Prévia do material em texto
Artrite reumatoide INTRODUÇÃO Forma mais comum de artropatia inflamatória com prevalência de 0,5% a 1% em caucasianos e incidência: 0,5 por 1000 pessoas/ano. É 2-3x vezes mais comum em mulheres que homens e aparece em todas as idades com pico entre 50 e 75 anos. É de extrema importância que haja diagnóstico e tratamento precoce: lesão da cartilagem articular e óssea inicia logo após o início a doença. Há uma redução expectativa vida 3-10 anos (principalmente risco cardiovascular) PATOGENESE A patogênese é complexa e multifatorial, composta por: o Fatores genéticos (30x gêmeos mono e 6x dizigóticos ou não gêmeos); o Hormonais (estrogênio); o Ambientais (tabagismo; infecções); Há um desequilíbrio entre as citocinas pró e anti-inflamatórias, envolvendo perda de autotolerância e consequente autoreatividade por ativação linfócitos e produção de autoanticorpos. A hiperreatividade imune direciona a produção de enzimas que levam a modificação de peptídeos normais ‒ mais comum pela citrulinação de proteínas em superfícies mucosas pulmonares e articulares. o TABAGISMO constitui um importante fator de risco para AR § Associa com doença mais severa ‒ soropositiva, erosiva, com nódulos reumatoides. § > 20x RR o OBESIDADE o EXPOSIÇÕES OCUPACIONAIS A POEIRA E SÍLICA o CONSUMO MODERADO DE ÁLCOOL : parece reduzir risco MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS Cenário típico: Mulher de 50 anos, histórico de tabagismo, refere que há cerca de 3 meses apresenta edema articular em MCFs e punhos associado a rigidez matinal prolongada; Dor MTFs ao deambular pela manhã. Refere perda de peso de 3kg no período. Sintomas articulares: Início insidioso (semanas a meses): § > 6 semanas; § Febre baixa, fadiga, mialgia, inapetência e perda de peso; § Envolvimento simétrico ‒ POLIARTRITE; § Predileção por pequenas articulações das mãos e pés; o Metacarpofalangeana; Interfalângica proximal; punhos. o Calor local, edema; o Rigidez matinal > 1 hora e dor de ritmo inflamatório. SINTOMAS ATÍPICOS DE APRESENTAÇÃO CLÍNICA INICIAL: § Reumatismo palindrômico (episódios autolimitados de mono, oligo ou poliartrite por anos antes do diagnóstico): 28-67% desenvolverá AR; Antimaláricos: reduzem frequência e duração dos ataques e risco de progressão para AR; § Monoartrite isolada - raramente -> Causas infecciosas e artrites microcristalinas devem ser avaliadas Outras manifestações: o Anemia de doença crônica, trombocitose, aumento de PCR e VHS; o Positividade Fator Reumatoide e antiCCP (2/3); o FR e anti-CCP = erosões, nódulos reumatóides, envolvimento extraarticular. o FAN positivo em até 30% dos paciente (títulos baixos/moderados); FATORES DE MAU PROGNÓSTICO Vide tabela! EXAME FÍSICO o Inspeção; o Palpação; o Mobilização ativa e passiva; o Amplitude de movimento; o Avaliação de deformidades; o Nódulos e outras manifestações extra-articulares; o Edema articular poliarticular; o Edema fusiforme das IFP (achado precoce); o Eritema leve e calor articular; Deformidades: o Dorso de camelo; o Desvio ulnar dos dedos; o Subluxação das MCF; o Hiperextensão de IFP e flexão de IFD (em “pescoço de cisne”); o Hiperflexão de IFP e extensão de IFD (em “botoeira”); o Neuropatia compressiva: ‒ Nervo mediano no punho ‒ Nervo ulnar no cotovelo o Rigidez e dor cervicais: ‒ Tenossinovite do ligamento transverso de C1 (que estabiliza o processo odontoide) ‒ Erosão do processo odontoide ‒ Atrito e ruptura do ligamento transverso ‒ Mielopatia cervical MANIFESTAÇÕES EXTRA-ARTICULARES 1. Nódulos reumatoides (20-35%) Primariamente em soropositivos com doença ativa / tabagistas é um fator de risco para manifestações extra- articulares. Locais: § Superfícies extensoras e áreas de pressão; § Cotovelos, tendões de Aquiles, dedos; § Subcutâneos; firmes, indolores, aderidos ao periósteo ou móveis; PODEM REGREDIR!!! 2. Manifestações oculares § Ceratoconjuntivite sicca (Sjögren) ‒ olho seco; § Episclerite (<1%): ‒ Indolor; olho vermelho, lacrimejamento, sem secreção ou perda visual; ‒ Risco de ceratite e catarata secundárias, com perda visual; § Esclerite (<1%): ‒ Severa dor ocular, descoloração vermelho escura, sem secreção; ‒ Risco de reabsorção da esclera: scleromalacia perforans; 3. Outras manifestações musculoesqueléticas § Osteoporose; § Desmineralização óssea periarticular; § Miopatia induzida por drogas: ‒ Glicocorticoide ‒ Antimalárico (hidroxicloroquina) 4. Manifestações hematológicas § Anemia de doença crônica: ‒ Anemia leve, normocrômica e normocítica ‒ Correlação com VHS e atividade de doença § Trombocitose § Aumento de Ferritina § Risco aumentado de linfoma > doença ativa de longa data § Síndrome de Felty: AR + Neutropenia + Esplenomegalia ‒ trombocitopenia/anemia podem ocorrer ‒ Incomum § Vasculite Reumatoide: Inflamação de vasos de pequeno e médio calibre; ‒ Homens, doença de longa data, FR elevado, doença erosiva; ‒ Principalmente: lesões periungueais; ‒ Úlceras cutâneas membros inferiores; ‒ Pioderma gangrenoso; ‒ Neuropatia periférica (mononeurite múltipla, polineuropatia); 5. Manifestações pulmonares § FR: homem; soropositivo; tabaco; § AR risco de CA Pulmão > 1,5 - 3,5x; § Derrame pleural (comumente subclínico ~20%); § Doença intersticial pulmonar: ‒ Pneumopatia intersiticial usual (PIU); ‒ Pneumopatia intersticial não específica (PINE); § Síndrome de Caplan (AR + pneumoconiose) 6. Manifestações cardiovasculares § Comum, principal causa de mortalidade! § Aterosclerose: IAM; IC; AVE § Artrite reumatoide = risco cardiovascular equivalente a DM2 ‒ Consequência da inflamação sistêmica ‒ Associado com atividade de doença ‒ Necessidade de monitorização e tratamento adequados § Pericardite e miocardite são incomuns; INVESTIGAÇÃO - EXAMES LABORATORIAIS Æ Avaliar o grau de inflamação sistêmica; Æ Diagnóstico diferencial de outras condiçoes; Æ Guiar o uso das terapêuticas; FATOR REUMATOIDE Anticorpo IgM contra com a fração Fc da IgG ‒ Presente até 10 anos antes do surgimento de sintomas ‒ Marcador prognóstico • Baixas especificidade / sensibilidade ~70% • Na AR estabelecida: 70-80% • Na AR precoce (inicial): 50% • 70% Sjogren / ~100% Crioglubilinemia / 20-30% LES • Falsos positivos: idosos, endocardite, hepatite C, endocardite, neoplasias • Indivíduos hígidos: 5-10% - até mais de 25% >60anos ANTI-CCP Anti-CCP : anticorpo contra peptídeos e proteínas citrulinadas § Citrulina (Cyclic Citrullated Peptide): aminoácido gerado pela deaminação dos resíduos de arginina pela enzima “peptidylarginine deiminase” (PADI) ‒ Interpretada pelo sistema imune como antígeno externo; • Sensibilidade 70%, Especificidade alta (95-98%): ‒ 35% das AR iniciais com FR negativo terão anti-CCP+ • Falsos positivos : artrite psoriásica, hepatite autoimune e Tuberculose; • Preditor de doença erosiva, incapacidade funcional e doença extra-articular; ‒ Hemograma; ‒ VSG, PCR; ‒ Perfil metabólico; ‒ Enzimas hepáticas e sorologias virais; ‒ Função renal e eletrólitos; ‒ Eletroforese de proteínas séricas; ‒ Fator Reumatóide; ‒ Anti-CCP; ACHADOS RADIOLÓGICOS Æ Achados precoces: ‒ Osteopenia periarticular e aumento partes moles Æ Achados mais típicos: 2ª MCF, processo estiloide e 5ª MTF ‒ Erosões ósseas justa-articulares (marginais) e Pseudocistos; ‒ Erosões em 90% dos casos sem tratamento ao final do 2o ano de doença; ‒ Estreitamento do espaço articular simétrico; Æ Achados mais tardios: ‒ Subluxação e perda do alinhamento articular (destruição da articulações + lassidão e ruptura de ligamentos e tendões) RNM e ecografia: • Métodos mais sensíveis na detecção de erosões; • Avaliam também tecidos moles, tenossinovite e ruptura de tendões; • Úteis em pacientes cujo examearticular é difícil ou inconclusivo; • Papel crescente da Eco na avaliação de atividade de doença; CRITÉRIOS DE CLASSIFICAÇÃO Æ Melhor na AR estabelecida: Sensibilidade 91- 94%; Especificidade 85%. Æ Na AR inicial: Sensibilidade 40- 90%; Especificidade 59-90%. - Pelo menos 4 dos 7; - Critérios de 1 a 4: mín 6 semanas; Æ Exclui 1a MCF, IFDs e 1ª MTF; DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL > 6 pontos TRATAMENTO • Educação Paciente; • Controle Dor; • Exercícios Orientados; AR deve ser diagnosticada precocemente e iniciado DMARD no momento do diagnóstico.O objetivo é a remissão da atividade de doença ou, quando não é possível, ao menos alcançar baixa atividade. Os primeiros 12 meses (artrite inicial), são referidos como janela de oportunidade terapêutica, podendo ter um melhor controle de doença, evitar deformidades e até possibilidade de remissão sustentada Æ Manejo da dor e inflamação: § Analgésicos comuns e AINES; § Glicocorticoides; ‒ Associado a AINES em pacientes em início de terapêutica; ‒ Dose não deve ultrapassar 15mg/dia; ‒ Manifestações extra-articulares: em doses mais elevadas diárias ou em forma de pulsoterapia; ‒ Intra-articulares: indicados em caso de mono e oligoartrites persistentes. DROGAS MODIFICADORAS DE DOENÇA ‒ Reduzem sinais e sintomas de atividade de doença; ‒ Melhoram estado funcional; ‒ Bloqueiam progressão radiográfica Tempo prolongado de uso de GC = reposição de cálcio + Vitamina D METOTREXATO § Considerado o DMARD sintético de 1ª escolha; § Droga âncora para associação com demais DMARD; § Recomenda-se dose inicial de 10-15mg semana ‒ VO ou SC (podendo ser aumentado após 2-4 sem até 25mg semanal); § CONTRAINDICADO: hepatopatas, insuficiência renal e gestação (teratogênico); ANTIMALÁRICOS: § Artrite de leve intensidade e sem fatores de mau prognóstico; § Potência menor que outros DMARDs; § Dose não deve ultrapassar: 5mg/kg/dia; § Atentar para maculopatia; SULFASSALAZINA § Menos eficaz que o MTX, por isso se recomenda seu uso em associação; § Dose usual de 1 a 3 g/dia; § Frequente intolerância gastrointestinal; § Atenção para alergia a sulfas e deficiência de G6PD; LEFLUNOMIDA § Indicada na AR moderada ou grave, naqueles pacientes que não responderam ou não toleraram MTX; § Quando usada em associação pode potencializar os efeitos colaterais do MTX (pancitopenia grave e alteração hepática); § CONTRAINDICADA: na gestação devido a teratogenicidade (mulheres que desejam engravidar devem usar contracepção por 2 anos); § Intoxicação: uso de colestiramina 8g 3x ao dia por 11 dias. AGENTES BIOLÓGICOS - Indicados para pacientes que persistem com atividade da doença a despeito da associação de 2 DMARDs sintéticos, incluindo MTX; - Devem ser usados preferencialmente em associação com o MTX; - Não existem dados que permitam afirmar a superioridade de qualquer um dos biológicos em termos de eficácia no tratamento da AR. § Bloqueadores do TNF - Infliximabe, etarnecepte, adalimumabe, certolizumabe e golimumabe; § Bloqueador da coestimulação de linfócito T ‒ Abatacepte; § Depletor de linfócito B ‒ Rituximabe; § Bloqueador do receptor de IL-6 ‒ Tocilizumabe; CONTRAINDICADOS Æ Mulheres grávidas ou lactantes Æ ICC classe III /IV Æ Infecção ativa Æ Esclerose múltipla Æ Malignidades No tratamento, embora exista uma sobreposição, alguns pacientes têm uma doença dependente de citoquinas, por exemplo TNF ou IL-6. Alguns têm doença dependente de células B, outros têm doença dependente de células T. Isso sugere que a AR não é uma única entidade patogênica, mas uma coleção de distúrbios que variam dependendo da genética e desencadeadores ambientais para cada indivíduo. Antes de iniciar terapia todos os pacientes devem ter investigação de TB (RX tórax e PPD), sorologias para hepatites.