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AULA 3 SAÚDE MENTAL 11/04/2022 1-2% dos atendimentos no PS são por crise epiléptica É a manifestação clínica resultante de uma atividade elétrica anormal no cérebro. Ela pode ser focal ou generalizada: A. FOCAL Origina-se de rede neuronial limitada a um hemisfério. Região focal hiperexcitável B. GENERALIZADA Origina-se em algum ponto de redes neuronais distribuídas em ambos hemisférios ou propaga-se rapidamente por elas. Cérebro hiperexcitável A crise focal pode ter evolução com tônico clônico bilateral, que é uma crise com inicio focal mas que se propaga e acomete ambos os hemisférios ** crise de ausência é generalizada e acontece só na infância. Raro no adulto. Se acontece no adulto, normalmente é uma parada comportamental (que é focal) EPILEPSIA: É uma doença no qual o paciente tem uma pré-disposição a ter crises recorrentes. É um transtorno cerebral caracterizado por uma predisposição persistentes para crises epilépticas bem como pelas suas consequências neurobiológicas, cognitivas, psicológicas e sociais Pode ser dividida em 5 tipos: 1. Estrutural 2. Genética 3. Infecciosa (ex: cisticercose) 4. Metabólica 5. Imune 6. Desconhecida SUSPEITA CLÍNICA As manifestações clínicas podem variar dependendo da região do cérebro acometida pela atividade epileptiforme. Crises do lobo frontal: ▪ Versão cefálica e/ou oculomotora ▪ Clonias unilaterais ▪ Posturas tônicas assimétricas ▪ Automatismos motores complexos ▪ Atividade hiper motora ▪ Evolução frequente para TCB (tônico clonico bilateral) **faz dessaturação rapidamente Crise do lobo temporal: ▪ Mal estar epigástrico ascendente ▪ Deja vu / jamais vu ▪ Medo ictal ▪ Parada comportamental ▪ Automatismos ▪ Evolução incomum para TCB Crise do lobo parietal: (sensibilidade) ▪ Parestesias dimediadas ▪ Dor ictal ▪ Assomatognosia ▪ Desorientação espacial transitória Crise do lobo occiptal (processamento de visão) ▪ Manifestações visuais positivas ▪ Desvio do olhar ▪ Piscamentos DIAGNÓSTICO DIFERENCIAIS ▪ Síncope Síncope convulsa acontece em até 90% das síncopes podem cursas com abalos musculares. O período pós ictal é o que mais diferencia, quando é rápido e não tem abalo pós ictal, tem cara de síncope. Quando mais longo já aparece mais crise. E mordedura na base lateral da língua por 12x caracteriza mais crises. ▪ AVCi AVCi é caracterizado por sintomas negativos (e até 15% das crises epiléticas são seguidas de hemiparesia (paredia de todd) ou afasia com duração de horas) e crise epiléptica caracterizada por sintomas positivos. Rebaixamento do nível de consciência é mais comum em crises epilépticas. ▪ Crises não epilépticas psicogênicas (CNEP) Crise não flutua por horas, ela vem e passa. Movimentos alternados não acontecem, normalmente são sincronizados. Movimentos com a cabeça em sentido de não acontece em crise epiléptica, normalmente vira pra um lado só. Coisas que falam a favor de crise epiléptica: acontecer durante o sono; respiração ruidosa (ronco) pós crise. ▪ Hipoglicemia ▪ Aura migranosa ▪ Parassonaias ▪ Amnesia global transitória BIOMARCADORES DIFERENCIAIS CPK e prolactina, ajudam a diferenciar crise generalizada. Porém são liberados da corrente sanguínea muito rápido, então quando em <3hrs é ótimo APÓS A CRISE, SE NÃO RECUPEROU... Numa hipoglicemia ou pós ictal, não vale a pena sair entubando. Mas faremos o manejo como na clínica. (ABCD) A: aspirar secreções (se terminada a crise) B: manter saturação: 95% se não houver contraindicações C: circulação + ECG (hipotensão é rara na fase inicial do estado de mal epiléptico. Sugere uma doença sistêmica associada. D: decúbito a 30º e colher DX Se glicemia <70mg/dl ▪ Glicose 50% 50Ml EV ▪ Glicose 10% 250ml EV ▪ Alternativa: glucagon 1mg EV SC IM Se o paciente tem risco de deficiência de vitamina B12: administrar tiamina 100-200mg EV Entender a história: Examinar: ▪ Sinais vitais ▪ Exame físico geral ▪ Nivel de consciência ▪ Avaliaçao de linguagem ▪ Pesquisa de déficits neurológicos focais ▪ Fundoscopia ▪ Pesquisa de sinais meníngeos ▪ Exames: o Hemograma completo o Na, K, Cai, Mg, P o Ureia e creatinina o TGO, TGP, GAMA GT, FAL o Billirubinas totais e frações o CPK e glicemia o Sorologias para HIV e sífilis o Pesquisa de doenças autoimunes (FAN, autoanticorpos para SAF) se primeira crise epiléptica o BetaHCG se mulher o Troponina o Nível sérico de FAE se em uso o Toxicológicos se disponível CUIDADOS INICIAIS ▪ Deitar paciente em maca (decúbito a 30°) ou chão (se primeiros socorros) ▪ Afastar objetos potencialmente lesivos ▪ Acomodar/proteger cabeça ▪ Manter a paciente em decúbito lateral (se possível) ▪ Retirar óculos ▪ NÃO colocar dedo ou objetos na boca do paciente ▪ Cronometrar duração de crise Se a crise dura mais de 5min, já entra em protocolo de mal epiléptico MAL EPILÉPTICO Habitualmente crises epilépticas tem duração <3min. Elas se interrompem espontaneamente por algumas mecanismos, como: - Depleção de neurotransmissores e ATP - Aumento de atividade GABAérgica - Mudanças do equilíbrio ácido básico A partir de cinco minutos, provavelmente não vai parar e vai virar uma crise prolongada: T1 (aqui já é um ESTADO DE MAL EPILÉPTICO IMINENTE). T1 varia com o tipo de crise: o TCB – 5 min o Crise focal disperceptiva – 10 min o Ausência – 10 a 15min Se ela continuar acontecendo, pode chegar em T2: onde ela mata neurônio e pode levar a consequências sistêmicas se ele continuar tendo crise (isso surge quanto mais tempo ele ficar em crise tônico clonico bilateral mas, a partir do momento T2 é que começa a ter essas complicações e lesões neuroniais). Essa T2 é a partir de 30 minutos e é chamado então de ESTADO DE MAL EPILÉPTICO ESTABELETICO. O estado de mal epiléptico é divido em dois tipos: 1. CONVULSIVO: manifestação motora intensa (ex: tônico clonico bilateral) e alteração bilateral Mais grave, levando a um tratamento agressivo. 2. NÃO CONVULSIVO: ausência de atividade motora ou atividade motora sutil. Nesse caso, o comprometimento de consciência é variado (confusão leve até coma e em alguns casos a consciência é preservada) O estado de mal epiléptico tem uma mortalidade de 15-20% e 9-11% com déficits locais e ele pode levar a comprometimento cognitivo sequelar e propiciar epilptogenese (ou seja, aumenta a chance de ser tornar um epiléptico). Sendo que 31% dos pacientes que sofreram com estado de mal epiléptico (EME) recorre em 10 anos. TRATAMENTO P/ CONVULSIVO 1ª linha: benzodiazepínico - DIAZEPAM 5-10mg EV a 5mg/min (repetir em 3-5 min se continuar) - MIDAZOLAM ( 10mg (5mg se <40kgs) IM dose única) ➔ Se tem tempo faz Diazepam, se não tem tempo e nem acesso, faz midazolam (IM e mais rápido) ATENÇÃO! ambos possuem meia vida de 20 min, então aqui no brasil como não tem um BZD com duração longa, sempre da um fármaco não BZD, mesmo se o de primeira linha tenha funcionado, sempre faz o de segunda linha (como se fosse primeiro e segundo passo) 2º linha: FAE não benzodiazepínicos - FENITOÍNA (idantal) 20mg/kg (velocidade máxima 50mg/min e se for em idosos ou cardiopatas 20mg/min) É uma medicação EV ou VO, só pode diluir em soro fisiológico (nunca em SG pois cristaliza e em ringer também) e é uma medicação que vem num conservante extremamente ácido, por isso sempre dilua e teste o acesso antes pois se dá subcutâneo faz uma necrose local. Por ser um bloqueador de canal de cálcio é arritmogênico, então só faz administração monitorizando PA, SAT e FC. Não administrar muito rápido para não correr o risco defazer um bloqueio átrio ventricular (BAV), então fazer no máximo 50mg/min). E a dose precisa cuidar: a dose correta é 20mg/kg. - FENOBARBITAL (15-20mg/kg (velocidade máxim 50-100mg/min) Quando é um mal epiléptico convulsivo e nada adiantou: você entuba e seda (e se nada adiantou até então é um estado de mal epilético refratário) A sedação pode fazer com estas medicações: Coloca um eletroencefalograma e faz a sedação até parar de ter crise, deixa por 24hrs, que é o tempo pra entrar com dois fármacos e deixar chegar no nível sérico deles, ai começa então o desmame, com eletro encéfalo continuo, até suspender. Se aumentar, repito o processo. ACABOU A CRISE (PÓS ICTAL) Manter decúbito a 30º, monitorização de sinais vitais e aporte de O2 se necessário. Alteração de estado mental persiste >30min, abre-se o fluxograma de rebaixamento do nível de consciência + EEG contínuo 24-48hrs e faz o tratamento e investigação etiológica de EME não convulsivo SE DIAGNOSTICADO. Após EME convulsivo, 1/3 dos pacientes evoluirão para EME não convulsivo. EEG contínuo identifica 56% das crises eletrográficas em 1h e 93% em 4hrs de monitorização. TRATAMENTO P/ NÃO CONVULSIVO *manejo muito semelhante ao convulsivo No entanto, se houver refratariedade ao 1o passo (1a e 2a linhas terapêuticas), e o doente mantenha Glasgow > 8 e proteção de vias aéreas, prefere-se associar um segundo (e eventualmente terceiro) FAE não benzodiazepínico antes da sedação. Lacosamida, Topiramato, Valproato e Levetiracetam podem ser utilizados com ataque via oral ESCAPE DE CRISE EM EPILÉPTICO - >50% das crises no PS - Causas mais frequentes são: não adesão ao tratamento; troca de fármacos ou inicio de medicação nova (que pode reduzir níveis por interação farmacológica); exposição a desencadeantes (privação de sono; álcool; luz estroboscópica; uso de drogas ilícitas); infecções sistêmicas; distúrbios hidroeletrolíticos. Exames: o Hemograma completo o Sódio, potássio, cálcio iônico, magnésio, fósforo o Ureia e Creatinina o TGO, TGP, gamaGT, FAL o Bilirrubinas totais e frações o Proteína C reativa e rastreio infeccioso (Urina I, Urocultura e RX tórax) se suspeita de infecção o Nível sérico de FAE (Fármacos) Outros exames complementares: - TC de crânio com estudo de vasos (se critérios de alto risco para lesão intracrianadas agudas) COMO FAZER AJUSTE DE FAE (fármacos antiepilépticos)? Se não há uma boa adesão, vamos apenas orientar o uso adequado. Se há uma boa adesão é possível considerar ajustar a dose: fazemos o aumento da dose de medicação em uso ou associo CLOBAZAM 5-15mg 1x/dia à noite. CRISE SINTOMÁTICA AGUDA É uma crise gerada por lesão neurológica aguda ou em curso. Ocorre em até7 dias da intalação da doença (exceto para hematoma subdural pós TCE, quando pode ocorrer até 1 mês) Risco de recorrência de crise epiléptica em 10 anos é 16,6% (33% se AVC) para sintomática aguda e 63,5% para não provocada. Recorrência em geral ocorre precoce. Atividade epiléptica pode contribuir para lesão encefálica. Tratamento: é o tratamento de lesão encefálica aguda + farmacoterapia anti epiléptica de curta duração (habitualmente por 12 semanas) Investigação adicional: RM de crânio (padrão ouro e que deve se realizado em todo paciente com crise epilética sem causa evidente após exames inicias). Pode ser realizado ambulatorialmente se não houver suspeita de doença neurológica aguda. Coleta de líquido cefalorraquiadiano (indicado quando não tem causa evidente após investigação inicial; suspeita de infecção de SNC; suspeita de hemorragia subaracnóides; alteração de estado mental; histórico de neoplasia e/ou imunossupressão. As crises epilépticas podem resultar em leve pleocitose e hiperproteinorraquia. CRISE PROVOCADA Crise gerada por disfunção aguda e habitualmente transitória do cérebro, afetando a excitabilidade neuronial, provocada por um fator não intrinsicamente neurológico Inclui distúrbios metabólicos, ácido-base, hidroeletrolítico, doenças sistêmicas (ex.: hipertireoidismo), intoxicações e abstinência a substâncias Baixo risco de recorrência após resolução do distúrbio de base Tratamento: tratamento do distúrbio base + considerar farmacoterapia antiepiléptica caso a caso (não é necessário se distúrbio rapidamente corrigido, como uma hipoglicemia). CRISE NÃO PROVOCADA É uma crise espontânea, que não pode ser atribuída a uma doença neurológica ou sistêmica aguda. Ela pode ser associada a lesão sequelas encefálicas (crise sintomática remota) ou não. Há risco de recorrência de 30-50% (principalmente nos dois primeiros anos). E ela pode sim ser a primeira manifestação de quadro de epilepsia. .