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CAPÍTULO 13 
Biofísica aplicada à termoterapia 
Introdução 
A modificação da temperatura 
dos tecidos biológicos pode ser usa-
da como um processo terapêutico. 
A termoterapia trata desse as-
sunto. A prática de tratar pelo 
calor remonta ao tempo de Hipócra-
tes, que já falava dos 
efeitos benéficos do 
calor radiante. Os médi 
cOs, desde os tempos 
mais remotos, aproveitavam-se 
do calor di_-
sipado por fontes quentes, 
tais como carvão e 
ferro em brasa, para 
aliviar sintomas 
dolorosos dos músculose das articulações. 
As fontes de calor 
O calor pode ser gerado por 
várias fontes, a saber: 
química: combustão e reações exotérmicas; 
mecânica: atrito e interações moleculares que 
transformam 
parte da energia de 
movimento dos corpos em energia tér-
mica; 
elétrica: as correntes elétricas, que atravessam 
um condutor, 
produzem uma quantidade de calor que 
é proporcional à re-
sistência do condutor, ao quadrado da intensidade da 
cor-
rente e ao tempo (Lei de Joule); 
magnética: os materiais ferro-magnéticos tornam-se imanta-
dos quando são submetidos a um campo eletromagnético 
constante. A desmagnetizaç�o ou a inversão da polaridade 
magnética desses corpos pode ser feita, invertendo-se 
a orien-
tação do campo indutor. No entanto, a resposta magnética 
desses materiais não é instantânea, mas apresenta um retar 
do conhecido como histerese. A histerese é um fenômeno 
de 
natureza resistiva e, por conta disso, parte da energia do cam 
po eletromagnético é transformada em calor. 
Tipos de fontes caloríficas. A biofísica relacionada aos processos 
de tratamento pelo calor envolve o estudo das fontes de calore dos 
efeitos que ele produz sobre o organismo vivo. 
212 
213 Biofísica aplicada à termoterapia 
As fontes caloríficas podem ser classificadas em: 
TOntes radiantes: são corpos quentes, muitas vezes incandes 
Centes, que emitenm radiações caloríficas ricas em raios intra vermelhos; 
rontes condutoras: transferem para o corpo ou absorvem ca 
1or do corpo. Em ambos os casos a transmissão de energia 
termica se faz por contato (bolsas de água, angus, sinapis 
mos, aplicações localizadas de gelo, criocauterizaçao, etc.) fontes conversivas: emitem ondas mecânicas (ultra-som) ou 
eletromagnéticas (diatermia). Essas ondas, nos tecidos biolo-
gicos, transformam-se em calor; 
fontes convectivas: transfere calor por convecção. Esse feno-
meno ocorre nos fluidos e se caracteriza pelo movimento de 
Correntes de massas frias e quentes que se deslocam em vir-
tude de variações da densidade do volume de fluido aqueci-
do (aquecedores de quartos, sauna seca, etc.). 
Reações fisiológicas ao calor 
Ação tissular do calor. O organismo reage localmente ao calor au-
mentando a liberação de acetilcolina. Esta, por sua vez, dilata os 
vasos sangüíneos e facilita o fluxo de sangue. O fluxo sangüineo 
aumentado representa uma reação orgânica termolítica e, localmen-
te, favorece a eliminação de subprodutos indesejáveis do metabo-
lismo (catabólitos) que são, muitas vezes, responsáveis por dores e 
desconfortos musculares. Além dessas ações, a vasodilatação tam-
bém favorece a migração dos macrófagos, contribuindo, assim, para 
o combate contra os processos infecciosos. 
Ação sistêmica do calor. A aplicação de calor em grandes áreas do 
corpo humano e os processos que dificultam a termólise promo-
vem a elevação da temperatura corporal interna. Isso acontece, por 
exemplo, nas saunase, principalmente, naquelas a vapor, onde, além 
da temperatura ambiental elevada, a presença de vapor de água 
saturado impede a termólise pela evaporação do suor. A alta tem-
peratura do ambiente e a redução da taxa de evaporação do 
suor são fatores termogênicos que contribuem para elevar a tempe-
ratura corporal, aumentando, assim, o fluxo de sangue circulante. 
Nos organismos aquecidos, o metabolismo celular e o consumo de 
oxigênio pelos tecidos estão aumentados. Também ocorre unm au-
mento nas trocas hidroeletrolíticas levando à perda de sais através 
do suor. Esses efeitos podem ser benéficos para as pessoas normais, 
pois favorecem a eliminação de produtos indesejáveis do metabo-
lismo. Entretanto, nos pacientes que apresentam doenças pulmo-
nares ou cardiocirculatórias, a espoliação hidroeletrolítica pode 
agravar o quadro clínico. 
Termoterapia. Houve época em que a Medicina se valeu do calor 
para tratar um grande número de doenças. D'Arsonval, por exem-
plo, construiu um aparelho para aquecer 
o interior do corpo, trans-
ferindo calor através do fenõmeno da indução eletromagnética. Para 
conseguir isso, o paciente era 
colocado no interior de um solenóide 
que recebia corrente 
alternada de alta freqüência. O corpo huma-
no, funcionando como 
núcle0 da bobina, apresentava um aumento 
da temperatura interna, 
e o calor assim gerado se propagava do 
interior do corpo para a superfície 
da pele. 
DIOtermologia 
A termoterapia já foi usada para o tratamento das doencas men-
tais, pois a observação mostrou que alguns pacientes aprese 
vam melhora do quadro clínico após um período de febre D 
produzir a hipertermia terapêutica, eram 
usadas injeções de si 
tâncias pirogênicas (leite, por exemplo) ou produzidos abscece essos 
pela injeção de enxofre. A termoterapia foi também muito usada para 
combater infeccões bacterianas, principalmente nas gonococcias 
na sífilis. Esses métodos foram, no entanto, abandonados com 
advento de medicamentos específicos. 
e 
n 
Uso do calor 
Algumas doenças são beneficiadas pela ação do calor ou do frio. o 
aquecimento do corpo, além de exercer os seus efeitos modulado. 
res sobre a circulação sangüínea, também promove uma ação cal-
mante sobre o sistema nervoso central. A termoterapia está indica 
da nas doenças inflamatórias das articulações (artrites e sinovites 
e dos tendões (tendinites), nos estiramentos e nas contusões mus 
culares, nos processos inflamatórios da pele e do tecido celular sub-
cutâneo, entre outros. Todavia, nas moléstias vasculares periféricas 
que se caracterizam por unma diminuição do tluxo sangüíneo arte-
rial, nas neoplasias malignas, nas moléstias hemorrágicas ou onde 
h tendência à hemorragia, na gravidez e também em pacientes 
anestesiados, o aquecimento corporal está contra-indicado. 
Nas obstruções arteriais periféricas a aplicação de calor está con-
tra-indicada, porque o aumento do metabolismo aumenta o consu-
mo de oxigênio e propicia a morte celular. O aumento da irrigação sangüínea na regi�o onde existe um processo tumoral maligno pode favorecer à disseminação de células neoplásicas e nos processos hemorrágicos fisiológicos (menstruação) ou patológicos (diástases) não se deve aquecer a área hemorrágica para não aumentar o san-
8ramento. 
Na gravidez deve-se evitar a aplicação de calor na região pélvica, bem como o uso de processos que aumentem a temperatura do corpo. As células fetais por estarem num processo de mitose acele rada são mais sensíveis ao calor do que as células normais. Sob-anestesia, o aquecimento dos tecidos é perigoso pois, não havendo sensibilidade, podem ocorrer queimaduras. 
Efeitos maléficos do calor 
O calor excessivo aplicado sobre o corpo provoca: 
Queimaduras -as queimaduras se caracterizam pela destru-ção celular que pode alcançar os tecidos superficiais (Pe subcutâneo) ou incluir os planos mais profundos (muscul osso). Os grandes queimados são doentes extremamente g ves e a mortalidade entre eles se eleva com o aumento superficie corporal queimada. A perda da pele permite u grande perda de líquido, cuja composição é semelhante a plasma sangüíneo. Assim, além da perda hídrica, há uma-poliação de sais e de proteina 
215 Biofisica aplicada à termoterapia 
Intermação e insolação - esses quadros ocorrem quando o 
corpo é aquedido por exposição indireta (intermação) ou di 
reta (insolação) aos raios solares. A intermação pode ocorrer 
ainda em ambientes quentes (saunas, por exemplo). A perda 
de água e de sais pode levar à morte celular. Os subprodutos 
das célulasmortas podem sensibilizar o hipotálamoe, assim, 
promovero descontrole da termogênese e da termólise corpo-
rais. Também podem ocasionar o aparecimento de náuseas, 
vômitos, edemas, convulsões e alteração da pressão arterial. 
Caibras musculares, tetania, náusease vômitos - esses qua-
dros resultam de uma acentuada perda de líquidos e de sais. 
Anoxia e tromboses - a anoxia é a redução do teor de oxige 
nio nos teidos afetados. A trombose é a formação de coágu-
los intravasculares. O calor intenso aumenta a viscosidade 
do sangue em virtude da perda de água pelo suor. Essa visco-
sidade aumentada dificulta a circulação do sangue e, conse-
qüentemente, favorece a formação de trombos. 
Aplicação de calor no corpo inteiro 
A aplicação do calor no corpo inteiro é feita pelos banhos quentes 
imersão em água, saunas, lamas, areia). Os processos mais usados 
para a aplicação local de calor são as compressas quentes, os raios 
infravermelhos, a imersão em água quente, a exposição ao ar quen-
te, ultra-sons, termocautérios, diatermia e ondas curtas. 
No passado foi dada uma importância maior do que a que existe 
para as ações terapêuticas do calor. A falta de recursos eficientes 
para o tratamento levou os médicos a visualizarem no calor efeitos 
quase mágicos. Todavia, não se pode menosprezara sua ação tera-
pêutica nas patologias para as quais ele está indicado. 
O calor aplicado no corpo inteiro com finalidade terapêutica justifi-
ca-se sob a óptica do relaxamento muscular, do seu efeito sedativo 
sobre o sistema nervoso central e da sua capacidade em aumentar 
o metabolismo e o fluxo sangüíneo superficial, permitindo o trans-
porte e a eliminação de catabólitos. O efeito bactericida do calor 
resulta da hipertermia que ele promove no corpo. Sabe-se que 99% 
das cepas de gonococos são destruídas após 5 horas em temperatu-
ra de aproximadamente 40°C. Na prática, os resultados da hiper-
termia sobre os gonococos foram bons. 
Os banhos quentes promovem hipertermia, pois transferem calor 
para o corpo por condução e convecção e impedem a termólise por 
evaporação do suor. Isso também acontece nas saunas a vapor. Além 
de aquecer, o banho com lama quente sulfurosa é benéfico, pois as 
propriedades medicinais do enxofre para muitas afecções da pele 
já estão amplamente comprovadas. O banho de areia nada tem de 
especial, a não ser a manutenção de uma temperatura relativamen-
te constante. 
Aplicação de calor localizada 
Para promover o aquecimento localizado usa-se, com freqüência, 
as compressas quentes, a parafina derretidae as radiações infra-
vermelhas. As compressas quentes, geralmente feitas com angus, 
216 Parte IlI- Biotermologia 
aproveitam a grande capacidade 
térmica da água e do amido para 
transferir calor parao corpo. 
O angu quente 
é envolvido em pano e 
então é aplicado sobre a região 
a ser 
tratada. Esse processo pode 
ser feito em imersão em água quente 
ou como 
auxilio do forno de 
Bier. Este equipamento é 
constituído por uma 
redoma de madeira 
com forma de um hemicilindro, que 
possui no interior lâmpadas 
incandescentes. O calor desprendido pelas 
lâmpadas fica retido no 
interior do cilindro onde é 
colocada a região do corpo a 
ser aquecida. 
Bibliografia 
Burns, D.M. & MacDonald, S.G.G. (1970). Physics for 
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Publishing Company, London 
Cabral, N. (1959). Physica Médica, Livraria Guanabara 
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Hecox, B., Mehreteab, T.A. &Weisberg, 
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