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Desnutriçã� Energeticoproteic� Introdução Definição - Distúrbio ocasionado pela falta de calorias e proteínas em diferentes proporções Forma primária - Resulta da combinação de 3 fatores ambientais: ● Carência nutricional - Macro e micronutrientes ● Condição sanitária precária - Acarreta quadros de diarreia prolongados ● Falta de cuidados infantis - Vacinação e higiene pessoal Forma secundária - Decorrente de doenças que prejudiquem a absorção de nutrientes ou que aumentem a demanda metabólica: ● Síndrome disabsortiva ● Malignidade ● Grandes queimados O período de maior susceptibilidade é da concepção até os 2 anos de vida - Afeta o crescimento e o desenvolvimento No período neonatal, a desnutrição se manifesta no nascimento como baixo peso ao nascer (<2500 g) Parâmetros que definem desnutrição grave: ● Emagrecimento intenso visível ● Alterações de cabelos ● Hipotonía muscular (especialmente glútea) ● Redução do tecido subcutâneo ● Circunferência braquial <11,5 cm ● Escore Z no gráfico peso x estatura <-3 ● Presença de edema nos pés bilateralmente Epidemiologia Visão global ● 15% dos nascimentos são de baixo peso (<2500) em países de renda média e baixa ● 16% das crianças abaixo de 5 anos são desnutridas (<2 DP da média) ● As regiões mais afetadas são África e Ásia ● Carencia de micronutrientes - Hipovitaminose (33%), carencia de iodo (29%), zinco (17%), anemia ferropriva (18%) Visão nacional A desnutrição no brasil tem 2 origens no brasil: ● Pessoas miseráveis que não tem demanda material para suprir as necessidades nutricionais dos filhos ● Pessoas com demanda material suficiente mas que não possuem envolvimento ou capacidade pessoal histórica de suprir seus filhos - 30% das mães de crianças desnutridas são obesas e eutróficas A maior prevalência ocorre após os 2 anos de vida - Devido ao desmame inadequado A desnutrição geralmente vem acompanhada de condições sanitárias ruins - Parasitoses, diarreia e infecções Etiopatogenia A desnutrição, geralmente, envolve a interação de múltiplos fatores, os quais se somam e perpetuam o processo: ● Maior demanda metabólica na infância ● Administração de alimentos com baixo teor energéticos, muito diluídos ou com higiene inadequada ● Baixa disponibilidade de alimentos (falta de recursos financeiros, terras para o cultivo) ● Infecções virais, bacterianas ou parasitárias - Podem produzir anorexia, prejudicar a absorção e a utilização dos nutrientes ● Deficiência imunológica - Facilita ainda mais o processo de infecção ● Desastres naturais ● Desestruturação familiar Fisiopatologia ● Hipoatividade ● Diminui o ganho de peso ● Diminui o ganho de estatura Alterações hormonais e metabólicas: ● Diminuição da insulina ● Aumento dos hormônios contrarreguladores da insulina (Glucagon, adrenalina e GH) - Atuam estimulando o catabolismo (lipólise, glicólise e gliconeogênese) ● Apesar do GH estar aumentado, o IGF-1 (somatomedina C) está diminuído no Kwashiorkor ● Aumento do cortisol (Provocado pelo estresse metabólico e pelas infecções) - Aumento da glicogenólise e gliconeogênese (consumo de músculo) ● Diminuição de T3 e T4 (diminuição da atividade da 5-monodeiodinase e menor captação de iodo pela tireóide) - Diminuição da termogênese e do consumo de oxigênio Diferenças hormonais nas diferentes formas de DEP (Marasmo e Kwashiorkor) - No marasmo o aumento de cortisol é mais pronunciado, enquanto que no Kwashiorkor o GH apresenta um aumento mais pronunciado. Diminuição da atividade da bomba de sódio-potássio ● Célula perde a capacidade de excretar o sódio e importar potássio ● A retenção de sódio dentro da célula provoca hiponatremia e edema celular ● O potássio encontra-se reduzido intra e extracelularmente (hipocalemia) ● Redução do gradiente de sódio transmembrana - Redução da excreção de H+ (acidose intracelular e uma alcalose extracelular) ● Esse desequilíbrio hidroeletrolítico aumenta o nível de cálcio intracelular - Desencadeando morte celular ● A perda de potássio juntamente com o aumento do cálcio contribuem para a perda de força contrátil dos miócitos cardíacos na desnutrição grave Alterações Imunológicas ● Perda da integridade das barreiras epiteliais ● Diminuição de muco e lisozimas ● Diminuição de linfócitos T ● Menor produção de Interleucinas e fatores do complemento ● A imunidade humoral pode estar preservada em quantidade (número de linfócitos B e imunoglobulinas) mas não em funcionalidade - Não contraindica vacinação ● Deficiência de IgA - Facilita a ocorrência de diarreia e IVAS ● Hipergamaglobulinemia pode ocorrer em resposta infecções repetidas ● Alergias alimentares - A alteração da permeabilidade da mucosa intestinal permite a entrada de macromoléculas estranhas, induzindo a formação de anticorpos anti proteínas alimentares Alterações neurológicas - Déficit no desenvolvimento neuropsicomotor Alterações gastrointestinais: ● Redução da secreção gástrica, pancreática e biliar ● Diminuição das enzimas digestivas ● Intolerância à lactose - Diminuição da atividade da lactase ● Diminuição da absorção - Lesão da mucosa intestinal (presença de linfócitos, plasmócitos e alguns eosinófilos) ● Diminuição da peristalse ● Proliferação bacteriana - Desconjugação de ácidos biliares Alterações cardiovasculares - Diminuição da capacidade contrátil do miocárdio Alterações renais - Queda na taxa de filtração glomerular, perda na capacidade de concentração e acidificação da urina (pode haver poliúria e nictúria) Marasmo ● Déficit de calorias e proteínas ● Mais comum em <1 ano de idade ● Caráter insidioso - Permite que o paciente se adapte ao processo ● Principal causa - Retirada precoce do aleitamento materno e substituição por fórmulas caloricamente deficientes (geralmente fórmulas muito diluídas para diminuir os gastos financeiros da família) ● Fatores agravantes - Condições de higiene precárias e não vacinação (leva a aquisição de infecções gastrointestinais que agravam o processo ● Manifestação: ○ Déficit de peso ○ Déficit de estatura ○ Atrofia muscular ○ Emagrecimento acentuado ○ Redução de tecido subcutâneo (principalmente em nádegas e coxas)- Pele enrugada e desaparecimento da bola gordurosa de Bichat (facie senil) ○ Apetite preservado ○ Anemia e diarreia Imagem da esquerda - Criança com marasmo. Imagem da direita - Desaparecimento da bola de Bichat (fácies senil) Kwashiorkor ● Déficit de proteínas ● Mais comum entre o segundo e terceiro ano de vida - Conhecida como“doença do primeiro filho quando nasce o segundo”, já que quando o segundo filho nasce, a tendência é a mãe privilegiar a amamentação do segundo e deixar de cuidar do primeiro ● Instalação mais rápida - Não permite a adaptação do paciente ● Manifestação: ○ Edema (Hipoalbuminemia) - Pode acometer todo o corpo, mas é mais pronunciado nas pernas e nos pés em crianças que deambulam, pode acometer mãos e face (fácies de lua), e em meninos pode haver edema da bolsa escrotal. ○ Déficit de peso ○ Déficit de estatura - Menos pronunciado que no marasmo ○ Atrofia muscular - Pode ser mascarada pelo edema ○ Apetite diminuído - Anorexia ○ Apatia e hipoatividade ○ Dermatose em áreas de atrito (Região inguinal e perineal) ○ Flaky paint dermatosis ( áreas hiperpigmentadas que descamam, dando aspecto de dermatite em escamas) ○ Cabelos quebradiços e com alteração de cor (cabelos pretos se tornam castanhos ou avermelhados) ○ Sinal da bandeira - Alteração em faixas da cor dos cabelos (resulta de períodos alternados de pior e melhor nutrição, provocando alterações de segmentos de cabelo com preservação da normalidade de outros) ○ Fezes liquefeitas, sanguinolentas e com restos alimentares ○ Anemia (deficiência de proteínas, ferro e ácido fólico) ○ Infecções e parasitoses ○ Hepatomegalia por esteatose ● OBS - Existem crianças que apresentam manifestações mistas de Kwashiorkor e marasmo, denominamos Kwashiorkor-marasmático Imagem da esquerda - Criança com Kwashiorkor. Imagem da direita - Fleaky paint dermatosis Achados clínico-laboratoriais que diferenciam o marasmo doKwashiorkor. Classificação de Mclaren Recurso utilizado na diferenciação de marasmo e Kwashiorkor com base nos achados clínico-laboratoriais Classificação de Mclaren Avaliação Complementar ● Anemia por deficiência de ferro, ácido fólico, B12, hemólise e linfopenia ● Lipidograma - Diminuição de colesterol e triglicérides ● Hipoglicemia ● Hiponatremia - Apesar do sódio corporal estar aumentado, o intracelular encontra-se depletado em sódio já que ocorre falha na bomba de sódio-potássio por falta de energia (sódio encontra-se preso dentro da célula) ● Hipocalemia - Fraquesa muscular, ileo paralítico,alterações no ECG (inversão de onda T, onda U proeminente, infradesnivelamento de ST, prolongamento de QU, prolongamento de PR, redução da amplitude do QRS, arritmias ventriculares) ● Hipomagnesemia ● Hipofosfatemia ● Alcalose ou acidose metabólica ● Proteínas séricas - servem como marcadores de nutrição, com base em sua meia vida pode-se inferir o tempo de duração do processo de desnutrição. Tratamento ● Fase de estabilização (1 a 7 dias) - Estabilizar e tratar condições que ameaçam a vida ● Reabilitação (2 a 6 semanas) - Alimentação intensiva para recuperação do peso perdido ● Acompanhamento (7 a 26 semanas) - Assegurar a continuidade do processo Fase de Estabilização Corrigir hipoglicemia ● Solução de glicose a 10% VO/alimentação da criança (criança consciente) ● Soro glicosado a 10% 5mL/kg IV (criança inconsciente) Corrigir hipotermia (T retal < 35,5 ou T axilar < 35) ● Manter o ambiente aquecido, Uso de cobertores ● Lâmpadas incandescentes ● Técnica do canguru (criança despida em contato com a pele do tórax ou abdome da mãe cobrindo-se ambas) ● Banhos durante o dia, devendo secar a criança rapidamente. Desidratação (difícil diferenciar do choque séptico na criança desnutrida) ● Feita com solução Resomal (uma solução com menos sódio, mais potássio e micronutrientes) 5 mL/kg VO a cada 30 min ● Atentar-se para sinais de sobrecarga cardíaca (aumento da FC, aumento da FR e ingurgitamento jugular) ● Interromper a reposição quando a criança apresentar - Melhora da letargia e da taquicardia, sinal da prega menos pronunciado, olhos menos escavados, boca menos seca, menos sede e com diurese. ● Hidratação IV é reservado para crianças com colapso circulatório (desidratação grave ou choque séptico) Tratamento das infecções e parasitoses - Todas as crianças devem ser tratadas como se tivessem uma infecção, mesmo na ausência de sinais como febre ● Crianças sem sinais de infecção e complicações - Amoxicilina VO 25 mg/kg/dose a cada 12 horas por 5 dias ● Crianças com sinais de infecção e complicações (choque séptico, hipoglicemia, hipotermia, infecção cutânea, ITU, infecção respiratória, criança letárgica ou muito doente) - Ampicilina VO 50 mg/kg IM ou IV a cada 6 horas por 2 dias, seguido de amoxicilina 25-40 mg/kg a cada 8 horas por 5 dias + Gentamicina 7,5 mg IM ou IV 1 vez ao dia por 7 dias. Dieta ● Preferir sempre a via oral - Usar sonda apenas quando o paciente não tolerar o volume oral mínimo ● Volume total (oral + venoso): 120-140 ml/kg/dia. ● Calorias - 80-100 kcal/kg/dia. ● Proteínas - 1-1,5 g/kg/dia ● Baixa osmolaridade e baixo teor de lactose. ● Fórmulas padronizadas podem ser usadas (F75): 75 kcal/100 ml e 0,9 g de proteína/100 ml. ● Frequência de cada refeição: inicialmente 2/2h (1º ao 2º dia), depois 3/3h (3º ao 5º dia) e, finalmente, 4/4h (6º ao 7º dia). Micronutrientes ● Não repor ferro (o mineral piora o estresse oxidativo e prejudica a recuperação nessa fase inicial. Além disso, o mineral serve de base para alguns processos metabólicos de bactérias) - Casos de anemia grave serão tratados com concentrado de hemaceas (quando a hemoglobina for < 4 mg/dL ou < 6 mg/dL na presença de sinais de desconforto respiratório) ● Vitamina A - 50 mil UI para menores que 6 meses, 100 mil UI para crianças entre 6 e 12 meses e 200 mil UI para maiores que 12 meses (Repetir essas doses nos dias 2 e 14 em crianças com manifestação de deficiência de vitamina A) ● Ácido fólico - 5 mg VO no primeiro dia, seguido de 1 mg VO por 2 semanas ● Zinco - 2 mg/kg/dia por 2 semanas ● Cobre - 0,2 mg/kg/dia por 2 semanas Síndrome da Realimentação ● Ocorre na primeira semana de tratamento ● Patogênese - Provocada pela volta da atividade celular, resultando em intensa captação celular de fosfato, provocando hipofosfatemia ● Manifestações clínicas da hipofosfatemia - Alteração do nível de consciência, convulsões, fraqueza, rabdomiólise, disfunção de neutrófilos, arritmias e morte súbita Fase de Reabilitação A criança só entra nessa fase quando percebemos a melhora (volta do apetite, edema diminui e deve estar se alimentando por via oral) ● Dieta - Hipercalórica e hiperproteica (a transição da dieta da fase de estabilização para a fase de reabilitação deve ser gradual) ○ Fórmula de crescimento rápido (100 kcal/100 ml com 2,9 g proteína/100 ml) ○ Calorias: 150 a 220 calorias/kg/dia ○ Proteínas: 4 a 6 g de proteínas/kg/día. ● Reposição de ferro Critérios de alta ● Criança - Escore Z peso/estatura ≥ -2 (ou circunferência braquial ≥ 125 mm) + ausência de edema por 2 semanas + Deficiências de micronutrientes, infecções e parasitoses já tratadas + deve ser capaz de ingerir quantidade adequada de dieta ● Cuidador - Deve ser capaz de cuidar da criança Síndrome da Recuperação Nutricional Ocorre após 20 a 40 dias de tratamento correto, sobretudo no Kwashiorkor, regredindo após 10 a 12 semanas do início do tratamento. Não se sabe ao certo a patogênese dessas alterações: ● Hepatomegalia ● Distensão abdominal com ascite e circulação colateral ● Alteração de pele e fâneros - Sudorese em região cefálica, hipertricose, unhas com desnível transversal, cabelos com pontas mais claras ● Telangiectasias ● Hipergamaglobulinemia ● Eosinofilia ● Aumento da volemia Referências Medcurso 2022 - Pediatria - Volume 3