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DEFINIÇÃO A importância da Tecnologia dos alimentos e as diferentes fases de processamento dos alimentos industrializados. PROPÓSITO Compreender a importância da Tecnologia de alimentos para sociedade atual, entendendo como os alimentos industrializados foram criados e porque essa é uma área industrial de extrema importância para a alimentação humana. Apresentar as etapas básicas de produção de um produto alimentício industrializado, a justificativa da aplicação e sua implicação no produto alimentício final. OBJETIVOS MÓDULO 1 Identificar os fatores históricos relevantes para o desenvolvimento da Tecnologia de alimentos MÓDULO 2 Discriminar as fases de processamento dos alimentos industrializados APRESENTAÇÃO A Tecnologia de alimentos é uma área de conhecimento que promove, com a aplicação de diferentes técnicas, a distribuição de alimentos, sazonais ou não, naturais ou modificados, à sociedade. Ela garante a melhor distribuição de nutrientes, a qualidade microbiológica, sensorial e físico-química dos alimentos, além de permitir a preparação de novos alimentos mais saborosos ou que atendam à necessidade especial de determinada parcela da população com a produção de alimentos nutracêuticos. NUTRACÊUTICOS São aqueles alimentos que apresentam benefícios médicos e de saúde, atuando na prevenção e no tratamento das doenças, como nutrientes isolados, suplementos dietéticos encapsulados e produtos herbais. Os alimentos funcionais, além da sua composição nutricional, oferecem vários benefícios à saúde, contribuindo para a prevenção de doenças crônico-degenerativas. Alimentos industrializados são aqueles que utilizam a Tecnologia de alimentos para sua produção. O desenvolvimento destes alimentos envolve diversas etapas e métodos que visam à qualidade do produto final. Com a industrialização, podemos garantir que toda a produção estará de acordo com as condições higiênico-sanitárias adequadas. INTRODUÇÃO A Tecnologia de alimentos é um conjunto de técnicas, estudos e conhecimentos baseados em princípios científicos para seleção, conservação, transformação, acondicionamento, distribuição e uso de alimentos nutritivos e seguros. De acordo com a Sociedade Brasileira de Ciência e Tecnologia de Alimentos, essa ciência corresponde à aplicação de métodos e da técnica para o preparo, armazenamento, processamento, controle, a embalagem, distribuição e utilização dos alimentos (GAVA, 2012). Tal conjunto de técnicas interliga a produção ao consumo de alimentos. Para obter altos rendimentos, ela deve estar intimamente associada aos métodos e processos da produção agrícola e aos princípios e práticas da nutrição humana. Esse campo de conhecimento é capaz de minimizar os problemas relacionados a perdas de alimentos, envolvendo as disciplinas de: javascript:void(0) Fonte:Shutterstock Por isso, é possível encontrar diferentes profissionais trabalhando na área, como engenheiros químicos, engenheiros de alimentos, nutricionistas, biólogos e veterinários. A Tecnologia de alimentos é aplicada pelos homens desde os primórdios. Mesmo sem saber, durante toda sua evolução, o homem voltou-se para o desenvolvimento de técnicas que pudessem conservar seus alimentos por maior período, garantindo, assim, sua alimentação. SAIBA MAIS O acontecimento responsável pelo início dos primeiros processos de alteração nas características dos alimentos foi o descobrimento do fogo, que ocorreu na época da glaciação, há 500 mil anos. Com o uso do fogo, o homem passou a cozinhar seus alimentos, aumentando a palatabilidade e digestibilidade, além da conservação dos alimentos devido à destruição de microrganismos (ORDÓÑEZ et al., 2005). A partir daí, a alimentação apresentou maior variação, e ocorreu o desenvolvimento de novos processos de alimentos. Fonte: Shutterstock Nas primeiras dinastias, os egípcios já secavam os peixes ao sol e aplicavam processos de salga, além do conhecimento sobre a produção de vinho e cerveja, sabendo distinguir a primeira fermentação (alcoólica) da segunda, que é a fermentação acética, a partir da qual é possível obter o vinagre. Além disso, nesta época, também já eram produzidas farinhas com a moagem de cereais e a produção de pães fermentados (ORDÓÑEZ et al., 2005; FELLOWS, 2006). Além disso, desde 1500 a.C. o processamento de azeite de oliva era conhecido nas regiões de Creta e da Ásia menor. Posteriormente, este produto foi utilizado como método de conservação, com a finalidade de eliminar o ar (ORDÓÑEZ et al., 2005). Já o azeite foi substituído pela manteiga em 400 anos d.C. Nesta mesma época, o homem já começava a utilizar produtos obtidos através da germinação de grãos – é o caso do uso da maltose como adoçante (FELLOWS, 2006). Fonte: Shutterstock No período romano, processos relacionados à Tecnologia de alimentos foram desenvolvidos e melhorados, como a prensagem, com a criação de uma prensa para produção de azeites, o controle de temperatura para produção da coalhada utilizada no processo de fabricação de queijos etc. (ORDÓÑEZ et al., 2005). Fonte: Shutterstock Na Idade Média, houve rápida expansão e desenvolvimento de técnicas. Diversos alimentos procedentes principalmente do Leste foram introduzidos na Europa, como trigo negro, frutas e legumes desconhecidos. Na Itália, teve início a produção de massas, trazidas por Marco Polo após seu retorno da China. A destilação também foi inserida no país por volta de 1100 (FELLOWS, 2006). APERTIZAÇÃO Fonte:Shutterstock EM 1700 Iniciou-se o uso de cloro para purificação da água. Além disso, foi descoberto que o uso do ácido cítrico fornecia sabor aos alimentos. EM 1795 Nicolas Appert, fabricante de cerveja e, posteriormente, confeiteiro, desenvolveu o método de conservação conhecido como apertização, com o aquecimento de produto já embalado. Este foi um dos grandes avanços científicos da época, pois, através dele, foi possível fornecer alimentos para as tropas militares. PASTEURIZAÇÃO EM 1862, E, POSTERIORMENTE, 1874 Foi desenvolvido o processo de pasteurização, nome dado em homenagem a seu inventor, o químico e microbiologista francês Louis Pasteur, e, posteriormente, em 1874, a autoclave foi introduzida. Hoje, com as técnicas de acondicionamento asséptico, alimentos líquidos podem ser esterilizados em temperaturas mais elevadas, visando à destruição de esporos (que são as formas mais resistentes de microrganismos), mantendo as características sensoriais e nutricionais dos alimentos (ORDÓÑEZ et al., 2005). EM 1838 A conservação pelo frio foi aplicada industrialmente. Com este avanço, foi possível conservar peixes em barcos, que poderiam realizar a pesca em áreas mais distantes. Em 1877, o barco Le Frigorifique transportou carne fresca por 110 dias, de Buenos Aires para Rouen, utilizando o frio como método de conservação. Hoje, esse procedimento é muito aplicado para a conservação de pescados (FELLOWS, 2006). NO SÉCULO XIX O interesse científico pelos processos de alterações de alimentos aumentou significativamente. Foi criado o termo proteína e provado que o amido se decompõe em glicose. Além disso, neste mesmo século, Mege-Mouries desenvolveu a margarina, depois que Napoleão III ofereceu um prêmio para quem encontrasse um substituto para a manteiga. Alguns desenvolvimentos importantes da época para o setor de laticínios, amplamente utilizados até hoje, foram a utilização da centrífuga para a remoção da nata do leite, a introdução de um evaporador de leite e a produção de leite condensado. A PARTIR DA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL Com o desenvolvimento da ciência, os processos de conservação foram aprimorados. Além da melhoria de procedimentos antigos, surgiram novas técnicas, como radiação ionizante, aquecimento dielétrico, ultrafiltração, concentração por osmose inversa etc. Também foram dados passos gigantescos em relação ao conhecimento da composição dos alimentos, da necessidadeda ingestão de nutrientes pelos seres humanos e da importância do controle de fatores externos que podem causar alterações nas propriedades dos produtos. O avanço tecnológico e novos desenvolvimentos na área apresentaram-se de forma crescente no século XX. Dentre as inovações, podemos destacar: criação do café instantâneo, emissão da primeira patente para gorduras hidrogenadas, a patente da embalagem transparente de celofane, e o melhorador de sabor glutamato monossódico foi isolado de algas marinhas (FELLOWS, 2006). EM 1920 E EM 1950 O censo industrial reconheceu 2709 empresas alimentícias, sendo predominante o setor de moagem de cereais. A partir deste período, o crescimento foi potencialmente mais rápido. Entre 1920 e 1950, já era possível encontrar mais de 32.800 indústrias. Dentre os fatores que influenciaram as alterações nos números de indústrias de alimentos, estão o crescimento da economia, as políticas governamentais, a redução das importações devido à Segunda Guerra Mundial, o crescimento acelerado da população, a melhoria da infraestrutura de transportes, energia e comunicações e a atração do capital estrangeiro. Com a evolução e o desenvolvimento das indústrias de alimentos, surgiu maior variedade de produtos alimentícios, como também cadeias produtivas, o que gerou diversos problemas devido à falta de ligação entre as cadeias. A partir desse problema, teve início a necessidade de padronização dos processos. javascript:void(0) A padronização foi realizada inicialmente apenas com a avaliação do produto final. No entanto, em seguida, foi identificada a necessidade de padronizar e avaliar a qualidade de cada fase de produção. Com isso, surgiu o controle de qualidade nas empresas, satisfazendo às necessidades dos clientes e minimizando os custos de produção (CHAVES, 1988). 2709 EMPRESAS: Havia, neste ano, 478 estabelecimentos de moagem de cereais, 303 de beneficiamento de arroz, 455 de torrefação e moagem de café, 353 de beneficiamento de café, 303 de produção de manteiga e queijos, 188 de massas alimentícias, 126 de banha, 115 de doces, 91 de conservas de peixe e carne, 88 de refinação de açúcar, 63 de vinagre, massa de tomate e itens diversos, além de outras. CONTROLE DE QUALIDADE: Conjunto de medidas e avaliações que têm como objetivo a manutenção da qualidade em níveis adequadamente aceitáveis. EM 1931 Com toda a evolução e o desenvolvimento de novos produtos, a Tecnologia de alimentos passou da forma empírica para a científica. Considera-se que o nascimento oficial dessa ciência ocorreu, simultaneamente, em 1931, nos Estados Unidos e na Inglaterra. O termo Tecnologia de alimentos foi definido pela Universidade de Oregon devido à criação de um novo curso que abordava o tema. No mesmo ano, foi criada uma subdivisão da Society of Chemical Industries (SCI) inglesa chamada de Society of Food Industry . javascript:void(0) EM 1948 E EM 1967 Em 1948, o primeiro curso sobre Ciência e Tecnologia de alimentos foi realizado em Cambridge (ORDÓÑEZ et al., 2005). No Brasil, em 1967, a Universidade Estadual de Campinas sediou o primeiro curso na área. Vale ressaltar que esse também foi o primeiro curso da América Latina. Atualmente, há diversos cursos que estudam e aperfeiçoam a Tecnologia de alimentos, assim como indústrias e produtos inovadores que atendem às necessidades da sociedade. INDÚSTRIA DE ALIMENTOS: CONCEITO E OBJETIVOS A indústria de alimentos, um dos maiores parques tecnológicos do Brasil, apresenta diversos produtos com diferentes técnicas de processamento. Ela é considerada uma indústria com alta produtividade e taxa de crescimento. Um dos objetivos desse segmento é garantir que o consumidor tenha acesso a uma grande diversidade de alimentos seguros para o consumo. Com o crescimento populacional e o consequente aumento do consumo de alimentos, surgiu a necessidade de aumentar a produção. Porém, com isto, surgiram problemas para os produtores, em virtude, principalmente, da rápida deterioração dos produtos agrícolas. Assim, houve a necessidade de aplicação da Tecnologia de alimentos, que, consequentemente, em seu avanço, gerou a industrialização de alimentos. Fonte: Shutterstock O alimento industrializado é considerado um alimento processado por meio de atividades que envolvem a transformação com a utilização de equipamentos, máquinas, utensílios e funcionários. Não necessariamente, é composto por produções em grande escala, pois existem processos industriais feitos por empresas consideradas artesanais (REGO, VIALTA, MADI, 2018). Resumidamente, alimento industrializado é aquele que passa por processos tecnológicos industriais. Uma fruta que passa por etapas de seleção, higienização e, posteriormente, acondicionamento e comercialização é um alimento industrializado. Para que o conceito de alimentos industrializados seja mais bem compreendido, é necessário entendermos que um alimento industrializado sempre poderá ser chamado de alimento processado. ATENÇÃO No entanto, um alimento processado não necessariamente é industrializado. Afinal, alguns processos podem ser realizados em casa, como o cozimento, a trituração, moagem, o resfriamento, congelamento, dentre outros comumente utilizados (REGO, VIALTA e MADI, 2018). A industrialização de alimentos consiste em utilizar processos químicos, físicos e biológicos para transformar matérias-primas em produtos que estejam em condições adequadas para o consumo humano. Sendo assim, o lançamento de um produto no mercado é uma grande conquista para a indústria e para o consumidor. Para que um produto industrializado seja comercializado, muitos processos e diversas etapas são desenvolvidos para sua produção, transformação e para garantir a conservação e a qualidade. Um dos principais objetivos da utilização de técnicas para o processamento de alimentos é o aumento da vida útil. Fonte: Shutterstock Para a Tecnologia de alimentos, ele é chamado de vida útil. Aumentar a vida útil é o principal objetivo da indústria de alimentos. Durante o armazenamento, os alimentos industrializados sofrem diversas alterações que determinam a validade. Essas alterações variarão de acordo com a composição dos alimentos. Conheça algumas alterações que os alimentos podem sofrer durante o armazenamento: javascript:void(0) VIDA ÚTIL A vida útil de um alimento, conhecida anteriormente como vida de prateleira, é o tempo que determinado alimento permanece estocado sem alterações nas suas características sensoriais, químicas, físicas e microbiológicas. SABOR Pode ocorrer a volatilação de compostos responsáveis pelo flavor , alterações químicas que formam substâncias inadequadas, como é o caso do sabor rançoso produzido devido à oxidação de lipídios ou da produção de metabólitos devido à ação de microrganismos. PERDA NUTRICIONAL Se não forem armazenados de maneira adequada, determinados alimentos apresentam alterações no teor nutricional. Algumas vitaminas podem ser degradadas quando expostas ao oxigênio ou à luz. Além disso, essa degradação também pode ocorrer devido à atuação de enzimas presentes nos alimentos, como peroxidase e polifenoloxidase. TEXTURA Além de ser alterada por condições que permitam a troca de umidade entre o alimento e o ambiente, a mudança de textura também pode ser resultado da desnaturação de proteínas. APARÊNCIA Dependendo do armazenamento, algumas substâncias podem ser expostas à luz e ao oxigênio, desencadeando processos de oxidação, com alteração da cor ou escurecimento do produto. As alterações indesejáveis nos alimentos são provocadas por diversos motivos, como: A presença e atuação de microrganismos (bactérias ou fungos). Ação de enzimas. Reações químicas, que normalmente são desencadeadas por fatores extrínsecos ((como luz, oxigênio, aquecimento)) . Modificações físicas (injúrias por transporte inadequado). Por ataque de insetos e roedores. A presença e atuaçãode microrganismos (bactérias ou fungos). Ação de enzima. Reações químicas, que normalmente são desencadeadas por fatores extrínsecos ((como luz, oxigênio, aquecimento)) . Modificações físicas (injúrias por transporte inadequado). Por ataque de insetos e roedores. VANTAGENS E DESVANTAGENS DA INDUSTRIALIZAÇÃO DE ALIMENTOS A industrialização de alimentos apresenta diversas vantagens, algumas já citadas no decorrer do texto. Algumas das vantagens da industrialização de alimentos estão expostas a seguir: Utilização de processos e de equipamentos técnicos aumenta o tempo de vida útil, melhora o rendimento do aproveitamento de alimentos, padroniza a produção e o armazenamento de produtos alimentícios, preserva nutrientes e mantém características organolépticas. Produção de novos sabores através de técnicas como dessecação, salga e defumação. Comercialização de produtos tradicionais de determinadas regiões em todo o mundo devido o uso de técnicas de conservação. Esse é o caso de queijos e vinhos que possuem Denominação de Origem Controlada, como é o exemplo do queijo canastra, produzido na Serra da Canastra. Desenvolvimento de alimentos nutracêuticos para atender à necessidade especial de adultos e crianças. Permitir que produtos sazonais, ou seja, que são produzidos somente em determinada época do ano, possam estar no mercado fora da safra. Produção de alimentos a partir da ação de microrganismos ou enzimas, como aqueles produzidos por fermentação. Modificação química ou estrutural devido à alteração da composição de nutrientes. Redução do tempo de produção de um alimento. Fabricação e preparo de alimentos coadjuvantes, que podem ser utilizados como ingredientes para a produção de outros alimentos. Esse procedimento garante a qualidade microbiológica do produto devido ao uso de ingredientes processados e pré- tratados. Avaliação e determinação do acondicionamento adequado para que o processo de armazenamento tenha mínima influência possível nas características do produto alimentício. Reaproveitamento de resíduos na alimentação ou em outras áreas industriais. Nos distanciam cada vez mais dos produtos agrícolas in natura. Além disso, alguns métodos utilizados no processamento podem reduzir a qualidade nutricional dos produtos devido o aumento do sódio, gorduras totais e calorias. Quimicamente, os alimentos são compostos basicamente de carbono, nitrogênio, oxigênio e hidrogênio, dentre outros elementos que se apresentam em menores quantidades. Esses elementos constituem a estrutura de diferentes nutrientes. Os alimentos são compostos por água, vitaminas, sais minerais, proteínas, carboidratos e gorduras. Esses componentes são alterados em alguns processos, como os que envolvem a transferência de calor e o aquecimento ou resfriamento. Quando submetidos a determinado processamento, algumas substâncias podem ser degradadas ou modificadas. Por isso, a necessidade do uso de aditivos, como os conservantes. ADITIVOS Substâncias químicas adicionadas para obter alguma alteração ou prevenção da qualidade dos alimentos. javascript:void(0) Fonte:Shutterstock Os conservantes, por exemplo, podem ser utilizados para manter os alimentos isentos de contaminantes microbiológicos. Os antioxidantes previnem as reações que envolvem radicais livres e são muito utilizados em óleos, para evitar a oxidação. O consumo de conservantes em excesso pode desencadear algumas doenças e alterações no corpo humano. Sendo assim, para que o processo de industrialização seja ideal, as técnicas utilizadas devem ser minuciosamente escolhidas para garantir o mínimo possível de alterações nas condições naturais dos alimentos. VERIFICANDO O APRENDIZADO 1- A EVOLUÇÃO QUE CAUSOU O PRINCIPAL IMPACTO NA TECNOLOGIA DE ALIMENTOS OCORREU EM 1795, COM A DESCOBERTA DE UM MÉTODO DE CONSERVAÇÃO UTILIZADO ATÉ OS DIAS DE HOJE. O MÉTODO FOI DESENVOLVIDO POR NICOLAS APPERT, QUE RECEBEU UM PRÊMIO DE NAPOLEÃO DEVIDO A ESTA CRIAÇÃO. QUAL É O NOME DA TÉCNICA E COMO ELA É APLICADA? A) Esterilização. Consiste no aquecimento do alimento antes de ser acondicionado em embalagens. B) Apertização. A técnica é aplicada em alimentos já acondicionados em suas embalagens. Após inserir o alimento em recipientes lacrados, eles são aquecidos em água fervente. Método muito utilizado em enlatados. C) Pasteurização. Neste método, os alimentos embalados são aquecidos a 100°C e, em seguida, resfriados. D) Apertização. Os alimentos, antes de serem embalados, passam por um tratamento térmico em água fervente e, em seguida, são imersos em água resfriada. 2) OS ALIMENTOS INDUSTRIALIZADOS APRESENTAM DIFERENTES VANTAGENS PARA A SOCIEDADE ATUAL. QUAIS DAS ALTERNATIVAS NÃO É UMA VANTAGEM DA INDUSTRIALIZAÇÃO DE ALIMENTOS? A) Todas as técnicas aplicadas pela indústria de alimentos apenas promovem alterações benéficas para o produto, independentemente das condições utilizadas. B) Através da Tecnologia de alimentos, é possível produzir alimentos por ação de microrganismos, que apresentem características organolépticas impossíveis de serem obtidas sem aplicação desta técnica, como é o caso da salga e da defumação. C) A industrialização de alimentos permite a aquisição de produtos com maior prazo de validade. D) A utilização de métodos tecnológicos de processamento possibilita a produção de preparos alimentícios para crianças e adultos com necessidades especiais. GABARITO 1- A evolução que causou o principal impacto na Tecnologia de alimentos ocorreu em 1795, com a descoberta de um método de conservação utilizado até os dias de hoje. O método foi desenvolvido por Nicolas Appert, que recebeu um prêmio de Napoleão devido a esta criação. Qual é o nome da técnica e como ela é aplicada? A alternativa "B " está correta. O método criado por Nicolas Appert foi intitulado a partir de seu sobrenome, sendo conhecido como apertização. Nesta técnica, os alimentos embalados são imersos em água fervente. Esta foi uma das evoluções de maior importância para a época. 2) Os alimentos industrializados apresentam diferentes vantagens para a sociedade atual. Quais das alternativas não é uma vantagem da industrialização de alimentos? A alternativa "A " está correta. No tópico Vantagens e desvantagens da industrialização de alimentos, podemos identificar que a industrialização de alimentos produz alterações benéficas, como o desenvolvimento de novos sabores, permite a produção de alimentos nutracêuticos (suplementos nutritivos para pessoas com doenças ou necessidades especiais), garante que os produtos apresentem boa qualidade por maior período de tempo com a aplicação de técnicas de conservação, dentre outros benefícios. Porém, algumas técnicas promovem a degradação de nutrientes, como vitaminas e compostos responsáveis pelo flavor do produto. GRAUS DE INDUSTRIALIZAÇÃO As etapas de processamento aplicadas aos alimentos dependem do produto final de interesse. O produto pode ser comercializado na forma como encontrado na natureza e passar por procedimentos que garantam sua qualidade microbiológica e, consequentemente, permitam que ele possa ser estocado por mais tempo. Também é possível envolver técnicas de alteração da sua estrutura e adição de outros ingredientes para a produção de um novo alimento. Dessa forma, os alimentos são classificados quanto ao grau de industrialização, como apresentado na tabela a seguir. TABELA 1 - CLASSIFICAÇÃO DOS ALIMENTOS INDUSTRIALIZADOS. Classificação Definição Exemplos Sem modificação Não há interferência na composição da matéria-prima. Hortaliças frescas Frutas frescas Ovos Água Com ligeira modificação Não apresentam alterações químicas da matéria-prima. As modificações são principalmente de ordem física. Desidratados Concentrados Congelados Resfriados Com grande modificação Alterações físicas, químicas e estruturais nas macromoléculas. Pasteurizados Esterilizados SalgadosDefumados Produtos industrializados transformados Obtidos por processos que transformam a matéria-prima em um produto alimentício novo e peculiar. Ou seja, não apresentarão característica da matéria-prima de origem. Fermentados Derivados de leite Produtos de confeitaria Gomas e balas Refrigerantes e refrescos Chocolate Massas alimentícias Condimentos e temperos Atenção! Para visualização completa da tabela utilize a rolagem horizontal FASES DE PROCESSAMENTO As fases do processamento de alimentos envolvem beneficiamento, elaboração, conservação, acondicionamento em embalagens e, por fim, a comercialização. Essas fases devem seguir as Boas Práticas de Fabricação (BPF) e os Procedimentos Operacionais Padrão de Higienização (POPH), que são um conjunto de medidas que devem garantir a qualidade sanitária e a conformidade dos alimentos com regulamentos técnicos. Com isso, também é possível estabelecer a Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle (APPCC), um sistema que identifica as etapas e os processos de risco para a qualidade final do alimento, que é implantada pelo setor de controle de qualidade de uma indústria, responsável por garantir que as etapas de produção sejam conduzidas de acordo com as normas necessárias para obtenção de um produto final com qualidade e segurança higiênico- sanitária (CHAVES, 1988). ATENÇÃO Cada classe de produtos alimentícios apresenta uma legislação própria responsável por identificar os padrões de qualidade básicos que os alimentos devem apresentar. Esta legislação é determinada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) ou pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). O processamento dos alimentos industrializados é feito em quatro fases: beneficiamento, elaboração, conservação e armazenamento. A seguir, conheça as fases de processamento e alguns métodos utilizados em cada uma delas. Fonte: Shutterstock BENEFICIAMENTO Colheita Seleção Limpeza Classificação Fonte: Shutterstock ELABORAÇÃO Físicos (moagem, trituração, prensagem) Químicos (extração por solvente, acidificação, aditivos, salga) Físico-químico (refinação, acidificação, cristalização, caramelização) Biológico (fermentação, maturação) Fonte: Shutterstock CONSERVAÇÃO Físico Químico Irradiação Fonte: Shutterstock ARMAZENAMENTO Ambiente Refrigeração / congelamento Atmosfera modificada BENEFICIAMENTO Etapa composta de técnicas para a seleção das matérias-primas, higienização e separação da parte não comestível. Esta fase é considerada um dos pontos críticos da cadeia. Se a matéria- prima principal não apresentar características adequadas, independentemente da técnica utilizada, não será possível obter um produto com propriedades sensoriais, físicas, químicas e microbiológicas adequadas. Para ser utilizada, a matéria-prima, ou alimento, passa pelas seguintes etapas: colheita, seleção, limpeza e classificação. COLHEITA Esta etapa é realizada pelo produtor. Durante a colheita, deve ser observado se o alimento apresenta características ideais, ou seja, é preciso avaliar a cor, o tamanho, a maturação e se a matéria-prima não apresenta fungos ou doenças. SELEÇÃO O produto é encaminhado para a indústria e selecionado de acordo com suas características físicas. Também se verifica quais produtos devem ir para as etapas seguintes e quais devem ser descartados. Além disso, nesta etapa, são removidos contaminantes físicos e biológicos que podem vir do campo com a matéria-prima, como, por exemplo, areia, folhas, insetos e parasitas. LIMPEZA Após serem selecionados, os alimentos são higienizados. Em grande parte das indústrias, esses alimentos são imersos ou aspergidos em solução contendo hipoclorito de sódio para, ao fim, serem removidas partes não comestíveis da matéria-prima, ou que poderão interferir nas características sensoriais do produto, como pedúnculo, sementes e cascas. A principal importância desta etapa é a preservação de danos nos equipamentos devido à presença de contaminações físicas. Também é possível evitar gastos desnecessários no processamento de matérias-primas que não serão utilizadas ao final. Os procedimentos usados na limpeza podem ser classificados em úmidos e secos. As técnicas de utilização dos procedimentos úmidos são: lavagem por imersão, spray e limpeza ultrassônica; já as dos procedimentos secos são: separação por ar, magnetismo. CLASSIFICAÇÃO A classificação também é uma etapa importante nesta fase. Através dela, é possível selecionar alimentos por tamanho, forma, peso e cor, para, assim, garantir a máxima padronização na qualidade dos produtos. ELABORAÇÃO Várias atividades tecnológicas são realizadas de acordo com a linha de produção do alimento desejado. Esta fase é considerada a etapa de maior importância, pois é durante ela que ocorre o processo principal para obtenção do alimento de interesse. Os processos tecnológicos utilizados nesta etapa podem ser classificados em físicos, químicos, físico-químicos e biológicos. Existem diversos métodos utilizados pela indústria para o desenvolvimento dos produtos. Veja, a seguir, alguns deles de acordo com a classificação dos processos. Fonte: Shutterstock REDUÇÃO DO TAMANHO O tamanho médio das partículas sólidas pode ser reduzido por forças de moagem, compressão ou impacto. Quando o objetivo é reduzir o tamanho de glóbulos de líquidos imiscíveis, esse processo é chamado de emulsificação. CONCENTRAÇÃO POR MEMBRANAS O objetivo desta técnica é a remoção da água e de alguns solutos. Ela pode ser utilizada para a produção de sucos, cervejas, cidras e vinhos com redução do teor de álcool, ou como pré- concentração para a produção de alimentos desidratados. LEIA MAIS SOBRE ESSES PROCESSOS FÍSICOS: REDUÇÃO DO TAMANHO A principal vantagem na redução do tamanho das partículas é reduzir os gastos relacionados aos processamentos industriais, como reagentes, tempo de processo, gasto energético, dentre outros. Com a redução do tamanho de partículas, há um aumento da taxa de transferência de calor, assim como redução na quantidade de líquidos extratores utilizados e redução de tempos de processamento, visto que haverá maior área de contato. Além disso, partículas menores permitem que os ingredientes sejam melhor misturados. A redução do tamanho é um processo que tem como objetivo, principalmente, o aperfeiçoamento das demais etapas de produção de um alimento. Além disso, pode apresentar melhoria nas características sensoriais de determinados produtos. A desvantagem deste processo é que, com a alteração no tamanho das partículas, a deterioração do alimento pode ter a velocidade acelerada. Esta mudança física pode liberar enzimas naturais dos alimentos e aumentar a exposição dos produtos a agentes microbiológicos ou externos, como oxigênio, que podem alterar suas características. Os métodos de redução de tamanho são classificados quanto ao tamanho final das partículas. Dentre eles, estão: trituração (corte), moagem, emulsificação e homogeneização. A trituração é utilizada para a fabricação de produtos animais, como bacon fatiado; vegetais em cubos e sucos por despolpamento. A moagem é muito aplicada ao processamento de produtos de origem vegetal, principalmente na fabricação de farinhas. Enquanto a emulsificação e homogeneização são utilizadas, por exemplo, na fabricação de manteiga, sorvete e leite. CONCENTRAÇÃO POR MEMBRANAS Os processos que utilizam membranas não envolvem a mudança de estado físico e a utilização de solventes químicos. Eles demandam menor energia quando comparados aos tratamentos térmicos e têm se destacado, pois, em geral, a separação ocorre em temperaturas próximas à temperatura ambiente, e não há mudança de fase dos componentes. Além disso, o processo com membranas mantém as características naturais dos alimentos, pois não ocorre a degradação de componentes devido à transferênciade calor, como nos processos térmicos tradicionais, como a concentração por aquecimento. Entre os processos mais utilizados para a concentração, destacam-se a microfiltração, ultrafiltração, nanofiltração e osmose inversa. Nos processos de microfiltração e ultrafiltração, são utilizadas membranas porosas, e o mecanismo de separação utilizado é a convecção. Para sucos, a microfiltração e ultrafiltração têm sido empregadas para a clarificação, e a osmose inversa para a concentração. Na osmose inversa, são utilizadas membranas densas, e a resistência encontrada pelo soluto é muito maior do que nos processos de microfiltração e ultrafiltração. A osmose inversa é um processo de concentração por membranas, que utiliza a permeação da água do meio de maior concentração para o de menor. Para que isso ocorra, é necessário aplicar uma pressão hidráulica em valores maiores que a pressão osmótica presente. A osmose inversa também é muito aplicada para a concentração do soro de leite residual da fabricação de queijos. Fonte: Shutterstock EXTRAÇÃO A extração por métodos químicos pode ser feita com solventes ou fluidos supercríticos. ADITIVOS Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), os aditivos são substâncias não nutritivas adicionadas aos alimentos com o objetivo de melhorar aparência, sabor, textura e aumentar o tempo de armazenamento. LEIA MAIS SOBRE ESSES PROCESSOS QUÍMICOS: EXTRAÇÃO Através da extração, é possível obter produtos finais e ingredientes para produção de outros produtos alimentícios, como óleos de sementes, açúcar de beterraba, café solúvel, café descafeinado ou chá solúvel. Para a extração por solvente, o componente desejado deve possuir a capacidade de reagir quimicamente com o solvente ou ser solúvel nele. Além disso, para obter maior eficiência durante a extração, é necessário o controle da temperatura do meio reacional e determinar a concentração ideal do solvente e das condições que façam com que o solvente e a substância de interesse entrem em contato um com o outro por tempo adequado, como agitação do meio. ADITIVOS Não são consideradas substâncias nutritivas, mas podem aumentar a qualidade nutricional do alimento. São exemplos de aditivos: Antioxidante: retarda o aparecimento de alteração oxidativa no alimento. Conservador: impede ou retarda a alteração dos alimentos provocada por microrganismos ou enzimas. Edulcorante: substância diferente dos açúcares, que confere sabor doce ao alimento. Espessante: aumenta a viscosidade de um alimento. Geleificante: confere textura, formando um gel. Acidulante: aumenta a acidez ou confere um sabor ácido aos alimentos. Melhorador de farinha: agregado à farinha, melhora sua qualidade tecnológica para os fins a que se destina. Fermento químico: substância ou mistura de substâncias que liberam gás e, desta maneira, aumentam o volume da massa. Espumante: possibilita a formação ou a manutenção de uma dispersão uniforme de uma fase gasosa em um alimento líquido ou sólido. Fonte: Shutterstock CRISTALIZAÇÃO Processo utilizado para separação. A partir da nucleação, primeira etapa da cristalização, os cristais são formados e apresentam contínuo processo de crescimento. Isto ocorre devido à transferência de massa e também da transferência de energia (termodinâmica). CARAMELIZAÇÃO Reação de escurecimento não enzimático em que os carboidratos empregados são glicose ou frutose e/ou seus polímeros (glicose, sacarose, açúcar invertido). Após serem aquecidos a temperaturas altas (normalmente acima de 120°C), ocorre a reação de pirólise dos açúcares, formando substâncias com coloração escura, chamadas de caramelo. LEIA MAIS SOBRE ESSE PROCESSOS FÍSICO-QUÍMICOS: CRISTALIZAÇÃO A cristalização é utilizada para obtenção do açúcar a partir da cana-de-açúcar e da beterraba. Para isto, é necessário criar uma condição de saturação. Então, são feitos sucessivos resfriamentos para a formação dos cristais e, em seguida, a remoção deles por centrifugação. Manter a uniformidade dos cristais nos processos de produção de alimentos que envolvem esta técnica é de extrema importância para a qualidade sensorial, assim como para o manuseio, acondicionamento e a estocagem do produto. CARAMELIZAÇÃO A reação pode ocorrer na presença de catalisadores utilizados para direcionar a reação que formará tipos específicos de caramelos, com cores, solubilidade e graus de acidez diferentes. O caramelo é um corante marrom que pode promover ação flavorizante. O efeito corante ou flavorizante dependerá da temperatura e da formação do caramelo. Os caramelos podem ser sintetizados e comercializados como corantes para indústrias. Fonte: Shutterstock FERMENTAÇÃO Neste processo, microrganismos, sob condições controladas, atuam nos alimentos para alterar a textura e produzir substâncias importantes para a construção de sabores e aromas característicos, como produtos do metabolismo primário ou secundário deste microrganismo, que podem auxiliar na preservação do alimento. LEIA MAIS SOBRE ESSE PROCESSO BIOLÓGICO: FERMENTAÇÃO Dentre as vantagens destes métodos, estão o uso de condições de pH e temperatura que não alteram as características sensoriais, a obtenção de alimentos com sabores que não poderiam ser produzidos de forma diferente, custo de investimento para produção relativamente baixo e uso de tecnologias comuns. Este processo pode ser realizado em batelada, no qual os microrganismos e as condições necessárias para seu crescimento são adicionados em sua totalidade no início do processo. Também há a opção de processo contínuo, em que o substrato utilizado pelo microrganismo para crescer é adicionado continuamente durante a fermentação. As fermentações lácteas e etílicas são as mais utilizadas pela indústria de alimentos. Iogurtes, queijos, pães, vinagre e bebidas alcoólicas são alguns produtos comercializados produzidos por fermentação. NO VÍDEO A SEGUIR, A PROFESSORA LUIZA OZORIO FALARÁ SOBRE A FERMENTAÇÃO E O USO DE ADITIVOS. CONSERVAÇÃO Atualmente, há diversas maneiras de conservar os alimentos. Além disso, estudos sobre novos técnicas são constantemente realizados. Os métodos de conservação diferem em função da natureza do alimento, do tempo de armazenamento pretendido, do custo do processo e dos fatores que influenciam sua deterioração. Deve-se considerar as alterações que o método utilizado pode gerar nas características físicas, nutritivas e sensoriais dos alimentos. Normalmente, os métodos de conservação utilizam variação de temperatura, calor ou frio (branqueamento, esterilização, pasteurização, resfriamento, liofilização, congelamento), supressão de elementos, água e oxigênio (adição de solutos e líquidos que impedem a passagem do oxigênio), adição de substâncias químicas (aditivos) e uso de gases, defumação, fermentação ou demais técnicas, como irradiação. NESTA FASE DO PROCESSAMENTO DE ALIMENTOS, OS SEGUINTES PRINCÍPIOS ESTÃO ENVOLVIDOS: Manutenção dos alimentos livres de microrganismos com métodos como o de assepsia. Inibição do crescimento de microrganismo. Remoção de microrganismos com a aplicação da filtração. Morte de microrganismos através de técnicas que usem o calor, radiação ou substâncias germicidas. Destruição ou inativação de enzimas, que podem gerar alterações indesejáveis, através do branqueamento ou aplicação de tratamentos como o ultrassom. Retardamento de reações químicas por adição de substâncias como os antioxidantes. CONSERVAÇÃO PELO CALOR Baseia-se na inativação e destruição de microrganismo devido à aplicação das altas temperaturas, que desnaturarão as proteínas e enzimas. São os processos mais utilizados na indústria de alimentos. Porém, em determinados produtos, promovem a degradação de componentes importantes para a qualidade sensorial. Conheça os métodos a seguir: BRANQUEAMENTO Consiste em aquecer oproduto entre 70°C e 100°C, por 1 a 5 minutos, e, em seguida, resfriá- lo imediatamente. É uma técnica muito utilizada na indústria de vegetais e frutas, com o objetivo de inativar enzimas e prevenir o escurecimento enzimático. Este método auxilia na preservação de nutrientes, mantendo a cor dos vegetais. PASTEURIZAÇÃO O alimento é aquecido a temperaturas menores que 100°C, destruindo microrganismos deteriorantes e patogênicos em sua forma vegetativa. A pasteurização garante a conservação por curto período, sendo necessário o uso de outro método adicional, como o resfriamento. Esse método é muito utilizado pela indústria de leites. ESTERILIZAÇÃO Aplicação de aquecimento a temperaturas maiores que 100°C, sendo capaz de inativar, além das formas vegetativas, as esporuladas de microrganismos. Os alimentos são esterilizados para serem comercializados de maneira segura. Por isso, na indústria de alimentos, essa técnica é conhecida como esterilização comercial. A apertização é uma forma de esterilização na qual o alimento é aquecido após ser embalado. CONSERVAÇÃO PELO FRIO Congelamento: Através da imobilização da água pela formação de cristais de gelo, esta se torna indisponível para o crescimento de microrganismos. Além disso, em temperaturas abaixo de 0°C, muitas reações enzimáticas são inativas. É um processo de inibição da atividade microbiológica. Assim, após os descongelamentos, os microrganismos presentes poderão voltar a crescer. CONSERVAÇÃO PELA ADIÇÃO DE SOLUTOS A adição de solutos, açúcar ou sal, aumenta a pressão osmótica e gera condições desfavoráveis para o crescimento da maioria de microrganismos. É uma técnica de conservação de produtos como geleias, mel, melaço etc. CONSERVAÇÃO POR DESIDRATAÇÃO Liofilização: considerado um tratamento não térmico de conservação, que garante menores alterações às características dos alimentos quando comparado aos tratamentos que utilizam calor, consiste na eliminação de água pelo processo de sublimação. Além dos expostos, existem diversos métodos de conservação que podem ser aplicados na indústria de alimentos. A escolha varia de acordo com o alimento e suas particularidades. Alguns métodos podem ser utilizados durante a fase de elaboração e, ao mesmo tempo, auxiliar na conservação, como é o caso da fermentação. Outros métodos podem alterar características importantes, como a cor e o sabor, e diminuir a qualidade nutricional. Para escolher o melhor método a ser utilizado, deve-se avaliar qual princípio está envolvido na deterioração (preservação ou retardamento da deterioração ou prevenção ou retardamento da autodeterioração), quais qualidades do produto final são importantes, quais riscos microbiológicos o alimento pode sofrer avaliando a sua composição química, pH, atividade de água etc. ARMAZENAMENTO Após passar por diversos processos de mudanças químicas, físicas e microbiológicas, os alimentos são embalados e seguem para comercialização. As embalagens possuem a função de evitar que o alimento seja contaminado novamente, garantir que a qualidade obtida pelas etapas anteriores seja mantida e assegurar que o produto mantenha suas características sensoriais, químicas e microbiológicas inalteradas. O envase do produto em suas respectivas embalagens deve ser de forma asséptica e com controle rígido da higienização, para evitar que haja contaminação. A escolha da embalagem também é um fator de grande importância. Alguns alimentos podem oxidar as embalagens quando entram em contato com determinados materiais. Também é possível que suas composições sejam alteradas por reações indesejáveis. Por exemplo, alimentos que possuem componentes que podem ser degradados na presença de luz devem ser acondicionados em embalagens que bloqueiem sua passagem. Para determinar as condições que o alimento deve ser acondicionado, é preciso avaliar as etapas realizadas nas demais fases. Algumas técnicas são utilizadas para auxiliar na manutenção das características dos alimentos pela modificação da embalagem, como a embalagem a vácuo ou com atmosfera modificada, que apresentam condições dentro da embalagem para evitar o desenvolvimento de microrganismos. CONCLUINDO, INDEPENDENTEMENTE DA FASE DE PROCESSAMENTO, O OBJETIVO PRINCIPAL DAS TÉCNICAS APLICADAS É A MANUTENÇÃO E GARANTIA DA SEGURANÇA MICROBIOLÓGICA DOS ALIMENTOS, ASSIM COMO DE SUAS CARACTERÍSTICAS SENSORIAIS, FÍSICAS E QUÍMICAS IDEAIS. ENTENDA NA PRÁTICA UM DOS PROCESSOS DE CONSERVAÇÃO PELO CALOR QUE VIMOS ANTERIORMENTE, O BRANQUEAMENTO, MOSTRADO NO VÍDEO A SEGUIR PELA PROFESSORA LUIZA OZORIO. VERIFICANDO O APRENDIZADO 1) OS MÉTODOS DE INDUSTRIALIZAÇÃO APLICADOS VARIAM DE PRODUTO PARA PRODUTO. PORÉM, TODO O PROCESSAMENTO DE ALIMENTOS SEGUE QUATRO FASES. TODAS ELAS DEVEM SER REALIZADAS SEGUINDO OS MÉTODOS DE CONTROLE DE QUALIDADE, PARA GARANTIR QUE O PRODUTO FINAL ATENDA ÀS NECESSIDADES DOS CLIENTES E CHEGUE ATÉ ELES DE MANEIRA SEGURA E ADEQUADA. ASSINALE A ALTERNATIVA QUE APRESENTA AS QUATRO FASES DO PROCESSAMENTO DE ALIMENTOS. A) Beneficiamento, elaboração, conservação e armazenamento. B) Beneficiamento, elaboração, conservação e venda. C) Beneficiamento, produção, armazenamento e comercialização. D) Colheita, armazenamento, conservação e comercialização. 2. O BENEFICIAMENTO É CONSIDERADO UMA ETAPA CRÍTICA DO PROCESSO, NO QUAL A MATÉRIA-PRIMA É SELECIONADA PARA, POSTERIORMENTE, PASSAR PARA A ETAPA DE ELABORAÇÃO. SÃO PROCESSOS FÍSICOS APLICADOS DURANTE A ETAPA DE BENEFICIAMENTO, EXCETO: A) Moagem. B) Filtração. C) Trituração. D) Fermentação. GABARITO 1) Os métodos de industrialização aplicados variam de produto para produto. Porém, todo o processamento de alimentos segue quatro fases. Todas elas devem ser realizadas seguindo os métodos de controle de qualidade, para garantir que o produto final atenda às necessidades dos clientes e chegue até eles de maneira segura e adequada. Assinale a alternativa que apresenta as quatro fases do processamento de alimentos. A alternativa "A " está correta. O processamento de alimentos é realizado em quatro fases: beneficiamento, elaboração, conservação, armazenamento. Após a conservação, o produto deve ser acondicionado em embalagens que irão auxiliar na sua preservação, além de evitar que ele seja contaminado ou sofra alterações nas características obtidas durante as demais etapas. Sendo assim, a letra A é a alternativa correta. 2. O beneficiamento é considerado uma etapa crítica do processo, no qual a matéria- prima é selecionada para, posteriormente, passar para a etapa de elaboração. São processos físicos aplicados durante a etapa de beneficiamento, exceto: A alternativa "D " está correta. Moagem e trituração são processos físicos baseados na redução do tamanho de partículas. A filtração corresponde ao processo baseado na concentração por membranas. A fermentação é uma técnica que envolve a alteração das características dos alimentos pela ação de microrganismos, como leveduras para produção de pães, que pode ocorrer na etapa de elaboração e de conservação. Sendo assim, a letra D é a correta. CONCLUSÃO CONSIDERAÇÕES FINAIS A industrialização de alimentos surgiu através de um conjunto de técnicas para melhorar a qualidade dos alimentos, aumentar a disponibilidade e permitir maior período de armazenamento. Muitos benefícios para a alimentação da sociedade foram obtidos após o processamento de alimentos. Porém, para que o processo de industrialização seja adequado, é preciso escolher minuciosamente as técnicas a serem aplicadas para evitar perdas nas características sensoriais e nutricionais dos alimentos e garantir a segurança microbiológica. Todas as etapas de processamento são importantes e têm impacto significativo no produto final. Existem diversas técnicas e vários métodos que compõem as fases de processamento (beneficiamento, elaboração, conservação e acondicionamento). Neste material, buscamos apenas contextualizaras infinitas etapas, técnicas e os processos que envolvem a industrialização de um alimento. A partir dele, você terá capacidade de buscar mais conhecimentos e se aprofundar melhor em cada um deles, considerando a tecnologia de cada produto específico. PODCAST AVALIAÇÃO DO TEMA: REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Portaria nº 540, de 27 de outubro de 1997. In : Diário Oficial da República Federativa do Brasil. Publicado em: 28 out. 1997. BRASIL, Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio. Recenseamento do Brasil. Volume V, Indústria. Rio de Janeiro: Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, 1927. BOBBIO, P. A., BOBBIO, F. O. Química do processamento de alimentos. 3. ed. São Paulo: Varela. 2001. CHAVES, J. B. Controle de qualidade para indústria de alimentos. Viçosa: Imprensa Universitária da UFV, 1980. FELLOWS, P. J. Tecnologia do processamento de alimentos. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2006. GAVA. A. J; SILVA, C. A. B; FRIAS, J. R. G. Tecnologia de alimentos: princípios e aplicações. 2. ed. São Paulo: Nobel, 2012. ORDÓÑEZ, J. A. et al. Tecnologia de alimentos: alimentos de origem animal. Porto Alegre: Artmed, 2005. REGO, R.; VIALTA, A.; MADI, L. Alimentos Industrializados: a importância para a sociedade brasileira. 1. ed. Campinas : ITAL, 2018. RIBEIRO, E. P., SERAVALLI, E. A. G. Química de alimentos. São Paulo: Edgard Blücler, Instituto Mauá de Tecnologia, 2004. EXPLORE+ Pesquise algumas revisões e alguns artigos sobre técnicas de processamentos que trazem informações importantes: Emerging technologies in food processing. Annual review of food science and technology , de Dietrich Knorr. Food classification systems based on food processing: significance and implications for policies and actions: a systematic literature review and assessment , de Jean-Claude Moubarac. História da ciência e tecnologia dos alimentos no Brasil no Pós II Guerra Até os dias atuais – desenvolvimento e estruturação do alimento , de Maria Aparecida Campos, Ana Lúcia Vendramini e José Carlos de Oliveira. A review of microwaves for food processing , de A. J. H. Sale. Salt in food processing, usage and reduction: a review , de William Albarracín. Procure também o e-book produzido pelo Instituto de Tecnologia de Alimentos: Alimentos industrializados – a importância para a sociedade brasileira. Consulte o material da ANVISA sobre técnicas de boas práticas de fabricação, que são importantes para todos os setores e produtos. Para encontrá-lo, procure por: “Regularização de Empresas Alimentos Boas Práticas de Fabricação” . Pesquise também a Resolução nº 275, de 21 de outubro de 2002, publicada pela ANVISA, que apresenta o Regulamento Técnico de Procedimentos Operacionais Padronizados Aplicados aos Estabelecimentos . Assista ao documentário Ilha das Flores , de 1989, dirigido por Jorge Furtado, que trata do desperdício de alimentos. CONTEUDISTA Maraysa Rodrigues Furtado CURRÍCULO LATTES javascript:void(0); DEFINIÇÃO Aplicação dos métodos de conservação, sanitização e embalagens para a diminuição do risco de contaminação e deterioração dos alimentos, com aumento da vida útil do produto. PROPÓSITO Compreender os mecanismos dos métodos de conservação, objetivando a elaboração de um produto mais seguro para o consumidor. Fonte: monticello / Shutterstock OBJETIVOS MÓDULO 1 Definir o princípio de ação dos métodos de conservação MÓDULO 2 Justificar a importância da sanitização e do uso de embalagens MÓDULO 1 Definir o princípio de ação dos métodos de conservação CONSERVAÇÃO Ao longo da cadeia de produção, os alimentos são expostos a riscos químicos, físicos e biológicos, que promovem alterações indesejáveis e são possíveis causadores de danos à saúde do consumidor. No entanto, existem alternativas para diminuir ou evitar esse risco: Fonte: Pia Violeta Pasat / Shutterstock MÉTODOS DE CONSERVAÇÃO Fonte: ESstock / Shutterstock PROCESSO DE SANITIZAÇÃO Fonte: Ahanov Michael / Shutterstock USO DE EMBALAGENS ALÉM DA QUALIDADE NUTRICIONAL BASEADA NA ADEQUADA DISTRIBUIÇÃO DE NUTRIENTES NA DIETA OFERECIDA, É NECESSÁRIO ATENÇÃO À SEGURANÇA ALIMENTAR. Os alimentos seguros evitam a disseminação de microrganismos para o consumidor, permitindo uma vida útil mais extensa do produto. Algumas características próprias do produto interferem no crescimento e na contaminação biológica mediada por microrganismos, que também são os principais responsáveis pelo processo de deterioração. Fonte: Kateryna Kon / Shutterstock Fatores intrínsecos e extrínsecos influenciam na estabilidade dos alimentos frente à contaminação microbiana. Os principais fatores intrínsecos são atividade de água (AW) e pH, que podem tornar o alimento mais suscetível ao crescimento de diferentes microrganismos. A contaminação dos alimentos por microrganismos patogênicos pode desencadear, no indivíduo, javascript:void(0) processos inflamatórios, os quais o consomem devido às próprias características de patogenicidade ou à produção e à secreção de toxinas. As principais alterações de deterioração promovidas pelos microrganismos são relacionadas às características sensoriais, como liberação de odores, aparecimento de limo e acidificação, além de alterações físico- químicas, como a precipitação de proteínas (FRANCO & LANDGRAF, 2008). AW (ACTIVITY OF WATER) Movimento da água. O maquinário enzimático microbiano é o principal responsável pelos processos de deterioração nos alimentos, promovendo alterações na matriz alimentar. As enzimas microbianas, por meio de reações químicas, são inseridas no grupo de perigos biológicos. Problemas ambientais ou de acondicionamento, como teor de oxigênio atmosférico, luz solar, temperaturas excessivamente altas (causadoras do escurecimento não enzimático), a desnaturação das proteínas por ação de ácidos e álcalis, presença de metais pesados que promovem reações de auto-oxidação, além de agentes mecânicos, como golpes e amassados, que podem levar a alterações nos alimentos. Com o objetivo de aumentar a vida útil dos alimentos, estratégias de conservação são aplicadas. São exemplos: Fonte: Stokkete / Shutterstock Embalagens opacas para proteção contra a luz Fonte: New Africa / Shutterstock Emprego de tampões para equilibrar o excesso de ácidos ou álcalis Fonte: SUWIT NGAOKAEW / Shutterstock Adição de substâncias quelantes para reduzir a concentração de metais Fonte: bigacis / Shutterstock Uso de embalagens a vácuo para reduzir a ação do oxigênio Fonte: beats1 / Shutterstock CONSERVAÇÃO POR ALTA TEMPERATURA Os principais métodos térmicos que envolvem alta temperatura, aplicados na conservação de alimentos, são: Fonte: Sergey Tinyakov / Shutterstock PASTEURIZAÇÃO Permite a higienização dos alimentos Fonte: Aleksandar Malivuk / Shutterstock ESTERILIZAÇÃO Promove a destruição dos microrganismos presentes A atividade enzimática microbiana, principal responsável pelas alterações observadas nos alimentos, perde a estabilidade cinética devido à desativação das enzimas pelo aumento da temperatura. Com o aumento da temperatura, ocorrem lesões no microrganismo, que podem ser letais. De acordo com a intensidade da temperatura usada, pode-se alcançar uma esterilidade maior. No entanto, um fator limitante corresponde às mudanças químicas que a aplicação de calor acarreta, sobretudo no que se refere à qualidade organoléptica e ao valor nutritivo. Desse modo, deve haver um equilíbrio para diminuir o risco de alteração, elaborando um produto com mudanças mínimas na qualidade sensorial e nutritiva, utilizando o tratamento térmico com o objetivo de reduzir a contagem microbiana, mantendo a qualidade original. ESTERILIZAÇÃO O principal objetivo dos processos de esterilização é destruir os microrganismos mais termorresistentes para obter a esterilidade comercial, eliminando, inclusive, bactériasesporuladas. No entanto, existem enzimas microbianas produzidas por bactérias psicrotróficas que são termorresistentes e não são inativadas no processo UHT. A esterilização pode ser feita em embalagens já preenchidas ou no alimento, com posterior acondicionamento de forma asséptica. ESTERILIZAÇÃO DE ALIMENTOS ACONDICIONADOS Os modelos de embalagens mais utilizados para processos de esterilização são latas, garrafas de vidro ou plásticos termoestáveis. As embalagens são preenchidas com o produto, e é feito um procedimento para evacuação do ar, seguido do fechamento ou da selagem. As embalagens são obtidas já higienizadas. Caso contrário, são previamente lavadas com duchas de água quente ou escovas rotatórias. As máquinas de enchimento devem assegurar o preenchimento preciso das embalagens e a manutenção das condições higiênico-sanitárias. Após o aquecimento, ocorre uma expansão do conteúdo, o que leva ao aumento da pressão de vapor de água e dos gases que escapam do produto. Essa pressão interna deve ser equilibrada pela resistência da embalagem para evitar rompimentos. Parte da embalagem deve permanecer vazia (espaço de cabeça). Esse espaço é importante para permitir a expansão e a pressão de vapor causada pelo aumento da temperatura implementada no produto (ORDÓÑEZ, 2005). AUTOCLAVES VERTICAIS OU HORIZONTAIS O método descontínuo de esterilização de produtos já acondicionados utiliza autoclaves verticais ou horizontais, nas quais são inseridas quantidades de embalagens de acordo com sua capacidade. Com a carga completa, a tampa é fechada, os fechos são ajustados, e o funcionamento e o aquecimento começam. Quando for observada a eliminação das bolhas de ar, fecha-se a válvula, e tem início o aquecimento até a temperatura de 121°C. A autoclave funciona em alta pressão, com um esterilizador hidrostático que apresenta uma área central que se comunica com dois ramais laterais. Quando o sistema está parado, as colunas de água dos ramais laterais estão equilibradas na mesma altura que aquela contida na zona central. Ao ser acionada pela injeção de vapor de água na zona central, a água é empurrada para baixo nessa zona, deslocando para cima a água dos ramais laterais. Na zona central, a pressão e a temperatura vão aumentando até os valores programados, criando um gradiente de temperatura na água dos ramais. Fonte: Wikipédia Autoclave. ESTERILIZAÇÃO DE ALIMENTOS NÃO ACONDICIONADOS Utilizado principalmente para alimento líquidos ou semilíquidos (leite, sopas e purês), consiste em um aquecimento rápido à alta temperatura, numa faixa entre 130°C e 150°C, durante um curto período de dois a cinco segundos denominado processo Ultra High Temperature (UHT). Esse tipo de aquecimento apresenta 2 modalidades: indireto e direto. No processo indireto, o aquecimento é feito mediante trocador de calor tubular ou de placa. Desse modo, não há contato entre o vapor de água e o alimento. No processo direto, ocorre a injeção de vapor de água no alimento, ou de fusão do alimento no vapor d’água. Nesses processos, há contato entre o agente aquecedor e o alimento. Assim, o aquecimento é instantâneo, em décimos de segundos, numa faixa de temperatura de 85°C a 140°C. PASTEURIZAÇÃO O objetivo da pasteurização é a destruição de microrganismos patogênicos não esporulados, com a redução da microbiota do produto, fornecendo, assim, um alimento mais seguro ao consumidor, com vida útil aceitável. Existem duas modalidades que variam de acordo com binômio tempo-temperatura: Fonte: VectorUpStudio / Shutterstock LOW TEMPERATURE HOLDING (LTH) Conhecida como pasteurização baixa, consiste em um sistema descontínuo adequado para pequenos volumes de 100 a 500 litros, utilizando tempos longos, de aproximadamente trinta minutos, e baixas temperaturas, entre 62°C a 68°C. Fonte: VectorUpStudio / Shutterstock HIGH TEMPERATURE SHORT TIME (HTST) A pasteurização alta realizada em sistema de fluxo contínuo utiliza trocadores de calor tubulares ou de placas em alta temperatura, entre 72°C a 85°C, e tempos curtos, que variam de 15 a 20 segundos. O processo é semelhante ao Ultra High Temperature indireto, no qual o produto é pré-aquecido e, em seguida, é direcionado para o trocador de calor, onde se pasteuriza. Esse processo é repetido até que, finalmente, o produto seja refrigerado para acondicionamento. CONSERVAÇÃO POR BAIXA TEMPERATURA O emprego de baixas temperaturas é o método mais antigo de conservação, baseado na inibição total ou parcial dos principais agentes responsáveis pelas alterações dos alimentos, os microrganismos. A redução da temperatura também atua no crescimento e na atividade metabólica dos tecidos animais e vegetais, que acontecem após o abate e a colheita. Quando ocorre diminuição da temperatura, a atividade enzimática se reduz, assim como a velocidade de crescimento microbiano (FRANCO & LANDGRAF, 2008). A aplicação de frio consiste em uma das operações unitárias mais empregadas na indústria alimentícia, em que a transmissão de calor do alimento é direcionada para um meio externo frio. A refrigeração e o congelamento são os métodos de conservação a frio mais utilizados. Fonte: macka / Shutterstock REFRIGERAÇÃO Na refrigeração, o metabolismo celular mantém certa atividade. O método consiste na redução e manutenção da temperatura dos alimentos acima de seu ponto de congelamento, sendo mais usuais as temperaturas entre 8°C e −1°C. Desse modo, a refrigeração implica apenas nas mudanças do calor sensível do produto, prolongando sua vida útil durante um período limitado, geralmente dias ou semanas, dependendo das características do produto e da temperatura de armazenamento. CONSIDERADO UM MÉTODO SUAVE DE CONSERVAÇÃO, A REFRIGERAÇÃO E O ARMAZENAMENTO EM REFRIGERAÇÃO PERMITEM QUE O PRODUTO SEJA AINDA CONSIDERADO COMO FRESCO E DE BOA QUALIDADE, IMPLICANDO EM UMA BOA ACEITAÇÃO PELOS CONSUMIDORES. A temperatura de refrigeração mais adequada é a que permite a respiração, embora lentamente, e que, ao mesmo tempo, impeça o progresso das principais reações que levam à alteração. Para determinar o equipamento e o tempo necessário para refrigeração, é preciso levar em conta que o calor gerado pela respiração das frutas e hortaliças são diferentes em países tropicais e subtropicais, com alterações fisiológicas quando expostas às temperaturas inferiores às consideradas ótimas para seu armazenamento (ORDÓÑEZ, 2005). Fonte: Adisa / Shutterstock Uma limitação que pode ocorrer em alimentos armazenados a frio, principalmente frutas e verduras, é conhecido como dano pelo frio. Consiste no escurecimento interno ou externo, com a presença de pintas ou manchas na casca, podendo até ocorrer a deterioração completa do produto. Outra limitação do uso do frio para conservação é o impedimento da continuidade do amadurecimento em alguns alimentos, como a banana. O pão é outro exemplo de alimento que sofre alteração negativa quando exposto à conservação por refrigeração devido à retrogradação do amido, que leva à alteração na textura do pão, tornando-o muito duro e escurecido. Fonte: igorsm8 / Shutterstock CONGELAMENTO O congelamento ocorre com uma redução maior da temperatura do alimento, até abaixo do seu ponto de congelamento. A maioria dos alimentos inicia o congelamento em temperaturas inferiores a 0°C. Normalmente, os alimentos são congelados a −18°C. O princípio do congelamento é a eliminação do calor latente associado à mudança de fase correspondente à transformação de parte da água líquida em gelo. Essa mudança de estado da água de líquido a sólido nos alimentos é a principal diferença entre a refrigeração e o congelamento. A formação de cristais de gelo resultantes do processo de congelamento leva à imobilização de grande parte da água, que não poderá mais atuar como um solvente ou reativo, reduzindo consideravelmente a velocidade das reações química e enzimática. A atividade de água reduzida e a baixa temperatura permitema conservação durante longos períodos, como meses e anos (ORDÓÑEZ, 2005). Fonte: Shebeko / Shutterstock A formação de cristais de gelo causada pelo congelamento pode levar à promoção de modificações indesejáveis. A cristalização ou formação de fase sólida organizada sistematicamente ocorre em 2 etapas: 1. NUCLEAÇÃO Consiste na associação de moléculas de água para formar uma pequena partícula ordenada e estável, que é o ponto de início do congelamento de um alimento. Também pode ser definida como a temperatura na qual um diminuto cristal de gelo coexiste em equilíbrio com a fase líquida. A temperatura de fusão do gelo puro é de 0°C. A nucleação é um fenômeno difícil porque as moléculas de água em estado líquido não se associam facilmente entre si para formar um sólido. Para que isso ocorra, é necessário que a temperatura seja inferior ao ponto em que se inicia o congelamento. Durante o resfriamento acelerado, pequenos cristais instáveis podem ser formados sem alcançar um tamanho crítico. A nucleação homogênea é o que ocorre em soluções puras. Nos alimentos, observa-se a nucleação heterogênea, que ocorre sobre partículas suspensas, sólidos insolúveis, superfícies de películas ou paredes de embalagem. Esses agentes facilitam a organização das moléculas de água para formar núcleos estáveis. O impacto mecânico e as variações locais de solutos contribuem para nucleação heterogênea. 2. CRESCIMENTO DOS CRISTAIS A formação de cristais de gelo como consequência do resfriamento imobiliza certa quantidade de água do alimento. Ao mesmo tempo, a concentração dos diferentes solutos na fração de água não congelada aumenta. Uma das consequências é a aceleração das reações químicas nessa fração de água não congelada entre − 5°C e −15°C. ATENÇÃO No congelamento, essas duas etapas são abreviadas no tempo, mas é possível controlar a velocidade de cada uma. SISTEMA DE CADEIA DE FRIO INDUSTRIAL Na indústria, existem dois tipos de processo de resfriamento e congelamento: SISTEMA FECHADO Consiste em uma bomba que extrai o calor do alimento ou do recinto onde se encontra, transferindo-o para um local em que possa ser dissipado. Utilizam-se fluidos refrigerantes que recirculam através do sistema em um circuito fechado, com a transformação de líquido em vapor e de vapor em líquido. Fluidos refrigerantes possuem, entre outras propriedades, a temperatura de ebulição inferior a 0°C e o calor latente de vaporização muito elevado. Os tipos mais utilizados na indústria alimentícia são o amoníaco e os fréons, conhecidos como hidrocarbonetos halogenados. SISTEMA ABERTO Esse sistema é baseado no uso de líquidos criogênicos ou gases liquefeitos. Os compostos criogênicos têm ponto de ebulição muito baixo e calor latente de vaporização bastante elevado. Os tipos mais comuns são dióxido de carbono líquido ou sólido e nitrogênio líquido. Os gases são liquefeitos em outras instalações industriais e, depois, transportados à indústria alimentícia em recipientes pressurizados a baixa temperatura e isolados. Nesse sistema, o alimento resfria por contato direto com os líquidos que captam o calor dos alimentos para a sua evaporação ou javascript:void(0) javascript:void(0) sublimação, permitindo a refrigeração. Os líquidos criogênicos têm custo mais elevado do que o sistema fechado, pois o custo do líquido é superior. DESCONGELAMENTO Para evitar perda da qualidade e do rendimento do produto, o descongelamento deve ser feito de forma correta, sendo finalizado quando o centro térmico do alimento atinge 0°C. Em alguns casos, não é necessário descongelar completamente o produto, permitindo, portanto, uma ambientação. Para reduzir o máximo possível as mudanças produzidas durante o descongelamento, deve-se evitar o aquecimento excessivo do produto, reduzir ao mínimo o tempo do descongelamento e evitar desidratação excessiva. Fonte: Liliya Kandrashevich / Shutterstock CONSERVAÇÃO POR RADIAÇÃO Existem dois tipos de tratamento que envolvem radiação: não ionizante e irradiação. A primeira emprega energia eletromagnética, que inclui radiação infravermelha, micro-ondas, ôhmica e energia dielétrica, cada uma com poder de penetração distintos. A geração de calor ocorre por diferentes mecanismos. A maior vantagem da sua utilização baseia-se no fato de prolongar a vida útil dos alimentos sem aumento da temperatura. Veremos mais detalhes sobre os dois tipos de tratamento a seguir. RADIAÇÃO ELETROMAGNÉTICA NÃO IONIZANTE De acordo com a natureza do corpo radiante, a matéria emite radiação com diferentes comprimentos de onda e intensidade, o que consiste em uma forma de gerar calor decorrente da distorção criada nos componentes dos alimentos pela incidência de um campo elétrico alternativo, que pode ser: RADIAÇÃO INFRAVERMELHA A radiação infravermelha produz determinada vibração nas ligações intra e inter moleculares dos componentes dos alimentos, promovendo aumento da temperatura. No entanto, a radiação infravermelha apresenta baixa penetração, aquecendo apenas a superfície. O restante do alimento é aquecido por condução ou convecção. Desse modo, a evaporação da camada externa de água é mais rápida e mais eficiente, diminuindo a umidade relativa e criando um gradiente de pressão de vapor que favorece a passagem da água do interior do alimento para sua superfície. O aquecimento das camadas externas favorece o processo da Reação de Maillard e a caramelização dos açúcares e dextrinas, com consequente escurecimento, adquirindo uma cor marrom-dourado, característica dos produtos de forno. A alta temperatura e a baixa atividade de água das camadas superficiais provoca oxidação dos ácidos graxos aldeídos, lactonas, cetonas e álcoois, o que produz o aroma característico de alimentos assados. Como promotor de conservação dos alimentos, a radiação infravermelha destrói o maquinário enzimático dos microrganismos, além de reduzir a atividade de água. O fator limitante do uso dessa tecnologia está ligado ao fato de poder levar a modificação de características organolépticas dos alimentos, alterando sabores, aromas e texturas. RADIAÇÃO MICRO-ONDAS Como todas as ondas eletromagnéticas, as micro-ondas estão associadas a um campo elétrico e a um campo magnético perpendiculares entre si. São ondas monocromáticas planas e fortemente polarizadas. As micro-ondas apresentam poder de penetração superior ao da radiação infravermelha. O aquecimento por micro-ondas, embora mais homogêneo do que o obtido por métodos tradicionais, não distribui uniformemente a temperatura no produto. Isso ocorre devido às variações na densidade de potência aplicada por unidade de área e devido à complexidade da composição do alimento. Os produtos aquecidos por esse sistema não apresentam escurecimento não enzimático nem formação de crosta superficial, o que pode ser vantajoso em algumas aplicações. Isso acontece devido ao fato de a geração de calor por micro-ondas ser muito rápida e manter-se elevada enquanto há água no produto. AQUECIMENTO ÔHMICO O aquecimento ôhmico é produzido quando a corrente elétrica passa por um condutor de eletricidade. Nesse caso, recorre-se à corrente de baixa frequência. A energia elétrica transforma-se em energia térmica no interior do produto de forma similar ao que acontece no aquecimento por micro-ondas, porém o aquecimento ôhmico apresenta profundidade de penetração ilimitada. A extensão do aquecimento depende da uniformidade espacial da condutividade elétrica do produto e do tempo de permanência no sistema. A condutividade elétrica depende de dois tipos de materiais: Não condutores, como gorduras, óleos, açúcares e sólidos não metálicos; Condutores, como água e sais dissolvidos. O aquecimento ôhmico apresenta como vantagem o fato de ser fácil de controlar e de regular, possuir baixo custo de manutenção e rendimento maior do que quando são utilizadas as micro- ondas. O fator limitante é a dificuldade de calcular o efeito letal, pois isso depende de múltiplosfatores, como condutividade elétrica dos diferentes componentes dos alimentos e distribuição da corrente elétrica no sistema. IRRADIAÇÃO DE ALIMENTOS Os elétrons e as radiações gama produzem ionizações nos átomos das moléculas da matéria com as quais interagem, efeito primário da irradiação. Em consequência da excitação molecular, aparecem novos íons e radicais livres, que dão lugar à composição inicial do produto. Fonte: Wikipédia O efeito secundário da irradiação se prolonga no alimento com a formação e o desaparecimento de compostos até o estabelecimento de produtos estáveis. Os compostos formados na presença de oxigênio geram peróxidos e superóxidos, que promovem ações de oxidação e redução e levam ao desequilíbrio dos processos enzimáticos e à desestabilização metabólica. Desse modo, a irradiação em doses baixas é válida para prolongar a vida útil dos alimentos, pois leva à destruição de microrganismos vivos e retarda processos fisiológicos de vegetais (amadurecimento e crescimento de brotos e raízes). Os ácidos nucleicos são os componentes de maior complexidade celular, pois a possibilidade de que o material genético sofra danos é muito grande. Dessa forma, a dose letal de radiação associada a cada organismo vivo diminui à medida que aumenta a complexidade do seu DNA. Fonte: Maks Narodenko / Shutterstock Esquema de irradiação do alimento. Exemplo de alimento irradiado. A maior vantagem da utilização dessa técnica de conservação é a ausência de modificações nas características organolépticas e nos valores nutritivos, uma vez que proteínas são relativamente pouco afetadas, apesar da redução de ligações dissulfeto, que leva à perda da função enzimática. O efeito letal das radiações nos organismos vivos se deve, em primeiro lugar, aos danos no DNA e RNA, além da associação de radicais livres formados, que provocam desequilíbrio na oxirredução enzimática. CONSERVAÇÃO DE ALIMENTOS POR ALTERAÇÃO NO PH Grande parte dos alimentos frescos é ligeiramente ácida, com pH entre 5 e 6,5 (carne, pescado e vegetais). Alguns alimentos, como a maioria das frutas, apresentam pH bastante ácido, sendo menor que 5. Leite e clara de ovo, por exemplo, apresentam pH mais neutros ou alcalinos, sendo, aproximadamente, 6,8 e 9,6 respectivamente. Fonte: VectorUpStudio / Shutterstock O processo de acidificação tem um efeito inibidor no crescimento microbiano, sendo, então, um método utilizado para ampliar a vida útil dos alimentos. O processo de fermentação, espontânea ou induzida, pode levar à produção de ácidos que reduzem o pH, como ocorre em iogurtes e vinagre. A redução do pH também pode ser realizada pela adição de compostos ácidos. VOCÊ SABIA? Microrganismos patogênicos e deteriorantes, em grande parte, crescem melhor em pH próximo à neutralidade. Assim, em pH abaixo de 5, o desenvolvimento desses microrganismos é inibido, o que auxilia no processo de conservação dos alimentos. Fonte: aleksonearth / Shutterstock CONSERVAÇÃO DE ALIMENTOS POR ALTERAÇÃO NA ATMOSFERA A diminuição da concentração de oxigênio e o aumento do teor de dióxido de carbono são alternativas para aumentar a vida útil dos alimentos. As técnicas de mudança de condições atmosféricas podem ser aplicadas em grandes espaços, como containers de armazenamento, ou na etapa de envasamento do produto. Existem três tipos de acondicionamento utilizados na indústria de alimentos: Fonte: buruhtan / Shutterstock ATMOSFERA CONTROLADA Consiste no uso de uma mistura de gases que se mantêm constante durante todo o período de armazenamento. Ela normalmente é utilizada para grandes quantidades de produto, como peras e maçãs, em câmaras. Fonte: Janthiwa Sutthiboriban / Shutterstock ATMOSFERA MODIFICADA É necessário usar embalagens normalmente plásticas e impermeáveis a gases. Fonte: 135pixels / Shutterstock ACONDICIONAMENTO A VÁCUO É a modalidade na qual se retira o ar do interior da embalagem sem substituição por outro gás. CONSERVAÇÃO DE ALIMENTOS POR ALTERAÇÃO NA ATIVIDADE DE ÁGUA A atividade de água (AW) representa a fração de água livre utilizada pelos microrganismos para mediar sua multiplicação. A maioria dos microrganismos cresce em valores elevados de atividade de água (0,98 a 0,99). À medida que a atividade de água reduz, aumenta a fase de latência e diminui o tempo de geração de novas células. Ocorre concentração dos solutos, que, quando hidrofílicos, formam pontes de hidrogênio, reduzindo ainda mais o teor de água disponível para a atividade microbiana. Ainda ocorre um fenômeno osmótico em que há perda de água do interior do microrganismo para fora, alterando a fisiologia microbiana. O microrganismo pode tentar equilibrar a tensão osmótica que se estabelece entre o exterior e o interior, gerando substâncias osmoticamente ativas não tóxicas, que são chamadas de solutos compatíveis, como ácido glutâmico, prolinas e ácido γ-aminobutírico. A REDUÇÃO DA ATIVIDADE DE ÁGUA PODE SER REALIZADA PELA ADIÇÃO DE SOLUTO NO MEIO, SAL E AÇÚCAR PRINCIPALMENTE OU PELA RETIRADA DA FRAÇÃO DE ÁGUA (EVAPORAÇÃO E DESIDRATAÇÃO). EVAPORAÇÃO A evaporação tem como principal objetivo aumentar a concentração de sólidos totais e reduzir a atividade de água, o que contribui para a conservação dos alimentos. A concentração de líquidos antes da aplicação de outras operações, como desidratação, congelamento e esterilização, facilita o processo, proporcionando economia de energia, reduzindo o peso e o volume dos alimentos. Essas medidas servem para facilitar e diminuir o custo de transporte, armazenamento e distribuição, além de facilitar o uso e diversificar a oferta de produtos. PARA EVITAR EVAPORAÇÃO EXCESSIVA APÓS A CONCENTRAÇÃO, OS ALIMENTOS SÃO RESFRIADOS RAPIDAMENTE EM CÂMARAS DE NEBULIZAÇÃO. As características sensoriais mais afetadas na evaporação são aroma e cor, perda de aroma causado pelo arraste dos compostos voláteis responsáveis por essa característica, já que apresentam ponto de fusão menor. Em alguns casos, essa perda pode ser benéfica, pois elimina compostos voláteis desagradáveis. Entretanto, as substâncias aromáticas desejáveis podem ser separadas do vapor d'água por destilação fracionada e recuperadas em forma de essência, que pode ser incorporada ao produto concentrado. Os alimentos evaporados geralmente apresentam cor mais intensa devido à concentração de sólidos. A redução da atividade de água pode favorecer ações como o escurecimento não enzimático. Fonte: Alibaba Evaporador para processamento de leite. Fonte: Brent Hofacker / Shutterstock DESIDRATAÇÃO Também chamada de secagem ou dissecação, esse procedimento consiste na extração da fração de água do alimento. Ao reduzir o teor de água no alimento, objetiva-se aumentar o período de conservação através da inibição do crescimento de microrganismos e da redução da atividade de algumas enzimas. A desidratação também reduz o peso e o volume dos javascript:void(0) alimentos para facilitar e baratear o transporte e o armazenamento, além de tornar mais fácil o uso e diversificar a oferta de alguns produtos, como, por exemplo, leite em pó, fruta seca, café em pó, ovo em pó etc. Na desidratação, ocorre transferência de calor, o que permite a vaporização ou sublimação da água e, consequentemente, a transferência de massa, ou seja, o movimento da água ou do vapor d'água através do alimento e, por fim, o arraste do vapor d'água do ambiente do alimento. Fonte: Bohbeh / Shutterstock Leite em pó. EXTRAÇÃO DA FRAÇÃO DE ÁGUA Operação básica que pode ser feita por evaporação ou liofilização baseada na sublimação da água, resultando em um produto com teor inferior a 3% de umidade. O calor necessário para conseguir a evaporação da água dos alimentos pode ser transmitido por condução, convecção, ou por radiação. Esse calor pode ser aplicado sob pressão atmosférica ou sob vácuo. Nessas condições, a temperatura empregada é mais baixa. A desidratação pode ocorrerde diferentes modos: DESIDRATAÇÃO COM AR QUENTE Quando o alimento entra em contato com a corrente de ar quente e o calor é transmitido por convecção. DESIDRATAÇÃO POR CONTATO DIRETO Ocorre quando o calor é transmitido ao alimento por condução ao entrar em contato com uma superfície quente. DESIDRATAÇÃO POR PORTE DE ENERGIA Quando se utiliza uma fonte irradiante e a transmissão de calor é por radiação. DESIDRATAÇÃO POR ENERGIA ELETROMAGNÉTICA É feita por calefação de micro-ondas ou dielétrica. Quais os efeitos desses processos nos alimentos? Os alimentos são complexos e heterogêneos, e a água presente neles é encontrada na forma de soluções ou ligadas aos componentes sólidos. A estrutura celular do alimento, vegetal ou animal, influencia no processo de desidratação. Desse modo, o comportamento dos alimentos durante a desidratação é variado. O teor de compostos como amido, sais e açúcar influencia na velocidade de secagem. No início da desidratação, aparece uma camada relativamente desidratada na zona superficial para a qual emigra a água livre do centro do alimento, enquanto a água ligada da zona superficial não se evapora. Dependendo das características dos alimentos e das condições de processamento, as mudanças no conteúdo de umidade da superfície e do centro do alimento ao longo da secagem ocorrem em velocidades diferentes, produzindo mudanças e alterações como: ENDURECIMENTO SUPERFICIAL Ocorre quando a secagem inicial é muito rápida e o vapor d'água é eliminado da superfície do produto mais rapidamente do que a água que se desloca do centro do alimento. Nesse processo, pode ocorrer retração da camada superficial, que se comporta como uma película dura e impermeável e oferece forte resistência à transferência posterior de vapor. Esse processo é facilmente encontrado na desidratação de frutas, carnes, peixes e embutidos. Na tentativa de retardar a evaporação e evitar esses problemas, pode-se utilizar ar com umidade relativa elevada, em baixa velocidade e em temperatura adequada, para favorecer a difusão interna da água do alimento. A desidratação pode ocorrer em velocidade maior nos alimentos que não oferecem risco de formação de crosta. MOVIMENTO DE SÓLIDOS SOLÚVEIS Quando a secagem inicial é lenta, as substâncias solúveis em água, como sais e açúcares, são arrastadas pela água do centro do alimento para a superfície, onde se concentram e podem cristalizar ou formar uma camada amorfa de aspecto pegajoso e impermeável, o que dificulta a passagem de vapor d'água. O deslocamento de alguns compostos solúveis pode ser impedido pelas paredes celulares, porém a retração dos produtos favorece a migração dos sólidos e cria pressão no seu interior. Observa-se concentração e depósito de componentes solúveis na superfície do produto quando há evaporação da água. Desse modo, pode ocorrer migração das substâncias solúveis para o interior do alimento, onde a concentração é menor. RETRAÇÃO Os alimentos experimentam certo grau de retração durante a desidratação. Essa retração pode ser proporcional à saída progressiva de água das células. A retração é muito mais acentuada quando a desidratação é lenta e ocorre apesar da resistência dos elementos naturais dos tecidos. Na primeira fase de secagem, o nível de retração está relacionado à quantidade de umidade eliminada. Ao fim da secagem, a retração diminui, de modo que o tamanho e a forma definitiva do produto são alcançados antes de se completar o processo. Assim, se a secagem ocorrer de forma lenta, o produto se retrai, com a consequente redução de volume, tendo aparência diferente do original e maior densidade. Quando a secagem é rápida, a formação de uma camada desidratada e rígida na superfície do alimento determina o volume final do produto. Fonte: Autor Processo de retração do alimento. SAIBA MAIS Além das três mudanças que vimos, há outras alterações possíveis de serem observadas ao utilizar processos de desidratação. OUTRAS ALTERAÇÕES Gelatinização do amido, devido à alta absorção de água; Amolecimento de compostos termoplásticos, levando à aglomeração e aderência a embalagem; Mudanças do estado cristalino para o estado amorfo, especialmente em açucares; Escurecimento não enzimático, devido à temperatura durante o processo; Aumento da concentração de soluto, alterando cor e sabor; javascript:void(0) Mudança de cor devido a mudanças na superfície do alimento, as quais alteram sua refletância, além de afetar caroteno e clorofilas; Perda de substâncias aromáticas voláteis de acordo com o peso molecular, pressão do vapor e solubilidade dessas substâncias; Diminuição da capacidade de retenção de água devido à desnaturação ou agregação das proteínas ou desestabilização de géis; Mudança de textura devido à não recuperação da turgidez ou rigidez; Perda de valor nutritivo devido à destruição de vitaminas A e C por oxidação. LIOFILIZAÇÃO Também chamada de criodesidratação, consiste na desidratação por sublimação ou transformação direta do gelo do alimento em vapor d'água sem passar pelo estado de água líquida. Para que ocorra, a temperatura e a pressão parcial de vapor d'água devem ser inferiores a 0,0099°C e 610,5 PA, respectivamente. Nesse caso, não existe grande volume de água em estado líquido, sendo mínimas as modificações dos alimentos. Fonte: AJCespedes / Shutterstock Tomate-cereja após o processo de liofilização. A liofilização requer apenas o aquecimento suave. Assim, as características nutritivas e sensoriais do produto são muito similares às características do produto fresco. No entanto, a velocidade de desidratação é lenta e os custos do equipamento e da operação são elevados. A primeira etapa da liofilização consiste no congelamento dos produtos, transformando as soluções aquosas dos alimentos em uma mistura de duas fases: uma constituída por cristais de gelo e outra pela solução concentrada dos solutos. Com esse propósito, é realizado o congelamento lento, de modo que o tamanho dos cristais seja grande e se forme uma rede cristalina. Dessa forma, a estrutura porosa facilitará o escape do vapor d'água durante a liofilização e em sua posterior reidratação. Em alguns líquidos, o movimento do vapor d'água é difícil porque, ao congelar, adquire estrutura vítrea, como suco de frutas com elevado teor de açúcar. Nesse tipo de produto, é necessário formar canais por onde o vapor d'água possa escapar, seja congelando na forma de espuma, seja se misturando aos sólidos, como ocorre na produção de polpa de suco. CONSERVAÇÃO DE PRODUTOS DESIDRATADOS Os produtos desidratados não são estéreis, o que ocorre é a redução do número de microrganismos como resultado das operações de desidratação devido a uma inativação ou diminuição das atividades enzimáticas. Portanto, é necessário atenção durante a manipulação e o armazenamento, principalmente devido à higroscopicidade de alguns alimentos desidratados. Desse modo, sugere-se a utilização de embalagens impermeáveis em armazenamento com condições apropriadas. Fonte: Lusica / Shutterstock CONSERVAÇÃO POR SOLUÇÃO DE AÇÚCAR Assista ao vídeo sobre o preparo de geleia, uma técnica de conservação de alimento por solução de açúcar. Fonte: Ilia Nesolenyi / Shutterstock ALIMENTOS QUE PODEM SER CONSERVADOS Veja alguns exemplos de alimentos que podem ser conservados com os principais métodos descritos neste módulo. Fonte: stockfour / Shutterstock SALGA Carnes Peixes Vegetais Fonte: 5 second Studio / Shutterstock SOLUÇÃO DE AÇÚCAR Geleias Marmeladas Fonte: Ekaterina SU / Shutterstock CONSERVA EM VINAGRE Cebolas Peixes Pimentas Picles Fonte: Room 76 / Shutterstock PASTEURIZAÇÃO Leite e natas Cerveja Sumos de fruta Fonte: Ilia Nesolenyi / Shutterstock CONSERVA EM LATA Peixes Legumes Frutas Fonte: New Africa / Shutterstock IRRADIAÇÃO Cebolas Batatas Frutos Fonte: Dmitry Melnikov / Shutterstock CONGELAÇÃO Carne Peixe Legumes VERIFICANDO OAPRENDIZADO 1. OS MÉTODOS DE CONSERVAÇÃO ESTUDADOS APRESENTAM LIMITAÇÕES. ASSIM, MUITAS VEZES, É NECESSÁRIO UTILIZAR MÉTODOS COMBINADOS. NO ESTUDO DO MÉTODO DE REFRIGERAÇÃO, ALGUMAS LIMITAÇÕES FORAM CITADAS. ASSINALE QUAL LIMITAÇÃO ESTÁ RELACIONADA À TÉCNICA DE CONSERVAÇÃO DE REFRIGERAÇÃO: A) Considerado método intenso de conservação. B) Não permite a manutenção do frescor dos alimentos. C) Pode causar danos, como aparecimento de manchas. D) Não permite a redução da atividade enzimática dos microrganismos. 2. O CONTROLE DA ATIVIDADE DE ÁGUA E DO PH DOS ALIMENTOS É UTILIZADO PARA INIBIR OU REDUZIR O CRESCIMENTO MICROBIANO. CONSIDERADOS COMO FATORES INTRÍNSECOS DO ALIMENTO, SUAS VARIAÇÕES PODEM AFETAR O MAQUINÁRIO ENZIMÁTICO DO MICRORGANISMO. ASSINALE A OPÇÃO QUE APONTA A RELAÇÃO ENTRE O FATOR INTRÍNSECO E A INFLUÊNCIA DO MICRORGANISMO. A) Diminuição do pH inibe o crescimento de microrganismos patogênicos. B) Redução da atividade de água facilita a ação enzimática. C) O pH neutro desnatura as enzimas, que têm natureza proteica. D) Alimentos com alta atividade de água são menos perecíveis. GABARITO 1. Os métodos de conservação estudados apresentam limitações. Assim, muitas vezes, é necessário utilizar métodos combinados. No estudo do método de refrigeração, algumas limitações foram citadas. Assinale qual limitação está relacionada à técnica de conservação de refrigeração: A alternativa "C " está correta. Os danos pelo frio são conhecidos pelo aparecimento de manchas internas ou externas, principalmente em frutas. Além deste, outras limitações são observadas no processo de refrigeração, como a interrupção do amadurecimento e a retrogradação do amido. 2. O controle da atividade de água e do pH dos alimentos é utilizado para inibir ou reduzir o crescimento microbiano. Considerados como fatores intrínsecos do alimento, suas variações podem afetar o maquinário enzimático do microrganismo. Assinale a opção que aponta a relação entre o fator intrínseco e a influência do microrganismo. A alternativa "A " está correta. A maior parte dos microrganismos patogênicos apresenta melhor faixa de crescimento em torno do pH neutro. Desse modo, a acidificação do alimento auxilia o processo de redução do crescimento celular. A redução do pH pode ser proveniente de ação tecnológicas, como a fermentação ou a adição de substâncias ácidas. O mecanismo de ação do pH ácido frente ao microrganismo tem como princípio a perda de funcionalidade do seu maquinário enzimático. MÓDULO 2 Justificar a importância da sanitização e do uso de embalagens SANITIZAÇÃO DE ALIMENTOS Processos de sanitização são etapas que devem ser realizadas para reduzir a carga microbiana e impedir o risco de contaminação do consumidor. A sanitização pode ser definida como qualquer procedimento aplicado ao controle de qualidade de alimentos que tenha como objetivo eliminar ou reduzir os perigos microbiológicos até níveis suportáveis, minimizando os riscos de transmissão de agentes patogênicos. Dependendo do objetivo, a sanitização pode compreender apenas uma simples lavagem, desinfecção ou processos de esterilização. Você pode estar se perguntando: limpeza e desinfecção não são a mesma coisa? Não. Entenda a diferença: Fonte: svtdesign / Shutterstock LIMPEZA Procedimento que envolve a simples remoção de sujidade ou resíduos macroscópicos. O processo mais amplamente utilizado para limpeza é a lavagem, que envolve utilização de água e sabão ou detergente para remoção das sujidades, podendo ou não reduzir os patógenos. Fonte: CuteCute / Shutterstock DESINFECÇÃO Procedimento que tem por objetivo eliminar ou reduzir os microrganismos patogênicos até níveis toleráveis sem representar risco à saúde. No processo de sanitização, diversas substâncias são empregadas, como os saneantes. Entre eles, podemos destacar o detergente, substância que apresenta ação tensoativa com a finalidade de limpeza e conservação de superfícies inanimadas, e os desinfetantes, que apresentam na sua formulação substâncias microbicidas com efeito letal para microrganismos não esporulados (DA SILVA, 2007). SANEANTES Substância ou preparação destinada à higienização de ambientes domiciliares, coletivos ou públicos. javascript:void(0) A ESCOLHA DA SUBSTÂNCIA UTILIZADA PARA SANITIZAR DEVE SER BASEADA NO PODER TÓXICO CONTRA OS MICRORGANISMOS, ALÉM DE EVITAR QUALQUER RISCO À SAÚDE (DA SILVA, 2007). A água sanitária, solução à base de hipoclorito de sódio, cálcio ou lítio (concentração entre 2 e 2,5%), é definida como uma substância esterilizante, pois apresenta um efeito letal para microrganismos esporulados e não esporulados. O hipoclorito de sódio líquido e o hipoclorito de cálcio sólido são baseados no princípio de ação do cloro, mas ainda encontramos na indústria de alimentos o quaternário de amônio, que apresenta espectro de ação mais limitado que o cloro, e consiste em um catiônico incompatível com detergentes aniônicos, sendo inativados por matéria orgânica, como sabão e água dura. ÁGUA DURA Água rica em minerais, formada quando a água penetra através de depósitos de calcário, giz ou gesso. javascript:void(0) Fonte: Wikimedia Commons Hipoclorito de sódio. VOCÊ SABIA? Os alimentos podem ser contaminados no contato com utensílios, superfícies e equipamentos insuficientemente limpos. Fonte: Maridav / Shutterstock É importante lembrar que microrganismos patogênicos podem manter-se viáveis em alimentos, na água ou sobre os utensílios lavados de forma inadequada. Desse modo, a contaminação de superfícies inertes representa um risco à saúde do consumidor, principalmente quando se trata de alimentos que são destinados ao consumo imediato. A limpeza e desinfecção das superfícies devem ser mantidas e fiscalizadas em virtude do risco do contato com o alimento. Caso isso não ocorra, pode haver contaminação cruzada, permitindo a contaminação por microrganismos. Deve-se controlar a contaminação, multiplicação e sobrevivência microbiana, além de manter a monitoração constante do nível de higiene aceitável para que possa em tempo hábil efetuar a correção necessária (DA SILVA, 2007). A sanitização deve ser feita da seguinte forma: Fonte: Pradit.Ph / Shutterstock UTENSÍLIOS E PEÇAS DE EQUIPAMENTOS Devem ser lavados com água e sabão, enxaguados bem em água corrente e postos em imersão em água fervente por quinze minutos. Não sendo possível a desinfecção pelo calor, deve-se usar o método químico recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que consiste na utilização do cloro orgânico ou inorgânico, por ser um agente bactericida e fungicida, além de apresentar baixa toxicidade nas concentrações recomendadas. Fonte: Y production / Shutterstock VEGETAIS Para a higienização correta dos vegetais, deve ser utilizada água potável para eliminar a maior parte dos resíduos e, em seguida, é preciso deixá-los imersos de dez a quinze minutos em solução entre 150 e 200 ppm de cloro ativo. Desse modo, haverá a redução da carga microbiana. A utilização de processos de conservação e a sanitização têm por objetivo reduzir a carga microbiana ao longo do processo, porém existe o risco de uma recontaminação durante o transporte e o armazenamento. Assim, as embalagens atuam como uma barreira para impedir esse processo. Fonte: Valentyn Volkov / Shutterstock EMBALAGENS O principal propósito das embalagens é conter o alimento e protegê-lo contra diferentes tipos de perigos durante a distribuição e o armazenamento. Processos como irradiação, pasteurização, esterilização pelo calor e esterilização ôhmica por aquecimento ôhmico necessitam da embalagem para manter a qualidade microbiológica mesmo em boas condições de armazenamento. As principais funções das embalagens são as seguintes: Conter o conteúdo e mantê-lo seguro para que não haja vazamento até o seu consumo. Proteger contra danos causados por microrganismos, calor, umidade ou oxidação. Promover conveniênciaatravés do processo produtivo de armazenamento e do sistema de distribuição, incluindo facilidade de abrir, dispensar e fechar, além de ser reciclável ou reutilizado. Fonte: icosha / Shutterstock As embalagens não devem interagir ou influenciar o produto. Desse modo, não devem ocorrer migração tóxica de compostos, reações entre a embalagem e o alimento ou influências em nossa seleção. Algumas alternativas podem ser utilizadas, como embalagens a vácuo ou com atmosfera modificada para evitar ou diminuir a presença de microrganismos indesejáveis. É NECESSÁRIO QUE AS EMBALAGENS SEJAM MACIAS, EFICIENTES, ECONÔMICAS NA LINHA DE PRODUÇÃO, RESISTENTES A DANOS, COMO QUEBRAS E RACHADURAS DEVIDO AO ENCHIMENTO OU ENVASE, E QUE APRESENTEM ADEQUADO SISTEMA DE FECHAMENTO RESISTENTE AO TRANSPORTE. As embalagens devem indicar as melhores condições de armazenamento domiciliar, porém não devem ter função de marketing. A classificação das embalagens é feita de acordo com o material utilizado, que deve proteger o produto durante o transporte até o consumidor. Os materiais mais utilizados para embalagens na área de alimentos são metal, vidro, garrafa de plástico, tubo rígido ou semirrígido de plástico, papelão e sachê (FELLOWS, 2009). Fonte: Baevskiy Dmitry / Shutterstock A vida de prateleira de alimentos embalados é determinada de acordo com suas propriedades: atividade de água, pH, suscetibilidade enzimática, risco de deterioração microbiana, sensibilidade a oxigênio, luz e dióxido de carbono, além do teor de umidade. Os fatores ambientais também influenciam na vida de prateleira de alimentos embalados. Dentre eles, destacam-se: umidade do ar, vapores, oxigênio, mudanças de temperatura, contaminação por microrganismos, insetos, solo e forças mecânicas. A embalagem deve agir como uma barreira protetora do alimento contra esses fatores do ambiente. FATORES QUE AFETAM A SELEÇÃO DO MATERIAL DA EMBALAGEM Alguns fatores devem ser levados em consideração na seleção do material da embalagem, como: LUZ A transmissão de luz é desejada em embalagens quando o objetivo é mostrar o conteúdo, mas é restrita quando o alimento é suscetível à deterioração pela luz, como o processo de rancificação, causado pela oxidação de lipídios, com a perda de nutrientes por destruição de riboflavina ou mudança de cor pela perda de pigmentos naturais. Alguns materiais, como polietileno de baixa densidade, transmitem a luz visível e a ultravioleta. Outros materiais apenas transmitem luz visível e absorvem a luz ultravioleta. Uma alternativa é incorporar pigmentos no vidro ou em filmes poliméricos para reduzir a transmissão de luz. TEMPERATURA Alguns materiais têm baixa condutividade térmica (papelão e espumas), e a sua utilização reduz a condutividade e a transferência do calor. Materiais reflectantes ou refletivos, como filme metalizado ou papel alumínio, refletem o calor, reduzindo a influência da temperatura no produto. Controlar a temperatura de estoque para proteger o alimento do aquecimento é mais importante do que confiar na embalagem. Desse modo, containers de vidro devem ser aquecidos ou resfriados mais vagarosamente do que embalagens de metal ou plástico para evitar choque térmico e o risco de quebrar. Esse cuidado é importante em embalagens de alimentos congelados, que devem se manter flexíveis e não podem quebrar quando expostas às mudanças de temperatura. UMIDADE E GASES Variação de umidade (perda ou ganho) é um dos fatores mais importantes para o controle da vida de prateleira de alimentos. Dentro de uma embalagem, existe um microclima determinado pela pressão de vapor da umidade do alimento na temperatura de estocagem e pela permeabilidade do material de embalagem. O controle da troca de umidade é necessário para prevenir deterioração microbiológica ou enzimática, perda de umidade e secagem de um produto. Para alguns alimentos, a alta permeabilidade é desejada, como para vegetais frescos e pães, evitando, portanto, a condensação da umidade dentro da embalagem, o que resultaria no crescimento de fungos principalmente. Produtos secos, assados ou extrusados, que têm baixo equilíbrio relativo à umidade, precisam de uma embalagem com baixa permeabilidade para evitar o ganho de umidade proveniente da atmosfera. Quando não são protegidos adequadamente, a umidade causa amolecimento e perda da crocância, como em biscoitos e aperitivos. Produtos em pó podem ser altamente higroscópicos, isto é, absorvem umidade do ambiente. Se a umidade é transmitida através da embalagem, causa perda de suas características físicas. Alimentos que contêm alta quantidade de lipídios e outras substâncias ou componentes sensíveis ao oxigênio necessitam de embalagens que atuem como uma barreira contra esse gás. Alimentos embalados em atmosfera modificada precisam de material com baixa permeabilidade para que não ocorra perda dos gases do interior da embalagem, mantendo a extensão do prazo de validade, além de reter compostos aromáticos voláteis desejados. Enquanto vidro e metal são materiais de embalagem quase que totalmente impermeáveis a gases e vapores, filmes plásticos têm vasta permeabilidade, dependendo da sua grossura, composição química, estrutura e a orientação das moléculas no polímero que forma o filme. DANOS MECÂNICOS E FORÇA MECÂNICA A adequação da embalagem para proteger um alimento de um dano mecânico depende da sua habilidade de resistir ao amassamento causado por acidentes em armazenamento ou em veículos de transporte, ao abrasamento devido ao contato com equipamentos ou a danos devido ao manuseio e à vibração durante o transporte. Alguns alimentos são altamente suscetíveis e frágeis, precisando de um alto nível de proteção da embalagem (ovos, biscoitos e frutas frescas). O material mais utilizado para essa finalidade são polímeros em papelão de multicamada. Outros materiais mais resistentes, como latas de metal, vidro e PET, são necessários para aguentar a pressão criada por bebidas carbonatadas. Madeira e metal são usados para a produção de barris ou containers de exportação e transporte por apresentarem boa proteção mecânica. Para determinar qual melhor material a ser utilizado, deve-se levar em conta a força de tensão. INTERAÇÃO ENTRE EMBALAGEM E ALIMENTO Qualquer interação entre a embalagem e o alimento não é desejável por três razões: Interação com possível efeito toxicológico no consumidor; Redução da vida de prateleira e da qualidade sensorial do alimento; Migração de compostos do alimento para a embalagem, o que pode alterar a propriedade de barreira do material. Na maioria das vezes, o material consiste em filmes flexíveis, que podem conter resíduos dos processos de polimerização e aditivos do plástico, como agentes estabilizantes, preenchedores e pigmentos. Alguns materiais de embalagem também apresentam compostos voláteis que podem ser absorvidos pelos alimentos, alterando suas características sensoriais. FORÇA DE TENSÃO javascript:void(0) Quantidade máxima que o material pode esticar ou estressar sem que sofra quebras ou deformações. TIPOS DE MATERIAL DE EMBALAGEM Apesar de apresentarem boa proteção mecânica e alta resistência à pressão vertical, as embalagens têxteis e de madeira são conhecidas por não representar uma boa barreira contra umidade, gás, insetos e microrganismos. No entanto, elas podem ser usadas para o transporte de alimentos secos em alguns nichos como uma barreira extra à embalagem, como, por exemplo, sacos de juta tratados quimicamente e caixas de madeira, utilizadas para transporte de frutas, vegetais, vinhos e cervejas. Esses materiais vêm sendo substituídos por polipropileno e polietileno. Para algumas bebidas, como o vinho, ainda são usados devido a uma transferência de compostos relacionados ao flavour, que melhoram a qualidade do produto. Outros materiais são utilizados na elaboração das embalagens (FELLOWS, 2009). Veja alguns tipos de materiais de embalagem. 1 Fonte: ArtemSh / Shutterstock METALApresenta vantagens relacionadas à resistência a temperaturas de processo altas e baixas, além de serem impermeáveis a luz, umidade e microrganismos, promovendo uma ótima proteção. Por outro lado, o alto custo torna sua aplicação mais cara nos containers. Os três tipos de metais mais usados em alimentos são folha de flandres, aço e alumínio. VIDRO Garrafas ou jarras de vidro são feitas com o aquecimento de uma mistura de areia em que o principal constituinte é a sílica. São adicionados ainda o óxido de alumínio, para melhorar a durabilidade química do vidro, e agentes de refino, que reduzem a temperatura e o tempo necessário para derretimento. A modelagem do vidro é feita em uma forma na qual o processo de assoprar ou pressionar é utilizado. A vantagem dos containers de vidro é o bom desempenho como uma barreira contra umidade, gases, odores e microrganismos. O vidro também é inerte, não interage com o alimento, e apresenta também boa força vertical, o que permite o empilhamento sem danos. As embalagens de vidro podem ser enchidas em alta velocidade e em alta temperatura, sendo, portanto, adequadas para o processamento quente. Elas também apresentam vantagens nas vendas devido à transparência e à disposição do conteúdo. A possibilidade de reciclagem e reutilização também é um benefício. Para reciclar, basta aquecer até derreter, o que não prejudica a qualidade do vidro que será gerado. As principais desvantagens são o maior peso, o que aumenta o preço do transporte, a baixa resistência a choque, a maior variação de dimensões quando comparado a outras embalagens e o risco de corte com os fragmentos de vidro quando ocorre uma quebra. Fonte: ArtemSh / Shutterstock 2 3 Fonte: fetrinka / Shutterstock FILMES FLEXÍVEIS Descritos como qualquer tipo de material que não é rígido, porém corresponde aos polímeros plásticos não fibrosos com menos de 0,25mm de espessura. A habilidade de mudança do plástico ocorre em virtude da estrutura longa das moléculas poliméricas, que podem sofrer repetidos aquecimentos e resfriamentos sem alterações. São considerados uma boa barreira contra umidade e gases, resistentes contra impacto, isolantes térmicos, que evitam o vazamento do conteúdo, além da habilidade de formar lâminas ou folhas, assim como o papel e o alumínio. São adequados para processos de alta velocidade de enchimento, pois são fáceis de manipular, o que é conveniente para os produtores, vendedores e consumidores, adicionando pouco peso ao produto. Por ficarem aderidos ao produto, adequando-se ao tamanho deste, ocupam pouco espaço na estocagem. Por fim, são considerados mais baratos que outros materiais. PAPEL E PAPELÃO Produzidos a partir da moagem de madeira, seguido da digestão ácida e alcalina da polpa, promovendo hidrólises que dissolvem a lignina, os carboidratos, as resinas e as gomas. Essas frações são removidas por lavagem, deixando apenas a celulose. São polidos várias vezes para formar uma superfície macia. Podem ser clareados, pintados, ou não apresentarem interferência, ficando na cor marrom natural. O papel também pode ser encerado, o que permite melhor barreira contra umidade, e ser selado com calor. Fonte: Nana_studio / Shutterstock 4 AVANÇOS TECNOLÓGICOS Uma questão sempre importante corresponde aos efeitos no meio ambiente. Desse modo, alguns avanços tecnológicos na área de materiais biodegradáveis, substituindo os plásticos baseados em petróleo, aumentam o interesse na produção de biopolímeros, classificadas como fontes renováveis de energia. Os materiais naturais podem ser degradados, porém o desafio é produzir bioplástico com durabilidade suficiente para manter suas propriedades de barreira mecânica com biodegradabilidade rápida e boa performance nos equipamentos de envase, enchimento e selagem já existentes. Os materiais naturais mais usados são amido, celulose, caseína e glúten, sendo a celulose o mais abundante e barato polímero natural também formado por unidades de glicose com ligações do tipo β-1,4, que permitem a formação de pontes de hidrogênio na cadeia de celulose. A celulose apresenta uma alta estrutura cristalina com baixa flexibilidade devido a suas cadeias laterais (LIMA et al., 2007). Fonte: New Africa / Shutterstock Outra área de avanço tecnológico é a dos bioplásticos produzidos por fermentação microbiana, como ácido polilático (PHA), utilizando nanotecnologia. Essas estruturas podem ser usadas para melhorar as propriedades existentes do material de embalagem ou desenvolver novos materiais. Essa tecnologia pode ser utilizada para produzir as conhecidas embalagens inteligentes, que adicionam funcionalidade ao produto, como prevenir a degradação de alimentos com a manutenção da integridade, além de melhorar os atributos do produto, como aparência, sabor e aroma. As embalagens inteligentes podem responder ativamente a alterações do produto ou do ambiente, além de comunicar informações da mercadoria, histórico do processo, condições em tempo real ao usuário, além de confirmar a autenticidade do que é oferecido. AS EMBALAGENS ATIVAS PERCEBEM DIFERENÇAS INTERNA OU EXTERNAMENTE AO ALIMENTO E ALTERAM SUAS PROPRIEDADES. As embalagens inteligentes se alteram de acordo com a resposta para mudanças internas ou externas, incluindo comunicação ou informação do status do produto ao consumidor. A mais simples definição para embalagem inteligente é uma embalagem que sente e informa. Embalagens antimicrobianas possuem substâncias como bacteriocinas, nisina e ácidos orgânicos naturais com atividade antioxidante. Embalagens inteligentes podem indicar o crescimento microbiano, informando a perecibilidade do produto, além de indicar se a temperatura está quente ou fria, sugerindo se ele está adequado para o consumo (LIMA et al., 2007). Fonte: Jer123 / Shutterstock ANTIOXIDANTES E EMBALAGENS Neste vídeo, veremos como é feito o uso dos biofilmes para frutas. VERIFICANDO O APRENDIZADO 1. AS EMBALAGENS TÊM POR OBJETIVO PROTEGER O ALIMENTO E IMPEDIR QUE ELE SOFRA ALTERAÇÕES CAUSADAS POR MICRORGANISMOS OU PELAS CONDIÇÕES DE ARMAZENAMENTO. ALGUMAS PROPRIEDADES SÃO ESSENCIAIS PARA QUE UMA EMBALAGEM TENHA UMA AÇÃO ADEQUADA. ASSINALE A ALTERNATIVA QUE INDICA UMA PROPRIEDADE DESEJÁVEL PARA EMBALAGENS: A) Ser permeável a gases. B) Interagir com o alimento. C) Evitar perda de água do alimento. D) Ser termossensível. 2. DIVERSOS MATERIAIS PODEM SER UTILIZADOS PARA ELABORAR EMBALAGENS. UM MATERIAL APRESENTA UMA BOA BARREIRA CONTRA UMIDADE, GASES E MICRORGANISMOS, NÃO APRESENTA INTERAÇÃO COM O ALIMENTO E RESISTE À FORÇA FÍSICA, PERMITE O EMPILHAMENTO E PODE SER RECICLÁVEL. NO ENTANTO, PODE REPRESENTAR UM RISCO FÍSICO EM CASOS DE DANOS À INTEGRIDADE. ASSINALE A ALTERNATIVA QUE INDICA QUAL O MATERIAL DESCRITO: A) Metal. B) Vidro. C) PET. D) Papelão. GABARITO 1. As embalagens têm por objetivo proteger o alimento e impedir que ele sofra alterações causadas por microrganismos ou pelas condições de armazenamento. Algumas propriedades são essenciais para que uma embalagem tenha uma ação adequada. Assinale a alternativa que indica uma propriedade desejável para embalagens: A alternativa "C " está correta. A embalagem deve evitar que o alimento interaja com o meio, impedindo que haja perda de água do produto para o meio. A perda de água do alimento pode implicar em uma alteração de volume e das características sensoriais. 2. Diversos materiais podem ser utilizados para elaborar embalagens. Um material apresenta uma boa barreira contra umidade, gases e microrganismos, não apresenta interação com o alimento e resiste à força física, permite o empilhamento e pode ser reciclável. No entanto, pode representar um risco físico em casos de danos à integridade. Assinale a alternativa que indica qual o material descrito: A alternativa "B " está correta. O vidro, formado majoritariamente por sílica, é um material fácil de ser modelado, inerte, com força vertical, que pode ser facilmentereciclado e reutilizável. No entanto, existe o risco de quebrar; desse modo, os fragmentos podem se misturar ao alimento, o que representa um perigo físico. CONCLUSÃO CONSIDERAÇÕES FINAIS O processo de industrialização se inicia com a elaboração de um produto e termina com sua comercialização. Os métodos de conservação são necessários para manter a integridade do produto ao longo do processo de distribuição e armazenamento. Diferentes métodos podem ser utilizados para promover o controle de fatores intrínsecos e extrínsecos do alimento, evitando, assim, o crescimento microbiano. As embalagens atuam concomitantemente para evitar contaminações e prolongar a vida de prateleira dos produtos. AVALIAÇÃO DO TEMA: REFERÊNCIAS DA SILVA JR., E. A. Manual de controle higiênico-sanitário em serviços de alimentação. São Paulo: Livraria Varela, 2007. FELLOWS, P.J. Food Processing Technology: Principles and Practice. Washington: CRC, 2009. FRANCO, B.D.G.M.; LANDGRAF, M. Microbiologia de alimentos. São Paulo: Atheneu, 2008. LIMA, U.A., AQUARONE; E., BORZANI; W; SCHMIDELL, W. Biotecnologia Industrial: Processos Fermentativos e Enzimáticos. Vol. 3. São Paulo: Edgard Blücher, 2007. ORDÓÑEZ, J. A. Tecnologia de alimentos: Componentes dos alimentos e processos. Vol.1. São Paulo: Artmed, 2005. EXPLORE+ Os métodos de controle têm por objetivo alterar as características intrínsecas do alimento para permitir um aumento da vida útil destes produtos. No entanto, a utilização de algumas dessas tecnologias levou à elaboração de novos produtos, como frutas secas e alimentos em pó. Pesquise no site da Embrapa para conhecer produtos desenvolvidos que utilizam algumas das técnicas estudadas aqui. O uso de sanitizantes representa uma etapa importante do processo de higienização de alimentos e superfícies. Baseado nisso, há diversos trabalhos sobre a utilização de sanitizantes em alimentos e em superfícies inertes. Estratégias alternativas na higienização de frutas e hortaliça, de Jackline de São José. Sanitização com produto à base de cloro e com ozônio: efeito sobre compostos bioativos de amora-preta (rubus fruticosus) cv.Tupy, de Jacques et al., 2015. Uso de sanitizantes na redução da carga microbiana de mandioca minimamente processada, de Daniela Guerra Lund, Lelis Aparecida Petrini, José Antonio Guimarães Aleixo e Cesar Valmor Rombaldi. Conheça algumas matérias sustentáveis com a leitura do artigo Sustentabilidade quanto às embalagens de alimentos no Brasil, de Ana Paula Miguel Landim et al., 2015. CONTEUDISTA Carolina Beres CURRÍCULO LATTES javascript:void(0); DEFINIÇÃO Composição e fatores importantes para o processamento de alimentos de origem vegetal e animal. Descrição e importância das etapas do processamento de produtos de origem vegetal e animal. Principais produtos obtidos. PROPÓSITO Descrever a composição dos produtos e compreender as etapas utilizadas durante o processamento de produtos de origem vegetal e animal e qual sua importância para a obtenção do produto final. OBJETIVOS MÓDULO 1 Identificar a composição e o processamento de produtos de origem vegetal MÓDULO 2 Identificar a composição e o processamento de produtos de origem animal INTRODUÇÃO A tecnologia de alimentos envolve o uso de técnicas e recursos visando a agregação de valor para matérias-primas que podem ser de origem vegetal ou animal. Através dos processos, é possível modificar as características sensoriais e a estrutura química e física, utilizar outros ingredientes para produção de novos alimentos e, principalmente, garantir a qualidade do produto final e permitir que este possa ser armazenado durante mais tempo. A classe de produtos de origem vegetal envolve frutas, hortaliças, vegetais e grãos, enquanto os produtos de origem animal incluem carnes e seus derivados, pescados, leites e derivados e ovos. Durante o conteúdo, serão exploradas as etapas de processamento comumente aplicadas em produtos de origem vegetal e animal, sua definição, composição e os fatores relevantes para determinação de cada etapa. MÓDULO 1 Identificar a composição e o processamento de produtos de origem vegetal CONSIDERAÇÕES GERAIS O Brasil é considerado o grande produtor mundial de frutas e hortaliças, como as frutas tropicais e subtropicais: mamão, manga, maracujá, abacaxi, banana, goiaba, citros e muitas outras. Quanto às hortaliças, a mais comercializada é o tomate, usada tanto para o consumo in natura como para processamento, seguida do alho, da cebola, alface, couve, do repolho, agrião, da pimenta etc. (OLIVEIRA; SANTOS, 2015). O mercado da fruticultura do Brasil é o setor de maior importância para o agronegócio. O Brasil é o maior produtor de citros e o terceiro maior produtor de frutas do mundo, ficando atrás apenas da China e Índia, e exportando um pouco mais de 3% de tudo o que produz. Mesmo assim, apenas 24,1% dos brasileiros ingerem a quantidade mínima ideal de frutas e hortaliças, sendo a recomendação da OMS de 400g diários. Além disso, 30% das frutas produzidas são desperdiçadas, o que indica a necessidade de maior investimento em tecnologias para a redução das perdas desta matéria-prima (SEBRAE, 2015; 2016). O consumo de alimentos de origem vegetal tem aumentado significativamente devido ao interesse do consumidor por produtos que apresentem maior qualidade nutricional, sendo rico em vitaminas, compostos bioativos e minerais. Vários estudos têm demonstrado que um alto consumo de vegetais e frutas está associado à prevenção de algumas doenças crônicas não transmissíveis, e isto tem sido importante para a escolha da alimentação (SCANDALIOS, 2005; VALKO et al., 2006). Além disso, a indústria tem investido em alimentos vegetais prontos para consumo, como o caso dos minimamente processados, o que tem atraído o interesse dos consumidores e atendido a suas demandas. Para entender quais produtos estão envolvidos na classe de alimentos de origem vegetais, confira, a seguir, sua definição segundo a legislação brasileira. Fonte: P-fotography/Shutterstock DEFINIÇÃO De acordo com a Resolução RDC nº 272, de 22 de setembro de 2005: Hortaliça É a planta herbácea da qual uma ou mais partes são utilizadas como alimento na sua forma natural. Quando são utilizadas a parte verde, é chamada de verdura (Ex.: alface, chicória, almeirão). Legumes São considerados frutos ou sementes de diferentes espécies de plantas, incluindo leguminosas (Ex.: berinjela, chuchu, abobrinha). Quando as partes subterrâneas são utilizadas, chamamos de raízes, tubérculos e rizomas (Ex.: cenoura, batatinha). Fruta É considerada o produto procedente da frutificação de uma planta destinada ao consumo in natura (Ex.: banana, laranja, pêssego). O processamento destes alimentos está diretamente ligado à sua composição química. A presença de determinados nutrientes e substâncias define quais técnicas devem ser implementadas para que o produto apresente maior prazo de validade. Além disso, conhecendo a composição, é possível escolher qual método de processamento promoverá o mínimo de alterações indesejáveis nas características dos produtos. Sendo assim, é necessário conhecer quais nutrientes e substâncias estão presentes nos produtos de origem vegetal, para, em seguida, explorar as etapas e técnicas utilizadas para seu processamento. COMPOSIÇÃO QUÍMICA As frutas e hortaliças são produtos que facilmente iniciam o processo de deterioração; por isso, é necessário cuidados e aplicação de técnicas ideais desde a colheita até a obtenção do produto final. A alta porcentagem de descarte das frutas e hortaliças está diretamente relacionada à composição química destes alimentos. Esta composição pode variar de acordo com fatores ambientais, como solo, temperatura, umidade do ambiente, dentre outros, como também com fatores intrínsecos, como espécie e variedade. Dentre os componentes presentes nestes alimentos, estão: ÁGUA As frutas e hortaliças apresentam em sua composiçãoalta quantidade de água, chegando a 95% em algumas matérias-primas. A maioria das frutas e hortaliças apresentam atividade de água de 0,9. A atividade de água diz respeito à água livre presente nos alimentos; ela é responsável pelas reações químicas, enzimáticas e, principalmente, pelo crescimento de microrganismos. Como as frutas e hortaliças apresentam altos valores de atividade de água, elas podem facilmente iniciar o processo de deterioração. CARBOIDRATOS Possuem de 2 a 20% de carboidratos em seus tecidos, tendo importância significativa para estrutura, textura e sabor destes produtos e variando de acordo com a maturação e espécie. Dentre os carboidratos encontrados, estão o amido, a sacarose, glicose, frutose. Além destes, também possuem celulose, hemicelulose, substâncias pécticas e lignina, que são carboidratos que auxiliam na estrutura destes produtos. PROTEÍNAS As proteínas constituem de 1 a 2% das frutas e hortaliças, sendo as enzimas as proteínas de maior importância. Elas possuem papel fundamental nas reações de amadurecimento e senescência das frutas, alterando a permeabilidade das membranas com a senescência, facilitando, consequentemente, o início da deterioração por microrganismos. As enzimas peroxidase e polifenoloxidase são as principais responsáveis pelo escurecimento durante o processamento de hortaliças e frutas (CLEMENTE; PASTORE, 1998), e o grau de escurecimento é influenciado pela presença de oxigênio, substâncias redutoras, íons metálicos, pH, temperatura e atividade de enzimas oxidativas (LÓPEZ-NICOLÁS et al., 2007). No processo de senescência, na pós-colheita e/ou no processamento de frutas e hortaliças, as polifenoloxidases catalisam a hidroxilação dos monofenóis e a oxidação de o-difenóis, as o-quinonas, que, por serem altamente instáveis, polimerizam-se ou reagem com aminoácidos, peptídeos e proteínas, produzindo pigmentos escuros chamados melaninas (Figura 1) . Esse processo é conhecido como escurecimento enzimático (ARAÚJO, 2011; LÓPEZ-NICOLÁS et al., 2007). Fonte: Shutterstock Reação da polifenoloxidase na formação de polímeros escuros. Fonte: Araújo, 2011. A ruptura dos tecidos vegetais é a principal causa do desencadeamento das reações que promovem o escurecimento enzimático. Porém, quando o tecido ainda está intacto, também é percebido o escurecimento (ARAÚJO, 2011). O controle da atividade das enzimas peroxidase e polifenoloxidase é imprescindível durante o processamento de alimentos (CLEMENTE e PASTORE, 1998). Em torno de 50% da perda de frutas tropicais no mundo ocorre devido à ação das polifenoloxidase (ARAÚJO, 2011). Por isso, um dos principais objetivos dos tratamentos utilizados para a conservação de frutas e hortaliças é a inativação de enzimas endógenas, que desencadeiam a perda de características de qualidade, como cor, sabor, textura e valor nutricional (PANKAJ, MISRA e CULLEN, 2013). LIPÍDIOS Poucos teores de ácidos graxos insaturados são encontrados em frutas e hortaliças, normalmente abaixo de 1%. Estes alimentos, normalmente, possuem maiores quantidades e variedades de ácidos graxos saturados. Abacate, azeitona e açaí são as frutas que apresentam maiores teores de lipídios. ÁCIDOS ORGÂNICOS Os ácidos mais encontrados em frutas são o cítrico e o málico, porém também podem ser encontrados tartárico, oxálico, clorogênico, dentre outros. Compõem de 0,4 a 1% do peso das frutas, sendo reduzidos durante o amadurecimento, pois são usados nos processos de respiração para conversão em açúcares. Nas frutas, os ácidos orgânicos encontram-se na forma livre e, nas hortaliças, em forma de sais; em virtude disso, o pH das hortaliças são maiores que os das frutas, entre 5,5 e 6,5, gerando um sabor menos ácido. VITAMINAS Apresentam altos teores de vitaminas hidrossolúveis e lipossolúveis. Dentre as vitaminas que podemos encontrar em frutas e hortaliças, estão as vitaminas C, B6, B12, A, D, E e K, tiamina, riboflavina, niacina, folacina, biotina e ácido pantotênico. MINERAIS A quantidade de minerais encontrados em frutas varia de 0,3 a 1,9%, enquanto as hortaliças podem chegar a conter até 3%. Os principais minerais são cálcio, magnésio, sódio e potássio. O alto teor de potássio melhora a cor das frutas. PIGMENTOS Os pigmentos naturais responsáveis pela cor das frutas e hortaliças podem ser: clorofilas (verdes e lipossolúveis), carotenoides (vermelho e amarelo, lipossolúveis), antocianinas (roxo e azul, hidrossolúveis), dentre outros. Estão localizados nos vacúolos, cloroplastos e no líquido citoplasmático das células ou presentes nas cascas, como as antocianinas na acerola. A Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) produz a Tabela Brasileira de Composição de Alimentos (TACO), que apresenta a composição de diversos alimentos. ALTERAÇÕES EM PRODUTOS DE ORIGEM VEGETAL A composição e estrutura das frutas e hortaliças as tornam extremamente perecíveis. Dentre as alterações que podem ocorrer, estão a deterioração por microrganismos, enzimas, e as alterações químicas e mecânicas. Devido à sua alta atividade de água, normalmente por volta de 0,9, diferentes tipos de microrganismos podem se desenvolver, como é o caso de bactérias, fungos e, inclusive, leveduras. Estes podem ser constituintes da flora natural ou estar presentes no solo e na água. Além disso, os vegetais também apresentam enzimas capazes de alterar as características sensoriais, gerando compostos escuros, degradando nutrientes e alterando a textura, como é o caso da polifenoloxidase e peroxidase. Fonte: Pornchai oom/Shutterstock As substâncias pécticas, como celulose e hemicelulose, oferecem sustentação aos vegetais, e, com o amadurecimento, a protopectina é hidrolisada pela enzima protopectinase, o que altera a textura dos vegetais, deixando-os menos rígidos. Além disso, algumas reações enzimáticas são iniciadas por injúrias causadas nos produtos durante a colheita ou o transporte. Através destas injúrias, enzimas presentes nos vegetais entram em contato com iniciadores de reações, gerando mudanças indesejáveis. Além destas alterações, as frutas e hortaliças continuam com seus processos biológicos vitais ativos após a colheita. Algumas dão continuidade ao processo de amadurecimento através da respiração, como é o caso de frutas climatéricas, como banana, maçã, mamão, dentre outras. Assim sendo, ocorrem alterações em virtude da maturação, como o amolecimento, a hidrólise do amido, as alterações na cor e no sabor e a síntese de novas substâncias. Sendo assim, visando aumentar o tempo de armazenamento e diminuir as perdas pós-colheita, são utilizadas técnicas que reduzirão a velocidade das reações naturais e prevenirão que demais modificações possam ocorrer. Fonte: LightField Studios/Shutterstock Cada etapa a ser seguida no processamento dependerá do produto final de interesse. Basicamente, o processamento de frutas e hortaliças envolvem as etapas de colheita, transporte, seleção, lavagem, sanitização, corte, enxague, descascamento, cocção, secagem, centrifugação, embalagem e armazenamento. Veremos cada uma das etapas em detalhes a seguir. OBTENÇÃO DA MATÉRIA-PRIMA A colheita de cada vegetal (fruta ou hortaliça) passará por esta etapa levando-se em consideração suas características peculiares, que mudam de acordo com a variedade disponível e as características desejáveis no produto. Os seguintes atributos devem ser observados nesta etapa: maturação, pH, sólidos solúveis (°Brix) e acidez titulável. A maturação do fruto está intimamente ligada à taxa respiratória, que torna possível estimar a maturidade do produto. Esta taxa é maior nos primeiros estágios de maturação e varia com o tipo de fruto; alguns aumentam a taxa respiratória durante o amadurecimento, até atingir um valor máximo de produção de etileno, e reduzem-na novamente na fase de senescência, como é o caso dos climatéricos. Fonte: Shutterstock De acordo com Teruel (2008): [...] A RESPIRAÇÃO DOS FRUTOS ENVOLVE ATIVIDADE DE MUITASENZIMAS, POR ISSO É EXTREMAMENTE DEPENDENTE DA TEMPERATURA. QUANDO EM BAIXAS TEMPERATURAS, A TAXA RESPIRATÓRIA É REDUZIDA. ALÉM DISSO, A CONCENTRAÇÃO DE GASES O2 E CO2 TAMBÉM INFLUENCIA A RESPIRAÇÃO; EM BAIXOS TEORES DE O2 OU EM ALTOS DE CO2, A TAXA RESPIRATÓRIA É REDUZIDA. Após a etapa de colheita, o produto segue para o local onde será processado. TRANSPORTE, RECEPÇÃO E ARMAZENAMENTO DAS MATÉRIAS-PRIMAS O transporte deve ser realizado com o controle de alguns fatores, como a temperatura, por exemplo. Portanto, é recomendado que isso seja feito em horários menos quentes, como o período da manhã ou da noite, e com caminhões bem ventilados. A matéria-prima deve ser posta em caixas plásticas, para evitar que ocorram injúrias no produto. Quanto à recepção, ao chegar ao local onde será processada, a matéria-prima deve ser pesada e pré- selecionada, para remoção de frutos já em estágio de maturação avançado e hortaliças que já iniciaram o processo de deterioração. Fonte: Aleksandar Malivuk/Shutterstock As matérias-primas que apresentarem boas qualidades seguirão para a próxima etapa, sendo armazenadas e manuseadas sob refrigeração. PREPARAÇÃO DE MATÉRIAS-PRIMAS Antes do processamento, as matérias-primas devem passar por etapas de limpeza, seleção, classificação e descascamento (quando viável); assim, é possível garantir que os alimentos sejam preparados com alta qualidade e uniformidade para o subsequente processamento. Não é possível produzir alimentos de alta qualidade a partir de matérias-primas abaixo de certo padrão, daí a importância destas etapas na cadeia de processos de alimentos de origem vegetal. A seguir, estão descritas cada uma das etapas utilizadas para a preparação das matérias-primas: LIMPEZA Através da limpeza, é possível reduzir o número de contaminantes vindos do campo com a matéria- prima, evitar que ocorram danos nos equipamentos devido à presença de contaminação física, como pedras, e impedir o desperdício de tempo e dinheiro no processamento de contaminantes. Podem ser utilizados métodos de limpeza úmidos (lavagem por imersão, spray e limpeza ultrassônica) ou secos (separação por ar, magnetismo ou métodos físicos) (FELLOWS, 2006). Depois de limpas, as frutas e hortaliças são selecionadas. SELEÇÃO Neste processo, ocorre a separação de produtos que não apresentam características ideais para seguir para as próximas etapas. A seleção pode ser por forma, cor, estágio de maturação e tamanho, sendo realizada mecânica ou manualmente. É um processo importante principalmente quando o objetivo é a venda dos produtos in natura. CLASSIFICAÇÃO É aplicada para que possa ser realizada a separação dos lotes diferentes. Frutas e hortaliças que estejam perfeitamente sadias são utilizadas para comercialização in natura, enquanto frutas com alteração na maturação e irregularidades de forma, mas que possuam qualidade, são destinados ao processamento. DESCASCAMENTO Neste processo, são removidos materiais indesejados ou não comestíveis, como talos e cascas, melhorando a aparência do produto final. São utilizados os seguintes métodos: descascamento por jato de vapor, descascamento por facas, descascamento por abrasão, descascamento por lixívia, descascamento por chama (FELLOWS, 2006). Frutas e hortaliças que serão comercializadas integralmente serão encaminhadas para a etapa de acondicionamento em embalagens, e as demais serão processadas. PROCESSAMENTO O processamento é individual e específico para cada matéria-prima e produto final que se pretende obter. Sendo assim, este tópico será dividido em processamento de frutas e processamento de hortaliças, e, em cada um, serão explicitados processos de alguns produtos específicos. PROCESSAMENTO DE FRUTAS Normalmente, o setor de fruticultura tem como objetivo a produção para comercialização in natura, sendo o restante destinado ao processamento para obtenção de sucos, polpas de frutas, néctar, refresco, geleias, compotas, frutas em calda, frutas desidratadas, dentre outros produtos. As frutas são processadas para: Aumentar a vida útil do alimento. Facilitar a sua distribuição. Facilitar seu preparo. Melhorar, em alguns casos, sua palatabilidade, digestibilidade e seu valor nutritivo. Reduzir as perdas e aumentar a disponibilidade. Permitir que sejam comercializadas em todas as épocas do ano. PRODUÇÃO DE BEBIDAS A PARTIR DO PROCESSAMENTO DE FRUTAS A lei nº 8.918, de 14 de julho de 1994 (BRASIL, 2009), art. 5º, diz o seguinte: [...] SUCO OU SUMO É BEBIDA NÃO FERMENTADA, NÃO CONCENTRADA E NÃO DILUÍDA, OBTIDA DA FRUTA MADURA E SÃ, OU PARTE DO VEGETAL DE ORIGEM, POR PROCESSAMENTO TECNOLÓGICO ADEQUADO, SUBMETIDA A TRATAMENTO QUE ASSEGURE A SUA APRESENTAÇÃO E CONSERVAÇÃO ATÉ O MOMENTO DO CONSUMO. AO SUCO PODERÁ SER ADICIONADO AÇÚCAR NA QUANTIDADE MÁXIMA DE 10% EM PESO, CALCULADO EM GRAMAS DE AÇÚCAR POR CEM GRAMAS DE SUCO, DEVENDO CONSTAR NO RÓTULO A DECLARAÇÃO SUCO ADOÇADO. É PROIBIDA A ADIÇÃO, EM SUCOS, DE AROMAS E CORANTES ARTIFICIAIS. A Instrução Normativa n° 12, de 4 de setembro de 2003 (BRASIL, 2003), define os diferentes tipos e estabelece que: Fonte: Africa Studio/Shutterstock Suco integral É bebida não fermentada, não diluída, sem adição de açúcares, destinada ao consumo, obtida da fruta madura e sã, ou parte do vegetal de origem, por processamento tecnológico adequado, submetida a tratamento que assegure a sua apresentação e conservação até o momento do consumo. Fonte: sasimoto/Shutterstock Suco concentrado e desidratado Contém remoção de até 50% de sua água. Podem ser utilizados os métodos de evaporação a vácuo (mais utilizado na indústria de sucos), crioconcentração, no qual a água é removida na forma de gelo ou osmose inversa. Fonte: Mike_O/Shutterstock Preparado sólido para refresco É o produto à base de suco ou extrato vegetal de sua origem e açúcares. É destinado à elaboração de bebida para o consumo, após sua diluição em água potável, podendo ser adicionado de edulcorante hipocalórico e não calórico. Fonte: rlat/Shutterstock Néctar É a bebida não fermentada, obtida da diluição em água potável da parte comestível do vegetal ou de seu extrato, adicionado de açúcares, destinado ao consumo direto. Nesta bebida, é encontrado o mínimo de 30 a 50% do suco da fruta. Néctar de laranja deve conter no mínimo 50% de suco, enquanto néctar de goiaba pode apresentar, no mínimo, 35%. Fonte: Billion Photos/Shutterstock Refresco ou bebida de fruta ou de vegetal É a bebida não fermentada, obtida pela diluição, em água potável, do suco de fruta, da polpa ou do extrato vegetal de sua origem, com ou sem adição de açúcares. Pode conter até 30% de suco em sua composição, variando de acordo com a fruta utilizada. Refresco de maracujá pode apresentar apenas 6% de polpa ou suco, por exemplo. Para produção destes produtos, as frutas que já passaram pela seleção e higienização são despolpadas. Antes disto, algumas são submetidas ao branqueamento – processo de aquecer o produto por um pequeno tempo e, em seguida, resfriá-lo rapidamente, com o objetivo de eliminar ar dos tecidos, promover desinfecção superficial, evitar oxidações prejudiciais, inativar enzimas em geral e fixar a cor, o aroma e o sabor da fruta. O despolpamento é a retirada da polpa do fruto através do esmagamento de suas partes comestíveis, processadas em despolpadeiras, espremedores ou centrífugas. Após esta etapa, é possível obter polpa de fruta, suco concentrado, suco, néctar ou refresco (BRASIL, 2009). O fluxo a seguir apresenta as etapas do processamento de frutas para obtenção de bebidas. Fluxograma de processamento de frutas para obtenção de bebidas. Entenda cada processo: POLPA Depois de despolpado, o produto é direcionado ao envase em sacos poliméricos e congelamento, visando a produção e comercialização de polpas de frutas. SUCO CONCENTRADO Para produção do suco concentrado, a polpa é pasteurizada, etapa em que a polpa é aquecida, visando a segurança microbiológica atravésda destruição de microrganismos que estão na forma vegetativa. Em seguida, ocorre a concentração, onde parte da água é removida por evaporação; depois disso, o produto é resfriado e armazenando nas devidas embalagens para comercialização. SUCO Para produção da bebida pronta para consumo, algumas frutas, após serem despolpadas, passam pela etapa de refino, para remoção de materiais insolúveis, como polissacarídeos (Pectinas, hemicelulose e celulose.) , proteínas, polifenóis, amidos e compostos inorgânicos, visando melhorar o grau de turbidez, aroma, sabor e a cor do produto final. NÉCTAR E REFRESCOS Para produção de néctar e refrescos, a polpa é diluída e, mais tarde, recebe a adição de ingredientes, como açúcar, antes de seguir para a etapa de conservação. Esses ingredientes também auxiliam na conservação, visto que podem aumentar a pressão osmótica pela adição de solutos, como açúcar. PRODUÇÃO DE FRUTAS DESIDRATADAS E FRUTAS EM CALDA Outros produtos muito comercializados são as frutas desidratadas e frutas em calda. Para a produção de frutas desidratadas, após passarem pelas etapas de preparo da matéria-prima, as frutas são cortadas e tratadas com ácido ascórbico e o dióxido de enxofre (SO2). Este tratamento visa manter as características visuais e prevenir o escurecimento e a perda do sabor e da vitamina C. Em seguida, as frutas são colocadas em bandejas e desidratadas a 70°C em secador/estufa com circulação forçada de ar. O processo de desidratação deve ser conduzido até que o produto atinja umidade igual ou menor que 25% p/p, que é o valor estabelecido pela legislação (BRASIL, 1978). Fonte: so_lizaveta/Shutterstock Para a fabricação de compota ou fruta em calda, são utilizadas frutas inteiras ou em pedaços, com ou sem sementes ou caroços, com ou sem casca. Estas passam pelo processo de branqueamento e, em seguida, são cozidas. Depois, recebem uma calda de açúcar (sacarose) a 75ºC para, então, serem envasadas em lata ou vidro (BRASIL, 1978). PROCESSAMENTO DE HORTALIÇAS Devido à constante busca dos consumidores por produtos saudáveis e, ao mesmo tempo, práticos, surgiu a indústria de hortaliças minimamente processadas. Estes produtos apresentam como características principais a manutenção dos requisitos sensoriais, como sabor e textura típicas dos produtos frescos, mesmo após descascamento e/ou corte (OLIVEIRA; SANTOS, 2015). Após colheita, seleção, higienização, classificação e descascamento, estes alimentos são cortados e embalados. Quando são cortados, descascados, fatiados ou ralados, há aumento da taxa metabólica, e algumas enzimas são expostas; devido a estes fatores, os minimamente processados apresentam-se com menor vida útil. Além disso, em razão da manipulação inadequada, eles podem ser contaminados. As alterações de qualidade que estes produtos podem ter estão relacionadas às reações de escurecimento enzimático, em virtude da presença de microrganismos, de alterações de cor, senescência causada pelo etileno e respiração do produto e perda de valor nutricional. Sendo assim, para se obter um alimento minimamente processado de qualidade, é extremamente importante controlar as reações químicas dos tecidos vivos e reduzir ao máximo o risco de contaminação microbiológica através do uso rigoroso das Boas Práticas de Fabricação. Fonte: Marian Weyo/Shutterstock ATENÇÃO Para evitar as contaminações, os alimentos devem ser corretamente higienizados, a fim de remover toda e qualquer contaminação oriunda do campo. Portanto, o ambiente de manipulação deve estar limpo, devem ser utilizadas bancadas de aço inoxidável, os utensílios usados, como a faca, devem ter cabos de plásticos ou metal e serem higienizados e trocados frequentemente. Além disso, os manipuladores devem higienizar corretamente as mãos, estar em condições de boa saúde, utilizar roupas limpas, máscaras, luvas e toucas descartáveis. Todo o processamento deve ser feito em ambiente refrigerado, a temperatura de 10°C, com utensílios e equipamentos previamente higienizados com água clorada a 200 mg.L-1 (OLIVEIRA & SANTOS, 2015). Depois de cortado, o alimento deve ser enxaguado com aspersão de água clorada, e, em seguida, esta água deve ser removida por uma drenagem de, aproximadamente, 3 minutos. Em alguns casos, é possível utilizar a centrifugação para remoção da água, o que deve ser feito utilizando-se um binômio tempo X velocidade adequados, pois o excesso desta técnica pode retirar o suco (seiva) celular, desidratando o alimento e gerando ressecamento e perda da coloração natural e rompimento dos tecidos, o que pode acelerar a deterioração e reduzir a vida útil. Fonte: montypeter/Freepik Para prevenir as reações que causam escurecimento, descoloração de pigmentos endógenos, perda ou mudança do sabor ou odor dos produtos, mudanças na textura e perda nutricional devido à destruição das vitaminas A, C, D e E e dos ácidos graxos essenciais, podem ser adicionados alguns aditivos que ajustarão o pH do alimento, como é o caso do ácido ascórbico ou cítrico. Depois desses processos, os alimentos são direcionados para o acondicionamento em embalagens. CONSERVAÇÃO Diferentes métodos de conservação podem ser aplicados, como resfriamento, congelamento, pasteurização, adição de conservadores químicos e esterilização com envase asséptico. CONSERVAÇÃO PELO FRIO Métodos de conservação utilizando o frio são muito aplicados em produtos de origem vegetal. Pela aplicação de temperaturas abaixo das registradas no ambiente, é possível retardar as reações químicas e as atividades enzimáticas, bem como retardar ou inibir o crescimento e a atividade dos microrganismos nos alimentos. REFRIGERAÇÃO Um método muito utilizado para conservar frutas e hortaliças é a refrigeração, onde ocorre a diminuição da temperatura do produto, para valores acima de 0°C, com o objetivo de manter a qualidade retardando a velocidade das reações de deterioração. Com esta técnica, não é possível destruir os microrganismos, mas, sim, inativá-los e inibir o ciclo de reprodução. Além disso, a água presente não altera seu estado físico, por isso é considerado um método temporário de conservação, com a vantagem de conservação da textura e das propriedades sensoriais do produto. A refrigeração diminui a taxa respiratória e a perda de água, retarda o amadurecimento e diminui a incidência de microrganismos. Porém, quando aplicadas a temperaturas abaixo da temperatura mínima de segurança, os vegetais podem sofrer injúrias pelo frio, também conhecidas como chilling. Fonte: Extarz/Shutterstock Cada produto apresenta uma temperatura mínima de acordo com suas características, por isso é importante saber qual a temperatura ideal de armazenamento para cada produto antes de resfriá-lo. CONGELAMENTO No congelamento, há alteração da composição do alimento e são utilizadas temperaturas abaixo de 0°C. Neste processo, conservam-se os alimentos por longos períodos, e, quando aplicada temperatura de -18°C ou menos, ocorre inibição total de microrganismos. Deve-se controlar a velocidade de congelamento para evitar alterações nos produtos: CONGELAMENTO LENTO Ocorre durante 3 a 12 horas; nele, a temperatura é reduzida gradativamente, e isto gera a formação de grandes cristais de gelo. Os primeiros cristais são formados no interior da célula, forçando a água migrar do interior da célula, o que causa ruptura de algumas paredes celulares. CONGELAMENTO RÁPIDO Há queda brusca da temperatura, formando pequenos cristais; além disso, a água congelada está presente nos espaços intercelulares e, por isso, não há danificação nas membranas celulares. CONSERVAÇÃO PELO CALOR O principal método que utiliza calor no processamento de produtos de origem vegetal é a pasteurização. É muito utilizada na fabricação de sucos e doces. Este método visa reduzir a carga microbiana e preservar as características físicas, químicas, nutricionais e sensoriais do produto. Esse método que não destrói esporos, que são asformas mais resistentes de microrganismos, portanto, normalmente, é utilizado em conjunto com demais métodos, como refrigeração, aditivos químicos, atmosfera modificada. Para produção de sucos, os métodos mais utilizados são: Enchimento a quente O suco, devidamente pasteurizado, é enviado imediatamente para o sistema de enchimento e embalado à temperatura de pasteurização (ou aproximada). Pasteurização na embalagem O suco e a embalagem são mergulhados em tanques de imersão, em cozedores rotativos ou em túneis de pasteurização. CONSERVAÇÃO QUÍMICA A conservação pela adição de produtos químicos é normalmente uma alternativa de conservação utilizada em associação a um método físico, como a pasteurização. As substâncias mais utilizadas são ácido sórbico e benzoico, que, normalmente, são adicionados na etapa de formulação com ajuste de pH. Após aplicado o método de conservação ideal, os alimentos já processados passam para o acondicionamento. ACONDICIONAMENTO A etapa final de produção é o acondicionamento do produto em embalagens. Podem ser utilizadas embalagens plásticas de polietileno tereftalato (PET) ou bandejas de poliestireno expandido (isopor) recobertas com filme de cloreto de polivinila (PVC) esticável, para alimentos que serão comercializados in natura ou frutas e hortaliças minimamente processadas. Para algumas bebidas, são utilizadas embalagens cartonadas ou de vidro. Fonte: Pavel Ilyukhin/Shutterstock ATENÇÃO Alguns produtos devem ser armazenados em condições de refrigeração preferencialmente entre 3 e 6°C – essa temperatura deve ser mantida no transporte, armazenamento e na comercialização. Para alimentos minimamente processados, é muito comum o uso de embalagens com atmosfera controlada. Esse tipo de embalagem envolve a alteração intencional e manutenção precisa da atmosfera ao redor do produto vegetal. É promovida a redução dos níveis de oxigênio e o aumento dos níveis de dióxido de carbono, visando retardar o amadurecimento de frutas e hortaliças. Normalmente, são utilizados níveis de oxigênio inferiores a 1% e de dióxido de carbono superiores a 10% para suprimir o crescimento fúngico. Dentre as vantagens do uso de embalagens com atmosfera controlada, estão: Retardamento do amadurecimento. Redução da ocorrência de podridões e distúrbios fisiológicos. Diminuição do murchamento de frutas. Aumento da vida de prateleira de frutas e hortaliças. Viabilização da colheita em estado mais avançado de maturação. Após todas as etapas descritas, os alimentos seguros microbiologicamente e quimicamente poderão ser consumidos, atendendo a necessidade de nutrientes de cada indivíduo. PREPARO DE FRUTAS EM CALDA A fabricação de frutas em calda é uma importante técnica de conservação utilizada na indústria alimentícia. Essa importância é devido a capacidade, não apenas de conservar o alimento e seu valor nutritivo por um longo período como, de preservar suas características sensoriais. Neste vídeo, veremos o preparo desse alimento e conheceremos mais da sua importância na indústria. VERIFICANDO O APRENDIZADO 1. SOBRE AS FRUTAS E HORTALIÇAS, É INCORRETO AFIRMAR: A) As frutas são definidas pela legislação como uma planta herbácea da qual uma ou mais partes são utilizadas como alimento na sua forma natural. B) Possuem alta perecibilidade, principalmente devido à grande quantidade de água presente em sua estrutura, podendo apresentar atividade de água de até 0,9. C) Composição das frutas e hortaliças é muito variável, podendo ser alterada com o clima e solo. D) As enzimas presentes nas frutas e hortaliças podem alterar a permeabilidade da membrana celular e promover o escurecimento. 2. O PROCESSAMENTO DE FRUTAS E HORTALIÇAS AUXILIA NO AUMENTO DA VIDA ÚTIL E NA ELABORAÇÃO DE NOVOS PRODUTOS. PORÉM, PARA QUE O PRODUTO FINAL APRESENTE BOAS QUALIDADES, AS ETAPAS DE PROCESSAMENTO DEVEM SER ELABORADAS CORRETAMENTE. I - NA ETAPA DE COLHEITA, AS PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DAS FRUTAS QUE DEVEM SER AVALIADAS SÃO A MATURAÇÃO, O PH, OS SÓLIDOS SOLÚVEIS (°BRIX) E A ACIDEZ TITULÁVEL. II- É IDEAL QUE O TRANSPORTE SEJA REALIZADO EM CAMINHÕES VENTILADOS E CAIXAS DE MADEIRA. DE PREFERÊNCIA, O TRANSPORTE DEVE SER FEITO DURANTE O DIA. III- REFRESCO E NÉCTAR APRESENTAM A MESMA QUALIDADE NUTRICIONAL, VISTO QUE NÃO DIFEREM NA QUANTIDADE DE SUCO DE FRUTA ADICIONADO. IV- AS HORTALIÇAS MINIMAMENTE PROCESSADAS DEVEM MANTER AS CARACTERÍSTICAS SENSORIAIS DO PRODUTO IN NATURA MESMO APÓS DESCASCAMENTO E CORTE. A) I e II. B) I, II e III. C) I, III e IV. D) I e IV. GABARITO 1. Sobre as frutas e hortaliças, é incorreto afirmar: A alternativa "A " está correta. As frutas são o produto procedente da frutificação de uma planta e os vegetais são classificados como a planta herbácea da qual uma ou mais partes são utilizadas como alimento na sua forma natural. 2. O processamento de frutas e hortaliças auxilia no aumento da vida útil e na elaboração de novos produtos. Porém, para que o produto final apresente boas qualidades, as etapas de processamento devem ser elaboradas corretamente. I - Na etapa de colheita, as principais características das frutas que devem ser avaliadas são a maturação, o pH, os sólidos solúveis (°Brix) e a acidez titulável. II- É ideal que o transporte seja realizado em caminhões ventilados e caixas de madeira. De preferência, o transporte deve ser feito durante o dia. III- Refresco e néctar apresentam a mesma qualidade nutricional, visto que não diferem na quantidade de suco de fruta adicionado. IV- As hortaliças minimamente processadas devem manter as características sensoriais do produto in natura mesmo após descascamento e corte. A alternativa "D " está correta. O ideal é que as frutas sejam transportadas em caixas de plásticos, para prevenir que o produto sofra danos físicos, injúrias, por isso a alternativa II apresenta-se incorreta. Além disso, a principal diferença entre refresco e néctar é a quantidade de suco da fruta utilizado para elaboração do produto. Quanto maior o teor de suco ou polpa adicionado, maior o teor de nutrientes. Portanto, a sentença III está incorreta. MÓDULO 2 Identificar a composição e o processamento de produtos de origem animal Dentre os produtos de origem animal, estão: carnes, ovos, leite e pescado. Estes possuem característica químicas, físicas, sensoriais e microbiológicas peculiares. Por isso, as etapas de processamento também são individuais para cada classe de produto. Assim, para apresentar os métodos e as técnicas mais utilizados, este módulo será dividido por classe. PRODUTOS CÁRNEOS A carne é definida como a musculatura dos animais usada como alimento, incluindo-se órgãos, como o fígado e os rins, o cérebro e outros tecidos comestíveis. O Regulamento da Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal (RIISPOA), decreto nº 30691, de 29 de março de 1952, apresenta a definição para este produto (BRASIL, 1997). Para que o músculo dos animais se torne carne, uma série de reações bioquímicas antes e após a morte ocorrem. Estas reações são conhecidas por rigor mortis e estão diretamente relacionadas à qualidade final da carne, assim como aos demais fatores, como espécie, linhagem, genética, sexo, idade, alimentação, função do músculo e sua composição química (ORDÓÑEZ et al., 2005). Fonte: Nitr/Shutterstock Veja as reações que ocorrem em cada etapa: ANTES DA MORTE Com a queda da pressão sanguínea, durante a sangria, o animal tenta manter o equilíbrio aumentando o consumo de energia. Inicialmente, esse equilíbrio é suprido por reações aeróbicas, até que todo o oxigênio armazenado no músculo seja consumido. Com a diminuição deste oxigênio, o mecanismo anaeróbio é iniciado, e o ácido láctico é produzido. Quando todas as fontes de energia são esgotadas, há a contração total e irreversível do músculo, caracterizando o fenômeno chamado de rigor mortis (ROÇA; SERRANO, 1994). APÓS A MORTE O ácido láctico produzido é armazenadono músculo, até que todo glicogênio seja consumido. Este acúmulo é responsável por abaixar o pH, desnaturar as proteínas e liberar enzimas do interior dos lisossomos, que hidrolisarão as ligações formadas durante o rigor mortis e iniciarão o processo de amaciamento da carne. O tempo de instalação e resolução do rigor mortis depende de uma série de fatores, tais como: quantidade de glicogênio muscular; disponibilidade de oxigênio no músculo; espécie animal e raça; tipo de fibra muscular; condições de estresse ante mortem (ROÇA; SERRANO, 1994). A velocidade da queda do pH durante a utilização de vias anaeróbias para produção de energia influencia diretamente no tipo de carne que será obtida. Se o animal se encontra com quantidade adequada de reserva energética durante o abate, por não ter sofrido nenhum estresse excessivo, uma carne normal será formada. Porém, se houver consumo excessivo de energia e baixa reserva de glicogênio, ou se este animal tiver baixo acúmulo de oxigênio no músculo, poderão ser formadas carnes com características indesejáveis, chamadas carnes DFD (Dura, Seca e Escura) ou PSE (Pálida, Flácida e Exusdativa) (RODRIGUES; SILVA, 2016). javascript:void(0) javascript:void(0) Fonte: Alineofcolor/Shutterstock CARNE DFD A carne DFD é formada caso haja baixa reserva de glicogênio e a queda do pH seja lenta; assim, ocorrerá menor desnaturação proteica e, consequentemente, maior solubilidade das proteínas miofibrilares e maior rendimento em peso, pelo fato de não perder água suficiente em virtude da variação de temperatura. Porém, como o pH se apresentará próximo ao neutro, o risco de desenvolvimento microbiológico é alto. Fonte: Alineofcolor/Shutterstock CARNE PSE Para a formação da carne PSE, a queda de pH é rápida, e, consequentemente, haverá perda da solubilidade e da capacidade de retenção de água pelas proteínas; apresentam maior perda de nutrientes em razão da perda de água e coloração clara. Esse tipo de defeito é comumente encontrado em aves e suínos. ATENÇÃO Para evitar essas alterações indesejáveis, é de extrema importância que o animal seja abatido de forma humanitária e que seja considerado e promovido rigorosamente o bem-estar animal antes e durante o abate. Este é um dos fatores importantes para a qualidade da carne. Após a conversão do músculo em carnes, métodos de processamento podem ser aplicados. Como definição, temos que o processamento de produtos cárneos corresponde a qualquer processo que altere as características da carne fresca, compreendendo processos como a moagem, condimentação, emulsificação, salga, cura, defumação, prensagem, centrifugação, cocção, entre outros. A maioria dos produtos cárneos é obtida pela combinação desses diferentes processos. O objetivo básico do processamento de carnes é a sua conservação pela inibição ou redução do crescimento de microrganismos e de reações químicas e enzimáticas responsáveis pela deterioração do produto. Outros objetivos podem ser citados, tais como: Fonte: jannoon028/Freepik Desenvolvimento de novos produtos. Fonte: Natalia Lisovskaya/Shutterstock Agregação de valor à matéria-prima. Fonte: Szasz-Fabian Jozsef/Shutterstock Maior aproveitamento da matéria-prima. Após o abate, as carcaças que apresentarem alta qualidade serão comercializadas inteiras, ou por cortes de partes inteiras, enquanto as demais serão destinadas a produtos processados preparados de carne fragmentada, temperada e estruturada, emulsionadas ou não. Os produtos comercializados são classificados em categorias e subcategorias pela portaria nº 1.002, de 11 de dezembro de 1998, do Ministério da Saúde/Secretaria de Vigilância Sanitária (SVS). Seguem as categorias apresentadas nesta portaria: Produtos frescais embutidos ou não; Produtos secos, curados e/ou maturados embutidos ou não; Produtos cozidos embutidos ou não; Produtos salgados crus; Produtos salgados cozidos; Conservas cárneas, mistas e semiconservas cárneas. Estes produtos são submetidos a algumas técnicas específicas para o desenvolvimento de sabores e demais características. PRINCIPAIS TÉCNICAS APLICADAS NA ELABORAÇÃO DOS PRODUTOS DE ORIGEM ANIMAL Veja algumas das principais técnicas aplicadas na elaboração dos produtos de origem animal. MOAGEM Através desta técnica, é possível obter um produto mais uniforme, aumentar a maciez e permitir maior aproveitamento, podendo ser utilizados retalhos de carne. O grau de moagem ou trituração será determinado de acordo com a finalidade em que a matéria-prima será utilizada. SALGA Neste processamento, ocorre a redução da atividade de água e umidade por meio da adição em excesso de sal (NaCl), visando aumentar a conservação. No Brasil, os produtos mais consumidos produzidos com esta técnica são: carne de sol, o charque e o jerked beef. Devido à penetração do sal na carne, a velocidade da desnaturação proteica e oxidação de lipídios é aumentada. Além disso, ocorre também alteração do pigmento mioglobina, resultando em carnes de coloração amarronzada, devido à formação de metamioglobina. Os métodos mais empregados são a salga úmida e seca. No método de salga seca, o sal é adicionado diretamente sobre a superfície da carne. Na salga úmida, a carne é imersa em solução contendo 15% de sal em relação ao peso da carne, permanecendo por determinado tempo e sob agitação. Os produtos salgados podem ser ainda defumados ou cozidos. CURA Nesta técnica, são utilizados sais de cura (nitrito e/ou nitrato) para obtenção das características sensoriais de interesse. O objetivo da aplicação destes sais é a manutenção da coloração vermelha da carne, o desenvolvimento de sabores específicos, a inibição da oxidação de gorduras e o crescimento de microrganismos, principalmente de Clostridium botulinum. Assim como na salga, podem ser utilizados métodos de cura seca ou úmida. É importante ressaltar que a quantidade de sais de cura adicionados deve ser rigorosamente pesada e seguir os limites estabelecidos pela legislação, visando o controle da formação de nitrosaminas, que são substâncias potencialmente carcinogênicas. Um dos principais produtos curados consumidos é o presunto. DEFUMAÇÃO Nesta técnica, a carne é colocada em contato com a fumaça proveniente da queima de madeiras, aparas e serragens. São definidos produtos defumados aqueles que passam pelo processo de cura e, em seguida, defumação. Com a interação entre os compostos carbonílicos da fumaça, como aldeídos e cetonas, e os grupamentos aminas livres das proteínas ou compostos nitrogenados, ocorre a reação de Maillard, que produz as melanoidinas, pigmentos escuros, desenvolvendo a coloração característica. Além disso, determinados compostos presentes na fumaça alteram a textura da superfície dos produtos, formando uma película fina, devido à coagulação proteica na superfície (BRESSAN et al., 2010). Porém, com a aplicação desta técnica, pode ocorrer a destruição da tiamina (vitamina B1) e perda de aminoácidos (lisina), alterando, assim, a qualidade nutricional do produto. Atualmente, muitos métodos de defumação são utilizados – a fumaça líquida tem sido o mais aplicado pelas indústrias. Dentre as vantagens destes métodos, estão: remoção de compostos cancerígenos e indesejáveis; maior controle do processo de produção; padronização dos produtos; não utilização de câmaras; maior vida útil dos equipamentos, em razão da ausência da porção particulada da fumaça (fuligem); aceleração da defumação; minimização da poluição do ar; eliminação do risco de fogo e/ou explosão e desenvolvimento de novos produtos. EMULSÃO As emulsões cárneas são compostas por um sistema onde um sólido ou líquido (gordura/óleo) estão dispersos em um sistema coloidal líquido. Os emulsificantes que estabilizam estas emulsões são as proteínas da carne, principalmente as miofibrilares (FENNEMA, 2010). Segundo Ordóñez et al. (2005), a produção de produtos cárneos emulsificados deve seguir as seguintes etapas: em primeiro lugar, devem seradicionados pedaços de carnes magras, o sal, os agentes de cura e fosfatos ao cutter. Após a obtenção de uma mistura homogênea, é inserida a água em forma de gelo. O uso da água em gelo é necessário para evitar o aumento da temperatura e para solubilizar as proteínas, etapa importante para estabilidade da emulsão. Em seguida, são adicionadas a mistura de carnes gordas e toucinho e os demais ingredientes e condimentos. Dentre os principais produtos produzidos através da emulsificação, estão a salsicha, mortadela, calabresa etc. Demais técnicas também podem ser aplicadas. É possível, ainda, obter alimentos reestruturados através do uso de carne mecanicamente separada (CMS) – esse processo é feito com uso de equipamentos, visando o aproveitamento total do produto através da remoção de algumas partes, como as que permanecem próximas aos ossos, por exemplo. Também existem os processos de marinação e maturação, a fim de que sejam obtidos diferentes sabores, além do uso de subprodutos desta indústria para produzir ração animal, no intuito de aproveitar quase a totalidade do animal abatido. Fonte: Marina Demkina/Shutterstock Muitas das técnicas utilizadas para elaboração dos produtos têm a função de auxiliar na conservação, como a cura e defumação. Além disso, algumas formas de acondicionamento também podem auxiliar na manutenção da qualidade, como é o caso do embalamento a vácuo. Porém, como dito no início do módulo, cada técnica aplicada dependerá do produto que se quer obter; portanto, para mais conhecimento, é necessário o estudo da cadeia de produção de cada produto específico. Em seguida, será possível obter informações sobre o processamento de leites e da produção de seus derivados. Serão expostos a composição deste alimento, a legislação utilizada e o processamento de alguns derivados. LEITES E DERIVADOS Em 1908, no Primeiro Congresso Internacional para a Repressão de Fraudes, o leite foi definido como: “Produto integral, não alterado nem adulterado, sem colostro, procedente de origem higiênica, regular, completa e ininterrupta das fêmeas domésticas saudáveis e bem alimentadas“ (ORDÓÑEZ et al., 2005). Já a legislação brasileira, pelo Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal (RIISPOA), artigo 475, apresenta que se pode entender por leite o seguinte: [...] PRODUTO ORIUNDO DA ORDENHA COMPLETA, ININTERRUPTA, EM CONDIÇÕES DE HIGIENE, DE VACAS SADIAS, BEM ALIMENTADAS E DESCANSADAS. Este produto é composto de uma mistura homogênea de diversas substâncias, como lactose, glicerídeos, proteínas, sais, vitaminas, enzimas, dentre outras, que podem estar em emulsão, suspensão ou em dissolução verdadeira. Sua composição pode variar de acordo com a espécie animal, raça, alimentação, estação do ano, o estágio de lactação (teor de lactose diminui com o avanço da lactação) e, inclusive, doenças (ORDÓÑEZ et al., 2005). A seguir, falaremos sobre a composição química básica do leite e a importância de cada componente. Fonte: Rattiya Thongdumhyu/Shutterstock COMPOSIÇÃO LIPÍDIOS Componente que mais varia entre as espécies, a raça, época do ano em que o leite é produzido. O leite, em sua estrutura natural, apresenta-se como uma emulsão óleo em água, no qual os lipídios são dispersos no formato de glóbulos e a integridade deles determina a estabilidade da emulsão. Qualquer alteração na membrana poderá facilitar a coalescência (que é a fusão das gotas de lipídios), tornando possível a formação de nata. Quando o leite cru é mantido sob refrigeração, observa-se rápida formação da nata. PROTEÍNAS O leite é composto de caseína e proteínas do soro. Elas se diferem quanto à solubilidade a pH 4,6, capacidade de enzimas em coagular apenas à caseína e forma gel, que é utilizado como base para a indústria de queijo, e a termorresistência (resistência ao aquecimento) da caseína, mantendo-se estável durante a esterilização, diferente das proteínas do soro. LACTOSE É o único glicídio presente no leite, sendo o componente que apresenta menor variação entre espécies e o mais abundante. É um dos fatores de maior importância para fabricação do leite, visto que a quantidade produzida pela mama da vaca depende da possibilidade de se sintetizar este açúcar. Possui sabor doce fraco, quando comparado à sacarose; e capacidade de cristalização, uma importante característica para a produção de alguns produtos, como sorvete e leite condensado; pode facilmente alterar sua forma, dentre outras propriedades. SAIS Apresenta, aproximadamente, 0,8% do peso úmido do leite. Os principais encontrados são os fosfatos, citratos, cloretos, sulfatos, carbonatos, bicarbonato de sódio etc. São importantes para aumentar a estabilidade da micela e caseína. OBTENÇÃO, TRANSPORTE E PROCESSAMENTO Através da Instrução Normativa nº 76, de 26 de novembro de 2018, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), são mostradas a identidade e as características de qualidade que devem apresentar o leite cru refrigerado, o leite pasteurizado e o leite pasteurizado tipo A. É possível identificar os tipos de produtos, as condições, os equipamentos e limites microbiológicos determinados para cada produção (BRASIL, 2018). Veja alguns dos processos envolvidos na produção do leite: Fonte: Yanawut Suntornkij/Shutterstock ORDENHA E TRANSPORTE Desde o momento de coleta no produtor até a chegada e o manuseio dentro da fábrica, o leite deve estar sob refrigeração; este fator é muito importante para que não haja o desenvolvimento de microrganismo. Segundo a legislação, o leite recebido deve estar a 7°C e ser armazenado a 4°C (BRASIL, 2018). Fonte: Microgen/Shutterstock ANÁLISES Quando recebido, o leite passa por avaliações de cor e cheiro, assim como análises rápidas de acidez e densidade, consideradas testes de plataforma. Através dessas análises rápidas, já é possível verificar se o produto foi devidamente coletado e se houve condições higiênicas adequadas durante a ordenha e o transporte. Fonte: Kritsana Plongnirat/Shutterstock PASTEURIZAÇÃO Em seguida, o leite deve ser pasteurizado, não sendo permitida a pasteurização do produto já embalado. Para ser comercializado pasteurizado, o produto deverá ser classificado quanto ao seu teor de gordura, podendo ser chamado de leite pasteurizado integral, leite pasteurizado semidesnatado, leite pasteurizado desnatado (BRASIL, 2018). Quando o produto é comercializado com redução parcial ou total do teor de gordura, antes de ser pasteurizado, a nata deve ser removida por meio da desnatadeira. O processo de pasteurização pode ser lento (LTH – low temperature holding), quando o produto é aquecido a temperatura de 62°C por 30 minutos, ou rápido (HTST – high temperature short time), chegando a 75°C durante 15 a 20 segundos. Na indústria, a pasteurização rápida utilizando pasteurizador de placas é a mais utilizada (ORDÓÑEZ et al., 2005). Fonte: Kritsana Plongnirat/Shutterstock HOMOGENEIZAÇÃO Para produção do leite UAT ou UHT (Ultra Alta Temperatura ou Ultra High Temperature), o produto deve ser homogeneizado, a fim de evitar a aglutinação dos lipídios, e aquecido a 130 a 140°C por 2 a 4 segundos, em fluxo contínuo, resfriado a temperaturas menores que 32°C e envasado sob condições assépticas em embalagens estéreis e hermeticamente fechadas. Devido a este processo, o produto pode ser comercializado sob temperatura ambiente, enquanto o leite pasteurizado deve ser mantido sob refrigeração, visto que esta técnica de conservação não garante a destruição de esporos de microrganismos. Fonte: 279photo Studio/Shutterstock COMERCIALIZAÇÃO Quando o interesse é a comercialização do leite pronto para consumo, após as etapas descritas, o produto é acondicionado em embalagem e destinado ao transporte até os consumidores. Para obtenção de demais produtos, outras etapas devem ser aplicadas, como mostrado no fluxo a seguir. a produção de alguns derivados de leite está apresentada no tópicoseguinte. Figura 3 - Fluxograma de processamento de leites e derivados. PROCESSAMENTO DE DERIVADOS DO LEITE DOCE DE LEITE Depois de pasteurizado, a acidez do leite é ajustada normalmente pela adição de bicarbonato de sódio. Esta etapa é importante, pois, além de auxiliar na padronização do produto final, colabora para a intensificação da reação de Maillard, promovendo a obtenção da coloração ideal. Em seguida, é adicionado o açúcar, dando início ao processo de concentração por aquecimento, até um teor de umidade máximo de 30% ou mínimo de 70% de sólidos totais. Os parâmetros de aquecimento e agitação devem ser controlados, para melhor cristalização da lactose, a fim de que os cristais formados não interfiram na qualidade sensorial, promovendo uma textura arenosa. Após a concentração, o produto é resfriado e envasado. Fonte: nelea33/Shutterstock LEITE EM PÓ Para a produção de leite em pó, o leite pasteurizado passa por um processo de evaporação, a fim de que a secagem possa ser mais rápida, promovendo economia de energia de processo e controle do tamanho dos grânulos formados. Leites mais fluidos produzem leite em pó com partículas muito mais finas e com menor solubilidade. O equipamento de secagem mais utilizado é o Spray dryer; nele, o leite pré-concentrado é aspergido para dentro da câmara de secagem, onde as gotículas de líquido entram em contato direto com o ar quente, que promoverá a remoção de água das gotas por evaporação, promovendo a secagem imediata e formando um pó fino. A vantagem deste tipo de secagem é a redução nas alterações organolépticas causadas pelo aquecimento excessivo. javascript:void(0) Fonte: Freepik/Freepik MANTEIGA Por definição, manteiga é considerada o produto resultante da bateção e malaxagem do creme de leite fresco ou fermentado pela adição de fermento lático selecionado, à qual se incorpora ou não sal. Basicamente, a produção de manteiga é a inversão parcial de fases da emulsão óleo em água, do leite, para água em óleo. Durante a pasteurização do leite, ocorre a eliminação de microrganismos indesejáveis e, por isso, o creme apresenta um substrato para cultura láctea com menor competição microbiana. O creme pasteurizado é maturado através da acidificação do creme, da produção de diacetil e da cristalização da gordura. Em seguida, é dado início à bateção, que é a etapa de formação dos grãos de manteiga através da coalescência da gordura presente. Nesta etapa, ocorre a inversão das fases da emulsão, O/A para A/O. É muito importante que o creme esteja refrigerado, visto que a temperatura pode interferir no processo de aglomeração do lipídio. Depois que os grãos são obtidos, ocorre a lavagem, para remoção dos resíduos de leitelho, seguida da etapa de malaxagem ou amassamento. Esta última etapa é caracterizada pela transformação dos grãos de manteiga em uma massa contínua, com conteúdo de água controlado e disperso adequadamente. Nesta etapa, também pode ser adicionado o sal, quando desejado. Então, a manteiga é envasada e comercializada a 5°C. Fonte: Freepik/Freepik IOGURTE O leite fermentado é um produto produzido a partir da fermentação do leite pasteurizado ou esterilizado. São utilizados fermentos lácticos próprios, que devem estar viáveis, ativos e em quantidade abundante no produto final. Para produção do iogurte, são utilizados os seguintes microrganismos responsáveis pela fermentação: Streptococcus salivarius ssp. Thermophilus e Lactobacillus delbrueckii ssp. Bulgaricus. Para obtenção de sabor e aroma agradáveis, devem ser utilizadas quantidades praticamente iguais das mesmas espécies. Após pasteurização e resfriamento do leite a 40 a 45°C, o inóculo deve ser adicionado. A fermentação deve ocorrer de acordo com as características de cada tipo de iogurte de interesse. O fermentado deve ser resfriado, e o gel formado precisa ser quebrado através de agitação. Isto é realizado para que haja melhor reabsorção do soro pelas micelas de caseína, evitando a sinérese. Após, o produto é acondicionado em suas embalagens e comercializado. Fonte: Freepik/Freepik SPRAY DRYER Fonte: Gava, 1984 Figura 4 - Funcionamento do Spray dryer. PROCESSAMENTO DE PESCADOS E OVOS Além de carnes, leites e derivados, os pescados e ovos também estão incluídos no processamento de produtos de origem animal. Estes apresentam etapas diferentes de processamento. Os pescados, por exemplo, passam pela etapa de abate e evisceração, que é a remoção de vísceras, a qual pode ser realizada por sucção e rigor mortis, assim como os demais animais. No entanto, apresentam-se muito mais sensíveis tanto a diferentes alterações causadas por características internas do animal como por fatores externos. Os músculos dos pescados são ricos em proteínas miofibrilares e pobres em proteínas do estroma, apresentando-se mais frágil que o dos demais animais, como mamíferos. Como apresenta alta atividade enzimática, o rigor mortis é mais rápido, assim como a decomposição por via enzimática, chamada de autólise. Além disso, os peixes são mais suscetíveis a alterações por microrganismos pelo fato de apresentarem menor reserva de glicogênio, formando baixa quantidade de ácido láctico, o que não gera abaixamento intenso do pH, além de apresentar alto teor de umidade, fatores que favorecem o crescimento de microrganismos. Fonte: dashu83/Freepik PREPARO DO DOCE DE LEITE Produto típico da América latina, o doce de leite é consumido no mercado tanto como produto final, como ingrediente de produtos de panificação e confeitaria. Neste vídeo, veremos como é feito o preparo desse doce tão popular no Brasil. VERIFICANDO O APRENDIZADO 1. O RIGOR MORTIS É CARACTERIZADO POR SER UMA SÉRIE DE REAÇÕES BIOQUÍMICAS QUE OCORREM ANTES E APÓS A MORTE DO ANIMAL. SOBRE ESSE PROCESSO, É CORRETO AFIRMAR: A) Carnes DFD e PSE apresentam ótimas qualidades sensoriais. B) Ocorre a formação de ácido acético devido à conversão anaeróbia do glicogênio em energia. C) É ideal que o animal não passe por estresse antes de ser abatido, visando a melhor qualidade da carne. D) O rigor mortis somente depende da quantidade de glicogênio. 2. SOBRE O PROCESSAMENTO DE LEITES E DERIVADOS, ASSINALE A ALTERNATIVA INCORRETA: A) O leite, em sua forma natural, é uma emulsão de óleo em água, enquanto a manteiga é uma emulsão água em óleo. A mudança de fases ocorre durante a batedura do creme. B) A pasteurização elimina todas as formas de microrganismos que podem estar presentes no leite. C) Para produção do leite UHT, são utilizados processos de homogeneização e pasteurização a 30 a 140°C por 2 a 4 segundos. D) Durante a produção de doce de leite, ocorre a reação de Maillard para dar a cor característica do produto. GABARITO 1. O rigor mortis é caracterizado por ser uma série de reações bioquímicas que ocorrem antes e após a morte do animal. Sobre esse processo, é correto afirmar: A alternativa "C " está correta. Com a falta de sangue, o animal passa a usar diferentes fontes de energia, chegando a produzir ácido láctico, abaixando o pH da carne em virtude de reações anaeróbicas. Após cessar toda fonte de energia, acontece a contração irreversível do músculo. Se ocorrerem alterações durante esse processo, haverá a formação de carnes indesejáveis, como DFD (Dura, Seca e Escura) ou PSE (Pálida, Flácida e Exusdativa). Por isso, é de extrema importância que o animal tenha momentos sem consumo excessivo de energia antes do abate, apesar de este não ser o único fator para formação de uma carne com características indesejáveis. 2. Sobre o processamento de leites e derivados, assinale a alternativa incorreta: A alternativa "B " está correta. A pasteurização é uma técnica de conservação muito utilizada. Porém, esta técnica não inativa esporos, que são as formas mais resistentes de microrganismos; por isso, é necessário que o leite seja mantido sob refrigeração para garantir a qualidade microbiológica. A pasteurização é a técnica de aquecimentodo produto seguido do resfriamento; para pasteurização UHT (Ultra Alta Temperatura ou Ultra Higt Temperature), o produto é aquecido de 30 a 140°C por 2 a 4 segundos. CONCLUSÃO CONSIDERAÇÕES FINAIS Os produtos de origem animal e vegetal estão muito presentes na dieta da população. Existe uma variedade gigantesca de alimentos que podem ser produzidos a partir destas matérias-primas. Através de algumas técnicas de processamento, é possível obter produtos com novos sabores, como a defumação e fermentação, além de atender à necessidade dos consumidores, fornecendo-lhes alimentos prontos para o consumo. Cada técnica possui uma função, de forma que o consumidor possa ter acesso a alimento seguro microbiologicamente, saboroso, atendendo suas necessidades e seus desejos sensoriais e nutricionais. Independentemente do produto alimentício que se pretende obter, todos apresentam basicamente as mesmas fases de processamento: beneficiamento da matéria-prima, aplicação de métodos para produção de novos sabores, texturas e aromas, assim como métodos que inativam microrganismos que possam estar presentes e previnam o produto de ser recontaminado. Independentemente do processo, da técnica e do método utilizado, o objetivo principal é garantir a obtenção de um produto final de qualidade. Ouça o podcast e conheça técnicas inovadoras para conservação dos alimentos. AVALIAÇÃO DO TEMA: REFERÊNCIAS ARAÚJO, J. M. A. Química de alimentos: teoria e prática. 15. ed. Viçosa: Universidade Federal de Viçosa, 2011. BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução de Diretoria Colegiada n° 12, de 24 de julho de 1978. Normas Técnicas Relativas a Alimentos e Bebidas. In: Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Brasília, 1978. Consultado em meio eletrônico em: 20 jul. 2020. BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Instrução Normativa nº 12, de 4 de setembro de 2003. In: Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, 2003. Consultado em meio eletrônico em: 20 jul. 2020. BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Decreto nº 6.871, de 4 de junho de 2009. In: Diário Oficial da República Federativa do Brasil, 2009. Consultado em meio eletrônico em: 20 jul. 2020. BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Regulamento de Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal: Decreto nº 30.691, de 29 de março de 1952 e alterações. 1997. Consultado em meio eletrônico em: 20 jul. 2020. BRASIL. Resolução RDC nº 272, de 22 de setembro de 2005. In: Diário Oficial da República Federativa do Brasil, 2005. Consultado em meio eletrônico em: 20 jul. 2020. BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Instrução Normativa nº 76, de 26 de novembro de 2018. In: Diário Oficial da União, Brasília, nov. 2018. Consultado em meio eletrônico em: 20 jul. 2020. BEZERRA, V. S. Pós-colheita de frutos. Embrapa Amapá-Documentos (INFOTECA-E), 2003. Consultado em meio eletrônico em: 20 jul. 2020 BRESSAN, M. C. et al. Produtos cárneos curados e defumados: mais sabor e maior valor agregado. Lavras: UFLA, 2010. CLEMENTE, E.; PASTORE, G. M. Peroxidase and polyphenoloxidase, the importance for food technology. Ciência e Tecnologia de Alimentos, Campinas, v. 32, n. 2 p. 167- 171, 1998. FELLOWS, P. J. Tecnologia do processamento de alimentos: princípios e prática. 2. ed, Porto Alegre: Artmed, 2006. FENNEMA, O. R.; DAMODARAN, S.; PARKIN, K. L. Química de alimentos. Zaragoza: Editorial Acribia, Espanha, 2010. GAVA, A. J. Princípio da Tecnologia dos Alimentos. São Paulo: Nobel, 1984. LÓPEZ-NICOLÁS, J. M.; PÉREZ-LÓPEZ, A. J.; CARBONELL-BARRACHINA, A.; GARCIA-CARMONA, F. 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EXPLORE+ Para obter mais informações sobre a Tecnologia de produtos de origem vegetal, sugiro a leitura dos livros apresentados nas referências deste tema, assim como das legislações citadas ao longo deste estudo. Obtenha mais informações sobre a composição química de frutas e hortaliças por meio da Tabela Brasileira de Composição de Alimentos (TACO-2011), publicada pela Universidade Estadual de Campinas. Para Tecnologia de produtos de origem animal, seguem algumas sugestões de materiais para estudo em que será possível obter informações detalhadas sobre os processamentos aplicados para produção de diferentes produtos: Resíduos e contaminantes químicos em alimentos de origem animal no Brasil: histórico, legislação e atuação da vigilância sanitária e demais sistemas regulatórios, de Bernadete Ferraz Spisso, Armi Wanderley de Nóbrega e Marlice Aparecida Sípoli Marques. Produtos cárneos curados e defumados: mais sabor e maior valor agregado, de Maria Cristina Bressan et al. Cura de carnes, de Roberto de Oliveira Roça. Produção alimentícia: processamento de leite, de Gilvan Silva, Argélia Maria Araújo Dias Silva e Maria Presciliana de Brito Ferreira. Processamento de leite, de Gilvan Silva, Argélia Maria Araújo Dias Silva e Maria Presciliana de Brito Ferreira. CONTEUDISTA Maraysa Rodrigues Furtado CURRÍCULO LATTES javascript:void(0); DEFINIÇÃO Importância, composição química, estrutura e classificação dos grãos de trigo. Etapas de processamento para fabricação de farinha de trigo e legislação vigente. Fatores de qualidade da farinha de trigo utilizadas para produção de produtos panificados. Compreensão de etapas e métodos de produção de massas para pães e massas de confeitaria. PROPÓSITO Compreender as etapas e processos utilizados na indústria de panificação. OBJETIVOS MÓDULO 1 Descrever o processamento de grãos para produção de farinhas utilizadas nos processos de panificação MÓDULO 2 Identificar as etapas utilizadas para o processamento de pães e demais produtos panificados INTRODUÇÃO Durante a evolução do homem, variedades de pães foram produzidas e desenvolvidas, assim como diversos métodos que permitem a conversão da farinha, especificamente a farinha de trigo, e demais ingredientes em produtos panificados, como pães, massas alimentícias, bolos, biscoitos, dentre outros. O trigo apresenta as características ideais para formação de panificados de qualidade, pois possui quantidadesde proteínas formadoras de glúten adequadas para o crescimento do produto e formação da textura desejada. Atualmente, muitos estudos com farinhas de outras fontes de cereais, assim como misturas de farinhas, têm sido realizados, visando o aumento do valor nutricional dos produtos panificados, mantendo ou se aproximando das características que são obtidas quando o processamento utiliza a farinha de trigo como ingrediente principal. O processo de produção de produtos panificados não é simples. Muitos são os fatores que influenciam na qualidade do produto final. Durante este texto, será possível identificar as características das farinhas que influenciam o processamento, principalmente da farinha de trigo, e as etapas utilizadas para produção de alguns produtos. MÓDULO 1 Descrever o processamento de grãos para produção de farinhas utilizadas nos processos de panificação Autor: nastasya-day / Fonte: Pexels CEREAIS Os grãos podem ser divididos basicamente em cereais e leguminosas. Os cereais são os frutos comestíveis da família das gramíneas, enquanto as leguminosas são sementes ou grãos da família Legume, que normalmente se desenvolvem dentro de vagens. OS CEREAIS SÃO COMPOSTOS BASICAMENTE POR: FARELO ENDOSPERMA GÉRMEN (EMBRIÃO) FARELO Camada mais externa que compõe a principal parte fonte em fibras. ENDOSPERMA Parte rica em carboidratos e proteínas. GÉRMEN (EMBRIÃO) Composto por vitaminas e minerais, sendo considerada a parte rica em nutrientes destes grãos. Através do processamento destes grãos de cereais, podem ser obtidas as farinhas utilizadas para produção de produtos panificados. Atualmente, farinhas de diversas fontes, ou seja, diferentes cereais, são utilizadas na panificação, porém o trigo ainda continua sendo o cereal mais utilizado. Autor: Pearl PhotoPix / Fonte: Shutterstock Ele é considerado o cereal mais utilizado pelo homem para produção de alimentos desde a Antiguidade. As principais variedades de trigo cultivadas são da espécie Triticum aestivus subsp. Vulgare e Triticum durum. Os maiores produtores deste cereal do mundo são a União Europeia, China, Índia, os Estados Unidos, entre outros. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), o consumo do produto no Brasil se manteve dentro dos 12 milhões de toneladas em 2019, e o consumo de farinha aumentou 65,24%. COMPOSIÇÃO QUÍMICA DOS GRÃOS DE TRIGO Os grãos de trigo são constituídos de 4,5 a 8,6 % de pericarpo, 84 a 89% de endosperma e 2,5 a 3,5% de gérmen (EVERS & MILLAR, 2002) (Figura 1). Esta estrutura influencia diretamente a composição química, visto que cada parte é composta por determinado nutriente, e o processamento do grão integral ou de partes determinará a composição da farinha produzida. As propriedades tecnológicas e funcionais das farinhas de trigos estão relacionadas à composição química dos grãos. Além disso, a composição também tem influência na conservação da farinha (MOUSIA et al., 2004). Autor: anônimo / Fonte: Brandão; Lira (2011) Figura 1- Estrutura do grão de trigo. Fonte: Brandão & Lira, 2011. DENTRE OS ELEMENTOS ENCONTRADOS QUE APRESENTAM PRINCIPAIS FUNÇÕES NA PRODUÇÃO DE PRODUTOS PANIFICADOS, ESTÃO: PROTEÍNAS Sua quantidade nos cereais depende de fatores ambientais e genéticos. As principais proteínas encontradas são a gliadina e glutenina, são responsáveis pela formação da rede de glúten. As gliadinas respondem pela formação de uma massa pegajosa, enquanto as gluteninas formam o comportamento elástico das massas, ou seja, promovem as propriedades de resistência à extensão (SANTOS, 2008). CARBOIDRATOS Estes componentes estão presentes no farelo, através de fibras; no germe, onde se apresentam de formas livres, e no endosperma, que é a principal fonte de amido. Em produtos panificados, estes açúcares são utilizados tanto na fermentação como na etapa de cozimento, através da produção de cor e aroma pelas reações de Maillard e caramelização. LIPÍDIOS Contêm ácidos graxos, como palmítico, oleico, linoleico, assim como fosfolipídios, como lecitina, e alguns glicolipídios. Eles são importantes para estabilidade da farinha, pois, quanto maior o teor de lipídios, mais facilmente poderá apresentar alterações em virtude das reações de rancidez oxidativa. CLASSIFICAÇÃO DOS GRÃOS DE TRIGO Os grãos de trigo podem ser classificados quanto à dureza do endosperma, que está relacionada à sua estrutura, e quanto ao teor proteico. Existem três classificações: duro, durum e mole. Quando o grão se apresenta duro, é possível ver uma aparência vítrea, dura e brilhante. Já os grãos macios, por possuírem minúsculos espaços com ar, apresentam coloração branca. Autor: ray-bilcliff / Fonte: Pexels DURO DURUM MOLE DURO Produzem farinhas com altos teores de glúten e arenosas, com partículas irregulares. Apresentam endosperma com considerável tenacidade e vítreos; em razão disso, são utilizados tanto na produção de pães como dos demais produtos fermentados (HOSENEY, 1991; LÉON, 2007). DURUM Apresenta alto teor proteico com moagem dificultada (HOSENEY, 1991). Utilizado na produção de sêmolas e semolinas para fabricação de massas alimentícia (LÉON, 2007). MOLE Este tipo de endosperma forma farinhas brancas e com baixa granulometria, ou seja, que apresenta partículas de pequenos tamanhos. Além disso, apresenta baixos teores de glúten, por isso é utilizado para produção de biscoitos e bolos (CHING et al., 2006; HOSENEY, 1991; LÉON, 2007). PROCESSAMENTO DOS GRÃOS PARA PRODUÇÃO DE FARINHA RECEPÇÃO DOS GRÃOS PRÉ-LIMPEZA ARMAZENAMENTO LIMPEZA E CONDICIONAMENTO MOAGEM PENEIRAMENTO ACONDICIONAMENTO EM EMBALAGENS E COMERCIALIZAÇÃO Figura 2 - Fluxograma de processamento de farinhas. Para a fabricação da farinha, o trigo passa pelas etapas de recepção, pré-limpeza, armazenagem, limpeza, condicionamento, moagem, peneiramento, acondicionamento e comercialização, como mostrado na Figura 2. Autor: irin-k / Fonte: Shutterstock 1 RECEPÇÃO Após ser recebido na unidade de processamento, os grãos são pesados, visando controlar a operação no moinho. Também são feitas análises em determinado número de amostras representativa da carga. Dentre as análises realizadas, estão umidade; densidade; teor de glúten e proteína; quantificação da enzima α-amilase, responsável pela hidrólise do amido em glicose, que será o substrato utilizado pela levedura durante o processo de fermentação, e dureza. Os grãos de trigo devem apresentam umidade inferior a 13%, para que a respiração e a produção de calor sejam inibidas (CAUVAIN & YOUNG, 2009) PRÉ-LIMPEZA Em seguida, passam por uma pré-limpeza para remoção das impurezas grosseiras, que podem causar danos nos equipamentos, alterar as condições de armazenamento e demandar tempo no processamento de matérias que não serão utilizadas. Esta limpeza pode ser realizada utilizando ímã, peneiras e aspiradores. 2 3 ARMAZENAMENTO Os grãos são armazenados em silos até o momento do processamento. Para isto, deve ser controlada a temperatura, aeração, umidade, além de protegê-los de insetos e roedores, evitando a alteração das características. A variação de temperatura e umidade durante o armazenamento pode alterar a atividade das enzimas amilases, promovendo o aumento ou inibição da atividade com a variação das condições de armazenamento, assim como a germinação do trigo e alteração da qualidade do glúten dos grãos. LIMPEZA E CONDICIONAMENTO Os cereais de trigo passam pelo processo de limpeza, a fim de remover demais impurezas e grãos com qualidade inadequada para o processamento. Em seguida, são umidificados através da adição de água e colocados em silos de condicionamento por determinado tempo, visando a migração da água para o endosperma. O tempo é estabelecido de acordo com as características dos grãos. O condicionamento é uma importante preparação do grão para o processo de moagem, deixando-o mais frágil, facilitando a separaçãoda casca (pericarpo) e do endosperma, reduzindo o gasto energético durante o processo de trituração e padronizando a umidade dos grãos. 4 5 MOAGEM Segundo Owens (2001), a etapa de moagem pode ser dividida em três sistemas: sistema de quebra, sistema de purificação e sistema de redução. SISTEMA DE QUEBRA É composto normalmente de moinhos de rolos que apresentam em sua superfície “dentes de serra”, que promoverão a separação do endosperma das demais estruturas dos grãos. Estes rolos funcionam em diferentes velocidades, permitindo a abertura do grão de trigo, o que é importante para etapa seguinte, que é a de purificação. Este processo de abertura e quebra dos grãos costuma ser repetido de 4 a 5 vezes, e parte da farinha obtida já é retirada. 6 7 SISTEMA DE PURIFICAÇÃO Ocorre na etapa seguinte, nele os grãos e as farinhas recolhidas na quebra passam por purificadores, moinhos de rolos e peneiras. Os purificadores selecionam e separam as partículas de acordo com o tamanho, a resistência ao ar e gravidade específica das partículas simultaneamente. Quando estão suficientemente puras, estas partículas são retiradas do sistema, seguindo para o próximo – quando não adequadas, as partículas passam novamente pelo moinho, visando maior separação do farelo e do endosperma. SISTEMA DE REDUÇÃO Após a purificação os grãos, vão para o sistema de redução. Este sistema é composto por uma série de rolos e peneiras que auxiliam na remoção de impurezas; são utilizados moinhos de rolos diferentes dos demais – normalmente, são utilizados rolos de superfície lisa com velocidades mais baixas para obter maior quantidade de farinha (SCANLON & DEXTER, 1986). Quando o material não apresentar granulometria adequada, ele é peneirado e moído novamente em um estágio de moagem subsequente. Esse processo pode ser repetido até 11 vezes nos chamados moinhos de superfície longas. Vale ressaltar que, nos sistemas de redução, a diferença de velocidade dos rolos pode gerar danos ao amido. Muitas vezes, estes prejuízos são induzidos com o objetivo de elevar a capacidade de absorção de água das farinhas, o que, por sua vez, promove benefícios durante a produção de pães. Dependendo do número de passes no moinho e das etapas em que eles foram removidos, é possível produzir os seguintes produtos: farelo, farelinho, farinha de quebra e farinha redução, que se diferem pelo tamanho das partículas. 8 9 PENEIRAMENTO As farinhas são peneiradas para separação e classificação do produto por tamanho. Para esse trabalho, podem ser utilizados peneiradores centrífugos, que apresentam uma rosca sem fim, que empurra o material contra malha, ou peneiradores, planos compostos por peneiras colocadas em uma armação, onde cada uma apresenta um movimento oscilatório. A Figura 3 apresenta um agitador e peneiras de diferentes mesh (tamanho da abertura da peneira). Para separação, o material é colocado na peneira superior e, durante a agitação, é separado ao ficar retido em uma peneira com menor abertura que o tamanho das partículas. Após peneiradas, as farinhas são embaladas e comercializadas. Autor: anônimo / Fonte: didaticasp Figura 3 – Agitador e peneiras de diferentes granulometrias para separação de materiais de tamanhos diversos. Autor: Tanya Sid / Fonte: Shutterstock CONTROLE DE QUALIDADE DAS FARINHAS DE TRIGO Segundo a Instrução Normativa 8/2005 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), as farinhas de trigo devem ser feitas a partir do trigo do gênero Triticum aestivum L. ou outras espécies de gênero Triticum, sendo, necessariamente, classificadas em Tipo 1, Tipo 2 e integral, de acordo com os limites estipulados para o percentual de cinzas, granulometria, quantidade de proteína, acidez graxa e umidade. Para os valores que não se enquadram nessa tabela, considera-se a farinha como “fora de tipo”. É definido que a farinha de trigo integral é produzida através da trituração ou moagem dos grãos de trigo (Triticum aestivum L.) ou outras espécies de trigo do gênero Triticum, ou mistura deles, sendo processado o grão limpo completo, contendo ou não o gérmen. Além disso, a farinha de trigo pode conter outros vegetais e pode ser utilizada para produção de preparados com demais ingredientes, aditivos alimentares e coadjuvantes de tecnologia que sejam apropriados para a produção de produtos panificados. Os fatores de qualidade da farinha de trigo podem ser divididos em dois grupos básicos: os inerentes ao trigo, resultantes da composição genética e das condições de crescimento da planta, e os que dependem do processo de armazenamento e moagem do trigo em farinha. A qualidade do grão de trigo está sujeita à interação que a cultura sofre no campo, pelo efeito das condições do solo, do clima, da incidência de pragas, do manejo da cultura, bem como das operações de colheita, secagem, armazenamento, moagem e, por fim, do uso industrial a ser dado à farinha. Obter produtos com valores ideais para características como cor, teor e qualidade das proteínas que formarão o glúten, teor de cinzas, a umidade, o tamanho de partículas e número de queda, que é um indicativo da quantidade de enzimas presentes, é um dos grandes desafios das indústrias produtoras de farinha de trigo. Autor: baibaz / Fonte: Shutterstock O alto teor de proteínas formadoras de glúten, gliadinas e gluteninas é o principal fator que faz com que a farinha de trigo seja amplamente utilizada na produção de panificados e massas alimentícias. Durante o amassamento, as proteínas absorvem quantidade considerável de água e interagem para a formação da rede de glúten. Para avaliação do glúten, pode ser utilizado um equipamento chamado Glutomatic, que faz uma mistura de farinha seguida de uma lavagem com solução de NaCl (2%) para remoção do amido e de demais solúveis. Em seguida, o produto lavado é centrifugado e colocado em uma peneira, e a parte separada é pesada. O retido na peneira demonstra o índice de glúten; quanto maior este índice, maior a força da farinha e da rede de glúten. Dentre todos os cereais descritos na literatura, nenhum outro além do trigo apresenta proteínas com a capacidade de produzir massas com características viscoelásticas, como as proteínas do trigo. Cereais híbridos de centeio com trigo, como o centeio híbrido e o triticale, são aqueles capazes de formar massas que mais se aproximam das elaboradas com farinha de trigo, porém apresentam uma rede de glúten mais fraca, devido à menor quantidade de proteínas quando comparado ao trigo. REDE DE GLÚTEN Sistema coloidal complexo envolvendo lipídeos, amidos, açúcares, minerais e proteínas, dentre outros, responsável pelas características viscoelásticas necessárias para a produção de produtos panificados. javascript:void(0) ATENÇÃO Outro fator importante a se avaliar nas farinhas é a umidade, que eleva a velocidade das reações químicas, provocando alterações nas suas características nutricionais, sensoriais e tecnológicas; por isso, deve ser rigorosamente controlado, assumindo valores menores que 13%, com a finalidade de evitar alterações durante o armazenamento. Além disso, para evitar o desenvolvimento de fungos e insetos e prevenir o ataque de roedores, as farinhas devem ser armazenadas em ambiente arejado e seco, em uma área separada da produção, e deve ser feita rotatividade periódica do estoque (GUERREIRO, 2006). OBSERVE MAIS ALGUNS DESTAQUES SOBRE A FARINHA E SUA QUALIDADE: 1 A acidez da farinha pode indicar o estado de conservação devido à presença de ácidos graxos livres, indicando a degradação dos lipídios. Pela legislação brasileira, este parâmetro deve ser medido em relação à acidez graxa, sendo o resultado dado em miligramas de hidróxido de potássio (KOH) por 100g de farinha de trigo. O teor de cinzas representa o conteúdo de minerais presentes nesta farinha. Farelos são compostos por maior teor de minerais; logo, quanto maior o teor de cinzas da farinha, maior será a contaminaçãodo produto pela adição de farelo. Este parâmetro é muito importante, pois pode alterar a cor do produto panificado. 2 3 A granulometria das partículas de farinha é uma importante característica de qualidade; é diretamente proporcional à capacidade que a farinha possui de absorver água. Quanto menores as partículas da farinha, maior e mais rápida será a absorção de água. Além disso, a uniformidade na granulometria favorece a distribuição da água pela massa, por isso deve-se dar preferência às farinhas que tenham partículas de tamanho uniforme (GUERREIRO, 2006). Outro teste muito utilizado para avaliar a qualidade da farinha é a determinação do falling number, ou número de queda. Este teste foi aprovado pela International Association of Cereal Chemistry. O número de queda é obtido através da relação entre viscosidade do amido, gelatinização e atividade enzimática. Para realizar este procedimento, uma mistura contendo água e farinha é formada sob agitação constante e, em seguida, colocada em banho-maria. Em determinado momento, o agitador é removido, e o tempo necessário para que a mistura atinja o fundo é medido. Este tempo indica o falling number. Quanto maior o número de queda, menor a atividade enzimática; portanto, está farinha pode produzir pães com pouco volume, coloração clara, dificuldade durante a fermentação e miolo pegajoso. Porém, quando o número de queda for muito baixo, os pães podem se apresentar murchos e avermelhados (ZARDO, 2010). 4 5 Autor: anônimo / Fonte: pastamadrelover Autor: anônimo / Fonte: abclaboratorios Figura 4 - Análise de Alveografia (A) e Extensografia (B). Fonte: SCHEUER, 2011. Além destas, outras análises físicas podem ser realizadas, como farinografia, extensografia, alveografia, assim como testes experimentais de fabricação de panificados. Na farinografia, é possível medir a quantidade de água que a farinha pode absorver, prevendo o desempenho desta para fabricação de panificados. Na extensografia, é verificada a capacidade da massa de se estender sem que haja rompimento. Por sua vez, na alveografia, uma bolha de glúten é formada, e é medida a força necessária para expandir e estourar essa bolha (Figura 4). VÍDEO COM AVALIAÇÃO Neste vídeo, você conhecerá um pouco sobre a tecnologia dos alimentos na produção dos diferentes tipos de farinhas VERIFICANDO O APRENDIZADO 1. APESAR DE NOVOS CEREAIS TEREM SIDO IMPLEMENTADOS NA FABRICAÇÃO DE PRODUTOS PANIFICADOS, OS GRÃOS DE TRIGO AINDA APRESENTAM GRANDE IMPORTÂNCIA PARA O SETOR. SOBRE O TRIGO, ASSINALE A ALTERNATIVA INCORRETA. A) Os grãos de trigo apresentam em sua estrutura gérme, pericarpo e endosperma. B) A composição química influencia nas propriedades tecnológicas e funcionais das farinhas de trigos. C) Os grãos duros apresentam baixo teor de glúten. D) O trigo pode ser classificado em duro, durum e mole. 2. A FARINHA DE TRIGO É A MAIS UTILIZADA PARA A PRODUÇÃO DE PRODUTOS PANIFICADOS. SEU PROCESSAMENTO INFLUENCIA NA QUALIDADE DO PRODUTO FINAL. AVALIE AS SENTENÇAS ABAIXO QUANTO AO PROCESSAMENTO DO TRIGO PARA PRODUÇÃO DE FARINHA E MARQUE A ALTERNATIVA CORRETA. I. APÓS SEREM RECEBIDOS NOS MOINHOS, OS GRÃOS DE TRIGO SÃO AVALIADOS QUANTO À UMIDADE, DENSIDADE, DUREZA E AO TEOR DE GLÚTEN. II. A PRÉ-LIMPEZA DOS GRÃOS PODE SER REALIZADA UTILIZANDO SEPARADORES MAGNÉTICOS, ATRAVÉS DE ÍMÃ. III. OS GRÃOS SÃO CONDICIONADOS SOB DETERMINADA UMIDADE, E ESTA ETAPA INFLUENCIA DIRETAMENTE NA MOAGEM. A) Apenas I está correta. B) Apenas II está correta. C) Apenas III está correta. D) Todas estão corretas. GABARITO 1. Apesar de novos cereais terem sido implementados na fabricação de produtos panificados, os grãos de trigo ainda apresentam grande importância para o setor. Sobre o trigo, assinale a alternativa INCORRETA. A alternativa "C " está correta. Existem três classificações: duro, mole e durum. O grão duro é o que apresenta maiores teores de proteínas e, por isso, alto teor de glúten; sendo assim, são normalmente utilizados para produção de pães. 2. A farinha de trigo é a mais utilizada para a produção de produtos panificados. Seu processamento influencia na qualidade do produto final. Avalie as sentenças abaixo quanto ao processamento do trigo para produção de farinha e marque a alternativa correta. I. Após serem recebidos nos moinhos, os grãos de trigo são avaliados quanto à umidade, densidade, dureza e ao teor de glúten. II. A pré-limpeza dos grãos pode ser realizada utilizando separadores magnéticos, através de ímã. III. Os grãos são condicionados sob determinada umidade, e esta etapa influencia diretamente na moagem. A alternativa "D " está correta. Todas as sentenças estão corretas. Após serem recebidos nas indústrias de moagem, os grãos são analisados quanto à umidade, densidade, dureza e ao teor de glúten; assim, é possível prever se os grãos se apresentam em boas qualidades para seguirem para o processamento. Em seguida, são limpos; esta primeira limpeza é utilizada para verificar se há contaminantes físicos ou biológicos, por isso podem ser utilizados separadores magnéticos. Depois disso, eles podem ser armazenados e condicionados, que é a umidificação do grão. Com este processo, o grão se torna mais frágil, o que facilita a obtenção da farinha pela moagem. MÓDULO 2 Identificar as etapas utilizadas para o processamento de pães e demais produtos panificados Autor: Emanuele Mazzoni Photo / Fonte: Shutterstock BREVE HISTÓRIA DA PANIFICAÇÃO CONHEÇA A SEGUIR ALGUNS DESTAQUES MARCADOS HISTORICAMENTE ACERCA NA HISTÓRIA DA PANIFICAÇÃO: 1 Acredita-se que a padaria mais antiga do mundo foi localizada no Oásis de El-Kharga., há 3000 a. C.; nela, foi desenvolvido e produzido abundantemente o famoso “pão do sol”, produto consumido até hoje na região. Porém, foi em Roma que se iniciou a formação das padarias e ocorreu o estruturamento da profissão através da criação das primeiras escolas de padeiro e dos primeiros comércios de pão. Sabe-se que os padeiros, no século II a. C, eram bastantes respeitados na sociedade romana e estavam isentos de alguns impostos. 2 3 Quanto ao desenvolvimento de massas, este produto foi descoberto por Marco Polo em uma de suas viagens à China, no século XIII. Quando voltou para a Itália, esse alimento se espalhou pelo país, tendo alta aprovação da população. Em seguida, difundiu-se por toda a Europa. Com base na filosofia chinesa de alimentação natural, a massa empregada na elaboração do macarrão é produzida, desde aquela época, a partir de ovos frescos, farinha de trigo e água pura (GUERREIRO, 2006). Com a chegada da família real portuguesa, o Brasil teve seu primeiro contato com o trigo e passou a produzir os primeiros pães através dos conhecimentos passados pelos europeus. No século XIX, a produção comercial foi implantada e, a partir disso, o desenvolvimento tecnológico para a produção de produtos panificados foi iniciado (CARMIGNOLA; OLIVEIRA, 2017). 4 5 Segundo Guerreiro (2006), as massas alimentícias foram se espalhando pelos países, continentes e, por intermédio dos imigrantes italianos, chegaram ao Brasil e foram introduzidas em nossos hábitos alimentares. O interesse gradativo por tal alimento deu origem a pequenas fábricas de macarrão no país, empregando sempre mão de obra familiar italiana. O processamento passou a requerer equipamentos mais eficientes, e assim, no início do século XX, desenvolveram-se misturadores, amassadores, extrusores hidráulicos e outras máquinas que auxiliaram e aperfeiçoaram o processo de produção, permitindo a produtividade em grande escala (CIACCO; CHANG, 1986). Atualmente, produtos panificados como pães, massas alimentícias, biscoitos e produtos de confeitarias fazem parte da dieta de praticamente todos os brasileiros. O pão francês lidera o ranking de produtos mais consumidos. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Panificação e Confeitaria (ABIP), o consumo médio por mês de pão francêsem 2019 foi de 704,72 toneladas. 6 Devido ao alto consumo de produtos panificados no Brasil e no mundo, muitos estudos são desenvolvidos visando o aprimoramento das técnicas de produção e o desenvolvimento de produtos com menor densidade calórica e melhores características sensoriais. PRODUÇÃO DE PÃES Não se sabe exatamente quando o pão foi produzido pela primeira vez, mas seu desenvolvimento e sua variação são conhecidos até os dias atuais. Sua definição está relacionada aos ingredientes utilizados; o que, principalmente, difere-o dos demais alimentos panificados é a formação de glúten, processo que não ocorre tão intensamente em bolos devido à adição de açúcar e de gordura, além da utilização de farinhas com diferentes teores de proteínas (CAUVAIN & YOUNG, 2009). A formação do glúten ocorre potencialmente em razão da presença de farinha de trigo que apresenta altos conteúdos de proteínas (Figura 5). Quando hidratadas, as proteínas, gliadinas e gluteninas formam uma rede capaz de aprisionar o gás liberado durante a fermentação, dando a forma e o tamanho característicos do produto. Alguns outros cereais têm sido utilizados para produção de pães, porém nenhum é tão efetivo para a formação da rede de glúten quanto o trigo. FORMAÇÃO DO GLÚTEN: Autor: anônimo / Fonte: sojaentrigada.blogspot.com GLIADINA Autor: anônimo / Fonte: sojaentrigada.blogspot.com GLUTENINA Autor: anônimo / Fonte: sojaentrigada.blogspot.com GLÚTEN Figura 5-A: Formação do glúten. Estrutura das proteínas formadoras do glúten. Autor: anônimo / Fonte: sojaentrigada.blogspot.com GLÚTEN As gliadinas e gluteninas combinadas possuem a propriedade de formar com água, associada à energia mecânica, uma rede tridimensional viscoelástica, denominada glúten. Autor: anônimo / Fonte: sojaentrigada.blogspot.com GLIADINA São proteínas monoméricas e são responsáveis pela coesividade da massa. Autor: anônimo / Fonte: sojaentrigada.blogspot.com GLUTENINA São proteínas poliméricas são fisicamente, elásticas e flexíveis. Figura 5-B: Formação do glúten. Massa com proteínas gliadiana, glutenina e glúten. Além da formação do glúten, outras características muito avaliadas para a determinação da qualidade do pão estão relacionadas a dimensões, volume, aparência, cor e formação de casca. INGREDIENTES UTILIZADOS NA PRODUÇÃO DE PÃES E SUA IMPORTÂNCIA Uma massa básica de pão deve conter farinha de trigo, água, fermento biológico e sal. Atualmente, visando fermentação mais efetiva e rápida obtenção de um produto de maior qualidade, são adicionados ainda melhoradores da massa, como agentes antioxidantes, agentes redutores, dentre outros. Segundo Cauvain e Young, (2009), os melhoradores são adicionados após o processo de fermentação, quando a massa já assumiu volume adequado, para intensificar, controlar e/ou reter os gases. FARINHA DE TRIGO A farinha de trigo utilizada para a produção de pães deve ser considerada forte, apresentando 10,5% a 12% de proteínas, 72% a 78% de carboidratos, 2,5% de lipídios e menos de 0,5% de cinzas (SINGER, 2006). O amido presente é responsável pelo fornecimento de açúcares quando quebrados por enzimas amilases, liberando glicose. Estes serão utilizados pela levedura durante a etapa de fermentação, gerando a produção de gases. ÁGUA A água deve ser adicionada em temperatura e quantidade adequadas, visando a hidratação das proteínas para formação do glúten, o inchaço dos grãos de amidos, a umidificação do meio para alterações devido à fermentação e às reações enzimáticas, além de contribuírem para dissolver sais, açúcares e enzimas necessárias para a fermentação e fornecer e controlar a maciez e a palatabilidade do pão. O controle de temperatura é importante para o crescimento da levedura. Baixa quantidade de água leva à formação de uma rede de glúten fraca e pouco elástica, enquanto quantidades excessivas formam uma massa pegajosa e com baixa resistência ao ser estendida. ÁGUA DURA A quantidade de minerais presentes na água influencia a massa formada, principalmente por impedir o desenvolvimento de uma rede de glúten adequada. Caso a água seja considerada muito dura, as primeiras etapas da fermentação são atrasadas, formando uma rede glúten rígida, enquanto água mole forma uma massa pegajosa. ÁGUA DURA A água dura apresenta quantidade elevada de minerais, como cálcio e magnésio. FERMENTO O fermento utilizado para a produção de pães são as leveduras, normalmente Saccharomyces cerevisiae, que consumirão os açúcares presentes para crescerem, liberando etanol, que javascript:void(0) fornece o aroma característico aos pães, e CO2, que é aprisionado na rede de glúten, fazendo com que os pães cresçam e apresentem maiores volumes. Os fermentos podem se apresentar nas seguintes formas: fresco prensado, seco e reidratável, seco e instantâneo, liofilizado, congelado, dentre outras. SAL O sal, além de fornecer sabor “salgado” e intensificar a percepção de outros sabores, proporciona o aumento da resistência à extensão do glúten. Além disso, influencia as características reológicas da massa, na formação da crosta e na conservação do produto, inibindo o crescimento de alguns microrganismos devido à umidade final do miolo. Se a quantidade de sal adicionada for muito baixa, haverá formação de pães que passarão pelo processo de fermentação muito rápido e terão excessivo volume, além de se apresentarem pegajosos. REOLÓGICAS São características relacionadas ao comportamento dessa massa quando submetidas à determinada força. GORDURA A gordura auxilia no aumento do volume, na produção de uma estrutura do miolo mais fina e macia, aumenta a flexibilidade do pão e fornece sabor. Normalmente, são adicionados muito pouca quantidade de gordura em produtos panificados em geral – nos pães, os limites de adição estão entre 1 e 5 %. ADITIVOS Os aditivos são aqueles agentes adicionados visando melhorar a produção da rede de glúten e as características finais dos pães. Nem todos os pães recebem aditivos. Dentre os mais utilizados, estão as enzimas, os surfactantes, agentes antioxidantes, agentes redutores, agentes branqueadores e inibidores microbianos. javascript:void(0) PROCESSAMENTO DE PÃES Basicamente, os pães são produzidos pela mistura de farinha de trigo, ou de demais cereais, água e ingredientes, formando uma massa que é fermentada por leveduras e, posteriormente, assada. O processamento pode ser realizado pelos seguintes métodos: direto, esponja e massa, processamento rápido e desenvolvimento mecânico da massa (CAUVAIN; YOUNG, 2009). No método direto, todos os ingredientes são adicionados no início do processo e, em seguida, a massa passa pelo processo de descanso por, no mínimo, uma hora antes da divisão, para que obtenha volume adequado. No método de esponja e massa, a farinha, água e o fermento formam uma massa que passa por longo período de fermentação para otimizar a ativação do fermento, sem que haja influência dos demais ingredientes em sua atividade. No processamento rápido, a fermentação ocorre por menos de uma hora, ou nenhum tempo de fermentação, e as alterações são obtidas durante o cozimento e através da adição de melhoradores, que darão volume adequado aos pães. Já no desenvolvimento mecânico, a etapa de mistura é responsável por dar energia suficiente para que ocorram as devidas alterações na massa, além da utilização de melhoradores como oxidantes e adição de água extra. PREPARO DOS INGREDIENTES PREPARO DA MASSA 1ª FERMENTAÇÃO MODELAGEM DA MASSA 2ª FERMENTAÇÃO COZIMENTO RESFRIAMENTO DOS PÃES CORTE E EMBALAGEM COMERCIALIZAÇÃO Figura 6 – Fluxograma de processamento de pães pelo método esponja. 1 Autor: PandaStudio / Fonte: Shutterstock PREPARO DOS INGREDIENTES Considerado um ponto crítico de toda cadeia de tecnologia de alimentos, pois a quantidade e qualidade dos ingredientes impacta diretamente no produto final. É necessário que os ingredientessecos, como sal e farinha, apresentem-se com umidade adequada e que o fermento esteja armazenado em condições que não inviabilize a sua atividade máxima. PREPARO DA MASSA Esta etapa inclui a mistura dos ingredientes, formando uma massa homogênea, assim como o amassamento. É necessário que haja dispersão uniforme dos ingredientes, gerando o início da formação da rede de glúten. Pode ser realizada manualmente ou com equipamentos. Quando é utilizado o método esponja, são adicionados nesta etapa apenas água, farinha de trigo e fermento biológico. Autor: Africa Studio / Fonte: Shutterstock 2 3 Autor: AngieYeoh / Fonte: Shutterstock 1ª FERMENTAÇÃO E DESCANSO Inicialmente, ocorre a adaptação dos microrganismos ao meio, enquanto as enzimas α e β- amilases quebram o amido em açúcares com formas mais simples e disponíveis, para que, em seguida, eles sejam consumidos pelas leveduras através da fermentação alcoólica e anaeróbica, formando uma massa que pode ser chamada de levain, pré-fermento ou esponja. Esta fermentação e ativação pode ser realizada pelo tempo de 1 a 4 horas ou por até 16 horas (CAVANAGH et al., 2010). O tempo de fermentação pode ser intercalado com algumas operações de sovas. Passado o tempo de fermentação adequado, os demais ingredientes são adicionados, e a massa é novamente amassada, a fim de incorporar os ingredientes, e colocada em repouso para a continuação da primeira fermentação. MODELAGEM A divisão e o boleamento é a etapa física que dá forma aos pães, obtendo uma massa com superfície lisa, menos pegajosa, que seja capaz de reter os gases formados durante a fermentação. Autor: Africa Studio / Fonte: Shutterstock 4 5 Autor: Nina_Hlupich / Fonte: Shutterstock 2ª FERMENTAÇÃO Nesta fase, busca-se recuperar parte da extensibilidade que foi alterada durante a modelagem e obter o volume adequado. Pode ser realizada de 40 a 120 minutos. COZIMENTO os principais objetivos do cozimento são aumentar a digestibilidade, devido à gelatinização do amido e desnaturação de proteínas, alterar o volume e a textura do produto, produzir sabor e cor por meio da volatilização de compostos, produção de aldeídos, ésteres e alguns ácidos, e formação de compostos escuros e aromáticos, conhecidos como melanoidinas, em virtude das reações de Maillard e da caramelização de dextrinas e açúcares. No início desta etapa, há formação de uma fina película de vapor condensado ao redor da massa, devido à diferença de temperatura entre ela e o forno – isto se torna uma barreira contra a perda de gás carbônico, gerando, consequentemente, um produto de maior volume. Autor: K_E_N / Fonte: Shutterstock 6 7 Autor: public-domain-pictures / Fonte: Pexels RESFRIAMENTO, ACONDICIONAMENTO E COMERCIALIZAÇÃO Após a etapa de cozimento, os pães já estão prontos para o consumo. Então, são resfriados, colocados em embalagens que mantenha a segurança microbiológica e com pouca permeação de umidade e ar, evitando alteração da textura, e comercializados Autor: sweet marshmallow / Fonte: Shutterstock PRODUÇÃO DE MASSAS ALIMENTÍCIAS CONTEXTUALIZAÇÃO De acordo com a Resolução RDC nº 263, de 22 de setembro de 2005, as massas alimentícias são definidas como produtos obtidos da farinha de trigo (Triticum aestivum L.) ou de outras espécies do gênero Triticum ou derivados de trigo durum (Triticum durum L.) e derivados de outros cereais, leguminosas, raízes ou tubérculos, resultantes do processo de empasto e amassamento mecânico, sem fermentação. Autor: LightField Studios / Fonte: Shutterstock As massas alimentícias constituem uma das formas mais antigas de alimentação e são muito versáteis, tanto do ponto de vista nutricional – grande quantidade de carboidratos e pequena quantidade de lipídios – quanto do ponto de vista gastronômico – apresenta variadas possibilidades de preparo. É um alimento produzido com tecnologia simples, de fácil preparo, rápido e atrativo, disponível nos mais variados formatos, tamanhos e cores. Está definitivamente incorporado ao hábito alimentar da maior parte da população, sendo consumido por todas as idades e classes sociais, servido como prato principal ou complemento, em muitas combinações, com alto índice de aceitabilidade (MALUF et al., 2010). As características responsáveis pelo aumento do consumo de massas alimentícias no Brasil são: a facilidade de preparo, estabilidade durante o armazenamento e custo relativamente baixo do produto (LEITÃO; GONÇALVES; VITTI, 1989). Além disso, massas alimentícias possuem excelente perfil nutricional, fornecendo carboidratos complexos com bom valor comercial. Autor: Africa Studio / Fonte: Shutterstock A determinação da qualidade das massas está diretamente relacionada às seguintes características: aparência, cor e comportamento durante e após o cozimento. Porém, a palatabilidade depois do cozimento é o parâmetro de maior relevância para os consumidores. Massas produzidas com farinha de trigo apresentam, como qualidade de cozimento e textura, pequena perda de sólidos em água, dobro de seu peso seco, firmeza, integridade e textura pouco pegajosa após o cozimento (SOZER, 2009). Textura é definida, para massas alimentícias, como a percepção sensorial da estrutura do alimento e a reação desta a determinada força aplicada (SZCZESNIAK, 2002). É um atributo importante de aceitação de alimentos pelo consumidor e, por isso, consiste em um aspecto crítico da avaliação da qualidade das massas alimentícias (MOSKOWRTZ; DRAKE, 1972). A qualidade da proteína, as condições de secagem, a composição da água de cozimento e a absorção de água das proteínas durante o cozimento são os fatores que influenciam a textura das massas alimentícias (MATSUO; BRADLEY; IRVINE, 1972). De acordo com Meneglassi e Leonel (2006) com o desenvolvimento de fórmulas e tecnologias, diferentes formas e composições de massas alimentícias podem ser encontradas, constituindo- se como um interessante objeto de pesquisa no que diz respeito à obtenção de novos produtos à base de matérias-primas alternativas. ATENÇÃO Vale destacar, que visando melhorar a qualidade nutricional das massas alimentícias, propostas para elaboração de formulações com substituição total ou parcial da farinha de trigo por outras farinhas têm sido exploradas. Estudos comprovam que massas alimentícias, não convencionais e de boa qualidade, podem ser obtidas a partir da utilização de tecnologias que explorem as propriedades funcionais (tecnológicas) de componentes da matéria-prima, como o amido, ou com adição de farinhas ricas em proteínas, que são capazes de formar estrutura semelhante à do glúten. Autor: Tiwiplusk / Fonte: Shutterstock Figura 7 - Produção de massas alimentícias em extrusora. ETAPAS DE PROCESSAMENTO A produção de massas alimentícias é um processo que envolve basicamente a pesagem de ingredientes; mistura; o amassamento da massa formada, visando a homogeneização e extrusão, que é a etapa na qual a massa é forçada a passar por uma trefila (forma) que lhe dará o formato desejado, como, por exemplo, talharim, espaguete, parafuso; seccionamento, que é o corte de acordo com o comprimento de interesse, e o acondicionamento em embalagens (CIACCO & CHANG, 1982). O processo é ilustrado pela Figura 7. Quando o objetivo é a obtenção de uma massa seca, será adicionada ao final da extrusão a secagem. O fluxograma de processamento é apresentado na Figura 8. PESAGEM DA MATÉRIA-PRIMA MISTURA AMASSAMENTO MODELAGEM/TREFILAÇÃO SECAGEM ACONDICIONAMENTO EM EMBALAGENS Figura 8 – Fluxograma de processamento de massas alimentícias secas. 1. PESAGEM E PREPARAÇÃO DOS INGREDIENTES Normalmente, as massas tradicionais são produzidas com farinha de trigo, ovos, água e sal. A farinha de trigo utilizada é a semolina, que é aquela obtida pelo processamento de trigo duro. Farinhas que apresentam alto teor de glúten de boa qualidade possuem melhor hidratação e geram massas mais fortese elásticas, que perdem menos massa durante o cozimento e continuam firmes em água quente, enquanto farinhas com glúten de baixa qualidade ou que apresentem baixo teor serão mais quebradiças (CIACCO; CHANG, 1982). A adição de ovos à massa auxilia na elevação de quantidade de nutrientes, principalmente proteínas, altera o sabor, dando mais palatabilidade ao produto, e auxilia na formação de uma coloração adequada. A água utilizada deve ser inodora e livre de contaminantes. É utilizada para hidratação dos ingredientes e, principalmente para a formação da rede de glúten. Com a hidratação da farinha de trigo, gliadina e glutenina, a estrutura de glúten é formada, fornecendo à massa características viscoelásticas adequadas. Já o sal é utilizado visando a melhoria do sabor, pois não apresenta influência tecnológica, ou seja, não interfere no processamento de maneira significativa. 2. MISTURA E AMASSAMENTO Normalmente, esta etapa é realizada dentro da extrusora. Ao colocar todos os ingredientes na extrusora, eles são misturados por hélices que giram em uma velocidade relativamente baixa. Em seguida, são direcionados a uma rosca sem fim, onde ocorre o amassamento e a movimentação da massa, até que ela entre em contato com a trefila. 3. TREFILAÇÃO E SECÇÃO A massa, já devidamente homogeneizada, é forçada a passar por uma trefila, que é uma forma que a moldará de acordo com o produto de interesse, podendo ser talharim, espaguete, parafuso, dentre outros. Alguns exemplos de trefilas são apresentados na Figura 9. O comprimento da massa é definido de acordo com o momento em que ela é seccionada, ou seja, cortada. null Autor: anônimo / Fonte: riograndeassistencia.com.br 4. SECAGEM Esta etapa é realizada para remoção de água das massas e produção de massas denominadas secas. Pode ser feita em secador com circulação de ar forçada. Normalmente, esta etapa é realizada por dois processos de secagem, um com temperatura mais baixa (45°C) seguido de um aquecimento mais intenso (65°C). Este procedimento pode prevenir a formação de manchas brancas ou massas excessivamente frágeis. Depois de prontas, as massas são embaladas e comercializadas. Quando secas, não é necessário um método de conservação, porém as massas que não sofrerão processo de desidratação, chamadas massas frescas, precisam ser comercializadas sob resfriamento Alguns testes são realizados para avaliar a qualidade das massas, como Testes de cozimento seguindo o método n° 16-50, da American Association of Cereal Chemists (AACC, 1995), no qual são avaliados o tempo de cozimento, índice de absorção de água que mede o aumento de peso da massa, coeficiente de expansão do volume, que quantifica a variação de volume após cozimento, e a perda de sólidos solúveis, que identifica quanto de massa é perdido na água de cozimento. Autor: eneida-nieves / Fonte: Pexels VÍDEO COM AVALIAÇÃO Neste vídeo, você conhecerá o processo de formação do glúten. VERIFICANDO O APRENDIZADO 1. A PRODUÇÃO DE PÃES ENVOLVE DIFERENTES ETAPAS, E UM DOS PRINCIPAIS FATORES PARA A OBTENÇÃO DE UM PÃO DE BOA QUALIDADE É A QUALIDADE E QUANTIDADE DOS INGREDIENTES. SOBRE OS INGREDIENTES UTILIZADOS PARA FABRICAÇÃO DE PÃES E SUAS INFLUÊNCIAS NO PRODUTO FINAL, MARQUE A ALTERNATIVA INCORRETA. A) A farinha utilizada para a produção de pães deve ser fraca. Um farinha forte contém grande quantidade de proteínas formadoras de glúten, que impedirão que o pão cresça e obtenha volume adequado. B) É importante a presença de amido na farinha de trigo, pois este fornece açúcares, que serão fermentados pelas leveduras. C) A água deve ser utilizada em quantidade adequada e não deve conter grandes quantidades de minerais. D) Normalmente, o microrganismo Saccharomyces cerevisiae é o mais utilizado na produção de pão, sendo responsável pela fermentação alcoólica. 2. AS MASSAS ALIMENTÍCIAS SÃO MUITO CONSUMIDAS DEVIDO À SUA FACILIDADE DE PREPARO E SABORES AGRADÁVEIS. SOBRE A PRODUÇÃO DE MASSAS, ASSINALE A ALTERNATIVA INCORRETA. A) É utilizada semolina para a produção de massas. B) O trigo do qual é obtido a farinha é considerado duro. C) A secagem não apresenta importância para a qualidade da massa; sendo assim, pode ser realizada de diferentes formas sem alterar as características finais. D) A trefila é a parte do equipamento que dará forma às massas. GABARITO 1. A produção de pães envolve diferentes etapas, e um dos principais fatores para a obtenção de um pão de boa qualidade é a qualidade e quantidade dos ingredientes. Sobre os ingredientes utilizados para fabricação de pães e suas influências no produto final, marque a alternativa incorreta. A alternativa "A " está correta. A letra A está incorreta, pois foi visto que, quanto maior a quantidade e qualidade das proteínas formadoras de glúten na farinha, maior é a força dela. Para a produção de pães, é ideal que sejam usadas farinhas fortes, para que a rede de glúten formada seja capaz de reter o gás e, assim, dar volume ao produto final. Portanto, a primeira parte desta alternativa está incorreta, e as demais alternativas apresentadas contêm informações corretas sobre o tema. 2. As massas alimentícias são muito consumidas devido à sua facilidade de preparo e sabores agradáveis. Sobre a produção de massas, assinale a alternativa incorreta. A alternativa "C " está correta. No tópico Produção de massas alimentícias, na descrição das etapas, mais precisamente na etapa de secagem, é possível aprender que a secagem da massa é comumente realizada em duas etapas, para que não sejam formados pontos brancos e a massa final não se apresente muito quebradiça. Sendo assim, se esta etapa não for realizada de maneira correta, o produto final poderá apresentar defeitos e características indesejáveis. CONCLUSÃO Autor: eneida-nieves / Fonte: Shutterstock CONSIDERAÇÕES FINAIS Produtos panificados são produzidos e consumidos desde que o homem iniciou seu desenvolvimento. Muitas alterações e melhorias foram realizadas durante o tempo, e isto só aumentou o consumo destes itens. Basicamente, os produtos panificados são feitos com farinha, água e fermento, visando a produção de produtos fermentados, e demais ingredientes com funções tecnológicas ou sensoriais. A farinha é o principal insumo para a formação de um produto panificado de qualidade. Atualmente, diversas farinhas têm sido incorporadas às produções de panificados, porém a farinha de trigo continua sendo a mais utilizada devido à formação do glúten, que gera características sensoriais de intensa aceitação pelos consumidores. A qualidade da farinha está diretamente ligada ao processamento do grão de trigo, principalmente no que se refere à sua composição química e ao seu processo de moagem. Por exemplo, é ideal que a farinha apresente granulometria e quantidade de minerais adequadas, a fim de que se possa obter um produto panificado com as características desejadas. Além da qualidade da farinha, os demais ingredientes usados na produção de panificados, assim como as condições dos processos aplicadas, influenciarão diretamente as características do produto final. AVALIAÇÃO DO TEMA: REFERÊNCIAS AMERICAN ASSOCIATION OF CEREAL CHEMISTS (AACC). Approved methods of the AACC. 9. ed. Saint Paul, 1995. v. 1-2. Consultado em meio eletrônico em: 7 ago. 2020. ABIP. A história do pão. Consultado em meio eletrônico em: 25 maio 2020a. ABIP. Indicadores da panificação e confeitaria brasileira em 2019. Consultado em meio eletrônico em: 25 maio 2020b. ARAÚJO, J. M. A. Química de alimentos: teoria e prática. 15. ed. Viçosa: Universidade Federal de Viçosa, 2011. BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Instrução Normativa Nº 8, de 2 de junho de 2005. Aprova o Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade da Farinha de Trigo, conforme o anexo desta Instrução Normativa. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 2 de junho de 2005a. BRASIL. Resolução RDC Nº 263, de 22 de setembro de 2005. Diário Oficialda União. Brasília, 23 set. 2005b. Seção p. 368. BRANDÃO, S. S.; LIRA, H. de L. Tecnologia de panificação e confeitaria. Recife: EDUFRPE, 2011. CARMIGNOLA, E.; OLIVEIRA, J. Dossiê panificação: tecnologia das enzimas em panificação. Nº 42. Food Ingredients Brasil, 2017. Consultado em meio eletrônico em: 7 ago. 2020. CAUVAIN, S. P.; YOUNG, L. S. Tecnologia da panificação. Barueri: Manole, 2009. CHIANG, S.; CHEN, C.; CHANG, C. Effect of wheat flour protein compositions on the quality of deep-fried gluten balls. Cereal Chemistry. v.97, p. 666-673, 2006. Consultado em meio eletrônico em: 7 ago. 2020. CIACCO, C. F.; CHANG, Y. K. Tecnologia de massas alimentícias. Serie Tecnologia Agroindustrial. 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Por meio delas, será possível entender os processos tecnológicos utilizados para a produção de farinha de trigo e produtos panificados, suas características e os fatores a serem avaliados durante a produção. Pesquise as seguintes obras: Trigo: características e utilização na panificação, de Patricia Matos et al. Tecnologia de panificação e confeitaria, de Silvana Soares Brandão e Hércules de Lucena. Parâmetros de qualidade sensorial em produtos de panificação: uma revisão de literatura, de Jordania Candice Costa Silva et al. Efeitos de processo de secagem e tempo de armazenamento na qualidade tecnológica de trigo, de Janete Deliberali et al. Cada tipo de trigo apresenta determinadas características e pode ser utilizado para produção de produtos específicos. O dossiê técnico Qualidade do trigo-mole: dependência dos fatores genéticos e ambientais apresenta mais informações sobre este tipo de trigo e os fatores que influenciam na qualidade deste grão. Acompanhe os sites da Associação Brasileira da Indústria de Panificação e Confeitaria (ABIP) e Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias e Pães e Bolos Industrializados (ABIMAP) para obter mais informações sobre este setor. CONTEUDISTA Maraysa Rodrigues Furtado CURRÍCULO LATTES javascript:void(0); DEFINIÇÃO Definição dos elementos necessários para construção e aplicação dos testes de análise sensorial. Aplicabilidade de diferentes tipos de testes para obtenção de resultados e análises deles. PROPÓSITO Conhecer as possibilidades de testes sensoriais que podem ser aplicados de modo a obter um direcionamento no processo produtivo, objetivando atender às demandas dos consumidores. OBJETIVOS MÓDULO 1 Identificar os elementos básicos para a realização de uma análise sensorial MÓDULO 2 Listar os diferentes testes de análise sensorial de acordo com o objetivo proposto INTRODUÇÃO Análise sensorial consiste em uma área científica usada para medir, analisar e interpretar reações das características dos alimentos, os chamados atributos sensoriais. A aplicação da análise sensorial também pode ser utilizada em outras esferas industriais, como cosméticos, automobilística, higiene pessoal, perfumaria, têxtil e farmacológica. Os atributos analisados são caracterizados e percebidos utilizando os sentidos humanos: Autor: vectortatu / Shutterstock VISÃO Autor: vectortatu / Shutterstock OLFATO Autor: vectortatu / Shutterstock SABOR Autor: vectortatu / Shutterstock TATO Autor: vectortatu / Shutterstock AUDIÇÃO Os procedimentos utilizados para realizar as análises sensoriais promovem condições controladas para minimizar variações que podem interferir na ação do provador ou julgador. A ANÁLISE SENSORIAL É UMA CIÊNCIA QUANTITATIVA; DESSE MODO, DADOS NUMÉRICOS SÃO COLETADOS PARA MEDIR A RELAÇÃO ENTRE AS CARACTERÍSTICAS DO PRODUTO E A PERCEPÇÃO HUMANA. O delineamento experimental e a interpretação adequada dos resultados são importantes para assegurar a obtenção de dados de boa qualidade, além de promover informação suficiente para uma análise estatística (YU et al., 2018), concedendo, portanto, subsídio para auxiliar em tomadas de decisões referentes à cadeia de processo e à comercialização de produtos. Os resultados obtidos na análise sensorialsão utilizados como uma ferramenta decisória nas etapas de: Desenvolvimento de um novo produto Investigação do efeito das alterações das matérias-primas Avaliação de embalagens Análise descritiva de protótipos Os resultados também são fundamentais para determinar os desejos do consumidor durante o desenvolvimento do conceito do produto para evitar fracassos. EXEMPLO São exemplos de aplicação de análise sensorial: Influência sobre o consumidor de um programa de redução de custo, onde ingredientes ou embalagens de menor valor são usados para substituir os previamente usados; Identificação se a aplicação de processos menos onerosos e a produção num local diferente mantêm o padrão da qualidade; Determinação da vida de prateleira e testes de mercado de novos produtos ou produtos reformulados. Os processos utilizados para estudar a preferência ou aceitabilidade de um produto diferem daqueles usados pela equipe de avaliadores treinados. O grupo interno de avaliadores descreve e mede objetivamente as propriedades sensoriais, colaborando com o analista, que conta com essa informação para controlar o processo durante o desenvolvimento de um produto. O grupo de comercialização estuda a preferência e aceitabilidade dessa mercadoria em consequência da qualidade sensorial percebida pelo consumidor, determinando, dessa forma, o impacto emocional do produto sobre o consumidor. Desse modo, a avaliação sensorial fornece suporte técnico para pesquisa, industrialização, marketing e controle de qualidade. MÓDULO 1 Identificar os elementos básicos para a realização de uma análise sensorial RECEPTORES SENSORIAIS Todo objeto, independentemente de ser um alimento, perfume, cosmético ou um carro, apresenta características individuais, que recebem o nome de atributo. Os atributos influenciam na percepção psicológica e fisiológica do produto analisado, e essas características são percebidas a partir das sensações promovidas nos receptores sensoriais humanos. A interpretação dessas sensações nós dá subsídios para uma análise sensorial do produto. Assim sendo, os receptores sensoriais humanos atuam como um instrumento de análise (PAN et al., 2019). Existem cinco receptores sensoriais: OLFATO Autor: vectortatu / Shutterstock O olfato detecta principalmente elementos químicos voláteis do produto; os odores perceptíveis são caracterizados por moléculas voláteis odoríferas. A sensibilidade ao odor pode ser alterada caso o indivíduo sofra de adaptação e fadiga – esta ocorre quando somos expostos a produtos com odores intensos repetidamente. Ao mastigar um alimento, seu aroma é liberado na boca, passando pelas narinas por meio das cavidades nasais ou nasofaringe, até chegar ao epitélio olfatório. O sistema olfatório possui alto número de receptores com sensibilidade diferenciada de acordo com o tamanho de moléculas específicas; desse modo, os receptores são estimulados por moléculas voláteis específicas. O sabor de um produto é a união das percepções dos odores provenientes dos compostos voláteis do alimento na boca somados ao paladar do produto. PALADAR autor vectortatu / Shutterstock São reconhecidos cinco gostos percebidos pela mucosa da boca e da língua: doce, salgado, ácido, amargo e umami. O gosto metálico não entra nessa relação, pois se trata de uma mistura de sensações olfatória e gustativa. A percepção do gosto ocorre por meio de células receptoras localizadas na parte frontal, lateral e no fim da língua, bem como no palato, na bochecha e no esôfago. Os receptores gustativos são sensíveis ao estímulo do gosto umami, que foi identificado a partir da pesquisa sobre a atuação do glutamato monossódico, conhecido como realçador de sabor. O umami é um gosto básico associado à presença de monofosfato de inosina e monofosfato de guanosina. Existem anomalias fisiológicas ligadas à sensação de sabor que envolvem a não percepção dos gostos, denominada ageusia, a redução da sensação de gostos, chamada de hipogeusia, e a disfunção da sensação de gosto, a disgeusia. VISÃO Autor: vectortatu / Shutterstock Os olhos, responsáveis pela visão, têm por objetivo avaliar atributos como tamanho, forma, textura e cor. As características visuais são importantes para o controle de qualidade da matéria-prima, como a avaliação do frescor de produtos in natura – frutas e peixes – e em etapas do processamento industrial – cor da torrefação do café. O aspecto visual é utilizado pela indústria como uma ferramenta atrativa ao consumidor, como, por exemplo, a coloração de doces ou a decoração de pratos elaborados. As características visuais do alimento podem induzir o consumidor a ter uma expectativa em relação ao sabor correspondente. Nos olhos, o receptor visual é a retina, que contém células especializadas (cones) para detecção de cor e visualização da forma e da luz escura (bastonetes). TATO Autor: vectortatu / Shutterstock Com o tato, podemos analisar atributos como textura, forma, peso, temperatura e consistência de um produto. O tato pode ser percebido pela boca e pelas mãos. Na boca, participam da análise os lábios, as bochechas, as gengivas, a língua e o palato. A língua move o alimento pela boca a fim de mudar sua posição durante a mastigação, espalhando-o uniformemente. Ao pressionar o alimento contra o palato, pode ser sentida a pressão reversa do alimento, identificando se um alimento é macio ou rígido. Os dentes também têm participação importante na avaliação sensorial da textura, já que as terminações do nervo dental, que acaba na membrana periodontal e envolve o dente, são sensíveis às pressões e colaboram para a percepção da textura. As terminologias utilizadas para definição dos alimentos são feitas de acordo com seu estado físico: viscosidade, para alimentos líquidos homogêneos; consistência e firmeza, para alimentos semissólidos ou líquidos heterogêneos; e textura, para alimentos sólidos. A textura é importante, pois, além de dar satisfação ao consumidor, ajuda no exercício mastigatório. Alimentos crocantes estão diretamente relacionados a uma sensação de prazer durante a alimentação. AUDIÇÃO Autor: vectortatu / Shutterstock O som provocado pela mordida ou mastigação completam a percepção da textura, fazendo parte da satisfação de comer. O receptor sensorial é o ouvido interno, que percebe as vibrações da mastigação e da deglutição, que alcançam o ouvido interno por meio da trompa de Eustáquio e pelos ossos do crânio. LABORATÓRIO DE ANÁLISE SENSORIAL Os testes devem ser realizados em locais tranquilos, livres de distúrbios e fácil de se concentrar, para que os resultados obtidos pelos provadores possam ser relacionados significativamente com as medições mecânicas e instrumentais. O ambiente deve ser distante de odores, barulhos, de fácil acesso e com cabines individuais, para evitar a interação entre os avaliadores. Em relação à estrutura física, a área de teste deve ser independente da cozinha, e a iluminação deve ser preferencialmente natural ou feita com luz fluorescente. Nas cabines individuais, deve ser oferecida uma opção de luz colorida para mascarar a aparência das amostras. A divisão entre a área de preparação e as cabines deve ser separada por portas, com um sistema sinalizador, a fim de que o pesquisador que está conduzindo a análise identifique quando o avaliador chegou à cabine e está pronto para iniciar o teste. Autor: Giacomo Pratellesi / Fonte:Shutterstock O procedimento para o teste sensorial deve ser rígido em relação à quantidade de amostra apresentada, com o mínimo de manuseio e rapidez no preparo. Os avaliadores devem ser instruídos a não usar perfume e cosmético com odor forte, não fumar, não tomar café nem mascar chiclete por até 20 minutos antes da avaliação sensorial. Fonte: Próprio Autor Proposta de layout para laboratório de análise sensorial com cabines individuais, área de preparo das amostras, sala de reunião e escritório. PREPARODA AMOSTRA Os avaliadores podem sofrer influências de acordo com o modo como as amostras são oferecidas. Desse modo, devem ser seguidas regras de padronização. As amostras devem ser padronizadas em relação à quantidade, ao tamanho, tipo de corte e à temperatura, garantindo a uniformidade das amostras. Estas devem ser codificadas individualmente com números de três dígitos ao acaso, com apresentação balanceada e aleatória, de modo que todas as amostras deverão aparecer o mesmo número de vezes em cada posição para cada avaliador. Autor: mastermind1 / Fonte: Shutterstock PERFIL DOS AVALIADORES Para participar de um teste sensorial, o indivíduo deve ser voluntário, ter interesse em participar e ter suas habilidades testadas previamente de acordo com a necessidade do teste. Durante o recrutamento, devem ser excluídos candidatos que não atendam às necessidades desejadas para o teste, e o recrutamento pode ser feito utilizando questionário ou testes sensoriais. Para alguns testes sensoriais, há necessidade de um treinamento prévio para os avaliadores. O número de avaliadores depende do objetivo do teste; quando for necessário medir a diferença entre amostras, será necessária maior quantidade de provadores. Em condições controladas de laboratório, quando há garantia da individualidade e das boas condições de concentração do avaliador, deve-se utilizar entre 50 e 100 respostas. O perfil desejado da população deverá ser definido segundo o objetivo do teste, o público-alvo, a frequência de consumo, o grau de familiaridade com o produto, além de diferentes classes sociais e faixa etária. POSSÍVEIS ERROS DE RESULTADOS Quando as condições do teste não são atendidas corretamente, podem ocorrer alguns erros, que levam a uma interpretação equivocada dos resultados obtidos. ERRO DE ADAPTAÇÃO Adaptação sensorial é a modificação temporária da acuidade de um órgão sensorial em virtude da estimulação contínua ou repetida. Na análise sensorial, a adaptação é não desejável, pois causa perda de variabilidade dos limiares de intensidade dos atributos analisados. Acuidade Na área da Fisiologia, acuidade é a capacidade acentuada de sentir e distinguir estímulos sensoriais. ERRO DE AMPLIAÇÃO OU DIMINUIÇÃO Em relação ao erro de diminuição, dois fatores podem ocorrer: um provocado pelo antagonismo, quando há julgamento de dois ou mais estímulos, cuja associação provoca um javascript:void(0) nível de sensação inferior ao esperado, podendo ocorrer sobreposição dos efeitos individuais de cada um. Já a camuflagem ocorre quando há diminuição da intensidade ou modificação da qualidade da percepção de um estímulo por ação simultânea de outro. Esses erros podem ser solucionados quando os estímulos são apresentados separadamente. Quando exposto a um estímulo, a ampliação percebida pelo avaliador ocorre quando há sinergismo de ação conjugada de dois ou mais estímulos, cuja associação provoca um nível de sensação superior ao esperado, levando ao aumento da intensidade ou à modificação da qualidade de percepção de um estímulo por ação simultânea de outro. ERRO DE EXPECTATIVA Ocorre quando o responsável pela realização do teste fornece informações exageradas sobre as amostras ou o objetivo do estudo. Essa atitude pode influenciar as respostas dos avaliadores, que geralmente detectam aquilo que se espera detectar. Para evitar esse tipo de erro, deve-se fornecer apenas as informações estritamente necessárias para a sua realização. ERRO DE HABITUAÇÃO Acontece quando, em teste com múltiplas amostras, o estímulo vai aumentando ou diminuindo gradualmente de intensidade, e, ao ser perceptível ao provador, este atua de forma já esperada pela sequência crescente. Para evitar esta situação, o ideal é a apresentação de amostras manipuladas ou de produtos diferentes, além do balanceamento da oferta de amostras. ERRO DE ESTÍMULO O avaliador, na tentativa de responder corretamente ao que lhe é solicitado, pode ser influenciado por características não relevantes do produto, como, por exemplo, sinais que indiquem diferenças entre as amostras, como tamanho e cor. Para evitar esse erro, é necessário que a aparência seja o mais uniforme possível, podendo também fazer uso de lâmpadas coloridas, para mascarar o aspecto das amostras. ERRO LÓGICO Ocorre quando um avaliador chega a uma avaliação porque pensa que certa característica está logicamente associada à outra. Por exemplo, um avaliador pode associar um sabor mais ácido a um queijo mais claro, e assim indicar como mais ácida a amostra de queijo mais clara. As lâmpadas coloridas podem minimizar esse erro. EFEITO DE HALO Ocorre quando se solicita ao avaliador que avalie simultaneamente duas ou mais características de um mesmo produto. Os avaliadores tendem a criar uma impressão global do produto e a classificar as características mais relevantes de acordo com essa impressão. Desse modo, tenderão a atribuir classificações semelhantes àquela que atribuiu primeiro. Para reduzir esse efeito, as propriedades importantes deverão ser avaliadas separadamente. EFEITO DE ORDEM Para minimizar o efeito de ordem, deve-se apresentar as amostras de forma aleatória – a ordem de apresentação de cada combinação é regida pelas leis do acaso – e balanceada – cada combinação possível é apresentada com a mesma frequência. ESCALAS As análises sensoriais fazem uso de ferramentas como escalas para determinar a percepção dos avaliadores. As escalas podem ser elaboradas utilizando-se números ou palavras, e podem ser usadas para expressar a presença de um atributo (Doçura, dureza, maciez.) ou a intensidade. (Muito macio, ideal ou muito duro.) Quando as palavras são utilizadas para posterior análise dos resultados, o responsável pelo teste deve atribuir valores numéricos às palavras, a fim de permitir a análise estatística dos dados. O uso de escalas torna o teste sensorial mais informativo e representa uma forma de quantificar a intensidade das percepções. A eficiência de uma escala sensorial está ligada à existência de intervalos suficientes para detectar pequenas diferenças entre as amostras. Podem ser necessárias etapas de treinamento dos provadores para conseguirem utilizar as escalas de forma consistente entre as amostras. A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) NBR 14141 (1998) considera os seguintes tipos de escala nos testes sensoriais: ESCALA NOMINAL ESCALA ORDINAL ESCALA DE PROPORÇÃO ESCALA DE INTERVALO ESCALAS LINEARES ESCALAS DE ESTIMATIVA DE MAGNITUDE OU ESCALA DE PROPORÇÃO Especifica somente classes que não possuem nenhuma relação quantitativa entre si. Utiliza categorias como uma série ordenada, porém sem expressar a diferença entre elas. Envolve a atribuição de números pelos avaliadores para indicar as proporções das intensidades sensoriais em relação à uma referência. Assume igualdade de distância entre os pontos da escala e origem arbitrária. A grande maioria das escalas utilizadas em análise sensorial pode ser classificada como escalas de intervalo, importantes na avaliação de atributos específicos dos testes descritivos e nos testes de aceitação, como, por exemplo, a escala hedônica e a escala de atitude. A escala hedônica é uma escala de intervalo que expressa o grau do consumidor gostar ou desgostar de uma amostra e permite o uso de expressões faciais. As escalas com figuras foram desenvolvidas para crianças, porém há escalas desse modelo destinadas a adultos (AYKAN et al., 2020). Escalas de atitude expressam atitude, opiniões ou visão do nível de aceitação de um produto. As escalas de intervalo podem ainda ser classificadas quanto à estrutura, cujos intervalos são associados a números ou termos descritivos. Fonte: adaptado de BATISTA et al. (2010). Ficha de avaliação sensorial de produto utilizando escala hedônica com expressões faciais. São escalas não estruturadas ou lineares com linha demarcada por expressões quantitativas nas extremidades. Em uma escala linear, o avaliador assinalaa intensidade de determinado estímulo sensorial por meio de uma marca vertical sobre a linha horizontal (Figura 3). As marcas são convertidas em números por meio da medida da posição de cada marca na escala usando uma régua ou digitalizadores em sistemas computadorizados. Os comprimentos mais comuns para as escalas lineares são 9, 10 e 15cm. O uso de mais de duas âncoras tende a transformar a escala linear em escala de categoria, o que pode ser ou não desejável. Normalmente, a extremidade esquerda da escala corresponde a nenhum ou intensidade 0, enquanto a extremidade direita representa grande quantidade ou intensidade 10. Em alguns casos, escalas bipolares, isto é, ancoradas com estímulos contrários, são utilizadas, como, por exemplo, forte e fraco, doce e salgado ou duro e macio, conforme observado na Figura 3 (MEILGAARD, 1999). Fonte: MEILGAARD, 1999 Ficha de avaliação sensorial para avaliação de atributos utilizando escala linear. Método de escala baseado na lei de Stevens, no qual os julgadores atribuem valores relativos à intensidade do estímulo percebido nas amostras a uma intensidade inicial, cujo valor foi previamente estabelecido; nesse caso, é chamado de módulo ou definido livremente pelo próprio julgador (Moskowitz, 1983). ANÁLISE SENSORIAL NO DESENVOLVIMENTO DE NOVOS PRODUTOS: UMA VISÃO CIENTÍFICA Neste vídeo, identificaremos os tipos de escala e os testes sensoriais adotados na literatura científica para o desenvolvimento de novos produtos. VERIFICANDO O APRENDIZADO 1. A ANÁLISE SENSORIAL É BASEADA NA DETERMINAÇÃO DA SENSAÇÃO QUE UM ATRIBUTO DE UM PRODUTO PROMOVE NO INDIVÍDUO. AS SENSAÇÕES SÃO RELATIVAS AOS SENTIDOS. ASSINALE A OPÇÃO QUE RELACIONA CORRETAMENTE UM ATRIBUTO DE UMA AMOSTRA AO SENTIDO UTILIZADO PARA ANALISÁ-LO: A) Cor amarela – tato. B) Odor adocicado – visão. C) Textura – tato. D) Sabor salgado – audição. 2. DIVERSAS ESCALAS SÃO APLICADAS NOS TESTES SENSORIAIS. PORÉM, TODAS APRESENTAM VANTAGENS E DESVANTAGENS. UMA DAS ESCALAS ESTUDADAS CONSISTE EM UMA LINHA RETA, ONDE O AVALIADOR MARCARÁ, DE FORMA VERTICAL, O PONTO ONDE A INTENSIDADE DAQUELE ATRIBUTO ESTÁ REPRESENTADA. ASSINALE A ALTERNATIVA RELATIVA A ESSA DESCRIÇÃO. A) Escala hedônica. B) Escala linear. C) Escala de intervalo. D) Escala de proporção. GABARITO 1. A análise sensorial é baseada na determinação da sensação que um atributo de um produto promove no indivíduo. As sensações são relativas aos sentidos. Assinale a opção que relaciona corretamente um atributo de uma amostra ao sentido utilizado para analisá-lo: A alternativa "C " está correta. Cada atributo deve ser analisado de forma qualitativa e quantitativa utilizando o sentido que lhe é característico. A textura do alimento deve ser sentida na boca, com o auxílio da mastigação, e da língua, que espalhará o alimento uniformemente. Dente e bochecha também atuam no processo de avaliação da textura do produto, assim como o tato. 2. Diversas escalas são aplicadas nos testes sensoriais. Porém, todas apresentam vantagens e desvantagens. Uma das escalas estudadas consiste em uma linha reta, onde o avaliador marcará, de forma vertical, o ponto onde a intensidade daquele atributo está representada. Assinale a alternativa relativa a essa descrição. A alternativa "B " está correta. A escala linear consiste em uma linha horizontal de, aproximadamente, 8cm. Nela, o avaliador deve marcar a intensidade do atributo analisado. Usualmente, a extremidade esquerda indica o ponto mais fraco ou menos intenso, e a extremidade direita, o contrário. A maior vantagem dessa escala é a liberdade dada ao provador, mas pode apresentar falta de reprodutibilidade como desvantagem. MÓDULO 2 Listar os diferentes testes de análise sensorial de acordo com o objetivo proposto No módulo anterior, foram apresentadas as necessidades básicas para a adequada performance de testes sensoriais. De acordo com o objetivo a ser analisado e o público-alvo, diferentes testes podem ser aplicados. TESTES DISCRIMINATIVOS O objetivo dos testes discriminativos, também chamados analíticos, é avaliar efeitos específicos por meio de discriminação simples, ou seja, os testes indicam se as amostras são iguais ou diferentes. Os testes discriminativos são diretos e, quando de escolha forçada, permite a análise estatística dos dados. Estes métodos são aplicáveis tanto para fins de controle de qualidade quanto para fins de pesquisa. Os métodos também podem ser utilizados no desenvolvimento de novos produtos, para se estabelecer o possível efeito de novos ingredientes ou de diferentes processos sobre as características sensoriais do produto. Autor: kosem.bin / Fonte:Shutterstock As equipes sensoriais destinadas aos testes discriminativos são, em geral, pequenas e pré- selecionadas. As condições de teste devem ser controladas, e as amostras, homogêneas. A escolha do teste adequado depende do objetivo específico da comparação e de características peculiares do produto. Geralmente, os testes são muito sensíveis, permitindo detectar diferenças mínimas entre as amostras. ATENÇÃO Não é recomendado associar os testes discriminativos com outras avaliações que envolvam julgamento quanto à qualidade, ao grau de diferença ou à preferência, uma vez que tendem a distrair a atenção dos julgadores do objetivo principal do teste, podendo levar a erros e distorções. No modo de escolha forçada, os provadores são forçados a escolher uma amostra, e o resultado é designado como correto ou incorreto. A opção por similaridade cabe quando é importante caracterizar a existência de similaridade entre amostras, e não diferenças. Por exemplo, quando se quer testar se um novo fornecedor de determinado ingrediente, ou até a adição de um novo ingrediente, não causará alterações sensoriais perceptíveis no produto. Nesse caso, os parâmetros estatísticos que definem a sensibilidade do teste, bem como o número de julgamentos totais, são estipulados de acordo com o objetivo do teste. TESTE TRIANGULAR (ABNT NBR 12995 1993) Aplicável quando se quer estabelecer a existência ou não de diferença sensorial entre dois produtos. É importante quando tratamentos distintos produzem alterações no produto que não devem ser caracterizadas por meio de um ou dois atributos. Além disso, é indicado para determinar a diferença global entre as amostras sem especificação de qual atributo foi afetado, além de selecionar e monitorar julgadores quanto à habilidade de discriminar diferenças sensoriais. Fonte: Próprio Autor Exemplo de teste triangular. Três amostras, sendo duas iguais (AA) e uma diferente (B). Todas identificadas de forma individual com número de três algarismos aleatórios. O princípio do teste consiste em apresentar três amostras codificadas acompanhadas das instruções de que duas amostras são iguais e uma é diferente. Em seguida, é solicitado que prove cada amostra da esquerda para a direita e indique a amostra diferente. O responsável pelo teste deverá optar por uma das seguintes possibilidades: Escolha forçada Obriga os julgadores a indicar a amostra diferente Escolha não forçada Permite a resposta "nenhuma diferença" Em geral, são utilizadas equipes de 20 a 40 julgadores, porém, quando o teste for de similaridade, é necessário de 40 a 100 julgadores. Estes podem ser selecionados de acordo com acuidade sensorial e familiaridade com o produto, devem estar motivados e receber informação clara sobre o procedimento do teste, evitando-se dados específicos. O teste deve ser realizado sob controle de iluminação, e, para reduzir o efeito de variações de cor, as amostras devem ser oferecidas simultaneamente e preparados números iguais das seis possíveis combinações entre as amostras (ABB, BAA, AAB, BBA, ABA, BAB). Autor: Olha Ukhal / Shutterstock ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS Nos testes onde os avaliadores, ou julgadores, devem obrigatoriamente escolher uma das amostras, o resultado é baseado nacontagem do número total de participantes e do número de julgadores que apontaram corretamente qual amostra era diferente. O número de avaliadores e a quantidade de apontamentos corretos são utilizados para determinar se houve diferença significativa nas amostras de acordo com a tabela para o teste triangular (American Society for Testing and Materials – ASTM 1885-97,2001). No caso de testes sensoriais com escolha não forçada, o resultado deve ser analisado utilizando porcentagens. Se houver significativa proporção de resposta “nenhuma diferença”, isso pode indicar que a diferença entre as amostras está abaixo do limiar de detecção dos avaliadores, podendo indicar que o teste em questão não é o mais indicado ou que a variação entre as amostras não é suficientemente perceptível. TESTE DUO-TRIO (ABNT NBR 13169 1994) É considerado estatisticamente ineficiente quando comparado com o teste triangular, pois a chance de obter uma resposta correta é de 1 para 2. No entanto, é considerado simples e fácil de ser compreendido. É facilmente aplicado quando estímulos complexos ou amostras de grande impacto sensorial são avaliados e requer menor número de avaliações comparativas. Além disso, apresenta como vantagem possuir uma amostra de referência, o que evita dúvidas sobre a caracterização da diferença e a desvantagem de serem avaliadas 3, em vez de 2 amostras, como na imagem a seguir. Fonte: Próprio Autor Exemplo de teste duo trio, onde uma amostra de referência (R) é utilizada e duas outras amostras são oferecidas, sendo cada uma identificada com números de três algarismos aleatórios. O teste duo-trio pode ser aplicável quando se quer estabelecer se existe ou não diferença sensorial entre dois produtos. Essa diferença pode ser decorrente de alterações de ingredientes, processamento, embalagem, condições de estocagem, além de determinar se há diferença global entre as amostras sem especificar qual atributo foi afetado. Existem duas maneiras de aplicar o teste duo trio: Amostra de referência constante A mesma amostra é sempre considerada a referência. Referência balanceada Ambas as amostras são usadas aleatoriamente como referência. ATENÇÃO O modelo de referência constante é mais indicado quando a equipe é treinada e as amostras são bem conhecidas. O princípio do teste é baseado na apresentação de uma amostra de referência seguida de duas amostras codificadas, com uma das amostras idêntica à referência. Então, é pedido ao avaliador que prove cada amostra da esquerda para a direita e selecione a amostra igual à referência. O ideal é usar entre 30 e 40 julgadores. ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS O número de julgamentos corretos é contabilizado e comparado com os valores estipulados na tabela para o teste em questão (Meilgaard et al., 1999). TESTE DE COMPARAÇÃO PAREADA Aplicado quando o objetivo é determinar se existe diferença entre duas amostras com relação a uma característica sensorial específica. É considerado um dos testes sensoriais mais simples e mais utilizados e apresenta como vantagem o fato de não causar fadiga sensorial. No entanto, é pouco prático quando muitas comparações são necessárias. Baseado em focar a preferência em vez da diferença, pode ser aplicado quando se quer determinar se existe diferença ou preferência entre duas amostras quanto a um atributo sensorial. Fonte: Próprio Autor Exemplo de teste de comparação pareada, onde duas amostras diferentes (AB) são oferecidas simultaneamente, e ambas são identificadas com números de três algarismos aleatórios. Este tipo de teste também é utilizado para selecionar e treinar avaliadores. O teste consiste na apresentação de duas amostras codificadas, apresentadas de forma simultânea e balanceada entre os julgadores (AB, BA), como representado na figura a seguir. No teste, deve estar claro se a opção “não há diferença entre as amostras” é permitida, tendo em mente que a análise dos dados somente é permitida no teste com escolha forçada. A pergunta deve ser específica em relação à diferença dos atributos sensoriais ou preferência. ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS A interpretação dos resultados deve ser baseada no número de julgamentos totais em relação ao número de julgamentos corretos. Se o número de julgamentos corretos for superior ou igual ao valor encontrado na tabela referente a esse teste (ABNT, NBR 13088, 1994), conclui-se que existe diferença ou preferência entre as amostras. TESTE DE SIMPLES DIFERENÇA Método indicado quando se deseja verificar a existência de diferenças sensoriais entre dois produtos de sabor ou sabor residual muito intenso, ou que representem estímulos complexos que possam gerar confusão mental aos julgadores, impedindo a realização de testes com tripla ou múltipla apresentações. Aplicado para cremes dentais, balas sabor menta e creme para a pele. ATENÇÃO Esse teste tem menor eficiência estatística, já que há 50% de chance de obter a resposta correta. Porém, é considerado eficiente para determinar se alterações sensoriais de um produto são decorrentes de alterações de ingredientes, processamento, embalagem ou condições de estocagem. O objetivo é determinar se há diferença global entre as amostras sem especificar qual atributo foi afetado. As amostras codificadas devem ser apresentadas a cada julgador, perguntando se há diferença ou se são iguais: metade dos pares devem ser iguais e metade diferentes. As amostras devem ser apresentadas simultaneamente, e um número igual de julgadores deve receber pares iguais e pares diferentes, sendo que os julgadores com amostras iguais devem ficar com metade das amostras AA e metade das BB. ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS O teste é realizado de forma rápida e simplificada: conta-se o número de julgadores corretos e compara-o com o valor tabelado (Roessler et al., 1978). Se o número de julgadores corretos for maior ou igual ao número da tabela, existe diferença entre as amostras no nível de significância observado. TESTE DE COMPARAÇÃO MÚLTIPLA Indicado quando se deseja verificar se existe diferença entre uma amostra-controle em uma ou mais amostras – é aplicado para estimar o grau de distinção existente. Todas as amostras são avaliadas quanto às diferenças em relação ao controle, não sendo comparadas entre si. É normalmente direcionado à avaliação de um único atributo e não é indicado para diferenças globais. O procedimento consiste em apresentar ao julgador uma amostra-controle e uma ou mais amostras codificadas. O julgador deve avaliar cada uma em relação ao controle, segundo um atributo específico e por meio de uma escala. Pode ser incluída uma amostra-controle codificada entre as amostras. Em geral, são usadas equipes de 20 a 50 avaliadores familiarizados com o formato do teste e com o significado das escalas. O controle deve ser apresentado em primeiro lugar, seguido das amostras simultâneas. Autor: Yaowalak Rahung / Fonte:Shutterstock ATENÇÃO Caso o número de amostras seja muito grande, mais de uma sessão deverá ser conduzida. ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS Os resultados relativos à pontuação utilizada são avaliados com base em análise de variância. Normalmente, os dados correspondentes aos julgadores que não identificaram corretamente a amostra-controle inserida no teste são descartados, e os resultados referidos ao número de julgadores que identificaram o controle são utilizados. TESTE DE ORDENAÇÃO (ABNT NBR 13170 1994) Utilizado quando se deseja comparar várias amostras em relação a um único atributo ou em relação à preferência; é mais indicado quando se deseja avaliar de 3 a 6 amostras. O teste permite a ordenação das amostras segundo uma escala de intensidade do atributo de interesse, resultando em indicação numérica das diferenças entre as amostras e da significância dessas diferenças. É considerado um teste rápido, e é usado frequentemente como uma preliminar de testes mais complexos. Como desvantagem,não permite quantificar o grau de diferença ou a preferência entre as amostras. Autor: Tumisu / Fonte: Unsplash O procedimento consiste na apresentação de um conjunto de amostras de forma balanceada e em ordem aleatorizada. Então, é solicitado ao avaliador a ordenação de acordo com um atributo específico ou sua preferência. A soma das posições de ordenação é calculada e analisada estatisticamente. Em geral, são usadas equipes de, no mínimo, 8 e, no máximo, 30 avaliadores. Cada julgador examina as amostras e faz uma ordenação crescente ou decrescente, segundo a intensidade do atributo especificado ou sua preferência. ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS Os resultados relativos à soma das posições de ordenação devem ser tratados com base no teste. TESTE 2 EM 5 (ABNT NBR 13151 1994) É considerado estatisticamente eficiente, pois a chance de identificar ao acaso 2 em 5 é de uma em 10. A desvantagem está associada à fadiga sensorial e aos efeitos de memória; desse modo, são mais indicados para estímulos visuais, auditivos e táteis do que sabor e aroma. Pode ser aplicado quando o objetivo é verificar se existe diferença sensorial entre duas amostras. O procedimento consiste em apresentar simultaneamente a cada julgador um grupo de cinco amostras, onde duas são de um tipo e três de outro. Deve ser solicitado que as amostras sejam avaliadas da esquerda para a direita e que as duas amostras diferentes das outras três sejam separadas. Autor: KitsakYan.G / Fonte:Shutterstock ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS Análise dos resultados consiste em contar o número de julgamentos corretos, além de compará-lo com o valor da tabela referente ao teste (ABNT NBR 13151 1994). Se o número de julgamentos corretos for maior ou igual ao valor tabelado, conclui-se que existe diferença entre as amostras. TESTE A NÃO A (ISO 8588-1987) É apresentada aos julgadores uma série de amostras, algumas do tipo A e outras diferentes. Solicita-se que eles identifiquem as amostras como “A” ou “não A”. Em geral, o teste é utilizado quando a amostra padrão não pode ser apresentada como um produto único, ou seja, apresenta variabilidade inerente ao seu tipo de produto. Autor: luchschenF / Fonte: Shutterstock TESTES DESCRITIVOS Trata-se da técnica sensorial na qual os atributos de um produto são identificados e quantificados por julgadores treinados para esse propósito. A análise pode incluir todos os atributos do produto ou ser limitada a alguns específicos. É utilizada quando se deseja informações detalhadas sobre os atributos de um produto. O julgador deve ser capaz de detectar e descrever as características sensoriais de uma amostra, além de indicar a intensidade com que cada atributo é percebido nas amostras, ou seja, definir o quanto cada aspecto qualitativo está presente. Os aspectos qualitativos do produto devem permitir defini-lo e diferenciá-lo. As técnicas descritivas mais usadas são: PERFIL DE SABOR (LITTLE, 1940) Fornece um registro escrito dos componentes de aroma e sabor perceptíveis em um produto, a sensação bucal e os sabores residuais. Os julgadores analisam as notas de aroma e sabor e a ordem com que são recebidas usando uma escala de categoria. PERFIL DE TEXTURA (GENERAL FOOD CORP, 1963) Desenvolvido com base nos princípios do método de perfil de sabor. Fornece uma visão sistemática das dimensões de textura de um produto em relação às suas características mecânicas e geométricas, seu teor de gordura e sua umidade, definindo o grau em que estão presentes e na ordem com que são percebidas desde a primeira mordida até a mastigação. ANÁLISE DESCRITIVA QUANTITATIVA ADQ (TRAGON CORP, 1974) O aspecto qualitativo determina a descrição e definição dos atributos sensoriais; o aspecto quantitativo informa a intensidade com que os atributos são percebidos, e o aspecto temporal ordena como os atributos são percebidos. O teste também oferece uma interpretação das percepções globais sobre o conjunto de atributos. Nos aspectos qualitativos, são usados vários termos para fazer referência aos parâmetros sensoriais em relação à cor (tonalidade, pureza, uniformidade), textura visual (brilhante, liso, viscoso), ao tamanho (forma, dimensões, geometria), ao aroma (frutal, floral), ao sabor (frutal, baunilha, salgado, doce, quente, frio) e à textura oral (dureza, grânulos suculência, umidade). No aspecto quantitativo, a intensidade de uma análise deve ser expressa de acordo com o grau de cada tributo; para isso, é utilizada uma escala de medida apropriada. Para tal, a confiabilidade e validade das medidas de intensidade são altamente dependentes das características da escala selecionada, do treinamento dos julgadores e das amostras de referência utilizadas, para assegurar o uso consciente e reproduzível da escala. APLICAÇÃO DA ADQ A aplicação da ADQ acontece em seis etapas, a saber: Autor: F1Digitals / Fonte: Pixabay PRÉ-SELEÇÃO DE CANDIDATOS A primeira etapa consiste na pré-seleção de candidatos também chamada de recrutamento. Nela é feito o primeiro contato com os julgadores, onde deve-se informar sobre os testes além de uma entrevista ou em forma de questionário. SELEÇÃO DOS CANDIDATOS Eles devem ser aprovados em etapas de avaliação e precisam observar questões como familiaridade com o produto, habilidade em discriminar amostras e compreensão da metodologia. Autor: Amy Hirschi / Fonte: Unsplash Autor: 089photoshootings / Fonte: Unsplash DESENVOLVIMENTO DA TERMINOLOGIA DESCRITIVA Nesta etapa, os candidatos avaliam as diferentes amostras do produto e verbalizam as sensações percebidas, discutindo tudo isso em grupo com a ajuda do analista sensorial. Consiste em um processo interativo, que pode levar várias sessões. Ao final, deve ser desenvolvida a ficha de avaliação da amostra a partir dos termos consensuais desenvolvidos pela equipe, considerando a ordem com que foram percebidos. O analista sensorial pode sugerir atributos quando a equipe encontrar dificuldade para descrever uma sensação em particular. TREINAMENTO DOS CANDIDATOS SELECIONADOS É realizado com os próprios produtos a serem avaliados e com materiais de referência. São definidos os procedimentos de avaliação de cada atributo, que, em seguida, são discutidos, e os significados de cada atributo são explicados, bem como o uso da escala para expressar a intensidade. Nas sessões finais do treinamento, as avaliações devem ser conduzidas na forma de discussão em grupo, visando a busca de consenso da equipe nas avaliações, permitindo a correção de eventuais distorções nos julgamentos individuais. Autor: Yaowalak Rahung / Fonte: Shutterstock Autor: Tumisu / Pixabay AVALIAÇÃO DO DESEMPENHO DA EQUIPE Validação onde os julgadores são selecionados a partir da avaliação individual de, no mínimo, três amostras com, pelo menos, três repetições. TESTE SENSORIAL É recomendável a condução das avaliações com replicata. Os dados devem ser tratados por meio da determinação de médias e desvio padrão. Autor: FYNERIL Dominique / Fonte: Shutterstock TESTES AFETIVOS A condução de testes de preferência ou aceitabilidade requer critérios de seleção de julgadores diferenciados daqueles necessários aos testes discriminativos e descritivos. O principal critério a ser aplicado é a necessidade de o julgador fazer parte do público que consome a classe do produto de interesse, ou seja, a população-alvo do produto; assim, os próprios consumidores do produto devem ser consultados. ATENÇÃO Os testes afetivos, também chamados testes de consumidores, necessitam de ficha de avaliação apropriada desenvolvida pelo analista sensorial, também chamada de questionário de avaliação. Segundo Meilgaard (1999), em geral, os testes afetivos são aplicados frente a quatro objetivos principais: Verificação do posicionamento do produto no mercado. Otimização da formulação do produto Desenvolvimento de novos produtos Avaliaçãodo potencial do mercado Em relação à verificação do posicionamento do mercado, geralmente estão sendo avaliados projetos que envolvam redução de custos, substituição de ingredientes e alteração de embalagem, para observar se a proposta de mudança afetará a aceitabilidade e preferência do consumidor. Nestes testes, podem ser utilizados protótipos, o produto atual e alguns concorrentes. Quando são observados nos testes afetivos demanda dos consumidores, e esta é comprovada em pesquisas de mercado, algumas características do produto são melhoradas por meio de alteração no processo de produção, uso de diferentes ingredientes, alteração da intensidade de um aroma ou sabor do produto, a otimização de importante propriedade de textura, ou aumento de alguma característica de desempenho. Os testes com consumidores permitem observar como os atributos direcionam a aceitação global do mercado. Autor: Andrii Yalanskyi / Fonte: Shutterstock As áreas de marketing e de análise sensorial devem trabalhar em conjunto na verificação do potencial de mercado. É importante definir quais atributos sensoriais descrevem as diferenças entre os produtos, quais as escalas mais apropriadas para a avaliação e como os hábitos e atitudes dos consumidores e a intenção de compra podem ser mais bem avaliados. Nos últimos anos, muitos estudos têm sido conduzidos visando melhor compreensão e utilização dos dados obtidos em testes de consumidores (Fernandes et al., 2018). Os estudos no campo da psicologia envolvendo os fatores associados a preferências e escolhas de alimentos têm sido significativos para a compreensão das respostas dos consumidores. COMENTÁRIO A expectativa gerada por um produto geralmente influencia a aceitabilidade e a intenção de compra do consumidor; desse modo, é importante o controle do fator expectativa, principalmente em produtos com imagem estabelecida frente ao consumidor. Os testes de aceitabilidade e de preferência mais utilizados são: TESTE DE ESCALA Também chamado de teste de classificação, é utilizado para medir a intensidade do prazer no consumo ou o grau de apreciação do produto. TESTE DE PREFERÊNCIA Utilizado para medir a ordem de gostar de diferentes produtos, ordenando-os do que mais gostou até o que menos gostou. TESTE QUALITATIVO Avalia a subjetividade das respostas de uma amostra de consumidores em relação às propriedades sensoriais de um produto, as expectativas relacionadas à embalagem e o impacto da ideia da propaganda. Consiste na busca de entender um fenômeno específico em profundidade. Para esse objetivo, são utilizados grupos focais, que envolvem o recrutamento preciso e cuidadoso de consumidores para a participação em uma discussão em grupo, coordenada por um profissional, que apresenta o assunto de interesse e facilita a discussão usando técnicas de dinâmica de grupo. A realização ocorre em salas com o espelho falso, onde a equipe de analistas observa o grupo focal. TESTE QUANTITATIVO Avalia uma resposta de um grande grupo de consumidores. Por meio de um formulário com uma série de perguntas, visa determinar o grau de aceitabilidade global de um produto, identificar fatores sensoriais determinantes na preferência, ou obter respostas específicas relacionadas aos atributos sensoriais particulares de um produto. Para tanto, pode ser usado o teste de ordenação; a escala hedônica de 9 pontos, que é a mais amplamente utilizada para estudos de preferências com adultos, e, para o público infantil, a escala hedônica facial, com menor graduação e auxílio das figuras. ESCALA JAR (JUST ABOUT RIGHT) Mede a intensidade dos atributos desejados pelo consumidor em um produto. Com essa escala, as intensidades e os julgamentos combinam-se para fornecer informações para melhorar o produto. Os consumidores avaliam a amostra e decidem se está muito forte, muito fraca ou no ponto certo para o atributo solicitado. É necessário que o consumidor entenda o significado dos atributos analisados. CATA (CHECK ALL THAT APPLY) Objetiva entender a maneira como o consumidor descreve um produto. O método consiste em uma lista de palavras ou frases apresentadas ao consumidor, para que ele possa escolher, dentre elas, todas as que considere apropriadas para descrever um produto. É o método considerado mais fácil e simples para o consumidor, quando comparado às outras escalas. RECRUTAMENTO DE CONSUMIDORES O recrutamento de consumidores consiste na seleção de um grupo que seja uma amostra representativa da população-alvo. Devem ser avaliadas informações como hábitos, atitudes e preferências desse público, além das características demográficas, sendo consideradas importantes a frequência de consumo, uso do produto, idade, sexo, localização geográfica, classe social e fatores étnicos. Os fatores do público-alvo precisam ser definidos previamente e, quanto maior a especificidade, maior o tempo e o custo relacionados ao recrutamento. Autor: Ollyy / Fonte:Shutterstock Os testes com consumidores podem ser feitos em: LABORATÓRIO No laboratório, existe a vantagem de ter a preparação do produto e a apresentação controladas, e a cor e outros aspectos visuais podem ser mascarados, de modo que os indivíduos se concentrem nas diferenças de sabor e textura. As desvantagens dos testes de laboratório são possível experiência prévia com o produto, falta de consumo normal influenciando a detecção ou avaliação dos atributos positivos ou negativos, além da tolerância ao produto na preparação ou no uso serem diferentes do nível doméstico. Autor: frameft /Fonte: Shutterstock LOCAL CENTRALIZADO O teste em local centralizado é usualmente conduzido em áreas onde muitos compradores potenciais convergem ou se reúnem. As pessoas são interceptadas e selecionadas, e de 50 a 300 respostas são coletadas por localização. As vantagens deste teste são a avaliação do produto sob condições controladas, o esclarecimento de dúvidas, permissão para os consumidores testarem o produto, além de alto retorno de resposta. As desvantagens são que as condições de teste são artificiais, quando comparadas ao uso normal nas casas, festas ou nos restaurantes, além de fatores como preparação, quantidade de consumo, duração e tempo de uso. Autor: Tyler Olson /Fonte: Shutterstock CASA Os testes domésticos ocorrem com a testagem sob condições normais de uso, e os participantes são selecionados como representantes da população-alvo. A opinião da família inteira é obtida, e a influência de cada membro é levada em consideração. As equipes podem variar de 75 a 300 indivíduos por cidade. As principais vantagens então relacionadas ao preparo e consumo do produto, que acontece em condições normais de uso, o efeito acumulado obtido de uso repetido, que pode dar informações sobre a potencialidade de venda, além de outras informações sobre as atitudes do consumidor com relação às várias características do produto, incluindo atributos sensoriais, embalagem e preço. As desvantagens são tempo despendido, levando em torno de 14 semanas para terminar, e a possibilidade do não retorno das respostas, já que alguns indivíduos podem não retornar a pesquisa no prazo pré-determinado ou desistir do teste, causando a perda desse resultado, além de possibilidade de erros no preparo do produto em domicílio. Autor: Jason Briscoe /Fonte: Unsplash TESTES SENSORIAIS: UMA VISÃO PRÁTICA Neste vídeo, identificaremos os diversos testes sensoriais com sucos de frutas comerciais de diferentes marcas. VERIFICANDO O APRENDIZADO 1. OS TESTES SENSORIAIS DISCRIMINATIVOS TÊM COMO OBJETIVO DIFERENCIAR AMOSTRAS QUE SEJAM DIFERENTES ENTRE SI DE FORMA GLOBAL, OU EM RELAÇÃO A UM ATRIBUTO ESPECÍFICO. UM DESSES TESTES É APLICADO ENTREGANDO DE FORMA SIMULTÂNEA AO PROVADOR 3 AMOSTRAS, ONDE 2 AMOSTRAS SÃO IGUAIS E 1 É DIFERENTE. ASSINALE A ALTERNATIVA QUE INDICA O NOME DO TESTE DESCRITO. A) Teste triangular. B) Teste de ordenação. C) Teste comparação pareada. D) Teste duo trio. 2. O TESTE ADQÉ UTILIZADO NO DESENVOLVIMENTO DE PRODUTOS, POIS APRESENTA UMA INTERPRETAÇÃO GLOBAL DOS ATRIBUTOS DO MATERIAL EM QUESTÃO. O PROCESSO DE APLICAÇÃO É LONGO, CONSISTINDO EM 6 ETAPAS. ASSINALE A ALTERNATIVA QUE CORRESPONDE A UMA ETAPA ESPECÍFICA DO MÉTODO ADQ. A) Formação de grupo focal. B) Informação sobre modo de utilização domiciliar. C) Discriminação das amostras. D) Determinação da terminologia. GABARITO 1. Os testes sensoriais discriminativos têm como objetivo diferenciar amostras que sejam diferentes entre si de forma global, ou em relação a um atributo específico. Um desses testes é aplicado entregando de forma simultânea ao provador 3 amostras, onde 2 amostras são iguais e 1 é diferente. Assinale a alternativa que indica o nome do teste descrito. A alternativa "A " está correta. O princípio do teste consiste em apresentar 3 amostras codificadas acompanhadas das instruções de que 2 amostras são iguais e 1 é diferente. Em seguida, é solicitado que prove cada amostra da esquerda para a direita e indique a amostra diferente. 2. O teste ADQ é utilizado no desenvolvimento de produtos, pois apresenta uma interpretação global dos atributos do material em questão. O processo de aplicação é longo, consistindo em 6 etapas. Assinale a alternativa que corresponde a uma etapa específica do método ADQ. A alternativa "D " está correta. O desenvolvimento da terminologia descritiva consiste na verbalização das sensações percebidas, que são discutidas em grupo com a ajuda do analista sensorial. Trata-se de um processo interativo, que pode levar várias sessões e, ao final, deve ser desenvolvida a ficha de avaliação da amostra a partir dos termos consensuais desenvolvidos pela equipe, considerando a ordem com que foram percebidos. CONCLUSÃO CONSIDERAÇÕES FINAIS Os testes de análise sensorial são aplicados em diversas áreas do desenvolvimento industrial. Sua aplicabilidade está relacionada a fatores como alterações de componentes do produto, alterações de embalagens e adequação à demanda do mercado. Por fim, o objetivo é atender o consumidor, de modo que haja destaque daquele produto perante os concorrentes. Cabe ao analista de testes sensoriais a organização dos procedimentos, a escolha do teste mais adequado e a análise dos resultados obtidos. Essa análise dará um direcionamento no que diz respeito à linha de produção em questão. AVALIAÇÃO DO TEMA: REFERÊNCIAS ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), 1993. NBR 12995: análise sensorial de alimentos e bebidas. Publicado em: 30 set. 1993. ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), 1994. NBR 13170: teste de ordenação em análise sensorial de alimentos. Publicado em: 30 jun. 1994. ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), 1994. NBR 13151: teste dois em cinco em análise sensorial. Publicado em: 30 maio. 1994. ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), 1998. NBR 14141: escalas utilizadas em análise sensorial de alimentos e bebidas. Rio de Janeiro. Publicado em: 30 jul. 1998. ASTM (American Society for Testing and Materials), 2001. 1885-97: Triangle test. AYKAN, S.; VATANSEVER, G.; Doğanay-Erdoğan, B.; Kalaycıoğluab, C. Development of sensory sensitivity scales (SeSS): Reliability and validity analyses. Research in Developmental Disabilities, v. 100, 2020. Consultado em meio eletrônico em: 12 ago. 2020. BATISTA, S. H. S. S. et al. Manual para Aplicação dos Testes de Aceitabilidade no Programa Nacional de Alimentação Escolar - PNAE. Centro colaborador de alimentação e nutrição escolar. São Paulo: UNIFESP, 2010. DUTCOSKY, S. D. Análise sensorial de alimentos. 2013. 4. ed. Curitiba: PucPress. FARIA, E. V.; Yotsuyanagi, K. Técnicas de análise sensorial. 1. ed. Campinas: Ital/Lafise, 2002. FERNANDES, G. D.; ELLIS, A. C.; GÁMBARO, A.; Barrera-Arellano, D. Sensory evaluationof high-quality virgin olive oil: panel analysis versus consumer perception. Current Opinion in Food Science, v. 21, 66-71, 2018. Consultado em meio eletrônico em: 12 ago. 2020. Meilgaard, M.; CIVILLE, G. V.; CARR, B. T. Sensory Evaluation Techniques. 3. ed. CRC Press, Boca Raton: CRC Press, 1999. Moskowitz, H. R. Product Testing and sensory evaluation of foods – Marketing and R&D approaches. Connecticut: Food and Nutrition Press. Connecticut, 1983. PAN, N.; PAN, T. 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Seguem alguns trabalhos que podem aprofundar seu conhecimento: No trabalho ANÁLISE SENSORIAL NA INDÚSTRIA DE ALIMENTOS, de Teixeira et al., 2009, é apresentada uma revisão da literatura a respeito da importância industrial dos testes de análise sensorial. O artigo NOVA METODOLOGIA PARA INTERPRETAÇÃO DE DADOS DE ANÁLISE SENSORIAL DE ALIMENTOS, de Silva et al., 2010, propõe uma metodologia para análise sensorial de bebidas mistas de leite e frutas. Para conhecer um pouco sobre pesquisas em andamento, visite o site do ITAL – Instituto de Tecnologia de Alimentos, onde diversas pesquisas na área de análise sensorial são conduzidas. CONTEUDISTA Carolina Beres CURRÍCULO LATTES javascript:void(0);