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AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 PROBLEMA 1 OBJETIVOS 1. Analisar o processo inflamatório (mecanismos, fases, sinais, sintomas, evolução, estruturas envolvidas). 2.Relacionar alterações da resposta inflamatória aguda e crônica com os sinais clínicos. 3. Relacionar infecção e inflamação. 4. Descrever a farmacocinética e a farmacodinâmica das principais classes de anti-inflamatórios. REFERÊNCIAS • Patologia Básica. Robbins. 9 ed. • Robbins & Contran Patologia: bases patológicas das doenças – Kumar; Abbas; Aster 8 ed. • Imunologia Essencial. André Mota. • Farmacologia Básica e Clínica. B.G.Katzung 13ed. PROCESSO INFLAMATÓRIO CONCEITO: é uma resposta protetora dos tecidos vascularizados a infecções e tecidos lesados. • Mecanismo que recruta células e moléculas de defesa da circulação para os locais onde são necessárias, com a finalidade de eliminar os agentes agressores. • Envolve tanto células, como vasos sanguíneos proteínas e outros mediadores. • O objetivo do processo inflamatório é eliminar tanto a causa inicial da lesão celular (microrganismos, toxinas) quanto as consequências (células e tecidos mortos). • Sem a inflamação, as infecções poderiam passar despercebidas, feridas poderiam nunca cicatrizar e os tecidos lesados permaneceriam com feridas permanentemente infectadas. SINAIS CARDINAIS OU FLOGÍSTICOS são as manifestações externas da inflamação: calor (aquecimento), rubor (vermelhidão), edema (inchaço), dor e perda de função. INFLAMAÇÃO AGUDA X CRÔNICA Depende da natureza do estímulo e da efetividade da reação inicial em eliminar o estímulo ou os tecidos danificados. INFLAMAÇÃO AGUDA: é rápida no início (minutos) e de curta duração, persistindo por horas ou poucos dias. INFLAMAÇÃO CRÔNICA: pode ser decorrente de uma falha da resposta inflamatória aguda ou ser insidiosa, sem manifestações de uma reação aguda no início. Ela é de longa duração (dias a anos). 5 R’S DA INFLAMAÇÃO (1) Reconhecimento do agente lesivo. (2) Recrutamento de leucócitos (3) Remoção do agente. (4) Regulação/controle do processo (5) Resolução/reparo MEDIADORES DA INFLAMAÇÃO “São as substâncias que iniciam e regulam as reações inflamatórias”. São secretados a partir de células ou produzidos a partir de proteínas plasmáticas. • Os mediadores derivados de células são concentrados em grânulos intracelulares e podem ser rapidamente secretados por exocitose ou são sintetizados de novo em resposta a um estímulo. • Os mediadores derivados do plasma são produzidos principalmente no fígado e estão presentes na circulação como precursores inativos e precisam de uma série de processos proteolíticos para serem enfim ativados. Os mediadores são produzidos somente quando há uma considerável estimulação, o que garante que somente haja uma resposta inflamatória onde e quando for necessário. Essa estimulação pode ser feita por sinalizadores que podem ser células do Febre, infecção e inflamação AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO - 2/2021 AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 sistema imune ou por meio de citocinas e quimiocinas. A maioria dos mediadores tem vida curta e eles podem server de estimulação para liberação de outros mediadores. O que faz com que haja um balanço e controle da resposta, de modo que a diminuição da concentração dos mediadores pode gerar a inibição da resposta (quando no momento da resolução) ou a amplificação da resposta (quando ela ainda está nas primeiras etapas). AMINAS VASOATIVAS: têm importante ação nos vasos sanguíneos e são armazenadas como moléculas pré-formadas nas células e por isso estão entre os primeiros mediadores liberados durante a inflamação. HISTAMINA FONTES: mastócitos (presentes geralmente no tecido conjuntivo próximo aos vasos sanguíneos), basófilos e plaquetas. • No caso dos mastócitos, a histamina é liberada por meio da desgranulação em resposta à lesão traumática, à ligação de anticorpos aos mastócitos (alergias) ou às anafilotoxinas (C3a e C5a) do sistema complemento. Neuropeptídeos como a substância P e citocinas IL-1 e IL-8 também causam a liberação de histamina. AÇÕES: vasodilatação das arteríolas e o aumento da permeabilidade das vênulas, sendo considerada o principal mediador da fase transitória imediata do aumento da permeabilidade vascular, produzindo espaços interendoteliais nas vênulas. Esses efeitos são mediados pela ligação da histamina aos receptores H1 nas células endoteliais. OBS: algumas drogas anti-histamínicas podem ser utilizadas como anti-inflamatórias através do antagonismo dos receptores H1. SEROTONINA FONTE: plaquetas AÇÃO: Atua causando vasoconstrição, mas sua importância na inflamação não é definida. MEDIADORES DE NATUREZA LIPÍDICA São derivados do ácido araquidônico, que está presente nos fosfolipídios da membrana, estimulando as reações vasculares e celulares na inflamação aguda. • Estímulos físicos, químicos ou outros mediadores determinam a liberação do AA dos fosfolipídeos da membrana por meio de fosfolipases celulares, principalmente a A2. • Os mediadores derivados do AA, são sintetizados por 2 classes principais de enzimas: ciclo-oxigenases (geram prostaglandinas) e lipo-oxigenases (geram leucotrienos e lipoxinas). PROSTAGLANDINAS FONTES: mastócitos e leucócitos. São geradas a partir de duas ciclo-oxigenases, COX-1 e COX-2. • A COX-1 é importante na função homeostática, inclusive na função renal e citoproteção do trato gastrointestinal. • A COX-2 é ativada por estímulos inflamatórios, produzindo as prostaglandinas, as quais estão envolvidas nesses processos inflamatórios. Porém a COX-2 é baixa ou ausente na maioria dos tecidos normais. As mais importantes prostaglandinas na inflamação são: PGI2 (prostaciclina): secretada pelo endotélio, é antiagregadora plaquetária e vasodilatadora TXA2 (tromboxano A2): produzido pelas plaquetas, é agregante plaquetário e vasoconstritor PGE2: produzido em tecidos, é vasodilatadora, aumenta a permeabilidade vascular LEUCOTRIENOS FONTES: mastócitos e leucócitos. AÇÃO: poderosos quimiotáticos, aumentam a permeabilidade vascular, causam vasodilatação e contraem a musculatura lisa do intestino e dos brônquios. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 LIPOXINAS Também são advindas do AA através da via das lipoxigenases. São mais raras pois dependem da interação entre leucócitos que produzem intermediários da síntese de lipoxinas, que são convertidos nos produtos finais pelas plaquetas. AÇÃO: atividade anti-inflamatória, inibindo o recrutamento de leucócitos. Essa inibição é feita ao se inibir a quimiotaxia dos neutrófilos ao endotélio. FATOR ATIVADOR DE PLAQUETAS (PAF): FONTE: plaquetas, neutrófilos, macrófagos, mastócitos, células mesangiais e endoteliais. AÇÃO: vasodilatador arteriolar, aumenta a permeabilidade vascular e induz a contração da musculatura lisa do intestino e dos brônquios. CITOCINAS Proteínas produzidas por muitos tipos celulares que medeiam e regulam as reações imunológicas inflamatórias. Fator de Necrose Tumoral (TNF) e a Interleucina-I (IL-I) Ambas promovem importante papel no recrutamento e adesão dos leucócitos no local de inflamação FONTES: macrófagos e células dendríticas ativadas; o TNF ainda é produzido por Linfócitos T e a IL-1 por algumas células epiteliais. Os estímulos para a suas secreções podem ser lesões físicas, corpos estranhos ou imunocomplexos AÇÃO: ativação endotelial; ativação de leucócitos e de outras células (TNF potencializa respostas a toxinas bacterianas);resposta sistêmica da fase aguda (febre, falta de apetite e mobilização de lipídeos). QUIMIOCINAS São peptídeos que exercem efeitos no tráfego, ativação e diferenciação de células nas quais encontram receptores. É comum que cada receptor possa reconhecer mais de uma quimiocina e que a mesma quimiocina possa ser reconhecida por receptores diferentes. Quimiocinas induzíveis: são induzidas e secretadas após agressões aos tecidos, sendo responsáveis pela regulação do tráfego, ativação e diferenciação de leucócitos na inflamação. MEDIADORES GERADOS PELA ATIVAÇÃO DO SIST. COMPLEMENTO Os produtos gerados pela ativação do sistema complemento são responsáveis por atração e ativação de fagócitos para o local onde o complemento é ativado. • C2a: vasodilatador e aumenta a permeabilidade vascular • C3a, C4a, C5a: liberam histamina e anafilotoxinas, além de exercerem efeito quimiotático para PMN e macrófagos • C5a: além do citado, induz a desgranulação das células • C4b, C3b: são opsonizadores, facilitando a fagocitose (em geral, os receptores para esses componentes não só induzem a fagocitose como também a explosão respiratória e a síntese de grânulos, aumentando o poder microbicida dos fagócitos). CININAS São peptídeos vasoativos derivados de proteínas plasmáticas chamadas de cininogênio. AÇÃO: aumenta a permeabilidade vascular e causa contração de músculo liso, dilatação dos vasos sanguíneos e dor quando injetada na pele. Os efeitos são similares àqueles da histamina. Tem vida curta pois é rapidamente inativada pela enzima cininase e está presente como mediador em reações alérgicas importantes como na anafilaxia. NEUROPEPTÍDEOS São secretados por nervos sensoriais e vários leucócitos, e têm participação na iniciação e na regulação de respostas inflamatórias. São produzidos no SNC e SNP. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 INFLAMAÇÃO AGUDA Principais características: exsudação de líquido e proteínas plasmáticas, e acúmulo de leucócitos, predominantemente neutrófilos. CAUSAS DA INFLAMAÇÃO AGUDA ✓ Infecções (bacterianas, viróticas, fúngicas, parasitárias) e suas respectivas toxinas. ✓ Necrose tecidual (morte celular): pode ser por isquemia, trauma, lesões físicas ou químicas. ✓ Corpos estranhos (lascas de madeira, sujeira, suturas): transportam microrganismos ou causam lesão tecidual traumática. ✓ Reações imunes (ou hipersensibilidade): a própria resposta do sistema imune é o causador da doença. ETAPAS Reconhecimento do agente lesivo O processo inflamatório inicia-se com a penetração dos agentes agressores através da barreira imunológica, o que gera lesões teciduais, que ativam o endotélio. Ocorre também, através dos macrófagos locais, o reconhecimento de moléculas que identificam o patógenos, os PAMP”s: “sinais de perigo” que os diferenciam de tecidos normais. Os macrófagos expressam receptores que identificam esses sinais, assim entram em ação para fagocitar. As duas mais importantes famílias desses receptores são: Toll (TLRs): são sensores para microrganismos localizados nas membranas plasmáticas e nos endossomos, e são capazes de detectar microrganismos extra e intracelulares. Os TLRs e outros receptores ao reconhecerem os PAMP’s, promovem a defesa contra todas as classes de patógenos infecciosos. Isso ativa a produção de uma série de proteínas que incluem mediadores da inflamação, citocinas antivirais (interferons) e proteínas que promovem ativação dos linfócitos e respostas imunológicas mais potentes. Inflamossomo: é um complexo citoplasmático que reconhece produtos das células mortas (ácido úrico, ATP extracelular, cristais, alguns produtos microbianos). A ativação resulta na ativação de uma enzima (caspase 1), que leva a formação das formas precursoras da IL-1β (importante mediador no recrutamento de leucócitos). Fase vascular Ocorre o aumento do fluxo sanguíneo devido à da vasodilatação e o aumento da permeabilidade vascular, ambos com o intuito de trazer células sanguíneas e proteínas para os sítios de lesão. Principais modificações: • Primeiramente ocorre uma vasoconstrição transitória (dura apenas segundos), após, ocorre vasodilatação das arteríolas pela ação da histamina, resultando em aumento do fluxo sanguíneo e abertura dos leitos capilares. Essa expansão vascular causa a vermelhidão (eritema) e o calor. • As vênulas menores se tornam dilatadas, mas as maiores sofrem pequena constrição, aumentando a pressão hidrostática na microcirculação. • Como a microcirculação torna-se mais permeável, o líquido rico em proteínas extravasa para os tecidos extravasculares. Estase: A perda de líquido faz com que as hemácias fiquem mais concentradas, aumentando, assim, a viscosidade do sangue e diminuindo a velocidade da circulação. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 • Os leucócitos deixam a região central da corrente sanguínea e começam a se deslocar na margem do fluxo. Exsudação: O deslocamento de fluidos, proteínas e células sanguíneas do sistema vascular para dentro do tecido intersticial ou das cavidades corporais. Exsudato: é o fluido extravascular que apresenta uma elevada concentração proteica e contém resíduos celulares. Indica que há aumento de permeabilidade dos pequenos vasos sanguíneos provocada por algum tipo de lesão tecidual e uma reação inflamatória contínua. Transudatos: acúmulos de líquido intersticial, causados pelo aumento da pressão hidrostática, geralmente como consequência da redução do retorno venoso. Os transudatos contêm baixas concentrações de proteína e pouca ou nenhuma célula sanguínea. Edema: acúmulo de líquido nos espaços extravasculares, pode ser transudato ou exsudato. Respostas de Vasos Linfáticos e Linfonodos: o fluxo linfático aumenta e ajuda a drenar o fluido do edema. Além do fluido, os leucócitos e os resíduos celulares, bem como os microrganismos, podem encontrar o caminho até a linfa. Recrutamento de Leucócitos para os Locais de Inflamação As mudanças vasculares são seguidas por influxo de leucócitos no tecido, que irão eliminar os agentes agressores. Os leucócitos mais importantes nas reações inflamatórias típicas são os fagocíticos, em especial os neutrófilos e os macrófagos, que ingerem e destroem os agentes patológicos. Também produzem fatores de crescimento que ajudam no reparo. OBS: quando fortemente ativados, eles podem induzir dano aos tecidos e prolongar a inflamação. O processo é mediado e controlado por moléculas de adesão e quimiocinas. Sendo dividido em etapas: (1) Marginalização e rolagem (2) Aderência ao endotélio (3) migração via endotélio (diapedese) (4) migração pelos tecidos (quimiotaxia) Marginalização (células de defesa vão mais para circulação periférica). Rolamento (as selectinas promovem a adesão rápida e transitória de leucócitos ao endotélio). Adesão (o local lesado está rico em integrinas e assim, vai fazer com que os leucócitos se liguem ao ponto lesado, esse processo depende da ativação dos leucócitos pelas quimiocinas, para elevar a afinidade das integrinas). Após “encontrar” o local lesado, os leucócitos necessitam ultrapassar os espaços endoteliais. Migração via endotélio (diapedese) – a célula de “molda” para passar de dentro do vaso para fora. Migração pelos tecidos (quimiotaxia) – a célula chega ao causador da inflamação através de uma diferença de gradiente químico, através da ação de quimiocinas ocorre a estimulação de receptores que vão gerar mais cálcio na célula, consequentemente, a contração a nível celular aumentando o transporte de leucócitos até o agente agressor. A natureza do infiltrado de leucócitos varia de acordo como tempo da resposta inflamatória e com o tipo de estímulo. Na maioriadas formas de inflamação aguda, os neutrófilos predominam no infiltrado inflamatório durante as primeiras 6 a 24 horas, sendo substituídos pelos monócitos em 24 a 48 horas. NEUTRÓFILOS: + numerosos, respondem + rápido às quimiocinas e aderem mais firmemente às selectinas, são de vida breve. MONÓCITOS: sobrevivem mais tempo. Ativação dos leucócitos Uma vez que os leucócitos (em especial, os neutrófilos e monócitos) tenham sido recrutados para o local da infecção ou morte celular, devem ser ativados para realizar suas funções. As respostas desses leucócitos consistem em reconhecimento dos agentes agressores pelos TLRs e outros receptores, AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 os quais geram sinais que ativam os leucócitos para a fagocitose e destroem os agentes agressores. A ativação leucocitária resulta em: • Fagocitose. • Destruição intracelular de micróbios e células mortas por substâncias produzidas nos fagossomos. • Liberação de substâncias que destroem micróbios extracelulares e células mortas. • Produção de mediadores, incluindo as citocinas e os metabólitos do ácido araquidônico, que amplificam a reação inflamatória, por recrutamento e ativação de mais leucócitos. Remoção do agente A substância agressora é englobada, formando um vacúolo que se liga a um lisossomo (rico em fatores de destruição: enzimas, radicais livres) e assim, o microrganismo é eliminado. Essa fagocitose é facilitada pelo sistema complemento e depende da quimiotaxia, após a formação e ação do fagolissomo, ocorre a liberação do conteúdo para o espaço extracelular. OBS: em casos que o microorganismo não é combatido pelo fagolissomo, a célula sofre apoptose. Fim da resposta inflamatória (aguda): A reposta acaba quando o agente agressor é neutralizado fim. Como as células envolvidas no processo inflamatório tem uma meia vida curta, caso o agente seja eliminado não vai ocorrer estímulo e assim, o processo inflamatório é encerrado (fim do agudo). Além disso, existem sinalizadores de fim de inflamação: TGF-beta, IL- 10. Papel das citocinas na inflamação aguda INFLAMAÇÃO CRÔNICA Principais Características: Principais características: presença dos linfócitos e macrófagos, proliferação de vasos sanguíneos, fibrose e destruição tecidual. CAUSAS DA INFLAMAÇÃO CRÔNICA ✓ Infecções persistentes causadas por vírus, bactérias, fungos ou parasitas) de difícil remoção, pode ocorrer hipersensibilidade do tipo tardia. ✓ Reação aguda não resolvida. ✓ Doenças inflamatórias imunomediadas, causadas por ativação excessiva e inapropriada do sistema imune. ✓ Exposição prolongada a agentes potencialmente tóxicos. Características • Infiltração com células mononucleares (macrófagos, linfócitos e plasmócitos) • Destruição tecidual (induzido ou pelo agente infeccioso ou pelas próprias células inflamatórias) • Tentativas de reparo: proliferação de pequenos vasos sanguíneos – angiogênese – e pela substituição por tecido conjuntivo – fibrose. OBS: Durante esse processo ocorre a tentativa de eliminação do agente causador, assim, o AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 tecido acaba sendo lesado junto ao processo, aumentando ainda mais o processo inflamatório. CÉLULAS E MEDIADORES DA INFLAMAÇÃO CRÔNICA Macrófagos São as células dominantes na maioria das reações inflamatórias crônicas, secretam citocinas e fatores de crescimento que agem em várias células, destruindo invasores estranhos e tecidos, bem como ativando outras células, em especial os linfócitos T. São células derivadas dos monócitos do sangue circulante. Estão na maioria dos tecidos conjuntivos. Em locais específicos recebem nomes diferentes: fígado → células de Kupffer; baço e linfonodos → histiócitos sinusais; SNC → micróglias; pulmões → macrófagos alveolares. Há duas vias de ativação dos macrófagos: 1. Via Clássica (M1): ativado por micro- organismos ou IFN-γ. Nessa via, a função fagocitária é potencializada e produzem NO e ERO. Contudo, essas células também são capazes de lesar o tecido do hospedeiro 2. Via Alternativa (M2): induzida por IFN-γ, IL-4 e IL-13. A função principal dos macrófagos M2 é o reparo tecidual por estimular TGF-β, o qual também tem efeito anti-inflamatório. OBS: uma via inibe a outra. É por causa dessa intensa atividade fagocitária que um dos sintomas da inflamação crônica é a lesão tecidual. Linfócitos Podem ser predominantes na inflamação crônica em doenças autoimunes e em doenças de hipersensibilidade. Os microrganismos e outros antígenos do ambiente ativam os linfócitos T e B, o que amplifica e propaga a inflamação crônica. Eles usam moléculas de adesão e quimiocinas para migrar para os locais de inflamação. As citocinas dos macrófagos ativados – principalmente TNF, IL-1 e quimiocinas – promovem o recrutamento de leucócitos, preparando o campo para a persistência da resposta inflamatória. Há 3 subtipos de células TCD4+ que secretam espécies diferentes de citocinas e produzem tipos de inflamação distintos: 1. TH1: produzem IFN- γ, que ativa a via clássica dos macrófagos. 2. TH2: secretam IL-4, IL-5 e IL-13, que recrutam e ativam eosinófilos e ativam a via alternativa dos macrófagos 3. TH17: secretam IL-17 e outras citocinas, que induzem a secreção de quimiocinas responsáveis pelo recrutamento de neutrófilos e monócitos para a reação • TH1 e TH17 são importantes contra bactérias e vírus • TH2 são importantes contra parasitas helmínticos e em reações alérgicas. Os linfócitos e o macrófagos se interagem de forma bidirecional, ou seja, conseguem amplificar suas ações por um sistema de retroalimentação. Os linfócitos B ativados e os plasmócitos produtores de anticorpos estão presentes com frequência nos locais de inflamação crônica. Eosinófilos Abundantes em reações imunológicas mediadas por IgE e em infecções parasitárias, causam a lise dos parasitas mas também causa dano tecidual. Mastócitos Secretam um grande número de citocinas e estão presentes em reações alérgicas a alimentos, venenos de insetos ou fármacos, podendo ser fatal devido o choque anafilático. Estão presentes em reações agudas e crônicas. Neutrófilos Mais característico das inflamações agudas, porém algumas inflamações crônicas podem apresentá-los. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 INFLAMAÇÃO X INFECÇÃO Inflamação é uma resposta do organismo a uma agressão, como um corte. A inflamação pode partir, também, do sistema imunológico. Nesse caso, são as nossas células de defesa que agridem o corpo. No processo inflamatório, ocorre dilatação dos vasos, aumento do fluxo sanguíneo e de outros fluidos corporais para o local lesionado. Por isso, esse processo causa os sinais flogísicos. Infecção: causada por agentes externos. O organismo reage a entrada de micro-organismos como vírus e bactérias, parasitas ou fungos. Nesse processo, as células de defesa tentam combater os micro-organismos, o que normalmente dá origem ao aparecimento de pus. Alguns sintomas que podem ser causados por infecções: • Febre; • Dor no local infectado; • Aparecimento de pus; • Dores musculares; • Diarreias; • Fadiga; • Tosse. FÁRMACOS ANTI-INFLAMATÓRIOS O tratamento de pacientes com inflamação envolve dois objetivos primários: (1) aliviar os sintomas e preservar a função, que em geral constituem as principais queixas constantes do paciente; (2) retardar ou deter o processo responsável pela lesão tecidual 1. Fármacos Anti-inflamatórios não esteroides (AINES) Possuem a capacidade de suprimir os sinais e sintomas da inflamação, incluindo a dor. Além disso também conseguem inibir a febre (efeito antipirético) Química e farmacocinética Os AINES apresentam formas químicas variadas e,por isso, apresentam variadas características farmacocinéticas. A maior parte dos AINES é bem absorvida e sua biodisponibilidade não é consideravelmente modificada pela presença de alimento. Sua metabolização é, em grande parte por enzimas hepáticas, apesar de que a via renal seja a forma mais importante de eliminação desses fármacos, juntamente com a excreção biliar e a reabsorção. Quase todos os AINES se ligam altamente a proteínas (como Albumina) para serem transportados. Todos os AINES podem ser encontrados no líquido sinovial após admnistração repetida. Farmacodinâmica A atividade anti-inflamatória dos AINES é mediada principalmente pela inibição da biossíntese de prostaglandinas. Contudo, outros efeitos podem ser apresentados como: (1) inibição da quimiotaxia; (2) infrarregulação da produção de IL-2; (3) produção diminuída de radicais livres e superóxido; (4) interferência nos eventos intracelulares mediados pelo cálcio. O AAS bloqueia irreversivelmente a COX das plaquetas, ao passo que os AINES não seletivos da COX são inibidores reversíveis. O fármacos mais antigos não possuíam a capacidade de seletividade para COX-1 ou 2, contudo, foram sintetizados novos fármacos seletivos para COX-2 visto que não afetam a função plaquetária quando administrados em doses habituais. Os inibidores seletivos de COX-2 aumentam a incidência de edema, hipertensão e, possivelmente infarto. Portanto, pacientes com risco cardiovascular aumentado devem ser contraindicados Os AINES diminuem a sensibilidade dos vasos sanguíneos à bradicinina e à histamina, afetam a produção de linfocinas pelos linfócitos T e revertem a vasodilatação da inflamação. Todos os AINES mais recentes são analgésicos, anti-inflamatórios e antipiréticos e com exceção dos seletivos para COX-2 e salicilatos não acetilados inibem a agregação plaquetária. Todos os AINES são irritantes gástricos e também podem estar associados a úlceras e sangramento gastroinstestinal, o principal exemplo disso é o AAS. Além disso, todos os AINES possuem nefro e hapatotoxicidade. Efeitos colaterais • SNC: cefaleias, zumbido, tontura e raramente meningite asséptica. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 • Cardiovasculares: retenção hídrica, hipertensão, edema e raramente ICC e infarto. • GI: dor abdominal, displasias, náuseas, vômitos e raramente úlceras e sangramento • Hematológicos:raramente trombocitopenia, neutropenia ou anemia plásica • Hepáticos: provas de função hepática anormais e raramente insuficiência • Pulmonares: asma • Cutâneos: exantemas de todos os tipos e prurido • Renais: insuficiência, falência, hiperpotassemia e proteinúria Fármacos glicocorticoides no uso anti- inflamatório Conseguem reduzir radicalmente as manifestações da inflamação pois reduz a concentração, distribuição e efetividade de leucócitos periféricos. Além disso, age suprimindo citocinas e quimiocinas inflamatórias e outros mediadores da inflamação. Os glicocorticoides agem também inibindo algumas proteínas de adesão nas células endoteliais. Após a dosagem de um glicocorticoide de curta ação no organismo, ocorre um aumento da concentração de neutrófilos na circulação advindos da medula óssea, contudo há diminuição do recrutamento deles no local da inflamação, sendo que o saldo de neutrófilos no local da inflamação é negativo. Ocorre também uma diminuição da contagem de linfócitos T e B no local de inflamação pois os glicocorticoides promovem a migração deles para o tecido linfóide. Os glicocorticoides também inibem as funções dos macrófagos e células apresentadoras de antígeno, de fagocitose e a produção de TNFalfa, IL-1, IL-12 e IFNgama. Inibem também a atividade da fosfolipase A2, diminuindo a produção de ácido araquidônico, precursor das prostaglandinas e leucotrienos e do fato de ativação de plaquetas (PAF). Inibem também a COX-2 Provocam vasoconstrição quando aplicados na pele pois reduzem a desgranulação de mastócitos e reduzem a permeabilidade capilar ao reduzirem a quantidade de histamina circulante Não influenciam na ativação, mas na função do sistema complemento. O uso de glicocorticoides podem causar: insônia, euforia, depressão, diminuição da ACTH, GH, TSH e LH. Aumento da gordura visceral, facial, da nuca e supraclavicular. Podem interferir no efeito da vitamina D para absorção de cálcio. Aumentam o número de plaquetas e eritrócitos Os glicocorticoides podem ser usados em bebês prematuros que ainda não tiveram seus pulmões completamente formados. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 PROBLEMA 2 OBJETIVOS: 1. Definir, classificar e descrever os locais de mensuração da febre. 2. Analisar patogênese da febre (os mecanismos envolvidos na resposta febril: pirógenos, endógenos e exógenos, mecanismos patogênicos e regulatórios, efeitos benéficos e nocivos). 3. Definir convulsão febril. 4. Explicar a predisposição, o prognóstico, tratamento e os cuidados da convulsão febril. 5. Analisar a febre de origem indeterminado (conceito, conduta). 6. Identificar os prováveis diagnósticos etiológicos da febre de origem indeterminada. 7. Compreender o mecanismo de ação dos principais antitérmicos (indicações, efeitos colaterais). REFERÊNCIAS • Semiologia Médica do Porto. 7 ed. • Clínica Médica Vol 1 – F.M.USP • Fisiologia Médica – Guyton 13 ed . • ALENCAR, Sarah Pinheiro de. Convulsão febril: aspectos clínicos e terapêuticos. Revista Médica da UFC. 2015. • Febre de origem indeterminada: preceitos, pistas clínicas e exames complementares. José roberto lambertucci e rogério gerspacher-revista da sociedade brasileira de medicina tropical.1994. • Febre – Antitérmicos mais indicados e posologia recomendada – Calil Kairalla Farhat • Manual prático para Urgências e emergências clínicas – Editora Sanar. TEMPERATURAS CORPORAIS NORMAIS Existem duas temperaturas corporais: central e cutânea. Temperatura central: é a temperatura dos órgãos e tecidos, a qual varia muito pouco ao longo do dia (+ ou – 0,6ºC) exceto quando em estados febris. Temperatura da pele: refere-se a temperatura do tecido cutâneo, se eleva e diminui de acordo com a temperatura do ambiente, está relacionada diretamente à capacidade do organismo de reter ou perder calor para o ambiente. OBS: A temperatura corporal se eleva durante o exercício pode se elevar para 38,3 a 40ºC e varia com as temperaturas extremas. No frio, pode cair até valores abaixo de 36,6ºC. A temperatura central média normal costuma ser considerada como entre 36,5 e 37ºC (via oral) e, +/- 0,6ºC mais alta, por via retal. “A temperatura corporal é controlada pelo equilíbrio entre a produção e a perda de calor.” Quando a intensidade/velocidade da produção de calor no corpo é superior à da perda de calor, o calor se acumula no corpo e a temperatura corporal se eleva. Inversamente, quando a perda de calor é maior, tanto o calor corporal como a temperatura corporal diminuem. Produção de calor Grande parte do calor produzido pelo corpo é gerado nos órgãos profundos, especialmente no fígado, cérebro e coração, e nos músculos esqueléticos durante o exercício. A produção de calor é um dos principais produtos finais do metabolismo, sendo que os principais fatores que influenciam na produção do calor através do metabolismo são: » Taxa do metabolismo basal de todas as células do corpo; » Taxa extra de metabolismo causada pela atividade muscular, incluindo as contrações musculares causadas pelo calafrio; » Metabolismo extra causado pelo efeito da tiroxina- produzida na tireoide, responsável por estimular o metabolismo basal (e, em menor grau por outros hormônioscomo o GH e testosterona); » Metabolismo extra causado pelo efeito da adrenalina, noradrenalina e estimulação simpática sobre as células; » Metabolismo extra causado pelo próprio aumento da atividade química das células, especialmente quando a temperatura da célula se eleva. » Metabolismo extra, necessário para a digestão, absorção e armazenamento de alimentos (efeito termogênico dos alimentos). AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 → Como o corpo PRODUZ calor? Perda de calor O calor que foi produzido pelos órgãos e tecidos profundos é transferido para a pele, onde ele é perdido para o ar e para o ambiente. A velocidade de perda de calor é determinada por dois fatores: 1. A velocidade de condução do calor de onde ele é produzido no centro do corpo até a pele. 2. A velocidade de transferência do calor entre a pele e o meio ambiente. → Como o corpo PERDE calor? Sistema de isolamento do corpo A pele é um meio eficiente de manter a temperatura central interna normal apesar da temperatura externa estar variando. A derme, os tecidos subcutâneos e principalmente o tecido adiposo agem como isolantes térmicos do corpo. O fluxo sanguíneo é um importante meio de transporte de calor dos órgãos profundos para a pele, sendo que uma alta velocidade de fluxo sanguíneo na pele faz com que uma grande quantidade de calor seja conduzida o centro do corpo para a pele com boa eficiência; enquanto a redução na velocidade do fluxo sanguíneo para a pele resulta em baixa condução de calor. Um vaso sanguíneo dilatado é capaz de conduzir até 8x o calor de um vaso sanguíneo contraído. OBS: a dilatação ou contração dos vasos está intrinsecamente relacionada à atividade do SNSimpático. COMO O CORPO PERDE CALOR PARA O MEIO? Irradiação Representa 60% da perda total, esse processo ocorre na forma de raios de calor infravermelhos. O corpo humano irradia raios em todas as direções, bem como os raios de calor também são irradiados por objetos em direção ao corpo. Temp. do corpo > temp. do ambiente = maior quantidade de calor é irradiada DO corpo do que é irradiada PARA o corpo. Condução para objetos sólidos Representa 3% da perda total, ocorre por contato direto com objetos. Condução para o ar Representa 15% da perda total. O calor só é transferido para o ar se o ar for mais frio do que a pele. Assim que a temperatura do ar adjacente se iguala à temperatura da pele, não ocorre mais perda de calor por esse mecanismo. É autolimitada, a menos que o ar aquecido se mova para longe da pele, de modo que novo ar, não aquecido, seja continuamente trazido para o contato com a ele (convecção). *as roupas aprisionam o ar próximo à pele, aumentando a espessura da zona privada de ar adjacente à pele e diminuindo o fluxo das correntes de convecção do ar. Dessa forma, a perda de calor por condução e convecção diminui bastante. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 Convecção O calor deve primeiro ser conduzido para o ar e depois removido pela convecção das correntes de ar. Pequena quantidade de convecção quase sempre ocorre ao redor do corpo, devido à tendência do ar adjacente à pele ascender quando aquecido. *quando o corpo é exposto ao vento, a camada de ar, imediatamente adjacente à pele, é substituída por ar novo com velocidade muito maior do que a normal e a perda de calor por convecção aumenta proporcionalmente *a velocidade de perda de calor para a água é muito maior do que para o ar. Evaporação Representa 22% da perda total. Para cada 1g de água evaporada 0,58 caloria é perdida. Mesmo quando a pessoa não está suando, a água ainda se evapora insensivelmente a partir da pele e dos pulmões (é constante). Essa evaporação insensível pela pele e pelos pulmões não pode ser controlada pelo propósito de regulação da temperatura. A perda de calor por evaporação de SUOR pode ser controlada pelo propósito de regulação de temperatura. *sempre que a temperatura da pele é maior que a do ambiente, há perda de calor por radiação e condução. Mas, quando a temperatura da pele é menor que a do ambiente, há ganho de calor e, dessa forma, o único meio do corpo perder calor é pela evaporação. SUDORESE Área pré-óptica do hipotálamo anterior > vias autônomas > medula espinhal > SNA simpático > todas as partes do corpo *As glândulas sudoríparas são inervadas por fibras simpáticas colinérgicas O PAPEL DO HIPOTÁLAMO NA TERMORREGULAÇÃO CORPORAL “A temperatura do corpo é regulada quase completamente por mecanismos de feedback neurais, e quase todos esses mecanismos operam através de centros regulatórios da temperatura localizados no hipotálamo.” As principais áreas do cérebro que sofrem influência do calor/frio e, por conseguintes, são as mais importantes na resposta fisiológica são os núcleos pré-óptico e hipotalâmico anterior do hipotálamo. Área Pré-Óptica: É o centro de controle termostático da temperatura corporal. É rica em neurônios sensíveis ao calor e alguns neurônios sensíveis ao frio, de modo que alterações de temperatura causam alteração na velocidade de disparos neuronais. Quando a área pré-óptica é aquecida: • a pele de todo o corpo imediatamente produz sudorese profusa • os vasos sanguíneos da pele de todo o corpo ficam muito dilatados • qualquer excesso de produção de calor é inibido. Essa reação imediata causa perda de calor, ajudando a temperatura corporal a retornar aos valores normais. Não só o hipotálamo possui termorreceptores. No caso da pele, é mais rica em receptores para o frio, portanto a pele é mais importante na identificação de temperaturas mais baixas. Quando a pele é resfriada pelo corpo inteiro, alguns reflexos corporais são iniciados: • há geração de forte estímulo para causar calafrios com aumento resultante da produção de calor corporal • há inibição da sudorese, se ela estiver ocorrendo • há vasoconstrição da pele para diminuir a perda de calor corporal pela pele Há também termorreceptores em órgãos internos como a medula espinhal, vísceras abdominais ou ao redor de grandes veias da região superior do abdome e do tórax; assim como os receptores da pele, são mais sensíveis a temperaturas mais baixas, provavelmente pois são adaptados a identificarem com mais precisão ocasiões de hipotermia. Contudo, esses receptores identificam a temperatura central do corpo, e não a temperatura cutânea. Os sinais advindos tanto dos receptores periféricos quanto da área pré-óptica chegam à região posterior do hipotálamo, ao nível dos corpos mamilares. Nesse local os sinais são combinados e integrados a fim de controlar as reações de produção e de conservação de calor do corpo. A excitação química simpática de produção de calor pode ser feita através da ação da adrenalina e noradrenalina, as quais causam a termogênese – processo no qual promove a fosforilação oxidativa de alimentos em excesso, porém sem que haja a produção de ATP, somente de energia sob a forma de calor. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 “PONTO DE AJUSTE” E O CONTROLE DA TEMPERATURA O “ponto de ajuste” corresponde à temperatura na qual, acima dela, os mecanismos de perda de calor prevalecerão; abaixo dela, os mecanismos de ganho de calor; na temperatura (no gráfico corresponde à 37,1ºC) os dois mecanismos se encontram em equilíbrio. • Abaixo → Calafrios • Acima → Sudorese O ponto de ajuste pode variar de acordo com a variação da temperatura cutânea; assim, temperaturas cutâneas mais baixas fazem com que o ponte de ajuste seja mais alto, fazendo com que temperatura mínima capaz de causar a sudorese seja também mais alta. O contrário também acontece no caso dos calafrios. MENSURAÇÃO DA TEMPERATURA CORPORAL A temperatura corporalé verificada por meio do termômetro clínico de mercúrio graduado em graus Celsius (°C), ou termômetro eletrônico. • Os termômetros clínicos registram temperaturas entre 35°C e 42°C. • Os termômetros eletrônicos têm como limites 32°C e 43°C. A mensuração da temperatura corporal pode apresentar variações dependendo do local em que é registrada: axilar, oral, retal, timpânico, arterial pulmonar, esofágico, nasofaringiano e vesical. O local tradicional é o oco axilar. Para utilização correta é necessária a higiene da axila e do termômetro, evitando umidade no local. O termômetro deve ser conservado em álcool absoluto ou álcool iodado. A mensuração da temperatura na cavidade oral, bastante comum em outros países, é feita pela colocação do termômetro na região sublingual. Para isso, são necessários termômetros individuais. A temperatura retal é feita pela aplicação do termômetro na ampola retal. Nesse caso, além do uso de termômetros individuais, há uma diferença na forma do termômetro, visto que seu bulbo é redondo. A membrana timpânica é o local de eleição para mensuração da temperatura central; contudo, não tem grande aplicação na prática clínica. Os termômetros eletrônicos utilizam diferentes locais, principalmente na testa. As pequenas diferenças de valores entre os diferentes tipos de termômetro não têm significado clínico. Contudo, é necessário conhecer as diferenças fisiológicas existentes entre os três locais – oco axilar, boca e reto –, porque, em determinadas situações patológicas (abdome agudo e afecções pélvicas inflamatórias), a medida das temperaturas axilar e retal tem valor clínico, quando se encontra uma diferença maior que 0,5°C. Valores normais ✓ Temperatura axilar: 35,5 a 37°C, com média de 36 a 36,5°C. ✓ Temperatura bucal: 36 a 37,4°C. ✓ Temperatura retal: 36 a 37,5°C, ou seja, 0,5°C maior que a axilar. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 FEBRE X HIPERTERMIA FEBRE: alteração do set point hipotalâmico. A febre é uma elevação da temperatura corporal que ultrapassa a variação diária normal e ocorre associada ao aumento do ponto de ajuste hipotalâmico, por exemplo, de 37ºC para 39ºC.6 Essa elevação ocorre em resposta a um sinal químico (pirógeno endógeno) lançado como parte da resposta inflamatória, com liberação de mediadores como a interleucina-1B e interleucina- 6. A febre pode ser causada por infecções, atelectasia, doença tromboembólica e reações medicamentosas e acomete um terço dos pacientes hospitalizados. HIPERTERMIA: é o aumento da temperatura corporal devido a um desequilíbrio entre a produção e a dissipação de calor, set point hipotalâmico normal. A hipertermia diferencia-se do estado febril porque nela o limiar térmico hipotalâmico está preservado e o aumento da temperatura corporal ocorre por excesso de produção ou falência na dissipação de calor ou, ainda, por disfunção do centro termorregulador. É encontrada nos casos de doenças provocadas pelo calor como a intermação, distúrbios neurológicos ou hipertermia maligna, muitas vezes com a temperatura corporal acima de 40ºC. O organismo humano não se adapta à hipertermia, assim, deve ser tratada como uma emergência clínica. PATOGÊNESE DA FEBRE A febre pode ser causada por transtornos no próprio cérebro ou por substâncias tóxicas que influenciam os centros termorreguladores. Muitas proteínas ou seus produtos de hidrólise, além de outras substâncias tóxicas, como toxinas bacterianas, podem provocar elevação do ponto de ajuste do termostato hipotalâmico. As substâncias que causam esses efeitos são chamadas pirógenos, os quais podem ser pirógenos exógenos (ou via humoral 1) e os endógenos (ou via humoral 2). Dentre os exógenos, microrganismos e suas toxinas compõem a sua maioria. Estes estimularão as células do hospedeiro a produzirem pirógenos endógenos como os monócitos e macrófagos. Os pirógenos endógenos atingirão o centro termorregulador do hipotálamo. Dentre eles estão as IL-1alfa e 1beta produzidas por células imunes. Outras citocinas como a TNFalfa e TNFbeta, IFNgama e IL-6 também são exemplos. A rede vascular que irriga a região entorno do centro termorregulador do hipotálamo recebe o nome de OVLT; o endotélio desses vasos, quando sob efeito dos pirógenos endógenos, libera o ácido araquidônico e seus metabólitos, dentre eles a prostaglandina E2, a qual ativará o AMPcíclico e iniciará o processo da febre. Nessa região há contato com “monitores da PA”, controladores da saciedade e controladores da temperatura; portanto, quando há necessidade, esses mecanismos também são ativados juntamente com o hipotálamo anterior, causando alterações metabólicas e comportamentais (como a retirada de roupas ou busca por água ou sombra). CARACTERÍSTICAS SEMIOLÓGICAS DA FEBRE Início: pode ser súbito ou gradual. Súbito: percebe-se de um momento para outro a elevação da temperatura. Nesse caso, a febre se acompanha quase sempre dos sinais e sintomas que compõem a síndrome febril. É frequente a sensação de calafrios nos primeiros momentos. OBS: Calafrios- quando o ponto de ajuste do centro de controle de temperatura no hipotálamo é subitamente alterado para um nível mais alto, a temperatura corporal leva horas para atingir o novo ponto de ajuste da temperatura. Como a temperatura do sangue agora é menor do que o ponto de ajuste do controlador hipotalâmico, ocorrem as respostas usuais que causam a elevação da temperatura. Durante esse período, a pessoa sente cala frios e frio intenso. Além disso, a pele fica fria devido à vasoconstrição e a pessoa treme. Os calafrios continuam até que a temperatura corporal chegue ao ponto de ajuste hipotalâmico. Gradual: A febre pode instalar-se de maneira gradual e o paciente nem perceber seu início. Em algumas ocasiões, predomina um ou outro sintoma da síndrome febril, prevalecendo cefaleia, a sudorese e a inapetência. Intensidade Referência o nível da temperatura axilar: • Febre leve ou febrícula: até 37,5°C AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 • Febre moderada: de 37,6° a 38,5°C • Febre alta ou elevada: acima de 38,6°C. Evolução Febre contínua: permanece acima do normal com variações de até 1 grau, sem grandes oscilações. Febre irregular ou séptica: Picos muito altos intercalados baixas temperaturas ou apirexia, sem nenhum caráter clínico nessas variações. Febre remitente: há hipertermia diária com variações de mais de 1 grau, sem períodos de apirexia. Febre intermitente: a hipertermia é clinicamente interrompida por um período de temperatura normal. Pode ser cotidiana, terçã (um dia com febre e outro sem) ou quartã (um dia com febre e dois sem). Febre recorrente ou ondulante: semanas ou dias com temperatura corporal normal até que períodos de temperaturas elevadas ocorram. Durante a fase de febre não há grandes oscilações. Término Crise: a febre desaparece subitamente. Se o fator que está causando a alta da temperatura for removido, o ponto de ajuste do controlador da temperatura hipotalâmico será reduzido para valor mais baixo, causando sudorese intensa, vasodilatação generalizada. Lise: significa que vai desaparecendo gradualmente, com a temperatura diminuindo dia a dia, até alcançar níveis normais. Observado em inúmeras doenças, é mais bem reconhecido pela análise da curva térmica. FEBRE COMO DEFESA Sabe-se hoje que os mediadores inflamatórios que originam a febre têm grande importância nas defesas contra organismos. Com a elevação da temperatura, há melhora da eficiência dos macrófagos em matar bactérias invasivas, assim como há piora nas condições da replicação de bactérias. IL-1 e TNF promovem a migração de células fagocíticas, bem como a liberação e a ativação a prostaglandina E2, tromboxanee fator da ativação plaquetária. IL-1 leva a formação da IL-8 (potente quimiotático para neutrófilos e monócitos). IL-8 estima liberação de enzimas de neutrófilos, uteis no combate aos microrganismos invasores. Tanto IL-1 quanto TNF ativam células T e B. As principais ações dessas citocinas são vasodilatação, indução de glicoproteínas de adesão, ativação de linfócitos T e B e estimulação da fagocitose. Essa resposta de fase aguda é basicamente mediada pela IL-6, provocando também alterações na produção e síntese de proteínas: • O nível sérico de albumina cai • Eleva-se a produção de antiproteases, componentes do sistema complemento, fibrinogênio, ceruloplasmina, ferritina e haptoglobina • Aumenta-se a proteína C-reativa • A substancia amiloide A pode aumentar e ate se depositar, causando amiloidose • As concentrações de ferro e zinco caem, privando os agressores desses nutrientes • Há diminuição da disponibilidade da glicose para bactérias, o organismo hospedeiro aproveita a lipólise e a proteólise. Além disso, o hospedeiro fica anorético. FEBRE COMO MALEFÍCIO • A cada grau de elevação na temperatura há aumento de 13% no consumo de oxigênio, com aumento das necessidades calóricas e de fluidos. • Tanto a IL-1 como o TNF levam a catabolismo proteico e caquexia, o que ocorre em algumas doenças inflamatórias crônicas. • Em crianças pequenas a febre provoca convulsões e em adultos pode gerar delirium. • Quando febril na gestante dobra o risco de malformações no tubo neural. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 CONDUTA ANAMNESE: duração, início, medições (valores), periodicidade (constante, intermitente), se vem acompanhada de outros sintomas, uso de antitérmicos, drogas que possam produzir a febre, contato com pessoas com doenças infecciosas, viagens à regiões endêmicas da malária, doença de chagas entre outras. Medição da temperatura: o termômetro deve está conservado em solução antisséptica e limpo antes de se iniciar a medição; o tempo mínimo da medição é de 2-3 minutos; deve ser realizada preferencialmente nas dobras cutâneas. Exame Físico: deve ser completo com atenção especial para os órgãos que indicam a localização da doença; deve-se avaliar cabeça e pescoço (gânglios cervicais, tumefação das glândulas salivares, conjuntivite, otite); na febre obscura deve-se realizar exame de fundo de olho; deve-se observar na pele a presença d exantemas, petéquias, sinais flogísticos; AR: ausculta pode revelar consolidação ou derrame pleural, caso haja escarro o mesmo deve ser analisado; ACV: ausculta pode revelar sopros que podem significar valvopatias; punho-percussao lombar pode descobrir infecções renais; extremidades digitais e leito ungueal podem apresentar petéquias e ser porta de entrada para agentes infecciosos CONVULSÃO FEBRIL “Convulsão febril (CF) ocorre na infância, geralmente entre os 3 meses e 5 anos de idade, associada à febre, na ausência de infecção intracraniana ou de outra causa neurológica definida, excluindo-se as crianças que tenham tido previamente convulsões afebris.” Convulsões febris não devem ser confundidas com epilepsia – que se caracteriza por crises epilépticas afebris recorrentes. A primeira CF ocorre em média entre os 18 e 22 meses, podendo ser simples (uma única crise tônico- clônica generalizada com duração média de 5 min) e complexa ou complicada (crises focais e/ou com duração maior que 15 min e/ou se recorrer em menos de 24h e/ou com manifestações neurológicas. Epidemiologia: são um dos problemas neurológicos mais comuns da infância e estima-se que 2% a 5% das crianças menores de cinco anos de idade apresentarão pelo menos um episódio de convulsão em vigência de febre na vida. Fisiopatologia Baixo limiar do córtex cerebral em desenvolvimento + Susceptibilidade da criança a infecções + Propensão a ter febre alta + Componente genético afetando o limiar convulsígeno As crianças são mais propensas ao desenvolvimento de infecções, as quais induzem à febre alta. Aliado a isso, o baixo limiar do córtex cerebral ainda em desenvolvimento e o componente genético afetando o limiar convulsígeo são fatores que se combinam. O cérebro imaturo apresenta maior susceptibilidade a convulsões visto que provavelmente decorre da combinação da excitação aumentada e a inibição diminuída. Classificação Crises típicas: tônico-clônicas generalizadas, de curta duração, únicas e precoces em uma mesma doença febril, e não se acompanham por fenômenos neurológicos pós-críticos. Crises atípicas: Crises com duração > 10 min, parciais, que se repetem durante o mesmo episódio febril, e acompanhadas por sinais neurológicos transitórios (paralisia de Todd). Diagnóstico É clínico: anamnese + exame físico, devendo sempre classificar a crise em simples ou complexa e identificar o possível foco da febre. Deve-se solicitar ao acompanhante que descreva com detalhes a crise, e pesquisar de imediato a presença de sinais meníngeos, bem como realizar o exame da fontanela, visando a descartar acometimento do SNC. Colher uma história completa e detalhada. A hipótese é reforçada quando a crise é típica, o exame neurológico é normal, o paciente já apresentou uma ou mais CF e há relato de casos semelhantes em parentes de 1º grau. Diagnóstico laboratorial Não são recomendados exames laboratoriais para crise febril simples; no caso de crises complexas, realizar se não for identificado o foco da febre. Exames complementares são importantes na investigação da doença de base e são essenciais para exclusão da meningite. Lactentes que apresentem a primeira CF, mesmo na ausência de sinais de irritação meníngea, devem realizar exame do líquido cefalorraquidiano. O eletroencefalograma (EEG) pode mostrar anormalidades, principalmente nas crianças com CF prolongadas ou repetidas, mas AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 não tem valor prático, pois não define a probabilidade de recorrências, tanto febris quanto afebris3. O EEG na crise febril tem valor limitado, porque a presença de anormalidades não define o diagnóstico, não modifica a conduta e não tem valor prognós-tico. Tratamento O tratamento da CF, na maioria das vezes, é limitado à fase aguda, quando estão indicados antitérmicos e medicação específica para a doença febril. Nos casos de crise prolongada, a criança deverá ser levada a um serviço de emergência. Nos casos caracterizados por crises febris recorrentes, principalmente quando associadas aos fatores de risco (início precoce das CF, relato de história familiar de CF, presença de crises com característi- cas atípicas), pode-se utilizar a profilaxia intermitente, embora não haja consenso em relação a sua eficácia. Por sua ação rápida, os benzodiazepínicos são as drogas prescritas, especialmente o diazepam, por via re-tal, nas formas de supositório ou de solução, na dose de 0,5 mg/kg de peso, a cada 12 horas e por 2 dias consecutivos; o tratamento deve ser iniciado assim que a família perceber os sinais da doença febril. Orientar a família quanto ao problema do filho é fundamental para que a qualidade de vida da criança não sofra as possíveis repercussões do mau entendimento que costuma cercar as manifestações convulsivas. Prognóstico A mortalidade é inexpressiva e a morbidade é baixa. A maioria dos casos de CF evolui sem sequelas. A epilepsia, em crianças que tiveram crises febris, ocorre em uma proporção de 2 a 10 vezes em relação à esperada para a população em geral, principalmente nos casos de CF precedidas por sinais ou sintomas de comprometimento neurológico, nos casos atípicos de CF e nas crianças com história familiarde epilepsia. FEBRE DE ORIGEM INDETERMINADA Febre de mais de 3 semanas com temperaturas acima de 37,8ºC[axilar] ou 38,3ºC[oral] sem identificação de causa após uma semana de internação. Etiologias: • Infecciosas-> endocardite, tuberculose • Neoplásicas-> leucemias e linfomas • Auto imunes-> artrite de células gigantes e Doença de Still • Outras-> induzida por drogas e Iatrogenia As principais causas encontradas são: febre reumática, abscessos abdominais, endocardite, sífilis, micobactéria, linfoma, tumores sólidos, sarcoidose, lúpus, artrite reumatoide, artrite de células gigantes, febre por drogas e febre factícia. Categorias: Clássica: • temp axilar > 37,8C • duração de 3 semanas • 3 dias de investigação hospitalar ou 3 consultas ambulatoriais • causas mais frequentes: doenças infecciosas, neoplásicas ou autoimunes • procurar por doenças reumáticas Nosocomial: associada à hospitalização e decorre de acontecimentos comuns no ambiente hospitalar, tais como procedimentos cirúrgicos, sondagem urinária, intubação endotraqueal, cateteres, medicamentos, imobilização que se associa à embolia pulmonar de repetição sem limitação de idade: ocorre em muitos rn, prematuros e idosos em terapia intensiva Neutropênico: • febre repetida em pacientes com neutrófilos < 500mm³ (normal = 1800 a 8000mm³, combate bactéria e fungo) • 3 dias de investigação • 2 dias de realização de culturas • exclusão inicial de doença bacteriana • causas mais comuns: doenças fúngicas, virais, efeitos tóxicos de quimioterápicos, febre por drogas • tratamento rápido com antimicrobianos dirigidos aos agentes etiológicos • evolui rapidamente, seja para a resolução do quadro febril, seja para deterioração. Relacionada a AIDS: • temp > 37,8°C (axilar) • duração de 4 semanas em regime ambulatorial ou 3 dias de internação • 2 dias de realização de culturas • muito comum, visto que essas pessoas são muito suscetíveis a infecções oportunistas, febre pelo próprio HIV, neoplasias, reações a drogas *a febre pelo HIV é capaz de estimular a produção de citocinas (IL-1, IL-2, TNF, IFN-y) que produzem AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 sintomas inflamatórios e interferem na replicação viral. Infecções Tuberculose: A tuberculose é provavelmente a infecção causadora de FOI mais frequente no Brasil, sobretudo na forma extrapulmonar Abscessos: os abscessos ocultos intra-abdominais e pélvicos podem se manifestar unicamente com febre. É possível que sejam decorrentes de uma víscera perfurada (divertículo, apêndice, vesícula etc.), cuja manifestação aguda tenha passado despercebida. Podem gerar abscessos hepáticos ou subfrênicos. Câncer: a incidência de neoplasias como causa de FOI era muito alta, chegando a 30% na década de 1970 e a 9-20% na década de 1990. Essa incidência caiu por causa dos melhores métodos de investigação. Febre factícia: é rara e ocorre, mais frequentemente, em profissionais de saúde ou seus familiares do sexo feminino. A indução de febre representa manifestação de doença grave que exige tratamento psiquiátrico adequado. O paciente geralmente induz a febre por manipulação do termômetro ou auto- inoculação de material contaminado. Febre medicamentosa O uso de medicamentos constitui causa relativamente frequente de febre, principalmente de FOI prolongada. A patogênese da febre medicamentosa pode estar ligada: à contaminação da droga com pirogênios ou microorganismos/à ação farmacológica do medicamento liberando pirogênios (como a penicilina pela destruição de treponemas ou drogas citotóxicas pela destruição de células neoplásicas) / induzindo produção de PGE2 (anfotericina B) ou alterando mecanismos centrais (neurolépticos) ou periféricos (anestésicos) de termorregulação, ou a mecanismos imunológicos (formação de imunocomplexos ou sensibilização por linfócitos T). Embora qualquer medicamento possa causar febre, os mais frequentemente implicados são os antibióticos/quimioterápicos. A febre medicamentosa regride 2 a 3 dias após a interrupção da droga suspeita, mas pode demorar mais tempo, dependendo da velocidade de sua metabolização. FOI NO IDOSO: a resposta febril pode estar ausente ou mínima em 30% dos casos, mesmo na presença de infecção grave *ao contrário do paciente mais novo, a presença de febre em paciente idoso indica infecção grave, geralmente bacteriana. Conduta Avaliar durante a anamnese quanto a viagens, contato com doentes e animais, uso de drogas ilícitas, comportamento para AIDS, emagrecimento, internações e uso de antibióticos. • Em crianças: 1/3 é decorrente de infecções virais. • Em idosos: 1/3 decorre de vasculites e 1/4 de neoplasias. • Ressalta-se a pesquisa de sopros cardíacos, dores musculares e ósseas, palpação do fígado e baço e pesquisa de gânglios. • Os exames complementares a serem pedidos são hemograma, bioquímica sanguínea como enzimas hepáticas, urina, RX de tórax e TC ou US de abdome. • O VHS (velocidade de hemossedimentação) pode ser bastante útil e apresenta boa aplicação quando resultado <100 mm/h. • Exames histológicos podem ser considerados somente quando: fígado (alteração de enzimas hepáticas); medula (alteração no hemograma ou suspeita de leucemias ou infecciosas com leishmaniose). • Uso de corticoides e antibióticos devem ser individualizados e são atualmente desencorajados. TRATAMENTO FARMACOLÓGICO: ANTITÉRMICOS Os alvos e atuação dos AT são: 1. Redução da produção e mediadores inflamatórios, como as citocinas ou aumento da produção local de moléculas anti-inflamatórias. 2. Redução na produção de prostaglandina E2 através da inibição da ciclooxigenase, evitando assim que ela atue no centro termorregulador do AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 hipotálamo, desencadeando as reações de produção de calor. 3. Produção de antipiréticos naturais aumentada 4. Redução da adesão de células produtoras de prostaglandinas no foco inflamatório. A PGE2 é fundamental na produção da febre e é sintetizada a partir do ácido araquidônico, com a participação de duas isoformas da enzima ciclooxigenase, a COX 1 e a COX2. A maioria dos AT age na síntese de prostaglaninas, inibindo a COX1 e 2. O paracetamol é um fraco inibidor da COX 1. A aspirina e outros AINES, além da diminuição da PGE2, diminuem a produção de PE e das citocinas mediadoras da inflamação e aumentam a produção d antipiréticos naturais. A dipirona também diminui a PGE2. PARACETAMOL • Geralmente é o medicamento de 1ª escolha para o manejo da dor ou da febre. Além disso apresenta pouquíssimas reações adversas. • Pode ser utilizado por gestantes • Possui efeitos anti-inflamatórios muito fracos. IBUPROFENO • É um AINE com ação anti-inflamatória, antipirética e analgésica. • Alguns efeitos adversos coincidem com demais anti-inflamatórios como hemorragias, falência renal e irritação gastrointestinal. • Não é usado em caso de suspeita de dengue pela inibição da coagulação. DIPIRONA • Pouca ação anti-inflamatória importante. Antitérmico e analgésico. • Pode desenvolver reações alérgicas • Efeito mais rápido sobre a febre: bloqueia produção de PGE2 central e periférica. ASPIRINA • Ação anti-inflamatória, antipirética e analgésica • Reações adversas coincidem com demais anti-inflamatórios (úlcera gástrica, hemorragia digestiva, anafilaxia...) TRATAMENTO NÃO FARMACOLÓGICO É importante manter o paciente bem hidratado pois pode ocorrer importante perda hídrica e de eletrólitos durante a febre, sendo que quanto mais novo o paciente, maior deve ser a reposição de água. Deve prover boa aeração e roupas leves No caso de febres muito elevadas, podem ser utilizados compressasmornas ou banhos, concomitante ao uso de antipiréticos. Além disso, a tendência é que a temperatura retorne aos níveis anteriores após os banhos/compressas. *Banho frio: os receptores térmicos da pele enviam sinal como se a febre não estivesse funcionando, então o termostato aumento ainda mais a temperatura. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 PROBLEMA 3 OBJETIVOS: 1. Analisar a Síndrome da Resposta Inflamatória Sistêmica 2. Discutir os critérios diagnósticos da SRIS. REFERÊNCIAS: • Clínica Médica. FMUSP vol 2. • Implementação de protocolo gerenciado de sepse protocolo clínico. Instituto Latino Americano De Sepse. • Sepse e choque séptico na emergência – FMUSP 2018. • Protocolo de sepse abordagem da sepse e choque de séptico. Hospital São Mateus. 2019. • Manual prático para urgências e emergências clínicas – Editora Sanar. SEPSIS-2 SÍNDROME DA RESPOSTA INFLAMATÓRIA SISTÊMICA (SRIS): Caracterizada por sequências de eventos fisiológicos envolvendo todas as células do corpo, desencadeada frente a uma agressão física, química ou biológica, levando ao processo inflamatório ou liberação dos mediadores químicos.” Condição em que o corpo apresenta uma reação inflamatória exacerbada. É um termo bastante inespecífico, só indica que o paciente tem uma resposta inflamatória exacerbada, mas isso pode ser por vários motivos como trauma, queimadura, isquemia ou mesmo uma infecção. Na SRIS há a indução e liberação de citocinas e proteínas de fase aguda, tanto pró-inflamatórias quanto anti-inflamatórias. CRITÉRIOS SRIS Os critérios diagnósticos de SIRS são 2 ou mais dos 4 critérios abaixo: • Temperatura >38ºC ou abaixo de 36ºC • Frequência cardíaca >90 bpm • Frequência respiratória >20 rpm ou PaCO2 < 32 mmHg • Leucocitose (>12.000 mm³) ou leucopenia (<4.000 mm³) ou desvio à esquerda >10%. SEPSE: SIRS, mas com origem decorrente de um foco infeccioso (bactérias, fungos, helmintos e vírus). SEPSE GRAVE: deve-se incluir o paciente nessa categoria quando ele já estiver apresentando sinais de hipoperfusão tecidual ou disfunção de órgãos. Conclui-se isso se o paciente tiver ≥ 1 critérios: CHOQUE SÉPTICO: o paciente apresenta Sepse Grave com hipotensão não responsiva à administração de volume, é necessário entrar com fármacos vasopressores para manter uma PAM ≥ 65mmHg. SEPSIS-3 SEPSE: disfunção orgânica ameaçadora a vida causada por uma resposta desregulada do organismo à infecção suspeita ou diagnosticada. Hoje não se utiliza mais a nomenclatura de SIRS, já que agora para se chamar de SEPSE já deve estar presente uma disfunção orgânica, eliminando também a nomenclatura de SEPSE GRAVE. CHOQUE SÉPTICO: sepse acompanhada por profundas anormalidades circulatórias e celulares/metabólicas capazes aumentar a mortalidade substancialmente, com a necessidade de vasopressor para manter a pressão arterial média (PAM) maior ou igual a 65 mmHg e lactato sérico > 18 mg/dl (hiperlactatemia) na ausência de hipovolemia.” ETIOLOGIA Analisamos os 2 principais sistemas acometidos (cardiovascular e respiratório) e também fatores relacionados ao próprio processo infeccioso (temperatura e leucograma). AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 Pode ser desencadeada por inúmeras patologias como trauma, hipovolemia, peritonite, pneumonia, torção vólvulo gástrica, neoplasia, pancreatite e procedimentos anestésicos e cirúrgicos. A causa mais comum é a pneumonia, sendo que cerca de 48% dos pacientes internados com pneumonia evoluem com sepse. Os sítios mais comuns de infecção são pulmão (64%), abdome (20%), corrente sanguínea (15%) e tratos renais e geniturinários (14%). Os microrganismos mais recorrentes são as Staphylococus aureus (gram-positivo) e espécies de Pseudomonas e Escherichia coli (gram-negativa). EPIDEMIOLOGIA A incidência nas UTIs brasileiras é de 36 por 1.000 pacientes com mortalidade de cerca de 55%. A sepse é responsável por mais de 80.000 internações por ano uma das principais causas de morte em internações tardias, superando o infarto do miocárdio e o câncer. Relata-se que há o aumento na ocorrência de sepse devido aumento de pacientes convivendo com a imunossupressão; o desenvolvimento de microrganismos multirresistentes e o aumento da expectativa de vida (pacientes com mais de 65 anos correspondem a cerca de 60 a 85% dos casos). FATORES DE RISCO Os fatores de risco ainda não são bem determinados, porém alguns podem ser atribuídos como: extremos de idades (RN ou muito idosos), doenças imunodepressoras (AIDS), câncer, medicamentos imunossupressores, diabetes, abuso de álcool, cateteres venosos ou outras condições que envolvam a integridade cutânea. Outras comorbidades também podem estar relacionadas e existe certa predisposição genética principalmente quando esta afeta o sistema imune. ACHADOS CLÍNICOS Os pacientes com sepse geralmente apresentam taquicardia, febre e leucocitose. Com a evolução do processo, sinais de choque (p.ex., pele fria, cianose, prostração) e disfunção orgânica se desenvolvem. Grande parte dos sintomas iniciais da sepse são inespecíficos e podem ser confundidos com pancreatites ou a síndrome do desconforto respiratório agudo. Nas fases iniciais são comuns os sintomas sugestivos de uma infecção como: • temperatura >38,3ºC ou <36ºC; • frequência cardíaca >90bpm ou mais de 2 desvios-padrão acima do valor normal para a idade; • taquipneia e frequência respiratória >20 irpm; e pele quente. Diminuição do enchimento capilar, cianose e livedo (aspecto cianótico com evidenciamento de vasos sanguíneos superficiais num padrão de rede) podem ser sugestivos de choque; sinais adicionais advindos da hipoperfusão incluem confusão mental, obscurecimento visual, inquietação, oligúria ou anúria ou ausência de ruídos hidroaéreos. Pacientes com outras comorbidades sob tratamento podem mascarar os sintomas como pacientes diabéticos ou idosos não apresentam taquicardia enquanto jovens apresentam taquicardia prolongada sem que ainda haja alguma repercussão. Pacientes com HAS podem cursar com hipoperfusão sem que haja diminuição grande na PA. FISIOPATOLOGIA Retroalimentação → TNFalfa → Lesão → TNFalfa até exaustão e induz uma “auto-imunessupressão” A sepse ocorre quando a liberação de mediadores pró-inflamatórios em resposta a uma infecção excede os limites do ambiente local, levando a uma resposta generalizada. A causa da generalização é provavelmente multifatorial e pode incluir o efeito direto dos AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 microrganismos invasores ou de seus produtos tóxicos Pode ser dividida em 3 estágios: 1. é exclusivamente local e mediado pela produção de citocinas; 2. liberação dos mediadores químicos, acentuando os efeitos locais e iniciando os sistêmicos – a fase aguda inflamatória; 3. ocorre quando não há reestabilização da homeostase do organismo, com evolução para um quadro generalizado e a ocorrência dos efeitos colaterais da SRIS. Durante o seguimento do processo inflamatório, há vasodilatação generalizada, com aumento da permeabilidade vascular, gerando diminuição do volume intravascular (hipotensão) Há também liberação do fator depressor do miocárdio liberado pelo pâncreas isquêmico, resultando na redução drástica da perfusão sanguínea tecidual, levando a isquemia e hipóxia. Ocorre também a liberação exacerbada de mediadores químicos, em virtude da hipoperfusão Durante o processo inflamatório sistêmico também ocorrem: lesões celulares, fechamento do esfíncter pré-capilar, “shunt” arteriovenoso (sanguemal oxigenado), vasodilatação, depressão miocárdica, excessiva permeabilidade vascular, formação de “microtrombos” leucocitários, agregação plaquetária juntamente com coagulação intravascular disseminada e ativação do retículo endotelial levando a gravíssimas alterações metabólicas. A hipoperfusão tecidual pode acarretar a síndrome da disfunção de múltiplos órgãos (SDMO); além disso, causa a ativação do Sistema Renina- Angiotensina-Aldosterona (SRAA) como forma de tentativa de aumento da PA ao estimular a aldosterona (estimulando a reabsorção de Na e K) TGI: observa-se a diminuição do peristaltismo devido a isquemia vascular, contudo, isso é ruim, pois pode facilitar a movimentação de bactérias e o surgimento de erosões ulcerativas na mucosa, potencializando o quadro da SIRS. FUNÇÃO HEPÁTICA: também é reduzida por causa da hipotensão, reduzindo o metabolismo de substâncias tóxicas provenientes do intestino, levando ao acúmulo das mesmas na circulação sistêmica. SISTEMA CARDIORRESPIRATÓRIO: ocorre a insuficiência miocárdica com diminuição sistólica, levando a queda do débito cardíaco e o aparecimento de arritmias cardíacas graves. Há injúrias endoteliais nos alvéolos pulmonares, edemas, hemorragia microvascular, trombose e a perda da substância surfactante, podendo resultar em hipóxia profunda, denominada Síndrome da Angústia Respiratória Aguda (SARA). Há ativação endotelial e migração neutrofílica, lesionando o tecido saudável com a liberação de substâncias citotóxicas precursoras da Coagulação IntraVascular Disseminada (CIVD). Há ativação dos fatores de coagulação e inibição da fibrólise, ocorrendo depósito de fibrina, promovendo a formação de trombos, depleção dos fatores de coagulação e ativação plaquetária; ou seja, pode resultar em hemorragia. Os principais mediadores inflamatórios envolvidos na SRIS são as moléculas de adesão (selectinas, integrinas e imunoglobulinas), o óxido nítrico (NO), os produtos do metabolismo do ácido araquidônico (tromboxan A2, prostaglandinas e os leucotrienos), o fator ativador plaquetário (PAF) e principalmente as citocinas. O óxido nítrico atua na regulação do processo inflamatório, antagonizando as contrações da musculatura lisa vascular, inibe a ativação plaquetária e promove a vasodilatação. Desse modo, Existem trabalhos que sugerem a administração de arginina para bloqueio completo da produção de NO. A participação de citocinas também é evidente durante a SRIS, dentre elas estão as IL-1, IL-6, IL- 8 e o TNFalfa. • O IL-8 é importante quimiotático para os leucócitos e auxilia na atividade microbicida e liberação de radicais livres. • A IL-6 participa na indução da febre, síntese proteica e até da evolução clínica do paciente. O TNFalfa é muito importante no desencadeamento da SRIS - é considerado o principal mediador químico da resposta inflamatória aguda e a única citocina capaz de induzir de maneira isolada a SRIS. É liberado pelos macrófagos ativados e estimula a função neutrofílica às células endoteliais, aumentando a atividade fagocítica das células polimorfunucleares, com a indução da coagulação intravascular disseminada (CIVD) Outros mediadores importantes são a histamina e serotonina (vasoaminas), que causam o aumento da AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 permeabilidade vascular e a contração da musculatura lisa; o PAF que promove a liberação de mediadores plaquetários, a ativação de neutrófilos e há evidências de sua participação na necrose intestinal. Os tromboxanos e as prostaglandinas E2 (PGE2) levam à vasodilatação potencializada pela histamina. Em relação a apoptose celular na SRIS, há diminuição da apoptose nos neutrófilos devido ação de endotoxinas e citocinas que promovem a sobrevida e o aumento do número de células circulantes na tentativa de fortalecer o sistema imune; porém, no tecido linfoide é observado o fenômeno contrário, ou seja, há o aumento da apoptose dessas células. Os linfócitos e as células dendríticas são as mais prejudicadas. Além disso, a apoptose também é mais acentuada nas células dos órgãos que já estão com suas funções comprometidas. EXAMES COMPLEMENTARES Da mesma forma que o exame físico e a anamnese, os exames laboratoriais também são inespecíficos à sepse e geralmente associados a etiologia inicial da infecção que desencadeou a sepse. De forma geral, esses exames servem para descobrir o foco infeccioso inicial e evidenciam as consequências teciduais advindas da hipoperfusão ou disfunções orgânicas Quando há suspeita de alguma infecção que possa ser evidenciada por exames radiológicos, estes são solicitados como em suspeitas de consolidação pulmonar. A identificação de um organismo em cultura é extremamente favorável tanto ao diagnóstico quanto ao prognóstico do paciente. DIAGNÓSTICO DA SEPSE Existem 3 mecanismos comumente utilizados para que se faça a investigação da infecção com suspeita de sepse, sendo que idealmente deve-se começar pelo qSOFA por ser mais rápido e não necessitar de exames laboratoriais, caso seja positivo, segue-se para o SOFA. Os critérios SRIS também podem ser utilizados Existe um outro instrumento específico para as grávidas chamado Sepse Escore em Obstetrícia. ESCORE “SOFA” (Organ Failure Assessment Score) Utilizado para classificação da gravidade do paciente e/ou diagnóstico da sepse segundo a nova conceituação da sepse (SEPSIS 3). Define se há disfunção orgânica a partir de uma série de dados de cada um dos sistemas orgânicos. Para cada sistema avaliado pelo SOFA, o paciente receberá uma pontuação que varia entre 0 e 4, de modo que, no final das contas, ele pode ficar com um escore de 0 a 24 pontos. O que define a disfunção é o aumento de 2 pontos, então se o paciente tiver alguma condição de base que confira alguma pontuação no SOFA, ele só terá AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 evidência de disfunção se aumentar 2 pontos em relação a essa pontuação prévia. ESCORE “QUICK SOFA” Se baseia em critérios clínicos para identificar a probabilidade de um paciente com infecção (ou pelo menos suspeita) ter um prognóstico ruim e aí, justamente por não precisar de testes laboratoriais, ele acaba sendo uma ferramenta mais simples, rápida e prática de ser aplicada. No entanto, apesar de alguns estudos apontarem que ele tem um valor similar ao do SOFA, o qSOFA não define diagnóstico! Assim, a gente admite que um qSOFA ≥ 2 pontos é um indicativo de disfunção e, por isso, o SOFA deve ser aplicado. INSTITUTO LATINO AMERICANO DE SEPSE (ILAS) Propõe uma abordagem que mescla o SEPSIS 2 E SEPSIS 3 como forma de um compensar os pontos fracos do outro. Avaliando um paciente, suspeitamos que esteja com alguma infecção. Diante disso, nós vamos pesquisar se há ≥ 2 critérios de SIRS e/ou se há disfunção orgânica. Se tiver, começa a investigar Sepse. O próximo passo, então, é pensar no foco infeccioso. O paciente já tem uma infecção diagnosticada? • Não tendo, o quadro dele realmente nos permite sustentar essa suspeita? Se a resposta aqui for não, segue-se um manejo fora do protocolo de Sepse. • Se a resposta for sim, aproxima-se um pouco mais do diagnóstico de Sepse. No entanto, deve-se levar em consideração: • Em pacientes com qualquer das disfunções clínica utilizadas na triagem (hipotensão, rebaixamento de consciência, dispneia ou desaturação e, eventualmente, oligúria), deve-se dar seguimento imediato ao protocolo, com as medidas do pacote de 1 hora, e proceder a reavaliação do paciente ao longo das 6 primeiras horas. • Em pacientes com disfunção clínica aparente, mas com quadro clínico sugestivo de outros processos infecciosos atípicos- dengue, malária e leptospirose, opta-se porseguir fluxo específico de atendimento. • Em pacientes sem disfunção clínica aparente, deve-se levar em conta o quadro clinico, não sendo adequado o seguimento do protocolo em pacientes com quadros típicos de IVAS ou amigdalites. • Em pacientes para os quais já exista definição de cuidados de fim de vida, o protocolo deve ser descontinuado, e o paciente deve receber tratamento pertinente a sua situação clínica, incluindo eventualmente alguns dos componentes do pacote de tratamento e cuidados paliativos. Segundo o ILAS em casos em que há divergência diagnóstica entre o Sepsis-2 e o Sepsis- 3 é recorrer à clínica do paciente. TRATAMENTO DA SEPSE – SURVIVING SEPSIS CAMPAING (SSC) Na tentativa de padronização do tratamento e manejo de pacientes diagnosticados com sepse, foram criadas diretrizes de orientação para o melhor desfecho clínico de pacientes com sepse. Deve-se manejar o paciente o mais rápido possível, monitorizá-lo e garantir acesso vascular (colher os exames necessários para definir o SOFA). AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 Além disso, é importante investigar o foco infeccioso e por isso deve ser solicitado também 2 hemoculturas de sítios diferentes e culturas de todos os sítios pertinentes. Esses exames precisam ser feitos antes do início da terapia medicamentosa, contudo, não se pode atrasar a conduta inicial esperando o resultado! As diretrizes antigas traziam 2 pacotes de procedimentos divididos em “pacote de 3h” e “pacote de 6h”. Atualmente, foram aglutinadas em 1 pacote único de 1h no intuito de indicar uma maior urgência no tratamento desses pacientes, tendo em vista que o tratamento precoce está relacionado com melhores prognósticos. COMO ERA: COMO É AGORA: Medir nível de lactato: o aumento do lactato indica que há hipóxia tecidual e a aceleração da glicólise aeróbica causada pelo excesso de estimulação beta- adrenérgica. Se o nível estiver maior que 2 deve ser medido dentro de 2 ou 4 horas. Obter hemoculturas antes dos antibioticos: deve ser feita antes da admnistração dos antibióticos tendo em vista que a esterilização é bem eficaz quando a escolha do medicamento é apropriado. Devem ser colhidos pelo menos 2 conjuntos (aeróbico e anaeróbico) Administrar antibiótico de amplo espectro: com um único agente ou uma combinação de agentes), sendo que o espectro deve ser reduzido quando os patógenos tiverem sido isolados e as sensibilidades estabelecidas, ou quando a evolução clínica permitir. Administrar fluido intravenoso: a ressuscitação volêmica precoce e eficaz é crucial para a estabilização da hipoperfusão tecidual induzida pela sepse ou choque séptico. Deve ser iniciado imediatamente após o diagnóstico de sepse e/ou hipotensão e lactato elevado, e completado dentro de 3 horas de reconhecimento. A primeira escolha geralmente é a solução com cristaloide Aplique vasopressores: se a ressuscitação volêmica não reestabelecer a PA, deve-se iniciar a admnistração dos vasopressores ainda na primeira hora a fim de atingir a PAM de mais ou igual a 65 mmHg. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 PROBLEMA 4 OBJETIVOS: 1. Descrever o perfil epidemiológico e os fatores de risco para infecção do trato urinário. 2. Relacionar a fisiopatologia das infecções altas e baixas com seus respectivos quadros clínicos. 3. Analisar a conduta propedêutica e terapêutica diante de um quadro de ITU, considerando seus agentes etiológicos e possíveis complicações. REFERÊNCIAS: • HOSPITAL DAS CLÍNICAS DA FMUSP. Clínica médica. 2ª edição. Vol. 3. • DE PAULA, Maria Luiza Almeida. Infecção do trato urinário em mulheres com vida sexual ativa, 2015. • HADDAD, Jorge Milhem; FERNANDES, Débora Amorim Oriá. Infecção do trato urinário. São Paulo: Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), 2018. • MALINOVSKI, Elaine; ESTORILLO, Adiajnye Leslye Antunes. Bactérias Mais Frequentes em Infecções do Trato Urinário. Revista Saúde e Meio Ambiente, Três Lagoas, v. 12, n. 1, p.121-134, janeiro/julho. 2021. INFECÇÕES DO TRATO URINÁRIO CONCEITO Processo infecioso que acomete qualquer região do trato urinário, sendo que a presença de microrganismo patogênico detectado na urina, na uretra, na bexiga, no rim, na próstata ou epidídimo é indicativo de ITU. CLASSIFICAÇÃO ANATÔMICA INFECÇÕES DO TRATO URINÁRIO BAIXO Cistites: acomete a mucosa da bexiga, suas principais manifestações são a disuria e polaciúria. Uretrites: acomete a uretra, frequentemente causada por microrganismos sexualmente transmissíveis. Na mulher manifesta-se com os mesmos sintomas da cistite, no homem, o sintoma clássico é o corrimento uretral. Prostatites: acomete a próstata, os agentes infeciosos provem do refluxo de urina pelo ducto prostático. Epididimite: acomete o epidídimo, os agentes infeciosos provem do refluxo de urina pelo ducto ejaculatório. Frequentemente é acompanhada por infecção do testículo do lado afetado – inchado e dolorido. INFECÇÕES DO TRATO URINÁRIO ALTO Pielonefrite: acomete o parênquima renal. Pielonefrite aguda (geralmente unilateral- invasão tecidual por leucócitos). Pielonefrite crônica (infecções bacterianas repetidas, associadas a um sistema imunitário debilitado). Ocorre fibrose e atrofia do parênquima. Abcessos perinefréticos: acúmulo de material purulento no espaço perinefrético, ou seja, ao redor do rim. NÃO COMPLICADAS Quando acomete pacientes com estrutura e função do trato urinário normal. COMPLICADAS Quando há associação a alguma condição como: diabetes, gravidez, falência renal, obstrução do trato urinário, presença de sonda vesical de demora ou nefrostomia, procedimento ou instrumentação cirúrgica recente no trato urinário, disfunções anatômicas ou funcionais, imunossupressão, transplante renal, história de ITU na infância. As ITU ainda se dividem quanto à presença ou não de cateter e também podem ser sintomáticas ou assintomáticas. EPIDEMIOLOGIA A infecção do trato urinário (ITU) é a forma mais comum de infecção bacteriana. É um dos problemas mais frequentes em consultas de atendimento primário. A população mais acometida: mulheres jovens com vida sexual ativa. No primeiro ano de vida, tem predomínio no sexo masculino, devido a malformações congênitas na uretra posterior. Após o primeiro ano, as meninas são mais acometidas, cerca de 20x mais. Na vida adulta, a incidência de ITU se eleva e o predomínio no sexo feminino se mantém, com picos de maior acometimento no início ou relacionado à atividade sexual, durante a gestação ou na menopausa. Quase 50% das mulheres terão ao menos 1 episódio de ITU durante algum momento da vida, dessas, de 20 a 30% terão infecções AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 urinárias de repetição e a maioria delas serão cistites. Após os 60 anos, a presença de distúrbios na próstata torna os homens mais susceptíveis – a prevalência de bacteriúria assintomática em idosos chega a 40 a 50%. ETIOLOGIA As ITU geralmente são causadas por bactérias gram-negativas provenientes da flora intestinal. As bactérias mais comuns envolvidas em quase todas as ITU são as Enterobactérias gram negativas, sendo a Escherichia coli a espécie mais comum. A Escherichia coli é o agente em mais de 80% das infecções em pacientes sem cateteres e sem alterações urológicas. Bactérias gram-positivas apresentam menor importância, porém a Staphylococcus é a segunda causa de infecção aguda em mulheres jovens sexualmente ativas. Outros agentes gram-negativos Klebsiella sp., Proteus sp., e Enterobacter sp. são responsáveis por uma proporção pequena de infecções não complicadas. Proteus sp., predispõe a formação de cálculose mais frequente em pacientes com litíase. A Pseudomonas sp. e Serratia marcescences, apresentam maior importância em infecções que se desenvolvem em pacientes que usam cateteres, apresentam cálculos ou algum tipo de obstrução urinária. FATORES DE RISCO Idade Predomínio em mulheres jovens em idade fértil. Gênero Na mulher, há susceptibilidade à ITU se deve as características anatômicas apresentadas: uretra mais curta e a maior proximidade do ânus com o vestíbulo vaginal e uretra. No homem, o maior comprimento uretral, maior fluxo urinário e o fator antibacteriano prostático (eliminação de zinco pela próstata) são protetores. Atividade sexual A atividade sexual está relacionada à possibilidade de introduzir bactérias que podem chegar à bexiga e causar cistite, pois durante o ato, há o contato com a região do clitóris e uretra. Além disso o próprio atrito durante a relação contribui. Outro fator importante é que a proliferação das bactérias E. coli é maior no ânus, e ao realizar o contato do órgão sexual ou mesmo dos dedos com a vagina após tocar o ânus facilita a infecção. Por isso o ideal é utilizar sempre preservativo e trocá-lo para evitar a disseminação dos microorganismos entre as regiões. O uso de espermicidas leva a alterações no Ph e na flora vaginal favorecendo a ascendência bacteriana. Gravidez ITU ocorre em 5 a 10% das grávidas e a maioria é assintomática inicialmente e de 25 a 50% dessas evoluem para um quadro sintomático se não tratadas. Os principais fatores que predispõem a grávida à ITU são a modificação da posição da bexiga, o aumento da capacidade vesical devido à redução do tônus vesical, o relaxamento da musculatura lisa da bexiga e do ureter e a dilatação do ureter e da pelve renal, que facilitam o refluxo vesico ureteral. Há maior predisposição de ocorrerem pielonefrites. Predisposição Genética Estudos sugerem que as células epiteliais de algumas mulheres podem apresentar tipos específicos ou números maiores de receptores para ligação de E. coli, com consequente facilitação da colonização. Obstrução do trato urinário Qualquer fator que interfira com o fluxo urinário, como: litíases, tumores, estenoses ou hipertrofias pode resultar em estagnação urinária, aumento da proliferação bacteriana e distensão da bexiga. Bexiga neurogênica Essa condição é caracterizada pela disfunção neuromotora da bexiga em lesões que acometem a medula espinhal como na tabes dorsalis, esclerose múltipla, DM e outras, e está frequentemente relacionada às ITU. Nesses casos há estagnação e acúmulo de urina e também pode haver necessidade de uso de cateteres, que aumentam a probabilidade de desenvolverem infecções. Cateterização urinária A utilização de cateteres por longos períodos predispõe o paciente a desenvolver ITU assintomática. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 Algumas bactérias gram-negativas possuem a capacidade de produzirem uma matriz polissacáride, como se fosse um revestimento que as envolve e confere resistência ao sistema imune a alguns antibióticos. Recomenda-se a troca do cateter a cada 21 dias. Refluxo vesicoureteral Infecções podem causar o refluxo de urina da bexiga para o ureter ou pelve principalmente em crianças. Alterações anatômicas podem favorecer o refluxo, durante a micção. Excesso ou falta de higiene íntima A vagina tem um mecanismo natural de auto- limpeza, o uso de produtos que não são dermatologicamente e ginecologicamente testados podem alterar o Ph. Assim como a má higiene ou a falta dela permite que as secreções produzidas pelos órgãos genitais por essas regiões se acumulem, criando um ambiente propício para o crescimento de bactérias. Além disso, se a higiene for feita de forma errada, ou seja, do ânus em direção a vagina, haverá contato com as bactérias das fezes, o que pode causar a infecção urinária. FISIOPATOLOGIA A entrada da vagina e a uretra tipicamente são colonizados por lactobacilos, streptococos e estafilococos, mas não por bacilos gram negativos entéricos. VIA ASCENDENTE: é a principal via de infecção! Em mulheres predispostas ao desenvolvimento de cistites, microorganismos entéricos colonizam a uretra e, a partir daí, podem atingir a bexiga. Na maioria das infecções, as bactérias entram na bexiga através da uretra, e a partir daí podem ascender ao parênquima renal. VIA HEMATOGÊNICA: ocorre quando há uma infecção em outra parte do corpo. Os micro- organismos caem na corrente sanguínea viajam pelo sangue e chegam nas vias urinarias, devido a intensa vascularização do rim. É a via de eleição para ITU por alguns micro-organismos como Staphylococcus aureus, Mycobacterium tuberculosis, sendo também a principal via das ITU em neonatos. VIA LINFÁTICA: é rara embora haja a possibilidade de micro-organismos alcançarem o rim pelas conexões linfáticas entre os ureteres e o rim em direção a pelve renal, em situações de aumento da pressão na bexiga. FÍSTULAS ENTEROVESICAIS: é raro de ocorrer, caracteriza-se pela presença de uma comunicação patológica entre a bexiga e alças intestinais, pode favorecer a passagem das bactérias. Pode ocorrer também em pacientes que fizeram cistectomia e reconstruíram a bexiga com uma porção do intestino (neobexiga). As ITU dependem basicamente da virulência bacteriana e de fatores predisponentes do hospedeiro. Virulência bacteriana Corresponde à capacidade de adesão da bactéria à camada mucosa ou à célula urotelial. Essa capacidade depende da produção de substâncias ou da presença de algumas estruturas como flagelos ou antígeno “H” (motricidade), presença das fímbrias também auxiliam na adesão dessas células. Na imagem, é possível visualizar o processo fisiopatológico da infecção urinária por E. coli. Primeiramente os microorganismos fixam-se aos receptores das células superficiais da bexiga por meio das fímbrias. Uma vez estabelecido o contato, as bactérias vão para o meio intracelular, onde podem se replicarem. As interações entre E. coli e as células também induzem a síntese de quimiocinas e citocinas. levando ao influxo de leucócitos para dentro do epitélio da bexiga. As células epiteliais sofrem apoptose e exfoliação, carregando consigo a E. coli para a urina. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS O quadro é bastante variável, mas os principais sintomas e sinais. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 ITU BAIXA: Cistite • Disúria durante e após a micção • Polaciúria • Urgência miccional • Dor em região suprapúbica • Hematúria/ e ou urina turva • Incontinência urinária Em idosos podem apresentar febre ou hipotermia, alteração de comportamento e/ou nível de consciência. COMPLICAÇÕES Quanto à insistência de infecções: • Reinfecção quando a infecção é causada por uma bactéria diferente daquela inicial. • Recidiva quando se trata da mesma bactéria que causou uma nova infecção. OBS: Essa diferenciação pode ser importante já que a homens com cistites recorrentes podem ser sugestivos de prostatites por exemplo. Diagnóstico diferencial: • vaginite- disúria associada a prurido e corrimento. Realizar exame G.O. Uretrite Sintomatologia muito parecida com cistite, mas os sintomas costumam durar mais tempo > 7 dias, na cistite costumam se instalar em 24 hrs. ITU ALTA: Pielonefrite aguda Quando não complicada apresenta: • Lombalgia • Náuseas ou vômitos • Calafrios • Estado geral comprometido • Febre maior que 38ºC • Giordano positivo Pode ou não haver sintomas de cistite, mas na dúvida, se apresentar a lombalgia, febre, náuseas e vômitos, as chances de ser uma pielonefrite são maiores do que as chances de ser uma cistite. Os sintomas sugestivos de um quadro complicado são: • Urolitíase • Cólica nefrética • Hematúriamacroscópica Sintomas inespecíficos: mal-estar, fadiga, dor abdominal COMPLICAÇÕES A demora no diagnóstico e tratamento pode causar sepse e insuficiência renal aguda. Pacientes com cateteres Todo paciente com cateter de longa permanência que apresenta sintomas inespecíficos de infecção (febre, urina leitosa, hipotensão, acidose metabólica ou alcalose respiratória) devem ser investigados quanto a presença de ITU. Crianças O principal sintoma pode ser a dor abdominal. Neonatos costumam apresentar icterícia fisiológica prolongada, hipertermia, diarreia, vômitos, cianose e perda de peso ou alterações neurológicas. Lactentes geralmente apresentam alterações intestinais, déficit no crescimento, anorexia, vômitos ou febre. Na faixa pré-escolar podem ser enurese (micção involuntária), disúria, polaciúria ou febre. DIAGNÓSTICO ANAMNESE EXAME FÍSICO SINAL DE GIORDANO: é utilizado na pesquisa de pielonefrite ou litíase renal. Para ser detectado, deve ser realizado uma percussão com a mão em forma de punho no dorso do paciente no nível da 11° e 12° costela. O diagnóstico é feito com os sinais e sintomas e com a análise da amostra de urina. Todos os pacientes devem ter seu diagnóstico confirmado por meio da análise da urina e da cultura, porém no caso de mulheres jovens que apresentem leucocitúria confirmada com fitas AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 reagentes ou análise de sedimentos urinários não precisam da cultura. Nos casos dessas mulheres jovens, a indicação para realização da cultura de urina são: sintomas atípicos, suspeita de infecção complicada, falência terapêutica inicial e sintomas que recorrem em menos de um mês após o tratamento de uma ITU. EXAMES Amostra de urina Idealmente, o método padrão de referência para o diagnóstico de ITU é a coleta de amostra de urina estéril por aspiração suprapúbica da bexiga. Porém, na prática a amostra é obtida na micção natural e leva-se em consideração a provável contaminação por microrganismos que geralmente contaminam a uretra. Para reduzir o máximo possível a contaminação pela uretra deve-se: • realizar desinfecção do meato uretral • utilizar o jato médio, já que o jato inicial traz também bactérias alojadas na uretra. A sensibilidade da cultura urinária é maior com a coleta da primeira urina da manhã, que é mais concentrada e contém mais bactérias devido ao tempo para sua multiplicação. A amostra urinaria deve ser enviada ao laboratório imediatamente após sua coleta, para evitar que as bactérias continuem proliferando, o que levaria a uma falsa elevação na contagem de colônias. Caso esse envio não possa ser imediato, preconiza- se que o frasco com a amostra deve ser armazenado no refrigerador a 4ºC. Fitas reagentes (dipstick) Conseguem identificar esterase leucocitária (enzima presente em alguns leucócitos), indicativa de leucocitúria significativa e nitrito em caso de infecção por enterobactérias, as quais convertem nitrato em nitrito. É um exame de baixo custo e quando negativo em pacientes com sintomas que não se parecem com ITU, já é descartada a possibilidade; entretanto, quando negativo em pacientes com sintomas característicos de ITU, deve ser solicitada a análise de sedimento da urina e/ou cultura. Sedimento urinário ITU sem leucocitúria é extremamente incomum Leucocitúria significativa (piúria) significa contagem maior ou igual a 10.000 leucócitos/mL ou 10 leucócitos/campo. Entretanto, a leucocitúria significativa não é diagnóstico de ITU e pode ter origem não infecciosa como nefrite intersticial, litíase, neoplasias urológicas e traumatismos geniturinários, etc. A presença de cilindros leucocitários sugere pielonefrite e geralmente o pH é alcalino; quando o pH for superior a 8,0 pode-se suspeitar de infecção por Proteus. • Hematúria, quando presente geralmente é discreta. • A presença de proteinúria geralmente é discreta e variável. • A presença de bactérias é frequente, mas deve ser confirmada por cultura. Urocultura Os valores de referência podem variar em laboratórios e fontes. A contaminação da urina durante o procedimento é bastante frequente e pode interferir no resultado. Quando houver suspeita de contaminação (número excessivamente grande ou na ausência de sintomas), pode ser solicitada nova amostra. Em pacientes com cateteres vesicais de demora, é recomendada uma amostra de urina após a troca de cateteres e se não for possível retirá-lo, não se deve colher amostra do saco coletor. OBS: O antibiograma é um exame que tem como objetivo determinar o perfil de sensibilidade e resistência de bactérias e fungos aos antibióticos. Através do resultado do antibiograma o médico pode indicar qual o antibiótico mais indicado para tratar a infecção da pessoa, evitando, assim, o uso de antibióticos desnecessários e que não combatem a infecção, além de evitar o surgimento de resistência. Outros exames A dosagem de proteína C-reativa é inespecífica, mas pode ajudar a diferenciar a cistite da pielonefrite. A imunofluorescência do sedimento urinário (ACB) e a dosagem de enzimas tubulares na urina (indica AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 lesão tubular) pode diferenciar entre ITU baixa e alta. Exames de imagem Quando há suspeita de infecção complicada ou recorrente, os exames de imagem podem ser solicitados para análise de fatores predisponentes. Ultrassonografia: identificação de cálculos e suas repercussões no trato, rins policísticos, etc. Tomografia computadorizada: pouco utilizada para ITU e é usada para descartar abscesso perinefrético e é mais sensível na identificação de cálculos. Uretrocistografia miccional: é utilizada em quadros de suspeita de refluxo vesicoureteral principalmente em crianças menores de 2 anos e para investigação de ITU recorrente Cintilografia com DMSA: diagnóstico diferencial na fase aguda de ITU em crianças para pielonefrite Cistoscopia: usada em idosos ou transplantados renais com ITU recorrente e hematúria para afastar neoplasia de bexiga. TRATAMENTO Cistites 1ª opção: nitrofurantoína durante 5 dias, 2 vezes por dia comprimidos de liberação prolongada(clp) 100 mg ou 50 mg 4 vezes ao dia. 2ª opção: fosfomicina dose única 3 g duas horas após a refeição, de preferência ao deitar. 3ª opção : trimetoprim durante 3 dias, 1 vez por dia 300 mg ao deitar. Dose única: a indicação mais apropriada de tratamento de ITU por dose única é em mulheres com a primeira ITU não complicada, acometendo trato urinário inferior (cistite) já que seu uso em ITU alta não reconhecida, mascara transitoriamente a progressão da infecção, com evolução potencial para pielonefrite. Dose única não é eficaz para o tratamento de ITU por Staphylococcus. Tratamento de mulheres com cistites não complicadas: é recomendado o uso de esquemas antimicrobianos por 3 dias devido maior adesão do paciente e menor frequência de efeitos colaterais. O tratamento inicial deve cobrir os uropatógenos mais comuns, por exemplo com os fluoroquinolonas (norfloxacino) ou sulfonamidas (sulfametoxazol- trimetoprim). Tratamento para maioria das cistites complicadas em mulheres e em cistites em homens: uso de antimicrobianos de amplo espectro é de 7 a 14 dias. Inicialmente pode ser utilizado o ciprofloxacino ou levofloxacino (exemplos de fluoroquinolonas). Quando há suspeita de gram-positivos, pode-se associar ampicilina ou amoxacilina. Em gestantes a terapia inicial geralmente é com cefalexina, amoxacilina ou nitrofurantoína. Espera-se melhora após 48h do início do tratamento, caso não haja melhora, nova cultura e exames de imagem podem ser solicitados. Em pacientes com cateteres vesicais recomenda-se a antibioticoterapia guiada por cultura ou antibiograma,a remoção do cateter e a realização de cateterização intermitente até resolução da infecção ou a troca do cateter. Caso haja necessidade de início do tratamento imediato, podem ser utilizados os tratamentos já mencionados. Pielonefrites Pacientes com pielonefrite aguda não complicada devem ser internados para início de terapia parenteral quando incapacitados de ingerir líquidos e medicações ou apresentarem episódios frequentes de vômitos, quando houver dúvidas quanto ao diagnóstico ou adesão ao tratamento, ou quando apresentarem sinais de sepse grave. A terapia empírica inicial deve incluir antibióticos que atingem níveis teciduais elevados, como fluoroquinolonas (ciprofloxacino ou levofloxacino) ou ceftriaxone no caso de terapia intravenosa. Aminoglicosídeos também podem ser utilizados em dose única e lenta diária, com ressalvas a sua potencial nefrotoxicidade. Após 48 horas de início de terapia intravenosa, pode-se passar para esquema antibiótico oral caso haja sinais de melhora clínica do paciente. Caso não se verifique melhora clínica após 72 horas de antibioticoterapia adequada, deve-se realizar exame de imagem para afastar uropatia obstrutiva ou presença de abscessos renais ou perirrenais. Sugere- se que a terapia antimicrobiana dure 14 dias, ou naqueles pacientes com resposta clínica mais lenta, 21 dias. Não se recomenda a realização de culturas urinárias após término do tratamento, a não ser em pacientes que apresentem recorrência dos sintomas dentro de duas semanas. Caso seja isolado o mesmo agente, com a mesma susceptibilidade, sugere-se a realização de ultra-sonografia ou tomografia computadorizada para avaliar a presença de cálculos ou uropatia obstrutiva. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 Pacientes com pielonefrite complicada geralmente devem ser hospitalizados. Devido à grande variedade de condições associadas, amplo espectro de agentes etiológicos possíveis e presença frequente de resistência bacteriana múltipla é difícil a generalização da escolha terapêutica empírica inicial. Sugere-se iniciar o tratamento com fluoroquinolona (ciprofloxacino ou levofloxacino) por via oral, em pacientes com doença leve a moderada, ou intravenosa até determinação final do agente em urocultura. Após 48 horas de início de terapia intravenosa, pode-se passar para esquema antibiótico oral, caso haja sinais de melhora clínica do paciente. É importante ressaltar a maior prevalência de ITU estafilocócica nesses pacientes, sendo prudente a utilização de vancomicina se houver identificação de cocos gram-positivos na urina, até resultado final da cultura. Recomenda-se que a terapia dure 14 dias, mas pode se prolongar caso o fator associado retarde a cura. Gestantes Inicia-se terapia parenteral empírica com ceftriaxone ou gentamicina. Deve-se repetir a urocultura após 1 a 2 semanas do término do tratamento. BACTERIÚRIA ASSINTOMÁTICA Consiste na presença de significativa quantidade de bactérias em amostra de urina coletada de maneira correta, em paciente que não apresenta sinais ou sintomas característicos de infecção do trato urinário. DIAGNÓSTICO O diagnóstico da bacteriúria assintomática é feito por meio de cultura de urina rotina. É uma condição benigna que não requer o uso de antimicrobianos nem rastreamento periódicos. Entretanto, alguns grupos de pacientes têm maior risco de desenvolvê-la: • idosos, pacientes com lesão medular, gestantes, transplantados renais, pacientes com catéteres vesicais de demora, crianças com refluxo vesicoureteral. Não causa maiores consequências em mulheres sexualmente ativas em período de vida anterior à menopausa e que não estão grávidas. Geralmente, a bacteriúria assintomática resolve-se espontaneamente; entretanto, estas mulheres apresentam maior risco para o desenvolvimento de infecção urinária sintomática quando comparadas àquelas sem bacteriúria. O tratamento e rastreamento é necessário em caso de: Gravidez: rastreamento diminui pielonefrite e deve ser oferecido no 1º e 3º trimestre. Necessidade de cirurgia ou de instrumentação do trato urinário (ressecção transuretral da próstata ou outro procedimento urológico em que possa ocorrer sangramento de mucosa). PROFILAXIA • Deve-se orientar a ingestão maior de líquidos • Aumentar a frequência miccional (a cada 2 a 3 horas) • Urinar logo após o coito e/ou antes de se deitar • Existe relação entre consumo de suco de cranberry e prevenção de ITU, porém só é comprovada em mulheres. Indica-se tratamento profilático medicamentoso para mulheres que apresentaram duas ou mais ITU sintomáticas em seis meses ou três ou mais vezes em 12 meses. Antes do início da profilaxia, deve-se assegurar o tratamento da ITU prévia com o resultado negativo da urocultura uma a duas semanas após seu tratamento. A escolha do antibiótico depende da susceptibilidade bacteriana de infecções prévias. Recomenda-se a utilização de cremes vaginais com estrógenos em mulheres menopausadas sem contra- indicações para esse medicamento, que apresentem três ou mais ITU anuais. Em gestantes com ITU recorrentes durante a gravidez, ou antes desta, sugere-se a realização de profilaxia antibiótica pós-coito. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 PROBLEMA 5 OBJETIVOS: 1. Identificar fatores epidemiológicos da Dengue. 2. Descrever o agente etiológico (sorotipos) e o modo de transmissão. 3. Definir as teorias explicativas da fisiopatologia da Dengue. 4. Analisar o quadro clinico da Dengue. 5. Classificar o paciente conforme o quadro clinico apresentado. 6. Identificar as medidas propedêuticas e terapêuticas adequadas em cada uma das situações possíveis. 7. Descrever os mecanismos e o quadro clinico do Zika Vírus e da Chikungunya diferenciado da dengue. 8. Descrever medidas preventivas, programas de governo, notificação compulsória e participação de toda a sociedade no combate à doença. REFERÊNCIAS: • Dengue: diagnóstico e manejo clínico – MS – 2016 • Manual MS para profissionais da saúde – Dengue • Boletim Epidemiológico. Monitoramento dos casos de arboviroses urbanas causados por vírus transmitidos pelo mosquito Aedes (dengue, chikungunya e zika). Secretaria de Vigilância em Saúde. Ministério da Saúde Jun. 2021. DENGUE CONCEITO “É uma doença transmitida por um mosquito, e é causada por um dos quatro sorotipos dos vírus da dengue. Os sintomas vão desde febre e sintomas constitucionais até manifestações hemorrágicas e choque, ou dengue hemorrágica/síndrome do choque associada à dengue (DH/SCD). “ ETIOLOGIA Família: Flaviviridae (Dengue, Febre amarela e Vírus zika). O vírus da dengue pertence ao gênero Flavivirus; os quais são esféricos e têm envelope lipídico derivado das membranas das células hospedeiras. Vetor: Aedes Aegypti Sorotipos: DENV-1, DENV-2, DENV-3 E DENV-4; A infecção por um dos sorotipos confere imunidade somente para aquele sorotipo específico. Teoricamente, os indivíduos podem ser infectados pelos 4 sorotipos. O sorotipo DEN-2 predominava na época de 1980 e início de 1990, mas atualmente há prevalência do sorotipo DEN-3 TRANSMISSÃO A dengue é transmitida pela picada do mosquito Aedes contaminado. A fêmea do mosquito Aedes é contaminada com o vírus da dengue depois de chupar o sangue de um indivíduo contaminado durante uma doença febril aguda (fase virêmica). A fêmea infectada do mosquito é capaz de transmitir o vírus da dengue verticalmente à geração seguinte, fato esse importante para conservação do vírus. Há relatos de transmissão vertical de mãe para filho. O Aedes habita dentro das casas, principalmente na sala de estar e nos dormitórios, e em pequenas poças de água como em vasos de flores. Os ovos do mosquito podemsobreviver durante muito tempo e ocorre intenso aumento da população de larvas do mosquito em épocas de chuva. EPIDEMIOLOGIA A doença é originária da África e possui histórico de transporte semelhante à da Febre Amarela, sendo que há relatos de epidemias no Brasil desde a metade do século. Atualmente a doença se tornou endêmica em 112 países que incluem o continente africano, americano, leste do mediterrâneo, sudeste asiático e a região do pacífico ocidental – 40% da população mundial reside em região endêmica Todos os anos são registrados cerca de 50 a 100 milhões de novos casos de dengue, sendo que 500.000 são de dengue hemorrágica e no mínimo 12.000 mortes são relatadas ao redor do mundo (90% são de crianças com menos de 15 anos) 2/3 dos casos e metade dos óbitos de toda a América são no Brasil. • Em 2021 foram notificados 348.508 casos prováveis (taxa de incidência de 164,6 casos por 100 mil hab.) de dengue no Brasil. • Em comparação com o ano de 2020, houve uma redução de 57,4% de casos registrados para o AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 mesmo período analisado. A região Centro-Oeste apresentou a maior incidência de dengue. Observou-se uma diminuição dos registros de casos prováveis e óbitos de dengue. Esta diminuição pode ser consequência do receio da população em procurar atendimento em uma unidade de saúde, bem como uma possível subnotificação ou atraso nas notificações das arboviroses, associadas a mobilização das equipes de vigilância e assistência para o enfrentamento da pandemia. PATOGENIA • Fêmea infectada durante hematofagia; • Homem: incubação 3-15 dias(média de 6 dias) e transmissibilidade 1 dia antes até o 5 dias antes da febre • Viremias: • Replicação, invasão dos monócitos de linfonodos locais ou células musculares (intensa mialgia); • Replicação viral em monócitos no sangue e disseminação; • Multiplicação e disseminação pelo corpo; • Citocinas pró-inflamatórias : TNF-a e IL-6; • Resposta imunológica: humoral (IgM e IgG e celular); • Linfócito T CD4+ já na primeira semana de doença. Depois da picada do inseto infectado, o período de incubação varia de 4 a 7 dias, durante os quais pode ou não apresentar sintomas dependendo de fatores intrínsecos. Posteriormente, apresenta-se um surgimento repentino de febre e sintomas constitucionais que duram de 5 a 6 dias O vírus da dengue se replica dentro de células do sistema mononuclear fagocitário (macrófagos, monócitos e células B). Após a fase febril (virêmica), o paciente pode se recuperar ou avançar para a fase de extravasamento, levando à DH ou à síndrome do choque da dengue. O aumento do número de células infectadas resulta na maior produção de citocinas incluindo TNF-alfa e INF- alfa e outros mediadores. Eles também levam à ativação de outras células dendríticas. Com a ativação desses mediadores, observa-se o aumento da permeabilidade vascular, extravasamento anormal de plasma, hipovolemia, choque e alterações hemostáticas; além disso pode haver apoptose de células endoteliais, causando ruptura da barreira das células. A infecção é mais grave quando a pessoa é novamente infectada, mas por um soro diferente. Isso ocorre em 2- 4% dos indivíduos mas ainda não está claro a farmo que isso ocorre. Acredita-se que há anticorpos residuais específicos para a primeira infecção e quando há reincidência com novo sorotipo, a ausência de células que consigam neutralizá-los, resulta numa infecção maior. Este fenômeno é chamado de imunoamplificação dependente de anticorpos. Os anticorpos pré-existentes não-neutralizantes gerados a partir de infecção prévia reagem cruzadamente com os sorotipos presentes nas reinfecções e se ligam às partículas virais, mas não as neutralizam; essas partículas virais recobertas por anticorpos são incorporados mais rapidamente do que partículas virais não recobertas pelas células dendríticas teciduais, monócitos e macrófagos. Isso leva a cargas virais mais altas e a uma maior apresentação antigênica das células dendríticas infectadas às células T, resultando numa intensa ativação de células T e na proligeração de linfócitos T. Essa intensa ativação das células T supostamente faz com que elas fiquem “atordoadas”, mantendo assim a sua expressão de INF-gama em níveis baixos. As evidências mais comuns na infecção pela dengue incluem petéquias e equimoses, derrames pleurais e peritoniais serosos e edema pulmonar. A vasculite de pequenos vasos de partes moles e tecidos viscerais foi observada em exames microscópicos, bem como necrose hepática médio-zonal focal, hemorragia subendocárdica do ventrículo esquerdo e hemorragia da mucosa gástrica. FISIOPATOLOGIA Os vírus da dengue entram nas células de vertebrados (primatas) por endocitose e fagocitose e sofrem replicação no citoplasma celular, após um período de latência de 12 a 16 horas. Nos lipossomos, ocorre tradução do RNA em poliproteínas virais. A maturação dos vírions ocorre em organelas intracelulares, com os vírus brotando a partir do complexo e Golgi ou do retículo endoplasmático A liberação das partículas virais ocorre após a clivagem da proteína estrutural M e posterior ligação do vírus ao receptor de membrana da célula a ser infectada. Quando ocorre uma outra infecção com um sorotipo diferente, a infecção pode ocorrer tanto pela via do receptor quanto pela fagocitose dependente de anticorpos. Antígenos virais são expressos no fígado, linfonodos, baço e medula óssea. A formação de complexos antígenos anticorpos, a liberação de histamina por basófilos, mediada por IgE e a ativação alternativa e clássica do complemento levam ao aumento da permeabilidade vascular, edema e desenvolvimento da diátese hemorrágica (tendência ao sangramento espontâneo). O macrófago é reconhecido como a célula-alvo para o vírus, sendo difícil a detecção dos antígenos virais em outros tipos celulares. No sangue periférico de pacientes com dengue, foi observada a resposta predominantemente do tipo TH1 nos casos de febre da dengue e do tipo TH2 nos casos de febre hemorrágica. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 As mialgias são parcialmente correlacionadas à multiplicação dos vírus no tecido muscular. IMUNIDADE E SUSCEPTIBILIDADE A susceptibilidade ao vírus da Dengue é universal. A imunidade é permanente para um mesmo sorotipo (homóloga). Entretanto, a imunidade cruzada (heteróloga) existe temporariamente. A fisiopatogenia da resposta imunológica à infecção aguda por Dengue pode ser primária e secundária. A resposta primária ocorre em pessoas não expostas anteriormente ao flavivírus, e o título dos anticorpos se eleva lentamente. A resposta secundária ocorre em pessoas com infecção aguda por Dengue, mas que tiveram infecção prévia por flavivírus, e o título de anticorpos se eleva rapidamente, atingindo níveis altos. A susceptibilidade, em relação à FHD, não está totalmente esclarecida. Teoria de Rosen: relaciona o aparecimento de FHD à virulência da cepa infectante, de modo que as formas mais graves sejam resultantes de cepas extremamente virulentas. Teoria de Halstead – relaciona a FHD com infecções sequenciais por diferentes sorotipos do vírus da Dengue, após um período de 3 meses a 5 anos. Nessa teoria, a resposta imunológica, na segunda infecção, é exacerbada, o que resulta numa forma mais grave da doença; Teoria integral de multicausalidade –se aliam vários fatores de risco às teorias de infecções sequenciais e de virulência da cepa. A interação desses fatores de risco promoveria condições para a ocorrência da FHD: • Fatores individuais – menores de 15 anos e lactentes, adultos do sexo feminino, raça branca, bom estado nutricional, presença de enfermidades crônicas (diabetes, asma brônquica, anemia falciforme), preexistênciade anticorpos, intensidade da resposta imune anterior; • Fatores virais – sorotipos circulantes e virulência das cepas; • Fatores epidemiológicos – existência de população susceptível, circulação simultânea de dois ou mais sorotipos, presença de vetor eficiente, alta densidade vetorial, intervalo de tempo calculado entre 3 meses e 5 anos entre duas infecções por sorotipos diferentes, sequência das infecções (DEN-2 secundário aos outros sorotipos), ampla circulação do vírus. ASPECTOS CLÍNICOS A infecção pode ser sintomática ou assintomática. Quando sintomáica, causa uma doença sistêmica e dinâmica de amplo espectro clínico, variando desde formas oligossintomáticas até quadros graves, podendo evoluir para o óbito. Três fases clínicas podem ocorrer: 1. Fase febril A primeira manifestação é a febre que tem duração de 2 a 7 dias, geralmente alta (39 a 40ºC), de início abrupto, associada a cefaleia, adinamia, mialgias, artralgias e dor retroorbitária. O exantema está presente em 50% dos casos e predominantemente máculo-papular, atingindo face, tronco e membros de forma aditiva, não poupando plantas de pés e palmas de mãos, podendo ou não apresentar prurido, o qual desaparece durante a febre Apresenta leucopenia com linfocitopenia após segundo dia de doença Podem ocorrer alguns sinais discretos de sangramentos (epistaxe, petéquias, gengivorragias) mas não caracterizam como dengue hemorrágica. 2. Fase crítica Essa fase pode evoluir para casos mais graves e por isso deve ser acompanhada mais de perto. Tem início quando a febre começa a diminuir entre o terceiro e o sétimo dia de doença acompanhada do surgimento dos sinais de alarme 2.1. Dengue com sinais de alarme A maioria dos sinais de alarme é decorrente do aumento da permeabilidade vascular, a qual marca o início do deterioramento clínico do paciente e sua possível evolução para o choque por extravasamento de plasma 2.2 Dengue grave Podem manifestar-se com extravasamento de plasma, levando ao choque ou acúmulo de líquidos com desconforto respiratório, sangramento grave ou sinais de disfunção orgânica como o coração, os pulmões, os rins, o fígado e o SNC. O quadro clínico é característico do comprometimento desses órgãos Derrame pleural e ascite podem ser clinicamente detectáveis, em função da intensidade do extravasamento e da quantidade excessiva de fluidos infundidos. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 O hematócrito também é indicativo desse extravasamento – quanto maior sua elevação, maior a gravidade devido redução dos níveis de albumina. 2.3.1 Choque Ocorre quando um volume crítico de plasma é perdido através do extravasamento, o que geralmente ocorre entre os dias 4 ou 5 de doença e geralmente precedido por sinais de alarme. O período de extravasamento plasmático e choque leva de 24 a 48 horas. O choque da dengue é de rápida instalação e tem curta duração. Podendo levar o paciente ao óbito em um intervalo de 12 a 24 horas ou a sua recuperação rápida quando bem tratado. O choque, a acidose metabólica e a coagulação intravascular disseminada pode acarretar importantes prejuízos aos órgãos. Além disso podem aparecer outras comorbidades e evoluções como o choque cardiogênico devido insuficiência cardíaca. 2.3.2 Hemorragias graves Em alguns casos pode ocorrer uma hemorragia massiva sem choque prolongado e esse sangramento é critério de dengue grave. Pacientes com histório de úlceras pépticas ou gastrites ou sob uso de AAS, AINES e anticoagulantes tendem a apresentar esse sangramento no TGI. 2.3.3 Disfunções graves de órgãos Algumas alterações são importantes como no caso do coração com curso de insuficiência; fígado com hepatites e alterações enzimáticas; alterações neurológicas com curso de convulsões; rins com insuficiência renal 3. Fase de recuperação Nos pacientes que passaram pela fase crítica haverá reabsorção gradual do conteúdo extravasado com progressiva melhora clínica. Nessa fase o débito urinário se normaliza ou aumenta e pode ocorrer ainda bradicardia e mudanças no ECG. Alguns pacientes podem apresentar um rash cutâneo acompanhado ou não de prurido generalizado. DIAGNÓSTICO Diagnóstico laboratorial preconizado pelo MS: • A presença de linfócitos atípicos é comum, assim como a elevação transitória dos níveis de transaminases, que podem chegar a até 1.000 U/L. • Baixa contagem de plaquetas ( < 100.000/mm') também é muito frequente. • Em pacientes com dengue, o hemograma é muito útil para definir a conduta terapêutica e se o caso deve ser hospitalizado. • O período viremico costuma durar até o sexto dia após o aparecimento de sintomas. A partir desse período, os testes sorológicos devem ter preferência aos virológicos na rotina diagnóstica. Sorologia – Método Enzyme-Linked Immunosorbent Assay (ELISA). Deve ser solicitada a partir do sexto dia do início dos sintomas. Detecção de antígenos virais: NS1, isolamento viral, RT-PCR e imunohistoquímica. Devem ser solicitador até o quinto dia do início dos sintomas. Se positivos confirmam o caso; se negativos, uma nova amostra para sorologia IgM deve ser realizada para confirmação ou descarte • A confirmação do diagnóstico ocorre pela identificação de anticorpos específicos ou isolamento viral - ou de seu RNA. • Em um contexto epidêmico, a necessidade de confirmação etiológica dos quadros clínicos típicos torna-se secundária. • A sorologia deve ser solicitada nas situações endêmicas ou na suspeita de FHD/SCD. • O teste MAC-ELISA tem sido o mais utilizado nos últimos anos, para identificar os anticorpos contra a dengue. • Após 5 dias de sintomas, é possível identificar os anticorpos lgM, que podem perdurar por até 90 dias. Em uma segunda infecção, os títulos de IgM costumam ser mais modestos que em uma primeira exposição. • A identificação de anticorpos IgG é mais tardia. Além disso, esse anticorpo é mais inespecífico, com a possibilidade de múltiplas reações cruzadas. • Em regiões de alta prevalência de infecção, é dificil diagnosticar uma nova exposição por outro sorotipo, com IgM ausente e IgG presente por exposições prévias. • O isolamento viral ou a pesquisa de seu RNA deve ser solicitada antes dos 5 dias de evolução, período da viremia. • Para consolidar o diagnóstico nos primeiros dias da doença, tem-se a alternativa da pesquisa do antígeno NSI, que é uma proteína presente, AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 durante a fase inicial da infecção, em altas concentrações no soro de pacientes infectados com o vírus da dengue, podendo ser detectado do 1° ao 7° dia após o aparecimento dos sintomas. Diagnóstico diferencial ZIKA • Doença febril autolimitada (com manifestação de sintomas por 3-6 dias). • Febre baixa (entre 37,8ºC e 38,5ºC) • Conjuntivite não purulenta • Dor de cabeça • Artralgia normalmente em mãos e pés, em alguns casos com inflamações das articulações (a artralgia não é tão intensa como a que ocorre em chikungunya e não apresenta a cronicidade características de chikungunya). • Fadiga ou mialgia • Astenia (astenia pós-infecção é frequente) • Rash maculopapular • Com menos frequência, dor retro-orbital, anorexia, vômitos, diarreia e dor abdominal, aftas. • Os sintomas desaparecem em até 7 dias. • A dor articular pode estar presente até um mês do início da doença Considera-se caso suspeito de zika: Pacientes que apresentem exantema máculopapular pruriginoso, acompanhado de pelo menos DOIS dos seguintes sinais e sintomas: • Febre OU • Hiperemia conjuntival sem secreção ou prurido OU • Poliartralgia OU • Edema periarticular. CHIKUNGUNYA • Os sinais e sintomas são clinicamente parecidos aos da dengue – febre de início agudo, doresarticulares e musculares, cefaleia, náusea, fadiga e exantema. • A principal manifestação clínica que a difere são as fortes dores nas articulações, que muitas vezes podem estar acompanhadas de edema. • Após a fase inicial a doença pode evoluir em duas etapas subsequentes: fase subaguda e crônica. • O período de incubação intrínseco, que ocorre no ser humano, é em média de 3 a 7 dias (podendo variar de 1 a 12 dias). • O extrínseco, que ocorre no vetor, dura em média 10 dias. • O período de viremia no ser humano pode perdurar por até 10 dias e, geralmente, inicia-se dois dias antes da apresentação dos sintomas podendo perdurar por mais oito dias. A doença pode evoluir em três fases: aguda, subaguda e crônica. Fase aguda ou febril: até o décimo quarto dia. Alguns pacientes evoluem com persistência das dores articulares após a fase aguda, caracterizando o início da fase subaguda, com duração de até 3 meses. Após a fase subaguda, alguns pacientes poderão ter persistência dos sintomas, principalmente dor articular e musculoesquelética e neuropática, sendo esta última muito frequente nesta fase. As manifestações têm comportamento flutuante. CLASSIFICAÇÃO DE RISCO ESTADIAMENTO E CONDUTA GRUPO A • Caso suspeito de dengue • Ausência de sinais de alarme • Sem comorbidades AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 Conduta: a) Exames laboratoriais b) Prescrever paracetamol e/ou dipirona c) Não utilizar salicilatos ou AINES d) Orientar repouso e prescrever dieta e hidratação oral Hidratação oral: 60 ml/kg/dia (p.ex. pessoa com 70kg prescreve 4,2L) sendo 20 deles em solução salina e os 40 na forma de sucos, água, soro caseiro, chás, água de coco... Em crianças menores de 13 anos seria 1/3 na forma de soro de reidratação oral e o restante na forma de água, sucos, etc... (até 10kg = 130 ml/kg/dia; 10-20kg = 100 ml/kg/dia; acima de 20kg = 80 ml/kg/dia) Manter a hidratação durante o período febril e entre 24 e 48hrs após o fim da febre. Orientações: não automedicar; caso haja sangramento procurar serviço de saúde urgente; retornar ao atendimento no dia que a febre melhorar ou no 5º dia de febre Orientar a eliminação dos criadouros do mosquito. • Caso suspeito de dengue • Ausência de sinais de alarme • Com sangramento espontâneo na pele (petéquias) ou induzido (prova do laço positiva) • Condições clínicas ou de risco social ou comorbidades (<2anos, gestantes, >65anos, cardiopata, hematopata) Conduta: a) Solicitar exames: hemograma completo (colher na hora do atendimento, liberar resultado entre 2 a 4 horas, avaliar hemoconcentração) b) Permanecer sob observação até o resultado dos exames c) Prescrever hidratação oral até o resultado d) Prescrever paracetamol e/ou dipirona e) Notificar o caso f) Se o hematócrito der NORMAL: tratamento ambulatorial, agendar o retorno até 48 horas após queda da febre ou imediata na presença de sinais de alarme, orientar a não se automedicar, permanecer em repouso e procurar atendimento se surgirem sangramentos, preencher o “cartão da dengue” e liberar o paciente g) Se surgirem sinais de alarme: seguir para GRUPO C. GRUPO C • Caso suspeito de dengue • Presença de algum sinal de alarme Conduta: a) O mais importante é iniciar a reposição volêmica imediata em qualquer ponto de atenção (independentemente do nível de complexidade) – 10ml/kg de soro na primeira hora. b) Hemograma completo c) Dosagem de albumina sérica e transaminases d) Radiografia de tórax e ultrassonografia de abdome e) Podem ser solicitados: glicemia, ureia, creatinina, eletrólitos, gasometria, TPAE e ecocardiograma f) Avaliação clínica (sinais vitais, PA, diurese [espera-se maior que 1ml/kg/h] e manter a hidratação g) Se não houver melhora do hematócrito ou dos sinais hemodinâmicos, repete-se a fase de expansão até 3 vezes (fase de expansão são ciclos de 2hrs com reposição volêmica de 10 ml/kg/h) e reavalia-se os dados vitais,etc... h) Se houver melhora, inicia-se a fase de manutenção – 25ml/kg em 6 hrs e 25ml/kg em 8 hrs sendo 1/3 com soro e 2/3 com soro glicosado i) Exame para confirmação – sorologia após 5ºdia e PCR após 5ºdia j) Prescrever paracetamol e/ou dipirona k) Notificar o caso l) Orientar retorno conforme GRUPO B m) Preencher cartão de acompanhamento n) Se não melhorar, seguir para o GRUPO D GRUPO D • Caso suspeito de dengue • Presença de sinais de choque, sangramento grave ou disfunção grave de órgãos Conduta: a) Reposição volêmica com solução isotônica de 20ml/kg em até 20min (expansão rápida parenteral), podendo repetir até 3 vezes b) Reavaliação clínica a cada 15-30min e de hematócrito em 2 horas c) Se houver melhora retorna ao GRUPO C Pacientes devem permanecer em UTI até estabilização por no mínimo 48 horas d) Hemograma completo e) Albumina sérica e transaminases f) Radiografia de tórax e ultrassonografia de abdome g) Podem ser pedidos: glicemia, ureia, creatinina, eletrólitos, gasometria, TPAE e ecocardiograma h) Realizar os exames de confirmação i) Na persistência de choque: se o hematócrito estiver melhorando, usar albumina 0,5 – 1g/kg ou coloides sintéticos 10ml/kg/hora / se o hematócrito estiver piorando deve investigar a hemorragia e avaliar coagulação / na presença de hemorragia, transfundir concentrado de AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 hemácias (10 – 15 ml/kg/dia) / na presença de coagulopatias, pode usar plasma 10 ml/kg, vit K endovenosa 1U para cada 5 – 10 kg) / considerar transfusão de plaquetas em sangramento persistente não controlado e com trombocitopenia e INR maior que 1,5x o normal j) Se o hematócrito estiver em queda mas o choque estiver se resolvendo e na ausência de sangramentos, observa-se sinais de desconforto respiratório, insuficiência cardíaca ou hiperhidratação k) Se a PA estiver normalizando, o hematócrito estiver melhorando, não houver sangramentos, a diurese estiver normal ou os sintomas abdominais tiverem sumido, pode-se suspender a infusão de líquidos l) Notificar o caso m) Orientar retorno como GRUPO B Condutas para os GRUPO C e D: a) Sempre oferecer O2; observar presença de edema subcutâneo generalizado que não significa hiperhidratação; evitar procedimentos invasivos b) Preferência para avaliação de hemodinamica minimamente invasiva Critérios para alta hospitalar: PREENCHER TODOS OS CRITÉRIOS: a) Estabilização hemodinâmica durante 48 horas b) Ausência de febre por 48 horas c) Melhora visível do quadro clínico d) Hematócrito normal e estável por 24 horas e) Plaquetas em elevação e acima de 50.000/mm³ ✓ É SUSPEITA DE DENGUE ? (A) ✓ HÁ TENDÊNCIA A SANGRAMENTO DE PELE OU FATOR DE RISCO ? (B) ✓ • HÁ SINAIS DE ALARME ? (C) ✓ • HÁ SINAIS DE CHOQUE ? (D) PROGNÓSTICO Se não tratadas, a mortalidade entre pacientes com DH ou SCD pode chegar a 40-50%, sendo que o eficaz monitoramento e tratamento a reduzem a 1%. A recuperação é rápida e a maioria dos pacientes se recupera em 24-48 horas sem nenhuma sequela. Um indicativo de mal prognóstico é a presença de extremidades frias A maioria dos óbitos é causada por choque prolongado, hemorragia profusa, excesso de fluido e insuficiência hepática aguda com encefalopatia. PREVENÇÃO • Não há medicação específica disponível para a dengue e o seu controle depende basicamente do controle do vetor • Mudanças ambientais com melhora do abastecimento de água e proteção para que não haja “água parada” • Proteção pessoal com vestuários adequados, inseticidas, repetlentes e mosquiteiras • Controle biológico por meio de competidores naturais por exemplo • Controle químico com pulverizadores Educação em saúde, comunicação e mobilizaçãosocial As ações de comunicação e mobilização são de responsabilidade das três esferas de gestão do SUS, devem ser utilizados meios de comunicação de massa, por seu grande alcance e eficácia. • transmitir informações atualizadas geradas pelas áreas técnicas; • divulgar sinais e sintomas da complicação das doenças transmitidas pelo Aedes; • transmitir alerta dos profissionais de saúde à população sobre a necessidade de eliminação dos • criadouros e os perigos da automedicacao; • orientar a população a procurar a unidade básica de saúde (UBS), ao surgirem os primeiros sintomas. Análise de dados/indicadores A análise dos dados permite a avaliação da magnitude do problema, orienta e avalia as medidas que vêm sendo adotadas. Por isso, deve ser feita sistematicamente em todos os níveis (federal, estadual e municipal), considerando as diversas fontes de dados, As análises realizadas no período Inter epidêmico são fundamentais para detecção precoce nas mudanças do padrão de ocorrência das arboviroses no respectivo território. E preciso considerar os dados para que essas informações possam subsidiar a análise da situação epidemiológica e orientar o uso dos métodos de controle disponíveis. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 PROBLEMA 6 REFERÊNCIAS: • Clínica Médica da USP. Vol 7. 2 ed. • GUIA PRÁTICO SOBRE A HANSENÍASE – Ministério da Saúde 2017. • Guia de vigilância em saúde. Ministério da Saúde 2019. • Implementação de novo esquema de tratamento de Hanseníase Paubacilar, no âmbito do SUS. 2021. HANSENÍASE CONCEITO É uma doença crônica infectocontagiosa, que infecta os nervos periféricos e, mais especificamente, as células de Schwann. A doença acomete principalmente os nervos superficiais da pele e troncos nervosos periféricos (localizados na face, pescoço, terço médio do braço e abaixo do cotovelo e dos joelhos), mas também pode afetar os olhos e órgãos internos (mucosas, testículos, ossos, baço, fígado, etc.). As manifestações cutâneas são consequências. Se não tratada na forma inicial, a doença quase sempre evolui, torna-se transmissível e pode atingir pessoas de qualquer sexo ou idade. Essa evolução ocorre, em geral, de forma lenta e progressiva, podendo levar a incapacidades físicas e deformidades. O tratamento é eficaz e gratuito na Atenção Básica à Saúde. AGENTE ETIOLÓGICO Mycobacterium lepra, um bacilo álcool-ácido resistente, fracamente gram-positivo, capaz de infectar grande número de indivíduos (alta infectividade), embora poucos adoeçam (baixa patogenicidade). Os bacilos se multiplicam no SNP e podem afetar praticamente todos os órgãos e sistemas que tem macrófagos exceto o SNC. HISTÓRICO DA DOENÇA A doença é bastante conhecida há muitos séculos; teria chegado a Europa com as tropas de Alexandre Magno e às Américas no processo de colonização O bacilo foi associado à doença em 1873 por A.Hansen mas ainda não é cultivado em meios de cultura. No Brasil, os primeiros casos foram notificados no final do século XVII na cidade do Rio de Janeiro. O isolamento compulsório foi instituído em 1923 e só extinto em 1962. Em virtude do alto estigma associado à doença, em 29 de março de 1995, pela Lei Federal n° 9.010, tornou-se obrigatório o uso da terminologia hanseníase em substituição ao termo “lepra”. EPIDEMIOLOGIA Mesmo após 30 anos de tratamento eficaz e gratuito, a doença persiste como uma doença negligenciada quase exclusivamente presente em populações pobres em países em desenvolvimento. Trata-se de doença de notificação compulsória. Em 2013, a Organização Mundial da Saúde (OMS) registrou 215.656 casos novos. O Brasil ocupa o 2° lugar em número absoluto de casos, atrás apenas da Índia. Em 2013, foram detectados 31.044 casos novos no Brasil. As regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste são responsáveis pela maioria dos casos no Brasil. Entre os anos de 2014 a 2018, foram diagnosticados no Brasil 140.578 casos novos de hanseníase. Predominaram no sexo masculino, pardos e baixa escolaridade. TRANSMISSÃO É transmitida por meio de contato próximo e prolongado de uma pessoa com maior probabilidade de adoecer com um doente com hanseníase que não está sendo tratado. Normalmente, a fonte da doença é um parente próximo que não sabe que está doente. • A bactéria é transmitida pelas vias respiratórias (pelo ar), e não pelos objetos utilizados pelo paciente. • Estima-se que a maioria da população possua defesa natural (imunidade) contra o M. leprae. Portanto, a maior parte das pessoas que entrarem em contato com o bacilo não adoecerão. • A susceptibilidade ao M. leprae possui influência genética. Assim, familiares de pessoas com hanseníase possuem maior chance de adoecer. • Profissionais de saúde envolvidos nos cuidados da pessoa com hanseníase não apresentam maior risco de infecção. Período de incubação: Dura em média de 2 a 7 anos. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 Período de transmissibilidade Os doentes com poucos bacilos – paucibacilares (PB) – não são considerados importantes como fonte de transmissão da doença devido à baixa carga bacilar. As pessoas com a forma (MB) multibacilares, no entanto, constituem o grupo contagiante, mantendo-se como fonte de infecção enquanto o tratamento especifico não for iniciado. FISIOPATOLOGIA A inoculação do bacilo ocorre pela mucosa nasal e por soluções de continuidade na pele. O bacilo de Hansen é um parasita celular obrigatório gram +, em forma de bastonete. Possui tropismo pelas células de Schwann que não têm capacidade fagocítica profissional, sendo incapaz de destruir patógenos; assim, ele fica “protegido” dos mecanismos de defesa e ainda pode multiplicar-se continuadamente. Os lipídios do BH é que permitem a ele entrar na célula, uma vez que o trissacarídeo PGL-1 se liga à alfa-destroglicana e laminina alfa-2 da CS. O PGL- 1 é responsável ainda pela resistência à ação destruidora do macrófago. A imunidade humoral é ineficaz contra o BH. A defesa é efetuada pela imunidade celular, capaz de fagocitar e destruir os bacilos, mediada por citocinas INF gama e mediadores da oxidação. Na forma Paucibacilar há predomínio de linfócitos Th1, produzindo IL2 e IFN gama, assim, na hanseníase tuberculoide, a exacerbação da imunidade celular e a produção de citocinas pro- inflamatórias impedem a proliferação bacilar, mas podem se tornar lesivas ao organismos, causando lesões cutâneas e neurais. Na forma multibacilar, há o predomínio de TH2 (humoral), produzindo IL4, IL5 e IL10, assim, na hanseníase Virchowiana, os macrófagos ficam impossibilitados de agir, e a PGL-1 consegue favorecer seu escape à oxidação dos macrófagos e sua disseminação com sintomas críticos e transmissibilidade da doença presentes. A resposta imunológica promove a paralisia periférica, apesar que, a permanência do bacilo nas células de Schwann pode comprometer a função neural antes mesmo da resposta imune celular ser estimulada. O M. lepraeI infecta, em especial macrófagos e células de Schwann e requer temperaturas entre 27 e 30ºC, que é clinicamente notável pelo predomínio de lesões nas áreas mais frias do corpo. Quando o BH entra no organismo, a infecção pode evoluir das seguintes maneiras: • O indivíduo tem resistência natural e abortará a infecção. • A infecção evolui para doença subclínica que regride espontaneamente. • Evolui para hanseníase indeterminada (MHI). A maioria dos doentes (70%) com MHI pode também curar-se espontaneamente. Menor número de doentes (30%) com MHI evolui com manifestações espectrais, para: • Tipo Tuberculóide • Tipo Dimorfo [a resposta depende da carga bacilar e das variações imunológicas do indivíduo]. • Tipo Virchowiano CLASSIFICAÇÕESClassificação de Madri Baseia em critérios clínicos e histopatológicos. A hanseníase foi dividida em dois grupos instáveis, o indeterminado e o dimorfo (ou borderline), e dois tipos estáveis polares, o tuberculoide (T) e o virchowiano (V). Classificação de Ridley e Jopling Baseia-se nas características clínicas, baciloscópicas, imunológicas e histopatológicas. Não é prática para campanhas de profilaxia. • Formas tuberculoide-tuberculoide (TT) e virchowiana-virchowiana (VV). • Formas dimorfas divididas de acordo com proximidade dos polos em dimorfa- tuberculoide (DT), dimorfa-virchowiana (DV) e dimorfa-dimorfa (DD). CLASSIFICAÇÃO MINISTÉRIO DA SAÚDE Baseada somente em critérios clínicos, para simplificar o início do tratamento. Paucibacilar (PB): Presença de até 5 lesões localizadas em uma mesma região anatômica e/ou apenas um tronco nervoso comprometido. Multibacilar (MB): Presença de 6 ou mais lesões de pele e/ou presença de lesões em mais de uma região anatômica e/ou presença de mais de um tronco nervoso acometido e/ou baciloscopia positiva. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS É importante atentar-se a queixas vagas como: pele seca, queda de pelos, áreas com ardor, prurido ou dor (encobrindo alteração de sensibilidade). Obstrução nasal, dificuldade para apreensão de objetos ou manter-se calçado, sinais com queimaduras indolores nas mãos, lesões traumáticas indolores nos pés, nariz alado e lesões nas partes mais frias do corpo O indivíduo susceptível infectado, após período de incubação de 3 a 5 anos, pode permanecer sem a doença, ter cura espontânea ou evoluir para hanseníase indeterminada. Madarose lateral → perda da metade lateral da sobrancelha é grande indicativo de hanseníase. HANSENÍASE INDETERMINADA (paubacilar) • Forma inicial da doença • Máculas hipocrômicas ou eritematosas, mal delimitadas, podendo apresentar discreta diminuição da sensibilidade, redução da sudorese e/ou do crescimento de pelos. • Localizam-se principalmente nas nádegas, coxas, região deltóide, face posterior dos braços e (jamais) nas regiões palmoplantares e no couro cabeludo. Exame anatomopatológico inespecífico e pode apresentar infiltrado inflamatório leve ao redor dos nervos, vasos e anexos cutâneos. • Baciloscopia negativa • Não é transmissível • Não é incapacitante Maioria evolui para cura espontânea, enquanto pequena parcela permanece com a doença crônica e, após cerca de 5 anos, dependendo do padrão de resposta imunológica predominante, pode evoluir para as diferentes formas de espectro de hanseníase. HANSENÍASE TUBERCULOIDE (paubacilar) Apresenta-se sob a forma de poucas pápulas ou placas bem delimitadas, de tamanho e forma variadas, com bordas infiltradas e nítidas, de coloração eritematocastanhada de aspecto sarcóideo e podem apresentar centro hipocrômico Em geral apresentam anestesia, anidrose e alopecia. Pode apresentar nervos locais espessados e durante o exame físico deve procurá-los A resposta imune celular do hospedeiro está preservada, com predomínio da resposta Th1 e expressão de IL-2, 12 e IFN-gama e TNF-alfa. Exame anatomopatológico evidencia granulomas bem definidos, com células epitelioides e células gigantes multinucleadas do tipo Langhans. • Baciloscopia negativa As placas são vermelhas, com pápulas, hipo ou anestesiadas, bordas irregulares, “sente mais do que vê”, têm centro claro. OBS: Hanseníase tuberculoide nodular: ocorre em crianças menores de 5 anos e manifesta-se por lesões cutâneas em áreas de contato, como face, membros e/ou abdome. HANSENÍASE VIRCHOWIANA (multibacilar) Sinais e sintomas podem ser discretos. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 As lesões são difusas e, em geral, simétricas, podendo manifestar-se por meio de lesões pardacentas, de limites imprecisos. A infiltração difusa da pele (parecem inchaços) geralmente apresentam discreta alteração de sensibilidade. Ocorre predomínio de resposta humoral Th2, com produção de IL-4, IL-5 e IL-10. Não tem placa, mas tem fovéola; são encontrados nódulos e infiltrados. Incapacidades revelam que a doença está evoluindo e sendo transmitida há mais de uma década. Com o avanço, a infiltração pode acometer a face – fáceis leonina -, alopecia levando à perda de cílios e sobrancelhas (madarose) e xerose (ressecamento) por anidrose. A invasão das mucosas pode manifestar-se no início por obstrução nasal; o infiltrado dos olhos pode, no início, apresentar prurido e olhos avermelhados e, na evolução da iridociclite, levar à cegueira Espessamento dos lóbulos das orelhas, joelhos, cotovelos ou lesões papulonodulares acastanhadas indicam grande carga bacilar. Trata-se da forma anérgica, na qual o indivíduo apresenta resposta imune celular ineficiente específica para o bacilo. Ocorre predomínio da resposta humoral Th2, com IL-4, 5 e 10. Exame anatomopatológico mostra a epiderme separada do infiltrado inflamatório por uma faixa de fibras colágenas, chamada de faixa de Unna e macrófagos vacuolizados (células de Virchow) • Baciloscopia positiva, revela numerosos bacilos, que podem estar agrupados na forma de globias. HANSENÍASE DIMORFA (multibacilar) Compreende a maior parte dos casos de hanseníase; são grupos instáveis, nos quais os indivíduos podem apresentar lesões diferentes no corpo, ora tuberculoide, ora virchowiano. O padrão de resposta imune celular é intermediário, podendo apresentar mudanças dentro do grupo dimorfo, desencadeadas por variações imunes do indivíduo pela carga bacilar, condições de imunossupressores, estados reacionais, retardo do diagnóstico ou do início do tratamento. Tubérculos dentro e fora, tem “pseudópodes”, bordas descontinuadas, fovéola com bordas internas e externas. HANSENÍASE DIMORFA-TUBERCULOIDE Semelhante à forma tuberculoide, porém as lesões possuem bordas menos nítidas e são mais numerosas, com alterações da sensibilidade e, muitas vezes, no momento do diagnóstico, já apresenta incapacidades, com mais de um tronco neural comprometido. Exame anatomopatológico demonstra infiltrado granulomatoso epitelioide superficial e médio com numerosos linfócitos. • Baciloscopia pode evidenciar raros bacilos. HANSENÍASE DIMORFA-DIMORFA As lesões têm disposição ovalada, com aspecto foveolar (favo de mel), bordas eitematosas de limites externos imprecisos e bordas internas bem delimitadas, podendo apresentar alteração de sensibilidade Exame anatomopatológico evidencia esboços granulomatosos, com esparsas células epitelioides e infiltrados linfo-histiocitários. • Baciloscopia positiva. HANSENÍASE DIMORFA-VIRCHOWIANA Caracteriza-se por múltiplas lesões, de limites imprecisos, podendo manifestar-se como máculas eritematosas, pápulas, placas e nódulos com pouca e discreta alteração da sensibilidade e provavelmente simétrica Exame anatomopatológico evidencia infiltrado linfo-histiocitário superficial e profundo, com predomínio de histiócitos vacuolizados e raríssimas células epitelioides • Baciloscopia discretamente positiva. DISTÚRBIOS NEUROLÓGICOS O exame neurológico faz parte do exame físico do indivíduo com suspeita ou em seguimento de hanseníase. Devem ser palpados os nervos em busca de espessamento e dor à percussão (sinal de Tinel). O envolvimento neural é precoce, acometendo o sistema neurológico periférico, com padrão de mononeurite múltipla. O comprometimento inicial é sensitivo, modificando, em geral, a sensibilidade térmica, seguida da dolorosa e da tátil. A partir dos ramos neurais, há lenta progressão na direção proximal, acometendo os ramos secundários e os troncos neurais periféricos. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 A infiltração específica do M. lepraeou reacional leva à inflamação, que pode culminar em isquemia do tecido neural, com disfunção vasomotora e alterações sensitivas e motoras. São apresentadas pela: • Diminuição da sudorese e queda de pelos, lesões frequentes em mãos e pés, ressecamento, fissura, ulceração e queimaduras i.ndolores na pele. • Retração tendínea, fixação articular e amiotrofia. • Infecção secundária com acometimento de partes moles e tecido ósseo, levando à reabsorção óssea e deformidades. Os nervos sensitivomotores mais acometidos pela infiltração do M. leprae e a respectiva área de inervação são: • Ulnar: garra ulnar (V e porção medial do IV quirodáctilos e região medial da mão). • Mediano: garra mediano ulnar (I, II, III e porção lateral do IV quirodáctilos e região lateral da mão) • Fibular comum: pé caído (região lateral da perna). • Tibial posterior: mal perfurante plantar (sensibilidade plantar). • Trigêmeo: úlcera de córnea (sensibilidade da córnea e da face). • Facial: lagoftalmo (musculatura responsável pela mímica da face). A neurite silenciosa leva à deterioração insidiosa das funções sensitivomotoras sem sinais ou sintomas evidentes de inflamação e deve ser investigada pelo exame com monofilamento de nylon para evitar evolução com danos neurológicos. A hanseníase neural primária caracteriza-se por alteração sensitiva no trajeto de um nervo sem lesões cutâneas associadas. O diagnóstico é difícil, sendo importante a abordagem interdisciplinar, podendo ser necessários exames de imagem, eletroneuromiografia, anatomopatológico do nervo acometido para elucidação diagnóstica e, por vezes, a biópsia de pele na área suspeita pode colaborar com o diagnóstico. LESÕES OTORRINOLARINGOLÓGICAS O agente localiza-se quase sempre na mucosa nasal, menos frequentemente na bucal e laringe. Eritema, infiltração e lepromas desenvolvem-se na mucosa nasal, seguidos de exulceração e em muitos casos, de ulceração e perfuração do septo. Na boca, os lábios, palato (duro e mole), bem como úvula pode ser sede de lesões. Na laringe, a epiglote é a mais comumente atingida, nas fases mais avançadas podem surgir obstruções mecânicas da fenda glótica, como afonia, dispnéia e risco de asfixia, que obrigam a fazer traqueotomia. Essas manifestações não tem mais sido observadas desde que se iniciou o tratamento sulfônico. LESÕES OCULARES Consiste em ceratite infiltrada difusa, ceratite pontuada. A íris e o corpo ciliar também podem ser tomados pela infiltração lepromatosa. Iridociclite e a ceratite podem levar à cegueira. No tipo tuberculóide e indeterminado, observam-se, raramente, manifestações consequentes ao comportamento do nervo facial. ACOMETIMENTO DE OUTROS ÓRGÃOS Linfonodos: cadeias ganglionares podem ser infiltradas, são mais comprometidas as da região cervical, axilar e inguinofemurais. Fígado e baço: pode haver hepatoesplenomegalia Articulações e ossos: artralgia e rigidez matinal podem ocorrer, precedendo, acompanhado ou sucedendo as lesões cutâneas tipo eritema nodoso. A artrite reacional tem início agudo, com acometimento articular inflamatório evidente, podendo ser mono, oligo ou poliarticular. Ossos podem estar infiltrados, principalmente nos casos mutilantes. Testículos: pode levar à infertilidade, impotência sexual e ginecomastia, por conta da orquite e associado à epididimite. Medula óssea: podem ser encontrados bacilos na medula óssea em indivíduos multibacilares. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 EVOLUÇÃO Reação reversa ou tipo 1 Ocorre em aproximadamente 30% dos pacientes com o espectro dimorfo. Caracteriza-se por exacerbação de lesões preexistentes, por meio de hiperestesia, eritema, edema e posterior descamação. Podem evoluir para ulceração e podem aparecer novas lesões A neurite é frequente e podem levar a danos múltiplos graves e podem gerar deformidades e perda de função. Envolve a participação de Linfócitos T, produção de Th1 (IL-2 e IFN-gama) e citocinas pró- inflamatórias (TNF-alfa). Anatomopatológico mostra sinais de inflamação aguda e quando esta é intensa, pode ter necrose caseosa Eritema nodoso hansênico ou Tipo II Ocorre nos tipos dimorfa-virchowiana e virchowiana e mais frequente após 6 meses de tratamento Caracteriza-se por nódulos eritematosos, dolorosos, que podem ulcerar e evoluir para necrose e acometer todo o tegumento, hipocromico, hipo ou anestésicos, corresponde a uma súbita atividade imunológica eficaz local Pode haver também eritema polimorfo, com configuração em alvo ou com síndrome de Sweet A fisiopatologia é a deposição de imunocomplexos com participação de altas concentrações de TNF- alfa, infiltração de neutrófilos e ativação do complemento, possivelmente resultante da exposição a substâncias liberadas pelos bacilos destruídos. Anatomopatológico revela dermo-hipodermite rica em neutrófilos e vasos trombosados secundários à agressão neutrofílica no interstício FENÔMENO DE LÚCIO: Emergência médica caracterizada por máculas dolorosas purpúricas que se iniciam nas extremidades com bordas irregulares e baciloscopia altamente positiva e evoluem para ulcerações e cicatrizes. DIAGNÓSTICO Essencialmente clínico e epidemiológico. Os exames são complementares a fim de classificar a doença, de modo que resultados negativos não afastam o diagnóstico. Teste da sensibilidade A sensibilidade térmica é a manifestação mais precoce do envolvimento neural e deve ser testada na pele lesada comparada na pele sadia. Realiza-se sensibilidade dolorosa. Prova da histamina Coloca-se uma ou várias gotas de uma solução milesimal dessa substância, na área suspeita e na área sadia e perfura-se a pele superficialmente através das mesmas. Vai ser observado, dentro de alguns instantes, um pequeno halo eritematoso em torno da picada, devido à ação da histamina sobre os vasos; em seguida há formação de uma área eritematosa maior que seria o eritema reflexo devido ao estímulo das terminações nervosas e finalmente há formação de uma pápula. No lugar onde existe perturbação da sensibilidade, não haverá formação do eritema maior de origem reflexa. Prova da pilocarpina A prova da pilocarpina se efetua injetando-se intradermicamente uma solução de nitrato ou cloridrato dessa substância a 1 ou 2%. A pilocarpina é aplicada na área suspeita e na pele sadia, observando-se depois de 1 minuto ou 2, a saída de gotículas de suor na área sadia e a ausência ou diminuição do suor ria área suspeita. Podemos sensibilizar essa prova, pincelando a região onde foi injetada a pilocarpina com lugol e pulverizando o local com amido. Identifica-se a sudorese pelo aparecimento de pontos azulados onde emergem as gotículas de suor. Exame anatomopatológico • Realizado a partir de material de biópsia coletada de lesão cutânea ou fragmento de nervo. • É corado pela hematoxilina-eosina (HE). AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 Baciloscopia A baciloscopia positiva é diagnóstico de hanseníase, mas o exame negativo não afasta a hipótese. Consiste na pesquisa de BAAR em esfregaço de linfa coletada de áreas suspeitas. Na ausência de lesões cutâneas pode ser coletada dos lóbulos das orelhas, dos cotovelos ou dos joelhos. Bacilos coram-se de vermelho. É possível avaliar os índices: baciloscópico (quantidade de bacilos por campo, 0 a 6+) e morfológico (avaliação da viabilidade bacilar, que podem estar íntegros ou fragmentados). Reação de Mitsuda Não é diagnóstico Avalia a capacidade do indivíduo em elaborar uma resposta imune aos antígenos do bacilo. É uma intradermorreação tardia à inoculação de solução de bacilos mortos pelo calor. A leitura é feita no 28º dia e é considerada positiva se odiâmetro for maior que 5mm. É negativa na forma virchowiana e positiva na tuberculoide. Na forma dismorfa pode ser positiva se tender à tuberculoide e negativa se tender à virchowiana. Indivíduos não expostos à hanseníase podem apresentar Mitsuda positivo. Eletroneuromiografia Indicada principalmente na investigação da hanseníase neural primária e na monitorização do tratamento. Exames de imagem US, TC e RM auxiliam na avaliação dos nervos periféricos, evidenciando espessamento, edema, abscessos intraneurais, compressões, comprometimento osteoarticular, principalmente na investigação de osteomielite e avaliação das reabsorções ósseas Testes sorológico O exame negativo não afasta a suspeita, pois tem valor diagnóstico limitado pela baixa positividade nas formas paucibacilares. Reação em cadeia de polimerase: pode auxiliar na confirmação de casos iniciais e subclínicos. TRATAMENTO ADULTO Rifampicina: dose mensal de 600mg (2 cápsulas de 300mg) com administração supervisionada. Clofazimina: dose mensal de 300mg (3 cápsulas de 100mg) com administração supervisionada e uma dose diária de 50mg autoadministrada. Dapsona: dose mensal de 100mg (1 comprimido de 100mg) supervisionada e uma dose diária de 100mg autoadministrada. CRIANÇA Rifampicina: dose mensal de 450mg (1 cápsula de 150mg e 1 cápsula de 300mg) com administração supervisionada. Clofazimina: dose mensal de 150mg (3 cápsulas de 50mg) com administração supervisionada e uma dose de 50mg autoadministrada em dias alternados. Dapsona: dose mensal de 50mg (1 comprimido de 50mg) supervisionada e uma dose diária de 50mg autoadministrada. Duração do tratamento Paucibacilar (PB): 6 meses Multibacilar (MB): 12 meses OBS: Anteriormente o tratamento da hanseníase PB era realizado apenas com rifampicina e dapsona por 6 meses e o tratamento da hanseníase MB era realizado com rifampicina, dapsona e clofazimina por 12 meses. Episódios reacionais É importante diferenciá-los dos efeitos adversos de medicamentos, já que os episódios não contraindicam o tratamento. Quando há episódios após 5 anos de tratamento, suspeita-se de reinfecção. • Reação tipo I: prednisona • Reação tipo II: analgésicos e AIES Efeitos adversos Os efeitos adversos mais frequentes estão relacionados à dapsona e geralmente ocorrem nas primeiras 6 semanas de tratamento. Rifampicina: toxicidade hepática, icterícia assintomática, anorexia, náuseas e aumento das enzimas hepáticas em 2 a 3 vezes; rubor, prurido e exantemas; secreções vermelhas; vômitos e diarreia e outros. Dapsona: síndrome de Stevens-Johnson; icterícia; hepatite tóxica; síndrome nefrótica; psicose; AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 neuropatia motora periférica; agranulocitose; anemia hemolítica e outros Clofazimina: fotossensibilidade, xerose cutânea; pele cinza-azulada; vômitos, náuseas, diarreia e dor abdominal PREVENÇÃO DE INCAPACIDADES Pessoas com Hanseníase e seus responsáveis devem ser orientados no cuidado com áreas anestésicas, em especial extremidades, sinais e sintomas em orofaringe e olhos. Conhecer os sinais e sintomas dos episódios reacionais para evitar instalação e/ou agravamento das incapacidades. Abordagem multidisciplinar com profissionais de áreas de terapia ocupacional, fisioterapia, nutrição, psicologia e assistente social. INVESTIGAÇÃO DE CONTACTANTES E PROFILAXIA A investigação consiste no exame dermatoneurológico de todos os contatos intradomiciliares dos últimos 5 anos dos casos novos detectados, independente da classificação operacional. Os contactantes que não apresentarem sinais e sintomas de hanseníase no momento da avaliação devem receber a vacina BCG, de acordo com o MS, ressaltando que a aplicação da vacina não previne o desenvolvimento da doença, mas é utilizada com o propósito de estimular a resposta imune celular: • < 1 ano de idade, já vacinados - não revacinar • > 1 ano de idade, administra outra dose com intervalo mínimo de 6 meses. ACOMPANHAMENTO PSICOSSOCIAL A Hanseníase é uma doença que existe a muitos séculos, representando ainda nos dias atuais um problema de saúde pública devido à grande prevalência da doença. Conhecida antigamente como “Lepra”, se tinha pouco conhecimento sobre ela, seja a sua causa, tratamento ou cura. Os pacientes eram isolados do restante da sociedade e passavam a viver nos antigos leprosários. Essas pessoas além de isoladas conviviam com a rejeição e o preconceito da sociedade, pois essa doença era vista por muitos por um cunho bastante religioso, onde era visto como um castigo divino. Muita coisa mudou, hoje já se sabe a sua causa e o tratamento para se chegar à cura, no entanto ainda existem estigmas e preconceitos que permeiam a doença; muitas vezes causados pela falta de informação, um exemplo disso são as dúvidas quanto a transmissão, algumas pessoas não sabem que o paciente que está em tratamento não mais a transmite, dessa forma se afastam com medo de serem acometidas pela doença. Muitos ao serem diagnosticados sentem vergonha, então não contam para seus familiares nem amigos, enfrentam sozinhos, pelo medo de serem rejeitados ou isolados, tornando assim o processo muito mais doloroso. O importante é o engajamento de todos, seja comunidade, seja profissionais de saúde, todos que puderem multiplicar as informações, formando assim uma rede que cresça cada vez mais, permitindo que ocorram as mudanças necessárias. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 PROBLEMA 7 REFERÊNCIAS: • Clínica Médica da USP. Vol 5. 2 ed. • CURRENT Diagnóstico e tratamento – Reumatologia 2ed. • Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Artrite Reumatoide. Ministério da Saúde. Junho/2020. ARTRITE REUMATÓIDE CONCEITO “Artrite Reumatoide (AR) é uma desordem inflamatória, crônica, autoimune e sistêmica de etiologia desconhecida que primariamente envolve a membrana sinovial das articulações, podendo levar à destruição óssea e cartilaginosa. Esta doença acomete normalmente as pequenas articulações periféricas de forma simétrica, podendo evoluir para a incapacidade física e significativa limitação da qualidade de vida.” • Os sintomas devem ter sido iniciados há mais de 06 semanas. • Apresenta um quadro clínico característico em sua apresentação clássica e patogênese complexa. O caráter sistêmico envolve sinais e sintomas gerais como febre baixa (até 38 °C), mal-estar, emagrecimento, adinamia e comprometimento de outros órgãos ou sistemas. CARACTERÍSTICAS DA ARTRITE REUMATÓIDE (AR) Doença inflamatória (dor, calor, rubor, perda de função articular) Etiologia desconhecida Caráter autoimune – autoanticorpos como fator reumatoide e anti-CCP Predisposição genética Participação hormonal – mais frequente em mulheres, melhora com a gravidez Influência ambiental – fumo e agentes infecciosos Caráter crônico (duração maior que 6 semanas), progressivo e erosivo, associado à incapacidade funcional Poliartrite de grandes e pequenas articulações Acometimento periférico (poupa esqueleto axial) Acometimento articular simétrico e aditivo Caráter sistêmico – manifestações gerais e acometimento de vários órgãos e sistemas FATORES DE RISCO FATORES HORMONAIS: A importância de um componente hormonal é indicada pela maior incidência da doença em mulheres, no período da pré-menopausa ou pós-parto, e melhora dos sintomas durante a gestação. Considera-se como fator protetor o uso de pílulas anticoncepcionais, sugerindo-se que as oscilações hormonais das mulheres têm implicação na doença. FATORES AMBIENTAIS: destacam-se o tabagismo e algumasinfecções, particularmente aquelas causadas por EBV (Epstein-Barr), parvovírus B-19 e três bactérias: M. tuberculosis, Escherichia coli e Proteus mirabilis). Fatores como o estresse e a dieta também podem contribuir para a gravidade da doença. FATORES GENÉTICOS: desempenha papel importante, sendo que parentes de 1ºgrau doentes são importantes para a suspeita diagnóstica; gêmeos idênticos apresentam risco entre 12 a 30% de desenvolvimento da doença. A predisposição genética é importante e pode representar 60% do risco de desenvolver a doença. O locus genético chamado HLA-DRB1 (o qual se liga ao MHC pertencente ao antígeno leucocitário humano [HLA] no locus DRB1) apresentou 60% de predisposição para desenvolvimento da doença. Outros loci genéticos foram identificados como a PTPN22, TNF-alfa-IP3, TRAF1, STAT4, CCR5 e PXK. O fator reumatoide (FR) positivo é fator determinante tanto na agressividade da evolução do quadro quanto da mortalidade (cerca de 6x maior). EPIDEMIOLOGIA A artrite reumatoide é a artropatia inflamatória crônica mais comum, apresenta distribuição mundial afetando todas as raças, embora com graus diferentes de gravidade e frequência. No Brasil, apesar dos poucos estudos realizados, esta prevalência seria em torno de 0,46%. É mais comum em mulheres na proporção de 3:1, na faixa etária de 30 a 50 anos, com pico de incidência na quinta década de vida. Portanto, acomete uma população ainda em fase produtiva, comprometendo a qualidade de vida do paciente e acarretando importantes consequências socioeconômicas. O histórico familiar de AR aumenta o risco de desenvolvimento da doença de 3 a 5x. ETIOLOGIA A etiologia exata ainda é desconhecida, porém, assim como diversas doenças autoimunes, a causa base provavelmente advém de um quadro multifatorial. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 De maneira geral, podemos dizer que existem indivíduos suscetíveis geneticamente à AR, que são expostos a patógenos desconhecidos (antígenos), e que isto gera uma resposta imunológica persistente e desregulada nas articulações sinoviais. A AR é caracterizada como uma resposta imune sistêmica contra antígenos ainda não elucidados. O envolvimento do sistema imunológico, de processos autoimunes, está bem definido, caracterizado pela presença de auto-anticorpos como o fator reumatóide, que é um auto-anticorpo padrão, um anticorpo dirigido contra um outro anticorpo, ou seja, uma imunoglobulina, geralmente IgM dirigida contra a porção constante de uma IgG. A associação de certos alelos como o HLA-DR4, com maior risco de AR e de doença mais grave já foi identificada, sendo explicada por uma sequência de aminoácidos (epítopo compartilhado ou alelo de risco). A cadeia HLA-DR fica na superfície das células apresentadoras de antígeno e permitem aos linfócitos T reconhecerem o antígeno apresentado no DR. Indivíduos com duas cópias do epítopo compartilhado apresentam doença mais grave e com mais manifestações extra articulares, especialmente aqueles com HLA-DR4. O epítopo compartilhado se liga de forma mais intensa às proteínas. O contato com alguns patógenos que desencadeiam infecções que fazem parte fatores de risco pode induzir a formação de complexos imunes, que desencadeiam a produção do fator reumatoide. A microbiota intestinal induz a auto-imunidade, bem como o papel de eventos estressantes no desenvolvimento da doença: o eixo hipotálamo- hipófise-adrenal possui associação com a produção de citocinas, interferindo diretamente na resposta imune. FISIOPATOLOGIA O alvo primário da inflamação na AR é a membrana sinovial, que sofre intensa transformação. A membrana sinovial é constituída de tecido conjuntivo frouxo e, normalmente, uma a duas camadas de células. Na AR, a membrana sinovial torna-se mais espessa devido ao aumento no número de suas células que são os sinoviócitos do tipo A e B, e por uma invasão de diversas células do sistema linfo-hematopoiético. • Células do tipo A: semelhantes a macrófagos. • Células do tipo B: semelhantes a fibroblastos, responsáveis pela síntese do líquido sinovial. Nas camadas mais profundas da membrana sinovial da AR, observa-se um acúmulo de vasos recém- formados (ação de citocinas angiogênicas) e, com frequência, aglomerados linfoides parecidos com folículos de um linfonodo. Na região da membrana sinovial que faz contato com a cartilagem articular e com o osso, observa-se o Pannus: um tecido granulomatoso com células gigantes, fibroblastos e macrófagos, capaz de invadir e induzir degradação, perda de condrócitos e erosões ósseas, pela secreção de enzimas proteolíticas ou pela ação direta sobre condrócitos e osteoclastos. Os folículos linfoides são ricos em células T CD4+. Macrófagos são encontrados tanto nos folículos como ao seu redor. As células T CD8+, são mais frequentes entre os neovasos. Linfócitos B são mais raros nessas camadas mais profundas A maiorias dessas células estão ativadas e apresentam MHC II, receptores para TNF-alfa e produzem citocinas pró-inflamatórias. O líquido sinovial apresenta-se com aumento de volume e celularidade. Recrutamento celular A grande quantidade de células que invade a membrana sinovial na AR é originária do sistema linfo-hematopoiético, o que implica a existência de um processo aumentado de recrutamento celular e de retenção local dessas células. Além disso, há o aumento da expressão de moléculas de adesão. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 Resposta imune local Há dois tipos de linfócitos envolvidos na patogênese: o linfócito T e o linfócito B. As células T podem ser CD8+ (citotóxicas) ou CD4+(helper). Na membrana sinovial, os linfócitos TCD4+, regulam a resposta imune, a maioria é do subtipo Th1 (dependentes de IL-12 e IFN-gama). Causarão uma resposta mediada por células, e não por anticorpos. Entretanto, no microambiente articular, as principais citocinas – IL-1 e TNF-alfa envolvidas no processo de destruição/lesão da articulação e perpetuação da inflamação não são produzidas pelos linfócitos, mas por macrófagos ativados. Os linfócitos B são responsáveis pela produção do fator reumatóide. Papel das citocinas O TNF-alfa e a IL-1 são considerados, hoje, elementos- chave na patogênese da AR. Ambos estão presentes na sinóvia e no líquido sinovial. Induzem um fenótipo pró-inflamatório nas outras células da membrana sinovial, estimulam a ativação dos linfócitos B e T, quimiotaxia, angiogênese. QUADRO CLÍNICO É precedido de manifestações gerais como fadiga, mialgia e febre. O quadro clínico da artrite reumatóide é clássico e caracterizado principalmente por artrite simétrica das articulações periféricas. Com frequência há sinais flogísticos nas articulações – dor, edema, rubor e alteração da temperatura. OBS: osteoartrite, não cursa com rigidez matinal prolongada. MANIFESTAÇÕES ARTICULARES Há o surgimento de dor e edema nas articulações, principalmente as pequenas articulações das mãos e pés. Em geral, o acometimento é simétrico, com enrijecimento articular sobretudo na manhã e melhora com a movimentação. Existe relação direta entre a duração do enrijecimento matinal e a intensidade do processo inflamatório. As articulações dos membros superiores mais acometidas são as articulações dos punhos, metacarpofalângicas e interfalângicas proximais. Quando é observado o conjunto de: punho alargado, atrofia de músculos interósseos das mãos e aumento de volume das metacarpofalângicas e/ou interfalângicas proximais, dá-se o nome de mão reumatoide. Evoluções típicas podem ocorrer como o desvio ulnar dos dedos – chamado “pescoço de cisne”. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 A evolução do quadro pode causara compressão de nervos, desenvolvendo a Síndrome do Túnel do Carpo por exemplo. Assim como também pode ocorrer a compressão do nervo ulnar e do nervo tibial anterior. Mesmo nas fases iniciais pode ocorrer acometimento dos membros inferiores, sendo observado quadro de artrite nos tornozelos, metatarsofalângicas e interfalângicas dos artelhos e cursar com deformidades que incluem o desalinhamento dos joelhos e a interposição de interfalângicas e dedos em martelo. Porém, esses sintomas não são patognomônicos. Especificamente do joelho pode ocorrer um derramamento de líquido sinovial para cistos formados na porção posterior à fossa poplítea (cisto de Backer), sendo que o rompimento desses cistos pode eventualmente causar uma trombose venosa. O acometimento da coluna lombar e sacroilíaca é muito raro. A articulação temporomandibular (ATM) é comprometida em mais de 50% dos pacientes, o que torna a mastigação difícil e com dor referida no ouvido médio ou garganta. Artrite esternoclavicular ocorre em até 30% dos pacientes. MANIFESTAÇÕES EXTRA ARTICULARES Alguns sintomas inespecíficos, como fadiga, perda ponderal e febre baixa. PELE • Nódulos subcutâneos, quase exclusivamente naqueles com FR positivo. Apresentam consistência firme à palpação e são geralmente indolores. • Acredita-se que se devam a vasculite de pequenos vasos. A vasculite de pequenos vasos pode ocorrer como infartos digitais ou vasculite leucocitoclástica, requerendo tratamento mais agressivo. CORAÇÃO: • Apesar de ser pouco comum, pacientes com AR possuem risco cardiovascular aumentado – o que se acredita ser devido a inflamação crônica. • Derrames pericárdicos são comuns, mas costumam ser assintomáticos. • Pode ainda ocorrer pericardite, doença valvar e nódulos nos anéis valvares. PULMÃO • Derrames pleurais, nódulos reumatoides e doença parenquimatosa pulmonar. • O líquido pleural na AR é caracterizado por baixos níveis de glicose e de pH. • Os nódulos em geral são sólidos, mas podem se calcificar, gerando infecções ou cavitações. • Fibrose intesticial difusa acontece na AR e, raramente, bronquiolite obliterante. OLHOS: • Manifestação mais comum é a ceratoconjutivite seca (olho seco), devido a síndrome de Sjögren secundária. • Esclerite pode ocorrer e ser dolorosa. Episclerite, escleromalacia perforans e • ceratopatia ulcerativa periférica são outras manifestações oftalmológicas da AR. NEUROLÓGICO: • síndromes compressivas dos nervos periféricos, como a síndrome do túnel do carpo ou do tarso são comuns. Vasculites podem causar neuropatia em bota ou em luva, ou mononeurite lúpica. Subluxação de C1-C2 pode causar mielopatia. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 HISTÓRIA CLÍNICA A evolução varia, cerca de 25% evoluem de forma lenta e benigna; 50 a 65% apresentam quadros e melhora e piora, mas sempre progressivos; 15 a 25% apresentam a forma agressiva com rápida deformação e perda funciona. 15 a 25% precisarão de artroplastia dentro de 5 anos; após 10 anos mais de 50% dos pacientes apresentam significativa incapacidade e após 15 anos, apenas 40% estão aptos para o trabalho. A identificação de fatores de risco determinantes de pior prognóstico é útil para o planejamento terapêutico. São considerados fatores de pior prognóstico: Apresentação inicial da doença: pacientes com apresentação poliarticular aguda acompanhada de altos níveis de PCR tendem a ter melhor prognóstico. O diagnóstico de AR é mais fácil e o tratamento, instituído mais rapidamente. Fator reumatoide: é o mais consistente preditor de mau prognóstico. A positividade do fator reumatoide tem sido associada tanto ao aparecimento de erosões ósseas no primeiro ano de doença quanto a uma piora funcional maior, comparando-se aos pacientes com fator reumatoide negativo. O fator reumatoide negativo também foi indicativo de uma taxa maior de remissão em 3 anos nos pacientes com artrite inicial, com menos de um ano de evolução. Na artrite reumatoide estabelecida, os achados são igualmente consistentes, o fator reumatoide positivo está associado à maior progressão radiológica no primeiro ano da doença, assim como depois de 6 anos. A mortalidade nos pacientes soropositivos também é maior (cerca de seis vezes mais que nos negativos), e as manifestações extra-articulares são mais comuns. Proteína C-reativa: a PCR é a melhor prova de fase aguda para indicar inflamação na AR. Valores persistentemente altos estão associados com uma taxa maior de progressão radiológica, desenvolvimento de osteoporose e piora funcional. Epítopos compartilhados: estudos sugerem correlação entre a presença dos epítopos e a progressão radiológica e a persistência de sintomas. DIAGNÓSTICO Cada vez mais preconiza-se o diagnóstico precoce da artrite reumatoide, uma vez que o tratamento precoce com as drogas modificadoras da doença conferem menores chances de progressão clínica e radiológica. A artrite reumatoide é suspeitada a partir de um quadro clínico muito característico aliado a um exame físico minucioso, com exames laboratoriais sendo utilizados para fechar o diagnóstico e prever prognóstico. Existem 2 sistemas de classificação da AR: Na primeira, os cinco primeiros critérios são clínicos, sendo os dois últimos laboratoriais ou radiológicos, e os quatro primeiros critérios precisam estar presentes por pelo menos 6 semanas para que seja diagnosticada a AR – já que várias síndromes virais podem cursar com poliartrite. • Rigidez matinal prolongada (>1h); • Edema de 3 ou mais articulações; • Edema das articulações das mãos (MCFs, IFPs ou punho); • Edema simétrico; • Nódulos subcutâneos; • Fator reumatoide positivo; • Erosões e/ou osteopenia periarticular em articulações da mão ou punho na radiografia. Em 2010, o American College of Rheumatology (ACR) e a European League Against Rheumatism (EULAR) lançaram em conjunto uma série de critérios utilizados para o diagnóstico da AR. Esse critério não requer 6 semanas de duração e dão grande ênfase à presença de anticorpos FR ou ACPA. A presença de ACPA, mesmo que nas primeiras semanas, é altamente sugestiva de AR em curso. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 Exames laboratoriais 1. Fator reumatoide (FR) • Trata-se de um autoanticorpo presente em 70-80% dos pacientes com AR • A sensibilidade é de 74 a 80%. • Pode estar presente de forma transitória e em baixas quantidades em pacientes normais, principalmente em idosos e mulheres • Pode estar presente em diversas doenças reumáticas, pulmonares, infecciosas e até neoplasias 2. Anticorpo antipeptídeos (anti-CCP) • Grupo de autoanticorpos que reconhecem antígenos peptídios – proteínas ricas em citrulina • Teste com menor sensíbilidade mas altamente específico (90 a 98%) • Quando há resultados positivos para o FR e para o anti-CCP, a especificidade pode chegar à 99,5% • A presença do anti-CCP está relacionada a pior prognóstico Ainda, a maioria dos pacientes têm anemia de doença crônica, cujo grau é proporcional à atividade da doença. Reagentes de fase aguda (PCR e VHS) acompanham a atividade da doença, e sua elevação persistente indica pior prognóstico – em dano articular e em mortalidade. Se o paciente tiver síndrome de Felty, a contagem de leucócitos estará diminuída. O líquido sinovial, quando analisado, apresenta contagem de leucócitos entre 5.000 a 100.000/mm³, predominando os polimorfonucleares. Exames de imagem 1. Radiografia • Observado aumento das partes moles periarticulares, osteopenia periarticular, redução dos espaços articulares, erosões marginais, subluxações e anquilose óssea, tudo com distribuição simétrica. • O exame é importanteprincipalmente para acompanhamento da evolução da doença • Quando há o diagnóstico, é comum que seja solicitada uma radiografia num momento inicial e outra em 6 meses para acompanhamento da evolução e para que seja avaliada uma possível necessidade de um tratamento mais agressivo – ou não. Depois desse 2º exame, é preconizado que sejam repetidos a cada 1 ano; caso haja remissão, a frequência pode ser menor 2. Ultrassonografia e ressonância magnética Mais comumente utilizadas na tentativa de identificar possíveis erosões e sinovites precocemente, pois ambas são mais sensíveis que o RX A USG e RNM identificam precocemente erosões e sinovites. A RNM tem alta sensibilidade e boa capacidade de analisar valor prognóstico das lesões (edema ósseo prediz evolução para erosão), enquanto a USG se destaca pelo valor e praticidade. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 TRATAMENTO O tratamento da AR visa o controle da dor, a redução da inflamação, a proteção e a preservação de estruturas articulares, evitando deformidades e controle de envolvimento sistêmico. Não há cura e o tratamento envolve vários efeitos colaterais. 1. AINES • Durante a fase ativa da doença, os pacientes podem necessitar dos AINES durante algumas semanas e deve ser interrompido com o controle da doença • O uso pode ser contraindicado em pacientes com histórico de úlceras, uso de anticoagulantes, HAS e insuficiência renal 2. AIES • Devem ser utilizados em pequenas doses para controle da dor e do processo inflamatório enquanto ainda não estiver utilizando as drogas modificadoras do curso da doença • O uso prolongado como monoterapia deve ser evitado apesar de ter certo papel preventivo contra os danos articulares; além disso, o uso prolongado deve ser complementado com emprego de drogas que previnem a osteoporose 3. Agentes modificadores do curso da doença • É o tratamento de base, os quais são capazes de alterar a evolução da doença e reduzir o dano articular • O uso deve ser iniciado o mais rapidamente possível, ainda nas fases iniciais para melhor desfecho e para que a doença não chegue a causar deformidades, pois estas podem se iniciar mesmo nos primeiros 2 anos da doença. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 PROBLEMA 8 REFERÊNCIAS: • Clínica Médica da USP. Vol 5. 2 ed. • Diretrizes Brasileiras para o Diagnóstico, Tratamento e Prevenção da Febre Reumática – SBC • Diretrizes Brasileiras para o Diagnóstico, Tratamento e Prevenção da Febre Reumática • Reumatologia Diagnóstico e Tratamento – Marco Antonio P. Carvalho FEBRE REUMÁTICA CONCEITO É uma doença autoimune pós-infecciosa, uma complicação inflamatória tardia e não supurativa da faringoamidalite, uma infecção da orofaringe pela bactéria estreptococo beta- hemolítico do grupo A (EBHGA) (Streptococus pyogenes) de Lancefield e de Griffith em indivíduos susceptíveis. FARINGOAMIGDALITE: mal-estar geral, vômitos, febre elevada, hiperemia, edema de orofaringe, petéquias e exsudato purulento, além de gânglios cervicais palpáveis e dolorosos. OBS: na infecção viral geralmente há presença de coriza, tosse, rouquidão e conjuntivite. É uma patologia caracterizada por fenômenos autoimunes sistêmicos, que envolvem mais frequentemente as articulações e o coração, além do sistema nervoso central, a pele e os tecidos subcutâneos. O acometimento cardíaco pode sofrer um processo de cronificação, lesionando de forma permanente estruturas cardíacas, como suas válvulas. As demais sequelas são de caráter transitório. A Febre Reumática Aguda (FRA): febre, artrite, cardite, coreia, eritema marginado e nódulos subcutâneos. A forma crônica é representada pela cardiopatia reumática crônica e é a principal causa de morte nessa doença. EPIDEMIOLOGIA É uma doença rara, que está muito associada à pobreza e às más condições de vida. Assim, apesar da redução da incidência (melhoras do saneamento e ao tratamento especifico) da FR nas últimas décadas nos países desenvolvidos, a FR permanece como um grande problema de saúde pública, sendo a principal causa de cardiopatia adquirida em crianças e adultos jovens nos países em desenvolvimento. • A maior incidência é entre 5 e 18 anos em ambos sexos e qualquer etnia. • No caso da coreia reumática, é mais frequente em meninas após a puberdade. • Os casos de FR tendem a aparecer 1 a 3 semanas após surtos de faringite estreptocócica. A FR tem incidência de 2,5 a 4% desses pacientes. • A incidência mundial é de 19 casos a cada 100.000 habitantes, mas depende da condição socioeconômica do local; • Estima-se que anualmente no Brasil ocorram cerca de 10 milhões de faringoamigdalites estreptocócicas, totalizando 30.000 novos casos de FR, dos quais cerca de 15.000 poderiam evoluir com acometimento cardíaco. • 40% dos pacientes terão algum tipo de sequela cardíaca, que, com frequência leva à necessidade de cirurgia. FATORES DE RISCO Fatores genéticos Há uma associação da doença com os antígenos de classe II e que cada população tem seu próprio marcador (HLADR) para suscetibilidade à FR, sendo que o alelo encontrado com mais frequência, independentemente da origem étnica, é o HLA- DR7. Fatores ambientais e socioeconômicos A FR é mais comum em ambientes em que há más condições de higiene, moradia, assistência médica precária, baixa renda familiar, aglomeração e desnutrição sugerindo que baixas condições socioeconômicas parecem influenciar a ocorrência da doença, o que poderia justificar a sua maior prevalência e incidência em países subdesenvolvidos. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 ETIOLOGIA O EBHGA é um coco Gram-positivo de estrutura complexa constituído de cápsula, parede celular, membrana citoplasmática, citoplasma e núcleo. É o agente causador de faringoamigdalite, embora ele possa ser encontrado como colonizador do trato respiratório superior sem manifestar doença. A bactéria apresenta uma estrutura bem definida associada à sua virulência e à sua capacidade de desenvolver o mimetismo molecular. CÁPSULA: confere um mecanismo protetor contra a fagocitose, podendo favorecer sua virulência, confere uma aparência mucoide às colônias na placa de cultura. Junto a ela, podem ou não ser encontradas fímbrias, flagelos imóveis que se relacionam com a virulência, determinada por duas substâncias: o ácido lipoteicoico e a proteína M. Abaixo da cápsula há uma parede celular rígida formada por 3 camadas: EXTERNA: Contém a proteína M, que é uma proteína fibrilar e tem estrutura homologa à das proteínas humanas (miosina cardíaca, tropomiosina, queratina, laminina, vimentina). É anti fagocitária e é o principal antígeno implicado na patogênese da FR, sendo capaz de provocar uma reação imunológica exagerada. As toxinas produzidas pela proteína M ativam uma grande quantidade de células T, resultando em uma produção de citocinas pró-inflamatórias. Pode ser classificada em tipo A ao E. Os estreptococos com proteína M de padrões A, B e C estão normalmente associados a infecções de orofaringe. MÉDIA: Permite classificação do estreptococo em grupos sorológicos de A a O. O carboidrato reage com o miocárdio e as valvas. INTERNA: Tem função estrutural, é composta por um peptideoglicano, que confere rigidez e dá forma ao microrganismo. A penicilina exerce sua ação letal contra o estreptococo, bloqueando metabolicamente a síntese desse peptideoglicano. Depois seguem-se a membrana citoplasmática e o citoplasma, que contêm antígenos implicados na patogênese da coreia e da cardite. FISIOPATOLOGIAO desenvolvimento da FR está associado à faringoamigdalite pelo EBGA, no entanto, sua patogênese é desconhecida, mas sabe-se que fatores específicos do microrganismo e fatores ambientais desencadeiam uma resposta imune exacerbada em indivíduos geneticamente suscetíveis. A doença é mediada por resposta autoimune celular e o humoral, e o comportamento evolutivo baseia-se em mecanismos de hipersensibilidade. Com infecção da orofaringe, o sistema imune começa a recrutar células e produz anticorpos específicos contra o estreptococo; porém passam a reconhecer também as células do hospedeiro, que se tornam alvos dos anticorpos produzidos contra o antígeno infeccioso. Isso inicia o processo de autoimunidade, que leva a reação cruzada devido ao mimetismo celular. Ambas as respostas imunes mediadas por linfócitos B e T estão envolvidos no processo inflamatório da FR, além disso, também há produção de citocinas inflamatórias que exacerbam a reação autoimune, sendo responsáveis pela progressão e manutenção da lesão valvar crônica. EBHGA > infecção faringe > imunidade inata > imunidade adaptativa > aumenta produção de citocinas próinflamatórias e anticorpos. Anticorpos: Articulações: o ácido hialurônico da cápsula da bactéria tem reação cruzada com a sinóvia e a cartilagem articular, com isso, há deposição e fagocitose de imunocomplexos na membrana sinovial, causando a artrite migratória. Alguns se ligam aos núcleos da base (caudado e subtalamico), aumentando produção de dopamina, levando à coreia. Células T infiltram nos tecidos cardíacos e provoca resposta contra estruturas cardíacas, principalmente as que derivam de miosina (tropomiosina e laminina), levando ao recrutamento de macrófagos e monócitos pelas moléculas de adesão. Esse recrutamento aumenta a produção de citocinas pró e anti inflamatórias, e pode ser influenciado pelos AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 fatores genéticos do hospedeiro e determinar local e grau da reação inflamatória. *Pacientes com cardite há nº aumentando de linfócitos T CD4+ devido aumento de IL-1 e TNF- alfa. *Tecido cardíaco: predomínio de células mononucleares produtoras de TNF-alfa e IFN-y (Th1) enquanto raras células mononucleares infiltrantes das valvas produzem IL-4 -> a baixa produção de IL4 está associada à progressão das lesões valvares na CRC, enquanto que no miocárdio, onde há grande nº de células produtoras de IL4, a miocardite é curada após algumas semanas. Nas articulações, há predomínio da resposta da imunidade humoral (Th2), enquanto as lesões cardíacas graves e persistentes parecem ser Th1. MIMETISMO MOLECULAR: semelhança química e estrutural entre alguns componentes patogênicos e do tecido acometimento, no caso da FR- cardíaco. RESUMINDO: 1.Uma infecção da faringe pelo estreptococo hemolítico do grupo A com epítopos similares a estruturas humanas (mimetismo molecular) estimula a imunidade inata que, por sua vez, estimula a imunidade adaptativa. 2. Há produção de grandes quantidades de citocinas pró-inflamatórias e anticorpos, alguns deles com capacidade de reagir de forma cruzada com epítopos da bactéria. 3. As citocinas agem ativando e expandindo múltiplos clones de linfócitos. 4. Nas articulações os anticorpos precipitam-se em forma de imunocomplexos e provocam uma artrite induzida por complemento. 5. Alguns anticorpos reconhecem os neurônios dos núcleos da base estimulando a secreção de dopamina, responsável pela coreia. 6. Anticorpos contra estruturas cardíacas, especialmente as que derivam da miosina, tropomiosina e laminina promovem o recrutamento de macrófagos e monócitos pelas moléculas de adesão. 7. Estas células mononucleares produzem ampla variedade de citocinas que agem localmente, exercendo efeito pró-inflamatório e anti- inflamatório. 8. O equilíbrio entre estas citocinas poderá ser influenciado pelos fatores genéticos do hospedeiro e determinar o local e o grau da reação inflamatória gerada. QUADRO CLÍNICO O surto completo da FR tem duração de 6 a 12 semanas. Em geral, 1 a 3 semanas após a infecção estreptocócica da orofaringe surgem os sinais e os sintomas da doença, que pode ser assintomática em até 40% dos casos. Febre, inapetência e adinamia podem ocorrer desde o início. História clínica A história clínica mais clássica é de uma criança que apresenta angina estreptocócica com disfagia, febre, hipertrofia ganglionar ou, eventualmente, um quadro simulando uma virose de vias aéreas superiores. Há período de latência assintomático de 1 a 3 semanas, quando se positivam os anticorpos antiestreptócicos. Em seguida, há o período de atividade clínica da FRA, em que manifestações clínicas ocorrem com sintomas gerais aliados aos da própria doença. As manifestações variam de acordo com a idade. • Crianças pequenas apresentam febre e cardite com maior frequência; enquanto a artrite é mais comum em adolescentes e adultos. O paciente tratado pode evoluir sem sequelas cardíacas ou com cardiopatia valvar crônica. Em geral o episódio agudo é autolimitado, com duração de 1 a 6 meses; no entanto, há uma tendência para a reagudização da doença nos primeiros 2 a 5 anos após o surto inicial. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 O exame clínico depende da fase da doença, da evolução e da região mais afetada. Os sinais e sintomas mais observados são: ARTRITE É a manifestação mais frequente (75% dos pacientes), porém a mais inespecífica da FR e, portanto, pode gerar grande dificuldade diagnóstica caso se apresente de maneira isolada. Se manifesta sob a forma de uma poliartrite migratória de grandes articulações, ou seja, quando os sintomas melhoram em uma articulação, aparecem em outra. Caracterizada pelo processo inflamatório das articulações, sendo acompanhado por inchaço, calor, eritema, limitação significativo dos movimentos e macicez à pressão. A inflamação costuma durar 1 semana (curta e autolimitada) e o quadro total cessa em menos de 1 mês, evoluindo para a cura, sem sequelas. As articulações maiores das extremidades são geralmente comprometidas - com mais frequência os joelhos tornozelos, mas também os punhos e cotovelos. CARDITE A cardite é a manifestação mais grave da FR, pois é a única que pode deixar sequelas e acarretar óbito. Ocorre em até metade dos pacientes que tem o primeiro surto. O acometimento cardíaco é caracterizado pela pancardite (acomete os 3 tecidos), entretanto são as lesões valvares as responsáveis pelo quadro clínico e pelo prognóstico. Pericardite: ocorre em 5 a 10% dos casos e manifesta-se com dor torácica, hipofonese de bulhas, derrame e/ou atrito pericárdico. Miocardite: ocorre em 10% casos, com sinais de insuficiência cardíaca como tosse, dispnéia, ortopnéia, taquicardia, hipofonese de bulhas, ritmo de galope, arritmias, hepatomegalia, edema agudo de pulmão e cardiomegalia (50%) podem estar presentes. A valvulite/ endocardite é a forma mais frequente de envolvimento cardíaco reumático. Na fase aguda, a lesão mais frequente é a regurgitação mitral seguida pela regurgitação aórtica. Já na fase crônica, as estenoses valvares são mais comuns. As outras válvulas mais atingidas pela doença são a aórtica > tricúspide > pulmonar. Quando é assintomática, seu diagnóstico pode ser feito por meio do ECG, onde encontra-se o sopro característico que é o da insuficiência mitral (sopro de CareyCoombs). O surto de cardite reumática dura de 1 a 6 meses, com média de 3 meses, e o desaparecimeto do sopro pode ser notado em metade dos casos; portanto, as lesões valvares podem evoluir para a cura, manter- se ou se calcificam progressivamente. COREIA DE SYDENHAM Afeta 10 a 20% dos pacientes, principalmente crianças do sexo feminino,sendo raro após os 20 anos de idade. É uma manifestação maior e em geral tardia, que surge semanas ou meses após a fase aguda da FR, quando os sinais clínicos e laboratoriais da doença ativa já não estão presentes. É caracterizada por surtos de movimentos involuntários e não coordenados associados a fraqueza muscular, impersistência motora e distúrbios da marcha, da fala e da escrita, além de alterações psíquicas. Esses movimentos são mais evidentes nas extremidades e na face e desaparecem durante o repouso; podem ser unilaterais (hemicoréia) e acompanhar-se de instabilidade emocional, irritabilidade, choro fácil, distúrbios de comportamento e dificuldade de concentração. O surto da coreia dura, em média, de dois a três meses, mas pode prolongar-se por mais de um ano. ALTERAÇÕES CUTÂNEAS Nódulos subcutâneos: são raros, e estão associados à presença de cardite grave. São múltiplos, arredondados, de tamanhos variados, firmes, móveis, indolores e recobertos por pele normal, sem características inflamatórias. Localizados nas superfícies das articulações ou sobre proeminências ósseas: cotovelos, punhos, joelhos, tornozelos, região occipital, tendão de Aquiles e coluna vertebral. O aparecimento é tardio, regride rapidamente com o início do tratamento da cardite e raramente persiste por mais de um mês. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 Eritema marginado: manifesta por eritemas com bordas nítidas, com centro claros, contornos arredondados ou irregulares e de difícil diagnóstico em pessoas com tons de pele mais escuros. Ele pode estar associado a cardite, mas não necessariamente a sua forma grave. Essas lesões de pele têm caráter múltiplo, indolor, não pruriginosa, podendo se juntar com as adjacentes, formando manchas com formatos serpiginoso. São localizadas nas regiões do tronco, abdome, face interna dos membros superiores e inferiores, com exceção da face. DIAGNÓSTICO O diagnóstico é clinico, não existe nenhum teste ou exame específico para FR e o seu diagnóstico se baseia nos “critérios de Jones”. Os critérios de Jones são considerados o “padrão- ouro” para o diagnóstico do 1º surto de FR: O paciente deve apresentar 2 sinais clínicos maiores ou 1 sinal maior e 2 menores, acompanhado da evidencia de infecção estrepcócica anterior (ASLO). Exames laboratoriais Hemograma: pode ter leucocitose com neutrofilia e anemia de leve a moderada. Proteínas de fase aguda (PFA): não são especificas, mas a VHS, alfa-1-glicoproteina ácida e PCR estão sempre elevadas na fase aguda e tendem a voltar ao normal no final da 2ª e 3ª semana com o uso de anti-inflamatórios. Detecção da infecção estreptocócica: cultura de orofaringe para EBHGA deve ser obtida em todos os pacientes com suspeita de FR, que tem sensibilidade entre 90 e 95%. Pode também ser solicitado o teste de detecção rápida do antígeno do estreptococo. Caso negativo, realizar a cultura. O ASLO (antiestreptolisina) é o exame sorológico específico de anticorpos antiestreptocócicos e se eleva em 80% dos pacientes; se o ASLO der normal, após 2 a 3 semanas, a titulação pode estar aumentada. É importante ressaltar que valores normais variam conforme a idade e a população analisada. RX de tórax: evidencia aumento da área cardíaca devido miocardite ou derrame pericárdico moderado a grave. Eletrocardiograma: os achados são inespecíficos, geralmente transitórios e evidenciam alterações. Por exemplo, o intervalo PR aumentado é considerado AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 um critério menor, no entanto, pode ser encontrado em pacientes com FR com ou sem cardite e ser observado ainda em crianças normais. ECG normal não exclui o envolvimento cardíaco, e o diagnóstico de cardite não deve ser baseado apenas em anormalidade encontradas no ECG. Ecocardiograma Doppler: detecta a valvulopatia, disfunção miocárdica e pericardite, além de avaliar o desempenho cardíaco. Devido à grande sensibilidade do exame, a lesão valvar pode ser detectada em pacientes sem manifestação clínica de cardite. TRATAMENTO E PROFILAXIA O objetivo do tratamento da FR aguda é suprimir o processo inflamatório, minimizando as repercussões clínicas sobre o coração, articulações e SNC, além de erradicar o EBGA da orofaringe e promover o alívio dos principais sintomas. Consiste em 3 etapas: profilaxia primária, tratamento sintomático das manifestações clinicas e profilaxia secundária. Além disso, pacientes com valvupatia e que passarão por procedimentos odontológicos ou cirúrgicos devem fazer profilaxia para endocardite bacteriana com amoxilina, já que o agente causal é o Streptococcus viridans em 75% dos casos. TRATAMENTO DA FR AGUDA Hospitalização: para os casos de cardite moderada ou grave, artrite incapacitante e coréia grave. Repouso: os pacientes com FR aguda deverão ficar em repouso relativo (domiciliar ou hospitalar) por um período inicial de duas semanas. Nos casos de cardite moderada ou grave, deve-se recomendar repouso relativo no leito por um período de 4 semanas. O retorno às atividades habituais deverá ser gradual, dependendo da melhora dos sintomas e da normalização ou redução acentuada das provas de atividade inflamatória (VHS e PCR). Controle da temperatura: recomenda-se utilizar o paracetamol (1ª opção) ou dipirona (2ª opção). Não é recomendável o uso de AINES, inclusive o AAS, até que se confirme o diagnóstico de FR. Erradicação do estreptococo: O tratamento da faringoamigdalite e a erradicação do estreptococo devem ser feitos na suspeita clínica da FR, independentemente do resultado da cultura de orofaringe. Nos casos de 1º surto, o tratamento instituído corresponde ao início da profilaxia secundária Tratamento sintomático: é instituído no intuito de suprimir o processo inflamatório das distintas manifestações clínicas da FR. Artrite: o uso de AINEs apresenta bons resultados, levando ao desaparecimento dos sinais e sintomas entre 24-48 horas. O AAS e naproxeno são os mais indicados. Cardite: uso de prednisona (corticoide) 1-2 mg/kg/d durante 4 semanas seguida de redução lenta e gradual de cerca de 20% da dose por semana durante as 8 a 12 semanas seguintes. O repouso é fundamental, devendo ser individualizado, conforme a gravidade do caso. Na presença de insuficiência cardíaca, diuréticos podem ser necessários. Coreia: Na coreia leve e moderada, estão indicados repouso e a permanência do paciente em ambiente calmo, evitando-se estímulos externos. O tratamento só e indicado em casos graves, quando os movimentos incoordenados estiverem interferindo na atividade habitual do indivíduo. Os fármacos mais utilizados são: haloperidol, ácido valproico, carbamazepina. PROFILAXIA PRIMÁRIA Tem como objetivo erradicar o EBHGA da orofaringe, prevenir o 1º surto de FR e impedir a propagação de cepas na comunidade. É feito com penicilina via intramuscular ou via oral. A eficácia dessa intervenção é obtida se iniciar o uso do antibiótico até 9 dias após o início do quadro infeccioso. 1ª escolha: penicilina G benzatina por via intramuscular dose única. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 2ª escolha: penicilina V por via oral na dose de 25- 50.000 U/kg/dia de 8/8 ou 12/12 horas durante 10 dias. Em casos de alergia a penicilina: eritromicina é a droga de 1ª escolha. PROFILAXIA SECUNDÁRIA Visa prevenir recorrência das infecções estreptocócicas, que são mais frequentes nos primeiros 2 a 5 anos após o surto inicial da doença em crianças de 7 a 14 anos e nos pacientes com cardite reumática prévia. A profilaxia secundária regular previne recorrências da doença e reduz a severidade da cardiopatia, de modo a prevenir mortes decorrentes de valvopatias severas. Ela deve ser instituída após o diagnóstico.1ª escolha: penicilina G benzatina, 600.00 UI 21/21 dias. Pacientes alérgicos à penicilina: sulfadiazina ou eritromicina (2ª opção). AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 PROBLEMA 9 REFERÊNCIAS: • Current: Reumatologia - Diagnóstico e Tratamento (2° ed) • Diretriz LES: Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Ministério da Saúde de 2013 • Clínica Médica – HCUSP – Vol.5, segunda edição • Revisão da Literatura sobre a Eficácia da Intervenção Psicológica no Tratamento do Lúpus Eritematoso Sistêmico - Fundação Baiana para o Desenvolvimento das Ciências LÚPUS ERITEMATOSO SISTÊMICO (LES) CONCEITO O LES é uma doença inflamatória crônica, autoimune multissistêmica, de etiologia desconhecida. É decorrente de um desequilíbrio do sistema imunológico e de produção de autoanticorpos dirigidos contra proteínas do próprio organismo. Isso gera a formação de imunocomplexos que, ao se depositarem em vasos de pequeno calibre, resultam em vasculite e disfunção do local acometido. O LES compromete órgãos e tecidos nas mais diversas combinações e em graus variados de gravidade. Clinicamente, a doença apresenta períodos de exacerbação de atividade inflamatória, intercalados com remissão parcial ou completa dos sintomas. Em alguns pacientes, há a manutenção da atividade inflamatória crônica. • Os avanços terapêuticos melhoraram a evolução da doença, entretanto, remissão completa e permanente é rara. O LES apresenta lesões cutâneas bastante características, por muito tempo acreditou-se que a doença se restringia a pele, porém, foi comprovado que havia associação com graves comprometimentos orgânicos. As manifestações clínicas podem aparecer de maneira isolada, consecutiva ou aditiva no decorrer do tempo – principalmente nos primeiros 5 anos, quando a doença mostra os locais principais de acometimento. EPIDEMIOLOGIA É muito mais prevalente em mulheres (10:1) sendo mais comum em idade fértil (papel do estrógeno) sobretudo entre os 15 aos 40 anos, porém pode também acontecer em crianças ou idosos. • É 3 a 4x mais frequente na raça negra do que branca. • Existe certa importância da genética, sendo que 10 a 20% dos pacientes com LES possuem histórico familiar com doenças autoimunes (que podem incluir a LES) • No Brasil a incidência gira em torno de 8,7 casos para cada 100.000 habitantes. • Mais comum em países tropicais. • A prevalência é maior na zona urbana. ETIOLOGIA A etiologia do LES permanece desconhecida, mas é provavelmente multifatorial. Diversos estudos sugerem o papel da interação de fatores genéticos, hormonais e ambientais no desenvolvimento das anormalidades imunológicas que caracterizam a patogênese. Geneticamente, já é documentada uma alta prevalência da doença entre gêmeos monozigóticos e nos parentes de primeiro grau. FISIOPATOLOGIA o LES é resultado da ação de diversos autoanticorpos, produzidos por um desequilíbrio do sistema imunológico. Quando os autoanticorpos se ligam a seus antígenos, formam-se imunocomplexos que ativam o sistema complemento, dando início ao processo de quimiotaxia e inflamação tecidual. Esses imunocomplexos podem se formar: • localmente, por ligação direta dos autoanticorpos aos tecidos. • no soro (imunocomplexos circulantes), com posterior deposição tecidual (ex.: nos glomérulos, pele, sinóvia). FATORES GENÉTICOS Estudos identificaram 30 a 40 loci que predispõem ao LES. Cada gene, afeta algum aspecto da imunorregulação. As diferentes combinações dos defeitos dos genes podem causar respostas imunológicas e patológicas distintas, resultando em expressões clínicas diferentes. Os fatores genéticos que conferem a maior taxa de risco para o desenvolvimento do LES são: • Deficiência dos componentes iniciais da cascata do complemento (C1q, C2 e C4): reduz a opsonização e a degradação de células apoptóticas, aumentando a meia- vida, facilitando o desenvolvimento de autoimunidade. • Deficiência do receptor Fc de imunoglobulinas: reduz a degradação de AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 imunocomplexos, aumentando a meia- vida, o que promove seu acúmulo no organismo e facilita sua ação patogênica. • Alteração no Fator Regulador de Interferon (IRF5): aumenta na capacidade de produzir interferons 1 alfa e beta, o que exacerba o funcionamento da imunidade ‘inata’. • Presença de HLA-DR2 e DR3: predisporem à formação de autoanticorpos. • Deficiência nos mecanismos de autorregulação: déficit na produção de citocinas que estimulam linfócitos T CD4+ reguladores e TCD8+ inibidores, levando a uma ativação exagerada do sistema imune. FATORES AMBIENTAIS Luz Ultravioleta: Os raios UVB exercem efeitos imunogênicos: • induzem apoptose de queratinócitos, que aumenta a atividade macrofágica e inflamatória. • promovem lesão direta do DNA; • modificam as proteínas nucleares tornando- as mais antigênicas; • aumentam a liberação de IL-1, IL-3, IL-6 e TNF-alfa, favorecendo a produção de anticorpos por linfócitos B autorreativos. Medicamentos: ‘lúpus farmacoinduzido’. Ocorre um processo que permite a expressão exagerada de genes que numa normalmente permaneceriam inativos. As associações mais bem estabelecidas são com hidralazina, procainamida, isoniazida, fenitoína... Tabagismo: substâncias presentes no cigarro podem ser implicadas no desenvolvimento de anticorpos anti-DNA. Agentes Microbiológicos: há associação entre infecção viral e doença autoimune. Alguns vírus podem estar relacionados como o Epstein-Barr (EBV), há mimetismo molecular com os antígenos, o que poderia levar à ocorrência de reatividade cruzada com antígenos próprios e auxiliar no desencadeamento da autoimunidade. FATORES HORMONAIS O estradiol, a testosterona, a progesterona, a deidroepiandrosterona (D HEA) e a prolactina apresentam importantes funções imunorregulatórias. Mulheres em uso de contraceptivo oral contendo estrógeno apresentam um aumento de 50% no risco de desenvolverem LES, enquanto o início precoce da menarca (< ou igual a 10 anos de idade) ou a administração de estradiol em mulheres na pós- menopausa dobra o risco. Variações dos níveis plasmáticos dos hormônios sexuais podem predispor ao desenvolvimento do LES. Nas mulheres com LES, os níveis plasmáticos da testosterona, progesterona e DHEA estão diminuídos e os níveis do estradiol e da prolactina estão aumentados, quando comparados com estes níveis em mulheres saudáveis. O estrógeno diminui a apoptose de Linfócitos B. RESUMINDO: A predisposição genética + estímulos ambientais + hormonais, facilita a exposição de autoantígenos, que são processados por células apresentadoras de antígenos e células B. Os peptídeos processados ativam células T e se ligam a receptores de células B, direcionando o processo para a produção de anticorpos patogênicos. Esses se ligam aos antígenos para formar imunocomplexos, que se depositam em órgãos- alvo. As células-alvo lesadas (glomérulos, células endoteliais, plaquetas e outras) liberam mais antígenos, que perpetuam o processo. Além disso, o mecanismo regulatório, que deveria interromper o processo e transformar a resposta imune em self (própria), não funciona adequadamente. QUADRO CLÍNICO O LES pode começar de forma aguda ou insidiosa, mas é uma doença crônica, remitente e recidivante. SINTOMAS CONSTITUCIONAIS: mal-estar, fadiga, queda do estado geral, febre, perda ponderal, etc. Apesar de comuns, esses achados são inespecíficos e de maneira isolada não são úteis para o diagnóstico da doença. Podem ser encontrados no AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 início do quadro e precederem meses o aparecimento das manifestações orgânicas. A fadiga, por mais difícil que possa ser sua avaliação, costuma ser o primeiro sinal de uma recaída iminente. Os locais mais caracteristicamente envolvidos pelo processo patológico do LES são: • Pele • Articulações • Membranas Serosas • Rins • Sistema Nervoso Central MANIFESTAÇÕES CUTÂNEAS O comprometimento cutâneo no LES é bastante comum, ocorrendo em 70%-80% dos pacientes. As lesões são polimorfas e podem ser específicas ou inespecíficas. Constituem 3 dos 11 critérios estabelecidos pelo CAR para a classificação do LES: lesões discoides, eritema ou rash malar e fotossensibilidade. As lesões de pele em pacientes com LES podem ser classificadas em específicas e não específicas. As lesões específicas ainda podem ser subdivididas em agudas, subagudas e crônicas. a) Agudas A lesão de pele mais característica é a rash malar, ou em “asa de borboleta”, que se apresenta como uma erupção sobre as bochechas e o nariz, edemaciada, por vezes dolorosa ou pruriginosa, simétrica e muito fotossensível. Não há pápulas ou pístulas (típicas da rosácea) e o não acomete os sulcos nasolabiais. b) Subagudas Caracterizada pela presença de lesões eritematosas papuloescamosas (tipo psoriasiformes), não ulcerativas localizadas sobretudo em regiões de exposição solar (face e braços). São fotossensíveis e bem relacionada à presença do anti-Ro/SS-A. Apenas 10 a 15% deles evoluem para formas graves com acometimento sistêmico, com o tratamento as lesões podem deixar cicatrizes superficiais, porém com áreas de hipopigmentações que se assemelham ao vitiligo e se tornam permanentes. c) Crônicas A lesão cutânea crônica do LES é representada pelo lúpus discoide, que pode tanto ocorrer na ausência de quaisquer manifestações sistêmicas, quanto aparecer como parte de um quadro de lúpus sistêmico clássico. Inicialmente, essa lesão é uma placa eritematosa hiperpigmentada que evolui mais lentamente na periferia e deixa uma cicatriz hipopigmentada e atrofiada. É mais comum na face, couro cabeludo, pavilhão auricular e no pescoço. As úlceras orais também são importantes, são encontradas em 25%, indolores e geralmente associadas à atividade inflamatória. O lúpus discoide costuma deixar sequelas cicatriciais, incluindo alopécia irreversível. Outras lesões também são frequentes como a perda cabelo (alopecia) – pode ser difusa e pode se recuperar ou evoluir para forma definitiva -, a vasculite cutânea em polpas digitais e o livedo reticular. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 O fenômeno de Raynaud é bem associado à presença do anticorpo anti-U1RNP e pode ser uma das primeiras manifestações e é exacerbada em momentos de frio. É causado pelo vasoespasmo episódico das pequenas artérias digitais, manifestando-se com a sequência palidez-cianose- rubor nos dígitos. Úlceras mucosas: ocorrem no palato, lábios, septo nasal, vagina, etc. lembrando aftas. MANIFESTAÇÕES MUSCULOESQUELÉTICAS Frequentes nas fases iniciais da doença, sendo que a artralgia e/ou artrite podem ser a principal queixa em 75 a 80% dos pacientes no momento do diagnóstico. Com o evoluir da doença esses sintomas podem acometer até 90% dos pacientes. ARTRITE: Não há um padrão de acometimento bem definido, porém, GERALMENTE respeita um quadro de poliartrite simétrica episódica, migratória e aditiva e raramente deformante, com os sintomas durando 1-3 dias em cada articulação. A rigidez matinal geralmente é inferior a 1 h. A artrite é critério diagnóstico (ao contrário da artralgia). As articulações mais envolvidas pela artrite são as articulações das mãos, punhos e joelhos. OBS: Diferente da Artrite reumatoide (AR), o LES tipicamente não determina erosões articulares. Cerca de 10 a 15% dos pacientes evoluem para artralgia crônica e podem desenvolver a chamada Artropatia tipo Jaccoud – desvio ulnar seguido de subluxação, deformidades tipo pescoço de cisne e subluxações interfalângicas do polegar. Essa deformidade ocorre principalmente por acometimento de tendões e ligamentos. Imagens de RX a diferenciam da AR visto que na Jaccoud não há desgaste ósseo (erosões). Com o tratamento, o desvio tende a desaparecer. MIALGIA: é generalizada, comum durante os episódios de exacerbação clínica da doença, por isso, pode ser a queixa inicial em 40 a 45% dos casos. Entretanto, a miosite inflamatória envolvendo musculatura proximal com elevação de enzimas musculares, como a creatinofosfoquinase (CPK) e a aldolase, ocorre cm uma porcentagem menor, ao redor de 5 a 10%. MANIFESTAÇÕES CARDIOVASCULARES São raras como manifestação inicial da doença, o comprometimento cardíaco no LES tem sido descrito entre 50% e 89%, ao longo da evolução da doença. Pericardite (corresponde a 30% das manifestações cardiovasculares); a manifestação cardíaca mais comum em pacientes com LES, precocemente observada no curso da doença e mais frequentemente encontrada em autópsias que em estudos clínicos. Mesmo quando sintomática, a pericardite normalmente não costuma causar grandes repercussões. O derrame pericárdico (leve a moderado) é muito comum. Miocardite (corresponde a 10% das manifestações cardiovasculares): pode manifestar-se como taquicardia sinusal inexplicável ou taquipneia aos esforços, associadas ao aumento da área cardíaca no RX e alterações eletrocardiográficas inespecíficas. Um acometimento mais grave pode gerar insuficiência cardíaca congestiva. Endocardite (corresponde a 10% das manifestações cardiovasculares): A endocardite de Libman-Sacks é classicamente descrita pela presença de vegetações verrucosas localizadas próximas às bordas valvares – principalmente mitral – e encontrados em 50% dos autopsiados. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 Geralmente não produzem clínica e habitualmente são diagnosticadas no ecocardiograma. Coronariopatia (corresponde a 10% das manifestações cardiovasculares): frequentemente aterosclerótica, pode provocar infarto do miocárdio. MANIFESTAÇÕES PULMONARES Acometimento pulmonar, tanto do parênquima quanto da vasculatura, da pleura e do diafragma, podem ocorrer em 50%- 70% dos pacientes com LES. A inflamação da pleura pode causar dor torácica na ausência de atrito ou derrame pleural. O derrame é, em geral, de volume pequeno a moderado e bilateral. Existem 2 formas de acometimento pulmonar: a forma aguda caracterizada por inflamação alveolar e a formacrônica definida como doença pulmonar intersticial. MANIFESTAÇÕES NEUROPSIQUIÁTRICAS Compreende diversas síndromes neurológicas, envolvendo os sistemas nervosos central, periférico e autonômico, além de síndromes psiquiátricas e psicofuncionais. Diante disso, a realização de testes neuropsicométricos em pacientes lúpicos é importante. As manifestações neuropsiquiátricas podem preceder, ocorrer concomitantemente ou algum tempo após o início da doença, durante os períodos de atividade ou quando o LES se encontra inativo. Podem ser primárias, decorrentes do dano imunológico, ou podem ser secundárias a diversas situações clínicas (infecções, distúrbios metabólicos, diabetes, uso de alguns medicamentos, HAS). No caso dos quadros epilépticos, a maioria são do tônico-clônicos e coincidem com períodos de exacerbação da doença, o que reforça o diagnóstico. Existe certa relação entre a presença do anticorpo anti-P e a presença de quadros psiquiátricos, em particular a psicose e a depressão. PSICOSE LÚPICA (critério diagnóstico da doença) manifesta-se geralmente no 1º ano de doença como um quadro de delirium, com estado confusional, ilusões persecutórias, alucinações auditivas ou visuais e flutuação do nível de consciência. MANIFESTAÇÕES RENAIS NEFRITE LÚPICA:é uma das maiores preocupações na doença e exige maior atenção tanto no início quanto na evolução da doença; a maioria dos quadros de envolvimento renal se apresentam nos primeiros 5 anos da doença, mas podem aparecer em qualquer momento • Somente em estágios avançados de doença que os sinais específicos se mostram • Alguns achados clássicos de envolvimento renal incluem a hematúria, proteinúria e aumento da creatinina O padrão de lesão glomerular observado na nefrite lúpica está relacionado com os sítios de depósitos de imunocomplexos. Classe I: raramente diagnosticada porque os pacientes com este tipo de acometimento renal frequentemente têm um exame de urina normal, proteinúria ausente ou mínima e creatinina sérica normal. Classe II: manifesta-se com hematúria e/ ou proteinúria discreta, geralmente aparecendo de forma intermitente. Em geral, a evolução é benigna. Classe III: possui sedimento nefrítico com proteinúria (por vezes nefrótica), hematúria, cilindrúria, hipertensão e discreta perda de função renal Classe IV: forma mais comum e mais grave de acometimento renal, caracterizada por uma combinação de sedimento nefrítico e nefrótico, com proteinúria e hematúrias significativas. Há hipertensão e a insuficiência renal é marcante. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 Classe V: presença de proteinúria nefrótica, hipoproteinemia, edema e hiperlipidemia. Na apresentação do quadro também podem ser vistas hematúria microscópica e hipertensão arterial, e a função renal, geralmente, é normal ou levemente alterada. Classe VI: representa o estágio avançado das glomerulonefrites. Os pacientes evoluem com insuficiência renal progressiva em associação com proteinúria, e o sedimento urinário geralmente apresenta poucas alterações. A sociedade americana de reumatologia indica que a biópsia renal é indicada para pacientes lúpicos com: ➔ Aumento da creatinina sem causa definida como hipovolemia ou toxicidade medicamentosa ➔ Proteinúria maior ou igual a 1g/dia ➔ Proteinúria maior ou igual a 0,5g/dia + >5 hemácias/campo ➔ Proteinúria maior ou igual a 0,5g/dia + cilindros no exame de urina MANIFESTAÇÕES HEMATOLÓGICAS A linhagem branca é a mais afetada, com leucopenia e linfopenia isoladas ou associadas. Ocorrem em até 70% dos casos e podem preceder as manifestações clínicas. Em geral, a diminuição da contagem indica atividade da doença desde que excluído o uso de imunossupressores. A plaquetopenia com menos de 150k/mm³ está presente em 15%. ANEMIA: Pode ser identificada em até 80% dos pacientes em qualquer momento da doença. A mais comum é a anemia normocítica normocrômica causada por eritropoese deficitária e disponibilização de ferro bloqueada, ‘anemia de doença crônica’. Queda do hematócrito pode ser um dos critérios de atividade lúpica. As anemias carenciais (ferropriva, megaloblástica) também são comuns nesses indivíduos. A anemia imuno-hemolítica por anticorpos ‘quentes’ (IgG), Coombs direto positivo, é observada em 10% dos pacientes com LES. O mecanismo é a ligação de autoanticorpos antifator Rh na membrana das hemácias, estimulando a fagocitose pelos macrófagos esplênicos. É é o único tipo de anemia considerada nos critérios de classificação do LES. Outras manifestações: As exacerbações infamatórias do LES podem cursar com linfadenopatia cervical ou generalizada e esplenomegalia, achados indicativos de hiperatividade imune. O baço pode desenvolver uma forma de fibrose perivascular, apresentando-se com uma lesão histológica nas artérias e arteríolas esplênicas conhecidas como “casca de cebola”, que é considerada como patognomônica do LES. MANIFESTAÇÕES GASTROINTESTINAIS Ocorrem em cerca de 25%-40% dos pacientes, sendo que grande parte são queixas inespecíficas. As manifestações incluem a peritonite asséptica com ascite, hepatite, pancreatite, vasculite mesentérica que pode levar à isquemia e à perfuração intestinal, obstrução intestinal subaguda e enteropatia perdedora de proteínas. Os sintomas incluem dor abdominal, náuseas, vômitos e diarreia. MANIFESTAÇÕES OCULARES Ocorrem em cerca de 15% dos pacientes com LES. A mais comum é a ceratoconjuntivite seca, associada ou não à xerostomia. Episclerite e esclerite também podem ser observadas. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 MANIFESTAÇÕES LABORATORIAIS INESPECÍFICAS Os pacientes com LES podem desenvolver uma série de alterações laboratoriais, a maioria delas relacionada à atividade de doença. A anemia de doença crônica é uma das clássicas manifestações da atividade lúpica, e pode ser usada como verdadeiro ‘termômetro’ da doença: a melhora da anemia é um importante marco de que a doença está entrando em remissão. Provas inflamatórias Em geral, o VHS está aumentado na atividade da doença, refletindo a fase aguda do processo inflamatório, porém pode continuar aumentado após o controle da doença. O PCR geralmente é baixa e aumenta durante processos infecciosos. MANIFESTAÇÕES LABORATORIAIS ESPECÍFICAS Fator antinuclear A primeira escolha é o teste de imunofluorescência indireta utilizando a célula HEp-2 que detecta o FAN. Esse teste é positivo para mais de 98% dos casos e é um dos critérios para classificação da doença. É extremamente sensível, mas não é específico pois outras doenças autoimunes podem apresentar FAN positivo. Com a positividade do FAN, podem ser pedidos exames de autoanticorpos mais específicos da LES como o anti-dsDNA e o anti-Sm Autoanticorpos específicos Podem ser divididos nos seguintes grupos: Anti-DNA Estes anticorpos se ligam ao próprio DNA nuclear e podem ser de dois tipos: • Anti-DNA dupla-hélice: é bastante específico para LES e possui importante relação com a atividade da doença e com a nefrite lúpica. Está presente em 70-75% dos pacientes. Altos títulos correlacionam- -se com a forma grave da nefrite lúpica (classe IV), sendo o acompanhamento de seus níveis importante para avaliar reposta terapêutica. • Anti-DNA hélice única é inespecífico, e pode estar presente em diversas doenças autoimunes ou infecções crônicas. Anti-Sm É uma proteína que se encontra complexada a pequenas partículas de RNA nuclear, formando o snRNP. É altamente específico para o LES, sendo considerado por alguns autores o autoanticorpo mais específico da doença (E= 99%). Contudo só está presente em 30% dos casos. Ao contrário do anti-DNA, seus níveis não se alteram com mudanças na atividade de doença. Anti-RNP O antígeno RNP, de forma semelhante ao Sm, é encontrado complexado a pequenas partículas de RNA nuclear, também formando o snRNP. Está presente em 40% dos casos de LES. Anti-Ro (SS-A) e Anti-La (SS-B) São fosfoproteínas complexadas a fragmentos de RNA nuclear. Esses autoanticorpos geralmente aparecem em conjunto. O anti- Ro (SS-A) está presente em 30% dos casos de LES, enquanto que o anti-La (SS-B) encontra-se em apenas 10%. Anti-Histonas São autoanticorpos voltados contra os diversos tipos de proteínas estruturais do núcleo que se ligam às cadeias de DNA dupla hélice. Estes anticorpos estão bastante relacionados ao lúpus induzido por drogas. Anti-P É uma proteína ligada aos ribossomos. Estão presentes em 20% dos casos de LES e correlacionam-se com psicose lúpica e depressão. Anticorpos Antimembrana Se ligam a antígenos da superfície de algumas células. Os principais exemplos são os anticorpos AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 anti-hemácia, da classe IgG, presentes em 60% dos pacientes com LES, Antifosfolipídio O grupo de anticorpos antifosfolipídios é composto por três elementos. Pelo menos um dos três é encontrado em cerca de 50% dos pacientes com LES. DIAGNÓSTICO TRATAMENTO O tratamentovisa o controle dos sintomas, a prevenção e/ou redução das complicações e o aumento da sobrevida do paciente. MEDIDAS GERAIS O paciente deve receber esclarecimentos sobre a doença: • Orientações sobre o que é o lúpus e suas causas, manifestações, tipos de evolução clínica com diferentes tratamentos e prognósticos. • Suplementação de vit D se sob uso de glicocorticoides • Não devem tomar vacinas de vírus vivos (febre amarela, VOP e tríplice viral). Vacinas antipneumocócica e anti-influenza inativadas são seguras. • Pacientes com LES não apresentam problemas de fertilidade, porém requerem algumas orientações quanto a utilização de métodos anticoncepcionais. A melhor escolha é o DIU com progesterona. Anticoncepcionais com estrogênio podem ser desaconselhados visto que há maior chance de desencadear a doença. • Evitar o álcool. • Repouso relativo (10 horas de sono por noite + um cochilo pela tarde) → quanto mais ativa a doença maior a fadiga e, portanto, maior a necessidade de repouso. • Atividades físicas apropriadas ao momento clínico da doença. Evitar exaustão. • Uso de protetor solar de preferência > 30 FPS para proteção da luz ultravioleta. • Evitar estresse, pois pode exacerbar a doença. • Medidas que reduzam o risco cardiovascular como monitorização e controle da PA, glicemia, perfil lipídico, dieta saudável e abandono do tabagismo. TERAPIA MEDICAMENTOSA GERAL AIES: são pouco indicados já que podem agravar acometimentos renais, mas está indicado para controle de quadros articulares e febres associadas à doença. Toxicidade hepática e, sobretudo, renal, devem ser suspeitadas mediante elevação de aminotransferases (hepatite induzida por AINEs) e escórias nitrogenadas. Outro paraefeito a que os pacientes lúpicos são mais propensos do que a população geral é a hipertensão arterial induzida (ou agravada) por AINEs. Tanto os AINEs não-seletivos quanto os inibidores da COX-2 (Coxibs) aumentam o risco de infarto agudo do miocárdio se mantidos em longo prazo, logo, o ideal é evitá-los sempre que possível. Ao menor sinal de nefrite lúpica, os AINEs devem ser interrompidos. GLICOCORTICOIDES: são preferencialmente usados no início da doença ou em surtos de atividade pois promovem rápido controles dos sintomas. Geralmente indica-se a menor dose possível em razão dos efeitos colaterais. A dosagem respeita a intensidade das manifestações e as comorbidades. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 Pode ser utilizado em formulações tópicas, intralesionais, orais e parenterais, sendo sua ação dose dependente. • Baixas doses → anti-inflamatório • Altas doses → imunossupressão Aumenta o risco do paciente lúpico a desenvolver osteoporose. Portanto é recomendado a reposição de cálcio e vitamina D nas pacientes em menopausa e em todos os usuários de corticoide. Paciente em uso de corticoide em doses ≥ 5 mg/dia de prednisona por mais de 3 meses devem receber doses profiláticas de bifosfonados (ex.: alendronato 35 mg/semana). ANTIMALÁRICOS: são medicamentos de primeira escolha em quadros cutâneos e/ou articulares e podem ser associados a agentes glicocorticoides já que juntos mostram maior efetividade e redução no tempo de tratamento. A hidroxicloroquina é o medicamento de escolha. Pacientes com LES em remissão utilizam antimaláricos em doses profiláticas por tempo indeterminado, visto que a suspensão dessa medicação comprovadamente se associa a um aumento nas taxas de recidiva da doença. IMUNOSSUPRESSORES: podem substituir os glicocorticoides e para o controle da atividade da doença. Estão inclusos a azatioprina, o metotrexato (mesmo do AR), a ciclosporina e o micofenolato de mofetila. TERAPIA MEDICAMENTOSA ESPECÍFICA Envolvimento cutâneo Quando os antimaláricos não respondem, podem ser utilizados a talidomida, a dapsona e o metotrexato. A talidomida promove resposta em até 75% dos casos, mas é altamente teratogênico; seu principal efeito colateral é o aparecimento de neuropatia periférica; quando suspenso o uso, o quadro cutâneo reaparece, portanto, deve ser retirado aos poucos. A dapsona é usado em lúpus discoide, mas pode causar hemólise. O metotrexato é bom quando há concomitância de quadro articular e cutâneo Tratamento da nefrite É dividido em 2 fases: a primeira é a indução da remissão pelo período de 3 a 6 meses e depois a fase de manutenção que dura cerca de 36 meses. ➔ Glicocorticoides em baixas doses em manifestações articulares e renais ➔ glicocorticoides em altas doses em manifestações renais ASPECTOS BPS Os pacientes lúpicos tendem apresentar dores crônicas que impactam diretamente na sua aptidão física e psicológica. Pacientes com dores crônicas costumam se queixar da sensação de frustração e tristeza que a dor provoca, trazendo muitos prejuízos para duas vidas, como o isolamento social e a renúncia a atividades cotidianas (trabalhar, sair com amigos, viajar, fazer atividades físicas…). A descoberta da doença pode trazer consigo sentimentos de medo, não apenas o da saúde, mas medo do futuro, da perda da vida, sentimentos compreensíveis mas que podem trazer danos à saúde emocional dos pacientes com doenças autoimunes atuando como gatilhos para o estabelecimento de quadros psicopatológicos como a depressão e a ansiedade. O estresse físico e emocional também tem um importante fator na ativação da doença. Em situações estressantes, o corpo humano produz o cortisol, que, em grandes quantidades, trazem prejuízos ao sistema imunológico como o aumento da sensação de dor e a ativação de doenças. Ação do psicólogo A Psicoterapia é uma importante aliada para auxiliar no tratamento do paciente visto que o diagnóstico de um acometimento à saúde pode gerar diversas maneiras de viver e interpretar a nova realidade que a doença traz. Assim, a psicoterapia facilita na compreensão dos pensamentos e dos sentimentos que invadem os pacientes com Lúpus ou outras doenças autoimunes, auxiliando-os a identificar pensamentos negativos que não contribuem no processo de tratamento, e atuando de modo a alterá-los, melhorando sua qualidade de vida. O psicólogo atua ainda junto ao paciente no enfrentamento e controle da dor sendo possível reduzi-la a níveis de menor intensidade. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 PROBLEMA 10 REFERÊNCIAS: • Harrison, Tinsley Randolph, and Anthony S. Fauci. Principios de medicina interna. McGraw- Hill Interamericana, 2009. • Clínica médica. Volume 7. • Protocolo clínico e diretrizes terapêuticas para manejo da infecção por HIV em adultos – MS- 2018. • Manual técnico para o diagnóstico da infecção pelo hiv em adultos e crianças 2018. AIDS CONCEITO Síndrome da imunodeficiência adquirida (SIDA/AIDS), é uma doença do sistema imunológico humano causada pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV). Algumas semanas depois da infecção pelo HIV, podem ocorrer sintomas semelhantes aos da gripe: febre, dor de garganta e fadiga. A doença costuma ser assintomática até evoluir para AIDS, a qual é caracterizado por um conjunto de sintomas desenvolvidos após o portador do vírus adquirir doenças oportunistas. Os critérios de definição e da AIDS são complexos e abrangentes, sedo estabelecidos basicamente para vigilância em vez da prática clínica com os pacientes. Assim, o médico não deve preocupar-se com o fato de o paciente adequar-se ou não à definição estrita da síndrome, mas considerar a doença causada pelo HIV como um espectro que inclui infecção primária com ou sem a síndrome aguda, período assintomático e doenças oportunistas avançadas. EPIDEMIOLOGIA A infecção pelo HIV e a AIDS fazem parte da Lista Nacional de Notificação Compulsória de Doenças sendo que a AIDS é de desde 1986 e a infecçãopelo HIV desde 2014. Os primeiros indícios da epidemia mundial da AIDS datam de 1981 e a primeira definição de caso foi publicada em setembro de 1982. Anteriormente eram notificados os pacientes com doença definidora de aids ou com imunossupressão caracterizada pela contagem de linfócitos T CD4+ abaixo de 350 células/mm3. De 2007 até junho de 2019, foram notificados no Sinan 300.496 casos de infecção pelo HIV no Brasil, sendo a maior porcentagem no Sudeste 45,6%. Nesse período, foi notificado 69 % casos em homens e 31% casos em mulheres. No ano de 2018, foram notificados 43.941 casos de infecção pelo HIV, com uma proporção de homens para mulheres de quase 3:1. Há uma predominância na faixa de 20 a 34 anos, com percentual de 52,7% dos casos. TRANSMISSÃO A transmissão do HIV se dá através do contato de fluidos corporais. É válido destacar que o vírus é transmitido mesmo com indivíduo portador assintomático. Como ocorre a transmissão da AIDS / HIV? • Sexo vaginal sem camisinha. • Sexo anal sem camisinha. • Sexo oral sem camisinha. • Uso de seringa por mais de uma pessoa. • Transfusão de sangue contaminado. • Da mãe infectada para seu filho durante a gravidez, no parto e na amamentação. • Instrumentos que furam ou cortam não esterilizados. Condutas que não transmitem: É importante quebrar mitos e tabus, esclarecendo que a pessoa infectada com HIV ou que já tenha manifestado a AIDS não transmitem a doença das seguintes formas: • Sexo, desde que se use corretamente a camisinha. • Masturbação a dois. • Beijo no rosto ou na boca. • Suor e lágrima. • Picada de inseto. • Aperto de mão ou abraço. • Sabonete/toalha/lençóis. • Talheres/copos. • Assento de ônibus. • Piscina. • Banheiro. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 • Doação de sangue. • Pelo ar ETIOLOGIA O agente etiológico é o HIV, que pertence à família dos retrovírus humanos e à subfamília dos lentivírus. Os retrovírus que causam doença nos humanos são de 2 grupos: • HTLV-1 e HTLV-2 (transformadores). • os vírus da imunodeficiência humana, HIV-1 e HIV-2, que causam efeitos citopáticos diretos ou indiretos (qualquer mudança detectável na célula hospedeira). A causa mais comum da doença causada pelo HIV é o HIV-1, que engloba vários subtipos com distribuições geográficas diferentes. Os vírus HIV-1 são divididos em 4 grupos: M, N, O e P e atualmente são conhecidos nove subtipos e dezenas de formas que resultam da recombinação genética de dois ou mais subtipos. O HIV-2 divide-se de A a H. O subtipo C é responsável por até 60% de todas as infecções por HIV no mundo, sendo o mais prevalente no continente africano. No brasil predomina o subtipo B, porém com participação também dos subtipos F e C. Quanto às características estruturais do vírus: • possui uma forma esférica • é envolvido pelo envelope, uma bicamada lipídica originária da membrana celular da célula hospedeira. • O vírion (partícula viral completa) contém muitas espículas externas formadas pelas duas proteínas principais do envoltório, a gp120 externa e a gp41 transmembrana. • O virion brota da superfície da célula infectada e incorpora várias proteínas do hospedeiro na sua bicamada lipídica. • RNA + cápsula proteica (nucleocapsídeo). Além disso, há 3 enzimas virais: • Transcriptase reversa (TR): responsável pela transcrição do RNA genômico viral em uma fita dupla de DNA, cuja função é criar uma cópia de DNA fita dupla (cDNA) e degradar a fita-molde de RNA viral. • Integrase: é responsável pela integração do cDNA no genoma da célula hospedeira. • Protease: degrada proteínas presentes na célula humana a fim de obter matéria-prima para a reprodução viral. O genoma do HIV é constituído por: • Os genes gag e env que codificam proteínas estruturais, • O gene pol codifica as enzimas virais • Genes regulatórios que são importantes na regulação do ciclo viral e na patogênese. OBS: o gene env é responsável pela codificação das glicoproteínas transmembrana e de superfície, as quais têm como principal função mediar a entrada do HIV na célula hospedeira. FISIOPATOLOGIA A entrada do vírus na célula hospedeira requer a presença de receptores de membrana. As primeiras células que entram em contato com o HIV-1 são as que fazem parte da linhagem de monócitos, principalmente as células dendríticas. O HIV infecta células que tenham o marcador CD4 (CD4+), principalmente linfócitos T auxiliares, mas também macrófagos teciduais e células da micróglia do SNC, o que resulta em uma doença crônica e progressiva, ocasionando uma depressão imunológica. O ciclo replicativo pode ser dividido em 2 fases: FASE PRECOCE: começa com o reconhecimento da célula alvo pelo vírus maduro e envolve todos os processos que conduzem à integração do cDNA genômico no cromossoma da célula hospedeira. FASE TARDIA: começa com a expressão do genoma proviral, envolvendo todos os processos que incluem a formação e maturação de novas partículas virais. Na fase precoce, as partículas virais ligam-se especificamente na célula CD4+ através da proteína de superfície gp120. A ligação do receptor CD4 permite que a gp120 se ligue a correceptores (CCR5 ou CXCR4) sobre a superfície da célula hospedeira. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 Após a ligação da gp120 e correceptores, a glicoproteína gp41 é incorporada na membrana celular, resultando na fusão do revestimento viral e da membrana da célula alvo, produzindo um poro, através do qual o núcleo viral penetra no citoplasma da célula. Após a fusão, o processo de transcrição reversa se inicia. É feito por meio da transcriptase reversa, no citoplasma da célula hospedeira. O produto da transcrição reversa, cDNA de cadeia dupla, é transportado para dentro do núcleo onde o cDNA é integrado, ou seja, incorporado no genoma da célula hospedeira, resultando no DNA proviral. Esta integração é devida à atividade catalítica da enzima integrase. Inicia-se então a fase tardia com a expressão regulada do genoma proviral. O processamento das proteínas virais com as proteases virais ocorre, seguido pela montagem do novo virion, que é liberado através da membrana da célula hospedeira por brotamento. Fase eclipse- período de aproximadamente dez dias após a transmissão, antes que o RNA viral seja detectável no plasma. A resposta imunológica inata que se estabelece no foco da infecção atrai uma quantidade adicional de células T, o que, aumenta a replicação viral. A partir dessa pequena população de células infectadas, o vírus é disseminado para os linfonodos locais e depois sistemicamente, em número suficiente para estabelecer e manter a produção de vírus nos tecidos linfoides, além de estabelecer um reservatório viral latente, principalmente em linfócitos T-CD4+ de memória. A replicação viral ativa e a livre circulação do vírus na corrente sanguínea causam a formação de um pico de viremia por volta de 21 a 28 dias após a exposição ao HIV. Essa viremia está associada a um declínio acentuado no número de linfócitos T- CD4+. Na fase de expansão e disseminação sistêmica, há a indução da resposta imunológica, mas esta é tardia e insuficiente em magnitude para erradicar a infecção. A ativação imune, por outro lado, produz uma quantidade adicional de linfócitos T-CD4+ ativados que servem de alvo para novas infecções. Ao mesmo tempo, o número crescente de linfócitos T-CD8+ exerce um controle parcial da infecção, mas não suficiente para impedir, na ausência de terapia, a lenta e progressiva depleção de linfócitos T-CD4+ e a eventual progressão para a AIDS. A ativação de linfócitos T-CD8+ específicos contra o HIV ocorrem normalmente antes da soroconversão. O curso da infecção pelo HIV é divididoem 3 fases: • Infecção primária ou fase aguda: intensa replicação do HIV-1 • Fase crônica ou de latência clínica: há queda da carga viral plasmática (viremia) até atingir seu set point, isso ocorre devido a uma resposta imune celular específica e síntese de anticorpos anti-HIV. • AIDS ou doença clinicamente manifesta OBS: indivíduos que apresentam set point viral baixo possuem menor risco de progressão para AIDS. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 A resposta imune mediada por células é mais importante durante a infecção aguda. A resposta imune humoral (anticorpos) tem um papel relevante na redução da disseminação do HIV na fase crônica da infecção. Inicialmente a IgM é produzido, mas devido a contínua exposição aos mesmos antígenos, a produção inicial de IgM é substituída pela produção de IgG. Ao contrário de outras doenças infecciosas, a presença da IgM não permite diferenciar uma infecção recente de uma infecção crônica. A IgG anti-HIV atinge níveis séricos elevados e persiste por anos, enquanto os níveis séricos de IgM tendem a desaparecer com o tempo ou apresentar padrão de intermitência. QUADRO CLÍNICO FASE AGUDA (infecção recente pelo HIV) Cerca de 50 a 70% dos indivíduos infectados pelo HIV apresentam uma síndrome clínica aguda de 3 a 6 semanas depois da infecção primária. • Início abrupto, duração de 3 a 14 dias. Pode persistir por até 10 semanas • Disseminação viral para vários órgãos-alvo a partir de partículas virais e linfócitos T infectados (viremia plasmática). • Durante essa fase, têm-se a carga viral elevada e níveis decrescentes de linfócitos, em especial os TCD4+. O indivíduo, nesse período, torna-se altamente infectante. • O diagnóstico da infecção aguda pelo HIV pode ser realizado mediante a detecção da carga viral do HIV. Manifestações clínicas: • Febre, sudorese, cefaleia, mal-estar. • Letargia, anorexia, náuseas, mialgia, dor de garganta, artralgia. • Diarréia, linfoadenopatia generalizada, trombocitopenia. • Linfadenomegalia, comprometendo principalmente as cadeias cervicais anterior e posterior, submandibular, occipital e axilar. • Enxatema macular eritematoso principalmente no tronco, face, palma das mãos e planta dos pés (sinal muito característico). A sintomatologia é o reflexo da resposta imune celular e está relacionada à magnitude da produção de citocinas para o controle da replicação viral. Em geral, os sinais e os sintomas persistem por uma a várias semanas e regridem gradativamente à medida que a resposta imune ao HIV se desenvolve e os níveis de viremia plasmática diminuem. • Podem ocorrer úlceras e aftas na boca, esôfago e região genital. • Raros: meningoencefalite, meningite, Síndrome de Guillan-Barré, radiculopatia, neuropatia periférica, paralisia facial, neurite braquial, alterações comportamentais. A presença de manifestações clínicas mais intensas e prolongadas (por período superior a 14 dias) pode estar associada à progressão mais rápida da doença. FASE DE LATÊNCIA CLÍNICA Variável, duração média de 7 a 10 anos após infecção primária. A taxa de progressão da doença correlaciona-se diretamente com os níveis de RNA do HIV. Os pacientes com níveis plasmáticos altos evoluem para a doença sintomática mais rapidamente que os com baixos níveis. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 • Período de controle parcial da replicação viral pelos linfócitos T CD8+ citotóxicos. • Oscilação do nível de linfócitos T CD4+ e da carga viral, com redução lenta e progressiva das células T CD4+, até atingir a fase da imunodeficiência estabelecida. Fatores que influencia na progressão precoce para aids: presença de manifestação clínica de infecção aguda, menor número de linfócitos T CD4+ antes da estabilização na fase de latência (set point) e soroconversão tardia durante a fase da infecção primária. • Paciente geralmente assintomático, mas pode apresentar linfadenomegalia generalizada. • Linfócitos T CD4+ acima de 350 células/mm3 e as doenças comuns à população geral são as que mais acometem os pacientes. Alguns pacientes permanecem totalmente assintomáticos, embora suas contagens de células T CD4+ apresentem declínio contínuo e progressivo até chegar a níveis extremamente baixos. Nesses casos, o desenvolvimento de uma doença oportunista pode ser a primeira manifestação da infecção pelo HIV. Nesse período, já é possível encontrar diminuição na contagem de TCD4+, situada entre 200 e 300 céls/mm³. SÍNDROME DA IMUNODEFICIÊNCIA ADQUIRIDA (AIDS) Deterioração imunológica que predispõe à manifestação de doenças secundárias à imunodeficiência. DOENÇAS DEFINIDORAS DE AIDS O aparecimento de infecções oportunistas e neoplasias é definidor da AIDS. Entre as infecções oportunistas, destacam-se: pneumocistose, neurotoxoplasmose, tuberculose pulmonar atípica ou disseminada, meningite criptocócica e retinite por citomegalovírus. As neoplasias mais comuns são sarcoma de Kaposi (SK), linfoma não Hodgkin e câncer de colo uterino, em mulheres jovens. Nessas situações, a contagem de LT-CD4+ situa-se abaixo de 200 céls/mm³, na maioria das vezes. O HIV pode causar doenças por dano direto a certos órgãos ou por processos inflamatórios, tais como miocardiopatia, nefropatia e neuropatias, que podem estar presentes durante toda a evolução da infecção pelo HIV. Infecções respiratórias bacterianas como a tuberculose podem ser observadas em uma apresentação atípica, resposta tardia à antibioticoterapia e/ou reativação de infecções antigas. À medida que a infecção progride, sintomas constitucionais (febre baixa, perda ponderal, sudorese noturna, fadiga). Pneumocistose: causada pelo fungo pneumocystis jirovecii é caracterizada por uma evolução subaguda, dispneia de início insidioso, tosse seca e desconforto torácico que pioram progressivamente e, na ausência de tratamento, evoluem para insuficiência respiratória aguda grave. As manifestações gastrointestinais podem acometer o tubo digestivo ou vísceras, podem ser causadas por agentes infecciosos oportunistas, neoplasias ou pelo próprio HIV. Disfagia, odinofagia, náusea, vómitos, diarreia aguda ou crónica, enterorragias, dor abdominal ou obstipação intestinal podem estar presentes. Sarcoma de Kaposi: câncer que provoca lesões nos tecidos moles, provoca lesões na pele, nos gânglios linfáticos, nos órgãos internos e nas membranas mucosas que revestem a boca, o nariz e a garganta. Candidíase oral: causada por Candida albicans, observa-se o aparecimento de placas removíveis esbranquiçadas. O tratamento inclui antifúngicos tópicos e sistêmicos. Terapias tópicas incluem bochechos com antifúngicos tópicos, pastilhas e gel oral. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 Leucoplasia pilosa: está relacionada ao Epstein-Barr vírus (EBV), manifesta-se clinicamente como uma placa branca, caracteristicamente não removível através de raspagem, com localização preferencial nas bordas laterais da língua, podendo ser uni- ou bilateral. A superfície pode apresentar-se plana, corrugada ou pilosa. Alterações hematológicas: a plaquetopenia é um achado comum, embora sem repercussão clínica na maioria dos casos. Além disso, anemia (normocrômica e normocítica) e leucopenia leves podem estar presentes. Podem ser decorrentes da infecção pelo próprio HIV ou secundárias a infecções oportunistas ou toxicidade medicamentosa. Cardiomiopatia associada ao HIV: a prevalência de doenças cardiovasculares é maior, em parte relacionadas a um perfil de maior RCV, bem como à ação direta da própria infecção pelo HIV. A doença cardíaca apresenta-se de diversas formas, podendo estar relacionada a outras IO ou a estágio avançado da infecção pelo HIV, incluindocardiomiopatia associada ao HIV, pericardite ou hipertensão arterial pulmonar. Manifestações neurológicas: alguns sintomas comumente observados são febre, cefaleia, crise epilética, déficits focais, comprometimento do nível de consciência, alteração do comportamento. O comprometimento pode ser primário, quando se deve ao próprio vírus, ou secundário, quando decorrente de infecções oportunistas e neoplasias que surgem em consequência à imunossupressão. Dentre as neoplasias e infecções oportunistas que envolvem o SNC estão incluídos a toxoplasmose, criptococose, leucoencefalopatia multifocal progressiva, infecção por citomegalovírus, tuberculose, sífilis e linfoma primário do SNC. DIAGNÓSTICO Sorologia: detecção de anticorpos anti-HIV. Western-blot: maior sensibilidade e especificidade. Teste de referência para detecção de anticorpos anti HIV-1 e HIV-2. • Positivo para anti HIV-1: prevalece a presença de duas ou mais das bandas características do HIV-1 (p24, gp41, gp110). • HIV-2: detectada glicoproteína do envelope (gp140). ELISA: nível de anticorpos fica acima do limite mínimo do teste (cut off), principalmente em indivíduos de grupo de risco ou já com a doença. Recomenda repetição ao menos 3x quando positivo, pois pode dá um diagnóstico falso-positivo. Imunofloresência indireta: indicado para confirmação do ELISA. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 Testes rápidos: são imunoensaios (IE) simples, com resultados em até 30 minutos, com amostra de sangue total obtida por punção digital, venosa ou amostra de fluido oral. Para o teste ser considerado válido é necessária a presença visual de uma linha ou ponto na região controle (C) do teste. Em amostras que apresentam resultados indeterminados em testes como o western blot (WB), os testes moleculares (TM) são muito úteis para confirmar a presença da infecção pelo HIV. Porém, existe um período entre a exposição do indivíduo e a detecção do vírus, durante o qual nenhum teste atualmente disponível pode definir o resultado da amostra. Desde o início da epidemia do HIV, o diagnóstico sorológico da infecção é realizado com pelo menos dois testes, um inicial e um segundo, mais específico, para complementar o resultado do teste inicial. Dois ou mais testes combinados, formando um fluxograma, têm o objetivo de aumentar o valor preditivo positivo (VPP) de um resultado reagente no teste inicial. Na maioria das situações, é utilizado o fluxograma em série (vários testes), ele é lógico e custo-efetivo. O primeiro teste a ser realizado deve ser o mais sensível, seguido por um segundo teste mais específico, a fim de eliminar resultados falso-reagentes. Todos os indivíduos que apresentarem resultados reagentes em dois testes rápidos devem realizar imediatamente o exame de quantificação da carga viral, cujo resultado confirma a presença do vírus, e contagem de linfócitos T-CD4+. AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 Utiliza um IE4ªG como teste inicial e um TM como teste complementar para amostras reagentes no primeiro teste. Esse fluxograma aumenta a probabilidade de diagnosticar infecção aguda pelo HIV. O emprego de um IE seguido por um TM cujo resultado seja maior ou igual a 5.000 cópias/mL dispensa a utilização dos testes complementares do tipo WB, IB e IBR, pois confirma o diagnóstico. TRATAMENTO A terapia antirretroviral (TARV) combinada, também conhecida como terapia antirretroviral altamente ativa (HAART), é a base do tratamento dos pacientes infectados pelo HIV. A supressão da replicação do HIV é um requisito importante para prolongar a sobrevida e melhora clínica e na qualidade de vida dos pacientes HIV positivos. Eles agem inibindo a multiplicação do HIV no organismo e, consequentemente, evitam o enfraquecimento do sistema imunológico. Desde 1996, o Brasil distribui pelo SUS todos os medicamentos antirretrovirais e, desde 2013, garante tratamento para todas as pessoas vivendo com HIV, independentemente da carga viral. Também pode-se dizer que o tratamento pode ser usado como uma forma de prevenção muito eficaz para pessoas vivendo com HIV, evitando, assim, a transmissão do HIV por via sexual. Atualmente, os fármacos disponíveis para o tratamento da infecção pelo HIV como parte de um regime combinado são classificados em quatro grupos: • inibidores da enzima viral transcriptase reversa (inibidores nucleosídeos e nucleotídeos da transcriptase reversa; inibidores não nucleosídeos da transcriptase reversa); • inibidores da enzima viral protease • inibidores da enzima viral integrase • fármacos que interferem com o acesso do vírus (inibidores de fusão; antagonsitas do CCR5). A terapia inicial deve sempre incluir combinações de três ARV, sendo dois ITRN/ ITRNt associados a uma outra classe de antirretrovirais (ITRNN, IP/r ou INI). No Brasil, para os casos em início de tratamento, o esquema inicial preferencial deve ser a associação de dois ITRN/ITRNt, associados ao inibidor de integrase (INI). A indicação da genotipagem pré-tratamento baseia- se na efetividade e custo-efetividade do teste, de acordo com a prevalência da resistência primária ou transmitida do HIV-1 na população, sendo usada nas seguintes situações: • Pessoas que tenham se infectado com parceiro (atual ou pregresso) em uso de TARV – casais sorodiferentes • Gestantes infectadas pelo HIV • Crianças infectadas pelo HIV • Coinfecção TB-HIV AMANDA GODINHO BALISA ALMEIDA- 4º PERÍODO 2/2021 Devido à grande quantidade de medicamentos, o tratamento para a AIDS pode resultar em alguns efeitos colaterais, como enjôo, vômito, mal-estar, perda do apetite, dor de cabeça, alterações na pele e perda de gordura em todo o corpo, por exemplo. PREVENÇÃO A melhor técnica para evitar a AIDS / HIV é a prevenção combinada. Intervenções biomédicas são ações voltadas à redução do risco de exposição, mediante intervenção na interação entre o HIV e a pessoa passível de infecção. Essas estratégias podem ser divididas em dois grupos: Clássicas, que empregam métodos de barreira física ao vírus e o uso de antirretrovirais (ARV). Como exemplo a distribuição de preservativos masculinos e femininos e de gel lubrificante. Os exemplos do segundo grupo incluem o Tratamento para Todas as Pessoas – TTP; a Profilaxia Pós Exposição – PEP; e a Profilaxia Pré- Exposição – PrEP. A PEP é uma medida de prevenção de urgência à infecção pelo HIV que consiste no uso de medicamentos para reduzir o risco de adquirir essa infecção. Deve ser utilizada após qualquer situação em que exista risco de contágio, como violência sexual, relação sexual desprotegida, sem o uso de camisinha ou com rompimento da camisinha e acidente ocupacional, com instrumentos perfurocortantes ou contato direto com material biológico. Trata-se de uma urgência médica, que deve ser iniciada o mais rápido possível - preferencialmente nas primeiras duas horas após a exposição e no máximo em até 72 horas. A duração da PEP é de 28 dias e a pessoa deve ser acompanhada pela equipe de saúde. No Brasil, o esquema preferencial para PEP é a coformulação tenofovir/lamivudina (TDF/3TC) em um único comprimido associada com atazanavir (ATV). Já a PrEP é um novo método de prevenção à infecção pelo HIV, que consiste na tomada diária de um comprimido que impede que o vírus causador da AIDS infecte o organismo, antes de a pessoa ter contato com o vírus. Tem efeito após 7 dias de uso para relação anal e 20 dias de uso para relação vaginal e é importante salientar que a PrEP não protege de outras ISTS e, portanto, deve ser combinada com outras formas de prevenção, como a camisinha. A PrEP não é para todos, sendo indicada para pessoas que tenhammaior chance de entrar em contato com o HIV. No momento, apenas a coformulação TDF/FTC (tenofovir + entricitabina) em um único comprimido diário se encontra aprovada. CENTRO DE TESTAGEM E ACONSELHAMENTO • Promoção da equidade de acesso ao aconselhamento e ao diagnóstico do HIV, das hepatites B e C e da sífilis. • Foco na oferta de testagem (HIV, IST, HV), em ações de educação em saúde e de aconselhamento como abordagens de redução de risco e vulnerabilidade. • Oferta para tratamento sífilis • Redução de danos e educação permanente • Monitoramento e avaliação • Implementa prevenção combinada e oferta de PEP e PrEP • Imunização para HPV e HBV • O atendimento no CTA é sigiloso e oferece o acompanhamento por uma equipe de profissionais de saúde orientará o paciente sobre resultado final do exame, independentemente de ser positivo ou negativo. • Quando o resultado é positivo, os CTAs encaminham as pessoas para tratamento nos serviços de referência.