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Texto, Crítica, Escrita – Ensaios. Leyla Perrone Moisés. São Paulo, Ática, 1978.
Capítulo 3 – Crítica e Intertextualidade
1. Dialogismo e Intertextualidade
“Uma das principais características da transformação sofrida pelas obras literárias, a partir do século XIX, é a multiplicação de seus significados, que permitem e até mesmo solicitam uma leituta múltipla.” (pág. 58)
“O inter-relacionamento de discursos de diferentes épocas ou de diferentes áreas linguisticas não é novo, podemos mesmo dizer que ele caracteriza desde sempre a atividade poética. Em todos os tempos, o texto literário surgiu relacionado com outros textos anteriores ou contemporâneos, a literatura sempre nasceu da e na literatura.” (pág. 59)
“(...) A comunicação do discurso não é algo novo. O que é novo, a partir do século XIX, é que esse inter-relacionamento apareça como algo sistemático, assumido implicitamente pelos escritores, e que o recurso a textos alheios se faça sem preocupação de fidelidade (imitação), ou de contestação simples (paródia ridicularizante), sem o estabelecimento de distâncias claras entre o original e a réplica, sem respeito a qualquer hierarquia dependente da ‘verdade’ (religiosa, estética, gramatical). O que é novo é que essa assimilação em termos de reelaboração ilimitada da forma e do sentido, em termos de apropriação livre, sem que se vise o estabelecimento de um sentido finl (coincidente ou contrário com o sentido do discurso incorporado).” (pág. 60)
“O inter-relacionamento significativo é uma característica de qualquer fala, mas, no passado, havia uma tendência a univocar a palavra e o discurso, de modo que o sentido geral convergia para uma significação prioritária(...)” (pág. 61)
“No último século, as grandes obras literáris têm sido sempre dialógicas. Em nossa língua, um exemplo particularmente interessante de dialogismo é o da obra de Fernando Pessoa, onde os heterônimos compõem uma verdadeira polifonia. Daí as dificuldades da crítica monológica diante dessa obra, daquela crítica que se esfalfa na busca da unidade apesar de tudo ou no estabelecimento do heterônimo mais autêntico, do ‘verdadeiro’ Pessoa.” (pág. 62)
“’Todo texto é absorção e trasnsformação de uma multiplicidade de outros textos’, diz kristeva, na esteira de Bakhtine. Entende-se por intertextualidade este trabalho constante de cada texto com relação aos outros, esse imenso e incessante diálogo entre obras que constitui a literatura. Cada obra surge como uma nova voz (ou um novo conjunto de vozes) que fará soar diferentemente as vozes anteriores, arrancando-lhes novas entonações.” (pág. 63)
2. A intertextualidade crítica (hipótese)
“Em princípio, a crítica sempre foi intertextual, se dermos a esse termo um sentido largo. Tratou-se sempre de escrever um texto sobre outro texto. Assim, mesmo no caso mais simples (evidentemente hipotético, como todas as ‘formas simples’), ocorre em todo discurso crítico o entrecruzamento de dois textos, o texto analisado e o texto analisante.” (pág. 64)
“(...) Em primeiro lugar, a intertextualidade crítica é declarada, isto é, submissa a uma lei, enquanto a intertextualidade poética pode ser tácita (e na maior parte das vezes o é). O crítico declara que está escrevendo sobre outra obra ou sobre outras obras; o nome do autor (autor tutelar) e o da obra-objeto figuram frequentemente no próprio título do livro ou do artigo crítico; senão, aparecerão como referências explícitas e precisas (obedientes a normas internacionais), em notas de rodapé. Além disso, o uso das aspas é um dever maiorr, dentro da ética crítica.” (pág. 65)
“A declaração indica uma submissão. O discurso poético dialógico engloba os textos que abriga, não para conservá-los como uma propriedade, apara apropriar-se deles, mas para os pôr em perda, numa migração incontrolável. A estrutura do discurso crítico tradicional, pelo contrário, é englobada pelo texto indutor, que a molda e a situa em posição de filiação, de continuação.” (pág. 65)
“(...)O escritor age com mais desenvoltura: não declara nada, utiliza os bens de outrem como se fossem seus. Isto revela que o contato literário do escritor não é o mesmo que o do crítico. A relação entre ‘criadores’ é uma relação de igualdade, a relação entre ‘criador’ e crítico é uma relação de submissão.” (pág. 65)
“O dialogismo poético se trava em termos de igualdade, os dois textos estão no mesmo nível; o dialogismo crítico funciona em termos de hierarquia, os dois textos estão em níveis diferebtes. O ‘nível’ é definido pela posição do sujeito da enunciação, que modula todo o enunciado. Não se trata aqui de discutir o problema do sujeito da enunciação, mas basta lembrar, para nossos fins, o quanto a posição desse sujeito depende de uma expectativa social.” (pág. 65)
“Ora, se as fronteiras intertextuais são ainda bem demarcadas entre as obras [...], elas o são ainda mais entre a obra do autor e a do crítico. De qualquer modo, o problema das fronteiras é ainda mais geral: ‘Como poderia ser uma escritura moderna: como forçar o muro da enunciação, o muro da origem, o uro da propriedade? (pág. 66-67)
3. Metalinguística e intertextualidade
“A questão da intertextualidade crítica se coloca diferentemente segndo o modo como se considerar a linguagem crítica: se a considerarmos como uma metalinguagem, a fronteira discursiva se manterá; se a considerarmos como plena linguagem (escritura), essa fronteira será abolida.” (pág.67-68)
“Se considerarmos a crítica como metalinguagem, todas relações intertextuais são redobradas: duas linguagens, duas histórias, duas subjetividades.” (pág. 68)
4. A obra inacabada
“A primeira condição para a intertextualidade é que as obras de dêem como inacabadas, isto é, que elas se permitam e solicitem um prosseguimento. Para Bakhtine, ‘inacabamento de princípio’ e ‘abertura dialógica’ são sinônimos. Com efeito, só pode haver diálogo se a primeira palavra se abrir e deixar lugar para outra palavra.” (pág. 72)
“Os textos da modernidade abrem-se ao diálogo e fecham-se à reprodução; só permitem que se escreva a partir deles e não sobre eles. Esses textos exigem, pois, da crítica, um texto de escritura e não um discurso de escrevência; eles não são legíveis, mas escreptíveis.” (pág. 72)
“A obra ‘acabada’ é a obra historicamente liquidada, aquela que não diz nada so homem (ao escritor) de hoje, que não lhe permite dizer mais nada. A obra inacabada, pelo contrário, é a obra prospectiva que avança pelo presente e impele para o futuro.” (pág. 73)
“O que hoje verificamos não é só uma dissolução das fronteiras entre os gêneros literários, mas também uma abolição das fronteiras entre as diferentes artes. As experiências da ‘arte conceitual’, que se apresentam não como obra unificada e materialmente homogênea, mas como documentação de uma experiência artística incluindo textos, esquemas gráficos, fotografias, trilha sonora, etc., são um exemplo de atividade pluriartística. O próprio cinema, para não ir mais longe, é uma demonstração da integração de várias artes.” (pág. 75-76)

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