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Sumário Capa Folha de rosto INTRODUÇÃO O Evangelho segundo Mateus: Catequese narrativa para a comunidade dos discípulos do Reino 1. O mundo da comunidade mateana 2. A comunidade mateana 3. O autor do evangelho 4. A estrutura da catequese mateana 5. As fontes da catequese mateana 6. Alguns recursos literários da catequese mateana 7. As questões de fundo da catequese mateana 8. Os três tempos na leitura-audição da catequese mateana AS ORIGENS DO MESSIAS (Mt 1-2) I. O REINO E SUA JUSTIÇA (Mt 3-7) 1. Narração: A vinda do Reino 2. Discurso: Buscar o Reino e sua justiça – Sermão da Montanha II. MANIFESTAÇÕES DO REINO (Mt 8-10) 1. Narração: Justiça e misericórdia 2. Discurso: Chamado para a missão III. OS MISTÉRIOS DO REINO (Mt 11-13) 1. Narração: Acolhida e rejeição do Messias 2. Discurso: O Reino em parábolas IV. COMPROMISSO COM O REINO (Mt 14-18) 1. Narração: O Messias reconhecido e questionado 2. Discurso: Comunidade comprometida com o Reino e sua justiça V. DECIDIR-SE PELO REINO (Mt 19-25) 1. Narração: Os desafios do Reino de Deus 2. Discurso: Opção pela justiça 3. O último grande discurso: A consumação do Reino VI. MORTE E RESSURREIÇÃO DO MESSIAS (Mt 26-28) O desfecho da vida de Jesus e o início da missão dos discípulos A hora do leitor-ouvinte! Coleção Ficha catalográfica Landmarks Capa Folha de rosto Sumário INTRODUÇÃO O Evangelho segundo Mateus: Catequese narrativa para a comunidade dos discípulos do Reino 1. O mundo da comunidade mateana 2. A comunidade mateana 3. O autor do evangelho 4. A estrutura da catequese mateana 5. As fontes da catequese mateana 6. Alguns recursos literários da catequese mateana 7. As questões de fundo da catequese mateana 8. Os três tempos na leitura-audição da catequese mateana AS ORIGENS DO MESSIAS (Mt 1-2) I. O REINO E SUA JUSTIÇA (Mt 3-7) 1. Narração: A vinda do Reino 2. Discurso: Buscar o Reino e sua justiça – Sermão da Montanha II. MANIFESTAÇÕES DO REINO (Mt 8-10) 1. Narração: Justiça e misericórdia 2. Discurso: Chamado para a missão III. OS MISTÉRIOS DO REINO (Mt 11-13) 1. Narração: Acolhida e rejeição do Messias 2. Discurso: O Reino em parábolas IV. COMPROMISSO COM O REINO (Mt 14-18) 1. Narração: O Messias reconhecido e questionado 2. Discurso: Comunidade comprometida com o Reino e sua justiça V. DECIDIR-SE PELO REINO (Mt 19-25) 1. Narração: Os desafios do Reino de Deus 2. Discurso: Opção pela justiça 3. O último grande discurso: A consumação do Reino VI. MORTE E RESSURREIÇÃO DO MESSIAS (Mt 26-28) O desfecho da vida de Jesus e o início da missão dos discípulos A hora do leitor-ouvinte! Coleção Ficha catalográfica INTRODUÇÃO O Evangelho segundo Mateus: Catequese narrativa para a comunidade dos discípulos do Reino As primeiras comunidades cristãs foram desafiadas a encontrar respostas para as muitas questões levantadas para sua vida de fé oriundas das relações intracomunitárias, das relações com as comunidades judaicas ligadas à sinagoga ou do contato com o ambiente romano. A suprema pedra de tropeço consistia em crer na salvação oferecida pelo Crucificado, maldito de Deus na concepção judaica e malfeitor na concepção romana. Como explicar esse “absurdo”? Sem o esforço de repensar a fé, à luz da vida e da pregação do Messias Jesus, a ameaça da dispersão e do desaparecimento pairava como uma espada sobre a comunidade de discípulos. O esforço de Mateus em relação à sua comunidade e o de tantos teólogos, catequistas e pastores inspirados por ele e preocupados com o futuro da fé dos irmãos e das irmãs, dizem respeito à tentativa de estabelecer as balizas para a ação dos discípulos de Jesus, mostrar-lhes o fundamento do que acreditam, evitar a contaminação com mentalidades espúrias, prevenir o desvio de comportamento das lideranças tentadas a se imporem à revelia do ideal do Reino de Deus, oferecer luzes para se esclarecerem as dúvidas quanto à sensatez de abraçar como ideal de vida a proposta de fé do Nazareno. Tendo no horizonte um conjunto consistente de interrogações, Mateus e os demais evangelistas lançaram-se na tarefa de respondê-las de forma criativa e dinâmica com a narração da vida do Mestre, inaugurando assim o gênero literário evangelho. O evangelho enquanto proclamação da boa-notícia do Reino (cf. Mt 4,17) passou a ser expresso em forma de literatura. Servindo-se das tradições escritas e orais que tinham à disposição, deram-se ao trabalho de esclarecer todas as inquietações dos irmãos e das irmãs de comunidade, empecilhos para a adesão incondicional ao chamado do Mestre e suas exigências. Os evangelistas narraram a vida de Jesus, seus ensinamentos e suas ações, inserindo nas entrelinhas as respostas para as dúvidas de fé e as orientações de como os discípulos do Reino devem se comportar. Portanto, para entender as catequeses evangélicas, torna-se necessário conhecer as questões de fundo com as quais lidaram. Mas também as técnicas narrativas dos autores, as linhas mestras de sua teologia, cristologia, eclesiologia, escatologia, ética, bem como o pano de fundo cultural e religioso e as tradições teológicas usadas na construção de seus evangelhos. 1. O mundo da comunidade mateana a. O ambiente judaico O judaísmo do século 1o trazia a marca da pluralidade. Havia variados grupos e correntes em seu interior, com doutrinas e práticas bem definidas. A diversidade dependia da postura assumida diante de quatro tópicos: o templo, o sacerdócio, a interpretação da Lei mosaica e a presença ostensiva do poder romano. Embora nem todos os grupos da época sejam aludidos no evangelho, os principais eram os seguintes: Os saduceus, provavelmente derivado do nome Sadoc, correspondiam à aristocracia e às famílias sacerdotais de Jerusalém. Viviam em função do Templo e eram fundamentalistas quanto à Lei, recusando todo tipo de interpretação. Eram favoráveis à dominação romana, da qual dependia a subsistência de seu status social e religioso. De certo modo, serviam de intermediários entre o povo judeu e os dominadores estrangeiros. Os fariseus, do hebraico parash, separar, segregar, formavam um movimento “leigo” caracterizado pela observância da Lei, interpretada de maneira flexível pelos escribas. Tinham influência na classe média urbana e desprezavam o povo interiorano por não se apegar à Lei como eles. Faziam resistência passiva aos dominadores romanos, recusando servir-se de meios violentos. Os escribas, doutores da Lei, gozavam de prestígio por se dedicarem ao estudo da Lei e sua difusão entre o povo. Sua influência ligava-se às sinagogas, lugar privilegiado de estudo, ensinamento e pesquisa sobre a Lei. O evangelho associa-os aos fariseus, seus fiéis discípulos e seguidores. A guarda da Lei estava nas mãos dos sacerdotes. Os escribas (gr. grammateus), por sua vez, tinham a função de transcrevê-la e, pouco a pouco, tornaram-se seus intérpretes, limitando-se os sacerdotes às funções cultuais no Templo. Dessa forma, assumiram um lugar de destaque junto ao povo (cf. Mt 23,1-7). Serviam-se do midrash, do hebraico buscar, procurar, como método para encontrar sempre novos sentidos para os textos bíblicos. Após 70 d.C., começaram a ser chamados de rabinos, do hebraico rab, numeroso, imponente, grande. Os essênios são hoje o grupo mais conhecido, depois de ter sido o mais desconhecido. As poucas notícias a respeito deles provinham de Flávio Josefo, em sua obra Guerra Judaica. Com a descoberta casual da biblioteca de Qumran (1947) e a posterior publicação da literatura do grupo, foi possível conhecê-los mais de perto. Protestavam contra a corrupção do sacerdócio de Jerusalém e viviam segregados nas imediações do mar Morto, à espera da chegada do Messias. Interpretavam as Escrituras de maneira peculiar (midrash pesher), como se tudo tivesse sido escrito diretamente para eles. Os zelotas eram um grupo formado por judeus zelosos pela Lei e revoltados com a dominação romana, a ponto de pegarem em armas para libertar o país das mãos dos dominadores. Opunham-se aos saduceus porserem mancomunados com os romanos. As comunidades cristãs palestinenses formavam um grupo a mais no leque de tendências no interior do judaísmo, onde se esforçavam para abrir um caminho peculiar guiadas pelas palavras do Mestre Jesus de Nazaré. Sua convivência com os demais grupos nem sempre foi pacífica, pois sofriam hostilidade e rejeição. O conflito de Jesus com os escribas e fariseus perpassa toda a catequese mateana. Nela Jesus é apresentado em contraposição a eles ao interpretar a Lei com muita liberdade, com o foco em seu espírito em aberto detrimento da materialidade da letra. E crítico da tendência à exibição religiosa praticada por certa corrente farisaica. Enquanto o Templo estava de pé, os membros das comunidades cristãs o frequentavam, contudo não o consideravam imprescindível (cf. Mt 12,6; 24,2). Como os essênios, os discípulos de Jesus de Nazaré formavam uma comunidade escatológica, com a diferença de não se apartarem e menosprezarem os demais, como acontecia com o grupo recluso no deserto (cf. Mt 5,13-16). A presença dos romanos era vista com senso crítico, numa atitude diferente da dos fariseus, que os confrontavam, e mais radicalmente dos zelotas, que os hostilizavam. b. O ambiente romano O ambiente mais amplo em que a catequese mateana está inserida tem a ver com o Império Romano. Mateus, com sua comunidade, pertence a um movimento insignificante, situado nas fronteiras orientais do Império, cuja localização precisa se desconhece. Entretanto, sofria forte pressão da ideologia imperial com a qual devia conviver e mostrar a fidelidade ao projeto de Reino inaugurado por Jesus de Nazaré. A parte oriental preocupava os romanos, por medo de revoltas independentistas. Daí a atenção com o que lá se passava. Urgia fortificá-la militar e economicamente, por questão de defesa e de estratégia, e organizá-la em nível administrativo e militar para torná-la mais segura para o comércio e o trânsito de pessoas. Quando o evangelho mateano foi escrito, o Império estava bem estabelecido. A Palestina e, nela, a Galileia tinham sua importância como via de comunicação. Com probabilidade tratava-se de uma região desenvolvida cultural e economicamente. O evangelho comporta elementos ligados ao mundo romano. Entre outros, a legitimidade do pagamento do tributo ao imperador (cf. Mt 22,15-22); o tratamento a ser dispensado a pessoas, judeus ou não, que trabalhavam para os romanos, como no caso dos cobradores de impostos (cf. Mt 9,9), e os próprios romanos, como no caso dos militares (cf. Mt 8,5-13). Já que o Reino de Deus comporta valores diametralmente contrários aos do Império, o evangelista vê-se na obrigação de orientar sua comunidade no tocante às relações com o colonialismo romano. c. O conflito judeu-romano e suas consequências Os anos 66-70 d.C. foram de grandes tensões entre judeus e romanos: a guerra judaica, minuciosamente descrita por Flávio Josefo, quando os romanos, confrontados pelos zelotas a partir da Galileia, acabaram por destruir Jerusalém e seu Templo. Nessa guerra, os saduceus e os essênios foram dizimados e os zelotas profundamente enfraquecidos. Restaram apenas os fariseus com os doutores da Lei e a comunidade cristã palestinense que fugiu para se safar do conflito. Eusébio de Cesareia, na História Eclesiástica 5,6, informa que, ao se aproximarem as legiões romanas de Jerusalém, os cristãos fugiram em massa e se refugiaram em Pela, do outro lado do rio Jordão. Pelos anos 80, os fariseus promoveram a reconstrução do judaísmo, com um projeto de unificação (uniformização) dos muitos grupos ligados à religião de Israel. Buscou-se criar um calendário comum para as festas, elaborou-se o cânon dos livros inspirados, resultando daí a Bíblia Hebraica, e as liturgias sinagogais foram padronizadas. Esse período tem sido chamado de judaísmo formativo. Os cristãos recusaram-se a entrar nessa dinâmica reformista e passaram a sofrer contínuas perseguições e marginalização por parte das lideranças farisaicas. O acréscimo da Birkat-ha-mimîm (Bênção contra os hereges) nas Shemoné esré (Dezoito bênçãos), oração matinal diária dos judeus piedosos, por volta de 85 d.C., parece ter sido a gota d’água para se consumar a ruptura. Nela se dizia: “Que não haja mais esperança para os apóstatas, e o reino do orgulho seja prontamente desenraizado em nossos dias; que os nazarenos e heréticos pereçam num instante, que sejam apagados do livro dos vivos, e que não sejam inscritos com os justos. Bendito sejas tu, Y., que dobrais os orgulhosos”. Estavam na mira todos quantos resistiam em se submeter às pressões, entre eles os discípulos de Jesus de Nazaré. O evangelho de Mateus foi escrito nesse contexto tenso. Por isso, falará em perseguições e mortes que podem ser atribuídas à hostilidade da liderança sinagogal (cf. Mt 5,10-12). O evangelista, contudo, se esforça por manter os vínculos de sua comunidade com a sinagoga, embora chame a atenção para os desvios de conduta dos escribas e fariseus. O evangelho de João, escrito numa época um pouco posterior, alude à ruptura dos discípulos de Jesus com o movimento sinagogal. O episódio da cura do cego de nascença, onde se fala em expulsão da sinagoga, retrata essa situação (cf. Jo 9). 2. A comunidade mateana A leitura da catequese de Mateus permite esboçar os traços de sua comunidade perceptíveis nos meandros do texto. Aí se encontram os leitores implícitos que o evangelista teve em mente ao longo da elaboração de sua obra. A linguagem, a teologia e os elementos culturais presentes na composição do evangelho têm esse público-alvo como referência. Os problemas vividos pela comunidade são objeto da preocupação do evangelista. A catequese apresenta-lhe pistas para a consolidação da fé na “busca do Reino de Deus e sua justiça” (Mt 6,33), um projeto de vida superior ao praticado pelas lideranças religiosas judaicas (cf. Mt 5,20) e os cidadãos do Império Romano. Ao reforçar sua adesão ao Ressuscitado e nele encontrar forças para viver e testemunhar o compromisso com o Pai dos Céus, como o Mestre Jesus, estará em condições de superar todas as adversidades. Eis alguns traços da comunidade para a qual a catequese mateana se destinou. a. O rosto judeu-cristão A catequese mateana mostra-se como a mais judaica das catequeses evangélicas. Com facilidade se percebe ter como destinatária uma comunidade judeu-cristã, pois o substrato judaico salta à vista. Sua localização é incerta, podendo encontrar-se na Palestina, no sul da Síria ou em algum lugar onde o judaísmo tivesse presença marcante. Há quem recorra a Mt 4,24 (“Sua fama espalhou-se por toda a Síria”) para definir seu local de origem. Mais precisamente Antioquia da Síria (cf. At 11,19-26; 13,1). Encontrava-se aí a capital oriental do Império Romano, sendo a terceira cidade em importância, depois de Roma e Alexandria. Outro indicador seria a referência a nazoraios, apelido aplicado a Jesus em Mt 2,23 (cf. Mt 26,71), nome que lá era referido aos cristãos (“seita [gr. haíresis] dos nazarenos”; At 24,5). A forte presença da tradição judaica na catequese mateana permite pensar que a comunidade destinatária fosse formada, em sua maioria, por cristãos provenientes do judaísmo. O evangelho oferece aos membros da comunidade indicações para entender a fé em Jesus de Nazaré à luz da antiga tradição religiosa de Israel. Fiéis às suas origens, os cristãos são orientados a viver de forma radical a fé dos pais, ao buscarem a alma das Escrituras, com a nova hermenêutica praticada por Jesus, superando a materialidade da escrita, à qual os fariseus se apegavam. A afirmação “Vocês ouviram o que foi dito aos antepassados... Mas eu lhes digo”, repetida várias vezes em Mt 5,21-48, constitui-se em claro sinal da guinada que o Mestre de Nazaré deu na religião de sua época. O evangelista mostra como Jesus propõe um caminho de continuidade em relação à religião de Israel, ao mesmo tempo em que estabelece uma ruptura com o passado. O Mestre afirma não ter vindo para abolir a Lei e os Profetas, o conjunto das Escrituras, mas paralevá-los à plenitude (cf. Mt 5,17). Mostra-se livre diante das tradições religiosas de seu povo (sábado, ritos de purificação, costumes e tabus religiosos); ensina com autoridade (gr. exousía), bem diferente dos doutores da Lei (cf. Mt 7,29); liberta os discípulos do legalismo, evitando lançá-los numa espécie de anarquia irresponsável. Por esse viés, leva à plenificação a fé de Israel. Continuidade, ruptura e plenificação são chaves importantes para se entender a catequese mateana destinada a mostrar aos cristãos provindos do judaísmo quão acertada foi sua decisão. O catequista toma distância das estruturas religiosas judaicas, com as quais está em litígio. O uso reiterado da expressão “sinagogas deles”, dos doutores da Lei, sublinha a diferença entre a comunidade dos discípulos de Jesus e a comunidade dos discípulos de Moisés (cf. Mt 4,23; 9,35; 10,17; 12,9; 13,54; 23,34). b. De coração aberto para os pagãos As dificuldades nas relações com a sinagoga levaram a comunidade de Mateus a se abrir para os gentios, requisito inadiável de sua missão. O contato com o Império Romano exigia abrir mão dos preconceitos contra os não judeus e olhá- los com benevolência. No evangelho, os primeiros a adorarem o menino Jesus são os magos, vindos do estrangeiro (cf. Mt 2,1-12); no final, os pagãos se tornam os destinatários da atividade apostólica (cf. Mt 28,19 e também 24,14; 26,13). Um dos primeiros beneficiados pela autoridade de Jesus foi um oficial romano que, ao interceder pelo servo doente, recebeu um enorme elogio por sua fé (cf. Mt 8,10). Muitas vezes o evangelista usa a expressão “numerosas multidões”, que inclui os gentios. O discípulo do Reino tem a vocação de ser “sal da terra” e “luz do mundo” (Mt 5,13-16), com a missão de fazer a Boa-Nova do Reino ecoar até os confins do mundo (cf. Mt 28,19). O ministério de Jesus começa e se conclui na “Galileia dos Pagãos” (gr. galilaía tón ethnón; cf. Mt 4,12-17; 28,16), claro sinal da opção de ir além dos limites de Israel e estender os benefícios da salvação à humanidade inteira. c. Uma comunidade com organização O uso de três vocábulos no decorrer do evangelho deixa transparecer o percurso da caminhada na comunidade mateana: multidão – discípulo – apóstolo. Multidão equivale a um conceito teológico e significa proximidade descomprometida, curiosa ou interessada com Jesus e com o Reino. Na multidão estão os potenciais discípulos e também os opositores de Jesus. Quem adere ao Mestre e aos seus ensinamentos torna-se discípulo. A experiência de discipulado consiste em se colocar no seguimento do Mestre, incluindo a paixão, morte e ressurreição. Só então o discípulo estará capacitado para se tornar apóstolo e ir pelo mundo para anunciar a Boa-Nova do Reino, mantendo a condição de discípulo. Será sempre discípulo-apóstolo (cf. Mt 10; 28,16-20) e a ninguém chamará de “mestre” ou de “pai”, pois um só é o Pai, o Celeste, e um só o Mestre, o Cristo (cf. Mt 23,8-10). Mt 18 alude às relações no interior da comunidade e estabelece os critérios para a condução dos procedimentos de exclusão (excomunhão), para coibir o autoritarismo das lideranças. A fraternidade e a justiça haverão de ser os pilares do trato com os irmãos faltosos. A declaração do Mestre: “Vocês todos são irmãos” (Mt 23,8) define o estilo de vida comunitário. Ninguém tem o direito de olhar para o outro como subordinado, tampouco tratá-lo como inferior. Na comunidade mateana, praticava-se o batismo em nome da Trindade (cf. Mt 28,19); celebravam-se a Eucaristia instituída por Jesus (cf. Mt 26,26-30 e também 14,19; 15,36) e a reconciliação conforme um rito preciso (cf. Mt 18,15- 17); a oração e as práticas de piedade eram feitas de maneira muito distinta da dos doutores da Lei e dos fariseus (cf. Mt 6,1-18). Mt 5-7, o Sermão da Montanha, estabelece as balizas das relações interpessoais. A pessoa do discípulo-apóstolo Pedro tem um papel relevante na comunidade mateana. Muitas vezes se faz referência a ele, que se destaca dos demais discípulos. Uma série de textos exclusivos de Mt narram episódios protagonizados por Pedro. Em 14,22-30, caminha sobre as águas; em 16,13-28, recebe grande elogio e, depois, severa censura; em 17,24-27, o Mestre ordena-o pagar o imposto do Templo por ele e por si; em 18,21-22, levanta a questão dos limites do perdão; em 19,23-29, quer conhecer a recompensa merecida por ter largado tudo para seguir o Mestre; em 26,30-35, faz uma declaração dramática de fidelidade ao Mestre, que se mostrará enganosa. Atua como porta-voz do grupo em 15,15; 16,13-16; 17,4. A atribulada experiência de discipulado de Pedro, com seus altos e baixos, torna-se uma espécie de paradigma do discipulado do Reino. d. Uma comunidade plural O evangelista não mitifica sua comunidade, com o risco de torná-la um grupo de fanáticos sectários, convencidos de serem superiores aos demais. Antes se mostra dotado de profundo senso crítico, por ser consciente de suas debilidades. Configura-se com um corpus mixtum, onde convivem bons e maus (cf. Mt 13,24-30: o joio e o trigo; 13,47-50: a rede). No banquete do Reino existem pessoas desprovidas da veste nupcial, motivo pelo qual são retiradas da festa (cf. Mt 22,11-13). Ninguém pode se considerar confirmado na fé, pois existe a possibilidade de “esfriar o amor de muitos” (Mt 24,12). Urge estar atentos para as investidas dos “falsos profetas”, desencaminhadores dos irmãos de fé (cf. Mt 7,15-20; 24,11). Os líderes são chamados de “fracos na fé” (gr. oligópistoi, de “pouca fé”; cf. Mt 6,30; 8,26; 14,31; 16,8; 17,20). Entre os discípulos, corre a mentalidade mundana de alguns pretenderem ocupar cargos elevados (cf. Mt 20,20-21). Aquele que foi constituído “pedra” sobre a qual a “igreja” foi edificada (cf. Mt 16,18) traiu o Mestre (cf. Mt 26,32-35.69-75). Outro discípulo vendeu-o como se fosse mercadoria (cf. Mt 26,21-47). O evangelista estava preocupado com a má influência do “fermento dos fariseus e dos saduceus” (cf. Mt 16,5-12). As duras invectivas de Mt 23 têm como destinatários os “escribas e fariseus hipócritas” da comunidade, contaminada pelo exibicionismo vazio. O evangelho, no seu conjunto, pode ser considerado uma catequese narrativa para formar os membros da comunidade. Seu caráter didático, esquemático e prático se percebe na primeira leitura. Daí ter sido usado nas Igrejas primitivas muito mais que os demais evangelhos. Os leitores-ouvintes estarão em condições de acompanhá-lo e compreendê-lo à medida que se aproximarem desse ambiente existencial de fé. A leitura da catequese mateana desconectada do seu contexto original, alheia aos contratempos da comunidade mateana e desinteressada de conhecer as orientações dadas pelo evangelista, presta um grande desserviço à causa da evangelização, por trilhar caminhos alheios aos da fé apostólica. 3. O autor do evangelho O evangelho não traz a assinatura de seu autor. A autoria (“Evangelho segundo Mateus”) não se encontra no texto grego original. Tem origem no testemunho de Papias, bispo de Hierápolis (século 2º), referido por Eusébio de Cesareia (século 3º), na obra História Eclesiástica, III, 39,16. Papias afirma que Mateus se deu ao trabalho de organizar os ensinamentos de Jesus em língua hebraica e cada leitor os interpretava na medida de suas possibilidades. Foram levantadas muitas questões em torno dessa afirmação sintética e lacunosa. Os ensinamentos (gr. lógia) abarcam o conjunto do evangelho ou se limitam a um apanhado de instruções? Organizar (gr. synetáxato) refere-se a escrever toda a obra? A interpretação (gr. herméneusen) tinha o sentido de traduzir? A referência à língua hebraica (ebraídi dialékto) tem a ver com o hebraico ou com o modo de se expressar nessa língua? Daqui surgiu a hipótese de o evangelho ter sido escrito originalmente em hebraico e, depois, traduzido para o grego. Essa hipótese foi deixada de lado! Uma leitura atenta revela a preocupação pastoral de quem escreveu o evangelho. O texto evidencia o esforço de seu autor em ajudar sua comunidade a enfrentar os desafios da perseguição,da dispersão e da capitulação perante as investidas adversárias. Houve quem o chamasse de “pastor de almas”, pelo cuidado com a fé de seus irmãos e irmãs de comunidade, motivo pelo qual se deu ao trabalho de elaborar, com grande habilidade teológica e literária, uma catequese para orientá- los na vivência da fé. Faz-se necessária uma distinção entre o Mateus apóstolo e o Mateus evangelista, por tratar-se de duas personalidades distintas. Mateus (cf. Mt 9,9) ou Levi, filho de Alfeu (cf. Mc 2,14), um dos doze discípulos enviados em missão, foi um cobrador de impostos para os romanos (cf. Mt 10,3; Lc 5,27), no início do século 1º. Já o Mateus evangelista viveu no final do mesmo século, muitas décadas depois. Equivale ao “autor real” do evangelho, impossível de ser recuperado, pela autoria fictícia que lhe foi atribuída. Refere-se à pseudoepigrafia praticada na Antiguidade, com a atribuição de uma obra a algum personagem importante do passado, para dar autoridade ao texto. Pode-se, porém, recuperar sua identidade como “autor implícito” nas entrelinhas da catequese atribuída a um certo Mateus. Conhece e fala o grego e possui grande capacidade literária; tem familiaridade com as Escrituras e dá mostras de estar profundamente inserido nas tradições do povo judeu; por isso usa a expressão Reino dos Céus em lugar de Reino de Deus, sensível ao costume judaico de não pronunciar o nome de Deus; abraça com muita garra o projeto de Jesus de Nazaré e se torna seu grande defensor; está engajado em uma comunidade cristã cujas crises internas e externas conhece muito bem; goza o reconhecimento da comunidade que acolhe, valoriza, conserva e difunde sua catequese. Dois elementos de sua identidade chamam a atenção. Por um lado, mostra-se realista ao falar da necessidade das obras para se entrar no Reino, desconsiderando as idealizações espiritualizantes. A salvação passa pela solidariedade com o próximo necessitado (cf. Mt 25,31-46). Por outro lado, mostra-se conciliador num tempo em que os discípulos de Jesus de Nazaré eram perseguidos pela liderança da sinagoga. Seu escrito não contém indícios de que incentivasse a ruptura com os perseguidores. Antes pede que os amem, rezem por eles (cf. Mt 5,44) e se recusem a responder violência com violência (cf. Mt 5,38-42). Entre os estudiosos, existe a tendência de reconhecer Mt 13,52 como assinatura do autor da catequese evangélica: “Todo doutor da Lei que foi instruído no Reino dos Céus é como um dono de casa que tira de seu cofre coisas novas e velhas”. Tratar-se-ia de um doutor da Lei, escriba, que aderiu ao movimento de Jesus de Nazaré e, numa perspectiva cristã, reinterpretou a tradição teológica e religiosa de Israel, convencido de recuperar as raízes da fé dos antepassados. Embora falando grego, possuía sólida formação judaica. Isso possibilitou-lhe escrever sua catequese em grego, lançando mão de recursos literários e tradições teológicas recorrentes no ambiente judaico. 4. A estrutura da catequese mateana A catequese de Mateus tem um plano bem elaborado, perceptível quando lida no seu conjunto. A articulação acontece em torno de cinco grandes discursos de Jesus, concluídos com uma fórmula fixa: 7,28 – “Quando terminou essas palavras”; 11,1 – “Quando terminou de dar instruções”; 13,53 – “Quando terminou de contar essas parábolas”; 19,1 – “Quando terminou essas palavras”; 26,1 – “Quando terminou todas essas palavras”. Escrevendo para uma comunidade cristã cujos membros provinham, em sua maioria, do judaísmo, ao atribuir a Jesus cinco discursos o catequista poderia estar contrapondo-os aos cinco livros do Pentateuco, aos cinco livros dos Salmos ou aos cinco Rolos (heb. meghilot), abrangendo o Cântico dos Cânticos, Rute, Lamentações, Eclesiastes e Ester, lidos nas principais festas judaicas. O Mestre Jesus supera em grau excelente todos e tudo quanto o antecedeu, por viver uma relação inaudita com o Deus de Israel, donde lhe provém a autoridade para ensinar e fazer gestos poderosos. Os discursos, com uma articulação concêntrica equilibrada, giram em torno do Reino de Deus, tema de fundo da catequese mateana. De forma muito sucinta, pode-se dizer que o Reino de Deus significa o senhorio de Deus sobre a história, movendo os seres humanos para a fraternidade, a misericórdia, o perdão e a reconciliação, com o banimento de toda sorte de injustiça e de aviltamento da dignidade dos seres humanos, a serem tratados como irmãos e irmãs. O Reino iniciado na história caminha para a plenificação quando a humanidade inteira passará pelo crivo do Rei Juiz, que avaliará cada um com a medida do cuidado dos irmãos mais pequeninos (cf. Mt 25,31-46). Estes são os cinco grandes discursos da catequese mateana: Mt 5-7 Discurso Inaugural O Sermão da Montanha versa sobre a justiça do Reino de Deus, síntese da ética do discipulado cristão. Mt 10 Discurso Missionário São enunciadas aí as orientações para o anúncio do Reino de Deus a toda a humanidade, como projeto de missão dos discípulos-apóstolos. Mt 13 Discurso Parabólico Contém chaves de leitura dos “mistérios do Reino dos Céus”, o modo como o senhorio de Deus se faz presente na história em meio a perdas e fracassos na perspectiva de um fim glorioso. Mt 18 Discurso Eclesiástico Dirige-se de modo particular aos líderes da comunidade, no intuito de inculcar-lhes o projeto de vida do Reino, contrário aos esquemas mundanos. Mt 24-25 Discurso Escatológico Aborda a consumação do Reino, quando o Messias glorioso julgará a humanidade, acolhendo os autênticos e rejeitando os falsos discípulos. Os discursos correlacionam-se entre si. O primeiro corresponde ao quinto: à proposta de vida, segue-se a entrada definitiva no Reino; um fala do começo do Reino e o outro, de sua consumação. O segundo corresponde ao quarto: a dimensão extraeclesial do Reino (missão) tem como contraponto a dimensão intraeclesial (vida comunitária); o Reino anunciado pelos missionários deve ser implementado na comunidade. O terceiro discurso está no centro e oferece a chave para a compreensão dos “mistérios do Reino” e da catequese mateana em seu conjunto. Os discursos articulam-se de forma concêntrica: A: Mt 5-7 – discurso inaugural B: Mt 10 – discurso missionário C: Mt 13 – discurso parabólico B’: Mt 18 – discurso eclesiástico A’: Mt 24-25 – discurso escatológico Os grandes discursos alternam-se com as seções narrativas. O narrador teceu sua catequese com maestria e precisão, concatenando no tempo e no espaço as tradições a respeito de Jesus de Nazaré à sua disposição, abarcando toda a vida do Mestre, desde a sua concepção até o envio missionário dos discípulos- apóstolos na condição de Ressuscitado. O leitor-ouvinte, ao percorrer o itinerário de Jesus de Nazaré, de maneira viva e realista, contempla o programa de vida que abraçou na condição de discípulo do Reino ou que está para abraçar, em se tratando de pessoas abertas e sensibilizadas para acolher o Reino. O gênero literário “evangelho” permite que Jesus fale diretamente ao leitor-ouvinte, servindo-se dos expedientes narrativos usados pelo evangelista. O longo espaço dedicado aos discursos do Mestre (tempo da narração) mostra como são importantes para o catequista-narrador, no esforço de tocar o coração do leitor-ouvinte. Da mesma maneira, o largo espaço dedicado à narração da paixão, morte e ressurreição de Jesus, que ocupa vários capítulos, confronta o leitor-ouvinte com o destino que o espera na condição de discípulo do Reino. Quem adere ao projeto de Jesus na esperança de conquistar grandezas mundanas que se cuide! A presente leitura da catequese mateana evidenciará seu percurso redacional ao frisar-lhe a lógica narrativa, fruto de um trabalho atento, em que as cenas estão em perfeita conexão, de modo que a interpretação de cada elemento particular depende da concatenação com o conjunto. Em outras palavras, será equivocada a interpretação de um versículo retirado de seu contexto narrativo. Somente a leitura intratextual (o versículo inserido no conjunto da catequese mateana), às vezessomada à leitura extratextual (o versículo comparado com outros textos bíblicos), permitirá compreender a mensagem proposta pelo catequista à sua comunidade. Esse expediente hermenêutico evita leituras aleatórias, foco de conflitos e divisões insensatas. Quando os leitores das catequeses evangélicas não se põem de acordo, o problema está neles, e não nos evangelhos. Estarão no bom caminho ao se afinarem no tocante ao método com o qual se darão ao trabalho de entrar “no mundo texto” das catequeses de referência para o discipulado do Reino, os evangelhos, em todos os tempos e lugares. 5. As fontes da catequese mateana Existem várias teorias a respeito das fontes do evangelho de Mateus, o material usado pelo catequista na composição de sua obra. Nenhuma delas satisfaz inteiramente, tampouco goza de aceitação unânime. A teoria das duas fontes, bem simples, goza de larga aceitação, embora a interpretação de muitos pontos ainda fique em aberto. A catequese mateana contém 1071 versículos. a. O evangelho de Marcos 506 versículos, quase a metade, provêm da fonte Mc. Apenas 6 passagens do evangelho de Marcos são omitidas, ao todo 21 versículos: Mc 3,20-21 Conflito de Jesus com sua família; Mc 4,26-29 Crescimento da semente por motivos desconhecidos; Mc 7,31-37 Cura do surdo-gago; Mc 8,22-26 Cura do cego em Betsaida; Mc 14,51-52 Declaração enigmática; Mc 14,51-52 O jovem que fugiu nu, quando Jesus foi preso. Por que Mateus teria omitido essas perícopes? Podem-se fazer várias conjecturas, considerando o projeto literário-narrativo do evangelista. Os dois relatos de cura em Marcos dão a impressão de magia, quando Mateus se esforça para apresentar Jesus na condição de messias mestre e profeta. A reação dos parentes de Jesus choca a sensibilidade do catequista, para quem Jesus de Nazaré merece o maior respeito e consideração. Mc 9,49 (“Todos serão salgados com fogo”) não foi encaixado na catequese mateana por ser incompreensível. A cena do jovem que testemunha a prisão de Jesus está fora de seu interesse narrativo. A parábola da semente que cresce por si mesma encontra seu correlato na parábola do grão de mostarda (cf. Mt 13,31-32). Um estudo estilístico comparando a catequese mateana com a catequese marcana – análise sinótica – mostra como Mateus utilizou sua fonte tendo em mente um projeto literário-teológico bem definido, com o qual redigiu sua catequese. Para isso melhorou o estilo dos textos de Marcos, esclareceu frases e termos obscuros, deixou de lado o que não lhe interessava e, ao invés, inseriu elementos importantes para alcançar seus objetivos, tendo enxugado as narrações marcanas limitando-se ao essencial. Seu foco centrava-se na mensagem a ser comunicada com clareza e precisão, para evitar interpretações duvidosas ou levar os leitores- ouvintes a aderirem ao discipulado do Reino mal informados. Qualquer elemento que escape da compreensão dos leitores atuais (“leitores reais”) resulta do desconhecimento de informações possuídas pelos destinatários originais – “leitores implícitos”. b. A fonte Q A hipotética fonte Q, do alemão Quelle, fonte, explica a origem dos textos que só ocorrem em Mt e Lc. Teria sido uma coleção de ditos de Jesus, usada pelas comunidades cristãs da época, com discursos, sentenças e ditos do Mestre. A narração dos grandes feitos do Mestre estava fora do seu interesse. Não continha o relato da paixão, em que Mt e Lc dependem totalmente de Mc. A catequese mateana usou daí 235 versículos. Como essa fonte presumida não foi conservada, torna-se difícil saber quem a usou com mais fidelidade: Mt ou Lc? Um claro exemplo diz respeito ao Sermão da Montanha, em Mt 5-7, e o Sermão da Planície, em Lc 6,20-49. Assemelham-se quanto ao conteúdo, mas se diferenciam na dimensão e no estilo. O catequista Mateus foi mais detalhista devido à preocupação de apresentar o projeto de discipulado do Reino de forma clara, para evitar mal-entendidos ou adesões precipitadas. c. O material próprio de Mateus A catequese mateana contém 330 versículos, para os quais não se encontram paralelos nas demais catequeses evangélicas. Podem ter sido obtidos de suas tradições particulares, por exemplo, usadas em sua comunidade, de outras fontes ou então se trata de criações redacionais de sua autoria a partir de elementos que estavam à disposição e interessavam para seu projeto teológico-narrativo. Entre o material exclusivo de Mt estão: Mt 1-2 O evangelho da infância Mt 13,24-30 A parábola da boa e da má semente Mt 14,28-31 Pedro caminha sobre as águas Mt 16,16-19 A primazia de Pedro Mt 17,24-27 O imposto do Templo Mt 18,23-35 A parábola do servo cruel Mt 20,1-16 A parábola dos trabalhadores da vinha Mt 21,28-32 A parábola dos dois filhos Mt 25,1-13 A parábola das dez virgens Mt 25,31-46 O julgamento das nações Mt 27,19 O sonho da mulher de Pilatos Mt 27,24-25 Pilatos lava as mãos A leitura atenta da catequese mateana para identificar a maneira como utiliza suas fontes permite captar-lhe a originalidade. As variadas questões de fundo são trabalhadas com grande habilidade literária no decorrer da narração, onde se encontram as marcas de seu foco teológico. Um evidente exemplo encontra-se nas inserções feitas em ambos os milagres de multiplicação dos pães (“sem contar mulheres e crianças”; Mt 14,21; 15,38). Essa afirmação tem grande importância no conjunto da mensagem veiculada no evangelho. 6. Alguns recursos literários da catequese mateana O catequista Mateus lançou mão de muitos recursos literários recorrentes na tradição rabínica para produzir seu evangelho, além da tendência a reunir os ensinamentos de Jesus em grandes discursos, espinha dorsal de sua obra. Eis alguns deles: a) Citações e alusões do Antigo Testamento para respaldar a pessoa e os ensinamentos do Mestre Jesus de Nazaré. São tiradas preferencialmente da versão grega da Bíblia, conhecida como Septuaginta. A fórmula introdutória “Tudo isso aconteceu para que se cumprisse (gr. pleróo) o que o Senhor tinha falado por meio do profeta” e outras semelhantes são repetidas cerca de doze vezes (cf. Mt 1,22; 2,5.15.18.23 etc.). Mais que evocar o esquema previsão- realização, o verbo grego aponta para a plenificação das profecias de outrora. As palavras dos profetas, válidas para o passado, encontram em Jesus de Nazaré sua plena realização, embora os profetas não falassem pensando especificamente nele. As profecias de outrora oferecem luzes para a compreensão da vida e do ministério de Jesus de Nazaré. b) O midrash como método de leitura do Antigo Testamento. Era o método usado pelos doutores da Lei. Tratava-se de buscar (heb. midrash) sempre novos significados para os textos sagrados. Tinha como pressuposto a inesgotabilidade de sentidos das Escrituras. Na catequese mateana ocorrem dois tipos de midrashim. 1. O midrash halaká parte da Lei mosaica, com suas prescrições práticas em vista de conformar a conduta (heb. halak, caminhar) dos fiéis, seu modo de se portar na comunidade, com a vontade de Deus. Um bom exemplo desse método de interpretação encontra-se em Mt 5,21-48, onde o Mestre Jesus tem a ousadia de contrapor “o que foi dito (por Deus) aos antepassados” com “mas eu lhes digo”, ao revelar uma nova maneira de se colocar defronte da Lei, preocupando-se por conhecer o verdadeiro querer divino revelado pelas palavras. 2. O midrash haggadá, por sua vez, serve-se da tradição narrativa (heb. nagad, narrar, contar) da história de Israel, relendo-a a partir da vida e do testemunho de Jesus de Nazaré. Esse método foi aplicado em Mt 2,1-23, evocando a história de Moisés, num autêntico midrash do Êxodo, para mostrar aos membros da comunidade, provindos do judaísmo, ser Jesus a “plenificação” da figura do libertador do povo da opressão egípcia. Herodes encarna o faraó, e Jesus, Moisés. A matança dos inocentes de Belém evoca a matança das crianças hebreias no Egito. A preservação do Menino Jesus, levado para o Egito pelo obediente José, relembra Moisés salvo das águas pela intervenção da filha do faraó. A luta passadaentre o Deus dos israelitas e o faraó revive agora na luta entre o Pai de Jesus, representado pelo “anjo do Senhor”, e o cruel Herodes. c) O uso de simbologia numérica em torno de 2 (número da criatura: dualidade), 3 (número da constituição do ser humano: espírito, alma e corpo), 5 (número do agir divino: os livros da Lei), 7 (número da história humana: os dias da criação) e 12 (número da comunidade: as tribos de Israel). Dois: os endemoninhados (cf. Mt 8,28), os cegos (cf. Mt 9,27; 20,30), as falsas testemunhas (cf. Mt 26,60). Mateus tende a duplicar o que em Marcos é um. Três: os blocos genealógicos (cf. Mt 1,2-17: 3x14), as aparições de anjos (cf. Mt 1,18-2,23), as tentações (cf. Mt 4,1-11), os exemplos de piedade religiosa (cf. Mt 6,1-18), as proibições (cf. Mt 6,19-7,6), os mandamentos (cf. Mt 7,7-20), as curas (cf. Mt 8,1-15), os milagres com poder (exousía) (cf. Mt 8,23-9,8), as parábolas sobre a semeadura (cf. Mt 13,1-32), as orações de Jesus no horto (cf. Mt 26,39-44), as negações de Pedro (cf. Mt 26,69-75). Cinco: as citações dos profetas (cf. Mt 1,22-23; 2,5- 6.15.18.23); os discursos (cf. Mt 5-7; 10; 13; 18; 24-25), as virgens sábias e as virgens imprudentes (cf. Mt 25,1-13), os talentos (cf. Mt 25,15.16.20). Sete: os pedidos do Pai-Nosso (cf. Mt 6,9-13), os demônios (cf. Mt 12,45), as parábolas (cf. Mt 13), os pães (cf. Mt 15,34.37), a quantidade de perdão (cf. Mt 18,21-22), os irmãos (cf. Mt 22,25), os “ais” (cf. Mt 23,13-30). Doze: os anos da doença da hemorroíssa (cf. Mt 9,20); os discípulos-apóstolos (cf. Mt 10,1.2.5; 20,17; 26,14.20.47); os cestos cheios de pães (cf. Mt 14,20); os tronos e as tribos de Israel (cf. Mt 19,28); as legiões de anjos (cf. Mt 26,53). d) O recurso à gematria, atribuição de valor numérico às letras como meio de transmitir uma mensagem teológica. Ocorre na genealogia de Jesus, articulada em torno do número 14, para apresentar Jesus Cristo como o davidida por excelência (cf. Mt 1,17). As consoantes do nome DaViD equivalem a 4 + 6 + 4, valor numérico das respectivas letras. e) O uso de inclusões. Diz respeito à repetição de palavras, expressões ou frases no início e no fim de um bloco literário, indicando tratar-se de uma unidade. Uma inclusão importante encontra-se em Mt 4,23 e 9,35 (síntese da ação missionária de Jesus), mas também em Mt 2,2 e 27,37 (Rei dos Judeus), Mt 1,23 e 28,20 (Emanuel), Mt 1,21 e 26,28 (salvar dos pecados), Mt 2,11 e 28,17 (adoração), 1,18-20 e 28,19 (Espírito Santo), Mt 1,24 e 28,16 (cumprimento de ordens), Mt 2,1-12 e 28,19 (a universalidade da salvação). f) A tendência à generalização. As palavras “todos” e “todas” são usadas de forma indiscriminada. Nada acontece pela metade ou atinge um número limitado de pessoas. O pendor para a universalização faz-se presente ao longo de toda a catequese mateana. g) O uso de estrutura concêntrica. O exemplo mais evidente desse recurso é a articulação dos cinco grandes discursos. h) O uso do quiasmo. Trata-se da inter-relação entre duas afirmações em forma de A B A’ B’ (cf. Mt 10,40; 16,25; 20,16). i) Os sumários introdutórios e conclusivos. Servem para guiar o leitor-ouvinte ao lhe oferecer de forma resumida o conteúdo a ser apresentado e, no fim, uma síntese do caminho percorrido (cf. Mt 4,23-25 e 9,35-38; 4,28; 8,16; 12,15; 14,14.36; 15,30; 19,1; 21,14). 7. As questões de fundo da catequese mateana Esse tópico poderia ter sido apresentado bem anteriormente. Porém, foi postergado por motivos pedagógicos: ao iniciar a leitura da catequese mateana comentada, supõe-se do leitor-ouvinte ter bem claras as questões de fundo a serem respondidas. Na falta dessa consciência, a leitura dificilmente produzirá os frutos pretendidos por Mateus para sua comunidade dos finais do século 1º e, por consequência, para os leitores-ouvintes de todos os tempos. Pelo fato de não se tratar de biografia de Jesus de Nazaré, torna-se necessário se deixar guiar pelo narrador no seu esforço de ajudá-los a serem discípulos do Messias Jesus de Nazaré, com todas as consequências dessa opção de vida pessoal e comunitária. a. Os desafios da fé cristã no ambiente judaico O movimento de Jesus de Nazaré originou-se no âmbito do judaísmo, como uma das várias correntes no interior da religião de Israel. A ruptura consumou-se com a pressão dos líderes da sinagoga no esforço de rearticulação da fé judaica, no final do século 1º, após a destruição de Jerusalém em 70 d.C. Mesmo antes, a adesão ao Messias Jesus era ocasião de profunda crise para um judeu-cristão devoto. Talvez o desafio mais radical consistisse em professar a salvação consumada pelo Crucificado. As Escrituras declaram: “Quem morre pendurado é amaldiçoado por Deus” (Dt 21,23). O simples fato de morrer pregado na cruz fazia de Jesus de Nazaré um maldito. Aliás, ao optar por crucificá-lo, a liderança religiosa de Israel escolheu a dedo a forma indubitável de desacreditá-lo. Tendo as Escrituras a seu favor, era como se Deus mesmo confirmasse o descrédito do “falso messias” Jesus de Nazaré. O catequista Mateus levou a cabo a tarefa de desmontar essa teologia macabra, mostrando como Jesus, o Filho amado de Deus (cf. Mt 3,17; 17,5), apesar da obediência e da fidelidade ao Pai dos Céus, foi vítima da maldade dos inimigos de Deus, defensores de uma religião feita de tradições humanas (cf. Mt 15,3), desconectadas do querer divino. Quem segue sua catequese, de coração aberto para acolhê-la, estará em condições de compreender que, suspenso na cruz, está o bendito de Deus. E mais: a crucifixão resultou de uma terrível injustiça, e não da maldição divina. Tanto a mulher de Pilatos (cf. Mt 27,19) quanto o oficial romano e seus subordinados (cf. Mt 27,54), “pagãos”, deram-se conta disso. Supõe-se do leitor-ouvinte, discípulo de extração judaica, ao concluir a leitura- audição da catequese mateana, estar convencido de que vale a pena aderir a Jesus de Nazaré e ao Reino e se pautar por ele, mesmo devendo morrer como o Mestre! Deus está sempre do lado de quem lhe demonstra fidelidade, mesmo na eventualidade de ser crucificado. Paralelamente a esse desafio radical, havia outros concernentes à vivência da fé judaica pelo viés cristão. Entre eles, a questão do sentido de trocar Moisés por Jesus de Nazaré. O catequista defronta-se com a tarefa de mostrar como Jesus, o Filho de Deus, supera infinitamente Moisés, podendo ser considerado o “autêntico” Moisés, que oferece a “autêntica” Lei ao “autêntico” Israel, a nova humanidade inaugurada por ele. Portanto, quem adere a Jesus toma uma decisão acertada, no sentido de plenificar a fé dos antepassados. Por conseguinte, longe de serem hereges e apóstatas, os discípulos de Jesus caminham na direção da verdadeira fé de Israel, não mais propriedade de um povo em particular, e sim oferecida à humanidade inteira, pela ação dos discípulos-apóstolos (cf. Mt 28,19). Todos os povos de todas as nações são convidados a fazer parte desse novo Israel, cujas origens tiveram início pela intermediação do antigo líder libertador do povo da escravidão egípcia, agora plenificado pela ação do Messias Jesus de Nazaré. Ao fazer o midrash do êxodo e falar de Jesus no Egito, como realização de uma profecia (cf. Mt 2,13-16), o catequista Mateus apresenta o Salvador Jesus de Nazaré percorrendo os passos de Moisés que atravessa o mar Vermelho pelo batismo (cf. Mt 3,13-17), supera as tentações no deserto (cf. Mt 4,1-11) e dá a nova Lei (cf. Mt 5-7) ao Israel que nascerá de seu ministério. Portanto, os cristãos-judeus não precisam se desfazer da fé dos antepassados, e sim lhe descobrir o sentido pleno revelado pelo testemunho e pelos ensinamentos do Mestre de Nazaré. Em sua catequese, o evangelista defrontou-se com a tarefa de mostrar a seus leitores-ouvintes a diferença entre o modo de agir na comunidade dos discípulos do Reino, igreja, e a proposta da liderança da sinagoga, com seu apego exagerado à Lei mosaica, numa fidelidade exibicionista e inescrupulosa (cf. Mt 6,1-18), desprovida do remorso de burlá-la com a aparência de fidelidade (cf. Mt15,3-9), servindo-se de suas tradições para invalidar a Palavra de Deus. O catequista concentrará seus esforços para mostrar como os discípulos do Reino serão reconhecidos por um modo de vida – “justiça” – muito superior ao dos doutores da Lei e dos fariseus (cf. Mt 5,20). Cuidarão para não se deixarem contaminar com o “fermento dos fariseus e saduceus” (cf. Mt 16,6), num falso discipulado cristão (cf. Mt 22,13-14). Equivoca-se quem se limita a dizer “Senhor, Senhor” seguro de estar no caminho do Reino, pois o discipulado se constrói na submissão à “vontade do meu Pai que está nos céus” (cf. Mt 7,21- 23), que acolherá em seu Reino não os cumpridores rigorosos dos ditames da Lei mosaica, antes os solidários com os irmãos mais pequeninos e fragilizados (cf. Mt 25,31-46). b. Os desafios da fé cristã no ambiente romano O catequista Mateus viu-se também às voltas com questões levantadas pelo contato da comunidade com o Império Romano. Competia-lhe a tarefa de orientar os irmãos de fé quanto ao modo correto de se relacionar com a ideologia imperialista, de maneira crítica, contudo evitando a chance de se tornar um grupo fechado e sectário. Esse tema perpassa sua catequese do começo ao fim, tendo como contraponto a rejeição de Jesus pelas lideranças religiosas de Israel, introduzida com a hostilidade em face do Messias recém-nascido procurado pelos magos (cf. Mt 2,1-12) e culminada com a declaração de responsabilidade pela morte violenta de Jesus (cf. Mt 27,25). Na direção contrária estão os “pagãos” interessados em buscar e reconhecer o Messias Jesus (cf. Mt 2,9-12), dando mostras de fé não encontrada em ninguém de Israel (cf. Mt 8,10), e consumada com a profissão de fé do oficial romano e seus subordinados aos pés do Crucificado: “Realmente, ele era Filho de Deus” (Mt 27,54). Por um lado, o catequista ensina sua comunidade a ser aberta aos cidadãos romanos, livre de todo preconceito e condenação. Esse foi o comportamento do Mestre ao chamar um cobrador de impostos para o discipulado do Reino e sentar-se à mesa com seus companheiros de profissão (cf. Mt 9,9-10). Todos quantos eram trazidos até ele implorando cura eram atendidos, incluindo-se os romanos (cf. Mt 4,24). Uma pagã foi elogiada por sua fé como chamada de atenção para a predisposição dos não judeus para acolher o Reino (cf. Mt 15,28). Por outro lado, Mateus alerta sua comunidade no tocante aos elementos da ideologia romana abertamente contrários ao projeto do Reino. Cabe-lhe orientar a comunidade sobre o modo correto de se comportar no confronto com essa realidade incontornável. E o faz contrapondo o Reino dos Céus ao Império Romano, que parece ter um quê de diabólico (cf. Mt 4,8-9). Deus supera César infinitamente, donde a obrigação de devolver “a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22,21). Em outras palavras, não tem importância pagar o tributo exigido pelo imperador, com a condição de lhe recusar a adoração, devida unicamente a Deus. Os discípulos devem pedir insistentemente: “Venha o teu Reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6,10), e não o reino do imperador, pois só Deus é o “Senhor do céu e da terra” (Mt 11,25), de tudo. Com Jesus, cuja missão consiste em “salvar o seu povo dos seus pecados” (Mt 1,21), o “Reino de Deus” se fez próximo da humanidade (cf. Mt 4,17; 12,28). O “império” de Deus, consequentemente, abarca toda a humanidade, e não apenas o Império Romano. Na catequese de Mateus, o Mestre Jesus ensina os discípulos a não serem violentos como os romanos, e sim mansos (cf. Mt 5,4) e pacíficos (cf. Mt 5,9), dispostos a oferecer a face esquerda a quem esbofetear a face direita (cf. Mt 4,39). A lei de talião torna-se inválida (cf. Mt 5,38) pela supremacia da caridade (cf. Mt 5,44-48). Afinal, “todos os que usam da espada, pela espada morrerão” (Mt 26,52). Jesus é apresentado como o verdadeiro rei, procurado pelos magos (cf. Mt 2,2), objeto da preocupação de Pilatos (cf. Mt 27,11) e das zombarias de seus algozes (cf. Mt 27,29.37). Na condição de rei, foi constituído agente de Deus na história, agindo em favor dos marginalizados e sofredores, excluídos da atenção do Império Romano. Nos gestos poderosos de Jesus realizados com a autoridade (exousía) recebida do Pai, o Reino de Deus se implanta na terra por caminhos muito diferentes dos trilhados pelo Império Romano e a força das armas (cf. Mt 20,25). A catequese mateana propõe uma sociedade alternativa, comunidade de irmãos, solidária e misericordiosa. O contato com o ambiente romano recoloca a questão da morte de cruz. Aqui, os crucificados eram tidos na conta de marginais, bandidos e escória da sociedade. Os “cidadãos de bem” jamais recebiam essa pena capital. Como justificar a pretensão de Jesus de Nazaré de ser “salvador”, quando teve um destino execrável? O catequista Mateus conduz seu leitor-ouvinte nas tramas de sua narração para compreender a verdadeira identidade de Jesus de Nazaré, homem inteiramente justo e misericordioso, vítima da maldade dos líderes religiosos de seu povo. O Crucificado tem as características de um “homem de bem”, nele não se encontra qualquer traço de maldade. Sua proximidade com Deus e sua compaixão com os sofredores e marginalizados constituem-se em projeto de vida de grande densidade humana e religiosa, capaz de descortinar largos horizontes para os cidadãos romanos abertos para a fé (cf. Mt 8,10). A conclusão será: vale a pena repelir a pretensão do imperador de ser adorado como deus e aderir ao Reino anunciado por Jesus de Nazaré, mesmo na eventualidade de sofrer e morrer por causa de fé nos passos do Mestre! c. Os desafios da fé cristã no interior das comunidades do Reino O catequista Mateus tem em vista sua comunidade em crise, a quem oferece indicações para viver fielmente a fé e escapar à tentação de deixar “esfriar o amor (gr. agápe)” (Mt 24,12). Quer inculcar-lhe a convicção de que “quem perseverar até o fim, esse será salvo” (Mt 24,13). A perseverança no amor constitui-se no único caminho de salvação, pois será esse o critério de julgamento da humanidade, quando os “benditos do meu Pai” herdarão “o Reino preparado para vocês desde a criação do mundo” (Mt 25,34). Além de abrir a mente de sua comunidade em crise, esclarecer-lhe as dúvidas para lhe reforçar a fé e prepará-la para o embate gerado pela intolerância quase fanática da liderança judaica da sinagoga, mas também pela pressão por parte dos romanos, o catequista enfrenta uma série de problemas dentro da comunidade nem sempre sintonizada com o Reino. Esses problemas se percebem numa análise atenta da narração, visando a detectar o “por trás” do texto. Havia conflitos de liderança, onde um queria ser maior que o outro. A pergunta dirigida ao Mestre: “Quem é o maior no Reino dos Céus?” (Mt 18,1) esconde a ambição de certos líderes. A orientação: “Quem se faz pequeno como esta criança, esse é o maior no Reino dos Céus” (Mt 18,4) tem o objetivo de colocar um basta na ambição pelo poder. Essa mentalidade se percebe também no pedido dirigido ao Mestre pela mãe dos filhos de Zebedeu: “Ordena que estes meus dois filhos se sentem, um à tua direita e outro à tua esquerda, no teu Reino” (Mt 20,21). A resposta corta pela raiz a avidez daquela família, ao colocar de cabeça para baixo seus esquemas mentais: “Quem de vocês quiser tornar-se grande, seja aquele que serve a vocês. E quem de vocês quiser ser o primeiro, seja o servo de vocês” (Mt 20,26-27). Seu exemplo de Messias Servo constitui-se em exemplo a ser seguido: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a própria vida como resgate por muitos” (Mt 20,28). Uma das manifestações mais terríveis do autoritarismo dos líderes manifesta-se na intransigência com os pequenos da comunidade e quem comete eventuais deslizes, que podem ser graves. Para evitar que algum membro se torne vítima de líderes intolerantes, Jesus entrega nas mãos da comunidade a condução dos trâmites de excomunhão. Essa, em clima de oração e de discernimento, consciente de ter o Ressuscitadoem seu meio, buscará conformar sua decisão com o querer do Pai dos Céus (cf. Mt 18,15-21). A predisposição para julgar, condenar e excluir os membros faltosos dará lugar à propensão para perdoar, acolher e incentivar a continuar a caminhada. “Se cada um de vocês não perdoar de coração o seu irmão” (Mt 18,35) terá sorte idêntica à do servo cruel que, tendo recebido o perdão de uma dívida incomensurável, foi inclemente com o companheiro que lhe devia uma ninharia (cf. Mt 18,23-34). A oração ensinada pelo Mestre a ser dirigida ao Pai dos Céus pelo discípulo do Reino compromete-o com a prática do perdão: “Perdoa-nos nossas dívidas (gr. opheilémata), assim como nós perdoamos aos que nos devem (gr. opheilétais)” (Mt 6,12). Portanto, o tema do perdão, tendo como referência a metáfora da dívida, comporta uma triangulação entre o Pai dos Céus, o membro da comunidade que se sentiu ofendido e o próximo que o ofendeu. O ensinamento do Mestre não deixa margem para dúvidas: “Se vocês perdoarem as faltas das pessoas, também seu Pai celeste perdoará vocês. Mas, se vocês não perdoarem as pessoas, seu Pai também não perdoará as faltas de vocês” (Mt 6,14-15). E mais: “Vocês serão julgados com o julgamento com que julgarem, e serão medidos com a medida com que medirem” (Mt 7,2). Como pilares da comunidade do Reino estão o perdão e a reconciliação. A falta desses pilares a torna frágil como a casa construída sobre a areia, cuja ruína será terrível (cf. Mt 7,27). Outro handicap da comunidade mateana diz respeito à fragilidade da fé das lideranças. Pedro personifica essa realidade. Caminhando sobre as águas ao encontro de Jesus, o vento forte lhe causa medo. Quando se vê afundando, clama: “Senhor, salva-me!” Jesus estende-lhe a mão, segura-o, censurando-o: “Homem fraco na fé! Por que você duvidou?” (Mt 14,29-32). Logo após o elogio por ter revelado a identidade messiânica de Jesus (“Tu és o Messias, o filho do Deus vivo”; Mt 16,16) e a investidura como discípulo de referência para os demais (“Você é Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha igreja”; Mt 16,18), recebe uma tremenda censura, por ser incapaz de compreender o messianismo do Mestre, deixando de lado os esquemas mundanos (“Vá para trás de mim, Satanás! Você é para mim uma pedra de tropeço, porque não pensa nas coisas de Deus, e sim nas coisas dos homens”; Mt 16,23). Quando o Mestre anunciou sua morte iminente, Pedro declarou-lhe fidelidade incondicional: “Ainda que todos tropecem e caiam por tua causa, eu não cairei nunca” (Mt 26,33), sendo desmentido: “Nesta noite, antes que o galo cante, você me negará três vezes” (Mt 17,34). Mas insistiu: “Ainda que eu tenha de morrer contigo, não te negarei” (Mt 17,35). Os demais discípulos fizeram eco ao rompante de fidelidade de Pedro. No frigir dos ovos, o discípulo fidelíssimo mostrou sua fragilidade ao ser questionado quando estava no pátio da casa do sumo sacerdote acompanhando o julgamento do Mestre, batendo na mesma tecla: “Não conheço esse homem!” (Mt 26,72.74), inclusive com maldição e juramento. Ao cantar do galo, vêm-lhe à mente as palavras do Mestre: “Antes que o galo cante, você me negará três vezes” (Mt 26,75). Quando sai dali para chorar amargamente, toma consciência de sua real condição de discípulo frágil precisando de apoio e de compreensão. Pedro encarna a situação da liderança da comunidade de Mateus. Qualquer pretensão de autoritarismo e de intolerância será infidelidade ao ideal do Reino. Como os demais membros da comunidade, têm o dever de se espelhar no proceder do Mestre “manso e humilde de coração” (Mt 11,29), resistindo à tentação de impor um fardo pesado nas costas dos irmãos de fé (cf. Mt 11,28.30). Uma frase do Mestre, tomada da fonte Mc, pode ser entendida como indicação do caminho a ser trilhado no enfrentamento e na superação da crise: “Estejam vigilantes e rezem, para não caírem na tentação. Porque o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26,41). Vigilância e oração constituem-se em mediações na busca da fidelidade ao Reino, em meio às muitas provações. O Mestre retirava-se “sozinho para rezar” (Mt 14,23; 26,36), colocando-se inteiramente nas mãos do Pai dos Céus com uma decidida convicção: “Não seja como eu quero, e sim como tu queres” (Mt 26,39); “Seja feita a tua vontade” (Mt 26,42). A oração consistia em “escutar” o Pai, no propósito de conhecer-lhe a vontade e transformá-la em pauta de ação. Por outro lado, a oração dava-lhe forças para enfrentar as contínuas investidas dos inimigos, resolutos na decisão de tirar-lhe a vida (cf. Mt 16,1; 19,3; 22,18.35). A tríplice tentação no início de seu ministério chama a atenção do leitor-ouvinte para as constantes tentações no transcurso de sua vida, culminada com a tentação suprema, quando pregado na cruz (cf. Mt 4,1-11; 27,40). Em momento algum fraquejou e se deixou levar pelas investidas do maligno. Seu exemplo de firmeza torna-se inspiração e modelo para os discípulos de todos os tempos. As tentações são inevitáveis na caminhada dos discípulos. Entretanto, seguindo o exemplo do Mestre, saberão enfrentá-las e vencê-las, mesmo as mais violentas. A força para superá-las provém da súplica contínua dirigida ao Pai dos Céus, como o Mestre ensinou: “Não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal (gr. ponerós)” (Mt 6,13), isto é, do maligno. Esse insiste em desviar os discípulos do bom caminho das mais variadas formas (cf. Mt 5,37). A contemplação do testemunho do Mestre incentiva a comunidade do Reino a se manter firme nas tribulações e caminhar resoluta rumo à meta traçada pelo Pai dos Céus (cf. Mt 10,16-25). A comunidade do Reino tem a tarefa de fermentar a realidade com seu testemunho (cf. Mt 13,33). Daí a urgência de se adequar ao ideal de vida no Reino proclamado por Jesus de Nazaré e formalizado com precisão por Mateus em seu evangelho, que pode ser definido como catecismo do discipulado do Reino. 8. Os três tempos na leitura-audição da catequese mateana A leitura-audição frutuosa da catequese evangélica de Mateus exige do leitor- ouvinte fazê-la inter-relacionando um tríplice registro temporal. a. O primeiro diz respeito ao tempo da comunidade do catequista Mateus. É o contexto da fé vivida, com seus múltiplos desafios e questões, de cujas respostas depende a perseverança na fé batismal. Por isso, quanto maior o conhecimento das condições de vida da comunidade mateana, em sua ambientação judaico- romana e suas problemáticas internas, tanto melhor será a compreensão do texto evangélico, cuja finalidade consiste em lançar luzes em vista da prática da fé com mais consistência e determinação. Sem esse pressuposto, será grande a probabilidade das interpretações triviais e tendenciosas, geradoras de conflitos inúteis, baseados em considerações arbitrárias sobre um texto mal compreendido. Quando os leitores-ouvintes se põem de acordo sobre o ponto de partida, será maior a possibilidade de compreenderem a mensagem transmitida pelo evangelista. Os eventuais pontos obscuros, chamados de crux interpretum (cruz dos intérpretes), dever-se-ão à falta de informação da pessoa que se confronta com o texto evangélico, e não ao texto evangélico em si, que jamais comporta afirmações contraditórias. Exemplo disso é o desconhecimento do sentido preciso do vocábulo pornéia, referido como único motivo para o homem divorciar-se de sua mulher (cf. Mt 5,12; 19,9). Os leitores-ouvintes para quem o catequista escrevia sabiam exatamente do que se tratava. Os intérpretes atuais não chegaram a um consenso sobre a semântica daquele vocábulo, exatamente por lhes faltarem as informações possuídas pelos leitores implícitos. Outra precaução importante será a de não tomar os dogmas e as doutrinas das igrejas como ponto de partida da leitura da catequese mateana para encontrar respaldo bíblico. Um caso típico da interpretação anacrônica de Mateus diz respeito à declaração de Jesus: “Você é Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja. E as portas do inferno não dominarão sobre ela” (Mt 16,18), entendida como ato “jurídico” de instituiçãoda Igreja por Jesus. A preocupação do evangelista era bem outra! Substituir a vivência da fé pelas doutrinas eclesiásticas como base para a compreensão do texto evangélico constitui-se num equívoco de graves consequências para o projeto de Jesus. b. O segundo refere-se ao tempo de Jesus de Nazaré, ao qual se reporta o catequista Mateus, no empenho de oferecer luzes para o enfrentamento dos problemas vividos pela comunidade na busca de fidelidade à fé. Não lhe interessava produzir uma biografia de Jesus de Nazaré, mas tão somente colher, dentre a tradição da qual dispunha, elementos da vida e dos ensinamentos do Mestre adequados para iluminar a vida de fé de sua comunidade. Todavia, tudo quanto se transmitiu a respeito do Mestre situava-se num tempo e num espaço bem definidos: a Palestina, de modo particular a Galileia, do século 1º. O conhecimento da história, das tradições, da cultura e da religião dessa quadra da história de Israel será de grande valia para a compreensão da catequese mateana. Será preciso ter em mente tratar-se do tempo de Jesus recuperado no tempo do evangelista e de sua comunidade, desprovido de preocupação histórica no sentido biográfico-factual. A catequese mateana narra o tempo de Jesus, adaptando-o ao projeto literário-teológico do autor, preocupado em confrontar sua comunidade com o projeto de Jesus de Nazaré e incentivá-la a se empenhar na busca do “Reino de Deus e sua justiça” (Mt 6,33), transformados em norte para a caminhada de fé. c. O terceiro corresponde ao tempo da comunidade dos leitores-ouvintes. A catequese mateana não foi escrita para servir de passatempo. Tendo-se transformado em metatexto, desvinculou-se de seu contexto original (Sitz im Leben) para se tornar palavra viva em qualquer tempo e lugar. Sua leitura será frutuosa à medida que os leitores-ouvintes se dispuserem a abraçar o projeto de Reino proclamado e vivido por Jesus de Nazaré e, conscientes dos desafios enfrentados pela vivência fiel do compromisso cristão, buscarem luzes na catequese mateana, considerada referência insubstituível juntamente com as demais catequeses evangélicas. Sob certo aspecto, as crises de fé do passado se repetem no presente, revestidas dos elementos histórico-culturais da atualidade. A compreensão das dicas apontadas pelo catequista Mateus para sua comunidade servirá de base para quem se esforça, nos mais diferentes contextos, para ser discípulo-apóstolo coerente com sua opção por Jesus de Nazaré e pelo Reino. Desse modo, a leitura fidedigna da catequese mateana comporta um percurso histórico que parte do presente da comunidade do leitor-ouvinte, reporta-se ao tempo do evangelista e sua comunidade que se voltou ao tempo de Jesus de Nazaré, para novamente voltar à comunidade de hoje, na firme determinação de enfrentar o futuro da vivência da fé com a mesma tenacidade de Jesus de Nazaré e da comunidade mateana. Esse procedimento hermenêutico-existencial-teológico exige uma verdadeira “fusão de horizontes”. Os horizontes da comunidade dos leitores-ouvintes atuais fundem-se com os da comunidade mateana que recuperou a tradição sobre Jesus de Nazaré, de onde obteve os elementos para enfrentar e responder a suas crises de fé. A catequese elaborada por Mateus para sua comunidade, lida-ouvida ao longo dos tempos, incentiva os discípulos e discípulas de Jesus de Nazaré a caminharem na fidelidade ao Mestre em meio aos desafios encontrados nos mais diferentes contextos e situações. Dessa forma se constrói o longo percurso da Tradição Cristã a ser continuamente levada adiante, com extrema fidelidade, em meio a muitos percalços e infidelidades. Quando se atropela essa dinâmica histórico-teológica, têm origem os falsos cristianismos, devidos aos falsos profetas, a serem desmascarados por seus frutos incompatíveis com o “Reino de Deus e sua justiça”, pois dizem “Senhor, Senhor”, esquecendo-se de fazer a vontade do Pai dos Céus (cf. Mt 7,15-20). Esses “praticantes da maldade (gr. anomia)” (Mt 7,23) serão desmascarados pelo Juiz escatológico, na consumação dos tempos (cf. Mt 25,41- 46). A vigilância e a oração previnem os discípulos fiéis de caírem nessa armadilha! Vocês, leitores e leitoras, que se dispõem a adentrar a catequese de Mateus, são convidados a se revestirem do leitor implícito construído na tessitura da narração, equivalente ao discípulo do Reino decidido a ser fiel à sua fé em contexto de crise, e tomarem a firme decisão de, concluído o percurso literário- catequético, tornarem-se apóstolos do Reino na fidelidade à ordem do Mestre de “fazer que todas as nações se tornem discípulos [...] e ensinando-as a observar tudo o que lhes ordenei”, seguros de terem a companhia do Senhor do Reino “todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28,19-20). AS ORIGENS DO MESSIAS (Mt 1-2) Aabertura da catequese de Mateus contém os principais elementos da identidade do Messias Jesus, de maneira que desde o início os leitores-ouvintes possam avaliar se vale a pena acolhê-lo como Messias e Mestre e fazer a opção de levar adiante sua missão de servidor do Reino dos Céus. Discipulado e missão serão os trilhos sobre os quais a narração deslizará. Quanto mais o discípulo conhecer o Mestre e se deixar instruir por ele, tanto mais se comprometerá com sua causa. Daí a importância de saber exatamente a quem está aderindo, como aconteceu com o apóstolo Paulo, ao afirmar: “Sei em quem acreditei” (2Tm 1,12). O evangelista não está interessado em discípulos precipitados, cujas expectativas não sintonizam as de Jesus, com o ensejo de se frustrarem, como será o caso de Judas Iscariotes e seu trágico fim (cf. Mt 27,3-5). O discipulado autêntico decorre do conhecimento do Mestre, para além das idealizações ou esperanças equivocadas. Por isso o catequista se apressa em delinear o retrato do Messias Jesus mirando os traços mais importantes de sua identidade. Genealogia de Jesus (1,1-17) || Lc 3,23-38 ¹Livro da origem de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão. ²Abraão gerou Isaac, Isaac gerou Jacó, Jacó gerou Judá e seus irmãos. ³Com Tamar, Judá gerou Farés e Zara, Farés gerou Esrom, Esrom gerou Aram. ⁴Aram gerou Aminadab, Aminadab gerou Naasson, Naasson gerou Salmon. ⁵Com Raab, Salmon gerou Booz; com Rute, Booz gerou Obed, Obed gerou Jessé. Jessé gerou o rei Davi. Davi, com a mulher de Urias, gerou Salomão. ⁷Salomão gerou Roboão, Roboão gerou Abias, Abias gerou Asa. ⁸Asa gerou Josafá, Josafá gerou Jorão, Jorão gerou Ozias. Ozias gerou Joatão, Joatão gerou Acaz, Acaz gerou Ezequias. ¹ Ezequias gerou Manassés, Manassés gerou Amon, Amon gerou Josias. ¹¹Josias gerou Jeconias e seus irmãos, no tempo do exílio na Babilônia. ¹²Depois do exílio na Babilônia, Jeconias gerou Salatiel, Salatiel gerou Zorobabel. ¹³Zorobabel gerou Abiud, Abiud gerou Eliacim, Eliacim gerou Azor. ¹⁴Azor gerou Sadoc, Sadoc gerou Aquim, Aquim gerou Eliud. ¹⁵Eliud gerou Eleazar, Eleazar gerou Matã, Matã gerou Jacó. ¹ Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado Cristo. ¹⁷Portanto, o total de gerações de Abraão a Davi são catorze. De Davi até o exílio na Babilônia, catorze gerações. E do exílio na Babilônia até Cristo, catorze gerações. A catequese mateana começa com uma frase lapidar: “Livro da origem (gr. génesis) de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão” (v. 1). O nome Jesus, do hebraico Yehoshuah (Deus salva), cria uma ligação estreita com o Deus de Israel e aponta para a missão de salvador que será consumada na morte de cruz e na ressurreição. O “apelido” Cristo (messias, ungido) comporta uma confissão de fé. A simples referência a Jesus Cristo exige do leitor-ouvinte enorme atenção, pois o catequista tem em mente mostrar que o nome do Mestre define com perfeição sua identidade e missão. A condição de filho de Davi insere-o na estirpe dos reis de Israel, herdeira das promessas messiânicas (cf. 2Sm 7,1-17), e aponta para a tarefa de fazer o direito e a justiça reinarem como se espera de um verdadeiro descendente de Davi (cf. Is 9,5-6; 11,1-8). O ser filho de Abraão faz dele penhorde bênçãos para todos os povos e nações, como outrora fora dito do patriarca (cf. Gn 12,2-3). A sequência da narração, abarcando a caminhada terrena de Jesus Cristo, mostrará como cada elemento da afirmação introdutória se concretizou em seus ensinamentos e suas ações. Os leitores-ouvintes terão todos os elementos necessários para a decisão a ser tomada: tornar-se discípulo ou não! A genealogia, embora pareça uma ladainha monótona de nomes desconhecidos para nós, comporta uma riqueza de ensinamentos. O arco de tempo vai de Abraão a Jesus. Como a Abraão fora prometida uma descendência tão numerosa “como as estrelas do céu e a areia na beira do mar” (Gn 22,17), em Jesus surgiria um povo novo formado por “todas as nações” (Mt 28,19), a quem os apóstolos seriam enviados. Em Jesus, a promessa feita a Abraão se concretizaria de forma plena e verdadeira. O surgimento dessa nova humanidade em Jesus Cristo descreve-se pelo uso reiterado do verbo gerar (gr. gennáo) e dos substantivos origem (gr. génesis) e geração (gr. genéa). Em Jesus Cristo, o projeto divino para a humanidade aconteceu de verdade, pela superação da desobediência de Adão e Eva (cf. Gn 3,1-24). O “verdadeiro” Adão seria o “Filho amado”, em tudo dócil à vontade do Pai (cf. Mt 3,17; 17,5). A genealogia, afinal, é uma releitura do Gênesis na perspectiva da fé em Jesus Cristo. De maneira surpreendente, na genealogia são inseridas quatro mulheres, quando na Bíblia tradicionalmente se dá ênfase ao elemento masculino. Faz-se referência a Tamar (cf. Gn 38,1-30), Raab (cf. Js 8,8-21), Rute (cf. Rt 4,13-17) e à mulher de Urias (cf. 2Sm 11,2-5). Uma quinta mulher recebe destaque especial: Maria, “da qual nasceu Jesus, que é chamado Cristo” (Mt 1,17). Um fio importante da catequese mateana será a valorização das mulheres, num contexto social e religioso que as excluía e marginalizava. O Messias Jesus retomará a antropologia fundamental de Israel baseada na decisão do Criador de fazer o ser humano à sua “imagem e semelhança” (Gn 1,26-27). Se todos os seres humanos trazem em si a marca de Deus, a comunidade cristã tem como missão tratar todos os seres humanos em pé de igualdade, de maneira a superar o modo de proceder discriminador dos escribas e fariseus. Por outro lado, todas as mulheres aludidas, com exceção de Maria, têm alguma mácula em sua boa-fama. A comunidade dos discípulos do Reino deverá ter um cuidado especial com essas mulheres por sua fragilidade humana, social e religiosa. O tema das mulheres perpassará a catequese de Mateus para culminar com a presença feminina, explicitamente nomeada, por ocasião da crucifixão do Mestre, quando os discípulos fugiram e se dispersaram (cf. Mt 27,55-56). O ápice dessa questão acontece quando o Ressuscitado aparece às mulheres e lhes dá a missão de comunicar aos discípulos que se dirijam à Galileia para lá o encontrarem (cf. Mt 28,9-10). Tornaram-se, assim, as primeiras apóstolas! A genealogia estrutura-se de maneira artificial em três blocos, cada qual com quatorze gerações. “O total de gerações de Abraão a Davi são catorze. De Davi até o exílio na Babilônia, catorze gerações. E do exílio da Babilônia até Cristo, catorze gerações” (v. 17). Este artifício tem finalidade narrativa: falar de Jesus Cristo como o verdadeiro Davi. E o faz servindo-se da simbologia do número quatorze, correspondente às consoantes do nome hebraico DVD e seus valores numéricos: D=4, V=6, D=4. Desde o início, o leitor-ouvinte deve ter em mente que se falará de Jesus Cristo como o autêntico Davi que, diferentemente do rei do passado, implantará o Reino querido por Deus, alicerçado no direito e na justiça. Digno de nota na genealogia é o versículo 16, onde se quebra a cadência iniciada com Abraão. “Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado Cristo”. O nascimento de Jesus provoca uma ruptura, pois Jesus nasce de Maria, a mãe, e não de José, o pai. O nome civil, Jesus, é imediatamente conectado ao apodo messiânico, Cristo. Se José não é o pai de Jesus Cristo, quem o será? Esse ponto carece de ser explicado. Isto será feito no bloco seguinte, que pode ser considerado uma espécie de “nota de rodapé” para elucidar o enigma da “geração” de Jesus. Na concepção do evangelista, Jesus leva a história à plenitude e inaugura um tempo novo, em que as genealogias serão dispensadas. A pertença ao povo de Deus não mais se dará pelos laços de sangue, e sim pela obediência à Palavra de Deus. Deixados de lado os critérios étnicos e sanguíneos, o povo de Deus será formado por qualquer ser humano disposto a se deixar guiar pelo querer divino, revelado e vivido ao longo do ministério de Jesus, ao qual se adere pelo batismo (cf. Mt 28,19). Nascimento de Jesus (1,18-25) || Lc 2,1-7 ¹⁸O nascimento de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, estava comprometida em casamento com José. Antes de viverem juntos, ela foi encontrada grávida, por obra do Espírito Santo. ¹ José, seu esposo, sendo homem justo e não querendo denunciá-la publicamente, resolveu abandoná-la em segredo. ² Enquanto ele tomava essa decisão, eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonho, dizendo: “José, filho de Davi, não tenha medo de receber Maria como sua esposa, pois o que nela foi gerado provém do Espírito Santo. ²¹Ela dará à luz um filho, e você o chamará com o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados”. ²²Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor tinha falado por meio do profeta: ²³“Eis que a virgem vai engravidar e dar à luz um filho, e o chamarão com o nome de Emanuel, que traduzido significa ‘Deus conosco’ ”. ²⁴Quando José despertou do sono, fez como o anjo do Senhor lhe havia ordenado e acolheu sua esposa. ²⁵E não teve relações com ela, até que ela deu à luz um filho. E ele o chamou com o nome de Jesus. A compreensão dessa cena evangélica exige do leitor-ouvinte desfazer-se de muitas interpretações aleatórias em torno da concepção de Jesus e se esforçar para mergulhar no mundo do texto evangélico, para captar a intenção do narrador ao produzi-lo. Sem a purificação prévia da mente, será tarefa impossível situá-la com coerência no conjunto do evangelho. O versículo de abertura: “A origem (gr. génesis) de Jesus Cristo foi assim” (v. 18) evoca o v. 1. Diferentemente dos demais nomes evocados na genealogia, o modo como Jesus entrou na história exige ser explicado, para a correta compreensão de sua identidade. Tudo converge para a ação do Espírito Santo, que estará presente no início do ministério de Jesus, por ocasião do batismo (cf. Mt 3,16), ao ser conduzido para o deserto onde será tentado (cf. Mt 4,1), na missão dos discípulos (cf. Mt 10,20) e na do Mestre (cf. Mt 12,28), e finalmente quando os discípulos são mandados pelo mundo afora para anunciar a Boa-Nova (cf. Mt 28,19). Portanto, Mt 1,18-25 quer mostrar a verdadeira origem de Jesus: ele vem de Deus, pela força de seu Espírito Santo. Tudo nele trará essa marca, inclusive por ocasião da morte de cruz. O Crucificado estará repleto do Espírito Santo, pressuposto para enfrentar a cruz na fidelidade ao projeto do Pai dos Céus. A figura de José ocupa na narração mais espaço que Maria, de quem se informa estar comprometida em casamento com ele e se encontrar grávida “por obra do Espírito Santo” antes de viverem juntos. Uma situação inaceitável na sociedade da época! O desafio consiste em explicar ao marido a origem divina da gravidez de sua prometida esposa. A narração aqui entra num impasse, porquanto o destino de apedrejamento das mulheres adúlteras estava claramente previsto na Lei (cf. Dt 22,23-27). Se José a cumprisse à risca, a história de Jesus Cristo terminaria apenas começada. O narrador aproveita para apresentar a figura de José como discípulo-modelo, que ouve a palavra de Deus e a põe em prática com obediência total e inquestionável (cf. Mt 7,24; 12,50). Sua condição de “homem justo” leva-o a tentar uma solução um tanto precária: abandonar a esposa em segredo para não aplicar a Lei, que exigia apedrejamento (v. 19). Muito se discutiua respeito do sentido de justo (gr. díkaios) aplicado a José, sem se chegar a um acordo. Em todo caso, sua atitude tem um quê de ingênuo, como se fosse possível colocar em prática seu plano e evitar as consequências, ao se recusar a tomar a atitude exigida de um marido atraiçoado. Entra então em cena um novo personagem, o anjo (mensageiro) do Senhor com a missão de desvendar para José o sentido do que estava acontecendo. O fato de a abordagem de José ter acontecido em forma de sonho tem grande importância narrativa. Só o anjo fala! José está inteiramente passivo, na mais total abertura para Deus, impossibilitado de bater boca, argumentar ou exigir. A abertura para Deus permite-lhe acatar o projeto divino, embora extremamente exigente, como foi o caso de admitir que a esposa prometida recebera uma graça divina, “pois o que nela foi gerado provém do Espírito Santo” (v. 20). O discípulo José não hesita quando Deus lhe pede algo quase superior às suas capacidades. Assim se comportam os discípulos do Reino defrontados com as exigências da missão! José recebe a missão de dar ao menino o nome de Jesus, cuja missão seria a de “salvar o seu povo dos seus pecados” (v. 21). Temos um ponto a mais na elucidação da identidade de Jesus. Ele será salvador, encarregado de ajudar seu povo a superar as fraquezas e se voltar para Deus. Enfim, José está na origem social de Jesus e, ao lhe dar o nome sugerido pelo anjo, explicita a missão que o Pai lhe confia. O narrador encontrou num texto da tradição judaica uma pista para a compreensão da identidade de Jesus (v. 22). A escolha de Is 7,14 não se deve ao tema da concepção virginal, que não interessa à catequese mateana. Em relação a isso, vale a pena dizer que a tradução grega usada pelo narrador ao falar de “a virgem engravidar e dar à luz” (v. 23) não corresponde à tradução fiel do original hebraico do texto profético, que fala de uma jovem que está a ponto de dar à luz. A jovem (heb. há almah) era conhecida, sem qualquer vinculação com concepção virginal. O interesse do evangelista ao citar Isaías foca o vocábulo emanuel (“Deus está conosco!”), elemento importante para a construção da identidade de Jesus Cristo. Doravante, haveria de ser a presença de Deus na história do povo, de modo especial dos marginalizados e excluídos da sociedade. Nele Deus caminharia com sua gente! Por conseguinte, emanuel tem a ver com a missão de Jesus, pois não lhe foi dado esse nome. O Deus que caminhou com seu povo na longa marcha pelo deserto continuaria a caminhada na pessoa de Jesus Cristo junto ao povo novo que estava nascendo. A atitude de José ao despertar do sono e seguir as ordens do anjo do Senhor (v. 24) serve de exemplo para os discípulos do Reino. A obediência concretiza-se no agir. A ousadia de litigar com Deus e questionar seus desígnios quando nos custam, ao exigirem quebrar nossos esquemas mentais e religiosos, corresponde à negação do espírito próprio do discípulo. Como José, o discípulo obedece com docilidade por se saber guiado por Deus. A observação do v. 25 é narrativamente importante, no sentido de não haver dúvidas da paternidade divina de Jesus. Se não houvesse, o leitor-ouvinte poderia suspeitar da informação do v. 18, posteriormente explicada pelo anjo (v. 20). A tradução literal desse versículo é: José “não a conheceu, até que gerou um filho”. Na genealogia o verbo-chave foi gerar (gr. génnao); agora o verbo-chave é dar à luz (gr. tíkto, v. 21.23.25; cf. 2,2). Se José “não conheceu Maria” até que nascesse Jesus, seria indevido considerá-lo seu pai biológico. A paternidade divina revelada pelo anjo do Senhor tem a função narrativa de sublinhar os fundamentos das palavras e das ações de Jesus: tudo nele tem sua origem em Deus e se reporta a Deus. Em outras palavras, nele tudo aponta para a divindade. Equivoca-se quem lê a catequese mateana a partir das discussões acaloradas em torno da concepção virginal de Jesus dos séculos seguintes, muito criativas e fantasiosas. Nada disso interessava ao evangelista, para quem importavam duas coisas: ensinar como a ação divina pela força do Espírito Santo marcou a vida de Jesus desde o início, como acontecera com os profetas de outrora (cf. Is 11,2; 42,1; 61,1), e apresentar José como discípulo-modelo que, abrindo mão das objeções, submete-se aos desígnios divinos, embora lhe seja muito custoso. A cena conclui-se com uma pequena observação, referente à obediência de José. O nome dado ao filho recém-nascido corresponde à orientação do anjo (v. 21). Nele está contida a missão de Jesus, da qual surgirá o povo querido por Deus, sob a guia do Messias, Filho de Deus. Visita dos magos (2,1-12) ¹Depois que Jesus nasceu em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, eis que uns magos do oriente chegaram a Jerusalém, ²perguntando: “Onde está o recém- nascido rei dos judeus? Porque avistamos sua estrela no oriente e aqui vimos para lhe prestar homenagem”. ³Ouvindo isso, o rei Herodes ficou abalado, e Jerusalém toda com ele. ⁴Convocou então todos os chefes dos sacerdotes e os doutores do povo, e lhes perguntou onde o Messias deveria nascer. ⁵Eles lhe responderam: “Em Belém da Judeia. Pois assim está escrito por meio do profeta: ‘E você, Belém, terra de Judá, não é de modo algum a menor entre as principais de Judá. Porque de você sairá um líder, que apascentará meu povo Israel’ ”. ⁷Então Herodes chamou em segredo os magos e investigou junto a eles sobre o tempo em que a estrela tinha aparecido. ⁸Depois os enviou a Belém e disse: “Vão e procurem obter informações exatas sobre o menino. E me avisem quando o encontrarem, para que eu também vá prestar-lhe homenagem”. Eles ouviram o rei e partiram. Eis que a estrela que tinham visto no oriente ia na frente deles, até que chegou e parou sobre o lugar onde estava o menino. ¹ Vendo novamente a estrela, ficaram repletos de grandíssima alegria. ¹¹Ao entrarem na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e se ajoelharam diante dele em homenagem. Abriram então seus cofres e lhe ofereceram presentes: ouro, incenso e mirra. ¹²Depois disso, foram avisados em sonho para não retornarem a Herodes, de modo que voltaram para sua região por outro caminho. O episódio dos magos comporta outros elementos da identidade do Messias Jesus. Os versículos anteriores situam-no num ambiente de família no lar de José e de Maria. Tudo se passa “em segredo”, para não levantar suspeitas por parte dos familiares e dos guardiães da lei religiosa. Aos olhos do público, a gravidez de Maria e o nascimento de Jesus acontecem dentro da normalidade. A obediência exemplar de José evitou enormes complicações e escândalo com a eventualidade de Maria ser apedrejada. A narração agora se alarga em várias dimensões: geográficas, políticas, sociais e religiosas. Um menino desprovido de importância aparente causa um rebuliço histórico ao abalar as estruturas políticas e religiosas do seu povo. Sua presença na história assume proporções inimagináveis. Seria este um traço de sua identidade: colocar em xeque esquemas consolidados incompatíveis com o projeto de Deus. A indicação do nascimento de Jesus em Belém da Judeia (v. 1) reflete sua condição de descendente de Davi e situa a catequese no espaço. A composição da genealogia de Jesus foi calcada na simbologia numérica do nome de Davi (cf. Mt 1,17); em Mt 1,20 o anjo do Senhor referiu-se ao “pai” de Jesus como “José, filho de Davi”. Consiste, pois, na reafirmação de sua condição davídica. Porém, mais adiante será chamado de Nazareno (gr. Nazoraíos) (v. 23). Em momento algum, na sequência da catequese mateana, sua condição de belemita será aludida. Ele será Jesus de Nazaré! A referência ao rei Herodes, que viveu entre 74 e 4 a.C., oferece o contexto temporal do nascimento de Jesus. Conhecido por sua perversidade, como se verá, Herodes, chamado o Grande, por haver outros com nome semelhante, era a autoridade romana em Jerusalém. O recém-nascido Jesus pobre e impotente ver- se-ia às voltas com o poderoso, violento e cruel. Já se pode entrever o conflito que o Messias Jesusestabelecerá entre o Reino de Deus e os reinos mundanos e sua tentação de se impor pela força. Entram em cena outros personagens. O texto diz literalmente: “Eis que magos”, sem definir quantidade, tampouco dar-lhes nomes, vêm do oriente, de onde nasce o sol, em busca do “recém-nascido rei dos judeus”. Encarnam os discípulos que vão em busca do Reino de Deus, como os comerciantes de pérolas, até encontrar “a” pérola preciosa (cf. Mt 13,45-46). Na cena anterior, José fora apresentado como modelo de quem encontra casualmente um tesouro no campo e o adquire em vista de se apossar daquela preciosidade (cf. Mt 13,44). O narrador serve-se de figuras conhecidas na época, omitindo-se de oferecer maiores informações a seu respeito. Interessava-lhe apenas inserir em sua catequese pessoas fora do ambiente judaico, independentes da sociedade e da religião de Israel, porém preocupadas com a questão do messianismo judaico e dispostas a abraçá-lo da forma como o Messias Jesus o entende. Daí os magos buscarem com toda diligência o rei dos Judeus e estarem dispostos a se prostrar diante dele (v. 2; gr. proskynéo), adorá-lo e reconhecer sua condição divina. A referência à estrela nada tem a ver com fenômenos astronômicos. Simplesmente evoca o oráculo messiânico de Nm 24,17: “De Jacó vem avançando uma estrela, um bastão de comando se ergue de Israel”. O astro anunciado servia de guia para os magos à procura do Messias. A busca diligente superava as meras especulações de sábios persas que eram. A mão de Deus os conduzia! A chegada dos magos põe Jerusalém em polvorosa, a começar pelo rei Herodes (v. 3). O escopo do evangelista consiste em mostrar como a presença do Reino de Deus anunciado e efetivado pelo Messias Jesus abala os esquemas iníquos de um mundo que caminha na contramão de Deus. Historicamente não se podem explicar os “tremores” de um rei brutal com total controle do seu reino. O nascimento de um rival e concorrente fora do seu conhecimento seria impensável. O foco do narrador vai noutra direção! A consulta aos chefes dos sacerdotes e aos doutores do povo tornou-se imperiosa, pois Herodes percebeu se tratar de algo ligado à religião judaica, para a qual dava pouca ou nenhuma importância (v. 4). E a resposta veio imediata: “Em Belém da Judeia” (v. 5). Um antigo texto do profeta Miqueias continha a pista exata de onde encontrar o Messias, rei dos judeus. O narrador faz uma citação adaptada de Mq 5,1. O texto profético declara ser Belém de Éfrata “tão pequena entre os clãs de Judá”. Mt 1,6 afirma que “Belém, terra de Judá, não é de modo algum a menor entre as principais de Judá”. Na origem de sua grandeza estava não o nascimento do rei Davi, e sim o do Messias Jesus. Esse seria “o líder, que apascentará meu povo Israel” como pastor vindo das periferias. Começa então um tema importante da catequese mateana que a perpassará até o final: a rejeição do Messias Jesus por uma atitude consciente da liderança religiosa judaica que não reconheceu nele a ação salvadora de Deus. Eles ofereceram aos estrangeiros informações precisas sobre o nascimento do Messias, mas não se deram ao trabalho de procurá-lo. O auge dessa dureza de coração acontecerá no contexto da paixão, quando Pilatos ouve o grito do povo: “Nós e nossos filhos somos responsáveis pelo sangue dele” (Mt 27,25). Por sua vez, o evangelho sublinha a acolhida de Jesus e do Reino por parte dos pagãos (cf. Mt 8,10; 12,21 [citando Is 42,1-4]; 15,28; 24,14; 28,19). Herodes convoca os magos “em segredo”, para se informar sobre o tempo em que lhes apareceu a estrela, e trata de comunicar-lhes a informação recebida das autoridades religiosas da capital (v. 7-8). A forma secreta da conversa dá a impressão de o rei temer passar um vexame por estar nascendo um novo rei à margem do seu conhecimento e do de seus olheiros. Uma falha imperdoável! Para não criar transtornos e deixar as coisas correrem da maneira mais discreta possível, orientou os magos a lhe trazerem notícias precisas a respeito do menino-rei para também ele prestar-lhe homenagem (gr. proskynéo), como os magos desejam fazer. O leitor-ouvinte pode suspeitar da astúcia e das segundas intenções do rei malvado. Os magos recebem com docilidade e, talvez, com gratidão a indicação preciosa e exata para onde se dirigirem (v. 9). O reaparecimento da estrela causa-lhes “grandíssima” alegria por confirmar estarem no caminho certo (v. 10). A orientação divina e a de Herodes são confluentes, pois são levados exatamente até onde se encontra o menino. Um bom sinal! Na casa estavam apenas o menino com a mãe (v. 11). Onde estaria o pai? A reação imediata diante do recém-nascido foi ajoelhar-se “diante dele em homenagem” (gr. proskynéo). Após longa, cansativa e atribulada viagem, sentiram-se recompensados ao encontrar um menino e uma mulher, numa casa e não num palácio, desprovida de grandeza exterior. Reconheceram sua condição real ao lhe oferecerem os ricos presentes que trouxeram: ouro, incenso e mirra. Presentes carregados de simbolismo reveladores da identidade daquele menino. O ouro apontava para sua realeza; o incenso, para sua divindade; a mirra, para sua humanidade. Com o passar do tempo, devido aos presentes ofertados ao Menino Jesus, passou-se a falar em três reis magos e, mais ainda, a dar-lhes nomes. Entretanto, essa tradição nenhuma importância tem para a construção da catequese evangélica. O v. 12 mostra a obediência dos magos a Deus em desprezo aos pedidos do tirano Herodes. O aviso dado “em sonho”, como acontece com José nas várias cenas de Mt 1-2, mostra como são conduzidos por Deus, que lhes indica “outro caminho”, caminho alternativo, bem diferente daquele sugerido pelo rei mal- intencionado. Os magos agem como se espera dos verdadeiros discípulos do Reino. Por isso, enquanto se alegram extremamente (v. 10), o brutal Herodes ficará furiosíssimo (v. 16). Fuga para o Egito (2,13-18) ¹³Depois que eles partiram, eis que um anjo do Senhor apareceu em sonho a José, dizendo: “Levante-se, pegue o menino e a mãe dele, e fuja para o Egito. Fique aí até que eu lhe avise, porque Herodes vai procurar o menino para matá- lo”. ¹⁴Ele se levantou, e de noite pegou o menino e a mãe dele, e foi para o Egito. ¹⁵E aí ficou até a morte de Herodes, para se cumprir o que o Senhor tinha dito por meio do profeta: “Do Egito chamei o meu filho”. ¹ Vendo que fora enganado pelos magos, Herodes ficou furioso. Mandou matar todos os meninos de Belém e de todos os seus territórios, de dois anos para baixo, de acordo com o tempo que tinha investigado junto aos magos. ¹⁷Então se cumpriu o que fora dito pelo profeta Jeremias: ¹⁸“Em Ramá se ouviu uma voz, choro e grande lamentação. É Raquel que chora seus filhos; ela não quer consolação, porque eles não existem mais”. O anjo do Senhor interpela José novamente com uma ordem divina inesperada: fugir às pressas para o Egito com Jesus e Maria e lá permanecer, até segunda ordem, pois corriam o risco de serem assassinados por Herodes (v. 13). Mais uma vez o justo José encontra-se diante de uma ordem de difícil execução. Mas, por reconhecer se tratar do querer divino, obedece com total docilidade, como se espera de um discípulo do Reino. Com total docilidade levanta-se ainda de noite e parte com a família para o desconhecido (v. 14). E permanece no Egito até a morte do perverso tirano (v. 15). O evangelista encontra na profecia de Oseias um texto para iluminar a difícil situação criada pela perseguição sofrida pelo Messias: “Do Egito chamei o meu filho” (Os 11,1). Em sua catequese, Jesus será apresentado como o verdadeiro Moisés. E como Moisés fugiu do Egito liderando o povo de Israel rumo à Terra Prometida, de lá sairia o Messias Jesus para formar o verdadeiro Israel em torno da justiça do Reino de Deus. Quando Herodes percebe ter sido enganado pelos magos, que não voltaram para lhe dar notícias sobre o recém-nascido rei dos judeus, encolerizado, ordena a matança das crianças de Belém “de dois anos para baixo”, para ter certeza de eliminar o rei concorrente (v. 16). O leitor-ouvintesabe que o tirano fora enganado não pelos magos, e sim por Deus, ao livrar seu Filho do furioso assassino. Seu adversário era Deus, e não os ingênuos estrangeiros que, num ato de feliz discernimento, deixaram-se guiar pela voz divina, e não pela voz do malvado. A luta de Deus com o faraó no Egito estava sendo revivida no conflito do Pai de Jesus Cristo com Herodes. Uma frase do profeta Jeremias, recordando a matriarca Raquel lamentando a morte dos filhos (cf. Jr 31,15), ilustra a matança insana de inocentes da qual Jesus escapou (v. 17-18). A figura de Moisés mais uma vez serve de pano de fundo. Como o recém-nascido Moisés escapou de ser eliminado pelo faraó disposto a eliminar o povo judeu de seu reino (cf. Ex 2,1-10), de igual forma Jesus, qual novo Moisés, escapou de ser eliminado ainda na tenra infância. Deus lhe reservava uma grande missão, como acontecera com o menino Moisés de outrora. Retorno a Nazaré (2,19-23) ¹ Quando Herodes morreu, eis que um anjo do Senhor apareceu em sonho a José no Egito, dizendo: ² “Levante-se, pegue o menino e a mãe dele e vá para a terra de Israel. Porque já morreram aqueles que procuravam matar o menino”. ²¹Então ele se levantou, pegou o menino e a mãe dele e entrou na terra de Israel. ²²Mas quando soube que Arquelau reinava na Judeia em lugar de seu pai Herodes, ficou com medo de ir para lá. Avisado em sonho, partiu para a região da Galileia. ²³Aí chegando, foi morar numa cidade chamada Nazaré, para que se cumprisse o que fora anunciado pelos profetas: “Ele será chamado Nazareno”. O catequista refere-se ao personagem José pela última vez. Esse não pronuncia uma só palavra; apenas escuta o anjo do Senhor a lhe comunicar em sonho a ordem divina, e decididamente a executa com precisão. Trata-se de voltar para a terra de Israel, pois desapareceram as ameaças que pairavam sobre o menino Jesus, como lhe falara o anjo (v. 19-21). O v. 22 refere-se a uma informação conhecida por José não provinda do mensageiro divino. O violento Herodes fora sucedido por seu filho Arquelau, cujo caráter deveria ser semelhante ao do pai. José prudentemente julgou melhor ir para um lugar bem distante da Judeia. Outra vez, “avisado em sonho”, foi para a Galileia habitar numa cidade desconhecida, de nome Nazaré. O narrador identifica nesse fato o cumprimento de um anúncio profético segundo o qual o Messias seria chamado Nazoraíos (v. 23). Todavia, não se tem notícia de algum profeta ter feito tal declaração. Uma explicação para esse fato literário seria a preocupação do narrador de fundamentar com referências proféticas o nascimento do Messias Jesus. E o faz citando Is 7,14; Mq 5,1; Os 11,1 e Jr 31,15. Como trabalha com a simbologia numérica, sendo o número cinco particularmente relevante, o narrador cria uma profecia “artificial” para completar a cifra desejada. O número cinco simboliza o agir divino. Com as cinco citações proféticas, evidencia-se que tudo quanto aconteceu com o menino Jesus estava sob a guia atenta do Pai dos Céus, desde o nascimento até a ressurreição e o envio dos apóstolos no final da catequese. No tempo da redação da catequese mateana, os discípulos de Jesus eram chamados de nazarenos, devido à origem de seu Mestre (cf. At 24,5). Para reflexão e debate 1. Que traços da identidade e da missão de Jesus Cristo são apresentados na narração de suas origens? 2. Que temas teológico-narrativos estão presentes em Mt 1-2 e serão desenvolvidos ao longo da catequese mateana? I. O REINO E SUA JUSTIÇA (Mt 3-7) 1. Narração: A vinda do Reino Tendo oferecido os elementos principais da identidade de Jesus, situando-o no tempo e no espaço, o evangelista passa a narrar sua investidura como Messias. No capítulo anterior, ainda menino, foi confrontado com a crueldade de Herodes disposto a eliminá-lo, por causa da pergunta dos magos a respeito do lugar onde havia nascido o rei dos judeus. O Messias reconhecido e adorado pelos peregrinos vindos do Oriente era uma criança pobre e indefesa, porém capaz de deixar Jerusalém e sua liderança em polvorosa. Os capítulos seguintes confrontarão o Messias Jesus com outro tipo de mentalidade, encarnada por João Batista e sua chamada de atenção para a proximidade do fim. No batismo será investido pelo Pai em sua função messiânica e passará pela provação das tentações. Por fim iniciará a missão recebida de anunciar o Reino de Deus, convocará os primeiros discípulos e sairá em missão. Pregação de João Batista (3,1-12) || Mc 1,2-8; Lc 3,1-18; Jo 1,19-28 ¹Nesses dias, João Batista apareceu pregando no deserto da Judeia ²e dizendo: “Arrependam-se, porque o Reino dos Céus está próximo”. ³De fato, é de João que o profeta Isaías falou: “Voz que grita no deserto: Preparem o caminho do Senhor, endireitem suas estradas”. ⁴Esse João usava uma roupa de pelos de camelo e um cinto de couro na cintura. Sua comida eram gafanhotos e mel silvestre. ⁵E iam a ele habitantes de Jerusalém, de toda a Judeia e de toda a região próxima ao Jordão. E, confessando seus pecados, eram batizados por ele no rio Jordão. ⁷Ao ver que muitos dentre os fariseus e saduceus iam ao seu batismo, ele lhes disse: “Raça de cobras venenosas! Quem os ensinou a fugir da ira que está para vir? ⁸Produzam, pois, fruto que comprove o seu arrependimento. E não pensem que basta dizer: ‘Temos Abraão por pai’. Porque eu lhes digo que até dessas pedras Deus pode fazer que nasçam filhos para Abraão. ¹ Agora o machado já está na raiz das árvores. Então, toda árvore que não produz fruto bom será cortada e jogada no fogo. ¹¹Na verdade, eu batizo vocês com água para o arrependimento. Mas aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu, e eu não tenho o direito de levar as sandálias dele. Ele batizará vocês com Espírito Santo e com fogo. ¹²A pá está em sua mão, e ele há de limpar sua eira e recolherá seu trigo no celeiro. Mas a palha, ele a queimará no fogo que nunca se acaba”. O narrador introduz um novo personagem: João Batista, que atua “no deserto da Judeia” (v. 1). Por que, estando na Judeia, preferiu pregar no deserto, ao invés da capital, como fizera o profeta Jeremias (cf. Jr 7,1-15)? Sua chamada ao arrependimento em vista da proximidade do Reino dos Céus antecipa o que fará Jesus (v. 2; cf. Mt 4,17). As palavras são idênticas, mas com sentidos bem distintos. João levava a sério as expectativas messiânicas do momento, que falavam da iminente chegada do Messias como juiz. Quem fosse encontrado em situação de pecado poderia ser castigado. Quem estivesse em dia com Deus e se mostrasse arrependido de suas faltas seria poupado. As pessoas procuravam o batismo de João por temerem o confronto escatológico. Estava fora dos planos do Batista dar origem a um movimento e suscitar discípulos. Como o batismo tinha em vista algo muito próximo, seria inútil alimentar projetos de longo prazo. O evangelista encontra no profeta Isaías uma chave para compreender os fatos (v. 3). João encarna a voz que no deserto proclama a urgência de preparar os caminhos para a passagem do Senhor, endireitando as estradas tortuosas (cf. Is 40,3). No passado, tratava-se da passagem dos exilados de volta à Terra de onde foram arrancados. Agora o Batista abre caminho para o Messias Jesus, cuja missão será a de guiar o novo Israel pelas estradas do Reino, cuja justiça anunciará com suas palavras e seus gestos poderosos. Por um lado, o narrador serve-se da pessoa e do testemunho do profeta Elias para construir o personagem João Batista. Por isso o modo de se vestir e o alimento de João assemelham-se aos do profeta do século IX a.C. (v. 4; cf. 2Rs 1,8); seu lugar de atuação era o mesmo do antigo profeta (cf. 2Rs 2,6) e suas palavras eram tão duras quanto as de Elias (cf. 1Rs 21,20-24). Por outro lado, diferentemente de Jeremias, que falava para quem se dispusesse a ouvi-lo ao pregar na porta do “Templo de Javé” (cf. Jr 7,4), os ouvintes de João Batista deveriam se decidir a peregrinar até o deserto para ouvi-lo. Seu convite ao arrependimento pela proximidade do Reino dos Céus ecoou por toda a Judeia e atraiuuma multidão disposta a confessar-se pecadora e ser batizada por ele nas águas do rio Jordão (v. 5-6). O chamado ao arrependimento (gr. metanoía), representado por uma revolução espiritual expressa pela superação do egoísmo e toda sorte de maldade, está contido nas palavras ásperas, dirigidas à liderança religiosa da época – os fariseus e os saduceus –, chamados de “raça de cobras venenosas” (v. 7). As palavras carregadas de realismo religioso eram espadas cortantes aos ouvidos de seus penitentes (v. 8). Mais que aproximá-los de Deus, poderiam afastá-los. Entretanto, era insuficiente apresentar-se para o batismo desprovidos da disposição de produzir “fruto que comprove o seu arrependimento”. De nada vale pensar: “Temos Abraão por pai!” e não dar mostras de ser verdadeiros filhos do patriarca fiel e obediente (v. 9; cf. Gn 12,1-3). A conversão se faz urgente devido ao juízo de Deus estar à porta (v. 10). Quem se dá ao luxo de adiá-la poderá ser pego de surpresa. O Batista tem consciência da provisoriedade de sua missão, pois virá depois dele alguém mais forte (gr. ischiróteros), de quem se sente indigno até mesmo “de levar as sandálias”, e cujo batismo será de outro tipo (v. 11). “Ele batizará com Espírito Santo e com fogo”, como obra do próprio Deus em ação no mais íntimo de quem deseja mudar de vida pela força de seu Espírito (cf. Is 44,3). O novo batismo terá o efeito purificador do fogo, como acontece na purificação dos metais. Por conseguinte, será um batismo gerador de vida nova que conforma o ser humano com o projeto de Deus. João Batista reconhecia-se incapaz dessa tarefa reservada para o Messias, cuja vinda estava prestes a acontecer. O Batista alude à missão do Messias em termos escatológicos, como se viesse, num passe de mágica, pôr fim ao mundo da injustiça e abrir espaço para o mundo da misericórdia. A metáfora do agricultor na tarefa de separar a palha do trigo e lançar a palha “no fogo que nunca se acaba” comporta uma imagem de Messias castigador e inclemente (v. 12). Ao longo de seu ministério, o Messias Jesus se mostrará bem diferente: será muito severo com quem se considerava “trigo”, no caso dos doutores da Lei e dos fariseus, mormente quem se tinha na conta de perfeito e se julgava no direito de desprezar os demais, mas amoroso e paciente com os pecadores e excluídos, considerados “palha” pelas estruturas religiosas da época. Em outras palavras, a pauta de ação do Messias Jesus será muito distinta daquela atribuída pelo Batista. Batismo de Jesus (3,13-17) || Mc 1,9-11; Lc 3,21s; Jo 1, 29-34 ¹³Nesse tempo, Jesus foi da Galileia para o Jordão, ao encontro de João, para ser batizado por ele. ¹⁴João, porém, tentava impedi-lo, dizendo: “Eu é que preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?” ¹⁵Contudo, Jesus lhe respondeu: “Deixe por enquanto, pois é assim que devemos cumprir toda a justiça”. Então João concordou. ¹ Batizado, Jesus logo subiu da água. Eis que se abriram para ele os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba e vindo sobre ele. ¹⁷E uma voz vinda dos céus dizia: “Este é o meu Filho amado, em quem eu me agrado”. A recepção do batismo de João correspondeu a uma decisão de Jesus que sai da Galileia e se dirige ao Jordão onde atuava o Batista (v. 13). Esse tenta impedi-lo com um argumento muito consciente: “Eu é que preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?” (v. 14), numa evidente confissão de inferioridade. Essa cena tem motivação narrativo-teológica. As entrelinhas da narração do batismo de Jesus escondem o conflito entre a comunidade de Mateus e o grupo dos discípulos de João Batista, cultivadores da memória do mestre (cf. At 18,25), que consideravam Jesus inferior ao mestre deles. Argumentavam com o fato de Jesus ter sido batizado por João. O catequista Mateus esclarece o mal-entendido com a inserção em sua catequese do diálogo entre Jesus e João Batista. Esse se recusa a batizá-lo, declarando-se carecer do batismo que o Messias haveria de realizar (v. 11). A resposta de Jesus: “É nosso dever plenificar toda justiça” (v. 15) significa que ambos tinham diante de si um desígnio divino a ser cumprido. “Então João concordou”. Assim, a ação do Batista corresponde aos planos de Deus em relação ao Messias Jesus, com um significado muito distinto do batismo recebido pela multidão de pecadores irrequietos para se purificarem em vista do juízo que estava para acontecer. E assim escaparem da ira divina! O batismo do Messias Jesus seria de outro tipo. O narrador omite-se de descrever o batismo de Jesus, limitando-se a constatá-lo laconicamente com a palavra “batizado” (v. 16). Apenas faz alusão ao consentimento de João, para logo descrever uma sucessão de fatos logo que Jesus subiu da água. Pouca importância se dá ao momento do batismo de Jesus a fim de não alimentar a polêmica com os batistas. O batismo de Jesus na catequese mateana tem a função de colocá-lo na fila dos pecadores desejosos de purificação em vista do juízo divino. Sua missão anunciada pelo anjo consistiria em “salvar o seu povo dos seus pecados” (Mt 1,21). A presença de Jesus na fila dos penitentes tinha caráter salvífico por ser “sal da terra” e “luz do mundo” (Mt 5,13-16). A convivência com a multidão de pecadores às margens do Jordão antecipava algo recorrente em sua vida de missionário do Reino: a solidariedade com os pecadores para resgatá-los. A condição de Emanuel permitia-lhe ser portador de salvação para os pecadores, jamais de castigo e punição, como se podia deduzir das palavras do Batista. Seu messianismo seria uma novidade no âmbito da religião de Israel. A presença do Espírito de Deus “descendo como pomba” e pousando sobre Jesus evoca Gn 1,1, quando tem início a criação. Em Jesus, começa a verdadeira criação, onde o ser humano e todas as criaturas voltam-se para o Criador, superando as eventuais infidelidades, geradoras de violência e de morte. Todavia, no confronto com a velha criação, o novo ser humano, encarnado na pessoa de Jesus, seria vítima da maldade humana, a ponto de morrer na cruz. A ressurreição, enfim, abriria espaço para acontecer o definitivo do ser humano e da criação. A voz celeste: “Este é o meu Filho amado, em quem eu me agrado” (v. 17) corresponde à investidura de Jesus na função de Messias, como Filho querido do Pai obediente e fiel até a morte de cruz. Essa será sua identidade determinante. Todos seus ensinamentos e suas ações em última análise serão reportadas ao Pai. A sintonia com o querer paterno marcará sua caminhada até a cruz, não obstante as tentativas dos inimigos de fazê-lo se desviar. A cena do batismo de Jesus antecipa o batismo de cada discípulo do Reino, batizado “em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19). Ser investido na condição de discípulo do Reino pelo batismo, com a tarefa de levar adiante a missão do Mestre, será o distintivo do discípulo-apóstolo do Mestre Jesus. A cena do batismo evoca para os leitores-ouvintes da catequese mateana a investidura de Eliseu na missão profética pelas mãos de Elias (cf. 2Rs 2,9-10). Entretanto, a investidura de Jesus acontece por obra do Pai, e não de João Batista. Terá uma missão tão profética quanto a de Elias (cf. Mt 16,14); com uma diferença: falará e agirá como Filho amado de Deus. Tentação no deserto (4,1-11) || Mc 1,12s; Lc 4,1-13 ¹Então Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, a fim de ser tentado pelo diabo. ²Jejuou quarenta dias e quarenta noites, e depois sentiu fome. ³Então se aproximou dele o tentador, e lhe disse: “Se és Filho de Deus, ordena que estas pedras se tornem pão”. ⁴Jesus, porém, respondeu: “Está escrito: ‘O ser humano não vive só de pão, mas de toda palavra que sai da boca de Deus’ ”. ⁵Então o diabo levou Jesus à Cidade Santa, colocou-o no ponto mais alto do Templo, e lhe disse: “Se és Filho de Deus, atira-te para baixo, pois está escrito: ‘Ele dará ordens a seus anjos a teu respeito, e eles te levarão nas mãos, para que teu pé não tropece em nenhuma pedra’”. ⁷Jesus lhe respondeu: “Também está escrito: ‘Não tente ao Senhor seu Deus’ ”. ⁸Denovo o diabo levou Jesus a um monte muito alto e lhe mostrou todos os reinos do mundo e a grandiosidade deles. Disse-lhe: “Tudo isso eu te darei, se de joelhos me adorares”. ¹ Então Jesus lhe disse: “Vá embora, Satanás! Pois está escrito: ‘Adore o Senhor seu Deus, e somente a ele preste culto’ ”. ¹¹Por fim, o diabo o deixou. E eis que os anjos se aproximaram e se puseram a servi-lo. O batismo de Jesus na catequese mateana tem como pano de fundo a travessia do mar Vermelho pelos israelitas fugitivos da opressão do faraó (cf. Ex 14,15-31). Como Moisés rumo à terra da promessa, Jesus passou pelas águas do Jordão para começar a grande missão de constituir o verdadeiro Israel. Agora o Espírito conduz Jesus ao deserto, como no passado Deus conduziu seu povo ao deserto, onde foi submetido a tremendas provações para verificar sua fidelidade (v. 1). O tentador, referido como diabo (gr. diábolos, o que divide; cf. Mt 13,39; 25,41), tudo fará para criar inimizade entre o Filho amado e o Pai, ao lhe sugerir pensamentos mundanos, contrários ao querer paterno (cf. Mt 16,23). O número três das tentações designa, na simbologia numérica, a constituição do ser humano, “espírito, alma e corpo” (1Ts 5,23). Significa a provação da humanidade de Jesus em relação à lealdade ao querer do Pai. Os “quarenta dias e quarenta noites” e a experiência da fome aludem à experiência dos israelitas na longa travessia pelo deserto (v. 2; cf. Ex 16,35; 24,18; Nm 14,33; Sl 95[94],10). A firmeza do Filho Jesus diante das tentativas de desviá-lo do caminho traçado pelo Pai supera a revolta dos israelitas contra Deus e seu enviado Moisés. Os inimigos ao longo do seu ministério porão armadilhas para fazê-lo tropeçar e, dessa forma, ter motivos para acusá-lo. A determinação de Jesus demonstrada na tríplice tentação no início da caminhada será um traço inconfundível de sua identidade messiânica. A tentação de transformar pedras em pão corresponde ao impulso de usar em benefício próprio a autoridade recebida do Pai para o serviço aos necessitados (v. 3-4). No caso de Jesus, cabia-lhe saciar as multidões famintas, e não a si mesmo (cf. Mt 14,13-21; 15,32-38). Sua resposta com uma citação bíblica (cf. Dt 8,3) atesta a disposição de se submeter à Palavra de Deus em desprezo das seduções enganosas. A tentação de se lançar do ponto mais alto do Templo com a falsa garantia do envio de anjos do céu para segurá-lo pelas mãos, de modo a não se ferir em alguma pedra (cf. Sl 91[90],11), tem a ver com a irresponsabilidade no dia a dia da missão (v. 5-7). Um exemplo dessa tentação acontece no momento em que alguém o desafia a descer da cruz como exigência para crer nele (cf. Mt 27,39- 42). Se tivesse dado ouvido ao tentador, teria arruinado o caminho de fidelidade ao Pai, construído ao longo da missão a duras provas. A oposição firme ao diabo, consciente de não ter o direito de colocar o Pai à prova, marcará sua caminhada até a cruz. A tentação de apoderar-se de todos os reinos do mundo e sua glória com um singelo gesto de ajoelhar-se diante do tentador e adorá-lo (gr. proskynéo) corresponde a escolher o caminho “largo e espaçoso” para atingir os objetivos, de modo a evitar a “porta estreita e o caminho apertado” (Mt 7,13-14), com suas cruzes e desafios (v. 8-10). Jesus recusa-se peremptoriamente a se deixar levar pela sugestão do Satanás (heb. Satan: inimigo, adversário), pois só Deus, único digno de louvor, merece sua adoração e dele provêm todos os bens. Jesus rejeita servir a dois senhores, opção fundamental de seu ministério (cf. Mt 6,24). Jesus reconhece a falácia do tentador que se dá ares de senhor de todos os reinos do mundo. Ele bem sabe que “todo poder” (gr. pása exousia) pertence ao Pai e lhe foi transmitido em função do serviço do Reino (cf. Mt 28,18). A falácia do tentador consiste em prometer dar o que não lhe pertence. A tramoia para fazer o Filho se indispor com o Pai foi desmascarada. As citações de frases isoladas das Escrituras tiradas do contexto podem ser facilmente contraditas com o mesmo expediente. As tentações tinham o objetivo de fazer desmoronar a base da identidade de Jesus, sua condição de Filho de Deus. Por isso duas tentações começam com o condicional: “Se és Filho de Deus...” A determinação perante as propostas diabólicas comprova a condição de Filho obediente e fiel, cuja existência está inteiramente fundada no Pai. O diabo vencido sai de cena e se aproximam os anjos para servir Jesus (v. 11). Esses sim podem oferecer-lhe o verdadeiro alimento para fortificá-lo em vista dos embates da dura missão. O leitor-ouvinte da catequese mateana recorda-se da experiência do povo de Israel no deserto, ao ser alimentado por Deus durante quarenta anos, até o término da esgotante travessia (cf. Ex 16,35). Jesus, da mesma forma, tendo atravessado o deserto e vencido as tentações, alimenta-se para um momento novo de sua caminhada. Início da pregação, na Galileia (4,12-17) || Mc 1,14s; Lc 4,14s ¹²Quando ouviu que João tinha sido preso, Jesus voltou para a Galileia. ¹³Deixando Nazaré, foi morar em Cafarnaum, à beira do mar, no território de Zabulon e Neftali, ¹⁴para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta Isaías: ¹⁵“Terra de Zabulon e terra de Neftali, caminho do mar, do outro lado do Jordão, Galileia das nações! ¹ O povo que estava assentado em trevas viu uma grande luz. A luz se levantou para os que estavam assentados na região sombria da morte”. ¹⁷A partir daí, Jesus começou a pregar e a dizer: “Arrependam-se, porque o Reino de Deus está próximo”. O ministério de Jesus começa quando João Batista sai de cena com o encarceramento (v. 12). Uma decisão importante consistiu em voltar para a Galileia. Teria permanecido na região do Jordão até a prisão do Batista? Em todo caso, deixa a cidade onde fora criado e escolhe morar em Cafarnaum, às margens do mar da Galileia, palco de muitas de suas atividades (v. 13). A observação “no território de Zabulon e Neftali” faz alusão ao antigo Israel dividido em tribos, regime superado com o surgimento da monarquia. O evangelista então tem a chance de evocar uma profecia de Isaías, excelente para esclarecer o sentido dos acontecimentos ligados ao Messias Jesus (cf. Is 8,23-9,1). Quando o exército assírio invadiu o Reino de Israel, por volta de 721 a.C., começou por se impor às tribos do Norte, entre as quais as duas citadas por Isaías. A dominação acontecia com a troca de populações: os israelitas foram deportados para lugares distantes, de onde foram trazidas populações para ocupar seus territórios. Os novos habitantes levaram consigo suas divindades (cf. 2Rs 17,5-6.24-41), fato considerado como profanação daquela região. A expressão pejorativa “Galileia das nações” (heb. galil ha goyim) tem aí sua origem (v. 14-15). Os galileus tornaram-se vítimas do desprezo dos habitantes da Judeia, como se não fizessem parte do Povo de Deus, por serem contaminados pelo paganismo. Pois bem, entre esses “assentados na região sombria da morte” brilharia a luz do Messias menino com o poder recebido de Deus e os títulos dignos de um grande rei aludidos pelo profeta (v. 16; cf. Is 9,5). Assim aconteceu com Jesus de Nazaré. Seu ministério começou entre as vítimas do preconceito social e religioso, para quem fez brilhar a luz do amor do Pai para lhes restituir a dignidade e não serem mais judeus de segunda categoria. Sua vocação de salvador dos pecadores consistiu em resgatar a dignidade humana de muitas formas degradada, a começar por seus concidadãos (cf. Mt 1,21). Da Galileia enviaria os discípulos-apóstolos para convidar os povos (heb. goyim) do mundo inteiro a se tornarem discípulos do Reino em vista de criar uma nova humanidade (cf. Mt 28,16-20). A Galileia foi o ponto de partida do ministério de Jesus e o dos discípulos enviados em missão a todos os rincões da terra. A expressão “a partir daí” demarca o início das atividades do Messias Jesus (v. 17). Um imperativo peremptório serve de baliza para todos os seus ensinamentos e ações. “Arrependam-se” (gr. metanoíete) tem o sentido fortede passar por uma profunda transformação interior como processo de libertação para acolher o querer do Pai e torná-lo pauta de ação com absoluta fidelidade, passo indispensável para o discipulado, pois o vinho novo do Reino exige ser colocado em recipientes novos (cf. Mt 9,17). Outra metáfora ilustra a urgência da conversão: a inutilidade de remendar roupa velha com retalho de pano novo; com certeza só aumentará o estrago (cf. Mt 9,16). O ministério de Jesus exige dos discípulos verdadeira reviravolta existencial para se colocarem no compasso de Deus. A proximidade do “Reino dos Céus” (gr. basileía tón ouranón) acontece com a presença de Jesus de Nazaré na vida de seu povo. O Reino torna-se realidade em sua total adesão ao querer do Pai com a determinação de lhe ser inteiramente fiel e obediente, como acontecerá na paixão: “Não seja como eu quero, e sim como tu queres” (Mt 26,39); “Seja feita a tua vontade” (Mt 26,42). Esse modo de compreender a relação com o Pai foi transmitido aos discípulos, a quem ensinou a rezar: “Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6,10). Como sinal de atenção à sensibilidade religiosa de sua comunidade, cuja maioria provinha do judaísmo, o evangelista usará a expressão “Reino dos Céus”, de preferência a “Reino de Deus”. Ambas as expressões têm o mesmo sentido. Contudo, “Reino de Deus” poderia ser entendido como desrespeito à proibição de pronunciar “em vão o nome de Javé” (Dt 5,11). Chamado dos primeiros discípulos (4,18-22) || Mc 1,16-20; Lc 5,1-11 ¹⁸Andando à beira do mar da Galileia, Jesus viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André. Estavam lançando a rede no lago, pois eram pescadores. ¹ Jesus lhes disse: “Venham após mim, e eu farei de vocês pescadores de gente”. ² Imediatamente, abandonando as redes, eles o seguiram. ²¹Indo adiante, viu outros dois irmãos: Tiago de Zebedeu e seu irmão João. Estavam na barca com o pai Zebedeu, consertando suas redes, e Jesus os chamou. ²²Imediatamente, abandonando a barca e o pai, eles o seguiram. A catequese de Mateus evidencia a preocupação de Jesus, desde o começo de sua atuação, de jamais se apresentar como se fosse um guru solitário centrado em si mesmo. A missão recebida do Pai para ser levada a toda a humanidade seria partilhada com os discípulos-apóstolos do Reino. Por isso, dá os primeiros passos para formar uma comunidade missionária já no começo de seu ministério. De maneira inesperada, convoca dois irmãos pescadores em plena atividade de pesca (v. 18). Nada se diz de Simão e André, no tocante à condição religiosa, sua fidelidade ou não à Lei de Moisés. Quiçá a rigorosa submissão à Lei mosaica fosse de pouca importância para um galileu vitimado pelos preconceitos dos habitantes da Judeia. A referência a Simão contém o esclarecimento de se tratar de Pedro, como o fará outra vez (cf. Mt 10,2), até chegar o momento de dizer que a mudança de nome foi feita pelo Mestre (cf. Mt 16,18). Em Mt 16,16, o narrador o chama de Simão Pedro. A mudança de nome na Bíblia tem vários significados: autoridade de quem impõe a troca de nome e submissão de quem recebe um novo nome, profunda mudança na vida de quem tem o nome substituído por outro, chamado para uma nova missão. Tudo isso tem a ver com Pedro na relação com o Mestre Jesus. Ele será um personagem importante na catequese mateana, referido em várias passagens exclusivas do evangelista. Com elas se pode traçar o percurso do discípulo Pedro. Se José foi narrado como o discípulo ideal, ao revés, Pedro será apresentado como o discípulo real, com seus altos e baixos, como acontecerá com os discípulos de todos os tempos. Os dois irmãos pescadores veem-se diante da ordem enigmática de se colocarem no seguimento daquele desconhecido, que faria deles “pescadores de gente” (lit. de homens) (v. 19). Que pensamentos lhes passaram pela cabeça? Que tipo de atividade desconhecida seria aquela? Admira-se terem deixado imediatamente as redes para segui-lo (v. 20). O leitor-ouvinte pode desconfiar estar diante de uma cena de irresponsabilidade. Como entender uma tomada de decisão desse porte prescindindo de consultar a família, colocar em ordem os negócios, pedir explicações a respeito dos meios de subsistência e tantos outros detalhes? A mensagem, porém, é clara: quem quiser tornar-se discípulo do Reino deverá se dispor a fazer rupturas radicais e abrir mão da segurança e da exigência de conhecer os desdobramentos futuros. Trata-se de se lançar numa aventura inteiramente confiado em Deus nos passos do Messias Jesus. Cena semelhante acontece com a dupla de irmãos Tiago e João, os filhos de Zebedeu (v. 21). Enquanto Pedro e André foram chamados em plena atividade, esses dois parecem estar consertando as redes para começar a pescaria ou então corrigindo os danos causados no instrumento de trabalho após a labuta diária. Importava ao narrador estarem engajados em suas lides profissionais, como aconteceria com todos os chamados para o serviço do Reino, como foi o caso de Mateus, o coletor de impostos (cf. Mt 9,9). Pedro e André deixaram as redes; Tiago e João, a barca e o pai para seguir Jesus (v. 22). Tomaram uma decisão radical como se não houvesse empecilhos. O chamado do Reino exige disponibilidade total. Quem estabelece pré-requisitos torna-se inapto para o discipulado do Reino (cf. Mt 8,21-22). Pregação e curas na Galileia (4,23-25) || Mc 3,7b-12; Lc 6,17-19 ²³Jesus percorria toda a Galileia, ensinando nas sinagogas deles, pregando o evangelho do Reino e curando toda doença e enfermidade do povo. ²⁴Sua fama se espalhou por toda a Síria. E conduziram a ele todos os que estavam doentes, sofrendo com diversas enfermidades e dores, os endemoninhados, epiléticos e paralíticos. E ele os curou. ²⁵Numerosas multidões o seguiram, vindas da Galileia, da Decápole, de Jerusalém, da Judeia e do outro lado do Jordão. Esses versículos funcionam como sumário para introduzir a sequência da catequese. O conteúdo do v. 23 repete-se em 9,35 para formar uma inclusão, recurso literário que estabelece os limites de uma secção narrativa. Ambos os versículos fazem alusão às duas grandes vertentes do messianismo de Jesus: Messias por palavras e Messias por obras. Enquanto Messias por palavras, Jesus “percorria toda a Galileia, ensinando na sinagoga deles, pregando o evangelho do Reino”; enquanto Messias por obras, “curava toda doença e enfermidade do povo”. Os capítulos 5-7 serão uma síntese de seus ensinamentos de Messias por palavras; os capítulos 8-9 concentrarão uma série de ações reveladoras do poder (gr. exousia) recebido do Pai na condição de Messias por obras. Esses versículos contêm dois elementos importantes na catequese mateana. O primeiro refere-se à expressão “sinagoga deles” ou “suas sinagogas”, repetida várias vezes (cf. Mt 10,17; 12,9; 13,54; 23,34). O conflito com a liderança da sinagoga intransigente com a comunidade mateana leva o evangelista a estabelecer uma nítida distinção entre ambas. Por isso, quando fala em sinagoga, acrescenta “deles” (gr. autón), como se dissesse não serem “dos nossos”. O segundo elemento refere-se ao pronome “toda”, na expressão “toda doença e enfermidade”. No evangelho, as ações do Messias Jesus têm sempre efeito imediato (cf. Mt 8,3; 20,34) e total (cf. Mt 10,1; 14,20; 15,37). Nada se faz pela metade, tampouco por etapas. No tocante às doenças, Jesus cura-as todas e imediatamente com o poder recebido do Pai dos Céus. O leitor-ouvinte deve estar atento para esse detalhe revelador da identidade do Messias Jesus. Toda sorte de marginalizados pela sociedade e pela religião vão em busca de Jesus para serem curados (v. 24). As doenças eram consideradas castigos de Deus como punição por algum pecado. Desconheciam-se outras causas! Por isso as enfermidades e as doenças crônicas, como distúrbio mental (considerado possessão demoníaca), epilepsia ou alguma paralisia, oprimiam as pessoas obrigadas a carregar um peso insuportável por deverem se reconhecer culpadas por faltas pelas quais não se sentiam responsáveis. As curas operadaspor Jesus significavam libertação de um pesado fardo social e religioso. Quando o anjo atribuiu a Jesus a missão de “salvar o povo dos seus pecados” (Mt 1,21), referia- se a essa realidade. A palavra “pecado”, nesse caso, nada tem a ver com transgressão da Lei, como pensavam os escribas e fariseus, e sim com a violência sofrida pelos mais fragilizados, que são convidados a vir até Jesus para ser aliviados de seus fardos e encontrar descanso (cf. Mt 11,28-30). A narrativa evangélica descreve um movimento das multidões entre os capítulos 3 e 4. Em 3,5 as pessoas vão em busca de João Batista para ser batizadas em vista do iminente juízo divino. Em 4,25 as multidões seguem Jesus para escutar o evangelho do Reino e ser libertadas de tudo quanto as oprime, e assim poder começar uma nova vida. Relação semelhante se pode fazer entre 3,2 e 4,17. O imperativo “Arrependam-se, porque o Reino dos Céus está próximo” tem sentido distinto na proclamação de João Batista e na de Jesus. Enquanto um apela para o castigo e o fim, o outro anuncia uma novidade em fase de implementação. Daqui se pode entender o motivo de Jesus ter iniciado o ministério após a prisão de João Batista (v. 12). A novidade do Reino proclamada por ele tornava desnecessária a conversão nos moldes do Batista. Os comentaristas da catequese mateana tendem a considerar a referência “a toda a Síria”, no v. 24, como possível localização da comunidade do evangelista. Esse pormenor está ausente nas demais catequeses evangélicas. Para reflexão e debate 1. Que elementos do messianismo de Jesus destacam-se no encontro com João Batista e nas tentações? 2. Qual o significado do convite ao arrependimento “porque o Reino dos Céus está próximo” no início do ministério de Jesus? Em que sentido começa aqui o discipulado do Reino? 2. Discurso: Buscar o Reino e sua justiça – Sermão da Montanha A seção conhecida como Sermão da Montanha (Mt 5-7) comporta o primeiro dos cinco grandes discursos estruturantes da catequese mateana. Jesus, Messias por palavras, lança as bases do Reino dos Céus, cuja irrupção na história fora anunciada (cf. Mt 4,17). São esboçadas aí as grandes linhas do projeto de vida condizente com o Reino, a ética do discipulado. Trata-se das pautas de ação de quem aderiu a Jesus. O evangelista chama de justiça (gr. dikaiosýne) o modo de proceder compatível com o querer de Deus, que se opõe ao legalismo dos escribas e fariseus e sua imposição de cumprimento escrupuloso da Lei mosaica, centrando-se nos elementos secundários e pouco se importando com o essencial (cf. Mt 23,23). O discípulo do Reino esforça-se por captar o “espírito” da Lei que supera a “letra”. O legalismo fanático transforma o falso fiel em inimigo de Deus, ao substituir o genuíno querer divino por leis e normas que lhe são contrárias. O evangelista está longe de querer apresentar um minucioso código de conduta. Tocando as principais áreas da conduta ética e religiosa, pretende indicar as balizas da caminhada do discípulo do Reino. Cada situação concreta exigirá um discernimento lúcido em vista das decisões a serem tomadas, de modo a se conformarem o máximo possível com o projeto do Pai dos Céus. O evangelista compôs o Sermão da Montanha em função de sua teologia. A leitura atenta de cada versículo, comparando-os com os paralelos na catequese de Marcos e de Lucas, permite constatar a elaboração literário-narrativa de Mateus. As tentativas de explicitar a estrutura do Sermão da Montanha são variadas. Embora não seja evidente, não se trata de um amontoado de sentenças desconexas. Pode-se detectar uma coerência interna ao redor do tema da justiça do Reino visada pelo evangelista. Mt 5,20 (“Se a justiça de vocês não superar a justiça dos doutores da Lei e fariseus, vocês não entrarão no Reino dos Céus”) serve como chave de leitura desse conjunto de ensinamentos do Mestre Jesus para os discípulos do Reino. A justiça do discípulo do Reino confronta-se com a justiça dos doutores da Lei e dos fariseus de modo a transparecer sua originalidade. Os desvios de conduta da liderança religiosa de Israel devem ser superados por quem se pauta por uma justiça maior. As bem-aventuranças (5,1-12) || Lc 6,20-23 ¹Vendo as multidões, Jesus subiu à montanha, sentou-se, e seus discípulos se aproximaram dele. ²E, abrindo a boca, ele os ensinava, dizendo: ³“Felizes os pobres no Espírito, porque deles é o Reino dos Céus. ⁴Felizes os que choram, porque serão consolados. ⁵Felizes os mansos, porque herdarão a terra. Felizes os que têm fome e sede da justiça, porque serão saciados. ⁷Felizes os misericordiosos, porque encontrarão misericórdia. ⁸Felizes os puros no coração, porque verão a Deus. Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. ¹ Felizes os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. ¹¹Felizes vocês, quando por minha causa os insultarem, perseguirem e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vocês. ¹²Fiquem contentes e alegres, pois grande é a recompensa de vocês nos céus. Porque foi assim que perseguiram aos profetas que vieram antes de vocês”. O versículo introdutório está carregado de simbolismo (v. 1). Tem-se como imaginário a cena de Moisés subindo o monte Sinai para receber a Lei de Deus a ser comunicada ao povo (cf. Ex 19,1-3). Jesus sobe a verdadeira montanha como verdadeiro Moisés para dar a verdadeira Lei ao verdadeiro Israel. O novo Povo de Deus está em gestação! Três observações podem ser feitas em torno desse versículo. A primeira diz respeito à montanha (gr. óros). Mais que lugar geograficamente localizável (se fosse, o narrador ter-lhe-ia dado um nome), corresponde a um lugar teológico. Diversas vezes a “montanha” aparece na catequese mateana sem indicação precisa de lugar (cf. Mt 4,8; 8,1; 14.23; 17,1-9; 28,16). A segunda refere-se aos termos multidões (gr. óchlos) e discípulos (gr. mathetés). Eles definem as possibilidades de relação com Jesus: multidões são os curiosos, os descompromissados e também os inimigos. Podem ser também os interessados na pregação de Jesus em vista do discipulado. Ao longo do evangelho, chamam Jesus de “mestre”, “rabi”. Discípulo corresponde a quem aceitou o convite para aderir ao projeto do Reino dos Céus nos passos do Mestre Jesus. O grupo de discípulos recebe instruções e se esforça para compreendê-las e pô-las em prática. O testemunho de vida do Mestre serve-lhes de referência, pois têm como ideal em tudo assemelhar-se a ele (cf. Mt 10,25). Os discípulos referem-se a Jesus como “Senhor” (gr. kýrios) e são preparados para se tornarem apóstolos (cf. Mt 10,1-2). A terceira gira em torno do “sentar-se”, quando Jesus se põe a ensinar. Um elemento importante de sua identidade na catequese mateana refere-se à condição de Mestre formador de discípulos para continuarem sua missão pelo mundo afora até o fim dos tempos (cf. Mt 28,19-20). A catequese mateana o apresentará em contínuo processo de ensinar, e os discípulos em constante processo de aprendizado pela contemplação de seu testemunho de vida e pelas perguntas na eventualidade de surgirem dúvidas. As bem-aventuranças descrevem a vida do discípulo do Reino inteiramente centrada em Deus (v. 1-12). São oito ilustrações da primazia do querer divino em sua vida. Jesus, o bem-aventurado por excelência, será referência obrigatória para os discípulos (cf. Mt 11,29). A palavra bem-aventurado (gr. makários) tem o sentido forte de encontro do caminho certo que viabiliza a realização pessoal e permite ao discípulo do Reino alcançar a felicidade verdadeira, embora em meio a toda sorte de percalços. Nada será suficientemente forte para lhe roubar o otimismo e a alegria de viver. Os “pobres no Espírito” ou “com Espírito” (v. 3) rejeitam as idolatrias ao colocar em Deus sua esperança e sua confiança. Jamais servem a dois senhores (cf. Mt 6,24). “Os que choram” (v. 4) padecem a maldade do mundo avesso ao Reino e não se desesperaram, pela consciência de ter Deus ao seu lado. “Os mansos” (v. 5) recusam-se a pagar o mal com o mal ao romperem a espiralda violência cortando-a pela raiz (cf. Mt 5,39-42). “Os que têm fome e sede de justiça” (v. 6) são conscientes das artimanhas do anti-Reino na história, mas continuam a sonhar com um mundo onde todos os seres humanos serão respeitados em sua dignidade de filhos de Deus. “Os misericordiosos” (v. 7) têm compaixão dos semelhantes, com especial atenção aos mais fragilizados e descartados pela insensibilidade das pessoas e dos sistemas. “Os puros de coração” (v. 8) repelem a tentação de agir com segundas intenções ou de maneira fraudulenta para tirar proveito do próximo. “Os que promovem a paz” (v. 9) esforçam-se em vista de fazer o shalom acontecer como bem-estar para todos, reconhecimento de seus direitos, superação dos conflitos fratricidas e toda espécie de conflitos, empecilhos para o surgimento do mundo querido por Deus. “Os perseguidos por causa da justiça” (v. 10) correspondem a quem paga um preço alto por optar pelo Reino em contextos onde o egoísmo fala mais alto e coloca de escanteio o querer de Deus. Os vv. 11 e 12 são desdobramentos do v. 10, ao explicitar diversas formas de perseguição – insulto, mentira, maledicência – e chamar a atenção para os bens preparados pelo Pai após comprovada perseverança vivida com alegria e contentamento. O testemunho dos profetas de Israel fiéis à missão de anunciadores do juízo de Deus constitui-se em exemplo inspirador para os discípulos do Reino, que terão sorte idêntica à deles. Com essas exemplificações, os leitores-ouvintes estão em condições de descobrir outras formas de bem-aventuranças como canalização de seu agir para o Reino de Deus e sua justiça. No final da caminhada terão a suprema alegria de ser acolhidos no Reino definitivo: “Venham, benditos (gr. eulogeménoi) do meu Pai!” (Mt 25,34). Uma observação importante: Mt 5,1-12 (início do primeiro discurso) forma inclusão com Mt 25,31-46 (fim do último discurso) como balizas para o conjunto dos cinco grandes discursos. As bem-aventuranças anunciadas em terceira pessoa do singular (discurso indireto) revelam seu verdadeiro rosto ao serem formuladas em segunda pessoa do plural (discurso direto). Enquanto projeto de vida, consistem na prática da misericórdia para com os mais fragilizados. As bem-aventuranças, afinal, se concretizam no serviço a Jesus encarnado nos “irmãos mais pequeninos”. A catequese mateana tem em vista formar discípulos-apóstolos bem-aventurados! Sal da terra, luz do mundo (5,13-16) || Mc 9,50; Lc 14,34s; Mc 4,21; Lc 8,16; 11,33 ¹³“Vocês são o sal da terra. Ora, se o sal perde o sabor, com que o salgaremos? Não serve mais para nada, senão para ser jogado fora e ser pisado pelas pessoas. ¹⁴Vocês são a luz do mundo. Uma cidade construída sobre um monte não pode ficar escondida. ¹⁵Nem se acende uma lâmpada para ser colocada embaixo de um móvel, mas no candeeiro, e assim ela ilumina todos os que estão na casa. ¹ Brilhe do mesmo modo a luz de vocês diante das pessoas, para que elas vejam as boas obras que vocês fazem e glorifiquem o Pai de vocês que está nos céus”. As metáforas do sal e da luz ilustram a maneira como o discípulo do Reino insere-se na realidade. Nada de se isolar, tampouco formar guetos! E sim inserir- se com o propósito de transformá-la com os valores do Reino. Os discípulos imprestáveis e relutantes em fazer algo para beneficiar o próximo assemelham-se ao sal que “perde o sabor” (v. 13) ou à lâmpada “colocada embaixo de um móvel” (v. 15). Só os discípulos insensatos agem assim! Para que conservar sal imprestável? A imagem do sal insosso jogado na rua pela dona de casa através da janela e pisado pelos transeuntes constitui-se numa boa imagem do que se passa com o discípulo inútil: será jogado fora! A lâmpada deve ser colocada num lugar de onde a luminosidade atinja todo o ambiente, de modo a ser maximamente aproveitada. Assim acontece com o discípulo cuja ação será visível como uma cidade “construída sobre um monte” (v. 14). A presença do discípulo será discreta como o sal, imperceptível fisicamente, porém marcante nos efeitos produzidos nos contextos onde atua. Como a luz, a ação do discípulo difunde-se da forma mais ampla possível, pois busca dar sempre novos passos e conquistar novos espaços. Quanto mais puder brilhar e iluminar, melhor! O v. 16 chama a atenção para algo de grande importância. Mais que pretender atrair os olhares para si e incorrer em hipocrisia, como certas pessoas denunciadas por Jesus (cf. Mt 23,1-7), o discípulo tem consciência de que suas boas ações podem levar as pessoas a glorificar o Pai dos Céus. A santificação do nome do Pai (cf. Mt 6,9), pelo testemunho dos discípulos do Reino fiéis ao querer divino, torna-se fruto de alta qualidade missionária. Cumprimento da Lei: a nova justiça (5,17-20) ¹⁷“Não pensem que eu vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim abolir, mas cumprir. ¹⁸Porque eu lhes garanto: Enquanto não passarem o céu e a terra, não se perderá nem mesmo um só i ou vírgula da Lei, sem que tudo seja cumprido. ¹ Portanto, quem violar ainda que seja um só desses mínimos mandamentos, e ensinar as pessoas a fazer o mesmo, será considerado o menor no Reino dos Céus. Mas quem os praticar e ensinar, será chamado grande no Reino dos Céus. ² Porque eu lhes digo: Se a justiça de vocês não superar a justiça dos doutores da Lei e fariseus, vocês não entrarão no Reino dos Céus”. A liberdade de Jesus causava incômodo a seus críticos. Muitas vezes atropelava as prescrições da Lei mosaica ao se encontrar em situações onde o bom senso exigia criatividade e respostas rápidas. O imperativo do serviço ao próximo e as exigências prementes do Reino exigiam dele romper com o legalismo das lideranças religiosas. Daí ser acusado de “blasfêmia” (cf. Mt 9,3) e de conluio com o chefe dos demônios (cf. Mt 12,24). Era tido na conta de anarquista, desrespeitador da religião e infiel a Deus. O Mestre Jesus viu-se na obrigação de fundamentar sua liberdade. Em primeiro lugar, de forma alguma pretendia invalidar as Escrituras, referidas na expressão “Lei e Profetas”, por ter como meta levá-las à plenitude (v. 17). A tradução “vim cumprir” pode passar a falsa ideia de previsão e realização: Jesus realizava as previsões das Escrituras. “Cumprir” traduz o verbo grego pleróo, que significa plenificar, realizar de forma acabada, fazer acontecer de maneira integral, levar algo à sua máxima expressão. Jesus plenificou a Lei e os Profetas ao focar sua ação no querer do Pai dos Céus pela superação da materialidade dos preceitos da Lei. Deter-se no que diz a Lei e se contentar com as ações nela sugeridas contradiz o propósito de se deixar guiar pelo Pai, que descortina para o discípulo do Reino um horizonte infinitamente amplo de agir misericordioso. Jesus fala do cumprimento minucioso das Escrituras enquanto preocupação em ser fiel a Deus (v. 18). Caso contrário, cairia no mesmo desvio de conduta dos doutores da Lei e fariseus, com seu apego exagerado aos preceitos literais da Lei, porém se omitindo de buscar o legítimo querer do Pai. Quando contrapõe os que violam e os que praticam “um só desses mínimos mandamentos” (v. 19), tem em mente um novo horizonte descortinado no início de sua pregação ao proclamar: “Arrependam-se, porque o Reino dos Céus está próximo” (Mt 4,17). A Lei e os Profetas doravante devem ser entendidos na perspectiva do Reino dos Céus, a partir da hermenêutica inaugurada pelo Messias Jesus. O v. 20 tem uma função especial no contexto do Sermão da Montanha por ser uma chave para a compreensão do conjunto. Aí se faz alusão a três modos de proceder – justiça: dos discípulos, dos doutores da Lei e dos fariseus. O modo de proceder dos discípulos do Reino deve superar (gr. perisseúo), ultrapassar, exceder os demais em qualidade ética e espiritual. Se forem apegados à Lei nos moldes deles, nenhum proveito terão enquanto discípulos do Reino. A sequência do Sermão da Montanha mostrará o Mestre Jesus questionando a postura dos doutores da Lei, em seguida a dos fariseus, para enfim exemplificar como os discípulos devem agir, se desejam atingira justiça maior. Entretanto, em tudo quanto dirá, terá como objetivo o modo de proceder de quem aderiu ao Reino. Compromisso com a vida (5,21-26) ²¹“Vocês ouviram o que foi dito aos antepassados: ‘Não mate’. Quem matar terá de responder no tribunal. ²²Mas eu lhes digo: Todo aquele que ficar com raiva de seu irmão, terá de responder no tribunal. Quem chamar seu irmão de ‘imbecil’, será submetido ao Supremo Tribunal. Quem o chamar de ‘idiota’, terá de responder no fogo do inferno. ²³Se você estiver levando sua oferenda ao altar, e aí lembrar que seu irmão tem alguma coisa contra você, ²⁴deixe sua oferenda aí diante do altar e vá primeiro reconciliar-se com seu irmão. Só depois vá fazer sua oferenda. ²⁵Entre logo em acordo com seu adversário, enquanto você está a caminho com ele. Senão, ele entregará você ao juiz, o juiz o entregará ao guarda, e você será jogado na cadeia. ² Eu lhe garanto: Daí você não sairá, enquanto não pagar até o último centavo”. Na série de reinterpretações dos mandamentos da Lei mosaica, Jesus contrapõe dois tipos de ensinamentos: “o que foi dito aos antepassados” (v. 21) e “eu lhes digo” (v. 22). A forma passiva do verbo dizer – “foi dito” – evoca a figura de Moisés ao falar em nome de Deus. As palavras de Jesus revestem-se de extrema ousadia, pois têm a pretensão de superar tudo quanto se falava do grande legislador de Israel. Longe de se colocar no lugar de Deus, tem a intenção de sintonizar o pensamento divino e ensinar os discípulos a fazerem o mesmo quando se defrontarem com qualquer norma ou preceito. Será preciso colocar em segundo plano as interpretações humanas e se perguntar pela vontade divina original expressa nessa prescrição formulada com palavras precisas. E ter a coragem de se contrapor a quem ousa afirmar ser vontade de Deus o que consiste em mera imposição humana autoritária, à margem do querer divino. O mandamento de “não matar” (cf. Ex 20,13; Dt 5,17), na reinterpretação de Jesus, supõe um enorme respeito pela dignidade alheia, por ser possível tirar a vida do outro com uma simples palavra. O catequista toma como exemplo duas palavras mortíferas em seu contexto social: raqá e moré. As traduções “imbecil” e “idiota” não conseguem captar a carga negativa dos vocábulos gregos. A atualização da catequese mateana exige encontrar em nosso vocabulário popular aquelas palavras que ferem a alma das pessoas. São muitas as palavras, às vezes minúsculas, capazes de destruir pessoas e deixar marcas por toda a vida. O catequista ensina à comunidade que quem matar o próximo com palavras desse calibre será julgado por Deus com a mesma severidade com que se julgam os homicidas. A morte causada pela língua tem a mesma gravidade de uma morte causada por arma! Os conflitos geradores de morte devem ser superados pelo esforço da reconciliação. A ruptura com o próximo se desdobra em ruptura com Deus. Dessa forma, quem cultiva inimizade incapacita-se para o culto. Sua oferenda será inútil. O culto agradável a Deus exige viver reconciliado. O exemplo dado por Jesus tem um detalhe importante: “Se você estiver levando sua oferenda ao altar e aí lembrar que seu irmão tem alguma coisa contra você” (v. 23). Alguém poderia pensar ser correto o contrário: “Se você tem alguma coisa contra seu irmão!” A justiça do Reino rompe a lógica humana. Nela o injustiçado deve buscar a reconciliação, abrindo mão de esperar a iniciativa da outra parte (v. 24). Aqui está uma novidade do proceder do discípulo do Reino disposto a quebrar o legalismo da interpretação dos doutores da Lei. A necessidade premente exige buscar a reconciliação enquanto é tempo (v. 25- 26). As intermináveis delongas e as muitas justificativas para não dar o passo decisivo da reconciliação podem ter efeitos desastrosos. A metáfora do réu conduzido ao tribunal, havendo a chance de entrar em acordo com a vítima antes de estarem diante do juiz com a possibilidade de uma sentença desfavorável, ilustra a situação dos discípulos do Reino cujas relações estão rompidas. A prudência aconselha a imediata reconciliação, para não serem pegos de surpresa (cf. Mt 25,13). Exigência de fidelidade (5,27-30) ²⁷“Vocês ouviram que foi dito: ‘Não cometa adultério’. ²⁸Eu, porém, lhes digo: Todo aquele que olha para uma mulher cobiçando-a, já cometeu adultério com ela no coração. ² Se seu olho direito é motivo de escândalo para você, arranque-o e jogue-o fora. Porque é melhor para você perder um de seus membros do que todo o seu corpo ser jogado no inferno. ³ Se sua mão direita é motivo de escândalo para você, corte-a e jogue-a fora. Porque é melhor para você perder um de seus membros do que todo o seu corpo ser jogado no inferno”. O mandamento de “não cometer adultério” (cf. Ex 20,14; Dt 5,8) deve ser compreendido à luz da bem-aventurança da pureza de coração (v. 27). O atropelo do querer divino começa com o olhar lascivo lançado sobre a mulher do próximo muito antes de se consumar o ato sexual (v. 28). O discípulo do Reino cultiva a pureza de coração, de modo a olhar para todas as pessoas livre da malícia e das segundas intenções, em especial a mulher alheia! O Mestre ensina a cortar o mal pela raiz com duas ilustrações. A primeira diz respeito ao olho direito que se tornou motivo de desvio dos caminhos de Deus. É melhor arrancá-lo e jogá-lo fora, e conservar o resto do corpo, do que ser lançado todo na géenna (v. 29), onde se queimavam o lixo de Jerusalém e os cadáveres das pessoas consideradas indignas. A segunda fala da “mão direita” como motivo de escândalo (v. 30). Caso isso aconteça, aconselha-se cortá-la e lançá-la fora. Como na metáfora anterior, é preferível entrar na vida eterna sem a mão direita escandalosa, do que ser lançado com ela na géenna. Equivoca-se quem pensa cumprir o mandamento de não cometer adultério por se limitar aos pensamentos libidinosos em relação à mulher alheia. A justiça do Reino exige do discípulo profunda delicadeza e respeito no trato com o semelhante, a começar pelos sentimentos cultivados no coração. Compromisso com a palavra dada (5,31-32) || Mt 19,9; Mc 10,11-12; Lc 16,18 ³¹“Foi dito também: ‘Quem mandar embora sua esposa, deve dar a ela uma certidão de divórcio’. ³²Eu, porém, lhes digo: Todo aquele que manda embora sua esposa, a não ser em caso de união ilegítima, faz com que ela cometa adultério. E se alguém se casa com ela, comete adultério”. Jesus reinterpreta uma prescrição divina que fragilizava as esposas e as deixava à mercê dos maridos (v. 31). Sobre elas pairava um direito concedido “por Deus” aos maridos de despedi-las, caso vissem nelas “algum inconveniente” (Dt 24,1). Como a Lei não especificava as inconveniências, os escribas se davam o direito de encontrar motivos para se despedirem as esposas. E eram muito criativos nessa tarefa! Na perspectiva do Reino, esse mandamento perde sua validade (v. 32). O marido não pode tratar a esposa com leviandade e se desfazer dela por motivos banais. Caso contrário a induzirá ao adultério e levará outros homens a se tornarem também adúlteros. O marido leviano responderá diante de Deus pela injustiça cometida contra a esposa. O discípulo do Reino esforça-se por aprofundar os vínculos com sua mulher, de modo a evitar a tentação de buscar defeitos nela para justificar uma decisão arbitrária de se divorciar. Existe, porém, uma exceção: “a não ser em caso de porneía”. Os destinatários da catequese mateana conheciam o sentido exato dessa palavra. Os leitores-ouvintes atuais desconhecem-no. Os estudiosos esforçam-se por determinar-lhe o significado. A tradução “união ilegítima” pode ser plausível. A catequese evangélica não abre brechas para a proibição peremptória de Jesus em relação à ruptura do vínculo matrimonial no âmbito do discipulado do Reino. Uniões ilegítimas seriam as que não deveriam existir, como no caso das proibições previstas em Lv 18,6-18, especialmente entre consanguíneos. Não fazer juramentos (5,33-37) ³³“Vocês também ouviram que foi dito aos antepassados: ‘Não quebre o juramento, mas cumpra seus juramentos ao Senhor’.³⁴Eu, porém, lhes digo: Não jurem de maneira nenhuma. Nem pelo céu, porque é o trono de Deus. ³⁵Nem pela terra, porque é o estrado de seus pés. Nem por Jerusalém, porque é a cidade do Grande Rei. ³ Nem jure pela sua cabeça, porque você não consegue tornar branco ou preto nem mesmo um só fio de cabelo. ³⁷Que o sim de vocês seja sim, e o não seja não. O que passa disso vem do Maligno”. Jesus abole a permissão de se fazerem os “juramentos ao Senhor” previstos em Dt 23,22-24 e Nm 30,3 (v. 33) com uma ordem taxativa: “Não jurem de maneira nenhuma” (v. 34-36). A palavra do discípulo do Reino será sempre digna de crédito, podendo dispensar qualquer reforço para garantir-lhe a veracidade. Seu “sim” é “sim”; seu “não” é “não” (v. 37). Ao fugir desses limites, agirá como inimigo de Deus sob a ação do maligno (gr. ponerós), uma das muitas tentações às quais o discípulo está submetido, das quais deve pedir ao Pai para livrá-lo (cf. Mt 6,13). Violência gera violência (5,38-42) || Lc 6,29-30 ³⁸“Vocês ouviram que foi dito: ‘Olho por olho, dente por dente’. ³ Eu, porém, lhes digo: Não se coloquem contra o malvado. Pelo contrário, se alguém lhe bater na face direita, ofereça-lhe também a outra. ⁴ E a quem quiser mover um processo contra você para lhe tirar a túnica, entregue a ele também o manto. ⁴¹Se alguém obrigar você a caminhar mil passos, vá com ele dois mil. ⁴²Dê a quem lhe pede, e não vire as costas a quem lhe solicita um empréstimo”. Outro mandamento abolido por Jesus toca o tema da vingança, formulado em Ex 21,24; Lv 24,20; Dt 19,21 (v. 38). A chamada “lei de talião” estabelece a devida proporção entre falta e castigo. Gn 4,24 diz que “se a vingança de Caim valia por sete, a de Lamec valerá por setenta e sete”, numa vingança brutal, descontrolada e ilimitada. “Olho por olho, dente por dente” significa um enorme progresso. O discípulo do Reino tem como tarefa quebrar a espiral da violência e opor-se com força ao maligno (gr. ponerós). A resistência acontece quando age de forma inesperada e choca o malvado ao oferecer a outra face quando lhe golpeia a face direita (v. 39), ao lhe entregar o manto quando lhe arranca a túnica (v. 40) e ao caminhar dois mil passos com ele quando se vê obrigado a caminhar mil (v. 41). E mais: o discípulo solidariza-se com os desvalidos e não vira as coisas aos necessitados de ajuda financeira (v. 42). São atitudes impactantes que desarmam o maligno e o deixam impotente. Por não saber o que fazer, sua maldade fica bloqueada e não tem possibilidade de desdobramentos. Amor aos inimigos (5,43-48) || Lc 6,27-28.32-36 ⁴³“Vocês ouviram que foi dito: ‘Ame seu próximo e odeie seu inimigo’. ⁴⁴Eu, porém, lhes digo: Amem seus inimigos e rezem por aqueles que perseguem vocês, ⁴⁵a fim de que vocês sejam filhos de seu Pai que está no céu. Porque ele faz seu sol nascer sobre malvados e bons, e faz chover sobre justos e injustos. ⁴ Pois, se vocês amarem somente aqueles que os amam, que recompensa terão? Até os cobradores de impostos não fazem isso? ⁴⁷Se vocês cumprimentam apenas seus irmãos, o que fazem de mais? Até os gentios não fazem isso? ⁴⁸Portanto, sejam perfeitos como é perfeito o Pai celeste de vocês”. Jesus mais uma vez surpreende ao superar a compreensão estreita de um preceito religioso: “Ame seu próximo e odeie seu inimigo” (v. 43). Lv 19,18 pode ser apresentado como fundamento do amor ao próximo. Quanto a odiar o inimigo, não se encontram traços desse mandamento na tradição bíblica. Contudo, o Mestre se detém sobre ele, propondo uma verdadeira revolução nas relações sociais. Longe de odiar o inimigo, o discípulo do Reino ama-o e reza por seus perseguidores, no esforço de agir como o Pai do Céu, em sua benevolência com todos os seres humanos (v. 44-45). Ele demonstra profundo amor por todos e não privilegia uns e pune outros. Eis por que o sol nasce para todos e a chuva derrama-se sobre todos, de modo a poderem usufruir os benefícios da criação, mesmo os malignos e os injustos. O modo de proceder do Pai dos Céus contrapõe-se ao daqueles que buscam recompensa no trato com o próximo e são seletivos ao privilegiarem os parentes e amigos (v. 46-47). Até os cobradores de impostos, tidos como pecadores públicos, e os gentios amam quem os ama e cumprimentam os de sua parentela e círculo de amizade. Exige-se dos discípulos do Reino irem muito além e se disporem a ter o Pai do Céus como modelo de ação. O v. 48 serve de chave de leitura e de conclusão para o conjunto de reinterpretações da Lei mosaica. O Pai celeste torna-se meta a ser visada no dia a dia do discipulado do Reino. O vocábulo grego traduzido por “perfeito”, téleios, deriva-se de télos, objetivo, meta, fim. Ser perfeito como o Pai significa espelhar-se em sua misericórdia no trato com a humanidade e se esforçar para, sempre e em tudo, encarnar seu modo de agir, colocando-o como meta a ser alcançada. O discípulo tem sempre motivos para dar novos passos e jamais pensar ter esgotado todas as possibilidades de seguir adiante. Cada dia será desafiado a buscar uma justiça superior àquela dos doutores da Lei e dos fariseus, ao superar a materialidade da letra da Lei e perceber para onde o Espírito aponta. A esmola (6,1-4) ¹“Cuidado para não praticarem a justiça de vocês diante das pessoas, para serem vistos por elas. Caso contrário, vocês não terão a recompensa do Pai de vocês que está nos céus. ²Quando der esmola, não mande tocar a trombeta à sua frente, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelas pessoas. Eu lhes garanto: Já receberam sua própria recompensa. ³Mas você, quando der esmola, a sua mão esquerda não saiba o que a sua direita está fazendo, ⁴de modo que a sua esmola seja dada em segredo. E seu Pai, que vê no segredo, recompensará você”. Tendo oferecido uma nova linha de interpretação da Lei mosaica, diferente da praticada pelos doutores da Lei, Jesus passa a reinterpretar três práticas de piedade muito caras aos fariseus: a esmola, a oração e o jejum. O Mestre indica o modo correto de vivê-las, distinto da tendência exibicionista em voga no movimento farisaico. Jesus enuncia um princípio norteador da piedade religiosa: não deve se mostrar com exibicionismo para granjear aplausos e elogios. Antes, deve acontecer sob o olhar do Pai que tudo vê e recompensa seus fiéis (v. 1). Quem busca o reconhecimento humano dispensa a recompensa divina. Quem se dá por satisfeito por ser bajulado pelos outros equivoca-se no seu caminho de fé. As práticas de piedade exigem discrição e escondimento. A esmola decorrente da fé expressa a solidariedade misericordiosa com o próximo. Constitui-se em mediação da bondade divina com os desprovidos do essencial para sobreviver. O sentido correto da esmola resulta de sua densidade teológica: Deus age em favor da humanidade sofredora por meio de quem abre as mãos para repartir. Todavia, existe a possibilidade de a esmola ser dada com ostentação, com os “piedosos” chamando a atenção “para serem glorificados pelas pessoas” (v. 2). Jesus chama de hipócrita quem se comporta dessa maneira, ao distribuir esmolas nas sinagogas e nas ruas, mandando que toquem trombeta para atrair a atenção dos passantes. O leitor-ouvinte sabe quem são os hipócritas referidos na denúncia: os doutores da Lei e fariseus duramente censurados em Mt 23. Por se contentarem com a admiração humana, a recompensa divina se torna dispensável. O discípulo do Reino distribui esmolas com atitude muito distinta. Mostra-se tão recatado a ponto de “sua mão esquerda não saber o que faz a mão direita” (v. 3). Na antropologia bíblica, a mão direita identifica-se com a prática do bem, a esquerda com a prática do mal. Uma não sabe o que faz a outra, pois a esmola foi dada em segredo, distante dos olhares curiosos por não se pretender granjear louvores (v. 4). Basta ter sido percebida pelo Pai, a quem compete conceder a correspondente recompensa. A oração (6,5-15) || Lc 11,2-4 ⁵“Quando rezarem, não sejam como os hipócritas. Eles gostam de rezar em pé nas sinagogas e esquinas das ruas,para serem vistos pelas pessoas. Eu lhes garanto: Já receberam a própria recompensa. Mas você, quando rezar, entre em seu quarto, feche a porta e reze a seu Pai que está em segredo. Seu Pai, que vê no segredo, recompensará você. ⁷E, ao rezar, não fiquem repetindo palavras inutilmente, como fazem os gentios. Eles pensam que serão ouvidos por causa do exagero de palavras. ⁸Não sejam como eles, porque o Pai de vocês conhece as necessidades de vocês, antes que vocês lhe peçam. Portanto, rezem assim: ‘Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome, ¹ venha o teu Reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu. ¹¹O pão nosso de cada dia dá-nos hoje, ¹²perdoa-nos nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos que nos devem, ¹³e não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal’. ¹⁴Porque, de fato, se vocês perdoarem as faltas das pessoas, também seu Pai celeste perdoará vocês. ¹⁵Mas, se vocês não perdoarem as pessoas, seu Pai também não perdoará as faltas de vocês”. A oração estabelece a relação do discípulo do Reino com o Pai. Relação de confiança! Eis por que as palavras brotam espontâneas do coração pronunciadas com total singeleza como um filho fala ao pai querido. O Pai, por sua vez, conhece o discípulo e suas necessidades, e estabelece com ele vínculos de cuidado e de proteção. Equivocam-se os hipócritas acostumados a fazer ostentação de fé ao rezarem “em pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas” para se mostrarem íntimos de Deus e serem bajulados (v. 5). A lisonja alheia já lhes serve de recompensa, dispensando-se a retribuição divina. O discípulo, no trato com o Pai, reza no silêncio do quarto, com as portas fechadas, longe dos olhares curiosos (v. 6). Basta-lhe estar sob o olhar benevolente do Pai. Por outro lado, evita transformar a oração em palavreado vazio, como se pretendesse convencer Deus pela quantidade de coisas saídas de sua boca num “exagero de palavras” (v. 7). Tudo inútil, pois o Pai bondoso tem conhecimento das necessidades de seus filhos (v. 8). O Mestre ensina os discípulos a rezar dirigindo ao Pai as palavras adequadas. O Pai-Nosso resume tudo quanto o discípulo anseia no trato com Deus e com o próximo. Deseja ver o nome do Pai dos Céus santificado, seu Reino acontecendo e sua vontade acatada em toda parte (v. 9-10). O discípulo nutre o desejo de um mundo totalmente orientado para o Pai e seu projeto de salvação para a humanidade. Em vista de um mundo melhor, pede ao Pai o alimento quotidiano, o perdão das faltas cometidas, a graça de não ceder à tentação e ser livrado do maligno (v. 11- 13). São os elementos essenciais para se viver em paz e concórdia, superando as desigualdades, as inimizades e as rixas, causadoras de divisão e de morte. A oração inspirada na justiça do Reino, evitando ser palavreado vazio, expressa o anseio de ver o mundo conformado com o querer do Pai, onde todos vivam a fraternidade no esforço da partilha e da comunhão. O orante tem os olhos fixos em Deus, mas também na realidade do outro com quem deve caminhar solidário. Rezar como discípulo consiste em se comprometer com a superação das injustiças e se empenhar para que o Reino de Deus aconteça. O evangelista aproveita para inserir dois temas transversais em sua catequese: o perdão e a reconciliação (v. 14-15). E o faz evocando a relação do orante com o Pai celeste: quem perdoa o próximo receberá o perdão paterno, quem não perdoa não receberá perdão. O trato como o próximo determina os acontecimentos no final da caminhada como discípulo do Reino (cf. Mt 18,35) em consonância com o pedido do Pai-Nosso: “Perdoa-nos nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos que nos devem” (v. 11). O discípulo lúcido pensa duas vezes antes de dirigir ao Pai esse pedido. O jejum (6,16-18) ¹ “Quando jejuarem, não façam cara de tristeza, como os hipócritas. Porque eles desfiguram o rosto, para que as pessoas vejam que estão jejuando. Eu lhes garanto: Já receberam a própria recompensa. ¹⁷Mas você, quando jejuar, perfume a cabeça e lave o rosto. ¹⁸Assim as pessoas não perceberão que você está jejuando, mas apenas seu Pai, em segredo. E seu Pai, que vê no segredo, o recompensará”. O jejum corresponde a um exercício de relação consigo mesmo em vista de dominar os próprios instintos e paixões. Implica colocar em ordem os sentimentos negativos, empecilhos para a prática da misericórdia. Ao jejuar, o discípulo do Reino dá mostras de ter o controle de si mesmo e demonstra-se capaz de banir o egoísmo de seu coração. Eis uma exigência incontornável para quem tem a justiça do Reino como projeto de vida. O falso jejum acontece de maneira hipócrita. O pretenso piedoso assume um semblante triste, com o rosto desfigurado, para se dar aparência ascética (v. 16). Tem a pretensão de ser visto, elogiado e tido na conta de santo. Existem pessoas incautas que se deixam impressionar pela exibição de santidade e não poupam elogios aos “homens de Deus”, que já se dão por satisfeitos. A recompensa do Pai dos Céus torna-se prescindível. O jejum verdadeiro supõe do discípulo agir de maneira diferente: lavar o rosto e perfumar-se para transmitir alegria e, assim, nem de longe as pessoas pensarem que esteja jejuando (v. 17). Então o Pai, que vê o segredo dos corações, lhe dará a justa recompensa por saber que o jejum representa um esforço real de domínio dos afetos desordenados (v. 18). Quem julga pelas aparências pode se equivocar. O tesouro (6,19-21) || Lc 12,33-34 ¹ “Não ajuntem para vocês riquezas na terra, onde traça e ferrugem corroem, e onde ladrões arrombam e roubam. ² Ajuntem sim para vocês riquezas no céu, onde nem traça nem ferrugem corroem, e onde ladrões não arrombam nem roubam. ²¹Porque, onde está o seu tesouro, aí também estará o seu coração”. Tendo reinterpretado a justiça dos doutores da Lei e a dos fariseus, sempre com a preocupação de instruir os discípulos no caminho do Reino, o evangelista reúne uma série de ensinamentos de Jesus referentes ao modo de proceder de quem aderiu ao Reino. Trata-se de advertências de como o discípulo deve se relacionar com Deus, com o próximo, consigo e com as criaturas. Cada ensinamento focaliza uma dessas vertentes, tendo como pano de fundo a vivência das demais, pois cada uma envolve as outras. Por exemplo, só se relaciona corretamente com Deus quem estabelece relações adequadas consigo, com o próximo e com as criaturas. O desafio consiste em aprender a arte de centrar-se no Reino de Deus e sua justiça em meio aos múltiplos afazeres e atividades. O discípulo supera a tentação de acumular riquezas (gr. thesaurós) desconsiderando os irmãos sofredores e pensando só em si. As riquezas terrenas podem enferrujar-se e ser roubadas (v. 19). Quem as acumula gastará tempo e energia para defendê-las, quem sabe com pouco sucesso. Jesus ensina a acumular riquezas no céu, onde estarão a salvo da traça, da ferrugem e dos ladrões (v. 20). As “riquezas do céu” correspondem ao que fazemos na terra e tem dimensões de eternidade. Isso acontece no trato compassivo com o próximo em suas necessidades, na luta pela construção do mundo querido por Deus, no empenho pela superação das injustiças e no esforço para perdoar e viver reconciliado. Tais são as riquezas a serem acumuladas pelo discípulo que confia inabalavelmente em Deus, esforça-se para ser “pobre com Espírito” (Mt 5,3) e supera a tentação da idolatria. O v. 21 faz uma constatação relevante: o coração do discípulo concentra-se naquilo que considera ser um tesouro para si. Na eventualidade de ambicionar tesouros terrenos, Deus estará fora de seu campo de interesse. Por conseguinte, o irmão dependente de cuidado e atenção lhe passará despercebido. O discípulo sensato sabe exatamente onde investir, por se guiar pelo querer do Pai. Os olhos (6,22-23) || Lc 11,34-36 ²²“A lâmpada do corpo é o olho. Portanto, se o seu olho for bom, seu corpo inteiro ficará iluminado. ²³Porém, se o seu olho for ruim, seu corpo inteiro ficará escuro. E se a luz que existe em você é escuridão, quão grande será a escuridão mesma!” Apureza de coração permite ao discípulo agir com transparência (v. 22). Seu olhar não terá malícia, de forma a se precaver contra as relações distorcidas com o próximo. A luminosidade do olhar puro deixa transparecer o íntimo do coração. Já o olhar malicioso projeta energias negativas a jorrar do íntimo de quem vive desconectado de Deus e provoca desconforto ao seu redor. A escuridão que o indivíduo tem dentro de si transborda de seu olhar. Um dito enigmático conclui esse bloco (v. 23). A luz transformada em escuridão permite fazer uma ideia do que seja escuridão. Se o discípulo não se esforça por conservar a luz oferecida pelo Pai e permite que se apague, está sujeito a romper com ele e se entregar ao terrível império das trevas com tremendas consequências. A sabedoria do Reino recomenda ter olhos puros e luminosos para se excluir a alternativa de ser envolvido pela escuridão. Ou Deus, ou o dinheiro (6,24) || Lc 16,13 ²⁴“Ninguém pode servir a dois senhores, pois odiará um e amará o outro, ou se apegará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro”. Esse versículo confronta o discípulo com uma decisão radical por Deus ou pelo dinheiro (v. 24). Essa opção está na origem do discipulado do Reino fundado na opção por Deus. O perigo de se bandear para a idolatria será constante. Daí a necessidade de cada dia renovar o compromisso com Deus para se manter firme no bom caminho. Uma tentação consiste em pretender servir a dois senhores. Segundo um ditado popular, seria “querer acender uma vela para Deus e outra para o Diabo”. Não há como escapar ao jogo de amor e ódio, apego e desprezo, fidelidade e infidelidade no trato simultâneo com dois senhorios. O discipulado do Reino exige amor exclusivo e total a Deus. Qualquer concessão ao inimigo do Reino está fora de cogitação (cf. Dt 6,5). A catequese evangélica apresenta ao discípulo o testemunho exemplar do Mestre Jesus e sua adesão incondicional ao Pai até a morte de cruz. Aprender das aves e dos lírios (6,25-34) || Lc 12,22-32 ²⁵“Por isso eu lhes digo: Não se preocupem com a vida de vocês, em relação ao que vão comer ou beber; nem com o corpo de vocês, em relação ao que vão vestir. Acaso a vida não vale mais que a comida, e o corpo mais que a roupa? ² Observem as aves do céu, que não semeiam, nem colhem, nem ajuntam em celeiros, e o Pai de vocês que está nos céus as alimenta. Por acaso vocês não valem mais que elas? ²⁷Quem de vocês, com suas preocupações, consegue prolongar a própria vida um pouco que seja? ²⁸E quanto à roupa, por que vocês se preocupam tanto? Aprendam com os lírios do campo, como crescem, eles que não trabalham nem fiam. ² E eu digo a vocês que Salomão, com toda a sua majestade, nunca se vestiu como um deles. ³ E se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é jogada no fogo, não fará muito mais por vocês, tão fracos na fé? ³¹Portanto, não vivam preocupados, dizendo: ‘O que vamos comer? O que vamos beber? Com que nos vestiremos?’ ³²Porque são os gentios que se preocupam com todas essas coisas. O Pai de vocês que está nos céus sabe que vocês precisam de tudo isso. ³³Busquem primeiro o Reino de Deus e sua justiça, e todas essas coisas ficarão garantidas para vocês. ³⁴Assim, não se preocupem com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá suas próprias preocupações. A cada dia basta o seu mal”. O discípulo do Reino tem “fome e sede de justiça” (cf. Mt 6,6). Daí sua postura de inteira liberdade diante das vicissitudes da vida e a recusa de cultivar preocupações desnecessárias em relação à comida, à bebida e ao vestuário (v. 25). Importa-lhe apenas a justiça do Reino em benefício do próximo, estando as carências pessoais em segundo plano. As aves do céu e os lírios do campo servem de metáfora para a confiança a ser depositada no Deus providente em cujas mãos está a vida dos discípulos. As aves sobrevivem independentes da agricultura por serem alimentadas pelo Pai (v. 26-27). Se o Pai cuida da sobrevivência delas, quanto mais se preocupará com a dos discípulos do Reino, que “valem mais do que elas”. A beleza dos lírios do campo igualmente independe do trabalho dos tecelões, pois o Pai os reveste com uma beleza superior à das vestimentas do grande rei Salomão (v. 28-30). Por mais suntuosas que tivessem sido suas roupas, jamais se igualaram à beleza dos lírios, “que não trabalham nem fiam”. Segue-se uma evidente conclusão: se Deus trata com tanto carinho as aves do céu e os lírios do campo na sua fragilidade, quanto mais afeição terá pelos discípulos do Reino! Só os “fracos na fé” se atormentam por comida, bebida e vestimenta, como fazem os pagãos (v. 31-32). O Pai conhece bem as necessidades dos discípulos do Reino e cuida deles com extremo amor. O v. 33 contém uma admoestação grave para quem optou se pautar pela justiça do Reino: “Busquem primeiro o Reino de Deus e sua justiça, e todas essas coisas ficarão garantidas para vocês”. A única preocupação do discípulo consistirá em fazer a vontade do Pai e enfrentar a tentação do consumismo, do materialismo e da segurança (cf. Mt 6,10). Fazendo o essencial, poderá se tranquilizar, porquanto todas as demais carências serão satisfeitas. O v. 34 relaciona-se com o pedido do Pai-Nosso: “o pão nosso de cada dia dá- nos hoje” (v. 11). Nada de se atribular com a comida, a bebida e a vestimenta de amanhã! O discípulo vive cada dia com intensidade e responsabilidade, sabendo- se protegido pelo amor e pelo cuidado do Pai. Seria equivocado entender a catequese mateana como se ensinasse a cruzar os braços e esperar que tudo caia do céu por obra da Providência, numa espécie de fideísmo insensato. Essa leitura enviesada distancia-se do objetivo da catequese evangélica. Nessa o discípulo dá tudo de si e se empenha com toda força para ser “sal da terra” e “luz do mundo”, com a consciência de ter quem o proteja (cf. Mt 5,13-16). “A cada dia basta o seu mal (gr. kakía)” tem o sentido de desaconselhar a ousadia de querer alterar a sequência dos fatos com o resultado de antecipar sofrimentos. As coisas podem acontecer de modo muito distinto do esperado. O discípulo sábio evita sofrer por antecipação. Não julgar (7,1-6) || Lc 6,37-38.41-42 ¹“Não julguem, para não serem julgados. ²Pois vocês serão julgados com o julgamento com que julgarem, e serão medidos com a medida com que medirem. ³Por que você repara no cisco que está no olho de seu irmão, e não percebe a trave que está em seu próprio olho? ⁴Ou como poderá você dizer a seu irmão: ‘Deixe que eu tire o cisco de seu olho’, quando você tem no seu uma trave? ⁵Hipócrita! Tire primeiro a trave de seu olho, e então você verá bem para tirar o cisco do olho de seu irmão. Não deem aos cães o que é sagrado, nem joguem as pérolas de vocês aos porcos, para que eles não as pisem e, voltando-se, despedacem vocês”. A exortação de Jesus: “Não julguem, para não serem julgados” tem um sentido forte (v. 1). Refere-se à ousadia de querer definir a sorte eterna de alguém, sua salvação ou condenação. O verbo grego kríno, traduzido por julgar, refere-se à ação definitiva de Deus na existência humana, nada tendo que ver com os julgamentos banais por uma coisinha qualquer. Quem se acha no direito de decidir quem se salvará ou não, tem o atrevimento de assumir o papel de juiz escatológico na vida alheia (cf. Mt 25,31-46). As lideranças das comunidades religiosas são propensas a cair nessa tentação. A severidade de Jesus expressa-se nas consequências que os julgamentos acarretam. Os juízes inclementes serão julgados com a mesma dureza com que tratam os semelhantes (v. 2). Portanto, a misericórdia se recomenda quando se pretende ser acolhido por Deus no final da caminhada. O “Venham, benditos do meu Pai” terá como contrapartida o “Afastem-se de mim, malditos”, por ocasião do juízo definitivo (cf. Mt 25,34.41). Só o Messias Juiz tem o direito de decidir sobre salvação e condenação, ninguém mais. A sabedoria do Reino ensina ao discípulo fazer autocrítica antes de se dar o direito de criticar (v. 3-5). Uma atitude hipócritaconsiste em perceber e denunciar uma pequena falta do outro, quando se leva uma vida nada recomendável, repleta de atitudes condenáveis. A metáfora do cisco e da trave ilustra essa falsa conduta. O indivíduo vê o cisco no olho alheio e não se dá conta da trave cravada no próprio olho. Será preciso tirar a trave que carrega consigo para estar em condições de ver o cisquinho no olho do próximo. Logo, antes de criticar, torna-se imprescindível se autocriticar! O v. 6, um dito independente, pode parecer obscuro para os leitores-ouvintes atuais. Uma explicação plausível parte da bem-aventurança da perseguição e se refere aos discípulos em missão (cf. Mt 5,10). Não dar aos cães as coisas sagradas, tampouco jogar pérolas aos porcos, “para que eles não as pisem e, voltando-se, despedacem vocês”, seria a atitude sensata de evitar falar do Reino a pessoas fechadas para acolhê-lo (v. 6). Será grande a chance de se revoltarem contra os discípulos-apóstolos e violentá-los. Mt 10,14 dá uma orientação bem prática para essas situações. Na eventualidade de serem rejeitados, os discípulos- apóstolos sacudirão o pó dos pés e se afastarão da cidade, da casa ou da pessoa refratária. Confiança na bondade do Pai (7,7-11) || Lc 11,9-13 ⁷“Peçam, e lhes será dado. Procurem, e encontrarão. Batam, e lhes será aberto. ⁸Pois todo aquele que pede recebe, quem procura encontra, e a quem bate se abrirá. Quem dentre vocês, se seu filho lhe pede pão, lhe dará uma pedra? ¹ Ou, se lhe pede um peixe, lhe dará uma cobra? ¹¹Então, se vocês que são maus sabem dar coisas boas aos próprios filhos, quanto mais o Pai de vocês que está nos céus dará coisas boas àqueles que lhe pedirem!” Esse conjunto de ensinamentos deve ser lido tendo como pano de fundo Mt 6,25- 34, onde se falou da preocupação do Pai por cada um de seus filhos comprometidos com o Reino. A busca da justiça do Reino está sempre no horizonte do discípulo (cf. Mt 6,33). A temática centra-se aqui na relação de familiaridade com o Pai, diante de quem o discípulo pode abrir o coração em suas dificuldades (v. 7). E será atendido, pois a bondade do Pai não lhe permite agir de forma diferente (v. 8). A comparação com uma situação humana ajuda a compreender o modo de agir divino. Nenhum pai minimamente sensato dará uma pedra ao filho que lhe pede um pão, tampouco lhe dará uma cobra se pedir um peixe (v. 9-10). Se acontece assim no plano das relações pai-filho, em nível terreno, quanto mais em se tratando do Pai celeste, que reserva apenas coisas boas (gr. agathá) para os filhos que se refugiarem junto a ele (v. 11). A “regra de ouro” (7,12) || Lc 6,31 ¹²“Portanto, façam às pessoas o mesmo que vocês desejam que elas façam a vocês. Esta é, de fato, a Lei e os Profetas”. A frase lapidar de Jesus de certo modo retoma e sintetiza todo o conteúdo do Sermão da Montanha (v. 12). O discípulo do Reino age sempre pensando no bem do próximo. O esforço de se comportar em relação ao outro da mesma forma que se espera que ele se comporte motiva o discípulo a ser extremamente cordial e misericordioso no trato com o semelhante. Fica descartado tudo quanto possa lhe causar dano. Por isso pensará duas vezes antes de qualquer atitude e se decidirá pelo que resultar em maior benefício para o outro. Essa pauta de ação sugere que todas as pessoas podem confiar no discípulo do Reino, por estar descartado o risco de serem decepcionadas. Por ser “puro de coração”, abominará as segundas intenções e agirá com transparência. Por ser “misericordioso”, jamais cogitará qualquer perversidade em suas ações. Por ser “pacífico”, buscará sempre a reconciliação e a superação do ódio. Por ter “fome e sede de justiça”, se solidarizará com os oprimidos e marginalizados. Por conseguinte, fazer às pessoas o que se deseja que façam constitui-se no modo de proceder almejado pelos bem-aventurados. Duas portas, dois caminhos (7,13-14) || Lc 13,24 ¹³“Entrem pela porta estreita, porque é largo e espaçoso o caminho que leva para a perdição. E são muitos os que tomam esse caminho. ¹⁴Como é estreita a porta e apertado o caminho que leva para a vida! E são poucos os que o encontram”. Começa aqui uma série de advertências em forma de contraposição. São ilustrações das escolhas a serem feitas pelo discípulo do Reino. A cada momento será desafiado por duas alternativas, devendo decidir-se em vista da continuação da caminhada. Nada está definitivamente decidido! Uma opção pelo caminho certo pode dar lugar à opção pelo caminho equivocado. Existe, porém, a possibilidade de voltar ao bom caminho no desenrolar da caminhada. Essa situação acompanhará o discípulo até o fim de sua vida. Sua história de discípulo do Reino em última análise se constrói pelas múltiplas decisões feitas ao longo da vida. A primeira ilustração contrapõe a porta estreita ao caminho largo e espaçoso (v. 13-14; cf. Sl 1; Dt 30,15). A primeira leva à vida, o segundo à perdição. A observação de que muitos preferem o caminho da perdição dá o que pensar! A porta estreita corresponde aos ensinamentos do Mestre concentrados no Sermão da Montanha. Como é difícil oferecer a face esquerda a quem esbofeteia a direita (cf. Mt 5,39)! Igualmente, amar os inimigos e rezar pelos perseguidores (cf. Mt 5,44), dar esmolas com absoluta gratuidade (cf. Mt 6,3), abster-se de julgar (cf. Mt 7,1) e tantas outras exigências do modo de proceder do Reino. O discípulo autêntico, consciente de ser esta a justiça do Reino, resiste à tentação de escolher o caminho facilitado da vingança, do ódio, da piedade exibicionista e da maledicência. Atenção com as aparências! (7,15-20) || Lc 6,43-44 ¹⁵“Cuidado com os falsos profetas! Eles se aproximam de vocês disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos ferozes. ¹ Vocês os reconhecerão pelos frutos deles. Acaso se colhem uvas de espinheiros ou figos de cardos? ¹⁷Toda árvore boa produz frutos bons, e toda árvore ruim produz frutos ruins. ¹⁸Uma árvore boa não pode dar frutos ruins, nem uma árvore ruim dar frutos bons. ¹ Toda árvore que não dá fruto bom é cortada e jogada no fogo. ² De modo que vocês os reconhecerão pelos frutos deles”. A segunda ilustração contrasta os verdadeiros e os falsos profetas (v. 15). A advertência volta-se contra os membros da comunidade que dissimuladamente se apresentam como se fossem ovelhas, mas na realidade são lobos cruéis. O falso profeta distorce os ensinamentos do Mestre, adaptando-os ao gosto dos ouvintes. Conseguem enganar os incautos, ao revestir suas mentiras com palavras capciosas que os confundem e os levam a considerar verdadeiras suas falsidades contrárias aos desígnios do Pai. Um bom exemplo dessa postura foi o atrevimento de Pedro ao repreender Jesus quando falava de sua paixão e morte. O Mestre repeliu-o como um Satanás, por não pensar segundo Deus, e sim conforme a mentalidade mundana (cf. Mt 16,21-23). O Mestre oferece um critério para desmascarar os falsos profetas: verificar os frutos de seus ensinamentos (v. 16-18). Ou então as consequências do que dizem. Levam a uma fidelidade mais radical ao querer de Deus? Sintonizam as orientações do Mestre e motivam a lhe seguir os passos? A metáfora da árvore e seus frutos corresponde a uma imagem excelente da avaliação a ser feita pelo discípulo às voltas com os falsos profetas. Como uma árvore boa jamais produzirá frutos ruins e, ao revés, uma árvore ruim produzirá frutos bons, da mesma forma um falso profeta de modo nenhum conduzirá o discípulo no caminho da justiça do Reino. Antes, fá-lo-á perder-se em atalhos que o afastarão sempre mais do caminho de Deus. A metáfora do v. 19 sugere uma atitude urgente a ser tomada na comunidade dos discípulos do Reino. Os falsos profetas, com sua ação corruptora, serão reconhecidos e banidos, como acontece com toda árvore estéril que, por não produzir frutos bons, é cortada e lançada no fogo. Contemporizar com eles poderá ter efeitos desastrosos para a comunidade. Entretanto, será preciso certificar-se de que são perniciosos para a comunidade. Com muito discernimento se avaliará o seu fruto, demodo a evitar condenações precipitadas (v. 20). O verdadeiro discípulo (7,21-23) || Lc 13,25-27 ²¹“Nem todo aquele que me diz ‘Senhor, Senhor!’ entrará no Reino dos Céus, e sim aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus. ²²Muitos vão me dizer naquele dia: ‘Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizamos, em teu nome que expulsamos demônios, em teu nome que fizemos tantos milagres?’ ²³Então eu vou declarar a eles: “Nunca conheci vocês. Afastem-se de mim, vocês que praticam a maldade”. A terceira ilustração diz respeito ao verdadeiro e ao falso discípulo. Equivoca-se quem pensa que o simples “Senhor, Senhor” garante a entrada no Reino dos Céus (v. 21). O vocativo Senhor (gr. kýrios), maneira como na catequese mateana os discípulos e as pessoas de fé se dirigem a Jesus (cf. Mt 9,29; 14,28; 17,4), pode criar a falsa consciência de ser discípulo fiel, quando alguém chama o Mestre de “Senhor” desprovido do desejo de lhe dar ouvido. São discípulos da boca para fora, tendentes a corromper quem se dispõe a abraçar o Reino de coração (cf. Is 29,13; Mt 15,7-9). A acolhida no Reino dos Céus decorre do esforço de cumprir com fidelidade o querer do Pai sintetizado no Sermão da Montanha. Nele se encontram pautas de ação bem objetivas e claras, de modo a se evitarem mal-entendidos. Os tendenciosos desvirtuam os ensinamentos do Mestre e os contaminam com ideias enviesadas. Enganam-se por caminharem na direção oposta daquele a quem se dispuseram a seguir. O v. 22 pode chocar os leitores-ouvintes. Como imaginar o caso de um discípulo profetizar, expulsar demônios e realizar muitos milagres “em nome” do Senhor e “naquele dia” ser veementemente rechaçado (cf. Mt 25,41-45)? Se realizou tantas coisas boas em favor do próximo, que sentido tem ser deixado fora do Reino? O Mestre estaria sendo injusto ao não reconhecer e não recompensar o bem realizado pelo discípulo? De que má conduta pode ser acusado? O v. 23 gera perplexidade. O Mestre dirá na cara dos falsos discípulos: “Nunca conheci vocês”. O “em teu nome” do versículo anterior, portanto, era infundado. Faziam o bem para serem vistos e elogiados (cf. Mt 6,1.5.16). E já receberam a recompensa almejada: o reconhecimento humano. Por isso as palavras terríveis: “Afastem-se de mim, vocês que praticam a maldade”. As portas do Reino se fecharão para eles. Todas suas ações são maldade (gr. anomía). A palavra anomía indica não terem seguido a “lei” (gr. nómos) do Reino; antes, guiaram-se pela própria cabeça. O ensinamento do Mestre foi deixado de lado. Ao invés de agirem no escondido e com discrição, deixavam-se levar pela busca de aplausos, de modo a ultrapassar as balizas postas pelo Mestre Jesus. A frustração virá na certa (cf. Mt 22,11-14)! Casa sobre a rocha (7,24-27) || Lc 6,47-49 ²⁴“Portanto, quem ouve essas minhas palavras e as põe em prática, será comparado a um homem de juízo que construiu sua casa sobre a rocha. ²⁵A chuva caiu, vieram as enxurradas, os ventos sopraram e bateram contra essa casa, e ela não caiu, porque estava alicerçada sobre a rocha. ² Ao contrário, quem ouve essas minhas palavras e não as põe em prática, será comparado a um homem sem juízo que construiu sua casa sobre a areia. ²⁷A chuva caiu, vieram as enxurradas, os ventos sopraram e bateram contra essa casa, e ela caiu, e foi terrível a sua ruína”. A série de ilustrações conclui-se com uma espécie de parábola que contrapõe “um homem de juízo” (gr. phrónimos) a “um homem sem juízo” (gr. morós). O primeiro assemelha-se a quem constrói a casa sobre a rocha, capaz de resistir a toda sorte de chuva, enxurradas e ventos impetuosos. Nada será suficientemente forte para abalá-la (v. 24-25). Refere-se ao discípulo consciente da opção feita com lucidez e consistência. Procede daí a capacidade de resistir às ciladas dos adversários, vindas com força de todas as partes. Enfrentará impávido a todas elas! A vida do Mestre constitui-se em testemunho inquestionável de casa construída sobre a rocha. Nem a morte de cruz o desviou da fidelidade inabalável ao Pai do céu. O segundo corresponde a quem insensatamente constrói a casa sobre a areia (v. 26-27). As chuvas, as enxurradas e os ventos batem contra ela, causando uma ruína total. Assim acontece com os discípulos que abraçaram o Reino de forma precipitada, esquecendo-se de ponderar sua capacidade de pagar o preço da opção. Nos momentos de provação, mostram-se inaptos para enfrentar as tribulações e as perseguições e se manter de pé (cf. Mt 13,20-21). O discípulo Judas Iscariotes encarna a imagem do discípulo “sem juízo”, cujo fim assemelhou-se a uma casa à qual faltam alicerces, reduzida a escombros após a passagem do furacão representado pela paixão e morte do Mestre (cf. Mt 27,3- 10). As várias ilustrações colocam os discípulos diante da urgência de reforçar a opção pelo Reino feita com discernimento, responsabilidade e disposição para permanecer firme, custe o que custar. A virtude da perseverança se recomenda! Multidões maravilhadas (7,28-29) ²⁸Quando Jesus terminou essas palavras, as multidões estavam maravilhadas com seu ensinamento. ² Porque ele as ensinava com autoridade, e não como os seus doutores da Lei. A frase “quando Jesus terminou essas palavras” (v. 28), ou semelhantes, ocorrerá outras quatro vezes na catequese de Mateus (cf. Mt 11,1; 13,53; 19,1; 26,1) como fórmula de conclusão dos cinco grandes discursos vertebradores do evangelho. O Mestre Jesus pouco a pouco instrui a comunidade dos discípulos em vista de enviá-los como missionários pelo mundo inteiro, ao mesmo tempo em que apresenta publicamente o projeto de Reino às multidões. Suas palavras deixam- nas extasiadas, pois em momento algum ouviram alguém ensinar com tamanha autoridade (gr. exousia), livre para repensar a Lei mosaica. Reconheceram haver nele uma força divina que o capacitava a instruí-las de modo muito distinto do praticado pelos doutores da Lei (v. 29). Para reflexão e debate 1. O que mais chama a atenção no projeto de vida proposto por Jesus aos discípulos do Reino no Sermão da Montanha? 2. Sob que aspectos a justiça do discípulo do Reino supera a dos doutores da Lei e dos fariseus, considerando os tópicos aludidos por Jesus no Sermão da Montanha? II. MANIFESTAÇÕES DO REINO (Mt 8-10) 1. Narração: Justiça e misericórdia Mt 8 e 9 concentram uma série de gestos poderosos de Jesus para respaldar seus ensinamentos. O Mestre realiza-os por ser Messias por palavras e Messias por obras (cf. Mt 4,23; 9,35). As obras tornam credíveis as palavras. Os gestos poderosos de Jesus evocam para os leitores-ouvintes da catequese mateana o líder do passado, Moisés, guiado por Deus na sua contenda com o faraó (cf. Ex 7,14–11,10). Os grandes feitos do passado acontecem no presente pela ação do Messias Jesus. Como na origem do antigo Israel estão os feitos espetaculares realizados para dissuadir o tirano egípcio disposto a eliminar o povo de Deus, Jesus opera prodígios no processo de formar o verdadeiro Israel. O evangelista mais uma vez apresenta-o como verdadeiro Moisés para sua comunidade, cuja grande maioria provinha do judaísmo. Cura do leproso (8,1-4) || Mc 1,40-45; Lc 5,12-16 ¹Quando Jesus desceu da montanha, grandes multidões o seguiam. ²Eis que um leproso se aproximou e prostrou-se diante dele, dizendo: “Senhor, se queres, tens o poder de me purificar”. ³Jesus estendeu a mão e, tocando nele, disse: “Eu quero. Fique purificado”. Imediatamente ele ficou purificado da lepra. ⁴Então Jesus lhe disse: “Não conte a ninguém. Mas vá apresentar-se ao sacerdote e leve a oferta que Moisés ordenou, como prova para eles”. As multidões seguem Jesus e testemunham tudo quanto faz com a possibilidade de dar o passo da fé e se tornarem discípulos (v. 1). A etapa seguinte consistirá em abraçar a tarefa de continuar a missão do Mestre como apóstolos- missionários (cf. Mt 28,19) por todo o mundo, colocando em prática o que aprenderam com ele. A cura de um leproso abre a série de gestos poderosos. Violando a lei que exigia permanecer fora da cidadepara evitar o contato com as pessoas (cf. Lv 13,45- 46), o doente aproxima-se de Jesus e se prostra diante dele, como fizeram os magos (cf. Mt 2,11), num gesto de adoração (v. 2). O vocativo “Senhor” (gr. kýrios) revela-lhe a disposição interior em relação a Jesus, acolhido na condição de Messias. “Se queres” tem um quê de humildade, no sentido de deixar nas mãos do Mestre o atender ou não seu pedido de ser purificado. Purificado, pois as doenças eram consideradas impurezas que tornavam as pessoas incapacitadas para as coisas da religião, como se Deus as tivesse punido e descartado. A cura significava purificação e a consequente recuperação de seus direitos religiosos e sociais no retorno ao convívio social. Jesus também infringe a lei religiosa quando estende a mão e toca o leproso (v. 3). O toque implicava contrair a impureza alheia e, por consequência, incapacitar-se para o culto. Porém, em se tratando de restituir a dignidade àquele homem marginalizado, Jesus pensa no bem dele e deixa de lado os tabus religiosos, como fizera ao reinterpretar a Lei mosaica (cf. Mt 5,21-48). Com uma ordem carregada de autoridade, Jesus expressa o desejo de ver aquele homem livre da lepra e, com ela, de todas as discriminações lançadas sobre ele. Ser purificado significa ser salvo e reintegrado na sociedade e na religião. A ordem de Jesus ao homem curado (v. 4) comporta a exigência de discrição, reflexo do ensinamento de fazer o bem em segredo (cf. Mt 6,3-4), e o respeito à Lei, que atribuía ao sacerdote a tarefa de reconhecer a cura das doenças, declarar a pureza das pessoas e prescrever a oferta ritual correspondente (cf. Lv 14,1-32). Cura do criado de um centurião (8,5-13) || Lc 7,1-10; Jo 4,43-54 ⁵Quando Jesus entrava em Cafarnaum, aproximou-se dele um centurião, suplicando e dizendo: “Senhor, meu criado está de cama em casa com paralisia, e sofre terrivelmente”. ⁷Jesus lhe disse: “Eu irei, e o curarei”. ⁸O centurião respondeu: “Senhor, eu não sou digno de que entres sob meu teto. Basta, porém, que digas uma palavra, e meu criado ficará curado. Porque eu também tenho superiores, e tenho soldados sob meu comando. Quando digo a um ‘vá!’, ele vai. Quando digo a outro ‘venha!’, ele vem. E quando digo ao meu criado ‘faça isso’, ele o faz”. ¹ Ouvindo isso, Jesus ficou admirado e disse aos que o seguiam: “Eu lhes garanto: Em Israel não encontrei ninguém que tivesse tanta fé. ¹¹Mas eu lhes digo: Muitos virão do oriente e do ocidente e se assentarão com Abraão, Isaac e Jacó no Reino dos Céus, ¹²ao passo que os filhos do Reino serão expulsos para a escuridão. Aí haverá choro e ranger de dentes”. ¹³Então Jesus disse ao centurião: “Vá, e lhe aconteça como você acreditou”. E nessa mesma hora o criado ficou curado. O contato de Jesus com o centurião, oficial romano comandante de uma guarda de cem soldados, corresponde a um tema transversal da catequese mateana: a boa vontade dos pagãos em aderir ao Reino dos Céus anunciado por Jesus e, na direção contrária, a má vontade da liderança religiosa judaica em reconhecê-lo como Messias. O centurião aproxima-se de Jesus preocupado com a doença de um criado e lhe faz uma súplica (v. 5-6). Três coisas chamam a atenção. (a) O centurião dirige-se a Jesus com o título de “Senhor” (gr. kýrios), linguagem peculiar dos discípulos ou de quem está aberto para acolher o Reino. (b) Trata-se do superior preocupado com a situação do subalterno num contexto de rígida hierarquia. O centurião pauta-se pela ética do discipulado do Reino, pois, sendo grande, faz-se servidor, como o Filho do Homem que veio para servir (cf. Mt 20,26-28). (c) A paralisia, pela qual o criado “sofria terrivelmente”, imobilizava-o e o tornava dependente. O centurião empenha-se para libertá-lo daquela situação e restituir- lhe a independência e, com ela, a dignidade humana. A atitude misericordiosa daquele “pagão” move Jesus a intuir seu desejo, já que se limitou a comunicar-lhe um fato, como se o pedido estivesse embutido na comunicação. O Mestre dispõe-se a ir até o paralítico para curá-lo (v. 7). Ou melhor, para salvá-lo por ter como missão libertar o ser humano de todos os empecilhos para fazer o bem. O centurião tem uma reação surpreendente (v. 8-9). Está convencido de ser desnecessário o “Senhor” ir à sua casa para curar seu criado. Uma palavra dita de longe terá tanto poder curativo quanto a palavra dita de perto. O centurião compara a força das palavras que dirige aos subordinados com a força da palavra de Jesus, cujo poder de curar doenças e enfermidades poderá se manifestar em benefício do servo distante, independentemente da presença física. Jesus admira-se com a profundidade da fé daquele homem, jamais encontrada em algum israelita (v. 10). Essa observação desarticula todo atrevimento de desprezar os não judeus e acusá-los de práticas “idolátricas”, como se estivessem distantes de Deus. Uma pessoa pode estar a serviço do Império Romano e sua ideologia, mas não se deixar contaminar por atitudes desumanizadoras. Aquele centurião tornava-se um exemplo consumado de liberdade em face da arrogância difundida em seu ambiente imperial e militar. O Mestre continua a manifestar sua surpresa chamando a atenção para os que vêm de longe para se assentar no Reino dos Céus com os grandes patriarcas de Israel, enquanto “os filhos do Reino” perderão a chance de se beneficiar de seu privilégio (v. 11-12; cf. Mt 2,1-12). Terão como sorte serem inexoravelmente excluídos do Reino e lançados na “escuridão”. O criado do centurião recebe o benefício da cura no mesmo instante em que o Mestre está falando (v. 13). A recuperação do paralítico decorre da fé do centurião no poder do Messias Jesus. Muitos outros “pagãos” como ele têm sensibilidade para as coisas do Reino dos Céus. Os discípulos, quando chegar a hora de saírem em missão, deverão ter sempre diante de si essa realidade, de modo a jamais fazerem acepção de pessoas. A sogra de Pedro e outras curas (8,14-17) || Mc 1,29-34; Lc 4,38-41 ¹⁴Quando Jesus chegou à casa de Pedro, viu a sogra dele de cama com febre. ¹⁵Jesus pegou a mão dela, e a febre a deixou. Ela se levantou e começou a servi- lo. ¹ Ao entardecer, levaram a Jesus muitos endemoninhados. E ele, com uma palavra, expulsou os espíritos e curou todos os que estavam doentes. ¹⁷Assim se cumpriu o que fora anunciado pelo profeta Isaías: “Ele assumiu nossas fraquezas e carregou nossas doenças”. Mais uma vez Jesus quebra os tabus religiosos. Já havia tocado o leproso e elogiado a grandeza da fé de um pagão. Agora cura uma mulher pegando-lhe a mão. Trata-se da sogra de um dos discípulos, que sofria com uma febre terrível. A enfermidade a deixava imobilizada, impossibilitada de fazer os serviços domésticos, mas também de cumprir os deveres de hospitalidade (v. 14). A mulher fica curada da febre quando Jesus segura sua mão. Seu primeiro gesto de bondade dirigiu-se a Jesus, que a havia curado. Ao se levantar da cama, pôs-se a servi-lo, sinal verdadeiro da cura: tornou-se servidora do Messias Jesus (v. 15). Outro indício de ter sido salva por ele é ter passado da dependência ao serviço, da inação à atividade, da marginalização ao protagonismo. O v. 16 faz um apanhado da ação taumatúrgica de Jesus, pela qual as pessoas são libertadas do influxo pernicioso dos maus espíritos e das doenças e seus nefastos desdobramentos sociais e religiosos. A presença do Messias Jesus descortina um horizonte de esperança para todos os que se aproximam dele, dentre os quais os pagãos. A observação temporal “ao entardecer” pode ter um sentido metafórico. Quando o sol se põe, um novo amanhecer desponta na vida daquelas pessoas. Brilha uma luz para tirá-las da escuridão (cf. Mt 4,16). O narrador entende a ação de Jesus com a profecia de Isaías como pano de fundo (v. 17). Quando fala do Servo de Javé, declara que carregava sobre si nossas doenças e levava nas costas nossas dores (cf. Is 53,4). Todavia, na catequese mateana, o texto profético tem um significado distinto. Jesus, no decorrer do seu ministério, simplesmente eliminouas doenças e enfermidades que oprimiam as pessoas e as faziam sofrer. O “sofrimento vicário” – sofrer no lugar de outrem – do Servo de Javé torna-se intervenção libertadora no ministério do Messias Jesus. Disposição para o seguimento radical (8,18-22) || Lc 9,57-62 ¹⁸Vendo a multidão ao seu redor, Jesus mandou que partissem para a outra margem. ¹ Então um doutor da Lei se aproximou e lhe disse: “Mestre, eu te seguirei aonde quer que fores”. ² Jesus lhe disse: “As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça”. ²¹Outro de seus discípulos lhe disse: “Senhor, permite que eu vá primeiro sepultar meu pai”. ²²Jesus lhe disse: “Siga-me, e deixe que os mortos enterrem seus mortos”. Jesus era um Mestre itinerante. Cafarnaum, cidade à beira do lago de Genesaré, funcionava como base de suas muitas andanças, sempre acompanhado de multidões a quem instruía, em vista de abraçarem o discipulado do Reino e, com ele, levar adiante a missão recebida do Pai (v. 18). Muitas pessoas tiveram a intenção de se tornar discípulos. Os dois casos aqui narrados referem-se a duas de muitas situações semelhantes com as quais o Mestre deparou, quando pessoas o procuravam com o desejo de se tornarem discípulas. O primeiro episódio apresenta um doutor da Lei decidido a segui-lo “aonde quer que fosse” (v. 19). O vocativo “Mestre”, na catequese mateana, indica faltar-lhe abertura de coração para o discipulado. A resposta de Jesus toca um ponto que talvez o doutor da Lei não tivesse considerado. Os discípulos do Reino nos passos do Filho do Homem optam por viver na pobreza, em grau tão elevado de insegurança, desconhecido até mesmo pelos animais dos campos. O Filho do Homem não tem lugar certo para descansar, enquanto as raposas têm tocas e as aves do céu, ninhos (v. 20). O discípulo se dispõe, nas longas caminhadas com o Mestre, a fazer a mesma experiência de pobreza e insegurança. O doutor da Lei predispunha-se a um estilo de vida tão radical? O segundo episódio tem outra impostação. Um discípulo já comprometido com o Mestre (por isso o chama de “Senhor”) condiciona o seguimento a um dever de piedade filial (sepultar o pai) como forma de honrá-lo (v. 21; cf. Ex 20,12; Dt 5,16). A resposta do Mestre soa muito dura, como se o discipulado exigisse virar as costas para os genitores, negando-lhes algo requerido pelo bom senso (v. 22). O discipulado do Reino realmente tem como condição deixar tudo quanto for empecilho para abraçá-lo total e imediatamente, como se passara com os primeiros discípulos (cf. Mt 4,20.22). Protelar a resposta ao chamado do Mestre à espera da morte e do sepultamento do pai está fora de cogitação para quem se dispõe a ser discípulo do Reino. Haverá quem tome essa providência como obra de misericórdia no momento oportuno. Com essa certeza, o discípulo pode seguir confiante seu caminho! A tempestade acalmada (8,23-27) || Mc 4,35-41; Lc 8,22-25 ²³Jesus subiu na barca, e seus discípulos o seguiram. ²⁴Eis que no mar houve uma violenta tempestade, a tal ponto que a barca estava sendo coberta pelas ondas. Jesus, porém, dormia. ²⁵Então os discípulos se aproximaram e o acordaram, dizendo: “Senhor, salva-nos! Estamos morrendo!” ² Jesus lhes disse: “Por que vocês são medrosos, tão fracos na fé?” Então, levantando-se, ameaçou os ventos e o lago, e houve grande calmaria. ²⁷Os homens ficaram espantados e diziam: “Quem é este, a quem até os ventos e o mar obedecem?” A caminhada do Mestre com os discípulos continua, agora em circunstâncias terrivelmente adversas (v. 23-24). Estão atravessando o lago de Genesaré, chamado de mar (gr. thálassa), quando uma tormenta de grandes proporções os surpreende. O barco está na iminência de afundar, coberto por imensas ondas. Um detalhe: Jesus dorme tranquilamente! O desespero dos discípulos se contrasta com a serenidade do Mestre, que se mantém em paz, apesar do mar revolto. Os discípulos acordam-no e suplicam serem salvos pela imediata intervenção do Mestre, por estarem na iminência de morrer (v. 25). O vocativo “Senhor” expressa confiança no poder de tirar-lhes daquele apuro. O pedido de socorro (“Salva-nos!”) evoca sua missão peculiar de salvador (cf. Mt 1,21). Os discípulos têm a plena confiança de terem consigo quem pode livrá-los do iminente naufrágio fatal. O Mestre desperta e censura-lhes o medo e a fraqueza na fé. Em seguida, atende- lhes o pedido com uma ordem carregada de autoridade dirigida aos elementos da natureza (“os ventos e o mar”), que o obedecem de imediato (v. 26). Na tradição bíblica o medo contrapõe-se à fé. Os discípulos medrosos carecem de fé e seu desespero, embora tendo o Mestre junto de si, demonstra a pequenez de sua fé (gr. oligópistoi). A presença do Mestre deveria despertar confiança e esperança numa situação em que a morte está à porta. O discipulado exige a consciência de ter sempre consigo o Mestre (cf. Mt 28,20). Nos momentos tenebrosos de perseguição, essa consciência se faz especialmente necessária, como pressuposto para enfrentar e vencer as tormentas. A expressão “os discípulos” do v. 23 dá lugar ao genérico “os homens” do v. 27. Pode ser uma forma de sublinhar a precariedade da fé dos discípulos, incapazes de compreender em profundidade a identidade do Mestre. Aqueles “homens” não haviam ainda atingido a maturidade da fé esperada dos “discípulos”. A frase de espanto: “Quem é este, a quem até os ventos e o mar obedecem?” supõe a descoberta de um poder do Mestre até então desconhecido. Os discípulos ainda têm pela frente um longo caminho a percorrer até aprenderem a se manter tranquilos em meio às perseguições e aos dissabores da missão, constantes na vida da comunidade do Reino (cf. Mt 5,10-12). Os endemoninhados de Gadara (8,28-34) || Mc 5, 1-20; Lc 8, 26-39 ²⁸Chegando ao outro lado, no território dos gadarenos, dois endemoninhados saíram dos túmulos e foram ao encontro dele. Eram tão violentos, que ninguém podia passar por esse caminho. ² Eis que começaram a gritar: “O que queres de nós, Filho de Deus? Vieste aqui para nos atormentar antes do tempo?” ³ A certa distância deles estava pastando grande manada de porcos. ³¹Os demônios lhe suplicavam, dizendo: “Se nos expulsas, manda-nos para a manada de porcos”. ³²Jesus lhes disse: “Vão”. Eles saíram e entraram nos porcos. E toda a manada lançou-se precipício abaixo em direção ao mar, e morreu nas águas. ³³Os que cuidavam dos porcos fugiram, e chegando à cidade contaram tudo, também o que tinha acontecido com os endemoninhados. ³⁴Eis que a cidade toda saiu ao encontro de Jesus. Vendo-o, suplicaram-lhe que se retirasse do território deles. Em suas incessantes caminhadas, o Mestre ultrapassa os limites do território judaico e chega ao “território dos gadarenos” (v. 28), situado do outro lado do rio Jordão. E se vê diante de uma cena impressionante, logo após o susto dos discípulos no mar. Uma dupla de possessos sai das sepulturas e vai em sua direção. A observação de que eram violentos, impedindo as pessoas de transitarem pelo local, acena para a situação perigosa para o Mestre, tanto quanto a experiência anterior no mar agitado. Os endemoninhados poderiam matá-lo com os discípulos. A serenidade da cena precedente será mantida no confronto com os possessos violentos. Os endemoninhados têm quem os confronte destemido. Aos gritos, revelam a superioridade do Filho de Deus, o único capaz de submetê-los (v. 29). Reconhecem a identidade de Jesus, a quem se referem como Filho de Deus, e, por consequência, sua imunidade em relação às investidas demoníacas. O tormento causado aos demônios “antes do tempo” sugere que haverá um momento em que não só serão atormentados, mas definitivamente eliminados. Seria o momento da morte de cruz (cf. Mt 26,18)? A referência à grande manada de porcos indica estar Jesus fora dos limites de Israel, em terras pagãs, pois o porco era considerado animal impuro pela religião judaica (v. 30; cf. Lv 11,7; Dt 14,8). O pedido dos demônios humilhados pela presença de Jesus para se incorporarem na manada de porcose a permissão concedida apontam para o efeito salvador de sua presença entre os pagãos, libertados de tudo quanto os oprime e os incapacita para o convívio social (v. 31- 32). Quando os espíritos entram nos porcos, a manada inteira se lança ao mar, do alto de um precipício, sendo tragada pelas águas, retrato da libertação total operada por Jesus. Uma vez afogados com os porcos, os demônios estão impossibilitados de se apoderar dos seres humanos, como os dois gadarenos, e torná-los antissociais. A ação salvadora de Jesus consiste na libertação do ser humano de todo poder diabólico que o descentra da vontade do Pai e o incapacita para a convivência pacífica e fraterna. Os futuros discípulos-apóstolos deverão se espelhar em Jesus quando saírem para anunciar o Reino em todos os rincões da terra (cf. Mt 28,19). Espera-lhes a mesma rejeição quando a cidade inteira pediu para Jesus se retirar dali, ao se tornarem públicos os fatos envolvendo os endemoninhados (v. 33-34). Como o Mestre foi solicitado a se retirar “do território deles”, embora tendo feito o bem, da mesma forma acontecerá com os discípulos do Reino na tarefa de libertar os seres humanos de suas muitas possessões. Cura do paralítico (9,1-7) || Mc 2,1-12; Lc 5,17-26 ¹Jesus entrou numa barca, atravessou para a outra margem e chegou à sua cidade. ²Eis que levaram a ele um paralítico deitado na maca. Vendo a fé que eles tinham, Jesus disse ao paralítico: “Coragem, filho! Seus pecados estão perdoados”. ³Então alguns doutores da Lei diziam consigo: “Ele blasfema”. ⁴Conhecendo-lhes o pensamento, Jesus disse: “Por que vocês pensam coisas más em seus corações? ⁵De fato, o que é mais fácil? Dizer: ‘Seus pecados estão perdoados’, ou dizer: ‘Levante-se e ande’? Para que vocês saibam que o Filho do Homem tem na terra autoridade para perdoar pecados...” Disse então ao paralítico: “Levante-se, pegue sua maca e vá para casa”. ⁷Ele se levantou e foi para casa. ⁸Vendo isso, as multidões ficaram com medo e glorificavam a Deus por ter dado às pessoas tão grande autoridade. Após uma rodada de atividades missionárias, Jesus volta “à sua cidade”, Cafarnaum, à beira do lago de Genesaré (cf. Mt 4,13), ponto de referência de suas andanças pela Galileia (v. 1). Trazem-lhe, então, um “paralítico deitado na maca”. A paralisia impossibilita o ser humano de praticar o bem. Enquanto doença, era considerada castigo divino e atraía olhares carregados de censura. Ver-se livre desse peso era o anseio de muitas pessoas que se aproximavam de Jesus. O paralítico foi levado à presença de Jesus pela solidariedade de quem se deu ao trabalho de carregá-lo, com os incômodos decorrentes daquelas circunstâncias. Jesus “viu a fé” deles. Certamente a fé do paralítico e a de quem lhe fazia aquele imenso favor. Por estarem todos envolvidos por uma profunda certeza do poder libertador de Jesus, o paralítico se encontrava ali diante dele. A fé visibilizada como cuidado com o irmão sofredor (cf. Mt 25,36) moveu Jesus a agir, embora nenhum pedido lhe tivesse sido feito (v. 2). Chamando o paralítico de filho (gr. téknon), começa por perdoar-lhe os pecados. Se não havia mais pecado naquele homem, deixa de existir motivo para estar doente. Logo, já está curado! Os preconceitos sociais e as sanções religiosas podem, então, ser deixados de lado. Daquele momento em diante, aquele ser humano torna-se outra pessoa pela ação salvadora do Messias Jesus. Havia recuperado a autonomia e a capacidade de fazer o bem, ao ficar livre da paralisia. Os adversários, presentes onde quer que Jesus se encontrasse, põem-se a pensar mal dele, como se tivesse cometido uma grave blasfêmia, ao usurpar o poder de perdoar pecados, exclusivo de Deus (v. 3). Estando o pecado no âmbito da relação Deus-paralítico, a iniciativa de cancelar a falta do doente e restituir-lhe a saúde era da alçada divina. Logo, consideravam as palavras de Jesus uma inaceitável ofensa a Deus a ser firmemente denunciada. O gesto de Jesus não se enquadrava nos esquemas religiosos dos doutores da Lei e sua rígida compreensão de Deus. Percebendo a malignidade de seus pensamentos, por serem incapazes de reconhecer os benefícios divinos em favor do paralítico no perdão concedido, Jesus defronta os doutores da Lei com seu poder ilimitado de fazer o bem. Além de perdoar os pecados, tem autoridade para fazer o paralítico levantar-se e andar independente de ajuda (v. 4-5). Jesus passa das palavras à ação, ordenando ao paralítico levantar-se, pegar a maca e ir para casa (v. 6). Quem chegara carregado, partia totalmente curado pela palavra cheia de autoridade (gr. exousía) do Filho do Homem, o Messias Jesus (v. 7). Outra vez Jesus deixava atônitas as multidões com seus feitos que evocavam o agir misericordioso de Deus em prol da humanidade. Enquanto a liderança religiosa o considerava blasfemo, as multidões reconheciam a origem divina de suas ações. E glorificavam a Deus (v. 8). Chamado de Mateus e refeição com pecadores (9,9-13) || Mc 2,13-17; Lc 5,27-32 Tendo partido daí, Jesus viu um homem chamado Mateus sentado na coletoria de impostos. Jesus lhe disse: “Siga-me!” Levantando-se, ele o seguiu. ¹ Ora, aconteceu que Jesus estava em casa sentado à mesa. Chegaram muitos cobradores de impostos e pecadores, e sentaram-se à mesa com Jesus e seus discípulos. ¹¹Vendo isso, os fariseus perguntavam aos discípulos de Jesus: “Por que o mestre de vocês come entre cobradores de impostos e pecadores?” ¹²Jesus ouviu e respondeu: “Não são os sadios que precisam de médico, e sim os doentes. ¹³Vão e aprendam o que significa: ‘Quero misericórdia e não sacrifício’. Porque eu não vim chamar justos, e sim pecadores”. Essa pequena cena evangélica contém um elemento da identidade do Messias Jesus presente na catequese mateana: a solidariedade com os pecadores e marginalizados. Estes são os destinatários privilegiados de sua missão de salvador por serem os mais dependentes da misericórdia do Pai dos Céus. A integração de Mateus, um cobrador de impostos, na comunidade dos discípulos com uma ordem peremptória (“Siga-me!”) e sua imediata execução terá causado alvoroço (v. 9). Na mentalidade da liderança religiosa, o gesto de Jesus estava carregado de conotações negativas. Afinal de contas, os cobradores de impostos estavam a serviço dos opressores romanos; por isso mereciam o desprezo do povo fiel a Deus. A convivência com os detestados pagãos colocava-os em situação de contínua impureza, mais uma razão para se manter distante deles. Nada disso impedia Jesus de se manter fiel ao querer do Pai, que não faz acepção de pessoas (cf. Mt 5,45). Na cena seguinte, Jesus está “em casa sentado à mesa” (v. 10). O narrador não especifica de que casa se trata. O leitor-ouvinte pode suspeitar se tratar da casa de Mateus, pela presença de muitos cobradores de impostos e pecadores sentados à mesa com Jesus e seus discípulos. Esse era seu público preferido, pela consciência de ter sido enviado pelo Pai para resgatá-lo das muitas formas de desumanidade. Seu método consistia na proximidade, na convivência e na acolhida compassivas, isentas de moralismo ou hostilidade. Os pecadores e marginalizados, por sua vez, sentiam-se à vontade na presença de Jesus. A crítica dos onipresentes adversários brota de imediato. Dirigindo-se aos discípulos, querem explicações para a “censurável” atitude do Mestre, tão integrado com os cobradores de impostos e pecadores, podendo ser confundido com eles (v. 11). O atropelo da lei religiosa era evidente: misturando-se com pessoas impuras, Jesus se tornava impuro e, por isso, inapto para as coisas de Deus, que não falava pela boca de pessoas impuras (cf. Is 6,5-7). Os fariseus efetivamente pretendem alertar os discípulos da inconveniência de seguir Jesus pela eventualidade de serem desviados da “autêntica” religião querida por Deus defendida por eles. Jesus ouve a pergunta dos fariseus e se dá ao trabalho de respondê-la em três passos (v. 12-13). O primeiro consiste em evocar um dito popular que apela para uma verdade evidente. Os médicos cuidamdas pessoas doentes, e não das sadias. Essa metáfora ilustra seu interesse pelos cobradores de impostos e pecadores, a quem a misericórdia do Pai deve chegar em primeiro lugar. Os fariseus religiosos e seguros de estar em dia com Deus estão fora do âmbito de suas preocupações. O segundo corresponde à citação do profeta Oseias, uma declaração do interesse de Deus pela prática da misericórdia em detrimento do culto (cf. Os 6,6). Esse princípio norteia a ação de Jesus no esforço de se pautar pelo querer do Pai. A compaixão para com os cobradores de impostos e os pecadores corresponde exatamente ao que o Pai espera dele. Os fariseus com sua religião legalista jamais o desviarão do seu caminho. O terceiro explicita o sentido exato de sua ação missionária: o Pai enviou-o para buscar os pecadores, e não os justos (cf. Mt 18,10-14). A questão dos fariseus fica respondida desta forma: o Mestre come com os cobradores de impostos e os pecadores porque foi enviado pelo Pai para isso! Subentendido está que a mentalidade religiosa dos fariseus desconsidera o querer de Deus e se constitui um tremendo equívoco. O jejum (9,14-17) || Mc 2,18-22; Lc 5,33-39 ¹⁴Foi quando os discípulos de João se aproximaram de Jesus dizendo: “Por que nós e os fariseus jejuamos tanto, e os teus discípulos não jejuam?” ¹⁵Jesus lhes disse: “Por acaso os amigos do noivo podem estar de luto enquanto o noivo está com eles? Dias virão em que o noivo será tirado deles. Então sim farão jejum. ¹ Ninguém remenda roupa velha com pano novo, porque o remendo repuxa a roupa e o rasgão fica pior. ¹⁷Nem se põe vinho novo em vasilhas de couro velhas, porque assim as vasilhas se romperiam, o vinho se derramaria e as vasilhas se estragariam. Vinho novo se coloca em vasilhas novas, e assim os dois se conservam”. Outro grupo questiona a pedagogia de Jesus. São os “discípulos de João”, que mantinham viva a memória do Batista, sua concepção da realidade e o correspondente estilo de vida ascético (cf. Mt 3,1-12). Sentem-se incomodados com a falta de rigor de Jesus no trato com os discípulos ao relativizar o jejum. Os discípulos de João e os fariseus valorizavam essa prática de piedade. Por isso consideravam Jesus um mestre permissivo, que não impunha um regime de austeridade aos discípulos (v. 14). A resposta vem de imediato, com três metáforas. A primeira refere-se ser inviável os amigos do noivo fazerem luto em plena festa de casamento. Terminada a festa, sim, poderia justificar-se o enlutamento (v. 15). O evangelista parece referir-se ao tempo da vida terrena de Jesus e ao tempo sucessivo à sua morte. Seria uma forma de justificar a prática do jejum em sua comunidade, formada por muitos cristãos provindos do judaísmo? Uma prática não incentivada outrora pelo Mestre poderia ter sentido agora, quando já não se contava com sua presença física. A segunda provém do universo feminino, onde as roupas são feitas e restauradas (v. 16). Remendar roupa velha com pano novo não tem sentido e será um trabalho perdido; logo aparecerá um rasgão ainda maior. Aplicado à pedagogia de Jesus, criticada pelos discípulos de João Batista, significa a impossibilidade de se conciliar a novidade do Reino com concepções religiosas caducas. Só entenderá a prática de Jesus quem se relacionar com Deus de modo semelhante a ele. A terceira tem a ver com a viticultura. Só o vinhateiro desavisado coloca vinho novo em recipientes de couro desgastados (v. 17). Pode-se esperar que se perderá todo o trabalho de plantar as videiras, colher as uvas e pisá-las. Vinhateiro experiente coloca o vinho novo em recipientes de couro novos, para garantir vida longa a ambos. Os discípulos de Jesus devem acolher a novidade de sua pedagogia como se fossem recipientes novos, de maneira a se deixarem fermentar por seus ensinamentos e não se escandalizarem, como acontece com seus críticos. Cura da mulher e ressurreição da menina (9,18-26) || Mc 5,21-43; Lc 8,40-56 ¹⁸Enquanto Jesus lhes dizia essas coisas, eis que chegou um chefe e se ajoelhou diante dele, dizendo: “Minha filha acaba de morrer. Mas vem, impõe a mão sobre ela, e ela viverá”. ¹ Levantando-se, Jesus o seguiu, ele com seus discípulos. ² Nisso apareceu uma mulher que sofria de hemorragia fazia doze anos. Ela se aproximou por detrás de Jesus e tocou-lhe na barra do manto. ²¹Porque dizia consigo: “Se eu apenas tocar no manto dele, ficarei curada”. ²²Então Jesus se voltou e, vendo a mulher, lhe disse: “Coragem, filha! Sua fé salvou você”. E a partir desse momento a mulher ficou curada. ²³Jesus chegou à casa do chefe, viu os flautistas e a multidão em alvoroço, ²⁴e disse: “Retirem-se, porque a menina não morreu. Está dormindo”. E caçoavam dele. ²⁵Quando a multidão se retirou, Jesus entrou, tomou a menina pela mão, e ela se levantou. ² E a notícia se espalhou por toda essa região. Esse bloco entrelaça duas cenas, ambas implicando mulheres com as vidas ameaçadas: a filha de um chefe recém-falecida e uma mulher com hemorragia. Retorna aqui um tema transversal da catequese mateana, qual seja, a solidariedade do Messias Jesus com as mulheres, a quem busca integrar na comunidade do Reino e na sociedade. No início da catequese, quatro mulheres são inseridas na genealogia (cf. Mt 1,3.5), além de Maria (cf. Mt 1,16); na conclusão, as mulheres são enviadas para anunciar a ressurreição aos discípulos (cf. Mt 28,9-10). Essas referências às mulheres formam uma inclusão relevante na catequese mateana. O primeiro gesto poderoso de Jesus beneficia a filha de um chefe, uma pessoa importante da cidade. Chefe de quê e de quem? O narrador omite essa informação. Sua prostração diante de Jesus (gr. proskynéo) pode ser um gesto de adoração (cf. Mt 2,10) e expressão de humildade. Seu pedido de fazer reviver a filha recém-falecida com uma simples imposição de mãos revela a extrema confiança no poder (gr. exousía) de Jesus e as dimensões de sua fé (v. 18). Jesus levanta-se e vai com os discípulos atender o pedido do pai aflito (v. 19). No meio do caminho surge uma mulher vitimada há doze anos por uma hemorragia (v. 20). Chama a atenção a referência ao número doze, evocação das doze tribos de Israel na simbologia numérica judaica. O tipo de doença tem igualmente conotação simbólica. Na concepção bíblica, a vida está no sangue (cf. Lv 17,11); portanto, perder sangue significa esvair-se a vitalidade corporal e, com ela, a vida. Aquela filha de Israel está sendo privada do dom divino mais precioso e fragilizada na sua condição humana. A presença de Jesus faz a esperança jorrar do seu mais íntimo com a convicção de ser curada com um simples toque em seu manto (v. 21). Ele podia fazer-lhe o bem no anonimato, longe dos olhares curiosos (cf. Mt 6,3-4). Jesus antecipa-se e a surpreende antes que pusesse em prática sua decisão (v. 22). No meio do alvoroço, dá-se conta do sofrimento daquela mulher e seu longo processo de morte. Volta-se para dirigir-lhe uma palavra de ânimo ao se dar conta da profundidade de sua fé, pela qual a vida será restituída àquela sofredora. A ação do Messias salvador resultou em recuperação da vida e da dignidade de um ser humano e sua reinserção na vida social e religiosa pela cura de uma doença devastadora. A mulher foi transformada no encontro com Jesus quando se viu livre da hemorragia. Na casa do chefe, Jesus encontra um enorme rebuliço da multidão acompanhada pelos flautistas, fazendo as lamentações de praxe pela morte da filha do chefe (v. 23; cf. Ez 24,15-18; Am 5,16-17). Ao declarar que a menina “não morreu; está dormindo”, Jesus torna-se objeto de caçoada (v. 24). Era a declaração da inutilidade de todo aquele barulho. Se a menina estava viva, não tinha sentido fazer lamentações fúnebres. Sua declaração, porém, parece contrariar as evidências. Longe da multidão agitada, Jesus entra na casa e atende o pedido do chefe, com um simples tomar a menina pela mão e fazê-la levantar-se (v. 25). A discrição, recomendada para os atos de piedade (cf. Mt 6,3.6.17), vale igualmente para os atos de misericórdia. Eis por que o Mestreevita toda espécie de exibicionismo, embora não consiga impedir que sua fama se espalhe por toda a região (v. 26; cf. Mt 4,24). Cura de dois cegos e do endemoninhado mudo (9,27-34) ²⁷Quando Jesus partiu daí, dois cegos o seguiram, gritando e dizendo: “Filho de Davi, tem piedade de nós!” ²⁸Ao chegar à casa, os cegos se aproximaram dele. Jesus lhes perguntou: “Vocês creem que eu lhes posso fazer isso?” Eles lhe responderam: “Sim, Senhor”. ² Então Jesus tocou nos olhos deles, dizendo: “Que lhes aconteça conforme a fé que vocês têm”. ³ E os olhos deles se abriram. Então Jesus os advertiu: “Cuidado para que ninguém fique sabendo!” ³¹Mas eles, saindo daí, espalharam sua fama por toda essa região. ³²Logo que eles saíram, eis que levaram a Jesus um endemoninhado mudo. ³³Expulso o demônio, o mudo falou. As multidões ficaram maravilhadas, dizendo: “Nunca se viu algo assim em Israel!” ³⁴Mas os fariseus diziam: “É pelo chefe dos demônios que ele expulsa os demônios”. Duas outras curas completam o conjunto de gestos poderosos de Jesus, na condição de Messias por obras. O primeiro beneficia dois cegos que o seguem pedindo-lhe, aos gritos, que tenha piedade deles (v. 27). Chama a atenção o vocativo “Filho de Davi” (cf. Mt 1,1; 12,23; 15,22; 20,30-31; 21,9.15). A catequese mateana apresenta Jesus como o legítimo descendente de Davi, instaurador do Reino, nos moldes queridos por Deus, no qual todas as pessoas são acolhidas e integradas. Ter piedade dos cegos consistia em livrá-los da cegueira, dando-lhes a capacidade de ver e discernir. O v. 28 leva a pensar nos dois cegos seguindo Jesus, por certa distância, com seu pedido de compaixão, até o Mestre chegar em casa e terem a chance de se aproximar dele. Aqui, Jesus se comporta de maneira distinta de seu comportamento nas demais cenas do evangelho onde, dificilmente, faz perguntas. Como Mestre, tem a função de responder! Tendo conhecido as ações de Jesus realizadas até então, o leitor-ouvinte poderá julgar dispensável a pergunta a respeito da capacidade de agir em benefício dos cegos. Quiçá tenha a finalidade de provocar o ato de fé, com o “vocês creem” (gr. pisteúo). E do que se trata o “fazer isso”, já que os cegos apenas suplicaram compaixão, omitindo- se de fazer maiores especificações? O desejo de serem curados da cegueira estaria embutido naquela súplica, por ser óbvio para um cego ter a graça da visão. A resposta, com o vocativo “Senhor”, linguagem de quem está aberto para a fé, contém o pré-requisito para ser beneficiado pela ação do Messias Jesus. Isso se mostra verdadeiro, pois Jesus tocou-lhes os olhos e ordenou o fim da cegueira. E seus olhos se abriram (v. 29-30). Os relatos de cura da cegueira chamam a atenção para a importância de os discípulos terem olhos bem abertos no seguimento do Mestre Jesus (cf. Mt 20,29-34). A capacidade de ver a realidade e discerni-la à luz da fé é característica do proceder do discípulo do Reino. A cegueira espiritual impede-o de caminhar com segurança nos passos do Mestre. A advertência para os ex-cegos guardarem segredo do acontecido não foi levada a sério, pois se puseram a falar de Jesus por toda parte (v. 30-31). Essa e outras situações semelhantes devem ser entendidas à luz de Mt 5,16. As ações luminosas do Messias Jesus – as boas obras – devem motivar as pessoas a louvarem a Deus. Mais que chamar a atenção para si e se tornar soberbo, a finalidade da difusão de sua fama consiste em mostrar as ações do Pai, em favor da humanidade, por meio de seu Filho amado (cf. Mt 3,17). O Pai, sim, deve ser glorificado! Quando os dois miraculados se afastam, uma pessoa possuída por um espírito que a impedia de falar é apresentada a Jesus (v. 32). Ela representa o ser humano incapaz de se comunicar, de criar laços de amizade e de comunhão com os demais, por ser a fala um canal privilegiado no processo de inter-relações pessoais. A intervenção salvadora de Jesus acontece de imediato, independente de qualquer solicitação. A simples presença de um ser humano vitimado pelas forças da desumanização impele-o a colocar em ação o poder de fazer o bem (gr. exousía) recebido do Pai. São omitidas as reações do homem libertado por Jesus. Porém, são claras as reações dos presentes, tanto das multidões quanto dos fariseus. As multidões interpretam, com benevolência, os gestos poderosos do Messias Jesus em favor da humanidade sofredora como algo inteiramente novo em Israel (v. 33). Sua presença fazia o Reino de Deus acontecer, como surgimento de uma nova Humanidade e de uma nova Criação. Na direção oposta, os inimigos fariseus, com perversidade, atribuem às forças demoníacas o poder de Jesus para expulsar os espíritos malignos (cf. Mt 12,24). Como se vê, os milagres são insuficientes para revelar a messianidade de Jesus e sua vinculação com o Pai e com o Reino dos Céus. Tanto podem ser interpretados de maneira positiva e favorável, quanto de maneira negativa e desfavorável. Tudo dependerá do olhar de quem os contempla. A contemplação com olhar e coração de discípulo possibilita superar a materialidade dos fatos e perceber, na ação de Jesus, sua condição de Filho enviado do Pai. O olhar superficial e suspeitoso dos inimigos lhes tolhe a capacidade de superar as aparências e captar os fundamentos da ação beneficente do Messias Jesus. Portanto, o fechamento de coração para o Mestre inviabiliza o discipulado já nas origens, mesmo diante de milagres portentosos. Compaixão de Jesus pelas multidões (9,35-38) || Mc 6,34 ³⁵Jesus percorria todas as cidades e vilarejos, ensinando nas sinagogas deles, pregando o evangelho do Reino, e curando toda doença e toda enfermidade. ³ Vendo as multidões, encheu-se de compaixão por elas, porque estavam angustiadas e abandonadas, como ovelhas que não têm pastor. ³⁷Então disse a seus discípulos: “A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos. ³⁸Portanto, peçam ao Senhor da colheita que envie trabalhadores para a sua colheita”. Esses versículos concluem o conjunto formado por Mt 5-9, onde Jesus foi apresentado como Messias por palavras (cf. Mt 5-7) e Messias por obras (cf. Mt 8-9), ao mesmo tempo em que preparam o passo seguinte. Mt 9,35 repete Mt 4,23, formando uma inclusão, recurso literário para estabelecer os limites de um bloco literário, como uma espécie de moldura. O v. 36 contém um aspecto marcante da identidade do Messias Jesus: compaixão pelo povo sofredor. A situação de angústia e abandono das multidões toca-lhe as entranhas e o move a agir; da mesma forma acontecerá com o discípulo- apóstolo. A compaixão e a misericórdia são o ponto de partida de todos quantos se põem a serviço do Reino, tanto Jesus quanto os discípulos. O verbo grego compadecer-se (splanchnízomai) deriva-se do substantivo splánchna (víscera), sublinhando a profundidade do que se passa num coração compassivo, como o do Messias Jesus (cf. Mt 14,14; 15,32; 20,34). Uma metáfora pastoril ilustra a condição de desamparo do povo. Assemelha-se a ovelhas sem pastor, deixadas à própria sorte. A missão de salvador do povo exige do Mestre uma resposta. Os v. 37 e 38 giram em torno da metáfora agrícola da insuficiência de trabalhadores para uma grande colheita. Os discípulos são aconselhados a suplicar ao Senhor da colheita, para que este envie trabalhadores que deem conta de realizar uma tarefa de grande porte. A imagem da colheita evoca os tempos finais, quando Deus recolherá os frutos produzidos pela humanidade. Falta “mão de obra” para levar adiante a tarefa de preparar esse momento da história. Compete ao proprietário da plantação – o Pai dos céus – convocar e confiar a missão a quem for do seu agrado (cf. Mt 20,1-16). Com a autoridade (gr. exousía) recebida do Pai, o Messias Jesus tomará a iniciativa de chamar e enviar os apóstolos do Reino, que refarão as etapas da caminhada do Mestre, Messias por palavra e Messias por obras. Para reflexão e debate 1. Em que sentido os gestos poderosos de Jesus dão respaldo às suas palavras? Como se interligam o messianismo por palavras e o messianismo por obras? 2. As açõesde Jesus realizadas com a autoridade (exousía) recebida do Pai suscitam reações contrastantes. Por que os gestos poderosos de Jesus não suscitam necessariamente a fé tampouco movem as pessoas a aderirem ao Reino? 2. Discurso: Chamado para a missão Começa uma nova etapa da catequese mateana com o “discurso missionário”, o segundo discurso, quando Jesus chama os discípulos e os envia em missão como apóstolos do Reino. O projeto de vida dos discípulos-missionários espelha-se na vida e na missão do Messias Jesus. As palavras do Mestre deixam entrever a presença da cruz no exercício da missão, levada adiante na obediência e na fidelidade, com as consequências delas decorrentes. Escolha dos Doze (10,1-4) || Mc 3,13-19; Lc 6,12-16 ¹Chamando seus Doze discípulos, Jesus deu a eles autoridade sobre espíritos impuros para expulsá-los, e para curar toda doença e toda enfermidade. ²São estes os nomes dos Doze apóstolos: primeiro, Simão, também chamado Pedro, e seu irmão André; Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João; ³Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o cobrador de impostos; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; ⁴Simão, o cananeu, e Judas Iscariotes, aquele que entregou Jesus. Os Doze Discípulos dão um passo a mais na relação com o Mestre Jesus, que lhes comunica a autoridade (gr. exousía) recebida do Pai (cf. Mt 28,18) para continuarem sua missão de Messias por palavras e por obras (v. 1). A palavra deles como a do Mestre será carregada de força libertadora. As pessoas oprimidas pelos maus espíritos, por doenças ou enfermidades ganharão nova vida no contato com os missionários do Reino. O bem realizado pelo Mestre, pequenino como um grão de mostarda (cf. Mt 13,31-32), se multiplicará infinitamente, pois toda a humanidade será destinatária da missão do Reino (cf. Mt 28,19). Onde houver um ser humano massacrado pelos reveses da vida, aí estará um discípulo-missionário pronto para socorrê-lo. O número doze dos Apóstolos evoca as doze tribos de Israel, de acordo com a simbologia numérica judaica. O leitor-ouvinte da catequese mateana dá-se conta de que, com o envio missionário, tem origem o Novo Israel, constituído pela humanidade que se abre para o anúncio do Reino e se torna beneficiária de sua presença na história. A dimensão étnico-religiosa do Antigo Israel deixa de ter importância. Doravante, toda a humanidade poderá beneficiar-se da libertação operada pelo Reino de Deus, proclamado pelos missionários enviados por Jesus. Os Doze Discípulos tornam-se Doze Apóstolos. Seus nomes são citados nominalmente em duplas com algumas características (v. 2-4). A condição de discípulos-apóstolos ou discípulos-missionários será a identidade dos seguidores de Jesus de Nazaré de todos os tempos. O nome de Simão chamado de Pedro abre a lista com a indicação de ser o “primeiro” (cf. Mt 16,16-18). O evangelista inserirá muitas cenas onde Pedro aparece como personagem de destaque. A leitura do conjunto das cenas em torno de Pedro permite traçar seu itinerário de discípulo feito de altos e baixos. Constitui-se uma espécie de protótipo real de discípulo, enquanto no início da catequese José foi apresentado como discípulo do Reino ideal (cf. Mt 1–2). Tiago aparece como “filho de Zebedeu” (cf. Mt 4,20); Mateus, “o cobrador de impostos” (cf. Mt 9,9); Tiago, “filho de Alfeu”; Simão, “o cananeu”, às vezes traduzido como “o zelota”; Judas, “iscariotes”, originário de Qariot (cf. Js 15,25). O narrador acrescenta uma nota muito negativa em relação a Judas Iscariotes para alertar o leitor-ouvinte quanto a seu malfeito por ocasião da paixão (cf. Mt 26,47-50). Nenhum dos apóstolos destaca-se por alguma virtude excepcional. São todos eles pessoas do povo a quem o Mestre se dará o trabalho de formar a duras penas para a ingente tarefa de universalizar sua missão. Instruções para os Doze (10,5-15) || Mc 6,7-13; Lc 9,1-6 ⁵Jesus enviou esses Doze, depois de instruí-los dizendo: “Não tomem o caminho dos gentios e não entrem nas cidades de samaritanos. Em vez disso, vão às ovelhas perdidas da casa de Israel. ⁷E, durante a viagem, anunciem que o Reino dos Céus está próximo. ⁸Curem enfermos, ressuscitem mortos, purifiquem leprosos, expulsem demônios. Vocês receberam de graça; deem de graça. Não levem ouro, nem prata, nem cobre em seus bolsos, ¹ nem bolsa para o caminho, nem duas túnicas, nem sandálias, nem bastão. Porque o trabalhador tem direito a seu sustento. ¹¹Entrando numa cidade ou vilarejo, procurem saber se aí existe alguma pessoa que seja digna, e aí se hospedem até partirem. ¹²Ao entrar na casa, façam a saudação de paz. ¹³Se a casa for digna, venha sobre ela a paz de vocês. Se não for digna, a paz que vocês lhe desejaram voltará para vocês. ¹⁴Se alguém não os receber nem der ouvido a suas palavras, sacudam o pó dos pés ao saírem dessa casa ou dessa cidade. ¹⁵Eu lhes garanto: No dia do julgamento, haverá menos rigor para a terra de Sodoma e Gomorra do que para essa tal cidade”. Os discípulos-apóstolos recebem instruções precisas. A primeira refere-se aos destinatários da missão, “as ovelhas perdidas da casa de Israel” (v. 5-6). Por que os gentios e os samaritanos são excluídos, se até agora a catequese mateana mostrava-se sensível aos pagãos (cf. Mt 2,1-12)? À primeira vista a missão parece restringir-se aos israelitas, povo de Jesus. Esses versículos escondem uma polêmica que perpassa todo o evangelho: o conflito entre a comunidade de Mateus e a liderança judaica num momento em que se buscava refazer o judaísmo, após a destruição do Templo de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C. A chave para a interpretação encontra-se na expressão “em vez disso” (gr. mállon). A palavra grega conota preferência, e não exclusão. A busca das “ovelhas perdidas da casa de Israel” será o ponto de partida, de forma a manter o “privilégio” de Israel na oferta da salvação. Porém, com a recusa da “casa de Israel” (cf. Mt 27,25) de acolher o Messias Jesus, os discípulos-apóstolos irão em busca dos gentios e dos samaritanos, de toda a humanidade (cf. Mt 28,19). A segunda instrução determina o que devem fazer (v. 7-8a): anunciar a chegada do Reino dos Céus e libertar as pessoas de suas opressões. Isso corresponde às duas vertentes do ministério de Jesus: o messianismo por palavras e por obras. Caberá aos discípulos-apóstolos dar continuidade ao caminho aberto por Jesus inspirados por ele. Serão por todas as partes e ao longo dos tempos a presença do Mestre, salvador da humanidade. A terceira instrução explicita o espírito que moverá os discípulos-apóstolos (v. 8b-10). Cultivarão a gratuidade para não caírem na tentação de explorar o povo. Só os puros de coração estão livres da ganância e da ambição e podem se entregar à missão com total generosidade, livres de esperar recompensa pelo que fazem (cf. Mt 5,8; 19,27-29). Essa liberdade lhes permitirá sair em missão em total pobreza, confiados na Providência (cf. Mt 6,25-34). Por onde andarem, encontrarão pessoas misericordiosas que se disporão a partilhar algo com eles. A quarta instrução refere-se ao modo de se comportar nos lugares de missão (v. 11-14). Nada de se hospedar em uma casa depois da outra, para evitar a tentação de passar das casas menos confortáveis às que oferecem mais regalias. Além de desviar o sentido da missão, pode-se criar conflito entre os hospedeiros e rejeição dos missionários por seu comportamento indevido. Daí a ordem de permanecerem até o final da missão numa mesma casa. Se alguma casa ou cidade se recusar a recebê-los, os discípulos-apóstolos jamais desanimarão ou se aborrecerão. Jesus recomenda-lhes como gesto simbólico sacudir o pó dos pés, ao saírem daquela casa ou cidade, e seguir adiante. Quem rejeita o missionário do Reino rechaça quem lhe oferece a salvação por intermédio deles. No dia do juízo haverão de prestar contas dessa atitude insensata, já que a missão diz respeito ao Senhor do Reino e às pessoas a quem os discípulos-apóstolos são enviados como anunciadores da salvação (v. 15). Os discípulos são ovelhas entre lobos (10,16-25) || Mc 13,9-13; Lc 21,12-17¹ “Eis que envio vocês como ovelhas no meio de lobos. Por isso, sejam prudentes como as serpentes e simples como as pombas. ¹⁷Cuidado com as pessoas! Porque elas entregarão vocês aos tribunais e os açoitarão em suas sinagogas. ¹⁸E vocês serão conduzidos à presença de governadores e de reis por minha causa, para darem testemunho diante deles e dos gentios. ¹ Quando entregarem vocês, não fiquem preocupados em saber como ou o que irão falar, pois nessa hora lhes será indicado o que vocês deverão falar. ² Porque não serão vocês que falarão, mas o Espírito de seu Pai é que falará em vocês. ²¹O irmão entregará o irmão à morte, e o pai entregará o filho. Os filhos se levantarão contra os pais e os matarão. ²²E vocês serão odiados por todos, por causa do meu nome. Mas quem perseverar até o fim será salvo. ²³Quando perseguirem vocês numa cidade, fujam para outra. Porque eu lhes garanto: Vocês não terminarão de percorrer todas as cidades de Israel antes que venha o Filho do Homem. ²⁴O discípulo não está acima do mestre, nem o servo acima de seu senhor. ²⁵Basta que o discípulo se torne como seu mestre, e o servo como seu senhor. Se chamaram de Beelzebu ao dono da casa, com que nome haverão de chamar aos familiares dele?” As instruções continuam com a explicitação do contexto de perseguição e dificuldades em que os discípulos-apóstolos se encontrarão. Em momento algum da catequese mateana se escamoteia a face sombria do discipulado. O Mestre fala dela com o máximo de realismo. A metáfora das “ovelhas em meio de lobos” não deixa margem para falsas expectativas (v. 16). Donde a necessidade de os discípulos-apóstolos serem “prudentes como as serpentes e simples como as pombas”. São duas atitudes complementares: a astúcia impede que o simples caia nas artimanhas dos ímpios; a prudência torna-o atento no confronto de quem tem a intenção de desviá-lo do caminho do Reino. A esperteza permite-lhe dar-se conta das segundas intenções de seus interlocutores e de quem o rodeia. Ao combinar esperteza com pureza de coração, estarão em condições de escapar das ciladas dos inimigos. A perspicácia e a prudência são atitudes incontornáveis no trato com as pessoas malévolas para não se deixar enganar, como acontece com os falsos profetas que agem como lobos em pele de ovelhas (v. 17; cf. Mt 7,15-16). Os traidores poderão estar entre os irmãos de comunidade. Porém, o catequista faz um alerta especial em relação aos intolerantes promotores da reforma do judaísmo, que, não conseguindo dobrar quem havia aderido ao movimento de Jesus de Nazaré, perseguiam-nos implacavelmente para entregá-los aos tribunais romanos, além de açoitá-los quando compareciam ao culto sinagogal (cf. Mt 23,34). Jesus experimentou na pele todos os alertas feitos aos discípulos-apóstolos. A firmeza dos discípulos em contexto de perseguição foi declarada bem- aventurança (cf. Mt 5,10-11). Os discípulos-apóstolos serão bem-aventurados à medida que, injustamente julgados na presença de reis e governadores por causa de Jesus, derem testemunho (gr. martýrion) do Reino diante deles e dos pagãos (v. 18). A referência aos pagãos (ou gentios; gr. éthnoi) provoca a abertura no horizonte da missão destinada a ir além das “ovelhas perdidas da casa de Israel” (v. 6). Os discípulos-apóstolos, nos momentos difíceis, devem manter viva a fé, por estarem sob o olhar providente do Pai. Um claro sinal será a atitude corajosa diante dos juízes implacáveis, cujas acusações terão as devidas respostas pelo Espírito do Pai, que falará por meio dos missionários (v. 19-20). A missão possibilita aos apóstolos fazerem infinitas experiências de se deixar guiar pelo Espírito, à medida que superarem o medo e abraçarem resolutos o serviço do Reino. A perseverança dos discípulos-apóstolos constitui-se em desafio contínuo, à medida que as perseguições e os ódios começarem pelos familiares (v. 21-22). Os conflitos mortais “por causa do meu nome” exigirão extrema liberdade, ao tocarem pessoas muito próximas de quem serão obrigados a se separar (v. 36- 37). A missão os colocará em situações embaraçosas, a serem enfrentadas com determinação e coragem. O caminho dos pusilânimes será muito curto! Para evitar atitudes indevidas, o Mestre aconselha aos discípulos-apóstolos evitarem a maldade dos perseguidores com a fuga de uma cidade para outra, a fim de salvaguardarem as próprias vidas (v. 23). Não se deve buscar a morte violenta, martírio, enquanto for possível evitá-la, como ele mesmo o fez. A garantia de que “não terminarão de percorrer todas as cidades de Israel antes que venha o Filho do Homem” pode ser entendida no viés geográfico, no sentido de as perseguições possibilitarem aos apóstolos levar a mensagem do Reino a muitos lugares e povos, e no viés temporal, por ser desconhecido o dia da vinda do Filho do Homem. Descortina-se um infinito horizonte de tempo para a proclamação do Reino. A vida e o destino do Mestre servem de espelho para os discípulos-apóstolos (v. 24-25), donde a necessidade de acompanhá-lo até a morte de cruz para se ter uma ideia do que os espera. Arrisca-se quem se lança à missão com a ilusão de granjear sucesso e reconhecimento. Só quem tem diante dos olhos o Mestre crucificado e se deixa inspirar por ele caminha com firmeza. A frustração será afastada de seu horizonte. O projeto missionário que se delineia nesse capítulo da catequese mateana tem como pano de fundo a caminhada de Jesus de Nazaré radicalmente fiel e obediente ao Pai até a cruz. Compromisso com Jesus e com a missão (10,26-33) || Lc 12,2-9 ² “Portanto, não tenham medo deles. Porque não há nada oculto que não se venha a descobrir, nem escondido que não se venha a revelar. ²⁷O que eu lhes digo às escuras, vocês o digam à luz do dia. O que lhes é dito aos ouvidos, o proclamem sobre os telhados. ²⁸Não tenham medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Temam, sim, aquele que pode destruir a alma e o corpo no inferno. ² Não se vendem dois pardais por alguns centavos? No entanto, nenhum deles cai no chão, sem que o Pai de vocês o permita. ³ Até mesmo os cabelos da cabeça de vocês estão todos contados. ³¹Portanto, não tenham medo! Vocês valem mais que muitos pardais. ³²Assim, todo aquele que se declarar por mim diante das pessoas, também eu me declararei por ele diante do meu Pai que está nos céus. ³³Aquele, porém, que me renegar diante das pessoas, também eu o renegarei diante do meu Pai que está nos céus”. O Mestre passa a fazer algumas considerações para completar o que ensinara até esse ponto. Começa com a chamada de atenção para os discípulos-apóstolos “não terem medo”, e sim muita fé, pois nada ficará oculto nem escondido, mas será devidamente “proclamado sobre os telhados” (v. 26-27). Os discípulos- apóstolos funcionarão como autofalantes do Mestre, cuja voz ressoará por todos os tempos e lugares pela ação de seus enviados. Os ensinamentos recebidos em particular deverão tornar-se profusamente conhecidos. Nada de timidez e insegurança quando começarem a trilhar os caminhos do mundo. A segunda consideração diz respeito à absoluta confiança na providência do Pai, “que pode destruir a alma e o corpo no inferno” (v. 28). Com essa linguagem dura, o Mestre ensina os discípulos-apóstolos a estarem atentos com quem deveras tem poder sobre eles, minimizando o alcance da maldade dos perseguidores, que não irá além da violência física. A existência humana comporta uma dimensão determinante quando se trata do destino eterno, a alma (gr. psiché), só atingível por Deus. Para reforçar a fé dos discípulos-apóstolos, o Mestre serve-se de duas metáforas ilustrativas do profundo carinho e da extremada atenção do Pai para com eles. Suas vidas estão nas mãos do Pai e nada lhes acontecerá à sua revelia (v. 29-31). O Pai jamais os abandonará nas mãos dos inimigos, por serem valiosos a seus olhos. Basta não terem medo! A terceira consideração foca a fidelidade dos discípulos-apóstolos em situações onde a infidelidade e a traição tornam-se iminentes. A atitude tomada a favor ou contra o Mestreterá repercussões escatológicas (v. 32-33). Manter a firmeza da fé quando ameaçados garante tê-lo como defensor diante do Pai; abrir mão da fé para escapar significa romper com o Mestre, motivo pelo qual não o terão como advogado por ocasião do julgamento. Não temer o conflito (10,34-39) || Lc 12,51-53; 14,26-27 ³⁴“Não pensem que vim trazer paz à terra. Não vim trazer paz, mas espada. ³⁵De fato, vim pôr o homem contra seu pai, a filha contra sua mãe, a nora contra sua sogra. ³ E os inimigos de uma pessoa serão seus próprios familiares. ³⁷Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim. E quem ama o filho ou a filha mais do que a mim, não é digno de mim. ³⁸Quem não toma a própria cruz e não me segue, não é digno de mim. ³ Quem se apega à própria vida vai perdê-la, mas quem perde a própria vida por mim, vai encontrá-la”. A quarta consideração deve ser interpretada no contexto do discurso missionário para se evitarem mal-entendidos. Não trazer paz, e sim espada, significa que o anúncio do Reino estabelece uma nítida distinção entre quem o acolhe e quem o rejeita (v. 34). A espada simboliza a divisão, onde se podem reconhecer os opostos. Um exemplo: quem escolhe ser puro de coração (cf. Mt 5,8) terá um modo de proceder muito diferente dos mal-intencionados (cf. Mt 7,15-16; 23,28). O confronto com a mensagem do Reino permite saber quem é quem! O resultado pode ser a discrepância entre filhos e pais, filhas e mães, noras e sogras (v. 35-36). No seio de uma família, podem se encontrar pessoas guiadas pela justiça do Reino e outras que optaram pelo caminho contrário. A convivência será difícil, pois o discípulo do Reino se recusa a abrir mão de seu modo de proceder para evitar contrariedades familiares. O amor ao Reino coloca-se acima do amor ao pai, à mãe, ao filho ou à filha, no esforço de se achar digno do Mestre Jesus (v. 37). Conflitos domésticos só acontecem quando a opção do discípulo do Reino contradiz os valores cultivados em casa. Porém, pode acontecer que toda a família dê adesão ao Reino, de modo que seus membros convirjam na busca da mesma justiça. Tal projeto de vida extremamente exigente corresponde à “cruz” do discipulado, a ser assumida e levada adiante nos passos de Jesus (v. 38). Requer-se dos discípulos-apóstolos fortaleza de ânimo e coragem para se tornarem livres mesmo em relação à própria vida (v. 39). Haverá momentos em que correrão o risco de morte por causa da fé (cf. Mt 5,10-11). O Mestre fora contundente ao alertar que a morte poderia vir pelas mãos dos irmãos, dos pais ou dos filhos (v. 21). Quem não se dispuser a abrir mão de sua vida – “perder a vida” – incapacita-se para o discipulado missionário do Reino. Ao encontro dos pequenos (10,40-42) || Mc 9,41 ⁴ “Quem acolhe vocês, está acolhendo a mim. E quem me acolhe, está acolhendo aquele que me enviou. ⁴¹Quem acolhe um profeta por ser profeta, receberá recompensa de profeta. Quem acolhe um justo por ser justo, receberá recompensa de justo. ⁴²E quem der, ainda que seja um copo de água fresca, a um destes pequenos por serem discípulos, eu garanto a vocês: Não perderá a sua recompensa”. A última consideração identifica os discípulos-apóstolos com quem os envia, o Mestre Jesus. Devido à dimensão cristológica da missão, tudo quanto se faz em benefício dos discípulos-apóstolos em última análise significa benevolência com Jesus de Nazaré (v. 40; cf. Mt 25,40). No sentido contrário, a falta de solidariedade com eles corresponde a fechar o coração para o Messias Jesus (cf. Mt 25,45). Acolher os profetas e os justos que agem em nome de Deus e dar mostras de compaixão com “um destes pequenos por serem discípulos” (v. 41-42) têm como contrapartida a recompensa divina, concedida aos profetas, aos justos e aos discípulos-apóstolos. O vocábulo recompensa (gr. misthós) ocorre três vezes nesses versículos. De onde vem a recompensa senão do Pai? Que recompensa provém do Pai a não ser a graça de produzir sempre mais frutos de solidariedade, de compaixão e de cuidado com o próximo (cf. Mt 7,18)? Quais os pressupostos da recompensa senão a gratuidade, a sinceridade e o desapego de coração? Logo a recompensa evangélica supera qualquer relação de troca e de busca inconsiderada de retribuição pelo bem feito a outrem. Como o gesto de acolher flui da pureza de coração, do mesmo modo a recompensa divina expressa a aprovação do Pai pela justiça praticada em relação aos profetas, aos justos e aos missionários do Reino. Como pano de fundo está a presença cuidadosa do Pai não só em relação aos discípulos-apóstolos, mas também em favor de quem se dispõe a colaborar para o bom desempenho da missão. A missão dos discípulos-apóstolos gira em torno de três vertentes teológicas: a) Cristológica. Os apóstolos são enviados por Jesus e com ele devem se conformar; por outro lado, acolhê-los corresponde a acolher Jesus. b) Eclesiológica. Jesus confia a missão à comunidade dos discípulos-apóstolos para ser realizada com espírito de comunhão e consciência de estarem todos comprometidos com o serviço do Reino. c) Escatológica. O anúncio do Reino exige uma resposta do ouvinte; a acolhida ou a rejeição na história terá a devida contrapartida no final dos tempos. Cada atitude dos discípulos-apóstolos e de quem os acolhe ou os rejeita tem densidade escatológica. No final dos tempos ficará patente, respectivamente, o reconhecimento ou a censura do Pai dos Céus. Para reflexão e debate 1. Quais são os eixos principais da missão confiada por Jesus aos apóstolos? 2. Em que sentido a missão confiada aos discípulos-apóstolos dá continuidade à missão de Jesus recebida do Pai? III. OS MISTÉRIOS DO REINO (Mt 11-13) 1. Narração: Acolhida e rejeição do Messias Os dois capítulos seguintes descrevem várias reações no confronto com Jesus de Nazaré apresentado como Messias por palavras (cf. Mt 5–7) e Messias por obras (cf. Mt 8–9). Ao enviar os discípulos em missão, Jesus os alertara para as perseguições que se abateriam sobre eles. Nessa etapa da catequese, ele mesmo se encontra no centro das controvérsias. Nada de semelhante havia acontecido até então. A narração sofre uma espécie de reviravolta, com a contínua rejeição de Jesus de Nazaré e sua mensagem e a tomada de decisão de eliminá-lo (cf. Mt 12,14). Doravante se encaminhará na direção da morte do Messias Jesus. Pergunta de João Batista (11,1-6) || Lc 7,18-23 ¹Quando Jesus terminou de dar instruções a seus Doze discípulos, partiu daí para ensinar e pregar nas cidades deles. ²João Batista, ouvindo falar na prisão sobre as obras do Messias, enviou-lhe alguns de seus discípulos ³para lhe perguntarem: “És tu aquele que devia vir, ou devemos esperar outro?” ⁴Jesus respondeu-lhes: “Vão e contem a João as coisas que vocês estão ouvindo e vendo: ⁵Cegos recuperam a vista e coxos andam; leprosos são purificados e surdos ouvem; mortos são ressuscitados e pobres recebem a Boa Notícia. E feliz aquele que não se escandalizar por minha causa”. Quando se esperavam os apóstolos partindo em missão, ei-los tratados como Doze discípulos, enquanto Jesus “partiu daí para ensinar e pregar nas cidades deles” (v. 1). Só se tornarão realmente missionários no final do evangelho, depois de seguirem o Mestre até a cruz (cf. Mt 28,16-20). Aí sim serão enviados – “Vão!” (Mt 28,19) – e se lançarão na missão que os levará a todos os rincões do mundo. Até lá enfrentarão uma caminhada exigente com o Mestre, para aprenderem com seus gestos e palavras o caminho da obediência e da fidelidade ao Pai (cf. Mt 26,42). João Batista, referido no contexto do batismo de Jesus, está na prisão (cf. Mt 3,1- 17). Mais adiante o narrador informará o motivo do encarceramento (cf. Mt 14,3-12). As notícias a respeito das “obras do Messias” deixaram-no em dúvida quanto à identidade de Jesus (v. 2). Ele anunciara um Messias juiz implacável, pronto para cortar toda árvore que não produz fruto bom e jogá-la no fogo e limpar sua eira, recolhendo o trigo no celeiro e queimando a palha “no fogo que nunca se acaba” (cf. Mt 3,10.12). Porém,chegavam-lhe notícias de Jesus atuando noutra direção. A iniciativa de enviar um grupo de discípulos com a incumbência de esclarecer a identidade de Jesus visava a tirar uma dúvida do Batista. Seria Jesus o Messias anunciado por ele ou deveria esperar outro (v. 3)? O tema da identidade messiânica de Jesus perpassa todo o evangelho. Seguramente é a temática fundamental da catequese mateana. Ele não traz na testa o sinal de ser “o” Messias. Seu histórico sociorreligioso nada tem para lhe conferir um eventual caráter messiânico. Que se poderia esperar de um galileu pobre e andarilho com um punhado de seguidores, recolhidos dos estratos sociais mais baixos, desconectados dos movimentos religiosos da época e das estruturas religiosas da sinagoga e do Templo de Jerusalém? O messianismo de Jesus primava pela falta de evidência! A resposta de Jesus foge do esquema “sim ou não”. Ele propõe a João um discernimento de suas palavras e de suas ações para que chegue por si mesmo a uma conclusão. Os discípulos de João devem contar a seu mestre a benevolência de Jesus em favor dos cegos, dos coxos, dos leprosos, dos surdos, dos mortos e dos pobres (v. 4-5). Tudo como os antigos profetas descreveram a respeito da atuação do Messias. Jesus deixava entrever a compatibilidade entre seus gestos de misericórdia em favor da humanidade sofredora e a pregação dos profetas de outrora. Todavia reconhecê-lo ou não como Messias dependeria do discernimento e da decisão de João Batista, a partir das informações colhidas por seus discípulos. A catequese mateana esquiva-se de revelar a conclusão a que João Batista chegou. Todavia, a bem-aventurança contida no v. 6 pode expressar o desejo de Jesus de que João o reconheça como Messias e “não se escandalize por minha causa”. E abra mão de sua compreensão do messias juiz escatológico implacável e compreenda o agir de Deus na história pelo viés da misericórdia e da reconstrução da dignidade dos seres humanos. Uma verdadeira conversão! Testemunho de Jesus sobre João Batista (11,7-19) || Lc 7,24-35 ⁷Quando eles partiram, Jesus começou a falar de João para as multidões: “Vocês saíram ao deserto para ver o quê? Um caniço agitado pelo vento? ⁸Saíram para ver o quê? Um homem ricamente vestido? Mas os que se vestem ricamente estão em palácios de reis. Então, saíram para ver o quê? Um profeta? Sim, eu lhes digo, e muito mais que um profeta. ¹ É dele que está escrito: ‘Eis que eu envio o meu mensageiro à frente de você. Ele vai preparar-lhe o caminho na sua frente’. ¹¹Eu lhes garanto: Entre os nascidos de mulher, não apareceu ninguém maior que João Batista. No entanto, o menor no Reino dos Céus é maior do que ele. ¹²Desde os dias de João Batista até agora, o Reino dos Céus sofre violência, e os violentos se apoderam dele. ¹³Porque todos os Profetas e a Lei profetizaram até João. ¹⁴E, se vocês quiserem acreditar, é ele o Elias que devia vir. ¹⁵Quem tem ouvidos, ouça! ¹ A quem vou comparar esta geração? É como crianças sentadas nas praças, gritando a outras: ¹⁷‘Tocamos flauta para vocês, e vocês não dançaram. Cantamos lamentações, e vocês não choraram’. ¹⁸De fato, veio João, que não come nem bebe, e dizem: ‘Ele tem um demônio’. ¹ Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem: ‘Eis um comilão e beberrão, amigo de cobradores de impostos e pecadores’. Mas a Sabedoria é justificada pelas suas obras”. João Batista tinha dúvidas quanto à identidade de Jesus. Este, por sua vez, conhecia muito bem a identidade de quem preparou sua vinda ao proclamar: “Aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu [...] Ele batizará vocês com Espírito Santo e com fogo” (Mt 3,11). A longa fala de Jesus descreve João Batista como o profeta-mensageiro, anunciado pelos profetas do passado com a missão de “preparar-lhe o caminho na sua frente” (cf. v. 7-15). Tudo quanto falara a respeito do Messias dizia respeito a Jesus, embora, ao ouvir falar dele, tivesse dúvidas de se tratar ser ele o Messias esperado. Para Jesus, isso tem pouca importância! Basta João Batista ter “cumprido toda a justiça”, apesar das suspeitas provocadas pelo modo de agir e de falar de Jesus, que não se pautou pelo que ele havia anunciado (Mt 3,15). O v. 11 tem como pano de fundo o conflito entre a comunidade mateana e a comunidade dos discípulos de João Batista. Esses pregavam a superioridade de seu mestre em relação a Jesus por tê-lo batizado. O catequista questiona tal perspectiva tendo em vista o Reino dos Céus anunciado e implementado por Jesus. João Batista foi deveras grande. Mas não teve a graça de se tornar discípulo do Reino. “Todos os Profetas e a Lei profetizaram até João”, que se tornou o ponto-limite de chegada da tradição dos antigos (v. 13). Eis por que “o menor no Reino dos Céus é maior do que ele”, mesmo que, “entre os nascidos de mulher, não apareceu ninguém maior que João Batista”. O v. 12 tem um quê de enigmático. Que significa a declaração de Jesus – “O Reino dos Céus sofre violência, e os violentos se apoderam dele” –, quando havia proclamado bem-aventurados os mansos e os promotores da paz (cf. Mt 5,5.9)? Uma interpretação plausível no contexto do discipulado vai na linha das exigências inexoráveis com as quais os seguidores de Jesus são desafiados (cf. Mt 8,18-22; 10,34-39). Seria a violência contra o medo, a insegurança e o egoísmo empecilhos para a entrega radical ao Reino de Deus e sua justiça (cf. Mt 6,33)? Fica descartada qualquer interpretação de violência no sentido do Império Romano e seus métodos de dominação. Sem meias palavras Jesus declara que João Batista “é o Elias que devia vir” (v. 14) e convoca as multidões para o discernimento (v. 15). A tradição falava de Elias levado para o céu num carro de fogo puxado por cavalos de fogo (cf. 2Rs 2,11-12), donde nasceu a esperança de sua volta no final dos tempos. O profeta Malaquias falara em nome de Deus: “Eu mandarei a vocês o profeta Elias, antes que venha o grandioso e terrível Dia de Javé” (Ml 3,23). Jesus considerava João Batista o Elias esperado (cf. Mt 17,10-13). João Batista aprisionado não preocupava Jesus, e sim as multidões (“esta geração”) encontradas ao longo de suas caminhadas (v. 16). Como crianças birrentas, sempre tinham motivos para ser do contra (v. 17). O asceta João Batista foi chamado de possesso (v. 18). O Jesus sociável e próximo das pessoas, de modo especial os desconsiderados pela sociedade e pela religião, com quem convivia, recebia a pecha de comilão e beberrão (v. 19). Qualquer que fosse o enviado de Deus, haveria sempre uma forma de desacreditá-lo para abafar seus apelos de conversão. “Esta geração” perseveraria no caminho do mal e se recusaria a acolher o anúncio do Reino num visível fechamento para Jesus e sua missão de salvador. Assemelha-se à semente caída na beira do caminho e logo comida pelas aves (cf. Mt 13,4.19). O provérbio “A Sabedoria é justificada pelas suas obras” pode ser entendido como afirmação de que Deus continuará a agir por meio de seus enviados, mormente o Messias Jesus, apesar das resistências e dos desprezos. Crítica às cidades impenitentes (11,20-24) || Lc 10, 13-15 ² Então Jesus começou a repreender as cidades onde ele havia feito a maioria de seus milagres, mas não se converteram: ²¹“Ai de você, Corazin! Ai de você, Betsaida! Porque, se em Tiro e Sidônia tivessem sido feitos os milagres realizados em vocês, há muito tempo teriam feito penitência com pano de saco e com cinza. ²²Portanto, eu lhes digo: No dia do julgamento, haverá menos rigor para Tiro e Sidônia do que para vocês. ²³E você, Cafarnaum, por acaso será elevada até o céu? Você há de cair no fundo do abismo! Porque, se os milagres realizados em você tivessem sido feitos em Sodoma, ela existiria até hoje. ²⁴Mas eu lhes digo: No dia do julgamento, haverá menos rigor para a terra de Sodoma do que para você”. A fala de Jesus tem agora destinatários bem concretos, os moradores daquelas cidades onde fez em vão “a maioria de seus milagres”, porquanto “não se converteram” (v. 20). A dureza de coração trará consequências desastrosas,pois a Palavra de Deus tem o objetivo de fazer o ser humano abandonar o mau caminho que leva à destruição e se voltar para o caminho da vida (cf. Mt 7,13- 14). Os insensatos insistem no intento de calar os enviados de Deus. Servindo-se de invectivas, modo de falar característico dos profetas de Israel, Jesus põe-se a verberar contra várias cidades situadas ao redor do lago de Genesaré, palco privilegiado de suas atividades. Corazin e Betsaida foram incapazes de reconhecer a hora da graça nos gestos poderosos (gr. dynámeis) de Jesus. Tivessem sido feitos em Tiro ou Sidônia, cidades gentias da costa mediterrânea, teriam surtido o efeito de mover o povo a fazer “penitência com pano de saco e com cinza” (v. 21). Os longínquos seriam mais sensíveis aos apelos de Deus que os próximos. Como consequência, “no dia do julgamento”, haverá mais benevolência com aqueles estrangeiros do que com os de casa (v. 22). Cafarnaum, onde Jesus foi morar quando deixou Nazaré (cf. Mt 4,13), também está na mira das invectivas (v. 23). Engana-se ao pensar que será elevada ao céu. Pelo contrário, será lançada no fundo do abismo pela dureza de coração diante dos muitos gestos poderosos realizados por Jesus. Seu comportamento foi pior que o de Sodoma, símbolo da depravação. Quem sabe, se tivesse a chance de ser confrontada com a ação do Messias Jesus, Sodoma fosse poupada da destruição. Cafarnaum, por conseguinte, supera em malícia a cidade ícone da malignidade. Como se pode esperar “no dia do julgamento”, será tratada com mais rigor do que Sodoma (v. 24). Triste cenário, se se pensa no que sobrou da cidade impenitente! Revelação aos pequeninos (11,25-30) || Lc 10,21-22 ²⁵Nessa ocasião, Jesus começou a dizer: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas a sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. ² Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. ²⁷Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai. E ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. ²⁸Venham a mim, todos vocês que andam cansados e curvados pelo peso do fardo, e eu lhes darei descanso. ² Carreguem minha carga e aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para suas vidas. ³ Pois minha carga é suave e meu fardo é leve”. Em contraste com quem o rejeita, Jesus faz uma oração de louvor ao Pai pelos “pequeninos” (gr. népioi) abertos para acolher a revelação “dessas coisas” – o amor salvífico do Pai por meio do Filho Jesus – que permanecem escondidas para os “sábios e entendidos” (gr. sophón kaì synetón) (v. 25). Essa inversão de valores está nos planos do Pai, na sua pedagogia de desarmar os arrogantes e se colocar ao lado dos pequeninos e marginalizados (v. 26). Só acolhe Jesus e o Reino quem se despir das posturas arrogantes e se revestir de humildade. A declaração do v. 27 frisa a íntima relação de Jesus com o Pai e as pessoas “a quem o Filho o quiser revelar”. Essa circularidade de conhecimento possibilitado pelo amor deixa de fora os arrogantes e os autossuficientes, por se bastarem a si mesmos. Ao se recusarem ser incluídos nessa dinâmica de amor, são rechaçados por Jesus e, por consequência, pelo Pai do Céu. Dirigindo-se aos pequeninos “cansados e curvados pelo peso do fardo”, Jesus os convida para junto de si, em vista de receberem o devido descanso (gr. anápausis) (v. 28). Quem poderia cansá-los e abatê-los, senão a religião dos legalistas e moralistas, carregada de exigências opressoras? Esses não suportam ver a convivência do Mestre com os pecadores e marginalizados para salvá-los, e não para ameaçá-los com castigos (cf. Mt 9,10-13). O Mestre propõe-lhes que façam duas coisas: carregar sua carga e aprender dele (v. 29-30). Sua carga pode ser compreendida como o projeto de religião desprovido de legalismo e moralismo, mas baseado na misericórdia e no cuidado com o próximo. Sendo assim, torna-se leve e suave, e oferece “descanso para suas vidas”. Voltar-se para ele corresponde a romper com os motivos de aflição em nome de Deus. O aprendizado com ele baseia-se na pedagogia de imitar seu modo de proceder “manso e humilde (puro) de coração”, na linha das bem- aventuranças (cf. Mt 5,5.8). Para isso será preciso se afastar do contratestemunho de quem, servindo-se do discurso religioso, atribula o próximo com exigências descabidas (cf. Mt 16,6; 23,4). A justiça do Reino aponta para um projeto de vida portador de alegria. A proposta de Jesus para quem se sente aplastado por um tipo de religião desvirtuada vai nessa direção. O questionamento e a rejeição do ministério de Jesus continuam na cena seguinte com outros adversários: os escribas e fariseus. Esses dois grupos de defensores da religião mosaica na sua versão mais estrita não lhe dão tréguas. Quando a catequese evangélica se refere a escribas e fariseus, um dos vários movimentos da religião judaica do século I, deve-se pensar em um grupo de membros, e não no movimento em seu conjunto. Havia escribas e fariseus não fanáticos que conviviam com os legalistas e não se encaixavam no perfil descrito na catequese mateana. Essas distintas posturas são encontradas em qualquer grupo ao qual pertencem pessoas com mentalidades e visões de mundo contrastantes. Espigas arrancadas no sábado (12,1-8) || Mc 2,23-28; Lc 6,1-5 ¹Nessa ocasião, Jesus passou pelas plantações num sábado. Seus discípulos estavam com fome e começaram a arrancar espigas e comê-las. ²Vendo isso, os fariseus disseram a Jesus: “Vê: teus discípulos estão fazendo o que não é permitido no sábado”. ³Ele respondeu: “Vocês não leram o que Davi e seus companheiros fizeram quando tiveram fome? ⁴Como entraram na casa de Deus e comeram os pães oferecidos a Deus, coisa que nem a ele nem a seus companheiros era permitido comer, mas somente aos sacerdotes? ⁵Ou vocês não leram na Lei que aos sábados, no Templo, os sacerdotes violam o sábado e ficam sem culpa? Pois eu lhes digo: Aqui está algo maior que o Templo. ⁷Se vocês tivessem compreendido o que significa: ‘Quero misericórdia e não sacrifício’, não teriam condenado os inocentes. ⁸Porque o Filho do Homem é senhor do sábado”. Os conflitos começam com a liberdade de Jesus diante do preceito do repouso sabático, exigência da religião judaica. O primeiro conflito acontece quando atravessava uma plantação de grãos (gr. spórimos) e os discípulos arrancavam espigas e as comiam para matar a fome (v. 1). Tratar-se-ia de um trigal cujos grãos maduros podem ser mastigados crus? Um detalhe: era sábado! Esse será o pomo de discórdia. Os onipresentes fariseus, diante da cena, questionam Jesus. Um mestre conhecedor da Lei deveria saber da proibição de colher espigas em dia de sábado (v. 2). A ação dos discípulos de Jesus, no entender deles, correspondia a colher e debulhar os grãos como fazem os agricultores. Logo, era como se estivessem trabalhando em dia de sábado, em aberta contradição do preceito religioso. Um simples gesto motivado por uma necessidade assume uma dimensão impensada, quando julgado pelo viés de uma ideologia religiosa. Jesus contesta-os, apelando para um passado longínquo, quando o rei Davi, para escapar da fúria de Saul, chegou a um santuário e pediu comida ao sacerdote. Nada tendo para oferecer, esse colocou à disposição de Davi e seus companheiros os pães consagrados, alimento exclusivo dos sacerdotes (v. 3-4; cf. 1Sm 21,2-6). O ponto de vista de Jesus era patente: uma lei positiva deve ser reconsiderada em caso de emergência, onde estão em jogo as carências vitais do ser humano. A fome justificava o consumo dos pães consagrados, como fizeram Davi e seus companheiros, do mesmo modo que legitimava a iniciativa de seus discípulos, quando se devia fazer o repouso sabático. Outro argumento traz à baila quem deveria cumprir com todo rigor a Lei do sábado: os sacerdotes do Templo de Jerusalém. Mesmo aos sábados, exercem suas muitas funções rituais e litúrgicas com a consciência de serem fiéis à Lei (v. 5). Embora sendo atividades voltadas para Deus, exigem que secumpra uma série de ações, como acontece com qualquer profissão. O exercício do sacerdócio em dia de sábado tem a aceitação de todos. Então, por que impedir os discípulos de matar a fome, colhendo e comendo espigas, por se tratar de sábado? O v. 6 contém um argumento de difícil compreensão para os acusadores de Jesus. Como terão entendido a afirmação: “Aqui está algo maior que o Templo”? Jesus declarava sua profunda comunhão com o Pai, motivo pelo qual se sentia no direito de se colocar acima da Lei e de interpretá-la com os olhos e a liberdade do Pai, livre dos condicionamentos da religião. Por isso, como faria o Pai, não proibiu os discípulos de colher e comer espigas. Jesus pensava e agia como o Pai por estar muito acima daquilo que era altamente valorizado pela religião judaica, o Templo, morada de Deus. Os fariseus se equivocavam ao defender a Lei de Deus de maneira incompatível com o pensamento de Deus. Jesus sim agiu de forma correta no trato com os discípulos, mesmo atropelando as interpretações da Lei do repouso sabático. Uma chamada de atenção do Mestre a seus críticos reforça um tema importante na catequese mateana. A citação do profeta Oseias: “Quero misericórdia e não sacrifício” (Os 6,6) contrapõe o trato caridoso com o próximo e a liturgia pomposa, o cuidado com os pobres e a preocupação com a Lei, o caminho verdadeiro para se chegar a Deus e os atalhos desviantes. Se os fariseus se esforçassem para ser fiéis ao Deus de misericórdia, jamais fariam mal aos inocentes. A censura a Jesus e seus discípulos, afinal de contas, revela a perda de foco da religião farisaica. Preocupada com a prática da Lei a todo custo, tomava um caminho que os afastava sempre mais do verdadeiro querer divino. A argumentação de Jesus conclui-se com a revelação de sua identidade: “O Filho do Homem é senhor do sábado” (v. 8). Embora o narrador se omita de dizer a reação dos fariseus, pode-se imaginar não terem atinado para o real significado da afirmação. Como “senhor do sábado”, Jesus se colocava em pé de igualdade com o autor da Lei sabática, donde seu direito de permitir aos discípulos colher e comer espigas, quando a religião legalista exigia se abster de fazê-lo. Cura da mão paralisada (12,9-15a) || Mc 3,1-7a; Lc 6,6-11 Partindo desse lugar, Jesus entrou na sinagoga deles. ¹ Havia aí um homem que tinha uma das mãos paralisada. Então, para acusarem Jesus, perguntaram-lhe: “É permitido curar em dia de sábado?” ¹¹Jesus respondeu: “Quem de vocês, se tivesse uma ovelha e ela caísse num buraco em dia de sábado, não a pegaria e a tiraria daí? ¹²Ora, uma pessoa vale muito mais que uma ovelha! Portanto, em dia de sábado é permitido fazer o bem”. ¹³Então disse ao homem: “Estenda a mão”. Ele a estendeu, e a mão ficou boa como a outra. ¹⁴Os fariseus saíram e se reuniram para planejar um modo de matá-lo. ¹⁵aSabendo disso, Jesus se retirou desse lugar. Novo episódio em torno da Lei do sábado. O ambiente agora é a “sinagoga deles” (v. 9). O Mestre encontra-se em pleno campo adversário, um lugar sagrado e um tempo sagrado onde depara com alguém com “uma das mãos paralisadas” (v. 10a). O original grego diz “tendo a mão seca”. A mão simboliza o agir humano na antropologia bíblica. Embora não seja dito, o leitor implícito da catequese mateana sabe tratar-se da mão direita, com a qual se faz o bem (Mt 6,3). A mão esquerda relaciona-se com a prática do mal. O homem de mão seca estava incapacitado para fazer o bem, apesar de sua religiosidade. A religião de nada lhe servia em se tratando de fazer a vontade de Deus. A pergunta do v. 10b carece de sujeito. Mais adiante, saberemos tratar-se dos fariseus, referidos na cena anterior (v. 2). A questão capciosa pode ser reformulada assim para revelar-lhe a intenção: “É permitido curar em dia de sábado, de modo a atropelar a Lei do repouso sabático?” O foco deles centrava- se na obediência cega ao imperativo da Lei. Jesus mirava noutra direção. Para ele, a pergunta soava doutra forma: “É permitido fazer o bem em dia de sábado?” A parábola da ovelha caída num buraco em dia de sábado ilustra a insensatez de subordinar a prática do bem aos princípios da Lei (v. 11). Ninguém em são juízo, se possui uma ovelha, a deixará no buraco em dia de sábado, à espera de retirá-la após o pôr do sol. Antes, a retirará imediatamente. A defesa de seus haveres impelirá o proprietário da ovelha a agir de imediato para evitar o prejuízo. Pode-se prever a aplicação da parábola. Um ser humano vale infinitamente mais que uma ovelha. Sendo assim, pode-se fazer o bem em dia de sábado, sem necessariamente atropelar a Lei do repouso sabático, na eventualidade de um ser humano necessitar (v. 12). O argumento de Jesus sublinha a insensatez de defender a integridade física de um animal e carecer de compaixão por quem sofre. A questão dos inimigos deve ser respondida de forma afirmativa: “Sim, é permitido curar em dia de sábado”. De outra forma: “Sim, é permitido fazer o bem em dia de sábado”. O absoluto da vida situa-se num patamar muito superior a qualquer Lei. Pode ser considerado o ponto de partida da Lei, cuja função suprema consiste em defender a vida e a dignidade do ser humano. Jesus passa da argumentação à ação. Ordena ao homem estender a mão, e no ato de obedecer à ordem de Mestre, “a mão ficou boa como a outra”; literalmente, “foi restaurada, [ficando] sã como a outra” (v. 13). Quem a restaurou foi a exousia concedida pelo Pai a Jesus. Aquele homem, beneficiado pela misericórdia divina, doravante estava apto para fazer o bem, pela liberdade de Jesus em obedecer a Deus e relegar ao segundo plano as interpretações estreitas da Lei despreocupadas com a defesa da vida. A reação dos fariseus foi imediata. Decidiram a morte de Jesus (v. 14; gr. symboúlion élabon). Os motivos encontram-se nas entrelinhas da narração: desrespeito à Lei mosaica; ousadia de se colocar acima de Deus e contra Deus; profanação do tempo e do lugar sagrados ao atropelar os anseios de Deus. Para os acusadores, tratava-se de defender “os direitos de Deus”. Para isso, eliminar Jesus tornava-se uma exigência inadiável! A catequese mateana, a partir desse momento, começa a se encaminhar para a morte de Jesus. Os adversários buscarão formas de encurralá-lo até encontrar! Ele, porém, se esquivará quanto possível. Eis por que se retirou daquele lugar, para escapar da sanha assassina dos defensores de uma religião fanática e intolerante (v. 15a). Jesus, o Servo de Javé em ação (12,15b-21) || Mc 3,7b-12; Lc 6,17-19 ¹⁵bMuitos seguiram a Jesus, e ele curou a todos. ¹ E proibia severamente que divulgassem quem ele era. ¹⁷Isso para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta Isaías: ¹⁸“Eis o meu servo, a quem escolhi; o meu amado, no qual minha alma se compraz. Porei sobre ele o meu Espírito, e ele anunciará o julgamento às nações. ¹ Ele não discutirá nem clamará, nem sua voz se ouvirá nas ruas. ² Ele não quebrará o caniço rachado, nem apagará o pavio que ainda fumega, até que leve o julgamento à vitória. ²¹E no seu nome as nações terão esperança”. As constantes ameaças jamais bloquearam Jesus. Todos quantos o seguiam carentes de cura eram salvos pela força de sua exousía, a qualquer hora e em qualquer lugar (v. 15b). Nada o impedia de ir ao encontro dos sofredores para lhes sarar a dor e o sofrimento. Fazer-se indiferente ao sofrimento humano se configuraria como infidelidade ao Pai, que o revestiu de autoridade em favor da humanidade precisada de salvação. A veemente proibição de divulgar sua identidade messiânica pode ser entendida como esforço de evitar o exibicionismo, tentação que o desviaria do caminho proposto pelo Pai (v. 16). Buscar reconhecimento e aplausos estava fora de cogitação (cf. Mt 4,5-6). Seu comportamento inspirava-se no servo, referido por Isaías, escolhido e amado por Deus e cheio do Espírito, com a missão de proclamar o julgamento a todos os povos, na humildade e no escondimento, mas convicto de lhe competir o anúncio da esperança às nações. Eis por que “não quebrará o caniço rachado, nem apagaráo pavio que ainda fumega”, encontrará motivos para continuar acreditando, embora devendo se apegar a fiapos de evidências (v. 16-21; cf. Is 42,1-4). Pecado contra o Espírito Santo (12,22-32) || Mc 3,22-30; Lc 11,14-23; 12,10 ²²Então levaram a Jesus um endemoninhado cego e mudo. E Jesus o curou, de modo que o mudo falava e enxergava. ²³E todas as multidões, espantadas, diziam: “Acaso não será este o Filho de Davi?” ²⁴Ouvindo isso, os fariseus disseram: “É por Beelzebu, o chefe dos demônios, que ele expulsa os demônios”. ²⁵Jesus, porém, conhecendo-lhes o pensamento, lhes disse: “Todo reino dividido contra si mesmo é destruído. E toda cidade ou casa dividida contra si mesma não ficará de pé. ² E se Satanás expulsa Satanás, está dividido contra si mesmo. Como, então, seu reinado poderá ficar de pé? ²⁷Se eu expulso os demônios por Beelzebu, em nome de quem os filhos de vocês os expulsam? Por isso, eles próprios serão juízes de vocês. ²⁸Mas se é pelo Espírito de Deus que eu expulso os demônios, então já chegou para vocês o Reino de Deus. ² Ou, como alguém consegue entrar na casa de um homem forte e roubar seus bens, se primeiro não o amarra? Só então poderá saquear-lhe a casa. ³ Quem não está comigo, está contra mim. E quem não recolhe comigo, espalha. ³¹Por isso eu lhes digo: Todo pecado e blasfêmia serão perdoados às pessoas, mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada. ³²Se alguém disser algo contra o Filho do Homem, isso lhe será perdoado. Mas se alguém disser algo contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem no presente nem no futuro”. As investidas dos adversários continuam. Jesus enfrenta-os com coragem. O narrador omite-se de localizar a cena, apenas informa que levaram a Jesus um homem possuído pelo mau espírito, que o impedia de se comunicar por ser cego e mudo (v. 22). As duas limitações descrevem mais sua condição existencial do que a condição física. A cegueira tirava-lhe o discernimento e o fazia viver na escuridão, impossibilitado de caminhar com retidão nos caminhos de Deus (cf. Mt 6,22-23). A mudez tornava-lhe difícil a comunicação com as pessoas. Seja porque sua palavra perdera a credibilidade (cf. Mt 5,37), seja porque vivia fechado aos canais de interlocução. O homem encarnava o ser humano antissocial ou associal, contradizendo o desejo do Criador que o criou como ser de relações. Jesus, cuja missão consistia em “salvar o povo dos seus pecados” (Mt 1,21), entra imediatamente em ação e cura o indivíduo impossibilitado de se comunicar. Este passa a falar e a ver! As multidões admiradas reconhecem ser Jesus o Filho de Davi, título usado em várias ocasiões (v. 23; cf. Mt 9,27; 15,22; 20,30-31; 21,9.15). Ao considerar Jesus Filho de Davi, as multidões percebem a presença de algo extraordinário em suas vidas, pois veem as pessoas recuperando sua dignidade e descortinando um largo horizonte de inter-relações pela ação do Filho de Davi. A superação da cegueira e da mudez do endemoninhado apontava nessa direção. O Filho de Davi empenhava-se para criar a sociedade querida por Deus. A reação dos adversários vai na direção contrária. Interpretam a libertação daquele homem como decorrência de um conluio entre Jesus e Beelzebu, o chefe dos demônios (v. 24; cf. Mt 9,34; 10,25). O raciocínio simplista deles considerava que os demônios possuidores do cego-mudo cumpriam ordens de seu chefe, Beelzebu. Apenas esse poderia ordenar que se retirassem daquele homem. Se os demônios se afastaram pela palavra de um estranho, deduz-se que Jesus recebeu a permissão do chefe dos demônios para fazê-lo. Caso contrário, sua palavra seria ineficaz! Jesus faz uma longa contra-argumentação para mostrar a inconsistência do pensamento dos rivais. O primeiro passo consiste em mostrar a insensatez de se pensar Satanás autorizando alguém fora de seu círculo e seu opositor a dar ordens a seus comandados. Se isso fosse verdade, seu reino estaria a um triz da ruína, por ter perdido o controle das coisas (v. 25-26). O segundo passo corresponde à aplicação do raciocínio dos adversários a eles mesmos. Que pensar dos “filhos” deles, isto é, seus seguidores, quando expulsam demônios como Jesus? Agiriam também em conluio com Beelzebu? Como isso não acontece, podem testemunhar em favor de Jesus e denunciar a falta de discernimento de seus pais (v. 27). O terceiro passo comporta a revelação da origem do poder de Jesus, para curar e libertar as pessoas, e o que daí decorre (v. 28). Sua ação procede do “Espírito de Deus” e sinaliza a presença do Reino de Deus na história. Jesus dá um basta ao agir perverso de Beelzebu e seus sequazes, pois detém uma força divina para impedir que o mal prevaleça sobre os seres humanos. A história está nas mãos de Deus, que em Jesus faz irromper algo inteiramente novo, que os fariseus desconhecem. O quarto passo sublinha o poder insuperável de Jesus com uma metáfora (v. 29). Alguém consegue assaltar e saquear a casa de um homem forte, só depois de havê-lo imobilizado. Se a “casa” de Beelzebu foi invadida e seus asseclas foram postos para correr, significa que Jesus “amarrou” seu chefe e o imobilizou. Não existe outra explicação. Jesus tira algumas conclusões de sua argumentação. A primeira diz respeito ao conjunto da cena onde “as multidões” estão com ele e “os fariseus” são contrários a ele. Recusar-se a caminhar com ele assemelha-se à atitude do agricultor que, ao invés de juntar os grãos colhidos, dispersa-os (v. 30). Atitude louca! A segunda mostra a gravidade do que fazem os fariseus a partir de um argumento teológico, a imperdoabilidade da “blasfêmia contra o Espírito Santo” (v. 31). Blasfemar contra o Espírito Santo corresponde a fechar o coração para ele e impedi-lo de agir em benefício do ser humano ansioso por salvação. Essa postura jamais será perdoada, pela falta do pré-requisito básico para o perdão. Quando um coração se abre para acolhê-lo, o perdão flui instantâneo! O v. 32 faz uma aplicação desse argumento. Uma ofensa dirigida a Jesus, o Filho do Homem, pode merecer o perdão; isso não vale para a ofensa contra o Espírito Santo, impossível de ser perdoada, “nem nesse tempo, nem no que virá”, com o pressuposto de persistir o fechamento do coração para a ação divina. A força das palavras (12,33-37) || Lc 6,43-45 ³³“Ou a árvore é boa e seu fruto é bom, ou a árvore é ruim e seu fruto é ruim. Pois a árvore se conhece pelo fruto. ³⁴Raça de cobras venenosas! Como podem vocês falar coisas boas, se são maus? Pois a boca fala do que o coração está cheio. ³⁵A pessoa boa tira coisas boas de seu bom tesouro; a pessoa má tira coisas más de seu mau tesouro. ³ Eu lhes digo: No dia do julgamento, as pessoas prestarão contas de toda palavra falsa que tiverem dito. ³⁷Porque por suas palavras você será declarado justo, e por suas palavras será condenado”. Jesus continua a falar e confrontar os opositores, cuja identidade se pode conhecer por suas ações. A metáfora da árvore e seus frutos serve-lhe de referência. A qualidade do fruto revela a qualidade da árvore (v. 33). A malícia de quem o acusa de pacto com Beelzebu por ter praticado o bem dá a conhecer a que tipo de árvore se assemelha (cf. Mt 7,17). Retomando um vitupério de João Batista (cf. Mt 3,7), chama-os de “raça de cobras venenosas”, de quem nada se pode esperar de bom por serem árvores ruins (v. 34). Se o coração deles está repleto de coisas más, de suas bocas só sairão disparates, conforme o ditado: “A boca fala do que o coração está cheio!”. As pessoas boas têm palavras edificantes tiradas do seu bom coração – “bom tesouro”. Os mal-intencionados desavergonhadamente pouco se preocupam com a veracidade de suas palavras, vindas do seu “mau tesouro” (v. 35). Toda “palavra falsa”, desprovida de fundamento, inverídica, comporta consequências inimagináveis. Serão pedidas contas de cada uma “no dia do julgamento” (v. 36). Quem as pronunciou deverá se justificar diante do Juiz de toda a humanidade, Deus. As palavras falsas provêm do Maligno (cf. Mt 5,37), como no caso das aberrações ditas contra Jesus por seusdetratores. Estes estão em maus lençóis. Se as pessoas serão declaradas justas ou condenadas por suas palavras, que sorte esperar para quem falou do Filho do Homem de maneira tão despropositada (v. 37)? As palavras de Jesus servem de alerta para os fariseus! O sinal de Jonas (12,38-42) || Mc 8,11s; Lc 11,29-32 ³⁸Então alguns doutores da Lei e fariseus tomaram a palavra e disseram: “Mestre, queremos ver um sinal realizado por ti”. ³ Jesus lhes respondeu: “Uma geração malvada e adúltera busca um sinal. Porém nenhum sinal lhe será dado, a não ser o sinal do profeta Jonas. ⁴ Porque, assim como Jonas esteve três dias e três noites na barriga do monstro do mar, também o Filho do Homem estará três dias e três noites no coração da terra. ⁴¹Os habitantes de Nínive se levantarão com esta geração no Julgamento, e a condenarão, porque eles se arrependeram com a pregação de Jonas. E aqui está quem é maior do que Jonas. ⁴²A rainha do sul se levantará com esta geração no Julgamento, e a condenará, porque ela veio dos confins da terra para escutar a sabedoria de Salomão. E aqui está quem é maior do que Salomão”. Os doutores da Lei juntam-se aos fariseus para submeter Jesus à prova quando lhe pedem um sinal (v. 38). O vocativo “mestre” sinaliza a má intenção. Dessa forma, os inimigos e as pessoas não comprometidas se dirigem a ele (cf. Mt 8,19; 19,16; 22,16.24.36). Falta-lhes benevolência para reconhecerem num possível sinal a identidade messiânica de Jesus que garanta a condição divina de sua missão. Daí sua reação ríspida, embora no ambiente bíblico o pedido de sinal ocorra várias vezes como confirmação da procedência divina de alguma coisa, como na missão confiada a alguém (cf. Jz 6,17.39; Is 7,11; Lc 23,8; Jo 4,48). No caso de Jesus, o pedido de sinal origina-se da incredulidade e do preconceito dos adversários, despreocupados em conhecer a verdade a seu respeito. Uma resposta extensa e contundente desmonta o atrevimento dos opositores. Esses são chamados de “geração malvada e adúltera” (v. 39), numa aberta denúncia de suas perversas intenções. Faltava muito para serem “puros de coração” (cf. Mt 5,8), motivo pelo qual o desejo de “ver um sinal realizado” por Jesus fica em aberto. Se estavam interessados em sinal, que lhes bastasse “o sinal do profeta Jonas”. O v. 40 compara a experiência de Jonas, ao permanecer três dias e três noites no ventre do monstro marinho, com a do Filho do Homem, três dias e três noites no ventre da terra (v. 40). Em outras palavras, deveriam esperar até a morte de cruz para constatar a absoluta fidelidade e obediência dele ao Pai dos Céus. Se fossem honestos, perceberiam que jamais buscou a si mesmo, tampouco os interesses pessoais. Sua pauta de ação foi a justiça do Reino, anseio do Pai para ele e para a humanidade. O v. 41 compara os habitantes de Nínive com “esta geração”. Enquanto aqueles deram ouvidos à pregação de Jonas e se converteram, estes insistem em seus maus caminhos. Por isso os ninivitas, símbolo da acolhida da Palavra de Deus, serão juízes de quem pouco se importa com as advertências divinas por meio do Filho do Homem. A docilidade de uns contrasta-se com a dureza de coração de outros. A declaração: “Aqui está quem é maior do que Jonas” comporta a revelação da identidade de Jesus como enviado por Deus com a missão de convocar o povo à conversão e propor-lhe o perdão misericordioso. Jonas atuou outrora como profeta; Jesus atua agora como Filho amado do Pai (cf. Mt 3,17; 17,5). Se os ninivitas deram ouvidos a Jonas, tanto mais “esta geração” deveria se dispor a ouvir o Filho de Deus. Outra comparação apela para um fato bem conhecido na tradição de Israel: a visita da rainha de Sabá, chamada na catequese mateana de “rainha do sul”, ao rei Salomão (cf. 1Rs 10,1-10). A soberana estrangeira, ouvindo falar do sábio rei de Israel, veio de longe para escutá-lo (v. 42). “Esta geração”, tendo o Filho de Deus tão perto de si, insiste em desacreditá-lo e se obstina em matá-lo. A rainha estrangeira julgará “esta geração” pela sensibilidade de ir ao encalço de quem possui uma sabedoria de vida para lhe comunicar. “Esta geração” dura de coração resiste em dar ouvidos ao encarregado de “salvar seu povo dos seus pecados” (cf. Mt 1,21), mesmo tendo-o tão próximo de si. Outra declaração: “Aqui está quem é maior do que Salomão” também revela a identidade de Jesus. Com o poder (exousia) recebido do Pai, partilha com toda a humanidade a sabedoria – justiça – do Reino. Enquanto Salomão ficou conhecido como o grande rei de Israel, ele o supera por ser Filho de Deus! Retorno do espírito impuro (12,43-45) || Lc 11,24-26 ⁴³“Quando o espírito impuro sai de uma pessoa, anda por lugares desertos à procura de descanso, mas não o encontra. ⁴⁴Então diz: ‘Voltarei para minha casa, de onde saí’. Ao chegar, ele a encontra vazia, varrida e arrumada. ⁴⁵Então vai e leva consigo outros sete espíritos piores que ele, e vão habitar aí. E a situação final dessa pessoa torna-se pior que antes. Assim acontecerá a esta geração malvada”. Jesus dá um passo a mais na contestação do pedido descabido dos opositores. E o faz com uma pequena parábola em torno da ação perversa de um espírito impuro, fixado em atingir seu objetivo de destruir uma pessoa. A história fala do espírito expulso de alguém que se torna livre e senhor de si. O espírito impuro, porém, não se conforma (v. 43). Anda de um lugar para outro, desassossegado e sentindo-se derrotado, até tomar a decisão de recuperar “minha casa, de onde saí” (v. 44), por se sentir senhor de quem fora possuído por ele. Decepciona-se ao encontrar a casa “vazia, varrida e arrumada”. A desordem causada por ele era coisa do passado. Aquele lugar já não lhe pertence! Não se dando por vencido, vai em busca de reforço, “sete espíritos piores do que ele”, para tomar de assalto aquela casa. Finalmente consegue. Como resultado, “a situação final dessa pessoa torna-se pior que antes” (v. 45). Jesus conclui aplicando a parábola “a esta geração malvada”. Está possuída por espíritos malignos em grande quantidade, sublinhada com o número sete, com sentido de totalidade, que a impedem de se sensibilizar pelos chamados insistentes de Deus à conversão por meio do Filho do Homem. O que lhe espera vai além de todos os castigos sofridos no passado pelos israelitas. Jesus curou o endemoninhado cego-mudo, mas não conseguiu tirar o mau espírito dos doutores da Lei e dos fariseus. Apesar de serem defensores intransigentes da religião e de Deus, o futuro deles será tenebroso! A nova família de Jesus (12,46-50) || Mc 3,31-35; Lc 8,19-21 ⁴ Jesus ainda falava para as multidões, e eis que sua mãe e seus irmãos estavam fora, querendo falar com ele. ⁴⁷Alguém disse a Jesus: “Eis que tua mãe e teus irmãos estão ali fora querendo falar contigo”. ⁴⁸Respondendo, ele disse à pessoa que o tinha avisado: “Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?” ⁴ E, apontando com a mão para seus discípulos, disse: “Eis minha mãe e meus irmãos. ⁵ Pois aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, irmã e mãe”. O fluxo da narração interrompe-se para se esclarecer como alguém se vincula com Jesus. Uma cena de família serve de pretexto ao narrador. Jesus aparece “ainda” falando para as multidões quando “sua mãe e seus irmãos” se apresentam com o desejo de falar com ele (v. 46). A expressão “estavam fora” torna-se vaga e permite ao leitor-ouvinte perguntar-se: de onde? A última informação de Jesus ingressando em algum lugar encontra-se no v. 9, quando “entrou na sinagoga deles”; no v. 15 se retira desse lugar e muitos o seguem; as demais cenas parecem acontecer ao ar livre. Outras perguntas podem ser feitas em torno do “querendo falar com ele”, sem ulteriores especificações. Que motivos teriam para ir ao encalço do parente Jesus até encontrá-lo rodeado por multidões? A notícia da presença dos familiares chega a Jesus praticamente repetindo o versículo anterior (v. 47). Quem trouxe o recado retorna com a resposta. A pergunta retórica de Jesus supõe uma resposta óbvia, à primeiravista. Sua mãe e seus irmãos são as pessoas que desejam falar com ele (v. 48). Num gesto quase teatral, aponta para os discípulos, declarando-os serem sua família, e não quem estava lá fora à sua procura (v. 49). A associação entre eles se estabelece não mais pelos vínculos sanguíneos, e sim pela submissão à “vontade do meu Pai que está nos céus” (v. 50). Corresponde à família do Reino, caracterizada por um modo de proceder muito específico, explicitado no Sermão da Montanha (cf. Mt 5–7). A “vontade do Pai dos céus” torna-se um imperativo para quem de coração deseja tornar-se discípulo dele, membro de sua verdadeira família. Para reflexão e debate 1. Os questionamentos feitos a Jesus têm em vista sua identidade messiânica. Que elementos da identidade de Jesus são postos em questão? Como enfrenta quem questiona sua identidade e sua missão? 2. Quem são nesses capítulos os “sábios e entendidos” e os “pequeninos”? Como agem em relação a Jesus? Como Jesus age em relação a eles? 2. Discurso: O Reino em parábolas O terceiro discurso de Jesus, chamado “discurso parabólico”, situa-se no centro da grande estrutura da catequese mateana. Na sequência da narração, podem-se identificar, até aqui, três diferentes posturas em relação a Jesus e ao anúncio do Reino: os escribas e os fariseus lhe são visceralmente contrários e o consideram blasfemo (cf. Mt 9,3), conluiado com Beelzebu (cf. Mt 12,24), e lhe decretam a morte (cf. Mt 12,14); os discípulos receberam a tarefa de continuar sua missão, com o mesmo poder e autoridade do Mestre (cf. Mt 10); as multidões seguem-no para serem beneficiadas por ele, mas não o entendem quando lhes fala do Reino (cf. Mt 13,11). O narrador reúne, então, sete parábolas centradas no conhecimento “dos mistérios do Reino dos Céus” (cf. Mt 13,11), o modo como o Reino acontece na história, para servirem de chave de interpretação para o ministério de Jesus e seu destino, que serão os mesmos dos discípulos (cf. Mt 10,25). O leitor-ouvinte vê- se diante do desafio de passar das parábolas à realidade na contemplação do testemunho de Jesus e das circunstâncias duras onde os discípulos vivem o compromisso com o Reino. Com as parábolas, o catequista quer evitar adesões apressadas e inconsideradas ao projeto de Jesus, que não avaliam as consequências da opção; precaver eventuais situações de desânimo, pois desde o início fica patente que o Reino se constrói em meio a perdas e fracassos. O discípulo manterá vivo o compromisso com o Reino se for capaz de ler a vida da comunidade numa perspectiva escatológica, consciente de caminhar sob o olhar providente do Pai, Senhor da História, como Jesus. O discurso foi inserido entre duas cenas referentes aos familiares de Jesus (cf. Mt 12,46-50; 13,53-58). A primeira fala de “sua mãe e seus irmãos” e a segunda de seus conterrâneos de Nazaré. Esse fenômeno literário chama-se inclusão, uma espécie de moldura para a cena. As duas cenas podem conter uma pista com a compreensão do discurso parabólico. Corresponderia a um ensinamento a respeito da verdadeira parentela de Jesus, com a seguinte questão de fundo: quem é a comunidade do Reino, em quem o Reino produz frutos? E a resposta: os discípulos, à medida que compreenderem “os mistérios do Reino” e seguirem adiante, firmes nos reveses da caminhada de fé e sempre prontos a “fazer a vontade de meu Pai que está nos céus” (cf. Mt 12,50). O semeador (13,1-9) || Mc 4,1-9; Lc 8,4-8 ¹Nesse dia, Jesus saiu de casa e sentou-se à beira-mar. ²Grandes multidões se reuniram em volta dele. Por isso, entrou numa barca e sentou-se, enquanto toda a multidão estava de pé na margem. ³Jesus falou-lhes muitas coisas com parábolas. “Eis que o semeador saiu para semear. ⁴Ao semear, uma parte da semente caiu à beira do caminho, e as aves foram e a comeram. ⁵Outra parte caiu entre as pedras, onde não havia muita terra. Brotou logo, porque a terra não era profunda. Mas, quando o sol apareceu, queimou-se e, não tendo raiz, secou. ⁷Outra parte caiu entre os espinhos: os espinhos cresceram e a sufocaram. ⁸Outra parte, enfim, caiu em terra boa e deu fruto: algumas deram cem, outras sessenta, outras trinta. Quem tiver ouvidos, ouça!” Os v. 1-2 fazem a ambientação das palavras de Jesus. “Nesse dia” corresponde a uma indicação temporal imprecisa, como em cenas anteriores. Trata-se de um recurso do narrador para “costurar” as diversas cenas e lhes dar unidade temporal narrativa. “Saiu de casa” (v. 1) e “foi para casa” (v. 36) indicam os dois públicos para quem Jesus se dirige. Em casa, os ouvintes são os discípulos; fora de casa, são os discípulos e as multidões. Estando a sós com os discípulos, longe das multidões, explica-lhes o sentido das parábolas. Fica estabelecida uma nítida distinção entre discípulos e multidões, perceptível ao longo de toda a catequese mateana. Enquanto os discípulos se declaram capazes de entender os mistérios do Reino (v. 51), as multidões mostram-se privadas de inteligência. O Mestre fala sentado em uma barca, enquanto a multidão escuta-o de pé, à beira-mar. O narrador refere-se a “mar” (gr. thálassa) quando, deveras, trata-se do lago de Genesaré, já que Jesus morava em Cafarnaum (cf. Mt 4,13). Uma informação interessante refere-se ao caráter didático de seus ensinamentos. “Falou-lhes muitas coisas com parábolas” alude a um método comum de instruir, usado pelos mestres judaicos (v. 3). Mais adiante, se dirá que “não lhes falava nada que não fosse em parábolas” (v. 34). Esse modo de ensinar foi herdado da tradição sapiencial, como se espera de um Mestre. As parábolas são tiradas das coisas da vida, da experiência, do cotidiano. Dispensam-se conhecimentos prévios e altas reflexões. A parábola serve de trampolim para o leitor-ouvinte intuir a realidade do Reino em perfeita sintonia com sua vivência da fé. Isso lhe possibilitará caminhar com segurança em meio a percalços, consciente de ser esse o destino do Reino de Deus na história. A parábola do semeador reflete o ambiente agrícola da Palestina, com seu solo pedregoso e uma técnica de semeadura bem distinta da praticada em nossos dias (v. 3-8). Enquanto atualmente se prepara o terreno para a semeadura, nos tempos bíblicos a semeadura antecedia a aradura do terreno. O pano de fundo da parábola corresponde à vida da comunidade em missão, onde os discípulos-apóstolos encontram todo tipo de pessoas, como os distintos terrenos onde a semente cai. O tríplice fracasso (“beira do caminho”, “pedras” e “espinhos”) corresponde à tríplice quantidade de frutos (“cem, sessenta, trinta”), com uma evidente chamada de atenção para as muitas perdas no processo da semeadura. Engana-se quem pretende colher cem por cento de fruto num sucesso estrondoso da missão! Se uma pequena parte da palavra semeada frutificar, dê-se por satisfeito. A advertência: “Quem tiver ouvidos, ouça!” (v. 9) serve de alerta para os discípulos-apóstolos incautos e desavisados. Cuidado para não nutrirem expectativas ingênuas de sucesso, aplausos e reconhecimento. O Reino constrói- se de maneira sutil, longe dos esquemas mundanos de grandeza. O pessimismo e o medo do fracasso são incompatíveis com o ideal dos servidores do Reino. O porquê das parábolas (13,10-17) || Mc 4,10-12; Lc 8,9-10 ¹ Os discípulos se aproximaram de Jesus e lhe perguntaram: “Por que falas a eles em parábolas?” ¹¹Jesus respondeu: “Porque a vocês é dado conhecer os mistérios do Reino dos Céus, mas a eles não. ¹²Pois será dado a quem tem, e lhe será dado em abundância. Mas a quem não tem, mesmo o que tem lhe será tirado. ¹³É por isso que falo a eles em parábolas: porque veem sem ver, e ouvem sem ouvir e entender. ¹⁴Neles então se cumpre aquela profecia de Isaías que diz: ‘Vocês ouvirão, mas não entenderão; enxergarão, mas não verão. ¹⁵Porque o coração deste povo ficou insensível. Ouviram de má vontade e fecharam os olhos, para que não vejam com os olhos, não ouçam com os ouvidos, não compreendam com o coração nem se convertam, e assim eu os cure’. ¹ Mas felizes são os olhos de vocês, porque veem, e seus ouvidos, porqueouvem. ¹⁷Pois eu lhes garanto: Muitos profetas e justos desejaram ver o que vocês estão vendo, mas não viram. Desejaram ouvir o que vocês estão ouvindo, mas não ouviram”. Uma pergunta dos discípulos interrompe o discurso de Jesus. Querem saber o motivo pelo qual fala às multidões em parábolas (v. 10). Por que não lhes diz as coisas abertamente e as poupa do esforço de decodificação de histórias um tanto simplórias? Questionam o método privilegiado pelo Mestre. Este se põe a responder, como das outras vezes, de maneira bem sistemática. O primeiro passo consiste em distinguir bem entre “vocês” (discípulos) e “eles” (multidão) (v. 11). Os discípulos conhecem os “mistérios do Reino dos Céus” por acolhê-lo de coração aberto, com a disposição de se engajarem na aventura de serem guiados pelo Pai dos Céus, como o Filho Jesus. As multidões têm ainda um longo caminho pela frente, até atingirem a maturidade requerida para a compreensão dos mistérios do Reino. Devem superar preconceitos, falsas expectativas e ideias equivocadas. O discipulado do Reino supõe corações renovados! O v. 12 exige ser bem entendido para se evitarem aplicações indevidas. “A quem tem, lhe será dado em abundância” alude à condição do discípulo que se empenha em conformar sua vida com as exigências do Reino e alcançar novos patamares, tendo como horizonte e meta a perfeição do Pai (cf. Mt 5,48). “A quem não tem, mesmo o que tem lhe será tirado” reporta-se aos recalcitrantes interpelados pelo Reino, como os três tipos de terrenos inférteis da parábola do semeador. A indisposição para abraçar o Reino com total generosidade leva-os a perder o pouquinho que adquiriram. A experiência das multidões ao escutarem as parábolas corresponde a “veem sem ver, e ouvem sem ouvir e entender” (v. 13). São inaptas para superar a materialidade da história retratada na parábola e atingir o núcleo da mensagem veiculada. Permanecem na superficialidade das palavras! Por isso o Mestre usa o gênero parabólico para evitar ser mal-entendido. Apenas quem tem um coração de discípulo o compreenderá! O segundo passo comporta uma espécie de fundamentação bíblica da opção metodológica do Mestre (v. 14-15). Seu ensinamento parabólico torna verdadeira a profecia de Isaías no confronto com a incredulidade de seus ouvintes (cf. Is 6,9-10). Como o profeta do passado experimentou a indiferença e a surdez do povo, o Mestre tinha consciência de passar por idêntica situação. As multidões ouvem sem entender e enxergam sem ver. O coração insensível e a má vontade lhes fecham os olhos e as impedem de ver, ouvir, compreender e se converter, de modo a perderem a chance de serem curadas (cf. v. 58). A experiência de Isaías, confrontado com a dureza de coração de seu povo, servia de parábola para a missão do Mestre Jesus. O terceiro passo consiste num louvor à postura dos discípulos, chamados de “felizes”, bem-aventurados (gr. makárioi) (v. 16). A bem-aventurança do discipulado consiste em ver e ouvir as palavras do Mestre, compreendê-las e torná-las decididamente pauta de vida (cf. Mt 12,50). Comparados com “muitos profetas e justos” do passado, encontram-se em posição de superioridade. Aqueles ansiaram ver coisas que os discípulos têm a graça de ver e ouvir no seguimento de Jesus (v. 17; cf. Mt 11,11). Explicação da parábola do semeador (13,18-23) || Mc 4,13-23; Lc 8,11-17 ¹⁸“Ouçam, portanto, a explicação da parábola do semeador. ¹ Todo aquele que ouve a Palavra do Reino e não a entende, vem o Maligno e leva embora o que foi semeado em seu coração. Essa é a semente semeada à beira do caminho. ² O que foi semeado entre as pedras é aquele que ouve a Palavra e logo a recebe com alegria. ²¹Mas não tem raiz em si mesmo, é de momento. Quando vem uma tribulação ou perseguição por causa da Palavra, logo tropeça e cai. ²²O que foi semeado entre os espinhos é aquele que ouve a Palavra, porém as preocupações do mundo e a sedução da riqueza sufocam a Palavra, e ela não dá fruto. ²³O que foi semeado em terra boa é aquele que ouve a Palavra e a entende. Esse dá fruto: um produz cem, outro sessenta, outro trinta”. O Mestre põe-se a explicar a parábola do semeador (v. 18). Pressupõe-se que as multidões também o estejam ouvindo. Porém, como não entenderam a parábola, da mesma forma não entenderão a explicação. Esse modo de falar chama-se alegorização, com a decodificação de cada elemento da parábola no processo de identificá-lo com uma realidade concreta, entendê-lo separadamente e no conjunto. Difere-se da alegoria, na qual cada elemento da história já está relacionado com uma realidade bem definida, conhecida pelo leitor-ouvinte, que faz o processo de decodificação ao longo da leitura-audição (cf. Mt 21,33-46). A Palavra semeada à beira do caminho corresponde aos ouvintes incapazes de entendê-la e acolhê-la, de modo a permitir ao Maligno “roubá-la” com facilidade, como foi o caso das cidades impenitentes, e dos inimigos que atacam o Messias Jesus e não o deixam em paz (v. 19; cf. Mt 11,20-24; 12,24). A Palavra semeada em terreno pedregoso representa quem se mostrou aberto para acolhê-la; porém, falta-lhe estofo para resistir às tribulações e às perseguições por causa da Palavra, como acontece com quem constrói a casa sobre a areia (v. 20-21; cf. Mt 7,26-27). A Palavra semeada entre espinhos faz alusão a quem, tendo-a acolhido, mostra-se fraco para perseverar ao se ver assoberbado pelas preocupações mundanas e a sedução da riqueza, como pode ser o caso do jovem rico (v. 22; cf. Mt 19,21-22). A Palavra semeada em terra boa corresponde a quem acolhe o convite para o discipulado do Reino, transforma-o em projeto de vida e se esforça para produzir sempre mais frutos (v. 23; cf. Mt 4,20.22; 12,49- 50). O trigo e o joio (13,24-30) ²⁴Jesus lhes contou outra parábola. “O Reino dos Céus é como um homem que semeou boa semente em seu campo. ²⁵Enquanto os homens dormiam, veio o inimigo dele, semeou joio no meio do trigo, e foi embora. ² Quando o trigo cresceu e começou a granar, apareceu também o joio. ²⁷Os servos do proprietário foram até ele e perguntaram: ‘O senhor não semeou boa semente em seu campo? Então, como é que tem joio?’ ²⁸Ele respondeu: ‘Um homem inimigo é que fez isso’. Os servos lhe perguntaram: ‘Quer que vamos arrancá-lo?’ ² Ele disse: ‘Não! Porque, ao arrancar o joio, vocês poderiam arrancar também o trigo com ele. ³ Deixem os dois crescerem juntos até a colheita. No tempo da colheita, direi aos ceifadores: Arranquem primeiro o joio e o amarrem em feixes para ser queimado. Depois, recolham o trigo em meu celeiro’ ”. A parábola do trigo e do joio descreve uma situação verossímil num ambiente agrícola, desprovido de cercas e muros, onde a passagem de uma propriedade para outra ou a invasão de propriedade se faz com facilidade. O agricultor semeou “boa semente”; no versículo seguinte saberemos tratar-se de “trigo” (v. 24). Durante a noite, quando os empregados dormiam, “o” inimigo invadiu a propriedade e sorrateiramente semeou “joio (gr. zizánia) no meio do trigo” e desapareceu (v. 25). Com maldade premeditada, escolheu um tipo de semente bem parecida com o trigo, de modo a evitar suspeitas. As aparências enganam! As sementes do trigo começaram a brotar e, com elas, o joio (v. 26). Os empregados atônitos questionam o proprietário do campo com a suspeita de ter- se enganado e no lugar da boa semente ter semeado a má. Queriam saber a origem inexplicável do joio, cuja presença poderia arruinar o esforço da semeadura feita com a esperança de ter uma colheita farta (v. 27). Muitos sentimentos negativos podem ter-se apossado deles: frustração, raiva, indignação. A resposta do proprietário parece carregada de resignação. Atribui o malfeito a “um homem inimigo” e se dá conta da maldade que lhe causaria enorme prejuízo (v. 28). Os empregados sentem-se incomodados e pedem permissão para começar imediatamente o trabalho de arrancar o joio. O proprietário sensato e prudente freia o ímpeto dos empregados e os impede de se deixarem levar pela emoção (v. 29-30). A probabilidade dearrancar o trigo junto com o joio seria grande. A prudência aconselhava deixá-los crescer até a colheita, quando seria possível identificá-los com toda facilidade. Só então se poderia colher o joio, amarrá-lo em feixes e queimá-lo. Já o trigo seria devidamente recolhido e guardado no celeiro do proprietário. Os semeadores de joio na comunidade dos discípulos do Reino podem ser identificados com os falsos profetas (cf. Mt 7,15-20). A aparência de ovelhas esconde lobos ferozes. Serão reconhecidos e desmascarados pelos frutos. Verdadeiros e falsos profetas semeiam a Palavra no coração dos discípulos. Só na escatologia serão indubitavelmente identificados e terão as respectivas sortes definidas pelo Senhor do Reino. A semente de mostarda (13,31-32) || Mc 4,30-32; Lc 13,18-10 ³¹Jesus lhes apresentou outra parábola: “O Reino dos Céus é como uma semente de mostarda que um homem pegou e semeou em seu campo. ³²É a menor de todas as sementes. Mas, quando cresce, é a maior das hortaliças. Torna-se árvore, a tal ponto que as aves do céu fazem ninhos em seus ramos”. A parábola compara o Reino dos Céus com o grão de mostarda que, da condição de “menor de todas as sementes”, torna-se uma árvore em cujos ramos as aves dos céus fazem seus ninhos. Os discípulos devem se convencer de que o Reino, pequenino nos seus inícios, tem como destino tornar-se grande e abarcar “todas as nações” (Mt 28,18). Essa consciência deverá consolá-los em momentos de desânimo e animá-los a levar adiante a missão recebida, sempre de cabeça erguida, com vistas ao futuro, em meio às agruras do presente (cf. Mt 10). O fermento (13,33) || Lc 13,20-21 ³³Contou-lhes outra parábola: “O Reino dos Céus é como o fermento que uma mulher pegou e misturou em três medidas de farinha, até tudo ficar fermentado”. A pequeníssima parábola do fermento misturado a três medidas de farinha chama a atenção para a força do Reino, quando involucrado na história humana pela ação dos discípulos-apóstolos e seu testemunho de justiça (v. 33). A pequena quantidade de fermento juntada à grande quantidade de farinha mostra sua presença quando a massa começa a crescer, embora o fermento permaneça invisível, impossível de ser distinguido. Onde estão os discípulos do Reino, despercebidos aos olhares mundanos, sua presença se torna perceptível no crescimento dos valores do Reino, encarnados na prática da misericórdia e no cuidado com os mais frágeis (cf. Mt 25,34-40). As parábolas do “sal da terra” e da “luz do mundo” podem ser acrescentadas à do fermento, por focarem todas na maneira como os discípulos do Reino se fazem presentes na história (cf. Mt 5,13-16). Avançar na compreensão (13,34-35) || Mc 4,33-34 ³⁴Jesus falou todas essas coisas às multidões em parábolas. Não lhes falava nada que não fosse em parábolas. ³⁵Isso para se cumprir o que foi dito pelo profeta: “Vou abrir a boca em parábolas. Vou proclamar coisas escondidas desde a fundação do mundo”. O narrador retoma a questão do método utilizado por Jesus em seus ensinamentos. Muito diferente de certos mestres da Lei fixados na explicação da Lei mosaica, donde tiravam sempre novas imposições a serem colocadas nas costas do povo (cf. Mt 11,28), optou por falar em parábolas, de modo a comprometer os ouvintes no processo de compreensão e assimilação da “vontade do Pai dos Céus” a ser transformada em projeto de vida (v. 34). O caminho sapiencial do Reino deve começar no mais íntimo do coração humano, como apelo divino e não como fardo moralista imposto de fora. A opção do Mestre Jesus atualiza a declaração do salmista, chamado de profeta, quando se propunha a recordar a experiência do povo de Israel à escuta de seu Deus, servindo-se de um método diferente ao falar “em parábolas”, linguajar metafórico e carregado de poesia (v. 35; cf. Sl 78,2). Explicação da parábola do trigo e do joio (13,36-43) ³ Então, tendo deixado as multidões, Jesus foi para casa. Seus discípulos se aproximaram dele e lhe pediram: “Explica-nos a parábola do joio do campo”. ³⁷Ele respondeu: “Quem semeia a boa semente é o Filho do Homem. ³⁸O campo é o mundo. A boa semente são os filhos do Reino. O joio são os filhos do Maligno. ³ O inimigo que o semeou é o diabo. A colheita é o fim do mundo. Os ceifadores são os anjos. ⁴ Tal como o joio é recolhido e queimado no fogo, assim será no fim do mundo. ⁴¹O Filho do Homem enviará seus anjos. Eles recolherão de seu Reino todos os escândalos e os que praticam o mal, ⁴²e os jogarão na fornalha ardente. Aí haverá choro e ranger de dentes. ⁴³Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai. Quem tiver ouvidos, ouça!” Muda-se o cenário do discurso. O Mestre deixa a multidão e volta para casa acompanhado dos discípulos (v. 36). Uma vez mais fica estabelecida a distinção entre multidão e discípulos e suas respectivas posturas com respeito ao Mestre. Seus esforços concentram-se em preparar os discípulos da melhor maneira possível para estarem em condições de levar adiante a missão de anunciar o Reino pelo mundo inteiro e propor à humanidade inteira o convite para o discipulado. Os discípulos querem conhecer o sentido da parábola “do joio do campo”. Supõe-se terem sido incapazes de compreender a mensagem veiculada; não conseguiram decodificar a metáfora e perceber a luz oferecida para entender o cotidiano do Reino a ser vivido por eles quando partissem em missão. O Mestre põe-se a fazer uma alegorização da parábola com a identificação de cada elemento a partir do que os discípulos conhecem e experimentam. O trabalho do Filho do Homem no campo do mundo para semear a boa semente correspondente aos “filhos do Reino” está destinado a ser vítima da maldade dos inimigos e adversários (v. 37-39a). Será sempre assim! Daí a importância de conter o ímpeto de eliminá-los ou de pensar que um dia haverão de desaparecer. Os discípulos-apóstolos devem aceitar que a missão transcorrerá em meio a perseguições e dificuldades (cf. Mt 10). Será preciso convencer-se disso. Atenção quando tudo parece ir bem, com muito êxito e sucesso! Existe a possibilidade de a ação maléfica dos falsos profetas prevalecer, com o resultado de levar muitos a entrarem pelo caminho largo e espaçoso que conduz à perdição (cf. Mt 7,13.15). A colheita (“fim dos tempos”) faz alusão ao juízo divino, momento em que a identidade de cada ser humano será revelada (v. 39b; cf. Mt 24,3; 28,20). Os escandalosos e os malvados (“filhos do Maligno”) serão desmascarados e, como o joio, lançados no fogo inextinguível, onde “haverá choro e ranger de dentes” (v. 40-42). O desespero resulta de terem sido excluídos da salvação oferecida pelo Messias Jesus. Os justos (“filhos do Reino”), semelhantes ao trigo, “brilharão como o sol no Reino de seu Pai” (v. 43a). A história caminha para esse momento do qual ninguém poderá escapar (cf. Mt 25,31-46). A conclusão insiste na urgência do discernimento (v. 43b). Os discípulos- apóstolos são desafiados a superar a ingenuidade de se pensarem livres das investidas dos adversários. Poderão fracassar se tomarem atitudes impensadas para enfrentá-los. O imperativo “ouça” apela para uma postura espiritual quando mergulhados na realidade da missão. O tesouro e a pérola (13,44-46) ⁴⁴“O Reino dos Céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o descobre e o esconde de novo. Cheio de alegria, ele vai, vende tudo o que possui e compra esse campo. ⁴⁵O Reino dos Céus é também como um comerciante que viaja em busca de pérolas de boa qualidade. ⁴ Quando descobre uma pérola de grande valor, ele vai, vende tudo o que possui e a compra”. A parábola do tesouro e a da pérola, paralelas e complementares, têm finalidade semelhante. Mostram como deve se comportar quem almeja tornar-se discípulo no confronto com os apelos do Reino. O tesouro escondido no campo e encontrado por acaso reporta-se a uma experiência possível no contexto em que a parábola foi construída (v. 44). Na iminência de um ataque inimigo, havia quem enterrasse os pertences valiosos na esperança de reavê-los, passadas as tribulações. Entretanto,podia acontecer de serem exterminados e o tesouro escondido ser encontrado, muito tempo depois, por algum lavrador trabalhando a terra. Acontece isso com o homem da parábola, trabalhador em terra alheia. Sua reação serve de imagem para quem depara com o Reino. Como o homem desfaz-se de todas suas posses para investir tudo na compra do terreno onde está o tesouro, o discípulo considera o Reino o absoluto de sua vida, a ponto de colocar tudo mais em segundo plano (cf. Mt 4,20.22; 9,9). E o faz com alegria! Quem não tem espírito de discípulo perde a chance de dar um passo radical pelo apego aos seus bens (cf. Mt 19,21- 22). O comerciante em busca de “pérolas de boa qualidade” ilustra outra possibilidade de fazer a experiência de encontro com o Reino (v. 45-46). No caso do tesouro escondido, o encontro se dá de maneira fortuita; quanto à “pérola de grande valor”, a experiência de encontro se dá após longa, persistente e atenta busca. A reação do comerciante torna-se imagem da reação de quem busca o Reino até encontrá-lo; quando isso acontece, tudo mais perde a importância e pode ser descartado em função da aquisição “da” pérola valiosa. Todos os empecilhos serão superados para se atingir o objetivo (cf. Mt 2,1-12; 7,7-8). A rede de pesca (13,47-50) ⁴⁷“E ainda: O Reino dos Céus é como uma rede lançada ao mar, e que recolhe todo tipo de peixe. ⁴⁸Quando está cheia, a puxam para a margem e, sentados, juntam em cestas o que é bom, e jogam fora o que não presta. ⁴ Assim será no fim do mundo: Os anjos virão, separarão os maus do meio dos justos, ⁵ e os jogarão na fornalha ardente. Aí haverá choro e ranger de dentes”. A mensagem da parábola da rede assemelha-se à da parábola do trigo e do joio (v. 36-43). O ambiente em que Jesus e os discípulos se encontram favorece a visualização da parábola. A rede lançada ao mar foge do controle dos pescadores, no tocante à qualidade e à quantidade de peixes apanhados, pois recolhem “todo tipo de peixe” (v. 47). Deverão ter paciência e esperar o final da pescaria para fazer a seleção e recolher os peixes bons e descartar “o que não presta” (v. 48). Essa metáfora descreve o “fim dos tempos”, quando os maus serão tirados do meio dos justos para receber a paga pelos malfeitos (v. 49-50). Os discípulos se defrontam na comunidade com a presença indesejada de pessoas pouco empenhadas em viver a justiça do Reino (cf. Mt 7,15-23; 22,11- 14) e até mesmo de traidores do Mestre (cf. Mt 10,4). Ocorre a tentação de expulsá-las com o propósito de fazer a comunidade ser inteiramente fiel ao Senhor. O Mestre recomenda conter-se de modo a evitar juízos precipitados (cf. Mt 7,1-2). O juízo definitivo está nas mãos do Senhor do Reino, que o fará no momento oportuno. A história corresponde ao tempo da paciência e do discernimento para se manter firme no bom caminho, longe da influência dos falsos discípulos (cf. Mt 16,6.11-12). Tornar-se discípulo no Reino (13,51-52) ⁵¹“Vocês entenderam todas essas coisas?” Eles responderam: “Sim”. ⁵²E Jesus lhes disse: “Por isso, todo doutor da Lei que foi instruído no Reino dos Céus é como um dono de casa que tira de seu cofre coisas novas e velhas”. A pergunta conclusiva do discurso parabólico tem um papel fundamental na catequese mateana (v. 51). Só pode ser discípulo quem for capaz de compreender a presença do Reino na história, marcada por perdas, fracassos, pequenez e investidas dos inimigos. Reino, porém, destinado a crescer, chegando a abrigar toda a humanidade. A falta dessa consciência de base pode acarretar expectativas inconsideradas de grandeza, sucesso, reconhecimento, aplausos e mundanidades na contracorrente dos ensinamentos e da vida do Mestre Jesus. Os discípulos verdadeiros percebem a ação do Reino nos meandros da história, como o fermento na massa e o pequenino grão de mostarda. A capacidade de olhar não se fixando nas aparências permite-lhes detectar a presença do Pai dos Céus agindo em favor da humanidade. Essa condição dos discípulos distingue-os das multidões, cuja postura é de indiferença, de dificuldade para compreender os ensinamentos do Mestre e até mesmo de hostilidade. Caso os discípulos tivessem respondido “não”, o Mestre deveria recomeçar a instrui-los desde os primeiros passos. A continuação da catequese supõe o conhecimento dos “mistérios do Reino dos Céus” para evitar frustrações. Afinal, os inimigos de Jesus já decretaram sua morte e, doravante, as dificuldades serão sempre mais crescentes (cf. Mt 12,14). O v. 52, com a expressão “por isso”, liga-se de maneira muito tênue ao restante do discurso parabólico. Poderia ser uma forma de o catequista-narrador apresentar sua experiência pessoal para ilustrar a expectativa em relação a quem dá os passos do discipulado. Seria um “doutor da Lei” alcançado pelo Reino dos Céus que se viu desafiado a repensar toda sua caminhada de fé e dar-lhe um significado inteiramente novo? Teria passado da submissão à Lei mosaica à busca do “Reino de Deus e sua justiça” nos passos de Jesus de Nazaré (cf. Mt 6,33)? Conservando os aspectos positivos da religião de seus pais, descobrira a novidade do Reino de Deus a lhe descortinar um horizonte insuspeitado de compreensão de Deus, da história e da vida? Como ele, os autênticos discípulos, tanto os escribas judeus que aderiram ao movimento de Jesus quanto pessoas de todos os tempos e lugares, saberão pontuar as transformações experimentadas quando a Palavra do Reino foi semeada em seus corações. Jamais o discípulo será o mesmo depois da passagem do Senhor em sua vida! O discurso parabólico ofereceu uma chave para compreender a dinâmica do Reino de Deus na história. Trata-se agora de mostrar a veracidade dos ensinamentos nele contidos a partir de situações vividas pelo Mestre. Com isso a comunidade dos discípulos-apóstolos forma-se paulatinamente, embora tenha uma fé pequena a ser reforçada pela percepção da presença do Mestre entre eles, e uma mente obtusa para compreender, na prática, os caminhos tortuosos do Reino dos Céus. Jesus é rejeitado em Nazaré (13,53-58) || Mc 6,1-6; Lc 4,16-30 ⁵³Quando terminou de contar essas parábolas, Jesus partiu daí. ⁵⁴Voltando para sua terra, ensinava na sinagoga deles, de modo que se maravilhavam e diziam: “De onde lhe vêm essa sabedoria e esses milagres? ⁵⁵Não é ele o filho do carpinteiro? Sua mãe não se chama Maria? Não são seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? ⁵ E suas irmãs não vivem todas entre nós? Então, de onde lhe vêm todas essas coisas?” ⁵⁷E se escandalizavam por causa dele. Jesus, porém, lhes disse: “Não existe profeta sem honra, a não ser em sua terra e em sua casa”. ⁵⁸E Jesus não fez aí muitos milagres, porque eles não tinham fé. Terminado o discurso parabólico, temos um novo cenário. Jesus deixa Cafarnaum e se dirige “para sua terra” (gr. patrís), que os leitores-ouvintes deduzem tratar-se de Nazaré (v. 53-54a; cf. Mt 4,13). Da beira-mar passa à “sinagoga deles”, onde se põe a ensinar com uma autoridade jamais vista em um mestre de Lei. A reação preconceituosa dos conterrâneos foi imediata (v. 54b- 56). Por ser um deles, questionam-lhe a origem de sua sabedoria e da capacidade de fazer gestos carregados de poder (gr. dýnamis). Perguntam-se donde lhe vem tudo isso e se recusam a reconhecer nele algo de especial ou de novo. “Escandalizavam-se por causa dele”, ao resistirem em reconhecer Deus agindo por meio de um compatriota bem conhecido (v. 57a). Pior ainda: tudo aquilo poderia ter o efeito de afastá-los de Deus, por confundir-lhes a fé. Jesus recorda-se de um antigo ditado para ilustrar a atitude de seus concidadãos (v. 57b). A rejeição dos profetas “em sua terra e em sua casa” é de se esperar. Um mestre desconhecido pode ser mais acolhido do que alguém cujos familiares são muito próximos e cuja vida, desde a infância, todos conhecem. O provérbio citado corresponde ao nosso “Santo de casa não faz milagre!” A falta de fé dos concidadãos impediu Jesus de fazer em sua terra o bem que fizera alhures (v. 58). Por não terem fé, poderiam fazer falsas interpretações de seus gestospoderosos, como já havia acontecido (cf. Mt 12,24). Para reflexão e debate 1. Qual o sentido da expressão “mistérios do Reino dos Céus” no discurso parabólico? 2. Que situação da comunidade cristã serve de pano de fundo para cada uma das sete parábolas? Qual a mensagem veiculada em cada uma delas? IV. COMPROMISSO COM O REINO (Mt 14-18) 1. Narração: O Messias reconhecido e questionado O discurso parabólico mostrou como o Reino acontece na história, em meio a perdas e fracassos. Refere-se à ação de Deus no coração das pessoas, muito discreta, porém efetiva. Na sequência da catequese, será mostrado como a comunidade dos discípulos do Reino vai se formando progressivamente pelo aprofundamento da fé, por meio do seguimento de Jesus em seus contínuos deslocamentos. Os discípulos são desafiados a compreender, no concreto da vida, o que Jesus ensinou de maneira metafórica. O verbo compreender será usado nove vezes (cf. Mt 13,14.15.19.23.51; 15,10; 16,12; 17,13). Ocorrerão as expressões “pessoa de pouca fé” (gr. oligópistos; cf. Mt 14,31; 16,8), “fé pequena” (gr. oligopistía; Mt 17,20), “falta de fé” (gr. apistía; cf. Mt 13,58), incrédulo (gr. ápistos; Mt 17,17), “grande fé” (gr. megále pístis; Mt 15,28) e confissões de fé (cf. Mt 14,33; 15,22.25.31; 16,16; 17,5). Execução de João Batista (14,1-12) || Mc 6, 14-29; Lc 9,7-9 ¹Nesse tempo, o tetrarca Herodes ouviu falar da fama de Jesus. ²Disse então a seus oficiais: “Ele é João Batista, que foi ressuscitado dos mortos. É por isso que os milagres se realizam nele”. ³É que Herodes havia mandado prender João, acorrentá-lo e colocá-lo na cadeia. Isso por causa de Herodíades, esposa de seu irmão Filipe. ⁴Pois João lhe dizia: “Não lhe é permitido tê-la como esposa”. ⁵Herodes queria matá-lo, mas temia o povo, que considerava João um profeta. Quando chegou o aniversário de Herodes, a filha de Herodíades dançou no meio deles e agradou a Herodes. ⁷Por isso, este prometeu, sob juramento, dar-lhe o que ela pedisse. ⁸E, atiçada por sua mãe, ela disse: “Dê-me aqui, num prato, a cabeça de João Batista”. O rei ficou triste. Mas, por causa do juramento e dos convidados, ordenou que a cabeça fosse dada a ela. ¹ E mandou cortar a cabeça de João na cadeia. ¹¹A cabeça foi levada num prato e entregue à jovem, que a levou à sua mãe. ¹²Então os discípulos de João foram, pegaram o cadáver e o sepultaram. Depois foram contar a Jesus o acontecido. O tema da rejeição de Jesus e sua pregação continua na narração do vil assassinato de João Batista. A cena introduz-se de forma um tanto aleatória, como se fosse uma digressão. Além de completar as várias informações sobre o Batista (cf. Mt 3,1-12; 11,2-14), corresponde ao prenúncio da morte do Messias Jesus (cf. Mt 17,12). O leitor-ouvinte atento pergunta-se por que falar aqui da morte do precursor numa evidente quebra do fluxo narrativo. O choque provocado pelo fim brutal do Batista serve de alerta para a sequência dos fatos referentes a Jesus. Um personagem inesperado desponta, “o tetrarca Herodes” (v. 1). Embora sem muita importância, como diz seu título de “governador da quarta parte de um território”, recebe o nome de “rei” (v. 9). A fama de Jesus taumaturgo chegou até ele (cf. Mt 4,24). Pelo que ouvira a seu respeito, comentou com os assessores tratar-se de João Batista ressuscitado dos mortos, operando gestos poderosos (gr. dýnamis) (v. 2). A alusão ao precursor dá margem para a recordação (flashback) de sua morte narrada em grandes linhas (v. 3-12). A decapitação de João Batista decorre de sua liberdade diante de um tirano inescrupuloso que tomou a esposa do próprio irmão e a desposou da forma mais descarada possível. O irritado Herodes lançou-o na prisão, por João dizer-lhe abertamente não lhe ser permitido ter a cunhada como esposa, num misto de adultério e incesto. Seu intuito era o de matá-lo, mas teve de se conter, pelo fato de o povo considerá-lo profeta. O dia fatídico chegou por ocasião da festa de aniversário do tirano. Sua sobrinha e enteada, “a filha de Herodíades”, dançou para agradá-lo. Num surto de generosidade, propôs-se, “sob juramento”, a dar à moça qualquer coisa que lhe pedisse. A jovem consultou a mãe, que espertamente aproveitou a chance para se vingar de uma pessoa incômoda que lhe denunciava o malfeito, sugerindo-lhe pedir a cabeça de João Batista. Não se entende por que “o rei ficou triste”, se tinha a intenção de eliminar João Batista. Deveria sim ter-se alegrado! Qual o motivo da tristeza? Medo de desagradar o povo? Como fizera um juramento público, devia cumprir a palavra e atender à solicitação da jovem instigada pela mãe maligna. O pedido foi atendido e a voz de João Batista, calada. A festa do aniversário do rei tornou-se um festim macabro, cujo prato principal foi a cabeça de um profeta! Os discípulos de João entram em ação para recolher seu cadáver, sepultá-lo e reportar a Jesus o trágico fim de seu mestre. Jesus, que escapara da violência do Herodes pai (cf. Mt 2,16), vê a morte rondar pela violência do Herodes filho. A liberdade com a qual falava, como acontecia com João Batista, poderia valer-lhe a mesma sorte do profeta assassinado pelo rei despótico. A alusão à “ressurreição dos mortos” referida a João Batista pode ser entendida como discreta menção à futura sorte de Jesus (v. 2). Primeira partilha dos pães e peixes (14,13-21) || Mc 6,30-44; Lc 9,10-17; Jo 6,1-14 ¹³Ouvindo a notícia, Jesus, de barco, se retirou daí para um lugar deserto e afastado. Mas, quando as multidões ficaram sabendo, partiram das cidades e o seguiram a pé. ¹⁴Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão, encheu-se de compaixão por ela e curou os doentes. ¹⁵Ao entardecer, os discípulos foram a Jesus e lhe disseram: “Este lugar é deserto e já é tarde. Despede as multidões, para que vão aos vilarejos comprar comida para si”. ¹ Jesus lhes disse: “Não é preciso eles irem. Vocês é que devem dar-lhes de comer”. ¹⁷Eles disseram: “Não temos aqui nada mais que cinco pães e dois peixes”. ¹⁸Então Jesus disse: “Tragam aqui para mim”. ¹ Em seguida, mandou que as multidões se sentassem na grama. Tomou os cinco pães e os dois peixes, elevou os olhos para o céu, e, partindo os pães, os abençoou e entregou aos discípulos, e os discípulos para as multidões. ² Todos comeram e ficaram satisfeitos. E, com os pedaços que sobraram, recolheram doze cestos cheios. ²¹Os que comeram eram cerca de cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças. O assassinato de João Batista exigiu prudência da parte de Jesus. Daí ter-se refugiado num “lugar deserto e afastado”, onde não chegava o poder do sanguinário Herodes. As multidões seguem-no, contornando o lago a pé, enquanto ele e os discípulos deslocam-se de barco (v. 13). Esse cenário torna-se metáfora da comunidade do Reino, desafiada a viver num contínuo deserto pelas “tribulações e perseguições por causa da palavra” e sobreviver em circunstâncias adversas (cf. Mt 13,21). Jesus encontra as multidões que, apressadas, chegaram antes dele, como se já soubessem o lugar exato para onde se dirigia. A contemplação daquela massa de doentes e desvalidos toca-lhe o coração. O ato de “ver” supera a mera visão física. Refere-se a captar a situação existencial daquela gente, seus sentimentos e anseios, em meio a toda sorte de sofrimentos. A presença daquelas pessoas devia-se unicamente à expectativa colocada em Jesus de ver-se livre de tanta opressão desumanizadora. Consciente da missão de “salvar o seu povo de seus pecados” (Mt 1,21) e “assumir nossas fraquezas e carregar nossas doenças” (Mt 8,17), Jesus “enche-se de compaixão” e “cura os doentes” (v. 14). A expressão “encher-se de compaixão” tem uma conotação bem específica. Refere-se a Jesus afetado no seu íntimo mais profundo e levado a fazer algo para libertar aquela gente de tanto sofrimento. A experiência de se fazer compassivo e misericordioso supõe deixar-se tocar até as entranhas pelo sofrimento alheio. O ver superficial produz dó, pena ou algum outro sentimento superficial e passageiro, e não se desdobra em ação. O ver emprofundidade gera compaixão e se transforma em atos de misericórdia. O gesto dos discípulos de alertar o Mestre, chamando-lhe a atenção para a situação das multidões carentes de alimento, justifica-se. Já entardecia e o grupo havia feito uma grande caminhada. Com certeza estava faminto. O alerta comporta uma sugestão de como o Mestre deve agir: despedir as multidões e mandá-las providenciar alimentos nos povoados ao redor (v. 15). Cada um providenciaria o próprio sustento como pudesse. Essa solução vale para pessoas saudáveis, jovens, com dinheiro e com forças para perambular até encontrar comida. E quem estivesse fora dessas categorias e não tivesse ninguém para ajudá-lo? A reação do Mestre pode ter parecido à primeira vista um tanto insensata. Como os discípulos dariam de comer à multidão, se estavam na mesma situação? “Vocês é que devem dar-lhes de comer” mostrava-se impraticável naquele contexto de carência generalizada, em que tinham “nada mais que cinco pães e dois peixes” (v. 16-17). Uma quantidade irrisória de alimentos disponível para uma multidão faminta! O Mestre passa a mostrar como se pode alimentar tanta gente com tão pouca comida. Após pedir para lhe trazerem os cinco pães e dois peixes, ordena que todos se sentem na grama, a fim de tudo acontecer na mais perfeita ordem (v. 18- 19a). O gesto de tomar os pães e os peixes, elevar os olhos aos céus, parti-los, abençoá-los e entregá-los aos discípulos para que distribuíssem às multidões evoca a última ceia (cf. Mt 26,26-29) e também a missão dos discípulos- apóstolos enquanto intermediários entre o Mestre e as multidões. Ambas as ações acontecem “ao entardecer” (v. 15), estando as pessoas sentadas (v. 19; cf. Mt 26,20). Os verbos “partir” (gr. kláo) e “entregar” (gr. dídomi), que podem ser unificados no verbo partilhar, são fundamentais. A partilha daquele punhado de alimentos foi suficiente para que todos comessem à saciedade, tendo sobrado “doze cestos cheios” devidamente recolhidos (v. 19b-20). O número doze simboliza as doze tribos de Israel (cf. Mt 10,1-2), e o alimento superabundante evoca o maná, alimento do povo na longa caminhada pelo deserto. A mensagem da catequese mateana é clara. A comunidade do Reino perseguida e marginalizada, vivendo como num deserto, sobreviveria na condição de partilhar seus bens, embora poucos, com todos, dando atenção particular aos mais frágeis. Nada de buscar soluções das quais algum marginalizado ficasse de fora ou não pudesse usufruir da proteção da comunidade. Solidariedade e partilha deveriam ser a norma para a comunidade, vítima da perseguição! O v. 21 evoca um tema que perpassa toda a catequese mateana: o direito das mulheres e das crianças de serem tratadas na comunidade em pé de igualdade com os homens. Isso deveria acontecer a partir das celebrações eucarísticas para romper com a prática sinagogal, onde as mulheres e as crianças são excluídas das liturgias reservadas apenas aos homens. O catequista inseriu essa temática na narração de modo discreto. Cabe ao leitor-ouvinte estar atento para perceber sua presença nas entrelinhas do evangelho. Jesus caminha sobre o mar (14,22-33) || Mc 6,45-52; Jo 6,15-21 ²²Logo em seguida, Jesus obrigou os discípulos a entrar na barca e ir adiante dele para a outra margem, até que ele despedisse as multidões. ²³Depois de despedi- las, Jesus subiu à montanha sozinho para rezar. Quando chegou o fim da tarde, ele estava aí sozinho, ²⁴e a barca já se encontrava bem longe da terra. Era batida pelas ondas, pois o vento era contrário. ²⁵De madrugada, Jesus foi até eles, caminhando sobre o mar. ² Vendo Jesus que caminhava sobre o mar, os discípulos ficaram espantados e disseram: “É um fantasma!” E gritaram de medo. ²⁷Jesus, porém, logo lhes disse: “Coragem! Sou eu. Não tenham medo!” ²⁸Então Pedro lhe pediu: “Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro caminhando sobre as águas”. ² Jesus disse: “Venha!” Descendo da barca, Pedro caminhou sobre as águas e foi ao encontro de Jesus. ³ Mas, sentindo o vento forte, ficou com medo. E, começando a afundar, gritou: “Senhor, salva-me!” ³¹Imediatamente Jesus estendeu a mão e o segurou. E lhe disse: “Homem fraco na fé! Por que você duvidou?” ³²Assim que eles subiram à barca, o vento se acalmou. ³³Os que estavam na barca se ajoelharam diante de Jesus, dizendo: “Tu és verdadeiramente Filho de Deus!” Essa nova cena pode também ser tomada como metáfora da comunidade do Reino, da mesma forma que a cena anterior. O Mestre força os discípulos a partirem, sozinhos, imediatamente para a outra margem, enquanto ele se detém para despedir as multidões (v. 22). O motivo de o Mestre ter permanecido sem os discípulos explica-se na sequência dos fatos, onde os discípulos devem estar sós numa experiência desesperadora. Na solidão do deserto, deixando para trás os discípulos e as multidões, o Mestre sobe a montanha para rezar (v. 23a). A falta de especificação faz da montanha uma localização simbólica, como acontece várias vezes na catequese mateana (cf. Mt 5,1; 8,1; 15,29; 17,1.9; 28,16). Na tradição judaica, quando se fala em “Monte”, todos sabem se referir “ao” Monte, o Sinai/Horeb. Jesus, rezando no alto do monte, faz pensar em Moisés no cume da montanha sagrada para ser instruído por Deus. Uma observação temporal, “ao entardecer”, repete a do v. 15 (v. 23b). Em relação à partilha miraculosa dos pães e dos peixes, a cena da caminhada sobre o mar acontece no mesmo dia ou no entardecer do dia seguinte, por ser a mesma a indicação temporal nos dois casos, faltando outra indicação intermediária. O foco da narração volta-se para os discípulos na barca, bem longe da terra, fustigada pelas ondas provocadas pelo vento contrário (v. 24). Temos aqui uma imagem perfeita da comunidade do Reino: em meio às tempestades de insultos, perseguições e mentiras (cf. Mt 5,11), lá está ela ameaçada de afundar por ser pequenina, impotente e impossibilitada de safar-se com as próprias forças. De madrugada (lit. “na quarta vigília da noite”, entre três e seis da manhã), o Mestre vai ao encontro dos discípulos, “caminhando sobre o mar” (v. 25). Afinal, não estavam largados à própria sorte; o “Emanuel” está atento ao que se passa com eles e os socorre (cf. Mt 1,23; 28,20). Aquela presença inesperada pareceu-lhes fantasmagórica e os levou a gritar de terror (v. 26). O medo aponta para a falta de fé, atitude inconcebível num discípulo do Reino. Simboliza a comunidade inapta a reconhecer a presença do Mestre em seu meio. Talvez porque possui uma fé superficial, insuficiente para resistir aos embates do cotidiano. O Mestre incentiva os discípulos a terem coragem e manterem viva a fé em meio às ondas agitadas (v. 27). Não há por que temer, se têm consigo uma excelente companhia. Todas as intempéries podem ser enfrentadas quando existe a convicção de o Mestre ser o companheiro nas tribulações. O discípulo Pedro, o “primeiro” dentre os demais (cf. Mt 10,2), encarna a incredulidade do grupo, ao exigir do Mestre uma comprovação do “Sou eu”, do versículo anterior (v. 28). A voz do Mestre não foi reconhecida pelos discípulos, indício da necessidade de aprofundarem a relação com ele. Pedro desafia o Mestre a fazê-lo caminhar sobre as águas em sua direção, de modo a imitá-lo naquela façanha extraordinária. O Mestre aceita a provocação e ordena que Pedro venha ao seu encontro, como pretendia (v. 29a). O discípulo obedece e se põe a caminhar sobre as águas (v. 29b). Entretanto, a força do vento incutiu-lhe medo (v. 30a) e, começando a afundar, implorou a ajuda do “Senhor” (v. 30b). A situação de Pedro retrata aquela das lideranças das comunidades em crise de fé, desesperadas quando as forças do anti-Reino recrudescem e as colocam nos limites da suportabilidade. Então se lembram de clamar pelo Senhor com a consciência de tê-lo consigo, pois dele pode vir a salvação. A intervenção do Mestre ao ouvir a súplica do discípulo em apuros acontece de imediato (cf. Mt 7,8). Todavia, vem acompanhada com uma censura por ter se comportado como “homem de pouca fé”(gr. oligópistos), inapto para confiar na palavra do Mestre e se deixar guiar por ela, mormente em situações desesperadoras (v. 31). O vento cessa logo que sobem na barca (v. 32). O grupo de discípulos, num gesto de adoração (gr. proskynéo; cf. Mt 2,11; 8,2; 9,18; 15,25; 20,20; 28,9.17), faz uma confissão de fé na messianidade do Mestre: “Tu és verdadeiramente Filho de Deus” (v. 33; cf. Mt 16,16). Exclamação semelhante ocorrerá por ocasião da morte de Jesus, quando o oficial romano e seus subalternos dirão: “Realmente ele era Filho de Deus” (Mt 27,54). Ambas as tempestades, a do mar e a provocada pela crucifixão do Mestre, geram profissões de fé. As tribulações na vida do discípulo e da comunidade do Reino podem ser ocasiões propícias para o crescimento na fé, na medida em que se reconhece ter consigo Jesus Emanuel. Curas em Genesaré (14,34-36) || Mc 6,53-56 ³⁴Tendo passado para a outra margem, chegaram a Genesaré. ³⁵Quando os habitantes desse lugar reconheceram Jesus, espalharam a notícia por toda a região. E levaram a Jesus todos os doentes, ³ pedindo-lhe que os deixasse tocar ao menos na barra de seu manto. E todos os que tocaram nele ficaram curados. Jesus continua a caminhada missionária ao longo da qual instrui os discípulos com seus ensinamentos e gestos de solidariedade com a humanidade sofredora (v. 34). Sua “sala de aula” sem paredes, portas ou janelas, permite que as multidões, com suas dores e carências, se aproximem dele. O alarde de sua presença despertava a esperança no coração do povo, que trazia “todos” os enfermos em busca de cura, de salvação (v. 35). Os discípulos-apóstolos no futuro fariam experiência semelhante. O toque na veste de Jesus, extensão de seu corpo, tem o efeito de fazer jorrar dele uma força revitalizadora, que traz cura para “todos os que tocaram nele” (v. 36). O leitor-ouvinte se recorda da hemorroíssa e seu gesto análogo (cf. Mt 9,20- 21). Tradições humanas e leis da pureza (15,1-20) || Mc 7,1-23 ¹Então foram até Jesus alguns fariseus e doutores da Lei vindos de Jerusalém. Disseram: ²“Por que os teus discípulos desobedecem à tradição dos antepassados? De fato, eles não lavam as mãos quando comem pão”. ³Jesus respondeu-lhes: “E por que vocês desobedecem ao mandamento de Deus por causa da tradição de vocês? ⁴Pois Deus disse: ‘Honre pai e mãe’. E também: ‘Quem amaldiçoar pai ou mãe, deve morrer’. ⁵No entanto, vocês afirmam: Se alguém disser ao pai ou à mãe: ‘A ajuda que eu lhe deveria dar foi consagrada a Deus’, tal pessoa não está mais obrigada a honrar seu pai e sua mãe. Vocês assim invalidam a Palavra de Deus, por causa da tradição de vocês! ⁷Hipócritas! Bem que Isaías profetizou a respeito de vocês, quando disse: ⁸‘Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim. É inútil o culto que me prestam, pois a doutrina que ensinam são mandamentos humanos’ ”. ¹ E, chamando a multidão para junto de si, disse-lhe: “Escutem e compreendam. ¹¹Não é o que entra pela boca que torna a pessoa impura, mas o que sai da boca; isso sim é que torna impura a pessoa”. ¹²Então os discípulos se aproximaram e lhe disseram: “Sabes que os fariseus ficaram escandalizados quando ouviram o que disseste?” ¹³Jesus respondeu: “Toda planta que meu Pai celeste não plantou, será arrancada. ¹⁴Deixem-nos. São cegos guiando cegos. E se um cego guia outro cego, os dois cairão num buraco”. ¹⁵Pedro tomou a palavra e lhe disse: “Explica-nos essa parábola”. ¹ Jesus disse: “Até vocês ainda não entendem? ¹⁷Não percebem que tudo o que entra pela boca passa para o estômago, e é eliminado na fossa? ¹⁸Mas o que sai da boca vem do coração, e é isso que torna a pessoa impura. ¹ De fato, é do coração que vêm as más intenções, assassinatos, adultérios, prostituições, roubos, falsos testemunhos e blasfêmias. ² São essas coisas que tornam a pessoa impura. Mas comer sem lavar as mãos não torna impura a pessoa”. As investidas dos inimigos continuam a cair sobre Jesus. Mais uma vez os fariseus e os doutores da Lei voltam a importuná-lo. Agora é um grupo vindo de longe, Jerusalém, com o propósito de questioná-lo (v. 1). Pressupõe-se que as ações do Mestre começaram a incomodar a liderança religiosa da capital, depois de atrair as iras dos líderes religiosos galileus. Quiçá, pensando serem os colegas do Norte incapazes de fazer calar aquele pregador incômodo, vêm fazê-lo pessoalmente. A abordagem do mestre atropelador das tradições religiosas começa com o questionamento de uma prática de seus discípulos orientados por ele (v. 2). O ponto visado diz respeito à pureza ritual. Os discípulos de Jesus comem sem lavar as mãos, numa evidente violação da “tradição dos antepassados”. Uma desobediência inadmissível! Enquanto eles batiam na tecla da submissão aos ensinamentos dos antigos, numa demonstração de fidelidade a Deus, estavam convencidos de que a atitude permissiva de Jesus merecia ser censurada. A extensa resposta de Jesus desmascara a falsidade de seus críticos, cuja fidelidade à tradição não passa das aparências (v. 3-9). Basta verificar como se comportam. Se, por um lado, exigem rigoroso cumprimento do mandamento referente à piedade filial (cf. Ex 20,12; Dt 5,16) e proíbem faltar de respeito aos pais, por outro lado são cruéis com os genitores ao consagrar a Deus o que lhes é devido, de modo a estarem impedidos de repartir com os pais o que agora não mais lhes pertence. Essa maquinação perversa jamais será aprovada por Deus, que se recusa a ser adorado às custas da exploração do próximo, com muito mais razão os próprios genitores. Os fariseus e os doutores da Lei, com seu legalismo intolerante, sabem como manipular a Lei e invalidá-la. Uma hipocrisia insuportável! Um texto do profeta Isaías vem à mente do Mestre para ilustrar a longa história dessa falsa religiosidade (cf. Is 29,13). Com toda franqueza o profeta denunciou a fragilidade de uma religião superficial, praticada da boca para fora, desprovida de interioridade. Equivoca-se quem pensa cultuar Deus por esse caminho, feito de doutrinas e de mandamentos humanos. Comer com mãos impuras torna-se irrelevante quando se pensa no que Deus realmente deseja de seus adoradores. Como se desse as costas para os acusadores, colocando-os fora do âmbito do seu interesse, Jesus chama as multidões para junto de si e se põe a explicar-lhes o porquê do seu modo de instruir os discípulos (v. 10). Apresenta-lhes um argumento irrefutável: a Deus interessa a pureza interior, e não a exterior. Sendo assim, a impureza provém do que “sai da boca”, e não do que “entra pela boca” (v. 11). Os alimentos materiais jamais serão causa da impureza da qual o discípulo do Reino deva se manter distante. As palavras maliciosas e maldosas e as más intenções sim! O Mestre continua a reflexão com o grupo restrito dos discípulos, ficando de fora as multidões e os acusadores. Muda-se de foco. Agora vem a explicação do motivo de os fariseus e os doutores da Lei se irritarem ao vê-los comer sem lavar as mãos (v. 12). Não estão afinados com o Pai, por serem plantas espúrias, não plantadas por ele (cf. Mt 13,25.38b-39), portanto impossibilitadas de produzir bons frutos (v. 13; cf. Mt 7,16). Serão arrancados como o joio (cf. Mt 13,30). A ousadia de serem juízes das ações alheias torna-os semelhantes a cegos guiando cegos. O destino de ambos se pode prever: “os dois cairão num buraco” (v. 14). Quem lhes der ouvidos e levar a sério faz uma opção problemática por lhes faltar algo essencial: a aprovação de Deus. O afastamento de Deus virá a galope. Pelo simples fato de serem liderança religiosa e intransigente na defesa das tradições, não estão autorizados a interferir na vida alheia quando alguém se recusa a lhes dar ouvido, como acontecia com Jesus e seus discípulos. Só uma leitura crítica do modo de proceder dos doutores da Lei e dos fariseus, como fazia o Mestre, podia evitar que se caísse na armadilha deles. Pedro desponta pedindo explicações para a parábola do que entra e do que sai da boca (v. 15). Jesus censura a falta de inteligência do grupo, que haviadeclarado compreender seu linguajar metafórico (v. 16). A resposta afirmativa para a pergunta “Vocês entenderam todas essas coisas?” (Mt 13,51) mostra-se precária na nova circunstância. A intervenção do Mestre faz-se necessária. Contrariando os mestres preocupados com a questão da pureza exterior, Jesus contrapõe o que entra pela boca e o que sai do coração. Interessa-lhe o que sai do coração, e não o que entra pela boca. Os alimentos têm a finalidade de alimentar o corpo. Uma vez ingeridos, passam pelo processo natural de digestão, comum a todo ser humano, onde o organismo assimila os nutrientes dos alimentos e elimina os resíduos (v. 17). Se a pessoa digere os alimentos tendo lavado as mãos ou não, o metabolismo segue inalterado; não existe o perigo de a impureza das mãos afetar sua relação com Deus. Entretanto, o que sai do coração sim deve ser motivo de preocupação, pelo poder de tornar impura a pessoa e perturbar sua vinculação com Deus (v. 18). Do coração brota todo tipo de malignidade e perversão. O leitor-ouvinte pode completar a lista do v. 19 a partir de sua experiência pessoal e do que vê ao redor. Todas as iniquidades possíveis dizem respeito à relação com o próximo, afetada pelo que de ruim brota do íntimo do ser humano. Por conseguinte, se alguém pretende relacionar-se corretamente com Deus, cuide dos sentimentos “cozinhados” no coração e evite dar espaço para a maldade, com seus múltiplos tentáculos. O discípulo do Reino foca a atenção em seu interior, onde pode acontecer a ruptura com Deus, a se desdobrar também na ruptura com o próximo. A preocupação com a pureza ritual torna-se irrelevante, pois Deus não está interessado nela (v. 20). Lavar as mãos é tarefa fácil. Conservar puro o coração, porém, exige uma luta contínua contra as forças do mal que insistem em afastar o discípulo do bom caminho. A filha da mulher cananeia (15,21-28) || Mc 7,24-30 ²¹Saindo daí, Jesus retirou-se para a região de Tiro e Sidônia. ²²Eis que uma mulher cananeia, que tinha saído dessa região, começou a gritar, dizendo: “Tem piedade de mim, Senhor, Filho de Davi! Minha filha está terrivelmente endemoninhada”. ²³Jesus, porém, não lhe respondeu uma palavra sequer. Os discípulos de Jesus, aproximando-se dele, pediam-lhe: “Atende-a, pois ela vem gritando atrás de nós”. ²⁴Jesus respondeu: “Eu fui enviado somente às ovelhas perdidas da casa de Israel!” ²⁵Mas ela chegou, ajoelhou-se diante dele e disse- lhe: “Senhor, socorre-me!” ² Ele respondeu: “Não fica bem tirar o pão dos filhos e jogá-lo aos cachorrinhos”. ²⁷Ela insistiu: “É verdade, Senhor. Mas também os cachorrinhos comem as migalhas que caem da mesa de seus donos”. ²⁸Então Jesus lhe respondeu: “Mulher, é grande a sua fé. Aconteça para você tal como você deseja!” E a partir desse momento a filha dela ficou curada. Jesus parte de Genesaré (cf. Mt 14,34), deixando a multidão, e começa uma longa viagem do outro lado das fronteiras de Israel, na região de Tiro e Sidônia, na Fenícia, em território sírio (v. 21; cf. Mt 4,24). Os discípulos terão a chance de ver a atividade missionária do Mestre entre os gentios, olhados com suspeita pelos judeus. No futuro, os discípulos-apóstolos serão desafiados a anunciar o evangelho em todas as partes do mundo. O Mestre permite-lhes ter contato com uma pequena experiência do que os espera. De cara, o Mestre encontra-se com uma “mulher cananeia”, vindo a seu encontro com um pedido semelhante ao que lhe faziam tantos judeus na Galileia (v. 22). O Mestre deve superar dois preconceitos: o primeiro diz respeito ao contato em público com uma mulher, reprovável para um mestre de boa reputação; o segundo toca sua condição de “pagã”, adoradora de um deus distinto do Deus de Israel. Todavia, a súplica da mulher surpreende-o. Ao chamá-lo de “Filho de Davi” e “Senhor” e suplicar-lhe piedade, demonstra ser movida por uma fé grandiosa, semelhante à do oficial romano (cf. Mt 8,10). E mais: a mulher confia no poder taumatúrgico de Jesus, capaz de libertar o ser humano das forças demoníacas. E se torna protótipo dos não judeus abertos para acolher o evangelho do Reino e se tornar beneficiários da misericórdia divina derramada sobre a humanidade. A reação de Jesus tem um quê de intrigante. Faz-se de surdo ao ouvir o apelo desesperado da mulher (v. 23). Seu comportamento em Israel era muito distinto. Estava sempre disponível para acolher a todos e atender-lhes os pedidos, como já acontecera (cf. Mt 4,24; 9,35) e acontecerá na cena seguinte (v. 30). Por que, então, mostra-se insensível ao desespero da cananeia, a ponto de os discípulos insistirem para que a atenda, pois gritava insistentemente atrás deles? O Mestre explica aos discípulos o porquê de sua atitude, pautada na orientação que lhes dera de se dirigirem “às ovelhas perdidas da casa de Israel” (v. 24; cf. Mt 10,6). Aquela mulher não se enquadrava nessa categoria, logo estava dispensado de lhe dar ouvido. Porém, o leitor-ouvinte pode se perguntar: se o Mestre não veio de coração aberto para acolher a todos, o que viera fazer fora dos limites da “casa de Israel”? Que ficasse em sua terra! A determinação da mulher em alcançar seu objetivo impressiona. Num gesto de profunda humildade e, ao mesmo tempo, de reconhecimento do poder (exousia) de Jesus, insiste em pedir socorro e se põe de joelhos diante dele (v. 25). O confronto exigia uma resposta do Mestre, que vem de maneira ríspida, carregada de preconceito (v. 26). Os israelitas têm o privilégio de ser “filhos” de Deus e se beneficiar das promessas, enquanto os estrangeiros, considerados pagãos, eram considerados “cães”. Daí a metáfora de privar os filhos do pão para jogá-lo aos cachorrinhos, atitude abertamente inconsequente. Pode-se pensar no Mestre querendo provar a fé da cananeia, embora não seja explicitado na narração. Ou, então, assumindo uma postura semelhante à que os discípulos-apóstolos seriam tentados a assumir e deveriam superar como o Mestre. A mulher não se dá por vencida. Antes, serve-se das palavras do Mestre para contestá-lo. Embora seja um disparate pegar o pão dos filhos e lançá-lo aos cães, os cachorrinhos costumam comer as migalhas da mesa dos donos (v. 27). Era como se sentia, ao implorar as migalhas dos benefícios destinados “às ovelhas perdidas da casa de Israel”. Os restinhos do pão dos filhos lhe seriam bastantes! As palavras corajosas da mulher dirigidas ao “Senhor” provocam uma guinada na cena (v. 28). Ao elogio da “grande fé” daquela mulher segue-se a acolhida de sua súplica com a concomitante cura de sua filha. Os discípulos-apóstolos deverão estar atentos para a grande fé atuante no coração de muitos não judeus a quem encontrarão como anunciadores do Reino. Deverão deixar de lado os preconceitos e superar uma visão estreita, que reduz os beneficiários da salvação a um punhado de privilegiados. Novas curas na Galileia (15,29-31) ² Partindo daí, Jesus foi para as proximidades do mar da Galileia. Tendo subido a uma montanha, ali se assentou. ³ E numerosas multidões foram a ele, levando consigo coxos, cegos, aleijados, mudos e muitos outros. Puseram todos aos pés de Jesus, e ele os curou. ³¹De modo que a multidão ficou maravilhada, ao ver mudos falando, aleijados sadios, coxos andando e cegos enxergando. E deram glória ao Deus de Israel. O Mestre retorna para sua terra após as atividades missionárias entre os gentios (v. 29). À cura da filha da mulher cananeia, único gesto poderoso realizado em favor de uma estrangeira, seguem-se numerosas curas. O Mestre, que subira ao monte e se sentara para ensinar, agora sobe ao monte e se assenta para curar (cf. Mt 5,1-2). O verdadeiro Israel, instruído com a verdadeira Lei (cf. Mt 5-7), recebe a verdadeira vida que o livra de toda doença e enfermidade, e faz transparecer a riqueza de humanidade concedida a cada ser humano pelo Pai dos Céus. As multidões apresentaram seus doentes a Jesus e todos foram curados (v. 30). A expressão “muitos outros” acrescentada ao elenco de pessoas com limitações físicas pode ser entendida como um convite do narradorao leitor-ouvinte para pensar a humanidade inteira colocada diante de Jesus, necessitada de salvação expressa como cura das doenças. Caberá aos discípulos-apóstolos espalharem-se pelo mundo inteiro e fazerem a benevolência divina chegar a cada ser humano. A multidão maravilha-se diante da vida transbordando em favor de mudos, aleijados, coxos, cegos e tantos outros pela ação do Messias Jesus (v. 31). O Reino dos Céus torna-se visível na explosão de vida em favor da humanidade sofredora. Por tudo isso as multidões têm suficiente motivo para “dar glória ao Deus de Israel”. Segunda partilha dos pães e peixes (15,32-39) || Mc 8,1-10 ³²Chamando seus discípulos para junto de si, Jesus lhes disse: “Tenho compaixão da multidão, porque está comigo há três dias, e não tem o que comer. Não quero deixá-los ir embora com fome, porque poderiam desmaiar pelo caminho”. ³³Os discípulos lhe disseram: “Neste deserto, onde conseguiríamos tantos pães para matar a fome de tamanha multidão?” ³⁴Jesus lhes disse: “Quantos pães vocês têm?” Responderam: “Sete, e alguns peixinhos”. ³⁵Ele mandou que a multidão se sentasse no chão. ³ Tomou os sete pães e os peixes e, depois de dar graças, partiu e entregou aos discípulos, e os discípulos para as multidões. ³⁷Todos comeram e ficaram satisfeitos. E recolheram sete cestos cheios de pedaços que sobraram. ³⁸Os que comeram eram quatro mil homens, sem contar mulheres e crianças. ³ Depois de despedir as multidões, Jesus subiu na barca e foi para o território de Magadã. Jesus chama os discípulos para junto de si e partilha com eles seu sentimento profundo de compaixão pela fome da multidão, há três dias com ele. Sente que não pode despedi-la, pois desfaleceria pelo caminho (v. 32). Comparada com a cena anterior, essa nova situação parece contraditória. Jesus restituiu a saúde a tantas pessoas para em seguida vê-las desfalecer de fome! Ele mesmo reconhece que as pessoas não conseguirão sobreviver se forem mandadas para casa antes de se alimentarem. A explosão de vida poderia dar lugar a uma sucessão de mortes! Os discípulos dão um tom ainda mais trágico à situação, ao constatar a impossibilidade de conseguir pão para “matar a fome de tamanha multidão” num lugar desértico (v. 33). Estavam na iminência de uma tragédia pela incapacidade de se entrever uma saída. A multidão enfraquecida pela falta de comida não podia ser deixada à própria sorte. Mas o que fazer? O Mestre toma a iniciativa de encaminhar uma solução. Começa por fazer um levantamento da disponibilidade de comida entre os discípulos, com a verificação de quantos pães de que dispunham. Nada mais do que “sete pães e alguns peixinhos” (v. 34). Quantidade irrisória para alimentar “tamanha multidão”! A solidariedade deveria começar com os discípulos, desafiados a não pensar em si mesmos em detrimento da multidão faminta. O Mestre exigia deles um testemunho de desapego e solidariedade. O Mestre assume o controle da situação e ordena que “a multidão se sentasse no chão” (v. 35). Tudo se fará com ordem, para evitar atropelos e garantir a assistência de todos, de modo que recebam a devida atenção. Estando a multidão sentada e em ordem, a eventualidade de um corre-corre ou empurra-empurra seria menor. Como fizera anteriormente (cf. Mt 14,19), o Mestre repete o gesto que recorda a última ceia (v. 36; cf. Mt 26,26). Tendo dado graças pelos sete pães e os peixes postos à disposição de todos pelos discípulos, parte-os e os entrega aos discípulos e estes, por seu turno, os repartem com a multidão. Acontece de novo o milagre da solidariedade e da partilha, única maneira de evitar a morte por inanição naquele ermo. A vida e a sobrevivência dependiam de cada um pensar no outro e superar o egoísmo e a tentação de reter o alimento para si. A solidariedade e a partilha permitiram que todos comessem e ficassem satisfeitos. E mais: que fossem recolhidos “sete cestos cheios de pedaços que sobraram” (v. 37). A imensidão do desafio em momento algum bloqueou o Mestre ou o deixou desesperado. Existe sempre uma via de saída para os grandes problemas quando pensados à luz do Reino de Deus e seu apelo para a compaixão, a criatividade, o senso de realismo, a participação, enfim, o cuidado com o próximo. O v. 38 repete a observação de Mt 14,21, com uma ressalva: aqui são “quatro mil homens, sem contar mulheres e crianças”. Reforça-se dessa maneira a importância de as mulheres e as crianças terem sua dignidade reconhecida e receberem o mesmo tratamento dispensado aos homens na comunidade por serem todos irmãos e irmãs (cf. Mt 23,8). A comunidade do Reino se constrói com todas as pessoas consideradas em pé de igualdade com o mesmo direito de comer “o pão dos filhos” (v. 26). Jesus continua suas andanças ao despedir as multidões, subir numa barca e se dirigir para “o território de Magadã”, localidade que os estudiosos não conseguem determinar (v. 39). Os discípulos continuam o aprendizado missionário com as palavras e os gestos do Mestre, e se preparam para a gigantesca tarefa de anunciar o Reino pelo mundo inteiro (cf. Mt 28,19). O sinal de Jonas (16,1-4) || Mc 8,11-13; Lc 12, 54-56 ¹Os fariseus e saduceus se aproximaram de Jesus e, para pô-lo à prova, pediram que lhes mostrasse um sinal vindo do céu. ²Jesus lhes respondeu: “Ao cair a tarde, vocês dizem: ‘Amanhã vai fazer tempo bom, porque o céu está avermelhado’. ³E de manhã dizem: ‘Hoje vai chover, porque o céu está vermelho-escuro’. Vocês sabem interpretar a aparência do céu, mas não conseguem interpretar os sinais dos tempos. ⁴Uma geração malvada e adúltera procura um sinal. Mas não lhe será dado outro sinal, a não ser o sinal de Jonas”. E, deixando-os, Jesus foi embora. Por onde anda, Jesus depara com os inimigos prontos a lhe prepararem armadilhas (v. 1). Nenhum lugar pode ser considerado suficientemente escondido e distante para estar afastado deles. Parecem segui-lo com um radar para localizá-lo e tirar-lhe a paz. Quando chega à desconhecida Magadã, lá estão eles para prová-lo com o pedido de um sinal celeste. Chama a atenção nesse ponto da catequese mateana aparecerem juntos “fariseus e saduceus”, duas correntes do judaísmo com muitas arestas entre si no tempo de Jesus. Os fariseus eram leigos aferrados à prática da Lei mosaica como caminho de salvação e ligados às sinagogas. Os saduceus pertenciam à classe sacerdotal de Jerusalém e se preocupavam com questões cúlticas e rituais no Templo. Uma das raízes do conflito entre eles dizia respeito à posição em relação ao Império Romano. Enquanto os fariseus faziam oposição firme mas pacífica, os saduceus apoiavam os ocupantes do país, pois as autoridades romanas davam-lhes respaldo e lhes permitiam manter a liderança religiosa. Em todo caso, o evangelho os apresenta unidos para questionarem Jesus. O pedido de sinais ocorre no Antigo Testamento em contexto de missão para confirmar a origem divina do chamado (cf. Jz 6,17.36-39; Is 7,11). No caso dos adversários de Jesus, tratava-se de uma artimanha para colocá-lo em apuros diante das autoridades religiosas e poderem eliminá-lo. O narrador revela a má intenção dos inimigos ao informar “para pô-lo à prova”. O “sinal vindo do céu” teria a função de garantir a autoridade divina de Jesus e respaldar a contínua referência ao Pai dos Céus em seus ensinamentos e gestos poderosos. Uma forma de desacreditá-lo consistia em atribuir a “Beelzebu, chefe dos demônios”, o poder (exousia) de libertar os seres humanos de suas múltiplas opressões (cf. Mt 12,24). A reação de Jesus denuncia a falta de discernimento dos rivais (v. 2-3). Por um lado, são capazes de captar as condições atmosféricas pela coloração do firmamento: céu avermelhado, sinal de tempo bom; céu vermelho-escuro, chuva com certeza. Por outro, são incapazes de perceber Deus falando na história pelos “sinais dos tempos” (gr. kairós). Kairós corresponde ao tempo único e irrepetível da passagem de Deus pela vida dos seres humanos, em cujas entrelinhas se deve captar a voz divina com seu apelo de conversão e de engajamento na construçãodo Reino querido por ele. Desperdiçar o kairós representado por Jesus de Nazaré constitui-se em fechamento ao apelo do Pai com graves consequências. Reconhecendo os opositores como “geração malvada e adúltera” e desprovida do desejo de conversão, Jesus se recusa a fazer um sinal como lhe pediam (v. 4). Aliás, oferece-lhes o “sinal de Jonas”, já referido em Mt 12,39-40, apelando para a intervenção do Pai por ocasião de sua morte e ressurreição. Se fossem capazes de entender o que lhe estava reservado tendo o “sinal de Jonas” como referência, haveriam de compreender sua identidade e missão messiânica. O fermento dos fariseus e saduceus (16,5-12) || Mc 8,14-21 ⁵Ao atravessar para a outra margem, os discípulos se esqueceram de levar pães. Jesus lhes disse: “Cuidado! Fiquem longe do fermento dos fariseus e saduceus”. ⁷Eles discutiam entre si: “É porque não trouxemos pães”. ⁸Percebendo isso, Jesus disse: “Gente fraca na fé, por que vocês estão discutindo por não terem pães? Ainda não compreendem? Não se lembram dos cinco pães para cinco mil homens, e quantos cestos vocês recolheram? ¹ Nem dos sete pães para quatro mil homens, e quantos cestos vocês recolheram? ¹¹Não compreendem que eu não estava falando de pães, quando lhes disse: ‘Fiquem longe do fermento dos fariseus e saduceus’?” ¹²Então entenderam que ele não tinha falado para ficar longe do fermento dos pães, mas do ensinamento dos fariseus e saduceus. Seguindo as andanças missionárias de Jesus, os discípulos atravessam para a outra margem (v. 5). O leitor-ouvinte imagina tratar-se do mar da Galileia e a viagem ter sido feita de barco. Seria a volta para o local de onde partiram (cf. Mt 15,29). Um detalhe: não levaram pães consigo! E retornavam para o lugar da segunda multiplicação dos pães. Parece não terem aprendido a lição de providenciar alimento para as muitas idas e vindas com o Mestre. Como aconteceu em outras ocasiões, o Mestre aproveita a chance para instruir os discípulos. E o faz durante a viagem de barco! Alertou-os a ficarem atentos quanto ao “fermento” dos fariseus e dos saduceus, os mesmos que pediram ao Mestre um sinal do céu para pô-lo à prova (v. 6). O alerta do Mestre escapou da compreensão dos discípulos. A palavra “fermento” fê-los suspeitar se tratar de uma censura por terem esquecido de trazer pães (v. 7). O Mestre, dando-se conta da discussão entre eles, faz uma reflexão em torno do tema do entendimento de seus ensinamentos e dos pães já tratados nas cenas anteriores (v. 8-11). O ensinamento acontece em forma de perguntas sucessivas, a serem respondidas interiormente, a partir do que haviam visto e ouvido do Mestre. Este os considera gente de pouca fé, a quem falta a percepção do sentido profundo das coisas consideradas com o olhar de Deus. Os discípulos são desafiados a pensar como Deus pensa, inspirados em Jesus. Na ausência dessa afinação, o sentido das palavras passará despercebido. Os discípulos não conseguirão atingi-lo e permanecerão na superfície das palavras. A evocação dos dois gestos poderosos de multiplicação de pães tem o objetivo de recordar aos discípulos não se tratar do pão material. Quando falta, a solidariedade e a partilha são o caminho para obtê-lo. As multidões alimentadas no deserto devem ser lembradas na eventualidade de necessitarem de pão. Portanto, “o fermento dos fariseus e saduceus” carece de ser entendido de outra maneira. Com a “dica” do Mestre, os discípulos caíram na conta de se tratar “do ensinamento dos fariseus e saduceus” (v. 12). O modo de pensar deles, contrário ao do Mestre, poderia lhes perturbar os corações, fermentando-os com uma mentalidade legalista e ritualista voltada para Deus, mas despreocupada com o próximo suplicando acolhida e proteção. O caminho para Deus se faz pela prática da misericórdia! Pedro professa a fé (16,13-20) || Mc 8,27-30; Lc 9,18-21 ¹³Quando chegou à região de Cesareia de Filipe, Jesus perguntou a seus discípulos: “Quem as pessoas dizem que é o Filho do Homem?” ¹⁴Eles disseram: “Alguns dizem que é João Batista; outros dizem que é Elias; outros, que é Jeremias ou algum dos profetas”. ¹⁵Perguntou-lhes então: “E vocês, quem vocês dizem que eu sou?” ¹ Simão Pedro, respondendo, disse: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. ¹⁷Jesus lhe respondeu: “Feliz é você, Simão, filho de Jonas. Porque não foi alguém de carne e sangue quem lhe revelou isso, e sim o meu Pai que está nos céus. ¹⁸Eu também lhe digo: Você é Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha igreja. E as portas do inferno não dominarão sobre ela. ¹ Eu darei a você as chaves do Reino dos Céus: o que você ligar na terra, será ligado nos céus; o que você desligar na terra, será desligado nos céus”. ² Então ordenou que os discípulos não dissessem a ninguém que ele era o Messias. Distanciando-se das margens do mar da Galileia, Jesus e os discípulos encontram-se em Cesareia de Filipe, onde o Mestre lhes faz duas perguntas a respeito de sua identidade. A primeira diz respeito ao pensamento das pessoas a respeito do “Filho do Homem” (v. 13). No evangelho, o Mestre refere-se a si mesmo com o epíteto de “Filho do Homem” (cf. Mt 8,20; 9,6; 12,32.40; 16,27.28; 17,9.12.22; 20,1.18.28; 24,30.37.39.44; 25,31; 26,2.24.45.64.72). Tendo ensinado e feito tantas coisas em benefício das multidões, certamente transmitiu-lhes uma imagem de si pela qual se guiavam no trato com ele. A resposta evocando João Batista, Elias, Jeremias e outros profetas conecta Jesus à longa tradição profética de Israel (v. 14). O terrível Herodes pensava na mesma direção (cf. Mt 14,2). A atuação dos profetas de outrora, preocupados em garantir a fidelidade a Deus no trato com os empobrecidos e excluídos, era bem conhecida. Por outro lado, a coragem no confronto com os agentes da opressão para denunciá-los tornava-os modelo de fidelidade ao projeto de Deus, em quem todo fiel deveria se espelhar. A segunda pergunta toca de cheio os discípulos. O Mestre quer saber o que pensam dele com a pergunta: “Quem vocês dizem que eu sou?” (v. 15). Afinal, são eles os destinatários privilegiados dos ensinamentos do Mestre, que os prepara para levarem adiante a missão de proclamar o Reino dos Céus a todos os povos. O parecer das multidões, considerando-o profeta, justifica-se plenamente. Entretanto, interessa ao Mestre saber que impressão os discípulos têm dele. Estavam à altura de dar um passo a mais em relação ao pensamento das multidões? Simão Pedro, protótipo de discípulo na catequese mateana, adianta-se e proclama a messianidade do Mestre: “Filho do Deus vivo” (v. 16). Ao declarar a filiação divina do Messias, Pedro sintoniza o Pai que o proclamara (cf. Mt 3,17) e o proclamaria (cf. Mt 17,5) “Filho amado”. Tratava-se de uma surpreendente novidade, pois jamais alguém ousara pensar o Messias como Filho de Deus, como Jesus pretendia ser. A resposta de Pedro foi inteiramente acertada. O Mestre dá-se por satisfeito pelo modo como Pedro, falando em nome dos demais, define sua identidade. Por isso o declara “feliz”, bem-aventurado, por ter captado o pensamento do Pai (v. 17). A capacidade de compreender a filiação divina do Messias Jesus tem origem no próprio “Pai que está nos céus”, não sendo fruto de elucubrações humanas, da “carne e sangue”. A abertura do discípulo para o Pai permitiu-lhe compreender a verdadeira identidade do Filho do Homem, superior ao que pensavam as multidões. Quem fizer um percurso de fé semelhante ao dele será capaz de compreender como ele quem é Jesus. O Mestre toma duas iniciativas em relação a Pedro. Substitui-lhe o nome de Simão por Pedro, como acontece em passagens bíblicas onde Deus confia missões importantes a pessoas escolhidas (cf. Gn 17,5; 32,29), e o elege para ser a “pedra” sobre a qual “minha igreja” (gr. ekklesia) seria construída (v. 18). O Mestre confia-lhe a tarefa de cuidar da comunidade nascente, seguro da solidez de sua fé e sua competência para levar adiante o serviço do Reino quando viesse a faltar. Era tamanha a confiança do Mestre na fidelidade do discípulo, que lhe permitia estar segurode que, sob a liderança de Pedro, nenhuma entidade (portas do inferno) ser suficientemente forte para destruir sua obra. O Mestre confia inteiramente no discípulo. Por isso lhe dá plenos poderes para liderar sua igreja (v. 19). A metáfora da pedra como fundamento dá lugar à da chave como liderança. A entrega das “chaves do Reino dos Céus” com autoridade para ligar e desligar na terra e ser respaldado nos céus sublinha a importância do discípulo a quem caberá assimilar o espírito do Mestre, da maneira mais profunda possível, e se tornar apto para prosseguir o caminho iniciado, tendo como meta trilhar todas as estradas do mundo. A ordem dada aos discípulos para não espalharem ser ele o Messias pode-se entender como precaução para se evitar o ímpeto de confundi-lo com o messias glorioso esperado com ansiedade (v. 20). Primeiro anúncio da Paixão (16,21-28) || Mc 8,31-9,1; Lc 9,22-27 ²¹Desde esse momento, Jesus começou a mostrar a seus discípulos que era necessário ele ir a Jerusalém, sofrer muito por causa dos anciãos, chefes dos sacerdotes e doutores da Lei, ser morto e ressuscitar no terceiro dia. ²²Então Pedro, levando Jesus à parte, começou a repreendê-lo, dizendo: “Deus não permita tal coisa para ti, Senhor! Jamais te acontecerá isso!” ²³Voltando-se, Jesus disse a Pedro: “Vá para trás de mim, Satanás! Você é para mim uma pedra de tropeço, porque não pensa nas coisas de Deus, e sim nas coisas dos homens”. ²⁴Então Jesus disse a seus discípulos: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. ²⁵Pois quem quiser salvar a própria vida, a perderá; mas quem perder a própria vida por causa de mim, a encontrará. ² De fato, de que adianta alguém ganhar o mundo inteiro, se destrói a própria vida? Ou o que alguém dará em troca de sua própria vida? ²⁷Porque o Filho do Homem virá na glória de seu Pai, com seus anjos. E então dará a cada um de acordo com o seu comportamento. ²⁸Eu lhes garanto: Dentre os que aqui se encontram, alguns não provarão a morte, sem antes verem o Filho do Homem vindo em seu Reino”. Doravante o tema do sofrimento, da morte e da ressurreição do Messias desponta com toda clareza na catequese mateana (v. 21). A declaração de Pedro e o posterior elogio do Mestre carecem de explicação a fim de evitar o mal- entendido de considerá-lo um Messias glorioso, exaltado por Deus e reconhecido pelos homens como os grandes deste mundo. Com toda clareza Jesus declara onde deverá morrer, os sofrimentos que o esperam, os promotores de sua morte violenta e sua ressurreição ao terceiro dia. A expressão “era necessário” ressalta a presença do Pai em sua vida a lhe apontar os rumos da caminhada. Tudo quanto lhe acontecerá corresponde ao querer do Pai. Portanto, a maldade da liderança religiosa encarnada pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e pelos doutores da Lei jamais prevalecerá sobre ele. A ressurreição será a palavra definitiva do Pai sobre seu projeto de dedicação total ao Reino. Pedro mais uma vez intervém de maneira impulsiva. Chama-o à parte e o repreende, extrapolando a condição de discípulo (v. 22). As palavras do Mestre romperam os esquemas messiânicos do discípulo, nos quais a perspectiva de sofrimento passava longe do Ungido do Senhor. As palavras do Mestre eram-lhe insuportáveis. Urgia corrigi-lo enquanto era tempo para evitar, até mesmo, uma desmoralização. Quem haveria de acolher um messias fraco, impossibilitado de enfrentar a violência humana? Que pensar de um messias derrotado? A reação do Mestre foi proporcional à impetuosidade do discípulo, ordenando- lhe colocar-se em seu lugar: “Vá para trás de mim!”; não tivesse a pretensão de agir como mestre do Mestre, antes se contentasse com a condição de discípulo. Jesus denunciou-o de agir como autêntico “Satanás”, tentando desviá-lo do querer do Pai (cf. Mt 4,1-10); incriminou-o de ser “pedra de tropeço” (gr. skándalon) por querer impedi-lo de caminhar com segurança; por fim, desmascarou-lhe a incapacidade de adequar seu pensamento com o de Deus e pensar como pensam os homens (v. 23). O Mestre aproveita a ocasião para explicar o verdadeiro sentido do discipulado do Reino oposto às expectativas errôneas alimentadas pelos discípulos (v. 24). Quem se dispuser a segui-lo deverá abrir mão de sua mentalidade e projetos pessoais; a abnegação lhe possibilitará “tomar a cruz” e se colocar nos passos do Mestre. “Cruz” tem o sentido positivo do querer do Pai abraçado por Jesus, com radicalidade, na superação do egoísmo e do amor próprio para servir a humanidade, a quem deve chegar a salvação. Em última análise, significa com Jesus assumir a missão de salvador com a exigência de entregar a vida por quem necessita de misericórdia e compaixão. De que adianta ser discípulo fechado em si mesmo para defender interesses pessoais? Essa atitude insensata terá como resultado a deterioração da humanidade do discípulo, que “perderá a própria vida”. Pelo contrário, quem renunciar aos projetos pessoais para servir o próximo, por causa de Jesus, esse sim “ganhará a própria vida”, pois o amor misericordioso constitui-se na grande fonte de humanidade (v. 25). Tudo depende da decisão de quem pretende entregar-se ao discipulado do Reino, cujos esquemas diferem muitíssimo dos esquemas mundanos. O Mestre prossegue a reflexão tirando consequências da afirmação anterior (v. 26). Querer apropriar-se do mundo inteiro pela via do egoísmo e da exploração do próximo corresponde a uma atitude insana, pois, no final das contas, será motivo de frustração. A destruição da própria vida virá na certa! No final da caminhada será impossível corrigir uma história de insensibilidade em relação ao irmão sofredor. Nada haverá que possa ser trocado em vista de mudar o rumo das coisas. Então será dado pelo Filho do Homem glorioso “a cada um de acordo com o seu comportamento” (v. 27; cf. Mt 25,31-46). Os discípulos são desafiados a se comportar como se espera de quem compreendeu o pensamento do Pai e se deixa guiar por ele. O Mestre encarna um exemplo a ser imitado! A declaração final soa como advertência escatológica aos discípulos, no sentido de motivá-los a “tomar a cruz” como lhes fora sugerido, pois o confronto com “o Filho do Homem vindo em seu Reino” acontecerá implacavelmente (v. 28). Viver de forma leviana e indigna do discipulado do Reino torna-se uma opção arriscada de desfecho previsível. A transfiguração (17,1-13) || Mc 9,2-13; Lc 9,28-36 ¹Seis dias depois, Jesus tomou Pedro, Tiago e seu irmão João, e os levou a um lugar à parte, a uma alta montanha. ²E foi transfigurado diante deles. Seu rosto brilhava como o sol, e suas roupas ficaram brancas como a luz. ³Eis que lhes apareceram Moisés e Elias, conversando com Jesus. ⁴Pedro tomou a palavra e disse a Jesus: “Senhor, é bom estarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. ⁵Ainda estava falando, quando uma nuvem luminosa os cobriu com sua sombra. E da nuvem uma voz dizia: “Este é o meu Filho amado, em quem encontro o meu agrado. Ouçam-no”. Ao ouvir isso, os discípulos caíram com o rosto por terra e ficaram com muito medo. ⁷Jesus se aproximou, tocou neles e disse: “Levantem-se e não tenham medo”. ⁸Eles, erguendo os olhos, não viram mais ninguém, a não ser Jesus. Quando desciam da montanha, Jesus lhes ordenou: “Não falem com ninguém sobre o que vocês viram, antes que o Filho do Homem ressuscite dos mortos”. ¹ Os discípulos lhe perguntaram: “Por que os doutores da Lei dizem que Elias deve vir primeiro?” ¹¹Ele respondeu: “É certo que Elias virá e há de restaurar todas as coisas. ¹²Mas eu lhes digo que Elias já veio, e não o reconheceram, mas fizeram com ele tudo quanto quiseram. Assim também, o Filho do Homem deverá sofrer por causa deles”. ¹³Então os discípulos entenderam que Jesus lhes tinha falado a respeito de João Batista. A nova cena inicia-se com duas indicações: uma temporal e outra espacial. Trata-se de inserções redacionais para dar unidade às cenas, como se faz ao longo de toda a catequese evangélica. A lógicaespaçotemporal permite ao leitor- ouvinte acompanhar a narração do começo ao final imaginando-a mentalmente. Caso contrário, seria uma colcha de retalhos desprovida de nexo entre as várias cenas narradas. Como os evangelhos são catequese narrativa, a “costura” histórica das cenas depende do projeto literário-narrativo pelo qual se guia o narrador. Os “seis dias”, os três discípulos (cf. Mt 26,38) e a “alta montanha” (cf. Mt 4,8; 5,1; 8,1; 14,23; 15,29; 28,16) têm valor simbólico na narração (v. 1). O número seis manifesta falta, imperfeição. Algo acontecerá para se alcançar a perfeição! O número três designa a constituição do ser humano (espírito, alma e corpo) e a continuidade de sua natureza. O que está para acontecer implicará o humano tanto de Jesus quanto dos três discípulos. A alta montanha, privada de localização geográfica específica, evoca o monte Sinai, “a” montanha por excelência na tradição judaica. A resplandecência do rosto de Moisés, ao descer do Monte com as tábuas da Lei, serve de pano de fundo para o que se falará a respeito de Jesus (cf. Ex 34,29-35). O v. 2 afirma exatamente isso! Jesus foi transfigurado (gr. metemorphóthe). Ele não se autotransfigurou! Na literatura bíblica, as ocorrências da voz passiva onde não se indica quem age são chamadas de passivo teológico, tendo Deus como sujeito da ação. Sendo assim, Jesus foi transfigurado pelo Pai dos Céus, a ponto de seu rosto adquirir um brilho solar, e suas vestes a brancura da luz. Pode-se falar em teofania, onde a divindade se mostra de maneira fascinante a um ser humano. Na sequência se verá como a reação dos discípulos assemelha-se à de quem outrora se viu diante da manifestação da divindade (cf. Gn 17,3; Nm 22,31; Jz 13,20; 1Rs 18,39; 1Cr 21,16). A linguagem simbólica continua no v. 3, com o aparecimento de Moisés e Elias em diálogo com Jesus. Moisés representa a Lei; Elias, os profetas. A expressão “a Lei e os Profetas” alude às Sagradas Escrituras no seu conjunto (cf. Mt 5,17; 7,12; 11,13; 22,40). A conversa com Moisés e Elias significa que a correta compreensão da tradição religiosa de Israel passa por Jesus de Nazaré, em quem converge toda a revelação do Deus de Israel. Pedro toma a iniciativa de perpetuar aquele momento, sugerindo a construção de três tendas para abrigar os personagens que tinha diante de si (v. 4). Novamente a linguagem simbólica: faz-se referência ao número três dos personagens e ao número três das tendas. As tendas evocam a longa caminhada do povo de Israel pelo deserto sob a liderança de Moisés (cf. Ex 25,8). Os três discípulos de certo modo simbolizavam o novo Israel liderado pelo Messias Jesus, rumo à Terra Prometida que abarca o mundo inteiro e acolhe todos os povos da terra (cf. Mt 28,19). Algo de extraordinário está acontecendo. Uma grande novidade! A referência à “nuvem luminosa” corresponde a outra evocação da caminhada dos israelitas pelo deserto (v. 5; cf. Ex 13,21-22). Da nuvem o Senhor falava com Moisés, como o fará com seu Filho amado, que muito o agrada (cf. Mt 3,17; Ex 24,16). O novo Israel estava em plena gestação por intermédio do novo Moisés, o Filho querido, a quem se deveria escutar. Oferecia-se aos discípulos uma chave para compreender a ação do Messias Jesus, a presença das multidões a segui-lo e a presença dos discípulos, colaboradores a exemplo dos auxiliares de Moisés (cf. Ex 18,24-26). Os discípulos ficam apavorados, reação esperada de quem contempla a manifestação divina – teofania (v. 6; cf. Mt 14,26). Porém, o Mestre cuida de trazê-los à realidade, ordenando se levantarem e não terem medo (v. 7). O contato com a divindade deve ter o efeito de animar o ser humano a enfrentar os desafios da vida com coragem, jamais bloqueá-lo. Tudo quanto haviam contemplado haveria de ser motivo para animar os três discípulos a voltarem à caminhada com novo ânimo, à margem da tentação do “É bom estarmos aqui!”, tampouco de ficarem bloqueados. O v. 8 encerra o episódio e abre espaço para a sequência dos fatos, que consiste na descida da montanha e na retomada do percurso discipular no qual o Mestre, com seu testemunho de vida e suas palavras, instrui os que terão a tarefa de levar adiante sua missão (v. 9a). O desaparecimento de Moisés e Elias, permanecendo apenas Jesus, tem a ver com o tempo novo iniciado com o Messias Filho querido do Pai dos Céus, que introduz a humanidade na verdadeira terra prometida. Cabe-lhe o papel de guia do povo até o destino designado pelo Pai. A ordem dada pelo Mestre aos discípulos soa enigmática. Que significava guardarem consigo tudo quanto haviam presenciado até “que o Filho do Homem ressuscite dos mortos” (v. 9b)? Quem possui um conhecimento privilegiado do Messias está proibido de divulgá-lo. O tema da ressurreição dos mortos, porém, é novidade. Os discípulos careciam de base para entendê-lo. Em todo caso, o tema da morte do Mestre que perpassara a catequese (cf. Mt 2,13.16; 12,14) far- se-á sempre mais presente. Os discípulos deverão preparar-se para aquele momento de verificação da consistência de sua adesão ao Reino. A interrogação agora parte do grupo de discípulos desejosos de esclarecer um ensinamento dos doutores da Lei sobre a vinda do profeta Elias antes da consumação dos tempos (v. 10). Teriam pensado que a aparição de Elias junto com Moisés significava a aproximação dos tempos escatológicos? O fim estaria próximo (cf. Mt 4,17)? A resposta do Mestre alarga os horizontes deles (v. 11-12). Por um lado, confirma a tradição dos doutores da Lei e seu ensinamento sobre a vinda de Elias para “restaurar todas as coisas”. Entretanto, o esperado já havia acontecido e não foi reconhecido: “fizeram com ele tudo quanto quiseram”, maltratando-o e eliminando-o (v. 13). Sorte semelhante teria o Filho do Homem, cujo destino seria “sofrer por causa deles”. Antes o Mestre falara de ressurreição, agora refere-se à morte que a antecederia. Os discípulos mais uma vez são alertados quanto ao seu destino: se, por um lado, uma morte semelhante à de João Batista o espera, por outro, haverá uma palavra definitiva do Pai para tomar suas dores e impedir a vitória dos malvados. A narrativa da transfiguração prepara os leitores-ouvintes, como preparou os três discípulos, para o confronto com o Mestre crucificado. Pregado na cruz estaria o Filho amado do Pai dos Céus, contradizendo os adversários, certos de terem eliminado um maldito de Deus. Cura do epilético (17,14-21) || Mc 9,14-29; Lc 9,37-43a ¹⁴Quando voltaram para junto da multidão, um homem se aproximou de Jesus e, de joelhos diante dele, ¹⁵pedia-lhe: “Senhor, tem piedade do meu filho, que é epilético e sofre terrivelmente. Muitas vezes cai no fogo, muitas vezes na água. ¹ Eu o trouxe a teus discípulos, mas eles não conseguiram curá-lo”. ¹⁷Jesus respondeu: “Oh, geração incrédula e perversa! Até quando estarei com vocês? Até quando irei suportá-los? Tragam aqui o menino”. ¹⁸Jesus então o repreendeu, e o demônio saiu dele. E a partir desse momento o menino ficou curado. ¹ Então os discípulos se aproximaram de Jesus em particular e disseram: “Por que nós não conseguimos expulsá-lo?” ² Ele então lhes respondeu: “Por causa da sua fraqueza na fé. Porque eu lhes garanto: Se vocês tiverem fé como um grão de mostarda, dirão para essa montanha: ‘Desloque-se daí para lá’, e ela se deslocará. E para vocês nada será impossível”. [21] As atividades missionárias continuam quando o Mestre volta com os três discípulos para junto da multidão e se repete a cena de alguém caindo de joelhos diante dele para lhe fazer uma súplica (v. 14). O homem implora a cura de seu filho epilético (gr. seleniázomai – lit.: um lunático, influenciado pela lua). Os sintomas referidos pelo pai do menino permitem identificá-los com as convulsões características dos ataques epiléticos (v. 15). O homem comunica ao Mestre ser impossível os discípulos virem em seu auxílio. Já os havia procurado em vão. Foram inábeis para devolver a saúde a seu filho (v. 16). A reação do Mestre parece brusca (v. 17). Os discípulos, inaptos para atendero pedido do homem, são chamados de “geração incrédula e perversa” que ele deveria aturar (cf. Mt 12,39). A inabilidade para curar provinha da falta de fé que inviabiliza qualquer gesto em favor do próximo. Entretanto, duas coisas chamam a atenção do leitor-ouvinte: em primeiro lugar, os discípulos ainda não haviam sido comissionados para tomar iniciativas missionárias, como acontecerá no final da catequese mateana; em segundo lugar, até então as pessoas haviam procurado o Mestre diretamente, e aqui, antes de procurá-lo, o homem apresentou o filho doente aos discípulos em busca de cura. A falha não estaria no homem que bateu na porta errada, contando com a ajuda de quem não estava em condições de ajudá-lo? O Mestre passa à ação, pedindo que lhe tragam o menino, e se põe a libertá-lo do poder do maligno, com repreensões ao demônio e ordens para se afastar dele (v. 18). Suas palavras têm efeito imediato, pela força (exousia) com que são pronunciadas. Carregadas de dinamismo divino e provindas da radical adesão ao Pai dos Céus, são plenamente eficazes. Carecendo desse elemento fundamental, as palavras dos discípulos tornaram-se ineficazes. O Mestre deixa isso claro ao responder ao questionamento que os discípulos lhe fazem em particular, intrigados por terem fracassado na tentativa de vir em socorro daquele pai aflito com o sofrimento do filho (v. 19). A pouca fé impediu-os de pronunciar uma palavra carregada de autoridade (exousia) e com ela recuperar a vida e a saúde do menino (v. 20). Uma fé minúscula como um grãozinho de mostarda bastaria para realizarem maravilhas (cf. Mt 13,31- 32). O linguajar hiperbólico do Mestre referente à capacidade de deslocar uma montanha sublinha que nada havia de suficientemente grande para bloquear a ação dos discípulos movidos pela fé. As palavras dos discípulos-apóstolos deverão ser carregadas de força divina como as do Mestre. [Omite-se o v. 21: “Além disso, este tipo de demônio só se expulsa com oração e jejum”, considerado duvidoso, pela possibilidade de ser uma conciliação tardia com Mc 9,29.] Segundo anúncio da Paixão (17,22-23) || Mc 9,30-32; Lc 9,43b-45 ²²Quando estavam juntos na Galileia, Jesus lhes disse: “O Filho do Homem será entregue nas mãos dos homens, ²³que o matarão. Mas no terceiro dia ele será ressuscitado”. E eles ficaram muito tristes. O Mestre insiste no incômodo tema da morte e da ressurreição estando a sós com os discípulos num lugar incerto da Galileia (v. 22-23). Os discípulos acalentam esperanças que falam de um Messias grandioso, superior às maldades deste mundo. Nem de longe se davam conta das articulações dos adversários, determinados a eliminar Jesus (cf. Mt 12,14). Estavam, por toda parte, em busca de pretextos para denunciá-lo ao tribunal. Até então Jesus conseguira safar-se deles e levar adiante sua missão. Porém, até quando isso seria possível? Quanto mais se desvencilhava deles, desmascarando suas artimanhas, tanto mais se tornavam determinados em lhe tirar a vida. A tristeza dos discípulos estava carregada de frustração. Talvez começassem a se dar conta do real significado de se terem colocado no seguimento de Jesus. Deixando de lado a esperança em um futuro de grandeza, deveriam contar com a terrível experiência de vê-lo “entregue nas mãos dos homens” decididos a matá- lo. A declaração de que seria ressuscitado, implícito está o Pai dos Céus, era um tanto vaga para os entusiasmar. A tristeza resulta da confusão mental e existencial em que as palavras do Mestre os mergulham. O imposto do Templo (17,24-28) ²⁴Quando chegaram a Cafarnaum, os cobradores do imposto anual do Templo se aproximaram de Pedro e lhe perguntaram: “O mestre de vocês não paga o imposto anual do Templo?” ²⁵Ele respondeu: “Paga, sim”. Ao entrar em casa, Jesus se antecipou e lhe disse: “Simão, o que você acha? De quem os reis da terra recebem impostos ou taxas: dos filhos deles ou dos estrangeiros?” ² Pedro respondeu: “Dos estrangeiros”. Então Jesus disse: “Portanto, os filhos estão livres. ²⁷Mas, para que não os escandalizemos, vá ao mar e jogue o anzol. Segure o primeiro peixe que subir. Ao lhe abrir a boca, você encontrará uma moeda. Pegue-a e entregue a eles, por mim e por você”. A cena passa-se em Cafarnaum, ponto de referência das atividades de Jesus na Galileia (cf. Mt 4,13). Ficam de fora as multidões e os discípulos, para tudo se concentrar em Jesus e Pedro. O protagonismo desse discípulo aparece quando os cobradores do imposto do Templo, dirigindo-se a ele, interrogam-no sobre o modo de proceder do Mestre, no tocante ao pagamento do imposto anual para a manutenção do Templo (v. 24). Tratava-se da didracma prevista pela Lei a ser paga pelos israelitas com idade superior a vinte anos (cf. Ex 30,13-15). Certos grupos como os galileus questionavam sua obrigatoriedade. Os judeus piedosos com grande probabilidade os viam com maus olhos. A pergunta dirigida a Pedro era capciosa, ao pressupor que Jesus “não” pagava o imposto. Portanto, faziam uma imagem negativa dele e queriam confirmá-la. O discípulo escapou da armadilha, contrariando o preconceito dos cobradores de impostos ao responder “sim” (v. 25a). Em momento algum da catequese evangélica encontram-se alusões a semelhante prática de Jesus. Teria Pedro saído pela tangente para evitar aborrecimentos? O diálogo que se segue e a consequente orientação do Mestre “ao entrar em casa” ajudam a compreender seu exato modo de pensar (v. 25b-27). Tem-se a impressão de que o Mestre ouviu a conversa dos cobradores de impostos com Pedro e permitiu que este respondesse em seu nome. O discípulo falou em nome do Mestre! A linha do raciocínio de Jesus gira em torno do tema da filiação, considerando o Templo como “casa de Deus”, por conseguinte casa de seu Pai. A metáfora do rei e da casa real com a prática de cobrar impostos ilustra a situação. Se os “reis da terra” isentam os filhos do pagamento de impostos, cobrando-os apenas dos estrangeiros, nesse caso dos súditos, Jesus, enquanto Filho do Senhor do Templo, pode se considerar liberado do pagamento do imposto do Templo e se colocar fora da obrigação da Lei! Para não indispor os cobradores de impostos contra eles e mantê-los abertos para uma eventual abordagem do Reino, o Mestre se dispõe a pagar logo o imposto reclamado. Análogo é o sentido da preocupação contida na frase: “Para que não os escandalizemos” (v. 27). Escandalizar, na catequese evangélica, tem o sentido de afastar alguém do caminho da fé, impedi-lo de dar passos na vivência da justiça do Reino, criar animosidade entre a pessoa e Deus. A ordem dada pelo Mestre a Pedro é a única em todo o evangelho onde atua em seu próprio interesse, como se estivesse cedendo à tentação de abuso do poder recebido do Pai (cf. Mt 4,3-4). Sua correta compreensão exige dar-se conta da função literário-narrativa da cena. É o terceiro episódio em que Pedro aparece como protagonista (cf. Mt 14,28-31; 16,16-19.22-24). O catequista descreve seu percurso de seguimento do Mestre para mostrar como acontece com todo aquele que se dispõe a deixar tudo para fazer semelhante experiência (cf. Mt 18-20). Sua intenção consiste em ensinar que a vida do discípulo e a do Mestre se entrecruzam, a ponto de o discípulo assimilar a identidade do Mestre. Essa preocupação perpassa a cena: quando os cobradores de impostos questionam o discípulo a respeito de uma prática do Mestre; quando o discípulo responde prontamente em nome do Mestre; quando o discípulo abre a boca do primeiro peixe que apanha e nela encontra exatamente um estatér, correspondente a duas didracmas, suficiente para pagar o imposto “por mim e por você”. A expressão conclusiva frisa a comunhão de vida entre o Mestre e Pedro, construída em meio a muitos percalços. Assim acontecerá com os discípulos de todos os tempos. A sorte do discípulo está indissociavelmente ligada à do Mestre! Para reflexão e debate 1. Que leitura eucarístico-eclesial pode ser feita em torno das duas narrativas de partilha de pães e de peixes? 2. Qual o itinerário de fé do discípulo-apóstolo