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FACULDADE DE CIÊNCIAS APLICADAS PIAUIENSE – FACAPI CURSO DE GRADUAÇÃO EM PEDAGOGIA EDUCAÇÃO E ANTROPOLOGIA CULTURAL Professor Domingos José (86) 981087403 Campo Maior - Piauí Novembro de 2018 Credenciada pela Portaria MEC nº 193, de 03/02/2017, publicada no D.O.U de 06/02/2017. Rua Professora Mulata Lima, nº 13. Bairro Nossa Senhora da Fátima. Campo Maior, Piauí. Cep: 64280-000 FACULDADE DE CIÊNCIAS APLICADAS PIAUIENSE – FACAPI CURSO DE GRADUAÇÃO EM PEDAGOGIA EDUCAÇÃO E ANTROPOLOGIA CULTURAL Professor Domingos José Plano de Ensino – Campo Maior – 26 a 30 de novembro de 2018 EMENTA Antropologia e suas contribuições para a reflexão sobre a sociedade e a educação no Brasil. Cultura, educação e socialização: a contribuição teórico-metodológica da Antropologia para o seu entendimento. Conceito de cultura. Etnocentrismo e relativismo. Diversidade. Cultura e educação. O olhar antropológico sobre a ed ã ã gênero e geração nos espaços educacionais. Multiculturalismo, pluralidade cultural, igualdade, diferença e educação: perspectivas antropológicas. A cultura da escola: ritos, rituais e práticas escolares. Etnias e educação brasileira: a abordagem antropológica. A investigação antropológica e o conhecimento do cotidiano escolar. OBJETIVO • R f b bá A p g , Educação e Cultura e as contribuições para a formação do educador, além de uma análise contextual desses mecanismos na educação e na escola. Introduzir os conceitos antropológicos básicos, ligado a Cultura e a Educação, bem como instrumentos teóricos e metodológicos úteis ao profissional da Pedagogia. Contribuir na formação de profissionais críticos com relação a comportamentos (e abordagens) etnocêntricos, excludentes, racistas e sexistas. OBJETIVOS ESPECÍFICOS 01. Conhecer o campo e a abordagem da Antropologia. 02. Conhecer e apropriar-se de conceitos básicos da Antropologia associados a cultura, educação e na formação do pedagogo, alteridade, relativismo, etnocentrismo, preconceito, discriminação. 03. Refletir sobre a problemática da identidade étnica e de gênero. 04. Refletir a respeito das relações sociais na escola a partir de categorias como infância, etnia, gênero e classe. CONTEÚDO PROGRAMÁTICO • R õ ã • T m b mp õ p ã • A mp õ v m m de multicultural • m • A p p v ã • ã b g m p óg METODOLOGIA Aulas expositivas e dialogadas. Discussões em seminários a partir da leitura de textos e conhecimento global do aluno. Trabalhos individuais ou em grupos. RECURSOS DIDÁTICOS Quadro branco, marcador para quadro banco, datashow, computador e caixas de som. Credenciada pela Portaria MEC nº 193, de 03/02/2017, publicada no D.O.U de 06/02/2017. Rua Professora Mulata Lima, nº 13. Bairro Nossa Senhora da Fátima. Campo Maior, Piauí. Cep: 64280-000 AVALIAÇÃO Provas discursivas, participação, execução de tarefas, trabalhos e debates, de forma contínua. BIBLIOGRAFIA BÁSICA DO MATERIAL PRODUZIDO BOAS, Franz. Antropologia cultural. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. LARAIA, Roque B. Cultura: um conceito antropológico. 11. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1996. MARCONI, Marina; PRESOTTO, Zelia. Antropologia: uma introdução. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2001. OLIVEIRA, Rachel. Tramas da cor: enfrentando o preconceito no dia-a-dia escolar. São Paulo: Selo Negro Edições, 2005. SANTOS, Maria Sirley dos. Pedagogia da diversidade. São Paulo: Memnon, 2005. SANTOS, José L. O que é cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994. SKLIAR, Carlos. Pedagogia (improvável) da diferença: e se o outro não estivesse aí? Rio de Janeiro: DP&A, 2003. Credenciada pela Portaria MEC nº 193, de 03/02/2017, publicada no D.O.U de 06/02/2017. Rua Professora Mulata Lima, nº 13. Bairro Nossa Senhora da Fátima. Campo Maior, Piauí. Cep: 64280-000 UNIDADE 1: ANTROPOLOGIA E EDUCAÇÃO UM DIÁLOGO POSSÍVEL - Esperamos que, ao final desta aula, você seja capaz de: - Identificar as diferentes correntes teóricas da Antropologia; - Descrever a relação entre Antropologia e educação. INTRODUÇÃO Você já observou a diversidade de grupos que compõem a sociedade em que vivemos? Já se perguntou sobre a infinidade de relações culturais que resultam dos contatos entre esses grupos? Agora, imagine toda essa diversidade associada ao espaço da sala de aula, por exemplo. Como gerir essa gama de teias de significados nesse universo, é um desafio que todo professor/educador enfrenta na sua prática diária. É nesse sentido que a Antropologia pode contribuir na compreensão dos fenômenos educacionais. O professor/educador precisa ter um olhar antropológico sobre o seu espaço de atuação. Esse olhar o auxiliará a lidar com os conflitos e as contradições que surgem do confronto e do contato entre os diferentes grupos sociais, contribuindo para uma prática docente relativizadora. 1. ANTROPOLOGIA • “ ê h m ” • É m p q v g g v v m m h humanas, assim como as diferenças entre elas. • A p v p g v p v g g : anthropos, que significa "homem" ou "humano"; e logos, que significa "pensamento" ou "razão". • A Antropologia, sendo a ciência da humanidade e da cultura, tem um campo de investigação extremamente vasto: abrange, no espaço, toda a terra habitada; no tempo, pelo menos dois milhões de anos, e todas as populações socialmente organizadas. • m g m m p g v p v g g “ h p ” ( h m ) “ g ” ( ê h m ) g f h m O bj v Antropologia é buscar um entendimento amplo, comparativo e crítico dos seres humanos, seus conhecimentos e formas de ser (PRESOTTO, Zelia). Divide-se em duas grandes áreas de estudo, com objetivos definidos e interesses teóricos próprios: a Antropologia Física ou Biológica e a Antropologia Cultural. 1.1 O ÂMBITO DA ANTROPOLOGIA • P p h m p g p p -se em detalhar, tanto quanto possível, os seres humanos que as compõem e com elas se relacionam, seja nos seus aspectos físicos, na sua relação com a natureza, seja na sua especificidade cultural. Para o saber antropológico o conceito de cultura abarca diversas dimensões: universo psíquico, os mitos, os costumes e rituais, Credenciada pela Portaria MEC nº 193, de 03/02/2017, publicada no D.O.U de 06/02/2017. Rua Professora Mulata Lima, nº 13. Bairro Nossa Senhora da Fátima. Campo Maior, Piauí. Cep: 64280-000 suas histórias peculiares, a linguagem, valores, crenças, leis, relações de parentesco, entre outros tópicos. 1.2 ORIGEM • mb h m m à A gü á p g como ciência, efetivamente, da grande revolução cultural iniciada com o Iluminismo Homem Vitruviano (Leonardo da Vinci) Simetria do Corpo Humano e Simetria do Universo • H m m V v é b m f m p g m q m M V v Pollio. Vitrúvio já havia tentado encaixar as proporções do corpo humano dentro da figura de um quadrado e um círculo, mas suas tentativas ficaram imperfeitas. Foi apenas com Leonardo da Vinci que o encaixe saiu corretamente perfeito dentro dos padrões matemáticos esperados. • O b m p p õ m má p h m é XV p L outros é considerado uma das grandes realizações que conduzem ao Renascimento italiano. O desenho também é considerado como um símboloda simetria básica do corpo humano e, para extensão, para o universo como um todo. A área total do círculo é idêntica à área total do quadrado e este desenho pode ser considerado um algoritmo matemático para calcular o valor do número irracional 1,618. 1.3 A ANTROPOLOGIA COMO CIÊNCIA • A é é XVIII b p óg v p b ã , viajantes, soldados, missionários e comerciantes que discutiam, em relação aos povos que conheciam, a maneira como estes viviam a sua condição humana, cultivavam seus hábitos, normas, características, interpretavam os seus mitos, os seus rituais, a sua linguagem. Neste século, a Antropologia adquire o satus de ciência, tendo como objeto a análise das "raças humanas". • N Sé XIX B h P h z m “h m m p é-h ó ” p h arqueológicos, como utensílios de pedra, cuja idade se estimava bastante remota. Posteriormente, em 1865, John Lubock reavaliou numerosos dados acerca da Cultura da Idade da Pedra e compilou uma classificação em que enumerava as diferenças culturais entre o Paleolítico (homem selvagem, caçador/coletor) e Neolítico (que se inicia há 10 mil anos). Evolução Humana: Australopitecus (3,6 milhões de anos), Homo Habilis (2 m.a.), Neanderthal (300 a 29 m ) H m S p … 1.4 EVOLUCIONISMO E ETNOCENTRISMO • m p b ã v A O g m das Espécies, em 1859 e A descendência do homem, em 1871, Charles Darwin principia a sistematização da teoria evolucionista. Partindo desta obra, nascia a Antropologia Biológica. • M p ã v p g Sé XIX p v giou o Darwinismo Social, que considerava a sociedade europeia da época como o apogeu de um processo evolutivo, em que as sociedades aborígenes eram tidas como exemplares "mais primitivos". Esta visão usava o conceito “ v z ã ” p f j gar e, posteriormente, justificar o domínio de outros povos. Esta maneira de ver o mundo, ignorando as diferenças em relação aos povos tidos como inferiores, recebe o nome de etnocentrismo. É a Visão Etnocêntrica do homem europeu, que se atribui o valor de “ v z ” f z q p v v m “ f h ó ” Credenciada pela Portaria MEC nº 193, de 03/02/2017, publicada no D.O.U de 06/02/2017. Rua Professora Mulata Lima, nº 13. Bairro Nossa Senhora da Fátima. Campo Maior, Piauí. Cep: 64280-000 1.5 EVOLUÇÃO DA ANTROPOLOGIA • D é XVI-XIX deu- p í “L g áf ” q p m m sobre viagens onde eram menci í p v “ b ” m descrição de sua língua, raça, religião. As descrições eram feitas geralmente por missionários, viajantes, exploradores, etc. As características físicas e sociais de povos diferentes eram tratadas em j b “ ”; • N f m é XIX g “ v m S ” mbém h m “R m íf ” (p p f ) “D w m S ” É v v que as v m m m “p m v ” p m “ v z ” p ém é p í q “ ” b í p “ ”; • A é XIX g “ S óg F ” ã f gras do método óg (Ém D kh m) m b p “F S T ” p õ coletivas, etc.; • N í é XX í p v g h m “A p g S ” I g “A p g ” UA “ g ” F chegando ao patamar de disciplina científica autônoma. • N é 20 é v z ó “F m ” g q v e culturais devem ser compreendidos. É nesta fase que predomina a ênfase no trabalho de campo; • N é 30 p m “ m N -Am ” há ê f f ã de padrões culturais (estilos de cultura); 1.6 CULTURA: UM CONCEITO ANTROPOLÓGICO • O to antropológico de cultura passa necessariamente pelo dilema da unidade biológica e a grande diversidade cultural da espécie humana. Um dilema que permanece como tema central de numerosas polêmicas e que aponta para a preocupação, há muito presente, com a diversidade de modos de comportamento existentes entre os diferentes povos. • N 40 g “ m ” ( q f z p Lév -Strauss) com a distinção entre natureza e cultura, os princípios da organização da mente, etc.; • N 60 m “A p g I p v ” m p f p ã h m ê desenvolvimento da interpretação antropológica; • ff G z é p v v m p Lév -Strauss, o antropólogo cujas ideias causaram maior impacto na segunda metade do século XX, não apenas no que se refere à própria teoria e à prática antropológica, mas também fora de sua área, em disciplinas como a psicologia, a história e a teoria literária. Considerado o fundador de uma das vertentes da antropologia contemporânea - a chamada Antropologia Hermenêutica ou Interpretativa. • p f m 80 “A p g Pó -M ” “ í ” m “p z ã ” ã “ b v - b v ” í p gm ó • J m ff • G g M us • F Credenciada pela Portaria MEC nº 193, de 03/02/2017, publicada no D.O.U de 06/02/2017. Rua Professora Mulata Lima, nº 13. Bairro Nossa Senhora da Fátima. Campo Maior, Piauí. Cep: 64280-000 2. A Antropologia e suas Especialidades A Antropologia é um campo do conhecimento bastante recente, que demarca seu espaço, sobretudo, após os contatos dos europeus com outros povos distantes, durante as expansões marítimas. Porém seus métodos de análise e suas teorias foram se constituindo ao longo dos séculos XVIII, XIX e XX. Podemos definir a Antropologia como uma ciência que busca o conhecimento abrangente do h m p “ á h m m m um todo – ser biológico e ser cultural – preocupando-se em revelar os fatos da z ” (MAR ONI; PR SOTTO 2001 p 24) Devido à amplitude de seus campos de interesse, temos uma divisão em áreas: a Antropologia Física ou Biológica, que se preocupa com os aspectos biológicos do homem; a Antropologia Social e/ou Cultural, voltada para a dimensão sociocultural, por exemplo, o estudo das instituições sociais, e a Arqueologia, que investiga os vestígios, as pistas da existência de grupos humanos já desaparecidos. Como você pode observar, é bastante amplo o campo de investigação dessa ciência. Alguns autores divergem sobre essa divisão, porém ela é um recurso didático para que possamos compreender a especificidade da Antropologia. Roberto Da Matta (1997, p. 28-9), por exemplo, q “* + Arqueologia é uma subdisciplina da Antropologia Geral, e mais especificamente, da Antropologia Cultural (ou Social), já que seu objetivo é chegar ao estudo das sociedades do p ” A h q m á é bastante tênue e, muitas vezes, fazemos uso de conceitos que estão presentes em mais de uma delas. Vejamos agora um breve histórico do desenvolvimento da Antropologia enquanto ciência e disciplina. 2.1 Desenvolvimento Histórico das Principais Teorias Antropológicas Da Matta (1997, p. 88) explica que: f ‘h ó p g ’ é p b m p qual os homens perceberam suas diferenças ao longo de um dado período de tempo, [...] um domínio especial onde podemos realizar uma importante reflexão sobre nós mesmos através do ‘ ’ Apesar das especificidades de cada área dessa ciência, podemos dizer que ela é uma forma de conhecimento sobre a diversidade cultural, uma busca por descobrirmos quem somos a partir do outro,esteja ele longe ou perto, presente ou extinto. É uma maneira de nos situarmos frente aos vários mundos sociais e culturais, abrindo possibilidades de ampliarmos nossa capacidade de agir, sentir e refletir sobre o que nos torna tão singulares e diferentes. Os primeiros relatos sobre esse outro, descoberto em terras longínquas na época das grandes navegações, eram feitos por meio de cartas, diários, relatórios dos viajantes, comerciantes, missionários, militares, entre outros. Esses relatos se constituíram em uma literatura sobre a diversidade cultural dos povos descobertos pelos europeus. A carta de Pero Vaz de Caminha sobre o descobrimento do Brasil é um exemplo desses relatos. Credenciada pela Portaria MEC nº 193, de 03/02/2017, publicada no D.O.U de 06/02/2017. Rua Professora Mulata Lima, nº 13. Bairro Nossa Senhora da Fátima. Campo Maior, Piauí. Cep: 64280-000 Porém, é a partir da influência das teorias de Charles Darwin (1809-1882) e de seu tratad b “A O g m pé ” q A p g m desenvolver-se teoricamente. Surge o evolucionismo social, que pode ser caracterizado, segundo DaMatta (1997, p. 91-7), por quatro ideias gerais: 1. As sociedades humanas deviam ser comparadas entre si por meio de seus costumes, [...] como entidades isoladas de seus respectivos contextos. 2. Os costumes têm uma origem, uma individualidade e um fim. 3. As sociedades se desenvolvem de modo linear [...] da mais simples para a mais complexa e da mais indiferente para a mais diferenciada, numa escala irreversível. 4. Todas as formas sociais, políticas, econômicas, religiosas, jurídicas e morais desconhecidas foram reduzidas ao eixo do tempo [...] a grande máquina capaz de eliminar as diferenças e reduzir o estranho ao familiar. O que essas quatro ideias fundamentais sobre o evolucionismo social querem afirmar é que todas as formações sociais estão numa linha evolutiva que considera como atrasados, selvagens e primitivos todos os costumes que não fazem parte do último estágio, o mais evoluído da sociedade. O fato de que, como as diferenças estão subsumidas na ideia de que o outro sou eu, num estágio mais atrasado, faz com que todas as possibilidades de pensar e conceber esse outro como um igual sejam anuladas, posto que ele estará sempre num estágio diferente. Fortaleceram-se, assim, as práticas preconceituosas e discriminatórias que, ainda hoje, estão presentes em nossa sociedade. Além disso, as teorias evolucionistas justificaram, por um longo tempo, os planos colonialistas, na afirmação de que essas sociedades ou grupos humanos que estavam em um estágio inferior deveriam evoluir para o estágio mais avançado. Outro dado interessante é que os antropólogos do evolucionismo social não iam a campo realizar suas pesquisas. Eram antropólogos de gabinete, ou seja, recebiam os relatos e dados e sistematizavam o conhecimento sobre os povos primitivos, sem nunca entrar em contato com eles. Um dos principais representantes da teoria evolucionista é Edward Tylor (1832-1917), precursor, também, do conceito de cultura que veremos mais adiante. Porém, apesar de todas as críticas que foram feitas ao evolucionismo, foi a partir dele que a Antropologia se constituiu como disciplina acadêmica e ciência que tem um método próprio de análise. A próxima perspectiva teórica que veremos propõe o fim dessa conduta de gabinete, vista anteriormente. Trata-se da perspectiva do funcionalismo, que tem como principal representante Bronislaw Malinowski (1884-1942). Um dos aspectos fundamentais do trabalho do antropólogo, segundo esse autor, é a observação participante. Tal postura coloca o pesquisador em contato direto com o grupo a ser investigado e procura relacionar os seus costumes não a partir de um eixo temporal como no evolucionismo, mas compreendendo-os em um sistema coerentemente integrado de relações sociais. DaMatta (1997, p. 105) afirma que: a comparação, na perspectiva funcionalista, não é algo que vai somente numa ã mp ‘ v ’ m cobaias e inocentes, como são de fato os machados e canoas dos museus, neutros em sua situação de objetos deslocados sendo vistos por um visitante que jamais cortou uma árvore ou remou. Mas algo que dialeticamente faz sobre si mesmo uma volta completa, envolvendo a reflexão sobre a sociedade e os costumes do observador. Essa postura permitiu um conhecimento mais aprofundado das diversas lógicas de cada sociedade humana. Uma posição relativizadora que procura compreender os costumes e sintetizar os dados de determinado grupo humano para além de um plano da história determinada pelo progresso, como é o caso do evolucionismo. Outra crítica ao evolucionismo e seu método comparativo se estrutura com Franz Boas (1858-1949) e o culturalismo norte-americano. Laraia (1996, p. 36) afirma que Boas [...] atribuiu à antropologia a execução de duas tarefas: a) a reconstrução da história de povos ou regiões particulares; b) a comparação da vida social de diferentes povos, cujo desenvolvimento segue as mesmas leis. [...] São as investigações históricas – reafirma Boas – o que convém para descobrir a origem Credenciada pela Portaria MEC nº 193, de 03/02/2017, publicada no D.O.U de 06/02/2017. Rua Professora Mulata Lima, nº 13. Bairro Nossa Senhora da Fátima. Campo Maior, Piauí. Cep: 64280-000 deste ou daquele traço cultural e para interpretar a maneira pela qual toma lugar num dado conjunto sociocultural. Boas desenvolve o particularismo histórico q “ g eus próprios caminhos em função dos diferentes eventos históricos que enfrentou [...] sendo essa possibilidade de desenvolvimento múltiplo o objeto de uma abordagem m ” (LARAIA 1996 p 37) Essa perspectiva teórica avançou bastante, em relação ao evolucionismo e ao funcionalismo, pois percebe as sociedades e seus costumes como resultado de uma construção histórica e não como recortes em estágios evolutivos ou como atendendo a funções específicas num sistema social integrado. Cada cultura deve ser entendida dentro de sua própria lógica, ou seja, apesar de determinado costume ou hábito cultural nos parecer totalmente alheio, por não fazer parte de nossa cultura, deve ser entendido dentro de seu esquema social. Assim conseguimos ultrapassar o olhar pré-conceituoso, pré-concebido aos grupos diversos ao nosso. Ainda no século XX, a partir dos anos 40, temos o desenvolvimento do estruturalismo como teoria antropológica. Seu mais ilustre representante foi Claude Lévi-Strauss (nascido em 1908), antropólogo francês que considera cultura como sistemas estruturais, ou seja, um sistema simbólico que é a criação acumulativa da mente humana – o mito, a arte, o parentesco e a linguagem -– e que, por isso, permite desvendar os princípios da mente que geraram essas elaborações culturais. Assim é preciso verificar os pontos elementares para explicar uma sociedade, por exemplo, a família existe em todas as sociedades, porém de formas diferentes. É o que esse autor chama de paralelismo cultural, ou seja, estruturas semelhantes em culturas diferentes. Laraia (1996, p. 63) afirma que isso xp “p f q p m h m á bm g inconscientes, ou seja, um conjunto de princípios [...] que controlam as manifestações empíricas de um dado grup ” g m m determinadas estruturas em diferentes formações sociais. Seria como afirmar que o ser humano tem uma unidade psíquica e que em dados momentos aproxima os grupos pelas manifestações empíricas desse inconsciente. Lévi-Strauss refere-se à estrutura como a um sistema que reflete a realidade social ou cultural, seu funcionamento, as alterações a que está sujeita, o rumo das transformações provocadas por fatores externos à cultura, e as previsões de reação, quando alguma de suas partes for afetada. Nos anos 60, uma nova forma de análise é delineada na antropologia, a partir do método hermenêutico,a interpretação. Clifford Geertz é o principal representante dessa vertente que percebe a cultura como sistemas simbólicos, uma teia de significações. Para esse autor, cabe ao antropólogo fazer uma descrição densa na qual esteja contida a interpretação dos símbolos de determinada cultura na busca de significados construídos socialmente. Schwarcz (2001, s/p) explica que: para Gee z b h p óg mp f f ‘ p p ’ – uma grande e complexa experiência de campo -, mas nem por isso menos severa. Revelar as singularidades de outros povos, examinar o alcance e a estrutura da experiência humana, aí estavam dispostos os maiores trunfos dessa antropologia interpretativa, hermenêutica para alguns, simbólica ou criativa para outros. Assim Geertz inaugura uma nova forma de fazer a etnografia, tomando a cultura como um texto que deve ser lido e interpretado, tanto por seus integrantes como pelo pesquisador. Mais recentemente, a partir da década de 1980, observamos um movimento que tem atingido vários campos do saber. Trata-se da crise dos paradigmas científicos e o surgimento de novas propostas de análise. Na Antropologia, as teorias pós-modernas têm sua expressão nos trabalhos de James Clifford e George Marcus. Para eles, a cultura é um processo polissêmico. A Antropologia passa a dar voz, em seu trabalho etnográfico, a uma polifonia, exatamente, devido à diversidade cultural. É um movimento de crítica à autoridade etnográfica e seu texto clássico. Saiba mais Credenciada pela Portaria MEC nº 193, de 03/02/2017, publicada no D.O.U de 06/02/2017. Rua Professora Mulata Lima, nº 13. Bairro Nossa Senhora da Fátima. Campo Maior, Piauí. Cep: 64280-000 No caso da Antropologia brasileira, segundo Marconi e Presotto (2001), somente no século XIX, com as expedições ao interior do país, é que a investigação ganha status científico. Antes desse período, as pesquisas tinham um caráter descritivo e empírico, sem uma sistematização dos dados registrados. Nas primeiras décadas do século XX, os estudos indígenas no Brasil interessaram mais aos europeus, especialmente os alemães. Alguns trabalhos de pesquisadores brasileiros se destacam nesse período, embora não parecesse interessante esse objeto de estudo para eles. Capistrano de Abreu, por exemplo, pesquisou e escreveu sobre os Kaxinauá, e Roquete Pinto estudou os Pareci e Nambikuara. Porém, dos anos 1930 em diante, desenvolvem-se trabalhos importantes na tentativa de compreender as várias manifestações da cultura brasileira. Temos Gilberto Freire com seu clássico Casa Grande & Senzala, Sérgio Buarque de Holanda com Raízes do Brasil e Caio Prado Jr. com Formação do Brasil contemporâneo. Esses autores e trabalhos são referências nos estudos antropológicos brasileiros, exatamente por buscarem delinear os traços que definem nossa cultura. Ainda nesse período, é criada a Universidade de São Paulo que conta, em seu quadro de professores, com nomes importantes das Ciências Sociais, como, por exemplo, Lévi-Strauss, que influencia fortemente a teoria antropológica brasileira. Atualmente, os trabalhos antropológicos no Brasil são referência mundial, principalmente por desenvolverem um conjunto teórico específico que se conforma com o seu objeto de estudo, uma sociedade multicultural. Destacam-se os trabalhos de Darcy Ribeiro, Carlos Rodrigues Brandão, Ruth Cardoso, entre outros. Esse pequeno delineamento histórico da ciência antropológica teve por objetivo que você se familiarizasse com as discussões sobre os diferentes métodos construídos pelos mais variados estudiosos das sociedades e das diversas culturas. Porém, não é objetivo da disciplina torná- lo um antropólogo, nem esgotar o tema da história da antropologia, mas, sim, prepará-lo para lidar com a diversidade cultural na escola e, principalmente, no espaço da sala de aula. 1.2 Relações entre Antropologia e Educação Gusmão (1997) entende que na relação entre Antropologia e Educação abre-se um espaço para debate, reflexão e intervenção, que acolhe desde o contexto cultural da aprendizagem, os efeitos sobre a diferença cultural, racial, étnica e de gênero, até os sucessos e insucessos do sistema escolar em face de uma ordem social em mudança [...] em jogo, as singularidades, as particularidades das sociedades humanas, de seus diferentes grupos em face da universalidade do social e sua complexidade através dos tempos e, em particular, num mundo que se globaliza. A Antropologia e seus pensadores estiveram, no passado e no presente, preocupados com o campo das diferenças e das práticas educativas. Existe, portanto, uma convergência dos estudos da cultura, campo da antropologia, e dos estudos dos mecanismos educativos, campo da pedagogia, que permite que se fale em Antropologia da Educação. Assim, ambas estabelecem um diálogo do qual fazem parte o debate teórico-metodológico das pesquisas educativas, relacionadas às diferentes formas de vida que desafiam o conhecimento, principalmente nos dias atuais. Em um movimento de tensão e de compreensão, é que emerge o diálogo entre antropologia e educação, posto que ambas são devedoras científicas do processo de imposição de uma cultura sobre outra, criado pelo colonialismo europeu, cujo objetivo era suprimir a alteridade em favor de uma vida cultural e uma pedagogia do tipo homogeneizadora e etnocêntrica. Saiba mais Credenciada pela Portaria MEC nº 193, de 03/02/2017, publicada no D.O.U de 06/02/2017. Rua Professora Mulata Lima, nº 13. Bairro Nossa Senhora da Fátima. Campo Maior, Piauí. Cep: 64280-000 O ponto comum desse diálogo é o conceito de cultura que veremos detalhadamente na próxima aula, mas que, aqui, representa o aparato necessário ao homem para viver a vida, diferenciar os mundos da cultura e da natureza, bem como construir um saber que envolve processos de aprendizagem e socialização. Poderíamos citar uma série de exemplos de diversidades sociais e várias situações pedagógicas que só seriam compreendidas se relativizadas. A luta pelos interesses no mundo cultural afirma a existência concreta dos diferentes grupos humanos que transitam na antropologia e na educação. Essa luta implicou uma série de aspectos como a dominação, a espoliação, enfim, situações que muitas vezes obstruíram a produção cultural de vários grupos, em favor de uma cultura hegemônica. Gusmão (1997) explica que [...] a antropologia nasce de relações historicamente constituídas entre os homens e, por sua natureza, busca compreender o outro diferente de si – de seu mundo de origem, a Europa do século XIX – dialogando com outras formas de conhecimento, tendo por base e pressuposto central o mundo da cultura, as relações entre os homens e a construção do saber. f m mbém q “v v m m ép m q é p resgatar e redimensionar o mundo das diferenças e da diversidade, o que exige renovar a visão de mundo e das ” (GUSMÃO, 1997). Daí a necessidade de aproximar esses dois campos do conhecimento para o avanço dos debates sobre a diversidade cultural e suas implicações para o processo de aprendizagem. Poderíamos ficar enumerando uma série de pontos de contato entre a antropologia e a educação, mas, ao longo de todas as aulas, essa temática será recorrente e irá sendo melhor esclarecida. Mas, até aqui, você já percebeu a importância de se estabelecer um diálogo entre essas áreas do conhecimento, se quisermos compreender melhor o ser humano em seu universo cultural e as dimensões do ensino. Síntese da Unidade Nesta unidade, você observou que a Antropologia é uma ciência relativamente nova, pois só se constituiu como disciplina acadêmica e sistematizou um método de análise, no século XIX. Essa ciência se subdividiu em áreas específicas, devido à amplitude de seu objeto: o homem em suas dimensões social, cultural e biológica. Assim, temos a Antropologia Social, a Cultural e a Física ou Biológica. Além disso, você pôde conheceros aspectos históricos e teóricos dessa ciência que tem no evolucionismo social, no funcionalismo, no culturalismo e no estruturalismo suas expressões clássicas. Atualmente, as discussões teóricas giram em torno da antropologia interpretativa e das teorias pós-modernas, embora se recorra muito aos clássicos. Mas o ponto fundamental desta aula foi a relação da antropologia com a educação. Aqui, você percebeu que o conceito de cultura é o ponto de intersecção entre a Antropologia e a Educação. Credenciada pela Portaria MEC nº 193, de 03/02/2017, publicada no D.O.U de 06/02/2017. Rua Professora Mulata Lima, nº 13. Bairro Nossa Senhora da Fátima. Campo Maior, Piauí. Cep: 64280-000 UNIDADE 2: BASES CONCEITUAIS SOBRE A CULTURA E SUAS IMPLICAÇÕES PARA A EDUCAÇÃO Esperamos que, ao final desta unidade, você seja capaz de: - Identificar os conceitos de cultura a partir das teorias antropológicas; - Descrever as relações entre cultura e educação. INTRODUÇÃO V ê já v g ém z “N ! F é ã ” “S ã tem um pingo ”? é m m p m m m um grande número de pessoas. Cultura entendida dessa maneira refere-se ao nível de conhecimento, à sofisticação e educação que uma pessoa tem. Será que quanto mais cultura tem os membros de uma sociedade, mais civilizada ela é? Será que cultura é só isso? O conceito de cultura é bem mais complexo que uma simples hierarquização entre cultos e incultos ou entre mais e menos civilizados. O Antropólogo, quando usa esse conceito, o compreende como peça fundamental de seu estudo sobre um grupo humano qualquer. Além disso, tal conceito contribui para a compreensão das diferenças culturais, fundamental, por exemplo, para você, futuro professor, que lidará com elas o tempo todo no universo escolar. 2.1 O DESENVOLVIMENTO DO CONCEITO DE CULTURA ORIGEM DO TERMO CULTURA • ULTURA ( m): p mp g • XIII: g m p terra cultivada. • XVI ( m ): ã g f m m ( v ) m m ã ( f v ) • XVI (m ): p g mbém m f f b h p desenvolvê-la (cultura das artes, cultura das letras, etc.) ORIGEM DO TERMO CULTURA • I m m m f m m v m g F g m do século XVIII (o chamado "século das luzes"), que enfatizava a razão e a ciência como formas de explicar o universo. A inspiração do Iluminismo parte da Revolução Intelectual do século XVII, com tríplice paternidade: No vocabulário francês do século XVIII: • T q v z ã ã m z p g m UNIVERSALISMO e o HUMANISMO dos filósofos. Credenciada pela Portaria MEC nº 193, de 03/02/2017, publicada no D.O.U de 06/02/2017. Rua Professora Mulata Lima, nº 13. Bairro Nossa Senhora da Fátima. Campo Maior, Piauí. Cep: 64280-000 • m 1882 m m é b f ê h m “O q é m ã ?” R f m v com convicção que: • “ f mã x h m ” • A é mã v pouco no século XIX sob a influência do nacionalismo. • AL MANHA – cultura liga-se ao conceito de nação. CONCEITO DE CULTURA • ULTURA: m g p áv m x • ULTURA: m v formas de criatividade, por meio dos quais a sociedade se exprime e se realiza como ponto, como seu estilo de vida (MICHAUD & MARC, 1981). O termo cultura foi definido primeiramente por Edward Tylor (1832-1917), autor já mencionado anteriormente, quando discutimos a teoria evolucionista social. Segundo Laraia (1996, p. 25), Tylor compreende a cultura [...] em seu amplo sentido etnográfico, este todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade. Esse conceito de Tylor, elaborado em 1871, foi bastante inovador para sua época e abarcava todas as possibilidades de realização humana, enfatizando um caráter de aprendizagem da cultura, em oposição aos determinismos biológico e geográfico que defendiam uma aquisição inata. Saiba mais Depois da sistematização elaborada por ele, vários antropólogos também contribuíram para uma ampliação do conceito de cultura. Porém, não existe uma definição única, muito menos um consenso, pois os conceitos estão inseridos na dinâmica social e, quando ela se modifica, eles também se alteram. Como afirma Marconi e Presotto (2001, p. 42) afirma que desde o final do século passado (XIX) os antropólogos vêm elaborando inúmeros conceitos sobre a cultura. Apesar da cifra ter ultrapassado 160 definições, ainda não chegaram a um consenso sobre o significado exato do termo (grifo nosso). Credenciada pela Portaria MEC nº 193, de 03/02/2017, publicada no D.O.U de 06/02/2017. Rua Professora Mulata Lima, nº 13. Bairro Nossa Senhora da Fátima. Campo Maior, Piauí. Cep: 64280-000 Dessa forma, você pode perceber a complexidade desse conceito e a importância de situá-lo frente às principais teorias antropológicas, para que se tenha uma compreensão mais ampla e mais consistente. É o que faremos a seguir. Tylor é um antropólogo do evolucionismo social. Ele busca apoio para seu método de análise nas ciências da naturez p q “ pode ser um objeto de estudo sistemático, pois trata-se de um fenômeno natural q p g ” (LARAIA 1996 p. 30). Esse autor estava preocupado com a formulação de leis que explicassem as várias culturas, ou seja, seu objetivo eram as generalizações. Como esse era o ponto importante de seu estudo, a diversidade cultural passava despercebida, explicada como parte da desigualdade de estágios em que se encontravam as várias formações sociais. Importava a uniformidade cultural, na qual todos alcançariam o último e mais evoluído dos estágios, e não a diversidade. No entanto não podemos deixar de destacar os méritos do pensamento de Tylor; entre eles, a definição de cultura como entendemos atualmente e a crítica aos relatos dos viajantes, quando classificava e analisava as culturas, já iniciando uma crítica aos teóricos de gabinete. Outra definição que queremos apresentar do conceito de cultura é a de Franz Boas em 1938, também já mencionado anteriormente e adepto do método comparativo. Segundo Marconi e Presotto (2001, p. 43), Boas define cultura m “ õ v m físicas que caracterizam o comportamento dos indivíduo q mpõ m m g p ” Boas critica o evolucionismo por usar o método comparativo de forma equivocada e mp p p q mp m “ b p históricos das culturas simples e da compreensão dos efeitos das condições psicológicas m mb ” (LARAIA 1996, p. 36). Para ele, são as pesquisas históricas que auxiliam o antropólogo a descobrir a origem de determinado traço cultural e compreender como ele se situa em uma formação cultural. Observe como o conceito de cultura de Boas amplia o de Tylor, na medida em que se volta para a totalidade de um grupo social em seu contexto histórico específico. Assim não percebemos as formações sociais distribuídas em uma linha unilinear, mas cada uma em sua particularidade histórica. Vejamos agora o que significa cultura para Malinowski, que definiu esse m m 1944: “ todo global consistente de implementos e bens de consumo, de cartas constitucionais para os vários agrupamentos sociais, de ideias e ofícios h m m ” (MARCONI; PRESOTTO, 2001, p. 43). Lembrando-se da unidade anterior, Malinowski era um antropólogo funcionalista. Cada cultura, para ele, é um sistema integrado de relações, no qual, cada aspecto desempenhauma funcionalidade, ou seja, nada ocorre por acaso ou está errado e fora do lugar. Vejamos um exemplo dado por DaMatta (1997, p. 102) sobre o funcionalismo de Malinowski. Se carruagens foram usadas antigamente e são usadas hoje em dia, isso não ocorre porque elas são traços que sobraram dos bons tempos antigos [...] as carroças a cavalo têm, pois, uma função (um papel) a cumprir e esse papel é o de lembrar ou sinalizar para o passado [...] porque ela nos remete, por contraste, a uma faceta do mundo urbano, onde a velocidade tornou-se perturbadora. Esse é [...] o significado social da carruagem. Observe como o exemplo se adéqua ao conceito de cultura de Malinowski. O todo global consistente, em que nada se perde. Só para diferenciar, se analisássemos o exemplo anterior, na lógica evolucionista, diríamos que as carruagens deveriam ser logo substituídas pelos modernos carros da sociedade atual, pois ela é um resquício de sociedades menos evoluídas que nada têm a ver com nossa civilização. No entanto ela é importante para a compreensão funcionalista de cultura, pois sua sobrevivência desempenha uma função social importante nessa mesma sociedade civilizada. Avançando um pouco, Ruoso (2004) cita que Lévi-Strauss define a cultura como um sistema de símbolos [...] onde todas as coisas estão relacionadas de forma que a alteração de um desses elementos resultaria na alteração de todo o sistema. O que há de comum em todos esses sistemas presentes em diferentes culturas é a estrutura. Credenciada pela Portaria MEC nº 193, de 03/02/2017, publicada no D.O.U de 06/02/2017. Rua Professora Mulata Lima, nº 13. Bairro Nossa Senhora da Fátima. Campo Maior, Piauí. Cep: 64280-000 A proposta de Lévi-Strauss com o estruturalismo é mapear aquilo que há em comum a qualquer cultura, como uma estrutura fundamental da própria condição humana. Para Laraia (1996), esse antropólogo elabora uma nova teoria da unidade psíquica da humanidade por tentar compreender os princípios mentais que engendram a cultura. Levi-Strauss afirma que a cultura se iniciou quando o homem convencionou a primeira regra: a proibição do incesto. Esse é um padrão de comportamento comum a todas as sociedades humanas - a questão da unidade psíquica – que gerou uma série de estruturas dentro dos sistemas simbólicos das culturas, por exemplo, o matrimônio. Temos ainda a definição de cultura proposta por Geertz em sua antropologia interpretativa. P ã v m m “* + um complexo de comportamentos concretos, mas um conjunto de mecanismos de controle, planos, receitas, regras, instruções (que os técnicos de computadores h m m p g m ) p g v mp m ” (G RTZ por LARAIA, 1996, p. 63). Dessa forma, seria como se todos os homens fossem geneticamente aptos para receber um programa que é o que chamamos de cultura, por exemplo, uma criança está preparada para ser socializada em qualquer cultura, porém será programada por um contexto real onde crescerá. Temos um equipamento para viver mil vidas, mas vivemos apenas uma. Para Geertz, e veja como ele avança em relação ao estruturalismo de Levi-Strauss, uma cultura não é determinada por uma unidade psíquica humana, pois assim estaríamos admitindo que os significados estão na mente dos indivíduos apenas, sem serem partilhados. Os atores do sistema cultural partilham símbolos g f “ é p m código de símbolos partilhados pelos membros dessa ” (LARAIA 1996 p 64) Esse delineamento teórico do conceito de cultura é fundamental para que você possa situar-se criticamente sobre esse termo tão complexo. Isso o ajudará a compreender as suas implicações para a educação. 2.2 Cultura e educação Agora que você já tem uma ideia do que é cultura, a partir do desenvolvimento desse conceito descrito anteriormente, precisa compreender as relações existentes entre ela e a educação. O antropólogo Carlos Rodrigues Brandão (1995, p. 11) explica que a educação é, como outras, uma fração do modo de vida dos grupos sociais que a criam e recriam, entre tantas outras invenções de sua cultura, em sua sociedade. Formas de educação [...] entre todos os que ensinam-e-aprendem, o saber que atravessa as palavras da tribo, os códigos sociais de conduta, as regras do trabalho, os segredos da arte ou da religião, do artesanato ou da tecnologia que qualquer povo precisa reinventar, todos os dias, a vida do grupo e a de cada um de seus sujeitos [...] e desde onde ajuda a explicar de geração em geração, a necessidade da existência de sua ordem. A educação, portanto, é uma invenção humana e faz parte da cultura de cada grupo humano. Ela desempenha um papel fundamental na socialização dos membros de uma sociedade, e varia de uma para outra. Como a cultura pressupõe um aprendizado do modo de vida dos grupos sociais, eis aí sua mais importante relação com a educação. Por isso, não podemos falar de uma única educação, mas de educações, da mesma forma que não podemos falar de uma cultura única. Saiba mais Credenciada pela Portaria MEC nº 193, de 03/02/2017, publicada no D.O.U de 06/02/2017. Rua Professora Mulata Lima, nº 13. Bairro Nossa Senhora da Fátima. Campo Maior, Piauí. Cep: 64280-000 Assim, no cotidiano dos diferentes grupos humanos, seja em uma tribo indígena ou numa m óp “ õ p p a natureza, mediadas pelas regras, símbolos e valores da cultura do grupo, têm m m m m ã p góg ” (BRANDÃO, 1995, p. 20). Todos os que convivem no grupo, aprendem, seja da sabedoria dos seus integrantes, seja da norma dos seus costumes, o saber que os torna aptos, pessoalmente e socialmente, para a convivência social, para o trabalho, para a guerra, para o amor. Esse autor destaca outro aspecto importante nessa relação da cultura com a educação. Trata-se do processo de endoculturação, por meio do qual um grupo socializa, em sua cultura, seus membros como sujeitos sociais. Todo o conhecimento que existe em uma cultura e que é adquirido pela experiência pessoal com o mundo e com os outros membros dela, tudo o que se aprende independente de como se aprende, faz parte desse processo, e a educação é o seu campo mais importante. Quando uma mãe corrige seu filho para que fale corretamente a língua do grupo, ou quando explica à filha as regras sociais para ser mulher, ou quando o pai ensina o filho a fazer uma flecha, ou quando os guerreiros saem com os mais novos para ensiná-los a caçar, a educação aparece como resultado de formas sociais de condução e controle nesse processo de ensinar e aprender. Até aqui falamos do ensino informal, aquele que não está restrito a um lugar específico nem a um corpo técnico especializado que aplica as teorias educacionais e no qual o espaço educacional não é o escolar. Ele se refere ao saber da comunidade, àquilo que todos conhecem de alguma maneira e que envolve situações pedagógicas interpessoais familiares e comunitárias, porém destituídas de técnicas pedagógicas escolares. Mas as sociedades se complexificam e a cultura se transforma e, mesmo as mais primitivas, acabam desenvolvendo hierarquias que passam a distribuir desigualmente o conhecimento. Isso pode vir a reforçar as diferenças, ao contrário do saber anterior, que afirmava a comunidade. É o começo da separação entre os que sabem e os que fazem, os que planejam e os que executam. É o momento em que a educação se transforma em ensino e inventa a pedagogia, a teoria da educação. Mas, o que isso significa? Brandão (1995, p. 28) explica que: significa que, para além do saber comum de todas as pessoas do grupo e transmitido entre todos livre e pessoalmente, para além do saber dividido dentro do grupo entre categorias naturais de pessoas (homens e mulheres, crianças, jovens, adultos e velhos) e transferido de uns aos outros segundo suas linhas de sexo eidade, por exemplo, emergem tipos e graus de saber que correspondem desigualmente a diferentes categorias de sujeitos (o rei, o sacerdote, o guerreiro, o professor, o lavrador), de acordo com a sua posição social no sistema político de relações do grupo. Significa, também, o surgimento do ensino formal, momento em que a educação se sujeita à pedagogia e passa ao espaço escolar, estabelece suas regras e tempos, produz seus métodos e constitui seus especialistas que cumprirão uma missão: ensinar. Aparecem, nesse cenário, a escola, o aluno e o professor. Novas relações se estabelecem com a cultura. A cultura de uma sociedade reúne significados comuns aos diversos grupos que pertencem a ela, ou seja, existe uma unidade cultural. Porém, essa cultura geral não se restringe ao conjunto das subculturas dessa mesma sociedade. As pessoas vivem as culturas de seus grupos, as subculturas, que também estão imbuídas dos significados comuns à sociedade, mas elas não conseguem experimentar toda a cultura dessa sociedade. Com o aumento da divisão social do trabalho, ocorre o distanciamento dos indivíduos e grupos, adaptando-os cada vez mais à sua própria cultura e diminuindo a experiência das outras culturas. Ela diferencia as atividades distribuindo-as entre os indivíduos ou grupos em sociedade. Além disso, reparte as profissões entre as classes sociais diferentes. Credenciada pela Portaria MEC nº 193, de 03/02/2017, publicada no D.O.U de 06/02/2017. Rua Professora Mulata Lima, nº 13. Bairro Nossa Senhora da Fátima. Campo Maior, Piauí. Cep: 64280-000 Na sociedade moderna e industrial, a divisão social do trabalho encaminha os indivíduos às atividades que lhes foram atribuídas, conformando-os às suas culturas específicas ou subculturas e tornando-os inexperientes em outras. Portanto, na sociedade industrial, indivíduos ignoram indivíduos e grupos ignoram grupos, apesar de existir uma cultura geral (VIEIRA, 1996). Como a educação prende-se às culturas produzidas pelas sociedades, a escola, na sociedade industrial, retrata muito bem a situação delineada anteriormente. Nela, quase sempre se valoriza aquilo que se desvaloriza na casa do aluno e vice-versa. Nela, valoriza-se a cultura geral, em detrimento das subculturas. Tanto os professores quanto os alunos expressam essa cultura geral por meio de suas culturas específicas, ou seja, veem a sociedade a partir da cultura dos seus grupos e têm posição particular na interpretação da cultura geral. Os professores não experimentam toda a cultura geral e, dessa forma, não são superiores às culturas de seus alunos. O simples fato de exercerem a docência não lhes confere a superioridade inata de sua cultura específica sobre as dos alunos. O respeito à pluralidade das culturas nascidas na sociedade e a rejeição ao apego exagerado a determinada cultura é condição essencial ao exercício da atividade docente. Importante, até esse momento, é que você tenha compreendido que a relação da cultura com a educação se dá nos processos de socialização e endoculturação, pois a cultura pressupõe um aprendizado, que nos vários momentos da história da educação, se dá de formas diferenciadas. Hoje, temos, além dos conhecimentos, das normas e regras sociais que são apreendidos no convívio familiar e comunitário, a educação escolar com uma cultura própria, a cultura escolar, na qual também se desenvolvem saberes e comportamentos específicos, e, ainda, se evidencia a construção de ritos e rituais que a definem, além das práticas que a constituem. Mas esse é um tema que veremos mais adiante, na aula quatro. Síntese da unidade Nesta aula, você conheceu o conceito de cultura e o seu desenvolvimento histórico nas principais teorias antropológicas como o evolucionismo, o funcionalismo, o estruturalismo e a antropologia da interpretação. Também compreendeu as relações entre a cultura e a educação informal e escolar. Observou a importância dos conceitos de socialização e endoculturação como norteadores dessa compreensão. Certamente percebeu a importância de um olhar antropológico para observar as diferentes subculturas que convivem no espaço escolar e ter uma conduta de respeito a essa pluralidade cultural que nos rodeia. Credenciada pela Portaria MEC nº 193, de 03/02/2017, publicada no D.O.U de 06/02/2017. Rua Professora Mulata Lima, nº 13. Bairro Nossa Senhora da Fátima. Campo Maior, Piauí. Cep: 64280-000 UNIDADE 3: A CULTURA DA ESCOLA: RITOS, RITUAIS E PRÁTICAS ESCOLARES Esperamos que, ao final desta unidade, você seja capaz de: - Compreender a cultura escolar nos seus diferentes aspectos; - Reconhecer as práticas culturais na escola e suas implicações para a educação. 3.1 A Cultura da Escola e suas Especificidades Embora a escola já seja objeto de estudos de várias áreas do conhecimento, por exemplo, da história, da sociologia e da política entre outras, os estudos sobre a cultura da escola são bastante recentes. Preocupados em penetrar o cotidiano do universo escolar e conhecer seus fazeres ordinários, entendendo-a como produtora de uma cultura própria e original, alguns autores, desde os anos 90, vêm desenvolvendo trabalhos importantes para a compreensão desse espaço de vivências. Entre eles, André Chervel que, ao estudar as disciplinas escolares, destacou a singularidade e originalidade da cultura escolar. Tal estudo revelou, também, o duplo papel social da escola: além de formar os ví m “q v m p a vez penetrar, moldar, modificar a cultura da sociedade g b ” ( H V L p VIDAL 2005 p 8) P ele, a origem e a difusão da cultura escolar só se dão no espaço da escola. Daí a sua originalidade. Outro autor, Forquin (1993, p. 167), ao desenvolver estudos sobre como a escola e a sociedade selecionam elementos da cultura para transmiti-los aos indivíduos, explica que * + é mbém m “m ” q m í de vida próprias, seus ritmos e seus ritos, sua linguagem, seu imaginário, seus modos Credenciada pela Portaria MEC nº 193, de 03/02/2017, publicada no D.O.U de 06/02/2017. Rua Professora Mulata Lima, nº 13. Bairro Nossa Senhora da Fátima. Campo Maior, Piauí. Cep: 64280-000 próprios de regulação e transgressão, seu regime próprio de produção e de gestão de símbolos. Assim como Chevel, esse autor vê a escola como uma instituição que possui uma cultura própria, tecida por seus atores principais, professores, alunos, familiares e gestores que constroem os discursos e as práticas que a definem. Frago, autor citado na introdução desta aula, é também um dos estudiosos da cultura da escola e ressalta a importância dos estudos sobre o espaço e o tempo escolares e a alfabetização m p m “ f m aspectos cognitivos e motores dos sujeitos ” (VIDAL 2005 p 5) F g citado por Silva (2006, s/p), vê no conceito de cultura escolar [...] modos de pensar e atuar que proporcionam a seus componentes estratégias e pautas para desenvolver-se tanto nas aulas como fora delas – no resto do recinto escolar e no mundo acadêmico – e integrar-se na vida cotidiana das mesmas. [...] esses modos de fazer e de pensar – mentalidades, atitudes, rituais, mitos, discursos, ações – amplamente compartilhados, assumidos, não postos em questão e interiorizados, servem a uns e a outros para desempenhar suas tarefas diárias, entender o mundo acadêmico educativo e fazer frente tanto às mudanças ou reformas como às exigências de outros membros da instituição, de outros grupos e, em especial, dos reformadores, gestores e inspetores. Assim os indivíduos e suas práticas são fundamentais para que possamos compreender a cultura escolar e perceber como a cultura, de uma maneira geral, está presente nas ações no cotidiano da escola, seja quando ela influencia os sistemas curriculares ou quando cria ritos e linguagens próprios desse espaço. Por fim, temos DominiqueJulia citado por Silva (2006), que entende a cultura escolar como conjunto de normas e regras. Esse conceito evidencia, para ele, que a escola não é apenas um g m ã h m m ép p m m g “ ã mp m h b ” (JULIA citado por SILVA, 2006, s/p). Silva (2006, s/p) complementa dizendo que seja cultura escolar ou cultura da escola, esses conceitos acabam evidenciando praticamente a mesma coisa, isto é, a escola é uma instituição da sociedade, que possui suas formas próprias de ação e de razão, construídas no decorrer da sua história, tomando por base os confrontos e conflitos oriundos do choque entre as determinações externas a ela e as suas tradições, as quais se refletem na sua organização e gestão, nas suas práticas mais elementares e cotidianas, nas salas de aula e nos pátios e corredores, em todo e qualquer tempo, segmentado, fracionado ou não. Os enfoques desses autores, embora diferenciados, revelam a importância do estudo das práticas escolares como culturais. O conceito que está subjacente em toda a sua discussão é o conceito antropológico de cultura, pois a escola é um espaço no qual circula uma série de símbolos e significados compartilhados por vários atores e em constante movimento de ressignificação. Mas, como podemos compreender a cultura da escola? Através do estudo dos seus ritos e rituais, das práticas, discursos e linguagens, dos fazeres ordinários e cotidianos. Vamos, agora, por meio de alguns relatos, observar esses aspectos. 3.2 Cultura Escolar e Práticas Escolares Vidal (2005, p. 16) afirma que [...] cadernos, provas escolares, diários de classe, cartazes, quadros, [...] formato de quadro-negros, ardósias ou lousas individuais, faixas, barras; bem como a associação do papel a outros materiais como tecido, plástico e sucata. Emerge como relevante a referência aos vários objetos da escrita como giz, lápis, caneta, giz de cera, lápis de cor, canetas coloridas. Esses objetos culturais e muitos outros, individuais e coletivos, necessários ao funcionamento da aula, trazem as marcas da modelação das práticas escolares, quando observados na sua regularidade. Mas portam índices das subversões cotidianas a esse arsenal modelar, quando percebidos em sua diferença. Credenciada pela Portaria MEC nº 193, de 03/02/2017, publicada no D.O.U de 06/02/2017. Rua Professora Mulata Lima, nº 13. Bairro Nossa Senhora da Fátima. Campo Maior, Piauí. Cep: 64280-000 Tais índices de subversão são percebidos nas várias formas inventivas com que os usuários se apropriam dos objetos culturais e nas mudanças que imprimem nas práticas escolares. Outras fontes, como fotos, autobiografias, história oral, podem contribuir na compreensão desses f z “ ã de corp j ” (VIDAL 2005 p 17) V m ver um relato de Garcia (1999, p. 56-9) sobre o cotidiano e as práticas culturais escolares. Um dia, Mercedes chegou à escola e encontrou uma de suas alunas, a Rosinha, acocorada no chão e chorando. Abaixou-se para perguntar à menina por que chorava e Rosinha lhe contou que [...] seu avô lhe dera um cachorrinho e que a mãe não lhe permitira levar para a escola. [...] As duas entraram juntas na sala de aula e, logo, logo, Mercedes pôs em discussão o problema de Rosinha, sugerindo que pensassem juntos o que poderia ser feito. [...] Depois de muita argumentação e contra argumentação acabaram chegando a um consenso. As crianças iriam em comissão perguntar se a diretora permitiria a presença de um cachorro na escola, e, se ela permitisse, iriam escrever para a mãe de Rosinha dizendo que todos se responsabilizariam pelo cachorrinho.[...] A diretora, apesar de relutante, acabou cedendo, com algumas condições – não poderia aparecer sujeira de cachorro. [...] À medida que se sentiu compreendida e ajudada, Rosinha parou de chorar e sua expressão de tristeza desapareceu de seu rosto, fazendo reaparecer o brilho de seus olhos cor de mel. Ao voltarem para a sala de aula, a professora propôs que fizessem juntos uma carta para a mãe de Rosinha. E assim fizeram. A carta ficou imensa, pois todos queriam participar.[...] À medida que a carta ia sendo escrita, as crianças a liam, ainda que não soubessem ler como a escola exige. [...] Uma das crianças quis fazer um desenho na própria carta e o fez. [...] Quando tudo parecia acabado, alguém lembrou que carta precisa de envelope. Mercedes então ensinou como se pode fazer um envelope, com papel, tesoura, cola e régua. [...]mas era preciso ensinar o que é uma régua, para que serve e como se usa. Mercedes o fez e as crianças foram aprendendo a ler uma régua. [...] logo elas estavam querendo medir a mesa, o tamanho dos pés, a janela, a porta; tudo o que viam queriam medir. [...] No dia seguinte as crianças chegaram cedo para fazer o envelope. [...] Alguns envelopes ficaram tortos, outros lambuzados, outros ficaram muito pequenos para caber a carta. Finalmente escolheram o envelope que lhes pareceu o mais bem feito e no qual coubesse a carta. Há uma riqueza de detalhes que o relato nos revela sobre o que foi discutido até aqui, nesta aula. O espaço da sala de aula, lugar privilegiado da transmissão de conhecimentos, se transformou num espaço de vivências que proporcionou tanto situações de aprendizagem como de construção de valores e responsabilidades. Uma série de situações culturais foi sendo criada à medida que as práticas iam sendo desenvolvidas, por intermédio de ações altamente compartilhadas. Vários atores se envolveram, os alunos, a professora, a diretora, os familiares, dando g f f z à m q “ p m p p ã e a organização, o respeito pela Credenciada pela Portaria MEC nº 193, de 03/02/2017, publicada no D.O.U de 06/02/2017. Rua Professora Mulata Lima, nº 13. Bairro Nossa Senhora da Fátima. Campo Maior, Piauí. Cep: 64280-000 palavra do outro e a lutar pelo direito à palavra, a argumentar, a persuadir, a fazer alianças, a criar estratégias para enfrentar p b m ” (GAR IA, 1999, p. 60). Estamos diante do que afirmava Frago citado por Silva (2006), já citado anteriormente, sobre a cultura da escola como modos de pensar e atuar que proporcionam aos seus componentes estratégias e pautas para desenvolver-se tanto nas aulas como fora delas e integrar-se na vida cotidiana das mesmas. Assim como a cultura de um grupo social ou uma sociedade que, por meio de suas práticas, cria ritos e rituais, a cultura da escola, da mesma forma, também produz os seus. Como exemplos de ritos sociais, temos o casamento, o baile de debutantes, o chá de panela, a corrida de toras entre os KraHô . Como exemplos de rituais na escola, temos o conselho de classe, o planejamento, o recreio, entre outros. Vejamos o ritual do conselho de classe. Saiba mais Os Conselhos de Classe são reuniões, normalmente bimestrais, entre professores, coordenadores e diretores de escolas, tanto públicas quanto privadas, para definir a situação dos alunos frente às avaliações. Normalmente, têm data estabelecida para acontecer e não há aulas nesse dia, pois os alunos não podem participar. Cada professor leva o seu diário de classe, e o coordenador, a lista de turmas e professores responsáveis. Em algumas escolas, a avaliação do desempenho dos alunos é feita de um a um. Como são várias disciplinas, o aluno é avaliado por vários professores. Em outras, essa avaliação recai apenas sobre os que estão de recuperação. Embora o ritual do conselho de classe possa variar em alguns aspectos, ele segue padrões semelhantes. Um exemplo de conselho de classe é o relato, que você vê a seguir, extraído de Alves (1999). No decorrer de uma discussão sobre os conteúdos mínimos no Conselho de Classe da escola urbana [...], a professora Suzana fala sobre sua turma, que ela considera “ fí ” p m vá alunos carentes, que não têm rendimento. À pergunta da diretora sobre quais alunosestão de recuperação, a professora assinala oito crianças, começando a falar sobre cada uma delas e destaca o caso da aluna Alessandra. As demais professoras, inclusive a orientadora pedagógica e a diretora da escola, também se manifestam sobre o “A A m h comportamento e tudo... mas ela não escreve nada. (Suzana, professora responsável). O tempo da Alessandra é diferente né? Ela vai ter que ter mesmo um.... (Diretora). Ela se nega. Eu acho que ela é até capaz, mas eu acho que ela se nega, quando ela queria fazer, ela fazia (Tereza, coordenadora). Um dos principais objetivos dessa prática é avaliar o processo de aprendizagem, proporcionando uma discussão livre entre professores, coordenadores e diretor, para a solução dos problemas detectados. Apesar das críticas feitas a ela, sua importância como um rito escolar é assinalada pelo encontro de falas, sentimentos e significados sobre a escola e seus atores. Síntese da unidade A cultura da escola ou cultura escolar é um campo novo de investigação nas pesquisas das várias áreas do conhecimento. Ela pode ser entendida como modos de pensar e fazer, atitudes, rituais, mitos, discursos e práticas, amplamente compartilhados pelos seus vários atores, professores, alunos, familiares e gestores, que orientam uns e outros a desempenhar suas tarefas diárias. Esta cultura da escola é compreendida através do estudo dos ritos e rituais, das práticas, dos discursos que ocorrem no universo escolar. Vários autores se destacam nos estudos dessa cultura, entre eles, Dominique Julia, André Chevel e Frago. Tais estudos contribuíram para que se Credenciada pela Portaria MEC nº 193, de 03/02/2017, publicada no D.O.U de 06/02/2017. Rua Professora Mulata Lima, nº 13. Bairro Nossa Senhora da Fátima. Campo Maior, Piauí. Cep: 64280-000 evidenciasse a escola como produtora de uma cultura própria que é dinâmica e interfere no contexto mais amplo da cultura geral da sociedade. Credenciada pela Portaria MEC nº 193, de 03/02/2017, publicada no D.O.U de 06/02/2017. Rua Professora Mulata Lima, nº 13. Bairro Nossa Senhora da Fátima. Campo Maior, Piauí. Cep: 64280-000 UNIDADE 4: ETNOCENTRISMO E IDENTIDADE CULTURAL NA ESCOLA: INCLUSÃO E EXCLUSÃO Esperamos que, ao final desta unidade, você seja capaz de: - Identificar o conceito de etnocentrismo e os processos de inclusão e exclusão; - Descrever o processo de construção da identidade cultural na escola. 4.1 Entendendo o Etnocentrismo Vamos iniciar esta aula nos indagando: qual o significado deste termo? Qual sua importância para esta disciplina e para o curso? Qual sua relação com a escola? Como você viu nas aulas anteriores, a Antropologia é a ciência que busca investigar o outro, aquele que é essencialmente diferente de nós. Sua gênese aparece nos relatos dos primeiros viajantes europeus que tentavam descrever os exóticos costumes dos povos com os quais mantinham contato (COSTA, 1997, p. 107). Notou que a autora assinala que essa ciência busca investigar o outro? Pois então, o entendimento sobre o etnocentrismo recai justamente na preocupação de quem é o outro e, também, de denominar quem é o eu. Rocha (1994, p. 7) assinala que o etnocentrismo é uma visão de mundo em que o nosso próprio grupo é tomado como centro de tudo e de todos os outros valores, modelos e definições do que é a existência. Associando essa concepção à realidade atual e escolar, podemos observar que a visão etnocêntrica defende a cultura de uma região como sendo superior à outra, por exemplo, o nível educacional de escolas privadas do sudeste, onde o sistema de ensino é o mesmo de todo o país, tem uma preparação de qualidade mais elevada, é superior às existentes na região nordeste. Isso porque essa visão toma como centro do saber um determinado lugar – no caso a região sudeste. Vejamos outros autores enfocando a definição do termo etnocentrismo. Marconi e Presotto (2001, p. 52) enfatizam que esse termo significa a supervalorização da própria cultura, em detrimento das demais. Todos os indivíduos são portadores desse sentimento e a tendência na avaliação cultural é julgar as culturas segundo os moldes da sua própria. Essas autoras ainda assinalam que a ocorrência da grande diversidade de culturas vem testemunhar que há modos de vida bons para um grupo e que jamais serviriam para outro. Quando se fala dessa realidade, o etnocentrismo torna-se evidente em casos de manifestações no comportamento agressivo ou em atitudes de superioridade e até de hostilidade. Assim como Rocha, essas autoras também entendem que o etnocentrismo julga as culturas conforme os modelos próprios, desprezando com isso, as outras. Essas são questões que podem ser identificadas com o preconceito. Sobre isso, Itani (1998, p. 119) afirma que, Credenciada pela Portaria MEC nº 193, de 03/02/2017, publicada no D.O.U de 06/02/2017. Rua Professora Mulata Lima, nº 13. Bairro Nossa Senhora da Fátima. Campo Maior, Piauí. Cep: 64280-000 frequentemente nos defrontamos com atitudes preconceituosas, seja em atos ou gestos, discursos e palavras. A sala de aula não escapa disso. E trabalhar com essa questão, e mesmo com a intolerância, não está entre as tarefas mais fáceis do professor. Mas não são questões novas. Há muito as sociedades vêm lutando para manter as escolas um pouco resguardadas dos conflitos decorrentes da intolerância entre diferentes grupos. A concepção que se tem é de uma estreita relação existente entre essas temáticas ( m p ) p m “p b h com essas questões, é preciso compreendê-las, saber como se manifestam e em que bases são expressas, notadamente se levarmos em conta que elas não p m f x ” (ITANI 1998 p 119) Ao tratarmos de temas importantes como o preconceito e a identidade cultural, que se refletem, também, na realidade escolar, é fundamental compreender seus aspectos conceituais, pois, assim, os que lidam com os mesmos, como os professores, alunos e os demais componentes da instituição escolar, podem buscar soluções mais elaboradas. Vamos ver esses aspectos. 4.2 O Preconceito Você já se perguntou: existe preconceito em nossa sociedade? E a escola como encara o preconceito? Os alunos, como agem diante de um caso de preconceito? São algumas indagações dentre muitas existentes. O racismo, por exemplo, é um tipo de preconceito presente em nossa sociedade, que desperta nas pessoas indignação e discussões. Itani (1998) explica que há inúmeras formas de expressão de preconceitos na sociedade, entre eles, gestos; o olhar da diferença; o comentário em voz baixa, o cochicho como uma atitude “p ã f ” Você observou que, somente nessas formas citadas, muitas discussões podem ser suscitadas, em especial, na escola? Por exemplo: sobre o tema do racismo, vemos o caso do sistema de cotas para negros nas universidades ser debatido nos meios intelectuais, jornalístico e televisivo. Recentemente, a escritora Lya Luft, em seu ponto de vista na Revista Veja, tratou desse assunto, com o título – Cotas: o justo e o injusto. Nesse artigo, a autora assinala que o tema libera muita verborragia populista e burra, produz frustração e hostilidade. Instiga o preconceito racial e social. Ela resume z q “ ideia das cotas reforça conceitos nefastos: o de que negros são menos capazes e precisam de um empurrão e o de que a escola pública é pé m ã m v ã ” (LYA LUFT, 2008, Veja, 6 fev. 2008). Discutiremos mais sobre cotas para negros na aula sete. Para analisar esta situação tão adversa na sociedade, na realidade das pessoas e da escol “é mp ív m h v p p ã liberta o indivíduo das perspectivas p m ” (MAR ONI; PRESOTTO, 2001, p. 52), e do preconceito, seja em qual lugar ocorrerem tais situações: em casa, na escola, nos grupos de amigos. Certamente, você deve tervisto que essas questões estão próximas e interligadas, e devem ser sempre revisitadas pela escola, pois ela é um ambiente de debates constantes, evidenciando soluções, por meio de programas educativos, com o objetivo de proporcionar aos alunos uma vida digna de reconhecimento de valores culturais e de enriquecimento intelectual. Credenciada pela Portaria MEC nº 193, de 03/02/2017, publicada no D.O.U de 06/02/2017. Rua Professora Mulata Lima, nº 13. Bairro Nossa Senhora da Fátima. Campo Maior, Piauí. Cep: 64280-000 4.3 Identidade Cultural Vamos tomar como base para o início desse item um questionamento: como identificar na realidade escolar as investidas de uma visão etnocêntrica? Para tanto, é importante lembrar que, na sala de aula, há uma diversidade cultural imensa, mas que nela os alunos aprendem que têm uma identidade cultural muito rica a ser conhecida. Esse conhecimento se dará por meio de uma abordagem histórico-social e cultural de nosso país. Para tanto, as escolas devem ter toda uma estrutura física e pedagógica para repassar aos alunos como se deu a formação da cultura brasileira e da sua identidade. Por isso, é importante a você, futuro professor, um enfoque, dentro da literatura antropológica e sociológica, do conceito de identidade cultural. A construção desse conceito se deu de maneira instável corpo das ciências sociais. O termo identidade vem do latim identitade e significa qualidade do que é idêntico, paridade absoluta, analogia e conjunto de elementos que permitem saber quem uma pessoa é; e a cultura, como você viu na aula um, apenas relembrando, é definida, como correntemente conhecemos, por um todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade. Dessa forma, a identidade cultural pode ser compreendida, inicialmente, como um conjunto de características comuns pelas quais os grupos sociais constroem sentido de pertencimento. A identidade é construída de forma dinâmica, nas relações sociais, pelos grupos humanos. Denys Cuche (2002) assinala que a cultura pode existir sem a consciência de identidade e as estratégias de identidade construídas pelos grupos sociais e/ou Estado podem manipular e até modificar uma dada cultura. Para esse autor, a identidade busca uma nova norma de aproximação que é sempre consciente, enquanto a cultura depende de processos inconscientes (CUCHE, 2002). O conceito que Cuche (2002) emprega para o termo identidade cultural, refere-se, de forma abrangente, à sociedade, mas voltemos nossa atenção para a realidade da identidade cultural na escola. Para isso, vamos mostrar o cotidiano de uma escola no Rio de Janeiro, que por meio de um projeto: Projeto Brasileirinho – Os Tons da Aquarela Cultural de nosso País, apresentado pela professora de Filosofia, Vânia Corrêa Pinto, em 2005, procurou enfocar um convite ao descobrimento do Brasil multicultural. Um dos objetivos desse projeto apresentado pela docente foi perceber as diversidades culturais brasileiras, compreendendo-as como resultantes de um processo histórico, proporcionando aos alunos o conhecimento da identidade cultural do nosso país. Pinto (2005) explica as razões do projeto, asseverando que o motivo principal para a realização desse trabalho surge a partir do momento em que se observa no dia-a-dia do aluno um desconhecimento sobre as raízes populares de nossa cultura, principalmente no que diz respeito ao conhecimento da música popular brasileira. Os meios de comunicação, com o estabelecimento de uma indústria cultural de massa, muitas vezes transformam nossos alunos em um enorme mercado potencial de consumidores, atraídos pelos produtos oferecidos, sem terem chance de uma opção, de uma escolha. Nas palavras da professora, podemos observar o desenvolver da identidade cultural, a preocupação em inovar as aulas, dinamizando o cotidiano dos alunos e, ao mesmo tempo, enfocando a importância do conhecimento da cultura, por meio também do universo cultural artístico brasileiro. Essa foi uma intenção positiva de mostrar a história sócio-cultural do Brasil, a partir da música. A professora evidencia então, que, através do contato do aluno com um universo pouco conhecido, se fará possível a construção de novos conceitos, conhecimentos e ideias; o aluno terá a chance também de refletir sobre sua própria identidade cultural. Os temas sugeridos nas músicas levarão os alunos a um universo de possibilidades para o conhecimento dacultura de seu país (PINTO, 2005). Assim podemos ver que a escola tem inúmeros recursos pedagógicos relevantes a serem desenvolvidos pelos professores, nas aulas, para evidenciar a construção da identidade cultural. Credenciada pela Portaria MEC nº 193, de 03/02/2017, publicada no D.O.U de 06/02/2017. Rua Professora Mulata Lima, nº 13. Bairro Nossa Senhora da Fátima. Campo Maior, Piauí. Cep: 64280-000 Essas iniciativas servem como defesa para a própria escola contra os preconceitos, o etnocentrismo, que prejudica o desenvolvimento escolar e da sociedade. Como você viu até agora, a escola está propensa a passar por vários desafios, mas, também, tem outros aspectos que, por um lado, elevam sua eficiência, quando trabalha para incluir os alunos em seu ambiente e, por outro, quando recebe críticas da sociedade e de poderes constituídos, por excluí-los. 4.4 Processos de Inclusão e de Exclusão Esses termos carregam um forte discurso ideológico que, muitas vezes, s erve de justificação para políticas que acabam por favorecer mais a classe dominante que aqueles que estão em situação de exclusão. À parte da discussão política, vamos compreender o que é exclusão, para que possamos visualizar as possibilidades de inclusão. A discussão sobre a exclusão social apareceu na Europa na esteira do crescimento dos sem-teto e da pobreza urbana, da falta de perspectiva decorrente do desemprego de longo prazo, da falta de acesso a empregos e rendas por parte de minorias étnicas e imigrantes, da natureza crescentemente precária dos empregos disponíveis e da dificuldade que os jovens passaram a ter no mercado de trabalho (DUPAS citado por ARAÚJO, 2006). Ainda para esse autor, a exclusão tem um caráter multidimensional e representa o não acesso, tanto aos aspectos econômicos quanto à segurança, à justiça, à educação, à informação e à cidadania. Outro autor citado por Araujo xp q “ x ã é m p mp x multifacetado, que ultrapassa o econômico do ponto de vista da renda e supõe a discriminação, o preconceito, â p ã ” (SPOSATI p ARAÚJO 2006) Se a exclusão não é apenas econômica e envolve outras esferas da vida social, podemos percebê-la, também, no universo escolar. A exclusão afeta, portanto, toda a sociedade e, quando se trata da escola, a responsabilidade desta aumenta ainda mais, pois as explicações a dar à sociedade são mais exigentes. Além disso, as cobranças desta são de uma escola de qualidade, que inclua os alunos e seja uma instituição com capacidade de reduzir as desigualdades e, consequentemente, diminuir o número de excluídos. Mesmo que existam intenções positivas nas escolas e na sociedade em combater o fenômeno social da exclusão, existe também uma inclusão disfarçada. Lane citada por Alves (2006, p. 38) afirma que quem são os excluídos, disfarçados em incluídos? São aqueles que para não denunciarem as injustiças decorrentes da ideologia dominante, necessária para a manutenção do poder de alguns e de um status quo, são incluídos no sistema. São os negros, que denunciam a escravidão, hoje disfarçada em preconceitos ou discriminações ambíguas. São os deficientes que denunciam a ausência da Saúde Pública e de educação reabilitadora. São os pobres que denunciam a injustiça econômica e a má distribuição de renda que impede o acesso à saúde e à educação. Essa é uma reflexão crítica sobre exclusão/inclusão,pois percebe que a inclusão não se dá no nível da situação de excluído, mas com ações que são mais um paliativo para silenciar grupos potencialmente aptos a afrontar o status quo. Porém, apesar desse aspecto nocivo dessa relação, há que se levar em conta as discussões e as ações que estão sendo dirigidas aos excluídos socialmente. Muito bem, e na escola, o que ocorre em relação à exclusão? Será que ela exclui ou inclui? François Dubet (2003), em seu artigo A escola e a exclusão explica que no final das contas, os alunos mais favorecidos socialmente, que dispõem de maiores recursos para o sucesso, são também privilegiados por um conjunto de mecanismos sutis, próprio do funcionamento da escola, que beneficia os mais beneficiados. Essas estratégias aprofundam as desigualdades e acentuam a exclusão escolar na medida em que mobilizam, junto aos pais, algo que não é só o capital cultural, este entendido como um conjunto de disposições e de capacidades, especialmente linguísticas.[...] A escola espera que os pais sejam pessoas informadas, capazes de orientar judiciosamente seus filhos e ajudá-los com Credenciada pela Portaria MEC nº 193, de 03/02/2017, publicada no D.O.U de 06/02/2017. Rua Professora Mulata Lima, nº 13. Bairro Nossa Senhora da Fátima. Campo Maior, Piauí. Cep: 64280-000 eficácia nas tarefas. [...] Quanto mais ativos são os métodos pedagógicos, mais eles mobilizam os pais, seus recursos culturais e suas competências educativas. A escola favorece os mais bem preparados socialmente e exclui os que não se enquadram nesse sistema. Vejamos um exemplo bem característico da nossa realidade escolar. Rui, aluno de nove anos, que frequentava a primeira série de uma escola pública de primeiro grau e residia na favela, ia mal na escola porque, além de desligado, escrevia tudo errado. Para algumas professoras era retardado; para outras, imaturo; para outras, ainda, vítima de uma família desestruturada. Não tinha mesmo jeito, e Rui, após frequentar três anos a primeira série, desistiu da escola (CAMPOS, 2001). A exclusão aqui se refere ao grau de aprendizagem do aluno. Os estudantes têm tempos diferenciados para aprenderem as mesmas coisas e a escola padroniza esse tempo como comum a todos. Essa é uma forma de deixar de fora aqueles que são mais lentos. Esse é apenas um aspecto. Como a escola é um universo social, com uma cultura própria, ela faz uso dos mesmos mecanismos que a própria sociedade utiliza para excluir. Apesar da crítica abordada anteriormente sobre uma inclusão disfarçada, muitas são as discussões sobre a escola inclusiva. Esse debate começou, quando vieram à tona as demandas dos grupos portadores de deficiência, seja ela física ou mental. Porém tem se ampliado para outros grupos minoritários. É o que você verá a seguir na aula 6, sobre a educação intercultural que se refere à inclusão de grupos étnicos e, também, na aula sete, com as ações afirmativas contra a exclusão, por exemplo, o sistema de cotas para negros nas universidades. Síntese da Unidade Nesta unidade, você conheceu os conceitos antropológicos de etnocentrismo e identidade cultural e observou a importância deles para a compreensão de fenômenos como a exclusão e a inclusão, principalmente no universo escolar. Viu que a prática do etnocentrismo leva a uma conduta preconceituosa e geradora de graves conflitos sociais. Percebeu que a escola reforça processos de exclusão, porém ela é também o lugar onde se pode praticar uma educação inclusiva, capaz de diminuir as desigualdades de toda espécie, social, cultural, econômica, etc. Credenciada pela Portaria MEC nº 193, de 03/02/2017, publicada no D.O.U de 06/02/2017. Rua Professora Mulata Lima, nº 13. Bairro Nossa Senhora da Fátima. Campo Maior, Piauí. Cep: 64280-000 UNIDADE 5: EDUCAÇÃO, DIFERENÇAS E INTERCULTURALIDADE; RAÇA, ETNICIDADE, MINORIAS E CULTURA EDUCACIONAL Esperamos que, ao final desta unidade, você seja capaz de: - Assinalar os pressupostos da relação entre as diferenças culturais e a educação; - Compreender as diferenças culturais e a educação na perspectiva da interculturalidade. - Esperamos que, ao final desta unidade, você seja capaz de: - Compreender os conceitos de raça, de etnicidade e minorias; - Entender como os conceitos de raça, de etnicidade e minorias influenciam na cultura educacional, mediante a política de ação afirmativa nas universidades públicas brasileiras. - Introdução Um dos temas que têm provocado acalorados debates no âmbito da sociedade como um todo e, de modo especial, no campo educacional, é a questão das relações envolvendo a igualdade e a diferença entre as culturas. Na realidade, em termos conceituais, estamos vivendo uma transição da perspectiva da igualdade – que muitas vezes silencia ou nega as peculiaridades culturais – para a da diferença ou diferenças, cujo fundamento está em dar maior visibilidade aos diversos grupos sociais, para que, dessa forma, se evidencie a necessidade de se estabelecer políticas públicas de redistribuição e reconhecimento mais equitativas. Nesta unidade, o nosso intento é possibilitar que você alcance maior aprofundamento acerca do debate entre igualdade e diferença(s) culturais na arenaeducacional, a partir da noção de interculturalidade. 5.1 Igualdade e Diferença: um debate contemporâneo Vivemos, atualmente, em um contexto histórico, social, político, econômico e, sobretudo, cultural de intensas transformações. Várias temáticas têm ocupado a mídia, estudiosos e pesquisadores sobre as diferentes e complexas mudanças promovidas pela chamada nova ordem mundial. Entre os diversos temas que estão na ordem do dia do cotidiano educacional, exigindo-lhe discussões e encaminhamentos, está a questão das relações entre igualdade e diferença culturais. No bojo da relação igualdade/diferença vêm se abrigar outras polêmicas discussões, como, por exemplo, a da superação das desigualdades, a da democratização de oportunidades e a do Credenciada pela Portaria MEC nº 193, de 03/02/2017, publicada no D.O.U de 06/02/2017. Rua Professora Mulata Lima, nº 13. Bairro Nossa Senhora da Fátima. Campo Maior, Piauí. Cep: 64280-000 reconhecimento dos diferentes grupos socioculturais (CANDAU, 2004). Como você pôde perceber, conforme as indicações dadas pelas temáticas mencionadas, a educação está completamente tomada pelos debates propostos por cada uma delas, bem como pelos problemas que elas suscitam. Sacristán citado por Candau (2004, p. 3) explica a relação identidade/ diferença no campo educacional ensinando que ordem e caos, unidade e diferença, inclusão e exclusão em educação são condições contraditórias da orientação moderna... E, se a ordem é o que mais nos ocupa, a ambivalência é o que mais nos preocupa. A modernidade abordou a diversidade de duas formas básicas: assimilando tudo que é diferente a padrões unitários ou “ g g - ” m g f “ m ” dominante. Saiba mais Você deve ter observado, a partir da citação de Sacristán, que a educação escolar passa a ser, portanto, o locus em que se percebe com maior visibilidade o embate entre igualdade e diferença, dada a diversidade de culturas que a frequenta. Se, como dissemos na introdução desta aula, a igualdade, em vez de se tornar uma noção que favorecesse a garantia de direitos para os vários grupos sócio-culturais, funcionou muito mais como um conceito silenciador e/ou negador das identidades culturais, o que o conceito de diferença pode proporcionar em termos de visibilidade para esses mesmos grupos? Perucci citado por Candau (2004, p. 4) nos ajuda a refletir sobre essa questão explicando que somos todos iguais ou somos todos diferentes? Queremos ser iguais ou queremos ser diferentes? Houve um tempo que a resposta se abrigava, segura de si, no primeiro termo da disjuntiva. Já faz um quarto de século, porém, que a resposta se deslocou. A começar da segunda metade dos anos 70, passamos a nos verenvoltos numa atmosfera cultural e ideológica inteiramente nova, na qual parece generalizar-se em ritmo acelerado e perturbador a consciência de que nós, os humanos, somos diferentes de fato, porquanto temos cores diferentes além de preferências sexuais diferentes, somo diferentes de origem familiar e regional, nas tradições e nas lealdades, temos deuses diferentes. Mas somos também diferentes É h m “ à f ” o direito à diferença cultural, o direito de ser, sendo diferente. [...]. Não queremos mais a igualdade, parece. Ou queremos menos. Motiva-nos muito mais, em nossa conduta, em nossas expectativas de futuro e projetos de vida compartilhada, o direito de sermos pessoal e coletivamente diferentes uns dos outros. Diante desse novo quadro cultural e ideológico apresentado por Perucci, como podemos articular, no âmbito educacional, a relação entre igualdade e diferença, de modo que a valorização de um não se torne a anulação do outro? Como relativizar a importância de cada um deles no processo educacional? Questões como essas é que buscaremos problematizar no próximo tópico, tendo como referência a perspectiva intercultural. 5.2 Interculturalidade e Educação A perspectiva da interculturalidade, um dos ramos do multiculturalismo, propõe uma discussão sobre a questão das diferenças culturais no âmbito educacional, que vá além do caráter psicológico e de identidade cultural de classe com que normalmente elas são encaradas. Mais que isso, a interculturalidade visa à superação de uma abordagem das diversas identidades culturais, sempre tão complexas e mutáveis, de uma maneira unificada e estabilizada, favorecendo, dessa forma, a construção de focos de preconceito e de discriminação na instituição escolar. A opção da perspectiva intercultural, em termos educacionais, é o de estabelecer a tensão entre o ideal, proposto pela perspectiva da igualdade, e o real, exigido pela necessidade de Credenciada pela Portaria MEC nº 193, de 03/02/2017, publicada no D.O.U de 06/02/2017. Rua Professora Mulata Lima, nº 13. Bairro Nossa Senhora da Fátima. Campo Maior, Piauí. Cep: 64280-000 reconhecimento da diferença, mediante a prática constante de um diálogo crítico. Candau (2004, p. 14) explicita que a interculturalidade orienta processos que têm por base o reconhecimento do direito à diferença e a luta contra todas as formas de discriminação e desigualdade social. Tenta promover relações dialógicas e igualitárias entre pessoas e grupos que pertencem a universos culturais diferentes, trabalhando os conflitos inerentes a esta realidade. Não ignora as relações de poder presentes nas relações sociais e interpessoais. Reconhece e assume os conflitos procurando as estratégias mais adequadas para enfrentá-los. Uma vez apresentadas as linhas gerais de como se estrutura conceitualmente a perspectiva da interculturalidade, é o momento de pensar sobre as contribuições que ela pode trazer para o enfrentamento dos problemas que a temática da diferença apresenta nas relações cotidianas da escola. 5.3 Diferença e Interculturalidade Educacional Um dos principais aspectos considerados como pertinentes e relevantes pelos defensores da interculturalidade educacional, em relação à temática da diferença, é a linguagem. McLaren citado por Candau (2004, p. 15) problematiza o tema da linguagem, a partir do poder constitutivo que nela reside, principalmente no que diz respeito à sua capacidade, para além de uma mera função representativa, de construção de identidades sociais. MacLaren citado por Candau (2004 p 16) f m q g g m “* + f -definições a partir das quais as pessoas agem, negociam as várias posições do sujeito e assumem um processo de nomear e renomear as relações entre elas próprias, os m ” Nesses termos, podemos pensar a sala de aula como um espaço em que múltiplas formas culturais de linguagem se estabelecem, eliminando, assim, toda e qualquer pretensão ideológica da existência de uma suposta neutralidade lingüística entre os alunos. Em outras palavras: a sala de aula é um local privilegiado em que ocorre a articulação de diversas experiências culturais que são narradas pelos alunos, a partir das quais, a escola pode estabelecer alternativas pedagógicas de combate a qualquer tipo de preconceito e de discriminação. Nesse sentido, Candau (2004, p. 16) propõe o questionamento de qualquer “* + p ã h m g z ã h m valorativo de outras zõ ” Outra contribuição relevante para se pensar a relação interculturalidade educacional e diferença é apresentada por Lacerda citada por Candau (2004), ao chamar a atenção para a ausência de referência à identidade dos deficientes em estudos e pesquisas que discutem a questão da diferença e das políticas de reconhecimento. Para ela, é necessário lidar com a noção de diferença de forma b g m “* + m m ã v g p f v ” (LACERDA citada por CANDAU, 2004, p. 16). Para tanto, propõe a criação de discussões específicas sobre a cultura deficiente. Tais discussões possibilitariam uma maior compreensão dessa dimensão cultural, ou seja, da ã f m v mb “* + q m p m Credenciada pela Portaria MEC nº 193, de 03/02/2017, publicada no D.O.U de 06/02/2017. Rua Professora Mulata Lima, nº 13. Bairro Nossa Senhora da Fátima. Campo Maior, Piauí. Cep: 64280-000 deficiência (PCD) não é necessariamente ruim, ruim é ser discriminado, subjugado, barrado nas mp g p q ” (LA RDA por CANDAU, 2004, p. 16). Não nos é difícil pensar que a realização desse tipo de discussão em sala de aula favoreceria sobremaneira diálogos e ações mais produtivas entre professores e alunos sobre a atual temática das políticas de inclusão. Para concluir, você deve ter percebido, pelos dois exemplos apresentados, a importância de se discutir conceitualmente a noção de interculturalidade educacional ou educação intercultural para a realização de uma prática educativa que de fato tenha em vista a igualdade como meta e a diferença como orientação crítica. Assim, Fermoso Estébanez citado por Silva (2003, p. 50) esclarece que educação intercultural é um processo tipicamente humano e intencional coerente com a pluralidade, dirigido à otimização do desenvolvimento de habilidades e competências referentes, em primeiro lugar, à diferença, à peculiaridade e à diversidade dos povos, e, em segundo, à própria identidade cultural dos demais e às das comunidades [...]. Síntese da unidade Nesta unidade, você compreendeu que, entre os diversos temas que estão na ordem do dia do cotidiano educacional, está a questão das relações entre igualdade e diferença culturais. A relação igualdade/diferença aponta para outras polêmicas discussões: a da superação das desigualdades, a da democratização de oportunidades e a do reconhecimento dos diferentes grupos sócio-culturais. A educação escolar é o espaço em que se percebe com maior visibilidade o embate entre igualdade e diferença, dada a diversidade de culturas que a frequenta. A interculturalidade propõe uma discussão sobre a questão das diferenças culturais no âmbito educacional, que vá além do caráter psicológico e de identidade cultural de classe com que normalmente elas são encaradas. A interculturalidade visa à superação de uma abordagem das diversas identidades culturais de uma maneira unificada e estabilizada, que permite a construção de focos de pré-conceito e de discriminação na instituição escolar. A opção da perspectiva intercultural é a de estabelecer a tensão entre o ideal, proposto pela perspectiva da igualdade, e o real, exigido pela necessidade de reconhecimento da diferença, mediante a prática constante de um diálogo crítico. Um dos principais aspectos da interculturalidade educacional em relação à temática da diferençaé a linguagem, em razão de seu poder constitutivo de construção de identidades sociais. Nesse sentido, a sala de aula é um local privilegiado em que ocorre a articulação de diversas experiências culturais que são narradas pelos alunos, a partir das quais, a escola pode estabelecer alternativas pedagógicas de combate a qualquer tipo de preconceito e de discriminação. É necessário lidar com a noção de diferença de forma abrangente, com a criação de discussões específicas sobre a cultura deficiente. É fundamental discutir conceitualmente a noção de interculturalidade educacional ou educação intercultural, para a realização de uma prática educativa que, de fato, tenha em vista a igualdade como meta e a diferença como orientação crítica. Credenciada pela Portaria MEC nº 193, de 03/02/2017, publicada no D.O.U de 06/02/2017. Rua Professora Mulata Lima, nº 13. Bairro Nossa Senhora da Fátima. Campo Maior, Piauí. Cep: 64280-000 6. O conceito de Raça As principais teorias sobre o conceito de raça foram evidenciadas, a partir do final do século XVIII e início do século XIX. Essas teorias foram utilizadas com fins ideológicos por países como a Inglaterra, para justificar sua expansão imperialista e submeter povos e nações ao seu domínio político, econômico e cultural. Saiba mais Entre os primeiros formuladores do conceito de raça está o conde Joseph Arthur de Gobineau (1816-1882), conhecido como o pai do racismo moderno. Sua proposição estabelecia a existência de três raças denominadas pela cor: a branca, a negra e a amarela. Vejamos, por exemplo, como Gobineau citado p G (2005 p 205) z v b g : “* + raça branca possui inteligência, moralidade e força de vontade superiores. [...]. Os negros, em contraste, são os menos capazes, marcados por uma natureza animal, uma falta de moralidade e uma b m ” Por esse exemplo, é possível compreender como as primeiras teorizações sobre raça fundamentaram ideologias e práticas discriminatórias, como as desenvolvidas pelo nazismo de Adolf Hitler, na Alemanha; pela Ku-Klux-Klan, grupo de supremacia branca dos Estados Unidos, e pelos idealizadores da política de segregação racial do apartheid, na África do Sul. Após a Segunda Guerra Mundial, as teorias que se pautavam em fundamentos científicos duvidosos e questionáveis caíram por terra. Um forte argumento contra a chamada ciência da raça foi a afirmação de que, em termos biológicos, não existem raças como uma definição pré-estabelecida e sim variações de tipos físicos entre os seres humanos. Giddens (2005, p 205) xp q “ f p fí entre os grupos humanos surgem da procriação consanguínea da população, que varia de acordo com o grau de contato existente entre diferentes grupos sociais ou cult ” Nesse sentido, as diferenças raciais entre os seres humanos devem ser compreendidas em termos de diversidade de tipos físicos que os componentes de uma determinada comunidade ou sociedade definem como socialmente significativos. Por exemplo: a diferença da cor da pele é considerada como um aspecto racial a se destacar. Já a cor dos cabelos não é considerada um aspecto relevante para a identidade racial. Uma conceituação trabalhada por Giddens (2005), bem distanciada da perspectiva discriminatória apresentada no início desta aula, afirma que raça é um complexo arranjo de relações sociais que autoriza localizar indivíduos e grupos em determinado conjunto de características, baseado em aspectos biologicamente definidos. Dessa conceituação de raça, deriva o processo mediante o qual são realizadas as interpretações e as classificações de indivíduos e grupos sociais: a racialização. A racialização, portanto, nada mais é que a constatação da existência de discriminação e preconceito contra determinados grupos sociais que são estigmatizados ou rotulados por sua constituição física, portanto, biológica. D f m G (2005 p 205) f m q “ õ raciais representam mais do que formas de descrever as diferenças humanas – são também fatores importantes na reprodução de padrões de poder e de desigualdade ” Disso resulta que o processo de racialização dentro de uma sociedade, como a brasileira, por exemplo, interfere diretamente na vida social das pessoas: emprego, relações pessoais, habitação, serviços de saúde, educação e representação legal, moldando e constrangendo, conforme a caracterização física e biológica do indivíduo. Credenciada pela Portaria MEC nº 193, de 03/02/2017, publicada no D.O.U de 06/02/2017. Rua Professora Mulata Lima, nº 13. Bairro Nossa Senhora da Fátima. Campo Maior, Piauí. Cep: 64280-000 6.1 O Conceito de Etnicidade O conceito de etnicidade tem um significado exclusivamente social, pois diz respeito às práticas e aos modos de ser e viver de determinado grupo social. Os membros de uma dada etnia se consideram como vinculados a uma cultura específica, ou seja, distinta das demais e assumem como positiva tal distinção. Há vários aspectos caracterizadores e distinguidores de grupos étnicos. Entre os mais considerados estão a língua, a história, a religião e os estilos de roupas e adornos. Ao contrário do conceito de raça que depende necessariamente de aspectos biológicos para a definição das tipologias físicas, as diferenças étnicas são resultantes da formação cultural. Em outras palavras, a etnicidade é resultante de produção social e cultural, construída e reconstruída através dos tempos. G (2005 p 206) q “ vés da socialização, os jovens assimilam v m m ” Como você pode verificar, a noção de etnicidade nos ajuda a compreender a construção de nossa identidade cultural, tanto como indivíduos como grupo social, pois nos apresenta uma significativa ligação com o passado, mediante a prática de tradições culturais. Mas é importante mencionar que a etnicidade embora busque manter estreitas relações com as tradições culturais, não se caracteriza pela imutabilidade, mas por uma constante variação e adaptação aos novos contextos históricos e culturais. Giddens (2005, p. 207) nos oferece um exemplo desse complexo processo, “* + p p õ – como resultado da migração, da guerra, do deslocamento dos mercados de trabalho ou de outros fatores – se misturam para gerar comunidades m v ” 6.2 O Conceito de Minorias O conceito de minorias ou grupos minoritários ou ainda grupos étnicos tem um significado que está para além de uma distinção numérica. Na realidade, esse conceito precisa ser considerado em termos essencialmente sociológicos. Dessa forma, falar em determinado grupo minoritário significa dizer que tal grupo encontra-se em algum nível de desvantagem social, em relação a um determinado grupo majoritário. Se consideradas tão-somente em termos numéricos, há situações em que as chamadas minorias são, na realidade, a maioria. Por exemplo: em muitos países, o número de pessoas do sexo feminino é superior ao do masculino, indicando, portanto, que as mulheres compõem a maioria da população. No entanto, sociologicamente, elas precisam ser tomadas como o grupo minoritário, já que se encontram em condições desfavoráveis, em termos de respeito à igualdade de gêneros. As minorias caracterizam também os grupos sociais que sofrem algum tipo de discriminação e preconceito por parte de grupos chamados majoritários, pois, segundo Giddens (2005 p 208) “ m m ã p a difusão da discriminação, realçando a existência de atributos comuns entre as experiências de vários grupos subordinados dentro da ” As distinções étnicas também não se dão de forma neutra em termos de divisão de classes sociais, pois envolve aspectos relacionados à desigualdade de riqueza e poder. 6.3 Ações Afirmativas, o que é isso? É sabido que o Brasil é conhecido comoum país de segregação étnica não declarada. Ou seja, como um país que vive aparentemente em uma igualdade de direitos sociais entre os vários grupos étnicos que o compõem. A realidade brasileira, porém, mostra um quadro histórico bastante comprometido, quando verificamos as desigualdades sociais de que foram vítimas as minorias étnicas brasileiras, entre elas a dos afrodescendentes. Uma questão constantemente levantada em relação a essa discriminação histórica e sistemática contra a população de afrodescentes no Brasil é: como superar esse processo de injustiça e desigualdade? Credenciada pela Portaria MEC nº 193, de 03/02/2017, publicada no D.O.U de 06/02/2017. Rua Professora Mulata Lima, nº 13. Bairro Nossa Senhora da Fátima. Campo Maior, Piauí. Cep: 64280-000 O movimento negro organizado no país sempre teve essa pergunta como bandeira em sua agenda de luta contra o preconceito e a discriminação. Resultante de tal luta foi o surgimento do debate sobre políticas de ação afirmativa no Brasil, a partir da segunda metade da década de 1990. Mas o que são ações afirmativas? Gomes citado por Domingues (2005, p. 166) explica que o termo ação afirmativa foi cunhado por John F. Kennedy, em 1963, quando era presidente dos Estados Unidos, podendo ser traduzido como um conjunto de políticas públicas e privadas de caráter compulsório, facultativo ou voluntário, concebidas com vistas ao combate da discriminação de raça, gênero etc. bem como para corrigir os efeitos presentes da discriminação praticada no passado. Embora possamos verificar que essa conceituação de ação afirmativa seja bastante progressista, Domingues (2005) esclarece que o contexto de sua criação não foi resultante da luta do movimento negro norte-americano e, sim, de uma idealização da elite branca e dominante. A partir da conceituação apresentada sobre o que é ação afirmativa, desde o contexto dos Estados Unidos nos anos de 1960, quais seriam, então, os seus objetivos, levando-se em consideração a realidade brasileira do século XXI? Fundamentados em Domingues (2005), apresentamos a seguir os principais: - Promover mudanças de ordem cultural, pedagógica e psicológica, com vistas a superar o senso comum de que existe uma supremacia étnica em relação a uma subordinação étnica e/ou de gênero; - Impedir a discriminação; - Reparar as consequências psicológicas, culturais e comportamentais de discriminações históricas; - Fomentar a diversidade, ampliando as oportunidades de representação de minorias nos diversas áreas da vida social. 6.4 O Programa de Cotas: um mecanismo de ação afirmativa O programa de cotas para negros tem se constituído, na atual política social brasileira, como uma das mais polêmicas ações afirmativas. Mas o que é um programa de cotas? Segundo Domingues (2005, p. 166), “* + é reserva de um percentual determinado de vagas para um grupo específico da população (negros, mulheres, homossexuais, entre outros), principalmente no acesso à universidade, ao mercado de b h à p ã p í ” A polêmica sobre o programa de cotas para negros não se justifica se, por exemplo, considerarmos que no Brasil, historicamente, já existem leis que asseguram o tratamento diferenciado para grupos étnicos e minorias que foram e ainda são vítimas de algum tipo de discriminação ou de desfavorecimento social. Domingues (2005, p. 166-7) menciona algumas delas: - A Lei n.º 8.112/90 prescreve, no art. 5º, parágrafo 2º, cotas de até 20% para portadores de deficiências no serviço público civil da União. - O art. 67 das Disposições Transitórias da Constituição Federal de 1988 estabelece q : “A U ã á demarcação de terras indígenas no prazo de cinco anos a partir da promulg ã ã ” - A Lei n.º 9.054/97 preconiza, em seu art. 10, parágrafo 2º, cotas para mulheres nas candidaturas partidárias. Como você pode ver, já existem, no Brasil, e de forma legal, uma série de ações afirmativas que asseguram direitos especiais para deficientes, índios e mulheres. Por que, então, quando se trata de buscar reparar historicamente a discriminação sofrida pela população afrodescendente, como é o caso do programa de cotas nas universidades, se estabelece a polêmica e a resistência contundentes? Credenciada pela Portaria MEC nº 193, de 03/02/2017, publicada no D.O.U de 06/02/2017. Rua Professora Mulata Lima, nº 13. Bairro Nossa Senhora da Fátima. Campo Maior, Piauí. Cep: 64280-000 O marco fundamental de apoio às ações afirmativas para negros, tendo o programa de cotas como agenda principal, foi a III Conferência Mundial contra o Racismo, a Xenofobia e as Intolerâncias Correlatas, realizado em Durban, na África do Sul, em 2001, que teve o Brasil como um dos países signatários. Como resultado dessa conferência e a partir das pressões do movimento negro, o governo brasileiro lançou o Programa Nacional de Direitos Humanos II, em 2002. Domingues (2005, p. 167) destaca, entre as principais medidas apresentadas pelo referido documento, a seguinte recomendação: [...] adotar, no âmbito da União, e estimular a adoção, pelos estados e municípios, de medidas de caráter compensatório que visem à eliminação da discriminação racial e à promoção da igualdade de oportunidades, tais como: ampliação do acesso dos/as afrodescendentes às universidades públicas, aos cursos profissionalizantes, às áreas de tecnologia de ponta, aos grupos e empregos públicos, inclusive cargos de comissão, de forma proporcional à sua representação no conjunto da sociedade brasileira. A partir dessas recomendações ocorreu, em efeito cascata, uma série de medidas tomadas por alguns ministérios do Governo Federal, em favor do desenvolvimento de ações afirmativas, entre estas o programa de cotas para afrodescendentes nas universidades públicas brasileiras, promovido pelo Ministério de Educação – MEC. Para concluir, julgamos que tornar claras as especificidades que dizem respeito aos conceitos de raça, etnicidade e minorias contribui decisivamente para o enfrentamento das problemáticas que cada um desses temas desvelam para a vida social, quais sejam, o preconceito e a discriminação. Ressaltamos, também, que não foi nosso objetivo nesta aula estabelecer uma polêmica entre ser contra ou a favor ao programa de cotas para negros nas universidades públicas, e sim levantar a questão da necessidade de o governo brasileiro estabelecer políticas claras para a reparação da discriminação secular sofrida pelos afrodescendentes no Brasil. Síntese da Unidade Nesta unidade, buscamos elucidar os conceitos de raça, etnicidade e minorias, atentando para os seguintes aspectos: que as principais teorias sobre o conceito de raça foram evidenciadas a partir do final do século XVIII e início do século XIX; que as primeiras teorias sobre raça tinham fins ideológicos para justificar a expansão de países imperialistas; que o principal argumento contra ciência da raça foi afirmar que, biologicamente, não existem raças como uma definição pré-estabelecida e sim variações de tipos físicos entre os seres humanos; que raça é um complexo arranjo de relações sociais que localiza indivíduos e grupos em um conjunto de características baseado em aspectos biologicamente definidos; que racialização é o processo em que são realizadas interpretações e classificações de indivíduos e grupos sociais; que o conceito de etnicidade tem significado exclusivamente social: diz respeito às práticas e aos modos de ser e viver de determinado grupo social; que entre os aspectos étnicos mais considerados estão a língua, a história, a religião e os estilos de roupas e adornos; que o conceito de minorias precisa ser considerado em termos essencialmente sociológicos; que, sociologicamente, grupo minoritário encontra-se em desvantagem social em relação a determinado grupo majoritário; que o termo ação afirmativa foi conceituado por John F. Kennedy, em 1963, como um conjunto de políticas concebidas,com vistas ao combate da discriminação de raça, gênero, etc. bem como para corrigir os efeitos presentes da discriminação praticada no passado; que o programa de cotas se traduz na reserva de vagas para um grupo de específico da população, principalmente no acesso à universidade, ao mercado de trabalho e à representação política; e que, por fim, o programa de cotas para negros, como um dispositivo de ação afirmativa, visa à reparação histórica da discriminação social sofrida pelos afrodescendentes no Brasil.