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Bibliologia: Revelação, Inspiração e Cânon 
João Alves dos Santos 
Aula 9: A Formação do Cânon do Antigo Testamento 
Introdução 
Já que o reconhecimento da canonicidade de um livro é tarefa da Igreja, é preciso 
estudar como se deu esse reconhecimento ao longo da história. Quando dizemos que o 
autor tinha consciência de estar escrevendo a revelação de Deus (consciência profética), 
não estamos dizendo que tivesse ao mesmo tempo consciência de que estava 
produzindo algo que mais tarde faria parte de um todo, que agora chamamos de Bíblia. 
O reconhecimento da inspiração era imediato, por parte dos que primeiro entravam em 
contato com o texto, mas a reunião desse texto a outros igualmente reconhecidos e a sua 
compilação demorou algum tempo. A esse processo podemos chamar de canonização, 
desde que pelo termo entendamos não a determinação do que hoje chamamos de 
canonicidade, mas o seu reconhecimento e compilação. Como se deu a formação do 
cânon do AT? É o que veremos nesta aula. 
1. Passos no processo da canonização 
Três são os passos geralmente apresentados como as partes desse processo: a inspiração 
divina, o reconhecimento dessa inspiração por parte do povo de Deus e a compilação e 
preservação por esse povo. 
 1.1. A inspiração: Estritamente falando, este passo não faz parte do processo de 
canonização. É a razão de ser do processo e não parte dele. É porque o livro é inspirado 
por Deus que existe o seu reconhecimento e compilação (a canonização). A inspiração 
confere ao livro a canonicidade que leva a Igreja a canonizá-lo (declará-lo canônico). 
Não é atividade humana e, por conseguinte, não é parte do processo, a menos que a 
consideremos como a parte de Deus, como o fazem Geisler e Nix.[1] 
1.2. O reconhecimento: O processo da canonização começa com o reconhecimento da 
inspiração, ou para dizer de modo mais claro, da autoridade do livro. Esse 
reconhecimento ocorria imediatamente, por parte da comunidade que recebia o 
documento. As palavras de Moisés foram reconhecidas imediatamente pelos seus 
contemporâneos como sendo palavra do Senhor (Êx 24.3,7), assim como as de Josué 
(Js 24.24-27) e de Samuel (1Sm 10.25). O mesmo aconteceu quando o livro da lei, 
achado por Hilquias, foi lido perante o rei e depois, a todo o povo (2Rs 22-23), quando 
Esdras leu o livro da lei diante do povo (Ne 8, 10 e 13). 
1.3. A compilação e preservação: Este passo completa o processo da canonização. À 
medida que os livros iam sendo escritos e reconhecidos, eram guardados e juntados aos 
outros já existentes, formando uma coleção de escritos sagrados. Como este processo se 
deu não está muito claro nos registros bíblicos, mas há alguns textos que sugerem que 
essa era a prática. O livro da lei de Moisés (que poderia compreender todo o Pentateuco 
 
[1] Introdução Bíblica, p. 74 
http://www.bibliaonline.com.br/aa/ex/24
http://www.bibliaonline.com.br/aa/js/24
http://www.bibliaonline.com.br/aa/1sm/10
http://www.bibliaonline.com.br/aa/2rs/22
http://www.bibliaonline.com.br/aa/ne/8
2 
 
ou grande parte dele) foi posto na arca para testemunho (preservação – Dt 31.26). Nos 
dias de Josias, “a lei de Moisés”, também chamada de “livro da aliança” foi achada na 
Casa do Senhor (templo - 2Rs 22.8; 23.2). Daniel tinha uma coleção de livros, que 
incluía a “lei de Moisés” e “os profetas” (a profecia de Jeremias é mencionada (Dn 
9.2,6,13). Esdras teve à sua disposição cópia do livro da lei para ler ao povo (Ed 7.6; Ne 
8.9,14-17). Em Pv 25.1 lemos que os homens do rei Ezequias transcreveram os 
provérbios de Salomão, mencionados no capítulo. Na época do Novo Testamento “toda 
a Escritura” (do AT) era conhecida (Mt 5.17; Lc 24.44; 2Tm 3.16). Esses elementos 
mostram que houve o cuidado de se coligir e preservar o texto reconhecido como 
autoritativo, para servir de testemunho às gerações posteriores, conforme o 
entendimento de Paulo em Rm 15.4: “Pois tudo quanto, outrora, foi escrito para o 
nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras, 
tenhamos esperança 
2. O conceito liberal de cânon 
Acima, fizemos distinção entre canonicidade e canonização. A canonicidade é intrínseca 
ao livro, devido à sua autoridade divina, ao passo que a canonização é o processo de 
reconhecimento da canonicidade, feito pelo povo de Deus. A canonicidade foi imediata 
e logo reconhecida, tanto pelo autor como pelos que receberam o livro. A canonização 
foi gradual e progressiva, pois os livros não foram todos escritos ao mesmo tempo. Os 
do AT foram produzidos num espaço de cerca de mil anos e os do NT, em cerca de 
meio século. Isto sem falar no tempo que, especialmente no caso do NT, a Igreja, como 
um todo, precisou para distinguir entre aquilo que realmente tinha autoridade divina e 
aquilo que apenas pretendia ter ou foi recebido como se tivesse, em alguns dos seus 
segmentos. O processo da canonização, portanto, se desenvolveu durante um período 
razoavelmente longo. 
Não é assim, todavia, que os críticos liberais veem o assunto. Eles não fazem distinção 
entre canonicidade e canonização. Para eles, a canonicidade é apenas o resultado da 
canonização feita pela Igreja, através do reconhecimento do valor espiritual e religioso 
do livro. Os críticos liberais não creem na autoridade divina do livro e, por conseguinte, 
não creem em inspiração. Portanto, para ele, cânon e canonicidade são a mesma coisa. 
A canonicidade, para eles, é atribuída ao livro pela Igreja, através de um longo processo 
e a canonização não é a coleção de livros inspirados que cresce, por adição de outros 
que vão sendo escritos e reconhecidos imediatamente, como cremos. O próprio conceito 
de canonicidade, para eles, é formado ao longo dos anos, pela veneração que o livro 
recebe. Consideram a Bíblia como um livro apenas humano, que vem a ser considerado 
como divino pela Igreja, ao longo dos anos, devido à sua influência e efeito sobre os 
que o leem. Estudar o cânon, segundo esse ponto de vista, é estudar como, quando e por 
que esses livros vieram a ser considerados autoritativos pela Igreja. Para a maioria dos 
críticos, o cânon do AT foi formado em três estágios distintos, todos após o tempo de 
Esdras: o Pentateuco, cerca de 400 a.C; os Profetas, cerca de 200 a.C e os Escritos , 
cerca de 100 d.C. 
3. A divisão do Cânon do AT 
O AT hebraico, de longa data, é dividido em três partes: A Lei (Torah), Os Profetas 
(Nebhim) e os Escritos (Kethubhim). A Lei compreendia os cinco livros de Moisés (o 
Pentateuco). Os Profetas incluíam tanto os quatro que chamamos de históricos: Josué, 
http://www.bibliaonline.com.br/aa/dt/31
http://www.bibliaonline.com.br/aa/2rs/22
http://www.bibliaonline.com.br/aa/2rs/23
http://www.bibliaonline.com.br/aa/dn/9
http://www.bibliaonline.com.br/aa/dn/9
http://www.bibliaonline.com.br/aa/ed/7
http://www.bibliaonline.com.br/aa/ne/8
http://www.bibliaonline.com.br/aa/ne/8
http://www.bibliaonline.com.br/aa/pv/25
http://www.bibliaonline.com.br/aa/mt/5
http://www.bibliaonline.com.br/aa/lc/24
http://www.bibliaonline.com.br/aa/2tm/3
http://www.bibliaonline.com.br/aa/rm/15
3 
 
Juizes, 1 e 2 Samuel, e 1 e 2 Reis (cada um desses dois grupos é contado como um só 
livro), como também mais quatro - três dos que chamamos de Profetas Maiores: Isaías, 
Jeremias e Ezequiel e os doze Profetas Menores, que eram contados como um só livro. 
Os Escritos, em número de onze, incluíam Salmos, Provérbios e Jó, mais os cinco que 
eram chamados de “rolos” (Meghilloth): Cântico dos Cânticos, Rute, Lamentações, 
Eclesiastes e Ester, mais Daniel e Esdras-Neemias, estes dois contados como um só 
livro, e 1 e 2 Crônicas, também contados como um só livro, totalizando 24 livros.[2] 
A Bíblia Hebraica traz essa divisão até hoje, a qual remonta ao quinto século a.D. (vem 
da Mishnah - seção Baba Bathra). Outros testemunhos históricos têm sido invocados 
em seu benefício. O prólogo do livro apócrifo de Siraque (c. 132 a.C), Filo (época de 
Cristo) e Josefo(século I, pouco depois de Cristo) trazem menções que dão a entender a 
divisão tríplice. Como vimos acima, os críticos têm usado essa tríplice divisão para 
afirmar que os livros do AT foram canonizados em diferentes estágios: primeiro a Lei, 
depois os Profetas e, finalmente, os Escritos, já que não aceitam a canonicidade como 
uma decorrência da inspiração, com imediato reconhecimento. Segundo eles, essa 
divisão tripartida do AT representa seus estágios de canonização. 
É assunto de controvérsia se tal divisão pode ser sustentada. Ela é bastante questionada 
hoje e é mais provável que o cânon do AT se constituísse de apenas duas seções: a lei de 
Moisés e os Profetas, que surgiram após ele.[3] 
 O NT oferece apenas uma referência ao que pode ser reconhecido como uma tríplice 
divisão, em Lc 24.44. Ali Jesus se refere à lei de Moisés, aos Profetas e aos Salmos, este 
último (livro) supostamente representando os Escritos, por ser o primeiro e o mais 
volumoso da lista. Porém, a forma mais comum do NT referir-se ao AT é empregar um 
ou dois desses nomes para todo o AT. É o que temos em Jo 10.34 (Lei); Mt 2.23 e Lc 
1.70 (Profetas) e Mt 5.17; 7.12 e Lc 16.16 (Lei e os Profetas). O texto de Jo 10.34 é 
interessante porque nele Jesus refere-Se à Lei, mas cita um texto de Salmos (82.6). 
Como observa Morton Smith, "os três termos são igualmente apropriados para o todo 
da Escritura. Primeiro, o termo lei fala da autoridade e do caráter impositivo que a 
Escritura mantém, porque é a própria palavra de Deus. O termo 'profetas' sugere a 
origem divina, porque os que são designados 'profetas' são os mensageiros oficiais de 
Deus, que receberam sua mensagem diretamente dele. O termo 'Escrituras' (Escritos) 
sugere que estes são escritos que estão acima de todos os outros. Eles são 'Os Escritos'. 
Assim, é inteiramente apropriado o intercâmbio destes termos para se referir a todo o 
Antigo Testamento. Todos eles falam do caráter divino do Antigo Testamento”. [4] 
Ma ainda que a ideia da divisão tripartite seja aceita, não há evidências de que ela 
corresponda a períodos de formação do cânon e, muito menos, que pertençam às datas 
atribuídas pelos críticos. Como dizem Geisler e Nix, “os livros das Escrituras judaicas 
 
[2] Ver “Canon of the Old Testament” in The International Standard Bible Encyclopaedia, James Orr, ed. 
(Grand Rapids: W. B. Eerdmans Publishing Co., sem data), vol. I, p. 555. O Cânon de Josefo também 
continha os mesmos 24 livros, mas com arranjo ou divisão diferente, totalizando 22 (cf. Ibid, p. 560). 
[3] Ver discussão do assunto em Norman Geisler & William Nix, Interpretação Bíblica (São Paulo: 
Editora Vida, 1997), pp. 76-78. 
[4] Morton H. Smith, op. cit., edição eletrônica. 
http://www.bibliaonline.com.br/aa/lc/24
http://www.bibliaonline.com.br/aa/jo/10
http://www.bibliaonline.com.br/aa/mt/2
http://www.bibliaonline.com.br/aa/lc/1
http://www.bibliaonline.com.br/aa/lc/1
http://www.bibliaonline.com.br/aa/mt/5
http://www.bibliaonline.com.br/aa/mt/7
http://www.bibliaonline.com.br/aa/lc/16
http://www.bibliaonline.com.br/aa/jo/10
http://www.bibliaonline.com.br/aa/sl/82
4 
 
foram reagrupados várias vezes desde que foram redigidos. Alguns deles, de modo 
especial os que fazem parte dos escritos, foram redigidos e aceitos pela comunidade 
judaica séculos antes das datas que os teóricos da crítica lhes atribuem”.[5] Segundo 
os críticos, os livros de Daniel, Crônicas, Esdras e Neemias teriam sido escritos depois 
da época desses personagens e só canonizados em cerca de 100. d.C. Acontece que 
tanto Jesus (Lc 24.44) como Josefo[6] aludem a uma tríplice divisão das Escrituras (que 
incluiria esses livros) já antes do ano 100 d.C. e o prólogo de Eclesiástico (o livro em 
grego era chamado de “Sabedoria de Jesus, filho de Siraque”), c. 132 a.C., dá a entender 
que ela já era conhecida e usada por volta do ano 200 a.C. (época do avô do autor do 
prólogo).[7] 
A hipótese de que o cânon hebraico era composto de apenas duas partes nos parece mais 
provável. O próprio AT faz menção de duas divisões, “a lei” e “os profetas” em Dn 
9.2,6,11;Zc 7.12 e Ne 9.14,29,30. É verdade que essas menções são feitas em livros que, 
segundo os críticos, pertencem ao terceiro estágio da canonização, com exceção de 
Zacarias. Mas já no período interbíblico, portanto antes do século I a.D., ela é 
encontrada em 2 Macabeus 15.9 e no Manual de Disciplina da comunidade de Qumran 
(1.3;8.15;9.11). Ambos se referem ao AT como “a lei e os profetas”. No NT, como 
vimos anteriormente, só encontramos uma referência que favorece a divisão tripartite 
(Lc 24.44). Todas as demais falam do AT como” a lei e os profetas”. Em Lc 
16.16,29,31 Jesus se refere a toda a Escritura do AT dizendo que “a lei e os profetas 
duraram até João”. Em Lc 24.27 lemos que “começando por Moisés, e por todos os 
profetas, explicou-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras”. Outras passagens 
que se referem à lei e aos profetas como sendo todas as Escrituras são: At 13.15; Lc 
24.14 e Mt 5.17,18. Essas passagens mostram que Jesus aceitava um cânon bipartido, 
que incluía todos os 24 livros (ou 22, conforme outra divisão) do cânon hebraico, 
reconhecidos pelos judeus da sua época (século I a.D.). Não há qualquer base para a 
ideia de um cânon judaico que ainda se desenvolvia nos dias de Cristo, e muito menos 
depois dele. 
4. O desenvolvimento do Cânon do AT 
O fato de a revelação divina ser registrada servia a diversos propósitos: a) enviá-la a 
outros lugares e pessoas (Jr 29.1;36.1-8;51.60-61; 2Cr 21.12;), b) preservar a sua 
integridade para os dias futuros (Is 30.8) e c) usá-la como um memorial ou testemunho 
contra o povo (Êx 17.14; Dt 31.24-26). Quando o livro da lei foi perdido, durante os 
reinados de Manassés e Amom, o povo afastou-se do Senhor. Ao ser descoberto por 
Hilquias, sua leitura causou grande impacto, mostrando a necessidade e serventia da lei 
escrita. Este fato comprova a necessidade de um cânon. Foi a mensagem de Deus, na 
sua forma escrita, que ele usou para a grande reforma nos dias de Josias. E assim tem 
 
[5] Introdução Bíblica, p. 75 
[6] Josefo dividiu os livros do AT em três seções que somavam o total de 22, dizendo que eles 
“continham o registro de todo o passado ...cinco pertencem a Moisés, ...os profetas, que vieram após 
Moisés, escreveram o que foi feito em seu tempo em treze livros. Os quatro livros restantes contêm hinos 
a Deus e preceitos para a conduta da vida humana” (Contra Ápion, I,8) 
[7] Nele se lê: “O meu avô Jesus, depois de dedicar-se intensamente à leitura da Lei, dos Profetas e dos 
outros livros dos antepassados” (v.7). No v.1 ele mencina “a Lei, os Profetas e os outros escritores que 
se seguiram a eles” 
http://www.bibliaonline.com.br/aa/lc/24
http://www.bibliaonline.com.br/aa/dn/9
http://www.bibliaonline.com.br/aa/dn/9
http://www.bibliaonline.com.br/aa/zc/7
http://www.bibliaonline.com.br/aa/ne/9
http://www.bibliaonline.com.br/aa/lc/24
http://www.bibliaonline.com.br/aa/lc/16
http://www.bibliaonline.com.br/aa/lc/16
http://www.bibliaonline.com.br/aa/lc/24
http://www.bibliaonline.com.br/aa/atos/13
http://www.bibliaonline.com.br/aa/lc/24
http://www.bibliaonline.com.br/aa/lc/24
http://www.bibliaonline.com.br/aa/mt/5
http://www.bibliaonline.com.br/aa/jr/29
http://www.bibliaonline.com.br/aa/jr/36
http://www.bibliaonline.com.br/aa/jr/51
http://www.bibliaonline.com.br/aa/2cr/21
http://www.bibliaonline.com.br/aa/is/30
http://www.bibliaonline.com.br/aa/ex/17
http://www.bibliaonline.com.br/aa/dt/31
5 
 
sido em todas as épocas. Foi a leitura da Bíblia (especialmente do livro de Romanos) 
que levou Lutero à Reforma do Século XVI. 
Mas como foi formado o cânon do AT? Não temos todas as informações para traçar 
uma história completa do desenvolvimento do cânon do AT. Não sabemos quanto 
tempo o Pentateuco levou para alcançar a sua forma final. Em alguns casos, é possível 
que os próprioslivros, e não apenas a coleção deles, tenham sido formados por partes, 
gradualmente. O “livro da aliança” (referido em Ex 24.3-7) pode inicialmente ter sido 
formado apenas pelos capítulos 20-23 de Êxodo e, mais tarde, incorporado ao volumoso 
livro de Êxodo, do qual faz parte hoje. Alguns entendem que Gn 5.1 faz menção a um 
documento antigo (aqui chamado de livro) que foi incorporado ao livro maior chamado 
Gênesis[8]. Tudo isso, porém, ainda nos dias de Moisés e feito por ele mesmo. 
Deuteronômio, cuja autoria mosaica é negada pelos críticos, e ao qual atribuem uma 
data tardia de canonização, foi colocado ao lado da arca da aliança no tabernáculo (Dt 
31.24-26 ) - o que evidencia que já era considerado como autoritativo mesmo nos dias 
de Moisés - e, mais tarde, no templo (2Rs 2.8), embora a última parte (cap. 34) deva ter 
sido escrita depois da morte de Moisés. O mesmo aconteceu com o livro de Josué. A 
última parte do cap. 24. (29-33), que relata a morte de Josué, certamente foi 
acrescentada ao livro mais tarde, após a morte do autor. Mas nem por isso o livro 
deixou de ser reconhecido como autoritativo. Em Js 24.26 lemos que “Josué escreveu 
estas palavras no livro da lei de Deus”, o que pode ser entendido como referindo-se às 
palavras do cap. 24 ou a todo o livro. Acréscimos e edições posteriores à escrita não 
invalidaram o caráter autoritativo dos livros do AT, nem representaram quebra do 
mandamento que encontramos nesses próprios livros de não acrescentar à palavra do 
Senhor, nem diminuir dela (Dt 4.2;12.32; Pv 30.6). Não foram acréscimos nem edições 
que, de alguma forma, acrescentassem, diminuíssem ou modificassem a revelação do 
Senhor. 
Outra evidência de desenvolvimento na produção dos livros, até a sua forma final, 
encontra-se em 1 Samuel 8.11-18 e 10.25. Um primeiro texto sobre o “direito do reino” 
foi escrito como um livro antes que fosse incorporado ao primeiro livro de Samuel, em 
sua forma final. E esse livro foi posto “perante o Senhor”, como aconteceu com a Lei e 
com o livro de Josué. Também vários outros livros são citados nos livros canônicos, 
como o Livro da História de Salomão, o Livro das Crônicas dos Reis de Israel e o Livro 
das Crônicas dos Reis de Judá (1Rs 11.41;14.29,30; 2Rs 1.18;8.23) e o Livro da 
História dos Reis de Israel e de Judá (provavelmente uma combinação das duas 
anteriores), citado nos livros canônicos das Crônicas (2Cr 16.11;25.26;27.7; 
28.26;35.27;36.8; e, em forma abreviada, em 1Cr 9.1; 2Cr 24.27).Todavia, não há 
evidência de que esses livros fossem tidos como canônicos. É melhor considerá-los 
como fontes usadas pelos autores dos livros canônicos, já que grande parte de suas 
narrativas foi incluída nos livros canônicos dos Reis e das Crônicas. 
4.1. O Reconhecimento da lei 
Dissemos que, ainda nos dias de Moisés, a lei foi reconhecida como autoritativa, 
qualidade que hoje chamamos de “canônica”. Depois dele, praticamente todos os 
demais livros demonstram que a lei não só foi reconhecida como autoritativa, mas 
 
[8] Ver R. T. Beckwit, “O Cânon do Antigo Testamento” in A Origem da Bíblia, editado por Philip 
Wesley Comfort (Rio de janeiro: CPAD, 1998), p. 81. 
http://www.bibliaonline.com.br/aa/ex/24
http://www.bibliaonline.com.br/aa/ex/20
http://www.bibliaonline.com.br/aa/ex/23
http://www.bibliaonline.com.br/aa/gn/5
http://www.bibliaonline.com.br/aa/dt/31
http://www.bibliaonline.com.br/aa/dt/31
http://www.bibliaonline.com.br/aa/2rs/2
http://www.bibliaonline.com.br/aa/js/24
http://www.bibliaonline.com.br/aa/dt/4
http://www.bibliaonline.com.br/aa/pv/30
http://www.bibliaonline.com.br/aa/1sm/8
http://www.bibliaonline.com.br/aa/1sm/10
http://www.bibliaonline.com.br/aa/1rs/11
http://www.bibliaonline.com.br/aa/1rs/14
http://www.bibliaonline.com.br/aa/2rs/1
http://www.bibliaonline.com.br/aa/2rs/8
http://www.bibliaonline.com.br/aa/2cr/16
http://www.bibliaonline.com.br/aa/2cr/25
http://www.bibliaonline.com.br/aa/2cr/27
http://www.bibliaonline.com.br/aa/2cr/28
http://www.bibliaonline.com.br/aa/2cr/35
http://www.bibliaonline.com.br/aa/2cr/36
http://www.bibliaonline.com.br/aa/1cr/9
http://www.bibliaonline.com.br/aa/2cr/24
6 
 
serviu de base para a revelação posterior. O apelo e referência à lei de Moisés estão 
presentes em todo o AT. De Josué a Malaquias, encontramos frequentes referências à lei 
de Moisés, ou à lei do Senhor, ou ao Livro de Moisés, etc ((Js 1.7-8; 1Rs 2.3; 8.61; 2Rs 
14.6; 21.8;23.25; 2Cr 14.4; 17.9; Jr 8.8; Dn 9.11; Ed 6.18; Ne 13.1; Ml 4.4)). 
Essas referências testemunham a favor do reconhecimento de que uma das partes do 
cânon, como hoje é dividido, já estava fechada, embora o restante ainda estivesse sendo 
escrito. Não foi preciso esperar até que o último livro fosse escrito para que se tivesse 
um cânon aceito. Esse cânon cresceu por adição, à medida que os demais livros foram 
sendo escritos, mas em cada estágio foi um cânon de livros aceitos como divinos 
(inspirados). 
4.2. O reconhecimento dos profetas 
Mais progressiva ainda do que a Lei foi a canonização dos livros proféticos, visto que 
foram muitos os seus autores e diferentes as suas épocas. Já mencionamos Josué e 
Samuel, que colocaram seus escritos junto ao santuário do Senhor (Js 24.26; 1Sm 
10.25). Com Samuel iniciou-se o período chamado “dos profetas”. Iniciou-se a “escola 
de profetas”, com seus alunos conhecidos como “filhos de profetas” (1Sm 19.20). O 
fato de profetas que vieram mais tarde ter usado os escritos de profetas anteriores, como 
já demonstramos nos casos de Ezequiel e Daniel (Ez 13.9; Dn 9.2,6,11), comprova que 
esses escritos eram preservados e colecionados como revelação divina autoritativa. 
Nesses escritos, a história do trato de Deus para com Israel, principalmente através dos 
seus profetas, juízes e reis, é registrada de modo contínuo e progressivo. O livro de 
Josué menciona a lei (Js 1.8), Juizes menciona Josué e acontecimentos narrados em seu 
livro (1.1,20,21; 2.8). Os livros dos Reis relatam a vida de Davi, conforme narrada nos 
livros de Samuel (1Rs 3.14; 5.7; 8.16; 9.5). Os livros das Crônicas fazem uma revisão 
de toda a história judaica, desde Gênesis até o período dos reis. Salmos inteiros ou 
porções deles são citados em outros livros (o Salmo 18 é repetido em 2 Samuel 22; 
Jonas recita partes de vários salmos, Jn 2). Todos esses fatos evidenciam que existia 
uma coleção de livros reconhecidos como de autoridade divina, que ia sendo acrescida e 
que era usada para a edificação do povo. Era o cânon que ia sendo formado. 
Na aula 4 apresentamos um quadro demonstrativo da sucessão de profetas, apresentado 
nos livros das Crônicas. É o que se costuma chamar de continuidade profética: uma 
sequência de narrativas que cobrem toda a história dos reis de Israel e de Judá.[9]] É 
verdade que Jeremias, que foi profeta canônico, não é mencionado nessa lista de 
sucessão profética, mas ele próprio se reconhece como profeta escritor, como afirma em 
Jr 30.2; 36.1,2; 45.1,2; 51.60,63). Pouco tempo depois, Daniel, no exílio, menciona a 
profecia de Jeremias como parte dos escritos proféticos (Dn 9.2,6,11, cf. Jr 25). 
Ezequiel também escreveu no exílio, assim como Daniel. Depois do exílio temos ainda 
Esdras (que levou consigo da Babilônia os livros de Moisés e dos profetas (Ed 6.18; Ne 
9.14,26-30) e Neemias. Os livros de Esdras e Neemias, que agora temos como volumes 
separados, formavam um só livro no cânon hebraico e estavam intimamente ligados a 
Crônicas, como se observa do último versículo de 2 Crônicas e do primeiro de Esdras, 
que são praticamente uma repetição um do outro. Com Neemias, então, completa-se a 
sequência profética. Sobre o assunto dizem Geisler e Nix: “Cada profeta, desde Moisés 
até Neemias, contribuiu para a coleção sempre crescente de livros, que fora preservada 
 
[9] Ver também a discussão do assuto apresentada por Geisler e Nix em Introdução Bíblica, pp. 80-81. 
http://www.bibliaonline.com.br/aa/js/1http://www.bibliaonline.com.br/aa/1rs/2
http://www.bibliaonline.com.br/aa/1rs/8
http://www.bibliaonline.com.br/aa/2rs/14
http://www.bibliaonline.com.br/aa/2rs/14
http://www.bibliaonline.com.br/aa/2rs/21
http://www.bibliaonline.com.br/aa/2rs/23
http://www.bibliaonline.com.br/aa/2cr/14
http://www.bibliaonline.com.br/aa/2cr/17
http://www.bibliaonline.com.br/aa/jr/8
http://www.bibliaonline.com.br/aa/dn/9
http://www.bibliaonline.com.br/aa/ed/6
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http://www.bibliaonline.com.br/aa/ml/4
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http://www.bibliaonline.com.br/aa/1sm/10
http://www.bibliaonline.com.br/aa/1sm/10
http://www.bibliaonline.com.br/aa/1sm/19
http://www.bibliaonline.com.br/aa/ez/13
http://www.bibliaonline.com.br/aa/dn/9
http://www.bibliaonline.com.br/aa/js/1
http://www.bibliaonline.com.br/aa/jz/1
http://www.bibliaonline.com.br/aa/jz/2
http://www.bibliaonline.com.br/aa/1rs/3
http://www.bibliaonline.com.br/aa/1rs/5
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http://www.bibliaonline.com.br/aa/2sm/22
http://www.bibliaonline.com.br/aa/jn/2
http://www.bibliaonline.com.br/aa/jr/30
http://www.bibliaonline.com.br/aa/jr/36
http://www.bibliaonline.com.br/aa/jr/45
http://www.bibliaonline.com.br/aa/jr/51
http://www.bibliaonline.com.br/aa/dn/9
http://www.bibliaonline.com.br/aa/jr/25
http://www.bibliaonline.com.br/aa/ed/6
http://www.bibliaonline.com.br/aa/ne/9
http://www.bibliaonline.com.br/aa/ne/9
7 
 
pela comunidade dos profetas a partir de Samuel. Os 22 (24) livros das Escrituras 
hebraicas foram escritos por profetas, preservados pela comunidade dos profetas e 
reconhecidos pelo povo de Deus. Até agora não existem evidências de que outros livros, 
chamados ´escritos´, houvessem alcançado canonização depois dessa época (c. 400 
a.C)”.[10] Já dissemos que o livro das Crônicas era o último do cânon hebraico, vindo 
logo depois de Esdras-Neemias. Em Lc 11.50-51 Jesus faz referência ao sangue dos 
profetas, desde Abel até Zacarias. Embora a identificação desse Zacarias seja objeto de 
debate entre os estudiosos, geralmente ele tem sido identificado como o Zacarias 
mencionado em 2Cr 24.20-22, o qual não seria o último mártir do AT mencionado em 
ordem cronológica (cf. Jr 26.20-23), mas o último em ordem canônica. Se esta for a 
interpretação correta, o que parece provável, Jesus estaria fazendo, então, uma 
referência ao cânon fechado do AT, tal como ele e os seus ouvintes entendiam. 
No item anterior mencionamos que, embora haja algumas referências históricas a um 
cânon hebraico tripartite (Talmude – Baba Bathra, livro de Siraque e o próprio texto de 
Lc 24.44), essa divisão não é hoje aceita como a mais provável. As evidências em favor 
de um cânon bipartido (Lei e Profetas) são mais numerosas e mais convincentes. Assim, 
pode-se concluir que, com o encerramento da sucessão profética, se concluiu também o 
cânon do AT. Com Neemias (c. 400 a.C.) encerrou-se a coleção dos 22 (ou 24) livros do 
cânon hebraico. 
Alguns argumentos em favor dessa conclusão, além dos já apresentados na aula 4, são 
os seguintes: 
a) O chamado Concílio de Jâmnia (c. 90 d.C.) não se reuniu para decidir que livros 
deveriam ou não fazer parte do cânon judaico, como acreditavam os críticos. Hoje se 
tem como certo que o que aconteceu em Jâmnia não foi um concílio oficial, com 
autoridade para decidir questões tão importantes como definir os limites do cânon. 
Sobre isso diz Laird Harris: “Antigamente, os estudiosos argumentavam que o cânon foi 
fechado no concílio de Jâmnia, em 90 a.D. Hoje, desde o estudo feito por Jack P. Lewis 
(´What do we mean by Jabneh?´, JBR 32 (1932): 125-32) é geralmente aceito que as 
discussões de Jâmnia, relatadas no Talmude, não constituíram um concílio e nem tinha 
autoridade. Certos livros foram questionados (Eclesiastes e Cantares). Outras 
discussões rabínicas questionaram Ester, Provérbios e Ezequiel, mas a dúvida era se 
eles deveriam ou não ser mantidos com os outros livros, e não se eles deveriam ser 
adicionados, e a questão foi resolvida a favor de sua manutenção.”[11] 
b) O livro de Daniel, que é apresentado pelos críticos como fazendo parte dessa terceira 
seção, que supostamente teria sido canonizada apenas no primeiro século a.D., já era 
aceito pelos judeus como parte do cânon muito antes disso, como atestam os rolos do 
Mar Morto (havia entre os livros descobertos um fragmento do livro de Daniel) e as 
próprias palavras de Cristo, que se referiu a ele como profeta.(Mt 24.15). 
 
[10] Introdução Bíblica, p. 81 
[11] Inspiration and Canonicity of the Scriptures, p. 134 
 
http://www.bibliaonline.com.br/aa/lc/11
http://www.bibliaonline.com.br/aa/2cr/24
http://www.bibliaonline.com.br/aa/jr/26
http://www.bibliaonline.com.br/aa/lc/24
http://www.bibliaonline.com.br/aa/mt/24
c) Quase todos os livros do AT, mesmo os que estão entre os chamados “escritos”, são 
citados no NT como “escritura”, o que atesta o seu reconhecimento por parte dos autores 
bíblicos neotestamentários. E todos eles, com exceção de Lc 24.44, figuram como 
pertencendo à “lei” ou aos “profetas” (Mt 5.17; Mc 13.11; Lc 24.27). 
d) O livro de Salmos, que era contado como parte da terceira seção por aqueles que assim 
dividiam o cânon (Josefo, por exemplo), é considerado no NT como parte da lei (Jo 
10.34,35) ou dos profetas (Lc 24.27). Alguns entendem a expressão “na Lei de Moisés, 
nos Profetas e nos Salmos”, de Lc 24.44, como um paralelismo à expressão “Moisés e 
todos profetas” do v. 27. O fato dos Salmos serem citados em grande abundância como 
“Escritura” no NT (especialmente em Hebreus) comprova que já eram tidos como 
canônicos antes de 90 a.D (Jâmnia). 
e) Tanto o 1o livro de Macabeus, quanto o Talmude, o Manual de Disciplina de Qunram 
e Josefo falam de uma sucessão de profetas, que se encerrou com os últimos profetas 
Ageu, Zacarias e Malaquias, nos dias de Neemias, como vimos na aula 4. 
Conclusão: As evidências são a favor de um cânon do AT encerrado por volta de 400 
a.C., e composto de duas partes: A Lei e os Profetas. À medida que os 22 (ou 24) livros 
iam sendo escritos, eram imediatamente reconhecidos como autoritativos e colecionados 
pelo povo de Deus, formando um cânon que tomou o nome de “ a Lei e os Profetas”. 
Implicações Práticas 
Um cânon fechado do AT e reconhecido como autoritativo pelos judeus, assim como 
pelos autores do NT e, principalmente, pelo próprio Senhor Jesus, é a garantia de que a 
revelação progressiva, dada ao longo de muitos séculos, não se perdeu nem foi 
corrompida. Assim, pôde constituir-se na base para a revelação posterior, dada por Cristo 
através dos apóstolos e dos outros autores do NT. Sua importância e valor não podem ser 
subestimados. A revelação escrita era o apelo final de Jesus, mesmo antes de estar toda 
ela concluída. Na parábola do rico e Lázaro, ele Se refere a Moisés e aos Profetas 
(Escritura do AT) como autoridade final para se conhecer a vontade de Deus: “Eles têm 
Moisés e os Profetas; ouçam-nos... Se não ouvem a Moisés e aos Profetas, tampouco se 
deixarão persuadir, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos” (Lc 16.29,31). 
 
Bibliologia: Revelação, Inspiração e Cânon 
João Alves dos Santos 
Aula 10: A Extensão do Cânon do AT 
Introdução 
Depois de estudar como o Cânon do AT se desenvolveu, é preciso saber quais foram os 
seus limites. Em outras palavras, quais livros foram incluídos nesse cânon, quais foram 
questionados se deveriam ou não permanecer nele e quais deixaram de ser incluídos. É 
o que chamamos de limites ou extensão do Cânon. 
 1. Os livros aceitos por todos (Homologoumena = os livros de consenso – sobre os 
quais se diz a mesma coisa) 
Dos 22 (ou 24) livros do Cânon do AT (39, de nossas versões em português), apenas 
Cantares, Eclesiastes, Ester, Ezequiel e Provérbios tiveram algum tipo de rejeiçãoou 
questionamento, por parte dos judeus (rabis). Todos os demais foram aceitos sem 
qualquer dúvida, por isso são chamados de homologoumena (aqueles sobre os quais há 
consenso). Por haver consenso sobre eles, não há necessidade de desenvolvimento desse 
tópico. 
2. Os livros rejeitados por todos (Pseudepigrafa = escritos falsos ou espúrios) 
Os pseudepígrafos eram livros de caráter religioso que surgiram no contexto da 
comunidade judaica pós exílica, mas que nunca foram considerados como inspirados ou 
de valor sagrado. Em geral, refletem o estilo e a linguagem do período posterior ao do 
encerramento do cânon do AT (período de Esdras e Neemias), cheio de promessas e 
esperanças messiânicas, próprias do estilo da literatura apocalíptica. Seu conteúdo, em 
geral, é fantasioso e até herético, e nunca ganhou a confiança ou aceitação dos pais 
judaicos. Contudo, a despeito do nome que receberam (pseudepígrafos), nem tudo neles 
é falso. Alguns deles trazem elementos da tradição que bem podem ser verdadeiros e 
podem até ter sido a fonte de onde autores do NT extraíram citações. É o caso das 
referências a Enoque e Moisés, feitas em Judas 14,15, que podem ter sido extraídas dos 
livros pseudepígrafos de Enoque e da Assunção de Moisés. A tradição nem sempre era 
falsa ou sem qualquer fundamento. Paulo cita em 2Tm 3.8 Janes e Jambres que, 
segundo a tradição, eram os nomes dos magos que fizeram encantamentos no Egito. O 
fato de elementos da tradição, contida nesses livros, serem citados por autores canônicos 
não autoriza a aceitação dos mesmos como canônicos também, nem mesmo autentica 
como verdade tudo o que eles contêm. Apenas o elemento citado tem garantia de ser 
verdadeiro, não por causa da fonte onde ele se encontra, mas por causa do autor que o 
citou. Citações dessa natureza têm o mesmo caráter das que Paulo fez de poetas e 
filósofos pagãos em At 17.28 (Aratus), 1Co 15.33 (Menânder) e Tt 1.12 (Epimênides). 
Como dizem Geisler e Nix: “A verdade é sempre verdade, não importa onde se 
encontre, quer pronunciada por um poeta pagão, quer por uma profeta pagão (Nm 
http://www.bibliaonline.com.br/aa/jd/1
http://www.bibliaonline.com.br/aa/2tm/3
http://www.bibliaonline.com.br/aa/atos/17
http://www.bibliaonline.com.br/aa/1co/15
http://www.bibliaonline.com.br/aa/tt/1
http://www.bibliaonline.com.br/aa/nm/24
2 
 
 
24.17), por um animal irracional e mudo (Nm 22.28) ou mesmo por um demônio (At 
16.17)”.[1] 
Geilser e Nix dão a seguinte classificação de alguns dos principais pseudepígrafos, por 
seu gênero literário:[2] 
Lendários 1. O Livro do Jubileu 
 2. Epístola de Aristéias 
 3. O Livro de Adão e Eva 
 4. O Martírio de Isaías 
Apocalípticos 1. 1Enoque 
 2. O Testamento dos Doze Patriarcas 
 3. O Oráculo Sibilino 
 4. Assunção de Moisés 
 5. 2Enoque, ou o Livro dos Segredos de Enoque 
 6. 2 Baruque, ou o Apocalipse Siríaco de Baruque 
 7. 3Baruque, ou o Apocalipse Grego de Baruque 
Didáticos 1. 3Macabeus 
 2. 4Macabeus 
 3. Pirque Abote 
 4. A História de Aicar 
Poéticos 1. Salmos de Salomão 
 2. Salmo 151 
Históricos 1. Fragmentos de uma Obra de Sadoque 
 Já Leonhard Rost dá uma classificação de acordo com a origem ou grupos a que 
estavam associados. É a seguinte:[3] 
I. Do judaísmo helenístico do Egito 1. A Carta de Aristéias 
 2. O 3º Livro dos Macabeus 
 3. O 4º Livro dos Macabeus 
 4. O Livro eslavo de Enoque (2Enoque) 
 5. Os Oráculos Sibilinos 
II. Da Síria 1. O Apocalipse grego de Baruque 
III. Dos Círculos dos fariseus da Palestina 1. Os Salmos de Salomão 
 2. O 4º Livro de Esdras 
 3. O Apocalipse siríaco de Baruque 
IV. Da esfera de influência do grupo de 
Qumran 
1. O Livro dos Jubileus 
 2. O Livro etíope de Enoque (1Enoque) 
 3. O Testamento dos Doze Patriarcas 
 
[1] Introdução Bíblica, p. 86 
[2] Introdução, p. 87 
[3] Introdução aos Livros Apócrifos e Pseudepígrafos do Antigo Testamento e aos Manuscritos de 
Qumran, Edições Paulinas, 1980, p. 98 
http://www.bibliaonline.com.br/aa/nm/22
http://www.bibliaonline.com.br/aa/atos/16
http://www.bibliaonline.com.br/aa/atos/16
3 
 
 
 4. A Assunção de Moisés 
 5. O Martírio de Isaías 
 6. A Vida de Adão e Eva 
V. Das descobertas dos manuscritos de 
Qumran 
1. A Regra da Associação 
 2. Documento de Damasco 
 3. A Regra da Guerra 
 4. O Pesher de Habacuque 
 5. Apócrifo de Gênesis 
 6. Os Cânticos de Louvor 
 7. O Rolo do Templo 
3. Os livros questionados por alguns (Antilegomena = aqueles contra os quais se fala) 
Como já dissemos, cinco livros canônicos foram questionados durante o processo de 
canonização por alguns círculos rabínicos: são os de Cântico dos Cânticos, Eclesiastes, 
Ester, Ezequiel e Provérbios. Isto não significa que eles só mais tarde foram aceitos no 
cânon, depois que as controvérsias cessaram. Como vimos, os livros canônicos foram 
aceitos pelo povo de Deus imediatamente após a sua escrita. Mas por razões diferentes, 
em certos círculos judaicos e em épocas posteriores à introdução desses livros no cânon, 
questionou-se se eles deveriam ou não realmente pertencer ao cânon sagrado. Daí serem 
chamados de antilegomena, ou seja, aqueles contra os quais se fala. Dissipadas as 
dúvidas, esses livros foram finalmente aceitos por todos, sem que tivessem sido 
retirados do cânon. Geralmente se atribui ao Concílio de Jamnia (90 a.D.) a data quando 
a questão foi de todo encerrada 
As supostas razões para esse questionamento foram: 
Para o livro de Cântico dos Cânticos (Cantares de Salomão): por ser considerado 
sensual por alguns (especialmente os da rígida Escola de Shammai). Só no contexto das 
discussões de Jamnia que a questão foi encerrada, especialmente com as célebres 
palavras pronunciadas pelo rabino Aquiba: “Nenhum homem em Israel jamais contestou 
que Cantares de Salomão suja as mãos. É que em todo o mundo não existe algo que 
iguale ao dia em que Cantares de Salomão foi entregue a Israel. Todos os Escritos são 
santos, mas Cantares é santíssimo, e se houve alguma disputa, foi apenas a respeito de 
Eclesiastes” (Mishna, Yadaim 3:5).[4] O livro tem sido objeto de diferentes 
interpretações, mas a mais aceita hoje é a natural ou literal, que vê o seu conteúdo como 
vários poemas cantando e exaltando o amor conjugal. 
Para o livro de Eclesiastes: por ter uma visão supostamente pessimista e cética da vida. 
A declaração de Aquiba, acima mencionada, evidencia que este livro foi mais 
questionado que o Cântico dos Cânticos (Cantares de Salomão). Eclesiastes apresenta, 
sim, não uma visão pessimista, mas realista da vida sem o temor de Deus, da vida que 
busca o prazer e a realização pessoal à parte de Deus. A conclusão do livro mostra que é 
legítimo desfrutar dos prazeres da vida, desde que se tenha consciência da 
responsabilidade de prestar contas a Deus. Temer a Deus e guardar os seus 
 
[4] Citada por G. Lloyd Carr in Eclesiastes e Cantares, introdução e comentário, Mundo Cristão, 1989, p. 
179. 
4 
 
 
mandamentos é o segredo da felicidade e do sucesso. O fato de o livro ter sido 
questionado não implica falta de canonicidade. Como dizem Geisler e Nix, “tanto no 
que se refere ao Eclesiastes, como ao Cântico dos Cânticos, o problema básico é de 
interpretação do texto, e não de canonização ou inspiração”.[5] 
Para o livro de Éster: por não mencionar o nome de Deus e por aparentemente conter 
uma história apenas secular, destituída de contexto religioso. Se o nome de Deus não 
aparece no livro, sua ação providencial em preservar o seu povo está patente. Não é 
verdade que não haja contexto religioso. Embora a história se desenvolva na corte persa, 
tanto Mardoqueu como Éster demonstram sua fé, e um jejum é convocado para o povo 
judeu. O fato de se instituir uma festa religiosa (Purim, Et 9.26-28) que passou, desde 
então, a ser celebrada e em que esse livro é lido, testemunha a favor de sua aceitação 
como divinopelos judeus. 
Para o livro de Ezequiel: por supostas contradições com a Torah. Conforme Edwar J. 
Young, “A escola de Shammai pensava que o ensinamento do livro não estava em 
harmonia com a Lei mosaica e que os primeiros capítulos exibiam uma tendência 
favorável ao gnosticismo. Portanto, consideravam-no apócrifo. O rabino Hananyah 
bem Hezekiah, entretanto, defendeu o livro, e assim ele permaneceu como 
canônico”.[6] Como observam Geisler e Nix, “parece que outra vez teria sido mera 
questão de interpretação, e não de inspiração”.[7] Nenhuma contradição real entre 
Ezequiel e a Lei mosaica pôde ser demonstrada. 
Para o livro de Provérbios: O questionamento do livro de Provérbios se deveu à 
suposta contradição encontrada no capítulo 26, onde no v. 4 se recomenda não 
responder ao tolo segundo a sua estultícia, enquanto o versículo seguinte (v.5) manda 
responder ao tolo segundo a sua estultícia. Supôs-se que essa aparente contradição era 
irremediável e que comprometia a veracidade do texto. Quando se compreendeu que o 
autor fala de diferentes situações, que podem exigir respostas ou comportamentos 
diferentes, e que as máximas, estando num seqüência de narrativa, não implicam 
contradição, mas estão vazadas em linguagem perfeitamente normal ao gênero literário 
da poesia hebraica, e quando se verificou que não há contradições no restante do livro, a 
objeção foi levantada.[8] 
 
 
[5] Introdução, p. 89 
[6] Introdução ao Antigo Testamento, São Paulo, Vida Nova, 1964, p. 251 
[7] Introdução, p. 90 
[8] A Bíblia de Genebra tem uma interessante explicação do assunto: Ela diz: “Considerados juntamente, 
estes versículos ilustram o ponto de que nenhum provérbio tem por intuito cobrir todas as situações 
possíveis. A aparente contradição nos dois provérbios indica que os provérbios devem ser devidamente 
aplicados. Uma situação requer que evitemos jogar o jogo dos insensatos dando uma resposta, enquanto 
que a outra situação exige que desmascaremos a insensatez a fim de que o insensato não seja 
considerado um sábio.” 
 
http://www.bibliaonline.com.br/aa/et/9
5 
 
 
4. Os livros aceitos apenas por alguns (Apocrypha) 
A parte mais delicada da discussão do cânon do AT diz respeito a alguns livros que, 
durante um certo período e em alguns lugares, foram tidos como canônicos e que, bem 
mais tarde, na Contra-Reforma, foram incluídos oficialmente no cânon cristão pela 
Igreja Católica Romana (Concílio de Trento, 1546). São os que chamamos de livros 
apócrifos e que a Igreja Católica chama de deuterocanônicos (apócrifos, para a Igreja 
Católica Romana são os que chamamos de pseudepígrafos). Os principais, que foram 
incluídos oficialmente no cânon romano em Trento, são 7 livros e 4 acréscimos ou 
apêndices a livros canônicos, totalizando 11 escritos. Tobias, Judite, Sabedoria de 
Salomão, Eclesiástico (Siraque), Baruque (que inclui uma Carta de Jeremias como seu 
cap. 6, às vezes considerada como um escrito separado), 1 e 2 Macabeus e os 
acréscimos, sendo um a Ester (Ester 10.4-16.24), e três a Daniel, o primeiro chamado 
de Oração de Azarias e Cântico dos Três Jovens (Dn 3.24-90), o segundo chamado de 
História de Suzana (Dn 13) e o terceiro chamado de Bel e o Dragão (Dn 14). Além 
desses há mais 3 livros apócrifos que não foram incluídos no cânon de Trento, a saber: 3 
Esdras, 4 Esdras e A Oração de Manasses. São chamados de 3 e 4 Esdras porque na 
Bíblia Católica (edições antigas, que seguem a Vulgata), o livro de Esdras é chamado de 
1 Esdras e o livro de Neemias é chamado de 2 Esdras. Os apócrifos foram todos escritos 
no período intertestamentário (entre Malaquias e Mateus). 
O sentido do termo “apócrifo” (de origem grega), aplicado aos livros aceitos por alguns, 
mas não por todos, é objeto de discussão. Etimologicamente, a palavra significa 
“escondido”, “oculto”, e daí, “difícil de entender”. Este era o seu uso no grego clássico 
e helenístico. Em certos círculos, a palavra foi usada com a conotação de “esotérico”, 
isto é, aquilo que só pode ser entendido por iniciados.Os pais primitivos, dentre os quais 
Irineu e Jerônimo, foram os primeiros a usar a palavra Apocrypha para referir-se à lista 
de livros não canônicos, incluindo também, nesse caso, os pseudepígrafos. Assim a 
palavra passou a ser sinônimo de “espúrio” ou “não genuíno”. Desde a Reforma, é 
usada para os livros que chegaram a ser reconhecidos por alguns como canônicos, mas 
nunca pertenceram realmente ao cânon judaico. 
 A primeira inclusão dos apócrifos em lista canônica aparece na Septuaginta (LXX, c. 
150 a.C.). A Septuaginta (tradução do AT do hebraico para o grego) representa aquilo 
que é chamado por alguns de Canon Alexandrino, ao passo que o cânon aceito pelos 
judeus da Palestina é chamado de Cânon Hebraico ou Palestino. Depois eles foram 
incluídos na primeira tradução latina (Latina Antiga ou Ítala), em 170 d.C., visto que 
essa tradução do AT foi feita a partir da Septuaginta e não do texto hebraico. Quando 
Jerônimo fez a sua versão latina do AT, em 405 d.C. (Vulgata), incluiu com relutância 
também os apócrifos, mas com a observação de que eles não tinham a mesma 
autoridade que os demais. 
 O gênero desses escritos, assim como sua data aproximada e lugar na Bíblia católica 
(versão de Douai, de 609 a.D.), podem ser vistos na seguinte tabela, apresentada por 
Geisler e Nix:[9] 
Tabela de Livros Apócrifos 
Gênero do livro Revised Standard Version (inglesa) Versão de Douai 
 
 [9] Introdução p. 92 
http://www.bibliaonline.com.br/aa/et/10
http://www.bibliaonline.com.br/aa/dn/3
http://www.bibliaonline.com.br/aa/dn/13
http://www.bibliaonline.com.br/aa/dn/14
6 
 
 
Didático 1. Sabedoria de Salomão (c. 30 a.C.) 
 2. Eclesiástico (Siraque) (132 a.C.) 
Livro de Sabedoria 
Eclesiástico 
Religioso 3. Tobias (c. 200 a.C.) Tobias 
Romance 4. Judite (c. 150 a.C.) Judite 
Histórico 5. 1 Esdras (c. 150-100 a.C.) 
6. 1 Macabeus (c. 110 a.C.) 
7. 2 Macabeus (c. 110-70 a.C.) 
3 Esdras* 
1 Macabeus 
2 Macabeus 
Profético 8. Baruque (c.150-50 a.C) 
9. Epístola de Jeremias (c. 300-100 a.C.) 
10. 2 Esdras (c. 100 d.C.) 
Baruque 1-5 
Baruque 6 
4 Esdras** 
Lendário 11. Adições a Ester (140-110 a.C.) 
12. Oração de Azarias (séculos I ou II a.C.) 
 Cântico dos Três Jovens 
13. Susana (século I ou II a.C.) 
14. Bel e o Dragão (c. 100 a.C.) 
15. Oração de Manasses (século i ou II a.C.) 
Ester 10.4-16.24 
Daniel 3.24-90** 
 
Daniel 13** 
Daniel 14** 
Oração de Manasses* 
*Livros não aceitos como canônicos no Concílio de Trento, em 1546. 
**Livros não relacionados no sumário de Douai por estarem apensos a outros livros. 
4.1. Argumentos levantados a favor do “Cânon Alexandrino” (que continha os 
apócrifos) e sua resposta : 
4.1.1. Supostas alusões no Novo Testamento. A referência a mulheres que receberam 
seus mortos pela ressurreição (Hb 11.35) é tida como alusão a 2 Macabeus 7, que fala 
de uma mãe que teve seus sete filhos cruelmente assassinados. O texto, porém, não fala 
que foram ressuscitados. Apenas menciona a esperança da ressurreição (v. 14). A 
referência se aplica melhor à viúva de Sarepta e à sunamita, cujos filhos Elias e Eliseu 
ressuscitaram (1Rs 17.17-23; 2Rs 4.8-37). A referência a “alguns que foram torturados, 
não aceitando seu resgate, para obterem superior ressurreição” poderia, de fato, se 
aplicar àquele episódio. Mas ainda que o livro apócrifo estivesse sendo citado, a citação 
não seria razão suficiente para atribuir-lhe autoridade canônica. Estaria no mesmo caso 
das citações dos pseudepígrafos, já vistas. 
4.1.2. Sua inclusão na Septuaginta. O fato dos apócrifos figurarem nas versões 
conhecidas da Septuaginta é apresentado como um argumento a favor de um cânon que 
os continha. Contudo, as mais antigas dessas versões conhecidas são do século 4º. Não 
há provas de que o texto da Septuaginta do 1º século continha os apócrifos, embora isto 
fossepossível. De qualquer forma, não foi Alexandria, mas a Palestina, o lugar da 
canonização. Uma tradução não possui a mesma autoridade para determinar a extensão 
http://www.bibliaonline.com.br/aa/hb/11
http://www.bibliaonline.com.br/aa/1rs/17
http://www.bibliaonline.com.br/aa/2rs/4
7 
 
 
do cânon. No máximo, demonstra que esses livros foram traduzidos junto com os 
canônicos. Filo, que era judeu alexandrino do tempo de Cristo (20 a.C. –40 d.C.), 
embora tivesse citado prolificamente o AT, nunca citou os apócrifos como inspirados ou 
como Escrituras. Da mesma forma, Josefo (30 – 100 a.D.) explicitamente exclui a 
apocrypha, enumerando os livros do AT como sendo os 22 que compõem o cânon 
judaico (Palestino). O judaísmo oficial em todos os tempos e lugares nunca aceitou os 
apócrifos. O Concílio de Jamnia, em 90 a.D., não reconheceu autoridade a esses livros. 
Talvez, o testemunho mais vigoroso neste sentido seja o do próprio Senhor Jesus e dos 
apóstolos que, no primeiro século, nunca citaram qualquer passagem dos apócrifos, 
embora tivessem, especialmente no caso dos apóstolos, a LXX como fonte mais 
freqüente de suas citações. E ainda que tivessem citado, como vimos, seu valor seria 
apenas de confirmação de uma verdade conhecida, a não ser que citassem como 
Escritura. Mas nem uma coisa nem outra ocorreu. 
4.1.3. Sua inclusão nos manuscritos gregos mais antigos e completos da Bíblia. Os 
manuscritos gregos mais antigos que temos, de fato, contêm os apócrifos. Todavia, os 
mais antigos já são do 4º século a.D., e não provam que os apócrifos faziam parte do 
cânon do 1º século, nem que eram considerados canônicos pela igreja apostólica. A 
versão siríaca da Bíblia, Peshitta, do 2º século, por exemplo, não continha a apocrypha. 
Só no 4º século eles foram aceitos pela Igreja Síria. Aquela igreja nem sempre aceitou 
os apócrifos. Só depois dos concílios de Constantinopla (1638), Jafa (1642) e Jerusalém 
(1672) esses livros foram declarados canônicos. E mesmo depois disso, em 1839, essa 
igreja expressamente omitiu os apócrifos no seu Catecismo Maior, declarando que eles 
“não existem no hebraico”.[10] 
4.1.4. Seu uso pelos pais da Igreja. Alguns dos antigos pais da Igreja aceitaram e 
usaram os apócrifos. Entre estes estão Clemente de Alexandria, Orígenes, Irineu e o 
próprio Agostinho. Foi ele quem influenciou os concílios de Hipo (393 a.D.) e de 
Cartago (397 a.D.) a aceitar os apócrifos como canônicos. Foi a partir daí que a Igreja 
Ocidental passou a aceitá-los. O uso ou aceitação dos apócrifos por alguns pais, todavia, 
não legitima a sua autoridade. A Igreja, como um todo, não os aceitava. Pelo contrário, 
muitas vozes de outros pais se levantaram contra a sua aceitação, como as de Atanásio, 
Cirilo de Jerusalém e até de Orígenes e Jerônimo. Muitos dos pais que aceitaram livros 
apócrifos, não os aceitaram como um todo, mas incluíram um ou outro, como foi o caso 
de Orígenes, que apenas incluiu Macabeus e a Epístola de Jeremias e do próprio 
Agostinho, que omitiu Baruque. Nenhum concílio até 393 a.D. os incluiu na lista dos 
canônicos. O próprio Agostinho não parece indicar que aceitasse a autoridade dos 
apócrifos no mesmo nível da dos demais.[11] Jerônimo, que era mais conhecedor da 
língua hebraica do que Agostinho, se opôs à aceitação dos apócrifos e contendeu com 
Agostinho. Gesler e Nix dizem que “Jerônimo chegou a recusar-se a traduzir os 
apócrifos para o latim, ou mesmo incluí-los em suas versões em latim vulgar (Vulgata 
 
[10] Ver Geisler e Nix, A General Introduction to the Bible, Moody Press, 1970, p. 172, citando H.S. 
Miller, General Biblical Introduction, p. 114. 
[11] Cf. Cidade de Deus, 18,36, citada por Geisler e Nix, Introdução..., p. 95. Em seu livro A General 
Introduction... Geisler e Nix dizem que a razão porque Agostinho aceitou os apócrifos foi por pensar que 
a Septuaginta era inspirada e que mais tarde ele se convenceu da superioridade do texto hebraico de 
Jerônimo, p. 171. 
8 
 
 
Latina). Só depois da morte de Jerônimo, e praticamente por cima do seu cadáver, é 
que os livros apócrifos foram incorporados à Vulgata Latina”.[12] A citação conflita 
com outras opiniões de que Jerônimo o fez, mas a contragosto. 
4.1.5. Sua aceitação oficial pelo Concílio de Trento. Ao invés de ser um testemunho 
a favor da autoridade dos apócrifos, a oficialização dos mesmos pelo Concílio de 
Trento, em 1546, serviu como testemunho contrário, devido ao propósito com que tal 
oficialização foi feita. Foi para mover a Contra-Reforma e justificar práticas e doutrinas 
da Igreja Católica, como a oração pelos mortos, a salvação pelas obras e a crença no 
purgatório que estes livros foram declarados canônicos, mil e quinhentos anos depois 
que foram escritos. Mesmo assim, não foram todos os 14 livros (ou 15, conforme a 
classificação) que foram declarados canônicos, mas apenas 11 ou 12, conforme o 
arranjo que se faz desses livros (1 e 2 Esdras e a Oração de Manasses não foram 
incluídos). A rejeição de 2 Esdras, como dizem Geisler e Nix, “é particularmente 
suspeita, porque contém um versículo muito forte contra a oração pelos mortos (2 
Esdras 7.105)”.[13] Antes de 1546, mesmo as versões católicas faziam distinção entre 
os livros canônicos e os apócrifos. É o caso da Poliglota Complutense, do cardeal 
Ximenes (1514-1517). 
4.2. Outros argumentos contrários à aceitação dos apócrifos: 
 4.2.1. Seu conteúdo: Alguns contêm ensinamentos claramente contrários aos dos 
livros canônicos, violando a regra da “harmonia das Escrituras”. Entre estes 
ensinamentos heréticos estão: a oração pelos mortos (2Macabeus 12.45-46), a salvação 
pelas obras (Tobias 12.9) e a suposta existência do purgatório (Eclesiástico 3.30). 
Também algumas das "histórias" desses livros são evidentemente estórias ou lendas, 
dado o seu caráter fantasioso. É o caso de Bel e o Dragão, do acréscimo ao livro de 
Ester, da História de Susana, da Oração de Azarias, de Tobias e de Judite. Em algumas 
dessas estórias há inclusive ensinos que conflitam com a moral bíblica, como na oração 
em que Judite pede astúcia de lábios e de palavras para matar os inimigos de Deus 
(9.10,13), além de evidentes erros históricos e cronológicos.[14] 
4.2.2. Sua data: A totalidade deles foi escrita no período em que, conforme 
testemunho unânime dos judeus, já não havia mais profecia em Israel, nem sucessão 
profética, conforme vimos na aula 4. 
 4.2.3. Sua avaliação própria: Os próprios apócrifos não reivindicam sua inspiração. 
Nem o livro de Eclesiástico, que tem sido apresentado às vezes como tendo feito isto 
(50.27-29) fala em inspiração, mas em “instrução de sabedoria”. 
4.2.4. Sua desqualificação: Os apócrifos não preenchem os critérios válidos de 
canonicidade, como autoria profética, autoridade divina, veracidade, natureza dinâmica 
e aceitação por todo o povo de Deus, vistos na aula 8. 
 
[12] Introdução..., p. 95. 
[13] Ibid, p. 96. 
[14] Ver Gesler e Nix, A General Introduction..., p. 174. 
4.3. Conclusão: Embora alguns dos apócrifos possam ter algum valor histórico e até 
devocional (servem como fonte de informação histórica dos judeus durante o período 
intertestamentário e alguns chegaram a ser usados no culto público e nas pregações), eles 
não têm as qualidades exigidas para que sejam aceitos como autoritativos e inspirados. 
Implicações Práticas 
Ainda, o melhor argumento para sabermos quais livros são inspirados ou não, é o da sua 
leitura. É através do contato direto e pessoal dos livros que seremos convencidos de sua 
real qualificação. É a coerência interna do livro, a harmonia com os demais livros da 
revelação e, principalmente, o testemunho interior do Espírito Santo que haverão de nos 
convencer sobre quais livros devem ou não pertencer ao cânon. Vale a pena fazer o teste. 
Leitura obrigatória dessa aula: 
Apócrifos: Analisando as Evidências,de Norman Geisler. 
 
http://www.monergismo.com/textos/bibliologia/apocrifos_analisando_geisler.htm
Bibliologia: Revelação, Inspiração e Cânon 
 
João Alves dos Santos 
Aula 11: A Formação do Cânon do Novo Testamento 
Introdução 
Nesta aula estudaremos como os livros do NT vieram a ser colecionados para formar o 
que é chamado de Cânon do NT. O processo foi gradativo e até mais lento do que o do 
AT; não o da escrita, naturalmente, mas o do reconhecimento unânime. Devido às novas 
condições, com a Igreja espalhada por diversas partes do mundo, o reconhecimento e o 
consenso a respeito de quais livros deveriam pertencer ao cânon neotestamentário foi 
mais demorado. 
A pergunta crucial é: quando os 27 livros que constituem o Cânon do NT vieram a ser 
reconhecidos como inspirados (oficiais) e distinguidos de outros textos? Em outras 
palavras, como foi formado o Cânon? 
1. Passos no processo da canonização 
Primeiramente, é preciso dizer que os mesmo passos no processo de canonização que já 
foram vistos na lição 9, também se aplicam aqui. 
1.1. A consciência profética do autor, quando da sua escrita. 
Como vimos, os profetas, tanto no Antigo como do Novo Testamento, (e os autores 
bíblicos foram profetas, no verdadeiro sentido da palavra) tinham consciência de ter 
recebido revelação do Senhor e de estarem sob a sua influência e direção tanto quando 
proclamavam como quando escreviam a mensagem dessa revelação. Reivindicavam a 
mesma autoridade divina tanto para a sua palavra falada quanto para a escrita. Paulo 
considerava que não só o que falou mas também o que escreveu tinha a autoridade de 
Deus (1Co 14.37; 1 Ts 5.27; Cl 4.16; 2 Ts 2.15; 3.14). Por esta razão, odenava que seus 
escritos fossem lidos nas igrejas (1Ts 5.27) e circulassem entre elas (Cl 4.16). De igual 
modo, Apocalipse foi escrito e enviado às igrejas da Ásia Menor (Ap 1.11). 
1.2. O reconhecimento pelas igrejas. 
As igrejas que recebiam esses livros, passaram a lê-los publicamente, copiá-los, coligi-
los e fazê-los circular. Contudo, não havia uma comunidade central que recebesse e 
colecionasse os livros em um mesmo lugar, como aconteceu com a comunidade de 
Israel. Coleções foram sendo formadas em diferentes lugares, umas mais completas e 
outras menos, até que, finalmente, todos os livros puderam ser ajuntados numa mesma 
lista, aceita por todos, a que se deu o nome de Cânon do NT. Até que isto pudesse ser 
feito, quatro séculos se passaram. Completada, porém, a lista, não houve mais disputas 
sobre se outros livros deveriam ser acrescentados ou alguns tirados, pelo menos em 
nível de concílios eclesiásticos. 
 
http://www.bibliaonline.com.br/aa/1co/14
http://www.bibliaonline.com.br/aa/1ts/5
http://www.bibliaonline.com.br/aa/cl/4
http://www.bibliaonline.com.br/aa/2ts/2
http://www.bibliaonline.com.br/aa/2ts/3
http://www.bibliaonline.com.br/aa/1ts/5
http://www.bibliaonline.com.br/aa/cl/4
http://www.bibliaonline.com.br/aa/ap/1
2 
 
1.3. O colecionamento. 
Quando Pedro menciona “todas as Epístolas” de Paulo (2Pe 3.15-16) e as equipara às 
demais Escrituras (AT) deixa entender que desde os dias dos apóstolos já havia prática 
de se colecionar os livros sagrados, tanto que Pedro teve acesso a todas as epístolas de 
Paulo. Isto significa que, assim como aconteceu com o AT, os livros sagrados, à medida 
que iam sendo escritos, iam também sendo colecionados e acrescentados às “demais 
Escrituras”. 
Não sabemos exatamente quando e como foram feitas as primeiras coleções de livros do 
NT. O que sabemos é que, em meados do 2º século, os quatro evangelhos canônicos já 
circulavam juntos e que, até antes disto (começo do 2º século) as epístolas paulinas já 
circulavam na forma de uma coleção (chamada de corpus paulinum). 
2. As listas canônicas e seu desenvolvimento 
 De início, não houve uma preocupação da Igreja em determinar quais eram os livros 
inspirados ou não. Eles eram reconhecidos principalmente pela sua origem. As 
Escrituras do AT, mais os livros dos apóstolos e de pessoas diretamente ligadas a eles 
(Marcos e Lucas, por exemplo) eram aceitos sem qualquer suspeita. O problema surgiu 
quando começaram a aparecer outros livros que pretendiam ser aceitos como 
autoritativos também, alguns até trazendo o nome de apóstolos como seus supostos 
autores (pseudonímia). Isto já no segundo século. Então, foi preciso que a Igreja 
procurasse determinar quais livros eram ou não inspirados e, por conseguinte, quais 
deveriam ou não ser aceitos como autoritativos. Era preciso definir quais livros 
deveriam ser usados para leitura na igreja e quais deveriam ser evitados, quais deveriam 
ser traduzidos para outras línguas, para a edificação das igrejas que não conheciam o 
grego. Foi assim que surgiu o cânon, ou a lista dos livros inspirados. 
Como essa lista foi sendo formada não está claro, mas sabe-se que foi de modo gradual, 
pelas razões apresentadas anteriormente. Para que os livros fossem lidos em um número 
maior de igrejas eles passaram a ser copiados e, daí, surgiram as listas das cópias que 
circulavam entre elas (as igrejas). Figurando nessas listas, às vezes, apareceram livros 
que mais tarde não foram reconhecidos como apostólicos (autorizados). Da mesma 
forma, livros canônicos eram, às vezes, omitidos. 
F.F. Bruce afirma que “os primeiros passos no sentido da formação de um cânon de 
livros cristãos havidos como dotados de autoridade, dignos de figurar ao lado do cânon 
do Velho Testamento, a Bíblia do Senhor Jesus e seus apóstolos, parecem haver sido 
tomados por volta do começo do segundo século, época em que há evidência da 
circulação de duas coleções de escritos cristãos na Igreja” [1] 
Como dissemos acima, nem sempre houve acordo, nos diversos setores da Igreja, sobre 
quais livros deveriam ou não pertencer a esta lista, pelo menos nos primeiros séculos. 
Alguns livros, como o de Hebreus, demoraram um certo tempo para ser aceitos por 
todas as igrejas. Sobre as razões dessa demora, dizem Geisler e Nix: 
 
[1] Merece Confiança o Novo Testamento?, Vida Nova, 1965, p. 31. 
http://www.bibliaonline.com.br/aa/2pe/3
3 
 
Havendo tão grande diversidade geográfica de origens e destinatários, é compreensível 
que nem todas as igrejas haveriam de possuir, de imediato, cópias de todos os livros 
inspirados do Novo Testamento. Acrescentem-se os problemas de comunicação e de 
transporte, e fica mais fácil ver que seria preciso algum tempo até que houvesse um 
reconhecimento geral de todos os 27 livros do cânon do Novo Testamento. Apesar de 
tão grandes dificuldades, a igreja primitiva começou de imediato a coligir todos os 
escritos apostólicos que pudessem (sic) autenticar.2[2] 
Acredita-se que os evangelhos foram os primeiros a constituírem uma “unidade 
integrada”, provavelmente no final do 1º século, logo depois da escrita de João. Por 
volta do ano 170 já era conhecida uma “harmonia dos evangelhos” chamada 
“Diatessaron”, feita por Taciano, um cristão da Assíria. Com a integração dos quatro 
evangelhos em um só volume, o livro de Atos, que originalmente era uma continuação 
do evangelho de Lucas, passou a ser uma obra em separado.Também no final do 1º 
século ou início do 2º, já as epístolas de Paulo circulavam como uma só coleção (corpus 
paulinum). Os antilegomenos do Novo Testamentos, que veremos na próxima aula, 
foram os que levaram algum tempo para receber reconhecimento unânime. Só no 4º 
século houve unanimidade na Igreja a respeito de quais livros deveriam pertencer à lista 
canônica. 
A lista mais antiga é a do herege Marcião (c. 140 d.C.), contendo apenas o evangelho de 
Lucas e dez das cartas paulinas (omitiu as pastorais). A segunda mais antiga é o Cânon 
Muratório (170 d.C.). Esta era mais fidedigna, mas mesmo assim omitiu os livros de 
Hebreus, Tiago, 1 e 2Pedro e 3João e aceitou outro não canônico, o Pastor de Hermas, 
embora com finalidade de leitura particular e não pública, por não ser considerado 
proféticonem apostólico.3[3] 
Eusébio de Cesaréia, (c. 260-340 d.C.) apresentou em sua História Eclesiástica (3,25) 
uma classificação tripartite, listando: os livros reconhecidos (homologoumena), os 
questionados (antilegomena) e os não reconhecidos (introduzidos pelos hereges em 
nome dos apóstolos), mostrando a situação do cânon no Ocidente no início do 4º século. 
A primeira lista que inclui todos e apenas os 27 livros do nosso NT é a da carta de 
Páscoa escrita por Atanásio em 367 d.C. à igreja alexandrina. É a prova de que a Igreja 
do Oriente aceitava esse cânon. Na Igreja do Ocidente, os 27 livros foram finalmente 
ratificados nos Concílios de Hipo (393 d.C.) e de Cartago (397 d.C.), confirmando por 
unanimidade o que já era reconhecido pela maioria das igrejas. Jerônimo e Agostinho 
tiveram grande influência nestes concílios. 
A publicação de listas estabelecendo o limite do Cânon surgiu de uma necessidade da 
Igreja, tal como depois os credos e as confissões também se tornaram necessários para a 
manutenção da ortodoxia. A lista apenas reconhece a canonicidade, não a determina, da 
mesma forma como os credos ou as confissões apenas declaram a fé, não a produzem. 
 
[2] Introdução Bíblica, p. 101. 
[3] Ver R. Larid Harris, Inspiration and Canonicity of the Scriptures, A Press, 1995, p. 230. 
4 
 
Não devemos confundir “encerramento de listas” com “encerramento do cânon”. O 
Canon encerrou-se com o último dos apóstolos. O debate sobre quais livros deveriam 
figurar na lista do Cânon é que continuou até o 4º século. Nem mesmo esse debate 
significa que os livros canônicos debatidos não fossem usados pela Igreja, de modo 
geral, como documentos autoritativos. O questionamento se localizava em segmentos 
eclesiásticos específicos, quer no Oriente (livro de Apocalipse), quer no Ocidente (livro 
de Hebreus), sem comprometer a sua aceitabilidade na Igreja, como um todo. 
3. A autoridade e testemunho apostólicos como decisivos na formação do cânon do 
NT 
Enquanto os apóstolos viveram, foram o próprio “cânon vivo”, por serem testemunhas 
oculares do ministério e da ressurreição de Jesus. A Igreja podia recorrer a eles para 
estabelecer a verdade sobre o ensino de Cristo. Lendas e crendices que já circulavam a 
respeito de Cristo e dos apóstolos podiam ser desmascaradas pelo testemunho 
apostólico (João 21.23,24; 1Jo 4.1-3). Com a proliferação da literatura cristã, que 
passou a circular entre as igrejas já no período apostólico, a Igreja sentiu a necessidade 
de uma lista autenticada. Quais livros eram reconhecidos? O testemunho e a autoridade 
dos apóstolos foram fundamentais nesse reconhecimento. Eles advertiam contra os 
falsos documentos (epístolas) que já circulavam como sendo apostólicos 
(pseudonímicos), e procuravam meios de autenticar seus escritos, como, por exemplo, 
através de uma assinatura conhecida (1Ts 2.20; 3.17). Desta forma, os escritos dos 
apóstolos, que circulavam entre as igrejas, e de pessoas ligadas a eles e sob sua 
supervisão (como Marcos, Lucas, Atos, Tiago, Judas e Hebreus), passaram a constituir 
o cânon do NT. 
A autoridade que os apóstolos receberam para completar a revelação de Jesus Cristo 
está evidenciada nos textos de João 14.26; 16.13 e Atos 1.1-3,8. Tão conscientes 
estavam dessa autoridade que Paulo podia dizer: “Disto também falamos, não em 
palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas ensinadas pelo Espírito, conferindo 
coisas espirituais com espirituais.” (1Co 2.13) e “Porque de vós repercutiu a palavra 
do Senhor não só na Macedônia e Acaia, mas também por toda parte se divulgou a 
vossa fé para com Deus” e ainda “Outra razão ainda temos nós para, incessantemente, 
dar graças a Deus: é que, tendo vós recebido a palavra que de nós ouvistes, que é de 
Deus, acolhestes não como palavra de homens, e sim como, em verdade é, a palavra 
de Deus, a qual, com efeito, está operando eficazmente em vós, os que credes” (1Ts 
1.8,13). Outros textos onde essa autoridade é reivindicada por Paulo, Pedro e João são 
1Co 14.37; Cl 4.16; 2Pe 1.16; 1Jo 1.3; e Ap 1.3). Foram os apóstolos que transmitiram à 
segunda geração a confiabilidade de seu testemunho (Hb 2.3,4). 
Implicações Práticas 
Ter um cânon do NT reconhecido pela igreja através de critérios rigorosos, e submetido 
a esses critérios por quase quatro séculos, é uma grande segurança para nós. Depois que 
houve unanimidade entre as igrejas dos mais diferentes e distantes lugares do mundo 
(Oriente e Ocidente), nunca mais a questão foi oficialmente levantada. Podemos estar 
certos de que o que temos hoje é o que a Igreja, desde os dias apostólicos, creu ser a 
revelação de Jesus Cristo nas Escrituras do Novo Testamento. 
 
http://www.bibliaonline.com.br/aa/jo/21
http://www.bibliaonline.com.br/aa/1jo/4
http://www.bibliaonline.com.br/aa/1ts/2
http://www.bibliaonline.com.br/aa/1ts/3
http://www.bibliaonline.com.br/aa/jo/14
http://www.bibliaonline.com.br/aa/jo/16
http://www.bibliaonline.com.br/aa/atos/1
http://www.bibliaonline.com.br/aa/1co/2
http://www.bibliaonline.com.br/aa/1ts/1
http://www.bibliaonline.com.br/aa/1ts/1
http://www.bibliaonline.com.br/aa/1ts/1
http://www.bibliaonline.com.br/aa/1co/14
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http://www.bibliaonline.com.br/aa/2pe/1
http://www.bibliaonline.com.br/aa/1jo/1
http://www.bibliaonline.com.br/aa/ap/1
http://www.bibliaonline.com.br/aa/hb/2
Leitura Obrigatória dessa aula: 
 
O Cânon do Novo Testamento 
 
 
https://bibliotecabiblica.blogspot.com/2009/08/o-canon-do-novo-testamento.html
Bibliologia: Revelação, Inspiração e Cânon 
 
João Alves dos Santos 
Aula 12: A Extensão do Cânon do Novo Testamento 
Introdução 
Finalizando o nosso curso, veremos agora quais os livros que foram aceitos no cânon do 
NT sem qualquer questionamento, quais foram questionados e por que, e quais foram 
deixados fora dele. Em outras palavras, qual a extensão (ou conteúdo) do cânon do NT. 
Seguindo a divisão apresentada por Geisler e Nix e a terminologia grega já consagrada 
nos estudos do cânon, apresentaremos os livros aceitos por todos (homolegoumena), os 
rejeitados por todos (pseudepigrafa), os livros questionados por alguns (antilegomena) e 
os livros aceitos por alguns (apocrifa). 
1. Os livros aceitos por todos (Homologoumena) - sobre os quais havia consenso 
Da mesma forma como aconteceu com o AT, a maioria dos livros do NT foi aceita 
como canônica sem objeções, desde o princípio. Os homologoumena figuram em 
praticamente todas as listas e versões da igreja primitiva, assim como foram largamente 
citados como Escrituras pelos pais. São 20 dos 27. Todos, menos Hebreus, Tiago, 
2Pedro, 2 e 3João, Judas e Apocalipse. Filemom, 1Pedro e 1João foram omitidos em 
algumas listas, mas não propriamente questionados. É necessário fazer uma distinção 
entre livros omitidos em algumas listas, ou não citados, e livros questionados quanto à 
sua autoridade. Aqueles três últimos classificam-se na primeira categoria. De qualquer 
forma, é interessante notar que eles, juntamente com os antilegomena, são os últimos na 
ordem que hoje temos do cânon do NT. 
 2. Os escritos falsos (Pseudepigrafa) - rejeitados por todos 
Os livros chamados pseudepígragos surgiram depois da era apostólica, durante os 
séculos II, III e IV (ou até depois), e nunca foram incluídos em qualquer lista nem 
aceitos por qualquer concílio ou pai eclesiástico. Seu conteúdo é espúrio e herético 
(contêm heresias gnósticas, docéticas, ascéticas, etc.). No máximo, têm algum valor ou 
interesse histórico (mais curiosidade do que história). Sobre eles Eusébio (263-340) 
disse: “Mas ocorre que a própria índole do fraseado difere enormemente do estilo dos 
apóstolos, o pensamento e a intenção do que neles está contido destoa ainda mais da 
verdadeira ortodoxia: claramente demonstram ser invenções de hereges. Por isso não 
devem ser incluídos nem mesmo entre os espúrios, mas devemos rechaçá-los como 
inteiramente absurdos e ímpios” (H.E. 3.25). 
Apresentam-se,à semelhança dos livros bíblicos, como evangelhos, atos, epístolas e 
apocalipses. Por volta do século XIX já havia cerca de 280 deles relacionados. Geisler e 
Nix dão a seguinte apresentação dos mais conhecidos: 
Leandro A de Lima
Leandro A de Lima
2 
 
Evangelhos: 
1. O Evangelho de Tomé (século I) é uma visão gnóstica dos supostos milagres da 
infância de Jesus. 
2. O Evangelho dos Ebionitas (século II) é uma tentativa gnóstico-cristã de perpetuar as 
práticas do Antigo Testamento. 
3. O Evangelho de Pedro (século II) é uma falsificação docética e gnóstica. 
4. O Proto-Evangelho de Tiago (século II) é uma narração que Maria faz do massacre 
dos meninos pelo rei Herodes. 
5. O Evangelho dos Egípcios (século II) é um ensino ascético contra o casamento, 
contra a carne e contra o vinho. 
6. O Evangelho Arábico da Infância (?) registra os milagres que Jesus teria praticado na 
infância, no Egito, e a visita dos magos de Zoroastro. 
7. O Evangelho de Nicodemos (século II ou V) contém os Atos de Pilatos e a Descida 
de Jesus. 
8. O Evangelho do Carpinteiro José (século IV) é o escrito de uma seita monofisista que 
glorificava a José. 
9. A História do Carpinteiro José (século V) é a versão monofisista da vida de José. 
10. O Passamento de Maria (século IV) relata a assunção corporal de Maria e mostra os 
estágios progressivos da adoração de Maria. 
11. O Evangelho da Natividade de Maria (século VI) promove a adoração de Maria e 
forma a base da Lenda de Ouro. Livro popular do século XIII sobre a vida dos santos. 
12. O Evangelho de um Pseudo-Mateus (século V) contém uma narrativa sobre a visita 
que Jesus fez ao Egito e sobre alguns dos milagres do final de sua infância. 
13-112. Evangelho dos Doze, de Barnabé, de Bartolomeu, dos Hebreus (v. 
“Apócrifos”), de Marcião, de André, de Matias, de Pedro, de Filipe. 
 
Atos 
1. Os Atos de Pedro (século II) contém a lenda segundo a qual Pedro teria sido 
crucificado de cabeça para baixo. 
2. Os Atos de João (século II) mostram a influência dos ensinos gnósticos e docéticos. 
3. Os Atos de André (?) são uma história gnóstica da prisão e da morte de André. 
4. Os Atos de Tomé (?) apresentam a missão e o martírio de Tomé na Índia. 
5. Os Atos de Paulo apresentam um Paulo de pequena estatura, de nariz grande, de 
pernas arqueadas e calvo. 
6-8. Atos de Matias, de Filipe, de Tadeu. 
 
Epístolas 
1. A Carta Atribuída a Nosso Senhor é um suposto registro da resposta dada por Jesus 
ao pedido de cura de alguém, apresentado pelo rei da Mesopotâmia. Diz o texto que o 
Senhor enviaria alguém depois de sua ressurreição. 
2. A Carta Perdida aos Coríntios (séculos II, III) é falsificação baseada em 1Coríntios 
5:9, que se encontrou numa Bíblia armênia do século V. 
3. As (Seis) Cartas de Paulo a Sêneca (século IV) é falsificação que recomenda o 
cristianismo para os discípulos de Sêneca. 
4. A Carta de Paulo aos Laodicenses é falsificação baseada em Colossenses 4:16. 
(Também relacionamos essa carta sob o título “Apócrifos”, p. 120-1). 
 
Apocalipses 
1. Apocalipse de Pedro (também relacionado em “Apócrifos”). 
2. Apocalipse de Paulo. 
http://www.bibliaonline.com.br/aa/1co/5
http://www.bibliaonline.com.br/aa/1co/5
http://www.bibliaonline.com.br/aa/cl/4
3 
 
3. Apocalipse de Tomé. 
4. Apocalipse de Estêvão. 
5. Segundo Apocalipse de Tiago 
6. Apocalipse de Messos. 
7. Apocalipse de Dositeu. 
 
Os três últimos são obras coptas do século III, de cunho gnóstico, descobertas em 1946, 
em Nag-Hammadi, no Egito. 
 
Outras Obras 
1. Livro Secreto de João 
2. Tradições de Matias 
3. Diálogo do Salvador. 
Estes três também são de Nag-Hammadi, e permaneceram desconhecidos até 1946”[1]. 
Geisler e Nix completam esta apresentação com o seguinte comentário: “Visto que os 
grandes mestres e concílios da igreja foram praticamente unânimes na rejeição desses 
livros, em razão da total falta de confiabilidade ou em virtude das heresias, são 
adequadamente chamados pseudepígrafos. Seja qual for o fragmento de verdade que 
porventura preservem, torna-se obscurecido tanto pela fantasia religiosa como pelas 
tendências heréticas. Tais livros não só deixam de ser canônicos como nenhum valor 
apresentam no que concerne aos fins devocionais. O principal valor que têm é 
histórico, pois revelam as crenças de seus autores”.[2] 
3. Os livros disputados ou questionados por alguns (Antilegomena) 
São sete os que só receberam aprovação unânime por volta do século IV: Hebreus, 
Tiago, 2Pedro, 2 e 3João, Judas e Apocalipse. Foram questionados por razões 
diferentes, mas isto não significa que até que fossem aceitos não eram tidos como 
canônicos pela maioria das igrejas. Nem que sejam menos confiáveis agora. A razão 
porque eles demoraram a obter aceitação unânime em todas as igrejas foi 
principalmente a falta de comunicação entre as igrejas do Oriente e do Ocidente, como 
vimos na lição anterior, mas houve também motivos peculiares a cada caso, que 
passamos a considerar: 
Os motivos por que foram questionados: 
 
a. Hebreus - Questão de autoria, principalmente. Hebreus é anônimo e, por isso, ficou 
difícil relacioná-lo com qualquer dos apóstolos. Também o fato de ter sido usado pelo 
montanistas (que acreditavam em novas revelações depois de Cristo e dos apóstolos), 
como apoio a algumas de suas crenças, tornou o livro suspeito por parte de alguns 
círculos ortodoxos. Era aceito no Oriente, que o julgava de Paulo, mas não no Ocidente. 
Só no século IV, com a influência de Jerônimo e Agostinho, o livro foi aceito no 
 
[1] Introdução Bíblica, pp. 112-114. 
[2] Ibid. 
4 
 
Ocidente, independentemente de ser ou não paulino.[3] Não houve objeção séria quanto 
ao seu conteúdo, nem quanto à reivindicação de autoridade divina (cf. 1:1; 2:3,4; 
13:22), exceto a já mencionada, que não chegou a ser uma objeção séria. 
b. Tiago - Questões de autoria e de conteúdo. Desde os dias de Eusébio a carta de Tiago 
já era colocada entre os livros discutidos, embora Eusébio a considerasse como uma das 
cartas aceitas para leitura pública, assim como as demais católicas (H.E. 3.23.25). O 
autor (Tiago) não afirma ser apóstolo. Os que o associaram ao irmão do Senhor (At 15 
e Gl 1), como a Igreja do Oriente, não tiveram problema com a questão da 
apostolicidade, pois o viram vinculado aos apóstolos. Já a Igreja do Ocidente não fez 
essa associação. Outro problema era o aparente conflito doutrinário entre Paulo e Tiago 
sobre a justificação. Com a influência de Orígenes e Eusébio (Igreja Oriental) e 
Jerônimo e Agostinho (Igreja Ocidental) tanto a apostolicidade como a veracidade da 
carta foram reconhecidas. 
c. Segunda Carta de Pedro - A mais disputada, por questão de estilo diferente de 
1Pedro. Questões de estilo, porém, nunca foram definitivas para decidir autoria, dado o 
uso de escriba ou amanuense. Pedro poderia ter usado um secretário para escrever uma 
das cartas. O grego da segunda é superior, com o maior número de hapax legomena 
(termos que só ocorrem uma única vez) entre todos os livros do NT. Das 57 hapax, 32 
não ocorrem nem na LXX. A erudição acadêmica, todavia, tem demonstrado que há 
evidências para a genuinidade da carta. B.B. Warfield observa que há mais evidência 
para 2Pedro do que para Heródoto e Tucídides .[4] Orígenes, Eusébio, Jerônimo e 
Agostinho, que aceitavam a carta, tiveram grande influência no seu reconhecimento 
universal. 
d. Segunda e Terceira Cartas de João - Questionadas por anonímia (autor anônimo) e 
por circulação limitada. O fato do autor se identificar apenas como “presbítero” e não 
como apóstolo, assim como sua circulação mais restrita, impediram a sua aceitação 
imediata e geral. Todavia, a despeito disto, elas obtiveram aceitação mais generalizado 
do que 2Pedro, sendo incluídas no Cânon Muratório e tendo reconhecimento dos pais, 
particularmente de Policarpo e Irineu. A semelhança de estilo e linguagem com 1João(de aceitação geral) abriu o caminho para a aceitação destas também. O fato de outros 
apóstolos também usarem o título de “presbítero”, como o fez Pedro (1Pe 5:1), para 
denotarem o cargo que ocupavam (At 20:17,28), formando um paralelo com João, 
também contribuiu que elas fossem atribuídas ao apóstolo João. 
e. Judas - Questionada por alguns quanto à sua confiabilidade, por possivelmente citar 
ou fazer referência ao livros pseudepígrafos de Enoque (Jd 14,15 cf. Enoque 1:9) e 
 
[3] Geisler e Nix afirmam que “com o passar do tempo, a igreja ocidental veio a aceitar que Hebreus era 
oriundo da pena de Paulo, o que evidentemente resolveu a questão” (Introdução, p. 115). Carson, por 
outro lado, declara: “É assim que Jerônimo insiste em que não importa quem escreveu Hebreus, pois de 
qualquer maneira esse livro é a obra de um "escritor da igreja" (ecclesiastici viri, expressão com que 
Jerônimo provavelmente quis designar alguém que escreve de conformidade com a verdade ensinada nas 
igrejas, uma variação do primeiro critério) e é de qualquer forma lido constantemente nas igrejas (Epist. 
129). Se as igrejas latinas foram lentas em aceitar Hebreus e as igrejas gregas foram lentas em aceitar 
Apocalipse, Jerônimo aceita ambos, em parte porque muitos escritores antigos haviam aceitado os dois 
como canônicos” (Introdução ao NovoTestamento, pp. 550-551) 
[4] in Syllabus on the Special Introduction to the Catholic Epistles, pp.116-17, citado por Geisler e Nix, A 
General Introduction, pp. 197-198. 
http://www.bibliaonline.com.br/aa/hb/1
http://www.bibliaonline.com.br/aa/hb/2
http://www.bibliaonline.com.br/aa/hb/13
http://www.bibliaonline.com.br/aa/atos/15
http://www.bibliaonline.com.br/aa/gl/1
http://www.bibliaonline.com.br/aa/1pe/5
http://www.bibliaonline.com.br/aa/atos/20
http://www.bibliaonline.com.br/aa/jd/1
5 
 
Assunção de Moisés (Jd 9). Esta a razão acenada por Orígenes e Jerônimo.[5] A objeção 
foi retirada com a aceitação de pais influentes como Irineu, Clemente de Alexandria e 
Tertuliano (que aceitava a epístola inclusive por referir-se a Enoque[6] e o 
entendimento de que o uso de fontes extrabíblicas não autorizava como canônicas ou 
mesmo como verazes em todo o seu conteúdo essas fontes (caso de Paulo citando 
poetas pagãos em At 17:28 - Cleantes ou Aratus; 1 Co 15:33 - Menander. e Tt 1:12 - 
Epimênides), como já vimos anteriormente. 
f. Apocalipse - Também questionado no início do século IV quanto à sua 
confiabilidade. A doutrina do milênio do cap. 20 foi o ponto central da controvérsia. O 
uso que os montanistas fizeram do mesmo no século III também levantou suspeitas. Foi, 
não obstante, um dos primeiros livros a ser aceito pelos pais antigos e um dos últimos a 
ser questionado. O fato de ter sido enviado diretamente às sete igrejas da Ásia facilitou 
seu imediato reconhecimento. Mas o mau uso do livro também despertou suspeitas, 
como no caso de Hebreus. Com a influência de Atanásio, Jerônimo e Agostinho, as 
dúvidas foram dissipadas. 
A oposição ocorreu, como dizem Geisler e Nix, “por causa da falta de comunicação, ou 
por causa de más interpretações que se fizeram desses livros. A partir do momento em 
que a verdade passou a ser do conhecimento de todos, tais livros foram aceitos plena e 
definitivamente, passando para o Cânon Sagrado, da forma exata como haviam sido 
reconhecidos pelos cristãos primitivos desde o início”.[7] 
4. Os livros aceitos por alguns (Apocrifa) 
 
Enquanto os pseudepígrafos nunca foram aceitos por qualquer dos pais, alguns livros, 
comumente chamados de apócrifos do NT (não confundir com os apócrifos do AT, que 
fazem parte da Bíblia católica), foram aceitos por pelo menos um dos pais. Nunca 
chegaram, porém, a ter reconhecimento amplo ou permanente. São mais importantes do 
que os pseudepígrafos pelo seu valor histórico - revelam informações sobre a Igreja do 
século II (história, doutrina e liturgia) - e são um testemunho em favor da aceitação do 
Cânon de 27 livros. 
Dentre os mais conhecidos estão: 
a. A Epístola de Barnabé, (c. 70-79 d.C.) que figura no códice Sinaítico (um dos mais 
antigos unciais [manuscritos de escrita maiúscula] do século IV) e foi mencionada como 
"escritura" por Clemente de Alexandria e Orígenes. O autor da carta não reivindica 
autoridade divina e certamente não é o Barnabé, companheiro de Paulo, do NT (At 
14:14). 
b. A Epístola aos Coríntios, de Clemente de Roma (c. 96 d.C.). Encontra-se no códice 
Alexandrino, do século V e foi, segundo Eusébio, lida em várias igrejas (H.E., 3,16). 
 
[5] Cf. Commentary on Matthew, 18:30 e Lives of Illustrious Men, cap. 4, de Jerônimo, citadas por 
Geisler e Nix, A General Introduction, p. 198. 
[6] On the Apparel of Women, I:3, Ante-Nicene Fathers, IV, 16-17, citado por Geisler e Nix, ibid. 
[7] Introdução, p. 118. 
http://www.bibliaonline.com.br/aa/jd/1
http://www.bibliaonline.com.br/aa/atos/17
http://www.bibliaonline.com.br/aa/1co/15
http://www.bibliaonline.com.br/aa/tt/1
http://www.bibliaonline.com.br/aa/atos/14
http://www.bibliaonline.com.br/aa/atos/14
6 
 
Não reivindica inspiração divina. Cita o Livro de Sabedoria (apócrifo do AT) como 
"escritura". Nunca foi amplamente aceita nem reconhecida como canônica. 
c. A Segunda Epístola de Clemente, ou Homilia Antiga (c. 120-140 d.C.). Já foi 
erroneamente atribuída a Clemente de Roma. Conhecida e usada no século II. Constava 
no códice Alexandrino ao lado de 1Clemente (Epístola aos Coríntios). Também nunca 
foi aceita como canônica, pelo menos em grande escala. 
d. O Pastor, de Hermas (c. 15-140 d.C.). O mais popular dos não canônicos na igreja 
primitiva. Figura no códice Sinaítico, em algumas Bíblias latinas, e foi tido como 
inspirado por Irineu e Orígenes. Era lido publicamente nas igrejas e usado para 
instrução religiosa, segundo Eusébio. É uma alegoria cristã, tal como O Peregrino, de 
Bunyan. Tem valor ético e devocional, mas nunca foi tido como canônico pela igreja em 
geral. 
e. O (A) Didaquê, ou O Ensino dos Doze Apóstolos (c. 100-120 d.C.). Naturalmente 
não foi escrito pelos apóstolos, mas foi muito popular na igreja primitiva. Foi 
mencionado como escritura por Clemente de Alexandria. Era usado na instrução e 
catequese de cristãos. Tem valor histórico e catequético, mas nunca recebeu 
reconhecimento da igreja como canônico. 
f. A Epístola de Policarpo aos Filipenses (c. 108). É importante porque Policarpo foi 
discípulo de João e mestre de Irineu. Estabelece uma ligação com os apóstolos. Não 
reivindica inspiração divina. Seus ensinos não são originais. São baseados nos ensinos 
dos apóstolos. Nunca foi reconhecida como canônica. 
g. Outros “apócrifos”: Outros apócrifos menos conhecidos são: Apocalipse de Pedro 
(c. 150 d.C), Atos de Paulo e de Tecla (170 d.C.), Carta aos Laodicenses ( século IV?), 
Evangelho segundo os Hebreus (65-100 d.C.) e Sete Epístolas de Inácio (c. 110 d.C.) 
 Esses e outros livros apócrifos, que chegaram a ter algum reconhecimento na Igreja dos 
primeiros séculos, finalmente e de modo natural vieram a ser postos no seu devido 
lugar, sem maiores dificuldades. Seu valor homilético e devocional foi reconhecido, 
mas somente os 27 livros que hoje temos foram tidos e aceitos como genuínos e dignos 
de figurar no Cânon do Novo Testamento. 
Implicações Práticas 
A autoridade dos livros do NT repousa sobre a autoridade de Jesus, atribuída aos 
apóstolos. Foi importante e necessário para a Igreja estabelecer quais livros deveriam 
servir como sua regra de fé e conduta, no mesmo nível das Escrituras do AT, com base 
no reconhecimento de sua autoridade (dos livros). Só assim ela teria unidade e 
uniformidade na sua doutrina e pregação. Um cânon definido e fechado é garantia de 
imutabilidade na crença e na pregação. Deus não nos deixou ao sabor dos vários “ventos 
de doutrina”. Deu-nos uma revelação completa e suficiente, à qual devemos nos apegar 
com confiança e firmeza,porque ela não muda. Suas matrizes estão guardadas no céu: 
“Para sempre, ó SENHOR, está firmada a tua palavra no céu” (Salmo 119:89).

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