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Sumário
Capa
Folha	de	rosto
INTRODUÇÃO
O	Evangelho	segundo	Mateus:	Catequese	narrativa	para	a	comunidade	dos
discípulos	do	Reino
1.	O	mundo	da	comunidade	mateana
2.	A	comunidade	mateana
3.	O	autor	do	evangelho
4.	A	estrutura	da	catequese	mateana
5.	As	fontes	da	catequese	mateana
6.	Alguns	recursos	literários	da	catequese	mateana
7.	As	questões	de	fundo	da	catequese	mateana
8.	Os	três	tempos	na	leitura-audição	da	catequese	mateana
AS	ORIGENS	DO	MESSIAS	(Mt	1-2)
I.	O	REINO	E	SUA	JUSTIÇA	(Mt	3-7)
1.	Narração:	A	vinda	do	Reino
2.	Discurso:	Buscar	o	Reino	e	sua	justiça	–	Sermão	da	Montanha
II.	MANIFESTAÇÕES	DO	REINO	(Mt	8-10)
1.	Narração:	Justiça	e	misericórdia
2.	Discurso:	Chamado	para	a	missão
III.	OS	MISTÉRIOS	DO	REINO	(Mt	11-13)
1.	Narração:	Acolhida	e	rejeição	do	Messias
2.	Discurso:	O	Reino	em	parábolas
IV.	COMPROMISSO	COM	O	REINO	(Mt	14-18)
1.	Narração:	O	Messias	reconhecido	e	questionado
2.	Discurso:	Comunidade	comprometida	com	o	Reino	e	sua	justiça
V.	DECIDIR-SE	PELO	REINO	(Mt	19-25)
1.	Narração:	Os	desafios	do	Reino	de	Deus
2.	Discurso:	Opção	pela	justiça
3.	O	último	grande	discurso:	A	consumação	do	Reino
VI.	MORTE	E	RESSURREIÇÃO	DO	MESSIAS	(Mt	26-28)
O	desfecho	da	vida	de	Jesus	e	o	início	da	missão	dos	discípulos
A	hora	do	leitor-ouvinte!
Coleção
Ficha	catalográfica
Landmarks
Capa
Folha	de	rosto
Sumário
INTRODUÇÃO
O	Evangelho	segundo	Mateus:	Catequese	narrativa	para	a	comunidade	dos
discípulos	do	Reino
1.	O	mundo	da	comunidade	mateana
2.	A	comunidade	mateana
3.	O	autor	do	evangelho
4.	A	estrutura	da	catequese	mateana
5.	As	fontes	da	catequese	mateana
6.	Alguns	recursos	literários	da	catequese	mateana
7.	As	questões	de	fundo	da	catequese	mateana
8.	Os	três	tempos	na	leitura-audição	da	catequese	mateana
AS	ORIGENS	DO	MESSIAS	(Mt	1-2)
I.	O	REINO	E	SUA	JUSTIÇA	(Mt	3-7)
1.	Narração:	A	vinda	do	Reino
2.	Discurso:	Buscar	o	Reino	e	sua	justiça	–	Sermão	da	Montanha
II.	MANIFESTAÇÕES	DO	REINO	(Mt	8-10)
1.	Narração:	Justiça	e	misericórdia
2.	Discurso:	Chamado	para	a	missão
III.	OS	MISTÉRIOS	DO	REINO	(Mt	11-13)
1.	Narração:	Acolhida	e	rejeição	do	Messias
2.	Discurso:	O	Reino	em	parábolas
IV.	COMPROMISSO	COM	O	REINO	(Mt	14-18)
1.	Narração:	O	Messias	reconhecido	e	questionado
2.	Discurso:	Comunidade	comprometida	com	o	Reino	e	sua	justiça
V.	DECIDIR-SE	PELO	REINO	(Mt	19-25)
1.	Narração:	Os	desafios	do	Reino	de	Deus
2.	Discurso:	Opção	pela	justiça
3.	O	último	grande	discurso:	A	consumação	do	Reino
VI.	MORTE	E	RESSURREIÇÃO	DO	MESSIAS	(Mt	26-28)
O	desfecho	da	vida	de	Jesus	e	o	início	da	missão	dos	discípulos
A	hora	do	leitor-ouvinte!
Coleção
Ficha	catalográfica
INTRODUÇÃO
O	Evangelho	segundo	Mateus:	Catequese	narrativa	para	a	comunidade	dos
discípulos	do	Reino
As	primeiras	comunidades	cristãs	foram	desafiadas	a	encontrar	respostas	para	as
muitas	questões	levantadas	para	sua	vida	de	fé	oriundas	das	relações
intracomunitárias,	das	relações	com	as	comunidades	judaicas	ligadas	à	sinagoga
ou	do	contato	com	o	ambiente	romano.	A	suprema	pedra	de	tropeço	consistia	em
crer	na	salvação	oferecida	pelo	Crucificado,	maldito	de	Deus	na	concepção
judaica	e	malfeitor	na	concepção	romana.	Como	explicar	esse	“absurdo”?	Sem	o
esforço	de	repensar	a	fé,	à	luz	da	vida	e	da	pregação	do	Messias	Jesus,	a	ameaça
da	dispersão	e	do	desaparecimento	pairava	como	uma	espada	sobre	a
comunidade	de	discípulos.
O	esforço	de	Mateus	em	relação	à	sua	comunidade	e	o	de	tantos	teólogos,
catequistas	e	pastores	inspirados	por	ele	e	preocupados	com	o	futuro	da	fé	dos
irmãos	e	das	irmãs,	dizem	respeito	à	tentativa	de	estabelecer	as	balizas	para	a
ação	dos	discípulos	de	Jesus,	mostrar-lhes	o	fundamento	do	que	acreditam,	evitar
a	contaminação	com	mentalidades	espúrias,	prevenir	o	desvio	de	comportamento
das	lideranças	tentadas	a	se	imporem	à	revelia	do	ideal	do	Reino	de	Deus,
oferecer	luzes	para	se	esclarecerem	as	dúvidas	quanto	à	sensatez	de	abraçar
como	ideal	de	vida	a	proposta	de	fé	do	Nazareno.
Tendo	no	horizonte	um	conjunto	consistente	de	interrogações,	Mateus	e	os
demais	evangelistas	lançaram-se	na	tarefa	de	respondê-las	de	forma	criativa	e
dinâmica	com	a	narração	da	vida	do	Mestre,	inaugurando	assim	o	gênero
literário	evangelho.	O	evangelho	enquanto	proclamação	da	boa-notícia	do	Reino
(cf.	Mt	4,17)	passou	a	ser	expresso	em	forma	de	literatura.	Servindo-se	das
tradições	escritas	e	orais	que	tinham	à	disposição,	deram-se	ao	trabalho	de
esclarecer	todas	as	inquietações	dos	irmãos	e	das	irmãs	de	comunidade,
empecilhos	para	a	adesão	incondicional	ao	chamado	do	Mestre	e	suas
exigências.	Os	evangelistas	narraram	a	vida	de	Jesus,	seus	ensinamentos	e	suas
ações,	inserindo	nas	entrelinhas	as	respostas	para	as	dúvidas	de	fé	e	as
orientações	de	como	os	discípulos	do	Reino	devem	se	comportar.
Portanto,	para	entender	as	catequeses	evangélicas,	torna-se	necessário	conhecer
as	questões	de	fundo	com	as	quais	lidaram.	Mas	também	as	técnicas	narrativas
dos	autores,	as	linhas	mestras	de	sua	teologia,	cristologia,	eclesiologia,
escatologia,	ética,	bem	como	o	pano	de	fundo	cultural	e	religioso	e	as	tradições
teológicas	usadas	na	construção	de	seus	evangelhos.
1.	O	mundo	da	comunidade	mateana
a.	O	ambiente	judaico
O	judaísmo	do	século	1o	trazia	a	marca	da	pluralidade.	Havia	variados	grupos	e
correntes	em	seu	interior,	com	doutrinas	e	práticas	bem	definidas.	A	diversidade
dependia	da	postura	assumida	diante	de	quatro	tópicos:	o	templo,	o	sacerdócio,	a
interpretação	da	Lei	mosaica	e	a	presença	ostensiva	do	poder	romano.
Embora	nem	todos	os	grupos	da	época	sejam	aludidos	no	evangelho,	os
principais	eram	os	seguintes:
Os	saduceus,	provavelmente	derivado	do	nome	Sadoc,	correspondiam	à
aristocracia	e	às	famílias	sacerdotais	de	Jerusalém.	Viviam	em	função	do	Templo
e	eram	fundamentalistas	quanto	à	Lei,	recusando	todo	tipo	de	interpretação.
Eram	favoráveis	à	dominação	romana,	da	qual	dependia	a	subsistência	de	seu
status	social	e	religioso.	De	certo	modo,	serviam	de	intermediários	entre	o	povo
judeu	e	os	dominadores	estrangeiros.
Os	fariseus,	do	hebraico	parash,	separar,	segregar,	formavam	um	movimento
“leigo”	caracterizado	pela	observância	da	Lei,	interpretada	de	maneira	flexível
pelos	escribas.	Tinham	influência	na	classe	média	urbana	e	desprezavam	o	povo
interiorano	por	não	se	apegar	à	Lei	como	eles.	Faziam	resistência	passiva	aos
dominadores	romanos,	recusando	servir-se	de	meios	violentos.
Os	escribas,	doutores	da	Lei,	gozavam	de	prestígio	por	se	dedicarem	ao	estudo
da	Lei	e	sua	difusão	entre	o	povo.	Sua	influência	ligava-se	às	sinagogas,	lugar
privilegiado	de	estudo,	ensinamento	e	pesquisa	sobre	a	Lei.	O	evangelho
associa-os	aos	fariseus,	seus	fiéis	discípulos	e	seguidores.	A	guarda	da	Lei	estava
nas	mãos	dos	sacerdotes.	Os	escribas	(gr.	grammateus),	por	sua	vez,	tinham	a
função	de	transcrevê-la	e,	pouco	a	pouco,	tornaram-se	seus	intérpretes,
limitando-se	os	sacerdotes	às	funções	cultuais	no	Templo.	Dessa	forma,
assumiram	um	lugar	de	destaque	junto	ao	povo	(cf.	Mt	23,1-7).	Serviam-se	do
midrash,	do	hebraico	buscar,	procurar,	como	método	para	encontrar	sempre
novos	sentidos	para	os	textos	bíblicos.	Após	70	d.C.,	começaram	a	ser	chamados
de	rabinos,	do	hebraico	rab,	numeroso,	imponente,	grande.
Os	essênios	são	hoje	o	grupo	mais	conhecido,	depois	de	ter	sido	o	mais
desconhecido.	As	poucas	notícias	a	respeito	deles	provinham	de	Flávio	Josefo,
em	sua	obra	Guerra	Judaica.	Com	a	descoberta	casual	da	biblioteca	de	Qumran
(1947)	e	a	posterior	publicação	da	literatura	do	grupo,	foi	possível	conhecê-los
mais	de	perto.	Protestavam	contra	a	corrupção	do	sacerdócio	de	Jerusalém	e
viviam	segregados	nas	imediações	do	mar	Morto,	à	espera	da	chegada	do
Messias.	Interpretavam	as	Escrituras	de	maneira	peculiar	(midrash	pesher),
como	se	tudo	tivesse	sido	escrito	diretamente	para	eles.
Os	zelotas	eram	um	grupo	formado	por	judeus	zelosos	pela	Lei	e	revoltados	com
a	dominação	romana,	a	ponto	de	pegarem	em	armas	para	libertar	o	país	das	mãos
dos	dominadores.	Opunham-se	aos	saduceus	porserem	mancomunados	com	os
romanos.
As	comunidades	cristãs	palestinenses	formavam	um	grupo	a	mais	no	leque	de
tendências	no	interior	do	judaísmo,	onde	se	esforçavam	para	abrir	um	caminho
peculiar	guiadas	pelas	palavras	do	Mestre	Jesus	de	Nazaré.	Sua	convivência	com
os	demais	grupos	nem	sempre	foi	pacífica,	pois	sofriam	hostilidade	e	rejeição.
O	conflito	de	Jesus	com	os	escribas	e	fariseus	perpassa	toda	a	catequese
mateana.	Nela	Jesus	é	apresentado	em	contraposição	a	eles	ao	interpretar	a	Lei
com	muita	liberdade,	com	o	foco	em	seu	espírito	em	aberto	detrimento	da
materialidade	da	letra.	E	crítico	da	tendência	à	exibição	religiosa	praticada	por
certa	corrente	farisaica.	Enquanto	o	Templo	estava	de	pé,	os	membros	das
comunidades	cristãs	o	frequentavam,	contudo	não	o	consideravam
imprescindível	(cf.	Mt	12,6;	24,2).	Como	os	essênios,	os	discípulos	de	Jesus	de
Nazaré	formavam	uma	comunidade	escatológica,	com	a	diferença	de	não	se
apartarem	e	menosprezarem	os	demais,	como	acontecia	com	o	grupo	recluso	no
deserto	(cf.	Mt	5,13-16).	A	presença	dos	romanos	era	vista	com	senso	crítico,
numa	atitude	diferente	da	dos	fariseus,	que	os	confrontavam,	e	mais
radicalmente	dos	zelotas,	que	os	hostilizavam.
b.	O	ambiente	romano
O	ambiente	mais	amplo	em	que	a	catequese	mateana	está	inserida	tem	a	ver	com
o	Império	Romano.	Mateus,	com	sua	comunidade,	pertence	a	um	movimento
insignificante,	situado	nas	fronteiras	orientais	do	Império,	cuja	localização
precisa	se	desconhece.	Entretanto,	sofria	forte	pressão	da	ideologia	imperial	com
a	qual	devia	conviver	e	mostrar	a	fidelidade	ao	projeto	de	Reino	inaugurado	por
Jesus	de	Nazaré.
A	parte	oriental	preocupava	os	romanos,	por	medo	de	revoltas	independentistas.
Daí	a	atenção	com	o	que	lá	se	passava.	Urgia	fortificá-la	militar	e
economicamente,	por	questão	de	defesa	e	de	estratégia,	e	organizá-la	em	nível
administrativo	e	militar	para	torná-la	mais	segura	para	o	comércio	e	o	trânsito	de
pessoas.
Quando	o	evangelho	mateano	foi	escrito,	o	Império	estava	bem	estabelecido.	A
Palestina	e,	nela,	a	Galileia	tinham	sua	importância	como	via	de	comunicação.
Com	probabilidade	tratava-se	de	uma	região	desenvolvida	cultural	e
economicamente.
O	evangelho	comporta	elementos	ligados	ao	mundo	romano.	Entre	outros,	a
legitimidade	do	pagamento	do	tributo	ao	imperador	(cf.	Mt	22,15-22);	o
tratamento	a	ser	dispensado	a	pessoas,	judeus	ou	não,	que	trabalhavam	para	os
romanos,	como	no	caso	dos	cobradores	de	impostos	(cf.	Mt	9,9),	e	os	próprios
romanos,	como	no	caso	dos	militares	(cf.	Mt	8,5-13).	Já	que	o	Reino	de	Deus
comporta	valores	diametralmente	contrários	aos	do	Império,	o	evangelista	vê-se
na	obrigação	de	orientar	sua	comunidade	no	tocante	às	relações	com	o
colonialismo	romano.
c.	O	conflito	judeu-romano	e	suas	consequências
Os	anos	66-70	d.C.	foram	de	grandes	tensões	entre	judeus	e	romanos:	a	guerra
judaica,	minuciosamente	descrita	por	Flávio	Josefo,	quando	os	romanos,
confrontados	pelos	zelotas	a	partir	da	Galileia,	acabaram	por	destruir	Jerusalém	e
seu	Templo.
Nessa	guerra,	os	saduceus	e	os	essênios	foram	dizimados	e	os	zelotas
profundamente	enfraquecidos.	Restaram	apenas	os	fariseus	com	os	doutores	da
Lei	e	a	comunidade	cristã	palestinense	que	fugiu	para	se	safar	do	conflito.
Eusébio	de	Cesareia,	na	História	Eclesiástica	5,6,	informa	que,	ao	se
aproximarem	as	legiões	romanas	de	Jerusalém,	os	cristãos	fugiram	em	massa	e
se	refugiaram	em	Pela,	do	outro	lado	do	rio	Jordão.
Pelos	anos	80,	os	fariseus	promoveram	a	reconstrução	do	judaísmo,	com	um
projeto	de	unificação	(uniformização)	dos	muitos	grupos	ligados	à	religião	de
Israel.	Buscou-se	criar	um	calendário	comum	para	as	festas,	elaborou-se	o	cânon
dos	livros	inspirados,	resultando	daí	a	Bíblia	Hebraica,	e	as	liturgias	sinagogais
foram	padronizadas.	Esse	período	tem	sido	chamado	de	judaísmo	formativo.
Os	cristãos	recusaram-se	a	entrar	nessa	dinâmica	reformista	e	passaram	a	sofrer
contínuas	perseguições	e	marginalização	por	parte	das	lideranças	farisaicas.	O
acréscimo	da	Birkat-ha-mimîm	(Bênção	contra	os	hereges)	nas	Shemoné	esré
(Dezoito	bênçãos),	oração	matinal	diária	dos	judeus	piedosos,	por	volta	de	85
d.C.,	parece	ter	sido	a	gota	d’água	para	se	consumar	a	ruptura.	Nela	se	dizia:
“Que	não	haja	mais	esperança	para	os	apóstatas,	e	o	reino	do	orgulho	seja
prontamente	desenraizado	em	nossos	dias;	que	os	nazarenos	e	heréticos	pereçam
num	instante,	que	sejam	apagados	do	livro	dos	vivos,	e	que	não	sejam	inscritos
com	os	justos.	Bendito	sejas	tu,	Y.,	que	dobrais	os	orgulhosos”.	Estavam	na	mira
todos	quantos	resistiam	em	se	submeter	às	pressões,	entre	eles	os	discípulos	de
Jesus	de	Nazaré.
O	evangelho	de	Mateus	foi	escrito	nesse	contexto	tenso.	Por	isso,	falará	em
perseguições	e	mortes	que	podem	ser	atribuídas	à	hostilidade	da	liderança
sinagogal	(cf.	Mt	5,10-12).	O	evangelista,	contudo,	se	esforça	por	manter	os
vínculos	de	sua	comunidade	com	a	sinagoga,	embora	chame	a	atenção	para	os
desvios	de	conduta	dos	escribas	e	fariseus.	O	evangelho	de	João,	escrito	numa
época	um	pouco	posterior,	alude	à	ruptura	dos	discípulos	de	Jesus	com	o
movimento	sinagogal.	O	episódio	da	cura	do	cego	de	nascença,	onde	se	fala	em
expulsão	da	sinagoga,	retrata	essa	situação	(cf.	Jo	9).
2.	A	comunidade	mateana
A	leitura	da	catequese	de	Mateus	permite	esboçar	os	traços	de	sua	comunidade
perceptíveis	nos	meandros	do	texto.	Aí	se	encontram	os	leitores	implícitos	que	o
evangelista	teve	em	mente	ao	longo	da	elaboração	de	sua	obra.	A	linguagem,	a
teologia	e	os	elementos	culturais	presentes	na	composição	do	evangelho	têm
esse	público-alvo	como	referência.
Os	problemas	vividos	pela	comunidade	são	objeto	da	preocupação	do
evangelista.	A	catequese	apresenta-lhe	pistas	para	a	consolidação	da	fé	na	“busca
do	Reino	de	Deus	e	sua	justiça”	(Mt	6,33),	um	projeto	de	vida	superior	ao
praticado	pelas	lideranças	religiosas	judaicas	(cf.	Mt	5,20)	e	os	cidadãos	do
Império	Romano.	Ao	reforçar	sua	adesão	ao	Ressuscitado	e	nele	encontrar	forças
para	viver	e	testemunhar	o	compromisso	com	o	Pai	dos	Céus,	como	o	Mestre
Jesus,	estará	em	condições	de	superar	todas	as	adversidades.
Eis	alguns	traços	da	comunidade	para	a	qual	a	catequese	mateana	se	destinou.
a.	O	rosto	judeu-cristão
A	catequese	mateana	mostra-se	como	a	mais	judaica	das	catequeses	evangélicas.
Com	facilidade	se	percebe	ter	como	destinatária	uma	comunidade	judeu-cristã,
pois	o	substrato	judaico	salta	à	vista.	Sua	localização	é	incerta,	podendo
encontrar-se	na	Palestina,	no	sul	da	Síria	ou	em	algum	lugar	onde	o	judaísmo
tivesse	presença	marcante.	Há	quem	recorra	a	Mt	4,24	(“Sua	fama	espalhou-se
por	toda	a	Síria”)	para	definir	seu	local	de	origem.	Mais	precisamente	Antioquia
da	Síria	(cf.	At	11,19-26;	13,1).	Encontrava-se	aí	a	capital	oriental	do	Império
Romano,	sendo	a	terceira	cidade	em	importância,	depois	de	Roma	e	Alexandria.
Outro	indicador	seria	a	referência	a	nazoraios,	apelido	aplicado	a	Jesus	em	Mt
2,23	(cf.	Mt	26,71),	nome	que	lá	era	referido	aos	cristãos	(“seita	[gr.	haíresis]
dos	nazarenos”;	At	24,5).
A	forte	presença	da	tradição	judaica	na	catequese	mateana	permite	pensar	que	a
comunidade	destinatária	fosse	formada,	em	sua	maioria,	por	cristãos
provenientes	do	judaísmo.	O	evangelho	oferece	aos	membros	da	comunidade
indicações	para	entender	a	fé	em	Jesus	de	Nazaré	à	luz	da	antiga	tradição
religiosa	de	Israel.	Fiéis	às	suas	origens,	os	cristãos	são	orientados	a	viver	de
forma	radical	a	fé	dos	pais,	ao	buscarem	a	alma	das	Escrituras,	com	a	nova
hermenêutica	praticada	por	Jesus,	superando	a	materialidade	da	escrita,	à	qual	os
fariseus	se	apegavam.	A	afirmação	“Vocês	ouviram	o	que	foi	dito	aos
antepassados...	Mas	eu	lhes	digo”,	repetida	várias	vezes	em	Mt	5,21-48,
constitui-se	em	claro	sinal	da	guinada	que	o	Mestre	de	Nazaré	deu	na	religião	de
sua	época.
O	evangelista	mostra	como	Jesus	propõe	um	caminho	de	continuidade	em
relação	à	religião	de	Israel,	ao	mesmo	tempo	em	que	estabelece	uma	ruptura	com
o	passado.	O	Mestre	afirma	não	ter	vindo	para	abolir	a	Lei	e	os	Profetas,	o
conjunto	das	Escrituras,	mas	paralevá-los	à	plenitude	(cf.	Mt	5,17).	Mostra-se
livre	diante	das	tradições	religiosas	de	seu	povo	(sábado,	ritos	de	purificação,
costumes	e	tabus	religiosos);	ensina	com	autoridade	(gr.	exousía),	bem	diferente
dos	doutores	da	Lei	(cf.	Mt	7,29);	liberta	os	discípulos	do	legalismo,	evitando
lançá-los	numa	espécie	de	anarquia	irresponsável.	Por	esse	viés,	leva	à
plenificação	a	fé	de	Israel.	Continuidade,	ruptura	e	plenificação	são	chaves
importantes	para	se	entender	a	catequese	mateana	destinada	a	mostrar	aos
cristãos	provindos	do	judaísmo	quão	acertada	foi	sua	decisão.
O	catequista	toma	distância	das	estruturas	religiosas	judaicas,	com	as	quais	está
em	litígio.	O	uso	reiterado	da	expressão	“sinagogas	deles”,	dos	doutores	da	Lei,
sublinha	a	diferença	entre	a	comunidade	dos	discípulos	de	Jesus	e	a	comunidade
dos	discípulos	de	Moisés	(cf.	Mt	4,23;	9,35;	10,17;	12,9;	13,54;	23,34).
b.	De	coração	aberto	para	os	pagãos
As	dificuldades	nas	relações	com	a	sinagoga	levaram	a	comunidade	de	Mateus	a
se	abrir	para	os	gentios,	requisito	inadiável	de	sua	missão.	O	contato	com	o
Império	Romano	exigia	abrir	mão	dos	preconceitos	contra	os	não	judeus	e	olhá-
los	com	benevolência.	No	evangelho,	os	primeiros	a	adorarem	o	menino	Jesus
são	os	magos,	vindos	do	estrangeiro	(cf.	Mt	2,1-12);	no	final,	os	pagãos	se
tornam	os	destinatários	da	atividade	apostólica	(cf.	Mt	28,19	e	também	24,14;
26,13).	Um	dos	primeiros	beneficiados	pela	autoridade	de	Jesus	foi	um	oficial
romano	que,	ao	interceder	pelo	servo	doente,	recebeu	um	enorme	elogio	por	sua
fé	(cf.	Mt	8,10).	Muitas	vezes	o	evangelista	usa	a	expressão	“numerosas
multidões”,	que	inclui	os	gentios.	O	discípulo	do	Reino	tem	a	vocação	de	ser
“sal	da	terra”	e	“luz	do	mundo”	(Mt	5,13-16),	com	a	missão	de	fazer	a	Boa-Nova
do	Reino	ecoar	até	os	confins	do	mundo	(cf.	Mt	28,19).	O	ministério	de	Jesus
começa	e	se	conclui	na	“Galileia	dos	Pagãos”	(gr.	galilaía	tón	ethnón;	cf.	Mt
4,12-17;	28,16),	claro	sinal	da	opção	de	ir	além	dos	limites	de	Israel	e	estender
os	benefícios	da	salvação	à	humanidade	inteira.
c.	Uma	comunidade	com	organização
O	uso	de	três	vocábulos	no	decorrer	do	evangelho	deixa	transparecer	o	percurso
da	caminhada	na	comunidade	mateana:	multidão	–	discípulo	–	apóstolo.
Multidão	equivale	a	um	conceito	teológico	e	significa	proximidade
descomprometida,	curiosa	ou	interessada	com	Jesus	e	com	o	Reino.	Na	multidão
estão	os	potenciais	discípulos	e	também	os	opositores	de	Jesus.	Quem	adere	ao
Mestre	e	aos	seus	ensinamentos	torna-se	discípulo.	A	experiência	de	discipulado
consiste	em	se	colocar	no	seguimento	do	Mestre,	incluindo	a	paixão,	morte	e
ressurreição.	Só	então	o	discípulo	estará	capacitado	para	se	tornar	apóstolo	e	ir
pelo	mundo	para	anunciar	a	Boa-Nova	do	Reino,	mantendo	a	condição	de
discípulo.	Será	sempre	discípulo-apóstolo	(cf.	Mt	10;	28,16-20)	e	a	ninguém
chamará	de	“mestre”	ou	de	“pai”,	pois	um	só	é	o	Pai,	o	Celeste,	e	um	só	o
Mestre,	o	Cristo	(cf.	Mt	23,8-10).
Mt	18	alude	às	relações	no	interior	da	comunidade	e	estabelece	os	critérios	para
a	condução	dos	procedimentos	de	exclusão	(excomunhão),	para	coibir	o
autoritarismo	das	lideranças.	A	fraternidade	e	a	justiça	haverão	de	ser	os	pilares
do	trato	com	os	irmãos	faltosos.	A	declaração	do	Mestre:	“Vocês	todos	são
irmãos”	(Mt	23,8)	define	o	estilo	de	vida	comunitário.	Ninguém	tem	o	direito	de
olhar	para	o	outro	como	subordinado,	tampouco	tratá-lo	como	inferior.
Na	comunidade	mateana,	praticava-se	o	batismo	em	nome	da	Trindade	(cf.	Mt
28,19);	celebravam-se	a	Eucaristia	instituída	por	Jesus	(cf.	Mt	26,26-30	e
também	14,19;	15,36)	e	a	reconciliação	conforme	um	rito	preciso	(cf.	Mt	18,15-
17);	a	oração	e	as	práticas	de	piedade	eram	feitas	de	maneira	muito	distinta	da
dos	doutores	da	Lei	e	dos	fariseus	(cf.	Mt	6,1-18).	Mt	5-7,	o	Sermão	da
Montanha,	estabelece	as	balizas	das	relações	interpessoais.
A	pessoa	do	discípulo-apóstolo	Pedro	tem	um	papel	relevante	na	comunidade
mateana.	Muitas	vezes	se	faz	referência	a	ele,	que	se	destaca	dos	demais
discípulos.	Uma	série	de	textos	exclusivos	de	Mt	narram	episódios
protagonizados	por	Pedro.	Em	14,22-30,	caminha	sobre	as	águas;	em	16,13-28,
recebe	grande	elogio	e,	depois,	severa	censura;	em	17,24-27,	o	Mestre	ordena-o
pagar	o	imposto	do	Templo	por	ele	e	por	si;	em	18,21-22,	levanta	a	questão	dos
limites	do	perdão;	em	19,23-29,	quer	conhecer	a	recompensa	merecida	por	ter
largado	tudo	para	seguir	o	Mestre;	em	26,30-35,	faz	uma	declaração	dramática
de	fidelidade	ao	Mestre,	que	se	mostrará	enganosa.	Atua	como	porta-voz	do
grupo	em	15,15;	16,13-16;	17,4.	A	atribulada	experiência	de	discipulado	de
Pedro,	com	seus	altos	e	baixos,	torna-se	uma	espécie	de	paradigma	do
discipulado	do	Reino.
d.	Uma	comunidade	plural
O	evangelista	não	mitifica	sua	comunidade,	com	o	risco	de	torná-la	um	grupo	de
fanáticos	sectários,	convencidos	de	serem	superiores	aos	demais.	Antes	se
mostra	dotado	de	profundo	senso	crítico,	por	ser	consciente	de	suas	debilidades.
Configura-se	com	um	corpus	mixtum,	onde	convivem	bons	e	maus	(cf.	Mt
13,24-30:	o	joio	e	o	trigo;	13,47-50:	a	rede).	No	banquete	do	Reino	existem
pessoas	desprovidas	da	veste	nupcial,	motivo	pelo	qual	são	retiradas	da	festa	(cf.
Mt	22,11-13).	Ninguém	pode	se	considerar	confirmado	na	fé,	pois	existe	a
possibilidade	de	“esfriar	o	amor	de	muitos”	(Mt	24,12).	Urge	estar	atentos	para
as	investidas	dos	“falsos	profetas”,	desencaminhadores	dos	irmãos	de	fé	(cf.	Mt
7,15-20;	24,11).	Os	líderes	são	chamados	de	“fracos	na	fé”	(gr.	oligópistoi,	de
“pouca	fé”;	cf.	Mt	6,30;	8,26;	14,31;	16,8;	17,20).	Entre	os	discípulos,	corre	a
mentalidade	mundana	de	alguns	pretenderem	ocupar	cargos	elevados	(cf.	Mt
20,20-21).	Aquele	que	foi	constituído	“pedra”	sobre	a	qual	a	“igreja”	foi
edificada	(cf.	Mt	16,18)	traiu	o	Mestre	(cf.	Mt	26,32-35.69-75).	Outro	discípulo
vendeu-o	como	se	fosse	mercadoria	(cf.	Mt	26,21-47).	O	evangelista	estava
preocupado	com	a	má	influência	do	“fermento	dos	fariseus	e	dos	saduceus”	(cf.
Mt	16,5-12).	As	duras	invectivas	de	Mt	23	têm	como	destinatários	os	“escribas	e
fariseus	hipócritas”	da	comunidade,	contaminada	pelo	exibicionismo	vazio.
O	evangelho,	no	seu	conjunto,	pode	ser	considerado	uma	catequese	narrativa
para	formar	os	membros	da	comunidade.	Seu	caráter	didático,	esquemático	e
prático	se	percebe	na	primeira	leitura.	Daí	ter	sido	usado	nas	Igrejas	primitivas
muito	mais	que	os	demais	evangelhos.	Os	leitores-ouvintes	estarão	em	condições
de	acompanhá-lo	e	compreendê-lo	à	medida	que	se	aproximarem	desse	ambiente
existencial	de	fé.	A	leitura	da	catequese	mateana	desconectada	do	seu	contexto
original,	alheia	aos	contratempos	da	comunidade	mateana	e	desinteressada	de
conhecer	as	orientações	dadas	pelo	evangelista,	presta	um	grande	desserviço	à
causa	da	evangelização,	por	trilhar	caminhos	alheios	aos	da	fé	apostólica.
3.	O	autor	do	evangelho
O	evangelho	não	traz	a	assinatura	de	seu	autor.	A	autoria	(“Evangelho	segundo
Mateus”)	não	se	encontra	no	texto	grego	original.	Tem	origem	no	testemunho	de
Papias,	bispo	de	Hierápolis	(século	2º),	referido	por	Eusébio	de	Cesareia	(século
3º),	na	obra	História	Eclesiástica,	III,	39,16.	Papias	afirma	que	Mateus	se	deu	ao
trabalho	de	organizar	os	ensinamentos	de	Jesus	em	língua	hebraica	e	cada	leitor
os	interpretava	na	medida	de	suas	possibilidades.	Foram	levantadas	muitas
questões	em	torno	dessa	afirmação	sintética	e	lacunosa.	Os	ensinamentos	(gr.
lógia)	abarcam	o	conjunto	do	evangelho	ou	se	limitam	a	um	apanhado	de
instruções?	Organizar	(gr.	synetáxato)	refere-se	a	escrever	toda	a	obra?	A
interpretação	(gr.	herméneusen)	tinha	o	sentido	de	traduzir?	A	referência	à	língua
hebraica	(ebraídi	dialékto)	tem	a	ver	com	o	hebraico	ou	com	o	modo	de	se
expressar	nessa	língua?	Daqui	surgiu	a	hipótese	de	o	evangelho	ter	sido	escrito
originalmente	em	hebraico	e,	depois,	traduzido	para	o	grego.	Essa	hipótese	foi
deixada	de	lado!
Uma	leitura	atenta	revela	a	preocupação	pastoral	de	quem	escreveu	o	evangelho.
O	texto	evidencia	o	esforço	de	seu	autor	em	ajudar	sua	comunidade	a	enfrentar
os	desafios	da	perseguição,da	dispersão	e	da	capitulação	perante	as	investidas
adversárias.	Houve	quem	o	chamasse	de	“pastor	de	almas”,	pelo	cuidado	com	a
fé	de	seus	irmãos	e	irmãs	de	comunidade,	motivo	pelo	qual	se	deu	ao	trabalho	de
elaborar,	com	grande	habilidade	teológica	e	literária,	uma	catequese	para	orientá-
los	na	vivência	da	fé.
Faz-se	necessária	uma	distinção	entre	o	Mateus	apóstolo	e	o	Mateus	evangelista,
por	tratar-se	de	duas	personalidades	distintas.	Mateus	(cf.	Mt	9,9)	ou	Levi,	filho
de	Alfeu	(cf.	Mc	2,14),	um	dos	doze	discípulos	enviados	em	missão,	foi	um
cobrador	de	impostos	para	os	romanos	(cf.	Mt	10,3;	Lc	5,27),	no	início	do	século
1º.	Já	o	Mateus	evangelista	viveu	no	final	do	mesmo	século,	muitas	décadas
depois.	Equivale	ao	“autor	real”	do	evangelho,	impossível	de	ser	recuperado,
pela	autoria	fictícia	que	lhe	foi	atribuída.	Refere-se	à	pseudoepigrafia	praticada
na	Antiguidade,	com	a	atribuição	de	uma	obra	a	algum	personagem	importante
do	passado,	para	dar	autoridade	ao	texto.
Pode-se,	porém,	recuperar	sua	identidade	como	“autor	implícito”	nas	entrelinhas
da	catequese	atribuída	a	um	certo	Mateus.	Conhece	e	fala	o	grego	e	possui
grande	capacidade	literária;	tem	familiaridade	com	as	Escrituras	e	dá	mostras	de
estar	profundamente	inserido	nas	tradições	do	povo	judeu;	por	isso	usa	a
expressão	Reino	dos	Céus	em	lugar	de	Reino	de	Deus,	sensível	ao	costume
judaico	de	não	pronunciar	o	nome	de	Deus;	abraça	com	muita	garra	o	projeto	de
Jesus	de	Nazaré	e	se	torna	seu	grande	defensor;	está	engajado	em	uma
comunidade	cristã	cujas	crises	internas	e	externas	conhece	muito	bem;	goza	o
reconhecimento	da	comunidade	que	acolhe,	valoriza,	conserva	e	difunde	sua
catequese.	Dois	elementos	de	sua	identidade	chamam	a	atenção.	Por	um	lado,
mostra-se	realista	ao	falar	da	necessidade	das	obras	para	se	entrar	no	Reino,
desconsiderando	as	idealizações	espiritualizantes.	A	salvação	passa	pela
solidariedade	com	o	próximo	necessitado	(cf.	Mt	25,31-46).	Por	outro	lado,
mostra-se	conciliador	num	tempo	em	que	os	discípulos	de	Jesus	de	Nazaré	eram
perseguidos	pela	liderança	da	sinagoga.	Seu	escrito	não	contém	indícios	de	que
incentivasse	a	ruptura	com	os	perseguidores.	Antes	pede	que	os	amem,	rezem
por	eles	(cf.	Mt	5,44)	e	se	recusem	a	responder	violência	com	violência	(cf.	Mt
5,38-42).
Entre	os	estudiosos,	existe	a	tendência	de	reconhecer	Mt	13,52	como	assinatura
do	autor	da	catequese	evangélica:	“Todo	doutor	da	Lei	que	foi	instruído	no
Reino	dos	Céus	é	como	um	dono	de	casa	que	tira	de	seu	cofre	coisas	novas	e
velhas”.	Tratar-se-ia	de	um	doutor	da	Lei,	escriba,	que	aderiu	ao	movimento	de
Jesus	de	Nazaré	e,	numa	perspectiva	cristã,	reinterpretou	a	tradição	teológica	e
religiosa	de	Israel,	convencido	de	recuperar	as	raízes	da	fé	dos	antepassados.
Embora	falando	grego,	possuía	sólida	formação	judaica.	Isso	possibilitou-lhe
escrever	sua	catequese	em	grego,	lançando	mão	de	recursos	literários	e	tradições
teológicas	recorrentes	no	ambiente	judaico.
4.	A	estrutura	da	catequese	mateana
A	catequese	de	Mateus	tem	um	plano	bem	elaborado,	perceptível	quando	lida	no
seu	conjunto.	A	articulação	acontece	em	torno	de	cinco	grandes	discursos	de
Jesus,	concluídos	com	uma	fórmula	fixa:
7,28	– “Quando	terminou	essas	palavras”;
11,1	– “Quando	terminou	de	dar	instruções”;
13,53	– “Quando	terminou	de	contar	essas	parábolas”;
19,1	– “Quando	terminou	essas	palavras”;
26,1	– “Quando	terminou	todas	essas	palavras”.
Escrevendo	para	uma	comunidade	cristã	cujos	membros	provinham,	em	sua
maioria,	do	judaísmo,	ao	atribuir	a	Jesus	cinco	discursos	o	catequista	poderia
estar	contrapondo-os	aos	cinco	livros	do	Pentateuco,	aos	cinco	livros	dos	Salmos
ou	aos	cinco	Rolos	(heb.	meghilot),	abrangendo	o	Cântico	dos	Cânticos,	Rute,
Lamentações,	Eclesiastes	e	Ester,	lidos	nas	principais	festas	judaicas.	O	Mestre
Jesus	supera	em	grau	excelente	todos	e	tudo	quanto	o	antecedeu,	por	viver	uma
relação	inaudita	com	o	Deus	de	Israel,	donde	lhe	provém	a	autoridade	para
ensinar	e	fazer	gestos	poderosos.
Os	discursos,	com	uma	articulação	concêntrica	equilibrada,	giram	em	torno	do
Reino	de	Deus,	tema	de	fundo	da	catequese	mateana.	De	forma	muito	sucinta,
pode-se	dizer	que	o	Reino	de	Deus	significa	o	senhorio	de	Deus	sobre	a	história,
movendo	os	seres	humanos	para	a	fraternidade,	a	misericórdia,	o	perdão	e	a
reconciliação,	com	o	banimento	de	toda	sorte	de	injustiça	e	de	aviltamento	da
dignidade	dos	seres	humanos,	a	serem	tratados	como	irmãos	e	irmãs.	O	Reino
iniciado	na	história	caminha	para	a	plenificação	quando	a	humanidade	inteira
passará	pelo	crivo	do	Rei	Juiz,	que	avaliará	cada	um	com	a	medida	do	cuidado
dos	irmãos	mais	pequeninos	(cf.	Mt	25,31-46).
Estes	são	os	cinco	grandes	discursos	da	catequese	mateana:
Mt	5-7 Discurso	Inaugural	O	Sermão	da	Montanha	versa	sobre	a	justiça	do	Reino	de	Deus,	síntese	da	ética	do	discipulado	cristão.
Mt	10 Discurso	Missionário	São	enunciadas	aí	as	orientações	para	o	anúncio	do	Reino	de	Deus	a	toda	a	humanidade,	como	projeto	de	missão	dos	discípulos-apóstolos.
Mt	13 Discurso	Parabólico	Contém	chaves	de	leitura	dos	“mistérios	do	Reino	dos	Céus”,	o	modo	como	o	senhorio	de	Deus	se	faz	presente	na	história	em	meio	a	perdas	e	fracassos	na	perspectiva	de	um	fim	glorioso.
Mt	18 Discurso	Eclesiástico	Dirige-se	de	modo	particular	aos	líderes	da	comunidade,	no	intuito	de	inculcar-lhes	o	projeto	de	vida	do	Reino,	contrário	aos	esquemas	mundanos.
Mt	24-25 Discurso	Escatológico	Aborda	a	consumação	do	Reino,	quando	o	Messias	glorioso	julgará	a	humanidade,	acolhendo	os	autênticos	e	rejeitando	os	falsos	discípulos.
Os	discursos	correlacionam-se	entre	si.	O	primeiro	corresponde	ao	quinto:	à
proposta	de	vida,	segue-se	a	entrada	definitiva	no	Reino;	um	fala	do	começo	do
Reino	e	o	outro,	de	sua	consumação.	O	segundo	corresponde	ao	quarto:	a
dimensão	extraeclesial	do	Reino	(missão)	tem	como	contraponto	a	dimensão
intraeclesial	(vida	comunitária);	o	Reino	anunciado	pelos	missionários	deve	ser
implementado	na	comunidade.	O	terceiro	discurso	está	no	centro	e	oferece	a
chave	para	a	compreensão	dos	“mistérios	do	Reino”	e	da	catequese	mateana	em
seu	conjunto.
Os	discursos	articulam-se	de	forma	concêntrica:
A:	Mt	5-7	– discurso	inaugural
B:	Mt	10	– discurso	missionário
C:	Mt	13	– discurso	parabólico
B’:	Mt	18	– discurso	eclesiástico
A’:	Mt	24-25	– discurso	escatológico
Os	grandes	discursos	alternam-se	com	as	seções	narrativas.	O	narrador	teceu	sua
catequese	com	maestria	e	precisão,	concatenando	no	tempo	e	no	espaço	as
tradições	a	respeito	de	Jesus	de	Nazaré	à	sua	disposição,	abarcando	toda	a	vida
do	Mestre,	desde	a	sua	concepção	até	o	envio	missionário	dos	discípulos-
apóstolos	na	condição	de	Ressuscitado.	O	leitor-ouvinte,	ao	percorrer	o	itinerário
de	Jesus	de	Nazaré,	de	maneira	viva	e	realista,	contempla	o	programa	de	vida
que	abraçou	na	condição	de	discípulo	do	Reino	ou	que	está	para	abraçar,	em	se
tratando	de	pessoas	abertas	e	sensibilizadas	para	acolher	o	Reino.	O	gênero
literário	“evangelho”	permite	que	Jesus	fale	diretamente	ao	leitor-ouvinte,
servindo-se	dos	expedientes	narrativos	usados	pelo	evangelista.
O	longo	espaço	dedicado	aos	discursos	do	Mestre	(tempo	da	narração)	mostra
como	são	importantes	para	o	catequista-narrador,	no	esforço	de	tocar	o	coração
do	leitor-ouvinte.	Da	mesma	maneira,	o	largo	espaço	dedicado	à	narração	da
paixão,	morte	e	ressurreição	de	Jesus,	que	ocupa	vários	capítulos,	confronta	o
leitor-ouvinte	com	o	destino	que	o	espera	na	condição	de	discípulo	do	Reino.
Quem	adere	ao	projeto	de	Jesus	na	esperança	de	conquistar	grandezas	mundanas
que	se	cuide!
A	presente	leitura	da	catequese	mateana	evidenciará	seu	percurso	redacional	ao
frisar-lhe	a	lógica	narrativa,	fruto	de	um	trabalho	atento,	em	que	as	cenas	estão
em	perfeita	conexão,	de	modo	que	a	interpretação	de	cada	elemento	particular
depende	da	concatenação	com	o	conjunto.	Em	outras	palavras,	será	equivocada	a
interpretação	de	um	versículo	retirado	de	seu	contexto	narrativo.	Somente	a
leitura	intratextual	(o	versículo	inserido	no	conjunto	da	catequese	mateana),	às
vezessomada	à	leitura	extratextual	(o	versículo	comparado	com	outros	textos
bíblicos),	permitirá	compreender	a	mensagem	proposta	pelo	catequista	à	sua
comunidade.	Esse	expediente	hermenêutico	evita	leituras	aleatórias,	foco	de
conflitos	e	divisões	insensatas.	Quando	os	leitores	das	catequeses	evangélicas
não	se	põem	de	acordo,	o	problema	está	neles,	e	não	nos	evangelhos.	Estarão	no
bom	caminho	ao	se	afinarem	no	tocante	ao	método	com	o	qual	se	darão	ao
trabalho	de	entrar	“no	mundo	texto”	das	catequeses	de	referência	para	o
discipulado	do	Reino,	os	evangelhos,	em	todos	os	tempos	e	lugares.
5.	As	fontes	da	catequese	mateana
Existem	várias	teorias	a	respeito	das	fontes	do	evangelho	de	Mateus,	o	material
usado	pelo	catequista	na	composição	de	sua	obra.	Nenhuma	delas	satisfaz
inteiramente,	tampouco	goza	de	aceitação	unânime.	A	teoria	das	duas	fontes,
bem	simples,	goza	de	larga	aceitação,	embora	a	interpretação	de	muitos	pontos
ainda	fique	em	aberto.
A	catequese	mateana	contém	1071	versículos.
a.	O	evangelho	de	Marcos
506	versículos,	quase	a	metade,	provêm	da	fonte	Mc.	Apenas	6	passagens	do
evangelho	de	Marcos	são	omitidas,	ao	todo	21	versículos:
Mc	3,20-21 Conflito	de	Jesus	com	sua	família;
Mc	4,26-29 Crescimento	da	semente	por	motivos	desconhecidos;
Mc	7,31-37 Cura	do	surdo-gago;
Mc	8,22-26 Cura	do	cego	em	Betsaida;
Mc	14,51-52 Declaração	enigmática;
Mc	14,51-52 O	jovem	que	fugiu	nu,	quando	Jesus	foi	preso.
Por	que	Mateus	teria	omitido	essas	perícopes?	Podem-se	fazer	várias
conjecturas,	considerando	o	projeto	literário-narrativo	do	evangelista.	Os	dois
relatos	de	cura	em	Marcos	dão	a	impressão	de	magia,	quando	Mateus	se	esforça
para	apresentar	Jesus	na	condição	de	messias	mestre	e	profeta.	A	reação	dos
parentes	de	Jesus	choca	a	sensibilidade	do	catequista,	para	quem	Jesus	de	Nazaré
merece	o	maior	respeito	e	consideração.	Mc	9,49	(“Todos	serão	salgados	com
fogo”)	não	foi	encaixado	na	catequese	mateana	por	ser	incompreensível.	A	cena
do	jovem	que	testemunha	a	prisão	de	Jesus	está	fora	de	seu	interesse	narrativo.	A
parábola	da	semente	que	cresce	por	si	mesma	encontra	seu	correlato	na	parábola
do	grão	de	mostarda	(cf.	Mt	13,31-32).
Um	estudo	estilístico	comparando	a	catequese	mateana	com	a	catequese	marcana
–	análise	sinótica	–	mostra	como	Mateus	utilizou	sua	fonte	tendo	em	mente	um
projeto	literário-teológico	bem	definido,	com	o	qual	redigiu	sua	catequese.	Para
isso	melhorou	o	estilo	dos	textos	de	Marcos,	esclareceu	frases	e	termos	obscuros,
deixou	de	lado	o	que	não	lhe	interessava	e,	ao	invés,	inseriu	elementos
importantes	para	alcançar	seus	objetivos,	tendo	enxugado	as	narrações	marcanas
limitando-se	ao	essencial.	Seu	foco	centrava-se	na	mensagem	a	ser	comunicada
com	clareza	e	precisão,	para	evitar	interpretações	duvidosas	ou	levar	os	leitores-
ouvintes	a	aderirem	ao	discipulado	do	Reino	mal	informados.	Qualquer
elemento	que	escape	da	compreensão	dos	leitores	atuais	(“leitores	reais”)	resulta
do	desconhecimento	de	informações	possuídas	pelos	destinatários	originais	–
“leitores	implícitos”.
b.	A	fonte	Q
A	hipotética	fonte	Q,	do	alemão	Quelle,	fonte,	explica	a	origem	dos	textos	que
só	ocorrem	em	Mt	e	Lc.	Teria	sido	uma	coleção	de	ditos	de	Jesus,	usada	pelas
comunidades	cristãs	da	época,	com	discursos,	sentenças	e	ditos	do	Mestre.	A
narração	dos	grandes	feitos	do	Mestre	estava	fora	do	seu	interesse.	Não	continha
o	relato	da	paixão,	em	que	Mt	e	Lc	dependem	totalmente	de	Mc.
A	catequese	mateana	usou	daí	235	versículos.	Como	essa	fonte	presumida	não
foi	conservada,	torna-se	difícil	saber	quem	a	usou	com	mais	fidelidade:	Mt	ou
Lc?	Um	claro	exemplo	diz	respeito	ao	Sermão	da	Montanha,	em	Mt	5-7,	e	o
Sermão	da	Planície,	em	Lc	6,20-49.	Assemelham-se	quanto	ao	conteúdo,	mas	se
diferenciam	na	dimensão	e	no	estilo.	O	catequista	Mateus	foi	mais	detalhista
devido	à	preocupação	de	apresentar	o	projeto	de	discipulado	do	Reino	de	forma
clara,	para	evitar	mal-entendidos	ou	adesões	precipitadas.
c.	O	material	próprio	de	Mateus
A	catequese	mateana	contém	330	versículos,	para	os	quais	não	se	encontram
paralelos	nas	demais	catequeses	evangélicas.	Podem	ter	sido	obtidos	de	suas
tradições	particulares,	por	exemplo,	usadas	em	sua	comunidade,	de	outras	fontes
ou	então	se	trata	de	criações	redacionais	de	sua	autoria	a	partir	de	elementos	que
estavam	à	disposição	e	interessavam	para	seu	projeto	teológico-narrativo.
Entre	o	material	exclusivo	de	Mt	estão:
Mt	1-2 O	evangelho	da	infância
Mt	13,24-30 A	parábola	da	boa	e	da	má	semente
Mt	14,28-31 Pedro	caminha	sobre	as	águas
Mt	16,16-19 A	primazia	de	Pedro
Mt	17,24-27 O	imposto	do	Templo
Mt	18,23-35 A	parábola	do	servo	cruel
Mt	20,1-16 A	parábola	dos	trabalhadores	da	vinha
Mt	21,28-32 A	parábola	dos	dois	filhos
Mt	25,1-13 A	parábola	das	dez	virgens
Mt	25,31-46 O	julgamento	das	nações
Mt	27,19 O	sonho	da	mulher	de	Pilatos
Mt	27,24-25 Pilatos	lava	as	mãos
A	leitura	atenta	da	catequese	mateana	para	identificar	a	maneira	como	utiliza
suas	fontes	permite	captar-lhe	a	originalidade.	As	variadas	questões	de	fundo	são
trabalhadas	com	grande	habilidade	literária	no	decorrer	da	narração,	onde	se
encontram	as	marcas	de	seu	foco	teológico.	Um	evidente	exemplo	encontra-se
nas	inserções	feitas	em	ambos	os	milagres	de	multiplicação	dos	pães	(“sem
contar	mulheres	e	crianças”;	Mt	14,21;	15,38).	Essa	afirmação	tem	grande
importância	no	conjunto	da	mensagem	veiculada	no	evangelho.
6.	Alguns	recursos	literários	da	catequese	mateana
O	catequista	Mateus	lançou	mão	de	muitos	recursos	literários	recorrentes	na
tradição	rabínica	para	produzir	seu	evangelho,	além	da	tendência	a	reunir	os
ensinamentos	de	Jesus	em	grandes	discursos,	espinha	dorsal	de	sua	obra.	Eis
alguns	deles:
a)	Citações	e	alusões	do	Antigo	Testamento	para	respaldar	a	pessoa	e	os
ensinamentos	do	Mestre	Jesus	de	Nazaré.	São	tiradas	preferencialmente	da
versão	grega	da	Bíblia,	conhecida	como	Septuaginta.	A	fórmula	introdutória
“Tudo	isso	aconteceu	para	que	se	cumprisse	(gr.	pleróo)	o	que	o	Senhor	tinha
falado	por	meio	do	profeta”	e	outras	semelhantes	são	repetidas	cerca	de	doze
vezes	(cf.	Mt	1,22;	2,5.15.18.23	etc.).	Mais	que	evocar	o	esquema	previsão-
realização,	o	verbo	grego	aponta	para	a	plenificação	das	profecias	de	outrora.	As
palavras	dos	profetas,	válidas	para	o	passado,	encontram	em	Jesus	de	Nazaré	sua
plena	realização,	embora	os	profetas	não	falassem	pensando	especificamente
nele.	As	profecias	de	outrora	oferecem	luzes	para	a	compreensão	da	vida	e	do
ministério	de	Jesus	de	Nazaré.
b)	O	midrash	como	método	de	leitura	do	Antigo	Testamento.	Era	o	método
usado	pelos	doutores	da	Lei.	Tratava-se	de	buscar	(heb.	midrash)	sempre	novos
significados	para	os	textos	sagrados.	Tinha	como	pressuposto	a	inesgotabilidade
de	sentidos	das	Escrituras.	Na	catequese	mateana	ocorrem	dois	tipos	de
midrashim.	1.	O	midrash	halaká	parte	da	Lei	mosaica,	com	suas	prescrições
práticas	em	vista	de	conformar	a	conduta	(heb.	halak,	caminhar)	dos	fiéis,	seu
modo	de	se	portar	na	comunidade,	com	a	vontade	de	Deus.	Um	bom	exemplo
desse	método	de	interpretação	encontra-se	em	Mt	5,21-48,	onde	o	Mestre	Jesus
tem	a	ousadia	de	contrapor	“o	que	foi	dito	(por	Deus)	aos	antepassados”	com
“mas	eu	lhes	digo”,	ao	revelar	uma	nova	maneira	de	se	colocar	defronte	da	Lei,
preocupando-se	por	conhecer	o	verdadeiro	querer	divino	revelado	pelas	palavras.
2.	O	midrash	haggadá,	por	sua	vez,	serve-se	da	tradição	narrativa	(heb.	nagad,
narrar,	contar)	da	história	de	Israel,	relendo-a	a	partir	da	vida	e	do	testemunho	de
Jesus	de	Nazaré.	Esse	método	foi	aplicado	em	Mt	2,1-23,	evocando	a	história	de
Moisés,	num	autêntico	midrash	do	Êxodo,	para	mostrar	aos	membros	da
comunidade,	provindos	do	judaísmo,	ser	Jesus	a	“plenificação”	da	figura	do
libertador	do	povo	da	opressão	egípcia.	Herodes	encarna	o	faraó,	e	Jesus,
Moisés.	A	matança	dos	inocentes	de	Belém	evoca	a	matança	das	crianças
hebreias	no	Egito.	A	preservação	do	Menino	Jesus,	levado	para	o	Egito	pelo
obediente	José,	relembra	Moisés	salvo	das	águas	pela	intervenção	da	filha	do
faraó.	A	luta	passadaentre	o	Deus	dos	israelitas	e	o	faraó	revive	agora	na	luta
entre	o	Pai	de	Jesus,	representado	pelo	“anjo	do	Senhor”,	e	o	cruel	Herodes.
c)	O	uso	de	simbologia	numérica	em	torno	de	2	(número	da	criatura:	dualidade),
3	(número	da	constituição	do	ser	humano:	espírito,	alma	e	corpo),	5	(número	do
agir	divino:	os	livros	da	Lei),	7	(número	da	história	humana:	os	dias	da	criação)
e	12	(número	da	comunidade:	as	tribos	de	Israel).	Dois:	os	endemoninhados	(cf.
Mt	8,28),	os	cegos	(cf.	Mt	9,27;	20,30),	as	falsas	testemunhas	(cf.	Mt	26,60).
Mateus	tende	a	duplicar	o	que	em	Marcos	é	um.	Três:	os	blocos	genealógicos
(cf.	Mt	1,2-17:	3x14),	as	aparições	de	anjos	(cf.	Mt	1,18-2,23),	as	tentações	(cf.
Mt	4,1-11),	os	exemplos	de	piedade	religiosa	(cf.	Mt	6,1-18),	as	proibições	(cf.
Mt	6,19-7,6),	os	mandamentos	(cf.	Mt	7,7-20),	as	curas	(cf.	Mt	8,1-15),	os
milagres	com	poder	(exousía)	(cf.	Mt	8,23-9,8),	as	parábolas	sobre	a	semeadura
(cf.	Mt	13,1-32),	as	orações	de	Jesus	no	horto	(cf.	Mt	26,39-44),	as	negações	de
Pedro	(cf.	Mt	26,69-75).	Cinco:	as	citações	dos	profetas	(cf.	Mt	1,22-23;	2,5-
6.15.18.23);	os	discursos	(cf.	Mt	5-7;	10;	13;	18;	24-25),	as	virgens	sábias	e	as
virgens	imprudentes	(cf.	Mt	25,1-13),	os	talentos	(cf.	Mt	25,15.16.20).	Sete:	os
pedidos	do	Pai-Nosso	(cf.	Mt	6,9-13),	os	demônios	(cf.	Mt	12,45),	as	parábolas
(cf.	Mt	13),	os	pães	(cf.	Mt	15,34.37),	a	quantidade	de	perdão	(cf.	Mt	18,21-22),
os	irmãos	(cf.	Mt	22,25),	os	“ais”	(cf.	Mt	23,13-30).	Doze:	os	anos	da	doença	da
hemorroíssa	(cf.	Mt	9,20);	os	discípulos-apóstolos	(cf.	Mt	10,1.2.5;	20,17;
26,14.20.47);	os	cestos	cheios	de	pães	(cf.	Mt	14,20);	os	tronos	e	as	tribos	de
Israel	(cf.	Mt	19,28);	as	legiões	de	anjos	(cf.	Mt	26,53).
d)	O	recurso	à	gematria,	atribuição	de	valor	numérico	às	letras	como	meio	de
transmitir	uma	mensagem	teológica.	Ocorre	na	genealogia	de	Jesus,	articulada
em	torno	do	número	14,	para	apresentar	Jesus	Cristo	como	o	davidida	por
excelência	(cf.	Mt	1,17).	As	consoantes	do	nome	DaViD	equivalem	a	4	+	6	+	4,
valor	numérico	das	respectivas	letras.
e)	O	uso	de	inclusões.	Diz	respeito	à	repetição	de	palavras,	expressões	ou	frases
no	início	e	no	fim	de	um	bloco	literário,	indicando	tratar-se	de	uma	unidade.
Uma	inclusão	importante	encontra-se	em	Mt	4,23	e	9,35	(síntese	da	ação
missionária	de	Jesus),	mas	também	em	Mt	2,2	e	27,37	(Rei	dos	Judeus),	Mt	1,23
e	28,20	(Emanuel),	Mt	1,21	e	26,28	(salvar	dos	pecados),	Mt	2,11	e	28,17
(adoração),	1,18-20	e	28,19	(Espírito	Santo),	Mt	1,24	e	28,16	(cumprimento	de
ordens),	Mt	2,1-12	e	28,19	(a	universalidade	da	salvação).
f)	A	tendência	à	generalização.	As	palavras	“todos”	e	“todas”	são	usadas	de
forma	indiscriminada.	Nada	acontece	pela	metade	ou	atinge	um	número	limitado
de	pessoas.	O	pendor	para	a	universalização	faz-se	presente	ao	longo	de	toda	a
catequese	mateana.
g)	O	uso	de	estrutura	concêntrica.	O	exemplo	mais	evidente	desse	recurso	é	a
articulação	dos	cinco	grandes	discursos.
h)	O	uso	do	quiasmo.	Trata-se	da	inter-relação	entre	duas	afirmações	em	forma
de	A	B	A’	B’	(cf.	Mt	10,40;	16,25;	20,16).
i)	Os	sumários	introdutórios	e	conclusivos.	Servem	para	guiar	o	leitor-ouvinte	ao
lhe	oferecer	de	forma	resumida	o	conteúdo	a	ser	apresentado	e,	no	fim,	uma
síntese	do	caminho	percorrido	(cf.	Mt	4,23-25	e	9,35-38;	4,28;	8,16;	12,15;
14,14.36;	15,30;	19,1;	21,14).
7.	As	questões	de	fundo	da	catequese	mateana
Esse	tópico	poderia	ter	sido	apresentado	bem	anteriormente.	Porém,	foi
postergado	por	motivos	pedagógicos:	ao	iniciar	a	leitura	da	catequese	mateana
comentada,	supõe-se	do	leitor-ouvinte	ter	bem	claras	as	questões	de	fundo	a
serem	respondidas.	Na	falta	dessa	consciência,	a	leitura	dificilmente	produzirá	os
frutos	pretendidos	por	Mateus	para	sua	comunidade	dos	finais	do	século	1º	e,	por
consequência,	para	os	leitores-ouvintes	de	todos	os	tempos.	Pelo	fato	de	não	se
tratar	de	biografia	de	Jesus	de	Nazaré,	torna-se	necessário	se	deixar	guiar	pelo
narrador	no	seu	esforço	de	ajudá-los	a	serem	discípulos	do	Messias	Jesus	de
Nazaré,	com	todas	as	consequências	dessa	opção	de	vida	pessoal	e	comunitária.
a.	Os	desafios	da	fé	cristã	no	ambiente	judaico
O	movimento	de	Jesus	de	Nazaré	originou-se	no	âmbito	do	judaísmo,	como	uma
das	várias	correntes	no	interior	da	religião	de	Israel.	A	ruptura	consumou-se	com
a	pressão	dos	líderes	da	sinagoga	no	esforço	de	rearticulação	da	fé	judaica,	no
final	do	século	1º,	após	a	destruição	de	Jerusalém	em	70	d.C.	Mesmo	antes,	a
adesão	ao	Messias	Jesus	era	ocasião	de	profunda	crise	para	um	judeu-cristão
devoto.
Talvez	o	desafio	mais	radical	consistisse	em	professar	a	salvação	consumada
pelo	Crucificado.	As	Escrituras	declaram:	“Quem	morre	pendurado	é
amaldiçoado	por	Deus”	(Dt	21,23).	O	simples	fato	de	morrer	pregado	na	cruz
fazia	de	Jesus	de	Nazaré	um	maldito.	Aliás,	ao	optar	por	crucificá-lo,	a	liderança
religiosa	de	Israel	escolheu	a	dedo	a	forma	indubitável	de	desacreditá-lo.	Tendo
as	Escrituras	a	seu	favor,	era	como	se	Deus	mesmo	confirmasse	o	descrédito	do
“falso	messias”	Jesus	de	Nazaré.
O	catequista	Mateus	levou	a	cabo	a	tarefa	de	desmontar	essa	teologia	macabra,
mostrando	como	Jesus,	o	Filho	amado	de	Deus	(cf.	Mt	3,17;	17,5),	apesar	da
obediência	e	da	fidelidade	ao	Pai	dos	Céus,	foi	vítima	da	maldade	dos	inimigos
de	Deus,	defensores	de	uma	religião	feita	de	tradições	humanas	(cf.	Mt	15,3),
desconectadas	do	querer	divino.	Quem	segue	sua	catequese,	de	coração	aberto
para	acolhê-la,	estará	em	condições	de	compreender	que,	suspenso	na	cruz,	está
o	bendito	de	Deus.	E	mais:	a	crucifixão	resultou	de	uma	terrível	injustiça,	e	não
da	maldição	divina.	Tanto	a	mulher	de	Pilatos	(cf.	Mt	27,19)	quanto	o	oficial
romano	e	seus	subordinados	(cf.	Mt	27,54),	“pagãos”,	deram-se	conta	disso.
Supõe-se	do	leitor-ouvinte,	discípulo	de	extração	judaica,	ao	concluir	a	leitura-
audição	da	catequese	mateana,	estar	convencido	de	que	vale	a	pena	aderir	a
Jesus	de	Nazaré	e	ao	Reino	e	se	pautar	por	ele,	mesmo	devendo	morrer	como	o
Mestre!	Deus	está	sempre	do	lado	de	quem	lhe	demonstra	fidelidade,	mesmo	na
eventualidade	de	ser	crucificado.
Paralelamente	a	esse	desafio	radical,	havia	outros	concernentes	à	vivência	da	fé
judaica	pelo	viés	cristão.	Entre	eles,	a	questão	do	sentido	de	trocar	Moisés	por
Jesus	de	Nazaré.	O	catequista	defronta-se	com	a	tarefa	de	mostrar	como	Jesus,	o
Filho	de	Deus,	supera	infinitamente	Moisés,	podendo	ser	considerado	o
“autêntico”	Moisés,	que	oferece	a	“autêntica”	Lei	ao	“autêntico”	Israel,	a	nova
humanidade	inaugurada	por	ele.	Portanto,	quem	adere	a	Jesus	toma	uma	decisão
acertada,	no	sentido	de	plenificar	a	fé	dos	antepassados.
Por	conseguinte,	longe	de	serem	hereges	e	apóstatas,	os	discípulos	de	Jesus
caminham	na	direção	da	verdadeira	fé	de	Israel,	não	mais	propriedade	de	um
povo	em	particular,	e	sim	oferecida	à	humanidade	inteira,	pela	ação	dos
discípulos-apóstolos	(cf.	Mt	28,19).	Todos	os	povos	de	todas	as	nações	são
convidados	a	fazer	parte	desse	novo	Israel,	cujas	origens	tiveram	início	pela
intermediação	do	antigo	líder	libertador	do	povo	da	escravidão	egípcia,	agora
plenificado	pela	ação	do	Messias	Jesus	de	Nazaré.	Ao	fazer	o	midrash	do	êxodo
e	falar	de	Jesus	no	Egito,	como	realização	de	uma	profecia	(cf.	Mt	2,13-16),	o
catequista	Mateus	apresenta	o	Salvador	Jesus	de	Nazaré	percorrendo	os	passos
de	Moisés	que	atravessa	o	mar	Vermelho	pelo	batismo	(cf.	Mt	3,13-17),	supera
as	tentações	no	deserto	(cf.	Mt	4,1-11)	e	dá	a	nova	Lei	(cf.	Mt	5-7)	ao	Israel	que
nascerá	de	seu	ministério.	Portanto,	os	cristãos-judeus	não	precisam	se	desfazer
da	fé	dos	antepassados,	e	sim	lhe	descobrir	o	sentido	pleno	revelado	pelo
testemunho	e	pelos	ensinamentos	do	Mestre	de	Nazaré.
Em	sua	catequese,	o	evangelista	defrontou-se	com	a	tarefa	de	mostrar	a	seus
leitores-ouvintes	a	diferença	entre	o	modo	de	agir	na	comunidade	dos	discípulos
do	Reino,	igreja,	e	a	proposta	da	liderança	da	sinagoga,	com	seu	apego
exagerado	à	Lei	mosaica,	numa	fidelidade	exibicionista	e	inescrupulosa	(cf.	Mt
6,1-18),	desprovida	do	remorso	de	burlá-la	com	a	aparência	de	fidelidade	(cf.	Mt15,3-9),	servindo-se	de	suas	tradições	para	invalidar	a	Palavra	de	Deus.
O	catequista	concentrará	seus	esforços	para	mostrar	como	os	discípulos	do
Reino	serão	reconhecidos	por	um	modo	de	vida	–	“justiça”	–	muito	superior	ao
dos	doutores	da	Lei	e	dos	fariseus	(cf.	Mt	5,20).	Cuidarão	para	não	se	deixarem
contaminar	com	o	“fermento	dos	fariseus	e	saduceus”	(cf.	Mt	16,6),	num	falso
discipulado	cristão	(cf.	Mt	22,13-14).	Equivoca-se	quem	se	limita	a	dizer
“Senhor,	Senhor”	seguro	de	estar	no	caminho	do	Reino,	pois	o	discipulado	se
constrói	na	submissão	à	“vontade	do	meu	Pai	que	está	nos	céus”	(cf.	Mt	7,21-
23),	que	acolherá	em	seu	Reino	não	os	cumpridores	rigorosos	dos	ditames	da	Lei
mosaica,	antes	os	solidários	com	os	irmãos	mais	pequeninos	e	fragilizados	(cf.
Mt	25,31-46).
b.	Os	desafios	da	fé	cristã	no	ambiente	romano
O	catequista	Mateus	viu-se	também	às	voltas	com	questões	levantadas	pelo
contato	da	comunidade	com	o	Império	Romano.	Competia-lhe	a	tarefa	de
orientar	os	irmãos	de	fé	quanto	ao	modo	correto	de	se	relacionar	com	a	ideologia
imperialista,	de	maneira	crítica,	contudo	evitando	a	chance	de	se	tornar	um
grupo	fechado	e	sectário.	Esse	tema	perpassa	sua	catequese	do	começo	ao	fim,
tendo	como	contraponto	a	rejeição	de	Jesus	pelas	lideranças	religiosas	de	Israel,
introduzida	com	a	hostilidade	em	face	do	Messias	recém-nascido	procurado
pelos	magos	(cf.	Mt	2,1-12)	e	culminada	com	a	declaração	de	responsabilidade
pela	morte	violenta	de	Jesus	(cf.	Mt	27,25).	Na	direção	contrária	estão	os
“pagãos”	interessados	em	buscar	e	reconhecer	o	Messias	Jesus	(cf.	Mt	2,9-12),
dando	mostras	de	fé	não	encontrada	em	ninguém	de	Israel	(cf.	Mt	8,10),	e
consumada	com	a	profissão	de	fé	do	oficial	romano	e	seus	subordinados	aos	pés
do	Crucificado:	“Realmente,	ele	era	Filho	de	Deus”	(Mt	27,54).
Por	um	lado,	o	catequista	ensina	sua	comunidade	a	ser	aberta	aos	cidadãos
romanos,	livre	de	todo	preconceito	e	condenação.	Esse	foi	o	comportamento	do
Mestre	ao	chamar	um	cobrador	de	impostos	para	o	discipulado	do	Reino	e
sentar-se	à	mesa	com	seus	companheiros	de	profissão	(cf.	Mt	9,9-10).	Todos
quantos	eram	trazidos	até	ele	implorando	cura	eram	atendidos,	incluindo-se	os
romanos	(cf.	Mt	4,24).	Uma	pagã	foi	elogiada	por	sua	fé	como	chamada	de
atenção	para	a	predisposição	dos	não	judeus	para	acolher	o	Reino	(cf.	Mt	15,28).
Por	outro	lado,	Mateus	alerta	sua	comunidade	no	tocante	aos	elementos	da
ideologia	romana	abertamente	contrários	ao	projeto	do	Reino.	Cabe-lhe	orientar
a	comunidade	sobre	o	modo	correto	de	se	comportar	no	confronto	com	essa
realidade	incontornável.	E	o	faz	contrapondo	o	Reino	dos	Céus	ao	Império
Romano,	que	parece	ter	um	quê	de	diabólico	(cf.	Mt	4,8-9).	Deus	supera	César
infinitamente,	donde	a	obrigação	de	devolver	“a	César	o	que	é	de	César,	e	a
Deus	o	que	é	de	Deus”	(Mt	22,21).	Em	outras	palavras,	não	tem	importância
pagar	o	tributo	exigido	pelo	imperador,	com	a	condição	de	lhe	recusar	a
adoração,	devida	unicamente	a	Deus.	Os	discípulos	devem	pedir
insistentemente:	“Venha	o	teu	Reino,	seja	feita	a	tua	vontade,	assim	na	terra
como	no	céu”	(Mt	6,10),	e	não	o	reino	do	imperador,	pois	só	Deus	é	o	“Senhor
do	céu	e	da	terra”	(Mt	11,25),	de	tudo.	Com	Jesus,	cuja	missão	consiste	em
“salvar	o	seu	povo	dos	seus	pecados”	(Mt	1,21),	o	“Reino	de	Deus”	se	fez
próximo	da	humanidade	(cf.	Mt	4,17;	12,28).	O	“império”	de	Deus,
consequentemente,	abarca	toda	a	humanidade,	e	não	apenas	o	Império	Romano.
Na	catequese	de	Mateus,	o	Mestre	Jesus	ensina	os	discípulos	a	não	serem
violentos	como	os	romanos,	e	sim	mansos	(cf.	Mt	5,4)	e	pacíficos	(cf.	Mt	5,9),
dispostos	a	oferecer	a	face	esquerda	a	quem	esbofetear	a	face	direita	(cf.	Mt
4,39).	A	lei	de	talião	torna-se	inválida	(cf.	Mt	5,38)	pela	supremacia	da	caridade
(cf.	Mt	5,44-48).	Afinal,	“todos	os	que	usam	da	espada,	pela	espada	morrerão”
(Mt	26,52).
Jesus	é	apresentado	como	o	verdadeiro	rei,	procurado	pelos	magos	(cf.	Mt	2,2),
objeto	da	preocupação	de	Pilatos	(cf.	Mt	27,11)	e	das	zombarias	de	seus	algozes
(cf.	Mt	27,29.37).	Na	condição	de	rei,	foi	constituído	agente	de	Deus	na	história,
agindo	em	favor	dos	marginalizados	e	sofredores,	excluídos	da	atenção	do
Império	Romano.	Nos	gestos	poderosos	de	Jesus	realizados	com	a	autoridade
(exousía)	recebida	do	Pai,	o	Reino	de	Deus	se	implanta	na	terra	por	caminhos
muito	diferentes	dos	trilhados	pelo	Império	Romano	e	a	força	das	armas	(cf.	Mt
20,25).	A	catequese	mateana	propõe	uma	sociedade	alternativa,	comunidade	de
irmãos,	solidária	e	misericordiosa.
O	contato	com	o	ambiente	romano	recoloca	a	questão	da	morte	de	cruz.	Aqui,	os
crucificados	eram	tidos	na	conta	de	marginais,	bandidos	e	escória	da	sociedade.
Os	“cidadãos	de	bem”	jamais	recebiam	essa	pena	capital.	Como	justificar	a
pretensão	de	Jesus	de	Nazaré	de	ser	“salvador”,	quando	teve	um	destino
execrável?	O	catequista	Mateus	conduz	seu	leitor-ouvinte	nas	tramas	de	sua
narração	para	compreender	a	verdadeira	identidade	de	Jesus	de	Nazaré,	homem
inteiramente	justo	e	misericordioso,	vítima	da	maldade	dos	líderes	religiosos	de
seu	povo.	O	Crucificado	tem	as	características	de	um	“homem	de	bem”,	nele	não
se	encontra	qualquer	traço	de	maldade.	Sua	proximidade	com	Deus	e	sua
compaixão	com	os	sofredores	e	marginalizados	constituem-se	em	projeto	de	vida
de	grande	densidade	humana	e	religiosa,	capaz	de	descortinar	largos	horizontes
para	os	cidadãos	romanos	abertos	para	a	fé	(cf.	Mt	8,10).	A	conclusão	será:	vale
a	pena	repelir	a	pretensão	do	imperador	de	ser	adorado	como	deus	e	aderir	ao
Reino	anunciado	por	Jesus	de	Nazaré,	mesmo	na	eventualidade	de	sofrer	e
morrer	por	causa	de	fé	nos	passos	do	Mestre!
c.	Os	desafios	da	fé	cristã	no	interior	das	comunidades	do	Reino
O	catequista	Mateus	tem	em	vista	sua	comunidade	em	crise,	a	quem	oferece
indicações	para	viver	fielmente	a	fé	e	escapar	à	tentação	de	deixar	“esfriar	o
amor	(gr.	agápe)”	(Mt	24,12).	Quer	inculcar-lhe	a	convicção	de	que	“quem
perseverar	até	o	fim,	esse	será	salvo”	(Mt	24,13).	A	perseverança	no	amor
constitui-se	no	único	caminho	de	salvação,	pois	será	esse	o	critério	de
julgamento	da	humanidade,	quando	os	“benditos	do	meu	Pai”	herdarão	“o	Reino
preparado	para	vocês	desde	a	criação	do	mundo”	(Mt	25,34).
Além	de	abrir	a	mente	de	sua	comunidade	em	crise,	esclarecer-lhe	as	dúvidas
para	lhe	reforçar	a	fé	e	prepará-la	para	o	embate	gerado	pela	intolerância	quase
fanática	da	liderança	judaica	da	sinagoga,	mas	também	pela	pressão	por	parte
dos	romanos,	o	catequista	enfrenta	uma	série	de	problemas	dentro	da
comunidade	nem	sempre	sintonizada	com	o	Reino.	Esses	problemas	se
percebem	numa	análise	atenta	da	narração,	visando	a	detectar	o	“por	trás”	do
texto.
Havia	conflitos	de	liderança,	onde	um	queria	ser	maior	que	o	outro.	A	pergunta
dirigida	ao	Mestre:	“Quem	é	o	maior	no	Reino	dos	Céus?”	(Mt	18,1)	esconde	a
ambição	de	certos	líderes.	A	orientação:	“Quem	se	faz	pequeno	como	esta
criança,	esse	é	o	maior	no	Reino	dos	Céus”	(Mt	18,4)	tem	o	objetivo	de	colocar
um	basta	na	ambição	pelo	poder.
Essa	mentalidade	se	percebe	também	no	pedido	dirigido	ao	Mestre	pela	mãe	dos
filhos	de	Zebedeu:	“Ordena	que	estes	meus	dois	filhos	se	sentem,	um	à	tua
direita	e	outro	à	tua	esquerda,	no	teu	Reino”	(Mt	20,21).	A	resposta	corta	pela
raiz	a	avidez	daquela	família,	ao	colocar	de	cabeça	para	baixo	seus	esquemas
mentais:	“Quem	de	vocês	quiser	tornar-se	grande,	seja	aquele	que	serve	a	vocês.
E	quem	de	vocês	quiser	ser	o	primeiro,	seja	o	servo	de	vocês”	(Mt	20,26-27).
Seu	exemplo	de	Messias	Servo	constitui-se	em	exemplo	a	ser	seguido:	“O	Filho
do	Homem	não	veio	para	ser	servido,	mas	para	servir	e	dar	a	própria	vida	como
resgate	por	muitos”	(Mt	20,28).
Uma	das	manifestações	mais	terríveis	do	autoritarismo	dos	líderes	manifesta-se
na	intransigência	com	os	pequenos	da	comunidade	e	quem	comete	eventuais
deslizes,	que	podem	ser	graves.	Para	evitar	que	algum	membro	se	torne	vítima
de	líderes	intolerantes,	Jesus	entrega	nas	mãos	da	comunidade	a	condução	dos
trâmites	de	excomunhão.	Essa,	em	clima	de	oração	e	de	discernimento,
consciente	de	ter	o	Ressuscitadoem	seu	meio,	buscará	conformar	sua	decisão
com	o	querer	do	Pai	dos	Céus	(cf.	Mt	18,15-21).
A	predisposição	para	julgar,	condenar	e	excluir	os	membros	faltosos	dará	lugar	à
propensão	para	perdoar,	acolher	e	incentivar	a	continuar	a	caminhada.	“Se	cada
um	de	vocês	não	perdoar	de	coração	o	seu	irmão”	(Mt	18,35)	terá	sorte	idêntica
à	do	servo	cruel	que,	tendo	recebido	o	perdão	de	uma	dívida	incomensurável,	foi
inclemente	com	o	companheiro	que	lhe	devia	uma	ninharia	(cf.	Mt	18,23-34).	A
oração	ensinada	pelo	Mestre	a	ser	dirigida	ao	Pai	dos	Céus	pelo	discípulo	do
Reino	compromete-o	com	a	prática	do	perdão:	“Perdoa-nos	nossas	dívidas	(gr.
opheilémata),	assim	como	nós	perdoamos	aos	que	nos	devem	(gr.	opheilétais)”
(Mt	6,12).	Portanto,	o	tema	do	perdão,	tendo	como	referência	a	metáfora	da
dívida,	comporta	uma	triangulação	entre	o	Pai	dos	Céus,	o	membro	da
comunidade	que	se	sentiu	ofendido	e	o	próximo	que	o	ofendeu.	O	ensinamento
do	Mestre	não	deixa	margem	para	dúvidas:	“Se	vocês	perdoarem	as	faltas	das
pessoas,	também	seu	Pai	celeste	perdoará	vocês.	Mas,	se	vocês	não	perdoarem
as	pessoas,	seu	Pai	também	não	perdoará	as	faltas	de	vocês”	(Mt	6,14-15).	E
mais:	“Vocês	serão	julgados	com	o	julgamento	com	que	julgarem,	e	serão
medidos	com	a	medida	com	que	medirem”	(Mt	7,2).	Como	pilares	da
comunidade	do	Reino	estão	o	perdão	e	a	reconciliação.	A	falta	desses	pilares	a
torna	frágil	como	a	casa	construída	sobre	a	areia,	cuja	ruína	será	terrível	(cf.	Mt
7,27).
Outro	handicap	da	comunidade	mateana	diz	respeito	à	fragilidade	da	fé	das
lideranças.	Pedro	personifica	essa	realidade.	Caminhando	sobre	as	águas	ao
encontro	de	Jesus,	o	vento	forte	lhe	causa	medo.	Quando	se	vê	afundando,
clama:	“Senhor,	salva-me!”	Jesus	estende-lhe	a	mão,	segura-o,	censurando-o:
“Homem	fraco	na	fé!	Por	que	você	duvidou?”	(Mt	14,29-32).	Logo	após	o
elogio	por	ter	revelado	a	identidade	messiânica	de	Jesus	(“Tu	és	o	Messias,	o
filho	do	Deus	vivo”;	Mt	16,16)	e	a	investidura	como	discípulo	de	referência	para
os	demais	(“Você	é	Pedro,	e	sobre	esta	pedra	construirei	a	minha	igreja”;	Mt
16,18),	recebe	uma	tremenda	censura,	por	ser	incapaz	de	compreender	o
messianismo	do	Mestre,	deixando	de	lado	os	esquemas	mundanos	(“Vá	para	trás
de	mim,	Satanás!	Você	é	para	mim	uma	pedra	de	tropeço,	porque	não	pensa	nas
coisas	de	Deus,	e	sim	nas	coisas	dos	homens”;	Mt	16,23).	Quando	o	Mestre
anunciou	sua	morte	iminente,	Pedro	declarou-lhe	fidelidade	incondicional:
“Ainda	que	todos	tropecem	e	caiam	por	tua	causa,	eu	não	cairei	nunca”	(Mt
26,33),	sendo	desmentido:	“Nesta	noite,	antes	que	o	galo	cante,	você	me	negará
três	vezes”	(Mt	17,34).	Mas	insistiu:	“Ainda	que	eu	tenha	de	morrer	contigo,	não
te	negarei”	(Mt	17,35).	Os	demais	discípulos	fizeram	eco	ao	rompante	de
fidelidade	de	Pedro.	No	frigir	dos	ovos,	o	discípulo	fidelíssimo	mostrou	sua
fragilidade	ao	ser	questionado	quando	estava	no	pátio	da	casa	do	sumo	sacerdote
acompanhando	o	julgamento	do	Mestre,	batendo	na	mesma	tecla:	“Não	conheço
esse	homem!”	(Mt	26,72.74),	inclusive	com	maldição	e	juramento.	Ao	cantar	do
galo,	vêm-lhe	à	mente	as	palavras	do	Mestre:	“Antes	que	o	galo	cante,	você	me
negará	três	vezes”	(Mt	26,75).	Quando	sai	dali	para	chorar	amargamente,	toma
consciência	de	sua	real	condição	de	discípulo	frágil	precisando	de	apoio	e	de
compreensão.	Pedro	encarna	a	situação	da	liderança	da	comunidade	de	Mateus.
Qualquer	pretensão	de	autoritarismo	e	de	intolerância	será	infidelidade	ao	ideal
do	Reino.	Como	os	demais	membros	da	comunidade,	têm	o	dever	de	se	espelhar
no	proceder	do	Mestre	“manso	e	humilde	de	coração”	(Mt	11,29),	resistindo	à
tentação	de	impor	um	fardo	pesado	nas	costas	dos	irmãos	de	fé	(cf.	Mt
11,28.30).
Uma	frase	do	Mestre,	tomada	da	fonte	Mc,	pode	ser	entendida	como	indicação
do	caminho	a	ser	trilhado	no	enfrentamento	e	na	superação	da	crise:	“Estejam
vigilantes	e	rezem,	para	não	caírem	na	tentação.	Porque	o	espírito	está	pronto,
mas	a	carne	é	fraca”	(Mt	26,41).	Vigilância	e	oração	constituem-se	em
mediações	na	busca	da	fidelidade	ao	Reino,	em	meio	às	muitas	provações.	O
Mestre	retirava-se	“sozinho	para	rezar”	(Mt	14,23;	26,36),	colocando-se
inteiramente	nas	mãos	do	Pai	dos	Céus	com	uma	decidida	convicção:	“Não	seja
como	eu	quero,	e	sim	como	tu	queres”	(Mt	26,39);	“Seja	feita	a	tua	vontade”	(Mt
26,42).	A	oração	consistia	em	“escutar”	o	Pai,	no	propósito	de	conhecer-lhe	a
vontade	e	transformá-la	em	pauta	de	ação.	Por	outro	lado,	a	oração	dava-lhe
forças	para	enfrentar	as	contínuas	investidas	dos	inimigos,	resolutos	na	decisão
de	tirar-lhe	a	vida	(cf.	Mt	16,1;	19,3;	22,18.35).	A	tríplice	tentação	no	início	de
seu	ministério	chama	a	atenção	do	leitor-ouvinte	para	as	constantes	tentações	no
transcurso	de	sua	vida,	culminada	com	a	tentação	suprema,	quando	pregado	na
cruz	(cf.	Mt	4,1-11;	27,40).	Em	momento	algum	fraquejou	e	se	deixou	levar
pelas	investidas	do	maligno.	Seu	exemplo	de	firmeza	torna-se	inspiração	e
modelo	para	os	discípulos	de	todos	os	tempos.
As	tentações	são	inevitáveis	na	caminhada	dos	discípulos.	Entretanto,	seguindo	o
exemplo	do	Mestre,	saberão	enfrentá-las	e	vencê-las,	mesmo	as	mais	violentas.
A	força	para	superá-las	provém	da	súplica	contínua	dirigida	ao	Pai	dos	Céus,
como	o	Mestre	ensinou:	“Não	nos	deixes	cair	em	tentação,	mas	livra-nos	do	mal
(gr.	ponerós)”	(Mt	6,13),	isto	é,	do	maligno.	Esse	insiste	em	desviar	os	discípulos
do	bom	caminho	das	mais	variadas	formas	(cf.	Mt	5,37).	A	contemplação	do
testemunho	do	Mestre	incentiva	a	comunidade	do	Reino	a	se	manter	firme	nas
tribulações	e	caminhar	resoluta	rumo	à	meta	traçada	pelo	Pai	dos	Céus	(cf.	Mt
10,16-25).
A	comunidade	do	Reino	tem	a	tarefa	de	fermentar	a	realidade	com	seu
testemunho	(cf.	Mt	13,33).	Daí	a	urgência	de	se	adequar	ao	ideal	de	vida	no
Reino	proclamado	por	Jesus	de	Nazaré	e	formalizado	com	precisão	por	Mateus
em	seu	evangelho,	que	pode	ser	definido	como	catecismo	do	discipulado	do
Reino.
8.	Os	três	tempos	na	leitura-audição	da	catequese	mateana
A	leitura-audição	frutuosa	da	catequese	evangélica	de	Mateus	exige	do	leitor-
ouvinte	fazê-la	inter-relacionando	um	tríplice	registro	temporal.
a.	O	primeiro	diz	respeito	ao	tempo	da	comunidade	do	catequista	Mateus.	É	o
contexto	da	fé	vivida,	com	seus	múltiplos	desafios	e	questões,	de	cujas	respostas
depende	a	perseverança	na	fé	batismal.	Por	isso,	quanto	maior	o	conhecimento
das	condições	de	vida	da	comunidade	mateana,	em	sua	ambientação	judaico-
romana	e	suas	problemáticas	internas,	tanto	melhor	será	a	compreensão	do	texto
evangélico,	cuja	finalidade	consiste	em	lançar	luzes	em	vista	da	prática	da	fé
com	mais	consistência	e	determinação.
Sem	esse	pressuposto,	será	grande	a	probabilidade	das	interpretações	triviais	e
tendenciosas,	geradoras	de	conflitos	inúteis,	baseados	em	considerações
arbitrárias	sobre	um	texto	mal	compreendido.	Quando	os	leitores-ouvintes	se
põem	de	acordo	sobre	o	ponto	de	partida,	será	maior	a	possibilidade	de
compreenderem	a	mensagem	transmitida	pelo	evangelista.	Os	eventuais	pontos
obscuros,	chamados	de	crux	interpretum	(cruz	dos	intérpretes),	dever-se-ão	à
falta	de	informação	da	pessoa	que	se	confronta	com	o	texto	evangélico,	e	não	ao
texto	evangélico	em	si,	que	jamais	comporta	afirmações	contraditórias.	Exemplo
disso	é	o	desconhecimento	do	sentido	preciso	do	vocábulo	pornéia,	referido
como	único	motivo	para	o	homem	divorciar-se	de	sua	mulher	(cf.	Mt	5,12;	19,9).
Os	leitores-ouvintes	para	quem	o	catequista	escrevia	sabiam	exatamente	do	que
se	tratava.	Os	intérpretes	atuais	não	chegaram	a	um	consenso	sobre	a	semântica
daquele	vocábulo,	exatamente	por	lhes	faltarem	as	informações	possuídas	pelos
leitores	implícitos.
Outra	precaução	importante	será	a	de	não	tomar	os	dogmas	e	as	doutrinas	das
igrejas	como	ponto	de	partida	da	leitura	da	catequese	mateana	para	encontrar
respaldo	bíblico.	Um	caso	típico	da	interpretação	anacrônica	de	Mateus	diz
respeito	à	declaração	de	Jesus:	“Você	é	Pedro,	e	sobre	esta	pedra	construirei	a
minha	Igreja.	E	as	portas	do	inferno	não	dominarão	sobre	ela”	(Mt	16,18),
entendida	como	ato	“jurídico”	de	instituiçãoda	Igreja	por	Jesus.	A	preocupação
do	evangelista	era	bem	outra!	Substituir	a	vivência	da	fé	pelas	doutrinas
eclesiásticas	como	base	para	a	compreensão	do	texto	evangélico	constitui-se
num	equívoco	de	graves	consequências	para	o	projeto	de	Jesus.
b.	O	segundo	refere-se	ao	tempo	de	Jesus	de	Nazaré,	ao	qual	se	reporta	o
catequista	Mateus,	no	empenho	de	oferecer	luzes	para	o	enfrentamento	dos
problemas	vividos	pela	comunidade	na	busca	de	fidelidade	à	fé.	Não	lhe
interessava	produzir	uma	biografia	de	Jesus	de	Nazaré,	mas	tão	somente	colher,
dentre	a	tradição	da	qual	dispunha,	elementos	da	vida	e	dos	ensinamentos	do
Mestre	adequados	para	iluminar	a	vida	de	fé	de	sua	comunidade.
Todavia,	tudo	quanto	se	transmitiu	a	respeito	do	Mestre	situava-se	num	tempo	e
num	espaço	bem	definidos:	a	Palestina,	de	modo	particular	a	Galileia,	do	século
1º.	O	conhecimento	da	história,	das	tradições,	da	cultura	e	da	religião	dessa
quadra	da	história	de	Israel	será	de	grande	valia	para	a	compreensão	da
catequese	mateana.	Será	preciso	ter	em	mente	tratar-se	do	tempo	de	Jesus
recuperado	no	tempo	do	evangelista	e	de	sua	comunidade,	desprovido	de
preocupação	histórica	no	sentido	biográfico-factual.	A	catequese	mateana	narra	o
tempo	de	Jesus,	adaptando-o	ao	projeto	literário-teológico	do	autor,	preocupado
em	confrontar	sua	comunidade	com	o	projeto	de	Jesus	de	Nazaré	e	incentivá-la	a
se	empenhar	na	busca	do	“Reino	de	Deus	e	sua	justiça”	(Mt	6,33),	transformados
em	norte	para	a	caminhada	de	fé.
c.	O	terceiro	corresponde	ao	tempo	da	comunidade	dos	leitores-ouvintes.	A
catequese	mateana	não	foi	escrita	para	servir	de	passatempo.	Tendo-se
transformado	em	metatexto,	desvinculou-se	de	seu	contexto	original	(Sitz	im
Leben)	para	se	tornar	palavra	viva	em	qualquer	tempo	e	lugar.	Sua	leitura	será
frutuosa	à	medida	que	os	leitores-ouvintes	se	dispuserem	a	abraçar	o	projeto	de
Reino	proclamado	e	vivido	por	Jesus	de	Nazaré	e,	conscientes	dos	desafios
enfrentados	pela	vivência	fiel	do	compromisso	cristão,	buscarem	luzes	na
catequese	mateana,	considerada	referência	insubstituível	juntamente	com	as
demais	catequeses	evangélicas.	Sob	certo	aspecto,	as	crises	de	fé	do	passado	se
repetem	no	presente,	revestidas	dos	elementos	histórico-culturais	da	atualidade.
A	compreensão	das	dicas	apontadas	pelo	catequista	Mateus	para	sua	comunidade
servirá	de	base	para	quem	se	esforça,	nos	mais	diferentes	contextos,	para	ser
discípulo-apóstolo	coerente	com	sua	opção	por	Jesus	de	Nazaré	e	pelo	Reino.
Desse	modo,	a	leitura	fidedigna	da	catequese	mateana	comporta	um	percurso
histórico	que	parte	do	presente	da	comunidade	do	leitor-ouvinte,	reporta-se	ao
tempo	do	evangelista	e	sua	comunidade	que	se	voltou	ao	tempo	de	Jesus	de
Nazaré,	para	novamente	voltar	à	comunidade	de	hoje,	na	firme	determinação	de
enfrentar	o	futuro	da	vivência	da	fé	com	a	mesma	tenacidade	de	Jesus	de	Nazaré
e	da	comunidade	mateana.
Esse	procedimento	hermenêutico-existencial-teológico	exige	uma	verdadeira
“fusão	de	horizontes”.	Os	horizontes	da	comunidade	dos	leitores-ouvintes	atuais
fundem-se	com	os	da	comunidade	mateana	que	recuperou	a	tradição	sobre	Jesus
de	Nazaré,	de	onde	obteve	os	elementos	para	enfrentar	e	responder	a	suas	crises
de	fé.	A	catequese	elaborada	por	Mateus	para	sua	comunidade,	lida-ouvida	ao
longo	dos	tempos,	incentiva	os	discípulos	e	discípulas	de	Jesus	de	Nazaré	a
caminharem	na	fidelidade	ao	Mestre	em	meio	aos	desafios	encontrados	nos	mais
diferentes	contextos	e	situações.
Dessa	forma	se	constrói	o	longo	percurso	da	Tradição	Cristã	a	ser	continuamente
levada	adiante,	com	extrema	fidelidade,	em	meio	a	muitos	percalços	e
infidelidades.	Quando	se	atropela	essa	dinâmica	histórico-teológica,	têm	origem
os	falsos	cristianismos,	devidos	aos	falsos	profetas,	a	serem	desmascarados	por
seus	frutos	incompatíveis	com	o	“Reino	de	Deus	e	sua	justiça”,	pois	dizem
“Senhor,	Senhor”,	esquecendo-se	de	fazer	a	vontade	do	Pai	dos	Céus	(cf.	Mt
7,15-20).	Esses	“praticantes	da	maldade	(gr.	anomia)”	(Mt	7,23)	serão
desmascarados	pelo	Juiz	escatológico,	na	consumação	dos	tempos	(cf.	Mt	25,41-
46).	A	vigilância	e	a	oração	previnem	os	discípulos	fiéis	de	caírem	nessa
armadilha!
Vocês,	leitores	e	leitoras,	que	se	dispõem	a	adentrar	a	catequese	de	Mateus,	são
convidados	a	se	revestirem	do	leitor	implícito	construído	na	tessitura	da
narração,	equivalente	ao	discípulo	do	Reino	decidido	a	ser	fiel	à	sua	fé	em
contexto	de	crise,	e	tomarem	a	firme	decisão	de,	concluído	o	percurso	literário-
catequético,	tornarem-se	apóstolos	do	Reino	na	fidelidade	à	ordem	do	Mestre	de
“fazer	que	todas	as	nações	se	tornem	discípulos	[...]	e	ensinando-as	a	observar
tudo	o	que	lhes	ordenei”,	seguros	de	terem	a	companhia	do	Senhor	do	Reino
“todos	os	dias,	até	o	fim	dos	tempos”	(Mt	28,19-20).
AS	ORIGENS	DO	MESSIAS	(Mt	1-2)
Aabertura	da	catequese	de	Mateus	contém	os	principais	elementos	da	identidade
do	Messias	Jesus,	de	maneira	que	desde	o	início	os	leitores-ouvintes	possam
avaliar	se	vale	a	pena	acolhê-lo	como	Messias	e	Mestre	e	fazer	a	opção	de	levar
adiante	sua	missão	de	servidor	do	Reino	dos	Céus.	Discipulado	e	missão	serão
os	trilhos	sobre	os	quais	a	narração	deslizará.	Quanto	mais	o	discípulo	conhecer
o	Mestre	e	se	deixar	instruir	por	ele,	tanto	mais	se	comprometerá	com	sua	causa.
Daí	a	importância	de	saber	exatamente	a	quem	está	aderindo,	como	aconteceu
com	o	apóstolo	Paulo,	ao	afirmar:	“Sei	em	quem	acreditei”	(2Tm	1,12).	O
evangelista	não	está	interessado	em	discípulos	precipitados,	cujas	expectativas
não	sintonizam	as	de	Jesus,	com	o	ensejo	de	se	frustrarem,	como	será	o	caso	de
Judas	Iscariotes	e	seu	trágico	fim	(cf.	Mt	27,3-5).	O	discipulado	autêntico
decorre	do	conhecimento	do	Mestre,	para	além	das	idealizações	ou	esperanças
equivocadas.	Por	isso	o	catequista	se	apressa	em	delinear	o	retrato	do	Messias
Jesus	mirando	os	traços	mais	importantes	de	sua	identidade.
Genealogia	de	Jesus	(1,1-17)
||	Lc	3,23-38
¹Livro	da	origem	de	Jesus	Cristo,	filho	de	Davi,	filho	de	Abraão.	²Abraão	gerou
Isaac,	Isaac	gerou	Jacó,	Jacó	gerou	Judá	e	seus	irmãos.	³Com	Tamar,	Judá	gerou
Farés	e	Zara,	Farés	gerou	Esrom,	Esrom	gerou	Aram.	⁴Aram	gerou	Aminadab,
Aminadab	gerou	Naasson,	Naasson	gerou	Salmon.	⁵Com	Raab,	Salmon	gerou
Booz;	com	Rute,	Booz	gerou	Obed,	Obed	gerou	Jessé.	 Jessé	gerou	o	rei	Davi.
Davi,	com	a	mulher	de	Urias,	gerou	Salomão.	⁷Salomão	gerou	Roboão,	Roboão
gerou	Abias,	Abias	gerou	Asa.	⁸Asa	gerou	Josafá,	Josafá	gerou	Jorão,	Jorão
gerou	Ozias.	 Ozias	gerou	Joatão,	Joatão	gerou	Acaz,	Acaz	gerou	Ezequias.
¹ Ezequias	gerou	Manassés,	Manassés	gerou	Amon,	Amon	gerou	Josias.	¹¹Josias
gerou	Jeconias	e	seus	irmãos,	no	tempo	do	exílio	na	Babilônia.
¹²Depois	do	exílio	na	Babilônia,	Jeconias	gerou	Salatiel,	Salatiel	gerou
Zorobabel.	¹³Zorobabel	gerou	Abiud,	Abiud	gerou	Eliacim,	Eliacim	gerou	Azor.
¹⁴Azor	gerou	Sadoc,	Sadoc	gerou	Aquim,	Aquim	gerou	Eliud.	¹⁵Eliud	gerou
Eleazar,	Eleazar	gerou	Matã,	Matã	gerou	Jacó.	¹ Jacó	gerou	José,	o	esposo	de
Maria,	da	qual	nasceu	Jesus,	que	é	chamado	Cristo.
¹⁷Portanto,	o	total	de	gerações	de	Abraão	a	Davi	são	catorze.	De	Davi	até	o	exílio
na	Babilônia,	catorze	gerações.	E	do	exílio	na	Babilônia	até	Cristo,	catorze
gerações.
A	catequese	mateana	começa	com	uma	frase	lapidar:	“Livro	da	origem	(gr.
génesis)	de	Jesus	Cristo,	filho	de	Davi,	filho	de	Abraão”	(v.	1).	O	nome	Jesus,	do
hebraico	Yehoshuah	(Deus	salva),	cria	uma	ligação	estreita	com	o	Deus	de	Israel
e	aponta	para	a	missão	de	salvador	que	será	consumada	na	morte	de	cruz	e	na
ressurreição.	O	“apelido”	Cristo	(messias,	ungido)	comporta	uma	confissão	de
fé.	A	simples	referência	a	Jesus	Cristo	exige	do	leitor-ouvinte	enorme	atenção,
pois	o	catequista	tem	em	mente	mostrar	que	o	nome	do	Mestre	define	com
perfeição	sua	identidade	e	missão.
A	condição	de	filho	de	Davi	insere-o	na	estirpe	dos	reis	de	Israel,	herdeira	das
promessas	messiânicas	(cf.	2Sm	7,1-17),	e	aponta	para	a	tarefa	de	fazer	o	direito
e	a	justiça	reinarem	como	se	espera	de	um	verdadeiro	descendente	de	Davi	(cf.
Is	9,5-6;	11,1-8).	O	ser	filho	de	Abraão	faz	dele	penhorde	bênçãos	para	todos	os
povos	e	nações,	como	outrora	fora	dito	do	patriarca	(cf.	Gn	12,2-3).
A	sequência	da	narração,	abarcando	a	caminhada	terrena	de	Jesus	Cristo,
mostrará	como	cada	elemento	da	afirmação	introdutória	se	concretizou	em	seus
ensinamentos	e	suas	ações.	Os	leitores-ouvintes	terão	todos	os	elementos
necessários	para	a	decisão	a	ser	tomada:	tornar-se	discípulo	ou	não!
A	genealogia,	embora	pareça	uma	ladainha	monótona	de	nomes	desconhecidos
para	nós,	comporta	uma	riqueza	de	ensinamentos.	O	arco	de	tempo	vai	de
Abraão	a	Jesus.	Como	a	Abraão	fora	prometida	uma	descendência	tão	numerosa
“como	as	estrelas	do	céu	e	a	areia	na	beira	do	mar”	(Gn	22,17),	em	Jesus	surgiria
um	povo	novo	formado	por	“todas	as	nações”	(Mt	28,19),	a	quem	os	apóstolos
seriam	enviados.	Em	Jesus,	a	promessa	feita	a	Abraão	se	concretizaria	de	forma
plena	e	verdadeira.
O	surgimento	dessa	nova	humanidade	em	Jesus	Cristo	descreve-se	pelo	uso
reiterado	do	verbo	gerar	(gr.	gennáo)	e	dos	substantivos	origem	(gr.	génesis)	e
geração	(gr.	genéa).	Em	Jesus	Cristo,	o	projeto	divino	para	a	humanidade
aconteceu	de	verdade,	pela	superação	da	desobediência	de	Adão	e	Eva	(cf.	Gn
3,1-24).	O	“verdadeiro”	Adão	seria	o	“Filho	amado”,	em	tudo	dócil	à	vontade	do
Pai	(cf.	Mt	3,17;	17,5).	A	genealogia,	afinal,	é	uma	releitura	do	Gênesis	na
perspectiva	da	fé	em	Jesus	Cristo.
De	maneira	surpreendente,	na	genealogia	são	inseridas	quatro	mulheres,	quando
na	Bíblia	tradicionalmente	se	dá	ênfase	ao	elemento	masculino.	Faz-se	referência
a	Tamar	(cf.	Gn	38,1-30),	Raab	(cf.	Js	8,8-21),	Rute	(cf.	Rt	4,13-17)	e	à	mulher
de	Urias	(cf.	2Sm	11,2-5).	Uma	quinta	mulher	recebe	destaque	especial:	Maria,
“da	qual	nasceu	Jesus,	que	é	chamado	Cristo”	(Mt	1,17).
Um	fio	importante	da	catequese	mateana	será	a	valorização	das	mulheres,	num
contexto	social	e	religioso	que	as	excluía	e	marginalizava.	O	Messias	Jesus
retomará	a	antropologia	fundamental	de	Israel	baseada	na	decisão	do	Criador	de
fazer	o	ser	humano	à	sua	“imagem	e	semelhança”	(Gn	1,26-27).	Se	todos	os
seres	humanos	trazem	em	si	a	marca	de	Deus,	a	comunidade	cristã	tem	como
missão	tratar	todos	os	seres	humanos	em	pé	de	igualdade,	de	maneira	a	superar	o
modo	de	proceder	discriminador	dos	escribas	e	fariseus.
Por	outro	lado,	todas	as	mulheres	aludidas,	com	exceção	de	Maria,	têm	alguma
mácula	em	sua	boa-fama.	A	comunidade	dos	discípulos	do	Reino	deverá	ter	um
cuidado	especial	com	essas	mulheres	por	sua	fragilidade	humana,	social	e
religiosa.
O	tema	das	mulheres	perpassará	a	catequese	de	Mateus	para	culminar	com	a
presença	feminina,	explicitamente	nomeada,	por	ocasião	da	crucifixão	do
Mestre,	quando	os	discípulos	fugiram	e	se	dispersaram	(cf.	Mt	27,55-56).	O
ápice	dessa	questão	acontece	quando	o	Ressuscitado	aparece	às	mulheres	e	lhes
dá	a	missão	de	comunicar	aos	discípulos	que	se	dirijam	à	Galileia	para	lá	o
encontrarem	(cf.	Mt	28,9-10).	Tornaram-se,	assim,	as	primeiras	apóstolas!
A	genealogia	estrutura-se	de	maneira	artificial	em	três	blocos,	cada	qual	com
quatorze	gerações.	“O	total	de	gerações	de	Abraão	a	Davi	são	catorze.	De	Davi
até	o	exílio	na	Babilônia,	catorze	gerações.	E	do	exílio	da	Babilônia	até	Cristo,
catorze	gerações”	(v.	17).	Este	artifício	tem	finalidade	narrativa:	falar	de	Jesus
Cristo	como	o	verdadeiro	Davi.	E	o	faz	servindo-se	da	simbologia	do	número
quatorze,	correspondente	às	consoantes	do	nome	hebraico	DVD	e	seus	valores
numéricos:	D=4,	V=6,	D=4.	Desde	o	início,	o	leitor-ouvinte	deve	ter	em	mente
que	se	falará	de	Jesus	Cristo	como	o	autêntico	Davi	que,	diferentemente	do	rei
do	passado,	implantará	o	Reino	querido	por	Deus,	alicerçado	no	direito	e	na
justiça.
Digno	de	nota	na	genealogia	é	o	versículo	16,	onde	se	quebra	a	cadência	iniciada
com	Abraão.	“Jacó	gerou	José,	o	esposo	de	Maria,	da	qual	nasceu	Jesus,	que	é
chamado	Cristo”.	O	nascimento	de	Jesus	provoca	uma	ruptura,	pois	Jesus	nasce
de	Maria,	a	mãe,	e	não	de	José,	o	pai.	O	nome	civil,	Jesus,	é	imediatamente
conectado	ao	apodo	messiânico,	Cristo.	Se	José	não	é	o	pai	de	Jesus	Cristo,
quem	o	será?	Esse	ponto	carece	de	ser	explicado.	Isto	será	feito	no	bloco
seguinte,	que	pode	ser	considerado	uma	espécie	de	“nota	de	rodapé”	para
elucidar	o	enigma	da	“geração”	de	Jesus.
Na	concepção	do	evangelista,	Jesus	leva	a	história	à	plenitude	e	inaugura	um
tempo	novo,	em	que	as	genealogias	serão	dispensadas.	A	pertença	ao	povo	de
Deus	não	mais	se	dará	pelos	laços	de	sangue,	e	sim	pela	obediência	à	Palavra	de
Deus.	Deixados	de	lado	os	critérios	étnicos	e	sanguíneos,	o	povo	de	Deus	será
formado	por	qualquer	ser	humano	disposto	a	se	deixar	guiar	pelo	querer	divino,
revelado	e	vivido	ao	longo	do	ministério	de	Jesus,	ao	qual	se	adere	pelo	batismo
(cf.	Mt	28,19).
Nascimento	de	Jesus	(1,18-25)
||	Lc	2,1-7
¹⁸O	nascimento	de	Jesus	Cristo	foi	assim:	Maria,	sua	mãe,	estava	comprometida
em	casamento	com	José.	Antes	de	viverem	juntos,	ela	foi	encontrada	grávida,
por	obra	do	Espírito	Santo.	¹ José,	seu	esposo,	sendo	homem	justo	e	não
querendo	denunciá-la	publicamente,	resolveu	abandoná-la	em	segredo.
² Enquanto	ele	tomava	essa	decisão,	eis	que	um	anjo	do	Senhor	lhe	apareceu	em
sonho,	dizendo:	“José,	filho	de	Davi,	não	tenha	medo	de	receber	Maria	como	sua
esposa,	pois	o	que	nela	foi	gerado	provém	do	Espírito	Santo.	²¹Ela	dará	à	luz	um
filho,	e	você	o	chamará	com	o	nome	de	Jesus,	porque	ele	salvará	o	seu	povo	dos
seus	pecados”.	²²Tudo	isso	aconteceu	para	que	se	cumprisse	o	que	o	Senhor	tinha
falado	por	meio	do	profeta:	²³“Eis	que	a	virgem	vai	engravidar	e	dar	à	luz	um
filho,	e	o	chamarão	com	o	nome	de	Emanuel,	que	traduzido	significa	‘Deus
conosco’	”.	²⁴Quando	José	despertou	do	sono,	fez	como	o	anjo	do	Senhor	lhe
havia	ordenado	e	acolheu	sua	esposa.	²⁵E	não	teve	relações	com	ela,	até	que	ela
deu	à	luz	um	filho.	E	ele	o	chamou	com	o	nome	de	Jesus.
A	compreensão	dessa	cena	evangélica	exige	do	leitor-ouvinte	desfazer-se	de
muitas	interpretações	aleatórias	em	torno	da	concepção	de	Jesus	e	se	esforçar
para	mergulhar	no	mundo	do	texto	evangélico,	para	captar	a	intenção	do
narrador	ao	produzi-lo.	Sem	a	purificação	prévia	da	mente,	será	tarefa
impossível	situá-la	com	coerência	no	conjunto	do	evangelho.
O	versículo	de	abertura:	“A	origem	(gr.	génesis)	de	Jesus	Cristo	foi	assim”	(v.
18)	evoca	o	v.	1.	Diferentemente	dos	demais	nomes	evocados	na	genealogia,	o
modo	como	Jesus	entrou	na	história	exige	ser	explicado,	para	a	correta
compreensão	de	sua	identidade.	Tudo	converge	para	a	ação	do	Espírito	Santo,
que	estará	presente	no	início	do	ministério	de	Jesus,	por	ocasião	do	batismo	(cf.
Mt	3,16),	ao	ser	conduzido	para	o	deserto	onde	será	tentado	(cf.	Mt	4,1),	na
missão	dos	discípulos	(cf.	Mt	10,20)	e	na	do	Mestre	(cf.	Mt	12,28),	e	finalmente
quando	os	discípulos	são	mandados	pelo	mundo	afora	para	anunciar	a	Boa-Nova
(cf.	Mt	28,19).	Portanto,	Mt	1,18-25	quer	mostrar	a	verdadeira	origem	de	Jesus:
ele	vem	de	Deus,	pela	força	de	seu	Espírito	Santo.	Tudo	nele	trará	essa	marca,
inclusive	por	ocasião	da	morte	de	cruz.	O	Crucificado	estará	repleto	do	Espírito
Santo,	pressuposto	para	enfrentar	a	cruz	na	fidelidade	ao	projeto	do	Pai	dos
Céus.
A	figura	de	José	ocupa	na	narração	mais	espaço	que	Maria,	de	quem	se	informa
estar	comprometida	em	casamento	com	ele	e	se	encontrar	grávida	“por	obra	do
Espírito	Santo”	antes	de	viverem	juntos.	Uma	situação	inaceitável	na	sociedade
da	época!	O	desafio	consiste	em	explicar	ao	marido	a	origem	divina	da	gravidez
de	sua	prometida	esposa.	A	narração	aqui	entra	num	impasse,	porquanto	o
destino	de	apedrejamento	das	mulheres	adúlteras	estava	claramente	previsto	na
Lei	(cf.	Dt	22,23-27).	Se	José	a	cumprisse	à	risca,	a	história	de	Jesus	Cristo
terminaria	apenas	começada.
O	narrador	aproveita	para	apresentar	a	figura	de	José	como	discípulo-modelo,
que	ouve	a	palavra	de	Deus	e	a	põe	em	prática	com	obediência	total	e
inquestionável	(cf.	Mt	7,24;	12,50).	Sua	condição	de	“homem	justo”	leva-o	a
tentar	uma	solução	um	tanto	precária:	abandonar	a	esposa	em	segredo	para	não
aplicar	a	Lei,	que	exigia	apedrejamento	(v.	19).
Muito	se	discutiua	respeito	do	sentido	de	justo	(gr.	díkaios)	aplicado	a	José,	sem
se	chegar	a	um	acordo.	Em	todo	caso,	sua	atitude	tem	um	quê	de	ingênuo,	como
se	fosse	possível	colocar	em	prática	seu	plano	e	evitar	as	consequências,	ao	se
recusar	a	tomar	a	atitude	exigida	de	um	marido	atraiçoado.
Entra	então	em	cena	um	novo	personagem,	o	anjo	(mensageiro)	do	Senhor	com	a
missão	de	desvendar	para	José	o	sentido	do	que	estava	acontecendo.	O	fato	de	a
abordagem	de	José	ter	acontecido	em	forma	de	sonho	tem	grande	importância
narrativa.	Só	o	anjo	fala!	José	está	inteiramente	passivo,	na	mais	total	abertura
para	Deus,	impossibilitado	de	bater	boca,	argumentar	ou	exigir.	A	abertura	para
Deus	permite-lhe	acatar	o	projeto	divino,	embora	extremamente	exigente,	como
foi	o	caso	de	admitir	que	a	esposa	prometida	recebera	uma	graça	divina,	“pois	o
que	nela	foi	gerado	provém	do	Espírito	Santo”	(v.	20).	O	discípulo	José	não
hesita	quando	Deus	lhe	pede	algo	quase	superior	às	suas	capacidades.	Assim	se
comportam	os	discípulos	do	Reino	defrontados	com	as	exigências	da	missão!
José	recebe	a	missão	de	dar	ao	menino	o	nome	de	Jesus,	cuja	missão	seria	a	de
“salvar	o	seu	povo	dos	seus	pecados”	(v.	21).	Temos	um	ponto	a	mais	na
elucidação	da	identidade	de	Jesus.	Ele	será	salvador,	encarregado	de	ajudar	seu
povo	a	superar	as	fraquezas	e	se	voltar	para	Deus.	Enfim,	José	está	na	origem
social	de	Jesus	e,	ao	lhe	dar	o	nome	sugerido	pelo	anjo,	explicita	a	missão	que	o
Pai	lhe	confia.
O	narrador	encontrou	num	texto	da	tradição	judaica	uma	pista	para	a
compreensão	da	identidade	de	Jesus	(v.	22).	A	escolha	de	Is	7,14	não	se	deve	ao
tema	da	concepção	virginal,	que	não	interessa	à	catequese	mateana.	Em	relação	a
isso,	vale	a	pena	dizer	que	a	tradução	grega	usada	pelo	narrador	ao	falar	de	“a
virgem	engravidar	e	dar	à	luz”	(v.	23)	não	corresponde	à	tradução	fiel	do	original
hebraico	do	texto	profético,	que	fala	de	uma	jovem	que	está	a	ponto	de	dar	à	luz.
A	jovem	(heb.	há	almah)	era	conhecida,	sem	qualquer	vinculação	com
concepção	virginal.
O	interesse	do	evangelista	ao	citar	Isaías	foca	o	vocábulo	emanuel	(“Deus	está
conosco!”),	elemento	importante	para	a	construção	da	identidade	de	Jesus	Cristo.
Doravante,	haveria	de	ser	a	presença	de	Deus	na	história	do	povo,	de	modo
especial	dos	marginalizados	e	excluídos	da	sociedade.	Nele	Deus	caminharia
com	sua	gente!	Por	conseguinte,	emanuel	tem	a	ver	com	a	missão	de	Jesus,	pois
não	lhe	foi	dado	esse	nome.	O	Deus	que	caminhou	com	seu	povo	na	longa
marcha	pelo	deserto	continuaria	a	caminhada	na	pessoa	de	Jesus	Cristo	junto	ao
povo	novo	que	estava	nascendo.
A	atitude	de	José	ao	despertar	do	sono	e	seguir	as	ordens	do	anjo	do	Senhor	(v.
24)	serve	de	exemplo	para	os	discípulos	do	Reino.	A	obediência	concretiza-se	no
agir.	A	ousadia	de	litigar	com	Deus	e	questionar	seus	desígnios	quando	nos
custam,	ao	exigirem	quebrar	nossos	esquemas	mentais	e	religiosos,	corresponde
à	negação	do	espírito	próprio	do	discípulo.	Como	José,	o	discípulo	obedece	com
docilidade	por	se	saber	guiado	por	Deus.
A	observação	do	v.	25	é	narrativamente	importante,	no	sentido	de	não	haver
dúvidas	da	paternidade	divina	de	Jesus.	Se	não	houvesse,	o	leitor-ouvinte
poderia	suspeitar	da	informação	do	v.	18,	posteriormente	explicada	pelo	anjo	(v.
20).	A	tradução	literal	desse	versículo	é:	José	“não	a	conheceu,	até	que	gerou	um
filho”.	Na	genealogia	o	verbo-chave	foi	gerar	(gr.	génnao);	agora	o	verbo-chave
é	dar	à	luz	(gr.	tíkto,	v.	21.23.25;	cf.	2,2).	Se	José	“não	conheceu	Maria”	até	que
nascesse	Jesus,	seria	indevido	considerá-lo	seu	pai	biológico.	A	paternidade
divina	revelada	pelo	anjo	do	Senhor	tem	a	função	narrativa	de	sublinhar	os
fundamentos	das	palavras	e	das	ações	de	Jesus:	tudo	nele	tem	sua	origem	em
Deus	e	se	reporta	a	Deus.	Em	outras	palavras,	nele	tudo	aponta	para	a	divindade.
Equivoca-se	quem	lê	a	catequese	mateana	a	partir	das	discussões	acaloradas	em
torno	da	concepção	virginal	de	Jesus	dos	séculos	seguintes,	muito	criativas	e
fantasiosas.	Nada	disso	interessava	ao	evangelista,	para	quem	importavam	duas
coisas:	ensinar	como	a	ação	divina	pela	força	do	Espírito	Santo	marcou	a	vida	de
Jesus	desde	o	início,	como	acontecera	com	os	profetas	de	outrora	(cf.	Is	11,2;
42,1;	61,1),	e	apresentar	José	como	discípulo-modelo	que,	abrindo	mão	das
objeções,	submete-se	aos	desígnios	divinos,	embora	lhe	seja	muito	custoso.
A	cena	conclui-se	com	uma	pequena	observação,	referente	à	obediência	de	José.
O	nome	dado	ao	filho	recém-nascido	corresponde	à	orientação	do	anjo	(v.	21).
Nele	está	contida	a	missão	de	Jesus,	da	qual	surgirá	o	povo	querido	por	Deus,
sob	a	guia	do	Messias,	Filho	de	Deus.
Visita	dos	magos	(2,1-12)
¹Depois	que	Jesus	nasceu	em	Belém	da	Judeia,	no	tempo	do	rei	Herodes,	eis	que
uns	magos	do	oriente	chegaram	a	Jerusalém,	²perguntando:	“Onde	está	o	recém-
nascido	rei	dos	judeus?	Porque	avistamos	sua	estrela	no	oriente	e	aqui	vimos
para	lhe	prestar	homenagem”.	³Ouvindo	isso,	o	rei	Herodes	ficou	abalado,	e
Jerusalém	toda	com	ele.	⁴Convocou	então	todos	os	chefes	dos	sacerdotes	e	os
doutores	do	povo,	e	lhes	perguntou	onde	o	Messias	deveria	nascer.	⁵Eles	lhe
responderam:	“Em	Belém	da	Judeia.	Pois	assim	está	escrito	por	meio	do	profeta:
‘E	você,	Belém,	terra	de	Judá,	não	é	de	modo	algum	a	menor	entre	as	principais
de	Judá.	Porque	de	você	sairá	um	líder,	que	apascentará	meu	povo	Israel’	”.
⁷Então	Herodes	chamou	em	segredo	os	magos	e	investigou	junto	a	eles	sobre	o
tempo	em	que	a	estrela	tinha	aparecido.	⁸Depois	os	enviou	a	Belém	e	disse:	“Vão
e	procurem	obter	informações	exatas	sobre	o	menino.	E	me	avisem	quando	o
encontrarem,	para	que	eu	também	vá	prestar-lhe	homenagem”.	 Eles	ouviram	o
rei	e	partiram.	Eis	que	a	estrela	que	tinham	visto	no	oriente	ia	na	frente	deles,	até
que	chegou	e	parou	sobre	o	lugar	onde	estava	o	menino.	¹ Vendo	novamente	a
estrela,	ficaram	repletos	de	grandíssima	alegria.	¹¹Ao	entrarem	na	casa,	viram	o
menino	com	Maria,	sua	mãe,	e	se	ajoelharam	diante	dele	em	homenagem.
Abriram	então	seus	cofres	e	lhe	ofereceram	presentes:	ouro,	incenso	e	mirra.
¹²Depois	disso,	foram	avisados	em	sonho	para	não	retornarem	a	Herodes,	de
modo	que	voltaram	para	sua	região	por	outro	caminho.
O	episódio	dos	magos	comporta	outros	elementos	da	identidade	do	Messias
Jesus.	Os	versículos	anteriores	situam-no	num	ambiente	de	família	no	lar	de	José
e	de	Maria.	Tudo	se	passa	“em	segredo”,	para	não	levantar	suspeitas	por	parte
dos	familiares	e	dos	guardiães	da	lei	religiosa.	Aos	olhos	do	público,	a	gravidez
de	Maria	e	o	nascimento	de	Jesus	acontecem	dentro	da	normalidade.	A
obediência	exemplar	de	José	evitou	enormes	complicações	e	escândalo	com	a
eventualidade	de	Maria	ser	apedrejada.
A	narração	agora	se	alarga	em	várias	dimensões:	geográficas,	políticas,	sociais	e
religiosas.	Um	menino	desprovido	de	importância	aparente	causa	um	rebuliço
histórico	ao	abalar	as	estruturas	políticas	e	religiosas	do	seu	povo.	Sua	presença
na	história	assume	proporções	inimagináveis.	Seria	este	um	traço	de	sua
identidade:	colocar	em	xeque	esquemas	consolidados	incompatíveis	com	o
projeto	de	Deus.	A	indicação	do	nascimento	de	Jesus	em	Belém	da	Judeia	(v.	1)
reflete	sua	condição	de	descendente	de	Davi	e	situa	a	catequese	no	espaço.	A
composição	da	genealogia	de	Jesus	foi	calcada	na	simbologia	numérica	do	nome
de	Davi	(cf.	Mt	1,17);	em	Mt	1,20	o	anjo	do	Senhor	referiu-se	ao	“pai”	de	Jesus
como	“José,	filho	de	Davi”.	Consiste,	pois,	na	reafirmação	de	sua	condição
davídica.	Porém,	mais	adiante	será	chamado	de	Nazareno	(gr.	Nazoraíos)	(v.	23).
Em	momento	algum,	na	sequência	da	catequese	mateana,	sua	condição	de
belemita	será	aludida.	Ele	será	Jesus	de	Nazaré!
A	referência	ao	rei	Herodes,	que	viveu	entre	74	e	4	a.C.,	oferece	o	contexto
temporal	do	nascimento	de	Jesus.	Conhecido	por	sua	perversidade,	como	se
verá,	Herodes,	chamado	o	Grande,	por	haver	outros	com	nome	semelhante,	era	a
autoridade	romana	em	Jerusalém.	O	recém-nascido	Jesus	pobre	e	impotente	ver-
se-ia	às	voltas	com	o	poderoso,	violento	e	cruel.	Já	se	pode	entrever	o	conflito
que	o	Messias	Jesusestabelecerá	entre	o	Reino	de	Deus	e	os	reinos	mundanos	e
sua	tentação	de	se	impor	pela	força.
Entram	em	cena	outros	personagens.	O	texto	diz	literalmente:	“Eis	que	magos”,
sem	definir	quantidade,	tampouco	dar-lhes	nomes,	vêm	do	oriente,	de	onde
nasce	o	sol,	em	busca	do	“recém-nascido	rei	dos	judeus”.	Encarnam	os
discípulos	que	vão	em	busca	do	Reino	de	Deus,	como	os	comerciantes	de
pérolas,	até	encontrar	“a”	pérola	preciosa	(cf.	Mt	13,45-46).	Na	cena	anterior,
José	fora	apresentado	como	modelo	de	quem	encontra	casualmente	um	tesouro
no	campo	e	o	adquire	em	vista	de	se	apossar	daquela	preciosidade	(cf.	Mt
13,44).
O	narrador	serve-se	de	figuras	conhecidas	na	época,	omitindo-se	de	oferecer
maiores	informações	a	seu	respeito.	Interessava-lhe	apenas	inserir	em	sua
catequese	pessoas	fora	do	ambiente	judaico,	independentes	da	sociedade	e	da
religião	de	Israel,	porém	preocupadas	com	a	questão	do	messianismo	judaico	e
dispostas	a	abraçá-lo	da	forma	como	o	Messias	Jesus	o	entende.	Daí	os	magos
buscarem	com	toda	diligência	o	rei	dos	Judeus	e	estarem	dispostos	a	se	prostrar
diante	dele	(v.	2;	gr.	proskynéo),	adorá-lo	e	reconhecer	sua	condição	divina.
A	referência	à	estrela	nada	tem	a	ver	com	fenômenos	astronômicos.
Simplesmente	evoca	o	oráculo	messiânico	de	Nm	24,17:	“De	Jacó	vem
avançando	uma	estrela,	um	bastão	de	comando	se	ergue	de	Israel”.	O	astro
anunciado	servia	de	guia	para	os	magos	à	procura	do	Messias.	A	busca	diligente
superava	as	meras	especulações	de	sábios	persas	que	eram.	A	mão	de	Deus	os
conduzia!
A	chegada	dos	magos	põe	Jerusalém	em	polvorosa,	a	começar	pelo	rei	Herodes
(v.	3).	O	escopo	do	evangelista	consiste	em	mostrar	como	a	presença	do	Reino
de	Deus	anunciado	e	efetivado	pelo	Messias	Jesus	abala	os	esquemas	iníquos	de
um	mundo	que	caminha	na	contramão	de	Deus.	Historicamente	não	se	podem
explicar	os	“tremores”	de	um	rei	brutal	com	total	controle	do	seu	reino.	O
nascimento	de	um	rival	e	concorrente	fora	do	seu	conhecimento	seria
impensável.	O	foco	do	narrador	vai	noutra	direção!
A	consulta	aos	chefes	dos	sacerdotes	e	aos	doutores	do	povo	tornou-se
imperiosa,	pois	Herodes	percebeu	se	tratar	de	algo	ligado	à	religião	judaica,	para
a	qual	dava	pouca	ou	nenhuma	importância	(v.	4).	E	a	resposta	veio	imediata:
“Em	Belém	da	Judeia”	(v.	5).	Um	antigo	texto	do	profeta	Miqueias	continha	a
pista	exata	de	onde	encontrar	o	Messias,	rei	dos	judeus.	O	narrador	faz	uma
citação	adaptada	de	Mq	5,1.	O	texto	profético	declara	ser	Belém	de	Éfrata	“tão
pequena	entre	os	clãs	de	Judá”.	Mt	1,6	afirma	que	“Belém,	terra	de	Judá,	não	é
de	modo	algum	a	menor	entre	as	principais	de	Judá”.	Na	origem	de	sua	grandeza
estava	não	o	nascimento	do	rei	Davi,	e	sim	o	do	Messias	Jesus.	Esse	seria	“o
líder,	que	apascentará	meu	povo	Israel”	como	pastor	vindo	das	periferias.
Começa	então	um	tema	importante	da	catequese	mateana	que	a	perpassará	até	o
final:	a	rejeição	do	Messias	Jesus	por	uma	atitude	consciente	da	liderança
religiosa	judaica	que	não	reconheceu	nele	a	ação	salvadora	de	Deus.	Eles
ofereceram	aos	estrangeiros	informações	precisas	sobre	o	nascimento	do
Messias,	mas	não	se	deram	ao	trabalho	de	procurá-lo.	O	auge	dessa	dureza	de
coração	acontecerá	no	contexto	da	paixão,	quando	Pilatos	ouve	o	grito	do	povo:
“Nós	e	nossos	filhos	somos	responsáveis	pelo	sangue	dele”	(Mt	27,25).	Por	sua
vez,	o	evangelho	sublinha	a	acolhida	de	Jesus	e	do	Reino	por	parte	dos	pagãos
(cf.	Mt	8,10;	12,21	[citando	Is	42,1-4];	15,28;	24,14;	28,19).
Herodes	convoca	os	magos	“em	segredo”,	para	se	informar	sobre	o	tempo	em
que	lhes	apareceu	a	estrela,	e	trata	de	comunicar-lhes	a	informação	recebida	das
autoridades	religiosas	da	capital	(v.	7-8).	A	forma	secreta	da	conversa	dá	a
impressão	de	o	rei	temer	passar	um	vexame	por	estar	nascendo	um	novo	rei	à
margem	do	seu	conhecimento	e	do	de	seus	olheiros.	Uma	falha	imperdoável!
Para	não	criar	transtornos	e	deixar	as	coisas	correrem	da	maneira	mais	discreta
possível,	orientou	os	magos	a	lhe	trazerem	notícias	precisas	a	respeito	do
menino-rei	para	também	ele	prestar-lhe	homenagem	(gr.	proskynéo),	como	os
magos	desejam	fazer.	O	leitor-ouvinte	pode	suspeitar	da	astúcia	e	das	segundas
intenções	do	rei	malvado.
Os	magos	recebem	com	docilidade	e,	talvez,	com	gratidão	a	indicação	preciosa	e
exata	para	onde	se	dirigirem	(v.	9).	O	reaparecimento	da	estrela	causa-lhes
“grandíssima”	alegria	por	confirmar	estarem	no	caminho	certo	(v.	10).	A
orientação	divina	e	a	de	Herodes	são	confluentes,	pois	são	levados	exatamente
até	onde	se	encontra	o	menino.	Um	bom	sinal!
Na	casa	estavam	apenas	o	menino	com	a	mãe	(v.	11).	Onde	estaria	o	pai?	A
reação	imediata	diante	do	recém-nascido	foi	ajoelhar-se	“diante	dele	em
homenagem”	(gr.	proskynéo).	Após	longa,	cansativa	e	atribulada	viagem,
sentiram-se	recompensados	ao	encontrar	um	menino	e	uma	mulher,	numa	casa	e
não	num	palácio,	desprovida	de	grandeza	exterior.	Reconheceram	sua	condição
real	ao	lhe	oferecerem	os	ricos	presentes	que	trouxeram:	ouro,	incenso	e	mirra.
Presentes	carregados	de	simbolismo	reveladores	da	identidade	daquele	menino.
O	ouro	apontava	para	sua	realeza;	o	incenso,	para	sua	divindade;	a	mirra,	para
sua	humanidade.
Com	o	passar	do	tempo,	devido	aos	presentes	ofertados	ao	Menino	Jesus,
passou-se	a	falar	em	três	reis	magos	e,	mais	ainda,	a	dar-lhes	nomes.	Entretanto,
essa	tradição	nenhuma	importância	tem	para	a	construção	da	catequese
evangélica.
O	v.	12	mostra	a	obediência	dos	magos	a	Deus	em	desprezo	aos	pedidos	do
tirano	Herodes.	O	aviso	dado	“em	sonho”,	como	acontece	com	José	nas	várias
cenas	de	Mt	1-2,	mostra	como	são	conduzidos	por	Deus,	que	lhes	indica	“outro
caminho”,	caminho	alternativo,	bem	diferente	daquele	sugerido	pelo	rei	mal-
intencionado.	Os	magos	agem	como	se	espera	dos	verdadeiros	discípulos	do
Reino.	Por	isso,	enquanto	se	alegram	extremamente	(v.	10),	o	brutal	Herodes
ficará	furiosíssimo	(v.	16).
Fuga	para	o	Egito	(2,13-18)
¹³Depois	que	eles	partiram,	eis	que	um	anjo	do	Senhor	apareceu	em	sonho	a
José,	dizendo:	“Levante-se,	pegue	o	menino	e	a	mãe	dele,	e	fuja	para	o	Egito.
Fique	aí	até	que	eu	lhe	avise,	porque	Herodes	vai	procurar	o	menino	para	matá-
lo”.	¹⁴Ele	se	levantou,	e	de	noite	pegou	o	menino	e	a	mãe	dele,	e	foi	para	o	Egito.
¹⁵E	aí	ficou	até	a	morte	de	Herodes,	para	se	cumprir	o	que	o	Senhor	tinha	dito
por	meio	do	profeta:	“Do	Egito	chamei	o	meu	filho”.
¹ Vendo	que	fora	enganado	pelos	magos,	Herodes	ficou	furioso.	Mandou	matar
todos	os	meninos	de	Belém	e	de	todos	os	seus	territórios,	de	dois	anos	para
baixo,	de	acordo	com	o	tempo	que	tinha	investigado	junto	aos	magos.	¹⁷Então	se
cumpriu	o	que	fora	dito	pelo	profeta	Jeremias:	¹⁸“Em	Ramá	se	ouviu	uma	voz,
choro	e	grande	lamentação.	É	Raquel	que	chora	seus	filhos;	ela	não	quer
consolação,	porque	eles	não	existem	mais”.
O	anjo	do	Senhor	interpela	José	novamente	com	uma	ordem	divina	inesperada:
fugir	às	pressas	para	o	Egito	com	Jesus	e	Maria	e	lá	permanecer,	até	segunda
ordem,	pois	corriam	o	risco	de	serem	assassinados	por	Herodes	(v.	13).	Mais
uma	vez	o	justo	José	encontra-se	diante	de	uma	ordem	de	difícil	execução.	Mas,
por	reconhecer	se	tratar	do	querer	divino,	obedece	com	total	docilidade,	como	se
espera	de	um	discípulo	do	Reino.	Com	total	docilidade	levanta-se	ainda	de	noite
e	parte	com	a	família	para	o	desconhecido	(v.	14).	E	permanece	no	Egito	até	a
morte	do	perverso	tirano	(v.	15).
O	evangelista	encontra	na	profecia	de	Oseias	um	texto	para	iluminar	a	difícil
situação	criada	pela	perseguição	sofrida	pelo	Messias:	“Do	Egito	chamei	o	meu
filho”	(Os	11,1).	Em	sua	catequese,	Jesus	será	apresentado	como	o	verdadeiro
Moisés.	E	como	Moisés	fugiu	do	Egito	liderando	o	povo	de	Israel	rumo	à	Terra
Prometida,	de	lá	sairia	o	Messias	Jesus	para	formar	o	verdadeiro	Israel	em	torno
da	justiça	do	Reino	de	Deus.
Quando	Herodes	percebe	ter	sido	enganado	pelos	magos,	que	não	voltaram	para
lhe	dar	notícias	sobre	o	recém-nascido	rei	dos	judeus,	encolerizado,	ordena	a
matança	das	crianças	de	Belém	“de	dois	anos	para	baixo”,	para	ter	certeza	de
eliminar	o	rei	concorrente	(v.	16).	O	leitor-ouvintesabe	que	o	tirano	fora
enganado	não	pelos	magos,	e	sim	por	Deus,	ao	livrar	seu	Filho	do	furioso
assassino.	Seu	adversário	era	Deus,	e	não	os	ingênuos	estrangeiros	que,	num	ato
de	feliz	discernimento,	deixaram-se	guiar	pela	voz	divina,	e	não	pela	voz	do
malvado.	A	luta	de	Deus	com	o	faraó	no	Egito	estava	sendo	revivida	no	conflito
do	Pai	de	Jesus	Cristo	com	Herodes.
Uma	frase	do	profeta	Jeremias,	recordando	a	matriarca	Raquel	lamentando	a
morte	dos	filhos	(cf.	Jr	31,15),	ilustra	a	matança	insana	de	inocentes	da	qual
Jesus	escapou	(v.	17-18).	A	figura	de	Moisés	mais	uma	vez	serve	de	pano	de
fundo.	Como	o	recém-nascido	Moisés	escapou	de	ser	eliminado	pelo	faraó
disposto	a	eliminar	o	povo	judeu	de	seu	reino	(cf.	Ex	2,1-10),	de	igual	forma
Jesus,	qual	novo	Moisés,	escapou	de	ser	eliminado	ainda	na	tenra	infância.	Deus
lhe	reservava	uma	grande	missão,	como	acontecera	com	o	menino	Moisés	de
outrora.
Retorno	a	Nazaré	(2,19-23)
¹ Quando	Herodes	morreu,	eis	que	um	anjo	do	Senhor	apareceu	em	sonho	a	José
no	Egito,	dizendo:	² “Levante-se,	pegue	o	menino	e	a	mãe	dele	e	vá	para	a	terra
de	Israel.	Porque	já	morreram	aqueles	que	procuravam	matar	o	menino”.	²¹Então
ele	se	levantou,	pegou	o	menino	e	a	mãe	dele	e	entrou	na	terra	de	Israel.	²²Mas
quando	soube	que	Arquelau	reinava	na	Judeia	em	lugar	de	seu	pai	Herodes,
ficou	com	medo	de	ir	para	lá.	Avisado	em	sonho,	partiu	para	a	região	da	Galileia.
²³Aí	chegando,	foi	morar	numa	cidade	chamada	Nazaré,	para	que	se	cumprisse	o
que	fora	anunciado	pelos	profetas:	“Ele	será	chamado	Nazareno”.
O	catequista	refere-se	ao	personagem	José	pela	última	vez.	Esse	não	pronuncia
uma	só	palavra;	apenas	escuta	o	anjo	do	Senhor	a	lhe	comunicar	em	sonho	a
ordem	divina,	e	decididamente	a	executa	com	precisão.	Trata-se	de	voltar	para	a
terra	de	Israel,	pois	desapareceram	as	ameaças	que	pairavam	sobre	o	menino
Jesus,	como	lhe	falara	o	anjo	(v.	19-21).	O	v.	22	refere-se	a	uma	informação
conhecida	por	José	não	provinda	do	mensageiro	divino.	O	violento	Herodes	fora
sucedido	por	seu	filho	Arquelau,	cujo	caráter	deveria	ser	semelhante	ao	do	pai.
José	prudentemente	julgou	melhor	ir	para	um	lugar	bem	distante	da	Judeia.
Outra	vez,	“avisado	em	sonho”,	foi	para	a	Galileia	habitar	numa	cidade
desconhecida,	de	nome	Nazaré.
O	narrador	identifica	nesse	fato	o	cumprimento	de	um	anúncio	profético
segundo	o	qual	o	Messias	seria	chamado	Nazoraíos	(v.	23).	Todavia,	não	se	tem
notícia	de	algum	profeta	ter	feito	tal	declaração.	Uma	explicação	para	esse	fato
literário	seria	a	preocupação	do	narrador	de	fundamentar	com	referências
proféticas	o	nascimento	do	Messias	Jesus.	E	o	faz	citando	Is	7,14;	Mq	5,1;	Os
11,1	e	Jr	31,15.	Como	trabalha	com	a	simbologia	numérica,	sendo	o	número
cinco	particularmente	relevante,	o	narrador	cria	uma	profecia	“artificial”	para
completar	a	cifra	desejada.	O	número	cinco	simboliza	o	agir	divino.	Com	as
cinco	citações	proféticas,	evidencia-se	que	tudo	quanto	aconteceu	com	o	menino
Jesus	estava	sob	a	guia	atenta	do	Pai	dos	Céus,	desde	o	nascimento	até	a
ressurreição	e	o	envio	dos	apóstolos	no	final	da	catequese.
No	tempo	da	redação	da	catequese	mateana,	os	discípulos	de	Jesus	eram
chamados	de	nazarenos,	devido	à	origem	de	seu	Mestre	(cf.	At	24,5).
Para	reflexão	e	debate
1.	Que	traços	da	identidade	e	da	missão	de	Jesus	Cristo	são	apresentados	na
narração	de	suas	origens?
2.	Que	temas	teológico-narrativos	estão	presentes	em	Mt	1-2	e	serão
desenvolvidos	ao	longo	da	catequese	mateana?
I.	O	REINO	E	SUA	JUSTIÇA	(Mt	3-7)
1.	Narração:	A	vinda	do	Reino
Tendo	oferecido	os	elementos	principais	da	identidade	de	Jesus,	situando-o	no
tempo	e	no	espaço,	o	evangelista	passa	a	narrar	sua	investidura	como	Messias.
No	capítulo	anterior,	ainda	menino,	foi	confrontado	com	a	crueldade	de	Herodes
disposto	a	eliminá-lo,	por	causa	da	pergunta	dos	magos	a	respeito	do	lugar	onde
havia	nascido	o	rei	dos	judeus.	O	Messias	reconhecido	e	adorado	pelos
peregrinos	vindos	do	Oriente	era	uma	criança	pobre	e	indefesa,	porém	capaz	de
deixar	Jerusalém	e	sua	liderança	em	polvorosa.
Os	capítulos	seguintes	confrontarão	o	Messias	Jesus	com	outro	tipo	de
mentalidade,	encarnada	por	João	Batista	e	sua	chamada	de	atenção	para	a
proximidade	do	fim.	No	batismo	será	investido	pelo	Pai	em	sua	função
messiânica	e	passará	pela	provação	das	tentações.	Por	fim	iniciará	a	missão
recebida	de	anunciar	o	Reino	de	Deus,	convocará	os	primeiros	discípulos	e	sairá
em	missão.
Pregação	de	João	Batista	(3,1-12)
||	Mc	1,2-8;	Lc	3,1-18;	Jo	1,19-28
¹Nesses	dias,	João	Batista	apareceu	pregando	no	deserto	da	Judeia	²e	dizendo:
“Arrependam-se,	porque	o	Reino	dos	Céus	está	próximo”.	³De	fato,	é	de	João
que	o	profeta	Isaías	falou:	“Voz	que	grita	no	deserto:	Preparem	o	caminho	do
Senhor,	endireitem	suas	estradas”.	⁴Esse	João	usava	uma	roupa	de	pelos	de
camelo	e	um	cinto	de	couro	na	cintura.	Sua	comida	eram	gafanhotos	e	mel
silvestre.	⁵E	iam	a	ele	habitantes	de	Jerusalém,	de	toda	a	Judeia	e	de	toda	a
região	próxima	ao	Jordão.	 E,	confessando	seus	pecados,	eram	batizados	por	ele
no	rio	Jordão.
⁷Ao	ver	que	muitos	dentre	os	fariseus	e	saduceus	iam	ao	seu	batismo,	ele	lhes
disse:	“Raça	de	cobras	venenosas!	Quem	os	ensinou	a	fugir	da	ira	que	está	para
vir?	⁸Produzam,	pois,	fruto	que	comprove	o	seu	arrependimento.	 E	não	pensem
que	basta	dizer:	‘Temos	Abraão	por	pai’.	Porque	eu	lhes	digo	que	até	dessas
pedras	Deus	pode	fazer	que	nasçam	filhos	para	Abraão.	¹ Agora	o	machado	já
está	na	raiz	das	árvores.	Então,	toda	árvore	que	não	produz	fruto	bom	será
cortada	e	jogada	no	fogo.	¹¹Na	verdade,	eu	batizo	vocês	com	água	para	o
arrependimento.	Mas	aquele	que	vem	depois	de	mim	é	mais	forte	do	que	eu,	e	eu
não	tenho	o	direito	de	levar	as	sandálias	dele.	Ele	batizará	vocês	com	Espírito
Santo	e	com	fogo.	¹²A	pá	está	em	sua	mão,	e	ele	há	de	limpar	sua	eira	e	recolherá
seu	trigo	no	celeiro.	Mas	a	palha,	ele	a	queimará	no	fogo	que	nunca	se	acaba”.
O	narrador	introduz	um	novo	personagem:	João	Batista,	que	atua	“no	deserto	da
Judeia”	(v.	1).	Por	que,	estando	na	Judeia,	preferiu	pregar	no	deserto,	ao	invés	da
capital,	como	fizera	o	profeta	Jeremias	(cf.	Jr	7,1-15)?	Sua	chamada	ao
arrependimento	em	vista	da	proximidade	do	Reino	dos	Céus	antecipa	o	que	fará
Jesus	(v.	2;	cf.	Mt	4,17).	As	palavras	são	idênticas,	mas	com	sentidos	bem
distintos.	João	levava	a	sério	as	expectativas	messiânicas	do	momento,	que
falavam	da	iminente	chegada	do	Messias	como	juiz.	Quem	fosse	encontrado	em
situação	de	pecado	poderia	ser	castigado.	Quem	estivesse	em	dia	com	Deus	e	se
mostrasse	arrependido	de	suas	faltas	seria	poupado.	As	pessoas	procuravam	o
batismo	de	João	por	temerem	o	confronto	escatológico.	Estava	fora	dos	planos
do	Batista	dar	origem	a	um	movimento	e	suscitar	discípulos.	Como	o	batismo
tinha	em	vista	algo	muito	próximo,	seria	inútil	alimentar	projetos	de	longo	prazo.
O	evangelista	encontra	no	profeta	Isaías	uma	chave	para	compreender	os	fatos
(v.	3).	João	encarna	a	voz	que	no	deserto	proclama	a	urgência	de	preparar	os
caminhos	para	a	passagem	do	Senhor,	endireitando	as	estradas	tortuosas	(cf.	Is
40,3).	No	passado,	tratava-se	da	passagem	dos	exilados	de	volta	à	Terra	de	onde
foram	arrancados.	Agora	o	Batista	abre	caminho	para	o	Messias	Jesus,	cuja
missão	será	a	de	guiar	o	novo	Israel	pelas	estradas	do	Reino,	cuja	justiça
anunciará	com	suas	palavras	e	seus	gestos	poderosos.
Por	um	lado,	o	narrador	serve-se	da	pessoa	e	do	testemunho	do	profeta	Elias
para	construir	o	personagem	João	Batista.	Por	isso	o	modo	de	se	vestir	e	o
alimento	de	João	assemelham-se	aos	do	profeta	do	século	IX	a.C.	(v.	4;	cf.	2Rs
1,8);	seu	lugar	de	atuação	era	o	mesmo	do	antigo	profeta	(cf.	2Rs	2,6)	e	suas
palavras	eram	tão	duras	quanto	as	de	Elias	(cf.	1Rs	21,20-24).	Por	outro	lado,
diferentemente	de	Jeremias,	que	falava	para	quem	se	dispusesse	a	ouvi-lo	ao
pregar	na	porta	do	“Templo	de	Javé”	(cf.	Jr	7,4),	os	ouvintes	de	João	Batista
deveriam	se	decidir	a	peregrinar	até	o	deserto	para	ouvi-lo.	Seu	convite	ao
arrependimento	pela	proximidade	do	Reino	dos	Céus	ecoou	por	toda	a	Judeia	e
atraiuuma	multidão	disposta	a	confessar-se	pecadora	e	ser	batizada	por	ele	nas
águas	do	rio	Jordão	(v.	5-6).
O	chamado	ao	arrependimento	(gr.	metanoía),	representado	por	uma	revolução
espiritual	expressa	pela	superação	do	egoísmo	e	toda	sorte	de	maldade,	está
contido	nas	palavras	ásperas,	dirigidas	à	liderança	religiosa	da	época	–	os
fariseus	e	os	saduceus	–,	chamados	de	“raça	de	cobras	venenosas”	(v.	7).	As
palavras	carregadas	de	realismo	religioso	eram	espadas	cortantes	aos	ouvidos	de
seus	penitentes	(v.	8).	Mais	que	aproximá-los	de	Deus,	poderiam	afastá-los.
Entretanto,	era	insuficiente	apresentar-se	para	o	batismo	desprovidos	da
disposição	de	produzir	“fruto	que	comprove	o	seu	arrependimento”.	De	nada
vale	pensar:	“Temos	Abraão	por	pai!”	e	não	dar	mostras	de	ser	verdadeiros	filhos
do	patriarca	fiel	e	obediente	(v.	9;	cf.	Gn	12,1-3).	A	conversão	se	faz	urgente
devido	ao	juízo	de	Deus	estar	à	porta	(v.	10).	Quem	se	dá	ao	luxo	de	adiá-la
poderá	ser	pego	de	surpresa.
O	Batista	tem	consciência	da	provisoriedade	de	sua	missão,	pois	virá	depois	dele
alguém	mais	forte	(gr.	ischiróteros),	de	quem	se	sente	indigno	até	mesmo	“de
levar	as	sandálias”,	e	cujo	batismo	será	de	outro	tipo	(v.	11).	“Ele	batizará	com
Espírito	Santo	e	com	fogo”,	como	obra	do	próprio	Deus	em	ação	no	mais	íntimo
de	quem	deseja	mudar	de	vida	pela	força	de	seu	Espírito	(cf.	Is	44,3).	O	novo
batismo	terá	o	efeito	purificador	do	fogo,	como	acontece	na	purificação	dos
metais.	Por	conseguinte,	será	um	batismo	gerador	de	vida	nova	que	conforma	o
ser	humano	com	o	projeto	de	Deus.	João	Batista	reconhecia-se	incapaz	dessa
tarefa	reservada	para	o	Messias,	cuja	vinda	estava	prestes	a	acontecer.
O	Batista	alude	à	missão	do	Messias	em	termos	escatológicos,	como	se	viesse,
num	passe	de	mágica,	pôr	fim	ao	mundo	da	injustiça	e	abrir	espaço	para	o
mundo	da	misericórdia.	A	metáfora	do	agricultor	na	tarefa	de	separar	a	palha	do
trigo	e	lançar	a	palha	“no	fogo	que	nunca	se	acaba”	comporta	uma	imagem	de
Messias	castigador	e	inclemente	(v.	12).	Ao	longo	de	seu	ministério,	o	Messias
Jesus	se	mostrará	bem	diferente:	será	muito	severo	com	quem	se	considerava
“trigo”,	no	caso	dos	doutores	da	Lei	e	dos	fariseus,	mormente	quem	se	tinha	na
conta	de	perfeito	e	se	julgava	no	direito	de	desprezar	os	demais,	mas	amoroso	e
paciente	com	os	pecadores	e	excluídos,	considerados	“palha”	pelas	estruturas
religiosas	da	época.	Em	outras	palavras,	a	pauta	de	ação	do	Messias	Jesus	será
muito	distinta	daquela	atribuída	pelo	Batista.
Batismo	de	Jesus	(3,13-17)
||	Mc	1,9-11;	Lc	3,21s;	Jo	1,	29-34
¹³Nesse	tempo,	Jesus	foi	da	Galileia	para	o	Jordão,	ao	encontro	de	João,	para	ser
batizado	por	ele.	¹⁴João,	porém,	tentava	impedi-lo,	dizendo:	“Eu	é	que	preciso
ser	batizado	por	ti,	e	tu	vens	a	mim?”	¹⁵Contudo,	Jesus	lhe	respondeu:	“Deixe
por	enquanto,	pois	é	assim	que	devemos	cumprir	toda	a	justiça”.	Então	João
concordou.	¹ Batizado,	Jesus	logo	subiu	da	água.	Eis	que	se	abriram	para	ele	os
céus,	e	viu	o	Espírito	de	Deus	descendo	como	pomba	e	vindo	sobre	ele.	¹⁷E	uma
voz	vinda	dos	céus	dizia:	“Este	é	o	meu	Filho	amado,	em	quem	eu	me	agrado”.
A	recepção	do	batismo	de	João	correspondeu	a	uma	decisão	de	Jesus	que	sai	da
Galileia	e	se	dirige	ao	Jordão	onde	atuava	o	Batista	(v.	13).	Esse	tenta	impedi-lo
com	um	argumento	muito	consciente:	“Eu	é	que	preciso	ser	batizado	por	ti,	e	tu
vens	a	mim?”	(v.	14),	numa	evidente	confissão	de	inferioridade.
Essa	cena	tem	motivação	narrativo-teológica.	As	entrelinhas	da	narração	do
batismo	de	Jesus	escondem	o	conflito	entre	a	comunidade	de	Mateus	e	o	grupo
dos	discípulos	de	João	Batista,	cultivadores	da	memória	do	mestre	(cf.	At	18,25),
que	consideravam	Jesus	inferior	ao	mestre	deles.	Argumentavam	com	o	fato	de
Jesus	ter	sido	batizado	por	João.	O	catequista	Mateus	esclarece	o	mal-entendido
com	a	inserção	em	sua	catequese	do	diálogo	entre	Jesus	e	João	Batista.	Esse	se
recusa	a	batizá-lo,	declarando-se	carecer	do	batismo	que	o	Messias	haveria	de
realizar	(v.	11).	A	resposta	de	Jesus:	“É	nosso	dever	plenificar	toda	justiça”	(v.
15)	significa	que	ambos	tinham	diante	de	si	um	desígnio	divino	a	ser	cumprido.
“Então	João	concordou”.	Assim,	a	ação	do	Batista	corresponde	aos	planos	de
Deus	em	relação	ao	Messias	Jesus,	com	um	significado	muito	distinto	do
batismo	recebido	pela	multidão	de	pecadores	irrequietos	para	se	purificarem	em
vista	do	juízo	que	estava	para	acontecer.	E	assim	escaparem	da	ira	divina!	O
batismo	do	Messias	Jesus	seria	de	outro	tipo.
O	narrador	omite-se	de	descrever	o	batismo	de	Jesus,	limitando-se	a	constatá-lo
laconicamente	com	a	palavra	“batizado”	(v.	16).	Apenas	faz	alusão	ao
consentimento	de	João,	para	logo	descrever	uma	sucessão	de	fatos	logo	que
Jesus	subiu	da	água.	Pouca	importância	se	dá	ao	momento	do	batismo	de	Jesus	a
fim	de	não	alimentar	a	polêmica	com	os	batistas.
O	batismo	de	Jesus	na	catequese	mateana	tem	a	função	de	colocá-lo	na	fila	dos
pecadores	desejosos	de	purificação	em	vista	do	juízo	divino.	Sua	missão
anunciada	pelo	anjo	consistiria	em	“salvar	o	seu	povo	dos	seus	pecados”	(Mt
1,21).	A	presença	de	Jesus	na	fila	dos	penitentes	tinha	caráter	salvífico	por	ser
“sal	da	terra”	e	“luz	do	mundo”	(Mt	5,13-16).	A	convivência	com	a	multidão	de
pecadores	às	margens	do	Jordão	antecipava	algo	recorrente	em	sua	vida	de
missionário	do	Reino:	a	solidariedade	com	os	pecadores	para	resgatá-los.	A
condição	de	Emanuel	permitia-lhe	ser	portador	de	salvação	para	os	pecadores,
jamais	de	castigo	e	punição,	como	se	podia	deduzir	das	palavras	do	Batista.	Seu
messianismo	seria	uma	novidade	no	âmbito	da	religião	de	Israel.
A	presença	do	Espírito	de	Deus	“descendo	como	pomba”	e	pousando	sobre	Jesus
evoca	Gn	1,1,	quando	tem	início	a	criação.	Em	Jesus,	começa	a	verdadeira
criação,	onde	o	ser	humano	e	todas	as	criaturas	voltam-se	para	o	Criador,
superando	as	eventuais	infidelidades,	geradoras	de	violência	e	de	morte.
Todavia,	no	confronto	com	a	velha	criação,	o	novo	ser	humano,	encarnado	na
pessoa	de	Jesus,	seria	vítima	da	maldade	humana,	a	ponto	de	morrer	na	cruz.	A
ressurreição,	enfim,	abriria	espaço	para	acontecer	o	definitivo	do	ser	humano	e
da	criação.
A	voz	celeste:	“Este	é	o	meu	Filho	amado,	em	quem	eu	me	agrado”	(v.	17)
corresponde	à	investidura	de	Jesus	na	função	de	Messias,	como	Filho	querido	do
Pai	obediente	e	fiel	até	a	morte	de	cruz.	Essa	será	sua	identidade	determinante.
Todos	seus	ensinamentos	e	suas	ações	em	última	análise	serão	reportadas	ao	Pai.
A	sintonia	com	o	querer	paterno	marcará	sua	caminhada	até	a	cruz,	não	obstante
as	tentativas	dos	inimigos	de	fazê-lo	se	desviar.
A	cena	do	batismo	de	Jesus	antecipa	o	batismo	de	cada	discípulo	do	Reino,
batizado	“em	nome	do	Pai,	e	do	Filho	e	do	Espírito	Santo”	(Mt	28,19).	Ser
investido	na	condição	de	discípulo	do	Reino	pelo	batismo,	com	a	tarefa	de	levar
adiante	a	missão	do	Mestre,	será	o	distintivo	do	discípulo-apóstolo	do	Mestre
Jesus.
A	cena	do	batismo	evoca	para	os	leitores-ouvintes	da	catequese	mateana	a
investidura	de	Eliseu	na	missão	profética	pelas	mãos	de	Elias	(cf.	2Rs	2,9-10).
Entretanto,	a	investidura	de	Jesus	acontece	por	obra	do	Pai,	e	não	de	João
Batista.	Terá	uma	missão	tão	profética	quanto	a	de	Elias	(cf.	Mt	16,14);	com	uma
diferença:	falará	e	agirá	como	Filho	amado	de	Deus.
Tentação	no	deserto	(4,1-11)
||	Mc	1,12s;	Lc	4,1-13
¹Então	Jesus	foi	conduzido	pelo	Espírito	ao	deserto,	a	fim	de	ser	tentado	pelo
diabo.	²Jejuou	quarenta	dias	e	quarenta	noites,	e	depois	sentiu	fome.	³Então	se
aproximou	dele	o	tentador,	e	lhe	disse:	“Se	és	Filho	de	Deus,	ordena	que	estas
pedras	se	tornem	pão”.	⁴Jesus,	porém,	respondeu:	“Está	escrito:	‘O	ser	humano
não	vive	só	de	pão,	mas	de	toda	palavra	que	sai	da	boca	de	Deus’	”.	⁵Então	o
diabo	levou	Jesus	à	Cidade	Santa,	colocou-o	no	ponto	mais	alto	do	Templo,	 e
lhe	disse:	“Se	és	Filho	de	Deus,	atira-te	para	baixo,	pois	está	escrito:	‘Ele	dará
ordens	a	seus	anjos	a	teu	respeito,	e	eles	te	levarão	nas	mãos,	para	que	teu	pé	não
tropece	em	nenhuma	pedra’”.	⁷Jesus	lhe	respondeu:	“Também	está	escrito:	‘Não
tente	ao	Senhor	seu	Deus’	”.	⁸Denovo	o	diabo	levou	Jesus	a	um	monte	muito
alto	e	lhe	mostrou	todos	os	reinos	do	mundo	e	a	grandiosidade	deles.	 Disse-lhe:
“Tudo	isso	eu	te	darei,	se	de	joelhos	me	adorares”.	¹ Então	Jesus	lhe	disse:	“Vá
embora,	Satanás!	Pois	está	escrito:	‘Adore	o	Senhor	seu	Deus,	e	somente	a	ele
preste	culto’	”.	¹¹Por	fim,	o	diabo	o	deixou.	E	eis	que	os	anjos	se	aproximaram	e
se	puseram	a	servi-lo.
O	batismo	de	Jesus	na	catequese	mateana	tem	como	pano	de	fundo	a	travessia	do
mar	Vermelho	pelos	israelitas	fugitivos	da	opressão	do	faraó	(cf.	Ex	14,15-31).
Como	Moisés	rumo	à	terra	da	promessa,	Jesus	passou	pelas	águas	do	Jordão	para
começar	a	grande	missão	de	constituir	o	verdadeiro	Israel.
Agora	o	Espírito	conduz	Jesus	ao	deserto,	como	no	passado	Deus	conduziu	seu
povo	ao	deserto,	onde	foi	submetido	a	tremendas	provações	para	verificar	sua
fidelidade	(v.	1).	O	tentador,	referido	como	diabo	(gr.	diábolos,	o	que	divide;	cf.
Mt	13,39;	25,41),	tudo	fará	para	criar	inimizade	entre	o	Filho	amado	e	o	Pai,	ao
lhe	sugerir	pensamentos	mundanos,	contrários	ao	querer	paterno	(cf.	Mt	16,23).
O	número	três	das	tentações	designa,	na	simbologia	numérica,	a	constituição	do
ser	humano,	“espírito,	alma	e	corpo”	(1Ts	5,23).	Significa	a	provação	da
humanidade	de	Jesus	em	relação	à	lealdade	ao	querer	do	Pai.
Os	“quarenta	dias	e	quarenta	noites”	e	a	experiência	da	fome	aludem	à
experiência	dos	israelitas	na	longa	travessia	pelo	deserto	(v.	2;	cf.	Ex	16,35;
24,18;	Nm	14,33;	Sl	95[94],10).	A	firmeza	do	Filho	Jesus	diante	das	tentativas
de	desviá-lo	do	caminho	traçado	pelo	Pai	supera	a	revolta	dos	israelitas	contra
Deus	e	seu	enviado	Moisés.	Os	inimigos	ao	longo	do	seu	ministério	porão
armadilhas	para	fazê-lo	tropeçar	e,	dessa	forma,	ter	motivos	para	acusá-lo.	A
determinação	de	Jesus	demonstrada	na	tríplice	tentação	no	início	da	caminhada
será	um	traço	inconfundível	de	sua	identidade	messiânica.
A	tentação	de	transformar	pedras	em	pão	corresponde	ao	impulso	de	usar	em
benefício	próprio	a	autoridade	recebida	do	Pai	para	o	serviço	aos	necessitados	(v.
3-4).	No	caso	de	Jesus,	cabia-lhe	saciar	as	multidões	famintas,	e	não	a	si	mesmo
(cf.	Mt	14,13-21;	15,32-38).	Sua	resposta	com	uma	citação	bíblica	(cf.	Dt	8,3)
atesta	a	disposição	de	se	submeter	à	Palavra	de	Deus	em	desprezo	das	seduções
enganosas.
A	tentação	de	se	lançar	do	ponto	mais	alto	do	Templo	com	a	falsa	garantia	do
envio	de	anjos	do	céu	para	segurá-lo	pelas	mãos,	de	modo	a	não	se	ferir	em
alguma	pedra	(cf.	Sl	91[90],11),	tem	a	ver	com	a	irresponsabilidade	no	dia	a	dia
da	missão	(v.	5-7).	Um	exemplo	dessa	tentação	acontece	no	momento	em	que
alguém	o	desafia	a	descer	da	cruz	como	exigência	para	crer	nele	(cf.	Mt	27,39-
42).	Se	tivesse	dado	ouvido	ao	tentador,	teria	arruinado	o	caminho	de	fidelidade
ao	Pai,	construído	ao	longo	da	missão	a	duras	provas.	A	oposição	firme	ao	diabo,
consciente	de	não	ter	o	direito	de	colocar	o	Pai	à	prova,	marcará	sua	caminhada
até	a	cruz.
A	tentação	de	apoderar-se	de	todos	os	reinos	do	mundo	e	sua	glória	com	um
singelo	gesto	de	ajoelhar-se	diante	do	tentador	e	adorá-lo	(gr.	proskynéo)
corresponde	a	escolher	o	caminho	“largo	e	espaçoso”	para	atingir	os	objetivos,
de	modo	a	evitar	a	“porta	estreita	e	o	caminho	apertado”	(Mt	7,13-14),	com	suas
cruzes	e	desafios	(v.	8-10).	Jesus	recusa-se	peremptoriamente	a	se	deixar	levar
pela	sugestão	do	Satanás	(heb.	Satan:	inimigo,	adversário),	pois	só	Deus,	único
digno	de	louvor,	merece	sua	adoração	e	dele	provêm	todos	os	bens.	Jesus	rejeita
servir	a	dois	senhores,	opção	fundamental	de	seu	ministério	(cf.	Mt	6,24).
Jesus	reconhece	a	falácia	do	tentador	que	se	dá	ares	de	senhor	de	todos	os	reinos
do	mundo.	Ele	bem	sabe	que	“todo	poder”	(gr.	pása	exousia)	pertence	ao	Pai	e
lhe	foi	transmitido	em	função	do	serviço	do	Reino	(cf.	Mt	28,18).	A	falácia	do
tentador	consiste	em	prometer	dar	o	que	não	lhe	pertence.	A	tramoia	para	fazer	o
Filho	se	indispor	com	o	Pai	foi	desmascarada.	As	citações	de	frases	isoladas	das
Escrituras	tiradas	do	contexto	podem	ser	facilmente	contraditas	com	o	mesmo
expediente.
As	tentações	tinham	o	objetivo	de	fazer	desmoronar	a	base	da	identidade	de
Jesus,	sua	condição	de	Filho	de	Deus.	Por	isso	duas	tentações	começam	com	o
condicional:	“Se	és	Filho	de	Deus...”	A	determinação	perante	as	propostas
diabólicas	comprova	a	condição	de	Filho	obediente	e	fiel,	cuja	existência	está
inteiramente	fundada	no	Pai.
O	diabo	vencido	sai	de	cena	e	se	aproximam	os	anjos	para	servir	Jesus	(v.	11).
Esses	sim	podem	oferecer-lhe	o	verdadeiro	alimento	para	fortificá-lo	em	vista
dos	embates	da	dura	missão.	O	leitor-ouvinte	da	catequese	mateana	recorda-se
da	experiência	do	povo	de	Israel	no	deserto,	ao	ser	alimentado	por	Deus	durante
quarenta	anos,	até	o	término	da	esgotante	travessia	(cf.	Ex	16,35).	Jesus,	da
mesma	forma,	tendo	atravessado	o	deserto	e	vencido	as	tentações,	alimenta-se
para	um	momento	novo	de	sua	caminhada.
Início	da	pregação,	na	Galileia	(4,12-17)
||	Mc	1,14s;	Lc	4,14s
¹²Quando	ouviu	que	João	tinha	sido	preso,	Jesus	voltou	para	a	Galileia.
¹³Deixando	Nazaré,	foi	morar	em	Cafarnaum,	à	beira	do	mar,	no	território	de
Zabulon	e	Neftali,	¹⁴para	que	se	cumprisse	o	que	foi	dito	pelo	profeta	Isaías:
¹⁵“Terra	de	Zabulon	e	terra	de	Neftali,	caminho	do	mar,	do	outro	lado	do	Jordão,
Galileia	das	nações!	¹ O	povo	que	estava	assentado	em	trevas	viu	uma	grande
luz.	A	luz	se	levantou	para	os	que	estavam	assentados	na	região	sombria	da
morte”.	¹⁷A	partir	daí,	Jesus	começou	a	pregar	e	a	dizer:	“Arrependam-se,	porque
o	Reino	de	Deus	está	próximo”.
O	ministério	de	Jesus	começa	quando	João	Batista	sai	de	cena	com	o
encarceramento	(v.	12).	Uma	decisão	importante	consistiu	em	voltar	para	a
Galileia.	Teria	permanecido	na	região	do	Jordão	até	a	prisão	do	Batista?	Em	todo
caso,	deixa	a	cidade	onde	fora	criado	e	escolhe	morar	em	Cafarnaum,	às	margens
do	mar	da	Galileia,	palco	de	muitas	de	suas	atividades	(v.	13).	A	observação	“no
território	de	Zabulon	e	Neftali”	faz	alusão	ao	antigo	Israel	dividido	em	tribos,
regime	superado	com	o	surgimento	da	monarquia.	O	evangelista	então	tem	a
chance	de	evocar	uma	profecia	de	Isaías,	excelente	para	esclarecer	o	sentido	dos
acontecimentos	ligados	ao	Messias	Jesus	(cf.	Is	8,23-9,1).
Quando	o	exército	assírio	invadiu	o	Reino	de	Israel,	por	volta	de	721	a.C.,
começou	por	se	impor	às	tribos	do	Norte,	entre	as	quais	as	duas	citadas	por
Isaías.	A	dominação	acontecia	com	a	troca	de	populações:	os	israelitas	foram
deportados	para	lugares	distantes,	de	onde	foram	trazidas	populações	para
ocupar	seus	territórios.	Os	novos	habitantes	levaram	consigo	suas	divindades	(cf.
2Rs	17,5-6.24-41),	fato	considerado	como	profanação	daquela	região.	A
expressão	pejorativa	“Galileia	das	nações”	(heb.	galil	ha	goyim)	tem	aí	sua
origem	(v.	14-15).	Os	galileus	tornaram-se	vítimas	do	desprezo	dos	habitantes	da
Judeia,	como	se	não	fizessem	parte	do	Povo	de	Deus,	por	serem	contaminados
pelo	paganismo.
Pois	bem,	entre	esses	“assentados	na	região	sombria	da	morte”	brilharia	a	luz	do
Messias	menino	com	o	poder	recebido	de	Deus	e	os	títulos	dignos	de	um	grande
rei	aludidos	pelo	profeta	(v.	16;	cf.	Is	9,5).	Assim	aconteceu	com	Jesus	de
Nazaré.	Seu	ministério	começou	entre	as	vítimas	do	preconceito	social	e
religioso,	para	quem	fez	brilhar	a	luz	do	amor	do	Pai	para	lhes	restituir	a
dignidade	e	não	serem	mais	judeus	de	segunda	categoria.	Sua	vocação	de
salvador	dos	pecadores	consistiu	em	resgatar	a	dignidade	humana	de	muitas
formas	degradada,	a	começar	por	seus	concidadãos	(cf.	Mt	1,21).	Da	Galileia
enviaria	os	discípulos-apóstolos	para	convidar	os	povos	(heb.	goyim)	do	mundo
inteiro	a	se	tornarem	discípulos	do	Reino	em	vista	de	criar	uma	nova
humanidade	(cf.	Mt	28,16-20).	A	Galileia	foi	o	ponto	de	partida	do	ministério	de
Jesus	e	o	dos	discípulos	enviados	em	missão	a	todos	os	rincões	da	terra.
A	expressão	“a	partir	daí”	demarca	o	início	das	atividades	do	Messias	Jesus	(v.
17).	Um	imperativo	peremptório	serve	de	baliza	para	todos	os	seus	ensinamentos
e	ações.	“Arrependam-se”	(gr.	metanoíete)	tem	o	sentido	fortede	passar	por	uma
profunda	transformação	interior	como	processo	de	libertação	para	acolher	o
querer	do	Pai	e	torná-lo	pauta	de	ação	com	absoluta	fidelidade,	passo
indispensável	para	o	discipulado,	pois	o	vinho	novo	do	Reino	exige	ser	colocado
em	recipientes	novos	(cf.	Mt	9,17).	Outra	metáfora	ilustra	a	urgência	da
conversão:	a	inutilidade	de	remendar	roupa	velha	com	retalho	de	pano	novo;
com	certeza	só	aumentará	o	estrago	(cf.	Mt	9,16).	O	ministério	de	Jesus	exige
dos	discípulos	verdadeira	reviravolta	existencial	para	se	colocarem	no	compasso
de	Deus.
A	proximidade	do	“Reino	dos	Céus”	(gr.	basileía	tón	ouranón)	acontece	com	a
presença	de	Jesus	de	Nazaré	na	vida	de	seu	povo.	O	Reino	torna-se	realidade	em
sua	total	adesão	ao	querer	do	Pai	com	a	determinação	de	lhe	ser	inteiramente	fiel
e	obediente,	como	acontecerá	na	paixão:	“Não	seja	como	eu	quero,	e	sim	como
tu	queres”	(Mt	26,39);	“Seja	feita	a	tua	vontade”	(Mt	26,42).	Esse	modo	de
compreender	a	relação	com	o	Pai	foi	transmitido	aos	discípulos,	a	quem	ensinou
a	rezar:	“Seja	feita	a	tua	vontade,	assim	na	terra	como	no	céu”	(Mt	6,10).
Como	sinal	de	atenção	à	sensibilidade	religiosa	de	sua	comunidade,	cuja	maioria
provinha	do	judaísmo,	o	evangelista	usará	a	expressão	“Reino	dos	Céus”,	de
preferência	a	“Reino	de	Deus”.	Ambas	as	expressões	têm	o	mesmo	sentido.
Contudo,	“Reino	de	Deus”	poderia	ser	entendido	como	desrespeito	à	proibição
de	pronunciar	“em	vão	o	nome	de	Javé”	(Dt	5,11).
Chamado	dos	primeiros	discípulos	(4,18-22)
||	Mc	1,16-20;	Lc	5,1-11
¹⁸Andando	à	beira	do	mar	da	Galileia,	Jesus	viu	dois	irmãos:	Simão,	chamado
Pedro,	e	seu	irmão	André.	Estavam	lançando	a	rede	no	lago,	pois	eram
pescadores.	¹ Jesus	lhes	disse:	“Venham	após	mim,	e	eu	farei	de	vocês
pescadores	de	gente”.	² Imediatamente,	abandonando	as	redes,	eles	o	seguiram.
²¹Indo	adiante,	viu	outros	dois	irmãos:	Tiago	de	Zebedeu	e	seu	irmão	João.
Estavam	na	barca	com	o	pai	Zebedeu,	consertando	suas	redes,	e	Jesus	os
chamou.	²²Imediatamente,	abandonando	a	barca	e	o	pai,	eles	o	seguiram.
A	catequese	de	Mateus	evidencia	a	preocupação	de	Jesus,	desde	o	começo	de	sua
atuação,	de	jamais	se	apresentar	como	se	fosse	um	guru	solitário	centrado	em	si
mesmo.	A	missão	recebida	do	Pai	para	ser	levada	a	toda	a	humanidade	seria
partilhada	com	os	discípulos-apóstolos	do	Reino.	Por	isso,	dá	os	primeiros
passos	para	formar	uma	comunidade	missionária	já	no	começo	de	seu	ministério.
De	maneira	inesperada,	convoca	dois	irmãos	pescadores	em	plena	atividade	de
pesca	(v.	18).	Nada	se	diz	de	Simão	e	André,	no	tocante	à	condição	religiosa,	sua
fidelidade	ou	não	à	Lei	de	Moisés.	Quiçá	a	rigorosa	submissão	à	Lei	mosaica
fosse	de	pouca	importância	para	um	galileu	vitimado	pelos	preconceitos	dos
habitantes	da	Judeia.	A	referência	a	Simão	contém	o	esclarecimento	de	se	tratar
de	Pedro,	como	o	fará	outra	vez	(cf.	Mt	10,2),	até	chegar	o	momento	de	dizer
que	a	mudança	de	nome	foi	feita	pelo	Mestre	(cf.	Mt	16,18).	Em	Mt	16,16,	o
narrador	o	chama	de	Simão	Pedro.	A	mudança	de	nome	na	Bíblia	tem	vários
significados:	autoridade	de	quem	impõe	a	troca	de	nome	e	submissão	de	quem
recebe	um	novo	nome,	profunda	mudança	na	vida	de	quem	tem	o	nome
substituído	por	outro,	chamado	para	uma	nova	missão.	Tudo	isso	tem	a	ver	com
Pedro	na	relação	com	o	Mestre	Jesus.
Ele	será	um	personagem	importante	na	catequese	mateana,	referido	em	várias
passagens	exclusivas	do	evangelista.	Com	elas	se	pode	traçar	o	percurso	do
discípulo	Pedro.	Se	José	foi	narrado	como	o	discípulo	ideal,	ao	revés,	Pedro	será
apresentado	como	o	discípulo	real,	com	seus	altos	e	baixos,	como	acontecerá
com	os	discípulos	de	todos	os	tempos.
Os	dois	irmãos	pescadores	veem-se	diante	da	ordem	enigmática	de	se	colocarem
no	seguimento	daquele	desconhecido,	que	faria	deles	“pescadores	de	gente”	(lit.
de	homens)	(v.	19).	Que	pensamentos	lhes	passaram	pela	cabeça?	Que	tipo	de
atividade	desconhecida	seria	aquela?	Admira-se	terem	deixado	imediatamente	as
redes	para	segui-lo	(v.	20).	O	leitor-ouvinte	pode	desconfiar	estar	diante	de	uma
cena	de	irresponsabilidade.	Como	entender	uma	tomada	de	decisão	desse	porte
prescindindo	de	consultar	a	família,	colocar	em	ordem	os	negócios,	pedir
explicações	a	respeito	dos	meios	de	subsistência	e	tantos	outros	detalhes?	A
mensagem,	porém,	é	clara:	quem	quiser	tornar-se	discípulo	do	Reino	deverá	se
dispor	a	fazer	rupturas	radicais	e	abrir	mão	da	segurança	e	da	exigência	de
conhecer	os	desdobramentos	futuros.	Trata-se	de	se	lançar	numa	aventura
inteiramente	confiado	em	Deus	nos	passos	do	Messias	Jesus.
Cena	semelhante	acontece	com	a	dupla	de	irmãos	Tiago	e	João,	os	filhos	de
Zebedeu	(v.	21).	Enquanto	Pedro	e	André	foram	chamados	em	plena	atividade,
esses	dois	parecem	estar	consertando	as	redes	para	começar	a	pescaria	ou	então
corrigindo	os	danos	causados	no	instrumento	de	trabalho	após	a	labuta	diária.
Importava	ao	narrador	estarem	engajados	em	suas	lides	profissionais,	como
aconteceria	com	todos	os	chamados	para	o	serviço	do	Reino,	como	foi	o	caso	de
Mateus,	o	coletor	de	impostos	(cf.	Mt	9,9).
Pedro	e	André	deixaram	as	redes;	Tiago	e	João,	a	barca	e	o	pai	para	seguir	Jesus
(v.	22).	Tomaram	uma	decisão	radical	como	se	não	houvesse	empecilhos.	O
chamado	do	Reino	exige	disponibilidade	total.	Quem	estabelece	pré-requisitos
torna-se	inapto	para	o	discipulado	do	Reino	(cf.	Mt	8,21-22).
Pregação	e	curas	na	Galileia	(4,23-25)
||	Mc	3,7b-12;	Lc	6,17-19
²³Jesus	percorria	toda	a	Galileia,	ensinando	nas	sinagogas	deles,	pregando	o
evangelho	do	Reino	e	curando	toda	doença	e	enfermidade	do	povo.	²⁴Sua	fama
se	espalhou	por	toda	a	Síria.	E	conduziram	a	ele	todos	os	que	estavam	doentes,
sofrendo	com	diversas	enfermidades	e	dores,	os	endemoninhados,	epiléticos	e
paralíticos.	E	ele	os	curou.	²⁵Numerosas	multidões	o	seguiram,	vindas	da
Galileia,	da	Decápole,	de	Jerusalém,	da	Judeia	e	do	outro	lado	do	Jordão.
Esses	versículos	funcionam	como	sumário	para	introduzir	a	sequência	da
catequese.	O	conteúdo	do	v.	23	repete-se	em	9,35	para	formar	uma	inclusão,
recurso	literário	que	estabelece	os	limites	de	uma	secção	narrativa.	Ambos	os
versículos	fazem	alusão	às	duas	grandes	vertentes	do	messianismo	de	Jesus:
Messias	por	palavras	e	Messias	por	obras.	Enquanto	Messias	por	palavras,	Jesus
“percorria	toda	a	Galileia,	ensinando	na	sinagoga	deles,	pregando	o	evangelho
do	Reino”;	enquanto	Messias	por	obras,	“curava	toda	doença	e	enfermidade	do
povo”.	Os	capítulos	5-7	serão	uma	síntese	de	seus	ensinamentos	de	Messias	por
palavras;	os	capítulos	8-9	concentrarão	uma	série	de	ações	reveladoras	do	poder
(gr.	exousia)	recebido	do	Pai	na	condição	de	Messias	por	obras.
Esses	versículos	contêm	dois	elementos	importantes	na	catequese	mateana.	O
primeiro	refere-se	à	expressão	“sinagoga	deles”	ou	“suas	sinagogas”,	repetida
várias	vezes	(cf.	Mt	10,17;	12,9;	13,54;	23,34).	O	conflito	com	a	liderança	da
sinagoga	intransigente	com	a	comunidade	mateana	leva	o	evangelista	a
estabelecer	uma	nítida	distinção	entre	ambas.	Por	isso,	quando	fala	em	sinagoga,
acrescenta	“deles”	(gr.	autón),	como	se	dissesse	não	serem	“dos	nossos”.	O
segundo	elemento	refere-se	ao	pronome	“toda”,	na	expressão	“toda	doença	e
enfermidade”.	No	evangelho,	as	ações	do	Messias	Jesus	têm	sempre	efeito
imediato	(cf.	Mt	8,3;	20,34)	e	total	(cf.	Mt	10,1;	14,20;	15,37).	Nada	se	faz	pela
metade,	tampouco	por	etapas.	No	tocante	às	doenças,	Jesus	cura-as	todas	e
imediatamente	com	o	poder	recebido	do	Pai	dos	Céus.	O	leitor-ouvinte	deve
estar	atento	para	esse	detalhe	revelador	da	identidade	do	Messias	Jesus.
Toda	sorte	de	marginalizados	pela	sociedade	e	pela	religião	vão	em	busca	de
Jesus	para	serem	curados	(v.	24).	As	doenças	eram	consideradas	castigos	de
Deus	como	punição	por	algum	pecado.	Desconheciam-se	outras	causas!	Por	isso
as	enfermidades	e	as	doenças	crônicas,	como	distúrbio	mental	(considerado
possessão	demoníaca),	epilepsia	ou	alguma	paralisia,	oprimiam	as	pessoas
obrigadas	a	carregar	um	peso	insuportável	por	deverem	se	reconhecer	culpadas
por	faltas	pelas	quais	não	se	sentiam	responsáveis.	As	curas	operadaspor	Jesus
significavam	libertação	de	um	pesado	fardo	social	e	religioso.	Quando	o	anjo
atribuiu	a	Jesus	a	missão	de	“salvar	o	povo	dos	seus	pecados”	(Mt	1,21),	referia-
se	a	essa	realidade.	A	palavra	“pecado”,	nesse	caso,	nada	tem	a	ver	com
transgressão	da	Lei,	como	pensavam	os	escribas	e	fariseus,	e	sim	com	a
violência	sofrida	pelos	mais	fragilizados,	que	são	convidados	a	vir	até	Jesus	para
ser	aliviados	de	seus	fardos	e	encontrar	descanso	(cf.	Mt	11,28-30).
A	narrativa	evangélica	descreve	um	movimento	das	multidões	entre	os	capítulos
3	e	4.	Em	3,5	as	pessoas	vão	em	busca	de	João	Batista	para	ser	batizadas	em
vista	do	iminente	juízo	divino.	Em	4,25	as	multidões	seguem	Jesus	para	escutar
o	evangelho	do	Reino	e	ser	libertadas	de	tudo	quanto	as	oprime,	e	assim	poder
começar	uma	nova	vida.	Relação	semelhante	se	pode	fazer	entre	3,2	e	4,17.	O
imperativo	“Arrependam-se,	porque	o	Reino	dos	Céus	está	próximo”	tem
sentido	distinto	na	proclamação	de	João	Batista	e	na	de	Jesus.	Enquanto	um
apela	para	o	castigo	e	o	fim,	o	outro	anuncia	uma	novidade	em	fase	de
implementação.	Daqui	se	pode	entender	o	motivo	de	Jesus	ter	iniciado	o
ministério	após	a	prisão	de	João	Batista	(v.	12).	A	novidade	do	Reino
proclamada	por	ele	tornava	desnecessária	a	conversão	nos	moldes	do	Batista.
Os	comentaristas	da	catequese	mateana	tendem	a	considerar	a	referência	“a	toda
a	Síria”,	no	v.	24,	como	possível	localização	da	comunidade	do	evangelista.	Esse
pormenor	está	ausente	nas	demais	catequeses	evangélicas.
Para	reflexão	e	debate
1.	Que	elementos	do	messianismo	de	Jesus	destacam-se	no	encontro	com	João
Batista	e	nas	tentações?
2.	Qual	o	significado	do	convite	ao	arrependimento	“porque	o	Reino	dos	Céus
está	próximo”	no	início	do	ministério	de	Jesus?	Em	que	sentido	começa	aqui	o
discipulado	do	Reino?
2.	Discurso:	Buscar	o	Reino	e	sua	justiça	–	Sermão	da	Montanha
A	seção	conhecida	como	Sermão	da	Montanha	(Mt	5-7)	comporta	o	primeiro	dos
cinco	grandes	discursos	estruturantes	da	catequese	mateana.	Jesus,	Messias	por
palavras,	lança	as	bases	do	Reino	dos	Céus,	cuja	irrupção	na	história	fora
anunciada	(cf.	Mt	4,17).	São	esboçadas	aí	as	grandes	linhas	do	projeto	de	vida
condizente	com	o	Reino,	a	ética	do	discipulado.	Trata-se	das	pautas	de	ação	de
quem	aderiu	a	Jesus.
O	evangelista	chama	de	justiça	(gr.	dikaiosýne)	o	modo	de	proceder	compatível
com	o	querer	de	Deus,	que	se	opõe	ao	legalismo	dos	escribas	e	fariseus	e	sua
imposição	de	cumprimento	escrupuloso	da	Lei	mosaica,	centrando-se	nos
elementos	secundários	e	pouco	se	importando	com	o	essencial	(cf.	Mt	23,23).	O
discípulo	do	Reino	esforça-se	por	captar	o	“espírito”	da	Lei	que	supera	a	“letra”.
O	legalismo	fanático	transforma	o	falso	fiel	em	inimigo	de	Deus,	ao	substituir	o
genuíno	querer	divino	por	leis	e	normas	que	lhe	são	contrárias.
O	evangelista	está	longe	de	querer	apresentar	um	minucioso	código	de	conduta.
Tocando	as	principais	áreas	da	conduta	ética	e	religiosa,	pretende	indicar	as
balizas	da	caminhada	do	discípulo	do	Reino.	Cada	situação	concreta	exigirá	um
discernimento	lúcido	em	vista	das	decisões	a	serem	tomadas,	de	modo	a	se
conformarem	o	máximo	possível	com	o	projeto	do	Pai	dos	Céus.
O	evangelista	compôs	o	Sermão	da	Montanha	em	função	de	sua	teologia.	A
leitura	atenta	de	cada	versículo,	comparando-os	com	os	paralelos	na	catequese
de	Marcos	e	de	Lucas,	permite	constatar	a	elaboração	literário-narrativa	de
Mateus.
As	tentativas	de	explicitar	a	estrutura	do	Sermão	da	Montanha	são	variadas.
Embora	não	seja	evidente,	não	se	trata	de	um	amontoado	de	sentenças
desconexas.	Pode-se	detectar	uma	coerência	interna	ao	redor	do	tema	da	justiça
do	Reino	visada	pelo	evangelista.	Mt	5,20	(“Se	a	justiça	de	vocês	não	superar	a
justiça	dos	doutores	da	Lei	e	fariseus,	vocês	não	entrarão	no	Reino	dos	Céus”)
serve	como	chave	de	leitura	desse	conjunto	de	ensinamentos	do	Mestre	Jesus
para	os	discípulos	do	Reino.	A	justiça	do	discípulo	do	Reino	confronta-se	com	a
justiça	dos	doutores	da	Lei	e	dos	fariseus	de	modo	a	transparecer	sua
originalidade.	Os	desvios	de	conduta	da	liderança	religiosa	de	Israel	devem	ser
superados	por	quem	se	pauta	por	uma	justiça	maior.
As	bem-aventuranças	(5,1-12)
||	Lc	6,20-23
¹Vendo	as	multidões,	Jesus	subiu	à	montanha,	sentou-se,	e	seus	discípulos	se
aproximaram	dele.	²E,	abrindo	a	boca,	ele	os	ensinava,	dizendo:	³“Felizes	os
pobres	no	Espírito,	porque	deles	é	o	Reino	dos	Céus.	⁴Felizes	os	que	choram,
porque	serão	consolados.	⁵Felizes	os	mansos,	porque	herdarão	a	terra.	 Felizes	os
que	têm	fome	e	sede	da	justiça,	porque	serão	saciados.	⁷Felizes	os
misericordiosos,	porque	encontrarão	misericórdia.	⁸Felizes	os	puros	no	coração,
porque	verão	a	Deus.	 Felizes	os	que	promovem	a	paz,	porque	serão	chamados
filhos	de	Deus.	¹ Felizes	os	perseguidos	por	causa	da	justiça,	porque	deles	é	o
Reino	dos	Céus.	¹¹Felizes	vocês,	quando	por	minha	causa	os	insultarem,
perseguirem	e,	mentindo,	disserem	todo	tipo	de	mal	contra	vocês.	¹²Fiquem
contentes	e	alegres,	pois	grande	é	a	recompensa	de	vocês	nos	céus.	Porque	foi
assim	que	perseguiram	aos	profetas	que	vieram	antes	de	vocês”.
O	versículo	introdutório	está	carregado	de	simbolismo	(v.	1).	Tem-se	como
imaginário	a	cena	de	Moisés	subindo	o	monte	Sinai	para	receber	a	Lei	de	Deus	a
ser	comunicada	ao	povo	(cf.	Ex	19,1-3).	Jesus	sobe	a	verdadeira	montanha	como
verdadeiro	Moisés	para	dar	a	verdadeira	Lei	ao	verdadeiro	Israel.	O	novo	Povo
de	Deus	está	em	gestação!
Três	observações	podem	ser	feitas	em	torno	desse	versículo.	A	primeira	diz
respeito	à	montanha	(gr.	óros).	Mais	que	lugar	geograficamente	localizável	(se
fosse,	o	narrador	ter-lhe-ia	dado	um	nome),	corresponde	a	um	lugar	teológico.
Diversas	vezes	a	“montanha”	aparece	na	catequese	mateana	sem	indicação
precisa	de	lugar	(cf.	Mt	4,8;	8,1;	14.23;	17,1-9;	28,16).
A	segunda	refere-se	aos	termos	multidões	(gr.	óchlos)	e	discípulos	(gr.	mathetés).
Eles	definem	as	possibilidades	de	relação	com	Jesus:	multidões	são	os	curiosos,
os	descompromissados	e	também	os	inimigos.	Podem	ser	também	os
interessados	na	pregação	de	Jesus	em	vista	do	discipulado.	Ao	longo	do
evangelho,	chamam	Jesus	de	“mestre”,	“rabi”.	Discípulo	corresponde	a	quem
aceitou	o	convite	para	aderir	ao	projeto	do	Reino	dos	Céus	nos	passos	do	Mestre
Jesus.	O	grupo	de	discípulos	recebe	instruções	e	se	esforça	para	compreendê-las
e	pô-las	em	prática.	O	testemunho	de	vida	do	Mestre	serve-lhes	de	referência,
pois	têm	como	ideal	em	tudo	assemelhar-se	a	ele	(cf.	Mt	10,25).	Os	discípulos
referem-se	a	Jesus	como	“Senhor”	(gr.	kýrios)	e	são	preparados	para	se	tornarem
apóstolos	(cf.	Mt	10,1-2).
A	terceira	gira	em	torno	do	“sentar-se”,	quando	Jesus	se	põe	a	ensinar.	Um
elemento	importante	de	sua	identidade	na	catequese	mateana	refere-se	à
condição	de	Mestre	formador	de	discípulos	para	continuarem	sua	missão	pelo
mundo	afora	até	o	fim	dos	tempos	(cf.	Mt	28,19-20).	A	catequese	mateana	o
apresentará	em	contínuo	processo	de	ensinar,	e	os	discípulos	em	constante
processo	de	aprendizado	pela	contemplação	de	seu	testemunho	de	vida	e	pelas
perguntas	na	eventualidade	de	surgirem	dúvidas.
As	bem-aventuranças	descrevem	a	vida	do	discípulo	do	Reino	inteiramente
centrada	em	Deus	(v.	1-12).	São	oito	ilustrações	da	primazia	do	querer	divino	em
sua	vida.	Jesus,	o	bem-aventurado	por	excelência,	será	referência	obrigatória
para	os	discípulos	(cf.	Mt	11,29).
A	palavra	bem-aventurado	(gr.	makários)	tem	o	sentido	forte	de	encontro	do
caminho	certo	que	viabiliza	a	realização	pessoal	e	permite	ao	discípulo	do	Reino
alcançar	a	felicidade	verdadeira,	embora	em	meio	a	toda	sorte	de	percalços.
Nada	será	suficientemente	forte	para	lhe	roubar	o	otimismo	e	a	alegria	de	viver.
Os	“pobres	no	Espírito”	ou	“com	Espírito”	(v.	3)	rejeitam	as	idolatrias	ao	colocar
em	Deus	sua	esperança	e	sua	confiança.	Jamais	servem	a	dois	senhores	(cf.	Mt
6,24).	“Os	que	choram”	(v.	4)	padecem	a	maldade	do	mundo	avesso	ao	Reino	e
não	se	desesperaram,	pela	consciência	de	ter	Deus	ao	seu	lado.	“Os	mansos”	(v.
5)	recusam-se	a	pagar	o	mal	com	o	mal	ao	romperem	a	espiralda	violência
cortando-a	pela	raiz	(cf.	Mt	5,39-42).	“Os	que	têm	fome	e	sede	de	justiça”	(v.	6)
são	conscientes	das	artimanhas	do	anti-Reino	na	história,	mas	continuam	a
sonhar	com	um	mundo	onde	todos	os	seres	humanos	serão	respeitados	em	sua
dignidade	de	filhos	de	Deus.	“Os	misericordiosos”	(v.	7)	têm	compaixão	dos
semelhantes,	com	especial	atenção	aos	mais	fragilizados	e	descartados	pela
insensibilidade	das	pessoas	e	dos	sistemas.	“Os	puros	de	coração”	(v.	8)	repelem
a	tentação	de	agir	com	segundas	intenções	ou	de	maneira	fraudulenta	para	tirar
proveito	do	próximo.	“Os	que	promovem	a	paz”	(v.	9)	esforçam-se	em	vista	de
fazer	o	shalom	acontecer	como	bem-estar	para	todos,	reconhecimento	de	seus
direitos,	superação	dos	conflitos	fratricidas	e	toda	espécie	de	conflitos,
empecilhos	para	o	surgimento	do	mundo	querido	por	Deus.	“Os	perseguidos	por
causa	da	justiça”	(v.	10)	correspondem	a	quem	paga	um	preço	alto	por	optar	pelo
Reino	em	contextos	onde	o	egoísmo	fala	mais	alto	e	coloca	de	escanteio	o	querer
de	Deus.
Os	vv.	11	e	12	são	desdobramentos	do	v.	10,	ao	explicitar	diversas	formas	de
perseguição	–	insulto,	mentira,	maledicência	–	e	chamar	a	atenção	para	os	bens
preparados	pelo	Pai	após	comprovada	perseverança	vivida	com	alegria	e
contentamento.	O	testemunho	dos	profetas	de	Israel	fiéis	à	missão	de
anunciadores	do	juízo	de	Deus	constitui-se	em	exemplo	inspirador	para	os
discípulos	do	Reino,	que	terão	sorte	idêntica	à	deles.
Com	essas	exemplificações,	os	leitores-ouvintes	estão	em	condições	de	descobrir
outras	formas	de	bem-aventuranças	como	canalização	de	seu	agir	para	o	Reino
de	Deus	e	sua	justiça.	No	final	da	caminhada	terão	a	suprema	alegria	de	ser
acolhidos	no	Reino	definitivo:	“Venham,	benditos	(gr.	eulogeménoi)	do	meu
Pai!”	(Mt	25,34).
Uma	observação	importante:	Mt	5,1-12	(início	do	primeiro	discurso)	forma
inclusão	com	Mt	25,31-46	(fim	do	último	discurso)	como	balizas	para	o
conjunto	dos	cinco	grandes	discursos.	As	bem-aventuranças	anunciadas	em
terceira	pessoa	do	singular	(discurso	indireto)	revelam	seu	verdadeiro	rosto	ao
serem	formuladas	em	segunda	pessoa	do	plural	(discurso	direto).	Enquanto
projeto	de	vida,	consistem	na	prática	da	misericórdia	para	com	os	mais
fragilizados.	As	bem-aventuranças,	afinal,	se	concretizam	no	serviço	a	Jesus
encarnado	nos	“irmãos	mais	pequeninos”.	A	catequese	mateana	tem	em	vista
formar	discípulos-apóstolos	bem-aventurados!
Sal	da	terra,	luz	do	mundo	(5,13-16)
||	Mc	9,50;	Lc	14,34s;	Mc	4,21;	Lc	8,16;	11,33
¹³“Vocês	são	o	sal	da	terra.	Ora,	se	o	sal	perde	o	sabor,	com	que	o	salgaremos?
Não	serve	mais	para	nada,	senão	para	ser	jogado	fora	e	ser	pisado	pelas	pessoas.
¹⁴Vocês	são	a	luz	do	mundo.	Uma	cidade	construída	sobre	um	monte	não	pode
ficar	escondida.	¹⁵Nem	se	acende	uma	lâmpada	para	ser	colocada	embaixo	de	um
móvel,	mas	no	candeeiro,	e	assim	ela	ilumina	todos	os	que	estão	na	casa.	¹ Brilhe
do	mesmo	modo	a	luz	de	vocês	diante	das	pessoas,	para	que	elas	vejam	as	boas
obras	que	vocês	fazem	e	glorifiquem	o	Pai	de	vocês	que	está	nos	céus”.
As	metáforas	do	sal	e	da	luz	ilustram	a	maneira	como	o	discípulo	do	Reino
insere-se	na	realidade.	Nada	de	se	isolar,	tampouco	formar	guetos!	E	sim	inserir-
se	com	o	propósito	de	transformá-la	com	os	valores	do	Reino.	Os	discípulos
imprestáveis	e	relutantes	em	fazer	algo	para	beneficiar	o	próximo	assemelham-se
ao	sal	que	“perde	o	sabor”	(v.	13)	ou	à	lâmpada	“colocada	embaixo	de	um
móvel”	(v.	15).	Só	os	discípulos	insensatos	agem	assim!	Para	que	conservar	sal
imprestável?	A	imagem	do	sal	insosso	jogado	na	rua	pela	dona	de	casa	através
da	janela	e	pisado	pelos	transeuntes	constitui-se	numa	boa	imagem	do	que	se
passa	com	o	discípulo	inútil:	será	jogado	fora!	A	lâmpada	deve	ser	colocada	num
lugar	de	onde	a	luminosidade	atinja	todo	o	ambiente,	de	modo	a	ser
maximamente	aproveitada.	Assim	acontece	com	o	discípulo	cuja	ação	será
visível	como	uma	cidade	“construída	sobre	um	monte”	(v.	14).
A	presença	do	discípulo	será	discreta	como	o	sal,	imperceptível	fisicamente,
porém	marcante	nos	efeitos	produzidos	nos	contextos	onde	atua.	Como	a	luz,	a
ação	do	discípulo	difunde-se	da	forma	mais	ampla	possível,	pois	busca	dar
sempre	novos	passos	e	conquistar	novos	espaços.	Quanto	mais	puder	brilhar	e
iluminar,	melhor!
O	v.	16	chama	a	atenção	para	algo	de	grande	importância.	Mais	que	pretender
atrair	os	olhares	para	si	e	incorrer	em	hipocrisia,	como	certas	pessoas
denunciadas	por	Jesus	(cf.	Mt	23,1-7),	o	discípulo	tem	consciência	de	que	suas
boas	ações	podem	levar	as	pessoas	a	glorificar	o	Pai	dos	Céus.	A	santificação	do
nome	do	Pai	(cf.	Mt	6,9),	pelo	testemunho	dos	discípulos	do	Reino	fiéis	ao
querer	divino,	torna-se	fruto	de	alta	qualidade	missionária.
Cumprimento	da	Lei:	a	nova	justiça	(5,17-20)
¹⁷“Não	pensem	que	eu	vim	abolir	a	Lei	ou	os	Profetas.	Não	vim	abolir,	mas
cumprir.	¹⁸Porque	eu	lhes	garanto:	Enquanto	não	passarem	o	céu	e	a	terra,	não	se
perderá	nem	mesmo	um	só	i	ou	vírgula	da	Lei,	sem	que	tudo	seja	cumprido.
¹ Portanto,	quem	violar	ainda	que	seja	um	só	desses	mínimos	mandamentos,	e
ensinar	as	pessoas	a	fazer	o	mesmo,	será	considerado	o	menor	no	Reino	dos
Céus.	Mas	quem	os	praticar	e	ensinar,	será	chamado	grande	no	Reino	dos	Céus.
² Porque	eu	lhes	digo:	Se	a	justiça	de	vocês	não	superar	a	justiça	dos	doutores	da
Lei	e	fariseus,	vocês	não	entrarão	no	Reino	dos	Céus”.
A	liberdade	de	Jesus	causava	incômodo	a	seus	críticos.	Muitas	vezes	atropelava
as	prescrições	da	Lei	mosaica	ao	se	encontrar	em	situações	onde	o	bom	senso
exigia	criatividade	e	respostas	rápidas.	O	imperativo	do	serviço	ao	próximo	e	as
exigências	prementes	do	Reino	exigiam	dele	romper	com	o	legalismo	das
lideranças	religiosas.	Daí	ser	acusado	de	“blasfêmia”	(cf.	Mt	9,3)	e	de	conluio
com	o	chefe	dos	demônios	(cf.	Mt	12,24).	Era	tido	na	conta	de	anarquista,
desrespeitador	da	religião	e	infiel	a	Deus.
O	Mestre	Jesus	viu-se	na	obrigação	de	fundamentar	sua	liberdade.	Em	primeiro
lugar,	de	forma	alguma	pretendia	invalidar	as	Escrituras,	referidas	na	expressão
“Lei	e	Profetas”,	por	ter	como	meta	levá-las	à	plenitude	(v.	17).	A	tradução	“vim
cumprir”	pode	passar	a	falsa	ideia	de	previsão	e	realização:	Jesus	realizava	as
previsões	das	Escrituras.	“Cumprir”	traduz	o	verbo	grego	pleróo,	que	significa
plenificar,	realizar	de	forma	acabada,	fazer	acontecer	de	maneira	integral,	levar
algo	à	sua	máxima	expressão.	Jesus	plenificou	a	Lei	e	os	Profetas	ao	focar	sua
ação	no	querer	do	Pai	dos	Céus	pela	superação	da	materialidade	dos	preceitos	da
Lei.	Deter-se	no	que	diz	a	Lei	e	se	contentar	com	as	ações	nela	sugeridas
contradiz	o	propósito	de	se	deixar	guiar	pelo	Pai,	que	descortina	para	o	discípulo
do	Reino	um	horizonte	infinitamente	amplo	de	agir	misericordioso.
Jesus	fala	do	cumprimento	minucioso	das	Escrituras	enquanto	preocupação	em
ser	fiel	a	Deus	(v.	18).	Caso	contrário,	cairia	no	mesmo	desvio	de	conduta	dos
doutores	da	Lei	e	fariseus,	com	seu	apego	exagerado	aos	preceitos	literais	da
Lei,	porém	se	omitindo	de	buscar	o	legítimo	querer	do	Pai.	Quando	contrapõe	os
que	violam	e	os	que	praticam	“um	só	desses	mínimos	mandamentos”	(v.	19),
tem	em	mente	um	novo	horizonte	descortinado	no	início	de	sua	pregação	ao
proclamar:	“Arrependam-se,	porque	o	Reino	dos	Céus	está	próximo”	(Mt	4,17).
A	Lei	e	os	Profetas	doravante	devem	ser	entendidos	na	perspectiva	do	Reino	dos
Céus,	a	partir	da	hermenêutica	inaugurada	pelo	Messias	Jesus.
O	v.	20	tem	uma	função	especial	no	contexto	do	Sermão	da	Montanha	por	ser
uma	chave	para	a	compreensão	do	conjunto.	Aí	se	faz	alusão	a	três	modos	de
proceder	–	justiça:	dos	discípulos,	dos	doutores	da	Lei	e	dos	fariseus.	O	modo	de
proceder	dos	discípulos	do	Reino	deve	superar	(gr.	perisseúo),	ultrapassar,
exceder	os	demais	em	qualidade	ética	e	espiritual.	Se	forem	apegados	à	Lei	nos
moldes	deles,	nenhum	proveito	terão	enquanto	discípulos	do	Reino.
A	sequência	do	Sermão	da	Montanha	mostrará	o	Mestre	Jesus	questionando	a
postura	dos	doutores	da	Lei,	em	seguida	a	dos	fariseus,	para	enfim	exemplificar
como	os	discípulos	devem	agir,	se	desejam	atingira	justiça	maior.	Entretanto,
em	tudo	quanto	dirá,	terá	como	objetivo	o	modo	de	proceder	de	quem	aderiu	ao
Reino.
Compromisso	com	a	vida	(5,21-26)
²¹“Vocês	ouviram	o	que	foi	dito	aos	antepassados:	‘Não	mate’.	Quem	matar	terá
de	responder	no	tribunal.	²²Mas	eu	lhes	digo:	Todo	aquele	que	ficar	com	raiva	de
seu	irmão,	terá	de	responder	no	tribunal.	Quem	chamar	seu	irmão	de	‘imbecil’,
será	submetido	ao	Supremo	Tribunal.	Quem	o	chamar	de	‘idiota’,	terá	de
responder	no	fogo	do	inferno.	²³Se	você	estiver	levando	sua	oferenda	ao	altar,	e
aí	lembrar	que	seu	irmão	tem	alguma	coisa	contra	você,	²⁴deixe	sua	oferenda	aí
diante	do	altar	e	vá	primeiro	reconciliar-se	com	seu	irmão.	Só	depois	vá	fazer
sua	oferenda.	²⁵Entre	logo	em	acordo	com	seu	adversário,	enquanto	você	está	a
caminho	com	ele.	Senão,	ele	entregará	você	ao	juiz,	o	juiz	o	entregará	ao	guarda,
e	você	será	jogado	na	cadeia.	² Eu	lhe	garanto:	Daí	você	não	sairá,	enquanto	não
pagar	até	o	último	centavo”.
Na	série	de	reinterpretações	dos	mandamentos	da	Lei	mosaica,	Jesus	contrapõe
dois	tipos	de	ensinamentos:	“o	que	foi	dito	aos	antepassados”	(v.	21)	e	“eu	lhes
digo”	(v.	22).	A	forma	passiva	do	verbo	dizer	–	“foi	dito”	–	evoca	a	figura	de
Moisés	ao	falar	em	nome	de	Deus.	As	palavras	de	Jesus	revestem-se	de	extrema
ousadia,	pois	têm	a	pretensão	de	superar	tudo	quanto	se	falava	do	grande
legislador	de	Israel.	Longe	de	se	colocar	no	lugar	de	Deus,	tem	a	intenção	de
sintonizar	o	pensamento	divino	e	ensinar	os	discípulos	a	fazerem	o	mesmo
quando	se	defrontarem	com	qualquer	norma	ou	preceito.	Será	preciso	colocar	em
segundo	plano	as	interpretações	humanas	e	se	perguntar	pela	vontade	divina
original	expressa	nessa	prescrição	formulada	com	palavras	precisas.	E	ter	a
coragem	de	se	contrapor	a	quem	ousa	afirmar	ser	vontade	de	Deus	o	que	consiste
em	mera	imposição	humana	autoritária,	à	margem	do	querer	divino.
O	mandamento	de	“não	matar”	(cf.	Ex	20,13;	Dt	5,17),	na	reinterpretação	de
Jesus,	supõe	um	enorme	respeito	pela	dignidade	alheia,	por	ser	possível	tirar	a
vida	do	outro	com	uma	simples	palavra.	O	catequista	toma	como	exemplo	duas
palavras	mortíferas	em	seu	contexto	social:	raqá	e	moré.	As	traduções	“imbecil”
e	“idiota”	não	conseguem	captar	a	carga	negativa	dos	vocábulos	gregos.	A
atualização	da	catequese	mateana	exige	encontrar	em	nosso	vocabulário	popular
aquelas	palavras	que	ferem	a	alma	das	pessoas.	São	muitas	as	palavras,	às	vezes
minúsculas,	capazes	de	destruir	pessoas	e	deixar	marcas	por	toda	a	vida.
O	catequista	ensina	à	comunidade	que	quem	matar	o	próximo	com	palavras
desse	calibre	será	julgado	por	Deus	com	a	mesma	severidade	com	que	se	julgam
os	homicidas.	A	morte	causada	pela	língua	tem	a	mesma	gravidade	de	uma
morte	causada	por	arma!
Os	conflitos	geradores	de	morte	devem	ser	superados	pelo	esforço	da
reconciliação.	A	ruptura	com	o	próximo	se	desdobra	em	ruptura	com	Deus.
Dessa	forma,	quem	cultiva	inimizade	incapacita-se	para	o	culto.	Sua	oferenda
será	inútil.	O	culto	agradável	a	Deus	exige	viver	reconciliado.
O	exemplo	dado	por	Jesus	tem	um	detalhe	importante:	“Se	você	estiver	levando
sua	oferenda	ao	altar	e	aí	lembrar	que	seu	irmão	tem	alguma	coisa	contra	você”
(v.	23).	Alguém	poderia	pensar	ser	correto	o	contrário:	“Se	você	tem	alguma
coisa	contra	seu	irmão!”	A	justiça	do	Reino	rompe	a	lógica	humana.	Nela	o
injustiçado	deve	buscar	a	reconciliação,	abrindo	mão	de	esperar	a	iniciativa	da
outra	parte	(v.	24).	Aqui	está	uma	novidade	do	proceder	do	discípulo	do	Reino
disposto	a	quebrar	o	legalismo	da	interpretação	dos	doutores	da	Lei.
A	necessidade	premente	exige	buscar	a	reconciliação	enquanto	é	tempo	(v.	25-
26).	As	intermináveis	delongas	e	as	muitas	justificativas	para	não	dar	o	passo
decisivo	da	reconciliação	podem	ter	efeitos	desastrosos.	A	metáfora	do	réu
conduzido	ao	tribunal,	havendo	a	chance	de	entrar	em	acordo	com	a	vítima	antes
de	estarem	diante	do	juiz	com	a	possibilidade	de	uma	sentença	desfavorável,
ilustra	a	situação	dos	discípulos	do	Reino	cujas	relações	estão	rompidas.	A
prudência	aconselha	a	imediata	reconciliação,	para	não	serem	pegos	de	surpresa
(cf.	Mt	25,13).
Exigência	de	fidelidade	(5,27-30)
²⁷“Vocês	ouviram	que	foi	dito:	‘Não	cometa	adultério’.	²⁸Eu,	porém,	lhes	digo:
Todo	aquele	que	olha	para	uma	mulher	cobiçando-a,	já	cometeu	adultério	com
ela	no	coração.	² Se	seu	olho	direito	é	motivo	de	escândalo	para	você,	arranque-o
e	jogue-o	fora.	Porque	é	melhor	para	você	perder	um	de	seus	membros	do	que
todo	o	seu	corpo	ser	jogado	no	inferno.	³ Se	sua	mão	direita	é	motivo	de
escândalo	para	você,	corte-a	e	jogue-a	fora.	Porque	é	melhor	para	você	perder
um	de	seus	membros	do	que	todo	o	seu	corpo	ser	jogado	no	inferno”.
O	mandamento	de	“não	cometer	adultério”	(cf.	Ex	20,14;	Dt	5,8)	deve	ser
compreendido	à	luz	da	bem-aventurança	da	pureza	de	coração	(v.	27).	O	atropelo
do	querer	divino	começa	com	o	olhar	lascivo	lançado	sobre	a	mulher	do	próximo
muito	antes	de	se	consumar	o	ato	sexual	(v.	28).	O	discípulo	do	Reino	cultiva	a
pureza	de	coração,	de	modo	a	olhar	para	todas	as	pessoas	livre	da	malícia	e	das
segundas	intenções,	em	especial	a	mulher	alheia!
O	Mestre	ensina	a	cortar	o	mal	pela	raiz	com	duas	ilustrações.	A	primeira	diz
respeito	ao	olho	direito	que	se	tornou	motivo	de	desvio	dos	caminhos	de	Deus.	É
melhor	arrancá-lo	e	jogá-lo	fora,	e	conservar	o	resto	do	corpo,	do	que	ser
lançado	todo	na	géenna	(v.	29),	onde	se	queimavam	o	lixo	de	Jerusalém	e	os
cadáveres	das	pessoas	consideradas	indignas.	A	segunda	fala	da	“mão	direita”
como	motivo	de	escândalo	(v.	30).	Caso	isso	aconteça,	aconselha-se	cortá-la	e
lançá-la	fora.	Como	na	metáfora	anterior,	é	preferível	entrar	na	vida	eterna	sem	a
mão	direita	escandalosa,	do	que	ser	lançado	com	ela	na	géenna.
Equivoca-se	quem	pensa	cumprir	o	mandamento	de	não	cometer	adultério	por	se
limitar	aos	pensamentos	libidinosos	em	relação	à	mulher	alheia.	A	justiça	do
Reino	exige	do	discípulo	profunda	delicadeza	e	respeito	no	trato	com	o
semelhante,	a	começar	pelos	sentimentos	cultivados	no	coração.
Compromisso	com	a	palavra	dada	(5,31-32)
||	Mt	19,9;	Mc	10,11-12;	Lc	16,18
³¹“Foi	dito	também:	‘Quem	mandar	embora	sua	esposa,	deve	dar	a	ela	uma
certidão	de	divórcio’.	³²Eu,	porém,	lhes	digo:	Todo	aquele	que	manda	embora
sua	esposa,	a	não	ser	em	caso	de	união	ilegítima,	faz	com	que	ela	cometa
adultério.	E	se	alguém	se	casa	com	ela,	comete	adultério”.
Jesus	reinterpreta	uma	prescrição	divina	que	fragilizava	as	esposas	e	as	deixava	à
mercê	dos	maridos	(v.	31).	Sobre	elas	pairava	um	direito	concedido	“por	Deus”
aos	maridos	de	despedi-las,	caso	vissem	nelas	“algum	inconveniente”	(Dt	24,1).
Como	a	Lei	não	especificava	as	inconveniências,	os	escribas	se	davam	o	direito
de	encontrar	motivos	para	se	despedirem	as	esposas.	E	eram	muito	criativos
nessa	tarefa!
Na	perspectiva	do	Reino,	esse	mandamento	perde	sua	validade	(v.	32).	O	marido
não	pode	tratar	a	esposa	com	leviandade	e	se	desfazer	dela	por	motivos	banais.
Caso	contrário	a	induzirá	ao	adultério	e	levará	outros	homens	a	se	tornarem
também	adúlteros.	O	marido	leviano	responderá	diante	de	Deus	pela	injustiça
cometida	contra	a	esposa.	O	discípulo	do	Reino	esforça-se	por	aprofundar	os
vínculos	com	sua	mulher,	de	modo	a	evitar	a	tentação	de	buscar	defeitos	nela
para	justificar	uma	decisão	arbitrária	de	se	divorciar.
Existe,	porém,	uma	exceção:	“a	não	ser	em	caso	de	porneía”.	Os	destinatários	da
catequese	mateana	conheciam	o	sentido	exato	dessa	palavra.	Os	leitores-ouvintes
atuais	desconhecem-no.	Os	estudiosos	esforçam-se	por	determinar-lhe	o
significado.	A	tradução	“união	ilegítima”	pode	ser	plausível.	A	catequese
evangélica	não	abre	brechas	para	a	proibição	peremptória	de	Jesus	em	relação	à
ruptura	do	vínculo	matrimonial	no	âmbito	do	discipulado	do	Reino.	Uniões
ilegítimas	seriam	as	que	não	deveriam	existir,	como	no	caso	das	proibições
previstas	em	Lv	18,6-18,	especialmente	entre	consanguíneos.
Não	fazer	juramentos	(5,33-37)
³³“Vocês	também	ouviram	que	foi	dito	aos	antepassados:	‘Não	quebre	o
juramento,	mas	cumpra	seus	juramentos	ao	Senhor’.³⁴Eu,	porém,	lhes	digo:	Não
jurem	de	maneira	nenhuma.	Nem	pelo	céu,	porque	é	o	trono	de	Deus.	³⁵Nem	pela
terra,	porque	é	o	estrado	de	seus	pés.	Nem	por	Jerusalém,	porque	é	a	cidade	do
Grande	Rei.	³ Nem	jure	pela	sua	cabeça,	porque	você	não	consegue	tornar
branco	ou	preto	nem	mesmo	um	só	fio	de	cabelo.	³⁷Que	o	sim	de	vocês	seja	sim,
e	o	não	seja	não.	O	que	passa	disso	vem	do	Maligno”.
Jesus	abole	a	permissão	de	se	fazerem	os	“juramentos	ao	Senhor”	previstos	em
Dt	23,22-24	e	Nm	30,3	(v.	33)	com	uma	ordem	taxativa:	“Não	jurem	de	maneira
nenhuma”	(v.	34-36).	A	palavra	do	discípulo	do	Reino	será	sempre	digna	de
crédito,	podendo	dispensar	qualquer	reforço	para	garantir-lhe	a	veracidade.	Seu
“sim”	é	“sim”;	seu	“não”	é	“não”	(v.	37).	Ao	fugir	desses	limites,	agirá	como
inimigo	de	Deus	sob	a	ação	do	maligno	(gr.	ponerós),	uma	das	muitas	tentações
às	quais	o	discípulo	está	submetido,	das	quais	deve	pedir	ao	Pai	para	livrá-lo	(cf.
Mt	6,13).
Violência	gera	violência	(5,38-42)
||	Lc	6,29-30
³⁸“Vocês	ouviram	que	foi	dito:	‘Olho	por	olho,	dente	por	dente’.	³ Eu,	porém,
lhes	digo:	Não	se	coloquem	contra	o	malvado.	Pelo	contrário,	se	alguém	lhe
bater	na	face	direita,	ofereça-lhe	também	a	outra.	⁴ E	a	quem	quiser	mover	um
processo	contra	você	para	lhe	tirar	a	túnica,	entregue	a	ele	também	o	manto.	⁴¹Se
alguém	obrigar	você	a	caminhar	mil	passos,	vá	com	ele	dois	mil.	⁴²Dê	a	quem
lhe	pede,	e	não	vire	as	costas	a	quem	lhe	solicita	um	empréstimo”.
Outro	mandamento	abolido	por	Jesus	toca	o	tema	da	vingança,	formulado	em	Ex
21,24;	Lv	24,20;	Dt	19,21	(v.	38).	A	chamada	“lei	de	talião”	estabelece	a	devida
proporção	entre	falta	e	castigo.	Gn	4,24	diz	que	“se	a	vingança	de	Caim	valia	por
sete,	a	de	Lamec	valerá	por	setenta	e	sete”,	numa	vingança	brutal,	descontrolada
e	ilimitada.	“Olho	por	olho,	dente	por	dente”	significa	um	enorme	progresso.
O	discípulo	do	Reino	tem	como	tarefa	quebrar	a	espiral	da	violência	e	opor-se
com	força	ao	maligno	(gr.	ponerós).	A	resistência	acontece	quando	age	de	forma
inesperada	e	choca	o	malvado	ao	oferecer	a	outra	face	quando	lhe	golpeia	a	face
direita	(v.	39),	ao	lhe	entregar	o	manto	quando	lhe	arranca	a	túnica	(v.	40)	e	ao
caminhar	dois	mil	passos	com	ele	quando	se	vê	obrigado	a	caminhar	mil	(v.	41).
E	mais:	o	discípulo	solidariza-se	com	os	desvalidos	e	não	vira	as	coisas	aos
necessitados	de	ajuda	financeira	(v.	42).	São	atitudes	impactantes	que	desarmam
o	maligno	e	o	deixam	impotente.	Por	não	saber	o	que	fazer,	sua	maldade	fica
bloqueada	e	não	tem	possibilidade	de	desdobramentos.
Amor	aos	inimigos	(5,43-48)
||	Lc	6,27-28.32-36
⁴³“Vocês	ouviram	que	foi	dito:	‘Ame	seu	próximo	e	odeie	seu	inimigo’.	⁴⁴Eu,
porém,	lhes	digo:	Amem	seus	inimigos	e	rezem	por	aqueles	que	perseguem
vocês,	⁴⁵a	fim	de	que	vocês	sejam	filhos	de	seu	Pai	que	está	no	céu.	Porque	ele
faz	seu	sol	nascer	sobre	malvados	e	bons,	e	faz	chover	sobre	justos	e	injustos.
⁴ Pois,	se	vocês	amarem	somente	aqueles	que	os	amam,	que	recompensa	terão?
Até	os	cobradores	de	impostos	não	fazem	isso?	⁴⁷Se	vocês	cumprimentam
apenas	seus	irmãos,	o	que	fazem	de	mais?	Até	os	gentios	não	fazem	isso?
⁴⁸Portanto,	sejam	perfeitos	como	é	perfeito	o	Pai	celeste	de	vocês”.
Jesus	mais	uma	vez	surpreende	ao	superar	a	compreensão	estreita	de	um	preceito
religioso:	“Ame	seu	próximo	e	odeie	seu	inimigo”	(v.	43).	Lv	19,18	pode	ser
apresentado	como	fundamento	do	amor	ao	próximo.	Quanto	a	odiar	o	inimigo,
não	se	encontram	traços	desse	mandamento	na	tradição	bíblica.	Contudo,	o
Mestre	se	detém	sobre	ele,	propondo	uma	verdadeira	revolução	nas	relações
sociais.	Longe	de	odiar	o	inimigo,	o	discípulo	do	Reino	ama-o	e	reza	por	seus
perseguidores,	no	esforço	de	agir	como	o	Pai	do	Céu,	em	sua	benevolência	com
todos	os	seres	humanos	(v.	44-45).	Ele	demonstra	profundo	amor	por	todos	e	não
privilegia	uns	e	pune	outros.	Eis	por	que	o	sol	nasce	para	todos	e	a	chuva
derrama-se	sobre	todos,	de	modo	a	poderem	usufruir	os	benefícios	da	criação,
mesmo	os	malignos	e	os	injustos.
O	modo	de	proceder	do	Pai	dos	Céus	contrapõe-se	ao	daqueles	que	buscam
recompensa	no	trato	com	o	próximo	e	são	seletivos	ao	privilegiarem	os	parentes
e	amigos	(v.	46-47).	Até	os	cobradores	de	impostos,	tidos	como	pecadores
públicos,	e	os	gentios	amam	quem	os	ama	e	cumprimentam	os	de	sua	parentela	e
círculo	de	amizade.	Exige-se	dos	discípulos	do	Reino	irem	muito	além	e	se
disporem	a	ter	o	Pai	do	Céus	como	modelo	de	ação.
O	v.	48	serve	de	chave	de	leitura	e	de	conclusão	para	o	conjunto	de
reinterpretações	da	Lei	mosaica.	O	Pai	celeste	torna-se	meta	a	ser	visada	no	dia	a
dia	do	discipulado	do	Reino.	O	vocábulo	grego	traduzido	por	“perfeito”,	téleios,
deriva-se	de	télos,	objetivo,	meta,	fim.	Ser	perfeito	como	o	Pai	significa
espelhar-se	em	sua	misericórdia	no	trato	com	a	humanidade	e	se	esforçar	para,
sempre	e	em	tudo,	encarnar	seu	modo	de	agir,	colocando-o	como	meta	a	ser
alcançada.	O	discípulo	tem	sempre	motivos	para	dar	novos	passos	e	jamais
pensar	ter	esgotado	todas	as	possibilidades	de	seguir	adiante.	Cada	dia	será
desafiado	a	buscar	uma	justiça	superior	àquela	dos	doutores	da	Lei	e	dos
fariseus,	ao	superar	a	materialidade	da	letra	da	Lei	e	perceber	para	onde	o
Espírito	aponta.
A	esmola	(6,1-4)
¹“Cuidado	para	não	praticarem	a	justiça	de	vocês	diante	das	pessoas,	para	serem
vistos	por	elas.	Caso	contrário,	vocês	não	terão	a	recompensa	do	Pai	de	vocês
que	está	nos	céus.	²Quando	der	esmola,	não	mande	tocar	a	trombeta	à	sua	frente,
como	fazem	os	hipócritas	nas	sinagogas	e	nas	ruas,	para	serem	glorificados	pelas
pessoas.	Eu	lhes	garanto:	Já	receberam	sua	própria	recompensa.	³Mas	você,
quando	der	esmola,	a	sua	mão	esquerda	não	saiba	o	que	a	sua	direita	está
fazendo,	⁴de	modo	que	a	sua	esmola	seja	dada	em	segredo.	E	seu	Pai,	que	vê	no
segredo,	recompensará	você”.
Tendo	oferecido	uma	nova	linha	de	interpretação	da	Lei	mosaica,	diferente	da
praticada	pelos	doutores	da	Lei,	Jesus	passa	a	reinterpretar	três	práticas	de
piedade	muito	caras	aos	fariseus:	a	esmola,	a	oração	e	o	jejum.	O	Mestre	indica
o	modo	correto	de	vivê-las,	distinto	da	tendência	exibicionista	em	voga	no
movimento	farisaico.
Jesus	enuncia	um	princípio	norteador	da	piedade	religiosa:	não	deve	se	mostrar
com	exibicionismo	para	granjear	aplausos	e	elogios.	Antes,	deve	acontecer	sob	o
olhar	do	Pai	que	tudo	vê	e	recompensa	seus	fiéis	(v.	1).	Quem	busca	o
reconhecimento	humano	dispensa	a	recompensa	divina.	Quem	se	dá	por
satisfeito	por	ser	bajulado	pelos	outros	equivoca-se	no	seu	caminho	de	fé.	As
práticas	de	piedade	exigem	discrição	e	escondimento.
A	esmola	decorrente	da	fé	expressa	a	solidariedade	misericordiosa	com	o
próximo.	Constitui-se	em	mediação	da	bondade	divina	com	os	desprovidos	do
essencial	para	sobreviver.	O	sentido	correto	da	esmola	resulta	de	sua	densidade
teológica:	Deus	age	em	favor	da	humanidade	sofredora	por	meio	de	quem	abre
as	mãos	para	repartir.
Todavia,	existe	a	possibilidade	de	a	esmola	ser	dada	com	ostentação,	com	os
“piedosos”	chamando	a	atenção	“para	serem	glorificados	pelas	pessoas”	(v.	2).
Jesus	chama	de	hipócrita	quem	se	comporta	dessa	maneira,	ao	distribuir	esmolas
nas	sinagogas	e	nas	ruas,	mandando	que	toquem	trombeta	para	atrair	a	atenção
dos	passantes.	O	leitor-ouvinte	sabe	quem	são	os	hipócritas	referidos	na
denúncia:	os	doutores	da	Lei	e	fariseus	duramente	censurados	em	Mt	23.	Por	se
contentarem	com	a	admiração	humana,	a	recompensa	divina	se	torna
dispensável.
O	discípulo	do	Reino	distribui	esmolas	com	atitude	muito	distinta.	Mostra-se	tão
recatado	a	ponto	de	“sua	mão	esquerda	não	saber	o	que	faz	a	mão	direita”	(v.	3).
Na	antropologia	bíblica,	a	mão	direita	identifica-se	com	a	prática	do	bem,	a
esquerda	com	a	prática	do	mal.	Uma	não	sabe	o	que	faz	a	outra,	pois	a	esmola
foi	dada	em	segredo,	distante	dos	olhares	curiosos	por	não	se	pretender	granjear
louvores	(v.	4).	Basta	ter	sido	percebida	pelo	Pai,	a	quem	compete	conceder	a
correspondente	recompensa.
A	oração	(6,5-15)
||	Lc	11,2-4
⁵“Quando	rezarem,	não	sejam	como	os	hipócritas.	Eles	gostam	de	rezar	em	pé
nas	sinagogas	e	esquinas	das	ruas,para	serem	vistos	pelas	pessoas.	Eu	lhes
garanto:	Já	receberam	a	própria	recompensa.	 Mas	você,	quando	rezar,	entre	em
seu	quarto,	feche	a	porta	e	reze	a	seu	Pai	que	está	em	segredo.	Seu	Pai,	que	vê	no
segredo,	recompensará	você.	⁷E,	ao	rezar,	não	fiquem	repetindo	palavras
inutilmente,	como	fazem	os	gentios.	Eles	pensam	que	serão	ouvidos	por	causa
do	exagero	de	palavras.	⁸Não	sejam	como	eles,	porque	o	Pai	de	vocês	conhece	as
necessidades	de	vocês,	antes	que	vocês	lhe	peçam.	 Portanto,	rezem	assim:	‘Pai
nosso,	que	estás	nos	céus,	santificado	seja	o	teu	nome,	¹ venha	o	teu	Reino,	seja
feita	a	tua	vontade,	assim	na	terra	como	no	céu.	¹¹O	pão	nosso	de	cada	dia	dá-nos
hoje,	¹²perdoa-nos	nossas	dívidas,	assim	como	nós	perdoamos	aos	que	nos
devem,	¹³e	não	nos	deixes	cair	em	tentação,	mas	livra-nos	do	mal’.	¹⁴Porque,	de
fato,	se	vocês	perdoarem	as	faltas	das	pessoas,	também	seu	Pai	celeste	perdoará
vocês.	¹⁵Mas,	se	vocês	não	perdoarem	as	pessoas,	seu	Pai	também	não	perdoará
as	faltas	de	vocês”.
A	oração	estabelece	a	relação	do	discípulo	do	Reino	com	o	Pai.	Relação	de
confiança!	Eis	por	que	as	palavras	brotam	espontâneas	do	coração	pronunciadas
com	total	singeleza	como	um	filho	fala	ao	pai	querido.	O	Pai,	por	sua	vez,
conhece	o	discípulo	e	suas	necessidades,	e	estabelece	com	ele	vínculos	de
cuidado	e	de	proteção.
Equivocam-se	os	hipócritas	acostumados	a	fazer	ostentação	de	fé	ao	rezarem
“em	pé	nas	sinagogas	e	nas	esquinas	das	ruas”	para	se	mostrarem	íntimos	de
Deus	e	serem	bajulados	(v.	5).	A	lisonja	alheia	já	lhes	serve	de	recompensa,
dispensando-se	a	retribuição	divina.
O	discípulo,	no	trato	com	o	Pai,	reza	no	silêncio	do	quarto,	com	as	portas
fechadas,	longe	dos	olhares	curiosos	(v.	6).	Basta-lhe	estar	sob	o	olhar
benevolente	do	Pai.	Por	outro	lado,	evita	transformar	a	oração	em	palavreado
vazio,	como	se	pretendesse	convencer	Deus	pela	quantidade	de	coisas	saídas	de
sua	boca	num	“exagero	de	palavras”	(v.	7).	Tudo	inútil,	pois	o	Pai	bondoso	tem
conhecimento	das	necessidades	de	seus	filhos	(v.	8).
O	Mestre	ensina	os	discípulos	a	rezar	dirigindo	ao	Pai	as	palavras	adequadas.	O
Pai-Nosso	resume	tudo	quanto	o	discípulo	anseia	no	trato	com	Deus	e	com	o
próximo.	Deseja	ver	o	nome	do	Pai	dos	Céus	santificado,	seu	Reino	acontecendo
e	sua	vontade	acatada	em	toda	parte	(v.	9-10).	O	discípulo	nutre	o	desejo	de	um
mundo	totalmente	orientado	para	o	Pai	e	seu	projeto	de	salvação	para	a
humanidade.
Em	vista	de	um	mundo	melhor,	pede	ao	Pai	o	alimento	quotidiano,	o	perdão	das
faltas	cometidas,	a	graça	de	não	ceder	à	tentação	e	ser	livrado	do	maligno	(v.	11-
13).	São	os	elementos	essenciais	para	se	viver	em	paz	e	concórdia,	superando	as
desigualdades,	as	inimizades	e	as	rixas,	causadoras	de	divisão	e	de	morte.
A	oração	inspirada	na	justiça	do	Reino,	evitando	ser	palavreado	vazio,	expressa
o	anseio	de	ver	o	mundo	conformado	com	o	querer	do	Pai,	onde	todos	vivam	a
fraternidade	no	esforço	da	partilha	e	da	comunhão.	O	orante	tem	os	olhos	fixos
em	Deus,	mas	também	na	realidade	do	outro	com	quem	deve	caminhar	solidário.
Rezar	como	discípulo	consiste	em	se	comprometer	com	a	superação	das
injustiças	e	se	empenhar	para	que	o	Reino	de	Deus	aconteça.
O	evangelista	aproveita	para	inserir	dois	temas	transversais	em	sua	catequese:	o
perdão	e	a	reconciliação	(v.	14-15).	E	o	faz	evocando	a	relação	do	orante	com	o
Pai	celeste:	quem	perdoa	o	próximo	receberá	o	perdão	paterno,	quem	não	perdoa
não	receberá	perdão.	O	trato	como	o	próximo	determina	os	acontecimentos	no
final	da	caminhada	como	discípulo	do	Reino	(cf.	Mt	18,35)	em	consonância	com
o	pedido	do	Pai-Nosso:	“Perdoa-nos	nossas	dívidas,	assim	como	nós	perdoamos
aos	que	nos	devem”	(v.	11).	O	discípulo	lúcido	pensa	duas	vezes	antes	de	dirigir
ao	Pai	esse	pedido.
O	jejum	(6,16-18)
¹ “Quando	jejuarem,	não	façam	cara	de	tristeza,	como	os	hipócritas.	Porque	eles
desfiguram	o	rosto,	para	que	as	pessoas	vejam	que	estão	jejuando.	Eu	lhes
garanto:	Já	receberam	a	própria	recompensa.	¹⁷Mas	você,	quando	jejuar,	perfume
a	cabeça	e	lave	o	rosto.	¹⁸Assim	as	pessoas	não	perceberão	que	você	está
jejuando,	mas	apenas	seu	Pai,	em	segredo.	E	seu	Pai,	que	vê	no	segredo,	o
recompensará”.
O	jejum	corresponde	a	um	exercício	de	relação	consigo	mesmo	em	vista	de
dominar	os	próprios	instintos	e	paixões.	Implica	colocar	em	ordem	os
sentimentos	negativos,	empecilhos	para	a	prática	da	misericórdia.	Ao	jejuar,	o
discípulo	do	Reino	dá	mostras	de	ter	o	controle	de	si	mesmo	e	demonstra-se
capaz	de	banir	o	egoísmo	de	seu	coração.	Eis	uma	exigência	incontornável	para
quem	tem	a	justiça	do	Reino	como	projeto	de	vida.
O	falso	jejum	acontece	de	maneira	hipócrita.	O	pretenso	piedoso	assume	um
semblante	triste,	com	o	rosto	desfigurado,	para	se	dar	aparência	ascética	(v.	16).
Tem	a	pretensão	de	ser	visto,	elogiado	e	tido	na	conta	de	santo.	Existem	pessoas
incautas	que	se	deixam	impressionar	pela	exibição	de	santidade	e	não	poupam
elogios	aos	“homens	de	Deus”,	que	já	se	dão	por	satisfeitos.	A	recompensa	do
Pai	dos	Céus	torna-se	prescindível.
O	jejum	verdadeiro	supõe	do	discípulo	agir	de	maneira	diferente:	lavar	o	rosto	e
perfumar-se	para	transmitir	alegria	e,	assim,	nem	de	longe	as	pessoas	pensarem
que	esteja	jejuando	(v.	17).	Então	o	Pai,	que	vê	o	segredo	dos	corações,	lhe	dará
a	justa	recompensa	por	saber	que	o	jejum	representa	um	esforço	real	de	domínio
dos	afetos	desordenados	(v.	18).	Quem	julga	pelas	aparências	pode	se	equivocar.
O	tesouro	(6,19-21)
||	Lc	12,33-34
¹ “Não	ajuntem	para	vocês	riquezas	na	terra,	onde	traça	e	ferrugem	corroem,	e
onde	ladrões	arrombam	e	roubam.	² Ajuntem	sim	para	vocês	riquezas	no	céu,
onde	nem	traça	nem	ferrugem	corroem,	e	onde	ladrões	não	arrombam	nem
roubam.	²¹Porque,	onde	está	o	seu	tesouro,	aí	também	estará	o	seu	coração”.
Tendo	reinterpretado	a	justiça	dos	doutores	da	Lei	e	a	dos	fariseus,	sempre	com	a
preocupação	de	instruir	os	discípulos	no	caminho	do	Reino,	o	evangelista	reúne
uma	série	de	ensinamentos	de	Jesus	referentes	ao	modo	de	proceder	de	quem
aderiu	ao	Reino.	Trata-se	de	advertências	de	como	o	discípulo	deve	se	relacionar
com	Deus,	com	o	próximo,	consigo	e	com	as	criaturas.	Cada	ensinamento
focaliza	uma	dessas	vertentes,	tendo	como	pano	de	fundo	a	vivência	das	demais,
pois	cada	uma	envolve	as	outras.	Por	exemplo,	só	se	relaciona	corretamente	com
Deus	quem	estabelece	relações	adequadas	consigo,	com	o	próximo	e	com	as
criaturas.	O	desafio	consiste	em	aprender	a	arte	de	centrar-se	no	Reino	de	Deus	e
sua	justiça	em	meio	aos	múltiplos	afazeres	e	atividades.
O	discípulo	supera	a	tentação	de	acumular	riquezas	(gr.	thesaurós)
desconsiderando	os	irmãos	sofredores	e	pensando	só	em	si.	As	riquezas	terrenas
podem	enferrujar-se	e	ser	roubadas	(v.	19).	Quem	as	acumula	gastará	tempo	e
energia	para	defendê-las,	quem	sabe	com	pouco	sucesso.
Jesus	ensina	a	acumular	riquezas	no	céu,	onde	estarão	a	salvo	da	traça,	da
ferrugem	e	dos	ladrões	(v.	20).	As	“riquezas	do	céu”	correspondem	ao	que
fazemos	na	terra	e	tem	dimensões	de	eternidade.	Isso	acontece	no	trato
compassivo	com	o	próximo	em	suas	necessidades,	na	luta	pela	construção	do
mundo	querido	por	Deus,	no	empenho	pela	superação	das	injustiças	e	no	esforço
para	perdoar	e	viver	reconciliado.	Tais	são	as	riquezas	a	serem	acumuladas	pelo
discípulo	que	confia	inabalavelmente	em	Deus,	esforça-se	para	ser	“pobre	com
Espírito”	(Mt	5,3)	e	supera	a	tentação	da	idolatria.
O	v.	21	faz	uma	constatação	relevante:	o	coração	do	discípulo	concentra-se
naquilo	que	considera	ser	um	tesouro	para	si.	Na	eventualidade	de	ambicionar
tesouros	terrenos,	Deus	estará	fora	de	seu	campo	de	interesse.	Por	conseguinte,	o
irmão	dependente	de	cuidado	e	atenção	lhe	passará	despercebido.	O	discípulo
sensato	sabe	exatamente	onde	investir,	por	se	guiar	pelo	querer	do	Pai.
Os	olhos	(6,22-23)
||	Lc	11,34-36
²²“A	lâmpada	do	corpo	é	o	olho.	Portanto,	se	o	seu	olho	for	bom,	seu	corpo
inteiro	ficará	iluminado.	²³Porém,	se	o	seu	olho	for	ruim,	seu	corpo	inteiro	ficará
escuro.	E	se	a	luz	que	existe	em	você	é	escuridão,	quão	grande	será	a	escuridão
mesma!”
Apureza	de	coração	permite	ao	discípulo	agir	com	transparência	(v.	22).	Seu
olhar	não	terá	malícia,	de	forma	a	se	precaver	contra	as	relações	distorcidas	com
o	próximo.	A	luminosidade	do	olhar	puro	deixa	transparecer	o	íntimo	do
coração.	Já	o	olhar	malicioso	projeta	energias	negativas	a	jorrar	do	íntimo	de
quem	vive	desconectado	de	Deus	e	provoca	desconforto	ao	seu	redor.	A
escuridão	que	o	indivíduo	tem	dentro	de	si	transborda	de	seu	olhar.
Um	dito	enigmático	conclui	esse	bloco	(v.	23).	A	luz	transformada	em	escuridão
permite	fazer	uma	ideia	do	que	seja	escuridão.	Se	o	discípulo	não	se	esforça	por
conservar	a	luz	oferecida	pelo	Pai	e	permite	que	se	apague,	está	sujeito	a	romper
com	ele	e	se	entregar	ao	terrível	império	das	trevas	com	tremendas
consequências.	A	sabedoria	do	Reino	recomenda	ter	olhos	puros	e	luminosos
para	se	excluir	a	alternativa	de	ser	envolvido	pela	escuridão.
Ou	Deus,	ou	o	dinheiro	(6,24)
||	Lc	16,13
²⁴“Ninguém	pode	servir	a	dois	senhores,	pois	odiará	um	e	amará	o	outro,	ou	se
apegará	a	um	e	desprezará	o	outro.	Vocês	não	podem	servir	a	Deus	e	ao
dinheiro”.
Esse	versículo	confronta	o	discípulo	com	uma	decisão	radical	por	Deus	ou	pelo
dinheiro	(v.	24).	Essa	opção	está	na	origem	do	discipulado	do	Reino	fundado	na
opção	por	Deus.	O	perigo	de	se	bandear	para	a	idolatria	será	constante.	Daí	a
necessidade	de	cada	dia	renovar	o	compromisso	com	Deus	para	se	manter	firme
no	bom	caminho.
Uma	tentação	consiste	em	pretender	servir	a	dois	senhores.	Segundo	um	ditado
popular,	seria	“querer	acender	uma	vela	para	Deus	e	outra	para	o	Diabo”.	Não	há
como	escapar	ao	jogo	de	amor	e	ódio,	apego	e	desprezo,	fidelidade	e
infidelidade	no	trato	simultâneo	com	dois	senhorios.	O	discipulado	do	Reino
exige	amor	exclusivo	e	total	a	Deus.	Qualquer	concessão	ao	inimigo	do	Reino
está	fora	de	cogitação	(cf.	Dt	6,5).	A	catequese	evangélica	apresenta	ao	discípulo
o	testemunho	exemplar	do	Mestre	Jesus	e	sua	adesão	incondicional	ao	Pai	até	a
morte	de	cruz.
Aprender	das	aves	e	dos	lírios	(6,25-34)
||	Lc	12,22-32
²⁵“Por	isso	eu	lhes	digo:	Não	se	preocupem	com	a	vida	de	vocês,	em	relação	ao
que	vão	comer	ou	beber;	nem	com	o	corpo	de	vocês,	em	relação	ao	que	vão
vestir.	Acaso	a	vida	não	vale	mais	que	a	comida,	e	o	corpo	mais	que	a	roupa?
² Observem	as	aves	do	céu,	que	não	semeiam,	nem	colhem,	nem	ajuntam	em
celeiros,	e	o	Pai	de	vocês	que	está	nos	céus	as	alimenta.	Por	acaso	vocês	não
valem	mais	que	elas?	²⁷Quem	de	vocês,	com	suas	preocupações,	consegue
prolongar	a	própria	vida	um	pouco	que	seja?	²⁸E	quanto	à	roupa,	por	que	vocês
se	preocupam	tanto?	Aprendam	com	os	lírios	do	campo,	como	crescem,	eles	que
não	trabalham	nem	fiam.	² E	eu	digo	a	vocês	que	Salomão,	com	toda	a	sua
majestade,	nunca	se	vestiu	como	um	deles.	³ E	se	Deus	assim	veste	a	erva	do
campo,	que	hoje	existe	e	amanhã	é	jogada	no	fogo,	não	fará	muito	mais	por
vocês,	tão	fracos	na	fé?	³¹Portanto,	não	vivam	preocupados,	dizendo:	‘O	que
vamos	comer?	O	que	vamos	beber?	Com	que	nos	vestiremos?’	³²Porque	são	os
gentios	que	se	preocupam	com	todas	essas	coisas.	O	Pai	de	vocês	que	está	nos
céus	sabe	que	vocês	precisam	de	tudo	isso.	³³Busquem	primeiro	o	Reino	de	Deus
e	sua	justiça,	e	todas	essas	coisas	ficarão	garantidas	para	vocês.	³⁴Assim,	não	se
preocupem	com	o	dia	de	amanhã,	pois	o	dia	de	amanhã	terá	suas	próprias
preocupações.	A	cada	dia	basta	o	seu	mal”.
O	discípulo	do	Reino	tem	“fome	e	sede	de	justiça”	(cf.	Mt	6,6).	Daí	sua	postura
de	inteira	liberdade	diante	das	vicissitudes	da	vida	e	a	recusa	de	cultivar
preocupações	desnecessárias	em	relação	à	comida,	à	bebida	e	ao	vestuário	(v.
25).	Importa-lhe	apenas	a	justiça	do	Reino	em	benefício	do	próximo,	estando	as
carências	pessoais	em	segundo	plano.
As	aves	do	céu	e	os	lírios	do	campo	servem	de	metáfora	para	a	confiança	a	ser
depositada	no	Deus	providente	em	cujas	mãos	está	a	vida	dos	discípulos.	As
aves	sobrevivem	independentes	da	agricultura	por	serem	alimentadas	pelo	Pai	(v.
26-27).	Se	o	Pai	cuida	da	sobrevivência	delas,	quanto	mais	se	preocupará	com	a
dos	discípulos	do	Reino,	que	“valem	mais	do	que	elas”.
A	beleza	dos	lírios	do	campo	igualmente	independe	do	trabalho	dos	tecelões,
pois	o	Pai	os	reveste	com	uma	beleza	superior	à	das	vestimentas	do	grande	rei
Salomão	(v.	28-30).	Por	mais	suntuosas	que	tivessem	sido	suas	roupas,	jamais	se
igualaram	à	beleza	dos	lírios,	“que	não	trabalham	nem	fiam”.
Segue-se	uma	evidente	conclusão:	se	Deus	trata	com	tanto	carinho	as	aves	do
céu	e	os	lírios	do	campo	na	sua	fragilidade,	quanto	mais	afeição	terá	pelos
discípulos	do	Reino!	Só	os	“fracos	na	fé”	se	atormentam	por	comida,	bebida	e
vestimenta,	como	fazem	os	pagãos	(v.	31-32).	O	Pai	conhece	bem	as
necessidades	dos	discípulos	do	Reino	e	cuida	deles	com	extremo	amor.
O	v.	33	contém	uma	admoestação	grave	para	quem	optou	se	pautar	pela	justiça
do	Reino:	“Busquem	primeiro	o	Reino	de	Deus	e	sua	justiça,	e	todas	essas	coisas
ficarão	garantidas	para	vocês”.	A	única	preocupação	do	discípulo	consistirá	em
fazer	a	vontade	do	Pai	e	enfrentar	a	tentação	do	consumismo,	do	materialismo	e
da	segurança	(cf.	Mt	6,10).	Fazendo	o	essencial,	poderá	se	tranquilizar,
porquanto	todas	as	demais	carências	serão	satisfeitas.
O	v.	34	relaciona-se	com	o	pedido	do	Pai-Nosso:	“o	pão	nosso	de	cada	dia	dá-
nos	hoje”	(v.	11).	Nada	de	se	atribular	com	a	comida,	a	bebida	e	a	vestimenta	de
amanhã!	O	discípulo	vive	cada	dia	com	intensidade	e	responsabilidade,	sabendo-
se	protegido	pelo	amor	e	pelo	cuidado	do	Pai.
Seria	equivocado	entender	a	catequese	mateana	como	se	ensinasse	a	cruzar	os
braços	e	esperar	que	tudo	caia	do	céu	por	obra	da	Providência,	numa	espécie	de
fideísmo	insensato.	Essa	leitura	enviesada	distancia-se	do	objetivo	da	catequese
evangélica.	Nessa	o	discípulo	dá	tudo	de	si	e	se	empenha	com	toda	força	para	ser
“sal	da	terra”	e	“luz	do	mundo”,	com	a	consciência	de	ter	quem	o	proteja	(cf.	Mt
5,13-16).	“A	cada	dia	basta	o	seu	mal	(gr.	kakía)”	tem	o	sentido	de	desaconselhar
a	ousadia	de	querer	alterar	a	sequência	dos	fatos	com	o	resultado	de	antecipar
sofrimentos.	As	coisas	podem	acontecer	de	modo	muito	distinto	do	esperado.	O
discípulo	sábio	evita	sofrer	por	antecipação.
Não	julgar	(7,1-6)
||	Lc	6,37-38.41-42
¹“Não	julguem,	para	não	serem	julgados.	²Pois	vocês	serão	julgados	com	o
julgamento	com	que	julgarem,	e	serão	medidos	com	a	medida	com	que	medirem.
³Por	que	você	repara	no	cisco	que	está	no	olho	de	seu	irmão,	e	não	percebe	a
trave	que	está	em	seu	próprio	olho?	⁴Ou	como	poderá	você	dizer	a	seu	irmão:
‘Deixe	que	eu	tire	o	cisco	de	seu	olho’,	quando	você	tem	no	seu	uma	trave?
⁵Hipócrita!	Tire	primeiro	a	trave	de	seu	olho,	e	então	você	verá	bem	para	tirar	o
cisco	do	olho	de	seu	irmão.	 Não	deem	aos	cães	o	que	é	sagrado,	nem	joguem	as
pérolas	de	vocês	aos	porcos,	para	que	eles	não	as	pisem	e,	voltando-se,
despedacem	vocês”.
A	exortação	de	Jesus:	“Não	julguem,	para	não	serem	julgados”	tem	um	sentido
forte	(v.	1).	Refere-se	à	ousadia	de	querer	definir	a	sorte	eterna	de	alguém,	sua
salvação	ou	condenação.	O	verbo	grego	kríno,	traduzido	por	julgar,	refere-se	à
ação	definitiva	de	Deus	na	existência	humana,	nada	tendo	que	ver	com	os
julgamentos	banais	por	uma	coisinha	qualquer.	Quem	se	acha	no	direito	de
decidir	quem	se	salvará	ou	não,	tem	o	atrevimento	de	assumir	o	papel	de	juiz
escatológico	na	vida	alheia	(cf.	Mt	25,31-46).	As	lideranças	das	comunidades
religiosas	são	propensas	a	cair	nessa	tentação.
A	severidade	de	Jesus	expressa-se	nas	consequências	que	os	julgamentos
acarretam.	Os	juízes	inclementes	serão	julgados	com	a	mesma	dureza	com	que
tratam	os	semelhantes	(v.	2).	Portanto,	a	misericórdia	se	recomenda	quando	se
pretende	ser	acolhido	por	Deus	no	final	da	caminhada.	O	“Venham,	benditos	do
meu	Pai”	terá	como	contrapartida	o	“Afastem-se	de	mim,	malditos”,	por	ocasião
do	juízo	definitivo	(cf.	Mt	25,34.41).	Só	o	Messias	Juiz	tem	o	direito	de	decidir
sobre	salvação	e	condenação,	ninguém	mais.
A	sabedoria	do	Reino	ensina	ao	discípulo	fazer	autocrítica	antes	de	se	dar	o
direito	de	criticar	(v.	3-5).	Uma	atitude	hipócritaconsiste	em	perceber	e
denunciar	uma	pequena	falta	do	outro,	quando	se	leva	uma	vida	nada
recomendável,	repleta	de	atitudes	condenáveis.	A	metáfora	do	cisco	e	da	trave
ilustra	essa	falsa	conduta.	O	indivíduo	vê	o	cisco	no	olho	alheio	e	não	se	dá
conta	da	trave	cravada	no	próprio	olho.	Será	preciso	tirar	a	trave	que	carrega
consigo	para	estar	em	condições	de	ver	o	cisquinho	no	olho	do	próximo.	Logo,
antes	de	criticar,	torna-se	imprescindível	se	autocriticar!
O	v.	6,	um	dito	independente,	pode	parecer	obscuro	para	os	leitores-ouvintes
atuais.	Uma	explicação	plausível	parte	da	bem-aventurança	da	perseguição	e	se
refere	aos	discípulos	em	missão	(cf.	Mt	5,10).	Não	dar	aos	cães	as	coisas
sagradas,	tampouco	jogar	pérolas	aos	porcos,	“para	que	eles	não	as	pisem	e,
voltando-se,	despedacem	vocês”,	seria	a	atitude	sensata	de	evitar	falar	do	Reino
a	pessoas	fechadas	para	acolhê-lo	(v.	6).	Será	grande	a	chance	de	se	revoltarem
contra	os	discípulos-apóstolos	e	violentá-los.	Mt	10,14	dá	uma	orientação	bem
prática	para	essas	situações.	Na	eventualidade	de	serem	rejeitados,	os	discípulos-
apóstolos	sacudirão	o	pó	dos	pés	e	se	afastarão	da	cidade,	da	casa	ou	da	pessoa
refratária.
Confiança	na	bondade	do	Pai	(7,7-11)
||	Lc	11,9-13
⁷“Peçam,	e	lhes	será	dado.	Procurem,	e	encontrarão.	Batam,	e	lhes	será	aberto.
⁸Pois	todo	aquele	que	pede	recebe,	quem	procura	encontra,	e	a	quem	bate	se
abrirá.	 Quem	dentre	vocês,	se	seu	filho	lhe	pede	pão,	lhe	dará	uma	pedra?	¹ Ou,
se	lhe	pede	um	peixe,	lhe	dará	uma	cobra?	¹¹Então,	se	vocês	que	são	maus	sabem
dar	coisas	boas	aos	próprios	filhos,	quanto	mais	o	Pai	de	vocês	que	está	nos	céus
dará	coisas	boas	àqueles	que	lhe	pedirem!”
Esse	conjunto	de	ensinamentos	deve	ser	lido	tendo	como	pano	de	fundo	Mt	6,25-
34,	onde	se	falou	da	preocupação	do	Pai	por	cada	um	de	seus	filhos
comprometidos	com	o	Reino.	A	busca	da	justiça	do	Reino	está	sempre	no
horizonte	do	discípulo	(cf.	Mt	6,33).	A	temática	centra-se	aqui	na	relação	de
familiaridade	com	o	Pai,	diante	de	quem	o	discípulo	pode	abrir	o	coração	em
suas	dificuldades	(v.	7).	E	será	atendido,	pois	a	bondade	do	Pai	não	lhe	permite
agir	de	forma	diferente	(v.	8).
A	comparação	com	uma	situação	humana	ajuda	a	compreender	o	modo	de	agir
divino.	Nenhum	pai	minimamente	sensato	dará	uma	pedra	ao	filho	que	lhe	pede
um	pão,	tampouco	lhe	dará	uma	cobra	se	pedir	um	peixe	(v.	9-10).	Se	acontece
assim	no	plano	das	relações	pai-filho,	em	nível	terreno,	quanto	mais	em	se
tratando	do	Pai	celeste,	que	reserva	apenas	coisas	boas	(gr.	agathá)	para	os	filhos
que	se	refugiarem	junto	a	ele	(v.	11).
A	“regra	de	ouro”	(7,12)
||	Lc	6,31
¹²“Portanto,	façam	às	pessoas	o	mesmo	que	vocês	desejam	que	elas	façam	a
vocês.	Esta	é,	de	fato,	a	Lei	e	os	Profetas”.
A	frase	lapidar	de	Jesus	de	certo	modo	retoma	e	sintetiza	todo	o	conteúdo	do
Sermão	da	Montanha	(v.	12).	O	discípulo	do	Reino	age	sempre	pensando	no	bem
do	próximo.	O	esforço	de	se	comportar	em	relação	ao	outro	da	mesma	forma	que
se	espera	que	ele	se	comporte	motiva	o	discípulo	a	ser	extremamente	cordial	e
misericordioso	no	trato	com	o	semelhante.	Fica	descartado	tudo	quanto	possa	lhe
causar	dano.	Por	isso	pensará	duas	vezes	antes	de	qualquer	atitude	e	se	decidirá
pelo	que	resultar	em	maior	benefício	para	o	outro.
Essa	pauta	de	ação	sugere	que	todas	as	pessoas	podem	confiar	no	discípulo	do
Reino,	por	estar	descartado	o	risco	de	serem	decepcionadas.	Por	ser	“puro	de
coração”,	abominará	as	segundas	intenções	e	agirá	com	transparência.	Por	ser
“misericordioso”,	jamais	cogitará	qualquer	perversidade	em	suas	ações.	Por	ser
“pacífico”,	buscará	sempre	a	reconciliação	e	a	superação	do	ódio.	Por	ter	“fome
e	sede	de	justiça”,	se	solidarizará	com	os	oprimidos	e	marginalizados.	Por
conseguinte,	fazer	às	pessoas	o	que	se	deseja	que	façam	constitui-se	no	modo	de
proceder	almejado	pelos	bem-aventurados.
Duas	portas,	dois	caminhos	(7,13-14)
||	Lc	13,24
¹³“Entrem	pela	porta	estreita,	porque	é	largo	e	espaçoso	o	caminho	que	leva	para
a	perdição.	E	são	muitos	os	que	tomam	esse	caminho.	¹⁴Como	é	estreita	a	porta	e
apertado	o	caminho	que	leva	para	a	vida!	E	são	poucos	os	que	o	encontram”.
Começa	aqui	uma	série	de	advertências	em	forma	de	contraposição.	São
ilustrações	das	escolhas	a	serem	feitas	pelo	discípulo	do	Reino.	A	cada	momento
será	desafiado	por	duas	alternativas,	devendo	decidir-se	em	vista	da	continuação
da	caminhada.	Nada	está	definitivamente	decidido!	Uma	opção	pelo	caminho
certo	pode	dar	lugar	à	opção	pelo	caminho	equivocado.	Existe,	porém,	a
possibilidade	de	voltar	ao	bom	caminho	no	desenrolar	da	caminhada.	Essa
situação	acompanhará	o	discípulo	até	o	fim	de	sua	vida.	Sua	história	de	discípulo
do	Reino	em	última	análise	se	constrói	pelas	múltiplas	decisões	feitas	ao	longo
da	vida.
A	primeira	ilustração	contrapõe	a	porta	estreita	ao	caminho	largo	e	espaçoso	(v.
13-14;	cf.	Sl	1;	Dt	30,15).	A	primeira	leva	à	vida,	o	segundo	à	perdição.	A
observação	de	que	muitos	preferem	o	caminho	da	perdição	dá	o	que	pensar!	A
porta	estreita	corresponde	aos	ensinamentos	do	Mestre	concentrados	no	Sermão
da	Montanha.	Como	é	difícil	oferecer	a	face	esquerda	a	quem	esbofeteia	a	direita
(cf.	Mt	5,39)!	Igualmente,	amar	os	inimigos	e	rezar	pelos	perseguidores	(cf.	Mt
5,44),	dar	esmolas	com	absoluta	gratuidade	(cf.	Mt	6,3),	abster-se	de	julgar	(cf.
Mt	7,1)	e	tantas	outras	exigências	do	modo	de	proceder	do	Reino.	O	discípulo
autêntico,	consciente	de	ser	esta	a	justiça	do	Reino,	resiste	à	tentação	de	escolher
o	caminho	facilitado	da	vingança,	do	ódio,	da	piedade	exibicionista	e	da
maledicência.
Atenção	com	as	aparências!	(7,15-20)
||	Lc	6,43-44
¹⁵“Cuidado	com	os	falsos	profetas!	Eles	se	aproximam	de	vocês	disfarçados	de
ovelhas,	mas	por	dentro	são	lobos	ferozes.	¹ Vocês	os	reconhecerão	pelos	frutos
deles.	Acaso	se	colhem	uvas	de	espinheiros	ou	figos	de	cardos?	¹⁷Toda	árvore
boa	produz	frutos	bons,	e	toda	árvore	ruim	produz	frutos	ruins.	¹⁸Uma	árvore	boa
não	pode	dar	frutos	ruins,	nem	uma	árvore	ruim	dar	frutos	bons.	¹ Toda	árvore
que	não	dá	fruto	bom	é	cortada	e	jogada	no	fogo.	² De	modo	que	vocês	os
reconhecerão	pelos	frutos	deles”.
A	segunda	ilustração	contrasta	os	verdadeiros	e	os	falsos	profetas	(v.	15).	A
advertência	volta-se	contra	os	membros	da	comunidade	que	dissimuladamente	se
apresentam	como	se	fossem	ovelhas,	mas	na	realidade	são	lobos	cruéis.	O	falso
profeta	distorce	os	ensinamentos	do	Mestre,	adaptando-os	ao	gosto	dos	ouvintes.
Conseguem	enganar	os	incautos,	ao	revestir	suas	mentiras	com	palavras
capciosas	que	os	confundem	e	os	levam	a	considerar	verdadeiras	suas	falsidades
contrárias	aos	desígnios	do	Pai.	Um	bom	exemplo	dessa	postura	foi	o
atrevimento	de	Pedro	ao	repreender	Jesus	quando	falava	de	sua	paixão	e	morte.
O	Mestre	repeliu-o	como	um	Satanás,	por	não	pensar	segundo	Deus,	e	sim
conforme	a	mentalidade	mundana	(cf.	Mt	16,21-23).
O	Mestre	oferece	um	critério	para	desmascarar	os	falsos	profetas:	verificar	os
frutos	de	seus	ensinamentos	(v.	16-18).	Ou	então	as	consequências	do	que
dizem.	Levam	a	uma	fidelidade	mais	radical	ao	querer	de	Deus?	Sintonizam	as
orientações	do	Mestre	e	motivam	a	lhe	seguir	os	passos?
A	metáfora	da	árvore	e	seus	frutos	corresponde	a	uma	imagem	excelente	da
avaliação	a	ser	feita	pelo	discípulo	às	voltas	com	os	falsos	profetas.	Como	uma
árvore	boa	jamais	produzirá	frutos	ruins	e,	ao	revés,	uma	árvore	ruim	produzirá
frutos	bons,	da	mesma	forma	um	falso	profeta	de	modo	nenhum	conduzirá	o
discípulo	no	caminho	da	justiça	do	Reino.	Antes,	fá-lo-á	perder-se	em	atalhos
que	o	afastarão	sempre	mais	do	caminho	de	Deus.
A	metáfora	do	v.	19	sugere	uma	atitude	urgente	a	ser	tomada	na	comunidade	dos
discípulos	do	Reino.	Os	falsos	profetas,	com	sua	ação	corruptora,	serão
reconhecidos	e	banidos,	como	acontece	com	toda	árvore	estéril	que,	por	não
produzir	frutos	bons,	é	cortada	e	lançada	no	fogo.	Contemporizar	com	eles
poderá	ter	efeitos	desastrosos	para	a	comunidade.	Entretanto,	será	preciso
certificar-se	de	que	são	perniciosos	para	a	comunidade.	Com	muito
discernimento	se	avaliará	o	seu	fruto,	demodo	a	evitar	condenações	precipitadas
(v.	20).
O	verdadeiro	discípulo	(7,21-23)
||	Lc	13,25-27
²¹“Nem	todo	aquele	que	me	diz	‘Senhor,	Senhor!’	entrará	no	Reino	dos	Céus,	e
sim	aquele	que	faz	a	vontade	do	meu	Pai	que	está	nos	céus.	²²Muitos	vão	me
dizer	naquele	dia:	‘Senhor,	Senhor,	não	foi	em	teu	nome	que	profetizamos,	em
teu	nome	que	expulsamos	demônios,	em	teu	nome	que	fizemos	tantos	milagres?’
²³Então	eu	vou	declarar	a	eles:	“Nunca	conheci	vocês.	Afastem-se	de	mim,	vocês
que	praticam	a	maldade”.
A	terceira	ilustração	diz	respeito	ao	verdadeiro	e	ao	falso	discípulo.	Equivoca-se
quem	pensa	que	o	simples	“Senhor,	Senhor”	garante	a	entrada	no	Reino	dos
Céus	(v.	21).	O	vocativo	Senhor	(gr.	kýrios),	maneira	como	na	catequese
mateana	os	discípulos	e	as	pessoas	de	fé	se	dirigem	a	Jesus	(cf.	Mt	9,29;	14,28;
17,4),	pode	criar	a	falsa	consciência	de	ser	discípulo	fiel,	quando	alguém	chama
o	Mestre	de	“Senhor”	desprovido	do	desejo	de	lhe	dar	ouvido.	São	discípulos	da
boca	para	fora,	tendentes	a	corromper	quem	se	dispõe	a	abraçar	o	Reino	de
coração	(cf.	Is	29,13;	Mt	15,7-9).
A	acolhida	no	Reino	dos	Céus	decorre	do	esforço	de	cumprir	com	fidelidade	o
querer	do	Pai	sintetizado	no	Sermão	da	Montanha.	Nele	se	encontram	pautas	de
ação	bem	objetivas	e	claras,	de	modo	a	se	evitarem	mal-entendidos.	Os
tendenciosos	desvirtuam	os	ensinamentos	do	Mestre	e	os	contaminam	com
ideias	enviesadas.	Enganam-se	por	caminharem	na	direção	oposta	daquele	a
quem	se	dispuseram	a	seguir.
O	v.	22	pode	chocar	os	leitores-ouvintes.	Como	imaginar	o	caso	de	um	discípulo
profetizar,	expulsar	demônios	e	realizar	muitos	milagres	“em	nome”	do	Senhor	e
“naquele	dia”	ser	veementemente	rechaçado	(cf.	Mt	25,41-45)?	Se	realizou
tantas	coisas	boas	em	favor	do	próximo,	que	sentido	tem	ser	deixado	fora	do
Reino?	O	Mestre	estaria	sendo	injusto	ao	não	reconhecer	e	não	recompensar	o
bem	realizado	pelo	discípulo?	De	que	má	conduta	pode	ser	acusado?
O	v.	23	gera	perplexidade.	O	Mestre	dirá	na	cara	dos	falsos	discípulos:	“Nunca
conheci	vocês”.	O	“em	teu	nome”	do	versículo	anterior,	portanto,	era	infundado.
Faziam	o	bem	para	serem	vistos	e	elogiados	(cf.	Mt	6,1.5.16).	E	já	receberam	a
recompensa	almejada:	o	reconhecimento	humano.	Por	isso	as	palavras	terríveis:
“Afastem-se	de	mim,	vocês	que	praticam	a	maldade”.	As	portas	do	Reino	se
fecharão	para	eles.	Todas	suas	ações	são	maldade	(gr.	anomía).	A	palavra	anomía
indica	não	terem	seguido	a	“lei”	(gr.	nómos)	do	Reino;	antes,	guiaram-se	pela
própria	cabeça.	O	ensinamento	do	Mestre	foi	deixado	de	lado.	Ao	invés	de
agirem	no	escondido	e	com	discrição,	deixavam-se	levar	pela	busca	de	aplausos,
de	modo	a	ultrapassar	as	balizas	postas	pelo	Mestre	Jesus.	A	frustração	virá	na
certa	(cf.	Mt	22,11-14)!
Casa	sobre	a	rocha	(7,24-27)
||	Lc	6,47-49
²⁴“Portanto,	quem	ouve	essas	minhas	palavras	e	as	põe	em	prática,	será
comparado	a	um	homem	de	juízo	que	construiu	sua	casa	sobre	a	rocha.	²⁵A
chuva	caiu,	vieram	as	enxurradas,	os	ventos	sopraram	e	bateram	contra	essa
casa,	e	ela	não	caiu,	porque	estava	alicerçada	sobre	a	rocha.	² Ao	contrário,	quem
ouve	essas	minhas	palavras	e	não	as	põe	em	prática,	será	comparado	a	um
homem	sem	juízo	que	construiu	sua	casa	sobre	a	areia.	²⁷A	chuva	caiu,	vieram	as
enxurradas,	os	ventos	sopraram	e	bateram	contra	essa	casa,	e	ela	caiu,	e	foi
terrível	a	sua	ruína”.
A	série	de	ilustrações	conclui-se	com	uma	espécie	de	parábola	que	contrapõe
“um	homem	de	juízo”	(gr.	phrónimos)	a	“um	homem	sem	juízo”	(gr.	morós).	O
primeiro	assemelha-se	a	quem	constrói	a	casa	sobre	a	rocha,	capaz	de	resistir	a
toda	sorte	de	chuva,	enxurradas	e	ventos	impetuosos.	Nada	será	suficientemente
forte	para	abalá-la	(v.	24-25).	Refere-se	ao	discípulo	consciente	da	opção	feita
com	lucidez	e	consistência.	Procede	daí	a	capacidade	de	resistir	às	ciladas	dos
adversários,	vindas	com	força	de	todas	as	partes.	Enfrentará	impávido	a	todas
elas!	A	vida	do	Mestre	constitui-se	em	testemunho	inquestionável	de	casa
construída	sobre	a	rocha.	Nem	a	morte	de	cruz	o	desviou	da	fidelidade
inabalável	ao	Pai	do	céu.
O	segundo	corresponde	a	quem	insensatamente	constrói	a	casa	sobre	a	areia	(v.
26-27).	As	chuvas,	as	enxurradas	e	os	ventos	batem	contra	ela,	causando	uma
ruína	total.	Assim	acontece	com	os	discípulos	que	abraçaram	o	Reino	de	forma
precipitada,	esquecendo-se	de	ponderar	sua	capacidade	de	pagar	o	preço	da
opção.	Nos	momentos	de	provação,	mostram-se	inaptos	para	enfrentar	as
tribulações	e	as	perseguições	e	se	manter	de	pé	(cf.	Mt	13,20-21).	O	discípulo
Judas	Iscariotes	encarna	a	imagem	do	discípulo	“sem	juízo”,	cujo	fim
assemelhou-se	a	uma	casa	à	qual	faltam	alicerces,	reduzida	a	escombros	após	a
passagem	do	furacão	representado	pela	paixão	e	morte	do	Mestre	(cf.	Mt	27,3-
10).
As	várias	ilustrações	colocam	os	discípulos	diante	da	urgência	de	reforçar	a
opção	pelo	Reino	feita	com	discernimento,	responsabilidade	e	disposição	para
permanecer	firme,	custe	o	que	custar.	A	virtude	da	perseverança	se	recomenda!
Multidões	maravilhadas	(7,28-29)
²⁸Quando	Jesus	terminou	essas	palavras,	as	multidões	estavam	maravilhadas	com
seu	ensinamento.	² Porque	ele	as	ensinava	com	autoridade,	e	não	como	os	seus
doutores	da	Lei.
A	frase	“quando	Jesus	terminou	essas	palavras”	(v.	28),	ou	semelhantes,	ocorrerá
outras	quatro	vezes	na	catequese	de	Mateus	(cf.	Mt	11,1;	13,53;	19,1;	26,1)
como	fórmula	de	conclusão	dos	cinco	grandes	discursos	vertebradores	do
evangelho.
O	Mestre	Jesus	pouco	a	pouco	instrui	a	comunidade	dos	discípulos	em	vista	de
enviá-los	como	missionários	pelo	mundo	inteiro,	ao	mesmo	tempo	em	que
apresenta	publicamente	o	projeto	de	Reino	às	multidões.	Suas	palavras	deixam-
nas	extasiadas,	pois	em	momento	algum	ouviram	alguém	ensinar	com	tamanha
autoridade	(gr.	exousia),	livre	para	repensar	a	Lei	mosaica.	Reconheceram	haver
nele	uma	força	divina	que	o	capacitava	a	instruí-las	de	modo	muito	distinto	do
praticado	pelos	doutores	da	Lei	(v.	29).
Para	reflexão	e	debate
1.	O	que	mais	chama	a	atenção	no	projeto	de	vida	proposto	por	Jesus	aos
discípulos	do	Reino	no	Sermão	da	Montanha?
2.	Sob	que	aspectos	a	justiça	do	discípulo	do	Reino	supera	a	dos	doutores	da	Lei
e	dos	fariseus,	considerando	os	tópicos	aludidos	por	Jesus	no	Sermão	da
Montanha?
II.	MANIFESTAÇÕES	DO	REINO	(Mt	8-10)
1.	Narração:	Justiça	e	misericórdia
Mt	8	e	9	concentram	uma	série	de	gestos	poderosos	de	Jesus	para	respaldar	seus
ensinamentos.	O	Mestre	realiza-os	por	ser	Messias	por	palavras	e	Messias	por
obras	(cf.	Mt	4,23;	9,35).	As	obras	tornam	credíveis	as	palavras.
Os	gestos	poderosos	de	Jesus	evocam	para	os	leitores-ouvintes	da	catequese
mateana	o	líder	do	passado,	Moisés,	guiado	por	Deus	na	sua	contenda	com	o
faraó	(cf.	Ex	7,14–11,10).	Os	grandes	feitos	do	passado	acontecem	no	presente
pela	ação	do	Messias	Jesus.	Como	na	origem	do	antigo	Israel	estão	os	feitos
espetaculares	realizados	para	dissuadir	o	tirano	egípcio	disposto	a	eliminar	o
povo	de	Deus,	Jesus	opera	prodígios	no	processo	de	formar	o	verdadeiro	Israel.
O	evangelista	mais	uma	vez	apresenta-o	como	verdadeiro	Moisés	para	sua
comunidade,	cuja	grande	maioria	provinha	do	judaísmo.
Cura	do	leproso	(8,1-4)
||	Mc	1,40-45;	Lc	5,12-16
¹Quando	Jesus	desceu	da	montanha,	grandes	multidões	o	seguiam.	²Eis	que	um
leproso	se	aproximou	e	prostrou-se	diante	dele,	dizendo:	“Senhor,	se	queres,	tens
o	poder	de	me	purificar”.	³Jesus	estendeu	a	mão	e,	tocando	nele,	disse:	“Eu
quero.	Fique	purificado”.	Imediatamente	ele	ficou	purificado	da	lepra.	⁴Então
Jesus	lhe	disse:	“Não	conte	a	ninguém.	Mas	vá	apresentar-se	ao	sacerdote	e	leve
a	oferta	que	Moisés	ordenou,	como	prova	para	eles”.
As	multidões	seguem	Jesus	e	testemunham	tudo	quanto	faz	com	a	possibilidade
de	dar	o	passo	da	fé	e	se	tornarem	discípulos	(v.	1).	A	etapa	seguinte	consistirá
em	abraçar	a	tarefa	de	continuar	a	missão	do	Mestre	como	apóstolos-
missionários	(cf.	Mt	28,19)	por	todo	o	mundo,	colocando	em	prática	o	que
aprenderam	com	ele.
A	cura	de	um	leproso	abre	a	série	de	gestos	poderosos.	Violando	a	lei	que	exigia
permanecer	fora	da	cidadepara	evitar	o	contato	com	as	pessoas	(cf.	Lv	13,45-
46),	o	doente	aproxima-se	de	Jesus	e	se	prostra	diante	dele,	como	fizeram	os
magos	(cf.	Mt	2,11),	num	gesto	de	adoração	(v.	2).	O	vocativo	“Senhor”	(gr.
kýrios)	revela-lhe	a	disposição	interior	em	relação	a	Jesus,	acolhido	na	condição
de	Messias.	“Se	queres”	tem	um	quê	de	humildade,	no	sentido	de	deixar	nas
mãos	do	Mestre	o	atender	ou	não	seu	pedido	de	ser	purificado.	Purificado,	pois
as	doenças	eram	consideradas	impurezas	que	tornavam	as	pessoas	incapacitadas
para	as	coisas	da	religião,	como	se	Deus	as	tivesse	punido	e	descartado.	A	cura
significava	purificação	e	a	consequente	recuperação	de	seus	direitos	religiosos	e
sociais	no	retorno	ao	convívio	social.
Jesus	também	infringe	a	lei	religiosa	quando	estende	a	mão	e	toca	o	leproso	(v.
3).	O	toque	implicava	contrair	a	impureza	alheia	e,	por	consequência,
incapacitar-se	para	o	culto.	Porém,	em	se	tratando	de	restituir	a	dignidade	àquele
homem	marginalizado,	Jesus	pensa	no	bem	dele	e	deixa	de	lado	os	tabus
religiosos,	como	fizera	ao	reinterpretar	a	Lei	mosaica	(cf.	Mt	5,21-48).
Com	uma	ordem	carregada	de	autoridade,	Jesus	expressa	o	desejo	de	ver	aquele
homem	livre	da	lepra	e,	com	ela,	de	todas	as	discriminações	lançadas	sobre	ele.
Ser	purificado	significa	ser	salvo	e	reintegrado	na	sociedade	e	na	religião.
A	ordem	de	Jesus	ao	homem	curado	(v.	4)	comporta	a	exigência	de	discrição,
reflexo	do	ensinamento	de	fazer	o	bem	em	segredo	(cf.	Mt	6,3-4),	e	o	respeito	à
Lei,	que	atribuía	ao	sacerdote	a	tarefa	de	reconhecer	a	cura	das	doenças,	declarar
a	pureza	das	pessoas	e	prescrever	a	oferta	ritual	correspondente	(cf.	Lv	14,1-32).
Cura	do	criado	de	um	centurião	(8,5-13)
||	Lc	7,1-10;	Jo	4,43-54
⁵Quando	Jesus	entrava	em	Cafarnaum,	aproximou-se	dele	um	centurião,
suplicando	 e	dizendo:	“Senhor,	meu	criado	está	de	cama	em	casa	com	paralisia,
e	sofre	terrivelmente”.	⁷Jesus	lhe	disse:	“Eu	irei,	e	o	curarei”.	⁸O	centurião
respondeu:	“Senhor,	eu	não	sou	digno	de	que	entres	sob	meu	teto.	Basta,	porém,
que	digas	uma	palavra,	e	meu	criado	ficará	curado.	 Porque	eu	também	tenho
superiores,	e	tenho	soldados	sob	meu	comando.	Quando	digo	a	um	‘vá!’,	ele	vai.
Quando	digo	a	outro	‘venha!’,	ele	vem.	E	quando	digo	ao	meu	criado	‘faça	isso’,
ele	o	faz”.	¹ Ouvindo	isso,	Jesus	ficou	admirado	e	disse	aos	que	o	seguiam:	“Eu
lhes	garanto:	Em	Israel	não	encontrei	ninguém	que	tivesse	tanta	fé.	¹¹Mas	eu	lhes
digo:	Muitos	virão	do	oriente	e	do	ocidente	e	se	assentarão	com	Abraão,	Isaac	e
Jacó	no	Reino	dos	Céus,	¹²ao	passo	que	os	filhos	do	Reino	serão	expulsos	para	a
escuridão.	Aí	haverá	choro	e	ranger	de	dentes”.	¹³Então	Jesus	disse	ao	centurião:
“Vá,	e	lhe	aconteça	como	você	acreditou”.	E	nessa	mesma	hora	o	criado	ficou
curado.
O	contato	de	Jesus	com	o	centurião,	oficial	romano	comandante	de	uma	guarda
de	cem	soldados,	corresponde	a	um	tema	transversal	da	catequese	mateana:	a
boa	vontade	dos	pagãos	em	aderir	ao	Reino	dos	Céus	anunciado	por	Jesus	e,	na
direção	contrária,	a	má	vontade	da	liderança	religiosa	judaica	em	reconhecê-lo
como	Messias.
O	centurião	aproxima-se	de	Jesus	preocupado	com	a	doença	de	um	criado	e	lhe
faz	uma	súplica	(v.	5-6).	Três	coisas	chamam	a	atenção.	(a)	O	centurião	dirige-se
a	Jesus	com	o	título	de	“Senhor”	(gr.	kýrios),	linguagem	peculiar	dos	discípulos
ou	de	quem	está	aberto	para	acolher	o	Reino.	(b)	Trata-se	do	superior
preocupado	com	a	situação	do	subalterno	num	contexto	de	rígida	hierarquia.	O
centurião	pauta-se	pela	ética	do	discipulado	do	Reino,	pois,	sendo	grande,	faz-se
servidor,	como	o	Filho	do	Homem	que	veio	para	servir	(cf.	Mt	20,26-28).	(c)	A
paralisia,	pela	qual	o	criado	“sofria	terrivelmente”,	imobilizava-o	e	o	tornava
dependente.	O	centurião	empenha-se	para	libertá-lo	daquela	situação	e	restituir-
lhe	a	independência	e,	com	ela,	a	dignidade	humana.
A	atitude	misericordiosa	daquele	“pagão”	move	Jesus	a	intuir	seu	desejo,	já	que
se	limitou	a	comunicar-lhe	um	fato,	como	se	o	pedido	estivesse	embutido	na
comunicação.	O	Mestre	dispõe-se	a	ir	até	o	paralítico	para	curá-lo	(v.	7).	Ou
melhor,	para	salvá-lo	por	ter	como	missão	libertar	o	ser	humano	de	todos	os
empecilhos	para	fazer	o	bem.
O	centurião	tem	uma	reação	surpreendente	(v.	8-9).	Está	convencido	de	ser
desnecessário	o	“Senhor”	ir	à	sua	casa	para	curar	seu	criado.	Uma	palavra	dita
de	longe	terá	tanto	poder	curativo	quanto	a	palavra	dita	de	perto.	O	centurião
compara	a	força	das	palavras	que	dirige	aos	subordinados	com	a	força	da	palavra
de	Jesus,	cujo	poder	de	curar	doenças	e	enfermidades	poderá	se	manifestar	em
benefício	do	servo	distante,	independentemente	da	presença	física.
Jesus	admira-se	com	a	profundidade	da	fé	daquele	homem,	jamais	encontrada
em	algum	israelita	(v.	10).	Essa	observação	desarticula	todo	atrevimento	de
desprezar	os	não	judeus	e	acusá-los	de	práticas	“idolátricas”,	como	se	estivessem
distantes	de	Deus.	Uma	pessoa	pode	estar	a	serviço	do	Império	Romano	e	sua
ideologia,	mas	não	se	deixar	contaminar	por	atitudes	desumanizadoras.	Aquele
centurião	tornava-se	um	exemplo	consumado	de	liberdade	em	face	da	arrogância
difundida	em	seu	ambiente	imperial	e	militar.
O	Mestre	continua	a	manifestar	sua	surpresa	chamando	a	atenção	para	os	que
vêm	de	longe	para	se	assentar	no	Reino	dos	Céus	com	os	grandes	patriarcas	de
Israel,	enquanto	“os	filhos	do	Reino”	perderão	a	chance	de	se	beneficiar	de	seu
privilégio	(v.	11-12;	cf.	Mt	2,1-12).	Terão	como	sorte	serem	inexoravelmente
excluídos	do	Reino	e	lançados	na	“escuridão”.
O	criado	do	centurião	recebe	o	benefício	da	cura	no	mesmo	instante	em	que	o
Mestre	está	falando	(v.	13).	A	recuperação	do	paralítico	decorre	da	fé	do
centurião	no	poder	do	Messias	Jesus.	Muitos	outros	“pagãos”	como	ele	têm
sensibilidade	para	as	coisas	do	Reino	dos	Céus.	Os	discípulos,	quando	chegar	a
hora	de	saírem	em	missão,	deverão	ter	sempre	diante	de	si	essa	realidade,	de
modo	a	jamais	fazerem	acepção	de	pessoas.
A	sogra	de	Pedro	e	outras	curas	(8,14-17)
||	Mc	1,29-34;	Lc	4,38-41
¹⁴Quando	Jesus	chegou	à	casa	de	Pedro,	viu	a	sogra	dele	de	cama	com	febre.
¹⁵Jesus	pegou	a	mão	dela,	e	a	febre	a	deixou.	Ela	se	levantou	e	começou	a	servi-
lo.	¹ Ao	entardecer,	levaram	a	Jesus	muitos	endemoninhados.	E	ele,	com	uma
palavra,	expulsou	os	espíritos	e	curou	todos	os	que	estavam	doentes.	¹⁷Assim	se
cumpriu	o	que	fora	anunciado	pelo	profeta	Isaías:	“Ele	assumiu	nossas	fraquezas
e	carregou	nossas	doenças”.
Mais	uma	vez	Jesus	quebra	os	tabus	religiosos.	Já	havia	tocado	o	leproso	e
elogiado	a	grandeza	da	fé	de	um	pagão.	Agora	cura	uma	mulher	pegando-lhe	a
mão.	Trata-se	da	sogra	de	um	dos	discípulos,	que	sofria	com	uma	febre	terrível.
A	enfermidade	a	deixava	imobilizada,	impossibilitada	de	fazer	os	serviços
domésticos,	mas	também	de	cumprir	os	deveres	de	hospitalidade	(v.	14).	A
mulher	fica	curada	da	febre	quando	Jesus	segura	sua	mão.
Seu	primeiro	gesto	de	bondade	dirigiu-se	a	Jesus,	que	a	havia	curado.	Ao	se
levantar	da	cama,	pôs-se	a	servi-lo,	sinal	verdadeiro	da	cura:	tornou-se	servidora
do	Messias	Jesus	(v.	15).	Outro	indício	de	ter	sido	salva	por	ele	é	ter	passado	da
dependência	ao	serviço,	da	inação	à	atividade,	da	marginalização	ao
protagonismo.
O	v.	16	faz	um	apanhado	da	ação	taumatúrgica	de	Jesus,	pela	qual	as	pessoas	são
libertadas	do	influxo	pernicioso	dos	maus	espíritos	e	das	doenças	e	seus	nefastos
desdobramentos	sociais	e	religiosos.	A	presença	do	Messias	Jesus	descortina	um
horizonte	de	esperança	para	todos	os	que	se	aproximam	dele,	dentre	os	quais	os
pagãos.
A	observação	temporal	“ao	entardecer”	pode	ter	um	sentido	metafórico.	Quando
o	sol	se	põe,	um	novo	amanhecer	desponta	na	vida	daquelas	pessoas.	Brilha	uma
luz	para	tirá-las	da	escuridão	(cf.	Mt	4,16).
O	narrador	entende	a	ação	de	Jesus	com	a	profecia	de	Isaías	como	pano	de	fundo
(v.	17).	Quando	fala	do	Servo	de	Javé,	declara	que	carregava	sobre	si	nossas
doenças	e	levava	nas	costas	nossas	dores	(cf.	Is	53,4).	Todavia,	na	catequese
mateana,	o	texto	profético	tem	um	significado	distinto.	Jesus,	no	decorrer	do	seu
ministério,	simplesmente	eliminouas	doenças	e	enfermidades	que	oprimiam	as
pessoas	e	as	faziam	sofrer.	O	“sofrimento	vicário”	–	sofrer	no	lugar	de	outrem	–
do	Servo	de	Javé	torna-se	intervenção	libertadora	no	ministério	do	Messias
Jesus.
Disposição	para	o	seguimento	radical	(8,18-22)
||	Lc	9,57-62
¹⁸Vendo	a	multidão	ao	seu	redor,	Jesus	mandou	que	partissem	para	a	outra
margem.	¹ Então	um	doutor	da	Lei	se	aproximou	e	lhe	disse:	“Mestre,	eu	te
seguirei	aonde	quer	que	fores”.	² Jesus	lhe	disse:	“As	raposas	têm	tocas	e	as	aves
do	céu	têm	ninhos,	mas	o	Filho	do	Homem	não	tem	onde	repousar	a	cabeça”.
²¹Outro	de	seus	discípulos	lhe	disse:	“Senhor,	permite	que	eu	vá	primeiro
sepultar	meu	pai”.	²²Jesus	lhe	disse:	“Siga-me,	e	deixe	que	os	mortos	enterrem
seus	mortos”.
Jesus	era	um	Mestre	itinerante.	Cafarnaum,	cidade	à	beira	do	lago	de	Genesaré,
funcionava	como	base	de	suas	muitas	andanças,	sempre	acompanhado	de
multidões	a	quem	instruía,	em	vista	de	abraçarem	o	discipulado	do	Reino	e,	com
ele,	levar	adiante	a	missão	recebida	do	Pai	(v.	18).	Muitas	pessoas	tiveram	a
intenção	de	se	tornar	discípulos.	Os	dois	casos	aqui	narrados	referem-se	a	duas
de	muitas	situações	semelhantes	com	as	quais	o	Mestre	deparou,	quando	pessoas
o	procuravam	com	o	desejo	de	se	tornarem	discípulas.
O	primeiro	episódio	apresenta	um	doutor	da	Lei	decidido	a	segui-lo	“aonde	quer
que	fosse”	(v.	19).	O	vocativo	“Mestre”,	na	catequese	mateana,	indica	faltar-lhe
abertura	de	coração	para	o	discipulado.	A	resposta	de	Jesus	toca	um	ponto	que
talvez	o	doutor	da	Lei	não	tivesse	considerado.	Os	discípulos	do	Reino	nos
passos	do	Filho	do	Homem	optam	por	viver	na	pobreza,	em	grau	tão	elevado	de
insegurança,	desconhecido	até	mesmo	pelos	animais	dos	campos.	O	Filho	do
Homem	não	tem	lugar	certo	para	descansar,	enquanto	as	raposas	têm	tocas	e	as
aves	do	céu,	ninhos	(v.	20).	O	discípulo	se	dispõe,	nas	longas	caminhadas	com	o
Mestre,	a	fazer	a	mesma	experiência	de	pobreza	e	insegurança.	O	doutor	da	Lei
predispunha-se	a	um	estilo	de	vida	tão	radical?
O	segundo	episódio	tem	outra	impostação.	Um	discípulo	já	comprometido	com	o
Mestre	(por	isso	o	chama	de	“Senhor”)	condiciona	o	seguimento	a	um	dever	de
piedade	filial	(sepultar	o	pai)	como	forma	de	honrá-lo	(v.	21;	cf.	Ex	20,12;	Dt
5,16).	A	resposta	do	Mestre	soa	muito	dura,	como	se	o	discipulado	exigisse	virar
as	costas	para	os	genitores,	negando-lhes	algo	requerido	pelo	bom	senso	(v.	22).
O	discipulado	do	Reino	realmente	tem	como	condição	deixar	tudo	quanto	for
empecilho	para	abraçá-lo	total	e	imediatamente,	como	se	passara	com	os
primeiros	discípulos	(cf.	Mt	4,20.22).	Protelar	a	resposta	ao	chamado	do	Mestre
à	espera	da	morte	e	do	sepultamento	do	pai	está	fora	de	cogitação	para	quem	se
dispõe	a	ser	discípulo	do	Reino.	Haverá	quem	tome	essa	providência	como	obra
de	misericórdia	no	momento	oportuno.	Com	essa	certeza,	o	discípulo	pode
seguir	confiante	seu	caminho!
A	tempestade	acalmada	(8,23-27)
||	Mc	4,35-41;	Lc	8,22-25
²³Jesus	subiu	na	barca,	e	seus	discípulos	o	seguiram.	²⁴Eis	que	no	mar	houve	uma
violenta	tempestade,	a	tal	ponto	que	a	barca	estava	sendo	coberta	pelas	ondas.
Jesus,	porém,	dormia.	²⁵Então	os	discípulos	se	aproximaram	e	o	acordaram,
dizendo:	“Senhor,	salva-nos!	Estamos	morrendo!”	² Jesus	lhes	disse:	“Por	que
vocês	são	medrosos,	tão	fracos	na	fé?”	Então,	levantando-se,	ameaçou	os	ventos
e	o	lago,	e	houve	grande	calmaria.	²⁷Os	homens	ficaram	espantados	e	diziam:
“Quem	é	este,	a	quem	até	os	ventos	e	o	mar	obedecem?”
A	caminhada	do	Mestre	com	os	discípulos	continua,	agora	em	circunstâncias
terrivelmente	adversas	(v.	23-24).	Estão	atravessando	o	lago	de	Genesaré,
chamado	de	mar	(gr.	thálassa),	quando	uma	tormenta	de	grandes	proporções	os
surpreende.	O	barco	está	na	iminência	de	afundar,	coberto	por	imensas	ondas.
Um	detalhe:	Jesus	dorme	tranquilamente!	O	desespero	dos	discípulos	se
contrasta	com	a	serenidade	do	Mestre,	que	se	mantém	em	paz,	apesar	do	mar
revolto.
Os	discípulos	acordam-no	e	suplicam	serem	salvos	pela	imediata	intervenção	do
Mestre,	por	estarem	na	iminência	de	morrer	(v.	25).	O	vocativo	“Senhor”
expressa	confiança	no	poder	de	tirar-lhes	daquele	apuro.	O	pedido	de	socorro
(“Salva-nos!”)	evoca	sua	missão	peculiar	de	salvador	(cf.	Mt	1,21).	Os
discípulos	têm	a	plena	confiança	de	terem	consigo	quem	pode	livrá-los	do
iminente	naufrágio	fatal.
O	Mestre	desperta	e	censura-lhes	o	medo	e	a	fraqueza	na	fé.	Em	seguida,	atende-
lhes	o	pedido	com	uma	ordem	carregada	de	autoridade	dirigida	aos	elementos	da
natureza	(“os	ventos	e	o	mar”),	que	o	obedecem	de	imediato	(v.	26).	Na	tradição
bíblica	o	medo	contrapõe-se	à	fé.	Os	discípulos	medrosos	carecem	de	fé	e	seu
desespero,	embora	tendo	o	Mestre	junto	de	si,	demonstra	a	pequenez	de	sua	fé
(gr.	oligópistoi).	A	presença	do	Mestre	deveria	despertar	confiança	e	esperança
numa	situação	em	que	a	morte	está	à	porta.	O	discipulado	exige	a	consciência	de
ter	sempre	consigo	o	Mestre	(cf.	Mt	28,20).	Nos	momentos	tenebrosos	de
perseguição,	essa	consciência	se	faz	especialmente	necessária,	como	pressuposto
para	enfrentar	e	vencer	as	tormentas.
A	expressão	“os	discípulos”	do	v.	23	dá	lugar	ao	genérico	“os	homens”	do	v.	27.
Pode	ser	uma	forma	de	sublinhar	a	precariedade	da	fé	dos	discípulos,	incapazes
de	compreender	em	profundidade	a	identidade	do	Mestre.	Aqueles	“homens”
não	haviam	ainda	atingido	a	maturidade	da	fé	esperada	dos	“discípulos”.	A	frase
de	espanto:	“Quem	é	este,	a	quem	até	os	ventos	e	o	mar	obedecem?”	supõe	a
descoberta	de	um	poder	do	Mestre	até	então	desconhecido.	Os	discípulos	ainda
têm	pela	frente	um	longo	caminho	a	percorrer	até	aprenderem	a	se	manter
tranquilos	em	meio	às	perseguições	e	aos	dissabores	da	missão,	constantes	na
vida	da	comunidade	do	Reino	(cf.	Mt	5,10-12).
Os	endemoninhados	de	Gadara	(8,28-34)
||	Mc	5,	1-20;	Lc	8,	26-39
²⁸Chegando	ao	outro	lado,	no	território	dos	gadarenos,	dois	endemoninhados
saíram	dos	túmulos	e	foram	ao	encontro	dele.	Eram	tão	violentos,	que	ninguém
podia	passar	por	esse	caminho.	² Eis	que	começaram	a	gritar:	“O	que	queres	de
nós,	Filho	de	Deus?	Vieste	aqui	para	nos	atormentar	antes	do	tempo?”	³ A	certa
distância	deles	estava	pastando	grande	manada	de	porcos.	³¹Os	demônios	lhe
suplicavam,	dizendo:	“Se	nos	expulsas,	manda-nos	para	a	manada	de	porcos”.
³²Jesus	lhes	disse:	“Vão”.	Eles	saíram	e	entraram	nos	porcos.	E	toda	a	manada
lançou-se	precipício	abaixo	em	direção	ao	mar,	e	morreu	nas	águas.	³³Os	que
cuidavam	dos	porcos	fugiram,	e	chegando	à	cidade	contaram	tudo,	também	o
que	tinha	acontecido	com	os	endemoninhados.	³⁴Eis	que	a	cidade	toda	saiu	ao
encontro	de	Jesus.	Vendo-o,	suplicaram-lhe	que	se	retirasse	do	território	deles.
Em	suas	incessantes	caminhadas,	o	Mestre	ultrapassa	os	limites	do	território
judaico	e	chega	ao	“território	dos	gadarenos”	(v.	28),	situado	do	outro	lado	do	rio
Jordão.	E	se	vê	diante	de	uma	cena	impressionante,	logo	após	o	susto	dos
discípulos	no	mar.	Uma	dupla	de	possessos	sai	das	sepulturas	e	vai	em	sua
direção.	A	observação	de	que	eram	violentos,	impedindo	as	pessoas	de
transitarem	pelo	local,	acena	para	a	situação	perigosa	para	o	Mestre,	tanto	quanto
a	experiência	anterior	no	mar	agitado.	Os	endemoninhados	poderiam	matá-lo
com	os	discípulos.	A	serenidade	da	cena	precedente	será	mantida	no	confronto
com	os	possessos	violentos.
Os	endemoninhados	têm	quem	os	confronte	destemido.	Aos	gritos,	revelam	a
superioridade	do	Filho	de	Deus,	o	único	capaz	de	submetê-los	(v.	29).
Reconhecem	a	identidade	de	Jesus,	a	quem	se	referem	como	Filho	de	Deus,	e,
por	consequência,	sua	imunidade	em	relação	às	investidas	demoníacas.	O
tormento	causado	aos	demônios	“antes	do	tempo”	sugere	que	haverá	um
momento	em	que	não	só	serão	atormentados,	mas	definitivamente	eliminados.
Seria	o	momento	da	morte	de	cruz	(cf.	Mt	26,18)?
A	referência	à	grande	manada	de	porcos	indica	estar	Jesus	fora	dos	limites	de
Israel,	em	terras	pagãs,	pois	o	porco	era	considerado	animal	impuro	pela	religião
judaica	(v.	30;	cf.	Lv	11,7;	Dt	14,8).	O	pedido	dos	demônios	humilhados	pela
presença	de	Jesus	para	se	incorporarem	na	manada	de	porcose	a	permissão
concedida	apontam	para	o	efeito	salvador	de	sua	presença	entre	os	pagãos,
libertados	de	tudo	quanto	os	oprime	e	os	incapacita	para	o	convívio	social	(v.	31-
32).
Quando	os	espíritos	entram	nos	porcos,	a	manada	inteira	se	lança	ao	mar,	do	alto
de	um	precipício,	sendo	tragada	pelas	águas,	retrato	da	libertação	total	operada
por	Jesus.	Uma	vez	afogados	com	os	porcos,	os	demônios	estão	impossibilitados
de	se	apoderar	dos	seres	humanos,	como	os	dois	gadarenos,	e	torná-los
antissociais.	A	ação	salvadora	de	Jesus	consiste	na	libertação	do	ser	humano	de
todo	poder	diabólico	que	o	descentra	da	vontade	do	Pai	e	o	incapacita	para	a
convivência	pacífica	e	fraterna.
Os	futuros	discípulos-apóstolos	deverão	se	espelhar	em	Jesus	quando	saírem
para	anunciar	o	Reino	em	todos	os	rincões	da	terra	(cf.	Mt	28,19).	Espera-lhes	a
mesma	rejeição	quando	a	cidade	inteira	pediu	para	Jesus	se	retirar	dali,	ao	se
tornarem	públicos	os	fatos	envolvendo	os	endemoninhados	(v.	33-34).	Como	o
Mestre	foi	solicitado	a	se	retirar	“do	território	deles”,	embora	tendo	feito	o	bem,
da	mesma	forma	acontecerá	com	os	discípulos	do	Reino	na	tarefa	de	libertar	os
seres	humanos	de	suas	muitas	possessões.
Cura	do	paralítico	(9,1-7)
||	Mc	2,1-12;	Lc	5,17-26
¹Jesus	entrou	numa	barca,	atravessou	para	a	outra	margem	e	chegou	à	sua
cidade.	²Eis	que	levaram	a	ele	um	paralítico	deitado	na	maca.	Vendo	a	fé	que
eles	tinham,	Jesus	disse	ao	paralítico:	“Coragem,	filho!	Seus	pecados	estão
perdoados”.	³Então	alguns	doutores	da	Lei	diziam	consigo:	“Ele	blasfema”.
⁴Conhecendo-lhes	o	pensamento,	Jesus	disse:	“Por	que	vocês	pensam	coisas	más
em	seus	corações?	⁵De	fato,	o	que	é	mais	fácil?	Dizer:	‘Seus	pecados	estão
perdoados’,	ou	dizer:	‘Levante-se	e	ande’?	 Para	que	vocês	saibam	que	o	Filho
do	Homem	tem	na	terra	autoridade	para	perdoar	pecados...”	Disse	então	ao
paralítico:	“Levante-se,	pegue	sua	maca	e	vá	para	casa”.	⁷Ele	se	levantou	e	foi
para	casa.	⁸Vendo	isso,	as	multidões	ficaram	com	medo	e	glorificavam	a	Deus
por	ter	dado	às	pessoas	tão	grande	autoridade.
Após	uma	rodada	de	atividades	missionárias,	Jesus	volta	“à	sua	cidade”,
Cafarnaum,	à	beira	do	lago	de	Genesaré	(cf.	Mt	4,13),	ponto	de	referência	de
suas	andanças	pela	Galileia	(v.	1).	Trazem-lhe,	então,	um	“paralítico	deitado	na
maca”.	A	paralisia	impossibilita	o	ser	humano	de	praticar	o	bem.	Enquanto
doença,	era	considerada	castigo	divino	e	atraía	olhares	carregados	de	censura.
Ver-se	livre	desse	peso	era	o	anseio	de	muitas	pessoas	que	se	aproximavam	de
Jesus.
O	paralítico	foi	levado	à	presença	de	Jesus	pela	solidariedade	de	quem	se	deu	ao
trabalho	de	carregá-lo,	com	os	incômodos	decorrentes	daquelas	circunstâncias.
Jesus	“viu	a	fé”	deles.	Certamente	a	fé	do	paralítico	e	a	de	quem	lhe	fazia	aquele
imenso	favor.	Por	estarem	todos	envolvidos	por	uma	profunda	certeza	do	poder
libertador	de	Jesus,	o	paralítico	se	encontrava	ali	diante	dele.
A	fé	visibilizada	como	cuidado	com	o	irmão	sofredor	(cf.	Mt	25,36)	moveu
Jesus	a	agir,	embora	nenhum	pedido	lhe	tivesse	sido	feito	(v.	2).	Chamando	o
paralítico	de	filho	(gr.	téknon),	começa	por	perdoar-lhe	os	pecados.	Se	não	havia
mais	pecado	naquele	homem,	deixa	de	existir	motivo	para	estar	doente.	Logo,	já
está	curado!	Os	preconceitos	sociais	e	as	sanções	religiosas	podem,	então,	ser
deixados	de	lado.	Daquele	momento	em	diante,	aquele	ser	humano	torna-se
outra	pessoa	pela	ação	salvadora	do	Messias	Jesus.	Havia	recuperado	a
autonomia	e	a	capacidade	de	fazer	o	bem,	ao	ficar	livre	da	paralisia.
Os	adversários,	presentes	onde	quer	que	Jesus	se	encontrasse,	põem-se	a	pensar
mal	dele,	como	se	tivesse	cometido	uma	grave	blasfêmia,	ao	usurpar	o	poder	de
perdoar	pecados,	exclusivo	de	Deus	(v.	3).	Estando	o	pecado	no	âmbito	da
relação	Deus-paralítico,	a	iniciativa	de	cancelar	a	falta	do	doente	e	restituir-lhe	a
saúde	era	da	alçada	divina.	Logo,	consideravam	as	palavras	de	Jesus	uma
inaceitável	ofensa	a	Deus	a	ser	firmemente	denunciada.	O	gesto	de	Jesus	não	se
enquadrava	nos	esquemas	religiosos	dos	doutores	da	Lei	e	sua	rígida
compreensão	de	Deus.
Percebendo	a	malignidade	de	seus	pensamentos,	por	serem	incapazes	de
reconhecer	os	benefícios	divinos	em	favor	do	paralítico	no	perdão	concedido,
Jesus	defronta	os	doutores	da	Lei	com	seu	poder	ilimitado	de	fazer	o	bem.	Além
de	perdoar	os	pecados,	tem	autoridade	para	fazer	o	paralítico	levantar-se	e	andar
independente	de	ajuda	(v.	4-5).	Jesus	passa	das	palavras	à	ação,	ordenando	ao
paralítico	levantar-se,	pegar	a	maca	e	ir	para	casa	(v.	6).	Quem	chegara
carregado,	partia	totalmente	curado	pela	palavra	cheia	de	autoridade	(gr.
exousía)	do	Filho	do	Homem,	o	Messias	Jesus	(v.	7).
Outra	vez	Jesus	deixava	atônitas	as	multidões	com	seus	feitos	que	evocavam	o
agir	misericordioso	de	Deus	em	prol	da	humanidade.	Enquanto	a	liderança
religiosa	o	considerava	blasfemo,	as	multidões	reconheciam	a	origem	divina	de
suas	ações.	E	glorificavam	a	Deus	(v.	8).
Chamado	de	Mateus	e	refeição	com	pecadores	(9,9-13)
||	Mc	2,13-17;	Lc	5,27-32
Tendo	partido	daí,	Jesus	viu	um	homem	chamado	Mateus	sentado	na	coletoria
de	impostos.	Jesus	lhe	disse:	“Siga-me!”	Levantando-se,	ele	o	seguiu.	¹ Ora,
aconteceu	que	Jesus	estava	em	casa	sentado	à	mesa.	Chegaram	muitos
cobradores	de	impostos	e	pecadores,	e	sentaram-se	à	mesa	com	Jesus	e	seus
discípulos.	¹¹Vendo	isso,	os	fariseus	perguntavam	aos	discípulos	de	Jesus:	“Por
que	o	mestre	de	vocês	come	entre	cobradores	de	impostos	e	pecadores?”	¹²Jesus
ouviu	e	respondeu:	“Não	são	os	sadios	que	precisam	de	médico,	e	sim	os
doentes.	¹³Vão	e	aprendam	o	que	significa:	‘Quero	misericórdia	e	não	sacrifício’.
Porque	eu	não	vim	chamar	justos,	e	sim	pecadores”.
Essa	pequena	cena	evangélica	contém	um	elemento	da	identidade	do	Messias
Jesus	presente	na	catequese	mateana:	a	solidariedade	com	os	pecadores	e
marginalizados.	Estes	são	os	destinatários	privilegiados	de	sua	missão	de
salvador	por	serem	os	mais	dependentes	da	misericórdia	do	Pai	dos	Céus.	A
integração	de	Mateus,	um	cobrador	de	impostos,	na	comunidade	dos	discípulos
com	uma	ordem	peremptória	(“Siga-me!”)	e	sua	imediata	execução	terá	causado
alvoroço	(v.	9).	Na	mentalidade	da	liderança	religiosa,	o	gesto	de	Jesus	estava
carregado	de	conotações	negativas.	Afinal	de	contas,	os	cobradores	de	impostos
estavam	a	serviço	dos	opressores	romanos;	por	isso	mereciam	o	desprezo	do
povo	fiel	a	Deus.	A	convivência	com	os	detestados	pagãos	colocava-os	em
situação	de	contínua	impureza,	mais	uma	razão	para	se	manter	distante	deles.
Nada	disso	impedia	Jesus	de	se	manter	fiel	ao	querer	do	Pai,	que	não	faz	acepção
de	pessoas	(cf.	Mt	5,45).
Na	cena	seguinte,	Jesus	está	“em	casa	sentado	à	mesa”	(v.	10).	O	narrador	não
especifica	de	que	casa	se	trata.	O	leitor-ouvinte	pode	suspeitar	se	tratar	da	casa
de	Mateus,	pela	presença	de	muitos	cobradores	de	impostos	e	pecadores
sentados	à	mesa	com	Jesus	e	seus	discípulos.	Esse	era	seu	público	preferido,	pela
consciência	de	ter	sido	enviado	pelo	Pai	para	resgatá-lo	das	muitas	formas	de
desumanidade.	Seu	método	consistia	na	proximidade,	na	convivência	e	na
acolhida	compassivas,	isentas	de	moralismo	ou	hostilidade.	Os	pecadores	e
marginalizados,	por	sua	vez,	sentiam-se	à	vontade	na	presença	de	Jesus.
A	crítica	dos	onipresentes	adversários	brota	de	imediato.	Dirigindo-se	aos
discípulos,	querem	explicações	para	a	“censurável”	atitude	do	Mestre,	tão
integrado	com	os	cobradores	de	impostos	e	pecadores,	podendo	ser	confundido
com	eles	(v.	11).	O	atropelo	da	lei	religiosa	era	evidente:	misturando-se	com
pessoas	impuras,	Jesus	se	tornava	impuro	e,	por	isso,	inapto	para	as	coisas	de
Deus,	que	não	falava	pela	boca	de	pessoas	impuras	(cf.	Is	6,5-7).	Os	fariseus
efetivamente	pretendem	alertar	os	discípulos	da	inconveniência	de	seguir	Jesus
pela	eventualidade	de	serem	desviados	da	“autêntica”	religião	querida	por	Deus
defendida	por	eles.
Jesus	ouve	a	pergunta	dos	fariseus	e	se	dá	ao	trabalho	de	respondê-la	em	três
passos	(v.	12-13).
O	primeiro	consiste	em	evocar	um	dito	popular	que	apela	para	uma	verdade
evidente.	Os	médicos	cuidamdas	pessoas	doentes,	e	não	das	sadias.	Essa
metáfora	ilustra	seu	interesse	pelos	cobradores	de	impostos	e	pecadores,	a	quem
a	misericórdia	do	Pai	deve	chegar	em	primeiro	lugar.	Os	fariseus	religiosos	e
seguros	de	estar	em	dia	com	Deus	estão	fora	do	âmbito	de	suas	preocupações.
O	segundo	corresponde	à	citação	do	profeta	Oseias,	uma	declaração	do	interesse
de	Deus	pela	prática	da	misericórdia	em	detrimento	do	culto	(cf.	Os	6,6).	Esse
princípio	norteia	a	ação	de	Jesus	no	esforço	de	se	pautar	pelo	querer	do	Pai.	A
compaixão	para	com	os	cobradores	de	impostos	e	os	pecadores	corresponde
exatamente	ao	que	o	Pai	espera	dele.	Os	fariseus	com	sua	religião	legalista
jamais	o	desviarão	do	seu	caminho.
O	terceiro	explicita	o	sentido	exato	de	sua	ação	missionária:	o	Pai	enviou-o	para
buscar	os	pecadores,	e	não	os	justos	(cf.	Mt	18,10-14).	A	questão	dos	fariseus
fica	respondida	desta	forma:	o	Mestre	come	com	os	cobradores	de	impostos	e	os
pecadores	porque	foi	enviado	pelo	Pai	para	isso!	Subentendido	está	que	a
mentalidade	religiosa	dos	fariseus	desconsidera	o	querer	de	Deus	e	se	constitui
um	tremendo	equívoco.
O	jejum	(9,14-17)
||	Mc	2,18-22;	Lc	5,33-39
¹⁴Foi	quando	os	discípulos	de	João	se	aproximaram	de	Jesus	dizendo:	“Por	que
nós	e	os	fariseus	jejuamos	tanto,	e	os	teus	discípulos	não	jejuam?”	¹⁵Jesus	lhes
disse:	“Por	acaso	os	amigos	do	noivo	podem	estar	de	luto	enquanto	o	noivo	está
com	eles?	Dias	virão	em	que	o	noivo	será	tirado	deles.	Então	sim	farão	jejum.
¹ Ninguém	remenda	roupa	velha	com	pano	novo,	porque	o	remendo	repuxa	a
roupa	e	o	rasgão	fica	pior.	¹⁷Nem	se	põe	vinho	novo	em	vasilhas	de	couro	velhas,
porque	assim	as	vasilhas	se	romperiam,	o	vinho	se	derramaria	e	as	vasilhas	se
estragariam.	Vinho	novo	se	coloca	em	vasilhas	novas,	e	assim	os	dois	se
conservam”.
Outro	grupo	questiona	a	pedagogia	de	Jesus.	São	os	“discípulos	de	João”,	que
mantinham	viva	a	memória	do	Batista,	sua	concepção	da	realidade	e	o
correspondente	estilo	de	vida	ascético	(cf.	Mt	3,1-12).	Sentem-se	incomodados
com	a	falta	de	rigor	de	Jesus	no	trato	com	os	discípulos	ao	relativizar	o	jejum.
Os	discípulos	de	João	e	os	fariseus	valorizavam	essa	prática	de	piedade.	Por	isso
consideravam	Jesus	um	mestre	permissivo,	que	não	impunha	um	regime	de
austeridade	aos	discípulos	(v.	14).
A	resposta	vem	de	imediato,	com	três	metáforas.	A	primeira	refere-se	ser
inviável	os	amigos	do	noivo	fazerem	luto	em	plena	festa	de	casamento.
Terminada	a	festa,	sim,	poderia	justificar-se	o	enlutamento	(v.	15).	O	evangelista
parece	referir-se	ao	tempo	da	vida	terrena	de	Jesus	e	ao	tempo	sucessivo	à	sua
morte.	Seria	uma	forma	de	justificar	a	prática	do	jejum	em	sua	comunidade,
formada	por	muitos	cristãos	provindos	do	judaísmo?	Uma	prática	não
incentivada	outrora	pelo	Mestre	poderia	ter	sentido	agora,	quando	já	não	se
contava	com	sua	presença	física.
A	segunda	provém	do	universo	feminino,	onde	as	roupas	são	feitas	e	restauradas
(v.	16).	Remendar	roupa	velha	com	pano	novo	não	tem	sentido	e	será	um
trabalho	perdido;	logo	aparecerá	um	rasgão	ainda	maior.	Aplicado	à	pedagogia
de	Jesus,	criticada	pelos	discípulos	de	João	Batista,	significa	a	impossibilidade
de	se	conciliar	a	novidade	do	Reino	com	concepções	religiosas	caducas.	Só
entenderá	a	prática	de	Jesus	quem	se	relacionar	com	Deus	de	modo	semelhante	a
ele.
A	terceira	tem	a	ver	com	a	viticultura.	Só	o	vinhateiro	desavisado	coloca	vinho
novo	em	recipientes	de	couro	desgastados	(v.	17).	Pode-se	esperar	que	se	perderá
todo	o	trabalho	de	plantar	as	videiras,	colher	as	uvas	e	pisá-las.	Vinhateiro
experiente	coloca	o	vinho	novo	em	recipientes	de	couro	novos,	para	garantir
vida	longa	a	ambos.	Os	discípulos	de	Jesus	devem	acolher	a	novidade	de	sua
pedagogia	como	se	fossem	recipientes	novos,	de	maneira	a	se	deixarem
fermentar	por	seus	ensinamentos	e	não	se	escandalizarem,	como	acontece	com
seus	críticos.
Cura	da	mulher	e	ressurreição	da	menina	(9,18-26)
||	Mc	5,21-43;	Lc	8,40-56
¹⁸Enquanto	Jesus	lhes	dizia	essas	coisas,	eis	que	chegou	um	chefe	e	se	ajoelhou
diante	dele,	dizendo:	“Minha	filha	acaba	de	morrer.	Mas	vem,	impõe	a	mão
sobre	ela,	e	ela	viverá”.	¹ Levantando-se,	Jesus	o	seguiu,	ele	com	seus	discípulos.
² Nisso	apareceu	uma	mulher	que	sofria	de	hemorragia	fazia	doze	anos.	Ela	se
aproximou	por	detrás	de	Jesus	e	tocou-lhe	na	barra	do	manto.	²¹Porque	dizia
consigo:	“Se	eu	apenas	tocar	no	manto	dele,	ficarei	curada”.	²²Então	Jesus	se
voltou	e,	vendo	a	mulher,	lhe	disse:	“Coragem,	filha!	Sua	fé	salvou	você”.	E	a
partir	desse	momento	a	mulher	ficou	curada.
²³Jesus	chegou	à	casa	do	chefe,	viu	os	flautistas	e	a	multidão	em	alvoroço,	²⁴e
disse:	“Retirem-se,	porque	a	menina	não	morreu.	Está	dormindo”.	E	caçoavam
dele.	²⁵Quando	a	multidão	se	retirou,	Jesus	entrou,	tomou	a	menina	pela	mão,	e
ela	se	levantou.	² E	a	notícia	se	espalhou	por	toda	essa	região.
Esse	bloco	entrelaça	duas	cenas,	ambas	implicando	mulheres	com	as	vidas
ameaçadas:	a	filha	de	um	chefe	recém-falecida	e	uma	mulher	com	hemorragia.
Retorna	aqui	um	tema	transversal	da	catequese	mateana,	qual	seja,	a
solidariedade	do	Messias	Jesus	com	as	mulheres,	a	quem	busca	integrar	na
comunidade	do	Reino	e	na	sociedade.	No	início	da	catequese,	quatro	mulheres
são	inseridas	na	genealogia	(cf.	Mt	1,3.5),	além	de	Maria	(cf.	Mt	1,16);	na
conclusão,	as	mulheres	são	enviadas	para	anunciar	a	ressurreição	aos	discípulos
(cf.	Mt	28,9-10).	Essas	referências	às	mulheres	formam	uma	inclusão	relevante
na	catequese	mateana.
O	primeiro	gesto	poderoso	de	Jesus	beneficia	a	filha	de	um	chefe,	uma	pessoa
importante	da	cidade.	Chefe	de	quê	e	de	quem?	O	narrador	omite	essa
informação.	Sua	prostração	diante	de	Jesus	(gr.	proskynéo)	pode	ser	um	gesto	de
adoração	(cf.	Mt	2,10)	e	expressão	de	humildade.	Seu	pedido	de	fazer	reviver	a
filha	recém-falecida	com	uma	simples	imposição	de	mãos	revela	a	extrema
confiança	no	poder	(gr.	exousía)	de	Jesus	e	as	dimensões	de	sua	fé	(v.	18).	Jesus
levanta-se	e	vai	com	os	discípulos	atender	o	pedido	do	pai	aflito	(v.	19).
No	meio	do	caminho	surge	uma	mulher	vitimada	há	doze	anos	por	uma
hemorragia	(v.	20).	Chama	a	atenção	a	referência	ao	número	doze,	evocação	das
doze	tribos	de	Israel	na	simbologia	numérica	judaica.	O	tipo	de	doença	tem
igualmente	conotação	simbólica.	Na	concepção	bíblica,	a	vida	está	no	sangue
(cf.	Lv	17,11);	portanto,	perder	sangue	significa	esvair-se	a	vitalidade	corporal	e,
com	ela,	a	vida.	Aquela	filha	de	Israel	está	sendo	privada	do	dom	divino	mais
precioso	e	fragilizada	na	sua	condição	humana.
A	presença	de	Jesus	faz	a	esperança	jorrar	do	seu	mais	íntimo	com	a	convicção
de	ser	curada	com	um	simples	toque	em	seu	manto	(v.	21).	Ele	podia	fazer-lhe	o
bem	no	anonimato,	longe	dos	olhares	curiosos	(cf.	Mt	6,3-4).
Jesus	antecipa-se	e	a	surpreende	antes	que	pusesse	em	prática	sua	decisão	(v.
22).	No	meio	do	alvoroço,	dá-se	conta	do	sofrimento	daquela	mulher	e	seu	longo
processo	de	morte.	Volta-se	para	dirigir-lhe	uma	palavra	de	ânimo	ao	se	dar
conta	da	profundidade	de	sua	fé,	pela	qual	a	vida	será	restituída	àquela
sofredora.	A	ação	do	Messias	salvador	resultou	em	recuperação	da	vida	e	da
dignidade	de	um	ser	humano	e	sua	reinserção	na	vida	social	e	religiosa	pela	cura
de	uma	doença	devastadora.	A	mulher	foi	transformada	no	encontro	com	Jesus
quando	se	viu	livre	da	hemorragia.
Na	casa	do	chefe,	Jesus	encontra	um	enorme	rebuliço	da	multidão	acompanhada
pelos	flautistas,	fazendo	as	lamentações	de	praxe	pela	morte	da	filha	do	chefe	(v.
23;	cf.	Ez	24,15-18;	Am	5,16-17).	Ao	declarar	que	a	menina	“não	morreu;	está
dormindo”,	Jesus	torna-se	objeto	de	caçoada	(v.	24).	Era	a	declaração	da
inutilidade	de	todo	aquele	barulho.	Se	a	menina	estava	viva,	não	tinha	sentido
fazer	lamentações	fúnebres.	Sua	declaração,	porém,	parece	contrariar	as
evidências.
Longe	da	multidão	agitada,	Jesus	entra	na	casa	e	atende	o	pedido	do	chefe,	com
um	simples	tomar	a	menina	pela	mão	e	fazê-la	levantar-se	(v.	25).	A	discrição,
recomendada	para	os	atos	de	piedade	(cf.	Mt	6,3.6.17),	vale	igualmente	para	os
atos	de	misericórdia.	Eis	por	que	o	Mestreevita	toda	espécie	de	exibicionismo,
embora	não	consiga	impedir	que	sua	fama	se	espalhe	por	toda	a	região	(v.	26;	cf.
Mt	4,24).
Cura	de	dois	cegos	e	do	endemoninhado	mudo	(9,27-34)
²⁷Quando	Jesus	partiu	daí,	dois	cegos	o	seguiram,	gritando	e	dizendo:	“Filho	de
Davi,	tem	piedade	de	nós!”	²⁸Ao	chegar	à	casa,	os	cegos	se	aproximaram	dele.
Jesus	lhes	perguntou:	“Vocês	creem	que	eu	lhes	posso	fazer	isso?”	Eles	lhe
responderam:	“Sim,	Senhor”.	² Então	Jesus	tocou	nos	olhos	deles,	dizendo:	“Que
lhes	aconteça	conforme	a	fé	que	vocês	têm”.	³ E	os	olhos	deles	se	abriram.	Então
Jesus	os	advertiu:	“Cuidado	para	que	ninguém	fique	sabendo!”	³¹Mas	eles,
saindo	daí,	espalharam	sua	fama	por	toda	essa	região.
³²Logo	que	eles	saíram,	eis	que	levaram	a	Jesus	um	endemoninhado	mudo.
³³Expulso	o	demônio,	o	mudo	falou.	As	multidões	ficaram	maravilhadas,
dizendo:	“Nunca	se	viu	algo	assim	em	Israel!”	³⁴Mas	os	fariseus	diziam:	“É	pelo
chefe	dos	demônios	que	ele	expulsa	os	demônios”.
Duas	outras	curas	completam	o	conjunto	de	gestos	poderosos	de	Jesus,	na
condição	de	Messias	por	obras.	O	primeiro	beneficia	dois	cegos	que	o	seguem
pedindo-lhe,	aos	gritos,	que	tenha	piedade	deles	(v.	27).	Chama	a	atenção	o
vocativo	“Filho	de	Davi”	(cf.	Mt	1,1;	12,23;	15,22;	20,30-31;	21,9.15).	A
catequese	mateana	apresenta	Jesus	como	o	legítimo	descendente	de	Davi,
instaurador	do	Reino,	nos	moldes	queridos	por	Deus,	no	qual	todas	as	pessoas
são	acolhidas	e	integradas.	Ter	piedade	dos	cegos	consistia	em	livrá-los	da
cegueira,	dando-lhes	a	capacidade	de	ver	e	discernir.
O	v.	28	leva	a	pensar	nos	dois	cegos	seguindo	Jesus,	por	certa	distância,	com	seu
pedido	de	compaixão,	até	o	Mestre	chegar	em	casa	e	terem	a	chance	de	se
aproximar	dele.	Aqui,	Jesus	se	comporta	de	maneira	distinta	de	seu
comportamento	nas	demais	cenas	do	evangelho	onde,	dificilmente,	faz
perguntas.	Como	Mestre,	tem	a	função	de	responder!	Tendo	conhecido	as	ações
de	Jesus	realizadas	até	então,	o	leitor-ouvinte	poderá	julgar	dispensável	a
pergunta	a	respeito	da	capacidade	de	agir	em	benefício	dos	cegos.	Quiçá	tenha	a
finalidade	de	provocar	o	ato	de	fé,	com	o	“vocês	creem”	(gr.	pisteúo).	E	do	que
se	trata	o	“fazer	isso”,	já	que	os	cegos	apenas	suplicaram	compaixão,	omitindo-
se	de	fazer	maiores	especificações?	O	desejo	de	serem	curados	da	cegueira
estaria	embutido	naquela	súplica,	por	ser	óbvio	para	um	cego	ter	a	graça	da
visão.	A	resposta,	com	o	vocativo	“Senhor”,	linguagem	de	quem	está	aberto	para
a	fé,	contém	o	pré-requisito	para	ser	beneficiado	pela	ação	do	Messias	Jesus.
Isso	se	mostra	verdadeiro,	pois	Jesus	tocou-lhes	os	olhos	e	ordenou	o	fim	da
cegueira.	E	seus	olhos	se	abriram	(v.	29-30).	Os	relatos	de	cura	da	cegueira
chamam	a	atenção	para	a	importância	de	os	discípulos	terem	olhos	bem	abertos
no	seguimento	do	Mestre	Jesus	(cf.	Mt	20,29-34).	A	capacidade	de	ver	a
realidade	e	discerni-la	à	luz	da	fé	é	característica	do	proceder	do	discípulo	do
Reino.	A	cegueira	espiritual	impede-o	de	caminhar	com	segurança	nos	passos	do
Mestre.
A	advertência	para	os	ex-cegos	guardarem	segredo	do	acontecido	não	foi	levada
a	sério,	pois	se	puseram	a	falar	de	Jesus	por	toda	parte	(v.	30-31).	Essa	e	outras
situações	semelhantes	devem	ser	entendidas	à	luz	de	Mt	5,16.	As	ações
luminosas	do	Messias	Jesus	–	as	boas	obras	–	devem	motivar	as	pessoas	a
louvarem	a	Deus.	Mais	que	chamar	a	atenção	para	si	e	se	tornar	soberbo,	a
finalidade	da	difusão	de	sua	fama	consiste	em	mostrar	as	ações	do	Pai,	em	favor
da	humanidade,	por	meio	de	seu	Filho	amado	(cf.	Mt	3,17).	O	Pai,	sim,	deve	ser
glorificado!
Quando	os	dois	miraculados	se	afastam,	uma	pessoa	possuída	por	um	espírito
que	a	impedia	de	falar	é	apresentada	a	Jesus	(v.	32).	Ela	representa	o	ser	humano
incapaz	de	se	comunicar,	de	criar	laços	de	amizade	e	de	comunhão	com	os
demais,	por	ser	a	fala	um	canal	privilegiado	no	processo	de	inter-relações
pessoais.
A	intervenção	salvadora	de	Jesus	acontece	de	imediato,	independente	de
qualquer	solicitação.	A	simples	presença	de	um	ser	humano	vitimado	pelas
forças	da	desumanização	impele-o	a	colocar	em	ação	o	poder	de	fazer	o	bem	(gr.
exousía)	recebido	do	Pai.
São	omitidas	as	reações	do	homem	libertado	por	Jesus.	Porém,	são	claras	as
reações	dos	presentes,	tanto	das	multidões	quanto	dos	fariseus.	As	multidões
interpretam,	com	benevolência,	os	gestos	poderosos	do	Messias	Jesus	em	favor
da	humanidade	sofredora	como	algo	inteiramente	novo	em	Israel	(v.	33).	Sua
presença	fazia	o	Reino	de	Deus	acontecer,	como	surgimento	de	uma	nova
Humanidade	e	de	uma	nova	Criação.	Na	direção	oposta,	os	inimigos	fariseus,
com	perversidade,	atribuem	às	forças	demoníacas	o	poder	de	Jesus	para	expulsar
os	espíritos	malignos	(cf.	Mt	12,24).
Como	se	vê,	os	milagres	são	insuficientes	para	revelar	a	messianidade	de	Jesus	e
sua	vinculação	com	o	Pai	e	com	o	Reino	dos	Céus.	Tanto	podem	ser
interpretados	de	maneira	positiva	e	favorável,	quanto	de	maneira	negativa	e
desfavorável.	Tudo	dependerá	do	olhar	de	quem	os	contempla.	A	contemplação
com	olhar	e	coração	de	discípulo	possibilita	superar	a	materialidade	dos	fatos	e
perceber,	na	ação	de	Jesus,	sua	condição	de	Filho	enviado	do	Pai.	O	olhar
superficial	e	suspeitoso	dos	inimigos	lhes	tolhe	a	capacidade	de	superar	as
aparências	e	captar	os	fundamentos	da	ação	beneficente	do	Messias	Jesus.
Portanto,	o	fechamento	de	coração	para	o	Mestre	inviabiliza	o	discipulado	já	nas
origens,	mesmo	diante	de	milagres	portentosos.
Compaixão	de	Jesus	pelas	multidões	(9,35-38)
||	Mc	6,34
³⁵Jesus	percorria	todas	as	cidades	e	vilarejos,	ensinando	nas	sinagogas	deles,
pregando	o	evangelho	do	Reino,	e	curando	toda	doença	e	toda	enfermidade.
³ Vendo	as	multidões,	encheu-se	de	compaixão	por	elas,	porque	estavam
angustiadas	e	abandonadas,	como	ovelhas	que	não	têm	pastor.	³⁷Então	disse	a
seus	discípulos:	“A	colheita	é	grande,	mas	os	trabalhadores	são	poucos.
³⁸Portanto,	peçam	ao	Senhor	da	colheita	que	envie	trabalhadores	para	a	sua
colheita”.
Esses	versículos	concluem	o	conjunto	formado	por	Mt	5-9,	onde	Jesus	foi
apresentado	como	Messias	por	palavras	(cf.	Mt	5-7)	e	Messias	por	obras	(cf.	Mt
8-9),	ao	mesmo	tempo	em	que	preparam	o	passo	seguinte.
Mt	9,35	repete	Mt	4,23,	formando	uma	inclusão,	recurso	literário	para
estabelecer	os	limites	de	um	bloco	literário,	como	uma	espécie	de	moldura.
O	v.	36	contém	um	aspecto	marcante	da	identidade	do	Messias	Jesus:	compaixão
pelo	povo	sofredor.	A	situação	de	angústia	e	abandono	das	multidões	toca-lhe	as
entranhas	e	o	move	a	agir;	da	mesma	forma	acontecerá	com	o	discípulo-
apóstolo.	A	compaixão	e	a	misericórdia	são	o	ponto	de	partida	de	todos	quantos
se	põem	a	serviço	do	Reino,	tanto	Jesus	quanto	os	discípulos.	O	verbo	grego
compadecer-se	(splanchnízomai)	deriva-se	do	substantivo	splánchna	(víscera),
sublinhando	a	profundidade	do	que	se	passa	num	coração	compassivo,	como	o
do	Messias	Jesus	(cf.	Mt	14,14;	15,32;	20,34).	Uma	metáfora	pastoril	ilustra	a
condição	de	desamparo	do	povo.	Assemelha-se	a	ovelhas	sem	pastor,	deixadas	à
própria	sorte.	A	missão	de	salvador	do	povo	exige	do	Mestre	uma	resposta.
Os	v.	37	e	38	giram	em	torno	da	metáfora	agrícola	da	insuficiência	de
trabalhadores	para	uma	grande	colheita.	Os	discípulos	são	aconselhados	a
suplicar	ao	Senhor	da	colheita,	para	que	este	envie	trabalhadores	que	deem	conta
de	realizar	uma	tarefa	de	grande	porte.	A	imagem	da	colheita	evoca	os	tempos
finais,	quando	Deus	recolherá	os	frutos	produzidos	pela	humanidade.	Falta	“mão
de	obra”	para	levar	adiante	a	tarefa	de	preparar	esse	momento	da	história.
Compete	ao	proprietário	da	plantação	–	o	Pai	dos	céus	–	convocar	e	confiar	a
missão	a	quem	for	do	seu	agrado	(cf.	Mt	20,1-16).	Com	a	autoridade	(gr.
exousía)	recebida	do	Pai,	o	Messias	Jesus	tomará	a	iniciativa	de	chamar	e	enviar
os	apóstolos	do	Reino,	que	refarão	as	etapas	da	caminhada	do	Mestre,	Messias
por	palavra	e	Messias	por	obras.
Para	reflexão	e	debate
1.	Em	que	sentido	os	gestos	poderosos	de	Jesus	dão	respaldo	às	suas	palavras?
Como	se	interligam	o	messianismo	por	palavras	e	o	messianismo	por	obras?
2.	As	açõesde	Jesus	realizadas	com	a	autoridade	(exousía)	recebida	do	Pai
suscitam	reações	contrastantes.	Por	que	os	gestos	poderosos	de	Jesus	não
suscitam	necessariamente	a	fé	tampouco	movem	as	pessoas	a	aderirem	ao
Reino?
2.	Discurso:	Chamado	para	a	missão
Começa	uma	nova	etapa	da	catequese	mateana	com	o	“discurso	missionário”,	o
segundo	discurso,	quando	Jesus	chama	os	discípulos	e	os	envia	em	missão	como
apóstolos	do	Reino.	O	projeto	de	vida	dos	discípulos-missionários	espelha-se	na
vida	e	na	missão	do	Messias	Jesus.	As	palavras	do	Mestre	deixam	entrever	a
presença	da	cruz	no	exercício	da	missão,	levada	adiante	na	obediência	e	na
fidelidade,	com	as	consequências	delas	decorrentes.
Escolha	dos	Doze	(10,1-4)
||	Mc	3,13-19;	Lc	6,12-16
¹Chamando	seus	Doze	discípulos,	Jesus	deu	a	eles	autoridade	sobre	espíritos
impuros	para	expulsá-los,	e	para	curar	toda	doença	e	toda	enfermidade.	²São
estes	os	nomes	dos	Doze	apóstolos:	primeiro,	Simão,	também	chamado	Pedro,	e
seu	irmão	André;	Tiago,	filho	de	Zebedeu,	e	seu	irmão	João;	³Filipe	e
Bartolomeu;	Tomé	e	Mateus,	o	cobrador	de	impostos;	Tiago,	filho	de	Alfeu,	e
Tadeu;	⁴Simão,	o	cananeu,	e	Judas	Iscariotes,	aquele	que	entregou	Jesus.
Os	Doze	Discípulos	dão	um	passo	a	mais	na	relação	com	o	Mestre	Jesus,	que
lhes	comunica	a	autoridade	(gr.	exousía)	recebida	do	Pai	(cf.	Mt	28,18)	para
continuarem	sua	missão	de	Messias	por	palavras	e	por	obras	(v.	1).	A	palavra
deles	como	a	do	Mestre	será	carregada	de	força	libertadora.	As	pessoas
oprimidas	pelos	maus	espíritos,	por	doenças	ou	enfermidades	ganharão	nova
vida	no	contato	com	os	missionários	do	Reino.	O	bem	realizado	pelo	Mestre,
pequenino	como	um	grão	de	mostarda	(cf.	Mt	13,31-32),	se	multiplicará
infinitamente,	pois	toda	a	humanidade	será	destinatária	da	missão	do	Reino	(cf.
Mt	28,19).	Onde	houver	um	ser	humano	massacrado	pelos	reveses	da	vida,	aí
estará	um	discípulo-missionário	pronto	para	socorrê-lo.
O	número	doze	dos	Apóstolos	evoca	as	doze	tribos	de	Israel,	de	acordo	com	a
simbologia	numérica	judaica.	O	leitor-ouvinte	da	catequese	mateana	dá-se	conta
de	que,	com	o	envio	missionário,	tem	origem	o	Novo	Israel,	constituído	pela
humanidade	que	se	abre	para	o	anúncio	do	Reino	e	se	torna	beneficiária	de	sua
presença	na	história.	A	dimensão	étnico-religiosa	do	Antigo	Israel	deixa	de	ter
importância.	Doravante,	toda	a	humanidade	poderá	beneficiar-se	da	libertação
operada	pelo	Reino	de	Deus,	proclamado	pelos	missionários	enviados	por	Jesus.
Os	Doze	Discípulos	tornam-se	Doze	Apóstolos.	Seus	nomes	são	citados
nominalmente	em	duplas	com	algumas	características	(v.	2-4).	A	condição	de
discípulos-apóstolos	ou	discípulos-missionários	será	a	identidade	dos	seguidores
de	Jesus	de	Nazaré	de	todos	os	tempos.	O	nome	de	Simão	chamado	de	Pedro
abre	a	lista	com	a	indicação	de	ser	o	“primeiro”	(cf.	Mt	16,16-18).	O	evangelista
inserirá	muitas	cenas	onde	Pedro	aparece	como	personagem	de	destaque.	A
leitura	do	conjunto	das	cenas	em	torno	de	Pedro	permite	traçar	seu	itinerário	de
discípulo	feito	de	altos	e	baixos.	Constitui-se	uma	espécie	de	protótipo	real	de
discípulo,	enquanto	no	início	da	catequese	José	foi	apresentado	como	discípulo
do	Reino	ideal	(cf.	Mt	1–2).	Tiago	aparece	como	“filho	de	Zebedeu”	(cf.	Mt
4,20);	Mateus,	“o	cobrador	de	impostos”	(cf.	Mt	9,9);	Tiago,	“filho	de	Alfeu”;
Simão,	“o	cananeu”,	às	vezes	traduzido	como	“o	zelota”;	Judas,	“iscariotes”,
originário	de	Qariot	(cf.	Js	15,25).	O	narrador	acrescenta	uma	nota	muito
negativa	em	relação	a	Judas	Iscariotes	para	alertar	o	leitor-ouvinte	quanto	a	seu
malfeito	por	ocasião	da	paixão	(cf.	Mt	26,47-50).	Nenhum	dos	apóstolos
destaca-se	por	alguma	virtude	excepcional.	São	todos	eles	pessoas	do	povo	a
quem	o	Mestre	se	dará	o	trabalho	de	formar	a	duras	penas	para	a	ingente	tarefa
de	universalizar	sua	missão.
Instruções	para	os	Doze	(10,5-15)
||	Mc	6,7-13;	Lc	9,1-6
⁵Jesus	enviou	esses	Doze,	depois	de	instruí-los	dizendo:	“Não	tomem	o	caminho
dos	gentios	e	não	entrem	nas	cidades	de	samaritanos.	 Em	vez	disso,	vão	às
ovelhas	perdidas	da	casa	de	Israel.	⁷E,	durante	a	viagem,	anunciem	que	o	Reino
dos	Céus	está	próximo.	⁸Curem	enfermos,	ressuscitem	mortos,	purifiquem
leprosos,	expulsem	demônios.	Vocês	receberam	de	graça;	deem	de	graça.	 Não
levem	ouro,	nem	prata,	nem	cobre	em	seus	bolsos,	¹ nem	bolsa	para	o	caminho,
nem	duas	túnicas,	nem	sandálias,	nem	bastão.	Porque	o	trabalhador	tem	direito	a
seu	sustento.	¹¹Entrando	numa	cidade	ou	vilarejo,	procurem	saber	se	aí	existe
alguma	pessoa	que	seja	digna,	e	aí	se	hospedem	até	partirem.	¹²Ao	entrar	na	casa,
façam	a	saudação	de	paz.	¹³Se	a	casa	for	digna,	venha	sobre	ela	a	paz	de	vocês.
Se	não	for	digna,	a	paz	que	vocês	lhe	desejaram	voltará	para	vocês.	¹⁴Se	alguém
não	os	receber	nem	der	ouvido	a	suas	palavras,	sacudam	o	pó	dos	pés	ao	saírem
dessa	casa	ou	dessa	cidade.	¹⁵Eu	lhes	garanto:	No	dia	do	julgamento,	haverá
menos	rigor	para	a	terra	de	Sodoma	e	Gomorra	do	que	para	essa	tal	cidade”.
Os	discípulos-apóstolos	recebem	instruções	precisas.	A	primeira	refere-se	aos
destinatários	da	missão,	“as	ovelhas	perdidas	da	casa	de	Israel”	(v.	5-6).	Por	que
os	gentios	e	os	samaritanos	são	excluídos,	se	até	agora	a	catequese	mateana
mostrava-se	sensível	aos	pagãos	(cf.	Mt	2,1-12)?	À	primeira	vista	a	missão
parece	restringir-se	aos	israelitas,	povo	de	Jesus.
Esses	versículos	escondem	uma	polêmica	que	perpassa	todo	o	evangelho:	o
conflito	entre	a	comunidade	de	Mateus	e	a	liderança	judaica	num	momento	em
que	se	buscava	refazer	o	judaísmo,	após	a	destruição	do	Templo	de	Jerusalém
pelos	romanos	em	70	d.C.	A	chave	para	a	interpretação	encontra-se	na	expressão
“em	vez	disso”	(gr.	mállon).	A	palavra	grega	conota	preferência,	e	não	exclusão.
A	busca	das	“ovelhas	perdidas	da	casa	de	Israel”	será	o	ponto	de	partida,	de
forma	a	manter	o	“privilégio”	de	Israel	na	oferta	da	salvação.	Porém,	com	a
recusa	da	“casa	de	Israel”	(cf.	Mt	27,25)	de	acolher	o	Messias	Jesus,	os
discípulos-apóstolos	irão	em	busca	dos	gentios	e	dos	samaritanos,	de	toda	a
humanidade	(cf.	Mt	28,19).
A	segunda	instrução	determina	o	que	devem	fazer	(v.	7-8a):	anunciar	a	chegada
do	Reino	dos	Céus	e	libertar	as	pessoas	de	suas	opressões.	Isso	corresponde	às
duas	vertentes	do	ministério	de	Jesus:	o	messianismo	por	palavras	e	por	obras.
Caberá	aos	discípulos-apóstolos	dar	continuidade	ao	caminho	aberto	por	Jesus
inspirados	por	ele.	Serão	por	todas	as	partes	e	ao	longo	dos	tempos	a	presença	do
Mestre,	salvador	da	humanidade.
A	terceira	instrução	explicita	o	espírito	que	moverá	os	discípulos-apóstolos	(v.
8b-10).	Cultivarão	a	gratuidade	para	não	caírem	na	tentação	de	explorar	o	povo.
Só	os	puros	de	coração	estão	livres	da	ganância	e	da	ambição	e	podem	se
entregar	à	missão	com	total	generosidade,	livres	de	esperar	recompensa	pelo	que
fazem	(cf.	Mt	5,8;	19,27-29).	Essa	liberdade	lhes	permitirá	sair	em	missão	em
total	pobreza,	confiados	na	Providência	(cf.	Mt	6,25-34).	Por	onde	andarem,
encontrarão	pessoas	misericordiosas	que	se	disporão	a	partilhar	algo	com	eles.
A	quarta	instrução	refere-se	ao	modo	de	se	comportar	nos	lugares	de	missão	(v.
11-14).	Nada	de	se	hospedar	em	uma	casa	depois	da	outra,	para	evitar	a	tentação
de	passar	das	casas	menos	confortáveis	às	que	oferecem	mais	regalias.	Além	de
desviar	o	sentido	da	missão,	pode-se	criar	conflito	entre	os	hospedeiros	e
rejeição	dos	missionários	por	seu	comportamento	indevido.	Daí	a	ordem	de
permanecerem	até	o	final	da	missão	numa	mesma	casa.
Se	alguma	casa	ou	cidade	se	recusar	a	recebê-los,	os	discípulos-apóstolos	jamais
desanimarão	ou	se	aborrecerão.	Jesus	recomenda-lhes	como	gesto	simbólico
sacudir	o	pó	dos	pés,	ao	saírem	daquela	casa	ou	cidade,	e	seguir	adiante.	Quem
rejeita	o	missionário	do	Reino	rechaça	quem	lhe	oferece	a	salvação	por
intermédio	deles.	No	dia	do	juízo	haverão	de	prestar	contas	dessa	atitude
insensata,	já	que	a	missão	diz	respeito	ao	Senhor	do	Reino	e	às	pessoas	a	quem
os	discípulos-apóstolos	são	enviados	como	anunciadores	da	salvação	(v.	15).
Os	discípulos	são	ovelhas	entre	lobos	(10,16-25)
||	Mc	13,9-13;	Lc	21,12-17¹ “Eis	que	envio	vocês	como	ovelhas	no	meio	de	lobos.	Por	isso,	sejam
prudentes	como	as	serpentes	e	simples	como	as	pombas.	¹⁷Cuidado	com	as
pessoas!	Porque	elas	entregarão	vocês	aos	tribunais	e	os	açoitarão	em	suas
sinagogas.	¹⁸E	vocês	serão	conduzidos	à	presença	de	governadores	e	de	reis	por
minha	causa,	para	darem	testemunho	diante	deles	e	dos	gentios.	¹ Quando
entregarem	vocês,	não	fiquem	preocupados	em	saber	como	ou	o	que	irão	falar,
pois	nessa	hora	lhes	será	indicado	o	que	vocês	deverão	falar.	² Porque	não	serão
vocês	que	falarão,	mas	o	Espírito	de	seu	Pai	é	que	falará	em	vocês.	²¹O	irmão
entregará	o	irmão	à	morte,	e	o	pai	entregará	o	filho.	Os	filhos	se	levantarão
contra	os	pais	e	os	matarão.	²²E	vocês	serão	odiados	por	todos,	por	causa	do	meu
nome.	Mas	quem	perseverar	até	o	fim	será	salvo.	²³Quando	perseguirem	vocês
numa	cidade,	fujam	para	outra.	Porque	eu	lhes	garanto:	Vocês	não	terminarão	de
percorrer	todas	as	cidades	de	Israel	antes	que	venha	o	Filho	do	Homem.
²⁴O	discípulo	não	está	acima	do	mestre,	nem	o	servo	acima	de	seu	senhor.
²⁵Basta	que	o	discípulo	se	torne	como	seu	mestre,	e	o	servo	como	seu	senhor.	Se
chamaram	de	Beelzebu	ao	dono	da	casa,	com	que	nome	haverão	de	chamar	aos
familiares	dele?”
As	instruções	continuam	com	a	explicitação	do	contexto	de	perseguição	e
dificuldades	em	que	os	discípulos-apóstolos	se	encontrarão.	Em	momento	algum
da	catequese	mateana	se	escamoteia	a	face	sombria	do	discipulado.	O	Mestre
fala	dela	com	o	máximo	de	realismo.	A	metáfora	das	“ovelhas	em	meio	de
lobos”	não	deixa	margem	para	falsas	expectativas	(v.	16).	Donde	a	necessidade
de	os	discípulos-apóstolos	serem	“prudentes	como	as	serpentes	e	simples	como
as	pombas”.	São	duas	atitudes	complementares:	a	astúcia	impede	que	o	simples
caia	nas	artimanhas	dos	ímpios;	a	prudência	torna-o	atento	no	confronto	de	quem
tem	a	intenção	de	desviá-lo	do	caminho	do	Reino.	A	esperteza	permite-lhe	dar-se
conta	das	segundas	intenções	de	seus	interlocutores	e	de	quem	o	rodeia.	Ao
combinar	esperteza	com	pureza	de	coração,	estarão	em	condições	de	escapar	das
ciladas	dos	inimigos.
A	perspicácia	e	a	prudência	são	atitudes	incontornáveis	no	trato	com	as	pessoas
malévolas	para	não	se	deixar	enganar,	como	acontece	com	os	falsos	profetas	que
agem	como	lobos	em	pele	de	ovelhas	(v.	17;	cf.	Mt	7,15-16).	Os	traidores
poderão	estar	entre	os	irmãos	de	comunidade.	Porém,	o	catequista	faz	um	alerta
especial	em	relação	aos	intolerantes	promotores	da	reforma	do	judaísmo,	que,
não	conseguindo	dobrar	quem	havia	aderido	ao	movimento	de	Jesus	de	Nazaré,
perseguiam-nos	implacavelmente	para	entregá-los	aos	tribunais	romanos,	além
de	açoitá-los	quando	compareciam	ao	culto	sinagogal	(cf.	Mt	23,34).	Jesus
experimentou	na	pele	todos	os	alertas	feitos	aos	discípulos-apóstolos.
A	firmeza	dos	discípulos	em	contexto	de	perseguição	foi	declarada	bem-
aventurança	(cf.	Mt	5,10-11).	Os	discípulos-apóstolos	serão	bem-aventurados	à
medida	que,	injustamente	julgados	na	presença	de	reis	e	governadores	por	causa
de	Jesus,	derem	testemunho	(gr.	martýrion)	do	Reino	diante	deles	e	dos	pagãos
(v.	18).	A	referência	aos	pagãos	(ou	gentios;	gr.	éthnoi)	provoca	a	abertura	no
horizonte	da	missão	destinada	a	ir	além	das	“ovelhas	perdidas	da	casa	de	Israel”
(v.	6).
Os	discípulos-apóstolos,	nos	momentos	difíceis,	devem	manter	viva	a	fé,	por
estarem	sob	o	olhar	providente	do	Pai.	Um	claro	sinal	será	a	atitude	corajosa
diante	dos	juízes	implacáveis,	cujas	acusações	terão	as	devidas	respostas	pelo
Espírito	do	Pai,	que	falará	por	meio	dos	missionários	(v.	19-20).	A	missão
possibilita	aos	apóstolos	fazerem	infinitas	experiências	de	se	deixar	guiar	pelo
Espírito,	à	medida	que	superarem	o	medo	e	abraçarem	resolutos	o	serviço	do
Reino.
A	perseverança	dos	discípulos-apóstolos	constitui-se	em	desafio	contínuo,	à
medida	que	as	perseguições	e	os	ódios	começarem	pelos	familiares	(v.	21-22).
Os	conflitos	mortais	“por	causa	do	meu	nome”	exigirão	extrema	liberdade,	ao
tocarem	pessoas	muito	próximas	de	quem	serão	obrigados	a	se	separar	(v.	36-
37).	A	missão	os	colocará	em	situações	embaraçosas,	a	serem	enfrentadas	com
determinação	e	coragem.	O	caminho	dos	pusilânimes	será	muito	curto!
Para	evitar	atitudes	indevidas,	o	Mestre	aconselha	aos	discípulos-apóstolos
evitarem	a	maldade	dos	perseguidores	com	a	fuga	de	uma	cidade	para	outra,	a
fim	de	salvaguardarem	as	próprias	vidas	(v.	23).	Não	se	deve	buscar	a	morte
violenta,	martírio,	enquanto	for	possível	evitá-la,	como	ele	mesmo	o	fez.	A
garantia	de	que	“não	terminarão	de	percorrer	todas	as	cidades	de	Israel	antes	que
venha	o	Filho	do	Homem”	pode	ser	entendida	no	viés	geográfico,	no	sentido	de
as	perseguições	possibilitarem	aos	apóstolos	levar	a	mensagem	do	Reino	a
muitos	lugares	e	povos,	e	no	viés	temporal,	por	ser	desconhecido	o	dia	da	vinda
do	Filho	do	Homem.	Descortina-se	um	infinito	horizonte	de	tempo	para	a
proclamação	do	Reino.
A	vida	e	o	destino	do	Mestre	servem	de	espelho	para	os	discípulos-apóstolos	(v.
24-25),	donde	a	necessidade	de	acompanhá-lo	até	a	morte	de	cruz	para	se	ter
uma	ideia	do	que	os	espera.	Arrisca-se	quem	se	lança	à	missão	com	a	ilusão	de
granjear	sucesso	e	reconhecimento.	Só	quem	tem	diante	dos	olhos	o	Mestre
crucificado	e	se	deixa	inspirar	por	ele	caminha	com	firmeza.	A	frustração	será
afastada	de	seu	horizonte.	O	projeto	missionário	que	se	delineia	nesse	capítulo
da	catequese	mateana	tem	como	pano	de	fundo	a	caminhada	de	Jesus	de	Nazaré
radicalmente	fiel	e	obediente	ao	Pai	até	a	cruz.
Compromisso	com	Jesus	e	com	a	missão	(10,26-33)
||	Lc	12,2-9
² “Portanto,	não	tenham	medo	deles.	Porque	não	há	nada	oculto	que	não	se
venha	a	descobrir,	nem	escondido	que	não	se	venha	a	revelar.	²⁷O	que	eu	lhes
digo	às	escuras,	vocês	o	digam	à	luz	do	dia.	O	que	lhes	é	dito	aos	ouvidos,	o
proclamem	sobre	os	telhados.	²⁸Não	tenham	medo	daqueles	que	matam	o	corpo,
mas	não	podem	matar	a	alma.	Temam,	sim,	aquele	que	pode	destruir	a	alma	e	o
corpo	no	inferno.	² Não	se	vendem	dois	pardais	por	alguns	centavos?	No
entanto,	nenhum	deles	cai	no	chão,	sem	que	o	Pai	de	vocês	o	permita.	³ Até
mesmo	os	cabelos	da	cabeça	de	vocês	estão	todos	contados.	³¹Portanto,	não
tenham	medo!	Vocês	valem	mais	que	muitos	pardais.
³²Assim,	todo	aquele	que	se	declarar	por	mim	diante	das	pessoas,	também	eu	me
declararei	por	ele	diante	do	meu	Pai	que	está	nos	céus.	³³Aquele,	porém,	que	me
renegar	diante	das	pessoas,	também	eu	o	renegarei	diante	do	meu	Pai	que	está
nos	céus”.
O	Mestre	passa	a	fazer	algumas	considerações	para	completar	o	que	ensinara	até
esse	ponto.	Começa	com	a	chamada	de	atenção	para	os	discípulos-apóstolos
“não	terem	medo”,	e	sim	muita	fé,	pois	nada	ficará	oculto	nem	escondido,	mas
será	devidamente	“proclamado	sobre	os	telhados”	(v.	26-27).	Os	discípulos-
apóstolos	funcionarão	como	autofalantes	do	Mestre,	cuja	voz	ressoará	por	todos
os	tempos	e	lugares	pela	ação	de	seus	enviados.	Os	ensinamentos	recebidos	em
particular	deverão	tornar-se	profusamente	conhecidos.	Nada	de	timidez	e
insegurança	quando	começarem	a	trilhar	os	caminhos	do	mundo.
A	segunda	consideração	diz	respeito	à	absoluta	confiança	na	providência	do	Pai,
“que	pode	destruir	a	alma	e	o	corpo	no	inferno”	(v.	28).	Com	essa	linguagem
dura,	o	Mestre	ensina	os	discípulos-apóstolos	a	estarem	atentos	com	quem
deveras	tem	poder	sobre	eles,	minimizando	o	alcance	da	maldade	dos
perseguidores,	que	não	irá	além	da	violência	física.	A	existência	humana
comporta	uma	dimensão	determinante	quando	se	trata	do	destino	eterno,	a	alma
(gr.	psiché),	só	atingível	por	Deus.
Para	reforçar	a	fé	dos	discípulos-apóstolos,	o	Mestre	serve-se	de	duas	metáforas
ilustrativas	do	profundo	carinho	e	da	extremada	atenção	do	Pai	para	com	eles.
Suas	vidas	estão	nas	mãos	do	Pai	e	nada	lhes	acontecerá	à	sua	revelia	(v.	29-31).
O	Pai	jamais	os	abandonará	nas	mãos	dos	inimigos,	por	serem	valiosos	a	seus
olhos.	Basta	não	terem	medo!
A	terceira	consideração	foca	a	fidelidade	dos	discípulos-apóstolos	em	situações
onde	a	infidelidade	e	a	traição	tornam-se	iminentes.	A	atitude	tomada	a	favor	ou
contra	o	Mestreterá	repercussões	escatológicas	(v.	32-33).	Manter	a	firmeza	da
fé	quando	ameaçados	garante	tê-lo	como	defensor	diante	do	Pai;	abrir	mão	da	fé
para	escapar	significa	romper	com	o	Mestre,	motivo	pelo	qual	não	o	terão	como
advogado	por	ocasião	do	julgamento.
Não	temer	o	conflito	(10,34-39)
||	Lc	12,51-53;	14,26-27
³⁴“Não	pensem	que	vim	trazer	paz	à	terra.	Não	vim	trazer	paz,	mas	espada.	³⁵De
fato,	vim	pôr	o	homem	contra	seu	pai,	a	filha	contra	sua	mãe,	a	nora	contra	sua
sogra.	³ E	os	inimigos	de	uma	pessoa	serão	seus	próprios	familiares.	³⁷Quem	ama
o	pai	ou	a	mãe	mais	do	que	a	mim,	não	é	digno	de	mim.	E	quem	ama	o	filho	ou	a
filha	mais	do	que	a	mim,	não	é	digno	de	mim.	³⁸Quem	não	toma	a	própria	cruz	e
não	me	segue,	não	é	digno	de	mim.	³ Quem	se	apega	à	própria	vida	vai	perdê-la,
mas	quem	perde	a	própria	vida	por	mim,	vai	encontrá-la”.
A	quarta	consideração	deve	ser	interpretada	no	contexto	do	discurso	missionário
para	se	evitarem	mal-entendidos.	Não	trazer	paz,	e	sim	espada,	significa	que	o
anúncio	do	Reino	estabelece	uma	nítida	distinção	entre	quem	o	acolhe	e	quem	o
rejeita	(v.	34).	A	espada	simboliza	a	divisão,	onde	se	podem	reconhecer	os
opostos.	Um	exemplo:	quem	escolhe	ser	puro	de	coração	(cf.	Mt	5,8)	terá	um
modo	de	proceder	muito	diferente	dos	mal-intencionados	(cf.	Mt	7,15-16;
23,28).	O	confronto	com	a	mensagem	do	Reino	permite	saber	quem	é	quem!
O	resultado	pode	ser	a	discrepância	entre	filhos	e	pais,	filhas	e	mães,	noras	e
sogras	(v.	35-36).	No	seio	de	uma	família,	podem	se	encontrar	pessoas	guiadas
pela	justiça	do	Reino	e	outras	que	optaram	pelo	caminho	contrário.	A
convivência	será	difícil,	pois	o	discípulo	do	Reino	se	recusa	a	abrir	mão	de	seu
modo	de	proceder	para	evitar	contrariedades	familiares.	O	amor	ao	Reino
coloca-se	acima	do	amor	ao	pai,	à	mãe,	ao	filho	ou	à	filha,	no	esforço	de	se	achar
digno	do	Mestre	Jesus	(v.	37).	Conflitos	domésticos	só	acontecem	quando	a
opção	do	discípulo	do	Reino	contradiz	os	valores	cultivados	em	casa.	Porém,
pode	acontecer	que	toda	a	família	dê	adesão	ao	Reino,	de	modo	que	seus
membros	convirjam	na	busca	da	mesma	justiça.
Tal	projeto	de	vida	extremamente	exigente	corresponde	à	“cruz”	do	discipulado,
a	ser	assumida	e	levada	adiante	nos	passos	de	Jesus	(v.	38).	Requer-se	dos
discípulos-apóstolos	fortaleza	de	ânimo	e	coragem	para	se	tornarem	livres
mesmo	em	relação	à	própria	vida	(v.	39).	Haverá	momentos	em	que	correrão	o
risco	de	morte	por	causa	da	fé	(cf.	Mt	5,10-11).	O	Mestre	fora	contundente	ao
alertar	que	a	morte	poderia	vir	pelas	mãos	dos	irmãos,	dos	pais	ou	dos	filhos	(v.
21).	Quem	não	se	dispuser	a	abrir	mão	de	sua	vida	–	“perder	a	vida”	–
incapacita-se	para	o	discipulado	missionário	do	Reino.
Ao	encontro	dos	pequenos	(10,40-42)
||	Mc	9,41
⁴ “Quem	acolhe	vocês,	está	acolhendo	a	mim.	E	quem	me	acolhe,	está	acolhendo
aquele	que	me	enviou.	⁴¹Quem	acolhe	um	profeta	por	ser	profeta,	receberá
recompensa	de	profeta.	Quem	acolhe	um	justo	por	ser	justo,	receberá
recompensa	de	justo.	⁴²E	quem	der,	ainda	que	seja	um	copo	de	água	fresca,	a	um
destes	pequenos	por	serem	discípulos,	eu	garanto	a	vocês:	Não	perderá	a	sua
recompensa”.
A	última	consideração	identifica	os	discípulos-apóstolos	com	quem	os	envia,	o
Mestre	Jesus.	Devido	à	dimensão	cristológica	da	missão,	tudo	quanto	se	faz	em
benefício	dos	discípulos-apóstolos	em	última	análise	significa	benevolência	com
Jesus	de	Nazaré	(v.	40;	cf.	Mt	25,40).	No	sentido	contrário,	a	falta	de
solidariedade	com	eles	corresponde	a	fechar	o	coração	para	o	Messias	Jesus	(cf.
Mt	25,45).
Acolher	os	profetas	e	os	justos	que	agem	em	nome	de	Deus	e	dar	mostras	de
compaixão	com	“um	destes	pequenos	por	serem	discípulos”	(v.	41-42)	têm	como
contrapartida	a	recompensa	divina,	concedida	aos	profetas,	aos	justos	e	aos
discípulos-apóstolos.	O	vocábulo	recompensa	(gr.	misthós)	ocorre	três	vezes
nesses	versículos.	De	onde	vem	a	recompensa	senão	do	Pai?	Que	recompensa
provém	do	Pai	a	não	ser	a	graça	de	produzir	sempre	mais	frutos	de	solidariedade,
de	compaixão	e	de	cuidado	com	o	próximo	(cf.	Mt	7,18)?	Quais	os	pressupostos
da	recompensa	senão	a	gratuidade,	a	sinceridade	e	o	desapego	de	coração?	Logo
a	recompensa	evangélica	supera	qualquer	relação	de	troca	e	de	busca
inconsiderada	de	retribuição	pelo	bem	feito	a	outrem.	Como	o	gesto	de	acolher
flui	da	pureza	de	coração,	do	mesmo	modo	a	recompensa	divina	expressa	a
aprovação	do	Pai	pela	justiça	praticada	em	relação	aos	profetas,	aos	justos	e	aos
missionários	do	Reino.	Como	pano	de	fundo	está	a	presença	cuidadosa	do	Pai
não	só	em	relação	aos	discípulos-apóstolos,	mas	também	em	favor	de	quem	se
dispõe	a	colaborar	para	o	bom	desempenho	da	missão.
A	missão	dos	discípulos-apóstolos	gira	em	torno	de	três	vertentes	teológicas:
a)	Cristológica.	Os	apóstolos	são	enviados	por	Jesus	e	com	ele	devem	se
conformar;	por	outro	lado,	acolhê-los	corresponde	a	acolher	Jesus.
b)	Eclesiológica.	Jesus	confia	a	missão	à	comunidade	dos	discípulos-apóstolos
para	ser	realizada	com	espírito	de	comunhão	e	consciência	de	estarem	todos
comprometidos	com	o	serviço	do	Reino.
c)	Escatológica.	O	anúncio	do	Reino	exige	uma	resposta	do	ouvinte;	a	acolhida
ou	a	rejeição	na	história	terá	a	devida	contrapartida	no	final	dos	tempos.	Cada
atitude	dos	discípulos-apóstolos	e	de	quem	os	acolhe	ou	os	rejeita	tem	densidade
escatológica.	No	final	dos	tempos	ficará	patente,	respectivamente,	o
reconhecimento	ou	a	censura	do	Pai	dos	Céus.
Para	reflexão	e	debate
1.	Quais	são	os	eixos	principais	da	missão	confiada	por	Jesus	aos	apóstolos?
2.	Em	que	sentido	a	missão	confiada	aos	discípulos-apóstolos	dá	continuidade	à
missão	de	Jesus	recebida	do	Pai?
III.	OS	MISTÉRIOS	DO	REINO	(Mt	11-13)
1.	Narração:	Acolhida	e	rejeição	do	Messias
Os	dois	capítulos	seguintes	descrevem	várias	reações	no	confronto	com	Jesus	de
Nazaré	apresentado	como	Messias	por	palavras	(cf.	Mt	5–7)	e	Messias	por	obras
(cf.	Mt	8–9).	Ao	enviar	os	discípulos	em	missão,	Jesus	os	alertara	para	as
perseguições	que	se	abateriam	sobre	eles.	Nessa	etapa	da	catequese,	ele	mesmo
se	encontra	no	centro	das	controvérsias.	Nada	de	semelhante	havia	acontecido
até	então.	A	narração	sofre	uma	espécie	de	reviravolta,	com	a	contínua	rejeição
de	Jesus	de	Nazaré	e	sua	mensagem	e	a	tomada	de	decisão	de	eliminá-lo	(cf.	Mt
12,14).	Doravante	se	encaminhará	na	direção	da	morte	do	Messias	Jesus.
Pergunta	de	João	Batista	(11,1-6)
||	Lc	7,18-23
¹Quando	Jesus	terminou	de	dar	instruções	a	seus	Doze	discípulos,	partiu	daí	para
ensinar	e	pregar	nas	cidades	deles.
²João	Batista,	ouvindo	falar	na	prisão	sobre	as	obras	do	Messias,	enviou-lhe
alguns	de	seus	discípulos	³para	lhe	perguntarem:	“És	tu	aquele	que	devia	vir,	ou
devemos	esperar	outro?”	⁴Jesus	respondeu-lhes:	“Vão	e	contem	a	João	as	coisas
que	vocês	estão	ouvindo	e	vendo:	⁵Cegos	recuperam	a	vista	e	coxos	andam;
leprosos	são	purificados	e	surdos	ouvem;	mortos	são	ressuscitados	e	pobres
recebem	a	Boa	Notícia.	 E	feliz	aquele	que	não	se	escandalizar	por	minha
causa”.
Quando	se	esperavam	os	apóstolos	partindo	em	missão,	ei-los	tratados	como
Doze	discípulos,	enquanto	Jesus	“partiu	daí	para	ensinar	e	pregar	nas	cidades
deles”	(v.	1).	Só	se	tornarão	realmente	missionários	no	final	do	evangelho,
depois	de	seguirem	o	Mestre	até	a	cruz	(cf.	Mt	28,16-20).	Aí	sim	serão	enviados
–	“Vão!”	(Mt	28,19)	–	e	se	lançarão	na	missão	que	os	levará	a	todos	os	rincões
do	mundo.	Até	lá	enfrentarão	uma	caminhada	exigente	com	o	Mestre,	para
aprenderem	com	seus	gestos	e	palavras	o	caminho	da	obediência	e	da	fidelidade
ao	Pai	(cf.	Mt	26,42).
João	Batista,	referido	no	contexto	do	batismo	de	Jesus,	está	na	prisão	(cf.	Mt	3,1-
17).	Mais	adiante	o	narrador	informará	o	motivo	do	encarceramento	(cf.	Mt
14,3-12).	As	notícias	a	respeito	das	“obras	do	Messias”	deixaram-no	em	dúvida
quanto	à	identidade	de	Jesus	(v.	2).	Ele	anunciara	um	Messias	juiz	implacável,
pronto	para	cortar	toda	árvore	que	não	produz	fruto	bom	e	jogá-la	no	fogo	e
limpar	sua	eira,	recolhendo	o	trigo	no	celeiro	e	queimando	a	palha	“no	fogo	que
nunca	se	acaba”	(cf.	Mt	3,10.12).	Porém,chegavam-lhe	notícias	de	Jesus
atuando	noutra	direção.
A	iniciativa	de	enviar	um	grupo	de	discípulos	com	a	incumbência	de	esclarecer	a
identidade	de	Jesus	visava	a	tirar	uma	dúvida	do	Batista.	Seria	Jesus	o	Messias
anunciado	por	ele	ou	deveria	esperar	outro	(v.	3)?
O	tema	da	identidade	messiânica	de	Jesus	perpassa	todo	o	evangelho.
Seguramente	é	a	temática	fundamental	da	catequese	mateana.	Ele	não	traz	na
testa	o	sinal	de	ser	“o”	Messias.	Seu	histórico	sociorreligioso	nada	tem	para	lhe
conferir	um	eventual	caráter	messiânico.	Que	se	poderia	esperar	de	um	galileu
pobre	e	andarilho	com	um	punhado	de	seguidores,	recolhidos	dos	estratos	sociais
mais	baixos,	desconectados	dos	movimentos	religiosos	da	época	e	das	estruturas
religiosas	da	sinagoga	e	do	Templo	de	Jerusalém?	O	messianismo	de	Jesus
primava	pela	falta	de	evidência!
A	resposta	de	Jesus	foge	do	esquema	“sim	ou	não”.	Ele	propõe	a	João	um
discernimento	de	suas	palavras	e	de	suas	ações	para	que	chegue	por	si	mesmo	a
uma	conclusão.	Os	discípulos	de	João	devem	contar	a	seu	mestre	a	benevolência
de	Jesus	em	favor	dos	cegos,	dos	coxos,	dos	leprosos,	dos	surdos,	dos	mortos	e
dos	pobres	(v.	4-5).	Tudo	como	os	antigos	profetas	descreveram	a	respeito	da
atuação	do	Messias.	Jesus	deixava	entrever	a	compatibilidade	entre	seus	gestos
de	misericórdia	em	favor	da	humanidade	sofredora	e	a	pregação	dos	profetas	de
outrora.	Todavia	reconhecê-lo	ou	não	como	Messias	dependeria	do
discernimento	e	da	decisão	de	João	Batista,	a	partir	das	informações	colhidas	por
seus	discípulos.
A	catequese	mateana	esquiva-se	de	revelar	a	conclusão	a	que	João	Batista
chegou.	Todavia,	a	bem-aventurança	contida	no	v.	6	pode	expressar	o	desejo	de
Jesus	de	que	João	o	reconheça	como	Messias	e	“não	se	escandalize	por	minha
causa”.	E	abra	mão	de	sua	compreensão	do	messias	juiz	escatológico	implacável
e	compreenda	o	agir	de	Deus	na	história	pelo	viés	da	misericórdia	e	da
reconstrução	da	dignidade	dos	seres	humanos.	Uma	verdadeira	conversão!
Testemunho	de	Jesus	sobre	João	Batista	(11,7-19)
||	Lc	7,24-35
⁷Quando	eles	partiram,	Jesus	começou	a	falar	de	João	para	as	multidões:	“Vocês
saíram	ao	deserto	para	ver	o	quê?	Um	caniço	agitado	pelo	vento?	⁸Saíram	para
ver	o	quê?	Um	homem	ricamente	vestido?	Mas	os	que	se	vestem	ricamente	estão
em	palácios	de	reis.	 Então,	saíram	para	ver	o	quê?	Um	profeta?	Sim,	eu	lhes
digo,	e	muito	mais	que	um	profeta.	¹ É	dele	que	está	escrito:	‘Eis	que	eu	envio	o
meu	mensageiro	à	frente	de	você.	Ele	vai	preparar-lhe	o	caminho	na	sua	frente’.
¹¹Eu	lhes	garanto:	Entre	os	nascidos	de	mulher,	não	apareceu	ninguém	maior	que
João	Batista.	No	entanto,	o	menor	no	Reino	dos	Céus	é	maior	do	que	ele.
¹²Desde	os	dias	de	João	Batista	até	agora,	o	Reino	dos	Céus	sofre	violência,	e	os
violentos	se	apoderam	dele.	¹³Porque	todos	os	Profetas	e	a	Lei	profetizaram	até
João.	¹⁴E,	se	vocês	quiserem	acreditar,	é	ele	o	Elias	que	devia	vir.	¹⁵Quem	tem
ouvidos,	ouça!
¹ A	quem	vou	comparar	esta	geração?	É	como	crianças	sentadas	nas	praças,
gritando	a	outras:	¹⁷‘Tocamos	flauta	para	vocês,	e	vocês	não	dançaram.
Cantamos	lamentações,	e	vocês	não	choraram’.	¹⁸De	fato,	veio	João,	que	não
come	nem	bebe,	e	dizem:	‘Ele	tem	um	demônio’.	¹ Veio	o	Filho	do	Homem,	que
come	e	bebe,	e	dizem:	‘Eis	um	comilão	e	beberrão,	amigo	de	cobradores	de
impostos	e	pecadores’.	Mas	a	Sabedoria	é	justificada	pelas	suas	obras”.
João	Batista	tinha	dúvidas	quanto	à	identidade	de	Jesus.	Este,	por	sua	vez,
conhecia	muito	bem	a	identidade	de	quem	preparou	sua	vinda	ao	proclamar:
“Aquele	que	vem	depois	de	mim	é	mais	forte	do	que	eu	[...]	Ele	batizará	vocês
com	Espírito	Santo	e	com	fogo”	(Mt	3,11).	A	longa	fala	de	Jesus	descreve	João
Batista	como	o	profeta-mensageiro,	anunciado	pelos	profetas	do	passado	com	a
missão	de	“preparar-lhe	o	caminho	na	sua	frente”	(cf.	v.	7-15).	Tudo	quanto
falara	a	respeito	do	Messias	dizia	respeito	a	Jesus,	embora,	ao	ouvir	falar	dele,
tivesse	dúvidas	de	se	tratar	ser	ele	o	Messias	esperado.	Para	Jesus,	isso	tem
pouca	importância!	Basta	João	Batista	ter	“cumprido	toda	a	justiça”,	apesar	das
suspeitas	provocadas	pelo	modo	de	agir	e	de	falar	de	Jesus,	que	não	se	pautou
pelo	que	ele	havia	anunciado	(Mt	3,15).
O	v.	11	tem	como	pano	de	fundo	o	conflito	entre	a	comunidade	mateana	e	a
comunidade	dos	discípulos	de	João	Batista.	Esses	pregavam	a	superioridade	de
seu	mestre	em	relação	a	Jesus	por	tê-lo	batizado.	O	catequista	questiona	tal
perspectiva	tendo	em	vista	o	Reino	dos	Céus	anunciado	e	implementado	por
Jesus.	João	Batista	foi	deveras	grande.	Mas	não	teve	a	graça	de	se	tornar
discípulo	do	Reino.	“Todos	os	Profetas	e	a	Lei	profetizaram	até	João”,	que	se
tornou	o	ponto-limite	de	chegada	da	tradição	dos	antigos	(v.	13).	Eis	por	que	“o
menor	no	Reino	dos	Céus	é	maior	do	que	ele”,	mesmo	que,	“entre	os	nascidos	de
mulher,	não	apareceu	ninguém	maior	que	João	Batista”.
O	v.	12	tem	um	quê	de	enigmático.	Que	significa	a	declaração	de	Jesus	–	“O
Reino	dos	Céus	sofre	violência,	e	os	violentos	se	apoderam	dele”	–,	quando
havia	proclamado	bem-aventurados	os	mansos	e	os	promotores	da	paz	(cf.	Mt
5,5.9)?	Uma	interpretação	plausível	no	contexto	do	discipulado	vai	na	linha	das
exigências	inexoráveis	com	as	quais	os	seguidores	de	Jesus	são	desafiados	(cf.
Mt	8,18-22;	10,34-39).	Seria	a	violência	contra	o	medo,	a	insegurança	e	o
egoísmo	empecilhos	para	a	entrega	radical	ao	Reino	de	Deus	e	sua	justiça	(cf.
Mt	6,33)?	Fica	descartada	qualquer	interpretação	de	violência	no	sentido	do
Império	Romano	e	seus	métodos	de	dominação.
Sem	meias	palavras	Jesus	declara	que	João	Batista	“é	o	Elias	que	devia	vir”	(v.
14)	e	convoca	as	multidões	para	o	discernimento	(v.	15).	A	tradição	falava	de
Elias	levado	para	o	céu	num	carro	de	fogo	puxado	por	cavalos	de	fogo	(cf.	2Rs
2,11-12),	donde	nasceu	a	esperança	de	sua	volta	no	final	dos	tempos.	O	profeta
Malaquias	falara	em	nome	de	Deus:	“Eu	mandarei	a	vocês	o	profeta	Elias,	antes
que	venha	o	grandioso	e	terrível	Dia	de	Javé”	(Ml	3,23).	Jesus	considerava	João
Batista	o	Elias	esperado	(cf.	Mt	17,10-13).
João	Batista	aprisionado	não	preocupava	Jesus,	e	sim	as	multidões	(“esta
geração”)	encontradas	ao	longo	de	suas	caminhadas	(v.	16).	Como	crianças
birrentas,	sempre	tinham	motivos	para	ser	do	contra	(v.	17).	O	asceta	João
Batista	foi	chamado	de	possesso	(v.	18).	O	Jesus	sociável	e	próximo	das	pessoas,
de	modo	especial	os	desconsiderados	pela	sociedade	e	pela	religião,	com	quem
convivia,	recebia	a	pecha	de	comilão	e	beberrão	(v.	19).	Qualquer	que	fosse	o
enviado	de	Deus,	haveria	sempre	uma	forma	de	desacreditá-lo	para	abafar	seus
apelos	de	conversão.
“Esta	geração”	perseveraria	no	caminho	do	mal	e	se	recusaria	a	acolher	o
anúncio	do	Reino	num	visível	fechamento	para	Jesus	e	sua	missão	de	salvador.
Assemelha-se	à	semente	caída	na	beira	do	caminho	e	logo	comida	pelas	aves	(cf.
Mt	13,4.19).
O	provérbio	“A	Sabedoria	é	justificada	pelas	suas	obras”	pode	ser	entendido
como	afirmação	de	que	Deus	continuará	a	agir	por	meio	de	seus	enviados,
mormente	o	Messias	Jesus,	apesar	das	resistências	e	dos	desprezos.
Crítica	às	cidades	impenitentes	(11,20-24)
||	Lc	10,	13-15
² Então	Jesus	começou	a	repreender	as	cidades	onde	ele	havia	feito	a	maioria	de
seus	milagres,	mas	não	se	converteram:	²¹“Ai	de	você,	Corazin!	Ai	de	você,
Betsaida!	Porque,	se	em	Tiro	e	Sidônia	tivessem	sido	feitos	os	milagres
realizados	em	vocês,	há	muito	tempo	teriam	feito	penitência	com	pano	de	saco	e
com	cinza.	²²Portanto,	eu	lhes	digo:	No	dia	do	julgamento,	haverá	menos	rigor
para	Tiro	e	Sidônia	do	que	para	vocês.	²³E	você,	Cafarnaum,	por	acaso	será
elevada	até	o	céu?	Você	há	de	cair	no	fundo	do	abismo!	Porque,	se	os	milagres
realizados	em	você	tivessem	sido	feitos	em	Sodoma,	ela	existiria	até	hoje.	²⁴Mas
eu	lhes	digo:	No	dia	do	julgamento,	haverá	menos	rigor	para	a	terra	de	Sodoma
do	que	para	você”.
A	fala	de	Jesus	tem	agora	destinatários	bem	concretos,	os	moradores	daquelas
cidades	onde	fez	em	vão	“a	maioria	de	seus	milagres”,	porquanto	“não	se
converteram”	(v.	20).	A	dureza	de	coração	trará	consequências	desastrosas,pois
a	Palavra	de	Deus	tem	o	objetivo	de	fazer	o	ser	humano	abandonar	o	mau
caminho	que	leva	à	destruição	e	se	voltar	para	o	caminho	da	vida	(cf.	Mt	7,13-
14).	Os	insensatos	insistem	no	intento	de	calar	os	enviados	de	Deus.
Servindo-se	de	invectivas,	modo	de	falar	característico	dos	profetas	de	Israel,
Jesus	põe-se	a	verberar	contra	várias	cidades	situadas	ao	redor	do	lago	de
Genesaré,	palco	privilegiado	de	suas	atividades.	Corazin	e	Betsaida	foram
incapazes	de	reconhecer	a	hora	da	graça	nos	gestos	poderosos	(gr.	dynámeis)	de
Jesus.	Tivessem	sido	feitos	em	Tiro	ou	Sidônia,	cidades	gentias	da	costa
mediterrânea,	teriam	surtido	o	efeito	de	mover	o	povo	a	fazer	“penitência	com
pano	de	saco	e	com	cinza”	(v.	21).	Os	longínquos	seriam	mais	sensíveis	aos
apelos	de	Deus	que	os	próximos.	Como	consequência,	“no	dia	do	julgamento”,
haverá	mais	benevolência	com	aqueles	estrangeiros	do	que	com	os	de	casa	(v.
22).
Cafarnaum,	onde	Jesus	foi	morar	quando	deixou	Nazaré	(cf.	Mt	4,13),	também
está	na	mira	das	invectivas	(v.	23).	Engana-se	ao	pensar	que	será	elevada	ao	céu.
Pelo	contrário,	será	lançada	no	fundo	do	abismo	pela	dureza	de	coração	diante
dos	muitos	gestos	poderosos	realizados	por	Jesus.	Seu	comportamento	foi	pior
que	o	de	Sodoma,	símbolo	da	depravação.	Quem	sabe,	se	tivesse	a	chance	de	ser
confrontada	com	a	ação	do	Messias	Jesus,	Sodoma	fosse	poupada	da	destruição.
Cafarnaum,	por	conseguinte,	supera	em	malícia	a	cidade	ícone	da	malignidade.
Como	se	pode	esperar	“no	dia	do	julgamento”,	será	tratada	com	mais	rigor	do
que	Sodoma	(v.	24).	Triste	cenário,	se	se	pensa	no	que	sobrou	da	cidade
impenitente!
Revelação	aos	pequeninos	(11,25-30)
||	Lc	10,21-22
²⁵Nessa	ocasião,	Jesus	começou	a	dizer:	“Eu	te	louvo,	ó	Pai,	Senhor	do	céu	e	da
terra,	porque	escondeste	essas	coisas	a	sábios	e	entendidos,	e	as	revelaste	aos
pequeninos.	² Sim,	Pai,	porque	assim	foi	do	teu	agrado.	²⁷Tudo	me	foi	entregue
por	meu	Pai.	Ninguém	conhece	o	Filho	senão	o	Pai.	E	ninguém	conhece	o	Pai
senão	o	Filho	e	aquele	a	quem	o	Filho	o	quiser	revelar.	²⁸Venham	a	mim,	todos
vocês	que	andam	cansados	e	curvados	pelo	peso	do	fardo,	e	eu	lhes	darei
descanso.	² Carreguem	minha	carga	e	aprendam	de	mim,	porque	sou	manso	e
humilde	de	coração,	e	vocês	encontrarão	descanso	para	suas	vidas.	³ Pois	minha
carga	é	suave	e	meu	fardo	é	leve”.
Em	contraste	com	quem	o	rejeita,	Jesus	faz	uma	oração	de	louvor	ao	Pai	pelos
“pequeninos”	(gr.	népioi)	abertos	para	acolher	a	revelação	“dessas	coisas”	–	o
amor	salvífico	do	Pai	por	meio	do	Filho	Jesus	–	que	permanecem	escondidas
para	os	“sábios	e	entendidos”	(gr.	sophón	kaì	synetón)	(v.	25).	Essa	inversão	de
valores	está	nos	planos	do	Pai,	na	sua	pedagogia	de	desarmar	os	arrogantes	e	se
colocar	ao	lado	dos	pequeninos	e	marginalizados	(v.	26).	Só	acolhe	Jesus	e	o
Reino	quem	se	despir	das	posturas	arrogantes	e	se	revestir	de	humildade.
A	declaração	do	v.	27	frisa	a	íntima	relação	de	Jesus	com	o	Pai	e	as	pessoas	“a
quem	o	Filho	o	quiser	revelar”.	Essa	circularidade	de	conhecimento	possibilitado
pelo	amor	deixa	de	fora	os	arrogantes	e	os	autossuficientes,	por	se	bastarem	a	si
mesmos.	Ao	se	recusarem	ser	incluídos	nessa	dinâmica	de	amor,	são	rechaçados
por	Jesus	e,	por	consequência,	pelo	Pai	do	Céu.
Dirigindo-se	aos	pequeninos	“cansados	e	curvados	pelo	peso	do	fardo”,	Jesus	os
convida	para	junto	de	si,	em	vista	de	receberem	o	devido	descanso	(gr.
anápausis)	(v.	28).	Quem	poderia	cansá-los	e	abatê-los,	senão	a	religião	dos
legalistas	e	moralistas,	carregada	de	exigências	opressoras?	Esses	não	suportam
ver	a	convivência	do	Mestre	com	os	pecadores	e	marginalizados	para	salvá-los,	e
não	para	ameaçá-los	com	castigos	(cf.	Mt	9,10-13).
O	Mestre	propõe-lhes	que	façam	duas	coisas:	carregar	sua	carga	e	aprender	dele
(v.	29-30).	Sua	carga	pode	ser	compreendida	como	o	projeto	de	religião
desprovido	de	legalismo	e	moralismo,	mas	baseado	na	misericórdia	e	no	cuidado
com	o	próximo.	Sendo	assim,	torna-se	leve	e	suave,	e	oferece	“descanso	para
suas	vidas”.	Voltar-se	para	ele	corresponde	a	romper	com	os	motivos	de	aflição
em	nome	de	Deus.	O	aprendizado	com	ele	baseia-se	na	pedagogia	de	imitar	seu
modo	de	proceder	“manso	e	humilde	(puro)	de	coração”,	na	linha	das	bem-
aventuranças	(cf.	Mt	5,5.8).	Para	isso	será	preciso	se	afastar	do
contratestemunho	de	quem,	servindo-se	do	discurso	religioso,	atribula	o	próximo
com	exigências	descabidas	(cf.	Mt	16,6;	23,4).	A	justiça	do	Reino	aponta	para
um	projeto	de	vida	portador	de	alegria.	A	proposta	de	Jesus	para	quem	se	sente
aplastado	por	um	tipo	de	religião	desvirtuada	vai	nessa	direção.
O	questionamento	e	a	rejeição	do	ministério	de	Jesus	continuam	na	cena
seguinte	com	outros	adversários:	os	escribas	e	fariseus.	Esses	dois	grupos	de
defensores	da	religião	mosaica	na	sua	versão	mais	estrita	não	lhe	dão	tréguas.
Quando	a	catequese	evangélica	se	refere	a	escribas	e	fariseus,	um	dos	vários
movimentos	da	religião	judaica	do	século	I,	deve-se	pensar	em	um	grupo	de
membros,	e	não	no	movimento	em	seu	conjunto.	Havia	escribas	e	fariseus	não
fanáticos	que	conviviam	com	os	legalistas	e	não	se	encaixavam	no	perfil	descrito
na	catequese	mateana.	Essas	distintas	posturas	são	encontradas	em	qualquer
grupo	ao	qual	pertencem	pessoas	com	mentalidades	e	visões	de	mundo
contrastantes.
Espigas	arrancadas	no	sábado	(12,1-8)
||	Mc	2,23-28;	Lc	6,1-5
¹Nessa	ocasião,	Jesus	passou	pelas	plantações	num	sábado.	Seus	discípulos
estavam	com	fome	e	começaram	a	arrancar	espigas	e	comê-las.	²Vendo	isso,	os
fariseus	disseram	a	Jesus:	“Vê:	teus	discípulos	estão	fazendo	o	que	não	é
permitido	no	sábado”.	³Ele	respondeu:	“Vocês	não	leram	o	que	Davi	e	seus
companheiros	fizeram	quando	tiveram	fome?	⁴Como	entraram	na	casa	de	Deus	e
comeram	os	pães	oferecidos	a	Deus,	coisa	que	nem	a	ele	nem	a	seus
companheiros	era	permitido	comer,	mas	somente	aos	sacerdotes?	⁵Ou	vocês	não
leram	na	Lei	que	aos	sábados,	no	Templo,	os	sacerdotes	violam	o	sábado	e	ficam
sem	culpa?	 Pois	eu	lhes	digo:	Aqui	está	algo	maior	que	o	Templo.	⁷Se	vocês
tivessem	compreendido	o	que	significa:	‘Quero	misericórdia	e	não	sacrifício’,
não	teriam	condenado	os	inocentes.	⁸Porque	o	Filho	do	Homem	é	senhor	do
sábado”.
Os	conflitos	começam	com	a	liberdade	de	Jesus	diante	do	preceito	do	repouso
sabático,	exigência	da	religião	judaica.	O	primeiro	conflito	acontece	quando
atravessava	uma	plantação	de	grãos	(gr.	spórimos)	e	os	discípulos	arrancavam
espigas	e	as	comiam	para	matar	a	fome	(v.	1).	Tratar-se-ia	de	um	trigal	cujos
grãos	maduros	podem	ser	mastigados	crus?	Um	detalhe:	era	sábado!	Esse	será	o
pomo	de	discórdia.
Os	onipresentes	fariseus,	diante	da	cena,	questionam	Jesus.	Um	mestre
conhecedor	da	Lei	deveria	saber	da	proibição	de	colher	espigas	em	dia	de	sábado
(v.	2).	A	ação	dos	discípulos	de	Jesus,	no	entender	deles,	correspondia	a	colher	e
debulhar	os	grãos	como	fazem	os	agricultores.	Logo,	era	como	se	estivessem
trabalhando	em	dia	de	sábado,	em	aberta	contradição	do	preceito	religioso.	Um
simples	gesto	motivado	por	uma	necessidade	assume	uma	dimensão	impensada,
quando	julgado	pelo	viés	de	uma	ideologia	religiosa.
Jesus	contesta-os,	apelando	para	um	passado	longínquo,	quando	o	rei	Davi,	para
escapar	da	fúria	de	Saul,	chegou	a	um	santuário	e	pediu	comida	ao	sacerdote.
Nada	tendo	para	oferecer,	esse	colocou	à	disposição	de	Davi	e	seus
companheiros	os	pães	consagrados,	alimento	exclusivo	dos	sacerdotes	(v.	3-4;
cf.	1Sm	21,2-6).	O	ponto	de	vista	de	Jesus	era	patente:	uma	lei	positiva	deve	ser
reconsiderada	em	caso	de	emergência,	onde	estão	em	jogo	as	carências	vitais	do
ser	humano.	A	fome	justificava	o	consumo	dos	pães	consagrados,	como	fizeram
Davi	e	seus	companheiros,	do	mesmo	modo	que	legitimava	a	iniciativa	de	seus
discípulos,	quando	se	devia	fazer	o	repouso	sabático.
Outro	argumento	traz	à	baila	quem	deveria	cumprir	com	todo	rigor	a	Lei	do
sábado:	os	sacerdotes	do	Templo	de	Jerusalém.	Mesmo	aos	sábados,	exercem
suas	muitas	funções	rituais	e	litúrgicas	com	a	consciência	de	serem	fiéis	à	Lei	(v.
5).	Embora	sendo	atividades	voltadas	para	Deus,	exigem	que	secumpra	uma
série	de	ações,	como	acontece	com	qualquer	profissão.	O	exercício	do
sacerdócio	em	dia	de	sábado	tem	a	aceitação	de	todos.	Então,	por	que	impedir	os
discípulos	de	matar	a	fome,	colhendo	e	comendo	espigas,	por	se	tratar	de
sábado?
O	v.	6	contém	um	argumento	de	difícil	compreensão	para	os	acusadores	de
Jesus.	Como	terão	entendido	a	afirmação:	“Aqui	está	algo	maior	que	o	Templo”?
Jesus	declarava	sua	profunda	comunhão	com	o	Pai,	motivo	pelo	qual	se	sentia	no
direito	de	se	colocar	acima	da	Lei	e	de	interpretá-la	com	os	olhos	e	a	liberdade
do	Pai,	livre	dos	condicionamentos	da	religião.	Por	isso,	como	faria	o	Pai,	não
proibiu	os	discípulos	de	colher	e	comer	espigas.	Jesus	pensava	e	agia	como	o	Pai
por	estar	muito	acima	daquilo	que	era	altamente	valorizado	pela	religião	judaica,
o	Templo,	morada	de	Deus.
Os	fariseus	se	equivocavam	ao	defender	a	Lei	de	Deus	de	maneira	incompatível
com	o	pensamento	de	Deus.	Jesus	sim	agiu	de	forma	correta	no	trato	com	os
discípulos,	mesmo	atropelando	as	interpretações	da	Lei	do	repouso	sabático.
Uma	chamada	de	atenção	do	Mestre	a	seus	críticos	reforça	um	tema	importante
na	catequese	mateana.	A	citação	do	profeta	Oseias:	“Quero	misericórdia	e	não
sacrifício”	(Os	6,6)	contrapõe	o	trato	caridoso	com	o	próximo	e	a	liturgia
pomposa,	o	cuidado	com	os	pobres	e	a	preocupação	com	a	Lei,	o	caminho
verdadeiro	para	se	chegar	a	Deus	e	os	atalhos	desviantes.	Se	os	fariseus	se
esforçassem	para	ser	fiéis	ao	Deus	de	misericórdia,	jamais	fariam	mal	aos
inocentes.	A	censura	a	Jesus	e	seus	discípulos,	afinal	de	contas,	revela	a	perda	de
foco	da	religião	farisaica.	Preocupada	com	a	prática	da	Lei	a	todo	custo,	tomava
um	caminho	que	os	afastava	sempre	mais	do	verdadeiro	querer	divino.
A	argumentação	de	Jesus	conclui-se	com	a	revelação	de	sua	identidade:	“O	Filho
do	Homem	é	senhor	do	sábado”	(v.	8).	Embora	o	narrador	se	omita	de	dizer	a
reação	dos	fariseus,	pode-se	imaginar	não	terem	atinado	para	o	real	significado
da	afirmação.	Como	“senhor	do	sábado”,	Jesus	se	colocava	em	pé	de	igualdade
com	o	autor	da	Lei	sabática,	donde	seu	direito	de	permitir	aos	discípulos	colher	e
comer	espigas,	quando	a	religião	legalista	exigia	se	abster	de	fazê-lo.
Cura	da	mão	paralisada	(12,9-15a)
||	Mc	3,1-7a;	Lc	6,6-11
Partindo	desse	lugar,	Jesus	entrou	na	sinagoga	deles.	¹ Havia	aí	um	homem	que
tinha	uma	das	mãos	paralisada.	Então,	para	acusarem	Jesus,	perguntaram-lhe:	“É
permitido	curar	em	dia	de	sábado?”	¹¹Jesus	respondeu:	“Quem	de	vocês,	se
tivesse	uma	ovelha	e	ela	caísse	num	buraco	em	dia	de	sábado,	não	a	pegaria	e	a
tiraria	daí?	¹²Ora,	uma	pessoa	vale	muito	mais	que	uma	ovelha!	Portanto,	em	dia
de	sábado	é	permitido	fazer	o	bem”.	¹³Então	disse	ao	homem:	“Estenda	a	mão”.
Ele	a	estendeu,	e	a	mão	ficou	boa	como	a	outra.	¹⁴Os	fariseus	saíram	e	se
reuniram	para	planejar	um	modo	de	matá-lo.	¹⁵aSabendo	disso,	Jesus	se	retirou
desse	lugar.
Novo	episódio	em	torno	da	Lei	do	sábado.	O	ambiente	agora	é	a	“sinagoga
deles”	(v.	9).	O	Mestre	encontra-se	em	pleno	campo	adversário,	um	lugar
sagrado	e	um	tempo	sagrado	onde	depara	com	alguém	com	“uma	das	mãos
paralisadas”	(v.	10a).	O	original	grego	diz	“tendo	a	mão	seca”.	A	mão	simboliza
o	agir	humano	na	antropologia	bíblica.	Embora	não	seja	dito,	o	leitor	implícito
da	catequese	mateana	sabe	tratar-se	da	mão	direita,	com	a	qual	se	faz	o	bem	(Mt
6,3).	A	mão	esquerda	relaciona-se	com	a	prática	do	mal.	O	homem	de	mão	seca
estava	incapacitado	para	fazer	o	bem,	apesar	de	sua	religiosidade.	A	religião	de
nada	lhe	servia	em	se	tratando	de	fazer	a	vontade	de	Deus.
A	pergunta	do	v.	10b	carece	de	sujeito.	Mais	adiante,	saberemos	tratar-se	dos
fariseus,	referidos	na	cena	anterior	(v.	2).	A	questão	capciosa	pode	ser
reformulada	assim	para	revelar-lhe	a	intenção:	“É	permitido	curar	em	dia	de
sábado,	de	modo	a	atropelar	a	Lei	do	repouso	sabático?”	O	foco	deles	centrava-
se	na	obediência	cega	ao	imperativo	da	Lei.	Jesus	mirava	noutra	direção.	Para
ele,	a	pergunta	soava	doutra	forma:	“É	permitido	fazer	o	bem	em	dia	de
sábado?”
A	parábola	da	ovelha	caída	num	buraco	em	dia	de	sábado	ilustra	a	insensatez	de
subordinar	a	prática	do	bem	aos	princípios	da	Lei	(v.	11).	Ninguém	em	são	juízo,
se	possui	uma	ovelha,	a	deixará	no	buraco	em	dia	de	sábado,	à	espera	de	retirá-la
após	o	pôr	do	sol.	Antes,	a	retirará	imediatamente.	A	defesa	de	seus	haveres
impelirá	o	proprietário	da	ovelha	a	agir	de	imediato	para	evitar	o	prejuízo.
Pode-se	prever	a	aplicação	da	parábola.	Um	ser	humano	vale	infinitamente	mais
que	uma	ovelha.	Sendo	assim,	pode-se	fazer	o	bem	em	dia	de	sábado,	sem
necessariamente	atropelar	a	Lei	do	repouso	sabático,	na	eventualidade	de	um	ser
humano	necessitar	(v.	12).	O	argumento	de	Jesus	sublinha	a	insensatez	de
defender	a	integridade	física	de	um	animal	e	carecer	de	compaixão	por	quem
sofre.
A	questão	dos	inimigos	deve	ser	respondida	de	forma	afirmativa:	“Sim,	é
permitido	curar	em	dia	de	sábado”.	De	outra	forma:	“Sim,	é	permitido	fazer	o
bem	em	dia	de	sábado”.	O	absoluto	da	vida	situa-se	num	patamar	muito	superior
a	qualquer	Lei.	Pode	ser	considerado	o	ponto	de	partida	da	Lei,	cuja	função
suprema	consiste	em	defender	a	vida	e	a	dignidade	do	ser	humano.
Jesus	passa	da	argumentação	à	ação.	Ordena	ao	homem	estender	a	mão,	e	no	ato
de	obedecer	à	ordem	de	Mestre,	“a	mão	ficou	boa	como	a	outra”;	literalmente,
“foi	restaurada,	[ficando]	sã	como	a	outra”	(v.	13).	Quem	a	restaurou	foi	a
exousia	concedida	pelo	Pai	a	Jesus.	Aquele	homem,	beneficiado	pela
misericórdia	divina,	doravante	estava	apto	para	fazer	o	bem,	pela	liberdade	de
Jesus	em	obedecer	a	Deus	e	relegar	ao	segundo	plano	as	interpretações	estreitas
da	Lei	despreocupadas	com	a	defesa	da	vida.
A	reação	dos	fariseus	foi	imediata.	Decidiram	a	morte	de	Jesus	(v.	14;	gr.
symboúlion	élabon).	Os	motivos	encontram-se	nas	entrelinhas	da	narração:
desrespeito	à	Lei	mosaica;	ousadia	de	se	colocar	acima	de	Deus	e	contra	Deus;
profanação	do	tempo	e	do	lugar	sagrados	ao	atropelar	os	anseios	de	Deus.	Para
os	acusadores,	tratava-se	de	defender	“os	direitos	de	Deus”.	Para	isso,	eliminar
Jesus	tornava-se	uma	exigência	inadiável!
A	catequese	mateana,	a	partir	desse	momento,	começa	a	se	encaminhar	para	a
morte	de	Jesus.	Os	adversários	buscarão	formas	de	encurralá-lo	até	encontrar!
Ele,	porém,	se	esquivará	quanto	possível.	Eis	por	que	se	retirou	daquele	lugar,
para	escapar	da	sanha	assassina	dos	defensores	de	uma	religião	fanática	e
intolerante	(v.	15a).
Jesus,	o	Servo	de	Javé	em	ação	(12,15b-21)
||	Mc	3,7b-12;	Lc	6,17-19
¹⁵bMuitos	seguiram	a	Jesus,	e	ele	curou	a	todos.	¹ E	proibia	severamente	que
divulgassem	quem	ele	era.	¹⁷Isso	para	que	se	cumprisse	o	que	fora	dito	pelo
profeta	Isaías:	¹⁸“Eis	o	meu	servo,	a	quem	escolhi;	o	meu	amado,	no	qual	minha
alma	se	compraz.	Porei	sobre	ele	o	meu	Espírito,	e	ele	anunciará	o	julgamento	às
nações.	¹ Ele	não	discutirá	nem	clamará,	nem	sua	voz	se	ouvirá	nas	ruas.	² Ele
não	quebrará	o	caniço	rachado,	nem	apagará	o	pavio	que	ainda	fumega,	até	que
leve	o	julgamento	à	vitória.	²¹E	no	seu	nome	as	nações	terão	esperança”.
As	constantes	ameaças	jamais	bloquearam	Jesus.	Todos	quantos	o	seguiam
carentes	de	cura	eram	salvos	pela	força	de	sua	exousía,	a	qualquer	hora	e	em
qualquer	lugar	(v.	15b).	Nada	o	impedia	de	ir	ao	encontro	dos	sofredores	para
lhes	sarar	a	dor	e	o	sofrimento.	Fazer-se	indiferente	ao	sofrimento	humano	se
configuraria	como	infidelidade	ao	Pai,	que	o	revestiu	de	autoridade	em	favor	da
humanidade	precisada	de	salvação.
A	veemente	proibição	de	divulgar	sua	identidade	messiânica	pode	ser	entendida
como	esforço	de	evitar	o	exibicionismo,	tentação	que	o	desviaria	do	caminho
proposto	pelo	Pai	(v.	16).	Buscar	reconhecimento	e	aplausos	estava	fora	de
cogitação	(cf.	Mt	4,5-6).	Seu	comportamento	inspirava-se	no	servo,	referido	por
Isaías,	escolhido	e	amado	por	Deus	e	cheio	do	Espírito,	com	a	missão	de
proclamar	o	julgamento	a	todos	os	povos,	na	humildade	e	no	escondimento,	mas
convicto	de	lhe	competir	o	anúncio	da	esperança	às	nações.	Eis	por	que	“não
quebrará	o	caniço	rachado,	nem	apagaráo	pavio	que	ainda	fumega”,	encontrará
motivos	para	continuar	acreditando,	embora	devendo	se	apegar	a	fiapos	de
evidências	(v.	16-21;	cf.	Is	42,1-4).
Pecado	contra	o	Espírito	Santo	(12,22-32)
||	Mc	3,22-30;	Lc	11,14-23;	12,10
²²Então	levaram	a	Jesus	um	endemoninhado	cego	e	mudo.	E	Jesus	o	curou,	de
modo	que	o	mudo	falava	e	enxergava.	²³E	todas	as	multidões,	espantadas,
diziam:	“Acaso	não	será	este	o	Filho	de	Davi?”	²⁴Ouvindo	isso,	os	fariseus
disseram:	“É	por	Beelzebu,	o	chefe	dos	demônios,	que	ele	expulsa	os
demônios”.	²⁵Jesus,	porém,	conhecendo-lhes	o	pensamento,	lhes	disse:	“Todo
reino	dividido	contra	si	mesmo	é	destruído.	E	toda	cidade	ou	casa	dividida
contra	si	mesma	não	ficará	de	pé.	² E	se	Satanás	expulsa	Satanás,	está	dividido
contra	si	mesmo.	Como,	então,	seu	reinado	poderá	ficar	de	pé?	²⁷Se	eu	expulso
os	demônios	por	Beelzebu,	em	nome	de	quem	os	filhos	de	vocês	os	expulsam?
Por	isso,	eles	próprios	serão	juízes	de	vocês.	²⁸Mas	se	é	pelo	Espírito	de	Deus
que	eu	expulso	os	demônios,	então	já	chegou	para	vocês	o	Reino	de	Deus.	² Ou,
como	alguém	consegue	entrar	na	casa	de	um	homem	forte	e	roubar	seus	bens,	se
primeiro	não	o	amarra?	Só	então	poderá	saquear-lhe	a	casa.	³ Quem	não	está
comigo,	está	contra	mim.	E	quem	não	recolhe	comigo,	espalha.	³¹Por	isso	eu	lhes
digo:	Todo	pecado	e	blasfêmia	serão	perdoados	às	pessoas,	mas	a	blasfêmia
contra	o	Espírito	não	será	perdoada.	³²Se	alguém	disser	algo	contra	o	Filho	do
Homem,	isso	lhe	será	perdoado.	Mas	se	alguém	disser	algo	contra	o	Espírito
Santo,	não	lhe	será	perdoado,	nem	no	presente	nem	no	futuro”.
As	investidas	dos	adversários	continuam.	Jesus	enfrenta-os	com	coragem.	O
narrador	omite-se	de	localizar	a	cena,	apenas	informa	que	levaram	a	Jesus	um
homem	possuído	pelo	mau	espírito,	que	o	impedia	de	se	comunicar	por	ser	cego
e	mudo	(v.	22).	As	duas	limitações	descrevem	mais	sua	condição	existencial	do
que	a	condição	física.	A	cegueira	tirava-lhe	o	discernimento	e	o	fazia	viver	na
escuridão,	impossibilitado	de	caminhar	com	retidão	nos	caminhos	de	Deus	(cf.
Mt	6,22-23).	A	mudez	tornava-lhe	difícil	a	comunicação	com	as	pessoas.	Seja
porque	sua	palavra	perdera	a	credibilidade	(cf.	Mt	5,37),	seja	porque	vivia
fechado	aos	canais	de	interlocução.	O	homem	encarnava	o	ser	humano
antissocial	ou	associal,	contradizendo	o	desejo	do	Criador	que	o	criou	como	ser
de	relações.
Jesus,	cuja	missão	consistia	em	“salvar	o	povo	dos	seus	pecados”	(Mt	1,21),
entra	imediatamente	em	ação	e	cura	o	indivíduo	impossibilitado	de	se
comunicar.	Este	passa	a	falar	e	a	ver!	As	multidões	admiradas	reconhecem	ser
Jesus	o	Filho	de	Davi,	título	usado	em	várias	ocasiões	(v.	23;	cf.	Mt	9,27;	15,22;
20,30-31;	21,9.15).	Ao	considerar	Jesus	Filho	de	Davi,	as	multidões	percebem	a
presença	de	algo	extraordinário	em	suas	vidas,	pois	veem	as	pessoas
recuperando	sua	dignidade	e	descortinando	um	largo	horizonte	de	inter-relações
pela	ação	do	Filho	de	Davi.	A	superação	da	cegueira	e	da	mudez	do
endemoninhado	apontava	nessa	direção.	O	Filho	de	Davi	empenhava-se	para
criar	a	sociedade	querida	por	Deus.
A	reação	dos	adversários	vai	na	direção	contrária.	Interpretam	a	libertação
daquele	homem	como	decorrência	de	um	conluio	entre	Jesus	e	Beelzebu,	o	chefe
dos	demônios	(v.	24;	cf.	Mt	9,34;	10,25).	O	raciocínio	simplista	deles
considerava	que	os	demônios	possuidores	do	cego-mudo	cumpriam	ordens	de
seu	chefe,	Beelzebu.	Apenas	esse	poderia	ordenar	que	se	retirassem	daquele
homem.	Se	os	demônios	se	afastaram	pela	palavra	de	um	estranho,	deduz-se	que
Jesus	recebeu	a	permissão	do	chefe	dos	demônios	para	fazê-lo.	Caso	contrário,
sua	palavra	seria	ineficaz!
Jesus	faz	uma	longa	contra-argumentação	para	mostrar	a	inconsistência	do
pensamento	dos	rivais.	O	primeiro	passo	consiste	em	mostrar	a	insensatez	de	se
pensar	Satanás	autorizando	alguém	fora	de	seu	círculo	e	seu	opositor	a	dar
ordens	a	seus	comandados.	Se	isso	fosse	verdade,	seu	reino	estaria	a	um	triz	da
ruína,	por	ter	perdido	o	controle	das	coisas	(v.	25-26).
O	segundo	passo	corresponde	à	aplicação	do	raciocínio	dos	adversários	a	eles
mesmos.	Que	pensar	dos	“filhos”	deles,	isto	é,	seus	seguidores,	quando
expulsam	demônios	como	Jesus?	Agiriam	também	em	conluio	com	Beelzebu?
Como	isso	não	acontece,	podem	testemunhar	em	favor	de	Jesus	e	denunciar	a
falta	de	discernimento	de	seus	pais	(v.	27).
O	terceiro	passo	comporta	a	revelação	da	origem	do	poder	de	Jesus,	para	curar	e
libertar	as	pessoas,	e	o	que	daí	decorre	(v.	28).	Sua	ação	procede	do	“Espírito	de
Deus”	e	sinaliza	a	presença	do	Reino	de	Deus	na	história.	Jesus	dá	um	basta	ao
agir	perverso	de	Beelzebu	e	seus	sequazes,	pois	detém	uma	força	divina	para
impedir	que	o	mal	prevaleça	sobre	os	seres	humanos.	A	história	está	nas	mãos	de
Deus,	que	em	Jesus	faz	irromper	algo	inteiramente	novo,	que	os	fariseus
desconhecem.
O	quarto	passo	sublinha	o	poder	insuperável	de	Jesus	com	uma	metáfora	(v.	29).
Alguém	consegue	assaltar	e	saquear	a	casa	de	um	homem	forte,	só	depois	de
havê-lo	imobilizado.	Se	a	“casa”	de	Beelzebu	foi	invadida	e	seus	asseclas	foram
postos	para	correr,	significa	que	Jesus	“amarrou”	seu	chefe	e	o	imobilizou.	Não
existe	outra	explicação.
Jesus	tira	algumas	conclusões	de	sua	argumentação.	A	primeira	diz	respeito	ao
conjunto	da	cena	onde	“as	multidões”	estão	com	ele	e	“os	fariseus”	são
contrários	a	ele.	Recusar-se	a	caminhar	com	ele	assemelha-se	à	atitude	do
agricultor	que,	ao	invés	de	juntar	os	grãos	colhidos,	dispersa-os	(v.	30).	Atitude
louca!
A	segunda	mostra	a	gravidade	do	que	fazem	os	fariseus	a	partir	de	um
argumento	teológico,	a	imperdoabilidade	da	“blasfêmia	contra	o	Espírito	Santo”
(v.	31).	Blasfemar	contra	o	Espírito	Santo	corresponde	a	fechar	o	coração	para
ele	e	impedi-lo	de	agir	em	benefício	do	ser	humano	ansioso	por	salvação.	Essa
postura	jamais	será	perdoada,	pela	falta	do	pré-requisito	básico	para	o	perdão.
Quando	um	coração	se	abre	para	acolhê-lo,	o	perdão	flui	instantâneo!	O	v.	32	faz
uma	aplicação	desse	argumento.	Uma	ofensa	dirigida	a	Jesus,	o	Filho	do
Homem,	pode	merecer	o	perdão;	isso	não	vale	para	a	ofensa	contra	o	Espírito
Santo,	impossível	de	ser	perdoada,	“nem	nesse	tempo,	nem	no	que	virá”,	com	o
pressuposto	de	persistir	o	fechamento	do	coração	para	a	ação	divina.
A	força	das	palavras	(12,33-37)
||	Lc	6,43-45
³³“Ou	a	árvore	é	boa	e	seu	fruto	é	bom,	ou	a	árvore	é	ruim	e	seu	fruto	é	ruim.
Pois	a	árvore	se	conhece	pelo	fruto.	³⁴Raça	de	cobras	venenosas!	Como	podem
vocês	falar	coisas	boas,	se	são	maus?	Pois	a	boca	fala	do	que	o	coração	está
cheio.	³⁵A	pessoa	boa	tira	coisas	boas	de	seu	bom	tesouro;	a	pessoa	má	tira
coisas	más	de	seu	mau	tesouro.	³ Eu	lhes	digo:	No	dia	do	julgamento,	as	pessoas
prestarão	contas	de	toda	palavra	falsa	que	tiverem	dito.	³⁷Porque	por	suas
palavras	você	será	declarado	justo,	e	por	suas	palavras	será	condenado”.
Jesus	continua	a	falar	e	confrontar	os	opositores,	cuja	identidade	se	pode
conhecer	por	suas	ações.	A	metáfora	da	árvore	e	seus	frutos	serve-lhe	de
referência.	A	qualidade	do	fruto	revela	a	qualidade	da	árvore	(v.	33).	A	malícia
de	quem	o	acusa	de	pacto	com	Beelzebu	por	ter	praticado	o	bem	dá	a	conhecer	a
que	tipo	de	árvore	se	assemelha	(cf.	Mt	7,17).	Retomando	um	vitupério	de	João
Batista	(cf.	Mt	3,7),	chama-os	de	“raça	de	cobras	venenosas”,	de	quem	nada	se
pode	esperar	de	bom	por	serem	árvores	ruins	(v.	34).	Se	o	coração	deles	está
repleto	de	coisas	más,	de	suas	bocas	só	sairão	disparates,	conforme	o	ditado:	“A
boca	fala	do	que	o	coração	está	cheio!”.	As	pessoas	boas	têm	palavras
edificantes	tiradas	do	seu	bom	coração	–	“bom	tesouro”.	Os	mal-intencionados
desavergonhadamente	pouco	se	preocupam	com	a	veracidade	de	suas	palavras,
vindas	do	seu	“mau	tesouro”	(v.	35).
Toda	“palavra	falsa”,	desprovida	de	fundamento,	inverídica,	comporta
consequências	inimagináveis.	Serão	pedidas	contas	de	cada	uma	“no	dia	do
julgamento”	(v.	36).	Quem	as	pronunciou	deverá	se	justificar	diante	do	Juiz	de
toda	a	humanidade,	Deus.	As	palavras	falsas	provêm	do	Maligno	(cf.	Mt	5,37),
como	no	caso	das	aberrações	ditas	contra	Jesus	por	seusdetratores.	Estes	estão
em	maus	lençóis.	Se	as	pessoas	serão	declaradas	justas	ou	condenadas	por	suas
palavras,	que	sorte	esperar	para	quem	falou	do	Filho	do	Homem	de	maneira	tão
despropositada	(v.	37)?	As	palavras	de	Jesus	servem	de	alerta	para	os	fariseus!
O	sinal	de	Jonas	(12,38-42)
||	Mc	8,11s;	Lc	11,29-32
³⁸Então	alguns	doutores	da	Lei	e	fariseus	tomaram	a	palavra	e	disseram:	“Mestre,
queremos	ver	um	sinal	realizado	por	ti”.	³ Jesus	lhes	respondeu:	“Uma	geração
malvada	e	adúltera	busca	um	sinal.	Porém	nenhum	sinal	lhe	será	dado,	a	não	ser
o	sinal	do	profeta	Jonas.	⁴ Porque,	assim	como	Jonas	esteve	três	dias	e	três	noites
na	barriga	do	monstro	do	mar,	também	o	Filho	do	Homem	estará	três	dias	e	três
noites	no	coração	da	terra.	⁴¹Os	habitantes	de	Nínive	se	levantarão	com	esta
geração	no	Julgamento,	e	a	condenarão,	porque	eles	se	arrependeram	com	a
pregação	de	Jonas.	E	aqui	está	quem	é	maior	do	que	Jonas.	⁴²A	rainha	do	sul	se
levantará	com	esta	geração	no	Julgamento,	e	a	condenará,	porque	ela	veio	dos
confins	da	terra	para	escutar	a	sabedoria	de	Salomão.	E	aqui	está	quem	é	maior
do	que	Salomão”.
Os	doutores	da	Lei	juntam-se	aos	fariseus	para	submeter	Jesus	à	prova	quando
lhe	pedem	um	sinal	(v.	38).	O	vocativo	“mestre”	sinaliza	a	má	intenção.	Dessa
forma,	os	inimigos	e	as	pessoas	não	comprometidas	se	dirigem	a	ele	(cf.	Mt
8,19;	19,16;	22,16.24.36).	Falta-lhes	benevolência	para	reconhecerem	num
possível	sinal	a	identidade	messiânica	de	Jesus	que	garanta	a	condição	divina	de
sua	missão.	Daí	sua	reação	ríspida,	embora	no	ambiente	bíblico	o	pedido	de	sinal
ocorra	várias	vezes	como	confirmação	da	procedência	divina	de	alguma	coisa,
como	na	missão	confiada	a	alguém	(cf.	Jz	6,17.39;	Is	7,11;	Lc	23,8;	Jo	4,48).	No
caso	de	Jesus,	o	pedido	de	sinal	origina-se	da	incredulidade	e	do	preconceito	dos
adversários,	despreocupados	em	conhecer	a	verdade	a	seu	respeito.
Uma	resposta	extensa	e	contundente	desmonta	o	atrevimento	dos	opositores.
Esses	são	chamados	de	“geração	malvada	e	adúltera”	(v.	39),	numa	aberta
denúncia	de	suas	perversas	intenções.	Faltava	muito	para	serem	“puros	de
coração”	(cf.	Mt	5,8),	motivo	pelo	qual	o	desejo	de	“ver	um	sinal	realizado”	por
Jesus	fica	em	aberto.
Se	estavam	interessados	em	sinal,	que	lhes	bastasse	“o	sinal	do	profeta	Jonas”.	O
v.	40	compara	a	experiência	de	Jonas,	ao	permanecer	três	dias	e	três	noites	no
ventre	do	monstro	marinho,	com	a	do	Filho	do	Homem,	três	dias	e	três	noites	no
ventre	da	terra	(v.	40).	Em	outras	palavras,	deveriam	esperar	até	a	morte	de	cruz
para	constatar	a	absoluta	fidelidade	e	obediência	dele	ao	Pai	dos	Céus.	Se	fossem
honestos,	perceberiam	que	jamais	buscou	a	si	mesmo,	tampouco	os	interesses
pessoais.	Sua	pauta	de	ação	foi	a	justiça	do	Reino,	anseio	do	Pai	para	ele	e	para	a
humanidade.
O	v.	41	compara	os	habitantes	de	Nínive	com	“esta	geração”.	Enquanto	aqueles
deram	ouvidos	à	pregação	de	Jonas	e	se	converteram,	estes	insistem	em	seus
maus	caminhos.	Por	isso	os	ninivitas,	símbolo	da	acolhida	da	Palavra	de	Deus,
serão	juízes	de	quem	pouco	se	importa	com	as	advertências	divinas	por	meio	do
Filho	do	Homem.	A	docilidade	de	uns	contrasta-se	com	a	dureza	de	coração	de
outros.
A	declaração:	“Aqui	está	quem	é	maior	do	que	Jonas”	comporta	a	revelação	da
identidade	de	Jesus	como	enviado	por	Deus	com	a	missão	de	convocar	o	povo	à
conversão	e	propor-lhe	o	perdão	misericordioso.	Jonas	atuou	outrora	como
profeta;	Jesus	atua	agora	como	Filho	amado	do	Pai	(cf.	Mt	3,17;	17,5).	Se	os
ninivitas	deram	ouvidos	a	Jonas,	tanto	mais	“esta	geração”	deveria	se	dispor	a
ouvir	o	Filho	de	Deus.
Outra	comparação	apela	para	um	fato	bem	conhecido	na	tradição	de	Israel:	a
visita	da	rainha	de	Sabá,	chamada	na	catequese	mateana	de	“rainha	do	sul”,	ao
rei	Salomão	(cf.	1Rs	10,1-10).	A	soberana	estrangeira,	ouvindo	falar	do	sábio	rei
de	Israel,	veio	de	longe	para	escutá-lo	(v.	42).	“Esta	geração”,	tendo	o	Filho	de
Deus	tão	perto	de	si,	insiste	em	desacreditá-lo	e	se	obstina	em	matá-lo.	A	rainha
estrangeira	julgará	“esta	geração”	pela	sensibilidade	de	ir	ao	encalço	de	quem
possui	uma	sabedoria	de	vida	para	lhe	comunicar.	“Esta	geração”	dura	de
coração	resiste	em	dar	ouvidos	ao	encarregado	de	“salvar	seu	povo	dos	seus
pecados”	(cf.	Mt	1,21),	mesmo	tendo-o	tão	próximo	de	si.
Outra	declaração:	“Aqui	está	quem	é	maior	do	que	Salomão”	também	revela	a
identidade	de	Jesus.	Com	o	poder	(exousia)	recebido	do	Pai,	partilha	com	toda	a
humanidade	a	sabedoria	–	justiça	–	do	Reino.	Enquanto	Salomão	ficou
conhecido	como	o	grande	rei	de	Israel,	ele	o	supera	por	ser	Filho	de	Deus!
Retorno	do	espírito	impuro	(12,43-45)
||	Lc	11,24-26
⁴³“Quando	o	espírito	impuro	sai	de	uma	pessoa,	anda	por	lugares	desertos	à
procura	de	descanso,	mas	não	o	encontra.	⁴⁴Então	diz:	‘Voltarei	para	minha	casa,
de	onde	saí’.	Ao	chegar,	ele	a	encontra	vazia,	varrida	e	arrumada.	⁴⁵Então	vai	e
leva	consigo	outros	sete	espíritos	piores	que	ele,	e	vão	habitar	aí.	E	a	situação
final	dessa	pessoa	torna-se	pior	que	antes.	Assim	acontecerá	a	esta	geração
malvada”.
Jesus	dá	um	passo	a	mais	na	contestação	do	pedido	descabido	dos	opositores.	E
o	faz	com	uma	pequena	parábola	em	torno	da	ação	perversa	de	um	espírito
impuro,	fixado	em	atingir	seu	objetivo	de	destruir	uma	pessoa.	A	história	fala	do
espírito	expulso	de	alguém	que	se	torna	livre	e	senhor	de	si.	O	espírito	impuro,
porém,	não	se	conforma	(v.	43).	Anda	de	um	lugar	para	outro,	desassossegado	e
sentindo-se	derrotado,	até	tomar	a	decisão	de	recuperar	“minha	casa,	de	onde
saí”	(v.	44),	por	se	sentir	senhor	de	quem	fora	possuído	por	ele.	Decepciona-se
ao	encontrar	a	casa	“vazia,	varrida	e	arrumada”.	A	desordem	causada	por	ele	era
coisa	do	passado.	Aquele	lugar	já	não	lhe	pertence!	Não	se	dando	por	vencido,
vai	em	busca	de	reforço,	“sete	espíritos	piores	do	que	ele”,	para	tomar	de	assalto
aquela	casa.	Finalmente	consegue.	Como	resultado,	“a	situação	final	dessa
pessoa	torna-se	pior	que	antes”	(v.	45).
Jesus	conclui	aplicando	a	parábola	“a	esta	geração	malvada”.	Está	possuída	por
espíritos	malignos	em	grande	quantidade,	sublinhada	com	o	número	sete,	com
sentido	de	totalidade,	que	a	impedem	de	se	sensibilizar	pelos	chamados
insistentes	de	Deus	à	conversão	por	meio	do	Filho	do	Homem.	O	que	lhe	espera
vai	além	de	todos	os	castigos	sofridos	no	passado	pelos	israelitas.	Jesus	curou	o
endemoninhado	cego-mudo,	mas	não	conseguiu	tirar	o	mau	espírito	dos	doutores
da	Lei	e	dos	fariseus.	Apesar	de	serem	defensores	intransigentes	da	religião	e	de
Deus,	o	futuro	deles	será	tenebroso!
A	nova	família	de	Jesus	(12,46-50)
||	Mc	3,31-35;	Lc	8,19-21
⁴ Jesus	ainda	falava	para	as	multidões,	e	eis	que	sua	mãe	e	seus	irmãos	estavam
fora,	querendo	falar	com	ele.	⁴⁷Alguém	disse	a	Jesus:	“Eis	que	tua	mãe	e	teus
irmãos	estão	ali	fora	querendo	falar	contigo”.	⁴⁸Respondendo,	ele	disse	à	pessoa
que	o	tinha	avisado:	“Quem	é	minha	mãe	e	quem	são	meus	irmãos?”	⁴ E,
apontando	com	a	mão	para	seus	discípulos,	disse:	“Eis	minha	mãe	e	meus
irmãos.	⁵ Pois	aquele	que	faz	a	vontade	do	meu	Pai	que	está	nos	céus,	esse	é	meu
irmão,	irmã	e	mãe”.
O	fluxo	da	narração	interrompe-se	para	se	esclarecer	como	alguém	se	vincula
com	Jesus.	Uma	cena	de	família	serve	de	pretexto	ao	narrador.	Jesus	aparece
“ainda”	falando	para	as	multidões	quando	“sua	mãe	e	seus	irmãos”	se
apresentam	com	o	desejo	de	falar	com	ele	(v.	46).	A	expressão	“estavam	fora”
torna-se	vaga	e	permite	ao	leitor-ouvinte	perguntar-se:	de	onde?	A	última
informação	de	Jesus	ingressando	em	algum	lugar	encontra-se	no	v.	9,	quando
“entrou	na	sinagoga	deles”;	no	v.	15	se	retira	desse	lugar	e	muitos	o	seguem;	as
demais	cenas	parecem	acontecer	ao	ar	livre.	Outras	perguntas	podem	ser	feitas
em	torno	do	“querendo	falar	com	ele”,	sem	ulteriores	especificações.	Que
motivos	teriam	para	ir	ao	encalço	do	parente	Jesus	até	encontrá-lo	rodeado	por
multidões?
A	notícia	da	presença	dos	familiares	chega	a	Jesus	praticamente	repetindo	o
versículo	anterior	(v.	47).	Quem	trouxe	o	recado	retorna	com	a	resposta.	A
pergunta	retórica	de	Jesus	supõe	uma	resposta	óbvia,	à	primeiravista.	Sua	mãe	e
seus	irmãos	são	as	pessoas	que	desejam	falar	com	ele	(v.	48).	Num	gesto	quase
teatral,	aponta	para	os	discípulos,	declarando-os	serem	sua	família,	e	não	quem
estava	lá	fora	à	sua	procura	(v.	49).	A	associação	entre	eles	se	estabelece	não
mais	pelos	vínculos	sanguíneos,	e	sim	pela	submissão	à	“vontade	do	meu	Pai
que	está	nos	céus”	(v.	50).	Corresponde	à	família	do	Reino,	caracterizada	por	um
modo	de	proceder	muito	específico,	explicitado	no	Sermão	da	Montanha	(cf.	Mt
5–7).	A	“vontade	do	Pai	dos	céus”	torna-se	um	imperativo	para	quem	de	coração
deseja	tornar-se	discípulo	dele,	membro	de	sua	verdadeira	família.
Para	reflexão	e	debate
1.	Os	questionamentos	feitos	a	Jesus	têm	em	vista	sua	identidade	messiânica.
Que	elementos	da	identidade	de	Jesus	são	postos	em	questão?	Como	enfrenta
quem	questiona	sua	identidade	e	sua	missão?
2.	Quem	são	nesses	capítulos	os	“sábios	e	entendidos”	e	os	“pequeninos”?
Como	agem	em	relação	a	Jesus?	Como	Jesus	age	em	relação	a	eles?
2.	Discurso:	O	Reino	em	parábolas
O	terceiro	discurso	de	Jesus,	chamado	“discurso	parabólico”,	situa-se	no	centro
da	grande	estrutura	da	catequese	mateana.	Na	sequência	da	narração,	podem-se
identificar,	até	aqui,	três	diferentes	posturas	em	relação	a	Jesus	e	ao	anúncio	do
Reino:	os	escribas	e	os	fariseus	lhe	são	visceralmente	contrários	e	o	consideram
blasfemo	(cf.	Mt	9,3),	conluiado	com	Beelzebu	(cf.	Mt	12,24),	e	lhe	decretam	a
morte	(cf.	Mt	12,14);	os	discípulos	receberam	a	tarefa	de	continuar	sua	missão,
com	o	mesmo	poder	e	autoridade	do	Mestre	(cf.	Mt	10);	as	multidões	seguem-no
para	serem	beneficiadas	por	ele,	mas	não	o	entendem	quando	lhes	fala	do	Reino
(cf.	Mt	13,11).
O	narrador	reúne,	então,	sete	parábolas	centradas	no	conhecimento	“dos
mistérios	do	Reino	dos	Céus”	(cf.	Mt	13,11),	o	modo	como	o	Reino	acontece	na
história,	para	servirem	de	chave	de	interpretação	para	o	ministério	de	Jesus	e	seu
destino,	que	serão	os	mesmos	dos	discípulos	(cf.	Mt	10,25).	O	leitor-ouvinte	vê-
se	diante	do	desafio	de	passar	das	parábolas	à	realidade	na	contemplação	do
testemunho	de	Jesus	e	das	circunstâncias	duras	onde	os	discípulos	vivem	o
compromisso	com	o	Reino.
Com	as	parábolas,	o	catequista	quer	evitar	adesões	apressadas	e	inconsideradas
ao	projeto	de	Jesus,	que	não	avaliam	as	consequências	da	opção;	precaver
eventuais	situações	de	desânimo,	pois	desde	o	início	fica	patente	que	o	Reino	se
constrói	em	meio	a	perdas	e	fracassos.	O	discípulo	manterá	vivo	o	compromisso
com	o	Reino	se	for	capaz	de	ler	a	vida	da	comunidade	numa	perspectiva
escatológica,	consciente	de	caminhar	sob	o	olhar	providente	do	Pai,	Senhor	da
História,	como	Jesus.
O	discurso	foi	inserido	entre	duas	cenas	referentes	aos	familiares	de	Jesus	(cf.
Mt	12,46-50;	13,53-58).	A	primeira	fala	de	“sua	mãe	e	seus	irmãos”	e	a	segunda
de	seus	conterrâneos	de	Nazaré.	Esse	fenômeno	literário	chama-se	inclusão,	uma
espécie	de	moldura	para	a	cena.	As	duas	cenas	podem	conter	uma	pista	com	a
compreensão	do	discurso	parabólico.	Corresponderia	a	um	ensinamento	a
respeito	da	verdadeira	parentela	de	Jesus,	com	a	seguinte	questão	de	fundo:
quem	é	a	comunidade	do	Reino,	em	quem	o	Reino	produz	frutos?	E	a	resposta:
os	discípulos,	à	medida	que	compreenderem	“os	mistérios	do	Reino”	e	seguirem
adiante,	firmes	nos	reveses	da	caminhada	de	fé	e	sempre	prontos	a	“fazer	a
vontade	de	meu	Pai	que	está	nos	céus”	(cf.	Mt	12,50).
O	semeador	(13,1-9)
||	Mc	4,1-9;	Lc	8,4-8
¹Nesse	dia,	Jesus	saiu	de	casa	e	sentou-se	à	beira-mar.	²Grandes	multidões	se
reuniram	em	volta	dele.	Por	isso,	entrou	numa	barca	e	sentou-se,	enquanto	toda	a
multidão	estava	de	pé	na	margem.	³Jesus	falou-lhes	muitas	coisas	com	parábolas.
“Eis	que	o	semeador	saiu	para	semear.	⁴Ao	semear,	uma	parte	da	semente	caiu	à
beira	do	caminho,	e	as	aves	foram	e	a	comeram.	⁵Outra	parte	caiu	entre	as
pedras,	onde	não	havia	muita	terra.	Brotou	logo,	porque	a	terra	não	era	profunda.
Mas,	quando	o	sol	apareceu,	queimou-se	e,	não	tendo	raiz,	secou.	⁷Outra	parte
caiu	entre	os	espinhos:	os	espinhos	cresceram	e	a	sufocaram.	⁸Outra	parte,	enfim,
caiu	em	terra	boa	e	deu	fruto:	algumas	deram	cem,	outras	sessenta,	outras	trinta.
Quem	tiver	ouvidos,	ouça!”
Os	v.	1-2	fazem	a	ambientação	das	palavras	de	Jesus.	“Nesse	dia”	corresponde	a
uma	indicação	temporal	imprecisa,	como	em	cenas	anteriores.	Trata-se	de	um
recurso	do	narrador	para	“costurar”	as	diversas	cenas	e	lhes	dar	unidade
temporal	narrativa.	“Saiu	de	casa”	(v.	1)	e	“foi	para	casa”	(v.	36)	indicam	os	dois
públicos	para	quem	Jesus	se	dirige.	Em	casa,	os	ouvintes	são	os	discípulos;	fora
de	casa,	são	os	discípulos	e	as	multidões.	Estando	a	sós	com	os	discípulos,	longe
das	multidões,	explica-lhes	o	sentido	das	parábolas.	Fica	estabelecida	uma	nítida
distinção	entre	discípulos	e	multidões,	perceptível	ao	longo	de	toda	a	catequese
mateana.	Enquanto	os	discípulos	se	declaram	capazes	de	entender	os	mistérios
do	Reino	(v.	51),	as	multidões	mostram-se	privadas	de	inteligência.
O	Mestre	fala	sentado	em	uma	barca,	enquanto	a	multidão	escuta-o	de	pé,	à
beira-mar.	O	narrador	refere-se	a	“mar”	(gr.	thálassa)	quando,	deveras,	trata-se
do	lago	de	Genesaré,	já	que	Jesus	morava	em	Cafarnaum	(cf.	Mt	4,13).	Uma
informação	interessante	refere-se	ao	caráter	didático	de	seus	ensinamentos.
“Falou-lhes	muitas	coisas	com	parábolas”	alude	a	um	método	comum	de	instruir,
usado	pelos	mestres	judaicos	(v.	3).	Mais	adiante,	se	dirá	que	“não	lhes	falava
nada	que	não	fosse	em	parábolas”	(v.	34).	Esse	modo	de	ensinar	foi	herdado	da
tradição	sapiencial,	como	se	espera	de	um	Mestre.
As	parábolas	são	tiradas	das	coisas	da	vida,	da	experiência,	do	cotidiano.
Dispensam-se	conhecimentos	prévios	e	altas	reflexões.	A	parábola	serve	de
trampolim	para	o	leitor-ouvinte	intuir	a	realidade	do	Reino	em	perfeita	sintonia
com	sua	vivência	da	fé.	Isso	lhe	possibilitará	caminhar	com	segurança	em	meio	a
percalços,	consciente	de	ser	esse	o	destino	do	Reino	de	Deus	na	história.
A	parábola	do	semeador	reflete	o	ambiente	agrícola	da	Palestina,	com	seu	solo
pedregoso	e	uma	técnica	de	semeadura	bem	distinta	da	praticada	em	nossos	dias
(v.	3-8).	Enquanto	atualmente	se	prepara	o	terreno	para	a	semeadura,	nos	tempos
bíblicos	a	semeadura	antecedia	a	aradura	do	terreno.
O	pano	de	fundo	da	parábola	corresponde	à	vida	da	comunidade	em	missão,
onde	os	discípulos-apóstolos	encontram	todo	tipo	de	pessoas,	como	os	distintos
terrenos	onde	a	semente	cai.	O	tríplice	fracasso	(“beira	do	caminho”,	“pedras”	e
“espinhos”)	corresponde	à	tríplice	quantidade	de	frutos	(“cem,	sessenta,	trinta”),
com	uma	evidente	chamada	de	atenção	para	as	muitas	perdas	no	processo	da
semeadura.	Engana-se	quem	pretende	colher	cem	por	cento	de	fruto	num	sucesso
estrondoso	da	missão!	Se	uma	pequena	parte	da	palavra	semeada	frutificar,	dê-se
por	satisfeito.
A	advertência:	“Quem	tiver	ouvidos,	ouça!”	(v.	9)	serve	de	alerta	para	os
discípulos-apóstolos	incautos	e	desavisados.	Cuidado	para	não	nutrirem
expectativas	ingênuas	de	sucesso,	aplausos	e	reconhecimento.	O	Reino	constrói-
se	de	maneira	sutil,	longe	dos	esquemas	mundanos	de	grandeza.	O	pessimismo	e
o	medo	do	fracasso	são	incompatíveis	com	o	ideal	dos	servidores	do	Reino.
O	porquê	das	parábolas	(13,10-17)
||	Mc	4,10-12;	Lc	8,9-10
¹ Os	discípulos	se	aproximaram	de	Jesus	e	lhe	perguntaram:	“Por	que	falas	a	eles
em	parábolas?”	¹¹Jesus	respondeu:	“Porque	a	vocês	é	dado	conhecer	os	mistérios
do	Reino	dos	Céus,	mas	a	eles	não.	¹²Pois	será	dado	a	quem	tem,	e	lhe	será	dado
em	abundância.	Mas	a	quem	não	tem,	mesmo	o	que	tem	lhe	será	tirado.	¹³É	por
isso	que	falo	a	eles	em	parábolas:	porque	veem	sem	ver,	e	ouvem	sem	ouvir	e
entender.	¹⁴Neles	então	se	cumpre	aquela	profecia	de	Isaías	que	diz:	‘Vocês
ouvirão,	mas	não	entenderão;	enxergarão,	mas	não	verão.	¹⁵Porque	o	coração
deste	povo	ficou	insensível.	Ouviram	de	má	vontade	e	fecharam	os	olhos,	para
que	não	vejam	com	os	olhos,	não	ouçam	com	os	ouvidos,	não	compreendam
com	o	coração	nem	se	convertam,	e	assim	eu	os	cure’.	¹ Mas	felizes	são	os	olhos
de	vocês,	porque	veem,	e	seus	ouvidos,	porqueouvem.	¹⁷Pois	eu	lhes	garanto:
Muitos	profetas	e	justos	desejaram	ver	o	que	vocês	estão	vendo,	mas	não	viram.
Desejaram	ouvir	o	que	vocês	estão	ouvindo,	mas	não	ouviram”.
Uma	pergunta	dos	discípulos	interrompe	o	discurso	de	Jesus.	Querem	saber	o
motivo	pelo	qual	fala	às	multidões	em	parábolas	(v.	10).	Por	que	não	lhes	diz	as
coisas	abertamente	e	as	poupa	do	esforço	de	decodificação	de	histórias	um	tanto
simplórias?	Questionam	o	método	privilegiado	pelo	Mestre.
Este	se	põe	a	responder,	como	das	outras	vezes,	de	maneira	bem	sistemática.	O
primeiro	passo	consiste	em	distinguir	bem	entre	“vocês”	(discípulos)	e	“eles”
(multidão)	(v.	11).	Os	discípulos	conhecem	os	“mistérios	do	Reino	dos	Céus”
por	acolhê-lo	de	coração	aberto,	com	a	disposição	de	se	engajarem	na	aventura
de	serem	guiados	pelo	Pai	dos	Céus,	como	o	Filho	Jesus.	As	multidões	têm	ainda
um	longo	caminho	pela	frente,	até	atingirem	a	maturidade	requerida	para	a
compreensão	dos	mistérios	do	Reino.	Devem	superar	preconceitos,	falsas
expectativas	e	ideias	equivocadas.	O	discipulado	do	Reino	supõe	corações
renovados!
O	v.	12	exige	ser	bem	entendido	para	se	evitarem	aplicações	indevidas.	“A	quem
tem,	lhe	será	dado	em	abundância”	alude	à	condição	do	discípulo	que	se
empenha	em	conformar	sua	vida	com	as	exigências	do	Reino	e	alcançar	novos
patamares,	tendo	como	horizonte	e	meta	a	perfeição	do	Pai	(cf.	Mt	5,48).	“A
quem	não	tem,	mesmo	o	que	tem	lhe	será	tirado”	reporta-se	aos	recalcitrantes
interpelados	pelo	Reino,	como	os	três	tipos	de	terrenos	inférteis	da	parábola	do
semeador.	A	indisposição	para	abraçar	o	Reino	com	total	generosidade	leva-os	a
perder	o	pouquinho	que	adquiriram.
A	experiência	das	multidões	ao	escutarem	as	parábolas	corresponde	a	“veem
sem	ver,	e	ouvem	sem	ouvir	e	entender”	(v.	13).	São	inaptas	para	superar	a
materialidade	da	história	retratada	na	parábola	e	atingir	o	núcleo	da	mensagem
veiculada.	Permanecem	na	superficialidade	das	palavras!	Por	isso	o	Mestre	usa	o
gênero	parabólico	para	evitar	ser	mal-entendido.	Apenas	quem	tem	um	coração
de	discípulo	o	compreenderá!
O	segundo	passo	comporta	uma	espécie	de	fundamentação	bíblica	da	opção
metodológica	do	Mestre	(v.	14-15).	Seu	ensinamento	parabólico	torna	verdadeira
a	profecia	de	Isaías	no	confronto	com	a	incredulidade	de	seus	ouvintes	(cf.	Is
6,9-10).	Como	o	profeta	do	passado	experimentou	a	indiferença	e	a	surdez	do
povo,	o	Mestre	tinha	consciência	de	passar	por	idêntica	situação.	As	multidões
ouvem	sem	entender	e	enxergam	sem	ver.	O	coração	insensível	e	a	má	vontade
lhes	fecham	os	olhos	e	as	impedem	de	ver,	ouvir,	compreender	e	se	converter,	de
modo	a	perderem	a	chance	de	serem	curadas	(cf.	v.	58).	A	experiência	de	Isaías,
confrontado	com	a	dureza	de	coração	de	seu	povo,	servia	de	parábola	para	a
missão	do	Mestre	Jesus.
O	terceiro	passo	consiste	num	louvor	à	postura	dos	discípulos,	chamados	de
“felizes”,	bem-aventurados	(gr.	makárioi)	(v.	16).	A	bem-aventurança	do
discipulado	consiste	em	ver	e	ouvir	as	palavras	do	Mestre,	compreendê-las	e
torná-las	decididamente	pauta	de	vida	(cf.	Mt	12,50).	Comparados	com	“muitos
profetas	e	justos”	do	passado,	encontram-se	em	posição	de	superioridade.
Aqueles	ansiaram	ver	coisas	que	os	discípulos	têm	a	graça	de	ver	e	ouvir	no
seguimento	de	Jesus	(v.	17;	cf.	Mt	11,11).
Explicação	da	parábola	do	semeador	(13,18-23)
||	Mc	4,13-23;	Lc	8,11-17
¹⁸“Ouçam,	portanto,	a	explicação	da	parábola	do	semeador.	¹ Todo	aquele	que
ouve	a	Palavra	do	Reino	e	não	a	entende,	vem	o	Maligno	e	leva	embora	o	que	foi
semeado	em	seu	coração.	Essa	é	a	semente	semeada	à	beira	do	caminho.	² O	que
foi	semeado	entre	as	pedras	é	aquele	que	ouve	a	Palavra	e	logo	a	recebe	com
alegria.	²¹Mas	não	tem	raiz	em	si	mesmo,	é	de	momento.	Quando	vem	uma
tribulação	ou	perseguição	por	causa	da	Palavra,	logo	tropeça	e	cai.	²²O	que	foi
semeado	entre	os	espinhos	é	aquele	que	ouve	a	Palavra,	porém	as	preocupações
do	mundo	e	a	sedução	da	riqueza	sufocam	a	Palavra,	e	ela	não	dá	fruto.	²³O	que
foi	semeado	em	terra	boa	é	aquele	que	ouve	a	Palavra	e	a	entende.	Esse	dá	fruto:
um	produz	cem,	outro	sessenta,	outro	trinta”.
O	Mestre	põe-se	a	explicar	a	parábola	do	semeador	(v.	18).	Pressupõe-se	que	as
multidões	também	o	estejam	ouvindo.	Porém,	como	não	entenderam	a	parábola,
da	mesma	forma	não	entenderão	a	explicação.
Esse	modo	de	falar	chama-se	alegorização,	com	a	decodificação	de	cada
elemento	da	parábola	no	processo	de	identificá-lo	com	uma	realidade	concreta,
entendê-lo	separadamente	e	no	conjunto.	Difere-se	da	alegoria,	na	qual	cada
elemento	da	história	já	está	relacionado	com	uma	realidade	bem	definida,
conhecida	pelo	leitor-ouvinte,	que	faz	o	processo	de	decodificação	ao	longo	da
leitura-audição	(cf.	Mt	21,33-46).
A	Palavra	semeada	à	beira	do	caminho	corresponde	aos	ouvintes	incapazes	de
entendê-la	e	acolhê-la,	de	modo	a	permitir	ao	Maligno	“roubá-la”	com
facilidade,	como	foi	o	caso	das	cidades	impenitentes,	e	dos	inimigos	que	atacam
o	Messias	Jesus	e	não	o	deixam	em	paz	(v.	19;	cf.	Mt	11,20-24;	12,24).	A
Palavra	semeada	em	terreno	pedregoso	representa	quem	se	mostrou	aberto	para
acolhê-la;	porém,	falta-lhe	estofo	para	resistir	às	tribulações	e	às	perseguições
por	causa	da	Palavra,	como	acontece	com	quem	constrói	a	casa	sobre	a	areia	(v.
20-21;	cf.	Mt	7,26-27).	A	Palavra	semeada	entre	espinhos	faz	alusão	a	quem,
tendo-a	acolhido,	mostra-se	fraco	para	perseverar	ao	se	ver	assoberbado	pelas
preocupações	mundanas	e	a	sedução	da	riqueza,	como	pode	ser	o	caso	do	jovem
rico	(v.	22;	cf.	Mt	19,21-22).	A	Palavra	semeada	em	terra	boa	corresponde	a
quem	acolhe	o	convite	para	o	discipulado	do	Reino,	transforma-o	em	projeto	de
vida	e	se	esforça	para	produzir	sempre	mais	frutos	(v.	23;	cf.	Mt	4,20.22;	12,49-
50).
O	trigo	e	o	joio	(13,24-30)
²⁴Jesus	lhes	contou	outra	parábola.	“O	Reino	dos	Céus	é	como	um	homem	que
semeou	boa	semente	em	seu	campo.	²⁵Enquanto	os	homens	dormiam,	veio	o
inimigo	dele,	semeou	joio	no	meio	do	trigo,	e	foi	embora.	² Quando	o	trigo
cresceu	e	começou	a	granar,	apareceu	também	o	joio.	²⁷Os	servos	do	proprietário
foram	até	ele	e	perguntaram:	‘O	senhor	não	semeou	boa	semente	em	seu	campo?
Então,	como	é	que	tem	joio?’	²⁸Ele	respondeu:	‘Um	homem	inimigo	é	que	fez
isso’.	Os	servos	lhe	perguntaram:	‘Quer	que	vamos	arrancá-lo?’	² Ele	disse:
‘Não!	Porque,	ao	arrancar	o	joio,	vocês	poderiam	arrancar	também	o	trigo	com
ele.	³ Deixem	os	dois	crescerem	juntos	até	a	colheita.	No	tempo	da	colheita,	direi
aos	ceifadores:	Arranquem	primeiro	o	joio	e	o	amarrem	em	feixes	para	ser
queimado.	Depois,	recolham	o	trigo	em	meu	celeiro’	”.
A	parábola	do	trigo	e	do	joio	descreve	uma	situação	verossímil	num	ambiente
agrícola,	desprovido	de	cercas	e	muros,	onde	a	passagem	de	uma	propriedade
para	outra	ou	a	invasão	de	propriedade	se	faz	com	facilidade.	O	agricultor
semeou	“boa	semente”;	no	versículo	seguinte	saberemos	tratar-se	de	“trigo”	(v.
24).	Durante	a	noite,	quando	os	empregados	dormiam,	“o”	inimigo	invadiu	a
propriedade	e	sorrateiramente	semeou	“joio	(gr.	zizánia)	no	meio	do	trigo”	e
desapareceu	(v.	25).	Com	maldade	premeditada,	escolheu	um	tipo	de	semente
bem	parecida	com	o	trigo,	de	modo	a	evitar	suspeitas.	As	aparências	enganam!
As	sementes	do	trigo	começaram	a	brotar	e,	com	elas,	o	joio	(v.	26).	Os
empregados	atônitos	questionam	o	proprietário	do	campo	com	a	suspeita	de	ter-
se	enganado	e	no	lugar	da	boa	semente	ter	semeado	a	má.	Queriam	saber	a
origem	inexplicável	do	joio,	cuja	presença	poderia	arruinar	o	esforço	da
semeadura	feita	com	a	esperança	de	ter	uma	colheita	farta	(v.	27).	Muitos
sentimentos	negativos	podem	ter-se	apossado	deles:	frustração,	raiva,
indignação.
A	resposta	do	proprietário	parece	carregada	de	resignação.	Atribui	o	malfeito	a
“um	homem	inimigo”	e	se	dá	conta	da	maldade	que	lhe	causaria	enorme	prejuízo
(v.	28).	Os	empregados	sentem-se	incomodados	e	pedem	permissão	para
começar	imediatamente	o	trabalho	de	arrancar	o	joio.
O	proprietário	sensato	e	prudente	freia	o	ímpeto	dos	empregados	e	os	impede	de
se	deixarem	levar	pela	emoção	(v.	29-30).	A	probabilidade	dearrancar	o	trigo
junto	com	o	joio	seria	grande.	A	prudência	aconselhava	deixá-los	crescer	até	a
colheita,	quando	seria	possível	identificá-los	com	toda	facilidade.	Só	então	se
poderia	colher	o	joio,	amarrá-lo	em	feixes	e	queimá-lo.	Já	o	trigo	seria
devidamente	recolhido	e	guardado	no	celeiro	do	proprietário.
Os	semeadores	de	joio	na	comunidade	dos	discípulos	do	Reino	podem	ser
identificados	com	os	falsos	profetas	(cf.	Mt	7,15-20).	A	aparência	de	ovelhas
esconde	lobos	ferozes.	Serão	reconhecidos	e	desmascarados	pelos	frutos.
Verdadeiros	e	falsos	profetas	semeiam	a	Palavra	no	coração	dos	discípulos.	Só
na	escatologia	serão	indubitavelmente	identificados	e	terão	as	respectivas	sortes
definidas	pelo	Senhor	do	Reino.
A	semente	de	mostarda	(13,31-32)
||	Mc	4,30-32;	Lc	13,18-10
³¹Jesus	lhes	apresentou	outra	parábola:	“O	Reino	dos	Céus	é	como	uma	semente
de	mostarda	que	um	homem	pegou	e	semeou	em	seu	campo.	³²É	a	menor	de
todas	as	sementes.	Mas,	quando	cresce,	é	a	maior	das	hortaliças.	Torna-se	árvore,
a	tal	ponto	que	as	aves	do	céu	fazem	ninhos	em	seus	ramos”.
A	parábola	compara	o	Reino	dos	Céus	com	o	grão	de	mostarda	que,	da	condição
de	“menor	de	todas	as	sementes”,	torna-se	uma	árvore	em	cujos	ramos	as	aves
dos	céus	fazem	seus	ninhos.
Os	discípulos	devem	se	convencer	de	que	o	Reino,	pequenino	nos	seus	inícios,
tem	como	destino	tornar-se	grande	e	abarcar	“todas	as	nações”	(Mt	28,18).	Essa
consciência	deverá	consolá-los	em	momentos	de	desânimo	e	animá-los	a	levar
adiante	a	missão	recebida,	sempre	de	cabeça	erguida,	com	vistas	ao	futuro,	em
meio	às	agruras	do	presente	(cf.	Mt	10).
O	fermento	(13,33)
||	Lc	13,20-21
³³Contou-lhes	outra	parábola:	“O	Reino	dos	Céus	é	como	o	fermento	que	uma
mulher	pegou	e	misturou	em	três	medidas	de	farinha,	até	tudo	ficar	fermentado”.
A	pequeníssima	parábola	do	fermento	misturado	a	três	medidas	de	farinha
chama	a	atenção	para	a	força	do	Reino,	quando	involucrado	na	história	humana
pela	ação	dos	discípulos-apóstolos	e	seu	testemunho	de	justiça	(v.	33).	A
pequena	quantidade	de	fermento	juntada	à	grande	quantidade	de	farinha	mostra
sua	presença	quando	a	massa	começa	a	crescer,	embora	o	fermento	permaneça
invisível,	impossível	de	ser	distinguido.	Onde	estão	os	discípulos	do	Reino,
despercebidos	aos	olhares	mundanos,	sua	presença	se	torna	perceptível	no
crescimento	dos	valores	do	Reino,	encarnados	na	prática	da	misericórdia	e	no
cuidado	com	os	mais	frágeis	(cf.	Mt	25,34-40).	As	parábolas	do	“sal	da	terra”	e
da	“luz	do	mundo”	podem	ser	acrescentadas	à	do	fermento,	por	focarem	todas	na
maneira	como	os	discípulos	do	Reino	se	fazem	presentes	na	história	(cf.	Mt
5,13-16).
Avançar	na	compreensão	(13,34-35)
||	Mc	4,33-34
³⁴Jesus	falou	todas	essas	coisas	às	multidões	em	parábolas.	Não	lhes	falava	nada
que	não	fosse	em	parábolas.	³⁵Isso	para	se	cumprir	o	que	foi	dito	pelo	profeta:
“Vou	abrir	a	boca	em	parábolas.	Vou	proclamar	coisas	escondidas	desde	a
fundação	do	mundo”.
O	narrador	retoma	a	questão	do	método	utilizado	por	Jesus	em	seus
ensinamentos.	Muito	diferente	de	certos	mestres	da	Lei	fixados	na	explicação	da
Lei	mosaica,	donde	tiravam	sempre	novas	imposições	a	serem	colocadas	nas
costas	do	povo	(cf.	Mt	11,28),	optou	por	falar	em	parábolas,	de	modo	a
comprometer	os	ouvintes	no	processo	de	compreensão	e	assimilação	da	“vontade
do	Pai	dos	Céus”	a	ser	transformada	em	projeto	de	vida	(v.	34).	O	caminho
sapiencial	do	Reino	deve	começar	no	mais	íntimo	do	coração	humano,	como
apelo	divino	e	não	como	fardo	moralista	imposto	de	fora.
A	opção	do	Mestre	Jesus	atualiza	a	declaração	do	salmista,	chamado	de	profeta,
quando	se	propunha	a	recordar	a	experiência	do	povo	de	Israel	à	escuta	de	seu
Deus,	servindo-se	de	um	método	diferente	ao	falar	“em	parábolas”,	linguajar
metafórico	e	carregado	de	poesia	(v.	35;	cf.	Sl	78,2).
Explicação	da	parábola	do	trigo	e	do	joio	(13,36-43)
³ Então,	tendo	deixado	as	multidões,	Jesus	foi	para	casa.	Seus	discípulos	se
aproximaram	dele	e	lhe	pediram:	“Explica-nos	a	parábola	do	joio	do	campo”.
³⁷Ele	respondeu:	“Quem	semeia	a	boa	semente	é	o	Filho	do	Homem.	³⁸O	campo
é	o	mundo.	A	boa	semente	são	os	filhos	do	Reino.	O	joio	são	os	filhos	do
Maligno.	³ O	inimigo	que	o	semeou	é	o	diabo.	A	colheita	é	o	fim	do	mundo.	Os
ceifadores	são	os	anjos.	⁴ Tal	como	o	joio	é	recolhido	e	queimado	no	fogo,	assim
será	no	fim	do	mundo.	⁴¹O	Filho	do	Homem	enviará	seus	anjos.	Eles	recolherão
de	seu	Reino	todos	os	escândalos	e	os	que	praticam	o	mal,	⁴²e	os	jogarão	na
fornalha	ardente.	Aí	haverá	choro	e	ranger	de	dentes.	⁴³Então	os	justos	brilharão
como	o	sol	no	Reino	de	seu	Pai.	Quem	tiver	ouvidos,	ouça!”
Muda-se	o	cenário	do	discurso.	O	Mestre	deixa	a	multidão	e	volta	para	casa
acompanhado	dos	discípulos	(v.	36).	Uma	vez	mais	fica	estabelecida	a	distinção
entre	multidão	e	discípulos	e	suas	respectivas	posturas	com	respeito	ao	Mestre.
Seus	esforços	concentram-se	em	preparar	os	discípulos	da	melhor	maneira
possível	para	estarem	em	condições	de	levar	adiante	a	missão	de	anunciar	o
Reino	pelo	mundo	inteiro	e	propor	à	humanidade	inteira	o	convite	para	o
discipulado.
Os	discípulos	querem	conhecer	o	sentido	da	parábola	“do	joio	do	campo”.
Supõe-se	terem	sido	incapazes	de	compreender	a	mensagem	veiculada;	não
conseguiram	decodificar	a	metáfora	e	perceber	a	luz	oferecida	para	entender	o
cotidiano	do	Reino	a	ser	vivido	por	eles	quando	partissem	em	missão.
O	Mestre	põe-se	a	fazer	uma	alegorização	da	parábola	com	a	identificação	de
cada	elemento	a	partir	do	que	os	discípulos	conhecem	e	experimentam.	O
trabalho	do	Filho	do	Homem	no	campo	do	mundo	para	semear	a	boa	semente
correspondente	aos	“filhos	do	Reino”	está	destinado	a	ser	vítima	da	maldade	dos
inimigos	e	adversários	(v.	37-39a).	Será	sempre	assim!	Daí	a	importância	de
conter	o	ímpeto	de	eliminá-los	ou	de	pensar	que	um	dia	haverão	de	desaparecer.
Os	discípulos-apóstolos	devem	aceitar	que	a	missão	transcorrerá	em	meio	a
perseguições	e	dificuldades	(cf.	Mt	10).	Será	preciso	convencer-se	disso.
Atenção	quando	tudo	parece	ir	bem,	com	muito	êxito	e	sucesso!	Existe	a
possibilidade	de	a	ação	maléfica	dos	falsos	profetas	prevalecer,	com	o	resultado
de	levar	muitos	a	entrarem	pelo	caminho	largo	e	espaçoso	que	conduz	à	perdição
(cf.	Mt	7,13.15).
A	colheita	(“fim	dos	tempos”)	faz	alusão	ao	juízo	divino,	momento	em	que	a
identidade	de	cada	ser	humano	será	revelada	(v.	39b;	cf.	Mt	24,3;	28,20).	Os
escandalosos	e	os	malvados	(“filhos	do	Maligno”)	serão	desmascarados	e,	como
o	joio,	lançados	no	fogo	inextinguível,	onde	“haverá	choro	e	ranger	de	dentes”
(v.	40-42).	O	desespero	resulta	de	terem	sido	excluídos	da	salvação	oferecida
pelo	Messias	Jesus.	Os	justos	(“filhos	do	Reino”),	semelhantes	ao	trigo,
“brilharão	como	o	sol	no	Reino	de	seu	Pai”	(v.	43a).	A	história	caminha	para
esse	momento	do	qual	ninguém	poderá	escapar	(cf.	Mt	25,31-46).
A	conclusão	insiste	na	urgência	do	discernimento	(v.	43b).	Os	discípulos-
apóstolos	são	desafiados	a	superar	a	ingenuidade	de	se	pensarem	livres	das
investidas	dos	adversários.	Poderão	fracassar	se	tomarem	atitudes	impensadas
para	enfrentá-los.	O	imperativo	“ouça”	apela	para	uma	postura	espiritual	quando
mergulhados	na	realidade	da	missão.
O	tesouro	e	a	pérola	(13,44-46)
⁴⁴“O	Reino	dos	Céus	é	como	um	tesouro	escondido	no	campo.	Um	homem	o
descobre	e	o	esconde	de	novo.	Cheio	de	alegria,	ele	vai,	vende	tudo	o	que	possui
e	compra	esse	campo.	⁴⁵O	Reino	dos	Céus	é	também	como	um	comerciante	que
viaja	em	busca	de	pérolas	de	boa	qualidade.	⁴ Quando	descobre	uma	pérola	de
grande	valor,	ele	vai,	vende	tudo	o	que	possui	e	a	compra”.
A	parábola	do	tesouro	e	a	da	pérola,	paralelas	e	complementares,	têm	finalidade
semelhante.	Mostram	como	deve	se	comportar	quem	almeja	tornar-se	discípulo
no	confronto	com	os	apelos	do	Reino.
O	tesouro	escondido	no	campo	e	encontrado	por	acaso	reporta-se	a	uma
experiência	possível	no	contexto	em	que	a	parábola	foi	construída	(v.	44).	Na
iminência	de	um	ataque	inimigo,	havia	quem	enterrasse	os	pertences	valiosos	na
esperança	de	reavê-los,	passadas	as	tribulações.	Entretanto,podia	acontecer	de
serem	exterminados	e	o	tesouro	escondido	ser	encontrado,	muito	tempo	depois,
por	algum	lavrador	trabalhando	a	terra.	Acontece	isso	com	o	homem	da
parábola,	trabalhador	em	terra	alheia.	Sua	reação	serve	de	imagem	para	quem
depara	com	o	Reino.	Como	o	homem	desfaz-se	de	todas	suas	posses	para
investir	tudo	na	compra	do	terreno	onde	está	o	tesouro,	o	discípulo	considera	o
Reino	o	absoluto	de	sua	vida,	a	ponto	de	colocar	tudo	mais	em	segundo	plano
(cf.	Mt	4,20.22;	9,9).	E	o	faz	com	alegria!	Quem	não	tem	espírito	de	discípulo
perde	a	chance	de	dar	um	passo	radical	pelo	apego	aos	seus	bens	(cf.	Mt	19,21-
22).
O	comerciante	em	busca	de	“pérolas	de	boa	qualidade”	ilustra	outra
possibilidade	de	fazer	a	experiência	de	encontro	com	o	Reino	(v.	45-46).	No	caso
do	tesouro	escondido,	o	encontro	se	dá	de	maneira	fortuita;	quanto	à	“pérola	de
grande	valor”,	a	experiência	de	encontro	se	dá	após	longa,	persistente	e	atenta
busca.	A	reação	do	comerciante	torna-se	imagem	da	reação	de	quem	busca	o
Reino	até	encontrá-lo;	quando	isso	acontece,	tudo	mais	perde	a	importância	e
pode	ser	descartado	em	função	da	aquisição	“da”	pérola	valiosa.	Todos	os
empecilhos	serão	superados	para	se	atingir	o	objetivo	(cf.	Mt	2,1-12;	7,7-8).
A	rede	de	pesca	(13,47-50)
⁴⁷“E	ainda:	O	Reino	dos	Céus	é	como	uma	rede	lançada	ao	mar,	e	que	recolhe
todo	tipo	de	peixe.	⁴⁸Quando	está	cheia,	a	puxam	para	a	margem	e,	sentados,
juntam	em	cestas	o	que	é	bom,	e	jogam	fora	o	que	não	presta.	⁴ Assim	será	no
fim	do	mundo:	Os	anjos	virão,	separarão	os	maus	do	meio	dos	justos,	⁵ e	os
jogarão	na	fornalha	ardente.	Aí	haverá	choro	e	ranger	de	dentes”.
A	mensagem	da	parábola	da	rede	assemelha-se	à	da	parábola	do	trigo	e	do	joio
(v.	36-43).	O	ambiente	em	que	Jesus	e	os	discípulos	se	encontram	favorece	a
visualização	da	parábola.	A	rede	lançada	ao	mar	foge	do	controle	dos
pescadores,	no	tocante	à	qualidade	e	à	quantidade	de	peixes	apanhados,	pois
recolhem	“todo	tipo	de	peixe”	(v.	47).	Deverão	ter	paciência	e	esperar	o	final	da
pescaria	para	fazer	a	seleção	e	recolher	os	peixes	bons	e	descartar	“o	que	não
presta”	(v.	48).	Essa	metáfora	descreve	o	“fim	dos	tempos”,	quando	os	maus
serão	tirados	do	meio	dos	justos	para	receber	a	paga	pelos	malfeitos	(v.	49-50).
Os	discípulos	se	defrontam	na	comunidade	com	a	presença	indesejada	de
pessoas	pouco	empenhadas	em	viver	a	justiça	do	Reino	(cf.	Mt	7,15-23;	22,11-
14)	e	até	mesmo	de	traidores	do	Mestre	(cf.	Mt	10,4).	Ocorre	a	tentação	de
expulsá-las	com	o	propósito	de	fazer	a	comunidade	ser	inteiramente	fiel	ao
Senhor.	O	Mestre	recomenda	conter-se	de	modo	a	evitar	juízos	precipitados	(cf.
Mt	7,1-2).	O	juízo	definitivo	está	nas	mãos	do	Senhor	do	Reino,	que	o	fará	no
momento	oportuno.	A	história	corresponde	ao	tempo	da	paciência	e	do
discernimento	para	se	manter	firme	no	bom	caminho,	longe	da	influência	dos
falsos	discípulos	(cf.	Mt	16,6.11-12).
Tornar-se	discípulo	no	Reino	(13,51-52)
⁵¹“Vocês	entenderam	todas	essas	coisas?”	Eles	responderam:	“Sim”.	⁵²E	Jesus
lhes	disse:	“Por	isso,	todo	doutor	da	Lei	que	foi	instruído	no	Reino	dos	Céus	é
como	um	dono	de	casa	que	tira	de	seu	cofre	coisas	novas	e	velhas”.
A	pergunta	conclusiva	do	discurso	parabólico	tem	um	papel	fundamental	na
catequese	mateana	(v.	51).	Só	pode	ser	discípulo	quem	for	capaz	de	compreender
a	presença	do	Reino	na	história,	marcada	por	perdas,	fracassos,	pequenez	e
investidas	dos	inimigos.	Reino,	porém,	destinado	a	crescer,	chegando	a	abrigar
toda	a	humanidade.	A	falta	dessa	consciência	de	base	pode	acarretar	expectativas
inconsideradas	de	grandeza,	sucesso,	reconhecimento,	aplausos	e	mundanidades
na	contracorrente	dos	ensinamentos	e	da	vida	do	Mestre	Jesus.	Os	discípulos
verdadeiros	percebem	a	ação	do	Reino	nos	meandros	da	história,	como	o
fermento	na	massa	e	o	pequenino	grão	de	mostarda.	A	capacidade	de	olhar	não
se	fixando	nas	aparências	permite-lhes	detectar	a	presença	do	Pai	dos	Céus
agindo	em	favor	da	humanidade.	Essa	condição	dos	discípulos	distingue-os	das
multidões,	cuja	postura	é	de	indiferença,	de	dificuldade	para	compreender	os
ensinamentos	do	Mestre	e	até	mesmo	de	hostilidade.
Caso	os	discípulos	tivessem	respondido	“não”,	o	Mestre	deveria	recomeçar	a
instrui-los	desde	os	primeiros	passos.	A	continuação	da	catequese	supõe	o
conhecimento	dos	“mistérios	do	Reino	dos	Céus”	para	evitar	frustrações.	Afinal,
os	inimigos	de	Jesus	já	decretaram	sua	morte	e,	doravante,	as	dificuldades	serão
sempre	mais	crescentes	(cf.	Mt	12,14).
O	v.	52,	com	a	expressão	“por	isso”,	liga-se	de	maneira	muito	tênue	ao	restante
do	discurso	parabólico.	Poderia	ser	uma	forma	de	o	catequista-narrador
apresentar	sua	experiência	pessoal	para	ilustrar	a	expectativa	em	relação	a	quem
dá	os	passos	do	discipulado.	Seria	um	“doutor	da	Lei”	alcançado	pelo	Reino	dos
Céus	que	se	viu	desafiado	a	repensar	toda	sua	caminhada	de	fé	e	dar-lhe	um
significado	inteiramente	novo?	Teria	passado	da	submissão	à	Lei	mosaica	à
busca	do	“Reino	de	Deus	e	sua	justiça”	nos	passos	de	Jesus	de	Nazaré	(cf.	Mt
6,33)?	Conservando	os	aspectos	positivos	da	religião	de	seus	pais,	descobrira	a
novidade	do	Reino	de	Deus	a	lhe	descortinar	um	horizonte	insuspeitado	de
compreensão	de	Deus,	da	história	e	da	vida?	Como	ele,	os	autênticos	discípulos,
tanto	os	escribas	judeus	que	aderiram	ao	movimento	de	Jesus	quanto	pessoas	de
todos	os	tempos	e	lugares,	saberão	pontuar	as	transformações	experimentadas
quando	a	Palavra	do	Reino	foi	semeada	em	seus	corações.	Jamais	o	discípulo
será	o	mesmo	depois	da	passagem	do	Senhor	em	sua	vida!
O	discurso	parabólico	ofereceu	uma	chave	para	compreender	a	dinâmica	do
Reino	de	Deus	na	história.	Trata-se	agora	de	mostrar	a	veracidade	dos
ensinamentos	nele	contidos	a	partir	de	situações	vividas	pelo	Mestre.	Com	isso	a
comunidade	dos	discípulos-apóstolos	forma-se	paulatinamente,	embora	tenha
uma	fé	pequena	a	ser	reforçada	pela	percepção	da	presença	do	Mestre	entre	eles,
e	uma	mente	obtusa	para	compreender,	na	prática,	os	caminhos	tortuosos	do
Reino	dos	Céus.
Jesus	é	rejeitado	em	Nazaré	(13,53-58)
||	Mc	6,1-6;	Lc	4,16-30
⁵³Quando	terminou	de	contar	essas	parábolas,	Jesus	partiu	daí.	⁵⁴Voltando	para
sua	terra,	ensinava	na	sinagoga	deles,	de	modo	que	se	maravilhavam	e	diziam:
“De	onde	lhe	vêm	essa	sabedoria	e	esses	milagres?	⁵⁵Não	é	ele	o	filho	do
carpinteiro?	Sua	mãe	não	se	chama	Maria?	Não	são	seus	irmãos	Tiago,	José,
Simão	e	Judas?	⁵ E	suas	irmãs	não	vivem	todas	entre	nós?	Então,	de	onde	lhe
vêm	todas	essas	coisas?”	⁵⁷E	se	escandalizavam	por	causa	dele.	Jesus,	porém,
lhes	disse:	“Não	existe	profeta	sem	honra,	a	não	ser	em	sua	terra	e	em	sua	casa”.
⁵⁸E	Jesus	não	fez	aí	muitos	milagres,	porque	eles	não	tinham	fé.
Terminado	o	discurso	parabólico,	temos	um	novo	cenário.	Jesus	deixa
Cafarnaum	e	se	dirige	“para	sua	terra”	(gr.	patrís),	que	os	leitores-ouvintes
deduzem	tratar-se	de	Nazaré	(v.	53-54a;	cf.	Mt	4,13).	Da	beira-mar	passa	à
“sinagoga	deles”,	onde	se	põe	a	ensinar	com	uma	autoridade	jamais	vista	em	um
mestre	de	Lei.	A	reação	preconceituosa	dos	conterrâneos	foi	imediata	(v.	54b-
56).	Por	ser	um	deles,	questionam-lhe	a	origem	de	sua	sabedoria	e	da	capacidade
de	fazer	gestos	carregados	de	poder	(gr.	dýnamis).	Perguntam-se	donde	lhe	vem
tudo	isso	e	se	recusam	a	reconhecer	nele	algo	de	especial	ou	de	novo.
“Escandalizavam-se	por	causa	dele”,	ao	resistirem	em	reconhecer	Deus	agindo
por	meio	de	um	compatriota	bem	conhecido	(v.	57a).	Pior	ainda:	tudo	aquilo
poderia	ter	o	efeito	de	afastá-los	de	Deus,	por	confundir-lhes	a	fé.
Jesus	recorda-se	de	um	antigo	ditado	para	ilustrar	a	atitude	de	seus	concidadãos
(v.	57b).	A	rejeição	dos	profetas	“em	sua	terra	e	em	sua	casa”	é	de	se	esperar.
Um	mestre	desconhecido	pode	ser	mais	acolhido	do	que	alguém	cujos	familiares
são	muito	próximos	e	cuja	vida,	desde	a	infância,	todos	conhecem.	O	provérbio
citado	corresponde	ao	nosso	“Santo	de	casa	não	faz	milagre!”
A	falta	de	fé	dos	concidadãos	impediu	Jesus	de	fazer	em	sua	terra	o	bem	que
fizera	alhures	(v.	58).	Por	não	terem	fé,	poderiam	fazer	falsas	interpretações	de
seus	gestospoderosos,	como	já	havia	acontecido	(cf.	Mt	12,24).
Para	reflexão	e	debate
1.	Qual	o	sentido	da	expressão	“mistérios	do	Reino	dos	Céus”	no	discurso
parabólico?
2.	Que	situação	da	comunidade	cristã	serve	de	pano	de	fundo	para	cada	uma
das	sete	parábolas?	Qual	a	mensagem	veiculada	em	cada	uma	delas?
IV.	COMPROMISSO	COM	O	REINO	(Mt	14-18)
1.	Narração:	O	Messias	reconhecido	e	questionado
O	discurso	parabólico	mostrou	como	o	Reino	acontece	na	história,	em	meio	a
perdas	e	fracassos.	Refere-se	à	ação	de	Deus	no	coração	das	pessoas,	muito
discreta,	porém	efetiva.	Na	sequência	da	catequese,	será	mostrado	como	a
comunidade	dos	discípulos	do	Reino	vai	se	formando	progressivamente	pelo
aprofundamento	da	fé,	por	meio	do	seguimento	de	Jesus	em	seus	contínuos
deslocamentos.	Os	discípulos	são	desafiados	a	compreender,	no	concreto	da
vida,	o	que	Jesus	ensinou	de	maneira	metafórica.	O	verbo	compreender	será
usado	nove	vezes	(cf.	Mt	13,14.15.19.23.51;	15,10;	16,12;	17,13).	Ocorrerão	as
expressões	“pessoa	de	pouca	fé”	(gr.	oligópistos;	cf.	Mt	14,31;	16,8),	“fé
pequena”	(gr.	oligopistía;	Mt	17,20),	“falta	de	fé”	(gr.	apistía;	cf.	Mt	13,58),
incrédulo	(gr.	ápistos;	Mt	17,17),	“grande	fé”	(gr.	megále	pístis;	Mt	15,28)	e
confissões	de	fé	(cf.	Mt	14,33;	15,22.25.31;	16,16;	17,5).
Execução	de	João	Batista	(14,1-12)
||	Mc	6,	14-29;	Lc	9,7-9
¹Nesse	tempo,	o	tetrarca	Herodes	ouviu	falar	da	fama	de	Jesus.	²Disse	então	a
seus	oficiais:	“Ele	é	João	Batista,	que	foi	ressuscitado	dos	mortos.	É	por	isso	que
os	milagres	se	realizam	nele”.	³É	que	Herodes	havia	mandado	prender	João,
acorrentá-lo	e	colocá-lo	na	cadeia.	Isso	por	causa	de	Herodíades,	esposa	de	seu
irmão	Filipe.	⁴Pois	João	lhe	dizia:	“Não	lhe	é	permitido	tê-la	como	esposa”.
⁵Herodes	queria	matá-lo,	mas	temia	o	povo,	que	considerava	João	um	profeta.
Quando	chegou	o	aniversário	de	Herodes,	a	filha	de	Herodíades	dançou	no	meio
deles	e	agradou	a	Herodes.	⁷Por	isso,	este	prometeu,	sob	juramento,	dar-lhe	o
que	ela	pedisse.	⁸E,	atiçada	por	sua	mãe,	ela	disse:	“Dê-me	aqui,	num	prato,	a
cabeça	de	João	Batista”.	 O	rei	ficou	triste.	Mas,	por	causa	do	juramento	e	dos
convidados,	ordenou	que	a	cabeça	fosse	dada	a	ela.	¹ E	mandou	cortar	a	cabeça
de	João	na	cadeia.	¹¹A	cabeça	foi	levada	num	prato	e	entregue	à	jovem,	que	a
levou	à	sua	mãe.	¹²Então	os	discípulos	de	João	foram,	pegaram	o	cadáver	e	o
sepultaram.	Depois	foram	contar	a	Jesus	o	acontecido.
O	tema	da	rejeição	de	Jesus	e	sua	pregação	continua	na	narração	do	vil
assassinato	de	João	Batista.	A	cena	introduz-se	de	forma	um	tanto	aleatória,
como	se	fosse	uma	digressão.	Além	de	completar	as	várias	informações	sobre	o
Batista	(cf.	Mt	3,1-12;	11,2-14),	corresponde	ao	prenúncio	da	morte	do	Messias
Jesus	(cf.	Mt	17,12).	O	leitor-ouvinte	atento	pergunta-se	por	que	falar	aqui	da
morte	do	precursor	numa	evidente	quebra	do	fluxo	narrativo.	O	choque
provocado	pelo	fim	brutal	do	Batista	serve	de	alerta	para	a	sequência	dos	fatos
referentes	a	Jesus.
Um	personagem	inesperado	desponta,	“o	tetrarca	Herodes”	(v.	1).	Embora	sem
muita	importância,	como	diz	seu	título	de	“governador	da	quarta	parte	de	um
território”,	recebe	o	nome	de	“rei”	(v.	9).	A	fama	de	Jesus	taumaturgo	chegou	até
ele	(cf.	Mt	4,24).	Pelo	que	ouvira	a	seu	respeito,	comentou	com	os	assessores
tratar-se	de	João	Batista	ressuscitado	dos	mortos,	operando	gestos	poderosos	(gr.
dýnamis)	(v.	2).	A	alusão	ao	precursor	dá	margem	para	a	recordação	(flashback)
de	sua	morte	narrada	em	grandes	linhas	(v.	3-12).
A	decapitação	de	João	Batista	decorre	de	sua	liberdade	diante	de	um	tirano
inescrupuloso	que	tomou	a	esposa	do	próprio	irmão	e	a	desposou	da	forma	mais
descarada	possível.	O	irritado	Herodes	lançou-o	na	prisão,	por	João	dizer-lhe
abertamente	não	lhe	ser	permitido	ter	a	cunhada	como	esposa,	num	misto	de
adultério	e	incesto.	Seu	intuito	era	o	de	matá-lo,	mas	teve	de	se	conter,	pelo	fato
de	o	povo	considerá-lo	profeta.
O	dia	fatídico	chegou	por	ocasião	da	festa	de	aniversário	do	tirano.	Sua	sobrinha
e	enteada,	“a	filha	de	Herodíades”,	dançou	para	agradá-lo.	Num	surto	de
generosidade,	propôs-se,	“sob	juramento”,	a	dar	à	moça	qualquer	coisa	que	lhe
pedisse.	A	jovem	consultou	a	mãe,	que	espertamente	aproveitou	a	chance	para	se
vingar	de	uma	pessoa	incômoda	que	lhe	denunciava	o	malfeito,	sugerindo-lhe
pedir	a	cabeça	de	João	Batista.	Não	se	entende	por	que	“o	rei	ficou	triste”,	se
tinha	a	intenção	de	eliminar	João	Batista.	Deveria	sim	ter-se	alegrado!	Qual	o
motivo	da	tristeza?	Medo	de	desagradar	o	povo?	Como	fizera	um	juramento
público,	devia	cumprir	a	palavra	e	atender	à	solicitação	da	jovem	instigada	pela
mãe	maligna.	O	pedido	foi	atendido	e	a	voz	de	João	Batista,	calada.	A	festa	do
aniversário	do	rei	tornou-se	um	festim	macabro,	cujo	prato	principal	foi	a	cabeça
de	um	profeta!
Os	discípulos	de	João	entram	em	ação	para	recolher	seu	cadáver,	sepultá-lo	e
reportar	a	Jesus	o	trágico	fim	de	seu	mestre.	Jesus,	que	escapara	da	violência	do
Herodes	pai	(cf.	Mt	2,16),	vê	a	morte	rondar	pela	violência	do	Herodes	filho.	A
liberdade	com	a	qual	falava,	como	acontecia	com	João	Batista,	poderia	valer-lhe
a	mesma	sorte	do	profeta	assassinado	pelo	rei	despótico.	A	alusão	à
“ressurreição	dos	mortos”	referida	a	João	Batista	pode	ser	entendida	como
discreta	menção	à	futura	sorte	de	Jesus	(v.	2).
Primeira	partilha	dos	pães	e	peixes	(14,13-21)
||	Mc	6,30-44;	Lc	9,10-17;	Jo	6,1-14
¹³Ouvindo	a	notícia,	Jesus,	de	barco,	se	retirou	daí	para	um	lugar	deserto	e
afastado.	Mas,	quando	as	multidões	ficaram	sabendo,	partiram	das	cidades	e	o
seguiram	a	pé.	¹⁴Ao	desembarcar,	Jesus	viu	uma	grande	multidão,	encheu-se	de
compaixão	por	ela	e	curou	os	doentes.
¹⁵Ao	entardecer,	os	discípulos	foram	a	Jesus	e	lhe	disseram:	“Este	lugar	é	deserto
e	já	é	tarde.	Despede	as	multidões,	para	que	vão	aos	vilarejos	comprar	comida
para	si”.	¹ Jesus	lhes	disse:	“Não	é	preciso	eles	irem.	Vocês	é	que	devem	dar-lhes
de	comer”.	¹⁷Eles	disseram:	“Não	temos	aqui	nada	mais	que	cinco	pães	e	dois
peixes”.	¹⁸Então	Jesus	disse:	“Tragam	aqui	para	mim”.	¹ Em	seguida,	mandou
que	as	multidões	se	sentassem	na	grama.	Tomou	os	cinco	pães	e	os	dois	peixes,
elevou	os	olhos	para	o	céu,	e,	partindo	os	pães,	os	abençoou	e	entregou	aos
discípulos,	e	os	discípulos	para	as	multidões.	² Todos	comeram	e	ficaram
satisfeitos.	E,	com	os	pedaços	que	sobraram,	recolheram	doze	cestos	cheios.	²¹Os
que	comeram	eram	cerca	de	cinco	mil	homens,	sem	contar	mulheres	e	crianças.
O	assassinato	de	João	Batista	exigiu	prudência	da	parte	de	Jesus.	Daí	ter-se
refugiado	num	“lugar	deserto	e	afastado”,	onde	não	chegava	o	poder	do
sanguinário	Herodes.	As	multidões	seguem-no,	contornando	o	lago	a	pé,
enquanto	ele	e	os	discípulos	deslocam-se	de	barco	(v.	13).	Esse	cenário	torna-se
metáfora	da	comunidade	do	Reino,	desafiada	a	viver	num	contínuo	deserto	pelas
“tribulações	e	perseguições	por	causa	da	palavra”	e	sobreviver	em	circunstâncias
adversas	(cf.	Mt	13,21).
Jesus	encontra	as	multidões	que,	apressadas,	chegaram	antes	dele,	como	se	já
soubessem	o	lugar	exato	para	onde	se	dirigia.	A	contemplação	daquela	massa	de
doentes	e	desvalidos	toca-lhe	o	coração.	O	ato	de	“ver”	supera	a	mera	visão
física.	Refere-se	a	captar	a	situação	existencial	daquela	gente,	seus	sentimentos	e
anseios,	em	meio	a	toda	sorte	de	sofrimentos.	A	presença	daquelas	pessoas
devia-se	unicamente	à	expectativa	colocada	em	Jesus	de	ver-se	livre	de	tanta
opressão	desumanizadora.	Consciente	da	missão	de	“salvar	o	seu	povo	de	seus
pecados”	(Mt	1,21)	e	“assumir	nossas	fraquezas	e	carregar	nossas	doenças”	(Mt
8,17),	Jesus	“enche-se	de	compaixão”	e	“cura	os	doentes”	(v.	14).
A	expressão	“encher-se	de	compaixão”	tem	uma	conotação	bem	específica.
Refere-se	a	Jesus	afetado	no	seu	íntimo	mais	profundo	e	levado	a	fazer	algo	para
libertar	aquela	gente	de	tanto	sofrimento.	A	experiência	de	se	fazer	compassivo	e
misericordioso	supõe	deixar-se	tocar	até	as	entranhas	pelo	sofrimento	alheio.	O
ver	superficial	produz	dó,	pena	ou	algum	outro	sentimento	superficial	e
passageiro,	e	não	se	desdobra	em	ação.	O	ver	emprofundidade	gera	compaixão	e
se	transforma	em	atos	de	misericórdia.
O	gesto	dos	discípulos	de	alertar	o	Mestre,	chamando-lhe	a	atenção	para	a
situação	das	multidões	carentes	de	alimento,	justifica-se.	Já	entardecia	e	o	grupo
havia	feito	uma	grande	caminhada.	Com	certeza	estava	faminto.	O	alerta
comporta	uma	sugestão	de	como	o	Mestre	deve	agir:	despedir	as	multidões	e
mandá-las	providenciar	alimentos	nos	povoados	ao	redor	(v.	15).	Cada	um
providenciaria	o	próprio	sustento	como	pudesse.	Essa	solução	vale	para	pessoas
saudáveis,	jovens,	com	dinheiro	e	com	forças	para	perambular	até	encontrar
comida.	E	quem	estivesse	fora	dessas	categorias	e	não	tivesse	ninguém	para
ajudá-lo?
A	reação	do	Mestre	pode	ter	parecido	à	primeira	vista	um	tanto	insensata.	Como
os	discípulos	dariam	de	comer	à	multidão,	se	estavam	na	mesma	situação?
“Vocês	é	que	devem	dar-lhes	de	comer”	mostrava-se	impraticável	naquele
contexto	de	carência	generalizada,	em	que	tinham	“nada	mais	que	cinco	pães	e
dois	peixes”	(v.	16-17).	Uma	quantidade	irrisória	de	alimentos	disponível	para
uma	multidão	faminta!
O	Mestre	passa	a	mostrar	como	se	pode	alimentar	tanta	gente	com	tão	pouca
comida.	Após	pedir	para	lhe	trazerem	os	cinco	pães	e	dois	peixes,	ordena	que
todos	se	sentem	na	grama,	a	fim	de	tudo	acontecer	na	mais	perfeita	ordem	(v.	18-
19a).
O	gesto	de	tomar	os	pães	e	os	peixes,	elevar	os	olhos	aos	céus,	parti-los,
abençoá-los	e	entregá-los	aos	discípulos	para	que	distribuíssem	às	multidões
evoca	a	última	ceia	(cf.	Mt	26,26-29)	e	também	a	missão	dos	discípulos-
apóstolos	enquanto	intermediários	entre	o	Mestre	e	as	multidões.
Ambas	as	ações	acontecem	“ao	entardecer”	(v.	15),	estando	as	pessoas	sentadas
(v.	19;	cf.	Mt	26,20).	Os	verbos	“partir”	(gr.	kláo)	e	“entregar”	(gr.	dídomi),	que
podem	ser	unificados	no	verbo	partilhar,	são	fundamentais.	A	partilha	daquele
punhado	de	alimentos	foi	suficiente	para	que	todos	comessem	à	saciedade,	tendo
sobrado	“doze	cestos	cheios”	devidamente	recolhidos	(v.	19b-20).	O	número
doze	simboliza	as	doze	tribos	de	Israel	(cf.	Mt	10,1-2),	e	o	alimento
superabundante	evoca	o	maná,	alimento	do	povo	na	longa	caminhada	pelo
deserto.
A	mensagem	da	catequese	mateana	é	clara.	A	comunidade	do	Reino	perseguida	e
marginalizada,	vivendo	como	num	deserto,	sobreviveria	na	condição	de	partilhar
seus	bens,	embora	poucos,	com	todos,	dando	atenção	particular	aos	mais	frágeis.
Nada	de	buscar	soluções	das	quais	algum	marginalizado	ficasse	de	fora	ou	não
pudesse	usufruir	da	proteção	da	comunidade.	Solidariedade	e	partilha	deveriam
ser	a	norma	para	a	comunidade,	vítima	da	perseguição!
O	v.	21	evoca	um	tema	que	perpassa	toda	a	catequese	mateana:	o	direito	das
mulheres	e	das	crianças	de	serem	tratadas	na	comunidade	em	pé	de	igualdade
com	os	homens.	Isso	deveria	acontecer	a	partir	das	celebrações	eucarísticas	para
romper	com	a	prática	sinagogal,	onde	as	mulheres	e	as	crianças	são	excluídas
das	liturgias	reservadas	apenas	aos	homens.	O	catequista	inseriu	essa	temática	na
narração	de	modo	discreto.	Cabe	ao	leitor-ouvinte	estar	atento	para	perceber	sua
presença	nas	entrelinhas	do	evangelho.
Jesus	caminha	sobre	o	mar	(14,22-33)
||	Mc	6,45-52;	Jo	6,15-21
²²Logo	em	seguida,	Jesus	obrigou	os	discípulos	a	entrar	na	barca	e	ir	adiante	dele
para	a	outra	margem,	até	que	ele	despedisse	as	multidões.	²³Depois	de	despedi-
las,	Jesus	subiu	à	montanha	sozinho	para	rezar.	Quando	chegou	o	fim	da	tarde,
ele	estava	aí	sozinho,	²⁴e	a	barca	já	se	encontrava	bem	longe	da	terra.	Era	batida
pelas	ondas,	pois	o	vento	era	contrário.	²⁵De	madrugada,	Jesus	foi	até	eles,
caminhando	sobre	o	mar.	² Vendo	Jesus	que	caminhava	sobre	o	mar,	os
discípulos	ficaram	espantados	e	disseram:	“É	um	fantasma!”	E	gritaram	de
medo.	²⁷Jesus,	porém,	logo	lhes	disse:	“Coragem!	Sou	eu.	Não	tenham	medo!”
²⁸Então	Pedro	lhe	pediu:	“Senhor,	se	és	tu,	manda-me	ir	ao	teu	encontro
caminhando	sobre	as	águas”.	² Jesus	disse:	“Venha!”	Descendo	da	barca,	Pedro
caminhou	sobre	as	águas	e	foi	ao	encontro	de	Jesus.	³ Mas,	sentindo	o	vento
forte,	ficou	com	medo.	E,	começando	a	afundar,	gritou:	“Senhor,	salva-me!”
³¹Imediatamente	Jesus	estendeu	a	mão	e	o	segurou.	E	lhe	disse:	“Homem	fraco
na	fé!	Por	que	você	duvidou?”	³²Assim	que	eles	subiram	à	barca,	o	vento	se
acalmou.	³³Os	que	estavam	na	barca	se	ajoelharam	diante	de	Jesus,	dizendo:	“Tu
és	verdadeiramente	Filho	de	Deus!”
Essa	nova	cena	pode	também	ser	tomada	como	metáfora	da	comunidade	do
Reino,	da	mesma	forma	que	a	cena	anterior.	O	Mestre	força	os	discípulos	a
partirem,	sozinhos,	imediatamente	para	a	outra	margem,	enquanto	ele	se	detém
para	despedir	as	multidões	(v.	22).	O	motivo	de	o	Mestre	ter	permanecido	sem	os
discípulos	explica-se	na	sequência	dos	fatos,	onde	os	discípulos	devem	estar	sós
numa	experiência	desesperadora.
Na	solidão	do	deserto,	deixando	para	trás	os	discípulos	e	as	multidões,	o	Mestre
sobe	a	montanha	para	rezar	(v.	23a).	A	falta	de	especificação	faz	da	montanha
uma	localização	simbólica,	como	acontece	várias	vezes	na	catequese	mateana
(cf.	Mt	5,1;	8,1;	15,29;	17,1.9;	28,16).	Na	tradição	judaica,	quando	se	fala	em
“Monte”,	todos	sabem	se	referir	“ao”	Monte,	o	Sinai/Horeb.	Jesus,	rezando	no
alto	do	monte,	faz	pensar	em	Moisés	no	cume	da	montanha	sagrada	para	ser
instruído	por	Deus.
Uma	observação	temporal,	“ao	entardecer”,	repete	a	do	v.	15	(v.	23b).	Em
relação	à	partilha	miraculosa	dos	pães	e	dos	peixes,	a	cena	da	caminhada	sobre	o
mar	acontece	no	mesmo	dia	ou	no	entardecer	do	dia	seguinte,	por	ser	a	mesma	a
indicação	temporal	nos	dois	casos,	faltando	outra	indicação	intermediária.
O	foco	da	narração	volta-se	para	os	discípulos	na	barca,	bem	longe	da	terra,
fustigada	pelas	ondas	provocadas	pelo	vento	contrário	(v.	24).	Temos	aqui	uma
imagem	perfeita	da	comunidade	do	Reino:	em	meio	às	tempestades	de	insultos,
perseguições	e	mentiras	(cf.	Mt	5,11),	lá	está	ela	ameaçada	de	afundar	por	ser
pequenina,	impotente	e	impossibilitada	de	safar-se	com	as	próprias	forças.
De	madrugada	(lit.	“na	quarta	vigília	da	noite”,	entre	três	e	seis	da	manhã),	o
Mestre	vai	ao	encontro	dos	discípulos,	“caminhando	sobre	o	mar”	(v.	25).
Afinal,	não	estavam	largados	à	própria	sorte;	o	“Emanuel”	está	atento	ao	que	se
passa	com	eles	e	os	socorre	(cf.	Mt	1,23;	28,20).
Aquela	presença	inesperada	pareceu-lhes	fantasmagórica	e	os	levou	a	gritar	de
terror	(v.	26).	O	medo	aponta	para	a	falta	de	fé,	atitude	inconcebível	num
discípulo	do	Reino.	Simboliza	a	comunidade	inapta	a	reconhecer	a	presença	do
Mestre	em	seu	meio.	Talvez	porque	possui	uma	fé	superficial,	insuficiente	para
resistir	aos	embates	do	cotidiano.
O	Mestre	incentiva	os	discípulos	a	terem	coragem	e	manterem	viva	a	fé	em	meio
às	ondas	agitadas	(v.	27).	Não	há	por	que	temer,	se	têm	consigo	uma	excelente
companhia.	Todas	as	intempéries	podem	ser	enfrentadas	quando	existe	a
convicção	de	o	Mestre	ser	o	companheiro	nas	tribulações.
O	discípulo	Pedro,	o	“primeiro”	dentre	os	demais	(cf.	Mt	10,2),	encarna	a
incredulidade	do	grupo,	ao	exigir	do	Mestre	uma	comprovação	do	“Sou	eu”,	do
versículo	anterior	(v.	28).	A	voz	do	Mestre	não	foi	reconhecida	pelos	discípulos,
indício	da	necessidade	de	aprofundarem	a	relação	com	ele.	Pedro	desafia	o
Mestre	a	fazê-lo	caminhar	sobre	as	águas	em	sua	direção,	de	modo	a	imitá-lo
naquela	façanha	extraordinária.	O	Mestre	aceita	a	provocação	e	ordena	que
Pedro	venha	ao	seu	encontro,	como	pretendia	(v.	29a).	O	discípulo	obedece	e	se
põe	a	caminhar	sobre	as	águas	(v.	29b).
Entretanto,	a	força	do	vento	incutiu-lhe	medo	(v.	30a)	e,	começando	a	afundar,
implorou	a	ajuda	do	“Senhor”	(v.	30b).	A	situação	de	Pedro	retrata	aquela	das
lideranças	das	comunidades	em	crise	de	fé,	desesperadas	quando	as	forças	do
anti-Reino	recrudescem	e	as	colocam	nos	limites	da	suportabilidade.	Então	se
lembram	de	clamar	pelo	Senhor	com	a	consciência	de	tê-lo	consigo,	pois	dele
pode	vir	a	salvação.
A	intervenção	do	Mestre	ao	ouvir	a	súplica	do	discípulo	em	apuros	acontece	de
imediato	(cf.	Mt	7,8).	Todavia,	vem	acompanhada	com	uma	censura	por	ter	se
comportado	como	“homem	de	pouca	fé”(gr.	oligópistos),	inapto	para	confiar	na
palavra	do	Mestre	e	se	deixar	guiar	por	ela,	mormente	em	situações
desesperadoras	(v.	31).
O	vento	cessa	logo	que	sobem	na	barca	(v.	32).	O	grupo	de	discípulos,	num
gesto	de	adoração	(gr.	proskynéo;	cf.	Mt	2,11;	8,2;	9,18;	15,25;	20,20;	28,9.17),
faz	uma	confissão	de	fé	na	messianidade	do	Mestre:	“Tu	és	verdadeiramente
Filho	de	Deus”	(v.	33;	cf.	Mt	16,16).	Exclamação	semelhante	ocorrerá	por
ocasião	da	morte	de	Jesus,	quando	o	oficial	romano	e	seus	subalternos	dirão:
“Realmente	ele	era	Filho	de	Deus”	(Mt	27,54).	Ambas	as	tempestades,	a	do	mar
e	a	provocada	pela	crucifixão	do	Mestre,	geram	profissões	de	fé.	As	tribulações
na	vida	do	discípulo	e	da	comunidade	do	Reino	podem	ser	ocasiões	propícias
para	o	crescimento	na	fé,	na	medida	em	que	se	reconhece	ter	consigo	Jesus
Emanuel.
Curas	em	Genesaré	(14,34-36)
||	Mc	6,53-56
³⁴Tendo	passado	para	a	outra	margem,	chegaram	a	Genesaré.	³⁵Quando	os
habitantes	desse	lugar	reconheceram	Jesus,	espalharam	a	notícia	por	toda	a
região.	E	levaram	a	Jesus	todos	os	doentes,	³ pedindo-lhe	que	os	deixasse	tocar
ao	menos	na	barra	de	seu	manto.	E	todos	os	que	tocaram	nele	ficaram	curados.
Jesus	continua	a	caminhada	missionária	ao	longo	da	qual	instrui	os	discípulos
com	seus	ensinamentos	e	gestos	de	solidariedade	com	a	humanidade	sofredora
(v.	34).	Sua	“sala	de	aula”	sem	paredes,	portas	ou	janelas,	permite	que	as
multidões,	com	suas	dores	e	carências,	se	aproximem	dele.	O	alarde	de	sua
presença	despertava	a	esperança	no	coração	do	povo,	que	trazia	“todos”	os
enfermos	em	busca	de	cura,	de	salvação	(v.	35).	Os	discípulos-apóstolos	no
futuro	fariam	experiência	semelhante.
O	toque	na	veste	de	Jesus,	extensão	de	seu	corpo,	tem	o	efeito	de	fazer	jorrar
dele	uma	força	revitalizadora,	que	traz	cura	para	“todos	os	que	tocaram	nele”	(v.
36).	O	leitor-ouvinte	se	recorda	da	hemorroíssa	e	seu	gesto	análogo	(cf.	Mt	9,20-
21).
Tradições	humanas	e	leis	da	pureza	(15,1-20)
||	Mc	7,1-23
¹Então	foram	até	Jesus	alguns	fariseus	e	doutores	da	Lei	vindos	de	Jerusalém.
Disseram:	²“Por	que	os	teus	discípulos	desobedecem	à	tradição	dos
antepassados?	De	fato,	eles	não	lavam	as	mãos	quando	comem	pão”.	³Jesus
respondeu-lhes:	“E	por	que	vocês	desobedecem	ao	mandamento	de	Deus	por
causa	da	tradição	de	vocês?	⁴Pois	Deus	disse:	‘Honre	pai	e	mãe’.	E	também:
‘Quem	amaldiçoar	pai	ou	mãe,	deve	morrer’.	⁵No	entanto,	vocês	afirmam:	Se
alguém	disser	ao	pai	ou	à	mãe:	‘A	ajuda	que	eu	lhe	deveria	dar	foi	consagrada	a
Deus’,	 tal	pessoa	não	está	mais	obrigada	a	honrar	seu	pai	e	sua	mãe.	Vocês
assim	invalidam	a	Palavra	de	Deus,	por	causa	da	tradição	de	vocês!	⁷Hipócritas!
Bem	que	Isaías	profetizou	a	respeito	de	vocês,	quando	disse:	⁸‘Este	povo	me
honra	com	os	lábios,	mas	seu	coração	está	longe	de	mim.	 É	inútil	o	culto	que
me	prestam,	pois	a	doutrina	que	ensinam	são	mandamentos	humanos’	”.
¹ E,	chamando	a	multidão	para	junto	de	si,	disse-lhe:	“Escutem	e	compreendam.
¹¹Não	é	o	que	entra	pela	boca	que	torna	a	pessoa	impura,	mas	o	que	sai	da	boca;
isso	sim	é	que	torna	impura	a	pessoa”.
¹²Então	os	discípulos	se	aproximaram	e	lhe	disseram:	“Sabes	que	os	fariseus
ficaram	escandalizados	quando	ouviram	o	que	disseste?”	¹³Jesus	respondeu:
“Toda	planta	que	meu	Pai	celeste	não	plantou,	será	arrancada.	¹⁴Deixem-nos.	São
cegos	guiando	cegos.	E	se	um	cego	guia	outro	cego,	os	dois	cairão	num	buraco”.
¹⁵Pedro	tomou	a	palavra	e	lhe	disse:	“Explica-nos	essa	parábola”.	¹ Jesus	disse:
“Até	vocês	ainda	não	entendem?	¹⁷Não	percebem	que	tudo	o	que	entra	pela	boca
passa	para	o	estômago,	e	é	eliminado	na	fossa?	¹⁸Mas	o	que	sai	da	boca	vem	do
coração,	e	é	isso	que	torna	a	pessoa	impura.	¹ De	fato,	é	do	coração	que	vêm	as
más	intenções,	assassinatos,	adultérios,	prostituições,	roubos,	falsos	testemunhos
e	blasfêmias.	² São	essas	coisas	que	tornam	a	pessoa	impura.	Mas	comer	sem
lavar	as	mãos	não	torna	impura	a	pessoa”.
As	investidas	dos	inimigos	continuam	a	cair	sobre	Jesus.	Mais	uma	vez	os
fariseus	e	os	doutores	da	Lei	voltam	a	importuná-lo.	Agora	é	um	grupo	vindo	de
longe,	Jerusalém,	com	o	propósito	de	questioná-lo	(v.	1).	Pressupõe-se	que	as
ações	do	Mestre	começaram	a	incomodar	a	liderança	religiosa	da	capital,	depois
de	atrair	as	iras	dos	líderes	religiosos	galileus.	Quiçá,	pensando	serem	os	colegas
do	Norte	incapazes	de	fazer	calar	aquele	pregador	incômodo,	vêm	fazê-lo
pessoalmente.	A	abordagem	do	mestre	atropelador	das	tradições	religiosas
começa	com	o	questionamento	de	uma	prática	de	seus	discípulos	orientados	por
ele	(v.	2).	O	ponto	visado	diz	respeito	à	pureza	ritual.	Os	discípulos	de	Jesus
comem	sem	lavar	as	mãos,	numa	evidente	violação	da	“tradição	dos
antepassados”.	Uma	desobediência	inadmissível!	Enquanto	eles	batiam	na	tecla
da	submissão	aos	ensinamentos	dos	antigos,	numa	demonstração	de	fidelidade	a
Deus,	estavam	convencidos	de	que	a	atitude	permissiva	de	Jesus	merecia	ser
censurada.
A	extensa	resposta	de	Jesus	desmascara	a	falsidade	de	seus	críticos,	cuja
fidelidade	à	tradição	não	passa	das	aparências	(v.	3-9).	Basta	verificar	como	se
comportam.	Se,	por	um	lado,	exigem	rigoroso	cumprimento	do	mandamento
referente	à	piedade	filial	(cf.	Ex	20,12;	Dt	5,16)	e	proíbem	faltar	de	respeito	aos
pais,	por	outro	lado	são	cruéis	com	os	genitores	ao	consagrar	a	Deus	o	que	lhes	é
devido,	de	modo	a	estarem	impedidos	de	repartir	com	os	pais	o	que	agora	não
mais	lhes	pertence.	Essa	maquinação	perversa	jamais	será	aprovada	por	Deus,
que	se	recusa	a	ser	adorado	às	custas	da	exploração	do	próximo,	com	muito	mais
razão	os	próprios	genitores.	Os	fariseus	e	os	doutores	da	Lei,	com	seu	legalismo
intolerante,	sabem	como	manipular	a	Lei	e	invalidá-la.	Uma	hipocrisia
insuportável!
Um	texto	do	profeta	Isaías	vem	à	mente	do	Mestre	para	ilustrar	a	longa	história
dessa	falsa	religiosidade	(cf.	Is	29,13).	Com	toda	franqueza	o	profeta	denunciou
a	fragilidade	de	uma	religião	superficial,	praticada	da	boca	para	fora,	desprovida
de	interioridade.	Equivoca-se	quem	pensa	cultuar	Deus	por	esse	caminho,	feito
de	doutrinas	e	de	mandamentos	humanos.	Comer	com	mãos	impuras	torna-se
irrelevante	quando	se	pensa	no	que	Deus	realmente	deseja	de	seus	adoradores.
Como	se	desse	as	costas	para	os	acusadores,	colocando-os	fora	do	âmbito	do	seu
interesse,	Jesus	chama	as	multidões	para	junto	de	si	e	se	põe	a	explicar-lhes	o
porquê	do	seu	modo	de	instruir	os	discípulos	(v.	10).	Apresenta-lhes	um
argumento	irrefutável:	a	Deus	interessa	a	pureza	interior,	e	não	a	exterior.	Sendo
assim,	a	impureza	provém	do	que	“sai	da	boca”,	e	não	do	que	“entra	pela	boca”
(v.	11).	Os	alimentos	materiais	jamais	serão	causa	da	impureza	da	qual	o
discípulo	do	Reino	deva	se	manter	distante.	As	palavras	maliciosas	e	maldosas	e
as	más	intenções	sim!
O	Mestre	continua	a	reflexão	com	o	grupo	restrito	dos	discípulos,	ficando	de
fora	as	multidões	e	os	acusadores.	Muda-se	de	foco.	Agora	vem	a	explicação	do
motivo	de	os	fariseus	e	os	doutores	da	Lei	se	irritarem	ao	vê-los	comer	sem	lavar
as	mãos	(v.	12).	Não	estão	afinados	com	o	Pai,	por	serem	plantas	espúrias,	não
plantadas	por	ele	(cf.	Mt	13,25.38b-39),	portanto	impossibilitadas	de	produzir
bons	frutos	(v.	13;	cf.	Mt	7,16).	Serão	arrancados	como	o	joio	(cf.	Mt	13,30).	A
ousadia	de	serem	juízes	das	ações	alheias	torna-os	semelhantes	a	cegos	guiando
cegos.	O	destino	de	ambos	se	pode	prever:	“os	dois	cairão	num	buraco”	(v.	14).
Quem	lhes	der	ouvidos	e	levar	a	sério	faz	uma	opção	problemática	por	lhes	faltar
algo	essencial:	a	aprovação	de	Deus.	O	afastamento	de	Deus	virá	a	galope.	Pelo
simples	fato	de	serem	liderança	religiosa	e	intransigente	na	defesa	das	tradições,
não	estão	autorizados	a	interferir	na	vida	alheia	quando	alguém	se	recusa	a	lhes
dar	ouvido,	como	acontecia	com	Jesus	e	seus	discípulos.	Só	uma	leitura	crítica
do	modo	de	proceder	dos	doutores	da	Lei	e	dos	fariseus,	como	fazia	o	Mestre,
podia	evitar	que	se	caísse	na	armadilha	deles.
Pedro	desponta	pedindo	explicações	para	a	parábola	do	que	entra	e	do	que	sai	da
boca	(v.	15).	Jesus	censura	a	falta	de	inteligência	do	grupo,	que	haviadeclarado
compreender	seu	linguajar	metafórico	(v.	16).	A	resposta	afirmativa	para	a
pergunta	“Vocês	entenderam	todas	essas	coisas?”	(Mt	13,51)	mostra-se	precária
na	nova	circunstância.	A	intervenção	do	Mestre	faz-se	necessária.
Contrariando	os	mestres	preocupados	com	a	questão	da	pureza	exterior,	Jesus
contrapõe	o	que	entra	pela	boca	e	o	que	sai	do	coração.	Interessa-lhe	o	que	sai	do
coração,	e	não	o	que	entra	pela	boca.	Os	alimentos	têm	a	finalidade	de	alimentar
o	corpo.	Uma	vez	ingeridos,	passam	pelo	processo	natural	de	digestão,	comum	a
todo	ser	humano,	onde	o	organismo	assimila	os	nutrientes	dos	alimentos	e
elimina	os	resíduos	(v.	17).	Se	a	pessoa	digere	os	alimentos	tendo	lavado	as
mãos	ou	não,	o	metabolismo	segue	inalterado;	não	existe	o	perigo	de	a	impureza
das	mãos	afetar	sua	relação	com	Deus.	Entretanto,	o	que	sai	do	coração	sim	deve
ser	motivo	de	preocupação,	pelo	poder	de	tornar	impura	a	pessoa	e	perturbar	sua
vinculação	com	Deus	(v.	18).	Do	coração	brota	todo	tipo	de	malignidade	e
perversão.	O	leitor-ouvinte	pode	completar	a	lista	do	v.	19	a	partir	de	sua
experiência	pessoal	e	do	que	vê	ao	redor.	Todas	as	iniquidades	possíveis	dizem
respeito	à	relação	com	o	próximo,	afetada	pelo	que	de	ruim	brota	do	íntimo	do
ser	humano.	Por	conseguinte,	se	alguém	pretende	relacionar-se	corretamente
com	Deus,	cuide	dos	sentimentos	“cozinhados”	no	coração	e	evite	dar	espaço
para	a	maldade,	com	seus	múltiplos	tentáculos.
O	discípulo	do	Reino	foca	a	atenção	em	seu	interior,	onde	pode	acontecer	a
ruptura	com	Deus,	a	se	desdobrar	também	na	ruptura	com	o	próximo.	A
preocupação	com	a	pureza	ritual	torna-se	irrelevante,	pois	Deus	não	está
interessado	nela	(v.	20).	Lavar	as	mãos	é	tarefa	fácil.	Conservar	puro	o	coração,
porém,	exige	uma	luta	contínua	contra	as	forças	do	mal	que	insistem	em	afastar
o	discípulo	do	bom	caminho.
A	filha	da	mulher	cananeia	(15,21-28)
||	Mc	7,24-30
²¹Saindo	daí,	Jesus	retirou-se	para	a	região	de	Tiro	e	Sidônia.	²²Eis	que	uma
mulher	cananeia,	que	tinha	saído	dessa	região,	começou	a	gritar,	dizendo:	“Tem
piedade	de	mim,	Senhor,	Filho	de	Davi!	Minha	filha	está	terrivelmente
endemoninhada”.	²³Jesus,	porém,	não	lhe	respondeu	uma	palavra	sequer.	Os
discípulos	de	Jesus,	aproximando-se	dele,	pediam-lhe:	“Atende-a,	pois	ela	vem
gritando	atrás	de	nós”.	²⁴Jesus	respondeu:	“Eu	fui	enviado	somente	às	ovelhas
perdidas	da	casa	de	Israel!”	²⁵Mas	ela	chegou,	ajoelhou-se	diante	dele	e	disse-
lhe:	“Senhor,	socorre-me!”	² Ele	respondeu:	“Não	fica	bem	tirar	o	pão	dos	filhos
e	jogá-lo	aos	cachorrinhos”.	²⁷Ela	insistiu:	“É	verdade,	Senhor.	Mas	também	os
cachorrinhos	comem	as	migalhas	que	caem	da	mesa	de	seus	donos”.	²⁸Então
Jesus	lhe	respondeu:	“Mulher,	é	grande	a	sua	fé.	Aconteça	para	você	tal	como
você	deseja!”	E	a	partir	desse	momento	a	filha	dela	ficou	curada.
Jesus	parte	de	Genesaré	(cf.	Mt	14,34),	deixando	a	multidão,	e	começa	uma
longa	viagem	do	outro	lado	das	fronteiras	de	Israel,	na	região	de	Tiro	e	Sidônia,
na	Fenícia,	em	território	sírio	(v.	21;	cf.	Mt	4,24).	Os	discípulos	terão	a	chance
de	ver	a	atividade	missionária	do	Mestre	entre	os	gentios,	olhados	com	suspeita
pelos	judeus.	No	futuro,	os	discípulos-apóstolos	serão	desafiados	a	anunciar	o
evangelho	em	todas	as	partes	do	mundo.	O	Mestre	permite-lhes	ter	contato	com
uma	pequena	experiência	do	que	os	espera.
De	cara,	o	Mestre	encontra-se	com	uma	“mulher	cananeia”,	vindo	a	seu	encontro
com	um	pedido	semelhante	ao	que	lhe	faziam	tantos	judeus	na	Galileia	(v.	22).	O
Mestre	deve	superar	dois	preconceitos:	o	primeiro	diz	respeito	ao	contato	em
público	com	uma	mulher,	reprovável	para	um	mestre	de	boa	reputação;	o
segundo	toca	sua	condição	de	“pagã”,	adoradora	de	um	deus	distinto	do	Deus	de
Israel.	Todavia,	a	súplica	da	mulher	surpreende-o.	Ao	chamá-lo	de	“Filho	de
Davi”	e	“Senhor”	e	suplicar-lhe	piedade,	demonstra	ser	movida	por	uma	fé
grandiosa,	semelhante	à	do	oficial	romano	(cf.	Mt	8,10).	E	mais:	a	mulher	confia
no	poder	taumatúrgico	de	Jesus,	capaz	de	libertar	o	ser	humano	das	forças
demoníacas.	E	se	torna	protótipo	dos	não	judeus	abertos	para	acolher	o
evangelho	do	Reino	e	se	tornar	beneficiários	da	misericórdia	divina	derramada
sobre	a	humanidade.
A	reação	de	Jesus	tem	um	quê	de	intrigante.	Faz-se	de	surdo	ao	ouvir	o	apelo
desesperado	da	mulher	(v.	23).	Seu	comportamento	em	Israel	era	muito	distinto.
Estava	sempre	disponível	para	acolher	a	todos	e	atender-lhes	os	pedidos,	como	já
acontecera	(cf.	Mt	4,24;	9,35)	e	acontecerá	na	cena	seguinte	(v.	30).	Por	que,
então,	mostra-se	insensível	ao	desespero	da	cananeia,	a	ponto	de	os	discípulos
insistirem	para	que	a	atenda,	pois	gritava	insistentemente	atrás	deles?
O	Mestre	explica	aos	discípulos	o	porquê	de	sua	atitude,	pautada	na	orientação
que	lhes	dera	de	se	dirigirem	“às	ovelhas	perdidas	da	casa	de	Israel”	(v.	24;	cf.
Mt	10,6).	Aquela	mulher	não	se	enquadrava	nessa	categoria,	logo	estava
dispensado	de	lhe	dar	ouvido.	Porém,	o	leitor-ouvinte	pode	se	perguntar:	se	o
Mestre	não	veio	de	coração	aberto	para	acolher	a	todos,	o	que	viera	fazer	fora
dos	limites	da	“casa	de	Israel”?	Que	ficasse	em	sua	terra!
A	determinação	da	mulher	em	alcançar	seu	objetivo	impressiona.	Num	gesto	de
profunda	humildade	e,	ao	mesmo	tempo,	de	reconhecimento	do	poder	(exousia)
de	Jesus,	insiste	em	pedir	socorro	e	se	põe	de	joelhos	diante	dele	(v.	25).	O
confronto	exigia	uma	resposta	do	Mestre,	que	vem	de	maneira	ríspida,	carregada
de	preconceito	(v.	26).	Os	israelitas	têm	o	privilégio	de	ser	“filhos”	de	Deus	e	se
beneficiar	das	promessas,	enquanto	os	estrangeiros,	considerados	pagãos,	eram
considerados	“cães”.	Daí	a	metáfora	de	privar	os	filhos	do	pão	para	jogá-lo	aos
cachorrinhos,	atitude	abertamente	inconsequente.	Pode-se	pensar	no	Mestre
querendo	provar	a	fé	da	cananeia,	embora	não	seja	explicitado	na	narração.	Ou,
então,	assumindo	uma	postura	semelhante	à	que	os	discípulos-apóstolos	seriam
tentados	a	assumir	e	deveriam	superar	como	o	Mestre.
A	mulher	não	se	dá	por	vencida.	Antes,	serve-se	das	palavras	do	Mestre	para
contestá-lo.	Embora	seja	um	disparate	pegar	o	pão	dos	filhos	e	lançá-lo	aos	cães,
os	cachorrinhos	costumam	comer	as	migalhas	da	mesa	dos	donos	(v.	27).	Era
como	se	sentia,	ao	implorar	as	migalhas	dos	benefícios	destinados	“às	ovelhas
perdidas	da	casa	de	Israel”.	Os	restinhos	do	pão	dos	filhos	lhe	seriam	bastantes!
As	palavras	corajosas	da	mulher	dirigidas	ao	“Senhor”	provocam	uma	guinada
na	cena	(v.	28).	Ao	elogio	da	“grande	fé”	daquela	mulher	segue-se	a	acolhida	de
sua	súplica	com	a	concomitante	cura	de	sua	filha.	Os	discípulos-apóstolos
deverão	estar	atentos	para	a	grande	fé	atuante	no	coração	de	muitos	não	judeus	a
quem	encontrarão	como	anunciadores	do	Reino.	Deverão	deixar	de	lado	os
preconceitos	e	superar	uma	visão	estreita,	que	reduz	os	beneficiários	da	salvação
a	um	punhado	de	privilegiados.
Novas	curas	na	Galileia	(15,29-31)
² Partindo	daí,	Jesus	foi	para	as	proximidades	do	mar	da	Galileia.	Tendo	subido	a
uma	montanha,	ali	se	assentou.	³ E	numerosas	multidões	foram	a	ele,	levando
consigo	coxos,	cegos,	aleijados,	mudos	e	muitos	outros.	Puseram	todos	aos	pés
de	Jesus,	e	ele	os	curou.	³¹De	modo	que	a	multidão	ficou	maravilhada,	ao	ver
mudos	falando,	aleijados	sadios,	coxos	andando	e	cegos	enxergando.	E	deram
glória	ao	Deus	de	Israel.
O	Mestre	retorna	para	sua	terra	após	as	atividades	missionárias	entre	os	gentios
(v.	29).	À	cura	da	filha	da	mulher	cananeia,	único	gesto	poderoso	realizado	em
favor	de	uma	estrangeira,	seguem-se	numerosas	curas.	O	Mestre,	que	subira	ao
monte	e	se	sentara	para	ensinar,	agora	sobe	ao	monte	e	se	assenta	para	curar	(cf.
Mt	5,1-2).	O	verdadeiro	Israel,	instruído	com	a	verdadeira	Lei	(cf.	Mt	5-7),
recebe	a	verdadeira	vida	que	o	livra	de	toda	doença	e	enfermidade,	e	faz
transparecer	a	riqueza	de	humanidade	concedida	a	cada	ser	humano	pelo	Pai	dos
Céus.
As	multidões	apresentaram	seus	doentes	a	Jesus	e	todos	foram	curados	(v.	30).	A
expressão	“muitos	outros”	acrescentada	ao	elenco	de	pessoas	com	limitações
físicas	pode	ser	entendida	como	um	convite	do	narradorao	leitor-ouvinte	para
pensar	a	humanidade	inteira	colocada	diante	de	Jesus,	necessitada	de	salvação
expressa	como	cura	das	doenças.	Caberá	aos	discípulos-apóstolos	espalharem-se
pelo	mundo	inteiro	e	fazerem	a	benevolência	divina	chegar	a	cada	ser	humano.
A	multidão	maravilha-se	diante	da	vida	transbordando	em	favor	de	mudos,
aleijados,	coxos,	cegos	e	tantos	outros	pela	ação	do	Messias	Jesus	(v.	31).	O
Reino	dos	Céus	torna-se	visível	na	explosão	de	vida	em	favor	da	humanidade
sofredora.	Por	tudo	isso	as	multidões	têm	suficiente	motivo	para	“dar	glória	ao
Deus	de	Israel”.
Segunda	partilha	dos	pães	e	peixes	(15,32-39)
||	Mc	8,1-10
³²Chamando	seus	discípulos	para	junto	de	si,	Jesus	lhes	disse:	“Tenho	compaixão
da	multidão,	porque	está	comigo	há	três	dias,	e	não	tem	o	que	comer.	Não	quero
deixá-los	ir	embora	com	fome,	porque	poderiam	desmaiar	pelo	caminho”.	³³Os
discípulos	lhe	disseram:	“Neste	deserto,	onde	conseguiríamos	tantos	pães	para
matar	a	fome	de	tamanha	multidão?”	³⁴Jesus	lhes	disse:	“Quantos	pães	vocês
têm?”	Responderam:	“Sete,	e	alguns	peixinhos”.	³⁵Ele	mandou	que	a	multidão	se
sentasse	no	chão.	³ Tomou	os	sete	pães	e	os	peixes	e,	depois	de	dar	graças,	partiu
e	entregou	aos	discípulos,	e	os	discípulos	para	as	multidões.	³⁷Todos	comeram	e
ficaram	satisfeitos.	E	recolheram	sete	cestos	cheios	de	pedaços	que	sobraram.
³⁸Os	que	comeram	eram	quatro	mil	homens,	sem	contar	mulheres	e	crianças.
³ Depois	de	despedir	as	multidões,	Jesus	subiu	na	barca	e	foi	para	o	território	de
Magadã.
Jesus	chama	os	discípulos	para	junto	de	si	e	partilha	com	eles	seu	sentimento
profundo	de	compaixão	pela	fome	da	multidão,	há	três	dias	com	ele.	Sente	que
não	pode	despedi-la,	pois	desfaleceria	pelo	caminho	(v.	32).	Comparada	com	a
cena	anterior,	essa	nova	situação	parece	contraditória.	Jesus	restituiu	a	saúde	a
tantas	pessoas	para	em	seguida	vê-las	desfalecer	de	fome!	Ele	mesmo	reconhece
que	as	pessoas	não	conseguirão	sobreviver	se	forem	mandadas	para	casa	antes	de
se	alimentarem.	A	explosão	de	vida	poderia	dar	lugar	a	uma	sucessão	de	mortes!
Os	discípulos	dão	um	tom	ainda	mais	trágico	à	situação,	ao	constatar	a
impossibilidade	de	conseguir	pão	para	“matar	a	fome	de	tamanha	multidão”	num
lugar	desértico	(v.	33).	Estavam	na	iminência	de	uma	tragédia	pela	incapacidade
de	se	entrever	uma	saída.	A	multidão	enfraquecida	pela	falta	de	comida	não
podia	ser	deixada	à	própria	sorte.	Mas	o	que	fazer?
O	Mestre	toma	a	iniciativa	de	encaminhar	uma	solução.	Começa	por	fazer	um
levantamento	da	disponibilidade	de	comida	entre	os	discípulos,	com	a
verificação	de	quantos	pães	de	que	dispunham.	Nada	mais	do	que	“sete	pães	e
alguns	peixinhos”	(v.	34).	Quantidade	irrisória	para	alimentar	“tamanha
multidão”!	A	solidariedade	deveria	começar	com	os	discípulos,	desafiados	a	não
pensar	em	si	mesmos	em	detrimento	da	multidão	faminta.	O	Mestre	exigia	deles
um	testemunho	de	desapego	e	solidariedade.
O	Mestre	assume	o	controle	da	situação	e	ordena	que	“a	multidão	se	sentasse	no
chão”	(v.	35).	Tudo	se	fará	com	ordem,	para	evitar	atropelos	e	garantir	a
assistência	de	todos,	de	modo	que	recebam	a	devida	atenção.	Estando	a	multidão
sentada	e	em	ordem,	a	eventualidade	de	um	corre-corre	ou	empurra-empurra
seria	menor.
Como	fizera	anteriormente	(cf.	Mt	14,19),	o	Mestre	repete	o	gesto	que	recorda	a
última	ceia	(v.	36;	cf.	Mt	26,26).	Tendo	dado	graças	pelos	sete	pães	e	os	peixes
postos	à	disposição	de	todos	pelos	discípulos,	parte-os	e	os	entrega	aos
discípulos	e	estes,	por	seu	turno,	os	repartem	com	a	multidão.	Acontece	de	novo
o	milagre	da	solidariedade	e	da	partilha,	única	maneira	de	evitar	a	morte	por
inanição	naquele	ermo.	A	vida	e	a	sobrevivência	dependiam	de	cada	um	pensar
no	outro	e	superar	o	egoísmo	e	a	tentação	de	reter	o	alimento	para	si.
A	solidariedade	e	a	partilha	permitiram	que	todos	comessem	e	ficassem
satisfeitos.	E	mais:	que	fossem	recolhidos	“sete	cestos	cheios	de	pedaços	que
sobraram”	(v.	37).	A	imensidão	do	desafio	em	momento	algum	bloqueou	o
Mestre	ou	o	deixou	desesperado.	Existe	sempre	uma	via	de	saída	para	os	grandes
problemas	quando	pensados	à	luz	do	Reino	de	Deus	e	seu	apelo	para	a
compaixão,	a	criatividade,	o	senso	de	realismo,	a	participação,	enfim,	o	cuidado
com	o	próximo.
O	v.	38	repete	a	observação	de	Mt	14,21,	com	uma	ressalva:	aqui	são	“quatro	mil
homens,	sem	contar	mulheres	e	crianças”.	Reforça-se	dessa	maneira	a
importância	de	as	mulheres	e	as	crianças	terem	sua	dignidade	reconhecida	e
receberem	o	mesmo	tratamento	dispensado	aos	homens	na	comunidade	por
serem	todos	irmãos	e	irmãs	(cf.	Mt	23,8).	A	comunidade	do	Reino	se	constrói
com	todas	as	pessoas	consideradas	em	pé	de	igualdade	com	o	mesmo	direito	de
comer	“o	pão	dos	filhos”	(v.	26).
Jesus	continua	suas	andanças	ao	despedir	as	multidões,	subir	numa	barca	e	se
dirigir	para	“o	território	de	Magadã”,	localidade	que	os	estudiosos	não
conseguem	determinar	(v.	39).	Os	discípulos	continuam	o	aprendizado
missionário	com	as	palavras	e	os	gestos	do	Mestre,	e	se	preparam	para	a
gigantesca	tarefa	de	anunciar	o	Reino	pelo	mundo	inteiro	(cf.	Mt	28,19).
O	sinal	de	Jonas	(16,1-4)
||	Mc	8,11-13;	Lc	12,	54-56
¹Os	fariseus	e	saduceus	se	aproximaram	de	Jesus	e,	para	pô-lo	à	prova,	pediram
que	lhes	mostrasse	um	sinal	vindo	do	céu.	²Jesus	lhes	respondeu:	“Ao	cair	a
tarde,	vocês	dizem:	‘Amanhã	vai	fazer	tempo	bom,	porque	o	céu	está
avermelhado’.	³E	de	manhã	dizem:	‘Hoje	vai	chover,	porque	o	céu	está
vermelho-escuro’.	Vocês	sabem	interpretar	a	aparência	do	céu,	mas	não
conseguem	interpretar	os	sinais	dos	tempos.	⁴Uma	geração	malvada	e	adúltera
procura	um	sinal.	Mas	não	lhe	será	dado	outro	sinal,	a	não	ser	o	sinal	de	Jonas”.
E,	deixando-os,	Jesus	foi	embora.
Por	onde	anda,	Jesus	depara	com	os	inimigos	prontos	a	lhe	prepararem
armadilhas	(v.	1).	Nenhum	lugar	pode	ser	considerado	suficientemente
escondido	e	distante	para	estar	afastado	deles.	Parecem	segui-lo	com	um	radar
para	localizá-lo	e	tirar-lhe	a	paz.	Quando	chega	à	desconhecida	Magadã,	lá	estão
eles	para	prová-lo	com	o	pedido	de	um	sinal	celeste.	Chama	a	atenção	nesse
ponto	da	catequese	mateana	aparecerem	juntos	“fariseus	e	saduceus”,	duas
correntes	do	judaísmo	com	muitas	arestas	entre	si	no	tempo	de	Jesus.	Os	fariseus
eram	leigos	aferrados	à	prática	da	Lei	mosaica	como	caminho	de	salvação	e
ligados	às	sinagogas.	Os	saduceus	pertenciam	à	classe	sacerdotal	de	Jerusalém	e
se	preocupavam	com	questões	cúlticas	e	rituais	no	Templo.	Uma	das	raízes	do
conflito	entre	eles	dizia	respeito	à	posição	em	relação	ao	Império	Romano.
Enquanto	os	fariseus	faziam	oposição	firme	mas	pacífica,	os	saduceus	apoiavam
os	ocupantes	do	país,	pois	as	autoridades	romanas	davam-lhes	respaldo	e	lhes
permitiam	manter	a	liderança	religiosa.	Em	todo	caso,	o	evangelho	os	apresenta
unidos	para	questionarem	Jesus.
O	pedido	de	sinais	ocorre	no	Antigo	Testamento	em	contexto	de	missão	para
confirmar	a	origem	divina	do	chamado	(cf.	Jz	6,17.36-39;	Is	7,11).	No	caso	dos
adversários	de	Jesus,	tratava-se	de	uma	artimanha	para	colocá-lo	em	apuros
diante	das	autoridades	religiosas	e	poderem	eliminá-lo.	O	narrador	revela	a	má
intenção	dos	inimigos	ao	informar	“para	pô-lo	à	prova”.
O	“sinal	vindo	do	céu”	teria	a	função	de	garantir	a	autoridade	divina	de	Jesus	e
respaldar	a	contínua	referência	ao	Pai	dos	Céus	em	seus	ensinamentos	e	gestos
poderosos.	Uma	forma	de	desacreditá-lo	consistia	em	atribuir	a	“Beelzebu,	chefe
dos	demônios”,	o	poder	(exousia)	de	libertar	os	seres	humanos	de	suas	múltiplas
opressões	(cf.	Mt	12,24).
A	reação	de	Jesus	denuncia	a	falta	de	discernimento	dos	rivais	(v.	2-3).	Por	um
lado,	são	capazes	de	captar	as	condições	atmosféricas	pela	coloração	do
firmamento:	céu	avermelhado,	sinal	de	tempo	bom;	céu	vermelho-escuro,	chuva
com	certeza.	Por	outro,	são	incapazes	de	perceber	Deus	falando	na	história	pelos
“sinais	dos	tempos”	(gr.	kairós).	Kairós	corresponde	ao	tempo	único	e	irrepetível
da	passagem	de	Deus	pela	vida	dos	seres	humanos,	em	cujas	entrelinhas	se	deve
captar	a	voz	divina	com	seu	apelo	de	conversão	e	de	engajamento	na	construçãodo	Reino	querido	por	ele.	Desperdiçar	o	kairós	representado	por	Jesus	de	Nazaré
constitui-se	em	fechamento	ao	apelo	do	Pai	com	graves	consequências.
Reconhecendo	os	opositores	como	“geração	malvada	e	adúltera”	e	desprovida	do
desejo	de	conversão,	Jesus	se	recusa	a	fazer	um	sinal	como	lhe	pediam	(v.	4).
Aliás,	oferece-lhes	o	“sinal	de	Jonas”,	já	referido	em	Mt	12,39-40,	apelando	para
a	intervenção	do	Pai	por	ocasião	de	sua	morte	e	ressurreição.	Se	fossem	capazes
de	entender	o	que	lhe	estava	reservado	tendo	o	“sinal	de	Jonas”	como	referência,
haveriam	de	compreender	sua	identidade	e	missão	messiânica.
O	fermento	dos	fariseus	e	saduceus	(16,5-12)
||	Mc	8,14-21
⁵Ao	atravessar	para	a	outra	margem,	os	discípulos	se	esqueceram	de	levar	pães.
Jesus	lhes	disse:	“Cuidado!	Fiquem	longe	do	fermento	dos	fariseus	e	saduceus”.
⁷Eles	discutiam	entre	si:	“É	porque	não	trouxemos	pães”.	⁸Percebendo	isso,	Jesus
disse:	“Gente	fraca	na	fé,	por	que	vocês	estão	discutindo	por	não	terem	pães?
Ainda	não	compreendem?	Não	se	lembram	dos	cinco	pães	para	cinco	mil
homens,	e	quantos	cestos	vocês	recolheram?	¹ Nem	dos	sete	pães	para	quatro	mil
homens,	e	quantos	cestos	vocês	recolheram?	¹¹Não	compreendem	que	eu	não
estava	falando	de	pães,	quando	lhes	disse:	‘Fiquem	longe	do	fermento	dos
fariseus	e	saduceus’?”	¹²Então	entenderam	que	ele	não	tinha	falado	para	ficar
longe	do	fermento	dos	pães,	mas	do	ensinamento	dos	fariseus	e	saduceus.
Seguindo	as	andanças	missionárias	de	Jesus,	os	discípulos	atravessam	para	a
outra	margem	(v.	5).	O	leitor-ouvinte	imagina	tratar-se	do	mar	da	Galileia	e	a
viagem	ter	sido	feita	de	barco.	Seria	a	volta	para	o	local	de	onde	partiram	(cf.	Mt
15,29).	Um	detalhe:	não	levaram	pães	consigo!	E	retornavam	para	o	lugar	da
segunda	multiplicação	dos	pães.	Parece	não	terem	aprendido	a	lição	de
providenciar	alimento	para	as	muitas	idas	e	vindas	com	o	Mestre.
Como	aconteceu	em	outras	ocasiões,	o	Mestre	aproveita	a	chance	para	instruir	os
discípulos.	E	o	faz	durante	a	viagem	de	barco!	Alertou-os	a	ficarem	atentos
quanto	ao	“fermento”	dos	fariseus	e	dos	saduceus,	os	mesmos	que	pediram	ao
Mestre	um	sinal	do	céu	para	pô-lo	à	prova	(v.	6).
O	alerta	do	Mestre	escapou	da	compreensão	dos	discípulos.	A	palavra
“fermento”	fê-los	suspeitar	se	tratar	de	uma	censura	por	terem	esquecido	de
trazer	pães	(v.	7).
O	Mestre,	dando-se	conta	da	discussão	entre	eles,	faz	uma	reflexão	em	torno	do
tema	do	entendimento	de	seus	ensinamentos	e	dos	pães	já	tratados	nas	cenas
anteriores	(v.	8-11).	O	ensinamento	acontece	em	forma	de	perguntas	sucessivas,
a	serem	respondidas	interiormente,	a	partir	do	que	haviam	visto	e	ouvido	do
Mestre.	Este	os	considera	gente	de	pouca	fé,	a	quem	falta	a	percepção	do	sentido
profundo	das	coisas	consideradas	com	o	olhar	de	Deus.	Os	discípulos	são
desafiados	a	pensar	como	Deus	pensa,	inspirados	em	Jesus.	Na	ausência	dessa
afinação,	o	sentido	das	palavras	passará	despercebido.	Os	discípulos	não
conseguirão	atingi-lo	e	permanecerão	na	superfície	das	palavras.
A	evocação	dos	dois	gestos	poderosos	de	multiplicação	de	pães	tem	o	objetivo
de	recordar	aos	discípulos	não	se	tratar	do	pão	material.	Quando	falta,	a
solidariedade	e	a	partilha	são	o	caminho	para	obtê-lo.	As	multidões	alimentadas
no	deserto	devem	ser	lembradas	na	eventualidade	de	necessitarem	de	pão.
Portanto,	“o	fermento	dos	fariseus	e	saduceus”	carece	de	ser	entendido	de	outra
maneira.
Com	a	“dica”	do	Mestre,	os	discípulos	caíram	na	conta	de	se	tratar	“do
ensinamento	dos	fariseus	e	saduceus”	(v.	12).	O	modo	de	pensar	deles,	contrário
ao	do	Mestre,	poderia	lhes	perturbar	os	corações,	fermentando-os	com	uma
mentalidade	legalista	e	ritualista	voltada	para	Deus,	mas	despreocupada	com	o
próximo	suplicando	acolhida	e	proteção.	O	caminho	para	Deus	se	faz	pela
prática	da	misericórdia!
Pedro	professa	a	fé	(16,13-20)
||	Mc	8,27-30;	Lc	9,18-21
¹³Quando	chegou	à	região	de	Cesareia	de	Filipe,	Jesus	perguntou	a	seus
discípulos:	“Quem	as	pessoas	dizem	que	é	o	Filho	do	Homem?”	¹⁴Eles	disseram:
“Alguns	dizem	que	é	João	Batista;	outros	dizem	que	é	Elias;	outros,	que	é
Jeremias	ou	algum	dos	profetas”.	¹⁵Perguntou-lhes	então:	“E	vocês,	quem	vocês
dizem	que	eu	sou?”	¹ Simão	Pedro,	respondendo,	disse:	“Tu	és	o	Messias,	o
Filho	do	Deus	vivo”.	¹⁷Jesus	lhe	respondeu:	“Feliz	é	você,	Simão,	filho	de	Jonas.
Porque	não	foi	alguém	de	carne	e	sangue	quem	lhe	revelou	isso,	e	sim	o	meu	Pai
que	está	nos	céus.	¹⁸Eu	também	lhe	digo:	Você	é	Pedro,	e	sobre	esta	pedra
construirei	a	minha	igreja.	E	as	portas	do	inferno	não	dominarão	sobre	ela.	¹ Eu
darei	a	você	as	chaves	do	Reino	dos	Céus:	o	que	você	ligar	na	terra,	será	ligado
nos	céus;	o	que	você	desligar	na	terra,	será	desligado	nos	céus”.	² Então	ordenou
que	os	discípulos	não	dissessem	a	ninguém	que	ele	era	o	Messias.
Distanciando-se	das	margens	do	mar	da	Galileia,	Jesus	e	os	discípulos
encontram-se	em	Cesareia	de	Filipe,	onde	o	Mestre	lhes	faz	duas	perguntas	a
respeito	de	sua	identidade.	A	primeira	diz	respeito	ao	pensamento	das	pessoas	a
respeito	do	“Filho	do	Homem”	(v.	13).	No	evangelho,	o	Mestre	refere-se	a	si
mesmo	com	o	epíteto	de	“Filho	do	Homem”	(cf.	Mt	8,20;	9,6;	12,32.40;
16,27.28;	17,9.12.22;	20,1.18.28;	24,30.37.39.44;	25,31;	26,2.24.45.64.72).
Tendo	ensinado	e	feito	tantas	coisas	em	benefício	das	multidões,	certamente
transmitiu-lhes	uma	imagem	de	si	pela	qual	se	guiavam	no	trato	com	ele.
A	resposta	evocando	João	Batista,	Elias,	Jeremias	e	outros	profetas	conecta	Jesus
à	longa	tradição	profética	de	Israel	(v.	14).	O	terrível	Herodes	pensava	na	mesma
direção	(cf.	Mt	14,2).	A	atuação	dos	profetas	de	outrora,	preocupados	em
garantir	a	fidelidade	a	Deus	no	trato	com	os	empobrecidos	e	excluídos,	era	bem
conhecida.	Por	outro	lado,	a	coragem	no	confronto	com	os	agentes	da	opressão
para	denunciá-los	tornava-os	modelo	de	fidelidade	ao	projeto	de	Deus,	em	quem
todo	fiel	deveria	se	espelhar.
A	segunda	pergunta	toca	de	cheio	os	discípulos.	O	Mestre	quer	saber	o	que
pensam	dele	com	a	pergunta:	“Quem	vocês	dizem	que	eu	sou?”	(v.	15).	Afinal,
são	eles	os	destinatários	privilegiados	dos	ensinamentos	do	Mestre,	que	os
prepara	para	levarem	adiante	a	missão	de	proclamar	o	Reino	dos	Céus	a	todos	os
povos.	O	parecer	das	multidões,	considerando-o	profeta,	justifica-se	plenamente.
Entretanto,	interessa	ao	Mestre	saber	que	impressão	os	discípulos	têm	dele.
Estavam	à	altura	de	dar	um	passo	a	mais	em	relação	ao	pensamento	das
multidões?
Simão	Pedro,	protótipo	de	discípulo	na	catequese	mateana,	adianta-se	e
proclama	a	messianidade	do	Mestre:	“Filho	do	Deus	vivo”	(v.	16).	Ao	declarar	a
filiação	divina	do	Messias,	Pedro	sintoniza	o	Pai	que	o	proclamara	(cf.	Mt	3,17)
e	o	proclamaria	(cf.	Mt	17,5)	“Filho	amado”.	Tratava-se	de	uma	surpreendente
novidade,	pois	jamais	alguém	ousara	pensar	o	Messias	como	Filho	de	Deus,
como	Jesus	pretendia	ser.	A	resposta	de	Pedro	foi	inteiramente	acertada.
O	Mestre	dá-se	por	satisfeito	pelo	modo	como	Pedro,	falando	em	nome	dos
demais,	define	sua	identidade.	Por	isso	o	declara	“feliz”,	bem-aventurado,	por	ter
captado	o	pensamento	do	Pai	(v.	17).	A	capacidade	de	compreender	a	filiação
divina	do	Messias	Jesus	tem	origem	no	próprio	“Pai	que	está	nos	céus”,	não
sendo	fruto	de	elucubrações	humanas,	da	“carne	e	sangue”.	A	abertura	do
discípulo	para	o	Pai	permitiu-lhe	compreender	a	verdadeira	identidade	do	Filho
do	Homem,	superior	ao	que	pensavam	as	multidões.	Quem	fizer	um	percurso	de
fé	semelhante	ao	dele	será	capaz	de	compreender	como	ele	quem	é	Jesus.
O	Mestre	toma	duas	iniciativas	em	relação	a	Pedro.	Substitui-lhe	o	nome	de
Simão	por	Pedro,	como	acontece	em	passagens	bíblicas	onde	Deus	confia
missões	importantes	a	pessoas	escolhidas	(cf.	Gn	17,5;	32,29),	e	o	elege	para	ser
a	“pedra”	sobre	a	qual	“minha	igreja”	(gr.	ekklesia)	seria	construída	(v.	18).	O
Mestre	confia-lhe	a	tarefa	de	cuidar	da	comunidade	nascente,	seguro	da	solidez
de	sua	fé	e	sua	competência	para	levar	adiante	o	serviço	do	Reino	quando	viesse
a	faltar.	Era	tamanha	a	confiança	do	Mestre	na	fidelidade	do	discípulo,	que	lhe
permitia	estar	segurode	que,	sob	a	liderança	de	Pedro,	nenhuma	entidade	(portas
do	inferno)	ser	suficientemente	forte	para	destruir	sua	obra.
O	Mestre	confia	inteiramente	no	discípulo.	Por	isso	lhe	dá	plenos	poderes	para
liderar	sua	igreja	(v.	19).	A	metáfora	da	pedra	como	fundamento	dá	lugar	à	da
chave	como	liderança.	A	entrega	das	“chaves	do	Reino	dos	Céus”	com
autoridade	para	ligar	e	desligar	na	terra	e	ser	respaldado	nos	céus	sublinha	a
importância	do	discípulo	a	quem	caberá	assimilar	o	espírito	do	Mestre,	da
maneira	mais	profunda	possível,	e	se	tornar	apto	para	prosseguir	o	caminho
iniciado,	tendo	como	meta	trilhar	todas	as	estradas	do	mundo.
A	ordem	dada	aos	discípulos	para	não	espalharem	ser	ele	o	Messias	pode-se
entender	como	precaução	para	se	evitar	o	ímpeto	de	confundi-lo	com	o	messias
glorioso	esperado	com	ansiedade	(v.	20).
Primeiro	anúncio	da	Paixão	(16,21-28)
||	Mc	8,31-9,1;	Lc	9,22-27
²¹Desde	esse	momento,	Jesus	começou	a	mostrar	a	seus	discípulos	que	era
necessário	ele	ir	a	Jerusalém,	sofrer	muito	por	causa	dos	anciãos,	chefes	dos
sacerdotes	e	doutores	da	Lei,	ser	morto	e	ressuscitar	no	terceiro	dia.	²²Então
Pedro,	levando	Jesus	à	parte,	começou	a	repreendê-lo,	dizendo:	“Deus	não
permita	tal	coisa	para	ti,	Senhor!	Jamais	te	acontecerá	isso!”	²³Voltando-se,	Jesus
disse	a	Pedro:	“Vá	para	trás	de	mim,	Satanás!	Você	é	para	mim	uma	pedra	de
tropeço,	porque	não	pensa	nas	coisas	de	Deus,	e	sim	nas	coisas	dos	homens”.
²⁴Então	Jesus	disse	a	seus	discípulos:	“Se	alguém	quiser	vir	após	mim,	renuncie
a	si	mesmo,	tome	a	sua	cruz	e	siga-me.	²⁵Pois	quem	quiser	salvar	a	própria	vida,
a	perderá;	mas	quem	perder	a	própria	vida	por	causa	de	mim,	a	encontrará.	² De
fato,	de	que	adianta	alguém	ganhar	o	mundo	inteiro,	se	destrói	a	própria	vida?
Ou	o	que	alguém	dará	em	troca	de	sua	própria	vida?	²⁷Porque	o	Filho	do	Homem
virá	na	glória	de	seu	Pai,	com	seus	anjos.	E	então	dará	a	cada	um	de	acordo	com
o	seu	comportamento.	²⁸Eu	lhes	garanto:	Dentre	os	que	aqui	se	encontram,
alguns	não	provarão	a	morte,	sem	antes	verem	o	Filho	do	Homem	vindo	em	seu
Reino”.
Doravante	o	tema	do	sofrimento,	da	morte	e	da	ressurreição	do	Messias	desponta
com	toda	clareza	na	catequese	mateana	(v.	21).	A	declaração	de	Pedro	e	o
posterior	elogio	do	Mestre	carecem	de	explicação	a	fim	de	evitar	o	mal-
entendido	de	considerá-lo	um	Messias	glorioso,	exaltado	por	Deus	e	reconhecido
pelos	homens	como	os	grandes	deste	mundo.	Com	toda	clareza	Jesus	declara
onde	deverá	morrer,	os	sofrimentos	que	o	esperam,	os	promotores	de	sua	morte
violenta	e	sua	ressurreição	ao	terceiro	dia.	A	expressão	“era	necessário”	ressalta
a	presença	do	Pai	em	sua	vida	a	lhe	apontar	os	rumos	da	caminhada.	Tudo
quanto	lhe	acontecerá	corresponde	ao	querer	do	Pai.	Portanto,	a	maldade	da
liderança	religiosa	encarnada	pelos	anciãos,	pelos	chefes	dos	sacerdotes	e	pelos
doutores	da	Lei	jamais	prevalecerá	sobre	ele.	A	ressurreição	será	a	palavra
definitiva	do	Pai	sobre	seu	projeto	de	dedicação	total	ao	Reino.
Pedro	mais	uma	vez	intervém	de	maneira	impulsiva.	Chama-o	à	parte	e	o
repreende,	extrapolando	a	condição	de	discípulo	(v.	22).	As	palavras	do	Mestre
romperam	os	esquemas	messiânicos	do	discípulo,	nos	quais	a	perspectiva	de
sofrimento	passava	longe	do	Ungido	do	Senhor.	As	palavras	do	Mestre	eram-lhe
insuportáveis.	Urgia	corrigi-lo	enquanto	era	tempo	para	evitar,	até	mesmo,	uma
desmoralização.	Quem	haveria	de	acolher	um	messias	fraco,	impossibilitado	de
enfrentar	a	violência	humana?	Que	pensar	de	um	messias	derrotado?
A	reação	do	Mestre	foi	proporcional	à	impetuosidade	do	discípulo,	ordenando-
lhe	colocar-se	em	seu	lugar:	“Vá	para	trás	de	mim!”;	não	tivesse	a	pretensão	de
agir	como	mestre	do	Mestre,	antes	se	contentasse	com	a	condição	de	discípulo.
Jesus	denunciou-o	de	agir	como	autêntico	“Satanás”,	tentando	desviá-lo	do
querer	do	Pai	(cf.	Mt	4,1-10);	incriminou-o	de	ser	“pedra	de	tropeço”	(gr.
skándalon)	por	querer	impedi-lo	de	caminhar	com	segurança;	por	fim,
desmascarou-lhe	a	incapacidade	de	adequar	seu	pensamento	com	o	de	Deus	e
pensar	como	pensam	os	homens	(v.	23).
O	Mestre	aproveita	a	ocasião	para	explicar	o	verdadeiro	sentido	do	discipulado
do	Reino	oposto	às	expectativas	errôneas	alimentadas	pelos	discípulos	(v.	24).
Quem	se	dispuser	a	segui-lo	deverá	abrir	mão	de	sua	mentalidade	e	projetos
pessoais;	a	abnegação	lhe	possibilitará	“tomar	a	cruz”	e	se	colocar	nos	passos	do
Mestre.	“Cruz”	tem	o	sentido	positivo	do	querer	do	Pai	abraçado	por	Jesus,	com
radicalidade,	na	superação	do	egoísmo	e	do	amor	próprio	para	servir	a
humanidade,	a	quem	deve	chegar	a	salvação.	Em	última	análise,	significa	com
Jesus	assumir	a	missão	de	salvador	com	a	exigência	de	entregar	a	vida	por	quem
necessita	de	misericórdia	e	compaixão.
De	que	adianta	ser	discípulo	fechado	em	si	mesmo	para	defender	interesses
pessoais?	Essa	atitude	insensata	terá	como	resultado	a	deterioração	da
humanidade	do	discípulo,	que	“perderá	a	própria	vida”.	Pelo	contrário,	quem
renunciar	aos	projetos	pessoais	para	servir	o	próximo,	por	causa	de	Jesus,	esse
sim	“ganhará	a	própria	vida”,	pois	o	amor	misericordioso	constitui-se	na	grande
fonte	de	humanidade	(v.	25).	Tudo	depende	da	decisão	de	quem	pretende
entregar-se	ao	discipulado	do	Reino,	cujos	esquemas	diferem	muitíssimo	dos
esquemas	mundanos.
O	Mestre	prossegue	a	reflexão	tirando	consequências	da	afirmação	anterior	(v.
26).	Querer	apropriar-se	do	mundo	inteiro	pela	via	do	egoísmo	e	da	exploração
do	próximo	corresponde	a	uma	atitude	insana,	pois,	no	final	das	contas,	será
motivo	de	frustração.	A	destruição	da	própria	vida	virá	na	certa!	No	final	da
caminhada	será	impossível	corrigir	uma	história	de	insensibilidade	em	relação	ao
irmão	sofredor.	Nada	haverá	que	possa	ser	trocado	em	vista	de	mudar	o	rumo
das	coisas.	Então	será	dado	pelo	Filho	do	Homem	glorioso	“a	cada	um	de	acordo
com	o	seu	comportamento”	(v.	27;	cf.	Mt	25,31-46).	Os	discípulos	são
desafiados	a	se	comportar	como	se	espera	de	quem	compreendeu	o	pensamento
do	Pai	e	se	deixa	guiar	por	ele.	O	Mestre	encarna	um	exemplo	a	ser	imitado!
A	declaração	final	soa	como	advertência	escatológica	aos	discípulos,	no	sentido
de	motivá-los	a	“tomar	a	cruz”	como	lhes	fora	sugerido,	pois	o	confronto	com	“o
Filho	do	Homem	vindo	em	seu	Reino”	acontecerá	implacavelmente	(v.	28).
Viver	de	forma	leviana	e	indigna	do	discipulado	do	Reino	torna-se	uma	opção
arriscada	de	desfecho	previsível.
A	transfiguração	(17,1-13)
||	Mc	9,2-13;	Lc	9,28-36
¹Seis	dias	depois,	Jesus	tomou	Pedro,	Tiago	e	seu	irmão	João,	e	os	levou	a	um
lugar	à	parte,	a	uma	alta	montanha.	²E	foi	transfigurado	diante	deles.	Seu	rosto
brilhava	como	o	sol,	e	suas	roupas	ficaram	brancas	como	a	luz.	³Eis	que	lhes
apareceram	Moisés	e	Elias,	conversando	com	Jesus.	⁴Pedro	tomou	a	palavra	e
disse	a	Jesus:	“Senhor,	é	bom	estarmos	aqui.	Se	queres,	vou	fazer	aqui	três
tendas:	uma	para	ti,	outra	para	Moisés	e	outra	para	Elias”.	⁵Ainda	estava	falando,
quando	uma	nuvem	luminosa	os	cobriu	com	sua	sombra.	E	da	nuvem	uma	voz
dizia:	“Este	é	o	meu	Filho	amado,	em	quem	encontro	o	meu	agrado.	Ouçam-no”.
Ao	ouvir	isso,	os	discípulos	caíram	com	o	rosto	por	terra	e	ficaram	com	muito
medo.	⁷Jesus	se	aproximou,	tocou	neles	e	disse:	“Levantem-se	e	não	tenham
medo”.	⁸Eles,	erguendo	os	olhos,	não	viram	mais	ninguém,	a	não	ser	Jesus.
Quando	desciam	da	montanha,	Jesus	lhes	ordenou:	“Não	falem	com	ninguém
sobre	o	que	vocês	viram,	antes	que	o	Filho	do	Homem	ressuscite	dos	mortos”.
¹ Os	discípulos	lhe	perguntaram:	“Por	que	os	doutores	da	Lei	dizem	que	Elias
deve	vir	primeiro?”	¹¹Ele	respondeu:	“É	certo	que	Elias	virá	e	há	de	restaurar
todas	as	coisas.	¹²Mas	eu	lhes	digo	que	Elias	já	veio,	e	não	o	reconheceram,	mas
fizeram	com	ele	tudo	quanto	quiseram.	Assim	também,	o	Filho	do	Homem
deverá	sofrer	por	causa	deles”.	¹³Então	os	discípulos	entenderam	que	Jesus	lhes
tinha	falado	a	respeito	de	João	Batista.
A	nova	cena	inicia-se	com	duas	indicações:	uma	temporal	e	outra	espacial.
Trata-se	de	inserções	redacionais	para	dar	unidade	às	cenas,	como	se	faz	ao
longo	de	toda	a	catequese	evangélica.	A	lógicaespaçotemporal	permite	ao	leitor-
ouvinte	acompanhar	a	narração	do	começo	ao	final	imaginando-a	mentalmente.
Caso	contrário,	seria	uma	colcha	de	retalhos	desprovida	de	nexo	entre	as	várias
cenas	narradas.	Como	os	evangelhos	são	catequese	narrativa,	a	“costura”
histórica	das	cenas	depende	do	projeto	literário-narrativo	pelo	qual	se	guia	o
narrador.
Os	“seis	dias”,	os	três	discípulos	(cf.	Mt	26,38)	e	a	“alta	montanha”	(cf.	Mt	4,8;
5,1;	8,1;	14,23;	15,29;	28,16)	têm	valor	simbólico	na	narração	(v.	1).	O	número
seis	manifesta	falta,	imperfeição.	Algo	acontecerá	para	se	alcançar	a	perfeição!
O	número	três	designa	a	constituição	do	ser	humano	(espírito,	alma	e	corpo)	e	a
continuidade	de	sua	natureza.	O	que	está	para	acontecer	implicará	o	humano
tanto	de	Jesus	quanto	dos	três	discípulos.	A	alta	montanha,	privada	de
localização	geográfica	específica,	evoca	o	monte	Sinai,	“a”	montanha	por
excelência	na	tradição	judaica.	A	resplandecência	do	rosto	de	Moisés,	ao	descer
do	Monte	com	as	tábuas	da	Lei,	serve	de	pano	de	fundo	para	o	que	se	falará	a
respeito	de	Jesus	(cf.	Ex	34,29-35).
O	v.	2	afirma	exatamente	isso!	Jesus	foi	transfigurado	(gr.	metemorphóthe).	Ele
não	se	autotransfigurou!	Na	literatura	bíblica,	as	ocorrências	da	voz	passiva	onde
não	se	indica	quem	age	são	chamadas	de	passivo	teológico,	tendo	Deus	como
sujeito	da	ação.	Sendo	assim,	Jesus	foi	transfigurado	pelo	Pai	dos	Céus,	a	ponto
de	seu	rosto	adquirir	um	brilho	solar,	e	suas	vestes	a	brancura	da	luz.	Pode-se
falar	em	teofania,	onde	a	divindade	se	mostra	de	maneira	fascinante	a	um	ser
humano.	Na	sequência	se	verá	como	a	reação	dos	discípulos	assemelha-se	à	de
quem	outrora	se	viu	diante	da	manifestação	da	divindade	(cf.	Gn	17,3;	Nm
22,31;	Jz	13,20;	1Rs	18,39;	1Cr	21,16).
A	linguagem	simbólica	continua	no	v.	3,	com	o	aparecimento	de	Moisés	e	Elias
em	diálogo	com	Jesus.	Moisés	representa	a	Lei;	Elias,	os	profetas.	A	expressão
“a	Lei	e	os	Profetas”	alude	às	Sagradas	Escrituras	no	seu	conjunto	(cf.	Mt	5,17;
7,12;	11,13;	22,40).	A	conversa	com	Moisés	e	Elias	significa	que	a	correta
compreensão	da	tradição	religiosa	de	Israel	passa	por	Jesus	de	Nazaré,	em	quem
converge	toda	a	revelação	do	Deus	de	Israel.
Pedro	toma	a	iniciativa	de	perpetuar	aquele	momento,	sugerindo	a	construção	de
três	tendas	para	abrigar	os	personagens	que	tinha	diante	de	si	(v.	4).	Novamente
a	linguagem	simbólica:	faz-se	referência	ao	número	três	dos	personagens	e	ao
número	três	das	tendas.	As	tendas	evocam	a	longa	caminhada	do	povo	de	Israel
pelo	deserto	sob	a	liderança	de	Moisés	(cf.	Ex	25,8).	Os	três	discípulos	de	certo
modo	simbolizavam	o	novo	Israel	liderado	pelo	Messias	Jesus,	rumo	à	Terra
Prometida	que	abarca	o	mundo	inteiro	e	acolhe	todos	os	povos	da	terra	(cf.	Mt
28,19).	Algo	de	extraordinário	está	acontecendo.	Uma	grande	novidade!
A	referência	à	“nuvem	luminosa”	corresponde	a	outra	evocação	da	caminhada
dos	israelitas	pelo	deserto	(v.	5;	cf.	Ex	13,21-22).	Da	nuvem	o	Senhor	falava
com	Moisés,	como	o	fará	com	seu	Filho	amado,	que	muito	o	agrada	(cf.	Mt	3,17;
Ex	24,16).	O	novo	Israel	estava	em	plena	gestação	por	intermédio	do	novo
Moisés,	o	Filho	querido,	a	quem	se	deveria	escutar.	Oferecia-se	aos	discípulos
uma	chave	para	compreender	a	ação	do	Messias	Jesus,	a	presença	das	multidões
a	segui-lo	e	a	presença	dos	discípulos,	colaboradores	a	exemplo	dos	auxiliares	de
Moisés	(cf.	Ex	18,24-26).
Os	discípulos	ficam	apavorados,	reação	esperada	de	quem	contempla	a
manifestação	divina	–	teofania	(v.	6;	cf.	Mt	14,26).	Porém,	o	Mestre	cuida	de
trazê-los	à	realidade,	ordenando	se	levantarem	e	não	terem	medo	(v.	7).	O
contato	com	a	divindade	deve	ter	o	efeito	de	animar	o	ser	humano	a	enfrentar	os
desafios	da	vida	com	coragem,	jamais	bloqueá-lo.	Tudo	quanto	haviam
contemplado	haveria	de	ser	motivo	para	animar	os	três	discípulos	a	voltarem	à
caminhada	com	novo	ânimo,	à	margem	da	tentação	do	“É	bom	estarmos	aqui!”,
tampouco	de	ficarem	bloqueados.
O	v.	8	encerra	o	episódio	e	abre	espaço	para	a	sequência	dos	fatos,	que	consiste
na	descida	da	montanha	e	na	retomada	do	percurso	discipular	no	qual	o	Mestre,
com	seu	testemunho	de	vida	e	suas	palavras,	instrui	os	que	terão	a	tarefa	de	levar
adiante	sua	missão	(v.	9a).	O	desaparecimento	de	Moisés	e	Elias,	permanecendo
apenas	Jesus,	tem	a	ver	com	o	tempo	novo	iniciado	com	o	Messias	Filho	querido
do	Pai	dos	Céus,	que	introduz	a	humanidade	na	verdadeira	terra	prometida.
Cabe-lhe	o	papel	de	guia	do	povo	até	o	destino	designado	pelo	Pai.
A	ordem	dada	pelo	Mestre	aos	discípulos	soa	enigmática.	Que	significava
guardarem	consigo	tudo	quanto	haviam	presenciado	até	“que	o	Filho	do	Homem
ressuscite	dos	mortos”	(v.	9b)?	Quem	possui	um	conhecimento	privilegiado	do
Messias	está	proibido	de	divulgá-lo.	O	tema	da	ressurreição	dos	mortos,	porém,
é	novidade.	Os	discípulos	careciam	de	base	para	entendê-lo.	Em	todo	caso,	o
tema	da	morte	do	Mestre	que	perpassara	a	catequese	(cf.	Mt	2,13.16;	12,14)	far-
se-á	sempre	mais	presente.	Os	discípulos	deverão	preparar-se	para	aquele
momento	de	verificação	da	consistência	de	sua	adesão	ao	Reino.
A	interrogação	agora	parte	do	grupo	de	discípulos	desejosos	de	esclarecer	um
ensinamento	dos	doutores	da	Lei	sobre	a	vinda	do	profeta	Elias	antes	da
consumação	dos	tempos	(v.	10).	Teriam	pensado	que	a	aparição	de	Elias	junto
com	Moisés	significava	a	aproximação	dos	tempos	escatológicos?	O	fim	estaria
próximo	(cf.	Mt	4,17)?
A	resposta	do	Mestre	alarga	os	horizontes	deles	(v.	11-12).	Por	um	lado,
confirma	a	tradição	dos	doutores	da	Lei	e	seu	ensinamento	sobre	a	vinda	de	Elias
para	“restaurar	todas	as	coisas”.	Entretanto,	o	esperado	já	havia	acontecido	e	não
foi	reconhecido:	“fizeram	com	ele	tudo	quanto	quiseram”,	maltratando-o	e
eliminando-o	(v.	13).	Sorte	semelhante	teria	o	Filho	do	Homem,	cujo	destino
seria	“sofrer	por	causa	deles”.	Antes	o	Mestre	falara	de	ressurreição,	agora
refere-se	à	morte	que	a	antecederia.	Os	discípulos	mais	uma	vez	são	alertados
quanto	ao	seu	destino:	se,	por	um	lado,	uma	morte	semelhante	à	de	João	Batista
o	espera,	por	outro,	haverá	uma	palavra	definitiva	do	Pai	para	tomar	suas	dores	e
impedir	a	vitória	dos	malvados.
A	narrativa	da	transfiguração	prepara	os	leitores-ouvintes,	como	preparou	os	três
discípulos,	para	o	confronto	com	o	Mestre	crucificado.	Pregado	na	cruz	estaria	o
Filho	amado	do	Pai	dos	Céus,	contradizendo	os	adversários,	certos	de	terem
eliminado	um	maldito	de	Deus.
Cura	do	epilético	(17,14-21)
||	Mc	9,14-29;	Lc	9,37-43a
¹⁴Quando	voltaram	para	junto	da	multidão,	um	homem	se	aproximou	de	Jesus	e,
de	joelhos	diante	dele,	¹⁵pedia-lhe:	“Senhor,	tem	piedade	do	meu	filho,	que	é
epilético	e	sofre	terrivelmente.	Muitas	vezes	cai	no	fogo,	muitas	vezes	na	água.
¹ Eu	o	trouxe	a	teus	discípulos,	mas	eles	não	conseguiram	curá-lo”.	¹⁷Jesus
respondeu:	“Oh,	geração	incrédula	e	perversa!	Até	quando	estarei	com	vocês?
Até	quando	irei	suportá-los?	Tragam	aqui	o	menino”.	¹⁸Jesus	então	o	repreendeu,
e	o	demônio	saiu	dele.	E	a	partir	desse	momento	o	menino	ficou	curado.	¹ Então
os	discípulos	se	aproximaram	de	Jesus	em	particular	e	disseram:	“Por	que	nós
não	conseguimos	expulsá-lo?”	² Ele	então	lhes	respondeu:	“Por	causa	da	sua
fraqueza	na	fé.	Porque	eu	lhes	garanto:	Se	vocês	tiverem	fé	como	um	grão	de
mostarda,	dirão	para	essa	montanha:	‘Desloque-se	daí	para	lá’,	e	ela	se
deslocará.	E	para	vocês	nada	será	impossível”.	[21]
As	atividades	missionárias	continuam	quando	o	Mestre	volta	com	os	três
discípulos	para	junto	da	multidão	e	se	repete	a	cena	de	alguém	caindo	de	joelhos
diante	dele	para	lhe	fazer	uma	súplica	(v.	14).	O	homem	implora	a	cura	de	seu
filho	epilético	(gr.	seleniázomai	–	lit.:	um	lunático,	influenciado	pela	lua).	Os
sintomas	referidos	pelo	pai	do	menino	permitem	identificá-los	com	as
convulsões	características	dos	ataques	epiléticos	(v.	15).	O	homem	comunica	ao
Mestre	ser	impossível	os	discípulos	virem	em	seu	auxílio.	Já	os	havia	procurado
em	vão.	Foram	inábeis	para	devolver	a	saúde	a	seu	filho	(v.	16).
A	reação	do	Mestre	parece	brusca	(v.	17).	Os	discípulos,	inaptos	para	atendero
pedido	do	homem,	são	chamados	de	“geração	incrédula	e	perversa”	que	ele
deveria	aturar	(cf.	Mt	12,39).	A	inabilidade	para	curar	provinha	da	falta	de	fé	que
inviabiliza	qualquer	gesto	em	favor	do	próximo.	Entretanto,	duas	coisas	chamam
a	atenção	do	leitor-ouvinte:	em	primeiro	lugar,	os	discípulos	ainda	não	haviam
sido	comissionados	para	tomar	iniciativas	missionárias,	como	acontecerá	no
final	da	catequese	mateana;	em	segundo	lugar,	até	então	as	pessoas	haviam
procurado	o	Mestre	diretamente,	e	aqui,	antes	de	procurá-lo,	o	homem
apresentou	o	filho	doente	aos	discípulos	em	busca	de	cura.	A	falha	não	estaria	no
homem	que	bateu	na	porta	errada,	contando	com	a	ajuda	de	quem	não	estava	em
condições	de	ajudá-lo?
O	Mestre	passa	à	ação,	pedindo	que	lhe	tragam	o	menino,	e	se	põe	a	libertá-lo	do
poder	do	maligno,	com	repreensões	ao	demônio	e	ordens	para	se	afastar	dele	(v.
18).	Suas	palavras	têm	efeito	imediato,	pela	força	(exousia)	com	que	são
pronunciadas.	Carregadas	de	dinamismo	divino	e	provindas	da	radical	adesão	ao
Pai	dos	Céus,	são	plenamente	eficazes.
Carecendo	desse	elemento	fundamental,	as	palavras	dos	discípulos	tornaram-se
ineficazes.	O	Mestre	deixa	isso	claro	ao	responder	ao	questionamento	que	os
discípulos	lhe	fazem	em	particular,	intrigados	por	terem	fracassado	na	tentativa
de	vir	em	socorro	daquele	pai	aflito	com	o	sofrimento	do	filho	(v.	19).	A	pouca
fé	impediu-os	de	pronunciar	uma	palavra	carregada	de	autoridade	(exousia)	e
com	ela	recuperar	a	vida	e	a	saúde	do	menino	(v.	20).	Uma	fé	minúscula	como
um	grãozinho	de	mostarda	bastaria	para	realizarem	maravilhas	(cf.	Mt	13,31-
32).	O	linguajar	hiperbólico	do	Mestre	referente	à	capacidade	de	deslocar	uma
montanha	sublinha	que	nada	havia	de	suficientemente	grande	para	bloquear	a
ação	dos	discípulos	movidos	pela	fé.	As	palavras	dos	discípulos-apóstolos
deverão	ser	carregadas	de	força	divina	como	as	do	Mestre.
[Omite-se	o	v.	21:	“Além	disso,	este	tipo	de	demônio	só	se	expulsa	com	oração	e
jejum”,	considerado	duvidoso,	pela	possibilidade	de	ser	uma	conciliação	tardia
com	Mc	9,29.]
Segundo	anúncio	da	Paixão	(17,22-23)
||	Mc	9,30-32;	Lc	9,43b-45
²²Quando	estavam	juntos	na	Galileia,	Jesus	lhes	disse:	“O	Filho	do	Homem	será
entregue	nas	mãos	dos	homens,	²³que	o	matarão.	Mas	no	terceiro	dia	ele	será
ressuscitado”.	E	eles	ficaram	muito	tristes.
O	Mestre	insiste	no	incômodo	tema	da	morte	e	da	ressurreição	estando	a	sós	com
os	discípulos	num	lugar	incerto	da	Galileia	(v.	22-23).	Os	discípulos	acalentam
esperanças	que	falam	de	um	Messias	grandioso,	superior	às	maldades	deste
mundo.	Nem	de	longe	se	davam	conta	das	articulações	dos	adversários,
determinados	a	eliminar	Jesus	(cf.	Mt	12,14).	Estavam,	por	toda	parte,	em	busca
de	pretextos	para	denunciá-lo	ao	tribunal.	Até	então	Jesus	conseguira	safar-se
deles	e	levar	adiante	sua	missão.	Porém,	até	quando	isso	seria	possível?	Quanto
mais	se	desvencilhava	deles,	desmascarando	suas	artimanhas,	tanto	mais	se
tornavam	determinados	em	lhe	tirar	a	vida.
A	tristeza	dos	discípulos	estava	carregada	de	frustração.	Talvez	começassem	a	se
dar	conta	do	real	significado	de	se	terem	colocado	no	seguimento	de	Jesus.
Deixando	de	lado	a	esperança	em	um	futuro	de	grandeza,	deveriam	contar	com	a
terrível	experiência	de	vê-lo	“entregue	nas	mãos	dos	homens”	decididos	a	matá-
lo.	A	declaração	de	que	seria	ressuscitado,	implícito	está	o	Pai	dos	Céus,	era	um
tanto	vaga	para	os	entusiasmar.	A	tristeza	resulta	da	confusão	mental	e
existencial	em	que	as	palavras	do	Mestre	os	mergulham.
O	imposto	do	Templo	(17,24-28)
²⁴Quando	chegaram	a	Cafarnaum,	os	cobradores	do	imposto	anual	do	Templo	se
aproximaram	de	Pedro	e	lhe	perguntaram:	“O	mestre	de	vocês	não	paga	o
imposto	anual	do	Templo?”	²⁵Ele	respondeu:	“Paga,	sim”.	Ao	entrar	em	casa,
Jesus	se	antecipou	e	lhe	disse:	“Simão,	o	que	você	acha?	De	quem	os	reis	da
terra	recebem	impostos	ou	taxas:	dos	filhos	deles	ou	dos	estrangeiros?”	² Pedro
respondeu:	“Dos	estrangeiros”.	Então	Jesus	disse:	“Portanto,	os	filhos	estão
livres.	²⁷Mas,	para	que	não	os	escandalizemos,	vá	ao	mar	e	jogue	o	anzol.	Segure
o	primeiro	peixe	que	subir.	Ao	lhe	abrir	a	boca,	você	encontrará	uma	moeda.
Pegue-a	e	entregue	a	eles,	por	mim	e	por	você”.
A	cena	passa-se	em	Cafarnaum,	ponto	de	referência	das	atividades	de	Jesus	na
Galileia	(cf.	Mt	4,13).	Ficam	de	fora	as	multidões	e	os	discípulos,	para	tudo	se
concentrar	em	Jesus	e	Pedro.	O	protagonismo	desse	discípulo	aparece	quando	os
cobradores	do	imposto	do	Templo,	dirigindo-se	a	ele,	interrogam-no	sobre	o
modo	de	proceder	do	Mestre,	no	tocante	ao	pagamento	do	imposto	anual	para	a
manutenção	do	Templo	(v.	24).	Tratava-se	da	didracma	prevista	pela	Lei	a	ser
paga	pelos	israelitas	com	idade	superior	a	vinte	anos	(cf.	Ex	30,13-15).	Certos
grupos	como	os	galileus	questionavam	sua	obrigatoriedade.	Os	judeus	piedosos
com	grande	probabilidade	os	viam	com	maus	olhos.
A	pergunta	dirigida	a	Pedro	era	capciosa,	ao	pressupor	que	Jesus	“não”	pagava	o
imposto.	Portanto,	faziam	uma	imagem	negativa	dele	e	queriam	confirmá-la.	O
discípulo	escapou	da	armadilha,	contrariando	o	preconceito	dos	cobradores	de
impostos	ao	responder	“sim”	(v.	25a).	Em	momento	algum	da	catequese
evangélica	encontram-se	alusões	a	semelhante	prática	de	Jesus.	Teria	Pedro
saído	pela	tangente	para	evitar	aborrecimentos?
O	diálogo	que	se	segue	e	a	consequente	orientação	do	Mestre	“ao	entrar	em
casa”	ajudam	a	compreender	seu	exato	modo	de	pensar	(v.	25b-27).	Tem-se	a
impressão	de	que	o	Mestre	ouviu	a	conversa	dos	cobradores	de	impostos	com
Pedro	e	permitiu	que	este	respondesse	em	seu	nome.	O	discípulo	falou	em	nome
do	Mestre!	A	linha	do	raciocínio	de	Jesus	gira	em	torno	do	tema	da	filiação,
considerando	o	Templo	como	“casa	de	Deus”,	por	conseguinte	casa	de	seu	Pai.	A
metáfora	do	rei	e	da	casa	real	com	a	prática	de	cobrar	impostos	ilustra	a	situação.
Se	os	“reis	da	terra”	isentam	os	filhos	do	pagamento	de	impostos,	cobrando-os
apenas	dos	estrangeiros,	nesse	caso	dos	súditos,	Jesus,	enquanto	Filho	do	Senhor
do	Templo,	pode	se	considerar	liberado	do	pagamento	do	imposto	do	Templo	e
se	colocar	fora	da	obrigação	da	Lei!
Para	não	indispor	os	cobradores	de	impostos	contra	eles	e	mantê-los	abertos	para
uma	eventual	abordagem	do	Reino,	o	Mestre	se	dispõe	a	pagar	logo	o	imposto
reclamado.	Análogo	é	o	sentido	da	preocupação	contida	na	frase:	“Para	que	não
os	escandalizemos”	(v.	27).	Escandalizar,	na	catequese	evangélica,	tem	o	sentido
de	afastar	alguém	do	caminho	da	fé,	impedi-lo	de	dar	passos	na	vivência	da
justiça	do	Reino,	criar	animosidade	entre	a	pessoa	e	Deus.
A	ordem	dada	pelo	Mestre	a	Pedro	é	a	única	em	todo	o	evangelho	onde	atua	em
seu	próprio	interesse,	como	se	estivesse	cedendo	à	tentação	de	abuso	do	poder
recebido	do	Pai	(cf.	Mt	4,3-4).	Sua	correta	compreensão	exige	dar-se	conta	da
função	literário-narrativa	da	cena.	É	o	terceiro	episódio	em	que	Pedro	aparece
como	protagonista	(cf.	Mt	14,28-31;	16,16-19.22-24).	O	catequista	descreve	seu
percurso	de	seguimento	do	Mestre	para	mostrar	como	acontece	com	todo	aquele
que	se	dispõe	a	deixar	tudo	para	fazer	semelhante	experiência	(cf.	Mt	18-20).
Sua	intenção	consiste	em	ensinar	que	a	vida	do	discípulo	e	a	do	Mestre	se
entrecruzam,	a	ponto	de	o	discípulo	assimilar	a	identidade	do	Mestre.	Essa
preocupação	perpassa	a	cena:	quando	os	cobradores	de	impostos	questionam	o
discípulo	a	respeito	de	uma	prática	do	Mestre;	quando	o	discípulo	responde
prontamente	em	nome	do	Mestre;	quando	o	discípulo	abre	a	boca	do	primeiro
peixe	que	apanha	e	nela	encontra	exatamente	um	estatér,	correspondente	a	duas
didracmas,	suficiente	para	pagar	o	imposto	“por	mim	e	por	você”.	A	expressão
conclusiva	frisa	a	comunhão	de	vida	entre	o	Mestre	e	Pedro,	construída	em	meio
a	muitos	percalços.	Assim	acontecerá	com	os	discípulos	de	todos	os	tempos.	A
sorte	do	discípulo	está	indissociavelmente	ligada	à	do	Mestre!
Para	reflexão	e	debate
1.	Que	leitura	eucarístico-eclesial	pode	ser	feita	em	torno	das	duas	narrativas
de	partilha	de	pães	e	de	peixes?
2.	Qual	o	itinerário	de	fé	do	discípulo-apóstolo

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