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XXIV ENCONTRO ANUAL DA ANPOCS GT “Religião e Sociedade” – 2ª sessão – “O milenarismo revisitado” O MILENARISMO INTRAMUNDANO DE NOVOS PENTECOSTAIS BRASILEIROS Leonildo Silveira Campos - Universidade Metodista de São Paulo - UMESP A introdução do movimento pentecostal na América Latina ocorreu a partir de 1910 como resultado de uma expansão centrífuga provocada por transformações ocorridas no campo religioso norte-americano. Porém, as expectativas geradas nas pessoas e grupos sociais diante do início de um novo século, parece não ter tido nenhuma ligação com essa efervescência religiosa, pois desde o século XVIII, nos Estados Unidos, já havia sinais de que novos movimentos religiosos de origem cristã estavam em gestação. No entanto, a cristalização de alguns deles – fundamentalismo e pentecostalismo – somente se deu no final da primeira década do século XX, quando então já existia uma constelação de fatores socioculturais, econômicos, religiosos e teológicos, os quais se alinharam entre si no decorrer do processo de urbano-industrialização da sociedade norte-americana. Vários elementos desencadearam o pentecostalismo naquele país. Entre eles: o aparecimento nos últimos anos do século XIX da idéia de que a volta do messias (Jesus) inauguraria o milênio (pré- milenarismo) e que esse retorno triunfal seria precedido por manifestações do Espírito Santo, tais como as “chuvas tardias” prometidas pelo profeta bíblico Joel. Desde então foi se estabelecendo entre os protestantes a crença que fenômenos emocionais - a glossolalia em especial – sinalizariam a chegada da 2 “era do Espírito Santo”. Assim ganhou corpo e se disseminou mundialmente um protestantismo emocional e místico. Historicamente o fenômeno pentecostal se tornou conhecido por meio de dois eventos: O primeiro aconteceu em uma vigília de oração, realizada em Topeka (Escola Bíblica Betel, no Kansas), justamente para comemorar a chegada do novo século, quando na passagem de 1900 para 1901, várias pessoas, após horas de exercícios devocionais, praticaram a glossolalia, confirmando a tese do diretor da escola de missionários, Charles F. Parham (1873-1929), que o falar em línguas seria a principal marca de que alguém estava sendo batizado com o Espírito Santo. O segundo evento ocorreu em Los Angeles, onde um centro irradiador se instalou num antigo templo da Igreja Metodista Africana, na Azuza Strett, em 1906. O profeta, que reuniu pessoas ao redor desse novo centro irradiador e tornou mundialmente conhecidas essas experiências emocionais com o Espírito Santo, foi um pregador negro, William Seymour (1870-1922), também testemunha pessoal dos eventos registrados em Topeka., cinco anos antes. Nos meses e anos seguintes, o pentecostalismo - como movimento e mentalidade de vocação missionária - se espalhou por todo o mundo protestante, deixando as suas marcas na América Latina, África, Europa e Ásia. Porém, a sua inserção e expansão nas terras de missão não se deu da mesma forma e época, nem foi levado por instituições missionárias especializadas, que pudessem garantir a sua homogeneidade ou por pregadores pertencentes a uma mesma matriz religiosa. Quanto ao Brasil, se considerarmos as datas de sua implantação podemos classificar o pentecostalismo em pelo menos dois grandes grupos: o “clássico”, representado pela Congregação Cristã no Brasil (1910) e a maior parte da Assembléia de Deus (1911), que juntos se contrapõem ao chamado “neopentecostalismo”. Este último, resultante de mudanças ocorridas no sub-campo 3 pentecostal, se valeu tanto de receitas importadas dos televangelistas norte-americanos (Gutwirth, 1998) como também da cultura latina e da força criadora de seu imaginário coletivo, tudo aliado com a força dos meios de comunicação de massa. Nos primeiros tempos na América Latina, o pentecostalismo usufruiu da fama conquistada pelo protestantismo “histórico” de ser uma força modernizante, anti-cultural e desmistificadora dos valores da sociedade católica e latina. Somente cinco décadas depois é que novas formas de ser pentecostal passaram a se acomodar dentro dos moldes e processos culturais aqui existentes. Dessa construção híbrida surgiram novos tipos de religiosidade, analisados por sociólogos, antropólogos e historiadores da religião, por meio de categorias como “continuidade” ou “ruptura” com a velha cultura pré-colombiana ou católico romana. É claro que uma abordagem que valorize as relações entre pentecostalismo e milenarismo levanta uma série de questões, que precisam ser ao menos explicitadas: Que papel tem desempenhado na América Latina e no Brasil o imaginário coletivo e os sonhos na identificação dos traços messiânico-milenarista dos pentecostalismos? Que tipo de postura utópica impregnam essas várias formas de pentecostalismos? Que relações há entre os “novos pentecostais”, que ganharam força no Brasil nos anos 70, com uma forte ênfase na vida material próspera e a espera de um salvador cuja ação concretizará o reino de Deus entre os homens, isto é, um período de paz social, saúde e prosperidade para os eleitos? Pressupomos haver uma relação muito próxima entre religião e esperança, religiosidade e sonhos, ideologia e utopia, criatividade e reprodução cultural, características presentes no meio pentecostal urbano brasileiro, principalmente na pregação e prática da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Nessa mesma linha de raciocínio consideramos ser possível haver ligações desses novos 4 pentecostais1 com as utopias do mercado global, sistemas de exclusão social e ressurgimento de crenças em mitos de abundância e prosperidade, dentro dos limites de uma sociedade de consumo. Religião e desejo: o milenarismo como busca do “reino de Deus” A experiência religiosa está histórica e culturalmente ligada à busca humana pelos objetos desejados. Mas é preciso que se investigue as causas sociais que motivam o desejo de transformações parciais ou totais de uma determinada sociedade. Dessa forma, os desejos de que um líder possa trazer um período de concretização dos sonhos coletivos nascem do desencanto e frustração com determinada ordem social e suas formas de programar a ação social, com vistas aos objetivos de se alcançar um vida humana de melhor qualidade. Portanto, situações como essas podem tanto desencadear um processo de fuga como também gerar novas formas de estruturar a vida social, provocando uma reorganização das fronteiras e a geração de uma ordem social alternativa. Esse processo de busca, embora social, tem fortes conexões com o que ocorre no íntimo dos indivíduos. Isto ocorre porque, segundo Rubem Alves (1981), o "projeto inconsciente do ego, não importa o seu tempo e nem o seu lugar, é encontrar um mundo que possa ser amado". Por isso, a ação de um messias e a pregação milenarista nascem do que Mircea Eliade (1973) considera ser a base da experiência religiosa, ao afirmar que a "experiência do sagrado está indissoluvelmente ligada ao esforço do homem para construir um mundo que tenha um significado". 1 Tem sido empregado entre nós o termo “neopentecostalismo” para indicar as diferenças qualitativas entre os primeiros pentecostais brasileiros e a nova forma de ser pentecostal, inaugurada nos anos 70. Esse termo pode ser empregado, mas não se pode desconhecer a atual e oportuna discussão, existente entre nós, sobre as formas de se classificar os pentecostalismos. Para discussões recentes veja, entre outros: Mendonça (1997); Bastian 5 É claro que, entre nós no Ocidente, neste final de milênio, esse processo de ressignificação da vida, a partir de práticas religiosas, acontece num contexto que inclui tanto a existência de um processo de secularização, que provoca profundos sinais de “desmanche” nos universos simbólicos, como também de uma retomada de processos de “revitalização”das experiências humanas com o sagrado. Consideramos, portanto, que a busca do milênio de abundância e a vinda do messias desejado, transcende as fronteiras delimitadas secularmente pela própria religião. Dessa forma, o mundo da política, das artes, da ciência e até mesmo da economia, tem se mostrado espaços sociais apropriados para a irrupção de antigas e novas esperanças milenaristas. As religiões em suas origens, como nos recorda Bastide (1976), quase sempre estão vinculadas aos sonhos do homem acordado, isto é àquelas utopias compartilhadas socialmente. Por isso, como destaca Desroche (1969,1985), as raízes sociais da esperança, os sonhos e transes desempenham importantes funções na vida social e fazem com que todos esses ativistas do milênio estejam ligados entre si, pela mesma rede de fios de esperança. Há, para todos os que comungam dessa esperança, um presente intolerável, cuja superação exige a criação de um "novo céu" e de uma "nova terra". É claro que essa esperança se manifesta às vezes de uma forma "selvagem" e momentânea no transe ou então, socialmente, em movimentos milenaristas, de efervescência e de convulsão social. Por esse motivo, poucas são as experiências de um sonho social (milenarismo) de recusa da sociedade instituída, que não têm sido sufocadas – externa ou internamente - em um banho de sangue e de fogo. Algumas dessas experiências, de inspiração cristã, tais como a guerra dos camponeses, na Alemanha; em Pedra Bonita, Canudos, Contestado, Catulé e Mucker, no Brasil; no templo do povo, de Jim Jones, (1992,1997); Willaime, Freston , Novaes e Corten (in Archives de Sciences sociales de Religions, n. 105, janvier- mars 1999). 6 na Guiana; Waco e o ramo daviniano, nos EUA, foram implacavelmente reprimidos. Essas e outras tragédias ligadas a movimentos milenaristas indicam haver uma complicada relação entre sonhos, fantasmagorias e mecanismos de controle social e político nas sociedades estabelecidas, que consideram a manifestação de movimentos messiânico-milenaristas intoleráveis, particularmente quando estes se afastam das possibilidades de controle por meio da violência simbólica. Esse fenômeno, afirma Desroche (1969), “não floresce nas sociedades que nada esperam porque já estão saciadas e saturadas ou porque, extenuadas, não podem sequer gritar das profundezas do desespero: o grito de alarme, o famoso Midnight cry de sentinela na torre de vigia”. As multidões, na expressão de Laplantine (1977) "exploradas e sedentas de absoluto e justiça social”, tocadas pelos sonhos, “se congregam em torno dos grandes profetas e dos pequenos iluminados, para transformar seu desespero em esperança." Nas sociedades subdesenvolvidas, o pentecostalismo, como religião de pobres e de uma classe média aturdida pelos riscos de descenso e pelas dificuldades de uma ascensão social, se entrega aos delírios da “teologia da prosperidade” e as formas de classificar os espaços geográficos da cidade por meio da teoria da “batalha espiritual”. A explosão de cultos pentecostais ocorrem em espaços sociais também marcados pela presença de cultos mediúnicos e de possessão dos kardecistas e afro-brasileiros. Esses cultos são considerados por Laplantine (1977) como uma "reação a uma situação de frustração intensa, que já não se conforma em aguardar a chegada da Idade de Ouro, senão, que o realiza de maneira imediata ao escapar, por assim dizer, da história em condutas paradoxais de exaltação coletiva e exorbitância". Por isso é possível unir o messianismo, o transe e a possessão, às utopias, em situações em que os agrupamentos sociais buscam a perfeição, invertem os sinais da ordem social, propondo uma 7 sociedade que seja o oposto aquela realidade social indesejável. São nesses momentos, carregados de efervescência, frustração e esperança, que antigos mitos e símbolos são recombinados e ressignificados, passando a habitar o discurso e os ritos desses grupos messiânico-milenaristas. Tais mecanismos objetivam, ao lado da recusa do que existe, a construção de uma sociedade alternativa ainda inexistente, que seja capaz de realizar a sonhada “era messiânica” localizada, de acordo com a situação, nas origens, dentro ou então no final dos tempos. Movidos por essa visão de mundo, os indivíduos então retomam a caminhada na direção apontada (o milênio), sob a liderança do líder (o messias). A teologia da libertação usou e abusou, em sua retórica milenarista, dessa figura tirada de um livro bíblico (Êxodo), que também tem sido reproduzida em jornais da Igreja Universal do Reino de Deus, tendo o bispo Macedo, o seu líder, na frente, apresentado na legenda como o “moderno Moisés” brasileiro. Essa ligação entre a violência, os pobres, suas emoções, pentecostalismo e teologia da libertação, foi bem captada por analistas estrangeiros como Corten (1996), por exemplo. O fenômeno messiânico-milenarista permite a reintrodução na história da dimensão do transcendente, do absoluto ou do sagrado, seja ele de que tipo for, combinando tal mensagem com o contexto político predominante. Nesse sentido, a religião e a busca do milênio fazem parte de uma recusa daquelas formas de vida social que, por estar "desprovida de mitos coletivos", se tornou intolerável. Daí a exigência de que o analista, conforme Mannheim (1954), entenda que "certos grupos oprimidos estão intelectualmente tão interessados na destruição e transformação de uma dada condição social que, sem sabê-lo, percebem apenas aqueles elementos da situação que tendem a negá-la". Acreditamos ser essa perspectiva uma ajuda na compreensão do dialético processo de aceitação-rejeição da cultura e sociedade latino-americana por parte do pentecostalismo. Concordamos 8 com Mannheim (1954) quando afirma que "a chave para a compreensão das utopias é a situação estrutural da camada social que as adota em determinada época". Pois bem, que camadas sociais estão, neste final de milênio, adotando e reformulando o pentecostalismo? Qual é a situação desses estratos sociais e que marcas da situação de classe se refletem na ideologia religiosa adotada como força mobilizadora desses novos pentecostais? Sobre essa inter-relação entre utopias religiosas e sociedade há uma observação estimulante de Bourdieu (1979) sobre os camponeses da Argélia, quando no período final da dominação francesa experimentavam um processo de desestruturação provocado pela implantação do capitalista, com seu racionalismo e espírito de cálculo, em uma sociedade ainda portadora de valores tradicionais e religiosos, de origens tribais e islâmicos. Aquela situação resultou, segundo Bourdieu, em uma revolta diante do reconhecimento da impossibilidade do argelino de "se orientar em direção a alvos racionais e explícitos". É claro que há também na erupção desses movimentos o risco de mortes e destruição que ocorrem quando há o conflito deles com a sociedade estabelecida. Isto aconteceu, por exemplo, quando os príncipes alemães, com o apoio de Lutero, massacraram os revoltados camponeses, inspirados pelos ideais da reforma radical. As burocracias religiosas, ao longo dos tempos, tem adquirido uma formidável experiência na repressão dessas explosões de esperança e espírito libertário. Há, nesse aspecto, um elemento institucional que age contra o carisma – do qual o líder messiânico e o ideal de milênio fazem parte. É o exemplo da própria Igreja cristã, que à sombra do Império Romano, rotinizou (Weber,1984) o carisma de Jesus de Nazaré e assumiu, como instituição, o papel do messias, legitimando-se através da doutrina do "poder vicário". Foi nesse período histórico que, em nível de culto, doutrina e organização, o carisma do fundador se transformou em carisma de 9 postoe de função, sujeito às regras rígidas e inquestionáveis, elaboradas pelas gerações seguintes, para definir os limites da atuação do sagrado, em cada momento específico da história. No Brasil, desde o século XIX, surtos messiânico-milenaristas ocorreram no nordeste pobre do país, assim como outros nas regiões sul e sudeste, no período de 1912-1916, estudados por Maria Isaura P. Queiroz (1976), Maurício Queiroz (1966), Monteiro (1974,1978); o caso dos Mucker, analisado, entre outros, por Amado (1976) e o do Catulé, descrito na literatura socio-antropológica por Castaldi (1957) e Renato Queiroz (1995). Em todas essas análises tentou-se mostrar a relação existente entre o contexto de intensa desorganização social tradicional e os processos de "desencantamento” e “reencantamento” do mundo. Pois bem, o que essas formas de messianismo e milenarismos têm a ver com o pentecostalismo? Todos eles têm idênticos conteúdos milenaristas? Não seria o pentecostalismo urbano, especialmente nas versões que tomaram conta dos meios de comunicação de massa, uma continuação da esperança messiânico-milenarista baseadas no do ut des? Se isso for correto, que tipo de solo favoreceu o surgimento dessas esperanças e utopias, em uma sociedade dominada pela idéia de secularização, racionalização e mercado global? Até que ponto podemos aplicar, aos vários pentecostalismos em expansão na América Latina, desde o final da primeira década do século XX, os critérios empregados para descrever e interpretar os movimentos messiânico-milenaristas? Os pentecostais, o milenarismo e a força da esperança A propagação da mensagem protestante, tradicional ou pentecostal, na América Latina, no entanto, se deu mais por causa das condições propícias do que pelo dinamismo do campo religioso 10 norte-americano. O segredo, nesse caso, está na esperança instalada no imaginário coletivo e nas frustrações represadas desde a conquista dos povos indígenas no século XVI. Todavia, as transformações no campo religioso norte-americano, segundo Harold Bloom (1993), começaram a surgir já no século passado, especialmente devido ao temor de que forças anti- cristãs pudessem fazer daquele país uma “nação pós-cristã”. O fundamentalismo, surgido na mesma época do pentecostalismo, adotou como seu pressuposto que essas forças destrutivas pareciam se tornar invencíveis e que elas se manifestavam por meio do aborto, comunismo, eutanásia, homossexualidade, direitos civis, etc. Para eles essa desintegração social romperiam o contrato social baseado no “destino manifesto”, que tinha no Deus da Bíblia a sua legitimação. Por isso seria preciso que as forças do mal fossem combatidas por meio de uma adesão coletiva a fé cristã, do contrário o fim do mundo estaria chegando. Contudo, essa nova reação, principalmente a baseada nas emoções se incompatibilizou com as instituições protestantes, na medida em que fazia da glossolalia, das revelações individuais, da busca de uma religião prática e das experiências extáticas, o sinal de sua legitimidade. Cabe ressaltar também que a perspectiva escatológica da volta eminente de Jesus à Terra foi estimulada por eventos acontecidos alguns dias antes do início das atividades pentecostais no templo da Azusa Street, em abril de 1906. Isto é, essa efervescência religiosa foi antecipada em alguns dias pela quase destruição de São Francisco, na Califórnia, por um terremoto e incêndios, que devoraram aquela cidade em mais de 80%. De imediato os pentecostais incorporaram à sua mensagem a idéia de que o fim do mundo estava próximo, por causa do terremoto e incêndios, vendo neles uma concretização dos “sinais do fim”, tal como aparece no sermão escatológico de Jesus, no evangelho de São Mateus (Mateus 24). Aliás, essa ênfase no fim do mundo é um traço cultural arraigado no imaginário dos norte- americanos, tendo sido muito explorado nos governos Reagan e Bush. 11 Desde então, pregadores pentecostais se tornaram missionários devotados, levando rapidamente a mensagem pentecostal para outras partes do mundo, centrada em quatro pontos, que foram didaticamente expressos quando do surgimento da "Igreja do Evangelho Quadrangular", organizada nos anos 20, nos EUA, pela profetiza Aimee Semple McPherson: “Jesus salva”, “Jesus cura”, “Jesus batiza” (com o Espírito Santo) e “Jesus volta”. Era preciso, pela pregação, apressar o retorno de Jesus, iniciando-se assim o milênio. No Brasil esse tipo mais tradicional de pentecostalismo chegou em 1910, oriundo de Chicago e se estabeleceu em São Paulo, na região do Brás e em Santo Antônio da Platina, no Paraná, atingindo imigrantes italianos, operários de fábricas e lavradores. Isto porque, o pregador dessas novas idéias e práticas religiosas era o ítalo-americano Luis Francescone (1866-1964), que deu origem a Congregação Cristã no Brasil, durante rápidas passagens pelo Brasil, ao longo de sua vida. No ano seguinte à chegada de Francescone, dois imigrantes suecos, Vingren (1879-1933) e Berg (1884-1963), vindos também de Chicago, desembarcaram em Belém, no norte do Brasil, e ali fundaram, após uma dissidência na Igreja Batista, a Missão da Fé Apostólica, que mais tarde (1914) adotaria o nome da nova denominação surgida nos EUA - Igreja Assembléia de Deus - que neste final de milênio é a maior denominação pentecostal brasileira. Os pentecostalismos, no entanto, assim como os protestantismos, entraram na América Latina cercados de algumas expectativas utópicas. Todavia, rapidamente essas esperanças se esvaziaram, pois, para usarmos ainda mais uma vez os termos de Mannheim (1954), os seus adeptos assumiram uma mentalidade "ideológica", de manutenção da sociedade, até por negação da cultura e não por postura "utópica", capaz de transformá-la. Assim, se o pentecostalismo ou o protestantismo, tivessem se 12 tornado uma força utópica teriam, com certeza, assumido orientações que "transcendem a realidade” e colaborado para o rompimento das “amarras da ordem existente". Talvez esta recusa do pentecostais em assumir uma postura utópica tenha provocado neles uma inibição quanto as transformações sociais, enfatizando tão somente as mudanças individuais e não as coletivas. Esse comportamento evasivo levou D’Epinay (1970) a considerar as comunidades pentecostais como uma espécie de “refúgio das massas”, posição reformulada por ele mesmo, em 1983, quando analisou as ligações do pentecostalismo chileno com a ditadura militar de Pinochet. No Brasil, uma grande mudança no campo religioso protestante começou a ganhar corpo, a partir de 1950, década em que ocorreram profundas mudanças estruturais na economia e cultura do País, com a aceleração do processo de urbano-industrialização. Nas grandes cidades começou a surgiu um tipo de pentecostalismo centrado mais na cura divina do que na glossolalia. Como resultado dessa pregação surgiu uma multiplicidade de igrejas pentecostais, as quais adotaram novos nomes: Igreja do Evangelho Quadrangular, Igreja Pentecostal "O Brasil para Cristo" (1956), Igreja Pentecostal "Deus é Amor" (1961), Igreja de Nova Vida (1961) e centenas de outras pequenas seitas, igrejas ou denominações de corte pentecostal. Porém, a expectativa da volta de Cristo e o tema “fim do mundo” continuou presente na retórica desses grupos pentecostais, mesmo com ênfase na “cura divina”. Nas décadas seguintes, anos 70 e 80, novos grupos, safras de igrejas e ideologias pentecostais surgiram, agora em pleno período da ditadura militar e da internacionalização da economia. Entre vários desses movimentos estão: Igreja Universal do Reino de Deus (1977), liderada por Edir Macedo; Igreja Internacional da Graça de Deus (1980), cujo líder é o missionário Romildo R. Soares, um cunhado de Macedo; Igreja Apostólica Renascer em Cristo, fundada pelo casal Sonia-Estevan Hernandes. Todas essas igrejas se incluem na classificação de neopentecostais, segundo Mendonça,13 Campos (1997) ou Mariano (1999), principalmente por causa das práticas que se distanciam da matriz pentecostal tradicional. Desde então, o cenário religioso se tornou mais pluralista e concorrencial, exigindo-se de seus agentes e instituições a adoção de novas estratégias, práticas e ideologias, as quais tomaram corpo nas estratégias de marketing, facilmente identificáveis nas igrejas: Universal do Reino de Deus e Renascer em Cristo. Por sua vez, os neopentecostais, com a finalidade de construir uma identidade mais clara e de se diferenciar da aparente homogeneidade ora existente no concorrido campo religioso, alicerçados por uma eficiente política de captação de recursos, conseguem sustentar estratégias modernas de marketing, enquanto fazem propaganda da prática do exorcismo, da cura divina e de uma versão atenuada da moralidade puritana, elementos centrais de sua performance social. Igreja Universal do Reino de Deus - milenarismo e mercado Erram os que pensam ser o messianismo e o milenarista fenômenos tipicamente rural e próprio de camponeses pobres, isolados e de pouca cultura urbana. O meio urbano brasileiro, como analisaram Negrão & Consorte (1984) também tem sido palco desses movimentos. Nesses espaços, novos messias são gerados e alguns até chegam a organizar “cidades santas” ao redor deles, facilitando com isso a imposição de padrões de comportamento, reforçando a solidariedade, enquanto se costuram novas alianças. Assim, os devotos procuram se reunir ao redor do altar, a fim de se aquecerem em “cavernas simbólicas”. Tais cidades têm como alicerce muita esperança, mitos e rituais, sendo os messias apenas fiéis depositários dos sonhos de uma vida melhor. Com isso, essas “cidades santas”, tentam ser cópias da simbólica “Jerusalém celestial”, muito popular nos círculos apocalípticos do primeiro século da era cristã. 14 Entretanto, não era essa a expectativa da teologia dos anos 60, que reafirmava até de uma forma ingênua, o otimismo na capacidade humana de construir uma cidade feliz e secularizada, na qual a religião ou alguma divindade não desempenharia papel criador algum. Acreditava-se então, que os cristãos estavam sendo conclamados a assumir um lugar de destaque na criação de uma vida mais plena e integral dentro da “cidade do homem”. Parecia, para eles, que rapidamente seriam abandonados aqueles resquícios oriundos do protestantismo puritano e dos movimentos de santidade, que pressupunham a condenação e o desprezo da cidade. Até então, para os pentecostais, a cidade (a grande Babilônia) que estava no centro do juízo divino deveria ser negada. A palavra de ordem era: “Sai do meio dela povo meu!” (Apocalipse 18.4). Nos anos 60, Enéas Tognini, um líder pentecostal brasileiro, escreveu um sugestivo livro, em cuja capa havia um fotografia do centro da cidade e a expressão “São Paulo será destruída!” Nesse pentecostalismo, a negação da cidade se manifestava através de uma ética tanto na recusa como na construção de universos simbólicos paralelos. Neles se reafirmava uma contracultura urbana, talvez devido ao seu surgimento entre pobres, negros, imigrantes e outros excluídos do sistema econômico, o que valeu para eles a designação de “religião dos pobres”. Os que esperavam um milênio contra-sociedade, violento e destruidor, nada ou pouco tinham a perder, mas sim, tudo a ganhar – os céus, onde não mais haveria “nem pranto, nem luto nem dor”. Daí um cântico popular entre pentecostais daquela época: “O céu é um lugar maravilhoso! Cheio de glória e gozo! O céu é um lugar para onde eu vou....”. No entanto, é possível percebermos o pentecostalismo, tanto como um movimento resultante da urbano-industrialização, como também a expressão de protesto às maneiras pelas quais esse processo ocorre. Daí o seu atual caráter reivindicador de uma maior participação social e política, o que 15 fez dos templos pentecostais, não mais espaços de negação e sim de manifestação por uma maior participação nas bem-aventuranças da vida consumista. Uma análise mais detalhada dos novos pentecostais brasileiros, especialmente da Igreja Universal do Reino de Deus, permite verificarmos que eles reafirmam os valores das classes médias urbanas e incentivam os seus seguidores a se inserirem nos seletivos corredores da sociedade de consumo. Portanto, no lugar da negação da sociedade eles propõem uma ideologia otimista e o sonho de uma prosperidade ao alcance de cada bolso. Isso é melhor percebido se contrastarmos as diferenças de posturas existentes entre o pentecostalismo tradicional e o neopentecostalismo. O primeiro tem uma retórica de negação da sociedade; reafirmação de crenças escatológicas, como juízo final, volta de Cristo, arrebatamento dos fiéis; expectativa de uma eminente destruição apocalíptica do mundo. Já o neopentecostalismo prega a acomodação à sociedade capitalista; a inserção nas formas tradicionais de se fluir a existência terrena, com um conseqüente abandono da mensagem escatológica anterior. Por isso mesmo, a exclusão das benesses de uma sociedade fluente gerou uma utopia intra- histórico, que reafirma a possibilidade de se construir a Canaã aqui e agora, em detrimento do celeste porvir. Os novos intermediários resultantes dessa opção pelo presente assumem traços míticos e messiânicos, agem como messias, são portadores de uma mensagem milenarista, mas empregam, ao mesmo tempo, a linguagem da eficiência e da produtividade. A religiosidade que brota em seus templos é utilitarista, individualista e espera a realização do céu aqui mesmo na Terra. Seus líderes se posicionam num universo fragmentado e competitivo para, a partir desse lugar social, construir um centro integrador dos fragmentos, oferecendo aos seus liderados uma religião que funciona, isto é, uma “religião de resultados”. 16 Para divulgar tais resultados os neopentecostais empregam os mais modernos canais da mídia. A Igreja Universal do Reino de Deus, por exemplo, se tornou proprietária de uma rede de mais de 25 emissoras abertas de televisão, (Rede Record de Televisão e Rede Mulher de Televisão), operando também por meio da “Rede Família” na TV a cabo ou através de uma rede radiofônica, com cerca de 30 emissoras de rádio - “Rede Aleluia” – que cobrem todo o território brasileiro, irradiando 24 horas por dia. O sucesso dessa nova maneira de pregar idéias messiânico-milenaristas comprova o acerto da intuição de Debray (1991) que “um messianismo sem uma agência de notícias não dispõe dos meios para atingir seu fim”. Daí ser possível vermos, no crescimento no número dos seguidores da IURD, o sucesso das estratégias de comunicação e marketing empregados pelos modernos milenarismos. Isto porque, há por todos os lados, carentes, excluídos e sofredores, que buscam desenfreadamente um verdadeiro milagre que lhes reduza as instabilidade, incertezas e imprevisibilidade da vida urbana. Esse tipo de pentecostalismo urbano, sujeito as influências da magia, com traços híbridos de pós-modernidade e pré-modernidade, tem desempenhado no Brasil um papel social semelhante aos cultos cargos da Melanésia, cuja pregação (assim como a de outros movimentos messiânico- milenaristas) prometia a chegada da bem-aventurança materializada nos bens trazidos por navios ou aviões cargueiros, um movimento social colocado por Worsley (1980) como o modelo dos movimentos milenaristas. Contudo, na IURD, para se ter acesso a tais bens é fundamental a observância correta dos ritos e, principalmente, praticar a monetarização do sacrifício, isto é, “ser um ofertante e dizimista da casa de Deus”, exigência constante na sua pregação. Essa monetarização do sacrifício reintroduz, de uma maneira moderna e capitalista, a idéia de que o espaço religioso é um lugar de trocas de bens simbólicos por dinheiro, que para o bispo Macedo é 17 o “sangue da Igreja”. Nesse sentido a IURD dispõe de sua própriaagência de notícias, se colocando em pé de igualdade com outras agências que lidam com o imaginário coletivo brasileiro. É por esse meio de comunicação, que os mecanismos de propaganda e marketing da IURD provocam práticas e estratégias de rejeição do elemento demoníaco, para ela exteriorizado na doença, fome, dominação, perda de identidade, medo do descenso social, desemprego e outras aflições vividas pela população urbana. O caminho é o combate ao responsável direto por tudo isso – o demônio – por meio do exorcismo intenso e contínuo. Além de uma análise do discurso e das práticas no templo, fortes traços de milenarismo podem ser observados, na conduta política da IURD e em projetos como a Fazenda Canaã, que está sendo implantado em Irecê, Bahia, não muito distante de Canudos. Essa fazenda-modelo faz parte do Projeto Nordeste, que está sob a responsabilidade do bispo Marcelo Crivella, engenheiro e sobrinho de Edir Macedo, possivelmente o seu herdeiro, apresentado na mídia dessa Igreja como o bispo-cantor e “apóstolo do nordeste”. O objetivo desse Projeto, tão religioso quanto social, segundo a Folha Universal (27.6.99), é criar um “núcleo de produção de alimentos com casas, centro comunitário, mercado, igreja, galpões de manutenção, parque agrícola, além de espaços para a criação de aves e peixes. Um oásis no sertão”. Todavia, a retórica desenvolvida ao redor desse Projeto deixa bem claro ter ele um aspecto de marketing institucional, isto é, pretende-se fazer dele uma vitrine, que possa demonstrar a força milenarista nela depositada pelas massas pobres e excluídas, conseguindo assim captar a força que tradicionalmente tem emergido do faminto mas esperanço povo nordestino, que no Brasil ainda é um eficiente fulcro para o desenvolvimento de mentalidades milenaristas. O sucesso dessas mensagens pode ser mensurado na aceitação popular de um programa festivo na TV Record, que ao inaugurar a 18 primeira escola na “cidade santa” (domingo 27.8.2000), conseguiu 27 pontos no Ibope, contra apenas 16 pontos do programa “Domingo do Faustão”, da concorrente TV Globo. Não é um mero acaso que centenas de milhares de pessoas estejam dispostas a dar mensalmente uma substancial parte de seus bens para a IURD. Para elas trata-se de financiar um projeto de reconstrução do Brasil e do mundo, que começou em suas próprias vidas, que graças a mediação messiânica da Igreja caminha em direção ao paraíso. Referências bibliográficas AMADO, Janaína. Conflito social no Brasil: a revolta dos Mucker- Rio Grande do Sul – 1868-1898, São Paulo, Símbolo,1976. BASTIAN, Jean-Pierre. “La desregulation religieuse de l’Amérique latine”, in Problémes d’Amérique latine,n.24, janvier-mars, 1997 (pp.3-16). BASTIAN, Jean-Pierre. La mutacion religiosa de America Latina: para una sociologia del cambio social en la modernidad periférica, Mexico, Fondo de Cultura Economica,1997. BASTIDE, Roger. “The presente status of Agro-American research in Latin America”, in Daedalus, Journal of the American Academy of Arts and Sciences, Harvard University, Spring,1974. BASTIDE, Roger. As religiões africanas no Brasil, 3ª ed. São Paulo, Pioneira,1989. BASTIDE, Roger. Estudos afro-brasileiros, São Paulo, Perspectiva,1973. 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