças não possuem apenas direitos, mas que são portadoras de uma cultura própria. Que têm capacidade de elaborar cultura, que podem construir sua cultura e contaminar a nossa”. (apud HOYUELOS, 2004, p. 56). Tem uma proposta pedagógica transparente, que considera o entorno físico e social como um parceiro na construção dos processos de conhecimento. Em vez de ser falante, aprende a escutar as crianças. “Escutar” através da observação, da sensibilidade, da atenção, das diferentes linguagens. São ouvidas e valorizadas como pessoas que têm algo a dizer e que precisam ser escutadas. Po s s ui um a ped agogia sistêmica, porque nasce de uma relação entre pessoas. Entende que é preciso dialogar, conversar sobre tudo e, fundamentalmente, entre todos. Entende que todos os seres humanos têm cem linguagens, principalmente as crianças e por isso oferece a elas muitas experiências com diferentes linguagens, assim como diferentes formas de representação, como o desenho e a modelagem, para que elas possam tornar visíveis as suas aprendizagens. Ao passarem de uma linguagem para outra, d e s c o brem qu e c ad a transformação gera algo de novo, complexifica e faz aprender sobre aquela l inguagem expressiva, comunicativa, simbólica, cognitiva, ética, metafórica, ló gic a, im aginat iva e relacional. 76 Cuida de sua “memória” através da documentação que é um processo para o registro da leitura e dos valores dos processos de aprendizagem das crianças, constituindo-se em um instrumento de interpretação e de c o n h ec i me n t o . A documentação é suporte para a pesquisa do professor, para o conhecimento do grupo, para a proposição de conteúdos. Cuida da qualidade dos espaços escolares que refletem uma nova forma de pensar a educação. A organização do ambiente é uma linguagem silenciosa que sugere conteúdos, ideias, relações e propostas. Os espaços são elaborados para trabalhar em grupo, conversar, refletir, revisar as experiências e teorias para, assim, poder encontrar ordem e significado. São vistas como pessoas c apazes d e d ia lo gar, argumentar e reflet i r. É e s senc ia l que elas participem e sintam-se parte, protagonistas e responsáveis pelos a contec imentos presentes e futuros. Investe na formação permanente dos professores a partir daquilo que os próprios educadores produzem, acreditando que as competências educativas nascem da interação com a prática educativa e com as crianças– e quem está com elas. Enxerga todos os adultos e crianças como seres criativos, capazes de gerar aprendizagem. São e s t i m u l a d a s em ateliês, que representam e spaços e spec i a i s de q u e s t i o n a m e n t o s , de atenção à arte, à estética, à inves t igaç ão vis ual e à criatividade. Estes espaços possuem objetos e instrumentos que podem gerar fazeres e pensares, d e s p e r t a n d o as cem linguagens. Na pedagogia de Reggio Emília, acredita-se que quanto mais sensível for o adulto, quanto mais ele conhecer sobre as diferentes áreas de conhecimentos, mais ele será capaz de oferecer às crianças situações de aprendizagens diferentes. Trabalha os conteúdos dentro da pedagogia de projetos, cons t ru indo vínculos e relações com as crianças. Planeja rigorosamente que perguntas fazer, quais materiais utilizar, como documentar a experiência, colocando em ação a ideia de coensino entre adulto e criança. Recebem de seus professores “vestígios do mundo”, sobre os quais farão perguntas e os auxiliarão a construir caminhos. Desse modo, as crianças criam vínculos entre os conhecimentos, os pontos de intersecção e as aprendizagens. O trabalho é desenvolvido com projetos e na dimensão de Reggio Emília; projetar significa prever e antecipar ideias. C a r a c t e r i z a o e n s i n o p r i n c i p a l m e n t e p e l a oportunidade da palavra dada às crianças, pelo prestar atenção ao que observam, dialogam e brincam, enfim, por tudo o que pode interessá-las. No trabalho com projetos, elas vivenciam uma rica experiência nos pequenos ou grandes grupos e percebem que suas ideias voltam, voam alto ou se diluem. O conhecimento c hega-lhes através de conversas, de diálogos, discussões, negociações ou de organizações de ideias, capazes de gerar novos conhecimentos. FONTE: Adaptado de: Barbosa e Horn (2008, p. 118-121) A maneira de tratar a educação e as crianças em Reggio Emília deve ir além de ser apenas exemplo de uma experiência precursora e bem-sucedida de trabalho e, sim, servir como fonte inspiradora de novas posturas, olhares e fazeres pedagógicos. 77 FIGURA 130 – MENINOS FELIZES FONTE: Disponível em: <http://menina-voadora.blogspot.com/2011/02/ criancas-sorrindo.html>. Acesso em: 9 jan. 2012. APRENDER E ENSINAR NA EDUCAÇÃO INFANTIL No início desta unidade, mais precisamente na Introdução, pontuamos diferentes maneiras ou recursos dos quais a criança se utiliza para aprender no seu dia a dia. Desde o momento em que vem ao mundo, a criança inicia o processo de aquisição de diferentes aprendizagens. O ambiente lhe possibilitará todos os recursos necessários às primeiras descobertas, cheiros, gostos e sensações. Ninguém precisa, por exemplo, ensinar ao bebê recém-nascido o que ele tem de fazer quando o peito da mãe se aproxima de sua boca. Tudo acontece como num “passe de mágica”, afetivo, biológico e natural. FIGURA 131 – AMAMENTAÇÃO FONTE: Disponível em: <http://mamaraopeito.blogspot. com/2009/03/amamentacao-la-carte.html>. Acesso em: 9 jan. 2012. http://menina-voadora.blogspot.com/2011/02/ http://mamaraopeito.blogspot/ 78 Segundo o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil - RCNEI (BRASIL, 1998, p. 21), “[...] a criança é um ser social que nasce com capacidades afetivas, emocionais e cognitivas, podendo aprender nas trocas sociais com diferentes crianças e adultos cujas percepções e compreensões da realidade também são diversas”. Aprender e ensinar são, portanto, palavras que se inter-relacionam e se complementam. Quanto mais aprendo, melhor ensino. Quanto mais ensino, mais aprendo. O aprendizado transcende os espaços de uma escola, de uma sala de aula com horários preestabelecidos de aprendizagem ou rotina. Ele está em todo lugar e em qualquer tempo, fazendo-nos companhia do primeiro ao último dia de nossas vidas. O educador, que tem essa concepção de que aprende enquanto ensina, também é capaz de enxergar com outros olhos suas crianças, valorizando-as, compreendendo-as em suas diferenças e dificuldades. Preocupa-se em ofertar para elas um ambiente escolar rico e desafiador, que realmente as “prepare para a vida”, em todos os níveis do comportamento humano: biológico, psicológico e social. No mundo contemporâneo, as informações circulam a uma velocidade surpreendente, e o educador precisa sentir-se desafiado o tempo todo para buscar novos conhecimentos, viabilizando outras formas de repassá-los e apropriando- se de recursos que sejam capazes de atrair as crianças. Ele precisa conhecer as novas mídias (as crianças já as conhecem), sem se esquecer de dar especial atenção à formação integral dos educandos, os valores humanos como: solidariedade, respeito, cidadania, responsabilidade, justiça, entre tantos outros, igualmente relevantes na formação das crianças. FIGURA 132 – AS CRIANÇAS E A TECNOLOGIA FONTE: Disponível em: <http://demervalgalvao.blogspot.com. br/2012/10/criancas-digitais-elas-estao-crescendo.html>. Acesso em: 10 jan. 2012. http://demervalgalvao.blogspot.com/ 79 Aprender é muito mais do que ouvir, exercitar e reproduzir conteúdos programáticos. Apreender (escrito com dois “ês”) significa tomar o conhecimento para si, apropriar-se dele. É deste tipo de aprendizagem que estamos falando. Da aprendizagem que tem objetivo, contexto e significação para a vida das crianças, desde a mais tenra idade. É importante ressaltar, prezado(a) acadêmico(a), que acriançada Educação Infantil está protegida por documentos importantes que lhe garantem direitos em relação ao seu atendimento e desenvolvimento integral. Entre eles podemos citar: RCNEI (Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil), DCNEI (Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil) e PNQEI (Parâmetros Nacionais de Qualidade da Educação Infantil) que traduzem as políticas estabelecidas em leis nacionais, servindo como base para todo o país. O professor da Educação Infantil necessita ter uma postura pedagógica que articule as múltiplas linguagens com o objetivo de atingir suas metas educativas. É fundamental que ele desperte nas crianças o desejo de aprender, de construir e de vivenciar o conhecimento em todas as suas vertentes, através da música, da arte, da dança, da escrita, da fala, do teatro, do raciocínio lógico-matemático, da relação com a natureza, da inventividade, da criatividade, da autonomia, da interação com os colegas e professores e, especialmente, da ALEGRIA, no mais amplo sentido da palavra. A grande questão é oferecer às crianças diferentes possibilidades de comunicação, expressão e aprendizagem, com todas as especificidades, criando novos conceitos ou até mesmo recriando ou ressignificando conceitos já existentes. Nas palavras de Zabalza (1998, p. 52), Prezado(a) acadêmico(a)! A partir deste momento, já apresentados no, apresentaremos alguns dos eixos norteadores, na forma também de múltiplas linguagens, defendidas por importantes teóricos: Por meio das brincadeiras, as crianças vivem situações do mundo real e aprendem a elaborar o seu imaginário, a buscar a realização de seus desejos e, portanto, a estruturar o pensamento. Entender as brincadeiras das crianças é fundamental para possibilitar-lhes que representem os papéis que escolheram para brincar: brincar de casinha, sendo mãe, pai e filhos; brincar com panelinhas ou de boneca; jogar futebol, saltar, correr, pular; brincar de herói ou bandido, recriando os heróis que fazem parte do seu cotidiano, de sua sociedade. Já para Ferraz e Fuzari (1993, p. 86), “Brincar na infância é o meio pelo qual a criança vai organizando suas experiências, descobrindo e recriando seus sentimentos e pensamentos a respeito do mundo, das coisas e das pessoascom as quais convive”. Assim, estamos possibilitando a descoberta e o conhecimento, de forma prazerosa, do mundo que rodeia as crianças, fazendo com que aprendam a lidar com o respeito mútuo, divisão de tarefas, de brinquedos e a se expressarem, ampliando as suas experiências. A criança aprende muito enquanto brinca e interage com os colegas. 80 “Quem canta seus males espanta”, já diz um ditado popular, não é mesmo? Toda criança adora cantar, tocar e dançar, isto faz parte de seu repertório infantil. Diante disso, cabe a nós, adultos, oferecer-lhes situações prazerosas de interação e estimuladas ao máximo, pois, segundo Rosseti-Ferreira (2007, p. 113), Conforme afirmam Mahoney e Almeida (2004, p. 18), “O afetivo é, portanto, indispensável para energizar e dar direção ao ato motor e ao cognitivo. Assim como o ato motor é indispensável para a expressão do afetivo, o cognitivo é indispensável na avaliação que estimulará emoções e sentimentos”. Prezado(a) acadêmico(a)! Falaremos mais sobre afetividade no próximo tópico, aguarde! Esperamos que você tenha compreendido a relação entre ensinar e aprender na Educação Infantil. Que tenha percebido, também, o quanto as múltiplas linguagens são essenciais para o desenvolvimento infantil, pois são elas que abrem as portas do mundo às crianças, desdobrando-se na construção de novos conhecimentos, à medida que interagem com seus semelhantes. A IMPORTÂNCIA DA AFETIVIDADE E DAS INTERAÇÕES NA EDUCAÇÃO INFANTIL Juntamente com o brincar, outra importante linguagem se manifesta. Estamos falando da linguagem corporal. É através do corpo que a criança estabelece contato com o mundo e com as pessoas que a rodeiam. É com o próprio corpo que ela experimenta as mais diversas emoções e sensações. As crianças adoram aliar os movimentos (gestos, dança, faz de conta) à música, surgindo então outra importante linguagem, a musical. Através dela, sensações e sentimentos podem ser experimentados, laços afetivos, culturais e sociais podem ser fortalecidos e novos conhecimentos podem ser oportunizados. Para finalizar, não poderíamos deixar de mencionar a linguagem que pode ser considerada uma das mais significativas, quando o assunto é Educação Infantil: a linguagem afetiva. É através das emoções que a criança manifesta seus desejos ou angústias. 81 INTRODUÇÃO Caro(a) acadêmico(a)! Tudo o que você estudou até aqui, refere-se a duas palavras fundamentais que compõe no universo da Educação Infantil: afetividade e interação. Quando não há um ambiente acolhedor, afetivo e interativo, entre educadores e educandos, dificilmente haverá aprendizagens significativas. Quando não há vínculos positivos entre as pessoas que compartilham dos mesmos espaços e interesses podem surgir barreiras emocionais que impeçam o “prazer de conviver, ensinar e aprender em grupo”. Aprendizagem, afetividade e interação caminham juntas. Justamente por isso, prezado(a) acadêmico(a), abordaremos este conteúdo no presente tópico, enfocando as relações de afetividade nas interações do dia a dia da Educação Infantil; a parceria positiva entre os pais e educadores na educação das crianças e os quatro pilares da educação, considerados pela UNESCO as “quatro aprendizagens essenciais”. RELAÇÕES DE AFETIVIDADE NAS INTERAÇÕES DO DIA A DIA Quando uma criança vai à escola, jardim ou creche pela primeira vez, normalmente chora. Ela não chora porque é manhosa ou medrosa, mas por não perceber no novo espaço vínculos afetivos. Ela não conhece ninguém, e, por mais simpáticos que sejam os professores ou funcionários, eles dificilmente conseguem conquistar sua confiança nos primeiros dias. A criança rompe naquele momento o “segundo cordão umbilical” que a liga à família, aos parentes mais próximos, à babá, à sua casa, aos seus brinquedos. É como se estivesse nascendo novamente num mundo completamente diferente daquele habitado por ela, até então. Aos poucos, esse “novo espaço”, tão assustador, vai parecendo-lhe mais amistoso, acolhedor e menos estranho. A criança, mesmo que de maneira tímida, passa a trocar olhares com outros colegas, começa lentamente a deixar-se encantar pela professora, confia nela e sente-se segura ao seu lado. Percebe, também, que está rodeada de amigos e que nada de ruim vai lhe acontecer, então deixa de chorar ou exigir a presença dos pais. Isso pode durar um dia, uma semana ou até mesmo um mês. Cada criança tem seu tempo para adaptar-se, cabe à instituição e aos pais respeitarem esse tempo. Quando a instituição de Educação Infantil finalmente passa a fazer parte do “mundo infantil” da criança e estabelece vínculos afetivos com ela, conquista todo o seu amor e carinho, a sua afeição e respeito e, por que não dizer, a sua paixão e curiosidade, que lhe são tão peculiares. 82 As crianças, em geral, sentem necessidade do toque, do olhar carinhoso, do ouvido atento e do sorriso acolhedor do professor, pois, devido às tecnologias e à correria da atualidade, as relações estão cada vez mais distantes, as famílias cada vez menores, os pais cada vez mais envolvidos com seus compromissos profissionais e, muitas vezes, ausentes no lar, o que leva muitas famílias a comporem um cenário contraditório, em que as crianças têm tudo em termos materiais, mas são carentes de afeto. “As crianças têm necessidade do pão: do pão do corpo e do pão do espírito. Mas necessitam ainda mais do teu olhar, da tua voz, do teu pensamento e da tua promessa”. (FREINET apud ELIAS, 1997, p. 91). Os profissionais precisam estar afetiva e profissionalmente preparados para receber estas crianças, num espaço acolhedor e diversificado, para que possam ser atendidas também em suas necessidades básicas. No dia a dia da Educação Infantil, é possível perceber e transformar esta necessidade afetiva, em momentos de interação positiva, através de trabalhos em grupo, conversas coletivas, atividades cooperativas, cantos, teatros, brincadeiras ou “roda” – da conversa, da história e de muitas outras coisas, pois, conforme Ostetto, (2006, p. 158), “A roda, feito espiral em movimento circular ascendente, une todos, e o seu movimento a cada volta modifica o desenho do cotidiano, daprática pedagógica, integrando papéis e histórias, incorporando as diferenças”. Vejamos alguns motivos para utilizar a roda como recurso pedagógico: 83 A roda fortalece os vínculos afetivos do grupo, pois eles passam a sentir-se parte da vida do outro a partir do momento em que estabelecem relações, quer seja como ouvintes ou como protagonistas da vida real. Para Warschauer (1993, p. 50), O interessante desta posição circular é a questão de que não há início e nem fim, nem o primeiro ou o último, ou ainda diferença nos posicionamentos, todos se encontram numa mesma linha, juntos e em equilíbrio. Todos estão incluídos e têm as mesmas chances de participação, o que facilita a união, distanciando-se da competição e da disputa de poder. De acordo com Ostetto (2006, p. 158), Além de tudo, a roda nos aproxima das crianças e nos torna, de certa forma, “cúmplices”, parceiros e amigos, ampliando de maneira natural nossos vínculos afetivos. PAIS E EDUCADORES: UMA IMPORTANTE PARCERIA NA EDUCAÇÃO DAS CRIANÇAS Prezado(a) acadêmico(a)! “Feliz é o educador que tem os pais a seu lado”, formando uma tríade perfeita entre ESCOLA/FAMÍLIA/CRIANÇA. Você concorda com isso? QUADRO 16 – DICAS PARA UMA PARCERIA ENTRE A ESCOLA, A FAMÍLIA E A CRIANÇA Abra os portões e deixe os pais entrarem na instituição, eles também precisam sentir-se parte integrante dela. Receba a criança e a acolha diante dos pais com simpatia e amor, nenhum pai aprecia sentir o professor indiferente à presença de seu filho. Seja cordial e receptivo(a) às dúvidas dos pais por mais impertinentesou simplórias que possam parecer. Coloque-se à disposição para ouvi-los, desde que isso não ultrapasse o momento de estar com as crianças. Agende horários para conversas, fora do horário de aula, com os pais necessitados de atenção. Mantenha-se transparente em todas as suas ações. Pais seguros interferem menos e acabam nos auxiliando em nosso trabalho. Comunique-se de todas as formas possíveis. Comunicação é fundamental. Convide os pais para prestigiarem momentos especiais e agradáveis da instituição, não só para conversas difíceis ou entrega de avaliações. Auxilie os pais a conhecerem e valorizarem a função educativa da instituição. Estabeleça vínculos de confiança e respeito mútuo com a criança e seus pais. Seja sincero(a), não omita as verdades, diga o que pensa e o que precisa ser dito, mas saiba fazê- lo com delicadeza. Procure a ajuda de profissionais especializados quando perceber algo diferente na criança (alguma síndrome ou dificuldade de aprendizagem) – não dê diagnósticos, encaminhe. Estabeleça contato também via e-mail ou telefone com os pais em caso de necessidade e mostre- se preocupado(a) em atendê-los. Convide-os a participar de momentos ou decisões importantes da instituição. 84 Apresente registros, fotos, jornais ou materiais que esteja desenvolvendo com a turma. Desta maneira você estará possibilitando aos pais acompanharem todo o processo ensino- aprendizagem do filho. Os pais que acompanham o trabalho do(a) professor(a) de perto o(a) valorizam mais. Realize reuniões de caráter pedagógico ou formativo. Lembre-se de que não existem duas famílias iguais e, sendo assim, respeite as peculiaridades de cada uma. Procure estabelecer com os pais um “mesmo direcionamento” diante de alguma necessidade da criança. Procurem falar a mesma língua e não sejam contraditórios diante dela. Mantenha-se aberto(a) às críticas e paciente às grosserias, elas vão ocorrer inevitavelmente. Acalme os pais de maneira amistosa, fale baixo e com diplomacia, defenda-se, se for o caso. Parta do pressuposto de que cada pai conhece o filho que tem e vá com calma na hora de falar dele. Comece sempre elogiando a criança e aos poucos relate sobre a situação que preocupa você. Mostre aos pais que você é justo(a), que trata a todas as crianças com igualdade e respeito, que não há preferidos ou privilegiados em sua turma. Demonstre segurança em seus gestos, atitudes ou palavras. Os pais precisam sentir que deixaram o filho em boas mãos. Leia muito sobre as crianças – é preciso conhecê-las para amá-las e compreendê-las verdadeiramente. Conheça suas histórias de vida. Brinque com suas crianças, mostre-se feliz na presença delas. O professor ou professora, que brinca com as crianças, é facilmente lembrado(a) por elas, mesmo quando não estão na escola. Enfim, compartilhe seus momentos mais especiais na instituição com os pais das crianças, e descobrirão que, embora em espaços diferentes, ambos lutam pelo mesmo objetivo: o crescimento pessoal e integral da criança, numa atmosfera alegre e prazerosa. FONTE: As autoras Estabelecer parceria com as famílias pressupõe aceitá-las em suas individualidades e características próprias, não se esqueça disso! Hoje sabemos que famílias são compostas de diferentes maneiras. Não há mais apenas um padrão de família nuclear, em que o pai é o chefe e provedor e a mãe cuida dos filhos. As famílias apresentam formações diversas: com pais separados, netos criados por avós, mães que cuidam sozinhas dos filhos, pais abandonados por esposas que assumem os filhos etc. O professor necessita de informação e preparação para lidar com todos os tipos de famílias, despindo-se completamente de qualquer preconceito ou pudor. De acordo com Oliveira (2008, p. 176-177), A cultura da violência (física ou simbólica) presente em muitas famílias (agressões, espancamentos, ameaças, castigos, humilhações), os abusos sexuais existentes em muitas delas, a diminuição da disponibilidade de tempo que os pais têm para ficar com os filhos, o conhecimento de casos de abandono da criança (desde não lhe trocar a fralda por muitas horas até trancá-la no quarto ou deixá-la por longo tempo vendo TV) arranham a imagem da família como ambiente protetor da prole. Não obstante isso, a família não pode ser destituída de seu papel de importante agência educativa dos filhos em proveito da creche ou pré-escola. 85 Os pais não podem se eximir do compromisso na educação dos filhos, eles necessitam ser chamados à responsabilidade, precisam resgatar o sentimento de coparticipação na educação dos mesmos diante da escola e não simplesmente delegar a ela toda a responsabilidade, o êxito ou a culpa pela educação dos filhos. Por outro lado, os professores também devem abrir espaço às famílias. Quando os pais percebem que são acolhidos, juntamente com a criança quando chegam à instituição, passam a ver o professor não como alguém que compete com eles, mas sim como alguém que tem muito a acrescentar, aprender e ensinar ao filho, tanto no âmbito educacional, quanto psicológico, social e afetivo. OS QUATRO PILARES DA EDUCAÇÃO De acordo com Antunes (2008, p. 45-46), [...] educar não significa apenas transmitir o legado cultural às novas gerações, mas também ajudar o aluno a aprender o aprender, despertar vocações, proporcionar condições para que cada um alcance o máximo de sua potencialidade e, finalmente, permitir que cada um conheça suas finalidades e tenha competências para mobilizar meios para concretizá-las, chega-se ao sentido estrutural da questão: o que significa educar. Em síntese: aprender a conhecer, fazer, viver junto e aprender a ser. Essa ideia que se faz da educação recebeu forte subsídio com um novo papel da educação que se discutiu em Jomtien, em 1990, em uma Conferência Internacional sobre Educação promovida pela UNESCO, quando produziu o documento “A Declaração Mundial sobre a Educação para Todos”. Nesse documento se ressaltava que o principal compromisso da educação baseava-se em quatro aprendizagens essenciais: FIGURA 146 – QUATRO PILARES DA EDUCAÇÃO FONTE: Antunes (2008, p. 45-46) Para seu melhor entendimento, caro(a) acadêmico(a), conceituaremos cada um dos pilares, de acordo com Antunes (2008, p. 45-46) dentro do quadro a seguir: 86 QUADRO 17 – QUATRO PILARES DA EDUCAÇÃO – CONCEITO Aprender a conhecer Aprender a fazer Aprender a viver junto Aprender a ser Quem aprende a Reitera a certeza Retira da escola/ Envolve uma conhecer, em última de que é a escola/ instituição de ideia ampla de análise aprende a instituição de Educação Infantil autoconhecimento, aprender e, dessa Educação Infantil um a imagem de um na qual se descobre forma, a dominar espaço para estímulo espaço competitivo, que a educação competências para e aprendizagem de onde se destacam necessita preparar assumir o legado competência para o e são aplaudidos integralmente, cultural conquistado trabalho, não como os melhores, portanto, espírito e como instrumento sinônimo de profissão, transformando-a em corpo, inteligência de reflexão e de mas como domínio de ambiente no qual se e sensibilidade, ação e não apenas habilidades essenciais ensina solidariedade, sentido estético e como domínio de à geração de bens e de em que o aluno responsabilidade informações pré- riquezas, e, sobretudo, aprende a se conhecer pessoal, ética e organizadas. de realização pessoal e e a conhecer e respeitar espiritualidade. construção social. integralmente o outro. FONTE: Adaptado de: Antunes (2008, p. 45-46) Neste momento, você deve se perguntar como aplicar cada um destes pilares essenciais na Educação Infantil, ou seja, que atividades práticas podem ser desenvolvidas objetivando sua aquisição. Porém, isso é perfeitamente possível, e para ajudá-lo(a) ainda mais, caro(a) acadêmico(a),traremos a sugestão de algumas atividades ou dinâmicas: QUADRO 18 – SUGESTÕES DE ATIVIDADES EM RELAÇÃO A CADA PILAR DA EDUCAÇÃO Aprender a conhecer Aprender a fazer Aprender a viver junto Aprender a ser - Desenvolva atividades que estimulem a pesquisa, através do manuseio de livros ou revistas. - Verifique o conhecimento prévio que as crianças têm do assunto e as questione, colocando- as em dúvida e, desta forma, despertará nelas o espírito de investigação. - Realize e registre o levantamento de hipóteses que elas farão. - Estimule a curiosidade pela busca de respostas. - Deixe as crianças colocarem a “mão na massa” para que aprendam fazendo e não apenas ouvindo como é que se faz. - Auxilie-as nos primeiros momentos, elas precisam sentir-se à vontade durante a atividade prática. - Realize experiências científicas, elas simplesmente adoram. - Faça conexões entre a teoria e a prática, qualquer conteúdo torna-se melhor compreendido quando passa por estes dois eixos. - Reúna as crianças várias vezes ao dia para que façam atividades coletivas como: brincar, cantar, ouvir histórias, conversar. - Pratique o recurso da “roda” para cada um destes momentos. - Estimule atividades que envolvam trabalho em grupo. - Desenvolva jogos que necessitem da cooperação do grupo e não da competição, propriamente dita. - Fortaleça nas crianças a importância do “SER” e não apenas do “TER”. - Trabalhe, intensa e diariamente, valores humanos com elas: paz, amor, verdade, justiça, tolerância, respeito, paciência, responsabilidade, solidariedade, empatia, doação, voluntariado, convivência, entre outros valores que nos fazem “SER” pessoas melhores. 87 - Deixe as crianças falarem e as ouça com atenção através de incontáveis “rodas de conversa” sobre determinados assuntos. - Leve-as ao computador para que conheçam outras fontes de pesquisa. - Evite respostas prontas, provoque- as a responder às próprias perguntas. - Demonstre como fazer e deixe com que tentem sozinhos, independentemente do resultado final, a experiência de “fazer sozinho” terá valido a pena para a criança. - Valorize a iniciativa e a criatividade da criança. Perceba cada pequeno gesto ou progresso e verbalize seu contentamento. - Não tenha receio de que as crianças se sujem com tinta ou barro, isso faz parte e não terá a menor importância diante do momento e das aprendizagens vividas. - Preste atenção para que não ingiram substâncias perigosas ou se machuquem durante as atividades, fora isso, tudo “vira festa”, pois o que importa são as vivências e as sensações possibilitadas. - Incentive suas crianças a prestigiarem e aplaudirem seus colegas após uma apresentação. - Ensine-as a serem solidárias, a amarem e respeitarem o próximo, do jeito que ele é, por mais “diferente” que seja. - Realize, em parceria com as famílias, projetos sociais como as campanhas do agasalho, do brinquedo ou do alimento. Depois faça um passeio levando as crianças a entregarem estes donativos às famílias carentes da comunidade, confrontando-as com outras realidades e levando-as a perceber o quanto o “outro também precisa de nós, ao mesmo tempo em que nós precisamos dele”. - Pratique falas coerentes e dê exemplos positivos. - Faça reflexões dialogadas a respeito de preconceito, discriminação e desigualdades sociais com as crianças, você se surpreenderá com o bom senso delas. - Desenvolva atividades que promovam a autorreflexão e o autoconhecimento da criança ou grupo de trabalho. - Prepare as crianças para que possam se desenvolver integralmente através de atividades que exijam corpo, mente e sensibilidade. FONTE: As autoras PROJETOS PEDAGÓGICOS NA EDUCAÇÃO INFANTIL A PEDAGOGIA DE PROJETOS A sociedade atual encontra-se mais globalizada e informatizada do que nunca. Ela evoluiu de maneira significativa em pouco tempo e, pelas perspectivas, continuará fazendo isso... O que não se pode aceitar é que os adultos pensem que apenas eles evoluíram dentro deste processo. As crianças também evoluíram e não podem ser tratadas dentro dos mesmos moldes de 30 anos atrás. Da mesma maneira, a escola precisa evoluir e sair do posto de transmissora de conhecimentos acumulados, para a função de estimuladora da busca e mediadora/organizadora dos conhecimentos das crianças. Diante desta nova demanda, destas “novas” crianças, o sistema educacional não pode fazer-se de rogado e fechar os olhos. Precisa antenar-se para novas maneiras de ensinar e aprender, respeitando as múltiplas linguagens, 88 as experiências socioculturais, a individualidade das crianças com as próprias histórias e as diferentes maneiras de organizar o conhecimento. A pedagogia de projetos pode dar conta de tudo isso. Inúmeras revistas ou materiais de publicação com circulação nacional já vêm abordando esta nova proposta de organizar o ensino e a aprendizagem. Segundo Barbosa e Horn (2008, p. 29), “Projetar” significa visualizar o que está à frente, planejar adiante, isto é, pensar ou executar uma ação direcionando-a para o futuro. Um projeto pode nascer de uma intenção, necessidade ou desejo e vai sendo construído à medida que se fortalece, embasado na curiosidade das crianças, no objetivo dos educadores e no interesse em “descobrir”, de ambos. Nas palavras de Barbier (1993, p. 52), “O projeto não é uma simples representação do futuro, do amanhã, do possível, de uma ideia; é o futuro a fazer, um amanhã a concretizar, um possível a transformar em real, uma ideia a transformar em ato”. Barbosa e Horn (2008) apresentam alguns conceitos para a palavra projeto dentro da realidade escolar. Para elas, PROJETO pode ser entendido como: QUADRO 19 – CONCEITOS PARA A PALAVRA PROJETO Um plano de trabalho, ordenado e particularizado para seguir uma ideia ou um propósito, mesmo que vagos. Um plano com características e possibilidades de concretização. Um plano de ação intencionado que potencializa a capacidade de avaliar o futuro a quem o propõe ou vive; que, por antecipar-se na consciência e ter como base o passado e o presente, oferece uma consequente capacidade metodológica para a escolha dos meios necessários para a concreta realização do plano. Uma abertura para possibilidades amplas de encaminhamento e de resolução, envolvendo uma vasta gama de variáveis, de percursos imprevisíveis, imaginativos, criativos, ativos e inteligentes, acompanhados de uma grande flexibilidade de organização. Uma proposta que permite criar, sob forma de autoria singular ou de grupo, um modo próprio para abordar ou construir uma questão e respondê-la. Proposta esta que possibilita momentos de autonomia e de dependência do grupo; momentos de cooperação do grupo sob uma autoridade mais experiente e também de liberdade; momentos de individualidade e de sociabilidade; momentos de interesse e de esforço; momentos de jogo e de trabalho como fatores que expressam a complexidade do fato educativo. Uma proposta que leva as crianças a pensarem em temas importantes do seu ambiente, refletirem sobre a atualidade e considerarem a vida fora da escola. Uma proposta elaborada e executada para as crianças aprenderem a estudar, a pesquisar, a procurar informações, a exercitar a crítica, a duvidar, a argumentar, a opinar, a pensar, a gerir as aprendizagens, a refletir coletivamente. E o mais importante, os projetos são elaborados e executados com as crianças e não para as crianças. FONTE: Adaptado de: Barbosa e Horn (2008, p. 31-34) Mas afinal de contas, o que significa a palavra PROJETO? 89 O PROFESSOR NA PEDAGOGIA DE PROJETOS Conforme afirmamos, falaremos sobre o papel e a postura do professor, dentro da pedagogia de projetos. Para isso, utilizaremos definições de Barbosa e Horn (2008, p. 45, 85-87), sintetizadasnos quadros a seguir: Cabe ao professor: • organizar estratégias e materiais, colocando as crianças em contato com diferentes objetos de cultura; • apontar vários caminhos que as crianças poderão seguir, adotando uma atitude de escuta e diálogo; • planejar atividades, organizá-las e definir os materiais e recursos que serão utilizados; • considerar o que as crianças já sabem sobre o tema em discussão; • favorecer um estudo multidisciplinar, entendendo que o conhecimento não é algo fragmentado e que não aprendemos a partir de um único enfoque ou tema; • permitir que o “mundo entre na sala de aula”; • organizar o espaço de maneira que ele se torne desafiador às crianças e que ao mesmo tempo promova atividades conjuntas entre parceiros; • promover a construção da autonomia moral e intelectual das crianças, estimulando a sua curiosidade; • oferecer as estruturas narrativas da tradição, mas também observar a emergência do novo, conectar os conhecimentos da realidade das crianças aos conhecimentos científicos; • ser um articulador, um membro mediador que oferece os apoios indispensáveis, para que as crianças os utilizem na construção de seu processo; • intermediar as ações das crianças e os objetos do conhecimento. A pedagogia de projetos oferece aos professores a possibilidade de: • reinventar o seu profissionalismo, de sair da queixa, da sobrecarga de trabalho, do isolamento, de fragmentação de esforços para criar um espaço de trabalho cooperativo, criativo e participativo; • desenvolver uma escuta atenta e um olhar perspicaz, isto é, uma capacidade de observar, de escutar o que está circulando no grupo, quais os fragmentos que estão vindo à tona, quais os interesses e necessidades das crianças; 90 • conhecer e registrar os modos como cada criança se envolve e participa na construção dos conhecimentos propostos em um projeto; • desenvolver atividades dinâmicas e interativas; • repensar a sua prática, atualizar-se e transformar a compreensão do mundo pelo estudo contínuo e coletivo sobre diferentes temas, juntamente com as crianças; • revisar seu modo de ensinar e, com isso, transformar a própria história como sujeito educador; • analisar metacognitivamente o processo de aprendizagem realizado pelo grupo, avaliar e reinstrumentalizar para continuamente qualificar o seu ofício; • criar um ambiente propício em que a curiosidade, as teorias, as dúvidas e as hipóteses das crianças tenham lugar sejam realmente escutadas, legitimadas e operacionalizadas para que se construa a aprendizagem; • articular o tema com os objetivos gerais previstos para o ano letivo ou ciclo e realizar uma previsão dos assuntos ou linguagens que podem vir a ser trabalhadas; • atualizar-se em relação ao tema, discuti-lo com outros educadores da instituição e ampliar seus conhecimentos, apresentando propostas de trabalho para o grupo; • ser aquele que registra, que cria a memória: “[...] facilitar a narração, fazer que flua, recapitular, recordar o que já dissemos, os acordos que fizemos, as bifurcações, os pontos de encontro, o que ainda temos por percorrer” (LOPEZ RUIZ; ANGUITA , 2004, p. 86); • ter paixão e encantamento com o mundo e com as pessoas; • ligar o mundo e o conhecimento à vida das crianças na instituição. A AVALIAÇÃO NA EDUCAÇÃO INFANTIL: CRIANDO ALTERNATIVAS QUE RESPEITEM A DIVERSIDADE Eu avalio Tu avalias Ele avalia Nós avaliamos Vós avaliais Eles avaliam 91 São tantas as dúvidas que cercam este tema que, por mais que tentemos, não conseguiremos respostas plausíveis a cada uma delas. O que vale a pena reforçar é que a reflexão e a preocupação em fazer uma avaliação cada vez mais humana e global existem e persistem, entre grande parte dos educadores/professores e gestores pedagógicos. Esperamos que você esteja entre eles! Conforme Bassedas, Huguet e Solé, Os educadores e educadoras planejam programas com a intenção de alcançar determinados objetivos. Posteriormente, estes programas são postos em prática e é necessário avaliar se foram alcançados ou não os objetivos propostos. É preciso observar se as crianças aprenderam o que se pretendeu expor no planejamento, se aprenderam outras coisas igualmente interessantes, se é preciso introduzir algumas outras atividades na aula, se a atividade programada deve ser adiada etc. Quando fixamos determinados objetivos educativos, devemos considerar sempre a hipótese que depois, com a avaliação, poderemos avaliar em que medida e com que diversidade foi alcançado o objetivo. Assim, a avaliação deve servir basicamente para intervir, modificar e melhorar a nossa prática, a evolução e a aprendizagem dos alunos. (1999, p. 174, grifos no original). Vamos refletir sobre os três verbos grifados na citação anterior? Vejamos: a) INTERVIR – quando percebemos que o aluno ou a turma não estão respondendo de acordo com o esperado, precisamos intervir; b) MODIFICAR – então é preciso abordar outros instrumentos e mudar a maneira de ensinar este ou aquele conteúdo; c) MELHORAR A NOSSA PRÁTICA – quem sabe somos nós que não estamos encontrando a melhor forma de ensinar, talvez não estejamos sendo criativos na abordagem, ou tenhamos que nos aprofundar no assunto para ensinar melhor. Trabalhando estes três verbos, A EVOLUÇÃO E A APRENDIZAGEM dos alunos passam a acontecer naturalmente, ou por meio da mediação, assim como reforçaram Bassedas, Huguet e Solé (1999). FIGURA 158 – TIRINHA DO CASCÃO SOBRE AVALIAÇÃO FONTE: Disponível em: <http://linguaviva.zip.net/arch2011-09-18_2011-09-24.html>. Acesso em: 15 jan. 2012. Será? Será? Será? http://linguaviva.zip.net/arch2011-09-18_2011-09-24.html http://linguaviva.zip.net/arch2011-09-18_2011-09-24.html 92 A avaliação na Educação Infantil sofreu uma profunda alteração quando a LDB (1996) estipulou que ela “[...] far-se-á mediante o acompanhamento e registro do seu desenvolvimento, sem o objetivo de promoção, mesmo para o acesso ao ensino fundamental”. (LEI nº 9.394/96, artigo 31 apud BRASIL, 1996). Segundo Barbosa e Horn (2008, p. 97), Os procedimentos que utilizamos para avaliar nossos alunos revelam nossas concepções sobre a aprendizagem, a infância e a educação, expondo, assim, os modelos teóricos que nos apoiam. Nos últimos tempos, muitas modificações curriculares têm-se apresentado na Educação Infantil e, consequentemente, nosso entendimento do que seja avaliar nessa etapa de ensino também se transformou. As autoras destacam duas diferentes tradições em relação à avaliação da educação infantil. A primeira, mais objetivista, foi muito utilizada nas décadas de 1960 e 1970 e baseava-se em objetivos comportamentais, os quais apontavam pautas do desenvolvimento humano configuradas pela psicologia do desenvolvimento, tendo como parâmetros uma criança idealizada e tida como capaz de realizar determinadas atividades, desenvolver habilidades e evidenciar competências. Os modelos de avaliação, nesta tradição, constituíam-se em várias lacunas para serem preenchidas com cores ou siglas. Os objetivos eram divididos em áreas afetiva, cognitiva e motora. As avaliações entregues às famílias, quase sempre enormes e repletas de informações fragmentadas, pouco falavam da vida da criança na escola, de seu desenvolvimento, da sua relação com os demais. Nos anos de 1980, segundo Barbosa e Horn (2008), com a democratização do país, com os questionamentos sobre o poder e a exclusão social, com a introdução de abordagens mais qualitativas de coleta de dados nas pesquisas e com a ampliação das perspectivas de desenvolvimento, criou-se uma nova forma de abordar a avaliação na Educação Infantil. Ela se tornou mais descritiva, menos comparativa, mais singular. Assim, a avaliação com um caráter mais subjetivistafoi sendo estruturada a partir da proposta dos pareceres descritivos ou relatórios avaliativos. Este “novo tipo” de avaliação deu um pouco mais de trabalho aos professores, já que descrever num texto observações de desempenho, relacionadas à criança, exigia muito mais de sua atenção e cuidado do que simplesmente atribuir “X” para esta ou aquela questão. Não se poderia escrever qualquer coisa ou conceito nas avaliações, era necessário elaborar uma avaliação criteriosa, coerente, significativa, justa e ética, de cada criança. Barbosa e Horn (2008) apresentam alguns princípios em forma de alternativas, para que nossa avaliação seja coerente e eficaz, respeitando a diversidade, tais como: 93 FIGURA 159 – PRINCÍPIOS PARA QUE A AVALIAÇÃO RESPEITE A DIVERSIDADE FONTE: Adaptado de: Barbosa e Horn (2008, p. 100) Barbosa e Horn (2008) sugerem ainda uma mudança de paradigma nas concepções de aprendizagem: FIGURA 160 – MUDANÇA DE PARADIGMA FONTE: Adaptado de: Barbosa e Horn (2008, p. 101) 94 Avaliar, portanto, não é tarefa fácil, envolve comprometimento com a educação, respeito à profissão e, especialmente, amor à criança. Uma avaliação malfeita poderá repercutir negativamente por toda a vida escolar das crianças. Em contrapartida, uma avaliação bem-feita trará benefícios imensuráveis a elas. Como nos diz Oliveira (2008, p. 255), Avaliar a Educação Infantil [...] exige o redimensionamento do contexto educacional – repensar o preparo dos profissionais, suas condições de trabalho, os recursos disponíveis, as diretrizes defendidas, os indicadores usados – para promovê-lo aindamaiscomo ferramenta para o desenvolvimento infantil. Envolve conhecer os diversos contextos de desenvolvimento da cada criança, sendo um retrato aberto, que pontua uma história coletivamente vivida, aponta possibilidades de ação educativa, avalia as práticas existentes. Trata-se de um campo de investigação, não de julgamento, que contribui decisivamente para a busca de uma proposta pedagógica bem delineada. COMO MONTAR UM PROJETO Montar um projeto não é um bicho de sete cabeças, mas requer um bom planejamento e muita pesquisa. Geralmente, ele é discutido e planejado entre coordenadores e professores, e cada professor faz adaptações para adequá-lo a seus alunos e às suas necessidades. Apresentamos a seguir algumas dicas para ajudar você a montar um projeto. Bom trabalho! Escolha o tema Que assunto abordar? Quando estiver pensando em um tema para seu projeto, você pode se perguntar, por exemplo, até que ponto ele vai despertar (e manter) a atenção dos seus alunos; o quanto vai contribuir para ampliar o conhecimento deles; quais são as vantagens e desvantagens de escolher esse ou aquele tema, o que ele teria a oferecer... Uma boa forma de escolher um tema é conversar com seus alunos. Como eles são os maiores interessados, por que não propor uma votação? Você pode até se surpreender com o resultado. Estabeleça o objetivo (ou os objetivos) Pense no que você pretende conseguir com esse projeto. Provavelmente, surgirão muitas metas. Para não se perder em meio a tantos objetivos, você pode se perguntar: “O que gostaria que meus alunos (e/ou todos os participantes desse projeto) aprendessem com ele?”. Pesquise Procure informações a respeito do tema escolhido em diferentes fontes (jornais, livros, revistas, internet, filmes etc.) e certifique-se de que seus alunos poderão encontrar material suficiente na biblioteca da escola (é um dos primeiros lugares em que vão pesquisar). Caso sua escola não tenha uma, verifique qual a mais próxima e peça ajuda à comunidade, solicitando empréstimo de livros, jornais, revistas etc. A internet também pode ser uma boa aliada nesse momento. 95 Planeje o projeto Que atividades você vai propor aos alunos? De que materiais ou ferramentas vocês vão precisar? Isso vai gerar algum custo (para a escola e/ ou para os alunos)? Como você vai conduzir o projeto? Que disciplinas serão abordadas? Quantas aulas você usará para executá-lo? Que estratégias vai usar para incentivar os alunos e manter o interesse deles? As respostas a essas perguntas nortearão seu trabalho e orientarão os procedimentos seguintes. Nesse momento, é importante trocar ideias com os colegas e com a coordenação da escola. Faça uma previsão do que poderia se tornar um “fator complicador” (a necessidade de comprar algum material, por exemplo) e pense em alternativas possíveis para o caso de algo não dar certo. Organize seu projeto por etapas e monte um cronograma para ajudar a turma a não se dispersar. Na hora de formalizar o projeto e colocá-lo no papel, você pode se basear no esquema a seguir. Tema • Série a que se destina • Duração • Justificativa (explique por que você escolheu esse tema) • Objetivos • Conteúdos trabalhados (cite que disciplinas e assuntos serão abordados) • Estratégias/procedimentos (explique como você pretende alcançar os objetivos) • Material necessário (relacione que recursos serão necessários) • Avaliação (cite como você pretende avaliar os alunos) Sensibilize seus alunos Converse abertamente com sua turma e fale sobre o projeto. Exponha seus planos com animação. Isso certamente vai contagiar os alunos. Planeje as atividades de forma a permitir que eles escolham aquelas em que preferem participar e prepare-se para alterar atividades de que eles absolutamente não gostarem. Lembre-se: se eles não se entusiasmarem com a ideia do projeto, o resultado poderá ser comprometido. Você pode começar o projeto com um filme, uma notícia, um evento, uma música, um livro, enfim, algo que prenda a atenção da turma para o que virá... Mostre os resultados À medida que o projeto for “caminhando”, ajude a turma a expor os resultados para que outras classes vejam o seu progresso. Se possível, organize com eles um mural num lugar a que os pais tenham acesso; assim, eles poderão acompanhar o trabalho dos filhos. Se houver recursos (computador, acesso à internet, editor de html), sua turma pode montar uma página na internet com os resultados do projeto. Outra opção é publicá-los em um livro produzido pelos próprios alunos. Avalie o projeto com a turma Organize um painel em que a classe possa expor o que mais a agradou e o que não foi tão bom. Dê seu parecer e ouça o que os alunos têm a dizer. Você alcançou seus objetivos (ou pelo menos um deles)? E os pais, têm algo a dizer? Aproveite críticas e sugestões para aperfeiçoar os projetos futuros. 96 REFERÊNCIAS BARBOSA, Maria Carmem Silveira. Por amor e por força: rotinas na educação infantil. Porto Alegre: Artmed, 2006. BARBOSA, M. C.; HORN, M. G. S. Projetos pedagógicos na educação infantil. Porto Alegre: Artmed, 2008. BASSEDAS, Eulália; HUGUET, Teresa; SOLÉ, Isabel. Aprender e ensinar na educação infantil. Trad. Cristina Maria de Oliveira. Porto Alegre: Artmed, 1999. BRASIL. Diretrizes curriculares nacionais para a educação infantil. Brasília: MEC; SEB, 2010. . Parâmetros nacionais de qualidade para a educação infantil. Brasília: MEC/SEF, 2006c. v. 1. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/ pdf/Educinf/paraqualvo1.pdf>. 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