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Psicologia do Desenvolvimento 2 1. A CRIANÇA, A FAMÍLIA E O DESENVOLVIMENTO INFANTIL – VISÃO HISTÓRICA Para começarmos o nosso estudo sobre a Psicologia do Desenvolvimento, é importante saber sobre os interesses que envolvem essa área. Durante a vida as pessoas passam por diversas mudanças e chegam a ser quem são ou até deixam de ser. São processos biológicos, culturais, sociais, que constituem e transformam o ser humano (Piletti, 2014). Essa fluidez se tornou cada vez mais liquida na sociedade pós-moderna e estudar essas rápidas mudanças pode ser um grande desafio (Bauman, 2001). De forma simples, posso descrever o desenvolvimento infantil como as mudanças que ocorrem com a criança ao longo do tempo. As mesmas podem ser separadas por períodos: o pré-natal, do nascimentos aos 2 anos, dos 2 aos 6 anos, dos 6 aos 12 anos e adolescência, dos 12 aos 19 anos. Iniciaremos com a maneira de estudar o desenvolvimento humano, passaremos pela história da criança e conceito de infância diretamente ligada à família e chegaremos até a importância da educação e do entendimento de forma multidisciplinar do desenvolvimento infantil. 1.1 TEORIAS E MÉTODOS DA PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO; As teorias são um conjunto de ideias que descreve, explica e prevê os comportamentos. Elas são importantes para dar sentido ao que observamos e servem como base para a ação. No caso do desenvolvimento infantil, essa ação seria melhorar a vida e a educação das crianças. Ao estudar o desenvolvimento humano, a psicologia faz uso de várias teorias com abordagens diferentes. Cada uma delas busca compreender e concentra-se em aspectos determinados. São eles: "mentais, cognitivos, afetivos, psicossexuais, com relevância na interação ambiente/sujeito (...)" (PILETTI, N. ROSSATO, S. 2014) 1.1.1 Vigotsky Começaremos com a teoria de Lev Semionovitch Vigotski (1896 - 1934) com a Psicologia histórico-cultural. Vygotsky nasceu no Império Russo onde atualmente é a Psicologia do Desenvolvimento 3 Bielorrussia e formou-se em direito na Universidade de Moscou. Ficou conhecido por seu trabalho em educação e desenvolvimento social. Acreditava que as pessoas davam sentido às coisas ao observar a sociedade e a comunidade. O estudioso questionou teorias deterministas e expôs o desenvolvimento através da relação com o outro e com a cultura. Vygotsky acreditava que a interação social na infância faz as crianças aprenderem de maneira gradual e que as pessoas tinham impacto sobre a sociedade e a sociedade sobre elas. Afirmava que o desenvolvimento social vinha antes do cognitivo, primeiro aparece o conhecimento interpsicológico, que se dá pela interação com os outros, depois o intrapsicológico, quando a criança assume um conhecimento pessoal. Vigotsky também definiu as pessoas que possuem um conhecimento maior do que aquele que está aprendendo como os "Outros de Maior Conhecimento", na maioria das vezes são os professores ou um tutor. Outro grande tema explorado por ele foi a "Zona de Desenvolvimento Proximal" que é a distância entre a capacidade de quem está aprendendo através da orientação de outra pessoa - Nível de desenvolvimento potencial - e a capacidade de quem consegue resolver um problema por conta própria - Nível de desenvolvimento real-. A aprendizagem acontece exatamente nessa zona. 1.1.2 Piaget Jean Piaget (1896-1980) foi um biólogo suíço, doutor em ciências, dedicou-se a estudar as questões epistemológicas (estudo do conhecimento) dentro da Psicologia. Para ele, o conhecimento seria uma construção constante. Piaget se dedicou ao estudo da evolução da inteligência humana. Para isso, desenvolveu testes e observações, incluiu seus próprios filhos como exemplos. Ele propôs diferentes estágios de desenvolvimento que veremos com detalhes no decorrer do nosso estudo. Nenhum deles poderia ser alcançado sem passar pelo anterior. Os estágios são: - Sensório-motor (0 a 2 anos) - Pré-operatório (2 a 7 anos) - Operações concretas (7 a 11 anos) - Operações formais (11 anos em diante) Psicologia do Desenvolvimento 4 Piaget acreditava que as crianças nasciam com uma estrutura genética, que ele chamava de gênese, e a partir dela formariam outras estruturas parciais até chegar a uma estrutura total. Nesse processo, três fatores importantes aparecem: o maturacional, maturação orgânica que possibilita os estágios de desenvolvimento mental; a experiência ativa dos sujeitos sobre os objetos; e o fator interacional, que é a experiência através da educação e da linguagem. Os processos que permitem fazer a transição de um estágio de crescimento para o outro acontecem de duas maneiras: - assimilação: quando se utiliza um conhecimento já existente, que ele chamou de esquema, e se aplica em uma nova situação. - acomodação: quando se muda um esquema para receber nova informação 1.1.3 Freud Sigmund Freud (1856 – 1936) foi o fundador da psicanálise, nasceu na República Tcheca, mas viveu na Áustria. Formou-se em medicina e tinha interesse em estudos neurológicos. Ele se destaca no estudo do inconsciente, novidade na sua época, e desenvolveu sua teoria da personalidade que defende o comportamento como um processo mental refletido na vida atual e experiências passadas. Freud acreditava que a personalidade de um indivíduo se estabelecia durante a infância e se as fases de desenvolvimento fossem concluídas com êxito, o resultado seria uma personalidade saudável, caso contrário o indivíduo poderia desenvolver uma personalidade doentia. Essas fases de desenvolvimento eram baseadas em zonas erógenas e o fracasso na conclusão das mesmas deixaria a criança com fixação na zona erógena. Veremos as etapas do desenvolvimento psicossexual com detalhes no decorrer do nosso estudo, são elas: - Fase oral, do nascimento até os 18 meses -Fase anal, dos 18 meses a 3 anos -Fase fálica, dos 3 a 6 anos -Fase de latência, dos 6 anos até a puberdade -Fase genital, da puberdade até a idade adulta Psicologia do Desenvolvimento 5 A experiência analítica convenceu-nos da completa verdade da afirmação [...] de que a criança psicologicamente é pai do adulto e que os acontecimentos dos seus primeiros anos são de importância suprema em toda a sua vida posterior. Freud " (PILETTI,N. ROSSATO, S. 2011, p 49) 1.1.4 Outras teorias Muitas teorias partiram dos estudos de Freud e Piaget, por exemplo. Veremos durante nosso estudo outros teóricos que aperfeiçoaram ideias e estudaram os detalhes de cada fase do desenvolvimento. Um desses teóricos foi Erik Erickson que, através da expansão das teorias de Freud, desenvolveu a Teoria Psicossocial. Para Erickson, o desenvolvimento ocorre ao longo da vida e, durante cada estágio, o indivíduo precisa lidar com uma crise que, se tiver uma resolução bem sucedida, promoverá uma virtude. A seguir descrevo cada fase a virtude produzida: - Confiança básica X Desconfiança (nascimento – 1 ano): Esperança - Autonomia X Vergonha e Dúvida (1 – 3 anos): Vontade - Iniciativa X Culpa (3 – 6 anos): Finalidade - Diligência X Inferioridade (6 – 11 anos): Competência - Identidade X Confusão de papéis (adolescência): Fidelidade - Intimidade X Isolamento (vida adulta jovem): Amor - Geratividade X Estagnação (idade adulta): Consideração - Integridade X Desespero (idosos): Sabedoria Os Behavioristas também contribuíram com as pesquisas sobre desenvolvimento. Para John Watson, as crianças são seres passivos que podem ser moldados controlando a associação estímulo-resposta. Skinner acreditava que a aprendizagem pode ser dividida em tarefas menores e que a oferta de recompensas imediatas para realizações estimularia mais a aprendizagem. Albert Banduraapresentou a “Teoria de aprendizagem social” e salientou como as crianças aprendem por observação e imitação. Dessa maneira, elas tornam-se gradualmente mais seletivas em relação ao que imitam. Psicologia do Desenvolvimento 6 Arnold Gesell desenvolveu a “Teoria Biológica”. Para ele, a hereditariedade promove o desenvolvimento em uma sequência pré-ordenada, como uma espécie de cronograma. A criança evolui no sentido da aquisição de maturidade. A aprendizagem só ocorre depois de acontecer o desenvolvimento biológico. 1.2 HISTÓRIA DO DESENVOLVIMENTO INFANTIL – LINHA DO TEMPO Para estudarmos sobre a história do desenvolvimento infantil é importante conhecer sobre a história da infância. As crianças nem sempre foram tratadas como crianças da maneira como conhecemos hoje. Podemos considerar que hoje a família gira em torno da criança, mas historicamente sabemos que não foi sempre assim. Existia uma grande preocupação com sustento, força de trabalho e a necessidade de ter filhos para preencher esse espaço. Recomendo a leitura de “História social da criança e da família” do historiador francês Philippe Ariés. A seguir destaco alguns pontos importante trazidos por ele. As representações das idades da vida durante os séculos foram atribuídas de maneira diferente por vários autores. Ariés (1981, p. 48) traz uma comparação interessante: “(...) cada época corresponderiam uma idade privilegiada (...): a ‘juventude’ é a idade (...) do século XVII, a ‘infância’, do século XIX, e a adolescência, do século XX.” Podemos citar a comparação das idades da vida com as estações do ano, os meses, os signos do zodíaco, a ocupação, etc. Não existia uma definição de adolescência que veio somente após o século XVIII e quando a infância foi ligada a ideia de dependência. Durante a Idade Média, as crianças eram consideradas pequenos adultos. Isso aparece representado, até mesmo, nas artes: o mundo infantil misturado ao do adulto. A criança pequena não tinha muita importância no século XVIII. As famílias tinham muitos filhos conscientes que alguns deles morreriam ainda bastante pequenos. Somente no século XVIII, com as práticas contraceptivas, que o que era chamado de “desperdício necessário” desapareceu (Ariés, 1981, p58). Na Idade Média, meninos e meninas eram confundidos por usarem roupas iguais. As roupas somente demonstravam a hierarquia social. Quando as crianças passaram a usar roupas que as identificasse como crianças, as meninas ainda continuavam usando roupas como se fossem pequenas mulheres. No final do século XVIII adotou-se a roupa como um uniforme militar, o que evoluiu até nossos dias chegando às calças Jeans. Psicologia do Desenvolvimento 7 No início do século XVII, as crianças tinham uma participação forte em danças, festas e jogos de azar (que eram repreendidos por certa minoria). As brincadeiras de meninos e meninas também não tinham distinção. Depois os jogos comuns a todas as classes foram separados entre brincadeiras das classes superiores e brincadeiras das crianças em geral e do povo. Por volta do século XVI era comum as crianças participarem de brincadeiras sexuais, não se acreditava que existia uma inocência. Os adultos usavam linguagem grosseira e as crianças presenciavam várias situações. A partir da aplicação de uma certa moral cristã no século XVII, houve uma mudança nesse sentido. Na época em que vivemos parece cruel a maneira como as crianças eram tratadas nos séculos passados, porém, o autor deixa claro que, a afeição por elas também estava presente. Na sociedade medieval, (...), o sentimento da infância não existia – o que não quer dizer que as crianças fossem negligenciadas, abandonadas ou desprezadas. O sentimento da infância não significa o mesmo que afeição pelas crianças: corresponde a (...) essa particularidade que distingue (...) a criança do adulto, (...). (ARIÉS 1981, p.156) A partir de certa idade as crianças eram separadas com o intuito de serem educadas. Contudo, existiam estudantes de várias idades misturados na escola, eles poderiam frequentar desde que quisessem aprender. Durante um tempo os colégios eram asilos para estudantes pobres, depois passaram a ser instituições de ensino de grande parcela da população. A partir daí, começou-se a separar os estudantes por idade para que não fossem contaminados por imoralidades. Separação essa que ocorreu primeiramente nas instituições de ensino, antes de ocorrer na sociedade. Foi com a separação das classes escolares que se começou a conscientização sobre as diferentes fases da vida. Inicialmente, as classes eram separadas por grau de aprendizagem e não por idade. Começa-se a separar primeira e segunda infância, caracterizada por primeira aquela vivida até os 10 anos em casa e a segunda vivida no colégio. Nota-se que além da separação das idades no ensino, houve, também, a separação das classes sociais. Psicologia do Desenvolvimento 8 Durante o século XIV ao XVII existia uma disciplina na qual eram usados chicotes para humilhar o jovem ou a criança. Com o passar dos anos, percebe-se que a educação brutal foi sendo deixada de lado conforme o sentimento de infância ia surgindo. Os jesuítas, os oratorianos e os jansenistas influenciaram muito a preocupação com a particularidade da infância. A partir deles vemos nos colégios o cuidado com a educação aumentando e o senso de responsabilidade que os adultos deveriam ter com as crianças começa a aparecer. Contudo, as meninas permaneceram, por longo tempo ainda, saindo muito cedo da infância. A partir do século XVI a formação da família é visivelmente representada nas iconografias. Primeiramente, o homem é representado pelo seu ofício, após a família começa a aparecer dentro deste ofício, até chegarmos à presença da criança e a família até nossos dias se une ao redor dela. Percebeu-se que o cuidado com a criança, a noção de intimidade, de núcleo familiar, de querer manter os filhos por perto e estar responsável por sua educação e a preocupação com sua saúde foi gerando a família moderna. No século XX percebemos a expansão das teorias do desenvolvimento, a atenção especial à infância a criação de leis de proteção à criança. 1.2.1 Importância dos trabalhos multidisciplinares no desenvolvimento infantil. Entendemos através do trabalho de Philippe Ariés que a preocupação com a educação foi o ponto de partida para preocupar-se com as crianças, para tentar entender o sentimento de infância que traria com ele o sentimento de família. O núcleo familiar passou a olhar de maneira diferente para o desenvolvimento da criança e os estudos de diversas áreas se tornaram necessários para auxiliar no desenvolvimento saudável dos primeiros anos do ser humano. Segundo Piletti e Rossato (2014), a Psicologia tem a tendência de concentrar-se em apenas um aspecto do comportamento, mas o desenvolvimento precisa ser considerado na sua globalidade. Os autores costumam dar ênfase a um dos aspectos, mas os estudos geralmente os seguintes: - Físico: tamanho, aparência, cérebro, motricidade... - Cognitivo: pensamento, intelectualidade, conhecimento... - Socioemocional: autoestima, autoconhecimento, sexual, amizades... Psicologia do Desenvolvimento 9 1.2.2 Ideias Principais Na primeira unidade entendemos o conceito de desenvolvimento e a separação das fases da infância. Em seguida vimos as principais teorias do desenvolvimento infantil, passando por estudiosos como Vigotski, Piaget e Freud. A história do desenvolvimento infantil foi resgatada desde quando não se fazia diferença entre crianças e adultos, passando pela preocupação com a educação, que trouxe maior consciência das fases dedesenvolvimento, até as famílias modernas e os nossos dias com a atenção especial as questões da infância. Por último, entendemos a importância do trabalho multidisciplinar no desenvolvimento infantil e os principais aspectos desse desenvolvimento. Psicologia do Desenvolvimento 10 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. 2. ed. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos Editora S. A., 1981. BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Tradução Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. GESELL, Arnold. A criança do 0 aos 5 anos. 5. ed. São Paulo: M. Fontes, 1999. PILETTI, Nelson; ROSSATO, Solange M.; ROSSATO, Geovanio. Psicologia do desenvolvimento. São Paulo: Contexto, 2014. PILETTI, Nelson; ROSSATO, Solange M.; ROSSATO, Geovanio. Psicologia da aprendizagem: da teoria do condicionamento ao construtivismo. São Paulo: Contexto, 2012.