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Manual Teoria Geral do Direito 2019 (digitalização parcial)

Livro sobre Teoria Geral do Direito (Uma síntese crítica), de Paulo Ferreira da Cunha (Causa das Regras, 2018). Inclui ficha técnica e dados editoriais (ISBN, depósito legal) e listagem extensa das obras anteriores do autor.

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Paulo Ferreira da Cunha 
TEORIA GERAL DO DIREITO 
Uma Síntese Crítica
A Causa das Regras 
2018 
Ficha técnica: 
Teoria Geral do Direito: Uma síntese crítica 
Autor: Paulo Ferreira da Cunha 
Edição: Causa das Regras 
Capa: Composição da editora com base numa estampa 
recolhida da Wikiwand - Reunião de doutores na 
Universidade de Paris - iblioth ue ationale, Paris. éculo 
XVI.
Oeiras, Outubro 2018 
ISBN: 978-989-8754-52-3 
Depósito Legal: 447697/18
Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida sem a 
autorização expressa do autor e da editora. 
2
Outros Livros do Autor 
1987 
(1) O Procedimento Administrativo, Coimbra, Almedina, 1987 (esgotado);
(2) Quadros Institucionais – do social ao jurídico, Porto, Rés, 1987 (esgotado);
refundido e aumentado no volume
(2 a) Sociedade e Direito. Quadros Institucionais, Porto, Rés, 1990 (esgotado); 
1988 
(3) Introdução à Teoria do Direito, Porto, Rés, 1988 (esgotado);
(4) Noções Gerais de Direito, Porto, Rés, 1.ª ed., 1988, 2.ª ed. 1991, outras
eds. ulteriores (em colaboração). Edição bilingue português-chinês, revista,
adaptada e muito aumentada: Noções Gerais de Direito Civil, I, trad. de Vasco
Fong Man Chong, Macau, Publicações O Direito, ed. subsidiada pelo Instituto
Português do Oriente e Associação dos Advogados de Macau, 1993); nova
edição pela Calendário das Letras, Vila Nova de Gaia, 2015.
(5) Problemas Fundamentais de Direito, Porto, Rés, 1988 (esgotado);
1990 
(6) Direito, Porto, Edições Asa, 1990; 2.ª ed. 1991; 3.ª ed., 1994 (esgotado);
(7) Mito e Constitucionalismo. Perspectiva conceitual e histórica, Coimbra,
1988, Separata do “Suplemento ao Boletim da Faculdade de Direito de
Coimbra”, vol. III, Coimbra, 1990 (esgotado);
(8) Pensar o Direito I. Do realismo clássico à análise mítica, Coimbra,
Almedina, 1990 (esgotado);
(9) Direito. Guia Universitário, em colaboração, Porto, Rés, 1990 (esgotado);
3
1991 
(8 b) Pensar o Direito II. Da Modernidade à Postmodernidade, Coimbra, 
Almedina, 1991 (esgotado); 
(10) História da Faculdade de Direito de Coimbra, Porto, Rés, 1991, 5 vols.
(com colaboração de Reinaldo de Carvalho, Prefácio de Orlando de
Carvalho);
1992 
Mythe et Constitutionnalisme au Portugal (1777-1826). Originalité ou influence 
française?, Paris, Université Paris II, 1992 (tese policopiada e editada 
parcialmente pela revista “Cultura”) 
1993 
(11) Princípios de Direito. Introdução à Filosofia e Metodologia Jurídicas, 
Porto, Rés, 1993 (esgotado);
1995 
(12) Para uma História Constitucional do Direito Português, Coimbra,
Almedina, 1995 (esgotado);
(13) Tópicos Jurídicos, Porto, Edições Asa, 1.ª e 2.ª ed., 1995 (esgotado);
(14) “Peço Justiça!”, Porto, Edições Asa, 1995 (esgotado) – há edição em
Braille, Porto, Centro Prof. Albuquerque e Castro, n.º 1176, 8 volumes;
(15) Amor Iuris, Filosofia Contemporânea do Direito e da Política, Lisboa,
Cosmos, 1995 (esgotado);
Paulo Ferreira da Cunha
4
1996 
(16) Constituição, Direito e Utopia. Do Jurídico-Constitucional nas 
Utopias Políticas, Coimbra, Faculdade de Direito de Coimbra, Studia
Iuridica, Coimbra Editora, 1996;
(17) Peccata Iuris. Do Direito nos Livros ao Direito em Acção, Lisboa, Edições
Universitárias Lusófonas, 1996;
(18) Arqueologias Jurídicas. Ensaios jurídico-humanísticos e jurídico-políticos,
Porto, Lello, 1996;
1998 
(19) Lições Preliminares de Filosofia do Direito, Coimbra, Almedina, 1998,
esgotado, há 2.ª ed. e 3.ª ed.;
(20) A Constituição do Crime. Da substancial constitucionalidade do Direito 
Penal, Coimbra, Coimbra Editora, 1998;
(21) Instituições de Direito. I. Filosofia e Metodologia do Direito, Coimbra,
Almedina, 1998 (organizador e coautor), Prefácio de Vítor Manuel Aguiar e
Silva;
(22) Res Publica. Ensaios Constitucionais, Coimbra, Almedina, 1998;
1999 
(23) Lições de Filosofia Jurídica. Natureza & Arte do Direito, Coimbra,
Almedina, 1999;
(24) Mysteria Ivris. Raízes Mitosóficas do Pensamento Jurídico-Político 
Português, Porto, Legis, 1999;
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
5
2000 
(25) Le Droit et les Sens, Paris, L’Archer, dif. P.U.F., 2000;
(26) Teoria da Constituição, vol. II. Direitos Humanos, Direitos 
Fundamentais, Lisboa, Verbo, 2000;
(27) Temas e Perfis da Filosofia do Direito Luso-Brasileira, Lisboa, Imprensa
Nacional-Casa da Moeda, 2000;
(20 a) Instituições de Direito. vol. II. Enciclopédia Jurídica, (organizador e 
coautor), Coimbra, Almedina, 2000; 
(28) Responsabilité et culpabilité. Abrégé juridique pour médecins, Paris,
P.U.F., 2000 (esgotado);
2001 
(29) O Ponto de Arquimedes. Natureza Humana, Direito Natural, 
Direitos Humanos, Coimbra, Almedina, 2001 (esgotado);
(30) Propedêutica Jurídica. Uma perspectiva jusnaturalista, Campinas, São Paulo,
Millennium, 2001 (em colaboração com Ricardo Dip);
2002 
(31) Lições Preliminares de Filosofia do Direito, 2.ª edição revista e atualizada,
Coimbra, Almedina, 2002;
(25 a) Teoria da Constituição, vol. I. Mitos, Memórias, Conceitos, Lisboa, 
Verbo, 2002; 
(32) Faces da Justiça, Coimbra, Almedina, 2002 (esgotado);
Paulo Ferreira da Cunha
6
2003 
(33) Direitos Humanos. Teorias e Práticas, Coimbra, Almedina, 2003 (org.),
com Prefácio de Jorge Miranda;
(34) O Século de Antígona, Coimbra, Almedina, 2003;
(35) Teoria do Estado Contemporâneo (org.), Lisboa / São Paulo, Verbo,
2003;
(36) Política Mínima, Coimbra, Almedina, 2003 (esgotada a 2.ª ed.);
(37) Miragens do Direito. O Direito, as Instituições e o Politicamente Correto,
Campinas, SP, Millennium, 2003;
(38) Droit et Récit, Québec, Presses de l’Université Laval, 2003;
2004 
(39) Memória, Método e Direito, Coimbra, Almedina, 2004 (esgotada a 2.ª
ed.);
(40) O Tímpano das Virtudes, Coimbra, Almedina, 2004;
(41) Filosofia do Direito – Primeira Síntese, Coimbra, Almedina, 2004
(esgotado);
(42) Direito Natural, Religiões e Culturas, org., Coimbra, Coimbra Editora,
2004;
2005 
(43) Anti-Leviatã, Porto Alegre, Sérgio Fabris, 2005;
(44) Repensar a Política. Ciência & Ideologia, Coimbra, Almedina, 2005
(esgotado; há 2.ªed., com uma Apresentação de J. J. Gomes Canotilho);
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
7
(45) Lusofilias. Identidade Portuguesa e Relações Internacionais, Porto,
Caixotim, 2005 (Menção Honrosa da SHIP);
(46) Escola a Arder, Lisboa, O Espírito das Leis, 2005;
(35 a) Política Mínima, 2.ª ed., corrigida e atualizada, Coimbra, Almedina, 
2005 (esgotado); 
(47) Novo Direito Constitucional Europeu, Coimbra, Almedina, 2005;
(48) História do Direito. Do Direito Romano à Constituição Europeia,
Coimbra, Almedina,
2005 (em colaboração com Joana de Aguiar e Silva e António Lemos Soares), 
esgotado, há reimpressão; 
(49) Direito Natural, Justiça e Política, org., Coimbra, Coimbra Editora, vol. I,
2005;
(50) O Essencial sobre Filosofia Política Medieval, Lisboa, Imprensa Nacional-
Casa da Moeda, 2005;
2006 
(51) O Essencial sobre Filosofia Política Moderna, Lisboa, INCM, 2006;
(52) Per-Curso Constitucional. Pensar o Direito Constitucional e o seu Ensino, 
Prefácio de Manoel Gonçalves Ferreira Filho, São Paulo, CEMOROC- 
EDF-FEUSP, Escola Superior de Direito Constitucional, Editora Mandruvá,
2006 (esgotado);
(53) O Essencial sobre Filosofia Política da Antiguidade Clássica, Lisboa,
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2006;
(54) Pensamento Jurídico Luso-Brasileiro, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da
Moeda, 2006;
(55) Raízes da República. Introdução Histórica ao Direito Constitucional,
Paulo Ferreira da Cunha
8
Coimbra, Almedina, 2006 (esgotado); 
(56) Direito Constitucional Geral, Lisboa, Quid Juris, 2006 (esgotado; há
nova edição);
(57) Filosofia do Direito, Coimbra, Almedina, 2006 (esgotado; há 2.ª
edição);
(56 a) Direito Constitucional Geral. Uma Perspectiva Luso-Brasileira, São 
Paulo, Método, 
2006, Prefácio de André Ramos Tavares (Prémio Jabuti para o melhor 
livro de Direito); 
(58) Constituição da República da Lísia, Porto, Ordem dos Advogados,
2006;
2007 
(59) A Constituição Viva. Cidadania e Direitos Humanos, PortoAlegre,
Editora do Advogado, 2007, Prefácio de Ingo Sarlet;
(45 a) Repensar a Política. Ciência & Ideologia, 2.ª ed., revista e atualizada, 
Coimbra, Almedina, 2007, com uma Apresentação de J. J. Gomes Canotilho; 
(60) Direito Constitucional Aplicado, Lisboa, Quid Juris, 2007;
(61) O Essencial sobre Filosofia Política Liberal e Social, Lisboa, INCM,
2007;
(62) O Essencial sobre Filosofia Política Romântica, Lisboa, INCM, 2007;
(63) Manual de Retórica & Direito, Lisboa, Quid Juris, 2007, colaboração
com Maria Luísa Malato (esgotado; 2.ª ed. em preparação);
(64) Constituição, Crise e Cidadania, Porto Alegre, Livraria do Advogado
Editora, 2007, com Prefácio de Paulo Bonavides;
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
9
2008 
(65) Direito Constitucional e Fundamentos do Direito, Rio de Janeiro / São
Paulo / Recife, Renovar, 2008, com um texto de J. J. Gomes Canotilho;
(66) Comunicação e Direito, Porto Alegre, Livraria do Advogado
Editora, 2008;
(67) Tratado da (In)Justiça, Lisboa, Quid Juris, 2008;
(68) Direito Constitucional Anotado, Lisboa, Quid Juris, 2008 (esgotado);
(69) Fundamentos da República e dos Direitos Fundamentais, Belo
Horizonte, Forum, 2008, Apresentação de André Ramos Tavares;
(70) O Essencial sobre Filosofia Política Contemporânea (1887-1939),
Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2008;
(71) O Essencial sobre Filosofia Política do séc. XX (depois de 1940),
Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2008;
2009 
(72) Filosofia Jurídica Prática, Lisboa, Quid Juris, 2009;
(73) Direito Constitucional & Filosofia do Direito, Porto, Cadernos
Interdisciplinares Luso- Brasileiros (coord.), 2009 (esgotado);
(72 a) Filosofia Jurídica Prática, Belo Horizonte, Forum, 2009, Prefácio de 
Willis Santiago Guerra Filho, Apresentação de Regina Quaresma; 
(74) Da Declaração Universal dos Direitos do Homem, Osasco, São Paulo,
Edifieo, 2008 (2009);
(75) Geografia Constitucional. Sistemas Juspolíticos e Globalização, Lisboa,
Quid Juris, 2009;
Paulo Ferreira da Cunha
10
(76) Direito & Literatura, coord., Porto / São Paulo, Cadernos
Interdisciplinares Luso-Brasileiros 2009 (esgotado);
(77) Síntese de Filosofia do Direito, Coimbra, Almedina, 2009;
(67 a) Breve Tratado da (In)Justiça, São Paulo, Quartier Latin, 2009; 
(31 a) Lições Preliminares de Filosofia do Direito, 3.ª ed., Coimbra, Almedina, 
2009; 
(39 a) Iniciação à Metodologia Jurídica. Memória, Método e Direito, 
Coimbra, Almedina, 2009 (esgotada a 2.ª ed.; 3.ª ed. em preparação); 
(78) Pensar o Estado, Lisboa, Quid Juris, 2009;
2010 
(79) Presidencialismo e Parlamentarismo, Belo Horizonte, Forum, 2010,
Prefácio de Marcelo Figueiredo, Apresentação de Maria Elizabeth Guimarães
Teixeira Rocha;
(80) Traité de Droit Constitutionnel. Constitution universelle et 
mondialisation des valeurs fondamentales, Paris, Buenos Books International,
2010 (também com edição em ebook);
(81) Justiça & Direito. Viagens à Tribo dos Juristas, Lisboa, Quid Juris, 2010;
(82) Para uma Ética Republicana. Virtude(s) e Valor(es) da Republica, Lisboa,
Coisas de Ler, 2010, Prefácio de Eduardo Bittar;
(83) Filosofia Política. Da Antiguidade ao Século XXI, Lisboa, Imprensa
Nacional-Casa da Moeda, 2010;
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
11
2011 
(84) O Essencial sobre a I República e a Constituição de 1911, Lisboa,
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2011;
2012 
(85) Droit naturel et méthodologie juridique, Paris, Buenos Books
International, 2012, Prefácio de Stamatios Tzitzis;
(86) Avessos do Direito. Ensaios de Crítica da Razão Jurídica, Curitiba, Juruá,
2012, Prefácio de Lênio Streck, Apresentação de Maria Francisca Carneiro;
(87) Constituição & Política. Poder Constituinte, Constituição Material e 
Cultura Constitucional, Lisboa, Quid Juris, 2012;
2013 
(88) Rethinking Natural Law, Berlin / Heidelberg, Springer, 2013, Prefácio de
Virginia Black;
(57 a) Filosofia do Direito. Fundamentos, Metodologia e Teoria Geral do 
Direito, 2.ª edição 
revista atualizada e desenvolvida, Coimbra, Almedina, 2013; 
(89) Filosofia do Direito e do Estado, Prefácio de Tercio Sampaio Ferraz
Junior, Apresentação de Fernando Dias Menezes de Almeida, Belo
Horizonte, Forum, 2013;
(90) Repensar o Direito. Um Manual de Filosofia Jurídica, Prefácio de Mário
Bigotte Chorão, Posfácio de José Adelino Maltez, Lisboa, Imprensa Nacional-
Casa da Moeda, 2013;
(56 b) Direito Constitucional Geral, Nova Edição (2.ª): Aumentada, Revista 
e Atualizada, Lisboa, Quid Juris, 2013; 
Paulo Ferreira da Cunha
12
(57 b) Filosofia do Direito. Fundamentos das Instituições Jurídicas, Rio de 
Janeiro, G/Z, 2013; 
(91) Nova Teoria do Estado. Estado, República, Constituição, São Paulo,
Malheiros, 2013, Prefácio de Paulo Bonavides, Apresentação de Carmela
Gruene.
2014 
(92) O Contrato Constitucional, Lisboa, Quid Juris, 2014;
(93) La Constitution naturelle, Paris, Buenos Books International, 2014;
(94) Direitos Fundamentais. Fundamentos e Direitos Sociais, Lisboa,
Quid Juris, 2014;
(95) Desvendar o Direito. Iniciação ao Saber Jurídico, Lisboa, Quid
Juris, 2014;
(96) Republic: Law & Culture, Saarbruecken, Lambert Academic Publishing,
2014.
(35 b) Política Mínima, nova edição (3.ª), com Prefácio de Adriano Moreira, 
Lisboa, Quid Juris, 2014. 
(39 b) Iniciação à Metodologia Jurídica, 3.ª ed., Coimbra, Almedina, 2014. 
(97) Constitution et Mythe, com prefácio de François Vallançon, Quebeque,
Presses de l'Université Laval, 2014.
2015 
(98) Fundamentos del Derecho. Iniciación Filosófica, Prólogo de Francisco Puy
Muñoz. Estudio Introductorio de Milagros Otero Parga, Epílogo de Santiago
Botero Gómez, Biblioteca Jurídica Americana, México, Editorial Porrúa y Red
Internacional de Juristas para la integración Americana, 2015.
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
13
(4 a) Noções Gerais de Direito, Vila Nova de Gaia, Calendário das Letras (nova 
edição, em colaboração). 
(86 a) Avessos do Direito. Ensaios de Crítica da Razão Jurídica, edição 
portuguesa, Lisboa, Juruá, 2015, Prefácio de Lênio Streck, Apresentação de 
Maria Francisca Carneiro, Posfácio de António Braz Teixeira. 
(99) Political Ethics and European Constitution, Heidelberg, Springer, 2015,
Prefácio de Paulo Archer de Carvalho.
2016 
(100) Palimpsesto: A Democracia. Rio de Janeiro, Lumen Juris, 2016 (org. em
colab. com Sérgio Aquino).
2017 
(101) Direito Internacional. Raízes & Asas, Belo Horizonte, Forum, 2017,
Prefácio de Marcílio Franca e Posfácio de Sérgio Aquino.
(102) Pour une Cour Constitutionnelle Internationale, em colaboração com
Yadh Ben Achour, Oeiras, A Causa das Regras, 2017.
(103) Direito Fraterno Humanista. Novo Paradigma Jurídico, Rio de Janeiro,
G/Z, 2017.
(104) Tributo a César. Arte, Literatura & Direito. Florianópolis, Empório do
Direito, 2017.
2018 
(105) Síntese de Justiça Constitucional, Oeiras, A Causa das Regras, 2018.
(106) Teoria Geral do Estado e Ciência Política, São Paulo, Saraiva, 2018.
Paulo Ferreira da Cunha
14
(57 b) (57 a) Filosofia do Direito. Fundamentos, Metodologia e Teoria Geral 
do Direito, 3.ª edição revista atualizada e aprofundada, Coimbra, Almedina, 
2018. 
Ficção e Poesia 
(1) Tratado das Coisas não Fungíveis, Porto, Campo das
Letras, 2000;
(2) E Foram Muito Felizes, Porto, Caixotim, 2002;
(3) Escadas do Liceu, São Paulo, Mandruvá, 2004, Apresentação de Gilda
Naécia Maciel de Barros;
(4) Livro de Horas Vagas, São Paulo, Mandruvá, 2005, Prefácio de Jean
Lauand;
(5) Linhas Imaginárias, Dover, Buenos Books America, 2013, com um Prólogo
de José Calvo;
(6) Caderno Permitido, Lisboa, A Causa das Regras, 2014.
(7) Relatório sem Contas, Oeiras, A Causa das Regras, 2017.
(8) Estado das Cidades, A Causa das Regras, 2018.
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
15
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A quem, pelo Mundo fora, 
estuda e trabalha pela Ética, pelo Direito, 
pela Justiça, e pelos Direitos Humanos. 
Ou, por outras palavras, luta pela Liberdade, 
pela Igualdade e pela Fraternidade. 
17“Não se lhe pede que deixe 
de ser jurista; apenas que, sendo-o, 
vá acreditar que a sua missão é mais 
ampla e mais digna que a de prestar 
homenagem passiva a tudo aquilo 
que se fornece como sendo direito.” 
Rogério Guilherme Ehrhardt 
Soares – Direito Público e 
Sociedade Técnica, p. 186. 
19
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Plano Geral 
Introdução 
Reflexão sobre uma Teoria Geral do Direito 
Livro I 
Em Demanda do Direito: Iniciação ao Saber Jurídico 
Parte I. Desvendar o Direito: Crítica do(s) Dogmatismo(s), Senso 
Comum e Preconceito(s). 
Parte II. Fenomenologia: Imagens e perspetivas do Direito. 
Parte III. Epistemologia Geral: O Direito como realidade 
científica, cultural e espiritual. Interdisciplinaridades e Pós-
Disciplinaridade. Paradigmas Jurídicos. Novos Paradigmas. 
Livro II 
Vetores Fundamentais para uma Teoria Geral do Direito 
Parte I. Filosofia: De uma noção descritiva de Direito às tópicas 
axiológica e sociológica. A Justiça e o Direito. 
Parte II. Semiótica: Signos jurídicos 
Parte III. Dinâmica: Dimensões e Funções, Valores, Princípios e 
Fins do Direito 
Parte IV. Axiologia: Fundamento(s), Fim(ns), e Princípios 
(fundamentais) do Direito 
Parte V. Linguística: Aceções do termo 'Direito' 
Parte VI. Metodologia: Fontes de Direito 
21
Parte VII. Epistemologia especial: Ramos de Direito e Disciplinas 
afins. As Ciências Jurídicas Humanísticas. 
Parte VIII. Geografia: Pluralidade de Ordens Jurídicas e 
Comparação de Direitos 
Parte IX. Sociologia: O Direito e a sua Circunstância: História, 
Ordens Sociais Normativas, Política, Estado 
Livro III 
Teoria Geral da Norma Jurídica 
Parte I. A Norma e o Direito 
Parte II. Classificação das Normas Jurídicas 
Livro IV 
Hermenêutica: da interpretação /integração à perspetivação 
holística 
Parte I. Aplicação do Direito e Hermenêutica 
Parte II. Para uma Hermenêutica: entre o passado e o futuro 
Parte III. Hierarquias hermenêuticas 
Parte IV. Conceitos Basilares 
Final 
Bibliografia 
Índice geral 
22
Introdução 
Reflexão sobre uma Teoria Geral do Direito 
Este livro pretende dar uma panorâmica geral e introdutória 
do Direito, adotando como ponto de mira uma das formas de o 
abordar e entender, a sua Teoria Geral (outras haveria, claro). E 
assume-se propositadamente como sintético e crítico. 
Ao contrário de muitas obras jurídicas, ele declara desde já 
que não é um trabalho (mais ou menos alienada ou 
hipocritamente) inócuo, que não pretende fazer crer que existiria 
uma pura Ciência do Direito, pronta e acabada, a ditar de cátedra. 
Essas pretensas empresas dogmáticas são, em geral, positivistas, 
normativistas, legalistas, sistemáticas, logicistas, monistas (tudo 
conceitos que referiremos a seu tempo), adeptas do 
ensimesmamento jurídico contra a interdisciplinaridade (nem 
sonhando sequer com a pós-disciplinaridade), etc.. São assim 
perspetivas muito localizadas. Até ideologicamente localizadas, 
muitas vezes. 
Na verdade, muitos não dizem quais as conceções 
profundas que determinam a sua doutrina, determinante, por seu 
turno, da sua exposição. Pelo contrário, declaramo-nos desde já 
como um neojusnaturalista crítico (pluralista, portanto, na ontologia 
jurídica), adepto do pensamento tópico-problemático, buscando a 
Justiça no caso concreto, desconfiando de sistemas e lógicas 
abstratas e de uma conceção dogmática. E em tese adepto do 
judicialismo, mas muito de prevenção contra a subjetividade de um 
23
novo “direito livre”, e entusiasta do diálogo do Direito com outras 
realidades, disciplinas e artes, nessa já aludida nova visão do 
diálogo das “ciências”, a pós-disciplinaridade. Adepto, finalmente, 
de uma mudança de paradigma jurídico, pelos Direitos Humanos e 
para um Direito Fraterno Humanista. 
Evidentemente, todos ou quase todos serão conceitos novos 
para quem se inicia nestas lides; mas esta obra fornecerá, espera-se, 
material suficiente, e suficientemente imparcial (sem prescindir da 
posição que declaramos já) para que se aquilate do que está em 
jogo. 
Os tempos que vivemos não são nada de molde a 
promover o pensamento crítico, a criatividade, mesmo a liberdade 
de expressão. Por toda a parte assistimos a preconceitos, volta de 
obscurantismos e mesmo manifestações de ódio e agressão. O 
Direito é encarado por muitos como um empecilho aos seus 
projetos e desejos, ou então um instrumento do seu poder. Pura e 
simplesmente. A educação (que hoje se faz – ou não – nos media, 
na escola e em casa) que se desenvolveu em muitos países não foi 
de molde a estimular algumas atitudes de amor à democracia e de 
respeito pelas Constituições, pelas Declarações Internacionais de 
Direitos, e de dedicação ao estudo e ao trabalho. Há uma grande 
onda de alienação a pairar pelos Estado de Direito democráticos, o 
que é um perigo para a liberdade, a dignidade e a segurança de 
todos. 
Neste contexto, ensinar Direito bem e com noção do 
essencial não é também um dever cívico e um imperativo ético. 
Por isso, se procurará aqui falar de coisas que reputamos 
importantes: dotando o leitor de um arcaboiço técnico 
indispensável, mas não ficando por uma técnica insípida, não 
discutida, e, assim, alienante. 
Paulo Ferreira da Cunha
24
Explicitando: o conhecimento que aqui se visa não é ainda 
o mais profundo, o filosófico, o do frontão do templo grego que 
mandava, como depois Sócrates, "conhecer-se a si mesmo". 
Procura-se conhecer o Direito, mas em grande medida pelas suas 
manifestações, sobretudo pelo seu modo-de-ser, só um pouco se 
adentrando esta obra no ser-em-si e no seu dever-ser, que são 
questões mais profundas. Mas não prescindindo, como muitos 
fazem, de colocar alguns problemas mais sérios e muito para além 
do simples decorar (sem sentido e contexto) de saberes de pronto-
a-consumir. Não será uma obra facilitista: tentamos o máximo de 
simplicidade possível, sem vulgarização, o que seria incompatível 
com o público universitário a que principalmente se destina este 
texto. Fazê-lo mais curto era impossível, porque as questões 
precisam de ser explicadas, não meramente apresentadas prontas e 
indiscutíveis para memorização. 
Embora não se trate de um livro de Filosofia do Direito, 
matéria que visa aprofundar mais o ser e o dever-ser desta área 
(nomeadamente na sua complexa relação com a Justiça), visa-se, na 
verdade, conhecer não pela aplicação superficial de um verniz, 
demão efémera de conhecimentos fugazes, logo caídos no 
esquecimento, mas através da compreensão dos problemas básicos, 
por um processo de incorporação, que implica adesão e interesse, 
jamais simples adição de adjacências, de próteses. "Não se deve 
justapor o saber à alma, é preciso que ela o incorpore", anotou 
Montaigne, nos seus Ensaios. 
Não é, contudo, ainda da busca de essências que se trata, 
mas é algo mais que o saber puramente memorizado, acrítico, de 
um "conhecedor" ausente e abúlico. 
Não se trata aqui, portanto, de um processo de descida às 
profundezas da alma do Direito, mas procura-se mais que o 
desconjuntado e imprestável decorar de uns quantos artigos que 
podem ser revogados já amanhã. Não é saber conhecer dados 
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
25
simplesmente exteriores e estatísticos, superficiais, sobre o Direito1. 
Não é também escavar arqueologicamente nos escaninhos mais 
longínquos do seu psiquismo ou da sua alma — tarefa psiquiátrica 
ou metafísica que se não compadece com a brevidade e tipo de 
aproximação do nosso estudo. 
Há um meio termo. Nem só saber o nome do Direito e 
que a sua cor é vermelha, que mora em tribunais e cátedras, 
cartórios e repartições, assembleias e gabinetes, que se pesa em 
balanças, e não se lhe sabe a cor dos olhos porque a Justiça, se não 
é cega, por vezes usaria uma venda (hoje praticamente se sabe que 
tal não ocorreu originalmente) ou dirigia o olhar aos Céus. É esse 
meio termo que procurámos, com concisão e simplicidade. 
A primeira tarefa a empreender no estudo do Direito é o 
de desfazermosas ideias-feitas que muitas vezes erroneamente 
vamos alimentando a seu propósito. E de algumas coisas que 
rodeiam este saber e atividade. Quantos o confundem com 
burocracia, polícia, política, moral, religião, ou outras coisas ainda! 
Quantas distorções para a compreensão global do mesmo podem 
produzir os conhecimentos dispersos de regulamentações 
parcelares de certas condutas ou atividades, ou a memória deste ou 
daquele contacto (normalmente traumatizante) com as instituições 
jurídicas ou judiciárias! Portanto, há que considerar, no primeiro 
momento, a desilusão ou, de todo o modo, o choque da 
apresentação:" Ah, é isto o 'Direito'?" — pode ser a nossa imediata 
exclamação interior. 
1 As pessoas crescidas gostam de números. Quando lhes falais de um novo 
amigo nunca perguntam o essencial. Nunca vos dizem: 'Como é a fala dele? 
Quais os seus jogos prediletos? Coleciona borboletas?' Perguntam: 'Que idade 
tem? Quantos irmãos são? Quanto pesa? Quanto é que o pai ganha?' E só 
julgam que o conhecem depois disto (...) São assim. Não se deve querer-lhes 
mal. As crianças devem ser indulgentes para com as pessoas crescidas. Mas 
claro, nós que compreendemos a vida não ligamos importância aos números." 
SAINT-EXUPÉRY, Antoine de — O Principezinho, 6.ª ed., trad. port., de Alice 
Gomes, Lisboa, Editorial Aster, s/d, pp. 19-20. 
Paulo Ferreira da Cunha
26
Os alemães cunharam para certo tipo de indivíduos, 
criminosos incorrigíveis, relapsos e impenitentes, uma palavra 
esclarecedora: a Rechtsfeindschaft — "a inimizade pelo Direito", 
qualidade de que seriam portadores, ou que essencialmente os 
definiria. Mas também decerto a haverá entre aqueles que, sendo 
obrigados a estudá-lo, não ganham o gosto de o fazerem. Livremo-
nos disso, porém. Vamos a princípio ter dificuldades, vamos 
deparar com palavras e conceitos novos, um tipo diverso de forma 
mentis ("forma mental"), vamos decerto ler este livro e precisar de 
voltar ao princípio para, então cabalmente o entendermos. Mas só 
se gosta do que se conhece, e só se ama o que se conhece bem. É 
esse aviso que precisa de ser feito: só no fim estamos preparados 
para começar. É em tudo assim, quiçá com a própria vida. "Se eu 
soubesse o que sei hoje..." — ouve-se tão repetidamente. Não 
tenhamos, pois, receio de abrir as portas do templo arcano do 
Direito. Há salas obscuras, decorações estranhas, a princípio. 
Quando o tivermos visitado, então, já será fácil encontrar a saída e 
entender o significado do que à primeira vista não 
compreendêramos. Há fios (e plurais, não um único) para 
encontrar a saída do labirinto da juridicidade. 
Vamos, pois, fazer uma visita guiada ao Direito, mas os 
guias são de desconfiar: já sabem a história de cor. O trabalho 
pessoal do visitante é indispensável. Vamos entrar na casa do 
Direito, para depois sair — não nos prenderemos ao mobiliário, 
nem nos transformaremos em peças dele: daí o distanciamento a 
manter. Mas quando regressarmos ao puro ar não jurídico da nossa 
vida normal, não olvidaremos essa visita fantástica, e saberemos 
reconhecer Direito no "proibido pisar a relva", que vai 
desaparecendo, e no imposto sobre o consumo de ar ou de espaço, 
que poderá vir a surgir. 
Acima de tudo, porém, porque reconhecemos o nosso 
velho conhecido, estaremos aptos a encarar as suas metamorfoses, 
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
27
a entendê-lo e, eventualmente a melhorá-lo, tornando-o mais igual 
a si, isto é, ao seu ideal de Justiça. Não é isso que fazemos com os 
amigos, aqueles que realmente conhecemos? E aí teremos a 
Rechtsfreundschaft, a amizade pelo Direito. 
Visa-se, pois, que o conhecimento do mundo jurídico dele 
aproxime e não afaste. E visa-se que essa amizade seja como as 
boas amizades da vida: não concordância sistemática, mas 
capacidade de crítica, mesmo dizendo umas verdades incómodas, 
por vezes, mas tudo para que o nosso amigo ou amiga se possa 
melhorar. Não pode haver amizades acríticas. O gosto pelo Direito 
também tem de ser assim: a própria ideia da existência do Direito e 
não da lei do mais forte, é uma tranquilidade e uma segurança, é 
um adquirido civilizacional. Mas isso não significa que não 
tenhamos que trabalhar por um Direito cada vez mais Justo. 
Temos sempre muito caminho à nossa frente. A Justiça, como 
veremos, é uma “constante e perpétua vontade”. Nunca estará 
completa, nunca será inteiramente alcançada. Porém, há que 
percorrer mais caminho, persegui-la sempre. E nunca retroceder... 
Porto, 15 outubro de 2018 
Paulo Ferreira da Cunha
28
Fontes e Agradecimentos 
Este livro recorda, em palimpsesto, os esgotadíssimos 
Introdução à Teoria do Direito e Princípios de Direito 
(principalmente o primeiro, que começa por seguir), editados pela 
Rés há uns trinta anos, assim como partes dos nossos Tópicos 
Jurídicos, com a chancela da Asa, de alguns anos depois, e 
igualmente esgotado. Apresenta também intertextualidades com 
um dicionário de metodologia jurídica que projetamos editar no 
Brasil futuramente. Retoma um artigo publicado aí na revista 
“Opinião Jurídica”, de Fortaleza, sobre fontes de Direito, que por 
seu turno já tinha fontes portuguesas. E é “primo” mental, embora 
não tenha coincidências literais, com Desvendar o Direito, da Quid 
Juris, para que nos permitimos remeter para desenvolvimento de 
alguns temas mais teóricos. Certamente que a grande obra que 
melhor complementará a parte mais filosófica, metodológica e 
teórica será a recente terceira edição da nossa Filosofia do Direito, 
publicada pela Almedina. Para este livro também se fazem algumas 
remissões. 
 Esta é, pois, uma obra nova e autónoma, apesar das 
muitas “intertextualidades” daqui e dali como pano de fundo: tudo 
totalmente se repensou, atualizou, refundiu, e aditou. Tem ela um 
projeto diverso dos anteriores (e sobretudo por vezes muda de 
perspetiva ou opinião em matérias importantes), e a sua lição é, 
tudo resumido, muito mais moderna que a dos referidos livros. 
Estamos perante uma síntese crítica (e estes dois vocábulos, quer 
separada quer conjuntamente, têm um denso significado) de uma 
Teoria Geral do Direito vista em termos muito abrangentes. Em 
todo o caso, recordámos Paul Valéry: le lion est fait de mouton 
assimilé. 
29
A todos os editores dos referidos estudos se agradece. 
À editora desta obra, Dr.ª Alexandra Martins, o nosso 
muito obrigado por todo o esforço, cuidado e eficiência na edição 
deste trabalho. 
À Senhora Prof. Doutora Flávia Leite, da Universidade 
Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho e ao Prof. Doutor Álvaro 
Oxley Rocha, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande 
do Sul, pelas sugestões que deram no processo de elaboração da 
dedicatória, cujo resultado acabou por ser bastante eclético, e 
obviamente apenas da minha responsabilidade. 
Ao Dr. Rodrigo Rocha Andrade, Assistente da Faculdade 
de Direito da Universidade do Porto, um bem-haja pela ajuda na 
confirmação de algumas referências legislativas, que num par de 
horas de trabalho conjunto fez adiantar muito o nosso trabalho. 
Last but not the least, um agradecimento ao Senhor Prof. 
Doutor João Relvão Caetano, Pró-Reitor da Universidade Aberta, 
sem cujo incitamento à publicação desta obra ela certamente iria 
demorar anos a concretizar-se. 
 
 
Paulo Ferreira da Cunha
30
 
Abreviaturas: 
 
C.A. — Código Administrativo 
C.C. — Código Civil 
C. Com. — Código Comercial 
CP – Código Penal 
CRP — Constituição da República Portuguesa 
D — Digesto 
ETIJ — Estatuto do Tribunal Internacional de Justiça 
 
 
 
 
 
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
31
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Livro I 
EM DEMANDA DO DIREITO: 
INICIAÇÃO AO SABER JURÍDICO 
 
Sumário: 
Parte I 
Desvendar o Direito: 
Crítica do(s) Dogmatismo(s), Senso Comum e Preconceito(s). 
Parte II 
Fenomenologia: 
Imagens e perspetivas do Direito 
Parte III 
Epistemologia Geral 
O Direito como realidade científica, cultural e espiritual. 
Interdisciplinaridadese Pós-Disciplinaridade. Paradigmas 
Jurídicos. Novos Paradigmas. 
 
 
 
33
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Parte I 
Desvendar o Direito: 
Crítica do(s) Dogmatismo(s), 
Senso Comum e Preconceito(s). 
 
Sumário: 
1.Crítica do Dogmatismo e Senso Comum 
2.Bom Senso: Uma Apologia 
3.Preconceitos 
4.Introduções ao Direito e Alienação 
 
35
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
1.Crítica do Dogmatismo e Senso Comum 
Saber Direito não é ter decorado uma descrição do 
funcionamento das instituições, um conjunto de leis, e pouco mais 
– o que já é muito. Para se ser jurista é preciso ter adquirido um 
espírito, que é feito de cultura, subtileza, finura, argúcia, bom 
senso, equilíbrio, moderação, flexibilidade... E sensibilidade social. 
 Bom jurista nunca é um armazém ambulante de normas, 
sentenças ou teorias, um ingénuo com boas intenções, mas alheio à 
realidade do mundo. O Direito existe para regular coisas que, pelo 
seu contributo, devem funcionar bem (embora nem sempre tal 
ocorra), mas existe muito, também, pelo facto de existirem 
violações das regras, perpetradas por pessoas menos honestas, 
menos sociais, menos conformes com os valores. Não vivemos 
num mundo de anjos, e por isso é necessário redobradamente que 
o Direito arbitre conflitos e, no limite, puna os infratores. Com 
inteligência e conhecimento da alma humana e do funcionamento 
da sociedade, não com a sanha punitivista de alguns, 
profundamente afetados pelo medo ou pela sede de vingança. Não, 
o Direito não é retaliação, não é máquina de punir. É uma 
“medicina da cultura”, e antes de mais uma medicina preventiva. 
De qualquer forma, o Direito não é para amadores, nem 
um jogo de polícias e ladrões, e muito menos um sistema ou 
estrutura abstrato para puro deleite do espírito. É algo de muito 
prático e real, num mundo complexo, agressivo, mutável, e em 
grande medida enganador, pelos processos de ideologização, 
discurso legitimador (em que o próprio Direito, muitas vezes, se 
integra), alienação. Nem tudo o que no mundo parece, é 
37
(demasiadas fake news! Mas não só). E o Direito precisa de não se 
deixar iludir. Ele pressupõe verdade, não “pós-verdade”. 
O jurista, ou aprendiz de jurista, tem de treinar a sua 
desconfiança nas aparências. E as aparências sociais são muito 
convincentes, e adormecedoras do espírito crítico. Como as 
pessoas, mesmo cultas, mesmo inteligentes, se não tiverem um 
pouco de esperteza e subtileza, são completamente manipuladas!... 
É sempre tempo de dizer, como no poema de José Régio, "Sei que 
não vou por aí!". 
 O aprendiz de jurista não pode ser nunca "Maria vai com 
as outras... Ou Manel vai com os outros..." Tem de desconfiar das 
facilidades e dos lugares comuns. Do próprio senso comum, que 
não é o mesmo que bom senso. 
Deve submeter toda a banalidade quotidiana, mesmo a 
jurídica, aos ácidos crítico e cínico. Como grandes juristas 
recomendavam2. 
É curioso que, sob o impacto certamente do complexo do 
(pós)modernismo e do politicamente correto, neste caminho de 
descaminho educativo confluem muitos inteligentes e bem-
intencionados, tanto das esquerdas como das direitas. Dir-se-ia que 
há, entre os clercs, uma grande sintonia, para além da ideologia. O 
que é mau, muito mau sinal, dado que noutros aspetos o agonismo 
é total, e aparentemente cada vez maior. Apesar de que “velhas 
direitas” e “velhas esquerdas” (se democráticas), porque 
comungando de algum legado “clássico”, possam ser ainda reduto 
de qualidade, e de algum bom senso… mas as engenharias sociais 
educativas não são de velhas esquerdas nem direitas, são dos que 
nasceram ontem, repudiaram os legados das suas próprias famílias 
2 Desenvolvemos estas questões no nosso livro Desvendar o Direito, Lisboa, 
Quid Juris, 2014. 
Paulo Ferreira da Cunha
38
políticas, e cuidam que vão erigir o novo templo em dois dias (três 
era muito)… Ignorância muito perigosa. 
O elitismo (mas um elitismo muitas vezes oligárquico: 
curioso, mas poderá dizer-se que as verdadeiras elites não são 
elitistas) é a regra real, por detrás de uma apregoada 
democratização, para Inglês ver: como os melhores sobrevivem até 
a este sistema (felizmente: na verdade os melhores são capazes de 
muita adaptabilidade…), alguns deles julgam que o sistema é em si 
bom. Aliás, pintam-lhe as alternativas de cores tenebrosas... 
Há prioridades educativas. Deve haver essas prioridades. 
Por exemplo: mesmo na simples alfabetização se pode e deve 
ensinar Cidadania e a Constituição (veja-se o papel do jovem 
advogado por um tempo mestre escola – James Stewart – no 
“Oeste selvagem” no filme The man who shot Liberty Valance3). 
Seria preciso pensar bem programas mobilizadores das sociedades 
(não apenas descarregar sobre os professores) contra a falta de 
informação fundamental (cultura geral, orientação no mundo, 
coisas básicas e úteis, no sentido mais profundo de utilidade...) e 
contra a falta de sentido crítico, além de falta de formação ética. 
Este laxismo, este absentismo educativo, são também 
elitistas. Nem todas as crianças e adolescentes têm a sorte de ter 
exemplos claros e próximos de grande informação, de grande 
discernimento contra a propaganda e a consequente alienação. E 
nem sequer abundam oportunidades (em famílias onde, cada vez 
mais, os seus membros mal se veem entre si, pela premência de 
trabalho cada vez mais absorvente dos pais), de se poder aprender 
com óbvios e marcantes exemplos familiares de rigor e coerência 
éticas. Nem sequer um mínimo de boas maneiras, um mínimo de 
convivência social se está a passar aos mais novos. O desprezo pela 
3 John Ford, EUA, 1962 (filme cujo título tem sido deficientemente traduzido, 
por vezes). 
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
39
dignidade, liberdade, vida e pela propriedade alheias está a crescer 
em muitas sociedades. Isso repercute no Direito, claro. 
Com a Internet, facilmente se propalam erros, inverdades, 
confusões, ódios verrinosos, manipulações, ingenuidades, e se 
confisca tempo e disponibilidade para coisas que interessariam. 
Obviamente tem este Brave new world muitas coisas positivas, mas 
só para quem já sabe, como lembrou não muito antes de nos 
deixar o grande intelectual italiano Umberto Eco. 
Cremos que é necessária uma desperta preocupação das 
forças vivas, nos vários Países, com o futuro da Civilização "as we 
know it", como diriam os Ingleses. Há conhecimentos, valores, 
princípios, regras básicas que não estamos a passar de forma 
alguma às novas gerações. E não se acredite que eles vão poder 
inventar tudo de novo. Somos anões aos ombros de gigantes, como 
dizia o filósofo francês Bernardo de Chartres. O problema grave é 
quando não conseguimos saltar-lhes para os ombros... 
 
2.Bom Senso: Uma Apologia 
Boa parte das discussões que tanto inflamam alguns nos 
tempos que correm não seriam imagináveis sequer em tempos de 
maior realismo, de mais pés no chão, menor imprudência e 
fantasia tresloucada e vontade de inventar, de ser original, de ficar 
na História (sem capacidade e valor para tanto, porém). 
Alguns juristas foram tomados pelo vírus da “modernice” 
(não da Modernidade) e afanam-se a cogitar e propalar surpresas 
para épater le bourgeois, que normalmente estão cobertas de muita 
ingenuidade. Ainda que algumas não seja ao burguês que 
espantem, e outras possam parecer um pouco simplórias (e nem 
sequer sê-lo: há novidades rebuscadas, tortuosas). Não se pode 
Paulo Ferreira da Cunha
40
dizer que isso sejam tendências contemporâneas do Direito (ou da 
Política). 
 A colocação em prática de algumas novidades inicialmente 
entusiasmantes e generosas (como o próprio ativismo judicial e o 
neoconstitucionalismo, ao menos nas suas versões moderadas mais 
iniciais) não se está a revelar nem simples nem unívoca nos 
resultados. E em certas situações pode fazer lembrar esses tempos 
do Ancien Régime, em que se pedia a Deus que livrasse as pessoas 
da “équité des parlements”. E mais exemplos haveria... 
Recordemosas palavras de François Vallançon, remetendo 
aliás para Michel Villey: “(..) é menos juiz quem diz o Direito que a 
Justiça da sua sentença que faz dele um juiz. O judex latino remete-
se ao jus, à juridictio, à condição expressa de relacionar o jus e a 
jurisdictio à Justiça. Uma faca que não corta não é uma faca, diz 
São Tomás, frequentemente citado por Michel Villey. Da mesma 
forma, uma lei injusta não é uma lei. Igualmente, um juiz que não 
atribui a cada um dos seus concidadãos a sua parte, suum cuique 
tribuere, não é um juiz.”4 
No fundo, há muita razão no adágio que diz, na prática, a 
teoria é outra... 
Participar em muitas dessas discussões hodiernas sobre 
Direito, Política e Religião (tudo mesclado, para mais) seria em 
muitos casos colaborar com o desvio das questões realmente 
importantes, e correr-se-ia sempre o risco de provar que a 
insensatez por vezes anda de mãos dadas com a má educação e 
mesmo com a violência. Nestes nossos tempos agitados, há 
movimentos que parecem ser resgastes de causas mas que na 
verdade as tomam como pretexto para exprimir ódios, e ódios 
generalizados, assim como mera e pura vontade de poder. 
4 VALLANÇON, François — Philosophie juridique, Paris, Studyrama, 2012, p. 
386. 
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
41
Entretanto, os sonhos no Direito não se esgotaram, nem 
morreram. 
Pela democratização, por uma melhor Estado de Direito, 
por um sistema universal de Direito, pela Constitucionalização, 
continuamos a considerar que faria falta um Tribunal 
Constitucional Internacional, em geral após esgotados os recursos 
internos e regionais, quando os haja5. É uma das bandeiras 
concretas em que se traduz o novo Direito Fraterno Humanista. 
E ao nível de todo o Direito, desde logo o nacional, faz 
realmente falta um novo paradigma, que se suceda ao objetivista 
dos Romanos e ao subjetivista tardo-medieval e moderno, que 
imperou até que os Direitos Humanos começariam a justamente 
perturbar a dogmática tradicional da teoria geral da relação jurídica. 
O ideal seria um novo Direito mais humano em si mesmo, mais 
humanista, mais fraterno, e não, como dizia o jurista que se tornou 
poeta Teixeira de Pascoaes, “do aço frio das espadas”. 
São projetos confluentes: o Direito Fraterno Humanista ao 
nível macro-, constitucional universal, terá a sua concretização no 
Tribunal Constitucional Internacional. Mas ao nível micro- há um 
sem-número de mudanças a empreender. Não com o desejo de 
posar para a História, mas com muita prudência e conhecimento 
da realidade, dessa mesma História, das verdadeiras e poderosas 
leis sociais... sondando a natureza humana… 
Tempos como os que correm estão maduros para 
efabulações sem os pés na terra e, ao mesmo tempo, regressos ao 
passado desesperados, dos que se sentem, precisamente, a perder 
o pé nesta hora, tais as fantasias que lhes são vendidas. É o
pendular movimento entre excessiva mudança, mudança sem
5 V. BEN ACHOUR, Yadh / FERREIRA DA CUNHA, Paulo — Pour une
Cour constitutionnelle internationale. Oeiras, A Causa das Regras 2018. 
Paulo Ferreira da Cunha
42
prudência, de um lado, e excessiva cristalização e passadismo 
saudosista, do outro. 
A Prudência, grande virtude dos juristas, que é irmã do 
Bom Senso, exige imaginação e tradição, “raízes e asas”. 
E a Universidade tem aí um enorme papel. Não pode ser 
um mero museu cristalizado de velharias mortas, nem um comité 
borbulhante de reivindicações inconsequentes. Mas não pode 
deixar de contribuir, dentro das suas formas próprias, para 
preservar legados e fazer fermentar futuros. Um são equilíbrio 
entre as diversas dimensões, os diferentes tempos, as várias 
propostas, servido pelo pluralismo e pelo respeito e ordem 
democráticas e académicas, parece ser essencial para, em tempos 
agitados, se encontrar na Universidade um local de convivência 
elevada e mutuamente respeitadora, em que o diálogo 
fundamentado em scientia, permita que se faça mais luz nos 
debates. Mas tal, evidentemente, se se conseguir imunizar a 
academia a tendências banalizadoras e ideologizantes primárias 
(algumas encobertas de tanta coisa, mas que o são) que como força 
da gravidade empurram todas as realidades em que tocam para 
baixo. Já Adorno, na Minima Moralia6, advertia que basta uma 
pessoa para que uma conversa baixe de nível sem apelo nem 
agravo. E as consequências disso? Terríveis, na Universidade… 
A manutenção do espírito universitário não é fácil, e a 
permeabilidade do Direito a outras propostas hoje cada vez mais 
sedutoras e que falam muito alto nas ágoras e calam muito fundo 
nos corações não ajuda à separação das águas. 
Pode-se até falar em colonização do jurídico pelo político, o 
religioso, e o simplesmente sentimental, anímico, subjetivo, 
passional. Só se recuperará da anomia ao menos latente (mas que 
6 ADORNO, Th. W. — Minima Moralia. Reflexionen aus dem beschaedigten 
Leben, Berlim / Francoforte, Suhrkamp, ed. 2001 (1.ª ed.1951). 
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
43
vai pontualmente ao menos emergindo) se se reencontrar o 
necessário isolamento (Isolierung) que, na verdade, significa 
autonomia do Direito. Mas agora tendo compreendido tudo o que 
se passou entretanto. Não uma fuga para um deserto isolado, mas 
uma redefinição do seu papel, que continua, uma coisa é certa, a 
ser de intérprete, de tradutor, de pontífice (construtor de pontes, 
de diálogos, de entendimentos)... que para todos compreender e 
entre todos mediar necessita de se encontrar a si mesmo. 
O Direito não pode isolar-se, de forma alguma, em tempos 
de pós-disciplinaridade (Gonçal Mayos7). Mas a sua abertura deve 
ser aduaneira. Tudo pode passar desde que obtenha passaporte e 
tenha visto de entrada. Há que submeter ao menos à razão jurídica 
outras propostas que seriam mero diletantismo ou sublevação… 
O Direito tem um valor intrínseco. Infelizmente, há 
graduados em Direito, que não gostaram nada de Direito, mas 
agora parece poderem aproveitar tempos de carnavalização do 
jurídico. É preciso um especial discernimento para apartar as águas 
da mistificação da genialidade de desafios pós-disciplinares… 
 
3.Preconceitos 
É verdadeiramente assustador o peso que o senso comum 
tem na vida das pessoas, e para mais um senso comum que não é 
common sense, não é bom senso, é apenas corrente, muito 
difundido, e bastante alienado. 
Que o homem da rua dite os seus pensamentos e 
sentimentos pelo que lhe debita a comunicação social popular e 
quantas vezes manipuladora (ainda que não necessariamente 
partidária, mas alinhando pelo mainstream do consumismo, 
7 MAYOS SOLSONA, Gonçal — Empoderamiento y Desarollo Humano. 
Actuar Local y pensar Postdisciplinarmente. In Postdisciplinariedad y Desarrollo 
Humano. Entre 
Pensamiento y Política, Ed. de Yanko Moyano Díaz / Saulo de Oliveira Pinto 
Coelho /Gonçal Mayos Solsona, Barcelona, Red, 2014. 
Paulo Ferreira da Cunha
44
materialismo, hedonismo, demagogia, etc.) deplora-se muito, sabe-
se que pode vir a causar problemas a prazo (nomeadamente de 
perigo para a democracia) e já está a matar a cultura, a 
espiritualidade, o suplemento de alma da maioria das pessoas, 
verdadeiramente formatadas. Mas, deplorando-se, sabe-se que 
assim tem de ser e será enquanto as forças vivas da sociedade não 
fizerem um combate cultural e espiritual, e os governos 
democráticos e dos Estados de Direito (ao menos esses) não 
deitarem mãos à tarefa de uma verdadeira e sistemática educação 
cívica. E na verdade (não tenhamos medo das palavras) ética (ou 
moral) e cívica. Não para moralismo e doutrinações, mas para 
robustecer a compleição republicana das pátrias. Sem isso, cultos 
simbólicos a hino e bandeira, discursos pomposos, e coisas 
análogas arriscam-se, essas sim, a ser superficialidade sem contexto 
e sem conteúdo, banalização ritualística comemorativista, se não 
mesmo museológica e fúnebre. 
Essa questão está esclarecida. Mas o que dizer dos jovens 
estudantes, que passaram toda a vida nas escolas,e que, chegados à 
Universidade, e mesmo estando a meio dela ou tendo-a já 
frequentado (até Direito, e por quatro ou cinco anos, 
eventualmente mais para mestrados, etc.), reproduzem alegremente 
as coisas que todo o mundo pensa, sem verdadeiramente sobre elas 
ter refletido minimente? 
A colonização mental e a falta de sentido crítico são 
gritantes. E assim as massas, em que se inclui essa que deveria ser 
uma elite ou pré-elite (no bom sentido, não no sentido de 
oligarquia) dos estudantes (e dos professores, tantas vezes – 
obviamente num e noutro caso com nobres exceções), vão vogando 
ao sabor dos opinion makers, e do bricolage mental que é a 
autoformação num pântano de poluição comunicativa e 
desinformação, tantas vezes. 
Pensa-se muito por lugares-comuns, por chapas, por 
clichés, que não correspondem realmente à complexidade e 
matizes da realidade. Para os docentes que não leram pela cartilha 
de todo o mundo, que sabem um pouco mais, chega a ser 
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
45
desalentador verem-se como anões e de espada de pau (bem mais 
frágil que a de António Sérgio) perante uma montanha de 
preconceitos, de falsas ou truncadas informações, todas elas 
eriçadas dos espinhos do sentimentalismo à flor da pele… 
Um dia pusemo-nos a pensar quais seriam os principais 
preconceitos da nossa sociedade. E demos connosco (deformação 
de constitucionalista) a ir direto à Constituição da República 
Portuguesa, e ao artigo que fala nas discriminações proscritas 
constitucionalmente: “Artigo 13.º (Princípio da igualdade) 1. Todos 
os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei. 
2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, 
privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão 
de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, 
convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, 
condição social ou orientação sexual.” 
Embora sejam apenas exemplificativas, elas explicam muitas 
das razões que, sem razão, se plantam na cabeça e nos corações de 
pessoas (de uma forma ou de outra) vulneráveis mental e 
espiritualmente, dando por vezes lugar até à prática de crimes, no 
limite. No geral, são obstáculos de monta a uma cabeça 
desnublada. Embora haja também que ter muito cuidado com o 
inquisitorialismo da correção política, que gosta de arranjar novas 
bandeiras de luta, de uma nova ideologia, totalitária em grande 
medida, encontrando novos bodes expiatórios: os que fumam, os 
gordos, os omnívoros, e sabe-se lá que mais… Possuídos de um 
novo puritanismo sanitarista, higienista, securitário, e com clara 
predileção de uns grupos frente a outros, perdendo a ideia de 
República e de comunidade em geral (desde logo de Nação, Pátria, 
Cultura, Civilização, Humanidade…), jogam em todo o tipo de 
proibições, interditos e novos “pecados” laicos (e laicistas por 
vezes) para uns, e discriminações positivas para outros. 
Não se nega que não tenham razão em certas denúncias de 
iniquidades passadas e atuais. E há casos e casos. A sensibilidade e 
a circunstância de cada um reagem diversamente à luta contra os 
Paulo Ferreira da Cunha
46
casacos de peles de animais, ou à proibição das toiradas ou de 
fumar. Ou a pressão para se falar e escrever de forma nova. 
Há graus, há perspetivas, há dimensões diferentes, 
naturalmente. Mas deve registar-se é que estes movimentos 
modernos, ou pós-modernos, melhor dizendo, as mais das vezes 
desenraizados cultural e historicamente (não se defende que a 
tortura a animais ou excisões e afins sejam admissíveis por tradição: 
de modo algum se trata disso), contribuem para a criação de uma 
mentalidade militante nova, desamparada de outras dimensões, o 
que é terreno úbere para extremismos. Do mesmo modo, mas 
noutra clave, não se pode lutar consequentemente pela vida 
colocando bombas em clínicas abortistas. E sabemos que um 
radicalismo leva ao seu contrário. 
O concurso de todos esses clamores, que agem com a 
indignação dos escandalizados prontos a rasgar biblicamente as 
vestes, e com a sanha das inquisições, num discurso agressivo e 
culpabilizador, que intimida todos e apavora os mais timoratos, cria 
um clima de guerra civil sui generis em que a parte visada não 
consegue sequer defender-se, pois isso equivaleria a confissão de 
uma culpa sem remissão... 
Os preconceitos mantêm as pessoas dentro de pesados e 
sombrios casulos. Imagine-se o que será um jurista (por exemplo, 
um juiz que tem de julgar imparcialmente) enredado numa teia de 
ideias feitas e falsas sobre grupos, pessoas, atitudes. É muito 
importante distinguir valores, princípios (que devem nortear a vida 
das pessoas) de meros antolhos, que prejudicam uns e favorecem 
outros, ilegitimamente. E acresce que o jurista, e muito em especial 
o juiz, também nem sequer pode, na melhor das intenções, julgar 
de acordo “com a sua consciência”. A sua consciência é 
frequentemente posicionada. Há que fazer um trabalho hercúleo 
de, obviamente sem renegar as suas convicções, todo o julgador, 
todo o decisor (por exemplo no governo, na administração pública, 
no mundo dos negócios…), ser capaz de alguma visão panorâmica, 
conversável e convivencial, pluralista. 
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
47
Não se trata de um simples ecletismo ou irenismo e muito 
menos de tibieza. Trata-se de ser capaz de decidir, e no limite de 
julgar, desde logo com os parâmetros objetivos da lei, do direito 
vigente, etc. Mas de fazê-lo também com atenção à pluralidade de 
formas de vida, de convivência, de enquadramento. Pode haver 
várias vias de legalidade e de se ser justo, tal como na Casa do Pai 
há várias Moradas8. Em todo o caso, em nenhuma delas reside o 
ódio, o sectarismo, o dogmatismo, a violência, a exclusão, o 
favoritismo, o mal que as pessoas se fazem umas às outras “por 
pensamentos, palavras, atos e omissões”, por causa, afinal, 
simplesmente, das suas diferenças. 
Preconceito ou prejuízo, como se dizia antes, é um conceito 
apressado ou um juízo prévio, antes de se dar a voz a quem vai ser 
apreciado. Ora um dos principais princípios jurídicos é o de ouvir 
as partes, e mais especificamente o interessado, antes de se decidir. 
 
4.Introduções ao Direito e alienação 
O estudo do Direito é uma das formas de desvendamento 
da realidade institucional em que vivemos. Compreender bem o 
Direito, o seu sentido, o seu papel, é um caminho importante para 
não se viver na alienação, que hoje tanto nos aflige e que poderá 
perder a nossa própria Civilização, que tem dificuldades em 
defender a sua excelência face a cantos de sereia de barbárie. O 
Direito é uma enorme razão de orgulho para a Humanidade. 
Prescindir dele, ou do seu mais alto expoente até hoje, os Direitos 
Humanos (como diz Francisco Puy, eles são a linguagem moderna 
do Direito Natural) seria um recuo para tempos de barbárie. Amar 
o Direito e defendê-lo obriga, assim, a que se conheça bem. 
Reflitamos de seguida um pouco sobre o que estamos aqui 
mesmo a fazer, com este livro. Pensemos sobre a diversidade dos 
estudos de introdução ao Direito. 
8 ÁVILA, Santa Teresa de — Moradas, trad., introd. e notas de Manuel de 
Lucena, Lisboa, Assírio & Alvim, 1988. 
Paulo Ferreira da Cunha
48
Há muitas formas de começar a estudar o Direito. Sob a 
designação genérica de "Introduções ao Direito”, mas podendo 
comportar um sem número de variantes (Noções gerais de Direito, 
Propedêutica Jurídica, Instituições de Direito, etc.), se abriga uma 
multidão imensa e multímoda de trabalhos, cuja similitude única 
parece ser andarem em torno dessa entidade chamada "Direito" e 
poderem ser incluídas em tão desconexo "género literário"9 . 
O grande problema é que uma introdução ao Direito tanto 
pode ser alienante como contribuir para o desvendamento e a 
compreensão das realidades. O Direito é, como bem referiu João 
Baptista Machado, um discurso legitimador. E pode passar a ser 
um discurso alienante. Cumpre desde logo às Introduçõesao 
Direito não dar a quem as lê ou as cursa falsas expetativas ou 
ilusões sobre a realidade do Mundo e do Direito. 
A nossa própria experiência docente também nos 
confrontou já com semelhante disparidade, comprovadora do 
carácter proteiforme da matéria em apreço. Por circunstâncias 
várias solicitado a lecionar em três diferentes escolas de Ensino 
Superior, com estudos dirigidos todos a alunos de formação básica 
idêntica e com perspetivas profissionais não muito distanciadas, 
fomos deparando com a singular situação de estar perante cadeiras 
introdutórias aos estudos jurídicos que não comungavam sequer no 
nome, e muito menos no conteúdo programático... Todas elas 
estavam bem pensadas, assentes nos respetivos fundamentos e 
possuíam indesmentível interesse e grande utilidade para os alunos. 
Simplesmente eram absolutamente diversas. Como quem faz um 
programa de docência ou um livro de iniciação jurídica nele 
espelha a sua formação, a sua experiência, o que pensa ser o mais 
9 Cf., por todos, MOULY, Christian — Crise des introductions au droit, in 
"Droits - Revue Française de Théorie Juridique", n.º 4, 1986, p. 99 et sq. Neste 
livro temos pressuposta a distinção Jurisprudence (ciência do direito – mas que 
por vezes pode ser Filosofia do Direito também) da Legal theory (teoria do 
direito}, tratando grosso modo aquela das instituições particulares da ordem 
jurídica, e debruçando-se esta sobre a malha conceitual básica que define o 
Direito face a outros fenómenos sociais e institucionais. 
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
49
importante para essa iniciação, vão ser necessariamente diversos os 
livros e as disciplinas. 
Introduzir ao Direito ou "o Direito" é tarefa deveras árdua, 
ingrata, sujeita a mil escolhos e apta a suscitar um rol de maçadas 
senão mesmo desgostos e desilusões. O que superiores, colegas de 
docência e alunos esperam de uma tal tarefa de Hércules é muito 
diferente, e se a cada cabeça não corresponderá uma sentença, daí 
andaremos muito perto. 
Uns acham que o ABC do Direito é a sua filosofia sem a 
qual nada fará sentido; outros, que tal necessariamente passa pela 
Política inspiradora ou mestra do jurídico, ou pelo Direito 
Público, a começar pelo Constitucional, o primeiro da pirâmide 
normativa; outros, ao contrário, querem o Direito Privado, o 
primeiro a constituir-se, o mais tecnicamente apurado, o que seria 
mais útil no dia-a-dia (mas outros ainda creem que já não é o 
Direito Privado o mais corrente, antes sê-lo-ia o Direito 
Administrativo); outros ainda, defendem o Direito Penal, o qual 
faz vibrar os corações e mais sublinha os grandes problemas 
éticos; outros mais desejam sobretudo metodologia jurídica geral; 
outros estudo de legislação concreta; e mais outros querem uma 
mescla de tudo isto, ou até algo de novo... Há para todos os 
gostos. 
Impossível contentar toda a gente. Fútil procurar 
compatibilizar os frutos de correntes já secularmente desavindas. 
Cada um apresenta o que conhece, ou julga conhecer, e 
disso dá a sua imagem pessoal — a menos que plagie. As 
justificações existem: cada um vê numa faceta do Direito, ou no 
ângulo que dele a sua visão pode ou quer abarcar, o mais relevante 
e o mais útil de tal disciplina. Por isso, depois se apressa a enaltecer 
a sua própria opção. 
Qual é a nossa? Nada melhor, seria para responder, que 
iniciar já a leitura das laudas seguintes. Mas à guisa de cardápio, 
Paulo Ferreira da Cunha
50
diremos desde já que preferimos o que consideramos mais sólido e 
substancial aos paladares efémeros, em que só se saboreia e nada 
se digere. 
Este livro é, pois, a síntese de um conjunto de reflexões 
destinadas sobretudo a alunos, e a quantos, interessados pelo 
Direito, dele não queiram ficar com a caricatural visão de uma lista 
de características das normas jurídicas ou um catálogo de artigos 
de leis que mudarão já a seguir (se não se encontram mesmo 
revogadas no entretanto). 
Pretende assim este volume ir desvendando o que no 
Direito poderá existir de mais essencial e estável, sem esquecer, 
evidentemente (mas sobretudo na perspetiva técnica — de treino — 
e exemplificativa), alguns aspetos do mesmo datados e atuais, 
vigentes, que se revelem de particular relevo para quem se inicia no 
Direito. 
Pensamos especialmente numa obra de Direito distanciada 
de preconceitos etnocêntricos da disciplina (e de outros 
preconceitos), embora, como será natural, não tivéssemos de 
certeza escapado à deformação própria da espécie. Também 
concebemos estes escritos especialmente para quem não tenha 
formação jurídica prévia. Contudo, suspeitamos que não fizemos 
mero exercício de repetição do consabido, havendo espalhadas 
pelo texto decerto algumas coisas relativamente novas, tanto quanto 
podem ser novos textos de anões, embora se pretendam aos 
ombros de gigantes. 
 
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
51
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Parte II 
Fenomenologia: 
Imagens e perspetivas do Direito 
 
Sumário: 
Capítulo I 
O Direito: Imagem profana e omnipresença quotidiana 
Capítulo II 
O Direito: imagens e visões intelectualizadas 
Capítulo III 
O Direito: perspetivas intra-jurídicas 
 
53
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo I 
O Direito: Imagem profana e omnipresença quotidiana 
1.Imagem profana: imperatividade e coercibilidade
Se perguntarmos a um leigo em matéria jurídica o que entende 
por Direito, que resposta obteremos? 
Cremos que, ao procurar satisfazer a nossa curiosidade, irá 
acentuar sobretudo aspetos ligados inegavelmente ao problema, tais 
como os de ordem, comando e também, como reverso da 
medalha, os de coercibilidade (suscetibilidade de sanção a aplicar 
caso os comandos ou ordens não tenham obtido o devido respeito 
ou acatamento, caso sejam violadas as regras de conduta impostas). 
Assim, se procurássemos caracterizar o Direito pelas suas 
normas, e, nestas, estabelecer as principais características que as 
definam, obteríamos desde logo, na sua apreensão pelo homem 
comum, uma visão distorcida da realidade do jurídico. As 
características da imperatividade e da coercibilidade seriam decerto 
as mais notadas. Vê-se o Direito sobretudo como um ordenar e um 
ordenar "armado", cujo incumprimento em princípio não fica 
impune. 
2.Ponto de consciencialização jurídica:
a violação do Direito 
É na altura em que surgem violações da ordem jurídica, 
perturbações na vida dos indivíduos causadas por outros 
indivíduos, enfim, questões de "patologia jurídica'', que (tal como 
55
sucede com Santa Bárbara, padroeira das trovoadas) nos 
lembramos do Direito, consciencializamos uma existência até aí 
surda, pressuposta, e o chamamos a resolver a questão que nos 
atormenta, ou procuramos furtar-nos às suas consequências, se 
formos os responsáveis (ou como tal tidos) pela rutura com a 
ordem estabelecida. Quando alguém sente que foi violado um seu 
direito, ou quando se vê obrigado a cumprir determinadas regras 
específicas, com obrigações muito concretamente a si dirigidas, 
num dado tempo e lugar (por exemplo, declarar os seus 
rendimentos, pagar os impostos que lhe incumbem), vive 
agudamente a presença do Jurídico. Não que este se não manifeste 
(ao menos como pano de fundo, ou entidade tutelar) noutras 
ocasiões; mas será naquelas que é positivado, que incarna, 
impondo uma regra. 
 
3.O Direito protetor: a ordem jurídica 
O Direito não existe apenas com esse lado, por assim dizer 
menos simpático, de exigência, proibição ou imposição. Também 
age como malha protetora. De facto, o mesmo cidadão que pode 
protestar contra a subida dos impostos clamará decerto indignado 
com o estado das estradas, e mais ainda se insurgirá caso a Polícia 
lhe não proteja a propriedade por que é tributado. 
O Direito, qual deus Jano de duas faces, só existe com essa 
dupla faceta: onde está a comodidade, aí também o incómodo (ubi 
commoda, ibi incomoda). Por outro lado, além deste aspeto 
agridoce do jurídico,e até por essa característica dúplice, ele 
encontra-se quase por toda a parte, e por isso muitas vezes só se vê 
quando é procurado, quando se sente a sua falta. Alguém disse que 
mais de metade dos argumentos dos filmes são jurídicos. E, 
pensando bem, pergunta-se até se essas contas não estarão 
depreciadas para o lado do Direito. 
Paulo Ferreira da Cunha
56
 
4.lnfração, Ação e Direito 
Antes do direito de propriedade de Abel ter sido violado 
por Beltrão, já o primeiro tinha a propriedade do seu bem — já 
lhe estava o Direito atribuindo (ou reconhecendo) a propriedade, 
e só por este facto é que ele, uma vez dada a dita violação, tem uma 
palavra a dizer quanto ao ressarcimento do seu dano, ou à 
reivindicação do seu bem. O Direito não estaria cumprindo a sua 
função — suum cuique tribuere, atribuir a cada um o que é seu — se 
não munisse o titular de um direito de mecanismos para o tutelar 
ou proteger. Tal era o que sucedia já em Roma: quem tem um 
Direito, tem possibilidade de interpor uma ação; quem pode 
propor esta possui necessariamente um Direito (actio vale jus, e 
vice- versa)10. 
Estes dois exemplos têm algo em comum: o daquele que 
só vê o lado positivo e protetor do jurídico quando este falta, e do 
outro que ignora o Direito salvo quando o seu direito é violado, 
assemelham-se a quantos só prezam o valor da saúde em tempo de 
doença. A ordem, a justiça, e todos os sacrifícios, limitações e 
incómodos que lhes são inerentes, acabam por ser um preço bem 
razoável comparado com a situação inversa, da sua violação. 
 
5.Imperatividade, infração e sanção 
Voltemos a Abel e Beltrão. É claro que se o relógio de 
Abel foi destruído por Beltrão e aquele interpõe uma ação contra 
este, é porque a aquisição do direito de propriedade por Abel 
implica para todos os demais um dever (geral) de abstenção — a 
chamada ''obrigação passiva universal" (que será um elemento 
10 Cf., todavia, as obrigações naturais (como as dívidas de jogo) - art.º 402 et sq. 
C.C., que são uma exceção à regra. 
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
57
importante do paradigma jurídico em que ainda vivemos, o do 
direito subjetivo). 
No fundo, Abel, mesmo que tudo desconheça da Ciência 
Jurídica, sabe isso, sabe que pode exigir um tal respeito pela sua 
propriedade. Porventura não pensa nesse direito, nem nos poderes 
que ele implica, muito menos nos seus fundamentos, e menos 
ainda nas formas de sua garantia até ao momento preciso em que 
Beltrão resolveu danificar-lhe o seu bem. Também com toda a 
probabilidade não pensara em Direito aquando da compra do 
mesmo: não pensara que ao comprar o seu relógio celebrava um 
contrato, também ele protegido juridicamente. Bastava não ter 
pago o preço, ou que o ourives (pressuponhamos que o comprou 
num ourives...) lho não tivesse entregue, e aí de novo estaria a 
violação, e a representação da sua existência. Sempre, nestes casos, 
ou o problema da imperatividade (pagarás o imposto), ou o da 
sanção (se danificares, indemnizarás). 
 
6.Omnipresença quotidiana do Direito 
Por aqui já vemos como o Direito se encontra no nosso dia-
a-dia, nos atos mais simples (e até rotineiros). Quando entramos no 
autocarro e obliteramos o bilhete, quando cumprimos os sinais de 
trânsito (como peões ou automobilistas...), quando, no bar da 
Universidade, pedimos um café, ou na secretaria (ou pela Internet) 
pagamos as propinas... 
Mas quem é que, ao pedir o café do costume, pensa estar a 
fazer uma proposta contratual, e ao lhe entregarem a chávena bem 
quentinha, mediante o pagamento de uns cêntimos, reconhece ter-
se assim cumprido o contrato? Quem nesse momento reflete sobre 
o facto de a aceitação da proposta ter sido tácita (com a entrega do 
Paulo Ferreira da Cunha
58
café, sem que o empregado previamente declare aceitar), e 
coincidir com o cumprimento da prestação devida? 
Por outro lado, quem é que, cantarolando no quarto de 
banho uma bela ária de ópera, cuida estar também protegido e 
tocado por questões jurídicas? E, todavia, está-o. Protegido na 
sua privacidade, na sua liberdade de expressão (artística?), e 
realizando uma atividade só possível pela prévia conclusão de 
variadíssimos contratos : com as companhias das águas, de gaz 
e/ou eletricidade, e o contrato de arrendamento ou compra e 
venda da sua residência, para não falar em contratos de 
menor vulto, como os de sabonete, champô, ou sais de banho. 
Nem no mais escondido recanto de sua casa, "do seu Castelo", 
escapa o Homem a tão omnipresente realidade. 
Em todos estes casos, eis o Direito: protegendo, 
organizando, instituindo regras de conduta de acordo com 
princípios mais gerais (no limite, a ideia de Justiça). Nestes casos, 
mais especificamente, a liberdade contratual e a necessidade de 
contrapartida nos contratos sinalagmáticos (bilaterais, de mútuas 
prestações). Porém, se bem virmos, já por daqui resulta como 
podem os princípios ter exceções. Se ninguém é obrigado a 
consumir café, nem (no limite, certamente) sequer a instalar água 
ou luz em sua casa, há, contudo, uma grande diferença entre estes 
contratos. Se não gostarmos do café do bar da universidade, vamos 
ao estabelecimento mais próximo. Mas se a composição química 
da água da companhia que nos fornece a casa nos provocar 
alergias, não temos muito por onde escolher. Por outro lado, no 
dito café ao lado da Universidade se formos fregueses assíduos e 
simpáticos, talvez nos venham a fazer desconto; mas os contratos 
de adesão, feitos com as mesmas cláusulas e para toda a gente pelas 
companhias públicas ou monopolistas, não se comovem com os 
nossos lindos olhos. Embora, em casos de fidelização de contratos 
de telecomunicações, haja por vezes pacotes de serviços mais ou 
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
59
menos negociáveis, com o intuito de ganhar da concorrência... 
Felizmente em alguns casos há-a. 
 
7. O Direito "discreto": reconhecimento de direitos, bom 
senso, natureza das coisas 
O Direito tem uma importante dimensão de fisiologia, 
normal funcionamento, para além da patologia, perturbação no 
corpo social. Por isso é que consegue, numa omnipresença 
discreta, comandar, e até impor, sem excessivamente incomodar. 
Mais ainda: porque é sensato, porque se guia pelo bom senso, e 
não pretende fazer das pessoas heróis, nem santos, nem sábios, 
limita-se muitas vezes a estabelecer o que o comum das pessoas 
aceita como natural, e naturalmente pratica já. 
Não sendo um simples batismo jurídico das práticas 
sociais (o que poderia levar a que condutas injustas, mas muito 
expandidas socialmente, fossem tidas como Direito), o Direito, 
essencialmente cumprido, numa boa medida efetivo e eficaz, está 
basicamente de acordo com a natureza das coisas e a prática 
quotidiana das pessoas. Por isso o seu cumprimento é mais comum 
que o incumprimento, apesar de a comunicação social alarmista 
enfatizar, naturalmente, as violações, os crimes, etc. 
 
8.O Direito reconhecendo direitos e o Direito 
estabelecendo papéis 
Se, no caso de Abel e Beltrão e no do cantor de chuveiro, 
estavam em causa direitos reais (das coisas, de propriedade), e 
obrigacionais (de prestações), e ainda a tutela geral de liberdades, 
direitos, garantias, há casos em que ressalta uma outra faceta do 
Direito: este, para além de reconhecer ou impor direitos e deveres, 
Paulo Ferreira da Cunha
60
define papéis, estatutos: professor (ou aluno), pai, mãe (filho ou 
filha). etc. O que de novo reconduz, é claro, a direitos e deveres, 
mas tem uma dimensão mais institucional que cria uma nova 
“personalidade” para as concretas pessoas envolvidas, e especifica 
os seus vínculos ou relações jurídicas. O Direito determina 
estatutos pessoais, por relações de família, laborais, políticas, etc., 
os quais são essenciais nos papéis desempenhados por essas 
pessoas nessas circunstâncias ou facetas das suas vidas. O 
comportamento de Anacomo ao mesmo tempo mãe, filha, irmã, 
cônjuge, é um, tem contornos determinados, o da mesma Ana 
como advogada tem outros, o dela como membro da Assembleia 
municipal da sua terra, outros ainda... É a mesma pessoa, mas tem 
estatutos diversos, que possuem todos maior ou menor pormenor 
jurídico determinado pela ordem jurídica em que se insere. 
Nos nossos dias, com múltiplos estatutos que cada um de 
nós tem, cada vez mais exigentes, com cada vez mais obrigações, é 
complicado, desgastante, extenuante, em alguns casos 
verdadeiramente impossível, desempenhar bem todos os eles, e 
conseguir não estar pelo menos em falta em nenhum dos papéis 
que se têm de desempenhar. Sobretudo se torna 
civilizacionalmente grave esta situação, porque o Direito não está a 
conseguir proteger as pessoas na sua privacidade e nos seus 
estatutos de pessoa não apenas laboral das intromissões 
omnipresentes da sociedade da informação e as suas tentaculares 
formas de contacto e convocação. Ana é permanentemente 
acordada a altas horas da noite por clientes aflitos que querem 
saber novidades do seu processo... Mas há trabalhadores que são 
levantados da cama pela voz omnipresente do patrão (ou do 
capataz ou afim) no telemóvel quando ele acha que há trabalho 
urgentíssimo na fábrica a fazer “para ontem”. 
Assim, a dimensão simplesmente laboral da pessoa está a 
sobrepor-se (perante um Direito agora tímido nessas matérias) a 
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
61
todas as outras, com perdas significativas no plano da família, dos 
afetos, da cidadania, da cultura, e obviamente do puro lazer... Tal 
acaba por criar pessoas unidimensionais, empobrecidas, 
funcionalizadas, robotizadas... o que é um risco para a própria 
humanidade. E quando chega o momento de votar, é natural que 
não haja informação e sentido crítico para o fazer bem. O perigo 
dos populismos, demagogias, e afins é real, porque é a massa que 
vota, não o cidadão consciente e com uma existência individual, 
com cultivo do espírito e da mente, com capacidade crítica e não 
meramente laboral e, no máximo, para alguns, consumista. 
 
9.O Direito: Facetas e Representações 
Em conclusão: Imperatividade e coercibilidade são as 
características do jurídico mais notadas pelo homem comum. 
(Veremos ainda adiante quanto tal visão tem de limitador e até 
erróneo). O Direito, porém, com múltiplas facetas, impregna o 
quotidiano de todos, não só impondo e proibindo ou sancionando. 
Reconhece e atribui Direitos, previne conflitos, estrutura o todo 
social. Este aspeto preventivo do Direito (disciplina a que Delfim 
Santos chamou a "Medicina da Cultura") é, de facto, bem menos 
apercebido que esse outro, da violação e da prescrição, isto é, do 
diagnóstico e da terapêutica, quando se entra numa situação " 
patológica" . 
 
10.Visões profanas do Direito e características da norma 
jurídica 
Como veremos aquando do tratamento das características 
da norma jurídica, costumam assinalar-se-lhe as de 
imperatividade, coercibilidade, generalidade (e abstração), 
Paulo Ferreira da Cunha
62
violabilidade, hipoteticidade, e ainda, em alguns casos, algumas 
outras. 
Veremos como se encontram em crise diversos destes 
caracteres. Para já, importa compreender as razões que deverão ter 
levado às ideias correntes que sublinhámos, para as quais o mais 
impressivo nas normas jurídicas, e portanto no Direito, são 
os momentos imperativo e o coercitivo. 
Cada destinatário concreto de uma norma, dela tem, antes 
de mais, a perceção sobretudo no momento de a violar, ou quando 
outros infringem uma norma que o protegia a si. Por outro lado, os 
advogados e quiçá sobretudo os juízes e procuradores conhecem 
bem essa autêntica situação de cegueira de cada um dos atores da 
Justiça vendo apenas o seu lado, a sua versão dos acontecimentos, 
os seus interesses. De facto, de uma maneira geral, ante a violação 
de um nosso direito, temos tendência a nada mais ter diante dos 
olhos senão esse mesmo direito, pouco ou nada nos importando as 
atenuantes ou até a falta de culpa de quem objetivamente nos 
prejudicou. Veja-se, apenas como exemplo, o que sucede em quase 
todos os acidentes de viação: parece que muitas vezes ninguém 
reconhece ter culpa. Ora, com esta perspetiva pessoalista dos 
direitos e do Direito — o que nos deve individualmente defender, 
ou então o que a nós diretamente ataca ou visa (no caso de sermos 
nós os demandados, quer se trate de uma obrigação fiscal, quer 
sejamos réus de Direito Penal) — vê-se, como se disse, o 
imperativo e a sanção. Não se tem o distanciamento necessário 
para pensar nas demais características do jurídico. 
Deste modo, se a norma visa todos os casos com uma dada 
configuração factual (abstração), ou se se destina a todas as pessoas 
que sejam protagonistas de determinados factos, ou se encontrem 
em certa situação (generalidade), assim se desenhando não um 
comando individual e concreto, mas de algum modo ficcionado 
(hipoteticidade), tal não é em primeira análise captado ou 
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
63
apreendido por quem se vê no concreto e pessoalmente tocado 
pela norma e pela sua sanção. Igualmente, ante a necessidade de 
não infringir, ou de se punir o infrator, não passa muito pelo 
espírito do sujeito de Direito concretamente tocado por este, 
que as normas jurídicas não sejam forças irreprimíveis, ante as 
quais a nossa vontade se paralisasse, sem qualquer poder de 
resistência e opção. Se, muito pelo contrário, a liberdade da 
Pessoa (que em certos casos classicamente assumia a forma de 
“livre arbítrio”) é um dos principais fundamentos do Direito, e sem 
ela seria injusto ou absurdo, por exemplo, responsabilizar ou punir 
(pelo menos numa visão retributiva), tal não é desde logo visto. E 
de facto, a norma jurídica é violável — cabendo aos seus 
destinatários a opção pelo cumprimento, com o eventual 
desprazer de não fazerem o que pretendiam (ou fazerem o que 
não desejavam), ou a escolha do incumprimento, sob pena de 
virem a sofrer a sanção cominada para a sua infração. Ora este 
aspeto é (inconscientemente) sabido, mas muitas vezes — as mais 
das vezes — não consciencializado enquanto elemento de 
caracterização do Direito. 
Paulo Ferreira da Cunha
64
 
Capítulo II 
O Direito: imagens e visões intelectualizadas 
 
1.Da imagem profana do Direito às visões intelectualizadas 
exógenas 
Como vimos, na maioria dos casos, o grau de 
permeabilidade à realidade "Direito" não é muito elevado. Quando 
se deteta, é sobretudo sob certos aspetos mais interpelantes. Mas, 
nos casos até aqui considerados, era sobretudo a realidade jurídica 
como facto a estar em causa. E que dizer do jurídico enquanto 
disciplina, "ciência", arte, técnica, forma de pensamento, ou valor? 
Isto é: que se pensa do Direito não já ao nível da sua presença 
através de individuais normas jurídicas, da sua imediatidade, mas 
enquanto sistema, método, complexo normativo? Enfim, que se 
pensa do Direito ao nível intelectual e do espírito, e quais as visões 
mais intelectualizadas do jurídico? Ainda aqui há regras e exceções. 
Porém, uma análise simplesmente "sociológica" não andaria muito 
longe de ainda profundas incompreensões. 
Não comecemos pelo que pensam os teóricos do Direito 
acerca deste, mas pelas pessoas que o vivem e aplicam e pensam 
um pouco mais. Se as grandes massas não veem o Direito senão 
em casos limite, limitando-se a pressupô-lo talvez, o grupo ainda 
assim vasto dos que com ele têm ou tiveram não simplesmente 
esporádicas relações nem por isso o encara muito melhor. É uma 
demanda complexa, esta... 
 
 
65
2.Saber e não-saber Direito 
O carácter, ou a "imagem" do Direito para a generalidade 
das pessoas, comunga de uma ambiguidade fundamental, que 
perturba o seu profundo conhecimento e chega a provocar um 
sentimento estranho de saber-e-não-saber, de aderir e não aderir. 
Se, por um lado, nos aparececomo coisa límpida e até 
transparente, todos sabendo (ou julgando saber) o que é justo e 
injusto, que um contrato se deve cumprir, que um homicídio é um 
crime, etc., por outro, sentimo-nos inseguros ante a prepotência 
da burocracia, sempre armada de esotéricos regulamentos, 
desconhecemos os prazos, tememos as multas e, quando abrimos 
um livro jurídico ou entramos numa conversa com um causídico, 
não podemos deixar de sentir uma certa frustração ante tanta 
palavra, que obviamente mais aparenta ali estar para confundir do 
que para ajudar à solução dos problemas. A fama da falta de 
escrúpulos dos advogados (que se começou a transmitir a outras 
profissões jurídicas, anteriormente acima de toda a suspeita) é já 
velha, e não raro mesmo pessoas comummente tidas por cultas 
(até porque o conceito de cultura, desde a literária, clássica, à 
televisiva e internética, atual, parece nunca ter englobado o saber 
do Direito) repetem esse lugar-comum absurdo (mas 
compreensível na boca de profanos) segundo o qual as leis foram 
feitas obscuras para ajudar ao ganha-pão dos profissionais do foro. 
E acrescentam: tudo ficaria resolvido se fossem feitas poucas leis, 
claras, em linguagem acessível a qualquer cidadão. Dir-se-ia 
que as tábuas de Moisés só têm dez mandamentos e, contudo, já 
são tão difíceis de cumprir... Por maioria de razão (a fortiori, como 
se diz no Direito...) assim deveria ser para o Direito. Mas que santa 
ingenuidade!... Miguel Reale mostrou que não há como fugir à 
linguagem técnica, e sem ela seria o caos. 
 
 
Paulo Ferreira da Cunha
66
3.Noção empírica e Definição positivista legalista de Direito 
Em suma, a abordagem empírica que o comum das 
pessoas faz do Direito seria no fundo esta: trata-se de uma 
disciplina da conduta humana imposta, normal, exigível pela 
comunidade, visando a harmonia, ou ao menos a convivência 
social e a Justiça, coisa no fundo simples e intuitiva, mas que 
historicamente sofreu a corrupção de uma casta hereditária e/ ou 
cooptativa de "especialistas", "teólogos" da "ciência jurídica", que, 
como outrora os sacerdotes e os oráculos tornaram obscuro o 
patente para manobrarem a seu gosto, e, afinal, explorarem o 
paciente… Eis uma narrativa sedutora para alguns. 
É interessante que esta noção empírica tem alguns traços 
comuns (que deveremos meditar) com a definição positivista 
legalista-padrão, ensinada repetidamente e de forma muitas vezes 
acrítica pelo mundo fora. Para tal cliché, interiorizado por juristas 
(e quiçá passada para o mundo não jurídico – e isso é ainda mais 
interessante), o Direito seria um conjunto de normas e regras, 
impostas coativamente pelo Estado para organização da sociedade 
ou algo similar. Esta definição está plena de imperfeições, 
generalização excessiva, etc. 
O Direito não são só normas ou regras, nem todo ele deriva 
do Estado (até porque o Direito lhe é anterior: o Estado é obra da 
Modernidade), e é a sua única forma de legitimação; nem sempre o 
Direito está imposto pela coação, e muitas outras ordens sociais 
normativas concorrem para a ordem social... Para apenas resumir 
algumas objeções a este modelo de definição positivista11. 
 
 
11 Para maiores desenvolvimentos, cf. o nosso livro O Ponto de Arquimedes. 
Natureza Humana, Direito Natural, Direitos Humanos, Coimbra, Almedina, 
2001. 
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
67
4.Dura lex sed lex burocrático e novo Direito livre 
Em todas estas ideias, empíricas ou positivistas, há algum 
fundo de verdade, embora, no geral, estejam erradas. E, também 
será bom dizer, existe ainda uma espécie em decadência (ou 
extinção?) de indivíduos, sobretudo frequente nas repartições, para 
a qual o Direito é o alfa e ómega da existência, melhor: a lei e o 
regulamento esgotam a sua experiência mística, sendo veneradas 
com fervor, até ao absurdo. É o tipo do homo normativus aquele 
que, desconhecedor do sentido profundo do justo, talha a direito 
obtusos caminhos pela via estreita da estrita previsão normativa. 
Esse, porém, se crê na santidade do texto e das ordens, também 
não venera os causídicos, porque podem defender diferentes 
versões e interpretações do que julga ser uno, temendo ainda os 
juízes, que lhes podem eventualmente dar razão. 
O Direito na sua versão burocrática é um pesadelo, é o 
“palácio da loucura” de Astérix. E contudo, perante tendências 
dissolventes, de total informalidade (onde aliás pode nascer e 
florescer corrupção), por vezes têm-se saudades desses burocratas 
rigoristas, que não deixavam passar uma vírgula. 
Obviamente, nem tanto ao mar, nem tanto à terra: interessa 
é uma aplicação rigorosa e inteligente do Direito, com legalidade, 
bom senso e sentido de Justiça. Não é fácil, e por isso uns agarram-
se à dura lex, sed lex, e outros ao amiguismo, ao compadrio, à 
aplicação do Direito ad hominem. Uma espécie nova de “direito 
livre”... Há ambientes em que esta cultura de favores está tão 
enraizada que acham antes de mais obtusos os poucos que lhes 
negam facilidades. Ora essa “bizarria” é a normalidade de quem 
cultiva na prática a chamada ética republicana. 
 
 
Paulo Ferreira da Cunha
68
5.O 'Direito' dos outros 
Para além das reações, primárias e, como vimos, profanas12 
há ainda os que, de uma ótica filosófica, epistemológica ou da 
banda de outras ciências, procuram julgar o Direito, e dar-lhe um 
lugar no panorama dos estudos, na Enciclopédia dos saberes. 
Cumpre dizer quanto a estes que, as mais das vezes, mesmo em 
veste filosófico-epistemológica, não passam normalmente de 
profanos, desconhecedores do Direito por dentro, e, portanto, 
produzirão afirmações exógenas sobre o mesmo, mais ou menos 
doiradas por expressões vagas e de importação (das suas próprias 
disciplinas), repetindo-se assim confusa e pomposamente os mal-
entendidos das posições vulgares. 
O entendimento que as mais das vezes alguns "cientistas 
sociais" têm do Direito, sob o impacto das modas ideológicas 
dominantes, é geralmente já maçador de tão monocórdico: 
mais ou menos todos dizem que se trata de um conjunto de 
normas impostas pelo Poder, portanto uma forma de dominação 
da classe que ocupa o poder, ou, numa visão vizinha desta, mas 
mais "culturalista", afirmam tratar-se como que de comandos morais 
cristalizados em condutas sancionáveis, isto é, dotados de 
coercibilidade (que lhes é conferida pelo Poder – voltamos à 
12 Embora quer o homem comum, quer o burocrata se considerem por vezes 
muito versados em Direito — aí residindo uma curiosa diferença face a outras 
ciências. Quem discute as equações do matemático, ou os átomos do Físico? 
Contudo, qualquer um pode pretender dar a última palavra em fins das penas 
e política criminal, fórmulas de partilha da herança ou cumprimento de 
contratos. Uma das características do Direito é ter o flanco aberto a uma 
discussão excessivamente profana e profanadora. E hoje mais do que nunca 
todos querem opinar ideologicamente sobre como deverá ser, sendo de registar 
uma agressividade punitivista por parte de alguns, que gostariam de mandar 
prender, torturar, decepar, alguns outros, nem sempre infratores, nem sempre 
criminosos, pelo menos à luz das leis atuais. O Direito tem de se defender 
contra os “achismos” de pessoas feridas, magoadas, pretensos doutrinadores e 
gurus sociais, visionários, profetas que agora se pretendem armados contra os 
impuros, infiéis, etc. Estão a revelar-se muitos elementos anti-pluralistas e 
totalitários nas nossas sociedades ainda macro-democráticas, mas em risco. 
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
69
conceção anterior), tudo isso derivando de uma infraestrutura 
económica que segrega tal superestrutura como o fígado faz à bílis. 
Na verdade, acaba por ser uma outra versão da definição 
positivista legalista, tingida de uma aproximação ideológica, com 
remissões sociológicas, antropológicas, politológicas ou afins. 
Acaba porser uma perspetiva mais enriquecedora que a 
olímpica serenidade da definição legalista, porque mais 
desvendadora. Porém, corre o risco de se bastar a si mesma, como 
chavão, e acabar por não ter o efeito que poderia alcançar. 
 
6. Do “Direito dos Juristas” a uma visão compreensiva 
Todas as visões parcelares se encontram inquinadas, 
embora seja também de meditar sobre esta questão que 
imediatamente surge, depois de as afastarmos: como pode o 
jurista ele próprio pensar a sua área sem cair em argumentos pro 
domo sua, sem se alienar, sem fazer inevitável etnocentrismo 
disciplinar? E sem se deixar fascinar pelas seduções de outras 
áreas, desde logo as que estiverem na moda. Havendo modas de 
todo um bloco epistemológico (como foi o caso da História, ou da 
Economia), ou modas de certos preconceitos pontuais (destas e 
doutras disciplinas, sobretudo Ciências Sociais), que normalmente 
execram e estigmatizam as posições contrárias como sendo erros, 
obscurantismos, preconceitos, e afins, em nada contribuindo para a 
cientificidade das respetivas áreas. E engendrando o ódio que às 
próprias ciências têm alguns ideólogos que elas (ou os seus 
cultores) contrariam: quer com rigor, quer com ideologia. E neste 
ódio vai a Filosofia e a Cultura toda... 
Mas voltemos à condição epistemológica do jurista face aos 
demais. 
Paulo Ferreira da Cunha
70
O problema é uma espécie de círculo vicioso. Os outros 
não podem perceber o Direito, porque estão fora dele (dele não 
possuem a experiência), os juristas também não, porque dentro (e a 
sua experiência condiciona a respetiva perceção). Há, porém, 
quem esteja dentro e fora. 
Julgamos serem os juristas com preocupações culturais e 
filosóficas (lato sensu), e os que, não sendo juristas de profissão, 
tenham podido penetrar no âmago do conhecer, agir e viver 
jurídicos, tendo também outros conhecimentos laterais que os 
ajudem a entender (e enquadrar no mundo do saber e do ser) a 
realidade jurídica, os mais aptos para dela se aperceberem 
cabalmente. 
Ora tal nem sequer é muito difícil de encontrar. O Direito, 
apesar de um tanto esquecido pelas culturas oficiais e de massas, 
possui mesmo assim um lugar de eleição no âmbito das realidades 
científicas, culturais e espirituais, estabelecendo com as demais 
relações e diálogos deveras interessantes, e até arrebatadores. Já de 
seguida, porém, cumpre encetar uma rápida abordagem das 
principais visões jurídicas do Direito. 
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
71
 
Capítulo III 
O Direito: perspetivas intra-jurídicas 
 
 
1.Autognose Jurídica 
Enquanto o homem comum, o burocrata, o intelectual, o 
militante político, o sociólogo ou o antropólogo encaram o Direito 
vendo nele um aspeto obsidiante (imperatividade-sanção, ordem, 
incómodo-repressão-polícia, ou imposição da “lei e ordem” 
(conforme os estereótipos ideológicos), poder, facto social, 
artefacto cultural), exigir-se-ia que o Direito se visse a si mesmo na 
sua pluridimensionalidade, compreensivamente. Enquanto os 
cultores de outras disciplinas (v.g. o nosso sociólogo ou 
antropólogo) o olham com as lunetas próprias dos seus objeto e 
método, reduzindo-o a quid entre vários, parte da sociedade ou do 
sistema social, ou das instituições, ou uma resposta entre outras à 
limitação do meio natural e da constituição psicossomática do 
bicho-homem, ao olhar-se ao espelho o Direito deveria ver o seu 
retrato de corpo inteiro, radiografar-se e assim conhecer -se. 
Nesta tentativa para o Direito se conhecer, múltiplos têm 
sido os caminhos propostos ao longo da sua história, já longa, a 
cada qual correspondendo uma corrente jurídica (ou filosófico-
jurídica). Não cabe aqui esse tipo de levantamento13. 
Apenas se deverá realçar que as teorias andam 
normalmente na oscilação entre diversos reducionismos (vistas 
13 Para mais desenvolvimentos, cf. o nosso Filosofia do Direito. Fundamentos, 
Metodologia e Teoria Geral do Direito, 3.ª edição, revista atualizada e 
aprofundada, Coimbra, Almedina, 2018. 
72
parciais do espelho em que o jurídico se pretende mirar), 
além de que sempre mais ou menos se vão mesclando 
com perspetivas provenientes de zonas não jurídicas como pano 
de fundo do novo retrato do Direito. Por vezes, procura-se arredar 
deste o que a ele não pertença, como na Teoria Pura do 
Direito de Kelsen14, mas tais purificações deixam normalmente 
entrar pela janela o que se haviam obstinado a fazer sair pela porta: 
novas contaminações, lógicas, políticas, metodológicas, etc. No caso 
de Kelsen, muito execrado no plano jurisfilosófico e olvidado no 
plano constitucional (em que foi um pioneiro, criador da solução – 
excelente – dos tribunais constitucionais), a sua teoria acabou por 
confundir Direito e Estado, contradizendo assim a pretendida 
purificação do jurídico. 
É, portanto, deveras difícil encontrar o ótimo do Direito 
apenas enquanto tal. E daí o sempre renovado contributo de mais 
teorizações — não só com outras perspetivas do que seja a Justiça, 
como eventualmente recusando-a como fim do Direito. Em teoria, 
tudo se pode dizer e desdizer — parece. 
 
2.Visões jurídicas do Direito. Monismos e Pluralismos 
Seja como for, ao longo dos tempos, sob diversos matizes, 
duas posições essenciais se têm mantido na forma de encarar o 
Direito: a monista, dita frequentemente positivista, e a pluralista, 
que durante muito tempo se confundiu com o pensamento 
jusnaturalista, mas que o transcende. Estas duas famílias de juristas, 
entre si rivais, dividem os sufrágios da doutrina no mais profundo 
do seu ser, e a opção por uma ou por outra é a principal distinção 
ontem como hoje, para lá de divergências de pormenor. 
14 KELSEN, Hans — Reine Rechtslehre, trad. port. e prefácio de João Baptista 
Machado, Teoria Pura do Direito, 4.ª ed. port., Coimbra, Arménio Amado, 
1976. 
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
73
A clássica oposição jusnaturalismo/positivismo é visível até 
em algumas críticas correntes e comuns ao "Direito". Comecemos 
por aí. 
Quando, pontual ou sistematicamente, se faz a crítica do 
Direito, por vezes visa-se, numa posição sempre mais ou menos 
ideológica ou religiosa, atacá-lo "em si", como realidade humana 
opressora ou diabólica. Porém, na maior parte das ocasiões, tem-se 
na mira não o Direito em geral, mas uma experiência concreta e 
localizada dele, aquela que, no dia-a-dia ou na memória (sempre 
seletiva) do crítico em causa, mais impressivamente se faz sentir. 
Para a maioria esmagadora dos (leigos) críticos do Direito, 
este confunde-se, ao ser criticado, com os seus concretos 
legisladores e aplicadores. Tal obviamente envolve uma conceção 
positivista do Direito, se se operar uma total identificação do 
mesmo com a sua concreta normação e aplicação. Já se o Direito 
hic et nunc é julgado em nome do que ele deveria ser, por vezes tal 
julgamento tem como parâmetro superior realidades a ele não 
idênticas, como princípios religiosos, morais, ou ideológicos que A 
ou B pensam deverem ter sido acolhidos pelo Direito (e assim não 
haverá jusnaturalismo — desde que a distinção entre aquelas três 
realidades e este último se consiga estabelecer), mas noutras 
ocasiões o parâmetro em causa serão os princípios jurídicos de 
justiça, i.e., o próprio Direito Natural (pelo menos numa sua 
versão). 
Para este último, é claro que ainda haveria Direito mesmo 
que um devastador incêndio consumisse todos os códigos do 
mundo, e reduzisse a cinzas até a mais ínfima das leis extravagantes. 
As críticas em causa são muitas vezes ambíguas. Critica-se 
este Direito ou o Direito? Nesta aparente subtileza reside a 
distinção entre ser-se pluralista ou monista (mas, é claro, quer um 
quer outro nem só críticas tecem ao jurídico ...). 
Paulo Ferreira da Cunha
74
3.Direito positivo, Direito vigente, Direito natural 
Há, assim, independentemente de variantes definitórias e 
correntes doutrinais, que reter três conceitosbásicos a ter 
presentes em toda a presente problemática. 
Direito positivo — é o Direito que (independentemente da 
sua apreciação como justo ou até como Direito, proprio sensu) tem 
(ou teve) efetividade, existe em ação (ou já alguma vez a possuiu – 
sendo nesse caso Direito "histórico") . Claro que pode haver partes 
desse Direito que estejam em desuso, ou que “não tenham 
pegado”, como se diz no Brasil de algumas leis sem aplicação 
prática. Mas, em geral, o direito positivo é também vigente. O 
problema que por vezes se põe é o da efetividade15. 
O direito positivo engloba portanto essa zona que é objeto 
da História do Direito e ainda o Direito vigente. Este último, é 
apenas o que, em dado tempo e lugar, se encontra em vigor, tem 
eficácia e " obriga" na época e local considerados. Já o Direito 
natural não necessitaria, em tese, de concreta vigência ou 
positivação. Como que paira por sobre as realidades jurídicas, 
inspirando-as, julgando-as, e com elas coincidindo em boa parte, 
como que nelas encarnando. 
Outras correntes pluralistas (para além do jusnaturalismo) 
não se baseiam propriamente num outro direito superior ao 
positivo, como é o caso das teorias da justiça, da natureza das 
coisas, etc.. 
Estabelecidos estes conceitos básicos, podemos retomar 
mais esclarecidamente o fio da exposição. 
 
15 CARBONNIER, Jean — Effectivité et ineffectivité de la règle de droit, in 
“L'Année Sociologique“, 3.ª série, Paris, P.U.F., 1957-1958, p. 3 et sq.. 
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
75
4. Críticas e Polémicas 
Há jusnaturalistas de muitos (demasiados?) matizes16 (alguns 
bem próximos do positivismo — hélas! –, outros, a resvalar para 
fora do Direito, para um terreno de moral, teologia, eventualmente 
política...) desde os que veem no Direito (como Hegel via no 
Estado) uma espécie de divindade, ou uma forma do Homem 
descobrir a sua essência (racional, por exemplo), os princípios 
fundantes e ordenadores da Humanidade, até aos que falam antes 
em " Direito divino", isto é, no (ou em) Direito como derivado da 
vontade de Deus. Nuns, a divindade é imanente, noutros, 
transcende-o, mas a absolutização permanece. 
Mesmo não indo tão longe, muitos outros jusnaturalistas 
pensam que falar em Direito é falar em Justiça, mas restringem-na 
às forças do humano. Aliás, por exemplo, a época iluminista foi 
também jusnaturalista, mas, ao contrário de muitas outras, de um 
jusnaturalismo racionalista, de identificação entre natureza e razão. 
Ainda no campo dos que restringem o Direito natural e a 
Justiça a aspetos terrenos, não há unanimidade. Pode-se, assim, 
distinguir entre uma conceção de Justiça como consciência comum 
(consciência jurídica geral) de um certo tempo e lugar sobre o justo 
e o injusto, e uma outra que acredite num corpus (este também 
variável) de princípios constantes, imutáveis, ou fixando a tais 
conceitos limites superiores, ou um conteúdo mínimo. 
De todo o modo, para o Jusnaturalismo o Direito é sempre 
Justiça, e não, como para os positivistas, algo de alheio ou lateral a 
ela, nem, como para os "anarquistas" (hoc sensu), a própria anti- 
Justiça (se para eles tal valor / conceito fizer algum sentido). 
16 Cf., por todos, além da desaparecida revista “Vera Lex” da Universidade de 
Columbia, dirigida por Virginia Black, ainda a síntese de TUCK, Richard — 
Natural Rights Theories. Their origin and deevelopment, Cambridge, 
Cambridge Univ. Press, 1979. 
Paulo Ferreira da Cunha
76
Os positivistas criticam frequentemente os jusnaturalistas 
como ilógicos, eivados de preconceitos e pressupostos alheios ao 
Direito, sobretudo de índole religiosa, moral, mas, eventualmente, 
também política. A crítica, na sua versão simétrica, poderia ser 
reenviada ao positivismo. Há, porém, que reconhecer que a 
proximidade entre o Justo em diversas ordens normativas (moral, 
Direito, religião ...) se presta, por vezes, a confusões. Mas o ponto 
distintivo será sempre o mesmo: o valor do Direito é a Justiça 
particular, a especificamente jurídica (como veremos). Os valores 
de outras ordens normativas nem sempre nem só o serão... 
Seja como for, há situações em que os extremos se tocam, e 
em que os embaraçados positivistas terão, para se justificar, de 
operar diversos contornos teóricos. Há situações históricas (e nem 
sequer distantes no tempo) em que o positivismo se viu obrigado 
a contaminar-se de pressupostos políticos ou religiosos para salvar 
nuns casos uma réstia de "Justiça" que, no fundo, jamais abandona 
qualquer ser humano , e, noutros, por se agarrar ao cego dura 
lex, sed lex. 
O Julgamento de Nuremberga é um desses casos. Como, 
senão em nome de princípios extra-positivos, se poderia condenar 
quem cumpria ordens, quem obedecia à lei positiva (e seria punido 
se o não fizesse)? O Tribunal positivo (e fez bem) condenou em 
nome daquilo a que chamamos Direito Natural, por muito que 
possa custar: não havia lei que o permitisse, e se se não tratou 
apenas de política, da lei do mais forte, aí esteve presente uma certa 
conceção de jusnaturalismo. Mesmo princípios gerais penais como 
do nullum crimen sine legge, nulla poena sine previa legge poenale, 
claramente jusnaturais (mas também juspositivos) foram 
postergados em homenagem ao que então se julgou ser Justiça. 
A chamada "lei seca", nos EUA, também nos põe curiosos 
problemas — talvez até mais impressivos para o presente assunto. 
As proibições atinentes ao consumo de álcool fundam-se mais 
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
77
longinquamente no imaginário próprio de uma sociedade puritana, 
de uma América que, desde a primeira colonização, se quis 
querida por Deus, uma Nova Jerusalém pura, depois da corrupção 
da velha. Os primeiros colonos, de acentuado pendor utopista, não 
foram levianamente chamados "Pais Peregrinos". Isto significa que, 
para uma visão não puramente religiosa ou moral do 
jusnaturalismo, uma visão que pretenda dar a César o que é de 
César (Mc. XII, 13-17; Mt. XXII, 15-22, Lc. XX, 20-26), que, 
portanto, não mistura os valores das diversas instâncias 
ordenadoras do social, e defenda a especificidade do jurídico, uma 
tal visão terá de considerar a "lei seca" não como intrinsecamente 
jurídica, mas moral, e com larga influência religiosa. Um tal 
jusnaturalismo não vê na proibição total que impõe um inequívoco 
e fundamental fim de Justiça, mas de pureza de costumes. O 
homem, o ideal de Homem que ela visa não parece ser o homo 
juridicus mediano, comedido, sem dúvida, antes talvez o homo 
moralis ou religiosus, que se não conspurca com uma gota que seja. 
Ora o Direito não aspira à santidade nem à pureza moral… 
E a contraprova tivemo-la na prática: o crime organizado 
nos EUA nasceu aí, e Al Capone considerou-se sempre um 
benfeitor público — contra uma lei iníqua. Uma disposição 
utópica acaba por gerar sempre formas viciosas de incumprimento, 
e, se o bom senso prevalecer (como veio a suceder no caso) 
acabará naturalmente por ser revogada. 
Ora, este caso permite-nos com agudeza detetar uma séria 
contradição do positivismo. Aqui, ele nem sequer se pode respeitar 
a si mesmo. Porque, na rigidez de obedecer à lei — toda a lei — 
acabará por vezes (como é o caso) por fazer o papel que criticara 
aos jusnaturalistas: o de advogar o que não é jurídico, mas 
meramente moral ou religioso. 
Ora tal seria o que um jusnaturalista poderia não fazer 
(como vimos), rejeitando carácter jurídico à norma: lex iniusta non 
Paulo Ferreira da Cunha
78
est lex, pensamento de Santo Agostinho retomado por São Tomás 
de Aquino. 
Evidentemente que, na prática, todas estas questões se irão 
reverter em problemas políticos, disciplinares e de deontologia 
profissional. Pode ou deve um juiz ou um funcionário público não 
aplicar uma lei por a achar injusta, ou não jurídica (em si)? E um 
advogado deverá ser ouvido não como mero rábula quando apele 
para tais valores? 
Questões que dão muito que pensare podem trazer 
agudíssimos problemas — para quem com eles se confronte, para a 
Justiça em geral —, mas que obviamente não podemos senão 
enunciar. 
Em síntese, destas duas formações e opções — positivista ou 
jusnaturalista, monista ou dualista — tudo o demais decorre. Desde 
um estilo de estudo do Direito (ou lecionação), a um estilo de 
escrita, a uma eleição de problemas (ou causas) a investigar (ou 
defender), até mesmo ao mais importante, a um estilo de vida. 
Não quer dizer que os jusnaturalistas sejam santos e 
idealistas e os positivistas o cúmulo do calculismo e do 
materialismo. A hipocrisia também existe, e o ceticismo por vezes 
apodera-se das melhores das almas. Se o pluralismo se 
consubstanciar num simples subjetivismo, certamente muitos nos 
acompanharão pedindo o corretivo de rigor no cumprimento das 
leis. As leis são, na verdade, o grau zero das garantias. 
Sem pretender fazer uma síntese das duas posições, há 
contudo pontos de contacto a reter, e nem só nas situações-limite, 
como as que acabámos de ver. Independentemente do caminho 
que se tome, há um legado híbrido a ter em conta, sempre: não 
pode haver bom jurista sem uma mínima base técnica e científica, 
sem o conhecimento básico do Direito tal como ele é (ou do que 
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
79
dizem ser Direito em dado tempo e lugar – se se preferir). E ainda 
a aplicação rigorosamente objetiva das normas contribui para a 
segurança jurídica – Tal é um grande legado do positivismo. Mas 
também não pode o jurista, ou quem quer que com o Direito lide, 
confinar-se ao estrito articulado dos textos legais, sem uma 
dimensão de Justiça (ainda que assim lhe não chame, e ela seja 
designada por ratio legis – razão da lei – ou algo semelhante) – e eis 
um importante contributo das posições pluralistas, a começar pelo 
jusnaturalismo, que delas é a mais clássica, como vimos. 
Paulo Ferreira da Cunha
80
Parte III 
Epistemologia Geral 
O Direito como realidade científica, cultural e espiritual. 
Interdisciplinaridades e Pós-Disciplinaridade. Paradigmas 
Jurídicos. Novos Paradigmas 
 
Sumário: 
Capítulo I 
O Direito como fenómeno e como ciência 
Capítulo II 
O Direito no mundo da Cultura 
Capítulo III 
Especificidade espiritual do Pensamento Jurídico 
Capítulo IV 
Margens do Direito. 
Ciências Jurídicas Humanísticas e Disciplinas Complementares 
Capítulo V 
Interdisciplinaridades e Pós-Disciplinaridade. 
Paradigmas Jurídicos. Novos Paradigmas. 
 
 
81
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capítulo I 
O Direito como Fenómeno e como Ciência 
 
 
1.Complexidade do fenómeno jurídico 
Antes de mais, é de afastar a ideia corrente nos nossos dias 
que aponta para a mera identificação entre Direito e lei: as leis 
passam, o Direito fica (por isso é que saber leis não é o mesmo que 
conhecer o Direito). Além de que, como veremos, a lei não é a 
única fonte de Direito, nem mesmo nos nossos dias. 
Apesar da necessidade de grande e profunda cultura geral 
dos juristas, o Direito, em si mesmo, não é um sorvedoiro do real, 
um enorme gavetão em que tudo caiba, mas, apesar de tudo, 
uma dimensão localizada da vida e da cultura que, invadindo 
muita coisa, não se mistura com tudo, nem sequer é o supremo 
valor, conquanto seja valor, e importantíssimo17. 
 Além disso, pode ocorrer que o Direito seja colocado de 
parte, violado até, em nome da honra, da amizade, do amor, 
da moral, da religião, ou da ideologia — o que corresponde, para 
quem o faça, à assunção do risco da punibilidade pela coerência na 
defesa de uma própria ordem de valores. 
Finalmente, é importante ter claro o lugar do Direito no 
concílio das ciências e dos saberes, recusando o reducionismo (tão 
ao gosto dos positivistas de diversos matizes) que o confunde com 
uma mera técnica, mas igualmente pondo de sobreaviso para as 
17 Cf., por todos, EHRHARDT SOARES, Rogério — Interesse Público, 
Legalidade e Mérito, Coimbra, Atlântida, 1959, p. 1 et sq. 
83
limitações intrínsecas do jurídico quantos pretendam ver nele a 
pedra filosofal de resolução de todos os problemas, ou o óculo 
omniscente por que se desvendaria toda a Máquina do Mundo. 
O Direito é uma disciplina (episteme mais que ciência 
pura) híbrida: artística, científica e técnica, mas com uma lógica 
própria, não a formal, mas raciocinante, adaptável e simbólica, 
uma mitológica, permeável a elementos não estritamente 
racionais — tal como o Homem não é uma mera equação ou 
um simples algoritmo18. No conjunto dos aspetos do jurídico, deve 
imperar não a logia, o carácter lógico-científico (e menos ainda a 
técnica), mas sobretudo e muito especialmente a teleologia, a 
finalidade, o fim de Justiça (de atribuir a cada um o que é seu), 
razão de ser de tudo o mais. E hoje está cada vez mais apercebido 
quão importantes são os diálogos do Direito com a Arte. 
 
2.O Direito como disciplina (episteme) social e normativa 
Dada a complexidade do Direito, que acabámos de 
brevemente sintetizar supra, deduz-se facilmente a dificuldade com 
que depara quem pretenda encerrá-lo na jaula amputadora, no 
círculo restrito e sufocante de uma teia de classificações no âmbito 
das ciências. 
Enquanto trata, sem dúvida, dos problemas de pessoas em 
situação, em interação social (excetuando o Direito que Robinson 
Crusoe para si mesmo cria), parece integrar-se o Direito, sem 
dúvida, no âmbito das ciências sociais ou humanas. Isto, se 
desejarmos tratá-lo como ciência — pois também será mito, arte, 
técnica, poder... Mais rigorosamente se dirá que é uma disciplina, 
18 Cf. Mito e Constitucionalismo, Coimbra, Faculdade de Direito, “Separata” do 
BFDUC, dist. Almedina, 1988, máxime, pp. 43-70. Hoje integrado e repensado 
na nossa obra Teoria da Constituição, vol. I, Lisboa / São Paulo, 2001. 
Paulo Ferreira da Cunha
84
ou episteme, que verdadeira ciência, expressão com conotações 
cientistas, em geral... 
Mas, ainda sem sairmos da sua vertente “científica”, 
deparamos com agudos problemas de classificação. É que, 
enquanto as ciências sociais normais, se não quiserem transformar-
se na "feitiçaria dos tempos modernos"19 hão de normalmente 
sobretudo descrever o Homem em sociedade, no plano histórico, 
demográfico, sociológico, económico, etc., deixando para a 
política, neles baseada (se tivermos sorte), a prescrição das 
medidas de transformação social, o Direito é diferente. 
Não diz apenas o que é — não se ocupa simplesmente com 
um estudo descritivo ou informativo das instituições e institutos 
jurídicos e das concretas leis vigentes. Não se contenta com isso. 
Além de disciplina social, é episteme normativa: face ao que é, 
indica também o que deve ser. E, ao contrário da religião ou da 
moral, que não raro se têm de limitar a serem vox clamantis in 
deserto, pregando o que deveria fazer-se, mas se não pratica, o 
Direito não só estabelece o que entende correto, justo, "direito", 
como endireita o " torto" , como autêntico dever-ser-que-é. 
Por isso mesmo é que o Direito tem de ter o maior cuidado 
em não pretender mais do que as pessoas podem fazer, ou dar 
(nemo datur quod non habet). Tem o Direito que exigir das 
pessoas apenas comportamentos razoáveis, sob pena de ser ele 
próprio um fomentador da sua violação. O Rei do Principezinho, 
sabendo do desejo deste de deixar o seu planeta, sabe como agir: 
nomeia-o embaixador… Tivessem todos essa sabedoria. 
 
 
19 ANDRESKI, Stanislav — Social sciences as sorcery, Londres, André Deutsch, 
1972. 
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
85
3.Normatividade, vocação prática 
De novo se põe aqui o problema do carácter cientifico do 
Direito: ele existe no mundo do espírito, e da cultura, mas não 
prescinde de uma extraordinariamente vívida existência real, 
quotidiana. É uma disciplina em ação. Sendo técnica, é mais que 
isso: é, como com agudeza se apercebe o leigo, também imperativo 
e coerção.E sendo-o no bom sentido, tem uma repercussão social 
e mesmo ética muito importantes. Há mesmo uma mensagem 
moral nas imposições justas do Direito. E se não forem justas, a 
mensagem será imoral... Mesmo sendo importante separar as águas 
do Direito, da Moral, da Religião, da Política, etc. Há em geral um 
pressuposto da justeza e eticidade do Direito. 
Essa aplicação do Direito no real não descobre 
cientificamente o Justo, antes gera a sua cientificidade para a 
concretização na prática da Justiça, seu pressuposto, fundamento, 
fim (que se filia, afinal, no Direito Natural — pouco "científico" em 
si, como tudo o que é natural). Neste percurso, serve-se de 
métodos e técnicas de um tipo de estudos particulares, que não são 
tanto a escavação arqueológica, a estatística, ou a sondagem 
sociológica, ou o modelo económico... Todos esses métodos e 
todos os conhecimentos de tais matérias sem dúvida importam ao 
jurista, mas para fundar conhecimentos prévios sobre o meio em 
que se vai manifestar. Mas os seus utensílios próprios são 
normalmente de outra índole. 
Como ciência de rigor que é, o Direito usa métodos que se 
aproximam tantas vezes da lógica, da própria matemática. Como 
arte, vemo-lo ornado da retórica, do estilo literário burilado, e até 
belo, na doutrina mais requintada, e, em especial, no discurso 
forense de maior brilho. Mas, antes disso, que faz o jurista? Antes 
de compor belas frases ou de engrenar na mecânica dos silogismos, 
que pretende? Conhecer o Justo, e aplicá-lo. Aplicá-lo através da 
interpretação — de leis, de sentenças, de costumes, etc. Ora, o 
Paulo Ferreira da Cunha
86
trabalho hermenêutico, essencial e próprio ao jurista, aproxima a 
arte jurídica das disciplinas que fazem exegese, análise textual, 
hermenêutica, no limite das filologias, das linguísticas e das 
semióticas, que procuram desvendar textos, sinais. 
Como não será demais repeti-lo, a hermenêutica jurídica 
não é inócua, é interessada. E procura ler Justiça em cada linha. 
Mesmo quando a norma não é clara ou não pareça tão justa assim. 
Um grande causídico americano, que também foi um grande 
político, definiu da forma seguinte as tarefas de um e de outro: "o 
político deve fazer boas leis, e o jurista transformar as más em 
boas.". Pela prática, evidentemente. Aliás, uma velha tradição 
britânica considera que uma lei só realmente entra na ordem 
jurídica depois que aplicada por um tribunal. Esta prática, esta 
descida ao real é que lhe determina o alcance. Não deixa de ser 
uma perspetiva interessante. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
87
 
Capítulo II 
O Direito no mundo da Cultura 
 
 
1.Uma disciplina omnipresente 
A especificidade do trabalho dos juristas, e o facto de a sua 
tarefa (pela qual se joga a vida, a honra, a liberdade, ou a fazenda 
de quem caia nas malhas da Justiça) ser complexa, estranha, 
como que uma magia (conseguir provar o " improvável" , salvar 
como inocente um criminoso — na versão pessimista; devolver o 
que lhe pertencia ao seu legítimo dono, resgatar a honra de um 
nome injustamente manchado, etc.) levam, como vimos, a uma 
ideia estranha sobre a realidade social do jurídico. E também lhe 
conferem um lugar particular no mundo da Cultura. 
O lugar do Direito na "cultura geral" das pessoas é mínimo. 
Chegou a ser introduzido nos curricula do Ensino Secundário, mas 
como disciplina de opção, durante apenas um ano, e muitas vezes 
prelecionado por não-juristas. A par desta iniciativa, as únicas 
outras que visam o conhecimento pelo grande público de uma 
matéria imprescindível à sua vida corrente (cada dia mais 
juridicizada) foram alguns espaços de consultas jurídicas 
concretas nos media, mas que sobretudo prendem a atenção dos 
interessados diretos, e um programa televisivo em que se 
encenavam alguns casos. Tudo isso parece estar já muito longe. E 
não terá tido grande sucesso. Seria importante estudar Cidadania, 
Direitos Humanos, e a Constituição. Mas não são matérias 
consensuais, evidentemente. 
A grande informação desinteressa-se por esta área (salvo no 
caso de processos sangrentos ou de grande corrupção), e cremos 
88
ainda ser " bem-pensante" e "intelectual" em muitos círculos 
abominar o Direito, com um trejeito de enfado pelo menos. As 
próprias crónicas dos tribunais se banalizaram e tornaram meio 
invisíveis (salvo os escândalos), quando ainda não há muito haviam 
tido cultores de nível, como Albert Camus, no século passado. A 
cultura literária em voga não se cansa, quando pode, de ironizar ou 
zurzir o jurídico. Os juristas não têm grande crédito social real 
(têm-no superficialmente, sim), e o que ainda lhes vai valendo (mas 
partilham com muitos mais: políticos, ativistas, jornalistas, etc.) são 
os Direitos Humanos, que realmente forçaram o repensar do 
paradigma tardo-medieval do direito subjetivo, em que ainda 
vivemos, mas tudo indica poderemos sair para um horizonte mais 
benévolo, solidário, humanista e fraterno – embora tal implique 
ainda muitas e significativas mudanças. 
Em geral, esquece-se que o jurídico é um campo de eleição 
do exercício da lógica, de afinidade geométrica e matemática 
em geral, de aplicação e teste prático da filosofia, e um 
conhecimento imprescindível às ciências económicas, da gestão e 
da contabilidade, essencial à política, e com insuspeitados mas 
não despiciendos pontos de contacto com a Medicina, e até 
a Física... Para não falar nas Letras e nas Artes. 
 
2.Oficiais do ofício jurídico e sua presença na cultura 
Os que, sem defesas, foram formados e formatados pela 
sociedade de consumo, ávidos de poder, sucesso e dinheiro, 
naturalmente acorreram também aos cursos jurídicos quando não 
gostavam de matemática, mas desejavam, sem embargo, fazer 
fortuna, para usar uma boutade de um professor brasileiro, 
Inocêncio Coelho. 
 Esses para quem o curso de Direito seria um mero 
trampolim enviaram para o caixote do lixo das velharias a clássica 
frase de Ulpiano segundo a qual os juristas são sacerdotes que 
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
89
prestam culto à Justiça. Eivados de estrito positivismo — a lei é a lei 
— dura lex sed lex (frase da decadência do mundo jurídico 
romano), importa é a técnica de a aplicar ou tornear, consoante 
sirva o nosso interesse —, não têm tempo nem disposição, nem 
feitio para questionar o papel social do jurista, e muito menos 
desenvolver qualquer função cultural do jurídico. E mais ainda que 
uma estrita fidelidade à lei está a sua fidelidade ao seu próprio 
projeto egotista, sendo o legalismo apenas uma via, facilmente 
fungível por outra teoria pro domo. 
Felizmente ainda não morreram todos aqueles homens 
probos (muitos têm contudo partido nos últimos anos, e são 
insubstituíveis, pelo menos ainda se não vieram substitutos) que, se 
não usavam o computador jurídico (hoje obviamente uma 
necessidade, mas instrumental), eram capazes de se orientar na 
selva dos mais diversos ramos de Direito, perseguindo a solução 
justa, e, simultaneamente, conseguiam ainda ter ócios, e ocupá-los 
não apenas na apreensão e ponderação das artes, das letras e até 
das ciências do seu tempo, como mesmo na criação e na 
investigação. Mostramos já noutra ocasião20 o número prodigioso 
de juristas (ou personalidades de formação jurídica) que se 
notabilizaram não só na política — o que é sabido, e constitui 
motivo de acusação para alguns observadores –, mas também nas 
Letras, e também há muitos nomes de relevo nas Artes. 
Não será só por acaso que o Direito chamou e continua a 
chamar grandes espíritos. Filósofos como Leibniz ou Montesquieu, 
economistas, embora não só como Adam Smith, Marx, ou Hayek, 
sociólogos como Max Weber ou Tocqueville, dramaturgos como 
Corneille ou Racine, poetas como Novalis ou Goethe todos tinham 
cursado Direito, e alguns destes ensinaram-no mesmo nas 
Universidades. Muitos, começaram pelo Direito,sem chegarem a 
concluir os seus estudos, mas dele colhendo boa parte da sua 
20 Cf. O nosso História da Faculdade de Direito de Coimbra, 5 vols., I vol., 
Porto, Rés, 1990. 
Paulo Ferreira da Cunha
90
formação (até por reação): tais os casos de Voltaire e Rousseau. 
Outros grandes nomes, não tendo formação especificamente 
jurídica, sentiram-se atraídos por estes problemas, e vieram a 
produzir obras basilares para o pensamento jurídico: desde os 
filósofos Platão e Aristóteles a Locke, Kant e Hegel, ou aos 
modernos, como Foucault. Entre nós, tiveram formação jurídica (e 
bastantes chegaram a concluir os cursos e a exercer profissões 
jurídicas) nada menos que Francisco Rodrigues Lobo, Correia 
Garção, Gonçalves Crespo, Antero de Quental, Almeida Garrett, 
Eça de Queiroz, Guerra Junqueiro, António Nobre, Teixeira de 
Pascoaes, e até Mário Sá-Carneiro, e Vitorino Nemésio, entre 
muitos outros. Assim como diversos pensadores não juristas se 
preocupavam com o Direito, a começar por Luís António Verney, 
sendo de citar, mais contemporaneamente, Delfim Santos, Álvaro 
Ribeiro, Augusto Saraiva e Orlando Vitorino. 
Nas Belas Artes, é inegável que algumas das maiores 
criações têm como motivo o Direito. E, se a maioria são alusivas ao 
Direito Constitucional ou Político (na pintura — desde o célebre 
Juramento da Sala do Jogo da Pela, e boa parte da produção de 
Jacques-Louis David), ou obras do poder (na arquitetura — tantos 
e tantos palácios e castelos), há igualmente muitas obras que 
especificamente retratam ou se destinam ao jurídico — desde as 
caricaturas de Daumier à arquitetura judicial, de que destacamos, 
por exemplo, o Supremo Tribunal de Chandigarh, na índia, com a 
assinatura inconfundível de Le Corbusier. 
Na escultura, como veremos, nem sempre os atributos da 
deusa da Justiça, praticamente obrigatória em na sua "Casa" 
(Domus Iustitiae), são muito fiéis aos originais gregos e romanos. 
Todavia, sente-se (por exemplo) o Direito, enquanto respeito pela 
palavra dada, enquanto resgate ou compensação jurídica, quando, 
contornando em Londres as Houses of Parliament, deparamos 
com esses homens que pagam promessas que são Les bourgeois de 
Callais saídos do cinzel de Rodin. 
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
91
E na música? Não são só hinos que simbolizam países, e 
lembram o Direito Internacional. Muito mais que isso. A ópera 
anda cheia de questões jurídicas. Já se disse que na Carmen, de 
Bizet, haveria, pelo menos, rixa, insulto à autoridade, sedução, 
negligência, deserção, contrabando e homicídio. Na Flauta Mágica, 
de Mozart, qualquer coisa como um "divórcio" pressuposto (ou 
separação de facto), um aparente rapto, uma efetiva deslealdade no 
cumprimento de um contrato de trabalho, e uma tentativa de 
assalto e arrombamento à mão armada. E se Os Palhaços de 
Leoncavallo já serviram para um exame de Direito Penal, o 
ciumento Otello, que é também título de uma ópera de Verdi, já 
foi hipoteticamente defendido pelo grande jurista Maurice Garçon. 
E que dizer do Teatro? Logo no Édipo-Rei de Sófocles é o 
protagonista a investigar o próprio crime; as Euménides, de 
Eurípides, explicam afinal a origem mitológica do principal tribunal 
criminal de Atenas; Shakespeare é um manancial inesgotável: 
Romeu e Julieta além de duelo e homicídio tem decerto problemas 
de menoridade e poder paternal, casamento canónico com 
celebração secreta, e duas mortes aparentes que vão redundar 
tragicamente em outros tantos suicídios; Hamlet é especialista em 
homicídios qualificados em razão do parentesco, e de juízes e 
fraudes estão recheadas outras peças. Molière — não fosse ele 
jurista de formação — ensina-nos mesmo, num entremez de M. de 
Pourceaugnac, os nomes dos maiores jurisconsultos romanos, e 
pelos seus trabalhos perpassa o roçagar das togas e das becas. 
Modernamente, a literatura conta títulos sobre o Direito de entre 
os seus melhores: A Queda e Os Justos de Camus, O Processo, de 
Kafka, A lei, de Roger Vaillant, A morte do cavalinho, de Hervé 
Bazin. E não olvidemos toda a literatura policial, com o célebre 
Perry Mason, criação de um jurista, ou um M. Poirot, da 
inconfundível Agatha Christie. Entre nós, Gil Vicente julga juízes e 
justiça pelo menos no Auto da Barca do Inferno, no Juiz da Beira, 
no Auto da Feira, nas Cortes de Júpiter, na Fragoa do Amor e na 
Floresta de Enganos. E os grandes problemas do Frei Luís de 
Paulo Ferreira da Cunha
92
Sousa de Garrett não são a morte presumida, a paternidade 
ilegítima, e o adultério, inconscientes e não "culposos"? O romance 
a Tragédia da Rua das Flores (antecessor da obra-prima Os Maias) 
de Eça, está também eivado de reflexões sobre o Direito, com um 
protagonista que é estagiário de advocacia. 
O cinema cedo se serviu da profusa temática jurídica. 
Desde alusões no próprio título ao jurídico, do filme mudo Ladrão 
de Bagdad, com Rudolfo Valentino, ao neo-realista Ladrões de 
Bicicletas de De Sicca, passando pelos confrontos vários de Charlot 
com a lei, v.g. nos Tempos Modernos. A emoção das audiências 
judiciais criou, ao longo dos tempos, dos mais altos momentos de 
emoção e suspense. O Julgamento de Nuremberga com Marlene 
Dietrich é inolvidável e fonte de múltiplas questões jurídicas 
fundamentais. Não se pode esquecer Justice for all com Al Pacino. 
O Veredicto, com Paul Newman, ou a Câmara secreta, pela 
impressividade como retratam a realidade presente do Direito 
positivo e em ação na sua vertente mais crítica. Um dos últimos 
filmes de grande clareza nas aporias e dramas do julgamento é The 
Children Act, que estreou em 2018. 
Até a poesia (aparentemente avessa a códigos e arestos) tem 
vibrado a sua lira pelo Direito: Ronsard tem um Hino à Justiça. E a 
Banda Desenhada também o celebra, nos hilariantes álbuns de 
Morris O Juiz e Os Daltons regeneram-se, com o conhecido Lucky 
Luke. Asterix imortaliza-se neste domínio no álbum em que 
consegue “dar a volta” aos burocratas do “palácio da loucura”, uma 
espécie de enorme loja do cidadão (é em Os XII Trabalhos de 
Astérix). 
Muitos mais títulos se poderiam apontar… 
 
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
93
 
Capítulo III 
Especificidade espiritual do Pensamento Jurídico 
 
 
1.Direito e Arte: dois reinos da liberdade 
Depois de termos sucintamente apontado, ao correr da 
pena, uma meia-dúzia de exemplos da íntima ligação das Artes e 
das Letras, dos artistas e dos literatos com o mundo do Direito, 
cabe perguntar como se pode ainda confundir este com uma 
realidade bafienta, desinteressante e burocrática, alheia ao belo, 
inimiga jurada dos valores estéticos. 
E vejamos que não exclusivamente pelo facto de a arte se 
ter exercido sobre motivos jurídicos e de muitos juristas terem 
cortejado as musas, e de vários artistas terem estudado Direito. A 
tudo isto acresce que o Direito se relaciona também com as artes 
enquanto forma reguladora das cada vez mais vastas e portentosas 
instituições artísticas, estatais e associativas (ou corporativas em 
geral) – academias, teatros, escolas, museus, galerias de arte ... 
Finalmente, sendo o Direito orientado para a justiça, e sendo esta 
impensável, inconcebível, sem a liberdade de expressão, e a 
liberdade em geral, clara analogia tem o jurídico com o artístico, 
que só floresce completamente (ou só se pode observar 
florescendo) num tal clima de descompressão, tolerância e 
pluralismo. A liberdade, condição do Direito, é também condição 
da Arte. Mas convém distinguir-lhe dois sentidos: uma é a radical 
liberdade individual, que um ser livre pode ter mesmo no mais 
negro dos cárceres; outra a liberdade social e política, geral, à qual 
o Direito não pode deixar de estar ligado — não por exigência 
94
política, mas por decorrência do seu próprio modo de ser. Dar a 
cada um o que é seu, é também permitir o livre desenvolvimento 
de cada personalidade, e bem assim da artística — a suprema 
individualidade, a subjetividade feita universalidade. Por isso, 
normalmente nãopassa de lugar comum repetido mecanicamente 
ou de mera propaganda ideológica a afirmação de que o Direito e 
os juristas procuram sufocar a Arte, manietando, regulamentando-a 
silenciando-a. Os pseudoartistas precisam de um bode expiatório: a 
norma é um. Outro é a falta de subsídios do Estado. Camões foi 
Camões com censura e sem um tostão da Coroa (a famosa tensa 
não vinha, como Sophia de Mello Breyner Anderson cantou em 
simbólico poema). A arte, por definição, é superação do real. 
Absurdo querer-se a mais ampla das liberdades (não a normal) e 
um ordenado de burocrata! Nalguns casos justificar-se-á, claro. Mas 
não pode ser regra… 
Direito é liberdade do Homem comum. A Arte a 
Liberdade do Homem excecional. 
Nos tempos que correm, uma onda de puritanismo veio 
responder (algo tardiamente) a uma vaga de eventos e produtos 
mais ou menos “chocantes” para alguns, apresentados em locais 
artísticos, aparentemente para épater le bourgeois. Os mais 
radicais, extremistas, fundamentalistas morderam a isca e levantam 
cruzadas inquisitoriais contra manifestações menos académicas ou 
abstratas, sobretudo nus e afins. É uma polémica que está na 
ordem do dia, e coloca o dedo na ferida do problema de saber se o 
Direito e o Estado terão o direito de interferir na liberdade de 
expressão dos criadores, independentemente do gosto, do talento, 
do génio e dos conceitos e preconceitos de certos grupos sociais de 
espetadores, mais ou menos militantes. Não é um problema fácil, 
embora os princípios gerais pareçam ser claros e aparentemente 
enraizados... 
 
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
95
2.Cultura não Artística 
Além das Artes e das Letras (outra forma de arte) o mundo 
cultural atual é partilhado por dois outros grandes setores de 
ciências — as económicas e as sociológicas, surgindo no horizonte 
ainda um outro grupo de disciplinas, hoje muito mitificadas e em 
flagrante ascensão, as áreas informáticas (com esse nome ou afins). 
No campo das "Letras" ou "Humanidades", mesmo o pensamento 
filosófico é hoje tributário (pela via da importação disciplinar, do 
estruturalismo e da ideologia), seja daquelas duas primeiras 
preocupações (v.g. História "social", "económica", etc.), seja da 
linguística, espécie de gramática geral e resíduo inspirador destas 
disciplinas. 
A Sociologia, como já tivemos oportunidade de referir21 é 
sempre uma preciosa auxiliar e uma gravíssima tentação e risco 
para o Direito. Auxiliar, porquanto, fornecendo-lhe dados sobre a 
realidade social, permite a este o conhecimento do seu campo de 
aplicação, das reações e aplicações dos seus comandos, etc. 
Tentação, porque o aparente rigor da Sociologia e a sua óbvia 
ligação ao social podem captar o jurista para preocupações mais 
cognoscitivas que verdadeiramente normativas — pode ficar 
seduzido mais por conhecer a sociedade do que por organizá-la. 
Finalmente, risco — e este é o aspeto mais importante e mais 
perigoso — na medida em que não a Sociologia, mas a sua 
perversão, o sociologismo, pode infetar o campo do jurídico, que é 
o do dever-ser, não meramente o do ser. Diga-se o que se disser, 
não se podem e extrair valores de factos, normas de regularidades. 
É em grande medida o problema da chamada falácia naturalística. 
As estatísticas parece que já deram cifras elevadas de furtos nos 
supermercados. É um facto sociológico, que até nem preocupa 
muito a Economia, porque quanto mais se furta mais se compra 
também (compare-se o furto numa mercearia com o de um 
 
Paulo Ferreira da Cunha
96
hipermercado e veja-se também o seu volume diferencial de 
negócios). Mas daqui não se pode extrair a regra absurda e 
contrária à justiça (suum Cuique, sempre) de que seria lícita tal 
prática. Há, contudo, uns caos em que a regularidade social ajuda o 
Direito, e foi o que ocorreu na própria criação jurídica em Roma: 
no ius redigere in artem. De práticas justas habituais se cunhou a 
regra. Mas isso foi uma sociologia avant la lettre, mas passada pelo 
crivo da eticidade: um juízo axiológico teve que ser feito sobre 
dados sociais. 
Quanto às ciências económicas, já a ligação é de outra 
ordem. Desde sempre os juristas se interessaram por Economia e 
vice-versa. Em muitos países (na França, na Alemanha, por 
exemplo) as ciências económicas e as jurídicas são muitas vezes 
ensinadas nas mesmas Faculdades oficiais, e entre nós foi até há 
pouco tempo muito comum homens de Direito ocuparem cargos 
de destaque na Administração e no Governo na área económica e 
financeira. Os cursos de Direito englobavam até há pouco uma 
bateria considerável de cadeiras económicas, e os Cursos de 
Economia, Gestão de empresas, Contabilidade e afins procuravam 
também acompanhar os conhecimentos jurídicos. Tem havido 
decréscimo de estudo do Direito, mas sempre resta uma ou outra 
cadeira... E ao nível especializado e pós-graduado há muitos 
diálogos e tem que havê-los. No Direito conservam-se, pelo menos, 
alguns rudimentos de Análise Económica ou da clássica Economia 
Política. Eventualmente também Moeda e Crédito, Finanças 
Públicas, etc.. 
É um pouco difícil dizer o que é a Economia, para depois a 
comparar com o Direito, e relembramos aqui as nossas próprias 
lições de Economia, redigidas por um Economista, que acabavam 
— com graça — por dizer (citando um clássico economista) ser 
aquela aquilo que estes fazem. De qualquer modo, parece ligar-se 
ela à raridade e à necessidade de fazer escolhas acerca de bens 
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
97
escassos. Assim sendo, desde logo tal se liga ao Direito que, numa 
das suas mais afamadas aproximações, se diz ter surgido para 
regular os conflitos por causa da escassez de bens. Não poderia 
haver geminação teórica mais perfeita. 
A Economia, a Gestão, a Contabilidade ... acabam, pois, 
por movimentar-se nos quadros que lhes são impostos pelos dados 
naturais (terra, clima, etc.), pelos dados psicológicos e sociológicos 
(finalidades sociais dominantes — obtenção de lucros, satisfação de 
necessidades, etc.) e pelos dados políticos e jurídicos (a estrutura de 
enquadramento institucional, os quadros institucionais da vida 
económica). Daí, um largo espectro de ligações, que obviamente 
vão no sentido da dialética interdependência, ultrapassada que está 
(mesmo no pensamento marxiano – veja-se a célebre carta de 
Engels a Bloch) a tese de uma mecânica e absoluta supremacia 
infraestrutural, e portanto económica. 
Não olvidemos que, na estrutura mental do profundíssimo 
e fundante imaginário indo-europeu de que todos nós somos 
tributários, há três funções “sociais” — a jurídico-política, mágica e 
religiosa (simbolizada pelos deuses Odin, Júpiter), a guerreira 
(Thor, Marte), e a económica, da prosperidade, fecundidade 
(Freyr, Quirino). A sociedade depende da harmonização entre os 
seus três pilares, cada um promovendo o seu tipo de funções 
sociais, sem sair da sua competência — o que é uma lição a reter 
quer por juristas, quer por economistas, gestores, e outros. 
No que respeita à Informática, ela é sobretudo, ainda, tanto 
quanto um leigo pode julgar, uma utilíssima e poderosíssima 
ciência de técnicas, de que o jurista deverá colher muito ao nível 
auxiliar (rapidez de acesso a fontes, ficheiro, etc.) e eventualmente 
no plano da importação de modelos formais de raciocínio, mas, 
neste caso, sob caução. A lógica que aí necessariamente tem de 
imperar, como toda a lógica, pode conduzir às mais injustas 
soluções. E, por muito que se efabule, o Direito jamais poderá ser, 
Paulo Ferreira da Cunha
98
como na ficção de Papini, ditado pelas luzes verde e rubra de um 
computador-juiz22. 
Há ainda uma outra ligação do Direito de índole cultural, a 
qual se prende com a cultura em ação, enquanto propiciadora de 
utilidades, confortos, enfim no seu lado instrumental, paredes 
meias com a técnica. Aí se enquadram disciplinas como a 
Medicina, a Engenharia, a Arquitetura, o Design, a Psicologia, etc., 
etc. Em relação a todas estas áreas o Direitofaz sentir a sua 
influência, sobretudo de enquadramento institucional. 
O arquiteto e o engenheiro sabem que há normas jurídicas 
que regulam as suas empreitadas ou outros contratos pelos quais 
realizam as suas obras, e o Direito do Urbanismo já se 
autonomizou como ramo a se. O aviador e o próprio astronauta 
conhecem convenções e acordos sobre espaço aéreo que balizam a 
sua atividade, aparentemente livre como os pássaros. No mar, 
regem Direito Marítimo e Internacional Público, e os comandantes 
de navios servem mesmo de funcionários da Justiça (a diversos 
níveis) para casos públicos e privados: vejam-se as questões penais e 
testamentos a bordo. Coisa idêntica se passa nas aeronaves. O mar 
é, aliás, um grande motivo polarizador de questões jurídicas, já para 
ele havendo um grande tribunal internacional. 
O médico, além da sua deontologia profissional e dos 
deveres jurídicos impostos pela lei ou pelas normas corporativas da 
Ordem, lida a cada passo com o Direito. Não é só a analogia 
científica, teórica apenas, entre a cura médica e a cura jurídica (em 
que o Tribunal seria a sala de operações). A cada passo, os 
médicos são chamados a tribunal como peritos — para avaliarem 
da doença, do tipo de incapacidade, por exemplo em acidentes de 
viação ou de trabalho; para certificarem da sanidade mental do réu 
em ações penais, ou de restrições à plena capacidade jurídica, etc., 
etc. Nos dias de hoje, além disso, problemas jurídicos (mas 
22 Giovanni PAPINI — O Livro Negro. Novo Diário de Gog., trad. port., Lisboa, 
Livros do Brasil, s/d, p.15 et sq., sob o título “O Tribunal electrónico”. 
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
99
também morais) se põem mais agudamente que nunca aos práticos 
e teóricos da Medicina: inseminação artificial e engenharia genética 
nas suas mais sofisticadas formas, além de velhos problemas 
ganharem maior amplitude no âmbito de uma sociedade cada vez 
menos sancionatória em alguns temas anteriormente tabu e mesmo 
crime (consumo de drogas, orientações sexuais não maioritárias, 
aborto, eutanásia, etc.). Cada vez é mais relevante, por seu turno, 
para o Direito, saber-se cientificamente quando começa a vida (se é 
desde o momento da "conceção" o aborto seria um atentado 
àquela) e quando termina (se há vida post mortem, i.e., depois de 
morte cardíaca, ou cerebral, então a colheita de tecidos é feita em 
alguém ainda vivo, e, portanto, um atentado à integridade física, 
pondo em risco mesmo eventuais recuperações de último 
momento — que alguns consideram cada vez mais plausíveis com o 
vertiginoso progresso da Medicina). Mas estes são apenas alguns 
dos mais antigos elementares problemas nesta área. A realidade já 
coloca reptos muito mais complexos e elaborados. 
O cientista natural não ignora o Direito do ambiente, tal 
como o ecologista. O Farmacêutico e o Químico têm também 
legislação própria — e nada descurável, não apenas por os tocarem 
diretamente, como pela sua importância geral, para todos os 
“consumidores" dos produtos por que são responsáveis. 
O psicólogo, esse, encontra no Direito largo campo de 
observação das "paixões humanas". A psicologia do criminoso, do 
simples réu, o comportamento de alguém sujeito à pressão do 
interrogatório em tribunal, são questões que interessam tanto 
àquele como ao próprio jurista. E no campo psiquiátrico há 
mesmo uma disciplina híbrida e específica da ligação de "psique" 
com o Direito: a Psiquiatria Forense. Assim como nas Faculdades 
de Medicina e Direito continua a haver uma cadeira gigantesca que 
dá pelo nome de Medicina Legal, e onde se estudam desde 
minudências anatómicas aos tipos de sangue, e de venenos, e as 
cores dos enforcados e afogados. 
E muitas mais conexões se podem encontrar... 
Paulo Ferreira da Cunha
100
Se a integração do Direito no contexto dos saberes é tão 
variegada, tão rica, e também tão problemática, mais ainda se 
revelará a tarefa de dele dar uma intocável e sacrossanta definição. 
Cada livro de Direito, se se mete a pensar o problema, dá 
uma nova definição. Se não o faz, copia uma de entre as 
abundantíssimas já existentes. Não sabemos qual o método menos 
nocivo. Na verdade, o Direito não pode definir-se, balizar-se, 
impor-se limites. O mais que podemos fazer é, tentar descrevê-lo, e 
mesmo assim a própria descrição tem problemas e debilidades. 
Pode, na verdade, não passar de uma definição mais longa… 
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
101
 
Capítulo IV 
Margens do Direito. 
Ciências Jurídicas Humanísticas e Disciplinas Complementares 
 
 
1.Sentido da metáfora "margens do Direito" 
Falávamos no capítulo precedente das disciplinas ou ramos 
da Ciência Jurídica, isto é, de componentes internas do Direito 
enquanto Ciência normativa. Vamos agora, utilizando uma nova 
metáfora, abordar situações próximas de tal realidade. Se o fluir 
jurídico-científico se pudesse comparar a um rio (com as suas 
fontes ou nascentes, como vimos já), a sua mais imediata 
vizinhança, os seus limites, o seu já-não-ser todavia chegado, 
próximo, seriam as suas margens. Assim designaremos realidades 
que, não sendo já Ciência Jurídica proprio sensu são, porém, 
banhadas, pelas suas águas, que no seu terreno próprio se infiltram, 
transformadas em seiva de outras árvores do saber, com seus ramos 
próprios. 
Mas não insistamos demasiado nas metáforas, que já vimos 
servirem à maravilha para iluminar o que pretendemos. Vejamos o 
que são tais margens do Direito — que deuses são venerados por 
confrades estudiosos da realidade Direito, solenes nas suas 
máscaras rituais de especialistas. Em alguns casos, menos solenes 
que os juristas, de facto. 
 
 
102
 
2.Ciências Jurídicas Humanísticas 
Há no grande domínio epistémico do Direito disciplinas 
não jurídico-positivas: tendo ainda como objeto o Direito, mas sob 
um ângulo não normativo, não se dedicando estritamente à 
aplicação do Direito vigente num dado tempo e lugar, não visando 
resolver concretas questões jurídicas, antes apreciando mais 
distanciadamente a juridicidade. 
Trata-se de disciplinas que jogam com a imanência (social) 
e a transcendência (ideal) do jurídico, como a Sociologia do Direito 
e a Filosofia do Direito. Ou que se perspetivam na mira da 
sincronia ou da diacronia jurídicas, como o Direito Comparado (ou 
Comparação de Direitos, ou Geografia Jurídica) e a História do 
Direito. 
Sabemos empiricamente de que versam. A Sociologia 
jurídica, olha o Direito como facto social, na sua realidade 
fenoménica, no que ele é e faz realmente. A Filosofia jurídica põe 
em causa esse ser e procura pensar o dever-ser do Direito, sendo 
particularmente tocada pelo problema da Justiça. O Direito 
Comparado olha a realidade normativo-jurídica nas diferentes 
ordens jurídicas espalhadas sobre o planisfério. Já a História do 
Direito se preocupa com a evolução deste ao longo dos tempos. 
Por seu turno, a Etnologia jurídica (ou Antropologia 
jurídica) estuda o Direito como manifestação cultural do Homem, 
havendo, porém, quem pense, tratar-se tão-só de uma variante da 
Sociologia jurídica. Também numa perspetiva de transcendência 
do Direito dado, mas mais voltada para agir que para teorizar, está 
a Política Legislativa, a qual é uma disciplina dirigida ao 
aperfeiçoamento do Direito através de reformas. O seu carácter 
científico pode questionar-se, aliás. 
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
103
A estas disciplinas (ou ciências – epistemai na verdade) 
jurídicas humanísticas também se dá, por vezes, o nome de ciências 
jurídicas gerais. 
 
3.Disciplinas Complementares 
Além destas margens próximas, outras há, cujo contacto é 
mais parcelar ou mediato. 
Durante muito tempo se falou (e ainda se vai falando) em 
ciências afins e auxiliares. A lógica desta classificação bipartida seria 
decerto esta: umas ciências seriam aparentadas das jurídicas, outras 
servir-lhes-iam de apoio. Ora tal não pode ser concebido sem erro 
ou confusão. É que não se trata de um problemade hierarquia, 
mas apenas de perspetiva. Uma ciência tanto pode ser auxiliar 
como afim. Depende, por exemplo, do ramo de Direito em 
questão. E, sendo auxiliar, será afim. E, se afim, auxiliar. Além 
disso, visto do lado dessa outra ciência, será por hipótese o Direito 
afim dela (o que não seria problemático em si) ou mesmo auxiliar. 
E a expressão “auxiliar” por vezes tem conotações menos 
simpáticas. 
Será preferível, então, falar de disciplinas complementares 
do Direito. Falámos já de ciências e saberes com conexões de vulto 
com o Direito. Vamos, por isso, apenas relacionar algumas ciências 
com concretos ramos jurídicos. 
O Direito Constitucional relaciona-se com a Ciência 
Política (ou Politologia) e ainda com a História Política, a Filosofia 
Política e a Sociologia Política, a Teoria Geral do Estado, etc. Se é 
que esta última não faz parte dele... O Direito Administrativo 
relaciona-se, inter alia, com as Ciências da Administração (e até da 
Gestão), e mesmo a Sociologia e Psicologia das Organizações, etc. 
O Direito Fiscal com as Finanças Públicas, a Política Fiscal, a 
Paulo Ferreira da Cunha
104
Economia Política, a Contabilidade, etc. O Direito Processual 
relaciona-se com as mesmas ciências complementares do Direito 
Administrativo, e, com a progressiva informatização procedimental, 
vão-se ambos aproximando da Informática. O Direito Penal 
prende-se com a Criminologia (sociologia criminal, psicologia 
criminal, biologia criminal, etc.), a Criminalística (investigação 
criminal — mais detectivesca), a Medicina Legal, etc. O Direito 
Internacional Público tem laços com a História, a Teoria e a 
Sociologia das relações internacionais, a Diplomacia (enquanto 
ciência), a História Diplomática, a Ciência Política (na vertente 
internacional), e as chamadas Relações Internacionais. O Direito 
Económico, o Comercial e o do Trabalho são tributários de dados 
da Ciência Económica e da Gestão, sendo para o primeiro 
sobretudo útil a macroeconomia e para o segundo a 
microeconomia. O Direito laboral é ainda aparentado com as 
Sociologias do Trabalho e da Empresa e os estudos do 
Sindicalismo. O Direito Civil também tem atinências económicas 
sociais e políticas de vulto, sendo o Direito das obrigações e os 
Direitos das Coisas ou Reais muito sensíveis a tais questões, 
enquanto problemas psicológicos e sociológicos (e em cada vez 
maior grau ideológicos e políticos) da Família se põem 
naturalmente mais no Direito da Família. O Direito das Sucessões 
é também pedra de toque de um sistema político-económico, 
combinado com o sistema fiscal de tributação sucessória. 
Como vemos, é tal a teia de relações que seria temerário 
estabelecer hierarquização nos contactos e interinfluências, tão 
vários e ricos eles são. 
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
105
Capítulo V 
Interdisciplinaridades e Pós-Disciplinaridade. 
Paradigmas Jurídicos. Novos Paradigmas. 
1.Evolução dos Diálogos:
Transdisciplinaridade, Interdisciplinaridade 
 e Pós-disciplinaridade23 
Primeiro, os juristas (infelizmente só alguns, porque outros 
se mantêm atidos ao que julgam ser a pureza da sua arte, que aliás 
acreditam ser uma ciência) descobriram a transdisciplinaridade, 
que os fez ver um pouco mais além, mas ainda da janela da sua 
casa do Direito. Depois, começaram a juntar-se com outros 
especialistas nas ruas e nas praças epistemológicas, numa 
interdisciplinaridade, que foi, aliás, um colocar coisas em comum e 
dialogar muito inspirador. 
Mas hoje em dia, sobretudo graças aos estudos 
desvendadores de Gonçal Mayos, compreende-se que o passo 
seguinte é não carregar o peso ancestral de tantas barreiras 
científicas, que comportam também, aliás, não poucos preconceitos 
e até soberbas. Vivemos pelo menos esperanças pós-disciplinares. 
Interessa menos se determinado saber pertence a este ou aquele 
quintal, desde que se saiba esse saber. Vai ser ainda, contudo, um 
longo caminho a percorrer. Até pelo facto de que já a 
interdisciplinaridade deu lugar a desvios, aproveitamentos, descidas 
23 Mais desenvolvimentos no nosso livro Desvendar o Direito. Iniciação ao Saber 
Jurídico, Lisboa, Quid Juris, 2014, p. 93 et sq.. 
106
de nível com trabalhos vagos e que jogavam com o 
desconhecimento de uns públicos de certas metodologias e 
conceitos de outros. O caso Sokal é revelador de redescrições de 
matérias de umas áreas com linguagem de outras, mas ao que 
parece com pouco critério. Mesmo alguns, economicistas, 
procuraram fazer poupanças em algumas universidades trocando 
áreas cheias de tradição e pergaminhos por áreas transversais, que 
permitiram economizar disciplinas e professores. 
A pós-disciplinaridade alerta-nos para que o Mundo é 
grande e é uno, mas, como todas as ideias novas, está à mercê de 
aproveitamentos, deturpações, usos pro domo. Estejamos, pois, 
atentos. Continuamos juristas (ou, pelo menos, sabemos que 
estudamos Direito), e isso é já um escudo protetor. 
 
2.Paradigmas Jurídicos. Novos Paradigmas Jurídicos24 
Hoje não mais faz sentido ensinar juristas com mãos puras 
porque sem mãos, como dizia Péguy a propósito de Kant 
(certamente uma consideração impiedosa). Os juristas de hoje 
precisam sê-lo de corpo inteiro. E a Justiça, em todas as suas 
dimensões (mesmo a justiça política e social), tem de entrar em 
linha de conta (e muito) nas suas considerações. Com rigor, mas 
sem a hipocrisia ou a alienação de um Direito “puro” hoc sensu. 
Cada vez mais os nossos dias estão a colocar desafios aos juristas 
que interpelam a sua deontologia e a sua ética: será possível a um 
jurista digno desse nome ficar impávido perante violações gritantes 
dos Direitos do Homem? Até onde poderá ir a passividade, o 
cálculo, a hipocrisia? Para que serve, afinal, ser Jurista? Não se 
deveria fazer os Juristas jurarem uma espécie de juramento 
24 Mais desenvolvimentos no nosso livro Desvendar o Direito, cit., p. 103 et sq.. 
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
107
hipocrático de defesa das Leis, da Justiça, da Pessoa e dos Direitos 
Humanos? 
A primeira fase, o primeiro choque para alguns, será 
admitir uma razão jurídica não obcecada com a pureza e a 
purificação, ou seja, o isolamento (Isolierung), mas, pelo contrário, 
uma razão jurídica aberta a outros contributos, que supera mesmo 
o interdisciplinar no pós-disciplinar. E depois, já nem sequer o 
binómio dicotómico (oposição binária como tantas outras que nos 
formatam e deformam o pensamento) e estigmatizador 
puro/impuro estará presente. Trata-se de pensar e fazer Direito 
com Justiça, na Justiça. E para isso tem-se desenvolvido e 
continuar-se-á a desenvolver um novo paradigma, não do aço frio 
das espadas, como dizia Teixeira de Pascoaes (jurista feito poeta, 
rectius: poeta que passou pelo foro), mas em Fraternidade e 
Humanismo. 
Aliás, só a fraternidade humanista dá um sentido profundo, 
sólido e duradouro ao elemento social. Do mesmo modo que as 
tentativas de fundar uma ordem só de "liberdade" redundaram em 
libertinagem (como o "neoliberalismo" ou “ultraliberalismo” da 
economia de casino) e as que se alimentaram de retóricas de 
exclusiva "igualdade" nem sequer fundaram verdadeiros 
igualitarismos, mas criaram burocracias privilegiadas e sufocaram as 
liberdades. Faltou à tríade atribuída à Revolução Francesa, 
Liberdade, Igualdade, Fraternidade, o último elemento. Foi como 
se à Santíssima Trindade tivessem roubado o Espírito Santo. E 
ficaram em causa as outras duas Pessoas... 
Depois do paradigma do direito objetivo romanista (da 
plena in re potestas) e do direito subjetivo idealista e burguês (do 
direito subjetivo que se aprende nas Teorias Gerais do Direito Civil 
desde logo), está a nascer, ainda com manifestações não totalmente 
coordenadas, mas está a ganhar terreno, o paradigma do Direito 
Fraterno Humanista, que é ou que se procura que venha a ser a 
Paulo Ferreira da Cunha
108
nova tradução das exigências de Justiça no Direito, para o nosso 
tempo e para o futuro, pelo menos nãomuito distante (para o 
distante surgirão outras novidades, espera-se)25. 
Manifestação evidente dessa aspiração universal é o 
movimento pela criação de um Tribunal Constitucional 
Internacional. Em vez de se apelar para o céu, como acabariam por 
recomendar aos injustiçados os filósofos britânicos Locke e Hume, 
achamos que "o céu pode esperar", e queremos Justiça em todo o 
Mundo, aqui e agora26. 
Para que essa Justiça triunfe não é indiferente, muito pelo 
contrário, que exista um instrumento teórico realista e lúcido, uma 
teorização clara e desmitificada e desmitificadora. Na luta pela 
Justiça uma arma essencial é a teoria no/ do Direito, uma 
metodologia bem calibrada, e um crítico ensino do Direito. 
25 Para mais desenvolvimentos, v. o nosso livro Direito Fraterno Humanista. Um 
Novo Paradigma Jurídico, Rio de Janeiro, G/Z, 2017. 
26 Para mais desenvolvimentos, v. o nosso livro Direito Internacional. Raízes & 
Asas, Belo Horizonte, Forum, 2017, Prefácio de Marcílio Franca e Posfácio de 
Sérgio Aquino, e Pour une Cour Constitutionnelle Internationale, em 
colaboração com Yadh Ben Achour, Oeiras, A Causa das Regras, 2017. 
Teoria Geral do Direito: Uma Síntese Crítica
109
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
	11.Objetivos da categorização ensaiada
	7.Teleologia hermenêutica
	7.Teleologia hermenêutica
	11.Objetivos da categorização ensaiada
	Livro IV
	7.Teleologia hermenêutica
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