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Indaial – 2020 Arte nA educAção Profª. Cristiane Kreisch de Andrade Profª. Elisiane Souza Saiber Lopes Prof. Leomar Peruzzo 1a Edição Copyright © UNIASSELVI 2020 Elaboração: Profª. Cristiane Kreisch de Andrade Profª. Elisiane Souza Saiber Lopes Prof. Leomar Peruzzo Revisão, Diagramação e Produção: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. Impresso por: A553a Andrade, Cristiane Kreisch de Arte na educação. / Cristiane Kreisch de Andrade; Elisiane Souza Saiber Lopes; Leomar Peruzzo. – Indaial: UNIASSELVI, 2020. 242 p.; il. ISBN 978-65-5663-153-0 ISBN Digital 978-65-5663-154-7 1. Arte na educação. - Brasil. I. Andrade, Cristiane Kreisch de. II. Lopes, Elisiane Souza Saiber. III. Peruzzo, Leomar. IV. Centro Universitário Leonardo da Vinci. CDD 707 ApresentAção Olá, acadêmico! Seja bem-vindo ao Livro Didático de Arte na Educação. Esta é uma disciplina muito importante para a formação da docência, pois ela possui uma dimensão formativa que possibilita que as pessoas possam se transformar, bem como, transformar o que está ao seu redor. Vamos refletir e adentrar no contexto da arte e, conhecer e contextualizar acerca dessa expressão artística na atualidade frente a uma dimensão educacional e social. Na primeira unidade será analisado o conceito de arte e, para isso, vamos refletir sobre o artista, a obra e o espectador. Vamos conhecer também, os diferentes campos que podemos encontrar na arte. Abordaremos a arte como conhecimento e sua relação com o contexto social, com a cultura, com a política, com o meio ambiente e com a tecnologia. Na segunda unidade será possível compreender a arte no contexto educacional. Será analisada a importância do ensino de arte no currículo escolar nacional e a reflexão sobre as práticas pedagógicas dos professores em diferentes contextos. Esta unidade é um convite à reflexão sobre os processos de ensino e aprendizagem de acordo com a Base Nacional Comum Curricular – BNCC, fazendo com que você analise o papel do ensino de arte e do professor no contexto de educação escolar atual. Na terceira unidade vamos estudar alguns dos principais autores sobre arte na educação que buscaram pesquisar as dimensões estéticas, processos de ensino e aprendizagem da arte e o papel da cultura e da arte na educação. Após a apresentação dos pesquisadores e suas teorias, a unidade adentrará ao projeto de pesquisa, sua elaboração e as devidas partes que o compõem. Ao final desta unidade, você, acadêmico, poderá ter recursos teóricos e conceituais para compor uma pesquisa em arte. Bons estudos, esperamos que você possa construir saberes para compor sua caminhada! Walter Marcos Knaesel Birkner Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há novi- dades em nosso material. Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova diagra- mação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo. Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente, apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilida- de de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assun- to em questão. Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa continuar seus estudos com um material de qualidade. Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes – ENADE. Bons estudos! NOTA Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma disciplina e com ela um novo conhecimento. Com o objetivo de enriquecer seu conhecimento, construímos, além do livro que está em suas mãos, uma rica trilha de aprendizagem, por meio dela você terá contato com o vídeo da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complemen- tares, entre outros, todos pensados e construídos na intenção de auxiliar seu crescimento. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. Conte conosco, estaremos juntos nesta caminhada! LEMBRETE sumário UNIDADE 1 — O MODO DE PENSAR A LINGUAGEM DA ARTE .......................................... 1 TÓPICO 1 — A FUNÇÃO DA ARTE .................................................................................................. 3 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 3 2 FUNÇÃO PRAGMÁTICA ................................................................................................................. 6 3 FUNÇÃO NATURALISTA ................................................................................................................. 8 4 FUNÇÃO FORMALISTA ................................................................................................................. 10 RESUMO DO TÓPICO 1..................................................................................................................... 13 AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 14 TÓPICO 2 — PENSADO SOBRE A ARTE ...................................................................................... 15 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 15 2 O QUE É ARTE? ................................................................................................................................. 15 2.1 O ARTISTA .................................................................................................................................... 19 2.2 A OBRA DE ARTE ........................................................................................................................ 26 2.3 O ESPECTADOR ........................................................................................................................... 29 3 CRÍTICA DE ARTE .......................................................................................................................... 34 RESUMO DO TÓPICO 2..................................................................................................................... 41 AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 42 TÓPICO 3 — ARTE E CONHECIMENTO SENSÍVEL E INTELIGÍVEL .................................. 45 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 45 2 ARTE COMO CONHECIMENTO .................................................................................................. 45 3 ARTE E A SOCIEDADE ................................................................................................................... 47 4 ARTE E A CULTURA ........................................................................................................................ 49 5 ARTE E POLÍTICA ............................................................................................................................51 6 ARTE E O MEIO AMBIENTE .......................................................................................................... 54 7 ARTE E TECNOLOGIA .................................................................................................................... 60 LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................ 63 RESUMO DO TÓPICO 3..................................................................................................................... 67 AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 68 REFERÊNCIAS ...................................................................................................................................... 70 UNIDADE 2 — ARTE NA EDUCAÇÃO ESCOLAR ..................................................................... 75 TÓPICO 1 — A IMPORTÂNCIA DE ENSINAR E APRENDER ARTE NO BRASIL ............. 77 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 77 2 O PAPEL DA ARTE NA EDUCAÇÃO ESCOLAR ...................................................................... 78 3 REALIDADE E EXPECTATIVAS FUTURAS DO ENSINO DA ARTE NO BRASIL ........... 81 4 PRÁTICA REFLEXIVA ..................................................................................................................... 85 4.1 REFLEXÃO NA AÇÃO ................................................................................................................ 87 4.2 REFLEXÃO SOBRE A AÇÃO ..................................................................................................... 88 4.3 REFLEXÃO SOBRE A REFLEXÃO NA AÇÃO ....................................................................... 88 5 PROFESSOR EMANCIPADOR E ALUNO EMANCIPADO .................................................... 90 RESUMO DO TÓPICO 1..................................................................................................................... 91 AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 92 TÓPICO 2 — CONHECENDO AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS NA BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) ..................................................................................................... 93 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 93 2 EDUCAÇÃO INTEGRAL ................................................................................................................. 94 2.1 INÍCIO DE CONVERSA PARA COMPREENDER A BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) ................................................................................................................ 94 3 AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS NA BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) .................................................................................................................................................... 98 4 EDUCAÇÃO PELA ARTE NA EDUCAÇÃO INFANTIL ........................................................ 105 4.1.1 O eu, o outro e o nós .......................................................................................................... 108 4.1.2 Corpo, gestos e movimentos ............................................................................................ 109 4.1.3 Traços, sons, cores e formas ............................................................................................. 110 4.1.4 Escuta, fala, pensamento e imaginação ......................................................................... 111 4.1.5 Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações .......................................... 112 4.2 ORGANIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO INFANTIL .................................................................... 113 4.2.1 BEBÊS (zero a 1 ano e 6 meses) ........................................................................................ 117 4.2.2 CRIANÇAS BEM PEQUENAS (1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses) ...................... 118 4.2.3 CRIANÇAS PEQUENAS (4 anos a 5 anos e 11 meses) ................................................ 118 5 EDUCAÇÃO PELA ARTE NO ENSINO FUNDAMENTAL .................................................. 119 6 EDUCAÇÃO PELA ARTE NO ENSINO MÉDIO ..................................................................... 122 RESUMO DO TÓPICO 2................................................................................................................... 127 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 129 TÓPICO 3 — PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM EM ARTE DE ACORDO COM A BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) ........................................................... 131 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 131 2 DIMENSÕES DO PROCESSO DE ENSINO-APRENDIZAGEM EM ARTE NA BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) ........................................................................... 132 2.1 CRIAÇÃO .................................................................................................................................... 132 2.2 CRÍTICA ....................................................................................................................................... 133 2.3 ESTESIA ....................................................................................................................................... 134 2.4 EXPRESSÃO ................................................................................................................................ 135 2.5 FRUIÇÃO ..................................................................................................................................... 136 2.6 REFLEXÃO .................................................................................................................................. 136 3 COMPETÊNCIAS, HABILIDADES E OBJETOS DE CONHECIMENTO EM ARTES VISUAIS NA BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR – BNCC ..................................... 137 4 ARTES INTEGRADAS NA BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR – BNCC ......... 144 LEITURA COMPLEMENTAR .......................................................................................................... 148 RESUMO DO TÓPICO 3................................................................................................................... 151 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 152 REFERÊNCIAS .................................................................................................................................... 154 UNIDADE 3 — PESQUISA EM ARTE NA EDUCAÇÃO........................................................... 157 TÓPICO 1 — TEÓRICOS DA ARTE NA EDUCAÇÃO .............................................................. 159 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 159 2 ANA MAE BARBOSA .................................................................................................................... 160 3 JOÃO FRANCISCO DUARTE JÚNIOR ..................................................................................... 163 4 FERNANDO HERNÀNDEZ .......................................................................................................... 167 5 MIRIAN CELESTE MARTINS ..................................................................................................... 170 6 SUSANA RANGEL VIEIRA DA CUNHA .................................................................................. 172 RESUMODO TÓPICO 1................................................................................................................... 175 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 176 TÓPICO 2 — TEORIA E MÉTODOS DE PESQUISA EM ARTE E EM ARTE NA EDUCAÇÃO .............................................................................................................. 179 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 179 2 PESQUISA EDUCACIONAL BASEADA EM ARTE (PEBA) .................................................. 180 2.1 A/R/TOGRAFIA .......................................................................................................................... 182 3 METODOLOGIA(S) DE PESQUISA EM ARTE NA EDUCAÇÃO ....................................... 185 4 INVESTIGAÇÃO QUALITATIVA EM EDUCAÇÃO .............................................................. 187 RESUMO DO TÓPICO 2................................................................................................................... 191 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 192 TÓPICO 3 — PROJETO DE PESQUISA ........................................................................................ 195 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 195 2 REFLEXÕES SOBRE O PROJETO DE PESQUISA ................................................................... 196 2.1 PESQUISAS DE CONCLUSÃO DE CURSO .......................................................................... 197 3 ORGANIZAÇÃO E ELABORAÇÃO DO PROJETO DE PESQUISA ................................... 198 3.1 ESTRUTURA DA PESQUISA ................................................................................................... 199 3.2 TEMA ............................................................................................................................................ 200 3.3 PROBLEMÁTICA ....................................................................................................................... 201 3.4 OBJETIVOS: GERAL E ESPECÍFICOS ..................................................................................... 202 3.5 CAMINHOS METODOLÓGICOS ........................................................................................... 203 3.6 REVISÃO DE LITERATURA .................................................................................................... 204 3.7 ANÁLISES E CONSIDERAÇÕES FINAIS .............................................................................. 206 4 A PROBLEMATIZAÇÃO DA ARTE EM DIFERENTES CONTEXTOS DE ESTUDO ...... 209 LEITURA COMPLEMENTAR .......................................................................................................... 212 RESUMO DO TÓPICO 3................................................................................................................... 215 AUTOATIVIDADE ............................................................................................................................ 216 REFERÊNCIAS .................................................................................................................................... 218 1 UNIDADE 1 — O MODO DE PENSAR A LINGUAGEM DA ARTE OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • compreender o que é arte e suas diferentes funções; • entender a relação existente entre artista, obra e espectador; • conhecer a crítica da arte; • compreender as linguagens artísticas como objeto de conhecimento; • analisar a relação da arte com o contexto social, cultural, político, am- biental e com a tecnologia. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – A FUNÇÃO DA ARTE TÓPICO 2 – PENSADO SOBRE A ARTE TÓPICO 3 – ARTE E CONHECIMENTO SENSÍVEL E INTELIGÍVEL Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 2 3 TÓPICO 1 — UNIDADE 1 A FUNÇÃO DA ARTE 1 INTRODUÇÃO Desde o início dos tempos, o ser humano busca um espaço para expressar suas ideias, sentimentos e emoções. Compreendemos então, que a preocupação com a “arte” já ocorre desde a antiguidade, pois conforme menciona Azevedo Junior (2007) em cada sociedade a arte é vista de modo peculiar, pois considerando que cada sociedade possui sua própria cultura, influenciada por diversos valores, como religiosos e ou artísticos. A arte, então, é representada, a partir das vivências, valores e crenças dos seres humanos, sendo que cada grupo social a identifica de modo diferenciado, segundo cada qual com a sua função. Será que a arte tem uma função? E qual seria a sua função na sociedade? Vamos compreender essa relação acerca da função da Arte? Por exemplo: ao observarmos uma pintura realizada entre os séculos XIV e XVIII, podemos perceber que há uma história contida na obra. Para entender melhor o contexto da pintura, vamos rapidamente recordar como foi a arte nesse período. A pintura surgiu há milhares de anos, por meio da expressividade dos homens pré-históricos. Essas pinturas foram encontradas em diversas cavernas que, retratavam as caçadas realizadas, os animais capturados, bem como a vida cotidiana. Na Idade Média, na Europa, passaram a pintar imagens religiosas em painéis de madeira. No final da Idade Média, os artistas europeus começaram a utilizar cavaletes para pintar telas e, dessa maneira, as pinturas se tornaram portáteis, podendo ser utilizadas para decoração em parede (ESCOLA BRITANNICA, c2020). No Renascimento, período que ocorreu entre os séculos XIV e XVI, a arte avançou muito, pois houve inúmeras transformações e inovações. A pintura tornou-se mais realista, pois os artistas observavam tudo que o rodeavam. E desenvolveram muitas técnicas que criavam ilusão de um mundo tridimensional em superfícies planas. Nessa época, Leonardo da Vinci, considerado o precursor desse período, criou algumas técnicas, como os efeitos de luz e sombra (ESCOLA BRITANNICA, c2020). No século XVII, iniciou na Europa um novo estilo artístico, as pinturas barrocas que enfatizavam as cores vivas, efeitos de luz e sombra para reluzir fortes emoções. Já no século XVIII, surgiu um estilo de pintura mais rebuscado, que retrata paisagens suaves e delicadas, sendo cenas com pessoas elegantemente UNIDADE 1 — O MODO DE PENSAR A LINGUAGEM DA ARTE 4 vestidas. Como podemos observar na obra “O Balanço”, do artista Jean-Honoré Fragonard (1732-1806) – uma obra cheia de rebuscamentos, onde as vestimentas parecem ter movimentos, requinte nos detalhes da obra (BERNARDES, c2020). FIGURA 1 – OBRA “O BALANÇO” – JEAN-HONORÉ FRAGONARD – 1767 FONTE: <https://www.todoestudo.com.br/artes/rococo>. Acesso em: 5 abr. 2020. Para finalizar o século XVIII, os artistas em reação ao Rococó, criaram um estilo que retratou cenas do mundo clássico, com linhas simplificadas e sem muitos detalhes, surge, então, o Neoclassicismo. Agora, que já compreendemos o contexto histórico da pintura entre os séculos XIV e XVIII, vamos ao questionamento anterior: ao observar uma pintura, por exemplo, realizada entre os séculos XIV e XVIII, podemos perceber que há uma história presente na obra, isso porque em cada sociedade existe um modo peculiar de ver a arte, a partir das ações socialmente constituídas, e, desse modo, podemos inferir que a arte pode ter uma finalidade dentro do contexto cultural. Vamos compreender esse contexto acerca da função da obra. A obra do artista Fragonard, mencionada anteriormente, que foi pintada naEuropa, possui um mesmo valor artístico para a cultura europeia, porém para uma comunidade indígena, por exemplo, que conservam outros valores e tradições culturais, o valor não será o mesmo. Para os indígenas a arte não é separada do seu cotidiano e, sim presente, pois faz parte de seu dia a dia, estando apresentada nas suas vestimentas, nos seus adereços, nas suas peças de cerâmica, nas cestarias, nas pinturas corporais e entre outros artefatos e produções artísticas produzidos e manifestados por eles. TÓPICO 1 — A FUNÇÃO DA ARTE 5 Se a arte é considerada universal, por que isso pode acontecer? Para os grupos étnicos o significado da arte é diferente, pois não pertencem ao mesmo contexto no qual vivem, pois no convívio social em que vivem, não a separam do seu dia a dia. Podemos compreender, então, que a arte tem uma função, porém é diferente em cada sociedade, pois isso depende da tradição e da cultura de cada povo. A preocupação com a arte é algo que já ocorre desde a Antiguidade, como vimos anteriormente, porém a partir do século XX, a arte começou a ser reconhecida e valorizada, sendo considerada como um objeto que possibilita uma experiência de conhecimento estético por seus valores inerentes. Vamos observar a charge a seguir: FIGURA 2 – AS VANGUARDAS – CHARGE DO ILUSTRADOR MARCO MARILUNGO FONTE: <https://bit.ly/31DP9T1>. Acesso em: 5 abr. 2020. IMPRESSIONISMO ESPRESSIONISMO SUPREMATISMO METAFÍSICA MINIMALISMO CONCETTUALE SURREALISMO CUBISMO DADAISMODADAISMODADAISMODADAISMODADAISMO INFORMALE POP-ART FUTURISMO ASTRATTISMO FAUVES ART NOUVEAUREALISMO UNIDADE 1 — O MODO DE PENSAR A LINGUAGEM DA ARTE 6 A charge do ilustrador italiano Marco Malungo (nascido em 1971) representa a evolução da arte no contexto social. Podemos perceber que a cada período ela se transforma, evolui conforme o contexto social de cada época. Dessa maneira, podemos apontar que a arte possibilita a transformação do contexto social que está inserida, ou seja, ela tem uma função para aquela sociedade. Afinal, qual é a função da arte? Como vimos, ela possui muitas funções. As funções que a arte apresenta, corrobora em demonstrar para que o objeto artístico serve, como vimos anteriormente, depende do período histórico, da região geográfica, bem como, dos aspectos relacionados a cultura de cada povo. Para entender melhor a função que ela possui, foi necessário dividir em três perspectivas: pragmática ou utilitária, naturalista e formalista. Vamos entender melhor cada função da arte. 2 FUNÇÃO PRAGMÁTICA Uma pessoa pragmática pode ser considerada como uma pessoa prática, ou seja, uma pessoa objetiva que procura solucionar seus problemas e conflitos, com soluções simples e práticas para a sua vida. E assim é a arte também, na função pragmática, é utilizada como um meio para conseguir alcançar um fim que não é considerado artístico, ou seja, não é valorizada pelo que o objeto é, e sim, pela finalidade que possui (EDUCAR BRASIL, c2020). Vamos entender melhor a partir da observação da imagem a seguir: FIGURA 3 – VASO DE CERÂMICA DA CULTURA MARAJOARA FONTE: <http://www.acasacomarte.com.br/peca.asp?ID=535334>. Acesso em: 7 abr. 2020. TÓPICO 1 — A FUNÇÃO DA ARTE 7 O vaso de cerâmica Marajoara representa um artefato produzido pelas tribos indígenas que moravam na ilha de Marajó durante o período pré-colonial de 400 a 1400, situada no estado do Pará, próximo a foz do Rio Amazonas: Em seu apogeu, a ilha de Marajó pode ter tido mais de 100 mil habitantes. Entre eles havia diversos artistas, que fabricavam objetos cerâmicos ricamente decorados, vasilhas. Estatuetas, urnas funerárias e adornos. [...] Os objetos produzidos pelas culturas antigas estavam, muitas vezes, associados a rituais que eram verdadeiros espetáculos artísticos, pois reuniam todas as manifestações (música dança, adereços, vasos) (GARCEZ; OLIVEIRA, 2004, p. 15-16). Conforme mencionam Garcez e Oliveira (2004), nós podemos perceber que eles fabricavam seus vasos, urnas funerárias entre outros artefatos para uma finalidade, para uso próprio e ou do cotidiano, pois a criação dessas peças de cerâmicas estava ligada aos rituais. Dessa maneira, eles não criavam as peças de cerâmica para se tornarem objetos artísticos, mas sim, para ter uma utilidade no contexto social em que viviam. A sociedade atual, após a descoberta da origem desse povo indígena, acabou considerando as peças como artísticas, devido ao seu valor cultural e social. Na função pragmática, o objeto artístico pode ser considerado bom, quando ele se torna útil, ou seja, quando tem uma utilidade. Conforme, mencionamos anteriormente, na cultura marajoara os objetos eram criados para serem utilizados em determinadas finalidades, por exemplo, as urnas funerárias para armazenar os restos mortais. Por isso que na função pragmática a arte pode servir para fins práticos, religiosos e ou políticos, porém não se questiona a perspectiva estética das peças, somente a sua utilidade, ou seja, para que fim é determinada. Outro exemplo de arte pragmática é percebido na Arte Egípcia, quando seus artesões criavam muitas peças para serem utilizadas pelas pessoas no seu cotidiano, como é o caso dos sarcófagos, vasos e jarros para armazenamento de alimentos e bebidas. Também foi um povo que criou adereços, adornos, peças de cerâmicas e pinturas em geral. Vamos visualizar um exemplo: UNIDADE 1 — O MODO DE PENSAR A LINGUAGEM DA ARTE 8 FIGURA 4 – SARCÓFAGO EGÍPCIO FONTE: <https://www.pinterest.com.mx/pin/771593348631568988/>. Acesso em: 10 abr. 2020. O sarcófago atualmente é considerado uma obra de arte, com um requinte em detalhes de pintura e escultura, porém para os egípcios, esse objeto tinha outra finalidade, ou seja, tinha uma função específica, como uma urna funerária. Desse modo, compreendemos que a função pragmática da arte se refere acerca da finalidade da obra, ou seja, para o que ela vai ser utilizada. A seguir vamos conhecer outra função da arte conhecida como naturalista. 3 FUNÇÃO NATURALISTA Na função naturalista, a arte é apresentada por meio do conteúdo que a obra aborda. O principal objetivo dessa função é apresentar, como realmente ela é, ou seja, o mais próximo da realidade. A obra torna-se tão simplória que o espectador, não tem muitas dificuldades para compreendê-la. Vamos compreender melhor essa função, observando a obra a seguir: TÓPICO 1 — A FUNÇÃO DA ARTE 9 FIGURA 5 – OBRA: D. PEDRO I. ARTISTA: SIMPLÍCIO RODRIGUES DE SÁ. OBRA CRIADA EM 1830 FONTE: <https://brasilescola.uol.com.br/historiab/dom-pedro.htm>. Acesso em: 10 abr. 2020. FONTE: <https://brasilescola.uol.com.br/historiab/dom-pedro.htm>. Acesso em: 10 abr. 2020. Podemos observar no retrato de D. Pedro I, que esta obra trata de uma pintura realista, que apresenta o imperador do Brasil com uma riqueza em detalhes, sendo uma obra que tinha como objetivo servir aos propósitos do governo. Para o espectador que observar a obra, reconhecerá logo que se trata de um retrato de D. Pedro I. Essa é a função naturalista da arte, ou seja, apresentar de forma mais natural possível, sendo uma representação da realidade e da imaginação, de modo que o espectador ao fruir, logo compreenda seu significado. Vamos conhecer outro exemplo: FIGURA 6 – OBRA: INDEPENDÊNCIA OU MORTE. ARTISTA: PEDRO AMÉRICO DE FIGUEIREDO E MELO. OBRA CRIADA EM 1886 UNIDADE 1 — O MODO DE PENSAR A LINGUAGEM DA ARTE 10 Se observarmos a obra denominada por Pedro Américo de “Independência ou Morte”, na qual configura a representação famosa que ocorreu em 7 de setembro de 1822 sobre a independência do Brasil, podemos perceber, que se trata de uma obra de arte que apresenta um fato histórico ocorrido pela corte, ou seja, pelo governo. Utilizando a estética clássica, a pintura aborda de modo naturalista e idealista. Isso é perceptível pela representação ser de forma realista, onde o artista apresenta seu líder em um ato heroico (EDUCAR BRASIL, c2020). Podemosconsiderar que as pinturas clássicas buscam pela perfeição estética, porém o seu entendimento é representar o mais natural possível a sua finalidade. Também podemos analisar uma obra de arte pela sua forma e elementos básicos que apresenta, a essa função denominamos de formalista. A seguir, vamos conhecer melhor as características dessa função. 4 FUNÇÃO FORMALISTA Na função formalista, a preocupação é voltada para a forma e, considera os elementos básicos da visualidade como cor, ponto, linha e textura, importantes aspectos a serem considerados na elaboração da obra. A função formalista da arte considera na produção artística a estrutura intrínseca existente na composição, atribuindo mais valor na forma de apresentação da obra de arte. Com isso, sua preocupação está direcionada para os valores, significados, bem como, pelos motivos estéticos existentes na obra (EDUCAR BRASIL, c2020). A arte na função formalista, preocupa-se com os aspectos estéticos existentes na obra e com a sua organização, ou seja, elementos e a composição e, com o seu significado. Vamos entender melhor essa função, analisando uma obra de arte. FIGURA 7 – OBRA: O ABAPORU. ARTISTA: TARSILA DO AMARAL. OBRA CRIADA EM 1928 FONTE: <https://www.bbc.com/portuguese/geral-47808327>. Acesso em: 12 abr. 2020. TÓPICO 1 — A FUNÇÃO DA ARTE 11 O Abaporu, criada pela artista brasileira Tarsila do Amaral (1886-1973) foi pintada para presentear seu marido Oswald de Andrade (1890-1954) no seu aniversário. Em conversa com o poeta Raul Bopp (1898-1984) e, analisando a pintura, enxergaram ali além de uma figura enigmática, mas também, um homem antropófago, ou seja, aquele que estava pronto para devorar a cultura para depois reinventá-la. A partir dessa conversa, Tarsila procurou num dicionário tupi-guarani o significado de homem que come, e, daí, surgiu a palavra Abaporu (VEIGA, 2019). Podemos perceber, nessa obra modernista, que as figuras são estilizadas e distorcidas, com predominância de cores vivas. A figura retratada não tem a preocupação de atentar com a anatomia real humana, mas com a forma de apresentação estética da arte em si. A arte na função formalista, portanto, preocupa-se com os aspectos estéticos existentes e com a organização da obra, ou seja, elementos e a composição e, com o seu significado. Vamos verificar a função formalista, em outra obra de arte. FIGURA 8 – OBRA: ARLEQUIM COM GUITARRA. ARTISTA: JUAN GRIS. OBRA CRIADA EM 1917 FONTE: <https://bit.ly/3mjWezU>. Acesso em: 18 jul. 2020. Juan Gris (1887-1927) é um famoso pintor e escultor da arte cubista, ele é considerado um expoente do cubismo sintético. Faleceu muito cedo com apenas 40 anos de idade, porém deixou um acervo referente a obras cubistas, inicialmente analítico e mais tarde enfatizou o cubismo sintético. Numa viagem para Paris UNIDADE 1 — O MODO DE PENSAR A LINGUAGEM DA ARTE 12 em 1906, conheceu Pablo Picasso (1881-1973) e Georges Braque (1882-1963) e foi por influência desses artistas que Juan adotou como estilo de pintura o cubismo (FRAZÃO, 2018). O cubismo foi um movimento que revolucionou as artes no início do século XX, com influência de Pablo Picasso e Georges Braque, quando para retratar uma paisagem utilizavam-se formas geométricas, sem qualquer intenção de representar a realidade. Uma obra cubista abandona as noções tradicionais de perspectiva, a busca pela perfeição ao retratar a realidade, tendo como principal objetivo de demonstrar que um objeto pode ser analisado por diversos ângulos, em um único plano (GESTÃO c2020). A abstração é um tipo artístico bem peculiar da arte formalista, pois nessas obras se anula a temática, destacando-se a forma. Nesse tópico conhecemos as funções da arte pragmática, naturalista e formalista, bem como suas características. No próximo tópico, vamos conhecer o conceito de arte, bem como, a relação existente entre artista, obra e espectador. 13 Neste tópico, você aprendeu que: • As obras de arte, desde a antiguidade até os dias de hoje, nem sempre tiveram a mesma função. Ora serviam para contar uma história, ora para rememorar um acontecimento importante, ora para despertar o sentimento religioso ou cívico, portanto, a arte é dividida em três funções: pragmática, naturalista e formalista. • Na função pragmática, o objeto artístico é criado para ser utilizado e ter uma determinada utilidade. • Na função naturalista, a arte é apresentada por meio do conteúdo que a obra aborda. O principal objetivo dessa função é apresentar, como realmente ela é, ou seja, o mais próximo da realidade. A obra torna-se tão simplória que o espectador, não tem muitas dificuldades para compreendê-la. • A função formalista da arte considera a estrutura intrínseca existente na composição, atribuindo mais valor na forma de apresentação da obra. Com isso, sua preocupação está direcionada para os valores, significados, bem como, com motivos estéticos existentes. • Foi só neste século que a obra de arte passou a ser pensada como um objeto desvinculado de funções para propiciar experiência estética por seus valores íntimos. RESUMO DO TÓPICO 1 14 1 Dependendo do propósito e do tipo de interesse com que alguém se aproxima de uma obra de arte, podemos distinguir ela em três funções principais: naturalista, pragmática e formalista. Analise as alternativas a seguir e assinale (V) para verdadeiras e (F) para falsa sobre o significado de cada uma das funções da arte: FONTE: <https://www.historiadasartes.com/olho-vivo/pra-que-serve-a-arte/. Acesso em: 29 maio 2020. ( ) A função naturalista investiga a natureza existente na obra de arte. ( ) A função pragmática valoriza apenas os elementos da visualidade na obra de arte. ( ) A função formalista se preocupa com as formas considerando os elementos básicos. Assinale a sequência CORRETA: a) ( ) F – F – V. b) ( ) V – V – V. c) ( ) F – F – F. d) ( ) V – F – V. 2 A arte está ligada à estética, porque é considerada uma faculdade ou ato pelo qual, trabalhando uma matéria, a imagem ou o som, o homem cria beleza ao se esforçar por dar expressão ao mundo material ou imaterial que o inspira. Partindo desse pressuposto, escolha uma obra de arte que tem como característica a função naturalista da arte e explane sobre ela. Socialize com sua turma: FONTE: <https://www.significados.com.br/arte/>. Acesso em: 29 maio 2020. 3 Arte é a atividade humana ligada a manifestações de ordem estética, feita por artistas a partir de percepção, emoções e ideias, com o objetivo de estimular esse interesse de consciência em um ou mais espectadores, e cada obra de arte possui um significado único e diferente. Partindo desse pressuposto, escolha uma obra de arte que tem como característica a função formalista da arte e explane sobre ela. Socialize com sua turma: FONTE: <https://www.significados.com.br/arte/>. Acesso em: 29 maio 2020. AUTOATIVIDADE 15 TÓPICO 2 — UNIDADE 1 PENSADO SOBRE A ARTE 1 INTRODUÇÃO Neste tópico, nós vamos refletir acerca da arte. Você, acadêmico, sabe o que é arte e qual seu sentido para a vida do ser humano? Neste estudo, compreendemos que a arte é conhecimento, pois é uma linguagem que possibilita às pessoas interpretarem o contexto no qual estão inseridos de forma a relacionar as percepções sensíveis e os saberes inteligíveis. Essa linguagem expressiva, possibilita o desenvolvimento da consciência, da emoção, da criatividade, da percepção, da imaginação e do conhecimento. Desse modo, vamos conhecer que a arte contribui para que o ser humano possa vivenciar experiências significativas, desenvolvendo sua expressividade criativa e o pensamento visual, sonoro e tátil por meio da sua relação com o mundo e da realidade no qual está inserido. Nesse contexto acerca da arte, vamos conhecer e estudar a relação existente entre artista, obra e público. 2 O QUE É ARTE? Vamos parar um pouco nossa vida corrida e, imaginar sobre o que podemos observar ao nosso redor.Você consegue listar o que você imaginou e, é possível relacionar com a arte? Agora, pense em alguns móveis que você tem na sua casa, os espaços que eles ocupam, como são? E as roupas que você escolhe para utilizar? Que tipo de estampas as vestimentas possuem? Pense também em revistas, livros, histórias em quadrinhos, utensílios domésticos, objetos decorativos, enfim, verifique tudo o que circundam você. As placas, os outdoors, panfletos, imagens e vídeos divulgados em redes sociais e nas diversas mídias. E os filmes a que assistimos? E as músicas que ouvimos? Você já parou para pensar que tudo isso é uma expressão e manifestação artística? Afinal, o que é arte? Você sabe o que podemos afirmar como arte? Como se aprende e se ensina arte? Vamos entender esse contexto. Podemos afirmar que o universo da arte é muito amplo, pois envolve diversas linguagens artísticas. Ponderamos que ela pode ser representada muito além das pinturas, desenhos, esculturas, músicas, peças teatrais, entre outras linguagens. Hoje, a arte, por meio da criação estética, está envolvida com muitas áreas do conhecimento que socialmente se apresentam pela arquitetura, designer, moda, publicidade, produção cultural, eventos, turismo etc. 16 UNIDADE 1 — O MODO DE PENSAR A LINGUAGEM DA ARTE A arte tem origem da necessidade do ser humano em se expressar, em deixar transparecer seus sentimentos e emoções, tornando uma prática social resultante em vivências sócio-histórico-culturais. Para Martins e Picosque (2012, p. 115), “[...] arte... essa linguagem de força estranha que ousa, se aventura a falar de tudo, do desconhecido, daquilo que é percebido pelos sentidos, materializando os sentidos humanos ou os diferentes olhares que o ser humano pousa sobre as coisas”. Ao refletirmos sobre a arte e, considerando-a como uma linguagem universal intrínseca a vida social e, analisando-a como conteúdo, podemos representar a arte, como um dos trabalhos realizados pelo ser humano. Compreendemos que a arte, segundo Vygotsky (1999), “é o social em nós”, ou ainda, podemos mencionar que a arte é uma linguagem da expressividade, que contribui para o desenvolvimento da consciência, dos sentimentos, da criação, da percepção, da criação imagética. Desse modo, a arte possibilita que os conhecimentos adquiridos sejam agregados nas experiências, por meio de suas emoções, por meio da abstração, das percepções sobre o contexto e, pela imaginação mediante a relação social com o meio. Para Hans-Georg Gadamer a experiência na arte é entendida como: [...] ver a experiência da arte de tal maneira que venha a ser entendida como experiência. A experiência da arte não deve ser falsificada como um fragmento da formação estética que está na sua posse e, com isso não deve ter neutralizada sua reivindicação própria. Veremos que nisso reside uma consequência hermenêutica de longo alcance, na medida em que todo encontro com a linguagem da arte é um encontro com um acontecimento não acabado e, ela mesma, uma parte desse acontecimento (GADAMER, 1999, p. 171). Ao ver, ouvir e sentir uma obra de arte, pode ser compreendido como um encontro, mas para o filósofo Gadamer, nem sempre esse encontro significa uma experiência, mas o acontecimento que reverbera no encontro por meio das sensações provocadas é que ocasiona a experiência; [...] compreender o que a obra de arte diz a alguém é certamente um encontro consigo mesmo. Como um encontro com o que é propriamente, porém, como uma familiaridade que encerra com exceder-se a si mesmo, a experiência da arte é experiência em um sentido autêntico e sempre tem de dominar novamente a tarefa apresentada pela experiência: integrá-la no todo da própria orientação pelo mundo e da própria autocompreensão. Justamente isso constitui a linguagem da arte, o fato de sua fala alcançar a própria autocompreensão de cada um – e ela faz isso como uma arte respectivamente atual e por meio de sua própria atualidade (GADAMER, 2010, p. 7). A experiência, nesse sentido, não é apenas vivenciar algo, fazer alguma coisa, mas é no sentido subjetivo e intersubjetivo que se apresenta como aquilo que nos traz significados, percepções, memórias, afetos e encantamentos, acerca da compreensão da arte mediante a fruição, produção e contextualização. TÓPICO 2 — PENSADO SOBRE A ARTE 17 Compreendemos que a arte vai se modificando com o passar dos tempos, ou seja, que passa por algumas transformações devido às concepções contemporâneas dos artistas; por influências da sociedade, por meio das manifestações culturais das pessoas, que agregam influências do meio em que vivem e vão modificando sua maneira de agir ou pensar, e deste modo, reflete em sua forma de ver e sentir tudo que está ao seu redor. Assim, é importante que os sujeitos passem por vivências que auxiliam e ampliem sua visão de mundo. As experiências com a arte podem ser vivenciadas a partir do contato com espaços formais de ensino, que é o caso de instituições escolares, como espaços não formais que é o caso de museus, galerias, teatros, shows musicais, espetáculos etc. Todos esses espaços possibilitam fazer com que as pessoas expressem suas emoções, percepções, sentimentos, criatividade de diferentes maneiras, contribuindo assim, para a sua formação humana. Para Martins e Picosque (2012) a arte é percebida enquanto território de invenção, ou seja, é um devir que nos coloca em movimento, em mudança de velocidades, dimensões e direções, desvios de trajetórias e esperas. Para essas autoras a criação artística é contaminada pela vida e da mesma forma a arte contamina a vida, quando somos envolvidos no processo estético, portanto, a arte propicia ao ser humano o desenvolvimento da expressividade, por meio de suas emoções em relação ao mundo em que está inserido. Segundo Pillotto (2008), tão importante quanto os conhecimentos adquiridos sobre a arte, as informações históricas, as produções e experiências artísticas, é construirmos relações de sentidos naquilo que realizamos, lemos sobre nós e sobre o mundo que nos rodeia. Deste modo, a arte possibilita aos sujeitos que seus conhecimentos e emoções sejam conectados de tal forma que o encontro com a arte se transforme em experiência, explorando as percepções reais e imaginárias, materiais e imateriais, concretas e abstratas para provocar sentimentos. Compreendemos que ao passar por uma experiência, esta é única, pois jamais poderemos vivenciar outra igual, da mesma maneira, na mesma intensidade, no mesmo lugar e, do mesmo modo. Sempre haverá algo de diferente para agregar emoções as nossas experiências. O ser humano tem a capacidade de transformar a arte de acordo com o cotidiano, com a sua vida, portanto, por meio da arte, as pessoas expressam percepções sensíveis e inteligíveis. Segundo Barbosa (2012, p. 4), a “arte [...] exercita nossa habilidade de julgar e de formular significados que excedem nossa capacidade de dizer em palavras”. Deste modo, existem coisas que não precisamos nos expressar através das palavras, às vezes, uma imagem é o suficiente para representar o que estamos pensando ou sentindo. Para tanto, os sujeitos precisam estar “livres para” e “prontos para fruir” inter-relacionando a arte com o seu meio social, ou seja, inter-relacionando o objeto de arte ao meio social e interagindo com ele, mudando assim, seu modo de 18 UNIDADE 1 — O MODO DE PENSAR A LINGUAGEM DA ARTE ver e sentir as coisas ao seu redor. Umberto Eco (1991, p. 40) apresenta o seguinte conceito de fruição de obra de arte: “[...] cada fruição é, assim, uma interpretação e uma execução, pois em cada fruição a obra revive dentro de uma perspectiva original. O filósofo explica que a ação fruitiva é relativa aos estímulos onde o possível fruidor possa recompreender por meio da sensibilidade e da inteligência numa perspectiva individual. Já a realização da contextualização de uma obra de arte, seja elaconcebida por uma imagem, por um vídeo, por um objeto, pelo som, por uma performance, ou mesmo pelo silêncio e ausência do objeto, como é o caso de algumas obras de arte contemporâneas, não é apenas fazer observações acerca da biografia do artista, apesar de também ser importante, mas contextualizar e analisar aquele projeto ao ponto de produzir um sentido na vida dos sujeitos/espectadores envolvidos. É fundamental situar a arte no tempo e no espaço e estabelecer relações com diferentes campos de conhecimento, seja com a história, sociologia, antropologia etc. Compreendemos até aqui a importância que a arte tem para a formação humana, porém, para a arte existir, é necessária a sua criação que depende do projeto artístico desenvolvido pelo artista e pela fruição do espectador: A arte contemporânea, não estando mais preocupada com a beleza do objeto, nem exclusivamente com sua forma, mas com os significados que os objetos e os materiais podem produzir no observador, ou ao se propor como reflexão sobre o homem e o seu tempo, não permite uma contemplação rápida e inconsciente (BINI, 2018, p. 76). A arte contemporânea está preocupada em incorporar a vida cotidiana ao universo artístico, sendo uma arte que uni diferentes linguagens. Atualmente, utiliza-se a tecnologia, bem como, os meios digitais como fortes aliados na arte contemporânea, com o objetivo de provocar questionamentos e experiências significativas e inovadoras, tanto para o artista quanto para o espectador (AIDAR, 2010). A arte contemporânea valoriza as ideias e o processo artístico em detrimento da forma final ou do objeto, ou seja, os artistas buscam estímulos para refletir acerca do mundo, bem como, da sua própria arte. Ademais, a intencionalidade do artista é quebrar as barreiras acerca das linguagens artísticas tradicionais, bem como, unir diversos tipos de fazeres artísticos em sua criação, abandonando os suportes convencionais (AIDAR, 2010). Essa tendência propicia a valorização da aproximação entre a arte e a vida, trazendo reflexões sobre o âmbito coletivo, aliando política e imaterialidade, apresentando novas temáticas e assuntos da atualidade, como exemplo, a questão racial, patriarcado, questões de sexualidade e gênero, desigualdades entre outros temas (AIDAR, 2010). TÓPICO 2 — PENSADO SOBRE A ARTE 19 Outra característica fundamental da arte contemporânea é a valorização da interação entre o espectador com a obra de arte, muitos artistas buscam proporcionar experiências únicas quando as pessoas têm contato com a sua criação (AIDAR, 2010). FIGURA 9 – OBRA: LÍMITE DE UNA PROYECCIÓN I. ARTISTA: DAVID LAMELAS. OBRA CRIADA EM 1967 FONTE: <https://bit.ly/2FSfLYK>. Acesso em: 18 jun. 2020. Na obra intitulada de “Limite de uma projeção”, o artista David Lamelas (nascido em 1946) busca a realização do exercício de atenção que envolve a imaterialidade de uma luz projetada com a espacialidade que ela constrói. A obra apresenta um foco de luz emitido do teto e projetado no chão, em um espaço totalmente escuro, da qual produz um círculo claro de luz branca. Contemplar tal situação de extrema essencialidade espacial nos permite vivenciar uma expansão do ato perceptivo e descobrir a materialidade com a qual a arte é construída. O conteúdo artístico é algo que surge ao interagir com a obra é, como uma imagem, precisa ser construído e não encontrado. Afinal! Qual é o papel do artista frente ao desenvolvimento de uma obra de arte? Nesse sentido, iremos analisar e reconhecer a relação do artista para a execução e para a efetivação do projeto artístico criado. 2.1 O ARTISTA O artista é considerado como tal, devido à arte que produziu. Assim, o artista é aquele que transmite sua ideia por meio da criação que está implícita em sua obra de arte. Para compreender quem é e, como surgiu o artista, precisamos voltar um pouco no tempo. 20 UNIDADE 1 — O MODO DE PENSAR A LINGUAGEM DA ARTE O reconhecimento do artista como um profissional, nunca foi tão fácil e, passou por um longo e lento processo histórico. Segundo Costa (2004), na Grécia, lugar considerado o berço da criação da estética e da consciência do belo, o artista que muito se dedicava para criar suas magníficas obras, não era considerado como um profissional. Conforme postula Costa (2004, p. 43), nem mesmo “Platão, um dos mais importantes filósofos, ao conceber a sociedade perfeita, a República, dela excluía o artista, que segundo ele, era uma espécie de imitador”. Em diversos povos antigos, o artista também era tratado em diferentes posições sociais. Na Idade Média, na Europa, a valorização do artista era considerada igual ao de um artesão, ou seja, segundo Costa (2004), a produção artística desenvolveu seguindo os padrões das corporações de ofícios, que eram responsáveis por toda a produção artesanal daquele período. Os artistas, então, se submetiam às rígidas regras de produção e, de mercado em oficinas familiares, pois somente tinham campo de trabalhos os artistas que vinham de famílias de ourives, escultores e ou fundidores. Foi no Renascimento, entre os séculos XIV e XVI que a produção artística se intensificou: Devido ao desenvolvimento do comércio e a formação dos estados nacionais, que os artistas começaram a se tornar independentes das guildas medievais, tendo por clientes os comerciantes enriquecidos e a nobreza. A arquitetura, o teatro e a literatura se desenvolveram como nunca; e os artistas, mantidos pelos reis, pelos papas e nobres, tornaram-se independentes das corporações de ofício (COSTA, 2004, p. 43). No século XV, a sociedade burguesa em Paris, ou seja, a corte europeia, solicitava a presença dos artistas, que eram responsáveis pelo embelezamento das cidades, da construção dos castelos e dos jardins. A sociedade europeia que primava pela aparência e, considerava a etiqueta como os princípios de distinção, tornava cada vez mais o artista visível numa sociedade que seguia padrões estéticos, artísticos e culturais. Desse modo, a corte precisava dos artistas, que passaram a ser contratados, para “emprestar seu brilho” (COSTA, 2004, p. 44) aos mecenas. Foi nesse momento, que os artistas passaram a viver na corte, colocando-se à disposição dos nobres, emprestando, um tom humanista e intelectual ao reinado. Conforme postula Costa (2004, p. 44), “os artistas eram sustentados por eles, vivendo, na maioria das vezes, junto a seus mecenas, gozando de uma proximidade inédita com o poder. Para isso, eram homenageados com títulos de nobreza que lhes facultava o acesso à intimidade real”. No século XVI, a corte dava aos artistas título denominado de “condes palatinos”, pintores como Ticiano Vecellio (1490-1576) e Giuseppe Arcimboldo (1526-1593) receberam esses títulos. TÓPICO 2 — PENSADO SOBRE A ARTE 21 FIGURA 10 – OBRA: RETRATO DE ISABEL DE PORTUGAL. ARTISTA: TICIANO VECELLIO. OBRA CRIADA EM 1548 FONTE: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Retrato_de_Isabel_de_Portugal_(Ticiano)>. Acesso em: 20 abr. 2020. Ticiano realizou a pintura renascentista do quadro da Imperatriz Isabel (1503-1539), a pedido do rei Carlos V, pois após a morte da imperatriz. Para criar o retrato da Imperatriz, Ticiano se baseou nas feições existe numa máscara mortuária, que naquela época, era comum a criação das máscaras de cera das pessoas ilustres. O pintor Ticiano era considerado um exímio artista pela corte europeia, suas obras baseavam-se em retratos dos nobres da corte, bem como, paisagens e temas religiosos. Já o artista Arcimboldo ficou famoso pelas suas obras de retrato, na qual utilizava frutas, vegetais, flores, animais, entre outras figuras para representar. 22 UNIDADE 1 — O MODO DE PENSAR A LINGUAGEM DA ARTE FIGURA 11 – OBRA: A PRIMAVERA. ARTISTA: GIUSEPPE ARCIMBOLDO. OBRA CRIADA EM 1563 FONTE: <https://bit.ly/3mhk0Nb>. Acesso em: 20 abr. 2020. Após a coroação do Rei Maximiliano II, Arcimboldo foi contratado para realizar as pinturas na corte e organizar festase bailes, o que lhe deu muita popularidade. Podemos perceber pelos artistas mencionados, que essa valorização pela corte, contribuía para o benefício do reconhecimento que, segundo Costa (2004), acerca do exercício da arte era vista como uma virtude, pois exigia do artista o uso de sua inteligência e principalmente de sua criatividade. Dessa maneira, “a arte deixava de ser um trabalho físico e artesanal para ascender ao estatuto de atividade de espírito” (COSTA, 2004, p. 44). É nesse momento, do século XVI que a arte deixava a posição subalterna, para disputar lado a lado com a filosofia e com a ciência as atividades do conhecimento: O artista foi ganhando autonomia e importância dentro da sociedade e seu trabalho deixou de se confundir com o do artesão, cuja produção obedecia aos modelos tradicionais de uma cultura e região. Ao contrário, o artista era estimulado à criação inovadora, à expressão individual e à produção de obras originais, capazes não só de distingui- lo como de notabilizar seu mecenas (COSTA, 2004, p. 45). No Renascimento, os reis emprestavam seus pintores e arquitetos a outros reinos, para estabelecer uma boa aliança entre eles. Dessa maneira, os padrões estéticos e estilos artísticos passavam a ser disseminados por toda Europa (COSTA, 2004). Com a revolução estética que emergiu com o Renascimento, 23 surgiu também a criação de muitas academias e conservatórios, que contribuíam para institucionalizar a prática, bem como, organizar o campo artístico. Costa (2004) aborda que com uma rigorosa metodologia e intensos trabalhos técnicos, os artistas eram instruídos acerca dos conceitos referentes à estética clássica, à filosofia e à história, consideradas muito importantes para o desenvolvimento interior do artista. Foi com essa expansão que as artes chegaram no final do século XVI, na qual começavam a se diferenciar das demais áreas de conhecimento, adquirindo seu próprio espaço de atuação. Conforme postula Costa (2004), no século XV, os artistas, como Leonardo da Vinci, eram além de pintores, escultores, desenhistas, filósofos, matemáticos, arquitetos, engenheiros e cientistas. Já os considerados artistas modernos se especializavam somente em sua área de atuação, ou seja, eram pintores. Nessa nova configuração do campo artístico, era necessário o estabelecimento e organização dos mercados, ou seja, a rivalidade que existia entre as famílias mais abastadas no século XVII, contribuiu para a ascensão dos artistas, que agora, elaboravam contratos comerciais autônomos. Desse modo, todos os artistas tinham campo de trabalho, quem não estava a serviço da corte ou das famílias mais ricas, já podia oferecer seus serviços a outra classe em ascensão, como militares, professores, prefeitos e demais burocratas (COSTA, 2004). Para Costa (2004), no século XVIII, os contratos com os artistas já elegiam como objeto no documento o que consideravam o talento do artista, dessa maneira, essa atitude contribuiu para o desenvolvimento da consciência referente ao fazer artístico e de sua especificidade. Assim, a arte passou a ser vista pela sociedade como uma atividade de espírito e o artista recebia um salário por sua produção, pela matéria-prima, bem como pelos auxiliares para realizar tal feito o tempo que fosse considerado necessário. Ainda no século XVIII, os artistas passaram por outro e grande desafio, que foi a criação da indústria cultural. Conforme corrobora Costa (2004, p. 46), a “produção em série de bens culturais realizada através de tecnologia e por iniciativa de um empresário”. Essa nova visão que emergia no contexto social daquele século, fez com que os artistas competissem com a era industrial, porém toda essa mudança se opunha a visão renascentista que os artistas tanto defendiam, pautada na independência, na autoria reconhecida e na valorização da criatividade individual. 24 A indústria cultural é aquela que produz em série e por meio de máquinas bens culturais e artísticos. Confira a charge denominada “Indústria Cultural e Indústria de Massa”: Quem estimula mais o cérebro: a televisão ou o livro? DICAS FONTE: <https://www.todamateria.com.br/industria-cultural/>. Acesso em: 20 abr. 2020. Desse modo, muitos artistas tiveram que empregar-se na nascente indústria cultural, pois para muitos artistas a indústria possibilitou à população a alfabetização cultural, que por meio da leitura dos jornais e folhetins sabiam o que acorria na via pública. Conforme podemos observar no cartaz a seguir de “Henri Toulouse – Lautrec de 1896, que foi realizado para um fabricante de tintas de imprensa, que recorre à utilização de conceitos tradicionais da imagem publicitária da época” (COSTA, 2004, p. 47). 25 FIGURA 12 – NO CONCERTO. ARTISTA: TOULOUSE – LAUTREC. IMAGEM CRIADA EM 1896 FONTE: <https://www.meisterdrucke.pt/impressoes-artisticas-sofisticadas/Henri-de-Toulouse- -Lautrec/198498/No-concerto,-1896-(zincograph).html>. Acesso em: 20 abr. 2020. Conforme menciona Costa (2004), a indústria cultural promoveu um novo ritmo à produção cultural, além de tê-la popularizado para um público que é considerado fiel e cativo, também contribuiu para o sucesso da produção editorial, pois novos empresários sempre estavam em busca de novos autores para testarem diferentes conceitos estéticos: Artistas desconhecidos puderam criar de maneira independente e livre de grilhões tanto das corporações como da elite econômica, por vezes, bastante conservadora. Dessa forma, a indústria cultural apoiou as vanguardas artísticas que tiveram espaço para propor novos caminhos para a arte, acelerando ainda mais o dinamismo próprio da produção artística (COSTA, 2004, p. 47). Devido a essas mudanças, Costa (2004) menciona que o campo das artes ficou ainda mais complexo, pois trabalhavam lado a lado, o artista considerado erudito que servia as classes abastadas, o artista popular que era contratado pela indústria e o artista independente, que realizava suas criações em seu ateliê, e assim, podia realizar experimentos acerca de novas possibilidades estéticas, porém, também tinha aquele artista que desempenha todos esses papéis. O artista também teve que se adaptar às mudanças que ocorreram na passagem dos séculos XVIII para o século XIX, conforme infere Costa (2004), a instauração da República e do povo. Sendo o artista considerado um protagonista 26 nessa sociedade republicana, ao contrário que previu Platão em “A República” (379 a.C.), sua relação com o público tornou-se cada vez mais distante, pois havia uma crescente proliferação de manifestações artísticas, bem como a inserção de novos artistas no contexto social. Devido ao avanço da tecnologia, tornando o trabalho artesanal obsoleto, o artista procurou novos consumidores, porém com o valor de novos produtos cada vez menos artesanais, bem como, pela mobilidade social que teve avanço com os meios de comunicação de massa e de transporte, o artista precisou do auxílio dos críticos de arte, para se manterem na sociedade, inclusive nos tempos atuais. Como podemos observar o artista na atualidade? Nesse contexto social atual, o artista busca agregar na sua criação suas vontades, seus sonhos, suas fantasias, seus devaneios, com o intuito de proporcionar ao espectador a participação na construção de sua obra de arte. Desse modo, a obra pode não ser concluída, pois a cada nova interação surge outra criação. Desta forma, conhecemos a trajetória e importância que o artista teve no desenvolvimento da sociedade, porém temos que reconhecer que a sua criação, ou seja, a obra de arte é resultado de toda a sua pesquisa e seu trabalho. Desse modo, vamos adentrar no contexto do valor que a obra de arte tem na sociedade e no âmbito da educação humana. 2.2 A OBRA DE ARTE Quantas vezes ao ver uma obra de arte, nos interrogamos sobre o que faz dela uma obra de arte? Podemos considerar a obra a seguir como arte? 27 FIGURA 13 – OBRA: A CONDIÇÃOHUMANA. ARTISTA: RENÉ FRANÇOIS GHISLAIN MAGRITTE. OBRA CRIADA EM 1933 FONTE: <https://citaliarestauro.com/o-que-e-uma-obra-de-arte/>. Acesso em: 21 abr. 2020. Podemos observar na obra de René Magritte (1868-1967) uma cena um tanto inusitada, pois mostra um cavalete que foi colocado numa sala e na frente de uma janela. Nesse cavalete podemos observar uma tela com uma pintura de uma paisagem, que apresenta todos os detalhes da paisagem vista fora da janela. Primeiramente, o espectador pode considerar a pintura no cavalete como parte da paisagem que está fora da janela. Após refletir acerca da pintura, percebe-se que essa suposição se baseia num questionamento falso, ou seja, que as imagens acerca da pintura são reais, enquanto a paisagem pintada na tela na verdade são uma representação da realidade, porém, podemos inferir que não há diferença nas paisagens, pois fazem parte da mesma pintura. Refletindo acerca dessa pintura, o espectador pode acreditar que uma paisagem seja real e a outra uma representação, sem perceber que se trata de um mesmo contexto. Na verdade, é necessário refletir acerca de diversos aspectos, que vão muito além do que propriamente o objeto físico em questão. Ao refletirmos acerca do conceito de beleza, em relação à estética, podemos percepcionar a relação de troca existente entre a obra e o espectador. Essa troca está baseada em informações carregadas de sentidos e significados, que possibilitam a transformação da obra de arte num testemunho acerca de um contexto histórico/artístico/ cultural e social. 28 Quando o espectador apreciar uma obra de arte, possibilita a ampliação da análise, acerca dos elementos visuais presentes na obra, bem como, é possível refletir sobre os elementos intrínsecos e extrínsecos. Desse modo, contribuirá para o espectador compreender melhor a obra de arte e aquilo que o artista pretende transmitir. Podemos considerar como obra de arte toda e qualquer criação realizada por um artista, que é fruto de sua imaginação e criatividade, e expressada por meio de uma manifestação emocional e ou sensível. Dessa maneira, compreendemos que a obra de arte é uma criação e, que fica visivelmente evidente a intencionalidade do artista. A obra de arte é considerada com um objeto artístico que é produzido pelo artista. Isso é um fato! Sabemos que todo artista transborda sua criativida- de na realização de sua obra de arte. Segundo Silva (2009), existe um grande va- lor acerca da realização do trabalho de uma artista, porém muitas obras de artes impõem-se por si mesma. Isso advém, porque muitas obras enfatizam a capa- cidade de falar sobre si mesma, ou seja, pronunciam algo além da sua própria época, apresentando inspiração e significados que perpassam pelos tempos. Já Osborne (1970) aborda que o conceito e a função da obra de arte, durante a história da evolução da arte, passaram por grandes mudanças, pois as obras de artes eram consideradas como artefatos, sendo fabricadas para promover algum valor imediato, porém, hoje, é feita propriamente para serem obras de arte e, apreciadas esteticamente. No contexto atual, a interação e a participação do espectador se tornam uma ação fundamental para ressignificar a arte. No século XVI, na Renascença, a obra de arte se destacou devido ao surgimento do que foi considerado como obra-prima, sendo que os trabalhos eram submetidos às academias e ou corporação profissional, para que fossem avaliados, para comprovar que o artista realmente, dominava as habilidades e técnicas necessárias. Dessa maneira, o artista era avaliado pelas qualidades referente ao intelecto e à imaginação. Por volta do século XVIII e adentrando no século XIX e, com o desenvolvimento do comércio da arte, as encomendas para elaborar uma obra de arte, era realizada por um patrono. O patrono determina como queria a obra, ou seja, as condições, para definir o tema e qual a aparência a obra deveria ter. Segundo Silva (2009), os maiores patrocinadores eram as igrejas católicas, bem como, as cortes de reis europeias. Para Coli (1995) o conceito referente à arte, está intrínseca na obra de arte, todavia estritamente ligado a tudo que envolve esse objeto artístico, como: a temática, o discurso, as atitudes de admiração, o virtuosismo técnico, o mercado, biografia do artista etc. Desse modo, podemos inferir que a arte pode ser considerada como um elemento fundamentalmente cultural. O conceito de arte está intrinsecamente associado com as obras de arte, apesar de ser produzida por um artista, que 29 possui um entendimento, uma interpretação, que por meio de suas sensações e sentimentos transborda sua criatividade na criação de sua obra de arte que atualmente, pode ser compreendida como projeto artístico. Isso porque a arte na atualidade é entendida como uma possibilidade de reflexão, de liberdade de criação, de provocação do sensível e se configura em um trabalho de memória da própria arte, com uma concepção de estética que rompe com paradigmas tradicionais para se situar além do belo e do feio. Uma arte que busca atrair o público para estimular a interação e a descoberta. Neste sentido, a arte atual considera a interpretação: [...] a obra de arte diz algo a alguém, e isso não apenas como um documento histórico diz algo ao historiador – ela diz algo a cada um como se isso fosse dito expressamente a ele, enquanto algo atual e simultâneo. Desse modo, vem à tona a tarefa de compreender o sentido daquilo que ela diz e de torná-lo compreensível – para si e para os outros (GADAMER, 2010, p. 6). Para Gadamer (1999), obra de arte carrega a possibilidade de se tornar uma experiência que irá transformar aquele que experimenta. O “sujeito” da experiência da arte, o que fica e persevera, não é a subjetividade de quem a experimenta, mas a própria obra de arte, portanto, é perceptível a importância da compreensão da arte que é revelada pela experiência estética apresentada pela criação do artista na atualidade. Essa compreensão se dá pela provocação causada mediante o encontro com o projeto artístico, que propõe a participação ativa do espectador. Mas quem é o espectador nesse contexto social atual? Qual é a importância do espectador diante das obras de arte? Na sequência, vamos conhecer e refletir acerca da relação entre o espectador e a arte. 2.3 O ESPECTADOR Acerca da relação existente entre o espectador e a obra de arte, diversas áreas de estudos, como a antropologia, e ou sociologia já realizaram estudos enfatizando a pesquisa ao espectador. Segundo Ramaldes (2016), um dos motivos do estudo dessa relação é que o espectador é considerado como uma figura fundamental para que a obra de arte se concretize. Conforme corrobora o educador Dewey (2010, p. 182), “a ciência afirma significados; a arte os expressa”. Vamos compreender esse contexto! Por meio da ciência que nos apresenta a resolução de significados, nos faz compreender que uma verdade está constituída. Até que seja provado o contrário, a verdade apresentada é absoluta, já que para a ciência todo conhecimento deve ser testado para comprovar os fatos. Já a arte, não comprova fatos e, sim, expressa significados. Dessa maneira, a arte nos possibilita diversas interpretações para uma mesma obra de arte, ou seja, a arte não termina em apenas um significado, porém isso vai depender da leitura realizada pelo espectador porque a arte envolve a subjetividade tanto do artista como do espectador para que seja efetivada. 30 Para Dewey (2010, p. 215) “a obra de arte só é completa na medida em que funciona na experiência de outros que não aquele que a criou”. Por meio de Dewey, podemos compreender a importância do espectador diante da expressividade da obra de arte, pois a relação que é estabelecida entre a obra de arte com o espectador, essa experiência somente ocorre uma única vez porque cada espectador diante da obra de arte apresenta uma vivência diferente e única, poisnunca será a mesma sensação para os demais que observam a obra também. Dessa maneira, compreendemos que sem o espectador uma obra de arte não faz sentido, pois o artista produz a obra de arte para que as pessoas possam fruir, vivenciar e ou experimentar. No caso das artes, essa relação com o espectador é intrínseca, pois é desse modo que ele se aproxima da obra de arte e nela adentra. Para Costa (2004, p. 129) “esse movimento sensível do público para o interior da obra é chamado de projeção e é responsável pelos sentimentos que a arte nos desperta e pela possibilidade de nos identificarmos com aquilo que está acontecendo na tela ou no palco”. Para que isso ocorra, é necessário que o espectador se provoque a experienciar a arte, ou seja, deixar transparecer seus sentimentos, suas emoções, suas angústias, seus anseios para fruir, sentir, descobrir e, portanto, vivenciar aquele momento. A relação do espectador com a obra no século XXI, mudou consideravelmente, pois nesse momento o espectador torna-se ativo e participativo das obras de arte, relação esta que nos séculos passados não acontecia. Segundo Costa (2004), o comportamento formal e introspectivo do espectador que costumava haver diante de uma obra de arte no passado, mudou muito devido ao aparecimento de novos gêneros e formas artísticas. Surge apresentações rápidas e curtas como as performances, mais informais como os happenings, ou ainda, a arte que faz uso da tecnologia. Essas alterações permitem que o espectador mude suas atitudes contemplativas para agir e participar das obras de artes, que, em muitos projetos artísticos contemporâneos, o público faz parte da própria obra, pois, nesses casos, a proposta somente é concretizada com a participação do espectador, podendo ser ele também coautor da obra: Percebemos, assim, que não é só a arte que está em constante sintonia com o seu tempo. Também o público, parte necessária da obra, adapta seu comportamento e sua sensibilidade de acordo com a dinâmica da arte. É no convívio com ela que vamos nos tornando sensíveis a seus significados e à sua forma peculiar de se apresentar (COSTA, 2004, p. 131). Costa (2004) acrescenta que o papel do artista é tão importante, pois ele consegue mudar o olhar do espectador diante daquilo que o cerca a sua volta, “sem o público que percebe sua beleza e a transpõe para o seu cotidiano, a obra de arte também não existiria” (2004, p. 132). Desse modo, podemos compreender a importância para o artista, de quando apresenta sua obra de arte ao público, ou seja, para perceber a reação do espectador diante da sua obra, ou seja, para a participação do espectador na ressignificação de sua obra: 31 [...] interrompe seu ato criativo, distancia-se do seu trabalho e o olha, examina, lê ou ouve como se nunca a tivesse visto ou ouvido antes. Podemos dizer que, ao criar, o artista realiza um movimento que vai do seu interior para fora, exteriorizando uma ideia ou um sentimento. Quando o público frui a obra, realiza o movimento inverso – de fora para dentro, interiorizando-a (COSTA, 2004, p. 132). Podemos compreender que o papel do espectador é fundamental para o artista, pois é ele, o espectador que frui o trabalho criativo. Lembrando que cada espectador que contemplar a obra irá fruir de uma maneira diferente, tendo sensações distintas e única. Assim, percebe-se que a arte pode ser criada coletivamente, mas a experiência é individual. Desse modo, para Costa (2004), a obra de arte só ocorre por intermédio da fruição do espectador, cuja intensidade depende de alguns fatores como, a subjetividade, a constituição emocional do público acerca dos hábitos artísticos e da competência dos artistas para direcionar o olhar do espectador para a obra de arte. O filósofo Umberto Eco (1993) ao analisar a relação artista – espectador, cria o conceito que denominou de “obra aberta”, para definir a relação existente entre obra de arte e espectador, buscando verificar as diversas interpretações. Para Costa (2004), acerca do que Umberto Eco mencionou, ele corrobora que seja o artista que cria a sua obra, carregada de uma série de significados, porém é na interação com o público que ela se realiza, ou seja, é o espectador que cria o universo de possibilidades e adquire sentido. FIGURA 14 – OBRA: PISCINA. ARTISTA: JORGE MACCHI. OBRA CRIADA EM 2009 FONTE: <https://www.inhotim.org.br/inhotim/arte-contemporanea/obras/piscina/>. Acesso em: 18 jun. 2020. 32 Na obra intitulada “Piscina”, do artista Jorge Macchi (nascido em 1963), em que suas produções artísticas se baseiam em aquarelas desenvolvidas num suporte bidimensional e transformam-se em esculturas tridimensionais, trata-se de uma obra, porém, também é uma piscina em funcionamento. Desta forma, a obra apresentada pelo artista, possibilita uma experiência que vai além da visualização, para um contato de diferentes percepções sensíveis que o público está provocado a experienciar. Segundo Costa (2004, p. 133), “essa qualidade interpretativa, essa flexibilidade e essa inteligibilidade caracterizam a obra aberta, sempre pronta para novos sentidos a cada novo observador”. Essa consciência acerca do papel do espectador é considerada fundamental, porém foi se desenvolvendo aos poucos no contexto social. Conforme menciona Costa, com o desenvolvimento do mercado da arte, bem como, com a inserção da indústria cultural, possibilitou um grande acesso à produção da arte simbólica, porém isso exigiu novos critérios dos trabalhos dos artistas. Para Costa “comunicar-se com esse público e fazer-se compreender por ele passou a ser fundamental para o desenvolvimento artístico” (2004, p. 133). O teórico Jacques Rancière (2019) propõe um estudo dedicado sobre o papel do espectador em meio ao contexto artístico atual. Ele busca discutir a relação existente entre artista, obra e espectador, para ampliar o conceito de espectador embrutecido para “espectador emancipado”, uma vez que a arte contemporânea exige uma postura que vai além da neutralidade de quem aprecia a arte. Para ele, “o espectador deve ser retirado da posição de observador que examina calmamente o espetáculo que lhe é oferecido” (JACQUES RANCIÈRE, 2019, p. 10). Neste estudo, Rancière enfatiza a necessidade de o artista provocar o espectador a ver aquilo que ele não quer ver ou a compreender aquilo que ele não consegue compreender. Assim, o espectador avança para o processo de emancipação quando ele se propõe a participar do que o autor chama de jogo, ou seja, quando ele se envolve na observação, na seleção, na comparação, no questionamento e na interpretação da arte. Para conhecer mais sobre a obra “Piscina”, de Jorge Macchi e outras obras de arte contemporânea, conheça o Instituto Inhotim, localizado na cidade de Brumadinho, em Minas Gerias. Acesse o site do Instituto pelo link: https://www.inhotim.org.br/visite/como- chegar. DICAS 33 Com essa nova proposta de espectador, que estimula a sua criatividade à medida que vai participando, surge a ideia de arte interativa, que é um modo de arte que convida o espectador a fazer parte da proposta artística, ou seja, a arte interativa envolve o espectador a participar da obra. FIGURA 15 – OBRA – VIEWING MACHINE. ARTISTA: OLAFUR ELIASSON. OBRA CRIADA EM 2002-2008 FONTE: <https://www.inhotim.org.br/inhotim/arte-contemporanea/obras/viewing-machine/>. Acesso em:18 jun. 2020. A obra de Olafur Eliasson (nascido em 1967), reinterpreta um caleidoscópio em que o espectador é convidado a participar, posicionando a máquina para um ponto de seu interesse, seja dentro da galeria ou observar algo fora no local. Para o artista, o espectador passa pela experiência e desenvolve o processo perceptivo. A escultura possibilita ampliar nossa visão de mundo, bem como, proporciona um prazer lúdico de sentir, de vivenciar e de perceber a nós mesmos. Leia o livro “O espectador emancipado”, do filósofo francês Jacques Rancière e conheça mais sobre a suaproposta alusiva ao papel do espectador de arte na atualidade. DICAS 34 Na obra de arte interativa o espectador pode transformá-la devido aos estímulos de movimento, de percepções sensíveis que envolvem o ver, o ouvir, o degustar e o próprio tato. A arte interativa é dialógica e dinâmica, buscando uma criação espontânea por parte do espectador que se sente estimulado a se envolver. FIGURA 16 – ELECTRONIC ART – S/D FONTE: <http://arteinteratividade.blogspot.com/2011/06/arte-e-sua-interacao-moderna.html>. Acesso em: 13 abr. 2020. Muitas obras que envolvem a tecnologia, as mídias digitais, também são bastante eficazes quando se propõe uma abordagem de interatividade. Podemos então compreender, por meio dessa nova perceptiva artística, que o espectador se torna parte integrante da obra de arte e que a sua participação também depende do interesse provocado pelo artista e pela obra. Já a sua compreensão é singular, pois depende das percepções causadas pela experiência provocada no encontro com a arte e da sua visão de mundo. 3 CRÍTICA DE ARTE Para entender os sistemas que definem as artes e as regras que permitem pensar as obras e suas potências culturais, é preciso conhecer as principais correntes que buscam direcionar os olhares para as manifestações artísticas. Platão tentou definir uma classificação para as artes em três categorias. Para ele, as artes poderiam ser classificadas em “as que fazem uso da realidade, as que produzem uma nova realidade e as que imitam a realidade” (SALES, 2019, p. 52). Para o filósofo, a maior importância deveria ser dada para as artes que imitam ou artes imitativas. Ele propôs a realidade em uma concepção pautada na divisão entre a dimensão sensível e inteligível. 35 Dessa forma, a arte está conectada a um conceito de valoração que possui natureza sensível, apresentando a problemática da representação artística descolada das formas (ou ideias), mas acoplada aos objetos sensíveis: O artista não é um contemplador das ideias, mas sim aquele que produz imagens sensíveis, produzindo aparências que estão desvinculadas da natureza das coisas. Como as ideias pertencem ao mundo inteligível e os objetos ao mundo sensível, o artista é um tipo de criador de aparências que não tem o conhecimento sobre a natureza das coisas (SALES, 2019, p. 52). A ideia de mimésis está na teoria central da arte concebida por Platão, recebendo diversos significados como de “cópia da realidade, personificação, expressão de emoções. Assim, a imitação será sempre inferior à realidade das ideias, porque, no caso da arte, as obras produzem somente prazer, ou, no máximo, possuem um valor exemplificador relativo” (SALES, 2019, p. 52). Platão ainda teorizou as relações entre harmonia, o belo, absoluto e eterno: O belo estaria no plano do ideal, mais propriamente a ideia do belo em si, que era colocada por ele como absoluto e eterno, não dependendo de outros objetos, ou seja, da materialidade, sendo assim, o belo era a própria ideia de perfeição, pois estava plenamente completa, restando ao mundo sensível apenas a imitação ou a cópia desta beleza perfeita. Ele dissociava o belo do mundo sensível, confinando sua existência ao mundo das ideias, associando-se ao bem, à verdade, ao imutável e à perfeição. É somente a partir do ideal de beleza suprema é que seria possível emitir um juízo estético, portanto, definindo o que era ou não belo, ou o que conteria maior ou menor beleza. Ele estabelecia uma união inseparável entre o belo, a beleza, o amor e o saber. O belo serviria para conduzir o homem à perfeição, ao qual restaria a cópia fiel e a simulação, concepções filosóficas estas que permearão a arte grega e ocidental por um longo período, até o século XVIII, com momentos históricos de maior ou menor ênfase no fazer artístico (SALES, 2019, p. 57). Da mesma maneira que Platão, Aristóteles também propôs uma classificação para as artes. O principal texto que chegou até a contemporaneidade foi “A Poética”, um tratado incompleto que aborda a arte poética partindo de dois O filósofo e matemático do período clássico da Grécia antiga, Platão (427 – 347 a.C.) alicerçou toda filosofia natural e da ciência do mundo ocidental. Em seus diálogos – dos quais a maioria tem como personagem principal o também filósofo Sócrates – desenvolveram-se extensas questões filosóficas, morais, religiosas e culturais que, ainda nos dias de hoje, exercem significativa influência (SALES, 2019, p. 52). IMPORTANT E 36 aspectos centrais: “poética como imitação e a apresentação da estrutura da poesia de acordo com suas diferentes espécies” (SALES, 2019, p. 52). Assim, “A Poética” se configura o trabalho central de Aristóteles que aborda a estética em que busca apresentar definições da arte por meio da poesia. Aristóteles distinguiu o ato de pensar em três dimensões: “a do conhecimento, a da ação e a da realização (a poiesis) [...]” (SALES, 2019, p. 58). Ao avançar em suas especificações, ele traz categorias referindo-se à arte do “teatro, dividido em trágico e cômico; a poesia épica, esta se diferencia da comédia por tratar da gravidade das ações imitadas” (SALES, 2019, p. 58). O que difere o sistema de Aristóteles para o que Platão desenvolveu está no plano da mimese. Para Platão a mimese seria a imitação das coisas, das ideias e fenômenos, produzindo a aparência das coisas na dimensão da arte, portanto seria uma “imitação da imitação, aparência da aparência”. Para Aristóteles, a arte não seria uma manifestação do belo, mas uma maneira de classificação das artes miméticas até chegarem à arte dramática ou à forma do trágico. “A justificativa principal da obra de arte é a mimese, ou seja, a faculdade de imitação do ser humano, cujo fim último, na arte, é levar à catarse e ao prazer” (SALES, 2019, p. 59). Diante desses dois parâmetros fundadores, que a crítica e o pensamento que define o sistema das artes, seus símbolos, códigos de cada linguagem estruturam-se para estabelecer relações de análise, juízo de valor e discussões estéticas. Ao longo da história da arte, a relação entre o crítico e seu objeto de análise foi foco de reflexões. Na tentativa de descrever a relação existente entre a arte e olhar de quem a observa, de quem se põe em estado de fruição, que a crítica de arte ampliou seus olhares. Diante do olhar contemplativo, a arte que se vê, carrega traços de forças históricas que por meio da ação poética do artista permite traçar conexões com um passado, delinear um presente e vaguear pelas ficções de um futuro. A obra de arte como manifestação da ação criadora humana evidencia a historicidade do ser humano e seu juízo de valor simbólico. É comum na atualidade olhares atentos, ora de observador de arte, ora de crítico aguçado a descrever para além de seu senso de gosto ou julgamento. A figura do crítico de arte desponta como a figura que estabelece análise apurada sobre determinada Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.), assim como seu professor Platão, deixou textos que abarcam diferentes assuntos, tais como como a ética, a biologia, a zoologia, a música, a lógica, a física, a metafísica, o governo, a retórica, bem como as leis da poesia e do drama (SALES, 2019, p. 58). IMPORTANT E 37 produção artística. Se considerarmos que no Renascimento, Giorgio Vasari (1511- 1574) escreveu historicamente com base na biografia de artistas, permite pensar em um pioneiro na crítica de arte e na curadoria (CARVALHO, 2010). O repertório cultural e o ser historiador são características fundamentais para compreender as obras de arte e poder analisá-las: O historiador sempre teve uma função importante no entendimento das obras de arte, seja na função de narrador de obras às quais possivelmente o grande público não teria acesso, seja como mediador, informando e descrevendo, por exemplo, passagens mitológicas e, também, atuando como educador, no sentido de interpretar lições morais existentes nas obras (CARVALHO, 2010, p. 2654).Denis Diderot (1713-1784) foi um dos primeiros a escrever sobre obras de arte e vislumbrava um modo de publicar uma espécie de apresentação das obras expostas e comentários sobre elas. Em meados do século XVIII iniciativas passam a criar “livretos explicativos que traziam avaliações, descrições e narrações das obras” (CARVALHO, 2010). Essa ação evolui para a instauração de avaliações valorativas da obra que poderia considerá-la arte e destacar o artista que a criou. Baudelaire desponta como um dos primeiros críticos de arte escrevendo para diversos salões artísticos discutindo a necessidade do crítico de arte e propunha um modo de proceder a análises de obras que fossem poéticas, provocadoras e que expressassem poesia em sua escrita. Ele afirmava que o crítico deveria ultrapassar as questões de amor e ódio ao escrever sobre uma obra de arte, mas traduzir em sonetos ou poemas suas avaliações (CARVALHO, 2010). Ao longo das décadas, as práticas de crítica, os críticos passaram a ser considerados como quem define a relevância das obras de arte, destacando determinado estilo pautado em parâmetros do sistema das artes. O crítico de arte caminha por percursos da sensação quando procura traduzir em palavras a potência da obra em questão. As dimensões do processo de crítica estão em descrever, interpretar, julgar/avaliar e teorizar uma obra de arte (BARRET, 2014). Relatos minuciosos dos detalhes físicos da obra, julgamento sobre a qualidade estética e sua importância histórica pode ser um percurso de crítica promissor. “A crítica é uma linguagem cuidadosa e bem pensada sobre a arte com o propósito de aumentar o entendimento e a apreciação da arte e de seu papel na sociedade” (BARRET, 2014, p. 26). O ato de descrever, interpretar, julgar/avaliar e teorizar obras de arte apresenta sua dimensão de criação textual, poética e estética. A descrição de arte segue alguns princípios como tema, materialidade, técnicas, formas e os aspectos formais da obra analisada. A interpretação da obra consiste na etapa de maior complexidade da crítica de arte. O crítico de arte busca interpretar a obra de modo que permita o observador estabelecer suas próprias conexões e interpretações. “A arte pode ser entendida de vários pontos de vista, de diversos níveis de compreensão, do mais ingênuo ao mais sofisticado. [...] As interpretações variadas enriquecem o entendimento de um conjunto de obras” (BARRET, 2014, 38 p. 103). Interpretar uma obra de arte requer identificar o tema proposto, o que ela provoca pode ser um guia, pode basear-se em uma visão de mundo ou em teorias de arte específicas e o foco são as obras de arte e não os artistas. Cada observador pode ter uma visão diferente para a mesma obra de arte e toda obra de arte traz conexões para outras obras de arte (BARRET, 2014). O julgamento da arte requer o domínio teórico de critérios que podem ser separados em quatro teorias ou categorias de arte: Realismo, Expressionismo, Formalismo e Instrumentalismo. Vamos conhecer cada uma delas: O Realismo está conectado com a tentativa de mostrar como as coisas deveriam ser. Nessa categoria o artista tenta retratar em sua obra de modo que pareça com o real. O Expressionismo é a teoria que busca entender as obras de artistas que buscam em suas experiências inspiração para suas criações na intenção de provocar emoções que viveram em seu público. Os artistas, geralmente possuem intensas vidas internas e usam da técnica de expressão para que possa provocar sentimentos similares ao que o artista sente (BARRET, 2014). O Formalismo e sua teoria buscam reafirmar que a forma é o único critério que a arte deveria ser julgada. Os críticos formalistas tendem a desenvolver críticas de arte baseados exclusivamente na forma. Isso não significa que os críticos formalistas não conhecem as outras áreas da arte, mas que priorizam análises críticas partindo da forma. O crítico com extensa formação de história da arte, filosofia e estética possui a função de escrever de modo que maior número possível de pessoas possa acessar seus textos e ele, portanto, exerce a função de mediação da cultura. O Instrumentalismo na arte refere-se aos usos das criações artísticas para provocar reflexões específicas que podem ser de ordem cultural, social ou educacional. Os críticos que consideram o instrumentalismo das propostas artísticas, analisam que consequências as obras podem estabelecer em determinado público. Alguns artistas criam suas obras com a intencionalidade de modificar aspectos sociais no mundo ou comunidade. Geralmente, as dimensões instrumentalistas aparecem em obras de arte que buscam provocar reflexões em torno de determinado tema e fazem diferença em atitudes sociais (BARRET, 2014). Na arte contemporânea a necessidade do crítico passa pela dimensão da didática e da instrução para acessar ao público que não possui referências conceituais praticadas nas produções contemporâneas. O crítico pode ampliar sua atuação na medida que apresenta análises que conectam o observador ao objeto cultural, configurando um canal ao acesso de bens culturais e aos códigos das artes (BARRET, 2014). Os críticos de arte buscam em obras de arte em diversas áreas, referenciais para definir abordagens de análise. Na atualidade, temos acesso facilmente ao 39 entretenimento, que como doses anestésicas, suspendem a capacidade reflexiva do ser humano. Conectado ao papel do crítico de arte, os promotores de arte e as instituições culturais buscam criar possibilidades de acesso à arte. Os percursos de mediação cultural podem ser uma possibilidade para que o público em geral possa ser inserido nos universos da arte. A charge a seguir apresenta importante provocação em torno dos contextos sociais e do perfil cultural do povo brasileiro: FIGURA 17 – BRASILEIROS CRÍTICOS DE ARTE FONTE: <https://bit.ly/3ouDyQb>. Acesso em: 15 jun. 2020. Os dados apresentados na charge propõem a pensar em que bases temos para analisar, apreciar e quem sabe criticar aspectos de uma obra de arte. A discussão central está conectada com a necessidade de implementar projetos educativos relacionados à cultura artística e a formação de público. Desta forma, o acesso à arte por meio de propostas de mediação cultural poderia ser uma alternativa de educação para a cultura artística. Na arte contemporânea, a abordagem de criação sem a preocupação com cânones clássicos, com a beleza do objeto ou com obsessão pela forma, adentra ao campo da produção de sentidos e significados. A arte contemporânea é sustentada por bases de criação que buscam provocar no observador reflexões acerca de seus contextos, de seu tempo e do mundo em que habita. “Ela quer justamente se opor à velocidade do mundo atual e provocar instantes de fruição intelectual, não mais os pequenos prazeres dos grupos sociais afortunados, mas uma arte possível a todos, que traga consigo os problemas que afligem o homem contemporâneo” (BINI, 2018, p. 76). 40 Nesse sentido, o crítico de arte passa a ter a função de mediador da cultura na medida que recria, acessa e provoca a fruição e permite que, por meio de sua avaliação, insere a arte no contexto cultural. O crítico de arte Ferreira Gullar (2015) defende que a crítica de arte que segue princípios tradicionais, ou que esteja pautada em linguagem estabelecida como possibilidade de expressão, consegue criar a inserção da própria arte em possibilidades de mediação cultural. As criações de arte que extrapolam os padrões hegemônicos ou referenciais tradicionais podem ter menores inserções em contextos culturais, bem como críticas que desconsideram a proposta criadora do artista. Pensar em crítica de arte é pensar nos parâmetros que regem o próprio sistema da arte e recriar acessos aos códigos da cultura artística. Emitir juízo de valor, para além do gosto, para além das motivações individuais para adentrar ao campo da manifestação artística como produto da ação criadora do ser humano, compreendeum desafio a ser enfrentado e desenvolvido. 41 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • A arte vai se modificando com o passar dos tempos devido às concepções estéticas dos artistas que são influenciados pelo contexto social e cultural em que vivem. O artista é considerado como tal, devido ao seu fazer artístico. Assim, o artista é aquele que transmite sua ideia, seu pensamento, suas emoções por meio de sua criação que está implícita em sua arte. • A obra de arte é considerada como um objeto artístico que é produzido pelo artista. Sabemos que todo artista transborda sua criatividade na realização de sua produção artística. A arte contemporânea busca desafiar artistas e público com ideias que integram várias linguagens artísticas e provocam uma arte sensível e inteligível que busca a interação de todos os envolvidos. • O papel do espectador é fundamental para o artista, pois é ele que frui e analisa o trabalho criativo. Lembrando que cada espectador que contemplar a obra irá fruir de uma maneira diferente, cada sensação será única, pois cada um vivencia de maneira diferente o encontro com a arte. O espectador contemporâneo tem o papel de interagir com a arte criada para proporcionar experiências estéticas a tal ponto que ele se torne um espectador ativo e emancipado. • Ao longo da história da arte, a relação entre o crítico e seu objeto de análise foi foco de reflexões. Na tentativa de descrever a relação existente entre a arte e olhar de quem a observa, de quem se põe em estado de fruição, que a crítica de arte ampliou seus olhares. Diante do olhar contemplativo, a arte que se vê, carrega traços de forças históricas que por meio da ação poética do artista permite traçar conexões com um passado, delinear um presente e vaguear pelas ficções de um futuro. 42 1 Arte é uma gama diversificada de atividades humanas na criação de artefatos visuais, auditivos ou de execução (obras de arte), expressando as ideias imaginativas, conceituais ou técnicas do autor, destinadas a serem apreciadas por sua beleza ou poder emocional. Disserte sobre a importância do artista. FONTE: <https://arteref.com/arte/o-que-e-arte/>. Acesso em: 29 maio 2020. 2 A arte é a visão sensível do ser humano acerca do mundo real ou imaginário. Os artistas expressam as suas percepções, emoções e sensações através de diversos recursos linguísticos, plásticos e sonoros. Uma obra de arte, por conseguinte, é um produto que transmite uma ideia ou uma expressão sensível. Trata-se da criação que projeta ou reflete a intenção de um artista. Partindo desse pressuposto, escolha uma obra de arte e realize uma pesquisa acerca da obra. Compartilhe sua pesquisa com os seus colegas de turma. FONTE: <https://conceito.de/obra-de-arte>. Acesso em: 12 ago. 2020. 3 Para Cézanne, um quadro não representa nada. Ele é aquilo que perce- bemos, o seu sentido não é aquilo que é transformado em ideia, em fala; é aquilo que ele é, antes de ser enquadrado em qualquer tema ou teo- ria. É algo que toca num determinado ponto singular da sensibilidade do observador. Só se tem acesso à arte a partir da própria obra, através de um contato direto com ela, um processo ligado à experiência e ao pen- samento. É fundamental ir do conceito ao objeto e do objeto ao conceito. Uma obra de arte é a soma de tudo que ela contém: forma, cor, linha, volu- me, textura, gesto, conceito, ideia. Ela constrói um campo visual que soli- cita do olhar o exercício do conhecimento e da imaginação. Partindo desse pressuposto, acerca da obra de arte, analise as afirmativas: FONTE: <https://bit.ly/34tGfcE>. Acesso em: 12 ago. 2020. I- A obra de arte é considerada uma criação artística resultado da imaginação do artista. II- A obra de arte somente pode ser considerada como arte sendo bela esteticamente. III- O artista possibilita a interação do espectador para ressignificar a obra de arte. IV- Na atualidade, a obra de arte pode ser compreendida como projeto artístico. Assinale a alternativa CORRETA: AUTOATIVIDADE 43 a) ( ) As afirmativas I – II e III estão corretas. b) ( ) As afirmativas I – III e IV estão corretas. c) ( ) As afirmativas III e IV estão corretas. d) ( ) As afirmativas II e IV estão corretas. 44 45 TÓPICO 3 — UNIDADE 1 ARTE E CONHECIMENTO SENSÍVEL E INTELIGÍVEL 1 INTRODUÇÃO Por meio da arte o ser humano pode expressar seus sentimentos e emoções, bem como, apropriar-se da arte como conhecimento. Nesse tópico, nós iremos conhecer a relação da arte com diversas áreas do conhecimento científico, filosófico, histórico, geográfico, sociológico e antropológico, em busca de vivenciar e ou experienciar para possibilitar a ampliação do repertório artístico. Vamos compreender a relação da arte com o contexto social e cultural, buscando analisar sua importância no pensamento político, ambiental e tecnológico da atualidade numa percepção sensível e inteligível. 2 ARTE COMO CONHECIMENTO A arte é uma linguagem da expressividade que para Vygotsky a arte “é o social em nós” (1999, p. 315), ou ainda, é uma linguagem que possibilita o desenvolvimento da consciência, da emoção e da criatividade. Arte é conhecimento, é um meio que possibilita as pessoas interpretar o contexto ao seu redor e relacionar-se com ele. Para Barbosa (2012, p. 4) “arte não é enfeite. Arte é cognição, é profissão, é uma forma diferente da palavra para interpretar o mundo, a realidade, o imaginário, e é conteúdo. Como conteúdo, arte representa o melhor trabalho do ser humano”. Por meio da Arte, podemos conhecer e interagir com ela e com meio na qual está inserida: A arte é uma das mais inquietantes e eloquentes produções do homem. Arte como técnica, lazer, derivativo existencial, processo intuitivo, genialidade, comunicação, expressão, são variantes do conhecimento arte que fazem parte do nosso universo conceitual, estreitamente ligado ao nosso sentimento de humanidade (FERRAZ; FUSARI, 2010, p. 101). Penna (1995, p. 18) acrescenta a ideia de que “se a arte é uma forma de expressão – de expressar emoções, ideias, vivências, é também uma forma de comunicação”. Vygotsky nos ensina: A arte introduz cada vez mais a ação da paixão, rompe o equilíbrio interno, modifica a vontade em um sentido novo, formula para a mente e revive para o sentimento aquelas emoções, paixões e vícios que sem ela teriam permanecido em estado indefinido e imóvel. Ela pronuncia a palavra que estávamos buscando, faz soar a corda que continuava esticada e muda (VYGOTSKY, 1999, p. 316). 46 UNIDADE 1 — O MODO DE PENSAR A LINGUAGEM DA ARTE Dessa maneira, compreendemos que a arte contribui para que o ser humano possa vivenciar experiências, que ela possibilita conhecer o inusitado, reviver emoções e sentimentos, e é, também, um meio de se comunicar com os outros e com o mundo. É importante que os sujeitos passem por vivências que auxiliam na sua visão de mundo, porque a arte possibilita as pessoas a expressarem suas emoções, percepções, sentimentos, criatividade contribuindo para a sua formação humana: O conhecimento de outras épocas históricas, outras culturas, outras formas de expressão, outros modos de sentir e de ver são também fundamentais no desenvolvimento humano. Saber que vivemos num mundo multicultural, de muitas ideias, costumes e culturas, nos fazem, de certa forma, nos sentirmos protagonistas das nossas e de outras histórias (PILLOTTO, 2008, p. 10). A arte é uma forma que o ser humano encontrou para se expressar sensível e inteligivelmente. Desta maneira, no processo de construção do conhecimento, os sujeitos libertos a se envolverem com as manifestações artísticas, sejam eles estudantes, espectadores e ou pesquisadores e críticos de arte, desenvolvem habilidades como identificar, selecionar, classificar, analisar, sintetizar a fim de descobrir o que a arte tem a oferecer materialmente e imaterialmente, de forma abstrata e concreta, real e ou imaginária. A arte, portanto, potencializaque os conhecimentos e as percepções sensíveis dos sujeitos envolvidos se transformem em experiências significativas capazes de promover a aprendizagem em um domínio de estética artística: A percepção artística modifica a vida porque há um efeito de retroação da arte sobre a vida, funcionando como um veículo para retomar nosso vínculo com o mundo, por meio de uma aprendizagem inventiva. Aprendizagem esta, de um tipo especialíssimo que não pode ser confundida com a concepção corriqueira de mera aquisição de conhecimento ou habilidades. O processo educativo que move a aprendizagem da arte revela-se cheio de sutilezas porque envolve colocar em movimento os sentidos/sensações, o sentimento, a razão e a ação (MARTINS; PICOSQUE, 2012, p. 128). Para Martins (2012) a arte não responde, mas “pergunta”, isso quer dizer que as experiências com a arte são geradas de uma aprendizagem da interrogação pela sensação, emoção e pela razão reflexiva e sensível que nos leva a criar conceitos explicativos, mas interrogativos sobre a vida: Se a arte não nos ensina a ver com clareza o mundo e encontrar respostas sobre o mundo, com certeza, ela nos afeta, nos provocando a pensá-lo. Os signos da arte portam em si uma maior potência da diferença, isto é, são polissêmicos, camaleônicos, o que faz com que a arte se imponha como um ponto de vista privilegiado sobre o mundo e as coisas do mundo (MARTINS; PICOSQUE, 2012, p. 128). Desta forma, na arte, descobrimos outros domínios pelos quais somos convocados à invenção e levados a perceber o mundo e os seres do mundo com TÓPICO 3 — ARTE E CONHECIMENTO SENSÍVEL E INTELIGÍVEL 47 uma sabedoria que não cabe nas equações. Assim, “nessa aprendizagem inventiva que a arte está imersa, atinamos para caminhos emocionais, intuitivos que são também modos de conhecimento” (MARTINS; PICOSQUE, 2012, p. 128). As concepções acerca da arte, que envolvem conhecimentos culturais, históricos, filosóficos, científicos levam-nos ao entendimento de que as experiências potencializadas no contato com as manifestações artísticas corroboram com a ampliação das percepções sensíveis e cognitivas, com o desenvolvimento da capacidade criadora, da leitura de mundo e das interações estabelecidas no meio social. 3 ARTE E A SOCIEDADE A arte representa o social em nós, conforme já mencionamos na fala de Vygotsky (1999). Seu efeito se processa em um indivíduo isolado, isto não significa que as raízes e essências sejam individuais. O autor ainda postula que o social pode ser entendido como o homem e seus sentimentos, ou seja, não é algo que acontece somente entre as pessoas. Pode acontecer no contato com imagens ou pela história de um livro. Vygotsky (1999) nos ensina que seria ingênuo pensar que o social acontece somente no coletivo, pois o social se processa também onde há uma pessoa e suas emoções pessoais. Por meio da arte as pessoas podem externar suas emoções, que por sua vez, é resultante de um sentimento social “que foi objetivado, levado para fora de nós, materializado e fixado nos objetos externos da arte, que se tornaram instrumento da sociedade” (VYGOTSKY, 1999, p. 315). A arte como um instrumento da sociedade, possibilita que as pessoas exteriorizem seus sentimentos, que para Vygotsky (1999, p. 315) “seria correto dizer que o sentimento não se torna social, mas ao contrário, torna-se pessoal, quando cada um de nós vivencia uma obra de arte, converte-se em pessoal sem com isto deixar de continuar social”. O sujeito, desta maneira, vivencia experiências significativas para o desenvolvimento do seu processo imaginativo e criativo, tornando pessoal sua experiência, porém seus sentimentos externados foram construídos em vivências sociais. O mural do artista Carlos Eduardo Fernandes (nascido em 1975), conhecido como Kobra, mostra uma ação solidária para ajudar moradores de rua em tempos de pandemia. O artista criou uma obra apresentando diferentes etnias e religiões, por meio do retrato de cinco crianças usando máscara contra a COVID – 19, com o intuito de mostrar a união dos povos na luta contra o coronavírus. 48 UNIDADE 1 — O MODO DE PENSAR A LINGUAGEM DA ARTE FIGURA 18 – OBRA: MURAL DA CAMPANHA: A ARTE DE AJUDAR. ARTISTA: EDUARDO KOBRA. OBRA CRIADA EM 2020 FONTE: <https://bit.ly/3kwAz7c>. Acesso em: 11 ago. 2020. Podemos perceber a interferência dessa obra de arte no contexto social, pois o artista exteriorizou seus sentimentos, suas emoções para um fato, um acontecimento social. Na qual sua obra transmite uma mensagem de fé e união. A arte possibilita que as pessoas possam transformá-la de acordo com o seu cotidiano, com a sua vida, assim, toda e qualquer experiência carregada de sentido para o sujeito envolvido resultará em uma transformação ou mudança significativa do seu pensamento acerca de um determinado assunto. Deste modo, a atividade criadora acontece no cérebro de maneira contínua, pois ele combina informações e reelabora esse processo de criação que é fruto da imaginação (VYGOTSKY, 2009). Na arte, tudo que está internalizado vem à tona, tanto ao observar quanto ao interagir com a obra de arte. Quem observa, analisa e ou participa do contexto artístico é tomado por sensações, conhecimentos e memórias que influenciam na leitura e ressignificação da arte. Para Vygotsky (1999), na arte o pensamento depende de interpretações, do modo como são analisadas e percebidas as imagens, os acontecimentos e quais sentimentos elas proporcionam, cujo resultado da obra é a atividade fantasiosa do pensamento. A arte é fruto de um pensamento emocional inteiramente específico. O conceito relacionado a obra de arte pode ser considerado uma construção social, pois a arte dialoga com os sujeitos para proporcionar reflexões críticas sobre o passado, presente e futuro. Mostra as transformações ocorridas na sociedade e permite ampliar o pensamento sobre os acontecimentos e sobre as possíveis reverberações ideológicas que perpassam o contexto social. Muitas foram as mudanças ocorridas pela sociedade, e, talvez, grande parte se deve ao desenvolvimento tecnológico. Com os avanços da tecnologia robótica, do acesso à internet e da criação de diferentes mídias a arte também se adaptou na sua possibilidade de criação. Percebemos inovações em todos os campos TÓPICO 3 — ARTE E CONHECIMENTO SENSÍVEL E INTELIGÍVEL 49 artísticos que puderam ampliar-se por meio da imagem fotográfica, dos vídeos, bem como dos seus espaços expositivos e de apresentação que transcenderam para espaços públicos e urbanos, bem como para espaços virtuais como é o caso de museus e ou de provedoras de filmes, de música e das artes cênicas. Tudo está em constante mudança numa velocidade acelerada. A arte atual, por sua vez, busca se opor a essa velocidade para proporcionar a experiência estética que não significa apenas estar no local e ou visualizar um objeto artístico e ou uma apresentação. Mas significa que aquele momento realmente significou algo capaz de transformar e ou mudar o pensamento do sujeito da experiência. Podemos inferir então, que devido a essa constante mudança nos padrões estéticos da arte que estão relacionados ao contexto histórico e social global, o sujeito também se transforma conforme a sua subjetividade, considerando as suas percepções individuais de afetamento através do olhar, do ouvir, do tocar, do degustar, ou seja, da interação proporcionada pela arte da atualidade. Deste modo, a arte é uma manifestação do mundo cultural e social que possui significado, no qual Ferraz e Fusari (2010, p. 21) vão compreender que “é interpretação, é conhecimento do mundo; é, também, expressão dos sentimentos, da energia interna, da efusão que se expressa, que se manifesta, que se simboliza. A arte é movimento na dialética da relação homem-mundo”. Assim, o conhecimento artístico potencializa a aprendizagem do ser do mundo que ele habita à medida que é compreendida como uma linguagem que faz sentido na vida dossujeitos, deixando de ser incompreensível e distante da realidade que os rodeia. 4 ARTE E A CULTURA Compreendemos que a arte está ligada à cultura à medida que ela representa a expressividade dos povos e, desta maneira, a arte pode ser uma manifestação estética que diferencia os povos existentes na sociedade. A cultura, além de manifestar hábitos, crenças e costumes de um povo, também influencia na criação artística. Referente à cultura, Barbosa (1998, p. 16) postula que “não podemos entender a cultura de um país sem conhecer sua arte”, porque a arte é uma manifestação que está associada ao pensamento e ao modo de agir de um coletivo, e por isso, se torna um importante meio para a identificação cultural de cada região, ela é e representa a identidade de cada povo, de cada país. Para a autora, é por meio da arte que as pessoas apreendem a realidade do seu contexto, desenvolvendo desta maneira a capacidade crítica, pois permite “analisar a realidade percebida e desenvolver a criatividade de maneira a mudar a realidade que foi analisada” (BARBOSA, 1998, p. 16). Compreendemos, dessa maneira, que as pessoas em contato com a arte interagem com o meio em que vivem e dialogam com a interculturalidade, pois a arte pode ser um objeto e ou manifestação da cultura, que recria a realidade material e transforma o próprio sujeito por meio das relações sociais estabelecidas. 50 UNIDADE 1 — O MODO DE PENSAR A LINGUAGEM DA ARTE Nesse processo de interação cultural, os sujeitos envolvidos se apropriam do que a arte suscita, deste modo, a educação pela arte possibilita o desenvolvimento da consciência intercultural, numa ampliação do conhecimento sobre à cultura local, regional e global conectadas através dos meios digitais em uma contextualização dialógica com o mundo que os rodeia. Segundo Barbosa (1998), a diversidade cultural possui vários outros termos em seu conceito que estão relacionados ao multicultural e pluricultural, porém a autora considera mais apropriada a designação interculturalidade. Para ela “[...] os termos “multicultural” e “pluricultural” significam a coexistência e mútuo entendimento de diferentes culturas na mesma sociedade, e o termo “intercultural” significa a interação entre diferentes culturas” (BARBOSA, 1998, p. 14). A interação com diferentes culturas possibilita agregar conceitos de outras culturas aos conhecimentos já internalizados e/ou vivenciados durante suas experiências com a arte, bem como, com o relacionamento do meio em que estão inseridos. Por meio do conhecimento artístico é possível entender e valorizar a diversidade cultural existente, uma vez que cada povo cria seus próprios códigos culturais. A arte, desta forma, torna possível essa aproximação do público, que é o sujeito espectador, com as mais diferentes culturas. Os espetáculos teatrais e ou de dança, espalhados pelo Brasil, revelam em suas apresentações as narrativas da história e da cultura dos nossos povos, das nossas etnias, e provocam por meio das encenações artísticas esse olhar sensível e inteligível. São muitos grupos de teatros e ou de dança que apresentam de forma encantadora a poética existente entre a arte e a cultura local, regional e ou nacional. FIGURA 19 – ESPETÁCULO: CORPO DE DANÇA DO AMAZONAS FONTE: <https://bit.ly/3jwV02F>. Acesso em: 11 ago. 2020. O grupo o “Corpo de Dança do Amazonas”, que é uma referência em dança contemporânea do Brasil, criado em 1998, conta com mais de 60 obras criadas com a colaboração de artistas nacionais e internacionais. Um espetáculo TÓPICO 3 — ARTE E CONHECIMENTO SENSÍVEL E INTELIGÍVEL 51 de puro afetamento que envolve o espectador de maneira encantadora para um contemplar envolvente. Desse modo, compreendemos que as pessoas ao interagirem com a arte, se inter-relacionam com diferentes áreas do conhecimento, dialogando e trocando informações culturais que auxiliam no desenvolvimento de sua formação. Segundo Barbosa (2012, p. 33), o reconhecimento da arte “representa a apoteose cultural de uma sociedade”, ou seja, é a identidade cultural desta sociedade, e por isso, é preciso possibilitar a reflexão acerca das questões culturais nos diferentes espaços formais e não formais de educação. Para Barbosa (1998) os países considerados industrializados compreendem que a cultura pode ser revelada por diversos significados devido às diferenças semânticas. Enquanto nos países de terceiro mundo, falam da necessidade de busca pela identidade cultural, os países industrializados mencionam a leitura cultural e ecologia cultural. Desta maneira, no mundo industrializado, a questão cultural é, [...] centrada no fornecimento de informações globais e superficiais sobre diferentes campos de conhecimento (cultural literacy) e na atenção equilibrada às diversas culturas de cada país (ecologia cultural). No Terceiro mundo, no entanto, a identidade cultural é o interesse central e significa necessidade de ser capaz de reconhecer a si próprio, ou, finalmente, uma necessidade básica de sobrevivência e de construção de sua própria realidade (BARBOSA, 1998, p. 14). Sobre o desenvolvimento cultural, a autora considera como “alta aspiração de uma sociedade” que, de certo modo, “só existe com desenvolvimento artístico” (BARBOSA, 2012, p. 33), porque podemos somente considerar uma sociedade artisticamente desenvolvida, quando ao lado de uma produção artística de alta qualidade há, também, um público com alta capacidade de entendimento cultural da produção. 5 ARTE E POLÍTICA Iniciamos fazendo alusão a Marcuse (1981), que postula que a arte não pode mudar o mundo, porém ela contribui para ampliar a consciência de homens e mulheres, para que possam mudar o mundo. Desse modo, vamos refletir acerca da relação entre arte e política, que, conforme menciona Costa (2004) é de longa data que essa relação sempre foi conflituosa e delicada. Para a autora a política é um conjunto de relações de poder estabelecidas numa sociedade e ações que visam a conservação do poder pelos grupos que têm e as que buscam obtê-lo, ou seja, as ações revolucionárias (COSTA, 2004, p. 93). Essa relação de poder entre a arte e a política já ocorre desde as primeiras manifestações artísticas que surgiu na Grécia. Para Costa (2004) os filósofos 52 UNIDADE 1 — O MODO DE PENSAR A LINGUAGEM DA ARTE reconheciam que a arte tinha um papel pedagógico na sociedade. Desse modo, eles desejavam que a arte pudesse estimular a questão do patriotismo, bem como, a veneração aos heróis gregos. Os filósofos consideravam a arte como uma atividade civil, por isso que os artistas realizavam obras públicas em praças, edifícios oficiais e os templos. Na Idade Média, quem tinha o poder absoluto da arte era a Igreja Católica e a nobreza. As maravilhosas obras arquitetônicas evidenciavam o poder dos feudais, bem como, do clero. Mas foi também, na Idade Média, que segundo Costa (2004, p. 93), “as ciências tomaram consciência da importância e da racionalidade da arte”, desse modo, colocou a arte num lugar privilegiado e digno perante a comunidade científica, evidenciando, assim, seu papel político e ideológico. As grandes mudanças que ocorreram na arte foram, sem dúvida, com a inserção da sociedade moderna. Conforme menciona Costa foi na sociedade moderna que, favorecendo a profissionalização do artista e sua autonomia diante das corporações de ofício, criou as condições para que se discutisse a função da arte, a independência do artista e as suas relações com o poder (2004, p. 93). Desse modo, artistas, críticos, cientistas e até o próprio público passaram a entender o papel social da arte. Foi o socialismo, que surgiu no século XIX, que mais analisou a função da arte na sociedade. Para Costa (2004), o socialismo foi uma doutrina política que criticava veementemente o capitalismo e a sociedade burguesa. Para os socialistas a produção artísticas estava a serviço dos interesses da burguesia, porém para elesa verdadeira arte possibilitava a conscientização política. “Os socialistas reconheceram que o poder revolucionário da arte não está num determinado estilo ou tema, mas no desenvolvimento da livre expressão, que, por ter origem nos sentimentos mais íntimos do ser humano, é sempre contestadora e libertária” (COSTA, 2004, p. 94). Desse modo, por meio da livre expressão, os artistas demonstram sua criatividade e talento, expressam suas visões particulares acerca da sociedade. Referente ao reconhecimento das relações entre a arte e a política, seja ela conservadora e ou revolucionária, abriu espaço também para o controle e regulamentação da produção artística, que cerceava a liberdade dos artistas. Conforme menciona Costa (2004), os regimes autoritários estabeleceram duras e rígidas regras e censura em relação à arte. Sabemos que o controle das artes já ocorre ao longo da história, porém tornou-se mais radical no século XIX, “à medida que a profissionalização e a autonomia do artista lhe garantiram maior liberdade criativa” (COSTA, 2004, p. 95). Na sociedade brasileira, a censura em relação à arte esteve presente em diversos acontecimentos históricos, segundo Costa (2004, p. 95), “com a corte portuguesa e a Igreja Católica se revezando na função fiscalizadora de nossa produção artística desde os tempos coloniais”. Mesmo após a proclamação da independência, a monarquia presente no Brasil ainda continuou a vigiar os hábitos TÓPICO 3 — ARTE E CONHECIMENTO SENSÍVEL E INTELIGÍVEL 53 culturais, sendo que nesse período foi inserido o neoclassicismo e, rejeitado o barroco existente no Brasil na época. Com o advento da república, a monarquia ainda tinha o poder sobre a arte e estabeleceu um legado autoritário como novos mecanismos de controle na arte. Com a chegada do modernismo no Brasil, ocorreu uma grande mudança nas artes, segundo Costa (2004, p. 96) “o modernismo foi um importante movimento que propunha a valorização da origem popular de nossa cultura”. Nas décadas de 1940 e 1950, as artes amadureceram e as instituições artísticas se regularizaram, devido ao contato com os artistas estrangeiros. No momento em que a arte conseguiu atingir uma sintonia com a produção artística internacional e, além disso conseguiu uma infraestrutura mínima para a formação dos artistas, bem como, para realização das obras, de reuniões, de cursos e exposições, aconteceu o golpe militar em 1964 (COSTA, 2004). Se o controle da arte sempre foi tão difícil, imagina nesse período, em que o controle e a fiscalização da arte atingiu um patamar insustentável pela repressão. Nessa época foram censuradas e proibidas algumas músicas, novelas, teatros sendo considerados imorais e subversivos. Segundo Costa (2004), a produção artística desse período foi considerada muito representativa, principalmente por “mostrar a capacidade de resistência e denúncia dos artistas” (COSTA, 2004, p. 97) conseguiram enfrentar a censura e apresentar a mensagem por meio de suas obras de artes. A censura no Brasil somente foi extinta em 1988, porém as questões ligadas à função política da arte ainda não ficaram muito definidas, pois o controle sobre a produção artística fica por conta do Estado. Com a chegada da tecnologia, onde não há mecanismo político centralizado que controle a expressividade dos artistas, voltaram à tona as questões acerca das discussões da liberdade de expressão. Segundo Costa (2004), com o enfraquecimento das instituições públicas, desse modo, foi necessário criar outro meio de financiamento as produções artísticas. Foi nesse momento que as empresas e ou mercados começaram a investir nas artes, em troca diminuíam suas dívidas com o Estado. Para Costa (2004) tratava-se de uma forma “do antigo mecenato renascentista, quando os artistas no alvorecer de sua autonomia e profissionalização, empregavam-se nas cortes europeias”, porém, os empresários investindo nas artes, contratavam os espetáculos, musicais entre outras linguagens artísticas que lhe proporcionavam publicidade e, não pelo caráter artístico. No momento atual, percebe-se que a arte se volta para uma perspectiva de criticidade para acontecimentos e pensamentos que norteiam a sociedade atual. Para Dantas (2008, p. 539), “em outras palavras, o lugar de manifestação política na arte não se explica pelas intenções do artista, mas pela maneira como está se transforma em obra. A obra de arte contemporânea deve conservar a tensão entre o estético e o político, entre a arte e a não-arte”. Nesse sentido, o autor analisa a relação de conhecimento e pensamento em torno da arte para dizer que 54 UNIDADE 1 — O MODO DE PENSAR A LINGUAGEM DA ARTE existe uma potência crítica da obra de arte sobre o seu poder de interferir nos movimentos do indivíduo e da sociedade. Desse modo, podemos compreender que são necessárias e urgentes as discussões acerca das questões legitimadas no âmbito artístico, sejam elas de ordem políticas, culturais e ou de poder, mas acima de tudo torna-se fundamental que sejam respeitados a liberdade de expressão de profissionais ligados à esfera artística para que a arte possa continuar a inventar e reinventar seu tempo e espaço. 6 ARTE E O MEIO AMBIENTE Já conversamos, nesta unidade, acerca da função da arte, porém, com o passar do tempo, percebemos que a arte também se modifica e sua intencionalidade claramente se transforma. Assim, vamos continuar refletindo acerca da poética artística contemporânea no contexto social? A arte busca criar diálogos com todas as áreas possíveis e, nessa relação, permite questionar o pensamento e as ações das pessoas na sociedade em que vivem, buscando mudanças de comportamentos. Entre tantas áreas do conhecimento percebe-se que a arte vem se aproximando do ambiente natural para desenvolver suas práticas artísticas a fim de contribuir com reflexões e consciência sobre o espaço que é habitado. Nesta relação do diálogo com a arte, nós podemos observar na obra da artista coreana Jean Shin (nascida em 1971), realizada a partir de discos de vinil derretidos e esculpidos formando uma onda, na qual a proposição faz refletir acerca da efemeridade da música, bem como, refere-se ao gosto musical das pessoas, representados pela coleção de disco. Jean Shin recolhe materiais do cotidiano e, os transforma em expressões da identidade de consumo, por meio do seu olhar interpretativo e das formas dos objetos. Para criar suas instalações, esculturas ou vídeos ela recolhe objetos como frascos de comprimidos, garrafas de vidros, discos de vinil, troféus entre outros materiais (RODRIGUES, 2010). As instalações e ou esculturas criadas pela coreana Shin, demonstram a vida cotidiana das pessoas, acerca das questões coletivas que os cidadãos enfrentam num contexto social, ou seja, um simples objeto que pode ser comum as outras pessoas, Shin transforma-os em obras de arte observando a forma destes objetos. TÓPICO 3 — ARTE E CONHECIMENTO SENSÍVEL E INTELIGÍVEL 55 FIGURA 20 – OBRA: SOUND WAVE (ONDAS DE SOM). ARTISTA: JEAN SHIN. OBRA CRIADA EM 2012 FONTE: <https://www.ecycle.com.br/3961-arte-e-meio-ambiente-ambiental-sustentavel-susten- tabilidade>. Acesso em: 5 maio 2020. Compreendemos que a arte tem o poder de sensibilizar e possibilitar uma experiência estética nas pessoas, pois a arte impulsiona o desenvolvimento perceptivo, a sensibilidade, a criatividade, a expressividade e o conhecimento. Desse modo, por meio da arte é possível enfatizar a defesa e preservação do meio ambiente. Muitos artistas, preocupados com a poluição e desmatamento, fazem críticas por meio de suas criações e intervenções artísticas, transmitindo assim, suas emoções e ideais. Nesse atual contexto social, podemos compreender a importância das manifestações artísticas em prol da reflexão, da sensibilização e da proteção do meio ambiente, isso porque o espaço natural passou a ser pensado como expositivo e de apresentação da arte: O olhar de muitos artistas,a partir dos anos de 1960, seja nas instalações, seja em outras linguagens visuais, volta-se à natureza como fonte de inspiração. Campos, jardins, paisagens etc. Passaram a ser temas recorrentes nas artes visuais. Contudo, várias foram as mensagens embutidas em cada obra, variando desde o alerta à destruição da natureza pelo progresso até a comercialização da arte como mercadoria, além de impressões mais intimistas do artista. O artista passou a buscar um espaço interior, uma obra de arte quase espiritual, para dar espaço aos seus sentimentos (FUGANTI, 2018, p. 145). Este olhar aguçado para as questões de crítica e denúncia da natureza, também são percebidas nas obras do artista Frans Krajcberg (1921-2017). Ele demonstrava em seus trabalhos a preocupação com a degradação do cenário brasileiro, e, desta forma, denunciava por meio das suas criações a destruição da natureza. As obras de artes de Krajcberg contêm uma mensagem alertando acerca da destruição, desmatamento e queimadas das florestas. 56 UNIDADE 1 — O MODO DE PENSAR A LINGUAGEM DA ARTE FIGURA 21 – OBRA: SEM TÍTULO. ARTISTA: FRANS KRAJCBERG FONTE: <https://bit.ly/3mhl7fI> Acesso em: 5 maio 2020. Ele recolhia dos locais de desmatamento as árvores que foram queimadas e as transformavam em esculturas. Suas obras de artes possuem um caráter de ativismo, ou seja, tinham o objetivo de chamar atenção da sociedade acerca do desmatamento, bem como das queimadas. Muitos artistas buscam propor a leitura e a contextualização crítica por parte do público, utilizando materiais e se apropriando de espaços inusitados de apresentação de sua obra. Essas práticas artísticas inovadoras potencializam mostrar a degradação do espaço natural e possíveis tragédias ambientais para sensibilizar as pessoas da necessidade de começar a atuar em proteção do meio ambiente. A arte denominada de arte ecológica, ecoarte ou arte sustentável, tem como objetivo a denúncia das questões ambientais, pois os projetos artísticos muitas vezes envolvem a restauração desses determinados locais protegendo e ou denunciando os problemas do ecossistema. O artista Hugo França (nascido em 1954) desde a década de 1980, transforma madeiras descartadas pela fábrica de móveis ou árvores condenadas em belíssimos bancos, cadeiras, mesas, entre outras esculturas. No Instituto Inhotim é possível contemplar vários de seus trabalhos que estão espalhados pelo parque. TÓPICO 3 — ARTE E CONHECIMENTO SENSÍVEL E INTELIGÍVEL 57 FIGURA 22 – OBRA: RESÍDUO FLORESTAL. ARTISTA: HUGO FRANÇA – S/A FONTE: <https://www.inhotim.org.br/blog/natureza-que-renasce/>. Acesso em: 18 jun. 2020. Podemos perceber, na obra de Hugo França, a valorização dos recursos da natureza, bem como, a utilização para a sustentabilidade. Desse modo, a arte ambiental ou arte da terra faz referência ao exagerado consumismo da sociedade capitalista, pela não valorização dos recursos da natureza e pela utilização de produtos não sustentáveis, poluindo cada vez mais o meio ambiente. Os artistas que têm como propósito a consciência ambiental, são tomados pelas preocupações referentes a essas questões e buscam aproximar a arte com a natureza para sensibilizarem os espectadores. Outro artista que tem como base nas suas criações aspectos voltados à consciência ambiental é Vicente José de Oliveira Muniz, mais conhecido como Vik Muniz (nascido em 1961), no qual cria produções usando materiais alternativos que são descartados pela sociedade, ou seja, o que é considerado lixo. FIGURA 23 – OBRA: DA SÉRIE “LIXO EXTRAORDINÁRIO”. ARTISTA: VIK MUNIZ FONTE: <https://bit.ly/3mhl7fI>. Acesso em: 5 maio 2020. 58 UNIDADE 1 — O MODO DE PENSAR A LINGUAGEM DA ARTE Assista ao documentário denominado Lixo extraordinário, que conta o trabalho de Vik Muniz em um aterro sanitário no Rio de Janeiro. Acesse o link https://www.youtube. com/watch?v=jY1uzlXE-9o. DICAS Por meio dessas obras de arte, os artistas pretendem conscientizar a sociedade que as mudanças em relação à natureza devem começar por toda humanidade. Todos nós temos um papel fundamental para recuperar a natureza, seja uma empresa gerenciada por empreendedores ou pelas crianças que estão iniciando sua vida escolar. A obra de arte pode servir de inspiração para ampliar a visão de mundo da sociedade em relação ao que está acontecendo, bem como, aquilo que necessitamos buscar enquanto conhecimento e sensibilização. São manifestações artísticas que chocam, que provocam sensações de angústia, mas também nos levam a estar mais próximos do meio ambiente para juntos promover a criação. São diferentes projetos com percepções distintas a serem descobertas. Arte e natureza num mesmo habitat. O artista contemporâneo, muitas vezes, sai do seu ateliê para desenvolver suas obras também ao ar livre, aproximando-a do seu público. A obra “A origem da obra de arte” da artista Marilá Dardot é uma proposta de instalação que fica exposta ao ar livre, na qual a interação do público faz parte da criação da obra de arte. O público é provocado a formar palavras com os vasos de letras de cerâmica, bem como, pode realizar o plantio das sementes (INHOTIM, 2014). FIGURA 24 – OBRA: A ORIGEM DA OBRA DE ARTE. ARTISTA: MARILÁ DARDOT. OBRA CRIADA EM 2002 FONTE: <https://bit.ly/3dV7pfI>. Acesso em: 18 jun. 2020. TÓPICO 3 — ARTE E CONHECIMENTO SENSÍVEL E INTELIGÍVEL 59 São obras de arte que se integram ao seu espaço da arte de tal maneira que tudo que faz parte daquele contexto se torna a obra. Atualmente, artistas exploram superfícies planas ou montanhas, lagos e mares ou o próprio céu, entre outras possibilidades, considerando os elementos naturais como o vento, a chuva, a neblina, o sol, a temperatura, os sons e toda a paisagem que rodeia a obra para integrar-se ao projeto artístico. FIGURA 25 – OBRA: SONIC PAVILION (PAVILÃO SÔNICO). ARTISTA: DOUG AITKEN. OBRA CRIA- DA EM 2009 FONTE: <https://www.inhotim.org.br/en/inhotim/arte-contemporanea/obras/sonic-pavilion/>. Acesso em: 18 jun. 2020. Na obra Sonic Pavilion, o artista criou um pavilhão de vidro e aço, onde foram instalados diversos microfones em uma abertura existente dentro do pavilhão que revela o som da terra. Por meio destes microfones, bem como, de amplificadores o som é transmitindo em tempo real para o interior do pavilhão de vidro, onde estabelece uma relação com a experiência auditiva com o espaço (INHOTIM, 2014). São obras que transformam as percepções do espectador para com a natureza ou a própria natureza é transformada pela arte. Assim, a arte potencializa por meio da sensibilização e da reflexão crítica a educação dos sujeitos. Isso acontece quando somos provocados a perceber a urgência em ações para com o cuidado com a natureza, uma vez que tanto necessitamos usufruir dos recursos provenientes dela. 60 UNIDADE 1 — O MODO DE PENSAR A LINGUAGEM DA ARTE 7 ARTE E TECNOLOGIA Entre os séculos XIX e XX aconteceu uma grande revolução no mundo com a invasão da tecnologia em todo o espaço por meio de suas fibras ópticas, levando com uma rapidez as mensagens e o acesso às mais diversas informações. Já no século XXI, a tecnologia é tão rápida que basta um toque das mãos para adentrar no mundo tecnológico e ter acesso a todo o tipo de informação. Para Costa (2004, p. 112) “o ritmo de vida passou por um processo crescente de aceleração e as tecnologias se integraram umas às outras, formando conexões e aproximando setores da vida humana anteriormente isolados”. Desse modo, com o advento das mídias digitais, bem como, da comunicação em rede, a arte também foi estimulada a explorar as novas possibilidades estéticas. A arte teve que se adequar, não que os artistas deixaram de utilizar as técnicas tradicionais, mas muitos artistas em busca do inusitado e de atrair o público, ousaram em transformar suas produções em algo que envolvesse o espectador: Esse processo, que transformou radicalmente o cotidiano, os espaços públicos, os cenários e os hábitos de vida,teve um impacto enorme na arte e nas relações que ela mantinha com outras áreas da atividade humana. Os artistas não puderam ficar imunes a formas inéditas de representação da vida, de expressão e de produção material. Novas tendências, novas linguagens, novas reflexões abalaram os alicerces do mundo artístico (COSTA, 2004, p. 113). Nesse novo contexto tecnológico em que a arte se permite reinventar-se, surgem novos atos, bem como, novos gestos, criando imagens, sons, movimentos numa mesma produção artística. As mídias digitais têm a interatividade como sua principal característica permitindo a fruição de forma que avance para a pesquisa e para a participação do público. A fotografia, a vídeo arte, a internet arte, arte cibernética, bem como todas as linguagens artísticas que se utilizam de alguma ferramenta tecnológica, alguma mídia digital ou de algum processo tecnológico, são inovações que permitem maior interatividade e ou uma ampliação das poéticas artísticas contemporâneas. Percebemos que as artes visuais, a música, as artes cênicas, a dança, bem como a própria literatura modificou a forma de apresentar suas produções. No século XX, com a inserção da tecnologia na sociedade, muitos artistas vanguardistas tiveram que repensar sua maneira de criar a arte, ou seja, buscaram questionar os valores estéticos existentes nas suas próprias obras. Para compreender a função interativa, vamos entender o contexto tecnológico na arte: Para muitos artistas, o advento da Internet significava que os computadores já não eram apenas meras ferramentas para manipular imagens, desenhar convites para exposições nas galerias [...]. De repente, os computadores tornaram-se uma porta para uma comunidade internacional de artistas críticos, curadores, colecionadores e outros entusiastas do meio artístico. Apesar de alguns artistas utilizarem a Internet como forma de disseminar a documentação do trabalho feito com meios convencionais, outros abordavam a Internet como um meio próprio ou como um novo tipo de espaço no qual intervinham artisticamente (JANA; TRIBE, 2007, p. 10-11). TÓPICO 3 — ARTE E CONHECIMENTO SENSÍVEL E INTELIGÍVEL 61 Com a inserção da internet, os artistas começaram a criar e ressignificar suas produções utilizando diferentes suportes digitais para apresentar, divulgar e registrar os seus trabalhos. Podemos considerar a inserção da tecnologia como um mundo novo que se abre para novas experiências poéticas, que podem provocar o espectador de forma assustadora, mas também, de forma a surpreendê-lo. Segundo Costa (2004), o público se encanta, mas reage como que diante de um enigma onde pinturas são apresentadas numa tela de cristal líquido, na qual o espectador pode juntá-la por meio de um controle remoto, como se fosse montar um quebra-cabeça. Pode ser que o público ainda precise de um tempo maior para se acostumar com as mudanças da arte, porém tais experiências que relacionam a arte e a tecnologia possibilitam uma aproximação maior do público. As pessoas têm maior acesso ao conhecimento artístico devido à internet e, desta forma, conseguem conhecer a arte e a cultura das diferentes sociedades por meio das mídias. Sabemos que não é novidade que a arte pode ser encontrada em diversos lugares numa sociedade, buscando dialogar com o espaço. Contudo, não basta apenas ver a obra, faz-se necessário instigar o olhar, para compreender a intencionalidade do artista, bem como, produzir leituras significativas das obras: não apenas a arte local, mas conhecer a arte de outros povos possibilita ao indivíduo ampliar a sua compreensão de cultura. Assim, a experiência ocorre continuamente, porque a interação do ser vivo com as condições ambientais está envolvida no próprio processo de viver. Nesse sentido, a experiência não é apenas individual, mas uma contínua interação com o meio social (DEWEY, 2010, p. 109). Essa interação que a tecnologia permite para conhecer os diferentes contextos sociais provocam a valorização e o respeito pela diversidade cultural. Um espaço institucional que está se aliando à tecnologia para divulgar e ampliar o campo de interação, são os museus. Os espaços museológicos atuais, instigados pela ampliação do contato do público com suas exposições, vêm se desafiando para a possibilidade de visitações também virtuais. Assim, é possível atingir todas as pessoas, que até então, nunca tiveram contato com o museu, nem tão pouco, com a arte. Por meio das mídias digitais é possível ver coleções de arte e navegar pelos museus do mundo inteiro. Conheça os museus nacionais com visitações virtuais acessando o site do Instituto Brasileiro de Museus – IBRAM: https://www.museus.gov.br/museus-do-brasil/. DICAS 62 UNIDADE 1 — O MODO DE PENSAR A LINGUAGEM DA ARTE Nesse tópico, nós refletimos sobre as conexões que a arte estabelece na vida das pessoas de forma a contribuir para a educação da sociedade. A arte está ligada à cultura dos povos e gera conhecimentos articulados com várias áreas distintas. Assim, a arte permite as pessoas vivenciar, sentir e conhecer. TÓPICO 3 — ARTE E CONHECIMENTO SENSÍVEL E INTELIGÍVEL 63 ARTE NA EDUCAÇÃO: ASPECTOS CONCEITUAIS E METODOLÓGICOS NA CONTEMPORANEIDADE. Silvia Sell Duarte Pillotto Com relação à arte na educação, seguindo a linha de pensamento de Efland, Barbosa, Jagodzinski (2005), historicamente tudo o que realizamos em termos de arte na educação hoje é contemporâneo. Entretanto do ponto de vista conceitual, assumimos ou não uma postura contemporânea no ensino da arte: Uma arte-educação pós-moderna enfatiza a habilidade de interpretar obras de arte sob o aspecto do seu contexto social e cultural como principal resultado da instrução. Isso é válido não apenas para a supostamente séria, a arte erudita, mas também para as tendências e impactos da cultura popular e cotidiana (EFLAND, 2005, p. 117). O que Efland (2005) coloca em discussão nesse momento é que para além das tendências modernistas da arte na educação, os olhos daqueles que ensinam e daqueles que apreendem não estão condenados a uma linearidade estanque, ou seja, apreendemos e ensinamos paralelamente, num círculo que se faz de idas e voltas na história. Nesse movimento não há lugar para verdades absolutas, nem para a separação entre as questões relacionadas à construção de um olhar sensível e dos conhecimentos apropriados; entre a arte e o contexto sociocultural. Essa ideia pode nortear as nossas experiências de docência para além daquilo que muitas vezes nos é imposta: na mídia, nos livros, nas falas de teóricos, nos modismos, entre outros. Mais importante do que seguir uma linha teórica única e definitiva, é pensar em estratégias que oportunizem a nós professores e a nossos alunos uma ampliação de repertórios estéticos, artísticos e culturais. Mesclar questões do presente com o passado; do local com o universal, da arte com as manifestações culturais, podem representar uma abertura sem fim ao conhecimento: [...] enfatizar o fato de o passado tornar-se referência numa obra contemporânea, haja vista as maneiras pelas quais os artistas pós- modernos reciclam imagens e citações de obras de arte e estilos anteriores. O pós-modernista enfatiza a continuidade com relação aos estilos artísticos do passado. Porém, as tradições do passado não são necessariamente reverenciadas como tradições sagradas, mas podem ser exploradas por meio da sátira e da paródia (EFLAND, 2005, p. 178). Importante ressaltar que nesse processo dialógico entre presente-passado- presente não existe linearidade cronológica da história, ou seja, corremos menor risco de salientarmos como melhores “obras” as anteriores em detrimento das LEITURA COMPLEMENTAR 64 UNIDADE 1 — O MODO DE PENSAR A LINGUAGEM DA ARTE atuais ou vice-versa. Além disso, o aprendizado se constitui em real significado quando delegamos esforços na construção reflexiva do conhecimento, isto é, o passado não mais se configura como algo estático, é tãodinâmico quanto o presente, faz parte, interage com ele, é também presente, conferindo novas significações ao contexto contemporâneo. No espaço da arte na educação se faz necessário tratar de questões que: [...] situam textos culturais (visuais e literários) num contexto que os obra às possibilidades de reconhecer a globalização das aparições humanas universais democráticas de justiça, igualdade, liberdade e independência para todos, isto é, uma cidadania planetária no qual o imperialismo, nas suas formas pós-coloniais, o patriarcado, os problemas ecológicos, as distinções de classes forjadas pelo capitalismo transnacional e os direitos de preferências sexuais permaneçam em evidência na pauta educacional (JAGODZINSKI, 2005, p. 684). Efland (2005) nos aponta sérias reflexões no sentido de pensarmos para além do ensinar e apreender arte na sala de aula. Para o professor não basta mais ter o “domínio” conceitual, histórico e artístico da arte. É necessária uma construção permanente, na qual os conhecimentos, identidades e consciência planetária são realimentados, no sentido de ampliar o universo do professor para outros campos de conhecimento, como os da filosofia, da antropologia, da sociologia, da psicologia, entre outros. Tão importante como conhecer e vivenciar a arte é compreendê-la no espaço/lugar e tempo culturalmente construído. Apreender e ensinar: movimento dialógico A aprendência e o conhecimento da arte e sobre arte significa apropriações que vão muito além de simples decodificações do objeto de estudo. Quando avançamos especificamente para o campo da arte cuja natureza é subjetiva, expressiva e complexa, as contradições e conflitos são visíveis em vozes que ecoam em dúvidas: É possível apreender arte? Essa questão é abordada no contexto das escolas, das universidades, das famílias, dos encontros e seminários nas áreas da educação, da arte e da arte na educação, causando certa inquietude naqueles que atuam nesse contexto. Professores de arte estão constantemente buscando respostas, no sentido de aquietar essa dúvida maior: o que se apreende na disciplina de arte? Qual o seu significado para a vida, de fato? Se optarmos pelo viés multicultural, poderíamos pensar que arte no currículo é fundamental, pois possibilita um olhar mais amplo e complexo sobre o patrimônio cultural da humanidade, mais ainda, nos permite refletir sobre que sujeitos somos nós, construtores também desse patrimônio. Segundo Richter (2004, p. 51) “precisamos de um ensino da arte por meio do qual as diferenças culturais sejam vistas como recursos que permitam ao indivíduo desenvolver seu próprio potencial humano e criativo, diminuindo o distanciamento existente entre arte e vida”. Porquanto, numa visão pós-crítica é possível compreender o aprendizado da e sobre a arte como forma de ampliar repertórios a partir de nossas experiências TÓPICO 3 — ARTE E CONHECIMENTO SENSÍVEL E INTELIGÍVEL 65 artísticas, estéticas e culturais. Segundo Meira (2003, p. 22), “expressar é criar um mundo interativo com a comunicação social, vital e ambiental, onde o que está fora do corpo é reelaborado a partir de sua presença”. Nessa perspectiva, é possível compreender o ato de apreender e conhecer arte também como processo de simbolização e reorganização dos signos que interpretamos. É desta forma que criamos ideias e para tê-las devemos ser instigados a criar. “Ter ideias é, em certo sentido, estar engajado num processo de formação de conceitos nos quais estes são abstraídos ou criados, ou seja, transformados em realizações formais” (MEIRA, 2003, p. 20). Dessa forma, é possível apreender e conhecer os códigos subjetivos da arte e relacioná-los as nossas experiências, dando formas e sentidos diferenciados e únicos a partir da forma que os vemos e que os internalizamos. Nesse caso, perceber o mundo significa uma atitude estética, ou seja, através e pela arte podemos apreender a ver todas as coisas de uma forma especial, superando os limites da não compreensão para uma compreensão ainda que subjetiva de nós mesmos. Nesse aprendizado existe sempre uma escolha: por onde olhamos, o que queremos ver e o que fazermos com o que selecionamos, percebemos e vemos – apropriação – transformação – ressignificação. Por esse viés, podemos pensar na apreensão do conhecimento “nos níveis da racionalidade (argumentação/reflexão) e do sensível (emoção, intuição, percepção...). Ambos devem ser considerados nos processos de aprendizagem, pois fazem parte do contexto cotidiano e, sobretudo, da experiência humana” (PILLOTT, 2004, p. 53). Se optarmos pela reflexão epistemológica de que a arte se caracteriza pelo conhecimento, pela expressão, pela comunicação, e nessa tríade pelas transformações, é viável também a compreensão de que ciência e arte caminham muito próximas, embora cada uma delas possua natureza específica. A ciência: [...] constitui uma busca de conhecimento, na qual o pensamento é o agente fundamental da criatividade, cujo objetivo é modificar a qualidade de vida, subjugando a realidade aos desejos humanos. Considera que o cientista usufrui um prazer inerente à busca do conhecimento. Entretanto, a ciência não é cópia ou apreensão fotográfica da realidade, mas construção, modalidade expressiva, portanto criativa, da consciência. Neste sentido, não lhe é concedido um status diferente do da arte ou da religião, sendo todas as formas simbólicas, formas de consciência da realidade e sua criação (VASCONCELOS, 2001, p. 33). Ao transpormos essas questões para o contexto da educação, uma pergunta ecoa em nossas consciências: em que medida, enquanto professores de arte permitimos aos alunos serem construtores de um conhecimento compartilhado? Segundo Vasconcelos (2001, p. 98), “a pessoa cria ao reconhecer novas relações em antigas questões, ao construir respostas às situações problemas, ao redimensionar os próprios aprendizados”. Ou seja, a construção do conhecimento só tem sentido quando socializado, compartilhado com as pessoas. Para tanto, é imprescindível 66 UNIDADE 1 — O MODO DE PENSAR A LINGUAGEM DA ARTE que as nossas práticas pedagógicas estejam fundamentadas em ações flexíveis, democráticas e principalmente comprometidas, considerando cada aluno como um ser único num universo de muitas diferenças. FONTE: <https://www.apecv.pt/revista/imaginar51web.pdf>. Acesso em: 24 set. 2020. 67 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • A arte é uma forma que o ser humano encontrou para se expressar sensivelmente e inteligivelmente. Desta maneira, no processo de construção do conhecimento, os sujeitos libertos a se envolverem com as manifestações artísticas, sejam eles estudantes, espectadores, pesquisadores e ou críticos de arte, desenvolvem habilidades como identificar, selecionar, classificar, analisar, sintetizar a fim de descobrir o que a arte tem a oferecer materialmente e imaterialmente, de forma abstrata e concreta, real e ou imaginária. • A arte possibilita que as pessoas possam transformá-la de acordo com o seu cotidiano, com a sua vida, assim, toda e qualquer experiência carregada de sentido para o sujeito envolvido resultará em uma transformação ou mudança significativa do seu pensamento acerca de um determinado assunto. • As pessoas em contato com a arte interagem com o meio em que vivem e dialogam com a interculturalidade, pois a arte pode ser um objeto e ou manifestação da cultura, que recria a realidade material e transforma o próprio sujeito por meio das relações sociais estabelecidas. • A arte busca criar diálogos com todas as áreas possíveis e, nessa relação, permite questionar o pensamento e as ações das pessoas na sociedade em que vivem, buscando mudanças de comportamentos. Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. CHAMADA68 1 A arte é uma área do conhecimento historicamente construída que colabora com o enriquecimento de nosso repertório cultural, nos permitindo interagir com diversas manifestações artísticas culturais e assimilar seus significados. Acerca da arte como conhecimento sensível e inteligível assinale (V) para verdadeiro e (F) para falso em cada uma das alternativas: FONTE: <https://bit.ly/3jtUpPa>. Acesso em: 29 maio 2020. ( ) A arte é conhecimento, pois possibilita que as pessoas possam interpretar o mundo ao seu redor. ( ) Arte só é conhecimento quando for valorizada por outra disciplina, para que os estudantes possam manifestar sua expressão. ( ) A arte possibilita que as pessoas possam vivenciar experiências, e possibilita conhecer o inusitado. ( ) A arte potencializa os conhecimentos, bem como, as percepções sensíveis das pessoas. ( ) A arte possibilita a ampliação dos conhecimentos culturais, históricos, filosóficos e científicos. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) F – F – V – F – F. b) ( ) V – F – V – V – V. c) ( ) F – F – F – V – V. d) ( ) V – F – V – F – V. 2 A arte possui um caráter estético e está intimamente relacionada com as sensações e emoções dos indivíduos. O conceito de artes visuais é muito mais amplo e está relacionado com o próprio nome “visual”. Ou seja, representa aquela arte que conseguimos ver: pintura, escultura, arquitetura, teatro, dança, fotografia, dentre outras. Partindo desse pressuposto, comente sobre a relação da arte com a cultura. FONTE: <https://www.todamateria.com.br/o-que-e-arte/>. Acesso em: 29 maio 2020. 3 Em comparação com o museu físico, o conceito de museu virtual traz como principal diferença sua capacidade de estabelecer relações entre os objetos, dando a oportunidade aos visitantes de se concentrarem em seus temas de interesse e de estabelecer um diálogo interativo com o museu. Com isto, sinaliza uma mudança de paradigma, de um enfoque centrado na coleção (no objeto) em direção à audiência (nas pessoas). Dessa forma, além da capacidade de estabelecer conexões entre blocos de informação, uma característica essencial do museu virtual é o fato do ambiente virtual ser interativo, o usuário ganhando importância (BEARMAN, 1995). Partindo desse pressuposto, realize uma pesquisa acerca dos museus virtuais AUTOATIVIDADE 69 existentes e, escolha um para elaborar um folder explicando e apresentando o museu. Compartilhe sua pesquisa com sua turma! FONTE: <http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2010/resumos/R5-2227-1.pdf>. Acesso em: 11 ago. 2020. 70 REFERÊNCIAS AIDAR, L. Arte contemporânea. 2010. Disponível em: https://www.culturage- nial.com/arte-contemporanea/. Acesso em: 8 ago. 2020. AZEVEDO JUNIOR, J. G. Apostila de arte – artes visuais. São Luís: Imagética Comunicação e Design, 2007. 59 p.: il. BARBOSA, A. M. A imagem no ensino da arte: anos oitenta e novos tempos. São Paulo: Perspectiva, 1991. BARBOSA, A. M. Arte/educação contemporânea: consonâncias internacionais. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2010. BARBOSA, A. M. Inquietações e mudanças no ensino da arte. 7. ed. São Paulo: Cortez, 2012. BARBOSA, A. M. (Org.). Tópicos e utópicos. Belo Horizonte: C/Arte, 1998. BARBOSA, A. M. Arte-educação no Brasil. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 1999. BARBOSA, A. M. Arte-educação: leitura no subsolo. São Paulo: Cortez, 1997. BARBOSA, A. M. Arte-educação: conflitos e acertos. São Paulo: Max Li- mond,1984. BARBOSA, A. M. COUTINHO, Rejane G. (Org.). Arte/educação como mediação cultural e social. São Paulo: UNESP, 2009. 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São Pau- lo, SP: Martins Fontes, 2010. 74 75 UNIDADE 2 — ARTE NA EDUCAÇÃO ESCOLAR OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • entender a importância do ensino de arte no contexto da educação es- colar nacional; • analisar o papel do ensino de arte e do professor de arte no contexto de educação escolar na atualidade; • compreender a aprendizagem das linguagens artísticas de acordo com o que preconiza a Base Nacional Comum Curricular – BNCC – nos dife- rentes níveis de ensino da Educação Básica; • conhecer os processos de ensino e aprendizagem do conhecimento teó- rico e prática da arte na perspectiva da Base Nacional Comum Curricu- lar (BNCC); • compreender as competências, habilidades e objetos de conhecimento em torno dos saberes artísticos locais, regionais, nacionais e mundial- mente reconhecidos, auxiliando no planejamento do professor em sala de aula. Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – A IMPORTÂNCIA DE ENSINAR E APRENDER ARTE NO BRASIL TÓPICO 2 – CONHECENDO AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS NA BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) TÓPICO 3 – PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM EM ARTE DE ACORDO COM A BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 76 77 UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO A arte sempre se fez presente no cotidiano das pessoas, desde os primórdios até os dias de hoje. Na Antiguidade não era denominada como arte, mas era uma forma de expressão cultural e cotidiana para suprir necessidades do dia a dia. A arte foi se ajustando com as concepções políticas e sociais de cada tempo, foi fazendo parte da vida das pessoas de maneiras involuntárias e até mesmo funcionalista e religiosa. Na Antiguidade, o ensino da arte era somente passatempo e distração na escola. Assumia função lúdica e auxiliava os professores na compreensão de conceitos de outras disciplinas. Com sua obrigatoriedade a arte assumiu novas concepções de ensino e passou a ter muitas funções de acordo com o período em que foi trabalhada. A partir da década de 1980, a sua importância e forma de ser ensinada foi muito questionada e isso foi um marco para o ensino de arte. Na contemporaneidade, a arte assumiu uma função extremamente fundamental para a formação integral dos alunos. Mais do que ensinar conteúdos, artistas e obras de arte, o conhecimento artístico possui muitas funções e contribuições na vida social e cultural dos estudantes. A arte é uma forma que o ser humano encontrou para se expressar. Desta maneira, no processo de construção do conhecimento, o estudante desenvolve habilidades como identificar, selecionar, classificar, analisar, sintetizar e, ao se expressar, ativa estas habilidades devido a uma necessidade intelectual própria na sua organização. A arte no contexto educacional contribui para o desenvolvimento integral dos estudantes, pois, além de levá-los a conhecer diversos tipos de culturas, também auxilia no “desenvolvimento do pensamento artístico e da percepção estética, que caracterizam um modo próprio de ordenar e dar sentido à experiência humana” (BRASIL, 1997, p. 19). A arte na escola auxilia os estudantes no desenvolvimento de várias habilidades, que por meio destas, possibilitam que reconheçam o ambiente na qual estão inseridos, interferindo com e sobre ele, a partir de suas experiências com arte no meio social. A seguir, nós vamos conhecer o papel da arte na educação escolar. Vamos discutir também a realidade e expectativas futuras do ensino da arte no Brasil. E, por fim, refletir sobre a prática pedagógica reflexiva e emancipadora que alguns autores discutem na literatura. TÓPICO 1 — A IMPORTÂNCIA DE ENSINAR E APRENDER ARTE NO BRASIL UNIDADE 2 — ARTE NA EDUCAÇÃO ESCOLAR 78 2 O PAPEL DA ARTE NA EDUCAÇÃO ESCOLAR A presença do ensino de arte é extremamente importante no contexto escolar, pois contribui para muitos aspectos no desenvolvimento dos alunos. Vivemos em um país de diversidade artística e cultural e conhecer a arte do nosso povo faz parte de um processo de conhecimento da nossa própria história e da nossa origem. Somos influenciados por muitas manifestações que vieram de nossos antepassados, seja por processos de colonização, imigração ou escravidão. As manifestações trazidas por esses povos entraram no nosso país e fizeram morada ao longo de séculos, até os dias de hoje: Não mais se pretende desenvolver apenas uma vaga sensibilidade nos alunos por meio da Arte, mas também se aspira influir positivamente no desenvolvimento cultural dos estudantes pelo ensino/aprendizagem da Arte. Não podemos aprender a cultura de um país sem conhecer sua Arte. A Arte como uma linguagem aguçadora dos sentidos transmite significados que não podem ser transmitidos por intermédio de nenhum outro tipo de linguagem, tais como a discursiva e a científica. Dentro da arte, as artes visuais tendo a imagem como matéria-prima, tornam possível a visualização de quem somos, onde estamos e como sentimos (BARBOSA, 2003, p. 17-18). O ensino da arte na escola deve ser repensado, seguindo as orientações dos documentos oficiais, não somente com um enfoque na arte ocidental, mas valorizando a cultura nacional, estadual, regional e local. Na educação infantil, a importância do ensino de arte vem ao encontro da necessidade de "conhecer e trabalhar com as culturas plurais, dialogando com a riqueza/diversidade cultural das famílias e da comunidade" (BRASIL, 2019, p. 37). O papel da arte na formação dos estudantes do ensino fundamental, é ampliado ao integrar o trabalho com componentes que buscam a prática artística aliada à análise e reflexão. A arte tem o papel fundamental de proporcionar momentos de investigação, de reflexão e de pesquisa sobre quem somos, de onde viemos e em que mundo vivemos. O estudo de uma obra de arte, faz com que alunos se tornem seres pensantes e questionadores para passar a se perceber ao longo dos tempos como sujeito ativo da sociedade: A prática investigativa constitui o modo de produção e organização dos conhecimentos em Arte. É no percurso do fazer artístico que os alunos criam, experimentam, desenvolvem e percebem uma poética pessoal. Os conhecimentos, processos e técnicas produzidos e acumulados ao longo do tempo em Artes visuais, Dança, Música e Teatro contribuem para a contextualização dos saberes e das práticas artísticas. Eles possibilitam compreender as relações entre tempos e contextos sociais dos sujeitos na sua interação com a arte e a cultura (BRASIL, 2019, p. 191). TÓPICO 1 — A IMPORTÂNCIA DE ENSINAR E APRENDER ARTE NO BRASIL 79 O papel da arteno ensino médio segue a mesma perspectiva de contribuir para a autonomia dos sujeitos e o desenvolvimento de pessoas reflexivas, críticas e ativas na sociedade. Por meio da conexão entre a apreciação (estéticas, culturais, históricas, sociais, filosóficas etc.) e a participação dos alunos em processos criativos, o professor proporciona o desenvolvimento dos alunos das mais diversificadas e ampliadas formas de expressar seus sentimentos e ideias e ampliar sua capacidade de compreensão, acolhimento e respeito às diferenças. Na escola, a disciplina de Artes proporciona aos alunos o desenvolvimento de muitos estímulos que contribuem para seu desenvolvimento intelectual e sensível. Os professores ao promoverem atividades que desenvolvem os estímulos emocionais, contribuem para que os alunos tenham mais consciência de si, ampliam sua capacidade de comunicação e expressão de sentimentos e ideias, desenvolvem a articulação entre seus pensamentos e ações, passam a aceitar diferentes opiniões e, por fim, desenvolvem a autoconfiança e empatia uns pelos outros. Segundo Barbosa (2012), a escola é um espaço propício para o acesso à informação e à formação estética da sociedade, pois ela favorece o desenvolvimento da multiculturalidade brasileira, aproximando, deste modo, aos códigos culturais de diferentes etnias. A autora ainda complementa que a escola seria uma instituição pública em que o “princípio democrático de acesso à informação e formação estética de todas as classes sociais” (BARBOSA, 2012, p. 34), pois sem o acesso e o conhecimento da arte e da história, não seria possível uma consciência de identidade nacional. Este espaço educacional também propicia a multiculturalidade de aproximação de códigos de diversos grupos. Sobre o desenvolvimento cultural, a autora considera como “alta aspiração de uma sociedade” que, de certo modo, “só existe com desenvolvimento artístico” (BARBOSA, 2012, p. 33), porque podemos somente considerar uma sociedade artisticamente desenvolvida, quando ao lado de uma produção artística de alta qualidade há, também, um público com entendimento cultural da produção. Por isso, a escola é o lugar ideal para desenvolver a capacidade cultural em muitos estudantes, porém Barbosa (2012, p. 33) adverte que “um fazer consciente e informado torna possível à aprendizagem em arte”. A escola é o espaço ideal para o desenvolvimento cultural e integral dos estudantes, porém para que aconteça uma aprendizagem significativa e consciente, o ensino de arte deve ser planejado de modo que incentive os alunos a participar deste processo educacional. Para Barbosa (2012), o ensino de arte na contemporaneidade pretende formar estudantes conhecedores, fruidores, decodificadores da obra. Este é um dos propósitos da arte na escola, instigar os estudantes a serem capazes de fruir, de sentir e vivenciar arte e, não apenas conhecer as obras de arte que possuem um valor cultural e histórico incontestável, mas eles necessitam ser instigados a UNIDADE 2 — ARTE NA EDUCAÇÃO ESCOLAR 80 reconhecer todas as produções artísticas criadas na humanidade, arte erudita e também a arte popular. Precisamos “permitir que cada um encontre, a partir da obra apresentada, seu devir artista” (BARBOSA, 2012, p. 37), no momento que os estudantes observam e fazem a leitura de uma obra de arte ou de outra imagem é mais que apreciá- la, é produzir sentidos, significados e possibilitar conhecimentos aos estudantes. Referente à produção de sentido, significado e conhecimento do estudante, podemos entender que a arte envolve criatividade, conhecimentos e técnicas. Desta maneira, compreendemos, que a escola deve possibilitar o acesso da arte a todos, tornando-se uma escola democrática, que garanta o desenvolvimento dos conhecimentos artísticos e estéticos: Garantir que os alunos conheçam e vivenciem aspectos técnicos, inventivos, representacionais e expressivos em música, artes visuais, desenho, teatro, dança, artes audiovisuais. Para isso é preciso que o professor organize um trabalho consistente, através de atividades artísticas, estéticas e de um programa de Teoria e História da Arte, inter-relacionados com a sociedade em que eles vivem. Entendemos que é possível atingir-se um conhecimento mais amplo a aprofundado da arte, incorporando ações como: ver, ouvir, mover-se, sentir, pensar, descobrir, exprimir, fazer, a partir dos elementos da natureza e da cultura, analisando-os, refletindo, formando, transformando-os. É com essa abrangência que a arte deve ser apropriada por todos os estudantes, indiscriminadamente (FERRAZ; FUSARI, 2010, p. 22). Evidenciamos que a arte é criatividade e está imbricada na experiência vivida. Que por meio dela, decorrem as criações ou inovações, sempre relacionadas com aspectos da realidade e da imaginação. Para Vygotsky (2009), o momento de criação é aquele quando criamos algo inusitado, indiferentemente do que já existia no mundo ou uma simples construção da mente, conhecida apenas pela pessoa que imagina. A imaginação, neste processo de criação, está diretamente articulada à emoção e a constituição de imagens mentais que geram certas emoções: A imaginação não repete em formas e combinações iguais impressões isoladas, acumuladas anteriormente, mas constrói novas séries, a partir das impressões e as mudanças destas para que resulte uma nova imagem, [...] constitui, como se sabe, o fundamento básico da atividade que denominamos imaginação (VYGOTSKY, 1998, p. 107). Importa que os estudantes desenvolvam sua criatividade, conforme suas experiências são constituídas, na medida em que o seu cérebro vai incorporando e internalizando as experiências vivenciadas que acontecem por meio da interação. TÓPICO 1 — A IMPORTÂNCIA DE ENSINAR E APRENDER ARTE NO BRASIL 81 3 REALIDADE E EXPECTATIVAS FUTURAS DO ENSINO DA ARTE NO BRASIL A história do ensino de arte no nosso país passou por uma série de conquistas e mudanças de concepções políticas e educacionais. Nesse sentido, a arte nem sempre foi entendida com a concepção de formação integral na escola, como preveem os documentos oficiais. Durante muito tempo a arte não existia no currículo escolar e quando passou a ser ensinada não assumiu a função da perspectiva atual, ou seja, contribuir com a formação de sujeitos críticos, reflexivos e transformadores da sociedade. O ensino de arte foi incluído no currículo escolar pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) de 1971, com o nome de Educação Artística, como “atividade educativa” e não como disciplina, por meio da Lei nº 5692/1971, e só depois de algum tempo, que foi providenciada a criação das licenciaturas curtas e plenas polivalentes para suprir a necessidade dos professores: Na década de 1980, o fracasso dessas licenciaturas curtas e da própria polivalência foi amplamente discutido pelos professores em seus currículos se adequando às demandas daquele momento. Os cursos de licenciatura em Arte no Brasil vêm, ao longo de sua curta história, caminhando e reboque das políticas educacionais implantadas, tentando conjugar estas exigências com as necessidades dos professores (COUTINHO, 2003, p. 154). Nessas condições, os professores de arte na década de 1980, vivenciaram um processo de formação pedagógica com uma proposta de ensino técnico, com o objetivo de desenvolver habilidades dos alunos no contexto escolar, pois os profissionais, em sua maioria, eram artistas, poetas, atores e músicos da região, desvinculados ou tendo contato pela primeira vez com a licenciatura, ou seja, com a área da docência: Como consequência de um quadro de carências, observa-se nas escolas brasileiras, de um lado, professores sem preparação para lecionar arte-educação, desconhecedores do processo criativo e, de outro lado, profissionais formados pelas universidades que se limitam a trabalhar na linha da autoexpressão, do espontaneísmo (PILLAR; VIEIRA, 1992, p. 6). Com o passar das décadas, o ensino de arte tevemuitas conquistas, e a principal delas foi a obrigatoriedade do ensino de arte na Educação Básica. A atual LDB, estabelece que: Art. 26. Os currículos do ensino fundamental e médio devem ter uma base nacional comum, a ser complementada, em cada sistema de ensino e estabelecimento escolar, por uma parte diversificada, exigida pelas características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e da clientela.§ 2o O ensino da arte, especialmente em suas expressões regionais, constituirá componente curricular obrigatório nos diversos níveis da educação básica, de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos (LDB, nº 9.394/96, art. 26 § 2º). UNIDADE 2 — ARTE NA EDUCAÇÃO ESCOLAR 82 Outra conquista foi a sistematização da “proposta triangular” no país, conduzido pelos estudos da educadora e pesquisadora Ana Mae Barbosa, na década de 1980, trazendo para os professores de artes uma nova visão sobre a arte na escola e as possibilidades de práticas pedagógicas significativas aos alunos. Para Azevedo (2010, p. 84), a estruturação da abordagem triangular aconteceu em uma época que o ensino da arte era dominado pela livre expressão: A Abordagem Triangular surgiu em um tempo de pasteurização da ideia de livre expressão reforçada pela representação do arte/educador como o mago das técnicas, estimulador da, em outras palavras: era apenas uma figura que “decorava” as festas escolares e comemorava o dia do folclore; aquele que elegia os talentosos estudantes de arte e os destacam; aquele que, aos olhos dos colegas de matemática, língua portuguesa, história e geografia, era visto como o menos importante, pois a Arte não era pensada nem como conhecimento nem como cultura e sim, como mera atividade que não exigia esforço intelectual – era fundamentada apenas em uma vaga ideia de criatividade. A abordagem triangular foi estruturada em três eixos de ação: ler, contextualizar e produzir. Após esse avanço muitos teóricos expandiram essa visão, seguindo a mesma perspectiva, ou seja, fundamentados em uma concepção pós-moderna. Apesar de muitas conquistas e avanços, ainda hoje nos deparamos com uma realidade não muito satisfatória nas escolas. Segundo Fusari e Ferraz (2001), devemos lembrar que as aulas de arte são influenciadas por três pedagogias: tradicional, novista e tecnicista. Essas três pedagogias, embora escritas separadamente, na prática se imbricam, pois, os professores trazem em suas práticas exemplos de experiência que tiveram quando alunos: O ensino de arte realizado nas escolas brasileiras, nos melhores casos, tem-se restringido a desenvolver a criatividade, compreendida como espontaneidade e autoliberação. No entanto as artes têm uma especificidade e muito mais a oferecer às crianças além do desenvolvimento da criatividade. A criatividade está presente em todas as áreas do conhecimento, não sendo, assim, um objeto exclusivo da arte educação (PILLAR; VIEIRA, 1992, p. 6). O maior desafio encontrado na escola é firmar que o ensino de arte possui conteúdos próprios e é uma disciplina que contribui muito para o desenvolvimento dos alunos em vários aspectos. Os documentos oficiais atuais preconizam que na escola o ensino de arte deve associar os diferentes saberes artísticos e os professores devem sugerir práticas artísticas que possibilitam atividades de criação, leitura, produção, construção, fazendo com que os alunos exteriorizem e reflitam sobre as manifestações artísticas e culturais. A sensibilidade, a intuição, o pensamento, as emoções e as subjetividades se manifestam como formas de expressão no processo de aprendizagem em arte. Nesse sentido, os professores de arte possuem o papel fundamental de assumirem práticas significativas na escola, embasado nas concepções previstas pelos documentos oficiais: TÓPICO 1 — A IMPORTÂNCIA DE ENSINAR E APRENDER ARTE NO BRASIL 83 O componente curricular contribui, ainda, para a interação crítica dos alunos com a complexidade do mundo, além de favorecer o respeito às diferenças e o diálogo intercultural, pluriétnico e plurilíngue, importantes para o exercício da cidadania. A Arte propicia a troca entre culturas e favorece o reconhecimento de semelhanças e diferenças entre elas (BRASIL, 2019, p. 191). Cabe aos professores dessa geração lutar para que o espaço da sala de aula não seja utilizado como espaço de recreação, desenho livre, trabalhos manuais, reprodução de tarefinhas e trabalhinhos, tirando o direito dos alunos do contato com as experiências artísticas. Não podemos permitir que o ensino de arte nas escolas seja exercido somente como complemento de outras disciplinas, por meio de pinturas de desenhos mimeografados, como atividade “livre” para preencher lacunas de tempo, como atividade disciplinar para tranquilizar e distrair os alunos, ou ainda, como atividades decorativas em festas escolares. Assim como, não podemos permitir que o ensino de artes seja somente um exercício livre e técnico, de uma concepção que tem por objetivo unicamente fazer o aluno desempenhar uma função, operar, executar, mas propor práticas de ensino para estimular que pensem sobre questões sociais, filosóficas, econômicas e políticas, para tornar-se críticos e refletir sobre a arte em paralelo ao contexto de vida atual: Nesse sentido, as manifestações artísticas não podem ser reduzidas às produções legitimadas pelas instituições culturais e veiculadas pela mídia, tampouco a prática artística pode ser vista como mera aquisição de códigos e técnicas. A aprendizagem de Arte precisa alcançar a experiência e a vivência artísticas como prática social, permitindo que os alunos sejam protagonistas e criadores (BRASIL, 2019, p. 191). Vale apena destacar que a prática pedagógica da maioria dos professores não é pura, e sim híbrida, ou seja, ao longo de sua formação acadêmica, profissional e pessoal sofreram influências de muitas concepções, práticas e carências quanto à licenciatura e cursos propostos para sua formação, sejam elas positivas ou não, e isso se reflete na sua prática profissional. Nesse sentido, podemos mencionar que os professores são influenciados pelas concepções que fizeram parte da sua vida, assim, deixam transparecer a sua história na sua prática pedagógica diária. Vale a pena refletir e problematizar: De que maneira os professores podem desenvolver suas aulas de arte a partir das orientações previstas pela Base Nacional Comum Curricular – BNCC? Apresentamos algumas necessidades e recomendações para as políticas públicas e para o próprio professor, para que essa ação se efetive. O primeiro passo importante seria: inserir em cursos de licenciatura, que não possuem, a discussão sobre os processos de ensino e aprendizagem, trazendo para os acadêmicos uma reflexão das concepções de ensino que fazem parte das realidades educacionais, estudos de estratégias para a realização do ensino partindo da concepção pós-moderna. UNIDADE 2 — ARTE NA EDUCAÇÃO ESCOLAR 84 O segundo passo importante seria: implantar cursos de formação continuada, afim de capacitar os professores da Educação Básica, já formados, a partir da reflexão sobre suas ações. Quando falamos em formação continuada não são somente cursos, mas grupos de estudo entre professores. As políticas públicas devem criar espaço para proporcionar aos professores estudar e discutir estratégias pedagógicas da sua área, ou seja, um momento de trocar ideias e experiências, do que deu certo e não na sua realidade. O terceiro passo importante seria: discutir coletivamente sobre o Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola, com ênfase no ensino e aprendizagem enfocando a prática formativa, para que os professores de todas as disciplinas partilharem da mesma concepção. Dentre outras ações que podem ser pensadas pelas políticas públicas para que os professores possam se aperfeiçoar e repensar sua prática pedagógica constantemente. Os professores devem lutar por políticas públicas que venham a garantir as formaçõescontinuadas, e sobretudo, estados e municípios devem rever suas concepções filosóficas de educação para promover mais momentos de análises e discussões entre os profissionais da educação. As universidades, enquanto interlocutora da educação, podem ser parceiras nessa construção com estados e municípios, promovendo pesquisas e diálogos de planejamento com os profissionais da área. É importante perceber que muitos desafios já foram conquistados, principalmente no que se refere à criação dos documentos oficiais que abordam o conhecimento artístico como fundamental para o desenvolvimento humano. Dentre os documentos existentes, estão: a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (DCNEI), o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (RCNEI), a Proposta Curricular dos Estados e Municípios, bem como o Projeto Político Pedagógico da escola. Todos esses documentos norteiam o trabalho pedagógico e contribuem para a qualificação do ensino. A BNCC, por exemplo, propõe que a prática artística realizada na escola, contemplada pelas diferentes linguagens (artes visuais, música, dança e teatro), preze pelo desenvolvimento das competências e habilidades dos alunos, bem como, pela sua formação integral. Isso significa que a arte é uma linguagem necessária para a formação humana e necessita de um olhar ampliado por parte dos professores no seu planejamento educacional: Os processos de criação precisam ser compreendidos como tão relevantes quanto os eventuais produtos. Além disso, o compartilhamento das ações artísticas produzidas pelos alunos, em diálogo com seus professores, pode acontecer não apenas em eventos específicos, mas ao longo do ano, sendo parte de um trabalho em processo (BRASIL, 2019, p. 193). De acordo com a BNCC, a importância da componente arte, para a formação integral dos alunos, é fundamental para a educação, pois, por meio dos processos de aprendizagem artística, eles poderão desenvolver maior consciência de si e de 85 seu entorno social e, ainda, aprimorar sua capacidade de acolhimento e respeito a pessoas e culturas diversas.Desta forma, políticas públicas aliadas ao benefício de ações que auxiliam no planejamento e na execução de práticas pedagógicas para todos os profissionais da educação são essenciais para o momento atual. Esperamos que essas reflexões evidenciem a necessidade de mudanças e avanços na prática pedagógica de cada professor, bem como ofereça aos educadores, em particular aos arte-educadores, pistas para ampliar suas discussões, seus entendimentos e suas proposições acerca do processo de ensino aprendizagem em arte. 4 PRÁTICA REFLEXIVA Você já deve saber que existem diferentes práticas de ensino que são regidas por várias concepções de ensino e avaliação. Nesse sentido, é possível afirmar que algumas concepções contribuem com a aprendizagem dos alunos e outras pouco contribuem para sua emancipação. Em contraposição às práticas reprodutivistas, temos as práticas reflexivas. Freire (2003) aponta para uma educação que não seja reprise das já existentes, mas que permita a construção de um “modelo” que alicerce a sociedade, valendo- se das melhores alternativas de “ensinamentos” e inserindo nela os excluídos. Isso contribui para a consolidação de uma prática educativa que forme cidadãos críticos, reflexivos e conscientes do processo formativo. O profissional prático reflexivo consegue superar a rotinização de suas ações refletindo sobre elas antes, durante e após executá-las. Ao se deparar com situações de incertezas, contextualizadas e únicas, esse profissional recorre à investigação como forma de decidir e intervir. Segundo Alarcão (1996), esse profissional, expressa em suas ações a sua formação, que considera os diversos saberes: curriculares, experienciais e disciplinares. Pensar a educação é um processo que nos faz refletir constantemente sobre a nossa prática docente diária. Alguns estudiosos, como Alarcão (1996), Nóvoa (1999) e Tardif (2007), abordam as características de alguns teóricos sobre e o que realmente acontece no dia a dia dos professores e alunos. Assim, enquanto professor podemos analisar e refletir sobre vários aspectos da educação, mas principalmente sobre a nossa prática docente, com a finalidade de se tornar um profissional prático-reflexivo. O que seria um professor prático reflexivo? Nada mais é do que o professor colocar sua prática pedagógica sob análise e reflexão, ou seja, é quando ele mesmo traz à tona seu dia a dia, suas ações, seu desempenho, seus sucessos e fracassos. De acordo com Alarcão (1996), a formação do professor deveria ser fundamentada em três pilares: a holística, que está ancorada no desenvolvimento do eu articulado à vida cotidiana; a participativa, que promove a construção de 86 saberes por meio da colaboração e da participação e a descentralizadora, que visa à superação da dicotomia entre a teoria e a prática, centrada na problematização dos saberes experienciais. O autor defende que os professores devem ser reflexivos e questionadores da em sua prática pedagógica e que somente assim conseguem fazer com que seus alunos se tornem seres pensantes e críticos na sociedade. Outro autor também traz à tona a formação de professores. Os estudos de Nóvoa (2007) apresentam o desafio da formação de professores centrada na prática e na análise da própria prática. Tardif (2007, p. 36) aborda que o saber docente: “[...] se constitui em um ‘saber plural’, formado pelo amálgama mais ou menos coerente de saberes oriundos da formação profissional e de saberes curriculares: experienciais e disciplinares”. Em sua caminhada enquanto professor, Tardif (2007, p. 223) apresenta que as competências profissionais do professor devem estar: “[...] ligadas às suas capacidades de racionalizar sua própria prática, de criticá-la, de revisá-la, de objetivá-la, buscando fundamentá-la em razões de agir”. Nesse sentido, o professor que busca revisar sua prática se mostra realmente preocupado em procurar estratégias que realmente contribuam para o real desenvolvimento dos alunos Alguns autores do nosso país, como Freire (2003), Libâneo (2008) e Pimenta (2008) destacam em seus estudos a formação e a prática do professor crítico e reflexivo. Criar subsídios e fazer com que os professores reflitam sobre sua prática é essencial nos dias de hoje, já que estamos inseridos em uma sociedade que desafia os jovens, mas que sobretudo valoriza os alunos e seus saberes. Os autores acima nos fazem refletir sobre a importância da formação inicial e a necessidade da formação continuada, que devem fomentar a construção de concepções de ensinar baseado nos fundamentos da formação crítico-reflexiva propondo para a escola um profissional, que vai estar comprometido com a formação integral dos alunos. A prática reflexiva é uma proposta de ensino contemporânea, que define muito mais a conduta do profissional em sala de aula e reflete positivamente na atuação do aluno na sala de aula e na vida. Muitos pesquisadores já abordaram esse termo em seus estudos, mencionando que além de proporcionar momentos de reflexão com os alunos abordam a importância de refletir sobre sua prática docente: A concepção de profissional reflexivo já permeava o trabalho de muitos pesquisadores, ao analisar as contribuições de estudiosos como Shön (2000), Perrenoud (2002), Contreras (2002), dentre outros, percebe-se a referência destes a John Dewey, filósofo e psicólogo norte- americano, como sendo um precursor da ideia de professor reflexivo e da reflexão na prática pedagógica do professor. Perrenoud (2002), por exemplo, afirma que [...] o profissional reflexivo é uma antiga figura da reflexão sobre educação, cujas bases podem ser encontradas em Dewey (PERRENOUD, 2002, p. 13). 87 Alarcão (2003) menciona que a concepção de professor reflexivo se baseia na sua capacidade de adaptar-seàs diferentes realidades de uma sala de aula e no contexto atual em que vivemos no mundo e na nossa comunidade: [...] a noção de professor reflexivo baseia-se na consciência da capacidade de pensamento e reflexão que caracteriza o ser humano criativo e não como mero reprodutor de ideias e práticas que lhe são exteriores. É central, nesta conceptualização, a noção do profissional como uma pessoa que, nas situações profissionais, tantas vezes incertas e imprevistas, atua de forma inteligente e flexível, situada a reativa (ALARCÃO, 2003, p. 41). A reflexão mencionada pelos autores deve ser um ato contínuo. O professor reflexivo deve constantemente confrontar sua prática pedagógica de maneira permanente e contínua. Essa prática de reflexão permite ao professor estar envolvido com os processos de ensino e aprendizagem de sua turma. O ato da reflexão permite aos professores a compreensão de suas ações em sala de aula e promove a autoavaliação, no sentido de analisar constantemente sua prática, e modificá-las se elas não forem bem-sucedidas. Dessa forma, o professor passa a ser um ator importante nesse processo, assumindo a responsabilidade pelo sucesso e possíveis fracassos de seus alunos: É importante salientar que, muitas vezes, o termo "professor reflexivo" é utilizado apenas como um adjetivo, vazio até, de sentido, assim muitos profissionais acabam banalizando o real sentido referente à concepção, sem levar em consideração que a prática reflexiva é permeada por um significado. Não se pode afirmar que um professor realizou uma reflexão para realização de uma determinada atividade, e por isso é um professor reflexivo, se o processo reflexivo que permeou a ação do professor não for permanente nem crítico, é difícil conceber a prática deste como uma prática reflexiva (PERRENOUD, 2002, p. 13). Shön (2000) aborda que o professor reflexivo utiliza algumas etapas necessárias para o processo do profissional reflexivo. As etapas que promovem a reflexão são: a reflexão na ação, a reflexão sobre a ação e a reflexão sobre a reflexão na ação. A seguir, vamos conhecer como cada uma atua nesse processo. 4.1 REFLEXÃO NA AÇÃO Representa a reflexão realizada no ato da ação, o que proporciona uma ampla aproximação do professor com o problema ou necessidade apresentada e uma reflexão sobre a melhor solução para o problema ou para contornar uma situação. A reflexão durante a ação permite ao professor compreender criticamente o processo que naquele momento permeia o que está acontecendo no calor da ação: 88 [...] A reflexão-na-ação tem uma função crítica, questionando a estrutura de pressupostos do ato de conhecer-na-ação. Pensamos criticamente sobre o pensamento que nos levou a essa situação difícil ou essa oportunidade e podemos, neste processo, reestruturar as estratégias de ação, as compreensões dos fenômenos ou as formas de conceber os problemas (SHÖN, 2000, p. 33). De acordo com Shön (2000), a reflexão na ação ocorre no ato de conhecer o problema ou necessidade que se apresenta no momento da ação. O professor refletirá em torno do que seria necessário fazer para solucioná-lo, favorecendo o diálogo entre professor e aluno da situação que está ocorrendo, buscando solucionar os problemas que surgiram, juntos, em um ato dialógico. Essa dinâmica promove no professor, uma análise sobre a ação desenvolvida, procurando despertar nele uma melhor compreensão sobre a situação vivenciada. A reflexão na ação, promove a reflexão sobre as experiências vivenciadas, fazendo com que o professor se sinta mais seguro para lidar com situações semelhantes caso se repitam, a fim de que já tenha consciência do que será necessário fazer, ou como agir.Essa atitude permite ao professor questionar-se acerca da sua ação desenvolvida, buscando compreender suas escolhas e analisar se foram corretas, com a intenção de que, caso seja necessário em outras situações, elas sejam transformadas, atendendo de fato as necessidades apresentadas. 4.2 REFLEXÃO SOBRE A AÇÃO É o momento do professor se sentir provocado pelo resultado da sua ação. Permite que se questione sobre a prática desenvolvida e faz com que, ele busque conhecer os resultados que a sua ação provocou, comparando-os com os resultados esperados. A reflexão sobre a ação gera no professor a capacidade de compreender os significados que a sua ação desencadeou em seus alunos e ele passa a perceber os significados que ela deveria ter a partir de sua prática. 4.3 REFLEXÃO SOBRE A REFLEXÃO NA AÇÃO É o momento do professor se tornar um verdadeiro investigador de sua prática, analisando além das ações desenvolvidas, os saberes que a norteiam, a teoria na qual as ações foram desenvolvidas, agindo criticamente em torno de sua prática: o porquê de refletir e o que o levou a refletir sobre a ação. O processo que envolve a prática pedagógica do professor reflexivo é complexo e envolve uma série de ações, permeadas pela reflexão, porém, para atingir a criticidade necessária ao exercício de uma prática significativa é preciso que o professor revise suas concepções e passe a refletir sobre suas crenças pedagógicas. Nesse sentido, para que um professor queira mudar sua prática pensando na formação integral de seus alunos é necessária uma transformação de suas ações. Atitudes de um professor não reflexivo devem ser substituídas por ações 89 crítico reflexivas. Essa mudança de concepção não acontece de um dia para o outro, ou seja, essa mudança requer reposicionamentos, reconstrução de concepções e que, o professor assuma uma postura crítica frente a sua prática. Ser um professor crítico reflexivo irá depender fundamentalmente da visão do próprio profissional frente às necessidades de seu trabalho, as necessidades de se pesquisar e reconstruir sua prática pedagógica e sobretudo, as necessidades de seus alunos, o que poderá levar a uma profunda transformação e o professor deve estar preparado para tal ato. Como mencionamos, a formação docente é fundamental para dar subsídios ao professor que deseja trabalhar seguindo uma prática reflexiva. Dessa forma, Nóvoa (2010) aborda que a formação inicial educacional precisa estar aliada ao exercício pedagógico, ou seja, os formadores de docentes e os futuros docentes precisam dialogar, comprometendo-se com a aprendizagem dos seus alunos. Nóvoa (2010, p. 23) também aborda a importância da formação continuada no sentido de utilizar essas formações como um sistema de troca de experiências profissionais para a sua complementação pedagógica: “[...]caracteriza o atual ‘mercado da formação’ sempre alimentado por um sentimento de ‘desatualização’ dos professores. A única saída possível é o investimento na construção de redes de trabalho coletivo [...]” (NÓVOA, 2010, p. 23). Outro ponto a se pensar é a própria prática do profissional. Diante disso, resgatamos as ideias de Weisz que, ao se referir sobre a complexidade da prática pedagógica, destaca a não existência de “[...] receitas prontas para serem aplicadas a qualquer grupo de alunos: o professor, diante de cada situação, precisará refletir para encontrar suas próprias soluções e tomar decisões [...]” (WEISZ, 2006, p. 54). Dessa forma, se valoriza a autonomia intelectual do docente ao propor e executar as ações educativas.Diante do exposto, é de suma importância a ressignificação da prática pedagógica, ou seja, pensar sobre a prática de ensino, partindo da concepção da reflexão como um instrumento que norteará o trabalho do professor, e irá favorecer a aquisição de uma nova postura frente aos problemas por ele enfrentados no seu cotidiano, norteando seu trabalho em torno de uma prática que favoreça a aquisição de competências e habilidades significativas em seus alunos, a prática pedagógica crítico-reflexiva. “Avaliar a aprendizagem do aluno é também avaliar a intervenção do professor, já que o ensino deve ser planejado e replanejado em função das aprendizagens conquistadas ou não” (WEISZ, 2006, p. 95). Apartir do momento que tivermos em sala de aula profissionais crítico- reflexivos que utilizam a reflexão como um suporte para a melhoria de sua prática, que investigam os problemas decorrentes dela e buscam encontrar soluções e viabilizar a resolução destes, poderemos acreditar que a educação que é ofertada aos alunos poderá vir a alcançar uma melhora.Para tanto, deve-se ressaltar que para estimular o professor a ser reflexivo, há necessidade de se integrar todos os indivíduos do âmbito escolar: gestores, coordenadores e demais funcionários que iriam, em iguais condições, trilhar de forma conjunta caminhos para se alcançar os objetivos esperados. 90 A reflexão crítica, nesse contexto, se apresenta como um suporte fundamentado para viabilizar essa transformação, utilizando os recursos teóricos em conjunto com a prática pedagógica. Assim, o conhecimento adquirido poderá certamente oferecer o subsídio necessário para a melhoria do trabalho do professor. Acreditar na melhoria dessa prática através da reflexão, é conceber a importância de ofertar às crianças e jovens uma educação com uma melhor perspectiva e melhor qualidade. O professor deve sentir essa responsabilidade e, dentro dos seus limites, favorecer essa mudança, esse certamente não é um discurso meramente teórico, simplesmente porque ele é possível. 5 PROFESSOR EMANCIPADOR E ALUNO EMANCIPADO Outro conceito importante a se refletir nesse tópico é a do “professor emancipado”, que nos remete a uma concepção contemporânea de ensino. Alguns autores como, Hoffmann (2000) e Saul (2000), já apresentaram muitos estudos sobre a avaliação emancipatória. E a postura de um professor emancipado? Qual é a postura didática pedagógica de um professor emancipado? O professor emancipado foi tema de estudo do filósofo Rancière (2002), que apresenta em sua obra um método de Ensino Universal. Esse método foi estruturado pelo pedagogo francês do início do século XIX, Joseph Jacotot. Em seus estudos, Jacotot prevê que todo homem é capaz de instruir a si mesmo, bastando para isso que, “se emancipe intelectualmente”. Conheça a obra: O mestre ignorante, do filósofo francês Jacques Rancière. Nesta obra, o autor descreve uma aventura intelectual do mestre francês Joseph Jacotot, vivida no século XIX (1818), quando foi convidado a ministrar francês a um grupo de estudantes que falavam somente o holandês e Jacotot, por sua vez, ignorava totalmente esta língua. Partindo desta premissa, ele encontrou como saída a utilização do livro intitulado Telémaco para que os alunos pudessem ler e, em seguida, discutir com o mestre. Tal foi sua surpresa ao perceber que mesmo não tendo dado “a seus 'alunos' nenhuma explicação sobre os primeiros elementos da língua” francesa, eles conseguiram superar as suas expectativas, no sentido da apreensão do conteúdo de forma significativa. Neste sentido, ele concluiu que era necessário inverter a lógica do sistema explicador, desenvolvendo, assim, um novo método de ensino e aprendizagem não mais baseado somente na explicação, mas sim na emancipação, que se pode tornar efetiva pela vontade e pelo próprio desejo de aprender ou, mesmo, pelas contingências da situação. DICAS 91 Neste tópico, você aprendeu que: • A presença do ensino de arte é extremamente importante no contexto escolar, pois contribui para o desenvolvimento sensível e inteligível dos alunos, formando sujeitos criativos, reflexivos e participativos na sociedade onde vivem. • A prática reflexiva é uma proposta de ensino contemporâneo, em que a conduta do professor em sala de aula é essencial para que os alunos possam ter um bom desenvolvimento em sala de aula e na sua vida. A reflexão na ação, a reflexão sobre a ação e a reflexão sobre a reflexão na ação são exemplos dessa concepção. • O professor emancipador foi tema de estudo do filósofo Rancière, que apresenta em sua obra um método de Ensino Universal, no qual prevê que todo homem é capaz de instruir a si mesmo, bastando para isso que se emancipe intelectualmente. Para que o aluno, porém, consiga se emancipar, é fundamental primeiramente, que o professor seja ele próprio emancipado. No ensino da arte, esta concepção pode ser compreendida na medida em que os sujeitos ao serem provocados e motivados a fruir e ou produzir uma manifestação artística e cultural, sejam capazes de experienciar e de se educar esteticamente. • Emancipar-se significa fazer com que as pessoas, especialmente os alunos, percebam-se como sujeitos que possuem uma “igualdade de inteligências”. • Cabe aos professores refletir sobre as diferentes formas de ensinar e aprender arte e repensar as metodologias utilizadas em sala de aula para qualificar seu ensino e garantir aprendizagem para seus alunos. RESUMO DO TÓPICO 1 92 1 Shön (2000) aborda que o professor reflexivo utiliza algumas etapas necessárias para o processo do profissional reflexivo. As etapas que promovem a reflexão são: a reflexão na ação, a reflexão sobre a ação e a reflexão sobre a reflexão na ação. Associe os itens, utilizando o código a seguir: I- Reflexão na ação II- Reflexão sobre a ação III- Reflexão sobre a reflexão na ação ( ) É o momento do professor se sentir provocado pelo resultado da sua ação, se questionando sobre a sua prática desenvolvida, e faz com que busque conhecer os resultados que sua ação provocou, comparando-os com os resultados esperados. ( ) Representa a reflexão realizada no ato da ação, o que proporciona uma ampla aproximação do professor com o problema ou necessidade apresentada, compreendendo criticamente o processo no calor da ação. ( ) É um momento do professor se tornar um verdadeiro investigador de sua prática, analisando além das ações desenvolvidas, os saberes que a norteiam, a teoria na qual as ações foram desenvolvidas, agindo criticamente em torno de sua prática. Agora, assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) II – III – I. b) ( ) II – I – III. c) ( ) I – III – II. d) ( ) III – I – II. 2 Baseado nos estudos do professor reflexivo apresente uma estratégia didática em arte que contemple as ideias dos autores estudados. Esse é o momento de repensar alguma estratégia pedagógica e se autoavaliar. Boa reflexão! AUTOATIVIDADE 93 UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é um documento norteador para os profissionais da educação que atuam na Educação Básica. Este documento foi criado para auxiliar professores e gestores educacionais em relação ao seu planejamento pedagógico, propondo caminhos possíveis, para que o ensino e a aprendizagem sejam efetuados de acordo com princípios de igualdade e equidade. A elaboração da BNCC, referente à educação infantil e ao ensino fundamental, foi aprovada pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) e oficializada pelo Ministério da Educação (MEC) no ano de 2017. Somente um ano depois, com a sua aprovação em dezembro de 2018, a BNCC do ensino médio apresentou uma nova visão de currículo para este nível. Importante destacar que a BNCC também passou por um período de estudos e construção dos níveis da educação com a participação da comunidade escolar. Esse documento faz com que o professor possa constantemente repensar seu propósito de ensinar e de que forma vem atuando no ensino, ou seja, qual sua postura atual. Esse norteador do ensino dá as diretrizes e caminhos que o professor pode utilizar em cada área do conhecimento. Em arte, a BNCC sinaliza conceitos subjetivos que devem ser percebidos pelo professor em sua prática de sala de aula, portanto, este estudo apresentará as linguagens da arte de acordo com a BNCC e como se manifestam em vários níveis de ensino da Educação Básica. De acordo com o documento a arte: [...] contribui para o desenvolvimento da autonomia criativa e expressiva dos estudantes, por meio da conexão entre racionalidade, sensibilidade, intuição e ludicidade. Ela é, também, propulsora da ampliação do conhecimento do sujeito relacionado a si,ao outro e ao mundo. É na aprendizagem, na pesquisa e no fazer artístico que as percepções e compreensões do mundo se ampliam no âmbito da sensibilidade e se interconectam, em uma perspectiva poética em relação à vida, que permite aos sujeitos estar abertos às percepções e experiências, mediante a capacidade de imaginar e ressignificar os cotidianos e rotinas (BRASIL, 2018, p. 474). As artes permeiam de forma interdisciplinar todas as dez competências gerais que norteiam a BNCC. As dez competências são: TÓPICO 2 — CONHECENDO AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS NA BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) 94 UNIDADE 2 — ARTE NA EDUCAÇÃO ESCOLAR 1. Conhecimento. 2. Pensamento científico, crítico e criativo. 3. Repertório cultural. 4. Comunicação. 5. Cultura digital. 6. Trabalho e projeto de vida. 7. Argumentação. 8. Autoconhecimento e auto acuidade. 9. Empatia e cooperação. 10. Responsabilidade e cidadania. Você também vai conhecer os processos de ensino e aprendizagem em arte e compreender como ocorre as seis dimensões desse processo na proposta da BNCC. 2 EDUCAÇÃO INTEGRAL A Educação Integral é tema de muitos estudos relacionados à educação total do aluno. Essa forma de educação, prevê que o sujeito seja desenvolvido em várias dimensões do seu conhecimento. Pensar em Educação Integral é incluir todos os alunos na real aprendizagem e fazer com que todos se desenvolvam, independentemente do seu grau de dificuldade, todos possuem a oportunidade de evoluir. A seguir, vamos aprofundar este tema, embasados em documentos oficiais. 2.1 INÍCIO DE CONVERSA PARA COMPREENDER A BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é de suma importância no contexto da educação nacional e foi elaborado para promover a aprendizagem de todos os estudantes: crianças, jovens e adultos. A BNCC é um documento Conheça um pouco mais sobre as dez competências gerais da Base Nacional Comum Curricular que acompanham o desenvolvimento dos alunos desde a Educação Infantil até o Ensino Médio. Para saber mais sobre cada uma delas, acesse o seguinte link: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/. Acesso em: 28 set. 2020. DICAS TÓPICO 2 — CONHECENDO AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS NA BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) 95 norteador da educação no nosso país e aplica-se exclusivamente à educação escolar, tal como a define o §1º do Art. 1 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), Lei nº 9.394/1996: A BNCC é um documento de caráter normativo que define o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo das etapas e modalidades da educação básica, de modo que tenham assegurados seus direitos de aprendizagem e desenvolvimento, em conformidade com o que preceitua o Plano Nacional de Educação (PNE) (BRASIL, 2019, p. 7). Mas o que é esse documento conhecido como BNCC? É um documento normativo que define o conjunto de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo das etapas e modalidades da Educação Básica. Seu principal objetivo é ser a balizadora da qualidade da educação no país por meio do estabelecimento de um patamar de aprendizagem e desenvolvimento a que todos os alunos têm direito. De acordo com a LDB, Lei nº 9.394/1996, a BNCC deve nortear os currículos dos sistemas e redes de ensino das Unidades Federativas, bem como, as propostas pedagógicas de todas as escolas públicas e privadas de Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio, em todo o Brasil. A BNCC, está orientado pelos princípios éticos, políticos e estéticos que visam à formação humana integral e à construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva, como também fundamentado nas Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Básica (DCN) (BRASIL, 2013). Ela também prevê que o ensino de arte seja ofertado em uma proposta de “educação integral”, em que o conhecimento em arte contribua com o desenvolvimento dos alunos em vários aspectos. Mais do que conhecer os conteúdos referentes à arte de uma maneira global, o aluno deve trazer para sua realidade e refletir sobre várias questões do seu dia a dia (BRASIL, 2019). A Base se apoia em dois fundamentos pedagógicos: o compromisso com a educação Você que deseja ler a BNCC na íntegra, acesse o site:http://portal.mec.gov. br/e para localizar esse material acesse o seguinte endereço: http://portal.mec.gov.br/index. php?option=com_docman&view=download&alias=79601-anexo-texto-bncc-reexportado- pdf-2&category_slug=dezembro-2017-pdf&Itemid=30192. Outras informações sobre a BNCC você pode encontrar no seguinte endereço: http:// basenacionalcomum.mec.gov.br/. DICAS 96 UNIDADE 2 — ARTE NA EDUCAÇÃO ESCOLAR integral e o foco no desenvolvimento de competências, que vamos estudar a fundo no próximo tópico. Quando falamos em educação integral, podemos relacionar com a visão plural, singular e integral da criança, do adolescente, do jovem e do adulto, nos aspectos biopsicossociais e afetivos. Isso significa que os alunos devem ser preparados para atuar com discernimento e responsabilidade, aplicar conhecimentos para resolver problemas, ser proativo para identificar os dados de uma situação e buscar soluções, conviver e aprender com as diferenças e as diversidades, ter autonomia para tomar decisões e, ainda, aprender a aprender. Essa visão de aluno não se concretiza por meio de práticas pedagógicas que privilegiam apenas a transmissão ou o acúmulo de informações. Nesse ponto se destaca, o desenvolvimento de um currículo orientado por competências, o segundo fundamento pedagógico da BNCC.Nesse sentido, queremos reforçar que a educação integral neste documento, não está ligada em uma organização de horários em escolas ou espaço físico, que oferece um turno a mais para os estudantes estarem em espaços educativos, mas sim, a possibilidade de contribuir para a formação do aluno em vários aspectos. FIGURA 1 – FORMAÇÃO INTEGRAL NA ESCOLA FONTE: <https://bit.ly/3ovjVXW>. Acesso em: 1º jul. 2010. A BNCC não é um currículo, tampouco substitui os currículos já existentes. Pelo contrário, a BNCC, ao definir as aprendizagens essenciais às quais os estudantes têm direito, propõe uma questão: “Meu currículo promove essas aprendizagens?” O que se apresenta, portanto, é a necessidade de análise e eventual revisão dos currículos já existentes. Uma coisa é trabalhar com conteúdo que explicita o que deve ser ensinado, outra coisa é explicitar na competência, o que exatamente o aluno deve aprender. Nessa perspectiva, podemos afirmar que a base está cuidando da igualdade entre os alunos, ou seja, que todos tenham direito a aprender as mesmas coisas. O currículo está envolvido com a equidade dos alunos, ou seja, sabemos que cada aluno possui suas diferenças, facilidades, TÓPICO 2 — CONHECENDO AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS NA BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) 97 dificuldades de aprendizagem, deficiências, que todos somos diferentes, mas que cada aluno deve ser tratado de "formas diferentes", para que todos atinjam o mesmo patamar. FIGURA 2 – EQUIDADE NA EDUCAÇÃO FONTE: <https://bit.ly/31GPtjU>. Acesso em: 1º jul. 2020. Dessa forma, a BNCC deve promover a igualdade, e o currículo promover a equidade, ou seja, situações para que as diferenças entre os alunos possam ser desenvolvidas no processo de ensino pedagógico. Dessa forma, a equidade é um desafio para o professor que está com um grupo de alunos que possui diferentes realidades. Cabe aos professores a sensibilidade e percepção diante da(as) sua(as) turma(as), ou seja: como deve desenvolver a mesma compreensão do conhecimento em uma sala de aula com alunos que possuem diferenças e "deficiências" em alguns aspectos. Deficiências essas: • mobilidade; • dificuldade de aprendizagem; • deficiência (física, mental...); • desfavorecimento social, cultural. Nessa perspectiva cabe a você, futuro professor, criar estratégias para que a caminhada do seu aluno seja agradável e gratificante.Convém a seguinte reflexão: você já aplicou um conteúdo em sala de aula e adaptou estratégias para "alguns" alunos? É pensando nesses aspectos que são mencionados, a importância de planejar uma aula pensando em seu Público-alvo, e necessidade das recuperações paralelas, as aulas de reforços, entre outros, não somente para fazer com que eles avancem algum conceito ou nota, mas que esses artifícios colaborem com a sua edificação. Repetir práticas, em nada contribuem, nesse momento vale ao professor pensar em diversificar seus métodos de aprendizagem e avaliação. E tudo isso 98 UNIDADE 2 — ARTE NA EDUCAÇÃO ESCOLAR vem ao encontro da Educação Integral. A seguir podemos perceber um mapa conceitual da proposta da BNCC para a educação dos nossos alunos. Essa estrutura nos faz pensar que a BNCC, abre questionamentos e norteia a prática do professor para que a educação, chegue a todos de maneira igualitária e efetiva. FIGURA 3 – MAPA CONCEITUAL DA BNCC FONTE: <http://avamec.mec.gov.br/#/instituicao/seb/curso/2773/unidade/1164/acessar?conti- nue=true>. Acesso em: 1º jul. 2020. A seguir vamos explorar as linguagens do ensino de arte nas escolas e refletir sobre seus objetivos e aspectos para a educação. 3 AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS NA BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) Ensinar arte na escola, trabalhando as quatro linguagens artísticas (artes visuais, música, dança e teatro), deve ir além do desenvolvimento sensível dos alunos. As artes no contexto escolar têm por objetivo desenvolver os alunos em vários sentidos, englobando fatores como o desenvolvimento da memória, da concentração, estimular a socialização, promover a disciplina, a coordenação, a criatividade, a percepção, ampliar as possibilidades estéticas, entre outros, sendo cada área contemplada a partir dos seus conteúdos específicos, colaborando para a formação do ser humano mais completo. De acordo com Ulrich, Rhoden e Schöellkopf (2014), as linguagens da arte na escola devem ser motivo de constante estudo e reflexão, para que as práticas pedagógicas dos professores, incluam em seu currículo as diferentes linguagens, e que sejam trabalhadas de maneira isolada ou interdisciplinar, mas TÓPICO 2 — CONHECENDO AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS NA BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) 99 que sobretudo, sempre sejam motivadoras e significativas para os alunos. Para que isto aconteça, é interessante que o professor participe da organização do planejamento escolar em todos os níveis, que interaja com os demais professores, que conheça a realidade social da escola e dos alunos, bem como da comunidade onde a escola está inserida, para que seu planejamento seja eficiente para a sua realidade. Sobretudo a escola deve proporcionar momentos para esses encontros e formações para os professores: Neste momento, num tempo plural e contemporâneo em que se deseja que o professor seja um propositor, provocador das propostas por ele pensadas, selecionadas, dotadas de um olhar sensível para práticas pedagógicas que possam compreender também o conhecimento prévio do aluno, é preciso olhar, dar voz a ele, conhecer e reconhecer os seus saberes, com suas subjetividades e intencionalidades, buscando cada vez mais sentido aos objetivos do trabalho em artes, pois o processo da reflexão é dinâmico e gera novas construções de conhecimento (ULRICH; RHODEN; SCHÖELLKOPF, 2014, p. 93). Esta ideia de valorizar o que o aluno traz como experiência concreta do espaço onde ele vive, ou seja, a valorização de suas experiências e o pensamento artístico de seu entorno, vem ao encontro dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) em Arte, que nos dizem que “A educação em arte propicia o desenvolvimento do pensamento artístico que caracteriza um modo particular de dar sentido às experiências das pessoas: por meio dele o aluno amplia a sensibilidade, a percepção, a reflexão e a imaginação” (BRASIL, 1997, p. 15). Todos os campos de conhecimento, nas ciências exatas e nas ciências humanas, estão interligados e a especificidade de cada um nos leva a compreender estas relações e introduzi-las à vida cotidiana. Na disciplina de Artes, a linguagem da dança pode ser inserida no contexto escolar como possibilidade de reconhecimento: Falamos re-conhecimento, pois é fato que todos sabemos que possuímos um corpo, mas, como percebemos este corpo? Onde situamos este corpo no espaço social, na nossa intimidade? Para que ele nos serve? Apenas como um meio de locomoção? Como nos expressamos? Nossa postura física está ligada ao nosso intelecto? Várias são as questões que norteiam a aula de dança na escola; portanto, a dança não deve ser vista somente como uma alusão às formas estéticas, mas “o que” e “como” são estas formas e “porque” chegamos a elas são reflexões importantes no ensino da dança (ULRICH; RHODEN; SCHÖELLKOPF, 2014, p. 94 - grifo do autor). Sabemos a gama de benefícios que a dança promove na vida das pessoas. No contexto escolar ela resgata além de valores uma maior ligação do aluno com seu próprio corpo, desenvolvendo potenciais nos alunos. A dança como possibilidade de reconhecimento é: 100 UNIDADE 2 — ARTE NA EDUCAÇÃO ESCOLAR Um veículo para o percurso da descoberta do corpo, do movimento e das potencialidades expressivas e criativas. Da socialização, da autoestima, da percepção do espaço próprio e do espaço compartilhável, formando uma rede de trocas entre professores e alunos das diversas áreas das artes (ULRICH; RHODEN; SCHÖELLKOPF, 2014, p. 94). Ulrich, Rhoden e Schöellkopf (2014) ainda afirmam que existem muitas maneiras de inserir a dança na escola. A dança deve ser inserida de acordo com a faixa etária e realidade escolar, e pode ser desenvolvida por meio de um repertório específico, com a escolha de um tema gerador para a realização de uma composição coreográfica ou mesmo de uma improvisação. Para bem formar, é preciso recorrer inúmeras vezes ao exercício. O exercício formativo nada mais é do que uma interpretação produtiva da matéria-prima, uma fase de preparação, na qual se trabalha sem a pretensão ou intuito de produzir a obra, mas só com a intenção de realizar estudos que lhe favoreçam o surgimento; [...]. Uma das formas de exercício formativo é a improvisação (DANTAS, 2012, p. 101). Como mencionamos anteriormente, cada realidade requer propostas pedagógicas alternativas, que caibam ao contexto da escola, turma e ambiente escolar. Pensar práticas de ensino de arte é necessário, antes, uma boa reflexão e planejamento. De acordo com a BNCC (2019), a linguagem da dança envolve a prática de conexão entre o pensamento e a gestualidade expressiva. Dançar nada mais é do que expressar por meio do corpo as experiências sensíveis: A dança se constitui como prática artística pelo pensamento e sentimento do corpo, mediante a articulação dos processos cognitivos e das experiências sensíveis implicados no movimento dançado. Os processos de investigação e produção artística da dança centram-se naquilo que ocorre no e pelo corpo, discutindo e significando relações entre corporeidade e produção estética (BRASIL, 2019, p. 195). A dança proporciona aos alunos a experiência corporal, desenvolve criatividade e o autoconhecimento. A linguagem corporal é uma forma de representação e expressão de sentimentos e crítica social. Ao articular os aspectos sensíveis, epistemológicos e formais do movimento dançado ao seu próprio contexto, os alunos problematizam e transformam percepções acerca do corpo e da dança, por meio de arranjos que permitem novas visões de si e do mundo. Eles têm, assim, a oportunidade de repensar dualidades e binômios (corpo versus mente, popular versus erudito, teoria versus prática), em favor de um conjunto híbrido e dinâmico de práticas. (BRASIL, 2019). As contribuições da dança na escola, envolvem muitos aspectos da vida dos alunos, e resgatam valores e autoconhecimento. Os aspectos físicos são explorados e estimulados proporcionando muitos benefícios para osalunos. A linguagem da música na escola segue a mesma perspectiva, pois essa linguagem possui uma grande diversidade de conteúdos e conceitos a serem estudados. Quando propomos a reflexão de um planejamento de ensino partimos TÓPICO 2 — CONHECENDO AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS NA BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) 101 do pressuposto que nossos alunos não são folhas em branco que já possuem seus gostos musicais, repertórios que fazem parte do seu contexto social e presença das mídias eletrônicas. Nós, professores, devemos fazer com que nossos alunos tenham contribuições significativas em nosso planejamento. Uma estratégia utilizada para ampliar os repertórios em sala de aula, é dar voz aos nossos alunos, ou seja, ouvir e escutar as preferências musicais de cada um, caso contrário, o ensino da música se coloca de maneira autoritária. Somente nesse sentido, se pensarmos nas vivências, experiências e nas preferências musicais de nossos alunos, poderemos fazer um trabalho realmente significativo e que desperte interesse e atenção para a aprendizagem. Ulrich, Rhoden e Schöellkopf afirmam (2014, p. 96) que na escola a música é: A prática do professor de música em sala de aula pode partir do princípio da leitura do conhecimento musical prévio dos alunos. A partir da escuta desse conhecimento, que é vivo e vivido, é possível pensar em metodologias alicerçadas e desdobradas sobre um tema, ou de um novo conhecimento. De acordo com Souza (2000, p. 174), “a música na vida cotidiana faz- se cada vez mais presente, e sua massiva utilização na sociedade ocidental contemporânea indica o seu significado para o ser humano”. De acordo com a BNCC, a linguagem da música na escola desenvolve por meio de sons, canções e ritmo, muitos benefícios para os alunos. Trabalhar música na escola é uma forma de resgatar valores e conhecer diferentes culturas: A música é a expressão artística que se expressa e materializa por meio dos sons, que ganham sentido e significado no âmbito tanto da sensibilidade subjetiva quanto das interações sociais, como resultado de saberes e valores diversos estabelecidos no domínio de cada cultura (BRASIL, 2019, p. 196). O ensino da música promove o autoconhecimento e o desenvolvimento da percepção sonora. Resgata lembranças, memórias afetivas e desperta sensações. A ampliação e a produção dos conhecimentos musicais passam pela percepção, experimentação, reprodução, manipulação e criação de materiais sonoros diversos, dos mais próximos aos mais distantes da cultura musical dos alunos. Esse processo lhes possibilita vivenciar a música inter-relacionada à diversidade e desenvolver saberes musicais fundamentais para sua inserção e participação crítica e ativa na sociedade (BRASIL, 2019, p. 193). A contribuição da música na escola vem ao encontro da necessidade de tornar seres humanos sensíveis, a fazer com que os alunos passem a despertar sua sensibilidade, contribui para o desenvolvimento cognitivo e mais uma vez contribui com a integração entre os alunos. 102 UNIDADE 2 — ARTE NA EDUCAÇÃO ESCOLAR Já a linguagem das artes visuais contribui para o desenvolvimento de uma consciência crítica. Impossível falar sobre o ensino das artes visuais sem contextualizar as práticas docentes histórica e socialmente. Ao longo da história, o ensino de arte, de um modo geral, consistia em desenho sejam eles técnicos, cópias e livres e o desenvolvimento de trabalhos manuais, como o artesanato nas escolas: Na linha do tempo das práticas pedagógicas encontramos o ensino do desenho enquanto cópia de modelos prontos, trabalhos manuais, artes industriais, artes domésticas, a livre expressão, a valorização máxima da criatividade e a Metodologia Triangular que versa sobre ações que valorizem a vivência dos alunos, relacionadas com outros campos do conhecimento, bem como valoriza o fazer artístico, a análise de obras e objetos de arte e a história da arte (ULRICH; RHODEN; SCHÖELLKOPF; 2014, p. 96-97). Sabemos que essa realidade ainda faz parte de algumas escolas pelo nosso país, devido, muitas vezes, pela falta de qualificação por parte desses profissionais. O conhecimento das artes visuais na escola possui uma riqueza indescritível se articulada de maneira ordenada e planejada. Essa linguagem leva nossos alunos para o passado, faz com que reflitam sobre o presente e possibilitem transformar nosso futuro por meio de momentos de reflexão, interação e criticidade. Cabe ao professor ser um agente propositor capaz de promover esses momentos de emancipação. Atividades que promovem a sensibilização, pintura, recorte, colagem, dobraduras, podem ser utilizadas, mas é preciso sobretudo que essas ações provoquem a criatividade e a imaginação de nossos alunos. Nós, professores, devemos nos reinventar constantemente, e fazer com que as práticas em artes visuais sejam unidas a uma reflexão das experiências, mas que sobretudo, sejam significativas para os alunos: Proposições pedagógicas desafiadoras contribuem para a construção do conhecimento em artes visuais, principalmente quando as propostas são contextualizadas com a realidade contemporânea, ou seja, com as imagens que povoam o contexto cultural do nosso aluno. A partir das imagens impregnadas e atravessadas pelas mídias, que, certamente, fazem parte dos seus repertórios, ao desdobrar-se, contribuem para a construção de outras imagens e para a ampliação do imaginário (ULRICH; RHODEN; SCHÖELLKOPF, 2014, p. 97). A escola precisa compreender que não basta produzir atividades em massa, mas propor aos professores que repensem seu planejamento, resgatando das artes visuais um propósito. Os alunos precisam enxergar na disciplina de artes, um momento de profunda conexão com suas vidas, com a história do nosso país e do nosso mundo aliado ao contexto atual que estamos. Sem essas conexões, as aulas de artes serão meras reprodutoras de conteúdos já acumulados na sociedade, ao qual podemos ter acesso facilmente. TÓPICO 2 — CONHECENDO AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS NA BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) 103 A postura de um professor, ao trabalhar imagens como fotografias, desenhos, gravuras, pinturas, esculturas, é atingir o inatingível e propor transformação. É refletir sobre o contemporâneo e sobre tudo que vivemos. É estimular a criatividade nas suas criações para potencializar pensamentos reflexivos e críticos. Produzir não por um mero dever, mas sim, com um propósito de desenvolvimento cognitivo que é algo próprio desse contato com as manifestações artísticas visuais e esse, talvez seja o maior desafio da linguagem das artes, ou seja, perceber e valorizar o conhecimento que está na arte apresentada e ou naquilo que é artisticamente produzido no contexto escolar.De acordo com a BNCC, a linguagem das artes visuais,consiste no estudo dos movimentos da história da arte, das culturas e das técnicas artísticas utilizadas para a execução de uma produção artística. As artes visuais são os processos e produtos artísticos e culturais, nos diversos tempos históricos e contextos sociais, que têm a expressão visual como elemento de comunicação. Essas manifestações resultam de explorações plurais e transformações de materiais, de recursos tecnológicos e de apropriações da cultura cotidiana (BRASIL, 2019, p. 193). Essa linguagem na escola desenvolve no aluno o conhecimento de diversas culturas além de momentos de contextualização, reflexão e principalmente de criação sobre alguma obra ou conceito. As artes visuais possibilitam aos alunos explorar múltiplas culturas visuais, dialogar com as diferenças e conhecer outros espaços e possibilidades inventivas e expressivas, de modo a ampliar os limites escolares e criar novas formas de interação artística e de produção cultural, sejam elas concretas, sejam elas simbólicas (BRASIL, 2019, p. 193). A linguagem das artes visuais foi por muito tempo, o foco das aulas de artes na escola. Os primeiros cursos de formações de professores deartes, ou seja, licenciatura, tiveram como foco as artes plásticas e posteriormente artes visuais. Esses cursos tinham como concepção formar professores e consequentemente alunos para atuar no mercado de trabalho, tendo como ênfase em suas práticas metodológicas o ensino de desenho, seja ele geométrico ou livre. Atualmente, no ensino de arte, seja ele dentro dos cursos superiores ou no contexto escolar, se percebe grande relevância na relação do conhecimento sensível e inteligível de todas as linguagens. A linguagem do teatro também vem ganhando espaço no contexto escolar a partir da sua abordagem dentro da BNCC. Sabe-se que, por muito tempo, essa linguagem passou despercebida na escola, pois, muitas vezes, estava apenas aliada a alguma apresentação de data comemorativa. A partir da proposta da BNCC, podemos mencionar que a prática do jogo teatral é uma estratégia pedagógica que muito contribui para o desenvolvimento dos alunos. Então, no que consiste o jogo? 104 UNIDADE 2 — ARTE NA EDUCAÇÃO ESCOLAR [...] uma atividade voluntária exercida dentro de certos determinados limites de tempo e espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e alegria e de uma consciência de ser diferente de vida cotidiana (HUIZINGA, 2011, p. 33). Partindo dessa ideia, podemos perceber que o jogo está no dia a dia dos nossos alunos, principalmente no contexto infantil, quando estão brincando de pega-pega ou pula-pula em uma festa de aniversário, correndo suados por entre as mesas e cadeiras em uma sala de jantar, correndo entre os casais dançando em uma festa de casamento, gritando no pátio da escola na hora do recreio, jogando futebol, entre outras atividades. Huizinga (2011) afirma que apesar dessas ações mencionadas remeterem a uma bagunça, confusão, caos, ou desordem, essas atividades são desenvolvidas por meio de uma organização, onde as crianças estabelecem regras. São os próprios alunos que muitas vezes definem regras e o tempo para os jogos entre si. Fazendo isso, de certa forma, também estão praticando os jogos teatrais na escola. Spolin (1987, p. 3) afirma que “se o ambiente permitir, pode-se aprender qualquer coisa, e se o indivíduo permitir, o ambiente lhe ensinará tudo o que ele tem para ensinar. ‘Talento’ ou ‘falta de talento’ tem muito pouco a ver com isso”. O teatro na escola proporciona aos alunos uma série de benefícios. Além do desenvolvimento da própria desenvoltura, desenvolve a cognição, estimulando a criatividade, mas principalmente, desenvolve as relações afetivas entre os alunos e a comunidade: Sendo assim, o teatro é uma arte com potencial para o processo de ensino-aprendizagem, uma vez que estimula a criatividade, a interdisciplinaridade, o trabalho coletivo e a pesquisa, colaborando para a formação do aluno, desenvolvendo aspectos sociais, afetivos, éticos e cognitivos, ao mesmo tempo em que reflete e relaciona as questões que envolvem o seu cotidiano com a realidade social mais ampla. Deste modo, é importante que os alunos tenham contato com jogos teatrais e de improvisação. Sendo este processo a ‘peça’ final (ULRICH; RHODEN; SCHÖELLKOPF, 2014, p. 98). (Grifos do autor) Desenvolvendo jogos teatrais na escola, o professor é capaz de fazer com que os alunos se insiram em diversas realidades sociais e econômicas, e passem a refletir sobre soluções para eventuais mudanças, por meio de reflexões sobre os diferentes contextos, os alunos entre si passam a propor diferentes estratégias: A finalidade do jogo teatral na educação escolar é o crescimento pessoal e o desenvolvimento cultural dos jogadores por meio do domínio, da comunicação e do uso interativo da linguagem teatral, numa perspectiva improvisacional ou lúdica. O princípio do jogo teatral é o mesmo da improvisação teatral, ou seja, a comunicação que emerge da espontaneidade das interações entre sujeitos engajados na solução cênica de um problema de atuação (JAPIASSU, 2001, p. 26). TÓPICO 2 — CONHECENDO AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS NA BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) 105 Acostumados com interpretações de texto, os jogos teatrais podem facilitar esse processo final, contribuindo para o desenvolvimento do processo. Cabe aos professores de artes proporem em suas práticas pedagógicas, as vivências de jogos teatrais antes de propor aos alunos um texto dramático. De acordo com a BNCC, a linguagem do teatro na escola além de contribuir para os aspectos cognitivos, estimula os alunos ao desenvolvimento de suas habilidades comunicativas, por meio de práticas de interação e comunicação entre os alunos: O teatro instaura a experiência artística multissensorial de encontro com o outro em performance. Nessa experiência, o corpo é lócus de criação ficcional de tempos, espaços e sujeitos distintos de si próprios, por meio do verbal, não verbal e da ação física. Os processos de criação teatral passam por situações de criação coletiva e colaborativa, por intermédio de jogos, improvisações, atuações e encenações, caracterizados pela interação entre atuantes e espectadores (BRASIL, 2019, p. 196). A linguagem do teatro na escola, possibilita a intensa troca de experiências entre os alunos e aprimora a percepção estética, a imaginação, a consciência corporal, a intuição, a memória, a reflexão e a emoção. 4 EDUCAÇÃO PELA ARTE NA EDUCAÇÃO INFANTIL A educação infantil nos remete à criança. Criança nos faz lembrar de brincadeiras, brinquedos e diversão. Baseado nessa proposta, a BNCC propõe que as crianças sejam inseridas no contexto escolar, em um ambiente onde o professor proporcione aulas com o máximo de atividades lúdicas. Se voltarmos a algumas décadas podemos perceber que a educação infantil é uma nomenclatura nova, se compararmos com a história e avanços na educação do nosso país. Até 1980, a educação infantil consistia em uma preparação para o ensino fundamental, dessa forma era concebida como "pré-escolar". Foi com os estudos da LDB de 1996, que a Educação Infantil, começa a ganhar espaço como uma etapa da Educação Básica. Com a Constituição Federal de 1988, “o atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a seis anos de idade, torna-se dever do Estado" (BRASIL, 2019, p. 35). Posteriormente, com a promulgação da LDB, em 1996, a Educação Infantil passa a ser parte integrante da Educação Básica, situando-se no mesmo patamar que o Ensino Fundamental e o Ensino Médio. A partir da modificação introduzida na LDB em 2006 é que se antecipou o acesso ao Ensino Fundamental para os seis anos de idade e a Educação Infantil passa a atender a faixa etária de zero a cinco anos. (BRASIL, 2019). Antes disso, porém, por um bom tempo a Educação Infantil não era obrigatória e os pais somente inseriam as crianças na pré-escola para que elas começassem a se adaptar àquele ambiente e se fortalecer para enfrentar o primeiro ano da Educação Fundamental, antigamente denominada primeira série. 106 UNIDADE 2 — ARTE NA EDUCAÇÃO ESCOLAR Entretanto, embora reconhecida como direito de todas as crianças e dever do Estado, a Educação Infantil passa a ser obrigatória para as crianças de 4 e 5 anos apenas com a Emenda Constitucional nº 59/200926, que determina a obrigatoriedade da Educação Básica dos 4 aos 17 anos. Essa extensão da obrigatoriedade é incluída na LDB em 2013, consagrando plenamente a obrigatoriedade de matrícula de todas as crianças de 4 e 5 anos em instituições de Educação Infantil (BRASIL, 2019, p. 36). "Com a inclusão da educação infantil na BNCC, mais um importante passo é dado nesse processo histórico de sua integração ao conjunto da Educação Básica" (BRASIL, 2019, p. 36). Nesse documento, afirma-se a concepção da criança, seus direitos de aprendizagem e desenvolvimento da educação infantil, os campos de experiência, os objetivos de aprendizagem, dentre outras questões. Nessa perspectiva a educação infantil, tem uma importante tarefa no desenvolvimentode nossos alunos e prevê que sejam desenvolvidas principalmente atividades que promovam interação entre as crianças. Ainda de acordo com as Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Infantil – DCNEI, em seu Artigo 9º, os eixos estruturantes das práticas pedagógicas dessa etapa da Educação Básica são as interações e a brincadeira, experiências nas quais as crianças podem construir e apropriar-se de conhecimentos por meio de suas ações e interações com seus pares e com os adultos, o que possibilita aprendizagens, desenvolvimento e socialização (BRASIL, 2019, p. 37). Para que as crianças tenham um desenvolvimento integral, algumas ações se fazem necessária para todas as escolas do nosso país. Dessa forma, seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento foram criados para orientar a prática pedagógica dos professores e assegurar o desenvolvimento das crianças nessa fase. Tendo em vista os eixos estruturantes das práticas pedagógicas e as competências gerais da Educação Básica propostas pela BNCC, seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento asseguram, na Educação Infantil, as condições para que as crianças aprendam em situações nas quais possam desempenhar um papel ativo em ambientes que as convidem a vivenciar desafios e a sentirem-se provocadas a resolvê- los, nas quais possam construir significados sobre si, os outros e o mundo social e natural (BRASIL, 2019, p. 37). (Grifos do autor) De acordo com a BNCC, os seis direitos de aprendizagens e desenvolvimento da educação infantil, estão divididos de acordo com os tópicos a seguir: • Conviver com outras crianças e adultos, em pequenos e grandes grupos, utilizando diferentes linguagens, ampliando o conhecimento de si e do outro, o respeito em relação à cultura e às diferenças entre as pessoas. • Brincar cotidianamente de diversas formas, em diferentes espaços e tempos, com diferentes parceiros (crianças e adultos), ampliando e diversificando seu acesso a produções culturais, seus conhecimentos, sua imaginação, sua TÓPICO 2 — CONHECENDO AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS NA BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) 107 criatividade, suas experiências emocionais, corporais, sensoriais, expressivas, cognitivas, sociais e relacionais. • Participar ativamente, com adultos e outras crianças, tanto do planejamento da gestão da escola e das atividades propostas pelo educador quanto da realização das atividades da vida cotidiana, tais como a escolha das brincadeiras, dos materiais e dos ambientes, desenvolvendo diferentes linguagens e elaborando conhecimentos, decidindo e se posicionando. • Explorar movimentos, gestos, sons, formas, texturas, cores, palavras, emoções, transformações, relacionamentos, histórias, objetos, elementos da natureza, na escola e fora dela, ampliando seus saberes sobre a cultura, em suas diversas modalidades: as artes, a escrita, a ciência e a tecnologia. • Expressar, como sujeito dialógico, criativo e sensível, suas necessidades, emoções, sentimentos, dúvidas, hipóteses, descobertas, opiniões, questionamentos, por meio de diferentes linguagens. • Conhecer-se e construir sua identidade pessoal, social e cultural, constituindo uma imagem positiva de si e de seus grupos de pertencimento, nas diversas experiências de cuidados, interações, brincadeiras e linguagens vivenciadas na instituição escolar e em seu contexto familiar e comunitário (BRASIL, 2019, p. 38). Além dos direitos de aprendizagem e desenvolvimento, a BNCC estrutura a aprendizagem da educação infantil em cinco campos de experiências, que são organizadas, baseadas na realidade do desenvolvimento das crianças: Considerando que, na Educação Infantil, as aprendizagens e o desenvolvimento das crianças têm como eixos estruturantes as interações e a brincadeira, assegurando-lhes os direitos de conviver, brincar, participar, explorar, expressar-se e conhecer-se, a organização curricular está estruturada em cinco campos de experiências, no âmbito dos quais são definidos os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento. Os campos de experiências constituem um arranjo curricular que acolhe as situações e as experiências concretas da vida cotidiana das crianças e seus saberes, entrelaçando-os aos conhecimentos que fazem parte do patrimônio cultural (BRASIL, 2019, p. 40, grifos do autor). Os campos de experiências da educação infantil são fundamentados no que prevê as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (DCNEI), em relação aos saberes e conhecimentos essenciais a serem proporcionados às crianças. Nesse sentido, para que as práticas pedagógicas contemplem e proporcionem essas experiências, a BNCC organizou e denominou os campos de experiências que devem ser fundamentadas à organização do planejamento dos professores. Considerando esses saberes e conhecimentos, os campos de experiências se organizam em: o eu, o outro e o nós, corpo, gestos e movimentos, traços, sons, cores e formas, escuta, fala, pensamento e imaginação, espaços, tempos, quantidades, relações e transformações. 108 UNIDADE 2 — ARTE NA EDUCAÇÃO ESCOLAR 4.1.1 O eu, o outro e o nós Esse campo de experiência é fundamental para as crianças da educação infantil, pois nessa idade, os pais e a família são as principais referências. Interagir com outras pessoas, outros costumes e comportamentos faz ela se tornar uma criança que começa a perceber as diferenças sociais e culturais e que existe muita coisa além do seu "mundo", ou seja, da sua casa. É na interação com os pares e com adultos que as crianças vão constituindo um modo próprio de agir, sentir e pensar e vão descobrindo que existem outros modos de vida, pessoas diferentes, com outros pontos de vista. Conforme vivem suas primeiras experiências sociais (na família, na instituição escolar, na coletividade), constroem percepções e questionamentos sobre si e sobre os outros, diferenciando-se e, simultaneamente, identificando-se como seres individuais e sociais (BRASIL, 2019, p. 40). Esse momento de inserção na educação infantil é único, é como um segundo "parto". O primeiro parto acontece quando a mãe traz seu filho ao mundo, tirando aquele recém-nascido do seu ventre onde ele tem total conforto, clima ideal, comida na hora e na medida certa e todo o conforto necessário para seu bem-estar. Após sua adaptação com a família ocorre o segundo parto, o momento de inserção no contexto escolar, na educação infantil. Nesse momento, ele é retirado novamente de sua zona de conforto e colocado em meio a novos desafios, passando a conviver com uma nova rotina e regras. Algumas crianças passam pelo período de adaptação de forma tranquila, enquanto outras, necessitam de mais tempo e maior sensibilidade por parte de pais e professores. Podemos dizer que a educação infantil proporciona e incentiva a interação social e o conhecimento sobre o mundo fora da sua casa. A professora passa a apresentar uma nova realidade de ensino que será necessário para o desenvolvimento de habilidades futuras: Ao mesmo tempo que participam de relações sociais e de cuidados pessoais, as crianças constroem sua autonomia e senso de autocuidado, de reciprocidade e de interdependência com o meio. Por sua vez, na Educação Infantil, é preciso criar oportunidades para que as crianças entrem em contato com outros grupos sociais e culturais, outros modos de vida, diferentes atitudes, técnicas e rituais de cuidados pessoais e do grupo, costumes, celebrações e narrativas. Nessas experiências, elas podem ampliar o modo de perceber a si mesmas e ao outro, valorizar sua identidade, respeitar os outros e reconhecer as diferenças que nos constituem como seres humanos (BRASIL, 2019, p. 40). Por meio do campo de experiência o eu, o outro e o nós, os profissionais da educação infantil passam a trabalhar o conhecimento artístico fazendo conexões com as diferentes sociedades e suas culturas, abarcando as diversidades existentes. Esse momento é ideal, pois no geral, as crianças são puras e ainda nãopossuem tantos julgamentos e resistências em relação às diferenças. O ensino de arte na educação infantil possui por objetivo, tornar as crianças sujeitos que se reconheçam na sociedade, que identifique as várias culturas que nos cercam, mas TÓPICO 2 — CONHECENDO AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS NA BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) 109 principalmente, estimular para que sejam pessoas que respeitem as diferenças em vários âmbitos da nossa sociedade. 4.1.2 Corpo, gestos e movimentos Esse campo de experiência é extremamente necessário na educação infantil. Reconhecer o corpo, os gestos e os movimentos fazem da criança um ser que tem segurança de si mesmo. Saber sobre cada parte do corpo e explorar suas limitações por meio das diferentes linguagens da arte é fundamental nessa etapa: Com o corpo (por meio dos sentidos, gestos, movimentos impulsivos ou intencionais, coordenados ou espontâneos), as crianças, desde cedo, exploram o mundo, o espaço e os objetos do seu entorno, estabelecem relações, expressam-se, brincam e produzem conhecimentos sobre si, sobre o outro, sobre o universo social e cultural, tornando-se, progressivamente, conscientes dessa corporeidade. Por meio das diferentes linguagens, como a música, a dança, o teatro, as brincadeiras de faz de conta, elas se comunicam e se expressam no entrelaçamento entre corpo, emoção e linguagem. As crianças conhecem e reconhecem as sensações e funções de seu corpo e, com seus gestos e movimentos, identificam suas potencialidades e seus limites, desenvolvendo, ao mesmo tempo, a consciência sobre o que é seguro e o que pode ser um risco à sua integridade física (BRASIL, 2019, p. 40-41). Por meio das linguagens da arte as crianças possuem o conhecimento sobre as partes do seu corpo e sobre os cuidados que devem ter com ele. As linguagens da dança, da música e do teatro contribuem para o reconhecimento das crianças em relação aos movimentos do seu corpo, das suas expressões e das suas habilidades corporais como, andar, correr, equilibrar, saltar, conhecendo assim suas limitações e, também, proporcionando novos desafios para explorar cada vez mais: Na Educação Infantil, o corpo das crianças ganha centralidade, pois ele é o partícipe privilegiado das práticas pedagógicas de cuidado físico, orientadas para a emancipação e a liberdade, e não para a submissão. Assim, a instituição escolar precisa promover oportunidades ricas para que as crianças possam, sempre animadas pelo espírito lúdico e na interação com seus pares, explorar e vivenciar um amplo repertório de movimentos, gestos, olhares, sons e mímicas com o corpo, para descobrir variados modos de ocupação e uso do espaço com o corpo (tais como sentar com apoio, rastejar, engatinhar, escorregar, caminhar apoiando-se em berços, mesas e cordas, saltar, escalar, equilibrar-se, correr, dar cambalhotas, alongar-se etc.) (BRASIL, 2019, p. 41). Na educação infantil, os professores de Artes devem explorar, em sua prática pedagógica, atividades de ações cotidianas das crianças, como propostas que desenvolvem o seu deslocamento, fortalecem seu equilíbrio e compostura, pois, além de ensinar arte passam a fazer com que a criança se reconheça em vários aspectos e em suas várias dimensões. 110 UNIDADE 2 — ARTE NA EDUCAÇÃO ESCOLAR 4.1.3 Traços, sons, cores e formas Esse campo de experiência está ligado ao desenvolvimento das crianças diante do senso estético e crítico. Nessa fase, elas passam a desenvolver o conhecimento de si mesmas, dos outros e da realidade que as cerca por meio de experiências artísticas. Nesse sentido, as linguagens da arte na educação infantil visam garantir práticas pedagógicas que envolvam diferentes experiências artísticas, culturais e científicas: Conviver com diferentes manifestações artísticas, culturais e científicas, locais e universais, no cotidiano da instituição escolar, possibilita às crianças, por meio de experiências diversificadas, vivenciar diversas formas de expressão e linguagens, como as artes visuais (pintura, modelagem, colagem, fotografia etc.), a música, o teatro, a dança e o audiovisual, entre outras. Com base nessas experiências, elas se expressam por várias linguagens, criando suas próprias produções artísticas ou culturais, exercitando a autoria (coletiva e individual) com sons, traços, gestos, danças, mímicas, encenações, canções, desenhos, modelagens, manipulação de diversos materiais e de recursos tecnológicos. Essas experiências contribuem para que, desde muito pequenas, as crianças desenvolvam senso estético e crítico, o conhecimento de si mesmas, dos outros e da realidade que as cerca (BRASIL, 2019, p. 41). Esse campo de experiência, possibilita as crianças entrarem em contato com diferentes espaços e materiais, experimentando suportes e linguagens variadas no contexto escolar e em espaços alternativos com a finalidade de oportunizar diferentes vivências artísticas. Portanto, a Educação Infantil precisa promover a participação das crianças em tempos e espaços para a produção, manifestação e apreciação artística, de modo a favorecer o desenvolvimento da sensibilidade, da criatividade e da expressão pessoal das crianças, permitindo que se apropriem e reconfigurem, permanentemente, a cultura e potencializem suas singularidades, ao ampliar repertórios e interpretar suas experiências e vivências artísticas (BRASIL, 2019, p. 41). Mais importante que estimular a produção artística das crianças, é estimular a percepção didática de um professor, fazendo com que ele compreenda a importância de viabilizar para as crianças o contato com diferentes momentos de apreciação artística, em diferentes espaços ou repertórios culturais. Assim como é importante a leitura para um bom escritor, a apreciação estética proporciona um grande repertório para o desenvolvimento de uma criança. TÓPICO 2 — CONHECENDO AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS NA BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) 111 4.1.4 Escuta, fala, pensamento e imaginação Esse campo de experiência está ligado a comunicação. Desde a Pré- História o homem procurou alternativas para se comunicar com as outras pessoas. Como sua fala não estava desenvolvida, os gestos e a arte eram ferramentas de comunicação e expressão, por meio de desenhos, pinturas e gravuras em paredes de caverna, no qual comunicavam alguma ideia ou situação da época. Não somente passavam uma mensagem, mas expressavam um sentimento ou ainda uma manifestação de fé. O homem pré-histórico fazia uso de desenhos, pinturas e gravuras e até se apropriava de objetos para expressar seus desejos e sentimentos. Na atualidade, ainda notamos essa necessidade de se expressar, bem como, o desejo de se comunicar. A criação, desde cedo, sente essa necessidade, seja pela vontade de comer, dormir ou brincar. Na escola não é diferente a escuta, fala, pensamento e imaginação, são campos de experiências ligados ao desenvolvimento pessoal e social das crianças. Nesse sentido, percebemos a importância de os professores desenvolverem situações que envolvem o saber ouvir e o saber falar em público, despertando seus pensamentos e imaginação, seja ele de maneira oral ou até mesmo visual: Na Educação Infantil, é importante promover experiências nas quais as crianças possam falar e ouvir, potencializando sua participação na cultura oral, pois é na escuta de histórias, na participação em conversas, nas descrições, nas narrativas elaboradas individualmente ou em grupo e nas implicações com as múltiplas linguagens que a criança se constitui ativamente como sujeito singular e pertencente a um grupo social (BRASIL, 2019, p. 42). Os professores de educação infantil não devem ficar ansiosos para que sua turma seja alfabetizada, pois a leitura e a escrita são etapas que cabem ser desenvolvidas na educação fundamental. A educação infantil deve priorizar o estímulo da criatividade para que mais do que saber ler e escrever, as crianças saibam "o que" escrever e "de que forma" devem ler um determinadotexto. No entanto, a literatura pode estar presente na vida das crianças sim. A contação de histórias é uma ótima alternativa. Na Educação Infantil, a imersão na cultura escrita deve partir do que as crianças conhecem e das curiosidades que deixam transparecer. As experiências com a literatura infantil, propostas pelo educador, mediador entre os textos e as crianças, contribuem para o desenvolvimento do gosto pela leitura, do estímulo à imaginação e da ampliação do conhecimento de mundo. Além disso, o contato com histórias, contos, fábulas,poemas, cordéis etc. propicia a familiaridade com livros, com diferentes gêneros literários,a diferenciação entre ilustrações e escrita, a aprendizagem da direção da escrita e as formas corretas de manipulação de livros.Nesse convívio com textos escritos, as crianças vão construindo hipóteses sobre a escrita que se revelam, inicialmente, em rabiscos e garatujas e, à medida que vão conhecendo letras, em escritas espontâneas, não convencionais, mas já indicativas da compreensão da escrita como sistema de representação da língua (BRASIL, 2019, p. 42). 112 UNIDADE 2 — ARTE NA EDUCAÇÃO ESCOLAR Crianças que recebem diversos estímulos na educação infantil, serão crianças mais criativas nos próximos anos escolares. A arte se manifesta desde cedo, assim como o saber ouvir e falar. As primeiras manifestações das crianças, denominadas garatujas devem ser estimuladas e apreciadas pelos professores, que devem oferecer diferentes suportes e oportunidades para que elas possam se expressar. 4.1.5 Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações As crianças possuem curiosidade que vão ficando mais evidentes de acordo com o seu desenvolvimento. Passam a perceber que estão inseridas em uma comunidade, passam a querer se situar geograficamente, compreender situações na natureza, processos químicos, físicos, partindo de muita curiosidade: As crianças vivem inseridas em espaços e tempos de diferentes dimensões, em um mundo constituído de fenômenos naturais e socioculturais. Desde muito pequenas, elas procuram se situar em diversos espaços (rua, bairro, cidade etc.) e tempos (dia e noite; hoje, ontem e amanhã etc.). Demonstram também curiosidade sobre o mundo físico (seu próprio corpo, os fenômenos atmosféricos, os animais, as plantas, as transformações da natureza, os diferentes tipos de materiais e as possibilidades de sua manipulação etc.) e o mundo sociocultural (as relações de parentesco e sociais entre as pessoas que conhece; como vivem e em que trabalham essas pessoas; quais suas tradições e seus costumes; a diversidade entre elas etc.) (BRASIL, 2019, p. 42-43). De acordo com a BNCC, trabalhar questões como os espaços, tempos, quantidades, relações e transformações são fundamentais para o desenvolvimento das crianças. Portanto, a Educação Infantil precisa promover experiências nas quais as crianças possam fazer observações, manipular objetos, investigar e explorar seu entorno, levantar hipóteses e consultar fontes de informação para buscar respostas às suas curiosidades e indagações. Assim, a instituição escolar está criando oportunidades para que as crianças ampliem seus conhecimentos do mundo físico e sociocultural e possam utilizá-los em seu cotidiano (BRASIL, 2019, p. 43). Os campos de experiências apresentados nesse estudo abrem um leque aos professores da educação infantil, sejam eles pedagogos ou professores de arte, para que possam traçar suas práticas pedagógicas fundamentadas nas ideias presentes na BNCC. TÓPICO 2 — CONHECENDO AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS NA BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) 113 4.2 ORGANIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO INFANTIL A BNCC prevê que as crianças da educação infantil devem ser divididas de acordo com a idade, constituindo etapas, objetivos de aprendizagem e desenvolvimento. Dessa forma, eles estão organizados em três grupos por faixa etária, que correspondem às possibilidades de aprendizagem e às características do desenvolvimento das crianças. QUADRO 1 – ORGANIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO INFANTIL FONTE: Adaptado de BNCC (2019) Cabe aos professores analisar as propostas pedagógicas de acordo com o desenvolvimento das crianças. A educação não pode ser tratada como um campo rígido. Quando lidamos com pessoas e nesse caso crianças, devemos ter a sensibilidade de perceber as diferenças entre cada um, seja no ritmo da aprendizagem ou em seu desenvolvimento. É de responsabilidade do Poder Público, implementar políticas públicas e investir efetivamente na formação inicial e continuada dos profissionais da educação infantil, sejam eles pedagogos ou professores de arte, pois ainda no momento atual se percebe uma fragilidade nas práticas pedagógicas, onde as linguagens artísticas ainda não são exploradas adequadamente, e causam perdas às crianças que passam a conceber a arte como a constante produção de pinturas em mimeógrafos, entre outros. Não podemos admitir que o conhecimento artístico na escola seja reduzido a ser: "purpurina"ou "bengala" na educação infantil. Quando mencionamos purpurina, queremos nos referir à arte como um veículo de enfeite às escolas, eventos comemorativos e painéis. E quando citamos a bengala, seria pensar que a disciplina de artes na educação infantil, se resume a desenvolver atividades artísticas para compreensão de uma outra matéria, ou seja, ao estudar as estações do ano a arte vem somente como um momento de pintura da ilustração. A arte na educação infantil, não deve se resumir ao desenvolvimento do canto para crianças ficarem atentas a escovar os dentes, ou desenvolver um desenho porque estimula a coordenação motora, ou ainda, simplesmente, apresentar uma imagem para a criança solicitar que ela faça sua interpretação. A arte vai além dessas premissas. CRECHES PRÉ-ESCOLA Bebês (0 a 1 ano e 6 meses). Crianças bem pequenas (1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses). Crianças pequenas (4 anos a 5 anos e 11 meses). 114 UNIDADE 2 — ARTE NA EDUCAÇÃO ESCOLAR A linguagem artística na educação infantil deve ser trabalhada de uma maneira poética e lúdica. A criança não deve necessariamente ter que decorar o nome de um artista, a não ser que ela possua interesse de conhecê-lo. A criança não possui a responsabilidade de interpretar uma obra de arte, porém ela pode relacionar as manifestações artísticas e culturais com sua vivência e com sua experiência. Nessa etapa da educação infantil, a arte deve proporcionar às crianças a possibilidade de "fazer" brincando. Dar a ela o sentimento de prazer no desenhar, no pintar, no modelar, no manusear materiais, no cantar, no movimentar-se ou ao dramatizar uma peça teatral, para assim explorar o máximo de sensações e percepções possíveis. A criança deve se familiarizar com variados materiais em diferentes espaços. Trabalhar com materiais orgânicos (materiais naturais como folhas, areia, terra, etc.), recicláveis (caixa de papelão, garrafas pet, tampinhas etc.), bem como materiais tradicionais do ensino de arte (folha de papel, lápis, tinta, borracha etc.), explorando elementos da visualidade como formas, cores, texturas, volumes nos mais variados suportes e espaços. Levar as crianças a conhecer espaços culturais como museus, teatros, feiras, exposições, shows musicais, espetáculos de dança e ou cinema, oportunizando que elas conheçam artistas e suas obras, são estímulos importantes para seu desenvolvimento e para o conhecimento e valorização das manifestações artísticas, sejam elas locais, regionais e ou nacionais. Todas as ações são possibilidades de experiência, de propor um universo de imaginação e fantasia, seja quando a criança bate as panelas de casa, seja quando ela desenha com o dedo no vidro ou no chão, seja quando elas sentem a textura de algum material. São ações que provocam poéticas de vivências, de desenvolvimento criativo, mas além das ações a serem desenvolvidas de forma planejada, também é importante considerar o instrumento de registro delas. Desta forma, oportfólio é uma estratégia de registro bastante utilizada na educação infantil, no qual potencializa o acompanhamento e a análise de todo o percurso metodológico de ensino e aprendizagem. Refletir sobre esse instrumento de ensino-aprendizagem é fundamental para o processo de avaliação processual. Hernández (1998) define o portfólio como pasta de atividades, um continente com várias possibilidades de aprendizagem, que integram os registros pessoais, experiências de sala de aula, conexões com outros temas fora da escola, entre outros. Esses registros, dos estudantes e do professor, mostram as evidências de como foi construído o conhecimento, quais trajetórias foram percorridas, quais conflitos e alternativas para resolvê- los e quais caminhos necessitam ainda ser explorados.Vilas Boas (1998) diz que é possível reunir as produções dos estudantes e professores, e que tal ação oportuniza que eles próprios e outras pessoas que tenham acesso ao portfólio identifiquem seus progressos no que se refere à aprendizagem, bem como suas necessidades, e por vezes, desafios em determinadas áreas. Um aprender na ação que permite conhecer a si e ao outro e que potencializa a capacidade reflexiva dos sujeitos: uma ação ativa e voluntária que utiliza o pensamento como construtor de sentidos. De acordo com Pillotto (2013), é por isso que o portfólio potencializa TÓPICO 2 — CONHECENDO AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS NA BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) 115 um ensino prático reflexivo, nas quais os estudantes não só reproduzem o que é ensinado, mas vivenciam-no, participando dos processos, apropriando-se dos conhecimentos. Nada é tão indicador da aquisição de talento artístico por um estudante do que sua descoberta do tempo que ele requer – tempo para viver os choques iniciais de confusão e mistério, desaprender expectativas iniciais e começar a maestria de uma prática de ensino prático; tempo para vier os ciclos de aprendizagem envolvidos em qualquer tarefa com caráter de design e temo para movimentar-se repetidamente ente a reflexão-na-ação e a reflexão sobre a ação (SCHÖN, 2000, p. 227). Para utilizar o portfólio, o professor deve traçar uma organização e rever sua intenção ao utilizá-lo. As atividades dos alunos registradas no portfólio, devem ser as evidências de sua aprendizagem e das suas fragilidades durante um percurso escolar. Esse instrumento, portanto, encoraja e desenvolve a autoavaliação, pois permite que professores e estudantes tomem consciência das suas aprendizagens. O portfólio deve ser parte do material do aluno e não um expositor intacto de atividades que é entregue aos pais no final de um período avaliativo. A proposta do portfólio deve ser de tornar o aluno um ser ativo desse processo de construção. Esse instrumento estimula os alunos e ajuda o professor em suas tomadas de decisão na medida em que alunos e professores selecionam, a partir das necessidades, as atividades que vão integrar o seu currículo e consequentemente o seu portfólio. Além de fazer com que os alunos tenham mais autonomia, esse instrumento desenvolve a reflexão dos alunos, uma vez que eles são estimulados a selecionar, a participar das decisões e, portanto, poderão argumentar sobre suas escolhas. Essa ação potencializa o pensamento crítico, ativando os sentidos de observar, perceber e interpretar. Os portfólios devem ser desenvolvidos pelas crianças. Esse material não deve ter somente a função de exposição de atividades e não deve ser produzido como um book de manequim, mas sim, apresentar o real desenvolvimento da criança. Escolher as atividades mais bonitas dos alunos, é querer mostrar uma realidade idealista, em que a escola não tem problema, ou seja, você olha para o material e você enxerga a voz da escola e do professor. E a voz da criança? O portfólio deve sim apresentar a voz do professor, da escola, da comunidade e a voz da criança, evidenciando suas vontades, suas escolhas, suas descobertas, ou seja, mostrando a identidade do aluno. Isso significa que o professor precisa colocar no portfólio coisas que deram certo, que não deram certo, possibilidades que surgiram das sugestões das crianças, da família e da comunidade. O grande dono do portfólio deve ser a criança, não a diretora, não a secretária, não o professor, mas sim o aluno que é o protagonista das ações desenvolvidas. O portfólio deve ser um material didático que faz parte da rotina da escola. O próprio registro fotográfico feito pelo professor das atividades 116 UNIDADE 2 — ARTE NA EDUCAÇÃO ESCOLAR produzidas pelo aluno, precisam ser socializadas com eles, para que os alunos se percebam como parte do processo. Essa ação da fotografia também permite a compreensão do trabalho realizado, uma vez que a ação é a materialidade e a fotografia é a imagem. Todo material de que o professor se apropria da produção da criança, deveria vir como material didático, não como book para dizer que está tudo bem, tudo lindo, tudo maravilhoso. Isso é passar uma imagem falsa, quando ele poderia ser maravilhoso. Melhor que fosse um caderninho qualquer, sem muita purpurina, mas com verdade. Desde cedo, a criança deve ter acesso à arte por meio da poética e da ludicidade. Geralmente em países de terceiro, quarto e quinto mundo, muitas crianças vão ter acesso à arte somente na escola. Os professores de arte devem estar constantemente atentos ao contexto artístico global e rever suas práticas. A importância da arte se dá pelo desenvolvimento da criatividade. Independentemente da profissão que o aluno escolher, o mundo quer pessoas criativas. Ideias que já existem, operações que já estão sendo feitas não precisam ser reforçadas. Pessoas que se destacam, são aquelas que mostram o diferente. Seja qual for a escolha do aluno futuramente, a criatividade e a sensibilidade são habilidades fundamentais para exercer qualquer profissão. Um dentista precisa ter a sensibilidade de moldar o dente direito igual ao dente esquerdo. Uma arquiteta além de medidas exatas deve oferecer comodidade e praticidade ao seu cliente em qualquer espaço. Um engenheiro deve propor soluções viáveis a rodovias, prédios etc. Uma designer de moda, móveis, roupa devem apresentar inovações e exclusividades em seus trabalhos. Assim como um advogado deve ter a sensibilidade de defender o justo, um médico deve ter a sensibilidade de perceber diferentes situações e contribuir com seu próximo. Percebemos então, que desde muito cedo, é importante que o ensino de arte promova o desenvolvimento de habilidades que serão fundamentais para o futuro da sociedade. Caro acadêmico! Torne a ação do desenvolvimento do portfólio um momento de pertencimento por parte do aluno para com as atividades realizadas. Não deixe que se torne uma atividade sem objetivo, pois muitos professores, por conta da quantidade de alunos em sala de aula, acabam entretendo seus alunos com atividades rotineiras ou ainda deixando as crianças brincarem em sala de aula, para poder montar esse material com o intuito, apenas, de exibir para a direção da escola e ou pais. O portfólio precisa conter significado para todos que nele participaram, principalmente para o aluno. DICAS TÓPICO 2 — CONHECENDO AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS NA BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) 117 Portanto, trabalhar arte na educação infantil, exige que o professor pense em estratégias pedagógicas que devem ser elaboradas de acordo com a faixa etária das crianças, considerando a experiência provocada. Algumas dicas podem servir como reflexão, privilegiando a experimentação, apreciação e ação, sendo adaptado materiais e situações para cada nível de ensino. 4.2. 1BEBÊS (zero a 1 ano e 6 meses) A arte com bebês é muito mais da curadoria do professor, ou seja, o professor deve organizar ambientes e espaços que as crianças possam experimentar de tal forma que ativem suas percepções sensoriais. Nesta faixa etária, que compreende o desenvolvimento inicial da criança, é fundamental apresentarpossibilidades visuais, sonoras e táteis. Como proposta, o professor pode utilizar móbiles e adaptá-los, inserindo diferentes imagens para os bebês já irem se familiarizando com obras de arte e ou imagens de objetos, a fim de irem identificando suas formas e possíveis significados a partir da visualidade. O professor também pode proporcionar percepções táteis com água, barro, papel de amassar, rasgar, dobrar, jogar, permitindo que a criança sinta a textura e movimente seu corpo. Outra estratégia de estímulo sensorial, é possibilitar que a criança se sensibilize com as diferentes músicas, bem como pela descoberta dos sons. O professor pode proporcionar momentos de experiência com sons a partir do movimento de objetos, ou seja, estimular o aluno a bater ou mexer algum objeto para ouvir o som e sentir o ritmo. Promover momentos de canto para ampliar o vocabulário do aluno e ou momentos de imitação de sons a fim de perceber a ligação do som com a vida cotidiana. Outro aspecto importante é a exploração de espaços. Verificar as possibilidades de desafios em diferentes ambientes para promover maior interação e contextualização. Proporcionar experiências ao ar livre ou em espaços internos que estejam organizados e com objetivos previamente definidos. Desta forma, percebe-se que muitos são os momentos e as possibilidades de criação visual, tátil e sonora com as crianças dessa faixa etária. Momentos de higienização, como a hora do banho, também podem se transformar em espaços poéticos, seja por uma música que esteja tocando naquela hora, seja pela presença de materiais que o professor poderá apresentar para a criança sentir sua textura, seja pelo prazer de brincar com a água e pela sensação que ela causa em seu corpo. Portanto, o professor precisa estar atento as inúmeras possibilidades de criação e explorá-las de forma organizada e planejada. 118 UNIDADE 2 — ARTE NA EDUCAÇÃO ESCOLAR 4.2.2 CRIANÇAS BEM PEQUENAS (1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses) Nessa etapa, as linguagens podem ser trabalhadas, colocando a criança como protagonista da ação. Colocar a criança como protagonista de suas ações é uma forma de dar oportunidades para que ela comece a explorar todas as linguagens da arte seguindo suas limitações e o seu desenvolvimento motor e cognitivo. Nessa fase podemos mencionar, que a criança passa por um período de degustação das experiências sensíveis. A criança passa a aprimorar seus movimentos, coordenação e explorar o mundo ao seu redor por meio do seu corpo. Algumas técnicas podem ser exploradas, como pintura, desenho, modelagem, canto, dança, entre outras, mas sempre levando em consideração que essas atividades devem ser breves e totalmente lúdicas, pois nessa idade, as crianças possuem dificuldade de se concentrar por muito tempo e a brincadeira é uma forma de prender sua atenção. 4.2.3 CRIANÇAS PEQUENAS (4 anos a 5 anos e 11 meses) Algumas técnicas, como a pintura, o desenho, a modelagem, o recorte, a colagem, a dramatização, a imitação, a encenação, o canto, a exploração de sons, as danças, entre outras atividades lúdicas, são essenciais para essa faixa etária. Trabalhar com crianças é sempre um desafio. O professor deve fazer uso das linguagens da arte para contribuir com o desenvolvimento da criança em vários aspectos: psíquico, motor, sensível, entre outros. Assim como em outros níveis, a quantidade de crianças na sala de aula é um ponto a se pensar quando o professor desenvolve suas estratégias pedagógicas. Adequar materiais para utilizar em diferentes fases e organizar os espaços que serão realizadas as atividades, é essencial para garantir a segurança do aluno e para conseguir atingir o propósito da atividade. Caro acadêmico! Conheça o filtro que permite o download dos direitos e objetivos de aprendizagem por grupo de faixa etária ou campos de experiência da educação infantil. Acesse o link: http://download.basenacionalcomum.mec.gov.br/. DICAS TÓPICO 2 — CONHECENDO AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS NA BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) 119 5 EDUCAÇÃO PELA ARTE NO ENSINO FUNDAMENTAL A transição da educação infantil para o ensino fundamental deve ser preparada com muito zelo pelos professores que acolhem esses alunos. O ensino fundamental é o período mais longo de permanência, por parte dos alunos, pois são 9 anos que são divididos em anos iniciais (1º ao 5º ano) e anos finais (6º ano 9º ano). Durante a educação infantil, a ludicidade é a base para se aprender e essa transição deve ser respeitada. Na educação infantil as atividades de interações, como os jogos e as brincadeiras orientam as práticas pedagógicas dos professores e contribuem para o desenvolvimento das crianças. No entanto, o Ensino Fundamental requer maiores desafios aliados ao aspecto do letramento: Agora no Ensino Fundamental o ensino de Arte deve assegurar aos alunos a possibilidade de se expressar criativamente em seu fazer investigativo, por meio da ludicidade, propiciando uma experiência de continuidade em relação à Educação Infantil. Dessa maneira, é importante que, nas quatro linguagens da Arte – integradas pelas seis dimensões do conhecimento artístico, as experiências e vivências artísticas estejam centradas nos interesses das crianças e nas culturas infantis (BRASIL, 2019, p. 199). Na BNCC, a disciplina de Artes, no Ensino Fundamental, se encontra como área de “linguagens”. Essa área engloba outras disciplinas como a Língua Portuguesa, Língua Inglesa e Educação Física. A área dentro da base tem por finalidade possibilitar aos estudantes a possibilidade de participar de práticas de linguagem diversificadas. O componente “arte” tem muito a contribuir para essa formação, pois é um campo do conhecimento humano sensível-cognitivo, que envolve as práticas da criação, da produção, da apreciação, do compartilhamento e da reflexão de suas formas. Assim como os outros componentes na área de linguagens, a arte é considerada uma prática social e permite que as pessoas interajam consigo mesmas e com os outros, constituindo-se como sujeitos sociais. Na BNCC, a disciplina de Artes está estruturada para promover a aprendizagem das diversas linguagens artísticas, como as artes visuais, a dança, Para você ter acesso ao documento da BNCC Arte– Ensino Fundamental, acesse o link a seguir. http://www.alex.pro.br/BNCC%20Arte.pdf. DICAS 120 UNIDADE 2 — ARTE NA EDUCAÇÃO ESCOLAR a música e o teatro. Cada uma dessas linguagens possui conteúdos específicos e são fundamentais nessa fase. A BNCC ainda aponta para a possibilidade de que os processos de aprendizagem em arte ocorram por meio da articulação entre as linguagens, gerando uma nova unidade temática chamada de “artes integradas”. A arte integrada é uma proposta de conexão do currículo, baseado em temáticas que devem ser desenvolvidas na escola, de acordo com sua região e valores da sua formação cultural. Elas são frutos de temas sociais, históricos, culturais e artísticos que envolvem arte em uma determinada localidade. Os processos de aprendizagem desse componente visam ao desenvolvimento da sensibilidade, da criatividade, da cognição, da capacidade de argumentação e de reflexão dos estudantes. A BNCC propõe que a abordagem das linguagens na disciplina de Artes (artes visuais, dança, música e do teatro), se articule com as seis dimensões do conhecimento. Aponta que não classifica hierarquia entre essas dimensões, e não estipula a ordem de que devem ser trabalhadas em sala de aula. De acordo com a BNCC, as seis dimensões da arte são: criação, crítica, estesia, expressão, fruição e reflexão. O documento da BNCC prevê, como mencionado anteriormente, que o ensino de artes na educação infantil, ensino fundamental e ensino médio esteja dividido em quatro linguagens específicas: artes visuais, dança, música e teatro. Essas linguagens devem ser articulas por meio de diferentes práticas e experiências artísticas no cotidiano escolar. Dessa forma, a BNCC aborda que: Essaslinguagens articulam saberes referentes a produtos e fenômenos artísticos e envolvem as práticas de criar, ler, produzir, construir, exteriorizar e refletir sobre formas artísticas. A sensibilidade, a intuição, o pensamento, as emoções e as subjetividades se manifestam como formas de expressão no processo de aprendizagem em Arte (BRASIL, 2019, p. 191). Trabalhar as linguagens de maneira conexa proporciona um ganho para a aprendizagem dos alunos, facilita o processo de aprendizagem e proporciona a facilidade de fazer conexões entre os saberes. O componente curricular contribui, ainda, para a interação crítica dos alunos com a complexidade do mundo, além de favorecer o respeito às diferenças e o diálogo intercultural, pluriétnico e plurilíngue, importantes para o exercício da cidadania. A Arte propicia a troca entre culturas e favorece o reconhecimento de semelhanças e diferenças entre elas (BRASIL, 2019, p. 191). Assim como em outros componentes, também em arte, a realidade do aluno considerando sua cultura, sua história, suas necessidades, deve ser trabalhada em sala de aula. Para isso, os professores e alunos podem compartilhar os saberes, organizando exposições, saraus, espetáculos, performances, concertos, recitais, intervenções e outras apresentações e eventos artísticos e culturais dentro TÓPICO 2 — CONHECENDO AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS NA BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) 121 da escola ou em outros locais, portanto, a BNCC estimula que as práticas de artes possam integrar diferentes linguagens (artes visuais, música, teatro e dança) em seu currículo, fazendo assim com que o conhecimento seja integral aos alunos. “Assim, é importante que o componente curricular arte, leve em conta o diálogo entre essas linguagens, o diálogo com a literatura, além de possibilitar o contato e a reflexão acerca das formas estéticas híbridas, tais como as artes circenses, o cinema e a performance” (BRASIL, 2019, p. 196). A necessidade de pensar, refletir e repensar sobre as práticas pedagógicas em artes visuais, tornam você, professor, um ser que ensina com propósito. O seu propósito de ensinar arte deve estar bem definido para que se guie nessa concepção para planejar, explorando cada linguagem do ensino em sala de aula. Atividades que facilitem um trânsito criativo, fluido e desfragmentado entre as linguagens artísticas podem construir uma rede de interlocução, inclusive, com a literatura e com outros componentes curriculares. Temas, assuntos ou habilidades afins de diferentes componentes podem compor projetos nos quais saberes se integrem, gerando experiências de aprendizagem amplas e complexas (BRASIL, 2019, p. 194). A disciplina de Artes, no ensino fundamental, propõe o conhecimento de manifestações culturais de vários períodos, desde a pré-história até a contemporaneidade e lugares, valorizando as produções artísticas da região que o aluno se encontra, contribuindo para sua formação integral. O documento ainda aborda que ao longo do Ensino Fundamental, os alunos devem expandir seu repertório e ampliar sua autonomia nas práticas artísticas, por meio da reflexão sensível, imaginativa e crítica sobre os conteúdos artísticos e seus elementos constitutivos e sobre as experiências de pesquisa, invenção e criação (BRASIL, 2019, p. 197). A disciplina de artes deve garantir aos alunos o desenvolvimento de algumas competências específicas. A seguir, apresentamos as competências específicas para o ensino de arte no ensino fundamental: 1. Explorar, conhecer, fruir e analisar criticamente práticas e produções artísticas e culturais do seu entorno social, dos povos indígenas, das comunidades tradicionais brasileiras e de diversas sociedades, em distintos tempos e espaços, para reconhecer a arte como um fenômeno cultural, histórico, social e sensível a diferentes contextos e dialogar com as diversidades. 2. Compreender as relações entre as linguagens da Arte e suas práticas integradas, inclusive aquelas possibilitadas pelo uso das novas tecnologias de informação e comunicação, pelo cinema e pelo audiovisual, nas condições particulares de produção, na prática de cada linguagem e nas suas articulações. 3. Pesquisar e conhecer distintas matrizes estéticas e culturais, especialmente aquelas manifestas na arte e nas culturas que constituem a identidade brasileira, sua tradição e manifestações contemporâneas, reelaborando-as nas criações em Arte. 122 UNIDADE 2 — ARTE NA EDUCAÇÃO ESCOLAR 4. Experienciar a ludicidade, a percepção, a expressividade e a imaginação, ressignificando espaços da escola e de fora dela no âmbito da Arte. 5. Mobilizar recursos tecnológicos como formas de registro, pesquisa e criação artística. 6. Estabelecer relações entre arte, mídia, mercado e consumo, compreendendo, de forma crítica e problematizadora, modos de produção e de circulação da arte na sociedade. 7. Problematizar questões políticas, sociais, econômicas, científicas, tecnológicas e culturais, por meio de exercícios, produções, intervenções e apresentações artísticas. 8. Desenvolver a autonomia, a crítica, a autoria e o trabalho coletivo e colaborativo nas artes. 9. Analisar e valorizar o patrimônio artístico nacional e internacional, material e imaterial, com suas histórias e diferentes visões de mundo (BRASIL, 2019, p. 198). Nos anos iniciais (1º ao 5º ano) do ensino fundamental, assim como na educação infantil, o professor deve desenvolver mais experiências poéticas, isso significa que é preciso desenvolver preferencialmente ações práticas, de experimentação, explorando espaços e materiais nas diferentes linguagens artísticas, e o professor deve ir ampliando o repertório artístico conforme o desempenho da turma. Nos anos finais (de 6º ao 9 ano) do ensino fundamental, os professores devem trabalhar mais a reflexão crítica e a estesia, isso significa que é necessário desenvolver ações que provoquem o pensar e o refletir dos alunos. O professor, nessa fase, pode inserir mais a teoria que compreende as informações, os conceitos e os conteúdos a serem estudados, fazendo conexões com as visualidades, com as sonoridades, com as performances, com a estética, ou seja, promover a articulação da teoria com a prática. 6 EDUCAÇÃO PELA ARTE NO ENSINO MÉDIO No ensino médio, a arte permeia de forma interdisciplinar todas as dez competências gerais da BNCC, já mencionadas na introdução desse tópico. Elas ajudam a desenvolver valores, o pensamento crítico, a capacidade de resolução Caro acadêmico! Conheça o filtro que permite o download das competências e habilidades que os estudantes do ensino fundamental devem desenvolver em todas as áreas do conhecimento. Acesse o link: http://download.basenacionalcomum.mec.gov.br/. DICAS TÓPICO 2 — CONHECENDO AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS NA BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) 123 de conflitos e a se colocar no lugar do outro. Elas colaboram com a formação integral do ser humano, fomentando valores que serão aproveitados tanto na vida pessoal do aluno quanto em sua atuação no mundo do trabalho. Por isso, é muito importante ser um campo de conhecimento isolado, não aglutinado a outros componentes. Esse é o motivo pelo qual ainda se luta por escolas que tenham um espaço em seu currículo para desenvolver os alunos por meio da arte. A disciplina de Artes, no ensino médio, deve promover práticas pedagógicas que estimulem o contato com diferentes culturas, diferentes conhecimentos, e sobretudo a valorização da arte local. O trabalho com a arte no ensino médio deve promover o cruzamento de culturas e saberes, possibilitando aos estudantes o acesso e a interação com as distintas manifestações culturais populares presentes na sua comunidade. O mesmo deve ocorrer com outras manifestações presentes nos centros culturais, museus e outros espaços, de modo a garantir o exercício da crítica, da apreciação e da fruição de exposições, concertos, apresentações musicais e de dança, filmes, peças de teatro, poemase obras literárias, entre outros (BRASIL, 2018, p. 474). O ensino médio prevê que os professores desenvolvam atividades que estejam ligadas às tecnologias e à arte contemporânea, inserindo, assim, no contexto escolar, o sentido poético e crítico dos jovens, que passam a refletir sobre temas atuais de sua sociedade e do mundo por meio de manifestações artísticas variadas. Nesse sentido, é fundamental que os estudantes possam assumir o papel de protagonistas como apreciadores e como artistas, criadores e curadores, de modo consciente, ético, crítico e autônomo, em saraus, performances, intervenções, happenings, produções em videoarte, animações, web arte e outras manifestações e/ou eventos artísticos e culturais, a ser realizados na escola e em outros locais. Assim, devem poder fazer uso de materiais e instrumentos e recursos convencionais, alternativos e digitais, em diferentes meios e tecnologias (BRASIL, 2018, p. 475). Na escola, a disciplina de Artes proporciona um campo abrangente de manifestações artísticas, que podem ser utilizadas para comunicar e expressar diversos assuntos em sala de aula, desenvolvendo assim momento de valorização cultural. A partir dessas ações os jovens passam a reconhecer e a valorizar sua história e sua cultura. Essas atividades artísticas além de fazer com que eles reconheçam e valorizem a arte, faz com que desenvolvam a fruição, a percepção estética e a sensibilização. De acordo com o documento oficial da BNCC (2018), o desenvolvimento das competências gerais do ensino médio, devem garantir aos estudantes o desenvolvimento de competências específicas. Relacionadas a cada uma delas, são indicadas, posteriormente, habilidades a serem alcançadas nessa etapa. Vamos conhecê-las: 124 UNIDADE 2 — ARTE NA EDUCAÇÃO ESCOLAR QUADRO 2 – COMPETÊNCIAS ESPECÍFICAS DE LINGUAGENS E SUAS TECNOLOGIAS PARA O ENSINO MÉDIO FONTE: Adaptado de BNCC (2018) 1COMPETÊNCIA ESPECÍFICA Compreender o funcionamento das diferentes linguagens e práticas (artísticas, corporais e verbais) e mobilizar esses conhecimentos na recepção e produção de discursos nos diferentes campos de atuação social e nas diversas mídias, para ampliar as formas de participação social, o entendi- mento e as possibilidades de explicação e interpretação crítica da realidade e para continuar aprendendo. 2 COMPETÊNCIA ESPECÍFICA Compreender os processos identitários, conflitos e relações de poder que permeiam as práticas sociais de linguagem, respeitar as diversidades, a pluralidade de ideias e posições e atuar socialmente com base em prin- cípios e valores assentados na democracia, na igualdade e nos Direitos Humanos, exercitando a empatia, o diálo- go, a resolução de conflitos e a cooperação, e combaten- do preconceitos de qualquer natureza. 3 COMPETÊNCIA ESPECÍFICA Utilizar diferentes linguagens (artísticas, corporais e ver- bais) para exercer, com autonomia e colaboração, protago- nismo e autoria na vida pessoal e coletiva, de forma críti- ca, criativa, ética e solidária, defendendo pontos de vista que respeitem o outro e promovam os Direitos Humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável, em âmbito local, regional e global. 4 COMPETÊNCIA ESPECÍFICA Compreender as línguas como fenômeno (geo)político, histórico, social, variável, heterogêneo e sensível aos contextos de uso, reconhecendo-as e vivenciando-as como formas de expressões identitárias, pessoais e coletivas, bem como respeitando as variedades linguísticas e agindo no enfrentamento de preconceitos de qualquer natureza. 5 COMPETÊNCIA ESPECÍFICA Compreender os múltiplos aspectos que envolvem a pro- dução de sentidos nas práticas sociais da cultura corporal de movimento, reconhecendo-as e vivenciando-as como formas de expressão de valores e identidades, em uma perspectiva democrática e de respeito à diversidade. 6 COMPETÊNCIA ESPECÍFICA Apreciar esteticamente as mais diversas produções artís- ticas e culturais, considerando suas características locais, regionais e globais, e mobilizar seus conhecimentos sobre as linguagens artísticas para dar significado e (re)cons- truir produções autorais individuais e coletivas, de manei- ra crítica e criativa, com respeito à diversidade de saberes, identidades e culturas. 7 COMPETÊNCIA ESPECÍFICA Mobilizar práticas de linguagem no universo digital, con- siderando as dimensões técnicas, críticas, criativas, éticas e estéticas, para expandir as formas de produzir sentidos, de engajar-se em práticas autorais e coletivas, e de apren- der a aprender nos campos da ciência, cultura, trabalho, informação e vida pessoal e coletiva. TÓPICO 2 — CONHECENDO AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS NA BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) 125 Considerando esses aspectos, a BNCC da área de linguagens e suas tecnologias no ensino médio prioriza cinco campos de atuação social: • Campo da vida pessoal. • Campo das práticas de estudo e pesquisa. • Campo jornalístico-midiático. • Campo de atuação na vida pública. • Campo artístico. No ensino médio, os professores de artes devem aprofundar os conteúdos estudados durante o ensino fundamental e realizar atividades práticas com o intuito de desenvolver competências e habilidades específicas desse nível, considerando a experiência com as diferentes linguagens artísticas. Nesse sentido, é necessário que o professor tenha uma postura de provocador e emancipador diante das propostas pedagógicas teóricas e práticas. No ensino médio, a área tem a responsabilidade de propiciar oportunidades para a consolidação e a ampliação das habilidades de uso e de reflexão sobre as linguagens – artísticas, corporais e verbais (oral ou visual-motora, como Libras, e escrita), que são objeto de seus diferentes componentes (Arte, Educação Física, Língua Inglesa e Língua Portuguesa) (BRASIL, 2018, p. 474). Mais uma dica importante aos professores de artes, é que nessa fase, o estudo deve começar a partir do olhar em torno do contexto social e cultural dos alunos. Para isso acontecer, é fundamental instigar os educandos sobre temas que partem da sua realidade, ou seja, verificar seus interesses, suas inquietudes e o que mais surgir de necessidade por parte deles. Os professores devem explorar ao máximo as conexões entre a arte local, regional, estadual, nacional e mundial, fazendo relações com diferentes culturas, crenças e costumes. Outro aspecto importante, é trabalhar a arte contemporânea nessa etapa, sempre trazendo artistas e obras do contexto atual e suas reflexões. A arte contemporânea é um assunto que os jovens adoram conhecer e estudar, pois podemos falar de diversos temas e instigá-los de diferentes formas, mas sobretudo deixá-los nos surpreender com seus pontos de vista. Dessa forma, o professor deve ser um agente que faça essa interlocução de maneira ética e construtiva. Para você ter acesso cinco aos campos de atuação social e acesso ao documento da BNCC Ensino Médio, acesse o link a seguir: http://basenacionalcomum. mec.gov.br/images/historico/BNCC_EnsinoMedio_embaixa_site_110518.pdf. DICAS 126 UNIDADE 2 — ARTE NA EDUCAÇÃO ESCOLAR A arte contribui para o desenvolvimento da autonomia criativa e expressiva dos estudantes, por meio da conexão entre racionalidade, sensibilidade, intuição e ludicidade. Ela é, também, propulsora da ampliação do conhecimento do sujeito relacionado ao outro, ao mundo e a si mesmo. É na aprendizagem, na pesquisa e no fazer artístico que as percepções e compreensões do mundo se ampliam no âmbito da sensibilidade e se interconectam, em uma perspectiva poética em relação à vida, que permite aos sujeitos estar abertos às percepções e experiências, mediante a capacidade de imaginar e ressignificar os cotidianos e rotinas (BRASIL, 2018, p. 474). De acordo com a BNCC (2018), as atividades de artes no ensino médio têm por objetivo promover conhecimento e reflexões sobre diversas culturas, saberes, e manifestações populares presentes na sua comunidade e emnosso país. Esta disciplina deve estimular o acesso às manifestações presentes em centros culturais, museus e espaços de arte, garantindo um constante exercício da crítica, da apreciação e fruição em diferentes locais. O professor de artes, além de incentivar o acesso dos alunos aos espaços culturais, deve dar a oportunidade de se manifestarem como protagonistas de suas produções, como apreciadores críticos de diversas obras e sobretudo como criadores da sua arte. Sempre se posicionando de maneira consciente, prezando a ética e estimulando a criticidade por meio de diversas linguagens. Conheça o vídeo do artista Celso Favaretto, no Itaú Cultural: É isso Arte? Acesse o Link: https://www.youtube.com/watch?v=-XG-71wqwUI. DICAS Caro acadêmico! Conheça o filtro que permite o download das competências e habilidades que os estudantes do ensino médio devem desenvolver em todas as áreas do conhecimento. Acesse o link: http://download.basenacionalcomum.mec.gov.br/. DICAS 127 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, você aprendeu que: • A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é um documento normativo que define o conjunto de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo das etapas e modalidades da Educação Básica. • A BNCC está orientada pelos princípios éticos, políticos e estéticos que visam a formação humana integral e a construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva. • A BNCC está fundamentada na igualdade e na equidade, ou seja, baseada nas diferenças sociais, cognitivas e outras. Todo aluno deve ser tratado de "forma diferente", para que todos atinjam o mesmo patamar. • Na educação infantil, as aprendizagens e o desenvolvimento das crianças têm como eixos estruturantes as interações e a brincadeira, assegurando-lhes os direitos de conviver, brincar, participar, explorar, expressar-se e conhecer-se. • A organização curricular está estruturada em cinco campos de experiências (1- Eu, o outro e o nós; 2- Corpo, gestos e movimentos; 3- Traços, sons, cores e formas; 4- Escuta, fala, pensamento e imaginação; 5- Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações), no âmbito dos quais são definidos os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento. • Trabalhar arte na educação infantil exige que o professor pense estratégias pedagógicas que devam ser elaboradas de acordo com a faixa etária das crianças: Bebês (zero a 1 ano e 6 meses); crianças bem pequenas (1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses); crianças pequenas (4 anos a 5 anos e 11 meses). • No ensino fundamental, a abordagem das linguagens (artes visuais, dança, música e do teatro) se articulam com as seis dimensões do conhecimento: criação, crítica, estesia, expressão, fruição e reflexão. No ensino fundamental, o componente Arte faz parte da área de linguagens com os componentes de Língua Portuguesa, Língua Inglesa e Educação Física. • No ensino médio a arte permeia, de forma interdisciplinar, todas as dez competências gerais: conhecimento; pensamento científico, crítico e criativo; repertório cultural; comunicação; cultura digital; trabalho e projeto de vida; argumentação; autoconhecimento e autocuidado; empatia e cooperação; responsabilidade e cidadania. Elas ajudam a desenvolver valores, o pensamento crítico, a capacidade de resolução de conflitos e a se colocar no lugar do outro. 128 • A área de linguagens e suas tecnologias no ensino médio priorizam cinco campos de atuação social: campo da vida pessoal; campo das práticas de estudo e pesquisa; campo jornalístico-midiático; campo de atuação na vida pública; campo artístico. 129 1 A Educação Infantil é organizada em cinco campos de experiências, no âmbito dos quais são definidos os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento. Os campos de experiências constituem um arranjo curricular que acolhe as situações e as experiências concretas da vida cotidiana das crianças e seus saberes, entrelaçando-os aos conhecimentos que fazem parte do patrimônio cultural. A definição e a denominação dos campos de experiências também se baseiam no que dispõem as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (DCNEI) em relação aos saberes e conhecimentos fundamentais a serem propiciados às crianças e associados às suas experiências. Aponte quais são os cinco campos de experiências: 2 Considerando a estrutura da Base Nacional Comum Curricular (BNCC)e as diferenças entre as etapas, marque (V) para as afirmativas verdadeiras e (F) para as falsas: ( ) Na etapa da educação infantil devem ser assegurados seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento: conviver, brincar, participar, explorar, expressar, conhecer-se. ( ) A educação infantil está organizada em cinco campos do conhecimento: o eu, o outro e o nós; corpo, gestos e movimentos; traços, sons, cores e formas; escuta, fala, pensamento e imaginação e o espaços, tempos, quantidades, relações e transformações. ( ) O ensino médio tem a responsabilidade de proporcionar oportunidades para a consolidação e a ampliação das habilidades de uso e de reflexão sobre as linguagens artísticas, corporais e verbais. ( ) Língua Inglesa é um componente curricular contemplado a partir dos anos iniciais do ensino fundamental. Agora, assinale a alternativa CORRETA: ( ) V – F – V – F. ( ) F – V – F – F. ( ) F – V – V – V. ( ) V – F – V – V. 3 A Base é um referencial que indica as aprendizagens essenciais para os alunos da Educação Básica e, nesse sentido, aponta para a melhoria da qualidade da educação nacional. A promoção da equidade, por sua vez, depende de um esforço na ponta para, inicialmente, reconhecer a individualidade de cada aluno e, então, fornecer as condições necessárias às aprendizagens considerando essas demandas diferenciadas do público atendido em cada rede de ensino, escola e sala de aula. Agora responda: qual é a relação da educação integral com a equidade na escola? AUTOATIVIDADE 130 131 UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é um documento construído por muitos profissionais durante décadas. Nesse período, houve mudança de profissionais, assim como, de filosofias de trabalho e estratégias pedagógicas. Essa rotatividade sempre é preocupante na formulação de um documento de nível nacional. A base, em poucas palavras, é mais um roteiro didático para a gestão educacional de professores. É um documento norteador em nível federal, que apresenta as orientações didáticas que devem ser utilizadas pelo professor em cada modalidade do ensino. Nesse documento, encontramos explícita a importância de cada linguagem no ensino de arte, a distinção entre as linguagens e a orientação de como cada linguagem pode ser abordada na escola, de maneira que elas possam se conectar. Apresenta que o conhecimento artístico deve estar inserido no currículo escolar e aponta suas filosofias, propostas e concepções para a educação. Em um diálogo com o Governo Federal, os Estados conseguiram autonomia para criarem seus próprios currículos. As propostas estaduais, em suas especificidades, manifestações culturais, entre outras particularidades de cada região, podem ser apontadas para fazer parte do currículo. As concepções e orientações didáticas devem ter como fundamento a BNCC. Em arte, a Base Nacional Comum Curricular aborda que as propostas de ensino- aprendizagem na disciplina de Artes devam utilizar seis dimensões de aprendizagem. As dimensões sugeridas pela BNCC, possibilitam que os alunos conheçam as manifestações artísticas ao longo da história, fazendo com que o aluno perceba como elas se situam no tempo e no espaço, promovendo assim a construção de conhecimentos significativos. As dimensões promovem no processo de ensino-aprendizagem, a capacidade de o aluno expressar seus pensamentos e emoções por meio de suas produções, fazendo conexões com o mundo à sua volta. TÓPICO 3 — PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM EM ARTE DE ACORDO COM A BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) 132UNIDADE 2 — ARTE NA EDUCAÇÃO ESCOLAR 2 DIMENSÕES DO PROCESSO DE ENSINO-APRENDIZAGEM EM ARTE NA BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) A BNCC propõe que, no ensino de arte, a prática pedagógica do professor seja orientada pela abordagem das diversas linguagens artísticas. Sobretudo que o ensino se articule por meio das seis dimensões do conhecimento, dando origem à experiência artística. Todas as dimensões transcorrem o conhecimento das quatro linguagens (artes visuais, dança, música a teatro) e contribuem para as aprendizagens dos alunos. Não se trata de eixos temáticos ou categorias, mas de linhas maleáveis que se interpenetram, constituindo a especificidade da construção do conhecimento em Arte na escola. Não há nenhuma hierarquia entre essas dimensões, tampouco uma ordem para se trabalhar com cada uma no campo pedagógico (BRASIL, 2019, p. 194). Ao promover uma aprendizagem que considera a arte uma área do conhecimento humano que articula as dimensões da criação, da crítica, da estesia, da expressão, da fruição e da reflexão, o professor permite que os alunos possam adquirir uma consciência ampliada de si, do outro e do mundo em que vive. Uma experiência em arte ancorada apenas em propostas práticas não oferece subsídios para que os alunos pensem sobre sua própria construção de conhecimentos em arte e sobre a articulação entre suas formas expressivas e referências de natureza estética, histórica, filosófica etc. Tampouco uma aprendizagem que apenas privilegie aspectos teóricos, não contempla a dimensão da experiência. Para que aconteça uma experiência de aprendizagem ampla e densa, é preciso promover uma articulação entre as seis dimensões do conhecimento humano proposta pela BNCC. As seis dimensões do conhecimento em arte são: criação, crítica, estesia, expressão, fruição e reflexão. Vamos estudar cada uma delas: 2.1 CRIAÇÃO A dimensão denominada "criação" refere-se ao momento que os alunos desenvolvem suas produções artísticas, de maneira individual ou coletiva e os processos de aprendizagens são colocados em ação. O papel do professor é de propor desafios durante o fazer artístico. No percurso desse processo, os alunos devem ser estimulados a fazer escolhas e são colocados diante de desafios para estimular sua reflexão e o senso criativo, essencial no mundo em que vivemos. Quanto à criação a BNCC expõe: TÓPICO 3 — PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM EM ARTE DE ACORDO COM A BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) 133 [...] refere-se ao fazer artístico, quando os sujeitos criam, produzem e constroem. Trata-se de uma atitude intencional e investigativa que confere materialidade estética a sentimentos, ideias, desejos e representações em processos, acontecimentos e produções artísticas individuais ou coletivas. Essa dimensão trata do apreender o que está em jogo durante o fazer artístico, processo permeado por tomadas de decisão, entraves, desafios, conflitos, negociações e inquietações (BRASIL, 2019, p.192). A criação está relacionada aos processos do imaginário do ser humano e o professor tem um papel fundamental nessa caminhada educativa. O educador deve aproveitar esse momento para potencializar os processos de desenvolvimento da imaginação e da criatividade dos estudantes, sejam eles crianças, adolescentes ou jovens, para que eles consigam desbloquear as suas mentes, desapegando-se de padrões pré-estabelecidos. Essa dimensão possui movimento e ação no ambiente escolar, resultando em um produto que passa por muitos campos do conhecimento, pois está ligado ao imaginário e à reflexão. Seja uma exposição de pintura, desenho, fotografia, escultura, instalação artística, apresentação musical, teatral, de performance ou de dança, entre outros, é efetivamente o resultado palpável de uma experienciação artística no ambiente escolar. Em sala de aula, o momento da criação, é possível quando o professor potencializa a criatividade dos alunos por meio da produção artística, quando cada estudante tem a liberdade de se expressar, apresentando seus gostos, seus desejos, suas escolhas, suas vontades, suas angústias, entre tantas outras sensações e percepções, além do seu conhecimento. 2.2 CRÍTICA A dimensão denominada "crítica" assume a própria função da sua palavra. O ato de criticar faz com que estudantes passem a conhecer, primeiramente, o objeto em questão, seja uma obra de arte, como pintura, desenho, escultura, instalação, ou ainda uma peça musical, uma performance artística, um vídeo arte, uma dramatização, entre outros. A partir do momento que o aluno faz essa leitura geral da obra de arte ele pode criticar, no sentido de se aprofundar na sua história, contexto e trazer seu ponto de vista. Assim, na BNCC, a crítica: [...] refere-se às impressões que impulsionam os sujeitos em direção a novas compreensões do espaço em que vivem, com base no estabelecimento de relações, por meio do estudo e da pesquisa, entre as diversas experiências e manifestações artísticas e culturais vividas e conhecidas. Essa dimensão articula ação e pensamento propositivos, envolvendo aspectos estéticos, políticos, históricos, filosóficos, sociais, econômicos e culturais (BRASIL, 2019, p.192). 134 UNIDADE 2 — ARTE NA EDUCAÇÃO ESCOLAR Essa dimensão aprofunda muito a questão das leituras de obra, em suas diversas linguagens, como: leituras de imagens, leituras sonoras, leitura com crítica, leitura autocrítica, leitura guiada e leitura reflexiva. Essa dimensão estimula o estudante a se colocar no lugar do intérprete e do crítico de arte, para que possa compreender suas relações. Nesse sentido, cabe ao professor estimular essa dimensão para desenvolver as habilidades nos estudantes, como por exemplo, um professor que opta por trabalhar o conteúdo de “arte grega”, deve não só apresentar os artistas e suas obras, mas desenvolver nos estudantes a crítica com o espaço político, social, econômico ao qual foi vivido no passado, fazendo a relação com o tempo presente. A crítica proporciona uma base bem grande de interpretação de imagens, sons, corpo, escrita. Por exemplo, trazemos a imagem de uma obra do artista Salvador Dali e solicitamos que as crianças façam o papel do crítico, ou seja, realizamos alguns questionamentos, como: o que elas têm a dizer da imagem? Como a imagem foi construída pelo artista? Em qual contexto foi construída? Se o artista estivesse presente no nosso tempo, como essa imagem seria construída? Será que o artista faria algo diferente na atualidade? Como seria sua criação? De uma forma surreal, como ele representaria a sua obra? Qual seria a temática que o artista abordaria na atualidade? A crítica seria o momento de o professor apresentar o objeto artístico, ou a música, ou a peça de teatro ou uma coreografia de dança e fazer com que os alunos reflitam sobre ela, façam conexões com suas vidas e a interpretem. Nesse momento, os estudantes são estimulados pelos professores a desenvolver seu senso crítico e fazem com que eles se coloquem no processo de criação da obra, assim, passam a compreender os caminhos de criação da obra em questão. 2.3 ESTESIA A dimensão denominada "estesia" pode ser associada à dimensão "fruição", pois elas andam muito próximas. A estesia, é um termo complexo, mas que permeia entre as várias dimensões, mais especificamente, é irmã gêmea da fruição e da expressão. A BNCC apresenta que a estesia: [...] refere-se à experiência sensível dos sujeitos em relação ao espaço, ao tempo, ao som, à ação, às imagens, ao próprio corpo e aos diferentes materiais. Essa dimensão articula a sensibilidade e a percepção, tomadas como forma de conhecer a si mesmo, o outro e o mundo. Nela, o corpo em sua totalidade (emoção, percepção, intuição, sensibilidade e intelecto) é o protagonista da experiência (BRASIL, 2019, p. 192). Em termos gerais podemos definir que a estesia é a relação que você estabelece entre o "objeto de arte criado" com o "criador" e com "quem" está nesse processode ler a obra, seja a qual linguagem pertencer (artes visuais, música, teatro ou dança). Essa dimensão se encontra mais em nível das relações, entre o criador (artista), obra de arte e leitor. TÓPICO 3 — PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM EM ARTE DE ACORDO COM A BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) 135 Podemos ainda mencionar que a estesia é um momento de apreciação e de reflexão. O leitor na estesia assume o papel de um interlocutor, de certa forma ele também se torna criador quando ele participa, interage e interpreta, quando ele faz possíveis relações de entendimento a partir da sua análise. A estesia é um momento de pura apreciação, reflexão, leitura e, portanto, de experiência. Por isso mencionamos que ela se aproxima muito da fruição e da expressão. A fruição, de que falaremos a seguir, é esse tempo entre artista e obra. Já a estesia, vai além, ela faz essa relação, mas a pessoa, que está apreciando (público), possui um papel de maior movimento como um interlocutor, como um coautor. Na dimensão estesia podemos mencionar que a leitura de obra de arte, seja de qual linguagem se enquadrar, passa a ser um elemento da criação artística, portanto, a estesia seria a relação do sujeito (aluno e professor) com a obra. O aluno participa, interage e se sensibiliza a partir da apresentação da manifestação artística. Como exemplo de participação, podemos destacar as visitas aos museus e ou eventos de arte em geral. Muitas obras de arte contemporânea possibilitam a interação do público por meio do movimento, da mudança e da transformação do objeto, sendo este, um fator de coautoria da obra. O movimento de mudar, mexer, e interagir na obra faz dele (do aluno) um coautor. 2.4 EXPRESSÃO A dimensão denominada "expressão" é a materialidade, o momento da prática, como por exemplo, eu me expresso cantando, me expresso desenhando, me expresso dançando, me expresso interpretando, ela está muito nesse âmbito subjetivo e individual. As pessoas utilizam diferentes formas para se expressar, algumas de uma maneira e outras pessoas de outra. Assim na BNCC a expressão: [...] refere-se às possibilidades de exteriorizar e manifestar as criações subjetivas por meio de procedimentos artísticos, tanto em âmbito individual quanto coletivo. Essa dimensão emerge da experiência artística com os elementos constitutivos de cada linguagem, dos seus vocabulários específicos e das suas materialidades (BRASIL, 2019, p. 192). Na sala de aula esse é o momento de a criança colocar na prática o que aprendeu, pois cada criança possui sua forma expressiva que demonstra sua identidade pessoal. A atividade do desenho, talvez seja o melhor exemplo para identificar as formas expressivas de cada estudante: uma criança possui o traço mais forte, outra possui uma pintura mais suave, a outra gosta de utilizar preto em suas produções, a outra faz um desenho pequeno no canto da folha ou suporte. Todos esses exemplos, são formas diversas de expressão. E qual é o papel do professor nesse processo? É potencializar isso, provocar situações para estimular diferentes expressões dos estudantes. 136 UNIDADE 2 — ARTE NA EDUCAÇÃO ESCOLAR Esse é o momento de o professor proporcionar diferentes possibilidades expressivas, oferecendo oportunidade de vivências e experimentações de diversos materiais e suportes para sua produção artística, a exemplo da linguagem das artes visuais. Podemos mencionar várias possibilidades de vivências e experimentações na música, teatro e dança que vão desde um vídeo, apresentação de performance ou apreciação musical, entre outras possibilidades. 2.5 FRUIÇÃO A dimensão denominada "fruição" é o momento individual do aluno com a obra, onde ele tem a possiblidade de explorar elementos visuais, táteis e sonoros ao observar a obra e ou a manifestação artística. Na BNCC, a fruição: [...] refere-se ao deleite, ao prazer, ao estranhamento e à abertura para se sensibilizar durante a participação em práticas artísticas e culturais. Essa dimensão implica disponibilidade dos sujeitos para a relação continuada com produções artísticas e culturais oriundas das mais diversas épocas, lugares e grupos sociais (BRASIL, 2019, p. 193). Quando abordamos a fruição, podemos relacioná-la com as diversas experiências que são vivenciadas na escola, onde professores proporcionam momentos de simples apreciação de diversos materiais relacionados a arte, seja uma música, um vídeo, uma imagem, um material. É o primeiro olhar sobre o objeto a ser explorado. 2.6 REFLEXÃO A dimensão denominada "reflexão" está em tudo. Parte do professor e do aluno, pois você não faz nada sem pensar, mesmo que seja inconscientemente você está pensando. Se você vai fazer uma interpretação tem que pensar, tem que refletir, ou seja, a reflexão é uma das dimensões que permeia todo o processo de ensino aprendizagem em arte. Na BNCC, a reflexão “[...] refere-se ao processo de construir argumentos e ponderações sobre as fruições, as experiências e os processos criativos, artísticos e culturais. É a atitude de perceber, analisar e interpretar as manifestações artísticas e culturais, seja como criador, seja como leitor” (BRASIL, 2019, p. 193). A reflexão é uma dimensão que está relacionada ao professor formativo em questão, aos princípios da formação integral e finalizamos afirmando que todas as dimensões são interligadas e se alimentam umas das outras. Não podemos praticar um ensino de arte com essa proposta optando apenas por uma das dimensões, pois se ela assumir o papel formativo deve perpassar por todo esse processo. TÓPICO 3 — PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM EM ARTE DE ACORDO COM A BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) 137 A referência à essas dimensões, busca facilitar o processo de ensino- aprendizagem em Arte, integrando os conhecimentos do componente curricular. Uma vez que os conhecimentos e as experiências artísticas são constituídos por materialidades verbais e não verbais, sensíveis, corporais, visuais, plásticas e sonoras, é importante levar em conta sua natureza vivencial, experiencial e subjetiva (BRASIL, 2019, p. 193). Se o professor de artes se propuser a planejar sua prática pedagógica considerando a aprendizagem, ele vai dialogar com a maioria das dimensões mencionadas neste tópico. Cabe ressaltar, que o professor não deve ficar preocupado se ele passou por todas as dimensões elencadas. É fundamental que ele faça um bom trabalho e se ele o fizer, de qualquer forma vai abranger o objetivo. Dependendo do trabalho abordado em sala, a ênfase de alguma dimensão vai ser maior do que em outra, pois vão mudar de acordo com as estratégias pedagógicas que o professor vai abordar em sua prática. 3 COMPETÊNCIAS, HABILIDADES E OBJETOS DE CONHECI- MENTO EM ARTES VISUAIS NA BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR – BNCC Já discutimos anteriormente que a proposta pedagógica da escola precisa estar alinhada ao currículo da rede que tem como fundamento a BNCC, pois é ele o instrumento que vai orientar o trabalho educativo de toda a equipe escolar, de modo que as aprendizagens essenciais definidas na BNCC sejam garantidas a todos os alunos, portanto, além de definir “o que ensinar”, a proposta pedagógica precisa explicitar claramente “como ensinar”, “quando ensinar” e “o que avaliar”, deixando clara a atuação de cada profissional da instituição para criar as condições necessárias para que todos possam aprender, considerando a realidade local, as características e as condições da escola e de sua comunidade. No processo de ensino-aprendizagem, o professor deve alinhar seu objetivo à sua finalidade, levando em consideração as diversidades em sala de aula. Em relação ao processo avaliativo, por exemplo, o professor deve utilizar práticas e instrumentos avaliativos que contribuam no desenvolvimento de competências dos alunos. O professor precisa ter o cuidado para não definir somente um instrumento avaliativo para toda a turma, mas adotar vários instrumentos de avaliação como intuito de conseguir abranger as diferentes competências e habilidades dos alunos envolvidos. Dessa maneira, o professor deve sempre estar atento e perceber quem são seus sujeitos e o nível de aprendizagem em que se encontram. Essa análise é essencial para nortear a organização do seu planejamento organizando as aprendizagens essenciais para cada turma. Nesse sentido, vale a pena resgatar e revisar como a BNCC prevê cada etapa da Educação Básica. 138 UNIDADE 2 — ARTE NA EDUCAÇÃO ESCOLAR Na educação infantil, a prática pedagógica prevê que sejam definidos "objetivos de aprendizagem e desenvolvimento", de acordo com a faixa etária das crianças. O planejamento do professor deve ser organizado para cada grupo de idade. Nessa metodologia, o professor permite que as crianças tenham o direito de aprendizagem essencial para o seu desenvolvimento, como: conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se. Os "campos de experiências" são comuns a todas as faixas etárias, mas os objetivos de aprendizagem e de desenvolvimento são específicos para cada uma delas. Observe a seguir, a organização que a BNCC propõe aos professores para que possam se organizar e planejar melhor suas práticas pedagógicas: QUADRO 3 – OS CAMPOS DE EXPERIÊNCIAS FONTE: Adaptado de BNCC (2019) A definição e a denominação de ações, ao longo dos campos de experiências, na educação infantil, abordam muitas estratégias que enfatizam a importância do ensino de arte nessa etapa da Educação Básica. O campo de experiência conhecido como o eu, o outro e o nós, aborda que "por meio das diferentes linguagens, como a música, a dança, o teatro, as brincadeiras de faz de conta, elas se comunicam e se expressam no entrelaçamento entre corpo, emoção e linguagem" (BRASIL, 2019, p. 41). Assim, a instituição escolar precisa promover oportunidades ricas para que as crianças possam, sempre animadas pelo espírito lúdico e na interação com seus pares, explorar e vivenciar um amplo repertório de movimentos, gestos, olhares, sons e mímicas com o corpo, para descobrir variados modos de ocupação e uso do espaço com o corpo (tais como sentar com apoio, rastejar, engatinhar, escorregar, caminhar apoiando-se em berços, mesas e cordas, saltar, escalar, equilibrar-se, correr, dar cambalhotas, alongar-se etc.) (BRASIL, 2019, p. 41). Direitos de aprendizagem e de desenvolvimento Campo de experiência Objetos de Aprendizagem e desenvolvimento São seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento: Conviver; Brincar; Participar; Explorar; Expressar; Conhecer-se. São cinco campos nos quais as crianças podem aprender e se desenvolver: 1. O eu, o outro e o nós; 2. Corpo, gestos e movimentos; 3. Traços, sons, cores e formas; 4. Escuta, fala, pensamento e imaginação; 5. Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações. Os objetivos são organizados por faixa etária (bebês, crianças muito pequenas, crianças pequenas) para cada campo de experiência. TÓPICO 3 — PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM EM ARTE DE ACORDO COM A BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) 139 No campo de experiência, traços, sons, cores e formas, aborda que: Conviver com diferentes manifestações artísticas, culturais e científicas, locais e universais, no cotidiano da instituição escolar, possibilita às crianças, por meio de experiências diversificadas, vivenciar diversas formas de expressão e linguagens, como as artes visuais (pintura, modelagem, colagem, fotografia etc.), a música, o teatro, a dança e o audiovisual, entre outras (BRASIL, 2019, p. 41). Entre outros campos de experiências na educação infantil, os exemplos acima mencionados deixam clara a importância da função da arte para o desenvolvimento das crianças nessa etapa da educação. No ensino fundamental, nós podemos perceber uma grande organização que envolve diferentes áreas do conhecimento e seus componentes. As áreas do conhecimento são cinco e estão agrupadas de acordo com as afinidades entre os componentes. Os componentes são as disciplinas que constituem o currículo escolar. As unidades temáticas consistem nas linguagens do ensino de arte, como as artes visuais, a música, teatro e a dança. Os professores ao produzir seus planejamentos de arte, utilizam com frequência os "objetos de conhecimentos", que são os populares conteúdos e objetivos da disciplina. Os objetos de conhecimento, além dos conteúdos, podem ser os movimentos da história da arte, uma tendência de ensino de arte, uma técnica artística, entre outros. Vamos exemplificar por meio de uma proposta pedagógica: meu interesse como professora de artes, do 8º ano do ensino fundamental, é trabalhar o objeto de conhecimento: O que é arte? Esse objeto de conhecimento escolhido (O que é arte?) é considerado um conceito amplo. A partir do objeto de conhecimento o professor vai selecionando os conteúdos que precisa trabalhar em sala de aula para fazer com que seus alunos compreendam o objeto de conhecimento em questão. Desta forma, para fazer com que os alunos compreendam o objeto de conhecimento (O que é arte?) o professor deve selecionar conteúdos como: movimentos da história da arte, artistas e obras, leitura e fruição das obras, elementos artísticos, fazer artístico, entre outras estratégias. Compreende-se que o objeto de conhecimento é algo mais aberto, é um conceito a ser desenvolvido com os alunos. A partir do objeto de conhecimento o professor seleciona conteúdos para que eles consigam refletir sobre esse conceito. Por fim, as "habilidades", que compreendem as aptidões e devem ser desenvolvidas ao longo de cada ano pelos alunos para garantir o desenvolvimento das competências específicas de área. Assim, a competência, nessa situação, é a potencialidade que cada um tem a partir do objeto de conhecimento estudado. Já as habilidades são as ações que vão sendo desenvolvidas acerca do conceito estudado. Todas essas nomenclaturas presentes na base devem ser compreendidas e adequadas à proposta do estado e fazer parte da gestão escolar e dos planejamentos dos professores. Veja a seguir, como o ensino fundamental está estruturado de acordo com a BNCC: 140 UNIDADE 2 — ARTE NA EDUCAÇÃO ESCOLAR QUADRO 4 – O ENSINO FUNDAMENTAL NO CONTEXTO DA EDUCAÇÃO BÁSICA FONTE: Adaptado de BNCC (2019) No ensino médiopodemos perceber a presença de uma organização mais enxuta, porém não menos sistematizada. O ensino médio está organizado em quatro "áreas do conhecimento", conforme determina a LDB e aqui se insere a disciplina de Artes.Os "componentes" previstos na BNCC são Língua Portuguesa e Matemática, mas outras disciplinas, como por exemplo Artes, são propostas a partir das áreas de conhecimentos que abordam a importância do desenvolvimento de algumas habilidades que somente as artes podem proporcionar: A organização por áreas, conforme o Parecer CNE/CP nº 11/200925, não exclui necessariamente as disciplinas, com suas especificidades e saberes próprios historicamente construídos, mas, sim, implica o fortalecimento das Áreas do co- nhecimento Componentes Unidades Temáticas Objetos de Conheci- mento Habilida- des São cinco áreas do conhecimen- to, conforme definidas nas Diretrizes Curriculares Nacionais: LINGUA- GENS, MA- TEMÁTICA, CIÊNCIAS DA NA- TUREZA, CIÊNCIAS HUMANAS e ENSINO RE- LIGIOSO. Há competências estabelecidas para cada área. São nove componentes curriculares, abrigados nas áreas do conhe- cimento: língua portuguesa, arte, educação física e língua inglesa (LIN- GUAGENS), matemática (MATEMÁTI- CA), ciências (CIÊNCIAS DA NATURE- ZA), história e geografia (CIÊNCIAS HUMANAS), ensino religioso (ENSINO RE- LIGIOSO). Há competências específicas esta- belecidas para cada um dos componentes. As unidades temáticas defi- nem um arran- jo dos objetos de conheci- mento ao lon- go do Ensino Fundamental adequado às especificidades dos diferentes componentes curriculares. Há unidades temáticas co-muns aos anos iniciais e finais e unidades te- máticas especí- ficas para cada fase do Ensino Fundamental. Referem-se a conteú- dos, con- ceitos e processos mobiliza- dos em diferentes habilida- des, relati- vos a cada unidade temática. Expressam as apren- dizagens essenciais relativas aos objetos de conhe- cimento que devem ser assegu- radas aos alunos nos diferentes contextos escolares. TÓPICO 3 — PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM EM ARTE DE ACORDO COM A BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) 141 relações entre elas e a sua contextualização para apreensão e intervenção na realidade, requerendo trabalho conjugado e cooperativo dos seus professores no planejamento e na execução dos planos de ensino (BRASIL, 2009 p. 32). As "aprendizagens comuns" citam diferentes disciplinas que fazem parte do currículo do ensino médio e são definidas as "habilidades" que devem ser desenvolvidas ao longo de toda a etapa. Nessa etapa é relacionado um conjunto de habilidades para cada competência específica de área. Veja como o ensino médio está estruturado de acordo com a BNCC: QUADRO 5 – O ENSINO MÉDIO NO CONTEXTO DA EDUCAÇÃO BÁSICA FONTE: Adaptado de BNCC (2019) Áreas do conhecimento Componentes Aprendizagens Comuns Habilidades As áreas do conhecimento definidas nas Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio são: 1. Linguagens e suas Tecnologias, 2. Matemática e suas Tecnologias, 3. Ciências da Natureza e suas Tecnologias, 4. Ciências Humanas e Sociais aplicadas. Há competências estabelecidas para cada área. Os componentes curriculares obrigatórios dessa etapa são: 1. Língua Portuguesa, 2. Matemática. Há competências específicas estabelecidas para cada um dos componentes. Os currículos e as propostas pedagógicas devem garantir as aprendizagens essenciais definidas na BNCC e contemplar, sem prejuízo da integração e articulação das diferentes áreas do conhecimento, estudos e práticas de: • Língua Portuguesa; • Matemática; • Conhecimento do mundo físico e natural e da realidade social e política; • Arte; • Educação Física; • História do Brasil e do mundo; • História e cultura afro-brasileira e indígena; • Sociologia e Filosofia; • Língua inglesa. Para assegurar o desenvolvi- mento das com- petências espe- cíficas de área, a cada uma delas é relacionado um conjunto de habilidades, que representa as aprendiza- gens essenciais a ser garantidas no âmbito da BNCC a todos os estudan- tes do Ensino Médio. Elas são descritas de acordo com a mesma estrutu- ra adotada no Ensino Funda- mental. 142 UNIDADE 2 — ARTE NA EDUCAÇÃO ESCOLAR A BNCC apresenta competências gerais que devem ser desenvolvidas por todos os alunos ao longo da Educação Básica. Ela também define competências específicas para as áreas e os componentes curriculares do Ensino Fundamental. Além disso, há habilidades descritas para os componentes ao longo dos nove anos. A base não é um currículo, mas cabe reforçar que o currículo é essencial para guiar a prática do professor. Dessa forma, ele deve ser construído e elaborado por profissionais da área, juntamente com as Secretarias dos Municípios. Ela deve ter como base a Proposta Curricular do Estado, que já foi desenvolvida, tendo como fundamento a BNCC: Ao longo da Educação Básica, as aprendizagens essenciais definidas na BNCC devem concorrer para assegurar aos estudantes o desenvolvimento de dez competências gerais, que consubstanciam, no âmbito pedagógico, os direitos de aprendizagem e desenvolvimento. [...] Na BNCC, competência é definida como a mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas, cognitivas e socioemocionais), atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho (BRASIL, 2019, p. 8). A teoria foi apresentada e agora vamos resgatar os principais pontos de maneira prática para que você compreenda e saiba relacionar com as atividades propostas em sala de aula. Prezado acadêmico, você sabe o que significam competências e habilidades no documento BNCC? As"competências" são as potencialidades que cada um de nós possui e as “habilidades”são o que as pessoas adquirem ao longo de suas vidas. Por exemplo, possuímos competência para pensar, para fazer, para interpretar, para discernir, entre muitas outras coisas. As competências são os conhecimentos científicos colocados em uma situação prática da vida real. No ensino de artes devemos explorá-las nos conhecimentos sensíveis e inteligíveis articulados com conceitos e experiências dos alunos perante sua vida, fazendo com que se percebam como pertencentes a sua história, cultura, etnia e, portanto, pertencentes à sociedade atual. As "habilidades" são mais específicas, consistem em desenhar, cantar, pintar que são desenvolvidas por meio da provocação que os professores fazem em seus alunos, ou seja, por meio do desenvolvimento de estímulos no processo de ensino-aprendizagem. Veja no exemplo a seguir, de que forma podemos perceber a competência e a habilidade em nosso dia a dia: TÓPICO 3 — PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM EM ARTE DE ACORDO COM A BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) 143 QUADRO 6 – COMPETÊNCIA E HABILIDADE FONTE: A autora A partir do exemplo da competência: "se deslocar em uma cidade grande", podemos compreender no que consistem as competências e habilidades no contexto escolar. As "competências" mobilizam "habilidades". Nesse sentido, podemos perceber o papel desses componentes no contexto escolar. O professor deve constantemente estar atendo e pensar em estratégias para desenvolver as habilidades em seus alunos. Competência é o que o professor deseja alcançar (é a proposta do professor) e habilidade é o que desenvolvemos nos alunos (desenvolver a habilidade dele pensar, refletir, analisar, compreender, criar etc.). Nas artes, as competências e habilidades andam juntas, porque, por exemplo, desenvolvemos a habilidade de pintar, de interpretar, de criar, de pensar, de refletir, de dramatizar e no momento que desenvolvemos estas habilidades vamos agregando competências. Ao mesmo tempo que o professor está ensinando, ele também está desenvolvendo suas competências e habilidades. Esse é o papel do professor, o de pensar em ações para potencializar suas habilidades e competências, bem como a dos seus alunos. Você, acadêmico, sabe qual é a relação das dimensões (criação, crítica, estesia, expressão, fruição e reflexão) com as competências e habilidades? É importante entender que as dimensões intercruzam com as competências e habilidades. A BNCC, por ser um documento de cunho didático, vai trabalhando de forma mais técnica e fragmentada as dimensões, porém, na prática não tem como ficar separando, ou seja, agora vou refletir, agora vou fazer estesia, agora vou realizar a fruição. As dimensões acontecem juntas e precisam ser analisadas com rigor para identificar as competências e habilidades desenvolvidas. As habilidades são ações de desenvolvimento específicas e a competência é o que se almeja com esse conjunto de habilidades. A competência criada pelo professor, que está atrelada ao conhecimento, ao pensamento, ao sensível, irá definir as possíveis habilidades a serem desenvolvidas nos alunos, como: habilidade de desenhar, de cantar, de pintar, de pensar, de dançar, de dramatizar, de fruir etc. Dessa forma, o professor deve pensar e organizar estratégias para desenvolver competências e habilidades nos alunos, portanto, um conjunto de habilidades dão origem à competência. COMPETÊNCIA HABILIDADE * Se deslocar em uma grande cidade. * Pesquisar o local; *Observar o espaço e o que nele encontra; * Avaliar o trânsito; * Escolher o transporte mais rápido; *Escolher o transporte mais econômico; *Definir o melhor horário para o deslocamento. 144 UNIDADE 2 — ARTE NA EDUCAÇÃO ESCOLAR Todo o documento institucionaldesenvolvido, tanto a Base Nacional Comum Curricular, os Parâmetros Curriculares Nacionais, a Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil, o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil, a Proposta Curricular dos Estados e Municípios, bem como o Projeto Político Pedagógico da escola, são norteadores para o planejamento dos professores, coordenadores e gestores educacionais que orientam, organizam e executam o currículo de maneira significativa. Os documentos oficiais trazem a obrigatoriedade do ensino de arte na escola, assim como sua importância para o desenvolvimento dos estudantes, mas cabe aos órgãos estaduais e municipais a implantação e a efetivação do currículo, assumindo uma organização com a identidade local. No Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola está o planejamento dos conteúdos da disciplina desenvolvido pelo professor. O professor, nesse planejamento, tem autonomia para criar a metodologia mais adequada à sua turma e aos seus alunos no percorrer de suas aulas, mas precisa sempre observar o que está previsto em cada um dos documentos institucionalizados. Assim, os professores podem avaliar seus alunos a partir das evidências demonstradas por ele sobre as atividades desenvolvidas. A metodologia do professor deve adotar uma harmonia entre as estratégias e as ações referentes à avaliação formativa, que tem por principal objetivo contribuir para a aprendizagem dos alunos. Nesta perspectiva, a avaliação atua como parte do processo de ensinar, garantindo aos alunos várias oportunidades de aprender, retomar suas dificuldades e assegurar suas aprendizagens. A avaliação precisa fazer parte de um processo de construção do conhecimento, respeitando as diferenças, dificuldades e aspectos diversos que os alunos possuem. Somente se o processo de ensino e aprendizagem for realmente significativo para o aluno, todos esses documentos farão sentido. 4 ARTES INTEGRADAS NA BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR – BNCC As “artes integradas” possuem por objetivo auxiliar os professores de arte em sua prática pedagógica, fazendo a inclusão de temas que resgatam as diversas manifestações populares espalhadas pelo território brasileiro. Essa proposta foi uma maneira de inserir temas que devem ser desenvolvidos na escola e fazer parte do currículo escolar, pois devemos fazer com que nossos alunos preservem suas tradições e acima de tudo, se reconheçam como integrantes da história do nosso país. As artes integradas são também auxílio para os professores despertarem suas práticas de ensino de artes, seja porque estão há muito tempo trabalhando em "caixinhas" (desenvolvendo com suas turmas somente assuntos da sua área TÓPICO 3 — PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM EM ARTE DE ACORDO COM A BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) 145 de formação), ou porque ainda se utilizam de práticas que somente valorizem as artes europeias, seguindo um ensino de arte linear e europeu.A história da arte mundial e seus conceitos são muito importantes para o ensino de arte, porém temos muitas riquezas em nosso país, estado e localidade, que devem ser apresentadas. O ensino das artes integradas é uma oportunidade de estimular trabalhos diversificados na escola, resgatando temas que fazem parte da realidade dos nossos alunos e da sua comunidade, pois temos uma diversidade cultural e artística muito grande em nosso país, muitas vezes não valorizada, não somente para a disciplina de Arte, mas de um modo geral. As artes integradas devem ser adotadas em vários níveis da educação, porém, nos anos finais do ensino fundamental, espera-se maior sistematização dos conhecimentos e a participação em práticas mais diversificadas em cada linguagem e na relação entre elas e com outras áreas do conhecimento. Além disso, deve haver a ampliação das interações dos alunos com as manifestações artísticas e culturais locais, nacionais e mundiais, de diferentes épocas e contextos. As práticas devem ocupar espaços diversos, possibilitando maior relação dos alunos com seu entorno social e favorecendo as relações com a comunidade. Nessas práticas, as culturas juvenis devem ser consideradas e estarem conectadas com os interesses dos estudantes. Cabe aos professores de arte do nosso país, refletir sobre o objeto de conhecimento contemplado e imaginar de que modo poderia desenvolver uma proposta semelhante, considerando a sua realidade local. O estudo baseado nas artes integradas deve ser orientado a partir das competências gerais para a Educação Básica, propostos pela BNCC. Nesse sentido, podemos analisar novamente algumas competências selecionadas e perceber em negrito as várias oportunidades de inserir esse estudo na escola, por meio das artes integradas. Observe as três competências elencadas a partir da BNCC e as palavras em destaque: Competência 1: valorizar e utilizar os conhecimentos historicamente construídos sobre o mundo físico, social, cultural e digital para entender e explicar a realidade, continuar aprendendo e colaborar para a construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva. Competência 3: valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, e participar de práticas diversificadas da produção artístico-cultural. Competência 6: valorizar a diversidade de saberes e vivências culturais e apropriar-se de conhecimentos e experiências que lhe possibilitem entender as relações próprias do mundo do trabalho e fazer escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade (BRASIL, 2019, p. 8, grifos nossos). Vamos tomar como exemplo a Competência 3, que aborda a seguinte questão: “manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais”, resgatamos aqui a arte brasileira, com suas matrizes europeias e africanas. O professor 146 UNIDADE 2 — ARTE NA EDUCAÇÃO ESCOLAR propositor deve resgatar estratégias metodológicas que despertem o interesse dos alunos para o conhecimento da cultura local, por meio da pesquisa e da investigação. Algumas estratégias podem partir da pesquisa com vizinhos, parentes mais velhos, investigar sua casa, sua rotina, seu vocabulário, sua vestimenta, sua religião, a culinária da sua casa, dos avós, as festas ao qual estão inseridos, seus gostos musicais, danças, brincadeiras, superstições, entre inúmeros itens a serem explorados, partindo da realidade dos alunos e do local em que vivem, e fazendo conexões com outras culturas, com a história, com a arte É importante, ao apresentar um determinado conteúdo aos alunos, que os professores primeiro realizem pesquisas locais sobre este tema a fim de gerar o máximo de informações e dados, para que se tente aproximar os alunos dos temas estudados a partir da vivência. A cerâmica pode ser um exemplo de tema a ser trabalhado em sala de aula, em que o professor pode abordar o conhecimento a partir da apresentação da cerâmica dos povos gregos, cerâmica indígena e quem sabe, conhecer ceramistas locais. É fundamental realizar sempre pesquisas sobre a arte desenvolvida na sua região para promover o conhecimento e a valorização dessas manifestações artísticas. Por falar nisso, você conhece a arte da sua cidade? Você, enquanto professor, já resgatou essa informação para aprimorar a sua prática pedagógica? Não devemos permitir que nossos alunos conheçam somente a produção de artistas de outros países, de outras culturas e não conheçam as produções nacionais e locais que se destacam hoje na contemporaneidade. Além das tradições que possuímos e são fruto de miscigenação cultural com europeus e africanos, podemos destacar inúmeras manifestações presentes em nosso país, como o bumba meu boi, o frevo, a capoeira, a festa junina, entre outras. A nossa música brasileira, entre todos os estilos musicais, de nível nacional Está disponível no site do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN, informações para a compreensãodos motivos pelos quais uma manifestação cultural pode ser considerada como um bem cultural imaterial brasileiro. Conheça, acessando os seguintes links:http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/234. http://portal. iphan.gov.br/pagina/detalhes/228/. Conheça quais são os patrimônios culturais brasileiros que foram reconhecidos pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura– UNESCO como “patrimônios culturais imateriais da humanidade”. Acesse o link: http://www.turismo. gov.br/%C3%BAltimas-not%C3%ADcias/6534-conhe%C3%A7a-os-05-patrim%C3%B4nios- imateriais-da-humanidade-no-brasil.html. Veja também algumas manifestações culturais do Brasil inteiro que foram originadas a partir de “heranças culturais africanas”. Acesse o link: http://www.palmares.gov.br/?page_id=34089. DICAS TÓPICO 3 — PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM EM ARTE DE ACORDO COM A BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) 147 ao local, merece também ser conhecida, apreciada, refletida e valorizada. Assim como as danças, das clássicas até as populares. As provocações anteriores são exemplos de como as diferentes especificidades do componente Arte podem ser trabalhados, ao mesmo tempo em que se estimula o conhecimento e a valorização da cultura popular brasileira, favorecendo sempre o respeito às diversidades e às heranças dos povos que compõem nossa cultura. Os conhecimentos pertinentes a outros componentes podem potencializar a aprendizagem artística, assim como os saberes inerentes ao campo da arte também podem enriquecer a construção de outras práticas e aprendizagens.A integração das aulas de arte, nos anos finais, aos demais componentes da área de linguagens traz implicações para o planejamento das aulas, que, no contexto da BNCC, deve incluir a interação do professor de arte com os professores que ministram aulas de Educação Física, Língua Portuguesa e Inglês. O planejamento integrado dos professores da área permitirá o desenvolvimento de projetos que enfoquem o contexto cultural das práticas artísticas, incluindo os saberes da linguagem corporal, dos discursos verbais e não verbais. 148 UNIDADE 2 — ARTE NA EDUCAÇÃO ESCOLAR LEITURA COMPLEMENTAR O DIÁLOGO ENTRE O ENSINO E A APRENDIZAGEM Luiza de Salles Juchem Adriana Claudia Martins Fighera Com uma escrita simples e acolhedora, esta obra, que existe há mais de uma década, trata de um assunto não apenas atual, mas extremamente relevante à Educação. Ana Rosa Abreu, ao coordenar a Série Palavra de Professor, da qual esta obra faz parte, teve duas preocupações: primeiramente, escolher autores que, além de atuarem na formação docente, também pudessem contribuir, significativamente, às discussões atuais; depois, Abreu buscou selecionar assuntos pertinentes às inquietações dos professores. Vale destacar que a partir de 2011, a obra foi disponibilizada na versão digital aos leitores. O diálogo entre o ensino e a aprendizagem, de Telma Weisz, consiste em uma relevante leitura à orientação pedagógica, à formação de professores e à avaliação e planejamento do ensino. Com clareza na linguagem, a autora chama ao diálogo não somente os profissionais da educação, mas os pais que buscam exercer um papel mais ativo na educação dos seus filhos, oferecendo- lhes subsídios para compreender o processo de ensino e de aprendizagem com base na sua vasta experiência sob a ótica construtivista. Weisz consegue sintetizar sua experiência na educação em oito capítulos distribuídos em 133 páginas, questionando a discrepância entre os recursos de sobrevivência da criança fora da escola e seu desempenho em sala de aula. Ela explicita isso com o exemplo de uma criança acostumada a calcular o troco ao vender balas na rua, porém com dificuldades de resolver um problema matemático na escola. A autora convida- nos a pensar sobre o risco de a escola ser uma armadilha quando os saberes do cotidiano não são reconhecidos. A inquietação da autora procede ao afirmar que o professor continua chegando à escola com as mesmas insuficiências que lhe eram comuns há meio século, quando Weisz iniciava sua docência e ainda incapaz de ter ciência da sua responsabilidade política. Para a autora, o professor acaba adquirindo experiência e algum conhecimento de natureza intuitiva, mas pode manter-se tão cego e perdido como ela mesma admite ter vivido. Com meu batismo de fogo a autora inicia o primeiro capítulo do livro, relatando seu afastamento da escola por 12 anos, por entender que havia um abismo entre sua formação inicial e sua atuação pedagógica. Para ela, a ignorância que tangenciava a educação não dava conta do problema do ensino. Comprometida com a aprendizagem, a autora questiona e, ao longo da sua escrita, traz respostas sobre como fazer para que as crianças tenham sucesso escolar. Com um novo olhar sobre a aprendizagem, a autora convida à reflexão acerca do como democratizar o acesso à informação e à construção TÓPICO 3 — PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM EM ARTE DE ACORDO COM A BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC) 149 do conhecimento. Weisz critica o olhar adulto cêntrico, incapaz de ver a criança como alguém que tem suas próprias formas de aprender. Para ela, as crianças que mais precisam da compreensão e da atenção da professora são as que tiveram reforçadas as suas dificuldades por métodos mecânicos de alfabetização. Weisz fecha o segundo capítulo com uma importante contribuição sobre as funções da escola de hoje. Para ela é preciso levar os estudantes a aprender a aprender, ensinar-lhes os fundamentos acadêmicos e equalizar as enormes diferenças no repertório de conhecimentos com que eles chegam à escola. No capítulo seguinte Weisz instiga a pensar acerca do que sabe uma criança que parece não saber nada. O olhar cuidadoso aos possíveis equívocos da produção infantil pode ajudar a entender o caminho realizado pelo aprendiz. A psicogênese da língua escrita é abordada como um importante conhecimento aos profissionais da educação para compreender que a criança se utiliza da lógica para aprender. Telma, sabiamente, escreve que todas as crianças têm muitos conhecimentos. Ela salienta que os docentes, além de reconhecer esses saberes nos educandos, também deveriam promover vivências culturais, pois acredita que a cultura é uma questão de inserção social, logo, direito de todas as crianças. No quarto capítulo são abordadas as concepções e teorias que sustentam a prática do professor, mesmo quando ele não tem consciência sobre elas. Telma critica a educação que considera o aprendiz como alguém vazio de conhecimento. Afirma, ainda, que um olhar suficientemente informado do professor permite- lhe tomar decisões importantes, seja na formação das parcerias entre alunos, seja nas questões que propõe no desenrolar da atividade. Como fazer o conhecimento do aluno avançar é detalhadamente abordado no quinto capítulo. A autora refere que os estudantes põem em jogo tudo que sabem, têm problemas a resolver e decisões a tomar. Para ela é a organização da tarefa que garante a máxima circulação de informação possível e o conteúdo trabalhado deve manter suas características de objeto sociocultural real. Quando corrigir, quando não corrigir consiste em uma dúvida muito frequente na docência. O sexto capítulo traz respostas para este importante dilema. Weisz alerta para a importância de perceber quando corrigir o erro, que nem sempre corresponde ao exato momento em que foi cometido. Levantar questões que ajudem o aprendiz a pensar sobre aspectos que ainda não havia pensado é uma das maneiras de intervir, pois o objetivo do ensino é que o estudante produza cada vez mais e melhor. O que fazer com os estudantes que chegam ao final do período letivo sem aprender o que a escola almejava, é discutido no sétimo capítulo da obra. Weisz chama a atenção para os recursos necessários ao professor para poder avaliar o que acontece com seus alunos e, então, poder refletir sobre a relação entre as suas propostas didáticas e asaprendizagens conquistadas por eles. No último capítulo, o desenvolvimento profissional permanente, a autora discute sobre a necessidade do professor de hoje ser capaz de criar ou adaptar situações de aprendizagem adequadas aos estudantes reais, reconhecendo seus 150 UNIDADE 2 — ARTE NA EDUCAÇÃO ESCOLAR percursos de aprendizagem. Sugere, ainda, a realização de registros diários do trabalho para serem olhados de maneira crítica e reflexiva, com o intuito de melhorar a qualificação do professor e do ensino, valorizando o processo de aprender a ser professor nos anos iniciais. Consideramos que os construtos teóricos apresentados por Weisz são imprescindíveis a um trabalho sério e comprometido com a aprendizagem. O processo de reflexão da autora sobre sua prática docente, somado à vasta experiência com a formação de professores, permitiu-lhe chegar a valiosas conclusões que aqui são compartilhas, encurtando caminhos a outros docentes que buscam aprimorar sua formação. Enfim, Telma cumpre com maestria sua profissão de educadora, cativando os leitores com uma linguagem recheada de exemplos práticos que não deixam dúvidas de como se deve tratar temática tão complexa e importante como a educação. FONTE: JUCHEM, Luiza de Salles. FIGHERA, Adriana Claudia Martins. O diálogo entre o ensino e a aprendizagem. 2009. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/reveducacao/article/view/5861. Acesso em: 16 out. 2020. 151 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, você aprendeu que: • Para que aconteça uma experiência de aprendizagem ampla e densa, segundo a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é preciso promover uma articulação entre as seis dimensões do conhecimento humano em arte: criação, crítica, estesia, expressão, fruição e reflexão. • Na educação infantil são definidos objetivos de aprendizagem e desenvolvimento, organizados nos três grupos de faixa etária, a fim de que sejam garantidos os direitos de aprendizagem e desenvolvimento a todas as crianças. Nessa etapa, os campos de experiências são comuns a todas as faixas etárias (O eu, o outro e o nós; corpo, gestos e movimentos; traços, sons, cores e formas; escuta, fala, pensamento e imaginação e espaços, tempos, quantidades, relações e transformações), mas os objetivos de aprendizagem e de desenvolvimento são específicos. • No ensino fundamental são definidos objetos de conhecimento que devem ser trabalhados a cada ano pelos alunos para garantir o desenvolvimento das habilidades específicas. O objeto de conhecimento é algo mais aberto, é um conceito a ser desenvolvido com os alunos. A partir do objeto de conhecimento o professor seleciona conteúdos para que eles consigam refletir sobre esse conceito. • No ensino médio também são definidas as habilidades que devem ser desenvolvidas ao longo de toda a etapa para atingir a competência específica. As competências são as potencialidades que cada um de nós possui e as habilidades é o que as pessoas adquirem ao longo de suas vidas, por meio do desenvolvimento de estímulos no processo de ensino e aprendizagem. • As “artes integradas” possuem por objetivo auxiliar os professores de Arte em sua prática pedagógica, fazendo a inclusão de temas que resgatem as diversas manifestações populares espalhadas pelo território brasileiro. Ficou alguma dúvida? Construímos uma trilha de aprendizagem pensando em facilitar sua compreensão. Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que preparamos para seu estudo. CHAMADA 152 1 A experiência em arte baseada apenas na prática não oferece subsídios para que os alunos pensem sobre sua própria construção de conhecimento. Tampouco uma aprendizagem que apenas privilegie aspectos teóricos não contempla a dimensão da experiência. Assim, para que aconteça uma experiência de aprendizagem ampla e densa, é preciso promover uma articulação entre as seis dimensões do conhecimento humano. As seis dimensões do conhecimento em arte, segundo a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), são: criação, crítica, estesia, expressão, fruição e reflexão. Associe os itens, utilizando o código a seguir: Criação. II- Crítica. III- Estesia. IV- Expressão. V- Fruição. VI- Reflexão. ( ) Essa dimensão é o momento em que o aluno está explorando a obra obser- vando todos os elementos da visualidade como a cor, a forma, a textura, de uma maneira individual. ( ) Essa dimensão refere-se ao momento em que os alunos desenvolvem suas produções artísticas, de maneira individual ou coletiva. ( ) Essa dimensão assume a própria função da sua palavra. O ato de criticar faz com que primeiro os estudantes passem a conhecer o objeto em questão. ( ) Essa dimensão é a materialidade, ou seja, é o momento da produção prá- tica. ( ) Essa dimensão, está em tudo, parte do professor e do aluno, pois você não faz nada sem pensar, mesmo que seja inconscientemente você está pensan- do. ( ) Essa dimensão é a relação que você estabelece entre o "objeto de arte cria- do" com o "criador" e com "quem" está nesse processo de ler essa obra de arte, seja ela de que linguagem pertencer. Agora, assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) V-I-II-IV-VI-III. b) ( ) II-V-I-III-IV-VI. c) ( ) I-II-III-IV-V-VI. d) ( ) IV-IV-V-III-I-II. 2 Baseados no estudo sobre competências e habilidades, vamos refletir novamente. As competências são as potencialidades que cada um de nós possui e as habilidades é o que as pessoas adquirem ao longo de suas vidas. AUTOATIVIDADE 153 Observe o exemplo a seguir e mencione uma situação da “vida cotidiana” e do “ensino de arte”: 3 As “artes integradas” têm por objetivo, incentivar e auxiliar os professores na inclusão de temas que resgatem as manifestações populares espalhadas pelo Brasil inteiro, preservando as tradições, mas acima de tudo fazendo com que os alunos se reconheçam na história do nosso país. Cite um tema artístico ou cultural que poderia ser trabalhado em sua cidade e de que forma você abordaria esse assunto. Compartilhe com sua turma: COMPETÊNCIA HABILIDADE * Se deslocar em uma grande cidade. * Pesquisar o local; * Avaliar o trânsito; * Escolha do transporte mais rápido; * Escolha do transporte mais econômico; * Definição do melhor horário para o deslocamento. EX.: COTIDIANO EX.: ENSINO DE ARTE 154 REFERÊNCIAS ALARCÃO, I. Professores reflexivos em uma escola reflexiva. São Paulo: Cor- tez, 2003. ALARCÃO, I. (Org.). Formação reflexiva de professores. Lisboa: Porto, 1996. 192p. 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CHAMADA 158 159 UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Para adentrar aos assuntos relacionados à pesquisa em arte ou em arte e educação, é importante conhecer os percursos traçados pela produção de conhecimento, na área da educação. Os modos tradicionais, os hegemônicos e os contemporâneos buscam gerar parâmetros para traçar caminhos na produção de saberes que integram as múltiplas possibilidades de pesquisar arte e os fenômenos relacionados a ela. A pós-modernidade ofereceu condições para pensar o ensino e pesquisa em arte e arte na educação com o rompimento de padrões estéticos, culturais, sociais e históricos, que permitiram avanços em diversos modos de conduzir, abordar e criar percursos investigativos inserindo as múltiplas áreas da arte. Os usos da imagem, sua decodificação, interpretações, expressividade e utilização como campo simbólico, representam um vasto terreno a ser explorado. Os modos de ensinar e aprender foram transformados, a ponto de se estabelecerem como possibilidades expressivas e não mais como campo de reprodução de obras de arte de padrões estereotipados. Em diversos países, a pós-modernidade desenvolveu estudos fundadores de abordagens que viriam transformar as propostas de ensinar e aprender arte, bem como pesquisar arte em todo o mundo, e em terras brasileiras não seria diferente. Nos Estados Unidos, o Disciplined Based Art Education (DBAE) fundamentava seus estudos em dimensões como estética, história, crítica e o fazer artístico. Essa abordagem passa a gerar diversas propostas de ensino e aprendizagem da arte para além da repetição mecanizada e inspira possibilidades para o campo da pesquisa em arte e educação. A estética como base filosófica para pensar os fenômenos ligados à arte, suas manifestações e apreciação de obra de arte, oferece possibilidades para pensar uma educação que seja baseada em alfabetização dos símbolos da arte, para que possamos ter a educação dos sentidos, da percepção e a construção de referenciais, que permitam estabelecer parâmetros de pensamento, sem tentar apartar as dimensões sensíveis ou emocionais. O movimento antropofágico na cultura brasileira abriu caminhos para pensar o ensino-aprendizagem em arte que não seja baseado em disciplina ou formatações, mas em ações específicas, que sem hierarquias ou posições fixas, TÓPICO 1 — TEÓRICOS DA ARTE NA EDUCAÇÃO UNIDADE 3 — PESQUISA EM ARTE NA EDUCAÇÃO 160 sintetizam-se em ler, fazer e contextualizar arte. Uma abordagem de ensino, bem como de pesquisa, baseada nessas três dimensões, exige um mergulho no universo da arte e da cultura para entender as dinâmicas ou particularidades deste campo. Os Critical Studies ingleses, do DBAE estadunidensee a abordagem triangular no Brasil, representam abordagens, que estão intimamente conectadas para suas estruturas pós-modernas, de pensar o ensino e aprendizagem em arte. Essas abordagens remetem aos desafios do mundo contemporâneo e a necessidade constante de estabelecer conexões com diversos contextos ou realizar leituras críticas de mundo. O desenvolvimento da “abordagem triangular” proporcionou certa melhoria nos modos de ensinar e aprender arte, ressignificando aprendizagens tanto para estudantes quanto para docentes. Assim, esta unidade oferecerá fundamentos para que você possa identificar os parâmetros para o desenvolvimento de projetos de pesquisa em arte e em arte na educação. Os diferentes teóricos são base para a apropriação de saberes, que permitem pensar possibilidades para a investigação em arte ou em arte na educação. Vamos conhecê-los! 2 ANA MAE BARBOSA FIGURA 1 – ANA MAE BARBOSA FONTE: <https://bit.ly/34sDQyY>. Acesso em: 5 maio 2020. Ana Mae Tavares Bastos Barbosa, conhecida como Ana Mae Barbosa, representa a pesquisa em arte na educação brasileira. Ela nasceu no Rio de Janeiro em 1936 e foi morar quando criança em Recife. Ao perder os pais ainda criança, ficou aos cuidados de sua avó materna, referência em sua educação. Cresceu, e ao realizar um curso com o mestre Paulo Freire, trilhou os primeiros passos na arte e educação. Ao compreender a necessidade de uma educação libertadora, dedicou- se aos estudos, e foi aprovada em concurso para trabalhar como professora em uma Escolinha de Arte em Recife (BARBIERI, 2013). TÓPICO 1 — TEÓRICOS DA ARTE NA EDUCAÇÃO 161 Ao sair de Recife para fixar moradia em São Paulo, decidiu abrir uma escola de arte e para aprofundar seus conhecimentos decidiu fazer o curso de Mestrado. Ao solicitar uma bolsa de estudos para subsidiar sua pesquisa, recebeu a resposta que arte e educação não eram área de pesquisa científica no Brasil. Mesmo com dificuldades, foi para os Estados Unidos estudar na Universidade de Yale, onde concluiu o Mestrado e ingressou no curso de Doutorado na Universidade de Boston. Ao retornar ao Brasil, passou a trabalhar como professora na Universidade de São Paulo onde trabalhou até sua aposentadoria e hoje ainda atua como professora orientadora de pesquisas de doutorado (BARBIERI, 2013). A trajetória como pesquisadora na área da arte na educação trouxe profundas contribuições para o ensino-aprendizagem de arte no Brasil. Ao conhecer propostas de ensino-aprendizagem em arte nas esferas norte- americanas, principalmente no DBAE, que possuía como base principal o ensino-aprendizagem de arte em dimensões como estética, história, crítica e o fazer artístico, formulou uma abordagem própria. Com estes estudos, Ana Mae estrutura uma abordagem de ensino e aprendizagem de arte que sintetizava fundamentos de pesquisas internacionais, não somente nos EUA, mas em outros países. Ana Mae acredita na arte como campo de conhecimento, que se torna fundamental para o desenvolvimento intelectual e cognitivo (BARBIERI, 2013). Estes motivos apontam para a necessidade de garantir a presença da arte em contextos escolares e de investimento na formação de professores de arte em diferentes áreas como artes visuais, teatro, música e dança. As quatro principais áreas de conhecimento da arte são atravessadas por outras propostas de criação artística, principalmente em um tempo que as possibilidades tecnológicas são imensas e permitem criar e recriar realidades. Ao sistematizar uma abordagem de ensino-aprendizagem em arte na educação, a pesquisadora propõe a modificação de abordagens tradicionais e mecanizadas para percursos de investigação com maior significado (OLIVEIRA; CORRÊA, 2018). A abordagem que possibilita desenvolver diversos percursos de ensino-aprendizagem para além de um processo mecanicista recebeu o nome de “Abordagem Triangular”. Essa proposta está ancorada em três eixos que representam dimensões fundamentais para os contextos escolares e para a pesquisa em arte na educação. A abordagem triangular envolve a análise, a contextualização e a produção de arte. Essas dimensões também podem ser chamadas de contextualização histórica, apreciação e o criar arte, que as remete a conhecer artistas e seus contextos históricos, apreciar suas obras e experienciar percursos de criação de arte (BARBIERI, 2013). A nomenclatura pode ser variada, mas envolve as três dimensões que permitem refletir em torno das obras de arte, conhecer os contextos de criação e criar arte. Apreciar arte está conectado com a leitura de imagens ou obras de arte, que permitiria adentrar ao campo da observação e análise dos aspectos de cada obra de arte em diversas áreas. Inicialmente, a proposta foi adotada como metodologia para o ensino-aprendizagem de arte, porém, ao avançar em estudos UNIDADE 3 — PESQUISA EM ARTE NA EDUCAÇÃO 162 e práticas, se percebeu a necessidade de discutir hierarquias, abordagens e a proposta como método. A abordagem triangular propõe auxiliar as práticas de ensino-aprendizagem em arte de modo que não pretende ser base padronizada, hierarquizada ou um método fixo. A abordagem sugere eixos de aprendizagem que podem ser abordados em diferentes momentos dos percursos de estudo. A dimensão da criação pode estar no início do percurso de ensino-aprendizagem ou a contextualização no final. Dessa forma, a abordagem triangular dissolve hierarquias no desenvolvimento das propostas. A leitura, apreciação e análise podem ser ponto de partida ou outra etapa de um percurso de ensino- aprendizagem (BARBIERI, 2013). Cada professor possui referenciais teóricos diferenciados, atua em escolas e contextos sociais distintos e pode adaptar a abordagem de acordo com a sua realidade. A flexibilidade que a abordagem triangular apresenta favorece a construção de saberes de forma crítica, reflexiva e com olhares para uma educação da sensibilidade. A dialogicidade da abordagem permite a abertura para processos educativos, em que o professor propõe percursos investigativos, para que os estudantes possam interagir na leitura de imagens, do cotidiano, da cultura e do mundo de forma crítica (BARBIERI, 2013). FIGURA 2 – INFOGRÁFICO DA ABORDAGEM TRIANGULAR FONTE: O autor A abordagem triangular não pretende ser hegemonia nas propostas de ensino- aprendizagem em arte, mas significa uma das possiblidades de traçar percursos de construção de saberes em arte com maior sentido, tanto para quem é estudante quanto para quem é docente. Inicialmente, a proposta trazia a imagem como centro da estruturação de percursos de ensino-aprendizagem. No entanto, os princípios da abordagem triangular podem ser transpostos para outras áreas da arte e até para além do universo das artes (OLIVEIRA; CORRÊA, 2018). TÓPICO 1 — TEÓRICOS DA ARTE NA EDUCAÇÃO 163 O eixo contextualização propõe investigar contextos culturais e históricos que envolveram a produção da obra ou das obras de arte a serem estudadas. Nessa dimensão é possível encontrar os aspectos culturais e sociais em que a produção da arte ocorre. A análise das relações sociais, que também define as manifestações culturais e artísticas, pode ser investigada ou discutida. Contextualizar a obra de arte a ser estudada significa adentrar aos aspectos que motivaram a sua produção (OLIVEIRA; CORRÊA, 2018). O eixo de apreciação propõe estabelecer relações apreciativas de obras de arte, sejam elas de naturezas distintas ou de diferentes áreas da arte. Essa dimensão pressupõe pensar em propostas de espaços para a experiência de observação minuciosa e analítica das obras apresentadas. Nesse eixo, as maneiras de estabelecer relações com arte e a apropriação dos códigos ou símbolos da arte assumem protagonismo. As competências de leitura e análise podem ser ampliadas com exercícios de observação, análise e relações formais. Com a apreciação o observador pode estabelecer diálogos sensíveis, de modo que a relação pode ser de significados e demúltiplas interpretações (OLIVEIRA; CORRÊA, 2018). O eixo de produção ou criação abarca os universos relacionados a percursos que permitem a experiência criativa e de expressão em arte. Nessa dimensão, o estudante ou o participante torna-se autor de uma produção artística. O estudante criador mobiliza seus repertórios culturais para concretizar seu trabalho de arte. Para esta etapa ocorrer, há a necessidade de conhecer procedimentos, técnicas, materiais, espaços para experimentar possibilidades que podem recriar novas maneiras ou usos de materialidade. Os percursos tornam-se importantes para o aprendizado e o produto recebe significância sensível e crítica. (OLIVEIRA; CORRÊA, 2018). Estes três eixos implicam ações de ensino e aprendizagem específicas, que podem estar interligadas por aspectos que envolvem a arte e seus saberes. Dessa forma, constituem campo de investigação em arte e educação de modo que o conhecer, apreciar e fazer arte, podem ser bases para as diferentes instâncias do percurso investigativo. A abordagem triangular, em sua base, permite inserir propostas de pesquisa em níveis de graduação e pós-graduação. Seguimos nossos estudos, apresentando outro pesquisador para o campo da arte e educação estética, que contribuiu para avanços no campo desse estudo. UNIDADE 3 — PESQUISA EM ARTE NA EDUCAÇÃO 164 3 JOÃO FRANCISCO DUARTE JÚNIOR FIGURA 3 – JOÃO FRANCISCO DUARTE JR FONTE: <https://bit.ly/3mza69E>. Acesso em: 7 maio 2020. João Francisco Duarte Júnior foi professor universitário e se dedicou a pesquisar temas como arte e estética na educação e filosofia da educação. Sua formação inicial em nível de graduação foi na área de Psicologia, na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (1975). Concluiu o Mestrado em Psicologia Educacional pela Universidade Estadual de Campinas (1981), Doutorado em Filosofia e História da Educação pela UNICAMP (2000) e conquistou sua livre- docência em Fundamentos Teóricos das Artes, também pela UNICAMP (2011). Atualmente é professor doutor aposentado e sua atuação principal foi na área da Educação e Filosofia da Educação, orientando trabalhos na arte-educação, educação do sensível, arte, educação, estética e cultura. Sua obra é significativa para a área da educação e arte e propõe potentes diálogos como Educação Estética; Educação dos Sentidos, Arte-Educação, Teorias do Conhecimento e Modernidade. Dentre suas produções estão os seguintes livros: Fundamentos Estéticos da Educação (Campinas, Papirus); O Que é Realidade (São Paulo, Brasiliense); O Que é Beleza (São Paulo, Brasiliense); Itinerário de Uma Crise: A Modernidade (Curitiba, UFPR); O Sentido dos Sentidos: A Educação (do) Sensível (Curitiba, Criar Edições) e outros diversos artigos em periódicos e eventos (CARVALHO, 2012). Seus textos e livros nos provocam a observar o mundo com novos olhares e ampliar saberes e sabores por meio da educação. Entusiasta da teoria do conhecimento encaminha reflexões que trazem para a discussão o sentido TÓPICO 1 — TEÓRICOS DA ARTE NA EDUCAÇÃO 165 que damos à vida e como construímos realidades distintas. Nesse processo, os sentidos são treinados para captar o mundo em que estamos inseridos. O que nos diferencia dos animais é a capacidade de construir conhecimento por meio de signos. O mundo é transformado em signos pela capacidade humana de atribuir sentido ao que nos rodeia (CARVALHO, 2012). Para o autor existem duas instâncias que nos movem para a construção dos sentidos da vida e o conhecimento do mundo: a dimensão sensível que está associada com a capacidade de sentir e a inteligível, que abarca o universo de signos criados pela mente. Ambas possuem dinâmicas constantes e podem ser desenvolvidas. Ele busca definir o produto da inteligência simbólica como conhe- cimento inteligível e a capacidade de sentir como caminho para o saber sensível. Nesse sentido, Duarte Jr. traz para a discussão a ideia de o verbo saber estar inti- mamente conectada com o saborear por meio dos sentidos (CARVALHO, 2012). A base de todo o conhecimento está nos signos linguísticos, na linguagem e cultura que nos mantém como grupo social e nos humaniza. O jogo de elaboração e construção do conhecimento passa por dinâmicas entre o sensível e o inteligível que nos conduzem a modos de ser, pensar e agir em coletividade. As diversas áreas do conhecimento desenvolveram seus sistemas de signos e modos de operar. A arte constituiu-se como um modo específico de operar e em seu sistema de signos, permite a percepção ampliada de nossa dimensão sensível do corpo em conexão com a mente. Dessa maneira, conhecer arte, analisar arte e criar arte permitiria abrir possibilidades para ressignificar o mundo, a existência e ampliar as conexões entre o inteligível e o sensível (CARVALHO, 2012). Duarte Jr. (2001) aborda o termo estesia, que deriva do idioma grego aisthesis, como o oposto da anestesia (a inexistência da capacidade de sentir), deriva ainda deste termo a estética cunhada pelo filósofo Alexander von Baungarten no século XVIII. Na atualidade, a estética como campo da filosofia, estuda os fenômenos conectados com a arte, bem como dimensões filosóficas voltadas para as experiências estéticas. Uma educação estética seria um modo de buscar intensificar relações entre corpo e mundo. Para ele, uma educação estética estaria ligada ao fato de que, temos um corpo que busca sobrevivência com prazer e alegria em meio ao caos que a vida se apresenta e ainda temos a capacidade de contemplar a beleza diariamente em pequenas doses (CARVALHO, 2012). No tempo em que as telas definem a ação dos corpos, definem a permanência, a imobilidade da matéria e por muitos momentos, o condicionamento do pensamento, a educação possui a potência de ser campo para conectar o corpo a outras realidades. Considerando que, a experiência estética decorre de nossos sentidos quando descobrem o que nos rodeia e ao maravilhar-se com o mundo, ocorre a descoberta de saberes. Assim a experiência estética frente a uma obra de arte evoca nossas referências simbólicas criando no espectador a experiência de “como se”, ou seja, como se o observador estivesse naquela cena. É a possibilidade de aguçar a imaginação criativa. Esta experiência permite vivenciar sensações, dores, prazeres, alegrias que podem ser elaboradas posteriormente. “A arte me UNIDADE 3 — PESQUISA EM ARTE NA EDUCAÇÃO 166 faz vivenciar, ainda que no modo do “como se”, acontecimentos e experiências de vida de outras pessoas, de outras latitudes, de outras realidades, ou mesmo da minha e que me eram desconhecidas” (CARVALHO, 2012, p. 364). Para que a experiência estética ocorra é preciso aprendizagem, educação e contato com os códigos da arte. Isso não significa que somente conhecedores dos signos da arte podem apreciar ou ter experiências estéticas. A arte em sua essência pode ser apreciada por todos os seres humanos e as experiências ampliadas ao ponto que, as vivências serão expandidas permitindo a intensificação das potências sensíveis. Sua obra de maior destaque é “O Sentido dos Sentidos”, publicada em 2001, em que sintetiza sua tese de doutorado. A obra está organizada em seis partes e a primeira introduz significados para a palavra sentido. Nessa seção, o autor distingue conhecimento sensível do conhecimento inteligível. O conhecimento inteligível está conectado em como o mundo é pensado, e o saber sensível estaria na dimensão de como o corpo conhece o mundo. Na segunda parte, “o sentido de nossa crise (modernidade)”, apresenta como a modernidade priorizou a razão instrumental tentando negar ou desprezar as dimensões sensíveis do corpo. As formas sensíveis de saber ficaram em segundo plano, sob argumentos como saberes inferiores ou de menor valor diante das exigências do mundo moderno (SALOMÉ, 2013). Na terceira parte, “a crise de nossos Sentidos (anestesia)” apresenta como a sociedade moderna tentou apropriar-se dos corpos e de suas dimensões sensíveispara torná-los corpos produtivos frente à Revolução Industrial. A quarta parte do livro, “o sabor sensível (estesia)”, adentra em discussões sobre o conhecimento que provém do saber sensível e da ampliação das possibilidades de experienciar novos sabores e saberes. O autor salienta que “[...] o saber reside na totalidade do ser e não na fragmentação e tece críticas à percepção prática do mundo, na qual se busca a utilidade das coisas apontando para a importância da experiência estética, da estesia, como forma de produzir sentido ao mundo” (SALOMÉ, 2013, p. 310). Na quinta parte, “a educação (do) sensível (saborear)”, ele discute o apartamento, fragmentação e dualismos nas noções de saberes sensíveis e propõe uma educação estética como proposta para o resgate dos saberes sensíveis. E por fim, o autor traz considerações finais (“inconclusões”) em que tenta traçar uma possível reflexão, provocando novas pontes para outras propostas de pesquisas. O estudo de Duarte Jr. propõe pensar em pesquisas que possam abordar a educação dos sentidos e a relação que é possível estabelecer com as obras de arte. Ele busca pensar no corpo como dimensão fundamental para determinar relações sensíveis com o mundo e as possibilidades de uma educação que valorize os saberes sensíveis. A seguir conheceremos o professor espanhol Fernando Hernàndez. TÓPICO 1 — TEÓRICOS DA ARTE NA EDUCAÇÃO 167 4 FERNANDO HERNÀNDEZ FIGURA 4 – FERNANDO HERNÀNDEZ FONTE: <http://ordenadoresenelaula.blogspot.com/2007/09/hoy-entrevistamos-fernando-hern- ndez.html>. Acesso em: 7 maio 2020. O professor Doutor Fernando Hernàndez nasceu na Espanha em 1952 e sua formação está ancorada em Arte, Educação e Psicologia. Seu doutorado é na área da Psicologia e Educação, sendo especialista em inovação na educação, mudança curricular, arte na educação, cultura visual, tecnologia, multidisciplinaridades e abordagem de trabalho por projetos. É colaborador em inúmeras universidades em diversos países e sua produção bibliográfica é extensa. Entre seus livros destacam-se: Transgressão e Mudança na Educação, os projetos de trabalho (1998), Cultura visual, mudança educativa e projeto de trabalho (2000), Catadores da cultura visual: transformando fragmentos em nova narrativa educacional (2007). A principal proposta de Hernàndez está ligada à reorganização curricular tradicional por projetos de ensino-aprendizagem. Para ele, o professor necessita abandonar a função de transmissor de conteúdos para se tornar professor pesquisador, de modo que o estudante assuma o protagonismo dos percursos de ensino-aprendizagem. Em seu livro Cultura Visual, mudança educativa e projeto de trabalho (2000), o pesquisador apresenta a proposta de organizar o processo de ensino-aprendizagem por projetos que partam de questionamentos que surgem em coletividade, no grupo de estudantes, de interesses do coletivo. Para ele, todos os temas podem ser desenvolvidos por meio de projetos estruturados em etapas, para que se permita a construção de conhecimentos (HERNÀNDEZ, 2000). Os estudantes participam de todas as etapas desde a estruturação do projeto até sua fase de finalização. O professor assume papel de condutor do processo, porém os estudantes e professores avançam juntos na busca por respostas, soluções e resultados. O levantamento de temas geradores e possíveis perguntas direcionam a iniciativa para os objetivos e ações que garantirão UNIDADE 3 — PESQUISA EM ARTE NA EDUCAÇÃO 168 a aprendizagem. A tomada de decisões é etapa constante durante um projeto educativo, pois delineia e conduz para as próximas etapas de aprendizagem. Estruturar percursos de aprendizagem, por meio de projetos, consiste em uma das propostas de trabalho ou abordagem de ensino. Para Hernández (2000), há a necessidade de considerar outras propostas de ensino-aprendizagem em arte ou em diversas áreas e não tomar a proposta por projetos como absoluta. Como estratégias de ensino-aprendizagem, o autor sugere que os estudantes possam estudar por meio de seminários, aulas expositivas, estudos em grupos, diferentes situações de estudos e produção de conhecimentos em torno do tema definido coletivamente. Os projetos são estruturados para que os objetivos e temas tenham sentido para os integrantes do grupo de trabalho. Possibilitem ressignificar espaços da escola e dar sentido aos percursos de aprendizagem. A curiosidade, imersão, envolvimento, discussão, são atitudes fundamentais para a realização de um projeto de ensino-aprendizagem, a fim de que todos possam participar efetivamente das etapas (TRINDADE, 2014). Abordar propostas de ensino-aprendizagem desafia a escola como instituição constituída historicamente e que ainda não consegue acompanhar as transformações sociais e tecnológicas da contemporaneidade. A abordagem por projetos atende à necessidade de pensar os contextos sociais transitórios, dinâmicos e complexos sem verdades fixas ou dogmas que limitam os modos de pensar a vida. Aprender, como um processo constante de análise crítica das informações, para transformar em conhecimentos, guiados por habilidades, como inteligência e experiências de pensamento. A escola na atualidade necessita de renovação, transformação e dinâmicas de ensino-aprendizagem que sejam centradas no estudante, que os leve a ter experiências de pensamento para a solução de problemas, capacidade de pesquisar, cooperar e de conectar os saberes do contexto escolar ao mundo (TRINDADE, 2014). A Perspectiva Educativa de Projetos de Trabalho (PEPT), como é nomeada a proposta de Hernàndez, consiste em uma proposta inovadora que considera docentes, famílias e estudantes como autores dos conhecimentos elaborados durante o percurso. Nesse sentido, cada contexto escolar, comunidade e estudantes são realidades específicas e não cabe aplicar uma fórmula ou receita previamente elaborada. A PEPT possui sentido se todo um coletivo participa da elaboração da proposta de ensino-aprendizagem. Assim, a PEPT exige diálogo em todas as instâncias e certa dimensão inter/trans/multidisciplinar. Esse conceito reúne diálogos entre as diferentes disciplinas em um intercâmbio de experiências, conhecimentos e profissionais capazes de construir o projeto, partindo de diálogos com contextos diversos, estabelecendo as conexões necessárias para tornar experiências significativas para estudantes, familiares e docentes (TRINDADE, 2014). Outro livro que destacamos, intitulado “Catadores da cultura visual: transformando fragmentos em nova narrativa educacional” (HERNÀNDEZ, 2007), questiona as narrativas hegemônicas que tendem à naturalização do TÓPICO 1 — TEÓRICOS DA ARTE NA EDUCAÇÃO 169 que está posto, sem possibilidades de questioná-las ou de serem pensadas de outras maneiras. Questiona ainda os agrupamentos por idade, um professor por disciplinas bem definidas por horários preestabelecidos, os espaços delimitados para maior controle dos corpos, repetição são as melhores formas de aprendizagem, os estudantes são desinteressados e os professores são vítimas que sofrem sem reconhecimento de seu trabalho. Nessa obra, o autor aborda a cultura visual na contemporaneidade como ponto de partida para pensar propostas de ensino e aprendizagens. Esse tema constitui campo vasto de estudo tanto em contextos da pós-graduação quanto em projetos de ensino-aprendizagem com diversos grupos ou idades. Nessa perspectiva, a imagem recebe centralidade nos caminhos investigativos e compreende fonte de significados e sentidos (HERNÀNDEZ, 2007). Com estes pressupostos, a expressão cultura visual compreende as práticas sociais que envolvem a elaboração, usos e inserções de imagens como condutoras de sentidos em diversos contextos. A cultura visual é base para movimentos de pesquisa que estabelecem reflexões, “[...] maneiras de ver e de visualizar as representações culturais e, em particular, [...] às maneiras subjetivas e intrassubjetivas de ver o mundo e a simesmo” (HERNÀNDEZ, 2007, p. 22). A obra busca discutir abordagens que, por meio de um "alfabetismo visual crítico”, permite aos estudantes “[...] analisar, interpretar, avaliar e criar a partir da relação entre os saberes que circulam pelos "textos" orais, auditivos, visuais, ritos, corporais e, especialmente, pelos vinculados às imagens que saturam as representações tecnologizadas nas sociedades contemporâneas (HERNÀNDEZ, 2007, p. 24). Outros assuntos discutidos são relevantes para pensar percursos de investigação baseados em imagens como: 1. A relevância que as representações visuais e as práticas culturais têm dado ao "olhar" em termos das construções de sentido e das subjetividades no mundo contemporâneo. 2. O papel das manifestações da cultura popular na construção das subjetividades da infância e da juventude. 3. As novas necessidades da educação em tempo de incertezas e para sujeitos em desenvolvimento, para os quais aprender resulta, com maior frequência em obrigação e poucas vezes como uma experiência apaixonante. 4. As propostas dos produtores visuais (dentro e fora do campo das artes) que questionam os limites nas artes visuais e, acima de tudo, a importância do "visual" e das formas de ver nas sociedades contemporâneas (HERNANDÉZ, 2007, p. 27). Diante destes pressupostos, Fernando Hernàndez propõe pensar a arte e educação de maneira ampliada e conectada com os contextos culturais contemporâneos. As discussões propostas pelos estudos de Hernàndez permitem vislumbrar caminhos de pesquisa, na área da arte e educação, de modo que estabeleçam pontes para criar sentidos e saberes conectados com os modos de experienciar o mundo. A seguir, apresentamos a professora Dra. Mirian Celeste Martins, que propõe pesquisas em torno da arte e educação. UNIDADE 3 — PESQUISA EM ARTE NA EDUCAÇÃO 170 5 MIRIAN CELESTE MARTINS FIGURA 5 – MIRIAN CELESTE MARTINS FONTE: <https://bit.ly/31F8oM7>. Acesso em: 10 maio 2020. A professora Dra. Mirian Celeste Ferreira Dias Martins possui Licenciatura em Desenho e Arte Plástica (1970). Especialista em História da Arte: Do Barroco aos dias Atuais (1977); Mestre em Artes (1992) e Doutora em Educação (1999) pela Universidade de São Paulo. Atualmente é professora do Curso de Pós-graduação em Educação, Arte e História da Cultura e do Curso de Pedagogia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, onde coordena os Grupos de Pesquisa: Arte na Pedagogia e Mediação Cultural que convergem para provocações e mediações estéticas. Em sua brilhante trajetória docente, participou de inúmeros projetos de arte e arte na educação. Pesquisadora de temas como mediação cultural, formação de professores, arte e educação e metodologias de pesquisa em arte. Dentre suas inúmeras publicações estão: “Pensar juntos mediação cultural: [entre]laçando experiências e conceitos" (TERRACOTA, 2015), além de artigos e capítulos em livros. Um dos principais conceitos que a pesquisadora traz para a discussão é de “mediação cultural” e outro conceito-chave é de “experiência e contaminação estética”. A ideia de pensar modos de mediar a cultura, se faz ação necessária para pensar a atuação de professores de arte e de mediadores culturais. Os espaços museais e galerias também se apropriam das discussões em torno do conceito para pensar ações de mediação que possam ultrapassar a mera ação explicativa em uma visitação guiada. A mediação cultural propõe repensar as ações de mediação para criar espaços, que permitam o observador conectar-se com a obra de arte ou o espaço estético de modo que o torne espectador ativo da própria experiência com a arte. TÓPICO 1 — TEÓRICOS DA ARTE NA EDUCAÇÃO 171 A mediação cultural busca criar condições, materiais e intervenções educativas que possibilitem ao espectador estar ‘entre’, um espaço para a apreciação, reflexão e elaboração de saberes da experiência estética. Criar conexões “[...] pelo meio, nas conexões entre pensamentos, sensações, percepções entre arte, artistas, críticos, curadores, historiadores, educadores, sociólogos da arte, iconólogos, filósofos, crianças, jovens, adultos, rizomaticamente tecido na conjunção “e... e... e...” (MARTINS, 2017, p. 7). Para além da mediação cultural, os grupos de pesquisa, que a professora Mirian Celeste Martins coordena, buscam pesquisar temas como: Ação mediadora; Acessibilidade cultural; Cultura visual; Curadoria Educativa; Desenvolvimento estético; Espaços expositivos na escola; Formação docente; Leitura de imagem: metodologias; Leitura de imagens: camadas interpretativas; Mediação cultural nos museus e instituições culturais; Objetos propositores; Patrimônio Cultural; Políticas e Produção cultural; Provocações e contaminações estéticas; Recepção; Silêncios (MARTINS, 2017, p. 8). Para a pesquisadora, ações de mediação cultural objetivam possibilitar “[...] encontros, aproximações à poética da obra e do artista, provocar experiências estésicas que superem a anestesia” (MARTINS, 2017, p. 8). Experiências estésicas refere-se a experienciar relações com obras de arte que despertem experiências de pensamento com certa ampliação das dimensões sensíveis. Na obra “Mediação cultural para professores: andarilhos da Cultura”, que escreveu em parceria com a Professora Gisa Picosque, traz à discussão a experiência estética como necessidade para a educação dos sentidos e ampliação de repertório cultural. A experiência estética em arte ocorre quando a relação com a obra de arte é intensa e mobiliza os sentidos a ampliar modos de estabelecer relações com arte e com o mundo. Essa obra ainda apresenta a discussão da ideia do professor como mediador da cultura e propositor de experiências estéticas. Para a pesquisadora, a ação do professor mediador permite o conhecer arte, analisar ou interpretar e criar arte. Martins discute as dimensões do professor como artista e como propositor. Ela cunha o conceito professor-propositor para discutir os modos do professor de arte agir em percursos de ensino e aprendizagem em arte. O conceito professor- artista é uma proposta de pensar o professor de arte como um criador de arte. Os dois conceitos estariam entrelaçados e o professor-propositor está conectado com o professor-artista. Para a pesquisadora, a aula de arte é espaço para propor ações de ensino e aprendizagem conectadas com o mundo e com as diversas visões de mundo que o ser humano imprimiu em suas obras de arte. Criar espaços para a conexão com obras de arte é despertar um olhar sensível e crítico aos sentidos e significados dos elementos estéticos. Sua pesquisa em nível universitário busca investigar a mediação cultural como recurso para oferecer aos visitantes de uma exposição uma percepção ampliada das obras. Assim, afirmações como “eu não gosto” ou “eu não entendo” passam a diluir- UNIDADE 3 — PESQUISA EM ARTE NA EDUCAÇÃO 172 se na ação de encontrar significados ou estar aberto à sensação que a obra pode provocar. A pesquisa da professora Dra. Mirian Celeste Martins aponta para possibilidades de investigação em mediação cultural em espaços museais, galerias e em contextos escolares. Pensar a ação do professor como mediação da cultura exige transformar as bases tradicionais da educação e práticas de ensino- aprendizagem mecanizadas para proposições criadoras. Para a pesquisa em educação e arte, a pesquisa de Martins propõe olhares para as práticas educativas, percursos de mediação cultural e os espaços estéticos que podem promover experiências sensíveis com a arte. Os estudos da mediação cultural, experiência estética e da prática docente, configuram território fértil para pensar a arte na escola, no museu e no mundo. A seguir, conheceremos outra pesquisadora no ensino da arte, a professora Pós-Doutora Susana Rangel Vieira da Cunha. 6 SUSANA RANGEL VIEIRA DA CUNHA FIGURA 6 – SUSANA RANGEL VIEIRA DA CUNHA FONTE <https://www.linkedin.com/in/susana-rangel-03677372/>. Acesso em: 10 maio 2020. A professora Pós-Doutora