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Bibliologia: Revelação, Inspiração e Cânon João Alves dos Santos Aula 9: A Formação do Cânon do Antigo Testamento Introdução Já que o reconhecimento da canonicidade de um livro é tarefa da Igreja, é preciso estudar como se deu esse reconhecimento ao longo da história. Quando dizemos que o autor tinha consciência de estar escrevendo a revelação de Deus (consciência profética), não estamos dizendo que tivesse ao mesmo tempo consciência de que estava produzindo algo que mais tarde faria parte de um todo, que agora chamamos de Bíblia. O reconhecimento da inspiração era imediato, por parte dos que primeiro entravam em contato com o texto, mas a reunião desse texto a outros igualmente reconhecidos e a sua compilação demorou algum tempo. A esse processo podemos chamar de canonização, desde que pelo termo entendamos não a determinação do que hoje chamamos de canonicidade, mas o seu reconhecimento e compilação. Como se deu a formação do cânon do AT? É o que veremos nesta aula. 1. Passos no processo da canonização Três são os passos geralmente apresentados como as partes desse processo: a inspiração divina, o reconhecimento dessa inspiração por parte do povo de Deus e a compilação e preservação por esse povo. 1.1. A inspiração: Estritamente falando, este passo não faz parte do processo de canonização. É a razão de ser do processo e não parte dele. É porque o livro é inspirado por Deus que existe o seu reconhecimento e compilação (a canonização). A inspiração confere ao livro a canonicidade que leva a Igreja a canonizá-lo (declará-lo canônico). Não é atividade humana e, por conseguinte, não é parte do processo, a menos que a consideremos como a parte de Deus, como o fazem Geisler e Nix.[1] 1.2. O reconhecimento: O processo da canonização começa com o reconhecimento da inspiração, ou para dizer de modo mais claro, da autoridade do livro. Esse reconhecimento ocorria imediatamente, por parte da comunidade que recebia o documento. As palavras de Moisés foram reconhecidas imediatamente pelos seus contemporâneos como sendo palavra do Senhor (Êx 24.3,7), assim como as de Josué (Js 24.24-27) e de Samuel (1Sm 10.25). O mesmo aconteceu quando o livro da lei, achado por Hilquias, foi lido perante o rei e depois, a todo o povo (2Rs 22-23), quando Esdras leu o livro da lei diante do povo (Ne 8, 10 e 13). 1.3. A compilação e preservação: Este passo completa o processo da canonização. À medida que os livros iam sendo escritos e reconhecidos, eram guardados e juntados aos outros já existentes, formando uma coleção de escritos sagrados. Como este processo se deu não está muito claro nos registros bíblicos, mas há alguns textos que sugerem que essa era a prática. O livro da lei de Moisés (que poderia compreender todo o Pentateuco [1] Introdução Bíblica, p. 74 http://www.bibliaonline.com.br/aa/ex/24 http://www.bibliaonline.com.br/aa/js/24 http://www.bibliaonline.com.br/aa/1sm/10 http://www.bibliaonline.com.br/aa/2rs/22 http://www.bibliaonline.com.br/aa/ne/8 2 ou grande parte dele) foi posto na arca para testemunho (preservação – Dt 31.26). Nos dias de Josias, “a lei de Moisés”, também chamada de “livro da aliança” foi achada na Casa do Senhor (templo - 2Rs 22.8; 23.2). Daniel tinha uma coleção de livros, que incluía a “lei de Moisés” e “os profetas” (a profecia de Jeremias é mencionada (Dn 9.2,6,13). Esdras teve à sua disposição cópia do livro da lei para ler ao povo (Ed 7.6; Ne 8.9,14-17). Em Pv 25.1 lemos que os homens do rei Ezequias transcreveram os provérbios de Salomão, mencionados no capítulo. Na época do Novo Testamento “toda a Escritura” (do AT) era conhecida (Mt 5.17; Lc 24.44; 2Tm 3.16). Esses elementos mostram que houve o cuidado de se coligir e preservar o texto reconhecido como autoritativo, para servir de testemunho às gerações posteriores, conforme o entendimento de Paulo em Rm 15.4: “Pois tudo quanto, outrora, foi escrito para o nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança 2. O conceito liberal de cânon Acima, fizemos distinção entre canonicidade e canonização. A canonicidade é intrínseca ao livro, devido à sua autoridade divina, ao passo que a canonização é o processo de reconhecimento da canonicidade, feito pelo povo de Deus. A canonicidade foi imediata e logo reconhecida, tanto pelo autor como pelos que receberam o livro. A canonização foi gradual e progressiva, pois os livros não foram todos escritos ao mesmo tempo. Os do AT foram produzidos num espaço de cerca de mil anos e os do NT, em cerca de meio século. Isto sem falar no tempo que, especialmente no caso do NT, a Igreja, como um todo, precisou para distinguir entre aquilo que realmente tinha autoridade divina e aquilo que apenas pretendia ter ou foi recebido como se tivesse, em alguns dos seus segmentos. O processo da canonização, portanto, se desenvolveu durante um período razoavelmente longo. Não é assim, todavia, que os críticos liberais veem o assunto. Eles não fazem distinção entre canonicidade e canonização. Para eles, a canonicidade é apenas o resultado da canonização feita pela Igreja, através do reconhecimento do valor espiritual e religioso do livro. Os críticos liberais não creem na autoridade divina do livro e, por conseguinte, não creem em inspiração. Portanto, para ele, cânon e canonicidade são a mesma coisa. A canonicidade, para eles, é atribuída ao livro pela Igreja, através de um longo processo e a canonização não é a coleção de livros inspirados que cresce, por adição de outros que vão sendo escritos e reconhecidos imediatamente, como cremos. O próprio conceito de canonicidade, para eles, é formado ao longo dos anos, pela veneração que o livro recebe. Consideram a Bíblia como um livro apenas humano, que vem a ser considerado como divino pela Igreja, ao longo dos anos, devido à sua influência e efeito sobre os que o leem. Estudar o cânon, segundo esse ponto de vista, é estudar como, quando e por que esses livros vieram a ser considerados autoritativos pela Igreja. Para a maioria dos críticos, o cânon do AT foi formado em três estágios distintos, todos após o tempo de Esdras: o Pentateuco, cerca de 400 a.C; os Profetas, cerca de 200 a.C e os Escritos , cerca de 100 d.C. 3. A divisão do Cânon do AT O AT hebraico, de longa data, é dividido em três partes: A Lei (Torah), Os Profetas (Nebhim) e os Escritos (Kethubhim). A Lei compreendia os cinco livros de Moisés (o Pentateuco). Os Profetas incluíam tanto os quatro que chamamos de históricos: Josué, http://www.bibliaonline.com.br/aa/dt/31 http://www.bibliaonline.com.br/aa/2rs/22 http://www.bibliaonline.com.br/aa/2rs/23 http://www.bibliaonline.com.br/aa/dn/9 http://www.bibliaonline.com.br/aa/dn/9 http://www.bibliaonline.com.br/aa/ed/7 http://www.bibliaonline.com.br/aa/ne/8 http://www.bibliaonline.com.br/aa/ne/8 http://www.bibliaonline.com.br/aa/pv/25 http://www.bibliaonline.com.br/aa/mt/5 http://www.bibliaonline.com.br/aa/lc/24 http://www.bibliaonline.com.br/aa/2tm/3 http://www.bibliaonline.com.br/aa/rm/15 3 Juizes, 1 e 2 Samuel, e 1 e 2 Reis (cada um desses dois grupos é contado como um só livro), como também mais quatro - três dos que chamamos de Profetas Maiores: Isaías, Jeremias e Ezequiel e os doze Profetas Menores, que eram contados como um só livro. Os Escritos, em número de onze, incluíam Salmos, Provérbios e Jó, mais os cinco que eram chamados de “rolos” (Meghilloth): Cântico dos Cânticos, Rute, Lamentações, Eclesiastes e Ester, mais Daniel e Esdras-Neemias, estes dois contados como um só livro, e 1 e 2 Crônicas, também contados como um só livro, totalizando 24 livros.[2] A Bíblia Hebraica traz essa divisão até hoje, a qual remonta ao quinto século a.D. (vem da Mishnah - seção Baba Bathra). Outros testemunhos históricos têm sido invocados em seu benefício. O prólogo do livro apócrifo de Siraque (c. 132 a.C), Filo (época de Cristo) e Josefo(século I, pouco depois de Cristo) trazem menções que dão a entender a divisão tríplice. Como vimos acima, os críticos têm usado essa tríplice divisão para afirmar que os livros do AT foram canonizados em diferentes estágios: primeiro a Lei, depois os Profetas e, finalmente, os Escritos, já que não aceitam a canonicidade como uma decorrência da inspiração, com imediato reconhecimento. Segundo eles, essa divisão tripartida do AT representa seus estágios de canonização. É assunto de controvérsia se tal divisão pode ser sustentada. Ela é bastante questionada hoje e é mais provável que o cânon do AT se constituísse de apenas duas seções: a lei de Moisés e os Profetas, que surgiram após ele.[3] O NT oferece apenas uma referência ao que pode ser reconhecido como uma tríplice divisão, em Lc 24.44. Ali Jesus se refere à lei de Moisés, aos Profetas e aos Salmos, este último (livro) supostamente representando os Escritos, por ser o primeiro e o mais volumoso da lista. Porém, a forma mais comum do NT referir-se ao AT é empregar um ou dois desses nomes para todo o AT. É o que temos em Jo 10.34 (Lei); Mt 2.23 e Lc 1.70 (Profetas) e Mt 5.17; 7.12 e Lc 16.16 (Lei e os Profetas). O texto de Jo 10.34 é interessante porque nele Jesus refere-Se à Lei, mas cita um texto de Salmos (82.6). Como observa Morton Smith, "os três termos são igualmente apropriados para o todo da Escritura. Primeiro, o termo lei fala da autoridade e do caráter impositivo que a Escritura mantém, porque é a própria palavra de Deus. O termo 'profetas' sugere a origem divina, porque os que são designados 'profetas' são os mensageiros oficiais de Deus, que receberam sua mensagem diretamente dele. O termo 'Escrituras' (Escritos) sugere que estes são escritos que estão acima de todos os outros. Eles são 'Os Escritos'. Assim, é inteiramente apropriado o intercâmbio destes termos para se referir a todo o Antigo Testamento. Todos eles falam do caráter divino do Antigo Testamento”. [4] Ma ainda que a ideia da divisão tripartite seja aceita, não há evidências de que ela corresponda a períodos de formação do cânon e, muito menos, que pertençam às datas atribuídas pelos críticos. Como dizem Geisler e Nix, “os livros das Escrituras judaicas [2] Ver “Canon of the Old Testament” in The International Standard Bible Encyclopaedia, James Orr, ed. (Grand Rapids: W. B. Eerdmans Publishing Co., sem data), vol. I, p. 555. O Cânon de Josefo também continha os mesmos 24 livros, mas com arranjo ou divisão diferente, totalizando 22 (cf. Ibid, p. 560). [3] Ver discussão do assunto em Norman Geisler & William Nix, Interpretação Bíblica (São Paulo: Editora Vida, 1997), pp. 76-78. [4] Morton H. Smith, op. cit., edição eletrônica. http://www.bibliaonline.com.br/aa/lc/24 http://www.bibliaonline.com.br/aa/jo/10 http://www.bibliaonline.com.br/aa/mt/2 http://www.bibliaonline.com.br/aa/lc/1 http://www.bibliaonline.com.br/aa/lc/1 http://www.bibliaonline.com.br/aa/mt/5 http://www.bibliaonline.com.br/aa/mt/7 http://www.bibliaonline.com.br/aa/lc/16 http://www.bibliaonline.com.br/aa/jo/10 http://www.bibliaonline.com.br/aa/sl/82 4 foram reagrupados várias vezes desde que foram redigidos. Alguns deles, de modo especial os que fazem parte dos escritos, foram redigidos e aceitos pela comunidade judaica séculos antes das datas que os teóricos da crítica lhes atribuem”.[5] Segundo os críticos, os livros de Daniel, Crônicas, Esdras e Neemias teriam sido escritos depois da época desses personagens e só canonizados em cerca de 100. d.C. Acontece que tanto Jesus (Lc 24.44) como Josefo[6] aludem a uma tríplice divisão das Escrituras (que incluiria esses livros) já antes do ano 100 d.C. e o prólogo de Eclesiástico (o livro em grego era chamado de “Sabedoria de Jesus, filho de Siraque”), c. 132 a.C., dá a entender que ela já era conhecida e usada por volta do ano 200 a.C. (época do avô do autor do prólogo).[7] A hipótese de que o cânon hebraico era composto de apenas duas partes nos parece mais provável. O próprio AT faz menção de duas divisões, “a lei” e “os profetas” em Dn 9.2,6,11;Zc 7.12 e Ne 9.14,29,30. É verdade que essas menções são feitas em livros que, segundo os críticos, pertencem ao terceiro estágio da canonização, com exceção de Zacarias. Mas já no período interbíblico, portanto antes do século I a.D., ela é encontrada em 2 Macabeus 15.9 e no Manual de Disciplina da comunidade de Qumran (1.3;8.15;9.11). Ambos se referem ao AT como “a lei e os profetas”. No NT, como vimos anteriormente, só encontramos uma referência que favorece a divisão tripartite (Lc 24.44). Todas as demais falam do AT como” a lei e os profetas”. Em Lc 16.16,29,31 Jesus se refere a toda a Escritura do AT dizendo que “a lei e os profetas duraram até João”. Em Lc 24.27 lemos que “começando por Moisés, e por todos os profetas, explicou-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras”. Outras passagens que se referem à lei e aos profetas como sendo todas as Escrituras são: At 13.15; Lc 24.14 e Mt 5.17,18. Essas passagens mostram que Jesus aceitava um cânon bipartido, que incluía todos os 24 livros (ou 22, conforme outra divisão) do cânon hebraico, reconhecidos pelos judeus da sua época (século I a.D.). Não há qualquer base para a ideia de um cânon judaico que ainda se desenvolvia nos dias de Cristo, e muito menos depois dele. 4. O desenvolvimento do Cânon do AT O fato de a revelação divina ser registrada servia a diversos propósitos: a) enviá-la a outros lugares e pessoas (Jr 29.1;36.1-8;51.60-61; 2Cr 21.12;), b) preservar a sua integridade para os dias futuros (Is 30.8) e c) usá-la como um memorial ou testemunho contra o povo (Êx 17.14; Dt 31.24-26). Quando o livro da lei foi perdido, durante os reinados de Manassés e Amom, o povo afastou-se do Senhor. Ao ser descoberto por Hilquias, sua leitura causou grande impacto, mostrando a necessidade e serventia da lei escrita. Este fato comprova a necessidade de um cânon. Foi a mensagem de Deus, na sua forma escrita, que ele usou para a grande reforma nos dias de Josias. E assim tem [5] Introdução Bíblica, p. 75 [6] Josefo dividiu os livros do AT em três seções que somavam o total de 22, dizendo que eles “continham o registro de todo o passado ...cinco pertencem a Moisés, ...os profetas, que vieram após Moisés, escreveram o que foi feito em seu tempo em treze livros. Os quatro livros restantes contêm hinos a Deus e preceitos para a conduta da vida humana” (Contra Ápion, I,8) [7] Nele se lê: “O meu avô Jesus, depois de dedicar-se intensamente à leitura da Lei, dos Profetas e dos outros livros dos antepassados” (v.7). No v.1 ele mencina “a Lei, os Profetas e os outros escritores que se seguiram a eles” http://www.bibliaonline.com.br/aa/lc/24 http://www.bibliaonline.com.br/aa/dn/9 http://www.bibliaonline.com.br/aa/dn/9 http://www.bibliaonline.com.br/aa/zc/7 http://www.bibliaonline.com.br/aa/ne/9 http://www.bibliaonline.com.br/aa/lc/24 http://www.bibliaonline.com.br/aa/lc/16 http://www.bibliaonline.com.br/aa/lc/16 http://www.bibliaonline.com.br/aa/lc/24 http://www.bibliaonline.com.br/aa/atos/13 http://www.bibliaonline.com.br/aa/lc/24 http://www.bibliaonline.com.br/aa/lc/24 http://www.bibliaonline.com.br/aa/mt/5 http://www.bibliaonline.com.br/aa/jr/29 http://www.bibliaonline.com.br/aa/jr/36 http://www.bibliaonline.com.br/aa/jr/51 http://www.bibliaonline.com.br/aa/2cr/21 http://www.bibliaonline.com.br/aa/is/30 http://www.bibliaonline.com.br/aa/ex/17 http://www.bibliaonline.com.br/aa/dt/31 5 sido em todas as épocas. Foi a leitura da Bíblia (especialmente do livro de Romanos) que levou Lutero à Reforma do Século XVI. Mas como foi formado o cânon do AT? Não temos todas as informações para traçar uma história completa do desenvolvimento do cânon do AT. Não sabemos quanto tempo o Pentateuco levou para alcançar a sua forma final. Em alguns casos, é possível que os próprioslivros, e não apenas a coleção deles, tenham sido formados por partes, gradualmente. O “livro da aliança” (referido em Ex 24.3-7) pode inicialmente ter sido formado apenas pelos capítulos 20-23 de Êxodo e, mais tarde, incorporado ao volumoso livro de Êxodo, do qual faz parte hoje. Alguns entendem que Gn 5.1 faz menção a um documento antigo (aqui chamado de livro) que foi incorporado ao livro maior chamado Gênesis[8]. Tudo isso, porém, ainda nos dias de Moisés e feito por ele mesmo. Deuteronômio, cuja autoria mosaica é negada pelos críticos, e ao qual atribuem uma data tardia de canonização, foi colocado ao lado da arca da aliança no tabernáculo (Dt 31.24-26 ) - o que evidencia que já era considerado como autoritativo mesmo nos dias de Moisés - e, mais tarde, no templo (2Rs 2.8), embora a última parte (cap. 34) deva ter sido escrita depois da morte de Moisés. O mesmo aconteceu com o livro de Josué. A última parte do cap. 24. (29-33), que relata a morte de Josué, certamente foi acrescentada ao livro mais tarde, após a morte do autor. Mas nem por isso o livro deixou de ser reconhecido como autoritativo. Em Js 24.26 lemos que “Josué escreveu estas palavras no livro da lei de Deus”, o que pode ser entendido como referindo-se às palavras do cap. 24 ou a todo o livro. Acréscimos e edições posteriores à escrita não invalidaram o caráter autoritativo dos livros do AT, nem representaram quebra do mandamento que encontramos nesses próprios livros de não acrescentar à palavra do Senhor, nem diminuir dela (Dt 4.2;12.32; Pv 30.6). Não foram acréscimos nem edições que, de alguma forma, acrescentassem, diminuíssem ou modificassem a revelação do Senhor. Outra evidência de desenvolvimento na produção dos livros, até a sua forma final, encontra-se em 1 Samuel 8.11-18 e 10.25. Um primeiro texto sobre o “direito do reino” foi escrito como um livro antes que fosse incorporado ao primeiro livro de Samuel, em sua forma final. E esse livro foi posto “perante o Senhor”, como aconteceu com a Lei e com o livro de Josué. Também vários outros livros são citados nos livros canônicos, como o Livro da História de Salomão, o Livro das Crônicas dos Reis de Israel e o Livro das Crônicas dos Reis de Judá (1Rs 11.41;14.29,30; 2Rs 1.18;8.23) e o Livro da História dos Reis de Israel e de Judá (provavelmente uma combinação das duas anteriores), citado nos livros canônicos das Crônicas (2Cr 16.11;25.26;27.7; 28.26;35.27;36.8; e, em forma abreviada, em 1Cr 9.1; 2Cr 24.27).Todavia, não há evidência de que esses livros fossem tidos como canônicos. É melhor considerá-los como fontes usadas pelos autores dos livros canônicos, já que grande parte de suas narrativas foi incluída nos livros canônicos dos Reis e das Crônicas. 4.1. O Reconhecimento da lei Dissemos que, ainda nos dias de Moisés, a lei foi reconhecida como autoritativa, qualidade que hoje chamamos de “canônica”. Depois dele, praticamente todos os demais livros demonstram que a lei não só foi reconhecida como autoritativa, mas [8] Ver R. T. Beckwit, “O Cânon do Antigo Testamento” in A Origem da Bíblia, editado por Philip Wesley Comfort (Rio de janeiro: CPAD, 1998), p. 81. http://www.bibliaonline.com.br/aa/ex/24 http://www.bibliaonline.com.br/aa/ex/20 http://www.bibliaonline.com.br/aa/ex/23 http://www.bibliaonline.com.br/aa/gn/5 http://www.bibliaonline.com.br/aa/dt/31 http://www.bibliaonline.com.br/aa/dt/31 http://www.bibliaonline.com.br/aa/2rs/2 http://www.bibliaonline.com.br/aa/js/24 http://www.bibliaonline.com.br/aa/dt/4 http://www.bibliaonline.com.br/aa/pv/30 http://www.bibliaonline.com.br/aa/1sm/8 http://www.bibliaonline.com.br/aa/1sm/10 http://www.bibliaonline.com.br/aa/1rs/11 http://www.bibliaonline.com.br/aa/1rs/14 http://www.bibliaonline.com.br/aa/2rs/1 http://www.bibliaonline.com.br/aa/2rs/8 http://www.bibliaonline.com.br/aa/2cr/16 http://www.bibliaonline.com.br/aa/2cr/25 http://www.bibliaonline.com.br/aa/2cr/27 http://www.bibliaonline.com.br/aa/2cr/28 http://www.bibliaonline.com.br/aa/2cr/35 http://www.bibliaonline.com.br/aa/2cr/36 http://www.bibliaonline.com.br/aa/1cr/9 http://www.bibliaonline.com.br/aa/2cr/24 6 serviu de base para a revelação posterior. O apelo e referência à lei de Moisés estão presentes em todo o AT. De Josué a Malaquias, encontramos frequentes referências à lei de Moisés, ou à lei do Senhor, ou ao Livro de Moisés, etc ((Js 1.7-8; 1Rs 2.3; 8.61; 2Rs 14.6; 21.8;23.25; 2Cr 14.4; 17.9; Jr 8.8; Dn 9.11; Ed 6.18; Ne 13.1; Ml 4.4)). Essas referências testemunham a favor do reconhecimento de que uma das partes do cânon, como hoje é dividido, já estava fechada, embora o restante ainda estivesse sendo escrito. Não foi preciso esperar até que o último livro fosse escrito para que se tivesse um cânon aceito. Esse cânon cresceu por adição, à medida que os demais livros foram sendo escritos, mas em cada estágio foi um cânon de livros aceitos como divinos (inspirados). 4.2. O reconhecimento dos profetas Mais progressiva ainda do que a Lei foi a canonização dos livros proféticos, visto que foram muitos os seus autores e diferentes as suas épocas. Já mencionamos Josué e Samuel, que colocaram seus escritos junto ao santuário do Senhor (Js 24.26; 1Sm 10.25). Com Samuel iniciou-se o período chamado “dos profetas”. Iniciou-se a “escola de profetas”, com seus alunos conhecidos como “filhos de profetas” (1Sm 19.20). O fato de profetas que vieram mais tarde ter usado os escritos de profetas anteriores, como já demonstramos nos casos de Ezequiel e Daniel (Ez 13.9; Dn 9.2,6,11), comprova que esses escritos eram preservados e colecionados como revelação divina autoritativa. Nesses escritos, a história do trato de Deus para com Israel, principalmente através dos seus profetas, juízes e reis, é registrada de modo contínuo e progressivo. O livro de Josué menciona a lei (Js 1.8), Juizes menciona Josué e acontecimentos narrados em seu livro (1.1,20,21; 2.8). Os livros dos Reis relatam a vida de Davi, conforme narrada nos livros de Samuel (1Rs 3.14; 5.7; 8.16; 9.5). Os livros das Crônicas fazem uma revisão de toda a história judaica, desde Gênesis até o período dos reis. Salmos inteiros ou porções deles são citados em outros livros (o Salmo 18 é repetido em 2 Samuel 22; Jonas recita partes de vários salmos, Jn 2). Todos esses fatos evidenciam que existia uma coleção de livros reconhecidos como de autoridade divina, que ia sendo acrescida e que era usada para a edificação do povo. Era o cânon que ia sendo formado. Na aula 4 apresentamos um quadro demonstrativo da sucessão de profetas, apresentado nos livros das Crônicas. É o que se costuma chamar de continuidade profética: uma sequência de narrativas que cobrem toda a história dos reis de Israel e de Judá.[9]] É verdade que Jeremias, que foi profeta canônico, não é mencionado nessa lista de sucessão profética, mas ele próprio se reconhece como profeta escritor, como afirma em Jr 30.2; 36.1,2; 45.1,2; 51.60,63). Pouco tempo depois, Daniel, no exílio, menciona a profecia de Jeremias como parte dos escritos proféticos (Dn 9.2,6,11, cf. Jr 25). Ezequiel também escreveu no exílio, assim como Daniel. Depois do exílio temos ainda Esdras (que levou consigo da Babilônia os livros de Moisés e dos profetas (Ed 6.18; Ne 9.14,26-30) e Neemias. Os livros de Esdras e Neemias, que agora temos como volumes separados, formavam um só livro no cânon hebraico e estavam intimamente ligados a Crônicas, como se observa do último versículo de 2 Crônicas e do primeiro de Esdras, que são praticamente uma repetição um do outro. Com Neemias, então, completa-se a sequência profética. Sobre o assunto dizem Geisler e Nix: “Cada profeta, desde Moisés até Neemias, contribuiu para a coleção sempre crescente de livros, que fora preservada [9] Ver também a discussão do assuto apresentada por Geisler e Nix em Introdução Bíblica, pp. 80-81. http://www.bibliaonline.com.br/aa/js/1http://www.bibliaonline.com.br/aa/1rs/2 http://www.bibliaonline.com.br/aa/1rs/8 http://www.bibliaonline.com.br/aa/2rs/14 http://www.bibliaonline.com.br/aa/2rs/14 http://www.bibliaonline.com.br/aa/2rs/21 http://www.bibliaonline.com.br/aa/2rs/23 http://www.bibliaonline.com.br/aa/2cr/14 http://www.bibliaonline.com.br/aa/2cr/17 http://www.bibliaonline.com.br/aa/jr/8 http://www.bibliaonline.com.br/aa/dn/9 http://www.bibliaonline.com.br/aa/ed/6 http://www.bibliaonline.com.br/aa/ne/13 http://www.bibliaonline.com.br/aa/ml/4 http://www.bibliaonline.com.br/aa/js/24 http://www.bibliaonline.com.br/aa/1sm/10 http://www.bibliaonline.com.br/aa/1sm/10 http://www.bibliaonline.com.br/aa/1sm/19 http://www.bibliaonline.com.br/aa/ez/13 http://www.bibliaonline.com.br/aa/dn/9 http://www.bibliaonline.com.br/aa/js/1 http://www.bibliaonline.com.br/aa/jz/1 http://www.bibliaonline.com.br/aa/jz/2 http://www.bibliaonline.com.br/aa/1rs/3 http://www.bibliaonline.com.br/aa/1rs/5 http://www.bibliaonline.com.br/aa/1rs/8 http://www.bibliaonline.com.br/aa/1rs/9 http://www.bibliaonline.com.br/aa/sl/18 http://www.bibliaonline.com.br/aa/2sm/22 http://www.bibliaonline.com.br/aa/jn/2 http://www.bibliaonline.com.br/aa/jr/30 http://www.bibliaonline.com.br/aa/jr/36 http://www.bibliaonline.com.br/aa/jr/45 http://www.bibliaonline.com.br/aa/jr/51 http://www.bibliaonline.com.br/aa/dn/9 http://www.bibliaonline.com.br/aa/jr/25 http://www.bibliaonline.com.br/aa/ed/6 http://www.bibliaonline.com.br/aa/ne/9 http://www.bibliaonline.com.br/aa/ne/9 7 pela comunidade dos profetas a partir de Samuel. Os 22 (24) livros das Escrituras hebraicas foram escritos por profetas, preservados pela comunidade dos profetas e reconhecidos pelo povo de Deus. Até agora não existem evidências de que outros livros, chamados ´escritos´, houvessem alcançado canonização depois dessa época (c. 400 a.C)”.[10] Já dissemos que o livro das Crônicas era o último do cânon hebraico, vindo logo depois de Esdras-Neemias. Em Lc 11.50-51 Jesus faz referência ao sangue dos profetas, desde Abel até Zacarias. Embora a identificação desse Zacarias seja objeto de debate entre os estudiosos, geralmente ele tem sido identificado como o Zacarias mencionado em 2Cr 24.20-22, o qual não seria o último mártir do AT mencionado em ordem cronológica (cf. Jr 26.20-23), mas o último em ordem canônica. Se esta for a interpretação correta, o que parece provável, Jesus estaria fazendo, então, uma referência ao cânon fechado do AT, tal como ele e os seus ouvintes entendiam. No item anterior mencionamos que, embora haja algumas referências históricas a um cânon hebraico tripartite (Talmude – Baba Bathra, livro de Siraque e o próprio texto de Lc 24.44), essa divisão não é hoje aceita como a mais provável. As evidências em favor de um cânon bipartido (Lei e Profetas) são mais numerosas e mais convincentes. Assim, pode-se concluir que, com o encerramento da sucessão profética, se concluiu também o cânon do AT. Com Neemias (c. 400 a.C.) encerrou-se a coleção dos 22 (ou 24) livros do cânon hebraico. Alguns argumentos em favor dessa conclusão, além dos já apresentados na aula 4, são os seguintes: a) O chamado Concílio de Jâmnia (c. 90 d.C.) não se reuniu para decidir que livros deveriam ou não fazer parte do cânon judaico, como acreditavam os críticos. Hoje se tem como certo que o que aconteceu em Jâmnia não foi um concílio oficial, com autoridade para decidir questões tão importantes como definir os limites do cânon. Sobre isso diz Laird Harris: “Antigamente, os estudiosos argumentavam que o cânon foi fechado no concílio de Jâmnia, em 90 a.D. Hoje, desde o estudo feito por Jack P. Lewis (´What do we mean by Jabneh?´, JBR 32 (1932): 125-32) é geralmente aceito que as discussões de Jâmnia, relatadas no Talmude, não constituíram um concílio e nem tinha autoridade. Certos livros foram questionados (Eclesiastes e Cantares). Outras discussões rabínicas questionaram Ester, Provérbios e Ezequiel, mas a dúvida era se eles deveriam ou não ser mantidos com os outros livros, e não se eles deveriam ser adicionados, e a questão foi resolvida a favor de sua manutenção.”[11] b) O livro de Daniel, que é apresentado pelos críticos como fazendo parte dessa terceira seção, que supostamente teria sido canonizada apenas no primeiro século a.D., já era aceito pelos judeus como parte do cânon muito antes disso, como atestam os rolos do Mar Morto (havia entre os livros descobertos um fragmento do livro de Daniel) e as próprias palavras de Cristo, que se referiu a ele como profeta.(Mt 24.15). [10] Introdução Bíblica, p. 81 [11] Inspiration and Canonicity of the Scriptures, p. 134 http://www.bibliaonline.com.br/aa/lc/11 http://www.bibliaonline.com.br/aa/2cr/24 http://www.bibliaonline.com.br/aa/jr/26 http://www.bibliaonline.com.br/aa/lc/24 http://www.bibliaonline.com.br/aa/mt/24 c) Quase todos os livros do AT, mesmo os que estão entre os chamados “escritos”, são citados no NT como “escritura”, o que atesta o seu reconhecimento por parte dos autores bíblicos neotestamentários. E todos eles, com exceção de Lc 24.44, figuram como pertencendo à “lei” ou aos “profetas” (Mt 5.17; Mc 13.11; Lc 24.27). d) O livro de Salmos, que era contado como parte da terceira seção por aqueles que assim dividiam o cânon (Josefo, por exemplo), é considerado no NT como parte da lei (Jo 10.34,35) ou dos profetas (Lc 24.27). Alguns entendem a expressão “na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”, de Lc 24.44, como um paralelismo à expressão “Moisés e todos profetas” do v. 27. O fato dos Salmos serem citados em grande abundância como “Escritura” no NT (especialmente em Hebreus) comprova que já eram tidos como canônicos antes de 90 a.D (Jâmnia). e) Tanto o 1o livro de Macabeus, quanto o Talmude, o Manual de Disciplina de Qunram e Josefo falam de uma sucessão de profetas, que se encerrou com os últimos profetas Ageu, Zacarias e Malaquias, nos dias de Neemias, como vimos na aula 4. Conclusão: As evidências são a favor de um cânon do AT encerrado por volta de 400 a.C., e composto de duas partes: A Lei e os Profetas. À medida que os 22 (ou 24) livros iam sendo escritos, eram imediatamente reconhecidos como autoritativos e colecionados pelo povo de Deus, formando um cânon que tomou o nome de “ a Lei e os Profetas”. Implicações Práticas Um cânon fechado do AT e reconhecido como autoritativo pelos judeus, assim como pelos autores do NT e, principalmente, pelo próprio Senhor Jesus, é a garantia de que a revelação progressiva, dada ao longo de muitos séculos, não se perdeu nem foi corrompida. Assim, pôde constituir-se na base para a revelação posterior, dada por Cristo através dos apóstolos e dos outros autores do NT. Sua importância e valor não podem ser subestimados. A revelação escrita era o apelo final de Jesus, mesmo antes de estar toda ela concluída. Na parábola do rico e Lázaro, ele Se refere a Moisés e aos Profetas (Escritura do AT) como autoridade final para se conhecer a vontade de Deus: “Eles têm Moisés e os Profetas; ouçam-nos... Se não ouvem a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão persuadir, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos” (Lc 16.29,31). Bibliologia: Revelação, Inspiração e Cânon João Alves dos Santos Aula 10: A Extensão do Cânon do AT Introdução Depois de estudar como o Cânon do AT se desenvolveu, é preciso saber quais foram os seus limites. Em outras palavras, quais livros foram incluídos nesse cânon, quais foram questionados se deveriam ou não permanecer nele e quais deixaram de ser incluídos. É o que chamamos de limites ou extensão do Cânon. 1. Os livros aceitos por todos (Homologoumena = os livros de consenso – sobre os quais se diz a mesma coisa) Dos 22 (ou 24) livros do Cânon do AT (39, de nossas versões em português), apenas Cantares, Eclesiastes, Ester, Ezequiel e Provérbios tiveram algum tipo de rejeiçãoou questionamento, por parte dos judeus (rabis). Todos os demais foram aceitos sem qualquer dúvida, por isso são chamados de homologoumena (aqueles sobre os quais há consenso). Por haver consenso sobre eles, não há necessidade de desenvolvimento desse tópico. 2. Os livros rejeitados por todos (Pseudepigrafa = escritos falsos ou espúrios) Os pseudepígrafos eram livros de caráter religioso que surgiram no contexto da comunidade judaica pós exílica, mas que nunca foram considerados como inspirados ou de valor sagrado. Em geral, refletem o estilo e a linguagem do período posterior ao do encerramento do cânon do AT (período de Esdras e Neemias), cheio de promessas e esperanças messiânicas, próprias do estilo da literatura apocalíptica. Seu conteúdo, em geral, é fantasioso e até herético, e nunca ganhou a confiança ou aceitação dos pais judaicos. Contudo, a despeito do nome que receberam (pseudepígrafos), nem tudo neles é falso. Alguns deles trazem elementos da tradição que bem podem ser verdadeiros e podem até ter sido a fonte de onde autores do NT extraíram citações. É o caso das referências a Enoque e Moisés, feitas em Judas 14,15, que podem ter sido extraídas dos livros pseudepígrafos de Enoque e da Assunção de Moisés. A tradição nem sempre era falsa ou sem qualquer fundamento. Paulo cita em 2Tm 3.8 Janes e Jambres que, segundo a tradição, eram os nomes dos magos que fizeram encantamentos no Egito. O fato de elementos da tradição, contida nesses livros, serem citados por autores canônicos não autoriza a aceitação dos mesmos como canônicos também, nem mesmo autentica como verdade tudo o que eles contêm. Apenas o elemento citado tem garantia de ser verdadeiro, não por causa da fonte onde ele se encontra, mas por causa do autor que o citou. Citações dessa natureza têm o mesmo caráter das que Paulo fez de poetas e filósofos pagãos em At 17.28 (Aratus), 1Co 15.33 (Menânder) e Tt 1.12 (Epimênides). Como dizem Geisler e Nix: “A verdade é sempre verdade, não importa onde se encontre, quer pronunciada por um poeta pagão, quer por uma profeta pagão (Nm http://www.bibliaonline.com.br/aa/jd/1 http://www.bibliaonline.com.br/aa/2tm/3 http://www.bibliaonline.com.br/aa/atos/17 http://www.bibliaonline.com.br/aa/1co/15 http://www.bibliaonline.com.br/aa/tt/1 http://www.bibliaonline.com.br/aa/nm/24 2 24.17), por um animal irracional e mudo (Nm 22.28) ou mesmo por um demônio (At 16.17)”.[1] Geilser e Nix dão a seguinte classificação de alguns dos principais pseudepígrafos, por seu gênero literário:[2] Lendários 1. O Livro do Jubileu 2. Epístola de Aristéias 3. O Livro de Adão e Eva 4. O Martírio de Isaías Apocalípticos 1. 1Enoque 2. O Testamento dos Doze Patriarcas 3. O Oráculo Sibilino 4. Assunção de Moisés 5. 2Enoque, ou o Livro dos Segredos de Enoque 6. 2 Baruque, ou o Apocalipse Siríaco de Baruque 7. 3Baruque, ou o Apocalipse Grego de Baruque Didáticos 1. 3Macabeus 2. 4Macabeus 3. Pirque Abote 4. A História de Aicar Poéticos 1. Salmos de Salomão 2. Salmo 151 Históricos 1. Fragmentos de uma Obra de Sadoque Já Leonhard Rost dá uma classificação de acordo com a origem ou grupos a que estavam associados. É a seguinte:[3] I. Do judaísmo helenístico do Egito 1. A Carta de Aristéias 2. O 3º Livro dos Macabeus 3. O 4º Livro dos Macabeus 4. O Livro eslavo de Enoque (2Enoque) 5. Os Oráculos Sibilinos II. Da Síria 1. O Apocalipse grego de Baruque III. Dos Círculos dos fariseus da Palestina 1. Os Salmos de Salomão 2. O 4º Livro de Esdras 3. O Apocalipse siríaco de Baruque IV. Da esfera de influência do grupo de Qumran 1. O Livro dos Jubileus 2. O Livro etíope de Enoque (1Enoque) 3. O Testamento dos Doze Patriarcas [1] Introdução Bíblica, p. 86 [2] Introdução, p. 87 [3] Introdução aos Livros Apócrifos e Pseudepígrafos do Antigo Testamento e aos Manuscritos de Qumran, Edições Paulinas, 1980, p. 98 http://www.bibliaonline.com.br/aa/nm/22 http://www.bibliaonline.com.br/aa/atos/16 http://www.bibliaonline.com.br/aa/atos/16 3 4. A Assunção de Moisés 5. O Martírio de Isaías 6. A Vida de Adão e Eva V. Das descobertas dos manuscritos de Qumran 1. A Regra da Associação 2. Documento de Damasco 3. A Regra da Guerra 4. O Pesher de Habacuque 5. Apócrifo de Gênesis 6. Os Cânticos de Louvor 7. O Rolo do Templo 3. Os livros questionados por alguns (Antilegomena = aqueles contra os quais se fala) Como já dissemos, cinco livros canônicos foram questionados durante o processo de canonização por alguns círculos rabínicos: são os de Cântico dos Cânticos, Eclesiastes, Ester, Ezequiel e Provérbios. Isto não significa que eles só mais tarde foram aceitos no cânon, depois que as controvérsias cessaram. Como vimos, os livros canônicos foram aceitos pelo povo de Deus imediatamente após a sua escrita. Mas por razões diferentes, em certos círculos judaicos e em épocas posteriores à introdução desses livros no cânon, questionou-se se eles deveriam ou não realmente pertencer ao cânon sagrado. Daí serem chamados de antilegomena, ou seja, aqueles contra os quais se fala. Dissipadas as dúvidas, esses livros foram finalmente aceitos por todos, sem que tivessem sido retirados do cânon. Geralmente se atribui ao Concílio de Jamnia (90 a.D.) a data quando a questão foi de todo encerrada As supostas razões para esse questionamento foram: Para o livro de Cântico dos Cânticos (Cantares de Salomão): por ser considerado sensual por alguns (especialmente os da rígida Escola de Shammai). Só no contexto das discussões de Jamnia que a questão foi encerrada, especialmente com as célebres palavras pronunciadas pelo rabino Aquiba: “Nenhum homem em Israel jamais contestou que Cantares de Salomão suja as mãos. É que em todo o mundo não existe algo que iguale ao dia em que Cantares de Salomão foi entregue a Israel. Todos os Escritos são santos, mas Cantares é santíssimo, e se houve alguma disputa, foi apenas a respeito de Eclesiastes” (Mishna, Yadaim 3:5).[4] O livro tem sido objeto de diferentes interpretações, mas a mais aceita hoje é a natural ou literal, que vê o seu conteúdo como vários poemas cantando e exaltando o amor conjugal. Para o livro de Eclesiastes: por ter uma visão supostamente pessimista e cética da vida. A declaração de Aquiba, acima mencionada, evidencia que este livro foi mais questionado que o Cântico dos Cânticos (Cantares de Salomão). Eclesiastes apresenta, sim, não uma visão pessimista, mas realista da vida sem o temor de Deus, da vida que busca o prazer e a realização pessoal à parte de Deus. A conclusão do livro mostra que é legítimo desfrutar dos prazeres da vida, desde que se tenha consciência da responsabilidade de prestar contas a Deus. Temer a Deus e guardar os seus [4] Citada por G. Lloyd Carr in Eclesiastes e Cantares, introdução e comentário, Mundo Cristão, 1989, p. 179. 4 mandamentos é o segredo da felicidade e do sucesso. O fato de o livro ter sido questionado não implica falta de canonicidade. Como dizem Geisler e Nix, “tanto no que se refere ao Eclesiastes, como ao Cântico dos Cânticos, o problema básico é de interpretação do texto, e não de canonização ou inspiração”.[5] Para o livro de Éster: por não mencionar o nome de Deus e por aparentemente conter uma história apenas secular, destituída de contexto religioso. Se o nome de Deus não aparece no livro, sua ação providencial em preservar o seu povo está patente. Não é verdade que não haja contexto religioso. Embora a história se desenvolva na corte persa, tanto Mardoqueu como Éster demonstram sua fé, e um jejum é convocado para o povo judeu. O fato de se instituir uma festa religiosa (Purim, Et 9.26-28) que passou, desde então, a ser celebrada e em que esse livro é lido, testemunha a favor de sua aceitação como divinopelos judeus. Para o livro de Ezequiel: por supostas contradições com a Torah. Conforme Edwar J. Young, “A escola de Shammai pensava que o ensinamento do livro não estava em harmonia com a Lei mosaica e que os primeiros capítulos exibiam uma tendência favorável ao gnosticismo. Portanto, consideravam-no apócrifo. O rabino Hananyah bem Hezekiah, entretanto, defendeu o livro, e assim ele permaneceu como canônico”.[6] Como observam Geisler e Nix, “parece que outra vez teria sido mera questão de interpretação, e não de inspiração”.[7] Nenhuma contradição real entre Ezequiel e a Lei mosaica pôde ser demonstrada. Para o livro de Provérbios: O questionamento do livro de Provérbios se deveu à suposta contradição encontrada no capítulo 26, onde no v. 4 se recomenda não responder ao tolo segundo a sua estultícia, enquanto o versículo seguinte (v.5) manda responder ao tolo segundo a sua estultícia. Supôs-se que essa aparente contradição era irremediável e que comprometia a veracidade do texto. Quando se compreendeu que o autor fala de diferentes situações, que podem exigir respostas ou comportamentos diferentes, e que as máximas, estando num seqüência de narrativa, não implicam contradição, mas estão vazadas em linguagem perfeitamente normal ao gênero literário da poesia hebraica, e quando se verificou que não há contradições no restante do livro, a objeção foi levantada.[8] [5] Introdução, p. 89 [6] Introdução ao Antigo Testamento, São Paulo, Vida Nova, 1964, p. 251 [7] Introdução, p. 90 [8] A Bíblia de Genebra tem uma interessante explicação do assunto: Ela diz: “Considerados juntamente, estes versículos ilustram o ponto de que nenhum provérbio tem por intuito cobrir todas as situações possíveis. A aparente contradição nos dois provérbios indica que os provérbios devem ser devidamente aplicados. Uma situação requer que evitemos jogar o jogo dos insensatos dando uma resposta, enquanto que a outra situação exige que desmascaremos a insensatez a fim de que o insensato não seja considerado um sábio.” http://www.bibliaonline.com.br/aa/et/9 5 4. Os livros aceitos apenas por alguns (Apocrypha) A parte mais delicada da discussão do cânon do AT diz respeito a alguns livros que, durante um certo período e em alguns lugares, foram tidos como canônicos e que, bem mais tarde, na Contra-Reforma, foram incluídos oficialmente no cânon cristão pela Igreja Católica Romana (Concílio de Trento, 1546). São os que chamamos de livros apócrifos e que a Igreja Católica chama de deuterocanônicos (apócrifos, para a Igreja Católica Romana são os que chamamos de pseudepígrafos). Os principais, que foram incluídos oficialmente no cânon romano em Trento, são 7 livros e 4 acréscimos ou apêndices a livros canônicos, totalizando 11 escritos. Tobias, Judite, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico (Siraque), Baruque (que inclui uma Carta de Jeremias como seu cap. 6, às vezes considerada como um escrito separado), 1 e 2 Macabeus e os acréscimos, sendo um a Ester (Ester 10.4-16.24), e três a Daniel, o primeiro chamado de Oração de Azarias e Cântico dos Três Jovens (Dn 3.24-90), o segundo chamado de História de Suzana (Dn 13) e o terceiro chamado de Bel e o Dragão (Dn 14). Além desses há mais 3 livros apócrifos que não foram incluídos no cânon de Trento, a saber: 3 Esdras, 4 Esdras e A Oração de Manasses. São chamados de 3 e 4 Esdras porque na Bíblia Católica (edições antigas, que seguem a Vulgata), o livro de Esdras é chamado de 1 Esdras e o livro de Neemias é chamado de 2 Esdras. Os apócrifos foram todos escritos no período intertestamentário (entre Malaquias e Mateus). O sentido do termo “apócrifo” (de origem grega), aplicado aos livros aceitos por alguns, mas não por todos, é objeto de discussão. Etimologicamente, a palavra significa “escondido”, “oculto”, e daí, “difícil de entender”. Este era o seu uso no grego clássico e helenístico. Em certos círculos, a palavra foi usada com a conotação de “esotérico”, isto é, aquilo que só pode ser entendido por iniciados.Os pais primitivos, dentre os quais Irineu e Jerônimo, foram os primeiros a usar a palavra Apocrypha para referir-se à lista de livros não canônicos, incluindo também, nesse caso, os pseudepígrafos. Assim a palavra passou a ser sinônimo de “espúrio” ou “não genuíno”. Desde a Reforma, é usada para os livros que chegaram a ser reconhecidos por alguns como canônicos, mas nunca pertenceram realmente ao cânon judaico. A primeira inclusão dos apócrifos em lista canônica aparece na Septuaginta (LXX, c. 150 a.C.). A Septuaginta (tradução do AT do hebraico para o grego) representa aquilo que é chamado por alguns de Canon Alexandrino, ao passo que o cânon aceito pelos judeus da Palestina é chamado de Cânon Hebraico ou Palestino. Depois eles foram incluídos na primeira tradução latina (Latina Antiga ou Ítala), em 170 d.C., visto que essa tradução do AT foi feita a partir da Septuaginta e não do texto hebraico. Quando Jerônimo fez a sua versão latina do AT, em 405 d.C. (Vulgata), incluiu com relutância também os apócrifos, mas com a observação de que eles não tinham a mesma autoridade que os demais. O gênero desses escritos, assim como sua data aproximada e lugar na Bíblia católica (versão de Douai, de 609 a.D.), podem ser vistos na seguinte tabela, apresentada por Geisler e Nix:[9] Tabela de Livros Apócrifos Gênero do livro Revised Standard Version (inglesa) Versão de Douai [9] Introdução p. 92 http://www.bibliaonline.com.br/aa/et/10 http://www.bibliaonline.com.br/aa/dn/3 http://www.bibliaonline.com.br/aa/dn/13 http://www.bibliaonline.com.br/aa/dn/14 6 Didático 1. Sabedoria de Salomão (c. 30 a.C.) 2. Eclesiástico (Siraque) (132 a.C.) Livro de Sabedoria Eclesiástico Religioso 3. Tobias (c. 200 a.C.) Tobias Romance 4. Judite (c. 150 a.C.) Judite Histórico 5. 1 Esdras (c. 150-100 a.C.) 6. 1 Macabeus (c. 110 a.C.) 7. 2 Macabeus (c. 110-70 a.C.) 3 Esdras* 1 Macabeus 2 Macabeus Profético 8. Baruque (c.150-50 a.C) 9. Epístola de Jeremias (c. 300-100 a.C.) 10. 2 Esdras (c. 100 d.C.) Baruque 1-5 Baruque 6 4 Esdras** Lendário 11. Adições a Ester (140-110 a.C.) 12. Oração de Azarias (séculos I ou II a.C.) Cântico dos Três Jovens 13. Susana (século I ou II a.C.) 14. Bel e o Dragão (c. 100 a.C.) 15. Oração de Manasses (século i ou II a.C.) Ester 10.4-16.24 Daniel 3.24-90** Daniel 13** Daniel 14** Oração de Manasses* *Livros não aceitos como canônicos no Concílio de Trento, em 1546. **Livros não relacionados no sumário de Douai por estarem apensos a outros livros. 4.1. Argumentos levantados a favor do “Cânon Alexandrino” (que continha os apócrifos) e sua resposta : 4.1.1. Supostas alusões no Novo Testamento. A referência a mulheres que receberam seus mortos pela ressurreição (Hb 11.35) é tida como alusão a 2 Macabeus 7, que fala de uma mãe que teve seus sete filhos cruelmente assassinados. O texto, porém, não fala que foram ressuscitados. Apenas menciona a esperança da ressurreição (v. 14). A referência se aplica melhor à viúva de Sarepta e à sunamita, cujos filhos Elias e Eliseu ressuscitaram (1Rs 17.17-23; 2Rs 4.8-37). A referência a “alguns que foram torturados, não aceitando seu resgate, para obterem superior ressurreição” poderia, de fato, se aplicar àquele episódio. Mas ainda que o livro apócrifo estivesse sendo citado, a citação não seria razão suficiente para atribuir-lhe autoridade canônica. Estaria no mesmo caso das citações dos pseudepígrafos, já vistas. 4.1.2. Sua inclusão na Septuaginta. O fato dos apócrifos figurarem nas versões conhecidas da Septuaginta é apresentado como um argumento a favor de um cânon que os continha. Contudo, as mais antigas dessas versões conhecidas são do século 4º. Não há provas de que o texto da Septuaginta do 1º século continha os apócrifos, embora isto fossepossível. De qualquer forma, não foi Alexandria, mas a Palestina, o lugar da canonização. Uma tradução não possui a mesma autoridade para determinar a extensão http://www.bibliaonline.com.br/aa/hb/11 http://www.bibliaonline.com.br/aa/1rs/17 http://www.bibliaonline.com.br/aa/2rs/4 7 do cânon. No máximo, demonstra que esses livros foram traduzidos junto com os canônicos. Filo, que era judeu alexandrino do tempo de Cristo (20 a.C. –40 d.C.), embora tivesse citado prolificamente o AT, nunca citou os apócrifos como inspirados ou como Escrituras. Da mesma forma, Josefo (30 – 100 a.D.) explicitamente exclui a apocrypha, enumerando os livros do AT como sendo os 22 que compõem o cânon judaico (Palestino). O judaísmo oficial em todos os tempos e lugares nunca aceitou os apócrifos. O Concílio de Jamnia, em 90 a.D., não reconheceu autoridade a esses livros. Talvez, o testemunho mais vigoroso neste sentido seja o do próprio Senhor Jesus e dos apóstolos que, no primeiro século, nunca citaram qualquer passagem dos apócrifos, embora tivessem, especialmente no caso dos apóstolos, a LXX como fonte mais freqüente de suas citações. E ainda que tivessem citado, como vimos, seu valor seria apenas de confirmação de uma verdade conhecida, a não ser que citassem como Escritura. Mas nem uma coisa nem outra ocorreu. 4.1.3. Sua inclusão nos manuscritos gregos mais antigos e completos da Bíblia. Os manuscritos gregos mais antigos que temos, de fato, contêm os apócrifos. Todavia, os mais antigos já são do 4º século a.D., e não provam que os apócrifos faziam parte do cânon do 1º século, nem que eram considerados canônicos pela igreja apostólica. A versão siríaca da Bíblia, Peshitta, do 2º século, por exemplo, não continha a apocrypha. Só no 4º século eles foram aceitos pela Igreja Síria. Aquela igreja nem sempre aceitou os apócrifos. Só depois dos concílios de Constantinopla (1638), Jafa (1642) e Jerusalém (1672) esses livros foram declarados canônicos. E mesmo depois disso, em 1839, essa igreja expressamente omitiu os apócrifos no seu Catecismo Maior, declarando que eles “não existem no hebraico”.[10] 4.1.4. Seu uso pelos pais da Igreja. Alguns dos antigos pais da Igreja aceitaram e usaram os apócrifos. Entre estes estão Clemente de Alexandria, Orígenes, Irineu e o próprio Agostinho. Foi ele quem influenciou os concílios de Hipo (393 a.D.) e de Cartago (397 a.D.) a aceitar os apócrifos como canônicos. Foi a partir daí que a Igreja Ocidental passou a aceitá-los. O uso ou aceitação dos apócrifos por alguns pais, todavia, não legitima a sua autoridade. A Igreja, como um todo, não os aceitava. Pelo contrário, muitas vozes de outros pais se levantaram contra a sua aceitação, como as de Atanásio, Cirilo de Jerusalém e até de Orígenes e Jerônimo. Muitos dos pais que aceitaram livros apócrifos, não os aceitaram como um todo, mas incluíram um ou outro, como foi o caso de Orígenes, que apenas incluiu Macabeus e a Epístola de Jeremias e do próprio Agostinho, que omitiu Baruque. Nenhum concílio até 393 a.D. os incluiu na lista dos canônicos. O próprio Agostinho não parece indicar que aceitasse a autoridade dos apócrifos no mesmo nível da dos demais.[11] Jerônimo, que era mais conhecedor da língua hebraica do que Agostinho, se opôs à aceitação dos apócrifos e contendeu com Agostinho. Gesler e Nix dizem que “Jerônimo chegou a recusar-se a traduzir os apócrifos para o latim, ou mesmo incluí-los em suas versões em latim vulgar (Vulgata [10] Ver Geisler e Nix, A General Introduction to the Bible, Moody Press, 1970, p. 172, citando H.S. Miller, General Biblical Introduction, p. 114. [11] Cf. Cidade de Deus, 18,36, citada por Geisler e Nix, Introdução..., p. 95. Em seu livro A General Introduction... Geisler e Nix dizem que a razão porque Agostinho aceitou os apócrifos foi por pensar que a Septuaginta era inspirada e que mais tarde ele se convenceu da superioridade do texto hebraico de Jerônimo, p. 171. 8 Latina). Só depois da morte de Jerônimo, e praticamente por cima do seu cadáver, é que os livros apócrifos foram incorporados à Vulgata Latina”.[12] A citação conflita com outras opiniões de que Jerônimo o fez, mas a contragosto. 4.1.5. Sua aceitação oficial pelo Concílio de Trento. Ao invés de ser um testemunho a favor da autoridade dos apócrifos, a oficialização dos mesmos pelo Concílio de Trento, em 1546, serviu como testemunho contrário, devido ao propósito com que tal oficialização foi feita. Foi para mover a Contra-Reforma e justificar práticas e doutrinas da Igreja Católica, como a oração pelos mortos, a salvação pelas obras e a crença no purgatório que estes livros foram declarados canônicos, mil e quinhentos anos depois que foram escritos. Mesmo assim, não foram todos os 14 livros (ou 15, conforme a classificação) que foram declarados canônicos, mas apenas 11 ou 12, conforme o arranjo que se faz desses livros (1 e 2 Esdras e a Oração de Manasses não foram incluídos). A rejeição de 2 Esdras, como dizem Geisler e Nix, “é particularmente suspeita, porque contém um versículo muito forte contra a oração pelos mortos (2 Esdras 7.105)”.[13] Antes de 1546, mesmo as versões católicas faziam distinção entre os livros canônicos e os apócrifos. É o caso da Poliglota Complutense, do cardeal Ximenes (1514-1517). 4.2. Outros argumentos contrários à aceitação dos apócrifos: 4.2.1. Seu conteúdo: Alguns contêm ensinamentos claramente contrários aos dos livros canônicos, violando a regra da “harmonia das Escrituras”. Entre estes ensinamentos heréticos estão: a oração pelos mortos (2Macabeus 12.45-46), a salvação pelas obras (Tobias 12.9) e a suposta existência do purgatório (Eclesiástico 3.30). Também algumas das "histórias" desses livros são evidentemente estórias ou lendas, dado o seu caráter fantasioso. É o caso de Bel e o Dragão, do acréscimo ao livro de Ester, da História de Susana, da Oração de Azarias, de Tobias e de Judite. Em algumas dessas estórias há inclusive ensinos que conflitam com a moral bíblica, como na oração em que Judite pede astúcia de lábios e de palavras para matar os inimigos de Deus (9.10,13), além de evidentes erros históricos e cronológicos.[14] 4.2.2. Sua data: A totalidade deles foi escrita no período em que, conforme testemunho unânime dos judeus, já não havia mais profecia em Israel, nem sucessão profética, conforme vimos na aula 4. 4.2.3. Sua avaliação própria: Os próprios apócrifos não reivindicam sua inspiração. Nem o livro de Eclesiástico, que tem sido apresentado às vezes como tendo feito isto (50.27-29) fala em inspiração, mas em “instrução de sabedoria”. 4.2.4. Sua desqualificação: Os apócrifos não preenchem os critérios válidos de canonicidade, como autoria profética, autoridade divina, veracidade, natureza dinâmica e aceitação por todo o povo de Deus, vistos na aula 8. [12] Introdução..., p. 95. [13] Ibid, p. 96. [14] Ver Gesler e Nix, A General Introduction..., p. 174. 4.3. Conclusão: Embora alguns dos apócrifos possam ter algum valor histórico e até devocional (servem como fonte de informação histórica dos judeus durante o período intertestamentário e alguns chegaram a ser usados no culto público e nas pregações), eles não têm as qualidades exigidas para que sejam aceitos como autoritativos e inspirados. Implicações Práticas Ainda, o melhor argumento para sabermos quais livros são inspirados ou não, é o da sua leitura. É através do contato direto e pessoal dos livros que seremos convencidos de sua real qualificação. É a coerência interna do livro, a harmonia com os demais livros da revelação e, principalmente, o testemunho interior do Espírito Santo que haverão de nos convencer sobre quais livros devem ou não pertencer ao cânon. Vale a pena fazer o teste. Leitura obrigatória dessa aula: Apócrifos: Analisando as Evidências,de Norman Geisler. http://www.monergismo.com/textos/bibliologia/apocrifos_analisando_geisler.htm Bibliologia: Revelação, Inspiração e Cânon João Alves dos Santos Aula 11: A Formação do Cânon do Novo Testamento Introdução Nesta aula estudaremos como os livros do NT vieram a ser colecionados para formar o que é chamado de Cânon do NT. O processo foi gradativo e até mais lento do que o do AT; não o da escrita, naturalmente, mas o do reconhecimento unânime. Devido às novas condições, com a Igreja espalhada por diversas partes do mundo, o reconhecimento e o consenso a respeito de quais livros deveriam pertencer ao cânon neotestamentário foi mais demorado. A pergunta crucial é: quando os 27 livros que constituem o Cânon do NT vieram a ser reconhecidos como inspirados (oficiais) e distinguidos de outros textos? Em outras palavras, como foi formado o Cânon? 1. Passos no processo da canonização Primeiramente, é preciso dizer que os mesmo passos no processo de canonização que já foram vistos na lição 9, também se aplicam aqui. 1.1. A consciência profética do autor, quando da sua escrita. Como vimos, os profetas, tanto no Antigo como do Novo Testamento, (e os autores bíblicos foram profetas, no verdadeiro sentido da palavra) tinham consciência de ter recebido revelação do Senhor e de estarem sob a sua influência e direção tanto quando proclamavam como quando escreviam a mensagem dessa revelação. Reivindicavam a mesma autoridade divina tanto para a sua palavra falada quanto para a escrita. Paulo considerava que não só o que falou mas também o que escreveu tinha a autoridade de Deus (1Co 14.37; 1 Ts 5.27; Cl 4.16; 2 Ts 2.15; 3.14). Por esta razão, odenava que seus escritos fossem lidos nas igrejas (1Ts 5.27) e circulassem entre elas (Cl 4.16). De igual modo, Apocalipse foi escrito e enviado às igrejas da Ásia Menor (Ap 1.11). 1.2. O reconhecimento pelas igrejas. As igrejas que recebiam esses livros, passaram a lê-los publicamente, copiá-los, coligi- los e fazê-los circular. Contudo, não havia uma comunidade central que recebesse e colecionasse os livros em um mesmo lugar, como aconteceu com a comunidade de Israel. Coleções foram sendo formadas em diferentes lugares, umas mais completas e outras menos, até que, finalmente, todos os livros puderam ser ajuntados numa mesma lista, aceita por todos, a que se deu o nome de Cânon do NT. Até que isto pudesse ser feito, quatro séculos se passaram. Completada, porém, a lista, não houve mais disputas sobre se outros livros deveriam ser acrescentados ou alguns tirados, pelo menos em nível de concílios eclesiásticos. http://www.bibliaonline.com.br/aa/1co/14 http://www.bibliaonline.com.br/aa/1ts/5 http://www.bibliaonline.com.br/aa/cl/4 http://www.bibliaonline.com.br/aa/2ts/2 http://www.bibliaonline.com.br/aa/2ts/3 http://www.bibliaonline.com.br/aa/1ts/5 http://www.bibliaonline.com.br/aa/cl/4 http://www.bibliaonline.com.br/aa/ap/1 2 1.3. O colecionamento. Quando Pedro menciona “todas as Epístolas” de Paulo (2Pe 3.15-16) e as equipara às demais Escrituras (AT) deixa entender que desde os dias dos apóstolos já havia prática de se colecionar os livros sagrados, tanto que Pedro teve acesso a todas as epístolas de Paulo. Isto significa que, assim como aconteceu com o AT, os livros sagrados, à medida que iam sendo escritos, iam também sendo colecionados e acrescentados às “demais Escrituras”. Não sabemos exatamente quando e como foram feitas as primeiras coleções de livros do NT. O que sabemos é que, em meados do 2º século, os quatro evangelhos canônicos já circulavam juntos e que, até antes disto (começo do 2º século) as epístolas paulinas já circulavam na forma de uma coleção (chamada de corpus paulinum). 2. As listas canônicas e seu desenvolvimento De início, não houve uma preocupação da Igreja em determinar quais eram os livros inspirados ou não. Eles eram reconhecidos principalmente pela sua origem. As Escrituras do AT, mais os livros dos apóstolos e de pessoas diretamente ligadas a eles (Marcos e Lucas, por exemplo) eram aceitos sem qualquer suspeita. O problema surgiu quando começaram a aparecer outros livros que pretendiam ser aceitos como autoritativos também, alguns até trazendo o nome de apóstolos como seus supostos autores (pseudonímia). Isto já no segundo século. Então, foi preciso que a Igreja procurasse determinar quais livros eram ou não inspirados e, por conseguinte, quais deveriam ou não ser aceitos como autoritativos. Era preciso definir quais livros deveriam ser usados para leitura na igreja e quais deveriam ser evitados, quais deveriam ser traduzidos para outras línguas, para a edificação das igrejas que não conheciam o grego. Foi assim que surgiu o cânon, ou a lista dos livros inspirados. Como essa lista foi sendo formada não está claro, mas sabe-se que foi de modo gradual, pelas razões apresentadas anteriormente. Para que os livros fossem lidos em um número maior de igrejas eles passaram a ser copiados e, daí, surgiram as listas das cópias que circulavam entre elas (as igrejas). Figurando nessas listas, às vezes, apareceram livros que mais tarde não foram reconhecidos como apostólicos (autorizados). Da mesma forma, livros canônicos eram, às vezes, omitidos. F.F. Bruce afirma que “os primeiros passos no sentido da formação de um cânon de livros cristãos havidos como dotados de autoridade, dignos de figurar ao lado do cânon do Velho Testamento, a Bíblia do Senhor Jesus e seus apóstolos, parecem haver sido tomados por volta do começo do segundo século, época em que há evidência da circulação de duas coleções de escritos cristãos na Igreja” [1] Como dissemos acima, nem sempre houve acordo, nos diversos setores da Igreja, sobre quais livros deveriam ou não pertencer a esta lista, pelo menos nos primeiros séculos. Alguns livros, como o de Hebreus, demoraram um certo tempo para ser aceitos por todas as igrejas. Sobre as razões dessa demora, dizem Geisler e Nix: [1] Merece Confiança o Novo Testamento?, Vida Nova, 1965, p. 31. http://www.bibliaonline.com.br/aa/2pe/3 3 Havendo tão grande diversidade geográfica de origens e destinatários, é compreensível que nem todas as igrejas haveriam de possuir, de imediato, cópias de todos os livros inspirados do Novo Testamento. Acrescentem-se os problemas de comunicação e de transporte, e fica mais fácil ver que seria preciso algum tempo até que houvesse um reconhecimento geral de todos os 27 livros do cânon do Novo Testamento. Apesar de tão grandes dificuldades, a igreja primitiva começou de imediato a coligir todos os escritos apostólicos que pudessem (sic) autenticar.2[2] Acredita-se que os evangelhos foram os primeiros a constituírem uma “unidade integrada”, provavelmente no final do 1º século, logo depois da escrita de João. Por volta do ano 170 já era conhecida uma “harmonia dos evangelhos” chamada “Diatessaron”, feita por Taciano, um cristão da Assíria. Com a integração dos quatro evangelhos em um só volume, o livro de Atos, que originalmente era uma continuação do evangelho de Lucas, passou a ser uma obra em separado.Também no final do 1º século ou início do 2º, já as epístolas de Paulo circulavam como uma só coleção (corpus paulinum). Os antilegomenos do Novo Testamentos, que veremos na próxima aula, foram os que levaram algum tempo para receber reconhecimento unânime. Só no 4º século houve unanimidade na Igreja a respeito de quais livros deveriam pertencer à lista canônica. A lista mais antiga é a do herege Marcião (c. 140 d.C.), contendo apenas o evangelho de Lucas e dez das cartas paulinas (omitiu as pastorais). A segunda mais antiga é o Cânon Muratório (170 d.C.). Esta era mais fidedigna, mas mesmo assim omitiu os livros de Hebreus, Tiago, 1 e 2Pedro e 3João e aceitou outro não canônico, o Pastor de Hermas, embora com finalidade de leitura particular e não pública, por não ser considerado proféticonem apostólico.3[3] Eusébio de Cesaréia, (c. 260-340 d.C.) apresentou em sua História Eclesiástica (3,25) uma classificação tripartite, listando: os livros reconhecidos (homologoumena), os questionados (antilegomena) e os não reconhecidos (introduzidos pelos hereges em nome dos apóstolos), mostrando a situação do cânon no Ocidente no início do 4º século. A primeira lista que inclui todos e apenas os 27 livros do nosso NT é a da carta de Páscoa escrita por Atanásio em 367 d.C. à igreja alexandrina. É a prova de que a Igreja do Oriente aceitava esse cânon. Na Igreja do Ocidente, os 27 livros foram finalmente ratificados nos Concílios de Hipo (393 d.C.) e de Cartago (397 d.C.), confirmando por unanimidade o que já era reconhecido pela maioria das igrejas. Jerônimo e Agostinho tiveram grande influência nestes concílios. A publicação de listas estabelecendo o limite do Cânon surgiu de uma necessidade da Igreja, tal como depois os credos e as confissões também se tornaram necessários para a manutenção da ortodoxia. A lista apenas reconhece a canonicidade, não a determina, da mesma forma como os credos ou as confissões apenas declaram a fé, não a produzem. [2] Introdução Bíblica, p. 101. [3] Ver R. Larid Harris, Inspiration and Canonicity of the Scriptures, A Press, 1995, p. 230. 4 Não devemos confundir “encerramento de listas” com “encerramento do cânon”. O Canon encerrou-se com o último dos apóstolos. O debate sobre quais livros deveriam figurar na lista do Cânon é que continuou até o 4º século. Nem mesmo esse debate significa que os livros canônicos debatidos não fossem usados pela Igreja, de modo geral, como documentos autoritativos. O questionamento se localizava em segmentos eclesiásticos específicos, quer no Oriente (livro de Apocalipse), quer no Ocidente (livro de Hebreus), sem comprometer a sua aceitabilidade na Igreja, como um todo. 3. A autoridade e testemunho apostólicos como decisivos na formação do cânon do NT Enquanto os apóstolos viveram, foram o próprio “cânon vivo”, por serem testemunhas oculares do ministério e da ressurreição de Jesus. A Igreja podia recorrer a eles para estabelecer a verdade sobre o ensino de Cristo. Lendas e crendices que já circulavam a respeito de Cristo e dos apóstolos podiam ser desmascaradas pelo testemunho apostólico (João 21.23,24; 1Jo 4.1-3). Com a proliferação da literatura cristã, que passou a circular entre as igrejas já no período apostólico, a Igreja sentiu a necessidade de uma lista autenticada. Quais livros eram reconhecidos? O testemunho e a autoridade dos apóstolos foram fundamentais nesse reconhecimento. Eles advertiam contra os falsos documentos (epístolas) que já circulavam como sendo apostólicos (pseudonímicos), e procuravam meios de autenticar seus escritos, como, por exemplo, através de uma assinatura conhecida (1Ts 2.20; 3.17). Desta forma, os escritos dos apóstolos, que circulavam entre as igrejas, e de pessoas ligadas a eles e sob sua supervisão (como Marcos, Lucas, Atos, Tiago, Judas e Hebreus), passaram a constituir o cânon do NT. A autoridade que os apóstolos receberam para completar a revelação de Jesus Cristo está evidenciada nos textos de João 14.26; 16.13 e Atos 1.1-3,8. Tão conscientes estavam dessa autoridade que Paulo podia dizer: “Disto também falamos, não em palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas ensinadas pelo Espírito, conferindo coisas espirituais com espirituais.” (1Co 2.13) e “Porque de vós repercutiu a palavra do Senhor não só na Macedônia e Acaia, mas também por toda parte se divulgou a vossa fé para com Deus” e ainda “Outra razão ainda temos nós para, incessantemente, dar graças a Deus: é que, tendo vós recebido a palavra que de nós ouvistes, que é de Deus, acolhestes não como palavra de homens, e sim como, em verdade é, a palavra de Deus, a qual, com efeito, está operando eficazmente em vós, os que credes” (1Ts 1.8,13). Outros textos onde essa autoridade é reivindicada por Paulo, Pedro e João são 1Co 14.37; Cl 4.16; 2Pe 1.16; 1Jo 1.3; e Ap 1.3). Foram os apóstolos que transmitiram à segunda geração a confiabilidade de seu testemunho (Hb 2.3,4). Implicações Práticas Ter um cânon do NT reconhecido pela igreja através de critérios rigorosos, e submetido a esses critérios por quase quatro séculos, é uma grande segurança para nós. Depois que houve unanimidade entre as igrejas dos mais diferentes e distantes lugares do mundo (Oriente e Ocidente), nunca mais a questão foi oficialmente levantada. Podemos estar certos de que o que temos hoje é o que a Igreja, desde os dias apostólicos, creu ser a revelação de Jesus Cristo nas Escrituras do Novo Testamento. http://www.bibliaonline.com.br/aa/jo/21 http://www.bibliaonline.com.br/aa/1jo/4 http://www.bibliaonline.com.br/aa/1ts/2 http://www.bibliaonline.com.br/aa/1ts/3 http://www.bibliaonline.com.br/aa/jo/14 http://www.bibliaonline.com.br/aa/jo/16 http://www.bibliaonline.com.br/aa/atos/1 http://www.bibliaonline.com.br/aa/1co/2 http://www.bibliaonline.com.br/aa/1ts/1 http://www.bibliaonline.com.br/aa/1ts/1 http://www.bibliaonline.com.br/aa/1ts/1 http://www.bibliaonline.com.br/aa/1co/14 http://www.bibliaonline.com.br/aa/cl/4 http://www.bibliaonline.com.br/aa/2pe/1 http://www.bibliaonline.com.br/aa/1jo/1 http://www.bibliaonline.com.br/aa/ap/1 http://www.bibliaonline.com.br/aa/hb/2 Leitura Obrigatória dessa aula: O Cânon do Novo Testamento https://bibliotecabiblica.blogspot.com/2009/08/o-canon-do-novo-testamento.html Bibliologia: Revelação, Inspiração e Cânon João Alves dos Santos Aula 12: A Extensão do Cânon do Novo Testamento Introdução Finalizando o nosso curso, veremos agora quais os livros que foram aceitos no cânon do NT sem qualquer questionamento, quais foram questionados e por que, e quais foram deixados fora dele. Em outras palavras, qual a extensão (ou conteúdo) do cânon do NT. Seguindo a divisão apresentada por Geisler e Nix e a terminologia grega já consagrada nos estudos do cânon, apresentaremos os livros aceitos por todos (homolegoumena), os rejeitados por todos (pseudepigrafa), os livros questionados por alguns (antilegomena) e os livros aceitos por alguns (apocrifa). 1. Os livros aceitos por todos (Homologoumena) - sobre os quais havia consenso Da mesma forma como aconteceu com o AT, a maioria dos livros do NT foi aceita como canônica sem objeções, desde o princípio. Os homologoumena figuram em praticamente todas as listas e versões da igreja primitiva, assim como foram largamente citados como Escrituras pelos pais. São 20 dos 27. Todos, menos Hebreus, Tiago, 2Pedro, 2 e 3João, Judas e Apocalipse. Filemom, 1Pedro e 1João foram omitidos em algumas listas, mas não propriamente questionados. É necessário fazer uma distinção entre livros omitidos em algumas listas, ou não citados, e livros questionados quanto à sua autoridade. Aqueles três últimos classificam-se na primeira categoria. De qualquer forma, é interessante notar que eles, juntamente com os antilegomena, são os últimos na ordem que hoje temos do cânon do NT. 2. Os escritos falsos (Pseudepigrafa) - rejeitados por todos Os livros chamados pseudepígragos surgiram depois da era apostólica, durante os séculos II, III e IV (ou até depois), e nunca foram incluídos em qualquer lista nem aceitos por qualquer concílio ou pai eclesiástico. Seu conteúdo é espúrio e herético (contêm heresias gnósticas, docéticas, ascéticas, etc.). No máximo, têm algum valor ou interesse histórico (mais curiosidade do que história). Sobre eles Eusébio (263-340) disse: “Mas ocorre que a própria índole do fraseado difere enormemente do estilo dos apóstolos, o pensamento e a intenção do que neles está contido destoa ainda mais da verdadeira ortodoxia: claramente demonstram ser invenções de hereges. Por isso não devem ser incluídos nem mesmo entre os espúrios, mas devemos rechaçá-los como inteiramente absurdos e ímpios” (H.E. 3.25). Apresentam-se,à semelhança dos livros bíblicos, como evangelhos, atos, epístolas e apocalipses. Por volta do século XIX já havia cerca de 280 deles relacionados. Geisler e Nix dão a seguinte apresentação dos mais conhecidos: Leandro A de Lima Leandro A de Lima 2 Evangelhos: 1. O Evangelho de Tomé (século I) é uma visão gnóstica dos supostos milagres da infância de Jesus. 2. O Evangelho dos Ebionitas (século II) é uma tentativa gnóstico-cristã de perpetuar as práticas do Antigo Testamento. 3. O Evangelho de Pedro (século II) é uma falsificação docética e gnóstica. 4. O Proto-Evangelho de Tiago (século II) é uma narração que Maria faz do massacre dos meninos pelo rei Herodes. 5. O Evangelho dos Egípcios (século II) é um ensino ascético contra o casamento, contra a carne e contra o vinho. 6. O Evangelho Arábico da Infância (?) registra os milagres que Jesus teria praticado na infância, no Egito, e a visita dos magos de Zoroastro. 7. O Evangelho de Nicodemos (século II ou V) contém os Atos de Pilatos e a Descida de Jesus. 8. O Evangelho do Carpinteiro José (século IV) é o escrito de uma seita monofisista que glorificava a José. 9. A História do Carpinteiro José (século V) é a versão monofisista da vida de José. 10. O Passamento de Maria (século IV) relata a assunção corporal de Maria e mostra os estágios progressivos da adoração de Maria. 11. O Evangelho da Natividade de Maria (século VI) promove a adoração de Maria e forma a base da Lenda de Ouro. Livro popular do século XIII sobre a vida dos santos. 12. O Evangelho de um Pseudo-Mateus (século V) contém uma narrativa sobre a visita que Jesus fez ao Egito e sobre alguns dos milagres do final de sua infância. 13-112. Evangelho dos Doze, de Barnabé, de Bartolomeu, dos Hebreus (v. “Apócrifos”), de Marcião, de André, de Matias, de Pedro, de Filipe. Atos 1. Os Atos de Pedro (século II) contém a lenda segundo a qual Pedro teria sido crucificado de cabeça para baixo. 2. Os Atos de João (século II) mostram a influência dos ensinos gnósticos e docéticos. 3. Os Atos de André (?) são uma história gnóstica da prisão e da morte de André. 4. Os Atos de Tomé (?) apresentam a missão e o martírio de Tomé na Índia. 5. Os Atos de Paulo apresentam um Paulo de pequena estatura, de nariz grande, de pernas arqueadas e calvo. 6-8. Atos de Matias, de Filipe, de Tadeu. Epístolas 1. A Carta Atribuída a Nosso Senhor é um suposto registro da resposta dada por Jesus ao pedido de cura de alguém, apresentado pelo rei da Mesopotâmia. Diz o texto que o Senhor enviaria alguém depois de sua ressurreição. 2. A Carta Perdida aos Coríntios (séculos II, III) é falsificação baseada em 1Coríntios 5:9, que se encontrou numa Bíblia armênia do século V. 3. As (Seis) Cartas de Paulo a Sêneca (século IV) é falsificação que recomenda o cristianismo para os discípulos de Sêneca. 4. A Carta de Paulo aos Laodicenses é falsificação baseada em Colossenses 4:16. (Também relacionamos essa carta sob o título “Apócrifos”, p. 120-1). Apocalipses 1. Apocalipse de Pedro (também relacionado em “Apócrifos”). 2. Apocalipse de Paulo. http://www.bibliaonline.com.br/aa/1co/5 http://www.bibliaonline.com.br/aa/1co/5 http://www.bibliaonline.com.br/aa/cl/4 3 3. Apocalipse de Tomé. 4. Apocalipse de Estêvão. 5. Segundo Apocalipse de Tiago 6. Apocalipse de Messos. 7. Apocalipse de Dositeu. Os três últimos são obras coptas do século III, de cunho gnóstico, descobertas em 1946, em Nag-Hammadi, no Egito. Outras Obras 1. Livro Secreto de João 2. Tradições de Matias 3. Diálogo do Salvador. Estes três também são de Nag-Hammadi, e permaneceram desconhecidos até 1946”[1]. Geisler e Nix completam esta apresentação com o seguinte comentário: “Visto que os grandes mestres e concílios da igreja foram praticamente unânimes na rejeição desses livros, em razão da total falta de confiabilidade ou em virtude das heresias, são adequadamente chamados pseudepígrafos. Seja qual for o fragmento de verdade que porventura preservem, torna-se obscurecido tanto pela fantasia religiosa como pelas tendências heréticas. Tais livros não só deixam de ser canônicos como nenhum valor apresentam no que concerne aos fins devocionais. O principal valor que têm é histórico, pois revelam as crenças de seus autores”.[2] 3. Os livros disputados ou questionados por alguns (Antilegomena) São sete os que só receberam aprovação unânime por volta do século IV: Hebreus, Tiago, 2Pedro, 2 e 3João, Judas e Apocalipse. Foram questionados por razões diferentes, mas isto não significa que até que fossem aceitos não eram tidos como canônicos pela maioria das igrejas. Nem que sejam menos confiáveis agora. A razão porque eles demoraram a obter aceitação unânime em todas as igrejas foi principalmente a falta de comunicação entre as igrejas do Oriente e do Ocidente, como vimos na lição anterior, mas houve também motivos peculiares a cada caso, que passamos a considerar: Os motivos por que foram questionados: a. Hebreus - Questão de autoria, principalmente. Hebreus é anônimo e, por isso, ficou difícil relacioná-lo com qualquer dos apóstolos. Também o fato de ter sido usado pelo montanistas (que acreditavam em novas revelações depois de Cristo e dos apóstolos), como apoio a algumas de suas crenças, tornou o livro suspeito por parte de alguns círculos ortodoxos. Era aceito no Oriente, que o julgava de Paulo, mas não no Ocidente. Só no século IV, com a influência de Jerônimo e Agostinho, o livro foi aceito no [1] Introdução Bíblica, pp. 112-114. [2] Ibid. 4 Ocidente, independentemente de ser ou não paulino.[3] Não houve objeção séria quanto ao seu conteúdo, nem quanto à reivindicação de autoridade divina (cf. 1:1; 2:3,4; 13:22), exceto a já mencionada, que não chegou a ser uma objeção séria. b. Tiago - Questões de autoria e de conteúdo. Desde os dias de Eusébio a carta de Tiago já era colocada entre os livros discutidos, embora Eusébio a considerasse como uma das cartas aceitas para leitura pública, assim como as demais católicas (H.E. 3.23.25). O autor (Tiago) não afirma ser apóstolo. Os que o associaram ao irmão do Senhor (At 15 e Gl 1), como a Igreja do Oriente, não tiveram problema com a questão da apostolicidade, pois o viram vinculado aos apóstolos. Já a Igreja do Ocidente não fez essa associação. Outro problema era o aparente conflito doutrinário entre Paulo e Tiago sobre a justificação. Com a influência de Orígenes e Eusébio (Igreja Oriental) e Jerônimo e Agostinho (Igreja Ocidental) tanto a apostolicidade como a veracidade da carta foram reconhecidas. c. Segunda Carta de Pedro - A mais disputada, por questão de estilo diferente de 1Pedro. Questões de estilo, porém, nunca foram definitivas para decidir autoria, dado o uso de escriba ou amanuense. Pedro poderia ter usado um secretário para escrever uma das cartas. O grego da segunda é superior, com o maior número de hapax legomena (termos que só ocorrem uma única vez) entre todos os livros do NT. Das 57 hapax, 32 não ocorrem nem na LXX. A erudição acadêmica, todavia, tem demonstrado que há evidências para a genuinidade da carta. B.B. Warfield observa que há mais evidência para 2Pedro do que para Heródoto e Tucídides .[4] Orígenes, Eusébio, Jerônimo e Agostinho, que aceitavam a carta, tiveram grande influência no seu reconhecimento universal. d. Segunda e Terceira Cartas de João - Questionadas por anonímia (autor anônimo) e por circulação limitada. O fato do autor se identificar apenas como “presbítero” e não como apóstolo, assim como sua circulação mais restrita, impediram a sua aceitação imediata e geral. Todavia, a despeito disto, elas obtiveram aceitação mais generalizado do que 2Pedro, sendo incluídas no Cânon Muratório e tendo reconhecimento dos pais, particularmente de Policarpo e Irineu. A semelhança de estilo e linguagem com 1João(de aceitação geral) abriu o caminho para a aceitação destas também. O fato de outros apóstolos também usarem o título de “presbítero”, como o fez Pedro (1Pe 5:1), para denotarem o cargo que ocupavam (At 20:17,28), formando um paralelo com João, também contribuiu que elas fossem atribuídas ao apóstolo João. e. Judas - Questionada por alguns quanto à sua confiabilidade, por possivelmente citar ou fazer referência ao livros pseudepígrafos de Enoque (Jd 14,15 cf. Enoque 1:9) e [3] Geisler e Nix afirmam que “com o passar do tempo, a igreja ocidental veio a aceitar que Hebreus era oriundo da pena de Paulo, o que evidentemente resolveu a questão” (Introdução, p. 115). Carson, por outro lado, declara: “É assim que Jerônimo insiste em que não importa quem escreveu Hebreus, pois de qualquer maneira esse livro é a obra de um "escritor da igreja" (ecclesiastici viri, expressão com que Jerônimo provavelmente quis designar alguém que escreve de conformidade com a verdade ensinada nas igrejas, uma variação do primeiro critério) e é de qualquer forma lido constantemente nas igrejas (Epist. 129). Se as igrejas latinas foram lentas em aceitar Hebreus e as igrejas gregas foram lentas em aceitar Apocalipse, Jerônimo aceita ambos, em parte porque muitos escritores antigos haviam aceitado os dois como canônicos” (Introdução ao NovoTestamento, pp. 550-551) [4] in Syllabus on the Special Introduction to the Catholic Epistles, pp.116-17, citado por Geisler e Nix, A General Introduction, pp. 197-198. http://www.bibliaonline.com.br/aa/hb/1 http://www.bibliaonline.com.br/aa/hb/2 http://www.bibliaonline.com.br/aa/hb/13 http://www.bibliaonline.com.br/aa/atos/15 http://www.bibliaonline.com.br/aa/gl/1 http://www.bibliaonline.com.br/aa/1pe/5 http://www.bibliaonline.com.br/aa/atos/20 http://www.bibliaonline.com.br/aa/jd/1 5 Assunção de Moisés (Jd 9). Esta a razão acenada por Orígenes e Jerônimo.[5] A objeção foi retirada com a aceitação de pais influentes como Irineu, Clemente de Alexandria e Tertuliano (que aceitava a epístola inclusive por referir-se a Enoque[6] e o entendimento de que o uso de fontes extrabíblicas não autorizava como canônicas ou mesmo como verazes em todo o seu conteúdo essas fontes (caso de Paulo citando poetas pagãos em At 17:28 - Cleantes ou Aratus; 1 Co 15:33 - Menander. e Tt 1:12 - Epimênides), como já vimos anteriormente. f. Apocalipse - Também questionado no início do século IV quanto à sua confiabilidade. A doutrina do milênio do cap. 20 foi o ponto central da controvérsia. O uso que os montanistas fizeram do mesmo no século III também levantou suspeitas. Foi, não obstante, um dos primeiros livros a ser aceito pelos pais antigos e um dos últimos a ser questionado. O fato de ter sido enviado diretamente às sete igrejas da Ásia facilitou seu imediato reconhecimento. Mas o mau uso do livro também despertou suspeitas, como no caso de Hebreus. Com a influência de Atanásio, Jerônimo e Agostinho, as dúvidas foram dissipadas. A oposição ocorreu, como dizem Geisler e Nix, “por causa da falta de comunicação, ou por causa de más interpretações que se fizeram desses livros. A partir do momento em que a verdade passou a ser do conhecimento de todos, tais livros foram aceitos plena e definitivamente, passando para o Cânon Sagrado, da forma exata como haviam sido reconhecidos pelos cristãos primitivos desde o início”.[7] 4. Os livros aceitos por alguns (Apocrifa) Enquanto os pseudepígrafos nunca foram aceitos por qualquer dos pais, alguns livros, comumente chamados de apócrifos do NT (não confundir com os apócrifos do AT, que fazem parte da Bíblia católica), foram aceitos por pelo menos um dos pais. Nunca chegaram, porém, a ter reconhecimento amplo ou permanente. São mais importantes do que os pseudepígrafos pelo seu valor histórico - revelam informações sobre a Igreja do século II (história, doutrina e liturgia) - e são um testemunho em favor da aceitação do Cânon de 27 livros. Dentre os mais conhecidos estão: a. A Epístola de Barnabé, (c. 70-79 d.C.) que figura no códice Sinaítico (um dos mais antigos unciais [manuscritos de escrita maiúscula] do século IV) e foi mencionada como "escritura" por Clemente de Alexandria e Orígenes. O autor da carta não reivindica autoridade divina e certamente não é o Barnabé, companheiro de Paulo, do NT (At 14:14). b. A Epístola aos Coríntios, de Clemente de Roma (c. 96 d.C.). Encontra-se no códice Alexandrino, do século V e foi, segundo Eusébio, lida em várias igrejas (H.E., 3,16). [5] Cf. Commentary on Matthew, 18:30 e Lives of Illustrious Men, cap. 4, de Jerônimo, citadas por Geisler e Nix, A General Introduction, p. 198. [6] On the Apparel of Women, I:3, Ante-Nicene Fathers, IV, 16-17, citado por Geisler e Nix, ibid. [7] Introdução, p. 118. http://www.bibliaonline.com.br/aa/jd/1 http://www.bibliaonline.com.br/aa/atos/17 http://www.bibliaonline.com.br/aa/1co/15 http://www.bibliaonline.com.br/aa/tt/1 http://www.bibliaonline.com.br/aa/atos/14 http://www.bibliaonline.com.br/aa/atos/14 6 Não reivindica inspiração divina. Cita o Livro de Sabedoria (apócrifo do AT) como "escritura". Nunca foi amplamente aceita nem reconhecida como canônica. c. A Segunda Epístola de Clemente, ou Homilia Antiga (c. 120-140 d.C.). Já foi erroneamente atribuída a Clemente de Roma. Conhecida e usada no século II. Constava no códice Alexandrino ao lado de 1Clemente (Epístola aos Coríntios). Também nunca foi aceita como canônica, pelo menos em grande escala. d. O Pastor, de Hermas (c. 15-140 d.C.). O mais popular dos não canônicos na igreja primitiva. Figura no códice Sinaítico, em algumas Bíblias latinas, e foi tido como inspirado por Irineu e Orígenes. Era lido publicamente nas igrejas e usado para instrução religiosa, segundo Eusébio. É uma alegoria cristã, tal como O Peregrino, de Bunyan. Tem valor ético e devocional, mas nunca foi tido como canônico pela igreja em geral. e. O (A) Didaquê, ou O Ensino dos Doze Apóstolos (c. 100-120 d.C.). Naturalmente não foi escrito pelos apóstolos, mas foi muito popular na igreja primitiva. Foi mencionado como escritura por Clemente de Alexandria. Era usado na instrução e catequese de cristãos. Tem valor histórico e catequético, mas nunca recebeu reconhecimento da igreja como canônico. f. A Epístola de Policarpo aos Filipenses (c. 108). É importante porque Policarpo foi discípulo de João e mestre de Irineu. Estabelece uma ligação com os apóstolos. Não reivindica inspiração divina. Seus ensinos não são originais. São baseados nos ensinos dos apóstolos. Nunca foi reconhecida como canônica. g. Outros “apócrifos”: Outros apócrifos menos conhecidos são: Apocalipse de Pedro (c. 150 d.C), Atos de Paulo e de Tecla (170 d.C.), Carta aos Laodicenses ( século IV?), Evangelho segundo os Hebreus (65-100 d.C.) e Sete Epístolas de Inácio (c. 110 d.C.) Esses e outros livros apócrifos, que chegaram a ter algum reconhecimento na Igreja dos primeiros séculos, finalmente e de modo natural vieram a ser postos no seu devido lugar, sem maiores dificuldades. Seu valor homilético e devocional foi reconhecido, mas somente os 27 livros que hoje temos foram tidos e aceitos como genuínos e dignos de figurar no Cânon do Novo Testamento. Implicações Práticas A autoridade dos livros do NT repousa sobre a autoridade de Jesus, atribuída aos apóstolos. Foi importante e necessário para a Igreja estabelecer quais livros deveriam servir como sua regra de fé e conduta, no mesmo nível das Escrituras do AT, com base no reconhecimento de sua autoridade (dos livros). Só assim ela teria unidade e uniformidade na sua doutrina e pregação. Um cânon definido e fechado é garantia de imutabilidade na crença e na pregação. Deus não nos deixou ao sabor dos vários “ventos de doutrina”. Deu-nos uma revelação completa e suficiente, à qual devemos nos apegar com confiança e firmeza,porque ela não muda. Suas matrizes estão guardadas no céu: “Para sempre, ó SENHOR, está firmada a tua palavra no céu” (Salmo 119:89).